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13/11/2019 Há 40 anos, mulheres ainda eram proibidas de jogar futebol no Brasil | HuffPost Brasil

M U L H E R E S 07/06/2019 08:24 ­03 | Atualizado 08/06/2019 13:39 ­03

Há 40 anos, mulheres ainda


eram proibidas de jogar
futebol no Brasil
Copa do Mundo feminina tem início nesta sexta (7) na
França; Brasil estreia no domingo (9), quatro décadas após
cair proibição do futebol para mulheres no País.
By Andréa
Martinelli

ARQUIVO PÚBLICO/MUSEU DO FUTEBOL

"Pé de mulher não foi feito para se meter em shooteiras", diz manchete de jornal de
1941, ano em que decreto proibindo futebol feminino foi assinado no Brasil.

A Copa do Mundo de futebol feminino começa nesta sexta­feira (7),
na França, com a participação de 24 equipes. A seleção brasileira, que
estreia no domingo (9), estará em sua oitava Copa ­ das 8 que foram
realizadas desde 1991 pela Fifa. Mas nem sempre se pôde ver
brasileiras em campo.

Num passado até bem recente ­ mais exatamente, há 40 anos ­ o
futebol, no Brasil, ainda era considerado, por decreto, uma prática

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inapropriada para mulheres. 

Assinado por Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, durante a ditadura
do Estado Novo, o artigo 54 do decreto­lei 3.199, afirmava que ”às
mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as
condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho
Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades
desportivas do país”.

Às mulheres não se permitirá a
prática de desportos
incompatíveis com as
condições de sua natureza.
Trecho do artigo 54 do Decreto­lei 3.199, assinado pelo presidente Getúlio Vargas,

em 14 de abril de 1941

Com o argumento de que a prática feria a chamada “natureza feminina”,
Vargas autorizou a proibição que, de 1941 até 1979, eliminou qualquer
chance de atletas mulheres se profissionalizarem na modalidade, além
de criminalizar o esporte para elas.

″É reiterado na década de 1960 a ideia de que essa ‘natureza feminina’
é ser mãe. Isso é muito forte no discurso do Vargas: essa ideia da
mulher como alguém que deve cuidar da família, que deve gerar os
‘filhos fortes da nação’”, explica a historiadora Giovana Capucim e
Silva, autora do livro Mulheres Impedidas: A proibição do futebol
feminino na imprensa de São Paulo.

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ARQUIVO NACIONAL/MUSEU DO FUTEBOL

Léa Campos, primeira árbitra de futebol a se formar no Brasil e que lutou contra a
proibição da modalidade no País.

A historiadora explica que o decreto de Vargas não especificava quais
esportes eram proibidos para as mulheres. Porém, o futebol ― já
bastante popular no Brasil nas décadas de 30 e 40 ― foi lido como um
espaço masculino por ser considerado de contato e violento, algo que
não era aceito para uma mulher.

“As mulheres são associadas com o que é belo, feminino, maternal,
delicado. E nenhum desses adjetivos tem a ver com esporte”, diz Silva.
“O ideal que se tem de esporte, de atleta, e o ideal que se tem de
mulher são ideais que se confrontam, que não se encaixam de modo
algum.”

Mas Silva constatou em sua pesquisa que, mesmo com a proibição do
esporte no País, as mulheres nunca pararam de jogar futebol. Segundo
a historiadora da USP, elas sempre desafiaram a “essência feminina”
idealizada por Vargas.

“Elas jogavam, principalmente, em campos de várzea e em locais em
que o Estado não chega, como as periferias. Isso é muito importante
destacar. Essa resistência estatal, na verdade, era o menor obstáculo

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que elas encontravam”, aponta a historiadora, que avalia que o decreto
tinha uma função moral. “Olhares de vizinhos ou de familiares, por
exemplo, pesavam muito mais.” 

A pesquisadora afirma que, à época, no interior de estados como São
Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, mulheres
tinham o costume de se reunir de forma clandestina para jogar, até o
momento em que alguém, incomodado com a mobilização, evocava o
decreto e o jogo terminava.

ARQUIVO NACIONAL/MUSEU DO FUTEBOL

"O futebol feminino vai acabar": Jornais da época destacavam a proibição.

″É como se você, por quase 40 anos, construísse uma ideia, uma
cultura, uma proibição moral. E a gente aculturou essa ideia”,
complementa Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora, responsável
pela implementação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do
Museu do Futebol, em São Paulo.

Até 1964, ano em que se instaura a ditadura militar no Brasil, as
mulheres jogavam futebol sob esta pressão moralista e reguladora.
Porém, em 1965, o governo militar tornou a proibição expressa e incluiu
nominalmente esportes considerados inadequados para mulheres na
legislação.

Entre eles: futebol, polo aquático, halterofilismo e beisebol. Nesta
época de proibição mais severa, há registros em jornais de mulheres
que foram presas, segundo as pesquisadoras. A proibição se justificava
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com o argumento de que práticas de esportes de contato não era
compatíveis com o corpo da mulher.

Começaram a surgir
argumentos médicos para
comprovar essa ideia, inclusive
dizendo que as mulheres não
poderiam jogar por que
poderiam levar cotoveladas no
útero ou nos seios, que ficariam
inférteis e não poderiam
amamentar
Aira Bonfim, pesquisadora da FGV

“Elas eram ridicularizadas, diminuídas. Dentro dessa lógica,
começaram a surgir argumentos médicos para comprovar essa ideia,
inclusive dizendo que as mulheres não poderiam jogar por que
poderiam levar cotoveladas no útero ou nos seios, que ficariam inférteis
e não poderiam amamentar”, conta Bonfim.

Em outros países, como Inglaterra e Alemanha, também houve
proibições até a década de 70, quando foi criada a Federação
Internacional do Futebol Feminino.

Mais tarde, no Brasil, após quatro décadas de impedimento, em 1979, o
decreto foi revogado. Neste período, a abertura política começava com
o encaminhamento da ditadura militar para seu fim. Mas não houve um
desenvolvimento imediato para o futebol feminino no País. 

“O nosso ‘legado da Copa’ é o legado do decreto”, ironiza Bonfim, ao
classificar que, ainda hoje, existem efeitos práticos da proibição que
impedem o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil, como o
apagamento histórico.

“Existem mulheres que ousaram em vários âmbitos sociais, e o futebol
é só mais um deles. A eficiência dele [do decreto] é nesse nível: de uma
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efetiva naturalização de que o futebol não é um esporte próprio para as
mulheres e de que nunca foi, de que não temos História. Poucos sabem
sobre a proibição.”

Segundo Bonfim, antes da proibição – por volta da década de 30 – há
relatos sobre a presença feminina nos campos e nas arquibancadas,
onde grupos de mulheres também se organizavam para torcerem
juntas. “Já era uma ousadia usar sua melhor roupa para assistir a uma
partida pública.”

Da resistência à proibição até a Copa do Mundo

ACERVO DIGITAL DO MUSEU DO FUTEBOL / SUZANA CAVALHEIRO

O Estádio Foshan, na China, foi palco para a Copa do Mundo de Futebol Feminino
Experimental da FIFA em 1988. Brasil venceu Holanda por 2 x 1.

Mesmo com o fim da proibição, a regulamentação da modalidade no
Brasil só foi realizada em 1983 ― graças à mobilização das próprias
jogadoras. Este novo regulamento, ainda assim, segundo as
pesquisadoras ouvidas pelo HuffPost Brasil, contava com
determinações equivocadas.

As partidas tinham duração de 70 minutos, com intervalo de 15 a 20
minutos. Além disso, existia a proibição de cobrança de ingresso para
os jogos e um impedimento às jogadoras de trocar camisas com as
adversárias após as partidas ― algo comum aos times masculinos em
todos os campeonatos.

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Enquanto a primeira seleção masculina foi criada em 1914, a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) só montou um time feminino
mais de 70 anos depois, em 1988. Naquele mesmo ano, o time que
tinha nomes como Sissi, Pretinha e Michael Jackson participou de uma
Copa “experimental” da Fifa. 

Realizado na China, o campeonato serviu de exemplo para a criação
da Copa do Mundo Feminina, que teve sua primeira edição em 1991.
Em sua 8ª edição em 2019, o torneio foi ignorado durante muitos anos
não só por emissoras de televisão abertas e fechadas no Brasil, mas
pelo público em geral. 

“Copa mais importante, que eu considero histórica, é a de 1991. Diante
de toda a luta das mulheres, nesse ano você já tem muito mais
projeção [do esporte] oferecida pela televisão graças à TV Manchete,
graças à TV Bandeirantes”, aponta Bonfim.

A historiadora é crítica ao momento técnico atual da seleção, mas
avalia que o time “nunca teve um ano tão bom” quanto 2019 em termos
de projeção. 

Neste ano, o Mundial também contará com um número maior de
seleções nacionais, o que pode significar um crescimento do futebol
feminino no mundo nas quase três décadas passadas desde a primeira
Copa. 

‘Primavera feminista’ também no futebol

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NAOMI BAKER ­ FIFA VIA GETTY IMAGES

Aos 41 anos, Formiga completará 24 vestindo a camisa da seleção.

As especialistas avaliam que os mais de 30 anos de proibição
deixaram resquícios e reflexos negativos no esporte brasileiro até hoje,
como o pouco incentivo à modalidade feminina, condições de trabalho
piores e a falta de patrocinadores. Mas pontuam que, desde 2015, a
seleção é beneficiada pela “Primavera Feminista”.

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“Acho que o grande erro que a gente às vezes comete é sempre colocar
lado a lado com o masculino”, aponta Bonfim. “O que é pensar em
igualdade? É ganhar igual ao Neymar? Não necessariamente. Hoje
elas têm lutado muito  para simplesmente conseguir um cenário digno
de trabalho”, aponta.

Até agora, o melhor resultado da seleção brasileira na história das
Copas foi em 2007, na China ­ quando perdeu na final para a
Alemanha, que já tem dois títulos mundiais. O time atualmente soma 10
derrotas nos últimos jogos.

“Acho que esse movimento de mulheres, que querem contar histórias
de mulheres, é muito frutífero para a modalidade de futebol feminino”,
diz Bonfim, ao destacar também a iniciativa da ONU de convidar a
jogadora Marta para ser uma das Embaixadoras da Boa Vontade na
organização.

Neste ano, pela 1ª vez, quatro canais nacionais possuem o direito de
transmissão ao vivo da competição. A partir de hoje, dia 7, na TV a
cabo, todos os jogos serão transmitidos pelos canais SporTV e Band
Sports. Na TV aberta, as emissoras como a TV Globo exibirão apenas
os jogos do Brasil.

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