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Recalque versus inveja: beijinho no ombro

Recalque versus inveja: beijinho no ombro


Repression versus envy: a little kiss on the shoulder
Fernanda Nunes Macedo

Resumo
As palavras, por mais que saibamos sua etimologia e das circunstâncias de seus usos, possuem
um aspecto que encontramos no interior da própria linguagem: a produção de sentidos. Sendo
assim, elas se destacam de sua origem e significam, por vezes, opostos, como é possível per-
ceber no bordão “beijinho no ombro pro recalque passar longe”, criado pelos autores Vianna,
Vieira e Pardal (2013) na música brasileira Beijinho no ombro. O presente estudo tem como
propósito apresentar as diferenças de conceitos de dois termos que têm sido frequentemente
vinculados como sinônimos: recalque e inveja.

Palavras-chave: Psicanálise, Recalque, Inveja.

Considerações iniciais zem esses termos como forma de caricaturar


Quem nunca ouviu pessoas conhecidas ou o outro.
até desconhecidas nas ruas, nas redes sociais A proposta do presente artigo é fazer um
e nos programas de entretenimento dizendo levantamento teórico das diferenças con-
enfaticamente “sai, recalcada” ou fazendo ceituais dos termos citados, para que assim
referência ao bordão da música criada por fique possível visualizar o caminho que tem
Vianna, Vieira e Pardal (2013) ao beijar o levado a sociedade a criar conexões de sinô-
próprio ombro e dizer “beijinho no ombro nimos.
pro recalque passar longe”?
É possível perceber que de forma abrup- Recalque
ta os termos “recalque” e “recalcado(a)” co- Desde o princípio de seus estudos e investi-
meçaram a ser usados de modo frequente e gações, Freud se preocupou em entender a
usual. Parece que em questão de dias grande formação e o funcionamento dos mecanis-
parte da sociedade começou a entender da mos de defesa do aparelho psíquico tanto
teoria do campo clínico, que tem como foco para a neurose quanto para a psicose: ver-
o estudo da psique humana. No entanto, a drängung (recalque) para a neurose e verwer-
escuta mais detalhada permite observar que fung (foraclusão) para a psicose (KUSNET-
esses termos comumente verbalizados pela ZOFF, 1982). Cabe salientar, que o segundo
população não se assemelham ao conceito conceito não é foco deste estudo.
proposto pelos grandes pensadores da psica- Verdrängung é considerado o primeiro
nálise. O que se percebe é uma reprodução mecanismo de defesa investigado por Freud
em massa de bordões citados em novelas e e serve como modelo para a construção de
músicas que ganharam espaço na mídia e outros mecanismos de defesa mais comple-
nas redes sociais. Quase que de um dia para xos. Na fase inicial de suas investigações,
o outro o conceito de recalque ficou atrelado trabalhando com a neurose histérica, Freud
ao de inveja e, dessa forma, é comum obser- estava preocupado em entender os mecanis-
var a multiplicação de pessoas que reprodu- mos que poderiam explicar os esquecimen-
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tos. Freud atribuía a autoria desse conceito a recalca os desejos inaceitáveis, as ideias ator-
ele próprio, mas em 1914, quando publicou mentadoras, que não se poderiam admitir no
A história do movimento psicanalítico, reco- salão visível da consciência (SCHLACHTER;
nheceu que a ideia já havia sido pensada pelo BEIVIDAS, 2010).
filósofo Arthur Schopenhauer, na obra apre- O sujeito utiliza-se do recalque para man-
sentada a Freud por Otto Rank, O mundo ter fora da vista da consciência o que ela não
como vontade e como representação (ROU- poderia ver, para que ela sequer suspeite da
DINESCO; PLON, 1998). presença dos habitantes do seu inconsciente.
A teoria psicanalítica explica que o recal- O guardião é um porteiro inconsciente, cujo
que é o processo automático que mantém papel tende à boa ordem, à paz e ao equi-
fora da consciência, impulsos, ideias ou sen- líbrio da consciência, mas cuja função de
timentos inaceitáveis, os quais não podem censor é recalcar no inconsciente para que
se tornar conscientes através da evocação permaneçam aí, sem exame e fora da vista da
voluntária. O recalque é um dos mais im- consciência, tendências às quais a consciên-
portantes mecanismos de defesa do ego e é cia não pede razões (SCHLACHTER; BEI-
utilizado desde os primeiros anos de vida VIDAS, 2010).
para protegê-lo da angústia originada dos Freud ([1915] 1996) considera que a fun-
conflitos psíquicos. É um mecanismo de de- ção do recalque consiste em manter os de-
fesa básico e precede a maioria dos outros, sejos inadmissíveis impedidos de passar do
os quais, em geral, funcionam como reforços sistema inconsciente para o pré-consciente.
ou adjuntos, quando o recalque é incompleto Ao manter esses desejos no campo do in-
(LEITE, 2009). consciente, o sujeito nem sabe que os possui
Descrevem-se três momentos do recal- ou os carrega.
que. O primário consiste na perpetuação no O guardião não é um sábio que renun-
inconsciente de material que nunca foi cons- ciaria à realização de desejos considerados
ciente, como os impulsos não organizados utópicos, perigosos, imorais, sem valor: o
do id e as primitivas experiências infantis, recalque não é a renúncia; é uma tentativa
por exemplo, o próprio nascimento. O se- de salvação, de defesa. Observando a pre-
cundário é a expulsão automática da cons- missa de que o material recalcado perma-
ciência de conteúdos do ego, que não podem nece no aparelho psíquico, o retorno desse
ser conservados dentro dos limites do pré- material do inconsciente para o consciente
consciente sem ser uma ameaça para a inte- poderá ocorrer de forma disfarçada, através
gridade do sujeito. E, por último, o retorno dos atos falhos, sonhos, chistes e sintomas
do recalcado, onde o material estará, a todo o (SCHLACHTER; BEIVIDAS, 2010).
momento, tentando encontrar um caminho Freud ([1915] 1996) afirma que a força do
que possibilite o retorno à consciência (LEI- recalque exige um gasto de energia constan-
TE, 2009). te, uma vez que o material recalcado exerce
O segundo momento do recalque explana pressão contínua para se tornar consciente.
que nem todas as tendências e desejos que Através desse duelo ocasionado pela existên-
nos habitam são admitidos à consciência cia da censura, que impede a manifestação
clara – os que não o são têm o inconsciente consciente das ideias e desejos recalcados, é
como seu lugar natural. O material incons- que surgem os sintomas, que aparecem como
ciente é primitivo e permanece assim por- substitutos de algo que foi afastado pelo me-
que é intolerável ao eu consciente. É possível canismo de defesa.
considerar que dentro de cada sujeito existe A análise tem como intuito trabalhar as
um guardião responsável por velar a entrada resistências que tentam manter fora da cons-
do salão onde está sediada a consciência. Ele ciência as representações tidas como amea-

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çadoras. As ideias ou os impulsos desagradá- lhação são projetados para um sujeito que o
veis são não apenas expulsos da consciência indivíduo não considera estar ao seu nível,
como também forçados a permanecer fora. por isso não tem direito a ter aquilo que este
O analista deve ajudar o analisando a trazer não tem (TRINCA, 2009).
esse material para o consciente, a fim de en- Klein (1991) considera que a pessoa inve-
frentá-lo e interpretar seus significados (LEI- josa é insaciável, pois o sentimento de inve-
TE, 2009). ja brota de dentro e sempre encontra novos
focos de desejo, sendo assim incapaz de ser
Inveja satisfeito.
A visão psicanalítica defende que a inveja
é um impulso causado pelo ódio, que já se Recalque versus inveja
encontra presente no indivíduo desde a mais Apesar da conceituação explanada, o termo
tenra infância. A inveja é o ódio que afeta recalque se tornou popular e vinculado ao
o homem de tal modo que ele se entristece sentimento de inveja. A inveja é uma anti-
com a felicidade de outro e se alegra com o ga conhecida da nossa cultura, e parece que
mal do outro. Geralmente, ela diz respeito ao agora ela surge em todas as ilustrações das
desejo de possuir ou gozar do que é possuído redes sociais, nas brincadeiras entre amigos
por outrem (TRINCA, 2009). e, é claro, na tradicional provocação alheia;
Para Klein (1991) a inveja é o sentimen- só que com um nome teoricamente novo –
to raivoso que um sujeito nutre ao perceber recalque – para descrever um padrão com-
que outra pessoa possui e desfruta de algo portamental conhecido de todos.
que ele deseja, e o impulso invejoso é tomar É importante entender, entre outros as-
ou estragar esse objeto de desejo. O aspecto pectos, que o conceito de recalque define um
destrutivo está sempre presente na inveja e, mecanismo através do qual o indivíduo tenta
para a teoria kleiniana, os impulsos destru- eliminar do seu consciente representações
tivos operam desde o começo da vida – na que considera inaceitáveis. É um processo
relação do bebê com o seio. ativo no qual o indivíduo tenta manter no
Segundo Trinca (2009) a inveja cria im- nível do inconsciente as emoções, os dese-
pulsos negativos que têm como intenção jos, as lembranças ou os afetos passíveis de
destruir ou se apoderar dos bens de outra entrar em conflito com a visão que o sujeito
pessoa, para acalmar uma pulsão de morte tem de si mesmo ou na sua relação com o
do sujeito. A inveja tem por substrato o ódio mundo. A inveja, em contrapartida, envolve
consciente ou inconsciente do indivíduo vol- o sentimento que o sujeito nutre pela outra
tado contra si mesmo por causa de lacunas, pessoa, desejando possuir algo que pertence
falhas ou faltas que se tornam insuportáveis ao outro, a quem ele julga desmerecedor de
na comparação com outras pessoas. Ainda tal objeto (FREUD, [1915] 1996).
conforme o autor, a inveja é a intensificação
do ódio, podendo assim ser considerada um Considerações finais
sentimento. Esse sentimento é intensificado “Keep calm e deixa de recalque” é um tre-
quando o indivíduo se sente desestabilizado cho da música Beijinho no ombro. Ao enten-
devido a um complexo de inferioridade em der que o trecho citado solicita que se tenha
relação a um ou mais indivíduos. calma e deixe de recalque, percebemos uma
O indivíduo se culpa por se sentir infe- indiferenciação entre a proposta dos termos
rior e fantasia com aquilo que lhe faz falta. recalque e inveja. Com isso, podemos con-
Acredita ser merecedor daquilo que fantasia, cluir que alguns termos têm sido alvo de ar-
e quando a realidade não lhe proporciona o tifícios que repercutem na produção de no-
que ele sente ser merecido, o ódio e a humi- vos sentidos para as palavras e têm gerado

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a popularização de conceitos. O recalque foi Abstract


reconhecido, mas não no sentido habitual da The words, however we know the etiology and
abordagem psicanalítica, que o distingue de the circumstances of their use possess an as-
inveja. pect which we find inside the language itself:
O crescimento da disseminação instan- the production of meaning. So, many words
tânea de ideias e bordões pelas redes sociais stand out from its origin and present new di-
faz com que se aumente drasticamente a rections, sometimes opposed to the first one. As
reprodução de novas noções sem que haja we can see in the catchphrase “a little kiss on
ponderações críticas. A sociedade atual per- the shoulder to move away from repression” by
cebe o ato de reproduzir como uma forma de the authors Vianna, Vieira and Pardal (2013)
produção e dentro desse contexto frases cita- in the brazilian song “A little kiss on the shoul-
das em músicas, seriados, novelas e revistas der”. This study aims to present the differences
ganham espaço e reconhecimento, e o valor in concepts of two terms that have often been
psicanalítico dos termos se perde por meio linked as synonyms: repression and envy.
da produção baseada no senso comum.
Dessa forma, é possível pensar que o tre- Keywords: Psychoanalysis, Repression, Envy.
cho da música Beijinho no ombro, populari-
zado na voz da cantora de funk Valeska Po-
puzada, que se tornou conhecida pelo bor- Referências
dão “beijinho no ombro pro recalque passar
longe”, poderia, do ponto de vista psicanalíti-
co, ser escrito de outra forma, já que o recal- FREUD, S. Repressão (1915). In: _______. A história
que é algo que passa tão longe que o próprio do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicolo-
gia e outros trabalhos. Direção-geral da tradução de
sujeito desconhece. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição
eletrônica brasileira das obras psicológicas completas
Beijinho no ombro de Sigmund Freud, 14). [CD-ROM Versão 2.0].

Desejo a todas inimigas vida longa KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-
1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba KUSNETZOFF, J. C. Introdução à psicopatologia psi-
Aqui dois papos não se cria e nem faz história canalítica. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
LEITE, S. Angústia, recalque e foraclusão: algumas
Acredito em Deus e faço ele de escudo notas para a clínica. Psicanálise & Barroco em revista,
v. 7, n. 1, p. 209-218, jul. 2009. Disponível em: <http://
Late mais alto que daqui eu não te escuto www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revis-
Do camarote quase não dá pra te ver tas/13/P&Brev13Leite.pdf>. Acesso em: 04 jul. 2014.
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicaná-
Não sou covarde, já tô pronta pro combate lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Keep Calm e deixa de recalque SCHLACHTER, L; BEIVIDAS, W. Recalque, rejeição,
O meu sensor de periguete explodiu denegação: modulações subjetivas do querer, do crer
Pega sua inveja e vai pra… e do saber. Ágora, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, dez. 2010.
(Rala sua mandada) Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pi-
d=S1516-14982010000200005&script=sci_arttext>.
Acesso em: 10 jul. 2014.
Beijinho no ombro pro recalque passar longe
Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão TRINCA, W. O sistema mental determinante da in-
Beijinho no ombro só quem fecha com o bonde veja. Revista brasileira de psicanálise, São Paulo, v.
Beijinho no ombro só quem tem disposição 43, n. 3, set. 2009. Disponível em: <http://pepsic.

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Recalque versus inveja: beijinho no ombro

bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S-
0486-641X2009000300006>. Acesso em: 01 jul. 2014.

VIANNA, W; VIEIRA, A; PARDAL, L. Beijinho no


ombro, 2013. Disponível em: <http://letras.mus.br/
valeska-popozuda/beijinho-no-ombro>. Acesso em:
15 out. 2014.

Recebido em: 16/10/2014


Aprovado em: 21/10/2014

S obr e a au tor a

Fernanda Nunes Macedo


Especialista em psicologia organizacional.
Membro candidato à formação em psicanálise
pelo Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS).

Endereço para correspondência


Rua José Seabra Batista, 255, ap. 603 - Jardins.
49025-750 - Aracaju - SE
Fone: (79) 9992-2725
E-mail: <fernandanunesmacedo@hotmail.com>

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