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Estudo-Vida

de
Atos

Witness Lee
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 1
A POSIÇÃO DO LIVRO

Leitura Bíblica: Lc 24:44-49; Mc 16:15-16, 19-20; Mt 28:18-20;


At 1:1-2

Com esta mensagem damos início ao Estudo-Vida de Atos dos


Apóstolos. Ao estudá-lo, precisamos perceber que tanto Atos como o
Evangelho de Lucas foram escritos pela mesma pessoa. Lucas 1:3
diz: “Igualmente a mim me pareceu bem, depois de haver
investigado tudo cuidadosamente, desde o começo, escrevê-los a ti,
excelentíssimo Teófilo, de modo ordenado”. Os dois primeiros
versículos de Atos indicam que esse livro é a continuação do
Evangelho de Lucas: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando
todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em
que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito
Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas”.

UM RESUMO DO EVANGELHO DE LUCAS

Antes de prosseguirmos, vamos rever algumas coisas que


foram abordadas no Estudo-Vida de Lucas. Nesse evangelho temos o
Salvador-Homem, e vemos que o nosso Redentor, o Salvador, é o
Homem-Deus. Lucas nos dá um registro claro não apenas do
nascimento do Salvador-Homem, mas também da Sua concepção.
Ele descreve a concepção, o nascimento, a juventude, a vida, o
ministério, a morte, a ressurreição e a ascensão do Senhor. Assim, o
Evangelho de Lucas tem uma grande abrangência, que inclui todas
as questões da Pessoa maravilhosa do Homem-Deus desde a
concepção até a ascensão.
Podemos dizer que a concepção do Salvador-Homem foi a Sua
vinda, não apenas dos céus, mas também de Deus Pai. Da mesma
forma, a Sua ascensão foi a Sua volta, não apenas para os céus mas
também para o Pai. A concepção foi a Sua vinda à terra e a ascensão
foi a Sua subida aos céus. Vindo e voltando o Senhor Jesus se tornou
um Ser maravilhoso. Mediante a Sua concepção e nascimento Ele se
tornou uma Pessoa que é tanto divina como humana; tanto o Deus
Criador como homem, uma criatura. Conforme Lucas 2:13-14, os
anjos exultaram quando o Salvador-Homem nasceu para a nossa
salvação. Os anjos louvavam a Deus e diziam: “Glória a Deus nas
maiores alturas, e paz na terra entre os homens de Seu agrado”.
Como tal Pessoa maravilhosa, o Senhor Jesus viveu na terra
como um homem com todas as virtudes humanas expressando os
atributos divinos. Foi dessa maneira que Ele viveu e ministrou. O
que Ele vivia, Ele ministrava, e ministrou o que vivia até morrer. Ele
sofreu a morte, entrando nela, passando por ela e saindo dela.
Depois de fazer um passeio pela morte e no Hades, Ele ressurgiu.
Por um lado o Senhor mesmo ressurgiu, por outro, Ele foi
ressuscitado por Deus. Assim, Ele entrou na ressurreição e, em
ressurreição, ascendeu aos céus. Agora essa Pessoa, o Salvador-
Homem glorificado, está nos céus. Esse é um breve resumo do
conteúdo crucial do Evangelho de Lucas.

O MINISTÉRIO DO SENHOR EM SUA ASCENSÃO

A ascensão do Senhor não foi o fim das Suas atividades. Pelo


contrário, foi outra iniciação. Como ressaltamos no, Estudo-Vida de
Lucas, a ascensão de Cristo foi a Sua “posse”, a Sua iniciação, em Seu
ministério celestial. A concepção foi a Sua primeira iniciação e a
ascensão foi outra iniciação. A concepção foi a iniciação da Sua vida
e ministério na terra, enquanto a ascensão foi a iniciação do Seu
viver e ministério nos céus. Portanto, a ascensão de Cristo não foi o
fim da Sua atividade, antes, foi a Sua iniciação em mais atividade: o
Seu ministério nos céus.
O primeiro livro escrito por Lucas, o Evangelho, descreve a
primeira iniciação do Senhor e a Sua vida e ministério na terra.
Agora, há a necessidade do segundo livro, Atos, para nos dizer em
que tipo de viver e ministério o Senhor foi iniciado por meio da
ascensão. Assim, Lucas tinha o encargo de escrever um segundo
livro, desvendando o viver e ministério do Cristo ascendido. Em Atos
vemos como o Senhor vive e ministra em ascensão.
Gostaríamos de enfatizar que, conforme o Evangelho de Lucas,
o Senhor viveu na terra. Essa vida e ministério iniciaram-se com a
concepção e terminaram por meio da ressurreição. Então, após a
ressurreição, o Senhor ascendeu aos céus. Essa ascensão não foi um
término, e, sim, outra iniciação. Essa iniciação O introduziu numa
nova esfera, isto é, nos céus, onde Ele agora tem outro viver, com
outro ministério. Esse viver e ministério não são levados a cabo pelo
Jesus meramente concebido do Espírito Santo no ventre de uma
virgem e nascido em Belém, mas pelo Cristo ascendido. O Cristo
ressurreto e ascendido vive agora nos céus e ali ministra. O viver e
ministério do Senhor nos céus são o conteúdo de Atos. Que, no início
do Estudo-Vida de Atos, todos sejamos impressionados com esse
quadro.

A POSIÇÃO DE ATOS NAS ESCRITURAS

O meu encargo nesta mensagem é mostrar a posição de Atos


no arranjo das Escrituras. Precisamos fazer a seguinte pergunta:
Qual é a posição do livro de Atos entre os livros da Bíblia? Ele está
entre os quatro Evangelhos e as Epístolas, as quais incluem
Apocalipse. Portanto, Atos é uma linha divisória. Antes dele temos
os quatro Evangelhos, como continuação do Antigo Testamento.
Depois dele temos as Epístolas com o livro de Apocalipse como
conclusão.
O livro de Atos pode ser comparado à espinha dorsal do corpo
humano. A espinha dorsal divide o corpo humano em duas partes, o
lado direito e o esquerdo. Muitos problemas do corpo são causados
devido a deficiências na espinha dorsal. Se a espinha dorsal de
alguém é fraca, ele não pode ser forte. Podemos dizer que Atos é a
espinha dorsal do Novo Testamento, dividindo-o em duas partes: (1)
os Evangelhos e (2) as Epístolas com o livro de Apocalipse.
Quando alguns nos ouvem dizer que Atos é a linha divisória e a
espinha dorsal do Novo Testamento, podem dizer: “No passado você
dividia os livros do Novo Testamento de forma diferente. Agora você
está arranjando os livros do Novo Testamento de outra forma”. Não
devemos preocupar-nos com isso, uma vez que há muitas maneiras
de dividir, ou arranjar, os livros da Bíblia. Não devemos estar
limitados a uma maneira. A maneira atual de dividir os livros do
Novo Testamento enfatiza a importância crucial de Atos no Novo
Testamento.
Os quatro Evangelhos falam do Senhor Jesus na terra. Mas
onde está Cristo no livro de Atos? Nesse livro, Ele está nos céus. Atos
não nos desvenda um Cristo na terra, mas revela-nos um Cristo que
está nos céus. Com respeito à ascensão do Senhor, será bom
considerar as seguintes estrofes do Hino 63:
Eis no céu Jesus sentado, Cristo ao trono se elevou;
Como homem, exaltado, Deus com glória O coroou.
Cristo, pelo plano eterno, Se encarnou, na cruz morreu;
Com um corpo ressurreto, Como homem, ascendeu.
Em Jesus, Deus humilhou-se, Com o homem habitou;
Nele, o homem elevou-se,
E com Deus se conciliou.
Hoje há no céu um homem Que de tudo é Senhor,
Que ganhou de Deus a glória — É Jesus, o Salvador!
Que maravilhoso é que Cristo agora está no céu, no trono,
como o Senhor de tudo! Nele Deus se humilhou na terra, mas agora,
também Nele, o homem é exaltado no céu. Esse é o Cristo revelado
em Atos, o livro que está entre os Evangelhos e as Epístolas.

A REVELAÇÃO DE CRISTO NOS EVANGELHOS

Nos Evangelhos temos o desvendar de uma Pessoa


maravilhosa. Essa Pessoa é o Deus eterno, chamado pelo nome de
Jeová no Antigo Testamento. Ele é o criador de todo o universo e do
homem. Em Gênesis 3:15 Ele profetizou que um dia se tornaria o
descendente da mulher. Essa promessa só se cumpriu no final dos
primeiros quatro mil anos da história da humanidade. Então, o
Senhor Jesus veio como o descendente da mulher. Ele veio como o
próprio Deus, concebido no ventre de uma virgem humana. Todos
precisamos perceber isso, e nós enfatizamos isso no Estudo-Vida de
Lucas.
O Deus todo-poderoso, o Jeová eterno, o Criador do universo,
foi concebido no ventre de uma virgem e dela nasceu para ser
alguém com duas naturezas: a divina e a humana. Isso quer dizer
que Ele nasceu como Homem-Deus, Aquele que é tanto o Deus
completo como homem perfeito. Nele vemos Deus com a Sua
natureza e atributos divinos. Nele também vemos o homem em sua
natureza humana e com todas as virtudes humanas. Assim, nessa
única Pessoa podemos ver tanto o Deus completo como um homem
perfeito.
Como Homem-Deus, o Senhor Jesus teve um viver que foi o
viver de um homem. Contudo, esse homem viveu por Deus e com
Deus. Podemos até dizer que Ele viveu Deus, expressou Deus em Sua
humanidade. No livro de Lucas vemos um homem vivendo na terra,
cheio de virtudes humanas, contudo expressava a natureza divina
com os atributos divinos. Nele, Deus foi expresso num ser humano,
pois o viver que Ele teve foi a mescla da divindade com a
humanidade. A Sua vida foi a entremescla de Deus com o homem.
Ninguém, antes do Senhor Jesus, teve tal viver. Um viver
assim jamais existira. Portanto, o Seu viver foi singular. Nessa vida
vemos a entremescla, a mescla, de Deus e o homem. Ele teve tal
vida, e a ministrou. Na verdade, o Seu ministério foi simplesmente o
Seu viver. O Seu viver era o Seu ministério, para cumprir o que fora
profetizado e prefigurado a Seu respeito no Antigo Testamento.
Tendo vivido na terra por trinta e três anos e meio, o Senhor
Jesus sabia que Lhe era necessário ir ao monte Moriá e realizar a
Sua morte todo-inclusiva. Ele não teve uma morte comum, pelo
contrário, teve uma morte extraordinária, que foi todo-inclusiva, e
cumpriu tudo o que Deus exigia para purificar o universo, pôr fim à
velha criação e levá-la Consigo para o túmulo. Assim, todo o
universo foi sepultado com Cristo.
Depois de pôr fim à velha criação, o Senhor, por um lado
descansou no túmulo, por outro, enquanto descansava em Seu corpo
físico, Ele trabalhava em Seu espírito no Hades (1Pe 3:18-20). No
Hades Ele proclamou a vitória de Deus sobre o inimigo, Satanás.
Então, depois de ter cumprido plenamente o propósito de Deus por
meio de Sua morte todo-inclusiva, Ele saiu da morte e ressurgiu do
túmulo. Dessa forma Ele se tornou o Salvador e Redentor ressurreto.
Além disso, em Sua ressurreição Ele se tornou o Espírito todo-
inclusivo que dá vida (1Co 15:45). Conforme enfatizamos no
passado, o Senhor nos mostrou na Palavra, que esse Espírito que dá
vida é a consumação final e máxima do Deus Triúno alcançando os
Seus redimidos. Tudo isso Cristo se tornou em ressurreição.
Em João 20 vemos que, em ressurreição, como Espírito que dá
vida, a consumação final e máxima do Deus Triúno alcançando os
Seus redimidos, Cristo voltou aos discípulos de forma excelente e
misteriosa: insuflando-Se neles e dizendo: “Recebei o Espírito
Santo” (Jo 20:22). Esses discípulos eram os representantes do Corpo
do Senhor. Neles Ele entrou como Espírito que dá vida.
Em outra ocasião o Cristo ressurreto disse aos discípulos: “Eis
que envio sobre vós a promessa de Meu Pai: vós, porém, permanecei
na cidade, até que sejais revestidos de poder vindo do alto”
(Lc 24:49). “Então os levou para fora, até Betânia, e, erguendo as
mãos os abençoou. Aconteceu que, enquanto os abençoava, apartou-
se deles, e era elevado ao céu” (Lc 24:50-51). Antes da ascensão aos
céus, o Senhor ordenou aos discípulos (os quais já O tinham
recebido como o Espírito que dá vida em seu interior como vida
essencialmente), que aguardassem até que, depois da ascensão, Ele
se derramasse sobre eles como o Espírito todo-inclusivo,
economicamente.

SOBRE O TRONO ECONOMICAMENTE E NOS CRENTES


ESSENCIALMENTE

Apresentamos de forma breve a revelação completa de Cristo


nos quatro Evangelhos. Precisamos ter tal visão em nosso espírito.
Precisamos ver que Jesus Cristo foi profetizado e prefigurado no
Antigo Testamento, foi concebido no ventre de uma virgem, nasceu
dessa virgem para se tornar o Homem-Deus, teve um viver de
expressar os atributos divinos em Suas virtudes humanas, passou
pela morte e entrou na ressurreição, tornando-se o Espírito que
alcança, e, em ressurreição, insuflou-Se nos discípulos como o
Espírito que dá vida. Então, tendo-lhes ordenado que aguardassem
até que do trono de Deus Ele se derramasse sobre eles como o
Espírito economicamente, Ele ascendeu aos céus.
Vimos que o Senhor Jesus foi concebido, nasceu e viveu na
terra, morreu e ressuscitou, e agora em ascensão está nos céus. É
impossível descrever esse Senhor maravilhoso com poucas palavras.
Precisamos de muitíssimas palavras para retratar Aquele que agora
está no trono nos céus.
Diferentes termos são necessários para descrever o Homem-
Deus ascendido. Ele é o Deus eterno, Jeová, e é o Criador todo-
poderoso de todo o universo. Um dia foi concebido no ventre de uma
virgem e dela nasceu tornando-se o Homem-Deus. Então, levou uma
vida na terra que foi a mescla de Deus com o homem. Depois de
obter a eterna redenção, Ele saiu da morte, e, em ressurreição,
tornou-se o Espírito que dá vida. Em Sua ressurreição Ele Se
insuflou nos discípulos essencialmente. Depois, economicamente,
Ele ascendeu aos céus. Portanto, economicamente Ele agora está nos
céus como Aquele que foi glorificado, e essencialmente está nos
discípulos como a vida deles. Aleluia por Aquele que está tanto nos
discípulos essencialmente como no trono nos céus economicamente!
Que todos tenhamos tal visão do nosso maravilhoso Salvador.
Onde está Cristo hoje? A maneira de responder a essa
pergunta é dizer: “Essencialmente Ele está em nós, e
economicamente está no trono nos céus. O nosso Salvador é tanto
essencial como econômico”.
Muitos cristãos hoje não percebem que o nosso Salvador é
tanto essencial como econômico. Como Aquele que é essencial, Ele
habita em nós. Mas, como Aquele que é econômico, Ele está
assentado no céu.
Citamos antes a estrofe do hino que diz: “Eis no céu Jesus
sentado”. Ele está sentado no céu economicamente e, ao mesmo
tempo, está em nós essencialmente. Que maravilhoso! Essa é a
revelação que precede o livro de Atos.
Ao chegar a Atos precisamos ter essa revelação. Isso quer dizer
que, ao estudá-lo, precisamos ter a perspectiva do Senhor Jesus
como Aquele que está no trono economicamente e em nós
essencialmente.
Depois de Atos temos as Epístolas. Se quisermos entendê-las,
precisamos estudar completamente o livro de Atos. Sem o
entendimento adequado de Atos, não seremos capazes de entender
as Epístolas adequadamente. Muitos leitores do Novo Testamento
não têm o entendimento correto das Epístolas, porque não têm visão
clara a respeito de Atos. Assim, pedimos ao Senhor que nos abra
esse livro e nos dê visão clara do que nele está revelado.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 2
O ASSUNTO DO LIVRO

Leitura Bíblica: Lc 24:44-49; Mc 16:15-16, 19-20; Mt 28:18-20;


At 1:1-2

Na mensagem anterior ressaltamos que o livro de Atos pode


ser considerado a linha divisória, ou espinha dorsal do Novo
Testamento. Ele divide os quatro Evangelhos das Epístolas, que
incluem Apocalipse. Os Evangelhos apresentam um Redentor
completo e a redenção que Ele obteve. Em Atos temos a propagação
do Redentor completo e da Sua plena redenção para a produção das
igrejas. Então, nas Epístolas temos o aperfeiçoamento dos crentes e
a edificação das igrejas.

A PROPAGAÇÃO DO CRISTO RESSURRETO

Tendo visto a posição de Atos, vamos prosseguir com o tema


desse livro. O tema de Atos é a propagação do Cristo ressurreto em
Sua ascensão, pelo Espírito, por meio dos discípulos, para a
produção das igrejas, o reino de Deus. Atos se ocupa da propagação
do Cristo ressurreto. Cristo está levando a cabo essa propagação em
ascensão, pelo Espírito, e por meio dos discípulos. O objetivo da
propagação de Cristo é a produção das igrejas, que são o reino de
Deus.
Em Atos não há nenhum versículo que possa ser tomado como
resumo de todo o livro. A melhor maneira de apresentar um resumo,
ou extrato, de Atos é descrever o seu tema. Assim sendo, mais uma
vez gostaria de ressaltar que o tema do livro de Atos é a propagação
do Cristo ressurreto. Para nós, é muito importante ter a propagação
do Cristo ressurreto.
Não conheço nenhum livro a respeito de Atos que use a
palavra propagação. Contudo, o tema de Atos é a propagação do
Cristo ressurreto em Sua ascensão pelo Espírito, por meio dos
discípulos, para a produção das igrejas, o reino de Deus.
A propagação em Atos não é de Jesus. Em Atos não temos
meramente a propagação Daquele que viveu na casa de um
carpinteiro em Nazaré. Contudo, em Atos vemos a propagação
Daquele que ressurgiu, a propagação do Cristo ressurreto.

A ATIVIDADE DE CRISTO EM SUA ASCENSÃO

A propagação do Cristo ressurreto é levada a cabo por Ele em


ascensão. O Senhor viveu na terra por trinta e três anos e meio, mas
agora está em ascensão. Em ascensão Ele é muito ativo. Não
devemos pensar que o Cristo ascendido esteja passivamente sentado
no trono observando a lamentável situação da terra e se sentindo
desapontado a respeito dela. Não, em ascensão Cristo é ativo de
forma muito positiva. Como Aquele que ascendeu, Ele agora faz
muitas coisas.
O caso do apedrejamento de Estêvão é uma ilustração da
atividade de Cristo em ascensão. Falando de Estêvão, Atos 7:55-56
diz: “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e
viu a glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita, e disse: Eis que
vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus”.
Em Sua ascensão, ao olhar a situação na terra, Ele se levantou. É
como se dissesse: “Perseguidores, vocês podem apedrejar Estêvão e
matá-lo. Mas Eu vou ganhar um de vocês — Saulo de Tarso — e fazê-
lo muito mais forte que Estêvão. Que vocês conseguem fazer a esse
respeito? Vocês apedrejam e Eu observo. Esperem um pouco, e serão
derrotados”. O caso de Estêvão ilustra que o Cristo ressurreto está
muito ativo em Sua ascensão. O fato de Cristo agora estar em
ascensão significa, não apenas que Ele está nos céus, mas também
que tem poder e autoridade. Em ascensão Ele tem todo o poder e
autoridade no universo. De acordo com Mateus 28:18, o Cristo
ressurreto disse aos discípulos: “Toda a autoridade Me foi dada no
céu e na terra”. Portanto, com tal autoridade e poder em ascensão, o
Senhor é muito ativo. Que Ele está fazendo? Como Aquele que
ascendeu, Ele leva a cabo a Sua propagação universal e eterna.
Quem consegue explicar por que a terra hoje está cheia de
cristãos? Por que há tantos crentes no mundo? Grandes homens
tentaram controlar a terra, mas falharam. Hitler, por exemplo,
tentou fazê-lo, mas por fim perdeu tudo. Dizem que Napoleão,
depois de derrotado, olhou para o céu e confessou que Jesus o havia
vencido. Ele admitiu que embora Jesus não tivesse lutado Ele havia
ganho tudo. O importante aqui é que toda a terra está nas mãos do
Invencível, e Ele realiza a Sua propagação.
Ao levar a cabo a Sua propagação, a principal obra do Cristo
ascendido não é lutar, mas principalmente propagar-Se pela terra.
Na restauração do Senhor temos pessoas de diversas cores: preta,
branca, marrom, amarela e vermelha. Todos somos parte da
propagação de Cristo. Fomos produzidos pelo Cristo ressurreto em
ascensão.

A PRODUÇÃO DAS IGREJAS, O REINO DE DEUS

Propagação é questão de produção. Propagar, portanto, é


produzir. A propagação do Cristo ressurreto em ascensão produz as
igrejas. Estas são o produto do Cristo ressurreto em ascensão.
Assim, elas são o produto da propagação de Cristo. A primeira
menção da palavra igreja em Atos está em 5:11. Depois disso, esse
livro fala muitas vezes sobre a igreja (8:1, 3; 9:31; 11:22, 26; 12:1, 5;
13:1; 14:23, 27; 15:3, 4, 22, 41; 16:5; 18:22; 20:17, 28).
As igrejas produzidas pelo Cristo ressurreto em Sua ascensão
são o reino de Deus. Não devemos seguir os ensinamentos dos que
afirmam que o reino de Deus não está presente hoje. De acordo com
esses ensinamentos, o reino teria sido interrompido e viria depois da
era da igreja. Em Atos vemos que as igrejas e o reino de Deus andam
juntos. Na verdade, as igrejas são o reino de Deus. Em Atos o reino
de Deus é primeiramente mencionado em 1:3, e então em vários
outros versículos (8:12; 14:22; 19:8; 20:25; 28:23, 31).
A esta altura devemos estar impressionados com o tema de
Atos, um livro que funciona como espinha dorsal do Novo
Testamento. Ele desvenda Cristo em Sua ascensão propagando-Se
para produzir as igrejas, que são o reino de Deus na terra hoje.
Depois de Atos, temos as Epístolas. Como a continuação de Atos, as
Epístolas aperfeiçoam os santos a fim de que as igrejas sejam
plenamente edificadas como Corpo de Cristo. A consumação do
aperfeiçoamento dos santos e da edificação das igrejas será a Nova
Jerusalém. Se virmos a posição que Atos ocupa no Novo
Testamento, perceberemos que esse livro, a espinha dorsal do Novo
Testamento, situa-se numa posição crucial.

UMA OBRA EM ASCENSÃO

Já enfatizamos que o tema de Atos é a propagação do Cristo


ressurreto em Sua ascensão, pelo Espírito, por meio dos discípulos,
para a produção das igrejas, o reino de Deus. Vimos algo a respeito
da propagação do Cristo ressurreto (2:24; 3:15; 5:30; 13:33). Agora
precisamos ver que essa propagação é levada a cabo pelo Senhor a
partir do trono nos céus. Isso quer dizer que a Sua obra de
propagação está em ascensão. Contudo muito da assim chamada
obra cristã hoje, não é em ascensão. Esperamos que a obra na
restauração do Senhor esteja em Sua ascensão. A ascensão é a
natureza e esfera da obra do Senhor na terra. Assim, tal obra hoje
deve ter natureza celestial e deve estar numa esfera celestial.
É em ascensão que Cristo Se propaga. Sabemos que a ascensão
veio após a morte e ressurreição. A obra de Cristo em ascensão
ocorre na natureza da ressurreição. Assim, essa obra não é natural;
nada tem do homem natural. Antes é da vida divina em ressurreição,
e é levada a cabo na atmosfera e condição da Sua ascensão. Onde
trabalhamos hoje? Todos deveríamos ser capazes de dizer que
trabalhamos na ascensão de Cristo.

PELO ESPÍRITO

A propagação do Cristo ressurreto em Sua ascensão é pelo


Espírito. A propagação não é por meio de nenhum artifício ou
técnica humana. Mas considere a situação entre os cristãos hoje,
com respeito à propagação de Cristo. Onde está a propagação pelo
Espírito? Em muitos casos, há muito pouco do Espírito, mas muito
uso de métodos e técnicas humanos. Por exemplo, alguns até mesmo
usam música rock ao pregar o evangelho. Precisamos perceber que a
propagação do Cristo ressurreto é pelo Espírito, especificamente,
pelo Espírito econômico. No livro de Atos vemos o Espírito
econômico que leva a cabo a propagação de Cristo.

POR MEIO DOS DISCÍPULOS

A propagação de Cristo é por meio dos discípulos. Quem são os


discípulos? Como veremos, os discípulos não são meramente
pregadores, e em Atos não são chamados de pregadores. Antes, são
testemunhas. Os discípulos do Senhor em Atos são testemunhas de
uma Pessoa maravilhosa, Aquele que foi concebido do Deus Espírito,
nasceu de uma virgem humana, viveu e ministrou na terra, entrou
na morte e a conquistou, e saiu do túmulo em ressurreição,
tornando-se o Espírito que dá vida. O Cristo ressurreto ascendeu aos
céus, onde está assentado no trono. Enquanto está ali assentado, Ele
está muito ativo e é agressivo ao fazer a obra de propagação. Os
discípulos são Suas testemunhas. É por isso que o Senhor disse com
respeito a eles: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém
como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (1:8).

PARA A PRODUÇÃO DAS IGREJAS

O Cristo ressurreto Se propaga em Sua ascensão por meio das


Suas testemunhas para a produção das igrejas. Isso mostra que as
igrejas não devem ser levantadas e estabelecidas meramente por
mãos humanas. A igreja em cada cidade deve ser produzida pela
propagação de Cristo. A igreja em cada cidade deve nascer de Cristo,
ser gerada pela propagação de Cristo em Sua vida divina e
ressurreta.

O REINO DE DEUS

As igrejas produzidas pela propagação de Cristo são o reino de


Deus. O reino de Deus é uma esfera de vida produzida pela
propagação de Cristo. Na realidade, o reino é a expansão do Cristo
ressurreto que está Se propagando. O Cristo ressurreto, que está Se
propagando em Sua ascensão, pelo Espírito, e por meio dos
discípulos, é a realidade do reino de Deus. O reino de Deus é a Sua
expansão.
Podemos usar o reino humano como ilustração do reino de
Deus, que é a expansão de Cristo. No início havia apenas um
homem, Adão. Então, ele começou a se expandir. O reino do homem
era um casal, que depois gerou filhos. Dessa forma o reino humano
se expandiu de um homem para uma faRm1ia. Agora, toda a raça
humana é parte do reino humano. O reino humano é simplesmente a
humanidade como expansão do homem, Adão. Com isso vemos que
o reino humano é a expansão do homem.
Que é o reino de Deus? É a expansão de Deus, cuja
corporificação é Cristo. Essa expansão de Cristo são as igrejas. As
igrejas são a expansão de Cristo, como Aquele que veio plantar-Se
como semente do reino de Deus. Isso é revelado nos quatro
Evangelhos. Nos Evangelhos, Cristo era a semente do reino. Em Atos
temos a propagação dessa semente para produzir as igrejas, que são
o reino de Deus.
Você sabe dizer quantos capítulos há no livro de Atos? Talvez
você fosse dizer que Atos, tem vinte e oito capítulos. Isso,
naturalmente, está correto. Contudo, também é verdadeiro dizer que
o livro de Atos ainda está sendo escrito, porque a propagação do
Cristo ressurreto continua acontecendo. Agora, Atos já deve ter
milhares de capítulos. Até mesmo hoje pode ter sido escrita parte de
um capítulo. Esse escrever é a propagação do Cristo ressurreto, e
essa propagação é a expansão de Cristo para ser o reino de Deus.
Nós, nas igrejas, somos a propagação e expansão de Cristo, e
estamos aumentando o reino de Deus.
Espero que todos consigam dizer qual é o tema do livro de
Atos: a propagação do Cristo ressurreto em Sua ascensão, pelo
Espírito, por meio dos discípulos, para a produção das igrejas, o
reino de Deus. Aqui, três palavras são sinônimos: propagação,
igrejas e reino. O reino são as igrejas, e as igrejas são a propagação
de Cristo.
Quanto mais ficarmos impressionados com o tema de Atos,
mais diremos: “Senhor, nós Te louvamos pois és Aquele que
ressuscitou e ascendeu. Nós Te louvamos pela Tua propagação.
Agradecemos-Te, Senhor, pois somos hoje a Tua propagação.
Agradecemos-Te porque estamos Contigo nos céus e porque as
igrejas são o reino de Deus”. Vamos declarar a todo o universo que o
Senhor Jesus está agora nos céus e, como Aquele que foi exaltado,
Ele agora Se propaga na terra por meio de nós, como as Suas
testemunhas.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 3
INTRODUÇÃO E A PREPARAÇÃO (1)

Leitura Bíblica: At 1:1-26

O livro de Atos tem três seções principais: a introdução (1:1-2),


a preparação (1:3-26), e a propagação (2:1―28:31). A introdução é
bem breve, consistindo apenas em dois versículos, e a preparação
abrange o restante do capítulo um. A seção que aborda a propagação
vai do capitulo dois até o vinte e oito. Essa seção talvez seja mais
longa de todos os sessenta e seis livros da Bíblia. Nesta mensagem
iremos considerar a introdução de Atos, e depois a preparação. Na
introdução, esse livro é-nos apresentado. Como veremos, a
preparação envolve algo, tanto do lado do Senhor como do lado dos
discípulos.

INTRODUÇÃO

Por Lucas

Atos 1:1-2 diz “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando


todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em
que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito
Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas”.
No versículo 1 o sujeito de escrevi é Lucas, o autor de Atos. A
igreja primitiva o reconhecia como autor tanto do Evangelho de
Lucas (Lc 1:3) como de Atos. A autoria de Lucas é evidente pelo
estilo de redação dos dois livros. Lucas era um gentio (Cl 4:14), e
provavelmente um grego da Ásia, e médico. Desde Trôade, ele
juntou-se a Paulo em seu ministério e o acompanhou em suas três
últimas viagens ministeriais (At 16:10-17; 20:5―21:18; 27:1―28:15).
Foi companheiro fiel de Paulo até o seu martírio (Fm 24; 2Tm 4:11).

A Teófilo
Tanto o Evangelho de Lucas como o livro de Atos foram
escritos para uma pessoa chamada Teófilo.
Esse nome em grego significa “amado por Deus”, ou “amigo de
Deus”. Provavelmente era um crente gentio que ocupava alguma
posição oficial no Império Romano.

A Continuação do Evangelho de Lucas

Atos é a continuação do Evangelho de Lucas. Isso pode ser


provado comparando 1:1-2 com Lucas 1:1-4.
As palavras “primeiro livro” em Atos 1:1 se referem ao
Evangelho de Lucas como uma “narração (...) de modo ordenado”
(Lc 1:3) escrito por Lucas a Teófilo.
Atos 1:2 diz que o Senhor Jesus deu “mandamentos por
intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera”. O Cristo
ressurreto tornou-se o Espírito que dá vida (1Co 15:45), contudo,
ainda em ressurreição, fez coisas por meio do Espírito Santo
(Jo 20:22).

A PREPARAÇÃO

O Treinamento do Senhor para os Discípulos Conforme já


comentamos, 1:3-26 diz respeito à preparação, tanto do lado do
Senhor como do lado dos discípulos. Nessa seção vemos que Cristo
preparou os discípulos em Sua ressurreição (vs. 3-8). Ele lhes falou
coisas a respeito do reino de Deus (v. 3) e ordenou-lhes que
esperassem pelo batismo no Espírito Santo (vs. 4-8). Depois da
ascensão de Cristo, nos versículos 9 a 11, temos a preparação dos
discípulos (vs. 12-26). Os discípulos perseveraram em oração (vs. 12-
14) e então escolheram Matias (vs. 15-26).
Antes de subir para o céu para executar a propagação em
ascensão, o Senhor fez algo mais para preparar os discípulos.
Embora tivessem estado com Ele por três anos e meio, ainda não
tinham sido totalmente preparados. Com isso podemos ver que não
podemos fazer um trabalho rápido ao aperfeiçoar os santos na
restauração do Senhor.
Podemos dizer que os três anos e meio que o Senhor Jesus
despendeu com os discípulos equivaleram aproximadamente a um
curso superior, que geralmente dura quatro anos. Talvez você se
pergunte sobre o último semestre do “curso superior” dos discípulos.
Ele aconteceu depois da ressurreição do Senhor.
Através dos séculos, as pessoas aprenderam que para ser
adequadamente educada, uma pessoa precisa passar pelo jardim da
infância, ensino fundamental, ensino médio e quatro anos de
faculdade. Todos os anos, desde o jardim da infância até o ensino
médio são uma preparação para os anos de faculdade. Podemos
aplicar esse princípio à Bíblia e encontrar nas Escrituras vários
níveis de educação espiritual. No Antigo Testamento vamos desde o
“jardim da infância” em Gênesis até o “ensino médio” nos Salmos e
profetas. No meio temos as “séries iniciais do ensino fundamental”
iniciando em Êxodo, e as “séries finais do ensino fundamental” nos
livros históricos. Chegando ao Novo Testamento podemos dizer que
os Evangelhos estão num nível “universitário” e as Epístolas em
nível de “pós-graduação”.
O Senhor Jesus despendeu três anos e meio com os discípulos
para dar-lhes uma “educação superior”.
Embora Pedro, André, Tiago e João fossem pescadores, o
chamamento do Senhor os elevou e fez deles “universitários”.
Gamaliel, no entanto, permaneceu no “ensino médio” do Antigo
Testamento. Como “professor” e também como “reitor”, o Senhor
Jesus primeiramente despendeu três anos e meio com os “alunos”. A
conclusão da “educação” deles foi feita em Sua ressurreição. Isso
quer dizer que Ele conseguiu levar a cabo três anos e meio de
educação com os discípulos, quando estava em carne. Depois, em
ressurreição Ele completou o curso deles.

A Nossa Necessidade de Iluminação Celestial

Precisamos ler a Bíblia repetidas vezes. Isso quer dizer que


precisamos conhecer a Palavra escrita e ser enchidos dela. Então
precisamos orar: “Senhor, mostra-me o que queres falar em todos os
livros do Novo Testamento”. Se você orar assim, a luz virá,
gradualmente.
A fim de se ter um entendimento mais preciso das palavras no
Novo Testamento, é bom aprender grego. Contudo, jamais devemos
pensar que para conhecer a Bíblia é suficiente ter um excelente
conhecimento do grego. Alguém pode ter um conhecimento
profundo de cada palavra grega do Novo Testamento, mas ainda ser
espiritualmente cego e não saber nada do que ali está revelado.
Mesmo se tivermos o conhecimento do grego, ainda necessitamos da
iluminação celestial para ver a revelação divina no Novo
Testamento.
Hoje estamos lutando contra a cegueira espiritual. Muitos têm
doutorado em grego, mas, espiritualmente falando, estão totalmente
cegos. Conhecem o grego do Novo Testamento do ponto de vista
acadêmico, mas não sabem o que o Senhor está falando no Novo
Testamento. Não importa quantos títulos tenhamos ou quão grande
seja a nossa erudição, ainda precisamos humilhar-nos e dizer:
“Senhor, nada sei e nada sou. Mostra-me a Tua revelação”. Se orar
dessa forma, a revelação do Senhor virá a você.

O Caso de Pedro

Nos Evangelhos o Senhor gastou três anos e meio com os


discípulos. Nesses anos Ele foi muito paciente com eles. Podemos
dizer que Ele estava “tocando música celestial” para os discípulos;
contudo, eles não eram capazes de apreciá-la. Vemos isso
especialmente no caso de Pedro.
Cheio de paciência e compaixão, o Senhor Jesus fez o que pôde
com Pedro. Em Mateus 16 Pedro teve uma visão celestial e declarou:
“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v. 16). O Senhor respondeu e
lhe disse: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi
carne e sangue quem to revelou, mas Meu Pai que está nos céus” (v.
17). Depois que falou sobre a igreja e o reino, o Senhor prosseguiu
mostrando aos discípulos “que Lhe era necessário ir a Jerusalém e
sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos
escribas, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar” (v. 21). Mas Pedro
começou a repreendê-Lo dizendo: “Deus tenha compaixão de Ti,
Senhor; isso de modo algum Te acontecerá” (v. 22). O Senhor então,
voltando-se, disse a Pedro: “Para trás de Mim, Satanás! Tu és para
Mim pedra de tropeço, porque não cogitas nas coisas de Deus, e,
sim, nas dos homens” (v. 23).
Podemos ficar com pena de Pedro ao ler o relato em Mateus
16. Embora ele fosse uma lástima, o Senhor não desistiu dele. Pedro
não era um desistente da “faculdade” do Senhor. Como reitor dessa
universidade, o Senhor pacientemente manteve Pedro Consigo.
O Senhor Jesus foi paciente até mesmo quando Pedro O
negou. Na noite em que o Senhor foi traído, Pedro Lhe disse: “Ainda
que todos venham a tropeçar por Tua causa, eu jamais tropeçarei”
(Mt 26:33). O Senhor lhe disse: “Em verdade te digo que, nesta
noite, antes que o galo cante, tu Me negarás três vezes” (v. 34). Mais
tarde, Pedro realmente O negou três vezes. Contudo, o Senhor não
ficou desapontado, pois a experiência que Pedro teve fazia parte do
“curso superior”.
Por fim, Pedro recebeu o entendimento da “música celestial”
que o Senhor Jesus “tocava”. Ele não recebeu esse entendimento nos
três anos e meio que esteve com o Senhor, mas depois que o Senhor
foi transfigurado de carne para Espírito. Enquanto estava em carne,
Ele não teve sucesso total em ensinar Pedro, porque não podia
entrar nele. Ele, naturalmente, tinha meios de corrigir e ajustar
Pedro, mas não tinha como regenerá-lo, recriá-lo e habitar nele. Em
outras palavras, em Sua carne o Senhor Jesus não tinha como Se
propagar em Pedro e nos outros discípulos. O Senhor Se propaga
infundindo-Se nos outros como vida.

O Cristo Ressurreto Insuflou-Se nos Discípulos

O Senhor Jesus sabia, enquanto conduzia os discípulos no


“curso superior”, que era necessário entrar neles. Naturalmente,
enquanto estava em carne, Ele não podia estar nos discípulos.
Assim, no Evangelho de João Ele mostrou-lhes que era necessário
que Ele morresse e então fosse ressuscitado. Em ressurreição, então,
Ele poderia entrar neles como vida e permanecer neles como a
pessoa deles e assim Se propagar.
Depois da Sua ressurreição, o Senhor Jesus voltou aos
discípulos como o Espírito que dá vida e insuflou-Se neles
(Jo 20:22). Em vez de ensinar-lhes ou dar-lhes uma preleção, Ele Se
insuflou neles. Isso foi a iniciação da última parte do seu “curso
universitário” de quatro anos. O fato de o Senhor insuflar-Se nos
discípulos era a Sua propagação neles como vida.

Apareceu aos Discípulos por Quarenta Dias

Depois que Se insuflou nos discípulos, o Senhor permaneceu


com eles economicamente por quarenta dias. Com respeito a isso
Atos 1:3 diz: “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou
vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante
quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus”. O
fato de o Senhor apresentar-se vivo visava treinar os discípulos a
praticar e desfrutar a Sua presença invisível. No Evangelho de João
não há nenhuma palavra ou indicação de que o Senhor os tivesse
deixado depois de insuflar-Se neles. Na verdade, Ele permaneceu
com eles, embora não estivessem cônscios da Sua presença. As vezes
em que Ele lhes apareceu depois disso foram a Sua manifestação.
Antes da morte, a presença do Senhor era visível, em carne. Depois
da ressurreição, a Sua presença era invisível, no Espírito. As Suas
manifestações, ou aparições, depois da ressurreição, visavam treinar
os discípulos a perceber, desfrutar e praticar a Sua presença
invisível, que é mais acessível, mais prevalecente, preciosa, rica e
real do que a Sua presença visível. A presença invisível do Senhor é
simplesmente o Espírito em Sua ressurreição, que Ele insuflou nos
discípulos e que estaria com eles todo o tempo.
Depois que o Senhor Se insuflou nos discípulos, Ele,
essencialmente, nunca mais os deixou. Contudo, economicamente,
Ele aparecia e desaparecia, a fim de treiná-los, para terminar o
último semestre da educação deles. Com respeito a isso, não
devemos falar de Sua ida e volta, e, sim, que Ele aparecia e Se
ocultava.
O Senhor Jesus apareceu aos discípulos por quarenta dias. Na
Bíblia, quarenta dias é um tempo de juízo e prova. Sabemos, pelo
Antigo Testamento, que quarenta dias era um período de prova e
sofrimento (Dt 9:9, 18; 1Rs 19:8). Quando o Senhor Jesus foi
impelido ao deserto pelo Espírito, a fim de ser tentado pelo diabo,
Ele jejuou quarenta dias e quarenta noites (Mt 4:1-2). Também os
filhos de Israel foram testados, provados, por Deus no deserto por
quarenta anos. Assim, quarenta significa teste, prova, educação. Em
Atos 1 o Senhor aparecia e desaparecia por quarenta dias a fim de
provar e treinar os discípulos.
Desde o tempo em que Ele Se insuflou como o Espírito nos
discípulos, no dia da ressurreição, o Cristo ressurreto habitava neles.
O Seu aparecimento, mencionado em Atos 1:3 não significa que Ele
alguma vez os tenha deixado. Mas, simplesmente significa que Ele
tornou a Sua presença visível a eles, treinando-os a perceber e
desfrutar continuamente a Sua presença invisível.
Os discípulos se haviam acostumado com a presença visível de
Cristo. Por três anos e meio Ele esteve com eles visivelmente em
carne. Eles O viam, tocavam e comiam com Ele. Um deles até
mesmo reclinava no Seu peito (Jo 13:23). De repente, a Sua presença
foi tirada. Aí Ele voltou aos discípulos para insuflar-Se neles. Daí em
diante a Sua presença com os discípulos se tornou invisível. Não era
mais uma presença física, mas espiritual.
Embora a presença espiritual do Senhor seja invisível, ela é
mais real e vital do que a Sua presença visível, pois esta envolvia os
elementos de espaço e tempo. Mas, no que diz respeito à Sua
presença invisível, não há nem o elemento de espaço nem o de
tempo; ela está em toda parte. Onde quer que estejamos, a presença
invisível do Senhor está conosco. Na verdade, ela não está
meramente conosco, mas em nós. Quando o Senhor estava com os
discípulos em carne, a Sua presença com eles era exterior e visível.
Mas, depois que Ele Se insuflou neles como o Espírito que dá vida,
ela se tornou interior e invisível.
Como os discípulos não estavam acostumados à presença
invisível do Senhor, Ele permaneceu com eles economicamente por
quarenta dias, aparecendo e desaparecendo. Dessa maneira, Ele os
treinou a praticar e desfrutar a Sua presença invisível.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 4
INTRODUÇÃO E A PREPARAÇÃO (2)

Leitura Bíblica: At 1:1-26

Vimos que 1:1-2 é a introdução ao livro de Atos. E em 1:3-26


temos a preparação tanto da parte do Senhor como da parte dos
discípulos. Nesta mensagem continuaremos a considerar a
preparação dos discípulos realizada por Cristo em ressurreição.

FALA AOS DISCÍPULOS COM RESPEITO AO REINO DE


DEUS

Atos 1:3 diz: “A estes também, depois de ter padecido, se


apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes
durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de
Deus”. Aqui vemos que, por quarenta dias, o Senhor falou aos
discípulos com respeito ao reino de Deus. Que disse o Senhor a esse
respeito então? Lucas não nos diz. Em vez de nos dar um relato
completo do que o Senhor ensinou aos discípulos com respeito ao
reino, Lucas simplesmente diz que Ele lhes falou sobre o reino de
Deus por quarenta dias.
Embora não nos seja dito em Atos o que o Senhor falou com
respeito ao reino, podemos inferir o que Ele disse, considerando
outros trechos da Palavra. Nos Evangelhos Ele lhes ensinou bastante
a respeito do reino. Duvido que lhes tenha dado algo novo a respeito
do reino nos quarenta dias depois da ressurreição. Creio que repetiu
o que lhes tinha ensinado nos Evangelhos. Quando Ele falou a
respeito do reino nos Evangelhos, os discípulos não foram capazes
de entender o que Ele, como “professor”, lhes ensinava. Por isso,
creio que Ele repetiu o Seu ensinamento nos quarenta dias entre a
ressurreição e a ascensão.
Se quisermos saber, ou pelo menos inferir, o que o Senhor lhes
ensinou com respeito ao reino nesses quarenta dias, precisamos ler
novamente tudo o que Ele disse sobre o reino nos Evangelhos. É
provável que o ensinamento nesses quarenta dias tenha sido igual ao
que é registrado nos Evangelhos.

A Necessidade de Visão Espiritual

Quando falou aos discípulos sobre o reino, antes de morrer e


ressuscitar, o Senhor ainda não estava neles, pois ainda estava em
carne. Como ainda não estava nos discípulos naquele tempo, eles
não tinham a visão espiritual para entender o reino de Deus.
Conhecer o reino de Deus requer percepção ou visão espiritual.
Sem visão espiritual, é impossível conhecer o reino de Deus. Os que
têm falta de percepção espiritual podem pensar que entrar no reino
de Deus é ir para o céu. Em geral, esse é o conceito natural do
homem caído com respeito ao reino de Deus.
Nos Evangelhos, os discípulos não tinham visão para entender
o reino de Deus. Mas em João 20 eles receberam a Pessoa
maravilhosa do Cristo ressurreto como Espírito que dá vida. Como
resultado, em Atos 1 eles eram bem diferentes. Por um lado, eram as
mesmas pessoas, por outro, eram diferentes, porque Cristo, o
Espírito que dá vida, estava neles como a vida e pessoa deles. Por
terem em si o Espírito que dá vida, foram capazes de entender o que
o Senhor falou com respeito ao reino de Deus.

Um Reino da Vida Divina

A esta altura precisamos fazer uma pergunta importante: Que


é o reino de Deus? Não é um reino físico, visível aos olhos humanos;
é o reino da vida divina; é a difusão de Cristo como vida em Seus
crentes para formar uma esfera na qual Deus governa em Sua vida.
O fato de o reino ser mencionado em 1:3 indica que ele será o
assunto principal da pregação dos apóstolos em sua comissão
posterior, depois do Pentecostes (8:12; 14:22; 19:8; 20:25; 28:23,
31).
O reino de Deus é o governar, o reinar, de Deus com todas as
suas bênçãos e desfrute. Ele é o alvo do evangelho de Deus e de
Jesus Cristo. Para entrar nele as pessoas precisam arrepender-se dos
pecados e crer no evangelho (Mc 1:15) para que os seus pecados
sejam perdoados e elas possam ser regeneradas por Deus para ter a
vida divina, que está de acordo com a natureza divina desse reino
(Jo 3:3, 5).
Todos os crentes em Cristo podem partilhar o reino na era da
igreja para desfrutar Deus em Sua justiça, paz e alegria no Espírito
Santo (Rm 14:17). Esse reino se tornará o reino de Cristo e de Deus
para que os crentes vencedores herdem e desfrutem na era vindoura
do reino (1Co 6:9-10; Gl 5:21; Ef 5:5), a fim de que reinem com
Cristo mil anos (Ap 20:4, 6). Então, como o reino eterno, ele será a
bênção eterna da vida eterna de Deus para que todos os redimidos
de Deus desfrutem no novo céu e nova terra pela eternidade
(Ap 21:14; 22:1-5, 14, 17).
O reino de Deus é a realidade da igreja produzida pela vida de
ressurreição de Cristo por meio do evangelho (1Co 4:15). A
regeneração é a entrada (Jo 3:5), e o crescimento da vida divina nos
crentes é o desenvolvimento do reino (2Pe 1:3-11).
O reino de Deus é o próprio Salvador (Lc 17:21) como a
semente do reino plantada nos crentes, os escolhidos de Deus
(Mc 4:3, 26), que se desenvolve numa esfera, que Deus pode
governar como o Seu reino, em Sua vida divina. Vimos que a entrada
para o reino é a regeneração e o seu desenvolvimento é o
crescimento dos crentes na vida divina. O reino de Deus é a vida da
igreja hoje, na qual os crentes fiéis vivem (Rm 14:17), e se tornará o
reino vindouro como galardão (Gl 5:21; Ef 5:5) que os santos
vencedores herdarão no milênio. Por fim, ele culminará na Nova
Jerusalém como reino eterno de Deus e a esfera eterna da bênção
eterna da vida eterna de Deus, para que todos os redimidos de Deus
desfrutem no novo céu e nova terra pela eternidade.
Enfatizamos que o reino de Deus é o reino da vida divina.
Podemos usar o reino humano como ilustração. Assim como a
humanidade é o reino da vida humana, o reino de Deus é o reino da
vida divina. Se não fôssemos seres humanos, não conseguiríamos
entender o reino da vida humana. Os cães, por exemplo, não
conseguem entender o reino humano, porque não têm a vida
humana. Mas se um cão pudesse receber a vida humana, seria capaz
de entender o reino humano. De forma semelhante, conhecemos o
reino de Deus por meio da vida divina, pois é o reino da vida divina.

A Difusão de Cristo como Vida

Como os que receberam a vida divina, não apenas sabemos o


que é o reino de Deus, mas também nos tornamos parte dele. Se um
cão pudesse nascer com a vida humana e assim se tornar ser
humano, ele automaticamente se tornaria parte do reino humano.
Você não tem a vida divina? Sim, você a tem e, por tê-la, você é parte
do reino de Deus. Embora consigamos entender essas questões, é
impossível explicá-las a pessoas não regeneradas.
O reino de Deus é a expansão de Cristo como vida para os
crentes. Essa expansão é a propagação de Cristo como vida para os
crentes a fim de formar uma esfera na qual Deus governa em Sua
vida. Ao preparar os discípulos, o Senhor deve tê-los ajudado a ter a
percepção adequada com respeito ao reino de Deus. Eles devem ter
começado a ver que eram parte da propagação, da expansão, de
Cristo e, dessa forma, parte do reino de Deus.

ORDENA AOS DISCÍPULOS QUE AGUARDEM A


PROMESSA DO PAI

Em Atos 1:4-8 Ele ordenou aos discípulos que aguardassem o


batismo no Espírito Santo. O versículo 4 diz: “E, comendo com eles,
determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que
esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes”.
Essa promessa e a de Lucas 24:49 são diferentes da promessa em
João 14:17. A promessa em Atos 1:4 e Lucas 24:49 é a promessa de
Joel 2:28-29, cumprida no dia de Pentecostes (At 2:1-4, 16-18), com
vistas ao derramamento de poder do alto, economicamente, para o
ministério dos crentes. É diferente do Espírito de vida, insuflado nos
discípulos (Jo 20:22) pelo Salvador ressurreto no dia da ressurreição
com vistas ao Seu habitar interior, para ser vida para eles
essencialmente. A promessa do Senhor em João 14:17 foi cumprida
no dia da Sua ressurreição, quando o Espírito foi insuflado nos
discípulos como fôlego de vida. Todavia, a promessa do Pai em
Lucas 24:49 e Atos 1:4 foi cumprida quarenta dias depois, no dia de
Pentecostes, quando o Espírito, como vento impetuoso, soprou
sobre os discípulos.
É importante fazer a diferença entre a promessa feita pelo
Senhor em João 14:17 e a feita pelo Pai em Joel 2:28-29. Muitos
leitores da Bíblia confundem essas duas promessas. A promessa feita
por Deus Pai em Joel 2, e mencionada pelo Senhor Jesus em Lucas
24 e Atos 1, nada tem a ver com a promessa feita pelo Senhor em
João 14. Em Atos 1:4 o Senhor parecia estar dizendo: “Já lhes falei a
respeito da promessa de Meu Pai. Agora vocês precisam aguardar
em Jerusalém o cumprimento dessa promessa”.
Em Atos 1:5 o Senhor prosseguiu: “Porque João, na verdade,
batizou com (ou em) água, mas vós sereis batizados com (ou em) o
Espírito Santo, não muito depois destes dias”. Isso se cumpriria em
duas etapas.
Primeiro, os crentes judeus foram batizados no Espírito Santo
no dia de Pentecostes (2:4). Segundo, os crentes gentios foram
batizados na casa de Cornélio (10:44-47; 11:15-17). Nessas duas
etapas todos os crentes autênticos em Cristo foram batizados no
Espírito Santo em um só Corpo, uma vez por todas, universalmente
(1Co 12:13).

A PERGUNTA DOS DISCÍPULOS COM RESPEITO À


RESTAURAÇÃO DO REINO DE ISRAEL

No versículo 6 lemos: “Então, os que estavam reunidos lhe


perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a
Israel?” O reino de Israel, que os apóstolos e outros judeus devotos
buscavam, era material. Ele difere do reino divino de vida, que
Cristo está edificando por meio da pregação do Seu evangelho.
Ao fazer a pergunta mencionada no versículo 6, os discípulos
aparentemente se esqueciam da vida divina que estava neles. O
conceito deles se relacionava à restauração do reino de Israel. Esse
conceito tradicional estava na mente de todos os judeus. Pedro,
João, Tiago e os demais tinham o conceito de que o reino de Israel
seria restaurado. Dia a dia esperavam a restauração do reino de
Israel. Contudo, em 1:3 é-nos dito que o Senhor não lhes falou sobre
o reino de Israel, e, sim, sobre o reino de Deus.
Embora o Senhor lhes falasse do reino de Deus por quarenta
dias, talvez eles se importassem mais com o reino de Israel do que
com o reino de Deus. O coração deles devia estar ocupado com o
reino de Israel. O Senhor também lhes falou sobre o batismo no
Espírito Santo. Tanto o reino de Deus como o batismo no Espírito
Santo são questões relacionadas à economia neotestamentária de
Deus. Entretanto, como indica a pergunta deles no versículo 6, até
esse momento eles ainda não tinham compreensão adequada dessas
coisas.
Em resposta à pergunta dos discípulos, o Senhor lhes disse:
“Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou
pela sua exclusiva autoridade” (v. 7). Aqui Ele parecia dizer:
“Deixem a restauração do reino de Israel para a soberania de Deus.
Esqueçam o reino de Israel e recebam a Minha palavra com respeito
ao reino de Deus e ao batismo no Espírito Santo”.

O ESPÍRITO SANTO SOBRE NÓS

Em 1:8 o Senhor prossegue: “Mas recebereis poder, ao descer


sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da
terra”. Receber poder é ser batizado no Espírito Santo (v. 5) para o
cumprimento da promessa do Pai (v. 4).
Ter o Espírito Santo sobre nós é diferente de tê-Lo em nós
(Jo 14:17). Ele foi insuflado nos discípulos no dia da ressurreição do
Senhor para ser-lhes o Espírito de vida essencialmente. O mesmo
Espírito Santo veio sobre eles no dia de Pentecostes para ser o
Espírito de poder economicamente. Quanto ao Espírito de vida,
precisamos inalá-Lo como fôlego. Quanto ao Espírito de poder,
precisamos vesti-Lo como o uniforme, prefigurado pelo manto de
Elias (2Rs 2:9, 13-15). O primeiro, como água da vida, é preciso
beber (Jo 7:37-39); no segundo, como na água do batismo, é preciso
imergir. Esses são os dois aspectos do único Espírito para a nossa
experiência (1Co 12:13). O Espírito da vida habita em nós
essencialmente para a nossa vida e viver; o Espírito de poder é
derramado sobre nós economicamente para o nosso ministério e
obra.

TESTEMUNHAS DE CRISTO

Literalmente, o termo grego para testemunhas em Atos 1:8


significa mártires. Testemunhas são as que dão testemunho vivo do
Cristo ressurreto e ascendido, em vida. Diferem dos pregadores, que
só pregam doutrinas na letra.
Na encarnação Cristo executou o Seu ministério terreno,
registrado nos Evangelhos, sozinho, semeando-Se como semente do
reino de Deus, apenas no território judaico. Em ascensão Ele executa
o Seu ministério nos céus, como registra Atos, por meio dessas
testemunhas, ou mártires, em Sua vida ressurreta e com o Seu poder
e autoridade de ascensão para Se espalhar como o desenvolvimento
do reino de Deus desde Jerusalém, como o início, até os confins da
terra, como a consumação do Seu ministério neotestamentário. Era
desse modo que todos os apóstolos e discípulos em Atos eram os
Seus mártires, ou testemunhas.

OS DISCÍPULOS PRECISAVAM DE UMA


TRANSFERÊNCIA DISPENSACIONAL

No versículo 8 o Senhor lhes indicou que eles precisavam


importar-se com a vinda do Espírito Santo sobre eles e então ser as
Suas testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da
terra. Os discípulos, porém, estavam ocupados com o conceito
tradicional a respeito de Israel, Moisés e guardar a lei. Aqui, em
resumo, o Senhor lhes dizia que necessitavam de uma grande
transferência, uma transferência dispensacional. É como se lhes
dissesse: “Vocês, discípulos, precisam ser transferidos de
dispensação, transferidos economicamente do Antigo para o Novo
Testamento, do reino de Israel para o reino de Deus, que é a igreja.
Esqueçam-se de Israel e importem-se com a igreja. Vocês também
precisam ser transferidos da lei para Cristo, isto é, para Mim. Em vez
da lei e de Moisés, vocês têm a Mim. Não sejam mais os que
guardam a lei; mas sejam as minhas testemunhas vivas,
testemunhas vivas do Cristo ressurreto. Eu é que falo com vocês, e
não Moisés. A lei por acaso está com vocês de forma tão viva como
Eu? Estou aqui como Aquele que vive, que ressuscitou. Vocês
estiveram comigo por três anos e meio. Então viram a Minha morte
e sepultamento. Vocês até mesmo viram o Meu túmulo vazio. Então
Me viram em ressurreição. Neste exato momento estou aqui com
vocês em ressurreição. Esqueçam-se de Moisés e da lei. Não sejam
os que guardam a lei; sejam Minhas testemunhas vivas”.
Os discípulos podem ter tido dificuldades para entender que
precisavam ser transferidos de dispensação. Muitos cristãos têm
esse problema hoje. Quando leem esse trecho da Palavra não veem a
questão da transferência econômica. Muitos de nós também
precisam de tal transferência. Embora possa ter sido salvo há anos,
você alguma vez considerou como ser testemunha viva de Cristo?
Duvido que muitos crentes tenham pensado nisso. Antes, muitos
tentam guardar os mandamentos no Novo Testamento. Desejam
guardar mandamentos como os que guardavam a lei, mas
provavelmente não têm o conceito de que devem ser testemunhas do
Senhor Jesus. Por isso, precisam de uma transferência de
dispensação.
Embora sejamos o povo do Novo Testamento, ainda podemos
ter um conceito do Antigo Testamento. Precisamos ser transferidos
para o conceito da economia neotestamentária. Isso quer dizer que
necessitamos ser transferidos da lei para Cristo, de guardar a lei para
ser testemunhas de Jesus. Espero que o Espírito de revelação lhe
mostre que você necessita dessa transferência. A palavra do Senhor,
indicando a necessidade de transferência de dispensação, também
foi parte de Sua preparação para os discípulos.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 5
INTRODUÇÃO E A PREPARAÇÃO (3)

Leitura Bíblica: At 1:1-26

Atos 1:3-26 é uma seção a respeito de preparação. Como


vimos, em 1:3-8 temos Cristo preparando os discípulos em Sua
ressurreição. Agora prosseguiremos considerando a ascensão de
Cristo (vs. 9-11) e a preparação dos discípulos (vs. 12-26).

A ASCENSÃO DE CRISTO

Atos 1:9 diz: “Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas,
à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos”. O Evangelho
de Lucas termina com a ascensão do Senhor ao céu (Lc 24:51) e Atos
começa com ela. O Evangelho de Lucas é uma narrativa do
ministério terreno do Jesus encarnado. Em Atos, Lucas registra o
ministério subsequente do Cristo ressurreto e ascendido no céu,
levado a cabo por meio dos Seus crentes na terra. Nos Evangelhos, o
ministério do Senhor na terra, levado a cabo por Ele mesmo, apenas
semeou a Si mesmo, como a semente do reino de Deus, em Seus
crentes, sem haver ainda uma igreja edificada. Em Atos, o ministério
do Senhor qo céu, levado a cabo por meio dos Seus crentes em Sua
ressurreição e ascensão, espalha-O como o desenvolvimento do
reino de Deus para a edificação da igreja (Mt 16:18) por todo o
mundo, para constituir o Seu Corpo, a Sua plenitude (Ef 1:23), para
expressá-Lo, até a plenitude de Deus (3:19) com vistas à expressão
de Deus.
Em Atos 1:10-11 lemos: “E, estando eles com os olhos fitos no
céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se
puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, por que
estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto
ao céu virá do modo como o vistes subir”. A ascensão do Senhor
aponta para a Sua volta. Entre a ascensão e a volta há a dispensação
da graça para que Ele, como o Cristo pneumático, o Espírito que dá
vida (1Co 15:45), aplique a Sua redenção todo-inclusiva aos
escolhidos de Deus para a sua plena salvação, a fim de produzir e
edificar a igreja, como Seu Corpo, para o estabelecimento do Reino
de Deus na terra.
A visão da ascensão de Cristo ao céu fortaleceu a fé dos
discípulos Nele e no que Ele tinha feito por eles por meio da morte e
ressurreição. Isso alargou a visão deles da economia divina celestial,
que os levou a cooperar com o ministério de Cristo nos céus para a
execução da economia neotestamentária de Deus na terra.
Depois que o Senhor Jesus falou aos discípulos por quarenta
dias com respeito ao reino de Deus, Ele foi elevado ao céu diante
deles visivelmente Ele ascendeu fisicamente bem diante dos olhos
deles. Podemos dizer que isso também foi parte da “educação” que o
Senhor deu a eles.
Os discípulos devem ter ficado profundamente impressionados
e muito empolgados quando testemunharam a ascensão de Cristo.
Ao vê-Lo ascender, certamente não estavam chorando. Pelo
contrário, deviam estar contentes, percebendo que viam algo
maravilhoso.
Enquanto os discípulos olhavam atentamente para o céu, dois
homens vestidos de branco se puseram ao lado deles. Esses dois
homens, que na verdade eram anjos, perguntaram-lhes por que
estavam olhando para as alturas. Então, os anjos também disseram
que Esse mesmo Jesus que dentre eles foi assunto ao céu voltaria do
modo como O viram subir. Isso indica que, assim como o Senhor
Jesus ascendeu fisicamente, Ele também voltará fisicamente. Cristo
ascendeu ao céu por meio de uma nuvem, visível ao olho humano, e
voltará numa nuvem (Mt 24:30). Além disso, Ele ascendeu do cume
do Monte Olival (At 1:12), e voltará ao mesmo monte (Zc 14:4). Nós
cremos categoricamente que, em Sua volta, o Senhor Jesus colocará
os pés sobre o Monte Olival.

A PREPARAÇÃO DOS DISCÍPULOS

Voltaram para Jerusalém


Depois de testemunhar a ascensão do Senhor, os discípulos
“voltaram para Jerusalém, do monte chamado Olival, que dista
daquela cidade tanto como a jornada de um sábado” (v. 12). Os
discípulos voltaram a Jerusalém para guardar as palavras do Senhor
em Lucas 24:49 e Atos 1:4, para que pudessem receber o Espírito de
poder economicamente como fora prometido pelo Pai. Todos eram
galileus (v. 11). Ao ficar em Jerusalém, especialmente sob a ameaça
dos líderes judeus, eles estavam arriscando a vida.
O versículo 12 diz que Jerusalém distava do Monte Olival como
a jornada de um sábado. De acordo com a tradição judaica, a jornada
de um sábado equivale a aproximadamente mil e duzentos metros.

Perseveraram em Oração

Em Atos 1:13-14 lemos: “Quando ali entraram, subiram para o


cenáculo onde se reuniram Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé,
Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas,
filho de Tiago. Todos estes perseveravam unânimes em oração, com
as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele”. Aqui
Maria é mencionada pela última vez no Novo Testamento.
Antes da morte do Senhor, os discípulos não tinham interesse
em orar por assuntos espirituais (Lc 22:40, 45-46); antes,
contendiam entre si no tocante a quem era maior (v. 24). Depois da
ressurreição e ascensão do Senhor, a condição espiritual deles
mudou radicalmente. Já não contendiam entre si, mas tinham
encargo de perseverar unânimes em oração, mesmo antes do dia de
Pentecostes, quando receberiam o derramamento do Espírito de
poder economicamente (At 2). Esse é um sinal claro que comprova
que no dia da ressurreição do Senhor haviam recebido
essencialmente o Espírito interior de vida (Jo 20:22). Isso também
demonstra que estavam fortalecidos na economia neotestamentária
de Deus por haver visto a ascensão do Senhor.
Em 1:14 é-nos dito que os discípulos, juntamente com as
mulheres, Maria, e os irmãos do Senhor, perseveravam unânimes
em oração. As palavras gregas traduzi das como “unânimes” também
podem ser traduzidas “com uma só mente”.
É provável que os discípulos em sua oração haviam pedido
para ser revestidos do Espírito de poder, conforme a promessa do
Pai, para o qual o Senhor lhes havia mandado que permanecessem
em Jerusalém (Lc 24:49; At 1:4), e quem sabe também haviam orado
pela comissão que o Senhor lhes havia dado em Lucas 24:47-48 e
Atos 1:8 acerca de levar Seu testemunho até os confins da terra.
Deus queria derramar Seu Espírito para que a Sua economia
neotestamentária fosse levada a cabo, pois havia prometido fazê-lo.
Ele ainda necessitava que os Seus escolhidos orassem por isso. a
Deus que está nos céus necessita de homens na terra que cooperem
com Ele na realização de Seus planos. A oração dos cento e vinte
discípulos que durou dez dias satisfez essa necessidade de Deus.
Os discípulos deviam estar muito contentes e empolgados ao
se reunir para orar no aposento superior. Podemos inferir que, ao
perseverar em oração, eles oraram pelo derramamento do Espírito
Santo. Creio que naqueles dez dias eles oraram pelo batismo do
Espírito Santo.
O Cristo ressurreto tinha voltado aos discípulos e Se tinha
insuflado neles como o Espírito que dá vida, para ser a vida e a
pessoa deles. Então, por quarenta dias com eles, o Cristo ressurreto
aparecia e desaparecia. Nesses dias Ele os ensinou com respeito ao
reino de Deus. Então, ascendeu aos céus de forma visível. Nessa
época o Senhor tinha completado a educação e a preparação dos
discípulos. A Sua ascensão marcou a completação dos “quatro anos
de curso” dos discípulos na “universidade divina”.
Tendo concluído esse curso, Pedro agora era outra pessoa.
Como veremos, em Atos 1 ele foi capaz de entender e interpretar a
profecia do Antigo Testamento a respeito de Judas, e também
ensinar os outros segundo a Escritura. Será que Pedro era assim nos
Evangelhos? Certamente não. Mas em Atos 1 ele era bem diferente
do que era nos Evangelhos, porque o Cristo ressurreto tinha entrado
nele para ser a sua vida e pessoa.
Foi algo grandioso que os cento e vinte orassem unânimes por
dez dias. Eles foram capazes de orar unânimes por tão longo tempo
porque tinham Cristo em seu interior como a vida e pessoa deles.
Além disso, eram galileus que residiam em Jerusalém, e estavam sob
a ameaça dos judeus, os quais perseguiam os seguidores de Jesus.
Contudo, eles não temiam a ameaça dos judeus, mas permaneceram
em Jerusalém e oraram unânimes. Isso certamente não podia ser
feito com esforço humano. Isso era possível porque os cento e vinte
tinham experimentado uma mudança, mais essencialmente do que
economicamente. Eles tinham sido transferidos essencialmente do
velho ser para o novo ser. Como resultado dessa transferência,
tinham Cristo como vida e pessoa deles, e podiam orar unânimes
sem temer a perseguição.

A Escolha de Matias

Para Substituir Judas como Um dos Doze Apóstolos

Em Atos 1:15-16 lemos: “Naqueles dias, levantou-se Pedro no


meio dos irmãos (ora, compunha-se a assembleia de umas cento e
vinte pessoas) e disse: Irmãos, convinha que se cumprisse a
Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de
Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam
Jesus”. Antes da morte do Senhor, Pedro sempre falava
desatinadamente (Mt 16:22-23; 17:24-26; 26:33-35). Mas agora,
depois da ressurreição do Senhor, expõe as profecias do Antigo
Testamento adequadamente e com o significado correto (vs. 16-20).
Isso também demonstra que os discípulos, antes de receber o
Espírito econômico de poder no dia de Pentecostes, haviam recebido
o Espírito essencial de vida no dia da ressurreição do Senhor.
Em 1:16 Pedro usou a expressão “varões, irmãos”. Essa
expressão é mais digna e solene do que simplesmente “irmãos” (ver
1:11; 2:22, 29; 3:12).
Falando sobre Judas, Pedro prossegue no versículo 17: “Porque
ele era contado entre nós e teve parte neste ministério”. Este
ministério, mencionado também no versículo 25, se refere ao
ministério que leva o testemunho de Jesus (v. 8). Os apóstolos eram
doze, mas seu ministério era um só: este ministério, um ministério
corporativo conforme o princípio do Corpo de Cristo. Todos os
apóstolos tiveram parte em um só ministério, que leva o testemunho
do Jesus Cristo encarnado, ressuscitado e ascendido, o Senhor de
todos, e não o testemunho de alguma religião, dogma ou prática.
Ser Testemunha da Ressurreição de Cristo

Depois de falar mais com respeito à morte de Judas e as


profecias a seu respeito, Pedro prosseguiu nos versículos 21-22: “É
necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o
tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo
de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um
destes se torne testemunha conosco da Sua ressurreição”. A
ressurreição do Senhor era a ênfase do testemunho dos apóstolos.
Ela evoca Sua encarnação, humanidade, viver humano na terra, a
morte que Deus Lhe designou (2:23), e conduz à Sua ascensão,
ministério e administração no céu, e também ao Seu regresso.
Portanto, o testemunho que os apóstolos davam acerca de Jesus
Cristo, Senhor de todos, era todo-inclusivo, como se descreve em
todo o livro de Atos. Eles pregavam e ministravam o Cristo todo-
inclusivo revelado em toda a Escritura.
Segundo o versículo 23, dois foram propostos como substitutos
de Judas: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias.
Então, os apóstolos orando disseram: “Tu, Senhor, que conheces o
coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido para
preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se
transviou, indo para o seu próprio lugar” (vs. 24-25). As palavras
gregas traduzidas como “que conheces o coração de todos”
literalmente é “Conhecedor do coração de todos”. No versículo 25 as
palavras gregas traduzidas por “se transviou” também podem ser
traduzidas como “decaiu”.
Depois de terem orado “os lançaram em sortes, vindo a sorte
recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze
apóstolos” (v. 26). Aqui vemos que os apóstolos, depois da ascensão
do Senhor e antes do dia de Pentecostes, estavam num período de
transição, como nos mostra a percepção que tinham com respeito a
buscar a direção do Senhor. Eles tinham recebido o Espírito que
habita interiormente no dia da ressurreição do Senhor e foram
treinados pelo Senhor a praticar a Sua presença invisível por
quarenta dias, antes da Sua ascensão (v. 3). Mas ainda lhes era difícil
deixar a maneira tradicional de buscar a orientação de Deus
lançando sortes (Lv 16:8; Js 14:2; 1Sm 14:41; Ne 10:34; 11:1;
Pv 16:33). Eles ainda não estavam acostumados com a orientação e
direção do Espírito que habita interiormente (Rm 8:14), como o
apóstolo Paulo praticou mais tarde em 16:6-8. Eles ainda estavam
no estágio inicial da economia neotestamentária de Deus, anterior
ao dia de Pentecostes.
Na economia neotestamentária de Deus não há necessidade de
lançar sortes para se obter a orientação do Senhor. A maneira
adequada é seguir o Cristo que habita interiormente, seguir a unção
interior. Embora Cristo economicamente tivesse deixado os
apóstolos, Ele estava neles essencialmente. Se em Atos 1 eles
estivessem acostumados com a presença essencial de Cristo em seu
interior, não teriam voltado à velha prática de lançar sortes. O fato
de continuarem a seguir a velha maneira era sinal de que, embora
tivessem o Senhor em seu interior essencialmente, eles estavam
acostumados com os velhos hábitos.
Tendo lançado sortes, Matias foi escolhido e então adicionado
aos onze para completar o número. Com a escolha de Matias temos o
término da preparação dos discípulos para a propagação vindoura.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 6
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (1)

Leitura Bíblica: At 2:1-13

Já abordamos a introdução (1:1-2) e a preparação (1:3-26); e


agora chegamos à terceira seção do livro de Atos, um trecho muito
longo que vai de 2:1 a 28:31. Essa seção trata da propagação. Vimos
que o tema de Atos é a propagação do Cristo ressurreto em Sua
ascensão, pelo Espírito, por meio dos discípulos, para a produção
das igrejas, o reino de Deus. A propagação do Cristo ressurreto
inicia-se em Jerusalém e, então, se espalha para a Judéia, Samaria e
todo o mundo. No capítulo dois temos o início da propagação em
Jerusalém, Judéia e Samaria por meio do ministério de Pedro e seus
companheiros.

DOIS GRUPOS DE PESSOAS QUE COMPUNHAM O


MINISTÉRIO

Em Atos há dois grupos de pessoas que compunham o


ministério: Pedro e seus companheiros e Paulo e seus companheiros.
Dos capítulos dois a doze vemos o ministério levado a cabo por
Pedro e seus cooperadores. Então, nos capítulos treze a vinte e oito
vemos o ministério levado a cabo por Paulo e seus cooperadores. Os
dois grupos levaram a cabo a propagação do Cristo ressurreto em
Sua ascensão.

O DERRAMAMENTO DO ESPÍRITO SANTO

A primeira coisa que ocorreu nessa propagação foi o


derramamento do Espírito Santo. Esse derramamento foi o batismo
no Espírito Santo realizado pela Cabeça celestial sobre o Seu Corpo.
Com respeito a essa questão do batismo no Espírito Santo, há
diversos e distintos ensinamentos. Através dos séculos esses
ensinamentos causaram muita confusão entre os cristãos. Assim,
quanto ao batismo no Espírito Santo precisamos voltar à pura
Palavra, colocar de lado outros ensinamentos e prestar atenção à
revelação na santa Palavra de Deus.

O DIA DE PENTECOSTES

O Quinquagésimo Dia Depois da Ressurreição do Senhor

Atos 2:1 diz: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam


todos reunidos no mesmo lugar”. A palavra Pentecostes significa
quinquagésimo. Era o quinquagésimo dia depois da ressurreição do
Senhor, sete semanas, contando a partir do segundo dia (o primeiro
dia da semana ― Lucas 23:54―24:1) depois da Páscoa na qual o
Senhor foi crucificado (Jo 19:14). Era o cumprimento da Festa das
Semanas (Dt 16:10), também chamada de Festa da Colheita
(Êx 23:16), contando a partir do dia da oferta do molho das
primícias da colheita até o dia imediato depois do sétimo sábado
(Lv 23:10-11, 15-16). A oferta do molho das primícias era um tipo do
Cristo ressurreto oferecido a Deus no dia da Sua ressurreição
(Jo 20:17), que foi o dia depois do sábado (Jo 20:1). Desse dia até o
dia de Pentecostes passaram-se exatamente cinquenta dias.
A festa da colheita tipifica o desfrute do rico produto trazido
pelo Cristo ressurreto. Esse rico produto é o Espírito todo-inclusivo
do Deus Triúno processado, dado por Ele aos Seus escolhidos como
a bênção do evangelho (Gl 3:14) para que eles desfrutem o Cristo
todo-inclusivo (a própria corporificação do Deus Triúno) como a sua
boa terra. Isso quer dizer que os crentes, recebendo o Espírito
abundante no dia de Pentecostes, não apenas entraram na boa terra,
mas também participaram das riquezas abundantes do Cristo todo-
inclusivo (Ef 3:8) em Sua ressurreição e ascensão como a porção
plena de Deus em Sua economia neotestamentária.
Vimos que o Pentecostes era o quinquagésimo dia depois da
ressurreição do Senhor. A ressurreição do Senhor ocorreu três dias
depois da Sua morte. Contudo, não foram três dias completos como
os contamos, pois uma pequena parte de um dia foi contada como
um dia inteiro. Isso quer dizer que o primeiro dos três dias, uma
sexta-feira, foi o dia no qual o Senhor Jesus foi crucificado. Ele
esteve na cruz das nove horas da manhã até as três da tarde. Então,
no final da tarde, Ele foi tirado da cruz e sepultado. Segundo a
maneira judaica de contar os dias, a parte restante desse dia foi
contada como um dia inteiro. Assim, os três dias foram contados a
partir da última parte do primeiro dia. Além disso, segundo a
maneira judaica de contar os dias, um dia começava ao entardecer, e
não de manhã. Por exemplo, Gênesis 1:5 diz: “Houve tarde e manhã,
o primeiro dia”.
Se contarmos parte de um dia como um dia inteiro, então, de
sexta-feira à tarde quando o Senhor Jesus foi enterrado até a manhã
da Sua ressurreição seriam três dias. A parte final da sexta-feira é
um dia, o sábado é o segundo e parte do que hoje é chamado de
domingo é o terceiro dia. Contudo o tempo que o Senhor
efetivamente ficou no túmulo pode ter sido menos de quarenta
horas. No terceiro dia, cedo, talvez menos de quarenta horas depois
de ter morrido, Ele ressuscitou.
O dia da ressurreição do Senhor, o domingo, foi o primeiro dia
depois do sábado. O Senhor ressuscitou no primeiro dia da semana,
que era o dia imediato ao sábado. Se contarmos a partir do segundo
dia depois da Páscoa na qual o Senhor foi crucificado, o Pentecostes
foi o quinquagésimo dia depois da Sua ressurreição. Portanto, houve
sete semanas entre a ressurreição do Senhor e o Pentecostes, que
também foi no domingo, o primeiro dia da semana.

O Cumprimento da Festa da Colheita

O Pentecostes era o cumprimento da Festa das Semanas e essa


festa também era chamada de Festa da Colheita (Êx 23:16). O
Pentecostes está muito relacionado à colheita, à sega do rico produto
da boa terra. O Pentecostes era cinquenta dias depois da oferta do
molho das primícias da colheita. Com respeito a isso, Levítico 23:10-
12a diz: “Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando entrardes na
terra, que vos dou, e segardes a sua messe, então, trareis um molho
das primícias da vossa messe ao sacerdote; este moverá o molho
perante o SENHOR, para que sejais aceitos; no dia imediato ao
sábado, o sacerdote o moverá”. Então, o povo devia contar sete
sábados desde o dia da oferta do molho das primícias da colheita:
“Contareis para vós outros desde o dia imediato ao sábado, desde o
dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas
inteiras serão. Até ao dia imediato ao sétimo sábado, contareis
cinquenta dias” (Lv 23:15-16). Conforme Levítico 23, um molho das
primícias da colheita era oferecido ao Senhor como oferta movida no
dia imediato ao sábado. Esse molho era uma prefiguração de Cristo
como as primícias em ressurreição (1Co 15:20, 23). No Antigo
Testamento, quando a colheita estava madura, um molho das
primícias da colheita era oferecido a Deus. Esse molho prefigurava o
Cristo ressurreto oferecido a Deus no dia em que ressuscitou.
A oferta de Cristo como as primícias em ressurreição envolve a
Sua ascensão secreta ao Pai. Quando Maria queria tocá-Lo, Ele lhe
disse: “Não Me toques; porque ainda não subi para o Pai; mas vai ter
com os Meus irmãos, e dize-lhes: Subo para Meu Pai e vosso Pai,
para Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17). No dia da ressurreição, o
Senhor ascendeu ao Pai. Essa foi uma ascensão secreta, quarenta
dias antes da ascensão pública à vista dos discípulos. Na manhã do
dia da ressurreição, Ele ascendeu para satisfazer o Pai. O frescor da
Sua ressurreição foi primeiro para o desfrute do Pai, assim como em
tipologia as primícias da colheita eram primeiro trazidas a Deus.
Muitos cristãos não se dão conta de que Cristo ascendeu
secretamente ao Pai na manhã do dia da Sua ressurreição.
Naturalmente, Ele ascendeu abertamente quarenta dias mais tarde.
No dia da ressurreição, o Senhor foi aos céus oferecer-Se como as
primícias da colheita de Deus para a satisfação de Deus Pai. Essa foi
uma ascensão secreta. O Pentecostes foi cinquenta dias mais tarde.

O Desfrute das Riquezas do Cristo Ressurreto

Conforme já ressaltamos, a festa de Pentecostes era o


cumprimento da Festa das Semanas, que também era chamada de
Festa da Colheita. A Festa da Colheita tipifica o desfrute do rico
produto gerado pela ressurreição de Cristo. Poucos leitores da Bíblia
dão a adequada atenção ao fato de que o Pentecostes na verdade se
refere à colheita, e a colheita tipifica o desfrute de todas as riquezas
do Cristo ressurreto. Esse rico produto é, na verdade, o Espírito
todo-inclusivo.
Você sabe o que aconteceu no dia de Pentecostes? Naquele dia
houve o derramamento do Espírito todo-inclusivo. Esse Espírito é o
rico produto do Deus Triúno processado dado por Ele ao Seu povo
escolhido como a bênção do evangelho. Com respeito a isso, Gálatas
3:14 diz: “Para. que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em
Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito
prometido”.
Isso indica que a bênção singular do evangelho não é o céu
nem o perdão dos pecados; é o Espírito, o próprio Espírito todo-
inclusivo do Deus Triúno processado. Esse Espírito, como a bênção
do evangelho é-nos dado a fim de que desfrutemos o Cristo todo-
inclusivo, que é a corporificação do Deus Triúno, como a nossa boa
terra.
Em tipologia temos tanto a festa da Páscoa como o
Pentecostes, chamada de Festa das Semanas e também de Festa da
Colheita. A Festa da Colheita tipifica o desfrute de Cristo em Sua
ressurreição, enquanto a Páscoa tipifica Cristo como Cordeiro de
Deus em Sua crucificação. A Páscoa, portanto, se refere à
crucificação de Cristo. A crucificação de Cristo se tornou uma festa,
chamada de Festa da Pascoa. Nessa festa desfrutamos Cristo em Sua
crucificação como Cordeiro redentor. Três dias depois de
crucificado, Cristo ressuscitou dentre os mortos. Cinquenta dias
depois, o Cristo ascendido derramou-Se sobre os Seus crentes como
o Espírito todo-inclusivo, isto é, como consumação, final e máxima
do Deus Triúno. Esse derramamento do Espírito e o desfrute da
colheita.
No Antigo Testamento temos a Páscoa, a oferta de um molho
das primícias da colheita, e então a Festa da Colheita, o Pentecostes.
Na Páscoa, Cristo foi crucificado para nossa redenção, a fim de que
pudéssemos desfrutá-Lo. Então, três dias depois, no dia da Sua
ressurreição, Ele ofereceu-Se. a Deus como as primícias. A razão
pela qual Ele não queria que Maria O tocasse era que Ele estava indo
para o Pai, a fim de oferecer-Se no frescor de Sua ressurreição para o
desfrute do Pai. No dia em que ressuscitou, o Senhor foi aos céus e
ao cair da tarde apareceu aos discípulos. Depois de revelar-Se aos
discípulos, Ele insuflou-Se neles como o Espírito que dá vida.
No dia da ressurreição de Cristo houve o cumprimento da
prefiguração das primícias da colheita. Então, cinquenta dias depois,
no dia de Pentecostes, houve o desfrute da colheita do rico produto
da boa terra. Isso era uma figura de Cristo tornando-se o pleno
desfrute para o Seu povo redimido, como Espírito que dá vida
derramado sobre eles vindo dos céus. Por meio do derramamento do
Espírito, o povo de Deus pode desfrutar o Cristo todo-inclusivo
como sua boa terra. O fato de terem recebido o Espírito abundante
no dia de Pentecostes indica não apenas que entraram na boa terra,
como também que participam das riquezas abundantes do Cristo
todo-inclusivo em Sua ressurreição e ascensão, como porção plena
em Sua economia neotestamentária.
Êxodo 23:19a diz: “As primícias dos frutos da tua terra trarás à
Casa do SENHOR, teu Deus”. Vimos que o molho das primícias
prefigura Cristo em Sua ressurreição. Como primícias, Cristo é novo
e fresco. Na manhã em que ressuscitou, Ele tencionava ir
diretamente ao Pai e apresentar-Se a Ele como primícias. Contudo,
foi detido por Maria, que O desfrutou como o “molho” em
ressurreição. Mesmo antes de Deus Pai ter desfrutado o Cristo
ressurreto, Maria teve algum desfrute Dele nesse aspecto.

Desfrutar Cristo como Primícias e como Colheita

Precisamos ser impressionados com o fato de que quanto à


ascensão de Cristo há um aspecto secreto e também um aspecto
aberto. A ascensão secreta de Cristo ocorreu na manhã do dia da Sua
ressurreição. A ascensão aberta ocorreu quarenta dias depois,
quando Ele ascendeu à vista dos discípulos, do Monte Olival. A
ascensão secreta de Cristo visava a Sua apresentação ao Pai como as
primícias em Sua ressurreição. Mais tarde, no mesmo dia, Ele voltou
aos discípulos e insuflou-Se neles. Dessa forma eles participaram do
desfrute de Cristo como molho das primícias da colheita.
Depois de desfrutar Cristo como primícias, os discípulos
também O desfrutaram como colheita no dia de Pentecostes.
Desfrutar o Espírito essencial é ter o desfrute como molho das
primícias. Mas desfrutar o Espírito econômico é ter o desfrute de
Cristo como colheita de forma aberta e pública.
Não devemos negligenciar o desfrute de Cristo como colheita.
Alguns podem querer ser como Maria, que se encontrou com o
Senhor na manhã da Sua ressurreição, ou pelo menos como os
discípulos, que O encontraram ao cair da tarde. Todos necessitamos
do pleno desfrute de Cristo como Festa da Colheita.
O desfrute de Cristo ainda não era pleno, até que, como Cabeça
da igreja, Ele derramou-Se sobre o Seu Corpo como Espírito
econômico. Por meio desse derramamento, no dia de Pentecostes, o
desfrute de Cristo ficou completo. Esse pleno desfrute de Cristo
como colheita é, na verdade, o Espírito todo-inclusivo que dá vida
como consumação do Deus Triúno processado, alcançando-nos.
Além disso, como é mencionado em Gálatas 3:14, esse Espírito é a
bênção do evangelho.
Em Filipenses 1:19 Paulo fala da provisão abundante do
Espírito de Jesus Cristo. O suprimento que recebemos como
primícias da colheita é fresco, mas não é abundante. Apenas quando
temos a colheita é que temos a provisão abundante. Isso quer dizer
que o povo do Senhor só teve o desfrute pleno de Cristo depois que o
Espírito foi derramado economicamente sobre o Corpo de Cristo.
Quando, no dia de Pentecostes, o Espírito econômico foi derramado
sobre o Corpo de Cristo, o desfrute de Cristo se tornou abundante.
Agora é o suprimento abundante do Espírito de Jesus Cristo, e esse
Espírito é a bênção do evangelho, que, na verdade é o Deus Triúno
processado, tornando-se o Espírito todo-inclusivo que dá vida. Esse
Espírito alcança todos os crentes. Esse é o desfrute abundante de
Cristo em Sua ascensão.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 7
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (2)

Leitura Bíblica: At 2:1-13

Em 2:1-13 vemos o batismo dos crentes judeus no Espírito


Santo. Os versículos 1 a 4 dizem respeito ao encher econômico do
Espírito Santo. Nesta mensagem vamos dar especial atenção a esses
quatro versículos.

O ESPÍRITO ESSENCIAL E O ESPÍRITO ECONÔMICO

Atos 2:1-2 diz: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam


todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som,
como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam
assentados”. Na ressurreição do Senhor, o Espírito da vida de
ressurreição é comparado ao fôlego, insuflado nos discípulos
(Jo 20:22) essencialmente para o seu ser e viver espiritual. Na
ascensão do Senhor, o Espírito do poder de ascensão, derramado
sobre os discípulos, é simbolizado pelo vento para o seu ministério e
mover, economicamente. O Espírito essencial da vida de
ressurreição é para que os crentes vivam Cristo; o Espírito
econômico do poder de ascensão é para que levem a cabo a Sua
comissão.
Precisamos ver claramente a diferença entre o sopro em João
20 e o vento em Atos 2. O sopro em João 20 visa o dispensar do
Espírito que dá vida nos discípulos essencialmente para o seu ser e
viver espiritual. Mas o vento em Atos 2 visa ao derramamento do
Espírito econômico de poder sobre eles, que já tinham recebido o
Espírito essencial. O derramamento do Espírito de poder não visa ao
ser espiritual e nem o viver dos crentes; antes, visa ao ministério e
mover deles. Portanto, o aspecto essencial do Espírito visa ao viver, e
o aspecto econômico visa ao ministério. É importante discernir esses
dois aspectos do Espírito, pois dessa forma entenderemos os
Evangelhos e Atos adequadamente. Doutra forma, estaremos
confusos.
Há muitos anos, um pastor altamente respeitado disse que o
sopro em João 20 não era um fato, mas apenas uma representação
que indicava que o fato ainda viria em Atos 2. Conforme esse
entendimento, depois da representação em João 20, foi necessário
que os discípulos esperassem cinquenta dias para receber o fato. Na
visão desse pastor, tanto João 20 como Atos 2 se referem à mesma
coisa; a diferença é que um descreve uma representação e o outro
descreve um fato. Esse conceito está totalmente errado. Como já
enfatizamos, há uma diferença entre o sopro em João 20 e o vento
em Atos 2. O sopro visa à vida, mas o vento visa ao poder.
No Evangelho de João o Espírito da vida em ressurreição é
comparado à água para beber. João 4:14 diz: “Aquele, porém, que
beber da água que Eu lhe der, de modo algum terá sede, para
sempre; pelo contrário, a água que Eu lhe der se tornará nele uma
fonte de água a jorrar para a vida eterna”. João 7:37-39 diz: “Ora, no
último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou: Se
alguém tem sede, venha a Mim e beba. Quem crer em Mim, como diz
a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isso, porém,
disse Ele com respeito ao Espírito que haviam de receber os que
Nele cressem”. Em Lucas 24:49 o Espírito econômico é comparado à
roupa que vestimos: “Eis que envio sobre vós a promessa de Meu
Pai; vós, porém, permanecei na cidade, até que sejais revestidos de
poder vindo do alto”. Água é para a vida interiormente, e roupa é
para a obra exteriormente.
Vamos usar um policial como ilustração da diferença entre o
Espírito essencial para vida interiormente e o Espírito econômico
para poder exteriormente. Um policial não coloca o uniforme para
matar a sede. Não se mata a sede colocando um uniforme. O policial
veste o uniforme quando vai trabalhar, isto é, quando está pronto
para trabalhar como policial. Suponha que ele bebesse algo para
matar a sede e fosse trabalhar sem o uniforme. Se ele o fizesse,
ninguém lhe daria atenção quando tentasse dar ordens na rua. Não
importa quanto tivesse bebido para matar a sede, o policial ainda
precisaria vestir o seu uniforme quando fosse trabalhar. Se estiver de
uniforme, os outros irão respeitá-lo. Com essa ilustração, pode-se
ver a diferença entre beber e vestir. Beber é interior, mas vestir é
exterior.
É um erro grave dizer, como disse aquele pastor anos atrás,
que o sopro em João 20 era uma representação, e o vento em Atos 2
era um fato. Essa interpretação provém da falta de conhecimento
adequado e gera confusão. O conhecimento adequado que
necessitamos requer não somente o estudo das Escrituras, como
também a iluminação celestial, juntamente com a experiência
adequada. Não está certo dizer que em João 20 Pedro não recebeu o
Espírito da vida. O sopro do Senhor naquele capítulo certamente não
foi uma representação. Conforme João 20:22, o Senhor “soprou
neles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”. Isso não é uma
representação; é um fato consumado. Aqui temos o fato do insuflar
do Espírito que dá vida nos discípulos, no dia da ressurreição de
Cristo.
O fôlego divino em João 20:22 é o Espírito Santo. O Espírito
Santo é a consumação final e máxima do Deus Triúno processado
alcançando os Seus redimidos. Isso aconteceu especialmente em
João 20.

O DEUS TRIÚNO TORNOU-SE O ESPÍRITO QUE DÁ VIDA

O Novo Testamento revela que o Deus Triúno se encarnou. Ele


Se manifestou na carne. Isso quer dizer que quem se encarnou era o
Deus completo, o Deus Triúno, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito,
e não meramente o Filho. Dizer que o Deus completo Se manifestou
na carne significa que o Deus completo se encarnou. O Deus Triúno
tornou-se um homem, viveu na terra, ministrou, entrou na morte
(conquistando-a e subjugando-a) e saiu da morte em ressurreição.
Em ressurreição Ele se tornou o Espírito que dá vida. Assim, o Deus
Triúno, que se encarnou, viveu na terra, entrou na morte e saiu da
morte em ressurreição, tornou-se o Espírito que dá vida.
João 1:14 diz: “E o Verbo tornou-se carne”. E 1 Coríntios
15:45b diz: “O último Adão, porém, tornou-se Espírito vivificante”
(lit.). A “carne” em João 1:14 é o “último Adão” em 1 Coríntios 15:45.
Agora, o último Adão tornou-se Espírito vivificante, ou que dá vida,
que é a transfiguração do Cristo encarnado.
Precisamos perceber quem é que se encarnou. Quem se
encarnou foi o Deus Triúno para ser um homem como o último
Adão, e esse último Adão em ressurreição tornou-se o Espírito que
dá vida. Portanto, no dia da Sua ressurreição: Ele apareceu aos
discípulos, soprou neles e disse: “Recebei o Espírito Santo”. Quem é
esse Espírito? É a consumação final e máxima do Deus Triúno
processado alcançando o Seu povo redimido.
Todos precisamos ter a visão do Deus Triúno tornando-se o
último Adão, e do último Adão tornando-se o Espírito que dá vida,
como a consumação do Deus Triúno processado alcançando-nos.
Com respeito a isso, não nos importamos com concílios, credos ou a
teologia tradicional. Importamo-nos apenas com a pura palavra de
Deus. A Palavra revela que o Deus Triúno tornou-se o último Adão, e
o último Adão tornou-se o Espírito que dá vida. Louvado seja o
Senhor, porque o Deus Triúno processado nos alcançou como o
Espírito que dá vida! No dia da ressurreição do Senhor, o Deus
Triúno processado como o Espírito que dá vida foi insuflado nos
discípulos.

REVESTIDOS DE PODER DO ALTO

Cinquenta dias depois, no dia de Pentecostes, algo mais


aconteceu: o Cristo ascendido derramou-Se como o Espírito
economicamente sobre os discípulos a fim de ser o poder, a
autoridade e o uniforme deles. Um policial de uniforme tem
autoridade. A despeito de quão poderoso seja o seu carro, você ainda
tem de obedecer a autoridade do policial. O uniforme é um sinal da
autoridade. No dia de Pentecostes, os cento e vinte estavam vestidos
do Espírito econômico como o seu uniforme celestial.
Em Lucas 24:49 o Senhor disse aos discípulos que
aguardassem até que do alto fossem revestidos de poder. Quando
isso se cumpriu, Pedro se levantou para falar com autoridade e
poder, e as pessoas foram subjugadas. Pedro podia falar com
autoridade porque estava vestido com o uniforme celestial.
Não devemos aceitar nenhum ensinamento inexato
concernente ao Espírito Santo em João 20 e em Atos 2. Louvamos ao
Senhor pelo sopro do Espírito em João 20 e pelo vento do Espírito
em Atos 2. O sopro é para vida e o vento é para o mover. Além disso,
o sopro nos dá força interiormente e o vento nos dá autoridade
exteriormente. Por meio do sopro e do vento estamos plenamente
equipados.

UM FATO CONSUMADO

Assim como a crucificação é um fato consumado, o soprar do


Espírito da vida e o vento do Espírito de poder também são fatos
consumados. Devemos simplesmente crer nos relatos e tomar posse
dos fatos. Onde está o relato? O relato está na Bíblia. Quais são os
fatos? Os fatos são que o Senhor insuflou o Espírito da vida nos
crentes e soprou como vento o Seu Espírito de poder sobre eles.
Quando alguns ouvem sobre crer nos relatos e tomar posse dos
fatos com respeito aos aspectos essencial e econômico do Espírito,
eles dizem: “Não sinto que o Espírito da vida foi soprado em mim,
nem sinto que o Espírito de poder esteja sobre mim”. Se alguém me
dissesse isso eu diria: “Você não crê que o Senhor Jesus morreu por
você? Certamente sim, mesmo sem sentir nada. Você crê porque a
Bíblia o diz. Da mesma forma, precisa crer que Ele insuflou-Se como
o Espírito da vida nos discípulos, incluindo você. Também precisa
crer que Ele soprou-Se como o Espírito de poder sobre todos nós”.
V amos todos crer nos fatos de que Cristo Se insuflou como
fôlego e soprou como vento, assim como cremos no fato da Sua
crucificação. Temos o Espírito da vida essencialmente? Sim, temos.
Como o sabemos? Sabemos porque a Bíblia assim nos diz. Temos
também o Espírito de poder sobre nós economicamente? Sim,
temos. Como o sabemos? Sabemos porque a Bíblia assim nos diz.
Louvado seja o Senhor pela Sua crucificação, pelo Seu insuflar e pelo
Seu soprar! Louvamo-Lo porque sabemos desses fatos, pois a Bíblia
assim nos diz!

O ENCHER EXTERIOR DO ESPÍRITO DERRAMADO


Atos 2:2 diz que o vento encheu a casa onde os cento e vinte
estavam assentados. A palavra grega para “encher” aqui é pleróo,
verbo que significa encher interiormente, assim como o vento
encheu a casa.
Atos 2:3-4 diz: “E apareceram, distribuídas entre eles, línguas,
como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram
cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas,
segundo o Espírito lhes concedia que falassem”. O verbo grego para
“ficar cheio” no versículo 4 é plethó (também usado em 4:8, 31; 9:17;
13:9; e Lc 1:15, 41, 67). Esse verbo significa encher exteriormente. De
acordo com o seu uso em Atos, pleróo denota encher uma vasilha
interiormente, assim como o vento encheu a casa interiormente no
versículo 2; e plethó denota encher as pessoas exteriormente, como
o Espírito encheu os discípulos exteriormente nesse versículo. Eles
ficaram cheios (pleróo) interior e essencialmente do Espírito (13:52)
para o seu viver cristão, e ficaram cheios (plethó) exterior e
economicamente do Espírito para o seu ministério cristão. O
Espírito que enche interiormente, o Espírito essencial, está nos
discípulos (Jo 14:17; Rm 8:11), ao passo que o Espírito que enche
exteriormente, o Espírito econômico, está sobre eles (1:8; 2:17).
Cada crente em Cristo deve experimentar os dois aspectos do
Espírito Santo. Mesmo Cristo, como homem, experimentou isso: era
nascido do Espírito Santo essencialmente (Lc 1:35; Mt 1:18, 20) para
Seu ser e viver, e foi ungido com o Espírito Santo economicamente
(Mt 3:16; Lc 4:18) para o Seu ministério e mover. O Espírito
essencial estava dentro Dele e o econômico, sobre Ele.

O BATISMO DOS CRENTES JUDEUS NO ESPÍRITO SANTO

O encher exterior do Espírito derramado foi o batismo que a


Cabeça em ascensão ministrou ao Seu Corpo no Espírito. No dia de
Pentecostes, os crentes judeus, a primeira parte do Seu Corpo, foram
batizados; na casa de Cornélio, os crentes gentios, a segunda parte
do Seu Corpo, semelhantemente foram batizados (10:44-47). Por
meio desses dois passos, Ele batizou o Seu Corpo inteiro no Espírito
uma vez por todas (1Co 12:13). O Seu Corpo é a Sua aplicação e é Ele
mesmo tornado real. Foi para batizar o Seu Corpo em Si mesmo que
Ele o batizou no Espírito. Esse foi o cumprimento do batismo no
Espírito Santo prometido em 1:5 por Cristo, a Cabeça do Corpo.
Encorajo-o a estudar cuidadosamente essa questão do
derramamento do Espírito Santo. Em 2:1-13 vemos o derramamento
do Espírito sobre os discípulos economicamente. Esse foi o passo de
batizar os crentes judeus no Espírito. Mais tarde, na casa de
Cornélio, Cristo batizou os crentes gentios no Espírito. Por meio
desses dois passos, Cristo, a Cabeça, batizou todo o Seu Corpo no
Espírito Santo uma vez por todas.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 8
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (3)

Leitura Bíblica: At 2:1-13

Nesta mensagem iremos considerar a questão do falar em


línguas. O cumprimento da profecia de Joel no dia de Pentecostes
envolve o falar em línguas.

UM SÍMBOLO DA FALA

Atos 2:3 diz: “E apareceram, distribuídas entre eles, línguas,


como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles”. A língua é um
símbolo da fala, o que denota que o Espírito econômico de poder de
Deus é principalmente para falar. Ele é o Espírito que fala.
O versículo 3 diz que línguas como de fogo pousaram sobre
cada um dos cento e vinte. Nesse versículo “fogo” simboliza o poder
ardente que há no mover econômico de Deus para purificar e
motivar. O fato de o verbo estar no singular, indica que uma língua
pousou sobre cada um deles.

TODOS FICARAM CHEIOS DO ESPÍRITO SANTO

Atos 2:4 diz: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo, e


passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia
que falassem”. Aqui todos é o sujeito de ficaram cheios na primeira
oração, e não de passaram a falar na segunda oração. A palavra
todos não pode ser usada como evidência de que todos os discípulos
que foram enchidos do Espírito Santo passaram a falar em línguas.

Nem Todos Falaram em Línguas

Precisamos ler o versículo 4 cuidadosamente, prestando


atenção à pontuação. Veja que há uma vírgula depois de “Espírito
Santo”. Esse versículo diz: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo,
e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes
concedia que falassem”. A vírgula depois de “Espírito Santo” nos
ajuda a ver que “todos” não se refere a “ficaram cheios” e “passaram
a falar”.
Aqui temos dois predicados. Precisamos ter discernimento
para saber se “todos” se refere a ambos os predicados ou apenas ao
primeiro. Se se refere a ambos, então o versículo 4 diz que todos
falaram em línguas. Mas, se se refere apenas ao primeiro, então esse
versículo diz que todos ficaram cheios do Espírito Santo, mas nem
todos falaram em línguas. Se Lucas quisesse dizer que todos falaram
em línguas, deveria ter repetido a palavra “todos” antes do verbo
“passaram”.
Segundo a gramática, o versículo 4 não diz que todos passaram
a falar em diferentes línguas. Por exemplo, suponha que
disséssemos: “Todos os irmãos entraram na reunião, e começaram a
orar”. Isso quer dizer que todos oraram? Não, não é esse o
significado. Da mesma forma, o versículo 4 não está dizendo que
todos os que ficaram cheios do Espírito Santo falaram em línguas.
Os que promovem o falar em línguas de hoje talvez insistam
dizendo que “todos” em 2:4 modifica o segundo predicado bem
como o primeiro. Então, talvez também usem esse versículo como
base para afirmar que no dia de Pentecostes cada um dos cento e
vinte falou em línguas. Contudo, depois de gastar muito tempo
estudando esse versículo, tenho a convicção de dizer que “todos” não
se refere ao segundo predicado. Pelo contrário, essa palavra indica
apenas que todos os cento e vinte ficaram cheios do Espírito Santo.
Portanto, o versículo 4 não indica que todos falaram em línguas.

Uma Linguagem Inteligível

As “línguas” mencionadas em 2:4 eram dialetos(vs. 6, 8). Os


discípulos eram galileus (v. 7), contudo falaram os diferentes
dialetos estrangeiros dos que ali estavam, vindo de várias partes do
mundo. Essa é uma prova categórica de que falar em línguas deve
ser em língua inteligível, e não meramente uma voz ou som emitido
pela língua. A palavra grega traduzida como “falassem” no versículo
4 é “um vocábulo peculiar, e propositadamente escolhido para
denotar emissão de voz clara e audível” (Vincent).
Já comentamos que as línguas no versículo 4 eram dialetos.
Em relação a isso, Atos 2:5-8 diz: “Ora, estavam habitando em
Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações
debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a
multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os
ouvia falar em seu próprio dialeto. Estavam, pois, atônitos e se
admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos
esses que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em
nosso próprio dialeto em que nascemos?” (lit.).
Os-judeus no versículo 5 eram judeus devotos que vieram da
dispersão para Jerusalém para celebrar a Festa de Pentecostes. O
versículo 10 fala de prosélitos, isto é, gentios convertidos ao
judaísmo (6:5; 13:43). A palavra “dialeto” nos versículos 6 e 8 é
sinônimo de “línguas” no versículo 4.
De acordo com o versículo 11, as pessoas diziam: “Como os
ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” O
termo grego para “línguas” aqui é glôssa, usado para duas coisas
nesse capítulo: o órgão da fala no versículo 3, e dialetos nesse
versículo e no versículo 4, referindo-se ao dialeto nos vs. 6 e 8. Essa
evidência não deixa base nenhuma para dizer que falar em línguas
pode ser meramente uma voz ou som emitido pela língua, o órgão da
fala; tem de ser um dialeto, pois o que os discípulos falaram em
línguas (vs. 4, 11) foram todos dialetos distintos (vs. 6, 8). Nesse
sentido, línguas e dialetos são sinônimos, usados de modo
intercambiável nesses versículos.
Os que promovem o falar em línguas talvez insistam que não é
necessário que a língua falada seja uma língua humana inteligível.
Talvez aleguem que falar em línguas e simplesmente emitir algum
som. Eles precisam dizer isso porque muito das assim chamadas
línguas de hoje não são dialetos, e, sim, sons sem significado.
Contudo, as línguas faladas no dia de Pentecostes foram um milagre
do Espírito Santo. Assim, os galileus que falaram em línguas no dia
de Pentecostes não falaram com sotaque galileu. “Cada um os ouvia
falar em seu próprio dialeto”. Embora as línguas faladas no dia de
Pentecostes fossem dialetos, é pouco provável que alguns dos que
falam em línguas hoje em dia falam tais dialetos nas reuniões que
têm esse propósito.
Um dia, em 1936, tive uma conversa com um líder missionário
pentecostal com respeito a esses versículos em Atos 2. Com meu
Novo Testamento interlinear grego-inglês na mão, eu disse a ele que
aqui glôssa é usado de duas maneiras: a primeira refere-se à língua,
o órgão da fala, e a segunda denota um dialeto. Ele não foi capaz de
me responder, mas, em vez disso, deu-me um tapinha na cabeça e
disse: “A sua cabeça é grande demais”.
Embora eu mesmo tenha praticado o assim chamado falar em
línguas e tenha levado outros a fazê-lo também, abandonei essa
prática depois de falar com aquele missionário. Vim a perceber que
muito do que é chamado de falar em línguas não é o falar miraculoso
de um dialeto, mas algo produzido pelo homem. O que estamos
enfatizando aqui é que as línguas faladas no dia de Pentecostes eram
dialetos de verdade e não meramente sons emitidos pela língua.

ALGUNS CASOS RELACIONADOS COM O FALAR EM


LÍNGUAS

No treinamento de verão de 1963 pedi a um irmão que lesse


para os treinandos um artigo de uma revista carismática. O autor do
artigo dizia que tinha contatado duzentas pessoas que alegavam
falar em línguas. Sem exceção, todos tinham dúvidas se as línguas
que falavam eram autênticas. Então, perguntei aos treinandos se
Pedro e os outros no dia de Pentecostes tinham alguma dúvida de
que as línguas por eles faladas eram autênticas. Certamente Pedro e
os outros não tinham tais dúvidas. Contudo, as duzentas pessoas
mencionadas no artigo tinham dúvidas, porque as línguas que
falavam não eram autênticas.
Antes disso, em 1963, fui convidado para falar a um grupo
cristão em San Diego, Califórnia. Esse grupo enfatizava muito o falar
em línguas. Em uma das reuniões uma mulher falou algo breve em
línguas. Depois, um jovem deu uma longa interpretação daquelas
palavras. Depois da reunião perguntei ao líder do grupo se ele
achava que a interpretação das palavras da mulher era autêntica. Ele
me disse que duvidava que fosse. Então, eu lhe perguntei porque ele
usava essas práticas, uma vez que temos um Cristo rico para
ministrar aos outros. Eu disse: “Irmão, nós temos o Cristo todo-
inclusivo. Não é suficiente pregar esse Cristo?” Ele não sabia o que
responder.
Enquanto visitávamos aquele grupo ali em San Diego, outro
líder do grupo nos disse que lhe havia sido dada a habilidade de falar
chinês. Um dia ele emitiu alguns sons estranhos, crendo que estava
falando chinês. Eu e o outro irmão que falava chinês lhe dissemos
que não conseguíamos entender nenhuma palavra do que ele disse,
embora eu falasse mandarim, o outro irmão falasse cantonês e nós
dois tivéssemos algum entendimento de outros dialetos chineses.
Contudo, ele insistiu emitindo alguns sons diferentes. Também
tivemos de dizer-lhe que não podíamos reconhecer aqueles sons
como palavras na língua chinesa. Quando ouviu isso, ele ficou
desapontado. No seu auto-engano ele pensava que era capaz de falar
chinês. Mas, o chinês que ele pensou que falava era, na realidade,
uma linguagem auto-confeccionada. Esses incidentes são comuns no
pentecostalismo de hoje.
Recentemente soube por meio de um artigo escrito por um
linguista que desde os tempos antigos até o presente algumas
pessoas experimentaram elocuções chamadas de “fenômenos
extáticos”. Como a maior parte das línguas faladas hoje não é
autêntica, isso também pode ser considerado um fenômeno extático.
Vou dar mais dois exemplos de falar em línguas que não são
autênticos. Numa reunião uma mulher fala algo em línguas. A
interpretação é dada mais ou menos assim: “Meu povo, o tempo se
abrevia. Voltarei em breve. Sede vigilantes e orai”. Então, em outra
reunião, no mesmo dia, a mesma mulher fala algo mais em línguas,
que é quase idêntico ao primeiro. Contudo, dessa vez a interpretação
é: “Meu povo, vocês são muito frouxos e descuidados. Eu os aviso
que se vocês não mudarem, eu vos vomitarei da minha boca”.
Embora o falar em línguas em cada caso tivesse sido quase que
exatamente igual, a interpretação foi bem diferente. Ou seja, esses
não são casos de línguas autênticas.
Outro caso que gostaria de mencionar aconteceu em Taiwan
anos atrás. Um grupo pentecostal alugou um grande ginásio para
realizar algumas reuniões. Nesse ginásio cabem doze mil pessoas
sentadas, mas apenas duas ou três mil compareceram às reuniões. O
resultado foi que o grupo não conseguiu o dinheiro para pagar o
aluguel do ginásio. Em uma das reuniões alguém falou em línguas, e
então a interpretação foi dada. A pessoa que deu a interpretação
disse que o Senhor queria que certa mulher entre eles, que era muito
rica, pagasse o aluguel. Então, essa mesma mulher falou em línguas
e interpretou o que tinha falado. Em sua interpretação ela alegava
que o Senhor lhe havia dito que não pagasse o aluguel. Essa é outra
ilustração de que muitas línguas faladas hoje não são autênticas.
Alguns dos envolvidos com o falar em línguas também deram
profecias que provaram ser falsas. Por exemplo, em 1963 e 1964
houve notícias nos jornais de profecias pentecostais que diziam que
ocorreria um terremoto em Los Angeles, na Califórnia, e que a
cidade afundaria no oceano. Contudo, a data em que fora predito o
terremoto passou, e nada aconteceu. O fato de essa profecia não se
ter cumprido é prova suficiente de que as profecias eram falsas.
Os que alegam falar em línguas devem considerar a sua
experiência. Em especial, devem verificar se o que expressam
quando falam em línguas é um dialeto, uma língua que se entende.
Se forem honestos, muitos admitirão que quando falam em línguas,
não falam um dialeto. Mas, como ressaltamos, com base no capítulo
dois de Atos, o que foi falado pelos que foram enchidos pelo Espírito
Santo no dia de Pentecostes era um dialeto que se podia reconhecer.
O autêntico falar em línguas, portanto, não é meramente uma voz ou
um som, e, sim, um dialeto.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 9
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (4)

Leitura Bíblica: At 2:14-47; Mt 16:19

Em 2:1-13 temos o batismo dos crentes judeus no Espírito


Santo. Depois, em 2:14-47 temos a primeira mensagem de Pedro aos
judeus. Nessa parte do capítulo dois, vemos Cristo e a igreja.
Primeiro, Pedro falou Cristo. Então, mais no final do capítulo, temos
uma palavra com respeito à vida da igreja.

PEDRO USOU PELA PRIMEIRA VEZ AS CHAVES PARA


ABRIR A PORTA DO REINO PARA OS JUDEUS

A primeira mensagem de Pedro aos judeus foi a primeira vez


que ele fez uso das chaves para abrir a porta do reino para os judeus.
Depois que Pedro teve a visão com respeito ao Senhor Jesus ser o
Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16:16), o Senhor lhe disse: “Dar-te-
ei as chaves do reino dos céus; e o que quer que amarrares na terra,
terá sido amarrado nos céus; e o que quer que soltares na terra, terá
sido solto nos céus” (v. 19). Segundo a história, foram duas as
chaves. Pedro usou uma para abrir a porta para os crentes judeus
entrarem no reino, no dia de Pentecostes (At 2:38-42). Mais tarde,
ele usou a outra para abrir a porta para os crentes gentios entrarem
no reino, na casa de Camélia (10:34-48). Assim, no dia de
Pentecostes, ele usou a primeira delas.

EXPLICOU O ENCHER ECONÔMICO DO ESPÍRITO


SANTO

O Derramamento do Espírito Santo sobre Homens de


Carne
Atos 2:14 diz: “Então, se levantou Pedro, com os onze; e,
erguendo a voz, advertiu-os nestes termos: Varões judeus e todos os
habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas
minhas palavras”. Aqui a palavra onze indica que Matias, que fora
escolhido em 1:26, foi reconhecido como um dos doze apóstolos.
No versículo 15 Pedro prosseguiu dizendo: “Estes homens não
estão embriagados, como vindes pensando, sendo esta a terceira
hora do dia”. A terceira hora do dia eram nove horas da manhã.
Os versículos 16 a 18 continuam: “Mas o que ocorre é o que foi
dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias,
diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne;
vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões,
e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as
minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e
profetizarão”. Os últimos dias, mencionados no versículo 17
denotam o período de fechamento da era atual (2Pe 3:3; Jd 18), que
começou com a primeira vinda de Cristo (1Pe 1:20) e durará até a
Sua segunda vinda.
O derramamento do Espírito sobre toda a carne difere do
sopro do Espírito nos discípulos provindo da boca de Cristo depois
da Sua ressurreição (Jo 20:22). O derramamento do Espírito de
Deus foi dos céus após a ascensão de Cristo. O primeiro é o aspecto
essencial do Espírito insuflado nos discípulos como vida para o seu
viver; o segundo é o aspecto econômico do Espírito derramado sobre
eles como poder para a sua obra. O mesmo Espírito estava tanto no
interior deles essencialmente como sobre eles economicamente.
O derramamento do Espírito depois da ascensão de Cristo foi a
descida do Cristo ressurreto e ascendido como o Espírito todo-
inclusivo, a fim de levar a cabo o Seu ministério celestial na terra,
para edificar a Sua igreja (Mt 16:18) como Seu Corpo (Ef 1:23) para a
economia neotestamentária de Deus.
Sobre no versículo 17 é economicamente diferente do essencial
em em João 14:17. Em está relacionado à essência intrínseca para
vida; sobre está relacionado ao elemento exterior para poder.
Atos 2:17 diz que o Espírito era para ser derramado sobre toda
a carne. As palavras “toda a carne” denotam todos os seres humanos
caídos, sem distinção de sexo, idade ou posição.
O versículo 17 também fala de profecias, visões e sonhos, que
não estão relacionados à vida interior, mas às coisas exteriores.
Vimos que o encher econômico do Espírito Santo é, na
verdade, o Seu derramamento. Esse derramamento é diferente do
sopro do Espírito Santo. Também precisamos ver que o Espírito
Santo derramado no dia de Pentecostes é, na verdade, o próprio
Cristo ressurreto e ascendido.

O Espírito Santo Foi Derramado para que Possamos


Invocar o Nome do Senhor e assim Sermos Salvos

Atos 2:19-20 diz: “Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais


embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se
converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e
glorioso Dia do Senhor”. Literalmente a palavra grega traduzida
como mostrarei no versículo 19 significa darei. Os versículos 19 e 20
da profecia de Joel não estão relacionados às coisas que ocorreram
no dia de Pentecostes, e, sim, às calamidades do dia do juízo do
Senhor no futuro.
Em 2:21 Pedro prossegue dizendo: “E acontecerá que todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Invocar o nome do
Senhor não é uma prática nova que começou no Novo Testamento.
Pelo contrário, começou com Enos, a terceira geração da
humanidade, em Gênesis 4:26. Continuou com Jó (Jó 12:4; 27:10),
Abraão (Gn 12:8; 13:4; 21:33), Isaque (Gn 26:25), Moisés e os filhos
de Israel (Dt 4:7), Sansão (Jz 15:18; 16:28), Samuel (1Sm 12:18;
Sl 99:6), Davi (2Sm 22:4, 7; 1Cr 16:8; 21:26; Sl 14:4; 17:6; 18:3, 6;
31:17; 55:16; 86:5, 7; 105:1; 116:4, 13, 17; 118:5; 145:18), o salmista
Asafe (Sl 80:18), o salmista Hemã (Sl 88:9), Elias (1Rs 18:24), Isaías
(Is 12:4), Jeremias (Lm 3:55, 57), e outros (Sl 99:6), todos os quais
praticaram isso na era do Antigo Testamento. Isaías ordenou aos
que buscavam a Deus que O invocassem (Is 55:6). Até mesmo os
gentios sabiam que os profetas de Israel tinham o hábito de invocar
o nome de Deus (Jn 1:6; 2Rs 5:11). Os gentios levantados do norte
por Deus também invocavam o Seu nome (Is 41:25). É o
mandamento de Deus (Sl 50:15; Jr 29:12) e o desejo (Sl 91:15; Sf 3:9;
Zc 13:9) de Deus que Seu povo O invoque. Essa é a maneira alegre de
beber da fonte da salvação de Deus (Is 12:3-4) e o modo desfrutável
de se deleitar em Deus (Jó 27:10), isto é, desfrutá-Lo. Assim, o povo
de Deus deve invocá-Lo diariamente (Sl 88:9). Essa prática jubilosa
foi profetizada por Joel (Jl 2:32) com relação ao jubileu do Novo
Testamento.
No Novo Testamento, invocar o nome do Senhor foi
primeiramente mencionado por Pedro, em Atos 2:21, no dia de
Pentecostes, como cumprimento da profecia de Joel. Esse
cumprimento relaciona-se a Deus derramar o Espírito todo-
inclusivo economicamente sobre os Seus escolhidos para que
participem do jubileu neotestamentário de Deus. A profecia de Joel e
o seu cumprimento com relação ao jubileu do Novo Testamento
possui dois aspectos: do lado de Deus, Ele derramou o Seu Espírito
na ascensão do Cristo ressurreto; do nosso lado, invocamos o nome
do Senhor ascendido, que realizou tudo, alcançou tudo e obteve
tudo. Invocar o nome do Senhor é vitalmente necessário para que
nós, crentes em Cristo, participemos do Cristo todo-inclusivo e O
desfrutemos com tudo o que Ele realizou, alcançou e obteve
(1Co 1:2). É uma prática fundamental na economia neotestamentária
de Deus que nos capacita a desfrutar o Deus Triúno processado para
a nossa plena salvação (Rm 10:10-13). Os crentes primitivos
praticavam isso em todo lugar (1Co 1:2), e para os incrédulos,
especialmente os perseguidores, tornou-se sinal popular dos crentes
em Cristo (At 9:14, 21). Quando Estêvão sofreu perseguição, ele
praticou isso (7:59), e a sua prática certamente impressionou a
Saulo, um dos seus perseguidores (7:58-60; 22:20). Mais tarde, o
incrédulo Saulo perseguiu os invocadores (9:14, 21) tomando o
invocar deles como sinal. Imediatamente depois de Saulo ser ganho
pelo Senhor, Ananias, que o introduziu na comunhão do Corpo de
Cristo, ordenou-lhe ser batizado invocando o nome do Senhor, para
mostrar aos outros que ele também se tornara alguém que invocava.
Pelo que escreveu a Timóteo, em 2 Timóteo 2:22, Paulo indicou que
nos dias primitivos, todos os que buscavam o Senhor praticavam
esse invocar. Sem dúvida alguma, ele era alguém que praticava isso,
visto que ordenou ao seu jovem cooperador Timóteo que o fizesse
para desfrutar o Senhor como ele mesmo o fazia.
O verbo grego para invocar, epikaléo, compõe-se de epí, sobre
e kaléo, chamar pelo nome; assim é chamar audivelmente, até
mesmo em voz alta, como o fez Estêvão (7:59-60).
Atos 2:21 fala de invocar o nome do Senhor. O nome denota a
pessoa. Jesus é o nome do Senhor, e o Espírito é a Sua pessoa.
Quando invocamos “Senhor Jesus”, recebemos o Espírito.
De acordo com o contexto, 2:21 é a conclusão da citação da
profecia de Joel, que começou no versículo 17, indicando que o
resultado de Deus derramar o Seu Espírito sobre toda a carne é a
salvação das pessoas invocando o nome do Senhor. O derramamento
do Espírito de Deus é a aplicação da salvação do Senhor aos Seus
escolhidos. Ser salvo é receber esse Espírito, que é a bênção do
evangelho na economia neotestamentária de Deus (Gl 3:2, 5, 14).
Esse Espírito é o próprio Senhor como o fôlego (Jo 20:22) e a água
viva (Jo 4:10, 14) para nós. Para inalá-Lo como nosso fôlego e bebê-
Lo como nossa água viva, precisamos invocá-Lo, Lamentações 3:55-
56 indica que invocar o Senhor é respirar (suspirar), e Isaías 12:3-4
indica que invocá-Lo é beber. Após crermos no Senhor, precisamos
invocá-Lo, não somente para ser salvos, mas também para desfrutar
as Suas riquezas (Rm 10:12-13). Quando exercitamos o nosso
espírito para invocá-Lo, inalá-Lo e bebê-Lo, desfrutamos as Suas
riquezas; essa é a verdadeira adoração a Deus (Jo 4:24).
Quando consideramos o versículo 21 nesse contexto, vemos
que o propósito do derramamento do Espírito sobre toda a carne,
isto é, sobre todos os seres humanos, é que as pessoas invoquem o
nome do Senhor e sejam salvas. É por isso que Paulo diz que se
alguém quer ser salvo necessita invocar o nome do Senhor
(Rm 10:12-13).
Em Romanos 10 Paulo fala de duas questões: ser justificado e
ser salvo. Ser justificado é de algum modo interior, e ser salvo é de
algum modo exterior. Paulo diz que para ser justificados, precisamos
crer no coração para justiça. Se crermos no coração que o Senhor
Jesus morreu por nós e que Deus O ressuscitou dentre os mortos,
seremos justificados na presença de Deus. Contudo, para ser salvos,
ainda precisamos invocar o nome do Senhor.
Quando pregamos o evangelho e ajudamos outros a ser salvos,
precisamos encorajá-los a invocar o nome do Senhor dizendo: “Ó
Senhor Jesus!” Pela experiência sabemos que, quanto mais
fortemente a pessoa invocar o nome do Senhor, mais forte será a sua
experiência de salvação.
Vamos supor que alguém, que ouviu a pregação do evangelho e
quer ser salvo, ore suave e fracamente: “Senhor Jesus, Tu me amas,
e Tu morreste por mim, eu creio em Ti”. Talvez seja difícil acreditar
que alguém que ore de maneira tão fraca seja salvo. Contudo,
suponha que alguém invoque o nome do Senhor fortemente e diga:
“Senhor Jesus! Ó Senhor Jesus! Sou um pecador, Senhor, mas Tu
morreste por mim! o Senhor Jesus, eu Te amo!” Sem dúvida,
qualquer pessoa que ore assim, invocando fortemente o nome do
Senhor, é salva. Ela pode até estar fora de si de alegria no Senhor por
causa da Sua salvação.
Conforme Atos 7:59, quando estava sendo apedrejado,
“Estêvão (...) invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”
Saulo de Tarso aprovava a sua morte e participou da grande
perseguição contra a igreja em Jerusalém. Conforme 9:14, Saulo
tinha autoridade do sumo sacerdote para prender todos os que
invocavam o nome do Senhor Jesus. A sua intenção ao ir a Damasco
era prender todos os que invocavam o nome do Senhor. Isso indica
que nos primórdios, invocar o nome do Senhor era sinal de ser
seguidor do Senhor. Esse invocar devia ser audível pois os outros o
ouviam. Assim, tornou-se um sinal. No tempo de Saulo, os crentes
eram os que invocavam o nome do Senhor Jesus.
O Senhor apareceu a Saulo no caminho para Damasco, e Saulo
disse: “Quem és tu, Senhor?” (9:5). Mais tarde, Ananias veio a ele e
lhe disse: “Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados,
invocando o nome dele” (22:16). Aqui Ananias parecia estar
dizendo: “Irmão Saulo, você perseguia os santos porque eles
invocavam o nome do Senhor Jesus. Eles o consideram um
perseguidor, alguém que prendia os crentes porque invocavam o
nome do Senhor. Agora você se arrependeu e se voltou ao Senhor.
Mas, como podem os que o consideram como perseguidor
reconhecer que agora você é um irmão? A única maneira é você
invocar o nome do Senhor. Assim levante-se e seja batizado,
invocando o nome do Senhor Jesus. Ao ouvir que você foi batizado e
invoca o nome do Senhor Jesus, os santos ficarão muito contentes
em saber que você também invoca esse nome”.
Hoje, muitos crentes não têm a prática de invocar o nome do
Senhor Jesus. Alguns, que seguem apenas práticas tradicionais,
criticam os que invocam o nome do Senhor. Como já mostramos,
invocar o nome do Senhor não é uma prática nova; não é algo
inventado por nós. Segundo a Bíblia, invocar o nome do Senhor foi
primeiramente praticado em Gênesis 4.
Conforme Foi Prometido por Deus no Livro de Joel Vimos que
em 2:14-21 Pedro, em sua primeira mensagem aos judeus, explica o
encher econômico do Espírito Santo. Esse encher econômico do
Espírito foi prometido por Deus em Joel 2:28-29, 32.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 10
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (5)

Leitura Bíblica: At 2:14-47

Na primeira mensagem de Pedro aos judeus (2:14-47) vemos


quatro questões: ele explicou o encher econômico do Espírito Santo
(vs. 14-21), deu testemunho do Homem Jesus em Sua obra, morte,
ressurreição e ascensão (vs. 22-36), instruiu e exortou os que foram
movidos pelo Espírito (vs. 3741), e vemos o início da vida da igreja
(vs. 42-47). Na mensagem anterior abordamos a explicação de Pedro
sobre o encher econômico do Espírito Santo. Vamos agora
prosseguir considerando o seu testemunho com respeito ao Senhor
Jesus.

TESTEMUNHOU DO HOMEM JESUS EM SUA OBRA,


MORTE, RESSURREIÇÃO E ASCENSÃO

A Sua Obra: Foi Demonstrado por Deus

Em 2:22 Pedro diz: “Varões israelitas, atendei a estas palavras:


Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com
milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por
intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis”.
A primeira mensagem de pregação do evangelho que os
apóstolos deram centrou-se num homem. Em seu Evangelho, Lucas
apresentou aos leitores esse homem, desde a concepção,
nascimento, juventude, vida na terra, morte e ressurreição, até a Sua
ascensão. Agora, em Atos, Lucas avança dizendo-nos que esse
homem foi pregado pelos apóstolos como o Salvador ordenado por
Deus.
A palavra grega traduzida como aprovado no versículo 22,
literalmente significa evidenciar, exibir, demonstrar no sentido de
provar mediante exibição, evidência, demonstração, produzindo
assim uma aprovação. Isso indica que a obra do Senhor foi que Deus
O demonstrou, O exibiu. Enquanto Cristo vivia e ministrava, tudo o
que Ele fazia era uma exibição de que a Sua obra era feita por Deus.
Nos quatro evangelhos temos a exibição de uma Pessoa maravilhosa,
o Homem-Deus. Os evangelhos O mostram como Aquele que foi
plenamente provado e aprovado. O pensamento de Pedro no
versículo 22 é que Jesus foi plenamente provado e aprovado por
Deus.

A Sua Morte Segundo o Desígnio Determinado e


Presciência de Deus

Em 2:23 vemos que a morte do Senhor foi de acordo com o


desígnio determinado e presciência de Deus: “Sendo este entregue
pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes,
crucificando-o por mãos de iníquos”. Esse desígnio deve ter sido
determinado em conselho pela Trindade antes da fundação do
mundo (1Pe 1:20; Ap 13:8), indicando que a crucificação do Senhor
não foi um acidente na história da humanidade, e, sim, o
cumprimento proposital do desígnio divino determinado pelo Deus
Triúno.
A morte de Cristo também foi segundo a presciência de Deus.
Cristo fora ordenado e preparado de antemão por Deus para ser o
Seu Cordeiro redentor ao 1:29) para os Seus eleitos, segundo a Sua
presciência antes da fundação do mundo (1Pe 1:20). Isso foi feito de
acordo com o propósito e plano eterno de Deus, e não
acidentalmente. Assim, na visão eterna de Deus, desde a fundação
do mundo, isto é, desde a queda do homem como parte do mundo,
Cristo foi morto (Ap 13:8).
Vimos que a Trindade divina entrou em conselho com respeito
à morte de Cristo. Nesse conselho foi determinado que o Segundo da
Trindade se tornaria um homem e morreria na cruz. Assim, a
crucificação do Senhor, que foi segundo a presciência do Deus
Triúno, foi o resultado da determinação feita pela Trindade em
conselho eterno. Portanto, em vez de ser um acidente, a crucificação
do Senhor ocorreu de acordo com a determinação eterna do Deus
Triúno.
Atos 2:23 diz que por meio da mão de homens iníquos o
Senhor Jesus foi crucificado e morto. Esses homens iníquos
incluíam Judas Iscariotes (Lc 22:3-6), os principais sacerdotes, os
capitães do templo, os anciãos (Lc 22:52-53), o sumo sacerdote e o
Sinédrio judeu (Lc 22:54, 66-71), Pilatos, Herodes, os soldados
romanos (Lc 23:1-25): principalmente os fanáticos judeus com os
seus representantes e os políticos gentios com seus subordinados.
Isso indica que Jesus foi morto por toda a humanidade.
Atos 2:23 diz que o Senhor Jesus foi crucificado. A pena de
morte dos judeus era por apedrejamento (Lv 20:2, 27; 24:23;
Dt 13:10; 17:5). A crucificação era uma prática pagã (Ed 6:11),
adotada pelos romanos somente para a execução de escravos e
criminosos atrozes. A crucificação do Senhor Jesus não foi apenas
um cumprimento das profecias do Antigo Testamento (Dt 21:23;
Gl 3:13; Nm 21:8-9), mas também da própria palavra do Senhor
sobre a maneira como morreria (Jo 3:14; 8:28; 12:32). Nada disso
poderia cumprir-se por apedrejamento. Foi sob o arranjo soberano
de Deus que, pouco antes daquela época, o Império Romano
promulgara uma lei determinando que criminosos sentenciados à
morte fossem crucificados. Foi desse modo que o Senhor foi
executado.

A Sua Ressurreição: Foi Aprovado por Deus para Ser o


Messias

Em 2:24-32 Pedro fala a respeito da ressurreição do Senhor


Jesus. A Sua ressurreição foi que Deus O aprovou para ser o
Messias. Mediante a ressurreição de Cristo, Deus declarava que o
Cristo ressurreto era o verdadeiro Messias, O ungido e designado
por Deus para executar a Sua comissão eterna.
Atos 2:24 diz: “Ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os
grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por
ela”. Aqui e no versículo 32, Pedro disse que Deus ressuscitou a
Jesus. Em 10:40-41, ele disse a mesma coisa mas acrescentou:
“ressurgiu dentre os mortos”. Com relação ao Senhor como homem,
o Novo Testamento nos diz que Deus O ressuscitou dos mortos
(Rm 8:11); considerando-O Deus, diz-nos que Ele ressurgiu dos
mortos (Rm 14:9). No mesmo princípio, considerando-O como
homem, o Novo Testamento nos diz que Ele foi morto pelos homens
(Mc 9:31). Mas, considerando-O como Deus, diz-nos que Ele deu a
Sua vida espontaneamente (Jo 10:18). Isso também prova o Seu
status duplo: humano e divino.
Atos 2:24 diz que não era possível que Ele fosse retido pela
morte. O Senhor é tanto Deus como a ressurreição (Jo 1:1; 11:25),
possuindo a vida indestrutível (Hb 7:16). Visto ser alguém que vive
eternamente, a morte não é capaz de retê-Lo. Ele Se entregou à
morte, mas ela não teve como detê-Lo; pelo contrário, foi por Ele
derrotada, e dela Ele ressurgiu.
Atos 2:25 diz: “Porque a respeito dele diz Davi: Diante de mim
via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não
seja abalado”. A palavra via introduz uma declaração de Cristo em
Sua ressurreição. Aqui Senhor se refere a Deus. Quando Cristo é
sustentado por Deus (como em Is 41:13; 42:6), Deus está à Sua
direita; quando é exaltado por Deus, Ele se assenta à direita de Deus
(At 2:33; Sl 110:1; Ef 1:20-21).
Atos 2:26 continua: “Por isso, se alegrou o meu coração, e a
minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne
repousará em esperança”. Essa é uma citação do Salmo 16:9 na
Septuaginta. Mas no texto hebraico, a palavra para língua é glória,
que é sinônimo de alma, de acordo com Gênesis 49:6 e Salmo 7:5.
Visto que Cristo confiava em Deus, Seu coração se alegrou e Sua
alma exultou enquanto estava no Hades (At 2:27).
A palavra grega traduzida como “repousará” também pode ser
traduzi da como habitará, residirá, armará tenda. Após Cristo ter
morrido na cruz, enquanto Sua alma estava no Hades exultando, Sua
carne (Seu corpo) estava no sepulcro repousando em esperança, pois
confiava em Deus.
Atos 2:27 prossegue dizendo: “Pois não deixarás a minha alma
no Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”. Hades,
equivalente a Seol no Antigo Testamento (Gn 37:35; Sl 6:5), é o lugar
onde a alma e o espírito dos mortos são mantidos (Lc 16:22-23).
Aqui, em Atos 2:27 “corrupção” se refere à corrupção do corpo no
túmulo.
Atos 2:28 continua: “Fizeste-me conhecer os caminhos da
vida, encher-me-ás de alegria na tua presença”. Aqui os caminhos da
vida são os caminhos de sair da morte para a ressurreição. A palavra
grega para presença também significa face. Cristo foi ressuscitado
para a presença de Deus, especialmente na Sua ascensão (2:34;
Hb 1:3).
Em 2:29-31 Pedro diz: “Varões irmãos, seja-me lícito dizer-vos
livremente acerca do patriarca Davi que ele morreu e foi sepultado, e
entre nós está até hoje a sua sepultura. Sendo, pois, ele profeta e
sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto
de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar
sobre o seu trono nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que
a sua alma não foi deixada no Hades, nem a sua carne viu a
corrupção”. A palavra grega traduzida como fruto no versículo 30 é
karpôs, usada para Cristo apenas no sentido de descendência aqui e
em Lucas 1:42. Em Apocalipse 22:2 a mesma palavra grega é usada
para referir-se ao fruto da árvore da vida. Cristo é o Renovo de Jeová
(Is 4:2) e de Davi (Jr 23:5), e o fruto de Maria e de Davi, para que O
comamos como a árvore da vida.
Atos 2:30 fala de Cristo como Aquele que se assentaria no
trono de Davi. Isso também foi declarado a Maria pelo anjo, na
concepção de Cristo (Lc 1:32-33).
Em Atos 2:32 Pedro dá uma palavra conclusiva com respeito à
ressurreição de Cristo: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos
nós somos testemunhas”. A palavra grega para “do que” aqui,
também pode ser traduzida como “de quem”. Os apóstolos eram
testemunhas do Cristo ressurreto, não apenas em palavras, mas
também por suas vidas e ações, especialmente dando o testemunho
da Sua ressurreição (4:33). Dar o testemunho da ressurreição de
Cristo é o tópico crucial, o centro, ao se levar a cabo a economia
neotestamentária de Deus.

A Sua Ascensão: Foi Exaltado por Deus

A Sua ascensão foi o fato de Deus O exaltar. Ao exaltar Cristo,


Deus O fez tanto Senhor como Cristo. O derramamento do Espírito
Santo é prova de que Deus O exaltou e O fez tanto Senhor como
Cristo.
Atos 2:33 diz: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo
recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que
vedes e ouvis”. Essa não é a promessa feita pelo Senhor em João
14:16-17 e 15:26, mas a promessa dada pelo Pai em Joel 2:28-29,
citada por Pedro em Atos 2:17 e a que se referiu o Senhor em Lucas
24:49 e em Atos 1:4, com relação ao Espírito Santo. O fato de o
Cristo exaltado receber a promessa do Espírito Santo foi, na
verdade, receber o próprio Espírito Santo. Cristo foi concebido do
Espírito essencialmente para a Sua existência na humanidade
(Lc 1:35; Mt 1:18, 20) e foi ungido com o Espírito economicamente
para o Seu ministério entre os homens (Mt 3:16; Lc 4:18). Após
ressurgir e ascender, Ele precisava receber novamente o Espírito
economicamente para derramar-Se sobre o Seu Corpo, a fim de levar
a cabo o Seu ministério celestial na terra, com vistas à realização da
economia neotestamentária de Deus.
Em Atos 2:34-35 Pedro continua: “Porque Davi não subiu aos
céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor:
Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por
estrado dos teus pés”. Isso prova que até o tempo do Pentecostes,
Davi ainda não havia ascendido aos céus. Esse fato anula o
ensinamento impreciso que afirma, baseado em Efésios 4:8-10, que
quando ressuscitou, Cristo levou o Paraíso, com todos os santos do
Antigo Testamento, do Hades para os céus.
No versículo 34 Davi é citado ao dizer: “Disse o Senhor ao meu
Senhor”. O primeiro Senhor refere-se a Deus e o segundo, a Cristo, a
quem Davi chamou de “meu Senhor” (Mt 22:44-45).
Atos 2:34 fala do Senhor Jesus sentado à direita de Deus. Aqui,
“à direita” denota a posição de glória, honra e poder (Êx 15:6;
1Rs 2:19; Mc “14:62).
Conforme 2:35, o Senhor deve sentar à direita de Deus até que
os Seus inimigos sejam postos por estrado dos Seus pés. Isso indica
que, após a ascensão de Cristo, Deus ainda trabalha para derrotar os
inimigos de Cristo para que este possa voltar para reinar no reino
universal de Deus (1Co 15:25; Ap 11:15).
Em 2:36 Pedro conclui: “Esteja absolutamente certa, pois, toda
a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez
Senhor e Cristo”. Vós aqui é enfático.
Como Deus, o Senhor era o Senhor todo o tempo (Lc 1:43;
Jo 11:21; 20:28). Mas como homem, Ele foi feito Senhor na Sua
ascensão, após ter introduzido a Sua humanidade em Deus quando
ressuscitou. E como Enviado e Ungido de Deus, Ele era o Cristo
desde quando nasceu (Lc 2:11; Mt 1:16; Jo 1:41; Mt 16:16). Mas como
tal, também foi feito oficialmente o próprio Cristo de Deus em Sua
ascensão. O Senhor foi feito Senhor, o Senhor de todos (At 10:36),
para possuir tudo; e foi feito Cristo, o Ungido de Deus (Hb 1:9), para
levar a cabo o comissionamento de Deus.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 11
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (6)

Leitura Bíblica: At 2:14-47

A PROPAGAÇÃO DE CRISTO E A VIDA DA IGREJA

Em 2:22-36 Pedro dá testemunho do Homem Jesus em Sua


obra, morte, ressurreição e ascensão.
No versículo 36 ele declara: “Esteja absolutamente certa, pois,
toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus
o fez Senhor e Cristo”.
Jesus foi feito o Senhor, para possuir tudo; e foi feito Cristo
para levar a cabo o comissionamento de Deus. Como Deus, o Senhor
Jesus já era o Senhor, e em Sua divindade não havia necessidade de
ser feito Senhor. Contudo, em Sua ascensão Ele, como homem, foi
feito o Senhor de todos por Deus. Deus fez Jesus o Senhor de todos
para possuir todas as coisas, inclusive nós.
O Senhor Jesus também era Cristo, já desde a eternidade.
Além disso, Ele nasceu como o Cristo (Lc 2:11). Contudo, em Sua
ascensão Ele foi oficialmente feito o Cristo de Deus. Isso quer dizer
que em Sua ascensão Deus O empossou formalmente no ofício do
Cristo. Deus já O havia escolhido, mas em Sua ascensão Ele ainda O
empossou no Seu ofício como o Cristo para levar a cabo o
comissionamento divino. Que todos sejamos impressionados com o
fato de que em 2:36 Senhor se refere à posse, e Cristo se refere à
comissão.
O registro em 2:14-47 enfatiza Pedro falando com respeito a
Cristo. Pedro falou de Cristo, e até mesmo “falou Cristo”. Esse é o
primeiro caso em que os crentes falam de Cristo. Em seu falar, Pedro
nos apresenta o Homem Jesus e nos dá testemunho a respeito Dele.
Especialmente, Pedro fala do Senhor Jesus em Sua obra, morte,
ressurreição e ascensão.
Ao falar de Cristo nos capítulos dois a cinco de Atos, Pedro não
se refere a Ele como o Filho de Deus. A ênfase de Pedro aqui não
está no fato de que Jesus é o Filho de Deus. Pelo contrário, nesses
capítulos Pedro enfatiza que o Senhor Jesus é um homem. A razão
para essa ênfase é que os judeus crucificaram Cristo como homem,
considerando-O meramente como um homem desprezado, um
nazareno, alguém de baixa classe social. Por isso, Pedro disse que
Aquele que os judeus consideravam um humilde nazareno foi
aprovado por Deus em tudo o que fez.
Como veremos, o fato de Pedro falar de Cristo produziu a
propagação de Cristo. No dia de Pentecostes essa propagação incluiu
as três mil almas que foram salvas. Essa propagação foi o resultado
do falar de Pedro a respeito de Cristo. Com isso vemos que falar de
Cristo certamente leva à propagação de Cristo nos que creem Nele.
Ademais, os crentes, como a propagação de Cristo, se tornam a
igreja. Portanto, no capítulo dois vemos que falar de Cristo produziu
a igreja em Jerusalém. Nesse capítulo temos tanto a propagação de
Cristo como a vida da igreja.

INSTRUIU E EXORTOU OS QUE FORAM MOVIDOS PELO


ESPÍRITO

Com respeito ao Arrependimento

Depois de falar do Senhor Jesus em Sua obra, morte,


ressurreição e ascensão, Pedro instruiu e exortou os que foram
movidos pelo Espírito a se arrepender, ser batizados e ser salvos
(vs. 37-41). Atos 2:37-38 diz: “Ouvindo eles estas coisas, compungiu-
se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos:
Que faremos, irmãos? Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e
cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para
remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”.
Aqui Pedro primeiro disse às pessoas que se arrependessem.
Arrepender-se é ter uma mudança de parecer, sentir pesar pelo
passado e ter uma mudança de propósito. Literalmente, o vocábulo
grego para arrepender-se quer dizer mudar de parecer, isto é, ter
uma mudança na maneira de pensar. Arrepender-se é ter uma
mudança de parecer, sentindo pesar pelo passado e tomando novo
rumo para o futuro. Do lado negativo, arrepender-se diante de Deus
não é” somente arrepender-se dos pecados e males cometidos, mas
também do mundo e sua corrupção, que usurpam e corrompem as
pessoas que Deus criou para Si mesmo, e ainda da vida longe de
Deus que tivemos no passado. Do lado positivo, é converter-se a
Deus em todos os aspectos e em tudo, para o cumprimento do Seu
propósito ao criar o homem. É “arrependimento para com Deus”
(At 20:21).
Com respeito ao Batismo no Nome de Jesus Cristo Pedro
também instruiu os que foram movidos pelo Espírito a ser batizados
no nome de Jesus Cristo. Batizar as pessoas é imergi-las, sepultá-las
na água, significando morte. A ordem para que alguém arrependido
seja batizado indica que ele é bom apenas para ser sepultado.
Batismo, portanto, significa o término da velha pessoa, a fim de que
haja um novo início em ressurreição, por meio de Cristo como
Aquele que dá vida. Batismo na Bíblia implica morte e ressurreição.
Ser batizado em água é ser colocado na morte e sepultado. Ressurgir
da água significa ser ressuscitado da morte.
Em Mateus 28:19 o Cristo ressurreto ordenou que os
discípulos fossem e fizessem discípulos de todas as nações,
batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O
objetivo do batismo é tirar pessoas arrependi das da sua situação
velha e introduzi-las numa situação nova, pondo fim à sua velha vida
e fazendo-os germinar com a nova vida de Cristo. Depois que o
Senhor Jesus cumpriu o Seu ministério na terra, passou pelo
processo de morte e ressurreição, e se tornou o Espírito que dá vida,
Ele ordenou aos discípulos que batizassem os novos discípulos no
Deus Triúno. Esse batismo tem dois aspectos: o aspecto visível pela
água e o aspecto invisível pelo Espírito Santo (At 2:38-41; 10:44-48).
O aspecto visível é a expressão, o testemunho, do aspecto invisível,
enquanto o aspecto invisível é a realidade do aspecto visível. Sem o
aspecto invisível pelo Espírito, o aspecto visível, pela água, é vão; e
sem o aspecto visível, pela água, o aspecto invisível, pelo Espírito, é
abstrato e não é prático. Portanto, ambos são necessários.
Pouco depois de ter ordenado aos discípulos que levassem a
cabo esse batismo, o Senhor Jesus os batizou, e a toda a igreja, no
Espírito Santo (1Co 12:13) no dia de Pentecostes (At 1:5; 2:4) e na
casa de Camélia (11:15-17). Então, com base nisso, os discípulos
batizaram os novos convertidos, não apenas visivelmente em água,
mas também invisivelmente na morte de Cristo (Rm 6:3-4), no
próprio Cristo (GI3:27), no Deus Triúno (Mt 28:19), e no Corpo de
Cristo (1Co 12:13). A água, que representa a morte de Cristo com o
Seu sepultamento, pode ser considerada um túmulo para pôr fim à
história dos que são batizados. Como a morte de Cristo está incluída
em Cristo e como Cristo é a corporificação do Deus Triúno, que é um
com o Corpo de Cristo, batizar novos crentes na morte de Cristo, no
próprio Cristo, no Deus Triúno e no Corpo de Cristo é fazer apenas
uma coisa: do lado negativo é pôr fim à velha vida deles, e do lado
positivo é fazê-las germinar com a nova vida, a vida eterna do Deus
Triúno, para o Corpo de Cristo. Assim, o batismo ordenado pelo
Senhor Jesus é tirar as pessoas da sua vida e introduzi-las na vida do
Corpo. Tudo isso por meio do batismo.
Em Marcos 16:16 o Senhor disse aos discípulos: “Quem crer e
for batizado será salvo”. Crer é receber o Senhor (Jo 1:12) não
apenas para o perdão dos pecados (At 10:43) mas também para
regeneração (1Pe 1:21, 23), a fim de que os que creem se tornem os
filhos de Deus (Jo 1:12-13) e os membros de Cristo (Ef 5:30) em uma
união orgânica com o Deus Triúno (Mt 28:19): Ser batizado é
afirmar isso, sendo sepultado para pôr fim à velha criação pela
morte de Cristo e sendo ressuscitado para ser a nova criação de Deus
por meio da ressurreição de Cristo. Esse batismo é muito mais
avançado do que o batismo de arrependimento de João (Mc 1:4;
At 19:3-5). Crer e ser batizado são duas partes de um passo completo
para receber a plena salvação de Deus. Ser batizado sem crer é
meramente um ritual vazio. Crer sem ser batizado é ser salvo apenas
internamente sem afirmação exterior da salvação interior. Esses dois
devem andar juntos. Ademais, batismo na água deve ser
acompanhado de batismo no Espírito, assim como os filhos de Israel
foram batizados no mar (água) e na nuvem (Espírito — 1Co 10:2;
12:13).
Em Atos 2:38 Pedro fala de ser batizado “em nome de Jesus
Cristo”. O nome denota a pessoa. Aqui Pedro diz às pessoas que
sejam batizadas no nome do Senhor.
O Novo Testamento usa três preposições diferentes para
descrever o batismo em relação ao Senhor, muito embora todas elas
sejam traduzidas como em em português. A primeira delas é en, em
(10:48). Ser batizado em o nome de Jesus Cristo é ser batizado na
esfera do Seu nome, na qual está a realidade do batismo. A segunda
preposição é eis, dentro de (Mt 28:19; At 8:16; 19:5; Rm 6:3;
Gl 3:27). Ser batizado dentro do nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo, ou dentro do nome de Jesus Cristo, é ser introduzido por
meio do batismo numa união espiritual com o Cristo todo-inclusivo,
que é a corporificação do Deus Triúno. Ser batizado dentro do nome
do Senhor Jesus é ser batizado dentro da Sua Pessoa, é ser
identificado com o Cristo crucificado, ressurreto e ascendido, e é ser
colocado numa união orgânica com o Senhor vivo. A terceira
preposição é epi, sobre ou em cima de (At 2:38). Ser batizado sobre
o nome de Jesus Cristo é ser batizado sobre a base do que o Seu
nome representa. Ele representa tudo o que a Pessoa de Jesus Cristo
é e tudo o que Ele realizou, os quais constituem a crença (a fé) da
economia neotestamentária de Deus. É nessa base sobre a qual os
crentes em Cristo são batizados.

O Perdão de Pecados

Conforme Atos 2:38, o batismo sobre o nome de Jesus Cristo


visava ao perdão de pecados. O perdão de pecados baseia-se na
redenção de Cristo, realizada mediante a Sua morte (10:43; Ef 1:7;
1Co 15:3); é a bênção inicial e básica da plena salvação de Deus. Com
base nisso, a bênção da plena salvação de Deus avança e se consuma
no recebimento do dom do Espírito Santo.

Receber o Dom do Espírito Santo

Em 2:38 Pedro diz às pessoas que se arrependam, sejam


batizadas para o perdão de pecados e recebam o dom do Espírito
Santo. O dom do Espírito Santo não é qualquer dom distribuído pelo
Espírito, como os que são mencionados em Romanos 12:6,
1 Coríntios 12:4 e 1 Pedro 4:10, mas o dom que é o próprio Espírito
Santo, dado por Deus aos crentes em Cristo como o dom único que
produz todos os dons mencionados nas passagens acima citadas.
Esses dons são as habilidades e capacidades para o serviço de Deus,
e vêm do dom único, o Espírito Santo.
O Espírito Santo em Atos 2:38 é o Espírito todo-inclusivo do
Deus Triúno processado na Sua economia neotestamentária, tanto
essencial para vida como econômico para poder, dado aos crentes
quando creem em Cristo (Ef 1:13; Gl 3:2), como a bênção todo-
inclusiva do evangelho pleno de Deus (Gl 3:14) a fim de que
desfrutem todas as riquezas do Deus Triúno (2Co 13:13).
Os apóstolos pregaram e ministraram Cristo, mas quando os
ouvintes se arrependeram e creram Nele, receberam esse
maravilhoso Espírito do Deus Triúno. Isso quer dizer que o Espírito
é simplesmente o próprio Cristo ressurreto e ascendido. Receber o
Espírito aqui é tanto essencial como econômico, num sentido geral e
todo-inclusivo, diferente de receber o Espírito em Atos 8:15-17 e
19:2-6, que é especificamente receber o Espírito ao ser Ele
derramado sobre os crentes economicamente.

A Promessa aos Judeus e aos Gentios

Em 2:39 Pedro prossegue dizendo: “Pois para vós outros é a


promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe,
isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar”. Aqui “vós” se
refere aos judeus, e a “promessa” se refere ao Espírito Santo.
Todos os que ainda estão longe são os gentios, incluídos em
toda a carne (v. 17). Aqueles que o Senhor nosso Deus chama para
Si são os que Deus escolheu e predestinou na eternidade (Ef 1:4-5) e
chamou na era do Novo Testamento (Rm 1:7; 1Co 1:2).

Ser Salvos dessa Geração Perversa

Atos 2:40 diz: “E com muitas outras palavras isto testificava e


os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa”. Aqui é-nos
dito que Pedro testificava e exortava. Testificar requer experiências
de ver e desfrutar o Senhor e coisas espirituais. É diferente de
meramente ensinar.
Pedro exortava as pessoas dizendo: “Salvai-vos desta geração
perversa”. Aqui salvai-vos é modo imperativo, voz passiva. Poderia
também ser traduzido por: “Sede salvos”. A salvação deve ser levada
a cabo por Deus, mas o homem precisa ser ativo em receber o que
Deus tenciona fazer. Na época do Pentecostes, tudo o que dizia
respeito à plena salvação de Deus já fora preparado, e o Espírito
Santo foi derramado como a aplicação e a bênção plena da salvação
de Deus, pronto para o homem receber. Nessa questão, Deus espera
pelo homem, e o homem precisa tomar a iniciativa. Embora não
possamos salvar a nós mesmos, devemos desejar ser salvos por
Deus. Deus quer e está preparado para nos salvar; contudo, nós
precisamos ser salvos; isto é, precisamos tomar a iniciativa de
receber a salvação de Deus.
Em 2:40 Pedro exortou as pessoas a ser salvas dessa geração
perversa. Na conclusão da sua mensagem, Pedro não disse: “Salvai-
vos da condenação de Deus”, ou “da perdição eterna”, e, sim, “desta
geração perversa”. A geração perversa refere-se aos judeus
pervertidos daquela época, que rejeitaram o Cristo de Deus (v. 36) e
foram considerados por Deus como “o presente século maligno”
(Gl 1:4). Para que os judeus perversos fossem salvos daquele seu
século maligno, era preciso um arrependimento autêntico com
relação a sua perversão para com Deus e uma conversão real a Deus.
Isso indica que precisavam converter-se a Deus não somente dos
pecados, mas também da geração, da sociedade judaica, inclusive da
religião judaica. O resultado de tal salvação não era entrar no céu, e,
sim, entrar numa nova geração: a igreja. Desse modo, os salvos eram
separados da sociedade judaica e introduzidos na igreja. Ser salvo
desse modo implica ser salvo da condenação de Deus e da perdição
eterna para o propósito eterno de Deus e Seu bom prazer (Ef 3:11;
1:9).
Atos 2:41 diz: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram
batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil
pessoas”. Esses foram batizados em água (10:47-48). Nesse
versículo, o vocábulo pessoas é literalmente almas, e se refere a
pessoas criadas por Deus (Gn 2:7).
De acordo com 2:41, cerca de três mil almas receberam a
palavra de Pedro e foram batizadas. Isso, sem dúvida, foi uma boa
resposta ao falar de Pedro com respeito a Cristo. Contudo, os que
receberam a palavra e foram batizados eram apenas uma pequena
porcentagem dos que estavam em Jerusalém naqueles dias. Dos
muitos milhares de judeus na cidade, apenas três mil foram salvos
no dia de Pentecostes. Isso indica que o povo judeu ainda estava
muito teimoso. Grande número de judeus morava em Jerusalém, e
muitos tinham vindo à cidade para a celebração da Festa de
Pentecostes. Portanto, comparativamente falando, o número dos
que foram salvos no dia de Pentecostes não foi grande. Nisso vemos
a teimosia dessa geração perversa. Não é surpreendente; pois, que
Pedro tenha dito: “Salvai-vos desta geração perversa”.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 12
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (7)

Leitura Bíblica: At 2:14-47

Em 2:14-47, trecho que registra a primeira mensagem de


Pedro aos judeus, Pedro explica o encher econômico do Espírito
Santo (vs. 14-21), dá testemunho do Homem Jesus em Sua obra,
morte, ressurreição e ascensão (vs. 22-36), e instrui e exorta os que
foram movidos pelo Espírito (vs. 3741). Então, em 2:42-47 temos
uma descrição do início da vida da igreja. Nesta mensagem
consideraremos o início da vida da igreja, apresentada nesses
versículos.

OS CRENTES PERSEVERAVAM EM QUATRO ITENS

Em 2:42 diz: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na


comunhão, no partir do pão e nas orações”. Aqui vemos que o
primeiro grupo de crentes produzido por meio da pregação e do
ministério de Cristo no dia de Pentecostes continuou firme em
quatro itens: ensinamento (ou doutrina), comunhão, o partir do pão
e orações. Ensinamento é o desvendar da economia
neotestamentária de Deus com relação a Cristo e a igreja; comunhão
é a comunhão e comunicação entre os crentes em sua comunhão e
comunicação com o Deus Pai e Cristo, o Filho; partir o pão é
lembrar-se do Senhor, em que Ele realizou a redenção plena de
Deus; e oração é a cooperação com o Senhor no céu para levar a cabo
a economia neotestamentária de Deus na terra.
Os primeiros dois itens, ensinamento e comunhão, unidos pela
preposição e, formando assim um grupo, são dos apóstolos, mas o
partir do pão e orações não, o que indica que além do ensinamento e
comunhão dos apóstolos, os crentes em Cristo não devem ter
nenhum outro ensinamento e comunhão. Na economia
neotestamentária de Deus, há somente uma categoria de
ensinamento revelada e reconhecida por Deus: o ensinamento dos
apóstolos, e somente uma categoria de comunhão que é de Deus e
aceitável a Ele: a comunhão dos apóstolos, que é com o Pai e o Filho,
Jesus Cristo (1Jo 1:3), e é a comunhão única da igreja única, o Corpo
de Cristo.
Os últimos dois, partir do pão e oração, também ligados por e,
formando outro grupo, são práticas dos crentes na vida cristã e não
se relacionam diretamente à economia de Deus para a preservação
da unidade da igreja, o Corpo de Cristo. Portanto, não são dos
apóstolos, que introduziram a revelação neotestamentária de Deus e
Sua comunhão entre todos os crentes em Cristo.

O Ensinamento dos Apóstolos

Vimos que os novos crentes perseveravam no ensinamento dos


apóstolos. O único ensinamento adequado que há no Novo
Testamento é o dos apóstolos. Qualquer ensinamento que não seja o
dos apóstolos não é bíblico nem ortodoxo. O ensinamento ortodoxo
é o dos apóstolos registrado nos vinte e sete livros do Novo
Testamento, de Mateus a Apocalipse.
Portanto, Paulo disse a Timóteo: “Quando eu estava de
viagem, rumo da Macedônia, te roguei permanecesses ainda em
Éfeso para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem
outra doutrina” (1Tm 1:3). Ensinar outra doutrina, ou ensinar
diferentemente, é ensinar de modo diferente do ensinamento dos
apóstolos. Se tivermos vários ensinamentos, iremos dividir-nos em
vários grupos. Mas se tivermos apenas o ensinamento dos apóstolos,
seremos um.

A Comunhão dos Apóstolos

Assim como o ensinamento dos apóstolos é único, também a


comunhão dos apóstolos é única. A partir desse versículo vemos que
todos os cristãos devem ter comunhão, a única comunhão, que é a
comunhão dos apóstolos. Essa comunhão é mencionada em
1 João 1:3: “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós
outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco.
Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo”. A
palavra grega para comunhão é koinonía, que significa participação
conjunta, participação comum; é o resultado da vida eterna e é na
verdade, o fluir da vida eterna em todos os crentes que receberam e
possuem a vida divina. É ilustrada pelo fluir da água da vida na Nova
Jerusalém (Ap 22:1). Assim, como nos indica Atos 2:42, todos os
crentes autênticos estão nessa comunhão. Ela é executada pelo
Espírito em nosso espírito regenerado. Portanto, é chamada de “a
comunhão do Espírito Santo” (2Co 1, 3:13) e “comunhão do (nosso)
espírito” (Fp 2:1 ― lit.). E nessa comunhão da vida eterna que nós,
os crentes, participamos em tudo o que o Pai e o Filho são e fizeram
por nós; isto é, desfrutamos o amor do Pai e a graça do Filho por
meio da comunhão do Espírito (2Co 13:13).
Essa comunhão era primeiramente a porção dos apóstolos em
desfrutar o Pai e o Filho por meio do Espírito. Por isso ela é chamada
de comunhão dos apóstolos e “a nossa [dos apóstolos] comunhão”
em 1 João 1:3, uma comunhão com o Pai e com o Seu Filho Jesus
Cristo. Essa comunhão é um mistério divino.
A palavra “comunhão” usada em Atos 2:42 e 1 João 1:3 indica
colocar de lado o interesse particular e juntar-se com outros visando
a um propósito comum. Assim, ter comunhão com os apóstolos,
estar na comunhão dos apóstolos e ter comunhão com o Deus
Triúno na comunhão dos apóstolos, é colocar de lado os interesses
particulares e juntar-se aos apóstolos e ao Deus Triúno para levar a
cabo o propósito divino. A nossa participação no desfrute que os
apóstolos têm do Deus Triúno é o nosso juntar-se a eles e ao Deus
Triúno para o Seu propósito divino, o qual é comum a Deus, aos
apóstolos e a todos os crentes.
Entre os cristãos hoje há, não apenas ensinamentos diferentes,
como também diferentes comunhões. Deixe-me ilustrar a partir da
minha experiência com a denominação Batista do Sul. Como a
minha mãe era dessa denominação, eu fui estudar nas escolas deles.
Sempre que havia a ceia, era anunciado que apenas os que haviam
sido batizados por aquela denominação poderiam participar. Isso
quer dizer que essa denominação tinha a sua própria comunhão, e
não era a comunhão dos apóstolos.
A comunhão dos apóstolos é aberta, recebendo todos os
crentes autênticos em Cristo. Por exemplo, essa comunhão recebe
irmãos que tenham sido imersos e os que tenham recebido aspersão.
Ademais, os que estão nessa comunhão não exigem que os crentes
tenham sido imersos por eles. Contudo, certas facções insistem em
que somente o batismo deles é válido. Eles costumam insistir que o
crente seja batizado novamente se quiser fazer parte do grupo deles.
Isso é uma ilustração de uma comunhão que é diferente da
comunhão dos apóstolos.
Você sabe dizer se determinado grupo cristão é uma facção?
Uma maneira é verificar se tal grupo recebe todos os verdadeiros
crentes em Cristo. Por exemplo, suponha que um irmão no Senhor
que seja um padre Católico Romano venha à nossa reunião do partir
do pão. Nós certamente o receberíamos porque ele é nosso irmão em
Cristo. Contudo, qualquer grupo que não receba todos os
verdadeiros crentes é uma facção e não está praticando a comunhão
dos apóstolos.
Em alguns lugares, crentes de certo grupo racial não são
recebidos por cristãos de outra raça. Será que esses que rejeitam
outros crentes, por causa da raça, estão na comunhão dos apóstolos?
Certamente não. A comunhão deles é a comunhão de determinada
raça, e não dos apóstolos, a qual certamente inclui os crentes de toda
raça e nacionalidade. Temos uma ilustração disso em Atos 13:1, onde
vemos que entre os profetas e mestres da igreja em Antioquia havia
pessoas de diferentes raças e nacionalidades.
Os que não recebem crentes de outra nacionalidade não
praticam a comunhão dos apóstolos. Suponha que certos irmãos do
Brasil não quisessem receber irmãos da Alemanha, e digam: “Esses
alemães são rígidos demais, simplesmente não conseguimos aceitá-
los”. Se esse fosse o caso, esses irmãos brasileiros seriam uma
facção. Eles não teriam a comunhão dos apóstolos, e, sim, uma
“comunhão ao estilo brasileiro”. Vamos supor ainda que os irmãos
alemães reajam e digam: “Já que vocês brasileiros não nos aceitam,
nós também não aceitaremos vocês”. O resultado seria a existência
de duas, assim chamadas, comunhões: a comunhão alemã e a
comunhão brasileira. O Novo Testamento, no entanto, só reconhece
uma comunhão: a comunhão dos apóstolos.
As placas que os crentes colocam na frente dos seus locais de
reunião indicam que eles não estão na comunhão dos apóstolos. Por
exemplo, na China vi uma placa que identificava determinado lugar
como “Igreja Presbiteriana Americana”. Pouco tempo atrás vi uma
placa na Califórnia do Sul identificando certo grupo como “Igreja
Chinesa de Taiwan”. É muito estranho que na China havia uma
Igreja Presbiteriana Americana, e na Califórnia, uma Igreja Chinesa
de Taiwan. Tais grupos não praticam a unidade do Corpo de Cristo.
Conforme Atos 2:42, no início da vida da igreja havia uma só
comunhão, que era a comunhão dos apóstolos, e incluía todos os
crentes autênticos. Na vida da igreja na restauração do Senhor nós
seguimos e praticamos a comunhão dos apóstolos.

Ensinamento e Comunhão, Partir do Pão e Orações

A construção gramatical de 2:42 é significativa. Aqui vemos


que os novos crentes continuaram firmes em dois grupos de itens:
primeiro, no ensinamento e comunhão dos apóstolos; segundo, no
partir do pão e orações. Em cada grupo de dois há a conjunção e.
Essa conjunção une ensinamento e comunhão dos apóstolos, e
depois une partir do pão e orações.
Contudo, ela não é usada para unir os dois grupos. Em outras
palavras, essas quatro questões (ensinamento, comunhão, partir do
pão e orações) não sã~ um grupo de quatro itens. Mas, segundo a
estrutura gramatical, ensinamento e comunhão são um grupo, e
partir do pão e orações são outro grupo.
A partir da construção gramatical desse versículo podemos ver
que o ensinamento e a comunhão são dos apóstolos, mas o partir do
pão e as orações, não. O ensinamento e a comunhão pertenciam aos
apóstolos, mas não o partir do pão e as orações. Isso implica que,
embora possamos orar em qualquer lugar e hora, não podemos, no
entanto, ter mais de uma comunhão. Há apenas uma comunhão, a
comunhão única, a comunhão dos apóstolos. Da mesma forma,
embora possamos partir o pão a qualquer momento e lugar, não
podemos ter um ensinamento diferente do dos apóstolos. Pelo
contrário, como crentes, devemos ter um único ensinamento, o
ensinamento singular, o ensinamento dos apóstolos.

PRODÍGIOS E SINAIS FEITOS POR MEIO DOS


APÓSTOLOS

Atos 2:43 diz: “Em cada alma havia temor; e muitos prodígios
e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos”. Prodígios e sinais
não fazem parte do testemunho central de Deus do Cristo
encarnado, crucificado, ressurreto e ascendido. Também não fazem
parte da plena salvação de Deus. Porém são apenas evidências de
que o que os apóstolos pregavam e ministravam e a maneira pela
qual agiam era absolutamente de Deus, e não do homem (Hb 2:3-4).

OS QUE CRERAM TINHAM TUDO EM COMUM

Atos 2:44-45 prossegue dizendo: “Todos os que creram


estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas
propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida
que alguém tinha necessidade”. Vemos o mesmo em 4:32. Ter tudo
em comum não é sinal de amor; é sinal da salvação dinâmica de
Cristo que salvou os crentes de ganância e egoísmo. Isso foi
praticado apenas por pouco tempo no início da economia
neotestamentária de Deus; não teve continuidade a longo prazo, não
se tornando uma prática legalista na vida da igreja durante o
ministério de Paulo, como provam suas palavras em 2 Coríntios 9 e
noutros lugares.
Atos 2:45 diz que os crentes vendiam os seus bens e
propriedades e dividiam o produto entre eles à medida que alguém
tinha necessidade. Essa também foi uma evidência da salvação
dinâmica do Senhor, que fez com que os crentes vencessem as
posses terrenas, que ocupam, possuem e usurpam toda a
humanidade caída (Mt 19:21-24; Lc 12:13-19, 33-34; 14:33; 16:13-14;
1Tm 6:17). Embora a salvação dinâmica de Deus fizesse com que os
crentes esquecessem das posses terrenas, ter tudo em comum não se
tornou uma prática formal na vida da igreja.
OS CRENTES PERSEVERAVAM UNÂNIMES NO TEMPLO
E PARTIAM O PÃO DE CASA EM CASA

Atos 2:46-47a diz: “Diariamente perseveravam unânimes no


templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições
com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com
a simpatia de todo o povo”. No início da economia neotestamentária
de Deus, os primeiros crentes, e até mesmo o primeiro grupo de
apóstolos, não tinham clareza de que Deus abandonara o judaísmo
com as suas práticas e instalações, inclusive o templo (ver Mt 23:38:
“vossa casa”, referindo-se ao templo que Deus abandonara). Assim,
de acordo com a tradição e o hábito deles, ainda iam ao templo para
a reunião neotestamentária deles.
Conforme 2:46, dia a dia os crentes primitivos partiam pão de
casa em casa. Eles se lembravam do Senhor partindo o pão
diariamente em casa; isso mostrava o seu amor e entusiasmo para
com o Senhor.
As palavras gregas traduzidas como “de casa em casa” também
significam “em casa”; em contraste com “no templo”. Reuniões em
casa como modo cristão de reunir-se é condizente com a economia
neotestamentária de Deus. Essa maneira difere da maneira judaica
de reunir-se em sinagogas (6:9). Tornou-se uma prática contínua e
genérica nas igrejas (cf. Rm 16:5; 1Co 16:19; Cl 4:15; Fm 2).
Em 2:46 vemos que os crentes “tomavam as suas refeições com
alegria e singeleza de coração”. A palavra grega para “singeleza”
também significa simplicidade; isso mostra que o coração deles era
simples, singelo e despojado, com um só amor e desejo e uma só
meta ao buscar o Senhor. Esses crentes primitivos eram simples,
singelos, sinceros e de coração puro.
De acordo com 2:47a, os crentes na vida da igreja primitiva
louvavam a Deus e contavam com a simpatia de todo o povo. Eles
levavam uma vida que expressava os atributos de Deus nas virtudes
humanas, como o fez Jesus, o Salvador-Homem (Lc 2:52).

O SENHOR ACRESCENTAVA, DIA A DIA, OS QUE IAM


SENDO SALVOS
Atos 2:47b diz: “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor,
dia a dia, os que iam sendo salvos”. O fato de o Senhor acrescentar-
lhes os que iam sendo salvos significa que Ele os acrescia à igreja. O
Senhor acrescia os salvos, e o fato de estarem juntos era a igreja. Isso
indica que desde o início da vida cristã, os crentes primitivos foram
introduzidos numa vida da igreja coletiva; não viviam
individualmente como cristãos separados uns dos outros.
Agradecemos ao Senhor por esse quadro do início da vida da igreja.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 13
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (8)

Leitura Bíblica: At 3:1-26

Em 3:1-26 temos a segunda mensagem de Pedro aos judeus.


Os versículos 1 a 10 descrevem a cura de um coxo, e 11 a 26
registram a própria mensagem dada por Pedro.

A CURA DE UM COXO

Atos 3:1 diz: “Pedro e João subiam ao templo para a oração da


hora nona”. Já comentamos que no início da economia
neotestamentária de Deus, os crentes primitivos, e até mesmo o
primeiro grupo de apóstolos, não tinham clareza de que Deus
abandonara o judaísmo com suas práticas e instalações, inclusive o
templo. Por isso, seguindo a sua tradição e hábito, eles ainda iam ao
templo.
Os crentes primitivos não tinham clareza com respeito à
economia neotestamentária de Deus no que diz respeito ao templo
judaico. Nem mesmo os primeiros apóstolos tinham uma visão clara
com respeito a Deus ter abandonado as coisas judaicas. Assim,
mesmo depois de Deus ter derramado o Espírito sobre eles no dia de
Pentecostes para iniciar uma nova dispensação, eles ainda não se
separaram do templo judaico. No estágio inicial Deus tolerou a
ignorância deles nessa questão. Mas isso conduziu a uma mistura da
vida da igreja com o judaísmo, mistura essa que não foi condenada
pela igreja primitiva em Jerusalém (ver 21:20-26). Por fim o templo
foi destruído por Tito com o seu exército romano em 70 cf. e., como
foi profetizado pelo Senhor em Mateus 23:38 e 24:2. Essa destruição
acabou com a mistura religiosa.
Quando Pedro e João, que estavam para entrar no templo,
viram um coxo de nascença, eles fixaram os olhos nele e disseram:
“Olha para nós. O homem os olhava atentamente, esperando receber
alguma cousa. Pedro, porém, lhe disse: Não possuo prata nem ouro,
mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno,
anda! E, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente, os
seus pés e tornozelos se firmaram” (At 3:2-7). Pedro não possuía
prata nem ouro, mas a Catedral de São Pedro em Roma foi
construída com uma superabundância de ouro. Ele não tinha prata
nem ouro, mas tinha o nome, a Pessoa, de Jesus Cristo. Era pobre
em ouro e prata, mas era rico em Cristo. A Igreja Romana é cheia de
ouro, mas não da Pessoa de Cristo. É rica de ouro, mas pobre de
Cristo.
Ao falar ao coxo, Pedro lhe disse que andasse, em nome de
Jesus Cristo, o Nazareno. Nazareno indica Aquele que era
desprezado pelos líderes judeus (Jo 1:45-46; Atos 22:8; 24:5).

A MENSAGEM DE PEDRO

Voltou a Atenção das Pessoas de Milagres para a Pessoa do


Senhor Jesus Pedro e João fizeram um milagre, e as pessoas
prestaram atenção a isso. Mas, ao falar, Pedro voltou a atenção das
pessoas do milagre para uma Pessoa, para o Senhor Jesus. Embora
Pedro e João tenham feito um milagre, Pedro não falou sobre o
milagre. Pelo contrário, usou o milagre como base para fazer com
que os ouvintes se voltassem para Cristo. Ele voltou a atenção das
pessoas da cura para Aquele que cura. A mensagem de Pedro
baseava-se no milagre da cura do coxo. Contudo, o encargo dele não
era falar sobre cura divina. Antes, era propagar Cristo. Ele tinha
encargo de falá-Lo e declará-Lo em seu falar.
O encargo de Pedro era que, ao falar, Cristo fosse infundido
nos outros, a fim de que se tornassem a propagação de Cristo, e os
Seus membros vivos para que Cristo tivesse um Corpo na terra. O
Pentecostes visa à propagação de Cristo, e não milagres, prodígios,
sinais e cura divina. Todas essas coisas são secundárias. Embora um
coxo tivesse sido curado por meio de Pedro e João, a ênfase de Pedro
não era a cura, e, sim, o nome do Senhor Jesus. Primeiramente, ele
disse ao coxo: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!”
Depois, em sua mensagem ele prosseguiu: “Pela fé em o nome de
Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora
vedes e reconheceis” (v. 16). Assim, Pedro não pregou cura divina
nem milagres; pregou a Pessoa do Senhor Jesus Cristo.
Embora Pedro tenha voltado a atenção das pessoas da cura
para Aquele que cura, hoje os cristãos que enfatizam as curas
frequentemente voltam a atenção das pessoas Daquele que cura para
as curas, até mesmo para falsas curas. Muitas curas nas reuniões
pentecostais não são autênticas. Depois que foi curado, o coxo “de
um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no templo,
saltando e louvando a Deus” (v. 8). Essa foi uma cura autêntica.
Mesmo assim, Pedro fez as pessoas se voltarem para Aquele
que cura, para o Senhor Jesus. Nós também devemos voltar a
atenção das curas para Aquele que cura.

Testificou de Jesus em Sua Morte e Ressurreição

O Deus da Ressurreição Glorificou o Seu Servo Jesus

Quando todo o povo correu atônito para junto de Pedro, João e


o coxo, Pedro lhes disse: “Israelitas, por que vos maravilhais disto ou
por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou
piedade o tivéssemos feito andar? O Deus de Abraão, de Isaque e de
Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós
traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido
soltá10 (vs. 12-13). Alguns manuscritos acrescentam “o Deus de”
antes de Isaque e de Jacó. Por que, no versículo 13, Pedro fala de
Deus como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó? Por que não
falou simplesmente de Deus? Esse título se refere ao Deus Triúno,
Jeová, o grande Eu Sou (Êx 3:14-15). De acordo com a palavra do
Senhor em Mateus 22, esse título divino implica ressurreição: “E,
quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que vos foi dito
por Deus: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de
Jacó? Ele não é Deus de mortos, e, sim, de vivos” (vs. 31-32). Pedro
se referiu a Deus como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó porque isso
indica que Ele é o Deus de ressurreição.
Pedro disse às pessoas que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó
“glorificou a seu Servo Jesus”. Deus O glorificou por meio da Sua
ressurreição e em Sua ascensão (Lc 24:26; Hb 2:9; Ef 1:20-22;
Fp 2:9-11).

O Santo

Em 3:14 Pedro disse às pessoas: “Vós, porém, negastes o Santo


e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida”. Que
significa dizer que o Senhor é o Santo? Nesse versículo Santo indica
que Jesus, o Nazareno, desprezado pelos líderes judeus, era
absolutamente para Deus e separado para Ele. Ademais, era
absolutamente um com Deus. Segundo a conotação da palavra na
Bíblia, santo significa alguém que visa absolutamente a Deus, é para
Deus, é um com Deus. Em toda história da humanidade, somente o
Senhor Jesus foi tal Pessoa. Davi era bom, mas pelo menos em uma
situação foi para si mesmo e não para Deus. O Senhor Jesus, porém,
em toda a Sua vida foi absolutamente separado para Deus, foi por
Deus e um com Deus. Não houve um instante em que não tivesse
sido absoluto para Deus e um com Ele. Portanto, é chamado de o
Santo. Apenas Ele merece esse título.

O Justo

De acordo com 3:14, Pedro não apenas chamou o Senhor Jesus


de o Santo, mas também de o Justo. Ser justo é ser correto com
Deus, com todos e com tudo. Somente o Senhor Jesus pode ser
chamado de o Justo. Nós, em nós mesmos, não somos corretos com
Deus, com os outros e nem mesmo com as coisas. Por exemplo, de
raiva podemos chutar uma porta ou derrubar uma cadeira. Isso é
estar errado com a porta ou com a cadeira. Assim, nós não
conseguimos ser o Justo.
Como o Justo, o Senhor Jesus é o Correto. Ele nunca esteve
errado com Deus, com as pessoas nem com as coisas. Considere a
situação quando purificou o templo: “E encontrou no templo os que
vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas assentados. Tendo
feito um azorrague de cordas, expulsou a todos do templo, bem
como as ovelhas e os bois, derramou o dinheiro dos cambistas e
virou as mesas. E disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui
essas coisas; não façais da casa de Meu Pai casa de negócio”
(Jo 2:14-16). Ele certamente estava correto ao fazer isso. Se não o
tivesse feito, teria agido como um político. Ele viu a situação
pecaminosa e estava indignado.
Contudo, suponha que tivesse dito a Si mesmo: “Não devo
fazer nada por causa da minha indignação. Se o fizer, haverá um
registro de que uma vez fiz algo quando estava zangado. Preciso ter
consideração por Mim mesmo e agir com cuidado”. Contudo, como o
Justo, o Senhor purificou o templo de forma justa. Ele nunca estava
errado, pois sempre foi o Justo.
Na segunda mensagem aos judeus, Pedro chamou Aquele que
curou o coxo de o Servo, o Santo e o Justo. Como é que Pedro, não
havendo estudado, podia dar tais palavras? Como veremos, quando
as pessoas do Sinédrio perceberam que Pedro e João “eram homens
iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles
estado com Jesus” (4:13). Embora fosse iletrado e inculto, Pedro
pôde dar a mensagem registrada em Atos 3 por meio do Espírito que
dá vida que estava nele. Aqui o Espírito não falou diretamente por Si
mesmo, mas, segundo o princípio da encarnação, o Espírito falou
por meio de Pedro, uma pessoa inculta. Assim, os tópicos com
respeito ao Senhor Jesus são divinos, mas o falar ainda é o de um
pescador inculto. Em Atos 3 o Espírito falou por meio de um
pescador. Em seu falar, Pedro declarou que o Senhor Jesus é o
Santo, alguém absolutamente separado para Deus, que é por Deus e
é um com Deus; e também o Justo, alguém correto com Deus, com
as pessoas e com todas as coisas.

O Autor da Vida

Em 3:15 Pedro prosseguiu dizendo: “Dessarte, matastes o


Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que
nós somos testemunhas”.
Aqui a palavra grega traduzida como Autor é archegós, que
significa autor, origem, originador, líder principal, capitão. Denota
Cristo como origem ou Originador da vida, portanto, Autor da vida,
em contraste com homicida no versículo anterior.
Nesse versículo a Versão Revista e Corrigida de Almeida traz
“o Príncipe da vida”. Essa não é uma boa tradução. Em 3:15
archegós não denota um príncipe; e, sim, a própria fonte, a origem,
até mesmo o originador, da vida, o Autor da vida. Aqui Pedro está
dizendo que o que curou era a origem da vida, o Originador da vida;
Ele é o Autor, o Líder Principal, na vida. Pedro indicava que o que
curou não é meramente alguém que cura, mas é a fonte, a origem e o
Iniciador da vida.
No capítulo três de Atos não temos meramente uma questão
de cura. Aqui vemos a vida sendo infundida nas pessoas. Isso é
propagar Cristo. Para essa propagação precisamos do Senhor como
Autor da vida, como fonte originadora da vida.
Muitos cristãos, seguindo a teologia tradicional, leem a Bíblia
de forma superficial. Por essa razão, encorajo os santos a deixar de
lado a teologia tradicional e voltar à Bíblia. Na Bíblia há muitas
“minas” profundas, que precisamos escavar. Uma dessas minas
profundas é a palavra grega archegós em 3:15.
Precisamos ver onde está a vida, de onde ela vem. A palavra
Autor no versículo 15 indica que a vida vem do que curou, que é o
Santo e Justo. O que curou não apenas tem o poder para curar, mas
Ele mesmo é a fonte, a origem da vida, pois é o Autor, o Originador
da vida. Quando temos vida, também temos cura. O motivo pelo
qual as pessoas ficam doentes é que são fracas na vida. Os médicos
sabem que quando estamos fracos em vida, podemos facilmente
ficar doentes. Mas se formos fortes em vida, a vida irá engolir a
morte.
Pedro queria que as pessoas percebessem que Aquele que elas
mataram é o Autor da vida. Não é apenas o que cura, mas é o Autor
da vida. E, embora tivesse sido morto, Deus o ressuscitou dos
mortos. Conforme falamos, considerando o Senhor como homem, o
Novo Testamento diz que Deus O ressuscitou dos mortos. Mas,
considerando-O como Deus, o Novo Testamento nos diz que Ele
mesmo ressurgiu dos mortos (Rm 14:9). Ademais, os apóstolos eram
testemunhas do Cristo ressurreto, dando o testemunho da Sua
ressurreição, que é a ênfase crucial ao se levar a cabo a economia
neotestamentária de Deus.
Em 3:16 Pedro diz: “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse
mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e
reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde
perfeita na presença de todos vós”. As palavras gregas traduzidas
como pela fé em o nome de Jesus literalmente significam sobre a fé
do nome de Jesus, isto é, com base na fé em o nome de Jesus. O
nome denota a pessoa, e a pessoa dá respaldo ao nome; assim, o
nome é poderoso.
Em 3:17-18, Pedro prossegue: “E agora, irmãos, eu sei que o
fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades; mas
Deus, assim, cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os
profetas: que o seu Cristo havia de padecer”. A morte redentora de
Cristo foi primeiramente determinada por Deus na eternidade
passada (2:23) e anunciada de antemão pelos profetas nos tempos
do Antigo Testamento. Isso prova novamente que a morte de Cristo
não foi um acidente histórico, mas um ato planejado por Deus
segundo o propósito do Seu bom prazer e anunciado de antemão
pelos profetas.

O Profeta

Em 3:22-23 Pedro indica que o Senhor Jesus é o Profeta:


“Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre
vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo
quanto vos disser. Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse
profeta será exterminada do meio do povo”. Assim, nesse capítulo
vemos que o Senhor Jesus é o Servo, o Santo, o Justo, o Autor da
vida e o Profeta.

Exortou os Judeus a se Arrepender e se Converter para Ter


Parte no Cristo Ascendido e Vindouro e Desfrutá-Lo

Em 3:19-26 Pedro exorta os judeus a se arrepender e se


converter para ter parte no Cristo ascendido e vindouro e desfrutá-
Lo. Aqui Pedro parece estar dizendo: “Vocês fizeram algo muito tolo,
mas agora precisam arrepender-se e converter-se para ter parte no
Cristo ascendido e vindouro e desfrutá-Lo. Cristo é o Servo de Deus,
o Santo, o Justo e o Autor da vida. Ele fez tudo, e atingiu e obteve
todas as coisas. Ele agora está nos céus, mas voltará. Esse Cristo é a
nossa porção. Arrependam-se, convertam-se e venham participar
Dele e desfrutá-Lo. Se vierem a Ele vocês O desfrutarão”. Essa foi a
ênfase da segunda mensagem de Pedro aos judeus.

Tempos de Refrigério

Em 3:19-20a Pedro disse aos judeus: “Arrependei-vos, pois, e


convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de
que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério”.
Literalmente a palavra grega para refrigério significa refrescar,
reavivar; daí, alívio, refrigério. Os tempos de refrigério denotam um
tempo de reavivamento de todas as coisas com alegria e descanso.
Referem-se aos tempos da restauração de todas as coisas
mencionados em 3:21. Os tempos da restauração serão introduzidos
pela vinda do Messias em Sua glória, como foi ensinado e
profetizado pelo Salvador em Mateus 19:28.
A palavra de Pedro em 3:20 parece omitir a era da igreja e ir
diretamente do tempo de Pentecostes para o milênio. Isso indica que
Pedro provavelmente não tinha visão clara com respeito à era da
igreja na economia neotestamentária de Deus, como o Novo
Testamento em sua totalidade nos revela. Ou seja, que antes dos
tempos de refrigério, a igreja ocupa um tempo considerável na
dispensação de Deus.
Já falamos que os tempos de refrigério são tempos
refrescantes, de reavivamento e alívio. Você alguma vez já entrou em
tais tempos? já experimentou tal tempo de gozo e descanso? Na
verdade, toda conversão adequada é um tempo de refrigério. Toda
regeneração autêntica, é um tempo de desfrute. Ao ser salvos,
tivemos um tempo de desfrute, no qual tivemos gozo e paz.
Desfrutamos do próprio Cristo como nosso gozo e paz. Até certo
ponto, todos experimentamos isso.
Na verdade, o tempo de refrigério é o próprio Cristo. Quando
O temos, nós O temos como nosso refrigério. Ele é nosso desfrute e
paz.
A Restauração de Todas as Coisas

Em 3:20b-21 Pedro diz: “E que envie ele o Cristo, que já vos foi
designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos
tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por
boca dos seus santos profetas desde a antiguidade”. Os tempos da
restauração de todas as coisas são os tempos da restauração no
milênio, como foi profetizado em Isaías 11:1-10 e 65:18-25, e
mencionado por Cristo em Mateus 17:11 e 19:28. Os tempos da
restauração de todas as coisas serão introduzidos pela Sua volta.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 14
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (9)

Leitura Bíblica: At 3:1-26

Ao ler a Bíblia, ainda podemos ser inconscientemente


influenciados pela teologia tradicional. Precisamos abandonar essa
teologia e voltar para a Bíblia de maneira nova e cheia de frescor. Se
lermos Atos 3 dessa forma, veremos que o Senhor é o Servo de Deus,
o Santo, o Justo e o Autor da vida. Também daremos atenção aos
tempos de refrigério mencionados no versículo 20. Como já
comentamos, em nossa experiência o próprio Cristo é o tempo de
refrigério, pois Ele é o nosso desfrute, descanso e paz.

SABER QUE PODEMOS DESFRUTAR O SENHOR

Você já ouviu falar que pode desfrutar o Senhor? Alguma vez já


ouviu algum preletor usar a palavra desfrutar com respeito ao seu
relacionamento com o Senhor? Muitos crentes nunca ouviram falar
disso. Hoje na religião há pouco desfrute do Senhor, se é que há
algum. Contudo, pela misericórdia do Senhor posso testificar que h.
á anos tenho encorajado o povo do Senhor a desfrutá-Lo.
Em 1965 tivemos uma conferência em Los Angeles a respeito
de comer Jesus. Naquela conferência abordamos a questão de comer
como está em diversos lugares na Bíblia: a árvore da vida, o cordeiro
pascal com os pães asmos e as ervas amargas, o maná e o produto da
boa terra. Consideramos a palavra do Senhor em João 6 com
respeito a comê-Lo e a ordem dada por Ele de comer o Seu corpo
quando estabeleceu a Sua mesa. Ademais, consideramos a promessa
do Senhor em Apocalipse 2:7 de que os vencedores comerão da
árvore da vida. Também vimos a promessa em Apocalipse 22:14, de
que os que lavam as suas vestes têm direito à árvore da vida.
Um pregador participou dessa conferência e, depois, comentou
que nunca tinha ouvido falar sobre desfrutar o Senhor comendo-O.
Ele queria saber onde que eu tinha aprendido todas aquelas coisas
com respeito a comer o Senhor e desfrutá-Lo. Uso isso como
ilustração da necessidade que temos de perceber que o Senhor Jesus
é desfrutável.
Alguns crentes podem não perceber que Cristo pode ser o
desfrute deles, por estarem debaixo da influência do ensinamento
teológico tradicional ao ler a Bíblia. Sempre que vão a Bíblia eles
usam os “óculos coloridos” da tradição. Precisamos tirar qualquer
tipo de “óculos” e ler a Bíblia segundo a sua própria cor. Se o
fizermos, prestaremos atenção ao Autor da vida e aos tempos de
refrigério mencionados em Atos 3.

DESFRUTAR TEMPOS DE REFRIGÉRIO INVOCANDO O


NOME DO SENHOR

Se desfrutarmos Cristo teremos tempos de refrigério. Podemos


desfrutar um tempo de refrigério simplesmente invocando o nome
do Senhor. Invoque: “Ó Senhor Jesus!” e você terá um tempo de
refrigério.
Precisamos desfrutar tempos de refrigério em nossa vida
conjugal. Por exemplo, uma irmã pode ficar zangada com o marido.
Como resultado, ela ficará oprimida como a mulher encurvada e
prisioneira de Satanás em Lucas 13:10-17. É frequente a mulher ficar
“encurvada” por estar presa pela ira que sente pelo marido. Como é
que uma irmã pode ser liberta de tal prisão? Simplesmente
invocando: “Ó Senhor Jesus!” Sempre que estivermos presos
precisamos invocar o Senhor. Então, poderemos dizer: “Amém,
Senhor Jesus! Agora estou num tempo de refrigério”.
Encorajo você a desfrutar um tempo de refrigério invocando o
nome do Senhor. Alguns que têm bastante conhecimento teológico
podem não querer invocar o nome do Senhor. Talvez tenham medo
de perder prestígio. Mas talvez precisemos perder “prestígio” a fim
de ganhar o Senhor Jesus. Que desfrute é invocar o Seu nome. Às
vezes fico fora de mim de tanto gozo no Senhor quando O invoco e
desfruto tempos de refrigério. Dia a dia, e o dia todo, podemos
desfrutar tempos de refrigério simplesmente invocando o Senhor.
Alguns criticam a prática de invocar o nome do Senhor Jesus e
alegam que isso é algo que nós inventamos. Invocar o Senhor é uma
prática bíblica, certamente não é algo inventado por nós. Não é uma
prática nova no Novo Testamento. Começou com Enos, a terceira
geração da humanidade (Gn 4:26) e continuou com muitos outros.
Quando alguns ouvem que invocar o nome do Senhor começou
com Enos, eles alegam que Enos não invocava como nós hoje. A isso
eu responderia: “Como é então, que Enos invocava o nome do
Senhor? Será que dizia: “Ó Senhor, tenha misericórdia de mim.
Senhor, estou numa situação miserável e tenho muitos problemas.
Senhor, que posso fazer?”
Não podemos entender a maneira de invocar o Senhor lendo
apenas um versículo. É preciso considerar essa questão em toda a
Bíblia. Se lermos o Antigo Testamento, de Gênesis 4 a Isaías 12,
descobriremos a maneira de invocar o Senhor. Isaías, em especial,
indica que precisamos invocar o Senhor com gozo: “Vós, com
alegria, tirareis água das fontes da salvação. Direis naquele dia: Dai
graças ao SENHOR, invocai o seu nome, tornai manifestos os seus
feitos entre os povos, relembrai que é excelso o seu nome” (Is 12:3-
4). Nós tiramos água das fontes da salvação invocando o nome do
Senhor com alegria.
Suponha que determinado irmão tenha vários problemas. A
esposa está no hospital, o filho mais velho perdeu o emprego e o
filho mais novo não está bem nos estudos. Esse irmão não deveria
dizer: “Senhor, preciso que tenhas misericórdia de mim, pois estou
em grande necessidade. Senhor, minha esposa está no hospital, meu
filho mais velho perdeu o emprego e meu filho mais novo está indo
mal na escola. Senhor, por favor, ajude-me”. Em vez de orar dessa
forma, o irmão deveria invocar o Senhor e dizer: “Senhor Jesus, Tu
és o Senhor! Tu és soberano. Senhor Jesus, eu Te agradeço pois
sabes da minha situação. Tu sabes, Senhor, que minha esposa está
no hospital, meu filho mais velho perdeu o emprego e o mais novo
está mal na escola. Ó Senhor Jesus!” Isso é invocar o Senhor
fortemente e com alegria. Certamente essa é a maneira que os santos
do Antigo e do Novo Testamento invocavam o nome do Senhor.
A palavra grega para invocar em 2:21 é epikaléo, composta de
epi, que quer dizer sobre, e kaléo, que significa chamar (pelo nome);
assim é chamar audivelmente, até mesmo em alta voz, como o fez
Estêvão (7:59-60). Portanto, vemos que invocar o nome do Senhor é
chamá-Lo audivelmente. Isso não é um ensinamento ou prática
inventada por nós, mas é um fato bíblico. Se você ler aquele longo
trecho sobre invocar na mensagem 9, verá quão bíblica é essa
prática. Invocar o Senhor tem muita base na revelação do Antigo e
do Novo Testamento. Ademais, a partir da nossa experiência
sabemos que quando O invocamos, desfrutamos um tempo de
refrigério. Sempre que O invocarmos estaremos num tempo de
refrigério. Esse é um fato na Palavra e na nossa experiência, e eu o
encorajo a experimentá-lo.

ASPECTOS DE CRISTO COMO AQUELE QUE CURA

Em 3:22-23 Pedro mostra que o Senhor Jesus é um Profeta:


“Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre
vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo
quanto vos disser. Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse
profeta será exterminada do meio do povo”. Como o Profeta, Cristo
fala por Deus e declara Deus ao falar. Em 3:25 vemos que o Senhor
Jesus também é a descendência de Abraão: “Vós sois os filhos dos
profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo
a Abraão: Na tua descendência, serão abençoadas todas as nações da
terra”. Nesse versículo a “descendência” se refere a Cristo (Gl 3:16).
Aqui Pedro parece estar dizendo: “O homem Jesus, o Nazareno,
Aquele que foi desprezado pelos líderes judeus, é a descendência de
Abraão, na qual todas as nações da terra serão abençoadas. Não
apenas é Ele o Servo de Deus, o Santo, o Justo, o Autor da vida e o
Profeta; é também a descendência de Abraão, na qual toda a terra
será abençoada”.
Aquele que cura em Atos 3 é maravilhoso. Devemos nos voltar
da cura e dar atenção ao que cura. Gostamos da cura, mas
apreciamos muito mais o que cura. Esse que cura é Aquele em quem
todas as farm1ias da terra, todas as raças, cores e nacionalidades,
serão abençoadas.
Ao ler o capítulo três de Atos precisamos prestar atenção a
todos os tópicos relacionados a Cristo como Aquele que cura. Ele é o
Servo de Deus, o Santo, Aquele que era absolutamente para Deus.
Como o Justo, Ele é correto com Deus, com o homem e com todas as
coisas nos céus e na terra. Ademais, Ele é o Autor da vida. Ele não é
apenas vida; é o Originador, a fonte e a origem da vida. Também traz
tempos de refrigério. Quando O contatamos, estamos num tempo de
refrigério. Esse que cura também é o Profeta, falando Deus e
declarando Deus ao falar. Finalmente também é a descendência, no
qual todas as famílias da terra serão abençoadas.
Podemos ler Atos 3 sem prestar atenção aos aspectos de Cristo
como Aquele que cura revelado nesse capítulo. Como podemos ler
esse capítulo sem ver essas coisas? É devido à influência da teologia
tradicional. Em nossa leitura de Atos 3, essa influência pode fazer
com que não vejamos todas as várias questões relacionadas com
Cristo como Aquele que cura. Precisamos ver que Aquele que cura é
o Servo, o Santo, o Justo, o Autor da vida, o Profeta e a descendência
no qual todas as famílias da terra serão abençoadas. Que Pessoa Ele
é! Em vez de nos preocupar com curas, precisamos desfrutar Aquele
que cura. Desde que O tenhamos, teremos os tempos de refrigério.

DEUS ENVIA O CRISTO ASCENDIDO

Depois de apresentar Cristo como Aquele que cura em


diferentes aspectos, Pedro conclui no versículo 26: “Tendo Deus
ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vós outros para
vos abençoar, no sentido de que cada um se aparte das suas
perversidades”. Deus enviou o Cristo ascendido de volta aos judeus
primeiramente derramando o Seu Espírito no dia de Pentecostes.
Portanto, o Espírito de Deus derramado é o próprio Cristo que Deus
ressuscitou e exaltou aos céus. Quando os apóstolos pregavam e
ministravam esse Cristo, o Espírito era ministrado às pessoas.
Quando Pedro falava as palavras registradas no versículo 26, o
Servo de Deus havia ascendido aos céus e ainda estava lá. Contudo
Pedro disse às pessoas que Deus havia enviado Cristo para abençoá-
los. Que significa isso? Na verdade Deus recebeu Cristo nos céus.
Mas aqui Pedro diz que Deus O enviou ao povo. De que forma Deus
enviou o Cristo ascendido aos judeus? Foi derramando o Espírito.
Essa foi a maneira de Deus enviar o Cristo ascendido ao povo. Isso
implica que o Espírito derramado é na verdade o próprio Cristo
ascendido. Quando o Espírito derramado veio às pessoas, era Cristo,
o que ascendera, enviado por Deus a eles. Com isso vemos que o
Espírito derramado é idêntico ao Cristo ascendido. Na economia de
Deus para a experiência do Seu povo, o Cristo ascendido e o Espírito
derramado são um. Na economia de Deus, Cristo e o Espírito são um
para o nosso desfrute.
Ao apresentar Cristo às pessoas, Pedro falou Dele como o
Servo de Deus, o Santo, o Justo, o Autor da vida, o Profeta e a
descendência na qual recebemos a bênção de Deus. Então, Pedro
conclui: “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o
primeiramente a vós outros para vos abençoar”. Aqui ele parece
estar dizendo: “Deus O enviou primeiramente a vocês para abençoá-
los. Como Deus O enviou? Foi derramando o Seu Espírito para vocês
a fim de abençoá-los, Agora vocês precisam recebê-Lo, Ele não está
longe de vocês. Embora esteja nos céus, economicamente Ele está
entre vocês como o Espírito derramado para abençoá-los. Se
invocarem o Seu nome, vocês receberão a Sua Pessoa: o Espírito
Santo. O nome é 'Jesus' mas a pessoa é o Espírito. Invoquem o nome
do Senhor Jesus e recebam o Espírito. Então, vocês terão a bênção
de Deus”. Essa é a maneira de receber a bênção que Deus nos quer
dar enviando o Cristo ascendido de volta a nós como o Espírito que
dá vida.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 15
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (10)

Leitura Bíblica: At 4:1-31

Nesta mensagem iremos considerar 4:1-31. Esses versículos


descrevem o início da perseguição realizada pelos fanáticos judeus.
Atos 4:1-31 pode ser dividido em seis seções: o aprisionamento e o
interrogatório por parte do Sinédrio (vs. 1-7), o testemunho de Pedro
(vs. 8-12), a proibição por parte do Sinédrio (vs. 13-18), a resposta de
Pedro e João (vs. 19-20), a libertação de Pedro e João por parte do
Sinédrio (vs. 21-22), e o louvor e a oração da igreja (vs. 23-31).
Vamos considerar 4:1-31 de forma geral e depois considerar os
versículos 11 e 12 em detalhes.

O APRISIONAMENTO E O INTERROGATÓRIO POR


PARTE DO SINÉDRIO

Atos 4:1-2 diz: “Falavam eles ainda ao povo quando


sobrevieram os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus,
ressentidos por ensinarem eles o povo e anunciarem, em Jesus, a
ressurreição dentre os mortos”. O “capitão” aqui é o capitão da
guarda do templo. Os saduceus eram uma facção do judaísmo (5:17).
Eles não criam na ressurreição, nos anjos e nos espíritos (Mt 22:23;
At 23:8). Tanto os fariseus como os saduceus foram denunciados por
João Batista e pelo Senhor Jesus como raça de víboras (Mt 3:7;
12:34; 23:33). O Senhor preveniu os discípulos contra as doutrinas
deles (Mt 16:6-12).
Os saduceus estavam muito perturbados pelo fato de que
Pedro e João ensinavam às pessoas e anunciavam em Jesus a
ressurreição dos mortos. Em 4:2 a preposição em denota: pelo poder
de e com a natureza e o caráter de.
Pedro e João foram presos (v. 3). “No dia seguinte, reuniram-
se em Jerusalém as autoridades, os anciãos e os escribas com o sumo
sacerdote Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da
linhagem do sumo sacerdote” (vs. 5-6). Esse foi um ajuntamento do
Sinédrio judeu (v. 15). Nos quatro Evangelhos, esse Sinédrio,
formado pelos líderes judeus, tornou-se o mais forte oponente do
Senhor Jesus e Seu ministério e O condenou à morte (Mt 26:59).
Agora, neste livro, o mesmo Sinédrio, com os mesmos componentes,
iniciou a perseguição dos apóstolos e seu ministério (5:21; 6:12;
22:30). Isso indica que o judaísmo havia caído nas mãos do inimigo
de Deus, o diabo, Satanás, e estava sendo por ele usado na sua
tentativa de impedir e até mesmo destruir o mover de Deus na Sua
economia neotestamentária, que visa levar a cabo o Seu propósito
eterno, a saber, trazer o Seu reino à terra, estabelecendo e edificando
as igrejas mediante a pregação do evangelho de Cristo.
Além de Anás, o sumo sacerdote, 4:6 menciona Caifás, João e
Alexandre. Caifás era sumo sacerdote (Lc 3:2). João e Alexandre
talvez fossem parentes do sumo sacerdote. De qualquer modo,
devem ter sido pessoas eminentes entre os judeus, visto serem
citados entre os líderes do Sinédrio (At 4:15).
Atos 4:7 diz: “E, pondo-os perante eles, os arguíram: Com que
poder ou em nome de quem fizestes isto?” A pergunta deles se refere
à cura do coxo no capítulo três. Literalmente as palavras traduzidas
como com que poder ou em nome de quem significam com que tipo
de poder e em que tipo de nome.

O TESTEMUNHO DE PEDRO

Em 4:8-12 temos o testemunho de Pedro. Em 4:8-10 é-nos


dito: “Então, Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autoridades
do povo e anciãos, visto que hoje somos interrogados a propósito do
benefício feito a um homem enfermo e do modo por que foi curado,
tomai conhecimento, vós todos e todo o povo de Israel, de que, em
nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a
quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em seu nome é que
este está curado perante vós”. No versículo 8 Pedro estava cheio do
Espírito Santo exterior e economicamente. Então, lhes disse que o
coxo fora curado “em nome de Jesus Cristo, o Nazareno”.
Vimos que o termo Nazareno indica o que fora desprezado
pelos líderes judeus (Jo 1:45-46; At 22:8; 24:5). No versículo 10 vós
é enfático. Aqui Pedro enfatiza que eles crucificaram o Senhor, mas
Deus O ressuscitou dos mortos.
Nos versículos 11 e 12 Pedro prosseguiu: “Este Jesus é pedra
rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular.
E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não
existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual
importa que sejamos salvos”. O versículo 11 é uma citação do
Salmo 118:22. O Senhor Jesus também citou esse versículo em
Mateus 21:42, quando mostrava que Ele era a pedra para a
edificação de Deus (Is 28:16; Zc 3:9; 1Pe 2:4), e os edificadores eram
os líderes judeus, que deveriam estar trabalhando no edifício de
Deus. A Sua palavra desvendou que os líderes judeus O rejeitaram e
Deus O honrou, para a edificação da Sua habitação entre o Seu povo
na terra. Por meio dessa palavra Pedro passou a conhecer o Senhor
como a pedra preciosa tida em honra por Deus, como explanou a
Seu respeito em sua primeira Epístola (1Pe 2:4-7). O fato de citar
essa palavra indica que Pedro pregava Cristo não apenas como
Salvador para a salvação dos pecadores, mas também como pedra
para o edifício de Deus. É tal Cristo que é a salvação única para os
pecadores, e é em Seu nome único debaixo do céu, nome esse
desprezado e rejeitado pelos líderes judeus mas honrado e exaltado
por Deus (Fp 2:9-10), que importa que pecadores sejam salvos
(At 4:12).
No versículo 11 a palavra grega traduzida como desprezado
também significa rejeitado (ver Mt 21:42). A pedra desprezada,
rejeitada, pelos construtores tornou-se a pedra angular.
Literalmente, as palavras gregas traduzidas como pedra angular
significam cabeça do ângulo. Cristo não é apenas a pedra principal
do alicerce (Is 28:16) e a pedra de remate (Zc 4:7), mas também a
pedra angular.

O LOUVOR E A ORAÇÃO DA IGREJA

Depois da proibição por parte do Sinédrio (vs. 13-18), da


resposta de Pedro e João (vs. 19-20), e da libertação de Pedro e João
por parte do Sinédrio (vs. 21-22), temos o louvor e a oração da igreja
(vs. 23-31).
O versículo 23 diz: “E, soltos eles, foram para os seus e
contaram tudo o que lhes disseram os principais dos sacerdotes e os
anciãos”. Os seus eram as pessoas da igreja, que se distinguiam e
eram separados dos judeus invocando o nome de Jesus (9:14).
Nos versículos 24 a 26 temos a continuação: “Ouvindo isto,
unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano
Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que
disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso
pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos
imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as
autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu
Ungido”. O vocábulo grego para Soberano Senhor no versículo 24
não é kyrios, a palavra geralmente usada para Senhor, mas despótes,
que denota um dono de escravos, alguém que tem poder soberano
absoluto, como em Lucas 2:29; Judas 4; Apocalipse 6:10; 1 Timóteo
6:1-2. Originalmente, vocábulo grego traduzido como se
enfureceram no versículo 25 quer dizer bufar como cavalo; isto é,
ser soberbo, insolente.
Atos 4:27-28 continua: “Porque verdadeiramente se ajuntaram
nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste,
Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para
fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”. A
palavra predeterminaram no versículo 28 nos lembra de
“determinado desígnio e presciência de Deus” em 2:23. A
crucificação do Senhor foi o cumprimento proposital do desígnio
divino determinado pelo Deus Triúno.
De acordo com 4:29-31, eles oraram pedindo intrepidez para
falar a palavra do Senhor: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde
estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com
intrepidez, anunciavam a palavra de Deus” (v. 31). Assim como
Pedro no versículo 8, eles foram enchidos com o Espírito Santo
exterior e economicamente.

PEDRO E JOÃO PERANTE O SINÉDRIO


O ponto crucial em Atos 4 diz respeito a Cristo, Aquele que
cura, revelado no capítulo três. A cura registrada em Atos 3 não
aconteceu fora da cidade santa; aconteceu não apenas na cidade,
mas nas imediações do templo. Assim, muitas pessoas do templo
foram envolvidas nesse caso. Contudo, os governantes e
administradores do judaísmo não concordavam com nenhuma
atividade feita em nome Daquele que eles negaram, condenaram à
morte e mataram. Mas não podiam negar que o coxo fora curado, e
curado mediante o nome de Jesus, e não por habilidade humana.
Ademais, Pedro e João eram galileus, e não moradores de
Jerusalém. Eles vieram da região desprezada da Galiléia. Por fim
houve uma grande confusão, e foi difícil para os líderes judeus
controlar a situação. Os líderes judeus não podiam concordar com os
pescadores galileus nem com o que faziam em nome Daquele que
eles haviam negado e crucificado. Assim, incapazes de permanecer
em silêncio, reuniram-se em conselho.
Atos 4:15 diz: “E, mandando-os sair do Sinédrio, consultavam
entre si”. O Sinédrio era um conselho composto dos principais
sacerdotes, anciãos, doutores da lei e escribas. Era a corte suprema
dos judeus (Lc 22:66; At 5:27, 34, 41). O Sinédrio tinha autoridade
para decidir questões sem precisar consultar poder superior.
Em Atos 4 vemos que o Sinédrio cuidou da questão com
respeito a Pedro e João com muita cautela. Eles consultavam entre si
dizendo: “Que faremos com estes homens? Pois, na verdade, é
manifesto a todos os habitantes de Jerusalém que um sinal notório
foi feito por eles, e não o podemos negar; mas, para que não haja
maior divulgação entre o povo, ameacemo-los para não mais falarem
neste nome a quem quer que seja. Chamando-os, ordenaram-lhes
que absolutamente não falassem, nem ensinassem em o nome de
Jesus” (vs. 16-18). Depois de ameaçá-los, eles “os soltaram, não
tendo achado como os castigar, por causa do povo, porque todos
glorificavam a Deus pelo que acontecera” (v. 21). Talvez temendo
que o povo os apedrejasse se castigassem a Pedro e João, o Sinédrio
os soltou.

CRISTO COMO PEDRA PARA O EDIFÍCIO DE DEUS


Quando Pedro e João foram inquiridos sobre com que poder
ou em nome de quem curaram o coxo, Pedro aproveitou a
oportunidade para falar mais a respeito de Cristo como Aquele que
cura. Portanto, o capítulo quatro, na verdade, é a continuação da
apresentação de Pedro sobre Aquele que cura. No capítulo três ele O
apresentou em seis aspectos: o Servo de Deus, o Santo, o Justo, o
Autor da vida, o Profeta e a descendência na qual todas as famílias
da terra serão abençoadas. Todos esses aspectos são para o nosso
benefício. Mas no capítulo quatro Pedro apresenta um aspecto
Daquele que cura que é especialmente para Deus; apresenta-O como
pedra para o edifício de Deus.

O Salvador-Pedra

Atos 4:12 diz: “E não há salvação em nenhum outro; porque


abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os
homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Esse versículo
frequentemente é usado na pregação do evangelho. Mas alguma vez
você já o viu ser usado em relação ao versículo 11?
Atos 4:11 diz: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os
construtores, a qual se tornou a pedra angular”. Esses versículos
indicam que a pedra no versículo 11 é o Salvador. A pedra
desprezada pelos construtores se tornou a pedra angular, e não há
salvação em nenhum outro nome. Só podemos ser salvos no nome
de Jesus, e Ele é a pedra. Isso quer dizer que temos um Salvador-
Pedra. Nos Evangelhos temos o Salvador-Rei em Mateus, o
Salvador-Servo em Marcos, o Salvador-Homem em Lucas e o
Salvador-Deus em João. Agora, em Atos temos o Salvador-Pedra. O
nosso Salvador não é apenas Rei, Servo, Homem e Deus; também é
uma pedra para o edifício de Deus.
Em 4:7 Pedro e João foram inquiridos sobre com que poder ou
em nome de quem tinham curado o coxo. Então, no versículo 10
Pedro disse: “Tomai conhecimento, vós todos e todo o povo de
Israel, de que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós
crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em
seu nome é que este está curado perante vós”. Aqui Pedro fala
intrepidamente com respeito ao nome de Jesus Cristo. Então, no
versículo 11 ele diz que esse nome é a pedra desprezada pelos
construtores. Embora fosse iletrado e inculto (v. 13), Pedro podia
declarar que Jesus Cristo era a pedra desprezada pelos construtores.
Quem eram os construtores que a desprezaram? Eram os líderes do
Sinédrio.

A Edificação da Habitação Eterna de Deus

Ao ler o livro de Atos podemos ainda estar sob influência da


teologia tradicional. Devido à essa influência, só podemos perceber
que o nome de Jesus visa a salvação, que não há outro nome pelo
qual importa que sejamos salvos. Assim, podemos não avançar
considerando o significado da pedra e dos construtores.
Especialmente, podemos não perguntar o que esses construtores
estavam edificando. Que estavam edificando? Alguns podem pensar
que estivessem edificando o judaísmo, ou seja, uma religião.
Contudo, não é do interesse de Deus edificar o judaísmo ou religião
alguma.
Os líderes judeus, os edificadores, não conheciam a economia
de Deus. Da mesma maneira, muitos crentes hoje não sabem o que é
a economia de Deus. Nós publicamos centenas de mensagens de
Estudo-Vida, e nelas abordamos muitas coisas com respeito à
economia divina. Mostramos que a economia de Deus é edificar a
Sua habitação no universo. O céu não é a habitação permanente de
Deus; mas é a Sua residência temporária. A Bíblia revela claramente
que Deus não está satisfeito em ficar para sempre no céu.

O Mesclar de Deus com o Homem

A Bíblia nos revela que Deus tem uma economia. A economia


de Deus é um plano, um arranjo, uma administração, para levar algo
a cabo. O que Deus quer realizar em Sua economia é edificar a Sua
eterna habitação. Que é a eterna habitação de Deus? É o mesclar de
Si mesmo com o homem, com a humanidade. Nem o céu nem a terra
são a habitação de Deus para a Sua satisfação. Nada, a não ser o
mesclar de Deus com o homem, está qualificado para ser a habitação
de Deus. Embora vejamos pouco a respeito disso no Antigo
Testamento, isso está plenamente revelado no Novo Testamento,
especialmente no Evangelho de João.
João 1:14 diz: “E o Verbo tornou-se carne, e armou tabernáculo
entre nós”. Isso se refere à encarnação: o Verbo, que é Deus (Jo 1:1),
tornou-se carne e armou tabernáculo entre nós. As palavras armou
tabernáculo nesse versículo são ricas em significado. Significam que
Aquele que se encarnou é a própria mescla de Deus com o homem.
Essa mescla é o tabernáculo, onde Deus pode habitar. Ademais,
nesse tabernáculo o povo escolhido de Deus pode servi-Lo e
permanecer com Ele. Assim, em João 1:14 vemos o mesclar de Deus
com o homem na encarnação a fim de se tornar o tabernáculo de
Deus, Sua habitação.
Em João 14:23 o Senhor Jesus diz: “Se alguém Me ama,
guardará a Minha palavra; e Meu Pai o amará, e viremos a ele e
faremos com ele morada”. Aqui vemos que o Filho e o Pai virão ao
que ama o Senhor Jesus e farão morada com ele.
Então, em João 15:4 o Senhor prossegue: “Permanecei em
Mim, e Eu permanecerei em vós”. Aqui o Senhor indica que Ele pode
se tornar a nossa habitação, e que nós precisamos ser a Sua
habitação. Ele parece estar dizendo: “Permanecei em Mim para que
Eu permaneça em vós. Sede a minha habitação para que Eu seja a
vossa habitação”. Aqui temos a mescla de Deus com o homem
visando a uma habitação mútua. Você alguma vez já ouviu algo a
esse respeito? Não há tal conceito nos ensinamentos teológicos
tradicionais.

Um Edifício em Ressurreição

Em João 2:19 o Senhor diz: “Destruí este santuário, e em três


dias o levantarei”. Conforme João 2:21, “Ele, porém, falava do
santuário do Seu corpo”. Aqui Ele parece estar dizendo: “Vocês,
líderes judeus, deveriam ser edificadores, contudo, por fim, irão
destruir esse templo. Mas Eu o edificarei em três dias. Em
ressurreição edificarei o que vocês destruírem”. Esse edifício em
ressurreição inclui, não apenas o próprio Jesus Cristo, mas também
todos os que creem Nele. Por fim, Ele e todos os crentes serão
edificados como a habitação de Deus, que no Novo Testamento é
chamada de a casa de Deus, a igreja (1Tm 3:15).
Agora podemos ver que a economia de Deus é edificar uma
habitação eterna para Si mesmo e para os Seus escolhidos. Essa
habitação, na verdade, é o mesclar de Deus com os Seus escolhidos.

Uma Habitação Mútua

O pensamento de ter Deus como nossa habitação pode ser


encontrado no Antigo Testamento. Por exemplo, Deuteronômio
33:27 diz: “O Deus eterno é a tua habitação”. No Salmo 90:1 Moisés
diz: “Senhor, foste para nós uma morada de geração em geração”.
Nesses versículos vemos claramente que Deus é a nossa habitação.
Contudo, no Antigo Testamento não conseguimos achar um
versículo que nos diga que nós, os escolhidos de Deus, somos a Sua
habitação. Mas o Novo Testamento revela claramente que há um
edifício universal e esse é o edifício mútuo de Deus e Seus
escolhidos. Na verdade, essa habitação é Deus como nossa habitação
e nós como habitação de Deus. Essa maravilhosa habitação é o
edifício de Deus.
Deus queria usar Moisés, os reis, os profetas e todos os líderes
judeus para edificar essa habitação. Assim, os edificadores em Atos
4:11 devem referir-se aos edificadores da habitação universal de
Deus.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 16
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (11)

Leitura Bíblica: At 4:1-31

No capítulo três de Atos Pedro apresenta Cristo, Aquele que


cura, como o Servo de Deus, o Santo, o Justo, o Autor da vida, o
Profeta e a descendência na qual todas as famílias da terra serão
abençoadas. Como o que cura é o Autor da vida, sempre que O
invocarmos desfrutaremos tempos de refrigério. Como Profeta, Ele
fala Deus a nós, e Nele, como descendência de Abraão, somos
abençoados. Todos esses aspectos de Cristo como o que cura, o
maravilhoso, são para nós. Contudo, em Atos 3 não vemos que o que
cura visa à economia, o propósito e o edifício de Deus. Mas no
capítulo quatro foi dada a oportunidade a Pedro de apresentá-Lo
novamente, de outra maneira: como pedra para o edifício de Deus.
Com respeito a isso, em 4:11-12 diz: “Este Jesus é pedra rejeitada por
vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há
salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe
nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que
sejamos salvos”. Nesta mensagem falaremos um pouco mais a
respeito de Cristo como á pedra para o edifício de Deus.

A PEDRA ANGULAR DA HABITAÇÃO DE DEUS

Deus veio pela encarnação para ser uma pedra para a


edificação da Sua habitação universal, mas os líderes judeus, que
deveriam ter sido os edificadores, a desprezaram. Contudo, Deus O
fez a pedra angular. Quanto mais os líderes judeus O rejeitavam,
mais Deus O usava. Primeiramente, Ele era apenas uma pedra de
modo geral. Mas, depois da rejeição dos líderes judeus, Deus, em
ressurreição, O fez a pedra angular. Primeiramente Ele era uma
pedra comum. Então, os líderes judeus O rejeitaram, matando-O,
mas Deus O honrou, ressuscitando-O dentre os mortos e fazendo-O
uma pedra especial, angular, a mais importante, que une as paredes
de uma construção. Cristo é a pedra angular da habitação de Deus.

O CONHECIMENTO DE PEDRO SOBRE CRISTO COMO A


PEDRA

Em João 1 vemos que André trouxe o seu irmão, Simão Pedro,


ao Senhor Jesus. “Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho
de João; tu serás chamado Cefas (que se traduz por Pedro)” (v. 42).
Pedro significa uma pedra. Mais tarde, em Cesaréia de Filipe,
o Senhor Jesus perguntou aos discípulos: “Mas vós (...) quem dizeis
que Eu sou?” (Mt 16:15). Pedro tomou a frente e declarou: “Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Em Sua resposta a Pedro, o
Senhor disse: “Também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre essa
rocha edificarei a Minha igreja” (v. 18).
Aqui o nome Pedra significa uma pedra, que é material para o
edifício de Deus. O Senhor Jesus parecia estar dizendo: “Tu és
Pedro, uma pedra. Eu edificarei a Minha igreja com pedras”. Sem
dúvida, as palavras do Senhor devem ter causado profunda
impressão em Pedro, embora não seja provável que as tenha
entendido na hora. Contudo, depois que o Espírito que dá vida foi
insuflado nele e o Espírito econômico foi soprado sobre ele, Pedro se
tornou um homem do Espírito, um homem com o Espírito essencial
em seu interior e o Espírito econômico sobre si. Assim, ele
certamente começou a entender a palavra do Senhor com respeito a
ele ser uma pedra. Talvez tenha dito para si mesmo: “Lembro-me
que da primeira vez que encontrei o Senhor, Ele disse que me daria
um novo nome, um nome que significa pedra. Mais tarde Ele me deu
o nome de 'Pedro' e disse que iria edificar a Sua igreja sobre a rocha.
Agora entendo o que Ele dizia”.
Por ter esse entendimento, Pedro, em Atos 4, podia apresentar
o Senhor Jesus como a pedra desprezada pelos construtores, mas
que se tornou a pedra angular. Mais tarde, quando já estava velho,
ele escreveu a sua primeira Epístola, na qual falou do Senhor como a
pedra viva e dos crentes como pedras vivas para o edifício de Deus:
“Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos
homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos,
como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual” (1Pe 2:4-5a).
De acordo com Atos 3 e 4, Pedro conhecia Aquele que cura não
apenas como Servo de Deus, o Santo, o Justo, o Autor da vida, o
Profeta e a descendência na qual toda a terra seria abençoada; ele
também O conhecia como a pedra para a edificação de Deus.
Não creio que através dos séculos muitas pessoas tenham
ensinado pela Palavra que Jesus Cristo é a pedra para o edifício de
Deus. Ele não é apenas o Servo, o Santo, o Justo, o Autor da vida, o
Profeta, e a descendência; Ele é uma pedra para o edifício de Deus.
Segundo 4:12, nessa pedra é que podemos ser salvos. Assim, Ele é o
Salvador-Pedra. Como tal, Ele é sólido, forte e confiável. Podemos
confiar Nele e nos firmar sobre Ele. Essa pedra é a rocha, a pedra de
alicerce e a pedra angular. Em Zacarias 4:7 vemos que Ele até
mesmo é a pedra de remate. Cristo é o material para a edificação de
Deus. O edifício de Deus é composto inteiramente de Cristo.

SALVOS NO NOME DO TODO-INCLUSIVO

Quando alguns ouvem que dizemos, segundo a Bíblia, que


Cristo é a pedra angular, a pedra de alicerce, a pedra de remate e até
mesmo todas as pedras no edifício de Deus, talvez nos acusem de
ensinar panteísmo. Essa é uma acusação falsa. Sim, nós dizemos que
Cristo é a nossa comida, ar, água, luz, porta, veste e habitação,
porém isso certamente não é panteísmo. Será que Cristo não está
qualificado para ser a nossa comida e bebida? e nosso ar, veste,
porta e habitação? não é a pedra de alicerce, a pedra angular, a pedra
de remate e todas as pedras para o edifício de Deus? Certamente Ele
está qualificado para ser todas essas coisas. Contudo, hoje alguns
diminuem as qualificações de Cristo e acusam falsamente de
panteístas aqueles que, com base na Bíblia, ensinam que Cristo é
todo-inclusivo, que é tudo em todos. O Novo Testamento revela que
Cristo é tudo em todos (Cl 3:11), e nós somos a Sua plenitude
(Ef 1:23). Que maravilhoso ser a plenitude de Cristo para expressá-
Lo!
É em nome de Jesus Cristo, que é todo-inclusivo, que somos
salvos. Você sabe por que o nome Dele é tão poderoso? É poderoso
porque Ele é maravilhoso e todo-inclusivo. Fomos salvos em nome
de Jesus Cristo, e Ele é todo-inclusivo. Como tal, Cristo é Deus,
homem, o Pai, o Filho, o Espírito, a rocha, o fundamento, a pedra
angular, a pedra de remate, a porta, nossa comida, bebida, veste,
vida, força, habilidade, função, andar, viver, palavras, fôlego, visão,
audição. Oh! é impossível exaurir tudo o que Cristo é para nós!
Devido à influência da tradição, alguns dizem que não
deveríamos usar novos termos para expressar o que Cristo é. Eles
defendem que devemos usar apenas os termos usados pelos pais da
igreja, os concílios e os ensinamentos tradicionais. Isso impõe
grande restrição ao povo de Deus. Devemos quebrar essa restrição e
usar novos termos quando necessários para transmitir a todo-
inclusividade de Cristo. Não devemos confiar na teologia tradicional,
pois ela nos restringe e até mesmo nos desvia. Precisamos ver na
Palavra todos os aspectos de Cristo. Em especial, Ele tem o aspecto
de ser uma pedra para o edifício de Deus. Aleluia por essa pedra
para a edificação!

A PEDRA DE TROPEÇO, A PEDRA QUE ESMIÚÇA, A


PEDRA PROPAGADORA E A PEDRA PARA EDIFICAÇÃO

Cristo não é apenas a pedra para a edificação de Deus; é


também a pedra de tropeço e a pedra que esmiúça. Com respeito a
ser a pedra de tropeço e a pedra que esmiúça, Ele disse: “Aquele que
cair sobre essa pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela
cair, ela o reduzirá a pó e dispersará como palha” (Mt 21:44). Para os
crentes, Cristo é a pedra de alicerce na qual nós confiamos
(Is 28:16). Mas para os judeus incrédulos, Ele é a pedra de tropeço
(Is 8:14-15; Rm 9:32-33), e para as nações será a pedra que esmiúça.
Conforme Daniel 2:34 e 35, Cristo como pedra esmiuçará as nações
na Sua volta.
Para nós crentes, Cristo não é nem a pedra de tropeço nem a
pedra que esmiúça; é a pedra para edificação, até mesmo a pedra
propagadora. Para nós, Ele se tornou a pedra para edificação.
Primeiro, nós nos tornamos a Sua propagação, e agora Ele nos está
edificando como habitação de Deus. Ele é tanto o Edificador como o
material para a edificação de Deus. É o Salvador-Pedra. Na
economia de Deus, Ele está edificando a Sua eterna habitação. Para
os judeus e para as nações Ele é, respectivamente, a pedra de
tropeço e a pedra que esmiúça. Mas, para nós, é a pedra
propagadora e a pedra para a edificação.

DE UM HOMEM DE BARRO PARA UMA CIDADE DE


PEDRA

Pedra é um item importante na Bíblia. Em Gênesis Deus criou


um homem do barro (Gn 2:7). Assim, o primeiro homem era de
barro. Então, o próprio Deus tornou-se um homem, e esse homem
era de pedra. No fim da Bíblia, em Apocalipse, temos uma cidade de
pedra, uma cidade edificada com pedras. Assim, a Bíblia se inicia
com um homem de barro, continua com um homem de pedra e
culmina numa cidade de pedra. Essa é a economia de Deus.

A REVELAÇÃO NA BÍBLIA COM RESPEITO À PEDRA

Estudar a Bíblia não é fácil. Precisamos de certas habilidades


se queremos estudar a Palavra de Deus adequadamente. Os que têm
carência das habilidades necessárias podem, ao ler o livro de Atos,
prestar atenção a coisas como sinais, prodígios e a sombra de Pedro
(5:15); e não prestar atenção à pedra rejeitada pelos construtores.
Nós, contudo, precisamos ver a importância de Cristo como a pedra
para edificação.

No Antigo Testamento

No início da Bíblia temos a árvore da vida, um rio e uma pedra.


De acordo com Gênesis 2, depois que Deus criou o homem, Ele o
colocou em frente à árvore da vida (vs. 8-9). Também lemos que:
“Saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia,
repartindo-se em quatro braços” (v. 10). Em relação ao rio, Gênesis
2 fala de ouro, bdélio e pedra de ônix (v. 12). Essa é a primeira
menção de pedra na Bíblia.
No Antigo Testamento lemos muitas vezes a respeito de
pedras. Por exemplo, havia pedras de ônix nas ombreiras da estola
sacerdotal do sumo sacerdote. Havia também doze pedras no
peitoral do sumo sacerdote (Êx 28:8-12, 21). Sobre elas estavam
gravados os nomes das doze tribos de Israel. Isso indica que o povo
escolhido de Deus, aos Seus olhos, deveria se tornar pedras.
No Antigo Testamento também lemos sobre a rocha fendida da
qual fluiu a água da vida (Êx 17:5-6). Em 1 Coríntios Paulo nos diz
que essa rocha era Cristo: “Bebiam de uma pedra espiritual que os
seguia. E a pedra era Cristo” (10:4).
Isaías 8:14-15 fala de uma pedra de tropeço. Mas Isaías 28:16
diz: “Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra
preciosa, angular, solidamente assentada”. Para com os Seus
opositores, Cristo é a pedra que os faz tropeçar, mas para nós é a
pedra de alicerce e a pedra angular. Além disso, Zacarias fala de
Cristo como a pedra de remate: “Ele colocará a pedra de remate, em
meio a aclamações: Haja graça e graça para ela!” (Zc 4:7).

No Novo Testamento

Podemos encontrar muito mais sobre a pedra no Novo


Testamento. O Senhor Jesus chamou Pedro de pedra, e mostrou que
Ele mesmo é a rocha (Jo 1:42; Mt 16:18). Cristo irá edificar a Sua
igreja sobre essa rocha com os crentes como pedras. Em 1 Coríntios
3:11 Paulo diz que Cristo é o único fundamento que foi lançado, e
sobre ele devemos edificar com ouro, prata e pedras preciosas.
Então, em 1 Pedro 2:4-5 vemos que o Senhor Jesus é a pedra que
vive e nós também, como pedras que vivem, estamos sendo
edificados casa espiritual. Por fim, em Apocalipse o Senhor diz que
os vencedores receberão uma pedrinha branca, significando que se
tornaram pedras preciosas aos Seus olhos (Ap 2:17). Ademais, em
Apocalipse 4, Deus assentado no trono é semelhante a pedra de
jaspe e de sardônio: “E esse que se acha assentado é semelhante, no
aspecto, a pedra de jaspe e de sardônio” (v. 3). Por fim temos a Nova
Jerusalém, a cidade cuja luz é “semelhante a uma pedra
preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina” (Ap 21:11), uma
grande e alta muralha de jaspe (vs. 12, 18), e doze fundamentos de
pedras preciosas. Se observarmos essa cidade, veremos que ela
consiste de ouro, pérola e pedras preciosas. Essa é a revelação clara
com respeito a pedra na Bíblia.
Muitos que ensinam a Bíblia não viram que pedra é um item
principal nas Escrituras. Você já ouviu que o Senhor Jesus é o
Salvador-pedra? alguma vez já lhe disseram que Deus tem a
aparência de jaspe? Conforme Apocalipse 4, podemos dizer que
Deus é o Deus-jaspe. Se alguém disser que esse termo não está na
Bíblia, podemos dizer que a Bíblia não usa a expressão “Deus
Triúno”, mas o fato de que Deus é Triúno (o Pai, o Filho e o Espírito)
certamente está na Palavra. Semelhantemente a Bíblia não usa o
termo “Deus-jaspe”, mas revela categoricamente que Deus tem a
aparência de jaspe. Não é Ele, então, num sentido bem real, um
Deus-jaspe?
Mais uma vez quero encorajar você a não colocar a sua
confiança na teologia tradicional. Nessa teologia há muita restrição,
cegueira e véu com respeito a muitas questões da Bíblia. Vimos
apenas uma pequena porção do que está na Palavra. A revelação de
Deus nas Escrituras é inexaurível. Quando estivermos na eternidade
diremos: “Oh! quão pouco vimos!”
Não devemos ser negligentes em nosso estudo, mas devemos
seguir os princípios governantes das Escrituras. Se os seguirmos,
seremos guardados de cometer erros. Embora não devamos ser
restringidos pela teologia tradicional, ainda precisamos ser dirigidos
pelos princípios governantes de interpretação bíblica. (Talvez em
outra ocasião consideraremos esses princípios.)
Na Bíblia há uma linha a respeito da pedra, de Gênesis 2 até
Apocalipse 22. No início, em Gênesis 2, temos a pedra de ônix e em
Apocalipse 21 e 22 temos a cidade de jaspe como consumação. A
aparência, a muralha e o primeiro fundamento dessa cidade são
todos de jaspe. Quanta verdade, portanto, está indicada e implícita
no fato de Pedro se referir a Cristo como a pedra rejeitada pelos
construtores, mas feita por Deus a pedra angular em ressurreição!
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 17
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (12)

Leitura Bíblica: At 4:32―5:12

Em 4:32―5:11 temos a continuação da vida da igreja, e em


5:17-42, a continuação da perseguição por parte dos religiosos
judeus. Com respeito à continuação da vida da igreja há uma cena
positiva em 4:32-37 e uma cena negativa em 5:1-11. Nesta mensagem
consideraremos a vida da igreja vista em 4:32―5:11.

A CONTINUAÇÃO DA VIDA DA IGREJA

A Cena Positiva

Tinham Tudo em Comum

Atos 4:32 diz: “Da multidão dos que creram era um o coração e
a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das
coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”. Como em 2:44,
ter tudo em comum era sinal, não de amor, mas da salvação
dinâmica de Cristo que salvou os crentes da ganância e do egoísmo.
Isso foi praticado por curto período no início da economia
neotestamentária de Deus; não continuou a longo prazo como
prática de legalidade na vida da igreja no ministério de Paulo.

Testemunhas do Cristo Ressurreto

O versículo 33 diz: “Com grande poder, os apóstolos davam


testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia
abundante graça”. Os apóstolos eram testemunhas do Cristo
ressurreto não apenas em palavras, mas também pela vida e ação.
Em especial, eram testemunhas da Sua ressurreição.
Abundante Graça sobre Todos os Crentes

Segundo 4:33, havia abundante graça em todos os crentes. A


lei exige do homem segundo o que Deus é, mas a graça supre o
homem com o que Deus é para atender ao que Deus exige. Na
verdade, graça é o próprio Deus desfrutado pelo homem. Graça é o
Cristo ressurreto tornando-se o Espírito que dá vida (1Co 15:45) para
introduzir em nós o Deus processado em ressurreição, a fim de ser
nossa vida e suprimento de vida para que vivamos em ressurreição.
Assim, graça é o Deus Triúno tornando-se vida e tudo para nós.
Atos 4:34-35 diz: “Pois nenhum necessitado havia entre eles,
porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os
valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então,
se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha
necessidade”. Assim como em 2:45, a venda de terras e casas foi uma
evidência da salvação dinâmica do Senhor. Essa salvação fez com
que os crentes vencessem as suas posses terrenas, que ocupam,
possuem e usurpam a humanidade caída (Mt 19:21-24; Lc 12:13-19,
33-34; 14:33; 16:13-14; 1Tm 6:17).

O Exemplo de Barnabé

Em 4:36 e 37 Lucas dá um exemplo positivo de alguém que


vendeu o seu campo e depositou o dinheiro aos pés dos apóstolos:
“José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que
quer dizer filho de exortação, levita, natural de Chipre, como tivesse
um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos
apóstolos”. O vocábulo grego traduzido como exortação no versículo
36 também significa consolação. Barnabé, levita natural de Chipre,
vendeu a sua propriedade, trouxe o dinheiro da venda e o colocou
aos pés dos apóstolos para ser distribuído entre os santos de acordo
com a necessidade. Isso é parte da cena positiva em 4:32-37.

A Cena Negativa

As Duas Pessoas que Residiam em Ananias e Safira Após a


cena positiva no fim do capítulo quatro, Lucas apresenta a cena
negativa em 5:1-11. A cena negativa envolve um casal Ananias e
Safira: “Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua
mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, em acordo com sua
mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos
pés dos apóstolos” (vs. 1-2). Ananias e Safira tinham um plano
maligno de enganar o Espírito que neles habitava, mentindo para
Ele. “Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu
coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do
valor do campo?” (v. 3). Ananias aparentemente mentiu aos
apóstolos, mas na verdade foi ao Espírito Santo, que é Deus (v. 4),
pois o Espírito e os apóstolos eram um.
Ao ler esses versículos, vemos que duas pessoas residiam nesse
casal. Primeiro, o Espírito sem dúvida habitava neles. Uma vez
salvos, o Espírito Santo tinha feito morada neles. Segundo, Satanás
habitava neles, pois tinha enchido o coração deles para que
mentissem ao Espírito Santo. Portanto, dois residentes (o Espírito
Santo e Satanás) habitavam em Ananias e Safira.
Precisamos perceber que, como crentes, também temos esses
dois residentes em nós. Contudo, alguns mestres da Bíblia não
acreditam que Satanás permanece nos crentes. Eles também não
acreditam que os crentes podem ser possuídos por demônios. Como
Jesse Penn-Lewis falou de casos de possessão demoníaca de crentes
em seu livro Guerra contra os Santos, alguns chegaram a chamá-la
de “bruxa”. Embora alguns neguem que um crente possa ser
possuído por demônio, é um fato que alguns crentes autênticos
foram possuídos por demônios. Aqui no capítulo cinco de Atos talvez
seja o primeiro caso assim. Pedro perguntou a Ananias: Por que
encheu Satanás teu coração?” Isso indica que Satanás não estava
meramente fora deles, mas em seu coração, enganando-os e
seduzindo-os.

O Problema da Ambição

Como pôde Satanás ter tanto espaço neles? Foi devido à


ambição deles. Através dos anos aprendi que os crentes podem ter
ambição por nome, posição, título e posto. Essa ambição pode ser
encontrada até mesmo nos que estão na vida da igreja. Tanto no
Oriente como no Ocidente vi irmãos na igreja que ambicionavam ter
posto, posição, título e nome. Até mesmo os jovens podem
ambicionar ser líderes.
Recentemente em Taipei, Formosa, o Senhor moveu-se entre
nós e estabelecemos mais de quatrocentos pequenos grupos na
igreja. Quando fizemos isso no passado, designamos um líder em
cada grupo e também assistentes. Contudo, descobrimos que essas
nomeações se tornaram um fator de corrupção. Assim, desta vez
dissemos à igreja que não haveria nenhum líder designado nos
pequenos grupos. Antes, cada um, em cada grupo, podia tomar a
liderança.
O terreno em Ananias e Safira que serviu de base para Satanás
enganá-los foi o desejo deles de ter um nome. Eles queriam ter a
reputação de ter vendido tudo por causa da igreja. Por causa da
ambição, eles traçaram um plano. Venderam uma propriedade,
ficaram com parte do dinheiro e, então, trouxeram parte e a
depositaram aos pés dos apóstolos.
Como já comentamos, Ananias e Safira mentiram ao Espírito
Santo. Você acha que o Espírito para o qual mentiram era o Espírito
nos céus, fora deles? acha que mentiram meramente para um
Espírito objetivo? Ananias e Safira mentiram ao próprio Espírito que
estava neles. Se o Espírito Santo não estivesse neles, por que Pedro
teria dito que mentiram ao Espírito Santo? Tanto Satanás como o
Espírito Santo residiam em Ananias e Safira ao mesmo tempo.
Hoje em dia existe uma tendência entre os mestres da Bíblia de
negar o fato de que Satanás, o diabo, habita na carne do homem.
Mas considere a experiência de Pedro em Mateus 16. Ele reconheceu
que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. O Senhor lhe disse: “Bem-
aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem
to revelou, mas Meu Pai que está nos céus” (v. 17). Mais tarde, no
mesmo capítulo, vemos que Pedro, que recebera uma revelação do
Pai, também foi ocupado por Satanás. Quando Pedro tomou o
Senhor à parte e passou a repreendê-Lo, “Ele, voltando-se, disse a
Pedro: Para trás de Mim, Satanás!” (v. 23). Aqui vemos que Satanás
estava em Pedro, e não meramente fora dele.

Ambição Resultou em Morte


Satanás não está longe de nós, e precisamos ser cuidadosos
para não ser enganados por ele. Se quisermos evitar o engano de
Satanás, precisamos rejeitar, condenar e abandonar a ambição de
ser alguém na vida da igreja. Sempre que pensarmos assim, Satanás
terá terreno para nos enganar e, espiritualmente falando, levar-nos à
morte.
Ananias e Safira tinham a ambição de ser alguém na igreja;
tinham a ambição de ter um nome. Devido a ambição eles foram
enganados, e esse engano os levou à morte. Como lemos no relato,
tanto Ananias como Safira morreram fisicamente.
Não devemos pensar que, uma vez que não haja morte física na
igreja, como a de Ananias e Safira, não há morte nenhuma. Pelo
contrário, a ambição de ser alguém, de ser um líder, introduz os
ambiciosos na morte espiritual. Talvez não morram fisicamente, mas
irão morrer espiritualmente. Temos visto casos assim na restauração
do Senhor. Esses casos deixam evidente que a ambição resulta em
morte espiritual. Quanto a isso todos devemos ser muito cuidadosos.
O fato de Ananias e Safira terem sofrido a punição da morte
física não quer dizer que irão sofrer a perdição eterna. Embora
tenham sido salvos, eles cometeram um pecado para morte
(1Jo 5:16-17). Na disciplina governamental de Deus, alguns de Seus
filhos podem ser destinados à morte física nesta era, devido a certo
pecado. Essa foi a situação desse casal, punido com morte física
devido à sua mentira ao Espírito Santo. O caso deles nos ensina a ser
extremamente cuidadosos no que diz respeito à ambição e
desonestidade na vida da igreja.
O Espírito Santo usou Lucas para registrar o caso de Ananias e
Safira a fim de mostrar-nos que embora a vida da igreja seja
maravilhosa, ainda precisamos ser cuidadosos quanto à ambição.
Não devemos ter nenhuma ambição de ser alguém na igreja. Não
devemos ter ambição por posto, posição ou nome. Se tivermos
alguma dessas ambições, daremos ao inimigo o terreno para nos
introduzir na morte espiritual.

O Pecado de Mentir ao Espírito Santo

Em 5:4 há uma palavra quanto a ter tudo em comum:


“Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria
em teu poder?” Isso indica que vender propriedades e distribuí-las
aos outros não era considerado pelos apóstolos uma legalidade. Não
era exigido que os crentes tivessem tudo em comum. Era algo que
deveria ser feito voluntariamente. Se Ananias e Safira não quisessem
vender a propriedade, isso não seria exigido deles. Ademais, o
dinheiro da venda estaria debaixo da autoridade deles. O pecado
deles é que quiseram mentir ao Espírito Santo. Não teria sido
pecaminoso ficar com a propriedade ou com o dinheiro da venda. O
pecado deles consistia em mentir ao Espírito Santo. A intenção deles
era enganar a igreja e obter um nome para si pela mentira. Esse foi
um pecado grosseiro que ofendeu o Espírito que neles habitava. O
pecado deles foi uma cooperação voluntária com Satanás, o
residente maligno neles. Todos precisamos aprender a lição deixada
pelo caso de Ananias e Safira.
Em 5:3 Pedro disse a Ananias que ele mentira ao Espírito
Santo. Então, no final do versículo 4, Pedro disse a ele: “Não
mentiste aos homens, mas a Deus”. Isso prova que o Espírito Santo
no versículo 3 é Deus. Mais tarde, quando estava falando com Safira,
Pedro lhe disse: “Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito
do Senhor?” O Espírito Santo no versículo 3, Deus no versículo 4, e o
Senhor no versículo 9 são todos um, especialmente na experiência
dos crentes.

Sobreveio Temor à Igreja

No versículo 11, Lucas encerrou esse relato da cena negativa


dizendo: “E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos
ouviram a notícia destes acontecimentos”. O vocábulo grego para
igreja é ekklesía, composto de ek, fora, e uma forma derivada de
kaléo, chamar; assim, os chamados para fora (congregação), a
assembleia. Essa é a primeira vez que a igreja é mencionada em Atos
no aspecto local. Como veremos em mensagem posterior, 8:1 fala da
igreja em Jerusalém, que foi 8 primeira igreja estabelecida em uma
cidade. Ela foi estabelecida na jurisdição da cidade, a cidade de
Jerusalém. Era uma igreja local em sua cidade, como indicou o
Senhor em Mateus 18:17. A igreja revelada em Mateus 16:18 é
universal, o Corpo único de Cristo. A igreja revelada em Mateus
18:17 é local, a expressão do Corpo único de Cristo em determinada
cidade. O registro do Novo Testamento com respeito ao
estabelecimento da igreja em sua cidade é coerente do começo ao
fim (At 13:1; 14:23; Rm 16:1; 1Co 1:2; 2Co 8:1; Gl 1:2; Ap 1:4, 11).

SINAIS E PRODÍGIOS REALIZADOS POR MEIO DOS


APÓSTOLOS

Atos 5:12 diz: “Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o


povo pelas mãos dos apóstolos”. O relato aqui é muito semelhante ao
de 2:43, onde nos é dito: “Muitos prodígios e sinais eram feitos por
intermédio dos apóstolos”. Precisamos perceber que prodígios e
sinais não fazem parte do testemunho central de Deus a respeito do
Cristo encarnado, crucificado, ressurreto e ascendido. Também não
fazem parte da Sua plena salvação. Porém, prodígios e sinais são
apenas evidências de que o que os apóstolos pregavam e
ministravam e o modo pelo qual agiam eram absolutamente de Deus
e não do homem (Hb 2:3-4). Isso quer dizer que prodígios e sinais
não fazem parte do testemunho central de Deus ou da Sua salvação;
antes, são meios por Ele usados para provar que a pregação e o
ministério dos apóstolos eram Dele. No tempo dos apóstolos havia a
necessidade de que prodígios e sinais fossem feitos por meio deles.
Sem dúvida isso atraiu a atenção da multidão. Contudo, hoje, não
devemos enfatizar prodígios e sinais.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 18
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (13)

Leitura Bíblica: At 5:17-42

Em 5:17-42 temos a continuação da perseguição pelos


fanáticos judeus. Essa seção de Atos abrange quatro itens: o
aprisionamento dos apóstolos por parte do Sinédrio e o livramento
do Senhor (vs. 17-28), o testemunho dos apóstolos (vs. 29-32), a
proibição e a libertação por parte do Sinédrio (vs. 33-40) e o regozijo
e a fidelidade dos apóstolos (vs. 41-42).

O APRISIONAMENTO DOS APÓSTOLOS POR PARTE DO


SINÉDRIO E O LIVRAMENTO DO SENHOR

Atos 5:14 diz: “E crescia mais e mais a multidão de crentes,


tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor”. Por isso:
“Levantando-se, porém, o sumo sacerdote e todos os que estavam
com ele, isto é, a seita dos saduceus, tomaram-se de inveja,
prenderam os apóstolos e os recolheram à prisão pública” (vs. 17-
18). A expressão “prisão pública” denota a prisão externa, ao
contrário da interna, usada para casos sérios: De noite, um anjo do
Senhor abriu as portas da prisão e levou os apóstolos para fora
(v. 19). Os que guardavam as portas não sabiam o que acontecera.
Na manhã seguinte o Sinédrio e o conselho dos anciãos dos filhos de
Israel mandaram buscar os apóstolos no cárcere. “Mas os guardas,
indo, não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram,
dizendo: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e as
sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a
ninguém encontramos dentro” (vs. 22-23). “Quando o capitão do
templo e os principais sacerdotes ouviram estas informações,
ficaram perplexos a respeito deles e do que viria a ser isto. Nesse
ínterim, alguém chegou e lhes comunicou: Eis que os homens que
recolhestes no cárcere, estão no templo ensinando o povo” (vs. 24-
25). Embora os fanáticos não pudessem entender o que estava
acontecendo, os apóstolos tinham sido livrados da prisão e estavam
no templo ensinando.

AS PALAVRAS DESTA VIDA

Quando o anjo do Senhor resgatou os apóstolos da prisão, ele


lhes disse: “Ide e, apresentando-vos no templo, dizei ao povo todas
as palavras desta Vida” (v. 20). Precisamos dar atenção ao termo
“desta”, pois indica uma vida especial. O vocábulo grego traduzido
como palavras aqui é rhêma, denotando a palavra falada presente,
e, não, a palavra escrita constante. Assim, o anjo estava dizendo aos
apóstolos: “Ide e falai as palavras atuais desta Vida”.
Que vida é indicada por “esta Vida”? É a vida divina pregada,
ministrada e vivida por Pedro, a qual venceu a perseguição, as
ameaças e o aprisionamento dos líderes judeus. Essa palavra indica
que a vida e obra de Pedro tornaram a vida divina tão real e presente
em sua situação que até mesmo o anjo a viu e ressaltou.
Não foi dito aos apóstolos que falassem da vida divina de
forma doutrinária. Hoje alguns cristãos falam sobre vida, mas o falar
deles é totalmente doutrinário. Precisamos buscar misericórdia e
graça do Senhor a fim de que, sempre que falarmos sobre a vida
divina, falemos as palavras da própria vida que vivemos. Isso quer
dizer que a vida divina se torna a nossa vida diária. É essa vida que
devemos ministrar aos outros.
Atos 5:26 diz: “Nisto, indo o capitão e os guardas, os
trouxeram sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo
povo”. Os líderes religiosos não sabiam como lidar com a situação.
Em especial, não sabiam o que fazer com “esta Vida”. Temendo o
povo, nada fizeram de violento aos apóstolos. Mas, “trouxeram-nos,
apresentando-os ao Sinédrio. E o sumo sacerdote interrogou-os,
dizendo: Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse
nome; contudo, enchestes Jerusalém de vossa doutrina; e quereis
lançar sobre nós o sangue desse homem” (vs. 27-28). Literalmente,
as palavras gregas traduzidas como “expressamente vos
ordenamos”, significam “ordenamos-vos com ordem”. Os membros
do Sinédrio ordenaram aos apóstolos que não falassem mais no
nome de Jesus.

O TESTEMUNHO DOS APÓSTOLOS

Em Atos 5:29-31 “Pedro e os demais apóstolos afirmaram:


Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens. O Deus de
nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o
num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e
Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão
de pecados”. A encarnação de Jesus tornou-o homem, Seu viver
humano na terra O qualificou a ser o Salvador do homem, Sua
crucificação realizou plena redenção para o homem, Sua
ressurreição vindicou Sua obra redentora e Sua exaltação O
empossou como Príncipe soberano para ser Ele o Salvador.

Com respeito ao Líder e Salvador

O vocábulo grego traduzido como “Líder” é archégos, que


significa autor, origem, originador, líder principal, capitão. É a
mesma palavra grega para Autor em 3:15. Deus exaltou o homem
Jesus, que fora rejeitado e morto pelos líderes judeus, como Príncipe
mais elevado, Líder, Soberano dos reis para reinar sobre o mundo
(Ap 1:5; 19:16), e Salvador para salvar os escolhidos de Deus. Líder
relaciona-se à Sua autoridade, e Salvador, à Sua salvação. Ele rege
soberanamente a terra com Sua autoridade para que o ambiente seja
adequado para os escolhidos de Deus receber a Sua salvação
(At 17:26-27; Jo 17:2).
Quem governa a terra hoje? Podemos dizer que a terra é
governada por reis e presidentes, mas o Senhor Jesus como o
Soberano mais elevado está acima deles. Conforme Apocalipse 1:5,
Ele é o Soberano dos reis da terra. Qual título você acha que é mais
elevado, soberano ou rei? Provavelmente a maioria das pessoas diria
que rei é mais elevado do que soberano. Contudo, o Novo
Testamento fala de Cristo como o Soberano dos reis, e Pedro diz que
Ele é o Líder, o Governante principal.
Num sentido bem real, Cristo como o Soberano dos reis
destitui todos os reis. Somente Ele é o Soberano. Além do mais, de
acordo com Apocalipse 19:6, Ele é o Rei dos reis e Senhor dos
senhores. Como Soberano Ele governa toda a terra.
Aparentemente os reis e presidentes governam a terra e o
Senhor Jesus não está no trono. Contudo, esse que parece não estar
no trono é o Soberano de todos os que estão nos tronos. Hoje, toda a
terra está sob o governo do Senhor. Ele é verdadeiramente o Líder, o
Governante-chefe.
Com que objetivo o Senhor Jesus governa a terra? Como Líder
e Soberano, Ele governa a terra por causa da nossa salvação. Ele
governa a fim de que sejamos salvos. Vamos ilustrar isso com a
questão dos imigrantes chineses para os Estados Unidos.
Descobrimos que muitos desses imigrantes são muito abertos ao
Senhor. Mas, se tivessem permanecido na China, é provável que não
estivessem tão abertos. O Senhor Jesus exerce a Sua autoridade
fazendo com que muitos estrangeiros venham a este país. Então,
depois de chegar, eles ficam abertos ao Senhor. Isso é uma ilustração
do Senhor governando a terra para salvar as pessoas.
Cremos que Deus nos escolheu, e então, no tempo certo o
Senhor Jesus, o Soberano dos reis da terra, exerceu a Sua autoridade
para produzir ambiente tal que não tivemos outra escolha, a não ser
crer Nele. Em certo sentido fomos “capturados” pelo Senhor. Muitos
santos já testificaram isso. Podemos não sentir isso quando estamos
em tempo de refrigério, mas quando o “céu” acima de nós não está
limpo e estamos numa situação “nebulosa”, espiritualmente falando,
podemos considerar que o Senhor nos capturou, até mesmo nos
apanhou em armadilha. Também podemos crer que fomos pegos na
vida da igreja. Não há como escapar da “armadilha” do Senhor.
Fomos apanhados por Cristo e em Cristo; além disso, fomos
apanhados na igreja. Em certo sentido, essa é a nossa situação.
Fomos apanhados pelo Senhor, em Sua soberania.
Antes de ter sido salvos, éramos como camundongos correndo
soltos. Mas o Senhor Jesus exerceu a Sua autoridade soberana para
colocar uma armadilha e nos pegar. Quanto mais corremos, mais
fácil foi para Ele nos apanhar. Nessa questão Ele é soberano; Ele é o
Soberano dos reis, arranjando o ambiente a fim de que fôssemos
constrangidos a crer Nele. Sem esse ambiente, não teríamos crido
Nele. Na verdade, crer no Senhor não depende de nós; depende
totalmente Dele. Ele foi exaltado para ser o Líder sobre todos os reis
para arranjar o ambiente a fim de que Seus escolhidos viessem a crer
Nele.
Em 5:31 Pedro diz que Deus exaltou Cristo à Sua direita como
Líder e Salvador. Depois que nos apanha, o Senhor se torna o nosso
Salvador. Contudo, Ele não nos salva de ser apanhados, pelo
contrário, Ele nos mantém numa “armadilha” a fim de nos salvar da
condenação de Deus, do lago de fogo e de muitas coisas malignas. O
fato de ser o Líder visa à autoridade e o fato de Ele ser o Salvador
visa à salvação.
Não conheço ninguém que escolheu crer em Jesus por si
próprio. Todos fomos compelidos a isso. Muitos testificaram
dizendo: “Com respeito a crer no Senhor Jesus, não tive escolha.
Simplesmente tive de crer Nele”. Na verdade, nenhum de nós queria
crer no Senhor. Todos fomos apanhados por Ele e constrangidos a
crer Nele. Louvado seja o Senhor por crermos Nele!
Já dissemos que não conseguimos fugir da armadilha do
Senhor. Podemos usar como ilustração a arca feita por Noé. Essa
arca é uma prefiguração de Cristo. Uma vez que tenhamos entrado
em Cristo como nossa arca, não conseguimos mais sair. Precisamos
dessa arca, pois sem ela, pereceríamos.
Numa das mensagens sobre o livro de Gênesis, eu disse que a
igreja é uma arca para nós hoje. Todos estamos nela. Quem o
colocou na arca da igreja? Você entrou sozinho? O Senhor é que nos
colocou nela. Ele foi exaltado por Deus para ser o Líder, e como tal
Ele nos pôs na arca da igreja. Às vezes queremos sair, mas não
conseguimos escapar. Pelo fato de o Senhor ser o Líder, estamos na
arca, e agora devemos viver juntos nela.

Com respeito a Arrependimento e Perdão

De acordo com as palavras de Pedro em 5:31, o Senhor é o


Líder e o Salvador, “a fim de conceder a Israel o arrependimento e a
remissão de pecados”.
Dar arrependimento e perdão de pecados aos escolhidos de
Deus requer que Cristo seja exaltado como Príncipe soberano e
Salvador. Seu governar soberano faz os escolhidos de Deus se
arrepender e os conduz a isso, e a Sua salvação, baseada na Sua
redenção, proporciona-lhes perdão de pecados.
Arrependimento visa ao perdão de pecados (Mc 1:4). Do lado
de Deus, o perdão de pecados baseia-se na redenção de Cristo
(Ef 1:7); do lado do homem, ele ocorre por meio do arrependimento.
Arrependimento e perdão são dons importantes, e, apenas o
Senhor Jesus como Líder e Salvador, está qualificado a dá-los.
Ninguém mais está qualificado a concedê-los. Precisamos perceber
que no universo Ele é o único qualificado a conceder
arrependimento e perdão de pecados.
No sentido positivo, fomos apanhados pelo Senhor Jesus.
Senão, quem de nós teria se arrependido? Nenhum de nós teria se
arrependido se o Senhor não nos tivesse capturado. Na verdade, o
Senhor nos compeliu ao arrependimento. Doutra forma não nos
teríamos arrependido. Arrependimento não vêm de nós, é dom do
Líder e Salvador exaltado. Depois do arrependimento, recebemos o
dom do perdão. Louvado seja o Senhor pelos dons de
arrependimento e perdão! Nós O louvamos, pois Ele está qualificado
a conceder arrependimento e perdão ao povo escolhido de Deus!
Em 5:32 Pedro prossegue: “Ora, nós somos testemunhas
destes fatos, e bem assim o Espírito Santo, que Deus outorgou aos
que lhe obedecem”. O vocábulo grego traduzido como fatos aqui é
rhêma. Tanto os apóstolos como o Espírito Santo eram testemunhas
desses fatos. Isso indica que o Espírito Santo era um com os
apóstolos. Nesse versículo Pedro diz que Deus dá o Espírito Santo
aos que O obedecem. Obediência é o meio e a condição para receber
e desfrutar o Espírito de Deus.

A PROIBIÇÃO E A LIBERTAÇÃO POR PARTE DO


SINÉDRIO

Atos 5:33-40 descreve a proibição e a libertação dos apóstolos


por parte do Sinédrio. O versículo 33 diz: “Eles, porém, ouvindo, se
enfureceram e queriam mata-los”. Literalmente as palavras gregas
traduzidas como “se enfureceram” significam “foram completamente
serrados”. Isso é uma expressão enfática para indicar que estavam
enfurecidos.
O versículo 34 continua: “Mas, levantando-se no Sinédrio um
fariseu, chamado Gamaliel, mestre da lei, acatado por todo o povo,
mandou retirar os homens, por um pouco”. Os fariseus eram a
facção religiosa mais rígida dos judeus (At 26:5). Ela foi formada
cerca de duzentos anos antes de Cristo. Eles se orgulhavam da sua
santidade de vida superior, devoção a Deus e conhecimento das
Escrituras.
No versículo 35, Gamaliel disse ao Sinédrio: “Israelitas, atentai
bem no que ides fazer a estes homens”. Então, depois de se referir
aos casos de Teudas e de Judas, o galileu, ele continuou: “Agora, vos
digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho
ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não
podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados
lutando contra Deus” (vs. 38-39). Gamaliel aqui disse algo muito
bom.
Gamaliel era um homem piedoso. Mas estava ele na economia
de Deus? sabia alguma coisa da economia de Deus? Ele não estava
na economia de Deus, e nada sabia sobre ela. Através dos séculos,
muitos piedosos foram como Gamaliel. Embora fossem piedosos,
não sabiam nada sobre a economia divina e não tinham nenhum
entendimento acerca do mover de Deus. Assim como Gamaliel, que
não sabia o que o Senhor estava fazendo por meio de Pedro e de
João, esses irmãos piedosos não sabiam o que Deus estava fazendo
no tempo deles.
Em 5:35-39 vemos que Gamaliel era bastante sábio e também
neutro. Note o uso da palavra se nos versículos 38 e 39. No versículo
38 ele disse: “Se este conselho ou esta obra vem de homens,
perecerá”. Então, no versículo 39 ele prossegue dizendo: “Se é de
Deus, não podereis destruí-los”. Em vez de tomar partido, Gamaliel
deixou toda a situação para Deus. Ele sabia que, se essa obra fosse
de homens, pereceria. Mas se fosse de Deus e não de homens, nada
poderia ser feito a respeito dela. Como ressaltamos, embora fosse
piedoso e também sábio e neutro, Gamaliel não conhecia a economia
de Deus e não estava nela. Através dos anos muitos foram como ele,
eram piedosos, mas a despeito de quão piedosos fossem, não sabiam
o que Deus estava fazendo na terra.
Com o caso de Gamaliel vemos que não é adequado
simplesmente ser piedoso e espiritual. Também precisamos saber
como Deus se move hoje. Onde e de que maneira Deus se move?
Visto que Deus sempre se move, precisamos descobrir de que
maneira Ele se move. Será que é à maneira do Catolicismo Romano,
ou das denominações? Será que é à maneira do pentecostalismo ou
da vida interior? De que maneira Deus está se movendo hoje? Não
cremos que Ele esteja inativo. Uma vez que Ele se move, precisamos
ter a convicção e satisfação interior de conhecer o Seu mover e estar
nele. Precisamos estar certos com respeito ao mover atual de Deus.
Não devemos ser como os membros do Sinédrio e nem mesmo
como Gamaliel; precisamos ser os Pedros e Joões de hoje. Por meio
do registro na revelação divina, podemos ver que Pedro e João
estavam na economia de Deus. Eles se moviam com Deus, ou, mais
precisamente, Deus se movia com eles. Eles tinham sido motivados a
se mover com Deus.
E nós hoje? Posso testificar que tenho a certeza de que o mover
do Senhor está na Sua restauração e com ela. A respeito disso, temos
o Espírito Santo como testemunha interior. Assim como Pedro,
podemos dizer: “Somos testemunhas dessas coisas, e o Espírito
Santo também”. Temos a convicção e satisfação interior de que
estamos no mover atual do Senhor. Não somos Gamaliéis; somos os
Pedros e Joões de hoje.

O REGOZUO E A FIDELIDADE DOS APÓSTOLOS

OS membros do Sinédrio foram persuadidos por Gamaliel.


Depois de chamar os apóstolos, “açoitaram-nos e, ordenando-lhes
que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram” (v. 40). Assim,
“eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido
considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome” (v. 41).
Sofrer afrontas por esse Nome é sofrer vergonha por ele. É uma
verdadeira honra ser desonrado por causa do Nome, o próprio nome
de Jesus, desonrado pelos homens, mas honrado por Deus. Assim,
Pedro e João se regozijaram por ter sido considerados dignos disso.
Atos 5:42 diz: “E todos os dias, no templo e de casa em casa,
não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo”. Aqui vemos
que os apóstolos pregavam o evangelho no templo e na casa dos
crentes. Nós temos encargo de seguir essa prática de pregar e
ensinar de casa em casa.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 19
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (14)

Leitura Bíblica: At 6:1-7

Nesta mensagem vamos considerar 6:1-7. Nos versículos 1 a 6


temos a designação de sete diáconos e no versículo 7 vemos o
crescimento da palavra de Deus e a multiplicação dos discípulos.

A DESIGNAÇÃO DE SETE DIÁCONOS

Um Problema na Vida da Igreja

Atos 6:1 diz: “Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número


dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus,
porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição
diária”. Os helenistas eram judeus que falavam grego e os hebreus
eram judeus que falavam hebraico. Bem no início da prática da vida
da igreja, houve problema causado por línguas diferentes. Medidas
adequadas foram tomadas para sanar esse problema.
Frequentemente há problemas na vida da igreja. Esses
problemas não são causados por pessoas de fora e sim pelos que
estão na igreja. O primeiro problema relatado em Atos foi causado
por um casal, Ananias e Safira, que eram ambiciosos e desonestos.
Esse problema foi resolvido pelo julgamento soberano de Deus. Com
isso podemos ver que talvez não precisemos fazer muito a respeito
de certos problemas na igreja, pois eles se resolvem pela soberania
de Deus. Contudo, no capítulo seis de Atos temos outro tipo de
problema: o problema de língua ou de raça. Aparentemente o
problema na igreja em Jerusalém era um problema de língua
relacionado aos que falavam hebraico e aos que falavam grego. Na
verdade, esse problema não era principalmente de língua, e, sim, de
raça.
Atos 2 nos mostra que os judeus tinham vindo da sua
dispersão para Jerusalém para celebrar a festa de Pentecostes. Os
que foram dispersos entre outras raças gradualmente iam
adquirindo a língua daquelas raças. Assim, quando vinham a
Jerusalém para celebrar a festa de Pentecostes, não eram capazes de
falar hebraico, mas falavam a sua língua nativa. Os helenistas, em
particular, falavam grego. A diferença de língua tornou-se um
problema. Na verdade, a fonte do problema não era a língua, mas a
raça. Se toda a humanidade fosse da mesma raça, provavelmente
haveria apenas uma língua. Línguas diferentes é resultado de raças
diferentes. Conforme Gênesis 11, a origem desse problema foi Babel.
Pela experiência conhecemos os problemas causados pelas
diferentes línguas entre os irmãos na vida da igreja. Por exemplo,
entre os que foram salvos pela nossa pregação do evangelho na ilha
de Formosa havia pessoas que falavam diversas línguas, inclusive o
dialeto local. Nós realmente sofremos pelos problemas causados por
línguas diferentes.
Quando chegamos aos Estados Unidos, não iniciamos
imediatamente um trabalho entre as pessoas que falavam chinês.
Contudo, como se tornou possível que tantas pessoas que falam
chinês emigrassem para os Estados Unidos, tornou-se necessário ter
uma obra entre elas. O Senhor abençoou muito essa obra.
Agradecemos ao Senhor porque, embora tenhamos entre nós
pessoas de diferentes línguas e raças, não temos problemas com
respeito a língua e ou raça. Somos gratos ao Senhor pela Sua
misericórdia e por tudo que aprendemos no passado a esse respeito.
Louvamos o Senhor porque raça e língua já não são problemas!

Sete Homens Cheios do Espírito Santo

Em Atos 6 os apóstolos se defrontaram com um problema


relacionado à língua e raça. Eles exercitaram a sua sabedoria para
sanar o problema e cuidar de todos os irmãos.
Atos 6:2 diz: “Então, os doze convocaram a comunidade dos
discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a
palavra de Deus para servir às mesas”. Aqui vemos que na vida da
igreja algumas coisas são mais importantes e outras, menos.
Ministrar a palavra e orar são questões maiores, mas servir às mesas
é questão menor.
Nos versículos 3 e 4 os apóstolos prosseguiram dizendo: “Mas,
irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do
Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e,
quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da
palavra”. O vocábulo grego para cheio no versículo 3 é pléres,
adjetivo derivado do verbo pleróo, segundo o uso aqui e em 6:5;
7:55; 11:24; e em Lucas 4:1. Estar cheio do Espírito é a condição de
alguém que já foi enchido do Espírito interior e essencialmente,
como menciona 13:52. Isso se refere à vida, e não à obra. A palavra
sabedoria em 6:3 também indica que, nesse versículo, estar cheio do
Espírito visa à vida, como em Lucas 2:52.
No versículo 4 os apóstolos disseram que iriam continuar em
oração e no ministério da palavra. Orar não é somente para rogar ao
Senhor que faça coisas com vistas ao Seu mover, mas também para
fazer com que nosso espírito seja exercitado e fortalecido. Assim, a
oração deve preceder o ministério da palavra, como praticavam os
apóstolos. Sem tal oração, o ministério da palavra não será avivado e
poderoso.
Os apóstolos disseram à multidão que escolhesse sete homens
de boa reputação dentre eles a fim de que fossem designados para
aquela necessidade. Os versículos 5 e 6 dizem: “O parecer agradou a
toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do
Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e
Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos perante os
apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos”. Visto terem
sido escolhidos para servir às mesas, poderiam ser considerados
diáconos, como os que Paulo e seus cooperadores designaram mais
tarde nas igrejas (Rm 16:1; Fp 1:1; 1Tm 3:8).
De acordo com o versículo 6 os apóstolos impuseram as mãos
sobre os sete diáconos. Impor as mãos na Bíblia tem duas funções:
identificação, como em Levítico 1:4, e infusão, como em 1 Timóteo
4:14.

Um Padrão para Nós Hoje


Como Pedro e os outros apóstolos tinham a responsabilidade
de ministrar a Palavra, eles distribuíram o serviço das mesas para
outros. Esse é um padrão que devemos seguir hoje. Segundo esse
padrão, não devemos manter todas as responsabilidades sobre os
nossos próprios ombros, e, sim, distribuí-las a todos. Esse é um
princípio importante. Aprendemos muito do padrão de Atos, e
temos seguido esse padrão na vida da igreja há mais de cinquenta
anos.
Permita-me testificar com respeito à minha experiência de
distribuir responsabilidades aos outros. Alguns talvez pensem que
sou muito capaz e posso fazer muitas coisas. Na verdade, não sou
superdotado. Contudo, aprendi a distribuir responsabilidades aos
demais. Por exemplo, o Senhor abençoou a obra em Chefoo. Quando
chegou a hora de eu deixar aquela cidade, foi fácil fazê-lo. Não houve
necessidade de falar aos irmãos a respeito da obra, do serviço da
igreja e de outras coisas, pois eu havia aprendido a não manter os
assuntos nas minhas mãos. Há anos os assuntos da igreja e da obra
haviam sido distribuídos aos irmãos, e eles assumiam a
responsabilidade por essas coisas. Assim, quando chegou o tempo de
partir, eu simplesmente parti.

Tive uma experiência semelhante na igreja em Xangai.

Alguns achavam que muitas coisas relacionadas à igreja


estivessem nas minhas mãos. Na verdade, não era assim. Quando
recebi a palavra do irmão Nee de que eu deveria deixar a China
Continental, parti em dois dias. Os assuntos da igreja tinham sido
distribuídos aos irmãos.
Essa também tem sido a minha prática na vida da igreja neste
país. Se você perguntar aos irmãos que conhecem a nossa história,
eles poderão dizer-lhe que eu não guardei as questões da igreja
comigo. Mais uma vez adotei a prática de distribuir as
responsabilidades aos outros. Por isso, há muitas coisas a respeito
das igrejas que eu desconheço. Se você me perguntar a respeito
dessas coisas, eu o encaminharei aos presbíteros ou ao escritório de
serviços da igreja. O que quero enfatizar aqui é que pela misericórdia
do Senhor aprendemos a distribuir as responsabilidades.
Pela natureza humana, ou nós não temos nenhum interesse
em fazer certas coisas, ou queremos fazê-las de tal forma que todas
as coisas com elas relacionadas estejam em nosso “bolso”. No início
talvez o nosso bolso esteja vazio, mas por fim será enchido por coisas
que reservamos para nós mesmos. Por isso gostaria de enfatizar a
necessidade que temos de aprender a distribuir responsabilidades.
Primeiro, podemos dar uma responsabilidade para determinado
irmão, depois, damos outra a outro irmão. Essa distribuição de
responsabilidades é necessária para que o testemunho do Senhor se
espalhe.
Para os que acham que sou especialmente capaz e fiz grande
obra pelo mundo, quero dizer o seguinte: “Por favor, não pense que
sou tão capaz; só fiz um pouco. Você precisa dar crédito a todos os
santos, que fizeram muitas coisas e assumiram muitas
responsabilidades. Só fiz a minha parte”. Que, assim como os
apóstolos em Atos, aprendamos a fazer a nossa parte e distribuir a
responsabilidade pelas outras coisas a todos os santos.
Precisamos ver que o que está registrado em Atos é um padrão
a ser seguido. No início da vida da igreja temos o padrão de
distribuir responsabilidades aos outros. A designação dos sete
diáconos para cuidar da necessidade específica é um ótimo padrão, e
precisamos segui-lo hoje na vida da igreja.

Dois Irmãos com Dons Especiais

Dos sete que foram escolhidos como diáconos, dois (Estêvão e


Filipe) tinham dons especiais. Pelo falar de Estêvão no capítulo sete
podemos ver que ele era um grande mestre. A sua longa mensagem
denota que ele conhecia a Palavra de Deus. Certamente estava
qualificado para ensinar as Escrituras. O ensinamento de Estêvão
era rico, poderoso e cheio de significado. Ele certamente era um
excelente mestre. Filipe também tinha um dom especial, e por fim
foi manifestado como grande evangelista.
Embora Estêvão e Filipe tivessem dons especiais, quando
foram escolhidos para servir às mesas eles aceitaram de boa
vontade. Aqui temos um bom exemplo. Alguns que têm dons
especiais podem não querer servir às mesas. Por exemplo, suponha
que determinado irmão seja excelente mestre. Se for escolhido para
servir como diácono, ele pode ficar descontente e dizer: “Vocês não
percebem que eu sou um mestre da Palavra? Por que me pedem que
sirva como diácono?” Outro irmão, que tem o dom de pregar o
evangelho, pode da mesma forma dizer: “Vocês precisam perceber
que sou um evangelista, que tenho o dom de pregar o evangelho.
Vocês me menosprezam quando me pedem que sirva às mesas”.
Mas pelo exemplo de Estêvão e Filipe vemos que, a despeito do
dom especial que tenhamos, se formos escolhidos para servir às
mesas, devemos servir de boa vontade. Quando nos pedem que
sirvamos, mesmo que seja para limpar o banheiro, devemos servir
de boa vontade.
Segundo o padrão em Atos 6, Estêvão e Filipe não
murmuraram quando lhes foi solicitado servir às mesas. Estêvão não
disse: “Eu sou um grande mestre, como é que me pedem que seja
diácono?” Assim também, Filipe não disse: “Eu sou um excelente
evangelista. Por que me pedem que sirva às mesas?” Em vez de
murmurar, Estêvão e Filipe serviram bem às mesas.
Na vida da igreja estamos debaixo da graça e também da
soberania do Senhor. Assim, sem murmurar, devemos aceitar a
soberania do Senhor e o ambiente por Ele arranjado. Se o fizermos e
seguirmos o padrão de Atos 6, teremos uma vida da igreja feliz e
agradável.
Estêvão serviu às mesas, mas por fim funcionou como grande
mestre da Palavra. Isso indica que o que somos no Senhor não pode
ficar escondido. Cedo ou tarde, o que somos será manifesto. Estêvão
era um mestre, mas foi escolhido para servir às mesas. Contudo, o
relato em Atos, na verdade, fala pouco sobre o seu serviço às mesas e
muito sobre o seu ensinamento. No capítulo sete temos um longo
registro do seu ensinamento. Do exemplo de Estêvão vemos que o
que podemos fazer não será perdido, e o que somos por fim será
manifestado. Cedo ou tarde o Espírito Santo usará o nosso dom,
assim como usou o dom de ensinar de Estêvão.

Nenhum Líder Foi Designado

Na designação dos sete diáconos, há um ponto muito


impressionante e notável, isto é, entre os sete diáconos, não foi
designado um líder. Isso indica que eles não se importavam com
posição. Todos os diáconos são servos dos santos. Esse é um bom
padrão para aprender e seguir a fim de evitar liderança posicional de
qualquer tipo.

O CRESCIMENTO DA PALAVRA E A MULTIPLICAÇÃO


DOS DISCÍPULOS

Atos 6:7 diz: “Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se


multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos
sacerdotes obedeciam à fé”. Crescia refere-se ao crescimento em
vida, indicando que a palavra de Deus é uma questão de vida, que
cresce como semente plantada no coração do homem (Mc 4:14).
O versículo 7 diz que muitos sacerdotes obedeciam à fé. Fé
aqui é a fé objetiva, referindo-se àquilo em que os crentes creem com
relação a Cristo. Toda a revelação do Novo Testamento com respeito
à pessoa de Cristo e Sua obra redentora é a fé da economia
neotestamentária de Deus (Rm 16:26). Assim, a fé aqui, como o
conteúdo do evangelho completo da economia neotestamentária de
Deus, é objetiva. Essa fé objetiva é mencionada em 1 Timóteo 1:19;
2:7; 3:9; 4:1, 6; 5:8; 6:10, 12, 21; 2 Timóteo 2:18; 3:8; 4:7; e Tito 1:13.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 20
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (15)

Leitura Bíblica: At 6:8-15

Atos 6:8―8:3 descreve o aumento da perseguição causada


pelos religiosos judeus. Em 6:8―7:60 temos o relato do martírio de
Estêvão. Nesta mensagem vamos considerar 6:8-15.

SOFREU OPOSIÇÃO E FOI PRESO

O versículo 8 diz: “Estêvão, cheio de graça e poder, fazia


prodígios e grandes sinais entre o povo”. Conforme já comentamos,
prodígios e sinais não faziam parte do testemunho central de Deus
do Cristo encarnado, crucificado, ressurreto e ascendido, nem
faziam parte da Sua salvação plena.
Os versículos 9 e 10 continuam: “Levantaram-se, porém,
alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos dos
cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com
Estêvão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual
ele falava”.
O versículo 9 fala da sinagoga chamada dos Libertos. Os
libertos eram escravos emancipados. Havia diversas sinagogas em
Jerusalém, compostas dos judeus que retornaram da dispersão,
segundo a língua que tinham adquirido nos países onde estiveram
dispersos (ver 2:9-11). O vocábulo sinagoga é a forma
aportuguesada do vocábulo grego synagogé, composto de syn,
juntos, e ágo, trazer; assim, um ajuntamento, reunião, congregação,
assembleia; por transição, o lugar de reunião. É usado no Novo
Testamento para designar a congregação (13:43; 9:2; Lc 12:11) e o
lugar de reunião (Lc 7:5) dos judeus, onde eles buscavam conhecer a
Deus mediante o estudo das Escrituras Sagradas (Lc 4:16-17;
At 13:14-15). Em Jerusalém havia diversas sinagogas de vários tipos
de judeus.
Atos 6:11-12 diz: “Então, subornaram homens que dissessem:
Temos ouvido este homem proferir blasfêmias contra Moisés e
contra Deus. Sublevaram o povo, os anciãos e os escribas e,
investindo, o arrebataram, levando-o ao Sinédrio”. O Sinédrio, a
mais alta corte dos judeus, era um conselho composto dos principais
sacerdotes, anciãos, doutores da lei e escribas. Foi o Sinédrio que
condenou o Senhor Jesus à morte (Mt 26:59) e perseguiu os crentes.
Isso indica que o judaísmo caíra nas mãos do inimigo de Deus,
Satanás, e era usado por ele para estorvar o mover de Deus em Sua
economia neotestamentária para a execução do Seu propósito
eterno.

AS ACUSAÇÕES DOS PERSEGUIDORES

Atos 6:13-14 prossegue dizendo: “Apresentaram testemunhas


falsas, que depuseram: Este homem não cessa de falar contra o lugar
santo e contra a lei; porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o
Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos
deu”. No versículo 13 lugar santo se refere ao templo (Mt 24:15;
Sl 68:35; Ez 7:24; 21:2).
O versículo 15 diz: “Todos os que estavam assentados no
Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se
fosse rosto de anjo”. O fato de o rosto de Estêvão parecer o rosto de
anjo indica que ele tinha aparência celestial. Ele era um homem na
terra, mas tinha aparência celestial ao ser perseguido.

A MUDANÇA DE DISPENSAÇÃO E O PERÍODO DE


TRANSIÇÃO

De acordo com o versículo 14, os opositores acusaram Estêvão


de dizer que Jesus iria destruir o templo e mudar os costumes dados
por Moisés. Isso indica que deve ter havido conversas entre os
crentes com respeito à destruição do templo, como fora profetizado
pelo Senhor em Mateus 23:37-39 e 24:2, e também devem ter falado
sobre o fim da dispensação da lei, como fora dito pelo Senhor em
Mateus 11:13. Os opositores judeus distorceram as palavras dos
crentes, assim como o fizeram em Mateus 27:40 com as palavras do
Senhor em João 2:19, quando O crucificaram. Sem dúvida, a
oposição dos judeus foi instigada por Satanás para atrapalhar a
economia neotestamentária de Deus. Mas a base usada por Satanás
para instigar os judeus foi a mudança de dispensação, que
contradizia as tradições judaicas. A economia neotestamentária de
Deus é ter uma nova dispensação, absolutamente separada do
judaísmo. Isso ofendia os judeus, pois tocava as tradições herdadas
há gerações, e incitou a oposição deles. Essa oposição começou no
ministério do Senhor nos Evangelhos e se tornou mais ferrenha
contra o ministério dos apóstolos em Atos, quando o mover
neotestamentário do Senhor passava por transição.
Segundo a narrativa de Lucas em Atos, entre os judeus e os
primeiros apóstolos, a igreja não teve sucesso nessa transição devido
à remanescente influência do passado judaico deles e à enredante
oposição dos seus compatriotas. Esse problema reincidiu diversas
vezes em Atos (11:1-3; 15:1-5; 21:18-26). Mesmo o apóstolo Paulo
correu perigo de ser levado de volta às práticas judaicas na última
visita a Jerusalém (21:20-26).
Em Atos, os crentes judeus ainda praticavam guardar a lei do
Antigo Testamento, como indica o que Tiago e os presbíteros de
Jerusalém disseram a Paulo em 21:20. Tiago, os presbíteros de
Jerusalém e milhares de crentes judeus ainda permaneciam numa
mistura da fé cristã e a lei mosaica. Eles até mesmo aconselharam
Paulo a praticar essa mistura semijudaica (21:17-26). Eles não se
haviam dado conta que a dispensação da lei passara totalmente e a
dispensação da graça deveria ser plenamente honrada, e qualquer
descaso com relação à distinção entre essas duas dispensações seria
contra a administração dispensacional de Deus e traria grande
prejuízo para o plano econômico de Deus na edificação da igreja
como a expressão de Cristo.
Os filhos de Israel tinham recebido a lei por meio de Moisés.
Também tinham um sistema de adoração que envolvia o templo, os
sacerdotes e as ofertas. Para eles, as duas coisas mais importantes
eram a lei e o templo como centro da adoração deles. Tanto a lei
como o templo eram tipos de Cristo. A intenção de Deus não é ter
uma lei escrita e um templo físico, mas o Cristo vivo como a lei da
vida e o templo vivo para a economia neotestamentária de Deus.
Deus deseja ter Cristo como a lei viva em nós e como o templo vivo
fora de nós, a fim de levar a cabo a Sua economia neotestamentária.
Essa economia é totalmente uma questão de o Deus Triúno mesclar-
se com os Seus escolhidos, a fim de produzir uma entidade
corporativa para a Sua expressão. Essa era a intenção de Deus desde
o princípio no livro de Gênesis. Contudo, os filhos de Israel
consideravam a lei e o templo de forma tradicional, segundo a letra
morta.
Cerca de mil e quinhentos anos depois de ter sido dada a lei, o
Deus Triúno se encarnou. Certa vez Ele disse: “Porque todos os
profetas e a lei profetizaram até João” (Mt 11:13). Isso indica o
término da dispensação do Antigo Testamento. Embora os
princípios da lei não possam terminar, a dispensação da lei
terminou.
Ademais, em Mateus 23:37-39 o Senhor abandonou Jerusalém
com o templo. No versículo 38 Ele disse: “Eis que a vossa casa vos é
deixada deserta”. Aqui casa denota a casa de Deus, o templo
(Mt 21:12-13). Essa profecia a respeito da desolação do templo
corresponde a de Mateus 24:2, onde o Senhor disse com respeito ao
templo: “Em verdade vos digo: De modo nenhum ficará aqui pedra
sobre pedra que não seja derrubada”. Isso se cumpriu em 70 d.C.
quando Tito destruiu Jerusalém com o exército romano. Portanto,
em Mateus 23:38 e 24:2 o Senhor indicou aos discípulos que o
templo físico, que se tornara um empecilho à economia de Deus,
seria destruído.
O Senhor Jesus indicou claramente que a lei teria fim e o
templo seria destruído. Sem dúvida, a Sua palavra causou uma
impressão profunda nos discípulos. Eles devem ter tido comunhão a
respeito disso, uma vez que tanto o templo como a lei eram coisas
grandiosas para os judeus.
Depois que o Senhor ascendeu aos céus e o Espírito foi
derramado, houve um mover prevalecente entre os discípulos. Os
opositores começaram a distorcer as palavras que deviam estar
circulando entre os crentes a respeito do fim da dispensação da lei e
da destruição do templo. Em especial, os opositores acusaram
Estêvão de “proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus” e de
dizer que “Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os
costumes que Moisés nos deu” (At 6:11, 14). Certamente os
opositores distorciam a verdade. O Senhor Jesus tinha falado a
respeito do fim da dispensação da lei e da destruição do templo. Mas
os opositores distorceram as Suas palavras.
A antiga dispensação era a da lei e do templo. A nova
dispensação é a de Cristo como a lei da vida e como o templo vivo.
Entre as duas houve uma transição, na qual Deus transferiu os Seus
escolhidos da antiga dispensação para a nova. Todos os discípulos
iniciais, incluindo Pedro, estavam sendo transferidos. Eles haviam
nascido na antiga dispensação e crescido com o conhecimento dela.
Assim, eram pessoas da antiga dispensação. Mas, haviam sido
chamados pelo Senhor e tinham estado três anos e meio com Ele.
Além do mais, estiveram quarenta dias com Ele depois da Sua
ressurreição de forma maravilhosa e espiritual. Podemos pensar que
isso seria suficiente para Deus transferi-los totalmente da antiga
dispensação para a nova, isto é, da lei de letras e do templo físico
para Cristo como a lei da vida e como o templo vivo. Embora
tivessem conhecido Cristo dessa forma, ainda estavam sob forte
influência judaica e cercados por seus compatriotas judeus.
Portanto, era-lhes muito difícil ser libertados dos antigos
antecedentes.
Isso era especialmente verdade para Tiago, irmão na carne do
Senhor Jesus. Ele era piedoso e muito respeitado pelos judeus. Era-
lhe muito difícil ser transferido do antecedente judaico; antes, ele
tomou a liderança em permanecer lá, como indica o registro em Atos
21.
De acordo com Atos 21, quando Paulo fez a sua última visita a
Jerusalém, ele foi encontrar-se com Tiago, e todos os presbíteras
estavam presentes (v. 18). Tiago encorajou Paulo a voltar a certas
práticas judaicas: “Faze, portanto, o que te vamos dizer: estão entre
nós quatro homens que, voluntariamente, aceitaram voto; toma-os,
purifica-te com eles e faze a despesa necessária para que raspem a
cabeça; e saberão todos que não é verdade o que se diz a teu
respeito; e que, pelo contrário, andas também, tu mesmo,
guardando a lei” (vs. 23-24). Paulo seguiu esse conselho e foi ao
templo com os que haviam feito o voto. É difícil acreditar que Paulo
pudesse fazer tal coisa depois de haver escrito Romanos e Gálatas,
livros que indicam que a dispensação da lei passou. Mas Paulo em
Atos 21 não conseguiu vencer o ambiente judaico.
De acordo com o registro em Atos, a igreja em Jerusalém,
inclusive os doze apóstolos, não tiveram êxito quanto a passar pela
transição; antes, fracassaram. O fato de não terem conseguido fazer
plenamente a transição foi uma das razões de o Senhor ter enviado o
exército romano para destruir Jerusalém com o templo. A mistura
religiosa em Jerusalém também foi destruída naquela ocasião.

A SITUAÇÃO ATUAL

Com respeito à necessidade de transição da antiga dispensação


para a nova, não nos preocupamos meramente com o conhecimento
bíblico, e, sim, com a aplicação à situação atual. Não apenas os itens
do Antigo Testamento foram transformados em religião tradicional,
mas até mesmo os do Novo Testamento têm sido usados de maneira
tradicional. Mesmo antes do fim do primeiro século, os cristãos
começaram a fazer dos itens da economia neotestamentária de Deus
uma tradição religiosa. Se você estudar a história da igreja, verá que
essa degradação entrou logo depois do tempo dos apóstolos. Por fim,
quando o cristianismo nos foi apresentado no século XX, foi
apresentado de maneira tradicional. Como resultado, não vimos a
autêntica economia neotestamentária de Deus.
Quanta misericórdia estar na restauração do Senhor! Podemos
dizer honestamente que, pelo menos até certo ponto, fomos trazidos
de volta à economia neotestamentária de Deus de forma autêntica.
Creio que se católicos ou evangélicos vierem a uma reunião da mesa
do Senhor na vida da igreja e forem honestos com o que observarem,
terão de admitir que entre nós há algo real da economia
neotestamentária de Deus.
O cristianismo tornou-se uma religião tradicional. Através dos
séculos, alguns itens da economia neotestamentária de Deus foram
usados como elementos para formar uma tradição. Assim como
Pedro e João nasceram e foram criados em meio a tradições da
antiga dispensação, muitos de nós nasceram nas tradições do
cristianismo e foram criados de acordo com elas. Desse modo, há a
necessidade de o Senhor restaurar a Sua autêntica economia
neotestamentária.
Assim como Pedro e João, nós hoje também estamos numa
transição. Ao fazer essa transição para a economia neotestamentária
de Deus, devemos ser advertidos pelas falhas de Tiago, Pedro e os
outros e aprender com elas. Devemos aprender a não nos importar
com nenhuma tradição nem estar sob nenhuma influência religiosa.
Precisamos ser determinados e absolutos pela transferência do
Senhor, a fim de ser tirados da tradição e trazidos de volta para a
pura economia neotestamentária de Deus. Que é a economia
neotestamentária de Deus? Não é nada além de Jesus Cristo, o
Homem-Deus, como tudo para nós. Ele é a nossa lei, nosso templo,
nosso tudo.
Neste Estudo-Vida, não estamos meramente aprendendo a
Bíblia segundo a letra nem estamos Interessados apenas em adquirir
conhecimento bíblico. Pela misericórdia do Senhor precisamos
desejar ser introduzidos por Ele nas profundezas das Suas verdades
para ver o que está no Seu coração. a povo de Deus precisa perceber
que a situação da religião hoje está totalmente fora da intenção
divina. Espero que Deus tenha misericórdia de todo os Seus
escolhidos, inclusive os crentes na Igreja Católica Romana e nas
denominações, a fim de que vejam a autêntica luz e revelação na
Bíblia com respeito a Sua economia neotestamentária. Como irmãos
na restauração do Senhor, nós Lhe agradecemos pelo que Ele nos
tem mostrado na Palavra com respeito à Sua economia. Que todos
sejamos ajudados pelo Senhor para ver a luz das verdades divinas na
Bíblia, a fim de ser plenamente introduzidos na economia
neotestamentária de Deus.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 21
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (16)

Leitura Bíblica: At 7:1―8:3

Depois que Estêvão sofreu oposição e foi preso (6:8―7:1), ele


testificou perante o Sinédrio (7:2-53), e então foi apedrejado (7:54-
60). A seguir, lemos em 8:1-3 que houve a devastação da igreja em
Jerusalém.

O TESTEMUNHO DE ESTÊVÃO

O Deus da Glória Apareceu a Abraão

Ao testificar perante o Sinédrio, Estêvão disse: “Varões irmãos


e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando
estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e lhe disse: Sai da
tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrarei”
(vs. 2-3). A glória mencionada no versículo 2 pode ter sido glória
visível (ver v. 55), como quando a nuvem e o fogo apareceram a
Israel (Êx 16:10; 24:16-17; Lv 9:23; Nm 14:10; 16:19; 20:6; Dt 5:24) e
encheram o tabernáculo e o templo (Êx 40:35; 1Rs 8:11). Foi o Deus
de tal. glória que apareceu a Abraão e o chamou. A Sua glória foi
uma grande atração para Abraão, ela o separou (santificou) do
mundo para Deus (Êx 29:43), e foi um grande encorajamento e
força, que o capacitou a seguir a Deus (Gn 12:1, 4). No mesmo
princípio, Deus também chama os crentes do Novo Testamento por
meio da Sua glória invisível (2Pe 1:3).
O ensinamento de Estêvão em Atos 7 começa com o Deus da
glória aparecendo a Abraão. Não se sabe onde Estêvão adquiriu esse
entendimento, pois Gênesis não nos diz que o Deus da glória
apareceu a Abraão. Mas Estêvão nos diz que quando Deus apareceu
a Abraão, Ele o fez como o Deus da glória. Embora não se saiba onde
Estêvão aprendeu isso, cremos que a sua palavra foi falada segundo
a inspiração do Espírito Santo. A mensagem de Estêvão, portanto,
começa com o Deus da glória chamando Abraão.
A palavra de Estêvão a respeito do Deus da glória se encaixa na
economia neotestamentária de Deus. Pedro, em sua segunda
Epístola nos diz que Deus nos chamou pela Sua glória e para a Sua
glória (2Pe 1:3). Por termos sido chamados pela glória invisível de
Deus, nós por fim recebemos o Senhor Jesus, percebendo que Ele é
melhor do que qualquer outra coisa ou pessoa. Por exemplo, alguns
crentes chineses passaram a apreciar Jesus Cristo mais do que
Confúcio. Devido a esse apreço, eles por fim creram no Senhor e O
receberam. Essa avaliação de Cristo implica glória.
O Deus da glória chamou Abraão, e Abraão foi atraído e
capturado por essa glória. O princípio é o mesmo conosco hoje.
Todos fomos capturados pelo Senhor em Sua glória invisível. Fomos
capturados pela Sua glória, e não conseguimos escapar.

A Descendência de Abraão

Em 7:4, Estêvão prosseguiu, falando de Abraão: “Então, saiu


da terra dos caldeus e foi habitar em Harã. E dali, com a morte de
seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais”.
Aparentemente era Abraão que peregrinava em Canaã (Gn 12:4-5),
mas, na verdade, era Deus que o removia para a boa terra.
Atos 7:5-6 continua: “Nela, não lhe deu herança, nem sequer o
espaço de um pé; mas prometeu dar-lhe a posse dela e, depois dele,
à sua descendência, não tendo ele filho. E falou Deus que a sua
descendência seria peregrina em terra estrangeira, onde seriam
escravizados e maltratados por quatrocentos anos”. A terra
mencionada no versículo 6 é o Egito (Êx 1:1), e eles seriam
maltratados e escravizados pelos egípcios (Êx 1:11, 13-14). De acordo
com o versículo 6 a descendência de Abraão seria maltratada no
Egito por quatrocentos anos. Isso difere de Gálatas 3:17 que fala de
quatrocentos e trinta anos. Esse é o tempo desde que Deus deu a
promessa a Abraão em Gênesis 12 até o tempo em que Ele deu a lei
por intermédio de Moisés em Êxodo 20. Esse período foi
considerado por Deus como o tempo em que Israel habitou no Egito
(Êx 12:40-41). Os quatrocentos anos mencionados em Gênesis 15:13
e Atos 7:6 são contados desde o tempo em que Ismael zombou de
Isaque em Gênesis 21 até o tempo em que os filhos de Israel saíram
da tirania do Egito em Êxodo 12. Esse é o período no qual os
descendentes de Abraão sofreram a perseguição dos gentios.

Jacó, José e Moisés

Em Atos 7:14-15 Estêvão fala de Jacó descendo ao Egito:


“Então, José mandou chamar a Jacó, seu pai, e toda a sua parentela,
isto é, setenta e cinco pessoas. Jacó desceu ao Egito, e ali morreu ele
e também nossos pais”. Devemos comparar o número setenta e cinco
no versículo 14 com o número setenta em Gênesis 46:27 e Êxodo 1:5.
Estêvão citou esse número com base na Septuaginta, que acrescenta
os cinco descendentes de José em Gênesis 46:20. Assim, o número
que ele mencionou da casa de Jacó que desceu para o Egito foi
setenta e cinco e não setenta.
Em Atos 7:18 Estêvão diz que “se levantou ali outro rei, que
não conhecia a José”. O vocábulo grego traduzido como outro
também significa diferente em caráter. O rei mencionado aqui não
era apenas outro rei, mas um rei com caráter diferente.
De 7:20-44 Estêvão propositadamente apresenta um longo
relato da forma mais positiva possível, com respeito a Moisés. Ele o
fez para vindicar-se diante dos seus opositores, que o haviam
acusado de proferir blasfêmias contra Moisés (6:11). No versículo
20, Estêvão diz: “Por esse tempo, nasceu Moisés, que era formoso
aos olhos de Deus. Por três meses, foi ele mantido na casa de seu
pai”. Os vocábulos gregos traduzidos como “formoso aos olhos de
Deus” também significam “belo para Deus”. Isso é um hebraísmo
denotando belo aos olhos de Deus, portanto, muitíssimo belo.
No versículo 21 Estêvão continua: “Quando foi exposto, a filha
de faraó o recolheu e criou como seu próprio filho”. As palavras
gregas traduzi das como “foi exposto” também podem ser traduzidas
como “foi posto fora para morrer”. O verbo grego traduzido como “o
recolheu” é “usado para reconhecer ou adotar como filho” (F. F.
Bruce).
Atos 7:22 diz: “E Moisés foi educado em toda a ciência dos
egípcios e era poderoso em palavras e obras”. A ciência mencionada
aqui é a sabedoria adquirida por meio de aprendizado.
Em 7:30 Estêvão diz: “Decorridos quarenta anos, apareceu-
lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo, por entre as chamas de
uma sarça que ardia”. Aqui, e nos versículos 35 e 38 o anjo no Antigo
Testamento era Cristo o Senhor, o qual é Jeová, o Deus Triúno
(Êx 3:2-16; Jz 6:12-24; Zc 2:6-11). Isso é provado por “o Senhor” e
“Deus” nos versículos seguintes. O Senhor e Deus nos versículos 31 a
35 são o anjo nos versículos 30, 35 e 38.

Os Filhos de Israel no Deserto

Em 7:41 a 43 Estêvão prosseguiu: “Naqueles dias, fizeram um


bezerro e ofereceram sacrifício ao ídolo, alegrando-se com as obras
das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da milícia
celestial, como está escrito no livro dos profetas: Ó casa de Israel,
porventura, me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto, pelo
espaço de quarenta anos, e, acaso, não levantastes o tabernáculo de
Moloque e a estrela do deus Renfã, figuras que fizestes para as
adorar? Por isso, vos desterrarei para além da Babilônia”. O culto da
milícia celestial, no versículo 42, refere-se a adoração aos astros. O
tabernáculo de Moloque, no versículo 43, era o templo-tenda portátil
do ídolo a ser levado em procissão (M. R. Vincent). Renfã era o
nome cóptico de Saturno.

A Habitação de Deus

No versículo 44 Estêvão chega à questão da habitação de Deus,


o tabernáculo do testemunho. A esse respeito ele diz: “O tabernáculo
do Testemunho estava entre nossos pais no deserto, como
determinara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o
modelo que tinha visto. O qual também nossos pais, com Josué,
tendo-o recebido, o levaram, quando tomaram posse das nações que
Deus expulsou da presença deles, até aos dias de Davi. Este achou
graça diante de Deus e lhe suplicou a faculdade de prover morada
para o Deus de Jacó” (vs. 44-46). Esses versículos indicam que,
geração após geração, eles mantinham o tabernáculo. Deus,
contudo, não estava satisfeito, e Davi, homem segundo o coração de
Deus, o sabia. Assim, ele buscava uma habitação melhor para Deus.
Mas, por fim foi Salomão quem construiu uma casa para o Senhor
(v. 47). Mas Deus não podia satisfazer-se com nada feito por mãos
humanas. Ele precisava de algo melhor. Ao falar, Estêvão começou
com o Deus da glória e abordou muitas questões, até que chegou à
habitação de Deus.
Nos versículos 48 a 50 Estêvão prosseguiu: “Entretanto, não
habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o
profeta: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que
casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?
Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” No
versículo 48 ele fala de Deus como o Altíssimo. Ele chamou Deus de
Deus da glória e de Altíssimo, para vindicar-se diante dos opositores
que o haviam acusado de proferir blasfêmias contra Ele (6:11).
No versículo 48 Estêvão diz que o Altíssimo não habita em
casas feitas por mãos humanas. Isso implica que Deus iria
abandonar o templo físico do Antigo Testamento e iniciar uma nova
dispensação para o Seu povo adorá-lo no espírito (Jo 4:24), no qual
está a habitação espiritual de Deus, a igreja (Ef 2:22).
As palavras em 7:49 indicam que o Senhor buscava uma
habitação espiritual no espírito do homem. Isso está provado pela
parte a seguir da citação de Isaías 66:1-2 que diz: “Mas o homem
para quem olharei é este; o aflito e abatido de espírito”.

Uma Palavra Enfática para os Opositores

No versículo 51 Estêvão disse uma palavra muito enfática aos


opositores: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de
ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram
vossos pais, também vós o fazeis”. Como Estêvão estava cheio do
Espírito (v. 55) e era um com o Senhor, o Espírito (1Co 6:17), resistir
a ele era resistir ao Espírito Santo. Assim, o Senhor indicou a Saulo,
um dos seus perseguidores (At 7:58; 8:1), que ele O estava
perseguindo (9:4).
Nos versículos 52 e 53 Estêvão continuou: “A qual dos profetas
não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente
anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e
homicidas; vós que recebestes a lei por ordenação dos anjos e não a
guardastes”. No versículo 53, o vocábulo grego para ordenação é um
substantivo; o verbo do mesmo radical é usado em Gálatas 3:19,
onde é traduzido por promulgar. A lei de Deus foi promulgada por
meio de anjos e tornou-se ordenanças de anjos.

O APEDREJAMENTO DE ESTÊVÃO

Atos 7:54 diz: “Ouvindo eles isto, enfureciam-se no seu coração


e rilhavam os dentes contra ele”. Aqui o vocábulo grego traduzido
como enfureciam-se significa “ser totalmente serrado”.

Estêvão Viu a Glória de Deus e Jesus em Pé à Direita de


Deus

O versículo 55 continua: “Mas Estêvão, cheio do Espírito


Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava
à sua direita”. O vocábulo grego para cheio é pléres, forma
adjetivada de pleróo, segundo o uso aqui e em 6:3, 5; 11:24 e Lucas
4:1. Em 7:55 Estêvão estava cheio do Espírito interior e
essencialmente, como é mencionado em 13:52. Isso se refere à vida,
não à obra.
De acordo com 7:55, Estêvão viu a glória de Deus. Isso foi uma
grande vindicação e encorajamento para o que estava sendo
perseguido. O versículo 56 diz que Estêvão viu também Jesus em pé
à direita de Deus. O Senhor em ascensão geralmente é mencionado
assentado à direita de Deus (Mt 26:64; Hb 1:3, 13). Mas Estêvão O
viu em pé. Isso indica que o Senhor estava muitíssimo preocupado
com o Seu perseguido.
Estêvão não se preocupou com o ambiente. Mas, estando cheio
do Espírito, fitou os olhos no céu. Em 7:2 ele disse que o Deus da
glória apareceu a Abraão. Agora é-nos dito que ele viu a glória de
Deus e Jesus em pé à direita de Deus. Em todo o Novo Testamento,
isso ocorreu apenas uma vez.
Em 7:56 ele disse: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do
homem, em pé à destra de Deus”. A terra rejeitou Estêvão e estava
fechada para ele, mas os céus se abriram para ele. Isso indica que os
céus estavam com ele e eram por ele.
Atos 7:57-58 diz: “Eles, porém, clamando em alta voz, taparam
os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele. E, lançando-o fora
da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos
pés de um jovem chamado Saulo”. Aqui vemos que Saulo, que mais
tarde se tornou apóstolo (13:9), foi ajudante dos perseguidores para
matar Estêvão. Saulo deve ter ficado profundamente impressionado
com o que acontecia quando Estêvão foi apedrejado.

Estêvão Invocava o Nome do Senhor

Atos 7:59 diz: “E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia:


Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” Aqui vemos que enquanto
estava sendo apedrejado, Estêvão invocava o nome do Senhor Jesus.
Por certo, Estêvão não disse de forma fraca, suave: “Senhor Jesus,
tem misericórdia”. Pelo contrário, ele invocou o nome do Senhor em
voz alta, dizendo: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” De acordo
com o versículo 60, Estêvão ajoelhou-se e “clamou em alta voz:
Senhor”. Por meio do caso de Estêvão vemos que invocar o nome do
Senhor é algo audível.
O versículo 60 diz: “Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz:
Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras,
adormeceu”. Aqui vemos que Estêvão orou pelos seus perseguidores
da mesma maneira que o Seu Senhor, que ele amava e vivia
(Lc 23:34).

A DEVASTAÇÃO DA IGREJA EM JERUSALÉM

Saulo Aprovava a Morte de Estêvão

A primeira parte de 8:1 diz: “E Saulo aprovou a morte de


Estêvão”. Sempre que aprovamos algo, como Saulo o fez, nós nos
consideramos alguém. Se não nos considerarmos alguém
importante, não aprovaremos nada dessa forma. Simplesmente não
nos importaremos com o que os outros fazem. Tanto os que criticam
a igreja como os que aprovam o que a igreja faz, se consideram
importantes. Em 8:1, o jovem Saulo aprovou a perseguição e a morte
de Estêvão, considerando-se alguém importante. Na verdade, como
8:3 indica, Paulo realmente se tornou alguém importante: ele se
tornou o líder dos perseguidores da igreja.
Grande Perseguição contra a Igreja em Jerusalém Atos 8:1b
diz: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em
Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas
regiões da Judéia e Samaria”. Essa foi a primeira igreja estabelecida
na jurisdição de uma cidade, a cidade de Jerusalém. Era uma igreja
local em sua cidade, como indicou o Senhor em Mateus 18:17. Não
era a igreja universal, como Ele revelou em Mateus 16:18, mas
apenas parte dela, isto é, do Corpo de Cristo (Ef 1:22-23). O relato do
Novo Testamento com respeito ao estabelecimento da igreja em uma
cidade é coerente em todo o Novo Testamento (13:1; 14:23; Rm 16:1;
1Co 1:2; 2Co 8:1; Gl 1:2; Ap 1:4, 11).

Todos, exceto os Apóstolos, Foram Dispersos

Atos 8:1 diz claramente que todos os crentes, exceto os


apóstolos, foram dispersos pela Judéia e Samaria. Uma vez que a
Bíblia assim nos diz, precisamos crer nisso.
O evangelho do Senhor foi poderoso e prevalecente em
Jerusalém. Embora apenas os doze apóstolos tivessem permanecido,
não demorou para que muitos outros viessem a crer no Senhor.
Antes da perseguição devia haver milhares de crentes em Jerusalém.
Então, na grande perseguição contra a igreja, todos eles partiram,
com exceção dos apóstolos. Mas, como o evangelho era prevalecente,
logo após a dispersão dos santos, bom número de pessoas veio a crer
no Senhor Jesus. Parecia que quanto mais santos partiam, mais
pessoas criam em Cristo. Essa parece ser a única maneira de se
entender essa questão em 8:3 à luz do livro de Atos como um todo.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 22
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (17)

Leitura Bíblica: At 8:4-13

No capítulo oito de Atos há muitos exemplos para nós hoje.


Em especial, os modelos nesse capítulo estão relacionados à
pregação do evangelho. Nesta mensagem começaremos a considerar
esses exemplos.

A PREGAÇÃO DO EVANGELHO POR MEIO DA


DISPERSÃO DOS SANTOS

Atos 8:4 diz: “Entrementes, os que foram dispersos iam por


toda parte pregando a palavra”. Foi pela soberania de Deus que a
dispersão dos crentes de Jerusalém para outras cidades por meio da
perseguição viesse a levar a cabo a difusão do evangelho para o
cumprimento da palavra do Senhor em 1:8 (ver 11:19).

Um Modelo para a Pregação do Evangelho Atual

O primeiro modelo em Atos 8 é o da pregação do evangelho


por meio da dispersão dos santos. Em Jerusalém a pregação do
evangelho era executada principalmente por meio dos apóstolos.
Embora isso também seja um modelo para a nossa pregação do
evangelho, não é o único. Se fosse o único modelo, então a pregação
do evangelho estaria limitada. Assim, em 8:4 temos outro modelo: a
pregação por meio da dispersão (migração) dos santos.
Em Atos 8 não temos as palavras migrar nem migração, mas
tal idéia está implícita na palavra dispersas. A dispersão dos santos,
na verdade, foi uma migração. Antes da dispersão dos santos em 8:4
havia muitos milhares de crentes em Jerusalém. Como a maioria das
pessoas, eles provavelmente não queriam mudar-se; em vez disso,
provavelmente queriam fixar-se ali. Mas o Senhor é soberano, pois é
o Líder, o Soberano dos reis. Embora Satanás tenha instigado a
perseguição contra a igreja, o Senhor está acima de Satanás, e tudo o
que Satanás faz está debaixo da soberania do Senhor. Assim, na
verdade, a perseguição no capítulo 8 cooperou com a expansão do
evangelho, porque milhares de crentes se espalharam pelas regiões
da Judéia e Samaria. Por meio dessa dispersão as boas novas foram
levadas a muitas cidades. Aqui temos o modelo da pregação do
evangelho por meio da migração dos santos.
Há muitos anos na restauração temos praticado a migração.
Por exemplo, muitos santos se reuniam em Los Angeles de 1962 a
1970. Então, em 1970, começamos a migrar, e a migração foi um
grande sucesso. Quando os santos migram, o evangelho sai
juntamente com eles. Os santos que migram levam o evangelho
aonde quer que vão.
Todas as igrejas devem seguir o modelo de 8:4 quanto à
migração. Os santos não devem ficar tempo demais em uma cidade.
Pelo contrário, todos devemos ser migrantes, seguindo os passos do
nosso pai Abraão, que era um cruzador de rios. Ele migrou da
Caldéia para Canaã. Assim como Abraão, não devemos permanecer
sempre no mesmo lugar. Todos precisamos aprender a migrar.

Esvaziar e Encher

Por alguns anos, muitos irmãos nesse país relutaram em


migrar. Mas agradecemos ao Senhor pois recentemente a migração
recomeçou. No ano passado, várias igrejas foram levantadas por
meio da migração.
Os irmãos em todas as igrejas devem ser encorajados a migrar.
Se os irmãos em uma cidade não migram, por fim ela se tornará um
“Mar Morto”.
O Mar Morto é um reservatório da água do rio Jordão. Uma
vez que a água do Jordão chega ao Mar Morto, não vai mais para
lugar nenhum. Se a igreja em determinada cidade quer evitar tornar-
se um Mar Morto, deve-se cavar um “canal” para permitir que a
“água” saia. Talvez dez por cento dos irmãos de uma cidade possam
migrar por ano. Isso possibilitará a necessária saída de “água” sem
devastar a igreja. Além disso, se a água pode sair, então, mais água
também entrará.
Como ilustração, podemos dizer que cada igreja deve ser como
uma mangueira aberta dos dois lados. Desse modo, a água pode fluir
para dentro e para fora. Mas se a água não puder sair da mangueira,
então, também, nada mais entrará nela. O tanto de água que entra
depende de quanta água sai. Se queremos que a igreja cresça, deve
haver água saindo. Somente quando há saída é que se pode evitar
que a igreja em determinada cidade se torne um Mar Morto.
Contudo, a migração dos santos não é uma legalidade. O que
estamos enfatizando é que as igrejas precisam seguir o modelo de
8:4. Isso quer dizer que, em princípio, devemos estar dispostos a
migrar.
De minha própria experiência posso testificar da importância
da migração. Primeiro eu não queria mudar-me, preferia ficar no
mesmo lugar. Mas o Senhor é o Soberano dos reis, e não permitiu
que eu me fixasse. Em vez disso, fez com que a minha vida fosse uma
vida itinerante. Eu me mudei para lá e para cá até que vim para os
Estados Unidos. Depois de mais de vinte anos nesse país, tenho
encargo de gastar mais tempo em Taiwan devido à necessidade das
igrejas ali.

Migrar por Causa do Evangelho

Encorajo você a tomar o encargo de migrar. Não devemos


migrar por causa do nosso viver, e, sim, por causa do evangelho. a
Senhor chamou Abraão e ele migrou. Nada lhe faltava ao seguir o
Senhor. Da mesma forma, quando migramos por causa do
evangelho, o Senhor suprirá as nossas necessidades. Migrar por
causa do evangelho é migrar por causa do Senhor, já que o
evangelho, na verdade, é o próprio Senhor. a primeiro modelo
encontrado em Atos oito é a migração dos santos para a expansão do
evangelho.

A PREGAÇÃO DE FILIPE NA CIDADE DE SAMARIA

Manifestou-se como Evangelista


Atos 8:5 diz: “Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-
lhes a Cristo”. Esse não é um dos apóstolos (1:13), mas o Filipe entre
os sete que foram designados para servir às mesas (6:5). Mas por
meio do seu ministério de pregar o evangelho, registrado no capítulo
oito, ele se manifestou como evangelista (21:8).
O fato de Filipe pregar o evangelho em Samaria foi um passo
adiante no mover evangélico do Senhor. Dessa forma Ele Se
espalhou como semente do reino de Deus, dos judeus de raça pura
para os mestiços samaritanos, para o cumprimento da Sua profecia
em 1:8.
Conforme 8:4-5, dentre os que migraram de Jerusalém, havia
pelo menos um que era evangelista. Filipe participou dessa
migração, e possuía um extraordinário dom de evangelizar. Devido a
esse dom, por fim ele foi chamado de “Filipe, o evangelista” (21:8).

Pregou Cristo e o Reino

Com respeito à pregação do evangelho de Filipe, 8:12 nos diz


que ele “os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de
Jesus Cristo”. Filipe pregava Jesus Cristo como as boas novas. No
versículo 12 evangelizava é a forma verbal do substantivo
evangelho. Filipe pregava Cristo como as boas novas; pregava Cristo
como o evangelho. Em outras palavras, pregava Cristo, e Cristo era o
seu evangelho.
Atos 8:12 também indica que Filipe pregava o reino de Deus
como evangelho. Ele pregava o reino de Deus como evangelho assim
como o Senhor o fazia (Mc 1:14-15; Lc 4:43). Assim como Filipe,
devemos pregar o evangelho que é Jesus Cristo e também o reino de
Deus. Na verdade, devemos pregar Jesus Cristo como o reino de
Deus.
a reino de Deus é o Senhor Jesus, o Salvador, como semente de
vida semeada nos crentes, os escolhidos de Deus (Mc 4:3, 26), e
tornando-se uma esfera na qual Deus pode governar como Seu
reino, em Sua vida divina. A sua entrada é a regeneração (Jo 3:5), e o
seu desenvolvimento é o crescimento dos crentes na vida divina
(2Pe 1:3-11). a reino de Deus é a vida da igreja hoje, na qual os
crentes fiéis vivem (Rm 14:17), e se tornará o reino vindouro como
herança e galardão (Gl 5:21; Ef 5:5) para os santos vencedores no
milênio (Ap 20:46). Por fim culminará na Nova Jerusalém como o
reino eterno de Deus, uma esfera eterna da bênção eterna da vida
eterna de Deus para que todos os redimidos de Deus desfrutem no
novo céu e nova terra pela eternidade (Ap 21:1-4; 22:1-5, 14). Esse
reino, o reino de Deus, é o que o Senhor Jesus e Filipe pregavam
como evangelho, as boas novas.
Nos Evangelhos o próprio Senhor era a semente do reino. Em
Atos vemos o espalhar dessa semente. Em especial ela se espalhou
por meio de Filipe pregando o evangelho de Jesus Cristo e do reino
de Deus. Hoje, boa parte da pregação do evangelho entre os cristãos
não inclui o reino de Deus. Portanto, devemos pregar um evangelho
que tenha Cristo como conteúdo e também Cristo como o reino.
Precisamos experimentar Cristo, não apenas como nosso
Salvador e vida, mas também como reino de Deus. Quando
recebemos Cristo, recebemos um Salvador, uma vida e um reino.
Agora devemos viver a vida do reino, então saberemos como pregar
o reino de Deus como evangelho.
Alguns pregadores hoje são eloquentes e sabem motivar as
pessoas e inspirá-las. Ao falar, usam histórias e ilustrações. Mas, se
examinar o conteúdo das mensagens deles, você descobrirá que há
muito pouco de Cristo ou do reino. A nossa pregação do evangelho
tem de ser diferente. Precisamos pregar um evangelho elevado e
rico, com Cristo como o reino. Ao pregar, não devemos ter Cristo
apenas como nosso Salvador e vida, mas também como o reino.
Estou contente porque Lucas mostra em sua narrativa que
Filipe pregava o evangelho com respeito a Jesus Cristo e ao reino de
Deus. Embora não tenha dado os detalhes da pregação de Filipe,
Lucas, no entanto, nos diz que Filipe pregou Cristo e o reino de Deus
como evangelho. Isso deve ser um modelo para a nossa pregação
hoje.

OS SANTOS LEVAVAM AS BOAS NOVAS DA PALAVRA

Vimos que, de acordo com 8:4, os que foram dispersos, iam


por toda parte levando as boas novas da palavra. Vimos que esse
versículo contém o modelo da migração dos santos para expandir o
evangelho. Agora precisamos considerar outro modelo encontrado
nesse versículo: os santos levando as boas novas da palavra.

Cheios da Palavra do Senhor

Grande parte da pregação hoje tem pouco da palavra de Deus.


Em vez disso, há histórias e ilustrações. O nosso falar não deve ser
assim, mas devemos aprender a palavra no Novo Testamento.
Precisamos estudar o Novo Testamento e ser saturados dele. Se isso
ocorrer, quando abrirmos a boca, a palavra sairá espontaneamente.
Não haverá necessidade de usar tantas histórias e ilustrações.
Devemos simplesmente falar a Palavra às pessoas.
As pessoas podem ser entretidas pelas histórias e ilustrações
de um pregador, mas não irão receber muito da Palavra. Essa é a
pobreza de muitos ensinamentos e pregações de hoje.
Nós, na restauração do Senhor, devemos ser cheios da palavra
do Senhor. As mensagens dos Estudos-Vida não contêm muitas
histórias, mas estão cheias da rica palavra de Deus. Os santos não
recebem ajuda de histórias, e, sim, da palavra sólida e divina.

A Palavra que Transmite Cristo e o Reino

Ao sair para a expansão do evangelho, devemos ir com o


evangelho de Cristo e do reino, na Palavra. Apenas a palavra divina
pode conter e transmitir Cristo e o reino de Deus. Os ensinamentos
de Confúcio certamente não conseguem fazê-lo. Tais ensinamentos
não podem ser vasos para transmitir Cristo aos outros. Apenas a
palavra santa e divina é útil para transmitir Cristo como o reino de
Deus aos outros.
Ao semear a Palavra nos outros, também semeamos Cristo
neles. De acordo com os Evangelhos, não conseguimos separar
Cristo da Palavra. Cristo é a semente, e a semente é a Palavra. Assim,
precisamos ser enchidos com a Palavra e semeá-la nos outros.
Vimos nesta mensagem alguns tópicos cruciais a respeito da
nossa pregação do evangelho. O conteúdo do nosso evangelho tem
de ser Jesus Cristo e o reino de Deus. Ademais, precisamos pregar
Cristo e o reino de Deus na Palavra e com a Palavra. Para pregar
Cristo e o reino, e até mesmo pregar Cristo como o reino de Deus,
dessa forma, precisamos estar muito familiarizados com as
Escrituras. Precisamos estar enchidos e saturados com a palavra
divina no Novo Testamento.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 23
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (18)

Leitura Bíblica: At 8:14-35

Nesta mensagem continuaremos a considerar os modelos


apresentados em Atos 8.

O SENHOR RESERVOU O ESPÍRITO ECONÔMICO

Atos 8:14-16 diz: “Ouvindo os apóstolos, que estavam em


Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe
Pedro e João; os quais, descendo para lá, oraram por eles para que
recebessem o Espírito Santo; porquanto não havia ainda descido
sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome
do Senhor Jesus”. Nesses versículos vemos uma questão de grande
importância. Os santos dispersos fizeram um bom trabalho de
pregação do evangelho. Eles migraram com o evangelho e Filipe
fortaleceu a pregação deles. Como resultado, foi feita uma obra
maravilhosa. Mas, embora o Senhor tenha feito muito por meio da
pregação dos santos dispersos e de Filipe o evangelista, Ele reservou
algo: o Espírito econômico. Conforme 8:14-16, os crentes
samaritanos ainda não tinham recebido o Espírito econômico.
Assim, Pedro e João foram enviados a eles, e oraram por eles a fim
de que recebessem o Espírito Santo economicamente.

Para Prevenir uma Atitude de Independência

Nesses versículos temos um modelo importante relacionado à


obra evangélica. Com esse modelo vemos que a obra do evangelho
não deve ser independente do Corpo de Cristo. Os santos dispersas e
Filipe fizeram um bom trabalho, mas, se o Senhor não tivesse retido
algo, eles poderiam desejar ser independentes. Talvez dissessem:
“Pedro e João, estamos fazendo o mesmo que vocês estão fazendo
em Jerusalém. Tudo o que vocês podem fazer nós também
podemos”. A fim de evitar essa atitude independente, o Senhor
reteve o Espírito econômico.

Um Caso Especial

De acordo com 8:15, Pedro e João oraram para que os crentes


samaritanos recebessem o Espírito Santo. A situação aqui é diferente
daquela em 2:38. Os apóstolos pregavam e ministravam Cristo, mas
quando os ouvintes se arrependiam e criam Nele, eles recebiam o
Espírito maravilhoso do Deus Triúno. Isso implica que esse Espírito
é simplesmente o próprio Cristo ressurreto e ascendido. O Espírito
recebido em 2:38 é tanto essencial como econômico, num sentido
geral e todo-inclusivo. Difere do recebimento do Espírito em 8:15-17,
que é especialmente o recebimento do Espírito descendo sobre os
crentes economicamente.
Atos 8:16 nos diz que antes da vinda de Pedro e João, o
Espírito Santo não tinha descido sobre os crentes em Samaria. Isso
não quer dizer que esses novos crentes não tivessem recebido o
Espírito Santo em seu interior essencialmente quando creram no
Senhor. Segundo o ensinamento do Novo Testamento em Efésios
1:13 e Gálatas 3:2, eles devem ter recebido o Espírito Santo
essencialmente quando creram, para a regeneração (Jo 3:6, 36). Mas
ainda não tinham recebido o Espírito economicamente para
identificá-las com o Corpo de Cristo. A razão de o Espírito Santo não
ter descido sobre eles exterior e economicamente era que os
apóstolos, por meio de quem foi iniciado o estabelecimento prático
da igreja em Jerusalém, pudessem ir introduzi-las na identificação
com o Corpo de Cristo. Esse caso difere daquele na casa de Camélia,
onde as pessoas receberam o Espírito Santo quando creram no
Senhor, tanto essencialmente no interior para regeneração, como
economicamente sobre eles, visando ao batismo no Corpo de Cristo
(1Co 12:13) e identificação com o Corpo de Cristo. Isso foi porque, na
ocasião, o evangelho foi pregado diretamente por Pedro, que teve o
papel principal no início do estabelecimento prático da igreja.
A Expansão do Corpo de Cristo

Precisamos aprender, com o modelo apresentado aqui, a não


ser independentes do Corpo em nossa obra evangélica. Suponha que
alguns migrem para determinada cidade e ali iniciem uma obra. Se
eles acharem que podem fazer tudo, talvez se tornem independentes
do Corpo. Isso significa que, na verdade, se tornam uma divisão,
uma facção. O modelo no capítulo oito revela que a Cabeça do Corpo
é soberana. Ela deu muitas coisas aos santos em Samaria, mas não
deu o Espírito Santo até que os apóstolos vieram e impuseram as
mãos sobre os novos crentes. Somente então o Espírito econômico
veio sobre eles.
A situação entre a maioria dos crentes hoje é bem diferente da
de Atos 8. Frequentemente os obreiras cristãos têm a atitude de que
são qualificados para fazer tudo. Parece que hoje é tão fácil abrir
uma assim chamada igreja quanto abrir um restaurante, se não for
mais fácil. A esse respeito, a situação é deplorável.
Quando os que migraram saíram de Jerusalém, em Atos 8, eles
não estabeleceram igrejas por conta própria. Pelo contrário,
expandiram o Corpo de Cristo. A obra realizada em Samaria
precisava ser confirmada pelos apóstolos. Assim, Pedro e João
confirmaram os novos crentes e os identificaram com o Corpo,
impondo-lhes as mãos. Então o Espírito veio sobre eles
economicamente para identificá-los com o Corpo de Cristo. Por meio
disso vemos que a obra realizada em Samaria não foi independente
ou separada. Mas, o que foi produzido ali foi verdadeiramente a
expansão do Corpo de Cristo. A igreja naquela cidade não pertencia
independente e separadamente aos santos que migraram. Nem foi
uma obra pertencente a Filipe de forma separada e independente.
Não; era parte do Corpo. Isso quer dizer que o resultado da migração
e pregação do Evangelho feita por Filipe era parte do Corpo de
Cristo. Diferentemente da situação de hoje, a unidade do Corpo foi
preservada espontaneamente.
Os Crentes Batizados em o Nome do Senhor Jesus Atos 8:16
(lit.) diz que antes da ida dos apóstolos à Samaria, os crentes lá
“somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus”. A
preposição grega traduzida por em quer dizer para dentro de. O
nome denota a pessoa. Ser batizado no nome do Senhor Jesus é ser
batizado na pessoa do Senhor, a fim de se identificar com o Cristo
crucificado, ressuscitado e ascendido, para ser colocado numa união
orgânica com o Senhor vivo.
Em Mateus 28:19, o Senhor ordenou aos discípulos batizar os
crentes no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Mais tarde,
porém, na prática, os crentes eram batizados no nome do Senhor
Jesus, em Atos 8:16 e em 19:5; e em Cristo, em Romanos 6:3 e
Gálatas 3:27. Isso indica que (1) ser batizado no nome do Senhor
Jesus equivale a ser batizado no nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo, pois o Senhor Jesus é a corporificação do Deus Triúno
(Cl 2:9), e (2) ser batizado no nome do Deus Triúno ou no nome do
Senhor Jesus equivale a ser batizado na pessoa de Cristo.
Visto que os crentes samaritanos foram batizados no nome do
Senhor Jesus, isto é, no próprio Senhor, eles certamente devem ter
recebido o Espírito de vida essencialmente em seu interior para
nascer do Senhor, e não só isso mas também unir-se a Ele (1Co 6:17).

Os Crentes Foram Identificados com o Corpo de Cristo

Atos 8:17 diz: “Então, lhes impunham as mãos, e recebiam


estes o Espírito Santo”. Pedro e João foram enviados a Samaria para
confirmar a pregação do Evangelho feita por Filipe, um dos sete
designados para servir às mesas. Além disso, eles também
introduziram, pela imposição de mãos, a igreja em Samaria
(formada de samaritanos, com quem os judeus não tinham boas
relações), na identificação com o Corpo de Cristo. O Espírito Santo
honrou essa imposição de mãos e veio sobre os samaritanos,
representando a identificação deles com o Corpo de Cristo. Desse
modo, os crentes samaritanos receberam o Espírito Santo
economicamente além de tê-Lo recebido essencialmente quando
creram no Senhor Jesus.

O CASO DE SIMÃO

Em 8:9-13 vemos que um homem chamado Simão, que


praticava a mágica na cidade de Samaria, creu no Senhor e foi
batizado. Quando viu que o Espírito era dado por meio da imposição
de mãos dos apóstolos, “ofereceu-lhes dinheiro, propondo:
Concedei-me também a mim este poder, para que aquele sobre
quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo” (vs. 18-19). Isso
indica que a mágica que Simão praticava, que fazia pasmar o povo
(v. 9), era por dinheiro.
No versículo 20 Pedro lhe respondeu: “O teu dinheiro seja
contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom
de Deus”. Aqui perdição como em Hebreus 10:39 e Mateus 7:13, não
denota a perdição eterna. Em especial, refere-se à destruição das
ações e obras de alguém (1Co 3:15). Simão crera no evangelho e fora
batizado (v. 13); logo, deve ter experimentado a salvação no estágio
inicial, mas não fora salvo do seu pensamento e ato maligno com
relação ao dinheiro. Portanto, precisava arrepender-se da sua
perversidade para receber o perdão do Senhor; doutra forma, iria
com a sua prata sofrer punição.

TESTIFICARAM A PALAVRA DO SENHOR

Falando sobre Pedro e João, Atos 8:25 diz: “Eles, porém,


havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para
Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos”.
Testificar a palavra do Senhor é testemunhar segundo a experiência
pessoal com Ele, e falar a palavra do Senhor é pregar e ensinar
segundo a revelação Dele. Para poder testificar precisamos da
experiência de ver, participar e desfrutar.

FILIPE DEIXOU A OBRA EM SAMARIA

Atos 8:26 diz: “Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo:


Dispõe-te e vai para a banda do Sul, no caminho que desce de
Jerusalém a Gaza; este se acha deserto”. Aqui vemos que Filipe
deixou a obra em Samaria. Mais tarde, depois de pregar o evangelho
a um etíope, ele foi arrebatado pelo Espírito (v. 39). Aqui temos
outro padrão relacionado à obra evangélica. Filipe teve um papel
importante na obra em Samaria. Sem dúvida, os crentes confiavam
nele e dependiam dele. Mas, de repente, um anjo lhe diz que se
disponha e vá para o sul. Embora Filipe tivesse sido útil para os
crentes em Samaria ele pôde deixar a obra ali, assim que isso foi
requerido dele.
No fato de Filipe ter deixado a obra em Samaria vemos um
modelo com um princípio importante, isto é, sempre que formos a
uma cidade e estabelecermos uma igreja lá, devemos estar
preparados para deixar aquele lugar, até mesmo para ser
arrebatado. Contudo, a maioria de nós tem a tendência de
permanecer no lugar onde uma igreja forte foi estabelecida por meio
de nós. Podemos dizer: “Essa cidade será o meu lar. Vou comprar
uma casa e fixar-me aqui”. Você ficaria contente de ser “arrebatado”
de uma igreja estabelecida por meio de você? Segundo o modelo
aqui, temos de estar prontos para deixar qualquer obra que tenha
sido estabelecida por meio de nós. Isso quer dizer que sempre
devemos estar prontos para ser arrebatados da obra em
determinado lugar.
Nenhuma obra deve permanecer em nossas mãos. Ser
arrebatado significa simplesmente não manter a obra em nossas
mãos. Não importa o quanto tenhamos feito ou realizado, devemos
estar prontos para deixar a nossa obra para a igreja, para os santos e
para o Senhor, e deixar o Espírito arrebatar-nos.
Pela minha experiência, posso testificar a respeito de seguir o
modelo visto em Filipe de deixar a obra em Samaria. Eu cuidei da
obra em Chefoo, em Xangai e então na ilha de Taiwan. Mas, embora
tivesse trabalhado muito nesses lugares, sempre estive pronto para
partir. E, quando o tempo chegou, realmente deixei Chefoo, Xangai e
Taiwan.
É fácil um pregador ou ministro considerar a sua obra como
sua carreira. Se fizermos isso, iremos manter a obra no “bolso”.
Assim, uma vez que uma igreja seja estabelecida por meio de nós, ela
se tornará “a igreja do nosso bolso”. Essa não deve ser a nossa
prática na restauração do Senhor. A despeito de quanto possamos
ter realizado para o Senhor em certo lugar, devemos sempre estar
preparados para ir embora e deixar a obra para a igreja, os santos e o
próprio Senhor. Esse é um princípio importante e precisamos segui-
lo hoje.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 24
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (19)

Leitura Bíblica: At 8:26-40

Atos 8:26-40 relata o caso de Filipe pregando o evangelho ao


eunuco etíope. Nesse caso há vários exemplos que devemos seguir
em nossa pregação do evangelho hoje.
Os versículos 27 e 28 dizem: “Eis que um etíope, eunuco, alto
oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de
todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém, estava de volta e,
assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías”.
A Etiópia é Cuxe (Is 18:1), terra dos descendentes de Cuxe,
filho de Cam (Gn 10:6). O evangelho se havia espalhado dos judeus
de raça pura para os samaritanos de raça mista por meio de Filipe, e
Pedro e João (vs. 5-25). Agora o anjo do Senhor guiou Filipe a
contatar um gentio da Etiópia. Por meio disso, o evangelho se
espalhou para o sul, para a África.
O etíope no versículo 27 viera para adorar em Jerusalém. Isso
prova que ele buscava a Deus (ver 17:26-27). De acordo com o
arranjo soberano do Senhor, Filipe entrou em contato com esse
homem que buscava a Deus, alguém que tinha fome e sede de Deus.

USOU OS MELHORES TRECHOS DA BÍBLIA AO PREGAR


O EVANGELHO

O Espírito disse a Filipe que se aproximasse da carruagem, e


quando ele o fez, ouviu o eunuco lendo o profeta Isaías (vs. 29-30).
Foi pela soberania de Deus que o etíope estava lendo Isaías 53: “Foi
levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo
perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca” (At 8:32). Esse
versículo, uma citação de Isaías 53:7, se refere a Cristo, o Redentor.
Deve ter sido a liderança soberana do Espírito que fez o eunuco abrir
essa passagem com respeito a Cristo como o Cordeiro redentor dos
pecadores, uma boa passagem para a pregação do evangelho. Assim,
“Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura,
anunciou-lhe a Jesus” (v. 35).
Aqui vemos o princípio de que, na pregação do evangelho,
precisamos usar os melhores trechos da Bíblia. Isso quer dizer que,
ao pregar o evangelho não devemos falar de coisas especiais. Por
exemplo, depois de aprender que pedra é um item básico nas
Escrituras, talvez você queira usar esse assunto na pregação do
evangelho. Contudo, isso pode não ser apropriado para pregar o
evangelho. Devemos sempre usar uma passagem adequada da
Palavra ao pregar o evangelho. Devemos escolher um trecho como
Isaías 53.
Sob a soberania do Senhor, Filipe usou Isaías 53 para pregar o
evangelho a um gentio. Esse gentio, descendente de Cuxe, o filho de
Cam, alguém amaldiçoado (Gn 9:22-27), ouviu o evangelho
completo e foi salvo. Esse foi o primeiro passo dado pelo Senhor
para expandir o Seu evangelho aos gentios típicos.

PREGOU O EVANGELHO SOB A DIREÇÃO DO ESPÍRITO


SANTO

Outro item importante na pregação de Filipe, é que toda a sua


atividade estava sob a direção, liderança e orientação do Espírito
Santo. Em 8:29 lemos: “Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te
desse carro e acompanha-o”. A menção do Espírito aqui, como nos
versículos 39; 10:19; 13:2; e 16:67, indica que nesse livro, o mover do
Senhor, ao espalhar o Seu reino mediante a pregação do evangelho,
foi pela direção do Espírito, e não pelos planos e esquemas do
homem. Logo, esse mover não era o ato do homem, mas do Espírito.
Todos devemos aprender com esse modelo a orar e a nos
manter em comunhão com o Senhor. Se mantivermos a comunhão
com o Senhor, seremos capazes de perceber a Sua direção o tempo
todo. Assim, o nosso mover e pregação do evangelho serão de acordo
com a direção do Espírito. Devemos seguir a orientação do Espírito,
e não a nossa opinião, plano e programação. Que aprendamos a ter a
nossa pregação do evangelho sempre sob a direção e orientação do
Espírito.

UM CASO TÍPICO DE BATISMO EM ÁGUA

No caso de Filipe pregando o evangelho ao eunuco etíope,


também temos a questão do batismo em água em 8:26-40. Hoje em
dia há muitas discussões entre os cristãos a respeito disso. Aqui em
Atos 8 temos o caso de um gentio autêntico crendo no Senhor. A
partir de Isaías 53 Filipe “anunciou-lhe a Jesus” (v. 35). “Seguindo
eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o
eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (v. 36).
O fato de o eunuco etíope ter tido tal reação quando viu a água
indica que Filipe lhe pregou batismo em água. Se Filipe não tivesse
falado nada sobre batismo, é improvável que o etíope tivesse reagido
dessa forma. Talvez Filipe ainda estivesse falando sobre o batismo
em água quando chegaram à água onde o eunuco foi batizado.
É importante ver que nesse caso de batismo em água, um caso
típico, não houve menção alguma do batismo no Espírito. Em
especial, não há menção de que o eunuco etíope tenha falado em
línguas. Certamente, se isso tivesse ocorrido, Lucas o teria relatado
em seu registro. Como ele registrou esse caso de batismo em água,
por certo teria registrado a experiência de falar em línguas, caso
tivesse acontecido. Os que hoje promovem o falar em línguas devem
prestar atenção a esse caso. Esse caso típico de batismo em água é
um modelo, mas nesse modelo não há menção nenhuma do falar em
línguas. O registro de Lucas aqui enfatiza o batismo em água.

BA TISMO EM ÁGUA E BATISMO NO ESPÍRITO

Vimos que a reação do eunuco ao ver a água indica que Filipe


havia pregado batismo em água para ele. Nesse caso de pregação do
evangelho, o batismo em água é especialmente enfatizado, mas não
se menciona o batismo no Espírito. Isso deve dar-nos clara instrução
de que temos de prestar atenção ao batismo em água, que representa
a identificação dos crentes com a morte e a ressurreição de Cristo
(Rm 6:3-5; Cl 2:12), bem como ao batismo no Espírito. O batismo no
Espírito produz a realidade da união dos crentes com Cristo em vida
essencialmente e em poder economicamente, ao passo que o
batismo em água é a declaração dos crentes da realidade do Espírito.
Ambos são necessários (cf. 10:47), e um não pode substituir o outro.
Todos os crentes em Cristo devem ter os dois adequadamente, assim
como os filhos de Israel foram batizados na nuvem (que representa o
Espírito) e no mar (que representa a água), como menciona 1
Coríntios 10:2.
Com respeito ao batismo, água significa morte e sepultamento
para o término das pessoas que se arrependeram, e o Espírito Santo
é o Espírito da vida e de ressurreição para a germinação dos que
tiveram fim. As águas da morte, que indicam e representam a morte
todo-inclusiva de Cristo, nas quais os crentes são batizados,
sepultam não apenas os que são batizados propriamente, mas
também os seus pecados, o mundo e o passado deles. Elas também
os separam do mundo, que abandonou a Deus, e da sua corrupção. O
Espírito Santo é o Espírito de Cristo e o Espírito de Deus (Rm 8:9).
Assim, ser batizado no Espírito Santo é ser batizado em Cristo
(Gl 3:27; Rm 6:3), no Deus Triúno (Mt 28:19), e até mesmo no
Corpo de Cristo (1Co 12:13), que está unido a Cristo no único
Espírito (1Co 6:17). É por meio do batismo em tal água e em tal
Espírito que os crentes em Cristo são regenerados e assim
introduzidos no reino de Deus, na esfera da vida divina e no governo
divino (Jo 3:3, 5), para que vivam pela vida eterna de Deus em Seu
reino eterno.

Um Só Batismo

No capítulo oito de Atos, o eunuco recebeu o batismo em água


e o batismo no Espírito ao mesmo tempo. Não há dois batismos, um
batismo em água e outro do Espírito. O batismo em água e o no
Espírito são um só.
Os mestres da Bíblia têm discutido se o batismo em Romanos
6 se refere ao batismo em água ou no Espírito. Na verdade, não há
necessidade de argumentar a esse respeito, porque na economia de
Deus só há um batismo. Estaria incorreto perguntar se esse batismo
é em água ou no Espírito. Fazer essa pergunta denota falta de
conhecimento. Aos olhos de Deus há um batismo com dois aspectos:
em água e no Espírito.
Para Deus não há a necessidade de água, apenas de Espírito;
contudo, como seres humanos, que são físicos, temos a necessidade
de uma confirmação física das coisas espirituais. Batismo em água,
portanto, é a afirmação exterior do batismo interior no Espírito.
Entre muitos cristãos hoje o batismo em água é meramente um
ritual para receber os novos membros. A nossa prática do batismo
deve ser totalmente diferente. Sempre que batizamos alguém em
água, precisamos ter a fé de que o estamos batizando não apenas em
água mas também no Espírito como Aquele que torna o Deus Triúno
real.

O Significado e o Resultado do Batismo em Água

O Deus Triúno

A água do batismo é rica em significado. Primeiro essa água


significa o Espírito como Aquele que toma o Deus Triúno real. Em
Mateus 28:19 o Senhor Jesus ordenou aos discípulos que batizassem
os crentes no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Assim,
quando batizamos os crentes, devemos batizá-las não apenas em
água, mas também no Deus Triúno.

Cristo

A água do batismo também representa Cristo. Na verdade,


quando batizamos as pessoas no Deus Triúno, nós as batizamos em
Cristo. Enquanto Mateus 28:19 fala de batizar as pessoas no nome
do Pai, do Filho e do Espírito, em Atos os crentes foram batizados no
nome de Jesus Cristo. A razão disso é que Cristo é a corporificação
do Deus Triúno. Visto que a água representa o Deus Triúno, ela
também representa Cristo.

A Morte de Cristo

Ademais, a água do batismo representa a morte de Cristo.


Quanto a isso Romanos 6:3-4a diz: “Ou, porventura, ignorais que
todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na
sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo”.
Assim, ser batizado em Cristo é ser batizado na Sua morte.

O Corpo de Cristo

Vimos que a água do batismo representa o Deus Triúno, Cristo


e a morte de Cristo. O resultado de tal batismo é o Corpo de Cristo:
“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo”
(1Co 12:13). Portanto, o Corpo é o resultado de sermos batizados no
Deus Triúno, em Cristo e na morte de Cristo.

A Realidade e a Afirmação

Precisamos colocar de lado os conceitos tradicionais sobre


batismo e voltar à palavra pura da Bíblia para ver que esse único
batismo tem os aspectos do Espírito e da água. O Espírito é a
realidade, e a água é a afirmação exterior.
Podemos usar a assinatura de um contrato como ilustração
desses dois aspectos do batismo. Um contrato pode ser feito
primeiro oralmente. Esse acordo oral é a realidade do contrato. Mas,
para que o contrato seja garantido, há a necessidade da afirmação
exterior por escrito. Um contrato escrito e registrado é a afirmação
exterior da realidade interior do contrato. Semelhantemente,
podemos considerar a água do batismo como o contrato escrito e o
batismo no Espírito como a realidade do contrato. A assinatura de
um contrato não é algo vão, pois é a afirmação do verdadeiro
contrato. Da mesma forma, o batismo em água não é um mero
ritual, pois ele é a afirmação exterior do Espírito como a realidade do
batismo. Batismo em água, sem o Espírito, seria vazio. Mas, o
batismo no Espírito sem o batismo em água careceria da necessária
afirmação exterior. Assim, de acordo com a economia
neotestamentária de Deus, o batismo deve ser interiormente no
Espírito e exteriormente em água.

A Nossa Prática do Batismo

A nossa prática do batismo deve ser de acordo com a pura


palavra na Bíblia. Quando batizamos as pessoas em água, nós as
batizamos no, Deus Triúno, em Cristo e na morte de Cristo, cujo
resultado é que são batizadas no Corpo de Cristo. Esse é o “um só
batismo”, mencionado em Efésios 4:5 e também o que é mencionado
em 1 Coríntios 12:13.
Em tipologia, os filhos de Israel foram batizados na nuvem e
no mar. Eles não tiveram dois batismos; foi um só com dois
elementos: a nuvem e o mar. A nuvem representa o Espírito dos
céus, e o mar, a água na terra. Essa é uma prefiguração do nosso
batismo hoje. Sempre que batizamos os crentes, nós os batizamos
em água e no Espírito ao mesmo tempo. Isso quer dizer que sempre
que os batizamos em água, simultaneamente, os batizamos no Deus
Triúno.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 25
A CONVERSÃO DE SAULO (1)

Leitura Bíblica: At 9:1-19

Nesta mensagem começaremos a considerar a conversão de


Saulo.

A TRÍPLICE QUALIFICAÇÃO DE SAULO

Atos 9:1 diz: “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra


os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote”. Saulo
aprovou a morte de Estêvão (8:1), e os que o apedrejaram colocaram
as vestes aos pés dele (7:58). Saulo, um perseguidor, era um jovem
com propósitos muitíssimo definidos.
Saulo nasceu em Tarso, cidade de muita cultura, e recebeu a
educação grega na universidade daquela cidade. Em 22:3 ele diz que
estudou “aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei”. Isso indica
que recebeu a educação religiosa de Gamaliel, um grande rabi. Sem
dúvida, ele era versado tanto no grego como no hebraico, e foi
instruído na cultura grega e na religião hebraica. Além disso, era
cidadão romano. Nele vemos os três principais elementos da cultura
ocidental: a religião hebraica, a cultura grega e a política romana.
Ele foi ensinado segundo a religião hebraica, instruído na cultura
grega e era cidadão do Império Romano. Os seus pais, ou avós,
devem ter-se tornado cidadãos romanos, e ele, então, nasceu
romano (22:25-28). Assim, ele tinha uma tríplice qualificação: a
cultura grega, a religião hebraica e a política romana.
O Senhor é soberano e sabe todas as coisas. Estêvão parecia ter
uma educação melhor do que Pedro e João, incultos pescadores
galileus. Mas Estêvão não era tão qualificado nos três elementos da
cultura ocidental como Saulo. Em Filipenses ele se descreve como
“hebreu de hebreus”, pois havia nascido hebreu e fora bem educado
na religião hebraica. Nenhum outro estava tão bem qualificado como
ele para executar a comissão de levar a economia neotestamentária
de Deus ao mundo gentio.

ASSOLAVA A IGREJA

Antes de o Senhor o ganhar, Saulo foi ganho por Satanás.


Satanás deve ter ficado sabendo que Saulo era uma pessoa
importante e, assim, não apenas o ganhou, como também o instigou
a ser um dos líderes na perseguição aos seguidores de Jesus. Quando
os perseguidores apedrejavam Estêvão, Saulo cuidava das roupas
deles. Depois da morte de Estêvão, “Saulo, porém, assolava a igreja,
entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-
os no cárcere” (8:3). É significativo que Lucas propositadamente use
a palavra “assolava” para indicar que Saulo queria destruir e demolir
toda a igreja e todos os seguidores de Jesus.
Saulo não se satisfazia em perseguir os crentes em Jerusalém.
Ele foi ao sumo sacerdote e “lhe pediu cartas para as sinagogas de
Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho,
assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém”
(9:2). Conforme 9:14, Saulo tinha autoridade para prender todos os
que invocavam o nome do Senhor Jesus. Ele queria ir a Damasco
porque lá havia muitos santos dispersos. A intenção dele era ir lá a
fim de prender todos os que invocavam o nome do Senhor.

PERSEGUIA OS DO CAMINHO

Atos 9:2 diz que a intenção de Saulo era encontrar os “que


eram do Caminho” e levá-los presos para Jerusalém. Aqui o
Caminho denota a plena salvação do Senhor na economia
neotestamentária de Deus. É o modo de Deus dispensar-Se aos
crentes mediante a redenção de Cristo e a unção do Espírito; é o
modo pelo qual os crentes participam de Deus e O desfrutam; é o
modo pelo qual os crentes adoram a Deus no seu espírito
desfrutando-O e seguem o Jesus perseguido sendo um com Ele; e é o
modo pelo qual os crentes são introduzidos na igreja e edificados
formando o Corpo de Cristo para sustentar o testemunho de Jesus.
O Caminho em 9:2 inclui o caminho da verdade, o reto
caminho, e o caminho da justiça mencionado em 2 Pedro 2:2, 15 e
21. O caminho da verdade é o caminho da vida cristã segundo a
verdade, que é a realidade do conteúdo do Novo Testamento
(1Tm 2:4; 3:15; 4:3; 2Tm 2:15, 18; Tt 1:1). Ele é designado por outros
títulos segundo as suas várias virtudes, como o reto caminho, o
caminho da justiça, o caminho da paz (Lc 1:79; Rm 3:17), o caminho
da salvação (At 16:17), o caminho de Deus (Mt 22:16; At 18:26), o
caminho do Senhor (Jo 1:23; At 18:25), e o Caminho (19:9, 23; 22:4;
24:22). Ele foi difamado como seita (At 24:14).

ENCONTRADO PELO SENHOR

Saulo provavelmente estava muito feliz a caminho de


Damasco. Ele devia estar empolgado e talvez em êxtase. Ele pode ter
dito a si mesmo: “Recebi autoridade dos sumos sacerdotes para
prender todos os que invocam o nome de Jesus. Vou a Damasco
prender todos os que o invocam, trazê-los a Jerusalém e pô-los na
prisão”.

A Luz Celestial e a Voz Celestial

O Senhor Jesus observava Saulo enquanto ele viajava para


Damasco. Em vez de lhe aparecer imediatamente, Ele esperou até
que se aproximasse da cidade (9:3). Então “subitamente uma luz do
céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe
dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?” (9:3b-4). Saulo deve ter
ficado chocado pela luz do céu e pela voz que o chamou pelo nome.
Ele pensava que estava perseguindo meramente os seguidores de
Jesus. Agora, veio uma voz do céu que lhe disse que ele perseguia
Aquele que está nos céus. Para sua grande surpresa, ele
experimentou uma luz celestial, uma voz celestial e uma Pessoa
celestial.
Espontaneamente ele disse: “Quem és tu, Senhor? E a resposta
foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (v. 5). Saulo O chamou de
Senhor, mesmo sem conhecê-Lo.
Saulo pode ter pensado: “Eu nunca persegui a Jesus. Persegui
Estêvão e outros seguidores de Jesus. Eu pensava que Jesus
estivesse no sepulcro, mas agora Ele vem a mim dos céus”.

Um “Me” Corporativo

Segundo 9:4, o Senhor Jesus perguntou a Saulo: “Por que me


persegues?” Esse é um “Me” coletivo, que compreende o Senhor
Jesus e todos os que creem Nele. Saulo não teve essa revelação. Ele
pensava estar perseguindo a Estêvão e outros seguidores de Jesus,
que estavam no Caminho, o qual considerava seita (24:14). Não
sabia que quando os perseguia, perseguia a Jesus, pois com Ele eram
um, unidos a Ele pela fé. Ele pensava estar perseguindo pessoas na
terra, jamais imaginando que estava tocando algo no céu. Para sua
enorme surpresa, uma voz do céu disse-lhe ser Aquele a quem ele
perseguia e que Seu nome era Jesus. Para ele, essa foi uma revelação
única no universo! Por meio disso, ele começou a ver que o Senhor
Jesus e os crentes são uma só pessoa grandiosa: o maravilhoso “Me”.
Isso deve tê-lo impressionado e afetado quanto ao seu futuro
ministério com relação a Cristo e a igreja como o grande mistério de
Deus (Ef 5:32) e lançou sólido fundamento para esse seu ministério
singular.

Ouviu o Evangelho e Foi Salvo pelo Senhor Diretamente

Lucas não nos dá os detalhes relativos à conversão de Saulo.


Contudo, podemos ver que o Senhor Jesus pregou-lhe um evangelho
adequado. Saulo verdadeiramente ouviu o evangelho. Alguns podem
perguntar-se como podemos afirmar isso. Eles podem argumentar
que a voz do céu não falou nada sobre a crucificação, o sangue
redentor ou a ressurreição. Contudo, precisamos perceber que o
nome Jesus é um evangelho adequado. Saulo era um pecador, um
opositor, mas devia saber o significado desse nome, uma vez que
sabia tanto hebraico como grego. Ele deve ter-se dado conta que
Jesus significa Jeová, o Salvador. Isso não é o evangelho? Quando
ouvimos de Jesus não estamos ouvindo o evangelho? Quem é Jeová,
o Salvador? Paulo, certamente conhecia o significado do nome de
Jesus.
Em 9:6 o Senhor Jesus disse a Saulo: “Levanta-te e entra na
cidade, onde te dirão o que te convém fazer”. O Senhor não diria
diretamente a Saulo logo após a sua conversão o que queria que Ele
fizesse. Isso porque Saulo precisava que um membro do Corpo de
Cristo o introduzisse na identificação com o Corpo, pois fora salvo e
trazido ao Senhor diretamente por Ele mesmo, e não indiretamente
por meio de um canal qualquer. A menos que um membro do Seu
Corpo fosse enviado pelo Senhor a contatá-lo, teria sido difícil
qualquer membro do Corpo receber Saulo (cf. v. 26).

O Senhor Lidou com Saulo

O versículo 8 diz: “Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo


os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para
Damasco”. O Senhor aqui estava lidando com Saulo. Antes disso,
Saulo se considerava maravilhosamente cheio de conhecimento,
alguém que sabia de tudo sobre o homem e Deus. Agora, o Senhor o
cegou para não ver nada até que lhe abrisse os olhos, especialmente
os olhos interiores, e o comissionasse a abrir os olhos de outros
(26:18).

CONFIRMADO POR MEIO DE ANANIAS

Identificado com o Corpo de Cristo

Em 9:10-19 vemos que a conversão de Saulo foi confirmada


por meio de Ananias. Atos 9:10-11 diz: “Ora, havia em Damasco um
discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão:
Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor! Então, o Senhor
lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa
de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está
orando”. O Senhor enviou Ananias, um membro do Seu Corpo, a
Saulo para que este pudesse ser introduzido na identificação com o
Corpo de Cristo. Isso também deve ter impressionado a Saulo com a
importância do Corpo de Cristo, ajudando-o a perceber que um
crente salvo precisa dos membros do Corpo.

Um Vaso Escolhido
Em 9:12 o Senhor disse a Ananias que Saulo “viu entrar um
homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que
recuperasse a vista”. O fato de Saulo recuperar a visão foi a sua plena
salvação. Isso foi extremamente importante para ele. Foi
especialmente importante que seus olhos interiores se abriram para
ver as coisas de Deus com respeito aos Seus mistérios e à Sua
economia.
Nos versículos 13 e 14 Ananias disse: “Senhor, de muitos tenho
ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus
santos em Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais
sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome”. Isso
indica que nos primeiros dias invocar o nome do Senhor era um
sinal dos Seus seguidores (1Co 1:2). Esse invocar devia ser audível,
de modo que outros pudessem ouvir; assim tornou-se um sinal.
Em 9:15-16 o Senhor disse a Ananias: “Vai, porque este é para
mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os
gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe
mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome”.
Por essa causa, Saulo fora separado desde o ventre materno e
chamado pelo Senhor (Gl 1:15). O Senhor é soberano e capaz,
segundo a Sua escolha na eternidade, de fazer do mais atroz dos
Seus perseguidores um vaso, um apóstolo líder, para levar a cabo o
Seu comissionamento na pregação do evangelho e em tomar o
caminho a que se opusera e perseguira. Por fim, o Saulo opositor
tornou-se, em seu ministério vitorioso do evangelho, um cativo
conquistado de Cristo no triunfo que celebra a vitória de Cristo sobre
todos os Seus inimigos (2Co 2:14).

Recebeu o Espírito Santo e Foi Batizado

Atos 9:17 diz: “Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs


sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a
saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas,
para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. O caso
de Saulo foi especial, pois, como o mais importante perseguidor, ele
foi salvo diretamente pelo Senhor, dos céus, enquanto estava a
caminho para perseguir os crentes. Assim, ele precisava, como
aconteceu com os crentes samaritanos (8:14-17) e com os doze
discípulos em Éfeso (19:1-7), de um membro do Corpo de Cristo para
identificá-la com o Corpo, por meio da imposição de mãos.
O encher com o Espírito Santo em 9:17 é o encher exterior. De
acordo com o princípio da salvação na economia neotestamentária
de Deus, Saulo deve ter recebido o Espírito Santo de vida
essencialmente no momento da sua conversão, antes de Ananias vir
e impor-lhe as mãos. Antes da vinda de Ananias, Saulo estava
orando ao Senhor (v. 11), o que indica que crera Nele, e O estava
invocando (Rm 10:13-14), como os crentes a quem havia assolado e
pretendia prender. Mas visto que não fora salvo por meio de
nenhum membro do Corpo de Cristo, o Espírito Santo ainda não
descera sobre ele economicamente até que Ananias fosse a ele como
representante do Corpo, para identificá-la com o Corpo.
Atos 9:18-19 continua: “Imediatamente lhe caíram dos olhos
como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi
batizado. E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido.
Então, permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos”. O
caso de Saulo, assim como o do eunuco etíope, nos ensina a dar
atenção tanto ao batismo em água, que simboliza a identificação dos
crentes com a morte e ressurreição de Cristo (Rm 6:3-5; Cl 2:12),
como ao batismo no Espírito, que representa a realidade da união do
crente com Cristo em vida essencialmente e em poder
economicamente. O batismo em água é a afirmação do crente acerca
da realidade do batismo no Espírito. Ambos são necessários.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 26
A CONVERSÃO DE SAULO (2)

Leitura Bíblica: At 9:1-19

Nesta mensagem continuaremos a considerar a conversão de


Saulo (9:1-19).

OROU POR TRÊS DIAS

Quando Saulo se aproximava de Damasco, “subitamente uma


luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz
que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?” (vs. 3-4). Depois
de se levantar, ele nada enxergava, embora os seus olhos estivessem
abertos (v. 8). Por três dias ele esteve incapacitado de ver. O Senhor
não apenas lhe tirou a visão; Ele também lidou com a sua mente
capaz. Vimos que Saulo foi ensinado na religião hebraica, cultura
grega e política romana. Foi instruído nos três elementos básicos da
cultura ocidental. Ao tirar-lhe a visão, o Senhor Jesus queria que ele
pensasse a Seu respeito.
Atos 9:9 diz que Saulo “esteve três dias sem ver, durante os
quais nada comeu, nem bebeu”. Que será que ele fez nesses três
dias? A resposta é encontrada na palavra do Senhor a Ananias
registrada no versículo 11: “Dispõe-te, e vai à rua que se chama
Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso;
pois ele está orando”. Aqui vemos que nesses três dias Saulo estava
orando. Ele não viu nada, não comeu nem bebeu nada. Tudo o que
fez foi orar.
Creio que ao orar, Saulo tentou analisar Jesus, buscando saber
quem Ele é. Talvez pensasse: “Sei que Jesus foi enterrado, contudo
Ele me falou do céu. Como é possível? Jesus disse que eu O estava
perseguindo. Como é que Ele podia estar entre os que eu perseguia?”
Por três dias Paulo deve ter orado sobre questões como essas.
RECEBEU A MENSAGEM COMPLETA DO EVANGELHO

É provável que enquanto Paulo orava, ele ia tendo visão após


visão e revelação após revelação com respeito a Cristo e a igreja. A
sua experiência naqueles dias deve ter sido a de assistir a uma
televisão celestial na qual viu muitas coisas com respeito ao Senhor
Jesus. Ao vê-las ele deve ter pensado: “Jesus, o Nazareno, é Jeová.
Ele é o meu Salvador. Não é de admirar que os Seus seguidores
testificaram fortemente que Ele tinha ressuscitado. Ele certamente
ressuscitou, pois me apareceu dos céus”.
Saulo deve ter prosseguido, considerando a ascensão do
Senhor, que implica a Sua encarnação, viver humano, morte e
ressurreição. Ele deve ter concluído que, como Aquele que agora está
nos céus, o Senhor passou pelo processo de encarnação, viver
humano, morte, ressurreição e ascensão.
Precisamos ser impressionados pelo fato de que por três dias
Saulo não comeu nem bebeu. Tudo que fez foi orar. Enquanto orava,
a revelação com respeito a Cristo era “televisionada” (transmitida)
ao seu ser.
Ele teve uma visão maravilhosa do Senhor nessa televisão
celestial. Ele nunca mais teve dúvidas com respeito à ressurreição de
Cristo. Também veio a crer na Sua encarnação e morte. Por meio das
visões que teve naqueles dias, Saulo recebeu a mensagem completa
do evangelho.

JESUS E O “ME” CORPORA TIVO

Saulo não apenas viu que Jesus é Jeová, o Salvador, que


morreu e ressuscitou; ele também viu que o Senhor é um com os
Seus seguidores. Talvez tenha pensado: “Eu não perseguia Jesus;
perseguia os Seus seguidores. Mas Ele me disse que eu O persegui.
Isso quer dizer que Ele é um com os Seus seguidores”. Dessa forma
Saulo começou a ver o Corpo. Ele ouviu uma mensagem não apenas
com respeito à salvação de Cristo, mas também com respeito ao
Corpo de Cristo. Quando o Senhor apareceu a Saulo, Ele lhe
perguntou: “Por que me persegues?” O Senhor parecia estar
dizendo: “Saulo, esse 'Me' inclui a Mim pessoalmente e o Meu Corpo
coletivamente. Pessoalmente estou nos céus, mas coletivamente o
Corpo está na terra. Quando você perseguiu os Meus seguidores,
você perseguiu o Meu Corpo. Perseguir o Meu Corpo é perseguir a
Mim”. Assim, o “Me” em 9:4 é corporativo, e compreende o Senhor
Jesus e todos os crentes.
De acordo com 9:5, Saulo disse: “Quem és tu, Senhor?” E a
resposta foi: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. O “Me” no
versículo 4 e o nome “Jesus” no versículo 5 são de grande
significado, e Paulo deve ter considerado muito sobre Jesus e esse
“Me” corporativo. Naqueles três dias ele deve ter ficado analisando
essas duas palavras Me e Jesus.
Quando Paulo disse: “Quem és tu, Senhor?”, ele deve ter sido
salvo e recebido o Espírito essencial. Mais tarde no livro de
Romanos, ele disse: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor
será salvo” (Rm 10:13). Em Atos 9:5 Saulo chamou Jesus de Senhor,
mesmo sem conhecê-Lo. Sem dúvida, Saulo estava chocado com o
fato de o Senhor ter-lhe aparecido e falado. Creio que nesse
momento o Espírito essencial entrou no seu ser. Por isso ele pôde
orar por três dias sem comer nem beber. Sob a inspiração do
Espírito essencial, o seu único interesse era orar a fim de saber o
significado do que tinha visto e ouvido. Nesses dias, Paulo recebeu o
evangelho completo com respeito à salvação e o Corpo de Cristo.
A experiência que Saulo teve do Me corporativo, Cristo e o
Corpo, deve tê-lo impressionado profundamente e influenciado o
seu futuro ministério com respeito a Cristo e a igreja. Essa
experiência se tornou o fundamento de seu ministério. Assim, ele se
tornou muito categórico em ensinar sobre o Corpo de Cristo
(Rm 12:4-5; 1Co 12:12-27; Ef 1:22-23; 2:16; 4:4, 16). Ele é o único
autor do Novo Testamento a usar a expressão “o Corpo de Cristo”.
Ele dava muita ênfase ao Corpo porque, no tempo da sua conversão,
ele ouviu uma mensagem com respeito ao Me corporativo, com
respeito ao Corpo de Cristo.

CONFIRMADO POR UM REPRESENTANTE DO CORPO

Imediatamente depois que Saulo foi salvo, o Senhor começou a


educá-lo com respeito ao Corpo. Essa foi a razão de ter dito a Saulo:
“Levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer”
(9:6). Aqui o Senhor parecia estar dizendo: “Saulo, não vou dizer-lhe
o que fazer. Você foi salvo diretamente por Mim, e ninguém mais
sabe que você foi salvo. Assim, você necessita que um representante
do Meu Corpo venha e confirme o fato de que Eu o salvei, escolhi e
chamei. Você também necessita desse representante do Corpo para
introduzi-lo na identificação com o Meu Corpo”. Como veremos,
quando Saulo veio a Jerusalém e tentou juntar-se aos discípulos,
“todos, porém, o temiam, não acreditando que ele fosse discípulo”
(v. 26). Essa situação tomou necessário que a sua salvação fosse
confirmada por um representante do Corpo.
Quando o Senhor disse a Ananias que procurasse Saulo,
Ananias respondeu: “Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito
desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em
Jerusalém” (v. 13). Aqui vemos que Ananias não queria ter nenhum
contato com Saulo. Então o Senhor disse a Ananias: “Vai, porque
este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome
perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois
eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (vs. 15-
16). Então Ananias foi contatar Saulo, e o reconheceu como um
irmão no Senhor (v. 17). Se o Senhor não tivesse dito a Ananias que
o procurasse, nenhum crente o teria reconhecido como irmão. O
Senhor, mediante Ananias, deu a Saulo uma excelente instrução com
respeito à prática da vida do Corpo.

FOI ENCHIDO COM O ESPÍRITO SANTO

Em 9:17 Ananias disse a Saulo: “O Senhor me enviou, a saber,


o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para
que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. O encher
aqui é o encher exterior com o Espírito econômico. Tanto no caso de
Saulo no capítulo nove, como no caso dos samaritanos no capítulo
oito, a Cabeça do Corpo reteve o Espírito econômico. O Senhor
reteve o Espírito econômico aos samaritanos, porque os judeus os
consideravam estrangeiros e não tinham contato com eles. Seria
difícil para os judeus acreditar que Deus salvaria os samaritanos.
Assim, a Cabeça do Corpo reteve o Espírito econômico até que Pedro
e João viessem a Samaria para impor as mãos nos crentes
samaritanos. Por meio da imposição de mãos de Pedro e João, a
Cabeça dispensou o Espírito econômico como sinal aos crentes
judeus, de que até mesmo os samaritanos podiam tornar-se
membros do Corpo de Cristo.
Saulo de Tarso, naturalmente, era um judeu típico, um hebreu
puro. Contudo, era líder dos que perseguiam a igreja, alguém que
devastava a igreja em Jerusalém. Quem é que iria acreditar que ele
se voltara ao Senhor e fora salvo? Quando Paulo recebeu a salvação
do Senhor, também recebeu o Espírito essencial. Contudo, a Cabeça
do Corpo reteve o Espírito econômico até que um representante do
Corpo veio a ele e lhe impôs as mãos. A essa altura, o Espírito
econômico veio sobre ele como forte evidência de que ele fora salvo e
aceito pela Cabeça no Corpo como membro. Na verdade, Saulo era
um membro especial, um membro que devia levar a pesada
comissão de ministrar a economia neotestamentária de Deus ao
mundo gentio.
Não é fácil ter o entendimento adequado de tudo que está
retratado em 9:1-19. Semelhantemente, não é fácil ver o significado
do registrado nessa seção de Atos. O nosso entendimento desse
trecho da Palavra santa veio não apenas de ler a Bíblia e livros de
outros autores, mas também de considerar a nossa própria história e
experiência. Como resultado de muitos anos de estudo e experiência,
podemos ver os pontos cruciais em 9:1-19. Cada tópico não deve ser
meramente um ensinamento para nós, mas uma visão obtida por
meio da “televisão” celestial.

A COMPLETAÇÃO DA ECONOMIA NEOTESTAMENTÁRIA


DE DEUS

Em Atos 9 vemos que o perseguidor líder e principal opositor


de Jesus foi salvo e se tornou um vaso. Saulo se tornou um com a
Cabeça e com o Corpo. Como membro do Corpo, ele estava
qualificado a receber a comissão celestial para completar a palavra
da revelação de Deus do Novo testamento. A esse respeito, ele
mesmo diz: “Tornei-me ministro de acordo com a dispensação da
parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno
cumprimento à palavra de Deus” (Cl 1:25). Sem as Epístolas de
Paulo, a revelação divina do Novo Testamento não estaria completa.
Dos vinte e sete livros do Novo Testamento, catorze foram escritos
por Paulo como completação da economia neotestamentária de
Deus. Com o ministério de Pedro e seus companheiros temos o
início, mas não a completação. Se tivéssemos apenas o ministério de
Pedro e seus companheiros, a economia neotestamentária de Deus
não estaria completa. Para essa completação havia a necessidade de
outro vaso, o vaso escolhido por Deus para levar a cabo a Sua
economia neotestamentária. Por fim, Deus, em Sua sabedoria,
colocou Paulo na prisão, para que ele pudesse escrever aquelas
Epístolas que são especialmente cruciais para a economia
neotestamentária de Deus.

UM VASO ESCOLHIDO

Em 9:15 vemos que Saulo de Tarso era um vaso escolhido. Ao


ler as Escrituras, podemos não prestar muita atenção à palavra vaso,
um termo espiritual importante. Um vaso é um recipiente, portanto
diferente de um instrumento ou de uma arma.
Nas Epístolas de Paulo há uma forte ênfase na importância dos
vasos. Por exemplo, Romanos 9:23 fala de Deus tornar conhecidas
“as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória
preparou de antemão”. Em Romanos 9 temos o conceito de que os
seres humanos foram feitos por Deus como vasos para contê-Lo. Em
2 Coríntios 4:7 Paulo novamente fala de vasos: “Temos, porém, este
tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de
Deus e não de nós”. Então, em 2 Timóteo 2:20, ele diz: “Ora, numa
grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há
também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém,
para desonra”. A intenção de Deus ao salvar Saulo de Tarso era
enchê-lo Consigo mesmo e assim fazê-lo um vaso extraordinário.
Nos escritos de Paulo vemos o desenvolvimento do significado
espiritual da palavra vaso.
Provavelmente foi de Ananias que Saulo aprendeu que ele era
um vaso escolhido. Saulo de Tarso foi escolhido pelo Senhor não
apenas para ser Seu apóstolo, servo e ministro; também foi
escolhido para ser Seu vaso. Em Atos 9:15 o Senhor Jesus parecia
estar dizendo a Ananias: “Saulo é um vaso escolhido. Ele Me irá
conter, e o seu ministério consistirá em transmitir-Me ao mundo
gentio”. Todos precisamos ver a importância de Saulo ser um vaso
escolhido.
Na vida e nos escritos de Paulo podemos ver os três elementos
da cultura ocidental: o hebraico, o grego e o romano. Paulo era uma
composição desses três elementos. Assim, ele corporificava a religião
hebraica, a cultura grega e a política romana. Por ser de tal
composição, ele se tornou adequado como vaso de barro para conter
e transmitir o Cristo todo-inclusivo. Paulo era adequado para ser tal
vaso.

A NOSSA NECESSIDADE DE VISÃO ESPIRITUAL

Ao estudar a Bíblia, não é suficiente conhecer apenas as letras


em preto e branco. Também precisamos de visão espiritual e
discernimento. O Senhor Jesus tinha tal visão e discernimento
quando revelou que o título divino “o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó” indica ressurreição (Mt 22:23-33). Não
conseguimos ver essas coisas meramente lendo a Bíblia, mas apenas
tendo visão e discernimento espiritual é que podemos ver que a
ressurreição está implícita nesse título divino. Ter esse
entendimento não é alegorizar as Escrituras nem meramente fazer
inferências. Pelo contrário, é receber revelação pelo estudo da
palavra escrita de Deus. Em nossa leitura do capítulo nove de Atos
também precisamos da visão celestial a respeito do “Me”, de Jesus e
do vaso escolhido.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 27
A CONVERSÃO DE SAULO (3)

Leitura Bíblica: At 9:20-30

IMEDIATAMENTE PROCLAMOU A JESUS

Provavelmente ninguém se voltou mais rapidamente ao


Senhor Jesus do que Saulo de Tarso.
Depois de batizado, ele “permaneceu em Damasco alguns dias
com os discípulos” (9:19). O versículo 20 diz: “E logo pregava, nas
sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus”. Aqui a
palavra logo é significativa. Ela indica que num tempo muito curto a
sua conversão ao Senhor foi absolutamente completada. Ele era um
perseguidor, mas converteu-se ao Senhor e se tornou um vaso para
conter Cristo e ministrá-Lo aos outros. Creio que Lucas inseriu a
palavra “logo” para mostrar que a conversão de Saulo ocorreu mui
rapidamente.
No capítulo nove Lucas também nos dá um relato breve e
simples com respeito à pregação de Paulo. De acordo com o
versículo 20, ele “pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que
este é o Filho de Deus”. Então, no versículo 22 Lucas prossegue
dizendo que “Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os
judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o
Cristo”. O nome Jesus (v. 22) em grego, é literalmente este. Assim,
nesses versículos Lucas usa duas vezes o vocábulo este. No versículo
20 vemos que este é o Filho de Deus, e no versículo 22, que este é o
Cristo.
A expressão este é significativa e rica em suas implicações. Se
estudarmos a experiência de Saulo no caminho para Damasco,
poderemos entender por que ele usou o termo este. Este é o que ele
perseguia, Aquele a quem as autoridades da religião judaica se
opuseram e condenaram. É também Aquele no qual muitos creram e
a quem seguiam. A razão de Saulo usar o vocábulo este como a sua
ênfase era que o seu público sabia a respeito de Jesus e do que estava
acontecendo com Saulo e os crentes. Atos 9:21 indica isso: “Ora,
todos os que o ouviam estavam atônitos e diziam: Não é este o que
exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus e
para aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos
principais sacerdotes?” Como as pessoas sabiam essas coisas, Saulo
podia simplesmente falar deste. O fato de ele usar esse vocábulo
indica que o seu público sabia de quem ele estava falando. Assim,
quando ele começou a falar sobre Jesus, ele falou a respeito deste.

A PESSOA E A OBRA DE CRISTO

A respeito do Cristo todo-inclusivo há dois aspectos principais:


o da Sua Pessoa e o da Sua obra. Vemos esses dois aspectos em 9:20
e 22, onde Saulo fala do Filho de Deus e do Cristo. O Filho de Deus
denota a Sua Pessoa e o Cristo, a Sua obra.

A Pessoa do Senhor

Como o Filho de Deus, o Senhor Jesus é divino, até mesmo o


próprio Deus. De acordo com João 5, os judeus perceberam que
dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é Deus. A esse
respeito, João 5:18 diz: “Por isso, pois, os judeus ainda mais
procuravam matá-Lo, porque não somente violava o sábado, mas
também dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a
Deus”. Isso indica que o Senhor ser o Filho de Deus significa que Ele
é Deus.
A expressão “o Filho de Deus” se refere à Pessoa do Senhor
Jesus. Como Filho de Deus, o Senhor Jesus é divino. Contudo, todos
os opositores O consideravam meramente um ser humano. Eles não
perceberam que esse Jesus também é divino, que é o Filho de Deus.
É Aquele que tem origem divina singular.
Nas sinagogas em Damasco, Saulo proclamava a Jesus como o
Filho de Deus. O seu público consistia dos que tinham conhecimento
a respeito de Jesus. Eles sabiam que Jesus era o nazareno que sofria
oposição das autoridades da religião judaica. Agora Saulo declarava
que este era o Filho de Deus. Ele parecia estar dizendo: “Este, que
vocês consideram meramente um homem é o Filho de Deus. Sim,
Ele teve origem humana, e é o Filho do Homem. Contudo, é o Filho
de Deus”. Saulo deu testemunho categórico a esse respeito.
Os judeus não estavam contentes em ouvir Saulo proclamar
que Jesus era o Filho de Deus. Pelo contrário, não toleravam ouvir
que Jesus tinha a origem divina singular e era o Filho de Deus.
Portanto, opuseram-se à pregação de Saulo. Consideravam
blasfêmia o fato de ele declarar que um homem é o Filho de Deus,
por essa razão opuseram-se a ele e queriam matá-lo (9:24).

O Comissionamento do Senhor

De acordo com 9:22, Saulo demonstrava aos judeus em


Damasco que “este é o Cristo”. O título, “o Cristo” denota a comissão
do Senhor, isto é, a Sua obra. Cristo significa Ungido. O Senhor
Jesus é o Ungido de Deus. Como Ungido de Deus, o Cristo, Ele é
singular. Apenas Ele foi ungido e designado por Deus para cumprir a
Sua comissão, para fazer a obra que Deus Lhe encarregou.
Em Mateus 16:15 o Senhor Jesus perguntou aos discípulos:
“Quem dizeis que Eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo,
o Filho do Deus vivo” (v. 16). A revelação dada a Pedro inclui os dois
aspectos do Senhor Jesus, o da Sua Pessoa e o da Sua comissão. A
comissão de Cristo é cumprir o propósito eterno de Deus por meio
da crucificação, ressurreição, ascensão e segunda vinda. A Sua
Pessoa é a corporificação do Pai e resulta no Espírito para a plena
expressão do Deus Triúno.
Saulo de Tarso, que ficou cego por certo tempo, recebeu uma
visão celestial com respeito ao Senhor Jesus. Ele viu a mesma coisa
que Pedro vira em Cesaréia de Filipe, isto é, que Jesus, o Nazareno, é
o Filho de Deus e o Cristo.
O Senhor Jesus é tanto humano como divino. Como uma
pessoa humana-divina, Ele é o Homem-Deus. O Senhor tem duplo
status: humano e divino. Em Atos 9 Saulo não enfatiza a
humanidade do Senhor, uma vez que todos, inclusive os opositores,
reconheciam que Jesus era um ser humano, e não um fantasma. Ele
verdadeiramente era um homem, e a Sua humanidade foi
reconhecida por todos. Mas os opositores não viram que Jesus era o
Filho de Deus. Assim, imediatamente após se converter ao Senhor, a
primeira coisa que Saulo testificou a Seu respeito, foi que Jesus, o
homem de Nazaré, era o Filho de Deus. Como já dissemos, isso era
blasfêmia para os judeus, e eles queriam matá-lo por isso.
Além de proclamar que Jesus é o Filho de Deus, Saulo também
testificou que Ele é o Cristo. Ele é singular, o Único ungido e
designado por Deus para levar a cabo a comissão de Deus. Como o
Cristo, o Senhor foi ungido e designado para cumprir o propósito de
Deus, cumprir o plano de Deus. Apenas Ele está qualificado a levar a
cabo a redenção eterna de Deus. Quanto à Sua Pessoa, Ele é divino,
e, quanto à Sua obra, é o ungido e o designado de Deus para executar
tudo o que Deus quer.

Um Modelo para a Nossa Pregação do Evangelho

Em Atos 9 Paulo estabeleceu um ótimo modelo para a nossa


pregação do evangelho hoje. A despeito de que trecho da Bíblia
usemos para pregar o evangelho e a despeito do assunto da nossa
pregação, devemos sempre enfatizar esses dois aspectos de Cristo.
Precisamos pregar tanto a Sua Pessoa como a Sua obra. Porém,
muito da pregação do evangelho hoje não dá a devida ênfase à
Pessoa e à obra de Cristo. Em vez disso, o evangelho é pregado de
forma vaga e geral. É dito às pessoas que Cristo é o Salvador e o
Redentor, mas não há a ênfase necessária nos Seus dois aspectos
básicos. A nossa pregação deve ser diferente. Precisamos enfatizar
que esse que pregamos é divino. Ele é o Filho de Deus, e a Sua
origem é divina. Devemos também enfatizar a Sua obra como o
Ungido de Deus para levar a cabo o Seu comissionamento. Isso quer
dizer que devemos pregar o Filho de Deus e o Cristo.

Crer que Jesus É o Cristo, o Filho de Deus

João 20:31 diz: “Estes, porém, foram escritos para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais
vida em Seu nome”. Aqui vemos que para ter vida eterna precisamos
crer que Jesus é o Cristo e é o Filho de Deus. Precisamos crer na Sua
Pessoa divina como o Filho de Deus e em Sua obra, como o Ungido
de Deus. a título “o Cristo” está relacionado à obra do Senhor, ao Seu
ofício e missão. a título “o Filho de Deus” denota a Pessoa do Senhor.
A Sua pessoa é questão da vida divina, e a Sua missão é
questão da obra divina. Ele é o Filho de Deus para ser o Cristo de
Deus. Ele trabalha para Deus pela vida divina a fim de que o homem
também, crendo Nele como o Cristo e o Filho de Deus, tenha a vida
divina e assim se torne filho de Deus. João 20:31 deixa bem claro
que crer no Senhor Jesus é crer em Sua Pessoa divina e em Sua obra
divina.

Crenças Errôneas com respeito à Humanidade de Cristo

Negar que o Cristo Ascendido Ainda Tem Humanidade

Alguns cristãos hoje não creem adequadamente na


humanidade do Senhor Jesus. Muitos anos atrás, uma pessoa me
disse que não cria que o Senhor Jesus, como Aquele que está nos
céus, ainda tenha a natureza humana. Ela pensava que depois da
Sua ressurreição o Senhor despiu-se da humanidade. Para tais
pessoas precisamos pregar a humanidade de Jesus.
A experiência de Estêvão em Atos prova que mesmo em Sua
ascensão o Senhor Jesus ainda é um homem. Estêvão disse: “Eis que
vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus”
(7:56). Quando Estêvão viu o Senhor ascendido, ele o viu como
homem.
A palavra do Senhor para o sumo sacerdote em Mateus 26 é
outra prova de que Ele ainda tem a humanidade: “Desde agora
vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre
as nuvens do céu” (Mt 26:64). a sumo sacerdote estava perguntando
se o Senhor era o Filho de Deus (v. 63). Em Sua resposta o Senhor
reconheceu que era o Filho de Deus, mas foi além dizendo que em
Sua ascensão e na Sua volta nas nuvens Ele será o Filho do Homem.
Assim, o Senhor era um homem não apenas na terra antes da
crucificação, mas também nos céus à direita de Deus após a
ressurreição e ascensão.
Em João 1:51 o Senhor Jesus disse a Natanael: “Em verdade,
em verdade vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo
e descendo sobre o Filho do Homem”. Esse é o cumprimento do
sonho de Jacó (Gn 28:11-22). Cristo como o Filho do Homem com a
Sua humanidade é a escada colocada na terra e conduz ao céu. a que
o Senhor falou a Natanael se refere à eternidade. Isso quer dizer que
na eternidade Cristo ainda será o Filho do Homem. Assim, Ele terá
tanto divindade como humanidade para sempre.

Negar que Cristo Veio em Carne

No tempo do apóstolo João, alguns negavam que Jesus Cristo


viera em carne. A esse respeito João disse: “Todo espírito que
confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito
que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é
o espírito do anticristo” (1Jo 4:2-3). E uma grande heresia negar que
Jesus Cristo veio em carne.

Negar que Cristo é uma Criatura

Também é herético negar que Cristo é uma criatura com


respeito a Sua humanidade. Temos sofrido forte oposição por
ensinar que, de acordo com Colossenses 1:15, o Senhor Jesus, quanto
à Sua humanidade, é uma criatura. Mas os que negam que Ele é uma
criatura caem na categoria dos que negam que Ele veio em carne.
Dizer que Jesus não é uma criatura equivale a dizer que Ele não se
tornou carne. A carne não é algo criado? Certamente, carne e sangue
são itens criados. O sangue derramado pelo Senhor Jesus na cruz
certamente foi algo criado por Deus.
Se fizermos um estudo profundo da Palavra, veremos que, por
um lado, o nosso Senhor é o Criador e, por outro, também é criatura.
Como Deus, Ele é o Criador e, como homem, é criatura. O homem
não é parte da criação de Deus? Certamente o homem está incluído
na criação de Deus. Como o Senhor Jesus se tornou um homem com
carne e sangue, que são elementos criados, Ele também é uma
criatura no que diz respeito à Sua humanidade.
É herético negar que o Senhor Jesus é uma criatura, da mesma
forma que é blasfêmia negar que Ele é Deus. De acordo com as
Escrituras, dizemos que Jesus é tanto Deus como homem, que o
nosso Senhor é tanto o Criador como criatura. Ele é
verdadeiramente o todo-inclusivo. Esse todo-inclusivo é tanto Deus
como homem, o Criador e a criatura.

OS DISCÍPULOS DE SAULO

Em 9:25 vemos algo muito surpreendente com respeito a


Saulo: ele tinha discípulos. Esse versículo fala clara e
categoricamente dos “seus discípulos”.
Saulo, que havia sido um líder dos perseguidores de Jesus,
agora tem discípulos a segui-lo. O que queremos enfatizar a esse
respeito é que o fato de ele ter discípulos indica que a sua pregação
era poderosa e prevalecente. Por meio dela as pessoas eram ganhas
para o Senhor.
A pregação poderosa e prevalecente de Saulo incitou a
oposição dos judeus, que “deliberaram entre si tirar-lhe a vida”
(v. 23). É-nos dito que: “Dia e noite guardavam também as portas,
para o matarem” (v. 24). Como ele não tinha maneira de escapar, “os
seus discípulos tomaram-no de noite e, colocando-o num cesto,
desceram-no pela muralha” (v. 25). Assim, de forma nada gloriosa,
ele escapou dos opositores em Damasco. Essa maneira pela qual
escapou foi segundo a soberania do Senhor.
O Senhor Jesus fez uma obra maravilhosa ao fazer de Seu
principal perseguidor um pregador prevalecente. Essa mudança
ocorreu num tempo muito curto.
A experiência de Saulo expõe a insuficiência dos seminários de
hoje. Alguém pode fazer seminário para ser treinado quanto ao
conhecimento, e tornar-se espiritualmente “superficial” ao terminar
o curso. Podemos dizer que Saulo de Tarso foi ao “seminário” do
Senhor e se “formou” depois de curto período como pregador
prevalecente. Ao contrário de muitos pregadores atuais, ele não
procurou ensinar e pregar segundo a psicologia. Em vez disso, saiu a
dizer às pessoas que esse era o Filho de Deus e o Cristo. Como
resultado, até mesmo ganhou discípulos. Contudo, por fim tornou-se
necessário que fugisse e fosse a Jerusalém.

SAULO E OS DISCÍPULOS EM JERUSALÉM


Embora muita coisa tivesse acontecido em Damasco,
Jerusalém ainda não tinha ouvido as notícias a esse respeito. Por
essa razão, quando Saulo tentou juntar-se aos discípulos, “todos,
porém, o temiam, não acreditando que ele fosse discípulo” (v. 26).
Eles não conseguiam acreditar que o seu opositor era agora um
discípulo do Senhor Jesus. Ainda o temiam. Mas, em Sua soberania,
o Senhor proveu Barnabé, um filho do encorajamento, ou exortação
(4:36). Barnabé tomou a Saulo e “levou-o aos apóstolos; e contou-
lhes como ele vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e
como em Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus” (9:27).
Então Saulo permaneceu com eles “entrando e saindo, pregando
ousadamente em nome do Senhor” (v. 28).
Conforme 9:29, Saulo “falava e discutia com os helenistas”,
isto é, com os judeus que falavam grego. Ao discutir com eles, eles se
ofenderam e “procuravam tirar-lhe a vida” (v. 29). Quando os
irmãos perceberam o que estava acontecendo, decidiram enviá-lo de
volta para Tarso. Assim, 9:30 conclui essa seção dizendo: “Levaram-
no até Cesaréia e dali o enviaram para Tarso”.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 28
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (20)

Leitura Bíblica: At 9:31-43

Nesta mensagem abordaremos 9:31 a 43.

A EDIFICAÇÃO E A MULTIPLICAÇÃO DA IGREJA

Em Três Províncias

Atos 9:31 diz: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a


Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do
Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”. Esse
versículo fala da Judéia, Galiléia e Samaria, todas elas províncias do
Império Romano. A Judéia era no sul da terra dos judeus, a Galiléia
era no norte e Samaria estava entre o norte e o sul. Havia igrejas
nessas três províncias. Como nesse tempo a igreja se tinha
expandido apenas a essas três províncias (Judéia, Galiléia e
Samaria) e a palavra toda abrange todos os lugares nos quais a igreja
existia, o termo igreja está no singular, no sentido universal. Aqui é
falado da igreja no sentido universal, embora devesse haver várias
igrejas nas várias cidades dessas três províncias, que podem ser
chamadas de igrejas no sentido local.

Tem Paz

De acordo com o versículo 31, a igreja por toda a Judéia,


Samaria e Galiléia tinha paz. A igreja tinha paz interiormente,
embora houvesse perseguição exteriormente.

É Edificada
Tendo paz em meio à perseguição, a igreja era edificada. A
edificação ocorria depois do estabelecimento da igreja.

Caminha no Temor do Senhor

Também é-nos dito que a igreja nessas províncias caminhava


no temor do Senhor. Embora houvesse perseguições, a igreja não
temia os homens, mas caminhava no temor do Senhor, a fim de não
ofender o Senhor sendo reprimida ou mesmo subjugada pela
perseguição, e para não ofender o Senhor em outras coisas.

No Conforto do Espírito Santo

Conforme 9:31, a igreja também caminhava no conforto do


Espírito Santo. Isso indica que ela sofria aflição por meio das
perseguições, nas quais temia o Senhor e desfrutava o conforto do
Espírito Santo.
Os judeus consideravam a Judéia a melhor província, a
Galiléia uma região desprezada e Samaria região cheia de mistura.
Assim, os judeus de Jerusalém desprezavam a Galiléia e rejeitavam
Samaria. Mas em 9:31 vemos que as igrejas nessas três províncias
são consideradas como uma. Esse versículo fala que “a igreja, na
verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria”. Creio que
o Espírito inspirou Lucas a escrever especificamente dessa forma
para indicar que, a despeito de quanto a Galiléia era desprezada e
Samaria, rejeitada pelos judeus em Jerusalém, as igrejas levantadas
nessas regiões deviam todas ser consideradas uma só igreja. No
sentido local, havia as igrejas, mas no sentido universal, todas são a
igreja. Aqui temos uma revelação básica com respeito à unidade da
igreja universalmente.

A EXPANSÃO DO MINISTÉRIO DE PEDRO

Para Lida: A Cura de Enéias

Alguns leitores de Atos podem pensar que no capítulo nove,


quando Saulo de Tarso foi posto à prova pelo Senhor, Pedro tivesse
saído de cena. Contudo em 9:32-43 vemos que Pedro ainda está em
cena, e esses versículos descrevem a expansão do ministério de
Pedro. O seu ministério se expandiu de Jerusalém para Lida. Atos
9:32 diz: “Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos
que habitavam em Lida”. Lida era uma cidade que distava cerca de
dezoito quilômetros a sudeste de Jope, chamada de Lode no Antigo
Testamento (1Cr 8:12; Ed 2:33). Enquanto esteve em Lida, Pedro
curou “certo homem, chamado Enéias, que havia oito anos jazia de
cama, pois era paralítico” (v. 33). “Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus
Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito”. Ele, imediatamente,
se levantou. “Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os
quais se converteram ao Senhor” (vs. 34-35).

Para Jope: A Cura de Dorcas

Em 9:36-43 temos a cura, ou avivamento, de Dorcas em Jope.


O versículo 36 diz: “Havia em Jope uma discípula por nome Tabita,
nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas
boas obras e esmolas que fazia”. Dorcas é o equivalente grego do
aramaico Tabita, que significa gazela. Quando os discípulos
ouviram que Pedro estava em Lida, que era perto de Jope,
“enviaram-lhe dois homens que lhe pedissem: Não demores em vir
ter conosco” (v. 38). Ele desceu a Jope e curou Dorcas. Talvez seja
melhor dizer que Dorcas foi avivada.
Alguns podem considerar o avivamento de Dorcas um caso de
ressurreição. Talvez ela já estivesse morta um dia inteiro antes de
Pedro chegar a Jope. Ele orou e “voltando-se para o corpo, disse:
Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se”
(v. 40). Isso pode ser considerado um caso de ressurreição. Contudo
o termo ressurreição, uma expressão forte, não é usada aqui. Assim,
em vez de falar da ressurreição de Dorcas, prefiro dizer que ela foi
curada ou avivada por meio de Pedro.

A Preparação para Abrir a Porta do Reino aos Gentios

Em 9:32-43 vemos Pedro em seu ministério fora de Jerusalém,


e até mesmo fora da Judéia, em uma região um tanto quanto
relacionada com os gentios. Quando estava em Jope, Pedro não
estava longe de Cesaréia, que era um centro do governo romano.
Isso quer dizer que Pedro tinha saído de Jerusalém, a capital do
centro judaico, em direção à cidade de Cesaréia, o lugar onde um dos
governadores romanos residia. Por ser próxima à Cesaréia, Jope se
tornou um trampolim para Pedro abrir a porta do reino aos gentios.
Assim, a estada de Pedro em Jope foi uma preparação para ele ir à
casa de Cornélio e usar a segunda chave que lhe foi dada pelo Senhor
para abrir a porta, a fim de que os gentios entrassem no reino. Como
veremos, em Cesaréia Pedro abriu a porta para que gentios romanos
típicos entrassem no reino de Deus.

VISÕES E MILAGRES

Tanto no caso de Saulo como no caso de Cornélio, o Senhor


operou por meio de visões. O Senhor apareceu numa visão a
Ananias: “Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias.
Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me
aqui, Senhor!” (9:10). Antes disso, Saulo de Tarso tivera uma visão
do próprio Senhor. O Senhor lhe apareceu e falou. Depois Saulo teve
outra visão, na qual viu Ananias impondo-lhe as mãos. O Senhor
contou isso a Ananias, dizendo que Saulo “viu entrar um homem,
chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a
vista” (9:12). Assim, tanto Ananias como Saulo tiveram visões. Aqui
temos a questão das visões relativas à execução da obra do Senhor.
No caso de Cornélio o Senhor também operou por meio de
visões. Primeiro, Cornélio “observou claramente durante uma visão,
cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e
lhe disse: Cornélio!” (10:3). No dia seguinte, Pedro teve uma visão
enquanto orava no eirado (10:9-10, 17). Assim, no caso de Cornélio
temos mais duas visões: a de Cornélio e a de Pedro.
Já enfatizamos que tanto o caso de Saulo, como o de Cornélio
envolvem visões. Foi dada uma visão a Saulo e outra a Ananias.
Semelhantemente, foi dada uma visão a Cornélio e outra a Pedro.
Entre esses dois casos, que envolvem visões, há dois milagres que
aconteceram por meio de Pedro. Primeiro temos a cura de Enéias, e
depois o avivamento de Dorcas. Em nosso estudo de Atos,
precisamos colocar juntos diferentes casos como esses e então
considerar o que é retratado. Não devemos considerar o capítulo
nove isoladamente, mas devemos estudá-lo em relação ao que lhe
antecede e ao que lhe sucede.

O MINISTÉRIO DE PEDRO E O ESTÁGIO INICIAL DO


MINISTÉRIO DE SAULO

Atos 1 é um capítulo de preparação. Então, no capítulo dois,


temos o início da propagação. Os capítulos dois a cinco são uma
seção, que diz respeito ao ministério de propagação de Pedro. No
capítulo dois temos a primeira mensagem de Pedro, dada no dia de
Pentecostes, e no capítulo três vemos o milagre feito a um coxo de
nascimento. Baseado nesse milagre, Pedro deu outra mensagem,
registrada nos capítulos três e quatro. Isso está relacionado com o
que aconteceu no capítulo cinco. Assim, esses quatro capítulos
formam uma seção a respeito do ministério propagador de Pedro.
Atos 6 inicia-se com a designação dos sete diáconos, entre os
quais estava Estêvão, um mestre da Palavra. No capítulo sete temos
um registro do ensinamento de Estêvão. Outro dos sete diáconos era
Filipe, que era evangelista. O capítulo oito nos dá um registro da
obra de pregação desse evangelista.
Estêvão foi perseguido e, por fim, morto. Um jovem, Saulo,
tomou parte nessa perseguição. O caso de Estêvão levou os líderes
judeus a perseguir os seguidores de Jesus. A esse respeito, 8:1 diz:
“Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em
Jerusalém”. Depois disso é-nos dito: “Saulo, porém, assolava a
igreja” (8:3). Isso indica que Saulo era um dos principais líderes da
perseguição contra os seguidores de Jesus. Mas, quando esse
principal perseguidor estava no caminho de Jerusalém para
Damasco, ele foi salvo. Ele não só foi salvo, mas se tornou um
pregador proeminente, como nos indica o registro em 9:20-30.
A conversão de Saulo e o fato de ele se tornar um pregador
proeminente não marcam o fim do ministério de Pedro.
Imediatamente depois do registro da pregação de Saulo, Pedro volta
à cena. A cena, contudo, não é na Judéia, mas em um lugar perto de
Cesaréia. Como vimos, esse lugar se tornou um trampolim para
Pedro entrar no mundo gentio e abrir a porta para que os gentios
entrassem no reino de Deus.
Os leitores do livro de Atos talvez tenham dificuldades de
dividi-lo em seções. No nosso estudo, podemos considerar os
capítulos seis a onze como uma sessão. Nessa seção vemos que o
ministério de Saulo em seu estágio inicial está mesclado com o de
Pedro. Mas, embora esses dois ministérios estejam mesclados, o
ministério de Pedro ainda é o principal nesses capítulos.
Como veremos, o ministério de Saulo é introduzido
gradativamente. Pedro foi a Jope, que se tornou um trampolim para
os gentios em Cesaréia. Isso foi uma preparação para ganhar os
gentios, de modo que Saulo, que iria tomar-se um apóstolo para os
gentios, pudesse iniciar o seu ministério. Nos capítulos seis a onze,
Pedro começa a sair de cena, embora o seu ministério ainda fosse o
principal.
Nesses capítulos também, Saulo está entrando em cena.
Primeiramente lemos sobre Saulo no final do capítulo sete, onde nos
é dito que as testemunhas do apedrejamento de Estêvão “deixaram
suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo” (7:58). Isso indica
que quando Paulo entrou em cena, ele veio como perseguidor.
Então, no capítulo nove, esse perseguidor se converteu em poderoso
pregador. Mais para o fim do capítulo nove, Saulo começa a entrar
em seu ministério. Como veremos, o seu ministério ao mundo gentio
iniciou-se de forma definitiva e prevalecente no capítulo treze. Nesse
momento, Pedro já está fora de cena, e Paulo está totalmente em
cena.

A SOBERANIA DO SENHOR EM SUA PROPAGAÇÃO

Nesses capítulos vemos a soberania do Senhor em Se


propagar, espalhando-Se para o Seu povo escolhido. Ele gastou três
anos e meio e mais um período adicional para preparar Pedro. Então
o Senhor gastou outro período para preparar Saulo. Em nossa
leitura de Atos, precisamos perceber que entre o final do capítulo
nove e o início do capítulo treze há um intervalo. Nesse intervalo
Saulo ganhou bastante do Senhor. Contudo, o que aconteceu não
está registrado nas Escrituras. Só sabemos que por um tempo Paulo
esteve na Arábia (Gil:17). Não temos como descobrir o que ele fez lá.
Contudo, cremos que nesse intervalo Paulo ganhou muito mais do
Senhor. Assim, quando saiu para pregar no capítulo treze, a sua
pregação era muito mais rica do que no capítulo nove. A pregação de
Paulo no capítulo nove era simples e curta. Segundo esse capítulo,
ele enfatizava Jesus como o Filho de Deus e como o Cristo; isto é, ele
enfatizava a Pessoa de Cristo e a Sua obra. Mas do capítulo treze ao
vinte e oito a sua pregação era muito mais inclusiva.
Ao estudar Atos, vemos que o Senhor tinha a Sua maneira
soberana de preparar um vaso escolhido como Saulo de Tarso. O
Senhor o converteu de principal perseguidor em alguém que se
tornou uma grande bênção para os crentes.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 29
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (21)

Leitura Bíblica: At 10:1-33

O SUCESSO DO MINISTÉRIO DE PEDRO

Ao final do capítulo nove o Senhor tinha feito muitas coisas


com o intuito de preparar o caminho para Pedro abrir a porta para
que os gentios entrassem no reino de Deus. Atos 9:31 mostra o
sucesso do ministério de Pedro: “A igreja, na verdade, tinha paz por
toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no
temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em
número”.
Aqui vemos que as igrejas haviam sido solidamente
estabelecidas em três províncias: Judéia, Galiléia e Samaria. Isso
indica que o ministério de Pedro na propagação do Cristo ressurreto
teve muito sucesso na terra dos judeus. Essa terra incluía não apenas
a Judéia, mas também a Galiléia, e Samaria, região entre a Judéia e
a Galiléia. Por meio do ministério de Pedro, o território chamado de
terra santa se encheu de igrejas.
De acordo com 9:32-43, Pedro foi levado pelo Senhor em
direção à Cesaréia, um importante centro do governo romano. Em
Cesaréia vivia um homem chamado Cornélio. Aqui vemos a
preparação do Senhor para abrir a porta a fim de que os gentios
entrassem na vida da igreja.
Em Mateus 16:19 o Senhor Jesus deu a Pedro as chaves do
reino. No dia de Pentecostes ele usou a primeira delas para abrir a
porta para que os judeus entrassem no reino de Deus. Como
veremos, em Atos 10 ele usou a segunda chave para abrir a porta do
reino de Deus aos gentios.
UM PASSO ADICIONAL NA OBRA EVANGÉLICA DO
SENHOR

Atos 10:1-2 diz: “Morava em Cesaréia um homem de nome


Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana, piedoso e temente a
Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de
contínuo, orava a Deus”. O termo coorte significa uma das dez
divisões da antiga legião romana. Compunha-se de seiscentos
homens. Cornélio, o centurião romano, assim como o eunuco etíope,
buscava a Deus, como menciona 17:27.
Em 10:1 vemos que o Senhor deu mais um passo na obra
evangélica. Por meio disso, Ele alcançou outro homem totalmente
gentio, alguém da Itália, do Império Romano na Europa. Assim, a
porta do evangelho se abriu para todos os gentios. Era difícil para os
apóstolos e discípulos judeus, com seus antecedentes e hábitos
judaicos, aproximar-se dos gentios (v. 28). Desse modo, esse foi um
mover extraordinário, que precisou da participação de um anjo de
Deus (v. 3), assim como quando Filipe se aproximou do etíope,
homem da África, em 8:26. Nos dois casos, o Espírito falou a Filipe e
a Pedro, respectivamente, de modo peculiar (8:29; 10:19).
O Senhor é soberano sobre toda a situação do mundo. O que
aconteceu em Atos 10 certamente foi segundo a soberania de Deus.
Em Cesaréia, uma importante cidade para o governo romano, havia
certo centurião chamado Cornélio. Cornélio não era apenas um
homem bom e moral, mas também era alguém devoto, que buscava
a Deus. Desde o princípio da humanidade sempre houve homens
devotos que buscaram a Deus. Cornélio se incluía nessa categoria.
Ele e todos os de sua casa temiam a Deus e eram devotos. Atos 10:7
até mesmo fala de um soldado devoto. Isso indica que na casa de
Cornélio havia uma atmosfera de devoção. Em Atos 10 vemos o tipo
de pessoa usada por Deus para abrir o caminho do reino de Deus
para o mundo gentio.

A VISÃO DE UM ANJO

Atos 10:3-4 diz: “Esse homem observou claramente durante


uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se
aproximou dele e lhe disse: Cornélio! Este, fixando nele os olhos e
possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As
tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de
Deus”. Embora Cornélio fosse parte da humanidade caída,
pecaminoso e condenado diante de Deus como todos os outros, Deus
aceitou as suas orações e esmolas, ao passo que rejeitou a de Caim
(Gn 4:3, 5). Deve ter sido pelo fato de Deus, segundo a Sua
presciência, tê-lo perdoado (v. 43), baseado na redenção eterna de
Cristo e em vista de Cornélio vir a crer em Cristo dias depois.
Conforme 10:3, um anjo de Deus apareceu a Cornélio e lhe
falou. Um anjo também foi usado por Deus no caso do eunuco
etíope. Naquele caso: “Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo:
Dispõe-te e vai para a banda do Sul, no caminho que desce de
Jerusalém a Gaza” (8:26). Os anjos nesses dois casos indicam que
são casos extraordinários. Pregar o evangelho ao eunuco etíope
visava levar o evangelho a um gentio. Semelhantemente, pregar o
evangelho à casa de Cornélio era pregar o evangelho a uma família
gentia. Como esse era um caso extraordinário, um anjo foi usado.
Contudo, nem no caso do eunuco etíope nem no caso de Cornélio e
sua casa foi comissionado um anjo para pregar o evangelho. A razão
disso é que apenas seres humanos que creem no Senhor Jesus têm o
privilégio de levar as boas novas aos outros.

A IMPORTÂNCIA DA ORAÇÃO

Depois da visão de Cornélio (10:1-8), temos a visão de Pedro


(10:9-16). Atos 10:9 diz: “No dia seguinte, indo eles de caminho e
estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora
sexta, a fim de orar”. Cornélio recebeu uma visão em oração (v. 30),
e Pedro também (vs. 17, 19), por meio das quais o plano e o mover de
Deus foram levados a cabo. A oração do homem é necessária como
meio de cooperação com o mover de Deus.
No capítulo dez de Atos há grande ênfase na importância da
oração. Primeiro temos a oração de Cornélio e depois a de Pedro. A
oração desses dois homens se tornaram os meios de o Senhor vir e
abrir a porta aos gentios. Enquanto Cornélio, um homem devoto,
orava, veio-lhe uma visão. Semelhantemente, foi quando Pedro
orava que lhe veio a visão registrada nesse capítulo. Com isso vemos
que todos temos de aprender a ter uma vida de oração, pois uma
vida de oração sempre prepara o caminho para o Senhor se mover e
abre a porta para Ele Se expandir. Como os que estão aqui por causa
da restauração do Senhor, precisamos aprender que o Senhor só
pode usar os que têm um viver de oração, uma vida de contatá-Lo
em oração.
Não nos é dito pelo que Cornélio e Pedro estavam orando. O
registro indica, no entanto, que eles separavam certas horas para
oração, que oravam segundo uma programação. Atos 10:3 diz que
Cornélio orava à hora nona, às três horas da tarde, e 10:9 diz que
Pedro orava à hora sexta, isto é ao meio-dia. Daí podemos ver que
eles tinham um viver de oração e até mesmo oravam em horários
programados. Se nós, na restauração do Senhor, tivermos tal viver
de oração com horário definido, seremos usados por Ele para abrir o
caminho para a expansão da Sua restauração.

A VISÃO QUE PEDRO TEVE DE UM GRANDE LENÇOL

De acordo com 10:10 Pedro: “Estando com fome, quis comer;


mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase”.
A fome de Pedro aqui representa a busca das coisas de Deus
(Mt 5:6). Deus satisfaz os famintos com coisas boas (Lc 1:53). O
vocábulo grego traduzido como comer é geralmente traduzido como
provar.

Em Êxtase

O vocábulo grego traduzido como êxtase, é ékstasis, e quer


dizer ser posto fora do lugar, referindo-se ao estado no qual um
homem sente que sai de si mesmo e do qual volta a si (12:11), como
num sonho, mas sem dormir. É diferente de visão, como nos
versículos 3, 17 e 19, na qual objetos definidos são visíveis a olhos
humanos. Entretanto, nesse êxtase Pedro teve uma visão (11:5).

A Expansão do Evangelho

Nesse êxtase Pedro “viu o céu aberto e descendo um objeto


como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas
quatro pontas, contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra
e aves do céu” (vs. 11-12). A abertura dos céus no versículo 11 indica
que o mover evangélico do Senhor na terra está sob a Sua
administração no trono no céu (cf. Hb 8:1; At 7:56). Todos os
apóstolos e evangelistas levaram e ainda levam a cabo o
comissionamento celestial na terra com vistas a espalhar o
evangelho do reino de Deus.

Homens de Todos os Tipos

O versículo 11 diz que um vaso como um grande lençol desceu


dos céus. Esse vaso simboliza o evangelho espalhando-se pelos
quatro cantos da terra habitada para ajuntar todo tipo de pessoas
impuras (pecaminosas) (Lc 13:29). Os quadrúpedes, répteis e aves
mencionados no versículo 12 simbolizam homens de toda espécie.
Atos 10:13 diz: “E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele:
Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Nesse sinal, comer significa
contatar pessoas (v. 28).
No versículo 14 Pedro respondeu: “De modo nenhum, Senhor!
Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda”. O fato de
Pedro não comer coisa alguma comum e imunda está de acordo com
o que é ensinado em Levítico 11. A circuncisão, o guardar o sábado e
a dieta peculiar são as três maiores ordenanças segundo a lei de
Moisés que fazem dos judeus um povo distinto e separado dos
gentios, que os judeus consideram impuros. Todas essas ordenanças
bíblicas da dispensação do Antigo Testamento tornaram-se um
obstáculo para a difusão do evangelho para os gentios segundo a
dispensação neotestamentária de Deus (15:1; Cl 2:16).
Atos 10:15 continua: “Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que
Deus purificou não consideres comum”. Isso se refere a pessoas a
quem Deus purificou por meio do sangue remissor de Cristo
(Ap 1:5).

UMA TRANSFERÊNCIA DISPENSACIONAL

No capítulo dez de Atos vemos uma questão importante


relacionada à economia de Deus: a necessidade de transferência
dispensacional. No Antigo Testamento, a economia de Deus era uma
dispensação de figuras, tipos e profecias. Não havia nenhum
cumprimento da economia de Deus no Antigo Testamento. Por fim o
Deus Triúno veio para executar tudo o que é exigido pela justiça,
santidade e glória de Deus para levar a cabo a Sua economia. Não foi
apenas o Filho que veio, mas o Filho com o Pai e por meio do
Espírito. A execução da economia de Deus é o dispensar Dele mesmo
em Seu povo escolhido, a fim de Se mesclar totalmente com a
humanidade, para edificar uma habitação eterna para Ele e Seu povo
escolhido, a fim de que Ele tenha uma expressão plena de Si mesmo
pela eternidade.
Como Deus em Sua Trindade veio para executar tudo o que é
necessário para levar a cabo a Sua economia, houve uma
transferência dispensacional. Por um lado, Deus não podia deixar de
usar o povo judeu para essa transferência. Por outro, o judaísmo era
o principal obstáculo para essa transferência. Podemos ver nos
quatro Evangelhos que havia um conflito, uma confrontação, entre o
judaísmo e o Senhor Jesus. O Senhor veio para iniciar a
transferência, isto é, para iniciar a mudança. Mas o judaísmo tentou
impedir essa mudança. Esse conflito que se iniciou nos Evangelhos
continuou em Atos.
Até mesmo os escolhidos do Senhor como Pedro, João e Tiago
não tinham clareza a respeito da necessidade de uma transferência
absoluta e completa. A resposta de Pedro à visão do grande lençol
descendo dos céus indica isso. Ele fazia muito bem em observar esse
período de oração, mas, quando o Senhor queria que ele fosse aos
gentios e os contatasse, isso se tornou um problema para ele.
Devido ao seu antecedente judaico, Pedro não queria contatar
gentios. Para um judeu, ter contato com gentios era como comer
coisas impuras. Comer algo é ingeri-lo e fazê-lo um conosco. A
recusa de Pedro em comer as coisas imundas contidas no grande
vaso que desceu dos céus é um retrato da falta de vontade dos judeus
em aceitar os gentios e ser um com eles. Qualquer judeu que fosse
aos gentios e fosse um com eles seria como uma pessoa que come
coisas imundas.
Já falamos que as três principais ordenanças que tomavam os
judeus diferentes e separados dos gentios são a circuncisão, o
guardar o sábado e a dieta peculiar. Os judeus conservadores são
muito rígidos quanto a essas três ordenanças da lei. De acordo com
Efésios 2:15, elas foram abolidas pela morte do Senhor na cruz. Ele
aboliu a circuncisão, o guardar o sábado e a dieta peculiar. Mas,
embora Ele as tivesse abolido, Pedro ainda estava agarrado a elas.

PEDRO FOI POSTO À PROVA PELO SENHOR

Em Atos 10 o Senhor Jesus pôs Pedro à prova. Enquanto Pedro


orava sobreveio-lhe um êxtase. Isso significa que ele estava fora de
si. Enquanto estava nesse êxtase, veio-lhe uma visão. Ele viu um
vaso, como um grande lençol descendo, e nesse vaso havia toda sorte
de animais quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Pedro devia
estar muito surpreso com essa visão. Então, uma voz lhe disse:
“Levanta-te, Pedro! Mata e come” (v. 13). Pedro respondeu: “De
modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e
imunda” (v. 14). Aqui Pedro parecia estar dizendo: “Senhor, eu não
posso comer essas coisas. Nunca comi nada que é comum. Tudo que
eu comer, Senhor, precisa ser santo. Só posso comer coisas
santificadas”.
A resposta de Pedro indica que era muito difícil para o Senhor
realizar a Sua transferência em Pedro. Devido a essa dificuldade, foi
necessário que a visão acontecesse três vezes: “Sucedeu isto por três
vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu” (v. 16). Assim como
ocorreu com Pedro, pode ser-nos difícil fazer a transferência hoje,
pois o nosso pensamento ainda pode estar sob a influência da
tradição religiosa.

O ESPÍRITO FALOU A PEDRO, E PEDRO FOI A CESARÉIA

Em 10:17-33 temos o relato da visita de Pedro à casa de


Cornélio em Cesaréia. Atos 10:19-20 diz: “Enquanto meditava Pedro
acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te
procuram; levanta-te, pois, desce e vai com. eles, nada duvidando;
porque eu os enviei”. Isso indica que o fato de Cornélio enviar três
homens (vs. 7-8) era o mover e a ação do Espírito por meio dele,
mesmo antes da sua conversão. Em 8:29 o Espírito falou a Filipe e,
em 10:19, falou a Pedro. Tanto no caso do eunuco etíope como no
caso de Cornélio e sua casa, primeiro um anjo falou e depois o
Espírito falou.
Pedro recebeu os que. foram enviados por Cornélio e os
hospedou. “No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também
alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua
companhia” (v. 23). Nesse caso estratégico, Pedro não agiu
individualmente, e, sim, com alguns dos irmãos, no princípio do
Corpo de Cristo, para que pudessem testificar do modo pelo qual
Deus lidou com os gentios, isto é, pregar-lhes o evangelho por meio
da quebra da tradição e hábitos judaicos por parte de Pedro (11:12).
Atos 10:24 diz: “No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio
estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos
íntimos”. Aqui vemos que Cornélio estava preparado para receber
Pedro e ouvir o que ele tinha para dizer. Com esse fim ele reuniu os
seus parentes e amigos íntimos. Aqui temos um bom modelo para a
nossa pregação do evangelho hoje. Segundo esse modelo, devemos
abrir a casa e convidar os parentes e amigos íntimos para ouvir o
evangelho.
Em 10:28 Pedro disse aos que estavam reunidos na casa de
Cornélio: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou
mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me
demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou
imundo”.
A palavra de Pedro aqui indica que, por fim, Pedro entendeu o
significado da visão que tivera no êxtase (vs. 11, 17, 19), a saber, que
os animais no grande lençol representavam os homens. Na próxima
mensagem consideraremos o conteúdo da mensagem de Pedro aos
que estavam na casa de Cornélio.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 30
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (22)

Leitura Bíblica: At 10:34-48

Nesta mensagem abordaremos três questões: a mensagem de


Pedro aos que estavam reunidos na casa de Cornélio (vs. 34-43); o
derramamento do Espírito Santo na casa de Cornélio: o batismo dos
gentios no Espírito Santo (v. 44-46); e o batismo em água da casa de
Cornélio (vs. 47-48).

A MENSAGEM DE PEDRO

O Senhor de Todos

Atos 10:34-36 diz: “Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço,


por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário,
em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é
aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel,
anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este
é o Senhor de todos”.
Primeiramente, Pedro diz que Deus não faz acepção de
pessoas, e, depois, diz que em qualquer nação, o que teme a Deus e
faz o que é justo Lhe é aceitável. Os que temem a Deus e fazem o que
é justo em qualquer nação ainda fazem parte da humanidade caída.
Deus os aceita em vista da redenção de Cristo. Sem Cristo, nenhum
homem caído é justificado pelas suas obras (Rm 3:20; Gl 2:16).
Em Atos 10:36 Pedro declara que Jesus Cristo é o Senhor de
todos. Alguns leitores de Atos talvez entendam a palavra todos nesse
versículo como todas as coisas e todas as pessoas. Contudo,
rigorosamente falando, a palavra todos aqui denota somente pessoas
e não coisas. Esse todos se refere aos homens (1Tm 2:4) não apenas
aos judeus mas também aos gentios. A palavra de Pedro aqui indica
que agora ele percebe que Deus fez Cristo Senhor tanto de judeus
como de gentios. Com Ele não há acepção de pessoas.

O Viver e o Ministério do Senhor Jesus

Em sua mensagem Pedro também falou com respeito ao viver


e o ministério do Senhor Jesus quando Ele esteve na terra. Ele disse
aos que estavam na casa de Cornélio que eles conheciam a palavra
que Deus “enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho
da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós
conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo
começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,
como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com
poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos
os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (vs. 36-38). O
vocábulo grego traduzido como palavra no versículo 37 é rhêma.
Nesses versículos Pedro mostra que o Senhor Jesus executou
milagres para resgatar e libertar os que estavam sob a opressão do
diabo.

A Ressurreição de Cristo

Nos versículos 39 a 41 Pedro fala a respeito da ressurreição de


Cristo: “E nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos
judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida,
pendurando-o no madeiro. A este ressuscitou Deus no terceiro dia e
concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às
testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a
nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os
mortos”. O vocábulo grego traduzido como manifesto no versículo
40, literalmente significa “tomar-se visível”. No versículo 40 Pedro
diz “a este ressuscitou Deus”, mas no versículo 41 diz que o Senhor
ressuscitou dos mortos. Ao considerar o Senhor como homem, o
Novo Testamento nos diz que Deus O ressuscitou dos mortos
(Rm 8:11). Mas, ao considerá-Lo como Deus, o Novo Testamento nos
diz que Ele mesmo ressurgiu dentre os mortos (Rm 14:9).
O Juiz de Vivos e de Mortos

Em Atos 10:42 Pedro prossegue dizendo: “E nos mandou


pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus
Juiz de vivos e de mortos”. Aqui vemos que Cristo foi designado Juiz
de toda a humanidade. Ele julgará tanto os vivos como os mortos. O
Cristo ressurreto, em Sua volta, será o Juiz dos vivos antes do
milênio no Seu trono de glória (Mt 25:31-46). Isso está relacionado à
Sua segunda vinda (2Tm 4:1). Ele também será o Juiz dos mortos
após o milênio no grande trono branco (Ap 20:11-15).

O Perdão dos Pecados

Em 10:43 Pedro continua: “Dele todos os profetas dão


testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê
recebe remissão de pecados”. Isso prova que, muito embora Cornélio
temesse a Deus e fizesse o que é justo, e suas orações e esmolas
fossem aceitas por Deus, ele ainda precisava que Deus perdoasse os
seus pecados por meio da fé em Cristo, o Redentor. Cornélio era um
homem devoto, mas ainda necessitava do perdão dos pecados.
Embora fosse devoto, ele não podia dizer que não tinha cometido
pecado. Assim, ele era devoto, mas ainda era pecaminoso. Portanto,
necessitava da redenção e do perdão.

O DERRAMAMENTO DO ESPÍRITO SANTO NA CASA DE


CORNÉLIO: O BATISMO DOS CRENTES GENTIOS NO
ESPÍRITO SANTO

Atos 10:44 diz: “Ainda Pedro falava estas coisas quando veio o
Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra”. Nesse versículo
ouvir inclui crer no Senhor (v. 43; Jo 5:24; Rm 10:14; Ef 1:13).

O Espírito Todo-Inclusivo

Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito veio sobre os que


estavam na casa de Cornélio. Sem dúvida, o Espírito aqui é o
Espírito todo-inclusivo. Depois que o Espírito todo-inclusivo veio
sobre a casa de Cornélio, eles começaram a falar em línguas e
engrandecer a Deus (v. 46). Aqui, engrandecer a Deus é louvá-Lo.
Quando Pedro e os que com ele estavam viram o que estava
acontecendo, eles sabiam que não se poderia proibir que os da casa
de Cornélio fossem batizados em água (v. 47).
O Espírito Santo veio sobre os que ouviam a palavra na casa de
Cornélio, exterior e economicamente. No caso da casa de Cornélio, o
fato de o Espírito Santo entrar nos crentes essencialmente para vida
e descer sobre eles economicamente para poder ocorreu
simultaneamente quando creram no Senhor. Entretanto, somente o
fato de Ele ter descido sobre eles economicamente é mencionado no
versículo 44, pois foi exterior e podia ser percebido pelos outros
quando os viram falar em línguas e engrandecer a Deus, enquanto a
Sua entrada neles foi silenciosa e invisível. Eles receberam os dois
aspectos do Espírito Santo diretamente de Cristo, a Cabeça do
Corpo, sem qualquer canal mediador, antes que fossem batizados na
água pelos outros membros do Corpo de Cristo. Isso indica
categoricamente que a difusão do evangelho do reino de Deus para
os gentios era do Senhor, e a Cabeça do Corpo batizou os crentes
gentios no Seu Corpo diretamente, sem a imposição de mãos de
nenhum membro do Seu Corpo, em contraste com os casos dos
crentes samaritanos e de Saulo de Tarso (8:17; 9:17).

O Dom do Espírito Santo

Atos 10:45 diz: “E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram


com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi
derramado o dom do Espírito Santo”. Aqui o dom do Espírito Santo
se refere ao próprio Espírito Santo, e não a algo do Espírito Santo
dado aos crentes como dom. Eles não receberam nenhum dom
distribuído pelo Espírito Santo, como é mencionado em Romanos
12:6; 1 Coríntios 12:4; e 1 Pedro 4:10. Mas receberam o dom que é o
próprio Espírito Santo, dado por Deus aos crentes em Cristo como o
dom singular que produz todos os dons mencionados em Romanos
12, 1 Coríntios 12 e 1 Pedro 4.
Atos 10:45 fala do derramamento do dom do Espírito Santo.
Esse dom foi derramado por Deus da parte do Cristo todo-inclusivo,
ressurreto e ascendido. O derramamento do Espírito depois da
ascensão de Cristo era a descida do Cristo ressurreto e ascendido
como o Espírito todo-inclusivo para levar a cabo o Seu ministério
celestial na terra, para edificar a Sua igreja (Mt 16:18) como Seu
Corpo (Ef 1:23) com vistas à economia neotestamentária de Deus.

Falaram em Línguas e Engrandeceram a Deus

Atos 10:46 continua: “Pois os ouviam falando em línguas e


engrandecendo a Deus”. Falar em línguas não era o único resultado
de receber o Espírito Santo economicamente, pois nesse caso
engrandecer, isto é, louvar, a Deus também era um dos resultados,
como foi o profetizar no caso dos doze crentes em Éfeso (19:6).
Desse modo, falar em línguas não é a única evidência de receber o
Espírito Santo economicamente; nem é a evidência necessária, pois
há pelo menos um caso de receber o Espírito Santo
economicamente, o dos crentes samaritanos (8:15-17), que não
menciona o falar em línguas. No caso de Saulo de Tarso (9:17) sobre
essa questão, também não há menção de falar em línguas, embora
ele nos diga mais tarde, em 1 Coríntios 14:18, que tenha falado.

O Batismo no Espírito Santo

Os crentes gentios na casa de Camélia receberam o Espírito


Santo economicamente, assim como os primeiros apóstolos e os
crentes judeus no dia de Pentecostes (2:4), diretamente da Cabeça
ascendida. Somente esses dois casos são considerados na Bíblia
como batismo no Espírito Santo (1:5; 11:15-16). Por meio desses dois
passos a Cabeça do Corpo batizou todos os Seus crentes de uma vez
por todas, tanto judeus como gentios, em Seu único Corpo
(1Co 12:13). Portanto, o batismo no Espírito foi um fato consumado,
levado a cabo por Cristo em Sua ascensão tanto no dia de
Pentecostes como na casa de Camélia. Todos os outros casos (os
crentes samaritanos no capítulo oito, Saulo de Tarso no capítulo
nove e os doze crentes efésios no capítulo dezenove) não são
considerados o batismo no Espírito Santo segundo a revelação do
Novo Testamento. Esses casos foram apenas as experiências dos
crentes do batismo no Espírito Santo realizado uma vez por todas.
Em Atos, com relação aos crentes receberem o Espírito Santo
economicamente, isto é, o Espírito Santo descendo sobre eles,
somente cinco casos são mencionados. Dois deles são para a
realização do batismo no Espírito Santo. São essas as ocorrências do
dia de Pentecostes e da casa de Camélia. As outras três (dos crentes
samaritanos, de Saulo de Tarso e dos doze crentes em Éfeso) são
consideradas extraordinárias, em que foi preciso que alguns
membros do Corpo de Cristo os identificassem com o Corpo pela
imposição de mãos. Além desses cinco casos, nos muitos casos de
conversão, como o dos três mil (2:41), dos cinco mil (4:4), do eunuco
etíope (8:36, 38-39a), dos muitos que creram em Antioquia (11:20-
21, 24), das muitas ocorrências nos capítulos 13 e 14 sob o ministério
de pregação de Paulo, de Lídia em Filipos (16:14-15), do carcereiro
em Filipos (16:33), dos crentes em Tessalônica (17:4), dos crentes
em Beréia (17:10-12), dos crentes em Atenas (17:34), do chefe da
sinagoga e de muitos outros crentes em Corinto (18:8) e dos crentes
em Éfeso (19:18-19), não há menção de que tenham recebido o
Espírito Santo economicamente (a descida do Espírito Santo sobre
eles) pois, em todos eles, os crentes foram introduzidos no Corpo de
Cristo de modo normal ao crer, e não houve necessidade especial de
que um membro do Corpo os introduzisse na identificação com o
Corpo pela imposição de mãos. De acordo com o princípio da
economia neotestamentária de Deus, todos devem ter recebido o
Espírito Santo essencialmente para vida e economicamente para
poder, de modo normal crendo em Cristo.

O BATISMO EM ÁGUA DA CASA DE CORNÉLIO

No versículo 47 Pedro respondeu: “Porventura, pode alguém


recusar a água, para. que não sejam batizados estes que, assim como
nós, receberam o Espírito Santo?” Então, no versículo seguinte,
Pedro ordenou que os que estavam na casa de Cornélio “fossem
batizados em nome de Jesus Cristo”. Isso indica que devemos dar
atenção ao batismo em água, que representa a identificação dos
crentes com a morte e a ressurreição de Cristo (Rm 6:3-5; Cl 2:12),
bem como ao batismo no Espírito. O batismo no Espírito representa
a realidade da união do crente em vida, essencialmente, e em poder,
economicamente, enquanto o batismo em água é a afirmação dos
crentes acerca da realidade do Espírito. Ambos são necessários, e um
não substitui o outro. Todos os crentes em Cristo devem ter os dois
adequadamente. Cornélio e a sua casa foram batizados no nome de
Jesus Cristo. Ser batizado no nome de Jesus Cristo é ser batizado na
esfera do nome de Jesus Cristo, na qual está a realidade do batismo.
O nome no versículo 48 denota a pessoa. Ser batizado no nome
de Jesus Cristo é ser batizado na Pessoa de Cristo (Rm 6:3; Gl 3:27)
para ter uma união orgânica com Ele por meio da fé.

A CABEÇA BATIZOU O CORPO NO ESPÍRITO SANTO UMA


VEZ POR TODAS

Nesta mensagem abordamos várias questões, mas a principal


coisa que precisamos ver é a Cabeça do Corpo completando o
batismo do Seu Corpo no Espírito todo-inclusivo, que é, na verdade,
Ele mesmo. Mostramos que no dia de Pentecostes, Cristo, a Cabeça
do Corpo, batizou os crentes judeus no Espírito. Esse foi o primeiro
passo, a primeira ocorrência de Cristo batizando o Corpo no
Espírito. Depois, na casa de Cornélio, Ele, como a Cabeça do Corpo,
batizou todos os crentes gentios no Espírito. Esse foi o segundo
passo, a segunda ocorrência. Por meio desses dois passos, desses
dois casos, Cristo, a Cabeça do Corpo, batizou todo o Seu Corpo no
Espírito.
Por mais de cinquenta anos estudamos o batismo no Espírito
Santo. Em 1933 o irmão Nee e eu tivemos uma conversa exaustiva a
esse respeito. Vimos, então, que dos cinco casos do Espírito Santo
caindo sobre os santos no livro de Atos, apenas dois são chamados
de batismo do Espírito. Como vimos, o primeiro é o caso dos crentes
judeus no dia de Pentecostes, e o segundo é o dos crentes gentios na
casa de Camélia. Esses dois casos foram as duas ocorrências do
cumprimento do batismo no Espírito Santo. Os três outros casos do
Espírito Santo vindo sobre os crentes (o caso dos crentes
samaritanos, o caso de Saulo de Tarso e o caso dos crentes em Éfeso)
não são chamados de batismo no Espírito Santo. Ademais, na grande
maioria dos casos de conversão registrados em Atos, não há menção
do Espírito Santo caindo sobre os crentes economicamente. Que
todos vejamos que em Atos, apenas dois casos são chamados de
batismo no Espírito Santo e, por meio deles, Cristo, como a Cabeça
do Corpo, realizou o batismo do Seu Corpo no Espírito Santo uma
vez por todas.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 31
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA Ê SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (23)

Leitura Bíblica: At 1:5, 8; 2:1-4; 10:44-48; 11:15-16

Nesta mensagem consideraremos uma questão que nos


ajudará a entender a economia de Deus no registro do Novo
Testamento. Veremos que na economia de Deus, certas coisas, em
especial o batismo no Espírito Santo, foram realizadas uma vez por
todas.

SEIS QUESTÕES ETERNAS

Para levar a cabo os passos exigidos pela justiça, santidade e


glória de Deus, o Deus Triúno passou pela encarnação, crucificação,
ressurreição e ascensão. Além dessas quatro questões, temos o
insuflar do Espírito Santo nos discípulos (Jo 20:22) e o
derramamento do Espírito sobre eles.

O Cordeiro Morto Desde a Fundação do Mundo

A encarnação, crucificação, ressurreição do Senhor, o insuflar


do Espírito nos discípulos, a ascensão e o derramamento do Espírito
sobre os discípulos são todos eternos. Não são questões temporais;
isto é, não são limitadas pelo elemento tempo. Considere a
crucificação, por exemplo. De acordo com o nosso entendimento,
Cristo foi crucificado mil e novecentos anos atrás. Mas Apocalipse
13:8 fala do “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.
Isso indica que, aos olhos de Deus, Cristo foi morto desde a
fundação do mundo, desde o tempo em que o mundo criado veio à
existência. Cristo foi crucificado desde o início da existência do
mundo material, porque a Sua redenção deve cobrir todo o universo
criado. A esse respeito, Hebreus 9:12 indica que Cristo realizou uma
redenção eterna. A Sua redenção não é temporal; é eterna.
Suponha que usemos um círculo para representar a
eternidade, e então, em algum lugar do círculo coloquemos uma
cruz, representando a crucificação de Cristo. Onde, no círculo, em
relação à cruz, você colocaria os santos do Antigo Testamento como
Abraão e Moisés, e onde colocaria os crentes em Cristo através dos
séculos? Seria difícil dizer, de acordo com esse diagrama, quem está
antes da cruz e quem está depois. O que queremos enfatizar aqui é
que a crucificação é eterna e abrange todo o intervalo em que ela se
fez necessária, isto é, a partir da existência do universo, desde a
fundação do mundo. Desde que as coisas criadas vieram a existir
tem havido a necessidade da morte de Cristo. Assim, aos olhos de
Deus, tal morte ocorreu desde a fundação do mundo. Essa é a razão
de Apocalipse 13:8 dizer. que o Cordeiro foi morto desde a fundação
do mundo.
Quanto a isso precisamos ser muito cuidadosos e exatos ao ler
as Escrituras. Embora Cristo tenha sido morto desde a fundação do
mundo, Ele foi conhecido de antemão por Deus antes da fundação
do mundo. Quanto a isso 1 Pedro 1:20 diz: “Conhecido, com efeito,
antes da fundação do mundo”. Cristo foi ordenado de antemão,
preparado, por Deus para ser o Cordeiro redentor para Seus
escolhidos, de acordo com a Sua presciência, antes da fundação do
mundo. Isso significa que Cristo foi conhecido de antemão e
preparado na eternidade. Mas a Sua morte foi realizada desde a
fundação do mundo; isto é, foi realizada no tempo. Embora tenha
sido realizada no tempo, a redenção de Cristo é eterna. Visto que o
que Cristo realizou mediante a Sua morte é eterno, isso é chamado
em Hebreus 9:12 de redenção eterna.
Antes da crucificação houve a encarnação e depois a
ressurreição, o insuflar do Espírito nos discípulos, a ascensão e o
derramamento do Espírito. Tudo isso foi realizado no tempo, mas
sem o elemento tempo. Assim, são itens eternos (ver os dois
diagramas anexos).
Como a crucificação de Cristo é eterna, Paulo podia dizer:
“Estou crucificado com Cristo” (Gl 2:19). Juntamente com Paulo,
podemos declarar que nós também fomos crucificados com Cristo.
Isso quer dizer que fomos crucificados muito antes de termos
nascido. Quando é que fomos crucificados? Foi desde a fundação do
mundo. Assim, fomos crucificados com Cristo antes de termos
nascido.
Uma vez que Cristo foi crucificado desde a fundação do
mundo, não há a necessidade de o pecador arrependido pedir-Lhe
que morra por ele. Se fosse necessário, então o Senhor teria de
morrer continuamente. Contudo, Ele foi crucificado e morreu uma
vez por todas.

O Insuflar e o Batismo no Espírito Santo

O princípio é o mesmo em relação à encarnação, ressurreição,


ascensão de Cristo, ao insuflar do Espírito nos discípulos e ao
derramamento do Espírito sobre eles. Não significa que, cada vez
que uma pessoa crê no Senhor Jesus, seja necessário que Ele insufle
o Espírito nela, ou O derrame sobre ela. Pelo contrário, o Senhor
insuflou o Espírito nos crentes uma vez por todas em João 20. No
mesmo princípio, Cristo, a Cabeça do Corpo, batizou todos os Seus
crentes, cada membro do Corpo, no Espírito, uma vez por todas, em
dois passos. O primeiro foi no dia de Pentecostes, quando os crentes
judeus foram batizados no Espírito Santo; o segundo foi na casa de
Cornélio, quando os crentes gentios foram batizados no Espírito
Santo.
Suponha que estejamos prestes a batizar um novo convertido.
Ao fazê-lo precisamos perceber que o insuflar do Espírito essencial e
o derramamento do Espírito econômico aconteceram uma vez por
todas. Assim, não devemos dizer ao recém-convertido: “Agora que
você creu no Senhor Jesus, já recebeu o Espírito essencial. Depois de
um tempo o Espírito econômico virá sobre você”. Não devemos
entender o Espírito essencial e o Espírito econômico dessa maneira.

Realização e Aplicação

Preparar um sanduíche e comê-lo podem ser usados para


ilustrar como a encarnação, a crucificação, a ressurreição, o soprar
do Espírito essencial, a ascensão e o derramamento do Espírito
econômico se aplicam a nós hoje. Ao preparar um sanduíche
tomamos duas fatias de pão, aplicamos maionese e colocamos
presunto, queijo, tomate e alface. Ao preparar esse sanduíche vamos
passo a passo. Mas ao comê-lo, não tomamos primeiro o pão, depois
o presunto, e depois os outros elementos do sanduíche. Em vez
disso, tomamos todos os ingredientes do sanduíche de uma vez. Da
mesma forma, as seis questões: a encarnação, crucificação,
ressurreição de Cristo, o soprar do Espírito, a ascensão e o
derramamento do Espírito nos são aplicados ao mesmo tempo. Eles
foram realizados passo a passo, mas são aplicados a nós
simultaneamente. Usando a ilustração do sanduíche, podemos dizer
que a encarnação é o pão, a crucificação é o presunto e a
ressurreição, o soprar do Espírito, a ascensão e o derramamento do
Espírito são ainda outros ingredientes. Quando vamos comer esse
“sanduíche” todo-inclusivo, não “tomamos” primeiramente o “pão”
da encarnação e então o “presunto” da crucificação. Mas tomamos
todo o sanduíche de uma vez. Não consideramos qual item vem
primeiro e qual vem por último.
Temos dado muitas mensagens com o intuito de mostrar o que
o Deus Triúno realizou. O Deus Triúno no Filho se tornou carne.
Essa foi a encarnação. Ela foi realizada uma vez por todas; e não há
necessidade de ser repetida. Da mesma forma, Ele foi crucificado e
morreu uma vez por todas. Ademais, foi ressuscitado, insuflou-Se
como o Espírito que dá vida nos discípulos, ascendeu e Se derramou
como Espírito todo-inclusivo uma vez por todas. Cristo realizou
todas essas coisas, e o fez uma vez por todas. Agora todas elas estão
incluídas no nome do Senhor Jesus. Assim, quando o invocamos,
nós as recebemos.

Ver a Revelação Divina no Novo Testamento

Não há necessidade de analisar o que recebemos quando


invocamos o nome do Senhor Jesus. Não devemos perguntar: “Será
que recebi o Espírito essencial? E o Espírito econômico, veio sobre
mim? Talvez eu tenha o Espírito essencial, mas será que tenho o
Espírito econômico? Talvez o Espírito econômico me deixe, embora
o Espírito essencial permaneça. Se o Espírito econômico sair,
quando é que voltará?” Não é uma prática saudável analisar essas
questões assim.
Em vez de entrar em análises desnecessárias, precisamos ver a
revelação divina no Novo Testamento. A Bíblia apresenta a
encarnação, crucificação, ressurreição, o insuflar do Espírito
essencial, a ascensão e o derramamento do Espírito econômico como
fatos consumados. No Antigo Testamento havia tipos, figuras e
sombras, mas não fatos consumados. Porém, de acordo com o Novo
Testamento, em menos de trinta e quatro anos, seis questões eternas
foram realizadas. Conforme já enfatizamos categoricamente, as seis
questões eternas e já realizadas são: a encarnação, a crucificação, a
ressurreição, o insuflar do Espírito que dá vida, a ascensão e o
derramamento do Espírito todo-inclusivo. Como todos esses fatos já
foram realizados, sempre que um pecador se arrepende, crê no
Senhor e é batizado em água, a qual representa o Deus Triúno,
Cristo e a morte de Cristo, ele recebe tudo. Isso significa que
participa dos seis fatos. Se um recém-convertido perceber isso, ficará
cheio de louvor ao Senhor.
Talvez os crentes analisem a sua experiência do Espírito Santo
por causa da influência dos antecedentes religiosos ou ensinamentos
peculiares, comuns hoje entre alguns cristãos. Não devemos analisar
a nossa experiência dessa forma nem seguir os ensinamentos
incorretos com respeito ao batismo no Espírito Santo. Em vez de
analisar a nossa experiência, devemos louvar o Senhor por tudo o
que recebemos.
Suponha que alguém lhe pergunte se você recebeu o Espírito
Santo. Essa questão, na verdade, se aplica aos casos extraordinários,
como o dos doze crentes no capítulo dezenove de Atos. Os dois
outros casos extraordinários em Atos são o dos crentes samaritanos
e o de Saulo de Tarso. Hoje, contudo, não há casos extraordinários.
Portanto, se lhe perguntarem se você recebeu o Espírito Santo, você
deve responder ousadamente: “Sim, certamente O recebi!” Ao dar
essa resposta, precisamos perceber que, na verdade, nós O
recebemos há mais de mil e novecentos anos, e agora, dia a dia, nós
O desfrutamos pela fé.

Uma Figura de Fatos Consumados

O Novo Testamento apresenta uma figura de fatos


consumados. Esses fatos agora são legados no testamento. Nesse
testamento, a encarnação, a crucificação, a ressurreição, o soprar do
Espírito em nós, a ascensão e o derramamento do Espírito sobre nós
foram todos legados a nós como herança. Naturalmente o próprio
Cristo e o Deus Triúno estão incluídos nessa herança. Hoje nós a
recebemos. Assim, devemos simplesmente tomá-los pela fé e
desfrutá-los. Sempre que sentirmos a necessidade do aspecto
essencial ou econômico do Espírito devemos dizer: “Amém! No
testamento tenho o Espírito essencial e o Espírito econômico
também. Tudo o que necessito me foi dado como herança”.

O REGISTRO DE LUCAS A RESPEITO DO BATISMO NO


ESPÍRITO SANTO

O registro de Lucas no livro de Atos, a respeito do batismo no


Espírito Santo é claro e completo. Esse registro, naturalmente, é
encontrado em vários lugares nos seus vinte e oito capítulos. Por
causa disso, precisamos estudá-lo cuidadosamente com respeito ao
batismo no Espírito Santo.
Embora em Atos haja muitos casos de conversões, apenas dois
são chamados de batismo no Espírito Santo. Como vimos, o
primeiro caso é o dos crentes judeus no dia de Pentecostes; o
segundo é o da casa de Cornélio. Eles foram usados pela Cabeça nos
céus para levar a cabo o batismo do Seu Corpo no Espírito Santo.

Realizado em Duas Seções

Com respeito ao batismo no Espírito Santo, o Senhor Jesus


disse em 1:5: “Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós
sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois desses
dias”. Isso foi realizado em duas seções. Primeiro todos os crentes
judeus foram batizados no Espírito Santo no dia de Pentecostes.
Depois, todos os crentes gentios foram batizados na casa de Cornélio
(10:44-47; 11:15-17). Nessas duas seções todos os crentes autênticos
em Cristo foram batizados no Espírito Santo em um só Corpo uma
vez por todas universalmente (1Co 12:13). Portanto, o que aconteceu
no dia de Pentecostes e na casa de Cornélio foi o cumprimento de
Atos 1:5.
A palavra de Pedro em Atos 11 prova que o que aconteceu na
casa de Cornélio foi o segundo passo de Cristo para batizar o Seu
Corpo no Espírito Santo uma vez por todas. Pedro disse: “Quando,
porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como
também sobre nós, no princípio. Então, me lembrei da palavra do
Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós
sereis batizados com o Espírito Santo” (vs. 15-16). Assim, o registro
em Atos categoricamente indica que apenas esses dois casos são
considerados batismo no Espírito Santo. Neles a própria Cabeça fez
algo diretamente sobre o Corpo. Não houve intermediário entre a
Cabeça e o Corpo.

Três Casos Extraordinários


Os Crentes Samaritanos

Ao ler todo o livro de Atos, vemos que Lucas descreve três


casos extraordinários com respeito a receber o Espírito Santo
economicamente. O primeiro diz respeito aos crentes samaritanos.
Aos olhos dos crentes judeus, os crentes samaritanos eram
estranhos. Devido a seus antecedentes, os crentes judeus tinham
dificuldades de aceitá-los. Assim, nesse caso extraordinário, a
Cabeça fez algo para indicar e confirmar que Ele tinha aceitado os
crentes samaritanos como membros do Corpo. Assim, em vez de
fazer algo diretamente com respeito ao Espírito econômico, Cristo, a
Cabeça, reteve o Espírito econômico até que dois apóstolos, Pedro e
João, fossem de Jerusalém a Samaria, a fim de impor as mãos sobre
os crentes samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo (8:14-
17). Somente então o Espírito econômico veio sobre eles, e isso foi
uma evidência categórica de que os crentes samaritanos foram
aceitos como membros do Corpo. Nesse caso extraordinário houve a
necessidade da imposição de mãos de um membro do Corpo de
Cristo.

Saulo de Tarso

O segundo caso extraordinário foi o de Saulo de Tarso, líder


dos perseguidores dos que seguiam Jesus. Já consideramos esse
caso mais detalhadamente. Vamos dizer novamente que como Saulo
era tal perseguidor e foi salvo diretamente pelo Senhor e não por
meio da pregação de algum crente, ninguém iria acreditar que ele se
tornara membro do Corpo de Cristo. Assim, havia a necessidade de
que outro membro do Corpo impusesse as suas mãos sobre ele, a fim
de que o Espírito econômico pudesse vir sobre ele. O caso
extraordinário de Saulo exigia a imposição de mãos de um membro
representando o Corpo.

Os Crentes em Éfeso

O último dos três casos extraordinários registrados em Atos é o


dos crentes de Éfeso (19:1-7). Com respeito a eles havia a
necessidade de corrigir a deficiência do ministério de Apolo. O seu
ministério carecia de revelação completa da economia
neotestamentária de Deus. Como só tinham ouvido a pregação
inadequada de Apolo e conheciam apenas o batismo de João, eles
também necessitavam da imposição de mãos de um membro do
Corpo a fim de receber o Espírito econômico. Esses três casos
extraordinários registrados em Atos revelam a necessidade especial
de imposição de mãos por um membro do Corpo.

Casos Comuns do Recebimento do Espírito Santo

Vimos cinco casos de conversão: no dia de Pentecostes, os


samaritanos, Saulo de Tarso, a casa de Cornélio e os crentes em
Éfeso. Além deles há muitos outros casos de conversão em Atos. Em
nenhum deles há a menção da imposição de mãos para receber o
Espírito econômico. A razão disso é que todos eles são casos
comuns. Contudo, alguns ensinamentos pentecostais de hoje tentam
fazer de todos eles um caso extraordinário. Mas, diferentemente dos
samaritanos, de Saulo de Tarso e dos crentes em Éfeso, nós não
somos casos extraordinários que exigem a imposição de mãos. Pelo
contrário, de maneira normal e pela fé, participamos do batismo no
Espírito Santo, realizado pela Cabeça sobre o Corpo uma vez por
todas.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 32
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (24)

Leitura Bíblica: At 11:1-18

Nesta mensagem chegamos a 11:1-18. Primeiro


consideraremos certas questões abrangidas nesses versículos. Então,
daremos especial atenção à necessidade de transferência
dispensacional.

O RECONHECIMENTO POR PARTE DOS APÓSTOLOS E


DOS IRMÃOS DA JUDÉIA

Os que Eram da Circuncisão

Atos 11:1-2 diz: “Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos


irmãos que estavam na Judéia que também os gentios haviam
recebido a palavra de Deus. Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que
eram da circuncisão o arguiram”. A circuncisão era uma ordenança
exterior herdada pelos judeus dos seus antepassados, a começar com
Abraão (Gn 17:9-14), que os tornou distintos e separados dos
gentios. Tornou-se uma formalidade tradicional morta, uma mera
marca na carne sem nenhum significado espiritual, e foi um grande
obstáculo para a expansão do evangelho de Deus segundo a Sua
economia neotestamentária (At 15:1; Gl 2:3-4; 6:12-13; Fp 3:2).

A Explicação de Pedro

No versículo 3 os que eram da circuncisão disseram a Pedro:


“Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles”. A
partir do versículo 4 Pedro explicou-lhes sequencialmente o que
havia ocorrido. No versículo 12 ele diz: “Então, o Espírito me disse
que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis
irmãos; e entramos na casa daquele homem”. Os seis irmãos
estavam presentes como testemunhas das palavras de Pedro
enquanto ele falava.
Nos versículos 15 a 17 Pedro prosseguiu explicando que o
Espírito Santo caiu sobre os da casa de Cornélio e Pedro lembrou-se
“da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com
água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (v. 16). Então,
no versículo 17 Pedro concluiu: “Pois, se Deus lhes concedeu o
mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor
Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?”

Arrependimento para Vida

Atos 11:18 diz: “E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e


glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus
concedido o arrependimento para vida”. Nesse versículo a palavra
vida é zoé em grego, referindo-se à vida eterna (1Jo 1:2), a vida de
Deus (Ef 4:18), a vida incriada e indestrutível (Hb 7:16), que é o
próprio Cristo (Jo 14:6; 11:25; Cl 3:4), a própria corporificação do
Deus Triúno (C12:9), como o Espírito que dá vida (1Co 15:45) de cuja
vida o Espírito é (Rm 8:2), recebida pelos crentes por meio da fé em
Cristo (Jo 3:15-16) depois que se arrependem para a plena salvação
(Rm 5:10). O evangelho pregado por Pedro compreende as bênçãos
divinas não somente de perdão (5:31; 10:43) e salvação (2:21; 4:12)
mas também do Espírito (2:38) e vida. O perdão lida com os pecados
das pessoas, e vida, lida com a morte delas (Jo 5:24; 1Jo 3:14;
2Co 5:4).

A NECESSIDADE DE TRANSFERÊNCIA
DISPENSACIONAL

A Transferência da Economia do Antigo Testamento para a


Economia do Novo Testamento

O livro de Atos é muito “dispensacional”. O termo


dispensacional é, naturalmente, o adjetivo derivado do substantivo
dispensação. A razão pela qual o livro de Atos é “dispensacional” é
que ele descreve uma grande transferência realizada num período de
transição: a transferência da economia do Antigo Testamento para a
do Novo Testamento.
Economia é a forma aportuguesada da palavra grega
oikonomía, que significa dispensação. Assim, economia e
dispensação são sinônimos, sendo que dispensação é o equivalente
em português da palavra grega oikonomía.
No Novo Testamento a palavra oikonomía denota um arranjo.
Deus tem um arranjo, um governo doméstico, uma administração
familiar. O governo doméstico de Deus ou o Seu arranjo familiar é o
que chamamos de economia. A transferência no livro de Atos é do
arranjo de Deus do Antigo Testamento para o Seu arranjo do Novo
Testamento.

Uma Transferência da Sombra para a Realidade

O arranjo de Deus do Antigo Testamento era totalmente uma


questão de tipos, figuras, sombras e profecias. Em outras palavras, o
arranjo de Deus do Antigo Testamento não era a realidade, mas uma
sombra, aguardando o cumprimento.
Quando o Deus Triúno se tornou homem pela encarnação,
iniciou-se a transferência da sombra para a realidade. Tudo na
antiga dispensação, ou arranjo, de Deus era uma sombra. Mas no
arranjo de Deus do Novo Testamento temos a realidade. A
transferência da sombra para a realidade iniciou-se com a
encarnação de Deus, isto é, com a concepção de Jesus, e foi
completada no dia de Pentecostes com o derramamento do Espírito
econômico.

Problemas com respeito à Experiência da Transferência

Uma vez que essa transferência dispensacional foi plenamente


cumprida com o derramamento do Espírito no dia de Pentecostes,
todas as sombras deveriam ter cessado. Mas os que Deus escolheu e
usou tinham sido criados na dispensação do Antigo Testamento e o
arranjo de Deus do Antigo Testamento os havia saturado e até
mesmo fazia parte da constituição deles. Como resultado, era-lhes
muito difícil desistir dessas coisas de forma absoluta.
Tomemos o caso de Pedro como ilustração. O Senhor o
escolheu e usou para levar a cabo a Sua economia neotestamentária
depois que Ele mesmo havia realizado a transferência. Mas as coisas
da antiga dispensação haviam saturado Pedro e faziam parte da
constituição dele. Por essa razão, quando ele teve a visão do grande
lençol no qual havia quadrúpedes, répteis e aves, e quando a voz lhe
disse que se levantasse, matasse e comesse, ele disse: “De modo
nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e
imunda” (10:14). Sabendo como seria a situação, o Senhor enviou
um anjo a Cornélio para dizer algo a respeito de Pedro. Além disso,
“enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito:
Estão aí dois homens que te procuram; levanta-te, pois, desce e vai
com eles, nada duvidando; porque eu os enviei” (10:19-20). Pedro
amava o Senhor e por fim foi à casa de Cornélio. Mas para ele isso foi
algo muito difícil.
De acordo com o relato em Gálatas 2, Pedro mais tarde teve
mais problemas com a transferência dispensacional. Paulo nos diz
que antes de virem alguns da parte de Tiago, Pedro “comia com os
gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a
apartar-se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus
dissimularam com ele” (Gl 2:12-13a). Aqui vemos que mesmo depois
da situação registrada nos capítulos dez e onze de Atos, Pedro ainda
praticava a hipocrisia em não ousar comer abertamente com os
crentes gentios na presença dos irmãos vindos da parte de Tiago em
Jerusalém. Disso podemos ver que para Pedro era muito difícil
experimentar plenamente a transferência dispensacional.

Uma Palavra Relacionada com a Transferência


Dispensacional

Já comentamos que Atos é um livro “dispensacional”. Um


versículo relacionado com esse aspecto em Atos é 1:8, em que o
Senhor diz aos discípulos: “Mas recebereis poder, ao descer sobre
vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da
terra”. Antes que Ele falasse essas palavras, os discípulos Lhe
haviam perguntado: “Senhor, será este o tempo em que restaures o
reino de Israel?” (1:6). Ele respondeu: “Não vos compete conhecer
tempos ou épocas que o Pai reservou pela Sua exclusiva autoridade”
(v. 7). Então, Ele prosseguiu dizendo que eles iriam receber poder
quando o Espírito Santo descesse sobre eles e seriam Suas
testemunhas até aos confins da terra. Em 1:8 Ele disse aos discípulos
que os usaria como Suas testemunhas, não apenas entre os judeus
em Jerusalém e em toda a Judéia, mas também entre os que
estavam em Samaria e mesmo entre os gentios até os confins da
terra. Embora tivessem ouvido essas palavras, os discípulos não se
deram conta do que o Senhor dizia. Nessas palavras simples Ele
estava indicando que os discípulos precisariam romper com a
dispensação do Antigo Testamento. Por meio da experiência dos
discípulos, podemos ver que ouvir é uma coisa, mas perceber e
experimentar o que ouvimos é outra. Pedro, por exemplo, ouviu o
que o Senhor disse em 1:8, entretanto tinha dificuldades em deixar o
Senhor cumprir essas palavras.
Em 1:8 o Senhor disse que os discípulos seriam as Suas
testemunhas em Samaria. Isso foi cumprido por meio da pregação
de Filipe, o evangelista. No capítulo oito vemos que Filipe
evangelizou Samaria e introduziu um bom número de samaritanos
no Corpo de Cristo. Depois disso, o Senhor queria ir mais adiante.
Ele tinha ido de Jerusalém e Judéia até Samaria. Agora queria ir de
Samaria para o mundo gentio. Primeiramente Pedro não concordou
em dar esse passo, mas por fim aceitou a palavra do Senhor a
respeito dos gentios e foi com seis outros irmãos à casa de Cornélio.

A Cautela de Pedro

De acordo com 10:23, quando Pedro foi à casa de Cornélio em


Cesaréia, “alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua
companhia”. Em 11:12 Pedro ressalta que seis irmãos foram com ele.
Já comentamos anteriormente que nesse caso Pedro não agiu
individualmente, mas com alguns dos irmãos, no princípio do Corpo
de Cristo, a fim de que pudessem testemunhar o que Deus faria com
os gentios mediante a pregação do evangelho quebrando a tradição e
hábito judaicos. Contudo, Pedro talvez não estivesse tão
familiarizado com o princípio do Corpo. Talvez ele estivesse aqui
agindo com cautela e procurando proteger-se das críticas dos da
circuncisão. Não há nenhum relato dizendo que o Senhor tivesse
dito a Pedro que levasse consigo os seis irmãos. Também não nos é
dito que Cornélio os convidou para ir junto com Pedro. Esses seis
não foram nem enviados pelo Senhor nem convidados por Cornélio;
antes; foram levados por Pedro como proteção. Podemos dizer que
Pedro manteve o princípio do Corpo. Contudo, se pudéssemos
perguntar-lhe sobre essa questão, talvez ele dissesse: “Vocês me dão
crédito demais ao dizer que agi de acordo com o princípio do Corpo.
O que fiz ao levar comigo os seis irmãos, foi proteger-me. Eu temia
que os irmãos judeus em Jerusalém me condenariam. Assim, por
precaução, tomei seis irmãos comigo quando fui para Cesaréia”.
Pedro não apenas levou consigo esses seis irmãos de Jope até
Cesaréia, mas também os levou consigo para Jerusalém. Ele sabia
que teria problemas em Jerusalém e seria criticado pelo que havia
feito em Cesaréia. Ele percebeu que necessitaria de testemunhas. Ele
era uma testemunha de Jesus Cristo, e os seis irmãos que trouxe a
Jerusalém eram as suas testemunhas.
Quando Pedro subiu a Jerusalém, “os que eram da circuncisão
o arguiram, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e
comeste com eles” (11:2-3). Os santos em Jerusalém ouviram o que
havia acontecido em Cesaréia, sobre o que Pedro tinha feito na casa
de Cornélio. Os que eram da circuncisão perguntaram a Pedro a
respeito disso.
Eles pareciam estar lhe dizendo: “Pedro, que você fez? Você
tomou a dianteira em se associar com os incircuncisos e em comer
com eles! Que é isso?”

A Apresentação de Pedro

De acordo com o versículo 4, Pedro começou a explicar


sequencialmente o que ocorrera na casa de Cornélio. Quando li o
relato em 11:1-18 há muitos anos, achei que ele era bastante
espiritual na maneira como explicou a questão aos que eram da
circuncisão. Contudo, mais tarde passei a ver que ele talvez tivesse
sido um pouco covarde, meio temeroso em relação aos que eram da
circuncisão. De qualquer maneira, ele explicou as coisas de maneira
muito boa.
Pedro concluiu a sua apresentação com as seguintes palavras:
“Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles,
como também sobre nós, no princípio. Então, me lembrei da palavra
do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas
vós sereis batizados com o Espírito Santo. Pois, se Deus lhes
concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no
Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?”
(vs. 15-17). A apresentação de Pedro é excelente e podemos aprender
dele.

Uma Indicação de Surpresa e Má Vontade

Atos 11:18 diz: “E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e


glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus
concedido o arrependimento para vida”. Nesse versículo o vocábulo
logo não é positivo, pois não indica boa vontade. Os que eram da
circuncisão estavam surpresos que Deus houvesse concedido aos
gentios o arrependimento para vida. A surpresa e má vontade deles
em aceitar esse fato são indicadas pela palavra logo.
Na verdade os que eram da circuncisão não deveriam estar
surpresos por Deus ter concedido o arrependimento para vida aos
gentios. Em 1:8 o Senhor Jesus já havia dito aos discípulos que eles
seriam as Suas testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até
mesmo nos confins da terra, incluindo todos os gentios. Esse foi o
mandamento do Senhor, mas, os discípulos não o perceberam nem o
aceitaram. Depois de ter sido dado um enfático testemunho com
respeito ao mover do Senhor entre os gentios, os que eram da
circuncisão só conseguiram dizer: “Logo, também aos gentios foi por
Deus concedido o arrependimento para vida”.

Uma Virada da Antiga Dispensação para a Nova

Devemos ficar impressionados com o fato de Atos ser um livro


“dispensacional”. A questão da mudança de dispensação é um dos
pontos fortes em Atos. Falar de mudança de dispensação significa
que nesse livro vemos a necessidade de grande transferência, ou
grande virada. Essa transferência, ou virada, é da antiga dispensação
para a nova.

A Transferência Fracassa

No livro de Atos os, crentes primitivos, incluindo os apóstolos,


estavam num período de transição. Já mostramos que nem mesmo
os apóstolos tinham visão clara com respeito a Deus abandonar as
coisas judaicas. Pedro e os outros apóstolos, portanto, não passaram
por esse período de transição com sucesso. Na verdade tiveram um
grande fracasso. Isso levou a uma mistura da igreja com o judaísmo,
a qual não era condenada pela igreja primitiva em Jerusalém. Isso
fez com que Deus usasse Tito com o exército romano no ano 70 cf. e.
para destruir Jerusalém, o templo e a religião do judaísmo. Por meio
de Tito a mistura religiosa em Jerusalém também teve fim. Que
todos vejamos com o registro em Atos a necessidade de uma
transferência dispensacional.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 33
A PROJ, »AGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (25)

Leitura Bíblica: At 11:19-30

Nesta mensagem abordaremos 11:19-30. Nessa seção de Atos


temos a expansão do evangelho até a Fenícia, Chipre e Antioquia por
meio dos discípulos que foram dispersos (vs. 19-26) e a comunicação
entre a igreja em Antioquia e as igrejas na Judéia (vs. 27-30).
Primeiro iremos considerar esses versículos de forma geral, e, então,
vamos dar atenção especial à preparação adicional que o Senhor
realizou em Saulo.

A EXPANSÃO DO EVANGELHO À FENÍCIA, CHIPRE E


ANTIOQUIA POR MEIO DOS DISCÍPULOS QUE FORAM
DISPERSOS

O Cumprimento da Palavra do Senhor

Atos 11:19 diz: “Então, os que foram dispersos por causa da


tribulação que sobreveio a Estêvão se espalharam até à Fenícia,
Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão
somente aos judeus”. Foi soberania de Deus que a dispersão dos
crentes de Jerusalém para outras localidades por meio da
perseguição (8:4) levasse a cabo a expansão do evangelho para o
cumprimento da palavra do Senhor em 1:8.
De acordo com 11:19, os que foram até a Fenícia, Chipre e
Antioquia só pregavam a palavra aos judeus. Isso indica como os
crentes judeus estavam enfronhados nas suas tradições. Eles não
queriam aproximar-se dos gentios (10:28). Essa situação continuou
mesmo depois da pregação de Pedro para Cornélio, um italiano. Isso
certamente restringiu o mover do Senhor de difundir o Seu
evangelho segundo a economia neotestamentária de Deus.

Um Passo Adicional do Mover do Senhor

Atos 11:20 continua: “Alguns deles, porém, que eram de Chipre


e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos,
anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus”. Os de Chipre e
Cirene deviam ser crentes judeus na dispersão (ver 1Pe 1:1). O fato
de falarem aos gregos foi um passo adicional do mover do Senhor
para espalhar o Seu evangelho aos gentios, seguindo o que aconteceu
na casa de Cornélio no capítulo dez e antecedendo o início do
ministério de Paulo aos gentios no capítulo treze. Atos 11:21 diz: “A
mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao
Senhor”.

Uma Autoridade Representativa

Atos 11:22 nos diz que “a notícia a respeito deles chegou aos
ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até
Antioquia”. Literalmente, o vocábulo grego traduzido como
enviaram denota ser enviado (em missão) como autoridade
representativa. Barnabé foi enviado de Jerusalém para visitar os
crentes em outros lugares; foi enviado com autoridade dos
apóstolos, e não da igreja, pois os apóstolos estavam em Jerusalém.
Saulo foi salvo pelo Senhor diretamente sem qualquer canal de
pregação (9:3-6) e foi introduzido na identificação com o Corpo de
Cristo por meio de um dos membros, Ananias (9:10-19). Entretanto,
ele foi introduzido na comunhão prática com os discípulos em
Jerusalém por meio de Barnabé (9:26-28). Agora, Barnabé foi
enviado de Jerusalém até Antioquia para encorajar os crentes, e foi a
Tarso para trazer Saulo para Antioquia (11:25-26). Esse foi um
grande passo; isso introduziu Saulo no mover de Deus de difundir o
evangelho do Seu reino ao mundo gentio (13:1-3).

Viu a Graça de Deus

De acordo com 11:23, quando chegou em Antioquia e viu a


graça de Deus, Barnabé “alegrou-se e exortava a todos a que, com
firmeza de coração, permanecessem no Senhor”. Já comentamos em
outro lugar que graça é Deus no Filho como nosso desfrute. Essa
graça é o Cristo ressurreto tornando-se o Espírito que dá vida
(1Co 15:45) para introduzir em nós o Deus processado em
ressurreição, a fim de que Ele se torne a nossa vida e nosso
suprimento de vida para que vivamos em ressurreição. Portanto,
graça é o Deus Triúno tornando-se vida e tudo para nós. A graça que
foi vista por Barnabé deve ter sido o Deus Triúno recebido e
desfrutado pelos crentes e expresso na sua salvação, mudança de
vida, viver santo e dons que exercitavam nas reuniões; tudo isso
podia ser visto por outros.

Cheio do Espírito Santo

Atos 11:24 diz: “Porque era homem bom, cheio do Espírito


Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor”. A palavra grega
traduzida como cheio é pléres, adjetivo derivado de pleróo, segundo
o uso em Atos aqui e em 6:3, 5; 7:55; e Lucas 4:1. Estar cheio do
Espírito é a condição de alguém após ter sido enchido interior e
essencialmente com o Espírito, como menciona 13:52.

Os Discípulos São Chamados de Cristãos

Atos 11:25-26 diz: “E partiu Barnabé para Tarso à procura de


Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um
ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão.
Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados
cristãos”. A palavra grega traduzida como cristãos é christianós,
vocábulo de formação latina. A terminação ianos denota adepto de,
e era aplicado a escravos que pertenciam às grandes famílias no
Império Romano. Os que adoravam o imperador, o César (Kafsar)
eram chamados de kaisarianós, que significa adepto de Kaisar,
partidário de Kaisar. Quando as pessoas criam em Cristo e se
tornavam Seus seguidores, isso fazia com que alguns do Império
considerassem Cristo como um rival de Kaisar. Em Antioquia eles
começaram a chamar os seguidores de Cristo de christianós
(cristãos), adeptos de Cristo, como um apelido, um termo de
vergonha. O fato de os discípulos de Antioquia receberem tal
apelido, um termo de opróbrio, indica que eles devem ter sustentado
um forte testemunho do Senhor, um testemunho que os tomou
distintos e peculiares aos olhos dos incrédulos.
Hoje o termo cristão deve ter um significado positivo, isto é,
um homem de Cristo, alguém que é um com Cristo, não apenas que
pertence a Ele, mas tem a sua vida e natureza em união orgânica
com Ele, e vive por Ele e até mesmo O expressa em sua vida diária.
Se, de acordo com 1 Pedro 4:16, nós sofrermos por ser tal pessoa,
não devemos envergonhar-nos, mas ser intrépidos para engrandecer
a Cristo em nossa confissão pela nossa maneira de vida santa e
excelente para glorificar a Deus nesse nome.

A COMUNICAÇÃO ENTRE A IGREJA EM ANTIOQUIA E AS


IGREJAS NA JUDÉIA

Em 11:27-30 temos um registro com respeito à comunicação


entre a igreja em Antioquia e as igrejas na Judéia. Atos 11:27 diz:
“Naqueles dias, desceram alguns profetas de Jerusalém para
Antioquia”. No Novo Testamento profetas são os que falam por Deus
e O expressam pela revelação divina, e às vezes falam com predição
inspirada.
Atos 11:28 nos diz que um desses profetas “chamado Ágabo,
dava a entender, pelo Espírito, que estava para vir grande fome por
todo o mundo, a qual sobreveio nos dias de Cláudio”. Cláudio foi um
César do Império Romano. No quarto ano do seu reinado, por volta
de 44 d.C., houve fome na Judéia e países circunvizinhos.
Atos 11:29-30 diz: “Os discípulos, cada um conforme as suas
posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na
Judéia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros
por intermédio de Barnabé e de Saulo”. O versículo 30 indica que
nos primeiros dias, as finanças da igreja estavam sob a
administração dos presbíteros. De acordo com 1 Timóteo 3:3, o
presbítero não devia ser avarento. Dinheiro é uma prova para todos
os homens. Um presbítero tem de ser puro em questões financeiras,
especialmente porque o dinheiro da igreja está sob a administração
deles.
Em Atos 11:30 vemos que as coisas da igreja em Antioquia
foram enviadas aos presbíteros em Jerusalém pelas mãos de
Barnabé e de Saulo. Aqui Saulo, por meio de Barnabé, foi
introduzido no serviço às igrejas.

A PREPARAÇÃO ADICIONAL QUE O SENHOR REALIZOU


EM SAULO

Com respeito a Saulo Deus foi soberano ao prepará10 como


outro vaso para levar a Sua economia neotestamentária ao mundo
gentio. Deus sabia que precisava preparar esse vaso.
A preparação de Saulo de Tarso para ser esse vaso iniciou-se
em Atos 6. Se lermos esse livro cuidadosamente, veremos que do
capítulo dois ao seis temos uma seção que apresenta o ministério de
Pedro para a propagação de Cristo. Então, no capítulo seis começa a
preparação de outro vaso. Em Atos 6 temos a escolha de sete
homens cheios do Espírito Santo. Entre eles estava Estêvão, e seu
martírio introduziu Saulo.

Produzido por meio de Jerusalém

Como vaso novo, Saulo foi produzido por meio de Jerusalém.


Isso significa que ele não era um vaso estranho produzido fora de
Jerusalém.

O Martírio de Estêvão

O primeiro passo na produção de Paulo por meio de Jerusalém


foi o martírio de Estêvão. Quando Estêvão foi martirizado, Saulo
ouviu parte do evangelho. Talvez ele tenha ouvido Estêvão dizer:
“Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de
Deus” (7:56). Por certo, ouviu que Estêvão “invocava e dizia: Senhor
Jesus, recebe o meu espírito!” (7:59). Também ouviu Estêvão clamar
em alta voz: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” (7:60). Embora
tivesse rejeitado Estêvão e aprovasse a sua morte, Saulo deve ter
considerado as palavras de Estêvão.
Paulo era uma pessoa muito inteligente e ponderada, alguém
que havia recebido educação elevada. Ele certamente deve ter
considerado as palavras que Estêvão disse ao ser perseguido e
martirizado. Ele ouviu a pregação do evangelho mediante Estêvão.
Assim, foi introduzido por meio da perseguição e martírio desse
irmão fiel.

A Pregação do Senhor para Saulo

Depois do martírio de Estêvão, houve grande perseguição


contra a igreja em Jerusalém (8:1), e Saulo assolava a igreja (8:3).
Conforme 9:1-2, “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os
discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas
para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que
eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos
para Jerusalém”. Mas, ao aproximar-se de Damasco, o Senhor veio
lidar com ele. Ao fazê-lo, o Senhor lhe pregou o evangelho. Se
considerarmos a pregação do Senhor, juntamente com a palavra dita
por Estêvão quando do seu martírio, perceberemos que Saulo
certamente foi produzido por meio de Jerusalém.

Confirmado por Ananias

Depois que Saulo foi salvo, o Senhor usou Ananias para


confirmá-lo e iniciá-lo na identificação com o Corpo de Cristo pela
imposição de mãos (9:17). O Senhor não enviou Pedro e João para
Damasco com esse objetivo. Entretanto usou Ananias, que devia ter
sido salvo em Jerusalém e então migrado para Damasco. Isso é outra
indicação de que Saulo se tornou um vaso do Senhor por meio de
Jerusalém.

Introduzido na Comunhão do Corpo por meio de Barnabé

Em Damasco, Saulo proclamou de forma prevalecente que


Jesus é o Filho de Deus e o Cristo (9:20, 22). A sua pregação era tão
prevalecente que logo ele passou a ter discípulos (9:25). Contudo,
em Sua soberania, o Senhor não permitiu que ele permanecesse em
Damasco. Havendo escapado dos judeus que tramavam matá-lo
(9:23), ele foi a Jerusalém (v. 26). Ele foi a Jerusalém porque essa
era a origem por meio da qual havia sido produzido. Contudo, os
santos lá tinham medo dele, não acreditando que tivesse realmente
se convertido, não crendo que fosse um discípulo. “Mas Barnabé,
tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele
vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e como em Damasco
pregara ousadamente em nome de Jesus” (9:27). Aqui vemos que
Barnabé, o filho do encorajamento, ou exortação, introduziu-o na
comunhão do Corpo. Foi Ananias que o identificou com o Corpo,
mas foi Barnabé quem, de fato, o introduziu na comunhão do Corpo.
Havendo considerado todos esses pontos, podemos ver que
Saulo era um vaso produzido por meio de Jerusalém. Ele não foi
alguém produzido à parte de Jerusalém. Mas embora estivesse
relacionado com Jerusalém, o ambiente não lhe permitiu
permanecer lá. Como alguns tencionavam matar Saulo, os irmãos
“levaram-no até Cesaréia e dali o enviaram para Tarso” (9:30).

Antioquia e Jerusalém

Em 10:1―11:18 Lucas registra a expansão do evangelho aos


gentios por meio de Pedro. Em 11:19 o registro prossegue dizendo-
nos que os que foram dispersos, pela tribulação que aconteceu em
relação a Estêvão, foram até a Fenícia, Chipre e Antioquia. Aqui
vemos que a migração de Jerusalém foi até Antioquia, onde havia
uma igreja. A igreja em Antioquia, portanto, foi produzida por meio
de Jerusalém. Precisamos ver essa questão no registro de Atos.
Quando os acontecimentos com respeito aos de Antioquia
chegaram “aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém”, eles
enviaram Barnabé até lá (11:22). Barnabé foi enviado para visitar as
igrejas em outros lugares.
Em 11:19 vemos que os santos dispersos só levavam a palavra
aos judeus. Porém, quando alguns desses santos vieram para
Antioquia, eles também falaram aos gregos (v. 20). Isso é um
indicativo de que a tendência da expansão do Senhor era em direção
aos gentios.
O registro de Lucas não apenas mostra a tendência da
expansão em direção aos gentios, como também revela como Saulo
foi produzido como o vaso para levar a cabo o ministério de Deus no
mundo gentio. Saulo foi produzido por meio de Jerusalém. Ele não
foi um novo começo separado de Jerusalém. A migração de
Jerusalém alcançou Antioquia; e ali foi levantada uma igreja. Então,
Jerusalém enviou Barnabé como autoridade representativa. Quando
viu a graça de Deus, ele se alegrou. Ele ficou contente com a situação
maravilhosa da igreja em Antioquia. Contudo percebeu que ainda
havia uma necessidade específica: a necessidade de ministrar. Os
santos dispersos tinham ido a Antioquia para levantar a igreja ali,
mas entre eles havia carência de ministério.
Por causa disso “partiu Barnabé para Tarso à procura de
Saulo” (11:25). Quando o achou, Barnabé o levou para Antioquia, e
“por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa
multidão” (v. 26). Isso foi parte da iniciação do ministério de Saulo.
Quando ocorreu grande fome, os santos em Jerusalém e Judéia
passaram por necessidades. A igreja em Antioquia, então, enviou
ajuda material aos da Judéia por intermédio de Barnabé e Saulo
(11:29-30). Como já falamos, isso indica que, por meio de Barnabé,
Saulo foi introduzido no serviço entre as igrejas. O Senhor o
introduziu passo a passo. Sem dúvida, ele foi bem recebido em
Jerusalém. Depois de cumprirem a sua responsabilidade, eles
voltaram a Antioquia.

Manter a Unidade do Corpo

Quando Barnabé e Saulo voltaram a Antioquia, Saulo já estava


totalmente preparado como vaso. Era um produto de Jerusalém,
pois tinha sido preparado por Deus por meio de Jerusalém. Já
enfatizamos que não temos um novo começo com Saulo, à parte de
Jerusalém. Enfatizamos isso porque foi algo que o Senhor fez
soberana e sabiamente, a fim de manter a unidade do Corpo.

Um Só Fluir

No livrete intitulado The Divine Stream (O Fluir Divino), nós


mostramos que há um só fluir no livro de Atos. Ele iniciou-se em
Jerusalém e fluiu através de Samaria para Antioquia. De Antioquia o
fluir voltou-se para a Ásia Menor e então para a Europa. O Senhor
não tinha dois “fluíres”, um iniciando-se em Jerusalém por meio de
Pedro e o outro iniciando-se no mundo gentio por meio de Saulo.
Não, o Senhor só tinha um fluir, que se iniciou em Jerusalém.
O Senhor sabia que havia a necessidade de um vaso especial,
um vaso novo. Pedro não estava qualificado para sê-lo nem podia
substituí-lo. O Senhor fez tudo sábia e soberanamente para colocar
Saulo, o Seu vaso escolhido, no relacionamento adequado com a
igreja em Jerusalém. Como já ressaltamos, Saulo na verdade foi
produzido por meio de Jerusalém.

O Ministério de Pedro e o Ministério de Saulo

Nos primeiros capítulos de Atos vemos que o Senhor usou


muito a Pedro. Embora Pedro fosse bom, a Igreja Católica Romana
estava errada em exaltá-lo tanto. Em Atos 6, Pedro está silencioso e
não há menção dele no capítulo sete. No capítulo oito, naturalmente,
Pedro e João desceram a Samaria para confirmar os crentes lá como
parte do Corpo. Então, no capítulo nove, Saulo, um vaso escolhido, é
suscitado. Vemos que nesse capítulo até nos é dito que não muito
depois de ter sido salvo, Saulo tinha discípulos. Contudo, o Novo
Testamento nunca fala dos discípulos de Pedro.
De acordo com o registro em Atos 9, Saulo se tornou muito
proeminente em Damasco. Mas, em Sua soberania, o Senhor o levou
para Jerusalém, onde ele se tornou ninguém. Os crentes lá nem
mesmo o reconheciam como discípulo. Se acontecesse isso conosco,
talvez disséssemos: “Em Damasco eu era muito proeminente, e tinha
muitos discípulos. Agora venho a Jerusalém e vocês não me
reconhecem. Não quero ter nada com vocês, vou voltar para
Damasco e iniciar uma nova obra lá”. Essa é a prática de muitos
cristãos hoje.
Saulo certamente recebeu misericórdia do Senhor. Não
somente se tornou nada em Jerusalém, mas o Senhor também não o
deixou pregar em Jerusalém por um longo período. Se tivesse
permanecido em Jerusalém para pregar por um longo tempo, Saulo
sem dúvida ultrapassaria Pedro. Então, os santos em Jerusalém
iriam dizer: “Não somos de Pedro da Galiléia; somos de Saulo de
Tarso”. Se estivéssemos lá nesse tempo talvez disséssemos: “Eu sou
por Saulo. Pedro me ajudou de forma elementar, mas agora estou
recebendo educação avançada de Saulo”. Essa é a atitude entre
muitos crentes hoje.
Em Jerusalém, Saulo não era muito respeitado nem
reconhecido. Ademais, o Senhor levantou uma situação que fez
necessária a sua partida de Jerusalém. Por fim, a mão soberana do
Senhor usou Barnabé para achá-lo em Tarso e levá-lo a Antioquia.
Depois do registro da pregação prevalecente de Saulo no
capítulo nove, o relato volta a Pedro e seu ministério. O relato indica
que Pedro ainda era poderoso. Ele deu mensagens nos capítulos dois
a quatro, assim como uma palavra breve no capítulo cinco. Quando o
registro volta ao ministério de Pedro no capítulo nove, dois milagres
são descritos: a cura de Enéias e a cura, ou o avivamento, de Dorcas.
Pedro ainda estava no ministério, o Senhor não o deixara de lado.
No capítulo nove Pedro não estava em Jerusalém, mas ia em direção
a Cesaréia, onde usaria a segunda chave, dada a ele pelo Senhor
Jesus em Mateus 16, abrindo a porta aos gentios para que entrassem
no reino de Deus. Por um lado vemos o Senhor preparando o
caminho para produzir um vaso para o mundo gentio. Por outro,
vemos o que o Senhor fez com Pedro para abrir a porta aos gentios.
Como veremos, em Atos 12 o registro de Lucas novamente
volta a Pedro. Contudo, não volta ao ministério de Pedro, e, sim, fala
da sua prisão. O relato da sua prisão indica que o seu ministério será
colocado de lado na expansão do evangelho ao mundo gentio. No
capítulo treze vemos que o vaso para o mundo gentio está
totalmente preparado, e a porta para o mundo gentio amplamente
aberta. Em outras palavras, tanto o vaso como o ambiente estão
prontos. Em Atos 13 o ministério ao mundo gentio inicia de maneira
plena. Depois do capítulo doze não há mais nenhum registro em
relação a Pedro.
Vimos que Barnabé, um crente de Jerusalém, ajudou na
produção de Saulo. Barnabé e Saulo foram juntos em uma viagem
ministerial. Quando estavam para fazer a segunda viagem, houve
contenda entre eles a respeito de Marcos (15:35-39), e Barnabé se
separou de Saulo. Depois disso não há mais nenhum registro acerca
de Barnabé. Isso é outra indicação de que Saulo certamente era o
vaso escolhido para o mundo gentio.
De acordo com o quadro no livro de Atos, o Senhor só tem um
fluir, o fluir que se iniciou em Jerusalém, e Ele não começou outro
fluir com Saulo. O Senhor fez tudo soberana e sabiamente para reter
o ministério de Pedro do mundo gentio e levantar o ministério de
Saulo para isso. Que todos vejamos o que está retratado nesse
quadro.

Preservar a Unidade no Único Fluir

Em Atos vemos a atividade do Corpo singular do Senhor. Essa


atividade, a prática do fluir, iniciou-se em Jerusalém, passou por
Samaria e alcançou Antioquia. De Antioquia, voltou-se para o
mundo gentio. Na corrente desse único fluir a unidade do Corpo foi
preservada.
Quando chegarmos ao capítulo quinze, veremos que alguns
judaizantes de Jerusalém causaram problemas em Antioquia. Isso
fez necessária a ida de Paulo e Barnabé para Jerusalém. Por meio da
ida deles a Jerusalém a unidade foi preservada e até mesmo
fortalecida.
É crucial que todos vejamos a unidade retratada em Atos e
aprendamos a mantê-la. Doutra forma, por fim, entre nós na
restauração do Senhor poderá haver outros inícios; e esses novos
inícios causarão divisões. Assim, precisamos ver que em Atos o
Senhor soberanamente manteve todos os ministérios num só e
numa só corrente para o Corpo único a fim de manter a unidade do
Corpo.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 34
A PROPAGAÇÃO EM JERUSALÉM, JUDÉIA E SAMARIA
POR MEIO DO MINISTÉRIO DE PEDRO E SEUS
COMPANHEIROS (26)

Leitura Bíblica: At 12:1-24

UMA SEÇÃO PARENTÉTICA

Nesta mensagem consideraremos 12:1-24, uma seção


parentética a respeito de Pedro em seu ministério.
Por que há a necessidade de essa seção parentética, 12:124, ser
inserida aqui? Todos os autores do Novo Testamento foram
inspirados pelo Espírito para escolher o material adequado a fim de
que os seus escritos atingissem o alvo. Com base nesse princípio,
precisamos considerar por que Lucas, o autor de Atos, inseriu a
ocorrência registrada em 12:1-24 nesse ponto. Certamente o Espírito
Santo em Lucas devia ter um alvo ao fazer isso.
Em 11:1-18 Pedro relatou aos de Jerusalém como as portas
foram abertas para que os gentios entrassem no reino de Deus. De
acordo com 11:18, os que ouviram essas coisas estavam em silêncio e
glorificavam a Deus. Eles só conseguiram dizer: “Logo, também aos
gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida”. No
restante do capítulo onze (vs. 19-30) Lucas nos fala a respeito da
expansão do evangelho para a Fenícia, Chipre e Antioquia por meio
dos discípulos dispersos e também sobre a comunicação entre a
igreja em Antioquia e as igrejas na Judéia. Barnabé foi enviado de
Jerusalém para visitar os lugares para onde a obra do Senhor se
expandia. Quando veio a Antioquia, ele percebeu que havia a
necessidade de ministério. Assim, levou Saulo para ali a fim de
ajudar a atender a necessidade local. Foi desse modo que Saulo foi
introduzido no serviço da igreja e iniciado em seu ministério.
A pregação de Saulo em Damasco foi bastante prevalecente, e
ele até mesmo tinha discípulos. Mas esse não foi o momento
adequado para ele ser plenamente iniciado no ministério do Novo
Testamento. Podemos dizer que a pregação de Saulo em Damasco
foi algo feito por ele mesmo.
Três irmãos estiveram especialmente relacionados com Saulo:
Estêvão, Ananias e Barnabé. Por meio de Estêvão, Saulo ouviu o
evangelho pela primeira vez. Mediante Ananias ele foi introduzido
na identificação com o Corpo. Então, por mãos de Barnabé, ele foi
introduzido na comunhão em Jerusalém. Embora tenha sido
introduzido na comunhão, ele não foi introduzido no ministério
nessa ocasião; não foi totalmente iniciado na economia
neotestamentária de Deus nesse momento. Algum tempo depois que
Saulo saiu de Jerusalém e foi para Tarso, chegou a hora de Barnabé
encontrá-lo e levá-lo a Antioquia. Somente quando foi levado por
Barnabé a Antioquia é que Saulo foi introduzido no serviço às igrejas
de forma absoluta. Vemos isso no fato de os discípulos em Antioquia
terem enviado as suas ofertas materiais aos irmãos na Judéia pelas
mãos de Barnabé e Saulo. Aqui vemos que Barnabé e Saulo foram
designados para levar as ofertas de Antioquia para ajudar os santos
na Judéia. Dessa forma Saulo foi introduzido num serviço
reconhecido por todas as igrejas. Ademais, depois que os dois
voltaram de Jerusalém a Antioquia, Saulo entrou de modo pleno no
ministério do Novo Testamento. Assim, a iniciação de Saulo no
serviço às igrejas e de modo pleno no ministério do Novo
Testamento ocorreu de 11:19 a 12:25. O trecho de 12:1-24 é uma
seção parentética relacionada a Pedro, e não a Saulo, inserida nesse
registro.
Parece que o ministério de Pedro minguou em 11:18. Então, em
11:19 temos o começo da plena iniciação do ministério de Saulo. Essa
iniciação é completada em 12:25. E daí, como veremos, o seu
ministério começa plenamente em 13:1.

AS RAZÕES PARA A INSERÇÃO DESSA SEÇÃO


PARENTÉTICA

Agora precisamos ver a razão pela qual Lucas inseriu uma


seção a respeito de Pedro. Na verdade, essa seção não tem nada a ver
com o ministério de Pedro, mas registra um milagre por meio do
qual Pedro foi resgatado da prisão. Qual é a razão dessa inserção?
qual foi o objetivo de Lucas em registrá-la?

Fortalecer a Impressão Positiva a respeito de Pedro e seu


Ministério

Suponha que o registro com respeito a Pedro e seu ministério


terminasse em 11:18. Que impressão teríamos dele? Ele não foi
ousado em relatar o que acontecera na casa de Cornélio. Se tivesse
sido ousado, poderia ter dito: “Irmãos, o Senhor Jesus nos disse que
deveríamos ser as suas testemunhas até aos confins da terra. Qual
então é o problema de eu ter entrado na casa de um centurião
romano em Cesaréia?” Mas, em vez de ser ousado, Pedro foi muito
cauteloso. Gálatas 2 confirma que ele tinha um problema quanto à
sociabilização de crentes judeus e gentios. Nessa questão ele não foi
forte. Assim, quando lhe perguntaram. a respeito disso, ele não foi
ousado em responder.
Em Atos 1:8 o Senhor Jesus profetizou e ordenou: “Sereis
minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda Judéia e
Samaria e até aos confins da terra”. Paulo deve ter tentado cumprir
essa palavra quando quis ir à Espanha. Em seu coração
provavelmente ele pensava que se pudesse ir até a Espanha, estaria
atingindo os confins da terra. A sua intenção era cumprir o
mandamento do Senhor em Atos 1:8.
Pedro deveria ter-se lembrado das palavras do Senhor em 1:8
quando falava com os da circuncisão em Atos 11. Essas palavras ter-
lhe-iam dado base para ser intrépido ao falar. Mas Pedro não deu
um testemunho ousado. Em vez disso, falou de forma agradável e
cautelosa e até mesmo usou seis irmãos para respaldá-lo.
Sem a inserção de 12:1-24, poderíamos não ter uma impressão
favorável de Pedro, especialmente do seu ministério-Talvez
tivéssemos dúvidas sobre ele. Assim, ao escrever com respeito à
iniciação do ministério de Paulo, Lucas teve encargo de inserir algo,
a fim de fortalecer a impressão positiva acerca de Pedro já
transmitida aos leitores. Essa, creio, é a primeira razão para a
inserção.
Mostrar as Duas Origens da Perseguição

A segunda razão para essa inserção é mostrar que a


perseguição da igreja e dos apóstolos não vinha apenas da religião
judaica mas também da política romana. Atos 12:1-2 diz: “Por aquele
tempo, mandou o rei Herodes prender alguns da igreja para os
maltratar, fazendo passar a fio de espada a Tiago, irmão de João”.
Esse foi Herodes, Agripa I, cujo sucessor foi o Rei Agripa II em
25:13; não era Herodes, o tetrarca, em 13:1. Até aqui, a igreja sofrera
perseguições somente por parte da religião judaica. Agora, a política
gentia começou a participar da perseguição cooperando com a
religião judaica (v. 11). A religião judaica juntou-se ao governo
romano para executar o Senhor Jesus. Aqui, em Atos 11, Lucas nos
mostra que a perseguição vinha tanto da política romana como da
religião judaica. A inserção de Atos 12:1-24 indica isso.
Conforme Atos 12, Herodes maltratou alguns crentes. Em
especial, matou Tiago, o irmão de João. “Vendo ser isto agradável
aos judeus, prosseguiu, prendendo também a Pedro (...) Tendo-o
feito prender, lançou-o no cárcere, entregando-o a quatro escoltas de
quatro soldados cada uma, para o guardarem (...) Pedro, pois, estava
guardado no cárcere” (vs. 3-5). Quando o Sinédrio prendeu Pedro e
os outros apóstolos, eles foram colocados na prisão exterior.
Herodes, contudo, colocou Pedro na prisão interior, onde foi
guardado por quatro escoltas de quatro soldados cada uma. A
intenção de Lucas é mostrar-nos que a política romana juntou-se à
religião judaica para perseguir a igreja.

Apresentar Pedro como um Herói

Além do mais, a narrativa de Lucas em 12:1-24 mostra Pedro


como um herói. Esse herói cristão sofreu perseguição tanto da
religião judaica como da política romana. Isso nos deixa uma
impressão muito positiva a respeito dele, a impressão de que era um
herói.
Em 12:5b-19a vemos que Pedro foi resgatado pelo Senhor de
forma miraculosa. Herodes exerceu a sua autoridade para colocá-lo
na prisão interior, onde foi acorrentado a dois guardas, um à direita
e outro à esquerda. Herodes esperava passar a Páscoa para
apresentá-lo aos judeus (v. 4), pois achava que isso seria muito
agradável a eles. “Quando Herodes estava para apresentá-lo,
naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados,
acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o
cárcere. Eis, porém, que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz
iluminou a prisão; e, tocando ele o lado de Pedro, o despertou,
dizendo: Levanta-te depressa! Então, as cadeias caíram-lhe das
mãos” (vs. 6-7). Pedro saiu e seguiu o anjo, “não sabendo que era
real o que se fazia por meio do anjo; parecia-lhe, antes, uma visão”
(v. 9). O anjo levou Pedro a passar pelas sentinelas e por um portão
de ferro “o qual se lhes abriu automaticamente; e, saindo,
enveredaram por uma rua, e logo adiante o anjo se apartou dele”
(v. 10).
Então, Pedro percebeu que o que lhe estava acontecendo não
era uma visão, mas era real. “Então, Pedro, caindo em si, disse:
Agora, sei, verdadeiramente, que o Senhor enviou o seu anjo e me
livrou da mão de Herodes e de toda a expectativa do povo judaico.
Considerando ele a sua situação, resolveu ir à casa de Maria, mãe de
João, cognominado Marcos, onde muitas pessoas estavam
congregadas e oravam” (vs. 11-12).
Quando uma criada de nome Rode reconheceu a voz de Pedro,
anunciou que Pedro estava junto do portão, eles lhe disseram: “É o
seu anjo” (vs. 13-15). Não apenas Pedro como apóstolo tinha um
anjo; até mesmo os pequeninos entre os crentes têm os seus anjos
(Mt 18:10), que são servos dos que herdam a salvação de Deus.
Por fim, quando os que estavam na casa viram a Pedro,
ficaram admirados (v. 16). “Ele, porém, fazendo-lhes sinal com a
mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirara da
prisão e acrescentou: Anunciai isto a Tiago e aos irmãos” (v. 17). Isso
indica que Tiago era um líder entre os apóstolos e presbíteros em
Jerusalém (cf. 15:13; 21:18; Gl 1:19; 2:9, 12).
Atos 12:18-19b diz: “Sendo já dia, houve não pouco alvoroço
entre os soldados sobre o que teria acontecido a Pedro. Herodes,
tendo-o procurado e não o achando, submetendo as sentinelas a
inquérito, ordenou que fossem justiçadas”. Tudo estava pronto para
Pedro ser trazido da prisão e apresentado ao povo, com uma
exceção: o prisioneiro tinha desaparecido. Isso foi uma vergonha
para Herodes] Ele estava bravo e ordenou que as sentinelas fossem
justiçadas, isto é, executadas.
Embora estivesse envergonhado com o resgate de Pedro da
prisão, Herodes ainda era arrogante e se exaltava. É-nos dito que
“havia séria divergência entre Herodes e os habitantes de Tiro e de
Sidom; porém estes, de comum acordo, se apresentaram a ele e,
depois de alcançar o favor de Blasto, camarista do rei, pediram
reconciliação, porque a sua terra se abastecia do país do rei” (v. 20).
Como o país de Herodes era rico e supria alimentos para Tiro e
Sidom, as pessoas lá tinham medo dele. Temiam que o suprimento
de comida deles fosse cortado e então fizeram algo para agradá-lo.
“Em dia designado, Herodes, vestido de trajo real, assentado no
trono, dirigiu-lhes a palavra; e o povo clamava: É voz de um deus, e
não de homem! No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por
ele não haver dado glória a Deus; e, comido de vermes, expirou”
(vs. 21-23). Parece que Herodes não morreu imediatamente quando
o anjo do Senhor o feriu, mas essa pessoa arrogante e que insultava a
Deus foi comida por vermes.
O relato do destino de Herodes registrado em 12:19b-23 está
relacionado ao sofrimento de Pedro e ao fato de ele ser apresentado
como herói. Creio que a intenção de Lucas em inserir essa seção na
sua narrativa é não deixar que tenhamos uma impressão negativa de
Pedro. Pois assim, a nossa impressão dele é muito positiva, uma vez
que o registro dele e do seu ministério termina com esse milagre.
Isso confirma o fato de que, embora o seu ministério estivesse
minguando, o Senhor ainda estava com ele e era por ele.
Como o registro a respeito de Pedro termina de forma heróica,
nunca devemos depreciá-lo nem ao seu ministério. Embora não
concordemos com a Igreja Católica Romana que o exalta como papa,
nós reconhecemos que ele e o seu ministério foram muito bons. O
relato do seu ministério é o relato de um herói aprovado por Deus.
Assim, não devemos exaltar Paulo e depreciar Pedro. Se o fizermos,
seremos como os coríntios, pois estaremos dizendo que somos de
Paulo e não de Pedro. Como Pedro foi de fato um herói no mover do
Senhor, devemos respeitá-lo.

UMA BATALHA ENTRE DEUS E SATANÁS

Há várias outras questões em 12:1-24 que precisamos


considerar. Primeiro, quando Pedro estava na prisão, “havia oração
incessante a Deus por parte da igreja a favor dele” (v. 5). Isso indica
que nos bastidores havia uma batalha entre forças espirituais, entre
Deus e o Seu inimigo, Satanás. Aparentemente o conflito era entre
Herodes e Pedro; na verdade, era entre Deus e o Seu inimigo. Sem
dúvida, Herodes foi instigado por Satanás. Satanás estava por trás
dele e até mesmo com ele. Assim, a igreja, juntamente com Deus,
travou a batalha contra Satanás, o maligno.
Essa batalha não foi travada pela carne, mas mediante a
oração. A igreja orou, e a arma usada pela igreja para derrotar
Herodes e a força espiritual por trás dele não era da carne, mas do
Espírito.

AS IRMÃS TOMARAM A FRENTE EM ORAR

Segundo, em 12:12 vemos que na casa de Maria muitos


estavam reunidos orando. Isso indica que a oração com respeito a
Pedro era realizada na casa de uma irmã. Com isso vemos que na
vida da igreja as irmãs devem liderar na questão da oração. De
acordo com o princípio básico na Palavra, as atividades devem ser
feitas pelos irmãos, e na maioria dos casos as irmãs devem fazer o
trabalho de apoio nos bastidores. O principal trabalho de apoio é
orar. Essa foi exatamente a situação no caso de Pedro. Depois de
solto, ele foi à casa de Maria, onde muitos santos ainda estavam
orando.
Em Atos 12 vemos que o Senhor é de fato o Senhor; é o
Soberano dos reis. O rei Herodes era arrogante, mas o Soberano
Jesus estava acima dele. O Senhor Jesus exercitou o Seu senhorio
enviando um anjo para lidar com Herodes, alguém instigado,
usurpado e usado por Satanás. Aqui vemos claramente que o Senhor
travou a batalha e venceu.

A PALAVRA DE DEUS CRESCIA E SE MULTIPLICAVA


Finalmente 12:24 diz: “Entretanto, a palavra do Senhor crescia
e se multiplicava”. O versículo anterior dizia que Herodes foi comido
por vermes e expirou. Então, esse versículo começa com entretanto.
Herodes expirou, entretanto a palavra de Deus crescia. A palavra de
Deus, na realidade, é o próprio Senhor, pois é o Seu recipiente.
Assim, dizer que a palavra do Senhor crescia, na verdade, quer dizer
que o Senhor crescia.
Atos 12:24 diz que a palavra de Deus não apenas crescia, mas
também se multiplicava. A palavra não cresce e se multiplica em si
mesma, mas cresce com os crentes e se multiplica com a igreja.
Quando os crentes crescem, a palavra no interior deles cresce.
Quando as igrejas se multiplicam, a palavra se multiplica nelas. O
fato de a palavra de Deus crescer e se multiplicar indica que nos
tempos antigos os crentes e as igrejas estavam cheios da palavra e
eram um com ela. Isso é um forte sinal da vitória do Senhor em Sua
batalha contra o maligno.
O crescimento e a multiplicação da palavra em 12:24 foi
resultado do ministério de. Pedro. Assim, esse versículo indica que o
ministério de Pedro findou de forma vitoriosa. As últimas palavras a
respeito do seu ministério em Atos são que a palavra de Deus crescia
e se multiplicava. Essa é uma conclusão gloriosa e vitoriosa do
ministério de Pedro.
Ademais, esse versículo é uma declaração do mover do Senhor
na terra desde Jerusalém, através de Samaria, até o mundo gentio. O
mover do Senhor do capítulo dois até o fim do capítulo doze venceu
totalmente a situação. O Seu mover em Seu ministério para a
propagação do Cristo ressurreto venceu não apenas a religião
judaica mas também a política romana.
Como o registro a respeito do ministério de Pedro em Atos
conclui de forma vitoriosa, não devemos depreciar Pedro. O Novo
Testamento diz claramente que ele foi designado apenas para a
circuncisão, enquanto Paulo foi designado para a incircuncisão. Eles
estavam em duas regiões do ministério do Novo Testamento. Como
inserção no registro de Atos, 12:1-24 prova que o mover de Deus é
vitorioso em todas as circunstâncias.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 35
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (1)

Leitura Bíblica: At 12:25―13:12

A seção de Atos que aborda a propagação (2:1―28:31) tem


duas partes principais: A propagação em Jerusalém, Judéia e
Samaria por meio do ministério de Pedro e seus companheiros
(2:1―12:24) e a propagação na Ásia Menor e Europa por meio do
ministério de Paulo e seus companheiros (12:25―28:31). Nesta
mensagem iremos primeiro considerar a iniciação em 12:25 e depois
veremos 13:1-12.

A INICIAÇÃO

Atos 12:25 diz: “Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão,


voltaram de Jerusalém, levando também consigo a João, apelidado
Marcos”. Atos 12:1-24 é uma seção parentética, um registro da
perseguição a Pedro. Atos 12:25 é a continuação de 11:30 que
juntamente com os versículos 22-24 narram a plena iniciação de
Paulo no seu ministério apostólico. Vimos que Paulo foi salvo
diretamente pelo Senhor (9:3-6) e trazido à identificação com o
Corpo de Cristo por meio de Ananias (vs. 10-19). Mais tarde foi
introduzido na comunhão prática com os discípulos em Jerusalém
por meio de Barnabé (vs. 26-28). Depois, também por meio de
Barnabé, foi iniciado no mover do Senhor de expandir o evangelho
do Seu reino ao mundo gentio (11:25-26; 13:1-3). A passagem de
11:19 a 12:25 é um registro da transição entre o ministério apostólico
de Pedro para os judeus nos capítulos dois a onze e o ministério
apostólico de Paulo para os gentios nos capítulos treze a vinte e oito
(ver Gl 2:7-8).

UMA NOVA VIRADA NO MOVER DO SENHOR


Em 13:1-12 vemos o mover do Senhor entre alguns dos crentes
que receberam dons. Aqui não temos um novo início, e, sim, uma
nova virada no mover do Senhor. O início já havia ocorrido em
Jerusalém, e dali a corrente fluiu para Antioquia. Agora, em
Antioquia há uma nova virada.
Jerusalém era o centro da religião judaica. Antioquia, no
entanto, era um centro do mundo gentio. Como tal, Antioquia era
estratégica. Assim, essa cidade foi escolhida pelo Senhor para dar
uma nova virada do Seu mover na terra, a virada para o mundo
gentio.

OS PROFETAS E MESTRES EM ANTIOQUIA

Atos 13:1 diz: “Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres:


Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém,
colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo”. Profetas são os que falam
por Deus e expressam Deus pela revelação divina. Às vezes falam por
inspiração predizendo (11:27-28). Mestres são os que ensinam as
verdades de acordo com o ensinamento dos apóstolos (2:42) e a
revelação dos profetas. Profetas e mestres são universais e também
locais (Ef 4:11).
Quando o fluir iniciou com os cento e vinte em Jerusalém,
apenas judeus típicos se envolveram. Mas, segundo o registro em
13:1, os profetas e mestres da igreja em Antioquia eram de várias
origens. Barnabé era levita, natural de Chipre (4:36). Níger, que
quer dizer negro e denota um negro, provavelmente de origem
africana. Lúcio, o cireneu, era de Cirene, no norte da África. Talvez
fosse judeu, se era o Lúcio de Romanos 16:21, parente de Paulo.
Herodes, quanto ao governo, era ligado aos romanos; portanto,
Manaém, seu irmão colaço, deve ter tido influência européia. O
Herodes em 13:1 foi o que matara João Batista (Lc 9:7-9). Foi pela
soberania do Senhor que o irmão de leite do assassino de João
Batista se tornasse um dos membros que mais exercia sua função na
igreja. Por fim, Atos 13:1 menciona Saulo, judeu nascido em Tarso e
instruído por Gamaliel segundo a lei de Moisés (22:3).
Os cinco profetas e mestres registrados aqui se compunham de
judeus e gentios, cada qual tendo antecedentes, educação e posição
diferentes. Isso indica que a igreja se compõe de todas as raças e
classes de pessoas a despeito de seus antecedentes, e que os dons e
funções espirituais dados aos membros do Corpo de Cristo não se
baseiam na posição natural deles.
Aqui em 13:1 o Senhor estabeleceu um padrão. A partir de
Antioquia o mover do Senhor se voltou para alcançar o mundo
gentio, onde há muitos tipos diferentes de pessoas, pessoas de
diferentes culturas, raças e posição. Assim, bem no início dessa
virada, o modelo foi estabelecido para indicar que as igrejas são
compostas de todas as raças e classes de pessoas.
Entre os cristãos hoje, são designados comitês e comissões
para levantar fundos a fim de apoiar certas atividades. Além disso,
há bastante organização. Mas em Atos 13 a situação é bem diferente.
Ali não vemos comitês, comissões, levantamento de fundos nem
organização.

A PRODUÇÃO DE PROFETAS E MESTRES

De acordo com 13:1, havia profetas e mestres na igreja em


Antioquia. Precisamos descobrir como eles foram gerados. Não
havia seminário nem ordenação. Como, então, Barnabé, Níger,
Lúcio, Manaém e Saulo se tornaram profetas e mestres?

Gradualmente Manifestados

Em Efésios 4:11 Paulo diz que Cristo, a Cabeça, deu ao Corpo


quatro tipos de dons: apóstolos, profetas, evangelistas, e pastores e
mestres. Esses dons são levantados e dados ao Corpo pela Cabeça.
Não são gerados de maneira humana, por meio de educação, seleção
ou ordenação. Mas, dentre os santos que amam o Senhor e O
buscam, alguns gradualmente se manifestam como evangelistas,
profetas ou mestres. Eles são produzidos pela sua manifestação na
vida e viver cristão. Por exemplo, no capítulo sete Estêvão foi
manifestado como grande mestre e no capítulo oito Filipe foi
manifestado como evangelista. Então, no capítulo nove, Paulo foi
manifestado primeiro como evangelista e depois como mestre.
Todavia, quando estava na igreja em Antioquia, ele não exerceu uma
obra evangélica, e, sim, uma obra de ensinar. Atos 11:26 diz que ele e
Barnabé “se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa
multidão”. Isso indica que tanto Barnabé como Saulo eram mestres.
Talvez os outros três mencionados em 13:1 (Níger, Lúcio e Manaém)
fossem profetas. Paulo, naturalmente, também tinha o dom de
pregar, mas em Antioquia ele funcionou como mestre.
Os cinco mencionados em 13:1 não foram gerados como dons
de maneira humana. Pelo contrário, foram gerados por meio da sua
manifestação gradual entre os santos. Por fim, os santos
reconheceram que eles tinham determinados dons. Então, por meio
dos seus dons, eles se tornaram pessoas dotadas.

A Maneira Orgânica do Corpo

Hoje na restauração do Senhor devemos seguir o modelo de


Atos 13, sem uma maneira humana de gerar pregadores. Não
adotamos a maneira humana de seleção ou organização; em vez
disso, dependemos do Senhor para que Ele gere algo em Seu Corpo.
A maneira que adotamos não é a de organização; é orgânica. Se
alguns irmãos servem ao Senhor em tempo integral, isso não deve
ser feito na forma de organização, mas na forma orgânica do Corpo.
Recentemente, centenas de santos em Taipei, Taiwan, se
consagraram para servir ao Senhor em tempo integral. Dissemos a
eles que não seguimos a maneira da organização. A nossa maneira
na restauração do Senhor é orgânica; é a maneira da vida. O que
importa é como os santos crescem no Senhor e como a vida divina se
desenvolve neles para gerar certa habilidade para funcionar. Essa é a
maneira orgânica baseada no crescimento e desenvolvimento da
vida divina em nós. Todos precisamos ver isso.

Sem Métodos Humanos de Angariar Fundos

Seria uma degradação deixar essa maneira orgânica e usar a


maneira organizacional. Fazer isso seria cair de novo na prática do
cristianismo tradicional. Assim, devemos abandonar a maneira
organizacional, do controle humano e métodos de levantar fundos. O
ministério do Senhor é sair e apartar-se da organização e métodos
financeiros humanos.
Há pouco, eu disse aos santos em Taipei que se deram para
servir ao Senhor em tempo integral que não discutissem a questão
de finanças e levantamento de fundos. Em 1949 quando os
cooperadores, sob a liderança do irmão Nee, decidiram enviar-me
para fora da China, nenhum fundo me foi dado e eu não sabia para
onde ir. Por fim, pela orientação do Senhor, fui para Taiwan, e fui
para lá sem nenhum meio humano de sustento.
A situação foi muito semelhante quando vim para os Estados
Unidos. Quando cheguei a este país, ninguém me sustentou
financeiramente. Na verdade, alguns irmãos dos Estados Unidos
achavam que eu era sustentado pelos irmãos do Extremo Oriente, e
os irmãos do Extremo Oriente pensavam que eu era sustentado
pelos irmãos dos Estados Unidos. Como prova de que eu não era
sustentado por meios humanos, o irmão que me ajudou a fazer a
declaração do imposto de renda em 1964 disse-me que no ano todo a
igreja em Los Angeles me deu um total de seiscentos dólares. Talvez
você fique imaginando como é que eu vivi. Simplesmente posso
testificar que vivi. Como vivi? Vivi como vivem os pardais e os lírios.
O que quero enfatizar ao dizer isso é que, ao servir ao Senhor em
tempo integral, não devemos preocupar-nos com finanças. O Senhor
não vai deixar-nos morrer de fome.
No capítulo treze de Atos não há discussão sobre levantamento
de fundos ou quanto pagar a Barnabé e a Paulo. Barnabé não disse:
“Irmão Paulo, esteja certo de que vou cuidar das suas necessidades
financeiras”. Do mesmo modo, Paulo não disse: “Irmãos, vocês
impuseram as mãos sobre mim, mas, e as minha despesas de
viagem? Como é que vou viver? Vocês me enviam, mas quem me irá
sustentar? Como irão enviar-me dinheiro?” A maneira de Atos 13
certamente é bem diferente da prática de muitos grupos cristãos
hoje.
Deixe-me dar um testemunho com respeito à obra de
publicações neste país. Em 1963 iniciamos a publicação de uma
pequena revista The Stream (A Corrente). Iniciamos esse trabalho
com apenas duzentos dólares. Nos últimos vinte e um anos houve
grande desenvolvimento nessa obra de publicações. O Senhor usou o
ministério de publicações e muitos têm desfrutado o material
impresso. Hoje essa obra tem três escritórios: um em Anaheim,
outro em Irving e ainda outro em Taipei, e nela muitos irmãos
trabalham em tempo integral. Tudo isso é o Senhor fazendo; e foi
feito sem organização nem levantamento de fundos.
Se o Senhor o liderar a servi-Lo em tempo integral, encorajo-o
a tomar o caminho Dele. Não fale a respeito de dinheiro ou
organização, nem considere a sua posição, classe ou título. Esqueça-
se de tudo isso e tenha certeza de que o Senhor cuidará de tudo.

A NECESSIDADE DE OBREIROS EM TEMPO INTEGRAL

Para o mover do Senhor ao levar a cabo a Sua restauração hoje


existe a necessidade de muitos obreiros em tempo integral. Isso é
verdade especialmente nos Estados Unidos. Neste país
provavelmente há em torno de cem igrejas, mas não temos irmãos
que servem em tempo integral em número suficiente para atender à
necessidade. O mover do Senhor tem sido severamente restringido
por essa carência. Certamente há a necessidade de obreiros em
tempo integral.
Como é que esses obreiros de tempo integral tão necessários
serão gerados? Certamente, não pela seleção humana, mas serão
gerados pelo crescimento em vida dos santos e pela manifestação do
que eles são. Então, alguns serão levados pelo Senhor a servi-Lo em
tempo integral e tomarão a direção do Senhor pela fé. Os que
seguem o Senhor dessa forma não devem preocupar-se com a
sobrevivência. Devem simplesmente deixar isso com o Senhor.
Ademais, não devem importar-se com posição, classe ou título.
Devem importar-se apenas com o mover do Senhor e desejar estar
nele.
Como alguém que já tem servido ao Senhor em tempo integral
por mais de cinquenta anos, posso testificar que alguém que serve ao
Senhor assim não deve se preocupar com finanças ou posição. Desde
que deixei o meu emprego em 1933 para servir ao Senhor, posso
testificar que nunca considerei a minha posição, classe ou título.
Através dos anos, tudo o que conheci foi isto: laborar dia e noite. Eu
não me importo com quem sou, não me importo com posição, classe
ou título. Quero que se dirijam a mim simplesmente como “irmão
Lee”. Isso é suficiente. Sou apenas um irmão que labora. O nosso
desejo é seguir Paulo em laborar pelo interesse do Senhor e cuidar
de todas as igrejas.
Espero que todo o que ler estas mensagens ore com respeito à
necessidade de obreiros em tempo integral. Será que o Senhor irá
liderá-lo para servir em tempo integral? Talvez Ele o conduza dessa
forma.
Há uma grande necessidade de obreiros em tempo integral não
apenas nos Estados Unidos, mas também na América Latina e
Europa. Muitos países na América Central e do Sul se abriram para a
restauração do Senhor. Há muitas igrejas no México e Brasil.
Também há igrejas na Guatemala, Colômbia, Argentina, Chile, Peru,
Bolívia, Uruguai e Paraguai. Embora haja tantas igrejas na América
Latina, há muito poucos obreiros em tempo integral. Certamente há
a necessidade de muitos irmãos que queiram servir o Senhor em
tempo integral, confiando Nele para atender a necessidade. Também
há a necessidade de obreiros em tempo integral na Europa.
Todos precisamos levar essas questões ao Senhor. Não tome
nenhuma decisão de maneira leviana, porém ore, abrase ao Senhor e
busque a Sua vontade. Que Ele atenda à necessidade de obreiros em
tempo integral para a expansão da Sua restauração na terra hoje.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 36
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (2)

Leitura Bíblica: At 13:1-12

Nesta mensagem continuaremos a ver 13:1-12. Em 13:1-4a


vemos que Barnabé e Saulo foram separados e enviados pelo
Espírito Santo. Os versículos 4b-12 descrevem a viagem deles a
Pafos de Chipre.

SEPARADOS E ENVIADOS PELO ESPÍRITO SANTO

Ministravam ao Senhor

Atos 13:1-2 diz: “Havia na igreja de Antioquia profetas e


mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene,
Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao
Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Aqui vemos
que esses profetas e mestres não estavam consultando homens nem
se organizando, mas ministrando ao Senhor e jejuando.
Esses cinco ministravam diretamente ao Senhor. Isso quer
dizer que, espiritualmente falando, não estavam no altar no átrio,
mas no altar de incenso no Lugar Santo. No Antigo Testamento os
sacerdotes ministravam em dois lugares. Quando serviam às
pessoas, ministravam no altar no átrio, oferecendo sacrifícios a Deus
pelo povo. Mas quando serviam diretamente ao Senhor, estavam em
outro lugar: no altar no Lugar Santo queimando incenso. Esses cinco
irmãos em Antioquia ministravam diretamente ao Senhor no altar
de incenso no Lugar Santo por meio de orações.

O Falar do Senhor como o Espírito

Enquanto eles ministravam ao Senhor dessa maneira, Ele,


como o Espírito, veio e lhes disse: “Separai-me, agora, Barnabé e
Saulo”. Isso indica que aqui o Espírito Santo é o Senhor.
Porém, muitos cristãos pensam que o Espírito é separado do
Senhor. Alguns até mesmo dizem que o Espírito é meramente o
agente, ou representante, do Senhor. Se fosse assim, em 13:2 o
Espírito Santo não deveria ter dito: “Separai-me, agora, Barnabé e
Saulo”, e, sim: “Eu, o Espírito, sou um agente do Senhor. Represento
o Senhor e trabalho por Ele. Não digo que vocês devam separar-Me
Barnabé e Saulo, mas que os separem para o Senhor, para quem
trabalho”. Em 13:2 temos o Senhor, o Espírito Santo e “Me”. Quem é
esse “Me”? Será que é apenas o Espírito Santo e não o Senhor?
Certamente não; o “Me” nesse versículo é o Senhor.
Os cinco profetas e mestres ministravam ao Senhor. Enquanto
isso, o Senhor, como o Espírito Santo, falou-lhes. Isso corresponde à
palavra de Paulo: “Ora, o Senhor é o Espírito” (2Co 3:17). Portanto o
Espírito podia dizer-lhes: “Separai-me, agora, Barnabé e Saulo”.
Esse “Me” é tanto o Senhor como o Espírito Santo. Assim, não
devemos pensar que o Espírito Santo é separado do Senhor. Não, o
Espírito é o Senhor a quem ministramos. Quando ministramos,
ministramos ao Senhor. Mas, quando nos responde, o Senhor
responde como o Espírito. Por ser o Senhor, Ele podia dizer como o
Espírito Santo: “Separai-me, agora, Barnabé e Saulo”.

Um Grande Passo Dado pelo Senhor para a Difusão do


Evangelho ao Mundo Gentio

Em 13:2 o Espírito Santo como o Cristo pneumático, a Cabeça


do Corpo, disse aos cinco que separassem Barnabé e Saulo para a
obra para a qual Ele os tinha chamado. Esse foi um passo grandioso
tomado pelo Senhor para a difusão do evangelho do Seu reino para o
mundo gentio. Teve início em Antioquia, centro gentio situado na
Síria, sem organizar uma missão, sem levantar fundos, sem
ordenação humana nem qualquer plano ou método humano. Teve
início por meio de cinco fiéis e sequiosos membros do Corpo de
Cristo, que deram à Cabeça do Corpo a oportunidade por meio do
seu ministrar e jejuar, de que Ele, como o Espírito, os separasse para
levar a cabo o Seu grande comissionamento de difundir o Seu reino
para estabelecer a igreja no mundo gentio pela pregação do
evangelho.
Esse passo importantíssimo nada tinha a ver com a igreja em
Jerusalém no sentido organizacional, nem estava sob a autoridade e
direção de Pedro e os outros onze apóstolos em Jerusalém. Começou
apenas e puramente num centro gentio, longe da atmosfera e
influência de quaisquer antecedentes e práticas judaicas, e até
mesmo da prática e influência da igreja em Jerusalém. Foi um
mover totalmente pelo Espírito, no Espírito e com o Espírito
mediante a coordenação entre os fiéis e sequiosos membros do
Corpo de Cristo, na terra, e a Cabeça, nos céus. Desse modo, não foi
um movimento religioso com programação humana. A partir de
Antioquia o mover do Senhor na terra para a economia
neotestamentária de Deus teve um começo inteiramente novo.
Embora o fluir do mover do Senhor tenha começado em Jerusalém
no dia de Pentecostes e mais tarde tenha chegado a Antioquia e daí
para o mundo gentio, teve um início purificado pelo Espírito na
mudança de direção em Antioquia.

A Imposição de Mãos

Atos 13:3 continua: “Então, jejuando, e orando, e impondo


sobre eles as mãos, os despediram”. Aqui vemos que eles jejuaram e
oraram; não nos é dito que discutiram e decidiram.
Em 13:3 a imposição de mãos denota identificação, e significa
que os que impuseram as mãos eram um com aqueles em quem as
impunham. Por meio disso, declararam a todos que eram um com os
enviados quando estes foram executar o grandioso comissionamento
do Senhor.
A primeira parte de 13:4 diz: “Enviados, pois, pelo Espírito
Santo”. No versículo 3, Barnabé e Saulo foram enviados pelos outros
três. Mas aqui diz que foram enviados pelo Espírito. Isso prova que
os três eram um com o Espírito no mover do Senhor, e o Espírito
honrou o fato de eles os enviarem como se Ele mesmo o fizesse.
A imposição de mãos em 13:3 nada tem a ver com ordenação.
Os três que impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo não eram
membros de um comitê missionário ou organização religiosa que
garantia aos enviados o apoio financeiro. Essa é a prática entre
muitos grupos cristãos hoje. Alguém enviado ao campo missionário
pode pensar que, a menos que os membros do comitê imponham as
mãos sobre ele, ele não terá o sustento financeiro garantido. Mas, se
lhe impuserem as mãos, ele saberá que terá o dinheiro de que
necessita. Isso é comum hoje.
Se impusermos as mãos nos enviados, isso nunca deve ser
como um penhor de sustento financeiro. Mas ao fazê-lo devemos ser
um com o Deus Triúno, não para ordenar os enviados, mas para nos
identificar com eles. Assim, a imposição de mãos significa que nosso
espírito, orações e tudo o que está em nosso interior acompanha os
enviados. Isso não é ordenação; é identificação.
Sempre que impusermos as mãos em alguém na restauração
do Senhor, que está sendo enviado pelo Senhor, devemos fazê-lo
dessa maneira. Se assim não for, não devemos praticar a imposição
de mãos.
A imposição de mãos não é um ritual nem algo relacionado à
ordenação, mas é uma questão de vida no Espírito. Em Atos 13 os
três tinham encargo de ter parte no comissionamento de Barnabé e
Saulo. Por isso é que lhes impuseram as mãos. Por meio da
imposição de mãos eles mostraram que acompanhariam Barnabé e
Saulo nas suas orações e no Espírito. Seriam um com eles e iriam
com eles a qualquer custo.
Devido à influência do antecedente religioso e por causa do
prejuízo causado pela imposição de mãos na forma de ritual, temos
sido relutantes em praticar isso entre nós. Algumas vezes tive
encargo de impor as mãos em algumas pessoas. Mas hesitei em fazê-
lo porque muitos consideram isso um ritual ou algo relacionado à
ordenação. Não devemos ter ordenação nem ritual algum. O que
precisamos é da identificação autêntica e adequada. Há a
necessidade da imposição de mãos, mas nunca devemos fazer isso
como ritual. Se a praticarmos deve ser de acordo com a orientação
interior e um autêntico encargo do Espírito. A nossa prática deve ser
diferente da do cristianismo tradicional, que está totalmente fora do
padrão apresentado em Atos 13.

Um Excelente Modelo
Em Atos 13 vemos um modelo excelente. Não temos tal padrão
em Jerusalém porque a igreja ali estava no estágio inicial. A obra do
Senhor em Jerusalém, na verdade, iniciou-se quando Ele chamou os
discípulos. Enquanto caminhava junto ao mar da Galiléia, Ele viu
dois irmãos, Simão e André, e os chamou para segui-Lo (Mt 4:18-
19). Indo adiante, viu outros dois, Tiago e João, e também os
chamou (Mt 4:21-22). Depois de chamar esses e os outros discípulos,
o Senhor os fez acompanhá-Lo por três anos e meio. Ele os fez
passar pela crucificação e os introduziu em ressurreição. Daí, em
ressurreição, Ele lhes apareceu por quarenta dias. Depois disso,
levou-os todos ao monte das Oliveiras e à vista deles ascendeu
visivelmente aos céus. Com esse pano de fundo e educação
espiritual, os discípulos oraram por dez dias. Então, no dia de
Pentecostes, iniciou o ministério de Pedro.
O que o Senhor fez com os discípulos nos Evangelhos e nos
primeiros dois capítulos de Atos não pode ser repetido. Ele não irá
chamar seguidores hoje como fez com Pedro, André, Tiago e João.
Assim, nos discípulos de Jerusalém não temos um padrão que possa
ser repetido entre nós hoje. Mas, o padrão de Atos 13 pode ser
repetido.
Quando o Senhor Jesus chamou Pedro e André, Ele lhes disse:
“Vinde após Mim, e Eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4:19).
Mas, ao chamar Saulo de Tarso, Ele lhe deu a entender por meio de
Ananias que o faria, não pescador de homens, mas, um vaso. Em
Atos 9:15 Ele disse a Ananias com respeito a Saulo: “Este é para mim
um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios
e reis, bem como perante os filhos de Israel”. Pedro foi feito
pescador de homens, mas Paulo foi feito um vaso. Há grande
diferença entre essas duas figuras.
A nova mudança de direção em Atos 13 não ocorreu com
pescadores, e, sim, com vasos. Quando Paulo foi enviado, foi como
um vaso. Isso quer dizer que foi enviado para ser um vaso que
contém Cristo e O leva ao mundo gentio. Aonde quer que Paulo
fosse, o seu ministério era infundir nos outros o próprio Cristo que
tinha em si. Ele era um vaso contendo Cristo, e O ministrava a
outros.
O início em Antioquia é bem diferente do de Jerusalém. O
início em Jerusalém não é um modelo para nós hoje. Mas o início, a
virada, em Antioquia certamente é o nosso modelo e precisamos
segui-lo.

A VIAGEM PARA PAFOS DE CHIPRE

Atos 13:4b nos diz que Barnabé e Paulo: “Desceram a Selêucia


e dali navegaram para Chipre”. Esse foi o início da primeira viagem
ministerial de Paulo, que terminou em 14:27.

Anunciavam a Palavra de Deus nas Sinagogas

Atos 13:5a diz: “Chegados a Salamina, anunciavam a palavra


de Deus nas sinagogas judaicas”. Barnabé e Saulo não foram
participar da reunião da sinagoga, mas aproveitaram esse
ajuntamento para anunciar a palavra de Deus, como fez o Senhor no
Seu ministério na terra (Mt 4:23; Lc 4:16). Assim como em Atos
13:14, o objetivo deles em ir à sinagoga era aproveitar a
oportunidade de pregar o evangelho.
Já vimos que a palavra sinagoga vem do grego synagogé,
composta de syn, junto, e ágo, trazer; assim, denota ajuntamento,
reunião, congregação, assembleia. Por extensão veio a significar o
lugar de reunião. É usada no Novo Testamento no sentido de
congregação (At 13:43; 9:2; Lc 12:11) e lugar de reunião (Lc 7:15)
dos judeus, onde buscavam o conhecimento de Deus no estudo das
Escrituras Sagradas (Lc 4:16-17; At 13:14-15).

Tinham João como Auxiliar

De acordo com 13:5b, Barnabé e Paulo tinham João como


auxiliar. Isso na verdade é uma falha no modelo, causado pela falta
de experiência. Barnabé e Paulo não deveriam ter levado João com
eles. Por fim, ele os deixou e voltou para Jerusalém (v. 13). A razão
de João voltar pode ter sido a sua incapacidade de suportar as
dificuldades da viagem.
Quando Barnabé e Paulo estavam prestes a sair na segunda
viagem, “Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos.
Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a
Panfília, não os acompanhando no trabalho” (15:37-38). Como
veremos, houve uma forte contenda entre Barnabé e Paulo a esse
respeito. Como João era primo de Barnabé, ele queria levá10 junto
com eles, mas Paulo não concordou. O que queremos enfatizar aqui
é que o problema começou com o erro de levar Marcos com eles na
primeira vez.
Os que servem ao Senhor em tempo integral devem ser
cuidadosos ao levar alguém com eles. Nem todos são capazes de
suportar as dificuldades de servir em tempo integral. Levar alguém
precipitadamente pode causar problemas. O erro cometido por
Barnabé e Paulo ao levar Marcos com eles na primeira viagem por
fim levou à separação de Paulo e Barnabé. Foi um erro sério.

Barnabé e Paulo na Ilha de Chipre

Atos 13:6-7 diz: “Havendo atravessado toda a ilha até Pafos,


encontraram certo judeu, mágico, falso profeta, de nome Barjesus, o
qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, que era homem
inteligente. Este, tendo chamado Barnabé e Saulo, diligenciava para
ouvir a palavra de Deus”. Esse procônsul era o chefe de um governo
local no Império Romano.
O versículo 8 continua: “Mas opunha-se-lhes Elimas, o mágico
(porque assim se interpreta o seu nome), procurando afastar da fé o
procônsul”. Essa é a fé objetiva, que se refere ao conteúdo do
evangelho no qual os crentes em Cristo creram.
Atos 13:9 prossegue: “Todavia, Saulo, também chamado Paulo,
cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos”. A mudança de nome
pode indicar a mudança em vida. De qualquer modo, a partir desse
momento, Paulo, cheio do Espírito Santo, tomou a dianteira no
ministério apostólico em todo o caminho. O encher do Espírito
Santo aqui é o encher exterior para poder, como em 2:4; 4:8, 31; e
9:17.
Segundo 13:10, Paulo disse a Elimas, o mágico: “Ó filho do
diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a
justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor?” Os
retos caminhos são os caminhos da verdade e os da justiça (2Pe 2:2,
15, 21).
Atos 13:11-12 conclui: “Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do
Senhor, e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo
instante, caiu sobre ele névoa e escuridade, e, andando à roda,
procurava quem o guiasse pela mão. Então, o procônsul, vendo o
que sucedera, creu, maravilhado com a doutrina do Senhor”. Elimas,
o mágico, foi punido e envergonhado. Então, o Senhor mostrou os
Seus retos caminhos ao procônsul, que creu e foi salvo. Como
resultado, um testemunho foi levantado naquela cidade.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 37
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (3)

Leitura Bíblica: At 13:13-43

Nesta mensagem chegamos a 13:13-52. Nesse trecho de Atos,


Paulo e seus companheiros chegaram a Antioquia da Pisídia, onde
pregaram o Jesus Cristo crucificado e ressurreto como o Salvador
(vs. 13-43). Contudo, como veremos, eles foram rejeitados pelos
judeus (vs. 44-52).
Atos 13:13 diz: “E, navegando de Pafos, Paulo e seus
companheiros dirigiram-se a Perge da Panfília. João, porém,
apartando-se deles, voltou para Jerusalém”. Baseado em 15:38, a
razão de João ter-se separado deve ter sido negativa e desse modo
desanimadora para Paulo e seus companheiros. Entretanto, mais
tarde ele novamente se juntou a Paulo no seu ministério (Cl 4:10-11;
2Tm 4:11).

FORAM À SINAGOGA

Atos 13:14 diz: “Mas eles, atravessando de Perge para a


Antioquia da Pisídia, indo num sábado à sinagoga, assentaram-se”.
O propósito de os apóstolos irem à sinagoga no sábado não era
guardar esse dia, e, sim, aproveitar a oportunidade para pregar o
evangelho. Assim como em 13:5, eles não foram participar da
reunião da sinagoga mas aproveitaram esse ajuntamento para
anunciar a palavra de Deus, como fez o Senhor Jesus em Seu
ministério (Mt 4:23; Lc 4:16).
Aqui em Atos 13 vemos um modelo completo para seguirmos
hoje. Ao ir à sinagoga, Paulo seguia os passos do Senhor Jesus, que
ensinara na sinagoga. Se em determinada cidade havia uma
sinagoga, Paulo ia lá, não porque fosse judeu, ou pretendesse
guardar o sábado ou aprender a palavra de Deus. Pelo contrário, ele
ia à sinagoga pela oportunidade de falar o evangelho de Deus. Em
toda sinagoga eram ensinadas as Escrituras Sagradas, e havia bom
número de pessoas, tanto judeus como gentios, que buscavam a
Deus. Portanto Paulo era sábio em ir às sinagogas.
Em 13:15 vemos que na sinagoga em Antioquia de Pisídia, foi
dada a Paulo a oportunidade de falar: “Depois da leitura da lei e dos
profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se
tendes alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a”.
Literalmente, as palavras gregas traduzidas como se tendes alguma
palavra significam se há em vós alguma palavra. Quando se
levantou para falar, Paulo se dirigiu aos presentes dizendo: “Varões
israelitas e vós outros que também temeis a Deus” (v. 16). Aqui, os
que temem a Deus são gentios que buscavam a Deus.
A ida de Paulo à sinagoga também está de acordo com o
princípio básico de que o evangelho de Deus deve ir primeiro aos
judeus e então aos gentios (Rm 1:16).
Em João 10 o Senhor Jesus indica que o único rebanho de
ovelhas é composto tanto de judeus como de gentios. Em João 10:16
Ele diz: “Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste aprisco; a
essas também Me importa conduzir; elas ouvirão a Minha voz; então
haverá um só rebanho, um só Pastor”. Aqui, as outras ovelhas são os
crentes gentios (At 11:18). O único rebanho é a igreja única, o Corpo
único de Cristo (Ef 2:14-16; 3:6), gerado pela vida, a qual é o Senhor
infundido em Seus membros por meio da Sua morte (Jo 10:10-18).
Em João 10:16 o aprisco é o judaísmo, e o rebanho é a igreja. Fora do
aprisco do judaísmo, havia outras ovelhas, os crentes gentios, que
seriam ajuntados para se tornar um só rebanho com os crentes
judeus. Como já mostramos, esse rebanho único é a igreja.
Alguns hinos foram escritos, nos quais a igreja é considerada
como o aprisco. Esse é um conceito errado. A igreja não é um aprisco
que guarda as ovelhas, e, sim, um rebanho, isto é, a totalidade das
ovelhas. O aprisco e o rebanho são coisas distintas, mas a igreja e o
rebanho são o mesmo. O judaísmo foi um aprisco usado por Deus
para guardar as ovelhas temporariamente. O aprisco é um local
usado para guardar as ovelhas no inverno, mau tempo e à noite.
O Antigo Testamento era a “noite”. As ovelhas do Senhor
foram guardadas nesse aprisco até que o dia raiou com a Sua vinda
(Lc 1:78-79). Como o Pastor, Ele as chamou para fora do aprisco,
isto é, para fora da religião judaica.
Os cristãos hoje consideram as denominações como igrejas. Na
verdade, são apriscos que guardam os crentes, que são membros da
igreja. Enquanto cada denominação é um aprisco, a igreja é o
rebanho.
Nos tempos antigos, as sinagogas do judaísmo eram apriscos, e
muitas ovelhas de Deus eram guardadas ali. Quando o Senhor Jesus
veio, Ele chamou os escolhidos de Deus para fora do aprisco do
judaísmo. Paulo O seguiu fazendo o mesmo. Sempre que chegava
numa cidade, ele ia ao aprisco, a sinagoga daquele lugar, pois sabia
que bom número de ovelhas de Deus eram mantidas ali. Por isso,
quando ele pregava numa sinagoga, várias pessoas criam. Entre os
que creram havia alguns gregos. O ministério do apóstolo Paulo não
era apenas chamar os escolhidos de Deus para fora da religião
judaica, mas também ganhar crentes gentios. Então, os crentes
judeus e gentios eram ajuntados para formar a igreja, o único
rebanho. Hoje na restauração do Senhor não estamos edificando um
aprisco, mas cuidando do rebanho de Deus.
O fato de Paulo ir às sinagogas é um aspecto do modelo
retratado em Atos 13. Podemos aprender com ele a ir aos lugares
onde os escolhidos de Deus se reúnem.

PREGAVAM E ENSINAVAM A PALAVRA DAS


ESCRITURAS SAGRADAS

A sinagoga era um lugar onde os que buscavam a Deus


estudavam as Escrituras Sagradas. Sempre que ia a uma delas, Paulo
pregava e ensinava pelas Escrituras Sagradas, que naquele tempo,
naturalmente, consistia apenas do Antigo Testamento. Paulo e
Barnabé não pregavam nem ensinavam conhecimento humano ou
algo de si mesmos. Pelo contrário, pregavam e ensinavam as
Escrituras Sagradas. Sempre que entravam numa sinagoga,
pregavam a partir da Bíblia.
As palavras de Paulo em 13:17-22 eram inteiramente baseadas
nas Escrituras. No versículo 17 ele disse: “O Deus deste povo de
Israel escolheu nossos pais e exaltou o povo durante sua
peregrinação na terra do Egito, donde os tirou com braço poderoso”.
Aqui poderoso quer dizer erguido. Nos versículos 18 a 20a Paulo
prosseguiu: “E suportou-lhes os maus costumes por cerca de
quarenta anos no deserto; e, havendo destruído sete nações na terra
de Canaã, deu-lhes essa terra por herança, vencidos cerca de
quatrocentos e cinquenta anos”. Os quatrocentos e cinquenta anos
se estendem desde a peregrinação do povo na terra do Egito (v. 17)
até os juízes (v. 20).
Em 13:20-22 Paulo continua: “Vencidos cerca de quatrocentos
e cinquenta anos. Depois disto, lhes deu juízes, até o profeta Samuel.
Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul, filho de Quis,
da tribo de Benjamim, e isto pelo espaço de quarenta anos. E, tendo
tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando
testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o
meu coração, que fará toda a minha vontade”. Davi era um homem
segundo o coração de Deus, isto é, segundo o desejo do Seu coração,
não apenas segundo as Suas palavras. Tal homem fará toda a
vontade de Deus.

PREGOU A CRISTO

Centrado em Cristo

Vimos que a pregação e o ensinamento de Paulo se baseavam


no Antigo Testamento. O Antigo Testamento, no entanto, contém
muitas coisas: história, a lei, tipos e profecias. Os judeus o
estudavam semana após semana, mas não prestavam atenção a
Cristo. Tinham alguma idéia sobre o Messias, mas não tinham
nenhum entendimento de Cristo. Quando entrava nas sinagogas
para pregar e ensinar, Paulo não se preocupava com outra coisa
senão Cristo.
Quando alguns ouvem que Paulo pregava Cristo e apenas
Cristo, talvez digam: “Paulo não iniciou a pregação com um relato da
história do Antigo Testamento? não falou sobre Deus tirando o Seu
povo do Egito e sobre Saul e Davi?” Sim, ele falou sobre essas coisas,
mas o fez para preparar o caminho a fim de pregar Cristo. No
versículo 22 ele citou a palavra a respeito de Davi ser um homem de
acordo com o coração de Deus. Então, no 23 ele prosseguiu: “Da
descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o
Salvador, que é Jesus”. Aqui vemos que depois de breve introdução,
ele chegou à mensagem crucial, centrada totalmente em Cristo.
Depois de ter começado com a história até o tempo de Davi, ele
prosseguiu mostrando que da descendência de Davi Deus gerou o
Salvador, Jesus Cristo. Nele há salvação.
Em 13:24-25 Paulo se refere a João Batista: “Havendo João,
primeiro, pregado a todo o povo de Israel, antes da manifestação
dele, batismo de arrependimento. Mas, ao completar João a sua
carreira, dizia: Não sou quem supondes; mas após mim vem aquele
de cujos pés não sou digno de desatar as sandálias”. A expressão
grega traduzida por antes da manifestação dele literalmente
significa antes da face da Sua entrada. Aqui Paulo mostra que antes
da vinda de Cristo João proclamou o batismo de arrependimento.
Arrependimento visa mudar a disposição mental e o batismo visa
enterrar os que se arrependeram, pondo fim a eles, para que o
Salvador os faça germinar pela regeneração (Jo 3:3, 5-6).
Quando Paulo prosseguiu falando a respeito da “palavra desta
salvação”, ele enfatizou a crucificação de Cristo. Ele mostrou que o
povo de Israel O levou à morte. No versículo 27 ele diz: “Pois os que
habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo
Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem todos os sábados,
quando o condenaram, cumpriram as profecias”. Eles julgaram o
Senhor Jesus sentenciando-O à morte (Lc 24:20). “Depois de
cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do
madeiro, puseram-no em um túmulo” (v. 29).

Ressuscitado dentre os Mortos

A partir do versículo 30, Paulo prosseguiu falando da


ressurreição de Cristo: “Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos”.
Vimos que Atos diz que Deus ressuscitou a Jesus (2:24, 32) e que Ele
ressurgiu dos mortos (Jo:40-41). Ao considerá-Lo como homem, o
Novo Testamento diz que Deus O ressuscitou (Rm 8:11). Mas, ao
considerá-Lo como Deus, diz-nos que Ele mesmo ressurgiu
(Rm 14:9).

O Primogénito de Deus em Ressurreição

Depois de mostrar que o Cristo ressurreto “foi visto muitos


dias pelos que, com ele, subiram da Galiléia para Jerusalém, os quais
são agora as suas testemunhas perante o povo” (v. 31), Paulo
prosseguiu: “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a
nossos pais, como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos,
ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo:
Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”. A ressurreição foi um
nascimento para o homem Jesus. Ele foi gerado por Deus em
ressurreição para ser o Primogênito entre muitos irmãos (Rm 8:29).
Ele era o Unigênito de Deus desde a eternidade (Jo 1:18; 3:16).
Depois da encarnação, por meio da ressurreição, Ele foi gerado por
Deus em Sua humanidade para ser o Seu Primogênito.
Se não fosse Paulo, não creio que seríamos capazes de ver que
o Salmo 2 fala da ressurreição de Cristo. Ele foi capaz de ver a
ressurreição do Senhor nas palavras: “Tu és meu Filho, eu, hoje, te
gerei”. Ele aplicou a palavra hoje ao dia da ressurreição do Senhor.
Isso quer dizer que a ressurreição de Cristo foi o Seu nascimento
como o Primogênito de Deus. Jesus, o Filho do Homem, nasceu para
ser o Filho de Deus ao ser ressuscitado. Portanto, o fato de Deus
ressuscitá-Lo dentre os mortos foi o Seu gerá-Lo para ser o Seu
Primogênito. Precisamos perceber que a ressurreição do Senhor foi o
Seu nascimento. Isso é crucial.

Os Dois Nascimentos do Senhor

O Senhor Jesus teve dois nascimentos. Primeiro, nasceu de


Maria como Filho do Homem. Depois, trinta e três anos e meio mais
tarde, foi crucificado, sepultado e ressuscitado. Por meio da
ressurreição, teve um segundo nascimento, pois, como homem, Ele
nasceu em ressurreição para ser o Filho de Deus. Portanto, em Seu
primeiro nascimento Ele nasceu de Maria para ser o Filho do
Homem, e em Seu segundo nascimento nasceu em ressurreição para
ser o Filho de Deus.
O Unigênito e o Primogênito

Quando alguns ouvem que Cristo nasceu para ser o Filho de


Deus em ressurreição, talvez fiquem incomodados e digam: “O nosso
Senhor não era o Filho de Deus desde a eternidade?” Sim, desde a
eternidade Ele é o Filho de Deus. Antes do primeiro nascimento, isto
é, antes de nascer de Maria para ser o Filho do Homem, Ele já era o
Filho de Deus. O Evangelho de João enfatiza que Ele é o Filho de
Deus, e é o Filho de Deus eternamente. Como já era Filho de Deus
antes da encarnação, por que Lhe foi necessário nascer como Filho
de Deus em Sua ressurreição? Se quisermos responder essa
pergunta precisamos estudar a Bíblia cuidadosamente.
Romanos 8:29 e Hebreus 1:6 falam de Cristo como o
Primogênito. Em Seu segundo nascimento o Senhor nasceu para ser
o Primogênito de Deus. Segundo o Novo Testamento, Ele é o Filho
de Deus em dois aspectos. Primeiro, era o Unigênito de Deus,
segundo, é agora o Primogênito de Deus. A palavra unigênito indica
que Deus só tem um Filho. João 1:18 e 3:16 fala do Unigênito de
Deus. Eternamente falando, Cristo era o Unigênito de Deus. Esse era
o Seu status eterno. Mas por meio da ressurreição Ele, como
homem, nasceu para ser o Primogênito de Deus. A palavra
primogénito indica que Deus agora tem muitos filhos (Hb 2:10). Os
que cremos em Cristo somos os muitos filhos de Deus e os muitos
irmãos do Senhor, os muitos irmãos do Primogênito de Deus
(Rm 8:29).

A Corporificação da Vida e a Propagação da Vida

Como o Unigênito de Deus, o Senhor é a corporificação da vida


divina. O Evangelho de João enfatiza que Jesus Cristo é o Filho de
Deus e como tal Ele é a própria corporificação da vida divina.
(Jo 1:4).
Por meio da ressurreição, Cristo se tornou o Primogênito de
Deus como Aquele que dispensa vida para a propagação da vida.
Primeiro, Ele era o Unigênito de Deus, como a corporificação da
vida, agora Ele é o Primogênito para a propagação da vida.
Tomando-se o Primogênito de Deus em ressurreição, a vida divina
foi dispensada a todos os crentes, para propagar a própria vida que
está corporificada Nele. Todos precisamos ver isso.
Em Atos 13 Paulo não prega Cristo como o Unigênito de Deus,
como o Evangelho de João o faz. Antes, ele prega Cristo como o
Primogênito de Deus para a propagação. Por isso ele prega a
ressurreição do Senhor Jesus como o Seu segundo nascimento, o
Seu nascimento em ressurreição, por meio do qual Ele se tornou o
Primogênito de Deus para propagar a vida divina.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 38
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (4)

Leitura Bíblica: At 13:13-52

Nesta mensagem continuaremos a ver Atos 13. Vimos que


Paulo foi à sinagoga para falar a palavra de Deus tanto a judeus
como a gentios que buscavam a Deus. O que ele falou está centrado
em Cristo. Em 13:27-35 ele fala especificamente sobre a morte e
ressurreição de Cristo. Vimos que a ressurreição foi um nascimento
para o Senhor Jesus. Embora Ele fosse o Unigênito de Deus desde a
eternidade (Jo 1:18; 3:16), após a encarnação e por meio da
ressurreição Ele foi gerado de Deus em Sua humanidade para ser o
Primogênito. Como o Unigênito de Deus, Cristo é a corporificação da
vida divina, mas, como o Primogênito, é a propagação dessa vida.

AS COISAS SANTAS E FIÉIS DE DAVI

Em 13:34 Paulo fala algo mais sobre a ressurreição de Cristo:


“E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais
voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso
favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi”. A expressão as
santas e fiéis promessas feitas a Davi, literalmente é as coisas
santas de Davi, as fiéis. Essa expressão tem perturbado os
tradutores do Novo Testamento. Os versículos 33 e 34 dizem
respeito ao Cristo ressurreto. O versículo 33 diz: “Como Deus a
cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como
também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te
gerei”. Já mostramos que a ressurreição de Cristo foi o Seu segundo
nascimento a fim de gerá-Lo como o Primogênito de Deus. Deus
prometeu dá-Lo ao Seu povo, e esse Cristo ressurreto é as coisas
santas e fiéis de Davi. A expressão as coisas santas de Davi, as fiéis,
indica que Cristo era de Davi, pois foi da descendência de Davi que
Deus O suscitou. Para Deus, o Cristo ressurreto é o Primogênito,
mas para nós Ele é o Salvador. Além disso, Ele é um grande dom
dado por Deus aos Seus escolhidos, e esse dom é intitulado as coisas
santas e fiéis de Davi.

O Cristo Ressurreto

Literalmente as palavras gregas traduzi das como as coisas


santas de Davi, as fiéis são as coisas santas (grego hósios, plural), as
fiéis ou seguras. A mesma palavra (hósios) é usada para Santo no
versículo seguinte, mas no singular. Mas não é a palavra geralmente
usada para santo, que é hágios. Hásios é o equivalente grego do
hebraico chesed, que é traduzido como misericórdias em Isaías 55:3;
2 Crônicas 6:42; e no Salmo 89:1, tanto na Septuaginta como na
Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. No Salmo
89 chesed no versículo I para misericórdias no plural é a mesma
palavra no versículo 19 para Santo no singular. Esse Santo é Cristo,
o Filho de Davi, no qual as misericórdias de Deus estão centralizadas
e por meio de quem são transmitidas. Assim, as coisas santas e fiéis
de Davi se referem ao Cristo ressurreto. Isso está plenamente
provado pelo contexto, especialmente por teu Santo em Atos 13:35 e
Isaías 55:3.
O pensamento de Paulo em 13:33-34 é muito profundo. O
Cristo ressurreto, que é o Primogênito de Deus gerado por meio do
Seu segundo nascimento, a ressurreição, são as coisas santas e fiéis.
No versículo 34 a palavra fiéis significa confiáveis. O Cristo
ressurreto é as coisas santas e confiáveis que Deus nos dá. Aqui
Paulo dá a entender que o Cristo ressurreto não é apenas o nosso
Salvador, trazendo-nos a salvação divina, nem somente o
Primogênito de Deus. Cristo é também as coisas santas e fiéis como
um dom dado a nós por Deus.
É fácil entender que Cristo é nosso Salvador. É mais difícil
entender que Ele é o Primogênito de Deus. Mas é muito difícil
entender que o Cristo ressurreto é as coisas santas e confiáveis.
Muitos de nós nunca fomos ensinados que o Cristo ressurreto é as
coisas santas e confiáveis dadas a nós por Deus. As coisas santas e
fiéis abrangem um universo de itens, um universo muito maior que
o abrangido pelos títulos Salvador e Primogênito. A expressão as
coisas santas e fiéis é, na verdade, um título divino, um título de
Cristo. Nesses versículos Ele é chamado de as coisas santas e
confiáveis. O Deus Salvador levantado da descendência de Davi
tornou-se as coisas santas e confiáveis.

Todos os Aspectos do que Cristo É

Que são essas coisas santas e confiáveis? São todos os aspectos


do que Cristo é. Segundo o Novo Testamento, Cristo é vida, luz,
graça, justiça, santidade, santificação e justificação. Também é o pão
da vida e a água viva. Ademais, as coisas santas e confiáveis incluem
todos os aspectos de Cristo desvendados em 1 Coríntios: poder,
sabedoria, justiça, — santificação, redenção, glória, as profundezas
de Deus,? único fundamento do edifício de Deus, a páscoa, o pão
asmo, a comida espiritual, a bebida espiritual, a rocha espiritual, a
Cabeça, o Corpo, as primícias, o segundo homem e o último Adão.
Vemos muitos outros aspectos de Cristo no Evangelho de João, tais
como o Pastor e o pasto. Oh! quanto Cristo é para nós como as coisas
santas e confiáveis. Como Aquele que ressuscitou, Ele é o
Primogénito, o Salvador e todas as coisas santas e confiáveis.

Cristo como Misericórdias para Nós

No Antigo Testamento, as coisas santas e fiéis eram


consideradas como misericórdias. Isaías 55:3 fala de “as fiéis
misericórdias prometidas a Davi”. Segundo Crônicas 6:42 menciona:
“As misericórdias que usaste para com Davi”, o servo do Senhor, e o
Salmo 89: I diz: “Cantarei para sempre as tuas misericórdias, ó
Senhor”. Você sabe o que é misericórdia? Misericórdia implica amor
e graça, mas vai mais longe do que o amor. Onde o amor e a graça
não alcançam, a misericórdia alcança. Todas as coisas santas e fiéis
são o próprio Cristo como misericórdias para nós. A vida é uma
misericórdia e a luz também é. Semelhantemente, justiça, santidade,
justificação e santificação são misericórdias. No capítulo dez de João
temos a porta, o pasto e o Pastor, todos os quais são misericórdias.
Tente contar todos os aspectos dessas misericórdias. Se gastar
tempo contando-as, você terá uma longa lista delas.
O amor do marido pela mulher e a submissão da mulher ao
marido são Cristo como misericórdias para nós. Se, em Cristo, eu
amo a minha mulher, isso certamente é uma misericórdia. Meu
amor por ela é o próprio Cristo como misericórdia para mim. De
forma semelhante, se uma irmã, em Cristo, se submeter ao marido,
isso também é uma misericórdia. A sua submissão é o próprio Cristo
como misericórdia para ela.
Posso testificar que falar a palavra de Deus ano após ano
certamente é uma misericórdia para mim. Que misericórdia poder
falar a Palavra sem cessar. Antigamente todo ano eu passava alguns
meses nas Filipinas para ministrar a Palavra. Uma irmã de mais
idade, que era a minha hospedeira, ficou muito surpresa que eu
sempre tinha algo novo para dizer. Ela pensou que após alguns anos
eu não teria mais nada para ministrar. Um dia, depois de uma
reunião de conferência, ela disse: “Pensei que você agora já estivesse
exaurido e não tivesse mais nada para dizer. Mas o seu ministério
está até mesmo mais fresco e rico agora do que antes. Onde você
ganha tudo isso para falar?” Se me fizessem essa pergunta hoje, eu
diria que o meu falar a Palavra é Cristo como misericórdia para mim.
Não se trata de habilidade ou dom, mas totalmente de misericórdia.
Não é apenas uma misericórdia para mim que eu fale a palavra
de Deus, mas até mesmo o amado Salvador é o meu falar. Meu falar
é Cristo, e, para mim, falar Cristo é uma misericórdia. Não tenho
graduação elevada e meu falar não é eloquente. Não obstante, o que
falo é cheio de Cristo. Isso se deve totalmente ao fato de Cristo ser
misericórdia para mim quando falo a palavra de Deus.

O Cristo Pregado por Paulo

Todos precisamos ver que o Cristo ressurreto é o Primogênito


de Deus, o Salvador e as coisas santas e fiéis de Davi. Todos os
cristãos autênticos sabem que Cristo é o Unigênito de Deus, e alguns
percebem que Ele é o Primogênito de Deus. Mas alguma vez você já
ouviu que o Cristo ressurreto é todas as coisas santas e confiáveis
como misericórdias dadas a nós por Deus como dom todo-inclusivo?
Talvez nunca tenhamos ouvido isso, mas esse foi o Cristo pregado
por Paulo em Atos 13. Estou muito feliz em ver que Paulo, em sua
mensagem do evangelho, não apenas pregou o Cristo do Antigo
Testamento, mas também o Cristo ressurreto como as coisas santas
e confiáveis. Na verdade, o que ele proclamou em sua pregação do
evangelho requer todas as Epístolas que ele escreveu como
definição. Assim, se você quer ver mais a respeito de Cristo como as
coisas santas e confiáveis, precisa estudar as catorze Epístolas de
Paulo.
Em sua pregação Paulo estabeleceu um excelente modelo para
nós em nossa pregação do evangelho hoje. Assim como Paulo,
precisamos pregar Cristo de forma rica e elevada.
Em 13:35 a 37 Paulo continua: “Por isso, também diz em outro
Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção. Porque, na
verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o
desígnio de Deus, adormeceu, foi para junto de seus pais e viu
corrupção. Porém aquele a quem Deus ressuscitou não viu
corrupção”. A palavra servido no versículo 36 indica que o reinado
de Davi foi um serviço à sua geração pelo conselho de Deus. Assim
como em 13:30, Paulo em 13:37 novamente enfatiza que Deus
ressuscitou o Homem Jesus.

PERDÃO E JUSTIFICAÇÃO

Em 13:38-39 Paulo prossegue: “Tomai, pois, irmãos,


conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por
intermédio deste; e, por meio dele, todo o que crê é justificado de
todas as cousas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei
de Moisés”. Ser perdoado de pecados (v. 38) é negativo; visa à
libertação da condenação. Ser justificado (v. 39) é positivo; visa à
reconciliação com Deus e sermos aceitos por Ele.
Tanto no versículo 38 como no 39 Paulo fala sobre este. Quem
é este? Este é o que foi ressuscitado para ser o Primogênito de Deus,
o nosso Salvador e as muitas coisas santas e confiáveis. Assim, por
meio desse que é as coisas santas e confiáveis como as misericórdias
de Deus para nós, somos perdoados e justificados. Você alguma vez
já ouviu tal evangelho? Por meio Dele, que é o Primogênito, o
Salvador e as coisas santas e confiáveis, o perdão de pecados nos foi
anunciado. E por meio Dele somos justificados de todas as coisas
das quais não podíamos ser justificados pela lei de Moisés.
Esse por meio do qual somos perdoados e justificados não é
apenas o nosso Salvador; mas Ele mesmo é o nosso perdão e
justificação. Tanto perdão como justificação são misericórdias de
Deus para nós e essas misericórdias são aspectos do Cristo
ressurreto. Hoje Cristo em ressurreição é nosso perdão e
justificação. Nunca considere perdão e justificação como algo à parte
de Cristo. Tanto o perdão como a justificação são aspectos do
próprio Cristo como misericórdias de Deus para nós, e essas
misericórdias são coisas santas e fiéis.
Você não considera perdão e justificação como dons que Deus
nos deu? não crê que são coisas santas e confiáveis? Por certo, são
dons de Deus, e certamente são coisas santas e confiáveis. Se
tivermos esse entendimento, veremos que perdão e justificação não
são comuns. Mas são santos. Ademais, são fiéis, garantidos e
confiáveis.
Eu aprecio muito a maneira de Paulo pregar a Cristo em Atos
13. Por meio da sua pregação muitos foram salvos.

PERSEVERAR NA GRAÇA DE DEUS

Em 13:40-41 Paulo advertiu: “Notai, pois, que não vos


sobrevenha o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores,
maravilhai-vos e desvanecei, porque eu realizo, em vossos dias, obra
tal que não crereis se alguém vo-la contar”. Então, enquanto as
pessoas saíam da sinagoga “rogaram-lhes que, no sábado seguinte,
lhes falassem estas mesmas palavras” (v. 42). O versículo 43 diz:
“Despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos
seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, os persuadiam a
perseverar na graça de Deus”. Assim como em 2:10, os prosélitos
eram gentios que se converteram ao judaísmo (6:5). A graça de
Deus, na qual os judeus e prosélitos que seguiram a Paulo e a
Barnabé foram exortados a perseverar, é o Deus Triúno recebido e
desfrutado pelos crentes e expresso na salvação, mudança de vida e
no viver santo deles.
Precisamos dar atenção especial à palavra graça em 13:43.
Precisamos até mesmo analisá-la. Embora estejamos familiarizados
com essa palavra, precisamos perceber que graça em 13:43 é um
composto, formado por vários elementos. É composta de todas as
coisas santas e fiéis.
Se quisermos entender isso, precisamos ver que o versículo 43
é parte da continuação do versículo 34. No versículo 34 temos o
Cristo ressurreto como as coisas santas e fiéis. Conforme a promessa
e profecia do Antigo Testamento, essas coisas santas e fiéis são
misericórdias. Já mostramos que essas misericórdias são aspectos
do que Cristo é. No versículo 43 a expressão muda de coisas santas e
fiéis para graça. Deus nos deu o Cristo ressurreto como as coisas
santas e fiéis e nós cremos Nele e recebemos todas essas coisas
santas e fiéis. Mas que experimentamos na vida diária?
Experimentamos a graça composta e todo-inclusiva que é o Deus
Triúno processado, o próprio Deus que passou pelo processo de
encarnação, viver humano, crucificação e ressurreição. Por isso
Paulo persuadiu os crentes a perseverar na graça de Deus.
Perseverar na graça implica que já a recebemos. Tendo
recebido a graça de Deus, precisamos perseverar nela. Na verdade,
os crentes receberam as coisas santas e fiéis mencionadas no
versículo 34. Então tais coisas se tornam a graça de Deus no
versículo 43. Portanto, a graça de Deus é composta de todas as
coisas santas e fiéis.

REJEITADOS PELOS JUDEUS

Indignos da Vida Eterna

Em 13:44-52 vemos que Paulo e Barnabé foram rejeitados


pelos judeus. Atos 13:44-46 diz: “No sábado seguinte, afluiu quase
toda a cidade para ouvir a palavra de Deus. Mas os judeus, vendo as
multidões, tomaram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o
que Paulo falava. Então, Paulo e Barnabé, falando ousadamente,
disseram: Cumpria que a vós outros, em primeiro lugar, fosse
pregada a palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós
mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos
para os gentios”. O fato de alguém rejeitar a palavra de Deus prova
que ele, pelo seu próprio julgamento, é indigno da vida eterna.
Em sua pregação, registrada nesse capítulo, Paulo não falou da
vida eterna. Mas falou do Filho de Deus, do Salvador, das coisas
santas e fiéis e da graça de Deus. Mas agora, com respeito aos judeus
que os rejeitavam, Paulo e Barnabé disseram que eles se julgaram
indignos da vida eterna. Isso prova de fato que tudo o que Paulo
pregava com respeito ao Cristo ressurreto, o Filho de Deus, o
Salvador e as coisas santas e fiéis, e a graça de Deus é a vida eterna.
Se quisermos ter a compreensão adequada da vida eterna em
13:43, precisamos da experiência espiritual adequada. Pela nossa
experiência sabemos que a vida eterna é o Salvador, o Primogênito
de Deus, as coisas santas e fiéis e a graça todo-inclusiva. Quando
rejeitaram as palavras de Paulo e Barnabé, os judeus se julgaram
indignos da vida eterna, que é o Salvador, o Filho de Deus, as coisas
santas e fiéis e a graça de Deus.

A Luz dos Gentios

Em 13:47 Paulo disse aos judeus que os rejeitavam: “Porque o


Senhor assim no-lo determinou: Eu te constituí para luz dos gentios,
a fim de que sejas para salvação até aos confins da terra”. Essa
palavra é uma citação de Isaías 49:6, a qual se refere a Cristo como o
Servo de Deus, o qual Deus deu como luz para os gentios, para que a
Sua salvação alcance os confins da terra. Como o apóstolo Paulo era
um com Cristo em levar a cabo a salvação de Deus em Cristo, ele
aplicou essa palavra profética a si mesmo em seu ministério de
pregação do evangelho, para a mudança de direção do evangelho dos
judeus, por causa da rejeição deles, para os gentios. Em Seu
ministério na terra o Senhor expressou o mesmo aos judeus
teimosos em Lucas 4:24-27.

Os Destinados para a Vida Eterna

Atos 13:48 continua: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se


e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam
sido destinados para a vida eterna”. O termo grego traduzido como
destinados também pode ser traduzido como designados ou
ordenados. Rejeitar o evangelho é evidência de que a pessoa é
indigna da vida eterna (v. 46); crer nele é prova de que a pessoa foi
designada, ou ordenada, por Deus para a vida eterna. A ordenação
ou predestinação de Deus para a salvação do homem é a Sua
soberania. Contudo, Ele ainda deixa o homem em seu livre arbítrio.
Se o homem irá crer na Sua salvação ou rejeitá-la cabe ao homem
decidir.
Se somos ou não designados para a vida eterna torna-se
evidente quando rejeitamos o evangelho ou cremos nele. Se você
recebe a palavra do evangelho, isso é prova de que Deus o designou
para a vida eterna. Mas, se determinada pessoa rejeita a palavra do
evangelho, isso prova que ela não é digna da vida eterna, de que não
foi designada para a vida eterna. Com respeito a isso, Deus tem a
Sua autoridade e jurisdição, e o homem tem o livre arbítrio. Por um
lado Deus tem o poder para designar; por outro, o homem tem a
capacidade de aceitar ou recusar.
Nesses versículos temos o Salvador, o Filho de Deus, as coisas
santas e fiéis, a graça de Deus e a vida eterna. Quando desfrutamos a
vida eterna, desfrutamos a graça de Deus. Quando desfrutamos essa
graça, desfrutamos as coisas santas e fiéis. Quando desfrutamos as
coisas santas e fiéis, desfrutamos o Primogênito de Deus e o
Salvador.

Os Discípulos Transbordavam de Alegria e do Espírito


Santo

Atos 13:49-52 diz: “E divulgava-se a palavra do Senhor por


toda aquela região. Mas os judeus instigaram as mulheres piedosas
de alta posição e os principais da cidade e levantaram perseguição
contra Paulo e Barnabé, expulsando-os do seu território. E estes,
sacudindo contra aqueles o pó dos pés, partiram para Icônio. Os
discípulos, porém, transbordavam de alegria e do Espírito Santo”.
No versículo 52 a palavra grega traduzida como transbordavam é
pleróo, que significa ser enchido interiormente. De acordo com o seu
uso em Atos, pleróo denota encher um vaso interiormente, assim
como o vento encheu a casa em 2:2. Em 13:52 os discípulos foram
enchidos interior e essencialmente com o Espírito para o viver
cristão deles. Esse encher interior do Espírito Santo é essencial,
visando à vida, e não ao poder. A alegria, visto ser questão de vida, e
não de poder, é prova disso.
Além do Salvador, do Filho de Deus, das coisas santas e fiéis,
da graça de Deus ~ da vida eterna nos versículos 34 a 48, agora
temos o Espírito Santo no versículo 52. O Salvador, o Filho de Deus,
as coisas santas e fiéis, a graça de Deus e a vida eterna compõem o
Espírito Santo único, todo-inclusivo e que dá vida. Esse Espírito
todo-inclusivo é agora o “sanduíche” todo-inclusivo para a nossa
experiência e desfrute. Quando comemos esse “sanduíche”,
desfrutamos a vida eterna, a graça, as coisas santas e fiéis, o
Primogênito de Deus e o Salvador.
Nesta mensagem vimos a maneira de estudar a Bíblia e de
pregar o evangelho. Primeiro temos Cristo Jesus e por fim temos o
Espírito Santo. Temos Cristo Jesus como o Salvador, o Primogênito
de Deus, as coisas santas e fiéis, a graça e a vida eterna. Agora vemos
que tudo isso está no Espírito Santo, e somos enchi dos desse
Espírito essencialmente. Graças ao Senhor que no Espírito Santo
todo-inclusivo temos perdão, justificação, santificação, justiça,
santidade, poder, força, autoridade, vida e luz. Louvado seja o
Senhor por tudo o que está incluído no Espírito todo-inclusivo!
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 39
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (5)

Leitura Bíblica: At 14:1-28

UM LIVRO DA ECONOMIA DE DEUS

Não é O meu encargo no Estudo-Vida de Atos abranger todos


os pontos menores contidos nesse longo livro. Por exemplo, não
tenho encargo de falar de assuntos do tipo: Davi, um homem
segundo o coração de Deus. Mas meu encargo é cobrir todos os
pontos cruciais a respeito da economia neotestamentária de Deus.
Em outras palavras, estou preocupado com todas as coisas em Atos
que têm significado “dispensacional”.
Não uso a palavra “dispensacional” para me referir a uma era
nem à maneira de Deus relacionar-se com o povo em certa época,
mas nestas mensagens a palavra “dispensação” denota o arranjo
divino na economia eterna de Deus. No livro de Atos há muito para
se ver com respeito a esse arranjo divino. Atos, portanto, é um livro
da economia de Deus. Muitos cristãos não têm essa compreensão.
Esse livro não diz respeito meramente aos atos, mas é um livro que
nos mostra a dispensação, a economia, o arranjo de Deus em Sua
economia eterna. a meu encargo nestas mensagens de Estudo-Vida é
abordar a economia de Deus no livro de Atos.
Ao chegar a determinado capítulo de Atos, o meu objetivo é ver
algo com respeito ao arranjo divino da economia de Deus ali. Esse é
o meu objetivo no capítulo catorze. Pode parecer que nesse capítulo
não podemos ver nada com respeito ao arranjo divino na economia
de Deus. Mas se o estudarmos cuidadosamente poderemos ver
algumas questões relacionadas com esse assunto.

PARA ICÔNIO
Atos 14:1 diz: “Em Icônio, Paulo e Barnabé entraram juntos na
sinagoga judaica e falaram de tal modo, que veio a crer grande
multidão, tanto de judeus como de gregos”. Assim como em 13:5 e
14, eles não foram à sinagoga para participar da reunião deles, e,
sim, para tirar vantagem desse ajuntamento e anunciar a palavra da
graça de Deus. a versículo 2 continua: “Mas os judeus incrédulos
incitaram e irritaram os ânimos dos gentios contra os irmãos”.
Aqui o vocábulo grego traduzido por ânimos literalmente
significa almas.

A Palavra da Graça de Deus

Atos 14:3 prossegue dizendo: “Entretanto, demoraram-se ali


muito tempo, falando ousadamente no Senhor, o qual confirmava a
palavra da sua graça, concedendo que, por mão deles, se fizessem
sinais e prodígios”. Como mostramos, a graça do Senhor é o Deus
Triúno recebido e desfrutado pelos crentes e expresso na salvação,
mudança de vida e viver santo deles.
Quando o Senhor testificou a palavra da Sua graça, Ele
concedeu sinais e prodígios feitos pelas mãos de Paulo e Barnabé.
Sinais e prodígios não são parte do testemunho central de Deus do
Cristo encarnado, crucificado, ressurreto e ascendido. Também não
são parte da Sua plena salvação. Mas são apenas evidências de que o
que os apóstolos pregavam e ministravam era absolutamente de
Deus, e não do homem.
A expressão “a palavra da sua graça” denota certos pontos
“dispensacionais”. O povo judeu não lia o Antigo Testamento nas
sinagogas para conhecer a palavra da graça do Senhor; liam as
Escrituras para conhecer a palavra da lei de Deus, que pertencia à
velha dispensação, ao antigo arranjo divino da economia de Deus.
Mas a palavra da graça do Senhor substitui a lei. A mente dos judeus
nas sinagogas estava ocupada com a lei. Mas Paulo lhes pregava
Cristo como graça. Eles edificavam os novos crentes testificando a
palavra de vida e a palavra da graça do Senhor. A palavra
confirmava no versículo 3 implica que a palavra da graça já existia e
já havia sido pregada. Como a palavra da graça tinha sido pregada,
confirmação lhe foi acrescentada.
A Palavra da Graça no Antigo Testamento

Os apóstolos podiam testificar da palavra da graça do Senhor


embora tivessem apenas o Antigo Testamento. Será que podemos
encontrar a palavra da graça no Antigo Testamento? Em vez de
achar a palavra da graça, o povo judeu deu atenção à palavra da lei
com todos os mandamentos. O que eles tinham era a palavra da lei
de Deus, não da graça do Senhor. Contudo, a palavra da graça do
Senhor já existia no Antigo Testamento. Isso tornou possível que os
apóstolos testificassem a respeito dela.
Vamos considerar alguns exemplos da palavra da graça do
Senhor encontrada no Antigo Testamento. Considere Gênesis 3:15:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu
descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.
Aqui vemos que a descendência da mulher ferirá a cabeça da
serpente. Isso não é uma palavra da graça do Senhor? Certamente é.
Depois que comeram do fruto da árvore do conhecimento do bem e
do mal, Adão e Eva tentaram esconder-se de Deus. A voz do Senhor
soou para Adão e disse: “Onde estás?” (Gn 3:9). Adão e Eva estavam
amedrontados, talvez pensando que Deus os sentenciaria à morte.
Mas, em vez de falar uma palavra de condenação ou juízo, o Senhor
falou uma palavra de graça. Em Gênesis 3:15 Ele • condenou a
serpente e disse a Adão e Eva uma palavra de graça. Eles devem ter
ficado muito felizes quando ouviram a palavra do Senhor então.
Devem ter odiado a serpente, e agora o Senhor lhes dizia que a
descendência da mulher iria ferir a cabeça da serpente. Isso
certamente é uma palavra de graça.
Outro exemplo de palavra de graça encontrada no Antigo
Testamento é Gênesis 12:2-3, quando Deus disse a Abraão: “De ti
farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome.
Sê tu uma bênção! (...) em ti serão benditas todas as famílias da
terra”. Essa certamente não é uma palavra de lei, mas de graça. Os
judeus nas sinagogas eram espiritualmente cegos e não podiam ver a
palavra da graça do Senhor no Antigo Testamento.
Outros exemplos da palavra da graça do Senhor são
encontrados no livro de Isaías. Considere Isaías 7:14: “Eis que a
virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel”.
Essa é uma palavra de graça. Outra palavra de graça está em Isaías
9:6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo
está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. Esse
também é um exemplo das muitas palavras da graça do Senhor no
Antigo Testamento.

A Pregação de Pedro e a de Paulo

Vimos que no capítulo treze de Atos Paulo aplicou as coisas


santas de Davi, as fiéis ao Cristo ressurreto (vs. 33-35). Paulo
entendeu isso como uma referência a Cristo em ressurreição. Quem,
senão Paulo, seria capaz de entender que as coisas santas e fiéis de
Davi se referem ao Cristo ressurreto? Por certo, ele foi o melhor
“minerador”, o mais capaz para escavar as profundezas do Antigo
Testamento a fim de achar as riquezas da palavra da graça do
Senhor.
Em Atos 2 Pedro deu uma excelente mensagem com respeito
ao Cristo ressurreto. Quando você lê esse trecho, pode ficar bem
impressionado com a mensagem de Pedro. Mas você já teve antes
um apreço adequado pela pregação de Paulo em Atos 13? Muitos
leitores de Atos não têm apreço adequado por essa mensagem
porque não viram o que está revelado nela com respeito a Cristo em
ressurreição. Sim, a pregação de Pedro no capítulo dois é excelente,
mas é um pouco superficial. Mas a pregação de Paulo em Atos 13 é
muito profunda e maravilhosa.
Em sua pregação em Atos 13, Paulo indica que, em
ressurreição, Cristo tornou-se o Primogênito de Deus. Ele aplica o
Salmo 2:7 ao Cristo ressurreto para indicar que, para Cristo, a
ressurreição foi um nascimento. Talvez não percebamos que a
ressurreição de Cristo foi o Seu nascimento. Você já ouviu isso
antes? Segundo a Bíblia, em ressurreição, Cristo em Sua
humanidade foi gerado de Deus para ser o Seu Primogênito.
Enquanto o Unigênito de Deus visa à corporificação da vida divina, o
Primogênito visa à propagação dessa vida. Na verdade, nós
nascemos com Cristo em Sua ressurreição. Nesse sentido, portanto,
a ressurreição Dele foi um nascimento universal. O que enfatizamos
aqui é que Paulo “escavou” no Antigo Testamento a verdade de que
Cristo em ressurreição nasceu para ser o fator de propagação da vida
divina; Ele nasceu para ser o Primogênito de Deus, para a
reprodução propagadora da vida divina.
Ao “escavar” a Palavra, Paulo também descobriu que Cristo em
ressurreição se tornou as coisas santas e fiéis, as coisas confiáveis e
seguras, de Davi. Ele percebeu que “as fiéis misericórdias
prometidas a Davi” (Is 55:3) se referem a Cristo em Sua
ressurreição. Hoje alguns gostam de cantar o Salmo 89:1: “Cantarei
para sempre as tuas misericórdias, ó Senhor; os meus lábios
proclamarão a todas as gerações a tua fidelidade”. Porém, os que
cantam esse Salmo talvez não tenham uma compreensão adequada
do que seja misericórdia. Eles podem pensar que misericórdia seja
apenas um sentimento de compaixão que Deus tem para conosco.
Mas, de acordo com o entendimento de Paulo, as misericórdias do
Senhor são Cristo em Seu segundo nascimento, isto é, Cristo em
ressurreição. O escavar de Paulo na Palavra é maravilhoso, e
admiramos o seu estudo das Escrituras. Nisso ninguém se compara
a ele. Em Atos 13 ele pregou o Cristo todo-inclusivo.
Por muitas gerações os judeus leram o Antigo Testamento nas
sinagogas. Mas o que ouviam era a palavra do mandamento de Deus,
e não da graça do Senhor. Contudo, quando o Senhor Jesus
proclamou o jubileu do Novo Testamento em Lucas 4, Ele escolheu
uma palavra de graça do livro de Isaías.
Precisamos ver o significado da expressão “a palavra de Sua
graça” em Atos 14:3. Essa frase é forte indicação de “mudança de
dispensação, de mudança do arranjo de Deus em Sua economia.
No capítulo treze a pregação de Paulo aos judeus baseou-se
principalmente na revelação do Antigo Testamento com respeito a
Cristo. A pregação no capítulo catorze, no entanto, é para os gentios.
Ao considerar esse capítulo, veremos a sabedoria de Paulo ao pregar
o evangelho aos gentios. A sua pregação aos gentios nesse capítulo
não se baseia na revelação de Cristo do Antigo Testamento, mas na
criação de Deus.

PARA LISTRA E DERBE DA LICAÔNIA


A Reação das Multidões

Quando os apóstolos perceberam que surgia “um tumulto dos


gentios e judeus, associados com as suas autoridades, para os
ultrajar e apedrejar” (v. 5), eles “fugiram para Listra e Derbe, cidades
da Licaônia e circunvizinhança, onde anunciaram o evangelho”
(vs. 6-7). Paulo viu certo homem coxo e lhe disse: “Apruma-te direito
sobre os pés! Ele saltou e andava” (v. 10). De acordo com os
versículos 11 e 12, “quando as multidões viram o que Paulo fizera,
gritaram em língua licaônica, dizendo: Os deuses, em forma de
homens, baixaram até nós. A Barnabé chamavam Júpiter, e a Paulo,
Mercúrio, porque era este o principal portador da palavra”. Júpiter,
na mitologia romana equivale a Zeus, o principal deus da mitologia
grega, e Mercúrio equivale a Hermes, o mensageiro dos deuses. No
versículo 12 as palavras gregas traduzidas como “o principal
portador da palavra” literalmente significam “o líder do discurso”.
No versículo 13 é-nos dito que “o sacerdote de Júpiter, cujo templo
estava em frente da cidade, trazendo para junto das portas touros e
grinaldas, queria sacrificar juntamente com as multidões”.

A Reação dos Apóstolos

Quando Barnabé e Paulo ouviram isso rasgaram “as suas


vestes, saltaram para o meio da multidão, clamando: Senhores, por
que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos
mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que destas
coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e
tudo o que há neles” (vs. 14-15). As “coisas vãs” aqui referem-se a
ídolos e idolatria. Aqui Paulo e Barnabé estavam dizendo: “Não nos
considerem deus nem nos adorem! Somos homens como vocês.
Vocês devem voltar-se dessas coisas vãs, desses ídolos, para o Deus
vivo, que fez os céus, a terra, o mar e todas as coisas que neles há”.
Aqui vemos que a pregação de Paulo a esses gentios baseia-se na
criação de Deus.

A Diferença entre a Pregação do Evangelho de Paulo para


os Judeus e para os Gentios
No versículo 16 Paulo e Barnabé prosseguiram dizendo que
Deus, “nas gerações passadas, permitiu que todos os povos
andassem nos seus próprios caminhos”. Então, no versículo 17 ele
disse palavras tocantes, para comover o coração dos ouvintes:
“Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo
o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o
vosso coração de fartura e de alegria”. Essa foi uma ótima maneira
de pregar o evangelho. Baseou-se na criação de Deus e por fim tocou
o coração dos ouvintes. Essa palavra foi breve, mas reveladora e
tocante.
Todos precisamos aprender com Paulo a pregar o evangelho.
Nesse capítulo ele não contou histórias, mas deu uma mensagem
breve que desvendou Deus como Criador de todo o universo.
Também falou algo inspirado que tocou o coração das pessoas. Ele
parecia estar dizendo: “Por gerações Deus permitiu que vocês
andassem nos seus próprios caminhos. Ele não vos puniu, mas lhes
fez muitas coisas boas: deu chuva do céu e estações frutíferas e
encheu o coração de vocês de fartura e alegria”. V amos aprender
com Paulo e seguir a sua forma de pregar o evangelho.
No capítulo treze de Atos Paulo pregou de acordo com o Antigo
Testamento, conhecido por diversas gerações dos judeus. Em vez de
ressaltar a criação de Deus e as coisas boas que Deus fez por eles, ele
lhes falou a respeito de Cristo em ressurreição. Com isso vemos que
ao pregar o evangelho para os que conhecem o Antigo Testamento,
não há necessidade de dizer-lhes que Deus é o Criador. Se dissermos
isso, eles dirão: “Já sabemos que Deus é o Criador. Podemos até
ensiná-lo sobre isso”.
É muito importante ver que a pregação do evangelho de Paulo
no capítulo catorze é diferente do capítulo treze. Enquanto no
capítulo treze ele falava aos judeus, no capítulo catorze ele pregava
aos gentios. Ao pregar aos gentios ele lhes disse que Deus é o Criador
e sempre foi bom para eles, dando-lhes chuva e colheitas para que o
coração deles se enchesse de alegria. Aqui vemos que Paulo pregou o
evangelho de maneira sábia e excelente.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 40
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (6)

Leitura Bíblica: At 14:21-28

Nesta mensagem vamos considerar 14:21b-28.

FORTALECERAM OS DISCÍPULOS E DESIGNARAM


PRESBÍTEROS EM CADA IGREJA

Depois que Paulo e Barnabé trouxeram as boas novas à cidade


de Derbe e fizeram um número considerável de discípulos (vs. 20-
21a), “voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia” (v. 21b). Essa não
é a Antioquia da qual foram enviados a essa viagem ministerial
(13:1); mas é a Antioquia na Pisídia, na Ásia Menor.

Fortaleceram a Alma dos Discípulos

Atos 14:22 diz que Paulo e Barnabé estavam “fortalecendo a


alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e
mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no
reino de Deus”. Aqui a preocupação deles não era com o espírito dos
discípulos, e, sim, com a alma deles. A alma do homem é composta
de mente, emoção e vontade. Fortalecer a alma dos discípulos é
fortalecê-los na mente, a fim de que conheçam e entendam o Senhor
e as coisas a respeito Dele (1Co 2:16; Fp 3:10); na emoção, para que
amem ao Senhor e tenham coração aberto para o interesse Dele
(Mc 12:30; Rm 16:4); e na vontade, para que sejam fortes em
permanecer com o Senhor e façam o que Lhe apraz (At 11:23;
Cl 1:10; 1Ts 4:1). Assim, fortalecer a alma dos discípulos é fortalecê-
los em sua mente, emoção e vontade.

Exortaram os Discípulos a Permanecer Firmes na Fé


Conforme Atos 14:22, Paulo e Barnabé exortaram os discípulos
a permanecer firmes na fé. Em 13:43 eles persuadiram os crentes a
perseverar na graça de Deus, mas aqui eles os exortaram a
permanecer firmes na fé. Permanecer firme na fé é mais difícil do
que perseverar na graça de Deus.
Assim como em 6:7, a fé em 14:22 é a fé objetiva. Refere-se
àquilo em que os crentes creem com respeito à Pessoa e obra de
Cristo. A fé da economia neotestamentária de Deus é toda a
revelação do Novo Testamento com respeito a Cristo e a Sua obra
redentora (Rm 16:26).
Se entendemos o que é fé, percebemos que permanecer na fé é
mais profundo do que permanecer na graça. Permanecer na graça de
Deus é desfrutar o Deus Triúno. Mas para permanecer na fé
precisamos exercitar não apenas o espírito para desfrutar o Deus
Triúno, mas também a mente para estudar a revelação do Novo
Testamento, que está totalmente incluída na fé objetiva.
Hoje muitos cristãos não sabem qual é toda a revelação do
Novo Testamento com respeito à economia de Deus. Como é pobre a
situação a esse respeito! Se não sabemos o que é a fé objetiva,
certamente não podemos permanecer nela.
A exortação dos apóstolos em 14:22 vai além da de 13:43. Em
13:43 os crentes foram persuadidos a perseverar na graça de Deus;
isto é, encorajados a perseverar no desfrute do Deus Triúno como
graça. Em 14:22, são exortados a permanecer na fé; isto é,
encorajados a conhecer a plena revelação da economia
neotestamentária de Deus e a perseverar nela, que é algo muito
profundo.
Os crentes em Listra, Icônio e Antioquia tinham se convertido
havia menos de um ano. Quando Paulo e Barnabé visitaram pela
primeira vez essas cidades, as igrejas foram levantadas. Então, eles
partiram para outros lugares e por fim retomaram para ali. Como
vimos, eles exortaram os discípulos ali a permanecer não apenas na
graça, mas também na fé. A palavra sobre perseverar na graça de
Deus fora dada no capítulo treze para recém-convertidos. Logo
depois de salvos, eles foram persuadidos pelos apóstolos a
permanecer no desfrute do Deus Triúno. Os crentes em Listra,
Icônio e Antioquia devem ter permanecido na graça de Deus por
algum tempo. Segundo o que indica Atos 14, eles devem ter
aprendido bastante da economia neotestamentária de Deus naquele
período. O que aprenderam tornou-se-lhes o conhecimento da fé.
Com base nisso, os apóstolos os exortaram a permanecer firmes na
fé.

Entrar no Reino de Deus através de Muitas Tribulações

O Reino da Vida Divina

Em 14:22 vemos que Paulo e Barnabé disseram aos discípulos


que “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de
Deus”. Muitos pensam que o reino de Deus é meramente uma esfera
onde Deus pode governar as pessoas como Rei. De acordo com esse
entendimento, o reino é uma simples esfera onde Deus governa o
Seu povo. Não digo que essa interpretação seja errada, mas é
superficial e natural.
O reino de Deus era um dos assuntos principais da pregação
dos apóstolos em Atos (8:12; 19:8; 20:25; 28:23, 31). Não é um reino
material visível aos olhos humanos, mas o reino da vida divina. É a
expansão de Cristo como vida nos crentes para formar uma
atmosfera na qual Deus governa em Sua vida.

Cristo como a Semente da Vida Semeada nos Crentes

No Estudo-Vida de Marcos enfatizamos que o reino de Deus é


o próprio Salvador (Lc 17:21) como a semente de vida plantada nos
crentes, nos escolhidos de Deus (Mc 4:3, 26), que se desenvolve
tornando-se a esfera na qual Ele governa como Seu reino em Sua
vida divina. A entrada no reino é a regeneração (Jo 3:5), e o
desenvolvimento é o crescimento dos crentes na vida divina
(2Pe 1:3-11). É a vida da igreja hoje, na qual os crentes fiéis vivem
(Rm 14:17) e resultará no reino vindouro como herança de galardão
(Gl 5:21; Ef 5:5) para os vencedores no milênio (Ap 20:4, 6). Por fim,
culminará na Nova Jerusalém como o reino eterno de Deus, a esfera
eterna da bênção eterna da vida eterna de Deus, para que todos os
redimidos de Deus desfrutem no novo céu e nova terra pela
eternidade (Ap 21:1-4; 22:1-5, 14).
Em Atos 14:22 Paulo exortou os crentes que permaneciam na
fé a perceber que através de muitas tribulações nos importa entrar
no reino de Deus. Você acha que Paulo considerava o reino de Deus
apenas uma esfera onde o povo de Deus se submete ao Seu governo
e que para entrar nessa esfera é preciso passar por tribulações?
Talvez ele pensasse que o reino de Deus é uma esfera na qual Deus
governa o Seu povo, mas esse certamente não era a sua idéia
principal a esse respeito. Precisamos lembrar-nos de que Paulo
estava exortando os discípulos que já tinham avançado um pouco.
Eles não perseveravam apenas na graça de Deus, mas também na fé.
A exortação para permanecer na fé é mais profunda e também mais
elevada do que perseverar na graça. Assim, os que Paulo estava
exortando em 14:22 já tinham aprendido algo das coisas divinas. Ao
dizer-lhes que deviam entrar no reino de Deus através de muitas
tribulações, ele certamente considerava o reino de Deus algo mais do
que apenas uma esfera objetiva na qual Deus governa como Rei.
Qual, então, era a idéia principal de Paulo com respeito ao
reino de Deus? Para entender isso, precisamos perceber que, de
acordo com o Novo Testamento, o reino de Deus não é uma esfera
visível e material. Na verdade, é uma Pessoa, o próprio Senhor Jesus
Cristo. Quando inquirido pelos fariseus sobre o reino, “Ele lhes
respondeu: O reino de Deus não vem de modo observável. Nem
dirão: Ei-lo ali! Porque eis que o reino de Deus está no meio de vós”
(Lc 17:20-21). Como o contexto prova, o reino de Deus é o próprio
Salvador, que estava entre os fariseus. Onde quer que esteja o
Salvador, lá está o reino de Deus. Por isso é que Ele podia dizer que
o reino estava entre os fariseus. Como indica a palavra do Senhor em
Lucas 17:20, esse reino não vem de modo observável; ou seja, é
espiritual, e não material e visível.
Nos quatro Evangelhos o Senhor Jesus semeou-Se como
semente do reino nos discípulos. O desenvolvimento dessa semente
inicia-se em Atos e continua em todas as Epístolas. Esse
desenvolvimento atinge a sua consumação (a colheita) em
Apocalipse. De acordo com a palavra do Senhor e o entendimento de
Paulo, o reino de Deus não é uma esfera material, e, sim, espiritual,
divina e até mesmo pessoal. O reino é Cristo como a semente
plantada no coração dos Seus escolhidos. O nosso coração é o solo
no qual a semente do reino é plantada e se desenvolve. Como já
falamos, a semente do reino é semeada nos Evangelhos, se
desenvolve em Atos e nas Epístolas e se consuma com a colheita em
Apocalipse. Essa é a definição adequada do reino de Deus.

Entrar no Pleno Desfrute do Cristo Ressurreto como o


Reino de Deus

Agora que vimos que o reino de Deus é Cristo como a semente


plantada em nós, que se desenvolve e se consuma numa colheita,
precisamos perguntar o que significa entrar no reino. Entrar no
reino de Deus é entrar no pleno desfrute de Cristo como o reino.
Contudo, podemos não entender o que significa isso. O mundo todo
se opõe a que o povo de Deus entre no pleno desfrute de Cristo como
o reino. O judaísmo, por exemplo, foi usurpado e utilizado por
Satanás para evitar que os crentes entrem nesse desfrute. Através
dos séculos, outras formas de religião (catolicismo, protestantismo e
islamismo) também têm sido usadas pelo inimigo de Deus para
evitar que o povo de Deus entre no pleno desfrute do Cristo todo-
inclusivo como o reino de Deus.
Atos 1:3 nos diz que por um período de quarenta dias o Cristo
ressurreto apareceu aos apóstolos e lhes falou “das causas
concernentes ao reino de Deus”. Pedro e todos os cento e vinte
haviam sido trazidos ao Senhor, e eles tinham recebido o Espírito
essencial para a vida, viver e existência deles. Eles eram verdadeiros
seguidores de Jesus Cristo. Contudo, no primeiro capítulo de Atos
eles ainda não tinham entrado no pleno desfrute de Cristo como o
reino de Deus, como a esfera governamental de Deus. Ainda lhes era
necessário entrar na esfera do pleno desfrute do Cristo ressurreto
como o reino de Deus. No dia de Pentecostes, Pedro e todos os
outros certamente entraram nessa esfera a esfera do pleno desfrute
do Cristo ressurreto e ascendido como a esfera na qual Deus governa
o Seu povo. Quando Pedro estava pregando o evangelho em Atos 2,
vemos nele e nos outros apóstolos um quadro do reino de Deus. Em
Atos 2 os cento e vinte estavam no pleno desfrute do Cristo
ressurreto e ascendido como a esfera do governo de Deus. Essa
esfera é o reino de Deus.
Assim que os crentes entraram no pleno desfrute de Cristo
como o reino de Deus, a religião judaica se interpôs para
interromper esse desfrute. Se nos capítulos três, quatro, e cinco,
Pedro, João e os outros crentes tivessem demonstrado alguma
fraqueza, eles teriam perdido o pleno desfrute do Cristo ressurreto, e
como resultado eles teriam perdido o reino de Deus.
À luz do que vimos com respeito ao reino de Deus, vamos
agora voltar a Atos 14 e ver se os discípulos que Paulo estava
exortando tinham entrado na esfera do pleno desfrute de Cristo
como o reino de Deus. Não, esses crentes ainda não tinham entrado
nesse desfrute, eles ainda estavam a caminho. Assim, Paulo os
exortou a entrar na esfera do pleno desfrute do Cristo ressurreto e
ascendido como o reino de Deus. Aqui ele parecia estar dizendo: “Eu
preguei a vocês o Cristo ressurreto como as coisas santas e fiéis,
como a graça de Deus, como vida eterna e até mesmo como o
Espírito que dá vida todo-inclusivo. O pleno desfrute da graça, da
vida eterna, e do Espírito é uma esfera, e essa esfera é o reino de
Deus. Vocês ainda não entraram nessa esfera — vocês estão a
caminho. Assim, eu os exorto a entrar no reino de Deus através de
muitas tribulações. Vocês devem esperar oposição e estar
preparados para ela. Vocês enfrentarão muitas tribulações. Mas
através de todas essas tribulações vocês devem se esforçar para
entrar na esfera do pleno desfrute do Cristo ressurreto e ascendido
como o reino de Deus. Quando vocês têm o desfrute desse Cristo,
vocês estão debaixo do governo divino. Então, vocês se tornarão o
reino de Deus, que é a vida adequada da igreja”.

A Vida da Igreja Hoje

Romanos 14 indica que a vida da igreja hoje é o reino de Deus.


Nesse capítulo Paulo fala com respeito à vida da igreja. Então, no
versículo 17 ele diz: “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas
justiça, e paz e alegria no Espírito Santo”. Justiça, paz e alegria são o
resultado do desfrute do Cristo todo-inclusivo como o reino de Deus.
O reino de Deus é a vida da igreja, e a vida da igreja é uma esfera do
desfrute do Cristo ressurreto e ascendido.

Designou Presbíteros em Cada Igreja

Atos 14:23 diz: “E, designando-lhes presbíteros em cada igreja,


depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem
haviam crido” (lit.). As palavras gregas traduzidas como em cada
igreja contém a preposição kata com o uso distributivo — de acordo
com a igreja. A expressão em cada igreja em 14:23 equivale a em
cada cidade em Tito 1:5. A comparação entre essas duas expressões
indica não apenas que a jurisdição de uma igreja local é a da cidade
na qual ela está localizada, mas também que em uma cidade deve
haver apenas uma igreja. O presbitério de uma igreja local deve
abranger toda a cidade onde a igreja está. Esse único presbitério em
uma cidade evita que a unidade singular do Corpo de Cristo seja
danificada. Uma cidade deve ter apenas uma igreja com um
presbitério. Essa prática é ilustrada, sem dúvida nenhuma, pelo
modelo claro do Novo Testamento (At 8:1; 13:1; Rm 16:1; 1Co 1:2;
Ap 1:11), e é um pré-requisito absoluto para a manutenção da ordem
adequada numa igreja local.
Todas as igrejas aqui, nas quais os presbíteros foram
designados pelos apóstolos, haviam sido estabelecidas no prazo de
um ano. Desse modo, os presbíteros nelas designados não podiam
ser totalmente maduros. Devem ter sido considerados presbíteros
por serem os mais maduros entre os crentes, comparativamente
falando. Não foram eleitos por votação da congregação em que
estavam, e, sim, designados pelos apóstolos segundo a sua
maturidade de vida em Cristo. Receberam ordem dos apóstolos de
cuidar da liderança e pastoreio nas suas igrejas.

DE VOLTA A ANTIOQUIA, CONCLUINDO A PRIMEIRA


VIAGEM

Tendo Sido Recomendados à Graça de Deus

Segundo 14:26, de Atália, Paulo e Barnabé “navegaram para


Antioquia, onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a
obra que haviam já cumprido”. Já enfatizamos que essa graça é o
Cristo ressurreto tornando-se o Espírito que dá vida (1Co 15:45) para
trazer o Deus processado em ressurreição para dentro de nós, para
ser a nossa vida e suprimento de vida para podermos viver em
ressurreição. Assim, graça é o Deus Triúno tornando-se vida e tudo
para nós. Foi por meio dessa graça que Saulo de Tarso, o principal
dos pecadores (1Tm 1:15-16), tornou-se o principal apóstolo,
trabalhando muito mais do que todos os apóstolos (1Co 15:10). O seu
ministério e o seu viver por essa graça foram um testemunho
inegável da ressurreição de Cristo. A graça que o motivava e operava
nele não era um assunto ou alguma coisa; era uma Pessoa viva, o
Cristo ressurreto, a corporificação de Deus Pai tornando-se o
Espírito que dá vida todo-inclusivo, o qual habitava nele como o seu
tudo.

Uma Reunião para Comunhão

Atos 14:27 e 28 conclui: “Ali chegados, reunida a igreja,


relataram quantas coisas fizera Deus com eles e como abrira aos
gentios a porta da fé: E permaneceram não pouco tempo com os
discípulos”. No versículo 27 temos o fim da primeira viagem
ministerial de Paulo, que começou em 13:4.
Quando Paulo e Barnabé chegaram em Antioquia, eles
reuniram a igreja e relataram todas as coisas que Deus fizera com
eles. Essa reunião era para comunhão sobre o mover de Deus na
difusão do Seu evangelho, e não para dar relatório sobre o ministério
deles.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 41
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (7)

Leitura Bíblica: At 15:1-34

O capítulo quinze de Atos é muito crucial em relação à


dispensação de Deus, a economia divina. Ao considerar esse capítulo
não iremos dar atenção a tópicos menos importantes, como muitos
já fizeram. Antes, iremos concentrar-nos nos tópicos importantes
com respeito às questões dispensacionais.
Atos 15:1-33 registra o problema que surgiu com respeito à
circuncisão. Nos versículos 1 a 21 temos o relato de uma conferência
dos apóstolos e presbíteros ocorrida em Jerusalém. Depois, nos
versículos 22 a 33 temos a descrição da solução. Nesta mensagem
vamos começar a considerar esse trecho.

UMA HERESIA COM RESPEITO À CIRCUNCISÃO

Atos 15:1 diz: “Alguns indivíduos que desceram da Judéia.


ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o
costume de Moisés, não podeis ser salvos”. Os indivíduos que
desceram da Judéia tinham o firme propósito de exercer influência
judaica sobre os crentes gentios.
Afirmar que se alguém não for circuncidado segundo o
costume de Moisés não pode ser salvo é anular a fé na economia
neotestamentária de Deus, e é uma verdadeira heresia. Desse modo,
esses “indivíduos” que ensinaram os cristãos essa heresia devem ter
sido os que Paulo considerou falsos irmãos em Gálatas 2:4.
A circuncisão era uma prática exterior herdada pelos judeus de
seus antepassados, iniciando-se com Abraão (Gn 17:9-14). Essa
ordenança fez dos judeus um povo distinto e separado dos gentios. A
circuncisão tornou-se uma formalidade morta e tradicional, mera
marca na carne sem qualquer significado espiritual, e também
grande obstáculo para a difusão do evangelho de Deus segundo a
Sua economia neotestamentária (Gl 2:3-4; 6:12-13; Fp 3:2).
A circuncisão, o guardar o sábado e a dieta peculiar são as três
maiores ordenanças segundo a lei de Moisés que fazem dos judeus
um povo distinto e separado dos gentios, a quem os judeus
consideram impuros. Todas essas ordenanças bíblicas da
dispensação do Antigo Testamento tornaram-se um obstáculo para a
difusão do evangelho para os gentios segundo a dispensação
neotestamentária de Deus (Cl 2:16). Na economia neotestamentária
de Deus, ser circuncidado é tornar Cristo de nenhum proveito para
os crentes (Gl 5:2).
Atos 15:1 fala do costume de Moisés. Guardar o costume de
Moisés, isto é, praticar as ordenanças exteriores da lei, não só é
anular a graça de Deus e tornar vã a morte de Cristo (Gl 2:21) como
também levar os crentes, os quais Cristo já libertou, de volta à
escravidão da lei (Gl 5:1; 2:4).

PAULO E BARNABÉ CONTENDEM PELA FÉ

O ensinamento de que a pessoa precisa ser circuncidada para


ser salva anula a redenção de Cristo, a graça divina e toda a
economia neotestamentária de Deus. Por isso, Paulo e Barnabé não
podiam tolerar essa heresia, e tiveram “contenda e não pequena
discussão” (At 15:2) com os que tinham descido da Judéia e
ensinado isso aos irmãos. No versículo 2 Paulo e Barnabé
contendiam pela fé (Jd 3) com uma das maiores heresias, para que a
verdade do evangelho permanecesse entre os crentes (Gl 2:5).

JERUSALÉM, A ORIGEM DO PROBLEMA

Na verdade, o problema desse ensinamento herético deveria


ter sido resolvido por Pedro e Tiago em Jerusalém. Essa heresia
nunca deveria ter chegado a Antioquia. Antes de ir para Antioquia
esses mestres hereges devem ter espalhado o seu ensinamento em
Jerusalém. Mas não há indício de que Pedro e Tiago tivessem feito
algo para lidar com essa heresia.

A Responsabilidade de Pedro e Tiago


A origem do problema descrito em Atos 15 era Jerusalém. O
primeiro grupo de apóstolos e presbíteros em Jerusalém deveria ter
cuidado desse ensinamento herético antes que houvesse
oportunidade de se espalhar até as igrejas gentias. O fato de ele não
ter sido resolvido em Jerusalém demonstra que Pedro e Tiago
tinham certas deficiências. Eles devem ser responsabilizados pela
situação. Quando essa heresia se espalhou até Antioquia, era tarde
demais para que Paulo e Barnabé lidassem com isso. Desse modo,
foi necessário subirem a Jerusalém a fim de chegar à origem do
problema.
Ao ler o livro de Atos, podemos não ter um conceito exato com
respeito a Pedro e Tiago. Talvez os tenhamos em alta conta.
Podemos exaltar muito a Pedro e considerar Tiago muito piedoso. Se
tivermos esse conceito sobre eles, então não teremos a visão
adequada da situação registrada no capítulo quinze. Em outras
palavras, devido ao nosso conceito e interpretação inexatos, não
teremos a visão adequada do cerne do problema em Atos 15. Na
verdade, o cerne do problema não está nos judaizantes hereges que
desceram a Antioquia, e, sim; em Pedro e Tiago. Dizer isso é justo.
Pedro estava presente em Atos 1 quando o Senhor Jesus
continuou a preparação dos apóstolos para o ministério. Como parte
dessa preparação, Ele lhes disse: “Recebereis poder, ao descer sobre
vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da
terra” (1:8). Aqui Ele os designou Suas testemunhas não apenas ao
povo de Jerusalém e Judéia e às pessoas de sangue misto em
Samaria, mas também até as partes mais remotas da terra, ou seja,
todas as terras dos gentios. A palavra do Senhor é muito clara. Se
Tiago, irmão na carne do Senhor Jesus, não houvesse estado
presente quando isso foi falado, ele certamente devia estar
familiarizado com isso. Lucas, o escritor de Atos, veio a conhecer
essa palavra. Certamente, Tiago a conhecia antes de Lutas.
Pedro e Tiago deviam ter tomado a palavra com respeito a ser
testemunhas até os confins da terra como base para lidar com os
ensinamentos hereges de que os gentios tinham de ser circuncidados
para ser salvos. Como o Senhor tinha falado essa palavra, não havia
necessidade de discussões nem argumentos. Pedro e Tiago deveriam
ter feito um trabalho completo para eliminar os ensinamentos
heréticos, exterminando-os na origem, em Jerusalém.
Se formos imparciais e tivermos a perspectiva adequada ao ler
o capítulo quinze, perceberemos que o problema era devido à
negligência de Pedro e Tiago. Eles não cumpriram a sua obrigação,
não levaram a cabo a responsabilidade deles. Como resultado, esse
ensinamento herético existia em Jerusalém e até mesmo prevalecia
ali. Se não fosse prevalecente em Jerusalém, como é que poderia ter-
se espalhado até Antioquia? Nos tempos antigos a comunicação com
lugares distantes era muito lenta, assim, era significativo algo se
espalhar de Jerusalém até Antioquia.

Não Guardar a Verdade

Os judaizantes eram tão zelosos que, a despeito da dificuldade


para viajar, eles desceram a Antioquia para difundir o seu
ensinamento herético. Eles ensinavam ousadamente as pessoas
dizendo: “Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés,
não podeis ser salvos” (15:1). Como já falamos, esse ensinamento
anula todo o Novo Testamento anula a morte redentora, a
ressurreição, a ascensão de Cristo e tudo o que Ele ensinou.
É muito difícil entender como Pedro e Tiago podiam ter
tolerado tal heresia em Jerusalém. Se lermos Gálatas 2 juntamente
com Atos 15, seremos ajudados a entender qual era a situação na
época. Pedro e Tiago merecem ser culpados pelo problema, pois não
guardaram a verdade e não contenderam por ela adequadamente.
Devido a essa carência, o problema da heresia existia em Jerusalém
e então se espalhou até as igrejas gentias.

SUBIRAM AOS APÓSTOLOS E PRESBÍTEROS EM


JERUSALÉM

Conforme 15:2, houve “da parte de Paulo e Barnabé, contenda


e não pequena discussão” com os judaizantes. Não devemos pensar
que Paulo tenha exagerado ao contender e discutir. A situação
tornou a contenda necessária. Como é que Paulo poderia concorda;
com o ensinamento herético de que os gentios não podiam ser salvos
a não ser que fossem circuncidados? Ele tinha de contender com os
que ensinavam essa heresia.
Devido à contenda com os mestres hereges, Paulo e Barnabé e
alguns outros foram designados para que “subissem a Jerusalém,
aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão” (15:2). De
acordo com o versículo 26, Paulo e Barnabé foram considerados
como os que tinham “exposto a vida pelo nome de nosso Senhor
Jesus Cristo”. A igreja em Antioquia decidiu enviá-los a Jerusalém.
Paulo, Barnabé e outros foram aos apóstolos e presbíteros em
Jerusalém não porque Jerusalém fosse o “quartel-general” do mover
de Deus, ou porque a igreja fosse a matriz controlando as demais.
Era porque Jerusalém era a origem do ensinamento herético sobre a
circuncisão. Para resolver o problema e arrancá-lo pela raiz, eles
precisavam ir até a origem. Diferentemente da situação com a Igreja
Católica Romana, de acordo com a economia neotestamentária de
Deus, não há quartel-general para o mover de Deus na terra e
nenhuma igreja matriz que controle as demais. O quartel-general do
mover de Deus na Sua economia neotestamentária está nos céus
(Ap 4:2-3; 5:1), e quem rege todas as igrejas é Cristo, a Cabeça da
igreja (Cl 1:18; Ap. 2:1).
Atos 15:3-4 diz: “Enviados, pois, e até certo ponto
acompanhados pela igreja, atravessaram as províncias da Fenícia e
Samaria e, narrando a conversão dos gentios, causaram grande
alegria a todos os irmãos. Tendo eles chegado a Jerusalém, foram
bem recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos presbíteros e
relataram tudo o que Deus fizera com eles”. O fato de Paulo,
Barnabé e os outros subirem a Jerusalém era o mover da igreja, e
não o mover deles como indivíduos. Eles não agiram
individualmente, separados da igreja, e, sim, coletivamente na igreja
e com ela. Esse era o mover do Corpo de Cristo.
Atos 15:5 diz: “Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos
fariseus que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidá-los e
determinar-lhes que observem a lei de Moisés”. Os fariseus eram a
mais rigorosa seita religiosa dos judeus (26:5), formada em torno do
ano 200 a.C. orgulhavam-se da sua superior santidade de vida,
devoção a Deus e conhecimento das Escrituras. Como já dissemos, o
ensinamento dos fariseus em 15:5 anulou a economia
neotestamentária de Deus.
Suponha que você fosse um presbítero da igreja em Jerusalém
na época de Atos 15. Que faria com os que ensinavam que os crentes
em Cristo precisavam ser circuncidados e guardar a lei de Moisés?
Será que teria levantado e dito ousadamente que esse ensinamento
herético não é permitido na igreja? Isso é o que os presbíteros de
Jerusalém deveriam ter feito.
O presbítero mais influente da igreja em Jerusalém era Tiago.
Há um indício disso em 12:17, onde Pedro diz: “Anunciai isto a Tiago
e aos irmãos”. Isso indica que Tiago era um líder entre os apóstolos e
presbíteros em Jerusalém. Ademais, em Gálatas 2:12 Paulo fala de
alguns que chegaram da parte de Tiago. Em vez de dizer que vieram
de Jerusalém, ele disse que vieram de Tiago. Isso mostra que Tiago
era muito proeminente em Jerusalém, da qual era o presbítero
principal.

A RESPONSABILIDADE DOS PRESBÍTEROS COM


RESPEITO À HERESIA

A esta altura gostaria de fazer uma pergunta aos presbíteros


das igrejas. Suponha que alguns comecem a ensinar que os crentes
hoje precisam ser circuncidados e guardar a lei de Moisés. Que você
faria? De maneira adequada você deve dizer-lhes: “Pedimos que
vocês não falem nas reuniões da igreja e não espalhem esse
ensinamento entre os santos. Vocês estão ensinando heresia. Se
continuarem a fazer isso, não os deixaremos permanecer na igreja”.
Dizer aos crentes que eles precisam ser circuncidados e
guardar a lei de Moisés anula a economia neotestamentária de Deus.
Também anula a morte de Cristo. Toma Cristo e a Sua morte sem
efeito. É exatamente isso que Paulo diz em Gálatas 2:21. Nesse
versículo ele nos diz que ele não anula a graça de Cristo.
A pessoa que ensina a heresia de que os crentes precisam ser
circuncidados e devem guardar a lei de Moisés deve ser advertida a
mudar de entendimento. De outra forma, a igreja não poderá
recebê-la. A igreja só pode receber os que creem em nosso Salvador
Jesus Cristo, em Sua morte redentora, ressurreição e ascensão, e na
economia neotestamentária de Deus. A lei de Moisés passou, no
tocante à dispensação.
Atos 15:6 diz: “Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros
para examinar a questão”. Esse versículo menciona os apóstolos e os
presbíteros. Os apóstolos são universais e os presbíteros são locais.
Por que Paulo e Barnabé foram enviados de Antioquia para
Jerusalém, quando o problema que enfrentavam estava em
Antioquia? Eles foram a Jerusalém porque a fonte do problema
estava lá.
Podemos dizer que o “fluir” do problema atingiu Antioquia,
mas a fonte estava em Jerusalém. Não seria correto lidar com o fluir
sem lidar com a fonte. Mesmo que o fluir fosse eliminado a fonte
permaneceria. Assim, eles foram a Jerusalém para lidar com a fonte;
e não porque a igreja em Antioquia considerasse a igreja em
Jerusalém como a igreja principal.

SEM HIERARQUIA, MAS COM O PRESIDIR DO ESPÍRITO


SANTO

Semelhantemente, Paulo e Barnabé não consideravam Pedro e


Tiago como o alto escalão. Se fosse assim, teria havido uma
hierarquia. Mas não havia nenhuma hierarquia, e em especial Pedro
não era um “papa”, como o catolicismo falsamente afirma.
Aqui em Atos 15 temos a única conferência entre os apóstolos
da igreja universal e os presbíteros da igreja em Jerusalém. Esses
dois grupos eram os líderes no mover neotestamentário do Senhor
na terra. A conferência não tinha um presidente; quem presidia era o
Espírito (v. 28), o Cristo pneumático, a Cabeça da igreja (Cl 1:18) e o
Senhor de todos (At 10:36). “Havendo grande debate” (15:7) indica
que todos na conferência tinham a liberdade de falar. A decisão foi
tomada com base em: (1) o testemunho compartilhado por Pedro
(vs. 7-11), (2) os fatos relatados por Barnabé e Paulo (v. 12) e (3) a
conclusão dada por Tiago (v. 21), o líder entre os apóstolos e
presbíteros em Jerusalém (12:17; 21:18; Gl 1:19; 2:9), pela influência
que exercia sobre os crentes por sua piedade.
UM REGISTRO DE COMUNHÃO

Alguns pensam que a conferência em Atos 15 foi o primeiro


concílio da igreja. Esse é um entendimento errôneo. Aqui não temos
um concílio e, sim, uma reunião de comunhão, com o Espírito Santo
a presidir. Mais tarde foi dito: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e
a nós” (v. 28). Não houve votação, nem houve autocracia nem
democracia. Autocracia e democracia não devem existir na vida da
igreja. Em vez disso, deve simplesmente haver comunhão no
Espírito. Atos 15 é um registro dessa comunhão.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 42
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (8)

Leitura Bíblica: At 15:1-34

Atos 15:1-34 registra o problema causado pelos que insistiam


que alguém não pode ser salvo sem ser circuncidado segundo o
costume de Moisés (v. 1). A esse respeito foi realizada uma
conferência dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém (vs. 1-21).
Nesta mensagem vamos considerar o que aconteceu nessa
conferência e qual foi a solução do problema (vs. 22-33).

O TESTEMUNHO DE PEDRO

A Purificação do Nosso Coração pela Fé

“Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra e lhes disse:


Irmãos, vós sabeis que, desde há muito, Deus me escolheu dentre
vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a palavra do
evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, lhes deu
testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a
nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e
eles, purificando-lhes pela fé o coração” (vs. 7-9). A palavra de Pedro
sobre a purificação do nosso coração pela fé indica que Deus não se
importa com ordenanças legalistas exteriores, que não podem
purificar o ser interior do homem; mas importa-se com a purificação
do coração humano. Isso corresponde à ênfase do Senhor em
Marcos 7:1-23. A purificação do coração do homem só pode
acontecer pelo Espírito Santo com a vida divina, e não por meio de
ordenanças exteriores de letras mortas.

Tentar a Deus

Em Atos 15:10 Pedro continua: “Agora, pois, por que tentais a


Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos
pais puderam suportar, nem nós?” Esse é o jugo da lei, que era um
jugo de escravidão (Gl 5:1). O jugo de escravidão em Gálatas 5:1 é a
escravidão da lei, que torna os que guardam a lei escravos sob um
jugo que os prende. Exigir que as pessoas guardem a lei de
escravidão não apenas as escraviza, mas também tenta a Deus. Nem
mesmo Deus podia e também não queria fazer o homem cumprir a
lei de letras.

Salvos pela Graça

Em Atos 15:11 Pedro prossegue: “Mas cremos que fomos salvos


pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram”. Essa
graça compreende a Pessoa do Senhor e a Sua obra redentora
(Rm 3:24). Pedro e os crentes judeus foram salvos por essa graça, e
não guardando a lei de Moisés. No que diz respeito à salvação de
Deus, guardar a lei nada significa, nem para os judeus nem para os
gentios.
As Deficiências do Testemunho de Pedro Conforme 15:7, Pedro
só falou depois de ter havido muita discussão. Na verdade, Pedro
não devia ter permitido toda aquela discussão. Ele deveria ter dito
imediatamente: “Irmãos, quero lembrá-los do que o Senhor Jesus
nos disse. Ele falou que seríamos Suas testemunhas em Jerusalém,
Judéia, Samaria e até mesmo nos confins da terra. Vocês acham que
o Senhor queria dizer que devemos circuncidar todos os gentios?
Certamente não”. Se Pedro tivesse falado assim, os que estavam na
conferência o teriam ouvido.
O que Pedro falou em 15:7-11 foi bom, mas não foi
suficientemente forte. Por que é que ele não se referiu à palavra do
Senhor em 1:8? Por que simplesmente lembrou-os de que Deus o
tinha escolhido para que, por meio dele, os gentios ouvissem a
palavra do evangelho e cressem? Pedro deveria ter dito: “Vocês
sabem que desde os primeiros dias o Senhor Jesus nos disse que
seríamos Suas testemunhas até aos confins da terra”. Em Atos 15
Pedro talvez ainda estivesse meio temeroso. Ele não foi ousado e não
exerceu a autoridade que lhe fora designada pela Cabeça. Se a tivesse
exercido, teria resolvido o problema e cortado o fluxo do “veneno” da
heresia. Teria eliminado a própria fonte do fluxo. Contudo, ele
falhou em cumprir essa tarefa adequadamente.
Em 15:8 Pedro se refere a Deus como Aquele que conhece os
corações. Isso é uma expressão bem fraca. Ele deveria ter dito que
Deus é Aquele que planejou Sua economia, que formou a Sua
economia, a Sua dispensação. Paulo, que era mais ousado do que
Pedro, falou de Deus dessa forma em suas Epístolas. Será que Deus
deu o Espírito Santo aos gentios apenas porque conhecia o coração
deles? Foi essa a única razão de lhes ter purificado o coração pela fé?
Será que Ele deu a Pedro as chaves meramente para que Ele pudesse
entrar e purificar o coração dos gentios? Sem dúvida, Pedro colocou
bem alguns itens aqui, mas a sua apresentação é fraca demais. Essa
fraqueza nos leva a perguntar se ele realmente conhecia a economia
de Deus adequadamente.
Em 15:10 Pedro perguntou: “Agora, pois, por que tentais a
Deus?” Na verdade eles não estavam apenas tentando a Deus;
estavam anulando a economia divina. Outra vez, o que Pedro falou
no versículo 10 foi bom, mas ainda foi fraco. Pedro era o apóstolo
líder e Deus lhe havia dado certa autoridade. Contudo, em Atos 15
ele não a exerceu. Contudo, louvamos ao Senhor pelo testemunho e
comunhão de Pedro.
Já mostramos que Pedro deveria ter lembrado aos que
estavam naquela conferência da palavra do Senhor em 1:8. Ele
também deveria ter testificado a eles a respeito da visão que ele teve
em Jope (10:9-16) e dito: “Deixem-me contar-lhes o que me
aconteceu em Jope. Enquanto eu orava, tive uma visão de um vaso,
como um grande lençol, que continha toda sorte de quadrúpedes e
répteis da terra e aves do céu. Então o Senhor me disse que matasse
e comesse. Quando me recusei a fazê-lo, Ele me disse o mesmo
segunda e terceira vez. Ele me disse que o que Deus tinha purificado
eu não deveria considerar comum. Depois dessa visão, fui a
Cesaréia. Enquanto eu falava, o Espírito Santo caiu sobre os que
estavam na casa”. Pedro deveria ter testificado com respeito à
palavra do Senhor em 1:8, à visão que teve e ao que acontecera na
casa de Cornélio. Pedro deveria ter tomado essas coisas como base
para dizer aos que estavam naquela conferência que se esquecessem
da lei, circuncisão e regulamentos da dieta levítica. Mas faltou-lhe
ousadia para fazer isso.
Quando o Senhor Jesus se referiu ao caso da viúva de Sarepta
de Sidom e de Naamã, o sírio, (Lc 4:25-27), implicando que o Seu
evangelho se voltaria aos gentios, os que estavam na sinagoga se
encheram de furor e queriam matá-Lo. Em contraste com o Senhor
em Lucas 4, Pedro foi muito cauteloso, sem coragem de mencionar a
visão que tivera. O fato de não ter mencionado a visão dada pelo
Senhor, talvez indique, não só que lhe faltava ousadia, mas também
o ambiente em Jerusalém estava muito pesado.
Na verdade, quando essa heresia a respeito da circuncisão
apareceu em Jerusalém, bem no início, Pedro deveria ter exercitado
o dom que o Senhor lhe dera, ou seja, clarificar a situação nebulosa
de Jerusalém com respeito à economia neotestamentária de Deus,
segundo a revelação que o Senhor dera a ele e aos outros apóstolos
em Atos 1:8 e a visão que ele teve em Jope, em Atos 10, com respeito
aos gentios. Se tivesse feito isso, a heresia judaica teria sido cortada
bem no seu início em Jerusalém e não se teria espalhado para as
igrejas do mundo gentio. Mas ele falhou nisso, assim Paulo teve que
subir a Jerusalém para fazer a “cirurgia”, extirpando assim o câncer
racial que poderia ter destruído a economia neotestamentária de
Deus e matado o Corpo de Cristo.

A COMUNHÃO DE TIAGO

Quando Pedro finalizou o seu testemunho, os que estavam na


conferência permaneceram em silêncio. Então “passaram a ouvir a
Barnabé e a Paulo, que contavam quantos sinais e prodígios Deus
fizera por meio deles entre os gentios” (v. 12). Depois disso, temos a
comunhão de Tiago (vs. 14-21).

Usou o Antigo Testamento

Em 15:13-14 Tiago disse, depois que todos ficaram em silêncio:


“Irmãos, atentai nas minhas palavras: expôs Simão como Deus,
primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um
povo para o seu nome”. Nos versículos 16 e 17 Tiago cita o livro de
Amós para mostrar que as palavras dos profetas concordam com o
fato de Deus tomar dentre os gentios um povo para o Seu nome:
“Cumpridas estas cousas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído
de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei, Para que os
demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre
os quais tem sido invocado o meu nome”. O tabernáculo de Davi se
refere ao reino de Israel. Reedificar o tabernáculo de Davi é
restaurar o reino de Israel.

Exaltou a Nação de Israel

O fato de Tiago usar essa citação do Antigo Testamento exalta


a nação de Israel. Em Atos 1:6 os apóstolos perguntaram ao Senhor
Jesus: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”
O reino de Israel, que os apóstolos e outros judeus devotos
buscavam, era um reino material. Difere do reino de vida de Deus,
que Cristo está edificando por meio da pregação do Seu evangelho.
Quando os apóstolos perguntaram ao Senhor sobre a restauração do
reino de Israel, Ele respondeu: “Não vos compete conhecer tempos
ou épocas que o Pai reservou pela Sua exclusiva autoridade; mas
recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis
minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e
Samaria e até aos confins da terra” (vs. 7-8). Embora o Senhor
tivesse falado essa palavra, Tiago, para cuidar da situação em
Atos 15, exaltou mais uma vez a nação de Israel. As palavras “para
que” em 15:17 indicam que primeiro o Senhor irá reedificar a nação
de Israel e então os gentios, os demais homens, buscarão o Senhor.

Usou uma Profecia a respeito da Era Vindoura

Na verdade, o trecho do Antigo Testamento que Tiago cita não


se aplica à situação de Atos 15, mas é uma profecia relacionada à
questão do Senhor reedificar a nação de Israel após a Sua volta.
Nesse tempo, segundo a profecia, todas as nações buscarão o
Senhor. Em Zacarias 8 encontra-se uma profecia similar. Segundo
esse capítulo, quando a nação de Israel for restaurada, “virão muitos
povos e poderosas nações buscar em Jerusalém ao SENHOR dos
Exércitos e suplicar o favor do SENHOR” (v. 22). Se estudarmos as
Escrituras cuidadosamente, veremos que esses trechos da Palavra
não se referem à presente era da graça, e, sim, ao tempo após a volta
do Senhor. Na era vindoura o Senhor irá reedificar o tabernáculo
caído de Davi; isto é, irá restaurar a nação de Israel. Então os gentios
virão para buscar o Senhor.
Quando afirmamos que o trecho usado por Tiago em Atos 15 se
aplica à era vindoura, alguns talvez digam: “Você não deve
interpretar os versículos utilizados por Tiago dessa maneira; deve
interpretá-los apenas segundo o princípio. Aqui Tiago estava
dizendo que em princípio, mais cedo ou mais tarde o Senhor vai
incluir os gentios”. Mas, em relação à situação de Atos 15, não é
adequado dizer que mais cedo ou mais tarde os gentios serão
incluídos. Nesse capítulo Tiago usou uma citação do Antigo
Testamento sem discernimento. Ele citou versículos que se referem
não à presente era, mas à era vindoura. Assim ele, na verdade,
tomou emprestado uma citação do Antigo Testamento.

Uma Comparação do Uso do Antigo Testamento Feito pelo


Senhor Jesus e por Paulo

A essa altura é-nos útil comparar a maneira de Tiago usar o


Antigo Testamento, com a maneira com que o Senhor Jesus o faz em
Lucas 4. Citando o caso da viúva e o de Naamã, Ele dava a entender
que Deus iria pôr de lado a nação de Israel e se voltar aos gentios. Ao
se referir a esses casos Ele foi ousado, e os que estavam na sinagoga
se ofenderam e queriam matá-Lo. Já Tiago, queria agradar aos
judaizantes, dizendo-lhes, não que Deus iria colocar de lado a nação
de Israel, mas iria primeiro reedificá-la, e então se voltaria aos
gentios. Ao comparar o uso que Tiago faz do Antigo Testamento com
o que o Senhor fez, vemos que Tiago cita as Escrituras de maneira
muito imprecisa.
Assim como o Senhor Jesus, Paulo também era ousado no uso
do Antigo Testamento. Considere o que ele fez em Atos 13. Quando
os judeus rejeitaram a palavra do evangelho, ele disse ousadamente:
“Cumpria que a vós outros, em primeiro lugar, fosse pregada a
palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos
julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos para os
gentios” (v. 46). Então ele cita Isaías 49:6: “Te dei como luz para os
gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra”.
Como já dissemos, essa citação se refere a Cristo como servo de
Deus, a quem Deus faz luz aos gentios, para que a Sua salvação
atinja até a extremidade da terra. Como era um com Cristo em levar
a cabo a salvação de Deus, Paulo aplicou essa palavra a si próprio,
em seu ministério de pregar as boas novas, com vistas à mudança do
evangelho, não mais para os judeus, por causa da rejeição deles, e,
sim, para os gentios. Em Seu ministério na terra o Senhor expressou
a mesma coisa aos judeus obstinados em Lucas 4:24-27. Em Atos 13
Paulo não disse que eles se voltariam aos gentios porque Deus
reedificara a nação de Israel. Pelo contrário, declarou que se
voltariam aos gentios, porque os judeus rejeitaram a palavra de
Deus.
Em Atos 15 a citação que Tiago fez do Antigo Testamento foi
muito bem recebida. Se ele tivesse sido tão categórico como o
Senhor Jesus e Paulo, citando os trechos adequados do Antigo
Testamento com respeito a Deus colocar de lado Israel e visitar os
gentios, os judaizantes se teriam oposto a ele drasticamente.
A nossa análise do uso que Tiago fez do Antigo Testamento
deve ajudar-nos a aprender o modo adequado de estudar a Bíblia.
Precisamos ver as profundezas da palavra escrita. Se de fato
conhecemos a Bíblia, iremos criticar corretamente a citação de
Tiago. Eu realmente queria saber por que ele não citou a clara e
enfática palavra do Senhor em Atos 1:8, em vez de citar algo indireto
do Antigo Testamento. Isso mostra que ele era muito mais pelo
Antigo Testamento do que pela economia neotestamentária de Deus.

Deu 0 Seu Parecer

Em 15:19-20 Tiago prosseguiu em comunhão para dar o seu


parecer: “Pelo que, julgo eu, não devemos perturbar aqueles que,
dentre os gentios, se convertem a Deus, mas escrever-lhes que se
abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações
sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue”. Essa
palavra é muito inferior à exortação que Paulo fez aos crentes nos
capítulos treze e catorze. Suponha que alguém dissesse: “Amados
irmãos, vocês sabem que vivemos em uma geração corrupta e
pervertida, a qual é cheia de idolatria e fornicação. Eu os exorto a se
abster de ídolos, de fornicação, de qualquer animal sufocado e do
sangue”. Por certo, os irmãos hoje não ficariam satisfeitos em ouvir
essa exortação. Contudo, essa foi a comunhão de Tiago em Atos 15.
No versículo 21 Tiago diz a razão de ter julgado a questão dessa
maneira: “Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos
antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os
sábados”. Aqui temos a base da comunhão dele. Ele nos diz que
quanto a resolver o problema causado pelos judaizantes heréticos
precisamos cuidar do fato de que a lei de Moisés é lida nas sinagogas
todos os sábados. Essa é a razão que ele dá para exortar os gentios a
se abster dos ídolos, da fornicação, de animais sufocados e do
sangue. Essa solução não podia ser satisfatória a Paulo, que diz em
Gálatas 2:19: “Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a
fim de viver para Deus”. Em contraste com essas palavras, a
comunhão de Tiago leva os crentes do Novo Testamento a voltar a
considerar a lei. Isso indica que as palavras conclusivas dele ainda
estavam sob influência da lei mosaica, devido a seus fortes
antecedentes judaicos. Como veremos, a influência desses
antecedentes ainda permaneciam quando Paulo fez a sua última
visita a Jerusalém (Atos 21:20-26).
De acordo com o que ele diz em sua Epístola, Tiago deve ter
sido alguém muito religioso. Deve ter sido por isso e pela sua
perfeição cristã prática que ele foi reputado, juntamente com Pedro
e João, uma coluna, até mesmo a primeira, na igreja em Jerusalém
(Gl 2:9). Mas o forte dele não era a revelação da economia
neotestamentária de Deus em Cristo, antes, ele ainda estava debaixo
da influência dos antecedentes da velha religião judaica: adorar a
Deus com cerimônias e ter uma vida no temor de Deus. Atos 21:20-
24 e Tiago 2:2-11 provam isso.
Tiago 2:8-11 indica que os crentes judeus naquela época ainda
praticavam e guardavam a lei do Antigo Testamento. Isso
corresponde ao que Tiago e os presbíteros de Jerusalém disseram a
Paulo em Atos 21:20. Tiago, os presbíteros de Jerusalém e milhares
de crentes judeus permaneciam numa mistura da fé cristã com a lei
mosaica. Eles até mesmo aconselharam Paulo a praticar essa
mistura semijudaica (Atos 21:17-26). Não estavam cientes de que a
dispensação da lei passara totalmente e a dispensação da graça
deveria ser plenamente honrada. Também não perceberam que não
considerar a distinção entre essas duas dispensações seria contra a
administração dispensacional de Deus, e um grande prejuízo ao
plano econômico de Deus de edificar a igreja como a expressão de
Cristo.
Fico muito triste pelo fato de o julgamento de Tiago ter sido
totalmente baseado em sua piedade, em seu viver piedoso, como nos
indicam os itens de idolatria, fornicação, animais sufocados e o
sangue, a que se referiu. O seu parecer não se baseou nem um pouco
na administração da economia neotestamentária de Deus. Isso
mostra que ele estava totalmente sob a atmosfera nebulosa do seus
antecedentes judaicos e não sob o céu claro da economia
neotestamentária de Deus.

A SOLUÇÃO

Atos 15:22-33 descreve a solução do problema. Na verdade,


essa solução era uma concessão, ou meio-termo, mas era melhor do
que nada. Os versículos 23 a 29 dão um relato da carta escrita pelos
de Jerusalém e enviada por meio de Paulo e Barnabé para Antioquia.
No versículo 26 é-nos dito que Barnabé e Saulo eram “homens que
têm exposto a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Literalmente, o termo grego traduzido como “vida” significa “alma”.
Essa palavra não se refere apenas à vida deles, mas também ao
próprio ser deles, que tinham entregue pelo nome do Senhor.
Atos 15:30-31 diz: “Os que foram enviados desceram logo para
Antioquia e, tendo reunido a comunidade, entregaram a epístola.
Quando a leram, sobremaneira se alegraram pelo conforto
recebido”. Por um lado, os crentes em Antioquia se alegraram
porque não era necessário que se circuncidassem. Por outro, ainda
deviam observar certas exigências da lei.
A “raposa” da lei tinha sido enterrada, mas o “rabo” ainda
estava visível. A solução, portanto, na realidade era uma concessão.
De acordo com o capítulo dezoito de Atos, nem mesmo Paulo
estava totalmente livre da influência judaica. O versículo 18 diz:
“Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim,
despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua
companhia Priscila e Áquila, depois de ter raspado a cabeça em
Cencréia, porque tornara voto”. Esse era um voto particular que
podia ser feito em qualquer lugar pelos judeus, para ações de graças,
raspando-se a cabeça, Diferia do voto de nazireado, que tinha de ser
feito em Jerusalém passando-se a navalha na cabeça. Paulo era
judeu e fez o voto, mas não impôs isso aos gentios. Segundo o
princípio do seu ensinamento com respeito à economia
neotestamentária de Deus, ele deveria ter desistido de todas as
práticas judaicas que pertenciam à dispensação do Antigo
Testamento. Mas ainda fez esse voto pessoal. É-me difícil crer que
Paulo, o autor de Romanos e Gálatas, ainda tivesse feito esse voto.
Em princípio ele estava errado nessa questão. É claro que o erro dele
não chegava nem perto do erro de Tiago em Atos 21. Como veremos,
o Senhor não tolerou o fato de Paulo juntar-se aos que tinham feito
voto de nazireu.
O que estamos enfatizando aqui é que a solução do problema
em Atos 15 foi uma concessão. O problema foi resolvido e a
tempestade foi acalmada. Mas a raiz do veneno não foi cortada, por
isso, aparece novamente no capítulo vinte e um. A mistura que
vemos em Atos 21 já estava presente em Atos 15. Era uma mistura
religiosa, da economia neotestamentária de Deus com a religião
judaica da velha dispensação. Essa mistura era o resultado da
concessão. Devido a essa concessão, o problema em atos 15 não foi
plenamente resolvido. Contudo, essa solução parcial foi melhor do
que nada.

COMO ENCARAR A ATUAL SITUAÇÃO DE CONCESSÃO

Em princípio a situação hoje é a mesma que a de Atos. Há


ainda bastante concessão. Assim, estamos estudando a Bíblia não
meramente para aprender doutrinas, mas também para ser
advertidos e treinados a fim de enfrentar a situação atual.
Em 1964 escrevi alguns hinos sobre Cristo ser o Espírito. Um
dia um amigo meu, que era cooperador, me disse: “Sim, o Novo
Testamento diz que Cristo é o Espírito. Mas, se ensinarmos isso, os
cristãos não irão aceitar. É melhor que não ensinemos isso”. Eu lhe
disse: “A justificação pela fé foi restaurada por Martinho Lutero. A
Igreja Católica se opôs a ISSO. Se Lutero tivesse decidido não
ensinar a justificação pela fé porque a Igreja Católica não queria
aceitá-la, como é que poderia ter ocorrido a restauração?”
Alguns que estiveram conosco na restauração do Senhor
tentaram fazer concessões em relação aos ensinamentos do irmão
Nee. Eles sabem o que ele ensinava, mas por temer o cristianismo
tradicional, não ousam ensinar a mesma coisa. Em vez disso, eles
fizeram concessões. Ao traduzir alguns livros do irmão Nee, o
tradutor até mesmo mudou algumas palavras para não ser
condenado.
Em 1964 fui convidado para falar pela quarta ou quinta vez
para determinado grupo cristão em Dallas. O meu anfitrião me
advertiu dizendo: “Irmão Lee, por favor, não fale sobre a igreja. As
pessoas aqui não aceitarão o seu ensinamento a esse respeito. Mas
nós lhe damos as boas vindas para ministrar sobre Cristo como vida.
Gostamos disso e somos ajudados por essas palavras”. Sem dizer
nem sim nem não ao seu pedido, eu disse: “Irmão, uma vez que eu
ministre Cristo como vida, o resultado será a igreja. Como você pode
pedir-me que eu ministre Cristo e esperar que isso não resulte na
igreja?” Prossegui dizendo-lhe que o meu ministério é um ministério
de Cristo, e que o resultado disso sempre será a igreja.
Fiquei uma semana ministrando para aquele grupo cristão em
Dallas. Não falei sobre a igreja até a última noite da conferência. A
voz em meu espírito já não suportava mais que me calasse com
respeito à igreja. Não me importei se seria, convidado novamente ou
não. Eu só sabia que tinha de dizer algo sobre a igreja. Quando pedi
aos participantes que abrissem a Bíblia em Romanos 12, o meu
anfitrião já entendeu que eu pretendia falar do Corpo de Cristo, a
igreja. As pessoas que me haviam convidado estavam desapontadas.
Contudo, prossegui falando categoricamente com respeito à igreja, e,
por meio dessa mensagem uma pessoa foi ganha para a restauração
do Senhor.
Todos esses casos nos ensinam a tornar cuidado com as
concessões, ou meios-termos. Que todos aprendamos com o nosso
estudo de Atos a encarar a atual situação de concessões.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 43
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (9)

Leitura Bíblica: At 15:35―16:5

Nesta mensagem abordaremos 15:35-16:5. Atos 15:3539 relata


a contenda entre Paulo e Barnabé. Em 15:40 temos o início da
segunda viagem ministerial de Paulo. Nos versículos 40 e 41 Paulo e
Silas passaram pela Síria e Cilícia, e em 16:15 eles foram a Derbe e a
Listra.

A CONTENDA COM BARNABÉ

Em 15:36 Paulo disse a Barnabé: “Voltemos, agora, para visitar


os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do
Senhor, para ver como passam”. Barnabé queria levar com eles a
João, chamado Marcos, “mas a Paulo parecia razoável que não
tornassem consigo aquele que desde Panfília se tinha apartado deles
e não os acompanhou naquela obra. E tal contenda houve entre eles,
que se apartaram um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos,
navegou para Chipre” (vs. 38-39). Barnabé e Paulo eram homens
que desistiram da própria vida por amor ao nome do Senhor (v. 26),
contudo logo após a vitória na luta pela fé com a heresia acerca da
circuncisão, levantou-se tal contenda acirrada entre eles com
respeito ao parente de um deles, que, os levou a se separar.

A Responsabilidade de Barnabé

A responsabilidade pelo problema deve ter sido de Barnabé,


pois depois desse incidente ele não mais aparece no relato divino de
Atos do mover do Senhor na economia neotestamentária de Deus. A
razão de sua falha pode ter sido o seu relacionamento natural com
Marcos, seu primo (Cl 4:10), que os abandonara na primeira viagem
ministerial deles, de forma negativa (At 13:13). Marcos mais tarde
foi restaurado ao ministério de Paulo (2Tm 4:11; Fm 24), mas
Barnabé não.
Paulo foi bastante rígido em relação a Marcos. Talvez Marcos
os tenha deixado na primeira viagem ministerial por não ser capaz
de aguentar as dificuldades desse trabalho evangélico. Contudo,
Barnabé, cujo nome significa filho do encorajamento (4:36-lit.),
queria levar Marcos com eles na segunda viagem. Barnabé, que
devia ser alguém muito bom e paciente, queria dar outra chance a
Marcos. Além do mais, como Marcos e Barnabé eram primos, eles
tinham um relacionamento na carne. Visto que Paulo estava
inflexível em não deixar Marcos ir na segunda viagem, isso gerou
uma acirrada contenda entre Paulo e Barnabé.

Lições a Aprender

Precisamos aprender da contenda entre Paulo e Barnabé a


respeito de Marcos a não exercitar as virtudes naturais em relação à
obra do Senhor. Talvez você seja muito bom e paciente, mas quando
entra na obra do Senhor precisa esquecer-se da sua bondade e
paciência naturais e cuidar dos estritos regulamentos e princípios
divinos. Você não deve sacrificar os princípios divinos em função do
seu ser natural. Se você é naturalmente bom, paciente e tolerante,
isso causará problemas na obra do Senhor. Ao se agarrar a essas
virtudes naturais, você irá sacrificar os princípios divinos em favor
das suas virtudes.
Em 15:35-39 vemos algo até mesmo pior do que exercitar as
virtudes naturais na obra do Senhor, qual seja, a séria questão de
permitir que um relacionamento carnal penetre sorrateiramente na
obra. Isso é terrível. Barnabé estava errado em exercitar as virtudes
naturais na obra do Senhor, e, provavelmente também ao permitir
que o relacionamento carnal com Marcos entrasse na obra.
Em 15:35-39 Paulo não era mais jovem; por certo já tinha tido
muita experiência no Senhor. Certamente deve ter havido alguns
princípios básicos envolvidos com a questão de levar Marcos com
eles na segunda viagem ministerial, e Paulo achava que não poderia
quebrar esses princípios. Por fim, Barnabé seguiu seu próprio
caminho, levando consigo Marcos. Depois disso, não há mais
menção de Barnabé no registro divino do mover de Deus em Sua
economia neotestamentária. Isso indica que Barnabé estava errado.

PARA SÍRIA E CILÍCIA

Atos 15:40-41 diz: “Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu


encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e
Cilícia, confirmando as igrejas”. Esse foi o início da segunda viagem
ministerial de Paulo, que terminou em 18:22. O fato de ter sido
encomendado à graça do Senhor pelos irmãos indica que, ele, e não
Barnabé, tinha tomado o caminho certo.

PARA DERBE E LISTRA

Circuncidou Timóteo

Em 16:1-5 vemos que Paulo veio a Derbe e Listra: “Havia ali


um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente, mas de
pai grego; dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio.
Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-
o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu
pai era grego” (vs. lb-3). O fato de Paulo circuncidar Timóteo por
causa dos judeus indica a forte influência dos antecedentes judaicos
que ainda permaneciam entre os crentes judeus. Isso se tornou uma
perturbação e empecilho para o mover do evangelho do Senhor.
No capítulo quinze de Atos, a solução do problema a respeito
da circuncisão foi escrita (15:20, 23-30), e Paulo levou essa carta
consigo. Atos 16:4 indica isso: “Ao passar pelas cidades, entregavam
aos irmãos, para que as observassem, as decisões tornadas pelos
apóstolos e presbíteros de Jerusalém”. Por que, então, Paulo
circuncidou Timóteo? Considerando Timóteo bom material para a
obra, Paulo quis que ele fosse em sua companhia (16:3). É-nos dito
que Paulo “circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares”. Ao
circuncidá-lo, Paulo talvez estivesse exercitando a sabedoria para
tomar as coisas mais fáceis para pregar o evangelho. Doutra forma
não haveria razão para isso.
A Circuncisão de Timóteo Considerada à Luz do Livro de
Gálatas

Precisamos considerar o fato de Paulo ter circuncidado


Timóteo em Atos 16 à luz do que ele disse com respeito à circuncisão
em Gálatas. Gálatas 2:1-3 diz: “Catorze anos depois, subi outra vez a
Jerusalém com Barnabé, levando também a Tito. Subi em
obediência a uma revelação; e lhes expus o evangelho que prego
entre os gentios, mas em particular aos que pareciam de maior
influência, para, de algum modo, não correr ou ter corrido em vão.
Contudo nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo grego, foi
constrangido a circuncidar-se”. Esses versículos referem-se ao que
está registrado em Atos 15. Em Atos 15 não há menção de Tito, mas
em Gálatas 2 Paulo nos diz que levou Tito consigo para Jerusalém.
Ademais, ele diz que Tito não foi constrangido a circuncidar-se. Já
que Tito, em Gálatas 2, não foi circuncidado; por que Paulo em
Atos 16 circuncidou Timóteo, quando estava na segunda viagem
ministerial? Aqui vemos que ele agiu de duas formas. Por um lado,
Tito não foi circuncidado; por outro, Paulo circuncidou Timóteo.
Gálatas 5:2 diz: “Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes
circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará”. Como isso se aplica à
circuncisão de Timóteo? Urna vez que ele foi circuncidado; será que
Cristo de nada lhe aproveitou? Em Gálatas 5:4 Paulo prossegue: “De
Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da
graça decaístes”. Essa é uma palavra séria; é ser reduzido de Cristo a
nada, destituído de toda vantagem em Cristo e assim, separado Dele,
tornando-O sem efeito.
Em Gálatas 6:14 Paulo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-
me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo
está crucificado para mim, e eu, para o mundo”. Esse versículo não
se refere ao mundo em geral, mas o mundo judeu, religioso. Como
mostra o versículo seguinte, aqui Paulo está dizendo que o mundo
religioso foi crucificado para ele, e ele, para o mundo religioso. Em
Gálatas 6:15 ele explica: “Pois nem a circuncisão é coisa alguma,
nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura”. Como já dissemos,
circuncisão é uma ordenança da lei, enquanto nova criatura, ou nova
criação, é algo da vida divina com a natureza divina.
Paulo também fala da circuncisão em Gálatas 5:6: “Porque, em
Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor
algum, mas a fé que atua pelo amor”. Aqui a expressão têm valor
indica força ou poder prático. A circuncisão é meramente uma
ordenança exterior e não tem poder nem vida.
Como podemos conciliar o fato de Paulo circuncidar Timóteo
com o que ele diz respeito da circuncisão em Gálatas? Quando
escreveu Gálatas, a atitude dele foi totalmente negativa. Nessa
Epístola ele nos diz que se formos circuncidados, Cristo de nada nos
aproveitará, e que em Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão
têm valor. Já que essa era a sua atitude em relação à circuncisão,
então por que circuncidou Timóteo?

A Flexibilidade de Paulo

No capítulo dezoito de Atos vemos que ele ainda teve um voto


judaico (v. 18), um voto particular que podia ser feito em qualquer
lugar pelos judeus em ação de graças, raspando-se a cabeça. Ele
sabia que havia judeus em todas as principais cidades da Ásia Menor
e percebeu que ao viajar por essas cidades para trabalhar entre as
pessoas, primeiramente iria fazer uma obra entre os judeus. Talvez
tenha pensado que seria um grande empecilho para a sua obra
evangélica ter com ele um jovem cooperador incircunciso. Assim,
deve ter sido por causa da sua obra evangélica que ele circuncidou
Timóteo. Ele deve ter feito isso a fim de levar a cabo a sua obra onde
a atmosfera e o ambiente judaicos ainda eram prevalecentes.
Contudo, quando foi a Jerusalém para lutar pela verdade e contra a
heresia da circuncisão, ele propositadamente levou Tito consigo,
alguém que não havia sido circuncidado.
Ao estudar Atos 16 e Gálatas 2 ficamos impressionados com a
flexibilidade de Paulo. Quando foi a Jerusalém para lutar contra a
circuncisão, ele levou consigo um cooperador que não era
circuncidado. Ele deve ter feito isso para mostrar que era fortemente
contra a circuncisão. Como vimos, Gálatas 2:1-3 estava incluído nos
acontecimentos de Atos 15. Então, logo após a conferência em Atos
15, quando estava prestes a ir pregar o evangelho na sua segunda
viagem ministerial, ele circuncidou Timóteo e o levou consigo. Se
fôssemos Silas teríamos perguntado: “Paulo, que você está fazendo?
Você é instável. Primeiro se opõe à circuncisão e agora circuncida
Timóteo”. A favor de Paulo, no entanto, podemos dizer que ele
estava sendo flexível, e não instável. A circuncisão de Timóteo pode
não ter sido um erro. O que ele escreveu em Gálatas, que nem a
circuncisão nada significa nem a incircuncisão, pode ser
interpretado como se aplicando ao caso de Timóteo em Atos 16.
Podemos entender essas palavras significando que Paulo abrangeu
tanto o lado da circuncisão como o da incircuncisão.

A Influência da Tradição

Uma vez que a tradição entra nas pessoas, é muito difícil


removê-la. Além disso, é difícil escapar da influência de uma
atmosfera religiosa. Paulo atuava no mundo gentio, principalmente
na comunidade grega. Mas os judeus residentes nas cidades da Ásia
Menor ainda mantinham a atmosfera judaica, e era difícil, até para
ele, livrar-se dessa influência.
Será que Paulo em Atos 16 deveria ter circuncidado Timóteo?
Podemos dizer de maneira justa que, por fim, Deus toma o caminho
de não circuncidar ninguém. O melhor que podemos dizer a respeito
de Paulo ter circuncidado Timóteo é que ele estava sendo flexível em
determinado ambiente.

Um Livro “Dispensacional”

O livro de Atos está muito relacionado com “dispensação”. Se


não tivermos o discernimento que advém de conhecer a economia de
Deus, a dispensação de Deus, será muito difícil entender esse livro.
Louvamos o Senhor, porque esse livro está sendo aberto para nós, e
assim podemos ver todos os tópicos “dispensacionais” cruciais nele
contidos. Ver essas questões nos ajudará em nosso estudo do Novo
Testamento.

As Igrejas Eram Fortalecidas e Aumentavam em Número

Atos 16:4 e 5 diz: “Ao passar pelas cidades, entregavam aos


irmãos, para que as observassem, as decisões tomadas pelos
apóstolos e presbíteros de Jerusalém. Assim, as igrejas eram
fortalecidas na fé e, dia a dia, aumentavam em número”. Todas eram
igrejas locais, isto é, igrejas em várias cidades. Uma igreja local é
uma igreja estabelecida numa cidade, na jurisdição de uma cidade. A
igreja local é mostrada pela palavra do Senhor em Mateus 18:17. O
registro sobre o estabelecimento da igreja em cada cidade é coerente
em todo o Novo Testamento (At 8:1; 13:1; 14:23; Rm 16:1; 1Co 1:2;
2Co 8:1; Gl 1:2; Ap 1:4, 11).
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 44
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS
(10)

Leitura Bíblica: At 16:6-10

Nesta mensagem começaremos a abordar 16:6 a 10, que


descreve como Paulo e seus cooperadores foram guiados por Deus
para entrar na Macedônia, uma província do Império Romano no
sudeste da Europa. Daremos especial atenção às expressões Espírito
Santo no versículo 6 e Espírito de Jesus no versículo 7.

A PROIBIÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

Atos 16:6 diz: “E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido


impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia”. O mover
do apóstolo Paulo e seus cooperadores para a expansão do evangelho
não foi de acordo com a decisão e preferência deles, nem de acordo
com nenhuma programação feita por algum comitê humano, mas
pelo Espírito Santo, segundo o conselho de Deus, como na missão de
Filipe (8:29, 39). Eles. queriam falar a palavra na Ásia, mas o
Espírito Santo os impediu. Impedir também é parte da orientação do
Espírito Santo.

O ESPÍRITO DE JESUS NÃO O PERMITIU

Atos 16:7 continua: “Defrontando Mísia, tentavam ir para


Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu”. O fato de o Espírito
Santo proibir e de o Espírito de Jesus não permitir indicava que
Paulo e seus cooperadores deveriam seguir em frente. Se olharmos
no mapa, veremos que se eles fossem em linha reta iriam para a
Europa oriental, em especial, para a Macedônia e Acaia. Paulo,
contudo, não pensava em ir para lá. Isso tornou necessário que o
Senhor lhe desse uma visão à noite, e nessa visão um chamado
macedônico veio a Paulo (v. 9).
O fato de o Espírito Santo impedir Paulo de ir para a esquerda,
para a Ásia, e do Espírito de Jesus não deixá-lo ir para a direita, para
Bitínia, indica uma direção em linha reta, em frente, para o apóstolo
e seus cooperadores. Assim, eles foram em linha reta para
Macedônia através de Mísia e Trôade (v. 8).

DOIS TÍTULOS DIVINOS NÃO ENCONTRADOS NO


ANTIGO TESTAMENTO

Precisamos dar muita atenção a dois títulos divinos nos


versículos 6 e 7: Espírito Santo e Espírito de Jesus. O uso
intercambiado entre o Espírito de Jesus e o Espírito Santo no
versículo anterior revela que o Espírito de Jesus é o Espírito Santo.
Espírito Santo é um título genérico do Espírito de Deus no Novo
Testamento. Espírito de Jesus é uma expressão específica com
respeito ao Espírito de Deus, e se refere ao Espírito do Salvador
encarnado, o qual, como Jesus em Sua humanidade, passou pelo
viver humano e morte na cruz. Isso indica que no Espírito de Jesus
há, não apenas o elemento divino, mas também o elemento humano
de Jesus e os elementos do Seu viver humano bem como a morte que
Ele sofreu. Tal Espírito todo-inclusivo era necessário para o
ministério de pregação do apóstolo, um ministério de sofrimento
entre seres humanos e para seres humanos na vida humana.
Vimos que, em Atos 16, Lucas primeiro fala do Espírito Santo e
depois do Espírito de Jesus. No Antigo Testamento temos o Espírito
de Deus em Gênesis 1:2b: “O Espírito de Deus pairava por sobre as
águas”. Ali o Espírito de Deus pairava por sobre as águas de morte.
Em outros lugares no Antigo Testamento o Espírito de Deus é
chamado de Espírito de Jeová (Jz 3:10; Ez 11:5). O título “o Espírito
Santo” não é usado no Antigo Testamento. No Salmo 51:11 e em
Isaías 63:10-11 o “Espírito Santo” deveria ser traduzido como “o
Espírito de santidade”. Os principais títulos do Espírito de Deus no
Antigo Testamento, portanto, são o Espírito de Deus e o Espírito de
Jeová. O Espírito de Deus nunca é chamado de o Espírito de Elias ou
o Espírito de Davi. Com isso vemos que em Atos 16 Lucas usa dois
títulos para o Espírito de Deus que não são encontrados no Antigo
Testamento.
O título “Espírito Santo” foi usado pela primeira vez quando da
concepção do Senhor Jesus. Somente quando chegou a ocasião de
preparar o caminho para a vinda de Cristo e de preparar um corpo
humano para Ele, a fim de iniciar a dispensação do Novo
Testamento, é que o termo “o Espírito Santo” passou a ser usado
(Lc 1:15, 35; Mt 1:18, 20). Para entender o primeiro emprego do
título “o Espírito Santo”, precisamos ver que esse título está
relacionado à encarnação do Senhor. Daí, segundo o princípio da
primeira menção, o Espírito Santo relaciona-se à encarnação e
nascimento de Cristo.
Em Atos 16:7 Lucas muda de Espírito Santo para Espírito de
Jesus. Como homem, Jesus primeiro teve um viver humano e então
foi crucificado e ressuscitou, e ascendeu aos céus e foi feito Senhor e
Cristo. O Espírito de Jesus envolve mais coisas do que o Espírito
Santo. O Espírito Santo só envolve a encarnação e o nascimento do
Senhor Jesus, mas o Espírito de Jesus envolve a Sua humanidade,
viver humano, morte, ressurreição e ascensão.

UM NOVO MOVER NA ECONOMIA NEOTESTAMENTÁRIA


DE DEUS

Em Atos 16 vemos que o mover dos apóstolos em sua obra


evangelística não era realizado, a rigor, por meio do Espírito de
Deus. Antes, era por meio do Espírito Santo, que se relacionava com
a encarnação e o nascimento do Senhor, e por meio do Espírito de
Jesus, que se relacionava com a humanidade, o viver humano, a
morte, a ressurreição e a ascensão do Senhor. Esses dois títulos
divinos indicam categoricamente que o mover de Paulo em sua obra
evangelística não foi algo à maneira da velha dispensação. Se tivesse
sido um mover segundo a velha dispensação, então o Espírito de
Deus ou o Espírito de Jeová deveriam ter sido mencionados. Mas
em Atos 16 não há menção do Espírito de Deus nem do Espírito de
Jeová. Em vez disso, é-nos dito que Paulo e seus cooperadores foram
impedidos pelo Espírito Santo de falar a palavra na Ásia e o Espírito
de Jesus não lhes permitiu ir a Bitínia: O fato de Lucas falar do
Espírito Santo e do Espírito de Jesus indica que a obra evangelística
dos apóstolos era um novo mover na economia neotestamentária de
Deus. Como já dissemos, não é nosso encargo, neste Estudo-Vida de
Atos, considerar os tópicos menores. Nosso encargo é ver o mover de
Deus na terra com vistas à Sua economia neotestamentária e todas
as mudanças de direção dispensacionais importantes relacionadas a
esse mover.
A economia neotestamentária de Deus é levada a cabo por
meio da encarnação, humanidade, viver humano, morte,
ressurreição e ascensão do Senhor. O Espírito Santo e o Espírito de
Jesus incluem essas questões. Isso significa que o Espírito, que
agora é chamado de o Espírito Santo e o Espírito de Jesus, é a
totalidade e a consumação final e máxima da encarnação,
humanidade, viver humano, morte, ressurreição e ascensão de
Cristo. Quando temos esse Espírito Santo e o Espírito de Jesus,
temos Cristo em Sua encarnação, em Sua humanidade e viver
humano, e em Sua morte, ressurreição e ascensão.
Já comentamos em outro lugar que após a Sua ressurreição e
em Sua ressurreição Cristo se tornou o Cristo pneumático, o qual é o
mesmo que o Espírito (1Co 15:45; 2Co 3:17). O Espírito Santo, que
também é o Espírito de Jesus, é a totalidade desse Cristo
pneumático, o qual é constituído de certos elementos: encarnação,
humanidade, viver humano, morte, ressurreição e ascensão. Em
todo o universo Ele é o único que tem essas seis qualificações. Ele é o
único qualificado com encarnação, humanidade, viver humano,
morte, ressurreição e ascensão. Assim o Espírito de Jesus é esse
Jesus qualificado, como realidade para nós. O Espírito de Jesus é a
totalidade desse Espírito todo-inclusivo. Em Atos 16, Paulo e seus
cooperadores moviam-se conforme a direção desse Espírito, o
Espírito que é a totalidade do Cristo todo-inclusivo.

A VERDADE NAS PROFUNDEZAS DA PALAVRA

Esta mensagem com respeito ao Espírito Santo e ao Espírito de


Jesus não é produto da minha imaginação. Antes, é o resultado de
mais de meio século de estudo da Palavra e dos escritos de outros,
além de observar a experiência dos irmãos e a minha própria. Assim,
a minha comunhão a respeito desses dois títulos do Espírito divino
baseia-se em anos de estudo, observação e experiência.
Se virmos o significado dos títulos o Espírito Santo e o
Espírito de Jesus, choraremos e lamentaremos a triste situação
existente entre os cristãos hoje com respeito ao entendimento dessas
questões. Quem porventura sabe que o Espírito de Jesus é a
totalidade e a realidade de Cristo como o único que foi qualificado
por meio da encarnação, humanidade, viver humano, morte,
ressurreição e ascensão? Nós certamente não nos orgulhamos do
que o Senhor, em Sua misericórdia, nos mostrou, mas temos o
encargo de mostrar a verdade aos que buscam a Deus. As
profundezas da verdade com respeito ao Espírito não são
encontradas na teologia tradicional; pelo contrário, elas estão nas
profundezas da Palavra. Se quisermos conhecer essas profundezas,
não devemos contentar-nos em “esquiar sobre o gelo” da superfície
da Palavra. Nós, na restauração do Senhor, não devemos mais
permanecer na superfície da Palavra.
Certamente precisamos considerar os dois títulos divinos em
Atos 16:6 e 7. Paulo e Silas foram impedidos de falar a palavra na
Ásia, não pelo Espírito de Deus e nem pelo Espírito de Jeová, mas
pelo Espírito Santo, o qual levou a cabo a concepção do Salvador.
Quando eles tentaram ir para Bitínia, não foi nem o Espírito de Deus
nem o Espírito de Jeová que não lhes permitiu — foi o Espírito de
Jesus que não os deixou ir. O Espírito de Jesus é o Espírito Daquele
que tem humanidade, viveu como homem na terra por trinta e três
anos e meio, teve uma morte todo-inclusiva, ressuscitou dentre os
mortos para propagar a vida divina infundindo-a em todos os Seus
crentes, e ascendeu aos céus para ser feito Senhor e Cristo. O
Espírito que não deixou os apóstolos irem a Bitínia foi o Espírito
desse Jesus. Ele é a totalidade e a plena percepção do Jesus todo-
inclusivo. Esses versículos provam que os apóstolos moviam-se sob a
direção e guiar de tal Espírito todo-inclusivo. Que todos tenhamos
essa revelação e não estejamos satisfeitos com o entendimento
superficial da Palavra de Deus.

TER O ESPÍRITO SANTO E O ESPÍRITO DE JESUS COMO


PARTE DA NOSSA CONSTITUIÇÃO
O tipo de obra que fazemos para o Senhor depende do tipo de
Espírito pelo qual somos guiados, dirigidos, instruídos e
constituídos. Paulo não tinha o Espírito de Deus nem o Espírito de
Jeová como sua constituição e sim o Espírito Santo e o Espírito de
Jesus. Como vaso que contém o Deus Triúno, Paulo tinha
constituído em si o Espírito Santo, que se relacionava com a
encarnação e nascimento do Senhor, e o Espírito de Jesus, que se
relacionava com a humanidade, viver humano, morte todo-inclusiva,
ressurreição que infunde vida e ascensão do Senhor. Paulo era uma
pessoa que tinha esse Espírito todo-inclusivo constituído nele.
Assim, quando ele saiu para pregar, ele podia verdadeiramente
pregar Jesus Cristo.
Precisamos ser impressionados com o fato de que o tipo de
obra que fazemos para o Senhor depende do Espírito pelo qual
somos guiados e o qual temos constituído em nós. Na verdade, esse
Espírito deve se tornar a nossa constituição, assim, a nossa obra será
a expressão desse Espírito. Por exemplo, você acha que teria sido
possível Elias ter sido guiado pelo Espírito Santo, ou então fazer
uma obra para o Jesus que se encamou, com humanidade, viver
humano, morte, ressurreição e ascensão? Não, Elias não tinha esse
Espírito. Ele tinha apenas o Espírito de Deus e o Espírito de Jeová.
Ele tinha um Espírito poderoso, mas ele não tinha o Espírito de
Jesus constituído nele. Por essa razão, ele jamais poderia ter feito a
obra de ministrar o Jesus todo-inclusivo nem transmiti-Lo aos
outros como tal.

O SIGNIFICADO DO ESPÍRITO SANTO E DO ESPÍRITO DE


JESUS

Ao ler Atos 16 a tendência é considerar a questão da direção do


Espírito de forma genérica. Como vimos, Paulo não executou a sua
obra de difusão do evangelho de acordo com a sua decisão,
preferência e programação, mas pelo Espírito. Essa interpretação
também é genérica. Precisamos da visão celestial para podermos ver
o que implicam os dois títulos divinos: o Espírito Santo e o Espírito
de Jesus. A fim de entender esses títulos precisamos escavar as
profundezas da Bíblia com respeito ao Espírito.
Precisamos estudar o Espírito em toda a Bíblia, considerando
o Espírito de Deus em Gênesis e o Espírito de Jeová em outros
lugares do Antigo Testamento. Então precisamos ver por que o
termo o Espírito Santo não é usado antes de Deus se encamar.
Quando vemos isso, percebemos que o título o Espírito Santo está
relacionado com a economia neotestamentária de Deus. Em
especial, esse título indica Deus entrando no homem para ser um
com o homem na encarnação. No Novo Testamento o título o
Espírito Santo indica que Deus está agora mesclando-Se com o
homem.
Também precisamos do discernimento adequado para ver o
significado do Espírito de Jesus. Esse título do Espírito se refere ao
Senhor como Aquele que é todo-inclusivo, que era um homem, teve
um viver humano em Sua humanidade, foi à cruz e teve uma morte
todo-inclusiva, foi ressuscitado para a propagação da vida divina, e
ascendeu aos céus para ser feito Senhor e Cristo. Se nos
aprofundarmos nas Escrituras e tivermos a visão celestial com
respeito ao Espírito, veremos que o Espírito de Jesus implica a
humanidade, o viver humano, a morte, a ressurreição e a ascensão
do Senhor.
É muito fácil adquirir um entendimento superficial da Bíblia.
Até mesmo lendo uma vez toda a Bíblia você pode ganhar algum
conhecimento superficial. Mas ter a revelação celestial requer que
nos aprofundemos nas Escrituras. Também precisamos de
discernimento para ver o que está revelado na Palavra. O Senhor
Jesus tinha esse entendimento profundo das Escrituras quando Ele
mostrou que o título “o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus
de Jacó” implica ressurreição (Mt 22:31-33).
Que todos aprendemos a nos aprofundar na palavra de Deus
para conhecer as verdades mais profundas, enterradas há séculos.
Em especial, que possamos aprender o significado dos dois títulos
divinos encontrados em Atos 16:6 e 7: o Espírito Santo e o Espírito
de Jesus.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 45
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS (11)

Leitura Bíblica: At 16:6-40

Em 16:6-40 temos a viagem de Paulo e seus cooperadores para


Filipos da Macedônia. Os versículos 6 a 10 registram a visão que ele
teve do varão macedônio; os versículos 11 a 18, a pregação e os seus
frutos; e os versículos 19 a 40, o aprisionamento e a libertação.

A VISÃO DO VARÃO MACEDÔNIO

Paulo e seus cooperadores foram “impedidos pelo Espírito


Santo de pregar a palavra na Ásia” (v. 6), e “tentavam ir para Bitínia,
mas o Espírito de Jesus não o permitiu” (v. 7). Depois que tinham
descido a Trôade, “à noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um
varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à
Macedônia e ajuda-nos” (v. 9). Essa visão não foi um sonho nem um
êxtase. É diferente da experiência de Pedro em 10:9-16, quando,
“sobreveio-lhe um êxtase” (v. 10). Na visão em 16:9 um varão
macedônio rogou a Paulo que fosse à Macedônia, província do
Império Romano no sudeste da Europa, entre Trácia e Acaia, no Mar
Egeu.
Atos 16:10 prossegue dizendo: “Assim que teve a visão,
imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo
que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho”. Esse
versículo indica que após ter tido a visão de Deus, havia ainda a
necessidade de concluir, isto é, entender o que significava a visão,
exercitando a mente de acordo com a situação e o ambiente reais. A
mente que é capaz de entender essa visão de Deus é uma mente
saturada e dirigida pelo espírito (Ef 4:23).
Em 16:10 o verbo é usado pela primeira vez na primeira pessoa
do plural (nós) para incluir o autor, Lucas. Isso indica que, a partir
de Trôade, Lucas se juntou ao apóstolo Paulo em sua viagem
ministerial.
Depois de concluir que Deus os tinha chamado para levar as
boas novas aos macedônios, Paulo e seus cooperadores procuraram
partir para a Macedônia. Esse foi um grande passo no mover do
Senhor para a expansão do Seu reino para outro continente, a
Europa. Isso explica a intenção do Espírito Santo de impedi-los de
pregar o evangelho na Ásia, e do Espírito de Jesus de não lhes
permitir ir para Bitínia, e também da vinda da visão à noite. Levar a
cabo essa orientação especial no mover estratégico do Senhor exigiu
o empenho do apóstolo e de seus cooperadores. Eles o fizeram
imediatamente.

A PREGAÇÃO E OS SEUS FRUTOS

Atos 16:11-12a diz: “Tendo, pois, navegado de Trôade,


seguimos em direitura a Samotrácia, no dia seguinte, a Neápolis e
dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia”.
Trôade era um porto marítimo no noroeste da Ásia Menor, oposto à
Macedônia no Mar Egeu. Samotrácia era uma ilha no Mar Egeu
entre Trôade e Filipos, e Neápolis era um porto marítimo de Filipos.
Atos 16:12 diz que Filipos era uma colônia. Isso significa que era um
posto avançado e fortificado do Império Romano em um país
estrangeiro, onde os cidadãos tinham os mesmos direitos dos da
capital, Roma. Portanto, Filipos era um ponto estratégico para o
início da difusão do evangelho na Europa.

Um Lugar de Oração

O versículo 13 diz: “No sábado, saímos da cidade para junto do


rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos,
falamos às mulheres que para ali tinham concorrido”. Aqui a palavra
sábado mostra como o judaísmo e sua influência se tinham
espalhado, chegando até mesmo à Europa. Esse versículo também
fala de um lugar de oração. A oração do homem dá a Deus a
oportunidade para o Seu mover entre os homens na terra.
Em 16:13 Paulo seguiu o seu princípio de procurar as pessoas
escolhidas por Deus. Em Filipos ele não foi à sinagoga, e, sim, a um
lugar de oração, no sábado. É bem provável que judeus e prosélitos
gregos que buscavam a Deus se reunissem nesse lugar. Essa foi a
razão de ele ir lá.

A Salvação de Lídia

Atos 16:14 prossegue: “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade


de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o
Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia”. O
Senhor aqui, que abriu o coração de Lídia para atender à pregação
do evangelho, deve ser o Espírito, que é o próprio Senhor (2Co 3:17).
Não sabemos se Lídia era judia ou uma grega que buscava a Deus,
uma vez que muitas mulheres gregas, especialmente as de alta
posição, buscavam a Deus. A primeira pessoa ganha pelo Senhor na
Europa não foi um homem, e, sim, uma mulher.
Atos 16:15 diz: “Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa,
nos rogou, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em
minha casa e aí ficai. E nos constrangeu a isso”. Aqui vemos que o
batismo seguiu logo após crer, como o Senhor ordenou em Marcos
16:16. Lídia, após crer e ser batizada, entrou na comunhão com o
apóstolo e seus cooperadores, a comunhão do Corpo de Cristo, como
evidência da sua salvação. A convite dela, eles entraram em sua casa
e lá permaneceram. Essa foi a primeira casa que o Senhor ganhou na
Europa por meio do Seu evangelho e com vistas a ele (v. 40).

A Expulsão de um Espírito Maligno

Atos 16:16 continua: “Aconteceu que, indo nós para o lugar de


oração, nos saiu ao encontro uma jovem possessa de espírito
adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus
senhores”. O espírito nesse versículo não era um anjo caído, e, sim,
um demônio (Mc 1:23, 32, 34, 39; Lc 4:33), um espírito das criaturas
que viviam na era pré-adâmica e foram julgadas por Deus quando se
juntaram à rebelião de Satanás (ver Estudo-Vida de Gênesis,
mens. 2). Os anjos caídos operam com Satanás nos ares (Ef 2:2;
6:11-12), e os espíritos imundos, os demônios, se movem com ele na
terra. Ambos agem malignamente sobre o homem para o reino de
Satanás. A possessão demoníaca significa Satanás usurpando o
homem, que Deus criou para o Seu propósito.
Em Atos 16:16 a jovem tinha o espírito adivinhador, ou de
Píton e trazia lucro para os seus senhores adivinhando. O nome
Píton era usado para denotar demônio profético e também para
adivinhos. Adivinhar é a arte ou prática que procura prever ou
predizer acontecimentos futuros ou descobrir algum conhecimento
oculto, pela ajuda de poderes sobrenaturais.
Conforme os versículos 17 e 18, “seguindo a Paulo e a nós,
clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos
anunciam o caminho da salvação. Isto se repetia por muitos dias.
Então, Paulo, já indignado, voltando-se, disse ao espírito: Em nome
de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela. E ele, na mesma hora,
saiu”. A jovem que tinha esse espírito maligno se tornou um
obstáculo à pregação de Paulo. Ele tolerou a situação por algum
tempo, mas, por fim expulsou o espírito maligno. Como indica o
versículo 19, depois que o demônio foi expulso da jovem, ela já não
podia mais dar lucro aos seus senhores.

O APRISIONAMENTO E A LIBERTAÇÃO

Atos 16:19 diz: “Vendo os seus senhores que se lhes desfizera a


esperança do lucro, agarrando em Paulo e Silas, os arrastaram para a
praça, à presença das autoridades”. Literalmente o vocábulo grego
traduzido como se desfizera aqui, significa foi embora. Por certo, os
mestres da jovem eram gentios, e se iraram porque perderam o seu
meio de obter lucro. Eles causaram problemas a Paulo e seus
cooperadores, instigando a cidade contra eles. “E, levando-o aos
preteres, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa
cidade, propagando costumes que não podemos receber, nem
praticar, porque somos romanos” (vs. 20-21).
Atos 16:22-24 diz: “Levantou-se a multidão, unida contra eles,
e os pretores, rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com
varas. E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram no
cárcere, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a
segurança. Este, recebendo tal ordem, levou-os para o cárcere
interior e lhes prendeu os pés no tronco”.
Literalmente, o termo grego traduzido como tronco significa
madeiro e denota um instrumento de tortura com buracos para
segurar os punhos, tornozelos e o pescoço. O mesmo termo é usado
para cruz em 5:30; 10:39; Gálatas 3:13; e 1 Pedro 2:24.
Quando os apóstolos foram colocados no cárcere interior, o
Senhor teve uma excelente oportunidade de vindicar-se como o
Senhor dos reis. Atos 16:25-26 diz: “Por volta da meia-noite, Paulo e
Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros
de prisão escutavam. De repente, sobreveio tamanho terremoto, que
sacudiu os alicerces da prisão; abriram-se todas as portas, e
soltaram-se as cadeias de todos”. Enquanto Paulo e Silas estavam
orando e cantando, o Senhor sacudiu a prisão, e todos os
prisioneiros foram soltos de suas cadeias. Quando o carcereiro viu as
portas da prisão abertas, “puxando da espada, ia suicidar-se,
supondo que os presos tivessem fugido” (v. 27). Mas Paulo bradou
em alta voz: “Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos”
(v. 28).

A Salvação do Carcereiro e de Sua Casa

No versículo 30 o carcereiro disse a Paulo e Silas: “Senhores,


que devo fazer para que seja salvo?” Eles responderam: “Crê no
Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (v. 31). A palavra “casa”
indica que a farm1ia do crente é uma unidade completa para a
salvação de Deus, assim como a farm1ia de Noé (Gn 7:1), as farm1ias
participando da páscoa (Êx 12:3-4), a farm1ia da meretriz Raabe
(Js 2:18-19), a farm1ia de Zaqueu (Lc 19:9), a farm1ia de Cornélio
(At 11:14), a família de Lídia (16:15), a família do carcereiro aqui, e a
família de Crispo em 18:8.
Paulo e Silas “lhe pregaram a palavra de Deus e a todos os de
sua casa” (v. 32). Então: “Naquela mesma hora da noite, cuidando
deles, lavou-lhes os vergões dos açoites” (v. 33a). Literalmente, a
expressão grega traduzida como lavou-lhes os vergões significa
lavou-lhes dos vergões. Conforme o versículo 33b, “a seguir, foi ele
batizado, e todos os seus”. Como no caso de Lídia, o batismo foi
praticado imediatamente depois que o carcereiro e os de sua casa
creram, a fim de que pudessem ser salvos.
O versículo 34 continua: “Então, levando-os para a sua própria
casa, lhes pôs a mesa; e, com todos os seus, manifestava grande
alegria, por terem crido em Deus”. O carcereiro, depois de crer e ser
batizado, também entrou na comunhão com os apóstolos, a
comunhão do Corpo de Cristo, como sinal da sua salvação.
Pode parecer-nos estranho que o carcereiro e sua casa creram,
foram batizados e introduzidos na comunhão dos apóstolos, tudo
isso na mesma noite.
Que conversão maravilhosa! Espero que possamos ver
conversões assim hoje, em que as pessoas creem, são batizadas e
introduzidas na comunhão do Corpo de Cristo.

Paulo Exige os Seus Direitos de Cidadão Romano

Atos 16:35 diz: “Quando amanheceu, os pretores enviaram


oficiais de justiça, com a seguinte ordem: Põe aqueles homens em
liberdade”. Aqui os “oficiais de justiça” eram os litores romanos,
oficiais que, na antiga Roma, acompanhavam os magistrados com
um molho de varas e uma machadinha para as execuções da justiça.
No versículo 36 o carcereiro comunicou a Paulo as palavras
dos pretores: “Os pretores ordenaram que fósseis postos em
liberdade. Agora, pois, saí e ide em paz”. No versículo 37 temos a
incisiva resposta de Paulo: “Sem ter havido processo formal contra
nós, nos açoitaram publicamente e nos recolheram ao cárcere, sendo
nós cidadãos romanos; querem agora, às ocultas, lançar-nos fora?
Não será assim; pelo contrário; venham eles e, pessoalmente, nos
ponham em liberdade”. Aqui Paulo não se comportou como um
cordeiro levado ao matadouro. Pelo contrário, exigiu os seus direitos
de cidadão romano. Alguns ao ler as palavras de Paulo aqui poderão
dizer: “Parece que nessa situação ele não foi muito espiritual. Ele
agiu como leão, e não como cordeiro. Também podemos dizer que
não era uma 'pomba', mas um „falcão‟”. Por anos, não consegui
entender o comportamento de Paulo aqui.
Gradualmente por meio da minha própria experiência de
sofrer perseguição, críticas e oposição, vim a perceber que nem
sempre devemos ceder. Temos tentado ser fiéis e honestos
seguidores de Jesus. Temos procurado andar nos Seus passos,
sofrendo perseguições assim como Ele sofreu. Por fim, aprendi que
isso nem sempre é ser sábio, e Deus nem sempre quer que venhamos
a reagir dessa forma em face de perseguição e oposição.
Na verdade, em 16:35-39 a questão não é se Paulo deveria ser
uma pomba ou um falcão. O importante era a sua obra evangélica.
Ele percebeu que, por causa do futuro da sua obra evangélica, era
necessário exigir os seus direitos de cidadão romano. O governo
romano era um governo onde a lei prevalecia, e esse governo
protegia os seus cidadãos. Assim, Paulo foi sábio em ter a atitude
descrita no versículo 37, pois seria uma ajuda para o futuro da sua
obra. Essa atitude tornou impossível aos oficiais romanos pensar
que poderiam tratar Paulo da maneira que quisessem por ser ele
judeu.
No versículo 37 Paulo parecia estar dizendo: “Não, nós não
queremos sair secretamente. Somos romanos, e não fomos julgados
culpados de nenhum crime. Primeiro vocês nos colocam no cárcere
interior e agora querem que saiamos secretamente. Nós nos
recusamos a fazê-lo. Que venham os pretores e nos tirem da prisão.
Não vamos 'sair de fininho' como criminosos que fugiram.
Queremos ser tirados da prisão de maneira digna de cidadãos
romanos. Assim, peça aos pretores que venham e nos acompanhem
até a saída da prisão”.
O relato de Atos 16 indica que os pretores romanos não tinham
escolha, a não ser atender às exigências de Paulo. “Os oficiais de
justiça comunicaram isso aos pretores; e estes ficaram possuídos de
temor, quando souberam que se tratava de cidadãos romanos.
Então, foram ter com eles e lhes pediram desculpas; e, relaxando-
lhes a prisão, rogaram que se retirassem da cidade” (vs. 38-39). Aqui
vemos que os pretores acompanharam a saída de Paulo e Silas da
prisão, como Paulo tinha pedido. O versículo 40 conclui: “Tendo-se
retirado do cárcere, dirigiram-se para a casa de Lídia e, vendo os
irmãos, os confortaram. Então, partiram”.
Em 16:35-39 Paulo não foi espiritual de forma religiosa. Nessa
situação ele não foi uma pomba religiosa; mas um falcão que exigia
os seus direitos. Por causa do futuro de sua obra evangélica, ele
exigiu os seus direitos de cidadão romano. Sem querer justificar-nos
de nenhuma maneira, podemos testificar que aprendemos com ele a
exigir os nossos direitos como cidadãos e a apelar ao “César” de hoje
(a lei deste país democrático) a fim de lidar com livros malignos que
nos caluniam. Vivemos num país que possui leis, e neste país
constitucional há leis contra a difamação. Por causa da sua obra
evangélica, Paulo exigiu os seus direitos de cidadão romano e apelou
para César. Semelhantemente, por causa do interesse do Senhor, e
não para proveito pessoal, nós exigimos os nossos direitos como
cidadãos e apelamos para a lei, como o nosso “César” de hoje.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 46
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS
(12)

Leitura Bíblica: At 17:1-34

Nesta mensagem chegamos a 17:1-34. Nos versículos 1 a 9,


Paulo chega a Tessalônica; nos versículos 10 a 13, a Beréia; e nos
versículos 14 a 34, a Atenas.

PARA TESSALÔNICA

Em 16:11-40 temos um relato do surgimento da igreja em


Filipos. Essa igreja foi levantada por meio de duas pessoas
incomuns. A primeira foi “certa mulher, chamada Lídia, da cidade
de Tiatira, vendedora de púrpura” (16:14). A segunda foi um
carcereiro. De acordo com a nossa experiência e observação, as
igrejas frequentemente são levantadas por meio de pessoas
incomuns como essas.
Depois de permanecer em Filipos, Paulo e seus cooperadores
passaram por Anfípolis e Apolônia e então “chegaram a Tessalônica,
onde havia uma sinagoga de judeus” (17:1). Tessalônica era outra
cidade importante, situada em um golfo, no meio da costa da
província da Macedônia.
O fato de ele arrazoar na sinagoga com respeito a Cristo
corresponde a ser guiado pelo Espírito Santo e regido pelo Espírito
de Jesus. Ele era tal pessoa. Como estava debaixo da orientação do
Espírito Santo e do governo do Espírito de Jesus, ele executou uma
obra de apresentar, transmitir e ministrar o Cristo todo-inclusivo a
outros. Ele não ministrava a lei, genealogias, profecias ou tipos;
ministrava o Cristo vivo e todo-inclusivo. Esse é o significado mais
profundo desse trecho da Palavra. Quando chegamos a esses
versículos de Atos, precisamos ler e estudá-los dessa forma.
Muitos Unem-se a Paulo e Silas

Atos 17:4 continua: “Alguns deles foram persuadidos e unidos


a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e
muitas distintas mulheres”. Esses gregos piedosos talvez fossem
gregos que se converteram à religião judaica. Dentre a grande
multidão que se uniu a Paulo e Silas estavam muitas mulheres
distintas. É significativo que em Atos as mulheres distintas entre os
gregos frequentemente estavam entre as primeiras pessoas a crer no
evangelho. Isso indica que muitas mulheres gregas buscavam a
Deus.

A Oposição dos Judeus

Atos 17:5-7 descreve a oposição dos judeus: “Os judeus, porém,


movidos de inveja, trazendo consigo alguns homens maus dentre a
malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e,
assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para o meio do
povo. Porém, não os encontrando, arrastaram Jasom e alguns
irmãos perante as autoridades, clamando: Estes que têm
transtornado o mundo chegaram também aqui, os quais Jasom
hospedou. Todos estes procedem contra os decretos de César,
afirmando ser Jesus outro rei”. Literalmente o vocábulo grego
traduzido como mundo no versículo 6 significa a terra habitada.
Provavelmente os apóstolos realmente pregavam que Jesus é o Rei.
Os opositores usaram isso para acusá-los e, de forma sutil, envolver
César. Os opositores frequentemente têm essa habilidade, que talvez
venha do treinamento que receberam do diabo, o instigador
maligno.
Em 17:5-7 podemos ver quão forte era a influência do
judaísmo. Essa influência era prevalecente não apenas em
Jerusalém, mas também no mundo gentio, até mesmo no leste
europeu.
Segundo o versículo 8, “tanto a multidão como as autoridades
ficaram agitadas ao ouvirem estas palavras”. Aqui vemos a sutileza
deles ao juntar-se à política local, e até mesmo utilizá-la para
perseguir os apóstolos. Isso indica que a religião judaica foi
usurpada pelo inimigo de Deus, Satanás, para se opor à economia de
Deus. Em princípio a situação é a mesma hoje. A religião se une às
autoridades mundanas para estorvar o autêntico mover de Deus na
terra.

PARA BERÉIA

Atos 17:10 diz: “E logo, durante a noite, os irmãos enviaram


Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos
judeus”. Por que os irmãos imediatamente enviaram Paulo e Silas
para Beréia? Foi porque os apóstolos corriam perigo de vida. Se
tivessem demorado, ainda que só um pouco, poderiam ter sido
mortos.
Mais uma vez, chegando a Beréia, Paulo e Silas “dirigiram-se à
sinagoga dos judeus”. Como de costume, a razão de agir assim era
agarrar a oportunidade de pregar o evangelho. Eles eram ousados,
entrando na fortaleza judaica. Isso era necessário a fim de ganhar os
chamados de Deus que eram guardados no aprisco do judaísmo.
Atos 17:11-12 diz: “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que
os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez,
examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram,
de fato, assim. Com isso, muitos deles creram, mulheres gregas de
alta posição e não poucos homens”. Vine diz que o vocábulo grego
traduzido por mais nobres indica que os de Beréia eram de
intenções mais nobres. F. F. Bruce diz que a palavra significa ser
liberal, livre de preconceitos.
Creio que as pessoas de Beréia não eram teimosas, e, sim,
bastante sábias. Sempre que formos teimosos não podemos ser
nobres. Alguém nobre sempre é sábio. Os de Beréia eram sábios em
receber a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras
diariamente para ver se essas coisas eram realmente assim.
Atos 17:13 nos diz que a oposição se expandiu de Tessalônica
para Beréia: “Mas, logo que os judeus de Tessalônica souberam que
a palavra de Deus era anunciada por Paulo também em Beréia,
foram lá excitar e perturbar o povo”. Parece que esses opositores se
tornaram profissionais, não fazendo outra coisa além de seguir os
apóstolos e se opor à economia de Deus. Não sabemos quem os
contratou ou patrocinou. Na verdade, foram “contratados” pelo
diabo.

PARA ATENAS

Enviados pelos Irmãos

Devido à oposição que chegara à Beréia “os irmãos


promoveram, sem detença, a partida de Paulo para os lados do mar.
Porém Silas e Timóteo continuaram ali” (v. 14). Assim como a
palavra logo, no versículo 10, as palavras sem detença são usadas
aqui para descrever que os irmãos enviaram Paulo para fora da
cidade.
O versículo 15 continua: “Os responsáveis por Paulo levaram-
no até Atenas e regressaram trazendo ordem a Silas e Timóteo para
que, o mais depressa possível, fossem ter com ele”. Atenas era a
capital da Acaia, província do Império Romano, o centro de
iluminação na ciência, literatura e arte do mundo antigo. Por meio
da visita de Paulo a esse centro, o evangelho do reino de Deus
alcançou as pessoas da cultura mais elevada.

O Arrazoamento com os Judeus e a Confrontação com os


Filósofos Epicureus e Estóicos

O Espírito de Paulo se Revolta com a Idolatria Reinante em


Atenas

Atos 17:16 diz: “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu


espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”.
Espírito aqui se refere ao espírito humano de Paulo (Zc 12:1;
Jó 32:8; Pv 20:27), regenerado pelo Espírito de Deus (Jo 3:6),
habitado pelo Senhor, o Espírito (2Tm 4:22; Rm 8:10-11), e que
testifica com o Espírito (Rm 8:16), no qual ele adorava e servia a
Deus (Jo 4:24; Rm 1:9). Esse espírito ficou revoltado pelos muitos
ídolos de Atenas.
Nem mesmo a cultura mais elevada preservou os atenienses de
adorar ídolos, porque neles, como em todos os homens, havia um
espírito, capaz de adorar a Deus, criado por Deus para que o homem
O busque e adore (cf. At 17:22). Porém, devido à cegueira e
ignorância deles, eles tomaram os objetos errados de adoração
(v. 23). Agora, o verdadeiro Deus, que criou o universo e a eles
também, enviou o Seu apóstolo a fim de anunciar-lhes a quem
deveriam adorar (vs. 23-29).
Por que a adoração a ídolos era algo prevalecente em Atenas, a
cidade mais culta? A razão é que em todo ser humano há um espírito
que quer buscar e adorar a Deus. Naturalmente muitos não buscam
nem adoram o verdadeiro Deus. Em vez disso, têm o objeto errado
de adoração. Contudo, o fato de adorar algo ou buscar algo para
adorar é uma prova categórica de que o homem precisa de Deus. Há
no homem, especificamente no espírito humano, uma necessidade
de Deus como o verdadeiro objeto de adoração.

O Arrazoamento na Sinagoga e na Praça

Atos 17:17 prossegue falando sobre Paulo: “Por isso, dissertava


na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça,
todos os dias, entre os que se encontravam ali”. Aqui vemos que na
sinagoga ele arrazoava com os judeus e com os que ali adoravam,
que provavelmente eram gregos que adoravam a Deus. Além de
arrazoar na sinagoga, ele arrazoava todos os dias na praça com os
que ali se encontravam. Com isso vemos que ele arrazoava em dois
lugares: na sinagoga com os judeus e na praça com os gregos.
Atos 17:18 diz: “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos
contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer
esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois
pregava a Jesus e a ressurreição”. Os filósofos epicureus eram os
seguidores do filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.), cuja filosofia era
o materialismo, não reconhecendo o Criador e a Sua providência
para o mundo, mas buscando prazeres sensuais, especialmente
quanto a comer e beber. A palavra de Paulo aos filipenses (Fp 3:18-
19 e aos coríntios (1Co 15:32) se referia a eles.
Os filósofos estóicos eram membros de uma escola filosófica
fundada por Zenão de Cício (340-265 a.C.). Eles eram panteístas,
que criam que tudo era governado pelo destino e todos os
acontecimentos resultavam da vontade divina. Dessa forma, o
homem podia aceitá-los calmamente, livre de toda paixão, tristeza
ou alegria. Eles enfatizavam que o maior bem é a virtude e ela é uma
recompensa para a alma. A Epístola de Paulo aos Filipenses também
se referiu a eles (Fp 4:11).
De acordo com Atos 17:18, alguns disseram de Paulo: “Que
quer dizer esse tagarela?” Literalmente o termo grego traduzido por
tagarela significa catador de semente com o bico: um pássaro que
pega sementes na rua e nas praças, assim, alguém que pega e
repassa fragmentos de notícias (M. R. Vincent).

Prega Jesus e a Ressurreição

Outros, em 17:18, disseram com respeito a Paulo: “Parece


pregador de estranhos deuses”. Eles disseram isso porque ele trazia
as boas novas de Jesus e da ressurreição. A pregação de Paulo é
evidência contundente de que ele tinha Jesus e Sua ressurreição
constituídos nele. O Jesus Cristo Todo-inclusivo e Sua ressurreição
faziam parte da sua constituição. Ele era uma pessoa saturada do
Espírito de Jesus. Assim, pregava Jesus e a ressurreição.

Levado ao Areópago

Os versículos 19-21 dizem: “Então, tomando-o consigo, o


levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina
é essa que ensinas? Posto que nos trazes aos ouvidos coisas
estranhas, queremos saber o que vem a ser isso. Pois todos os de
Atenas e os estrangeiros residentes de outra coisa não cuidavam
senão dizer ou ouvir as últimas novidades”.
O Areópago era a Colina de Marte, o lugar do antigo e
venerável tribunal ateniense, que julgava os problemas mais solenes
da religião. O fato de Paulo ter sido levado lá indica que a sua
pregação era muito prevalecente e agitou a cidade, tornando-se as
últimas notícias. Como veremos, ele ficou em pé no meio do
Areópago e falou aos atenienses. Na mensagem seguinte
consideraremos o conteúdo das palavras de Paulo faladas no
Areópago.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 47
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS
(13)

Leitura Bíblica: At 17:16-34

Nesta mensagem estudaremos a pregação de Paulo no


Areópago. O Areópago era a Colina de Marte, o lugar do antigo e
venerável tribunal ateniense, que julgava os problemas mais solenes
da religião.

ACENTUADAMENTE RELIGIOSOS EM IDOLATRIA

Atos 17:22 diz: “Então, Paulo, levantando-se no meio do


Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo
acentuadamente religiosos”. A palavra grega traduzida como
acentuadamente religiosos literalmente significa tementes a
demônio, espírito sobrenatural, assim, entregue à adoração de
demônios, acentuadamente religiosos. A mesma palavra é usada na
forma de substantivo em 25:19 para religião. Os atenienses eram
acentuadamente religiosos, não em relação ao verdadeiro Deus, e,
sim, à adoração a ídolos. Vimos que no versículo 16 o espírito de
Paulo “se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”.
No versículo 23 ele continuou: “Porque, passando e
observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no
qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que
adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio”.
Aqui ele parecia estar dizendo: “Eu anuncio a vocês Aquele que
vocês adoram como o Deus desconhecido. Ele pode ser
desconhecido para vocês, mas é conhecido para mim”.

O CRIADOR E O PROVEDOR

Nos versículos 24 e 25 Paulo diz: “O Deus que fez o mundo e


tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita
em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos
humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é
quem a todos dá a todos vida, respiração e tudo mais”. A palavra do
apóstolo nesses versículos foi uma inoculação muito forte, tanto
para os epicureus ateus, que não reconheciam o Criador e a Sua
providência para o mundo, como para os estóicos panteístas, os
quais se submetiam à vontade de muitos deuses com respeito ao seu
destino (ver v. 18). No versículo 24 ele fala do Deus que fez o mundo
e todas as coisas que nele existem. Essa palavra era dirigida
principalmente aos epicureus, que, sendo ateus, não criam em Deus.
Eles não criam nem no Criador nem na provisão divina. Por isso,
continuando a falar contra os epicureus, ele disse também que Deus
é o Senhor dos céus e da terra. Deus era totalmente ignorado pelos
epicureus. Ademais, ele mostrou que o próprio Deus dá vida, fôlego
e tudo mais a todos. Essas são as provisões divinas. Deus provê
todas as coisas a fim de que o homem viva. Os epicureus não criam
no Criador, o Senhor do céu e da terra que provê todas as
necessidades da vida para os seres humanos.
A pregação de Paulo em Atos 17 é muito boa. Ao arrazoar com
os judeus nas sinagogas ele usou as Escrituras, mas, ao pregar aos
epicureus filosóficos, ele se referiu à criação.
O que Paulo fez em 17:2 e 17:24-25 é semelhante ao que ele fez
nos capítulos treze e catorze. No capítulo treze ele usou as Escrituras
judaicas como base para pregar o Cristo ressurreto. Mas, no capítulo
catorze a sua pregação aos ateus baseou-se na criação de Deus.
Contudo, há uma diferença no uso que Paulo faz da criação ao
pregar no capítulo catorze e no dezessete; a maneira de se expressar
nessas duas ocasiões é um pouco diferente. No capítulo catorze ele
disse aos ateus que o “Deus vivo, que fez o céu, e a terra, o mar e
tudo o que há neles (...) não se deixou ficar sem testemunho de si
mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações
frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” (14:15,
17). Ali a palavra dele não foi muito filosófica. Em contraste, a
palavra de Paulo para rebater os falsos ensinamentos dos epicureus
no capítulo dezessete é bastante filosófica. Aqui ele declara que há
um Criador, o Senhor do céu e da terra, que dá vida, fôlego e todo o
necessário para a vida do homem na terra.

DE ADÃO, FEZ TODA A RAÇA HUMANA

Em 17:26 Paulo prossegue dizendo: “De um só fez toda a raça


humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os
tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação”.
Um só aqui se refere a Adão. De Adão, Deus fez todas as nações que
habitam na face da terra.

A SOBERANIA DE DEUS SOBRE A TERRA

No versículo 26 Paulo mostra que Deus fixou os tempos


previamente estabelecidos e os limites da habitação de todas as
nações. Aqui vemos a autoridade soberana de Deus. Ele é soberano
sobre toda a terra. Não apenas criou todas as nações de um só, Adão,
mas determinou os tempos e lugares das nações. As migrações para
a América em seus tempos e limites é prova categórica dessa palavra
e também da primeira parte do versículo 27. Aparentemente
Colombo abriu o caminho da Europa para a América; na verdade, foi
Deus quem o abriu, pois determinou as épocas para o descobrimento
da nova terra. Ademais, é Ele que determina as fronteiras de todas
as nações.
A pregação de Paulo no capítulo dezessete é muito filosófica.
Da criação dos céus e da terra e da provisão de Deus para toda a
humanidade, ele passa a falar da existência humana. Precisamos
aprender com ele a pregar o evangelho. Podemos começar com a
criação, mas não devemos parar aí. Antes, devemos prosseguir da
criação para a vida humana. Ao fazê-lo, tocamos a necessidade exata
do homem. Em 17:26, em sua pregação, ele chegou à questão da vida
humana na terra.

O ESPÍRITO ONIPRESENTE

Conforme o versículo 27, Deus formou as nações,


determinando os tempos previamente estabelecidos e os limites de
sua habitação “para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o
possam achar, bem que não está longe de cada um de nós”. Por ser o
Espírito onipresente, Deus não está longe de cada um de nós.
Isso envolve a Trindade. O Espírito divino é triúno. Você acha
que é apenas o Espírito, e não o Pai e o Filho também? O Deus que
não está longe de nós certamente é o Espírito onipresente, e é o Deus
Triúno. O Espírito é o Deus completo: o Pai, o Filho e o Espírito.

TODOS OS SERES HUMANOS VIVEM, MOVEM-SE E


EXISTEM EM DEUS

Na primeira parte do versículo 28 Paulo explica: “Pois nele


vivemos, e nos movemos, e existimos”. Isso indica que a vida e a
existência do homem, e até mesmo as suas ações são de Deus. Não
significa que o homem tenha a vida divina e viva, exista e aja em
Deus assim como o fazem os crentes em Cristo, que são nascidos de
Deus, possuem a Sua vida e natureza, e vivem, existem e agem na
Pessoa de Deus. Antes, aqui ele ressalta que todos os seres humanos,
incluindo-se os epicureus e os demais incrédulos, vivem, movem-se
e existem em Deus.

GERAÇÃO DE DEUS

No versículo 28 Paulo também diz: “Como alguns dos vossos


poetas têm dito: Porque dele também somos geração”. Esses poetas
provavelmente eram Arato (cerca de 270 a.C.) e Cleantes (cerca de
300 a.C.), pois ambos disseram as mesmas palavras em seus poemas
a Zeus (Júpiter), a quem consideravam o Deus supremo. Nos
escritos deles, “dele” se refere a Zeus como o Deus supremo.
De acordo com os poetas a que Paulo se refere no versículo 28,
somos a geração de Deus. O homem é geração de Deus assim como
Adão é considerado filho de Deus (Lc 3:38). Dizer que Adão é filho
de Deus não significa que tenha nascido de Deus ou possuía a vida
divina. Adão foi criado por Deus (Gn 5:1-2), e Deus era a sua origem.
Baseado nisso, foi considerado filho de Deus, assim como os poetas
ateus consideravam toda a humanidade como geração de Deus. Eles
foram apenas criados por Deus, não regenerados Dele. Isso é
absoluta e intrinsicamente diferente de os crentes em Cristo serem
filhos de Deus. Os crentes nasceram, e foram regenerados, de Deus e
possuem a vida e a natureza divina (Jo 1:12-13; 3:16; 2Pe 1:4). Como
Deus é o Criador, a origem, de todos os homens, Ele é o Pai de todos
eles (Ml 2:10) no sentido natural, e não no sentido espiritual como
Pai de todos os crentes (Gl 4:6), regenerados por Ele no espírito
(1Pe 1:3; Jo 3:5-6).

A DISTINÇÃO ENTRE A GERAÇÃO DE DEUS E OS FILHOS


DE DEUS

Precisamos considerar detalhadamente o que significa dizer


que toda a humanidade é geração de Deus. Alguns teólogos têm
ensinado que todo ser humano é filho de Deus, tomando como base
Lucas 3:38 que diz: “Adão, filho de Deus”. Então concluíram que, já
que Adão, o primeiro da humanidade, era filho de Deus, todos os
seus descendentes também devem ser. Acham que esse conceito é
fortalecido pelas palavras de Paulo em Atos 17 com respeito a toda a
humanidade ser a geração de Deus. Contudo, se estudarmos a Bíblia
cuidadosamente, veremos que esse conceito está incorreto.

A Humanidade Criada e Produzida por Deus

De acordo com a Bíblia, Deus criou o homem. Como o Criador,


Deus é a origem do homem. Gênesis 2:7 diz: “Então, formou o
SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o
fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”. Primeiro Deus
usou o pó para formar o corpo físico do homem, e depois soprou
nesse corpo o fôlego de vida, que o fez viver. Como resultado, o
homem tornou-se alma vivente. Em Gênesis 2:7 há um forte indício
de que a vida humana veio de Deus. Nesse sentido, o homem não
apenas foi criado por Deus, como também produzido por Ele. Não
nos é dito na Bíblia que Deus soprou o fôlego de vida nos animais.
Apenas ao criar o homem é que Ele soprou o fôlego de vida.
Provérbios 20:27 usa para “espírito” o mesmo termo hebraico
traduzido como “fôlego” em Gênesis 2:7. Isso revela que o fôlego de
vida soprado no homem por Deus é o elemento do espírito humano.
Na verdade, esse fôlego tornou-se o espírito do homem. O que
estamos enfatizando aqui é que o homem foi produzido por Deus.
Não estamos dizendo que na criação o homem nasceu de Deus, mas
afirmamos categoricamente que o homem foi produzido por Ele.
Deus formou o corpo do homem, soprou nele o fôlego de vida e o
homem tornou-se alma vivente. Dessa forma ele foi produzido por
Deus, e, nesse sentido, é geração de Deus.

Os Crentes São Nascidos de Deus

A Bíblia também revela que quando nos arrependemos e


cremos no Senhor Jesus, nós nascemos de Deus. Ser produzido de
Deus é uma coisa, ser nascido de Deus é outra. Todos os seres
humanos são geração de Deus, pois foram produzidos por Ele. Mas
os crentes são Seus filhos pois nasceram Dele. Não há indício na
Bíblia de que a geração de Deus, os seres humanos por Ele
produzidos, tenham a vida e a natureza divina. Mas o Novo
Testamento diz que os crentes, que nasceram de Deus, têm a vida
divina e são participantes da natureza divina (2Pe 1:4). Assim, temos
de diferenciar a geração de Deus dos filhos de Deus. Todos os seres
humanos são a geração de Deus produzida Dele, mas os crentes são
os Seus filhos nascidos Dele por meio da regeneração.
Isso é claramente enfatizado em João 1:12 e 13: “Mas a todos
quantos O receberam, deu-lhes a autoridade para se tornarem filhos
de Deus: aos que creem no Seu nome; os quais não foram gerados do
sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas
de Deus”.

Duas Maneiras de Viver, Mover-se e Existir em Deus

Em Atos 17:28-29 Paulo diz que, como geração de Deus,


vivemos, movemo-nos e existimos Nele. Por que todos os seres
humanos vivem, movem-se e existem em Deus? Porque a vida
humana deles foi produzida por Deus, do fôlego insuflado no
primeiro ser humano. Tendo tal vida humana, todos os seres
humanos vivem, movem-se e existem em Deus. Mas os crentes, que
nasceram de Deus, têm a vida e a natureza divina, vivem, movem-se
e existem em Deus não apenas por ter o fôlego soprado por Deus,
mas também por agir na Pessoa divina.
Precisamos ser impressionados com o fato de que todos os
seres humanos são geração de Deus por ter o fôlego de vida de Deus.
Portanto, vivem, movem-se e existem em Deus nesse sentido. Mas os
crentes nasceram de Deus e têm o próprio Deus em seu interior
como a sua vida e natureza. Por isso vivemos, movemo-nos e
existimos em Deus não apenas por ter o fôlego de vida de Deus, mas
também por agir na Pessoa de Deus. Todos os seres humanos são a
geração produzida por Deus, mas nós, que cremos em Cristo, somos
os Seus filhos, regenerados por Ele. Todos precisamos ter muita
clareza sobre essa distinção entre a geração de Deus e os filhos de
Deus.

NÃO SUPOR QUE O SER DIVINO É COMO PEDRA


ESCULPIDA POR ARTIFÍCIO

Em 17:29 Paulo continua: “Sendo nós, pois, geração de Deus,


não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou
à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos
homens”. O termo grego traduzido como divindade aqui é theion (cf.
theiátes, divindade, em Rm 1:20), que significa o que é divino, um
termo mais vago, mais abstrato e menos pessoal que theótes, que é
traduzido como Divindade em Colossenses 2:9. Em 17:29 theion
indica que o homem pode, a partir das obras de Deus, conhecer a
Sua divindade, mas não o próprio Deus. Este só pode ser conhecido
por meio da revelação do Seu Verbo eterno, o Cristo encarnado, a
própria corporificação da Divindade.
No versículo 29 Paulo disse aos atenienses que eles não
deviam “cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata,
ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens”. Aqui
imaginação também significa pensamento ou invenção. Os ídolos
são obras da arte e pensamento do homem.

ARREPENDIMENTO E JULGAMENTO

Em 17:30-31 Paulo prossegue: “Ora, não levou Deus em conta


os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que
todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia
em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que
destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os
mortos”. O dia que Deus estabeleceu para julgar o mundo será o dia
em que Cristo julgará os vivos no trono de Sua glória antes do
milênio (Mt 25:31-36), provavelmente não incluindo o dia em que
julgará os mortos no grande trono branco depois do milênio
(Ap 20:11-15). De acordo com Atos 10:42, Cristo foi designado por
Deus “Juiz de vivos e de mortos”. Ele será o Juiz dos mortos depois
do milênio no grande trono branco. Segunda Timóteo 4:1 e 1 Pedro
4:5 também dizem que Cristo julgará tanto vivos como mortos. O dia
em Atos 17:31 se refere especificamente ao dia em que Cristo julgará
os vivos, porque nesse dia Ele julgará “o mundo”, que deve se referir
apenas aos homens que estiverem vivos. Esse dia do juízo de Cristo
sobre o mundo será por ocasião da Sua volta. Ele foi designado por
Deus para executar esse julgamento, e o fato de Deus tê-Lo
ressuscitado dentre os mortos é prova categórica disso. Em sua
pregação aos gentios, tanto Pedro em 10:42 como Paulo aqui e em
24:25 enfatizaram o julgamento vindouro de Deus.
O vocábulo grego traduzido por acreditou no versículo 31
também pode ser traduzido por deu fé, certeza ou garantia. A
ressurreição de Cristo é a certeza e garantia de que Ele voltará para
julgar todos os habitantes da terra. Isso está garantido para que
creiamos, e pode levar-nos ao arrependimento (v. 30).
A palavra de Paulo com respeito a Cristo como o varão
designado por Deus e a Sua ressurreição indica que ele tinha o
Senhor e Sua ressurreição plenamente constituídos nele. Ele foi
conduzido, guiado e dirigido absolutamente pelo Espírito de Jesus.
Como tinha o Espírito de Jesus constituído em si, o seu alvo, a
despeito do assunto de que falava, era pregar Cristo e Sua
ressurreição.

A REAÇÃO À PALAVRA DE PAULO COM RESPEITO A


RESSURREIÇÃO

Atos 17:32-34 diz: “Quando ouviram falar de ressurreição de


mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te
ouviremos noutra ocasião. A essa altura, Paulo se retirou do meio
deles. Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e
creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher
chamada Dâmaris e, com eles, outros mais”. Desses versículos
podemos ver que ele ganhou, não apenas líderes dentre os judeus,
mas também pessoas importantes entre os gregos. a Novo
Testamento não menciona uma igreja em Atenas, mas Paulo realizou
uma obra prevalecente ali.

A PREGAÇÃO DE PAULO EM OPOSIÇÃO AOS EPICUREUS

A pregação de Paulo em Atos 17 certamente foi adequada à


situação dos gregos em Atenas. Muito do que ele disse foi dirigido
aos epicureus e também aos estóicos. Vimos que os epicureus não
reconheciam o Criador e a Sua providência sobre o mundo, mas
buscavam prazeres sensuais, especialmente relacionados a comer e
beber. Os estóicos eram panteístas que criam que tudo era
governado pelo destino e todos os acontecimentos resultavam da
vontade divina. Ao pregar no Areópago, Paulo primeiro se referiu a
Deus como o Criador de forma objetiva, como alguém fora de nós e
com o qual não temos um relacionamento direto. Daí, do Criador,
Paulo passou a mostrar que todos os seres humanos são a geração de
Deus e vivem e existem Nele. Depois disso, ele ainda falou do dia em
que Cristo julgará os vivos. Todos esses aspectos eram dirigidos aos
epicureus.
Os epicureus dizem que não existe nem o Criador nem o
Provedor. Também afirmam que devemos buscar os prazeres
sensuais sem preocupação com o futuro. É provável que Paulo
tivesse os epicureus em mente quando disse: “Se os mortos não
ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos”
(1Co 15:32). Isso parece ter sido a citação de uma frase da época,
uma máxima dos epicureus. Se não há ressurreição, nós; os crentes,
não temos esperança no futuro, e nos tornamos os mais miseráveis
dos homens (1Co 15:19). Se fosse assim, seria melhor gozar a vida
hoje, esquecendo-nos do futuro, como os epicureus.
Em sua pregação em Atos 17 Paulo parecia dizer aos epicureus:
“Há um Criador, e Ele, o Provedor, dá a todos vida, fôlego e todas as
coisas. Vocês são a geração de Deus, pois foram produzidos Dele e a
sua vida humana vem Dele. Como vocês têm a vida humana, vocês
vivem, movem-se e existem Nele. Vocês também precisam saber que
haverá um juízo no futuro, que se relaciona à ressurreição do
Homem Jesus. Deus O designou para ser o Juiz de todos, e forneceu
prova disso ressuscitando-O dentre os mortos. No passado, Deus
lhes permitiu andar no seu próprio caminho, mas me enviou aqui
para dizer-lhes que vocês agora precisam arrepender-se”. Essas
palavras também devem ter sido reveladoras aos panteístas estóicos.
Quão maravilhosa foi a pregação de Paulo aos atenienses!

A PREGAÇÃO, CHEIA DE CONHECIMENTO, DE PAULO


AOS JUDEUS E AOS GREGOS

Em Atos 17 vemos que a pregação de Paulo era cheia do


conhecimento adequado, pois ele era alguém que conhecia tanto a
cultura hebraica como a grega. Isso o capacitou a desenvolver um
ministério no qual ele se deparou tanto com judeus como com
gregos. Quando se deparava com os judeus ele usava as Escrituras
para pregar Cristo, mostrando onde Ele é revelado nelas. Ele
pregava Cristo, não apenas como o Messias, mas também como o
Deus encarnado, que possuía humanidade, teve um viver humano na
terra por trinta e três anos e meio e uma morte todo-inclusiva a fim
de resolver os problemas entre o homem e Deus, foi ressuscitado
para propagar a vida divina infundindo-a nos crentes e ascendeu aos
céus onde foi feito Senhor e Cristo. Paulo encarou a situação entre os
judeus usando as Escrituras dessa forma. Ele não apenas conhecia o
Antigo Testamento na letra, mas também tinha revelação e
discernimento para ver, nas suas profundezas, com respeito a Cristo
em Seu duplo status divino-humano, ao Seu viver humano, à Sua
morte todo-inclusiva, à Sua ressurreição propagadora e ao Seu
senhorio como Aquele que ascendeu.
Quando estava entre os gregos, Paulo se portou de acordo com
a cultura grega. A sua pregação baseou-se na criação de Deus. De
acordo com Atos 17, ele mostrou que Deus criou os céus e a terra,
provê vida e tudo que é necessário para mantê-la, produziu a
humanidade como Sua geração e todos os seres humanos vivem,
movem-se e existem Nele. Ele disse aos gregos da necessidade que
tinham de Deus e esse Deus é Jesus Cristo.

QUALIFICADO PARA PREGAR CRISTO

A maneira de Paulo pregar o evangelho indica que ele era um


“vaso” estudado. Em seu ministério ele podia enfrentar a situação
dos judeus de acordo com as Escrituras e a dos gregos filosóficos de
acordo com o fato de Deus ter criado o universo e o homem. Não
creio que um pescador galileu como Pedro poderia ter tal
responsabilidade. Apenas alguém como Saulo de Tarso podia tê-la,
pois fora educado na religião judaica, instruído na cultura filosófica
grega e tinha vivência no ambiente da política romana. Portanto,
estava plenamente qualificado para assumir o ministério registrado
em Atos.
Embora Paulo tivesse sido educado de acordo com as culturas
hebraica, grega e romana, a sua qualificação principal não era a
educação, e, sim, a constituição espiritual. Ele tinha o Espírito Santo
e o Espírito de Jesus constituídos nele. Por isso, ele não pregou a
religião hebraica nem a filosofia grega, e sim o Cristo encarnado,
crucificado, ressurreto e ascendido. A despeito da educação elevada,
ele não a pregou. Ele pregava o Cristo todo-inclusivo que se torna
real como o Espírito todo-inclusivo.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 48
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS
(14)

Leitura Bíblica: At 18:1-22

Em Atos 18 Paulo vai a Corinto onde encontra Áquila e Priscila


(vs. 1-4) e prega aos judeus e encontra a oposição deles (vs. 5-17).
Em 18:18-21a ele vai a Éfeso, e em 18:21b-22 volta a Antioquia,
concluindo assim a segunda viagem ministerial.

PARA CORINTO

Encontrou Áquila e Priscila

Em Atos 18:1-2 lemos: “Depois disto, deixando Paulo Atenas,


partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila,
natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua
mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se
retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles”. Cláudio foi um
césar do Império Romano. O que ele fez aqui foi usado pelo Senhor
para o Seu ministério a fim de edificar a igreja, assim como o que
César Augusto fez foi usado por Deus para o cumprimento da
profecia com respeito ao lugar do nascimento de Cristo (Lc 2:1-7).
No versículo 3 vemos: “E, posto que eram do mesmo ofício,
passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era
fazer tendas”. Isso mostra que enquanto levava a cabo o ministério
do Senhor, Paulo ainda tinha um trabalho. Ele se refere a isso em
1 Coríntios 4:12: “Nos afadigamos, trabalhando com as nossas
próprias mãos”. Ademais, tanto em 1 Tessalonicenses 2:9 como em
2 Tessalonicenses 3:8 ele diz que trabalhou de dia e de noite a fim de
não ser pesado para os irmãos.
A prática de Paulo era diferente da de muitos obreiros cristãos
de hoje. Sempre que alguém se torna ministro ou missionário, ele
não faz outro trabalho. Mas, enquanto Paulo ministrava a palavra,
ele também trabalhava com as mãos, a fim de se sustentar, e não
apenas a si mesmo, mas também aos seus cooperadores. Com
respeito a isso ele diz em Atos 20:34-35: “Vós mesmos sabeis que
estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que
estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando
assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do
próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber”.
Mais uma vez ele estabelece um bom padrão.
De acordo com 1 Coríntios 9:3-15 e outros trechos, as igrejas e
os irmãos não foram fiéis em cuidar de Paulo como servo do Senhor.
Como eles não o sustentavam adequadamente, ele era forçado a
trabalhar. Alguns dos coríntios até mesmo o acusavam de tentar
ganhar dinheiro deles para si. Mas ele mostrou que preferia morrer a
tomar algo dos coríntios (1Co 9:15).
Os que servem o Senhor em tempo integral não devem
considerar isso como a sua profissão. Se for necessário, alguns ainda
poderão ter de trabalhar para se sustentar. Se vamos ou não agir
assim depende de quanto o nosso encargo nos ocupa. Se o seu
encargo o ocupa totalmente e o ambiente lhe proporciona sustento,
então você certamente deve gastar todo o seu tempo na obra do
Senhor. Caso contrário, você ainda deve trabalhar para se sustentar,
e não apenas a você mas também aos seus cooperadores,
especialmente os mais jovens.
Se Paulo não recebia sustento financeiro, como é que os seus
cooperadores mais jovens iriam receber? Devido à necessidade de
sustentar a si e aos outros, ele foi forçado a trabalhar na sua
profissão de fazer tendas. Esse é um modelo muito bom para nós
hoje.
Com respeito ao sustento financeiro, a situação de Paulo e seus
cooperadores no Novo Testamento era diferente dos sacerdotes e
levitas no Antigo Testamento. Segundo os regulamentos levíticos, os
sacerdotes deviam viver das ofertas do povo de Deus. Mas no Novo
Testamento esse regulamento já não existe.
Conforme Lucas 8:1-3, um grupo de irmãs ministrava ao
Senhor Jesus e aos doze com as suas posses. Os doze discípulos
seguiam o Senhor em tempo integral e todos necessitavam de
sustento. Algumas mulheres que amavam o Senhor e que tinham os
meios de sustentar a Ele e Seus seguidores atenderam às
necessidades deles.
Nos anos iniciais em Xangai, o sustento financeiro vinha
principalmente das irmãs. Várias delas eram enfermeiras em um dos
melhores hospitais, e supriam a igreja e os cooperadores em Xangai.
Também observei isso em outros lugares.
De fato, as irmãs amam muito mais ao Senhor do que os
irmãos. Entre os doze havia um Judas, mas não entre as irmãs.
Judas não sabia amar o Senhor, mas certamente sabia contar
dinheiro. Os que se preocupam com dinheiro dessa forma nunca irão
suprir outros financeiramente. Quanto mais contam o dinheiro,
mais o amam e desejam guardá-lo para si.
Sob a soberania do Senhor, algumas mulheres da Bíblia
casaram-se com homens ricos. Veja o caso de Ester, que se casou
com um rei gentio. Por meio da influência que exercia sobre o
esposo, ela pôde suprir todos os judeus. Entre as mulheres em Lucas
8:1-3 estava “Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes”
(v. 3). Embora a política romana perseguisse o Senhor Jesus, a
esposa de um oficial romano usava o dinheiro do marido para supri-
Lo. Conheci vários casos de irmãs que usaram o dinheiro do marido
para suprir a obra do Senhor.
O que estamos enfatizando com respeito a Atos 18:3 é que os
que têm encargo de servir ao Senhor em tempo integral devem fazê-
lo se o ambiente e a situação financeira permitirem. Mas se o
ambiente não permitir que alguém sirva em tempo integral, ele não
deve abandonar o seu encargo. Antes, deve levá-lo adiante e ao
mesmo tempo ser diligente no trabalho, para atender às suas
necessidades, assim como o fez Paulo em Atos.

Todo Sábado Discorria na Sinagoga

Em Atos 18:4 lemos que Paulo “todos os sábados discorria na


sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos”. Ele,
naturalmente, ia à reunião da sinagoga para aproveitar a
oportunidade de anunciar a Palavra de Deus. Ele não ia lá guardar o
sábado, mas pregar o evangelho, persuadindo tanto judeus como
gregos. A menção aos gregos em 18:4 indica que alguns gregos
também iam às sinagogas para ouvir a Palavra de Deus.

Pregou aos Judeus e Encontrou Oposição da parte Deles

Em 18:5-17 lemos que Paulo pregou aos judeus e encontrou


oposição da parte deles. O versículo 5 diz: “Quando Silas e Timóteo
desceram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra,
testemunhando aos judeus que o Cristo é Jesus”. Os termos gregos
traduzidos por se entregou totalmente também podem ser
traduzidos por foi pressionado ou constrangido por.
Foi nessa ocasião, em Corinto, depois da chegada de Silas e
Timóteo da Macedônia com algumas notícias a respeito da igreja em
Tessalônica (1Ts 3:6), que Paulo escreveu a sua primeira epístola à
igreja em Tessalônica (1Ts 1:1). De Corinto, ele escreveu tal carta
amável aos queridos irmãos em Tessalônica, para o encorajamento
deles.
Em Corinto, Paulo testificou aos judeus que Jesus é o Cristo.
“Opondo-se eles e blasfemando, sacudiu Paulo as vestes e disse-lhes:
Sobre a vossa cabeça, o vosso sangue! Eu dele estou limpo e, desde
agora, vou para os gentios” (v. 6). A situação dos judeus em Corinto
era a mesma da dos judeus em Antioquia da Pisídia, que lançaram
fora a palavra de Deus e se julgaram indignos da vida eterna (13:46).
Nessa situação Paulo também declarou: “Vou para os gentios”.
Em Atos 18:7-8 lemos: “Saindo dali, entrou na casa de um homem
chamado Tício Justo, que era temente a Deus; a casa era contígua à
sinagoga. Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com
toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e
eram batizados”. Como em 16:31, a palavra casa em 18:8 indica que
a família do crente é uma unidade completa para a salvação de Deus,
assim como a família de Noé (Gn 7:1), as que partilharam a Páscoa
(Êx 12:3-4), a da prostituta Raabe (Js 2:18-19), a de Zaqueu
(Lc 19:9), e de Cornélio (At 11:14) e a de Lídia (16:15).
Em 18:9-10 lemos: “Teve Paulo durante a noite uma visão em
que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te
cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal,
pois tenho muito povo nesta cidade”. Assim como em 16:9-10, a
visão na qual o Senhor falou a Paulo à noite não era nem um sonho
nem um êxtase. Nessa visão, objetos definidos são visíveis aos olhos
humanos.
Atos 18:11 nos diz que Paulo “ali permaneceu um ano e seis
meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”. Como veremos, ele
ficou três anos em Éfeso. Isso indica que a igreja em Éfeso era a
igreja mais importante da Ásia Menor. Do mesmo modo, o fato de
ele permanecer em Corinto por um ano e meio, indica que a igreja ali
era a mais importante da Acaia. Sem dúvida, em sua estada em
Corinto, ele trabalhou bastante.
Ao ler o livro de Atos vemos que a resistência, a oposição e o
ataque dos judeus era muito forte. É-nos dito que os judeus queriam
matar Paulo (9:23; 23:12-15, 21; 25:3). Aonde quer que ele fosse, os
judeus resistiam-lhe e se lhe opunham. Em Tessalônica eles
“alvoroçaram a cidade” (17:5). Com respeito à oposição dos judeus
em Corinto contra ele, lemos em 18:12-13: “Quando, porém, Gálio
era procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus, concordemente,
contra Paulo e o levaram ao tribunal, dizendo: Este persuade os
homens a adorar a Deus por modo contrário à lei”. Em palavras de
hoje, o procônsul no versículo 12 era o governador. Os judeus
levaram Paulo a Gálio e o acusaram de ensinar os homens a adorar a
Deus de modo contrário à lei mosaica.
Quando Paulo ia falar, “Gálio declarou aos judeus: Se fosse,
com efeito, alguma injustiça ou crime da maior gravidade, ó judeus,
de razão seria atender-vos; mas, se é questão de palavra, de nomes e
da vossa lei, tratai disso vós mesmos; eu não quero ser juiz dessas
coisas! E os expulsou do tribunal” (vs. 14-16). Aqui Gálio parecia
estar dizendo: “Se foi cometido um crime, então serei o juiz. Mas não
tenho interesse em disputas a respeito de nomes, terminologias e da
lei de vocês. Não tenho tempo para essas coisas. Vocês mesmos
cuidem disso”.
Por um lado a atitude de Gálio ajudou Paulo, mas por outro
colocou-o numa situação perigosa. Depois que Gálio expressou a sua
atitude tão claramente aos judeus, eles ficaram ousados. “Então,
todos agarraram Sóstenes, o principal da sinagoga, e o espancavam
diante do tribunal; Gálio, todavia, não se incomodava com estas
coisas” (v. 17). Daí vemos que a situação poderia ter se tornado
muito ameaçadora para Paulo.
O Sóstenes em 18:17 provavelmente não era o mesmo de
1 Coríntios 1:1, porque essa Epístola foi escrita em Éfeso (1Co 16:8)
pouco depois que o apóstolo deixou Corinto, onde o outro Sóstenes
era o principal da sinagoga quando Paulo foi ali perseguido. O
Sóstenes de 1 Coríntios 1:1, como irmão no Senhor, deve ter se
juntado a Paulo em seu ministério itinerante.

PARAÉFESO

Em Atos 18:18 lemos: “Mas Paulo, havendo permanecido ali


ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para
a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áquila, depois de ter
raspado a cabeça em Cencréia, porque tornara voto”. Esse era um
voto particular de ação de graças realizado em qualquer parte pelos
judeus, raspando a cabeça. É diferente do voto do nazireado, que
tinha de ser feito em Jerusalém passando-se a navalha na cabeça
(21:24; Nm 6:1-5, 18; cf. 1Co 11:6, onde se vê que há diferença entre
raspar o cabelo e passar a navalha sobre a cabeça). Paulo era judeu e
guardou o voto, mas não o imporia aos gentios, como de fato não o
fez.
Segundo o princípio do seu ensinamento sobre a economia
neotestamentária de Deus, Paulo devia ter desistido de todas as
práticas judaicas, que pertenciam à dispensação do Antigo
Testamento. Entretanto, ainda fez esse voto, e parece que Deus o
tolerou, provavelmente por ser um voto levado a cabo em particular,
fora de Jerusalém, e que não teria muito efeito nos crentes.
Algumas exposições de Atos tentaram explicar por que ele fez o
voto mencionado em 18:18. Enquanto durava o voto, o seu cabelo
era deixado crescer. Quando findava o voto, o seu cabelo era
raspado. Conforme 18:18, o voto de Paulo foi completado em
Cencréia raspando-se o cabelo. Alguns expositores dizem que ele o
fez por estar grato ao Senhor por preservar-lhe a vida. Como ser
humano, ele pode ter tido medo de perder a vida nas mãos dos
judeus. Ele pregava e ministrava constantemente. Ao mesmo tempo,
corria sempre o perigo de perder a vida. Por um lado, estava
disposto a perder a vida pelo Senhor. Por outro, ainda era humano e
tinha medo. Assim, segundo alguns expositores, ele fez um voto de
ação de graças.
Essa interpretação do voto de Paulo em 18:18 deve estar
correta. Quando um judeu tinha algo para agradecer a Deus, ele
fazia um voto de ação de graças. De acordo com o contexto, Paulo
devia estar agradecido ao Senhor por protegê-lo e preservar-lhe a
vida. Por toda a Ásia Menor, Macedônia e Acaia os judeus se lhe
opunham e até queriam tirar-lhe a vida. Mas o Senhor sempre o
protegeu e preservou. Por isso ele devia estar agradecido.
Quando falou a Paulo à noite numa visão, o Senhor lhe disse:
“Não temas”. Essas palavras indicam que havia temor em Paulo. Por
isso, o Senhor veio a ele de forma extraordinária à noite. Alguns
poderão dizer: “Paulo não tinha o Senhor em si? não tinha o Espírito
essencial e, o econômico?” Naturalmente, ele tinha o Senhor em si, e
também tinha o Espírito essencial e o econômico. Mas ainda havia a
necessidade de ser fortalecido e ter certeza. Para atender a essa
necessidade o Senhor veio a ele em visão dizendo: “Não temas (...)
estou contigo” (18:9-10). Paulo pode ter feito o voto por estar
agradecido pela proteção e preservação do Senhor. Essa pode ter
sido a razão de ter parado em Cencréia para completar o voto, ao ir
da Acaia para a Síria.
Depois que o Senhor lhe falou em visão, Paulo permaneceu em
Corinto um ano e seis meses, ensinando a Palavra de Deus. Ele
certamente cumpriu o seu comissionamento naquela cidade e, por
fim, uma igreja grande foi levantada e estabelecida ali. No caminho
para a Síria, Paulo também parou em Éfeso.
Como em muitos outros lugares, “entrando na sinagoga,
pregava aos judeus” (v. 19). Eles pediram que ele permanecesse,
porém ele não concordou. “Mas, despedindo-se, disse: Se Deus
quiser, voltarei para vós outros” (v. 21).

VOLTA PARA ANTIOQUIA CONCLUINDO A SEGUNDA


VIAGEM
Paulo, embarcando, partiu de Éfeso (v. 21b). “Chegando a
Cesaréia, desembarcou, subindo a Jerusalém; e, tendo saudado a
igreja, desceu para Antioquia”. Esse versículo indica que ele foi a
Jerusalém (cf. 21:15) e depois desceu para antioquia. A sua volta
para Antioquia foi o fim da segunda viagem ministerial, iniciada em
15:40.
Podemos perguntar-nos por que Paulo não voltou diretamente
a Antioquia de Cesaréia, em vez de ir primeiro a Jerusalém. Ele
desceu a Cesaréia e depois subiu a Jerusalém e saudou a igreja lá.
Por que subiu a Jerusalém e saudou a igreja? Ele o fez devido ao
problema resolvido no capítulo quinze. Depois de resolvido o
problema, ele saiu para a segunda viagem ministerial. Agora no fim
dela ele foi visitar a igreja em Jerusalém.
Lucas não nos dá os detalhes dessa visita de Paulo à igreja em
Jerusalém. Mas se nos aprofundarmos na Palavra, perceberemos
que ao fazer essa visita ele se esforçava por preservar a unidade do
Corpo e também por manter um sentimento agradável entre ele e
todos os irmãos em Jerusalém, especialmente Pedro e Tiago.
Paulo poderia ter ido direto para Antioquia. Aparentemente
não havia razão para ir a Jerusalém. Contudo, de Cesaréia ele foi
para o sul, a fim de visitar a igreja em Jerusalém. Então, de
Jerusalém ele realizou a longa viagem até Antioquia. Em 18:22,
Lucas nem mesmo menciona Jerusalém pelo nome. Provavelmente
pensasse que todos entenderiam o que indicava o verbo subindo,
uma vez que ninguém subiria a outro lugar senão Jerusalém.
Precisamos ser impressionados com o fato de que Paulo subiu
a Jerusalém em 18:22 porque se esforçava por manter a unidade do
Corpo de forma alegre e agradável. Ele era um entusiasta, fazendo
tudo o que estivesse ao alcance para manter a unidade do Corpo e
também um sentimento agradável com os irmãos em Jerusalém. Ele
sabia que era a causa de muitos crentes judeus se levantarem e
falarem contra a sua prática. Era a causa de uma situação
desagradável. Se não houvesse alguém como ele pregando o
evangelho aos gentios, então, a vasta maioria de crentes seriam
judeus e não haveria problema com respeito à circuncisão. Por ser o
fator duma situação desagradável, ele fez o que pôde para manter a
unidade com todos os santos. Em especial procurava ter um
sentimento agradável com os de Jerusalém. Assim, a despeito da
longa e difícil viagem, ele subiu para lá a fim de visitar a igreja.
Somente então voltou a Antioquia, terminando assim a segunda
viagem. Isso traz muita luz e precisamos aprender com o empenho
de Paulo a manter a unidade do Corpo e preservar um sentimento
agradável entre os irmãos, com respeito à nossa prática de levar a
cabo o ministério do Senhor.
ESTUDO-VIDA DE ATOS

MENSAGEM 49
A PROPAGAÇÃO NA ÁSIA MENOR E EUROPA POR MEIO
DO MINISTÉRIO DE PAULO E SEUS COMPANHEIROS
(15)

Leitura Bíblica: At 18:5, 11, 9:11, 22; 13:5; 14:1; 17:1-3

A MANEIRA DE PAULO PREGAR

A principal coisa que temos de ver no capítulo dezoito de Atos


é a maneira de Paulo pregar. Conforme 18:5, “quando Silas e
Timóteo desceram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à
palavra, testemunhando aos judeus que o Cristo é Jesus”. O
versículo 11 nos diz que ele permaneceu em Corinto “um ano e seis
meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”. Ali ele
primeiramente foi à sinagoga para testificar aos judeus que Jesus é o
Cristo. Quando eles resistiram e blasfemaram “sacudiu Paulo as
vestes e disse-lhes: Sobre a vossa cabeça, o vosso sangue! Eu dele
estou limpo e, desde agora, vou para os gentios” (v. 6). Ele então
permaneceu em Corinto ensinando a Palavra de Deus.
Atos 18:5 indica que quando estava na sinagoga, ele foi
diretamente à questão de testificar que Jesus é o Cristo. Contudo,
quando pregamos o evangelho aos incrédulos, talvez pensemos que
eles não n9s ouvirão se lhes falarmos do Senhor imediata e
diretamente. Segundo nosso conceito, precisamos de certa abertura
para lhes pregar o evangelho, ou algum modo de fazê-los abrir-se e
ganhar a atenção deles. Não digo que nunca devamos usar algo
assim ao pregar o evangelho, mas devemos sempre lembrar-nos da
nossa tarefa: não é fazer outra coisa, a não ser apresentar Cristo aos
pecadores e especialmente ministrar Cristo a eles. Alguns podem
dizer que é muito difícil apresentar Cristo diretamente aos
incrédulos. Concordo que é difícil, por isso precisamos aprender a
ter o poder e o impacto necessários.
PODER POR MEIO DA ORAÇÃO, DA PALAVRA E DO
ESPÍRITO

Se queremos ter poder e impacto ao pregar o evangelho,


precisamos orar. Não há necessidade de orar até falar em línguas
para obter o poder. Podemos tê-lo por meio da oração sem falar em
línguas. Ademais, conheci várias pessoas que falavam em línguas
que não eram nem um pouco poderosas na pregação do evangelho.
A esta altura deixe-me relatar uma conversa que tive, muitos
anos atrás, com um amigo cristão em Chefoo, minha cidade natal.
Esse amigo era o líder de um grupo pentecostal. Eu já o conhecia há
muitos anos e o local de reuniões desse grupo pentecostal era bem
próximo do local de reuniões da igreja. Um dia esse irmão veio a
mim com a intenção de me convencer a seguir a maneira
pentecostal. Como éramos amigos, encorajei-o a falar aberta e
francamente. Eu disse a ele: “Irmão, você veio me ver com o objetivo
de me convencer a praticar as coisas pentecostais”. Quando ele me
disse que essa era a sua intenção, disse-lhe que eu estava muito
contente em conversar com ele a esse respeito.
Perguntei-lhe por que estava tão entusiasmado com as coisas
pentecostais. Ele disse que a razão era a sua crença de que falando
em línguas podemos ter poder. Então eu disse: “Irmão, vamos
prestar atenção aos fatos. Não sou a favor das coisas pentecostais,
mas você é bastante favorável a elas e as tem praticado por anos.
Peço-lhe que compare o número de pessoas na sua congregação com
o número de pessoas na nossa. Vocês afirmam que têm poder
porque falam em línguas, mas continuam apenas com cerca de
cinquenta pessoas se reunindo com vocês. Nós não praticamos o
falar em línguas, mas temos centenas de pessoas reunindo-se
conosco, que foram trazidas ao Senhor por meio da pregação do
evangelho. Onde, então, está o seu poder? Vocês falam em línguas,
mas não têm poder. Nós não falamos em línguas, mas temos o
autêntico poder. Você sabe donde vem esse poder? Vem da oração”.
Prossegui testificando-lhe com respeito a nossa prática de
pregar o evangelho por ocasião do ano novo chinês. Em vez de
celebrar o ano novo chinês, os irmãos da igreja em Chefoo faziam
preparativos para pregar o evangelho a parentes, vizinhos e amigos.
A última noite do ano, que era uma ocasião de festa segundo o
costume chinês, era para nós momento de jejum e oração. Então, no
dia seguinte, o primeiro dia do ano, nós nos reuníamos com os
parentes, amigos e vizinhos para a pregação do evangelho. Essa
pregação era levada a cabo com muita oração. Enquanto eu pregava
no local de reuniões, muitos irmãos ficavam em diversas salas
orando até o fim da mensagem. O poder que experimentamos ao
pregar o evangelho vinha de tal oração. Eu disse ao meu amigo em
Chefoo que nós confiávamos na oração e não no falar em línguas.
Em minha conversa com esse irmão, dei-lhe mais duas razões
do nosso poder. Disse-lhe que o poder não estava apenas na oração,
mas também na Palavra. Nós não pregamos coisas estranhas ou
esquisitas. Pelo contrário, a pregação é de acordo com a palavra da
Bíblia. Essa palavra é a verdade, e a verdade é prevalecente. Há
poder em cada palavra de Deus.
Pregamos apenas a Palavra, e não ética chinesa nem filosofia.
Ademais, em vez de usar muitas histórias ao falar, basicamente
pregamos Cristo segundo à revelação das Escrituras. Como a palavra
de Deus é poderosa, temos poder ao pregar o evangelho.
Também disse a esse irmão que o nosso poder está no Espírito
e não em falar em línguas. Cremos que temos o Espírito em nós e
sobre nós também. Por isso é que temos poder. O nosso poder,
portanto, está na oração, na Palavra e no Espírito.
Neste ponto, gostaria de dar-lhe um testemunho do que
aconteceu um dia enquanto eu falava em Chefoo. Em dado momento
tive a sensação de que estava numa atmosfera que me sobreveio.
Então, comecei a perceber que o meu falar provinha totalmente do
autêntico poder de Deus.
Se percebemos ou não o poder para pregar o evangelho não é
importante. O que é vital é que ao pregar o evangelho tenhamos
autêntico poder.
Juntamente com os presbíteros da igreja em Chefoo, tive uma
experiência concreta do poder do Senhor num reavivamento que
aconteceu na igreja em 1942. Muitos irmãos solicitaram a imposição
de mãos. Nós impusemos as mãos neles um a um e também oramos
por eles. Em aproximadamente uma hora oramos por mais de
duzentos irmãos. A oração feita naquela ocasião era, na verdade,
uma longa oração que brotava continuamente. O que era
significativo é que a oração se adequava exatamente à situação de
cada irmão. De repente a oração cessou e não impusemos mais as
mãos sobre ninguém. Todos os que estavam na reunião perceberam
que o que havia acontecido foi realmente o mover do Espírito e que
não poderíamos repeti-lo, Cito isso para ilustrar ainda mais que a
nossa confiança no poder está na oração, na Palavra e no Espírito.
Ao buscar poder e impacto ao pregar o evangelho, não devemos
seguir nenhuma maneira estranha nem esquisita. Tomemos o
caminho da oração, da Palavra e do Espírito.
Cremos que hoje o