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Compete a nós, professoras e professores de

educação física, sobretudo no contexto escolar


superar os equívocos do cassado e do presente
e imaginar uma gii ^|||||||||||||||||||||||||| ànea que
privilegie, acima c | limensão
humana, o que que £ lIIiIIilIIIliIIIl 1O cultura
3
e não o ser huma, humano
sujeito e não o ser humano objeto. Uma ginásti-
ca que consiga reagir aos dogmas da ciência
positivista para encontrar as suas respostas
(ou, ainda, as suas perguntas). Uma ginástica
que não esteja sintonizada com os estereóti-
pos de corpo presentes na atualidade, que não
esteja interessada em alimentar a "ditadura do
corpo ideal". Enfim, uma ginástica que crie es-
paço para o componente lúdico da cultura cor-
poral, redescobrindo o prazer, a inteireza e a eliana ayoub
técnica/arte da linguagem corporal. Acredito
ser possível projetar essas imagens por meio da
ginástica geral.

El i a na Ayoub

ISBN 852680629-7
Eliana Ayoub

Ginástica geral e
educação física escolar

UNICAMP

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS


Reitor
CARLOS HENRIQUE-DE BRITO CRUZ
Coordenador Geral da Universidade
JOSÉ TADEU JORGE

T o R A|

Conselho Editorial
Presidente
PAULO FRANCHETTI
ALCIR PÉCORA - ANTÔNIO CARLOS BANNWART - FÁBIO MAGALHÃES
GERALDO Di GIOVANNI - JOSÉ A. R. GONTIJO - Luiz DAVIDOVICH
Luiz MARQUES - RICARDO ANIDO
FlCHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA CENTRAL DA UNICAMP
Eliana Ayoub
Ginástica geral e educação física escolar / Eliana Ayoub
Ay67g
. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004.

1. Educação física — Estudo e ensino. 2. Educação


física escolar. I. Título.

20.CDD 613.707
ISBN 85-268-0694-7 372.86

índices para catálogo sistemático:

1. Educação física — Estudo e ensino 613.707


2. Educação física escolar 372.86

Copyright © by Eliana Ayoub


Copyright © 2004 by Editora da UNICAMP

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outros quaisquer sem autorização prévia do editor.

Sistema Integrado
lê Bibliotecas/UFES
Dedico este trabalho ao João, companheiro de
todas as horas, que tem preenchido a minha
vida com um colorido muito especial, ensi-
nando-me a arte de viver com sabedoria e
oubi Eliana tornando os meus dias mais felizes, bonitos e pra-
zerosos; e aos meus pais, Ivany e Samir, pela
sua presença sempre dedicada, amorosa e im-
nástica geral e educação fís prescindível na minha vida.
a escolar
ó. 4-G53. 5/A983g
(2O0435/O5)
Agradeço à Vilma, pela sua orientação tão entusiasmada,
paciente, carinhosa e, sobretudo, amiga. E, também, por
ter me ensinado, desde muito cedo, a gostar de ginástica.
À Beth, amiga e companheira de tantas andanças pelo
mundo da ginástica geral e que sempre esteve disponível
para me ajudar.
Ao Jorge, pelo constante apoio ao meu crescimento pro-
fissional.
À Carminha, pela amizade e pelos vôos intelectuais.
Ao Grupo Ginástico Unicamp (GGU), pelas infindáveis
oportunidades de aprendizado sobre a ginástica geral e,
também, sobre a vida em grupo. A minha vivência como
integrante do GGU, durante oito anos, foi decisiva para a
realização deste estudo.
A todos os entrevistados que colaboraram com os seus
depoimentos e informações e aos professores que parti-
ciparam do projeto desenvolvido nas escolas.
SUMÁRIO

PREFÁCIO 11
APRESENTAÇÃO 15
INTRODUÇÃO - Um pouco de história 17

Capítulo l
O CAMINHO PERCORRIDO 21

1. Primeiro momento 21
2. Segundo momento 25

Capítulo 2
A GINÁSTICA GERAL NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA - PROJETANDO
SUA IMAGEM 29

1. A ginástica 30
2. A ginástica geral 40

Capítulo 3
A GINÁSTICA GERAL E SUAS PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA
ESCOLAR - IMAGINANDO UM PROJETO 77
1. A ginástica no contexto da educação física escolar
no Brasil 77
2. A ginástica geral como conhecimento a ser
estudado na educação física escolar 86
3. A ginástica geral na escola - um grande desafio 95

CONSIDERAÇÕES FINAIS - "Se muito vale o já feito,


mais vale o que será..." 107

BIBLIOGRAFIA 117

ANEXO l - Roteiro de observação 123


ANEXO 2 - Roteiro das entrevistas 124 PREFÁCIO
ANEXO 3 - Carta-convite aos professores 126
ANEXO 4 - Programa do curso de ginástica geral 128
ANEXO 5 - Questionários para os professores 131 Eliana Ayoub, a Nana, como é conhecida por todos nós,
ANEXO 6 - Roteiro para o desenvolvimento das aulas 133 honrou-me com o convite para prefaciar esta obra. Escrever um
ANEXO 7 - Ficha de plano de aula 135 prefácio é apresentar o livro ao leitor, buscando mostrar os cami-
ANEXO 8 - Exemplos de materiais, equipamentos ou aparelhos nhos traçados pelo autor para revelar o conteúdo, bem como deli-
utilizados nas diversas apresentações observadas durante a near as características desse autor. Então, ao pensar no objetivo de
"10th World Gymnaestrada — Berlin 1995" 136 um prefácio, tenho a certeza de atingir essa meta, porque tanto
posso apresentar o conteúdo deste livro, bem como o método
desenvolvido em sua elaboração, por tê-lo acompanhado passo a
passo, como também posso discorrer sobre a autora com muita
propriedade. Não só porque a conheço de longa data, tampouco
por ter assistido ao seu crescimento profissional, mas pela parceria
que fizemos em diferentes momentos de nossas vidas: nas inúmeras
vezes que discutimos, aprendemos, analisamos, interpretamos e
decidimos juntas; nas outras, em que escrevemos, brincamos, en-
sinamos e conquistamos juntas; por tudo que construímos em nos-
sas relações pessoais que naturalmente tenham influenciado nossas
atitudes de educadoras que somos; pelas reflexões que fizemos
sobre o ensinar e o aprender, sobre conteúdos e métodos discutidos
nos projetos de trabalhos que vivenciamos sobre escola e ginástica
— temas sempre presentes em nossos encontros; pelo que criamos,
pautando-nos na busca de um aprofundamento sobre a educação;
por tudo isso, posso reafirmar que sou capaz de apresentar a autora
dessa obra, que nos presenteia com um raro estudo sobre as ques-
tões da ginástica geral.
Desde o início dos estudos deste trabalho, sou teste-
munha das fortes intenções que permearam a trajetória de sua
elaboração, que foram: a intenção da rigorosidade científica, da
seriedade e compromisso para com os professores; a intenção de
Poder contribuir de forma significativa para a escola, ou mais
especificamente com propostas para a educação física desenvol-

11
vida no espaço escolar; a intenção de desvelar o significado da com as unidades primordiais da história da ginástica e as suas
ginástica geral em diferentes países por meio dos discursos dos mais recentes formas de expressão. Visualizando possibilidades
amantes dessa prática. Todas elas estão reveladas no desenrolar de uma ginástica para a escola com "ressignificados", a autora
desse livro, e mostram-se na projeção de uma ginástica geral levanta perspectivas de uma prática humanizadora, permeada pela
como possibilidade de prática corporal. ludicidade, na qual o aluno tenha oportunidade de compreender o
A relevância desta obra está pontuada na apresentação que faz, de confrontar com outras formas de fazer, de interpretar
de uma atividade gímnica voltada para a escola, na qual a autora corporalmente suas possibilidades de expressão e, ainda, de com-
consegue relacionar as possibilidades de "prazer e inteireza" da partilhar com os amigos o prazer dessa execução. Suas propostas
ginástica, com a atribuição de novos significados para a constru- de ginástica geral no contexto escolar enfatizam o prazer pela prá-
ção de uma prática transformadora. Os amantes da ginástica estão tica, a integração das pessoas e a criatividade como elementos
sendo presenteados com um trabalho original para essa área de norteadores, definindo a demonstração como parte integrante de
conhecimento em face do aberto aprofundamento dado pela au- todo o processo de aprendizagem. Tem como pano de fundo de
tora sobre a sistematização da ginástica desde o século XIX. Tra- seus estudos as imagens que a ginástica traduz, projetando, em
çando um paralelo dos elementos presentes em sua origem com as sua exposição, as manifestações gímnicas na sociedade contem-
manifestações gímnicas do mundo contemporâneo, Eliana provo- porânea.
ca um avanço científico projetando uma ginástica com caráter trans- Mas a grande contribuição dessa educadora para os docen-
formador. Apresenta-a como proposta de conteúdo curricular no tes dessa área do conhecimento não está revelada na apresentação
espaço formal de ensino, valorizando os desafios que essa prática deste trabalho, pois fez parte do processo de elaboração de sua
tem superado quando se desprende do consumismo, da massifi- tese de doutoramento, isto é, o desenvolvimento de um curso de
cação como mercadoria, do aspecto competitivo e do corpo/objeto. ginástica geral para professores de educação física da rede pública,
Em seus escritos anteriores, quando falava da "Ginástica geral no com a finalidade de discutir com eles a implantação de um projeto
contexto escolar" (Anais do Fórum Internacional de Ginástica geral, dessa atividade como componente da cultura corporal. Nesse curso
2001, p. 35), já nos apresentou com essa preocupação revelando foram aprofundados desde os princípios filosóficos que permeavam
que: "[...] acredito numa ginástica geral na escola em que a reflexão esse trabalho na escola, até a própria estruturação da proposta. Após
sobre corpo seja parte constitutiva do trabalho. Acredito numa gi- o curso, houve ainda um acompanhamento da aplicação da ginás-
nástica geral na escola na qual ninguém precisa ser 'café-com-leite' tica geral nas escolas em que os integrantes do curso ministravam
pois todos os seus participantes, com seus corpos singulares, de- aulas de educação física, visando orientá-los em suas dificuldades.
verão ser respeitados e valorizados em suas diferenças". Os resultados alcançados nessa pesquisa de campo puderam con-
A autora expõe com sucesso o significado da ginástica ge- firmar as possibilidades de aplicação de uma prática fundamen-
ral em outros cenários. As interpretações das entrevistas são expres- tada, deflagrar tanto as dificuldades como as descobertas realiza-
sas num texto simples, direto e abrangente, e revelam a visão de das pelos professores, além de elencar as inúmeras opções de tra-
profissionais e praticantes de ginástica geral de várias partes do balho levantadas pelos próprios participantes. A troca de experiên-
mundo. E, a partir dessa visão apresentada, ela mantém um diálogo cias e os debates consolidados nos encontros com esses professores
nos mostraram a importância da comprovação in loco daquilo
12 13
que se quer sugerir. Isso vem salientar aos leitores que este livro APRESENTAÇÃO
tem, por trás de todas as idéias apresentadas, a certeza de
propostas reais, que foram estudadas e comprovadas, amplamente
discutidas, analisadas e interpretadas à luz da teoria. A presente obra é resultado dos estudos desenvolvidos
E, pautando-nos nas seguintes premissas: seriedade no durante o doutorado em educação física da Faculdade de Educa-
trabalho, competência nos estudos, rigorosidade na pesquisa, dis- ção Física da Universidade Estadual de Campinas. 1 Essa versão
ponibilidade de ensinar e dedicação às questões educacionais, é em forma de livro sofreu algumas modificações em relação ao
texto original da tese, contemplando novas reflexões realizadas
possível declarar nossa querida Nana como uma das maiores cola-
sobre o tema.
boradoras para um avanço científico dos conhecimentos da ginás-
Este estudo sobre a ginástica geral (GG) teve como ob-
tica, assim como para a formação de professores. Este livro é um jetivos centrais compreender como essa atividade vem manifes-
presente para aqueles que querem atuar nessa área. tando-se na sociedade contemporânea e discutir as suas perspec-
E por isso, eu só tenho orgulho de poder participar da sua tivas para a educação física escolar.
trajetória acadêmica, dos seus conhecimentos e da sua amizade. Para tanto, foi realizada uma pesquisa de campo em dois
momentos: no primeiro, com a intenção de encontrar informações
Pró f1. Dra. Vilma Lení Nista-Piccolo sobre a GG no mundo e no Brasil, foram feitas observações de
eventos nacionais e internacionais de ginástica geral e entrevistas
com ginastas, professores e dirigentes (brasileiros e estrangei-
ros); e no segundo, visando aprofundar a discussão em torno das
perspectivas da GG no contexto escolar, foi desenvolvido um pro-
jeto de ginástica geral com professores de educação física das
escolas públicas de Campinas.
No decorrer deste trabalho, projeto a imagem da ginás-
tica geral na sociedade contemporânea, tomando como referên-
cia básica para a reflexão a trajetória de sistematização da ginás-
tica desde o século XIX, o processo de estruturação da GG na
Federação Internacional de Ginástica no século XX e o conjunto
das informações conseguidas no "Primeiro momento" da pesqui-
sa de campo. Procuro, de um lado, identificar significados que
têm acompanhado a difusão da GG em nossos dias e, de outro,
conferir-lhe novos significados que permitam potencializar o seu

1
A tese intitulada: "A ginástica geral na sociedade contemporânea: perspec-
tivas para a educação física escolar" foi defendida em outubro de 1998
e teve como orientadora a ProP. Dra. Vilma Lení Nista-Piccolo.

14 15
caráter "transformador". À medida que a imagem da ginástica Introdução
geral vai sendo projetada, podemos visualizá-la como uma práti-
ca corporal que promove uma composição entre elementos do UM POUCO DE HISTÓRIA
núcleo primordial da ginástica e das diversas manifestações
gímnicas que vêm sendo construídas ao longo desses dois últimos Seres históricos, inseridos no tempo e não imersos nele,
séculos e como uma atividade que traz consigo a possibilidade os seres humanos se movem no mundo, capazes de op-
de redescobrirmos o prazer, a inteireza e a técnica/arte da lingua- tar, de decidir, de valorar. Têm o sentido do projeto [...].
gem corporal.
Paulo Freire*
Posteriormente, situo a trajetória da ginástica no con-
texto escolar brasileiro e aprofundo o significado da ginástica
geral como conhecimento a ser estudado na educação física esco- Desde muito cedo, o encanto e interesse pela ginástica
lar, reconhecendo-a como o caminho mais apropriado para recons- começaram a fazer parte de minha vida. Isso foi há mais de vinte
truirmos, para recriarmos a ginástica na escola numa perspectiva anos, por volta dos meus nove anos de idade, quando tive a opor-
de "confronto" e síntese e, também, numa perspectiva lúdica, cria- tunidade de vivenciar a ginástica artística (GA) e a ginástica rítmica
tiva e participativa. Em seguida, imagino um projeto de GG nas desportiva (GRD) nas aulas de educação física da escola (Instituto
escolas públicas de Campinas, a partir do qual discuto as suas Educacional Imaculada - Campinas/SP) e na equipe de treinamento
possibilidades de desenvolvimento no âmbito escolar. de ginástica artística, que funcionava em horários extracurriculares.
Em poucos meses, decidi praticar ginástica regularmente
e passei a freqüentar a escolinha de ginástica artística do Clube
Campineiro de Regatas e Natação - Campinas/SP. Durante aproxi-
madamente nove anos fui atleta federada e participei de competi-
ções regionais e estaduais e também de demonstrações, ganhan-
do, a cada dia, mais gosto por essa atividade.
Muitas foram as emoções vividas durante esses anos.
Dentre elas, as lembranças dos "Festivais de Ginástica do Regatas"
são inesquecíveis. O festival envolvia todos os grupos de ginástica
do clube e eram meses de preparação para a grande festa, num
clima de expectativa, alegria e realização. As apresentações de gi-
nástica que fazíamos na escola igualmente eram motivo de grande
satisfação. Constituíam-se em oportunidades singulares para reve-
lar a nossa arte e o nosso trabalho para a comunidade escolar, des-
cortinando atitudes de encanto e admiração.

* (1987a, p. 43)

16 17
Anos mais tarde, quando eu já estava atuando como pro- Toda a minha vivência na área da ginástica e como inte-
fessora de Educação Física em escolas, fui convidada para partici- grante do GGU, aliada à minha atuação profissional como professora
par do Grupo Ginástico UNICAMP (GGU). Coordenado pelas professo- de educação física na escola, ao longo de nove anos, caracterizaram-
ras Elizabeth Paoliello Machado de Souza e Vilma Lení Nista-Piccolo, se como fatores decisivos para que meu interesse em praticar gi-
o Grupo ginástico UNICAMP foi criado em 1989 como um grupo de nástica geral pudesse transformar-se em inquietude acadêmica:
ginástica geral (GG), vinculado à Faculdade de Educação Física da como se vem manifestando a GG na sociedade contemporânea?
Universidade Estadual de Campinas (FEF/Ui\iiCAMp) como um projeto Quais são as suas perspectivas para a educação física escolar?
de extensão. Composto por universitárias e professoras de educação Ao deparar-me com essas inquietações, tentei encontrar
física, na sua maioria ex-atletas do Clube Regatas e algumas dança- subsídios para atenuá-las, porém constatei uma escassez de estudos
rinas, seu objetivo principal era o de integrar a GA, a GRD e a dança, sobre a ginástica geral no Brasil, país onde essa atividade vem con-
dentro de uma proposta de ginástica geral. quistando mais espaço a cada dia.
A partir da primeira meta concretizada (a participação do Acreditando que essa carência 3 dificulta a compreensão e
GGU na "VI Gimnasiada Americana" realizada em Buenos Aires/Ar- o desenvolvimento da ginástica geral, tanto no âmbito da escola
gentina em outubro de 1989), o grupo ganhou força e estímulo
como fora dele, apostei na possibilidade de realizar este trabalho a
para permanecer atuante até hoje. fim de ampliar as discussões.
Após várias mudanças ocorridas ao longo desses anos, a
Nesse sentido, os objetivos centrais deste estudo são:
proposta de trabalho do GGU transformou-se, ganhando novos
• compreender a ginástica geral, o que significa conhecer
contornos. Desde 1992, o grupo, está sob a coordenação da pro-
sua amplitude e complexidade, refletindo sobre suas origens e de-
fessora Elizabeth Paoliello Machado de Souza e do professor Jor-
senvolvimento na sociedade contemporânea;
ge Sérgio Pérez Gallardo e atualmente é constituído por moças e
• discutir e aprofundar as perspectivas da ginástica ge-
rapazes, a maior parte alunos do curso de graduação em educação
ral no âmbito da educação física escolar, a partir de uma análise
física da FEF/UNICAMP, com pouca ou nenhuma experiência ante-
sobre o seu significado como conhecimento a ser estudado nas
rior na ginástica. 1
aulas de educação física e sobre as suas possibilidades de desen-
Nesses treze anos de existência, o grupo tem participado
volvimento na escola.
de diversos eventos de GG em âmbito universitário, regional, esta-
dual, nacional e internacional, o que me possibilitou vivenciar e Para tanto, foi realizada uma pesquisa de campo em dois
conhecer bem de perto o universo da ginástica geral.2 Dentre esses momentos: no primeiro, com a intenção de encontrar informações
eventos, destaco o privilégio de ter participado da Gymnaestrada sobre a GG no mundo e no Brasil, foram feitas observações de even-
Mundial ("World Gymnaestrada") como integrante da delegação tos nacionais e internacionais de ginástica geral e entrevistas com
brasileira pelo GGU, devido ao significado e importância desse acon- ginastas, professores e dirigentes (brasileiros e estrangeiros); e no
tecimento mundial. Em 1991, participamos da "9th World Gymnaes- segundo, visando aprofundar a discussão em torno das perspec-
trada", realizada em Amsterdã/Holanda; em 1995, da "10* World tivas da GG no contexto escolar, foi desenvolvido um projeto de
Gymnaestrada", realizada em Berlim/Alemanha e, em 1999, da "l l th ginástica geral com professores de educação física das escolas pú-
World Gymnaestrada", realizada em Gòteborg/Suécia. blicas de Campinas.

19
No Capítulo 1, "O caminho percorrido", abordo os dife- Capítulo 1
rentes momentos da pesquisa de campo.
O CAMINHO PERCORRIDO
No Capítulo 2, "A ginástica geral na sociedade contempo-
rânea - projetando sua imagem", desenvolvo uma discussão em
Na medida em que, apesar de tudo, o conhecimento cientí-
torno da compreensão da GG na atualidade, tomando como refe- fico guarda continuidade com nossa experiência comum,
rências centrais para a reflexão a sistematização da ginástica des- pode-se atingir as perspectivas de onde o universo da ciên-
de o século XIX, o processo de estruturação da ginástica geral na cia não nos aparecerá separado de nosso universo quoti-
Federação Internacional de Ginástica e o conjunto das informa- diano, de nossas preocupações, de nossos cuidados - nem
ções conseguidas no primeiro momento da pesquisa de campo. de nossas alegrias.
No Capítulo 3, "A ginástica geral e suas perspectivas para a Ceorges Snyders*
educação física escolar- imaginando um projeto", situo a trajetória
da ginástica no contexto da educação física escolar brasileira e dis- Atendendo às finalidades básicas deste estudo, a pesqui-
cuto o significado da ginástica geral como conhecimento a ser estu- sa de campo foi desenvolvida em dois momentos.
dado na educação física escolar e suas possibilidades de desenvolvi-
mento na escola pública brasileira, considerando as informações
conseguidas no segundo momento da pesquisa de campo. 7. Primeiro momento
Nas considerações finais, concluo este trabalho com a cer-
teza de que "se muito vale o já feito, mais vale o que será..."4 Esse momento, desenvolvido durante os anos de 1995 e
Isso é um pouco da história que me projetou a realizar 1996, foi assinalado pela busca em compreender a ginástica geral
este estudo sobre a ginástica geral. na atualidade, tendo como desafio principal superar a carência bi-
bliográfica. Para tanto, empenhei-me em encontrar informações
sobre a ginástica geral no mundo e no Brasil, por meio da observa-
ção de eventos nacionais e internacionais de entrevistas com gi-
nastas, professores e dirigentes (brasileiros e estrangeiros), além
de uma viagem de estudos à Dinamarca.
O procedimento básico utilizado para a coleta de infor-
mações nessa fase da pesquisa de campo foi a observação direta
intensiva, a qual pode ser realizada por meio de duas técnicas:
observação e entrevista (Lakatos e Marconi, 1991, pp. 190-201). As
técnicas empregadas foram: observação assistemática, observação
sistemática e entrevistas focalizadas ou centradas.

* (1988, p. 107)

21
20
1.1. Observação assistemática No caso dos festivais, foram realizadas filmagens (por integrantes
do Grupo ginástico UNICAMP e de outros grupos brasileiros e pela
Essa técnica de observação, também denominada não FIG), as quais constituíram um rico material que foi analisado como
estruturada, espontânea ou informal, permite registrar os fatos da complemento das observações.
realidade sem a utilização de meios técnicos especiais (Lakatos e
Marconi, 1991,pp. 192-193). Foram observados os seguintes even- International Gymnastik Festival —Alicante 1995
tos de ginástica geral realizados no Brasil:
• "II Copa Sul Mineira de Ginástica Geral" - Cambuí/MG: O "International Gymnastik Festival — Alicante 1995" foi
abril de 1995; promovido pela "Danske Gymnastik & Idraets Foreninger" — DGI
• "Festival Texaco de Ginástica Geral" - Campinas/SP: maio (Associação Dinamarquesa de Ginástica e Esportes) — em conjun-
de 1995; to com a prefeitura da cidade de Alicante, na Espanha. Foi realiza-
• "Festival de Ginástica Geral Friburgo Country Clube" - do em Alicante, no período de 26 de junho a 1° de julho de 1995.
Nova Friburgo/RJ: junho de 1995; Participaram desse evento cerca de 5 mil pessoas, sendo a grande
• "IIIGINPA- Festival Paulista de Ginástica Geral" - GuarujáV maioria grupos dinamarqueses ligados à DGI. O Brasil foi um dos
SP: novembro de 1995; 13 países que participou desse festival, sendo representado pelo
• "Festival Interno de Ginástica Geral da FEF - UNICAMP" - Grupo Ginástico UNICAMP.'
Campinas/SP: junho e novembro de 1996.
10th World Gymnaestrada — Berlin 1995

l .2. Observação sistemática A "10th World Gymnaestrada — Berlin 1995", promovida


pela FIG, foi realizada na cidade de Berlim, na Alemanha, de 9 a 15
A observação sistemática, diferentemente da anterior, de julho de 1995. Participaram desse evento mais de 19 mil pes-
requer um planejamento prévio mais elaborado. É também co- soas, representando mais de 30 países diferentes (Fédération,
nhecida como observação estruturada ou planejada (Lakatos e 1995a).2 A delegação brasileira foi composta por 662 ginastas, per-
Marconi, 1991, p. 193). tencentes a 23 grupos de 6 estados (Souza, 1997, p. 60).
Foi realizada nos meses de junho a agosto de 1995, em três A importância desse evento para a ginástica geral no
etapas: no "International Gymnastik Festival — Alicante 1995", na "10* mundo é inegável, por se tratar do festival de GG com maior abran-
World Gymnaestrada — Berlin 1995" e numa viagem de estudos à gência internacional. Daí a sua relevância como a principal fonte
Dinamarca. Foi definido previamente um roteiro básico de orientação de observação deste estudo.
contemplando os aspectos mais importantes e significativos a serem
observados, porém deixando espaço para novos elementos que pu- Viagem de estudos à Dinamarca
dessem surgir durante o processo de observação (ver Anexo 1).
O registro das observações foi feito por meio de anotações Essa viagem foi realizada no período de 13 a 31 de agosto
com base nesse roteiro, sendo complementado com fotografias. de 1995, a convite da Associação Dinamarquesa de Ginástica e Es-

22 23
portes (DGI) por meio do Prof. Holger Vestergaard, diretor de temas, permite ao entrevistado descrever livremente sua experiên-
assuntos internacionais da DGI, com quem se mantinha contato cia pessoal acerca do assunto pesquisado. A partir de um roteiro
desde 1994, quando um grupo de ginástica da Dinamarca se apre- de tópicos, o entrevistador tem a liberdade de fazer as perguntas
sentou na UNICAMP. que julgar importantes para o esclarecimento do tema em estudo.
A escolha da Dinamarca justifica-se por ser um dos países A grande maioria das entrevistas foi realizada durante o
da Europa onde a ginástica tem grande expressão e faz parte das "International Gymnastik Festival — Alicante 1995", a "10th World
tradições e raízes culturais. Gymnaestrada — Berlin 1995" e a viagem de estudos à Dinamarca.
Nessa viagem, pudemos conhecer o trabalho desenvolvido A seleção dos entrevistados foi feita de forma intencio-
em várias instituições, como clubes esportivos, escolas (de ginástica nal, dando ênfase aos profissionais da área da ginástica que têm
e de esportes, de preparação de professores primários), um centro colaborado para o desenvolvimento da ginástica geral no Brasil e
de atividades físicas para funcionários da prefeitura e uma facul- no exterior e também aos membros Federação Internacional de
dade de educação física, podendo obter uma visão panorâmica da Ginástica (FIG) diretamente relacionados com a ginástica geral.
ginástica em diferentes contextos. Os locais visitados na Dinamarca Com base num roteiro de questões (ver Anexo 2), foram
foram: Vingstedcentret (clube onde se localiza a sede da DGI), entrevistados dirigentes, professores e ginastas de várias localida-
R0dding Hallerne (clube), S0r0 Ungdomsskole, Gymnastikh0jskolen des,3 somando 67 entrevistas, sendo 20 com dirigentes, 22 com
I Ollerup, Gymnastikh0jsl<olen Ved Viborg e Idraetshojskolen I professores e 25 com ginastas.
S0nderborg (escolas de ginástica e esporte), Haslev Seminarium As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, trans-
(Haslev College of Education — escola de preparação de professo- critas para fins de análise.
res primários), Odense Universitet (Faculdade de Educação Física,
da Universidade de Odense), Det batter — Sundheds-og Under-
visningscentret (centro de atividades físicas para funcionários da 2. Segundo momento
prefeitura de Odense). Dentre tantos, foi preciosa e emocionante a
oportunidade de conhecer a "Gymnastikh0jskolen I Ollerup", fun- Nesse momento da pesquisa de campo, foi desenvolvido
dada em 1920 por Niels Bukh, um dos grandes nomes da ginástica um projeto com professores de educação física da rede pública da
dinamarquesa e européia com a sua "primitive gymnastics" (Bukh, cidade de Campinas durante o ano de 1996, objetivando encontrar
1962), também conhecida como "ginástica básica ou fundamental" subsídios para discutir as perspectivas da ginástica geral no âmbito
(Langlade e Langlade, 1986, p. 185-208). da educação física escolar.
Seu desenvolvimento ocorreu em duas fases: a realização
de um curso de ginástica geral para os professores durante o pri-
1.3. Entrevistas focalizadas ou centradas meiro semestre e o desenvolvimento de uma proposta de ginásti-
ca geral nas escolas no segundo semestre.
Foram efetuadas entrevistas focalizadas (Lakatos e Mar- Em dezembro de 1995, foram feitos contatos com as dele-
coni, 1991, p. 197) ou entrevistas centradas — "focused interview" gacias de ensino de Campinas para explicar os objetivos do projeto
(Thiollent, 1985, p. 35), nas quais o entrevistador, dentro de certos como um todo e solicitar auxílio no processo de divulgação. Esses

24 25
contatos foram retomados em fevereiro de 1996 e a divulgação do possibilitar a adequação da proposta de ginásti
ginástica geral ao contexto
curso foi feita por meio de uma carta-convite (ver Anexo 3), que foi de atuação dos professores.
distribuída nas escolas públicas de ensino fundamental e médio da
cidade de Campinas, oferecendo 30 vagas para a participação no Planejamento das aulas de ginástica geral
projeto.
No final do curso, cada professor definiu uma classe para
desenvolver a proposta. Predominaram turmas de 5a a 8a série do
2.1. Curso de ginástica geral ensino fundamental, para as quais o Estado garante a presença de
um professor especialista em educação física que ministre as au-
Esse curso foi ministrado no período de abril a junho de las. A partir disso, os professores se reuniram em pequenos grupos
1996 (totalizando 30 horas) nas dependências da Faculdade de Edu- de acordo com as turmas escolhidas para elaborar pelo menos 15
cação Física da UNICAMP, contando com a participação de 21 profes- aulas de GG, tendo como base um roteiro (ver Anexo 6) que serviu
sores de educação física, dentre os quais 19 eram de escolas esta- de apoio para o planejamento do trabalho.
duais de Campinas, um de uma escola estadual de Monte Mor e
um de uma pré-escola particular de Campinas.
2.2. Desenvolvimento da proposta de
Programa do curso ginástica geral nas escolas

O programa do curso4 englobou discussões gerais sobre Essa etapa foi realizada durante o segundo semestre le-
a ginástica, a ginástica geral e a educação física escolar, assim como tivo de 1996, mais precisamente durante os meses de setembro a
vivências respaldadas em princípios norteadores para o desenvol- novembro.
vimento de uma proposta de GG na escola. Os próprios professores ministraram as aulas de GG nas
escolas em que lecionavam. Dos 21 professores que participaram
Questionários para os professores do curso no primeiro semestre, 18 retornaram em agosto, dentre
os quais 11 efetivamente desenvolveram a proposta. Desses 11,7
Uma vez esclarecidos os objetivos centrais do projeto, cumpriram pelo menos 10 aulas e 4, pelo menos 6 aulas.
foram aplicados dois questionários para os professores (ver Anexo
5) com a finalidade de conhecer a realidade das escolas, suas formas Acompanhamento do desenvolvimento da proposta
de trabalho, suas visões sobre ginástica, ginástica geral e educação
física escolar, assim como as expectativas em relação ao curso e ao O acompanhamento do trabalho desenvolvido pelos pro-
projeto como um todo. fessores foi feito por meio dos seguintes procedimentos:
Essas informações coletadas logo no início do curso for-
neceram elementos muito significativos para conhecer o grupo e A) Fichas de plano de aula (ver Anexo 7);

26 27
B) Visitas às escolas; Capítulo 2
C) Reuniões mensais com os professores (de agosto a
dezembro). A GINÁSTICA GERAL NA
SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
Fichas de plano de aula
PROJETANDO SUA IMAGEM
Essas fichas eram entregues periodicamente pelos pro-
fessores em nossos encontros mensais, com o objetivo de facilitar Devemos permanecer sempre de atalaia, experimentar
o acompanhamento das aulas e para documentar o trabalho todos os nossos passos, partir da tradição, apoiar-nos nela
nos momentos difíceis, mas ultrapassar e abandonar os
desenvolvido.
caminhos traçados, lançar pontes, cavar túneis, escalar
encostas, alcançar cimos, para irmos sempre em busca de
Visitas às escolas
mais claridade e mais sol. (...)
Tire o chapéu para o passado,
Foram feitas visitas às escolas nos horários das aulas de Tire o casaco para o futuro!
ginástica geral, com a finalidade de conhecer os locais e os grupos. Célestin Freinet*
Nessas visitas foram feitas filmagens e fotografias.
A compreensão da ginástica geral (GG) tem sido alvo de
Reuniões mensais interesse entre profissionais brasileiros da área da educação física
e da ginástica, especialmente entre aqueles que têm organizado e
Essas reuniões caracterizaram-se como verdadeiros "pon- participado de eventos nacionais e internacionais de ginástica geral.
tos de encontro" para dialogar a respeito das experiências que esta- Docentes e discentes da Faculdade de Educação Física da
vam sendo vivenciadas no processo de desenvolvimento da pro- UNicAMPvêm realizando pesquisas sobre GG, marcadamente desde
posta. As conquistas e dificuldades eram compartilhadas, suscitando 1989 com a criação do Grupo Ginástico UNICAMP (GGU).
novas possibilidades, novos caminhos a serem trilhados. Em de- No ano de 1996, foram realizados o "I e II Encontros de
zembro foi realizada uma reunião final com os professores para Ginástica Geral" nessa mesma instituição, nos dias 25 de maio e 9
avaliação geral do trabalho realizado. de dezembro respectivamente, com o objetivo central de aprofundar
Toda essa trajetória possibilitou-me percorrer um caminho o debate em torno do conceito de ginástica geral e suas possibili-
muito rico e inquietante. Se, por um lado, percebia-me repleta de dades de desenvolvimento em diferentes âmbitos da sociedade
informações e esclarecimentos, por outro, aumentavam as minhas (escolas, clubes, associações comunitárias, academias etc.).1
dúvidas e questionamentos. No seio dessa contradição, fui trilhando Minha participação nesses encontros, assim como no "gru-
o meu caminhar em direção à compreensão da ginástica geral na po de pesquisa em ginástica geral",2 influenciou intensamente meu
sociedade contemporânea e suas perspectivas para a educação fí-
sica escolar.
* (1991, pp. 94-95)

28 29
entendimento acerca da ginástica geral. Soma-se a isso todo o "Pri- modo decisivo para a compreensão do cenário que marcou a tran-
meiro momento" da pesquisa de campo deste estudo, cuja riqueza sição da ginástica (como era concebida antes do Movimento Ginás-
de informações conseguidas por meio das entrevistas (com dirigen- tico Europeu) para a ginástica científica, o mesmo seria dizer, da
tes, professores e ginastas de diversos países) e das observações ginástica para a ginástica atual. O desenrolar de sua análise vai
(especialmente da "l Oth World Gymnaestrada — Berlin 1995") cons- desnudando cuidadosamente aquilo que se ocultava, descobrindo
titui uma valiosa fonte de reflexão. (des-cobrindo, tirando a cobertura, deixando à vista, decifrando...)
imagens reveladoras a respeito dessa passagem.
Para projetar a imagem da ginástica geral na sociedade
contemporânea, senti a necessidade de conhecer mais profunda- A denominação ginástica remonta a épocas anteriores ao
século XIX. Sua origem etimológicavem do grego pvmnastiké —
mente a trajetória da ginástica. Nesse sentido, parti em busca do
M/te ou ato de exercitar o corpo para fortificá-lo
caminho percorrido pela ginástica desde o início do século XIX,
com a intenção de encontrar elementos para o entendimento da de" (grifo meu) — e gímnós — "nu. despido" (Ferreira. 1986, p.
850) — , trazendo consigo uma idéia_de-.assoj:iacão entre o exerci-
GG na atualidade.
cio físico e a nudez ("exercitar o coirjO-üiL!l).Jlfl-Sentidp .d.Q-deSELL.
jõTclo simples, do livre^do limpo, do desprovido ou destituído de
1. A ginástica maldade, do imparcial, dpneutro, do purç
-—-—Pgfa-os gregos, ginástica significava "[...] exercícios físicos
Por meio de sua obra Teoria general de Ia gimnasia, Langlade em geral e estes compreendiam corridas, lançamentos, saltos, lutas
e Langlade (l986) oferecem aos seus leitores uma rica viagem ao etc.; em resumo, todos os exercícios denominados na atualidade
universo da ginástica, em especial a partir do início do século XIX, atletismo ou esportes" (Langlade e Langlade, 1986, p. 21). Sendo
período em que são sistematizados os métodos ginásticos euro- assim entendido em suas primeiras sistematizações na sociedade
peus, representados principalmente pelas escolas de ginástica ale- ocidental européia, o termo ginástica englobava uma enorme gama
mã, sueca e francesa. de práticas corporais, tais como: jogos populares e da nobreza,
Segundo esses autores (1986, p. 17-31), o ano de 1800 é acrobacias, saltos, corridas, exercícios militares de preparação para
considerado uma data muito indicada para assinalar o nascimento a guerra, esgrima, equitação, danças e canto (Soares, 1998, p. 20).
da atual ginástica, o qual foi possível devido a uma série de cir- O Movimento Ginástico Europeu pode ser entendido, de
cunstâncias que propiciaram o aparecimento das suas primeiras acordo com Soares (1998, p. 20), como "[...] o conjunto, sistemati-
sistematizações. Para Langlade e Langlade (1986, p. 22) "daí em zado pela ciência e pela técnica, do que ocorreu em diferentes
diante, a ginástica evoluiu incessantemente, não havendo alcança- países ao longo de todo o século XIX, especialmente na Alemanha,
do ainda hoje formas definitivas".3 Suécia, Inglaterra e França". Para a autora (1998, p. 18), esse movi-
Com o intuito de compreender mais claramente o signifi- mento, como expressão da cultura, "[...] se constrói a partir das
cado do "nascimento da atual ginástica" (conforme Langlade e relações cotidianas, dos divertimentos e festas populares, dos es-
Langlade, 1986, p. 22), encontrei no estudo desenvolvido por Soa- petáculos de rua, do circo, dos exercícios militares, bem como dos
res (1998) — Imagens da educação no corpo: estudo a partir da passatempos da aristrocacia". Ressalta, ainda, que seu conteúdo bá-
ginástica francesa no século XIX— reflexões que colaboraram de sico foi organizado a partir de parâmetros formulados pela cultura

31
grega, que compreendia a ginástica relacionada à idéia de saúde, ticidade, seu "[...] núcleo primordial, cuja característica dominante
beleza e força (Soares, 1998, p. 21). se localiza no campo dos divertimentos" (Soares, 1998, p. 18). A
Guardadas as diferenças e particularidades entre as diver- necessidade de ruptura da ginástica científica com seu núcleo
sas nações, podemos considerar, segundo Soares (1994, p. 65), primordial é tão fortemente evidenciada no século XIX, que tudo
que o Movimento Ginástico Europeu acentuava finalidades comuns, o que se relacionava com os espetáculos próprios do mundo do
como regenerar a raça, desenvolver a saúde (compreendida já como circo e das festas populares era recusado:
conquista e responsabilidade individual), a coragem e a força para
servir à pátria nas guerras e na indústria. Mas seu maior objetivo Os acrobatas e funâmbulos eram a má consciência, o irracional dos
círculos científicos que elegiam a 'Ginástica científica' como prática
era o de "[...] moralizar os indivíduos e a sociedade, intervindo
corporal capaz de contribuir na formação do corpo civilizado. Contra-
radicalmente em modos de ser e de viver" (Soares, 1998, p. 20). E,
ditoriamente, porém, todo aquele universo de ousadia e risco, com
para a concretização de tais finalidades, foram "recrutados" os ser-
as atividades corporais feitas no mundo do 'teatro do povo', foi a
viços da ciência: "[...] ciência e técnica parecem ter sempre compa-
base da metrificação e classificação científica. |...]
recido para afirmar a ginástica como instrumento de aquisição de Precisão, sistematização, rigor, experimentação, controle. É este o
saúde, de formação estética e de treinamento do soldado. Compa- universo terminológico no qual mergulha o conjunto das atividades
recem, sobretudo, para revelar a ginástica como protagonista do corporais, antes livres e praticadas como rituais de viver (Soares, 1998,
que é racional, experimentado e explicado" (Soares, 1998, p. 21). p. 59; grifo meu).
A abordagem científica amplamente difundida no século
XIX, cuja base de sustentação era delimitada sobretudo pelas ciên- O circo era uma atividade que exercia grande fascínio na
cias físicas e biológicas, fez com que a ginástica fosse perdendo, sociedade européia do século XIX. Traçando um paralelo entre o
pouco a pouco, suas características artísticas, lúdicas e de globa- corpo "lúdico" do circo e o corpo "educado-civilizado" preconiza-
lidade, permanecendo cada vez mais restrita às explicações dadas do pela ginástica científica, evidencia-se um antagonismo. Na gi-
pela ciência e pela técnica. Nesse período, os progressos da ciên- nástica científica predominava o princípio da utilidade dos gestos
cia intensificaram-se e permitiram vislumbrar as possibilidades da e da economia de energia na busca de um corpo milimetricamente
ginástica para uma "educação do movimento", para uma "educação reformado, simétrico, enfim, perfeitamente sintonizado com os
do corpo". De um modo mais preciso que em outras épocas da preceitos científicos e com os valores da sociedade burguesa: "A
história do homem ocidental, estrutura-se uma "pedagogia do ges- ginástica é constitutiva desta mentalidade. Destaca-se pelo seu
to", na qual a ginástica científica passa a ser a grande responsável caráter ordenativo, disciplinador e metódico" (Soares, 1998, p. 19).
pela visibilidade de um "corpo educado" (Soares, 1998, p. 88). Tem Em contrapartida, o universo gestual próprio do circo revelava
início, a partir desse momento, a configuração de uma gestualidade uma tal ausência de utilidade que "[...] o corpo ali exibido em
própria da ginástica, o gesto gímnico, cujos significados estão apoia- movimento constante despertava o riso, o temor e, sobretudo, a
dos na ciência e na técnica, assim como nos princípios de ordem e liberdade. Havia uma inteireza lúdica na gestualidade de cada
disciplina ditados pela burguesia. personagem: o anão, o palhaço, o acrobata, a bailarina. Esta intei-
A ginástica, à medida que vai se tornando cada vez mais reza não cabia na sociedade cindida, fundada e erigida pelo pen-
científica, segue o seu curso, negando suas origens, sua auten- samento burguês" (Soares, 1998, p. 24; grifo meu).

32 33
Com a negação do prazer e do simples entretenimento exercícios físicos. Essas zonas são representadas pelas seguintes
aue a atividade livre e lúdica do mundo circense proporcionava e "Escolas": a Escola Inglesa (primeira zona), a Escola Alemã (segun-
com a conseqüente exaltação do princípio de utilidade da da zona), a Escola Sueca (terceira zona) e a Escola Francesa (quarta
atividade física, acentuava-se gradativamente a oposição entre a zona). Dentre elas, apenas a Escola Inglesa [representada pela figura
ginástica e o campo dos divertimentos, gerando um abismo cada de Thomas Arnold (1795-1842)] não se ateve ao desenvolvimento
vez mais profundo entre ambos. A configuração do gesto gímnico, da ginástica, dedicando-se mais diretamente ao jogos e às atividades
do exercício ginástico — construído, ordenado, disciplinado e atléticas, configurando um movimento que veio favorecer a consoli-
metodizado —, intencionava afirmar a diferença entre a ginásti- dação do esporte moderno. As outras três foram as grandes respon-
ca e outras práticas corporais, apartando-a cada vez mais do seu sáveis pela sistematização dos métodos ginásticos europeus, tendo
núcleo primordial. Entretanto, era justamente nesse núcleo pri- como representantes principais:
mordial que os diferentes métodos ginásticos buscavam seus fun-
damentos, transformando-os de acordo com os seus interesses. • Guts-Muths (1759-1839) e Friedrich-Ludwig Jahn (1778-1852):
Um exemplo disso é a utilização de jogos nas aulas de ginástica Escola AJemã;
de Amoros com a finalidade de treinar, de ordenar (o jogo visto • Per Henrik Ling (1776-1839): Escola Sueca;
como uma atividade que cria ordem) as ações físicas e morais • Francisco Amoros y Ondeano (1770-1848) e Georges Demeny
úteis para a vida cotidiana e/ou militar (Soares, 1998, p. 70). (1850-1917): Escola Francesa.
A ginástica científica inaugura, portanto, o processo de
"aprisionamento das formas/linguagens das práticas corporais" pe- Após aproximadamente 100 anos sem modificações mais
los círculos científicos europeus (Soares, 1998, p. 20). Ela proclama significativas nas linhas originais da ginástica, entre 1900 e 1939 tive-
o seu rompimento com a "arte de exercitar o corpo" (como preten- ram início quase simultaneamente três grandes movimentos ginás-
diam os gregos) para casar-se com a ciência de exercitar o corpo e, ticos: o Movimento do Oeste, na França; o movimento do Centro, na
por que não dizer, com a ciência de adestrar, domesticar, doutrinar Alemanha, Áustria e Suíça; e o Movimento do Norte, nos países da
o corpo. Porém, é sobretudo na relação com a arte e com os parâ- Escandinávia (Langlade e Langlade, 1986, pp. 29-30).
metros formulados pela cultura grega que ela busca os seus funda- A partir de 1939, ano em que foi realizada a primeira
mentos para "aprisionar cientificamente" as múltiplas linguagens "Lingíada"4 em Estocolmo/Suécia, acentuou-se uma fase de "influên-
das práticas corporais. cias recíprocas e universalização dos métodos ginásticos" (fusão
Esse processo, no entanto, não ocorreu de forma tran- dos sistemas), que se estende até os nossos dias. Nesse período,
qüila, linear e idêntica em toda a Europa. Apesar das semelhanças as relações entre a ginástica e o esporte intensificaram-se, sendo
de objetivos, o desenvolvimento da ginástica científica nos dife- que ainda mais na segunda "Lingíada" (realizada em 1948 ou 1949,5
rentes países foi permeado por conflitos e divergências na siste- novamente em Estocolmo/Suécia), a influência do esporte no campo
matização dos diversos métodos. da ginástica manifestou-se com toda sua plenitude (Langlade e Lan-
De acordo com Langlade e Langlade (1986, pp. 23-28), glade, 1986, p. 31).
podemos destacar quatro zonas de atividades na Europa que, entre Dois séculos se passaram desde as primeiras sistematiza-
1800 e 1900, demarcaram diferentes formas de compreensão dos ções sobre a ginástica científica ou atual. Entramos no século XXI e

34 35
podemos observar que esse processo de "educação/endireita- Segundo Bracht (1992, p. 22), após a II Guerra Mundial
mento do corpo" revela-se claramente nas imagens da ginástica observa-se um grande desenvolvimento quantitativo do esporte, o
e do esporte na atualidade. qual vai consolidando-se gradativamente como o elemento hege-
Gerada com orgulho, a ginástica científica caracteriza-se mônico da cultura de movimento em todos os países sob a influên-
como uma das "filhas" mais ilustres da ciência ocidental, ao lado cia da cultura européia, como é o caso do Brasil. Afirma, ainda, que
do esporte moderno. Essa "família", constituída pela ciência mo-
derna, encontrou nas práticas corporais do século XVIII e XIX as No Brasil as condições para o desenvolvimento do esporte, quais
luzes para fundar uma ciência da "educação/endireitamento do sejam, o desenvolvimento industrial com a conseqüente urbanização
corpo", baseada, principalmente, no desenvolvimento da ginástica da população e dos meios de comunicação de massa, estavam agora,
mais do que antes, presentes. Outro aspecto importante é a progres-
científica e do esporte moderno. A exemplo de sua "irmã", este
siva esportivização de outros elementos da cultura de movimento,
também foi aperfeiçoando-se em estreita sintonia com a racionali-
sejam elas vindas do exterior como o judô ou o karatê, ou genuina-
dade científica e pode ser considerado, em nossos dias, seu "filho"
mente brasileiras como a capoeira (Bracht, 1992, p. 22; grifo meu).
predileto. Bracht (1995, p. 39) afirma que
Em nossos dias, atividade física passou a ser sinônimo de
A ciência entra como coadjuvante/auxiliar para a concretização de
esporte. A esportivização das práticas corporais (inclusive da gi-
uma das características centrais do esporte moderno: a maximização
nástica) consiste numa das principais características da cultura
do rendimento. A este objetivo adequa-se exemplarmente a raciona-
corporal5 na atualidade. E com ela acentua-se o já conhecido proces-
lidade científica hegemônica (denominada pelos Frankfurtianos de
so de "educação/endireitamento do corpo", com agravantes ad-
razão instrumental), porque está voltada exatamente para o aumento
da eficiência dos meios, excluindo, por definição, a discussão em torno
vindos principalmente de dois aspectos: da concepção positivista
dos fins desta prática. de ciência, que ainda predomina nos meios acadêmicos, e da visão
Ora, o aumento da importância social do esporte, principalmente da capitalista de sociedade e de cultura, na qual imperam a lógica
importância sócio-política (e mais recentemente econômica), requi- utilitarista da produtividade e do lucro e o hiperconsumo, aliados
sitou os serviços da ciência, para eliminar o acaso, o imprevisto, e à indústria do lazer.
assim, "garantir" o sucesso (grifo meu). Quanto ao primeiro ponto, Bracht (1995, p. 35) ressalta
que, apesar de reconhecer que nos últimos anos observou-se um
No esporte moderno, os serviços da ciência têm sido soli- aumento de investigações nas ciências do esporte no Brasil, orien-
citados para controlar o risco, tentando abolir o inesperado e garan- tado pela fenomenologia-hermenêutica e pelo materialismo histó-
tir o sucesso, assim como ocorrera com a ginástica científica, na rico-dialético, ainda "predominam as investigações orientadas numa
qual precisão e controle aparecem como o centro do "espetáculo concepção de ciência oriunda das ciências naturais, de cariz
'controlado' dos usos do corpo" (Soares, 1998, p. 25). empírico-analítico, que privilegia técnicas quantitativas de pesquisa
Entretanto, o fenômeno esporte sobressaiu-se no século (dentro do credo objetivista)".
XX, conquistando, de forma preponderante, o espaço das práticas Em relação ao segundo aspecto, que caminhos tem tri-
corporais nas sociedades contemporâneas. lhado a instituição Esporte nas últimas décadas, senão o da exa-

36 37
cerbação da concepção capitalista de sociedade e de cultura? O das suas ligações com as exigências da esportivização, uma sintonia
rendimento, a produtividade, o lucro, a utilidade acima de tudo. com as pressões da indústria do lazer, a qual tem estimulado e
Os resultados a qualquer preço. Os fins justificando os meios. A favorecido os modismos no campo das práticas corporais. Como
unanimidade alcançada pelo esporte nas sociedades contemporâ- exemplo, podemos constatar o boom das academias de ginástica,
neas leva-nos a crer que ser esportivo, apresentar uma boa forma nas quais as pessoas, em geral, já nem sabem se lá estão "por op-
física, praticamente "[...] já quase não é mais uma opção, mas sim ção ou por imposição social" (Bracht, 1992, p. 46). Seus alunos/
uma imposição social. Ligado a este boom do corpo ou das práticas consumidores, que podem pagar pelos seus milagres, estão ávidos
corporais, temos o boom da indústria do lazer e dos materiais es- pelos seus produtos que prometem transformá-los em "corpos sau-
portivos" (Bracht, 1992, p. 46), que acabam por completar com dáveis", "corpos esculturais"... Sob essa ótica, a ginástica tem refor-
eficiência o círculo vicioso do hiperconsumo. Quais têm sido os çado os estereótipos de corpo presentes na atualidade, uma vez
códigos mais marcantes da esportivização da cultura corporal em que seu papel primordial tem sido alimentar a "ditadura do corpo
relação ao corpo? É o corpo-objeto, corpo-mercadoria, corpo-mas- ideal", na busca por um corpo "escultural" como sinônimo de feli-
sificado, corpo-consumo, corpo-máquina, no lugar do corpo-sujeito, cidade. Mas essa não é a ginástica que queremos. Assim como Sousa
corpo-autêntico, corpo-expressivo, corpo-fruição, corpo-humano. e Vago (1997, p. 140) afirmam em relação à educação física, quere-
Retornando à ginástica, compreendida como uma prática mos uma_ginástica que não esteja "[...[ preocupada em^iixtdlSr
f
corporal que, especialmente desde o início do século XIX, vem sen- cõ?põTêsculturais', mas em participar da construção de 'COTEOS.
do sistematizada, construída e codificada de acordo com diferentes culturais' das criangas^do£ adolescentes, dos trabalhadores, en-
contextos histórico-culturais e que, portanto, tem sofrido transfor- fímTHõTTíomens e das.._mulhel^s, qu^jcorn jles senteni,_pensam,
mações ao longo desse percurso, não podemos negar que ela vem desejam, sofrem, agem, produzem, brincam, jogam..." (grifos meus).
ganhando novos contornos na atualidade. No entanto, a herança ~ Nessã~p"ê7specfivã7cõrn^ete a nós, "educadores do corpo"
das "imagens da educação no corpo" (Soares, 1998) projetadas no (ou simplesmente educadores), superar os equívocos do passado e
século XIX continua viva, projetando imagens semelhantes duzen- do presente e imaginar uma ginástica contemporânea que privile-
tos anos mais tarde. A ginástica contemporânea ainda permanece gie, acima de tudo, a nossa dimensão humana, o que quer dizer o
fortementevinculada à conquista da saúde, orientando-se por uma ser humano-cu/tura e não o ser humano-máquina, o ser humano-
visão limitada que restringe a compreensão de saúde a um corpo sujeito e não o ser humano-objeto. Uma ginástica que consiga rea-
estritamente biológico, individual, a um ser humano a-histórico, gir aos dogmas da ciência positivista para encontrar suas respostas
descontextualizado da sociedade na qual está inserido. Somam- (ou, ainda, suas perguntas). Uma ginástica que esteja aberta aos en-
se a isso as influências do processo de esportivização da cultura sinamentos multifacetados da cultura corporal, que aprenda com a
corporal que também a afetam. ousadia-prudente do funâmbulo e com a prudência-ousada do gi-
Nesse caminho percorrido pela ginástica, inúmeras ter- nasta, com a flexibilidade-firme da contorcionista e com a firmeza-
minologias têm sido criadas, configurando diferentes tipos de gi- flexível da ginasta, com o riso-sério do palhaço e a seriedade-
nástica, de acordo com as suas principais características e objetivos. risonha do técnico esportivo... Uma ginástica que não esteja sintoni-
A despeito dessas diferenciações, os diversos tipos de ginástica zada com os estereótipos de corpo presentes na atualidade, que
existentes na atualidade revelam, em maior ou menor grau, além não esteja interessada em alimentar a "ditadura do corpo ideal".

38 39
Uma ginástica que procure superar os dogmas do consumismo e seja, para distinguir os esportes ginásticos do universo não com-
do culto ao corpo-objeto de consumo-mercadoria-massificado que petitivo da ginástica.8 O Prof. Jean Willisegger (da Suíça, presidente
a indústria do lazer no campo das práticas corporais insiste em nos do Comitê Técnico de Ginástica Geral da FIG, 1995) afirma que foi
impingir, hipnotizando-nos com suas artimanhas e armadilhas, com difícil propor uma terminologia que pudesse ser compreendida por
seus modismos e imposições. Enfim, uma ginástica que crie espaço todos, sendo essa a escolhida por melhor expressar a idéia da gi-
para o componente lúdico da cultura corporal, redescobrindo o nástica em geral — das atividades gímnicas em suas bases e
prazer, a inteireza e a técnica-arte da linguagem corporal. também pela sua possibilidade de fácil tradução em diversos idio-
Acredito ser possível projetar essas imagens por meio da mas. O termo ginástica geral passa, então, a ser utilizado para mar-
ginástica geral. car a diferença entre a ginástica "em geral", "em suas bases", não
competitiva, e a ginástica competitiva, esportivizada. _-
Em 1984, foi oficializado o Comitê Técnico de Ginástica
2. A ginástica geral Geral (Crcc) da Federação Internacional de Ginástica, durante o
Congresso da FIG realizado em Los Angeles por ocasião dos Jogos
A opção por iniciar a reflexão sobre a GG abordando sua Olímpicos. A partir da estruturação desse espaço destinado exclu-
trajetória na Federação Internacional de Ginástica (FIG) deve-se ao sivamente ao desenvolvimento da ginástica "em geral", iniciou-se
fato de essa instituição ser a grande responsável pela sua difusão um processo mais intenso de divulgação da GG nas diversas fede-
na atualidade, especialmente em países fora do continente euro- rações nacionais filiadas à FIG, inclusive na Confederação Brasilei-
peu. Minha intenção não é restringir a compreensão da ginástica ra de Ginástica (CBG). Portanto, pode-se dizer que a década de 1980
geral à visão oficial, institucional e parcial da FIG, mas contextualizar assinalou a propagação da GG.
o surgimento e estruturação da GG tal como hoje a conhecemos, Entretanto, há indícios de que o nascimento da ginástica
para, posteriormente, discutir questões que apontem para seu en- geral no interior da FIG possa ter sua gênese em períodos anterio-
tendimento e conceituação. res, por volta da década de 1950. Para uma compreensão mais clara
dessa origem, serão abordados alguns pontos em relação à traje-
tória da FIG desde a sua criação.9
2.1. A ginástica geral e a
Federação Internacional de Ginástica
2.1.1. A Federação Internacional de Ginástica
A Federação Internacional de Ginástica (FIG) é a federação
"[...] com maior poder e influência na ginástica mundial" (Souza, Huguenin (1981, pp. 29-30) afirma que as diversas socie-
1997, p. 29). dades ginásticas espalhadas pela Europa do século XIX sentiram a
De acordo com as informações conseguidas nas entrevis- necessidade de reunir-se em organizações nacionais (uniões, fede-
tas realizadas na pesquisa de campo,7 a denominação ginástica geral rações ou até mesmo simples associações). Naquela época, especial-
foi proposta pela FIG no final da década de 1970 e início da de 1980, mente a partir de 1860, foram criadas muitas federações nacionais
para se referir às atividades da ginástica fora da competição, ou por todo o continente europeu (em países como a Alemanha, Bél-

40 41
gica, Polônia, Holanda, França, Hungria, Itália, Inglaterra, Checos- Logo no início do século XX, sob a influência persistente
lováquia, Noruega, Bulgária, Luxemburgo, Dinamarca e Iugoslávia) do francês Charles Cazalet (presidente da Federação Francesa de
e também na América (no Canadá). O surgimento dessas Ginástica), a FEG passou a organizar as competições internacionais
associações nacionais de ginástica abriu caminho para a organi- de ginástica, começando pela ginástica artística masculina. Naquele
zação de uma federação européia que se tornaria, anos mais tar- momento, a federação já se mostrava mais ativa e contava com a
de, uma federação internacional. participação de treze países filiados. Segundo Huguenin, "[...] é
A Federação Internacional de Ginástica é a mais antiga necessário lembrar que o presidente francês, o Sr. Cazalet — outra
dentre todas as associações esportivas internacionais e foi desen- personalidade forte — foi o iniciador e o arquiteto mais ativo das
volvida numa base democrática. Teve sua origem em 1881, como competições internacionais, opondo-se às convicções mais fortes
Federação Européia de Ginástica (FEG). Em 1921, com a filiação de Cuperus. Isso criou um tipo de antagonismo pessoal dentro da
dos Estados Unidos, essa federação passou a ser denominada organização internacional e explica a ambigüidade que freqüen-
Federação Internacional de Ginástica (Huguenin, 1981, pp. 29-34). temente era notada durante aquela época" (1981, p. 42).
Mas foi entre 1933 e 1934 que a FIG realmente atingiu seu nível Essa incompatibilidade, todavia, não foi suficiente para
internacional, tornando-se uma organização mais sólida e estrutu- impedir que a FEG, e posteriormente a FIG, passasse a priorizar
rada, especialmente com a filiação de países como a Suíça e a Ale- exclusivamente a ginástica competitiva como eixo para a sua atua-
manha (Huguenin, 1981, p. 46). ção.10 Isso pode ser ainda mais confirmado por meio das palavras
Quando foi criada, a Federação Européia de Ginástica ti- de Arthur Gander (presidente honorário da FIG): "tomando como
nha à sua frente o presidente da Federação Belga de Ginástica (Ni- base o desenvolvimento das competições, quase toda a história da
colasj. Cuperus) e gozava de pouca representatividade na comuni- Federação pode ser seguida..." (apud Huguenin, 1981, p. 36).
dade européia. Inicialmente, apenas a Bélgica, a França e a Holanda Em 1950, após a II Guerra Mundial, foi realizada uma reu-
associaram-se. O que os representantes belgas, franceses e holande- nião na Suíça, na cidade de Bale, entre membros da FIG e de outras
ses queriam era nada mais do que a criação de um grupo de estu- federações nacionais européias, dentre as quais a Federação Holan-
dos e de uma comunidade de interesses. Klinger (apud Huguenin, desa (Koninklijke Nederlandse Gymnastiek Bond — KNGB). Naquela
1981, p. 34) observa desiludido: "a Federação Européia nasceu, oportunidade, o holandês Johannes Heinrich François Sommer (Jo
mas não era ativa". Sommer), inspirado nas "Lingíadas" realizadas na Suécia, propôs
O então presidente, NicolasJ. Cuperus, demonstrava mais que a FIG organizasse um Festival Internacional de Ginástica. Sua
interesse pelos festivais de ginástica do que pelas competições, o proposta foi aceita, nascendo, assim, a primeira "Gymnaestrada"
que pode ser evidenciado pelo que ele escreveu em 1897, referin- (atualmente "World Gymnaestrada"), que foi realizada em 1953, na
do-se às diversas federações nacionais de ginástica: "[...] eu espero cidade de Rotterdam/Holanda. Desde então, as Gymnaestradas Mun-
pelo momento quando as competições serão desnecessárias [...] diais são eventos oficiais do calendário de atividades internacio-
Mas mesmo assim, como até agora nenhuma federação achou con- nais da FIG (Kramer, Lommen, 1991, pp. 21-22).11
veniente substituir as competições por festivais, eu tenho de abrir A partir da iniciativa desse evento, a FIG, ainda que timi-
mão e aceitar os homens e as coisas como eles são" (apud Huguenin, damente, começa a dar atenção à esfera não competitiva da
1981, p. 31).

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ginástica, limitando-se a promover as Gymnaestradas Mundiais. este "movimento universal da ginástica para todos" (apud Fédé-
Essa iniciativa recupera, de certa forma, o antigo ideal de seu ration, [199-], p. 5).13 Salienta, ainda, que a FIG "é a primeira fede-
fundador, NicolasJ. Cuperus. ração internacional que se dedica tanto ao esporte competitivo
Na entrevista com o Prof. Olof Kihlmark (da Suécia, mem- quanto ao esporte recreativo" (apud Fédération, [199-], p. 5).
bro do CTGG da F1G, 1995), ele afirmou que, no final da década de A esse respeito, Souza (1997, p. 32) ressalta que se trata
1960, vários representantes de diferentes países da faixa central de um ponto interessante que diferencia a FIG das demais fede-
da Europa, que têm muita tradição no campo da ginástica (por rações desportivas e que a representação da GG por meio de um
exemplo: Suécia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Suíça, Alemanha, comitê técnico específico "[...] vem demonstrar a importância desse
entre outros), começaram a pressionar mais intensamente a FIG, a fenômeno de massa que envolve um incontável número de prati-
fim de que essa instituição voltasse a olhar com mais dedicação cantes em todo o mundo, ultrapassando em larga escala o total de
para a ginástica fora do âmbito competitivo. Esse movimento de atletas das modalidades competitivas dirigidas pela mesma
pressão acentuou-se na década seguinte, culminando com a criação federação".
de uma Comissão de Trabalho de Ginástica Geral em 1979 e, cinco Uma das primeiras missões do Comitê Técnico de Ginás-
anos mais tarde, foi oficializado o Comitê Técnico de Ginástica Ge- tica Geral, de acordo com o seu presidente, foi divulgar a GG nos
ral da FIG, o único nessa instituição destinado a uma prática não outros continentes. Esse trabalho vem sendo realizado por meio
competitiva. O Prof. Giorgio Garufi (da Itália, vice-presidente do de cursos, publicações14 e, especialmente, por meio da Gymnaestrada
CTCC da FIG, 1995) destacou que, no início, os outros três comitês Mundial, o evento oficial mais tradicional da FIG na área da ginás-
técnicos da FIG (ginástica artística masculina, ginástica artística fe- tica geral.
minina e ginástica rítmica desportiva), já consolidados, olhavam Segundo Willisegger, nos cursos organizados pelo CTGG,
para o CTGC com certa preocupação, devido ao fato de o mesmo uma das maiores preocupações tem sido difundir a GG sem impor
representar uma quantidade expressiva de pessoas. modelos rígidos, pois o que é bom para um país pode não ser para
A realização das primeiras Gymnaestradas na década de outro. Nesse sentido, o CTGC tem procurado conhecer e respeitar
1950, aliada a esse movimento de pressão iniciado nos anos 60, os anseios de cada nação para poder integrar com flexibilidade e
são, certamente, marcos importantes que sinalizam o princípio do agilidade a visão de ginástica geral da FIG ao contexto mais geral
nascimento da ginástica geral na Federação. dos diferentes países. No entanto, Willisegger admitiu que o pro-
Segundo os membros da FIG entrevistados, ultrapassa- cesso de divulgação da GG não tem sido fácil, pois a área da ginás-
das as turbulências iniciais para a consolidação do Comitê Técnico tica está impregnada dos valores das modalidades gímnicas com-
de Ginástica Geral, atualmente a imagem da ginástica geral na FIG petitivas. Esse aspecto foi ressaltado na maioria das entrevistas,
é muito considerada e tem se firmado cada vez mais ao lado dos tanto pelos membros do CTGG quanto pelos dirigentes de outras
outros comitês.12 federações e professores em geral. Afirmaram que, apesar da GG
O russo Yuri Titov (presidente da FIG de 1976 a 1996) afir- vir conquistando maior espaço nos últimos anos, a ginástica com-
ma que a ginástica geral tem um grande futuro por todo o mundo petitiva tem sido a principal referência na área da ginástica e a
e conclama as federações-membros da FIG a apoiar e concretizar prioridade das ações institucionais, sobretudo na FIG.

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Diante dessas circunstâncias, Willisegger salientou que de seus praticantes. Além disso, a GG deve oferecer experiências
é preciso ter paciência nesse processo porque, apesar de a FIG estéticas de movimento aos participantes e aos espectadores (Fédé-
existir há mais de um século, a estruturação do Comitê Técnico ration, 1993, p. 3, item l — Règlement Technique de Gymnastique
de Ginástica Geral ocorreu na década de 1980. Générale). Um dos seus compromissos e incumbências fundamen-
tais é oferecer um vasto campo de atividades para um grande nú-
mero de pessoas, proporcionando variedade, diversão e a oportu-
2.1.2. A concepção de ginástica geral da FIG nidade de ser criativo (Fédération, 1994, p. 21).
Quatro pontos têm sido destacados pela FIG (Fédération,
Para a FIG (Fédération, 1993, p. 3, item l — Règlement [199-], p. 14) em relação à ginástica geral: "fascinação, ginástica
Technique de Gymnastique Générale), a ginástica geral compreen- para todos, campanha de propaganda mundial da FIG e uma mis-
de a esfera da ginástica orientada para o lazer e engloba progra- são para todas as federações — participem todos!".
mas de atividades no campo da ginástica (com e sem aparelhos), Esses aspectos fundamentais da concepção de ginástica
dança e jogos, conforme as preferências nacionais e culturais. Even- geral da FIG abordados nas suas publicações foram ressaltados nas
tos e competições também podem fazer parte da GG. entrevistas com dirigentes, professores e ginastas.
Três grupos de atividades são exemplificados para mos- A maioria dos entrevistados, inclusive os membros da FIG
trar a sua diversidade: que colaboraram na elaboração dos manuais de GG, quando inter-
rogados sobre "o que é a ginástica geral", declararam que a ampli-
1) Ginástica e dança: ginástica rítmica, ginástica jazz, aeróbica, tude e diversidade da GG dificultam a sua conceituação. Mesmo
condicionamento físico, ballet, rock'n'roll, dança moderna, dança assim, os depoimentos trouxeram elementos significativos para a
teatro, folclore; compreensão da ginástica geral, demonstrando que a concepção
2) Exercícios com aparelhos: ginástica com e sobre aparelhos, tram- da FIG tem influenciado diretamente as visões de ginástica geral
polim, tumbling, acrobacias, rodas ginásticas; daqueles que têm participado dessa atividade.
3) Jogos: jogos sociais, jogos esportivos, jogos de concidionamento O primeiro aspecto relevante a ser destacado, como um
físico, pequenos jogos, jogos de reação (Fédération, 1993, p. 7, dos eixos para o entendimento da GG, diz respeito à consideração
item 4 — Guide pour Ia participation à Ia Gymnaestrada Mondiale). da ginástica geral como a base da ginástica, como uma mescla de
todos os tipos de ginástica.
A ginástica geral é considerada "[...] em primeiro lugar uma Em vários depoimentos esse ponto foi ressaltado, o que
atividade regular dentro de um contexto de entusiasmo e de jogo, vai ao encontro do que foi afirmado anteriormente em relação à
e a participação é, sobretudo, determinada pelo prazer de prati- utilização do termo ginástica geral pela FIG para expressar a idéia
car" (Fédération, 1993, p. 3, item l — Règlement Technique de da "ginástica em geral, das atividades gímnicas em suas bases" (Prof.
Gymnastique Générale; grifo meu). Jean Willisegger, da Suíça).
Seus objetivos são favorecer a saúde, a condição física e O fato de a ginástica geral estar orientada para o lazer e
a integração social e despertar o interesse pessoal pela prática de não ter finalidade competitiva foi o aspecto mais enfatizado nas en-
atividade física, contribuindo para o bem-estar físico e psicológico trevistas e constitui outro eixo fundamental para a compreensão

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da GG. Entretanto, o manual da FIG (Fédération, 1993, p. 3, item Nas palavras de Willisegger, a ginástica geral "é a ginás-
l — RèglementTechnique de Gymnastique Générale) deixa dúvidas tica para todos, para cada um, acessível para todas as idades e
quando explicita que "competições também podem fazer parte que traz em sua base uma educação física para todos, para cada
da ginástica geral". Essa afirmação é profundamente contraditó- um. É a possibilidade de se praticar a ginástica a seu modo, de
ria e, além de confundir e dificultar o entendimento da ginástica acordo com as suas convicções, possibilidades, capacidades,
geral, demonstra um grave equívoco. Curioso é que os próprios necessidades, meios físicos disponíveis, enfim, adaptando-a aos
membros da FIG entrevistados que colaboraram na publicação seus interesses e ao seu meio ambiente".
em n e n h u m momento reportaram-se a isso. Ao contrário, O Prof. Giorgio Garufi (da Itália) ressaltou que a diversida-
enfatizaram que a competição não deve fazer parte da GG. de da GG favorece a participação de todos: "A organização quase
O cotejo entre a ginástica geral e as ginásticas competi- caótica que se vê na GG (acrobacias, dança, teatro etc.), a sua ri-
tivas foi uma tônica nos depoimentos de muitos entrevistados queza de possibilidades a transforma numa ginástica para todos".
que procuraram assinalar suas diferenças e situá-las em planos E, ainda, o Prof. Riccardo Agabio (da Itália — Federação Italiana de
distintos de atuação. Ginástica, 1995) salientou que "a ginástica geral é uma atividade
Como salientou o Prof. Carlos Roberto Alcântara de que pode ser feita por todos, inclusive por deficientes".
Rezende [do Brasil, idealizador e organizador dos Festivais Nacio- Considerada uma ginástica simples ("A ginástica geral
nais de Ginástica (FEGIN) de Ouro Preto/MG], "na ginástica geral deve ser simples" — Prof. Olof Kihlmark, da Suécia), para ser
não há restrições a regras e as pessoas não são classificadas praticada em grupo e sem regras rígidas como na ginástica
em melhores e piores, como no esporte de alto nível, mas sim em esportivizada, a ginástica geral é tida como uma atividade que
diferentes. A GG tem um contexto mais educacional e de partici- estimula a criatividade ("Existe uma criatividade sem fim na gi-
pação". E também nessa direção, o Prof. Jesus Telo (da Espanha, nástica geral" — Prof. Jürgen Dieckert, da Alemanha — presiden-
presidente do Comitê Organizador do "Festival Internacional de te da Federação Alemã de Ginástica — DTB, 1995), assim como o
Gimnasia Blume — Gran Canária", 1995) afirmou que "na GG, gosto, a alegria e o prazer pela prática da ginástica ("Trabalhar
diferentemente da ginástica competitiva, temos um acordo de com gosto e com alegria é o ponto forte da filosofia da ginástica
que o que cada um faz é importante". geral, porque não há competição, não há o histerismo da compe-
Associado a esses dois aspectos o seu caráter básico e tição" — Prof. Giorgio Garufi, da Itália).
não competitivo, podemos destacar mais alguns pontos O Prof. Tatsuo Araki (do Japão — docente no Nittaidai,
enfatizados nas entrevistas. Nippon College of Physical Education, e diretor de ginástica geral
A GG foi inúmeras vezes apontada pelos entrevistados da Associação Japonesa de Ginástica, 1995) enfatizou como pontos
como uma ginástica para todos, acessível a todas as pessoas, principais a participação e a diversão: "A ginástica geral é para to-
aberta para a participação; como uma ginástica de grupo, com dos, todo mundo pode fazer e todos devem se divertir. Depois do
grupos; como uma ginástica simples, sem restrições a regras e divertimento entram outros objetivos". E, no depoimento da Prof3.
que, portanto, cria espaço para a diversidade e para a criativi- Ilona Gerling (da Alemanha — docente na Universidade de Colônia,
dade; e, em especial, como uma ginástica do prazer, da felicidade 1995), tanto o divertimento quanto a criatividade e a interação
e do divertimento.

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entre grupos foram salientados: "ginástica geral significa praticar Berlin 1995", participaram mais de 19 mil pessoas representando
ginástica de forma divertida, junto com outras pessoas, sempre 17
m ais de 30 países.
descobrindo novas possibilidades de movimentar o corpo. Na De acordo com o pensamento original do seu idealizador,
GG cada grupo pode mostrar o que sabe fazer, criando os seus 0 holandês Jo Sommer, a competição não deve estar presente na
próprios movimentos com o aparelho que quiser e um grupo Gymnaestrada e seus objetivos fundamentais são: promover um
pode aprender com o outro". intercâmbio de idéias a respeito da variedade de enfoques, dentro
Nas entrevistas com os ginastas, esse aspecto da GG re- dos quais a ginástica é desenvolvida nos diferentes países, e possibi-
lativo ao divertimento e à alegria foi claramente evidenciado. litar a participação de todos, de crianças a idosos, independente-
Em todos os discursos, a prática da ginástica geral foi associada mente de nível técnico, num ambiente de multiplicidade de formas
ao prazer, ao divertimento. "It's fun" foi a expressão mais utilizada e de congraçamento entre os diferentes povos e culturas. A Gymna-
e a primeira a ser dita na grande maioria dos depoimentos estrada é um evento em que se podem apresentar livremente todas
(realizados com pessoas de diferentes países — como Dinamarca, as formas de movimento, com ou sem equipamentos, possibilitando
Estados Unidos, Portugal, Bélgica, Alemanha e Brasil, com idades aos seus participantes a oportunidade de apresentar suas idéias
que variavam entre 9 e 75 anos —, o que reforça a idéia da GG peculiares. Caracteriza-se como um valioso espaço gímnico criado
como uma atividade que deve proporcionar prazer e alegria aos para as demonstrações e não para a competição, em que se pode
seus praticantes).15 O gosto em praticar ginástica geral também rever e examinar tudo o que existe no mundo amplo e variado da
foi manifestado por motivos como: integração com pessoas e ginástica (Kramer e Lommen, 1991, pp. 21-22). Lugar irrestrito de
grupos, conhecer pessoas e lugares novos, viajar e manter a forma. encontro, de troca e de festa, no qual o potencial de cada país em
relação aos seus diversos pontos de vista sobre a ginástica são ex-
postos e respeitados, o seu lema é o seguinte: "Os vencedores da
2.1.3. A Gymnaestrada Mundial ("World Gymnaestrada são os participantes" (Kramer e Lommen, 1991, p. 7).
Gymnaestrada") 16 Com o passar das décadas, desde a realização de sua pri-
meira versão (em 1953), o programa da Gymnaestrada Mundial vem
A "World Gymnaestrada" é a manifestação mundial ampliando-se e modificando-se consideravelmente, devido à cres-
oficial da ginástica geral organizada pela FIG a cada quatro anos cente participação das diversas federações nacionais de ginástica
e caracteriza-se como a atividade mais significativa dessa espalhadas por todo o mundo.
instituição no campo da GG. Isso permite afirmar, sem exagero, A programação do evento desenvolve-se durante seis
que ginástica geral tem sido para a FIG sinônimo de "World dias, incluindo as cerimônias de abertura e encerramento, as di-
Gymnaestrada", uma vez que praticamente todas as suas ações versas apresentações de grupos (com um número mínimo de 10
na área da GG continuam voltando-se, quase que exclusivamen- participantes) e grandes grupos (nas salas e estádios), as apre-
te, para a promoção desse evento. sentações nacionais (as "Noites Nacionais" sob a responsabilidade
A Gymnaestrada M u n d i a l pode ser considerada o de um ou mais países), a FIG Gala (noite de gala da FIG, na qual
acontecimento mundial mais importante da área da GG devido à cada país apresenta um número), o Fórum de instrutores da FIG,
sua abrangência internacional. Na "10th World Gymnaestrada — além de eventos sociais para todos os participantes da Gymnaes-

50 51
trada (Fédération, 1993, p. 6, item 2 — Règlement de Ia Gymna- Minha participação na Gymnaestrada, como pesquisa-
estrada Mondiale). dora e como ginasta, possibilitou-me "sentir na pele" o clima de
Os objetivos principais desse "Festival de Ginástica, Cul- alegria, descontração, prazer, divertimento e integração que
tura e Divertimento" (Fédération, 1995b), descritos no manual permeia essa inesquecível festa da ginástica.
de ginástica geral da FIG (Fédération, 1993, pp. 6-10, item 4 — Uma atmosfera de congraçamento e intercâmbio invade,
Guide pour Ia participation à Ia Gymnaestrada Mondiale), são os pouco a pouco, o evento, envolvendo intensamente todos os seus
seguintes: participantes em torno da ginástica e da diversidade das expres-
sões culturais dos diferentes países.
• divulgar o valor e a diversidade da GG e fomentar sua difusão Em toda parte, ginastas apresentam-se e assistem às de-
pelo mundo; monstrações. Por todo lado, pessoas circulam pelos estandes, pela
• despertar alegria e entusiasmo pelo movimento e estimular o praça de alimentação e conversam das mais variadas formas pos-
interesse pessoal pela prática de uma atividade física; síveis (gestos, mímicas etc), trocando idéias, informações, roupas
• demonstrar as possibilidades da GG e difundir novas idéias; e objetos.18
• apresentar os últimos conhecimentos e o desenvolvimento da GG; As belas lembranças da Gymnaestrada levam-me a crer
• favorecer o aperfeiçoamento dos instrutores interessados; que as idéias originais do seu criador continuam (e sempre conti-
• reunir ginastas de todos os países, contribuindo para maior nuarão) encontrando terreno fértil para germinar entre aqueles que
aproximação e entendimento entre os povos; acreditam nas possibilidades de crescimento do ser humano por
• possibilitar a todas as federações-membros da FIG a apresenta- meio do encontro, do divertimento, enfim, da festa.
ção de suas características particulares e concepções nacionais Os principais aspectos ressaltados no tópico sobre a con-
no campo da ginástica, bem como incentivar o trabalho entre as cepção de ginástica geral da FIG foram gradativamente observa-
federações; dos e reafirmados no transcorrer da Gymnaestrada.
• apresentar a ginástica geral ao público, a fim de aumentar a sua Primeiramente, a diversidade de formas ou estilos das
popularidade. apresentações configura uma mescla de todos os tipos de ginás-
tica ou, ainda, uma certa "mistura" entre os diferentes temas da
O presidente do CTGG (Willisegger, 1995) declarou-se cultura corporal. A "organização quase caótica" da ginástica geral,
otimista quanto ao desenvolvimento da GG no mundo, especial- citada pelo Prof. Giorgio Garufi (da Itália) como um dos pontos que
mente entre os jovens, pois considera que o ideal e o espírito da favorece a participação de todos, pôde ser claramente observada
Gymnaestrada têm atraído cada vez mais a juventude para parti- na Gymnaestrada. É importante salientar que essa "mistura" ou
cipar dessa bela festa, constituindo-se num importante estímulo "organização quase caótica" tem sido uma das principais respon-
para a prática da ginástica geral. sáveis pelas dificuldades que envolvem a conceituação da GG, as-
Dentre as situações observadas neste estudo, a "10th pecto mencionado pela maior parte dos entrevistados.
World Gymnaestrada — Berlin 1995" foi, sem dúvida, a mais Essa diversidade também se mostrava presente nas carac-
importante fonte de dados acerca da GG, por se tratar do evento terísticas particulares das diferentes manifestações nacionais,
mundial mais significativo da área.
52 53
permitindo identificar tendências ou linhas de ginástica bem espe- ram a visão de que a ginástica geral é uma atividade que visa,
cíficas. Podemos citar como exemplo: a ginástica feminina finlan- sobretudo, estimular o prazer pela prática da ginástica.
desa, com sua leveza e graciosidade; a "Spring Rhythmic Gymnas- Considero importante ressaltar que, associada a toda a
tics" da Dinamarca, com seus exercícios rítmicos, baseados atmosfera de festa e confraternização que envolve a Gymnaestrada,
sobretudo, em pendulações e circunduções, os exercícios de solo e há também um forte clima de consumismo que é incentivado pela
o salto sobre cavalo ("tumbling/volting/gymnastics"); as rodas própria estrutura de organização do evento, na qual o marketing
ginásticas da Alemanha, com seus desafios, brincando com o equi- em torno das práticas corporais assume um papel fundamental.
líbrio e a gravidade; e o trabalho do Japão com cordas grandes Isso pôde ser observado pelo "bombardeio" de propagandas e pro-
(coletivas) e pequenas (individuais), que já se tornou uma tradição dutos que são comercializados por toda parte, reforçando a visão
na Gymnaestrada, com as suas combinações extremamente criati- capitalista de sociedade e de cultura que tem estimulado o boom
vas de saltos e acrobacias com cordas de diferentes tamanhos uti- da indústria do lazer e dos materiais esportivos.
lizadas simultaneamente em duplas, trios, quartetos etc., variando Tanto a F1G quanto as demais federações e os patrocinado-
o ritmo dos movimentos. res do evento acabam se beneficiando nesse sentido. Resta saber se
Outro aspecto relevante diz respeito às variações na os recursos arrecadados pelas federações serão revertidos para novas
composição dos grupos em relação aos seguintes pontos: gênero ações no campo da ginástica geral ou direcionados para outros fins.
(grupos femininos, masculinos e mistos, com predominância
da participação de mulheres, fato que também foi apontado
pela maioria dos entrevistados como algo comum nos diversos 2.1.4. O processo de estruturação da GG na FIG
países); faixa etária (de crianças com 4 ou 5 anos de idade a pes-
soas com mais de 80 anos, em grupos específicos ou integrados);
A partir das considerações anteriores, serão aprofundadas
número de participantes (desde apresentações com pequenos
algumas questões com a intenção de compreender, com mais cla-
grupos até apresentações em grandes áreas com mais de dois
reza, possíveis significados do processo de estruturação da ginás-
mil participantes simultaneamente); e condição física ou técnica
dos ginastas (grupos incluindo pessoas portadoras de deficiên- tica geral na FIG.
cias). Essa variedade demonstra que a ginástica geral está aber- O primeiro questionamento que se coloca é o seguinte:
ta para a participação de todos, privilegiando os trabalhos em esse processo caracteriza-se como uma conquista de um espaço
grupo. institucional para as manifestações não competitivas da ginástica
A criatividade e a liberdade de expressão, sem restrições ou como uma apropriação institucional de um espaço no qual a
a regras e combinadas na maioria das vezes com movimentos FIG ainda não exercia controle?
básicos, simples, são marcas da GG que puderam ser nitidamente Uma reflexão a respeito da trajetória percorrida pela ginás-
evidenciadas por meio da grande variedade de materiais e apare- tica geral no interior da FIG, desde as suas raízes na década de 1950
lhos utilizados 19 e da diver.iSade de ritmos e trajes. até a estruturação do Comitê Técnico de GG na década de 1980,
E, finalmente, a descontração e as demonstrações de ale- revela uma correlação de forças, que teve como impulso inicial a
gria e divertimento predominantes nas apresentações reafirma- criação de um espaço na FIG para as diversas formas de se prati-

54 55
car ginástica fora da competição e, como conseqüência, a institu- seu entendimento e reafirma o interesse da Federação Inter-
cionalização da esfera não competitiva da ginástica. De um lado, nacional de Ginástica em ampliar e propagar a sua abrangência e
o movimento de pressão de um grupo ligado à ginástica não poder.
competitiva (segundo o Prof. Olof Kihlmark, da Suécia), buscando Segundo a FIG (Fédération, 1994, p.19), atualmente o Co-
conquistar terreno na F1G, a fim de usufruir dos benefícios mitê Técnico de Ginástica Geral é completamente aceito e perfeita-
organizacionais e políticos dessa instituição, cuja representação mente ajustado aos outros comitês. Apesar das alegações de que
mundial na área da ginástica é inegável. E de outro, a FIG "ce- há um convívio harmonioso entre os diferentes comitês técnicos
dendo" a essas pressões para poder, igualmente, exercer controle, da FIG, considero importante sublinhar novamente que o favore-
ditar normas e beneficiar-se, aumentando a sua representa- cimento das vertentes competitivas em detrimento da ginástica
tividade e influência na área da ginástica (competitiva e não com- geral (a começar pelos recursos financeiros) foi várias vezes denun-
petitiva) por meio da promoção de uma "campanha de pro- ciado nas entrevistas com membros da FIG e de outras federações
paganda mundial da FIG" (mencionada no folder de GG da FIG a ela filiadas. A afirmação de Willisegger de que "quando se fala
(Fédération, [199-j, p. 14)) via ginástica geral e, principalmente, em ginástica, sobretudo na FIG, logo se pensa nas modalidades
"World Gymnaestrada". competitivas" é contundente nesse sentido.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que a GG vai firmando- Podemos dizer, então, que o processo de estruturação da
se no panorama da FIG como uma conquista, no sentido de ser uma ginástica geral na FIG, ao mesmo tempo em que representa a con-
possibilidade de resistência ao predomínio e exclusividade da ginás- quista de um espaço institucional para as diferentes manifestações
tica de competição, a ginástica geral sofre uma apropriação institu- da ginástica sem finalidade competitiva (podendo ser até mesmo
cional, passando a cumprir o papel de importante instrumento considerado uma recuperação das finalidades originais da FIG, con-
de autopropaganda e autopromoção da FIG que, sob a sua bandeira, forme as idéias de seu fundador), tem como decorrência a apro-
orgulha-se em dedicar-se ao esporte recreativo. Contudo, são evi- priação institucional desse espaço.
dentes as limitações que a FIG impõe a essa "dedicação" uma vez Todavia, podemos considerar, de acordo com Rezende
que a sua prioridade tem sido a ginástica competitiva. (1997, p. 50), que, em virtude de a ginástica geral não exigir uma
Em nome do "esporte recreativo" e da participação de série de procedimentos comuns das atividades esportivas (como
todos, a FIG acaba incluindo e "misturando" diferentes práticas por exemplo: regimentos de filiação e transferência, códigos dis-
corporais na proposta de ginástica geral desde que essas não te- ciplinares, autorização para intercâmbios internacionais e para a
nham fins competitivos (no sentido formal, institucional, de com- realização de eventos etc.), a institucionalização da GG "[...] procu-
petição). Essa "salada mista" pode ser constatada na exemplificação rou impulsionar o seu desenvolvimento, sem limitar a sua diversi-
dos três grupos de atividades que fazem parte da GG: ginástica e dade de expressão e organização". Sob essa ótica, o processo de
dança, exercícios com aparelhos e jogos (Fédération, 1993, p. 7, institucionalização da ginástica geral nas diversas federações espa-
item 4 — Cuide pour Ia participation à Ia Gymnaestrada Mondiale). lhadas pelo mundo não tem dificultado ou impedido o seu desen-
Se, por um lado, essa mistura de práticas corporais remete-nos à volvimento. Mas, ao contrário, tem favorecido a sua divulgação,
concepção de ginásiica que antecede o desenvolvimento do Mo- especialmente fora do continente europeu em países que não
vimento Ginástico Europeu, por outro, suscita dificuldades no têm grande tradição na área da ginástica.

56 57
Uma reflexão mais cuidadosa acerca do contexto que o discurso do EPT. A própria caracterização da ginástica geral
marcou o início do processo de estruturação da ginástica geral como uma "Ginástica para Todos", na qual existe a possibilidade
na Federação Internacional de Ginástica, assim como dos aspec- "de se praticar a ginástica a seu modo, de acordo com as suas
tos fundamentais que orientam a concepção de GG da FIG, possi- convicções, possibilidades, capacidades, necessidades, meios
bilitam estabelecer relações muito próximas entre a ginástica geral físicos disponíveis, enfim, adaptando-a aos seus interesses e ao
e o movimento "Esporte para Todos" (EPT).20 seu meio ambiente" (nas palavras de Willisegger), anuncia
Um dos entrevistados, o Prof. Paul Engelmann (presi- possíveis ligações com a filosofia do movimento "Esporte para
dente da Federação Suíça de Ginástica, 1995), também estabeleceu Todos".
essa relação quando afirmou que "a denominação ginástica geral Não é finalidade deste estudo aprofundar um assunto
existe na Suíça com um sentido diferente: significa 'Esporte para tão polêmico quanto o EPT, mas identificar alguns significados
Todos', englobando em seus clubes vários tipos de atividades". E na relação da GG com esse movimento a fim de ampliar a com-
mesmo a Associação Dinamarquesa de Ginástica e Esportes preensão da ginástica geral na atualidade. Certamente são muitos,
(DGI), 21 que tem na ginástica a sua atividade central, igualmente dinâmicos e contraditórios.
desenvolve um trabalho nesse sentido. Essa é uma abordagem Parece-me procedente afirmar que a ginástica geral pode
que pode ser encontrada em diferentes países europeus. ser considerada, assim como o EPT, "[...] uma proposta institucio-
As relações entre a GG e ò EPT podem ser identificadas, nalizada que defende os interesses da sociedade e a adaptação do
a começar, pelo fato de que as pressões para que a FIG voltasse indivíduo a essa mesma sociedade [...]" (Cavalcanti, 1984, p. 84). O
as suas atenções para a ginástica não competitiva teve início no discurso da FIG, ao pregar a contribuição da GG para o bem-estar
final da década de 1960, no mesmo período em que o movimento físico e psicológico dos praticantes e a integração social, também
EPT começava a expandir-se pela Europa. se mostra sintonizado com uma "tendência liberal não diretiva",
Outros elementos que revelam essas ligações dizem res- na qual, de acordo com Libâneo (apud Coletivo de Autores, 1992,
peito à concepção de ginástica geral da FIG. Um primeiro aspecto p. 56),"[...] o 'social' é entendido como uma extensão do individual,
é a consideração de que a ginástica geral "compreende a esfera ou seja, trata-se de desenvolver atitudes de cooperação e solidarie-
da ginástica orientada para o lazer" (Fédération, 1993, p. 3, item dade, a fim de inserir-se de maneira positiva no meio social já
l — Règlement Technique de Gymnastique Générale) e situa-se dado, jamais questionado". Sob essa ótica, poderíamos identificar
num plano distinto da ginástica de competição, de alto nível. Os um caráter "conformista" na proposta de ginástica geral da FIG,
objetivos da GG [tais como favorecer a saúde, a condição física e uma vez que as pessoas são vistas predominantemente numa
a integração social e despertar o interesse pessoal pela prática perspectiva individual e são convidadas a inserir-se positiva-
de atividade física, contribuindo para o bem-estar físico e mente no contexto social sem questioná-lo, mas, ao contrário,
psicológico de seus praticantes, além do compromisso de oferecer conformando-se, adaptando-se a ele.
um vasto campo de atividades para um grande número de pessoas, Entretanto, mesmo considerando esse caráter "confor-
proporcionando variedade, diversão e a oportunidade de ser mista" da GG, não podemos negar que a abertura de um espaço
criativo (Fédération, 1993, p. 3, item l — Règlement Technique institucional para uma ginástica .orientada para o lazer, que obje-
de Gymnastique Générale)] também apresentam semelhanças com tiva privilegiar a participação de todos num clima de entusiasmo
58 59
e divertimento, significa um avanço dentro de uma instituição viável para a vivência do componente lúdico da cultura e, mais
tão impregnada pelos valores da ginástica competitiva e que exerce especificamente, da cultura corporal. Isso quer dizer que a GG traz
tanta influência no panorama da ginástica mundial. Além disso, a possibilidade de redescobrirmos o prazer, a inteireza e a técnica-
considerando que as ações realizadas no campo do lazer não arte da linguagem corporal.
podem ser vistas de forma isolada, descontextualizada, ao mesmo À luz das considerações anteriores, podemos identificar
tempo em que sofrem influências, também as exercem na dinâ- na GG tanto um caráter "conformista" quanto um caráter "trans-
mica do movimento social. Assim compreendido, "[...] o lazer formador", os quais convivem numa tensão permanente e revelam
pode ser tanto um espaço para a manutenção da estrutura social que a ginástica geral, assim como todas as atividades humanas,
vigente quanto um canal viável para uma ação cultural que precisa ser compreendida em suas múltiplas perspectivas.
colabore juntamente com as demais esferas de atuação humana
para a transformação das condições indesejáveis de vida da nossa
sociedade" (Ayoub, 1993, p. 34). 2.2. A ginástica geral no Brasil
Nesse sentido, o lazer pode constituir-se num dos espa-
ços para uma efetiva participação cultural, entendida como "[...] a O desenvolvimento da GG no Brasil vem ocorrendo, mais
atividade não conformista, mas crítica e criativa de sujeitos histo- acentuadamente, desde a década de 1980, época em que foi oficia-
ricamente situados" (Marcellino, 1990, p. 45; grifo meu). lizado o Departamento de Ginástica Geral na Confederação Brasi-
Podemos ressaltar, ainda, a importância do lazer como leira de Ginástica (CBG).22
um canal viável para a vivência do componente lúdico da cultura. Naquela ocasião, o presidente da CBG era o Prof. Fernando
Para Marcellino (1990, p. 32), embora possamos concordar com a Augusto Brochado (de São Paulo) e o Prof. Carlos Roberto Alcântara
distinção de alguns autores, "[...] entre a esfera de manifestação de Rezende (de Minas Gerais) assumiu a diretoria técnica do Departa-
lúdica, caracterizada pela criação contínua e ininterrupta, e a do mento de Ginástica Geral da Confederação. Esses professores foram
lazer, marcada pela permissão e controle social [...], é possível en- os principais impulsionadores do movimento da GG em nosso país.
tender o componente lúdico da cultura com possibilidade de se Alguns fatos importantes ocorridos na década de 1980
manifestar concretamente, enquanto produto e processo, num assinalaram essa fase inicial de expansão da GG:
campo específico de atividade — o lazer".
E viver o lúdico no contexto da sociedade urbano-indus- • os "Festivais Nacionais de Ginástica - FEGIN" realizados anual-
trial contemporânea significa, certamente, provocar uma postura mente na cidade de Ouro Preto/MG, a partir de 1982 (até o ano
de contestação dos valores do utilitarismo e de questionamento dos de 1992), organizados pelo Prof. Carlos R. A. de Rezende, sob
dogmas da produtividade. Significa, enfim, uma atitude potencial- inspiração da "World Gymnaestrada" [a oficialização do "FEGIN"
mente transformadora. como "Festival Nacional de Ginástica Geral" ocorreu em 1985
Se a ginástica geral tem sido compreendida como uma (Confederação, 1985, p. 3)];
ginástica para todos, orientada para o lazer, que visa, sobretudo, • a institucionalização do Departamento de Ginástica Geral na
estimular o prazer pela prática da ginástica com criatividade e Confederação Brasileira de Ginástica com diretoria própria em
liberdade de expressão, podemos reconhecê-la como um espaço
60 61
1984, mesmo ano em que a FIG oficializou o Comitê Técnico espaço de participação (especialmente para os praticantes que
Internacional de Ginástica Geral; não eram selecionados para as competições), aumentando, desse
• os dois "Cursos Internacionais de Ginástica Geral" organizados modo, o número de pessoas envolvidas em eventos dessa
pela CBG como parte de um programa de difusão da GG no Bra- natureza. Esse é um aspecto relevante a ser considerado.
sil realizados na Faculdade de Educação Física da UNESP/RÍO Claro Na década de 1990, em virtude dos esforços iniciados
em 1988 e 1989, sob coordenação do Prof. Fernando A. Brocha- nos anos anteriores, a difusão da ginástica geral no Brasil ganha
do. Esses cursos foram ministrados por professores estrangei- uma nova dimensão. Isso pode ser constatado pelos seguintes
ros, dentre os quais os seguintes membros da FIG: Giorgio Garufi acontecimentos:
(da Itália), Inger Marie Holte (da Noruega) ejean Willisegger (da
Suíça); • a realização da "VII Gimnasiada Americana" 24 em 1990 na cidade
• os "Festivais de Ginástica e Dança" realizados na Faculdade de Mogi das Cruzes/SP;
de Educação Física da UNESP/RÍO Claro (também sob coor- • o aumento significativo da participação do Brasil nas Gymnaes-
denação do Prof. Fernando A. Brochado), os dois primeiros tradas Mundiais, que em 1995, na "10th World Gymnaestrada",
por ocasião dos cursos internacionais (anteriormente citados), realizada em Berlim/Alemanha, levou uma delegação com 662
contando com a participação de grupos nacionais e do exterior. participantes (representando 23 grupos de 6 estados brasileiros),
Foram realizados quatro festivais, sendo que o último ocorreu sendo essa "[...] a maior delegação esportiva que o Brasil já enviou
em 1994;23 para um evento internacional" (Souza, 1997, p. 60). Para se ter
• o esforço do Departamento de Ginástica Geral da CBG, tendo à uma idéia, na Gymnaestrada anterior ("9* World Gymnaestrada
sua frente o Prof. Carlos R. A. de Rezende, em ampliar a divulga- — Amsterdã 1991"), nossa delegação era composta por 143
ção e participação de grupos brasileiros na "World Gymnaestrada" participantes [representando 9 grupos de 4 estados brasileiros
e no "FECIN de Ouro Preto". De acordo com Rezende (1997, p. (Souza, 1997, p. 137)], um pouco mais do que um quinto do
52), em 1986 foram enviadas circulares a dezenas de clubes de número de participantes em 1995;
todo o país contendo informações sobre esses eventos. • a continuidade na realização de alguns festivais e a ocorrência
de novas iniciativas por todo o país em âmbito local, regional,
Na entrevista realizada com o Prof. Carlos R. A. de Rezende, estadual e nacional, de um modo mais enfático que em períodos
ele também associou a propagação da GG no Brasil ao desenvolvi- anteriores. Podemos destacar alguns exemplos, dentre tantos
mento da ginástica artística e da ginástica rítmica desportiva, afir- outros eventos que ocorreram ou têm ocorrido por todo o territó-
mando que esse crescimento foi muito significativo a partir de 1970 rio nacional: o "FEGIN", que continuou sendo realizado até 1992
e 1980. Para Rezende, com o aumento do número de praticantes e os "Festivais de Ginástica e Dança" de Rio Claro, até 1994; o
dessas modalidades, os clubes começaram a ter necessidade de "GymBrasil", organizado pela CBG em substituição ao "FEGIN", a
participar de um número maior de eventos, além das principais partir de 1992; o "Festival Paulista de Ginástica - GINPA",
competições oficiais, geralmente realizadas duas vezes ao ano, idealizado pelo Prof. Ricieri Pastori, que vem sendo realizado
em âmbito estadual e nacional. Nesse contexto, as equipes de desde 1993; e os "Festivais Internos de Ginástica Geral da FEF-
GA e GRD encontravam nos festivais de ginástica um importante UNICAMP", organizados desde 1996 pela Prof a . Elizabeth P. M.

62
Sistema Integrado
63
de BibiiotecasAJFES
de Souza e pelo Prof. Jorge S. P. Gallardo, atuais coordenadores
Geral", em 1999; e, mais recentemente, o "Fórum Internacional
do Grupo Ginástico UNicAMp.25
de Ginástica Geral", em 2001 (esses dois últimos em parceria
com o Serviço Social do Comércio - Sesc/SP).
Gostaria de sjjbjinhar qjj£ q^trâkâlbo que vem sendo • cursos de ginástica geral para professores de educação física
desenvolvido pelo(^rúpo GinásticoJjNiCAMp^ytambém pode ser ministrados em várias regiões do país e, inclusive, no exterior;
ressaltado como uma ação significativa para o desenvolvimento • orientação de trabalhos acadêmicos, assim como comunicações
da ginástica geral no Brasil, especialmente pelo seu caráter em congressos e publicações.
inovador. Nesse sentido, o GGU tem-se constituído numa impor- Nesse sentido, o projeto inicial das docentes Vilma L.
tante referência para área da GG pois é, sem dúvida, uma proposta Nista-Piccolo e Elizabeth P. M. de Souza, quando criaram o GGU
de vanguarda no panorama da ginástica brasileira, reconhecida em 1989, vem conquistando espaços significativos com a atuação
internacionalmente.
dos seus atuais coordenadores e também dos diversos alunos e
Várias frentes de atuação têm sido lançadas pelo Grupo professores que dele fazem (ou já fizeram) parte. Dentre tantos,
Ginástico UNICAMP que, como "[...] um veículo de experimentação e podemos apontar a realização de trabalhos de ginástica geral
difusão das pesquisas desenvolvidas na ginástica geral na FEF-UNICAMP, em escolas e clubes da região de Campinas por professores de
passa a se constituir num grupo de pesquisa reconhecido pelo CNPq educação física formados na FEF-UNICAMP (ou mesmo em outras
[...], em 1994" (Souza, 1997, pp. 72-73). Os coordenadores do Grupo instituições), a grande maioria integrantes ou ex-integrantes do
têm se empenhado em disseminar a proposta de ginástica geral do GGU. E também o fato de a Faculdade de Educação Física da
GGU. Essa divulgação tem sido feita por meio de: UNICAMP ter se constituído num pólo de discussão e produção
acadêmica no campo da ginástica geral, com destaque no cenário
• apresentações em eventos, a fim de "publicar" as composições nacional e internacional.
elaboradas pelo Grupo, oferecendo idéias às pessoas em geral Nesses mais de quinze anos de existência no Brasil, a GG
e, em particular, aos profissionais da educação física interessa- vem tornando-se cada vez mais conhecida, em especial no Estado
dos na GG;
de São Paulo que "[...] tem se destacado na ginástica geral com o
• desenvolvimento da ginástica geral em disciplinas do curso de crescente número de adeptos, como se pôde observar na X Gymna-
graduação da Faculdade de Educação Física da UNICAMP; estrada Mundial, onde dos 23 grupos brasileiros que participaram,
• organização de eventos de ginástica geral, como por exemplo: 11 eram paulistas" (Souza, 1997, p. 56).
"Festival Texaco de Ginástica Geral", em 1995; "l e II Encontro No entanto, devemos estar atentos para que iniciativas
de Ginástica Geral", em 1996; e os "Festivais Internos de Ginás- institucionais equivocadas, como por exemplo a realização de
tica Geral da FEF-UNICAMP", desde 1996, com apresentações de competições nas "Ginastradas" promovidas pela Secretaria de
composições elaboradas pelo GGU e por grupos de alunos das Esportes e Turismo do Estado de São Paulo, não comprometam
disciplinas de graduação anteriormente mencionadas (esses um dos seus princípios mais fundamentais: "Institucionalizar a
festivais, além de servirem como momentos avaliativos das competição na ginástica geral significaria destruir uma das suas
disciplinas, têm colaborado intensamente para a difusão da características mais preciosas e, por que não dizer, revolucio-
GG no ambiente acadêmico); o "Fórum Brasileiro de Ginástica nárias" (Ayoub, 1997, p. 45).
64 65
As^Ginastradas^ão Festivais de Ginástica e Dança or-
dos festivais, especialmente daqueles que reúnem grupos de todo
ganizados peíF^êcrèTatla de Esportes e Turismo do Estado de
um país ou de diversas nações, como veículos de difusão, informa-
São Paulo, nos quais acontecem competições de ginástica e dança.
ção e troca de experiências, não pode ser ignorada. Todavia, limi-
Esses festivais vêm sendo realizados anualmente desde 1984.
tar as ações na área da ginástica geral a essas iniciativas denuncia
De acordo com o "Regulamento da Ginastrada" (publicado no
que o interesse principal dessas instituições têm sido promover
Diário Oficial ao Estado de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1998,
"campanhas de autopropaganda" e se beneficiar dos lucros finan-
p. 21 e subseqüentes), o evento deve ocorrer em duas etapas:
ceiros que esses eventos geram.
primeiramente, a apresentação regional (na capital e nas treze
Delegacias Regionais de Esportes e Recreação do Estado) e, num Consiste num equívoco desejar que o desenvolvimento
da ginástica geral no Brasil esteja sempre submetido à visão ofi-
segundo momento, a apresentação estadual (na qual participam
os vencedores da etapa regional). Os grupos são divididos em cial da FIG ou da CBG. O "pontapé inicial", sem dúvida, teve
categorias (infantil e aberta) e áreas (ginástica e dança, esta última grande colaboração institucional. No entanto, como profissionais
sendo subdividida em vários grupos). Dois pontos chamam a comprometidos com a GG, precisamos romper com as amarras
institucionais e desenvolver trabalhos de ginástica geral que
atenção: o nome "Ginastrada", aliado ao fato de esses festivais
possibilitem "[...] ultrapassar [...] os caminhos traçados, lançar
terem sido iniciados na década de 1980, período em que a
pontes, cavar túneis, escalar encostas, alcançar cimos, para irmos
ginástica geral começou a ser alvo de maior atenção no Brasil.
Embora os professores da Delegacia Regional de Esportes e sempre em busca de mais claridade e mais sol [...]" (como nos
lembra Freinet, 1991, pp. 94-95).
Recreação de Campinas e da Secretaria de Esportes e Turismo do
Estado de São Paulo, com os quais mantive contato para obter
informações acerca da "Ginastrada", desconheçam os motivos da
escolha do nome "Ginastrada" para esse festival, as suas 2.3. Ginástica geral - imagens de uma composição
semelhanças com a denominação "Gymnaestrada" são evidentes,
o que pode confundir e comprometer seriamente a compreensão No decorrer desse capítulo pudemos ir projetando a
imagem da ginástica geral na sociedade contemporânea. Essa
da ginástica geral como uma prática corporal não competitiva.
projeção nos permite visualizar os pilares fundamentais que
Apesar da inegável expansão da ginástica geral em nosso
país nos últimos anos, Souza (1997, p. 61) adverte que não existe sustentam a GG, os quais estão diretamente relacionados com
uma política de desenvolvimento da ginástica geral pela Confede- a concepção de ginástica geral da FIG que, conforme analisado
ração Brasileira de Ginástica. Podemos observar, ainda, que as ações anteriormente, vem influenciando as ações na área em diversos
da CBG como representante da F1G no Brasil têm se pautado igual- países, inclusive no Brasil:
mente numa visão de ginástica geral como sinônimo de "World
Gymnaestrada" (ou ainda, de "GymBrasil" ou de "festival"). • sem finalidade competitiva, á GG está situada num plano dife-
Essa é, seguramente, uma postura institucional limitada, rente das modalidades gímnicas competitivas, num plano básico,
cômoda e confortável, que restringe a atuação das federações à com abertura para o divertimento, para o prazer, para a simpli-
realização ou participação em eventos de impacto. A importância cidade, para o diferente, para a participação irrestrita, para todos;
66
67
• na ginástica geral, o principal alvo de atenção deve ser a pessoa Essas diferenças, no entanto, não podem ser vistas
que a pratica, sendo as suas metas fundamentais promover a de forma rígida e estanque. A ginástica geral e as ginásticas de
integração entre pessoas e grupos e desenvolver o interesse competição convivem interligadas na sociedade e exercem influên-
pela prática da ginástica com prazer e criatividade. A ludicidade, cias recíprocas uma sobre a outra. Nesse sentido, esse paralelo
a liberdade de expressão e a criatividade são pontos marcantes deve ser visto como uma referência para identificarmos nuanças
na ginástica geral; no trabalho com a ginástica geral, as quais revelam menor ou
• devido à sua amplitude e diversidade, a GG engloba atividades maior aproximação com as suas características básicas.
no campo da ginástica, dança e jogos e não tem regras rígidas Como exemplo, podemos fazer uma comparação entre
preestabelecidas. Dessa forma, a ginástica geral abre um leque duas supostas apresentações num festival de GG: a apresentação
imenso de possibilidades para a prática de atividade corporal, de uma série livre com fita de uma ginasta de GRD, de acordo com
uma vez que não determina limites em relação à idade, gênero, as regras características dessa modalidade; e a apresentação de
número e condição física ou técnica dos participantes, tipo de um grupo com oito ginastas de GA masculina, nas paralelas, exe-
material, música ou vestuário, favorecendo a participação e cutando movimentos característicos dessa modalidade, porém
proporcionando uma ampla criatividade; todos simultaneamente e em forma de brincadeiras combinadas
• Os festivais são a sua principal forma de manifestação, vincu- com mímica. Seguramente, o segundo exemplo aproxima-se
lando-a a um procedimento artístico, a uma idéia de espetáculo. muito mais das características da ginástica geral do que o primeiro,
embora ambos estejam diretamente associados às modalidades
Sendo um dos primeiros pontos de destaque quando pen- gímnicas competitivas.
samos na ginástica geral, o fato de a GG não ser competitiva insti- Essa comparação sob a ótica das demonstrações em fes-
ga-nos a traçar um paralelo entre a ginástica geral e .as ginásticas tivais, a fim de compreender com maior clareza quais são os
de competição, com a finalidade de identificar com maior nitidez elementos que caracterizam a ginástica geral, também pode ser
as características mais significativas que as diferem: feita em relação a apresentações de outra natureza.
Na Gymnaestrada Mundial e nos inúmeros festivais de
Ginástica geral Ginásticas de competição
GG que têm sido realizados no Brasil, não são raras as vezes em
• Abrangente: ilimitado número de • Seletivas: limitado número de partici- que ocorrem apresentações de bale clássico, dança moderna ou
participantes pantes dança folclórica. Deveriam essas manifestações estar presentes
• não existem regras rígidas • regras rígidas preestabelecidas
em eventos de ginástica geral? Mais ainda, deveriam essas
preestabelecidas atividades ser consideradas trabalhos de ginástica geral?
• caminha no sentido da ampliação
De acordo com as orientações da FIG a resposta é afir-
• caminham no sentido da especialização
comparação informal: não há • comparação formal, classificatória e de-
mativa, uma vez que essas atividades, assim como jogos, são
vencedores ou "todos são vencedores"
englobadas nos programas de atividades da ginástica geral.
finida por pontos: busca-se um vencedor
Contudo, estamos diante de questões muito polêmicas e
objetiva, sobretudo, o prazer • objetivam, sobretudo, o vencer
complexas, que exigem o aprofundamento de alguns aspectos
Quadro 1: Paralelo entre a ginástica geral e as ginásticas de competição.27

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J_
essenciais, intimamente interligados, tais como: a consideração demonstrada num festival. Essa é uma visão que tem predominado
da ginástica geral como sinônimo de ginástica de demons- na área da GG.
tração ou de festival; e a compreensão da identidade da ginástica A abertura de espaço nos eventos de ginástica geral para
geral diante de tamanha abrangência e diversidade. grupos que desenvolvem trabalhos em áreas específicas torna-se
Por não visar à competição, poderíamos considerar a positiva na medida em que cria mais uma possibilidade de parti-
GG tão somente uma ginástica de demonstração (de espetáculo, cipação e favorece um intercâmbio entre diferentes manifestações
de "show") ou sinônimo de festival? Creio que não. Se assim o da cultura corporal. Contudo, podemos constatar que essa aber-
fizermos, certamente estaremos limitando a sua compreensão. tura tem significado muitas vezes um meio para compensar pos-
Entender a ginástica geral unicamente como uma ginás- síveis lacunas oriundas, de um lado, da restrita participação de
tica para ser demonstrada em festivais significa aprisioná-la dentro atletas em competições, devido ao processo seletivo próprio
daquilo que pode ser o resultado de um trabalho — uma apresen- do esporte competitivo e, de outro, da falta de oportunidade de
tação, uma composição ou coreografia. Significa compreendê-la muitas academias de dança de participar de eventos específicos
apenas como um "produto", desconectada de um processo. de sua área. Desse modo, os festivais de ginástica geral acabam
O fato de a GG não ter finalidade competitiva não quer assumindo uma responsabilidade "compensatória", funcionando
dizer que ela tenha, necessariamente, "obrigação demonstrativa". como uma espécie de "depósito" de demonstrações (Ayoub, 1997,
No entanto, não podemos negar que a ginástica geral tem um pp. 44-45). Em nome da participação de todos, esses eventos
forte caráter demonstrativo, o que a vincula a uma idéia de espe- refletem uma verdadeira "salada de frutas", impossibilitando-nos
táculo, assim como acontece com a dança. Nessa perspectiva, a de reconhecer a identidade da ginástica geral no universo da
demonstração, a apresentação, o espetáculo, o festival de GG cultura corporal.
revela sentido na medida em que reflete uma proposta de trabalho Há ainda os que compreendem a GG como uma modali-
de ginástica geral. dade da ginástica, a sua modalidade não competitiva ou a sua mo-
As apresentações, os festivais de ginástica geral são, sem dalidade demonstrativa. Essa visão me parece outro equívoco, pois
dúvida, momentos significativos para a GG. Entretanto, uma aná- significa colocá-la no mesmo patamar das modalidades gímnicas
lise mais cuidadosa tem mostrado que muitos grupos participantes competitivas. Apesar de estar organizada nas federações, dentro
de eventos da área não desenvolvem uma proposta de trabalho de de um comitê técnico específico, ao lado de outras modalidades, a
ginástica geral. São equipes de treinamento de modalidades GG não deve ser considerada uma modalidade. Ela caracteriza-se
gímnicas competitivas que apresentam as suas séries de competi- como uma manifestação da ginástica que pode englobar todas
ção ou que transformam e adaptam os seus trabalhos específicos as modalidades gímnicas sem se restringir a nenhuma delas em
em "espetáculos coreográficos de ginástica" ou, ainda, grupos de particular, configurando uma mescla de todos os tipos de ginástica.
dança que encontram nos festivais de GG mais uma oportunidade Nem ginástica de demonstração, nem sinônimo de festi-
de participação. Sob essa ótica, acentua-se a idéia de que, para val, nem modalidade gímnica. Afinal de contas, o que é a ginástica
uma prática corporal ser considerada ginástica geral, basta que geral? O que a distingue e singulariza dentro do mundo vasto e
ela seja transformada em composição coreográfica para ser complexo da cultura corporal?

70 71
Não tenho dúvidas de que, para encontrar essas respos- Seria, então, a ginástica geral "o re-nascimento da ativi-
tas, precisamos compor uma imagem de ginástica geral que pos- dade original dos primeiros ginastas" (Fédération, 1991, p. 147)
sibilite superar os equívocos que têm acompanhado o seu de- ou, ainda, a "ginástica do passado que agora é do presente outra
senvolvimento na sociedade contemporânea. vez" (como afirma o Prof. Giorgio Garufi, da Itália)? Penso que a
Embora a GG tenha sido difundida na segunda metade GG vai mais além.
do século XX como uma proposta da FIG, sua existência como mani- Amparada pelas imagens da ginástica geral na sociedade
festação da cultura corporal tem um alcance que extrapola os con- contemporânea e pelas "imagens da educação no corpo", emoldu-
tornos dessa instituição. Reconhecendo que não se trata de algo radas por Soares (1998), torna-se possível w'sua//zaruma composi-
inédito, a própria FIG (Fédération, 1991, p. 147) admite que "[...] ção na qual participam interligados e integrados elementos do
queiramos ou não a ginástica geral não é realmente um novo cami- núcleo primordial da ginástica, da ginástica científica e das diver-
nho mas um re-nascimento ou um re-conhecimento da atividade sas manifestações da ginástica na atualidade!
original criada pelos primeiros ginastas". Isso se torna ainda mais A ginástica geral, diferentemente da ginástica científica
claro na perspectiva dos festivais. Basta observarmos as semelhan- e de suas descendentes mais diretas — as modalidades competiti\as
ças existentes entre os festivais de ginástica ou de ginástica geral de ginástica —, não quer abandonar o prazer, o artístico, a "intei-
realizados em todo o mundo na atualidade e os festivais de ginás- reza lúdica da gestualidade", o riso, o divertimento, a festa ; ao
tica do século XIX.28 No que se refere ao Brasil, Souza (1997, contrário, ela abre uma oportunidade para a reconstrução do
pp. 50-52) afirma que a realização de festivais de ginástica e lúdico e as suas possibilidades de ruptura com a rigidez apregoada
demonstrações de grande área desde a primeira metade do século pela ginástica científica. Contudo, negar a importância do conheci-
XX demonstram que a prática da GG vem ocorrendo há muito mento científico para o desenvolvimento das práticas corporais
tempo em nosso país. significaria colocar-se à margem do desenvolvimento da
Em países europeus com grande tradição na área da ginás- humanidade. Restringir-se a ele seria matar as inúmeras
tica, como, por exemplo, a Dinamarca, a denominação ginástica conquistas do saber da humanidade que vão para muito além do
geral quase não é usada. Utiliza-se, simplesmente, o termo gi- conhecimento científico. Insisto: negar o valor da ciência como
nástica para se referir às manifestações gímnicas que fazem parte uma das possibilidades significativas de construção do saber
do contexto da GG. Entretanto, levando-se em conta as múlti- humano significa retroceder. Questioná-la, sim, é nossa tarefa e
plas formas de ginástica que se têm desenvolvido desde o século dever permanentes.
XIX, parece-me positivo utilizar a adjetivação geral para se referir Na ginástica geral podemos buscar a nossa inspiração
à ginástica em geral, ou seja, a essa mescla de todos os tipos de aliando os saberes do funâmbulo e do ginasta... Daí o seu signifi-
ginástica, fora da esfera competitiva, orientada para o lazer e cado como uma possibilidade de reconstrução de elementos do
com abertura para a participação de todos. Além disso, pode núcleo primordial da ginástica, integrando-os às suas manifestações
facilitar o diálogo entre as diferentes nações utilizar a mesma contemporâneas. Aí está a sua importância como uma possibili-
linguagem proposta pela FIG, uma vez que essa é a instituição dade de reencontro com o lúdico e com o artístico, não em oposi-
mais influente no campo da ginástica mundial. ção, mas em integração com o científico e com o técnico.

72 73
À luz das considerações anteriores, a ginástica geral está Isso seria inconcebível. Nenhuma prática corporal pode ser com-
sendo visualizada como uma prática corporal que promove uma preendida de forma isolada, mas em relação e integração com outros
composição entre elementos do núcleo primordial da ginástica, da elementos da cultura corporal. Entretanto, mesmo considerando
ginástica científica e das diversas manifestações gímnicas contem- que as práticas corporais foram sendo construídas historicamente
porâneas. Sob essa ótica, a GG possibilita uma integração entre em estreita inter-relação e exercendo influências recíprocas umas
elementos do núcleo primordial da ginástica e das diversas mani- sobre as outras, penso que podemos distingui-las sem, contudo,
festações gímnicas que vêm sendo construídas ao longo desses apartá-las.
dois últimos séculos; uma integração em constante processo de Algumas características fundamentais da ginástica geral
transformação, porque inserida na dinâmica histórico-cultural. permitem compor uma imagem da ginástica geral que potencialize
— O eixo fundamental da ginástica geral deve ser a ginástica, o que estou denominando caráter "transformador" da GG.
podendo dialogar com outros elementos do universo da cultura Primeiramente, o fato de a GG estar situada num plano
corporal (como por exemplo a dança, o jogo, o esporte, a luta etc.). diferente das modalidades gímnicas competitivas pode gerar um es-
Isso significa que a GG precisa conquistar a sua identidade e bus- paço efetivo de resistência aos valores da ginástica de competição e,
car a sua amplitude e diversidade tendo como base a ginástica, portanto, da instituição esporte. Questionar a competição e seus
compreendida como uma prática corporal que, marcadamente valores é, certamente, um dos primeiros passos para o questiona-
desde o início do século XIX, sofreu um processo intensivo de mento da visão capitalista de sociedade e de cultura. Outro desafio
sistematização em diferentes países europeus, o qual foi respon- consiste em superar os dogmas do consumismo e do culto ao corpo/
sável pela configuração de um conjunto de elementos carac- objeto de consumo/mercadoria/massificado que a indústria do lazer
terísticos que constituem a ginástica — os gestos gímnicos —, no campo das práticas corporais deliberadamente nos impõe.
que, apesar da multiplicidade de enfoques e da diversidade de Outros traços essenciais referem-se à consideração de que
manifestações gímnicas existentes na atualidade, podem ser a ginástica geral está aberta para a participação de todos e orientada
subdivididos em: elementos corporais, exercícios acrobáticos e para o lazer, valorizando o prazer, a criatividade e a liberdade de
exercícios de condicionamento físico (sem, com e em aparelhos).29 expressão. Sob essa ótica, a GG pode constituir-se num espaço viá-
Nesse sentido, o processo de sistematização e codificação da vel e privilegiado para a vivência do componente lúdico da cultura
ginástica possibilita-nos diferenciar uma manifestação gímnica corporal por meio da ginástica.
de outras formas de manifestação, ou seja, distinguir a ginástica E, ainda, o seu forte caráter demonstrativo, que faz dos
de outros temas da cultura corporal. Daí podermos perceber as festivais a principal forma de manifestação da GG, pode significar
diferenças entre um salto característico da ginástica artística, um uma possibilidade de se trabalhar efetivamente em grupo e pelo
salto característico do bale clássico ou um salto característico do grupo na composição dos trabalhos a serem apresentados. Nessa
voleibol. O salto, como gesto, ganha significado no contexto da perspectiva, o processo de elaboração de uma apresentação pode
atividade que o caracteriza. Esse esforço no sentido de diferenciar detonar uma ação realmente cooperativa na qual os integrantes
a ginástica de outros temas da cultura corporal não pretende ser do grupo aprendam a "cooperar para compor a composição" (no
uma tentativa de divisão do conhecimento em compartimentos. sentido de "operar-com" para "pôr-com" ou "colocar-com" na co-

74 75
autoria da composição, sendo co-autor — autor em conjunto Capítulo 3
com outros autores).
Por tudo isso, acredito na possibilidade de projetar por A GINÁSTICA GERAL E SUAS PERSPECTIVAS
meio da ginástica geral a imagem de uma ginástica contemporâ- PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
nea que privilegie, acima de tudo, nossa dimensão humana e
IMAGINANDO UM PROJETO
que crie espaço para o componente lúdico da cultura corporal,
redescobrindo o prazer, a inteireza e a técnica-arte da linguagem
corporal. A escola é o local onde se apresenta aos jovens, a todos
os jovens um tipo de poesia, modos de raciocínio rigoro-
E, seguramente, a educação física escolar pode consti-
so que eles não tinham atingido até então. Na medida em
tuir-se num dos espaços mais significativos para o seu desenvolvi- que o cultural elaborado está em ruptura com a cultura
mento. Foi acreditando nessa possibilidade que imaginamos um imediata, a escola é difícil; os alunos não poderiam obter
projeto de ginástica geral na escola. sucesso por suas próprias forças; é preciso para isso a
obrigação, a orientação, a intervenção do professor.
Ceorges Snyders*

Neste momento do trabalho intenciono refletir sobre as


perspectivas da ginástica geral no âmbito escolar, analisando o seu
significado como conhecimento a ser estudado na educação física
escolar e imaginando as suas possibilidades de desenvolvimento
na escola pública brasileira.
Iniciarei a discussão situando a trajetória da ginástica no
contexto da instituição escolar no Brasil para, num segundo mo-
mento, aprofundar as questões relativas à ginástica geral.

7. A ginástica no contexto da
educação física escolar no Brasil
Vários autores brasileiros têm se dedicado ao estudo do
caminho percorrido pela educação física no Brasil, numa perspectiva
crítica que possibilite compreendê-la inserida nos diferentes contex-

'(1988, p. 211)

76 77
tos histórico-culturais que têm influenciado o seu desenvolvimento, No Brasil, ao longo de todo o século XIX, podemos cons-
tanto no âmbito escolar como fora dele. tatar que a educação física, como parte integrante da educação,
Meu objetivo nesse momento é situar o percurso da ginás- igualmente foi alvo de grande atenção. Seguindo as mesmas orien-
tica no interior da escola brasileira. Para tal, necessitamos fazer tações da concepção européia, a sua vinculação com a educação
uma breve viagem ao continente europeu, dois séculos atrás. moral e intelectual era freqüentemente exaltada, com ênfase na
No pensamento médico e pedagógico que se desenvol- primeira. Para se ter uma idéia, a primeira obra editada no Brasil
veu durante todo o século XVIII na Europa, o exercício físico, como sobre o. assunto foi, segundo Marinho (1980, p. 158), o livro "Tra-
elemento de educação, foi um conteúdo bastante enaltecido. Entre- tado de educaçãofísica- moral dos meninos", dejoaquimjerônimo
tanto, foi no século XIX, com a extensão da escolarização primária, Serpa, publicado em 1828.
que a educação física tornou-se efetivamente parte integrante da Várias iniciativas para a inclusão da educação física nas
educação geral dos indivíduos. escolas vão ocorrendo gradativamente por todo o país, sendo os
Conforme Soares (1994, pp. 58-64), essa inclusão tinha exercícios ginásticos apontados como um dos meios mais impor-
finalidades muito claras para a sociedade burguesa que se consoli- tantes para tal finalidade: educar física e moralmente os indivíduos.
dava: disseminar a sua visão de corpo, de atividade física, de saúde, Podemos afirmar sem receio que, durante muito tempo, aula de
enfim, sua concepção de mundo. A educação física no século XIX educação física na escola foi sinônimo de aula de ginástica.
vai se configurando, então, a partir de um conceito anatomo- O parecer de Rui Barbosa a respeito do projeto de "Refor-
fisiológico de corpo, que a colocava sempre vinculada a uma idéia ma do Ensino Primário e várias instituições complementares de
de saúde puramente biológica, de um sujeito individual, aistórico, instrução pública", em 1882, confere grande destaque à ginástica.
descontextualizado das condições sociais em que vive, sendo pro- Ao tratar desse tema, Rui Barbosa afirma, entre outras coisas, que
tagonista, portanto, de um projeto maior de higienização da socie- a ginástica deve ser obrigatória "[...] a ambos os sexos, na forma-
dade. O referencial básico da educação física estava carregado de ção do professorado e nas escolas primárias de todos os graus [...]"
objetivos tais como: "[...] regenerar a raça, fortalecer a vontade, e deve estar inserida "[...] nos programas escolares como matéria
desenvolver a moralidade e defender a pátria. As ciências biológicas de estudo [...]" (Marinho, 1980, p. 163).
e a moral burguesa estão na base de suas formulações práticas" Os diferentes Métodos Ginásticos Europeus foram intro-
(Soares, 1994, p. 62). duzidos no Brasil. 1 Dentre eles, Rui Barbosa considerava que o
A ginástica, que no século XIX vai conquistando status Método Sueco era o mais adequado para ser desenvolvido nos es-
científico, comparece, então, como o instrumento que se adequava tabelecimentos de ensino, devido ao seu caráter pedagógico. Ini-
exemplarmente a tais propósitos. Ela mesma é fruto dessa men- cialmente Rui Barbosa e, décadas posteriores, Fernando de Azeve-
talidade; os próprios métodos ginásticos "[...] trazem, marcada- do, foram os seus principais defensores (Soares, 1994, p. 74). No
mente, a possibilidade de enaltecer o indivíduo abstrato, desco- entanto, em 1929, o Método Francês foi adotado como o método
lado das relações sociais, e ser porta vozes de uma prática neutra, oficial no Brasil, gerando severas críticas por parte da Associação
cultuando ainda o 'mito do homem natural e biológico 1 " (Soares, Brasileira de Educação (ABE), que considerava um atestado de in-
1994, p. 82).
capacidade nacional simplesmente transplantar um sistema es-

78 79
trangeiro de ginástica para o nosso país (Soares, 1994, pp. 82-83). damente a partir da década de 1980, ainda predomina na ação
O exercício ginástico, principalmente o de orientação militarista, dos profissionais da educação física na instituição escolar o se-
constituiu-se, então, como a referência básica para o desenvolvi- guinte consenso:
mento da educação física na instituição escolar. "Conteúdo: esporte, isto é, esporte federado, suas téc-
Por volta de 1940, com a chegada ao Brasil da educação nicas, regras, táticas etc. A ginástica e a corrida, por ex., são pra-
física desportiva generalizada, essa situação começou a mudar. Esse ticadas com vistas à 'parte principal'. Os jogos populares são
novo modelo de sistematização do conteúdo da educação física es- denominados e tematizados como 'jogos pré-esportivos'.
colar desenvolvido na França, por intermédio do "Institut National Objetivos: aprendizagem dos esportes, e desenvolvimen-
dês Sports", foi difundido em nosso país por meio de cursos de to da aptidão física (para a saúde)" (Bracht, 1992, p. 25).
aperfeiçoamento técnico-pedagógico ministrados pelo professor O surgimento de novas visões que colaboraram para a
Auguste Listello (Marinho, 1981, p. 24). detonação de um processo de questionamento da concepção pre-
Até essa época, a ginástica predominava como conteúdo dominante em relação aos conteúdos e objetivos da educação fí-
da educação física escolar. A partir desse momento, o esporte pas- sica na escola não abalou essa visão hegemônica. Segundo Bracht
sa a ser, progressivamente, o principal representante da educação (l 992, p. 28), "nenhuma destas novas tendências parece, no entan-
física na escola: "[...] a educação física desportiva generalizada to, ameaçar seriamente a hegemonia da 'tendência esportiva'".
normaliza o esporte como o conteúdo preponderante a ser veicu- Atualmente, a ginástica, como conteúdo de ensino, prati-
lado pela educação física no universo escolar" (Soares, TafFarel e camente não existe mais na escola brasileira. Aula de educação
Escobar, 1992, p. 216). física na escola tem sido sinônimo de aula de esporte. Mais ainda:
Partindo da consideração de que a escola não existe de sinônimo de "jogar bola".2
forma isolada na sociedade, esse movimento no interior da institui- Nista-Piccolo (1988) também confirma essa deficiência do
ção escolar está associado ao movimento mais amplo de espor- conteúdo ginástica no âmbito escolar, especificamente em relação
tivização da cultura corporal, o qual encontra terreno fértil para o à ginástica artística (GA) e à ginástica rítmica desportiva (GRD). Em
seu desenvolvimento na sociedade brasileira que vinha configu- seu estudo, no qual realizou um trabalho de campo com profissio-
rando-se no período após a II Guerra Mundial. nais da educação física e professores polivalentes das redes parti-
De acordo com Bracht (l 992, p. 17), é evidente que outras cular, municipal e estadual de ensino da cidade de Campinas, cons-
formas de expressão da cultura corporal, como por exemplo a dança, tatou uma série de aspectos que dificultam o desenvolvimento
jogos e brincadeiras, também estiveram e estão presentes na educa- dessas modalidades gímnicas na escola, dentre os quais a ausência
ção física escolar. Entretanto, parece que esses temas "[...] consti- de conhecimento do professor sobre a GA e a GRD (Nista-Piccolo,
tuem minoria e que podemos falar da ginástica e, posteriormente, 1988, pp. 121-24).
do esporte, como as atividades, nos respectivos momentos histó- ~~" Essa situação em relação à ginástica, a qual pode ser igual-
ricos, que se apresentam como hegemônicas na educação física". mente extrapolada para outros temas da cultura corporal, demons-
Apesar das inúmeras transformações que a área da educa- tra que necessitamos urgentemente buscar saídas para reverter esse
ção física no Brasil vem sofrendo nas últimas décadas, marca- quadro.

80 81
l
No caso específico da ginástica, parece-me que o panora- Entretanto, é importante destacar que a década de 1990
ma é ainda mais grave, em virtude de somar-se à visão esportivizada tem sido marcada por um grande progresso nas discussões e tem
da educação física escolar alguns preconceitos em torno dessa práti- gerado resultados muito positivos para que se compreenda o sig-
ca corporal, cuja origem pode estar localizada principalmente em nificado da educação física na escola e, também, da ginástica nes-
dois aspectos: de um lado, a sua tradição de orientação militarista e, se contexto.
. de outro, a sua associação à "ginástica espetacular".
O trabalho de um grupo de autores sobre "Metodologia
Em relação ao primeiro, fica evidente a atitude de negação do ensino de educação física" (Coletivo de Autores, 1992) caracte-
da ginástica no âmbito escolar, por parte dos profissionais da edu- riza-se como um importante ponto de referência para essa com-
cação física que estavam participando das discussões mais amplas preensão. Um dos assuntos abordados nessa obra refere-se ao co-
da década de 1980 a respeito do processo de redemocratização da nhecimento a ser tratado pelo componente curricular educação
sociedade brasileira e do papel da educação física nesse contexto. física na escola. De acordo com os autores,
Não era concebível admitir que uma atividade com tamanha he-
rança militar tivesse lugar numa escola democrática e conscien- A educação física é uma disciplina que trata, pedagogicamente, na
tizadora. Refletindo sobre o conhecimento e a especificidade da escola, do conhecimento de uma área denominada aqui de cultura
educação física escolar, Soares (1996, p. 10) ressalta que "a crítica corporal. Ela será configurada com temas ou formas de atividades,
de natureza mais política que se instaura na década de 80 vai particularmente corporais, como as nomeadas anteriormente: jogo,
exacerbar, agora com outras tintas, a negação do conteúdo da esporte, ginástica, dança ou outras, que constituirão seu conteúdo.
educação física atribuindo ao esporte e à ginástica, sobretudo, o O estudo desse conhecimento visa apreender a expressão corporal
caráter de elementos de alienação". como linguagem (Coletivo de Autores, 1992, pp. 61-62; grifo meu).
No que se refere ao segundo aspecto, a difusão da ginás-
tica artística e da ginástica rítmica desportiva no Brasil a partir de A visão desse grupo significa um avanço para o entendi-
1970 e 1980, ao mesmo tempo em que favorece o aumento do nú- mento do papel da educação física na escola, especialmente por
mero de praticantes, especialmente nos clubes, traz consigo a idéia, apresentarem uma proposta de organização do saber da educação
reforçada pela mídia, de que essas atividades são extremamente di- física que resgata as suas dimensões histórico-culturais.
fíceis e que só podem ser praticadas por "superatletas" e orientadas Sob essa ótica, a educação física escolar é considerada
por "supertécnicos". É a ginástica esportivizada sendo vista tão so- na perspectiva da reflexão sobre a cultura corporal. Isso requer
mente como "ginástica espetacular". uma articulação do conhecimento a fim de "[...] possibilitar uma
Essas são, seguramente, questões significativas que, alia- nova lógica de pensar do aluno, na elaboração de uma síntese
das ao processo de esportivização da cultura corporal, colaboraram que lhe permita a constatação, interpretação, compreensão e
(e, de certo modo, ainda colaboram) para que a ginástica tenha sido explicação da realidade acerca da cultura corporal" (Coletivo de
descartada da educação física escolar. O tom pejorativo ou restritivo Autores, 1992, p. 111).
com que geralmente muitos profissionais da educação física refe- Ressaltam, ainda, que a inter-relação e interdependência
rem-se à ginástica acaba revelando e reforçando esses preconceitos. entre os diferentes temas que venham a compor um programa de

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83
educação física e os grandes problemas sociopolíticos da atuali- sua responsabilidade de ampliar e ultrapassar essa idéia restritiva
dade não podem e não devem ser ignoradas, uma vez que as dife- e equivocada da educação física escolar e compreender que a gi-
rentes expressões da cultura corporal a serem tratadas na escola nástica, assim como outras formas de expressão da cultura corpo-
"[...] expressam um sentido/significado onde se interpenetram, ral, necessita ser estudada em profundidade para que o profissio-
dialeticamente, a intencionalidade/objetivos do homem e as inten- nal da educação física consiga enfrentar os desafios que se colo-
ções/objetivos da sociedade" (Coletivo de Autores, 1992, p. 62). cam para a nossa área na atualidade. É preciso ter a coragem "[...]de
ser profissional da educação física e saber mais, muito mais sobre
Essas considerações enfatizam a importância da discipli-
na educação física estar articulada com o projeto pedagógico da seus temas como a ginástica, os jogos, o esporte, as lutas, a dança,
instituição escolar. Essa articulação é imprescindível para uma re- especialmente saber mais que a mídia e romper com as linguagens
flexão e compreensão da cultura corporal inserida no contexto da simplificadas da chamada cultura de massa acerca das atividades
sociedade. corporais" (Soares, 1995, p. 138).
A educação física escolar precisa assumir a tarefa que lhe
O reconhecimento da ginástica como um dos conteúdos
da educação física escolar, ou seja, como conhecimento a ser estu- compete no interior da escola: proporcionar um conhecimento
dado na escola, é legítimo, segundo Coletivo de Autores (1992, p. aprofundado acerca dos diferentes temas da cultura corporal. "Não
77),"[...] na medida em que a tradição histórica do mundo ginástico considere seus alunos 'tolos'", cpnforme alerta-nos Snyders (1988,
é uma oferta de ações com significado cultural para os praticantes, p. 218), significa cumprir o nosso papel de sermos educadoras e
onde as novas formas de exercitação em confronto com as tradi- educadores capazes de apresentar às nossas alunas e alunos "[...]
cionais possibilitam uma prática corporal que permite aos alunos modos de raciocínio rigoroso que eles não tinham atingido até
darem sentido próprio às suas exercitações ginásticas". então" (Snyders, 1988, p. 211). Significa respeitar as nossas alunas
Nessa perspectiva, a ginástica — como parte integrante e alunos e instigá-los a aprofundar a reflexão sobre a cultura cor-
do conjunto dos conteúdos que devem compor a disciplina edu- poral com a rigorosidade metódica necessária para a passagem da
cação física — caracteriza-se como um conhecimento de impor- "curiosidade ingênua" à "curiosidade epistemológica" (Freire, 1997,
tância indiscutível e que não pode ser simplesmente abandonado pp. 28-33). Significa, ainda, levar em conta as suas experiências e
ou colocado em segundo plano na instituição escolar. interesses, sem abrir mão da responsabilidade de possibilitar que
À luz das considerações anteriores, não podemos negar as nossas alunas e alunos "[...] terminem o ensino fundamental e
que o processo de limitação que vem ocorrendo na educação física médio com competência para apreender as possibilidades e os li-
escolar brasileira, restringindo o seu conteúdo ao esporte e dei- mites da expressão corporal enquanto linguagem no tempo histó-
xando de lado a ginástica (entre outros temas da cultura corporal), rico" (Soares, Taffarel e Escobar, 1992, p. 219). Significa, enfim,
é muito sério e preocupante. partir em busca do aprofundamento sistemático do conhecimento
Já não é sem tempo a necessidade de rompermos com próprio da educação física e suas relações com o conhecimento mais
essa visão. E os cursos de formação de professores de educação amplo da humanidade.
física têm um papel decisivo a desempenhar para que o quadro E, no que diz respeito especificamente à ginástica, o que
atual possa ser transformado. Precisam urgentemente assumir a estou defendendo não é um "resgate saudosista" daquilo que foi a

84 85
tradição da ginástica que se consolidou na escola brasileira, es- ferentes formas de manifestação gímnica poderão, e deverão, ser
pecialmente a partir do início do século XX, com influências deter- tema das aulas de GG.
minantes do Movimento Ginástico Europeu. Para estarmos em Aprender ginástica geral na escola significa, portanto, es- J
sintonia com os desafios da educação física escolar na atualidade, tudar, vivenciar, conhecer, compreender, perceber, confrontar, in- f
não podemos simplesmente retomar os Métodos Ginásticos Euro- terpretar, problematizar, compartilhar, apreender as inúmeras c
peus sem a devida crítica aos seus princípios e finalidades. Precisa- interpretações da ginástica para, com base nesse aprendizado, buscar \
mos, sim, superar preconceitos e caminhar com os nossos alunos novos significados e criar novas possibilidades de expressão gímnicar—/
rumo à compreensão dos significados que têm sido conferidos à Sob essa ótica, podemos considerar que a ginástica geral,
ginástica ao longo da história, para que eles próprios possam en- como conhecimento a ser estudado na educação física escolar,
contrar outros significados.
representa a Ginástica.
O que pretendo sustentar, portanto, é uma retomada da Considerando, ainda, as características fundamentais da
ginástica na escola por meio do "confronto" entre as tradicionais e
GG, podemos afirmar que a ginástica geral traz consigo a possibi-
as novas formas de exercitação, possibilitando aos alunos uma
lidade de realizarmos uma reconstrução da ginástica na educa-
prática corporal que lhes permita atribuir "sentido próprio às suas
ção física escolar numa perspectiva de "confronto" e síntese e,
exercitações ginásticas" (como propõe Coletivo de Autores, 1992,
P- 77). também, numa perspectiva lúdica, criativa e participativa. Entre-
tanto, para que isso ocorra, precisamos nos apoiar em referenciais
E, levando em consideração as características fundamen-
teórico-metodológicos que ofereçam caminhos nessa direção.
tais da ginástica geral, acredito que a GG pode ser reconhecida
Como ponto de partida, tomamos por referência duas
como o caminho mais apropriado, e talvez o mais ousado, para
reconstruirmos, para recriarmos a ginástica na escola. propostas de trabalho na área da ginástica que vêm sendo realiza-
das na Faculdade de Educação Física (FEF) da UNICAMP nos últimos
dez anos, cujos princípios norteadores estão sintonizados com
2. A ginástica geral como conhecimento a ser os propósitos de reconstruirmos a ginástica na escola sob a pers-
pectiva que vem sendo discutida neste estudo. Uma delas é a
estudado na educação física escolar
proposta metodológica desenvolvida por Nista-Piccolo (1995) e
a outra é a proposta de trabalho do Grupo Ginástico UNICAMP (Pérez
De acordo com as reflexões desenvolvidas neste estudo,
a ginástica geral está sendovisualizada como uma prática corporal Gallardo e Souza, 1997 e Souza, 1997, pp. 83-95), das quais
que promove uma composição entre elementos do núcleo primor- pude participar diretamente.
^ã/gaginástica, da ginástica c/enf/T/cãêlíãrdiversas manifestações A proposta metodológica apresentada por Nista-Piccolo
gímnicascojitej]ip_orâneas.3 foi desenvolvida nos seguintes projetos de ensino, pesquisa e
Assim compreendida, a ginástica geral engloba e integra extensão da FEF/UNICAMP: "Brincando com o ritmo", "Ginástica ar-
as diversas manifestações da ginástica que vêm se configurando tística: brincando e aprendendo" e "Crescendo com a ginástica".
ao longo desses dois últimos séculos. Isso quer dizer que as di- Está organizada em três momentos, relacionados entre si:

86 87
• primeiro momento: os alunos tomam contato com o tema que a serviço do grupo; o estímulo à criatividade, à auto-superação e à
será desenvolvido na aula, explorando, criando e realizando di- ludicidade; e a promoção da cooperação e da participação de todos
ferentes possibilidades de ação; o professor "[...] apenas estimu- os integrantes do grupo. Cabe ressaltar, ainda, como procedimento
la a ação perguntando o que é possível fazer, outras maneiras básico do trabalho do GGU, a importância conferida à criação con-
de se fazer, observando sempre seus alunos" (Nista-Piccolo, 1995, junta das composições e à demonstração das mesmas como resulta-
p. 117); do final do trabalho desenvolvido (Souza, 1997, p. 87).
segundo momento: as atividades são propostas por meio de A riqueza dessas duas propostas está em proporcionar o
pistas, a fim de que os alunos solucionem os problemas apresen- aprendizado da Ginástica levando-se em conta as diversas expe-
tados e criem alternativas de ação, individualmente ou em grupo riências dos alunos, porém sem se restringir a elas, procurando
(Nista-Piccolo, 1995, pp. 117-18); superá-las e transformá-las no decorrer do processo educativo por
terceiro momento: as propostas que deixaram de ser realizadas meio do estímulo constante à auto-superação e à criatividade. A
nos dois primeiros momentos são agora trabalhadas, sem per- troca de experiências, o diálogo, são princípios fundamentais para
der de vista a perspectiva lúdica; nessa etapa, o educador deve o desenvolvimento do trabalho. E, nesse processo de intercâmbio,
garantir que os elementos ainda não contemplados sejam viven- os educandos são convidados a redescobrir, a revelar e a compar-
ciados pelo grupo; esse momento é finalizado com uma con- tilhar as suas vivências anteriores, que serão consideradas, respei-
versa sobre o conteúdo abordado (Nista-Piccolo, 1995, p. 118). tadas no processo educativo; são desafiados a experimentar e criar
novas possibilidades de ação, por meio da superação dos próprios
Essas três fases de uma mesma aula têm por objetivo es- limites. O educador vai configurando os parâmetros, os referenciais
timular a liberdade de expressão, a exploração e a descoberta de para conduzir a sua ação pedagógica em parceria com os alunos,
novas possibilidades de ação, favorecendo o desenvolvimento da que são vistos como sujeitos co-responsáveis e co-autores do pro-
criatividade e o intercâmbio de experiências entre os participantes cesso educativo. O depoimento de um integrante do Grupo
do processo educativo. Ginástico UNICAMP revela essa dimensão participativa e dialógica:
A proposta de trabalho do Grupo Ginástico UNICAMP (GGU) "O Grupo Ginástico UNICAMP tem o poder de fazer com que, en-
constitui uma outra referência básica e o seu procedimento meto- quanto todos estão aprendendo, todos estão ensinando" (Souza,
dológico pode ser dividido em duas partes: uma delas destinada 1997, p. 124).
ao aumento da interação social e a outra voltada à exploração de Outro aspecto relevante a ser destacado é o incentivo
todos os recursos que o material pedagógico pode proporcionar, irrestrito à utilização diversificada de materiais ou aparelhos. Tan-
podendo ser utilizados materiais tradicionais, como também ma- to aqueles tradicionais da ginástica ou característicos dos esportes,
teriais não tradicionais — bambus gigantes, engradados de refrige- quanto materiais denominados não tradicionais, são explorados
rante, pneus, jornais, tecidos, peneiras etc. (Pérez Gallardo e Souza, intensamente, a fim de promover a descoberta de novas possi-
1997, pp. 28-29). Em todas as fases do desenvolvimento da pro- bilidades de ação. Esse procedimento favorece a inventividade e
posta do GGU são considerados os seguintes aspectos: o incentivo e enriquece o contexto educativo, além de ampliar o leque de opções
a valorização da experiência e dos interesses pessoais, colocando-os de trabalho. Jornais, bexigas, tábuas, revistas, garrafas de plástico,

89
pedaços de isopor, entre tantos outros, podem tornar-se um rico devem ser ambíguos e complexos, abertos aos interesses e às experiên-
material pedagógico para o desenvolvimento das aulas de ginástica cias que os alunos adquiriram nas suas histórias de vida.
geral na escola.4
Abordando o tema da criatividade nas aulas de educação
física, TafFarel (1985) afirma que todo ser humano é potencialmen-
te criativo e que o processo da criatividade deve ser desenvolvido Lciiudis uu eiiMiiu ducuu: u ucsciivuiviiiicmu ud (.dpduuaue de
por meio de procedimentos específicos, intencional e objetivamente decisão e de ação. Para que tal desenvolvimento seja viabilizado, é
organizados. Ressalta, ainda, que muitos estudiosos do tema con- indispensável que a aula seja planejada e organizada de modo a
sideram fundamental para o desenvolvimento da criatividade a or- criar situações de ensino em que o aluno possa co-determinar com
ganização de "[...] um contexto que dê aos alunos a possibilidade base nas suas experiências anteriores. Isso quer dizer que o ensino
para que eles se aventurem, explorem, averigúem, expressem, des- aberto também está subordinado ao planejamento (Hildebrandt e
cubram e provem por si mesmos [...]" (Taffarel, 1985, p. 11). Sob Laging, 1986, pp. 15-17).
essa ótica, podemos evidenciar que os procedimentos sugeridos A importância do planejamento, subentendida nas pro-
em ambas as propostas oferecem um contexto propício para o de- postas anteriormente mencionadas, ganha um destaque especial
senvolvimento da criatividade. na concepção de "aulas abertas à experiência". Neste estudo, o
É importante sublinhar, ainda, o destaque conferido ao planejamento será considerado um princípio norteador essencial
trabalho em grupo, enfaticamente mencionado na proposta do GGU, para o desenvolvimento da GG na educação física escolar. Isso sig-
na qual a vivência da cooperação é uma das dimensões mais va- nifica que, planejar, organizar, pensar e repensar o contexto da aula
lorizadas. colocam-se como tarefas imprescindíveis para o educador que "não
Ao aprofundar a compreensão dos princípios que orien- considera os seus alunos tolos" e, portanto, valoriza as suas expe-
tam essas propostas, pude identificar que as mesmas se aproxi- riências e interesses e proporciona situações para o desenvolvi-
mam da concepção de "aulas abertas à experiência" no ensino da mento de sua capacidade de decisão e de ação; e para o educador
educação física, desenvolvida por Hildebrandt e Laging (1986) e que visa, sobretudo, à autonomia dos alunos, convocando-os para
pelo Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe-UFSM (1991), na qual a a co-responsabilidade (responsabilidade compartilhada) do proces-
experiência é tratada como uma categoria pedagógica do proces- so educativo. Segundo Freire (1997, p. 121), temos que ter clareza
so educativo.
de que "a autonomia [...] é processo, é vir a ser. Não ocorre em data
De acordo com o Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe- marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem
UFSM (1991, pp. 40-41), uma aula aberta pode ser entendida como que estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da
responsabilidade [...]". E, para que isso aconteça, a aula deve cons-
[...J aquela em que o professor admite que os educandos são pessoas que
tituir-se num espaço de diálogo em que os sujeitos do processo
sabem atuar juntas, que devem entender-se conjuntamente quanto ao
educativo (educadoras/educadores e educandas/educandos) possam
sentido das suas ações. Isto significa que os alunos podem apresentar
compartilhar experiências e tomar decisões conjuntas que venham
suas opiniões e realizar suas experiências, que resultam das suas
favorecer a construção do conhecimento e o desenvolvimento
histórias individuais da vida cotidiana. Por isso, os temas das aulas

90 91
mútuo em relação ao saber, ao ser e ao viver. E, se o diálogo "[...] menos a incompreensão entre professores e alunos abandonando sua
é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus própria tarefa onde ela é insubstituível: determinar uma arrancada
sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, levar a uma diferença de nível (Snyders, 1988, p. 219).
não pode reduzir-se a um ato de depositar idéias de um sujeito
no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem Portanto, a ação educativa é, sobretudo, um processo dia-
consumidas pelos permutantes" (Freire, 1987b, p. 79). lógico-cooperativo de "parceiras e parceiros culturais", sujeitos
Considerando, ainda, que "[...] ensinar não é transferir históricos em processo de parceria na construção de conhecimento.
conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria pro- Outro ponto importante que deve compor o conjunto de
dução ou a sua construção" (Freire, 1997, p. 52), o ato de ensinar, referenciais ou princípios norteadores para o desenvolvimento da
que supõe o de aprender, só pode ocorrer se houver diálogo, tro- ginástica geral na escola refere-se à consideração da GG como "um
ca. É por meio do diálogo que vão sendo planejados, organizados espaço aberto de ação".
e traçados os contextos educativos que conduzem à passagem da Esse aspecto foi tematizado pelo Grupo de Trabalho Pe-
"curiosidade ingênua" à "curiosidade epistemológica" (Freire, 1997). dagógico UFPe-llFSM (1991, pp. 35-38), especificamente em relação
Sob essa ótica, o papel do professor é essencial como ao conteúdo esportivo na educação física escolar. Ao tratar de uma
estimulador e orientador. O processo educativo na escola requer a compreensão pedagógica do esporte, os autores destacam duas
direção/orientação do educador. Abdicar disso seria favorecer o dimensões para o seu entendimento. Se, por um lado, o esporte
"laissez-faire", o abandono pedagógico. Entretanto, não se pode pode ser compreendido como um fato histórico-social, como um
existir diálogo no monólogo do professor, tampouco no monólogo campo de ação social concreto, com suas estruturas rígidas e pre-
do aluno. Só pode haver diálogo se existir troca, encontro... En- determinadas, por outro, ele pode ser "[...] entendido como um
contro entre "parceiros culturais", como ressalta Snyders (1988, p. espaço aberto de ação e de movimento, no qual os homens reali-
224): "Na minha escola, os alunos não se tornam iguais aos profes- zam suas idéias e necessidades e podem alterar criticamente o es-
sores, não lhes prometemos que eles serão iguais aos professores; porte existente" (Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe-UFSM, 1991,
mas eles não são subordinados, inferiores, a serem 'amestrados', p. 38; grifo meu). Indicam, ainda, cinco perspectivas para a confi-
nem irresponsáveis a serem mantidos em tutela continuamente". guração didática do esporte, tendo em vista o seu entendimento
Isso significa reconhecer que, sem renunciar ao seu papel, como um "espaço aberto de ação" e o desenvolvimento da capaci-
o professor precisa levar os alunos a sério, tratá-los com respeito e dade de decisão e de ação dos educandos: o esporte como algo,
fazê-los partilhar da alegria de conhecer. sodalmentej^gulamentado, o esporte como algo a gerj " '~
o esporte como algo a ser assistido, o esporte como algo a ser
É testemunhando-lhes uma confiança naquilo que já são que o pro- refletido e o esporte como algo a ser modificado. E ressaltam que
fessor os ajudará a progredir em relação à satisfação cultural escolar: "sõt> a vigilância critica da educação e, com o intuito de desenvol-
ousarão enfrentar o difícil; não se recusarem a si próprios, recusar ver a capacidade de ação, o esporte, na escola, não pode ser redu-
seus valores, mas elaborá-los, explicitá-los, elucidá-los para realizar zido a uma destas duas dimensões. Sua configuração, na escola,
saltos de ultrapassagem. A escola não resolverá o conflito ou pelo não pode ser limitada a uma destas perspectivas, como sucede,

92 93
infelizmente, no momento, na realidade da educação física esco- níveis cada vez mais profundos de compreensão. O trabalho es-
lar" (Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe-UFSM, 1991, p. 38). colar, seja na educação física ou em qualquer outra disciplina,
Essas considerações em relação ao esporte podem ser precisa demonstrar que o trabalhoso, o "difícil" do percurso, tinha
perfeitamente transferidas para a ginástica geral ou outros temas uma finalidade a ser conquistada: garantir a especificidade da
da cultura corporal. Isso quer dizer que as cinco perspectivas apon- "alegria na escola" (Snyders, 1988).
tadas por esses autores devem ser incorporadas no desenvolvimen- Foi acreditando na possibilidade de desenvolvermos uma
to da GG na educação física escolar. Poderíamos acrescentar, ainda, proposta de ginástica geral para a educação física escolar com base
uma outra perspectiva, intimamente relacionada com um dos as- nesses princípios norteadores que imaginamos um projeto de GG
pectos mais marcantes da GG, o seu forte caráter demonstrativo. para as escolas públicas de Campinas, com a certeza de que pode-
Ao considerarmos a ginástica geral como algo a ser de- ríamos colaborar para a sua difusão no âmbito escolar e, também,
monstrado, devemos estar atentos para que ela não seja vista apenas encontrar subsídios para a discussão de suas possibilidades de
como um "produto", desconectada de um processo. Ao contrário, desenvolvimento no ensino público brasileiro. Tomada a decisão,
essa perspectiva de demonstração da ginástica geral precisa ser iniciamos o "Segundo momento" da pesquisa de campo, o qual
tratada como parte integrante do processo educativo da GG na constitui-se num grande desafio.
educação física escolar. Mais ainda: no processo de elaboração de
uma composição coreográfica, devem ser privilegiadas as experiên-
cias e interesses dos alunos e o trabalho em grupo, estimulando a 3. A ginástica geral na escola - um grande desafio
cooperação, a capacidade de ação e a autonomia dos educandos
como sujeitos do processo educativo, para que possam compor Conforme mencionado no primeiro capítulo deste estudo,
em co-autoria com outros sujeitos, buscando novas interpretações, o projeto de ginástica geral nas escolas públicas de Campinas foi
novas leituras, novas significações antes desconhecidas. Além disso, desenvolvido durante o ano de 1996, em duas fases: a realização de
a demonstração das composições coreográficas nas próprias aulas um curso de GG para professores de educação física, de abril a ju-
de educação física pode constituir-se num importante momento nho, e o desenvolvimento de uma proposta de ginástica geral nas
avaliativo em que os alunos sintetizam e organizam as suas expe- aulas de educação física, durante o segundo semestre letivo.
riências e reflexões acerca da GG de forma criativa e com liberdade O projeto teve um ano de duração, desde o primeiro con-
de expressão, apresentando-as para apreciação de seus pares e do tato com as delegacias de ensino, em dezembro de 1995, até a reu-
professor. As apresentações em momentos comemorativos da es- nião final com as professoras e professores para avaliação geral do
cola, envolvendo as diversas turmas específicas ou grandes grupos trabalho desenvolvido, em dezembro de 1996. Nesse período mui-
de alunos de várias séries, também ganham um significado muito tas foram as barreiras que tivemos de transpor. Cientes das dificul-
especial, como uma possibilidade de demonstrar para a comuni- dades que iríamos encontrar para o desenvolvimento de um trabalho
dade escolar o trabalho desenvolvido na educação física. E tanto de ginástica geral no interior da escola, acreditamos nessa possibi-
melhor se as composições refletirem o processo de elaboração, lidade e o resultado foi bastante positivo para aqueles que se envol-
sistematização e organização do conhecimento com vistas a buscar veram efetivamente no projeto.

94 95
A sua divulgação foi feita prioritariamente nas escolas expectativas e objetivos em relação ao projeto como um todo.
públicas de Campinas, com o oferecimento de trinta vagas para os Essas informações foram imprescindíveis para adequarmos nossa
professores de educação física interessados. proposta de trabalho aos interesses do grupo e ao contexto de
A primeira barreira enfrentada foi conseguir ajuda efetiva atuação dos professores.
das delegacias de ensino para divulgar o projeto. Após algumas visi- Uma tônica nas declarações dos professores, tanto nos
tas às delegacias, definimos que a divulgação ficaria a cargo das questionários quanto em diferentes momentos do curso, foi a de
mesmas e que providenciaríamos as cartas-convite para serem dis- que estavam cansados de limitar as suas aulas ao esporte, "às ativi-
tribuídas em todas as escolas. As cartas foram entregues às delega- dades com bola". Cientes de que precisavam mudar esse quadro,
cias no mês de fevereiro, constando a data da primeira reunião com tinham como objetivo principal conhecer novas possibilidades de
os professores para o mês de abril (conforme Anexo 3). trabalho que pudessem enriquecer a sua atuação profissional.
Pelo que pude constatar, ocorreram falhas no processo de A maioria deles nunca tinha ouvido falar em ginástica ge-
divulgação. No primeiro encontro, dia 15 de abril, compareceram ral e raramente abordavam o conteúdo ginástica em suas aulas.
apenas quatro pessoas. Detectado o problema, procuramos solucioná- Quando o faziam era "com vistas à 'parte principal'" (Bracht, 1992,
lo com a ajuda dessas pessoas e, finalmente, no dia 29 de abril, inicia- p. 25), reforçando a idéia da ginástica apenas como sinônimo de
mos o curso com 21 participantes. exercícios físicos preparatórios, alongamento e/ou aquecimento.
Segundo os professores, esse tipo de problema é "normal", Além disso, os movimentos propostos tinham sempre o professor
acontece freqüentemente. Ora as delegacias de ensino, ora o setor como modelo a ser seguido. Uma visão restrita e preconceituosa em
administrativo das escolas (secretaria e diretoria), não veiculam as relação à ginástica, à qual me referi em páginas anteriores, predomi-
informações ou transmitem-nas após o prazo determinado. Consi- nava no grupo.
derando que o curso era gratuito, penso que isso colaborou direta- No decorrer do curso procuramos aprofundar a com-
mente para que não preenchêssemos as trinta vagas disponíveis. preensão da legitimidade da ginástica como conteúdo de ensino
Outra dificuldade foi organizar os dias e horários do curso da educação física escolar, ao lado de outros temas da cultura cor-
em comum acordo com os professores, de forma a atender a dispo- poral. A partir desse entendimento, passamos a abordar o signifi-
nibilidade de todos e, também, as possibilidades de utilização das cado da ginástica geral como o caminho mais apropriado para re-
dependências da FEF/UNICAMP. criarmos a ginástica na escola numa perspectiva de "confronto" e
Superados os entraves, demos início ao projeto, contando síntese e, também, numa perspectiva lúdica, criativa e participativa.
com a participação de um grupo bastante interessado, que procurou As atividades vivenciadas no curso foram baseadas, sobre-
superar obstáculos de ordem profissional e pessoal para participar tudo, nos seguintes temas: "brincando com o ritmo" (Nista-Piccolo,
das trinta horas de curso, inclusive aos sábados. 1992) — atividades rítmicas diversificadas com ou sem música;
Os questionários aplicados logo no início do curso (ver ginástica "construída" e ginástica "natural" (Pérez Gallardo, 1993),
Anexo 5) trouxeram informações importantes sobre a realidade das com exploração de inúmeras possibilidades de ação, com ou sem
escolas, o trabalho dos professores, as suas visões sobre ginástica, utilização de materiais; e elementos básicos da ginástica artística,
ginástica geral e educação física escolar, bem como sobre as suas como rolamentos, estrela e parada de mãos. Dentre tantas alter-

96 97
nativas, selecionamos esses temas levando em consideração a Nessa primeira fase do projeto, a participação dos pro-
sua relevância em termos de conhecimento e a sua possibilidade fessores foi muito intensa e proveitosa. Os professores eram co
de adequação à realidade de trabalho das professoras e professo- tantemente convidados a compartilhar suas diversas experiências
res. Sob essa ótica, procuramos desenvolvê-los por meio de ati- o que faziam com bastante entusiasmo, tornando as discussões
vidades que não necessitassem de espaço e recursos materiais mais ricas e profícuas.
sofisticados, mas que, ao contrário, pudessem ser desenvolvidas Aos poucos, o grupo foi acreditando na sua capacidade de
nos locais disponíveis e com materiais de fácil acesso. buscar alternativas para melhorar e ampliar o seu trabalho de educa-
Procedendo dessa forma, não pretendíamos fazer a apo- ção física na escola e foi descobrindo na ginástica geral uma dessas
logia do material "alternativo" como tábua de salvação para as pre- possibilidades. Motivados pelas discussões e vivências realizadas
cárias condições materiais da escola pública. Nossa intenção era, durante o curso, alguns deles já estavam desenvolvendo nas suas
tão somente, encontrar caminhos para que a ginástica geral pu- aulas de educação física algumas das atividades vivenciadas no curso,
desse começar a ser desenvolvida nas escolas desde já, independen- o que se constituiu numa referência importante para as reflexões.
temente de condições "ideais". Temos, sim, de desafiar as dificul- Finalizamos, então, essa etapa com a elaboração do tra-
dades por meio de nossa ação: de um lado, com o nosso trabalho balho a ser realizado no semestre seguinte, tendo como base um
e, de outro, com a nossa luta por melhores condições profissionais. roteiro para o desenvolvimento das aulas de ginástica geral (ver
Não podemos esperar "de braços cruzados" que a situação melhore Anexo 6). É importante salientar que esse roteiro serviu apenas
para depois começarmos a agir. como suporte e que os professores tiveram liberdade para organizar
A utilização de materiais não tradicionais 5 nas aulas de o seu trabalho de GG, considerando o contexto de sua escola. As
GG não impede, de forma alguma, que o professor continue mos- atividades sugeridas no roteiro tiveram como referência básica as
trando a importância e necessidade do material tradicional e lu- vivências desenvolvidas ao longo do curso de ginástica geral. Foram
tando pela sua aquisição. Além disso, consideramos o material não formados pequenos grupos para o planejamento conjunto das aulas
tradicional tão importante quanto o tradicional. A sua relevância de acordo com as séries escolhidas, a fim de possibilitar uma troca
está não em ser substituto, mas no seu próprio valor em termos de maior de experiências e enriquecer o processo de planejamento.
possibilidades de ação e de estímulo à criatividade. Reconhecer Os professores foram orientados a planejar quinze aulas de GG.
que uma garrafa de plástico, um pedaço de pano ou um saco plás- A segunda fase do projeto teve início em agosto com uma
tico podem ser materiais pedagógicos de grande valor para o de- primeira reunião para retomarmos as atividades. Estabelecemos,
senvolvimento de uma aula de ginástica geral não significa dizer então, a programação do semestre e foram sanadas algumas dúvi-
que uma bola oficial de GRD ou um tablado para GA sejam menos das em relação ao desenvolvimento da proposta. Foram entregues
relevantes. Nessa perspectiva, trabalhar por exemplo com jornal as fichas de plano de aula para os professores e agendamos as visi-
nas aulas de GG é uma experiência riquíssima e que deve ser propi- tas às escolas, assim como as reuniões do segundo semestre.
ciada, independentemente de estarmos numa escola com péssi- Nem todos os professores que acompanharam o curso
mas condições materiais ou numa escola que tenha um salão de no primeiro semestre retornaram para participar dessa nova fase,
ginástica perfeitamente equipado e com abundância de recursos. alegando dificuldades de horário. Dentre os 18 interessados em

98 99
continuar o projeto, 11 professores desenvolveram as aulas de importante do que as outras e, portanto, pode ceder o seu espaço
ginástica geral. Os demais alegaram que não foi possível realizar para que disciplinas mais "nobres" não sejam prejudicadas.
o trabalho por dois motivos principais: os campeonatos esporti- Retornando às aulas de ginástica geral ministradas pelos
vos entre as escolas estaduais, que ocorrem no segundo semestre professores, as mesmas foram desenvolvidas predominantemente
letivo e alteram muito a dinâmica das aulas; e o período eleito- com turmas de 5a a 8a série, mais precisamente no período de se-
ral, nos meses de outubro e novembro, no qual as escolas esta- tembro a novembro. A maioria das escolas ficam na periferia da
duais têm as aulas canceladas para a realização das eleições, di- cidade de Campinas e muito distantes umas das outras. A partir do
ficultando a reposição das aulas de Educação Física em função final de setembro, quando o trabalho já havia iniciado, foi realiza-
das avaliações finais das outras disciplinas. da pelo menos uma visita a cada escola para assistir às aulas de
Essas alegações dos professores podem remeter-nos a uma ginástica geral, as quais foram filmadas ou fotografadas. Esse con-
discussão mais geral sobre os espaços que a educação física vêm tato, mesmo breve, foi muito importante para conhecer os grupos
ocupando, ou não, na instituição escolar. e as condições de trabalho dos professores.
Quanto à primeira, mais uma vez fica evidente que o es- Durante todo o processo de implementação da proposta,
porte tem sido a prioridade na educação física escolar. Ao defen- especialmente nas reuniões mensais, foi possível compartilhar as
der o valor da ginástica geral como conhecimento a ser estudado diversas experiências, revelar as nossas conquistas e dificulda-
na escola, não pretendo descartar o esporte ou desvalorizar a sua des, para que, coletivamente, pudéssemos encontrar saídas para
importância como conteúdo de ensino, mas alertar para o grave enfrentá-las.
equívoco que estamos cometendo ao restringir a educação física A programação geral das aulas previa a elaboração final de
escolar à prática esportiva. Convém ressaltar, ainda, as pressões uma composição coreográfica de GG, em pequenos ou grandes gru-
que os professores sofrem por parte da direção da escola, e mes- pos, para ser apresentada à turma como conclusão do trabalho. Nem
mo dos alunos, para participar dos campeonatos e conquistar bons todos os professores cumpriram as quinze aulas planejadas e finali-
resultados. Muitas vezes, os professores são "obrigados" a treinar zaram o trabalho com as composições, alegando, igualmente, que
as equipes esportivas, inclusive nos horários de aula de educação os campeonatos inter-escolares e o período eleitoral dificultaram o
física. Diante disso, o professor precisa ter clareza do seu papel na desenvolvimento da proposta. Apesar disso, de acordo com as decla-
escola para poder argumentar em favor da importância da sua dis- rações dos professores e, pelo que pude observar nas visitas às es-
ciplina e da sua aula. A participação em campeonatos interescola- colas, houve um grande envolvimento dos alunos com o trabalho.
res pode ser muito positiva se estiver integrada a um projeto mais De início, quando os professores disseram que haveria
amplo da escola. Não é concebível prejudicarmos o desenvolvi- aula de ginástica, os alunos reclamaram, especialmente os meni-
mento das aulas de educação física, que é um direito de todos os nos, afirmando que "ginástica é coisa de menina" e que queriam
alunos, em função do calendário das competições ou, até mesmo, "jogar bola". As meninas, em geral, mostraram-se prontamente in-
para treinar as equipes competitivas da escola. teressadas. Isso revela a visão sexista de prática corporal existente
No que se refere ao segundo motivo, vemos reforçada a na sociedade e que, muitas vezes, é ainda mais reforçada pelos
idéia de que a aula de educação física na escola é considerada menos profissionais da educação física.

100 101
Essa relutância inicial exigiu muita firmeza dos profes- Vários professores ficaram surpresos com os resultados
sores para que, aos poucos e com muita persistência, lançassem obtidos, sendo que algumas turmas quiseram, inclusive, apresentar
mão de argumentos que convencessem os alunos a participar das as suas composições coreográficas nas festas de final de ano das
aulas de ginástica geral, que foram intercaladas com outras ativi- escolas, o que motivou intensamente a participação dos alunos.
dades, especialmente esportivas. Constataram, ainda, que as inúmeras questões discutidas
Segundo os professores, a mostra de vídeos sobre as ao longo de todo o projeto foram gradativamente incorporadas às
Gymnaestradas Mundiais e outros festivais de ginástica geral cola- suas ações. Isso pôde ser verificado nas reuniões mensais e nas
borou muito para despertar o interesse dos alunos. Numa das es- visitas às escolas, tanto pelas declarações dos professores quanto
colas, o Grupo Ginástico UNICAMP foi convidado para apresentar-se pelas observações das aulas.
durante uma festividade. De acordo com as declarações do profes- A importância do planejamento foi outro aspecto subli-
sor dessa escola, a apresentação do GGU teve repercussões muito nhado pelos professores como um elemento facilitador para o de-
positivas nas aulas de GG e na comunidade escolar como um todo, senvolvimento do trabalho. Alegaram que a organização prévia das
a qual nunca havia tido a oportunidade de assistir a um trabalho atividades favoreceu a condução das aulas, tornando mais fácil
dessa natureza. Isso reforça a importância de tratarmos os conteú- motivar os alunos para participar das atividades propostas. Essa
dos da educação física em suas várias perspectivas, conforme pro- constatação dos professores vem reafirmar o significado do plane-
posto pelo Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe-Ur-SM (1991, pp. jamento no processo educativo: ensinar exige planejamento, espe-
35-38). Assistir a apresentações de ginástica geral, seja por meio cialmente quando se intenciona desenvolver a capacidade de deci-
de vídeo ou ao vivo, é uma dimensão essencial para a compreen- são e de ação dos alunos. Na medida em que "ensinar não é trans-
são dessa atividade. ferir conhecimento", não há como conceber que um processo tão
No decorrer do trabalho, os professores observaram que complexo quanto o educativo prescinda de planejamento. Daí a
o interesse e a participação dos meninos foram aumentando, mas, nossa responsabilidade de planejar as nossas aulas, tendo como
mesmo assim, as meninas continuaram participando com maior compromisso fundamental o desenvolvimento dos nossos alunos,
entusiasmo, principalmente nas atividades com música. Ressalta- rumo à compreensão das inúmeras linguagens que fazem parte da
ram, ainda, que a utilização de materiais diversificados, como por cultura corporal.
exemplo corda, revista, jornal, bastão, toalha, bandeira, "pompom", Na reunião final para avaliação geral do trabalho desen-
colchão, garrafa de plástico, peteca, "pé de lata", pião, bola de bor- volvido no segundo semestre, realizada em dezembro, chegamos
racha e de meia, fita, arco, entre outros, constituiu-se num im- à conclusão de que, apesar das dificuldades enfrentadas, o resul-
portante estímulo para a criação de novas possibilidades de ex- tado do projeto como um todo foi muito positivo. Os professores
pressão gímnica. afirmaram que pretendiam retomar o trabalho com a GG no ano
Para satisfação de alguns professores, outras turmas passa- seguinte, pois acreditavam na sua relevância para a educação física
ram a se interessar pela GG e começaram a expandir o projeto para escolar. Expressaram, ainda, a sua satisfação em ter "comprovado
outras séries. Os professores afirmaram que alguns alunos chega- a teoria na prática", ou seja, em ter constatado que existe efetiva-
ram até mesmo a agradecer pelas novas oportunidades oferecidas. mente a possibilidade de se desenvolver um trabalho de ginástica

102 103
geral na sua escola. E enfatizaram que, para que isso ocorra, é cansados, cair no indiferentismo fatalistamente cínico que leva
preciso que o professor tenha persistência e não desanime ou ao cruzamento dos braços. 'Não há o que fazer' é o discurso aco-
desista diante dos inúmeros obstáculos que, seguramente, apare- modado que não podemos aceitar".
cerão. Dentre os quais a própria insegurança para trabalhar com Quero crer que, por sermos "[...] seres condicionados mas
a ginástica geral, uma vez que a abordagem desse tema tem sido não determinados" (Freire, 1997, p.21; grifos meus), sempre tere-
insuficiente nos cursos de formação profissional. mos desafios para enfrentar. Não podemos ceder à crença de que
Ressalto, ainda, que não podemos desconsiderar que "não há o que fazer" ou "cair no indiferentismo fatalistamente cínico
muitas vezes existe um sentimento de impotência dos professores que leva ao cruzamento dos braços". E foi com essa perspectiva de
perante as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia profissional. Sen- enfrentar desafios que as professoras e professores se dispuseram
tindo-se cada vez mais frustrados e descontentes com as condi- a participar deste projeto.
ções adversas que comprometem o seu trabalho, os professores As observações efetuadas durante toda a realização desta
não vislumbram caminhos para superar as dificuldades que, em se pesquisa, aliadas às considerações das professoras e professores
tratando da escola pública brasileira, não são poucas e demons- que com ela se envolveram intensamente, levam-me a crer que, a
tram a negligência do poder público para com a área da educação. despeito das condições adversas em que se encontra o ensino pú-
As mais freqüentes, segundo os professores desta pesquisa, são as blico e gratuito no Brasil, é possível e viável enfrentarmos o desafio
seguintes: ministram muitas aulas semanais para tentar suprir os de desenvolver a GG no atual contexto da escola pública brasileira
baixos salários, gerando sobrecarga de trabalho; elevado número na perspectiva que vem sendo enfocada neste estudo.
de alunos, de 35 a 45 por turma; escassez de material pedagógico; No entanto, não tenho dúvidas de que ainda levaremos
e falta de espaço ou ocupação inadequada. Embora a maioria das tempo para conseguir desenvolver um trabalho de ginástica geral
escolas tenha quadra esportiva, a sua utilização é muito conturbada: na escola em que as alunas e alunos sejam efetivamente respeita-
há choque de horário das aulas de educação física de diferentes dos como "parceiras e parceiros culturais", sejam estimulados a
turmas, de modo que os professores ficam, às vezes, com mais de aguçar a sua "curiosidade ingênua" para transformá-la em "curiosi-
oitenta alunos na quadra e, nessas condições, tentam desenvolver dade epistemológica", a desenvolver a sua capacidade de decisão
seu trabalho; além disso, quando ocorre ausência de professor, in- e ação, a sua autonomia, enfim, no qual as alunas e alunos sejam
dependentemente da disciplina, os alunos ocupam a quadra, atra- convidados a estudar, vivenciar, conhecer, compreender, perceber,
palhando o andamento da aula de educação física. confrontar, interpretar, problematizar, compartilhar, apreender as
Ao refletir sobre a luta das professoras e professores em inúmeras interpretações da ginástica para, com base nesse apren-
defesa dos seus direitos e da sua dignidade profissional como um dizado, buscar novos significados e criar novas possibilidades de
dos momentos importantes da prática docente, Freire (1997, p. expressão gímnica.
74) adverte que "um dos piores males que o poder público vem
fazendo a nós, no Brasil, historicamente, desde que a sociedade
brasileira foi criada, é o de fazer muitos de nós correr o risco de, a
custo de tanto descaso pela educação pública, existencialmente

104 105
Considerações finais
"SE MUITO VALE O JÁ FEITO, MAIS
VALE O QUE SERÁ..."

Ai de nós, educadores, se deixamos de sonhar sonhos pos-


síveis. (...)
A questão dos sonhos possíveis (...) tem que ver com a
educação libertadora enquanto prática utópica. Mas não
utópica no sentido do irrealizável; (...) Utópica no sentido
de que é esta uma prática que vive a unidade dialética,
dinâmica, entre a denúncia e o anúncio (...).
Paulo Freire*

No decorrer das páginas anteriores fui, primeiramente,


projetando a imagem da ginástica geral na sociedade contemporâ-
nea, procurando, de um lado, identificar significados que têm acom-
panhado a sua difusão e, de outro, conferir-lhe outros significados
que permitem potencializar o seu caráter "transformador". Num
segundo momento, partindo da consideração de que a ginástica
geral promove uma composição entre diversas manifestações da
ginástica que vêm se configurando ao longo desses dois últimos
séculos e reconhecendo-a como o caminho mais apropriado para
recriarmos a ginástica na escola numa perspectiva de "confronto"
e síntese e, também, numa perspectiva lúdica, criativa e partici-
pativa, imaginamos um projeto de ginástica geral para a educação
física escolar, dando ênfase ao ensino público brasileiro.
Chego ao final dessa trajetória de projeção da imagem da
ginástica geral e de imaginação de um projeto para a educação
física escolar com a certeza de que ainda temos muito o que fazer
para o desenvolvimento da ginástica geral no Brasil, particularmente

*(1989, pp. 99-100)

107
no âmbito da escola pública. Isso significa reconhecer que, "se muito p. 61),"[...] não se identifica, jamais, com a espera na pura espera. A
vale o já feito, mais vale o que será..."* verdadeira paciência, associada sempre à autêntica esperança, carac-
Acredito que o papel das universidades nesse sentido é teriza a atitude dos que sabem que, para fazer o impossível, é preciso
decisivo e indispensável. torná-lo possível. E a melhor maneira de tornar o impossível possí-
As inúmeras faculdades de educação física espalhadas por vel é realizar o possível de hoje".
todo o Brasil, como instituições responsáveis pela formação dos Todo o processo de realização desta pesquisa possibili-
profissionais que vão atuar na área, precisam arcar com a respon- tou-me aprender mais do que nunca que, a despeito das dificulda-
sabilidade de possibilitar que os seus alunos e alunas, futuros pro- des, temos que exercitar pacientemente a nossa crença na possibili-
fessores e professoras, terminem a graduação com os conhecimen- dade de mudança e a nossa convicção de que vale a pena persistir
tos necessários para desenvolver com segurança um trabalho de nos nossos projetos, alimentar a nossa esperança e perseguir os
ginástica geral, tanto no âmbito escolar quanto fora dele (em clu- nossos sonhos com determinação para torná-los possíveis. Preci-
bes, associações comunitárias, academias, prefeituras etc.). E, no samos aprender a lidar com as condições existentes no presente
que se refere à esfera de atuação profissional, também precisam para imaginar as possibilidades do futuro, para projetar sonhos
assumir o compromisso de criar projetos de extensão universitária possíveis e partir em busca da sua realização.
na área da GG que possibilitem a participação de professores já Para Freire (1989, p. 99), "[...] o critério da possibilidade
formados, prioritariamente aqueles que estejam atuando na rede ou impossibilidade dos sonhos é um critério histórico-social e não
pública de ensino. individual". Nesse sentido, a dimensão viável, possível do sonho,
Não tenho dúvidas de que ainda teremos muito trabalho tem a ver com os limites e as possibilidades a que estão con-
pela frente até que os cursos de graduação em educação física rea- dicionados pelo contexto histórico-social, os quais podem e de-
lizem efetivamente as suas responsabilidades e compromissos ou, vem ser desafiados e extrapolados por meio da nossa imaginação
mesmo, que a ginástica geral se torne um conhecimento a ser es- e da nossa ação. E repito, da nossa imaginação e da nossa ação.
tudado na educação física escolar. Mudanças não ocorrem "num Isso significa compreender que a concretização dos sonhos pos-
passe de mágica"; ao contrário, demandam tempo, persistência, síveis, especialmente na área da educação, depende fundamen-
trabalho coletivo. talmente da ação coletiva-cooperativa dos sujeitos compromis-
Por isso mesmo, precisamos "tirar o casaco para o futuro", sados com um projeto educativo transformador, da ação coletiva-
como lembra Freinet (1991, p. 95), e começar a agir desde já. Não cooperativa das pessoas que tecem o cotidiano escolar. A reali-
podemos simplesmente esperar que as mudanças venham até nós. zação dos nossos sonhos possíveis depende, igualmente, da nos-
Se é certo que "mudar é difícil mas é possível" (Freire, 1997, p. 88), sa capacidade de denúncia e de anúncio. Ao escrever sobre a edu-
não é menos correto que mudar é difícil, mas só é possível por meio cação como sonho possível, Freire (1989, p. 101) alerta-nos:"[...]ai
da ação e da verdadeira paciência que, de acordo com Freire (1987a, daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com a sua capaci-
dade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de
Da música O que foi feito deverá, de Milton Nascimento e Fernando anunciar. Ai daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez
Brant (Três Pontas/EM! MUSIC, 1980). em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com

108 109
o hoje, com o aqui e com o agora, ai daqueles que em lugar desta NOTAS DA INTRODUÇÃO
viagem constante ao amanhã, se atrelem a um passado de explo-
ração e de rotina".
Para conhecer detalhadamente a trajetória e concepção de trabalho
Finalizo este trabalho com a convicção de que precisa- do Grupo Ginástico UNICAMP, consultar Souza (1997, pp. 70-95).
mos "inventar a nossa coragem de anunciar" que o desenvolvimento Desde o início de 1997, estou afastada dos treinamentos do GGU devi-
da ginástica geral no Brasil, em especial na área da educação física do a compromissos profissionais.
escolar, é um sonho possível que devemos imaginar, um projeto É importante destacar que, no ano de 1997, foram publicados traba-
que podemos realizar. lhos significativos na área da ginástica geral no Brasil: em janeiro, a
Coletânea textos e sínteses do l e II Encontro de Cinástica Geral: Ayob, Sou-
za, Pérez Gallardo, 1997; e, em abril, a Tese de Doutorado da ProP.
Dra. Elizabeth Paoliello Machado de Souza: Ginástica Geral: uma área do
conhecimento da educação física (Souza, 1997).
Da música "O que foi feito devera", de Milton Nascimento e Fernando
Brant (Três Pontas/EMI MUSIC, 1980).

NOTAS DO CAPÍTULO l

Para maiores informações sobre esse evento, consultar o International


Gymnastik Festival — Alicante 1995 programa (Danske, 1995).
No Gymnaestrada Cuide: 10th World Gymnaestrada — Berlin 1995
(Fédération, 1995a), há informações conflitantes quanto ao número
de pessoas e países que participaram do evento: na p. 14, 19.542 pes-
soas de 36 países e na p. 41, 19.194 pessoas de 35 países.
Os estrangeiros que não falavam português foram entrevistados em
espanhol, inglês ou francês. O roteiro das entrevistas foi traduzido
nesses idiomas, com o intuito de facilitar a sua realização.
O programa do curso consta do Anexo 4.

NOTAS DO CAPÍTULO 2
1
A partir desses eventos foi publicada uma coletânea contendo a sínte-
se das discussões realizadas e textos sobre ginástica geral elaborados
pelos participantes dos encontros (Ayoub, Souza, Pérez Gallardo, 1997).

110 111
2
O "Grupo de Pesquisa em Ginástica Geral" é coordenado atualmente dês: a ginástica artística, a ginástica rítmica desportiva, a ginástica
pela Profa. Dra. Elizabeth P. M. de Souza e está cadastrado no CNPq aeróbica, o trampolim acrobático, a ginástica acrobática, a roda ginás-
desde 1994. tica e o tumbling.
9
3
Todas as citações da obra de Langlade e Langlade (1986) foram A principal fonte de consulta foi Huguenin (1981). Todas as citações
,-, traduzidas do espanhol. dessa obra foram traduzidas do inglês.
10
( y As "Lingíadas" foram festivais internacionais de ginástica organizados A FIG está subordinada ao Comitê Olímpico Internacional (COI) e tem
V/ na primeira metade do século XX pela Federação Sueca de Ginástica, sob sua responsabilidade as modalidades gímnicas que fazem parte
em homenagem a Per Henrik Ling, fundador da ginástica sueca. Essa das competições dos Jogos Olímpicos.
11
foi a primeira vez em que se implementou a idéia de realizar um festi- É importante reafirmar que os primeiros festivais de ginástica realmen-
val internacional de ginástica (Fédération, 1993, p. 5, item 4 —World te internacionais de que se tem notícia foram as "Lingíadas", realizadas
Gymnaestrada Participation Guidelines). no século XX. Porém, a ocorrência de festivais de ginástica em âmbito
5
Há informações conflitantes quanto ao ano de realização da segunda nacional (contando, por vezes, com a participação de convidados es-
"Lingíada": para Langlade e Langlade (1986, p. 20), foi em 1948; para trangeiros) é uma tradição na Europa desde o século XIX em países
Marinho (1981, p. 52) e Kramer, Lommen (1991, p. 20), foi em 1949. como a Suécia, Noruega, Áustria, Bélgica, Suíça e Alemanha (Fédération,
6
Os termos cultura corporal (utilizado por Coletivo de Autores, 1992) e 1993, p. 5, item 4 - World Gymnaestrada Participation Guidelines). Os
cultura de movimento ou cultura corporal de movimento (utilizados Deutsche Turnfeste realizados na Alemanha desde 1860 e as Esparta-
por Bracht, 1992 e 1996, respectivamente), dizem respeito ao con- quiadas Checoslovacas realizadas a partir de 1921 são exemplos de fes-
junto de práticas corporais que se tornaram patrimônio da humani- tivais nacionais de ginástica, cuja grandiosidade em termos de número
dade (como o jogo, a ginástica, a dança, o esporte, a luta etc.), as quais de participantes é muito expressiva. Sobre esse assunto, consultar Souza
foram sendo construídas pelo ser humano com determinados signifi- (1997, pp. 43-47).
12
cados conferidos pelos diferentes contextos histórico-culturais. Para obter maiores informações sobre a FIG, consultar o livro 7 W anni-
7
Os depoimentos foram traduzidos do inglês, francês e espanhol, com versaire: objectifan 2000 (Fédération, 1991) e Souza (1997, p. 29-33).
13
o cuidado de manter a maior fidedignidade possível em relação às de- Todas as publicações da Federação Internacional de Ginástica (Fédération)
clarações dos entrevistados. Dentre eles, destaco os seguintes nomes, utilizadas neste estudo estão escritas em outros idiomas. Dessa forma,
pela valiosa contribuição em relação à origem e panorama da ginástica as citações das obras da FIG foram traduzidas, ora do inglês, ora do
geral no mundo: os membros da FIG - o Prof. Jean Willisegger, da francês.
14
Suíça (presidente do Comitê Técnico de Ginástica Geral - CTCC, 1995), Na década de 1990, o CTCG organizou duas publicações de ginástica
o Prof. Giorgio Garufi, da Itália (vice-presidente do CTCC, 1995) e o geral: General Gymnastics manual (Fédération, 1993) e Manual training
Prof. Olof Kihlmark, da Suécia (membro da Comissão de Estudos de fo FIG: certificate instructors in generalgmnastics (Fédération, 1994).
15
Ginástica Geral, 1995); o Prof.Jürgen Dieckert, da Alemanha (presiden- Na pesquisa realizada por Souza (1997, p. 122), com professores de edu-
te da Federação Alemã de Ginástica - DTB, 1995); e os professores cação física que são integrantes ou ex-integrantes do Grupo Ginástico
brasileiros Carlos Roberto Alcântara de Rezende, de Minas Gerais e UNICAMP, o prazer e a alegria de praticar ginástica geral aparece em gran-
Fernando Augusto Brochado, de São Paulo, que são os principais res- de parte dos depoimentos (ao lado de outros motivos de realização
ponsáveis pelo início do processo de difusão da GG no Brasil. pessoal) como um dos aspectos mais positivos.
16
8
Os esportes ginásticos, formalizados e institucionalizados, são repre- A palavra Gymnaestrada é uma composição de dois termos: "gymna" -
sentados em nossos dias principalmente pelas seguintes modalida- relativo à ginástica - e "strada" - rua, caminho, estrada, palco. É entendida

112 113
como o espaço em que se apresenta o desenvolvimento atual e as ten- 24
Consultar Souza (1997, pp. 47-50) para maiores informações sobre a
dências na área da ginástica (Fédération, 1993, p. 6, item 4 - Cuide pour ginástica geral no continente americano e o movimento da "Gimnasiada
Ia participation à Ia Gymnaestrada Mondiale). Em resumo, Gymnaestrada Americana".
significa "estrada para a ginástica" (Huguenin, 1981, p. 56). 25
17 Para obter informações mais detalhadas a respeito dos acontecimen-
Para maiores informações sobre as Gymnaestradas, consultar Kramer,
tos que têm marcado a história da GG no Brasil, consultar Rezende
Lommen (1991), Fédération (1995a) e Souza (1997, pp. 38-42).
18 (1997) e Souza (1997, pp. 50-63).
Uma das palavras mais faladas na Gymnaestrada é "change" (do inglês). 25
Conforme mencionado na introdução deste estudo, consultar Souza
As trocas entre os participantes (especialmente de camisetas, agasalhos (1997, pp. 70-95) para conhecer toda a trajetória e proposta de traba-
e broches - "pins") já se tornou uma tradição que é muito valorizada e
lho do GGU.
incentivada pelos veteranos da Gymnaestrada. 27
19 Alguns elementos desse quadro foram discutidos no "I e II Encontro
A título de curiosidade, consultar o Anexo 8 sobre exemplos de mate-
de Ginástica Geral" realizado na Faculdade de Educação Física da UNICAMP
riais, aparelhos ou equipamentos utilizados nas diversas apresenta-
em 1996 (citado anteriormente).
20
ções observadas. V 28
Esses festivais têm sido organizados por inúmeras associações espa-
Consultar a instigante obra de Cavalcanti (1984) para conhecer uma
lhadas por todo o mundo (independentemente da FIG), algumas delas
visão crítica a respeito do movimento "Esporte para Todos".
21 até mesmo originadas no século XIX (como muitas existentes na Eu-
Essa Associação não é (e nem pretende ser) filiada à FIG pois, segundo
ropa), e também por escolas, clubes, prefeituras etc. Souza (1997,
o Prof. Holger Vestergaard (diretor de assuntos internacionais da DGI,
pp. 133-134) cita alguns exemplos.
1995), os seus objetivos vão numa direção totalmente diferente da 29
Consultar Souza (1997, p. 28) para obter informações a respeito dos
ginástica de competição que, de fato, é a prioridade da FIG. Diferen- "Elementos Constitutivos da Ginástica".
temente da DGI, que possui mais de l milhão e meio de associados
(quase um terço da população da Dinamarca), a Associação Dinamar-
quesa de Ginástica (DGF) é filiada à FIG e representa cerca de 110 mil
associados. A delegação dinamarquesa presente na "lOth World
NOTAS DO CAPÍTULO 3
Gymnaestrada — Berlin 1995", com mais de 700 integrantes, foi or-
1
ganizada pela DGF. Consultar Soares (1994, pp. 64-83) para maiores informações sobre o
22
A Confederação Brasileira de Ginástica está subordinada à Federação assunto.
2
Internacional de Ginástica e foi fundada em 1978. Antes dessa data, a Pelo que pude constatar nas entrevistas com os professores e dirigen-
tes estrangeiros, essa é uma realidade que se estende a muitos outros
CBG estava ligada à Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Seus
países, inclusive da Europa, "berço" dessa prática corporal.
objetivos são dirigir, difundir e incentivar o desenvolvimento da ginás- 3
Esses conceitos foram trabalhados no segundo capítulo deste estudo.
tica artística, da ginástica rítmica desportiva e da ginástica geral no 4
Conforme explicitado anteriormente, no Anexo 8 são exemplificados
Brasil (Souza, 1997, p. 52). inúmeros materiais, aparelhos ou equipamentos que têm sido utiliza-
23
As informações sobre esses cursos e festivais foram conseguidas na dos na Ginástica Geral.
5
entrevista realizada em 1996 com o Prof. Fernando Augusto Brocha- A opção pela denominação "material não tradicionaf ao invés de "mate-
do, docente na área de ginástica na Faculdade de Educação Física da rial alternativo" deve-se ao fato do termo "alternativo" estar geralmente
UNESP — Rio Claro. associado à idéia de improvisação, de "tapa-buraco", de que "qualquer
coisa serve", especialmente quando se trata da escola pública.
114
115
BIBLIOGRAFIA

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nova LDB" in Colégio brasileiro de ciências do esporte (org.),

120 121
Anexo l
ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO

Festivais

• características dos diferentes grupos presentes nos eventos: nú-


mero de participantes, faixa etária, gênero e condição física ou
técnica dos integrantes; formas ou estilos das apresentações;
materiais, equipamentos ou aparelhos utilizados, vestuário,
músicas etc.;
• "clima" do festival — todo o ambiente que envolve o evento,
em relação à sua organização e ao entrosamento entre os dife-
rentes grupos.

Dinamarca

• características gerais dos diferentes locais visitados em termos


de estrutura física e organização das atividades;
• características gerais das aulas de ginástica.

Observação: foram realizadas várias entrevistas com professo-


res e diretores, a fim de obter maiores informações a respeito
das instituições visitadas, assim como do sistema educacional
dinamarquês e da ginástica geral nesse contexto.

123
Anexo 2 2) Como é desenvolvido o trabalho com o seu grupo: onde, com
que freqüência, com base em quê etc.? Quais são os equipa-
ROTEIRO DAS ENTREVISTAS mentos, vestuário e música utilizados nas apresentações do seu
grupo?
3) Qual é o número total de participantes do seu grupo? Quais faixas
Para dirigentes
etárias?
4) De quais eventos de ginástica geral o seu grupo tem participado?
1) Qual é o seu nome? País a que pertence? Cargo que ocupa?
2) O que é a ginástica geral? Onde, como e por que surgiu? Quais as Para ginastas
suas principais características?
3) A ginástica geral é bem difundida no seu país? A ginástica geral é 1) Qual é o seu nome? Sua idade? A que grupo e país você pertence?
uma prática comum?
2) Há quanto tempo você pratica ginástica geral?
4) Onde a ginástica geral é (mais) praticada em seu país (clubes, 3) Por que você pratica ginástica geral?
escolas etc.)? Como a ginástica geral é desenvolvida nas escolas? 4) Onde você pratica e qual é a freqüência de treinamento do seu
5) Qual é o número total de participantes do seu país neste even- grupo?
to? Quantos grupos? Quais faixas etárias? Quantos homens e 5) Quantas vezes você já veio à Gymnaestrada? De quais outros even-
mulheres?
tos seu grupo participou?
6) Quais são os critérios para os grupos participarem deste evento? 6) O que você está achando da Gymnaestrada?
Há alguma ajuda financeira aos participantes (patrocínio)?
7) De quais eventos mundiais de ginástica geral o seu país tem par- Observação: esse roteiro foi traduzido para o espanhol, inglês e
ticipado?
francês com o intuito de facilitar a realização das entrevistas.
8) Como e com que freqüência são realizados eventos de ginástica
geral em seu país?
9) Como é abordada a ginástica geral nas universidades?

Para professores de grupos

Observação: iniciei as entrevistas com perguntas específicas do


grupo orientado pelo professor, passando em seguida (depen-
dendo da disponibilidade) para as perguntas gerais feitas aos
dirigentes.

1) Qual é o seu nome? País a que pertence? Grupo que orienta?

124
125
Anexo 3 ticulares, para que possamos dar encaminhamento ao trabalho que
pretendemos desenvolver ao longo do ano de 1996.
CARTA-CONVITE AOS PROFESSORES Os professores de educação física interessados em parti-
cipar deverão comparecer no dia 15 de abril, às 16 horas, na Facul-
[Julguei pertinente deixar a carta na sua forma original, já
dade de Educação Física da UNICAMP, para um primeiro encontro,
que é um documento que foi apresentado a professores que parti-
ciparam do projeto.] no qual serão esclarecidas as questões que envolvem o desenvolvi-
mento deste projeto.
Haverá duas etapas básicas: 1) curso de ginástica geral
Campinas, 20 de fevereiro de 1996
durante o primeiro semestre letivo, com 30 horas de duração (to-
talmente gratuito), o qual será realizado todas as 2as feiras, das
l a DELEGACIA DE ENSINO DE CAMPINAS
16:00 às 18:00 horas, na Faculdade de Educação Física da UNICAMP e
Professora Regina Helena Lombardo Perez - Delegada
de Ensino 2) desenvolvimento de uma proposta de ginástica geral nas esco-
las durante o segundo semestre letivo. O número de vagas para a
participação no projeto é limitado (30 vagas).
Vimos, por meio desta, convidar os professores de edu-
cação física da rede pública de ensino da cidade de Campinas para
participar de um projeto de implementação de uma proposta de
Agradecemos antecipadamente a sua atenção.
ginástica geral para a educação física escolar.
Em linhas gerais, este projeto faz parte de um estudo
que vem sendo desenvolvido na Faculdade de Educação Física da
Prof3. Dra. Vilma Lení Nista-Piccolo
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP a respeito da ginástica
Faculdade de Educação Física/UNicAMp
geral e suas possibilidades de desenvolvimento no contexto da
Prof. Ms. Eliana Ayoub
educação física escolar e tem como objetivos:
Doutoranda na FEF/UNICAMP
• contribuir para a melhoria da qualidade de ensino da
educação física escolar, a partir de uma proposta de ginástica geral;
• propiciar aos professores a possibilidade de conhecer a
ginástica geral e refletir sobre as suas possibilidades de desen-
volvimento no atual contexto da educação física escolar, conside-
rando a realidade que o professor encontra na sua atuação cotidiana;
• promover um intercâmbio de experiências entre pro-
fessores de diferentes escolas.
Para tanto, gostaríamos de solicitar a essa Delegacia de
Ensino que seja divulgado este convite nas escolas estaduais e par-

126
127
Dinâmica
Anexo 4 • o curso será desenvolvido por meio de atividades individuais e
PROGRAMA DO CURSO DE GINÁSTICA GERAL em grupo, tomando como referência para as reflexões os textos
propostos para estudo, as atividades vivenciadas e as experiências
docentes dos professores.
Ementa: A ginástica geral no contexto da educação física escolar
Bibliografia
Programa AYOUB, E. "A ginástica geral: um fenômeno sócio-cultural em ex-
• a educação física escolar: princípios pedagógicos; pansão no Brasil", 1996, mimeo, 9 pp.
• a ginástica geral: origem, características e suas possibilidades BRACHT, V. Educação física e aprendizagem social. Porto Alegre:
de desenvolvimento na instituição escolar; Magister, 1992, p. 122.
• princípios norteadores para o desenvolvimento de uma proposta COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São
de ginástica geral na educação física escolar; Paulo: Cortez, 1992.
• diferentes manifestações da ginástica (ginástica "construída", FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE GYMNASTIQUE (FIG). 1ffh World Gymnaestrada
ginástica "natural", ginástica artística, ginástica rítmica despor- — Berlin 1995. Moutier, Suíça, 1995, vídeo.
tiva, ginástica acrobática, entre outras); . Gymnastique Générale. Moutier, Suíça, [199-].
• "Brincando com o ritmo": atividades rítmicas diversificadas com
e sem música; FREINET, C. Pedagogia do bom senso. 3a ed. São Paulo: Martins
• elaboração e apresentação de composições coreográficas: o pro- Fontes, 1991.
cesso de elaboração (escolha do tema, música, material, vestuário FREIRE, P. "Educação: o sonho possível", in C. R. Brandão (org.). O edu-
etc.); organização da apresentação: entrada, saída, duração etc. cador: vida e morte. 9a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989, pp. 89-101.
LANGLADE, A. e LANGLADE, N. R. Teoria general de Ia gimnasia. 2a ed.
Objetivos Buenos Aires, Argentina: Editorial Stadium, 1986.
• propiciar aos professores a possibilidade de conhecer a ginástica MARCELLINO, N. C. Pedagogia da animação. Campinas: Papirus, 1990.
geral e refletir sobre as suas possibilidades de desenvolvimento NISTA, V. L. Manual de ginástica olímpica. Araçatuba: Leme, 1980.
no atual contexto da educação física escolar, considerando a reali-
NISTA-PICCOLO, V. L. "A educação motora na escola: uma proposta meto-
dade que o professor encontra na sua atuação cotidiana;
dológica à luz da experiência vivida", in a. De Marco (org.), Pen-
• promover um intercâmbio de experiências entre professores de
sando a educação motora. Campinas: Papirus, 1995, pp. 113-20.
diferentes escolas;
• elaborar um planejamento para o desenvolvimento da ginástica . "Brincando com o ritmo". Revista Brasileira de Ciências do
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129
128
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1993, pp. 117-36.
SOARES, C. L. Educação física: raízes européias e Brasil. Campinas:
Autores Associados, 1994. Questionário l

I. Dados pessoais:

1) Nome:
2) Data de nascimento:
3) Endereço:
4) Telefone para contato:
5) Curso superior (local e data de formação):
6) Experiência profissional na área:

II. Dados sobre o trabalho, a escola e a comunidade local:

1) Escola onde trabalha atualmente e vai desenvolver a proposta


de ginástica geral (nome, bairro, telefone, delegacia de ensino a
que pertence):
2) Características gerais da escola (número total de alunos, período
de funcionamento, estrutura física e material, corpo docente,
diretoria etc.):
3) Quantas horas semanais de trabalho:
4) Há quanto tempo trabalha nessa escola e com quais séries:
5) Número de alunos por turma:
6) Características gerais dos alunos e da comunidade local (nível
sócio-econômico, características do bairro etc.):

130 131
Questionário 2 Anexo 6
Nome: ROTEIRO PARA o DESENVOLVIMENTO DAS AULAS
1) Quais são as suas expectativas em relação ao curso e ao projeto
como um todo? 1a AULA: apresentação da GG; vivência de ginástica geral com ênfase
2) Qual o significado da educação física na instituição escolar? nos gestos específicos do ser humano (ginástica "natural"), sem
3) O que é ginástica? material e sem música;
4) Como você trabalha o conteúdo ginástica nas suas aulas?
5) O que você conhece sobre ginástica geral? 2- AULA: vivência de ginástica geral com ênfase nos gestos ou exer-
cícios "construídos" pelo ser humano (ginástica "construída"), com
música;

3a AULA: vivência de ginástica geral com ênfase nos gestos específi-


cos do ser humano (ginástica "natural"), com um material e com
música; exploração em diferentes grupos;

4a AULA: vivência de ginástica geral com ênfase nos gestos ou exer-


cícios "construídos" pelo ser humano (ginástica "construída"), com
o mesmo material da aula anterior e com música;

5a AULA: vivência de ginástica geral, combinando a ginástica "natural"


e a ginástica "construída", com diferentes materiais, em estações;

& AULA: vivência de ginástica geral, combinando a ginástica "natural"


e a ginástica "construída", com diferentes materiais, em estações;

7- AULA: "Brincando com o ritmo", sem música;

8a AULA: "Brincando com o ritmo", com música;

9- AULA: soma de frases gestuais;

10a e 11a AULAS: ginástica artística;

132

..
133
12a AULA: formação de pequenos grupos para elaboração de com- Anexo 7
posições coreográficas: escolha do tema, material, música etc.;
FlCHA DE PLANO DE AULA
a a
13 e 14 AULAS: elaboração das composições coreográficas e
lapidação;

15a AULA: apresentação das composições coreográficas para a classe.

N° DE ALUNOS:

AULA DATA PLANO DE AULA OBSERVAÇÕES

134 135
Anexo 8
EXEMPLOS DE MATERIAIS, EQUIPAMENTOS
OU APARELHOS UTILIZADOS NAS DIVERSAS
APRESENTAÇÕES OBSERVADAS DURANTE A
"10™ WORLD GYMNAESTRADA — BERLIN 1995"
Título Ginástica geral e educação física escolar
l. Materiais, equipamentos ou aparelhos característicos das mo-
Autor EHanaAyoub
dalidades gímnicas competitivas: colchões, plintos, cavalos para
salto, cavalos com alças, barras paralelas, barras fixas, argolas, Equipe técnica
minitrampolins, duplos minitrampolins, trampolins acrobáticos, Ana Paula Gomes
Supervisora de produção
traves de equilíbrio, rodas ginásticas, arcos, fitas, bolas, cordas, Preparação dos originais Patrícia Santos de Arnellas
maças e step-, Revisão Grazia Maria Quagliara
Michel Fauza
2.Outros materiais, equipamentos ou aparelhos: mesa Secretário gráfico Ednilson Tristão
para saltos, cubos e triângulos de espuma, minicama elástica, Editoração eletrônica Rossana Cristina Barbosa
Designer de capa Luciana Fujii
colchonetes, banco sueco, cadeiras de roda (para deficientes), Formato 14,5 x 20,5 cm
panos e lenços (de inúmeras formas e tamanhos), toalhas, Papel Offset 75 g/m 2 - miolo
pára-quedas, fitas (com larguras e comprimentos variados), Cartão Supremo 250 g/m 2 - capa
Tipologia Amerigo BT
bolas (diferentes tamanhos, de tênis e de outros esportes, de Número de páginas 138
plástico, de jornal etc.), bandeiras, cordas (grandes, pequenas, Laser filme Editora da UNICAMP
elásticas), bastões, jornais, revistas, sacos de plástico e de
estopa, leques, baldes, latas, vassouras, bonecos gigantes,
bambus gigantes, chocalhos de latas de refrigerante, tambores Editora da UNICAMP Caixa Postal 6074
Cidade Universitária Barão Geraldo
e tamboretes, direção de carros, máscaras de oxigênio, CEP 13083-892 Campinas - SP - Brasil
lanternas, túneis confeccionados com arame e tecido, figuras Tel./Fax: (19) 3788-7235/7786
geométricas de isopor (triângulos, círculos e quadrados), arcos www.editora.unicamp.br vendas@editora.unicamp.br

preenchidos com tecidos, patins, chapéus, discos de plástico,


guarda-chuvas e guarda-sóis, engradados de refrigerante,
bexigas, cadeiras, "pompons", escadas, câmaras de pneu,
cometas de plástico, bóias, pernas de pau, skate, rodas de
borracha etc.

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