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A noção de acontecimento jurídico: apontamentos conceituais Edigar dos Santos Carvalho

A noção de acontecimento jurídico:

apontamentos conceituais

Edigar dos Santos Carvalho

Para começarmos

Para começarmos Este trabalho procura desenvolver a noção de acontecimento jurídico no campo da análise de

Este trabalho procura desenvolver a noção de

acontecimento jurídico no campo da análise de discurso. A

noção foi pensada para indicar, no funcionamento

discursivo, o apagamento da posição-sujeito de contra- identificação com a forma-sujeito dominante no interior de

uma Formação Discursiva (FD). Diferente do acontecimento

enunciativo proposto por Indursky (2008), que marca o

surgimento da posição-sujeito de contra-identificação no

interior de uma FD, a formulação acontecimento jurídico

funciona para apontar o processo de apagamento da posição-sujeito, sobretudo, em acontecimentos discursivos instaurados via Legislativo e Judiciário.

Para compreendermos a formulação de acontecimento jurídico, retomamos as análises e os resultados de um

Para compreendermos a formulação de acontecimento

jurídico, retomamos as análises e os resultados de um

estudo discursivo (CARVALHO, 2019), realizado sobre as práticas discursivas do Ministério da Saúde (MS) no enfrentamento ao tabagismo no Brasil. A pesquisa se

fundamentou nos princípios metodológicos da análise de

discurso fundada por Michel Pêcheux, e teve como corpus discursivo para análise, especialmente, as materialidades linguísticas e visuais das campanhas do Dia Mundial

sem Tabaco e do Dia Nacional de Combate ao Fumo que são os principais eventos políticos de combate ao tabagismo em território nacional.

Análises e Discussão

Análises e Discussão A Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996, produziu um acontecimento

A Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996, produziu um

acontecimento discursivo , isto é, um “ponto de encontro

de uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, [1983]

2008, p.17), capaz de estabelecer rupturas ideológicas na conjuntura social (em nosso caso no que concerne às liberdades mercadológicas do tabaco no país), ao

reorganizar, evocando pela memória, saberes dispersos

(leis, decretos, portarias e resoluções) que foram produzidos sobre os limites, proibições e regulações em torno da prática tabagista em nosso país.

Essa Lei criou cisões nas práticas discursivas tabagistas dominantes no país, pois cerceou os espaços

Essa Lei criou cisões nas práticas discursivas tabagistas

dominantes no país, pois cerceou os espaços de consumo

do tabaco e limitou a publicidade de seus derivados.

Essa tomada de posição do governo marcou uma nova fase da política brasileira no enfrentamento do tabaco, já

que rompia, naquele contexto, com as liberdades das

práticas discursivas de promoção do tabagismo, produzindo deslocamentos e reconfigurações nos

processos discursivos de constituição das formações

discursivas que atravessavam o discurso tabagista no Brasil.

SD[01]

SD[01] Art. 2° É proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro

Art. 2° É proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo, privado ou público, salvo em área destinada exclusivamente a esse fim, devidamente isolada e com arejamento conveniente. (Lei Federal nº

9.294/1996)

Ampliando essa discussão sobre acontecimento discursivo, Indursky (2008, p.28) propõe uma diferença entre acontecimento

Ampliando essa discussão sobre acontecimento

discursivo, Indursky (2008, p.28) propõe uma diferença

entre acontecimento discursivo e acontecimento enunciativo. De acordo com o entendimento da autora, o acontecimento discursivo determina o surgimento de

uma nova forma-sujeito e, por conseguinte, de uma nova

Já o acontecimento enunciativo

implica apenas a instauração de uma nova posição-

formação discursiva [

]

sujeito no interior de uma mesma FD.

SD [02] Art. 2 o É proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou

SD [02] Art. 2 o É proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo fechado, privado ou público. (Redação dada pela Lei nº 12.546, de 2011, designada de Lei Antifumo , atualizando a Lei Federal nº 9.294/1996). Fica excluída a sequência discursiva salvo em área

destinada exclusivamente a esse fim, devidamente

isolada e com arejamento conveniente .

A designada Lei Antifumo, de 2011, se caracteriza por uma tomada de posição de restrição

A designada Lei Antifumo, de 2011, se caracteriza por

uma tomada de posição de restrição à fumaça do tabaco

nos lugares de uso coletivo, já que ela põe fim aos fumódromos. Essa posição-sujeito se filia às posições ideológicas da forma-sujeito dominante da FD

Antitabagista, espaço de produção de sentidos e projeção

das determinações capitalistas da luta ideológica do movimento antitabagismo no Brasil.

Esse tipo de modificação da Lei, que marca uma tomada de posição-sujeito mais rigorosa e

Esse tipo de modificação da Lei, que marca uma tomada

de posição-sujeito mais rigorosa e restritiva em relação aos discursos antitabagismo, silenciando posições-

sujeitos contrárias ou conflitantes à forma-sujeito

dominante da FD antitabagista (instaurada pela Lei de 1996), foi denominada, no estudo discursivo, de

acontecimento jurídico.

O acontecimento jurídico é uma noção pensada a partir da designação fato jurídico trabalhada por

O acontecimento jurídico é uma noção pensada a partir da designação fato jurídico trabalhada por Pereira ([1961], 2011). Para o autor, o fato jurídico se caracteriza

pela ocorrência simultânea de um evento e uma declaração

do ordenamento jurídico. A partir dos apontamentos do autor, podemos compreender que, sendo o fato jurídico a conjugação de uma eventualidade com um preceito

legal, o dispositivo jurídico, conhecido como Lei Antifumo,

que proíbe os sujeitos de fumarem em espaços fechados de uso coletivo, fica em estado de potencialidade, isto é, à

espera de que um sujeito realize um ato ilícito (fumar em

espaços coletivo fechado), contra a ordem jurídica, para

que, então, seja produzido um fato jurídico.

Em nosso entendimento, a designada Lei Antifumo é um acontecimento jurídico que marca uma posição-

Em nosso entendimento, a designada Lei Antifumo é

um acontecimento jurídico que marca uma posição-

sujeito no interior de uma FD. Essa Lei de 2011 recupera, pelos processos parafrásticos, um memorável

de discursos jurídicos e reformula-os pelos processos

polissêmicos, estabelecendo uma nova tomada de

posição atravessada pelas filiações ideológicas, que determinam a constituição da forma-sujeito dominante

da FD Antitabagista.

Além do mais, a Lei de 2011 não funciona como um acontecimento discursivo novo, tampouco

Além do mais, a Lei de 2011 não funciona como um

acontecimento discursivo novo, tampouco se revela uma

tomada de posição contrária a dominância da forma-sujeito

da FD Antitabagista, para configurar o que Indursky (2008)

tem designado de acontecimento enunciativo, que marca

uma contra-identificação do sujeito com a posição-sujeito dominante no seio da FD, ela se mantém presa a forma-

sujeito dominante da FD.

Em nosso caso, não temos uma contra-identificação marcada por um acontecimento enunciativo, pois não foi

Em nosso caso, não temos uma contra-identificação

marcada por um acontecimento enunciativo, pois não foi

uma posição-sujeito que surgiu para confrontar a

posição-dominante; pelo contrário, nos deparamos com a sobreposição da posição-sujeito intolerante e

dominante à posição-sujeito tolerante à prática

tabagista. Em outros termos, era a presença da posição- sujeito de tolerância ao fumódromo que marcava a

contra-identificação na constituição do acontecimento

discursivo, configurando, portanto, o acontecimento enunciativo proposto por Indursky (2008).

Nesse funcionamento discursivo da Lei de 2011 também não convém falarmos de desidentificação, pois, como

Nesse funcionamento discursivo da Lei de 2011 também

não convém falarmos de desidentificação, pois, como

lembra Indursky (2008), isso levaria a instaurar uma

nova forma-sujeito e, consequentemente, outra FD, o que não ocorre nesse caso, pois o que se percebe é o

agravamento do discurso antitabagismo que expande as

determinações da forma-sujeito dominante no interior da FD Antitabagista, enquanto apaga internamente as

posições-sujeito em conflito. Esse alargamento dos

sentidos suplanta a posição-sujeito a favor do fumódromo, pois não tolera mais o discurso conflituoso que constituía os saberes da FD.

Para finalizar

Para finalizar Compreender o funcionamento discursivo da noção de acontecimento jurídico favoreceu a análise dos

Compreender o funcionamento discursivo da noção de

acontecimento jurídico favoreceu a análise dos processos de expansão das determinações da forma-sujeito dominante em uma dada FD, enquanto as posições-

sujeito em conflito, que constituem os saberes de uma

dada FD, são recalcadas. Desse modo, este estudo nos apontou como a atualização de saberes de uma FD pode

suplantar as posições de resistência que produzem

conflitos na identificação de sujeitos com a forma-sujeito dominante.

Referencial Bibliográfico

Referencial Bibliográfico CARVALHO, Edigar dos Santos. Fumar mata: um estudo do funcionamento discursivo das campanhas

CARVALHO, Edigar dos Santos. Fumar mata: um estudo do funcionamento discursivo das campanhas antitabagismo do Ministério da Saúde (1997 a 2017). Tese (Doutorado) Universidade Federal de

Pernambuco. Centro de Artes e Comunicação. Programa de Pós-Graduação em

Letras Recife, 2019. 289f.

INDURSKY, Freda. Unicidade, desdobramento, fragmentação: a trajetória da noção de sujeito em Análise do Discurso: In: MITTMANN, Solange; GRIGOLETTO, Evandra; CAZARIN, Ercília Ana. (Orgs.) Práticas discursivas e identitárias: sujeito e língua. Porto Alegre: Nova Prova,

PPG-Letras/UFRGS, 2008.

PÊCHEUX, Michel [1983] O discurso: estrutura ou acontecimento.

Tradução Eni Puccinelli Orlandi. 5ª ed. Campinas, SP, Pontes Editores,

2008.

PEREIRA, Caio Mário da Silva. [1961] Instituições de direito civil. Vol. I.

Introdução ao direito civil: teoria geral do direito civil 24ª. ed. - Rio de Janeiro,

Editora Forense, 2011.