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FORMAS-PENSAMENTO: DA POSSIBILIDADE DA

COMUNICAÇÃO POR VIAS TELEPÁTICAS


Mauro Celso Destácio*

Palavras, gestos e atitudes. Muito pouco, além disso, tem sido contemplado pela imensa
maioria dos estudos que têm como objeto a comunicação interpessoal – embora, diga-se
de passagem, a maior parcela das pesquisas na área tenha como foco a comunicação de
massa, e não aquela que se pode dar entre duas ou pouco mais pessoas, num sentido de
“comunhão”, como vem fazendo Ciro Marcondes Filho em suas obras mais recentes,
por meio das quais procuram formar as bases de uma Nova Teoria da Comunicação.

Aliás, é este autor que, por exemplo, em Até que ponto, de fato, nos comunicamos?
Descortina novos caminhos a serem rumados por aqueles que estejam dispostos a vôos
mais ousados nos campos da comunicação. No capítulo nove da referida obra, o
professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, também
coordenador dos centros de pesquisa Núcleo José Reis de Divulgação Científica e
FiloCom, nos abre possibilidades interessantes de estudo, ao escrever: “há muitas outras
formas de comunicação que vão além das linguagens (comunicações do silêncio,
comunicações dos ambientes e dos olhares, ‘subterrâneas’, indiretas, telepáticas etc.).”
(Marcondes Filho: 2004a, 55)

A partir do excerto citado, muitos cruzamentos com outras áreas do conhecimento


podem ser desenvolvidos, seja com a filosofia, a cujo estudo o pesquisador da
Universidade de São Paulo vem se dedicando para desvelar novos matizes da
comunicação com fins à formação da Nova Teoria, seja com a arte, seja com a
psicologia, entre outros ramos do saber. A amplitude de possibilidades vislumbrada tão-
somente a partir desse pequeno trecho se torna ainda maior ao se considerar as idéias de
ciência nômade, de Michel Serres, e de “anti-método” de Paul Feyerabend, igualmente
trabalhadas pelo professor da Escola de Comunicações e Artes, especialmente ao propor
o termo “metáporo” ou “méporo” – em que poros, ou seja, “caminho que se desbrava a
si mesmo, como uma embarcação que abre, enquanto segue sua própria rota”, conforme
exposto num de seus cursos de pós-graduação, intitulado “A Comunicação e o
Pensamento Antigo”, substitui o odos de constituição engessante do método, pelo qual
os caminhos já estão peremptoriamente traçados (a idéia de poros provém do livro:
Comment s’en sortir, de Sarah Kofman).

Aqui nos preocuparemos, porém, com apenas uma palavra do trecho citado de Até que
ponto, de fato, nos comunicamos?: “telepáticas”. Embora não esmiuçada por
Marcondes Filho na obra citada e no recém-lançado O escavador de silêncios: formas
de construir e desconstruir sentidos na Comunicação, a menção, ainda que sutil, à
possibilidade de comunicação pelas vias do pensamento dá ensejo a uma série de
reflexões e à busca de estudos e literaturas sobre o assunto. É o que tentaremos fazer a
seguir, ao elencar idéias provenientes de correntes da tradição esotérica ocidental e do
espiritualismo, com destaque ao espiritismo.

Segundo esses campos do conhecimento, normalmente não contemplados pela ciência


“oficial”, ou acadêmica (entre as exceções citamos o professor da Faculdade de
Medicina da USP Sérgio Felipe de Oliveira, cujo grupo tem se empenhado em estudar
cientificamente os fenômenos mediúnicos), o pensamento constitui uma das principais
forças do Universo e, por conseguinte, do ser humano. Deus, dizem essas correntes,
teria empreendido sua Criação pela força de seu pensamento, que nele tem proporções
infinitas. A espécie humana, contudo, cria com o pensamento, e não apenas ao traduzi-lo
em palavras, gestos ou ações, mas igualmente apenas com ele. Pensar é plasmar,
afirmam, no sentido de que tudo aquilo que mentalizamos ou imaginamos toma forma
numa dimensão sutil da existência, podendo concretizar-se caso insistamos nas idéias
imaginadas, na medida em que atraem elementos para tal realização. Obviamente, por
mais forte que seja o pensamento, quase sempre não basta pensar: a ação concreta nunca
é prescindível, porém é tanto mais facilitada quanto mais atuantes forem as forças da
mente.

Em A lei do mentalismo, A. Victor Segno explica como se dá tal fenômeno, com teores
de cientificidade:

“O pensamento produz energia e este cria força, a qual, por sua vez, causa ação e
movimento. O pensamento, por meio do movimento, descola os átomos do ar que
rodeiam o corpo, produzindo, deste modo, as vibrações ou ondas de pensamento na
atmosfera. Um pensamento fraco não produz mais que um leve abalo, semelhante a
uma tênue brisa que move suavemente as folhas das árvores; ao passo que os
pensamentos fortes e impetuosos deslocam os átomos por um espaço maior.

“Marconi, o inventor da Telegrafia sem fios, diz que uma palavra ou seu equivalente
produz uma vibração no ar semelhante à que produz na água uma pedra atirada num
tanque, e que essa vibração se transmite ao seu termo com a velocidade de um
relâmpago, seja qual for a distância, fazendo-se perceber e registrar qualquer
instrumento telegráfico que esteja em relação harmoniosa com o condutor. Da mesma
forma, um pensamento (do cérebro de uma pessoa) caminha, apesar de toda a
resistência, até ser recebido ou recolhido pelo cérebro ou cérebros que estão em
perfeita harmonia com a mente que o emitiu.
Um pensamento de desprezo ou de elogio, quando é enviado pela Vontade do cérebro,
se transforma numa força viva e não se extravia entre a multidão de sons e vibrações,
mas prossegue até encontrar o indivíduo contra o qual ou em favor do qual foi dirigido.
“Tais pensamentos se fazem sentir pela pessoa como um golpe que a prejudica ou
favorece.” (Segno: 1991, 12)

Inúmeras questões podem ser levantadas diante de tais palavras de Segno,


especialmente entre aqueles mais céticos ou menos acostumados aos conceitos e noções
provenientes da tradição esotérica e das correntes espiritualistas. Entre as quais: como o
pensamento produz energia e causa movimento? Deslocam-se os átomos do ar, por que
a ciência ainda não detectou tais alterações? Como as ondas de pensamento se
constituem fisicamente? De que forma elas perpassam as demais vibrações e chegam
justamente à pessoa que é objeto do pensamento correspondente? Por que é preciso
haver harmonia entre o emissor e o receptor do pensamento? O que fundamentalmente
diferencia um pensamento de elogio de um outro de desprezo?

Tamanha quantidade de questões resultaria numa série de detalhamentos até se alcançar


respostas totalmente satisfatórias, a depender do grau de exigência dos questionadores.
Resumidamente, pode-se dizer que o pensamento atua num plano invisível da
existência, não necessariamente o mesmo em que se propagam as ondas
eletromagnéticas conhecidas pela ciência (segundo o esoterismo e o espiritualismo, há
diversas dimensões nas quais a natureza age e o ser humano semelhantemente atua, sem
o saber), podendo ser visto apenas pelos que têm certos graus de clarividência, tendo
cada tipo de pensamento uma forma mais ou menos determinada e implicando numa
sintonia entre os que o emitem e o recebem.

O cientista italiano Ernesto Bozzano, que viveu entre os séculos XIX e XX e realizou
diversos experimentos para a detecção das chamadas formas-pensamento (usando
inclusive da fotografia), cita em sua obra Pensamento e vontade os pesquisadores Annie
Besant e C. W. Leadbeater (livro Thought-formes), apresentando o seguinte trecho
explicativo com relação ao tema:

“Todo pensamento cria uma série de vibrações na substância do corpo mental,


correspondentes à natureza do mesmo pensamento, e que se combinam em maravilhoso
jogo de cores, tal como se dá com as gotículas de água desprendidas de uma cascata,
quando atravessadas pelo raio solar, apenas com a diferença de maior vivacidade e
delicadeza de tons.

“O ‘corpo mental’, graças ao impulso do pensamento, exterioriza uma fração de si


mesmo, que toma forma correspondente à intensidade vibratória, tal como o pó de
licopódio que, colocado sobre um disco sonante, dispõe-se em figuras geométricas,
sempre uniformes com as notas musicais emitidas.

“Ora, este estado vibratório da fração exteriorizada do ‘corpo mental’ tem a


propriedade de atrair a si, no meio etéreo, substância sublimada análoga à sua.

“Assim é que se produz uma ‘forma-pensamento’, que é, de certo modo, uma entidade
animada de intensa atividade, a gravitar em torno do pensamento gerador...”
(Bozzano: 2000, 22)

No mesmo excerto reproduzido por Bozzano, os autores dizem ainda que cada tipo de
pensamento resulta em formas diferenciadas – um pensamento de usura produz “formas
retorcidas, como que dispostas a apreender o cobiçado objeto”, ao passo que
pensamentos para a resolução de um problema produzem filamentos espirais e outros de
cólera assemelham-se ao ziguezague de um raio. Enfim, os pensamentos têm
propriedades (ou conseqüências) físicas, embora isto seja na atualidade ignorado pela
ciência tradicional, que ao longo das décadas eliminou de seus compêndios interessantes
estudos desenvolvidos entre o décimo - nono e vigésimo séculos, hoje restritos às
chamadas preconceituosamente de pseudociências ou, mais respeitosamente, de para
ciências.

A considerar, portanto, o que descrevem a tradição esotérica ocidental e os movimentos


espiritualistas, a comunicação via pensamento não só é possível, como é das mais
comuns entre os seres humanos – é claro que, como acontece por meio das palavras e
outras formas, mormente estudadas na academia, de forma muito rara ocorre a
“comunhão” necessária para haver uma perfeita comunicação. De qualquer maneira,
não deve ser descartada a possibilidade de se transmitir idéias e até mesmo palavras ou
imagens por telepatia (“a comunicação de impressões de qualquer espécie de uma mente
a outra, independentemente dos conhecidos canais dos sentidos”, segundo o criador do
termo, Frederic Myers, em seu livro Human personality, citado por Francisco
Valdomiro Lorenz em Lições práticas de ocultismo utilitário, p. 129).

Amplia-se, por conseguinte, a visão do que seja a comunicação, que, como vem
frisando Ciro Marcondes Filho, vai muito além dos campos da linguagem. É preciso, no
entanto, que se quebrem as estruturas petrificadas de que se vale a esmagadora maioria
dos estudiosos na área e que a comunidade científica deixe de se agarrar às
comodidades do método para se abrir às pesquisas do que hoje não é abraçado pelas
asas da ciência.

Referências bibliográficas:
BOZZANO, Ernesto. Pensamento e vontade. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 2000. 144p.
LORENZ, Francisco Valdomiro. Lições práticas de ocultismo utilitário. São Paulo, Lorenz, 1991. 170p.
MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos?. São Paulo, Paulus, 2004. 112p.
______________. O escavador de silêncios: formas de construir e desconstruir sentidos na Comunicação.
São Paulo, Paulus, 2004. 576p.
SEGNO, A. Victor. A lei do mentalismo. São Paulo, Lorenz, 1991. 160p.

* Mauro Celso Destácio é jornalista formado pela ECA/USP, editor de publicações do Núcleo José Reis
e da ABRADIC, autor de Áreas Verdes em São Paulo: Retratos, Cenários e Paisagens (Ed. Nativa, 2004)
e presidente da ABECEPEM (Assoc. Bras. de Estudos Científicos da Espiritualidade, Paranormalidade,
Esoterismo e Movimentos adjacentes à Ciência).