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O 1998 by Arquivo Nacional

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CEP 20230-170 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

Presidente da R e p ú b l i c a
Fernando Henrique Cardoso

Ministro da J u s t i ç a
J o s é Renan Vasconcelos Calheiros

Dlretor-Geral do Arquivo Nacional


Jaime Antunes da Silva

Editora
Maria do Carmo T. Rainho

Conselho Editorial
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de Oliveira, Nilda Sampaio Barbosa, Sílvia Ninita de Moura E s t e v ã o , Verone G o n ç a l v e s Cauville
Conselho Consultivo
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Solange Z ú n i g a

Projeto G r á f i c o
A n d r é Villas Boas

E d i t o r a ç ã o E l e t r ô n i c a , Capa e I l u s t r a ç ã o
Qisele Teixeira de Souza
Revisão
Alba Gisele Qouget, J o s é C l á u d i o da Silveira Mattar, J o s é Ivan Calou Filho e T â n i a Maria Cuba
Bittencourt

Resumos
Carlos Peixoto de Castro, Flávia Roncarati Gomes e J o s é C l á u d i o da Silveira Mattar ( v e r s ã o em
i n g l ê s ) e Flávia Roncarati Gomes e Léa Porto de Abreu Novaes ( v e r s ã o em f r a n c ê s )
Reprodução Fotográfica
Agnaldo Neves Santos, C í c e r o Bispo, Flavio Ferreira Lopes e Marcello Lago
Secretaria
Jeane D'Arc Cordeiro

Acervo: revista do Arquivo nacional. —


v. 10, n. 2 (jul./dez. 1997). — Rio de Janeiro: Arquivo
nacional. 1998.
v.; 26 cm

Semestral
Cada número possui um tema distinto
ISSn 0102-700-X

1. Imigraçáo - Brasil - I. Arquivo nacional

CDD 323-1
Ministério da J u s t i ç a
Arquivo Nacional

ACERVO
R E V I S T A D O A R Q U I V O N A C I O N A L

RIO DE JANEIRO, V.10, NÚMERO 02, JULHO/DEZEMBRO 1997


S U M Á R I O

01

Apresentação

03
Bastidores
U m outro olhar sobre a i m i g r a ç ã o no R i o de Janeiro

Lená Medeiros de Menezes

17
Camisas-Verdes
O integralismo no S u l do Brasil •

Carla Brandalise

37
O U n i v e r s o do T r a b a l h o do Imigrante em Itu - S P ( 1 8 7 6 - 1 9 3 0 )
Maria Antonieta de Toledo Ribeiro Bastos
53
"Proverbial H o s p i t a l i d a d e " ?
A Revista Jc Imigração e Colonização c o discurso oficial sobre o imigrante ( 1 9 4 5 -
1955)

Elena Pájaro Peres

71
"Inimigos M a s c a r a d o s com o T í t u l o de C i d a d ã o s "
A v i g i l â n c i a c o controle sobre os portugueses no R i o de Janeiro do Primeiro Reinado

Qladys Sabina Ribeiro

97
I m i g r a ç ã o Portuguesa e M o v i m e n t o O p e r á r i o no B r a s i l
Fontes c arquivos de Lisboa

Fernando Teixeira da Silva

109
Portugueses no B r a s i l
I m a g i n á r i o social c t á t i c a s cotidianas ( 1 8 8 0 - 1 8 9 5 )
Maria Manuela R. de Sousa Silva
119
A ç o n a n o s e M a d eirenses no S u l do B r a s i l
Walter F. Piazza

129
A C r i a ç ã o do E s t r a n h a m e n t o e a C o n s t r u ç ã o do E s p a ç o Público
Os japoneses no Estado Novo

Adriano Luiz Duarte

147
L i t e r a t u r a de I m i g r a ç ã o
M e m ó r i a s dc uma diáspora

Maria Luiza Tucci Carneiro

165
I m i g r a ç ã o A l e m ã e C o n s t r u ç ã o do E s t a d o N a c i o n a l Brasileiro
R i o Grande do S u l , s é c u l o

Helga Iracema Landgraf Piccolo

179
Breves R e f l e x õ e s Sohre o P r o h l e m a da I m i g r a ç ã o U r b a n a
O caso dos e s p a n h ó i s no R i o dc Janeiro ( 1 8 8 0 - 1 9 1 4 )
Lúcia Maria Paschoal Q u i m a r ã e s
199
M u l t i p l i c i d a d e É t n i c a no l \ i o de J a n e i r o
U m estudo sobre o 'Saara'

Paula Ribeiro

213
Perfil Institucional
M e m o r i a l do Imigrante
Marco Antônio Xavier
219
Perfil Institucional
M u seu e A r q u i v o H i s t ó r i c o M u n i c i p a l de C a x i a s do S u l
Juventino Dal Bó

223
Fontes para E s t u d o s da E n t r a d a de Estrangeiros e de Imigrantes no B r a s i l

229
Bibliografia
A P R E S E N T A Ç Ã O

Como afirma Boris Fausto, a imigração Tentando contribuir para divulgar o que
tardou a constituir um campo específico vem sendo produzido nas universidades
da pesquisa a c a d ê m i c a . Durante muito e centros de pesquisa sobre imigração,
tempo — podemos dizer, a t é meados da esse n ú m e r o da Acervo traz 13 artigos,
d é c a d a de 1960 — era objeto apenas de além de dedicar a seção Perfil Institucional
grandes i n t e r p r e t a ç õ e s s o c i o l ó g i c a s , a entidades que se destacam pela riqueza
destacando-se as obras de Roger Bastide de seus acervos como o Memorial do
e Florestan Fernandes. Imigrante e o Museu e Arquivo Histórico
Municipal de Caxias do Sul. Para finalizar,
A partir dos trabalhos dos brazilianistas
a p r e s e n t a u m r o t e i r o dos núcleos
que, ainda segundo Fausto, se relacionam
documentais custodiados pelo Arquivo
com o desenvolvimento de estudos sobre
nacional, de interesse para o tema.
etnias nos Estados Unidos, o tema da
imigração passa a constituir-se em objeto Abre esse n ú m e r o , o texto da professora
de análise não subordinado. Lená Medeiros de Menezes que utiliza os

Dentre os estudos desenvolvidos por processos de expulsão de imigrantes para

pesquisadores brasileiros, chama a e s t u d a r as formas de i m p o s i ç ã o da

a t e n ç ã o o de J o s é de Souza Martins que, disciplina no e s p a ç o urbano do Rio de

a partir da d é c a d a de 1970, toma a Janeiro, durante a Primeira República.

imigração como objeto central, A seguir, C a r l a B r a n d a l i s e a n a l i s a a


analisando n ã o apenas as r e l a ç õ e s de inserção do movimento integralista no Rio
p r o d u ç ã o pós-escravistas, como t a m b é m Qrande do Sul na d é c a d a de 1930 e a sua
os o b s t á c u l o s e i m p o s s i b i l i d a d e s de a t u a ç ã o nas á r e a s ocupadas por colonos
a s c e n s ã o social dos imigrantes pobres. a l e m ã e s e italianos.
Atualmente, a imigração é tema
O artigo da geógrafa Maria Antonieta de
recorrente nos trabalhos de historiadores,
Toledo Ribeiro Bastos traça um perfil dos
a n t r o p ó l o g o s e sociólogos, que ampliam
trabalhadores imigrantes em Itu, entre
o e s p a ç o geográfico enfocado — o qual
1876 e 1930, em particular os italianos
centrou-se, por muito tempo, em S ã o
que dedicaram-se, em grande parte, ao
Paulo, Rio de Janeiro e Rio Qrande do Sul
trabalho agrícola.
—, e incorporam novas abordagens como
as n o ç õ e s de etnicidade e pluralismo Elena Pájaro Peres analisa a
cultural. regulamentação do movimento
imigratório no Brasil, a partir da Revista eliminar f i s i c a m e n t e os chamados
de Imigração e Colonização que circulou 'derrotistas'.
entre 1940 e 1955 e visava e s b o ç a r as
A literatura de imigração, especialmente
características do imigrante desejável.
y aquela produzida por imigrantes judeus
T r ê s a r t i g o s e n f o c a m os i m i g r a n t e s que se refugiaram do nazismo no Brasil,
portugueses no Brasil: o de Qladys Sabina nas d é c a d a s de 1930 e 1940, é o tema da
Ribeiro analisa a vigilância e o controle professora Maria Luiza Tucci Carneiro que
que sofreram durante o Primeiro Reinado; analisa o conteúdo dessas obras e o perfil
o texto de Fernando Teixeira da Silva dos seus autores.
aponta as possibilidades de pesquisa
O processo de imigração alemã para o Rio
sobre a relação entre movimento operário
Qrande do Sul durante o século XIX é o
e imigração portuguesa, nas três
p r i m e i r a s d é c a d a s do s é c u l o XX, em tema de tlelga Iracema Landgraf Piccolo,

Santos; e, finalmente, o artigo de Maria onde se destaca o pequeno proprietário

Manuela R. de Sousa e Silva aborda as imigrante como fiel da balança, na relação

t e n s õ e s existentes na r e l a ç ã o entre entre o governo imperial e os grandes

brasileiros e portugueses a partir de senhores de terra, muitos deles escravistas.

enfrentamentos cotidianos ocorridos no Os e s p a n h ó i s n ã o foram esquecidos pela


Rio de Janeiro, no final do século XIX. Acervo e e s t ã o presentes no artigo de
Walter Piazza trabalha a história da vinda Lúcia Maria Paschoal G u i m a r ã e s que,
de imigrantes a ç o r i a n o s e madeirenses tendo como e s p a ç o o Rio de Janeiro na
para o sul do Brasil no século XVIII, suas virada do século XIX, pretende demonstrar
bases sociais e políticas, e os resultados que a emigração urbana se constituiu num
desse movimento migratório. fator concorrente da mão-de-obra
nacional, especialmente aquela que fora
Os imigrantes japoneses durante o Estado
liberada pela abolição.
Movo s ã o o objeto do texto de Adriano Luiz
Duarte. Esses imigrantes, com o fim da Fecha este n ú m e r o o texto de Paula
Segunda Guerra, dividiram-se em dois Ribeiro que parte dos r e l a t o s dos
grupos: aqueles que não acreditavam na imigrantes sírios e libaneses c r i s t ã o s ,
derrota japonesa e os que, conformados judeus sefaradim e seus descendentes,
com a situação, desejavam esquecê-la. É para traçar um perfil desses homens que,
interessante destacar os dados que o desde fins do século XIX, t ê m - s e dedicado
autor apresenta sobre a Shindô-Remmei, ao comércio de armarinhos e de g ê n e r o s
o r g a n i z a ç ã o que t i n h a por o b j e t i v o alimentícios.

Maria do Carmo T. Rainho


Editora
Lená Medeiros de Menezes
Professora Adjunta
do Departamento de História da UERJ. Doutora em História Social.

. . B a s t i d o r e s

U m outro oUiar sotre a imigração no


R i o cie J a n e i r o

A
pós residir 38 anos na bre a defesa da ordem e da segu-
cidade do Rio de Janei- rança nacional, a prática da expul-
ro, Manuel Real, portu- V s ã o representou uma das faces da
g u ê s , analfabeto, solteiro, padeiro excludência implantada pelo regi-
por profissão, mas sem residência fixa, foi me republicano: aquela que atingia os es-
expulso do Brasil como mendigo incorri- trangeiros pobres, transformados em al-
gível, regressando à terra natal, com 64 vos das políticas de higiene social e n t ã o
anos, apenas com a roupa do corpo. Mui- desenvolvidas, numa cidade que conhe-
to mais brasileiro que português, foi obri- cia um tempo de m u d a n ç a s visíveis no ser,
gado a voltar à Europa, de onde saíra com no fazer, no sentir e no estar. Tempo mar-
a idade de 26 anos, para enterrar, em cado por luzes e sombras, fugas e bus-
outro solo que n ã o o brasileiro, a falên- cas, por distanciamentos profundos en-
cia de seus sonhos, expectativas e espe- tre o discurso legal, que contemplava pos-
1
ranças. tulados liberais, e as práticas políticas au-
toritárias do cotidiano, enraizadas n u m a
História de vida como a de Manuel Real
mentalidade escravista e latifundiá-
não foi um caso isolado na capital brasi-
ria.
leira, ao longo de seu t ã o aclamado pro-
cesso civilizatório. Além do discurso so- lio processo de imigração em massa que

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2, pp. 0 3 - 1 6 , Jul/dez 1997 - pág.3


marcou a virada do século, a proclama- tado, em muito, da r e p r e s e n t a ç ã o ideali-
ção e a consolidação da república brasi- zada de m ã o - d e - o b r a superior, promoto-
leira corresponderam à terceira^ onda dos ra do progresso, que compunha os dis-
movimentos m i g r a t ó r i o s que do Velho cursos imigrantistas na é p o c a imperial.
Mundo atingiram a América. Esta onda, Com pouco conhecimento dos códigos ur-
diferente das anteriores, caracterizou-se banos, precária qualificação profissional
pelo êxodo em massa das á r e a s agrícolas e ausência de laços familiares na nova ter-
da Europa mediterrânea, que e n t ã o co- ra, muitos desses estrangeiros compuse-
nhecia a acelerada d e s e s t r u t u r a ç ã o da ram um proletariado miserável, fornecen-
comunidade camponesa tradicional, fia do grandes contingentes ao lumpesinato
cidade do Rio de Janeiro, ela represen- existente na cidade.
tou o afluxo predominante de indivíduos 2
Sobras do arranjo social nos países de
pobres provenientes dos campos do nor-
origem, grande parte deles permaneceu
te e noroeste de Portugal, com destaque
à margem dos benefícios trazidos pelo
para o Minho, Douro e Trás-os-Montes, se-
progresso, numa cidade que conhecia a
guindo-se as á r e a s rurais da Espanha,
carestia, o déficit habitacional e um mer-
principalmente da Qaliza, e as províncias
cado de trabalho m a g m á t i c o , marcado
m e r i d i o n a i s de C o z e n z a , S a l e r n o e
pela superexploração, baixos salários, lon-
Potenza, na Itália.
gas jornadas e desemprego recorrente. Essa
De acordo com os registros existentes, o conjugação perversa tornou-os objetos pri-
imigrante pobre que chegou ao Rio de Ja- vilegiados da ação disciplinar conduzida
neiro, pobre tendeu a permanecer, afas- pelas elites; alvos destacados da vigilância

Manuel Real em 1928. Fotografias Integrantes d o seu processo de expulsão. Arquivo Nacional.

p á g . A, j u l / d e z 1997
V o

policial e das leis de expulsão. Benaneti tinha 62 anos quando foi expul-
so em 1929 como vadio. Era solteiro,
Como em outras cidades do mundo influ-
analfabeto, carroceiro e havia entrado no
enciadas pela Europa, a história do Rio
país em 1922, j á com idade a v a n ç a d a .
de Janeiro, début de siècle, foi marcada
Segundo o depoimento por ele prestado,
pela importação de produtos e bens, ho-
chegara ao Rio de Janeiro vindo de San-
mens e mulheres, usos e costumes, faze-
tos, onde um acidente, ocorrido em 1925,
res e lazeres, crimes e c o n t r a v e n ç õ e s ,
o impossibilitara de continuar trabalhan-
valores e visões de mundo.
do, razão pela qual, sozinho e sem alter-
Civilizar a cidade, neste contexto de mu-
nativas de trabalho, lançou-se à mendi-
dança, foi um processo que caminhou em 3
cância.
dois sentidos principais. Em primeiro lu-
natural de uma pequena freguesia do dis-
gar, no da criação de um e s p a ç o moder-
trito de Braga, A. Cardoso tinha 25 anos
no, racional e funcional, em que os ne-
quando foi obrigado a voltar para Portu-
gócios encontraram um lugar especializa-
gal, 12 anos depois de chegar ao Brasil,
do e privilegiado para florescer, distanci-
aos 13 anos de idade, junto com os pais.
ado dos becos e ruelas tradicionais. Em
R e c é m - c h e g a d o , empregou-se em uma
segundo lugar, no sentido dó
fábrica de louças no bairro de São Cristó-
desencadeamento de uma proposta de
vão, onde trabalhou por algum tempo,
a d a p t a ç ã o da p o p u l a ç ã o urbana aos
sendo colocado na rua logo depois da fa-
c â n o n e s de um novo viver, através de sua
mília ter retornado a Portugal. Só e de-
s u b m i s s ã o a um código legal que, con-
samparado, viu-se numa "situação finan-
traposto ao popular, criminalizou compor-
ceira deplorável", segundo as declarações
tamentos tradicionais, atingindo forte-
que prestou, no ano de 1922, com 17
mente os estrangeiros, num modelo- de
anos, preso e processado, acusado de fe-
república que passou a utilizar a
rir um companheiro em a r r u a ç a s de rua,
alteridade como instrumento de constru-
foi recolhido à Casa de Detenção. Influ-
ção artificial da identidade nacional, prin-
enciado pelos nouos amigos que lá co-
cipalmente nos anos que precederam e
nheceu, não mais procurou emprego ao
se seguiram à Primeira Querra Mundial.
deixar a prisão, passando a viver exclusi-
Várias histórias de vida contadas nos pro- vamente do produto dos furtos que prati-
cessos de expulsão exemplificam bem as cava. Processado várias outras vezes, foi
dificuldades encontradas por centenas de c o n d e n a d o a d o i s anos em c o l ô n i a
imigrantes pobres no Rio de Janeiro, ao correcional situada no interior do estado.
tempo da Belle Époque, como as que Preso novamente, ao passar o conto-do-
c o m p õ e m os processos de H. Benanan, uigário em um patrício, de quem furtou
A. Cardoso, A. Santos e J . M. Melo: setecentos mil réis em moeda brasileira
e oitocentos escudos portugueses, aca-
F r a n c ê s de T ú n i s , H. Benanan ou A.

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 0 3 - 1 6 . j u l / d e z 1997 - pág.5


A C

bou expulso como vadio incorrigível no são. Foi expulso com a idade de 27 anos,
4
ano de 1930. acusado de ser um dos responsáveis pela
onda de e x p l o s õ e s ocorrida no ano de
nascido na aldeia de Travanca, conselho
1920. Segundo o depoimento por ele
de Vinhães, na província de Trás-os-Mon-
prestado, tão logo chegou ao Brasil em-
tes, seu c o n t e r r â n e o A. Santos contava 26
pregou-se numa fábrica de tecidos, e,
anos quando vislumbrou, pela última vez,
depois, em padarias, tendo-se filiado à
os contornos majestosos dos morros que
Sociedade dos Padeiros. Acusado de ter
a b r a ç a m a cidade do Rio de Janeiro. Era
colocado uma bomba numa padaria situ-
solteiro, alfabetizado, e havia chegado ao
ada na rua V o l u n t á r i o s da Pátria, em
país com 12 anos. Segundo suas declara-
Botafogo, foi preso em maio de 1920,
ç õ e s , t ã o logo desembarcou na capital
passando a integrar a lista negra dos agi-
brasileira, foi residir com um tio, com
tadores que circulava entre os emprega-
quem permaneceu por cerca de dois anos.
dores, n ã o conseguindo mais nenhum
Em 1917, com 14 anos, s ó na vida, "deu-
tipo de emprego. Desesperado com a s i -
se à vadiagem". Preso por ter furtado vinte
tuação, "pois não ganhava para comer",
mil réis de um alfaiate estabelecido no
«1 não querendo mais "ter fama sem pro-
centro da cidade e recolhido, pela polí-
veito", resolveu vingar-se dos p a t r õ e s ,
cia, a um patronato, ali ficou a t é princípi-
os de 1920, sendo desligado a p ó s ter con- passando a fabricar bombas e a colocá-

cluído o curso de arado e de agricultura las em lugares considerados estratégicos.

o f e r e c i d o pela i n s t i t u i ç ã o . Fora do A primeira bomba, fabricada com massa

patronato, empregou-se por cerca de qua- de vidro, dinamite e pregos, n ã o explo-

tro meses. Posto em liberdade, mergulhou diu por defeito de fabricação. Com a se-

no jogo por "considerar-se fraco para o gunda, conseguiu seu intento, causando
trabalho braçal" e ter verdadeira fascina- vários prejuízos numa padaria do bairro
ção pelo jogo, "pelos lucros fáceis que de Vila Isabel. A terceira, finalmente, de-
este proporcionava, lucros que lhe per- positada na residência do gerente da fá-
mitiam luxos e prazeres" interditados à s brica de tecidos Minerva, na Tijuca, va-
classes trabalhadoras, iniciando-se outra leu-lhe a expulsão, efetuada no ano de
série de d e t e n ç õ e s e uma nova estada na 1920. Megando ser anarquista, J . M. Melo
colônia Dois Rios Em 1926, foi remetido definiu-se como um sindicalista revolta-
para Clevelândia, situada em zona de do com as condições de vida dos traba-
6
fronteira. Voltando à cidade, e preso no- lhadores.
vamente, foi Finalmente expulso. Corria o Parte significativa das sobras de um ar-
5
ano de 1929. ranjo social tecido por pactos de elites,
homens como Benanan, Cardoso, Santos
Português de Figueira, J . M. Melo era sol- e Melo compunham o grupo dos indese-
teiro, alfabetizado e padeiro por profis- jáveis, ou seja, dos estrangeiros que, de

p á g . e . Jul/dez 1997
R V O

alguma forma, contestavam a ordem onde outros estrangeiros, com destaque


estabelecida. Muma vertente deste pro- para os italianos e e s p a n h ó i s , colocaram-
cesso, a da contestação política, alinha- se à frente do processo de organização
vam-se trabalhadores envolvidos com a operária.
constituição do operariado enquanto clas- Comparadas várias histórias de vida nar-
se, com destaque aos anarquistas que, de
radas nos processos de expulsão, algu-
posse de um discurso e uma prática re-
mas recorrências sobressaem significati-
volucionárias, constituíram-se em perigo
vamente no conjunto, proporcionando um
permanente para o regime.
exercício prosopográfico que, através de
Ma outra dimensão, a do crime e da con- casos exemplares, mergulhados em som-
travenção, somavam-se vadios, mendigos, bras e trevas, permite a reconstrução dos
ladrões, gatunos, vigaristas, b ê b a d o s , j o - bastidores da imigração.
gadores e cáftens. Com exceção dos últi- Em primeiro lugar, a pobreza mostrava-
mos, agentes do crime internacional or- se companheira inseparável em suas v i -
ganizado, os indesejáveis, regra geral, das. Os processados, geralmente, nada
eram indivíduos pobres que, perdidos mais eram que homens pobres que che-
seus sonhos de uma vida melhor ou de gados ao país na pobreza mantiveram-
retorno vitorioso à terra natal, voltavam- se ao longo da vida, posicionados como
se, de várias formas, contra as condições m ã o - d e - o b r a barata em serviços antes
de vida que lhes eram oferecidas, afas- realizados por escravos. Todos haviam
tando-se, com sua atitude de desafio à or- emigrado buscando o paraíso do outro
dem, do protótipo de imigrante deseja- lado do Atlântico. Muito raramente eram
do: paciente, obediente, ordeiro e resignado. criminosos ou anarquistas radicais. Casos
lios delitos que guardavam vínculos mais como o de J . Monteiro, que entrou no Bra-

estreitos com a pobreza vivida na cidade, sil em 1911, fugido de Portugal por seu

os portugueses destacaram-se do conjun- ativismo político, ou de L. Arena, que no

to dos indesejáveis, reproduzindo as ten- ato da expulsão j á registrava prisões por

dências gerais da imigração para a cidade. 7 furto em Buenos Aires, s ã o absoluta ex-
ceção no conjunto dos indesejáveis que
Os anarquistas constituíram-se a princi-
deixaram o registro de sua passagem pela
pal base da militância de origem estran-
capital federal."
geira, principalmente no ramo das pada-
rias e da construção civil, em que mais Quanto à procedência, a maior parte dos
fortemente enraizou-se o sindicalismo re- processados havia nascido nos campos
volucionário. A p r e s e n ç a marcante dos europeus. Mesta perspectiva, os proces-
portugueses nos sindicatos, que encami- sos de expulsão refletem, com exatidão,
nhavam o discurso revolucionário, distan- as t e n d ê n c i a s globais da imigração para
ciou a capital de outras cidades do país. a cidade, no final do século XIX e nas pri-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 0 3 - 1 6 . J u l / d e i 1997 - pág.7


meiras d é c a d a s do século XX, onde os num espírito de total aventura. Sem as
portugueses, seguidos por italianos e es- s a n ç õ e s familiares ou qualquer p a d r ã o
p a n h ó i s provenientes das á r e a s rurais, referencial da vida urbana, eles tornaram-
constituíam a maioria dos que se desti- se uma importante d i m e n s ã o da imigra-
navam ao Rio de Janeiro. A conjugação ção urbana. Verdadeiros agregados urba-
de condicionantes estruturais relativas à nos, dormiam e faziam suas refeições nos
posse e d i v i s ã o da terra com fatores locais de trabalho, cumprindo longas e
conjunturais e com o exemplo dado pe- duras jornadas, que chegavam a se es-
los 'brasileiros' de torna-viagem, envol- tender por 16 horas no comércio a vare-
vidos no manto dos sucessos obtidos no jo. Mão raras vezes, optavam por fugir
a l é m - m a r , principalmente em Portugal, devido à s duras condições de vida, ou en-
pressionaram ou incentivaram a popula- tão eram despedidos e, privados de teto
ção rural a emigrar. e comida, passavam a vagar pelas ruas,
alternando períodos de reclusão em es-
tabelecimentos penais com intervalos de
liberdade, num circuito contínuo de rein-
cidência.
Distribuição dos Estrangeiros por
Nacionalidade
A grande presença de jovens desocupa-
dos nas ruas, a maioria constituída por
estrangeiros, marcou a história da Belle
Époque carioca. Personagens constantes
nas crônicas sobre a capital, os jovens
abandonados à própria sorte tornaram-se
Fonte Brasil Ministério da Agricultura. Indústria e Comerão Diretoria
Geral de Estatística Recenseamento de 1920
alvo das p r e o c u p a ç õ e s policiais, devido à
facilidade com que tendiam a ingressar
Com relação à idade dos imigrantes, gran-
no mundo do crime ou a aquecer os mo-
de parte dos processados havia entrado 9
tins e os quebra-quebras recorrentes.
no país durante a adolescência ou a in-
fância. Este dado significativo, registrado Tomado o universo profissional como ob-
no conjunto da d o c u m e n t a ç ã o , é encon- jeto central de análise, finalmente, mere-
trado, t a m b é m , nos recenseamentos rea- ce destaque a pequena qualificação para
lizados entre 1872 e 1920, que registram o trabalho registrada nas fontes, ao que
um enorme contingente de jovens na fai- se acrescenta a alta incidência de analfa-
xa dos 12 aos 18 anos no grupo dos es- betos, m a i s de 2 0 % d o t o t a l . Este
trangeiros. Eram os caixeirinhos portu- despreparo para o mercado de trabalho
gueses ou galegos desta faixa etária que tinha como conseqüência imediata a ab-
chegavam ao Brasil, ao chamado de al- sorção dos estrangeiros pobres nas ativi-
gum parente ou conhecido, ou mesmo dades desvalorizadas, com t e n d ê n c i a à

p á g . 8 . Jul/dez 1 997
R V O

superexploração e à pouca fixação no em- ços os salários eram baixos, os aciden-


prego, em atendimento a demandas cir- tes de trabalho muito comuns e o de-
cunstanciais do mercado de trabalho. É semprego uma possibilidade sempre
bastante f r e q ü e n t e na d o c u m e n t a ç ã o presente, tornando enormes as possi-
pesquisada, por exemplo, o registro de pro- bilidades do ingresso do imigrante no
fissões sem quaisquer relações intrínsecas, mundo marginal do não-trabalho, como
desenvolvidas por um mesmo indivíduo ao registra A noite no ano de 1914:
longo da vida. J . S. Querra foi jardineiro e
Trata-se de um dos mais s é r i o s pro-
10
gerente de hotel; outros foram sapatei-
blemas do nosso proletariado. V ã o de
ros e pintores, ou condutores de bondes e
m a n h ã cedo aos logradouros p ú b l i -
trabalhadores em pedreiras, alternando,
cos, correm o Passeio, a p r a ç a XV de
freqüentemente, empregos ocasionais com
liovembro, os diversos cais, o merca-
períodos de desemprego.
do velho e novo, a praia de Santa Lu-

A pouca ou nenhuma qualificação profissio- zia, e depois dizem que dolorosa im-

nal de grande parte dos imigrantes encon- p r e s s ã o trouxeram de lá. Mós vimos e

tra-se apontada, t a m b é m , nos recensea- contamos cem o p e r á r i o s que dormi-

mentos realizados no período. O de 1906 am ao relento. C o n v e r s a m o s com

totaliza 39.707 indivíduos sem qualificação, muitos deles. Todos contam a mesma

e o de 1920 aponta a cifra de 13.619 com h i s t ó r i a : a fábrica, o trabalho, espe-

profissão mal definida, 10.951 sem profis- r a n ç a de arranjar s e r v i ç o para o futu-

s ã o declarada e 57.030 sem profissão, ro [...] Mão se trata, [sic] absolutamen-

totalizando 81.600 estrangeiros te, de vagabundos, trata-se [sic] de

desqualificados para as ocupações urbanas, operários."

o que representa cerca de 35% do univer-


A descrição da lamentável situação fei-
so dos imigrantes residentes na cidade.
ta pelo periódico encontra correspon-
O desemprego recorrente e as p é s s i m a s dência direta em várias histórias de vida
c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o n u m m e r c a d o narradas nos processos analisados,
magmático, no qual a oferta suplantava a como no de A. Sarmento, espanhol de
demanda, tenderam a aquecer os movi- 40 anos, residente há 13 anos no país
mentos contestatórios na cidade e a em- no momento de sua expulsão, que de-
purrar muitos indivíduos para as atividades clarou, em seu depoimento, que fora
ilícitas e a mendicância. sempre um trabalhador, n ã o lhe caben-
do culpa por estar desempregado no
O comércio, a construção civil, as docas, 12
momento de sua p r i s ã o .
as pedreiras e os transportes foram os se-
tores formais do mercado de trabalho que Consideradas as q u e s t õ e s destacadas,
registraram a maior a b s o r ç ã o da m ã o - d e - impõe-se como conclusão que qualquer
obra estrangeira. Justamente nestes espa- estudo sobre a imigração estará incom-

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 0 3 - 1 6 , Jul/dez 1997 - pag.9


pleto se contemplar apenas a história vis- arcar com os custos dos aluguéis, como
ta de cima, ou seja, a história dos suces- narra com grande sensibilidade o Correio
sos escritos sob as luzes da modernidade. da Manhã:
Além das vitórias cantadas em prosa e
Grande parte dessa gente, trabalhado-
verso pelos que voltaram ricos à terra
res e o p e r á r i o s , sem casa, sem nenhum
natal, ou pelos que fixaram-se na nova
abrigo, sem p ã o e sem e s p e r a n ç a s , dor-
terra como p r o p r i e t á r i o s , é n e c e s s á r i o
me ao relento sob a relva da avenida
que, virado o processo pelo avesso, seja
do Mangue ou fazendo cama com as er-
contemplada uma história vista de baixo,
vas que crescem livremente nos terre-
capaz de dar visibilidade à pobreza dos
nos devolutos, ou pernoita nos portais
bastidores, mergulhados nas sombras do
das casas desabitadas, se n ã o se lhes
silêncio e do esquecimento.
depara mais c o n f o r t á v e l retiro nas ruí-

nas de qualquer casa que o fogo ou o


Muitos foram os condutores de bondes,
1 3
tempo d e s t r u í r a m .
padeiros, calceteiros, pedreiros, caixeiros
e trabalhadores afeitos ao trabalho bra- Porém, muitos imigrantes, apesar das
çal que amargaram difíceis condições de condições adversas, continuaram traba-
existência, em sua luta permanente con- lhando duro, tecendo c o n d i ç õ e s de vida
tra a carestia, trágica em algumas con- mais amenas para seus descendentes.
junturas, morando na periferia pobre ou Outros buscaram, pela via revolucionária,
dormindo ao relento, quando, desempre- alterar de imediato as condições adver-
gados ou sub-empregados, não podiam sas, influenciados pelo ideário anarquis-

\ S. i

0 ' •

Embarque de emigrantes italianos para o Brasil. Reprodução de A Ilustração brasileira, 15 de fevereiro d e 1910.

p á g . 10. J u l / d e z 1997
R V O

ta que apontava a revolução como única marginalidade por motivos alheios a sua
possibilidade de r e d e n ç ã o . A violência vontade, como R. V. Castro: casado, alfa-
adotada por muitos expressava, de algu- betizado e sem residência, o p o r t u g u ê s
ma forma, as frustrações acumuladas ao R. V. Castro tinha 26 anos quando foi pre-
longo da vida, e o desejo de alcançar o so e expulso. Segundo suas declarações,
paraíso na terra, ainda que fosse pela di- chegara ao Brasil com um tio, aos oito
namite. anos de idade, tendo trabalhado no co-
mércio a t é a idade adulta, quando, e n t ã o ,
Os vínculos existentes entre condições de
desempregado, caiu na marginalidade,
vida e radicalização ideológica encon-
terminando por ser expulso por vadiagem
tram-se presentes em alguns processos 15
e furto.
de expulsão, principalmente naqueles mo-
vidos contra os padeiros, sujeitos a lon- Se em alguns casos a expulsão tinha jus-
gas jornadas noturnas e a duras condi- tificativas, em outros ela definia-se como
ç õ e s de trabalho, seguindo-se operários um ato e x t r e m a m e n t e arbitrário e
não qualificados da construção civil. En- inconstitucional. 16
Mo conjunto dos es-
tre os padeiros, é significativa a m e n ç ã o trangeiros que acabaram sendo expulsos,
a u m a s o c i e d a d e s e c r e t a de nome muitos sofreram perseguição sem tréguas
Carbonária Padeiral, que aparece no pro- por sua miséria ou luta contra as injustas
cesso contra A. R. Santos, acusado de ser condições de trabalho e de vida, ou, ain-
um dos dinamitadores por o c a s i ã o da da, por enganos ou perseguições circuns-
onda de e x p l o s õ e s em padarias, cujos tanciais, embora estas últimas represen-
panfletos s ã o de extrema r e v o l t a , tassem uma afronta violenta aos postula-
explicitando muito do vale-tudo desespe- dos do direito internacional. Veja-se o
rado assumido por imigrantes no jogo da relato de J . Madeira, encaminhado ao
1
m u d a n ç a revolucionária. * deputado Maurício de Lacerda que depois
o enviou à Mesa da Câmara de Deputados:
Considerada a outra vertente da desor-
dem urbana, a das atividades, ilícitas, do Envolvido na onda m i g r a t ó r i a que em

crime e da vadiagem, o comportamento 1912 se efetuava de Portugal para o

desviante podia apresentar-se como de- Brasil, embarquei a 17 de fevereiro des-

c o r r ê n c i a de uma primeira prisão, por se mesmo ano no porto de Lisboa e de-

a r r u a ç a s de rua, com a c o n s e q ü e n t e pas- sembarquei no Rio a 2 de m a r ç o , inici-

sagem pela verdadeira 'escola' que se ando uma vida de trabalho e economia

constituía a Casa de Detenção, quanto por (...). Depois de pouco mais de dois

motivos involuntários ou circunstanciais anos, a crise de trabalho que se deu

como desemprego, acidentes de trabalho, nessa cidade e em toda a parte veio

d o e n ç a s , velhice e embriaguez. Muitos fo- roubar-me as i l u s õ e s antes sonhadas

ram os que romperam a fronteira da (...). Compareci a alguns c o m í c i o s p ú -

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. p p . 0 3 - 1 6 , Jul/dez 1997 - p á g . 1 1


A C

blicos e, no dia 11 de maio, estando ros em território nacional. Estas traziam


para assistir a um comício em Vila Isa- enumeradas como motivos explícitos para

bel, vi prender três operários que sou- a expulsão, além daqueles concernentes

be serem os oradores que iam falar ao que se pudesse constituir em a m e a ç a

nesse comício: chegada a hora do iní- para o regime, a c o n d e n a ç ã o por tribu-

cio do mesmo, dispus-me a explicar aos nais brasileiros de crimes ou delitos de

operários o motivo por que não se rea- natureza comum, como a vagabundagem,

lizava o comício (...)• a mendicidade e o lenocínio competen-


temente verificados, sendo relevante res-
Desta data em diante passei a ser um
saltar o fato do homicídio n ã o se consti-
dos chamados 'oradores operários' (...)"
tuir em motivo de expulsão, por ser um
Transformado em "orador improvisado', J . crime de alcance individual que n ã o ame-
Madeira tornou-se alvo da vigilância per- açava a ordem urbana. 18

manente das autoridades policiais, termi-


nando por ser expulso no ano de 1920. Anarquistas, militantes operários, vadios,

Anarquista "por força das circunstâncias", ladrões, gatunos, vigaristas, jogadores,

se considerarmos verdadeiro o teor de sua ébrios, mendigos e cáftens eram vistos

carta, ou anarquista por convicção, J . pelo discurso oficial, com o respaldo do

Madeira, independente de sua opção ideo- discurso científico da época, como hós-

lógica, era um trabalhador humilde dis- pedes perigosos, vírus contaminados do

posto a lutar por um lugar ao sol. Muitos tecido social, principais responsáveis pela

como ele, a partir da s u s p e i ç ã o e de uma desordem urbana. Dentre todos, os anar-

primeira prisão, não raras vezes aciden- quistas mereceram uma a t e n ç ã o especial

tal, tornaram-se personagens cativos das por parte das autoridades constituídas de-

diligências policiais, transformados em vido à sua e x t r e m a perlculosidade,

anarquistas profissionais por força do dis- advinda do fato de serem definidos como

curso repressivo. corruptores de n a ç õ e s inteiras, reprodu-


zindo, no cotidiano da prática política, as
A c o m p r e e n s ã o ampla do que se configu-
teorizações feitas por Lombroso acerca do
rava como (des)ordem permitiu que, no 19
crime político.
mesmo grupo dos indesejáveis, ao lado
dos militantes operários, fossem englo- Considerado o conjunto dos imigrantes
bados criminosos comuns e que foram alvo das leis de expulsão, al-
contraventores variados. Todos eles so- guns podiam ser de fato nocivos e peri-
freram uma repressão ininterrupta no pro- gosos, tomados os valores em processo
cesso de estabelecimento de disciplina de s e d i m e n t a ç ã o como referenciais. Ou-
sobre o mundo do trabalho e as ruas, con- tros foram objeto dos desmandos produ-
templados nas leis que regulamentavam zidos por um regime que priorizava a or-
a entrada e a permanência dos estrangei- dem em vez da lei. A maior parte, p o r é m .

p i g . 12. J u l / d e z 1997
K V O

era fruto direto das condições adversas cipalmente em relação ao caftismo, que
no Rio de Janeiro. transformara a cidade em um dos pontos
de chegada das rotas internacionais do
Messe contexto, a expulsão definiu-se, 22
tráfico de brancas. Também era verda-
a l é m de um p r o c e s s o de s e l e ç ã o a
deira a versão de que as idéias revolucio-
posteriori, como uma estratégia privile-
nárias que seduziam a classe operária em
giada de limpeza urbana'. Conjugada à
20
formação eram importadas, com destaque
deportação, ela possibilitou um melhor
para o comunismo-anárquico de
controle social, através do processo de
Kropotkin.
eliminação de todo aquele que, conside-
rado sobra do arranjo social, pudesse ser Mão correspondia à realidade, entretan-
definido como elemento perigoso à or- to, a explicação oficial de que a desordem
dem política, social ou moral. O ideal de reinante no Rio de Janeiro devia-se à sim-
c o n s t r u ç ã o de uma cidade disciplinar ples importação de indivíduos viciosos e
norteou práticas autoritárias, destinadas anarquistas profissionais; aues de arriba-
ao esvaziamento político da capital, que ção chegadas na vasa da i m i g r a ç ã o , ver-
atingiram tanto o mundo do trabalho s ã o que mascarava as contradições inter-
quanto o do não-trabalho, separados por nas existentes que apanhavam os estran-
fronteiras fluidas e móveis que tendiam a geiros pobres em suas malhas.
desaparecer nos momentos de contesta-
A a n á l i s e dos processos de e x p u l s ã o ,
ção ampla, marcados por quebra-quebras
excetuados aqueles movidos aos cáftens,
generalizados, nos quais os excluídos
não corrobora a consagrada tese da con-
demonstravam toda a sua revolta e des-
taminação por agentes exógenos. A mai-
contentamento.
oria dos cidadãos processados, principal-
O medo de um levante global dos excluí- mente os portugueses, tinha uma longa
dos, ensaiado em 1904 21
e alimentado residência no país. Sua opção ideológica
pelo i d e á r i o a n a r q u i s t a , que via no ou ingresso na marginalidade eram, em
lumpesinato uma força revolucionária, última instância, uma decorrência das d i -
tornou-se um fantasma permanente a ficuldades e embates travados na própria
povoar a mente das elites. Esvaziar a ca- cidade; a expulsão, uma intervenção ci-
pital, portanto, livrando-a dos 'elementos' rúrgica capaz de eliminar parasitas e er-
desordeiros, dentre os quais sobressaí- vas daninhas.
ram-se os estrangeiros, era uma necessi-
Messe contexto de excludência, o período
dade a um s ó tempo r e p r e s s i v a e
que vai de 1907 a 1930 marca, no plano
profilática, que visava transformar o Rio
das relações intersocietais, um capítulo
de Janeiro no cartão de visitas do Brasil.
de violência da nossa história. Aos ho-
É certo que o Rio de Janeiro sofria a atu- mens que, expulsos, voltavam à Europa,
a ç ã o de criminosos internacionais, prin- depois de anos vividos no Brasil, restava

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2, pp. 0 3 - 1 6 , j u l / d e z 1997 - p á g . 13


A C

a pobreza, a fadiga e o desalento. Pobre- rios matizes permitiram sua r o t u l a ç ã o


za que com eles cruzava, mais uma vez, como nocivos e/ou perigosos, colocados
o oceano. Fadiga e desalento por muitos barra a fora como indesejáveis, mesmo
anos de frustrações e derrotas, j á que, em que a maior parte de suas vidas tivesse
sua grande maioria, os estrangeiros que sido passada no Brasil, na maioria dos
retornavam como indesejáveis não havi- casos, haviam cruzado os mares embala-
am cruzado a estreita entrada da baía da dos pelo sonho de uma vida melhor, su-
Guanabara como desordeiros ou crimino- portando, com resignação, as dificulda-
sos. Mo momento de sua chegada, eram des da travessia oceânica. Muito diferen-
tão somente camponeses pobres que, na te era a viagem de volta, sem utopias ou
conjuntura de encurtamento das distân- sonhos para o futuro, embarcados para
cias possibilitada pelo avanço técnico, p a í s e s que j á n ã o podiam considerar
transformaram os portos num ponto de como pátrias, sem a certeza sequer de
passagem no processo de busca de suas que poderiam desembarcar do outro lado
utopias no além-mar. Dificuldades de vá- do Atlântico."

N O T A s
7
1. Arquivo Nacional. SPJ. Módulo 101, pacotilha IJJ 169.
2. Este conceito era utilizado pelos chefes de polícia, na época estudada, para caracterizar os
que se posicionavam à margem da sociedade organizada, cujos limites colocavam-se na fron-

p á g . 14, J u l / d e z 1997
R V O

teira entre o trabalho e o n ã o - t r a b a l h o . Meste mesmo aspecto, é c a r a c t e r í s t i c a a p r e o c u p a ç ã o


constante das elites p o l í t i c a s e de parte significativa da elite intelectual em apartar os anar-
quistas, qualificados como agitadores profissionais infiltrados no conjunto da classe trabalha-
dora.
7
3. Arquivo nacional. SPJ. Módulo 101, pacotilha IJJ 156.
7
4. Idem. Pacotilha IJJ 132.
7
5. Idem. Pacotilha IJJ 136.
7
6. Idem. Pacotilha IJJ 163.
7. Esta q u a n t i f i c a ç ã o e s t á baseada em s e l e ç ã o feita na d o c u m e n t a ç ã o que c o m p õ e o m ó d u l o 101
do Arquivo nacional relativa a estrangeiros processados e residentes na capital, que totaliza
531 i n d i v í d u o s . Esta amostra foi a base principal de tese de doutoramento defendida na USP
acerca dos i n d e s e j á v e i s , d i s t r i b u í d o s em vadios, mendigos, vigaristas, l a d r õ e s e gatunos, por
n ó s englobados na categoria freqüentadores assíduos dos cárceres (248), c á f t e n s (194) e anar-
quistas e/ou comunistas (79), demonstrando que a e x p u l s ã o na capital brasileira posicionou-
se como instrumento global de limpeza social e n ã o simplesmente como p o l í t i c a direcionada
para a p e r s e g u i ç ã o p o l í t i c o - i d e o l ó g i c a como tradicionalmente se supunha, neste conjunto, os
portugueses representam 45,9% do primeiro grupo; 11,3% do segundo e 59% do terceiro. Ver
L e n á Medeiros de Menezes, Indesejáveis desclassificados da modernidade: protesto, crime e
e x p u l s ã o na capital federal (1890-1930), Rio de Janeiro, ESDUERJ, 1997.
7
8. Arquivo nacional. SPJ. M ó d u l o 101, pacotilha IJJ 163.

9. Lima Barreto, Recordações do escrivão /saias Caminha. S á o Paulo, Brasiliense, 1976, p. 166.
7
10. Arquivo nacional. SPJ. Módulo 101, pacotilha IJJ 163.

11. A noite, 2 de maio de 1914.


7
12. Arquivo nacional. SPJ. M ó d u l o 101, pacotilha IJJ 129.

13. Correio da Manhã. 18 de fevereiro de 1917.


7
14. Cf. Arquivo nacional. SPJ. Módulo 101, pacotilha IJJ 168.
7
15. Idem. Pacotilha IJJ 151.

16. A C o n s t i t u i ç ã o Federal, em seu artigo 72, garantia igualdade de direitos a nacionais e estran-
geiros residentes.

17. Brasil, Anais da C â m a r a dos Deputados de 1920, s e s s ã o de 12 de agosto. Rio de Janeiro,


Imprensa nacional, 1921, p. 504.

18. Decreto n ° 1.641, de 7 de janeiro de 1907. Brasil. C o l e ç ã o das Leis da R e p ú b l i c a , Rio de Janei-
ro, Imprensa nacional, 1908.

19. Sobre o tema, ver Cesare Lombroso e R. Laschi. Crime politique et les revoluttons. Paris,
Librairie Félix Alcan, 1892.

20. Havia uma d i f e r e n c i a ç ã o entre e x p u l s ã o e d e p o r t a ç ã o . A primeira atingia os estrangeiros; a


segunda, os nacionais enviados para c o l ô n i a s penais situadas em zonas de fronteira. Ambas
conjugaram-se, p o r é m , como e s t r a t é g i a s c i r ú r g i c a s complementares no processo de limpeza
urbana que acompanhou as reformas urbanas a partir da virada republicana e, mais especifi-
camente, depois da a d m i n i s t r a ç ã o de Pereira Passos (1902-1906).

21. A r e f e r ê n c i a é a revolta popular contra o decreto de v a c i n a ç ã o o b r i g a t ó r i a ocorrida naquele


ano. Sobre o tema, ver, entre outras obras, nicolau Sevcenko, A revolta da vacina: mentes
insanas em corpos rebeldes, S á o Paulo, Brasiliense, 1984. [Tudo é História, 89].

22. Sobre o tráfico de brancas no Rio de Janeiro, ver Lená M. de Menezes, Os estrangeiros e o
comércio do prazer nas ruas do Rio. Rio de Janeiro, Arquivo nacional, 1992, P r ê m i o Arquivo
nacional de Pesquisa, 2.

23. C o m r e l a ç ã o aos relatos acerca de todo o processual da e x p u l s ã o , ver Everardo Dias, " M e m ó -
rias de um exilado". E p i s ó d i o s da d e p o r t a ç ã o de Everardo Dias contados por ele mesmo à Voz
do Povo, 20-24 de fevereiro de 1920.

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 0 3 - 1 6 , Jul/dez 1997 - p á g . 1 5


Carla Brandalise
Professora do Departamento de História
da Universidade Federal do Rio Qrande do Sul.

Camisas~\er<cles
O iníegralisnio no S u l cio B r a s i l

""^ idéia corrente ter sido o Ri constante ação repressiva desencadeada


-
J"^ Qrande do Sul uma região pelo poder público estadual. Vamos,
1 Si t\p desenvolvimento, por assim, analisar os fatores que propi-
excelência, da Ação Integralista Brasilei- ciaram este quadro peculiar.
ra (AIB) — uma organização política de A organização oficial da AIB no Rio Qran-
âmbito nacional da década de 1930, que de do Sul ocorreu de modo relativamen-
apresentava um c a r á t e r fascista. 1
Esta te tardio em relação a outras regiões do
idéia enfrentou, antes, a forte competi- país. Somente em meados de 1934- é
ção de um sistema partidário consolida- constituído em Porto Alegre um
do. A h i s t ó r i c a p r e s e n ç a de partidos "Triunvirato Provincial', base da adminis-
oligárquicos baseados na lealdade e na tração integralista nos diversos estados.
fidelidade à s lideranças autocráticas do Em sua reduzida composição urbana ini-
estado limitou, consideravelmente, a di- cial j á se definia o público que preferen-
fusão do integralismo. lio entanto, é in- cialmente optaria pelo integralismo. De
discutível que naquelas á r e a s ocupadas modo geral, predominavam profissionais
pelo processo ulterior de colonização ale- liberais, estudantes, bancários, emprega-
mã e italiana, o apelo doutrinário da AIB dos do c o m é r c i o e alguns o p e r á r i o s .
obteve ampla receptividade, apesar da Como ponto comum, estes segmentos

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 17-36. Jul/dez 1997 - pág.17


A
C E

sociais médios partilhavam um sentimen- primórdios pelos litígios fronteiriços en-


to de frustração política ensejada ora pela tre Espanha e Portugal. Tais lutas cons-
percepção da marginalização político-par- tantes geraram uma sociedade
tidária, ora pela visão do fracasso e de- militarizada e autocrática, medida pela
cadência dos partidos oligárquicos. Em hierarquia da força. Ao mesmo tempo, foi
termos discursivos, a AIB pretendia orga- possível a esta p o p u l a ç ã o aproveitar eco-
nizar-se no estado como uma alternativa n o m i c a m e n t e o gado s e l v a g e m que
político-ideológica ao tentar objetar as disseminara-se em larga escala na á r e a .
formas partidárias vigentes em favor de Desta c o m b i n a ç ã o caracterizou-se na
um modo de participação radicalmente Campanha a figura do 'militar-estanciei-
novo. A a t u a ç ã o dos indivíduos n ã o seria ro', que d o m i n a v a as a t i v i d a d e s e c o -
mais mediada por políticos profissionais n ô m i c a s g a ú c h a s sob o regime da
e influências oligárquicas. Pelo contrário, grande p r o p r i e d a d e .
iria constituir-se através do compromis-

A
so e dedicação total ao movimento, por- segunda formação social, de
que a prática política tradicional origem mais tardia, estabe-
obstaculizava a e x p r e s s ã o do verdadeiro .leceu-se sem a aprovação dos
interesse do povo, e o voto ocasional e estancieiros locais e por deliberação do
secreto implicava no reduzido centro do país. A partir do início do s é c u -
envolvimento com o destino da nação. lo XIX, foram introduzidos no estado os
imigrantes a l e m ã e s e italianos. Eles cons-
A partir de Porto Alegre, a AIB expande-
tituíram uma sociedade baseada nas pe-
se pelo interior do estado. Porém, o mo-
quenas e médias propriedades, na pro-
vimento assume um caráter estacionário,
dução agropastoril diversificada e no tra-
salvo nas zonas de imigração italiana e
balho familiar. A c o l o n i z a ç ã o ítalo-
alemã. A inserção do movimento
germânica expandiu-se nas serras do Su-
integralista no Rio Qrande do Sul, com
deste e na Depressão Central. Entre as
grande a c e i t a ç ã o em algumas á r e a s e
duas formações sociais houve, desde o
quase nenhuma em outras, encontra suas
início, um certo antagonismo. Os estan-
origens no processo interno de formação
cieiros n ã o apenas constrangiam a fixa-
sociopolítico. A o c u p a ç ã o territorial do
ção dos colonos europeus em terras im-
estado fez surgir dois tipos básicos de
próprias à prática da pecuária extensiva,
sociedade, os quais, por muito tempo,
como também procuravam desacelerar ou
conviveram lado a lado sem maiores
2
mesmo impedir o movimento migratório.
interações e c o n ô m i c a s e culturais.
Os imigrantes, por sua vez, manifestavam

A primeira formação social desenvolveu- uma tendência ao isolamento, à circuns-

se na região Sul, na denominada 'zona da crição a sua própria cultura, preservando

Campanha', sendo condicionada em seus os valores da pátria de origem.

p á g . 1 8. J u l / d e z 1 997
A C E

mobilização constante, sua retórica anti- pios europeus ou por meio do domínio
oligárquica e c o n d e n a t ó r i a do sistema direto da Alemanha ou Itália sobre o Bra-
partidário republicano, encontra nesses sil, mas pela valorização a u t ô n o m a das
indivíduos campo fértil a sua expansão. potencialidades e características nacio-
nais. Os integralistas de descendência ale-
Apesar das c o n d i ç õ e s s o c i o e c o n ô m i c a s
mã ou italiana admiravam os movimen-
favoráveis, o interesse pela AIB nas zo-
tos considerados como correlatos em
nas coloniais n ã o pode ser explicado sem
seus países de origem, p o r é m a n a ç ã o
a variável étnico-cultural, sob o risco de
brasileira deveria engendrar a sua 'rege-
descaracterizar a complexidade do pro-
n e r a ç ã o ' e 'transformação' de modo in-
blema. Se o contexto conjuntural da re-
dependente, com a exaltação das tradi-
gião propiciou certos requisitos básicos
ções e costumes do país. Mão havia, as-
ao fomento do integralismo, a q u e s t ã o
sim, a princípio, contradição entre o dis-
étnica sobredeterminou a sua aceitação.
curso nacionalista da AIB e a d e s c e n d ê n -
Tal especificidade deve ser analisada a
cia étnica desses adeptos. Messe sentido,
partir da m o í í u a ç ã o que levou estes se-
as lideranças do integralismo no Rio Qran-
tores intermediários a aderir à AIB.
de do Sul prezavam de forma pública e
Quanto aos simpatizantes de origem ita- aberta os movimentos europeus, contra-
liana e a l e m ã , o movimento n ã o lhes riando a cúpula nacional que procurava
atraía enquanto uma forma de resistên- geralmente n ã o incorrer numa asso-
cia à integração em sua nova pátria. Pelo c i a ç ã o direta.
contrário, o integralismo aparecia como
O conjunto desses fatores revela-se nos
a forma mais viável de se tornarem 'bra-
depoimentos prestados pelos adeptos do
sileiros de fato' através da participação na
integralismo. Para o caso da zona a l e m ã '
vida política do país. A q u e s t ã o por eles
s ã o representativas as reflexões do chefe
reconhecida de que a AIB apresentava
municipal da AIB da cidade de Qramado,
s e m e l h a n ç a s visíveis com os movimentos
Alcides Arendt, para quem:
fascistas da 'pátria-mãe' reforçava sobre-
maneira o interesse por esta força políti-
O integralismo teve r e c e p ç ã o fácil na
ca que se introduzia no estado. Ma sua
zona de c o l o n i z a ç ã o a l e m ã porque a
concepção, as realizações tidas como be-
Alemanha naquela é p o c a tinha o nazis-
néficas do fascismo italiano e do nazismo
mo. Durante o integralismo eu via com
a l e m ã o , amplamente divulgadas por pe-
simpatia o Hitler em muitas coisas, n ã o
riódicos especializados, evidenciavam a
que q u e r í a m o s imitar, o nosso movi-
viabilidade da construção de uma nova or-
mento surgiu como um movimento in-
dem mundial. O integralismo deveria con-
d í g e n a , o objetivo de P l í n i o Salgado
cretizar no país esta ordem, n ã o através
nunca foi imitar. A luta do integralismo
da r e p r o d u ç ã o pura e simples dos princí-
era de formar, educar a juventude. O

p á g . 20 . J u l / d e z 1 997
V o

Hitler fez coisas boas, levantou a Ale- intra-oligárquica. Um dos momentos cul-
manha organizando o trabalho.* minantes da prática coercitiva ocorreu em
fevereiro de 1935 por ocasião de um gran-

O
projeto, de acordo com Arendt,
de encontro estadual de integralistas na
era introduzir os pontos altos
cidade de São Sebastião do Cai, região
do nazismo, como o
de imigração alemã. Durante uma passe-
corporativismo, a valorização da autori-
ata, que contou com mais de trezentas
dade e do trabalho, o combate ao libera-
pessoas, houve um tumulto, com troca de
lismo e ao comunismo, sem a interferên-
tiros entre a polícia e os militantes. O sal-
cia da Alemanha. Outros militantes cre-
do foi a morte de dois policiais e de um
ditavam confiabilidade à AIB pela identi-
ativista. O prefeito do Cai, Morais Forte
ficação direta que faziam entre o movi-
(PRL), denunciou os integralistas por tu-
mento e o nazismo, reconhecendo a au-
multuar a cidade e provocar o incidente,
tonomia do integralismo. Este é o caso
pois teriam comparecido ao desfile forte-
do professor Maximiliano Hahan, da cida-
mente armados. Argumentava tratar-se de
de de Canela, que revela:
agitadores dirigidos por elementos es-
... falando a verdade, eu entrei na AIB trangeiros, representando uma a m e a ç a na
por causa do nazismo. O integralismo medida em que atacavam o governo, o
era da mesma ordem, a disciplina, as Exército e as instituições republicanas, rio
m i l í c i a s , o corporativismo. E Hitler sal- seu relato a Flores da Cunha, o prefeito
vou a Alemanha do caos. Hitler era ver- revela que prendera mais de cinqüenta
dadeiramente um grande homem, mas pessoas, porque "... a concentração aqui
eu preferia o Plínio. O Hitler era muito realizada tinha por fim menosprezar as
violento. As i d é i a s do Plínio eram mui- autoridades locais devido a uma repres-
to superiores ao nazismo. O são feita no interior do município num
integralismo queria justamente o patri- núcleo integralista que estava atentando
6
otismo. 5
contra a ordem". O chefe municipal da
AIB, o médico Metzler, confirma em parte
Ao mesmo tempo, o visível crescimento
o objetivo da passeata. Ha sua versão,
da AIB nas á r e a s coloniais chama a aten-
pretendia-se prestar solidariedade pací-
ção das autoridades públicas que logo
fica aos integralistas da vila de liova
desencadeiam uma onda de repressão ao
Petrópolis, pois estes teriam sofrido vio-
m o v i m e n t o . Flores da C u n h a , e n t ã o
lência injustificada por parte das autori-
interventor do estado e líder do partido
dades:
governista, o Partido Republicano Liberal
(PRL), n ã o p r e t e n d i a renunciar ao Devido ao incremento tomado pelas

enquadramento e ao rígido controle das nossas i d é i a s , o prefeito do m u n i c í p i o

suas bases eleitorais nesta zona, cada vez começou a perseguir todos os

mais indispensáveis na disputa política integralistas de Mova P e t r ó p o l i s . Em vis-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 17-36. j u l / d e z 1997 - pág.21


ta disso, a chefia provincial resolveu lia perspectiva da acirrada c o m p e t i ç ã o
fazer um grande desfile no Cai para dar pelo e s p a ç o político na zona colonial que
uma demonstração de apoio moral aos se estabeleceu entre a AIB e o PRL, o caso
perseguidos. 7
de Nova Petrópolis revela-se interessan-
Apesar dos esforços do chefe nacional, te. O subdistrito da cidade do Cai, uma
Plínio Salgado, para que fosse mantida no pequena comunidade de imigração ale-
Rio Qrande do Sul a liberdade de expres- mã voltada basicamente para a p r o d u ç ã o
são, o interventor Flores da Cunha decla- rural, apresentava um elevado índice de
ra ser a AIB perniciosa à s e g u r a n ç a inter- a d e s ã o ao integralismo. Dados oficiais do
na do estado. Proíbe, desta maneira, o uso movimento contabilizavam 320 inscritos
da camisa-verde' (símbolo do movimen- no subnúcleo local, resultado este obtido
to), as passeatas, os comícios e as mani- pelos esforços do professor Straatman,
festações em lugares públicos. Pela reso- que propagava o integralismo enquanto
lução, as reuniões ficavam limitadas à s ensinava p o r t u g u ê s aos agricultores.
sedes integralistas. Isto restringia a pro- Como elemento a incentivar o interesse
paganda da AIB, que utilizava teatros e pelo novo partido, estava o fato de os co-
cinemas para congregar o maior n ú m e r o lonos visualizarem a possibilidade de
de pessoas. Sem a evolução das milícias romper com a exigência das autoridades
organizadas, com seus tambores e hinos, estaduais quanto ao voto compulsório no
tirava-se do integralismo o apelo visual, partido situacionista, no caso, o PRL. Em
tão importante na divulgação da doutrina. época de eleição garantia-se o voto do pe-

Plínlo S a l g a d o | c e n t r o | e Integralistas. P e t r ó p o l i s (RJ), m a r ç o d e 1935. Correio d a M a n h ã , A r q u i v o


Nacional.

p á g . 22 . J u l / d e z 1997
V o

queno agricultor com práticas compensa- com relato de Elisabeth K. Evers:


tórias ou repressivas. Após a votação, era Quando alguém náo queria mais
oferecido o 'churrasco eleitoral', como des- acompanhar, sua ficha e sua camisa-
creve Felipe Stahl, "quando a gente chega- verde eram queimadas sob maldição.
va ao local de votação, recebia-se as cha- Os que saíam eram evitados pelos
pas... Elas j á estavam prontas. Havia fis- outros. Os integralistas não pagavam
cais mas tudo j á estava combinado. A gen- imposto algum, nem contribuição
8
te votava e daí podia comer o churrasco". para comunidade, nem taxas escola-
Caso fosse descoberta uma ação contrária, res. Mas festas mais simples ou nos
as autoridades policiais n ã o tardavam a cultos dominicais apareciam os cha-
desencadear a r e p r e s s ã o , como atesta o mados camisas-verdes, fechados, em
depoimento de Irmgard Schuch: uniformes, eles marchavam para den-
A urna ficava num canto fechado com um tro e ficavam lá (...) notava-se clara-
pano, a pessoa ia lá (...) em cima do só- mente como o partido aumentava em
táo fizeram um furo e o cara deitado ali número aqui em nosso município e
10

com o olho no furo, ele olhava que chapa estavam conscientes de sua força.
o cara botava no envelope, se botava a
Para efeito de c o m p a r a ç ã o , observa-se
chapa certa, ele saía, se o cara botava a
que este quadro conjuntural se manifes-
chapa errada, deixava cair um pouco de
ta em outra importante zona de imigra-
farinha no chapéu ou na camisa, e aí
ção alemã, no estado de Santa Catarina.
quando o cara chegava na rua e tinha fa- 11
Em relatórios enviados a Roma, o en-
rinha de trigo, ele entrava no laço.'
t ã o e m b a i x a d o r i t a l i a n o no B r a s i l ,
Tal estado de coisas, vigente na República Roberto Cantalupo, descreve o "parti-
Velha, permaneceu como regra na década cular desenvolvimento" do integralismo
de 1930. Com a chegada da AIB, ensaiou- naquele estado, onde nas eleições de
se uma resistência, onde as 'chapas pron- 1935 o movimento teria vencido em oito
tas' eram discretamente trocadas pela cha- municípios sobre 11, contando em suas
pa dos i n t e g r a l i s t a s . A e x i s t ê n c i a do fileiras com maioria absoluta de descen-
integralismo, no entanto, estava longe de dentes de a l e m ã e s . Segundo Cantalupo,
ser um consenso entre esta mesma popu- vários eram os fatores que explicavam
lação seja pelo assim considerado caráter esta rápida expansão, entre eles o de-
de f a n a t i s m o , seja p e l a a s s o c i a ç ã o sejo desses militantes em implantar um
c o m o m o v i m e n t o nazista. Straatman sistema social baseado na ordem, justi-
e r a a c u s a d o de o r g a n i z a r a m i l í c i a ça e honestidade; o medo do comunis-
integralista nos moldes da força de cho- mo que p o d e r i a fazer sua v i o l e n t a
que do nazismo a l e m ã o e de cultuar a irrupção no país e a q u e s t ã o racial, onde
i m a g e m de Hitler. E, ainda, de acordo "não seria uma q u e s t ã o de raça, mas an-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 17-36. Jul/dez 1997 - pág.23


A , C E

tes uma q u e s t ã o de mentalidade com uma movimentos e u r o p e u s . lio princípio

natural simpatia pelos regimes fascista e parecia uma s a l v a ç ã o . Hitler tinha pres-

nacional-socialista". Segundo sua análi- t í g i o no mundo inteiro, n ó s aqui s e n t í -

se, os integrantes da AIB poderiam sem- amos esta i n f l u ê n c i a . A c h á v a m o s que

pre contar com o clero "que faz constan- um regime que era bom para um p a í s

te e m e t ó d i c a obra de propaganda em que j á contava com mil anos de exis-

favor do integralismo, protegendo os va- t ê n c i a , t a m b é m seria bom aqui. Mas

lores da religião". For todas essas razões, n ã o se pode falar em simbiose entre

a s e s s ã o catarinense da AIB representa- integralismo e nazismo. Havia certas

ria "uma reserva moral" na influência dos afinidades. 13

C
outros estados.
omo c a r a c t e r í s t i c a s c o m u n s
A ênfase étnica e a identificação com o Ferreira da Silva aponta a ten-
nazi-fascismo dada pelo embaixador con- dência anti-semita, o
firma-se no depoimento dos militantes de
corporativismo, a representação classista,
Santa Catarina. Segundo o secretário de
a estrutura organizativa, o antiliberalismo,
imprensa da AIB, Enrico Muller:
a indumentária, a estrutura paramilitar e,
Havia em Blumenau certa t e n d ê n c i a de principalmente, afirma que "o nazismo e
aceitar o integralismo pela semelhan- o integralismo eram espiritualistas".
ç a com o nazismo. Quando um c i d a d ã o
Deixando Santa Catarina e dirigindo o
descende de uma outra r a ç a , de um
foco de análise para as zonas de coloni-
outro pais, ele, se é uma pessoa de
zação italiana do Rio Qrande do Sul, é
acordo, de exata c o n s c i ê n c i a , tem sim-
possível, mais uma vez, constatar uma co-
patia (...) a maioria tinha simpatia pela
incidência de valores quanto à s motiva-
Alemanha, pelo Hitler, era natural."
ções de a d e s ã o à AIB. Em relação ao ca-
Todavia, t a m b é m para Muller, a AIB era
ráter de participação política alternativa
um movimento singular e a u t ô n o m o j á
oferecido pelo integralismo, um artigo do
que a doutrina integralista seria "... pu-
militante Luís Compagnoni, publicado em
ramente brasileira, com origens na nos-
fevereiro de 1935 no jornal do movimen-
sa história, adaptada ao povo brasileiro,
to, O Bandeirante, em Caxias do Sul, re-
lião era um movimento estrangeiro, n ó s
vela o desagrado com a onipotência dos
p r e g á v a m o s justamente a integração, en-
partidos tradicionais. Estes s ó se interes-
s i n á v a m o s aos o p e r á r i o s e aos colonos o
sariam em quantificar votos em é p o c a s
hino nacional". As mesmas c o n c e p ç õ e s
eleitorais, menosprezando os problemas
aparecem no depoimento de J o s é Ferreira
da comunidade a p ó s a vitória nas urnas.
da Silva, e n t ã o secretário de Educação e
A AIB, inversamente, permitiria a repre-
Cultura da AIB em Blumenau:
sentação direta das demandas locais. Isto
O clima aqui era de simpatia com os porque a organização interna e os assun-

p á g . 2 4 . Jul/dez 1997
V o

tos prioritários para o movimento depen- dos. O integralismo poderia ter feito o

deriam, antes, do consenso e da partici- mesmo pelo Brasil, tirar o povo da mi-

pação de todos os seus membros e n ã o s é r i a , dar trabalho para todo mundo,

apenas de a l g u n s poucos l í d e r e s . O naquela é p o c a o fascismo e o nazismo

integralismo, por fim, representaria a estavam em grande ê x i t o no mundo, por

t r a n s c e n d ê n c i a da simples politicagem isso n ã o havia argumento contra n ó s .

regional: nossos a d v e r s á r i o s eram obrigados a


15
ver isto.
n ó s representamos muito mais que a

i m p l a n t a ç ã o de um regime p o l í t i c o . Um O processo de organização oficial da Ação


camisa-verde que passa é uma consci- Integralista na área de imigração italiana
ê n c i a reta e pura que serve de conde- efetuou-se a partir da principal cidade da
n a ç ã o à imoralidade, à c o r r u p ç ã o . O região — Caxias do Sul, propagando-se
povo v ê em n ó s o restabelecimento do rapidamente pela zona rural. Essa área
e q u i l í b r i o e da harmonia na vida mo- concentrou o maior n ú m e r o de adeptos
ral, e c o n ô m i c a e cultural. O povo sabe no estado e foi a base do movimento po-
que n ã o estamos neste movimento para lítico de oposição por excelência devido,
obter vantagem material (...) no atual entre outras coisas, à ausência de outro
regime n i n g u é m deposita c o n f i a n ç a _e partido o p o s i c i o n i s t a c o m r e p r e s e n -
dos homens que dele fazem parte pou- tatividade. A grande e x p a n s ã o do
cos se salvam. É a n ó s , exclusivamente integralismo entre os pequenos produto-
a n ó s , que cabe a tarefa de expurgar, res rurais dependeu n ã o somente de uma
de varrer, de demolir, de construir, de atitude centrípeta maior em relação à cul-
aprovar e de desaprovar." tura originária italiana, mas t a m b é m da
influência decisiva do clero católico, em
Da mesma forma, a aproximação entre
particular da Congregação dos
integralismo e fascismo justifica-se pelas
Capuchinhos.
conquistas j á empreendidas pelos movi-
mentos europeus. Segundo o depoimen- O assentamento dos colonos italianos no
to de um ativo militante local, Oswaldino Sul do p a í s , iniciado em 1875 e
Ártico: direcionado à encosta superior do nordes-
O integralismo é parecido com o fas- te, área de difícil acesso e coberta de in-
cismo. Aqui todo mundo achava, as idéi- tensa vegetação, bem como o descaso das
as, o uniforme, a o r g a n i z a ç ã o do movi- autoridades governamentais concorreram
mento. Mussolini fez muita coisa pela para confinar os imigrantes a um quase
Itália, tornou o p a í s moderno, tirou da total isolamento, condição esta reforçada
m i s é r i a o povo italiano, antes eles ti- pela heterogeneidade do grupo. Vindos de
nham que sair do p a í s , ir embora; de- diferentes regiões da Itália, com costu-
pois tinha trabalho e riqueza para to- mes e dialetos próprios, os colonos nem

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 17-36, Jul/dez 1997 - p á g . 2 5


A C E

mesmo associavam-se entre si com faci- leitores era muito maior. Os que sabi-

lidade. Assim, foi a religião comum, o am ler, liam para os que n ã o sabiam

catolicismo, que acabou desempenhando ou contavam as n o t í c i a s . O jornal era

o elo preponderante na interação socio- d i s t r i b u í d o a t é por o c a s i ã o da missa do-

cultural. Tal papel, obviamente, conferiu minical, era levado a t é a igreja. 18

à Igreja um poder ainda maior de persu-


Influenciados pela a d e s ã o manifesta do
a s ã o sobre seus fiéis. O desenvolvimento
clero da Itália ao regime de Mussolini, os
da região colonial, com a abertura de es-
capuchinhos não s ó acolheram este sis-
tradas e o crescimento da indústria e do
tema político, como associaram-no ao
comércio, fez com que esta influência d i -
integralismo, o qual representava, para os
m i n u í s s e consideravelmente o fluxo de
freis da Ordem, o fascismo brasileiro. A
novos contatos culturais nos centros ur-
AIB pretenderia defender os mesmos prin-
banos, lia área rural, no entanto, a insti-
cípios, ou seja, lutar pela grandeza da
tuição m a n t é m a sua importância origi-
pátria e da família, e estruturar-se de
nária, sendo os freis capuchinhos os mais
acordo com as leis de Deus. Em janeiro
atuantes. Além de manter núcleos de ins-
de 1934, o Stafetta apresenta o novo mo-
t r u ç ã o religiosa, voltados basicamente
vimento:
para os filhos dos pequenos agricultores,
a Ordem possuía um destacado ó r g ã o de A A ç ã o Integralista Brasileira tem suas

imprensa, o periódico Stafetta primeiras m a n i f e s t a ç õ e s no estado,

Riograndense, publicado em italiano. O com a r e a l i z a ç ã o de um primeiro en-

j o r n a l , s e g u n d o d e p o i m e n t o de frei contro em Porto Alegre (...) o

Alberto, integralismo é fascismo, mas um fas-

cismo com c a r á t e r nacional. O progra-


(...) era o p o r t a - v o z da c o l ô n i a . O
ma do partido n á o apenas d á um lugar
jornal va- lia mais do que um co-
de honra à r e l i g i ã o , mas é nela que se
mício. liavia naquela é p o c a 17
inspira.
entre 15 mil a 20 mil assi-

naturas, mas o n ú -
Pelo testemunho de Carlos Fabris, pode-

mero de
se observar que os pequenos produtores
rurais endossaram.

-jil-jil

Porto A l e g r e em a g o s t o d e 1 9 3 5 . Correio d a M a n h a , A r q u i v o N a c i o n a l .

p á g . 2 6 . Jul/dez 1997
R V

Eu era fascista (...) andava de camisa gação daquela ideologia. Ma visão da Igre-
preta, pregava no meu povoado em ja, o comunismo avançava sem t r é g u a s e
Conceição. Mas, então veio o para destruí-lo não bastava reprimir as
integralismo e n ó s p e n s á v a m o s que era suas manifestações. Era preciso eliminar
a mesma coisa e fomos para o quaquer foco que pudesse favorecê-lo,
integralismo, nosso, brasileiro e n t ã o , como a injustiça social e econômica. As
com o Plínio Salgado. 18
disposições gerais do integralismo eram
apontadas como a grande e s p e r a n ç a de
Ou ainda, a associação entre os dois mo-
transformação nacional. Tratava-se de um
vimentos é evidenciada no relato de frei
movimento que obedeceria o ideal da ver-
Veronese:
dade, da liberdade, da disciplina e do
A AIB foi muito aceita na zona italiana, nacionalismo. Num mundo subordinado
com facilidade o c o l o n o recebeu o aos problemas de ordem material, onde
integralismo, pois havia o exemplo do as correntes políticas agiam à luz de pro-
fascismo italiano. Mussolini, enquanto blemas imediatistas e os princípios mo-
n ã o desbordou de seu sentido, tinha rais eram relegados a segundo plano, os
belas i d é i a s , fez muito pela Itália, de- postulados cristãos integralistas poderi-
senvolveu a agricultura, o trigo. Depois am reconduzir a humanidade a seus al-
desbordou... Havia muita simpatia por tos destinos, afastando-a, portanto, do
19
Mussolini na zona italiana. ateísmo comunista. Combater as maze-
las sociais, nessa perspectiva, significava
O apoio dado ao integralismo pela Ordem
t a m b é m incentivar a população a exercer
dos Capuchinhos e, de resto, por mem-
seu poder de voto:
bros de todo o clero brasileiro deveu-se
não s ó à simpatia com o fascismo italia-
O lugar dos c a t ó l i c o s e de todos os bra-
no, mas t a m b é m a uma convergência de
sileiros que ainda amam a integridade
idéias. A análise da realidade brasileira e
da pátria é na batalha das urnas em
das possíveis s o l u ç õ e s aos problemas
defesa da nossa t r a d i ç ã o . . . A r e l i g i ã o
nacionais eram semelhantes. Da mesma
n ã o impede nem i m p õ e a a d e s ã o dos
forma que a AIB, a Igreja católica consi-
c a t ó l i c o s ao integralismo (...) mas pode
derava serem responsáveis pela situação
ser de grande alcance ao futuro do Bra-
crítica do país o enfraquecimento do prin-
sil que ingressem no movimento os
cípio de autoridade, a carência de leis
c a t ó l i c o s leigos que tenham v o c a ç ã o
constitucionais, a fraqueza da hierarquia 20
política.
e da ordem e a infiltração comunista. So-
bretudo esse último fator, o suposto pe- Aos que acusassem os r e l i g i o s o s de
rigo iminente do comunismo, alterava a extrapolar suas funções ao imiscuir-se em
classe sacerdotal. Medidas urgentes de- atividades políticas, os freis capuchinhos
veriam ser tomadas para evitar a propa- alegavam que o estágio a que chegara o

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 17-36, j u l / d e z 1997 - pág.27


A C E

fascismo italiano fora alcançado principal- capuchinhos na zona rural. Quando os


mente com a ajuda do clero. Este traba- integralistas da sede chegavam para alar-
lhara junto ao povo, incentivando-o a dear a nova causa, encontravam invaria-
melhorar seu sistema de cultura, instru- velmente grupos de pessoas predispos-
indo-o e dando o exemplo direto. O go- tas à conversão imediata. Tratava-se, en-
verno nacional deveria, portanto, seguir tão, de oficializar o trabalho de divulga-
o exemplo e aproveitar a válida coopera- ção feito pelo clero. Referindo-se a essa
ção dos padres. Por fim, o integralismo fase, o integralista cidadino Oswaldino
encampava uma defesa cara à Igreja ca- Ártico comenta:
tólica, a defesa do sistema corporativo, o
N ó s p a s s á v a m o s os domingos envolvi-
qual era considerado o modo ideal de
dos com isto. í a m o s todos depois da
organização política. As corporações es-
missa falar e distribuir folhetos. D e i x á -
tabeleceriam a paz e a justiça, diminuin-
vamos l i d e r a n ç a s locais encarregadas
do os conflitos entre p a t r õ e s e emprega-
de organizar o movimento. í a m o s em
dos; objetivando a composição orgânica
dois ou t r ê s c a m i n h õ e s cheios de 'ca-
da sociedade, eliminariam as lutas de
misas-verdes'. Era um movimento ca-
classe. Frente a tal c o m u n h ã o de interes-
t ó l i c o e aqui é r a m o s todos c a t ó l i c o s . A
ses, a AIB aparecia como uma alternativa
Igreja nos recebia muito bem, éramos
viável na resolução dos impasses nacio-
um b a t a l h ã o de frente da Igreja. As i d é i -
nais, como demonstra o depoimento de
as nos empolgavam, a linguagem era
frei Alberto:
diferente, falava-se em modernidade,

Quando surgiu o integralismo houve civismo... Em Garibaldi, o movimento

grande receptividade... no clero secu- não estava organizado, eu e o

lar a maioria era simpática ao Compagnoni fomos lá fazer propagan-

integralismo, devido ao lema 'Deus, da, depois da missa d i s t r i b u í m o s folhe-

Pátria e F a m í l i a ' . A t r a v é s do Stafetta tos. Mas j á estavam todos esperando


e n d o s s á v a m o s com grande e s p e r a n ç a por n ó s , pelo movimento. 22

as i d é i a s do integralismo, pois acredi-


A relação estabelecida entre o fascismo
t á v a m o s que seriam capazes de endi-
italiano e o 'fascismo nacional' ajudou o
reitar o Brasil, e n t ã o em crise. Isto n ã o
integralismo na canalização das hostilida-
era s ó exprimido em palavras, havia
des latentes destes colonos a muitas d é -
t a m b é m um certo ar de ufanismo. Ha-
cadas de descaso das autoridades muni-
via a c o n v i c ç ã o , aqui no Rio Grande do
21
cipais e estaduais. A AIB aparecia como o
Sul, de que o integralismo iria triunfar.
movimento político que lhes proporcio-
lieste quadro favorável, os 'camisas-ver- n a r i a m e l h o r e s c o n d i ç õ e s de vida,
des' da cidade empenhavam-se em refor- ensejando, para tanto, a participação nas
çar a propaganda já feita pelos atividades partidárias da região. Os colo-

p á g . 28 . J u l / d e z 1997
V o

nos acreditavam ter encontrado na AIB AIB, a doutrina e o sentido político do


uma forma de manifestação de seus di- novo movimento eram objeto de anima-
reitos frente aos partidos tradicionais. do debate. Tais líderes, em geral empre-
Com dificuldades nas técnicas de plantio, gados especializados do comércio e da in-
problemas de escoamento da produção dústria, acreditavam que o integralismo
conjugados com os baixos preços dos pro- prosseguia os ideais da Revolução de
dutos agrícolas, os pequenos agriculto- 1930, dando ao episódio o seu verdadei-
res desconfiavam da assim denominada ro significado. Decepcionados com os ru-
'política dos brasileiros' que pouco con- mos da política nacional na conjuntura do
tribuía para a solução de seus problemas. pós-1930, classificavam uma outra revo-
A d e s a t e n ç á o e a r e p r e s s ã o por parte das lução, a Constitucionalista de 1932, como
autoridades governamentais diminuíra o o momento revelador da c a r ê n c i a de
interesse político dos colonos. Sem fide- substrato ideológico das elites dirigentes
lidades partidárias enraizadas e mesmo do país. Essas visualizariam na prática
avessos aos partidos regionais, constitu- partidária apenas a o b t e n ç ã o de vanta-
íam-se num público em disponibilidade gens e proveitos pessoais. Em meio a
política, lias palavras de frei Dionísio busca de alguma manifestação política
Veronese: que lhes atraísse, haviam, inclusive, fler-
tado com o comunismo, julgado pelo gru-
lio interior, na zona rural, n ã o havia
po, em última análise, como por demais
partido. O colono n ã o se ligava a ne-
violento e materialista. J á as c o n c e p ç õ e s
nhum partido. Mão tinha interesse na
e os partidos liberais apareciam como 'an-
p o l í t i c a do p a í s . Sua vida era cuidar da
tigos', 'ultrapassados', destituídos de va-
família, do trabalho. Para eles a políti-
lor com seus 'políticos profissionais'. Sen-
ca era c o n f u s ã o , n ã o queriam se meter
do esses últimos responsáveis por todas
em c o n f u s ã o . O pouco contato que ti-
as mazelas e entraves nacionais, n ã o
nham com a política nacional s ó decep-
mereceriam confiança. Ao invés disso, o
cionava os colonos. O fato era que o
integralismo, conhecido através dos jor-
colono sentia-se muito prejudicado pela
nais, expressaria uma 'mudança de men-
falta de c o n d i ç õ e s , de transportes, de
talidade', um 'partido dotado de unidade
conhecimentos. As melhorias n ã o che-
de idéias' e, acima de tudo, o primeiro
gavam na c o l ô n i a . A política partidária
partido que surgia no mundo fundamen-
em nada adiantava para o colono, fo-
tado numa 'filosofia espiritualista'. Em
ram muito mal tratados. Se tinham que
contraposição ao agnosticismo comunis-
votar, votavam e pronto. Havia muita
ta, defendia a crença em Deus. Da mes-
r e p r e s s ã o , perseguiam e matavam."
ma forma, o grupo era receptivo quanto
à identificação entre a AIB e os movimen-
Por sua vez, entre o pequeno grupo urba-
tos europeus.
no responsável pela organização local da

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 17-36. Jul/dez 1997 - p á g . 2 9


A C E

Para Arthur Rech, militante do grupo, as eleições municipais de 1935. Como ban-
ligações entre o integralismo e o fascis- deira eleitoral, a moralidade e o controle
mo eram evidentes e positivas, pois mos- dos gastos públicos: combatiam o aumen-
travam a universalidade de uma idéia, de to de impostos, a criação de novas tribu-
uma doutrina que deveria vingar no mundo: tações e a proliferação de funcionários;
defendiam a n ã o sobrecarga de impostos
Mesmo sendo os movimentos da mes-
aos colonos agricultores e a política do
ma ordem, n ã o q u e r í a m o s uma identi-
equilíbrio orçamentário, com a compres-
f i c a ç ã o direta, nossa m i s s ã o era com o
s ã o de todos os gastos. Para um partido
Brasil. O verde simbolizava a terra bra-
que havia se organizado em apenas um
sileira. Queríamos ser pessoas
ano na região, os resultados do pleito
marcadas na sociedade pelo exemplo:
eleitoral foram extremamentes favoráveis,
virtude, religiosidade, disciplina, amor
sendo os melhores que o partido obteve
pelo trabalho, isto o integralismo pre-
no estado. A AIB elegeu em Caxias do Sul
gava. Q u e r í a m o s tudo nativo, é r a m o s
três vereadores, Arthur Rech (represen-
brasileiros e n ã o italianos. Os imigran-
tante comercial), Humberto Bassanesi
tes passaram a aderir à camisa-verde,
(empregado do comércio) e Emílio Pezzi
deixaram de usar a camisa-parda. O
(comerciante), contra quatro vereadores
nosso movimento era melhor, era mais
do partido situacionista, o PRL, equipa-
democrático."
rando praticamente o público de eleito-
O ponto focai de interesse do grupo re- res. Ha votação geral, os vereadores do
pousava antes no que era percebido como PRL receberam 1.470 votos enquanto os
um apurado sentido nacionalista da AIB, vereadores da AIB obtiveram 1.218. 25

preocupada com assuntos de toda a na- A partir desse resultado e da atuação sem-
ção e concebendo a idéia de partido na- pre contrastante dos vereadores
cional', longe, portanto, das a m b i ç õ e s integralistas na c â m a r a municipal, a hos-
restritivas e dos imediatismos dos parti- tilidade do partido governista, a t é e n t ã o
dos regionais. O comunismo, mais uma relativamente contida em função da pre-
vez, ia de encontro a esses princípios, sença do clero nas fileiras da AIB, tornou-
mostrando-se 'internacionalista'. Assim, se ostensiva. As rivalidades latentes tor-
dentro do quadro político da época, a AIB naram-se explícitas e o movimento
teria se mostrado ao grupo como a op- integralista passou a ser alvo de ataques
ção mais promissora. constantes que visavam d e s a c r e d i t á - l o ,
entusiasmados com a numerosa a d e s ã o pondo em dúvida suas atitudes e seu ca-
ao movimento na zona rural, com o apoio ráter. O PRL procurava identificar a AIB
de uma parcela do clero e com a sempre ao comunismo, explicando que, em am-
crescente inserção na própria zona urba- bos os movimentos, o governo deixava de
na, os integralistas articulam-se para as ser uma e x p r e s s ã o da vontade da maio-

p á g . 3 0 . jul/dez 1997
R V O

ria. Passava, antes, a representar apenas da ingenuidade do clero:


os interesses de uma oligarquia, que im-
A Igreja aconselha a i m p l a n t a ç ã o do
punha o seu poder através da violência e
integralismo no Brasil. Que significará
da força. Da mesma forma, a AIB é acu-
a palavra Deus na prática do
sada de servir aos propósitos do fascis-
integralismo o dia em que ele estiver
mo italiano, preparando as condições à
no poder? Por ventura, Mussolini j á n á o
infiltração e s t r a n g e i r a no p a í s . Os
ameaçou a Igreja? Os regimes
integralistas seriam apenas versões mal
m i n o r i t á r i o s jamais p o d e r ã o tolerar
acabadas dos fascistas europeus, condu-
uma Igreja prestigiosa e popular, lia de-
zidos por um mitomaníaco disfarçado de
mocracia nada tem a Igreja a temer. A
salvador: Plínio Salgado, lia verdade, de-
legenda integralista 'Deus, Pátria e Fa-
nunciavam, a AIB teria se afirmado com- 28
mília' é mais um e n g o d o .
batendo os operários, os negros, os j u -
deus, a democracia, a liberdade e a inte- Em editorial, O Momento aponta quais
ligência. Era, portanto, um movimento seriam as razões de adesão ao
perigoso, destituído de respeitabilidade e integralismo. De acordo com sua visão,
motivado por intenções escusas. Parecia, muitas pessoas eram atraídas ingenua-
assim, i n c o m p r e e n s í v e l o apoio que a mente em função da novidade política, da
Igreja oferecia à AIB. O jornal oficial do oportunidade de aparecer, da falácia dos
PRL colocava nesses termos a considera- postulados morais. Porém, as lideranças

E x p o s i ç ã o anti-Integralista n o Teatro M u n i c i p a l . Rio de Janeiro, o u t u b r o d e 1957. Correio da M a n h ã ,


Arquivo Nacional.

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A C E

que difundiram o movimento na região cidamente I n ú t e i s , nada mais justo e

seriam indivíduos condenados ao ostra- natural que sua e x t i n ç ã o . *2

cismo por evidente falta de qualidade


nessa lógica, os membros da AIB nega-
política e moral. Segundo esse raciocínio,
vam que sua organização fosse um parti-
o jornal sentenciava com veemência os
do político. Apenas se inscrevera como tal
dirigentes do integralismo local, mas ten-
a fim de propagar legalmente suas idéi-
tava eximir a massa de seus adeptos, os
as. A política ocupava somente uma se-
quais não passariam de "inocentes úteis".
ção do movimento, agora extinta. A AIB
Em meio as a g r e s s õ e s constantes, os passava a ser, no novo sistema, uma as-
integralistas tentam relativizar seus an- sociação de estudos, de e d u c a ç ã o moral
tagonistas, argumentando que perturba- e esportiva. Por sua vez, o PRL conside-
vam estes velhos políticos por não parti- rou a dissolução dos partidos políticos
ciparem na "falsa vida política do país e uma prova cabal do espírito d e m o c r á t i c o
lutarem para reerguer a nação do caos do governo Vargas. O fim do integralismo
provocado pelo regime liberal": como partido foi comemorado como uma

O alarme na família liberal é grande. medida ímpar. Os i n ú m e r o s incidentes

Todos os meios de defesa e s t ã o sendo entre o governo federal e a AIB a p ó s a

mobilizados. Os jornais da terra atacam d e c r e t a ç ã o do Estado Movo renovaram as

os ' p e r i g o s í s s i m o s ' camisas-verdes, a c u s a ç õ e s ao integralismo na região:

nunca pusemos em d ú v i d a estes políti-


Prossegue por todo o p a í s a campanha
cos, apenas negamos a e f i c i ê n c i a de-
que o governo desenvolveu contra os
les em meio aos partidos p o l í t i c o s que
adeptos do 'pano verde'. Precisamos
2 7
dividem e semeiam o ó d i o .
olhar com firmeza ao redor, verificar

Às animosidades generalizadas das forças bem de perto quem eram os adeptos

políticas dominantes na região agregou- de ontem e os inimigos de hoje; mais

se o advento do Estado Movo em novem- cuidado deve ter o governo, debaixo de

bro de 1937. Porém, tanto a AIB quanto o d e m o n s t r a ç õ e s h i p ó c r i t a s pode estar

PRL locais apoiaram, no início, o novo re- escondido aquele que mais tarde po-

gime. Para os integralistas, o fim das prá- deria ser o portador do punhal homici-

ticas político-partidárias no país viera ao da contra o povo que n ã o quer o regi-

encontro de seus princípios: me estrangeiro e contra o governo que


29
se inicia e que trabalha.
Os homens de partido n ã o trepidavam

em p ô r em e x e c u ç ã o os meios violen- Concomitante aos acontecimentos do


tos, sacudindo o p a í s , de tempos em p a í s , a d e s a r t i c u l a ç ã o d e f i n i t i v a do
tempos, com movimentos armados que integralismo na zona colonial italiana su-
pertubavam o ritmo normal da vida da cedeu-se com o fracasso do golpe de maio
n a ç ã o (...) se os partidos eram reconhe- de 1938, ocasião em que as lideranças da

p á g . 32 . J u l / d e z 1997
V o

AIB rebelaram-se contra o governo fede- determinadas regiões do país onde esta
ral na expectativa de tomar o poder. No fase de transição mostrou-se mais agu-
planejamento nacional do golpe, alguns da, a receptividade à AIB foi, em geral,
integralistas desta área de imigração fo- mais intensa dado o seu caráter de movi-
ram convocados ao Rio de Janeiro a fim mento político tido como alternativo ao
de receber instruções. Segundo depoi- status quo vigente. Suas práticas e pro-
mento de Oswaldino Ártico: postas doutrinárias consideradas radical-
Em Caxias, ficamos reunidos esperan- mente novas forneceram um projeto po-
do o sinal da rádio Mairink Veiga para lítico a u t ô n o m o para segmentos sociais
c o m e ç a r m o s a r e v o l u ç ã o . Iniciava no emergentes que se identificaram com este
Rio. O sinal n ã o foi feito. N ó s n ã o t í n h a - tipo de apelo. Essa realidade, presente ém
mos armas. Nada organizado. Na hora, maior ou menor grau nas á r e a s onde a
í a m o s pensar no que fazer, mas nada AIB encontrou aceitação, não pôde impe-
aconteceu. Eicou por isto mesmo e o dir o reconhecimento das particularida-
movimento integralista terminou para des locais que diferenciaram e enrique-
sempre. 30
ceram a análise da natureza do

O integralismo representou ao longo de integralismo. Qual seja, no caso das zo-

sua existência legal (1932-1938) a mani- nas de imigração alemã e italiana, pare-

festação de uma sociedade mais comple- ce evidente a importância da q u e s t ã o ét-

xa engendrada com as t r a n s f o r m a ç õ e s nico-cultural sobredeterminando as mo-

sociopolíticas e econômicas ocorridas ao tivações de a d e s ã o ao novo movimento

longo das d é c a d a s de 1920 e 1930. Em brasileiro.

N O T A S
1. O integralismo tem sido nas ú l t i m a s d é c a d a s objeto de interesse em uma perspectiva nacional
e, mais recentemente, em a n á l i s e s comparativas com os movimentos fascistas europeus. Ver
a
entre outros: tlelgio Trindade, Integralismo: o fascismo brasileiro na d é c a d a de 30, 2 ed., S ã o
Paulo, Difel, 1977; J o s é Chasin, O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no
capitalismo hipertardio, S á o Paulo, Editora C i ê n c i a s Humanas, 1978; Ricardo Benzaquen de
Araújo, A cor da e s p e r a n ç a : totalitarismo e r e v o l u ç ã o no integralismo de Plínio Salgado, Rio de
Janeiro, CPDOC/PGV, 1984; Elmer Broxson, Plínio Salgado and brazilian integralism (1932-1938).

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C E

Washington. The Catholic University of America, 1972; Juan Linz, "O integralismo e o fascismo
internacional". Porto Alegre, Revista IFCtl. J.1976; Walter Laqueur (ed.), Tasc/smo: a reader's
guide, University of Califórnia Press, 1976; Pierre Milza, Les fascisme. Paris, Impremerie
Nationale, 1985; Stanley Payne, El fascimo, Madrid, Alianza Editorial, 1982.
2. Sobre a formação histórica do Rio Qrande do Sul ver: Joseph Love. O regionalismo gaúcho,
a
São Paulo, Perspectiva, 1975; Paul Singer, Desenvolvimento econômico e evolução urbana, 2
ed., São Paulo, Companhia nacional Editora, 1977; Helga Piccolo, "A política rio-grandense no
Império", em J. Dacanal e S. Gonzaga, Rio Qrande do sul: economia e política. Porto Alegre,
Ed. Mercado Aberto, 1979; Sandra Pesavento, Rio Qrande do Sul: economia e poder nos anos
30, Porto Alegre, Ed. Mercado Aberto, 1980.
3. Jean Roche, A colonização alemã e o Rio Qrande do Sul, vol. II, Porto Alegre, Ed. Qlobo, 1969.
4. Entrevista de Alcides Arendt (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, nUPEROS/COnsUL/Universi-
dade Federal do Rio Qrande do Sul.
5. Entrevista de Maximiliano Hahan (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, nUPERQS/COnSUL/ Uni-
versidade Federal do Rio Qrande do Sul.
6. Telegrama de Morais Forte a Flores da Cunha, publicado no jornal Correio do Povo. Porto Ale-
gre, (26/2/1935).
7. Entrevista de Metzler ao jornal Correio do Povo, Porto Alegre, (26/2/1935).
8. Relato de Felipe Stahl. Contribuição para a história de Mova Petrópolis, Prefeitura Municipal de
nova Petrópolis. EDUCS. 1985. p. 245.
9. Relato de Irmgard Schuch, ibidem, p. 249.
10. Relato de Elizabeth K. Evers, ibidem, p. 256.
11. Telespresso n° 2.085/656 (Rio de Janeiro, 21 de setembro de 1936) e Telespresso n° 235.417
(Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1936), Arquivo Histórico do Ministério de Relações Exterio-
res-Roma.
12. Entrevista de Enrico Muller (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, NUPERQS/COnSUL/ Universi-
dade Federal do Rio Qrande do Sul.
13. Entrevista de José Ferreira da Silva (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, nUPERQS/COMSUL/
Universidade Federal do Rio Qrande do Sul. Integralista de Blumenau, o diretor da Biblioteca
Pública, Ferreira da Silva, era luso por descendência paterna e alemão pela linha materna.
14. "Os homens somos nós" de Luís Compagnoni, publicado no jornal O Bandeirante, (10/2/1935).
15. Entrevista de Oswaldino Ártico, concedida em 1991.
16. Entrevista de frei Alberto Stawiski, concedida em 1991. De origem polonesa, formou-se no
curso de Filosofia e Teologia da cidade de Qaribaldi em 1925.
17. Stafetta Riograndense, Caxias do Sul, (12/9/1934).
18. Entrevista de Carlos Fabris (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, nUPERQS/COnSUL/ Universi-
dade Federal do Rio Qrande do Sul. Fabris tornou-se chefe do integralismo no distrito de Con-
ceição, interior de Caxias do Sul.
19. Entrevista de frei Dionísio Veronese, concedida em 1991. Para o frei capuchinho: "Os líderes
do integralismo estavam nas cidades, mas a penetração do integralismo era principalmente
nas colônias, no interior. Eram agricultores, os colonos que entravam para o integralismo".
Oswaldino Ártico, por sua vez, observa: "A gente aqui em Caxias dirigia o integralismo, mas
nas colônias, nestes vilarejos, havia muitos integralistas. Os colonos eram todos integralistas
por causa da Igreja".
20. Jornal Stafetta Riograndense, (21/3/1934). Segundo a reportagem *(...) diversos países euro-
peus sofreram uma profunda revolução política transformando-se em estados corporativos,
como a Itália, a Alemanha. O movimento deveria ampliar-se (...) a AIB que vem surgindo de-
fende o sistema corporativo".
21. Entrevista de frei Alberto Stawiski.
22. Entrevista de Oswaldino Ártico.
23. Entrevista de frei Dionísio Veronese.
24. Entrevista de Arthur Rech (1969). Arquivo AlB/Helgio Trindade, MUPERQS/COnSUL/Universida-
de Federal do Rio Qrande do Sul.

p á g . 3 4 . Jul/dez 1997
V O
R

25. Jornal O Momento, Caxias do Sul. (5/12/1935).


26. Jornal O Momento, Caxias do Sul, (9/8/1936).
27. Jornal O Bandeirante, (31/7/1936), p u b l i c a ç ã o oficial do integralismo na r e g i ã o colonial italiana.
28. Jornal O Bandeirante. (18/11/1937).
29. Jornal O Momento, (6/12/1937).
30. Entrevista de Oswaldino Ártico.

B I B L I O G R A F I A
1. Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul (Setor de Bibliografias): Arthur Rech;
Humberto Bassanesi; Emílio Germano Pezzi.

2. Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul (Setor de Periódicos e Documentos).

3. Anais da Câmara Municipal de Caxias do Sul: 1935, 1936, 1937.

4. Arquivo AIB/Helgio Trindade. riUPERQS/COHSUL/Universidade Federal do Rio Grande


do Sul.

5. Arquivo Flores da Cunha. MUPERQS/COHSUL/ Universidade Federal do Rio Qrande do


Sul.

6. Arquivo de Pesquisa Histórica do Departamento de História da Universidade de Caxias


do Sul.

7. Jornais regionais integralistas: A Luta (Porto Alegre), A Revolução (Porto Alegre), O


Integralista (Porto Alegre), O Bandeirante (Caxias do Sul).

8. Jornais regionais: O Momento (Caxias do Sul), // O/orna/e delVAgrlcoltore (Caxias do


Sul), Stafetta Riograndense (Caxias do Sul), Correio do Povo (Porto Alegre), Diário de
notícias (Porto Alegre).

9. Boletins informativos: Cinqüentenário delia Colonlzzazlone Italiana nel Rio Qrande


dei Sud, Porto Alegre, Qlobo, 1925; Documentário Histórico do Município de Caxias
do Sul, 1875-1950, Sáo Leopoldo, Artegráflca, 1950; De Província de São Pedro a
Estado do Rio Qrande do Sul, censos do Rio Qrande do Sul, 1803-1950.

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 17-36, J u l / d e i 1897 - p á g . 3 5


A B ^ T R A C T
The essay describes the setting of the Brazilian Integralist Action (AIB) of Plínio Salgado wlthin the

social and political context of Rio Qrande do Sul in the 1930s. The analysis places the í n t e g r a l l s m

in the same category as the fascists movements. Thus, the subject is focused on the problems

encountered by the movement during its regional expansion process, considering the particularities

of that moment in history.

R É S U M É
Lessai entend d é c r i r e la mise en place de 1'Action I n t é g r a l i s t e B r é s i i i e n n e (AIB) de Plínio Salgado,

dans le contexte social et politique de 1'état du Rio Qrande do Sul pendant la d é c a d e de 1930.

Lanalyse situe 1'intégralisme dans la c a t é g o r i e des mouvements fascistes. Par rapport à cette i d é e ,

le sujet est centre dans les vicissitudes qui connait le mouvement au cours de son processus

dexpansion r é g i o n a l e , en fonction des p a r t i c u l a r i t é s de ce moment historique.


Maria Antonieta de Toledo Ribeiro Bastos
Geógrafa do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

O U n i v e r s o do T r a b a l h o do
làa - S P
(1876/1930)

A
nalisar o universo do paulista, até e n t ã o essencialmen-
2
trabalho imigrante, te rural.
na cidade de Itu, de A expulsão desses imigrantes
uma forma mais ampla, no pe- de seus p a í s e s de origem,
ríodo de 1876 a 1930, é uma notadamente da Itália, foi
tarefa extremamente exaustiva, cuja di- causada pela e x p a n s ã o do capitalismo
m e n s ã o extrapola a abrangência de um a p ó s 1850 e c o n s e q ü e n t e divisão inter-
artigo. Porém, a pesquisa realizada a par- nacional do trabalho. O fato de eles n ã o
1
tir das fontes p r i m á r i a s resgatou dados se submeterem ao processo de
essenciais para a análise das diferentes proletarização em sua terra natal esti-
3
categorias de trabalho, da composição da mulou a emigração para o Brasil, rece-
população imigrante por nacionalidade e bendo esse movimento pleno apoio go-
de alguns aspectos de sua trajetória ao vernamental, tanto no país receptor como
c h e g a r ao B r a s i l . O corte t e m p o r a l no expulsor. Em 1871, sancionava-se
corresponde à fase de transição da m ã o - uma lei em que o governo brasileiro era
de-obra escrava para a mão-de-obra l i - autorizado a emitir apólices de a t é seis-
vre, m o m e n t o em que as correntes centos contos, visando o pagamento de
imigratórias tornaram-se mais expressi- passagens de imigrantes, dando-se pre-
vas, povoando grande parte do interior ferência aos do norte europeu. Messe

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. X0. n ° 2. pp. 37-52, J u l / d e i 1997 - p á g . 3 7


m e s m o a n o , criava-se a A s s o c i a ç ã o para a a c e l e r a ç ã o do fluxo imigratório,
Auxiliadora de Colonização e Imigração. entre eles a abolição da escravatura e a
Em 1884, uma lei provincial autorizava o ampliação da nascente rede viária na re-
presidente da província a dispor anual- gião de Itu, em face da e x p a n s ã o da la-
mente de duzentos contos para a cria- voura canavieira. A abolição da escrava-
ção de núcleos coloniais, e quatrocentos tura (1888), embora tenha abalado a es-
contos para auxiliar na introdução de imi- trutura e c o n ô m i c a de grande parte do
grantes tanto nos núcleos como nas gran- país, incentivou, por outro lado, o pro-
des lavouras. E em 1886, fundava-se a cesso imigratório, pois o café se expan-
Sociedade Promotora de Imigração, jun- dia para as zonas de povoamento mais
to ao governo provincial, que funcionaria recentes do interior paulista, g r a ç a s ao
4
oficialmente a t é 1895. Somente em trabalho do colono imigrante. As relações
1923 seria criada, em Itu, a primeira As- de trabalho, c o n s e q ü e n t e m e n t e , se mo-
sociação de Trabalhadores Têxteis, trans- dificaram, permitindo uma melhor distri-
5
formada em sindicato em 1944. buição das riquezas, j á que o trabalho
Vários foram os fatores que contribuíram assalariado, configurado no sistema de

D e s e m b a r q u e d e u m g r u p o d e Imigrantes n a e s t a ç ã o d a H o s p e d a r i a d e Imigrantes. M u s e u d a
Imigração.

p á g . 3 8 . Jul/dez 1997
V o

colonato, tinha no núcleo familiar seu (16,5%), francesa (15,2%), espanhola


maior suporte. Zuleika Alvim, em seu l i - (8,6%), sueca (8,6%), inglesa (4,7%),
vro Brava gente, mostra que a preferên- holandesa (3,3%), suíça (2,7%), norte-
cia do fazendeiro pelo trabalho familiar, americana (2%) e belga (0,6%). Verificou-
em detrimento do assalariado, dava-se se, ainda, que o movimento migratório
pela maior exploração da mão-de-obra, para Itu, por província, era o seguinte:
uma vez que os salários eram pagos por 96,5% originário da própria província,
tarefa e n ã o por indivíduo, o que ainda 1,2% do Rio de Janeiro e o restante da
garantia uma maior estabilidade de m ã o - Bahia, Maranhão, Ceará, Pernambuco,
de-obra nas fazendas. Por outro lado, do Alagoas, Rio Qrande do Sul, Minas Ge-
ponto de vista do imigrante, era a única rais, Pará e Piauí.
forma de fugir da proletarização iminen-

A
expansão da rede ferroviária,
te. Vários autores analisaram a q u e s t ã o
por sua vez, fez ainda com
da rentabilidade do trabalho do colono,
que a capital de São Paulo se
comparado ao do escravo. José
tornasse o centro de irradiação, trazen-
Vergueiro, um dos defensores do traba-
do alterações em toda a conjuntura soci-
lho livre, e s p e c i f i c o u num artigo
al e econômica do estado. Itu j á recebia
jornalístico que para a aquisição de cem
os benefícios da Estrada de Ferro Ituana,
escravos, obtinha-se o equivalente a
interligada com Jundiaí — inaugurada em
1.660 trabalhadores livres.
1873 — que, sem dúvida, se configurou
num marco importante para o fluxo
A imigração converteu-se, portanto, num
imigratório. A população e a economia da
fenômeno concreto, mudando a qualifi-
região cresciam, principalmente com a
cação técnica da força de trabalho, tor-
afluência desses trabalhadores. O tráfe-
nando-a superior à do trabalho escravo.
go ferroviário entre Itu e Capivari, pela
O afluxo dessa massa imigratória resul-
nova via, fora aberto em 1875, e o de Itu
tou da existência e/ou melhoramento do 6
a Piracicaba, em 1876. Essa ampliação
sistema de transporte na região, a p ó s o
da rede de comunicações com a capital
crescimento da lavoura cafeeira. O re-
permitiu, por sua vez, um maior movi-
censeamento de 1872 j á indicava, em Itu,
mento de capital, resplandecendo a r i -
um g r a n d e n ú m e r o de estrangeiros
queza, portanto, em todo o t e r r i t ó r i o
(1.187 no total, sendo 707 livres e 480
paulista. Embora incipiente, essa rede e
escravos). Dentre os livres, 75,5% eram
o porto de Santos garantiam o êxito do
homens e 24,5% mulheres. A população
processo imigratório e da economia de
estrangeira escrava era formada por 71%
exportação cafeeira.
de homens e 29% de mulheres. A pre-
s e n ç a dos estrangeiros era restrita aos A e m i g r a ç ã o estrangeira para o Brasil
de origem portuguesa (37,8%), italiana teve no elemento italiano seu principal

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 3 7 - 5 2 . Jul/dez 1997 - p á g . 39


A C E

componente. A média anual que se diri- 8


Os imigrantes italianos, em sua maio-
gia para o Brasil era de 43.116 italianos ria, originavam-se principalmente do nor-
(1870/1902), caindo depois para 14.328 te da Itália. Dentre as principais provín-
(1902/1920). A diminuição desse contin- cias, destacavam-se as do Vêneto (107):
gente foi acentuada, pois enquanto de Verona (19), Treviso (16), Veneza (15),
1902 a 1920 vieram para o Brasil 290.027 Pádova (14), Trento (13), Rovigo (11),
italianos, para os Estados Unidos enca- Vicenza (7), Udine (5), Pádua (5), Beluno
minharam-se 3.920.330" pessoas. (2); Lombardia (28): Mântua (24) e Milão
(4); E m í l i a R o m a n a (8): Ferrara(4),
Itu, a s s i m c o m o o u t r o s municípios
Castelnuovo (2), Módena (1) e Forli (1).
paulistas de povoamento antigo, teve
Caracterizavam-se, de modo geral, como
maior aumento populacional no mesmo
uma população extremamente jovem, com
período em que o estado de São Paulo
idade inferior a 13 anos, na maioria dos
recebeu a massa imigrante, por ocasião
casos (60%). O universo do trabalho imi-
da primeira fase do desenvolvimento in-
grante estava concentrado principalmente
dustrial paulista (1890 a 1914). Entre
no campo, como lavradores (92) (9%), la-
1887 e 1917, entraram 809.650 imigran-
vradores/proprietários (67) (6,6%), jorna-
tes italianos, dos quais 387.990 no curto
leiros/diaristas (2), agricultorres (2) e ar-
período de nove anos (1892 a 1901). Por
r e n d a t á r i o s (2) (0,6%). Sem considerar
essa razão, as cifras sobre o crescimen-
aqui as 'domésticas', que atingiam altos
to populacional da cidade de São Paulo
índices (189) de o c u p a ç ã o , tanto no cam-
quase quadruplicaram, embora estives-
7
po como na cidade.
sem incluídos distritos tipicamente rurais.

C
Enquanto a maior parte da massa imi-
omparados ao recenseamento
grante — notadamente de origem italia-
de 1872, os registros da popu-
na, que se Fixava na capital paulista no
lação imigrante residente em
início do processo imigratório — dedica-
Itu, no período de 1939 a 1969, permi-
va-se à p r o d u ç ã o fabril, como o p e r á r i o s
tem avaliar que ocorreu o aumento da
e proprietários de estabelecimentos i n -
diversidade da procedência desses novos 9
dustriais, no interior do estado, em par-
habitantes. Constata-se, e n t ã o , que pre-
ticular em Itu, essa p o p u l a ç ã o restringia-
d o m i n a v a m os i m i g r a n t e s i t a l i a n o s
se ao trabalho no campo, principalmente
(46,6%), seguidos pelos espanhóis (36%),
nas lavouras de café, pois tinha na agri-
portugueses (4%) e os demais (13,4%),
cultura melhor oferta de trabalho e mo-
compostos por suíços, franceses, libane-
radia.
ses, a u s t r í a c o s , venezuelanos, argenti-
nos, egípcios, romenos, a r m ê n i o s , ale- O pequeno proprietário, a r r e n d a t á r i o e
m ã e s , holandeses, paraguaios, h ú n g a r o s meeiro, italiano, na sua terra de origem,
e ingleses. em quase nada diferia do bracciante,

p á g . 4 0 . Jul/dez 1997
R V O

embora fosse proprietário de pequena Tabela 1

parcela de terra ou detivesse um certo E m i g r a ç ã o italiana para o Brasil por

capital para arrendamento de á r e a s para regiões (1876-1920)

cultivo. Em vista do insuficiente quadro Vêneto 365.710


industrial para absorção de mão-de-obra, Campânia 166.080
10
transformava-se em proletário rural. 113.155
Calábria

Lombardia 105.973
O universo do trabalho do imigrante, em
Abruzzi/Molise 93.020
Itu, atrelava-se certamente à escolha
Toscana 81.056
ocupacional, condicionada à s raízes his-
Emília Romana 59.877
tóricas dessa massa imigratória, levan-
Basilicata 52.888
do-se em conta os valores próprios de
Sicília 44.390
uma sociedade pré-industrial e as dife-
Piemonte 40.336
renças regionais de cada nação. A esco-
Puglia 34.833
lha inicial do imigrante pelo campo, em
Marche 25.074
detrimento da cidade, dava-se com base
Lázio 15.982
nos seus valores socioculturais. Por essa
r a z ã o , eram assustadoras as cifras de Úmbria 11.818

emigração da região setentrional da Itá- Ligúria 9.328

lia, notadamente do Vêneto (30%) para o Sardenha 6.113

Brasil, entre 1876 a 1920, estudado por Total 1.243.633

Zuleika Alvim, tomando-se por base o Fonte: Zuleika Alvim, Brava gente: os italianos em São Paulo, São
Paulo, Brasiliense. 1966.
11
recenseamento do Brasil de 1920.
Dentre os sócios relacionados no livro de
lio estado de São Paulo, segundo o cen- registros da antiga Sociedade de Mútuo
so de 1920, a massa imigrante Socorro Luigi de Savoia, fundada em
1J
correspondia, de um modo geral, a 18,1% 1919, verificou-se que, nesse ano, 168
da população total. Qrande parte desse (58,8%) italianos e seus descendentes j á
contingente era composta por italianos haviam se tornado trabalhadores urba-
(60%), e s p a n h ó i s (27%), portugueses nos e destacavam-se como pequenos co-
(5%), a u s t r í a c o s (3,6%), turcos (1,2%), merciantes ou a r t e s ã o s . As diferentes ca-
franceses (0,7%), a l e m ã e s (0,6%), argen- tegorias desses trabalhadores e o número
tinos (0,5%), uruguaios e americanos de pessoas ocupadas podem ser obser-
(0,2%), poloneses e suecos (0,1%) e, em vadas a seguir: proprietário (34), nego-
menor escala ainda, dinamarqueses, rus- ciante (22), trabalhador (10), industrial
sos, s u í ç o s , venezuelanos, cubanos e (8), sapateiro (8), alfaiate (7), carpintei-
húngaros (esses dados referem-se aos ro (6), ebanista (5), açougueiro (4), mo-
que inclusive adotaram nacionalidade torista (4), construtor (3), carreteiro (3),
brasileira). construtor de edifício (3), padeiro (2),

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 37-52. Jul/dez 1997 - p á g . 4 1


A C E

serralheiro (2), barbeiro (2), guarda-livros (I) , Merja (1), A d i a (1), G u e r b a (1),
(2), artista (2), m e c â n i c o (2), relojoeiro Algarrobo (1), Alcandete Jaen (1) e sem
(2) , bilheteiro (2), vigilante (2), cocheiro identificação de origem (7). C o m e ç a r a m
(1), operário de olaria (1), chefe de es- a chegar, em maior n ú m e r o , no Brasil,
t a ç ã o telefônica (1), pastor (1), ourives somente a partir dos anos de 1910, con-
(1), leiteiro (1), pastato (1), marmorista forme verificado na d o c u m e n t a ç ã o da
(1), ferrador (1), hoteleiro (1), negocian- série registro de estrangeiros. Assim sen-
te de madeira (1), caixeiro-viajante (1), do, notou-se o registro de (1) espanhol
arrieiro (1), o p e r á r i o (1), t é c n i c o (1), em 1878, (2) em 1888, (1) em 1889, (2)
carrero (1), comerciante (1), farmacêuti- em 1890, (2) em 1892, (3) em 1893, (4)
co (1), médico (1), agricultor (1), funileiro em 1894, (2) em 1895, (2) em 1896, (4)
(1), pedreiro (1), tipógrafo (1), arquiteto em 1897, (2) em 1898, (2) em 1899, (2)
(1), marmoreiro (1), vendedor de tripas em 1900, (2) em 1901, (1) em 1902, (1)
(1), proprietário de garagem (1), profes- em 1903, (5) em 1904, (6) em 1906, (1)
sor (1) e litógrafo (1). em 1907, (2) em 1909, (6) em 1910, (13)
em 1911, (13) em 1912, (16) em 1913,

C
omo s ã o escassos os estudos
(II) em 1914, (3) em 1915, (3) em 1916,
sobre a i m i g r a ç ã o espanhola
(1) em 1917, (2) em 1920, (4) em 1921,
no Brasil, verificou-se, nas fon-
(7) em 1922, (7) em 1923, (4) em 1924,
tes documentais j á destacadas, que a sua
(3) em 1925, (3) em 1926, (4) em 1927 e
grande maioria em Itu era originária de
(1) em 1929, sendo que sete elementos
Granada (31), Málaga (19), Almeria (16)
não forneceram dados sobre a data de
e Toledo (9), seguindo Múrcia (6), Lorca
sua chegada ao Brasil.
(3) , Ruvite (3), Madri (3), Pazo-Alcon-Jaon
(3), Cádis (3), Pamplona (2), Leon (2), Embora numericamente inferior ao imi-
C á c e r e s (2), Orenze (2), Sevilha (2), grante italiano, o espanhol n ã o diferia
Alicante (2), Palácios Rubios (1), Caim (1), substancialmente daquele, pois era tam-
Narmeriana (1), Salamanca (1), Vila Coim bém colono e lavrador, visto que a pe-
(1). Haen (1), Ubida (1), Hetea (1), Ávila quena propriedade predominava e se
(1), Cartagena (1), Samora (1), Motril (1), configurava nos moldes da p r o d u ç ã o e
Ponte Vedra (1), Sogronha (1), Armedo consumo familiar. O sobreproduto cres-
(1), Albaceti (1), Colmenar (1), Colúmbria cente da agricultura, no entanto, trans-
(1), Pliego (1), C ó r d o b a (1), Sierra dei formava aos poucos a cidade e o siste-
Lehgua (1), Mazarron (1), Montilla (1), ma de manufatura urbana, e reforçava a
Luidarrar (1), Valdeverdeja (1), Vila de capacidade produtiva, ampliando o n ú m e -
Albandon (1), Albunol (1), Cuia de Vassa ro de pequenas lojas e a r m a z é n s e a pro-
(1), Jaen Pazo (1), Castres (1), Merga (1), d u ç ã o artesanal organizada (alfaiatarias,
Pear de Becerro (1), Sorbas (1), Mendoza c o n f e i t a r i a s , s a p a t a r i a s , o f i c i n a s de

p á g . 4 2 . Jul/dez 1997
costura e outras). A presença de operá- rurais, 127 (26,7%) de origem italiana.
rios fabris e 'avulsos', entre os imigran- Mo ano de 1910, ela constatou 151 pro-
tes italianos e e s p a n h ó i s , era constan- priedades de italianos e, para o ano de
te, o b s e r v a ç ã o t a m b é m revelada em 1920, concluiu que 10,1% da população
anúncios classificados da imprensa peri- residente no município de Itu era de ori-
ódica. O trabalho feminino estava volta- gem italiana, considerando-se que, de um
do principalmente para as atividades do- total de 30.392 habitantes, 3.087 eram
mésticas, destacando-se, nesse univer- italianos. A cidade vizinha de Salto cha-
so, os imigrantes italianos, e s p a n h ó i s , mou a atenção da autora, pois o quadro
portugueses, austríacos e romenos. Mas era ainda mais marcante: em 1905, pos-
atividades eclesiásticas, era freqüente a suía 96 propriedades rurais, sendo 41
presença de freiras portuguesas no Co- (42,7%) de italianos; em 1920, possuía
légio Mossa Senhora do Patrocínio e no 147 propriedades rurais, sendo 53 (36%)
Mosteiro da Imaculada Conceição; de sa- também de italianos. Mo ano de 1920, a
cerdotes franceses, ingleses, holandeses população urbana residente na cidade de
e uruguaios no Colégio São Luís, na Igre- Salto era de 9.934 habitantes, sendo
14
j a do B o m Jesus e no S e m i n á r i o do 1.583 (15,9%) italianos. Porém,
Carmo; e de religiosas francesas e bel- embora os imigrantes, em 1920,
gas no Colégio Mossa Senhora do Patro- correspondessem a 16,6% da população
cínio e no Mosteiro da Imaculada Con- do município de Itu, a t é o ano de 1904 a
ceição. renda do solo urbano era restrita aos

Ao examinarmos o censo de 1920, 13


ob- ituanos natos, conforme se observou no

servamos que ainda era freqüente a pre- registro dos 1.256 imóveis urbanos, ca-

sença do imigrante no campo, pois 168 dastrados no livro de imposto predial de

(35,5%) estabelecimentos rurais se en- Itu, daquele ano. Somente os nomes de

contravam nas m ã o s de estrangeiros e Francisco Villaron e de Valentini e Irmão

seus descendentes. Zuleika Alvim, em seu estão ali presentes como proprietários de
15 18

trabalho Emigração, família e luta: os ita- imóveis urbanos. Toscano e Trindade

lianos em Sáo Paulo 1870-1920, encon- observaram que, em 1917, a cidade j á

trou no município de Itu, para o ano de contava com acréscimos numéricos sig-

1920, de um total de 474 propriedades nificativos quanto à população estrangei-

Accrvo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2, pp. 37-52, Jul/dez 1997 - p á g . 4 3


ra (14,8%). Aos italianos a t r i b u í a - s e o balho, que, por sua vez, como j á se ob-
maior adensamento (67%), seguidos pe- servou, permitiu grandes a c r é s c i m o s na
los espanhóis (13,4%). Por essa razão, era economia cafeicultora de exportação. Ma
expressivo o n ú m e r o de casas alugadas cidade, a intensificação da massa prole-
em 1920, principalmente nas ruas Santa tária se fez sentir, especialmente, na ca-
Cruz, Santa Rita e do Comércio. tegoria de operários das fábricas de fia-
ção e tecelagem (São Pedro, S ã o Luís,
Os dados contidos nos registros de es-
17 Maria Cândida, Fabril Redenção S. A. e
trangeiros permitiram observar que os
18 Reprensagem de Algodão S. A.). A parti-
imigrantes de outras nacionalidades, e
c i p a ç ã o em outras fábricas e oficinas,
os portugueses, escolhiam a cidade como
além dos que trabalhavam por conta pró-
local de moradia e trabalho — dedican-
pria ou em s e r v i ç o s diversos, era fre-
do-se a atividades ligadas ao comércio,
q ü e n t e . Essa massa proletária era com-
ensino e construção civil, principalmente
posta por 44 operários italianos (37 ho-
—, ao passo que os descendentes de es-
mens e sete mulheres), 18 e s p a n h ó i s (12
p a n h ó i s e italianos tanto residiam no
homens e seis mulheres), quatro portu-
campo como na cidade, conforme tabela
gueses (três homens e uma mulher), três
que se segue:
argentinos (dois homens e uma mulher),
Tabela 1
um a l e m ã o , um l u x e m b u r g u ê s e um
Campo Cidade lituano (quadro 1). Durante o período de
1939 a 1969, o movimento m i g r a t ó r i o
Italianos 47 45
campo-cidade j á alcançava índices ele-
Espanhóis 37 34
vados no país, ao contrário do ocorrido
Portugueses 1 9 nas p r i m e i r a s d é c a d a s do processo
imigratório.
Outras nacionalidades (8) 6 21

Total 91 109
O trabalho feminino, tanto no campo
como na cidade, n ã o era bem definido,
Outro dado importante, merecendo des- pois declararam-se como ' d o m é s t i c a s '
taque, é que a população imigrante em 356 (37%) imigrantes de um total de 963.
Itu foi capaz de garantir a m a n u t e n ç ã o Entretanto, como trabalhador rural pro-
do exército de reserva e da força de tra- priamente dito, destacaram-se o lavra-
dor, lavrador/proprietário, agricultor, ar- acumulação de riquezas: objetos, tesou-
rendatário e meeiro, em que 306 (31,8%) ros, capitais virtuais. Tornava-se deposi-
eram notadamente de nacionalidade ita- tária da riqueza monetária, tendo como
liana e espanhola. fonte, principalmente, o c o m é r c i o e a
19
usura.
Como trabalhador urbano, 277 (28,7%),
Essa população imigrante, ao chegar no
destacavam-se os operários de fábrica e
Brasil, nem sempre se dirigia diretamente
avulsos, 71 (7,4%); e os comerciantes e
para Itu. As certidões de primeiro casa-
comerciantes/proprietários, 65 (6,7%). As
mento, em número de 252, anexadas a
demais atividades enfatizadas a seguir
essa d o c u m e n t a ç ã o de registro de es-
correspondem a uma parcela menor da
trangeiros, permitiram destacar que,
população imigrante urbana, que dedica-
dentre os italianos que tinham contraído
va-se à educação religiosa e a outras ati-
as primeiras núpcias em diferentes cida-
v i d a d e s p r o f i s s i o n a i s : r e l i g i o s o 12
des paulistas, a maioria o fizera em Itu,
(1,2%), sacerdote 10 (1%), freira 12
e em cidades circunv izinhas: Itu (92),
(1,2%), padeiro 9 (0,9%), pedreiro 8
Cabreúva (11), São Paulo (8), Capivari (6),
(0,8%), ferroviário 8 (0,8%) e diarista/jor-
Indaiatuba (5), Campinas (5), Jundiaí (5),
naleiro 6 (0,6%).
Salto (4), Cravinhos (2), Cosmópolis (2),

A apropriação da renda urbana por agen- Bauru (1) e Valinhos (1). Dentre os espa-

tes do setor privado (fábricas e oficinas) nhóis: Itu (52), Indaiatuba (6), Sorocaba

e pelo Estado dificultou o acesso da po- (5), São Paulo (4), Salto (3), Cabreúva (4),

pulação de baixa renda à s á r e a s privile- Jundiaí (2), Mandaguari (2), Porto Feliz

giadas do solo urbano. Em face dessa si- (1), Valinhos (1), Rio Claro (1), Conchas

tuação, o subúrbio da cidade, que j á es- (1) e Capivari (1). Dentre os portugue-

tava segregado à população de baixa ren- ses: Itu (6), Sáo Paulo (3) e Santos (1).

da, passou a ser gradativamente o espa- Dentre outras nacionalidades: Itu (5),

o dessa nova p o p u l a ç ã o residente. O Cabreúva (5), Indaiatuba (4), Mogi Mirim

imigrante recém-chegado à cidade sub- (1), Jundiaí (1) e Porto Feliz (1). Essas ob-

metia-se ao trabalho urbano nos arrabal- s e r v a ç õ e s s ã o indicativas de que antes

des e ali se instalava precariamente. A de declararem-se como moradores de

cidade e n t ã o passava a ser o espaço de Itu, por ocasião do cadastramento, pro-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 37-52. Jul/dez 1997 - p á g . 4 5


vavelmente haviam residido nessas cida- poder oligárquico começou a ser questio-
des, onde contraíram as primeiras n ú p - nado e novos grupos sociais emergiram.
cias, ou e n t ã o seus respectivos cônjuges
A c o n s e q ü e n t e a m p l i a ç ã o do q u a d r o
eram residentes nessas localidades
multirracial brasileiro, nesse p e r í o d o , foi
paulistas.
incisiva; o imigrante passou e n t ã o a res-
A massa proletária, composta por imi- ponder, t a m b é m , pelas t r a n s f o r m a ç õ e s
grantes, era predominante na cidade e nos hábitos e costumes cotidianos da so-
encontrava-se distribuída nas diferentes ciedade paulista, procurando desenvol-
fábricas e oficinas: 44 o p e r á r i o s italia- ver uma vida em comum, dentro das suas
nos (37 homens e sete mulheres), 20 es- possibilidades. A atração à s novas zonas
p a n h ó i s (15 homens e cinco mulheres), cafeicultoras estava em p r o g r e s s ã o cres-
quatro portugueses (três homens e uma cente, o que fez com que aumentasse o
mulher), três argentinos (dois homens e universo de trabalhadores livres estran-
uma mulher), um luxemburguês, um ale- geiros. Essas novas culturas permitiram
m ã o (químico) e um lituano. Destacavam- expandir o quadro dos estratos sociais,
se, dentre os estabelecimentos fabris e trazendo uma nova divisão do trabalho.
oficinas, a fábrica de C h a p é u s Univer- A ampliação das classes sociais urbano-
sal, fábrica de Vassouras Ituana, industriais fundamentava-se principal-
funilaria Lamoglia, firma Augusto Veloso mente nas atividades comerciais. Dava-
Cia., firma Bolognesi 6c Botelho, firma se e n t ã o à cidade de Itu uma nova feição
Comercial Limongi, Instituto Borges de e função. Porém, diferente da imigração
Artes e Ofícios, Oficina Irmãos Qazzolla, italiana, a espanhola (predominantemen-
firma Irmãos Conti, funilaria Lamoglia, te camponesa) chegara ao Brasil no final
Pilar SP firma Pegado et Souza Cia. Ltda., do colonato, num momento penoso de
Cortume Ituano, firma Simon 8t Cia., fir- transição das relações de trabalho escra-
ma Alexandre Tocheton, firma Renato vo para o assalariado. 20
Ocasião de ra-
Sandel Moura, Cerâmica Paraíso, Cerâ- ras oportunidades, gerando-se uma m ã o -
mica Cury 6c Cia. A a s c e n s ã o na escala de-obra pouco qualificada e diversificada.
social e de poder, por parte do imigran- Por essa razão, diferentemente do italia-
te, s ó ocorreu bem mais tarde, a partir no, por excelência, o espanhol n ã o dei-
da Primeira Querra Mundial, quando o xou marcas significativas na sociedade.

p á g . 4 6 . Jul/dez 1S97
R V O

Quadros

Categorias de trabalho dos imigrantes que entraram no país entre 1876 e 1930, e que
foram registrados no período de 1939/1969 na delegacia de polícia de Itu (quadros 1 a 6).
Ouadro 1
No campo Na cidade
Nacionalidade Número de indivíduos Numero de indo Iduos
1 2 3 1 5 6 1 8 9 10 11 12 13 14(a)
Irahanoa 92 67 2 1 2 I1 13 2 44 3 6 5
Etpanhoii 61 31 1 1 2 2 » 7 18 1 3
j 7 | j
Portuflueae»
Franceaee
lníl»« 1
Alemaee
4 3 i
10 4 2 1 1 -
Búlgaro* 1
Belftai
Iugoslavo! 1 1
Luxem bunrueaea
1
Holandeae»
Lituano* 1 2 1
Húngaro! 2 1 2
Ruaaoa 2 1
2 4
Armênios - 3 : 1
Ejdpde»
Sinos ! 1 5 4 3
Ubaneaea 1 1
3 2

Venezuelano!
Norlc-arneneanoe 2 1 1
lotai 182 112 10 1 6 28 37 15 71 4 9 S

1 - lavrador; 2 - lavrador/proprietário; 3 - agricultor; * - arrendatário; 5 - meeiro; 6 - diarista/Jornaleiro; 7 - comerciante;


8 - comerciante/proprietário; 9 - negociante; 10 - operário de fábrica e avulso; 11 - proprietário; 12 - sapateiro; 13 - padeiro;
14 - pedreiro (autônomo e empregado)

Quadro 2
Na cidade
Nacionalidade Ni mero de IndiMdi •
15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
lulum» 1 6 1 1 2 2 2 3 1 11") 1 4"
espanhóis 1 . 1 2 1 1 2 1 104
Hortu^ucsoi 1 1 1 5 12
Franceses
Ingleses 2
9
Austríacos 13
2
Ikil caros
lklws 1
Iugoslavos 1
luxcmburgucscs 1
2
Sui'.is
s

1 lolandeses 1
ljtuatMK 1
Húnearoa 3
Russos 1
Japoncaca 5
Armemos 1
KRÍPC.O,
Sírios
4
3 —
Argentinos 1 1
Uruguaios
2
Paraguaio!
Vcnc/uclanoa
Noríc-amerícanoa
Total 4 9 2 3 3 4 4 8 2 356 1 12

13 - chapelro; 16 - mecânico; 17 - oleiro; 18 - carpinteiro; 19 - ferreiro; 20 - motorista; 21 - carroceiro;


22 - ferroviário; 23 - relojoelro; 24 - doméstica; 23 - cirurgião dentista; 26 - religioso
• Colégio riossa Senhora do Patrocínio • • • " residência e Igreja do Bom Jesus
• • Seminário do Carmo • • • • • Colégio Sáo Luís em São Paulo
• • • Mosteiro Imaculada Conceição

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 37-52. Jul/dez 1997 - p á g . 4 7


A C

Quadro 3
Na cidade
Nacionalidadc Número de indivíduos
27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37
Italianos - - •1 - 1 - 1 2 2 2
F.spanhóis - • r 1 - i . 1 2
Portugueses - '4 * 1 * * * - - - 1" .
Franceses - - - - - - -
Ingleses
1"
- - - - - - - - - -

Alemães - - - - - _

Austríacos - - - -
Romênios - 1* - - - - 1
llúlearos - - - - - - -
iklgas - - - - - -
Iugoslavos - • - - - - 1
Luxemburgueses - - - - - - -

Suíços - - - - - - - -
Holandeses 6"* - - - - - - -
Liluanos - - - - -
Húngaros - - - - _

Russos - - - - - i
Japoneses - - - - - - - -
Armênios - - - - - - -
Hcipcios - - - - - - - -
Sírios - - - - - - -
Libaneses - - - - - -
Argentinos - • - - -
Uruguaios - ]... - - - - -
Paraguaios - - - - - - -
Venezuelanos - - - - - -
Norte-americanos - - - - - -
Tolal 10 - 12 1 1 2 2 4 1 2 4

27 - sacerdote; 28 - icminarisU; 29 - freira; 30 - ministro evangélico; 31 - músico/professor; 32 - artista/pintor; 33 - professor;


34 - inválido; 35 - estudante; 36 - aposentado; 37 - sem especificação; 38 - outras atividades (a/x)

* Colégio Mossa Senhora do Patrocínio **•• residência e Igreja do Bom Jesus


• • Seminário do Carmo Colégio Sào Luís cm Sào Paulo
* • • Mosteiro Imaculada Conceição

Quadro 4
Nacionalidade Número de lndi\idun*

Italianos
W
4
C) H2 w1 (c)
1
0 (h) 0)
1
2
l-spanhois
Portugueses
Franceses
fcajlINi
Alemães
AMÉM
M M H
líiilil.-if -
Belgas
Iugoslavos
1 jjxcm burguês cs 1
Suis.»
IMMHM
UMMM
Húngaros
Russos
Jiiporiescs
Armênios
Egípcios
Sírios
I ih.mescs
Argentinos
Uruguaios
1'araguak»
Venezuelanos
Norte-americanos
6 1 2
T5S 1 2 1 1 1 1

(a) vendedor ambulante (d) pirotécnico (g) encanador


(b) chanilciro (e) carregador (h) criador de abelhas
(c) funileiro (0 lipògnuo (i) caldeúeiro

p á g . 4 8 . J u l / d e z 1997
R V O

Quadro 5
Niiiiorui liti.uk- .Número dc lndmduos
(k) 0) (m) (n) M <») w (r)
Italianos i 1 ] 2 1 1 1 1
Espanhóis 1 - •
Portugueses
maMi
Ingleses
Alemães
Austríacos
Romenos
IJúl caros
Belgas
IlieOslaVuS
I li vem burgueses
Sulcos
1 U M deses
Iiluanos
Húngaros
Russos
Japoneses
Armênios
l-.gijvi.*
Sírios

. sj-qenhnos
l 'ruguaios
Paraguaios
Venezuelanos
Norte aniericanos
i 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1

(j) foguista/operário (1) rebolci.ro (n) marceneiro (p) cleiricista (r) alfaiate
(k) construtor (m) seleiro (o) contador (q) lenhciro

Quadro 6
Nacionalidade Número de indivíduos
(s) (D (u) (v) (x)
Italianos - - - - 1
Espanhóis - - - - 1
Portugueses 1 - - 1 -
Franceses - - - - -
Ingleses - - - - -
Alemães - - 1 - -
Austríacos - - - - -
Romenos - - - - -
Húlgaros - - - - -
llelgas - - -• - -
Iugoslavos - - - - -
Luxemburgueses - - - - -
Suíços - - - - -
1 lolandeses - - - - -
Lituanos - - - -
I Iúngaros - - - - -
Russos - - - - -
Japoneses - - - - -
Aniiênios - - - - -
Egípcios - - - - -
Sírios - - - - -
Libaneses - - - - -
Argenlinos - 1 - - -
Uruguaios - - - -
Paraguaios - - - - -
Venezuelanos - - - - -
Norte-americanos - - - - -
Total 1 1 1 1 2

(s) guarua-noile (u) química <*) fotógrafo


(t) barbeiro (v) engenheiro civil

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 37-52, j u l / d e z 1997 - p á g . 4 9


D o c u m e n t a ç ã o (impressa e manuscrita) 503-512, Rio de Janeiro, Tipografia de
- Livro de imposto predial de Itu, ano Estatística, 1926.
1904, Museu e Arquivo Histórico Muni- - Recenseamento do Brasil, ano 1920, Mi-
cipal de Itu (MAHMI). nistério da Agricultura e Comércio, D i -
- Livro de registro de sócios, ano 1919, retoria Qeral de Estatística, Tipografia
Arquivo da Sociedade Ítalo-Brasileira de Estatística, Rio de Janeiro, FIBQE,
'Dante Aleghieri' em Itu. ano 1927.
- Recenseamento do Brasil, província de - Coleção delegacia de polícia de Itu,
São Paulo, Paróquia de Mossa Senhora série registro de estrangeiros, período
da Candelária de Itu, ano 1872. de 1939 a 1969, Museu Republicano
- Recenseamento do Brasil, vol. III, pp. 'Convenção de Itu'.

N O T A S
1. Coleção delegacia de polícia de Itu - série registro de estrangeiros, Recenseamento do Brasil,
de 1920 e de 1926, registro de estrangeiros (italianos) e livro de registro de sócios da
Sociedade Ítalo-Brasileira 'Dante Aleghieri' e livros de impostos prediais de Itu, do acervo do
Museu e Arquivo Histórico Municipal de Itu (MAHMI).
2. Pasquale Petrone, ao analisar as indústrias paulistas e os fatores de sua expansão, destaca,
com base nos trabalhos de Vicente U. Almeida e Otávio T. Mendes Sobrinho, sobre migração
rural-urbana, que após o ano de 1930 o movimento em direção aos centros urbanos tornou-

p á g . 5 0 , Jul/dez 1997
R V O

se mais intenso, particularmente para a cidade de São Paulo. Ver Pasquale Petrone, "As in-
dústrias paulistanas e os fatores de sua expansão". Boletim Paulista de Geografia (14), São
Paulo, julho de 1953, p. 34.
3. A Itália se desfez de cerca de 20 milhões de indivíduos entre 1861 e 1940, sendo que 85%
saíram entre 1861 e 1920. Zuleika Alvim, Brava gente: os italianos em São Paulo, 2 ed., São
Paulo, Brasiliense. 1986, p. 24.
4. Ver Zuleika Alvim. op. cit., pp. 42-49.
5. Ver Jonas Sousa e Júlio Wakahara, Itu: quatro séculos de história, s.d., p. 3.
6. Ver Francisco Nardy, Cronologia ituana, São Paulo, Ed. Bentivegna, 1951, vol. 4.
7. Conforme Pasquale Petroni, op. cit., pp. 26-37.
8. Essa documentação foi coletada na delegacia de polícia de Itu e doada ao Museu Republica-
no 'Convenção de Itu', em 1995, embora grande parte dela, correspondente aos registros de
'italianos', j á tivesse sido incorporada, também por doação, à Sociedade Ítalo-Brasileira
'Dante Alighieri', antiga Sociedade de Mútuo Socorro 'Luigi di Savoia'. Portanto, apenas
cerca de 50% do número total de registros dos 1.015 imigrantes, cadastrados nessa docu-
mentação do arquivo do registro de estrangeiros da delegacia de polícia de Itu (período de
1939 a 1969), foi anexado ao MRCI, dando-se então origem à Coleção delegacia de polícia
de Itu - série registro de estrangeiros. Embora essa coleção seja mais ampla, analisou-se
somente a documentação dos imigrantes que entraram no país entre 1876 e 1930, cujos
registros foram efetuados no período de 1939 a 1969. Essa documentação originou-se do
efetivo cadastramento desses imigrantes, em obediência ao decreto-lei n° 7.967, de 18 de
setembro de 1945. Legislação essa que visava efetuar rigorosamente esses registros, com o
objetivo de imprimir à política imigratória do Brasil uma orientação única e definitiva, que
atendesse à dupla finalidade de proteger os interesses do trabalhador nacional e de desen-
volver a imigraçáo que fosse fator de progresso para o país (Bureau de Informações Policiais,
São Paulo. 1945, p. 2, datilografado).
9. Petrone, avaliando a obra de Bandeira Jr. sobre a indústria em São Paulo, em 1901, observou
que já eram em número de cem as principais fábricas paulistas (fiação, tecelagem, móveis,
vestuário, bebida etc). Trinta e quatro delas eram de propriedade de italianos, e as demais
de estrangeiros de outras nacionalidades. O quadro do operariado, que mantinha propor-
ções equivalentes (dentre adultos e crianças de ambos os sexos), continha oito mil operários
fabris, sendo cinco mil estrangeiros (na grande maioria italianos), 803 nacionais e cerca de
2.100 de nacionalidade não especificada. Pasquale Petrone, op. cit., p. 28.
10. Zuleika Alvim, op. cit., p. 32.
11. Idem, ibidem, pp. 62-73.
12. Atualmente denominada Sociedade Ítalo-Brasileira 'Dante Alighieri'.
13. Recenseamento do Brasil - relação dos proprietários dos estabelecimentos rurais recensea-
dos no estado de São Paulo, vol. III, pp. 503-512, Rio de Janeiro, Tipografia de Estatística,
1926.
14. Zuleika Alvim, Emigração, família e luta: os italianos em São Paulo 1870-1920, dissertação
de mestrado apresentada ao Departamento de História da fFLCH/USP, São Paulo, 1983, p.
263.
15. Documentação pertencente ao acervo do Museu e Arquivo Histórico Municipal de Itu (MAHMI).
16. João Toscano e Jaelson Trindade, Diagnóstico geral da cidade de Itu para implantação de
um programa de ação cultural. São Paulo, Condephaat, 1977, vol. 1, pp. 60-61,
(mimeografado).
17. As declarações contidas nessa documentação referem-se ao período de 1892 a 1930. Os
dados obtidos foram extraídos dos 197 documentos que acusavam declarações de tempo de
residência em Itu (campo e cidade).
18. Considerados aqui de outras nacionalidades: sírios, franceses, libaneses, austríacos,
venezuelanos, argentinos, egípcios, romenos, armênios, alemães, holandeses, paraguaios,
húngaros e ingleses.
19. Ver Henri Lefebvre, O direito à cidade, São Paulo, Ed. Documentos Ltda., 1969, p. 10.
20. Ver José Martins, "A imigraçáo espanhola para o Brasil e a formação da força de trabalho na
economia cafeeira: 1880-1930", Revista de História, n. 121, São Paulo, ago./dez. de 1989,
p. 25.

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 3 7 - 3 2 . j u l / d e z 1997 - p á g . 3 1


A B S T R A C T
This article seeks to draw a general profilc of the immigrants in Itu, state of S ã o Paulo, with the

focus on their work universe. The analysed period, from 1876 to 1930, corresponds to the period

of transition from slave labour to free labour, when the latter was integrated, in large part, in the

countryside of S ã o Paulo, till then essencially agricultural.

R É S U M É
Cet article a pour but exposer un profil general de Ia ville d'ltu — S ã o Paulo, ayant comme

r é f é r e n c e son universe de travail. Le p é r i o d e a n a l y s é (1876/1930) se rapporte à la transition de

Ia main-d'oeuvre esclave à la libre, quand la d e r n i è r e fut i n c o r p o r é e à 1'intérieur de la province de

S ã o Paulo, jusqu' alors essentlellement agricole.


Elena Pájaro Feres
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

99
' P r ©vertia! Hospiíalicilaííle ?
A Revises, de Ixnigréição e Colonização e
o JiscMrso oficial sotre o imigraiiíe

'^N. V a s d é c a d a s de 1930 e lo de três anos, apenas mais um volume,


1 9 4 0 , os intelectuais e m 1 9 5 5 , q u a n d o a p u b l i c a ç ã o foi
-A_ \ J brasileiros empenhados suspensa.
em controlar a imigração sus- O conteúdo da revista
tentaram um discurso marcado centrava-se em assuntos dire-
pelo preconceito, sendo um dos tamente relacionados à i m i -
canais oficiais de divulgação des- gração, reproduzindo artigos publicados
tas idéias a Revista de / m i g r a ç ã o e Colo- pela grande imprensa, a legislação em
nização. vigor, relatórios, estudos e pareceres. Se-
gundo Tucci Carneiro, esse periódico era
Publicada entre os anos de 1940 e 1955
consultado por t é c n i c o s e autoridades
pelo Conselho de Imigração e Coloniza-
diplomáticas, em busca de uma orienta-
ção (CIC), ó r g ã o criado em 1938 para fis-
1 ção para a q u e s t ã o imigratória brasilei-
calizar e selecionar os imigrantes, a Re-
ra. A autora considera que:
vista de Imigração e Colonização foi
lançada para ser, inicialmente, um peri- A t r a v é s de artigos cientificamente' re-

ódico com quatro volumes anuais. Entre digidos e assinados por autoridades

1950 e 1952, todavia, saíram somente médicas, diplomáticas, bacharéis em

dois volumes anuais e, a p ó s um interva- direito, s o c i ó l o g o s e educadores, a re-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 5 3 - 7 0 . j u l / d e z 1987 - pau. 33


A C E

vista defendeu nos anos de 1940 a ma- o aproveitamento das grandes corren-
n u t e n ç ã o de uma p o l í t i c a imigratória tes i m i g r a t ó r i a s e u r o p é i a s que se fa-
restritiva apoiada em c r i t é r i o s é t n i c o s , zem e s p e r a r no p e r í o d o do após-
3
p o l í t i c o s e morais. guerra.*

Durante o Estado Movo, a Reu/sta de / m i - A preocupação com esse novo imigrante


g r a ç ã o e Colonização foi porta-voz de um transparece em grande parte dos artigos
pensamento racista, legitimador da polí- da Reuista de Imigração e Colonização, cujo
tica discriminatória do governo Vargas em conteúdo nos permite reconstruir o per-
relação ao estrangeiro. Mo entanto, mes- fil do imigrante ideal e o conceito que lhe
mo com o início da chamada era conferido enquanto "elemento inde-
'redemocratizaçào' do país, em 1945, a sejável e estranho" à sociedade brasileira.
q u e s t ã o imigratória continuou a ser tra-
Os autores que contribuíam com esta pu-
tada pelos colaboradores da revista como
blicação eram, principalmente, médicos,
um problema nacional, persistindo o tom
psiquiatras, higienistas, jornalistas, juris-
de intolerância contra o estrangeiro, vis-
tas, educadores e diplomatas, muitos dos
to como um perigo que ameaçava a se-
quais j á escreviam sobre o assunto des-
gurança do país.
de a década de 1920, como é o caso dos
psiquiatras Antônio Xavier de Oliveira e
IMIGRANTE - BRAÇO E SANGUE
5
Antônio Carlos Pacheco e Silva. A maio-

C om o fim da Segunda Guerra


Mundial, as atenções das potên-
cias voltaram-se para a tarefa
de 'reconstrução' da Europa devastada e
ria desses intelectuais teve ligações d i -
retas com o Estado durante o governo de
Qetúlio Vargas, tendo assumido cargos
políticos ou propondo a ç õ e s que deveri-
para o problema dos refugiados de guer- am ser executadas pelo poder estatal.
ra, denominados displaced persons ou DPs. Mas páginas da Reu/sía de Imigração e
Mo Brasil, com a reabertura da imigra- Colonização, defendiam a entrada de imi-
ção pelo decreto-lei n. 7.967, de 18 de grantes desde que devidamente selecio-
setembro de 1 9 4 5 , 3
esperava-se um nados no tocante a suas qualidades físi-
grande a fluxo de imigrantes dada a situ- cas, mentais, profissionais e raciais.
a ç ã o de caos e miséria em que se en-
Mo artigo "Aspectos psicológicos na imi-
contrava o continente europeu. O Con-
gração após-guerra", publicado em junho
selho de Imigração e Colonização, repre-
de 1946 pelo psiquiatra Lira Cavalcanti,
sentante do posicionamento político do
encontramos idéias que foram recorren-
Ministério das Relações Exteriores, pre-
temente utilizadas pelos intelectuais co-
parou-se para orientar essa nova imigra-
laboradores da revista. Cavalcanti toma
ção procurando:
a imigraçáo como um problema que de-
... aparelhar eficientemente o p a í s para veria ser solucionado através "da verifi-

p á g . 5 4 . Jul/dez 1997
R V O

cação biotipológica do imigrante e de rece como sendo de extrema importân-


suas qualidades eugênicas" para que se cia a q u e s t ã o do potencial reprodutor do
pudesse evitar a entrada de indivíduos imigrante. Fala-se em braços para a la-
"inaptos física e mentalmente". A preo- voura e a i n d ú s t r i a , mas t a m b é m em
cupação imediata era com a possível che- "sangue novo' ou 'plasma de reprodução',
gada dos chamados "egressos de guer- acreditando-se que os imigrantes viriam
ra", vistos como "psicopatas incubados". "aduzir sangue novo à nossa etnia", como
Afirma que necessitamos de braços e téc- afirmou Fernando Mibielli de Carvalho
nicos e não de ociosos e aproveitadores, no a r t i g o " I m i g r a ç ã o : u m p r o b l e m a
7

nem tampouco de "raças estanques", que nacional".

não se misturam. Para dar crédito a suas A metáfora do sangue acompanhou a po-
conclusões, Cavalcanti utiliza dados es- lítica nacionalista brasileira nos anos de
t a t í s t i c o s r e c o l h i d o s pelo professor 1930. Era preciso controlar a circulação
Pacheco e Silva, no hospital de Juqueri, desse fluxo s a n g ü í n e o representado pelo
entre 1921 e 1942, demonstrando que a imigrante portador do ' s a n g u e - s ê m e n ' ,
maioria dos criminosos e alienados era princípio da vida, mas t a m b é m do 'san-
6
constituída de refugiados de guerra. g u e - d o e n ç a ' , princípio da d e s t r u i ç ã o e
8

De forma geral os artigos seguem este morte. A continuidade desse pensamen-


raciocínio, estipulando qual seria o imi- to no período p ó s - g u e r r a deixa clara a
grante desejável e o indesejável, quais importância conferida ao sangue como
os perigos provenientes de uma imigra- símbolo formador da nacionalidade.
ção descontrolada e quais as possíveis A idéia de r e p r o d u ç ã o vinha atrelada à
s o l u ç õ e s . O apelo à chamada 'ciência c o n d i ç ã o de ' e l e m e n t o de f o r m a ç ã o
moderna' é constante, especialmente nos e u g ê n i c a ' , ou seja, seriam bem-vindos
artigos escritos por médicos, e as medi- aqueles que pudessem colaborar de for-
das eugênicas s ã o evocadas como a gran- ma positiva para a configuração racial do
de saída para o aperfeiçoamento da po-
homem brasileiro. O fator raça era uma
pulação.
prioridade, seguido do fator econômico,
e n t ã o secundário. Antônio Xavier de Oli-
O imigrante ideal, considerado impres-
veira alertava:
cindível para o progresso do país, conti-
nuava sendo, como na década de 1930, Tfenha-se o imigrante, em primeiro lu-
o agricultor, o técnico e o operário quali- gar, comp um plasma de reprodução,

ficado. O que importava, em um primei- como um elemento de formação

ro momento, era a sua capacidade em eugênica do nosso povo, visando-se


desempenhar funções ou transmitir co- integrá-lo em nosso cruzamento raci-
nhecimentos que atendessem aos inte- al, de modo a torná-lo um fator 100%
resses do país adotivo. Ho entanto, apa- positivo na constituição de cada M . H I -

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 33-70. J u l / d e i 1997 - p á g . 5 3


A C E

onalidade americana, e depois, secun- que era tomado como dever patriótico na
dariamente, como um fator e c o n ô m i - intenção de salvaguardar a nacionalida-
9
co a p r e c i á v e l . (grifo meu). de. Segundo o dr. Antônio Viana, no arti-

Assim, os critérios de seleção do imigran- go "O imigrante solteiro em face à políti-


te se pautavam na sua capacidade de tra- ca biológica", de março de 1946,
balho e assimilação, bem como no seu para a melhoria dos rebanhos é exigi-
potencial reprodutivo, considerado pelos do, como garantia, o pedigree dos
médicos como o mais importante. reprodutores e com muito mais direito

Constatamos, através do discurso oficial e mais racional e humano seria, tam-

contido na Revista de Imigração e Colo- b é m , o solicitar, indiretamente, atra-

nização, um processo de d e s u m a n i z a ç ã o v é s de um severo « x a m e m é d i c o , para

do imigrante, tratado como um objeto, o imigrante solteiro — falando em nos-

um elemento portador de características so favor toda essa vasta t r a g é d i a que

que podem ou não interessar ao país re- representa o tenebroso c a p í t u l o da

ceptor. Esta d e s u m a n i z a ç ã o torna-se evi- heredopatologia humana, a l é m de um

dente quando percebemos os termos aci- dever patriótico de orientarmos e res-

onados constantemente para designar o guardarmos o destino de nossa nacio-

imigrante: alienígena; bom ou mau ele- nalidade, sabendo-se que somos um


1 4

mento; desejável ou Indesejável; povo em f o r m a ç ã o . (grifo meu).

reprodutor; entre outros de sentido mais


Esse pedigree seria determinado, segun-
ou menos pejorativo que abordaremos a
do as s u g e s t õ e s , através de rigorosa se-
seguir. O critério de avaliação do imigran-
leção médica, de acordo com os p a d r õ e s
te é sempre utilitário, possibilitando a sua
estipulados pela ciência e u g ê n i c a . Pre-
classificação de acordo com "distinções
tendia-se, desta forma, evitar a entrada
funcionais', seguindo as d e t e r m i n a ç õ e s
10
de imigrantes portadores de deficiências
de uma política de s a ú d e .
físicas, mentais e morais, explícitas ou
O imigrante, segundo os autores da re- ocultas nos gens.
vista, serviria para "encher os e s p a ç o s
A medicina como e s t r a t é g i a biopolítica
vazios"" e cultivar os campos, mas tam-
aparece com evidência nesses textos, re-
b é m contribuiria para a formação étni-
velando o que Foucault chamou de "so-
ca brasileira, favorecendo o
cialização do corpo" como forma de con-
12
"embranquecimento da raça", ou até a
trole da sociedade sobre os indivíduos.
13
formação de uma "nova raça", uma vez
O corpo investido pelo poder e controla-
que o brasileiro continuava sendo, na
do por uma meticulosa disciplina exercida
opinião de muitos, um povo em formação.
pelo Estado através dos médicos e psi-
Considerava-se n e c e s s á r i o , e n t ã o , exa- quiatras. Mas sociedades industriais a
minar o "pedigree dos reprodutores", o a g l o m e r a ç ã o urbana trouxe à tona a

p á g . 5 6 . Jul/dez 1997
V o

necessidade de o r d e n a ç ã o da população população pobre, composta em grande


e à biopolítica coube orientar este pro- parte por imigrantes, mas sim a neces-
cesso, cuidando do "corpo social", asse- sidade de s e l e ç ã o de um contingente
gurando a c r i a ç ã o ou m a n u t e n ç ã o de imigratório positivo, concedendo-se vis-
uma homogeneidade positiva. 15
tos apenas aos chamados bons elemen-
tos: "Deve ser escolhido o europeu de
Neste sentido, o imigrante apenas inte-
raça branca. Homens m o ç o s , solteiros ou
ressava quando vinha compactuar com a
18

criação de uma identidade nacional, to- casados".

mando parte na construção do futuro tra- Apesar de muitos colaboradores da re-


balhador brasileiro, e não como elemen- vista defenderem que não se tratava de
16
to de d e s a g r e g a ç ã o e discórdia. um problema racial, mas sim médico, ou
Os imigrantes também eram seja, o que importava não era a raça do
responsabilizados pela p r o p a g a ç ã o de imigrante, mas o seu estado físico e men-
doenças contagiosas como a tuberculo- tal, ainda se condenava, como nos anos
se, o tracoma e a lepra. 17
Mão se mencio- de 1930 e início dos anos de 1940, a imi-
nava a falta de assistência sofrida pela gração de judeus e japoneses, conside-

fnmeira leva d e imigrantes Italianos i n t r o d u z i d a pela C i a . Brasileira d e C o l o n i z a ç á o e I m i g r a ç ã o ,


chegada pelo v a p o r Salta e m 15 d e setembro d e 1951 e destinada a o N ú c l e o d e Colonização d e
e m
Pedrlnhas, Assis. Boletim do Departamento de Imigração e Colonizaçáo, São Paulo, n . 6, dez. d e

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2, pp. S3-70. j u l / d e z 1997 - p á g . 5 7


A C E

rados como elementos inassimiláveis e para a lavoura. O imigrante seria dispen-


perigosos para a s e g u r a n ç a nacional. sável uma vez que o país teria seu pró-
Dava-se preferência aos imigrantes de prio suprimento de m ã o - d e - o b r a . Segun-
origem latina: portugueses, italianos e do J o ã o Maurício Muniz de Aragão,
e s p a n h ó i s , por serem vistos como os
se deveria praticar uma p o l í t i c a dife-
mais p r ó x i m o s culturalmente, além de
rente da i m i g r a t ó r i a , a qual teria como
mais assimiláveis. Recusava-se o negro
responsabilidade p r e c í p u a e funda-
e, muitas vezes, o a l e m ã o .
mental fomentar a natalidade (...),

O decreto-lei n. 7.967, ao restabelecer pois no Brasil de cada mil c r i a n ç a s nas-

oficialmente a imigração, trouxe de volta cidas vivas, mais de duzentas morrem


o regime de cotas para a imigração es- antes do primeiro ano de vida. 21

1 9
pontânea, proibindo a entrada de me-
A q u e s t ã o da assimilação do imigrante
nores de 14 anos desacompanhados, in-
continuava sendo uma preocupação cons-
digentes ou vagabundos, doentes, indi-
tante e deveria ser promovida pelo Esta-
víduos nocivos à s e g u r a n ç a nacional, es-
do. De acordo com o relatório do dele-
trangeiros anteriormente expulsos, con-
gado especializado de estrangeiros em
denados etc. Do ponto de vista legal n ã o
São Paulo, publicado em 1945,
se discriminava explicitamente raças ou
etnias, mas dava-se preferência ao por- O emigrante inassimilado, o imigran-

t u g u ê s e à imigração dirigida. Mo entan- te que deliberadamente se isola do

to, a discriminação estava presente nos meio que o recebeu, é um mau elemen-

artigos publicados pela Revista de Imi- to com o qual nunca poderemos contar
gração e Colonização. como filho adotivo da terra que o aco-

lheu. Mão p a s s a r á de um a d v e n t í c i o (...).


Os e s t e r e ó t i p o s elaborados desde o final
do s é c u l o XIX, baseados nos autores Daí a necessidade imperiosa em que

racialistas franceses e retomados no iní- se acham os governos verdadeiramen-

cio deste século, acrescidos das máximas te p a t r i ó t i c o s em n ã o medir s a c r i f í c i o ,

da eugenia, continuavam em ação na d é - no sentido de ser uma realidade a as-

cada de 1940 e início dos anos de 1950, s i m i l a ç ã o do elemento a l i e n í g e n a . 2 2

estigmatizando os imigrantes e os trans-


Era indesejável o imigrante que vinha
formando em seres inanimados, passíveis
apenas para se enriquecer e que depois
de qualquer tipo de manipulação, sele-
20
retornava ao seu p a í s . Considerava-se
ção, classificação e a b s o r ç ã o .
n e c e s s á r i o que ele criasse raízes, con-
Alguns autores chegaram a ser contrári- tribuindo para a formação do povo bra-
os a qualquer tipo de imigração, acredi- sileiro, esquecendo tudo o que fosse ex-
tando que o incentivo à natalidade seria terior e sendo absorvido pela sociedade
a melhor forma de produção de 'braços' adotiva.

p á g . 3 8 . j u l / d e z 1997
R V O

A temível i n a s s i m i l a ç ã o , segundo este ízo da terra acolhedora s ã o , pois, cen-


mesmo relatório, era apresentada como tros de a t r a ç ã o para os imigrantes re-
fonte geradora de "nefastos quistos ét- cém-vindos". 25

nicos" entendidos como "agrupamentos


A m e t á f o r a do corpo é u t i l i z a d a por
de elevado n ú m e r o de nacionais da mes-
Ricardo para expressar a necessidade da
ma origem em determinado ponto do ter-
integração não apenas racial, mas tam-
ritório"."
bém psicológica nas formas de ser e de
Esse pensamento não era novo. Intelec- sentir, para que se pudesse desenvolver
tuais como Alberto Torres j á haviam, no o 'espírito coletivo':
início do século, debatido essas idéias,
Ao lado do bom funcionamento do or-
considerando o imigrante, quando n ã o
ganismo, para o qual se exige um cer-
assimilado, como um agente de
to grau de i n t e g r a ç ã o de seus compo-
desnacionalização. Também Oliveira
nentes, h á que considerar t a m b é m o
Viana alertara para o perigo dos "quistos
2 bom f u n c i o n a m e n t o da c u l t u r a do
raciais". * O que chama a a t e n ç ã o é a
povo, sendo este um f e n ô m e n o s ó c i o -
permanência do discurso.
p s i c o l ó g i c o cujo grau de intensidade
y \ f ^ a n t o o a l e m ã o quanto o japo- não tem símile na história da
nês e o judeu eram os elemen- evolução.
tos mais visados, sendo apon-
tados como perigosos à s e g u r a n ç a naci- Inês Barreto Correia d'Araújo aborda a
onal por serem 'inassimiláveis', postura q u e s t ã o da escola como sendo um dos
preconceituosa que vinha sendo alimen- meios de controle do imigrante, com con-
tada desde d é c a d a s anteriores. Durante dições de impedir a formação de quistos
a Segunda Querra, essa postura tornou- raciais. O Estado deveria auxiliar a assi-
se mais forte, sem entretanto desapare- milação do imigrante através da educa-
cer após cessado o conflito mundial. ção para "filiar o alienígena à s tradições
do país "e fazer do imigrante um cida-
As associações de imigrantes eram vis-
dão "cuja prole se integra no verdadeiro
tas com desconfiança por incentivarem a
espírito nacional".
preservação da cultura natal. Aristides
Ricardo, no artigo "Assimilação do estran- Para Correia d'Araújo, primeiramente de-
geiro", de maio de 1946, afirmava que veria ser ensinada a nova língua ao imi-
nem sempre ao 'caldeamento étnico' grante e promovido o ensino da história
corresponde o 'caldeamento psicológico', e da geografia; em segundo lugar, de-
e a raça não influiria nesse aspecto, mas senvolver no imigrante o 'espírito de as-
sim o fato dos imigrantes se isolarem em sociação' com o elemento nacional; por
'nódulos'. Para Ricardo, "esses n ú c l e o s último, o imigrante deveria ser prepara-
de idealização da terra natal com preju- do para a naturalização, que é vista como

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 53-70. Jul/dez 1997 - pág.59


A C E

renúncia e conversão. O governo brasi- servado à chamada escumalha da guer-


leiro deveria seguir, neste aspecto, o ra, 33
ou seja, aos refugiados da Segunda
26
exemplo dos Estados Unidos. A 'conver- Guerra Mundial que estavam abandonan-
s ã o ' final, patrocinada pelo Estado, seria do a Europa em busca de uma vida me-
como uma verdadeira remissão dos 'er- lhor, impulsionados pela miséria e as per-
ros' do passado estrangeiro. 3
s e g u i ç õ e s . * Esses refugiados eram

O mito do Brasil como paraíso racial man- apontados pelas m i s s õ e s d i p l o m á t i c a s

teve-se nos artigos publicados pela Re- brasileiras como um perigo iminente, se-

vista de Imigração e Colonização que, em res nefastos, indesejáveis, neuróticos de

v á r i a s passagens, referiam-se ao p a í s guerra, parasitas humanos, imprestáveis

como sendo: um laboratório racial," uma etc. Munindo-se de um vocabulário rico

democracia étnica,211
e até mesmo uma em adjetivos preconceituosos, os auto-

babel étnica. 29
negando o preconceito de res n ã o ocultavam suas opiniões recor-

raça apresentavam o Brasil como u m p a í s rendo aos exemplos do passado — mar-

to/erante, 30
apesar de se continuar i n - cado pelo trauma da vivência da Primei-

vestindo no elemento branco como ga- ra Querra Mundial — como experiência a

rantia para uma política imigratória bem ser evitada. Deusdedit Arauújo declara-

orientada. Segundo Jaime Poggi, va:

entre n ó s o p r e c o n c e i t o de r a ç a é ... devemos nos lembrar de que as

atenuado e, por isso mesmo, uma bem guerras se acompanham n ã o s ó de epi-

orientada p o l í t i c a i m i g r a t ó r i a e o cru- demias ... mas t a m b é m de uma multi-

zamento do elemento branco com os dão de estigmatizadores (sic) e

descendentes africanos ou j á m e s t i ç o s enfermiços. É a corte dos

d e t e r m i n a r á que o branqueamento se comocionados e neurosados da guer-


3 5

f a ç a (...)." ra ....

Mão se admitia a existência do precon- Era preciso evitar a r e p e t i ç ã o do que


c e i t o , mas mantinha-se o desejo do ocorreu a p ó s a Primeira Querra Mundial,
embranquecimento, através do processo quando, segundo Araújo, a "Liga das Na-
de miscigenação oficialmente orientado. ções chegou a nos mandar uma legião
Para Poggi, os negros e mulatos eram de apátridas indesejáveis sobrados dos
36
"sub-raças fracas e doentes". A "prover- campos de c o n c e n t r a ç ã o " .
bial hospitalidade" brasileira, mencio-
O mesmo autor conclui que certos políti-
nada pelo conselheiro do CIC, J o s é de
cos europeus viam o Brasil "como um
32
Oliveira Marques, servia nesses artigos
escoadouro para os poor whtte trash e
como um mero apelo retórico articulado
outros parasitas humanos que aqui vêem
para ocultar a discriminação.
inferiorizar a raça e explorar o homem",
O ataque maior, no entanto, estava re- numa clara alusão aos imigrantes judeus,

p á g . 6 0 . Jul/dez 1997
R V O

acusados de se dedicarem exclusivamen- exames neuropsiquiátricos nos candida-


te a atividades mercantis. tos à imigração persiste em vários arti-
gos assinados por Antônio Xavier de Oli-
Lira Cavalcanti, como vimos no início,
veira, Lira Cavalcanti, Antônio Viana e
apelava para os exemplos da psiquiatria
Antônio Carlos Pacheco e Silva, entre ou-
para justificar sua posição contrária aos
tros. Aliás esta posição j á havia sido de-
refugiados. Insensível ao drama daque-
fendida anteriormente por Antônio Xavier
les que haviam vivido o inferno do III Reich
de Oliveira, quando do debate sobre a
e sobrevivido ao holocausto planejado
emenda Miguel Couto para as
pelo Estado nazista, Cavalcanti se refe-
reformulações pretendidas na Constitui-
ria a eles como se fossem "doentes dis-
ção de 1934, momento em que se mos-
farçados" e, como tais, indivíduos "física
trou um dos mais exaltados defensores
e mentalmente imprestáveis" para a Amé- 39
da campanha a n t i n i p ô n i c a . Segundo
rica Latina:
Antônio Xavier de Oliveira, se não t o m á s -
S e r ã o i n d i v í d u o s quase que expulsos semos uma providência imediata, estarí-
de suas p á t r i a s , como na guerra pas- amos recebendo
sada se verificou, p a í s e s que impeli-
com c â n d i d a bondade e r e s p o n s á v e l
ram todos os seus filhos i m p r e s t á v e i s
i n o c ê n c i a e s p é c i m e s degenerados de
física e mentalmente para a A m é r i c a
r a ç a s i n d e s e j á v e i s , velhos e c r i a n ç a s
Latina, ó t i m o campo para esses doen-
i n ú t e i s para o trabalho produtivo, e
3 7
tes disfarçados.
tudo isso c o m a cumplicidade de um

A s causas da loucura são atri-


buídas aos problemas da guer-
ra ou à inferioridade do imi-
grante, mas nunca ao trauma da imigra-
governo de homens cultos e patriotas,

mas que, embora estadistas, desco-

nhecem as conquistas da c i ê n c i a mo-

'derna e n ã o ouvem os conselhos dos

ção, à discriminação vivenciada na Euro- seus cultores maiores. Se assim n ã o

pa e à s dificuldades de i n t e g r a ç ã o na fora, certo que n ã o c o n t i n u a r í a m o s a

sociedade brasileira. A estreita relação receber os rebutalhos humanos, a es-

entre a psiquiatria e conceitos como he- c ó r i a de raças miseráveis, proxenetas

reditariedade, degenerescência, eugenia, de todas as p r o c e d ê n c i a s , para incor-

demonstrada por Foucault, perpassa todo porar à n o s s a n a c i o n a l i d a d e , n u m

o discurso desses m é d i c o s brasileiros, atentado, num crime de lesa-pátria,

que pretendiam assumir um papel de van- que n ã o afeta s ó o Brasil, mas tam-
0

guarda na construção do homem do fu- b é m , (...), a toda a América.* (grifo

turo, livre de imperfeições e totalmente meu).


38
controlado pela 'ciência'.
A missão do médico era considerada pa-
0 aconselhamento para que se fizessem triótica, pois, baseado na 'ciência moder-

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2, p p . 33-70. Jul/dez 1997 - p á g . 6 1


A C E

na', que lhe conferia autoridade, estaria da entrada de "elementos indesejáveis"


preservando não s ó o Brasil, mas toda a caracterizados como a "escória da huma-
América da 'invasão' de alienígenas. nidade". Esses indivíduos eram represen-
tados c o m o tarados, perturbados,
Este discurso inflamado revela o
neurosados e a t é "psicopatas incubados",
inconformismo com a legislação conside-
cheios de complexos. A solução, no en-
rada pouco rigorosa, e uma
tanto, dependia dos milagres da 'ciência
agressividade incontida em relação aos
moderna' que, por sua vez, vinha atrela-
imigrantes, apontados como causadores
da à necessidade de se criar, numa pri-
de imensos males e, a t é mesmo, respon-
meira instância, um grupo médico cons-
sáveis por todas as d e s g r a ç a s do país.
ciente da urgência de se adotar uma po-
Exageros a parte, esse texto é uma exem-
lítica imigratória preventiva e higiênica.
plar amostra da mentalidade racista que
Lira Cavalcanti considerava
permanecia nas p á g i n a s da Revista de
necessária a criação de uma consciên-
Imigração e Colonização.
cia médica e higiênica entre os nossos
Os médicos psiquiatras colaboradores da homens públicos, é necessário valori-
revista viam com terror a possibilidade zar tanto o brasileiro nato como
incrementar em grande escala a imi-
gração de elementos sadios, realizar
uma triagem rigorosa entre os
ádvenas, tanto adultos como crianças,
sem distinção de nacionalidade, uma
seleção perfeita, principalmente quan-
to às suas características
neuropsíquicas, uma seleção de modo
a náo permitir que se integrem e per-
maneçam no meio gregário brasileiro,
indivíduos tarados, perturbados e
exaustos pela guerra, neurosados e
psicopatas incubados, cheios de com-
plexos, desajustados, enfim, imigran-
tes que náo servem porque vêm em
lugar de nos ajudar, vêm como peso

morto.*' (grifo meu).


Imigrante s u b s i d i a d o p e l o C o m i t ê Mas o papel salvacionista n ã o cabia ape-
Internacional para as M i g r a ç õ e s E u r o p é i a s
ICIME) e e m p r e g a d o em I n d ú s t r i a n o Brasil. nas aos m é d i c o s e a o s p o l í t i c o s . Ao
M i g r a t i o n s Internationales. Le role des
pedagogo t a m b é m era atribuído um pa-
mouvements mlgratolres dans le monde
contemporaln, G e n e b r a , v. 1, n . 1, 1963. pel importante, segundo Deusdedit Ara-

p á g . 6 2 . j u l / d e z 1997
R V O

ujo." A ele cabia a o r i e n t a ç ã o da assi- Também Emílio Willems, em seu artigo "O
milação do imigrante, contribuindo, des- problema da imigração japonesa", data-
ta forma, para a construção de um Bra- do de 1946, denuncia o preconceito e o
sil maduro, civilizado e que, assistido por r a c i s m o e x p l i c i t a d o s na campanha
técnicos de todos os campos do conheci- a n t i n i p ô n i c a , b e m c o m o o m i t o da
4 6
mento, teria condições de se assemelhar i n a s s i m i b i l i d a d e de algumas r a ç a s .
aos Estados Unidos, considerado como "a Willems denuncia a atitude de alguns
mais bela civilização do mundo", publicistas que, utilizando argumentos
"amálgama de r a ç a s " , 43
e que, por sua falsamente científicos, predispõem a opi-
vez, possuía uma política imigratória bas- nião pública contra a "imigração amare-
tante restritiva. la". Afirma que esses autores s ã o segui-
Raramente encontram-se na Revista de dores de Qobineau ou Lapouge, acusan-
Imigração e Colonização posições contrá- do-os de racismo dissimulado. O objeti-
rias a este discurso intransigente sobre vo de Willems é salvaguardar a respon-
o imigrante. Uma exceção é o artigo de sabilidade da antropologia e diferenciar
Francisco de Assis Chateaubriand, que os posicionamentos científicos daqueles
defendendo a livre i m i g r a ç ã o alertava marcados pelo racismo.
para o absurdo do preconceito em rela- Estas opiniões divergentes achavam-se
ção aos a l e m ã e s e japoneses: cercadas e enfraquecidas pelo discurso
Nós pagamos o mesquinho resgate da autoritário e intolerante disfarçado sob
nossa condição de terra atrasada, que a forma da moderna ciência. Pacheco Sil-
vive a levantar todo dia fantasmas com va chegou a sugerir medidas e u g ê n i c a s
as colônias estrangeiras que labutam como a esterilização em massa dos maus
conosco. Até contra nossos irmãos elementos e o exame pré-nupcial obri-
portugueses já investiu o nosso boçal gatório, pois, como médico que era, con-
jacobinismo. 44
siderava como "(...) falsa c o m p r e e n s ã o
Assis Chateubriand, jornalista polêmico, da liberdade permitir que se perpetuas-
dono dos Diários Associados, manteve sem estirpes degeneradas (...)"."
relações dúbias com o governo Vargas e A Alemanha nazista j á adotara medidas
declarava-se simpatizante do fascismo, com esse caráter e no Brasil dos anos
além de ter sido acusado de atitudes de 1930 e 1940 não foram poucos os de-
anti-semitas nos anos de 1930. Apesar 45
fensores desta política repressiva, esta-
de defender neste texto de 1945 uma po- belecendo prescrições e u g ê n i c a s que, no
48

sição de tolerância, permitiu, ao mesmo entanto, nunca foram oficializadas.


tempo, a p u b l i c a ç ã o de vários artigos Napoleão Lopes, em "Colônias para os es-
preconceituosos em seus jornais. Artigos trangeiros que ingressarem irregular-
estes que depois foram reproduzidos pela mente no território brasileiro", em 1946,
Revista de Imigração e Colonização. considerou necessária a criação de colô-

J a n e l r o . v. 10, n ° 2. pp. 5 S - 7 0 . Jul/dez 1997 - pág.63


A C E

nias administradas pelo governo federal (...) de m o n g o l ó l d e s a s s i m i l á v e i s (sic)

para os deslocados de guerra, cujo sis- bastam ao Brasil os cinco m i l h õ e s que

tema de funcionamento e o r g a n i z a ç ã o s o m o s , os nortistas, n o r d e s t i n o s e

deveria ser um "misto de comunismo e p l a n a l t i n o s de Minas, Bahia, Mato

fascismo — o comunismo oferecendo a Grosso e G o i á s , sem falar nos a u t ó c t o -

sua essência colonizadora e o fascismo nes do Sul e da A m a z ô n i a , aos quais

as suas faculdades policiais e penitenci- estes quatro s é c u l o s de c i v i l i z a ç ã o pas-


49
árias". saram indiferentes a sua inferioridade

s o m á t i c a patenteada numa decadên-


Assim, os refugiados seriam mantidos
cia i n c o n t e s t á v e l que marcha para a
sob vigilância em verdadeiras colônias
e x t i n ç ã o talvez n ã o m u i t o r e m o t a ,
penais ou talvez campos de concentração.
oriunda do meio insalubre a que n ã o
lio discurso oficial do pós-guerra temos p o d e r ã o vencer sem a c i ê n c i a e sem o
a p e r m a n ê n c i a de uma retórica naciona-
governo. Ainda b e m , porque n ã o é
lista impregnada de conceitos fundamen-
p o s s í v e l um povo forte ser c o n s t i t u í d o
tados na ciência eugênica, que
de homens fracos, nem, tampouco, fa-
condicionava o desenvolvimento étnico e
zer uma grande n a ç ã o com um povo
c i v i l i z a t ó r i o do p a í s a uma p o l í t i c a 50
c o n s t i t u í d o de doentes. (grifo meu).
imigratória em defesa do branqueamen-
to da raça. Com raras exceções, as opi- A política i m i g r a t ó r i a transformou-se,
niões emitidas através da Revista de Imi- portanto, em garantia para um futuro
gração e Colonização, a p ó s 1945, vinham promissor. O Brasil deveria se posicionar
ainda impregnadas de idéias racistas de- como avesso ao 'estranho' buscando a
fendidas pelo nazi-fascismo. A n t ô n i o homogeneidade racial que, por sua vez,
Xavier de Oliveira, em dezembro de 1946, sustentaria a n a ç ã o que se formava. A
não ocultava suas posições anti-semitas ciência atrelada ao Estado seria a res-
e antinipônicas, indiferente à s notícias so- ponsável pela criação do futuro Brasil,
bre crimes nazistas que, nesse ano, j á livre dos entraves representados pelos
eram manchetes na grande imprensa na- 'maus elementos' que vinham de fora,
cional e internacional, nesta é p o c a , o mas t a m b é m pela p e r m a n ê n c i a de uma
mundo inteiro ainda estava sob o impac- população nativa fraca e doente. A solu-
to da divulgação do que o III Reich arti- ção era a seleção eugênica e racial dos
culara, acobertado pela ciência moder- imigrantes e o abandono das p o p u l a ç õ e s
na, em prol de uma raça pura. Para Xavier carentes a sua própria sorte, levando-as
de Oliveira, à extinção. 51

o Brasil n ã o deve ser a terra prometida Para que possamos compreender esse
de Israel nem S ã o Paulo e a A m a z ô n i a posicionamento intransigente e, poderí-
a N a n c h ú r i a do futuro. amos dizer, antiético, devemos nos re-

p á g . 6 4 , jul/dez 1997
R V O

meter aos princípios da eugenia e como vam a simplificações para facilitar a com-
ela é ainda hoje exaltada no sentido de p r e e n s ã o dos leitores. Chegou-se a com-
trazer a felicidade futura e criar um mun- parar o imigrante a uma m á q u i n a e o
do sem d o e n ç a s ou imperfeições, nitida- processo imigratório ao processo de in-
mente, e s t á caracterizada a ânsia pelo d u s t r i a l i z a ç ã o , dependente sempre de
controle do devir histórico e a crença na planejamento. Segundo Valentim Bouças,
possibilidade de uma p o p u l a ç ã o gover- a interrupção do fluxo imigratório trans-
nada pela ciência. Os avanços da genéti- formaria o Brasil em "uma indústria que
ca t ê m mantido a atualidade dessas não renova suas m á q u i n a s . Estas enve-
questões." lhecem, os custos aumentam, os desper-
55
dícios crescem". Bouças referia-se ao
A REVISTA DE IMIGRAÇÃO E imigrante de maneira muito técnica, mas
COLONIZAÇÃO NOS ANOS DE 1950 encarava-o t a m b é m , retomando a m e t á -
fora do corpo, como sangue novo, impor-
a d é c a d a de 1950, e especial-
tante na formação do tipo étnico brasi-
mente no volume da Revista
leiro.
de Imigração e Colonização
publicado em 1 9 5 5 , a s s u m i u - s e um nos artigos publicados pela Revista de
posicionamento mais t é c n i c o visando, Imigração e Colonização na d é c a d a de
sobretudo, uma solução para o proble- 1950, persistia a p r e o c u p a ç ã o com a for-
ma da distribuição dos imigrantes no ter- m a ç ã o dos quistos raciais. Mo entanto, a
ritório nacional. Isto n ã o significou, no maioria dos autores ataca a teoria da
entanto, abandono das idéias inassimibilidade de algumas raças trans-
preconceituosas anteriormente utilizadas. ferindo a culpa da formação dos quistos
Continuou-se clamando, com mais inten- para a s i t u a ç ã o de isolamento em que
56
sidade, pela imigração de técnicos, agri- eram mantidos os imigrantes.
53
cultores e operários qualificados. O imi- A introdução de refugiados de guerra per-
grante pemaneceu sendo visto, pela manece como q u e s t ã o de s e g u r a n ç a na-
grande maioria dos autores, como bra- cional. Apesar de defendida por alguns,
ço, ou seja, como elemento de produção, que tentavam demonstrar o proveito que
independente de sua posição enquanto o Brasil poderia tirar destes imigrantes,
indivíduo. Alguns autores, como Antônio muitos pensavam como Antônio Vieira de
Vieira de Melo, chegaram a acrescentar Melo, que os chamava de "parasitas de
um cérebro a esse braço, mas desde que asfalto e das boites":
esse fosse um cérebro assimilado: " bra-
Mesmo a t r a v é s do crivo de uma comis-
ço qualificado e cérebro afim do nosso,
5
s ã o militar infiltraram-se entre os acei-
que aqui se irmane conosco". *
tos falsos t r a b a l h a d o r e s , que aqui

As metáforas, como sempre, se presta- aportaram ostensivamente mais dls-

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 5 3 - 7 0 . Jut/dez 1997 - pág.65


A C E

postos ao parasitismo do asfalto e das A 'DEMOCRACIA' INTRANSIGENTE


'boites', de todo alheios à luta porfia-
Y o discurso oficial enunciado
da no amanho da terra ou em qual-
através da Revista de Imigra-
quer outra forma á r d u a de c o n s t r u ç ã o
ção e Colonização, nos anos
da riqueza e do bem-estar."
de 1940 e 1950, os imigrantes foram
O conselheiro do CIC e autor do relatório
classificados por rótulos e de acordo com
sobre a imigração holandesa e italiana,
critérios preconceituosos. Sua história
publicado em 1952, J o s é Caracas, foi ain-
lhes foi negada, bem como sua identida-
da mais longe. Para ele os refugiados s ã o
de étnico-cultural e individualidade. Eram
nada menos do que o sempre vistos como um e s p é c i m e a ser
pior r e s í d u o humano que imaginar se selecionado, nos moldes do cientificismo
p o s s a . (...) deveríamos rejeitar in do século XIX.
limine quaisquer entendimentos nes-

ta questão tal é o grau de


A mensagem não era unívoca visto que

imprestabilidade desses elementos. É


diferentes opiniões circulavam pela re-

um rebutalho humano, sem profissão,


vista, mas a essência do discurso se con-

sem dignidade, sem capacidade, em


serva. O trinômio suspeita, vigilância, eli-

cujo seio figuram i n d i v í d u o s tarados,


minação, analisado por Tucci Carneiro em

propagandistas ocultos de ideologias


seu artigo "O discurso da intolerância:
61

r e a c i o n á r i a s e altamente perigosos ao
fontes para o estudo do racismo", está

nosso p a í s . "
presente nas linhas e entrelinhas deste
periódico, porta-voz do discurso oficial
A constituição da nacionalidade depen-
sobre a imigração. Levantava-se a sus-
dia, para a maioria dos colaboradores da
peita da entrada no país de 'elementos
revista, de uma rigorosa seleção, sendo
perniciosos', propunha-se a vigilância
que os indesejáveis continuavam sendo
constante por parte das m i s s õ e s diplo-
os mesmos, apesar de não encontrarmos
máticas e a 'eliminação' dos 'indesejá-
explicitamente r e f e r ê n c i a s ao perigo
veis', impedindo sua entrada através de
amarelo ou semita. Doentes, refugiados
uma rigorosa seleção ou promovendo seu
de guerra, n ã o católicos, comerciantes,
repatriamento através da a ç ã o repressi-
não deveriam fazer parte da "democra-
va da polícia política. Assim, as decisões
59
cia racial brasileira", nem mereciam a
deveriam reservar-se aos m é d i c o s e à s
nossa "hospitalidade cordial". A forma-
autoridades policiais, enquanto ao
ção do caráter nacional persistia como
pedagogo cabia a responsabilidade pela
forma para se justificar a discriminação
assimilação daquele que j á se encontra-
ao 'outro', expressando a posição do go-
va radicado no país.
verno brasileiro que demonstrava n ã o
60
saber conviver com as d i f e r e n ç a s . Esse discurso se prestou para legitimar

p á g . 6 6 . Jul/dez 1997
R V O

a práxis discriminatória em relação ao no Rio de Janeiro, a respeito de uma re-


imigrante, dificultando-se a entrada no portagem de J o s é Leal sobre a hospeda-
país de refugiados de guerra, que eram ria da ilha das Flores.
na sua maioria judeus e exilados políti-
J o s é Leal critica a falta de seleção rigo-
cos."
rosa dos imigrantes, denunciando que a
Cabe ressaltar que a Revista de Imigra- hospedaria estava repleta de inúteis, que
ção e Colonização circulava, principal- não eram agricultores nem técnicos, mas
mente, junto aos ó r g ã o s públicos e à s gente para a cidade, o que traria conse-
autoridades diretamente envolvidas com qüências funestas para o Brasil. Rubem
a questão imigratória e as á r e a s de co- Braga pede licença para discordar do
lonização do país. Ou seja, atingia, es- r e p ó r t e r e encaminha sua crônica em
pecificamente, grupos de decisão res- defesa desses imigrantes não
ponsáveis pela práxis de uma política especializados, de origens diversas, e
imigratória mais ou menos restritiva. que, se não correspondem ao tipo ideal
Sabe-se, todavia, que grande parte dos sonhado, "trazem pelo menos o
artigos deste periódico j á haviam sido patrimônio de sua inquietação e de seu
publicados pela grande imprensa de vá- apetite de vida".
rios estados, ficando claro que estas idéi-
as eram veiculadas junto à opinião públi- Suas últimas linhas podem ser lidas como

ca. Uma investigação sistemática a esse resposta à q u e l e s que pregavam uma po-

respeito com base nos ó r g ã o s da grande lítica i m i g r a t ó r i a restritiva e medidas

imprensa permitiria elucidar como essa eugênicas com o intento de salvaguar-

veiculação se dava. dar a n a ç ã o :

Sejamos humildes diante da pessoa


Vemos, portanto, que o período da cha-
humana: o grande h o m e m do Brasil
mada 'redemocratização' do Brasil, pro-
de a m a n h ã pode descender de um clan-
clamado muitas vezes como é p o c a de
destino que neste momento e s t á sal-
participação, m o d e r n i z a ç ã o , progresso,
tando assustado na p r a ç a Mauá, e n ã o
desenvolvimento, trazia, no discurso ofi-
sabe onde ir, nem o que fazer. Faça-
cial, o peso de um pensamento intransi-
mos uma política de i m i g r a ç ã o s á b i a ,
gente.
perfeita, materialista; mas deixemos

Mão obstante, vozes contrárias à intole- uma pequena margem aos inúteis e

rância se levantaram, mostrando-nos a aos vagabundos, à s aventureiras e aos

possibilidade da d i s s e n s ã o . neste senti- tontos porque dentro de algum deles,

do, lembremos da crônica "Imigração", como sorte grande da f a n t á s t i c a lote-

de Rubem Braga, escrita em janeiro de ria humana, pode vir a nossa reden-

1952 e publicada no Correio da Manhã ç ã o , a nossa g l ó r i a .

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2, pp. 53-70, j u l / d e z 1997 - pág.67


A C E

N O T A S
1. Maria Luiza TUcci Carneiro, O anti-semitismo na era Vargas (1950-1945), 2*- ed. S ã o
Paulo, Brasiliense, 1995, p. 184.

2. Idem, ibidem, p. 151. ,

3. C o í e ç ã o das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, atos do Poder Executivo, v. (7),
out./dez. de 1945, pp. 378-390.

4. Revista de Imigração e Colonização (RIC), v. 1, mar. de 1945, p. 12. A revista s e r á a partir de


agora identificada nas notas pela sigla RIC.

5. A n t ô n i o Xavier de Oliveira e A n t ô n i o Carlos Pacheco e Silva foram deputados constituintes


e m 1934, tendo uma p a r t i c i p a ç ã o ativa na campanha a n t i n i p ô n i c a . Ver n a v i o V e n â n c i o
Luizetto, Os constituintes em face da imigração: estudo sobre o preconceito e a discrimina-
ç ã o racial e é t n i c a na Constituinte de 1934, d i s s e r t a ç ã o de mestrado apresentada ao Depar-
tamento de História da FFLCH-USP. 1975.
6. RIC, v. 2, j u n . de 1946, p. 243.
7. RIC, v. 1, mar. de 1945, p. 57.

8. Alcir Lenharo, S a c r a í i z a ç á o da política. Campinas, Papirus/Editora da Unicamp, 1986, p.


112.

9. "Da profilaxia psicoracial da i m i g r a ç ã o para o continente americano", RIC, v. 4, dez. de 1946,


p. 710. O c o n t e ú d o deste artigo foi publicado novamente em 1948 na mesma revista, v. 4,
dez., pp. 3-28, sob o t í t u l o "Da i n c i d ê n c i a das psicoses nos estrangeiros no Brasil", com
pequenas a l t e r a ç õ e s .

10. Michel Foucault, estudando a p o l í t i c a de s a ú d e no s é c u l o XVIII, demonstra como foram to-


madas as primeiras medidas de "esquadrinhamento da p o p u l a ç ã o " , no momento em que a
d o e n ç a passa a ser considerada um problema p o l í t i c o - e c o n ô m i c o e o Estado assume a fun-
ç ã o de elevar o nível de s a ú d e do "corpo social". Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Qraal,
1995, pp. 194-196.

11. Fernando Mibielli de Carvalho, "Imigração: um problema nacional", RIC, v. 1, mar. de 1945, p.
59.

12. Jaime Poggi, "O papel do m é d i c o na r e a l i z a ç ã o do magno problema", RIC, v. 2, j u n . de 1946,


p. 160.

13. J . F. Mormano, " T e n d ê n c i a s brasileiras", RIC, v. 4, dez. de 1945, p. 490.


14. RIC, v. 1, mar. de 1946, p. 37.

15. Michel Foucault, op. cit.

16. Angela M. de Castro domes, "A c o n s t r u ç ã o do homem novo", em Estado tlovo - ideologia e
poder. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.

17. "Debates na Academia nacional de Medicina sobre os problemas da i m i g r a ç ã o e tuberculo-


se", RIC, v. 2-3, mai./set. de 1945, pp. 316-318 e S e b a s t i ã o Hermeto J ú n i o r , "Valorização do
brasileiro e a i m i g r a ç ã o estrangeira", RIC, v. 3, set. de 1946, p. 491.
18. Jaime Poggi, RIC, v. 2, jun. de 1946, p. 165.
o
19. L o u r e n ç o Mário Prunes, "Aspectos do problema i m i g r a t ó r i o " , RIC, v. 2, 2 sem., 1950, pp.
214-215.

20. Todorov {tios e os outros: a r e f l e x ã o francesa sobre a diversidade humana, v. 1, Rio de


Janeiro, Zahar, 1993), sintetiza as teorias racialistas que vigoraram durante o s é c u l o XIX e
que segundo Lilia Schwarcz foram incorporadas por intelectuais brasileiros. Ver Lilia Moritz
Schwarcz, O espetáculo das raças: cientistas, i n s t i t u i ç õ e s e q u e s t ã o racial no Brasil - 1870-
1930, S ã o Paulo, Companhia das Letras, 1993. A Sociedade E u g ê n i c a de S ã o Paulo foi
fundada em 1917 Dor Renato Khel e o Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia se realizou
em 1929 no Rio de Janeiro. Ver Flávio V e n â n c i o Luizetto, op. cit.
21. "Puericultura e I m i g r a ç ã o " , RIC, v. 1, mar. de 1946, p. 140.
22. RIC, v. 1, mar. de 1945, p. 198.
23. RIC, v. 1, mar. de 1945, p. 198.

p á g . 6 8 . Jul/dez 1997
R V O

24. Maria Luiza Tucci Carneiro, op. cit.

25. RIC, v. 2, jun. de 1946, p. 270.


26. "A e d u c a ç ã o do imigrante", RIC, v. 3, set. de 1946, p. 303.

27. Fernando Mibielli de Carvalho, op. cit., p. 63.


28. Joaquim Pimenta, " S i t u a ç ã o j u r í d i c a do trabalhador a l i e n í g e n a no direito brasileiro", RIC, v.
4, dez. de 1945, p. 426.
29. Deusdedit Araújo, " I m i g r a ç ã o e eugenia", RIC, v. 1, mar. de 1946, p. 102.

30. M. Paulo Filho, "A nova i m i g r a ç ã o " , RIC, v. 3, set. de 1946, p. 498.

31. RIC, v. 2, jun. de 1946, p. 160.


32. "Bases para um plano de c o l o n i z a ç ã o " , RIC, v. 1, mar. de 1946, p. 130.
33. Relatório do delegado especializado de estrangeiros de S ã o Paulo encaminhado ao s e c r e t á -
rio de S e g u r a n ç a Pública, RIC, v. 1, mar. de 1945, p. 197.

34. A esse respeito ver, de Maria Luiza TUcci Carneiro, o c a t á l o g o da e x p o s i ç ã o Brasil, um refúgio
nos trópicos, S ã o Paulo, E s t a ç ã o Liberdade, 1996. Ver t a m b é m , da mesma autora, O anti-
semitismo na era Vargas, op. cit., p. 343.

35. Deusdedit Araújo, op. cit., p. 109.

36. Idem, ibidem.


37. RIC, v. 2, jun. de 1946, p. 240.

38. Michel Foucault, op. cit.


39. Flávio V e n â n c i o Luizetto, op. cit.

40. RIC, v. 4, dez. de 1946, p. 706.


41. RIC, v. 2, j u n . de 1946, p. 240.

42. RIC, v. 1, mar. de 1946, p. 110.


43. Colares J ú n i o r , "A r e v o l u ç ã o da Norte-América", RIC, v. 1, mar. de 1945, p. 190.

44. Francisco de Assis Chateaubriand, " C o l o n i z a ç ã o g e r m â n i c a " , RIC, v. 4, dez. de 1945, p. 471.
45. Fernando Morais, Chato: o rei do Brasil, S ã o Paulo, Cia. das Letras, 1994.

46. RIC, v. 2, Jun. de 1946, p. 276.

47. A n t ô n i o Carlos Pacheco e Silva, "Medicina e higiene", RIC, v. 2, Jun. de 1946, p. 275.

48. Alcir Lenharo, op. cit., p. 79.


49. RIC, v. 4, dez. de 1946, p. 732.

50. RIC, v. 4, dez. de 1946, p. 703.

51. E importante salientar que Xavier de Oliveira havia se dedicado ao estudo do sertanejo na
obra Beatos e cangaceiros: h i s t ó r i a real. O b s e r v a ç ã o pessoal e i m p r e s s õ e s p s i c o l ó g i c a s de
alguns dos mais c é l e b r e s . Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais, 1920.

52. Para se ter uma i d é i a desta atualidade, ver o artigo de Osvaldo Frota-Pessoa "Raça e eugenia",
em Lilia Moritz Schwarcz e Renato da Silva Queiroz (orgs.). Raça e diversidade, S ã o Paulo,
EDUSP/Estação C i ê n c i a , 1996, pp. 29-45. Segundo Frota-Pessoa, a solidariedade e o anta-
gonismo t ê m bases g e n é t i c a s "É natural, portanto, que sejamos nepotistas, bairristas
corporativistas, patriotas e x e n ó f o b o s " (p. 32). Para esse autor, a t r a v é s de medidas e u g ê n i c a s
como a s e l e ç ã o artificial chegaremos a um mundo melhor, mas para isto é n e c e s s á r i o esperar
a c o n s o l i d a ç ã o dos regimes d e m o c r á t i c o s e maiores a v a n ç o s da g e n é t i c a para que n á o haja
d i s t o r ç õ e s p o l í t i c a s no emprego dessas medidas (p. 42).

53. "A i m i g r a ç ã o no Brasil", RIC, Mova Fase, 1955, p. 11.


o
54. "Imigração e s p o n t â n e a e i m i g r a ç ã o dirigida", RIC, v. 1, I sem., 1951.
o
55. Valentim F. B o u ç a s , " I m i g r a ç ã o n á o é despesa, é capital", RIC, v. 2, 2 sem., 1950, p. 258.
o
56. Alberto Querreiro Ramos, "Imigração e mortalidade Infantil", RIC, v. 1, I sem., 1950, p. 140.

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 53-70, J u l / d e i 1997 - p á g . 6 9


o
57. RIC, v. 1, I sem., 1950, p. 151.

58. J o s é Caracas, RIC, v. 1, 1952, pp. 73-74.


o
59. " I m i g r a ç ã o Japonesa", editorial da Folha Carioca, RIC, v. 1, I sem., 1952, p. 168.
60. Maria Luiza Tucci Carneiro, " R e p ú b l i c a , identidade nacional e anti-semitismo". Revista de
História, n°*. 129-131, ago./dez. de 1993 a ago./dez. de 1994, p. 156.
61. M. do Carmo Sampaio Di Creddo (coord.), fontes históricas: abordagens e m é t o d o s , Assis,
UNESP, 1996, pp. 21-32.
62. Leonardo Senkman, "La p o l í t i c a inmigratoria dei primer peronismo respecto de los refugia-
dos de ia postguerra: una perspectiva comparada con Brasil, 1945-1954", em B. Qurevich e
C. Escude (orgs.), El genocídio ante la historia y la naturaleza humana, Buenos Aires,
Universidad Torcuato Di Telia/Grupo Editor Latinoamericano, 1994, pp. 263-298.

A B S T R A C T
This article analizes the regulation of immigration in Brazil.

In this way, the Immigration and Colonization Magazine (Revista de Imigração e Colonização),

published between 1940 and 1955 by the Immigration and Colonization Council, was one of the

official channels of publishing the procedures related to the entrance of immigrants. Therefore.

the immigrants are firstly selected by their physical, professional and racial qualities.

However, in the 1950s, the Immigration and Colonization Magazine took up a more technical

position respecting the problem of the distribution of immigrants in the national territory.

R É S U M É
Cet article a pour but analyser le controle de I' immigration au Brésil.

Dans ce contexte, la R é v u e d' Immigration et Colonisation (Revista de Imigração e Colonização),

p u b l i é e entre 1940 et 1955, par le Conseil d' Immigration et Colonisation, a é t é un des canaux

officiels de divulgation des directrices relatives à I' e n t r é e des immigrants. Alnsi, d' abord lis sont

s é l e c t l o n n é s par ses q u a l i t é s fisiques, professionnelles et raciques.

Cependant, à la d é c a d e de 1950, la R é v u e d' Immigration et Colonisation a a s s u m é e une position

plus technique par rapport à le p r o b l è m e de la distribution des immigrants dans le territoire

national.
Gladys Sabina Ribeiro
Professora do Departamento de História da UFP.

"Immigos IVIascarados c o m o
T í t u l o de C i d a d ã o s
A vigilância e o controle soore os portugueses no
R i o de J a n e i r o <rlo P r i m e i r o R e i n a d o

M:
esmo com toda a admi- Brasil' para confeccionarem listas
ração que d. J o ã o tinha semelhantes, observando todos os es-
.pela arte e pela cultu- trangeiros que entrassem nos portos,
ra que os estrangeiros pudessem vindos de e m b a r c a ç õ e s nacionais ou
trazer para a Colônia, em 1808 esse so- estrangeiras. Pedia-se-lhes para compa-
berano ordenou ao conselheiro Paulo recerem à polícia com a finalidade de
Perraz Viana, ouvidor-geral do crime da apresentarem declarações de onde pre-
Relação, através do conde de Linhares, tendiam morar e quem eram as 'pessoas
ministro e secretário de Estado dos ne- portuguesas que conheciam'. Essas or-
gócios da Querra e Estrangeiros, que fi- dens foram cumpridas com urbanidade e
zesse um alistamento de todos os estran- delicadeza, pois o príncipe regente havia
geiros residentes na Corte. Deveria con- recomendado que os estrangeiros fossem
ter nome, emprego e nação a que per- 'tratados com bondade'.
tenciam. Tal e s c r i t u r a ç ã o foi feita por Embora se valorizasse a p r e s e n ç a dos
Micolau Viegas Proença e enviada para estrangeiros, todo cuidado era pouco. A
aquele ministério no final do m ê s de mar- cidade estava recebendo a Corte e tor-
ço. Assim que a Intendência de Polícia foi nava-se a capital do Império p o r t u g u ê s .
criada, remeteu-se ordem a todos os A s e g u r a n ç a era fundamental. Entretan-
'ouvidores das comarcas dos estados do to, não cabia magoar aqueles que tinham

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 71-96, j u l / d e z 1997 - p á g . 7 1


A C E

escoltado os portugueses da Europa à e s a í d a s . ' Portanto, vigiar os imigrantes,


distante América. Nem mesmo outros es- mesmo discretamente, sempre foi tare-
trangeiros que quisessem contribuir para fa das autoridades policiais, em conso-
o engrandecimento da capital, até e n t ã o nância com as ordens governamentais.
com ares acabrunhados e que agora co- Mas, acontecimentos externos à América
m e ç a v a m a usufruir dos benefícios co- portuguesa reavivaram as p r e o c u p a ç õ e s
nhecidos na Europa. reais e as providências com relação aos
Um pouco mais tarde, em 1818, houve estrangeiros. Em 24 de agosto de 1820,
uma nova matrícula geral de estrangei- iniciou-se a Regeneração Portuguesa na
ros. For essa ocasião, deu-se aos matri- cidade do Porto. A 17 de outubro do mes-
culados um atestado com o qual poderi- mo ano, chegaram ao Rio de Janeiro as
am circular livremente pelos domínios de primeiras notícias sobre a revolução; e a
Sua Majestade. Além disso, mensalmen- 28 do mesmo m ê s entrou no porto o bri-
te, fazia-se um mapa dos que entravam gue mercante Providência com novidades
2
e s a í a m , totalizando quantos existiam. mais concretas. O 'Povo e a Tropa' sau-
Contudo, como muitos ausentavam-se daram as idéias de liberdade que amea-
sem passaportes e as ordens de apre- çavam o absolutismo p o r t u g u ê s sediado
s e n t a ç ã o na polícia eram descumpridas, no Brasil; elas eram encaradas como
a I n t e n d ê n c i a deixou de executar este franco e aberto desafio ao rei.
serviço. Continuava, entrementes, a re- Portanto, com tantas a m e a ç a s liberais,
alizar as costumeiras visitas a bordo, não se estranha que a a t e n ç ã o e o zelo
cuidando da inspeção geral das entradas dispensados aos estrangeiros tivessem

E m b a r q u e d a f a m í l i a real p o r t u g u e s a para o Brasil em 27 de n o v e m b r o d e 1807. G r a v u r a a t r a ç o d e F.


Bartolozzi a partir d o d e s e n h o de H. L E v e q u e . A r q u i v o N a c i o n a l .

p á g . 7 2 , jul/dez 1997
R V O

sido renovados com o decreto de 2 de ponsabilizariam pela informação e vera-


3
dezembro de 1820, que regulou as en- cidade dos documentos. Para os desem-
tradas na Corte. Deste modo, consolida- barcados fora do porto do Rio de Janei-
ram-se em forma de lei as medidas prá- ro, as medidas seriam semelhantes.
ticas de 1808 e 1818, tomadas com o de-
Assim, pretendia-se controlar a má in-
vido cuidado para não ofender os ilus-
fluência, vinda especialmente de portos
tres visitantes.
europeus, dos portugueses ou de regi-
Doravante, mestres e comandantes de
õ e s afetadas pelas idéias francesas de
embarcações declinariam nomes, empre-
liberdade. Evitavam-se os exemplos pe-
gos e o c u p a ç õ e s dos passageiros que
ninsulares de Portugal e Espanha. Tenta-
trouxessem a bordo. Caso omitissem ou
va-se t a m b é m controlar a clandestinida-
mentissem, se denunciados, pagariam
de e a população imigrante.
multa de 100$000 réis por cada passa-
geiro, sendo a metade para o denunci- Entretanto, apesar de esta lei continuar
ante e a outra parte para a Intendência. vigorando a p ó s a Independência, o peri-
Para desembarcar, todos os adventícios go representado pelo estrangeiro era ou-
teriam que ter passaporte. A lei cuidava tro; não mais as idéias liberais. A preo-
o
em alertar que de I de junho em diante cupação passou a ser especificamente os
as medidas recrudesceriam. Quem vies- 'portugueses'. Através do decreto de 14
se para o Brasil deveria ter o passaporte de janeiro de 1823, o governo estipulou
passado por embaixador p o r t u g u ê s ou princípios para a entrada e estabeleci-
ministro encarregado dos Negócios de mento dos lusos no Brasil. Náo era pos-
Portugal. Quem desobedecesse a norma sível continuar com a "arriscada admis-
legal não poderia desembarcar ou resi- são franca dos súditos de Portugal em um
dir em qualquer parte do Reino, a n á o país com o qual aquele Reino se acha em
ser com portaria assinada por algum mi- guerra". Era preciso acautelar-se das
nistro e secretário do rei. O infrator se- causas de desassossego e d i s c ó r d i a ,
ria multado t a m b é m no valor de 100$000 mantendo a honra e a dignidade. Daque-
réis, como os comandantes e mestres das la data em diante, o súdito português que
embarcações. As exceções ficariam por quisesse residir temporariamente aqui
conta dos militares e das pessoas em deveria prestar fiança i d ô n e a do seu
missão política, obrigadas a trazerem comportamento diante do juiz territorial.
algum tipo de despacho. De igual manei- Seria reputado súdito do Império enquan-
ra, seriam dispensados das formalidades to aqui ficasse, sem que, contudo, go-
de visita e a p r e s e n t a ç ã o de passaporte zasse foros de cidadão brasileiro. Além
os que já viessem com portaria assinada disso, se viesse para se estabelecer 'pa-
por ministro de Estado ou s e c r e t á r i o . cificamente', a fim de ser considerado c i -
Mesmo assim, os comandantes se res- d a d ã o brasileiro, teria por o b r i g a ç ã o

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2, pp. 71-96, jul/dez 1997 - pág.73


6
apresentar-se à Câmara e "prestar sole- Macau. Embora somente um deles te-
ne juramento à causa do Brasil e ao im- nha se declarado negociante e outro fun-
perador". 4
cionário público, é bem possível que na
7
sua maioria fossem negociantes.
Fruto deste decreto, encontramos os 'ter-
mos de a d e s ã o ' de alguns portugueses O decreto mencionado foi suspenso por
na Câmara. lio geral, eram bastante se- outro datado de 20.11.1823, acompanha-
melhantes. Seu formato era o seguinte: do pela portaria de 3.1.1824 e por um
ofício de 8.1.1824, do intendente da po-
Aos (data) nesta Corte do Bra-
lícia à Câmara da cidade do Rio de Ja-
sil em os P a ç o s do limo. Senado em
n e i r o , c o m c ó p i a s para as vilas de
auto de V e r e a ç ã o que fazendo e s t a r ã o
ltaguaí, Pati do Alferes, São J o ã o do Prín-
o d e s e m b a r g a d o r juiz presidente e
cipe, Macacú, Resende, Praia Grande e
mais oficiais do limo. Senado aí apa-
Cabo Frio.
receu presente (fulano) natu-

ral de (lugar de Portugal) vin- O primeiro decreto julgava "incompatíveis


do proximamente de (tal lugar) com a segurança interna" do Império as
estabelecer-se (na Corte, por exem- medidas de janeiro de 1823 e suspendia,
plo) onde j á reside h á (tantos temporariamente, as condições para que
anos ou desde tal data) e pelo alguém fosse considerado súdito, dele-
desembargador juiz presidente lhe foi gando à Assembléia Qeral tal tarefa. A
deferido o juramento dos Santos Evan- alegação era a de "manter segura a tran-
gelhos prometendo guardar fidelida- qüilidade dos povos", que podia ser "per-
de e a d e s ã o à causa do I m p é r i o sujei- turbada com a afluência de inimigos mas-
8
tando em tudo e por tudo as leis do carados com o título de c i d a d ã o s " .
p a í s como c i d a d ã o dele e obedecendo
Já a portaria e o ofício pediam a remes-
no seu imperador e por constar fez este
sa das listas de estrangeiros que tives-
5
termo. Assinaturas:
sem atendido ao decreto de 14.1.1823 e
Estes termos foram encontrados em to- feito os devidos juramentos. Chegando
dos os meses do ano de 1823 até janeiro depois de 20 de novembro e n ã o os ten-
de 1824. A maioria dos lusitanos vinha do feito, deveriam apresentar-se para o
da cidade do Porto, seguida daqueles que cumprimento de suas obrigações e "para
partiam de Lisboa e de outros que j á re- se proceder na mesma maneira". Tam-
sidiam no país, e que se deslocavam da bém aqueles que não tivessem respeita-
Bahia e de Pernambuco para o Rio de Ja- do o primeiro decreto deveriam ser de-
neiro, m u d a n ç a provocada pelas perse- nunciados. Outra portaria, de 10.1.1824,
guições frontais e sanguinolentas que so- complementava a datada de 3 do mesmo
friam por lá. Havia ainda os provenien- mês, pedindo ao intendente que fizesse
tes das ilhas atlânticas, de Angola e de as mesmas diligências com os presos e

p á g . 74, j u l / d e z 1997
R V O

com os que chegassem em navios de d o c u m e n t a ç ã o dos termos de a d e s ã o ' ,


guerra. 9
encontramos os juramentos de Félix J o s é
dos Santos, J o s é Doro, Hipólito J o s é
Com base nesses diplomas, o intendente
Ferreira, J o s é Muniz, Domingos J o s é Lei-
publicou um anúncio no Diário do Rio de
te, Domingos Rodrigues Lima e Joaquim
Janeiro convocando os portugueses que
Tavares Macedo, entre outros. Todos en-
nâo cumpriram a legislação de 14.1.1823
tre 1 7 e 2 1 de janeiro de
e os que chegaram depois de 20.11.1823
1824." As datas
a comparecerem à sua presença, no pra-
extrapolavam, em mui-
zo de t r ê s dias, para anotar nomes e
to, os avisos e porta-
e n d e r e ç o s . Deveriam sair do I m p é r i o
rias do final de 1823
imediatamente. O prestativo policial, en-
e dos p r i m e i r o s
tão, elaborou várias listas com prisionei-
dias de j a n e i r o
ros apreendidos nas sumacas São José
de 1824.
Triunfante (ou do Triunfo) e Três Amigos.

no navio Leaí Português, nos brigues Vis- Finalmente, em


conde de São Lourenço, Triunfo da Inve- 24.3.1824, a ques-
ja, Paquete, Baiana, galera Diana, na es- tão da cidadania por-
cuna Boa Esperança, e outras embarca- tuguesa foi parcial-
ções. Muitos deles tinham feito escalas mente resolvida com a
na Bahia e em Pernambuco e foram apri- outorga da Constitui-
o o
sionados pela esquadra imperial. ção. O seu artigo 6 , parágrafo 4 , con-
siderava cidadão brasileiro
É evidente que estas medidas provoca-
todos os nascidos em Portugal e suas
ram r e a ç õ e s e alguns problemas, n ã o
p o s s e s s õ e s , que sendo j á residentes
sendo claras sobre o que fazer com os
no Brasil na é p o c a em que se procla-
desembarcados depois de 20.11.1823, a
mou a i n d e p e n d ê n c i a nas províncias,
Câmara continuou aceitando o juramen-
onde habitavam, aderiram a esta, ex-
to de portugueses. Em aviso de 5.2.1824,
pressa ou tacitamente, pela continua-
João Severiano Maciel da Costa, na oca-
1 2
ç ã o da sua residência.
sião ministro de Estado dos negócios do
Império, alertou para esta prática do Se- Apesar da Lei Magna naturalizar todos os
nado da Câmara: ainda em 1824 aceita- que aqui se encontravam na época da In-
va juramentos como o do p o r t u g u ê s J o ã o dependência e que nâo se tivessem ma-
Batista Moreira, vindo do Porto. Isto co- nifestado contra o Brasil, j á que poderi-
locaria, segundo pensava, o Império em am aderir à nacionalidade 'expressa ou
apuros: o descuido poderia custar a se- tacitamente', as autoridades continuaram
10
gurança interna. Esse, é claro, não foi exigindo o juramento ou suspeitando de
um caso isolado. Juntamente com ele, na todos os que fossem portugueses. 'Ser

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A C E

p o r t u g u ê s ' era uma construção política e nos fins de 1823, o espírito republicano
por isto poder-se-ia expulsar pessoas ressurgira nessas províncias, embalado
consideradas inimigas, ou se exigir para pelos anseios federativos. A dissolução
elas a lei, ou seja, o passaporte. Foram da Constituinte, a 12 de novembro de
estes, por exemplo, os casos de Antônio 1823, revelava os ímpetos absolutistas de
Brás, preso em Campos e remetido para d. Pedro I, fazendo uma e s p é c i e de 18
a Corte a fim de ser "mandado para fora Brumário. As Câmaras de Olinda e de Re-
3
do Brasil como vadio e suspeito";' o do cife negaram s a n ç ã o ao ato imperial e
negociante J o s é Henrique da Silva, pre- enviaram moção receando "o
mido a ausentar-se no prazo de oito dias, restabelecimento do antigo e sempre de-
"pelas circunstâncias de ser súdito portu- testável despotismo". 18

g u ê s , e como tal desafeto à causa do na verdade, a 'agitação' em Pernambuco


Brasil", e que pediu o prazo de seis me- não cessara desde os tempos do
14
ses para concluir n e g ó c i o s ; de Paulo A r e ó p a g o de I t a m b é , 1 9
passando pelo
Jordan, J o s é Vaz de Oliveira, Teotônio movimento revolucionário de 1817 e pe-
Simião, Antônio Francisco Munes, que las confusões políticas de a d e s ã o ou não
presos na sumaca Três Amigos tiveram o ao Rio de Janeiro, na época da Indepen-
prazo de sessenta dias para irem para dência. Ainda em abril do ano de 1823,
portos europeus e, por último, de Acácio Cipriano J o s é Barata de Almeida iniciou
Joaquim Correia, que pediu passaporte a publicação do Sentinela da Liberdade,
5
para Buenos Aires.'
em Recife, considerado por muitos como
Concretamente, o que atemorizava as preparador indireto da futura Confede-
autoridades? Temia-se que os estrangei- ração do Equador, n ã o foi por acaso que,
ros aqui estabelecidos agissem contra a logo dissolvida a Assembléia Constituin-
causa do Brasil'. Vigiava-se igualmente te no Rio de Janeiro, aquele que havia
para que os adventícios não trouxessem sido deputado baiano à s Cortes de Lis-
idéias de liberdade contrárias à Indepen- boa foi preso e recolhido à fortaleza do
dência, 10
visando a recolonizaçáo, a frag- Brum, onde permaneceu a t é 1830. Es-
m e n t a ç ã o do território ou a instalação do tando Barata no catre, um discípulo seu
regime republicano, ria verdade, os 'ne- e participante de 1817, frei Caneca, con-
gócios políticos' seriam o motivo do pâ- tinuou divulgando i d é i a s republicanas
nico. O alerta se fazia contra aqueles que através do jornal Tífis Republicano, sur-
viessem de Portugal, com a "nova ordem gido a 25 de dezembro daquele mesmo
das coisas" que imperava por lá, ou con- ano. Sem entrar numa análise detalhada
tra os que viessem do nordeste do país, dos acontecimentos, cumpre registrar
de regiões como a Bahia e Pernambuco, que, a 2 de julho, Manuel de Carvalho
t a m b é m conhecidas pelo apreço aos ide- proclamou a Confederação do Equador.
17
ais revolucionários. Portanto, mal d. Pedro conseguira debe-

p á g . 76. jul/dez 1997


H V O

lar as chamadas guerras da Independên- gente j á circulavam no país. O pruden-


cia' no Morte e nordeste, a situação era te Estevão Ribeiro de Resende aconse-
novamente crítica. O 'medo político' era in- lhava a confecção de um plano secreto
terno e externo. Uma conspiração política ao ministro da Justiça: deveriam 'ex-
interna poderia sagrar os princípios repu- pulsar' alguém de confiança e mandar
blicanos no nordeste do país e estender essa pessoa para o Prata, como espião.
suas teias ao Sul, além de a m e a ç a r a uni- Ali ela poderia descobrir os planos de
20
dade. Os que aportavam de fora do país Portugal a respeito do Brasil. Segundo
poderiam conspirar contra o governo. Em desconfiava, os lusos usavam uma base
janeiro de 1824, o correio era violado. Do- na América espanhola para espalhar
mingos da Silva Pimentel havia chegado do idéias republicanas, enviando homens
Porto no dia 18. Foi considerado suspeito ao território brasileiro, em especial à
pela polícia: teria um 'nome suposto' e se Bahia e Pernambuco, focos do
corresponderia com J o ã o Maria da Costa, aliciamento.
proscrito da Ilha da Madeira, de onde ha- Dessa m a n e i r a , na c o n c e p ç ã o do
21
via assinado termo de não mais lá voltar. intendente, recolonizaçáo e
Ambos foram expulsos do Império com republicanismo estranhamente se uni-
passaporte para Buenos Aires. riam. Para ele, a República seria uma
forma de desestabilizar o sistema faci-
Meses depois, era de Buenos Aires que
litando o ingresso de tropas portugue-
partia a suspeita. A Corte recebia com bas-
sas, que estariam sendo compradas a
tante freqüência passageiros da capital
peso de ouro. Tentar-se-ia, através do
portenha e igualmente deportava muita
estratagema da espionagem, desbara-
gente para lá. no m ê s de junho, desem-
tar os planos portugueses de
barcaram os negociantes portugueses J o ã o
reescravizaçáo e incitamento à rebelião
Francisco, J o ã o R o b e r t o neves, J o s é
das províncias brasileiras "com a lição
Vitorino e Manuel Rodrigues Flores, che- 22
demagógica de Repúblicas". Diante do
gados de Lisboa. Os primeiros, no brigue
fechamento da Assembléia, as idéias l i -
dinamarquês Cecília; o último, no brigue
berais começavam a ser perigosas e a
inglês Bell. Mal chegaram à terra, foram
autoridade do imperador questionada.
mandados para a Argentina. Sobre eles
Há muito tempo o movimento popular
pesava a suspeição de virem espalhar idéi-
estava nas ruas, em Recife e Olinda. A
as republicanas no solo brasileiro, mor-
Confederação estourou pouco depois,
mente visando as províncias de
mas n ã o por planos portugueses. As
Pernambuco e da Bahia, onde desejavam
formas republicana e federativa n á o
formar um país republicano ao estilo dos
eram adequadas aos interesses do
Estados Unidos'.
sudeste brasileiro, muito menos a separa-
ção de parcela importante do território.
E claro que as notícias do nordeste insur-

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2. pp. 71-96, Jul/dez 1997 - párj.77


A C E

Mão sabemos se os planos do denodado gociante, que diziam ser um 'atrevido


intendente foram levados a cabo, contu- jacobino'; e Carlos Alfadiner, desembar-
do, ainda em setembro daquele ano, o cado como súdito francês, mas que pa-
policial alarmava-se novamente, na sua recia ser p o r t u g u ê s de Mesão Frio. As-
correspondência com o ministro da Jus- sim, chamando para si a responsabilida-
tiça, queixava-se dos juizes criminais e de pela segurança pública, pedia ao côn-
dos ministros de bairro por não fornece- sul francês informações sobre a suposta
rem notícias circunstanciadas dos estran- nacionalidade de Alfadiner. Determinava
geiros que visitavam a bordo dos navios, para os demais o prazo de oito dias para
e sobre os quais tinham responsabilida- saírem do Império.
de de vigilância. Andava a t r á s dos seus
As medidas repressivas e de controle to-
agentes secretos 'a mendigar notícias'
madas contra os portugueses, nos finais
porque tinha em m ã o s formulários pre-
de 1823 e inícios de 1824, ainda causa-
enchidos com inépcia e "má vontade'. ram dois outros tipos de problemas: o
Suplicava que naqueles dias de tantos primeiro era o dos que atenderam aos
perigos, quando mal o Império havia de- anúncios de se apresentarem à Intendên-
belado o perigo nordestino, o cia para obterem passaportes e, depois
desembargador Paulo de F i g u e i r o a disto, ou sumiram, ou simplesmente iam
Nabuco Araújo permanecesse em sua se deixando ficar em solo brasileiro, ale-
companhia, necessitava da sua ajuda. gando inclusive falta de m e i o s para
Para tal deveria ser dispensado dos ser- retornarem a Portugal. Pouco adiantava
viços da Casa de Suplicaçáo: sua função marcar prazos de s a í d a . 23
Para estes, o
seria vasculhar navios e perscrutar as governo começou a exigir uma espécie
notícias que trouxessem, "para se toma- de declaração de intenções. Responderi-
rem prontas medidas não s ó contra os am sobre os motivos da vinda para o Bra-
inimigos externos, como os inimigos das sil, quais os meios de vida e subsistên-
províncias do norte". cia. 2 4
Outro problema dizia respeito
àqueles que vinham trabalhar e ganhar a
O medo do intendente justificava-se
vida, querendo inclusive se naturalizar.
frente à chegada da galera americana
O/eaner. Entre os passageiros vinham Trabalhar no Brasil era a meta de
J o s é Antônio Ferreira Braklami muitos portugueses. Depois da In-
"um dos membros nomeados d e p e n d ê n c i a , as autoridades
pelas cortes jacobínicas empregaram vários pri-
de Lisboa para o go- •Al sioneiros lusos, como
verno da Bahia"; foi o caso daqueles
Bernardo Ribeiro de aproveitados na Mari-
Carvalho Braga, ne- nha. 2 5
Além disso,

p á g . 78. J u l / d e z 1 997
K V O

também deixavam desembarcar todos os sinal de suspeição — importava muito, a


que explicitamente viessem trabalhar. As- ponto de provocar a expulsão ou impedir
sim, logo depois das medidas de janeiro o desembarque. Assim, o fundamental
de 1824, ainda no dia 8, o intendente seria d e i x á - l o s entrar, uma vez que a
pedia esclarecimentos do que fazer com maioria vinha trabalhar. A necessidade
os lusos chegados ainda meninos, sem básica era a de vigiar: vasculhar as suas
completarem 14 anos, "incapazes de vidas, controlá-los no cotidiano. Desta
prestarem juramento, e de ação, ou im- forma, assistimos nesta ocasião ao res-
putação", enviados por seus pais a ne- surgimento do decreto de 2.12.1820: as
gociantes da praça carioca. Qual foi o autoridades deveriam cobrar os passa-
resultado da consulta? Foram considera- portes dos estrangeiros que chegassem,
dos impúberes, não se lhes exigiu nada com o zelo da polícia, e, por outro lado,
e deixaram que ficassem e trabalhas- seriam concedidos esses documentos aos
sem... 26
que se dirigissem para o interior do Im-
pério. Os barcos seriam vistoriados. Foi
Por volta de meados do ano de 1824, a
este o sentido da longa história de con-
questão deixou de ser unicamente refe-
trole e do relato das primeiras matrícu-
rente ao controle sobre os lusitanos. A
las de estrangeiros, contados por Este-
Constituição tinha tentado estabelecer as
vão Ribeiro de Resende, no ano de 1824.
bases da cidadania, delimitando o papel
Por isso historiou as listas elaboradas
destes: eram cidadãos brasileiros do §4°
desde a época de d. J o ã o VI, em 1808 e
aqueles que houvessem aderido expres-
27
18 1 8 . Era preciso retomar o mesmo
sa ou tacitamente, pela continuação da
cuidado anterior, sem proibições de en-
sua residência no país, à "causa nacio-
tradas.
nal'. Por essa o c a s i ã o , era preciso ter
atenção a todos os estrangeiros, portan- Com os mesmos pretextos de 1820, jus-
to, esquecer um pouco dos que haviam tificava-se o aperto do controle geral so-
ou não jurado a Constituição por conta bre todas as nacionalidades. Estava em
dos decretos de 14.1.1823 e 20.11.1823, q u e s t ã o a s e g u r a n ç a miúda da cidade:
ou portaria de 3.1.1824. Contudo, náo se havia aumentado o número de roubos e
deveria descuidar dos amigos ou inimi- de vadios nos últimos tempos. Os estran-
gos, dos suspeitos ou não de amarem a geiros eram em maior n ú m e r o nas esta-
terra. tísticas e considerados os responsáveis
28
pelas altas cifras de criminalidade.
A partir de e n t ã o , ficou claramente defi-
nido quem eram os portugueses 'brasi- Foi desta maneira que, a partir da porta-
leiros'. Entretanto, era preciso vigiar to- ria de 23.6.1824, obrigou-se "a todos os
dos os estrangeiros, inclusive os portu- estrangeiros a munirem-se de cartas de
gueses adventícios. Ser estrangeiro' — seguro, firmadas pelos cônsules". Tais

Acervo, Rio e Janeiro, v. 10, n ° 2. pp. 7 1-96. Jul/dez, 1997 - pág.79


A C E

cartas eram fornecidas pela Intendência omisso, ou mal compreendido, ao menos


e corroboradas pela autoridade. Renovou- a princípio e no que tocasse ao bom en-
se a prática dos livros de escrituração de tendimento entre os estrangeiros e a
estrangeiros. Neles constavam a decla- nova terra de a d o ç ã o . 31

ração de rua, casa, estado civil, condi-


Para fiscalizar a entrada marítima, ofíci-
ção, destino ou emprego. Se mudassem
de residência ou de trabalho, teriam que os do intendente foram enviados ao ge-

comunicar à Intendência. Voltou-se a pe- neral de Armas da Corte, em 19.9.1824,

dir os passaportes dos que chegavam, e ao ministro encarregado das Visitas do

ainda nos navios, os quais eram entre- Mar, em 16.2.1827. O primeiro ordenava

gues aos c ô n s u l e s ou agentes das res- ao governador da fortaleza de

pectivas n a ç õ e s , para fazerem os devi- Villegaignon que nenhum passageiro, ofi-

dos assentamentos (os julgados conve- cial ou tripulação, desembarcasse sem a


nientes), e posteriormente devolvidos na visita da polícia a bordo. O segundo re-
Intendência. 29
forçava a necessidade das visitas antes
do desembarque e pedia a r e l a ç ã o de
Dois editais foram publicados e afixados
todos os indivíduos chegados, em todos
em locais públicos. O primeiro, datado
os tipos de e m b a r c a ç õ e s , classificando-
de 8 de agosto de 1824, estabelecia o
os segundo trouxessem ou n á o o passa-
comparecimento dos p r o p r i e t á r i o s de
porte ou algum outro título comprobatório
casas de aluguel, estalajadeiros,
32
da sua segurança e de cautela.
vendeiros e taberneiros à polícia, no pra-
zo de oito dias, para declararem as ca- Se por um lado, de 1824 em diante, o
sas que alugaram a estrangeiros. Decli- governo controlou mais a entrada de es-
nariam, na ocasião, suas profissões, de trangeiros, por outro t a m b é m facultou o
onde vieram, quando entraram, o n ú m e - desembarque daqueles que viessem tra-
ro e qualidade da família, nos termos dos balhar, apresentando as devidas garan-
parágrafos 8, 11 e 12 do alvará de 1760. tias. Há exemplos disso na documenta-
O segundo, dirigia-se aos próprios es- ção. Um deles é o caso de J e s u í n o Antô-
trangeiros. Alegando q u e s t ã o de seguran- nio Horta, que obteve autorização para
ça pessoal para os adventícios, deveri- trabalhar e residir em companhia de seu
am apresentar-se diante das autorida- tio, em Campos. Nessa missiva, o secre-
des, no prazo máximo de trinta dias, para tário encarregado dos Negócios da Jus-
declararem nome, naturalidade, empre- tiça esclarecia ao intendente ser esta a
30
go e destino. E para auxiliar na matrí- atitude que se devia respeitar com rela-
cula, foi nomeado Joaquim Luís Alves, ção a "quaisquer outros indivíduos que
com 300$000 réis anuais (30 mil réis aqui chegarem de Portugal", providenci-
mensais), para "servir de i n t é r p r e t e e ando as cautelas indicadas. Com exceção
tradutor de línguas". Nada poderia ser dos militares e dos empregados públicos. 33

p á g . 8 0 . Jul/dez 1997
K V O

Tamanho cuidado e a t e n ç ã o redobrada nhum português, ou qualquer outro es-


para com os estrangeiros podem ser ex- trangeiro, foi proibido de desembarcar,
pressos no número de registros de en- contanto que agisse de acordo com a lei.
tradas de imigrantes portugueses que De 1825 em diante se intensificaram as
pesquisamos. Para 1820 foram encontra- negociações de um tratado com Portugal
das três matrículas de portugueses na po- para o reconhecimento da Independên-
lícia, bem como para 1822. Em 1821, náo cia. É t a m b é m a partir desta data que
foi encontrado nenhum registro de che- encontramos respostas dadas pelo minis-
gada e legitimação de passaportes de in- tro da Justiça à s consultas feitas pelo
divíduo lusitano na d o c u m e n t a ç ã o . Pro- intendente da polícia, nelas havia a per-
vavelmente, essa escassez de dados de- missão para o desembarque de estran-
via-se a pouca prontidão com que se cum- geiros chegados sem passaportes,
pria a lei desde 1808, como nos infor- contanto que dessem as 'cautelas', ou
mou o intendente, e porque, apesar da seguros, e que, obviamente, não fossem
35

lei de 2 de dezembro de 1820 renovar a suspeitos.

exigência de p a s s a p o r t e e da sua
"Y ' ^ ncontramos algumas listas com
legitimação, a p r e o c u p a ç ã o com o seu
~~*^ a relação de passageiros entra-
cumprimento s ó se deu com a Indepen-
• dos no porto e apresentados na
dência e depois da resolução de ques-
Intendência. Essas listagens corroboram
tões imediatas relativas à organização do
a permissão de entrada para trabalhar,
Estado e à s divisões internas entre os que
bem como apresentam as profissões de-
participavam da política. claradas, que estão em consonância com
Para 1823 e 1824, os registros de entra- as profissões e idades anotadas no ma-
das de estrangeiros e a p r e s e n t a ç ã o de terial dos códices de a p r e s e n t a ç ã o de
passaportes também náo foram pródigos: passaportes e entrada de estrangeiros na
36 e 39, respectivamente. Esses foram polícia. Entre elas podemos constatar
anos em que algumas sérias a m e a ç a s se grandes intervalos de tempo e
fizeram presentes: n ã o se controlar a metodologias de anotação diferenciadas.
guerra civil no nordeste; a deflagração
Antes de prosseguirmos, analisando cro-
de uma outra guerra civil no Sul e no Su-
nologicamente as medidas de repressão,
deste, com a participação escrava, e, fi-
controle e/ou vigilância sobre os estran-
nalmente, o receio de uma guerra com
geiros, passemos os olhos nas relações
Portugal. Para os c o n t e m p o r â n e o s a In-
encontradas.
dependência era algo a ser construído...
A partir dessas datas os registros aumen- A lista de 1.1.1828 a 31.5.1829 apresen-
taram ou diminuíram t a m b é m de acordo tava 2.564 colonos, 704 diversos oficiais
com a circunstância política. 34
e empregados, 627 negociantes e empre-
Já vimos que desde o ano de 1824 ne- gados do comércio, 731 a l e m ã e s para a

acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 71-96. Jul/dez 1997 - p á g . 8 1


Tropa, 44 artistas, 45 meneiros (minei- biano e dois suecos, perfazendo um to-
37
ros?), 41 militares, 148 mulheres, 169 tal de 69 pessoas.
crianças, 818 viajantes de diversas ocu-
Fora esses, ainda acusava a existência
p a ç õ e s que seguiam para outro destino,
de 124 estrangeiros que apresentaram os
lio total eram 5.891 pessoas.
passaportes a bordo e n ã o haviam ido
O desembargador encarregado do expe- buscá-los na Intendência. Somados uns
diente de polícia fazia duas observações: e outros, o total era de 193 estrangei-
não podia somar os passageiros das em- ros. Havia t a m b é m 16 pessoas que Fize-
b a r c a ç õ e s de guerra e paquetes, por não ram escala e se retiraram do país, além
estarem sujeitos a visitas e, de onze que resolveram tirar o passa-
costumeiramente, não se apresentarem porte e ficar residindo aqui. A diminui-
à polícia; fora os 818 viajantes, os de- ção do n ú m e r o de imigrantes talvez se
mais se estabeleceriam no I m p é r i o . 36 devesse à s novas regras estabelecidas
Apesar de náo haver especificação de na- pela Regência. Mo início de 1831, o con-
cionalidades, exceto para os que integra- trole sobre os portugueses novamente se
riam a Tropa, parece que os n ú m e r o s estreitou. Da mesma forma, isto apare-
acima diziam respeito a indivíduos de ce refletido na documentação de
nacionalidade portuguesa. Chama aten- legitimação e a p r e s e n t a ç ã o de passapor-
ção o total daqueles lusos que vinham tes, em que vemos a cifra decrescer:
para o campo: 2.564; contrastavam com passou de 893, em 1829, e 638, em 1830,
os que provavelmente ficariam na cida- para 373, em 1831.
de: 1.778 (excetuou-se os a l e m ã e s e via-
Se a d i m i n u i ç ã o continuou no ano de
jantes e incluiu-se na soma o n ú m e r o de
1832, com as atitudes repressivas, igual-
mulheres e crianças). Entretanto, o nú-
mente as entradas aumentaram, paula-
mero geral de estrangeiros que ficavam
tinamente, quando as medidas não sur-
no e s p a ç o urbano n ã o se distanciava
tiram o efeito esperado e muitos clan-
muito daquele dos colonos: 2.509.
destinos chegaram ao país, apesar do re-

Já em 21 de junho de 1831, obedecendo gresso de d. Pedro a Portugal e das per-

aos cuidados da Regência, Antônio Pereira s e g u i ç õ e s aos portugueses.

Barreto Pedroso, desembargador encar- De 25 a 30 de abril de 1832, apareceram


regado do expediente da polícia, apre- os seguintes n ú m e r o s na relação de es-
sentou um extrato das a p r e s e n t a ç õ e s dos trangeiros apresentada ao governo: sete
estrangeiros. Dele constavam 14 france- franceses, sendo um com a família e duas
ses, seis ingleses, 35 portugueses s ó s , mulheres; três a l e m ã e s ; oito e s p a n h ó i s ;
quatro portugueses com família, quatro 35 portugueses, sendo um com a família
e s p a n h ó i s , um italiano s ó e um com fa- e duas mulheres; t r ê s ingleses; dois
mília, um americano do Morte, um colom- genoveses; um prussiano com a família

p á g . 82. j u l / d e z 1997
V o

e dois sardos. lia soma total, 65 estran- estrangeiros entrados no porto em 1831
geiros. Profissionalmente, eram empre- e 1832 (56,5% e 56,9%, respectivamen-
gados nas seguintes atividades: um m é - te). Eram acompanhados de longe por
dico, um advogado, um na milícia, 15 no franceses, ingleses e e s p a n h ó i s , que
comércio, 17 caixeiros, dois agentes, um guardavam nessas relações o mesmo tipo
estudante e dois em diferentes ofícios. 38
de percentual dos anos anteriores. Essa
característica manteve-se a t é pelo me-
Além desses, na relação constava ainda
nos 1834. Portanto, concluímos que, de
a observação de que 4-4 vinham 'forman-
1808 a 1834, entraram estrangeiros das
do'; havia um fabricante de vela, sete com
mesmas nacionalidades no porto do Rio
negócio de a r m a z é n s e tabernas, oito em
de Janeiro e a política de controle sobre
vários serviços como alugadores de ca-
eles mudava de acordo com o momento
valos, criados de servir e de padaria, e
político, fazendo-se sentir com maior
um vivendo de suas propriedades. So-
desvelo em relação aos portugueses.
mando todos, daria 61. A totalizaçáo de
65 se faria com a inclusão de quatro mu- A mudança de política a que nos referi-
lheres. mos, em 1824, visando o maior controle
Por listas semelhantes a esta, os portu- da entrada de estrangeiros, igualmente
gueses ainda constituíam a maioria dos pode ter tido como conseqüência o au-

Rua Direita, Rio de Janeiro. Litografia de Engelmann a partir de desenho de Rugendas.

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n ° 1. pp. 71-96. jul/dez 1997 - p á g . 8 3


A c

mento da clandestinidade e dos que de- preferido dos l i b e r t o s , 40


era fronteiriça
sembarcavam fugidos nos anos posteri- com o mar, fácil de desembarque nas
ores; isto porque teriam vindo matricu- suas muitas ilhotas, de onde os portu-
lados como tripulação. Chegando aqui, gueses em situação de ilegalidade podi-
escapavam da polícia e esgueiravam-se am alcançar a terra ou escapar em pe-
pelas estreitas ruas da cidade.' quenos botes para o interior da baía de
Guanabara. Além disso, contavam com a
Em 1826, Francisco Alberto Teixeira de
solidariedade dos comerciantes lusitanos
Aragão, e n t ã o intendente, via-se às vol-
do Valongo. Entre escravos, libertos e
tas com a recaptura de cinqüenta 'mari-
portugueses fujões, esta era uma região
nheiros' lusos, desembarcados da nau d.
que preocupava as autoridades e onde
João VI. Eles haviam fugido, abrigando-
rixas variadas aconteciam com freqüên-
se em casas de lusitanos nas ruas da
39 cia. A cidade, portanto, era igualmente
Vala, Prainha e Valongo. Matriculados
esconderijo para os imigrantes brancos
como marujos, tinham por intenção ficar
portugueses, que contavam com a soli-
no Brasil. O navio queria retornar a Por-
dariedade de seus patrícios.
tugal e n ã o tinha tripulação. Através do
Para ilustrar o que foi dito, um caso de
ministro da Justiça, foram muitas as ins-
fuga, semelhante a tantos outros encon-
tâncias do imperador para vigiar e pren-
trados na d o c u m e n t a ç ã o , aconteceu em
der estes homens. Mas, como fazer isto
1831; envolveu portugueses matriculados
justamente numa cidade habitada por
na galera portuguesa liouo Comerciante
tantos portugueses? C o m o pegar os
e outros indivíduos da mesma nacionali-
fujões?
dade sem passaporte. Era um total de vin-
Ma freguesia da Candelária ficava parte
te e três pessoas. O encarregado de Ne-
da rua da Vala e essa região abrigava a
gócios de Portugal defendia o desembar-
maior percentagem de filhos de Portugal.
que por ser "a maior parte oficiais de
Quem seria fugitivo e quem morador fixo?
artes mecânicas, que passam ao Brasil a
Difícil tarefa a da polícia, se tivesse que
viver da sua indústria, e muitos deles
vasculhar casa por casa. Além do mais, 41
moços de menor idade...". Vinham tra-
poderia contar com a revolta dos lusita-
balhar da mesma forma que aqueles
nos j á estabelecidos aqui, aqueles do pa-
o
meninos enviados pelos pais a comerci-
rágrafo 4 da Constituição. As confusões
antes da praça do Rio, em 1824, e aos
relacionadas à cidadania e à identidade
quais n ã o se podia cobrar juramento à
nacional perduraram ao menos a t é o fi-
'causa brasileira'. Na sua maioria, tam-
nal da Regência.
bém eram menores de idade. De acordo
Q u a n t o a Santa Rita, onde se l o - com a relação apresentada à polícia, 42

calizavam a Prainha e o Valongo, se é ver- havia seis pessoas na faixa de 10 a 14


dade que homiziava negros e era o local anos; nove, de 15 a 19; três, de 20 a 24;

p á g . 84 . j u l / d e z 1997
R V O

quatro, de 25 a 29; e um indivíduo com exacerbação de â n i m o s e de persegui-


30 anos. ç õ e s contra os lusitanos. O segundo é
relacionado à posição das autoridades a

§ e alguns vinham como colonos e


tentavam a vida no interior, como
aqueles do rol de 1828/29" e nos
casos encontrados nos códices de polí-
respeito da mão-de-obra portuguesa na
cidade. Em documentação tão pródiga em
cartas, ofícios e a t é mensagens secre-
tas, as responsabilidades dos comandan-
cia, outros chegavam com p r o f i s s õ e s
tes, não encontradas para o período an-
definidas, o que muitas vezes era mais
terior a 1831, têm significado claro: sa-
um indício de um trabalho 'arranjado' ou
biam do papel desses imigrantes e dos
'contratado'. Mo caso desses imigrantes
altos índices de clandestinidade, mas
chegados em 1831, havia 14 caixeiros,
essa força de trabalho era importante na
três marinheiros, dois tanoeiros, um
Corte, o que fazia com que as autorida-
copeiro, um criado de servir, um sapa-
des não dessem tanta importância à s for-
teiro e um alfaiate. Sem sombra de dúvi-
malidades legais... J á vimos que, para o
da, a profissão de caixeiro ocupava a
ingresso no Brasil depois de 1824, o go-
maior parte desses imigrantes. Pode-se
verno s ó exigia cautelas dos imigrantes
verificar isso tanto nesta lista como na-
e colocava como condição não serem ini-
quela apresentada pela polícia no ano de
migos ou suspeitos.
1832. Quanto à s suas origens, eram qua-
se todos do norte de Portugal." Assim, É nesse sentido que o episódio dos vinte

nessa listagem, de 1832, assinada pelo e três lusitanos, chegados a bordo da ga-

capitão da galera Cidade do Porto, con- lera novo Comerciante, assume impor-

firmam-se as t e n d ê n c i a s reveladas, na tância. Foram tratados com rigidez; os

documentação das legitimações de pas- seus casos serviriam de exemplo para

saporte e nas matrículas, quanto à faixa outros semelhantes. Pela primeira vez, e

de idade, tipo de trabalho, não raro ati- não seria a última, o encarregado de Me-

vidade j á contratada e procedência. gócios de Sua Majestade Fidelíssima de


Portugal agiu com presteza junto ao go-
Mas, se a lei mandava que os c a p i t ã e s verno imperial. Ma mesma data da che-
de navio e mestres se responsabilizas- gada, a p r e e n s ã o e c o n f e c ç ã o da lista
sem por aqueles vindos sem passaporte, pelo capitão Domingos da Costa e Sá, ele
por que, então, s ó em maio de 1831 en- remeteu um ofício suplicando pelos sú-
contramos essa relação acima, assinada ditos portugueses. Além de argumentar
pelo capitão? Afinal, comentamos que que vinham trabalhar, o que náo consti-
muitos vinham trabalhar sem portarem t u í a novidade para n i n g u é m , pedia
o passaporte. A resposta é clara e apon- a boa vontade dos "esclarecidos mem-
ta em dois sentidos. O primeiro respon- bros da Regência Provisória", para que
de pela data: no ano de 1831 houve uma prestassem

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2. pp. 71-96. Jul/dez 1997 - p á g .


A C

a t e n ç ã o ao m é t o d o de livre prática com l u ç ã o cujo perigo n ã o e s t á de todo

o p a í s , que a transata a d m i n i s t r a ç ã o passado. 45

permitia aos passageiros desta quali-


Diante dessa explanação, n ã o houve jei-
dade, e de outras c i r c u n s t â n c i a s pon-
to: concedeu-se trinta dias, a partir do
derosas capazes de produzir a b o a - f é ,
despacho de 7.7.1831, para que esses
com que se transportaram ao Brasil, 46
imigrantes retornassem à cidade do Porto.
sem solicitarem para esse fim as licen-
Por conta desse episódio, através do mi-
ç a s do governo de Lisboa.
nistro da Justiça, a Regência enviou avi-
Pedia que a p e r m i s s ã o solicitada fosse so 47
à Intendência da Polícia proibindo o
extensiva a outros p o r t u g u e s e s que desembarque de estrangeiros sem pas-
aportassem ao Brasil, por um prazo pre- saporte, prendendo os imigrantes a bor-
determinado, até que comunicasse a Por- do e dando ordens para que as autorida-
tugal "que as leis policiais a este respei- des policiais providenciassem a extradi-
to, anteriormente em desuso, se acham ção de todos os desembarcados que náo
de novo em seu pleno vigor". atendessem aos preceitos legais.

A
resposta do ministro da Justi- Em 1831, a situação política n ã o estava
ça da Regência, Manuel J o s é muito boa para d. Pedro I e os portu-
de Sousa Trança, foi bastante gueses'. O imperador era acusado de pro-
dura e nada amistosa. Repisava a lei de porcionar vários favorecimentos pesso-
2 de dezembro de 1820 e concedia, no ais a grupos, principalmente de privile-
máximo, "prazo razoável para fazer sair giar a sua antiga nacionalidade. Dizia-se
infalivelmente do Império os mesmos vin- que dava maior a t e n ç ã o aos negócios da
te e três portugueses recém-chegados". antiga Metrópole do que aos problemas
Quanto ao pedido de prazo para comuni- internos brasileiros. Depois da viagem de
car a Portugal as 'novas' medidas, argu- d. Pedro a Minas Gerais, as ruas da cida-
mentava negativamente: de do Rio de Janeiro tornaram-se trin-
cheiras numa batalha travada entre por-
e quanto à segunda parte, que n á o é
tugueses' e 'brasileiros'. As noites das
mister assinar-se novo prazo para no-
garrafadas foram sangrentas e fizeram
tícia de que e s t ã o em vigor as leis po-
o despertar forçado das autoridades, no-
liciais do p a í s a tal respeito, porque
vamente, a imagem do imigrante 'peri-
sempre elas tiveram em vigor, e se aca-
g o s o ' e ' m a r g i n a l ' , avesso à ordem,
so se n ã o executaram alguma vez com
descumpridor das leis, amigo da anar-
o rigor devido que cumpria, foi isso
quia e do roubo — até mesmo do roubo
efeito da p é s s i m a a d m i n i s t r a ç ã o do
da terra e dos direitos dos nacionais —,
governo transato, sempre conivente a
voltou à cena.
este e outros respeitos que nos leva-

ram a borda do abismo de uma revo- no dia 5 de abril, algumas decisões fo-

p á g . 86. jul/dez 1997


R V O

ram tomadas pela Secretaria de Estado coincidência, o governo mandava reali-


da Justiça. Essas medidas foram resul- zar um novo registro e assentamento ge-
tado de muita p r e s s ã o . Ainda em março, ral de todos os estrangeiros que chegas-
vinte e três deputados e mais o senador sem à Corte. Essa medida foi tomada jun-
Vergueiro reuniram-se na casa do padre tamente com a de prisão de 'delinqüen-
José Custódio Dias, na rua da Ajuda, con- tes'. Todos os cadastrados indicariam a
fiando a Evaristo da Veiga a redação de sua n a ç ã o , naturalidade, sexo, idade,
uma representação ao governo contra o estado civil, e m b a r c a ç ã o em que haviam
procedimento dos portugueses; pediam chegado, data de chegada, ofício e em-
também a desafronta para os 'briosos' prego, moradia e finalidade da perma-
nacionais. nência no país. Registro bem mais com-
pleto do que os anteriores, pelo menos
A partir daquele momento as patrulhas
na letra da lei! Se os estrangeiros mu-
da guarda militar da polícia deveriam
dassem de e n d e r e ç o , deveriam partici-
prender em flagrante os perturbadores
par o novo local de moradia à Intendên-
da t r a n q ü i l i d a d e pública, que vinham
cia. Esta, por sua vez, reabilitaria o cos-
dasassossegando o povo nos ú l t i m o s
tume de mandar listas mensais ao mi-
tempos. O juiz de Faz da freguesia onde 4 8
nistro da J u s t i ç a . liessas relações, o
o delinqüente fosse preso teria por obri-
intendente deveria fazer uma apreciação
gação proceder rapidamente ao corpo de
sobre a
delito e enviá-lo ao juiz Criminal, em 24
horas. Os moradores eram forçados a moralidade e costumes desses estran-

colaborar, sob pena de oito dias de pri- geiros em geral, e do bem ou mal que

são fechada: quando as desordens se ini- entenda resultar da sua p r e s e n ç a en-

ciassem, deveriam colocar luzes nas j a - tre n ó s , para sobre tais i n f o r m a ç õ e s se

nelas com o objetivo de facilitar o traba- adotarem as medidas policiais que as

lho das rondas. Aqueles que fossem pre- c i r c u n s t â n c i a s exigirem. 48

sos seriam fichados', tomando-se-lhes o


Vigiando ainda os estrangeiros, havia
nome, a naturalidade, a idade e o esta-
duas decisões regulamentando a vida e
do civil, n ã o por

Vista da praça d o Palácio ( p r a ç a X V d e N o v e m b r o ) , Rio d e Janeiro. Litografia d e Thierry Frères a


partir de d e s e n h o d e D e b r e t .

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 7 1-96. Jul/dez 1997 - p á g . 8 7


a conduta de marinheiros que estavam Iam escoltados pela assinatura do capi-
fora da terra e que tinham participado tão Antônio Alves Marta, 51
o que náo era
dos recentes distúrbios na cidade. O go- grande coisa.
verno convocava a Marinha para fazer
rias palavras dos c o n t e m p o r â n e o s , a Ab-
rondas no mar e vigiar as á g u a s do por-
dicação havia evitado que a anarquia se
to e da Prainha. Os marujos náo poderi-
espalhasse pela cidade. Pouco depois, a
am estar desembarcados depois das ave-
Câmara Municipal adotou uma série de
marias porque perturbavam a ordem pú-
posturas para controlar a população. Os
blica. Para as autoridades policiais e j u -
'brasileiros' e os estrangeiros deveriam
diciais, incitavam a população. Portanto,
alistar-se nas suas freguesias, no prazo
visava-se controlar não s ó as tripulações
de oito dias a p ó s a publicação do edital.
das e m b a r c a ç õ e s atracadas no porto, e
O alistamento duraria uma quinzena. To-
que com elas retornariam ao país de ori-
dos os chefes de família apresentariam
gem, mas igualmente os portugueses,
ao oficial de q u a r t e i r ã o dados comple-
vindos sem passaporte, que deveriam ser
tos, como idade, emprego e estado civil,
mantidos nos navios a fim de não fugirem.
de todos os indivíduos que estivessem
O porto e a Prainha eram campos aber- sob a sua autoridade: parentes, agrega-
tos e livres, salvos-condutos para as fu- dos, fâmulos e escravos. Os chefes de
gas, lia ocasião das 'garrafadas', os ma- quarteirão preencheriam mapas com os
rinheiros lusos e 'portugueses', em geral dados e indicariam 'desconfianças' sobre
sem passsaportes, foram acusados de as condutas dos "ociosos, jogadores de
terem auxiliado os 'portugueses' e os profissão, vadios, b ê b a d o s , ladrões, tur-
o
'brasileiros do parágrafo 4 ' . Passado o bulentos e mendigos". Nestes casos, o
tumulto, a polícia alegou que continua- juiz de Paz daria as devidas providênci-
vam vagando pelas ruas cariocas. Fala- as. Os c i d a d ã o s deveriam participar as
va-se da possibilidade de fazerem parte desconfianças que tivessem, sobretudo
dos bandos armados, como o do portu- contra os taberneiros.
50
g u ê s J o s é Vivas.
Quanto aos estrangeiros, havia dois pa-
A partir dessa decisão, com o aumento rágrafos que cuidavam das suas sortes.
da vigilância, alguns marinheiros foram O 12° obrigava-os a se apresentarem ao
pegos. lieste caso, eram matriculados em juiz de Paz com o passaporte. Deveriam
algum navio que estivesse zarpando para declarar por que vinham para o Brasil e
Portugal, sob a custódia do seu capitão. como pretendiam sobreviver. Investiga-
Algumas dessas histórias foram encon- ções seriam feitas para se ver a possibi-
tradas. Bons exemplos s ã o os de Inácio lidade de admitirem-nos, ou proceder
J o s é , Augusto e Antônio Tavares, reme- contra eles no termo da lei. Em outras
tidos de volta no navio português Trajano. palavras, e x p u l s á - l o s . O 6 o
parágrafo,

p á g . 8 8 . jul/dez 1997
R V O

embora não se referisse explicitamente causa dos portugueses 'naturalizados'


aos estrangeiros, tocava-os em cheio. pela Constituição ou pelos devidos jura-
o
Era evidente a intenção de tentar pren- mentos. O 1 I artigo mais uma vez proi-
der os lusitanos fugitivos, escondidos em bia os marinheiros de andarem em terra
casas de amigos e parentes. Mele havia durante a noite.
a obrigatoriedade do chefe de família de-
clarar compulsoriamente os indivíduos
que viessem a morar consigo ou que
eventualmente hospedasse." Em um pri-
meiro momento, os únicos 'estrangeiros'
P ortanto, não é de se estranhar
que tamanha confusão aconte-
cesse com os vinte e três pas-
sageiros da galera Nouo Comerciante.
Regência tentava controlar a situação e,
A

olhados com benevolência seriam os que


em especial, conter os 'ânimos exalta-
tivessem colaborado na luta da Indepen-
dos' de 'nacionais' e 'portugueses'. De
dência, incluídos os soldados e oficiais
certa maneira, não interessava admitir
do antigo Corpo de Estrangeiros, que
mais lusos e realimentar a discórdia e
havia sido dissolvido pela carta de lei de
d e s u n i ã o entre os habitantes do país,
24.11.1830."
reacender os motivos dos variados con-
Quase dois meses depois, houve um novo
flitos que assolavam a cidade. Assim, as
edital da Câmara tentando disciplinar a
autoridades recordavam as leis regula-
54
população. Mele tornava-se a falar em
doras da entrada de estrangeiros, aper-
crise' e proibia-se a venda de armas a
tavam o cerco na exigência de passapor-
escravos e pessoas suspeitas. Os cati-
tes e tentavam não deixar desembarcar
vos deveriam ser vigiados a miúdo, limi-
quem n ã o tivesse emprego acertado e
tando-se os seus movimentos e obrigan-
cautelas atestadas por pessoas idôneas
do-os a trazerem permissão dos senho-
ou pelo cônsul do país de origem.
res, por escrito, para se locomoverem
depois das sete da noite. Os donos de Assistia-se a um momento parecido com
taverna t a m b é m seriam estreitamente aquele do ano de 1824. Mo decreto de
observados, por facilitarem ajuntamen- 18.8.1831, a Regência constatava haver
tos e jogos. Como não podia deixar de muitos "portugueses" inimigos do Brasil
ser, os estrangeiros foram objeto de dois e que eram "escandalosamente conside-
o
artigos. O 5 punia as pessoas que inci- rados como cidadãos brasileiros pelo go-
tassem a discórdia e a cizânia contra os verno transato, só pelo motivo de conti-
nacionais' do Brasil, embora esse mes- nuarem a permanecer no Brasil depois
mo artigo t a m b é m punisse com igual daquela época". Continuava dizendo tam-
multa e penalidade os nacionais que xin- bém existirem os que gozavam direitos e
gassem os nascidos fora do Império'. foros de cidadania, mesmo chegados
Note-se que náo se chamava a estes de a p ó s a Independência, s ó pelo fato de
estrangeiros', muito provavelmente por terem jurado a Constituição. Zelando pe-

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 71-96. jul/dez 1997 - p á g . 8 9


A C E

los direitos e garantias dos cidadãos 'bra- achassem no gozo dos seus direitos civis
o
sileiros legítimos', ordenava três medi- no país a que pertencessem; 3 ) aos que
o
das: I ) mandava que os chefes das re- tivessem declarado na c â m a r a do muni-
partições civis, militares e eclesiásticas cípio da sua residência qual era a sua
'escrupulosamente' examinassem a cida- pátria, a real intenção de fixar residên-
o
dania daqueles nascidos em Portugal; 2 ) o
cia no Brasil e religião; 4 ) aos que, de-
orientava as autoridades ^a se certifica- pois de terem feito a declaração acima,
rem de que os estrangeiros que quises- estivessem residindo no Brasil por qua-
sem usar de regalias e vantagens conce- tro anos consecutivos, feita a exceção
didas a 'brasileiros' fossem investigados; para os que fossem domiciliados no Im-
o
3 ) pedia ao cônsul p o r t u g u ê s que envi- pério por mais de quatro anos na época
asse uma lista de todos os portugueses de promulgação da lei e requeressem a
o
existentes na Corte ao intendente-geral carta no prazo de um ano; 5 ) aos que
da polícia, complementada por relações fossem possuidores de bens de raiz no
dos que chegassem com passaporte e Brasil, ou de parte em fundos de algum
55
quisessem aqui residir. Pia mesma data, estabelecimento industrial, ou exerces-
a Regência enviava aviso à Secretaria de sem alguma profissão útil, ou, enfim, vi-
Justiça e ao intendente de polícia para vessem honestamente de seu trabalho.
não bulirem com estrangeiros que esti-

A
vessem a serviço de suas respectivas Regência, portanto, tentou re-

n a ç õ e s . Ordenava-se que n ã o fossem gularizar a s i t u a ç ã o dos es-

'apalpados', contanto que mostrassem -trangeiros, sem barrar a en-


certificados assinados pelo respectivo trada dos portugueses ou enterrar em de-
ministro e encarregado da nação estran- finitivo os projetos de colonização. En-
geira a que pertencessem, ou pelo ofici- tretanto, concomitantemente a estas de-
al maior da Secretaria de Estado dos ne- cisões, esmiuçava-se o controle. A situa-
gócios Estrangeiros. 56
ção dos lusos foi contraditória em todo o
Apertava-se o cerco sobre a vida dos es- período.
trangeiros na Corte e no país. Era urgente
no final do ano de 1834, parece que a lei
a p r o m u l g a ç ã o de uma carta de lei espe-
passou a ser vista novamente com maior
cífica, que estabelecesse regras e nor- 59
benevolência. Deixando de expulsar, as
mas claras para se adquirir, sem equívo-
autoridades brasileiras permitiram a per-
cos, a cidadania. Tál legislação foi sanci-
57
manência de alguns lusitanos, contanto
onada em 2 3 . 1 0 . 1 8 3 2 , curiosamente
que apresentassem as fianças, corrobo-
logo depois dos eventos de abril, julho e
58
radas pelos juizes de Paz ou por homens
outubro. Por ela, conceder-se-ia carta
o
idôneos, e que, em alguns casos, se diri-
de naturalização: I ) aos que provassem
o
gissem ao interior. Davam como opções
ser maiores de 21 anos; 2 ) aos que se
Santos ou São Paulo. Afinal, as relações

p á g . 9 0 . jul/dez 1997
R V O

de passageiros das embarcações da problemática nativista, que insistia em


descortinavam a mesma realidade: imi- opor brasileiros a portugueses como o
grantes homens, maciçamente vindos do cerne da q u e s t ã o política" e "a imposi-
Porto ou do norte de Portugal, solteiros, ção da q u e s t ã o da escravidão, no mo-
com idade entre 10 e 30 anos, vindos "a mento de consolidação do Estado impe-
61
empregar-se"... 60
rial". Certamente, os problemas dos
Talvez essa mudança tenha se dado com portugueses deixaram o cenário político,
a afirmação gradativa dos liberais do 're- juntamente com os maiores anos de pres-
gresso'. Nos anos futuros, os são e tentativas de participação popular
'saquaremas' fizeram com que as preten- na política; todavia, o antilusitanismo não
sões dos liberais se e s v a í s s e m . O seu esmoreceu e teve renovados dias na Re-
maior trunfo teria sido "o esvaziamento pública Velha.

N O T A S
1 Tais medidas foram descritas pelo intendente-geral da p o l í c i a . E s t e v ã o Ribeiro de Resende,
em ofício a Luís de Carvalho e Melo. justificando as atitudes da p o l í c i a em 1824. Comentava
t a m b é m a impossibilidade de se precisar o n ú m e r o exato de estrangeiros na cidade. Obcio
do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro Resende, a Luís de Carvalho e Melo, c ó d i c e 323,
11 6.1824. v. 7, A.N. Estes censos e mapas comentados pelo intendente nao foram encontra-
dos na d o c u m e n t a ç ã o pesquisada.

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 71-96. jul/dez 1997 - p á g . 9 1


A C E

2. O Povo e a Tropa' e s t ã o com letras m a i ú s c u l a s por designarem segmentos importantes do


Antigo Regime, lia d o c u m e n t a ç ã o é comum aparecerem grafados desta forma; participaram
ativamente de quase todos os acontecimentos de rua da cidade, nesse p e r í o d o .

3. Decreto de 2.12.1820 (mandava exigir passaporte das pessoas que entravam e s a í a m do


Reino do Brasil). Coleção das Leis do Brasil de 1820, Rio de Janeiro. Imprensa nacional,
1889. pp. 113-117. A . n .
4. Decreto de 14.1.1823. J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, L e g i s l a ç ã o brasileira ou coleção
cronológica das leis, decretos, resoluções de consulta, provisões etc. do Império do Brasil
desde o ano de 1808 até 1831. Inclusive, contendo, a l é m do que se acha publicado nas
melhores c o l e ç õ e s , para mais de duas mil p e ç a s i n é d i t a s coligidas pelo conselheiro J o s é
Paulo de Figueiroa Mabuco de Araújo, Rio de Janeiro, Tip. Imp. e Const. de J . Villeneuve c
Comp.. 1836, 7 V. , V. 4, p. 7.
5. I n d e p e n d ê n c i a nacional, termos de a d e s ã o (1823-1824), c ó d i c e 44-4-47, A . Q . C . R . J .
6. Luís Filipe Alencastro mostra a i m p o r t â n c i a do c o m é r c i o brasileiro com a África por ocasião
da I n d e p e n d ê n c i a e nos anos s u b s e q ü e n t e s . Citando um documento de C r i s t ó v ã o A. Dias
para Manuel G o n ç a l v e s de Miranda, escrito de Luanda e datado de 19.6.1823. afirma que em
1823 o governo de Benguela informou à M e t r ó p o l e que lá havia um partido que achava
melhor se unir ao Brasil independente, colocando-se sob sua p r o t e ç ã o . Para o governo de
Benguela. Angola n á o poderia viver sem o tráfico, sua principal riqueza, e Portugal nâo
conseguiria comercializar seus produtos. Segundo este autor, ricas f a m í l i a s portuguesas de
Angola teriam se transferido para o Brasil e circulado em Benguela panfletos convocando a
a d e s ã o à causa brasileira'. Portanto, chegou a haver aí um clima insurrecional, com s e q ü e s -
tros de bens de i n d i v í d u o s do 'dito' I m p é r i o do Brasil, n ã o submissos ao governo e simpati-
zantes dos rebeldes, e uma espera c o n t í n u a de uma e x p e d i ç ã o naval que viria do Rio de
Janeiro. Este clima teria sido promovido por negociantes de escravos que tinham ligações
estreitas com o Rio de Janeiro e Pernambuco, e do lado brasileiro v á r i a s personalidades
teriam acompanhado a a g i t a ç ã o , entre elas Vergueiro. O c o m é r c i o com Angola teria c o m e ç a -
do a sofrer revezes a partir de 1829 com a a m e a ç a de e x t i n ç ã o do tráfico no Rio de Janeiro.
Alencastro t a m b é m cita a i m p o r t â n c i a do Brasil, em 1823, para Cabo Verde e para a Costa da
Mina, onde os 'brasileiros' davam as cartas. Conferir Luís Filipe Alencastro, Le commerce des
vivants: traite desclavages et pax lusitana' dans I' Atlantique Sud, Paris, 1985-1986, 2 v.,
tese de doutorado. Departamento de História — U n i v e r s i t é de Paris X, pp. 440-449.

7. Esta s u p o s i ç ã o baseia-se na d o c u m e n t a ç ã o dos c ó d i c e s de p o l í c i a do Arquivo nacional, em


que h á pedidos de outros negociantes para entrarem sem passaporte ou s ú p l i c a s para obte-
rem p e r m i s s ã o para cuidar dos seus n e g ó c i o s fora do p a í s .
8. Decreto de 20.11.1823. J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v. 4, p. 163.

9. Portaria e o f í c i o do intendente-geral da p o l í c i a à Uma. C â m a r a da cidade do Rio de Janeiro,


c ó d i c e 329 (1818-1824), respectivamente de 3.1.1824 e de 8.1.1824, v. 5, pp. 141-142,
A.li. A portaria de 10.1.1824 é citada no o f í c i o do intendente E s t e v ã o Ribeiro de Resende a
Clemente Ferreira Pereira França, ministro da J u s t i ç a , prestando contas do cumprimento que
deu à s citadas portarias e decretos, e enviando listas de nomes. IJ 6 163 (1822-1824).
30.10.1824, Secretaria de Policia da Corte, rei. IA, o f í c i o s com anexos, A.li. Se por um lado
as escalas em Pernambuco e na Bahia eram comuns, por outro, como j á vimos, essas provín-
cias eram r e g i õ e s de f e r m e n t a ç ã o de i d é i a s liberais e de a g i t a ç ã o da plebe urbana. Isto náo
foi desprezado naquele momento de medo das i d é i a s recolonizadoras e de uma possível
guerra com Portugal.

10. Ofício do ministro e s e c r e t á r i o de Estado dos n e g ó c i o s do I m p é r i o , J o ã o Severiano Maciel da


Costa, IJJ 1 193 (1823-1824), Ministério do I m p é r i o , Registro de Avisos e O f í c i o s , livro 23 da
Corte, 5.2.1824, A.n.
11. I n d e p e n d ê n c i a nacional, termos de a d e s ã o (1823-1824), c ó d i c e 44-4-47, A . G . C . R . J .
o o
12. Artigo 6 , 4 p a r á g . ; " C o n s t i t u i ç ã o p o l í t i c a do I m p é r i o do Brasil", em Constituições do Brasil
(de 1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967 e suas alterações), í n d i c e Ana Valderez A. li. de
Alencar, Brasília, Senado Federal, S u b s e c r e t á r i a de E d i ç õ e s T é c n i c a s , 1986, 2 v., p. 593.

13. Ofício do ministro da J u s t i ç a , Caetano Pinto de Miranda Montenegro, ao intendente-geral da


p o l í c i a , c ó d i c e 319 (1824-1825), 13.3.1823, V. 1, p. 10, A.n.
14. Ofício remetido pela R e p a r t i ç ã o do I m p é r i o , c ó d i c e 319 (1824-1825), 21.6.1824 , v. 1, p. 26,
A.n.
15. Respectivamente, o f í c i o do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, a Luís J o s é de
Carvalho e Melo, c ó d i c e 323 (1822-1836), 24.1.1824, v. 7, p. 26, A.n. e o f í c i o do intendente

p á g . 92 . J u l / d . : z 1997
V O
R

da polícia, E s t e v ã o Ribeiro de Resende, a Luís J o s é de Carvalho e Melo, c ó d i c e 323 (1822-


1836), 24.1.1824 , v. 7, p. 28, A . l i .
16. Estas seriam as i d é i a s de liberdade apregoadas pelas Cortes lisboetas, que segundo o en-
tendimento dos c o n t e m p o r â n e o s visavam a reescravizar o Brasil, tia verdade, como j á foi
largamente discutido pela historiografia, os ideais r e v o l u c i o n á r i o s da R e g e n e r a ç ã o t ê m du-
pla leitura: para Portugal seriam o triunfo do liberalismo contra o absolutismo; para o Brasil,
significariam a c a s s a ç ã o de uma s i t u a ç ã o de e q u i v a l ê n c i a com o Reino. Reabilitavam prefe-
r ê n c i a s comerciais para os comerciantes do Porto e transfeririam a a d m i n i s t r a ç ã o para Portu-
gal, lia prática, contrariavam os interesses das classes dominantes brasileiras, mais especifi-
camente dos comerciantes aqui enraizados.

17. O governo temia tanto o que considerava excesso de liberdade quanto a liberdade mal
entendida das Cortes. Entretanto, amedrontava-se igualmente com o novo estado de coisas
em Portugal. A corrente absolutista mais radical tinha seus adeptos e, a 30 de abril de 1824,
d. Miguel tentou um golpe de estado fracassado contra d. J o ã o VI. Apoiado por embaixado-
res estrangeiros residentes em Lisboa, a bordo da nau inglesa Windsor Castle, d. J o ã o con-
cedeu-lhe direito à c a p i t u l a ç ã o , caso se submetesse inteiramente à s suas ordens. Logo de-
pois da sua r e n d i ç ã o , exilou-se na Áustria.

18. Citado por Amaro Quintas, "A a g i t a ç ã o republicana no nordeste", em S é r g i o B. de Holanda,


a
História geral da civilização brasileira, 4 ed., S ã o Paulo/Rio de Janeiro, Difel/ D i f u s ã o Edito-
rial S.A., 1976, 7 vol., v. 3, cap. 4, pp. 207-237, p. 228.
19. Idem, ibidem, p. 208. Amaro Quintas afirma que o A r e ó p a g o foi fundado pelo padre Manuel
Arruda da C â m a r a , que teria sido homem de i d é i a s libertárias' e cuja i m p o r t â n c i a n ã o teria
sido devidamente estudada. O objetivo desta o r g a n i z a ç ã o , para o autor, seria a ' l i b e r t a ç ã o
nacional', a ' e x t i n ç ã o do colonialismo'.
20. As i n f o r m a ç õ e s a respeito da a g i t a ç ã o republicana no nordeste foram retiradas do artigo de
Amaro Quintas, supracitado.
21. Ofício do intendente-geral da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, ao ministro da J u s t i ç a ,
Clemente Ferreira França, IJ 6 163 (1822-1824), Secretaria de Polícia da Corte, o f í c i o s com
anexos, 10.1.1824, A.n.; o f í c i o do intendente-geral da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende,
a J o ã o Severiano Maciel da Costa, c ó d i c e 323 (1822-1836), 29.1.1824, v. 7, p. 27, A . n . ;
ofício do intendente da p o l í c i a . E s t e v ã o Ribeiro de Resende, a Luís J o s é de Carvalho e Melo,
c ó d i c e 323 (1822-1836), 31.1.1824, v. 7, p. 28, A.n.

22. Ofício do intendente-geral da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, ao ministro da J u s t i ç a ,


Clemente Ferreira França, IJ 6 (1822-1824), Secretaria de Polícia da Corte, o f í c i o s com ane-
xos, 1.6.1824, A . n . ; o f í c i o do ministro da J u s t i ç a , Clemente Ferreira França, c ó d i c e 319 (1824-
1825), 4.6.1824, p. 22, A.n.
23. Casos como estes podem ser encontrados nos c ó d i c e s 319 e 323. Conferir, por exemplo, os
o f í c i o s seguintes: o f í c i o da R e p a r t i ç ã o de Estrangeiros, c ó d i c e 319 (1824-1825), 3.4.1824,
p. 12, A . n . ; o f í c i o do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, a Luís J o s é de
Carvalho e Melo, c ó d i c e 323 (1822-1836), 3.4.1824 , v. 7, p. 31. A.n.; ofício do intendente
da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, a Luís J o s é de Carvalho e Melo, c ó d i c e 323 (1822-
1836), 7.4.1824, v. 7, p. 31, A.n.
24. Ofício do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, ao ministro da J u s t i ç a , Clemen-
te Ferreira França, c ó d i c e 319 (1824-1825), 18.3.1824, v. 1, p. 10, A.n.
25. Decreto de 21.3.1823. J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v. 4, p. 43.
26. Ofício do intendente da p o l í c i a . E s t e v ã o Ribeiro de Resende, ao ministro da J u s t i ç a Clemente
Ferreira França, IJ 6 163 (1822-1824), Secretaria de Polícia da Corte, rei. 1 A, o f í c i o s com
anexos, 8.1.1824, A . n . ; portaria de 12.1.1824, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v.
7, p. 193. Entre 1824 e 1830, a maioria vinha com idade entre 15 e 24 anos. Contudo, a faixa
entre 10 e 14 anos ocupou o terceiro lugar nos desembarques. Os portugueses eram m ã o -
de-obra i m p o r t a n t í s s i m a na cidade.

27. Conferir documento citado na nota 1, ofício, c ó d i c e 323, 11/6/1824, v. 7, A.n.


28. Muitos estrangeiros eram considerados vadios e criminosos. Esta c a r a c t e r í s t i c a n ã o era ex-
clusiva da Corte. É apontada, por exemplo, para Minas Gerais, por Laura de Melo e Sousa em
Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no s é c u l o XVIII, Rio de Janeiro, Editora Qraal,
1982.

29. Portaria de 23.6.1824, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v 4, p. 289.


30. Edital de 8.8.1824 do intendente-geral da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, Rio de Janei-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 71-96. jul/dez 1997 - p á g . 9 3


A C E

ro. Tip. de Silva Porto e Comp., e edital de 11.8.1824 do intendente-geral da p o l í c i a , Estevão


Ribeiro de Resende, Rio de Janeiro. Tip. de Silva Porto e Comp. Ambos foram encontrados no
IJ 6 163 (1822-1824), Secretaria de Polícia da Corte, rel.l A., o f í c i o s com anexos, A . l i .

31. Ofício do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, IJ 6 163 (1822-1824), Secreta-


ria de Polícia da Corte, rel.l A, o f í c i o s com anexos, 3.8.1824, A . l i . ; o f í c i o do intendente da
p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, IJ 6 163 (1822-1824), Secretaria de Polícia da Corte,
r e l . l A, o f í c i o s com anexos, 16.8.1824 , A . l i .

32. Ofício do intendente da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, ao general de Armas, Joaquim


Xavier Curado, c ó d i c e 326 (1822-1826), 17.9.1824, v. 6, p. 127, A.M.; o f í c i o do intendente
da p o l í c i a , Francisco Alberto Teixeira de A r a g á o , ao ministro encarregado das Visitas ao Mar,
desembargador A n t ô n i o Luís Figueira Pereira da Cunha, c ó d i c e 329 (1824-1830), 16.2.1827
p. 74, A.Ii. ,

33. Ofício do ministro e s e c r e t á r i o encarregado dos N e g ó c i o s da J u s t i ç a . Clemente Ferreira Fran-


ç a , ao intendente-geral da p o l í c i a , E s t e v ã o Ribeiro de Resende, c ó d i c e 319 (1824-1825,
14.7.1824, p. 32, A.Ii.

34. Em 1825, 468; em 1826, 600; em 1827, 578; em 1828, 351; em 1829, 893; em 1830, 638;
em 1831, 373; em 1832, 160; em 1833, 410 e em 1834, 680. Este s ú b i t o aumento de
registros para 1829 talvez se deva à chegada dos emigrados portugueses. C o n s t i t u í r a m
tropa recrutada na Inglaterra para defender o trono de d. Maria da G l ó r i a . Proibidos de
desembarcar em Portugal pela p r ó p r i a Inglaterra, alegando ter o m a r q u ê s de Barbacena
ferido o direito internacional ao recrutar homens para combater em outro p a í s , sem porto de
arribada, vieram atracar no Rio de Janeiro. Muitos passaram a integrar a TVopa nacional,
outros enredaram-se na cidade; outros, ainda, arrumaram emprego no interior.

35. Conferir, entre outros, o f í c i o de Clemente Ferreira França, IJ 6 96 (11 dezembro 1824-30
julho 1825), Corte, Registro de Avisos, rei. 29/ parte 14, livro V, n ° 121, pp. 63-64 , 28.2.1825,
A.Ii.; o f í c i o de Clemente Ferreira França, c ó d i c e 319 (1824-1825), 29.2.1825, p. 69, A.Ii.

36. R e l a ç ã o de passageiros estrangeiros que consta terem entrado neste porto de 1.1.1828 a
31.5.1829, 4.7.1829, c ó d i c e 323 (1822-1836), pp. 108-109, A.Ii.

37. Extrato do livro das a p r e s e n t a ç õ e s dos estrangeiros na I n t e n d ê n c i a Geral da Polícia referente


aos que chegaram do dia 25 de abril de 1931. quando foi reorganizado este s e r v i ç o , a t é 20
de junho de 1931, assinado por P r o c ó p i o Alarico Ribeiro de Resende, IJ 6 165 (1831-1832),
Secretaria de Polícia da Corte, rei. A, o f í c i o s com anexos, 21.6.1831, A.N.

38. R e l a ç ã o dos estrangeiros apresentada à Secretaria Geral da Polícia, entre os dias 25 e 30 de


abril de 1832, em conformidade com o edital da mesma Secretaria, de 16 do referido m ê s e
ano, assinado por P r o c ó p i o Alarico Ribeiro de Resende, IJ 6 165 (1831-1832), Secretaria de
Polícia da Corte. rei. 1 A, o f í c i o s com anexos, A.N.

39. Ofício do indentende-geral da p o l í c i a . Francisco Alberto Teixeira de A r a g ã o , ao ministro dos


Estrangeiros, conde de Inhambupe, c ó d i c e 319 (1825-1833), 29/10/1826, p. 23, A.N; ofício
do ministro da Guerra, conde de Lages, ao intendente-geral da p o l í c i a . Francisco Alberto
Teixeira de A r a g á o , c ó d i c e 319 (1825-1833), 30.10.1826, p. 23, A.N.

40. Isto se dava por ser uma r e g i ã o com uma porcentagem maior de homens 'de cor' (em 1821,
50,6% de livres e 49,4% de escravos, sendo entre os livres somados os libertos).

41. Aviso, IJ 1 994 (1826-1831), avisos do Ministério dos Estrangeiros e do Ministério da Justi-
ç a , lata 1.212, IA, 14.5.1831, A.N.

42. Lista dos passageiros que chegaram sem passaportes na galera portuguesa novo Comerci-
ante, c a p i t ã o Domingos da Costa e S á , vindos da cidade do Porto em 14 de maio de 1831, U
1 994 (1826-1831), avisos do Ministério dos Estrangeiros e do M i n i s t é r i o da J u s t i ç a , lata
1.212, IA, 15.5.1831, A.N.

43. As autoridades recomendavam à I n t e n d ê n c i a que ou expulsasse esses imigrantes, ou lhes


concedesse passaportes para irem para o interior, sendo os locais preferidos S ã o Paulo e
Santos.

44. Eram 15 do Porto; um de Sarredo; um de Penafiel; um de M e s á o Frio; um de Viseu; um de


Braga e um de Viana do Castelo.

45. Portaria de 31.5.1831, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit.. v. 7, p. 312; este docu-
mento t a m b é m pode ser encontrado no IJ 1 181 (12 m a r ç o - 1 5 dezembro de 1831), Registro
de Avisos 407 (60), p. 34. A.N.

p á g . 9 4 , Jul/dez 1997
V o

Aviso do ministro dos Estrangeiros, Francisco Carneiro de Campos, ao intendente-geral da


polícia, c ó d i c e 319 (1825-1833), 7.7.1831, p. 117, A.n.

47. Aviso de 31.5.1831, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v. 7, p. 312.

4-8. D e c i s ã o de 5.4.1831 dando " p r o v i d ê n c i a s para a p u n i ç ã o dos delitos e p r i s ã o dos d e l i n q ü e n -


tes", em Coleção das decisões do governo do Império do Brasil de 1831, Rio de Janeiro,
Tipografia nacional, 1876, pp. 44-45; d e c i s ã o de 5.4.1831 mandando "abrir assento de
p r i s ã o aos i n d i v í d u o s presos em flagrante como perturbadores da t r a n q ü i l i d a d e p ú b l i c a " ,
em Coleção das decisões do governo do Império do Brasil de 1831, op. cit., pp. 42-43.

49. D e c i s ã o de 5.4.1831 mandando "proceder ao assentamento geral de todos os estrangeiros


que chegarem a esta Corte", em Coleção das decisões do governo do Império do Brasil de
1831, op. cit., p. 46.

50. D e c i s ã o de 5.4.1831 mandando "estabelecer rondas de mar que evitem o desembarque de


marinheiros depois do sol posto", em Coleção das decisões do governo do Império do Brasil
de 1831, op. cit., p. 43; d e c i s ã o de 5.4.1831 ordenando "que sejam presos todos os mari-
nheiros que se acharem em terra depois das ave-marias", em Coleção das decisões do gover-
no do Império do Brasil'de 1831, op. cit., p. 44.

51. Aviso do ministro da J u s t i ç a . Manuel J o s é de Sousa França, ao intendente da p o l í c i a , IJ 1 181


(12 m a r ç o - 1 5 dezembro de 1831), Registro de Avisos 407 (60), 10.5.1831, p. 25, A.n.

52. Edital da C â m a r a Municipal do Rio de Janeiro sobre a " a d o ç ã o de posturas que viabilizem
maior controle da p o p u l a ç ã o " , IJJ 10 6 (1831-1832), Ministério do I m p é r i o , C â m a r a Munici-
pal da Corte, o f í c i o s , 9.4.1831, A.n. A carta de lei de 6.6.1831 t a m b é m dá p r o v i d ê n c i a s para
o controle da p o p u l a ç ã o . Pode ser encontrada na obra de J o s é Paulo de Figueiroa Araújo,
op. cit. , v. 7, p. 314.
53. D e c i s ã o de 13.4.1831 que nomeia "uma c o m i s s ã o para informar acerca das c i r c u n s t â n c i a s de
cada um dos oficiais dos Corpos de Estrangeiros, que se mandaram dissolver", em Coleção
das decisões do governo do Império do Brasil de 1831. op. cit., pp. 49-50.

54. Edital da C â m a r a M u n i c i p a l do Rio de J a n e i r o a d o t a n d o p o s t u r a s p r o v i s ó r i a s de


d i s c i p l i n a r i z a ç á o da p o p u l a ç ã o , IJJ 10 6 (1831-1832), Ministério do I m p é r i o , C â m a r a Muni-
cipal da Corte, o f í c i o s , 1.6.1831, A.n.

55. Decreto de 18.8.1831, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v. 7, p. 406.

56. Aviso de 18.8.1831, em J o s é Paulo de Figueiroa Araújo, op. cit., v. 7, p. 408.

57. Carta de lei de n a t u r a l i z a ç ã o dos estrangeiros de 23.10.1832, em Coleção das leis e decre-
tos do Império do Brasil de 1832, Rio de Janeiro, Tipografia Imp. e Constitucional de Seignot
e Plancher E. C , 1834, v. 4, pp. 229-231.

58. O m ê s de abril de 1832 tinha sido d r a m á t i c o e t r a u m á t i c o para a R e g ê n c i a , no dia 3 teve que


se haver com uma revolta dos liberais exaltados', que como sempre tinham fama de levanta-
rem a p o p u l a ç ã o e manipularem os negros, no dia 17 do mesmo m ê s foi a vez dos restaura-
dores', comandados pelo b a r ã o de Bullow. Desde finais de 1831 chegavam n o t í c i a s de pla-
nos de derrubada da R e g ê n c i a , tramados no exterior. As novidades vinham de Londres e
Paris. Esses boatos prolongaram-se a t é 1833, mesmo depois da morte de d. Pedro 1 do Brasil
e IV de Portugal. Em julho e outubro novas revoltas aconteceram.
o
59. Ofício de 14.8.1834 do juiz de Paz do 2 dis"trito da freguesia da C a n d e l á r i a , Luís Francisco
Braga, ao intendente-geral da p o l í c i a da Corte, IJ 6 169, Secretaria de Polícia da Corte, p. 1,
A.n; ofício do intendente-geral da p o l í c i a da Corte, E u s é b i o de Q u e i r ó s Coutinho Matoso da
Câmara, ao ministro dos n e g ó c i o s do I m p é r i o , A n t ô n i o Pinto Chichorro da Qama, c ó d i c e 323
o
(1822-1836), 24.5.1834, v. 7, p. 118, A.n. no IJ 1 168 ( I de fevereiro de 1834 — 30 de abril
de 1835), Registro de Avisos, há v á r i a s listas de portugueses expulsos sem passaporte e
listas daqueles que ficaram, pagaram fiança e foram encaminhados para o interior.

60. Das 26 pessoas da lista de passageiros do brigue p o r t u g u ê s Boa Hova. duas eram brasileiras
(22 anos e 38 anos, negociante e marceneiro) e uma inglesa (14 anos e caixeiro). Sem
e x c e ç ã o , eram solteiros. Os portugueses vinham todos do Porto. Como o c u p a ç ã o , declara-
vam: "a empregar-se', a e x c e s s ã o de quatro lavradores, três caixeiros e um sapateiro. Suas
idades: dois com nove anos, dois com dez, dois com 11, um com 12, dois com 13, quatro
com 14, t r ê s com 16, t r ê s com 17, dois com 18, um com 21 e um com 37 anos.

61. limar Rohloff de Matos, O tempo saquarema, S ã o Paulo, Editora HUCITEC/Instituto nacional
do Livro, 1987, p. 152.

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 71-96. jul/dez 1997 - p á g . 9 5


A B S T R A C T
When the Brazilian citizenship was defined during the First Empire, the arrival and settlement of

the Potuguese' started to be submitted to inspection and control. This policy — operated by the

government — fluctuated in conformity to the political moment, since the 'Brazilian' had his

process of development gradually constituted, and the Portuguese labor was essential to the

Empire.

R É S U M É
Avec la d é f i n i t i o n d'une c i t o y e n n e t é brésilienne, lorsque du Premier R è g n e , 1 ' e n t r é e et

1 ' é t a b l i s s e m e n t des 'Portugais' furent soumises au controle et vigilance. Cette politique adoptée

par le gouvernement oscillait selon le moment politique, une fois que le ' B r é s i l i e n ' eut son

processus de d é v e l o p p e m e n t graduellement c o n s t i t u é et la main-d'oeuvre portugaise se portait

indispensabie à la Cour.
Fernando Teixeira da Silva
Professor de História da Universidade
Metodista de Piracicaba (UMMEP), mestre e doutorando
em História Social na Universidade Estadual de Campinas (UMCAMP).

I m i g r a ç ã o Portuguesa e
M^OYimento O p e r á r i o no B r a s i l
Fontes e arquivos de Lisl&oa

ste artigo é o resultado outras c i d a d e s b r a s i l e i r a s .


1*^ parcial de um e s t u d o
PORTUGUESES DEPORTADOS DO
realizado durante sete
BRASIL
meses em arquivos portugueses
para o desenvolvimento do proje- Há uma grande quantidade de documen-
to 'A colônia portuguesa em Santos: imi- tos referentes a trabalhadores e militan-
gração, trabalho, cultura e movimentos tes portugueses que foram deportados do
1
sociais ( 1 8 8 0 - 1 9 3 0 ) . Seu objetivo é território brasileiro, entre 1912 e mea-
apontar algumas possibilidades de pes- dos da década de 1930, acusados de 'in-
quisa sobre a relação entre movimento desejáveis' em razão, especialmente, de
operário e imigração portuguesa, nas três sua atuação no movimento operário. Por
primeiras d é c a d a s do século XX, a partir meio de investigações realizadas no Bra-
da apresentação do c o n t e ú d o das fontes sil (correspondências diplomáticas no Ar-
e dos respectivos arquivos localizados em quivo Histórico do ltamarati; processos
Lisboa. Embora as investigações tenham de expulsão de estrangeiros no Arquivo
sido orientadas sobretudo para o caso nacional; processos criminais no Arquivo
específico de Santos (litoral paulista), se- do Fórum de Santos; ofícios da Delega-
rão feitas indicações que podem forne- cia Regional de Santos; jornais da gran-
cer i n d í c i o s p a r a p e s q u i s a s sobre de imprensa e operários) e em Portugal

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2. pp'. 97-108, jul/dez 1997 - p á g . 9 7


(correspondências diplomáticas no Arqui- a continuidade da a t u a ç ã o política de al-
vo do Ministério dos Negócios Estrangei- guns militantes nos dois países, aspec-
ros e imprensa operária), foi possível en- tos em geral ignorados pela literatura
contrar no Arquivo Nacional da Torre do 4
sobre o tema. Possibilitam ainda o con-
Tombo algumas dezenas de documentos fronto com as informações contidas nos
nominais (processos, fichas cadastrais e processos de e x p u l s ã o elaborados no
registro geral de presos) da ex-PIDE/DQS Brasil, uma vez que, com base em de-
(Polícia Internacional e de Defesa do Es- clarações dos deportados, dos agentes
tado/Direção Qeral de Segurança) relati- d i p l o m á t i c o s e na a u s ê n c i a de provas
vos a portugueses deportados de Santos quanto à s diversas c o n d e n a ç õ e s , as au-
e de outras partes do Brasil a partir de toridades portuguesas, em certos casos,
2
1919. denunciavam as arbitrariedades jurídicas
na formação de culpa e restituíam a li-
Constam de alguns desses processos re- 5
berdade aos presos.
latórios de agentes e informantes secre-
tos remetidos à s diversas polícias políti- No Arquivo do Ministério dos Negócios
cas portuguesas, 3
contendo informações Estrangeiros foi localizada a maior parte
sobre a a t u a ç ã o dos envolvidos e o seu da d o c u m e n t a ç ã o sobre esse tema. A
passado de atividades no Brasil. Além
dos dados pessoais (idade, profissão,
estado civil, filiação e local de nascimen-
iAos Trabalhadores da
to), determinados processos contêm ain-
Liáhf, em Geral
í o r u i i animador o eulLu-avaimo q N M noU •*» lodoa M e c n p é -
nb*:roa A compantui, 4wwl* daaaa TIIIC Klniriii! «nlhoMMo pela noaaa
da c o r r e s p o n d ê n c i a s trocadas entre o ..'pi.ni:>, »a-aa m—me üeaoriaaLd*. poia, já É f M Mio d* toda* M mmm*
• implantar a diaeorriia ao IOMO M.O. taado » htil oom toda t
*<>(.( <U M U M l M , [I
Ministério dos Negócios Estrangeiros, os « o.n i £ : i ha (..oro. m « i
r í «a Linha* • Caboa, o «baia tarai
«••lar S u , u Uutou eontmear *q asila* e—paaaaifa. por M M oa mmit a
araVta. a * i parar lai ai rU Unilo. laTiriiiajdi. para uao. d.nhairo para l * * f I I I I
consulados, a Embaixada de Portugal no 4a* taatiw praaiau a. anta, I N ald n * n a a d . lataaiiaa «atra oa oosuanbat-
raa 4m -Tr.it ^o.
O,J* r i . r u da UrLofi.p 1 detcaradoi patifa* a.«a aa aptonlram aparor*
Brasil e as polícias políticas dos dois pa- doa d**nt* do Inpirtar «oa UabaLnadaras. 4a fro«U arfaida. aap.ntoa ilam.
oadoo %w*m raattciMUamia aaMoa para a eoaqstati doa atoa diraUoa, avBai
P»r» • rantoaWa .,0.1a d* cootma daa cri*MB qa* aaaa corja á a avataadrat
íses, documentos anexos (jornais, pan- ias pavpatrado «tra»«a daa aaaaataa I
Oa taaapaarttairaa da linhia a caboa, aa gafai, ncraoaa) toda è ma.or
adaatracaa da todo* oa o a troa trabalhadora* áa Ufat, aai (oral, aaaiai ooato
fletos, boletins e t c ) , cartas de presos a ••> t*ral da ladoa - « trataihadoraa. pala * H d i a i n i É i l i • * « * * aoclaJ ra*a-
liado saa* Ioda a rnargia d* coatpanhaire* aaaaa ia ald ta a,
r • * • altaa aahaaa aoatprahaadar qa* a >icion* daila* Japaadi da
autoridades policiais e 'autos de pergun- . 11 tona d** out/u* wouani.nro* tralalttaiJaraa aaaiai tomo a derrota da om I
* derrota do* oalroa.

tas' onde e s t ã o registradas as declara- «finti. i»is. ( « M t U t r i s ! . Viu 1 <i I i i i : 11 tnUI*i*«o


l i U t i t U Vir» • siliüritiid tttotalL .
ç õ e s dos deportados acerca dos motivos h pir latos I tefcs i«t ia!...

OONVOOAQAO
de sua expulsão.
• •wgaajji * • | m l . «Wva r"-

Embora vários processos contenham pou-


cas informações, sobretudo os anterio-
A Commissão
res à i m p l a n t a ç ã o da ditadura militar
portuguesa, em 1926, podem revelar cer- Panfleto d o s t r a b a l h a d o r e s d a L l g h t d e S ã o
tas conexões e contatos entre as práti- P a u l o . Parte Integrante d o i n q u é r i t o p o l i c i a l
contra L a m p i o n e L e o n e . S á o P a u l o , 1 9 1 9 .
cas repressivas do Brasil e de Portugal e Arquivo Nacional.

p á g . 9 8 . j u l / d e z 1997
V o

correspondência consular inclui recortes ais, do Grupo de Propaganda e Defesa


de jornais do Brasil e de Portugal, mani- Social e de várias a s s o c i a ç õ e s de traba-
festos e boletins operários, indicação dos lhadores nos mais diversos lugares do
motivos das expulsões, destino dos de- país); cartas de presos e de deportados
portados, s i t u a ç ã o s ó c i o - e c o n ô m i c a de para a África, detalhando suas condições
algumas famílias de portugueses expul- de vida e solicitando auxílio material e
sos, protestos das colônias portuguesas jurídico; e c o r r e s p o n d ê n c i a de familiares
no Brasil contra as violências policiais, dos expulsos e de militantes no Brasil
requerimentos e p e d i d o s de habeas narrando, entre outros aspectos, as vio-
6
corpus remetidos às autoridades de Por- lências praticadas pela polícia brasileira.
tugal, intervenções diplomáticas em fa-
vor da liberdade de presos e expulsos, C O N T A T O S E INFORMAÇÕES E N T R E

relatórios consulares e da embaixada de O MOVIMENTO OPERÁRIO DO

Portugal no Brasil que t a m b é m denunci- BRASIL E O DE P O R T U G A L

A
avam irregularidades jurídicas na elabo- imprensa operária é, sem dú-
ração dos processos de expulsão. vida, a principal fonte para a
Ha grande imprensa e nos jornais operá- .história dos contatos e trocas
rios, localizados no Arquivo Histórico-So- de informações entre militantes do mo-
cial da Biblioteca nacional de Lisboa, tam- vimento operário do Brasil e de Portugal.
bém podemos encontrar várias matérias O Arquivo Histórico-Social possui um
a respeito das d e p o r t a ç õ e s , sobretudo na acervo de quase duas dezenas de jornais
conjuntura de 1919-1921. Inúmeros são das mais diferentes regiões do país, clas-
os artigos contendo informações e pro- sificados como anarquistas, bolchevistas
testos contra a prisão e o envio dos de- e antifascistas, corporativos (jornais de
portados para as colônias portuguesas na diferentes categorias de trabalhadores),
África (espécie de segunda e x p u l s ã o ) ; sindicalistas, o p e r á r i o s e socialistas,
manifestações de solidariedade do mo- além de periódicos republicanos,
vimento operário p o r t u g u ê s (atividade da esperantistas, de juventudes o p e r á r i a s e
Comissão Pró-Presos por Q u e s t õ e s Soci- libertárias. Uma exaustiva pesquisa per-

E' preciso reagir, • já, contra ossa corja do bandidos!


iaal bani, wtnrit lanllaaw • M MMTI iha k m Mata, a*a a ar priaaiiià, • tutu, • «ícaua • MI atiaaiarti i amhrai
M M rm a atraia laanaat, a* «ai ihiaa a ultn uan, In mjéu k ai:
uaaiti itsj, H M i a te taatm kt croftara, aaaaaaaro artes i aata atraiam attiati i i,ir liraaati I
Até quando a povo supportiri semelhante situação ? Urge reagir promptamente! Que se pronuncie o proletariado I

Manchete d o Jornal A Plebe, de 16 de j u n h o de 1919. Parte integrante d o i n q u é r i t o policial contra


Lampione L e o n e . A r q u i v o N a c i o n a l .

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n° 2, pp. 97-108, j u l / d e z 1997 - pág.99


A C E

mite encontrar informações sobre os tra- libertários portugueses sobre as depor-


8
balhadores portugueses e o movimento tações.
operário no Brasil, artigos de correspon-
Embora náo tenha encontrado referênci-
dentes e colaboradores de jornais nos
as ao Brasil, o Arquivo Histórico-Social
dois países e visitas de militantes a sin-
guarda um monumental acervo manus-
dicatos de Portugal. Igualmente relevan-
crito, bibliográfico e iconográfico, produ-
tes s ã o as diversas matérias sobre a opo-
zido pelo movimento operário e anarquis-
sição dos jornais à emigração em massa
ta português, de espólios de instituições
para o Brasil, à s dificuldades impostas
representativas dos mesmos, a l é m de
pelo nosso mercado de trabalho e à a ç ã o 9
m e m ó r i a s escritas e orais.
repressiva da polícia brasileira aos tra-
10

balhadores e militantes lusos. no Arquivo Pinto Quartim, localizado no


Instituto de Ciências Sociais da Universi-
Ainda na s e ç ã o de espólios da Biblioteca dade de Lisboa, há alguns documentos e
nacional, o Arquivo Histórico-Social con- jornais com referências ao movimento
tém volumosos núcleos documentais de operário e anarquista brasileiro."
militantes portugueses. De interesse para
o anarquismo brasileiro destaca-se o IMIGRAÇÃO, T R A B A L H O E

núcleo neno Vasco, que foi um atuante e COLÔNIAS PORTUGUESAS N O BRASIL

P
influente anarquista no Brasil e em Por- arte considerável da documen-
tugal, com mais de uma centena de cor- tação investigada diz respeito a
r e s p o n d ê n c i a s trocadas, sobretudo com temas relacionados à emigração/
Edgard Leuenroth, durante a década de imigração e à s colônias portuguesas em
1910. nesta farta d o c u m e n t a ç ã o sobres- diferentes cidades do Brasil, destacan-
saem informações de ordem pessoal (di- do-se o material referente aos trabalha-
ficuldades financeiras, familiares etc.) e dores imigrantes, no Arquivo Histórico do
detalhes sobre as inúmeras colaborações Ministério dos n e g ó c i o s Estrangeiros,
de neno Vasco em jornais o p e r á r i o s e onde foi realizada a maior parte de nos-
libertários brasileiros. Trata-se de um rico sa pesquisa, encontra-se c o r r e s p o n d ê n -
material, por enquanto inexplorado, ca- cia d i p l o m á t i c a com os consulados, a
paz de fornecer valiosas c o n t r i b u i ç õ e s embaixada e a l e g a ç ã o de Portugal no
para a constituição de uma história bio- Brasil, entre outras i n s t i t u i ç õ e s . Essa
7
gráfica de neno Vasco. no núcleo Edgard correspondência está localizada,
Rodrigues, outro anarquista p o r t u g u ê s sobretudo, em processos classificados
que militou no Brasil, encontram-se, en- tematicamente (fichário ideográfico), tais
tre outros documentos, artigos sobre a como: propaganda de Portugal no estran-
história dç> movimento operário brasilei- geiro; emigração portuguesa para o Bra-
ro, além de alguns recortes de jornais sil; notícias da imprensa estrangeira e

p á g . 100. j u l / d e z 1997
R V O

portuguesa sobre Portugal; exilados, pre- Destacam-se neste volumoso material di-
sos, emigrados políticos e 'indesejáveis'; versos temas relativos à colônia portu-
comunismo e anarquismo; degredo, de- guesa de Santos, embora possam ser per-
portações e extradições; socorros e re- feitamente estendidos a outras cidades.
patriações; informações políticas prove- Mo que se refere à s q u e s t õ e s de emigra-
nientes dos consulados de Portugal; polí- ção/imigração, podemos listar os seguin-
tica interna e externa brasileira; direitos, tes assuntos: mapas estatísticos da imi-
garantias individuais e atividades dos por- gração pelo porto de Santos, indicando
tugueses no estrangeiro; s e n t e n ç a s e re- datas de embarque e desembarque, ida-
clamações estrangeiras; emigração e imi- de, sexo, estado civil, profissão e origem
gração. Além desses processos dos imigrantes; demografia portuguesa;
temáticos, existem diversos r e l a t ó r i o s a t u a ç ã o perniciosa dos agentes aliciado-
anuais, monografias e inquéritos sobre res de imigrantes; informações e dados
as colônias portuguesas no estrangeiro, estatísticos sobre socorros e repatriações
elaborados pelos cônsules de diferentes de 'imigrantes desamparados'; remessas
cidades. financeiras a Portugal feitas pelos imi-
grantes; quantificação dos portugueses
inscritos no consulado e respectivos da-
Federaçáo Operaria de São Paulo
dos sobre idade, profissão, sexo, estado
Ao Operariado em Geral
Companheiras, a reação policial /a cameçau. 41/aas civil e distritos de origem; problemas de-
ilu nasssas ctmpinhelras Já laram a a m sem ta-
ter auol a motivo. As ca teias de tantas et lia atar- correntes dos fluxos e das políticas de
roladas de trata lha dores, i as aafmittHt em mas
sn de aperatias pelapallcia da Mija mm mm*. emigração/imigração dos dois países, so-
Portanto cimpaaatirat, samos cèemeéet á lucm,
i Ioda pela nessa causa, Iodar pelas aassas reivin- bretudo quanto ao mercado de trabalho.
dicações aperarlas. i i CRttl ÊtMU mm Mamei m
protesto ciam Mas as /insanas abusos * arbitra-
riedades de que saa rlctimas as classes apanhas. Mo que diz respeito à cidade de Santos,
A Greve pois! há d e s c r i ç õ e s sobre os bairros, sanea-
» ente Berat am Um a estada m t. Haia para
azar ralar as aassas direitas amaesprtiada pata mento, infra-estrutura e equipamentos
classe UmAlMTA, ÊtlKtlCU a CLUI CtWEMNAHUtTAl
Trabalbadans, anl-ias para tantas lartes!
urbanos, transporte, turismo, instrução,
fira a immwmmm das traba/baacres! assistência social e empresas, particular-
Camaradas: preteslemas tem alta canIra lados estas
uilamias me centra nas am praticadas, certas m mente estabelecimentos comerciais, ban-
aae am veltartmas m tramita enauaalu is nossas
campbnheiras am taram resiiluidas t liberdade t cários e industriais portugueses.
asseguradas par parte das pederes cumpelenlu.t a di-
reito de reunião e Urre pensamento, milarmt aas
garante a constituição m Paii O material pesquisado fornece vários ele-
Viva a Greve G e r a l L mentos sobre as condições de vida e de
Sexta Feira IU IIUIM jilie m t r i l i l i i !
i federação Operaria trabalho na cidade: quadro das ocupa-
ê*mOm ar -tvtíu«n-n ar* mrv
ções profissionais dos imigrantes e sua
distribuição por empresas; movimento de
Panfleto d a F e d e r a ç ã o O p e r á r i a d e S ã o P a u l o ,
i m p o r t a ç ã o e exportação pelo porto de
° > 1919. Parte integrante d o i n q u é r i t o policial
contra L a m p i o n e L e o n e . A r q u i v o N a c i o n a l . Santos, em especial quanto aos produ-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 97-108 . j u l/dez 1997 - p á g . 1 0 1


A C E

tos portugueses; custo de vida e média no Arquivo Histórico do Tribunal de Con-


de salários por profissão; reivindicações tas, no Arquivo da Câmara Municipal de
12
e mobilizações operárias; sociedades re- Lisboa e no Arquivo Distrital do Porto.
creativas, de beneficência, de instrução
A seguir listamos alguns documentos do
e de classe; informes sobre expulsão de
Arquivo do Ministério dos n e g ó c i o s Es-
'indesejáveis'; interferência de membros
trangeiros, do Arquivo da Polícia Inter-
da colônia e de autoridades diplomáticas
nacional e de Defesa do Estado e da im-
portuguesas em movimentos grevistas e
prensa operária portuguesa, por serem
em favor de operários perseguidos pela
os de maior relevância para os temas
r e p r e s s ã o policial; condições de habita-
aqui mencionados.
ção, instrução e s a ú d e dos imigrantes.
ARQUIVO HISTÓRICO DO
Apesar de conter poucas referências aos
M I N I S T É R I O DOS NEGÓCIOS
trabalhadores e ao movimento operário,
ESTRANGEIROS
outras fontes do Arquivo do Ministério dos
(CORRESPONDÊNCIAS
n e g ó c i o s Estrangeiros apresentam ele-
DIPLOMÁTICAS)
mentos sobre a situação política brasi-
leira em diferentes conjunturas das d é - Portugueses expulsos do Brasil
cadas de 1920 e 1930 e seus efeitos en-
Correspondências da legação de Portu-
tre os imigrantes portugueses. Poucas in-
gal no Rio de Janeiro (1912) [caixa 231]
formações políticas encontram-se na cor-
Correspondências da legação de Portu-
respondência do Arquivo Antônio de Oli-
o
gal no Rio de Janeiro (1913) [ 3 piso, ar-
veira Salazar e no Arquivo do Ministério
mário 12, maço 50]
do Interior (ambos localizados no Arqui-
vo nacional da Torre do Tombo), mas sua Entrada em Portugal de deportados peri-
o
quase totalidade é composta de grupos gosos vindos do Brasil (1912) [ 3 piso,
de documentos produzidos a partir da dé- armário 3, maço 29, proc. 270]
cada de 1930 e não oferece muitas indi- Anarquistas portugueses e de outras na-
cações sobre o Brasil. cionalidades expulsos da República do
o
Brasil e da Argentina (1919-1921) [ 3
na Sociedade de Geografia de Lisboa e
piso, armário 12, maço 50]
na Biblioteca nacional pode ser encon-
trada uma vasta bibliografia sobre a emi- Comunismo e relação da URSS com di-
o
gração portuguesa para o Brasil. versos países (1919-1923) [ 3 piso, ar-
mário 10, maço 18c]
Embora não revelem nenhuma documen-
tação importante para a pesquisa sobre Comunismo e anarquismo - portugueses
o
Santos, outros investigadores p o d e r ã o expulsos do Brasil (1924) [ 3 piso, armá-
ter melhor sorte no Arquivo Histórico-Par- rio 7, maço 102]
lamentar, no Arquivo Geral da Marinha, Portugueses expulsos do Brasil (1927) [3 o

p á g . 102. j u l / d e z 1997
R V O

o
piso, maço 110, armário 12] Informações políticas (1932) [ 3 piso,
o

Portugueses expulsos do Brasil como in- armário 4, maço 15; 3 piso, a r m á r i o


o
desejáveis (1927-1928) [ 3 piso, armário 12, maço 310]

7, maço 106] Informações políticas da Embaixada de


o

Legação do Rio de Janeiro (1927-1928) Portugal no RJ (1936) [ 3 piso, a r m á r i o

[caixa 233] 1, maço 472]

Emigração/imigração Política interna e externa b r a s i l e i r a


o
(1937) [ 3 piso, armário 11, m a ç o 348]
Emigração para o Brasil e outros p a í s e s
da América do Sul (1924-1927) [ 3 piso, o
Política interna e externa do B r a s i l
o
armário 8, maço 17b, proc. 255] (1940) [ 3 piso, maço 86, armário 9]

Emigração para a América do Sul (1928) Revolução no Brasil. Deportação de por-


o
[3 piso, maço 79, armário 19] tugueses para o Oiapoque (1924-1925)
o
[3 piso, armário 7, maço 87]
Emigração para a América do Sul (1921)
o
[3 piso, armário 6, maço 17b] Q u e s t õ e s resultantes do movimento re-
o
o volucionário brasileiro de 1930 [ 3 piso,
Emigração subsidiada (1927) [ 3 piso, ar-
maço 5, armário 15]
mário 4, maço 42]
o Relações políticas de Portugal com o
Emigração clandestina (1928) [ 3 piso, ar-
o
Brasil [ 3 piso, armário 12, m a ç o 310]
mário 10, maço 266]

Emigração/imigração (1935-1940) [ 3 piso, o Arquivo da Polícia Internacional e de

maço 85, armário 16] Defesa do Estado (Arquivo nacional da


Torre do Tombo)
Colônias portuguesas no Brasil
o
Processos de portugueses expulsos
Socorros e r e p a t r i a ç õ e s (1921-1931) [ 3
o
do Brasil
piso, armário 79, maço 38; 3 piso, a r m á -
rio 18, maço 66 a 68] Adriano Pinto da Costa (cadastro PSE

o
3.653/1919)
Inscrições consulares (1925-1926) [ 3 piso,
armário 29, maço 91] Alberto Augusto de Castro (cadastro PSE
3652/1919)
Colônias portuguesas no estrangeiro (1934)
o
[3 piso, m a ç o 438, a r m á r i o 1; 3 piso, o Albino Constantino Martins Vilarinho

maço 117, armário 9] (proc. PC 0878/39)

Condecorações portuguesas a brasileiros Alfredo d Araújo (proc. PSE 1086)


o
[3 piso, armário 29, maço 38] Antônio Alves Pereira J ú n i o r (proc. PSE

Informações p o l í t i c a s sobre o Brasil 1284/1920)

Defesa de interesses dos portugueses no Antônio Couto de Castro (proc. PC 0027/


o
estrangeiro (1931-33) [ 3 piso, armário 1, 40; Registro Geral de Presos 11946)
maço 398] Antônio Cardoso (cadastro 10300/28)

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 97-108. j u l / d e z 1997 - p á g . 1 0 3


A C E

Antônio da Costa Coelho (proc. PSE 4/ J o ã o Queirós nogueira (proc. PSE 1063/
1920) 1920)

Antônio Fernandes Leite (cadastro PSE J o ã o Soares Barbosa (proc. PSE 3151/
7474/1924) 1927)

Antônio Francisco Lopes (proc. PC 0162/37) Joaquim Duarte Cerdeira (proc. PSE 12-

Antônio Mendes (proc. PSE 1023/1924) 5/1921)

Antônio Pinto (proc. PSE 3151/1927) J o a q u i m Ferreira da Costa (proc. PC


0430/1949; proc. PC 2072/35; Registro
Antônio Ramos (proc. PSE 518/1919)
Geral de Presos 01994/35 e 18903/1949)
Artur Inácio Bastos (proc. PC 0106/41,
Joaquim Pinto Ferreira Martins (proc. PC
2187/41, 0437/49; Registro Geral de Pre-
1052/36: Registro Geral de Presos 03819)
sos 13048/41)
J o s é Cerqueira (proc. PSE 3151/1927)
Augusto Antônio Figueiras (Registro Ge-
ral de Presos 04652/1936 e 13138/41; J o s é Maria Coelho (cadastro 01356; proc.
proc. PC 0364/41) 3151)

Belizário dos Santos (proc. PC 1512/39) J o s é Maria de Carvalho (proc. SPS 0460/
1932)
Bernardino J o s é Marques do Vale (cadas-
tro 10218/28; proc. PSE 3702/1928; Re- J o s é Maria Esteves (proc. PC 1065/1936,
gistro Geral de Presos 3888) proc. 103; proc. SPS/1918; cadastro 8230)

Cesário Pinto da Cunha (proc. PC 1511/ J o s é Martins Ruas (cadastro 9992/1921)


39; Registro Geral de Presos, 11802) J o s é de Oliveira (proc. PSE 3201/1927)
Euclides Venade Pinche (proc. SPS 0473- J o s é Proença (proc. SPS 0317/1932; ca-
A/1932; proc. SPS 2099/1937-1939; ca- dastro 01950/1927)
dastro 0492/27; proc. PC 0847/1937,
J o s é Rocha da Silva (proc. PSE 455-A/
0391/1943 e 1022/1948)
1919)
Franklin dos Santos Monteiro (proc. PSE
Júlio César Leitão (proc. PSE 322/1932-
1023)
1934; proc. PSE 460-A/1932; proc. SPS
Gil de Paiva (cadastro 01353/27; proc.
0460/1932; Registro Geral de Presos 545/34)
PSE 3151/1927)
Manuel S i m õ e s dos Santos (proc. PSE
Isaías Gomes de Pinho (proc. PSE 1063/
3151/1927)
1920)
Manuel Francisco Frutuoso (proc. PSE
J o ã o Marcelino (proc. PSE 1724/1922)
3151/1927)
J o ã o Marques Melo (proc. PSE 1359/1920)
Manuel Maria (cadastro 0 8 9 1 0 / 1 9 2 7 ,
J o ã o Pereira (proc. PSE 3201/1927) proc. s/n)

p á g . 104, j u l / d e z 1997
R V O

Manuel Pereira (cadastro 08775/1927; "Tio Brasil — Campanha contra a emigra-


proc. 3401/1927) ção", 16.2.1913

Mário Augusto Alves (PSE 3763/1928) "Solidariedade operária — duas m o ç õ e s

Militão Bessa Ribeiro (proc. QT 238/1932) do Segundo Congresso Operário Brasilei-


ro", 2.11.1913
Rodolfo Marques da Costa (proc. PSE
2329/1924) "Carta do Rio de Janeiro", 16.12.1913

Sebastião Lourenço (proc. PSE 2760/1925) A Greve — s e m a n á r i o o p e r á r i o da Ma-


nhã e propriedade do Grupo de Propa-
IMPRENSA OPERÁRIA (ARQUIVO ganda Social (Lisboa)
HISTÓRICO-SOCIAL)
Meno Vasco. "Cartas internacionais", 26
O Protesto — semanário socialista (Lisboa) e 27.6.1908

"Greve dos trabalhadores do porto de A Voz do Operário (Lisboa)


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Aurora (Porto) C h i c o L i s b o a . " C r ô n i c a s do B r a s i l " ,
"Crônicas do Brasil — A greve em San- 16.12.1910; 8, 15.1.1913; 26.3.1911; 2,
tos", 29.9.1912 8, 3 0 . 4 . 1 9 1 1 ; 7 . 5 . 1 9 1 1 ; 4, 1 1 , 18,
2 5 . 6 . 1 9 1 1 ; 2, 9, 16, 2 3 , 3 0 . 7 . 1 9 1 1 ;
"Na República Brasileira", 20.12.1912
10.8.1911; 8, 29.10.1911; 28.1.1912;
"Na República Brasileira. Inquisição poli-
11.2.1912; 3 . 3 . 1 9 1 2 ; 2 1 , 2 8 . 4 . 1 9 1 2 ;
cial", 23.6.1912
5.5.1912; 2,16,30.6.1912; 17,
"Do Brasil", 31.10.1915 24.11.1912, 1,8.12. 1912; 12, 19.1.1913;

"Greve geral em São Paulo", 23.9.1917 9.2.1913; 13, 2 0 . 4 . 1 9 1 3 ; 15, 2 2 ,


29.6.1913
"Uma cilada policial... e governamental",
11 e 26.11.1917 "Crônicas do Brasil", 21.4.1912

"Edgard Leuenroth", 19.5.1918 "A emigração para o Brasil", 22.9.1912

O Sindicalista (Lisboa, 1910-1913) "Carta do Brasil", 10.11.1912

"Emigrantes", 22.12.1912
"A visita dum s i n d i c a l i s t a brasileiro",
192.1911 "A emigração", 16.2.1913

"Carta do s e c r e t á r i o do Sindicato dos "A emigração", 2.3.1913


Estucadores e Pedreiros do Rio de Janei- "Aos emigrantes. A situação no Brasil",
ro", 21.7.1912 23.3.1913
"A guerra social", 8.9.1912 "A vida no Brasil", 4.5.1913
"A emigração", 16.10.1912 "Carestia de vida no Brasil", 1.6.1913
"Carta do Rio de Janeiro", 15.12.1912 "Crônica do Brasil", 8.6.1913

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 97-108. j u l / d e z 1997 - p á g . 1 0 5


A C E

"Contra a emigração", 22.6.1913 dical", 26.7.1924

"O problema da emigração I, II, III, IV", "Mo Brasil. Queimam-se as obras de Marx
31.8.1913, 7.9.1913, 14.9.1913, e de Otávio Brandão", 10.1.1925
21.9.1913 Otávio B r a n d ã o , 7.3.1925, 16.5.1925,
"Emigração portuguesa", 13.11.1913 13.6.1925

"A emigração", 15.2.1914 "Brasil. A situação econômica do seu pro-


letariado", 17.4.1926
"A moderna escravidão", 27.9.1914
A Batalha (Lisboa)
Terra Livre (Lisboa)
"Sobre a emigração", 6.7.1920
"Oh! As Repúblicas!... Contra a emigra-
Mário Domingues. "A partida para o Bra-
ção para o Brasil", 20.2.1913
sil", 25.10.1920
Clemente Vieira dos Santos. "Oh! As Re-
Eduardo Castro. "Por que emigram os tra-
p ú b l i c a s . . . E m i g r a ç ã o para o Brasil",
balhadores", 1.1.1921
6.3.1913
"A a l t a dos p r e ç o s e a e m i g r a ç ã o " ,
Federação Operária de Santos. "Oh! As
7.1.1921
Repúblicas... Emigração para o Brasil",
"O caso da Agência Financial", 8.1.1921
13.3.1913
"A emigração para Santos", 10.2.1921
"O sindicalismo no Brasil", 15.5.1913
"Crise do trabalho no Brasil", 29.3.1921
"No Brasil. Carestia de vida", 1.5.1913
"A campanha nativista", 6.4.1921
Astrojildo Pereira. "Quanabarinas",
26.6.1913, 15.5.1913, 1.5.1913 "Lá como cá - os atentados dinamitistas
no Rio", 17.8.1921
Santos Barbosa. "Mo Brasil a onda cres-
"Conseqüências do patriotismo: o
ce", 19.6.1913
jacobinismo brasileiro", 21.8.1921
A Sementeira — publicação mensal, crí-
"A a ç ã o dos c o m u n i s t a s no B r a s i l " ,
tica e sociológica (Lisboa)
17.8.1921
Neno Vasco. "O movimento anarquista no
J o s é Oiticica. "A q u e s t ã o religiosa no Bra-
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sil", 21.8.1921
Primitivo Soares. "A questão social no Bra-
Meno Vasco. "A propósito da organização
sil", 1.4.1916 e 1.5.1916
de um partido operário", 15.9.1921
Astrojildo Pereira. "Deste Brasil", março,
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abril e junho de 1919
ma comunista", 11 e 17.9.1921
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Astrojildo Pereira. "O movimento social
Astrojildo Pereira. "Brasil. A situação sin- no Brasil", 27.8.1921

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R V O

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no", 4.9.1921 O Trabalho (Lisboa)
Guerra Social Jaime Ferreira Dias. "Emigração: a vida
Manuel Moscoso. "Cartas do Brasil. Quer do campo e a febre do êxodo", 10.11.27

n O T A s
1. O trabalho contou com o a u x í l i o da CAPES e foi desenvolvido de janeiro a julho de 1996, sob
o r i e n t a ç ã o de Míriam Halpern Pereira, professora do Instituto Superior de C i ê n c i a s do Traba-
lho e da Empresa (Lisboa).
2. De acordo com normas do Arquivo nacional da Torre do Tombo, os processos posteriores a
1927 s ó podem ser pesquisados a p ó s cerca de sessenta dias a partir da data do pedido de
sua consulta. Outro problema relativo a essas fontes é identificar, com s e g u r a n ç a , os proces-
sos referentes à s pessoas a serem investigadas, tia medida em que s ã o muito comuns os
h o m ô n i m o s , torna-se n e c e s s á r i o colher o maior n ú m e r o de dados individuais (idade, local
de nascimento, filiação etc.) a fim de se obter o processo procurado a partir da r e l a ç ã o de
nomes apresentada nos computadores.

3. Ver Maria da C o n c e i ç ã o Ribeiro, A polícia política no Estado ttovo (1926-1945), Lisboa,


Estampa, 1995.

4. É o caso, por exemplo, de Militáo Bessa Ribeiro que. em sua autobiografia anexada ao
processo, afirma ter vindo para o Brasil em 1909, com a idade de 13 anos. "Empregou-se
como o p e r á r i o numa f á b r i c a de a l g o d ã o , onde trabalhou muitos anos como t e c e l á o . Condu-
ziu v á r i a s lutas reivindicativas na sua fábrica, que tinha mais de mil o p e r á r i o s , e foi dirigente
sindical de sua classe. Filiou-se ao Partido Comunista do Brasil, onde em breve foi chamado
para os seus cargos e onde travou conhecimento com alguns de seus dirigentes". Foi expulso
do Brasil ( n á o menciona a data), mas conseguiu desembarcar clandestinamente sem ser
preso. Seguiu para sua terra natal, em T r á s - o s - M o n t e s , c o m e ç a n d o a "fazer propaganda e a
organizar lutas do campesinato". o que lhe custou anos de p r i s ã o na d é c a d a de 1930 (pro-
cesso QT 238). J ú l i o C é s a r Leitão foi expulso do Brasil em 1927 como 'agitador comunista'.
De regresso a Portugal, "efetuada uma r e u n i ã o , o epigrafado orientou os presentes na forma
de se organizar o PCP (Partido Comunista de Portugal), copiando para esse fim a o r g a n i z a ç ã o
brasileira de que o epigrafado tinha feito parte durante sete anos" (processo SPS 460),
tendo sido preso v á r i a s vezes (processo SPS 322 e PSE 4960).

5. É o caso de B e l i z á r i o dos Anjos, expulso do Rio de Janeiro em 1939, preso sob a a c u s a ç ã o ' d e
ser comunista e posto em liberdade por n â o haver 'prova de culpa' (processo PC 15512/39).
Outro caso encontra-se em um processo incluindo onze portugueses acusados de organiza-
rem uma 'greve r e v o l u c i o n á r i a ' na Light, no Rio de Janeiro. O diretor da Polícia de Informa-
ç õ e s do Ministério do Interior escreveu um r e l a t ó r i o afirmando que haviam sido expulsos
"sem processo formado e sem i n t e r r o g a t ó r i o p r é v i o , limitando-se as autoridades do Brasil a
indagar deles se tinham sido, ou eram, empregados da citada Light" (a maioria nem mais
pertencia aos quadros da empresa), a l é m de citar i n ú m e r a s outras arbitrariedades policiais.
(Processo PSE 3151). Estudos detalhados sobre tais arbitrariedades encontram-se em Sheldon
Leslie Maram, Anarquistas, imigrantes e o movimento operário (1890-1920), Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1979; Paulo S é r g i o Pinheiro, " V i o l ê n c i a e cultura". B o l í v a r Lamounier et a l . ,
Direito, cidadania e participação, S ã o Paulo, T. A. Queiroz, 1981.

6. Os jornais que maior destaque deram à s e x p u l s õ e s foram O Século (grande imprensa). Terra
Livre (1913) e A Batalha (1919-21).

7. Meno Vasco permaneceu uma d é c a d a no Brasil, fixando-se definitivamente em Portugal em


1911. Ver J o ã o Freire, " I n t r o d u ç ã o " , Meno Vasco, C o n c e p ç ã o anarquista do sindicalismo.
Porto, Afrontamento, 1984.
8
- Mo Múcleo Jorge Quaresma (caixa 33) h á a biografia de um militante, A n t ô n i o Costa, que
"muito novo andou pelo Brasil e Argentina, tendo tido contatos com companheiros dessas
nacionalidades".

9. Um guia de pesquisa bastante valioso é o Catálogo do Arquivo Histórico-Social. 2 vols.,


Lisboa, 1983-84.

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2, pp. 97-108. j u l / d e z 1997 - p á g . 1 0 7


10. Pinto Quartim nasceu no Rio de Janeiro em 1887 e mudou-se para Portugal aos sete anos de
idade. Dirigiu, em 1913, o s e m a n á r i o Terra Livre, quando, sob a c u s a ç ã o de abuso de liberda-
de de imprensa, foi deportado por dez anos para o Brasil. Mo Rio de Janeiro, exerceu a
p r o f i s s ã o de jornalista, regressando a Portugal em 1915.
11. O Instituto de C i ê n c i a s Sociais publicou alguns n ú m e r o s do Boletim de Estudos Operários,
p e r i ó d i c o rico em i n f o r m a ç õ e s sobre acervos, m e m ó r i a s , p u b l i c a ç õ e s e biografias o p e r á r i a s ,
a l é m de artigos e resenhas de livros sobre o movimento o p e r á r i o em Portugal e em outros
países.
12. O melhor guia para a pesquisa no Arquivo f l i s t ó r i c o - P a r l a m e n t a r , Arquivo Geral da Marinha,
Arquivo Histórico-Militar, Arquivo H i s t ó r i c o do M i n i s t é r i o s dos M e g ó c i o s Estrangeiros, Arqui-
vo H i s t ó r i c o do Tribunal de Contas e Arquivo H i s t ó r i c o da C â m a r a Municipal de Lisboa en-
contra-se em Miriam Halpern Pereira et al.. Roteiro de fontes da história portuguesa contem-
porânea. Instituto Macional de I n v e s t i g a ç ã o Científica, Lisboa, 1985. Ver, t a m b é m , da mesma
autora, A política portuguesa de emigração: 1850-1930, Lisboa, A Regra do Jogo, 1981.

13. Os r e l a t ó r i o s consulares devem ser procurados na pasta R e l a t ó r i o s e Monografias, a partir


dos nomes dos c ô n s u l e s das cidades pesquisadas. Bahia, C e a r á , Manaus, M a r a n h ã o , Pará,
Pernambuco, Porto Alegre, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro contam com caixas e s p e c í f i c a s
de ' C o r r e s p o n d ê n c i a recebida dos consulados de Portuga'. O arquivo possui resumos ma-
nuscritos de todas as c o r r e s p o n d ê n c i a s consulares da Bahia. Pernambuco, Pará e Rio de
Janeiro. O consulado e a embaixada de Portugal no Rio de Janeiro e s t ã o contemplados com
pastas, livros e caixas depositados nos Arquivos das R e p r e s e n t a ç õ e s D i p l o m á t i c a s e Consu-
lares de Portugal.

A B S T R A C T
This article is the partial result of a research done in the Portuguese archives during seven

months for the development of the project 'Portuguese Colony of Santos: Immigration, Culture

and Working Class (1880-1930)'. It proposes to show some possibilities of research about the

relation between labour movement and Portuguese immigration to Brazil, from the beginning of

the century to the thirties, through the indication of contents of documents and respectives

archives of Lisbon.

R É S U M É
Cet article est le r é s u l t a t partiel d'une é t u d e des archives portugais, m e n é e pendant sept mois,

en vue de d é v e l o p p e r le projet 'La Colonie Portugaise à Santos: Immigration, Travail, Culture et

Mouvements Sociaux (1880-1930)'. On y veut montrer quelques possibilites de recherche sur le

rapport entre le mouvement ouvrier et l'immigration portugaise au Brésil. à partir du d é b u t du

s i è c l e j u s q u ' à la d é c a d e de 1930, partant de la p r é s e n t a t i o n du contenu des documents et des

archives respectives de Lisbonne.


Maria Manuela R. de Sousa Silva
Professora Adjunta do Departamento de História/IFCS/UFRJ.

Poréui [meses mo .Brasil


I m a g i n á r i o social e t á t i c a s cotidianas

(1880-1895)

D
esde o final da ddécadi
écada Por toda a parte irrompem minori-
de 1960 se instaura er
em as organizadas reivindicando um
nossa cultura ocident
ital ugar na história, exigindo direitos
uma crise sem precedentes. O con- tradicionalmente cassados ou sim-
senso social em torno da grande nar- plesmente náo reconhecidos. Mão dçi-
rativa ordenadora que, desde os xa de ser significativo que, a partir dos
primórdios da modernidade, alimenta um anos de 1950, o vocábulo 'identidade' se
otimismo inabalável no progresso, nos desprenda de seus antigos contextos
avanços tecnológico e científico e na con- (campo da matemática, da lógica, da fi-
tínua e x p a n s ã o de bens e serviços aces- losofia e do idealismo g e r m â n i c o dos iní-
síveis a um n ú m e r o cada vez maior de cios do século XIX), passando a ocupar
homens, começava a ser alvo de d e s c r é - um lugar proeminente nas ciências hu-
dito. São anos marcados por profundas manas e sociais.
desilusões, por conflitos e t e n s õ e s soci- Assistimos e n t ã o à o r g a n i z a ç ã o dessas
ais oriundas dos m u r m ú r i o s irracionais minorias em grupos de p r e s s ã o política
das massas, dos ruídos inquietantes dos e ideológica, que passam a questionar a
grupos outrora silenciados, mas que a antiga ordem social e suas hierarquizações,
partir de agora passam a denunciar sua procurando, através de múltiplas táticas,
exclusão do sistema. nem sempre pacíficas, impor o reconhe-

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2, pp. 109-118, jul/dez 1997 - pág.109


A C

cimento de seus direitos e c o n s e q ü e n t e - as diversas t á t i c a s de r e s i s t ê n c i a , em


mente o respeito à alteridade. face das hostilidades e ressentimentos
acumulados ao longo de uma frustrante
São os trabalhadores, os estudantes, as
e dolorosa convivência entre ex-coloni-
mulheres, os marginais, os pobres, os
zadores e ex-colonizados que em pouco
velhos, as minorias étnicas, raciais, reli-
ou nada coincidiam com os discursos ofi-
giosas, sexuais e t c , por fim saindo do
ciais. Estes, ora apontavam para uma
anonimato e do esquecimento, rastreando
convivência cordial e pacífica, tecida por
e reconstruindo suas próprias identida-
laços de fraternal amizade, cimentados
des, cujas m e m ó r i a s não coincidem com
por uma língua, cultura e experiência his-
os discursos de saber, a t é e n t ã o elabo-
tórica partilhadas, ora procuravam cons-
rados pelos historiadores.
truir uma imagem totalmente hostil à
Mas, se é verdade que vivemos um mo- c o l ô n i a portuguesa, tentando apagar
mento marcado pela inflação de discur- qualquer traço em comum, circunstância
sos que apontam para a diferença, para entendida como fundamental para cons-
o respeito à s alteridades e c o n s e q ü e n t e - tituir uma nação soberana, na contramão
mente aos direitos das minorias, o fato é de um passado colonial. Esta última ten-
que nossos tempos de 'renascimento ét- dência ganharia ampla r e s s o n â n c i a na
nico' s ã o marcados pelo extermínio e a opinião pública nos anos difíceis que se
morte do 'outro', seja ele o estrangeiro, seguiriam à i m p l a n t a ç ã o da República,
o negro, o pobre, o imigrante, ou sim- principalmente devido à propaganda ide-
plesmente o que difere de nós. ológica antilusitana dos jacobinos.

Foi, sem dúvida, este paradoxo que des- Porém, desde o início da imigração por-
pertou em mim o interesse em rastrear tuguesa massiva para o Brasil, as rela-
as m e m ó r i a s sociais dos imigrantes por- ções de convivência social entre súditos
tugueses no Brasil, tentando apreender portugueses e brasileiros foram

o
Exposição comemorativa do 4 centenário do Brasil na Sociedade Propagadora das Belas Artes. Rio de
Janeiro, 1900. Arquivo Nacional.

p á g . 1 10. j u l / d e z 1997
K V

marcadas por t e n s õ e s . Estas eram de- positivos legais acarretava a ilegalidade


correntes das frustrações, das expecta- dos contratos assinados, deixando os imi-
tivas e i n t e r e s s e s contraditórios e grantes, uma vez em terras brasileiras,
ambivalentes que, a cada conjuntura, pu- entregues à sua própria sorte. Porém,
nham em a ç ã o diferentes táticas de so- eram comuns os casos de imigrantes que
brevivência cotidiana, tecidas por astú- não se deixavam facilmente abater pela
cias sempre em mutação de sentido. situação, reagindo com as armas de que
dispunham. Estas podiam ir da fuga do
Os pontos geradores de maior t e n s ã o
local de trabalho, ainda que sob a amea-
poderiam ser, tratando-se de imigrantes
ça dos rigores da lei, à simples recusa
destinados ao setor agrícola, o
em trabalhar no ritmo proposto pelos ca-
descumprimento das cláusulas que regi-
patazes ou ainda à denúncia em jornais
am os contratos de locação de serviços
portugueses ou através das autoridades
ou contratos de parceria agrícola, atra-
consulares, passando pela o r g a n i z a ç ã o
vés de vários artifícios que burlavam a
de movimentos de rebelião, atitudes que
lei, decorrentes, na maioria das vezes,
expressavam uma reação à s d e s i l u s õ e s ,
da ganância de angariadores de m ã o - d e -
obra i m i g r a d a em c o n i v ê n c i a com aos sonhos frustrados e à exploração de

tabeliães e patrões, situação decerto fa- que eram vítimas.

cilitada pela ignorância e boa-fé dos tra- Outro foco de atrito era constituído pe-
balhadores emigrantes. las constantes rebeliões contra as péssi-

Dentre as situações irregulares mais co- mas condições de higiene e a l i m e n t a ç ã o ,

muns, sobressaem aquelas em que o con- ou ainda contra a s u p e r p o p u l a ç ã o , nas

trato era um simples instrumento parti- precárias instalações reservadas à hos-

cular (um recibo ou escritura) e não uma pedagem provisória dos imigrantes. Um

pública forma, celebrada perante tabe- motim de grande repercussão ocorreu em


lião; as assinaturas dos contratados fei- 1888, quando cerca de dois mil imigran-
tas a rogo de terceiros, mesmo quando tes, em grande n ú m e r o oriundos das
os imigrantes sabiam assinar seu nome; Ilhas Atlânticas, se colocaram em pé de
a ausência do visto obrigatório do gover- guerra contra as precárias a c o m o d a ç õ e s
nador civil, bem como do reconhecimen- e a p é s s i m a qualidade da a l i m e n t a ç ã o
1
to do cônsul brasileiro sediado em terri- fornecida.
tório português, ou finalmente a
Mas os imigrantes açorianos e
inexistência de um dispositivo legal no
madeirenses rebelar-se-iam ainda por
contrato proibindo a c e s s ã o de serviços
outro motivo. A Sociedade Central de Imi-
a terceiros, o que era amplamente prati-
gração e a Inspetoria de Terras e Coloni-
cado.
zação haviam tentado promover a sepa-
A ausência de qualquer um desses dis- ração entre os pais e filhos menores, sob

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2, pp. 109-118. jul/dez 1997 - pág.111


a alegação de que desta forma se facili- de processos abertos por familiares ou
taria sua colocação nas fazendas de café. tutores e à s r e c l a m a ç õ e s diárias veicu-
3

Anos antes, em fevereiro de 1882, quan- ladas pela imprensa portuguesa . Contu-
do da internação de imigrantes na pro- do, boa parte dos jovens que havia esca-
víncia de São Paulo, devido a um surto pado ao recrutamento ilegal poderia ser
de febre amarela, mais de írezentos imi- presa fácil dos destacamentos militares
grantes açorianos sublevados, alertaram que patrulhavam a cidade. De fato, se
o vice-cônsul p o r t u g u ê s para o fato de por acaso esses jovens fossem revista-
estarem dispostos a reagir à bala, se ne- dos e não pudessem apresentar os do-
cessário fosse, caso a Inspetoria de Ter- cumentos, comprovando sua condição de
ras e Colonização insistisse em separar estrangeiros regularmente admitidos no
os homens de suas crianças e mulheres, país (passaporte ou inscrição consular),
sob a a l e g a ç ã o de que isto favoreceria eram imediatamente presos e encami-
sua alocação nos postos de trabalho. 2 nhados à s e s t a ç õ e s policiais, de onde
posteriormente seguiam para a Casa de
A q u e s t ã o do recrutamento ilegal de me-
Detenção.
nores portugueses para as fileiras do
Exército, Marinha e destacamentos da Porém, muitos desses jovens, a p ó s alguns
polícia foi t a m b é m , ao longo do século dias de reclusão, eram conduzidos, à for-
XIX, uma fonte de constante tensão en- ça, para estabelecimentos agrícolas si-
tre as autoridades consulares e as auto- tuados no interior fluminense, onde en-
ridades brasileiras, em face do volume grossavam o contingente de trabalhado-

Vista d a praça Q u i n z e de Novembro e da ilha das Cobras. Rio de Janeiro, 1900. Arquivo Nacional.

p á g . 1 1 2 , j u l / d e z 1 997
R V O

res rurais. Esta modalidade ilegal de tra- liciais, com a conivência das autoridades.
balho compulsório resultava, na maioria Mas a violência poderia chegar a formas
das vezes, de um conluio estabelecido mais brutais, como espancamentos, aten-
entre os delegados e fazendeiros, que, tados, estupros e outros crimes.
sem qualquer ô n u s , passavam assim a
Assim, entre os anos de 1878 e 1889 fo-
dispor de mão-de-obra para suas lavouras.
ram instaurados 110 processos, sendo
Ainda em relação aos imigrantes meno- todos eles contra brasileiros ou ó r g ã o s
res de idade, a correspondência consu- oficiais. De uma maneira geral, os inqué-
lar, bem como o noticiário veiculado pela ritos consulares eram abertos a partir de
imprensa, freqüentemente nos informam uma denúncia pessoal (familiares da ví-
sobre casos de prisão irregular de jovens tima, vizinhos ou comerciantes sediados
que, não sendo desocupados, se dedica- no local da ocorrência) ou via imprensa,
vam a pequenas atividades e c o n ô m i c a s referindo-se apenas aos casos mais gra-
informais, sendo utilizados como vende- ves, dos quais haviam resultado agres-
dores ambulantes, carregadores de mer- s õ e s físicas ou morte da vítima.
cadorias, estafetas, m o ç o s de recados
Se compararmos estes dados com as no-
etc, atividades em que tiravam muitas
tícias divulgadas pela imprensa, agora
vezes o sustento próprio e o da família.
cobrindo apenas o p e r í o d o que vai de
É através dos processos que acompa- 1880 a 1888, verificaremos que num to-
nham boa parte da correspondência con- tal de 121 ocorrências envolvendo exclu-
sular que podemos mapear os principais sivamente s ú d i t o s p o r t u g u e s e s , três
focos de t e n s ã o e conflito gerados no eram referentes à prisão arbitrária, 11 a
calor dos enfrentamentos cotidianos en- invasões de domicílio por policiais e ca-
tre portugueses e nacionais, bem como poeiras, dois diziam respeito a s e q ü e s -
rastrear as diversas táticas de resistên- tros praticados por soldados, um a estu-
cia, assimilação e negociação que se ins- pro de criança, 35 a flagrantes de espan-
4
crevem nas práticas sociais . camento, em grande parte motivados por
rixas de trabalho, 28 a prisões sem cul-
Invariavelmente, os processos apontam,
pa formada, quatro a abusos de autori-
todos eles, para situações de conflito em
dade cometidos por delegados e polici-
que os s ú d i t o s portugueses aparecem
ais, vinte a atentados e 15 a assassinatos.
como vítimas de vários tipos de violên-
cia. Esta podia concretizar-se num sim- São igualmente bastante comuns os tes-
ples saque a uma casa comercial, sob a temunhos referentes à p a r t i c i p a ç ã o de
alegação g e n é r i c a de seu p r o p r i e t á r i o imigrantes portugueses nos conflitos ur-
explorar os nacionais'; ou ainda num ato banos que agitaram o Rio de Janeiro no
de invasão de domicilio cometido por ca- final do século XIX e nas primeiras déca-
poeiras infiltrados nos destacamentos po- das do século seguinte, q u e s t ã o que de-

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2. pp. 109-118. Jul/dez 1997 - p á g . 113


A C

safla as autoridades diplomáticas, dese- riedade em todas as m a n i f e s t a ç õ e s da

josas de manter uma política de boa vizi- vida p ú b l i c a e particular, este entrela-

nhança. Em 1880, na seqüência das ar- ç a m e n t o complexo e absoluto de fa-

ruaças urbanas provocadas pêlo novo im- m í l i a s , de n e g ó c i o s , de empresas, de

posto de vinte réis por pessoa transpor- interesses de toda a ordem, que qua-

tada nos bondes, teriam sido feridos e se tiram ao imigrante p o r t u g u ê s no

presos vários 'agitadores portugueses', Brasil os direitos de s ú d i t o s estrangei-

decerto simpatizantes do movimento de- ros, porque modificados e s t ã o na prá-

sencadeado por Lopes Trovão e que, por tica e pela força das coisas, os seus de-

dias a Tio, enfrentariam a polícia nas ruas veres. 6

do centro da cidade.
Mas o envolvimento de imigrantes portu-
Anos mais tarde, j á em pleno regime re- gueses vai além dos conflitos de rua. Ma-
publicano, voltamos a encontrar a pre- nifestava-se, igualmente, por meio de de-
sença de trabalhadores portugueses nos bates veiculados pela imprensa, aspecto
graves conflitos de rua, ocorridos por oca- que é amplamente denunciado e critica-
sião das greves desencadeadas em no- do pelas autoridades consulares. A este
vembro, quando da queda de Deodoro e respeito as palavras do cônsul-geral de
da subida ao poder de Floriano Peixoto, Portugal no Rio de Janeiro, dr. Manuel
ou ainda nos tumultos desencadeados Qarcia da Rosa, s ã o e m b l e m á t i c a s . Ao
durante a greve dos trabalhadores da criticar o constante envolvimento de sú-
Estrada de Ferro da Central do Brasil. ditos portugueses nas a r r u a ç a s e confli-

Em 1892, trabalhadores portugueses da tos urbanos, afirma:

Estrada de Ferro de Sapucaí voltam a re- ... os portugueses aqui residentes es-
belar-se, decretando greve por pagamen- quecem-se que s ã o estrangeiros e to-
to de salários atrasados. Paralelamente, mam parte na p o l í t i c a brasileira, qua-
elaboram um documento com suas rei- se com mais afoito que os p r ó p r i o s na-
vindicações que encaminham ao cônsul- cionais, n ã o se contentando em falar,
geral de Portugal no Rio de Janeiro, soli- mas recorrendo a t é à imprensa, o que
citando sua intermediação junto ao go- tem por vezes dado l a m e n t á v e i s resul-
verno brasileiro, com o objetivo de obter 7
tados.
deste o rápido cumprimento das obriga-
5 Um desses 'lamentáveis' incidentes com
ç õ e s patronais assumidas.
a imprensa havia ocorrido em torno do
Como bem observava o ministro pleni- j o r n a l Corsário, de p r o p r i e d a d e de
potenciário de Portugal no Brasil, conde Apulcho de Castro, que denunciara em
Paço de Arcos, em 1893: suas páginas vários abusos de autorida-
... é esta p a r t i c i p a ç ã o ativa e quase de cometidos por brasileiros contra sú-
preponderante, esta constante solida- ditos portugueses.

p á g . 114. j u l / d e z 1997
R V O

Anos mais tarde, outros jornais portugue- se opunha frontalmente à s diretrizes do


ses também s e r ã o vítimas de p e r s e g u i ç õ e s governo brasileiro, que através do de-
e atentados, como é o caso da Gazeta Lu- creto de 10 de outubro de 1893 havia
sitana (1882-1889), invadida três vezes em considerado os revoltosos n ã o simples
represália à s d e n ú n c i a s feitas contra poli- dissidentes políticos, mas criminosos de
ciais integrantes da Guarda nacional, acu- guerra.
sados de atentarem contra a vida de súdi- "T ' ^ ra o início de uma longa e dra-
tos portugueses. mática disputa diplomática que
Mas é na última d é c a d a do século XIX e > l^íexpunha contradições, mal-
nas duas primeiras do seguinte que se entendidos, interesses conflitantes e
adensam as t e n s õ e s entre portugueses e ressentimentos m ú t u o s . É exatamente
nacionais, inscrevendo no imaginário so- o momento propício para o recrudesci-
cial novas formas de rejeição. Assim, à mento de uma onda de indignação po-
antiga e desgastada imagem do português, pular contra Portugal, considerado ini-
visto pela p o p u l a ç ã o brasileira como o ex- migo da causa nacional republicana e,
plorador/colonizador/patrão, acrescenta-se por extensão, inimigo do povo brasilei-
a de estrangeiro/monarquista/conspirador. ro, sentimento que foi amplamente ex-
De fato, o momento político é difícil a p ó s plorado na imprensa pelos jacobinos,
a implantação da República, em decorrên- facção política constituída por grupos
cia dos graves incidentes da Revolta da Ar- republicanos mais radicais pertencen-
mada no início de setembro de 1893, na tes à s camadas m é d i a s urbanas emer-
baía da Guanabara, que irão provocar o gentes.
rompimento das relações diplomáticas en-
O sentimento antilusitano generaliza-
tre os dois p a í s e s tradicionalmente 'ir-
se, graças não só à propaganda
mãos'.
jacobinista, mas t a m b é m à postura do
Após a ocupação d a fortaleza de governo que, se n ã o apoia abertamen-
Villegaignon pelos revoltosos 'monarquis- te qualquer tipo de represália ou vio-
tas', sob o comando direto de Custódio de lência para com os portugueses, na prá-
Melo, o governo de Floriano Peixoto, em tica nada faz para evitá-las.
face das hostilidades, solicita aos países
De agora em diante os portugueses, in-
estrangeiros que tinham navios fundeados
dependentemente de suas o p ç õ e s polí-
na baía, apoio estratégico-militar para sus-
ticas e ideológicas, seriam considera-
tar a ação dos beligerantes e desta forma
dos pelos jacobinistas como inimigos da
evitar o bombardeamento do Rio de Janeiro.
República, por serem inveterados segui-
A situação de Portugal no conflito armado dores ou simples admiradores da cau-
complica-se de vez, a p ó s a c o n c e s s ã o de sa monárquica. Se, por um lado, a ide-
asilo político aos revoltosos, atitude que ologia jacobinista convertia suas des-

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2, pp. 109-118. jul/dez 1997 - p á g . 1 1 5


A C E

confianças contra os súditos portugueses Em Portugal, localiza-se o foco que ins-


num único p a d r ã o homogeneizador de pira maior p r e o c u p a ç ã o à s autoridades
comportamento político, simplificando a republicanas. De fato, é de Lisboa que
q u e s t ã o , pois transformava-os em 'bode se articula um pólo de d i s s e m i n a ç ã o das
expiatório', por outro, sinalizava uma si- idéias contrárias à República, bem como
t u a ç ã o que n ã o era nem um pouco in- ao governo Floriano Peixoto, tendo por
fundada. veículo a conhecida Revista de Portugal,

A este respeito, o desabafo do diplomata dirigida por Eça de Queirós. Mela s â o ci-

português conde F a ç o de A r c o s é tados vários artigos da autoria de Eduar-

e m b l e m á t i c o . Em correspondência enca- do Prado que, invariavelmente, os assi-

minhada ao Ministério das Relações Ex- nava com o p s e u d ô n i m o de Frederico S.

teriores do governo Floriano Peixoto, a Um outro locus de t e n s ã o era constituído


certo momento afirma: "... esta iníqua pela moradia popular urbana. Em torno
propaganda que pesa sobre toda a colô- dela se agudizavam os conflitos que, tan-
nia portuguesa indiscriminadamente é to podiam opor trabalhadores portugue-
enganosa pela generalização". E mais adi- ses a trabalhadores nacionais, quanto
ante acrescenta: proprietários portugueses a autoridades
municipais brasileiras. Esta q u e s t ã o , que
Os portugueses que afinal s á o acolhi-
j á começara a delinear-se no final da dé-
dos com b e n e v o l ê n c i a no p a í s , n á o se
cada de 1880, ganha nos últimos anos
lhes perguntando se s á o plebeus ou
do século XIX e nos que se seguem no-
fidalgos, c a t ó l i c o s ou livre-pensado-
vas e inusitadas p r o p o r ç õ e s , na seqüên-
res, republicanos ou n á o , mas acabam
cia das profundas transformações de ca-
por abusar da magnanimidade brasi-
ráter modernizador que vão ocorrer no
leira. São estes mesmos portugueses
e s p a ç o urbano.
de todas as condições que fomentam

às claras ou ocultamente o espírito de Numa cidade que se expandia rapidamen-


reação contra o governo constituído te, procurando disciplinar seu e s p a ç o , e
(grifo meu). 6
que enfrentava ano a p ó s ano um cres-
cente aumento de sua p o p u l a ç ã o traba-
Pelas ponderadas palavras do diplomata
lhadora, a moradia popular passava a
p o r t u g u ê s , fica bastante claro que as des-
constituir um verdadeiro drama para as
confianças dos jacobinos, tanto quanto a
classes mais desfavorecidas.
animosidade do governo brasileiro, não
eram de todo infundadas. De fato, logo Hoje sabemos que uma parte significati-
que a República é implantada no Brasil va das moradias populares estavam em
surgem opiniões e atos de franca hostili- m ã o s de portugueses. De acordo com a
dade ao novo regime, veiculados na im- d o c u m e n t a ç ã o disponível, só nos bairros
prensa brasileira e estrangeira. de São J o s é e da Glória, que no início do

p á g . 1 16. j u l / d e z 1997
K V O

século eram mais densamente povoados, xa de ser desconcertante o fato de que


existiam 414 proprietários portugueses, estes ú l t i m o s , sendo t ã o m i s e r á v e i s
representando 58% do total dos donos de quanto os seus agressores, estavam ex-
cortiços da área. postos ao mesmo tipo de e x p l o r a ç ã o .
Porém, o fato de terem moradia no cen-
lias fontes consulares encontramos inú-
tro da cidade, propriedade de patrícios,
meros processos encaminhados por pro-
próximo aos locais de trabalho, tornava-
prietários de cortiços, solicitando ao go-
os verdadeiramente 'privilegiados' aos
verno brasileiro o ressarcimento dos da-
olhos dos trabalhadores nacionais.
nos e perdas decorrentes das invasões,
saques e d e s t r u i ç ã o de instalações por Viver em constante t e n s ã o era o cotidia-
grupos de brasileiros desordeiros. Qua- no da convivência social entre s ú d i t o s
se s e m p r e estes incidentes eram portugueses e nacionais. Se, por um lado,
deflagrados por turbas populares que, essa t e n s ã o constituiu a e x p r e s s ã o de so-
aproveitando as inspeções sanitárias re- nhos frustrados, do choque de interes-
alizadas pela Jnspetoria-Qeral de Higie- ses ou ainda de visões peculiares do mun-
ne da Prefeitura, provocavam quebras- do, por outro lado, deu origem a um es-
quebras generalizados, além de atos de paço de negociação, em que as táticas
violência contra os inquilinos, na sua mai- postas em circulação teciam suas espe-
oria trabalhadores portugueses. Hão dei- cíficas astúcias de sobrevivência.

M O T A S
1- Gazeta Lusitana. Rio de Janeiro, 31.12.1888.

2. Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Caixa 221, anos 1884-1886. Doe. 16, s é r i e A,
25.8.1885. Arquivo do MME/SE/Lisboa-Portugal.
3. Gazeta Lusitana. Rio de Janeiro, 24.3.1889.

*• L e g a ç ã o de Portugal no Rio de Janeiro. P r o t e ç ã o a s ú d i t o s portugueses. Caixa 975/977, anos


1887-1890. Arquivo do M Ü E / S E / L i s b o a - P o r t u g a l .

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10, n" 2, pp. 109-118, jul/dez 1997 - p á g . 1 1 7


5. C o r r e s p o n d ê n c i a da r e p r e s e n t a ç ã o d i p l o m á t i c a de Portugal no Brasil. Mota 68. 14.10.1893.
Arquivo 288.2,12 do Arquivo H i s t ó r i c o do Itamarati.
6. L e g a ç ã o de Portugal no Rio de Janeiro. P r o t e ç ã o a s ú d i t o s portugueses. Caixa 975. Doe. 3,
proc. 8, s é r i e A, 30.05.1893. Arquivo MNE/SE/Lisboa-Portugal.
7. L e g a ç ã o de Portugal no Rio de Janeiro. Caixa 219. Anos 1880-1881. Doe. 5, s é r i e A, reserva-
do, 13.10.1880. Arquivo MME/SE/Lisboa-Portugal.
8. C o r r e s p o n d ê n c i a da r e p r e s e n t a ç ã o d i p l o m á t i c a de Portugal no Brasil. Mota de 18.12.1891.
Arquivo 288,2,11. Arquivo H i s t ó r i c o do Itamarati.

A B S T R A C T
This article intends to discuss everyday conflits and tensions that opposed Portuguese subjects
m ,h
and Brazilian during the last years of 19 century and the beginning of 20 century.

R É S U M É
Cet article fait une breve esquisse des conflits et tensions sociaux quotidiens qui opposaient les
t m e
Portugais et les B r é s i l i e n s d ê s la fin du XIX s i è c l e et pendant les deux p r e m i è r e s d é c a d e s du

XX'"" s i è c l e .
Walter i . Piazza
Professor doutor, titular da Universidade
Federal de Santa Catarina, inativo. Membro efetivo
do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina.

A s e eirenses no
Sul do B r a s i l

A
contribuição açoriana do Brasil sul tratavam do as-
e madeirense foi ex- sunto a partir do conhecimento
pressiva para a forma da documentação existente
ção da identidade nacional, apesar a q u é m Atlântico e que n ã o era
de ser pouco referida no contexto das mi- muito esclarecedora. Daí a necessidade
grações brasileiras, tendo ocorrido des- de aprofundar as investigações
de os primórdios da o c u p a ç ã o do solo arquivísticas e a leitura crítica da docu-
brasileiro, no período colonial, por po- m e n t a ç ã o existente em arquivos brasilei-
vos de língua e nacionalidade portugue- ros e portugueses.
sas.
A imigração a ç o r i c o - m a d e i r e n s e para o
A expressividade dessa imigração para o
Brasil meridional tem dois tipos de fun-
Brasil meridional, em pleno século XVIII,
damentos: o sócio-econômico, que influi
não fora merecedora de estudos mais
sobre a população dos a r q u i p é l a g o s dos
aprofundados, a t é recentemente. Os au-
Açores e da Madeira, e o político, repre-
tores açorianos e madeirenses simples-
sentado pela ação da monarquia portu-
mente limitavam-se a dar uma ou outra
guesa.
informação, sem aprofundar a matéria,
porquanto era tido como natural que seus Das nove ilhas do a r q u i p é l a g o dos Aço-
conterrâneos migrassem. Os estudiosos res, oito s ã o v u l c â n i c a s , c o m s o l o s

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2, pp. 1 1 9 - 1 2 8 , j u l / d e z 1997 - p á t ; . 119


A C E

basálticos, sujeitas a e r u p ç õ e s e tremo- m ã o - d e - o b r a agrícola, sujeita aos pro-


res de terra, excetuando-se a ilha de San- prietários de terras, num regime de semi-
ta Maria. escravidão.

A partir de 1444, encontramos registros A luta das Coroas ibéricas pela


sobre o vulcanismo no arquipélago dos hegemonia no Atlântico Sul, notadamente
Açores. Esses sismos provocavam no que concerne à bacia platina, se de-
i n t r a n q ü i l i d a d e entre seus moradores, senvolveu nos campos militar e diplomá-
que, j á em 1720, pleiteavam para serem tico. Poder-se-ia remontar à s bulas Inter

transportados para o BrasH. Procede-se, coetera e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , ao Trata-


e n t ã o , a um alistamento na ilha do Pico, do de Tordesilhas e observar o desen-
onde s ã o inscritas 1.435 pessoas, pro- volvimento da disputa até os idos de 1746.
nunciando-se favoravelmente sobre esse
Mo terreno militar, deve-se considerar a
alistamento, outras c â m a r a s municipais
fundação na margem setentrional do rio
das diversas ilhas.
da Prata, em 1640, da Colônia do Sacra-
Outros fatores sociais e econômicos po- mento, que se tornou, desde então, pomo
dem ser aduzidos. de discórdia entre as Coroas ibéricas.

As ilhas dos Açores estavam superpovo- Para enfrentar os constantes ataques es-
adas, o que, periodicamente, incentiva- panhóis e estabelecer uma linha de su-
va os homens a migrarem. Havia, em primentos para aquele posto avançado da
média, cerca de cento e trinta habitan- Coroa portuguesa, tornou-se necessária
tes por quilômetro quadrado, devendo- uma ampla ação político-administrativa.
se ainda considerar a topografia das De um lado, o estabelecimento de novas
ilhas. Esse fato, relacionado à s constan- povoações fortificadas (1737, e r e ç ã o do
tes crises alimentares — notadamente forte Jesus, Maria e J o s é , marco inicial
quanto à produção de trigo e cevada —, da atual cidade do Rio Qrande e, posteri-
o sistema fundiário e a fraca p r o d u ç ã o ormente, o plano de fortificação da ilha
agrícola geraram o empobrecimento dos de Santa Catarina) e, de outro, o levan-
moradores daquelas ilhas, de tal forma tamento geográfico-astronômico do Bra-
que as autoridades eclesiásticas tiveram sil meridional pelos "padres matemáticos',
que lhes dar a t e n ç ã o especial, e os de- o que significou um melhor conhecimen-
nominaram 'mal-enroupados' — para não to da realidade territorial brasileira, dan-
os dizer nus —, no tocante à assistência do ensejo à formulação da doutrina do
ao culto, notadamente à p r e s e n ç a na
uti possidetis, defendida por Alexandre
obrigação dominical.
de Gusmão e vitoriosa com a assinatura

O arquipélago da Madeira é t a m b é m de do Tratado de Madri (13.1.1750).


o r i g e m v u l c â n i c a , e ao problema de A corte de Lisboa precisava dispor de
s u p e r p o p u l a ç ã o relacionava-se o da elementos estratégico-militares para con-

p á g . 1 20. j u l / d e z I 997
V o

solidar sua hegemonia. Consumara-se o litoral meridional do Brasil, especialmen-


retorno à Coroa portuguesa das terras te quanto as suas riquezas.
das capitanias de S ã o Vicente, Santo Avolumavam-se, em Lisboa, os dados
Amaro e Terras de Santana, adquiridas necessários para o sucesso da hegemonia
em 1709, por 44 mil cruzados, aos her- portuguesa no Atlântico Sul e o homem
deiros de Martim Afonso de Sousa. Efe- escolhido para servir no Brasil foi o bri-
tuada a compra, foi despachado, em 1711 gadeiro J o s é da Silva Pais. Nomeado em
e depois em 1714, Manuel Gonçalves de 1735 para a u x i l i a r G o m e s Freire de
Aguiar para reconhecimento minucioso do Andrade no governo do Rio de Janeiro,

Mapa geral da América (detalhei, 1 746. Arquivo Nacional.

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 119-128. j u l / d e z 199 7 - p á g . 1 2 1


A C E

principalmente no que se refere à s forti- João V, e Rafael Pires Pardinho,


ficações e obras de engenharia civil, Sil- desembargador que servira como ouvidor
va Pais teve uma a t u a ç ã o bastante dinâ- na capitania de São Paulo, com jurisdi-
mica. Em 1738, ordenou-se ao brigadei- ção no sul do Brasil, e que fora, tam-
ro que f o r t i f i c a s s e a i l h a de Santa bém, intendente de diamantes em Minas
Catarina, e ele solicitou a Lisboa o envio Gerais.
de gente para povoamento, produção de Veja-se, pois, como se pode melhor ana-
alimentos e guarniçáo da ilha, referindo- lisar tal ação.
se nominalmente aos açorianos, uma vez
Pela resolução regia de 7 de agosto de
que, em 1720, tivera a oportunidade de
1746, foram definidas as formas de exe-
conhecer esse povo.
cutar, preliminarmente, a grande migra-
O planejamento dessa grande migração ção. Assim, o rei de Portugal atendeu "a
coube, primordialmente, ao Conselho Ul- r e p r e s e n t a ç ã o dos moradores das ilhas
tramarino, onde dois nomes pontificaram dos Açores, que pediam mandar tirar
nas r e s o l u ç õ e s a respeito do assunto: delas o n ú m e r o de casais para as partes
Alexandre de G u s m ã o , ministro de d. do Brasil que fosse mais preciso".

Quadro 1 - "Tábua dos casais e pessoas que por ordem de Sua Majestade se alistaram nestas ilhas no ano de 1747" *
Ilhas Vilas e cidades Casais Pessoas dos casais Pessoas solteiras Todas as pessoas
Ilha dc São Miguel Cidade da Ponta 47 257 - 257
Delgada

Vila da Ribeira 14 62 - 62
Grande

Vila Franca 2 9 9
Ilha Terceira Cidade de Angra 141 706 73 779

Vila de Sam
Sebastiam 9 45 45

Vila de Praia 12 88 88
Ilha da Graciosa Vila da Santa Cruz 62 291 82 373

Vila da Prava 64 309 99 399


Ilha de S. Jorge Vila do Topo 76 369 50 419

Vila da Calheta 146 819 151 970

Vila das Velhas 246 1.433 1.433


Ilha do Pico Vila de S. Roque 96 445 157 602

Vila das Lages 54 292 146 438

Vila da Madalena 6 446 290 736


Ilha do Faial Vila da Horta 210 1.207 - 1.207

Soma 1.294 (?) 6.778 1.039 7.817


1
Como se verá adiante, dos 7.817 alistados nem todos embarcaram com destino ao Brasil meridional, porém mais de seis mil desembar-
caram na ilha de Santa Catarina. Discriminadamente tem-se, pelas diversas ilhas, os totais alistados.

p á g . 122, j u l / d e z 1 997
K V O

Quail i. 2
Ilhas 1 ' o n u l a i ã o presente Alistados % K.ntrr non. c alistados
S;1o Micuel 46 415 328
Rta. Maria 4.280 ....

Terceira 22.460 912 4.5]


Graciosa 6.799 "72 11,50
S.JorEe ] ] 2 X22 2-4 00
Kaial •ti 91: 1.207 2.75
Pi.o 19 192 1 "1 9,00
Flores 4.622
Corvo 427

A partir daí, foram estabelecidas, atra- Brasil. O resultado do alistamento foi, as-
vés de edital, as condições de alistamen- sim, condensado pelo corregedor da
to para aqueles que desejassem migrar comarca das ilhas, como poderá ser ob-
— o transporte à custa da Fazenda Real, servado no quadro 1.
"não s ó por mar mas t a m b é m por terra
Para se avaliar melhor o peso desse alis-
até os sítios que se lhes destinarem" — tamento na população então existente,
bem como fixadas as idades limite, quer considerando-se, ainda, não haver dados
para os homens, quer para as mulheres, concernentes à s ilhas de Santa Maria,
a ajuda de custo que receberiam ao che- Flores e Corvo — das quais sabe-se ter
gar ao seu destino e, da mesma forma, havido migrantes — ver o quadro 2.
as ferramentas, as sementes, os animais,
Um instrumento normativo estabelecia
"um quarto de légua em quadra", além
quem organizaria os transportes — no
do sustento que receberiam durante um
caso o corregedor das ilhas —, como se-
ano.
riam as regras de conduta e quem as fis-
Os alistados eram, notoriamente, dedi-
calizaria, como se alojariam homens e
cados à agricultura, na produção de tri-
mulheres e como se velaria pela boa se-
go e de linho e de outras culturas como gurança das mulheres, a condução dos
a uva, para fabrico de vinho. alimentos ao seu alojamento — onde s ó
O corregedor da comarca das ilhas (dos entrariam, em caso de doença, o cirur-
Açores), a quem esteve afeto o alistamen- gião e o capelão — e sobre seu acesso
to, enviou à s c â m a r a s sob sua jurisdição ao tombadilho, somente para'ouvir mis-
cópia do edital, datado de 31 de agosto sa em "lugar mais vizinho ao altar".
de 1746, onde se estabelecia que, no ato
Como se vê pelos demais tópicos deste
de alistamento, deveriam ser anotadas
regimento, havia muito cuidado com a
as características somáticas de cada alis-
moral de bordo. Ficou acertado que par-
tado; determinava-se t a m b é m que as alu-
tiriam de Lisboa as e m b a r c a ç õ e s que
didas c â m a r a s em vereação escolheriam,
conduziriam os alistados para a grande
dentre os inscritos em sua circunscrição,
epopéia, que firmaria a hegemonia lusi-
três nomes para capitão, alferes e sar-
tana no sul do Brasil.
gento das companhias de ordenanças que
se formassem e n t ã o e que serviriam no O brigadeiro J o s é da Silva Pais, a 5 de

A c e r v o , Rio de J a n e i r o , v. 10. n» 2. pp. 1 1 9-1 28. j u l / d e z 1997 - pág.123


A C E

agosto de 1738, fora nomeado para or- valos. Além disso, foi instruído o briga-
g a n i z a r as defesas da ilha de Santa deiro Silva Pais para levantar em cada
Catarina, trabalho que se iniciou em mar- local uma companhia de o r d e n a n ç a , pois
ço de 1739, quando nela desembarcou, os oficiais haviam sido escolhidos pelas
passando a governar a ilha e seu conti- c â m a r a s das respectivas ilhas açorianas.
nente fronteiro, incluído o Rio Grande de O aspecto espiritual t a m b é m foi cuidado
São Pedro, o que ocorreu a t é 2 de feve- e, para tanto, foram alertados os bispos
reiro de 1749. do Funchal e de Angra, bem como o de
São Paulo — a quem se subordinava na-
Para acomodar os 'casais' açorianos, foi
quele momento o território que estava
expedida provisão regia, em 9 de agosto
sendo ocupado — de "que se há de cons-
de 1747, a Gomes Freire de Andrade, go-
tituir em cada igreja destas um vigário",
vernador e capitão-geral do Rio de Ja-
fixando-se-lhe os direitos (côngruas).
neiro, a quem se subordinava a "capita-
nia da ilha de Santa Catarina". Mesta pro- De tudo o brigadeiro Silva Pais deu exato
v i s ã o há minuciosas i n s t r u ç õ e s sobre cumprimento.
como deveriam ser recebidos os açoria- Estes 'casais' — t a m b é m chamados 'ca-
nos e madeirenses. Fixavam-se, e n t ã o , sais de n ú m e r o ' ou 'casais d'el rei' — for-
normas para o abastecimento de farinhas maram comunidades que se estabelece-
e de peixes aos migrantes, declaravam- ram ao longo do litoral catarinense e na
se as medidas para pagamento das aju- própria ilha de Santa Catarina.
das de custo prometidas e determinava- A partir de 1752, os açorianos que pri-
se ao brigadeiro J o s é da Silva Pais que meiramente se fixaram e m Santa
escolhesse, "na mesma ilha como nas ter- Catarina, devido à s dificuldades encon-
ras adjacentes, desde o rio de São Fran- tradas, foram encaminhados, ou se en-
cisco a t é o serro de São Miguel, e no ser- caminharam por conta própria, para o Rio
tão correspondente", as terras próprias Grande de São Pedro. Por outro lado, a
para "fundar lugares em cada um dos 'diáspora' se deu, t a m b é m , com as ge-
quais se e s t a b e l e ç a m pouco mais ou me- r a ç õ e s vindouras, que formaram, em
nos sessenta casais". Santa Catarina e no Rio Grande do Sul,

A referida provisão regia determinava, novas comunidades.

ainda, como seriam urbanizados tais lo- Feito o alistamento, foi contratado o
cais, com a fixação da igreja, uma praça 'transporte', para o que foram
fronteira e a forma de arruamento, e s t a b e l e c i d a s n o r m a s , quer para os
estabelendo t a m b é m que, logo que os transportadores, através dos 'assentos'
'casais' estivessem situados, se lhes en- (contratos), quer para os transportados,
tregaria duas vacas e uma égua e, para como se viu. Deve-se considerar que o
a comunidade, quatro touros e dois ca- transporte, dadas as condições das em-

p á g . 124. j u l / d e z 1997
K V O

barcações na época, a duração da viagem antamento ao assentista do preço do


e a quantidade de pessoas a serem trans- transporte e, finalmente, ao conheci-
portadas, mereceu a t e n ç ã o máxima das mento pelos 'casais' do aludido 'assento'.
autoridades portuguesas. Os assentos' fo-
A análise da letra fria dos assentos es-
ram disputados entre comerciantes e ar-
conde a odisséia de atravessar um oce-
madores das ilhas dos Açores e de Lisboa.
ano, em toda a sua vastidão, em frá-
O 'contrato de tabaco', gerido por Feliciano geis embarcações, arrostando as agru-

Velho Oldenberg, j á tivera o privilégio de ras da s e p a r a ç ã o e o isoJamento dos

conduzir um navio, anteriormente (1744), entes queridos, sujeito a uma alimen-

dos Açores para o Brasil. Esse mesmo tação deficiente e escassa, e a um aten-

Feliciano Velho Oldenberg, em 7 de agosto dimento médico precário frente à s do-

de 1747, assinaria com a Coroa o 'assen- enças e à morte. Enfrentar, depois, o

to', constante de 24 cláusulas, para efeti- desconhecido, numa pugna incessante


para adaptação ao novo país, com seu
var o transporte de mil pessoas para San-
clima tropical, e para superar as difi-
ta Catarina. É o princípio de uma epopéia.
culdades e os obstáculos na instalação.
^ ' " ste 'assento' trata do que deve-
Com pequenas modificações, este tipo
~ ~ r i a conduzir, da s e g u r a n ç a das
de 'assento' p e r m a n e c e r á vigorando
e m b a r c a ç õ e s , da a c o m o d a ç ã o
nos posteriores e sucessivos contratos,
dos 'casais' a bordo, da rota a ser segui-
conforme o quadro 3.
da, do tempo de p e r m a n ê n c i a nas ilhas
para receber os 'casais', da data de parti- Duas o b s e r v a ç õ e s devem ser, aqui,
da e da justificativa nas demoras. Refere- efetuadas.
se ainda à s r a ç õ e s a serem servidas a
A viagem dos 59 madeirenses, de 1 749,
bordo, ao embarque de pessoas em Lis-
foi devida à insistência dos alistados,
boa e ao preço do seu transporte, aos tras-
mormente do capitão Henrique César
tes de cada pessoa transportada, à alimen-
Berengue — apesar de, na ilha da Ma-
tação a bordo e ao seu preparo, à dieta
deira, haver mais de duas mil pessoas
dos doentes, à fiscalização dos alimentos,
alistadas —, e tal se fez com navio do
ao preço do transporte para a ilha de San-
'contrato do tabaco'.
ta Catarina, à sindicância que deveria efe-
tuar o governador da ilha de Santa Catarina lio tocante ao contrato de 28 de setem-
concernente a cada um dos transportes que bro de 1751 com Francisco de Sousa
ali aportasse, à assistência médica a bor- Fagundes, náo se encontrou documen-

do, ao atendimento religioso à capacida- tação dos transportes realizados, a não

de dos pilotos das e m b a r c a ç õ e s , ao retor- ser aquela do pagamento que lhe era

no do navio e as possíveis arribadas, à devido e foi efetuado. Tem-se, pois, que

venda das sobras de mantimentos, ao adi- se localizaram na ilha de Santa

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n° 2. pp. 1 1 9-1 28, jul/dez 1997 - p á g . 1 2 5


A C E

Owun. 3
Data de Nome da n a l i a i i i i i u 1 j|itLí'. '.11 nu-.Hi i l " N-éc Mortos C W f d i Datada
partidu • * checada
rmhartadin
Fcliciacii) V c l x i 21.10.1747 L u f i Looci Godclho i í : •;•
JCMIÍ MJI U }OÉÍ
OtuVnhcTi - mil 21.10.1747 SJIIU Ana e Senhor do Bonfim Pedro Lopes Arraia 216 21 12 461 - 6.1.1748
pessoas 16.10.1748 Jcsui Mana Juní Lult U x u G o d c l h o 233 47 36 238 7.1.1748
7.*. 1747 IA 10.1748 S i i Uofninro* c Alma Pedro Lopes Arraia 271 34 73 208 7.1.1748
1.10.1749 J a u * Mana ioti Pedro L o n a Arraia 217 29 13 233 20.12.1749 Total transportado:
1 141 Baaaaaa
Contrato du labacu N . Sra. das Maravilhai; Sano 59 59 7 .9.1749 M . :.
Antônio e Almas discriminação de
idades)
F n n c i K u i k Soara : ; • > Santa Ana t Sr. do Bonfim Francisco Manuel de Lima 220 20 12 1749 Sem l i s c n m n a ç a o
F a i u n k * - quatro mil 4 9 1749 N . Sra. da Conceição e • • I Lopet Sü*a 480 25.12.1749 de idades
Porto Seiraro
1.7.1749 Bom Jetui PcruVWí c Manoel Correia Fraia 600 234 1.066 1.I.I7SO Sem discriminação
N . Sra. Rosário
Sanu A n a • Sr do Bonfim 239 19 18.12.1750 Sem <t i c n r r i nação
N . Sra. da Conceição . 482 52 8 12.1.1751 de idade*
Porto Scjruro 67 17 1.434 7.1.1751
Sr. do Bonfim c N . Sra. Rosário 600 1732
Bom Jesus do* Perdoe* e Cutlodio FranciKo 600 1752
N . Sr». Rosário
N . Shf da Concctcao c Pedro Lopes Airaia 480 44 1752
Porto Seguro
13.11.1753 Bom Jesus d M Pciüfte* e Custódio FranciKo 603 4(1 2.1754
N . Sra. Rosário
13.11.1733 N . Sra. da Conceição e Pedro Lopes Arraia SOO 2.1754 Total
Purtu ScKum iransncrtaüo*:
4 7 (-7 pcv.-o.is
1 •[...:» Sou/a
FutundM - mil

> 9 1751
Franci&o Souza

Ju*é Q a i c u Lisboa - 28.4.17» N . Sra. da Concctcao e Cu»hVlio Francisco 502 IX 520 Madcircnsc*
UUintvnla.< petáUat Porto Scítin. (naufrágio no
:-• i 'M litoral dj B j f i i j i

Catarina mais de seis mil açorianos e 59 populacionalmente e procurar novas á-


madeirenses, face aos 'assentos' reas para seu estabelecimento.
efetuados pela Coroa portuguesa.
fio que tange à p r e s e r v a ç ã o da cultura
Até o término de nossa pesquisa, os nú- ancestral, que tem merecido alguns es-
meros apresentados pelos diversos au- tudos, é importante salientar as formas
tores e s t á o exemplificados no quadro 4. artesanais (confecção de renda de bilro,
Desse movimento migratório pode-se, des- utilização de teares manuais, m é t o d o s de
de logo, conhecer algumas c o n s e q ü ê n - fabricação de c e r â m i c a utilitária e t c ) ,
cias, como a formação de novas comuni- bem como as m a n i f e s t a ç õ e s religiosas
dades que, desde a sua implantação, ti- (culto ao Divino Espírito Santo, com seus
veram organização político-administrati- 'impérios' e sua tradicional organização:
va devido à s companhias de ordenança a coroaçáo do imperador; a distribuição
— que, apesar de sua finalidade militar, de comida — 'bodos' — aos pobres) e a
funcionavam, localmente, como chefias permanência de traços na literatura oral,
políticas. nos a d á g i o s e no vocabulário.
As p o p u l a ç õ e s que migraram trouxeram,
Apesar das dificuldades enfrentadas, com
além dos valores demográficos, valores
as promessas reais nem sempre comple-
culturais.
tamente atendidas, os imigrantes açori-
lio que se refere à demografia, deve-se anos e madeirenses se afirmaram como
dizer que muitas das 'freguesias' (comu- excelentes povoadores, pois souberam
nidades) iniciais vão crescer adaptar-se ao c l i m a e à s c o n d i ç õ e s

p á g . 1 26. j u l / d e z 1 997
V o

Quadro 4
Data de checada Brito Coelho Mattos Fortes Itoiteux Cabral Piazza
1748-ianeiro 461 461 461 451 461 461 461

i74R-de7e.rp.bro - - - - 239

1749-ianeiro - - - - - 208

1749-marco 1.600 - 509 600 - 233

1749-sctembro _ - 109- 109* - 59*

1749-dezembro 1.066 - 1.066 - 1.066 1 066 1.066

1750-ianeiro 1.755 1.540 1 540 -


_ _ 1.342 - - 1.434
1751 -janeiro
1752
_ 1.379 - 1 -rs 1.080
- 615 - 9
1753-m.ítrco 500
1754-feverciro/marco - - - 1.187

1756-iulho _ - 502* 520* 520**

Totais aoresentados 4.024 4.021 - - - 6.000

Totais somados 2.627 - 5.545 4.893 3.525 -

• Madeirenses
«• Madeirenses (náufragos no litoral da Bahia não computados).
Fontes- Paulo José Miguel de Brito. Memória política soore a capitania de Sanía Catarina, p. 24, Manuel Joaquim dAlmeida Coelho,
Memória íiistòrica da prouíncia de Santa Catarina, pp. 20-21; Matos, Colonização, p. 2 1; João Borges-rortes, Casais, p. 57; Lucas Ale-
xandre Boiteux, Açorianos e madeirenses em Santa Catarina, pp. 142-163; Oswaldo Rodrigues Cabral, Os açorianos.

ambientais — substituindo a cultura do solidação da hegemonia portuguesa no


trigo pela da mandioca —, além de te- sul do Brasil, iniciada com a criação da
rem conseguido adequar conveniente- Colônia do Sacramento e posteriormen-
mente as técnicas de construção de em- te acentuada com a assinatura dos Tra-
barcações à s exigências do mar brasilei- tados de Madri (1750) e Santo lldefonso
ro. Foram t a m b é m responsáveis pela con- (1777).

I
B I B I O Q R A
FONTES PRIMÁRIAS

Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, núcleos 'Bahia', Rio de Janeiro', Santa


Catarina', 'Açores' e 'Madeira'.

Arquivo nacional da Torre do Tombo, Lisboa, núcleo 'Desembargo do Paço'.

Arquivo do Tribunal de Contas, Lisboa, núcleo Erário Régio'.

Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, núcleo Correspondência


dos governadores, 1739-1822'.

Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores, livros de vereações.

Arquivo Distrital de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores, livros de vereações.

Arquivo Distrital da Horta, ilha do Faial, Açores, livros de vereações.

Biblioteca nacional, Lisboa, fundo' Qeral e coleção pombalina.

, c e r v o . Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 1 19-128. jul/dez 1997 - p á g . 1 2 7


A B S T R A C T
This article describes the immigration of Azorians and Madeirans to meridional Brazil between

1748 and 1756 and it studies the reasons of such immigration, their social and political basis, its

organization in the Portuguese court, as well as in Brazil, its location in Brazilian land and the

results of this migratory movement.

R É S U M É
Cet article a pour but d é c r i r e l'immigration d' A ç o r é e n s et M a d é r i e n s vers le Brésil meridional,

entre 1748 et 1756, en é t u d i a n t les causes de cette immigration, ses fondements sociaux et

politiques, son organisation à courte portugaise et au Brésil, sa localisation en territoire national

et les c o n s é q u e n c e s de ce mouvement migratoire.


Adriano Luiz Duarte
Professor de História
da Universidade Federal de Santa Catarina.

A C r i a ç ã o Ao E s t r a n k a m e i i í o
e a C o i i s t r a ç a o do E s p a ç o P ú b l i c o
\J§ mponeses no EstaJo Novo

"...O j a p o n ê s é como o espalhando um conjunto bem es-


enxofre: i n s o l ú v e l " . tabelecido de valores, normas e
Oliveira Vianna práticas sociais que objetivavam

"De uma hora para outra um


a p r e s e r v a ç ã o da estabilidade
social e, principalmente, da ordem p ú -
sopro vivificante despertou
blica, fundamentais para o exercício co-
as forças adormecidas da
tidiano da racionalidade do poder. São
nacionalidade e animou o
eles: o anticomunismo, o trabalho, a pá-
país do desejo de viver
1
tria e a moral.
sadiamente".

J o ã o Carneiro da Fonte Em torno destes quatro conceitos gira-

chefe de p o l í c i a , em 1939.
vam os discursos e práticas
estadonovistas, e é t a m b é m através de-
0 PAÍS D E U M A C A R A S Ó . . . les que podemos perceber contra o que
se articulava o Estado Novo, e quais os

O
Estado Novo embasou todo o
'fantasmas' que tanto amedrontavam a
seu r e p e r t ó r i o d i s c u r s i v o e
elite dirigente do país naquela é p o c a .
imagético sobre quatro pilares,
a partir dos quais planejou adentrar to- Por meio da enorme variedade de 'fan-
dos os e s p a ç o s e recantos da sociedade, tasmas' que atormentou o sossego dos

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2, pp. 129-146, j u l / d e z 1997 - p á g . 1 2 9


A C E

autores do Estado Movo, é possível ima- tinuamente punham em perigo a pátria.


ginar contra quem e contra o que se vol- Contudo, a própria possibilidade da ex-
tou toda a força repressiva desse proje- p r e s s ã o de tal desejo nos revela que a
to de m a n u t e n ç ã o da ordem e estabili- sociedade brasileira foi percebida como
dade sociais, e quais os oponentes cria- h e t e r o g ê n e a , plural, d e s a r m ô n i c a e
dos como inimigos a,serem combatidos incoesa. É sobre esta realidade, e para
no seio da sociedade. O apelo fundamen- eliminá-la, que atuará o poder público.
tal que antecede e emana dos quatro pi-
As diversidades culturais que c o m p õ e m
lares que sustentaram o projeto
a sociedade brasileira e s t ã o relacionadas
estadonovista é o apelo à união, à uni-
à s diferentes e múltiplas formas de se
dade e à j u n ç ã o das forças imanentes à
vivenciar a proletarização, com o conse-
nacionalidade para a construção de uma
qüente surgimento de um mercado de tra-
pátria una e indivisa, que caminhasse co-
balho urbano industrial e moderno. A ne-
esa em busca da identidade.
cessidade de h o m o g e n e i z a ç ã o , centro do
11 """N^niáo, c o e s ã o e indivisão eram projeto estadonovista, emerge, ao que
os objetivos que sustentavam tudo indica, das dificuldades apresenta-
esse projeto; o que se deseja- das pelas classes dominantes em
va era apagar os sinais de uma possível operacionalizar essas diversidades cultu-
heterogeneidade social, eliminar as d i - rais dentro de uma ordem pública em
ferenças de todos os matizes, e assim c o n s t r u ç ã o , onde o gerenciamento dos
construir uma nacionalidade h o m o g ê n e a conflitos se torna cada vez mais comple-
e indistinta. Os diferentes modos de vida, xo. A vigilância e a s u s p e i ç á o foram as
de opinião, de crença e de comportamen- estratégias adotadas nesse processo de
to eram recusados, porque estas noções homogeneização.
remetiam à imagem de uma sociedade
A noção de pátria, expressa no discurso
multifacetada e plural.
de Azevedo Amaral, um dos ideólogos do
A construção dessa homogeneidade so- Estado novo, traz em seu bojo uma enor-
cial requereu uma prática profundamen- me força estratégica. Ela é o elemento
te autoritária, porque pressupunha a pro- imprescindível para a e l a b o r a ç ã o dos va-
gressiva eliminação de tudo que náo es- lores e práticas que objetivavam a pre-
tivesse de acordo com o modelo de uni- servação da ordem e da estabilidade so-
dade desejado. Aqueles que n ã o se en- cial, da identidade coletiva, da racionali-
q u a d r a s s e m no m o l d e e s t a b e l e c i d o zação do exercício do poder e da afirma-
deveriam ser eliminados do convívio so- 2
ção da unidade nacional. São os que in-
cial e, portanto, do e s p a ç o público, por- sistem em escapar pelas fímbrias do
que eram os portadores da divisão, os emolduramento que o poder vai erigindo
transmissores do desequilíbrio que con- nestes anos, que s e r ã o rapidamente

p á g . 1 3 0 . jul/dez 1997
V O
K

transformados nos "inimigos' que devem tentáculos e introduziam em meio à har-


ser e x e c r a d o s e e l i m i n a d o s . A s s i m , monia social a sua marcante e deletéria
explicita-se outra faceta da construção da p r e s e n ç a . Pelas fissuras da sociedade
idéia de homogeneidade social e de eles vão se instalando e, como um cân-
indivisão da pátria. A idéia de unidade e cer, passam a corroer os pilares de sus-
c o e s ã o s ó pode efetivar-se se moldada a t e n t a ç ã o da n a ç ã o . De externo ele se
partir de algo que lhe faça contraponto, transforma em interno e passa a justifi-
algo que funcione como um espelho in- car qualquer ação repressiva. Se o ini-
vertido. É a partir do inimigo a ser com- migo estava em toda parte, isso exigia
batido, do outro, que é possível construir uma atuação repressiva também
a imagem da nacionalidade una, coesa e onipresente.
indivisa.
Mas, qual era a exata dimensão desse ini-

Ao outro, o inimigo a ser execrado, se- migo que se imiscuía com tanto ardil na

rão conferidos todos os maus atributos sociedade para, por dentro, destruí-la va-

que c o m p õ e m a fantasmagoria repelida garosa e continuamente? Se ele era o

pelo Estado Novo. Mele s e r ã o identifica- portador da indisciplina, da barbárie, da

dos todos os males, todas as a m e a ç a s instabilidade, do atraso, da imoralidade,


da sensualidade, da indolência, era o re-
de d e c o m p o s i ç ã o e esfacelamento soci-
trato fiel de todos aqueles que, pelas
al; a ele se atribuirão as pechas da do-
mais diversas razões, não se enquadra-
ença, da anarquia, da injustiça, da trai-
vam nos preceitos do Estado Movo. Eram
ção, da ruína, do pecado, da desobedi-
inimigos todos os que náo contribuíssem
ência, do ócio, do desleixo e da promis-
para a construção do projeto de nacio-
cuidade. É com base nele que o poder
nalidade esboçado nestes anos. Em toda
construirá sua auto-imagem. Por inter-
parte, em todo momento, podia ser lo-
médio da criação do inimigo a ditadura
calizado este inimigo. Portanto, nesta
atingirá sua maior força e será capaz de
época, toda a população estará sob per-
multiplicar sua c o a ç ã o em todas as esfe-
manente suspeição. É esta suspeição ge-
ras sociais, e assim produzir normas e
neralizada que justificará, além da ação
valores que atinjam amplamente a popu-
repressiva por parte do Estado, sua ação
lação.
profilática e terapêutica, adentrando nas
Mas o inimigo era muito ardiloso, o que casas, creches, fábricas, atuando sobre
justifica o esmero com que foi construído as famílias, os trabalhadores, as crian-
e mantido um enorme aparato militar e ças, as mulheres, os adolescentes, ten-
repressivo, responsável nas d é c a d a s de tando moldar-lhes o pensamento e as
1930 e 1940 por milhares de prisões, tor- atitudes para criar um novo cidadão.
turas, d e p o r t a ç õ e s e assassinatos. Do ex-
O que estava em jogo na configuração
terior, estas vis criaturas estendiam seus

neiro. v. 10. n ° 2. pp. 1 29-1 46. jul/dez 1997 - p á g . 1 3 1


A C E

do outro era a q u e s t ã o da cidadania. É atros e Divertimentos Públicos, e partici-


precisamente na edificação dos seus con- paria t a m b é m o Serviço de Censura Pos-
tornos e na espessura do seu alcance que tal. Este decreto estabeleceu que qual-
as estratégias da vigilância e da quer tipo de reunião somente poderia ser
s u s p e i ç ã o revelam seus desdobramen- realizada com o prévio licenciamento e
tos. Ao regular a amplitude do conceito localização fornecido pelas autoridades
de cidadania, vinculando-o à ocupação no policiais.
mercado de trabalho em profissão reco-
O Serviço de Censura Postal tinha duas
nhecida pelo poder p ú b l i c o , o Estado
funções: a censura postal exercida por
Novo estava também definindo a
funcionários públicos federais, e a cen-
abrangência da noção de marginalidade.
sura policial a cargo da polícia civil. A fun-
O poder público definia o que era ser c i -
ção do 'serviço' era fazer uma triagem
d a d ã o , tanto quanto o que era ser mar-
em toda correspondência dirigida ou emi-
ginal; estabelecia, portanto, quem teria
tida por estrangeiros residentes no Bra-
direitos bem como aqueles passíveis de
sil. Quando algo considerado inconveni-
perseguição e exclusão da esfera pública.
ente fosse encontrado, seria imediata-
mente encaminhado para um departa-
ESTRANGEIROS, ESTRANHOS E
mento r e s p o n s á v e l pela e l a b o r a ç ã o de
DIFERENTES
seguidas exposições "destinadas a mos-

A
s e n s a ç ã o de estranhamento trar à parte sadia da população para des-
relacionado ao estrangeiro pertar a a t e n ç ã o dos brasileiros contra
. n ã o se inicia, obviamente, com as m a q u i n a ç õ e s dos inimigos da nossa
o Estado Novo, mas é quando se 3
civilização". Todo estrangeiro tornou-se,
explicitam alguns preconceitos e medos com o decreto-lei n° 383, um potencial
que farão daqueles que eram simples- inimigo da civilização, um portador de
mente diferentes um perigoso inimigo. atributos que podiam levar à
d e g e n e r e s c ê n c i a da nacionalidade. As
Em 18 de abril de 1938, foi proibida aos
medidas desta enorme burocracia, ao
estrangeiros, a t r a v é s do decreto-lei n°
aprofundar a vigilância sobre todos os
383, a atividade política no Brasil. As su-
estrangeiros e seus descendentes, vai
tilezas do decreto ficavam por conta de
lentamente se estendendo aos c i d a d ã o s
como os policiais e os ó r g ã o s públicos
comuns, estrangeiros ou n ã o .
encarregados da v i g i l â n c i a deveriam
aplicá-lo na prática cotidiana. A fiscali- Mais uma vez percebe-se a amplitude da
z a ç ã o das atividades dos estrangeiros suspeição, pois, de acordo com os rela-
seria realizada pela Superintendência de tórios de polícia, qualquer cidadão que
Segurança Política e Social, auxiliada pelo tivesse um comportamento diferente, não
Serviço de Censura e Fiscalização de Te- convencional, estranho, poderia ser de-

p á g . 132, j u l / d e z 1997
V o

nominado 'estrangeiro'. De acordo com milação dos estrangeiros, seja através da


esta categoria, que continuamente se nacionalização em massa e forçada, seja
amplia, vão sendo rotulados todos os que por meio do impedimento crescente do
podem suscitar estranheza. É óbvio que contato com seus países de origem. O
a idéia do inimigo interno e n c o n t r a r á plano estadonovista de recriação e apri-
campo fértil para vicejar. moramento da nacionalidade, por meio
Se o objetivo primeiro é bloquear qual- de um amplo e minucioso projeto peda-
quer possível canal de a t u a ç ã o político- gógico, requeria, necessariamente, o de-
institucional aos estrangeiros, as medi- saparecimento dos estrangeiros através
das citadas tiveram um alcance muito de sua total adaptação e assimilação aos
maior. Praticamente em dois anos, 1938 valores nacionais e da progressiva per-
e 1939, foram fechadas todas as associ- da dos laços culturais que os vinculavam
a ç õ e s culturais, escolas e jornais edita- aos países de origem, como a língua, há-

dos no Brasil em língua estrangeira. Cm bitos alimentares, vestuário, práticas cul-

25 de janeiro de 1938, foi criada, pelo turais etc. Mas, os estrangeiros não eram

decreto n° 2.265, a Comissão de Nacio- todos iguais e desigualmente foram tra-

nalização, que tinha por objetivo instituir tados pelo Estado Novo, e aqueles cuja

e viabilizar os canais necessários à assi- presença física causava maior estranhe-

O presidente Vargas, na sacada do Palácio do Catete, assiste a manifestações populares anti-Eixo.


Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1942. Agência Nacional, Arquivo Nacional.

\ c e r v o . Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 129-146. jul/dez 1997 - p á g . 1 3 3


A C E

za enfrentaram, de forma mais dramáti- rlão se deve aplicar o mesmo critério

ca ainda, esse projeto totalitário. É em assimilador a a s i á t i c o s e europeus. Por

relação ao j a p o n ê s — o estranho e dife- maior que seja a nossa boa vontade,

rente por excelência — que se exercita- por mais profundo que seja o nosso

rá ao paroxismo a aversão e o medo do instinto de cordialidade internacional,

outro. c u m p r e - n o s defender os caracteres

m o r f o l ó g i c o s do povo brasileiro, pre-


As campanhas de nacionalização dos imi-
servar as suas possibilidades de apro-
grantes, embora ocupassem aspecto cen-
x i m a ç ã o com os tipos europeus inicia-
tral no debate político brasileiro desde a
dores, mantendo à parte os grupos
s u b s t i t u i ç ã o da m ã o - d e - o b r a escrava,
a s i á t i c o s e impedindo o seu desenvol-
relacionado à eugenia, assumiram nas
vimento. Destarte, o j a p o n ê s fica des-
d é c a d a s de 1930 e 1940 um caráter de
de logo definido como um problema
s e g u r a n ç a n a c i o n a l . Os estrangeiros
de p o l í t i c a i m i g r a t ó r i a . A nacionaliza-
eram um perigo em potencial à constru-
ç ã o , neste caso, n á o deve significar as-
ção de um país uno, indiviso e coeso. En- 4
similação étnica.
tretanto, os japoneses eram encarados
de uma maneira especial. Mão se lhes V^ossa 'boa vontade' n ã o era ex-
aplicavam os critérios assimiladores e o ^-Nw tensiva aos asiáticos em ge-
projeto de nacionalização os excluía. A A \ ] ral e aos japoneses em parti-
singularidade da comunidade nipo-brasi- cular. Eles eram o retrato do novo, do
leira e s t á na a m b i g ü i d a d e com que foi estranho, daquilo que fugia ao controle
vista pelo poder público: como estrangei- e projetava para o futuro uma inseguran-
ros deveriam ser assimilados e desapa- ça presente. Quanto à unidade nacional,
recer em meio à comunidade nacional, eles eram a e x p r e s s ã o do imprevisível
mas como diferentes por excelência de- nesta ampla e s t r a t é g i a de controle do
veriam ser mantidos à margem dessa co- trabalhador e do pobre. 'Impedir o seu
munidade e, portanto, destinados a uma desenvolvimento' significava confiná-los
e s p é c i e de limbo social. Assim, a ques- a um gueto social e impossibilitar que se
tão à qual se viam remetidos não era sim- espalhassem pelas cidades contaminan-
plesmente a da nacionalização, mas a de do os nacionais.
serem projetados como a e n c a r n a ç ã o ca-
O 'problema j a p o n ê s ' assume contornos
bal dos entraves à construção do Estado
de s e g u r a n ç a nacional quando, em julho
nacional.
de 1940, desembarca no porto de San-
A Comissão de Macionalizaçáo, dirigindo- tos um carregamento de sessenta caixas
se ao Ministério da Educação e S a ú d e , contendo livros p e d a g ó g i c o s impressos
redigiu o seguinte relatório, em 16 de em j a p o n ê s , destinados à s poucas esco-
outubro de 1940: las que ainda funcionavam. O presidente

p á g . 134. j u l / d e z 1997
R V O

do Conselho de I m i g r a ç ã o , J o ã o Carlos verdadeira a s s i m i l a ç ã o dos japone-

Muniz, enviou um ofício ao presidente Qe- ses, que praticamente devem ser con-

túlio Vargas alertando-o que n ã o pudera siderados i n a s s i m i l á v e i s . Eles perten-

apreender os livros porque não se desti- cem a uma raça e a uma r e l i g i ã o ab-

navam à venda. O ofício vai parar nas solutamente diversas; falam uma lín-

mãos do secretário-geral do Conselho de gua irredutível aos idiomas ociden-

Segurança Nacional, general Francisco tais; possuem uma cultura de baixo

José Pinto, que em comunicado reservado nível que n ã o incorporou, da cultura

dirigido ao ministro da Educação e Saúde, ocidental, s e n ã o os conhecimentos

Gustavo Capanema, solicita as providên- i n d i s p e n s á v e i s à r e a l i z a ç ã o dos seus

cias legais cabíveis que tornassem efeti- intuitos militaristas e materialistas;

vas as a ç õ e s repressoras do Conselho de seu p a d r ã o de vida d e s p r e z í v e l repre-

Colonização. O comunicado termina senta uma c o n c o r r ê n c i a brutal com

explicitando o terror e medo causados no o trabalhador do p a í s ; seu egoísmo,

general pelos livros infantis: sua m á - f é , seu c a r á t e r refratário, fa-

zem deles um enorme quisto é t n i c o


É sabido como s ã o f é r t e i s os japoneses
e cultural localizado na mais rica das
em seus processos de sutilezas e em sua
r e g i õ e s do Brasil. Há c a r a c t e r í s t i c a s
p e r t i n á c i a racial. Contamos que Vossa Ex-
que nenhum e s f o r ç o no sentido da
c e l ê n c i a em seu alto patriotismo se dig-
a s s i m i l a ç ã o c o n s e g u i r á remover. Nin-
nará mandar estudar o assunto pela Se-
g u é m logrará, com efeito, mudar a cor
ç ã o de S e g u r a n ç a deste m i n i s t é r i o no
e a face do j a p o n ê s , nem sua concep-
sentido de ser encontrada uma forma 6
ç ã o da vida, nem seu materialismo.
para neutralizar essa manobra de burla

à nossa p o l í t i c a nacionalizadora. 5
O parecer de Francisco Campos expres-
sa todas as facetas do preconceito, do
O problema é resolvido permitindo-se ape-
medo, do estranhamento, da intolerân-
nas a entrada de livros didáticos impres-
cia e da i n s e g u r a n ç a . Mas, antes de
sos em língua portuguesa. Aperta-se o cerco.
tudo, é a e x p r e s s ã o mais acabada da
Em 1941, o então ministro da Justiça, Fran- construção do inimigo, do outro, do in-
cisco Campos, elaborou um extenso pare- desejável, do inassimilável.
cer sobre a inconveniência de se aceitar a
Os japoneses que habitavam São Paulo
entrada de quatrocentos japoneses que
nestes anos percebiam muito bem a ex-
desejavam migrar para o Brasil, dedican-
clusão a que estavam submetidos, mui-
do-se à agricultura no interior do estado
tas vezes não entendiam por que isso
de São Paulo.
acontecia, j á que apenas desejavam fa-
Nem cinco, nem dez, nem vinte, nem cin- lar sua própria língua, comer do seu
q ü e n t a anos s e r ã o suficientes para uma modo; enfim, vivenciar livremente sua

Acervo, Rio de J a n e i r o , v. 10. n ° 2. pp. 129-146, jul/dez 1997 - p á g . 135


A C E

cultura. Causava-lhes profundo espanto Em janeiro de 1942, foi emitida uma or-
que, além das medidas j á apontadas, e dem pelo Gabinete de Investigação para
ainda no bojo da s u s p e n s ã o das relações a evacuação das ruas Conde de Sarzedas
d i p l o m á t i c a s Brasil/Japão, eles fossem e dos Estudantes, principais ruas de con-
proibidos de dirigir veículos automotores, centração do comércio j a p o n ê s , no bair-
mesmo porque não eram poucos os mo- ro da Liberdade. Todos os japoneses de-
toristas de praça japoneses. veriam deixar o local em dez dias. O co-
mércio ficou completamente paralisado.
Em 29 de janeiro de 1942, foi restringida
A e s t a g n a ç ã o duraria pelo menos a t é
a liberdade de l o c o m o ç ã o , através das
1945. Em 6 de fevereiro de 1943, uma
normas instituídas pela polícia.
nova ordem de d e s o c u p a ç ã o foi emitida,
Inconformados com estas medidas, os j a -
desta vez atingindo p e n s õ e s e h o t é i s .
poneses criaram, em 1942, a sociedade
Esta notificação foi recebida por mais de
Táisai Yokusam Doshi Kai (Associação dos
350 famílias. Ma quinta-feira, 8 de julho
Correligionários da Cooperação da Gran-
de 1943, era a vez de serem notificadas
de Política) que pretendia promover o re-
do início da evacuação do litoral, rumo
torno em massa para o J a p ã o dos imi-
ao interior, cerca de mil famílias de ja-
grantes que n ã o se conformavam com a
poneses, a l e m ã e s e italianos.
p e r s e g u i ç ã o e eterna suspeição a que es-
tavam submetidos. O desejo de retornar A hospedaria dos imigrantes no Brás, por
ao J a p ã o era um velho sonho acalentado onde muitos haviam passado ao chegar
pelos primeiros imigrantes e as perse- no Brasil, foi transformada em p r i s ã o
guições durante o Estado Movo exacer- onde eram confinados não s ó italianos e
baram esse desejo. a l e m ã e s , mas principalmente japoneses;
os maus-tratos e a violência física torna-
A guerra forneceu as condições ideológi- ram-se regra no tratamento aos imigran-
cas para o acirramento da r e p r e s s ã o e o tes. Em O imigrante japonês, Tomoo
aprofundamento do projeto estadonovis- Manda conta:
ta. Sem meias palavras ou justificativas
legais era possível aprisionar para ave- ...na p r i s ã o faltavam camas e por isso

riguação. Mofava-se nas cadeias a t é as colocavam t r ê s ou quatro c o l c h õ e s so-

providências legais serem tomadas. Em bre o c h ã o de cimento, onde dormiam

nome do estado de guerra a s u s p e i ç ã o sete, oito e a t é dez pessoas. Dizia-se

assumiu sua faceta mais crua, e desdo- que o que mais incomodava é que as

brou-se em r e p r e s s ã o generalizada. To- celas eram m i n ú s c u l a s , com janelas al-

dos aqueles que, por uma ou outra ra- tas e pequenas causando sufocação

zão, ainda podiam escudar-se ao abrigo por causa da p r e c á r i a r e s p i r a ç ã o e da


7

da lei foram finalmente colhidos pelo ven- f u m a ç a de cigarros...

dava! que esculpia a nacionalidade. A idéia da existência da 'quinta-coluna'

p á g . I 36. J u l / d e z I 997
R V O

permitia todos os tipos de arbitrarieda- Existiam três modalidades de salvo-con-


de. Os jornais contribuíram para o au- duto: estrangeiros, nacionais e perma-
mento do medo e o recrudescimento dos nentes; sendo que a l e m ã e s , italianos e
atos de exceção, alimentando de forma japoneses não tinham acesso ao salvo-
sensacionalista a paranóia em torno da conduto permanente. As prerrogativas
segurança nacional, publicando, todos os abertas com a guerra levaram ao ponto
dias, mais e mais notícias sobre espio- máximo a perseguição e a suspeição so-
nagem, atentados a usinas, reservatóri- bre toda a população, "desvendando na
os de á g u a e indústrias básicas. Quanto prática o que fica dissimulado nas fases
menos atos dessa e s p é c i e o c o r r i a m , democráticas: o caráter político da re-
8

maiores eram os brados temerosos da pressão ao crime comum."


imprensa, que t a m b é m vivia uma férrea Em março de 1943, os serviços de salvo-
censura. conduto — que inicialmente eram expe-
Girando uma volta no torniquete da vigi- didos pelas delegacias distritais, pelo Ga-
lância, a liberdade de l o c o m o ç ã o foi binete de Investigações e pela Superin-
suspensa. Tornou-se n e c e s s á r i o obter tendência de Segurança Política e Social
uma autorização da polícia — o salvo-con- — foram centralizados em São Paulo, no
duto — para poder trafegar pelo estado. prédio anexo ao da Superintendência de

"Queremos a guerra". Protesto contra o torpedeamento dos navios mercantes brasileiros pelas
forças alemãs. Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1942. Agência Nacional. Arquivo Nacional.

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n» 2. pp. 129-1 46. jul/dez 1997 - p á g . 1 3 7


A C E

Segurança Política e Social, no largo Ge- jetivo fixar os limites da esfera pública,
neral Osório. Para retirá-lo, o candidato determinados pelo anseio
deveria preencher um formulário e en- homogeneizador do novo Estado.
tregar, ao funcionário da superintendên- Destarte, ao se estabelecer uma eficaz
cia, uma série de documentos que segui- intervenção na esfera privada, o e s p a ç o
riam para pesquisa e averiguação dos an- público, c o n s e q ü e n t e m e n t e , se reduz e
tecedentes criminais; em seguida, caso passa a ser concebido em função e de
nada constasse contra o requerente, se- acordo com os limites impostos ao mun-
ria expedido o salvo-conduto. De março do privado. Portanto, o Estado novo
a maio do mesmo ano, o serviço aten- explicita com muita clareza e precisão,
deu 73.798 pessoas, sendo 40.329 es- a t r a v é s do salvo-conduto, seu projeto
trangeiros e 33.469 brasileiros. Mas jus- político: despolitizar a sociedade, silen-
tificativas para a criação do salvo-con- ciar a ação e o discurso de uma popula-
duto, os ó r g ã o s policiais alegavam que ç ã o transformando-a em massa. Essa
São Paulo possuía 1.500.000 estrangei- 'coisa' sem forma ou desejo definidos,
ros, grande parte dos quais cidadãos dos onde se q u e b r a m as solidariedades
países do Eixo. grupais, sejam elas estabelecidas pela
profissão, pelo trabalho ou pela origem,
Era imperioso que a p o l í c i a exercesse
de maneira que os sujeitos a p a r e ç a m ab-
toda p o s s í v e l v i g i l â n c i a sobre o trân-
solutamente individualizados e sem vín-
sito desses estrangeiros [...] o salvo-
culos no e s p a ç o público. É aí que a ação
conduto representava o meio mais efi-
interventora do Estado virá restabelecer
ciente de que d i s p õ e a p o l í c i a para
as solidariedades, não mais determina-
controlar as atividades dos indivíduos
das pela classe social, pela origem, ou
que se locomovem de um para outro
pela experiência da proletarização, mas
ponto do p a í s e mesmo dentro dos
as que vinculariam os atores sociais ao
limites dos estados [...] instituir a
poder público, neste momento, a
obrigatoriedade do salvo-conduto é
massificação estaria realizada e o proje-
9
função indiscutível da polícia preventiva.
to corporativo encontraria caminho aber-
Impedir o livre trânsito, circunscrever um to para sua efetivação. A maciça inter-
e s p a ç o para a 'ação' dos sujeitos soci- v e n ç ã o estatal na vida privada com o
ais, criar uma e s p é c i e de gueto social objetivo de determinar os limitados con-
onde seriam 'encarcerados' os estrangei- tornos da esfera pública foi a maneira
ros e onde o controle pudesse ser exer- encetada para a realização desse projeto.
cido com maior eficiência; eis o objetivo
da instituição do salvo-conduto. A inter- Os anos da Segunda Guerra Mundial fo-
v e n ç ã o na vida privada, restringindo a ram, sem dúvida, os mais terríveis do
possibilidade de circulação, tem por ob- Estado novo, quando a s u s p e i ç ã o foi

p á g . 138. j u l / d e z 1997
R V O

maior sobre os trabalhadores pobres, os O país imaginado pelos imigrantes já não


imigrantes e principalmente os japone- existia mais; encerrava-se aí o imaginá-
ses. A s u s p e n s ã o dos direitos legalmen- rio da volta. Para alguns náo havia outro
te constituídos foi o mais eficiente meio caminho, j á que o retorno náo se coloca-
de controle e cerceamento da cidadania. va em questão. Cabia mais uma vez se-
guir o Qambarê e resignar-se. Para ou-
O C A M I N H O DOS SÚDITOS tros o sonho não poderia simplesmente
transformar-se no pesadelo de ficar. A

A
Segunda Querra significou um
resposta foi a criação da Shindô-Remmei.
decisivo momento de inflexão
_para a colônia nipo-brasileira. Terminada a guerra, a situação náo me-
Seu final sepultava definitivamente o so- lhorou para os japoneses, ao contrário,
nho de retornar ao J a p ã o . A vinda dos agravou-se. A comunidade japonesa, após
imigrantes japoneses ao Brasil era en- tantas e seguidas humilhações, dividiu-
carada como algo temporário, uma pas- se entre os Kachigumi e os Makegumi.

s a g e m ; ao final de alguns anos eles Os primeiros não acreditavam na derro-

retornariam ao J a p ã o ricos e vencedo- ta do Japão, achavam que tudo era uma

res. Messe projeto assumia um papel cen- grande farsa e que a qualquer momento

tral o Q a m b a r è , e x p r e s s ã o do esforço os navios de guerra japoneses chegari-

para seguir adiante enfrentando todas as am para levá-los à terra do sol nascen-

adversidades com resignação e aceitan- te. Os Makegumis, conformados com a


situação, aceitavam a derrota japonesa
do o d e s t i n o c o m o a l g o p o s i t i v o e
10 e desejavam esquecer a guerra, as hu-
inescapável.
milhações sofridas e reconstituir suas vi-
A c o n s t r u ç ã o do Estado nacional, do qual das. Em meio a acirrados debates e mui-
estavam excluídos os japoneses, acirrou tas desavenças na colônia, os Kachigumi
o retorno aos valores dos primeiros imi- criaram, no dia 23 de setembro de 1945,
grantes e à p r á t i c a do S h i n d ô e do no bairro do Jabaquara, a Liga do Cami-
Q a m b a r ê . O desejo de retornar ao Ja- nho dos Súditos, a Shindô-Remmei. Seus
pão era proporcional à suspeição e per- fundadores, desde os anos da guerra,
seguição a que estavam sujeitos. Messe procuravam expressar o seu patriotismo
c o n t e x t o , o d i s c u r s o do i m p e r a d o r através da prática do Shindô, o código
flirohito, pondo fim à guerra, em 14 de de conduta que todos os súditos japone-
agosto de 1945, caiu como uma bomba ses deveriam manter em relação ao im-
na comunidade nipo-brasileira. Abalada, perador.
ela levou algum tempo para assimilar o
golpe, pois o J a p ã o que emergiu a p ó s A Shindô-Remmei foi fundada com o prin-
1945 desfigurara a imagem imperial da cipal objetivo de eliminar fisicamente os
ancestralidade divina e da invencibilidade. derrotistas, e assim elevar o moral da

Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, n° 2, pp. 129-146. Jul/dez 1997 - p á g .


c E

comunidade, enquanto esperava a che- triotismo e os tornaram propensos a re-


gada dos navios de guerra do J a p ã o . A cusar a derrota. O profundo preconceito
polícia estimou que a S h i n d ô - R e m m e i e desprezo com que foram tratados evi-
chegou a possuir cerca de cem mil asso- denciava para muitos que, naquele mo-
ciados, a maioria no estado de São Pau- mento, n ã o havia outra alternativa: ou
lo, realizando mais de 32 atentados con- chegavam os navios da marinha imperial
tra os chamados derrotistas, durante o japonesa para buscá-los, ou seu destino
período de 7 de março a 16 de agosto de era desaparecer enquanto grupo étnico
1946, causando 13 mortes." e cultural. Este estado de â n i m o presidiu
a c r i a ç ã o de o r g a n i z a ç õ e s como a
lião é difícil avaliar a responsabilidade que
Shindô-Remmei.
teve o Estado Movo na criação de organi-
12
zações como a Shindô-Remmei. As con- A a t u a ç ã o da polícia contra as organiza-
tínuas p e r s e g u i ç õ e s e h u m i l h a ç õ e s im- ç õ e s nipônicas foi rápida, recheada de
postas aos japoneses a g u ç a r a m o seu pa- lances teatrais para consumo da imprensa

Teijiro Suzuki, primeiro j a p o n ê s que emigrou para o Brasil. Correio da Manhã, Arquivo Nacional.

p á g . 1 40 , j u l / d e z I 997
R V O

e muito violenta, lio m ê s de julho de tiros, que contudo náo atingiram o alvo.
1946, foram presos, em São Paulo, dois O lavrador j a p o n ê s de 34 anos, Takeo
japoneses que confessaram ser membros Kajiwara, vítima do atentado, ao depor,
da S h i n d ô - R e m m e i . O processo-crime, dá algumas pistas de que esperava uma
e n t ã o instaurado, mostra-nos as a ç õ e s ação dos grupos de extermínio.
da organização e as práticas dos grupos
Mo dia 23, mais ou menos à s vinte e
de extermínio, os Tokko-Tài.
t r ê s horas, achava-se repousando e
Que o declarante faz parte da Tokko- antes de dormir ouviu latido de seu
13
Tai, o r g a n i z a ç ã o esta incumbida da cão, levantando-se, imediatamente,

e l i m i n a ç ã o dos elementos n i p ô n i c o s para fora pela porta da sala de visita,

c o n t r á r i o s à i d é i a da vitória do J a p ã o que saiu ao terreiro e andou sessenta

na presente guerra do Pacífico, que o metros em d i r e ç ã o da cerca do vizinho

d e c l a r a n t e foi i n c u m b i d o de matar [...] ao chegar à mencionada cerca ou-

Takeo Kajiwara, por ser este um dos viu o disparo de um tiro tendo, imedi-

mais fervorosos p r o p a g a n d i s t a s da atamente, atirado para um lado seu

derrota j a p o n e s a no P a c í f i c o , que o l a m p i ã o , que l a n ç o u - s e ao c h ã o no

depoente estava em companhia, nes- momento que ouviu mais tiros, nove

ta i n c u m b ê n c i a , de Kiyokaku Morishita, mais ou menos, e p ô d e perceber que

o qual acompanhou e ajudou a se tratava de duas pessoas inimigas,

desencumbir-se da m i s s ã o , que trazi- tratando o declarante de voltar para

am consigo a bandeira da organiza- sua casa, rastejando, entre sua casa e

ç ã o , que dispararam toda a carga de o rancho de c r i a ç ã o do bicho-da-seda,

seus r e v ó l v e r e s , num momento em percebeu novamente que ali estavam

que, nos fundos da casa da pretensa mais duas pessoas, as quais t a m b é m

v í t i m a , protegidos pela e s c u r i d ã o , a disparavam contra o declarante dois

viram surgir com o l a m p i ã o . . . * 1 tiros [...] que tratou de recolher-se, en-

trando em casa, tendo sua mulher,


Assim, Tomio Aoki, alfaiate de 23 anos, mais que depressa, aberto a porta da
solteiro, inicia o relato de uma missão cozinha e atirado para fora quatro
na qual tomou parte na cidade de Bas- bombas que explodiram no ato, a fim
tos, em 23 de julho de 1946. Ele frisa de avisar à v i z i n h a n ç a . . .
que o atentado n á o visava qualquer inte-
resse pecuniário, e que n ã o atirou con- O sinal emitido pela esposa de Takeo ha-
tra mais ninguém, apenas contra via sido combinado previamente entre os
Kajiwara, O depoimento de Morishita, la- sitiantes japoneses da redondeza e, pro-
vrador, 17 anos, nascido em São Paulo, vavelmente, contribuiu para pôr em fuga
confirma as informações de Aoki, e acres- os agressores. Rapidamente, chegaram
centa que ambos dispararam ao todo 12 ao local do atentado vários vizinhos. O

ervo. Rio de J a n e i r o , v. 10, n ° 2. pp. 1 29-1 46. jul/dez 1997 - p á g . 1 4 1


A C E

que demonstra a rápida mobilização dos são de eliminar Kajiwara. Seguiu para a
sitiantes, reflexo das t e n s õ e s que percor- capital e pediu p e r m i s s ã o à direção da
riam a comunidade. Shindô-Remmei para matar o Makegumi.
Depois de aprovada a decisão, comprou
Bastante revelador é o depoimento de
duas armas e recrutou os Tokko-Tai para
Satoru Yamamoto, motorista, 28 anos,
a missão:
acusado por Aoki e Morishita de ser o
idealizador e mandante do atentado con- transmitindo-lhes as f e l i c i t a ç õ e s por
tra Kajiwara. Cheio de orgulho ele conta: esse gesto p a t r i ó t i c o que, segundo os

Que o declarante reside no Brasil há diretores da S h i n d ô - R e m m e i , n ã o se-

14 anos, que é solteiro e n ã o possui ria esquecido quando a m i s s ã o militar

bens i m ó v e i s , que entrou para a socie- japonesa viesse ao Brasil exigir satis-

dade secreta terrorista nipônica f a ç õ e s do governo pelas p r i s õ e s fei-

Shindô-Remmei a convite de seu tas...

p a t r í c i o Hida, vice-presidente desta so-


Dias depois, Satoru recebeu uma carta
ciedade na cidade de Bastos, que é
de São Paulo, escrita pelo chefe Tokko-
verdade que o declarante quando en-
Tai Taro Yamada, que o chamava com
trou para a S h i n d ô - R e m m e i foi certifi-
urgência à capital, a fim de integrar um
cado que deveria proceder como ver-
grupo de execução que deveria entrar em
dadeiro patriota j a p o n ê s , isto é , n ã o
ação no dia 3 de agosto de 1946, come-
devia dar c r é d i t o aos documentos di-
tendo simultaneamente t r ê s atentados:
vulgados pelo governo brasileiro so-
contra o industrial Chibata Miakoche; o
bre a derrota do J a p ã o que se empe-
encarregado dos negócios japoneses no
nhava na guerra contra as n a ç õ e s uni-
Brasil, Paulo Morita e o e n t ã o presidente
das, que o declarante deveria atacar
da cooperativa agrícola de Cotia,
com todas as armas ao seu alcance os
Shimamoto.
chamados japoneses derrotistas', ou

que admitissem a derrota da p á t r i a , Tomio Aoki, em segundo depoimento,


que nessa conformidade o declarante prestado em 8 de fevereiro de 1947,
passou a proceder; que no m ê s de abril acrescentou alguns dados novos a essa
o declarante foi informado de que o história:
sitiante n i p ô n i c o Takeo Kajiwara era
... que o interrogado conhecia Takeo
da ala dos que acreditavam na derrota
Kajiwara fazia algum tempo, e sempre
do J a p ã o e disso fazia alarde, ofenden-
aconselhava a este que procedesse
do com a sua atitude a sagrada pes-
bem, deixando de beber e fazer sujei-
5
soa do imperador Hirohito...'
ra. Que o interrogado se aborreceu

Diante da a g r e s s ã o contra a sagrada fi- t a m b é m com Kajiwara. porque este ora

gura do imperador, Satoru tomou a deci- dizia acreditar na vitória do J a p ã o , ora

p á g . 142. j u l / d e z 1997
R V O

dizia não acreditar. Que o próprio da cortina havia um estandarte com a

Kajiwara tempos antes tinha convida- i n s c r i ç ã o sede da S h i n d ô - R e m m e i ' , em

do o interrogado a eliminar Kussahara, vermelho, e o timbre da entidade — o

porque este dizia que o Japão havia diagrama SHIN ( s ú d i t o ) — pintado em

sido derrotado... branco sobre uma flor de cerejeira, na

parte de baixo do estandarte, à esquer-


É bastante curioso este segundo depoi-
da, havia ainda uma pequena inscri-
mento de Aoki. Ele revela conhecer a ví-
ç ã o , em que se lia: Dois mil seiscentos
tima há algum tempo, o que nos leva a
e cinco anos de e x i s t ê n c i a do J a p ã o ' ,
crer que havia entre ambos uma convi-
na mesa central havia uma lista com
vência relativamente estreita, a ponto de
os nomes dos associados da socieda-
o acusado aconselhar a vítima sobre a
de secreta', entre eles nomes de brasi-
forma mais adequada de se comportar.
leiros, filhos de japoneses, numa das
O "beber e fazer sujeira" apontados por
paredes encontrava-se pendurado um
Aoki eram bastante depreciativos num
grande e bem desenhado mapa do es-
súdito j a p o n ê s , e contrário à s práticas do
tado de S ã o Paulo, onde se assinala-
Shindô e do Qambarê. Além de derrotista,
vam as filiais da liga, chamadas n ú c l e -
Kajiwara e r a , aos o l h o s de Aoki e
os, espalhadas em á r e a s de concentra-
Morishita, um péssimo exemplo de com-
ç ã o de japoneses. Observando aqui o
portamento para a comunidade nipônica. n ú m e r o desses n ú c l e o s percebia-se a

A polícia de São Paulo descobriu e inva- i m p o r t â n c i a da S h i n d ô - R e m m e i , que

diu a sede da Shindô-Remmei, no bairro contava aproximadamente 130 mil


16

do Jabaquara, em abril de 1946 e, no dia membros.

três, os jornais publicaram as fotos do


rio dia 19 de agosto de 1945, o jornal
interior da sede, assim descrita pela polícia:
Diário de São Paulo publicou uma entre-
...no salão principal havia uma grande vista com um j a p o n ê s , no bairro da L i -
mesa, e ao seu redor muitas cadeiras. berdade. O repórter perguntou-lhe como
A parede ao fundo parece ser uma es- tinha visto a rendição do J a p ã o a p ó s a
pécie de altar, separada com uma cor- derrota militar. Ocorreu entre eles o se-
tina roxa. Abrindo-se a cortina, viam- guinte diálogo:
se penduradas, uma ao lado da outra,
— Imagina se o J a p ã o se rendeu. Isso
a bandeira do Japão e a bandeira mili-
é absolutamente i m p o s s í v e l .
tar japonesa, ocupando toda a pare-
de. E, no ponto em que as duas ban- — Mas como, se a rádio T ó q u i o trans-
deiras se juntavam, a pouco mais de mitiu isso?
dois metros do chão, havia uma foto
— Hoje em dia, há t r a n s m i s s õ e s ame-
do imperador em vestes militares,
ricanas perfeitas em j a p o n ê s .
montando um cavalo branco. À direita

cervo. Rio de Janeiro, v. 10. n° 2. pp. 129-146. Jul/dez 1997 - p á g . 1 4 3


— V o c ê n ã o acredita nem na mensa- Espaço público privatizado e área de cir-
gem do imperador? culação, esfera privada tecnicizada, cam-
— n ã o é p o s s í v e l que tenha havido po de ação de um saber puramente téc-
uma mensagem do imperador, n ã o nico e eficiente, s ã o as q u e s t õ e s funda-
pode haver erro naquilo que o im- mentais para se compreender a figura-
18
perador c o m e ç a . " ção estadonovista. Se o vínculo entre ci-
O diálogo acima pode ser interpretado dadania e o c u p a ç ã o é um produto do Es-
como uma faceta da dedicação japone- tado Movo, a apropriação privada da es-
sa, uma singular relação e vínculo que fera pública e a tecnicização dos proble-
une os súditos a seu imperador — que mas vividos na esfera da intimidade não
inspirou, por exemplo, os pilotos o s ã o . Eles e s t ã o inseridos numa longa
camicases. Porém, gostaria de aventar tradição de 'confusão' intercambiante en-
outra hipótese: o diálogo entre o repór- tre a rua e a casa. A novidade das déca-
ter e o j a p o n ê s expressa as dificuldades das de 1930 e 1940 talvez esteja na jun-
e sutilezas na c o n s t r u ç ã o da cidadania ção entre estas duas práticas.
e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , de um e s p a ç o efe-
Os japoneses, concebidos aqui no senti-
tivamente público na sociedade brasilei-
do amplo como estranhos, foram excluí-
ra. A q u e s t ã o da cidadania é t a m b é m a
dos, de a n t e m ã o , da possibilidade de tor-
chave para a c o m p r e e n s ã o dos vínculos
narem-se cidadãos. Perseguidos e mar-
erigidos no Estado Movo entre e s p a ç o pú-
ginalizados, foram jogados nas fímbrias
blico e privado. O projeto estadonovista
da sociedade, no e s p a ç o da n ã o visibili-
almejava tornar o público um simples es-
dade pública. Porém, é exatamente nes-
paço de circulação de pessoas e merca-
te não lugar, nesta exclusão, que s e r ã o
dorias, desprovido de função política e
forjadas as p o s s i b i l i d a d e s de uma
crítica, transformando-o em mero lugar,
contraleitura dos ideais estadonovistas.
em paisagem, pano de fundo de circula-
Recolhidos à vida privada, os japoneses
ção e passagens urbanas, desprovido de
gestaram de si e de sua situação duran-
contradições. Porém, a despolitização da
te o Estado Movo uma imagem que, ade-
esfera pública impôs um novo arranjo en-
quada aos valores do Q a m b a r ê e do
tre o público e o privado. Despojada de
Shindô, os projetaria no e s p a ç o público,
seu caráter político a esfera pública se
a p ó s 1945, com uma pujança recriada.
privatiza e passa a ser vivenciada como
mera extensão do e s p a ç o privado. Por ou- Organizações como a Shindô-Remmei nos
tro lado, o campo da intimidade passa a revelam, tanto as dificuldades para a cri-
ser alvo de todo um discurso técnico que ação de uma efetiva cidadania no Brasil,
o transforma em lugar da aplicação de quanto as múltiplas possibilidades que ela
uma tecnologia que prescinde absoluta- tem para realizar-se. Afinal, os japone-
mente de qualquer discussão política. ses s ã o um dos muitos 'inimigos' criados

p á g . 144. J u l / d e z 1997
R V O

naqueles anos. As a ç õ e s dessa organi- avolumando de tal forma a mostrar que


zação 'terrorista' s ã o , por um lado, uma "[...] a sua face e a sua cor denotam fri-
19
reação à s seguidas humilhações sofridas eza e calculismo..."
durante o Estado novo. Contribuíram, As seqüelas deixadas na comunidade ja-
p o r é m , para justificar e reforçar certos ponesa por esse duro período se eviden-
preconceitos arraigados. As "caracterís- ciariam durante muito tempo, o que tor-
ticas negativas' dos japoneses vão sen- naria ainda mais difícil a construção de
do pintadas em tons cada vez mais som- uma efetiva cidadania nos anos que viriam.
brios e assustadores, a partir dos quais
se pode esperar deles quaisquer gestos
de desconfiança e traição, predestinação Agradeço especialmente ao professor
natural ao crime, ao suicídio, à insanida- Boris Fausto a leitura atenta, as suges-
de mental, atributos que vão se t õ e s precisas e o gentil apoio.

N O T A S
1. Eliana Dutra R. F., O ardil totalitário ou a dupla face na construção do Estado novo, S ã o
Paulo, USP, tese de doutoramento, mimeo., 1990, p. 51.

2. Eliana Dutra. op. cit., p. 221.


3. Relatório das atividades da polícia civil, p. 688.
4. " R e l a t ó r i o da C o m i s s ã o de n a c i o n a l i z a ç ã o ao M i n i s t é r i o da E d u c a ç ã o e S a ú d e " , Simon
Schwartzman et al.. Tempos de Capanema, Rio de Janeiro, Paz e Terra/Edusp, 1984, p. 150.

5. Cf., Simon Schwartzman, et al., op. cit., pp. 150-151.


6. Citado em Alcir Lenharo, S a c r a f / z a ç ã o da política, Campinas, Papirus. 1896, p. 132.

7. Tomoo Ha rida, O imigrante japonês, s. I., s. e., p.634.


8. Paulo S é r g i o Pinheiro, Violência do estado e classes populares. Revista DADOS, Rio de J a -
neiro, IUPERJ, vol. 22, 1979, p. 6.
9. Alcir Lenharo, op. cit., p. 448.
10. Cf. Célia Sakurai. Romanceiro da imigração japonesa, S ã o Paulo, S u m a r é / F a p e s p . 1993, p.
52.
11. Quido Fonseca, "DOPS: um pouco de sua história", Revista ADPESP, ano 10, n° 18, 1989.
12. Outras o r g a n i z a ç õ e s surgiram neste p e r í o d o : Zaiako Zaiago Oujin Kai, A s s o c i a ç ã o dos Ex-
Militares Japoneses no Brasil; a Kodo Jissen Remmei, Liga pela Prática das Diretrizes do
Imperador; a Tuido Seinen Kei. A s s o c i a ç ã o dos Jovens Japoneses que seguem as Diretrizes
Centrais; a Kokussui Seinen Dan, Grupo nacionalista de Jovens; a Aikoku nippon Jin-Kai.
A s s o c i a ç ã o Patriótica dos Japoneses Unidos; a Chudo Aikoku Doshi-Kai; A s s o c i a ç ã o Patrióti-
ca pela Unidade do Pensamento; a Chudo-Kai; A s s o c i a ç ã o do Caminho da Felicidade do
Imperador. Entretanto, todas as i n d i c a ç õ e s mostram que a mais importante de todas, por
suas a ç õ e s , foi a S h i n d ô - R e m m e i .

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10, n ° 2. pp. 129-1*6. jul/dez 199 7 - p á g . 1 * 5


13. Tokko-Tai: grupos de e x e c u ç ã o encarregados das m i s s õ e s de e x t e r m í n i o .
14. Processo em que é r é u Tomio Aoki. Arquivo do Tribunal de J u s t i ç a do estado de S ã o Paulo.
o
I TVibunal do Júri, caixa 700. Os p r ó x i m o s depoimentos foram transcritos desse processo.
15. Para um esclarecimento do comportamento dos japoneses em r e l a ç ã o ao imperador Hirohito
ver Ruth Benedict. O crisântemo e a espada, S ã o Paulo, Perspectiva, 1981.
16. Tomoo Handa, op. cit., p. 675.
17. Idem, ibidem, p. 643.

18. Sobre a r e l a ç ã o entre p ú b l i c o e privado, ver J ü r g e n Habermas, Mudança estrutural da esfera


pública, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984.
19. Citado por Alcir Lenharo, op. cit., p. 132.

A B S T R A C T
The union, cohesion and indivision were the aims of the Estado novo. There was a desire to

erase ali possible traces of social heterogeneity, with foreigners representing a potential danger.

The building of homogeneity called for a very authoritarian political system, considering that it

presupposed the elimination of the other, the dissimilar. This article shows that the fear, the

aversion towards the other reached extreme leveis regarding the Japanese.

R É S U M É
L'union, la cohesion et 1'indivision ont é t é les objectifs de ['Estado novo, en vue d'effacer les

marques d'une é v e n t u e l l e h é t é r o g é n é i t é sociale, o ü les é t r a n g e r s r e p r é s e n t a i e n t un danger en

potentiel. Pour b â t i r l ' h o m o g é n é i t é on p r é s u p p o s a i t 1'élimination du d i f f é r e n t , de 1'auíre. Cet

article montre la peur et 1'aversion en atteindrant des niveaux extremes par rapport aux Japonais.
Maria Luiza Tucci Carneiro
Docente do Departamento de História da FFLCH
e do Programa de Pós-graduação em Língua Hebraica, Literatura
e Cultura Judaica do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo.

L i t e r a t u r a de I m i g r a ç ã o
M^emÓFias cie i i i m a d i á s p o r a

A
s d é c a d a s de 1930 e tos de repressão e propaganda.
1940 podem ser con- Tanto na Espanha como na Ale-
sideradas como um manha, regimes fortes substi-
momento de convulsão da so- tuíram repúblicas agonizantes
ciedade c o n t e m p o r â n e a que, que nada mais foram do que en-
utopicamente, preparou o mundo para a saios de liberalismo e de prática demo-
prática da democracia. Durante este pe- crática. Utopias, enfim. O t é r m i n o da
ríodo, o totalitarismo idealizado nos pri- Querra Civil Espanhola não deixou de ser
meiros anos do século XX e concretizado o prenuncio do conflito mundial que co-
pelo nazismo e fascismo veio à tona sob meçou em 1939. Portanto, é compreen-
a forma de tirania e violência. sível que 1945 seja apontado como sím-
bolo para a história da humanidade: náo
Tempos de terror, de medo e de ódio.
somente pelo fim do conflito mundial e
Tempos de cataclismo. Tempos de Hitler,
suas implicações p o l í t i c o - e c o n ô m i c a s ,
Mussolini, Franco, Salazar, Perón e Getú-
como também por q u e s t õ e s humanistas.
lio Vargas. Cada qual, a seu modo, colo-
Quando as primeiras notícias da vitória
cou em prática projetos nacionalistas e
dos Aliados vieram a público, concreti-
xenófobos, controlando e seduzindo as
zou-se a falência do Estado nazi-fascis-
massas através de modernos instrumen-

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n ' 2. pp. 147-164. jul/dez 1997 - p á . 1 4 7


9
A C E

ta. E, quando vieram à tona as primeiras ram à imigração. Dispersa por três con-
imagens do holocausto judeu praticado tinentes — Europa, América e África —,
pelos nazistas, o mundo parou sob o im- esta massa diversificada e magoada de
pacto desse fenômeno, incompreensível refugiados guardou desilusões, rancores
até os dias de hoje. Os indivíduos de qual- e tristes recordações.
quer raça, religião ou etnia tiveram a tris-
Para muitos o exílio acabou sendo defi-
te oportunidade de lançar os olhos sobre
nitivo; outros retornaram quarenta anos
os escombros dos campos de concentra-
depois quando foi reinstaurada a demo-
ção, constatando que o sentimento de ódio
cracia, e os que não saíram da Espanha
náo tem limites.
viveram, permanentemente, em seu exí-
2
lio interior.
PEREGRINOS SEM PÁTRIA
Após 1945, o mundo viu-se diante de ou-
f ) f "^anto a Guerra Civil Espanhola
tros tipos de peregrinos: os espoliados
quanto o nazismo e a Segunda
de guerra e os d e s i l u d i d o s , ou seja,
Guerra Mundial foram respon-
aqueles que, decepcionados com seus
sáveis por um i n t e n s o movimento
países de origem e amedrontados com o
imigratório que envolveu, de um lado,
alcance das práticas totalitárias, resol-
aqueles que, identificados com idéias l i -
veram sair em busca de nova pátria.
berais e republicanas, foram obrigados
a deixar a Espanha sob o olhar censório Essa massa humana em movimento, fu-
de Franco; de outro, os judeus persegui- gitiva e sofrida, colocou muitos países em
dos pela doutrina nazi de t e n d ê n c i a s 'estado de alerta', visto que estavam pre-
genocidas. ocupados com o tipo de indivíduo (raça,
caráter e ideologia) que poderia solicitar
Com r e l a ç ã o à Espanha, cabe lembrar
abrigo em suas terras. Tanto a França
que em 9 de fevereiro de 1939 foi pro-
mulgada a Lei de Responsabilidades Po- como o México abriram suas portas aos

líticas' como parte da longa r e p r e s s ã o espanhóis exilados pelo regime

empreendida pelo Movimento Nacional, franquista. A Argentina, contrária à imi-

que atingia todos que haviam defendido gração em massa, restringiu-se a rece-

a República e tentado impedir o avanço ber apenas alguns intelectuais e perso-

das tropas franquistas. Para muitos acu- nalidades de renome na Espanha. Mo en-

sados de 'agravar e subverter a ordem' tanto, n ã o teve condições de impedir a


era chegada a hora do cárcere, dos cam- entrada de grande n ú m e r o de judeus,
pos de c o n c e n t r a ç ã o e do exílio. Esta que para lá se dirigiram atraídos pela co-
3
diáspora estendeu-se a t é o início da Se- munidade israelita existente no p a í s .
gunda Guerra, quando os principais cen- Muitos dos peregrinos encaminharam-se
tros receptores e polarizadores se fecha- para São Domingos, Venezuela, Equador,

p á g . 148, j u l / d e z 1997
V

Panamá, Cuba, Inglaterra e Estados Uni- A documentação oficial produzida pelo Mi-
dos. Um grande número refugiou-se tam- nistério das Relações Exteriores e pelas
bém na África do Norte.* missões diplomáticas sediadas no exte-
rior comprova a atitude irreverente do
Neste mesmo momento, entre 1937 e
Brasil de s ó aceitar aqueles que fossem
1942, o Brasil colocava em evidência uma
classificados como desejáveis. Os judeus
série de circulares secretas proibindo a
refugiados do nazi-fascismo foram con-
entrada de imigrantes judeus. Defendia-
siderados uma anomalia social, enquan-
se a idéia de uma política imigratória ci-
to os refugiados de guerra foram vistos
entificamente policiada e orientada, ten-
como "uma população faminta e desam-
do em vista o imigrante como um prová-
parada" e, confidencialmente, tratada de
vel candidato à composição racial e polí-
"irmãos d e s g r a ç a d o s " e "escumalha de
tica do país. Aquele, se destinado a con- 6
guerra".
tribuir para a melhoria da etnia, deveria
atender a um requisito essencial: ser de A maioria das sociedades americanas fi-
raça branca, escolhida dentre as nacio- cou de sobreaviso com relação a uma
nalidades que j á haviam provado ser fa- dezena de 'perigos humanos' que pode-
cilmente a s s i m i l á v e i s pela p o p u l a ç ã o riam colocar em risco a segurança nacio-
brasileira. 5
nal; fossem exilados políticos (principal-

A causa da fuga. Hitler em meio à multidão, 1933. Archives Yad Vachem. Jerusalém.

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 1 47-16*. Jul/dez 1997 - p á g . 1 4 9


mente se rotulados de anarquistas ou lugar para abrigar-se. Dentre estes acon-
c o m u n i s t a s ) , j u d e u s ou 'refugos da tecimentos, cabe citar o desmoronar da
escumalha de guerra'. A imprensa con- República espanhola, a evidência da prá-
servadora mexicana, pró-franquista, por tica de um plano objetivando o extermí-
exemplo, foi responsável pela construção nio em massa dos judeus pelo III Reich,
de uma imagem negativa do espanhol as c o n s e q ü ê n c i a s econômico-sociais da
junto à o p i n i ã o pública, que, segundo Querra Civil Espanhola e da Segunda
J o s é Antônio Matezans, os recebeu "com Querra Mundial, o estado de destruição
desgosto, desconfiança e certa hostilida- das cidades e u r o p é i a s atingidas pelos
de". A propaganda fascista, por sua vez, bombardeios e o desencanto com a situ-
encarregou-se de desqualificá-los, apre- ação político-social de seu país de ori-
sentando-os como 'delinqüentes', 'dege- gem.
7
nerados vermelhos' e 'gente de má vida'.
Diante deste quadro de caos, os pere-
Uma série de fatos interligados entre si grinos sem p á t r i a ' passaram por um
contribuiu para gerar um clima de ten- constante processo de mutilação (a de-
são, angústia, decepção e intranqüilidade terioração do eu) que, posteriormente,
entre todos aqueles que, como os judeus se m a n i f e s t a r á na literatura, produto
ou os refugiados políticos, buscavam um deste momento de cataclismo da socie-

Viagem interrompida. Passageiros ilegais do navio Theodor Herzl capturado pelos


ingleses em abril de 1947. Archives Yad Vachem. Jerusalém.

p á g . 150. j u l / d e z 1997
V o

dade c o n t e m p o r â n e a . Como muito bem dos a buscar refúgio em outro país a sen-
definiu J o s é Lopes Portillo, presidente do sação era de perda, de mutilação. Mui-
México: tos traduziram suas angústias e esperan-
ças em poemas, novelas, contos e livros
O refugiado é um ser com a raiz cerce-
de memórias.
ada. Um sujeito errante que n á o pro-

cura apenas comida, teto e trabalho, Essa literatura, característica do p ó s -


p o r é m algo muito mais substancial: guerra, revela a busca de equilíbrio pelo
um centro de gravidade, um ambiente homem que, através de uma retórica par-
que possa nutrir seu e s p í r i t o , e n á o s ó ticular, procurou exprimir seus sentimen-
sua carne." tos sob a forma de denúncias e silênci-
os, dúvidas e certezas, erros e acertos,
Esta q u e s t ã o nos conduz a uma outra re-
t e n s ã o e alívio. Enfim, cada uma das
flexão que, pela sua essência, nos auxi-
obras publicadas é, também, testemunho
liará a compreender os textos literários
das nossas inquietações existenciais.
produzidos por muito destes
transterrados'. Christopher Lasch, refe- Essa seleção e análise privilegia a me-
rindo-se ao estado de espírito daqueles mória dos excluídos, dos marginalizados
que lutam pela sobrevivência, afirma em e das minorias; memória esta que, se-
sua obra O mínimo eu: gundo Michel Pollak, aflora "nos momen-
tos de crise em sobressaltos bruscos e
Em uma é p o c a carregada de proble- 10
exacerbados". Tais sentimentos emer-
mas, a vida cotidiana passa a ser um
gem, de forma mais transparente, nos
e x e r c í c i o de s o b r e v i v ê n c i a . Vive-se um
textos que se referem a um passado ime-
dia de cada vez. Raramente se olha
diato, ou seja, próximo ao momento do
para t r á s , por medo de sucumbir a uma
conflito.
debilitante nostalgia e quando se olha

para a frente, é para ver como se ga- Com base em uma seleção preliminar —
rantir contra os desastres que todos parte de um estudo mais amplo — , " po-

aguardam. 9 demos adiantar que as décadas de 1930


e 1940 produziram tipos distintos de l i -
A LITERATURA E M QUESTÀO teratura, muitos dos quais podem ser
considerados como produtos c o n s e q ü e n -

A
guerra náo foi uma ilusão, nem
tes da prática autoritária e da dificulda-
o holocausto. As divergências
de que o homem tem de lidar com as di-
.ideológicas anteciparam cala-
ferenças, sejam elas étnicas ou ideológi-
midades com capacidade de 'abalar a
cas. Diante de uma produção tão múlti-
Terra'. O tema da vida e da morte tor-
pla e diversificada, identificamos inúme-
nou-se trivial preocupação de todos que
ros núcleos literários, dentre os quais
estiveram ou não envolvidos pessoalmen-
cabe citar: a literatura de exílio, produ-
te nos conflitos. Os que se viram obriga-

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n» 2. pp. 1 47-1 64 . jul/dez


A C

zida tanto dentro [exílio interior) como mo, p r o l o n g a d o . P s i c o l o g i c a m e n t e ,


fora do país de origem (exílio exterior); aguarda o fim do seu exílio. No caso dos
e a literatura de imigração, produzida por refugiados e s p a n h ó i s republicanos, acre-
imigrantes e, no caso em estudo, por j u - ditava-se que "em breve Franco cairia".
deus refugiados do nazi-fascismo. Não estava em seus planos criar raízes

Essas obras foram escritas por homens na nova terra e nem mesmo 'fazer a

que tiveram suas existências 'interrom- América', expressão empregada para ca-

pidas' no momento de convulsão da so- racterizar aqueles que chegavam com o


12

ciedade. Muitos foram pressionados e ex- propósito de enriquecer rapidamente. A

pulsos de sua terra natal; outros perma- certeza da volta sempre os animava. Nas

neceram mas tiveram que abrir m ã o de palavras de Eugenia Meyer, a mente e o

suas c o n c e p ç õ e s ideológicas e de seus c o r a ç ã o continuavam na Espanha, en-

projetos políticos: daí o fato de todos te- quanto a existência transcorria no Méxi-
13

rem em comum a experiência do co.

trauma, simbolizado por um momento de


Este, entretanto, não é o 'estado de es-
ruptura.
pírito' do refugiado judeu, que, discrimi-
Em ambos os casos estas cicatrizes in- nado e perseguido pelo nazi-fascismo,
duziram os indivíduos a formularem so- não pensa em retornar: vem para ficar,
luções aglutinadoras que deram origem decepcionado com a n a ç ã o que o desen-
à s comunidades dos refugiados, neutra- cantou transformando-o num apátrida,
lizando as circunstâncias que os força- num 'desclassificado' — os judeus per-
ram a imigrar; além de servirem de ins- deram na Alemanha nazista sua condi-
piração para seus 'registros de vida'. A ção de 'cidadãos do Reich'. E esse de-
literatura produzida por estes grupos vai sencanto gerou marcas profundas, ali-
muito além da biografia individual de cada mentando silêncios e medos confessados
autor; expressa t a m b é m , nuances da posteriormente nas entrelinhas de suas
m e m ó r i a coletiva, fundamental para a m e m ó r i a s . Expressivo desse estado de
persistência de uma identidade nacional. espírito é o diálogo que dá início ao livro
Você voltaria?, de Anita Salmoni, judia ita-
A diferença entre uma e outra literatura
liana, formada em letras e filosofia pela
depende de d o i s fatores básicos e
Universidade de Pádua:
determinantes: das condições exteriores
próximas ao autor e do estado de espíri- — Você voltaria para a Itália?
to que condiciona o processo de criação.
— Para a Itália? Claro que sim. Vou
Neste sentido, temos que considerar a para lá em dezembro.
distinção que caracteriza o exilado e o — Mas eu quero saber se v o c ê
imigrante. O primeiro deixa o seu país voltaria para a Itália para ficar,
por um tempo determinado e, a t é mes- 1
para viver l á ? *

p á g . 1S2. j u l / d e z 1997
K V O

Tanto o imigrante judeu como o exilado como sendo 'liberais' e 'pouco ortodoxos';
espanhol republicano produziram, sob até o momento em que passam a ser
â n g u l o s diferentes, suas visões pessoais questionados por suas origens judaicas.
dos conflitos presenciados na Europa; Por serem judeus — meio ou, a t é mes-
cada qual construiu uma imagem parti- mo, um quarto judeu — é que muitos per-
cular de cataclismo elevando-o à cate- deram o direito de cidadania e, posteri-
goria de drama. Cada uma dessas versões ormente, o 'direito de viver'. Daí suas
encontra-se filtrada pela nova experiência projeções literárias serem típicas das ma-
vivenciada em terras americanas. nifestações das identidades mutiladas.

nos dois casos a maioria dos autores é A literatura de imigração como a de exí-
constituída por intelectuais de classe mé- lio assumem uma dimensão universal: a
dia urbana; com a diferença de que os da sobrevivência. Deixar a terra de ori-
e s p a n h ó i s , exilados no México em 1939, gem náo foi uma atitude voluntária. Foi,
eram indivíduos engajados politicamente sim, a única opção para salvar suas vi-
e envolvidos com o processo de trans- das. Garantida a troca (vida no exílio), o
f o r m a ç ã o da sociedade espanhola na espanhol refugiado sustentou viva a cha-
década de 1930. Muitos representavam, ma de um dia poder salvar, t a m b é m , a
no momento em que foi proclamada a Se- República abortada pelo fascismo de
gunda República, em 1931, a vanguarda Franco, neste sentido, lembramos aqui a
do liberalismo e do republicanismo es- obra de Carlos Martinez, que em sua Crô-
panhol e, quando n ã o , haviam liderado nica de una emigración (La de los repu-

movimentos reformistas e de oposição à blicanos espanoles em 1939) recupera

Igreja, à monarquia e à ditadura de Pri- todo o processo de adaptação dos refu-


16
mo de Rivera no decênio de 1920. 15
giados em terras mexicanas.

Na Itália, a a p l i c a ç ã o das leis raciais,


A LITERATURA DE EXÍLIO
a p ó s 1939, atingiu muitos intelectuais

A
que, nesta é p o c a , ocupavam importan- literatura de exílio foi produ-
tes cargos junto à s universidades onde zida, na sua maioria, por inte-
atuavam como catedráticos na área de lectuais engajados e que, por
pesquisa social e científica. Parte consi- razões político-ideológicas, refugiaram-
derável desses intelectuais migrou para se em países da Europa, África e Améri-
o Brasil passando a ser fator atuante na ca, pressionados pela prática dos regi-
história do país, visto serem pessoas de mes autoritários que, para se sustenta-
tradição liberal e nível cultural elevado. rem no poder, abusaram do uso da vio-
lência física e simbólica. Entretanto, mo-
Através de suas memórias, narradas sob
mentos históricos distintos d ã o , a cada
a forma de histórias de vida, muitos des-
uma destas obras, tons diferenciados,
ses intelectuais judeus se apresentam

nelro. v. 10. n ° 2. pp. 14 7 -164 . Ju l/dez 1997 - p á g . 153


Acervo, Rto de J
E

expressivos de múltiplos olhares. Muitos desses escritores continuaram a

O fato desses espanhóis continuarem sen- expressar em suas narrativas a busca de

timentalmente ligados-a sua terra de ori- uma pátria ideal; mas, nem por isso, man-

gem, contando com o retorno num futu- tiveram-se alienados da sociedade que

ro muito próximo, fez com que o tema os cercava. Enquanto a literatura de imi-

da integração social se transformasse em gração concentra-se nas histórias de vida

assunto comum desta literatura marcada de cada um dos seus autores, a literatu-

por conflitos existenciais. Dentre os prin- ra de exílio tenta, em obras distintas,

cipais autores, cabe citar: Salvador Movo, desvendar outros mundos, sob o prisma

Jorge S e m p r ú n , Simón Otaola, Virgílio a g u ç a d o da 'visão de mundo' do espa-

Botella Pastor, Claire Etchrelli, Ramón J . nhol educado segundo os p a r â m e t r o s da

Sender, Luis Cernuda e Max Aub, entre cultura européia. Muitos deixaram-se se-

tantos outros. 17 duzir pelo universo mágico e religioso dos


povos da América: penetraram no mun-
A literatura de exílio produzida pelos re- do mítico do México antigo, indígena e
publicanos e s p a n h ó i s diz respeito a uma popular.
história escrita pelos vencidos, dada a
e x t e n s ã o dos conflitos existenciais que Em sua obra Mejicayotl, Ramín J . Sender
dela emergem. O a n e d ó t i c o pontilha a recupera parte deste imaginário coletivo
maioria das obras neutralizando as sen- recriando uma realidade povoada por len-
s a ç õ e s de angústia e de batalhas perdi- das e regida por deuses. 20
Juan Rejano,
das. A novela As/ cayeron los dados, de autor de La esfinge mestiza: crônica me-
Virgílio Botella Pastor, publicada na Fran- nor de México, faz crítica social ao apon-
ça em 1954, traz à tona o drama parti- tar os meninos pobres de rua e o índio
cular do homem n ã o realizado em sua que, como um fantasma, "vai pela vida
21
totalidade, assim como expressa a ago- como algo que foi".
18
nia das utopias republicanas.
O sevilhano Luis Cernuda, refugiado no
O drama do espanhol exilado, que tem a
México, além de evocar a beleza do ín-
e s p e r a n ç a de u m d i a voltar para a
dio, sensibilizou-se com a tristeza das
Espanha pode ser, t a m b é m , identificado
"moças de véu negro" e com a miséria
na obra ficcional La algarabia, de Jorge 22
dos meninos pedindo esmolas; enquanto
S e m p r ú n , que em 1939 refugiou-se na
Jose Moreno Villa, em suas Cornucópias,
França, onde passou a integrar o movi-
passou a olhar pelos primores do vulgar,
mento antinazi. Esta atitude lhe valeu, em
preocupando-se em recuperar a dinâmi-
1943, a triste experiência no campo de
ca do trivial em todos os seus detalhes.
c o n c e n t r a ç ã o de Buchenwald, a p ó s ter
Através dos seus ensaios, chegamos ao
19
sido detido pela Qestapo.
México crioulo e mestiço, marcado pela

p á g . 1 54. j u l / d e z 1997
K V O

influência da civilização espanhola, elo de com um mesmo drama: o da solução fi-

ligação e identificação entre exilados e nal.


23
mexicanos.
Estas obras diferenciam-se, principal-
Simón Otaola, por sua vez, escreveu seus mente, daquelas escritas por exilados por
livros relatando pequenas histórias dos terem a estrutura de 'livros de memóri-
refugiados, microcosmos de 'vidas inter- as', em que o individual ganha credenci-
rompidas': Unos hombres; Le lebreria de ais de u n i v e r s a l i d a d e , por ser o
aranha; El cortejo e Tiempo de recordar. holocausto um tema de natureza
Através do cômico e da tragédia, o autor emotiva. Um laço invisível une todas as
r e c o m p õ e utopias e conflitos, transfor- narrativas, independente de gênero lite-

mando o México numa "verdadeira comé- rário e tempo: as imagens recuperadas

dia humana". * 2 pelo autor-imigrante têm um significado


especial para ele e, naturalmente, sua
São raras as versões dadas por mulhe-
família, na medida em que s ã o raros frag-
res, categoria esta que predomina na li- mentos 'concretos' do seu próprio pas-
teratura de imigração escrita por judeus sado. O que n á o foi registrado irá, com
imigrantes. Uma das escritoras que diri- certeza, perder-se no tempo.
ge seu olhar para os desprotegidos que
Mo entanto, em cada narrativa existe um
se exilaram na frança é Claire Etchrelli,
elo (náo aparente) que é captado por to-
autora de A propôs de Cleménce. Mesta
dos os outros (leitores ou autores desta
novela de exílio, a autora se preocupa
categoria) que vivenciaram uma situação
em recuperar o cotidiano dos humildes e
semelhante: o elo do sofrimento, da dor
dos necessitados fazendo uso de metá-
e da ruptura. Considero, neste sentido,
foras: á g u a , sangue e álcool têm força
que estamos diante de um duplo fenô-
de elementos míticos no mundo sem con-
meno: o da criação e o da memória co-
forto e miserável dos exilados espanhóis
25 letiva.
na f r a n ç a .
Enquanto a literatura de exílio distingue-
L I T E R A T U R A D E IMIGRAÇÃO se pela variedade de gêneros que abar-

A
literatura de imigração, neste ca (novelas, contos, poemas, crônicas,

nosso estudo em particular, ensaios e narrativas), a literatura deixa-

_diz respeito aos livros produ- da pelos imigrantes judeus concentra-se

zidos por judeus refugiados do nazi-fas- nas categorias de 'histórias de vida' e

cismo que se instalaram no Brasil nas algumas poucas crônicas. Tais obras de-

d é c a d a s de 1930 e 1940. Essa literatura vem ser vistas como testemunhos da des-

inspira-se na luta pela sobrevivência e truição do homem pelo homem e como

enuncia-se como de imigração por envol- expressão da tentativa de reconstruir os

ver centenas de pessoas identificadas mecanismos legais democráticos.

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n° 2. pp. 1*7-16*. j u l / d e í 1997 - p á g . 1 5 5


A C E

A estrutura narrativa da literatura de ção e integração junto à sociedade bra-


imigração organiza-se sob a forma de re- sileira. A s e n s a ç ã o de pertencer a dois
latos, partes integrantes das 'histórias de mundos, característica do exilado espa-
vida'. Neste estudo, em particular, nos nhol no México que ainda náo se desgar-
interessa apontar aquelas que foram rou da pátria-mãe, não se manifesta nes-
publicadas no Brasil, pois, além de for- te tipo de literatura, visto que este vazio
necerem elementos significativos da his- e x i s t e n c i a l foi p r e e n c h i d o por aque-
tória do III Reich e do anti-semitismo le que c r i o u l a ç o s c o m a terra que o
como fenômeno político-social, nos con- acolheu.
firmam — a t r a v é s de testemunho — a
prática de uma política racista adotada No caso da literatura de imigração, o ju-

pelo governo de Qetúlio Vargas entre deu refugiado se expressa como vence-

1937 e 1945. dor: escapou do inferno nazista rompen-


do, com sua vontade de viver, os arames
Estas obras podem ser consideradas farpados dos campos de c o n c e n t r a ç ã o .
como de r e s i s t ê n c i a ao nazi-fascismo, Emigrou e integrou-se ao cotidiano bra-
26
expressando a versão subterrânea que, sileiro r e c o m e ç a n d o , com mil dificulda-
de uma forma geral, se viu abortada pela des, uma nova vida. Raros s ã o aqueles
história dita oficial. Essas versões não s ã o que conseguiram esquecer; ou melhor,
encontradas nos documentos oficiais, ca- muitos preferem não relembrar. Hoje, os
bendo ao historiador das mentalidades relatos publicados s ã o apenas um frag-
cruzar informações, identificando as fron- mento do que foi vivenciado na Alema-
teiras entre o real e a ficção. nha de Hitler. Náo existem palavras para
exprimir a extensão do fenômeno que foi
Os marcos da trajetória de cada imigran-
a 'vida' num campo de c o n c e n t r a ç ã o (de-
te podem ser percebidos em diferentes
pois campo de extermínio). Daí tantos
'estados de e m o ç ã o ' manifestos em suas
questionamentos (alguns inexplicáveis) e
narrativas: o da constatação do cresci-
a revolta contida no livro Memórias do
mento do nazismo e do fascismo; o do
inferno, de Isaak Podhoretz, publicado em
impacto de se ver diferenciado pelo es-
1992:
tigma de 'ser judeu', apesar de 'nascido'
a l e m ã o ou italiano; o do temor da perse-
Por que mataram...?
guição e suas conseqüências e, em quarta
Por que tanto ó d i o ? Por que ensina-
e última instância, o da euforia de bem-
ram as c r i a n ç a s a agir assim? S e r á
estar.
que Deus n ã o é de todos?

Ao relatar sua trajetória de vida, o refu- Não posso esquecer. N á o posso

giado judeu tem a preocupação de mos- arrancar este passado de dentro de


27

trar como se processou o momento da mim...

ruptura, seguido da sua rápida assimila- Estas estórias, no seu conjunto, trans-

p á g . 1 56 . j u l/dez 1997
R V O

formaram-se em uma 'história de anôni- mulheres, alemãs e italianas, que fazem


mos', dada a intensidade do fenômeno: das suas histórias de vida exemplos de
seis milhões de vítimas. Mas apesar da resistência e luta pela p r e s e r v a ç ã o da
extensão e do impacto causado junto à identidade judaica, independente da na-
o p i n i ã o p ú b l i c a , os sobreviventes do cionalidade a d q u i r i d a . Dentre essas
holocausto n ã o receberam, ainda, reco- obras, cabe lembrar Ali the gardens of
nhecimento por parte da historiografia my life, de Mathilde Maier; Schreib mir
internacional e brasileira. Somente nes- alies, Mutter. Brief aus dem
ta última d é c a d a é que estudos nesta di- 'Brasiliannischen Qarten', de K a r i n
reção c o m e ç a r a m a ser desenvolvidos, Schauff; Você voltaria?, de Anita Salmoni;
frente à abertura recente de arquivos ale- Os abismos, de Malka Lorber Rolni; A lon-

m ã e s e russos, assim como da apreen- ga trilha azul, de fúlvia Di Segni; Crôni-

s ã o gerada pelo recrudescimento das cas do meu tempo, de Trudi Landau; nos-

idéias nazistas, do fortalecimento das cor- so caminho de obra para o Brasil (1939-

rentes revisionistas que negam as câma- 1941), de llza Czapska; O mundo silen-
30

ras de g á s e os campos de extermínio, e ciou, de Miriam Brik Nekrycz.

das manifestações crescentes de senti-


As h i s t ó r i a s de vida dessas mulheres
mentos nacionalistas e xenófobos, ali-
reconstituem parte da história da imigra-
mentados por representantes do pensa-
ção para o Brasil, assim como o drama
mento de extrema-direita na Europa e
daqueles que, de perto, foram vítimas do
América. nazismo e do anti-semitismo na Europa.

Esta n ã o é, entretanto, a situação da his- Suas crônicas, poesias, diários e roman-

tória dos exilados espanhóis, que — sem ces emergem deste universo trágico para
interferir diretamente no universo da cri-
desmerecer aqui a extensão do conflito
ação. Como escritores, souberam trans-
— tem recebido a t e n ç ã o redobrada por
formar frases e palavras em expressões
parte dos historiadores, cientistas políti-
coloridas de sobressaltos emocionais in-
cos, estudiosos da arte e literatura. O ca-
corporando fragmentos da realidade bra-
ráter épico conferido a muitas obras pro-
sileira. Extraíram da paisagem e do coti-
duzidas pelos exilados espanhóis tem co-
diano a e s s ê n c i a do c a r á t e r nacional,
laborado para o fortalecimento da ima-
26
atraídos, como estrangeiros que eram,
gem de herói que lhes tem sido atri-
por tudo aquilo que percebiam como exó-
buída pela historiografia internacional,
tico e popularesco.
que dá a este 'movimento imigratório
involuntário' uma a t e n ç ã o especial por Diferentes versões foram arrancadas da-
envolver intelectuais e artistas conceitu- quele mundo cinzento da guerra que,
29
ados. após a década de 1950, viu-se traduzido
em metáforas inspiradas nas vivências
A maioria das v e r s õ e s foi escrita por

o. Rio de Janeiro, v. 10. n ° 2. pp. 147-1 64. Jul/dez 1997 - p á g . 1 5 7


A C E

interiores de cada um. Através de suas ganhou seu sustento como modelo e pin-
m e m ó r i a s , esses escritores — homens e tora de aquarelas. Entre 1923 e 1933, vi-
mulheres — conseguiram recriar sua con- veu em Berlim, posicionando-se contra o
dição de cidadãos do mundo, transfor- nacional-socialismo. Em 1934, para po-
mando a tristeza do exílio em literatura. der continuar publicando, tornou-se mem-
Mas entrelinhas, expressam a consciên- bro da Associação dos Escritores Alemães
cia de estar, constantemente, em busca do Reich. Apesar de não ser judia, por
da terra prometida. solidariedade aos amigos judeus, foi para
a Áustria e, de lá, fugiu para Paris e Mar-
Além dos nomes citados acima, cabe tam-
selha, onde ficou detida no campo de
b é m ressaltar a p r e s e n ç a de Suzanne
Qurs. Em 1940, conseguiu visto para o
Eisenberg Bach e Paula Ludwig, ambas
Brasil, via Lisboa, g r a ç a s a sua amiga
de origem alemã, cujas histórias s ã o se-
nina Engelhard. Morou por algum tempo
melhantes a tantas outras de refugiados.
em Muri, próximo de nova Friburgo e, de-
A primeira, romancista, nasceu em Mu-
pois, transferiu-se para São Paulo, onde
nique, em 1909, e, a p ó s 1933, viveu em
levou uma vida muito modesta. Em 1953
Paris e Marselha. Manteve contato com
retornou à Áustria como cidadã brasilei-
Hermann Mathias Qorgen que lhe enviou
ra, tendo publicado em a l e m ã o suas
visto para o Brasil em 1941, via Portu-
obras, marcadas pelo sentimento de de-
gal. O grupo Ficou primeiro em Juiz de
samparo, desconhecimento do idioma,
Fora e, depois, Suzanne foi para
isolamento e alcoolismo, vindo a falecer
Petrópolis, onde manteve contato com o
em 1974.
escritor francês Qeorges Bernanos, aqui
Além dos escritos de Suzanne Bach e
exilado. Trabalhou no jornal Correio da
Paula Ludwig, g o s t a r í a m o s de dar desta-
Manhã e, em 1948, retornou à Europa.
que, neste universo múltiplo dos
Voltou novamente ao Brasil, indo morar
memorialistas, a Fritz Pinkuss, Lívio Túlio
no apartamento de Leskoschek e, mais
Pincherle e Max Hermann Maier. O pri-
tarde, em Salvador, onde adquiriu uma
meiro, alemão e rabino; o segundo, italia-
livraria. Atualmente reside em Munique.
no e médico psiquiatra; e o último, ale-
A trajetória tumultuada de sua vida en-
m ã o , advogado e cafeicultor no Brasil.
contra-se sob o títuloÀ la recherche d'un
31
Origens diversas, destinos m ú l t i p l o s ,
monde perdu, publicado em 1944.
questionamentos semelhantes. Todos ví-
Paula Ludwig nasceu em Altenstadt e, timas da intolerância, discriminados como
a p ó s a morte de sua m ã e , mudou-se para judeus, refugiados nos trópicos brasilei-
Breslau, onde trabalhou como emprega- ros. Detalhes da história de vida do rabi-
da d o m é s t i c a , além de freqüentar a es- no Pinkuss, que teve importante papel na
cola literária. Em 1917, nasceu seu filho ajuda aos refugiados a l e m ã e s que imi-
Friedel, com quem foi para Munique, onde gravam para o Brasil, encontram-se pu-

p á g . 158, j u l / d e z 1997
K V O

blicados em suas memórias Estudar, en- sua visão de mundo. Pincarle formou-se
sinar, ajudar: seis d é c a d a s de um rabino médico psicoterapeuta vindo a se desta-
em dois continentes. Mos seus relatos, o car como pediatra e especialista em aler-
drama daqueles que, para sobreviver ao gias, dedicando-se à hipnose para tera-
nazismo, viram-se obrigados a conver- pia de asma, alergias de pele e outros
ter-se ao catolicismo para, mais tarde, sintomas. Através da hipnose chegou até
retornar ao j u d a í s m o . 32
a 'terapia de vidas passadas', sendo o
responsável por esta prática por mais de
Lívio Túlio Fincherle, nascido em Trieste,
quarenta anos junto à universidade. Deu
expressa sua vivência sob prismas dife-
asas a sua imaginação ao publicar uma
renciados: o do judeu italiano refugiado
obra de ficção científica intitulada Misté-
em São Paulo e o do profissional preocu-
rio em Jerusalém e pairou sobre a reali-
pado com as ' d o e n ç a s da alma', com o
dade ao recuperar sua trajetória de c i -
inconsciente marcado pelo passado trau-
dadáo-judeu discriminado pelo fascismo
mático, inesquecível, silenciado. É impor-
anti-semita pós- 1938. O perfil do indiví-
tante recuperarmos, em poucas linhas,
duo mutilado, dividido em seus valores e
sua trajetória acadêmica, reveladora de
em busca de uma identidade encontra-
se registrado no seu livro de memórias,
editado em 1987, cujo título sugere sua
Mothilde Moier
trajetória de vida: Dois mundos: história
O S JARDINS DE MINHA VIDA da vida de um médico judeu ítalo-brasi-
33
leiro.

Muitos são os que, na condição de refu-


giados e judeus, viram-se obrigados a
optar por novos caminhos. A imagem de
um Brasil tropical desponta como uma
mancha nas lembranças de Max Hermann
Maier, jurista e advogado que, em 1938,
viu-se transformado em cafeicultor no
interior do Paraná, registrado por ele
como 'selva brasileira'. Portando visto
temporário e acompanhado de sua es-
posa Mathilde Maier — autora de Os jar-
dins da minha vida —, juntou-se aos
Kaphan em Rolândia, onde passou a ad-
ministrar a fazenda Jaú, experiência úni-
MQSKcOooEcfl
ca para um homem acostumado a inter-
Os jardins de minha vida, de Mathilde Maier, pretar as leis. Mo campo, Max Maier
New York, Vantage Press, 1983.

aneiro. v. 10. n° 2, pp. 1 47-164 . jul/dez 1997 - p á g . 1 5 9


Acervo. Rio de
A C E

vivenciou o processo de desenraizamento ao lado dos Aliados.


doloroso, embora construtivo, adotando O sentimento de desencanto é marca re-
aos poucos o Brasil, como sua nova pá- gistrada na maioria dessas obras. Per-
tria. Conseguiu impor-se como cafeicul- cebemos silêncios propositais nas entre-
tor e intelectual, enfrentando, como to- linhas dos relatos. Medos e imagens
dos os imigrantes, as dificuldades impos- aterrorizantes afastam l e m b r a n ç a s . Mas,
tas pela língua portuguesa e pelos trópi- alguns marcos — símbolos do processo
34
cos. de ruptura — se fazem comuns: a noite
dos Cristais, a p u b l i c a ç ã o das leis de
Mestas m e m ó r i a s afloram os sentimen-
nuremberg, o impacto do ato de emigrar,
tos de cidadania e nacionalismo: os j u -
o posicionamento dos mais velhos que
deus discriminados pelo 111 Reich e o fas-
queriam aguardar a volta da r a z ã o , a
cismo consideravam-se (e eram) cidadãos
c o n s t a t a ç ã o do avanço do nazismo, o di-
italianos, a l e m ã e s , austríacos, poloneses,
lema de se sentir judeu e apátrida.
romenos etc. Muitos ressaltam a intensi-
dade desse sentimento enumerando fa- A travessia do oceano, como e s p a ç o físi-
tos como: a participação de seus famili- co e simbólico a ser percorrido, está pre-
ares na Primeira Guerra Mundial, que sente nas recordações tanto dos imigran-
lhes valeu c o n d e c o r a ç õ e s nacionais re- tes judeus que se refugiaram no Brasil
cebidas por serviços prestados à pátria, quanto dos exilados e s p a n h ó i s que se
a pontualidade no pagamento dos impos- abrigaram em terras mexicanas. Os múl-
tos, o crédito dado ao fascismo ou, ain- tiplos roteiros possíveis transformaram
da, a confiança depositada em Mussolini. os oceanos em caminhos da liberdade.
Para a maioria, nada disto contou. O des- O ato de 'arrumar a bagagem', entretan-
moronamento de toda uma vida enraizada to, expressa-se como um ato de violên-
na terra natal e, em geral, há várias ge- cia, sofrido, doído. Os objetos perdem o
rações, ocorreu simultaneamente ao res- seu valor real para o valor simbólico: o
surgimento do anti-semitismo. O que sim- que levar e o que deixar? As dúvidas pai-
bolizava ser a l e m ã o , austríaco, italiano, ram entre o quantitativo e o qualitativo,
polonês, triestino, quando este sentimen- permeadas de valor emocional. Mathilde
to entrava em conflito com o fato de 'ser Maier trouxe consigo seus livros e se-
judeu'? E mais tarde, a p ó s 1942, quando mentes de flores do seu jardim, na ger-
muitos deles j á se encontravam no Bra- minação de cada grão estava inscrita a
sil, um novo e s t e r e ó t i p o somou-se a tan- continuidade da vida.
tos outros gerando instabilidade emoci- Identificando-se com uma p o e s i a de
onal e conflito de identidade: o fato de G õ e t h e , dedicada a Charlotte V. Stein,
ser rotulado 'cidadão do Eixo' a partir do quando ela plantou seu jardim fora dos
momento em que o Brasil tomou posição portais de Weimar, a autora comenta:

p á g . 160, j u l / d e z 1997
R V O

Da mesma maneira como este jardim a imagem dos ausentes. O tipo de narra-
em Weimar possibilitou a separação tiva e humor que identificamos nas obras
definitiva de Qõethe de Frankfurt... as- dos exilados não encontramos na litera-
sim o plantio do nosso jardim, seu tura produzida por aqueles que, na con-
crescimento, sua florescência e dição de judeus, emigraram para o Bra-
frutificação, fizeram-se radicar defini- sil. Mo livro Memórias do inferno, de
tivamente neste país novo e esquecer Isaak Podhoretz, sobrevivente de campo
o sofrimento indizível da separação da de concentração, o mendigo ressurge da

pátria e dos entes queridos, e as amar- realidade brasileira a título de compara-

gas experiências do tempo do nazismo. 35 ção, com o objetivo de demonstrar a in-

Em Os jardins da minha vida, os jardins tensidade do drama vivenciado pelo au-

e as flores de Mathilde Maier assumem tor. Miséria e medo são acionados no pre-

uma r e p r e s e n t a ç ã o simbólica. Como ela sente miserável com o intuito de recupe-


rar o passado do inferno nazista. A críti-
mesma responde ao repensar a indaga-
ca dirige-se ao nazismo, desviando-se do
ção de um amigo sobre "o que seria a
cotidiano cruel da sociedade brasileira:
vida sem Fhox?" Uma paixão relativa:
... um mendigo em frente a uma pada-
... uma paixão relativa, foi o que pen-
ria procurava alimentos no lixo e re-
sei muitas vezes no Brasil onde fize-
cordei t a m b é m como procurava sobras
mos um jardim tão rico, sem Fhox...
estragadas, sujas, azedas e me conten-
Também os conceitos de jardinagem
tava quando as achava. Apenas com
são definidos e alterados como o des-
36 uma d i f e r e n ç a : o mendigo n á o tem
tino dos homens.
medo de n i n g u é m e eu sempre sentia
A viagem de navio simboliza, para a mai-
37
medo...
oria, um corte, um trauma. Do lado de lá
ficou a Alemanha, a velha Itália, a gran- Basicamente, podemos afirmar que o au-
de Espanha. Do lado de cá, o desconhe- tor deste tipo de literatura procura, como
cido. Para muitos, a palavra saudade pas- tantos outros, construir a sua estética do
sou a fazer parte de seu novo idioma, rio cotidiano, seja este racista, fascista ou
convés, os 'irmãos de barco': n ú m e r o s republicano. A essência de cada obra está
tatuados nos braços, c a b e ç a s raspadas, contida na condição de ser imigrante j u -
o J vermelho no passaporte emitido pelo deu ou exilado republicano. Esta litera-
Reich. Finalmente, terras da América: o tura tem, em essência, a capacidade de
impacto do 'outro', do novo. Mas sinago- narrar o drama do oprimido e da degra-
gas, a persistência da identidade judaica dação humana contrapondo-o com uto-
por entre os murmúrios das vozes imi- pias e esperanças. Enfim, expressa a tra-
gradas. Mas fotografias guardadas nos jetória de uma busca, de um sentido para
fundos das novas gavetas improvisadas, a vida.

o de Janeiro, v. 10. n° 2. pp. 1 4 7-164 . jul/dez 1997 - p á g . 1 6 1


A C E

T A S
n o
1. Esta lei foi publicada dois meses antes das tropas franquistas s a í r e m vitoriosas, tendo o
respaldo da Inglaterra e França que, em fevereiro, reconheceram o governo de Franco. O
termo da lei apresentava uma Espanha consciente de seus deveres de reconstruir espiritual
e materialmente a n a ç ã o . Daí a necessidade de "liguidar Ias culpas de este orden contraedas
por quienes contribuyeron com actos u omisiones graves a forjar a s u b v e r s i ó n " . Sobre este
tema ver C. Qarcia-Meto, "Victoria y ei exílio", Guerra civil espanola (1936-1939), Barcelona,
Aula Abierta Salvat, 1985, pp. 62-63.

2. Ver a c o l e t â n e a de artigos El exilio espanol en Méjico (1939-1982), Méjico, Salvat, Fondo de


Cultura E c o n ô m i c a , 1982.

3. L. Argentinos Senkman, La Segunda Querra mundial y los refugiados indeseables (1933-


1945), Buenos Aires, Grupo Editor LatinoAmericano S.R.L., 1991.

4. J . C. Casas e outros, La Espana ausente. Madrid, E d i c i ó n e s 99, 1973, pp. 15-16.

5. M. L. T. Carneiro, O anti-semitismo na era Vargas: fantasmas de uma g e r a ç ã o (1930-1945),


a
2 ed., S á o Paulo, Brasiliense, 1988.

6. F. M. de Carvalho, "Ainda a i m i g r a ç ã o do a p ó s - g u e r r a " , Revista de Imigração e Colonização


(\V), 4, dez. 1943, pp. 67-68; " I m i g r a ç ã o um problema nacional", idem (VI), 4, mar. 1945, pp.
57-65; " I m i g r a ç ã o um problema nacional", idem, mar. 1945, pp. 57-67. Sobre este assunto,
ver M. L. T. Carneiro, op. cit., "A escumalha de guerra", 343 e ss.

7. J . A. Matezans, "La d i n â m i c a dei exilio", El exilio espanol en Méjico (1959-1945), p. 170; J .


L. A b e l l á n . De la guerra civil al exilio republicano (1956-1977), Madrid, Editorial Mezquita,
1983, p. 102.

8. J . L. Portillo, "Prólogo", El exilio espanol en Méjico (1959-1982), Méjico, Salvat, Fondo de


Cultura E c o n ô m i c a , 1982, p. 9.
a
9. C. Lasch, O mínimo eu: s o b r e v i v ê n c i a p s í q u i c a em tempos d i f í c e i s , I ed., 1986, S ã o Paulo,
Brasiliense, 1990, p. 10.

10. M. Pollak, " M e m ó r i a , esquecimento, s i l ê n c i o " . Estudos Históricos 5: memória, S ã o Paulo,


E d i ç õ e s V é r t i c e , 1989, p. 4.

11. Este projeto maior intitula-se Literatura de imigração: h i s t ó r i a s de muitas vidas (1930-
1945) e e s t á sendo desenvolvido junto ao Depto. de História da FFLCH da Universidade de
S ã o Paulo, tendo sido financiado, por dois anos, pelo CNPq. Esta pesquisa se apresenta
como o prolongamento de um estudo anterior que se ateve a registrar depoimentos, a
t é c n i c a da h i s t ó r i a oral, concentrando-se nos testemunhos dos judeus que, perseguidos
pelo nazi-fascismo, buscaram r e f ú g i o no Brasil. A mostra prevista engloba cerca de 110
testemunhos diferenciados em dois grupos e s p e c í f i c o s : judeus a l e m ã e s (com a t e n ç ã o espe-
cial para aqueles que se concentraram em Rolândia, Paraná) e judeus italianos. Grande parte
do material i c o n o g r á f i c o referente ao tema foi organizado sob a forma de uma e x p o s i ç ã o ,
patrocinada pelo Instituto Cultural G ò e t h e , com o título Brasil, um refúgio nos trópicos: a
trajetória dos refugiados do nazi-fascismo, 1996.

12. Matezans, ao caracterizar o tipo de imigrante que entrou no México em 1939, em d e c o r r ê n -


cia da vitória franquista, utiliza-se de duas e x p r e s s õ e s : refugiado republicano, para aquele
que se considera 'em t r â n s i t o ' e que n ã o vem para fazer a A m é r i c a ' . Para aqueles que v ê m
para ficar, sendo que muitos foram s o l i d á r i o s a Franco durante a guerra civil e apoiaram os
rebeldes, o autor emprega a e x p r e s s ã o gachupeiros. J . A. Matezans, op. cit., pp. 166-167.

13. E . Meyer (coord.), Palabras dei exilio. Archivo de la palavra dei 1NAH. C o n t r i b u i c i ó n à la
historia de los refugiados espafioles en Méjico. Méjico, INAH-SEP/Librería Madero, 1980, p.14.

14. Anita Salmoni, V o c ê voltaria?, S ã o Paulo, Shalom, 1979, p. 9.

15. P. Fagen, Transterrados y ciudadanos: los republicanos espafioles en Méjico, Méjico, Fondo
de Cultura E c o n ô m i c a , 1975, p. 7.

16. C. Martinez, Crônica de una emigración: la de los republicanos espafioles en 1939, Méjico,
Libro Mex, 1959.

17. Aub Max. escritor espanhol nacionalizado mexicano, abandonou a Espanha em 1939 e, em

p á g . 162. j u l / d e z 1997
V O
K

1942, fugiu da França para o México. Importante obra deste escritor éJusep Torres Campalans,
Biblioteca dei Exilio, Barcelona, Plaza 6c J a n é s Editores, 1970.
18. V. Botella Pastor, Asi cayeron los dados. Paris, Imprimerie des Qondoles, 1954, apud R.
Jouanny, "Asi cayeron los dados y encrucijadas - dos novelas en Francia de un espanol con su
exilio". Literatura y guerra ciuil. Barcelona, Edición Angeles Santa, Dept. de Filologia. Facul-
dade de Letras, E s t ú d i o General de Lérida, Universidade de Barcelona, 1988, pp. 275-308.
19. J . S e m p r ú m , La Algarabia. Barcelona, Plaza ôí Janes S. A. Editores, 1982.
20. R. J . Sender. Mexicaiyot!, apud J . de Colina, "Ensaio: Méjico, visión de los transterrados (em
su literatura)", El exilio espanol en Méjico, op. cit., pp. 424-425.
21. J . Rejano, La esfinge mestiza: c r ô n i c a menor de Méjico, Méjico, Leyenda, 1945. Ver t a m b é m
J . de Colina, op. cit., p. 422.
22. Gostaria de lembrar aqui os poemas do sevilhano Luis Cernuda escritos no México entre
1951 e 1963, ano em que morreu. Dentre eles, temos "Como quien espera el alba" (1941-
1944), m o n ó l o g o d r a m á t i c o seguindo a t r a d i ç ã o inglesa, Apud J . de Colina, op. cit., p. 411
e ss.
23. J . M. Villa, Cornucopia de Méjico, Méjico: La casa de E s p a ü a en Méjico, 1940, Méjico, Sep/
Setoriales, 1976 e íiueva cornucopia mexicana, caráter p ó s t u m o , artigos dispersos reuni-
dos por Roberto S u á r e z Arguello, Méjico, Sep/Stentas, 1976.
24. Sobre Ataola, ver J . de Colina, op. cit., p. 423.
25. Claire Etchelli, A p r o p ô s de Clemence, Paris, Col. Folio, Denoel, 1971, apud A. Santa, "A
p r o p ô s de Clemence", Literatura y guerra civil, op. cit.

26. M. Pollak, op. cit., pp. 8-9.


27. I. Podhoretz, Memórias do inferno, S ã o Paulo, s.e., 1992, pp. 185-186.
28. M. L. T. Carneiro, "Heróis sem armas". Judaica latinoamericana: e s t ú d i o s h i s t ó r i c o - s o c i a l e s
II, J e r u s a l é m , Editorial Universitária Magnes, Universidad Hebrea, 1993, pp. 69-86.
29. As principais obras a serem consultadas sobre este tema s ã o : J . A. Matezans, El exilio espanol
en México; A. H. Leon-Portilha, Espana desde Méjico: vida y testimonio de transterrados,
Méjico, Universidad Nacional A u t ô n o m a de Méjico, 1978; Literatura y guerra civil; P. Fagen,
Transterrados y ciudadanos: los republicanos espafioles en Méjico. O b s e r v a ç ã o : grande par-
te da bibliografia e literatura de e x í l i o aqui citada foi gentilmente cedida pelo historiador
J o s é Carlos Sebe Bom Meihy, pesquisador e especialista no assunto dos 'transterrados espa-
n h ó i s ' no México, sobre os quais desenvolve projeto de pesquisa.
30. M. Mayer, Ali the gardens of my life, translated by Marie Burg, New York, Vantage Press, 1983.
Originalmente publicado com o t í t u l o de Alie Qarten Meines Lebens, Frankfurt am Main:
Verlag Josef Knecht, 1978; K. Shauff, Schreib mir alies, Mutter. Briefe aus dem "Brasilianischen
Qarten", Germany, Verlag Gunther Neske, 1987; Anita Salmoni, Você voltaria?, S ã o Paulo,
Shalon, 1979; M. L. Rolnik. Os abismos: m e m ó r i a s e contos, Curitiba, Montana, 1990; Fúlvia
Di Segni, A longa trilha azul, S ã o Paulo, s.e., 1980; Trudi Landau, C r ô n i c a s do meu tempo,
S ã o Paulo, Massao Ohno, Roswitha Kempf, 1981; llza Cazpska. nosso caminho de obra para
o Brasil (1939-1941), trad. I n ê s Czaspka Dellae, S ã o Paulo, s.e., 1982 (impresso).
31. Suzanne Bach, À la recherche d'un monde perdu. Rio de Janeiro, Centro das E d i ç õ e s France-
sas, (Erster Teil der Autobiographie), 1944. Ver Exil in Brasilien: die Deutschsprachige
Emigration (1933-1945). Eine Ausstellung des Deutschen Exilarchivs (1933-1945) der
Deutschen Bibliothek Frankfurt am Main/Die Deutsche Bibliotek. 1994. Sobre estes escrito-
res, ver M. L. T. Carneiro, Brasil, um refúgio nos trópicos: a trajetória dos refugiados do nazi-
fascismo, S ã o Paulo, Editora E s t a ç ã o Liberdade/Instituto Cultural G ò e t h e , 1996.
32. Fritz Pinkuss, Estudar, ensinar, ajudar: seis d é c a d a s de um rabino em dois continentes, S ã o
Paulo, Cultura, 1990.
33. Lívio T. Pincarle, Dois mundos: h i s t ó r i a da vida de um m é d i c o judeu í t a l o - b r a s i l e i r o , S ã o
Paulo, Roswitha Kempf, 1987.
34. Max Hermann Maier, Um advogado de Frankfurt se torna cafeicultor na selva brasileira: relato
de um imigrante (1938-1975), trad. Mathilde Maier, Rolândia, Velox, 1975.
35. M. Maier, op. cit., p. 64.
36. Idem, ibidem, p. 35.
37. I. Podhoretz, op. cit., p. 186.

Acervo. Rio de Janeiro, v. 10. n- 2, pp. 1 *7- 164. jul/dez 1997 - p á g . 163
A B S T R A C T
This article makes some considerations about the year of 1945 as a historical period of immigration

of several people in Europe who had looked for new ideais.

TWo types of literature were made in that period: the exile literature and the immigration

literature. The first was written by intellectuals who due to political and ideological reasons

seeked refuge in European countries. The second is relative to books written by Jews who took

refuge from nazism and facism in Brazil during the thirties and the fourties.

R É S U M É
L'article focalise 1'année de 1945 comme un moment historique d'immigration de plusieurs

personnes, à 1'Europe. en cherchant des nouveaux i d é a u x .

Deux classes de littérature furent produites dans ce p é r i o d e : la littérature de iexil et la littérature

de Vimmigration. La p r e m i è r e fut é c r i t e par inteliectuels e n g a g é s , qui à cause des raisons politiques

et i d é o l o g i q u e s s' abritaient dans les pays e u r o p é e n s . L'autre a rapport aux livres é c r i t s par Juifs

refugies du nasisme et du facisme, et qui sinstallaient au Brésil pendant les d é c a d e s de 1930 et

1940.
Meiga Iracema Landgraf Piccolo
Professora doutora do Programa de Pós-graduação
em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Imigração A l e m ã e Construção
do Estado N a c i o n a l Brasileiro
10 vjrrancie il, sé
uill, século

seu relatório de 5 de do aumento do n ú m e r o de c i d a d ã o s .

outubro de 1847, o pre- Galvão, nomeado pelo governo


sidente da p r o v í n c i a , central, como todos osdemais pre-
Manuel Antônio Galvão, dirigindo- sidentes de província, pronunciava-
se à Assembléia Legislativa de São Pedro se a favor da colonização, considerando-
do Rio Grande do Sul, dizia: a náo apenas um projeto capaz de desen-
Ma o p i n i ã o geral, é considerada a colo- volver economicamente o Rio Grande do
n i z a ç á o a necessidade mais palpitante Sul (o que no relatório é destacado). Para
do I m p é r i o : a v a s t i d ã o das terras de- ele, que tinha como referência, especifi-
sertas que n ã o quereis sem dúvida po- camente, a colônia de Sáo Leopoldo, a co-

voar com negros... lonização deveria ser, num país ainda


escravista como o Brasil, fator de bran-
Num discurso pronunciado na s e s s ã o de
queamento da sociedade.
4 de outubro de 1862 da mesma Assem-
bléia, assim se posicionava o deputado do A colônia de Sáo Leopoldo fora fundada,
Partido Liberal, Félix da Cunha: em 1824, com imigrantes alemães, mui-
tos deles protestantes e, portanto, pro-
... n ó s queremos colonos a l e m ã e s , por-
fessando uma religião que não era a ofi-
que a c o l o n i z a ç ã o a l e m ã significa tra-
cial do Império do Brasil. Com a funda-
balho, i n d ú s t r i a , agricultura e sobretu-

Acervo. Rio de J a n e i r o , v. . 0 , n« 2. pp. 1 6 5 - . 7 8 , Jul/dez !997 - páfl.165


A C E

çáo da colônia, se retomaria e viabilizaria da imigração estrangeira, especialmente


uma proposta formulada em 19 de junho a européia, seria visto como necessário
de 1729 pelo Conselho Ultramarino, em para a construção da cidadania no Brasil.
Lisboa, pela qual era considerado conve- Mas, o que dizia a Constituição outorga-
niente da por d. Pedro I, poucos dias antes de
ser assinada a resolução que deu origem
... que, se v ã o instalando no Sul, nas
o
à colônia de São Leopoldo? O artigo 6 ,
p o v o a ç õ e s da c o l ô n i a e outras, casais
n° 5, estatuía que seriam cidadãos brasi-
de i l h é u s , e quando estes forem insufi-
leiros "os estrangeiros naturalizados qual-
cientes, se podia conseguir casais es-
quer que seja a sua religião. A lei deter-
trangeiros, sendo a l e m ã e s ou italianos
minará as qualidades precisas para se
e de outras n a ç õ e s que n ã o sejam
obter carta de naturalização". Ora, aos
castelhanos, ingleses, holandeses e
1
a l e m ã e s dispostos a vir para o Brasil e
franceses.
aqui se tornarem pequenos proprietári-
As propostas de 1729 e 1824 atendiam a os, o governo brasileiro prometera "ad-
interesses governamentais. As conjuntu- miti-los no Império como cidadãos brasi-
ras eram distintas, mas, em ambas, o leiros, cujo foro gozariam logo ao che-
povoamento estava entre os objetivos gar". 2
Mas, como cumprir esta determi-
n e c e s s á r i o s à defesa do território. nação se a naturalização dependia de lei
e se a A s s e m b l é i a Geral, como poder
A fundação da colônia de São Leopoldo
concretizou-se através de uma resolução legislativo, s ó se reuniu a partir de 1826?

do governo imperial de 31 de março de Mo Rio Grande do Sul, o pequeno propri-


1824, imposta, sem consulta, à s elites 5
etário estabelecido nas colônias também
regionais. Tratava-se de um projeto de foi visto como uma possibilidade de con-
colonização com pequenos proprietários trabalançar o poder dos grandes senho-
de terra subsidiados pelo governo central. res de terra (muitos deles escravistas). Os
Entre os subsídios, estava o recebimento latifundiários haviam sido r e s p o n s á v e i s
de 160 mil b r a ç a s quadradas de terras pela construção/organização de um espa-
para lavoura, parte em campo, parte em ço fronteiriço que empurrara a domina-
mata virgem. Portanto, a colônia não foi