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TECHNOLOGÍA

Revista de Engenharia, Energia e Desenvolvimento Sutentável


Vol. 8 - No 1 - Jan./Jun. 2007
ISSN 1518-5540

Arno Krenzinger – Univ. Fed. do RS (UFRGS)


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Ana Sofia Clímaco Monteiro D'Oliveira - Univ. Federal do Paraná (UFPr) Citação parcial permitida, com referência à fonte.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP


T255 Technología : revista do Centro de Tecnologia / Universidade Luterana
do Brasil. – Vol. 1, n. 1 (maio 2000)- . – Canoas : Ed.
ULBRA, 2000- .
v. ; 28 cm.

Semestral.
A partir do vol. 3, n. 1 (jul. 2002), o subtítulo foi modificado para
Revista de Engenharia, Energia e Desenvolvimento Sustentável.
ISSN 1518-5540

1. Ciência e tecnologia – periódicos. 2. Engenharias. 3. Energia. 4.


Desenvolvimento sustentável. I. Universidade Luterana do Brasil.

CDU 5/6(05)

Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Martinho Lutero


Sumário
2 Editorial

Artigos
3 Identificação estocástica de sistemas aplicada a uma viga de aço
Letícia Fleck Fadel Miguel, Leandro Fleck Fadel Miguel e Carlos Alberto Kern
Thomas

18 Programa de gestão de resíduos sólidos na construtora Melnick


Roberto Naime e Lisiane Lerner

30 Diagnóstico da gestão otimizada de resíduos sólidos domésticos e comerciais


do Município de Taquara/RS
Roberto Naime e Paulo Roberto de Aguiar Von Mengden

55 O chumbo e os minerais associados


Paulo César Pereira das Neves e Flávia Schenato

74 Técnica para determinação do potencial hídrico em microbacias hidrográficas


utilizando as cartas do Exército; estudo de caso: microbacia do Arroio Solitário
Luiz Sílvio Scartazzini, Jorge Tadeu Vargas da Silva e Renato de Ávila Cônsul

83 Manejo da vegetação para redução do perigo aviário para habitats campestres


no Aeroporto Salgado Filho
Paulus Mendes Porto, Bernardo Liberman e Tania Renata Prochnow

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 1


Editorial
Com este primeiro número do oitavo ano de publicações, a revista Technología
para o Desenvolvimento Sustentável aborda tecnologias de conversão de fontes
renováveis de energia, planejamento energético-ambiental em âmbito municipal e
regional, unidades de conservação, gestão ambiental em atividades econômicas,
reciclagem de materiais, produção de novos materiais que substituem aqueles cujas
reservas estão comprometidas ou em estágio de extinção, além de outros.
Neste número, Letícia Miguel, Leandro Miguel e Carlos Thomas apresentam
um estudo do entendimento do comportamento dinâmico de sistemas, assim como do
monitoramento da integridade estrutural e do projeto de dispositivos de controle de
vibração aplicando um método eficaz na determinação de características dinâmicas
de sistemas, descrevendo as bases teóricas do método e, em seguida, apresentando
um exemplo de aplicação. Roberto Naime e Lisiane Lerner, a partir de observações e
estudos efetuados em canteiros de obras e no restante da cadeia da construção civil,
propuseram e implantaram um plano para a Construtora Melnick de Porto Alegre,
com uma abordagem integrada, aplicando o gerenciamento ambiental integrado (GAI).
Roberto Naime e Von Mengden estudaram a disposição institucional e as práticas
operacionais sobre os resíduos sólidos domiciliares e comerciais do Município de
Taquara, RS, levantando as informações pertinentes no setor público, descritivas do
processo, além daquelas que demonstram a atuação de outros atores sociais envolvi-
dos na problemática, de modo especial os catadores. Paulo das Neves e Flávia Schenato
apresentam uma sinopse dos minerais em que o chumbo está presente em um total de
399 substâncias descritas até o ano de 2007. Luiz Scartazzini, Jorge da Silva e Renato
Cônsul apresentam uma metodologia para identificação de sítios hidroenergéticos
em microbacias hidrográficas utilizando a cartografia, explorando os cursos de água,
as declividades e as áreas de contribuição para os pontos de interesse, em particular,
neste estudo, a microbacia do Arroio Solitário. Paulus Porto, Bernardo Liberman e
Tania Prochnow apresentam os resultados de um estudo do manejo da vegetação para
reduzir o perigo aviário junto ao Aeroporto Internacional Salgado Filho na cidade de
Porto Alegre.
Mais uma vez, a comissão editorial agradece aos colaboradores voluntários do
corpo de referees pela presteza e auxílios na avaliação dos trabalhos.

Corpo editorial

2 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


Identificação estocástica de sistemas
aplicada a uma viga de aço

Letícia Fleck Fadel Miguel


Leandro Fleck Fadel Miguel
Carlos Alberto Kern Thomas

RESUMO
A busca por um melhor entendimento do comportamento dinâmico de sistemas, assim
como o crescente interesse em áreas como monitoramento da integridade estrutural e projeto
de dispositivos de controle de vibração, tem mostrado a importância da utilização de métodos
robustos e confiáveis que sejam capazes de determinar as propriedades dinâmicas de sistemas
a partir do conhecimento de unicamente medições de resposta. Neste contexto, a fim de apre-
sentar e aplicar um método eficaz na determinação de características dinâmicas de sistemas, o
presente trabalho inicia descrevendo as bases teóricas do método e, em seguida, é apresentado
um exemplo de aplicação. O sistema estudado é uma viga de aço em balanço, a qual foi
instrumentada e medida nas dependências do Grupo de Mecânica Aplicada (GMAp) da UFRGS.
Através de testes em vibrações livres, aplicando-se impactos na viga, sua resposta é adquirida,
e, utilizando o Método de Identificação Estocástica de Subespaço (SSI), inicialmente apresen-
tado por Van Overschee e De Moor (1993) para aplicações em Engenharia Elétrica, as propri-
edades dinâmicas do sistema são determinadas. Posteriormente esta viga é analisada por ele-
mentos finitos e também através da teoria de vibrações de sistemas contínuos. Com isso, os
resultados obtidos através do método de identificação de sistemas são comparados com os
resultados numéricos e teóricos, mostrando que as propriedades dinâmicas obtidas via proce-
dimentos de identificação de sistemas são confiáveis.
Palavras-chave: Identificação de sistemas. Aquisição e processamento de dados. Aná-
lise dinâmica. Análise experimental. Análise numérica.

Stochastic System Identification of a Cantilever Steel Beam

ABSTRACT
The wish for a better understanding of dynamic behavior of systems, as well as the
crescent interest in areas as structural health monitoring and design of vibration control devices,
it has been showing the importance of the use of robust and reliable methods to determine
dynamic properties of systems from the knowledge of output-only measurements. The present
paper begins describing the theoretical bases of an efficient method for dynamics characteristics

Letícia Fleck Fadel Miguel é profa. Dra., Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: letffm@ufrgs.br
Leandro Fleck Fadel Miguel é prof. Dr., Departamento de Engenharia de Estruturas, Universidade Federal de
Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: leandroffm@gmail.com
Carlos Alberto Kern Thomas é prof. M.Sc., Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: carlos.thomas@ufrgs.br

Technología Canoas v.8 n.1 p. 3-17 jan./jun. 2007


Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 3
determination of systems and an application example is demonstrated further. The studied
system is a steel cantilever beam, which was instrumented and measured in the dependences
of the Group of Applied Mechanics (GMAp) of UFRGS. Through free vibration tests, in
which were applied impacts in the beam, its response is acquired, and using the Stochastic
Subspace Identification Method (SSI), initially presented by Van Overschee and De Moor
(1993) for applications in Electrical Engineering, the dynamic properties of the system are
determined. Next, this beam is analyzed by finite element method and also through the theory
of vibrations of continuous systems. Thus, the results obtained through the method of system
identification are compared with the numerical and theoretical results, showing that the dynamic
properties obtained through procedures of system identification are reliable.
Key words: System identification. Acquisition and data processing. Dynamic analysis.
Experimental analysis. Numerical analysis.

1 INTRODUÇÃO
A crescente demanda em áreas como monitoramento da integridade sistemas e
projeto de dispositivos de controle de vibrações, áreas nas quais é necessário o conhe-
cimento das características dinâmicas dos sistemas em estudo, tem evidenciado a rele-
vância da utilização de métodos robustos e confiáveis que sejam capazes de determi-
nar da melhor forma possível as propriedades dinâmicas de tais sistemas, especial-
mente a partir do conhecimento de unicamente valores de resposta do mesmo.
Uma abordagem numérica, geralmente em elementos finitos, representa uma al-
ternativa para a obtenção da resposta de sistemas quando estes são submetidos a um
carregamento dinâmico qualquer. Entretanto, alguns conceitos teóricos envolvidos nos
cálculos incorporam determinadas simplificações, como no caso do amortecimento,
por exemplo, que podem não refletir o comportamento real do sistema. Desta forma,
procedimentos experimentais possuem um papel fundamental, pois avaliam a exten-
são com a qual as previsões teóricas são coincidentes com estes resultados. Alguns
aspectos do comportamento do sistema não podem ser previstos na totalidade e so-
mente ficam claros através da realização de ensaios dinâmicos. Com isso, percebe-se
que os procedimentos teórico-numéricos e experimentais são complementares para a
descrição e o entendimento do comportamento dinâmico de um sistema, não podendo
um ser substituído pelo outro. Dessa forma, a identificação de sistemas está inserida
nesse contexto, pois tem como objetivo a solução do problema inverso, isto é, a deter-
minação de um sistema que descreva a relação entre uma entrada e saída (Figura 1) ou
somente uma saída conhecida. Em outras palavras, a identificação de sistemas pode
ser definida como o processo no qual se determina um modelo matemático de um
sistema dinâmico a partir de dados experimentais.

FIGURA 1 – Representação da relação excitação-resposta de um sistema.

4 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


Além disso, o contínuo aprimoramento dos sistemas de aquisição de dados vem
provocando um crescente interesse na realização de testes experimentais com fins
como o monitoramento da integridade estrutural e projeto de sistemas de controle de
vibração. Para estes estudos, a identificação de sistemas também está diretamente rela-
cionada, pois as propriedades espectrais da estrutura devem ser obtidas, quer para
avaliar seu corrente estado sem interromper sua operação, quer para determinar qual
foi o aumento da razão de amortecimento após a instalação do sistema de controle.
Assim, para a obtenção dos parâmetros modais de um sistema, ensaios dinâmi-
cos devem ser realizados. Alguns métodos para a identificação das propriedades dinâ-
micas de um sistema têm sido apresentados na literatura (EWINS, 1985; JUANG,
1994; MAIA E SILVA, 1997; entre outros). Porém, especialmente em casos de gran-
des estruturas, que necessitam vibradores de grande massa, a determinação da excita-
ção pode ser difícil ou até mesmo inviável. Nesses casos, torna-se prático e econômico
que a excitação seja devida a fatores naturais como vento, sismo, ondas, ou tráfego,
por exemplo, sendo chamada de excitação ambiental e as vibrações causadas por essas
excitações chamadas de vibrações ambientais. Do ponto de vista experimental esse é o
método mais prático para excitar e medir os parâmetros dinâmicos de muitas estrutu-
ras (AMANI et al., 2004). Por este motivo, métodos que sejam capazes de determinar
as propriedades dinâmicas, somente a partir de dados de resposta do sistema, são ex-
tremamente necessários. Estas situações, nas quais o sistema é excitado por um carre-
gamento não mensurado e somente medições das saídas são disponíveis, têm sido
referidas como Identificação Estocástica de Sistemas.
Nas últimas três décadas, vários pesquisadores (VAN OVERSCHEE; DE MOOR,
1993; PEETERS; DE ROECK, 1999; entre outros) têm dedicado seus esforços ao
desenvolvimento de técnicas que consigam produzir valores confiáveis das proprieda-
des dinâmicas de sistemas a partir de somente dados de resposta. Dentre estes, os
métodos no domínio do tempo destacam-se, pois além de serem capazes de identificar
freqüências naturais iguais ou muito próximas, identificam um número maior de mo-
dos de vibração que os métodos no domínio da freqüência (INMAN, 1989). Ao con-
trário destes métodos, que determinam os dados modais através do auxílio da transfor-
mada de Fourier, os métodos no domínio do tempo constroem uma matriz com valores
de resposta computando numericamente as características dinâmicas através da solu-
ção de um problema de autovalores.
Com este objetivo, no presente trabalho é realizado um estudo experimental ad-
quirindo dados de resposta de uma viga de aço em balanço que foi instrumentada e
submetida a impactos. Estes dados de resposta foram utilizados para determinar as
propriedades dinâmicas da viga, obtidas através do Método de Identificação Estocástica
de Subespaço (SSI) inicialmente apresentado por Van Overschee e De Moor (1993)
para aplicações em Engenharia Elétrica. Esse método, desenvolvido no domínio do
tempo, é baseado na teoria clássica da realização e permite a determinação das carac-
terísticas modais através de um modelo em espaço de estado diretamente a partir dos
dados de resposta, sem a necessidade do prévio cálculo das covariâncias ou dos

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 5


parâmetros de Markov do sistema. Peeters e De Roeck (1999) utilizando os algoritmos
de Van Overschee e De Moor (1993) introduziram o conceito de sensores de referên-
cia na formulação, permitindo a redução das dimensões das matrizes e assim do tempo
computacional. Entretanto, deve-se tomar muito cuidado com a seleção desses sensores
de referência, pois a qualidade dos resultados pode acabar sendo prejudicada. Por fim,
as freqüências naturais obtidas via SSI são comparadas com resultados numéricos
obtidos utilizando um software de elementos finitos (Ansys – versão 10) e com resul-
tados teóricos obtidos utilizando a teoria de vibrações de sistemas contínuos.

2 MÉTODO DE IDENTIFICAÇÃO ESTOCÁSTICA DE


SUBESPAÇO (SSI)
O método de identificação descrito parte de um modelo estocástico no espaço de
estado em tempo discreto apresentado na Equação (1):

(1)

sendo o inteiro k o índice do tempo discreto no instante t = k Δt, é o vetor de estado,


é o vetor de medição nas saídas, A é a matriz de estado e C é a matriz de localização
das saídas. Os vetores e representam respectivamente o ruído devido às per-
turbações e imprecisões do modelo dinâmico e o ruído de medição devido à imprecisão
do sistema de aquisição. Ambos são sinais não mensuráveis modelados como ruído branco
gaussiano com média zero e matriz de covariância apresentada na Equação (2):

(2)

em que E[] é o valor esperado, δpq o delta de Kronecker e p, q são dois instantes
arbitrários de tempo.
Desta forma, na representação estocástica, a excitação é modelada implicita-
mente considerando-se a hipótese de ruído branco estacionário com média zero. Uma
propriedade fundamental destes sistemas diz que as covariâncias das saídas podem ser
consideradas como os parâmetros de Markov do caso determinístico, constituindo a
solução do problema de identificação estocástico: a seqüência de covariâncias das
respostas estimada a partir de dados de medição pode ser decomposta nas matrizes em
espaço de estado do sistema.
A principal característica dos métodos de Identificação Estocástica de Subespaços
(SSI) é que evitam este prévio cálculo das covariâncias entre respostas. A idéia é cal-

6 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


cular a projeção do bloco de linhas correspondentes às saídas futuras no espaço das
saídas de referências passadas e com isso reter toda a informação no passado que é útil
para predizer o futuro.
Para o desenvolvimento do método devem-se agrupar as repostas em uma matriz
bloco Hankel composta por 2i linhas blocos e N colunas, sendo N→∞ o número de
amostras de tempo. A matriz Href ∈ R(r+l)i×N pode ser dividida em uma parte de referên-
cias passadas e uma parte futura, conforme se mostra na Equação (3):

(3)

Os subscritos p e f se referem ao passado e futuro, respectivamente. Pode-se


obter outra divisão de Href acrescentando uma linha bloco às referências passadas e
omitindo a primeira linha bloco das saídas futuras, segundo a Equação (4):

(4)

As projeções são importantes em identificação de subespaços. A projeção do


bloco de linhas das saídas futuras no espaço das saídas de referência passadas é defi-
nida na Equação (5):

(5)

Esta equação representa a definição da projeção ortogonal ∈ Rli×N, em que o


símbolo define a pseudo-inversa (Moore-Penrose) de uma matriz. O cálculo, en-
tretanto, pode ser feito de uma maneira muito eficiente através da aplicação da decom-
posição QR na matriz Hankel, conduzindo a uma expressão simples para a projeção,
apresentada na Equação (6):

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 7


(6)

O principal teorema da Identificação Estocástica de Subespaços diz que a proje-


ção pode ser decomposta em um produto da matriz de observabilidade estendida
Oi pela seqüência de estado do filtro Kalman , conforme Equação (7):

(7)

Através da decomposição em valores singulares (SVD) da matriz de projeção,


pode-se estimar a sua ordem. A matriz de observabilidade estendida e a seqüência de
estado do filtro Kalman são obtidas dividindo essa decomposição em duas partes,
como mostra a Equação (8):

(8)

sendo e duas matrizes ortonormais; é uma matriz


diagonal contendo os valores singulares positivos em ordem decrescente. O posto é
encontrado como o número de valores singulares diferentes de zero. Para a obtenção
das matrizes do sistema podem ser utilizados dois algoritmos:

a) Utilizando os estados:
A partir da matriz Hankel, uma outra projeção pode ser definida na Equação (9):

(9)

A matriz de observabilidade Oi-l é obtida desprezando-se as l últimas linhas de


Oi, e a seqüência de estado é calculada segundo a Equação (10):

8 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


(10)

Assim, as matrizes A e C do sistema podem ser determinadas a partir do sistema


de equações lineares da Equação (11):

(11)

b) Utilizando as matrizes estendidas:


As matrizes A e C podem ser obtidas diretamente a partir da matriz de
observabilidade estendida apresentada na Equação (8). Definindo a matriz ,
obtida descartando as últimas l linhas de Oi e a matriz obtida descartando as pri-
meiras l linhas de Oi, tem-se a Equação (12):

(12)

A matriz C é simplesmente as primeiras l linhas de Oi.


Depois de obtidos os resultados da identificação, isto é, as matrizes no espaço de
estado do sistema, a determinação das características dinâmicas do mesmo deve ser
feita através de uma análise modal. O comportamento dinâmico é caracterizado pelos
autovalores e autovetores da matriz A e através de sua passagem para o tempo contí-
nuo, como ilustra a Equação (13):

(13)

Os autovalores ocorrem em pares complexos conjugados e podem ser escritos


em função das freqüências naturais e das razões de amortecimento, conforme Equação
(14):

(14)

sendo ξq a razão de amortecimento do modo q e ωq a freqüência circular referente ao


modo q. As formas modais dadas nos pontos de posicionamento dos sensores Φq são
as colunas de . Esta matriz é definida como as partes observadas dos
autovetores do sistema Ψ e são obtidas na forma da Equação (15):

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 9


(15)

Dessa forma, os parâmetros modais ωq, ξq e Φq são obtidos a partir das matrizes
do sistema identificadas, A e C.
Existem algumas variantes desse método, diferindo na multiplicação de uma
função de peso na matriz de projeção , antes da decomposição em valores singula-
res, determinando a base no espaço de estado na qual o modelo será identificado,
como mostra a Equação (16):

(16)

Podem-se destacar três versões ou variantes dos métodos de identificação


estocástica de subespaço: componente principal ou principal component (PC), com-
ponente principal não-ponderado ou unweighted principal component (UPC) e
algoritmo de variação canônica ou canonical variate algorithm (CVA). A Tabela 1
mostra as funções de peso destas variantes, sendo I a matriz identidade.

TABELA 1 – Funções de peso das variantes do SSI.

Em virtude de resultados obtidos em trabalhos anteriores (FADEL MIGUEL;


MENEZES, 2006; FADEL MIGUEL et al., 2006; FADEL MIGUEL, 2007), nos quais foi
feita uma comparação entre os dois algoritmos e as três versões, no presente trabalho
optou-se por utilizar o segundo algoritmo, o qual utiliza as matrizes estendidas, e a versão
CVA.

3 APLICAÇÃO DO SSI: VIGA DE AÇO EM BALANÇO


A fim de demonstrar a eficiência do Método de Identificação Estocástica de
Subespaço (SSI) descrito na seção anterior, foram realizados nas dependências do
Grupo de Mecânica Aplicada (GMAp) da UFRGS ensaios dinâmicos experimentais
em uma viga de aço engastada-livre, a qual foi posteriormente identificada usando o
SSI. Em seguida são comparados os resultados das cinco primeiras freqüências natu-

10 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


rais obtidas com o SSI com as obtidas utilizando o software de elementos finitos Ansys.
Além disso, estes valores também são comparados com cálculos teóricos, utilizando
as expressões de vibrações de sistemas contínuos para calcular as freqüências natu-
rais. Deve-se ainda ressaltar que o SSI também permite identificar as razões de amor-
tecimento do sistema, o que não é possível com uma simples análise modal.
Mais exemplos demonstrando a eficiência do SSI, inclusive na determinação das
formas modais, podem ser encontrados em Fadel Miguel e Menezes (2006), Fadel
Miguel et al. (2006) e Fadel Miguel (2007), entre outros.

3.1. ANÁLISE EXPERIMENTAL


O sistema estudado é uma viga de aço de seção retangular, engastada em uma
extremidade e livre na outra. As propriedades geométricas e do material da viga são
apresentadas na Tabela 2.

TABELA 2 – Propriedades geométricas e do material da viga.

Para adquirir a resposta dinâmica do sistema foram utilizados os seguintes equi-


pamentos, mostrados na Figura 2: um acelerômetro piezoelétrico da Brüel & Kjaer,
tipo 4332, com massa de 30,2 gramas e mais 0,2 gramas da massa de seu suporte; um
condicionador / amplificador de sinal; uma placa de aquisição PC – Card DAS 16/330
da ComputerBoards e um notebook com o software Matlab – versão 7, com a toolbox
para aquisição de dados.

FIGURA 2 – Viga instrumentada e equipamentos utilizados para a aquisição de dados.

Foram realizados 15 testes em vibrações livres com esta viga. Em alguns deles
foi aplicado apenas um impacto, escolhendo-se diferentes pontos de aplicação em

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 11


cada teste para aumentar a energia de deformação de outros modos além do funda-
mental. Já em outros testes foi aplicada uma seqüência de impactos, também em dife-
rentes pontos da viga. Exemplos de respostas obtidas para cada um destes casos são
mostrados na Figura 3. As respostas foram obtidas utilizando uma taxa de aquisição de
2000Hz durante 10s e 15s e também utilizando uma taxa de aquisição de 1000Hz
durante 20s.

FIGURA 3 – Respostas da viga submetida a impactos.

Para reduzir o número de dados e tornar a identificação precisa nas faixas de


freqüências de interesse, os dados de resposta são filtrados com um filtro passa-baixa
Chebyshev tipo I de oitava ordem. Em seguida, a identificação é realizada utilizando o
Método de Identificação Estocástica de Subespaço (SSI) apresentado na Seção 2. Neste
trabalho optou-se por utilizar o segundo algoritmo, o qual utiliza as matrizes estendi-
das, e a variante CVA. Para a seleção dos pólos estáveis foram elaborados diagramas
de estabilização, como se mostra na Figura 4.

FIGURA 4 – Diagrama de estabilização.

Os 15 sinais de resposta obtidos em cada um dos testes foram utilizados no pro-


cesso de identificação das propriedades dinâmicas do sistema, sendo que na Tabela 3

12 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


se mostram os valores médios obtidos de todas as identificações realizadas com cada
um dos sinais para as cinco primeiras freqüências naturais e razões de amortecimento
e seus respectivos coeficientes de variação.

TABELA 3 – Valores médios das cinco primeiras freqüências naturais e razões de amortecimento
identificadas com o SSI e seus respectivos coeficientes de variação.

Como se pode observar na Tabela 3 os coeficientes de variação das freqüências


naturais são relativamente baixos, sugerindo que o método converge para as freqüên-
cias reais do sistema. E, como já esperado, estes coeficientes de variação são bem
menores que os obtidos para as razões de amortecimento, visto que os valores de
amortecimento são muito baixos. Apesar de parecerem altos, os valores dos coeficien-
tes de variação das razões de amortecimento estão dentro de uma faixa aceitável de
variação, lembrando que o amortecimento é o parâmetro dinâmico mais difícil de ser
quantificado.

3.2 Análise numérica


Com o objetivo de comparar com as freqüências naturais obtidas utilizando o SSI,
nesta etapa é feita uma análise modal do sistema em estudo utilizando o software Ansys
– versão 10. O sistema foi discretizado em 47 elementos de viga e mais um elemento de
massa para levar em consideração a massa do acelerômetro e de seu suporte.
Os valores das cinco primeiras freqüências naturais obtidas com o programa
Ansys podem ser vistos na Tabela 4.

TABELA 4 – Valores das cinco primeiras freqüências naturais obtidas com o programa Ansys.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 13


3.3 Análise teórica
A determinação, de forma analítica, das freqüências naturais de vibração trans-
versal de uma viga pode ser feita utilizando a teoria de vibrações de sistemas contínu-
os. Neste caso, a equação diferencial do movimento é expressa pela Equação (17):

(17)

sendo w(x,t) o deslocamento na direção transversal ao eixo da viga da linha média da


seção x no instante t; t o tempo; x a posição na viga (variando de 0 ao comprimento
total L); E o módulo de elasticidade; I o momento de inércia da seção transversal; ρ a
massa específica e A a área da seção transversal.
Para solucionar esta equação diferencial é utilizado o método da separação de
variáveis. Desta forma, a solução pode ser expressa por:

(18)

Substituindo a Equação (18) na (17) e resolvendo as duas equações diferenciais


resultantes, encontram-se as expressões (19) e (20):

(19)

(20)

Sendo a, b, C1, C2, C3 e C4 constantes que são determinadas a partir de duas


condições iniciais e quatro condições de contorno e β é apresentado na Equação (21):

(21)

Portanto, as freqüências naturais ωn são expressas por:

(22)

Como a equação diferencial contém derivada parcial de quarta ordem e, portan-

14 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


to, requer quatro condições de contorno (duas em cada extremidade) para se determi-
nar as freqüências naturais e os modos de vibração.
No caso da viga engastada-livre em estudo, levando em consideração a massa do
acelerômetro m presente na extremidade livre, as condições de contorno são:
- Extremidade engastada:
deslocamento = w = 0

rotação

- Extremidade livre com massa concentrada:

momento fletor

esforço cortante

sendo m a massa do acelerômetro mais seu suporte, igual a 0,0304kg.

Derivando a Equação (20) e substituindo as condições de contorno, encontra-se


a Equação (23):

(23)

Resolvendo a Equação (23) para os cinco primeiros modos, obtém-se:


β1L = 1,53948946
β2L = 4,19510184
β3L = 7,25594416
β4L = 10,34984186
β5L = 13,46302290
Agora, substituindo estes valores na Equação (22) e dividindo os resultados por
2π, encontram-se as cinco primeiras freqüências naturais (em Hz) de vibração trans-
versal da viga, levando em consideração a massa adicional na extremidade livre cau-
sada pelo acelerômetro e seu suporte. Estas freqüências são apresentadas na Tabela 5.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 15


TABELA 5 – Valores das cinco primeiras freqüências naturais obtidas utilizando a teoria de vibrações de
sistemas contínuos.

3.4 Comparação dos resultados


A Tabela 6 apresenta uma comparação dos resultados das cinco primeiras fre-
qüências naturais obtidas através do SSI, do Ansys e da teoria de vibrações de sistemas
contínuos.

TABELA 6 – Comparação dos resultados das cinco primeiras freqüências naturais.

Como se pode observar na Tabela 6, os resultados numéricos e teóricos são pra-


ticamente idênticos e também se mostram muito próximos aos resultados obtidos pelo
método de identificação de sistemas, apresentando um erro máximo de 2,81%. Deve-
se ainda salientar que estes valores são a média das freqüências identificadas nos 15
sinais de resposta, sendo que alguns sinais identificam melhor determinados modos
em relação a outros.

4 CONCLUSÕES
O presente trabalho apresentou a utilização do Método de Identificação Estocástica
de Subespaço (SSI) para a determinação dos parâmetros dinâmicos de uma viga de
aço em balanço, a partir do conhecimento de somente dados de resposta do sistema
obtidos experimentalmente através de impactos aplicados à viga.
Os resultados obtidos via SSI foram comparados a resultados obtidos numerica-
mente utilizando o software de elementos finitos Ansys – versão 10 e também a resul-
tados analíticos obtidos utilizando a teoria de vibrações de sistemas contínuos.
Como puderam ser observadas, as cinco primeiras freqüências naturais obtidas

16 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


com o SSI resultaram muito próximas das obtidas através dos métodos numérico e
teórico. O erro máximo chegou a apenas 2,81% e o coeficiente de variação máximo foi
de 0,58%, mostrando que o SSI é realmente muito eficaz para determinação das fre-
qüências naturais do sistema. Os valores dos coeficientes de variação das razões de
amortecimento chegaram ao valor máximo de 55,91% para o 5º modo. Porém, apesar
de parecerem altos, estes valores estão dentro de uma faixa aceitável de variação,
lembrando que o amortecimento é o parâmetro dinâmico mais difícil de ser quantificado.

AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem o apoio financeiro do CNPq e da CAPES, Brasil.

REFERÊNCIAS
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Sometidas a Excitaciones Ambientales”. XXXI Jornadas Sud-Americanas de Ingeniería
Estructural, Mendoza, Argentina, maio, 2004.
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Press, 313p., 1985.
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de Torres Metálicas Treliçadas de Linhas de Transmissão”. XXXII Jornadas
Sulamericanas de Engenharia Estrutural, Campinas, Brasil, p.2266-2275, maio, 2006,
FADEL MIGUEL, L. F.; MIGUEL, L. F. F.; MENEZES, R. C. R.; KAMINSKI Jr., J.
“Modal Parameter Identification of a High Voltage Transmission Line Tower Subjected
to Ambient Excitation”. Proceedings of the 27th Iberian Latin American Congress on
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Estruturas Treliçadas”. Tese de Doutorado, PPGEC / UFRGS, Porto Alegre, Brasil,
2007. 160p.
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JUANG, J. N. Applied System Identification. New Jersey: Prentice Hall, 1994. 394p.
MAIA, N. M. M.; SILVA, J. M. M. “Theoretical and Experimental Modal Analysis”,
Inglaterra, Research Studies Press, 1997, 488p.
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For Output-Only Modal Analysis”. Mechanical Systems and Signal Processing, v. 13,
nº.6, p.855-878, 1999.
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Identification Problem”. Automatica, v.29, n.3, p.649-660, 1993.

Recebido em: 8/8/2007 Aceito em: 29/9/07

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 17


Programa de gestão de resíduos sólidos na
construtora Melnick

Roberto Naime
Lisiane Lerner

RESUMO
O setor da construção civil, envolvendo a construção de obras, representa a atividade com
maiores impactos quantitativos e qualitativos sobre o meio-ambiente. A partir de observações e
estudos efetuados em canteiros de obras e no restante da cadeia da construção civil, foi proposto
e implantado um plano para a Construtora Melnick de Porto Alegre, com uma abordagem inte-
grada, aplicando o gerenciamento ambiental integrado (GAI). Este método engloba três atribu-
tos genéricos fundamentados em três grupos. No primeiro grupo, denominado categoria de ini-
ciação e análise, são identificados os aspectos legais e os recursos necessários, sendo definido o
plano de ação e as campanhas de conscientização. No segundo grupo, chamado categoria de
operação, são reunidos os recursos financeiros, técnicos e humanos para que o plano de ação
proposto seja eficiente e operacional. No terceiro grupo, denominado de categoria de resultan-
tes, são referidas aplicações de processos durante toda a operação, sendo definidos indicadores e
procedimentos operacionais padrão (POPs). Os resultados obtidos foram a elaboração de pro-
cessos uniformes, treinamento de pessoal e relatórios finais padronizados das operações.
Palavras-chave: Construção civil. Programa de gestão. Resíduos sólidos.

Solid waste management program in Melnick constructor

ABSTRACT
The sector of the civil construction, involving the construction of workmanships, represents
the activity with bigger quantitative and qualitative impacts on the environment. From comments
and studies accomplished in seedbeds of workmanships of Melnick Constructor (Porto Alegre,
RS, Brazil) and in the remain of the chain of the civil construction, an action plan with an
integrated boarding was proposed and implanted, applying the integrated environment
management (GAI). This method includes three generic attributes based on 3 groups: in the first
group, called Category of Initiation and Analysis, the legal aspects and the necessary resources
are identified, being defined the action plan and the campaigns of awareness. In the second
group, called Operation Category, the financial, technician and human being resources are
congregated in order to the proposed action plan be efficient and operational. In the third group,
called of Category of Resultants, applications of processes during all operation are related, being
defined indicators and Standard Operational Procedures (POPs). The waited results are the
elaboration of uniform processes, training of staff and standardized final reports of the operations.
Key words: Civil construction. Management program. Solid waste.

Roberto Naime é prof. Dr., Programa Mestrado em Qualidade Ambiental da FEEVALE. Coordenador do curso
de Engenharia Ambiental da UNIVAG. E-mail: rnaime@feevale.br
Lisiane Lerner é eng. civil, TGD Engenharia.

Technología Canoas v.8 n.1 p. 18-29 jan./jun. 2007


18 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007
1 INTRODUÇÃO
O setor de edificações urbanas do mercado de construção civil está passando por
um processo de grande aumento da competição entre as empresas. Há um aumento do
número de construções e obras e este ritmo não é acompanhado pelo crescimento do
mercado, fazendo com que vantagens competitivas de toda ordem se tornem muito
importantes na definição diária do sucesso das empresas.
Os impactos que produz vão desde a grande geração de resíduos sólidos, efluentes
de canteiro de obras sem tratamento e emissão de gases pelos caminhões transportado-
res de matérias primas e que retiram resíduos das obras. Outros setores da construção
civil em geral, já enfrentaram estas alterações nas últimas décadas, tornando as empre-
sas mais competitivas. As organizações são induzidas a acompanhar as novas tendên-
cias objetivando se adequarem a novos padrões e novos paradigmas.
Procedimentos considerados fundamentais nos processos de desenvolvimento
sustentável, como “ecodesign”, a reutilização e a reciclagem de materiais, a otimização
do uso de recursos hídricos, a eficiência energética e os sistemas de gestão de resíduos
sólidos encontram-se entre os principais itens desta nova era (NAIME, 2004).
Em função destes fenômenos, a perspectiva gerencial das organizações busca atra-
vés da implantação de procedimentos de qualidade e de rotinas ambientalmente susten-
táveis, alcançar padrões que possam oferecer vantagens competitivas reais. Inserido neste
contexto, este trabalho busca apresentar um método para gestão de resíduos sólidos na
construção civil, inspirada na técnica dos 3R que é universalmente utilizada. Reduzir,
reciclar e reutilizar é a inspiração de todo o processo de Gerenciamento Ambiental Inte-
grado implantado na Construtora Melnick, em Porto Alegre. Por gerenciamento ambiental
integrado se entende o conjunto de procedimentos sistematizados nas ações da empresa
que normatizem as relações da organização com o meio ambiente, de forma a minimizar,
mitigar e compensar todos os impactos ambientais das obras.
Pela técnica dos 3R, são compreendidos os processos de redução na geração de
resíduos, incluindo implicitamente a redução do desperdício de matérias-primas; as
técnicas de reutilização dos materiais no estado em que se encontram e finalmente o
envio de materiais para a reciclagem, quando através de novos processos industriais,
os materiais são disponibilizados para novos usos.
Na construção civil para o setor imobiliário, é alto o índice de perdas de matérias-
primas. É elevada também a geração de entulho. Isto significa perdas e desperdícios e
aumento dos custos da construção civil. A quantidade de entulho gerado corresponde em
média a 50% do material desperdiçado e, portanto, reduzir o desperdício de material,
reutilizar no estado em que se encontram e reciclar o entulho, representa vantagens eco-
nômicas, sociais e ambientais (JOHN, 2000). A solução para a implantação da reutilização
e da reciclagem é a separação dos resíduos sólidos nos canteiros de obras. Isto é uma
tarefa relativamente simples na execução, porém mais complexa na gestão, devido ao
gerenciamento de recursos humanos e materiais que exige (TILFORD et al., 2000).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 19


A finalidade é minimizar o uso de matérias-primas e da geração de resíduos, mas
necessariamente deve haver um procedimento universal e sistematizado, com contro-
les, registros e continuidade, para que as ações se tornem eficazes. Assim, deve ser
estimulado, induzido e gerenciado o manejo adequado dos resíduos sólidos e as de-
mais ações de gerenciamento, envolvendo os procedimentos de segregação dos resí-
duos na geração, separação no canteiro de obras e reutilização ou reciclagem.
Desta forma, além das vantagens econômicas, será possível auxiliar na adequa-
ção às normas legais, incluindo a Resolução 307 de 05 de julho de 2002 do CONAMA
(Conselho Nacional de Meio Ambiente) que se propõe a normatizar o setor, estimulan-
do iniciativas públicas e privadas na direção do incremento das técnicas de preserva-
ção ambiental e estímulo ao desenvolvimento sustentável no setor de construção civil.
O objetivo do presente trabalho é apresentar os processos para uniformização de
procedimentos, treinamento de pessoal, registro e monitoramento das ações e elabora-
ção de relatórios setoriais sistemáticos já desenvolvidos e implantados na Construtora
Melnick.

2 MATERIAIS E MÉTODOS
O método empregado na realização deste trabalho está inspirada no programa de
produção mais limpa para micro e pequenas empresas do segmento de construção
civil, juntamente com a técnica dos 3R, que é universalmente utilizada e o
Gerenciamento Ambiental Integrado (GAI). O programa de produção mais limpa é um
conjunto de normas sistematizado para implantação de gestão ambiental nas pequenas
e micro empresas da construção civil. Neste programa de Produção Mais Limpa, de-
nominado PML, foi realizado um projeto piloto em cada uma das sete construtoras
participantes do treinamento, em Porto Alegre, durante o ano de 2004.
Esse projeto piloto foi chamado de estudo de caso, onde cada uma das sete cons-
trutoras citaram um ou mais problemas, que já eram de domínio público e consenso. A
empresa Melnick escolheu o estudo de caso sobre a Otimização do Processo Produti-
vo de Piso Cerâmico, visando a minimização dos resíduos gerados, levando em consi-
deração a quantidade de cimento cola e rejunte utilizado por m2. Dentro da Construto-
ra Melnick, foi utilizada a obra do edifício Chateau Breton.
Além de todo o material fornecido pelo programa de produção mais limpa, fo-
ram realizadas pesquisas teóricas e de trabalhos já publicados sobre o assunto, sendo
também avaliadas as práticas nos canteiros de obras, para viabilizar a implantação do
processo. Estes dados subsidiaram o desenvolvimento de um trabalho sistematizado.
A rotina implantada pelo programa de Produção Mais Limpa se divide em três
fases:
1. Programa de sensibilização, conscientização e treinamento, dentro e fora dos
canteiros de obras;

20 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


2. Definição de responsáveis: coordenação do projeto, gerenciamento de Produ-
ção Mais Limpa (PML) em todos os canteiros de obras, e coordenador por empreendi-
mento, onde cada canteiro tem um responsável pelo projeto denominado “padrinho”;
3. Monitoramento da operação em cada obra através de planilhas com indicado-
res quantitativos e qualitativos e execução de “check list” mensal nos canteiros de
obras com itens sobre o andamento do projeto.
Os resíduos produzidos nas obras, para apresentarem viabilidade técnica de
reutilização ou reciclagem, precisam ser segregados (NAIME, 2005,
BLUMENSCHEIN e SPOSTO, 2005, CNTL, 2005). Os resíduos variam quanto à
natureza e quantidade de acordo com a fase da obra. Estes procedimentos são estimu-
lados pela própria legislação vigente, (CONAMA, 2002). A Construtora Melnick de-
senvolveu o seguinte método de itens relevantes por fase:
I. Etapa de Estruturas: aço, madeira, papelão, papel e plástico;
II. Etapa de Alvenaria: entulhos diversos de alvenaria, PVC das instalações hi-
dráulicas e elétricas. Papelão, papel e plástico;
III. Etapa de Acabamentos: papéis, papelões e plásticos de embalagens, azule-
jos, pisos cerâmicos e porcelanatos.
A resolução 307 do CONAMA exige que as empresas tenham programas de
gerenciamento de resíduos sólidos como integrantes do projeto da construção. No
entanto, não obriga as empresas a adotarem os mesmos padrões de gerenciamento.
Cada empresa tem a liberdade de institucionalizar um programa, de acordo com as
características de suas operações e de acordo com a fase das obras.
A construtora Melnick adotou um padrão simplificado, por considerar mais apro-
priado a implantação desta visão inicial num programa de produção mais limpa, que
adota o mesmo princípio dos processos estimulado pela organização ISO (International
Standardization Organization), que tem como meta a melhoria permanente de todos os
programas, processos, empreendimentos e operações.

3 PROGRAMA DE SENSIBILIZAÇÃO E TREINAMENTO


A primeira etapa do projeto é a fase de sensibilização de todos os funcionários e
colaboradores da organização. O processo iniciou com a divulgação do projeto de
gestão de resíduos sólidos com o apelido de “PML” – Produção Mais Limpa (CNTL,
2005). A ferramenta utilizada foi o jornal interno da Melnick, denominado Comunick.
O Comunick é um meio de comunicação responsável por levar as informações e
novidades da empresa ao conhecimento de todos. Ele é realizado através de um jornal
que é trimestral, um quadro mensal e um informativo eletrônico semanal.
No Comunick quadro foi feito um resumo da matéria e mostrados os principais
itens e os resultados práticos que podem ser alcançados, usando o caso de uma obra, o

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 21


Resort Residencial Knorville em Gramado, no RS, onde os colaboradores por iniciati-
va própria, resolveram iniciar um processo de reciclagem de papel e papelão da obra,
revertendo em recursos para os colaboradores do canteiro, em número superior a 100
pessoas. Finalizando, foi usado o Comunick on line para marcar o dia e horário para os
treinamentos de pessoal, onde o coordenador do projeto em cada canteiro de obra
(“padrinho”) faz a explicação e estimula a participação de todos.
A implantação do PML (Produção Mais Limpa) teve permanentemente forte apoio
e supervisão dos responsáveis pela qualidade, com treinamentos permanentes sempre
que necessário e sistematização de “feed back” onde os projetos serão permanente-
mente analisados e sofrerão melhoria contínua. O programa é implantado em cada
obra pelo “padrinho” que é o coordenador do programa em cada obra. Inicia com a
apresentação do PML. Após a apresentação, é feito um debate onde os colaboradores
emitem suas opiniões sobre o processo.
Cada obra recebe três cópias do Manual da PML, que fica disponível e ao alcan-
ce de todos. Uma cópia fica com o padrinho, outra fica ao lado do livro ponto para
consulta dos colaboradores sempre que necessário e outra é fixada no quadro do pro-
grama 5S localizado nos refeitórios. Após o término do treinamento e a apresentação
realizada pelo padrinho da obra, o empreendimento está apto para a prática da Produ-
ção Mais Limpa (PML). Em função de suas peculiaridades, cada canteiro irá definir
um Plano de Ação considerando cada fase da obra.
Conjuntamente, cada obra receberá um layout adaptado, com baias identificadas
para separação dos materiais e tonéis de reciclagem. O padrão adotado pela Melnick é
de baias de reciclagem, de acordo com a fase da obra e cinco tonéis de reciclagem:
- Azul: para papel e papelão;
- Vermelho: para plásticos;
- Verde: para vidros;
- Amarelo: para metais, e
- Marrom: para resíduos orgânicos.

4 RESPONSÁVEIS OPERACIONAIS
O sistema de gestão dos resíduos sólidos, inspirado no programa de produção
mais limpa e nos 3R, é composto por um coordenador geral que deverá nomear res-
ponsáveis por cada canteiro de obras, chamado de “padrinho”. Ao “padrinho” cabe
definir as ações, responsabilidades e mecanismos de controle em cada canteiro de
obras.
O “padrinho” é o encarregado responsável pelo projeto dentro do canteiro de
obras. Foi definido pela coordenação geral a partir do desempenho, interesse e lide-
rança demonstrado pelos colaboradores. Este é o mesmo critério que será utilizado nas

22 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


obras futuras. Fatores como dinâmica, entusiasmo pelo projeto e bom relacionamento
com os demais colegas também são importantes. A Figura 1 exibe o organograma
hierárquico do Padrinho da obra dentro da Construtora Melnick.

FIGURA 1 – Fluxograma hierárquico do “Padrinho” da obra dentro da organização


da Construtora Melnick.

As Figuras 2, e 3 abaixo mostram os vasilhames coloridos dos recipientes dos


resíduos em cada obra e a baia existente numa obra para coleta dos materiais de maior
volume, aparecendo também um “padrinho” em uma obra.
A escolha dos padrinhos também foi influenciada pelo fato de que em alguns
canteiros de obras já havia experiências espontâneas de segregação, venda e rateio dos
recursos. Nestes locais, foi homologada a figura da liderança natural do processo.

FIGURA 2 – Tonéis de segregação de resíduos implantados em obra da Construtora Melnick para operacio-
nalização do programa de produção mais limpa com o padrinho da obra.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 23


Dependendo da fase da obra, muitos resíduos são gerados em grandes quantida-
des, não comportando o uso de tonéis. Estes resíduos são transportados, acondiciona-
dos e dispostos em baias temporárias, de onde são removidos da obra, em alguns casos
para ação de recicladores e em outros para disposição final em aterros sanitários ade-
quados conforme as especificações da Resolução nº 307 do CONAMA.

FIGURA 3 – Baia de segregação de resíduos sólidos em maiores quantidades, conforme a fase da obra.

5 IMPLANTAÇÃO, MONITORAMENTO E CONTROLE


DE OPERAÇÕES
Para o monitoramento do projeto foram criadas planilhas quantitativas e qualita-
tivas simples, não burocratizadas, com a função de manter um registro semanal das
atividades em cada canteiro de obras. Estas planilhas de controle objetivam possibili-
tar a análise econômica e operacional do projeto pela administração, além de monitorar
a eficácia e eficiência do sistema.
Nas planilhas constam o nome da obra, fase da obra, padrinho responsável, identi-
ficação e quantidade aproximada dos materiais segregados e remetidos para reciclagem,
registrando também os valores de venda. O histórico de registros permitirá a permanente
avaliação operacional dos dados. Também serão definidos indicadores em cada obra que
permitam avaliar os lucros e benefícios sociais, ambientais e econômicos.
Os indicadores serão gerados a partir da análise das planilhas de implantação da
Produção Mais Limpa (PML) nos canteiros de obras. Inicialmente será ampliada a
“check-list” que a Construtora Melnick utiliza para avaliação da qualidade, sendo in-
cluídos itens de verificação da gestão de resíduos sólidos.
A “check-list” está fundamentada na NR 18 (Norma Regulamentadora de Con-
dições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção), com itens que deno-
tam boas práticas de “lay out” e logística dos canteiros de obras.

24 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


A ferramenta admite 3 tipos de resposta quando de sua aplicação:
1. Sim, quando o requisito estiver em conformidade;
2. Não, quando o requisito apresentar não-conformidade;
3. Não aplicável, quando não for possível a implementação do requisito conside-
rado.
Os principais critérios adotados para este indicador consideram os parâmetros
estabelecidos na metodologia de análise:
a) Importância estratégica do item;
b) Vínculo com a estratégia, objetivando melhorar a qualidade, a segurança e o
meio ambiente nos canteiros de obras;
c) Forma de coleta e processamento do item; itens mais freqüentes e com inspe-
ção pessoal tem maior importância;
d) Periodicidade do item considerado, itens mais freqüentes são de maior impor-
tância;
e) Os responsáveis pela coleta são o coordenador de qualidade, o coordenador
do PML e o padrinho da obra.
Cada vez que é identificada uma não-conformidade, é implantado um procedi-
mento operacional padrão (POP) sobre o item em referência, que é imediatamente
implantado na obra para sanar a deficiência até a próxima vistoria. Um exemplo pode
ser visto na Figura 4, onde um procedimento operacional padrão sobre a instalação do
refeitório serve de referência para todos os canteiros de obras.

FIGURA 4 – Procedimento operacional padrão (POP) usado como referência para instalação de refeitório
nas obras. O exemplo mostra o ordenamento e as aberturas do refeitório.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 25


Os indicadores utilizados no programa são a quantidade de matérias-primas eco-
nomizadas em peso e a quantidade de resíduos, medidos em peso, reutilizados ou
segregados visando destinação para a reciclagem. A média geral é obtida com base
numa ponderação de cada item no volume total orçado na obra. Na Figura 5 é possível
observar o índice de eficiência da metodologia, que gera cada vez menos quantidade
de inconformidades. São criados procedimentos operacionais padrão, com a própria
participação dos colaboradores, cada vez que é identificado um índice com elevado
padrão de não-conformidade.
Na Construtora Melnick, assim como na maioria das empresas, é cada vez maior
a relação entre controle de qualidade, saúde ocupacional e gestão ambiental, no caso
com maior ênfase na gestão de resíduos sólidos. A Figura 5 mostra a média geral
obtida com a check list da NR18, acrescida dos itens de gestão ambiental, particular-
mente de gestão de resíduos sólidos, com as médias gerais de conformidade de 2004 e
2005, sendo possível observar a evolução obtida com as metodologias adotadas.

FIGURA 5 – Médias mensais de não conformidades com a check list fundamentada na NR 18, acrescida de
itens gerais de gestão ambiental e particularmente de gestão de resíduos sólidos, com os dados de 2004 e
2005 comparados. Em 2005 aumenta o índice de eficiência, com a obtenção de percentuais muito mais
altos de conformidades.

6 FORMAÇÃO DE PARCERIAS NA GESTÃO DE


RESÍDUOS
As parcerias são estabelecidas com base nas necessidades da fase da obra e nas
aptidões de cada parceiro para a destinação de resíduos que se faz necessária na fase
da obra considerada.
Na fase inicial das obras, denominada fase de estruturas, foram reciclados aço e
madeira. Estes materiais, na maioria dos casos, vão ser reaproveitados no andamento

26 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


da própria obra, ou serão transferidos para canteiros de obra da própria construtora
onde possam ser reutilizados.
Na segunda fase, foi realizada a separação de entulhos de alvenaria, os quais
ficarão armazenados em baias especialmente projetadas para esta finalidade, em cada
uma das obras. Está sendo construída uma parceria com o próprio fornecedor de blo-
cos e tijolos, para retirada e reaproveitamento destes materiais.
Nesta fase também foram segregados os papéis, papelões e plásticos em geral,
incluindo o PVC das instalações elétricas e hidráulicas. Para cada tipo de material será
instalada uma baia coberta, especialmente projetada no tamanho necessário para o
acondicionamento de todo o volume gerado. Este material será vendido para empresas
recicladoras especializadas.
A terceira e última fase é a de acabamento da obra, com a geração de todos os
tipos de papéis, papelões e plásticos das diversas embalagens dos produtos utilizados.
Estes materiais foram segregados em tonéis ou baias, conforme o tamanho das obras,
sendo retirados por um parceiro que fará a aquisição e transporte destes produtos, com
a correspondente emissão de Manifesto de Transporte de Resíduos e Nota Fiscal, para
destinação aos recicladores. Nesta etapa será feita ainda a gestão dos materiais
cerâmicos, azulejos, pisos e porcelanatos.
Nestes casos, desaparece a responsabilidade civil sobre os resíduos gerados, que
na medida em que forem sendo utilizados como matérias-primas de novos produtos,
deixam de ser caracterizados como resíduos e assim não há mais responsabilidade
civil da empresa geradora do resíduo sobre os mesmos, o que ocorre quando o material
não é reciclado ou reutilizado em outro processo industrial, da própria empresa ou de
terceiros (Lei 9.605/98).
A Construtora Melnick pratica gestão de resíduos sólidos faz 3 anos e tem obtido
índices de até 15% na redução de matérias primas e até 60% na reutilização ou
reciclagem de materiais, dependendo da situação, do material e do nível de eficiência
dos procedimentos de gestão em cada canteiro de obra.

7 CONCLUSÕES
O programa de gestão de resíduos sólidos é uma ferramenta de sistematização de
procedimentos sobre os resíduos gerados nas 3 fases de obra adotadas pela Construto-
ra Melnick. Esta institucionalização de procedimentos traz um grande avanço na visão
social e ambiental da empresa. Mas a sua plena execução num trabalho diário e autô-
nomo, que será registrado em planilhas e monitorado através da mesma “check list”
utilizada para os itens de qualidade, é a única garantia de eficácia e eficiência do pro-
grama.
Todo o processo deve ser integrador e todos os colaboradores da empresa devem
estar mobilizados, desde o pessoal administrativo, até os participantes dos canteiros de

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 27


obra. A maior dificuldade enfrentada para a implantação deste tipo de programa na
construção civil é a baixa escolaridade da maioria dos integrantes dos canteiros de
obra, principalmente na dimensão de execução das obras.
O programa deve garantir uma visão pró-ativa e garantir resultados que tragam
compensações a todos os colaboradores, além dos ganhos sociais, ambientais e
institucionais da organização. Aliás os ganhos na melhoria da imagem institucional
são intangíveis.
“Planejar significa ordenar previamente os meios para conseguir um objetivo”
(MESSEGUER, 1991). A função do programa de produção mais limpa dentro da Cons-
trutora Melnick, sua institucionalização e demais concepções associadas e a simplici-
dade de todos os procedimentos apresentados, mostram que a adoção de compromisso
por parte de todos, desde a direção até o mais simples colaborador, constituí a princi-
pal propulsão do sistema.
Todos os programas ambientais, além da responsabilidade social e ambiental
que expressam, também exibem resultados econômicos e corporativos, ajudando a
disseminar uma cultura de participação, ou seja, reproduzir em símbolos e práticas o
conjunto de significados que as experiências cotidianas trazem para todos os seres
humanos.
As práticas de responsabilidade social e ambiental são traduzidas pelos aumen-
tos de ganhos, melhoria na remuneração dos trabalhadores, redução do desperdício de
matérias-primas e reutilização de materiais para o conjunto da sociedade atendendo ao
princípio fundamental do desenvolvimento sustentável, de produzir riqueza sem com-
prometer as condições naturais para sobrevivência das gerações futuras.

AGRADECIMENTOS
À Construtora Melnick, pelo apoio recebido.

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as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio
ambiente, e dá outras providências.

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Recebido em: 7/12/06 Aceito em: 23/8/07

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 29


Diagnóstico da gestão otimizada de resíduos
sólidos domésticos e comerciais do
Município de Taquara/RS

Roberto Naime
Paulo Roberto de Aguiar Von Mengden

Não é possível separar o econômico do


ambiental, como não é possível separar o so-
cial do político e do cultural.
(Washington Novaes)

RESUMO
Neste trabalho, a disposição institucional e as práticas operacionais sobre os resíduos
sólidos domiciliares e comerciais do Município de Taquara, RS, foram estudadas, levantando-
se as informações pertinentes no setor público, descritivas do processo, além daquelas que
demonstram a atuação de outros atores sociais envolvidos na problemática, de modo especial
os catadores. Com base nos registros e informações disponíveis na Prefeitura Municipal de
Taquara, referentes aos anos de 2004 e 2005, foram estabelecidas as quantidades de resíduos
domiciliares e comerciais gerados, coletados e encaminhados ao destino final, calculando-se o
potencial econômico dos materiais recicláveis contidos no resíduo total, com base nos preços
praticados no comércio local em março de 2006. O resultado da pesquisa indicou uma geração
média mensal de 550 t de resíduos, das quais 100 t são de materiais potencialmente recicláveis.
O valor econômico deste material, aos preços praticados no município em março de 2006,
atinge R$ 14.000,00 mensais. Da interpretação destes dados, sob a ótica gerencial, econômica
e ambiental, a venda dos resíduos é proposta visando à otimização da reciclagem, melhores
condições de trabalho e da renda dos catadores, além do ajustamento entre as práticas públicas
e a respectiva legislação, com economia de custos para a administração pública.
Palavras-chave: Resíduos sólidos. Valor econômico. Otimização.

Diagnosis of domestic and commercial solid waste optimized


management of Taquara city, RS

ABSTRACT
In the present work the institutional disposition and the operational practices on
commercial and household solid waste from the city of Taquara, RS are studied by gathering
pertinent information about public sector, that describe the process, and about performance of

Roberto Naime é prof. Dr., Programa Mestrado em Qualidade Ambiental – ICET –FEEVALE. Coordenador da
Engenharia Ambiental – UNIVAG.
Paulo Roberto de Aguiar Von Mengden é Mestre em Qualidade Ambiental e economista.

Technología Canoas v.8 n.1 p. 30-54 jan./jun. 2007


30 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007
other social characters involved in this matter, especially the waste collectors. Based on the
records and available information at the City Hall of Taquara related to the years of 2004 and
2005, the amount of household and commercial waste generated, collected and sent to its final
destiny was established by calculating the economical potential of the recycling material
contained in the total waste, based on the prices practiced in the local trade in March 2006.
The result of the research indicates a monthly average generation of 550 t of waste from what
100 t is potentially recycling material. The economical value of this material based on the
prices practiced in the city in March of 2006 reaches R$ 14.000,00 per month. From the
interpretation of these data under a managing, economical and environmental view, the sale of
waste was proposed aiming at recycling optimization, improvement of work conditions and
increasing in the waste collectors’ income, in addition to the adjustment between public practices
and the respective legislation with lower costs for the public administration.
Key words: Solid waste. Economic value. Optimize.

1 INTRODUÇÃO
A vida é um processo natural que necessita permanentemente satisfazer necessi-
dades diversas, alimentares ou de bem-estar. Todos os seres vivos consomem nutrien-
tes, sejam materiais inorgânicos ou matéria orgânica já processada. Sempre que ocorre
esta ação, a de consumir nutrientes, simultaneamente ocorre geração de resíduos, pois
nunca a taxa de absorção é absoluta. Logo, pode-se afirmar que a produção de resídu-
os é fato inerente ao consumo, tanto vegetal como animal.
Na organização dos seres vivos, a geração de resíduos oriunda de um determina-
do processo de vida, contribui para a manutenção de outros escalões naturais, sendo
alimento precioso e necessário. Numa escala adequada, portanto, a geração de resídu-
os é absorvida no processo natural e não causa nenhum efeito danoso à natureza. Ao
contrário, contribui para a diversidade das espécies, dentre elas, a espécie humana.
Porém, quando a humanidade iniciou sua escalada evolutiva, como sociedade
organizada, abandonando o nomadismo e fixando-se em aglomerações urbanas, o pro-
cesso de geração de resíduos sólidos passa a ser danoso, tanto em quantidade como em
qualidade do volume produzido. Inicialmente formados pelo simples acúmulo de res-
tos alimentares, estes resíduos, por efeito das quantidades sempre crescentes, passam
a dificultar o processo de decomposição natural. Logo após, aumentam os impactos
ambientais, ao serem acrescentados ao descarte os restos dos objetos e instrumentos
sem serventia ou danificados. Estes mesmos objetos e instrumentos, apesar de muitas
vezes terem composição orgânica e, por isto mesmo serem passíveis de decomposição
natural, quando acumulados em quantidades crescentes nos locais de despejos, pas-
sam a interromper este processo de absorção natural dos rejeitos.
O impacto ambiental dos resíduos torna-se mais agressivo quando o engenho
humano, na busca incessante de conforto e facilidades, passa a combinar elementos
naturais, introduzindo no meio ambiente outras combinações orgânicas e inorgânicas,
sem decomposição natural imediata. Esta mudança foi marcada pelo início da metalur-
gia e o lançamento dos primeiros poluentes.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 31


Mas ainda assim a natureza era capaz de regenerar-se dos impactos sofridos.
Porém, com o desenvolvimento do comércio, das artes e da ciência, a vida urbana
passa a atrair contingentes populacionais cada vez maiores e, conseqüentemente, au-
mentando a geração da quantidade de resíduos. Deste momento em diante, a natureza
não mais absorve os resíduos gerados na velocidade adequada. Com o advento da
Revolução Industrial os bens oferecidos ao uso e consumo passam a incluir porções de
materiais cuja absorção, quando existe, é medida em séculos.
Esta situação exige da sociedade o estudo e produção de alternativas administra-
tivas e gerenciais da vida urbana, de modo a permitir que se mantenha e amplie os
padrões de bem-estar social, com a proteção do meio ambiente.
Esta pesquisa pretende contribuir nesta área, trazendo informações sobre a reali-
dade do sistema de gestão de resíduos sólidos domiciliares e comerciais encontrada no
Município de Taquara, RS, integrante da Região Metropolitana de Porto Alegre.
O município de Taquara, RS, passou a tomar providências administrativas e
operacionais a respeito dos resíduos gerados por seus habitantes, tanto nas atividades
domésticas como empresariais, a partir do ano de 1936. Nesta ocasião foi organizado
o primeiro serviço municipal de recolhimento e destino final dos resíduos sólidos da
cidade.
Em sua essência, este serviço efetuava os recolhimentos dos resíduos domicilia-
res, direcionando-os para um local de concentração, onde era feita uma triagem precá-
ria daqueles materiais comercializáveis no mercado de reciclagem e destinando o re-
jeito para destino final, no mesmo sítio. Com algumas alterações operacionais, este
serviço mantém-se na atualidade praticamente igual, consagrando alguns prejuízos
econômicos e ambientais.
Os prejuízos econômicos iniciam-se no desenho dos procedimentos operacionais
da administração pública, que carregam alta dose de ineficiência, a começar pelo sis-
tema de coleta e triagem de materiais descartados nas residências e no comércio local.
A utilização de caminhões equipados com compactador mecânico dificulta a recupe-
ração de materiais, pela mistura e amassamento que efetua. O simples exame visual do
material enviado para disposição final demonstra que a triagem realizada posterior-
mente é primária, não segregando parte importante dos recicláveis.
Esta segregação apenas parcial implica em outros prejuízos de âmbito econômi-
co local. A exemplo do que demonstrou Calderoni (2003), ao estudar o processo eco-
nômico vinculado à geração de resíduos urbanos na cidade de São Paulo, a disponibi-
lidade regular de matéria-prima, poderia induzir novas atividades econômicas em
Taquara e seu entorno, ampliando a oferta de emprego e gerando renda. A situação
atual aponta que o comércio destes materiais é destinado a abastecer operações indus-
triais em outras regiões, reduzindo, por conseqüência o benefício econômico passível
de ser apropriado pela sociedade local.
Por outro lado, este aproveitamento limitado de materiais passíveis de

32 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


reaproveitamento industrial contribui para prejuízos econômico-ambientais de âmbito
planetário, ao acelerar o consumo das reservas naturais de matéria-prima, especial-
mente hidrocarbonetos e minerais.
Resta ainda outro tipo de prejuízo, de caráter socioeconômico, derivado do atual
sistema de gestão dos resíduos sólidos municipais. É o prejuízo vinculado à ação dos
catadores que atuam na cidade, verdadeiros agentes ambientais, segregando materiais
descartados e encaminhando-os ao circuito da economia. Nenhuma ação do poder
público leva em consideração sua existência e contribuição para a economia local. Ao
lado desta contribuição, a observação da atividade evidencia diversos prejuízos
ambientais dela decorrente, a começar pelo descarte nas ruas, avenidas e terrenos bal-
dios, do material que não lhes interessa. Ainda assim são desconsiderados no planeja-
mento das ações públicas.
Estas constatações preliminares justificam o propósito de examinar, de modo
sistemático, as diversas ações da gestão de resíduos sólidos urbanos e domiciliares do
Município de Taquara. Este exame sistemático, sendo feito sob o ponto de vista econô-
mico e gerencial, permitirá que se apresentem sugestões de alternativas ao processo
atual, induzindo a melhoria da gestão pública neste particular e, ao final, proporcio-
nando melhor qualidade ambiental à população.
Cabe ainda ressaltar que este estudo tem caráter interdisciplinar, assim proposto
por Magera (2003, p.21):

A análise interdisciplinar é uma maneira de organizar e produzir conhecimen-


to, buscando integrar as análises científicas das diferentes dimensões dos fe-
nômenos estudados, com o objetivo de superar uma visão fragmentada e espe-
cializada do conhecimento, em busca, agora de uma nova postura de relacio-
namento com o ato de conhecer. Neste contexto, se faz necessária a
interdisciplinaridade, visto a reciclagem do lixo estar inserida em um espaço
sistêmico que é condição de sua existência. Esta inter-relação supõe os conhe-
cimentos produzidos pelo conjunto das disciplinas científicas: sociologia, eco-
nomia, história, geografia, política, etc... A reciclagem acaba envolvendo tam-
bém: governo, empresas, instituições, trabalhadores e sociedade.

Por fim, é importante investigar, meditar e agir em defesa do ambiente, sem


passionalidades e sim com procedimentos científicos e técnicos, pois, como oportuna-
mente lembra Leff (2000), a problemática ambiental não é ideologicamente neutra
nem alheia a interesses econômicos e sociais, vale dizer políticos. O surgimento deste
problema dá-se num processo histórico dominado pela expansão acelerada do modo
de produção capitalista, ou na época e local definido pelos desdobramentos da produ-
ção das economias socialistas. Ambas as escolhas ideológicas são sempre submetidas
ao padrão tecnológico gerado por uma racionalidade econômica que busca maximizar
os lucros e os excedentes econômicos de curto prazo, medidos monetariamente ou

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 33


não. Estas mesmas opções ideológicas firmaram um panorama mundial marcado pela
desigualdade entre as nações e as classes sociais, e a medida mais visível desta desi-
gualdade é a geração desmesurada de resíduos sólidos, verdadeira marca do poder
político e econômico que ignora a exigência moral de preservação do meio ambiente.
Este trabalho é realizado no âmbito do Município de Taquara, RS, e limita-se aos
aspectos administrativos e operacionais que envolvem os resíduos sólidos urbanos, de
geração doméstica e comercial. Esta delimitação é decorrente das disposições legais,
que atribuem à Municipalidade seu gerenciamento.

2 MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa executada neste trabalho é de natureza básica ou fundamental, alme-
jando, no dizer de Jung (2004, p.149), “a aquisição sistemática de conhecimentos
sobre a natureza social, biológica ou tecnológica, com o propósito de melhoria da
qualidade de vida”.
O propósito final é a oferta de alternativas de concepção, desenho e práticas
gerenciais, que possam aliar, neste particular sistema de gestão de resíduos sólidos,
economicidade e melhoria da qualidade ambiental.
Em relação aos objetivos, a pesquisa caracteriza-se como descritivo-exploratória.
De acordo com Jung (2004, p.152):

O processo descritivo visa à identificação, registro e análise das característi-


cas, fatores ou variáveis que se relacionam com o fenômeno ou processo. [...]
A pesquisa exploratória visa à descoberta, o achado, a elucidação de fenôme-
nos ou a explicação daqueles que não eram aceitos apesar de evidentes.

Quanto ao procedimento, é empregado o Estudo de Caso, definido por Gil (2002),


como uma pesquisa descritiva que tem por objetivo principal a descrição das caracte-
rísticas de determinada população ou fenômeno, além das relações entre as variáveis
que estes estabelecem entre si. Uma das peculiaridades mais significativas de estudos
que podem ser assim classificados é a utilização de técnicas padronizadas de coleta de
informações, tais como o questionário e a observação sistemática.
Semelhantemente, Jung (2004) afirma que o estudo de caso pode ser definido
como um procedimento de pesquisa que investiga um fenômeno dentro de um contex-
to local, real e é especialmente apropriado quando os limites entre o fenômeno e seu
contexto não estão claramente definidos.
Por outro lado ainda conta-se com a posição de Vergara (2004), que refere ser o
estudo de caso aquele circunscrito a uma ou poucas unidades de estudo, sendo estas
pessoas, famílias, empresas, órgão público, comunidade ou até um país. Qualquer um

34 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


destes conjuntos de elementos da pesquisa pode constituir-se em um verdadeiro uni-
verso de exploração do conhecimento.
Também foi realizada uma pesquisa, através de questionário fechado aplicado
aos catadores da cidade de Taquara.
Portanto, a metodologia adotada neste trabalho é do tipo teórico-prática, vincu-
lando os principais conceitos sobre o gerenciamento de resíduos sólidos urbanos com
a observação do sistema na cidade de Taquara/RS, em um estudo de caso.

3 TRABALHOS ANTERIORES – AÇÕES HISTÓRICAS


Este estudo tem por foco uma cidade específica, Taquara, no Rio Grande do Sul,
e seu particular sistema de gestão dos resíduos sólidos domésticos e comerciais. Mes-
mo sabendo-se que cada sociedade tem particularidades de organização político-ad-
ministrativa atinente a sua história e cultura, as práticas operacionais podem, eventual-
mente, ser adaptadas ou simplesmente contribuírem para a formulação de alternativas.
Deste modo, como forma de orientar o estudo, realizou-se uma revisão da bibliografia
disponível sobre o gerenciamento de resíduos sólidos urbanos. Partindo-se de uma
busca histórica sobre o assunto, foram examinadas experiências exitosas em diversos
países e no Brasil, além de examinar-se a vinculação do assunto com a saúde pública,
procurando contribuições para as sugestões ao final apresentadas.
A escalada civilizatória da humanidade caracterizou-se inicialmente pelo desen-
volvimento da agricultura, como fonte segura de alimentos, e prosseguiu com a urba-
nização, a vida em vilas e cidades, como imperativo de bem estar. Estes processos,
reunindo em um mesmo lugar populações sempre crescentes, ocasionaram como con-
seqüência direta grande geração de resíduos. Estes resíduos acumulados tornam-se
fonte de desconforto e doenças, exigindo providências das lideranças e governantes.
Um dos primeiros exemplos de providências sanitárias sobre os resíduos urbanos são
as leis adotadas em Ur, na Mesopotâmia, por volta de 2000 a.C., que segundo infor-
mam Abrams e Wringley (1978), destinam um sítio, fora das muralhas, como local de
depósito dos dejetos urbanos, obrigando os moradores a fazerem este transporte.
Segundo Clark (1991), Roma, no final do Séc. I, a.C., contava com mais de um
milhão de habitantes e seus principais problemas urbanos eram o trânsito de carroças,
o abastecimento de água precário e os dejetos humanos, cobrindo a cidade de ruído e
fedor insuportável. A prática de lançar o lixo pelas janelas era corrente e mereceu
inclusive éditos de Augusto, prevendo multas e prisão contra tais atos. O mesmo Im-
perador delimitou um lugar, às margens do Tibre, para o depósito do lixo da cidade.
Atitudes semelhantes, de delimitação de sítios de despejo, proliferaram por todo o
mundo nos séculos seguintes, dando-se conta dos resíduos acumulados em simples
processos de disposição em locais determinados, preferentemente fora da área urbana.
Segundo Rutherfurd (2000), em Londres, no ano de 1822 foi feita a primeira
concessão para transporte de lixo urbano, da cidade para áreas definidas no campo,

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 35


sendo permitido ao coletor apropriar-se dos bens que nele se encontrasse. O mesmo
autor registra que, já no ano de 1819, era corrente a profissão de “coletores do rio”,
onde indivíduos faziam a recuperação de objetos levados pela corrente do Tamisa,
local preferencial de despejo do lixo urbano.
Esta prática, simples acúmulo em locais definidos, dava conta das necessidades
urbanas e era comum até iniciar-se a chamada Revolução Industrial, no Século XVIII.
Neste momento o volume de produção, bem como as alternativas de combinação de
elementos decorrentes do desenvolvimento da físico-química, alterou para sempre o
padrão de emissão de resíduos e a capacidade do solo de absorvê-los.
Segundo Bisio e Xanthos (1995), a descoberta dos catalisadores no início dos
anos 1950 proporcionou uma proliferação de materiais plásticos versáteis, tornando-
os os elementos principais do desenvolvimento da indústria química atual. Por terem
baixo custo de produção e serem quimicamente inertes, são utilizados prioritariamente
em embalagens e como componentes de diferentes objetos de consumo. Segundo Mano,
Pacheco e Bonelli (2005), a produção mundial de polímeros, em 2004, ultrapassava
200 milhões de toneladas de material bruto que, após processadas nas indústrias de
bens de consumo final e utilizadas pela sociedade, acabam descartados no ambiente.
Esta capacidade crescente de geração de novos produtos, combinada com o cresci-
mento populacional e a urbanização, acaba por provocar, nas palavras de Ab’saber (1999),
uma verdadeira avalanche de geração de resíduos, que é, juntamente com o abasteci-
mento de água, o mais sério problema de gerenciamento urbano dos tempos modernos.
O mesmo autor chama a atenção para a urgência de estudos sobre o que denomi-
nou “metabolismo urbano”, afirmando que as cidades assemelham-se a um organismo
vivo, onde circulam fluxos complexos de materiais e energia, todos relacionados a
processos culturais e econômicos, onde a cada entrada corresponde uma descarga de
resíduos sólidos, líquidos ou gasosos. Referindo que as condições de cada centro ur-
bano são profundamente afetadas e definidas por diversas condições, entre elas a geo-
logia e a fisionomia da paisagem, a hidrologia e os conceitos culturais que presidiram
a ocupação do terreno, acrescenta que, tanto quanto estas, as condições de estrutura,
tamanho e funcionalidade do organismo urbano, são responsáveis por seu metabolis-
mo. Reiterando que cada centro urbano é um caso diferente de outro, por conta destas
condições, lembra que estudos comparados podem e devem ser estimulados, pois pro-
blemas específicos de um podem contribuir para a solução de dificuldades semelhan-
tes em outro centro. Finaliza, afirmando que “estudos de metabolismo urbano, por
tudo isso, interessam profundamente às prefeituras municipais” (AB’SABER, 1999).
A mesma preocupação é revelada por Machado e Moraes (2004) ao afirmarem
que estudos desta natureza, que revelem as condições de geração de resíduos sólidos,
líquidos ou gasosos e suas alternativas de tratamento ou disposição são importantes
tanto para a comunidade científica como para as administrações municipais. Lembram
os autores que, tendo a ciência demonstrado à estreita relação entre o meio ambiente e
a qualidade de vida, cabe aos administradores públicos utilizarem estas descobertas e
tecnologias para melhor desempenharem suas tarefas.

36 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


Estudos desta natureza, na área do gerenciamento urbano, especialmente no que
concerne aos resíduos sólidos, têm encontrado inestimável auxílio na Teoria Geral dos
Sistemas. Esta Teoria, proposta por Bertalanffy (1975), possui conceitos que obrigam
a compreensão integrada de diversas ciências e técnicas administrativas e operacionais,
na concepção do processo de gestão dos Sistemas de Resíduos Sólidos. A teoria afirma
que os sistemas devem ser analisados universalmente, evidenciando as
interdependências de suas partes. O aproveitamento econômico dos resíduos se insere
num sistema, qual sejam o sistema de coleta, triagem, classificação e comercialização
para reciclagem.
Em igual sentido Griffith e Berdague (2006) contribuem ao afirmaram que é
necessário alterar a visão tradicional dos profissionais de diversas áreas científicas,
acostumados a enxergarem a degradação ambiental como um leque de vertentes dis-
persa. Afirmando que a tendência de cada especialista, de trabalhar em um campo
técnico restrito, tem dificultado o entendimento tanto das causas da poluição como de
suas possíveis soluções, advogam a tese de que a causa primária da degradação
ambiental é a cidade, ou o meio urbano, num sentido amplo. Insistem que todo o tipo
de degradação ambiental é gerado para atender as necessidades urbanas, concluindo
pela urgência em estudos integrados que permitam a cidade viver com menor consu-
mo de recursos e menor geração de resíduos.
Analisando este problema dos resíduos sólidos, Naime e Garcia (2004) regis-
tram que no decorrer dos tempos a solução tradicional das mais diversas comunidades
urbanas foi o acúmulo dos resíduos, após coletados de diversas formas, em terrenos
especialmente destinados a tal depósito. A regra geral sempre foi a absoluta ausência
de estudos técnicos para esta escolha, seguida, evidentemente, por completa falta de
monitoramento das possíveis conseqüências. Estes locais receberam a denominação
de “lixões”, por retratarem a mistura absoluta dos diversos resíduos gerados pela soci-
edade. O chorume, líquido decorrente da decomposição das substâncias lançadas ao
lixo, afeta as reservas de água, tanto superficiais e subterrâneas, bem como a solo
circunvizinho.
Neste sentido, Naime (2005) afirma que o principal risco ambiental decorrente
da decomposição dos resíduos é sua capacidade de lixiviação, ou seja, a operação de
separação de substâncias por meio de lavagem, com sais dissolvidos em água. Por sua
vez, Almeida (2005) alerta que este processo de lixiviação dos resíduos sólidos é ao
lado do lançamento de esgotos in natura, a principal causa da proliferação na água de
substâncias capazes de interferir com o sistema hormonal de homens e animais. Desta
forma o lançamento irresponsável de resíduos no meio físico promove sua contamina-
ção, ás vezes de forma irreversível.
Incisivo, Monteiro (2001) denominou a prática de disporem-se os resíduos
sólidos em lixões ou vazadouros, de procedimentos primitivos e irresponsáveis, pe-
los perigos fáticos e potenciais ao ambiente e á saúde humana, reivindicando dos
poderes públicos uma tomada de posição, afirmando que o conhecimento científico
e tecnológico atual oferece alternativas adequadas a esta questão. Ainda assim, os

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 37


dados da última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (IBGE, 2000), indicam
que, em 1999, 20,82% dos resíduos sólidos coletados no Brasil, equivalentes a 34.399
t/dia, são assim dispostos.
O conhecimento dos danos causados ao meio ambiente por tais procedimentos
exigiu o desenvolvimento de diversos processos de resolução desta problemática dos
resíduos sólidos, tanto na área de gestão dos sistemas como na área de engenharia de
disposição e tratamento dos mesmos. Os conceitos de gestão passam a defender a
coleta sistemática dos resíduos gerados nas áreas urbanas e estimulam alternativas no
campo da engenharia sanitária para a coleta, tratamento e disposição de resíduos. Es-
tes processos de engenharia são, cada um a seu tempo e sob determinadas condições,
eficientes no controle dos danos reais e potenciais da geração de resíduos.
O primeiro modelo de disposição de resíduos a ser desenvolvido sob esta ótica
foi o aterro controlado, uma evolução do primeiro tipo de depósito, e caracteriza-se
por adotar um envolvimento tecnológico singelo em seu planejamento e operação. A
principal medida de sua concepção é a localização afastada da área urbana e o
recobrimento periódico dos resíduos com uma camada de solo, evitando o desenvolvi-
mento da fauna sinantrópica associada, tais como moscas, mosquitos, baratas, ratos,
urubus (NAIME e GARCIA, 2004).
A evolução deste modelo foi o aterro sanitário, uma obra de engenharia com-
plexa e dependente de planejamento, execução e operação criteriosos. Na descrição
de Mano, Pacheco e Bonelli (2005), um aterro sanitário consiste em um local de
processamento dos resíduos sólidos onde se promove o confinamento destes em
camadas ou células devidamente compactadas e revestidas com material inerte e de
baixa permeabilidade, neles gerando reações físico-químicas diversas, que fazem a
decomposição dos resíduos, gerando calor, gás, e chorume. Este chorume é a água
combinada com gorduras, ácidos e diversos componentes lixiviados, formando um
composto extremamente poluente, que necessita de tratamento específico em insta-
lações apropriadas.
Por sua vez, Hynd, Grace e Dodd (2004), ao estudar os aspectos físicos e quími-
cos do chorume e o comportamento geológico de diversos aterros sanitários, defen-
dem a adaptação destas instalações para a captura e utilização do gás metano. Os
autores são incisivos ao afirmarem que a eventual falta de benefício econômico desta
adaptação será compensada pelos benefícios ambientais à camada de ozônio e de se-
gurança física aos trabalhadores.
Outra forma de destino final é o co-processamento. É um método caro e circuns-
crito à eliminação de resíduos perigosos, especialmente pela segurança do processo,
sendo definido por Naime e Garcia (2004), como [...] a destinação final dos resíduos
para queima, junto com outros materiais combustíveis ou alimentadores de fornos de
cimento.
Já a compostagem, muito utilizada no meio rural para decomposição e aprovei-
tamento de esterco animal e restos culturais, é uma alternativa para a porção orgânica

38 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


dos resíduos urbanos. Segundo Guimarães (2000), é uma prática que deve levar em
consideração a disponibilidade de terreno apropriado, técnicas de arejamento e
revolvimento da massa orgânica e as condições gerais de clima, incluindo insolação e
o regime de chuvas. O composto gerado tem utilização prioritária na recomposição de
terrenos degradados e pode contribuir para a melhoria de diversos cultivares.
Outra alternativa de tratamento dos resíduos sólidos é a recuperação de energia
mediante a utilização dos rejeitos na alimentação de fornos geradores de vapor e ener-
gia elétrica. É um método dispendioso que somente se viabiliza quando comparado
aos custos de aquisição de outras formas de energia, sempre combinadas com a pouca
disponibilidade de locais para depósito dos resíduos.
Outro fator a aumentar o custo destas instalações é a necessidade de utilização
de filtros adequados, que evitem o lançamento de dioxinas e furanos na atmosfera.
Estas substâncias, derivadas da queima de matérias oriundas da transformação de
hidrocarbonetos, têm características cancerígenas. Tais combinações de exigências
explicam o fato de que instalações deste tipo são encontradas apenas na Europa e
Japão, onde a combinação de necessidade de geração de energia, pouca disponibilida-
de de áreas para aterros e o desenvolvimento tecnológico na área de filtros atmosféri-
cos permitem seu uso (NAIME e GARCIA, 2004).

4 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS EM TAQUARA


Desde os anos 20 o município de Taquara mantém atividades públicas no campo
da higiene e limpeza, tendo iniciado com o sistema de coleta e tratamento de esgotos
domésticos. Este sistema consistia na utilização de “cubos” ou “cabungos”, recipien-
tes de madeira ou louça, com capacidade de 100 litros, onde era coletada a matéria
fecal e urina gerada nos domicílios e transportada ao local de despejo. Este local era
um banhado, às margens do rio dos Sinos, onde os cubos eram esvaziados na água,
limpos e higienizados, voltando aos domicílios urbanos, em operações semanais.
No ano de 1936, como informa o Relatório de Atividades do Intendente Munici-
pal de Taquara, RS (1936), foram construídos dois leitos de secagem da matéria fecal
que, após este processo, era enterrado. Igualmente informa este Relatório que, neste
mesmo ano, a Municipalidade passou a tomar providências administrativas a respeito
dos resíduos sólidos gerados por seus habitantes. Nesta ocasião foi organizado um
serviço público de recolhimento domiciliar de resíduos sólidos, atendendo aos mora-
dores da zona urbana, bem como ao comércio e indústria ali instalados. Este serviço,
operado por funcionários da Prefeitura Municipal, conduzindo carroças tracionadas
por mulas, recolhia os resíduos domésticos e empresariais em cada domicílio e os
conduzia ao local de despejo.
Pela semelhança de destino, despejo de material repugnante, mal cheiroso ou
apenas incômodo e inservível, a municipalidade passou a despejar os resíduos sólidos
no mesmo sítio às margens do rio dos Sinos. Por décadas este serviço continuou a ser

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 39


feito e sempre depositado no mesmo lugar. O depósito ocupa uma área de aproxima-
damente 1,40 ha, com uma altura de 5m em relação ao nível do solo, estando limitado
a leste por residências, ao norte e a oeste, por um córrego e ao sul com o banhado do
rio dos Sinos, para onde se dirige o fluxo do lençol freático.
No final da década de 1960, o entorno deste local de despejo, popularmente
conhecido como “Lixão da Empresa”, já contava com perto de 2.000 moradores, sen-
do consagrado como bairro, que adotou o nome de Empresa, derivado de uma indús-
tria de tijolos local. Neste local, acumulou-se uma grande quantidade de resíduos sóli-
dos, foco de proliferação da fauna sinantrópica e fonte permanente de doenças e con-
flitos sociais, especialmente pela sua exploração econômica.
Os moradores originais dividiam-se entre funcionários municipais, ocupantes de
terrenos públicos, e outros de pequena renda e qualificação profissional, sendo comum
entre eles a criação de porcos. O despejo foi caracterizando-se como fonte de alimento
para estes animais. Além disso, moradores locais sempre utilizaram este depósito como
fonte de recuperação de materiais aproveitáveis, seja para uso próprio seja para
comercialização. Mais grave, porém, era o uso permanente dos resíduos orgânicos para
alimentação de suínos, havendo relatos de tradição oral com seu uso até em alimentação
humana. Estas criações de suínos eram potencialmente prejudiciais à saúde da popula-
ção, pois estes animais eram destinados ao comércio clandestino de carne e derivados.
O próprio trabalho de pessoas no local era outra fonte de perigo à saúde pública,
pelo risco de contaminação e acidentes. Depoimentos veiculados ao longo do tempo
na imprensa local, de entidades e pessoas que trabalhavam com serviços sociais, infor-
mavam que a freqüência de crianças e adolescentes no local era corriqueira, tanto
durante o dia quanto à noite, dependendo dos horários de chegada dos caminhões.
Com o passar do tempo, por efeito das migrações internas que caracterizaram a
economia gaúcha nos anos 70 e 80, aumentou sobremodo a ocupação humana no
entorno. O bairro Empresa crescia e juntamente com este crescimento surgiram fato-
res de desagregação socioeconômica, o desemprego e o subemprego. Sem alternativas
melhores, parte desta população passou a ampliar a busca, no monte de despejo, de
materiais passíveis de serem comercializados ou aproveitados domesticamente.
Conforme se ampliavam as alternativas tecnológicas da indústria gaúcha, com
novas opções de bens de consumo, maiores restos afluíam ao despejo. Ao mesmo
tempo esta mesma indústria abria opções de reaproveitamento de materiais, numa bus-
ca permanente de matéria-prima a baixo custo. Este movimento duplo, por um lado
um “circulo vicioso”, de geração de utilidades e aumento do despejo e, por outro lado
um “circulo virtuoso”, de ganhos ambientais, energéticos e de preservação dos esto-
ques naturais, cada vez mais consolidou o “Lixão da Empresa”.
Envolvida nesta situação, a municipalidade manteve-se sempre na posição de
apenas recolher os resíduos e ali depositá-los, acolhendo como natural o garimpo de
recicláveis. Assim foi até os anos 1990, quando a conscientização da sociedade, deri-
vada do maior conhecimento científico e tecnológico, passou a exigir mudanças nesta

40 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


situação. As reivindicações sociais daquele período focaram então nos evidentes pre-
juízos ambientais e sociais ocasionados pela disposição inadequada dos resíduos sóli-
dos. Os prejuízos ambientais decorrentes são a contaminações do solo, do ar e da água.
Conforme Naime (2005), a atividade química natural propicia a formação de
chorume e o desenvolvimento e a produção de bactérias, vírus e de um ambiente
microbiológico fértil. Estes fatores são atrativos e sustendo da chamada fauna
sinantrópica, onde se sobressaem os ratos, as baratas e os urubus, gerando um desafio
permanente para a manutenção da vida em condições de saúde e higidez. A Figura 1
mostra a distribuição espacial do município de Taquara, destacando-se a área do “Lixão
do Bairro Empresa”, na parte inferior, às margens do Rio dos Sinos.

FIGURA 1 – Foto Aérea de Taquara, RS.


Fonte: Google Earth, adaptada.

A geração de odores e gases afeta a vida das populações próximas enquanto a


produção de chorume atinge o lençol freático e as águas superficiais do entorno, oca-
sionando danos ao meio biológico. É importante ressaltar que as águas superficiais são
as do Rio dos Sinos, fonte regional de abastecimento de água.
Os outros prejuízos, no campo das relações sociais, foram aqueles decorrentes
da condição degradante em que se encontrava parte daquela população do Bairro.
Aqueles que “viviam do lixo”, convivendo com a fauna sinantrópica, debilitados na
saúde, reproduziam nas moradias o ambiente insalubre e perigoso, pois a renda deri-
vada do lixo não permitia condições de emancipação social.
Pressionada pela comunidade, pelos Órgãos Ambientais e pelo Ministério Públi-
co, a Prefeitura Municipal de Taquara foi forçada a enfrentar uma solução que
viabilizasse a supressão do depósito e solucionasse a disposição dos resíduos adequa-
damente. Assim, a Prefeitura Municipal adotou algumas atitudes, sendo a primeira o
fechamento do “Lixão da Empresa”. Este fechamento, que implicou no cercamento da

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 41


área e a proibição de novos depósitos, forçaram o deslocamento de ações do grupo que
explorava o garimpo de material no local, dividindo-o em dois.

5 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA
Na pesquisa, foram identificados 17 indivíduos envolvidos nesta atividade de co-
leta de recicláveis, atuando na cidade. Entre os meses de outubro de 2005 e março de
2006, 16 deles responderam a um questionário aberto, fornecendo informações sobre
seu trabalho, motivação, renda e origem. Nesta ocasião foi abandonada outra tentativa
de contato. Assim admite-se que os informantes representam a totalidade do universo
pesquisado.
Registradas as respostas correspondentes, procurou-se também conhecer a opi-
nião destes indivíduos sobre possíveis medidas, pública ou privadas, que poderiam
melhorar seu trabalho ou o rendimento dele. O resultado das entrevistas, extremamen-
te rico em informações de caráter social e econômico, forneceu os dados descritos na
seqüência.
Com exceção de um, que declarou morar na zona rural, todos os demais entre-
vistados residem na periferia de Taquara, a maioria no entorno do “lixão da Empresa”.
Esta constatação além de consagrar as origens do processo de catação na cidade, pode
fornecer subsídios para políticas públicas efetivas voltadas a este grupamento huma-
no. A concentração espacial de suas moradias favorece a aplicação de medidas gerais.
Quanto à idade dos entrevistados, dois deles são menores de idade e declara-
ram realizar este serviço para “ajudar em casa”. Este fato confirma as diversas afir-
mações, adiante explicitadas, de transitoriedade do trabalho de catação. Confirmam
ainda parte da realidade social onde os desempregados, à medida que avançam na
idade, encontram dificuldades crescentes de emprego formal. Na Figura 2, a idade
dos catadores.

FIGURA 2 – Distribuição por Idade dos Catadores de Taquara,RS.

42 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


No que diz respeito ao sexo dos catadores, doze são homens e quatro mulheres.
Uma das entrevistas foi feita com o casal que trabalha junto, ele tracionando o carri-
nho e ela fazendo a catação. As outras três mulheres trabalham acompanhadas de fi-
lhos, sempre menores de 10 anos, um deles bebê. Estas crianças, ou andam no carri-
nho, ou auxiliam a catação. Em um dos casos, uma menina de oito anos tinha como
tarefa cuidar de um bebê de 10 meses.
Esta situação reproduz o observado em outros estudos feitos na Região Metro-
politana de Porto Alegre onde, segundo Martins (2004), predominam os homens nos
serviços de coleta. As mulheres são maioria, porém, nos galpões de reciclagem. Se-
gundo a autora, estes trabalhadores constroem esta diferenciação de tarefas ao atribu-
írem para determinados trabalhos a feição “masculina”, e para outros trabalhos o cará-
ter de “feminino”.
Este tipo de diferenciação de tarefas não existe, segundo a autora, apenas entre
os trabalhadores desta área, mas acontece de modo geral, entre todas as categorias de
trabalho pouco consideradas pela sociedade. É, portanto, mais um desafio que se im-
põe à sociedade, como fazer representar a necessidade deste trabalho e não promover
a discriminação entre seus trabalhadores. A Figura 3 que lhe corresponde, informa a
distribuição por sexo destes catadores.

FIGURA 3 – Distribuição por Sexo dos Catadores de Taquara, RS.

Apenas quatro dos entrevistados são naturais de Taquara, sendo a maioria, onze
deles, oriundos de outros pontos do estado. Todos estes são da Região Norte do Rio
Grande do Sul, do eixo Santa Rosa – Palmeira das Missões – Erechim, não por acaso,
a zona emissora de migrantes para a região calçadista nas décadas de 70 e 80. Um
entrevistado é oriundo do estado do Paraná. A Figura 4 informa a origem do universo
dos catadores entrevistados em Taquara.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 43


FIGURA 4 – Distribuição por Origem dos Catadores de Taquara, RS.

Na análise das respostas quanto ao tempo de residência em Taquara, a aparente


contradição entre origem e tempo de moradia encontrou explicação no fato de que, à
procura de emprego, estes indivíduos freqüentemente mudam de cidade, havendo um
deles que afirmou já haver morado em 18 cidades diferentes. Em média, ocorre a
concentração de tempo de residência entre 2 e 3 anos, afirmada pela metade dos entre-
vistados, conforme ilustra a Figura 5.

FIGURA 5 – Tempo de residência em Taquara, RS, em anos, dos catadores.

De outra forma, reafirmando a transitoriedade do trabalho de catador, 10 dos entre-


vistados afirmaram possuir outro emprego ou trabalho. A maioria faz “biscates”, cortan-
do grama, fazendo capina, trabalhando como serventes em construções e outras tarefas
temporárias. Três deles, porém, tem emprego formal, dois como vigia e um como pedrei-
ro, mas fazem da catação de recicláveis complementos de renda. Os outros seis que não
possuem outra atividade declararam que gostariam de ter outra fonte de renda, inclusive

44 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


os menores. Justificam a situação atual alegando falta de emprego disponível ou de
condições pessoais para empregar-se, tal como o cuidado com crianças.
A Figura 6 ilustra esta condição de trabalho.

FIGURA 6 – Catadores de Taquara, RS, com outro emprego ou trabalho.

Quanto ao tempo de trabalho com resíduos sólidos, a metade dos entrevistados


atua entre dois e três anos. Os dois catadores menores de idade fazem este trabalho a
menos de um ano, assim como uma das mulheres. Somente um declarou ter esta ativi-
dade a mais de cinco anos, afirmando serem doze anos de trabalho. Estas afirmativas
também reforçam o sentido de transitoriedade que os entrevistados, em sua maioria,
dão à atividade. “Enquanto não consigo algo melhor”, é frase corrente e justificada
por ser trabalho desgastante fisicamente, e pouco remunerador. O gráfico da Figura 7
informa o tempo declarado na atividade pelos catadores.

FIGURA 7 – Tempo de trabalho em anos com resíduos sólidos dos catadores de Taquara, RS.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 45


Consultados sobre a freqüência de vendas, os entrevistados distribuíram-se de
modo interessante. Os dois menores de idade vendem todos os dias, “para ajudar em
casa”, dizem, sem esquecer a compra de doces ou refrigerantes para seu próprio con-
sumo. Uma das mulheres, a que trabalha com a filha e o bebê, informou que vende a
cada dois dias. “Precisa para comer”, justificou. Os demais se organizaram para me-
lhor remuneração. Vendendo em quantidades maiores podem barganhar melhor preço.
Esta é a justificativa daqueles quatro catadores que fazem venda mensal. Não por
acaso, três deles são os que possuem trabalho formal e renda certa. A metade dos
catadores vende uma vez por semana, sempre ás sextas feiras, e utiliza a renda no
mercado, para a compra de gêneros. Os outros três catadores, que declararam vender a
cada duas semanas, o fazem por compromissos de amizade com um dos compradores
de sucata. Este vem periodicamente do município vizinho, Parobé, trazendo no cami-
nhão uma balança, pagando à vista. A freqüência de venda declarada é informada na
Figura 8.

FIGURA 8 – Freqüência de venda de material pelos catadores de Taquara, RS.

Quanto ao meio de transporte utilizado, chama a atenção o catador que faz seu
trabalho a pé. É o que há mais tempo atua na atividade, percorrendo a cidade, especi-
almente à noite, com uma grande sacola de ráfia. Disse que não consegue, “por culpa
da bebida”, juntar dinheiro para comprar um carrinho ou carroça. Os demais ou
tracionam carrinho, feito de ferro e rodados de bicicleta, caso de cinco deles, ou peda-
lam bicicletas acopladas a carrinhos, enquanto outros quatro possuem carroças e cava-
los. Os carrinhos sempre são de construção artesanal, pesados e precários quanto à
segurança e comodidade de uso. Relataram os catadores que possuem bicicletas
acopladas a carrinhos que, após iniciarem com o uso deste equipamento, sua produti-
vidade aumentou sensivelmente, diminuindo o cansaço decorrente do trabalho. A Fi-
gura 9 exibe os diferentes meios de transporte utilizados pelos catadores.

46 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


FIGURA 9 – Meios de transporte utilizados pelos catadores de Taquara, RS.

Novamente o resultado da relativa capacitação ou “visão do negócio”: os pos-


suidores de carroça e cavalo são os que têm outra renda certa, por meio de emprego.
Mas, de modo surpreendente, quando questionados sobre a renda auferida com a ativi-
dade, declararam melhor nível de rendimento os que tracionam, com bicicleta, os car-
rinhos. Afirmaram que o carrinho carrega mais e não precisam gastar alimentando o
cavalo. Outra possível explicação, não confirmada nas entrevistas, é de que aqueles
possuidores das carroças, por terem emprego, não dispõem do mesmo tempo para o
trabalho de catação.
A renda total declarada pelo grupo entrevistado alcança a soma de R$ 3.800,00
mensais, numa média de R$ 237,50. A distribuição desta renda é demonstrada na Fi-
gura 10.

FIGURA 10 – Renda mensal declarada pelos catadores de Taquara, RS.

Não houve observação de rejeição social à atividade de catação, inclusive por


parte daqueles que exercem outra atividade ou emprego. Pelo contrário, houve unâni-

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 47


me declaração de serem bem tratados pela população em geral. Uma constatação im-
portante foi a de que os catadores não têm nenhum interesse em saber as quantidades
que coletam e comercializam. Indagados, nenhum deles demonstrou ter a menor no-
ção de quantos quilos deste ou daquele material coletam. O único interesse demonstra-
do é a renda que conseguem. Pode-se, porém, deduzir que esta renda corresponde a
algo em torno de 20 toneladas mensais de materiais desviados do sistema público e
dando sustendo a 15 famílias. Esta tonelagem é encontrada pelos preços médios infor-
mados pelos comerciantes de sucata.
A melhor informação obtida foi quanto aos materiais que coletam. Todos têm
interesse principalmente em alumínio, PET, plásticos, papel e papelão, metais e,
no fim da escala, vidro. Recusam, por não haver mercado, as embalagens de tetra
pak.
Foram identificados quatro compradores de sucata atuantes na cidade de Taquara.
A característica comum é a informalidade. Alegando que trabalham com ”lixo”, afir-
mam não necessitar registro ou licenciamento e recusaram-se a participar de entrevista
mais detalhada. Soube-se, porém, que não são emitidos recibos ou documentos de
compra e desta forma não há registro formal da renda gerada por este comércio de
sucata. Deste modo, estes indivíduos têm trabalho e renda, mas, ao não constarem das
estatísticas e registros oficiais, compromete estas, desafiando as autoridades no co-
nhecimento da realidade social.
O outro grupo de catadores é formado por pessoas que procuram aumento de
renda, tendo algum tipo de trabalho, formal ou não. Conforme informaram em entre-
vistas sumárias, seu interesse principal é por alumínio de latas de bebidas. O seu nú-
mero muito variável, conforme a observação feita nas ruas do município, e como a sua
atividade não é constante, não foram considerados nas conclusões deste trabalho. Apenas
deve-se registrar que, conforme a observação realizada, o resultado desta catação opor-
tunista é prejudicial ao ambiente urbano, pois o rompimento dos sacos de lixo e a
sujeira deixada nas calçadas e ruas favorecem o entupimento do sistema de esgoto
pluvial.

6 O SISTEMA PÚBLICO DE RESÍDUOS SÓLIDOS


A primeira constatação é de que a Lei Municipal N° 2888/2002, carece de
qualidade quanto à técnica de redação legislativa e é fonte de ineficiências de caráter
administrativo operacional. Do modo como estão fixadas as atribuições entre os
diversos órgãos municipais, as tarefas concernentes ao assunto gestão de resíduos
sólidos são diluídas e repetitivas entre dois órgãos de mesma hierarquia administra-
tiva, as Secretarias de Obras e a de Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente. Mesmo
quando são reconhecidas as atribuições de um ou outro órgão, a prática administra-
tiva é outra. Depoimentos de funcionários e dirigentes indicam que as tarefas
concernentes aos resíduos sólidos municipais são realizadas ora por um setor, ora

48 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


por outro. Esta distribuição de tarefas nasce pelas declarações de dirigentes e funci-
onários, mais da disposição de realizar cada serviço do que de um comando ou defi-
nição administrativa.
Aproveitando a nova legislação e complementando as ações de fechamento do
“Lixão da Empresa” a Prefeitura, em março de 2002, pôs em operação a Usina de
Reciclagem de Taquara, na verdade um pátio de triagem de material, Este conjunto de
instalações está situado em uma área de 23 hectares, dos quais apenas 2 são utilizados,
no km 48 da Rodovia RS 239.
Esta Usina começou a ser construída em 1997, mas até a data das observações
realizadas, ainda não havia sido concluída. Seu projeto original previa um Pátio de
Recepção, um Galpão de Separação de Recicláveis, um Pátio de Compostagem, 3
Valas de Disposição e 3 Lagoas de Tratamento, além de instalações auxiliares, como
vestiário, sanitários, refeitório e portaria. Atualmente somente a Portaria, o Pátio de
Recepção, o Galpão de Reciclagem e as Lagoas de Tratamento estão construídos, estas
sem equipamentos. Dentro do Galpão de Reciclagem localizam-se os sanitários e ves-
tiário. Porém tanto o refeitório como a cozinha, que pelas normas do Ministério do
Trabalho, deveriam estar em prédio isolado e distante dos resíduos, foram instalados
dentro do vestiário.
O Pátio de Compostagem não chegou a ser implementado, pois seu projeto não
foi aprovado pelo Órgão Ambiental, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental –
FEPAM, por conta de deficiências técnicas quanto a capacidade em metros cúbicos de
composto a tratar e inconformidades quanto a drenagem superficial e tratamento do
chorume. Pelas mesmas razões, a FEPAM também se opôs a implantação das Valas de
Disposição Final. Já as Lagoas de Tratamento foram construídas, mas igualmente por
deficiências no projeto e falta de equipamentos de bombeamento e aeração nunca
receberam licenciamento e apenas acumulam água de chuva.
A expectativa de operação, segundo este projeto, era de efetuar-se a separação
dos resíduos recicláveis, em esteira, no Galpão de Separação de Recicláveis, realizar-
se a compostagem do material orgânico e dispor em valas protegidas os resíduos res-
tantes.
Sem a possibilidade de efetuar compostagem, a Municipalidade optou por envi-
ar os resíduos não separados para comercialização, inclusive os restos orgânicos, para
disposição final no Aterro Sanitário da Central de Resíduos do Recreio – CRR, muni-
cípio de Minas do Leão, RS, a 162 km de Taquara.
Já no ano de 2005, somando-se as quantidades de material segregado e
comercializado na Usina com o montante enviado para o Aterro, encontra-se que a
produção de resíduos sólidos, domiciliares e comerciais coletados em Taquara atingi-
ram o montante de 6.524 t, numa média mensal de 543 t, conforme Quadro 1.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 49


QUADRO 1 – Produção mensal de RSU em Taquara – 2005 (t).

Pode-se afirmar, portanto, que a produção média de RSU, em Taquara, é inferior


a 550 t/mensais. Esta quantidade de resíduos sólidos indica uma produção per capita
de 0,49 kg/dia útil, quantidade compatível com outros estudos, a semelhança do de-
monstrado por SARTORI (2002), ao investigar o sistema de resíduos sólidos urbanos
de Campo Grande, MS, além do estudo de Barros (2005), relativo aos municípios de
Comercinho e Francisco Badaró em Minas Gerais.
Por outro lado, adotando-se os percentuais de material reciclável contido nos
resíduos domésticos e comerciais, conforme o estudo antes citado de Turra, Echeptare
e Kindlein junior (2005), equivalentes a 18% do volume coletado, é possível estimar o
potencial de recuperação de materiais para o município de Taquara, RS. Consideran-
do-se uma produção média mensal de 550 t, ou 6.600 t/ano, os 18% estimados de
material reciclável correspondem a 1.188 t/ano.
Admitindo-se que a composição destes recicláveis pode ser descrita como aque-
la demonstrada pelo processo de segregação realizado na Usina pela COORETAL
(Cooperativa de Resíduos de Taquara) em 2004, ano de seu melhor desempenho, po-
demos estimar a possível distribuição deste montante reciclável nas seguintes catego-
ria, expressas no Quadro 2.

50 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


QUADRO 2 – Estimativa do potencial reciclável em Taquara.

Com os preços correntes em março de 2006, é possível estimar o valor econômico


deste montante reciclável, que alcança R$ 167.138,80 como demonstrado no Quadro 3.

QUADRO 3 – Estimativa do valor do potencial reciclável em Taquara.

7 CONCLUSÕES
O arcabouço administrativo-legal norteador do sistema de gerenciamento dos
resíduos sólidos domésticos e comerciais vigorante na Prefeitura Municipal de Taquara,
RS, exige alterações. Estas alterações passam por uma profunda reforma na legislação
municipal que define a estrutura administrativa e as atribuições de alguns órgãos e
setores, eliminando a superposição de deveres e proporcionando maior fluência entre
o processo de tomada de decisão e a efetivação das medidas. É necessário ainda o
fortalecimento institucional do órgão de meio ambiente, de modo especial no que se
refere à sua capacidade de fiscalização.
Considerando-se a seqüência de ineficiências que afloram num exame sistemáti-
co das práticas de operação dos serviços de coleta e destino final dos resíduos sólidos
domésticos e domiciliares em Taquara, RS, é indispensável um “repensar” deste pro-

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 51


cesso. É inadmissível, nos tempos atuais, que a sociedade seja penalizada por um
conjunto de atitudes públicas ou privados que, atendendo a seus próprios interesses,
repassem a conta a todos os munícipes.
Por outro lado, restou comprovado que a quantidade média de resíduos sólidos
domésticos e comerciais gerados na área urbana de Taquara, RS, é de 550 t mensais, o
que exige, por conseqüência a revisão das disposições do Contrato de Prestação de
Serviços N.º 16/2006, mantido entre a municipalidade e a empresa Cone Sul Soluções
Ambientais Ltda., readequando-se as quantidades e os serviços a serem realizados, o
que proporcionará uma economia anual de R$ 672.000,00 aos cofres públicos.
Já quanto ao potencial econômico dos recicláveis contidos nos resíduos sólidos
urbanos domésticos e comerciais de Taquara, RS, seu valor situa-se na faixa de R$
168.000,00/ano, adotados os preços correntes em março de 2006. Este potencial
corresponde a 40 salários mínimos mensais, o que permitiria resgatar da marginalidade
econômica e social igual número de famílias. Estes mesmos materiais recicláveis, en-
contrando seu destino adequado de matéria-prima industrial, contribuirão de maneira
sensível para a qualidade ambiental do município, evitando-se seu descarte em lugares
inapropriados e o consumo desnecessário de reservas naturais.
O exame de experiências consagradas em outros lugares, do Brasil e do mundo,
conforme a bibliografia revisada, devidamente adaptada á realidade local permitirá
promover a economia de recursos públicos, ampliar localmente a oferta de matéria
prima para uso industrial, promover a inclusão social e econômica de indivíduos hoje
postos á margem da sociedade, além de assegurar mais qualidade ambiental para o
município.
Neste sentido, é oportuno lembrar que somente poderá haver efetiva qualidade
ambiental em nossas cidades mediante o estudo e implantação de Planos de Gestão de
Resíduos Sólidos, contemplando desde a etapa de geração até a disposição final. Estes
Planos necessitam, porém de decisão política visando a minimização da geração de
resíduos e estarem adaptados aos condicionantes sociais de cada comunidade. Numa
condição de desemprego e falta de qualificação profissional como a época atual no
município de Taquara, a busca por alternativas de renda, por via da catação e
comercialização de materiais recicláveis deve ser entendida não como uma simples
opção de sobrevivência, mas essencialmente como uma oportunidade ambiental para
os catadores. Sua qualificação e de seu trabalho como contribuintes do meio ambiente
saudável e preservado é uma alternativa eficiente.
É recomendável o prosseguimento de estudos assemelhados nos outros municí-
pios do Vale do Paranhana, onde se localizam, além de Taquara, os municípios de
Parobé, Igrejinha e Três Coroas, todos emancipados daquele e possuidores de caracte-
rísticas socioeconômicas semelhantes. Estes estudos poderão indicar caminhos co-
muns na busca de qualidade ambiental, aproveitando-se as sinergias das semelhanças.
Neste sentido a manifestação de Alves (2004), merece estudo e, eventualmente acolhi-
da. Afirma o autor que nenhuma legislação existente no Brasil, em qualquer nível de

52 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


governo, impede o compartilhamento de soluções para a questão de gerenciamento
dos resíduos sólidos gerados nos cidades. A formação de consórcio ou alternativas de
solução compartilhada permitirão realizar estas atividades com economia de meios.

AGRADECIMENTOS
Agradecimentos ao Centro Universitário FEEVALE pelas excelentes condições
de trabalho do Mestrado em Qualidade Ambiental.

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Recebido em: 14/8/07 Aceito em: 29/10/07

54 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


O chumbo e os minerais associados

Paulo César Pereira das Neves


Flávia Schenato

RESUMO
O chumbo é um elemento químico, que pode cristalizar como um sólido natural com
estrutura cristalina estável, e que apresenta uma distribuição geoquímica de 13 mg/kg na cros-
ta terrestre. Por isso, ocupa o 23° lugar, em abundância, entre os elementos traço, sendo com-
ponente do Grupo 14 da Tabela de Atomicidade dos Elementos Químicos. Entre os elementos
traço, somente o flúor, o estrôncio, o enxofre, o carbono, o zircônio, o vanádio, o cloro, o
crômio, o rubídio, o níquel, o zinco, o césio, o cobre, o ítrio, o lantânio, o neodímio, o cobalto,
o escândio, o nióbio, o lítio, o nitrogênio e o gálio, apresentam distribuição geoquímica maior.
Embora apresente baixa reatividade química, sua representatividade é relativamente alta na
constituição dos minerais. Os principais minerais-fonte de chumbo, para a indústria, são a
galena, cerussita, piromorfita, vanadinita, boulangerita, bournonita, jamesonita, anglesita,
crocoíta e a wulfenita. Neste trabalho é apresentada uma sinopse dos minerais em que o chum-
bo está presente (399 substâncias descritas até o ano de 2007), consistindo em uma contribui-
ção à divulgação do conhecimento destes compostos.
Palavras-chave: Chumbo. Minerais de chumbo. Abundância natural do chumbo.

The lead and the associated minerals

ABSTRACT
Lead is a chemical element that crystallized as natural solid with crystalline stable
structure and exhibits a crustal abundance of 13 mg/kg. It takes the 23rd place in abundance
among the trace elements. The lead belongs to Group 14 of the Atomicity Table of Chemical
Elements. Among the trace elements only fluorine, strontium, sulfur, carbon, zirconium,
vanadium, chlorine, chromium, rubidium, nickel, zinc, cesium, copper, yttrium, lanthanium,
neodymium, cobalt, scandium, niobium, lithium, nitrogen and gallium present higher
geochemical distribution. In spite of its lower chemical reactivity, the metal is presents in the
chemical composition of expressive quantities of the mineral species. The principal lead-bearing
minerals for industrial uses are galena, cerussite, pyromorphyte, vanadinite, boulangerite,
bournonite, jamesonite, anglesite, crocoite, and wulfenite. This paper is a review of minerals
content lead (399 substances described until 2007) as a contribution to the scientific knowledge
of these substances.
Key words: Lead. Lead-bearing minerals. Lead abundance.

Paulo César Pereira das Neves é prof. Dr. Curso de Química. Lab. de Geologia e Mineralogia, ULBRA Cano-
as. E-mail: nevespc@yahoo.com.br
Flávia Schenato é profa. Dra. Curso de Engenharia Ambiental. Curso de Pós-Graduação em Engenharia:
Energia, Ambiente e Materiais.

Technología Canoas v.8 n.1 p. 55-73 jan./jun. 2007


Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 55
1 INTRODUÇÃO
Este artigo é uma continuidade aos trabalhos descritivos sobre a mineralogia
associada aos elementos da Tabela de Atomicidade dos Elementos Químicos. Já foram
publicados os elementos do Grupo 11 (Cu-Au-Ag) (NEVES et al., 2005; Neves et al.,
2006; IONESCU et al., 2007). O chumbo (derivado do Latim plumbum) é um elemento
medianamente representativo entre os elementos traço, com distribuição geoquímica
de 13 mg/kg na crosta terrestre. Os elementos traço mais abundantes do que ele são o
flúor, o estrôncio, o enxofre, o carbono, o zircônio, o vanádio, o cloro, o crômio, o
rubídio, o níquel, o zinco, o césio, o cobre, o ítrio, o lantânio, o neodímio, o cobalto, o
escândio, o nióbio, o lítio, o nitrogênio e o gálio. Mesmo não apresentando uma alta
reatividade química, o chumbo consegue se combinar com uma grande quantidade de
elementos químicos, distribuindo-se, em conseqüência, nos mais variados ambientes
geológicos. Assim, encontra-se presente na composição química de uma grande
variedade de minerais. Até 2004, 385 substâncias que contêm chumbo em suas
composições químicas foram validadas pela IMA – International Mineralogical
Association (MANDARINO & BACK, 2004). Quatorze novas substâncias validadas
não constam em MANDARINO & BACK (2004): schlemaíta (FÖSTER et al., 2003),
emilita e paarita (JAMBOR & ROBERTS, 2004), gramaccioliíta-(Y) (ORLANDI et
al., 2004a), pellouxita (ORLANDI et al., 2004b), mazzettiíta (LUCA & CIPRIANI,
2004), museumita (BINDI & CIPRIANI, 2004), kudriavita (CHAPLYGIN et al., 2005),
vurroíta (GARAVELLI et al., 2005), salzburguita (TOPA et al., 2005), rouxelita
(ORLANDI et al., 2005), plumboagardita (WALENTA & THEYE, 2005), challacolloíta
(SCHLÜTER et al., 2005) e alocalcoselita (SCOTT ERCIT et al., 2006). Determinadas
substâncias, como a fosfowalpurguita (Bi4(UO2)(PO4)O4.2H2O) e a quetzalcoatlite
Zn8Cu4(TeO3)3(OH)18, por exemplo, embora tenham uma pequena porcentagem de Pb
(cerca de 0,15 %), em suas composições químicas, não são consideradas como minerais
de chumbo, pois o elemento não aparece em suas fórmulas simplificadas (FLEISCHER,
1974; SEJCORA et al., 2004).
O chumbo é o mais metálico dos elementos do Grupo 14 da Tabela de Atomicidade
dos Elementos Químicos, o que está de acordo com a tendência de aumento do caráter
metálico conforme se decresce nos grupos. Seus números de oxidação são o 2+ e o 4+
(este último mais raro). Quando puro é um metal mole e tóxico, com baixo ponto de
fusão e cristaliza na forma de cristais cúbicos de face centrada. Apresenta brilho metálico
e cor branco-azulada, que oxida rapidamente quando exposto aos agentes atmosféricos,
escurecendo para tons de cinza-escuro. Seus principais usos industriais são na fabricação
de aditivo na gasolina, acumuladores, projéteis, proteção contra Raios X e ligas
metálicas, além de zarcão e secantes de tintas (LEE, 2003).
Os minerais-fonte de chumbo mais importantes são a galena, cerussita, anglesita,
piromorfita, boulangerita, bournonita, vanadinita, jamesonita, crocoíta e wulfenita. A
maior parte dos compostos de Pb forma a classe dos sulfossais (114 espécies), além de
óxidos (68 espécies), sulfetos (36 espécies), silicatos (33 espécies), halogenetos (32
espécies), arsenatos (31 espécies), sulfatos (26 espécies), fosfatos (17 espécies),

56 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


vanadatos (14 espécies), carbonatos (11 espécies), cromatos (07 espécies), elementos
– metais e ligas intermetálicas (07 espécies), tungstatos (wolframatos) (02 espécies) e
molibdatos (02 espécies).

2 MINERAIS EM QUE O CHUMBO OCORRE E SUA


SISTEMÁTICA
Este trabalho tem como objetivo a divulgação científica das espécies minerais
que contêm chumbo, com informações sobre o teor presente em suas composições
químicas e os sistemas cristalinos nos quais cristalizam. Observa-se que são informações
que, geralmente, encontram-se dispersas em bibliografia especializada. Também é
abordada a nomenclatura química mais atual destes compostos, seguindo o Sistema de
Classes de STRUNZ (STRUNZ & NICKEL, 1999). Propriedades geométricas,
cristalográficas, óticas e ocorrências geológicas das substâncias, podem ser obtidas no
Site: www.webmineral.com/data/...shtml.

2.1 Sistemática
a) I – ELEMENTOS (Metais e Ligas Intermetálicas)
1. Amálgama de chumbo HgPb2 – Sistema Tetragonal (67,38% Pb).
2. Anyuiíta Au(Pb,Sb)2 – Sistema Tetragonal (54,66% Pb).
3. Bogdanovita (Au,TePb)3(CuFe) – Sistema Cúbico (34,96% Pb).
4. Chumbo nativo Pb – Sistema Cúbico (100% Pb).
5. Hunchunita Au2Pb – Sistema Cúbico (37,23% Pb).
6. Plumbopaladinita Pd3Pb2 – Sistema Hexagonal (56,48% Pb).
7. Zvyagintsevita (Pd,Pt,Au)3(Pb,Sn) – Sistema cúbico (29,26% Pb).

b) II – SULFETOS, SULFOSSAIS
b1) Sulfetos
1. Altaíta PbTe – Sistema Cúbico (61,89% Pb).
2. Betekhtinita Cu10(Fe,Pb)S6 – Sistema Ortorrômbico (6,73% Pb).
3. Bezsmertnovita Au4Cu(Te,Pb) – Sistema Ortorrômbico (6,20% Pb).
4. Bilibinskita Au5Cu3(Te,Pb)5 – Sistema Cúbico (17,55% Pb).
5. Borishanskiíta Pd1-x(As,Pb)2 (x = 0-0,2) – Sistema Ortorrômbico (31,11% Pb).
6. Buckhornita AuPb2BiTe2S3 – Sistema Ortorrômbico (35,37% Pb).
7. Clausthalita PbSe – Sistema Cúbico (72,41%).
8. Furutobeíta (Cu,Ag)6PbS4 – Sistema Monoclínico (27,23% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 57


9. Galena PbS – Sistema Cúbico (86,60% Pb).
10. Inaglyíta PbCu3(Ir,Pt)8S16 – Sistema Hexagonal (8,44% Pb).
11. Kharaelakhita (Cu,Pt,Pb,Fe,Ni)S – Sistema Ortorrômbico (35,31% Pb).
12. Kochkarita PbBi4Te7 – Sistema Trigonal (10,70% Pb).
13. Kolarita PbTeCl2 – Sistema Ortorrômbico (51,07% Pb).
14. Konderita PbCu3(Rh,Pt,Ir)8S16 – Sistema Hexagonal (10,32% Pb).
15. Laflammeíta Pd3Pb2S2 – Sistema Monoclínico (51,94% Pb).
16. Manganês-shadlunita (Mn,Pb,Cd)(Cu,Fe)8S8 – Sistema Cúbico (6,15% Pb).
17. Mazzettiíta Ag3HgPbSbTe5 – Sistema Ortorrômbico (14,15% Pb).
18. Morozeviczita (Pb,Fe)3Ge1-xS4 (x = 0,18-0,69) – Sistema Cúbico (66,10% Pb).
19. Museumita Pb5AuSbTe2S12 – Sistema Monoclínico (52,00% Pb).
20. Nagyágita (Te,Au)Pb(Pb,Sb)S2 – Sistema Monoclínico (19,56% Pb).
21. Owensita (Ba,Pb)6(Cu,Fe,Ni)25S27 – Sistema Cúbico (12,38% Pb).
22. Parkerita Ni3(Bi,Pb)2S2 – Sistema Monoclínico (15,76% Pb).
23. Petrovicita PbHgCu3BiSe2 – Sistema Ortorrômbico (17,23% Pb).
24. Polarita Pd2PbBi – Sistema Ortorrômbico (16,45% Pb).
25. Potosiita Pb6Sb2Fe2+Sn4+2S14 – Sistema Triclínico (55,78% Pb).
26. Poubaíta PbBi2Se2(Te,S)2 – Sistema Trigonal (20,92% Pb).
27. Radhakrishnaíta PbTe3(Cl,S)2 – Sistema Tetragonal (31,51% Pb).
28. Rhodplumsita Pb2Rh3S2 – Sistema Trigonal (52,64% Pb).
29. Rucklidgeíta (Bi,Pb)3Te4 – Sistema Trigonal (13,68% Pb).
30. Saddlebackita Pb2Bi2Te2S3 – Sistema Hexagonal (35,01% Pb).
31. Schlemaíta (Cu,†)6(Pb,Bi)Se4 – Sistema Monoclínico (4,02% Pb).
32. Shadlunita (Pb,Cd)(Fe,Cu)8S8 – Sistema Cúbico (17,22% Pb).
33. Shandita Pb2Ni3S2 – Sistema Trigonal (63,31% Pb).
34. Suredaíta PbSnS3 – Sistema Ortorrômbico (42,46% Pb).
35. Teallita PbSnS2 – Sistema Ortorrômbico (53,12% Pb).
36. Viaeneíta (Fe,Pb)4S8O – Sistema Monoclínico (7,88% Pb).

b2) Sulfossais
1. Aikinita PbCuBiS3 – Sistema Ortorrômbico (35,98% Pb).
2. Aleksita PbBi2Te2S2 – Sistema Hexagonal (21,94% Pb).
3. Andorita PbAgSb3S6 – Sistema Ortorrômbico (23,74% Pb).
4. Ardaíta Pb19Sb13S35Cl7 – Sistema Monoclínico (57,14% Pb).
5. Aschamalmita Pb6Bi2S9 – Sistema Monoclínico (63,76% Pb).

58 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


6. Babkinita Pb2Bi2(S,Se)3 – Sistema Trigonal (42,48% Pb).
7. Baumhauerita Pb3As4S9 – Sistema Triclínico (51,38% Pb).
8. Baumhauerita-2a Pb11Ag(As,Sb)18S36 – Sistema Monoclínico (51,38% Pb).
9. Benavidesita Pb4(Mn,Fe)Sb6S14 – Sistema Monoclínico (40,17% Pb).
10. Berryíta Pb3Bi7(Cu,Ag)5S16 – Sistema Monoclínico (20,54% Pb).
11. Borodaevita Ag5(Fe,Pb)Bi7(Sb,Bi)2S17 – Sistema Monoclínico (3,22% Pb).
12. Boulangerita Pb5Sb4S11 – Sistema Monoclínico (54,88% Pb).
13. Bournonita PbCuSbS3 – Sistema Ortorrômbico (42,40% Pb).
14. Bursaíta Pb5Bi4S11 – Sistema Ortorrômbico (44,72% Pb).
15. Cannizzarita Pb46Bi54S127 – Sistema Monoclínico (33,16% Pb).
16. Cilindrita (Pb,Sn2+)8Sb4Fe2Sn4+5S27 – Sistema Triclínico (33,70% Pb).
17. Cosalita Pb2Bi2S5 – Sistema Ortorrômbico (41,75% Pb).
18. Crerarita (Pt,Pb)Bi3(S,Se)4-x (x ~ 0,7) – Sistema Cúbico (5,40% Pb).
19. Cupropavonita AgPbCu2Bi5S10 – Sistema Monoclínico (11,46% Pb).
20. Dadsonita Pb23Sb25S60Cl – Sistema Monoclínico (30,48% Pb).
21. Diaforita Pb2Ag3Sb3S8 – Sistemas Monoclínico/Triclínico (48,61% Pb).
22. Dufrénoysita Pb2As2S5 – Sistema Monoclínico (57,19% Pb).
23. Eclarita Pb9(Cu,Fe)Bi12S38 – Sistema Ortorrômbico (34,99% Pb).
24. Edenharterita PbTlAs3S6 – Sistema Ortorrômbico (23,21% Pb).
25. Emilita Cu 10,7Pb10,7Bi20,3S48, um sulfossal com 24,95% de Pb
26. Eskimoíta Ag7Pb10Bi15S36 – Sistema Monoclínico (29,12% Pb).
27. Falkmanita Pb5,4Sb3,6S11 – Sistema Monoclínico (55,09% Pb).
28. Felbertalita Cu2Pb6Bi8S19 – Sistema Monoclínico (29,93% Pb).
29. Fizélyíta Pb14Ag5Sb21S48 – Sistema Monoclínico (38,49% Pb).
30. Freieslebenita PbAgSbS3 – Sistema Monoclínico (38,87% Pb).
31. Friedrichita Pb5Cu5Bi7S18 – Sistema Ortorrômbico (30,53% Pb).
32. Fülöppita Pb14Ag5Sb21S48 – Sistema Monoclínico (38,49% Pb).
33. Galenobismutita PbBi2S4 – Sistema Ortorrômbico (27,50% Pb).
34. Geocronita Pb14(Sb,As)6S23 – Sistema Monoclínico (67,12% Pb).
35. Geissenita Cu2Pb26(Bi,Sb)20S57 – Sistema Monoclínico (49,34% Pb).
36. Gladita PbCuBi5S9 – Sistema Ortorrômbico (12,92% Pb).
37. Gratonita Pb9As4S15 – Sistema Trigonal (70,49% Pb).
38. Guettardita Pb(Sb,As)2S4 – Sistema Monoclínico (38,60% Pb).
39. Gustavita PbAgBi3S6 – Sistema Monoclínico (18,27% Pb).
40. Hammarita Pb2Cu2Bi4S9 – Sistema Ortorrômbico (24,87% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 59


41. Hatchita (Pb,Tl)2AgAs2S5 – Sistema Triclínico (37,40% Pb).
42. Heteromorfita Pb7Sb8S19 – Sistema Monoclínico (47,81% Pb).
43. Heyrovskýíta (Pb,Ag,Bi)6Bi2S9 – Sistema Ortorrômbico (54,50% Pb).
44. Hutchinsonita (Pb,Tl)2As9S9 – Sistema Ortorrômbico (19,28% Pb).
45. Incaíta FeSn4Pb4Sb2S14 – Sistema Monoclínico (39,77% Pb).
46. Izoklakeíta Pb27(Cu,Fe)2(Sb,Bi)19S57 – Sistema Ortorrômbico (52,99% Pb).
47. Jamesonita Pb4FeSb6S14 – Sistema Monoclínico (40,15% Pb).
48. Jaskólskiíta Pb2SbBiS5 – Sistema Ortorrômbico (50,63% Pb).
49. Jentschita TlPbAs2SbS6 – Sistema Monoclínico (23,66% Pb).
50. Jordanita Pb14As6S23 – Sistema Monoclínico (69,37% Pb).
51. Junoíta Pb3Cu2Bi8(S,Se)16 – Sistema Ortorrômbico (19,92% Pb).
52. Kirkiíta Pb10Bi3As3S19 – Sistema Hexagonal/Monoclínico (58,65% Pb).
53. Kobellita Cu2Pb10(Bi,Sb)16S35 – Sistema Ortorrômbico (35,45% Pb).
54. Krupkaíta PbCuBi3S6 – Sistema Ortorrômbico (19,01% Pb).
55. Kudriavita (Cd,Pb)BiS2 – Sistema Monoclínico (7,59% Pb).
56. Larosita (Cu,Ag)21(Pb,Bi)2S13 – Sistema Ortorrômbico (9,18% Pb).
57. Launayíta Pb2Sb26S61 – Sistema Monoclínico (47,09% Pb).
58. Lengenbachita Pb6(Ag,Cu)2As4S13 – Sistema Triclínico (58,09% Pb).
59. Lévyclaudita Pb8Sn7Cu3(Bi,Sb)3S28 – Sistema Monoclínico (39,84% Pb).
60. Lillianita Pb3Bi2S6 – Sistema Ortorrômbico (50,46% Pb).
61. Lindströmita Pb3Cu3Bi7S15 – Sistema Ortorrômbico (22,55% Pb).
62. Liveingita Pb9As13S28 – Sistema Monoclínico (49,91% Pb).
63. Madocita Pb17(Sb,As)16S41 – Sistema Monoclínico (51,49% Pb).
64. Marrita PbAgAsS3 – Sistema Monoclínico (42,62% Pb).
65. Meneghinita Pb13CuSb7S24 – Sistema Ortorrômbico (61,51% Pb).
66. Moëloíta Pb6Sb6S14(S3) – Sistema Ortorrômbico (49,36% Pb).
67. Mozgovaíta PbBi4(S,Se)7 – Sistema Ortorrômbico (16,20% Pb).
68. Mummeíta Ag2CuPbBi6S13 – Sistema Monoclínico (9,15% Pb).
69. Neyíta Pb7(Cu,Ag)2Bi6S17 – Sistema Monoclínico (37,88% Pb).
70. Nordströmita Pb3CuBi7(S10Se4) – Sistema Monoclínico (22,32% Pb).
71. Nuffieldita Pb2Cu(Pb,Bi)Bi2S7 – Sistema Ortorrômbico (38,99% Pb).
72. Ourayíta Ag3Pb4Bi5S13 (?) – Sistema Ortorrômbico (29,86% Pb).
73. Owyheeíta Ag3Pb10Sb11S28 – Sistema Ortorrômbico (41,97% Pb).
74. Paarita Cu1,6Pb1,6Bi6,4S12 – Sistema Ortorrômbico (16,68% Pb).
75. Paderaíta AgPb2Cu6Bi11S22 – Sistema Monoclínico (10,60% Pb).
76. Parajamesonita Pb4FeSb6S14 – Sistema Ortorrômbico (40,15% Pb).

60 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


77. Pekoíta CuPbBi11S18 – Sistema Ortorrômbico (6,39% Pb).
78. Pellouxita ~(Cu,Ag)2Pb21Sb23S35ClO – Sistema Monoclínico (47,36% Pb).
79. Pillaíta Pb9Sb10Sb23ClO0,5 – Sistema Monoclínico (49,29% Pb).
80. Plagionita Pb5Sb17 – Sistema Monoclínico (40,55% Pb).
81. Playfairita Pb16S43 – Sistema Monoclínico (48,15% Pb).
82. Proudita Cu0-1Pb7,5Bi9,3-9,7(S,Se)22 – Sistema Monoclínico (33,82% Pb).
83. Quadratita Ag(Cd,Pb)(As,Sb)S3 – Sistema Tetragonal (10,10% Pb).
84. Ramdohrita Ag3Pb6Sb11S24 – Sistema Monoclínico (33,82% Pb).
85. Rathita (Pb,Tl)3As5S10 – Sistema Monoclínico (44,38% Pb).
86. Rayíta (Ag,Tl)2Pb8Sb8S21 – Sistema Monoclínico (46,44% Pb).
87. Robinsonita Pb4Sb6S13 – Sistema Monoclínico (41,94% Pb).
88. Roshchinita Ag19Pb10Sb51S96 – Sistema Ortorrômbico (12,86% Pb).
89. Rouxelite Cu2HgPb22Sb28S64(O,S)2 – Sistema Monoclínico (45,47% Pb)
90. Sakharovaíta (Pb,Fe)(Bi,Sb)2S4 – Sistema Monoclínico (28,41% Pb).
91. Salzburguita Pb1,6Cu1,6Bi 6,4S14 – Sistema Ortorrômbico (15,86% Pb).
92. Sartorita PbAs2S4 – Sistema Monoclínico (37,93% Pb).
93. Scainita Pb14Sb30S54O5 – Sistema Monoclínico (36,98% Pb).
94. Schirmerita Ag3Pb3Bi9S18 – Sistema Ortorrômbico (20,82% Pb).
95. Seligmannita PbCuAsS3 – Sistema Ortorrômbico (46,89 Pb).
96. Semseyíta Pb9Sb8S21 – Sistema Monoclínico (53,10% Pb).
97. Sorbyíta Pb19(Sb,As)20S49 – Sistema Monoclínico (46,70% Pb).
98. Soucekita PbCuBi(S,Se)3 – Sistema Ortorrômbico (32,77% Pb).
99. Tintinaíta Cu2Pb10(Sb,Bi)16S35 – Sistema Ortorrômbico (49,70% Pb).
100. Treasurita Ag7Pb6Bi15S32 – Sistema Monoclínico (20,18% Pb).
101. Tsugaruíta Pb4As2S7 – Sistema Ortorrômbico (68,89% Pb).
102. Twinnita Pb(Sb,As)2S4 – Sistema Triclínico (36,08% Pb).
103. Uchucchacuaíta AgPb3MnSb5S12 – Sistema Ortorrômbico (34,80% Pb).
104. Ustarasite Pb(Bi,Sb)6S10 – Sistema Ortorrômbico (11,92% Pb).
105. Veenita Pb2(Sb,As)2S5 – Sistema Ortorrômbico (53,40% Pb).
106. Viquinguita Ag5Pb8Bi13S30 – Sistema Monoclínico (28,21% Pb).
107. Vurroíta Pb20Sn2(Bi,As)22S54Cl6 – Sistema Ortorrômbico (45,52% Pb).
108. Wallisita PbTl(Cu,Ag)As2S5 – Sistema Triclínico (26,02% Pb).
109. Watkinsonita Cu2PbBi4(Se,S)8 – Sistema Monoclínico (11,97% Pb).
110. Weibullita Pb6Bi8(S,Se)18 – Sistema Ortorrômbico (33,78% Pb).
111. Wittita Pb12Bi14(S,Se)33 – Sistema Tetragonal/Hexagonal (32,94% Pb).
112. Xilingolita Pb3Bi2S6 – Sistema Monoclínico (50,46% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 61


113. Zinkenita Pb9Sb22S42 – Sistema Hexagonal (31,66% Pb).
114. Zoubekite AgPb4Sb4S10 – Sistema Ortorrômbico (47,51% Pb).

c) III – HALOGENETOS
1. Artroeíta PbAlF3(OH)2 – Sistema Triclínico (63,72% Pb).
2. Asisita Pb7SiO8Cl2 – Sistema Tetragonal (87.78% Pb).
3. Bideauxita Pb2AgCl3F(OH) – Sistema Cúbico (62,26% Pb).
4. Boléíta KPb26Ag9Cu24Cl62(OH)48 – Sistema Cúbico (49,26% Pb).
5. Cálcio-aravaipaíta PbCa2Al(F,OH)9 – Sistema Monoclínico (42,87% Pb).
6. Challacolloíta KPb2Cl5 – Sistema Monoclínico (65,70% Pb)
7. Cloroxifita Pb3Cu2+Cl2(OH)2O2 – Sistema Monoclínico (75,61% Pb).
8. Cotunnita PbCl2 – Sistema Ortorrômbico (74,50% Pb).
9. Cumengeíta Pb21Cu2+20Cl42(OH)40 – Sistema Tetragonal (64,11% Pb).
10. Damaraíta Pb3O2(OH)Cl – Sistema Ortorrômbico (88,04% Pb).
11. Diaboléíta Pb2Cu2+Cl2(OH)4 – Sistema Tetragonal (67,18% Pb).
12. Ecdemita Pb6As2O7Cl4 (?) – Sistema Tetragonal (?) (75,49% Pb).
13. Fiedlerita Pb3Cl4F(OH).H2O – Sistemas Triclínico/Monoclínico (76,14% Pb).
14. Filolitita Pb12O6Mn(Mg,Mn)2(Mn,Mg)4(SO4)(CO3)4Cl4(OH)12 – Sistema
Tetragonal – (69,30% Pb).
15. Hematofanita Pb4Fe3+3O8(OH,Cl) – Sistema Tetragonal – (72,32% Pb).
16. Heliofilita Pb6As3+2O7Cl4 (?) – Sistema Ortorrômbico (?) – (75,49% Pb).
17. Laurelita Pb7F12Cl2 – Sistema Hexagonal – (82,91% Pb).
18. Laurionita PbCl(OH) – Sistema Ortorrômbico – (79,80% Pb).
19. Matlockita PbFCl – Sistema Tetragonal – (79,19% Pb).
20. Mendipita Pb3Cl2O2 – Sistema Ortorrômbico – (85,80% Pb).
21. Mereheadita Pb2O(OH)Cl – Sistema Monoclínico – (85,82% Pb).
22. Nadorita PbSb3+O2Cl – Sistema Ortorrômbico – (52,27% Pb).
23. Paralaurionita PbCl(OH) – Sistema Monoclínico – (79,80% Pb).
24. Parkinsonita (Pb,Mo,†)8O8Cl2 – Sistema Tetragonal – (85,45% Pb).
25. Penfieldita Pb2Cl3(OH) – Sistema Hexagonal – (77,06% Pb).
26. Perita PbBiO2Cl – Sistema Ortorrômbico – (42,84% Pb).
27. Pinalita Pb3W6+O5Cl2 – Sistema Ortorrômbico – (65,00% Pb).
28. Pseudoboleíta Pb31Cu2+24Cl62(OH)48 – Sistema Tetragonal (58,59% Pb).
29. Pseudocotunnita K2PbCl4 (?) – Sistema Ortorrômbico (?) (48,50% Pb).
30. Symesita Pb10(SO4)O7Cl4.H2O – Sistema Triclínico (84,92% Pb).

62 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


31. Thorikosita (Pb3Sb0,6As0,4)O3(OH)Cl2 – Sistema Tetragonal (71,65% Pb).
32. Yedlinita Pb6CrCl6(O,OH)8 – Sistema Trigonal (75,90% Pb).

d) IV – ÓXIDOS
1. Alocalcoselita Cu1+Cu2+5PbO2(SeO3)2Cl5 – Sistema Monoclínico (22,34% PbO).
2. Bartelkeíta PbFe2+Ge3O8 – Sistema Monoclínico (34,03% Pb).
3. Bindheimita Pb2Sb2O6(O,OH) – Sistema Cúbico (53,81% Pb).
4. Cálcio-uranoíta (Ca,Ba,Pb)U2O7.5H2O – Amorfo (3,10% Pb).
5. Cesàrolita PbH2Mn4+O8 – Sistema Hexagonal (41,27% Pb).
6. Cesplumtantita (Cs,Na)2-x(Pb,Sb3+,Sn)3Ta8O24 – Sistema Tetragonal (18,38% Pb).
7. Changbaiíta PbNb2O6 – Sistema Trigonal (42,37% Pb).
8. Cheremnykhita Pb3Zn3Te6+O6(VO4)2 – Sistema Ortorrômbico (48,90% Pb).
9. Choloalita Cu2+Pb(Te4+O3)2 – Sistema Cúbico (32,38% Pb).
10. Clarkeíta (Na,K,Ca,Pb)(UO2)O(OH).0-1H2O – Sistema Trigonal (6,50% Pb).
11. Coronadita Pb(Mn4+,Mn2+)8O16 – Sistema Monoclínico (24,41% Pb).
12. Curita Pb2U6+5O17.4H2O – Sistema Ortorrômbico (24,12% Pb).
13. Demesmaekerita Pb2Cu2+5(UO2)2(Se4+O3)6(OH)6.2H2O – Sistema Triclínico
(48,61% Pb).
14. Dessauíta-(Y) (Sr,Pb)(Y,U)(Ti,Fe3+)20O38 – Sistema Trigonal (2,79% Pb).
15. Dugganita Pb3Zn3Te6+O6(AsO4)2 – Sistema Trigonal (47,73% Pb).
16. Eztlita Pb2Fe3+6(Te4+O 3)3(Te6+O 6)(OH)10.8H 2 O – Sistema Monoclínico
(22,84% Pb).
17. Fairbankite PbTe4+O3 – Sistema Triclínico (54,13% Pb).
18. Freedita Pb8Cu1+(As3+O3)2O3Cl5 – Sistema Monoclínico (75,61% Pb).
19. Gebhardita Pb8(As3+2O5)2OCl6 – Sistema Monoclínico (70,66% Pb).
20. Girdita Pb3H2(Te4+O3)3(Te6+O6) – Sistema Monoclínico (60,77% Pb).
21. Gramaccioliíta-(Y) (Pb,Sr)(Y,Mn)(Ti,Fe3+)18Fe3+2O38 – Sistema Trigonal
(6,94% Pb).
22. Jixianita Pb(W,Fe3+)2(O,OH)7 – Sistema Cúbico (44,13% Pb).
23. Khinita Cu3PbTeO6(OH)2 – Sistema Ortorrômbico (31,61% Pb).
24. Kuksita Pb3Zn3TeO6(PO4)2 – Sistema Ortorrômbico (50,48% Pb).
25. Kuranakhita PbMn4+Te6+O6 – Sistema Ortorrômbico (42,66% Pb).
26. Lindqvistita Pb2(Mn2+,Mg)Fe3+16O27 – Sistema Hexagonal (23,49% Pb).
27. Litargita PbO – Sistema Tetragonal (92,83% Pb).
28. Ludlockita Pb2+Fe3+4As3+10O22 – Sistema Triclínico (3,35% Pb).
29. Macedonita PbTiO3 – Sistema Tetragonal (68,37% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 63


30. Magnetoplumbita Pb(Fe3+,Mn3+)12O19 – Sistema Hexagonal (19,29% Pb).
31. Massicoto PbO – Sistema Ortorrômbico (92,83% Pb).
32. Masuyíta Pb(UO2)3O3(OH)2.3H2O – Sistema Monoclínico (17,97% Pb).
33. Metavendendriesscheíta PbU7O22.nH2O – Sistema Ortorrômbico (8,65% Pb).
34. Mínio Pb2+2Pb4+O4 – Sistema Tetragonal (90,67% Pb).
35. Moctezumita Pb(UO2)(TeO3)2 – Sistema Monoclínico (25,01% Pb).
36. Molibdomenita PbSe4+O3 – Sistema Monoclínico (62,01% Pb).
37. Monimolita Pb2Sb2O7/Pb3Sb2O8 – Sistema Cúbico (40,18% Pb).
38. Murdochita Cu6Pb(O6,5†1,5)Cl – Sistema Cúbico (24,52% Pb).
39. Nealita Pb4Fe2+(AsO3)2Cl4.2H2O – Sistema Triclínico (40,18% Pb).
40. Nezilovita PbZn2(Mn4+,Ti4+)2Fe3+8O19 – Sistema Hexagonal (17,34% Pb).
41. Oboyerita Pb6H6(Te4+O3)3(Te6+O6)2.2H2O – Sistema Hexagonal (55,03% Pb).
42. Orlandiíta Pb3Cl4(SeO3).H2O – Sistema Hexagonal (69,13% Pb).
43. Otjisumeíta PbGe4O9 – Sistema Triclínico (32,29% Pb).
44. Parakhinita Cu2+3PbTe6+O6(OH)2 – Sistema Trigonal (29,96% Pb).
45. Paulmooreíta Pb2As3+2O5 – Sistema Monoclínico (64,32% Pb).
46. Plattnerita PbO2 – Sistema Tetragonal (86,62% Pb).
47. Plumbobetafita Pb2(Ti,Nb)2O6OH – Sistema Cúbico (24,32% Pb).
48. Plumboferrita Pb2(Mn2+,Mg)0,33Fe3+10,67O18,33 – Sistema Hexagonal (31,53% Pb).
49. Plumbomicrolita PbTa2O6 – Sistema Cúbico (31,27% Pb).
50. Plumbopirocloro PbNb2O6 – Sistema Cúbico (34,25% Pb).
51. Plumbotelurita á-PbTe4+O3 – Sistema Monoclínico (54,13% Pb).
52. Quenselita Pb3Mn3+O2(OH) – Sistema Monoclínico (66,59% Pb).
53. Richetita Pb9(UO2)36(OH)24O36 – Sistema Triclínico (14,40% Pb).
54. Rosiaíta PbSb5+2O6 – Sistema Trigonal (37,90% Pb).
55. Rouseíta Pb2Mn2+(As3+O3)2.2H2O – Sistema Triclínico (47,41% Pb).
56. Sayrita Pb2(UO2)5O6(OH)2.4H2O – Sistema Monoclínico (21,07% Pb).
57. Schieffelinita Pb(Te6+,S)O4.H2O – Sistema Ortorrômbico (52,73% Pb).
58. Schwartzemberguita Pb5I3+H2O6Cl3 – Sistema Tetragonal (69,73% Pb).
59. Scotlandita PbSO3 – Sistema Monoclínico (72,13% Pb).
60. Scrutinyíta á-PbO2 – Sistema Ortorrômbico (86,62% Pb).
61. Seeligerita Pb3Cl3(IO3)O – Sistema Ortorrômbico (67,65% Pb).
62. Senaíta Pb(Ti,Fe,Mn)21O38 – Sistema Trigonal (10,88% Pb).
63. Tlapallita H6(Ca,Pb)2(Cu2+,Zn)3(SO4)(Te4+O3)4(Te6+O6) – Sistema Monoclínico
(7,49% Pb).
64. Trigonita Pb3Mn2+(As3+O3)2(As3+O2OH) – Sistema Monoclínico (59,41% Pb).

64 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


65. Vandendriesscheíta Pb1,5(UO2)10O6(OH)11.11H2O – Sistema Ortorrômbico
(9,44% Pb).
66. Wolsendorfita Pb7(UO2)14O19(OH)4.12H2O – Sistema Ortorrômbico (15,67% Pb).
67. Zenzenita Pb3(Fe3+,Mn3+)4Mn4+3O15 – Sistema Hexagonal (49,17% Pb).

e) V – CARBONATOS
1. Barstowita 3PbCll2.PbCO3.H2O – Sistema Monoclínico (74,03% Pb).
2. Beyerita (Ca,Pb)Bi2(CO3)2O2 – Sistema Tetragonal (7,95% Pb).
3. Cerussita PbCO3 – Sistema Ortorrômbico (77,54% Pb).
4. Dundasita PbAl2(CO3)2(OH)4.H2O – Sistema Ortorrômbico (44,35% Pb).
5. Fosgenita Pb2(CO3)Cl2 – Sistema Tetragonal (75,99% Pb).
6. Hidrocerussita Pb3(CO3)2(OH)2 – Sistema Trigonal – (80,14% Pb).
7. Gysinita-(Nd) Pb(Nd,La)(CO 3) 2 (OH).H 2O – Sistema Ortorrômbico –
(41,02% Pb).
8. Petterdita PbCr2(CO3)2(OH)4.H2O – Sistema Ortorrômbico – (40,63% Pb).
9. Schuilinguita-(Nd) PbCu(Nd,Gd,Sm,Y)(CO 3 ) 3 (OH).H 2 O – Sistema
Ortorrômbico – (29,76% Pb).
10. Shannonita Pb2OC03 – Sistema Ortorrômbico (84,50% Pb).
11. Widenmannita Pb2(UO2)(CO3)3 – Sistema Ortorrômbico (47,94% Pb).

f) VI. CROMATOS, MOLIBDATOS, SULFATOS, TUNGSTATOS


(WOLFRAMATOS)
f1) Cromatos
1. Cassedanneíta Pb5(VO4)2(CrO4)2.H2O – Sistema Monoclínico (68,34% Pb).
2. Crocoíta PbCrO4 – Sistema Monoclínico (64,11% Pb).
3. Embreyíta Pb5(CrO4)2(PO4)2.H2O – Sistema Monoclínico (70,19% Pb).
4. Fenicocroíta Pb2(CrO4)O – Sistema Monoclínico (74,84% Pb).
5. Fornacita Pb2Cu(AsO4)(CrO4)OH – Sistema Monoclínico (55,26% Pb).
6. Santanaíta 9PbO.2PbO2.CrO3 – Sistema Hexagonal (88,10% Pb).
7. Vauquelinita Pb2Cu2+(CrO4)(PO4)(OH) – Sistema Monoclínico (58,70% Pb).

f2) Molibdatos
1. Molibdofornacita Pb2CuAsO4MoO4(OH) – Sistema Monoclínico (52,45% Pb).
2. Wulfenita PbMoO4 – Sistema tetragonal (56,44% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 65


f3) Sulfatos
1. Anglesita PbSO4 – Sistema Ortorrômbico (68,32% Pb).
2. Beaverita Pb(Fe,Cu)3(SO4)2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (31,29% Pb).
3. Caledonita Pb5Cu2(CO3)(SO4)3(OH)6 – Sistema Ortorrômbico (64,21% Pb).
4. Caracolita Na3Pb2(SO4)3Cl – Sistema Monoclínico (51,35% Pb).
5. Chenita Pb4Cu2+(SO4)2(OH)6 – Sistema Triclínico (69,85% Pb).
6. Elyíta Pb4(SO4)O2(OH)4.H2O – Sistema Monoclínico (74,91% Pb).
7. Fleischerita Pb3Ge4+(SO4)2(OH)6.3H2O – Sistema Hexagonal (61,76% Pb).
8. Grandreefita Pb2(SO4)F – Sistema Monoclínico (75,56% Pb).
9. Itoíta Pb3Ge4+(SO4)2O2(OH)2 – Sistema Ortorrômbico (65,27% Pb).
10. Lanarkita Pb2O(SO4) – Sistema Monoclínico (78,71% Pb).
11. Lautentalita PbCu2+4(OH)6(SO4)2.3H2O – Sistema Monoclínico (25,59% Pb).
12. Leadhillita Pb4(SO4)(CO3)2(OH)2 – Sistema Monoclínico (76,82% Pb).
13. Linarita PbCu2+(SO4)(OH)2 – Sistema Monoclínico (76,82% Pb).
14. Macfersonita Pb4(SO4)(CO3)2(OH)2 – Sistema Monoclínico (76,82% Pb).
15. Mallestiguita Pb 3Sb[(SO 4),(AsO 4)](OH) 6.3H 2O – Sistema Hexagonal
(55,83% Pb).
16. Mammothita Pb 6Cu 4AlSbO 2(OH) 16Cl 4 (SO 4) 2 – Sistema Monoclínico
(58,63% Pb).
17. Nasledovita PbMn2+3Al4(CO3)4(SO4)O5.5H2O – Sistema Triclínico (21,01% Pb).
18. Olsacherita Pb2(SeO4)(SO4) – Sistema Ortorrômbico (63,42% Pb).
19. Osarizawaíta Pb(Al,Cu)3(SO4)2(OH)6 – Sistema Trigonal (33,48% Pb).
20. Palmierita (K,Na)2Pb(SO4)2 – Sistema Trigonal (44,13% Pb).
21. Plumbojarosita PbFe6(SO4)4(OH)12 – Sistema Trigonal (18,33% Pb).
22. Pseudograndreefita Pb6(SO4)F10 – Sistema Ortorrômbico (81,29% Pb).
23. Schmiederita Pb 2Cu 2+2(Se 4+O 3)(Se 6+O 4)(OH) 4 – Sistema Monoclínico
(47,12% Pb).
24. Sidpietersita Pb2+4(S6+O3S2-)O2(OH)2 – Sistema Triclínico (82,31% Pb).
25. Sundiusita Pb10(SO4)Cl2O8 – Sistema Monoclínico (93,30% PbO).
26. Susannita Pb4(SO4)(CO3)2(OH)2 – Sistema Trigonal (76,82% Pb).

f4) Tungstatos (Wolframatos)


1. Raspita PbWO4 – Sistema Monoclínico (45,53% Pb).
2. Stolzita PbWO4 – Sistema Tetragonal (45,53% Pb).

66 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


g) VII. ARSENATOS, FOSFATOS, VANADATOS
g1) Arsenatos
1. Arsenbrackebuschita Pb2Fe3+(AsO4)2(OH) – Sistema Monoclínico (53,92% Pb).
2. Arsendescloizita PbZn(AsO4)(OH) – Sistema Ortorrômbico (48,35% Pb).
3. Arsentsumebita Pb2Cu(AsO4)(SO4)(OH) – Sistema Monoclínico (56,77% Pb).
4. Asselbornita (Pb,Ba)(UO2)6(BiO)4(AsO4)2(OH)12.3H2O – Sistema Cúbico
(3,21% Pb).
5. Bayldonita PbCu3(AsO4)2(OH)2 – Sistema Monoclínico (28,37% Pb).
6. Beudantita PbFe3[(As,S)O4]2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (29,11% Pb).
7. Carminita PbFe3+2(AsO4)2(OH)2 – Sistema Ortorrômbico (32,85% Pb).
8. Clinomimetita Pb5(AsO4)3Cl – Sistema Monoclínico (69,61% Pb).
9. Cobaltotsumcorita Pb(Co,Fe3+)2(AsO4)2(H2O,OH)2 – Sistema Monoclínico
(30,69% Pb).
10. Duftita PbCu(AsO4)OH – Sistema Ortorrômbico (48,56% Pb).
11. Feinglosita Pb2(Zn,Fe)[(As,S)O4]2.H2O – Sistema Monoclínico (55,12% Pb).
12. Gabrielsonita PbFe2+AsO4(OH) – Sistema Ortorrômbico (49,45% Pb).
13. Gartrellita PbCuFe3+(AsO 4) 2[(OH) 1,5(H 2O) 1,5] – Sistema Ortorrômbico
(49,45% Pb).
14. Georgiadesita Pb4(AsO3)Cl4(OH) – Sistema Monoclínico (75,38% Pb).
15. Hallimondita Pb2(UO2)(AsO4)2 – Sistema Triclínico (43,07% Pb).
16. Hedifânio Pb3Ca2(AsO4)3Cl – Sistema Hexagonal (53,87% Pb).
17. Helmutwinklerita PbZn2(AsO4)2.2H2O – Sistema Triclínico (31,79% Pb).
18. Hidalgoíta PbAl3(As,S)O4(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (33,14% Pb).
19. Hügelita Pb2(UO2)3(AsO4)2(OH)4.3H2O – Sistema Monoclínico (25,51% Pb).
20. Mawbyíta Pb(Fe3+,Zn)2(AsO4)2(OH,H2O)2 – Sistema Monoclínico (35,12% Pb).
21. Mimetita Pb5(AsO4)3Cl – Sistema Hexagonal (69,61% Pb).
22. Philipsbornita PbAl3(AsO4)2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (30,97% Pb).
23. Plumboagardita (Pb,ETR,Ca)Cu6[(OH)6/(HAsO4,AsO4)/(AsO4)2].3H2O –
Sistema Hexagonal (8,99% PbO).
24. Rappoldita Pb(Co,Ni)2(AsO4)2.2H2O – Sistema Triclínico (32,31% Pb).
25. Schultenita PbHAsO4 – Sistema Monoclínico – (59,69% Pb).
26. Segnitita PbFe3+3H(AsO4)2(OH)6 – Sistema Trigonal (27,42% Pb).
27. Synadelfita (Mn2+,Mg,Ca,Pb)9(As3+O3)(As5+O4)2(OH)9.2H 2O – Sistema
Ortorrômbico (1,90% Pb).
28. Thometzekita PbCu2(AsO4)2.2H2O – Sistema Triclínico (31,92% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 67


29. Tsumcorita Pb(Zn,Fe 3+) 2(AsO 4) 2(H 2 O,OH) 2 – Sistema Monoclínico
(33,19% Pb).
30. Zdenekita NaPbCu5(AsO4)4Cl.5H2O – Sistema Tetragonal (16,86% Pb).
31. Zinco-gartrellita Pb(Zn,Fe,Cu)2(AsO4)2(H2O,OH)2 – Sistema Triclínico
(32,15% Pb).

g2) Fosfatos
1. Brendelita (Bi3+,Pb)2(Fe3+,Fe2+)O2(OH)PO4 – Sistema Monoclínico (24,54% Pb).
2. Bushmakinita Pb2Al(PO4)(VO4)(OH) – Sistema Monoclínico (62,67% Pb).
3. Corkita PbFe3[(P,S)O4]2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (31,03% Pb).
4. Dewindtita Pb[H(UO2)3O2(PO4)2]2.12H2O – Sistema Ortorrômbico (21,41% Pb).
5. Drugmanita Pb2(Fe3+,Al)(PO4)2(OH)2 – Sistema Monoclínico (60,23% Pb).
6. Fosfogartrellita PbCuFe3+(PO4)2(OH,H2O)2 – Sistema Triclínico (37,57% Pb).
7. Hinsdalita PbAl3[(P,S)O4]2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (28,19% Pb).
8. Kamitugaíta PbAl(UO2)5[(P,As)O 4]2(OH) 9.9,5H2O – Sistema Triclínico
(9,87% Pb).
9. Kintoreíta PbFe3+3(PO4)2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (31,01% Pb).
10. Orfeíta H6Pb10Al20(PO4)12(SO4)5(OH)40.11H2O – Sistema Trigonal (35,68% Pb).
11. Parsonsita Pb2UO2(PO4)2 – Sistema Triclínico (45,52% Pb).
12. Piromorfita Pb5(PO4)3Cl – Sistema Hexagonal (76,38% Pb).
13. Plumbogummita PbAl3(PO4)2(OH,H2O)6 – Sistema Trigonal (35,65% Pb).
14. Przhevalskita Pb(UO2)2(PO4)2.4H2O – Sistema Ortorrômbico (20,53% Pb).
15. Rosieresita (Pb,Cu,Al)(PO4)x.nH2O – Amorfo (35,61% Pb).
16. Sahlinite Pb14(AsO4)2O9Cl4 – Sistema Monoclínico (83,73% Pb).
17. Tsumebita Pb2Cu(PO4)(SO4)(OH) – Sistema Monoclínico (60,41% Pb).

g3) Vanadatos
1. Brackebuschita Pb2Mn3+(VO4)2(OH) – Sistema Monoclínico (55,24% Pb).
2. Calderonita Pb2Fe3+(VO4)2(OH) – Sistema Monoclínico (58,22% Pb).
3. Cechita Pb(Fe2+,Mn)(VO4)(OH) – Sistema Ortorrômbico (52,52% Pb).
4. Chervetita Pb2V5+2O7 – Sistema Monoclínico (65,96% Pb).
5. Curienita Pb(UO2)2V2O8.5H2O – Sistema Ortorrômbico (19,42% Pb).
6. Descloizita PbZnVO4(OH) – Sistema Ortorrômbico (51,22% Pb).
7. Heyíta Pb5Fe2+2(VO4)2O4 – Sistema Monoclínico (71,87% Pb).
8. Leningradita PbCu2+3(VO4)2Cl2 – Sistema Ortorrômbico (71,87% Pb).

68 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


9. Mottramita PbCuVO4(OH) – Sistema Ortorrômbico (51,45% Pb).
10. Mounanaíta PbFe3+2(VO4)2(OH)2 – Sistema Monoclínico (35,55% Pb).
11. Pirobelonita PbMn2+VO4(OH) – Sistema Ortorrômbico (52,58% Pb).
12. Pottsita PbBiH(VO4)2.2H2O – Sistema Tetragonal (30,33% Pb).
13. Vanadinita Pb5(VO4)3Cl – Sistema Hexagonal (73,15% Pb).
14. Wakefieldita-(Ce) (Ce3+,Pb2+,Pb4+)VO4 – Sistema Tetragonal (29,40% Pb).

VIII. SILICATOS
a) Ciclossilicatos
1. Ashburtonita HPb4Cu4Si4O12(HCO3)4(OH)4Cl – Sistema Tetragonal (47,75% Pb).
2. Margarosanita Pb(Ca,Mn2+)2Si3O9 – Sistema Triclínico (39,61% Pb).
3. Mathewrogersite Pb7(Fe,Cu)GeAl3Si12O36(OH,H2O,†)6 – Sistema Trigonal
(54,14% Pb).
4. Roeblinguita Pb2Ca6Mn2+(Si6O18)(SO4)2(OH)2.4H2O – Sistema Monoclínico
(29,40% Pb).

b) Filossilicatos
1. Burckhardtita Pb2(Fe3+,Mn3+)Te4+(AlSi3)O12(OH)2 – Sistema Monoclínico
(44,33% Pb).
2. Ferrisurita (Pb,Ca)2-3(CO3)1,5-2(OH,F)0,5-1[(Fe3+,Al)3+)2Si4O10(OH)2].nH2O –
Sistema Monoclínico (38,50% Pb).
3. Hyttsjöíta Pb18Ba2Ca5Mn2+2Fe3+2Si30O90Cl.6H2O – Sistema Trigonal (54,43% Pb).
4. Jagoíta (Pb,Na)3(Fe,Mg)Si3O10(Cl,OH) – Sistema Hexagonal (59,61% Pb).
5. Kegelita Pb8Al4Si8(SO4)2(CO3)4(OH)8O20 – Sistema Monoclínico (57,59% Pb).
6. Maricopaíta (Pb7Ca2)[Al12Si36(O,OH)100].n(H2O,OH) – Sistema Ortorrômbico
(29,32% Pb).
7. Surita Pb(Pb,Ca)(Al,Fe3+,Mg)2(Si,Al)4]O10(OH)2CO3)2 – Sistema Monoclínico
(39,80% Pb).
8. Wickenburguita Pb3CaAl2Si10O27(H2O)3 – Sistema Trigonal (41,43% Pb).

c) Inossilicatos
1. Alamosita PbSiO3 – Sistema Monoclínico (73,14% Pb).
2. Joesmithita PbCa 2Mg 3Fe 3+ 2[Be 2Si 6 O 3](OH) 2 – Sistema Monoclínico
(19,86% Pb).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 69


d) Nesossilicatos
1. Esperita PbCa3Zn4(SiO4)4 – Sistema Monoclínico (21,64% Pb).
2. Hemiedrita Pb10Zn(CrO4)6(SiO4)2F2 (Nesosubssilicatos) – Sistema Triclínico
(67,81% Pb).
3. Iranita Pb10Cu(CrO4)6(SiO4)2(OH)2 (Nesosubssilicatos) – Sistema Triclínico
(67,87% Pb).
4. Kasolita Pb(UO2)SiO4.H2O (Nesosubssilicatos) – Sistema Monoclínico
(35,28% Pb).
5. Larsenita PbZnSiO4 – Sistema Monoclínico (35,28% Pb).
6. Macquartita Pb3Cu(CrO4)(SiO3)(OH)4.2H2O (Nesosubssilicatos) – Sistema
Monoclínico (63,35% Pb).
7. Mattheddleíta Pb20(SiO4)7(SO4)4Cl4 (Nesosubssilicatos) – Sistema Monoclínico
(77,97% Pb).
8. Wherryíta Pb 7Cu 2+2 (SOi 4) 4(SiO 4 )(OH) 2 (Nesosubssilicatos) – Sistema
Monoclínico (64,65% Pb).

e) Sorossilicatos
1. Barissilita Pb8MnSi2O7 – Sistema Trigonal (74,77% Pb).
2. Ganomalita Pb9Ca5Mn2+Si9O33 – Sistema Hexagonal (64,28% Pb).
3. Hancockita (Pb,Ca,Sr) 2(Al,Fe 3+) 3Si 3O 12 (OH) – Sistema Monoclínico
(17,76% Pb).
4. Kentrolita Pb2Mn3+2Si2O9 – Sistema Ortorrômbico (57,09% Pb).
5. Melanotekita Pb2Fe3+2Si2O9 – Sistema Ortorrômbico (57,06% Pb).
6. Molibdofilita Pb3Mg3Si3O8(OH)8 – Sistema Hexagonal (59,61% Pb).
7. Nasonita Pb6Ca4Si6O21Cl – Sistema Hexagonal (62,67% Pb).
8. Queitita Pb4Zn2(SO4)(SiO4)(Si2O7) – Sistema Monoclínico (62,98% Pb).

f) Silicatos não-classificados
1. Creaseyíta Pb2Cu2+2Fe3+2Si5O17.6H2O – Sistema Ortorrômbico (35,53% Pb).
2. Luddenita Pb2Cu2+2Si5O14.14H2O – Sistema Monoclínico (35,78% Pb).
3. Plumbotsumite Pb5Si4O8(OH)10 – Sistema Ortorrômbico (71,63% Pb).

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Existem cerca de 400 espécies minerais em que o chumbo está presente, com
significância, na composição química. Em sua grande maioria são espécies do grupo
dos sulfossais e sulfetos (150 espécies), que reflete seus ambientes geológicos de

70 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


formação, pois na grande maioria são minerais típicos de jazimentos metálicos
hidrotermais de moderadas temperaturas. No Brasil, a principal jazida de chumbo, em
atividade, é a de Vazante, em Minas Gerais, onde o chumbo está concentrado
principalmente na galena e na piromorfita. Ainda não explorado, encontra-se o depósito
de chumbo Santa Maria, nas Minas do Camaquã, Caçapava do Sul (RS), onde o principal
mineral é a galena e, já completamente esgotado, o depósito de Pb-Ag de Panelas
(Vale do Ribeira), em Adrianópolis (PR), com ocorrência, principalmente, de galena e
boulangerita (BIONDI, 2003). Os principais minerais de minério de chumbo, que se
encontram ao longo de fraturas e falhas geológicas, são a galena (86,60% Pb), a
piromorfita (76,38% Pb), a vanadinita (73,15% Pb), a anglesita (68,32% Pb), a crocoíta
(64,11% Pb), a wulfenita (56,44% Pb), a boulangerita (54,88% Pb), a bournonita
(42,40% Pb) e a jamesonita (40,15% Pb). Algumas substâncias como o chumbo nativo,
litargita, massicoto, mínio, asisita, damaraíta e plattnerita, muito embora contenham
mais chumbo em suas composições que a galena, não são utilizados na produção do
elemento, por não ocorrerem com volumes e concentrações significativas na crosta
terrestre. Os principais países produtores de chumbo são a Austrália, os Estados Unidos
da América, a República Popular da China, o Canadá, o México e o Peru. Já, as maiores
reservas mundiais do metal encontram-se na Austrália, na República Popular da China,
nos Estados Unidos da América, no Canadá, Peru e na República da África do Sul
(CRAIG et al., 2001).

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Recebido em: 28/9/07 Aceito em: 17/10/07

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 73


Técnica para determinação do potencial
hídrico em microbacias hidrográficas
utilizando as cartas do Exército; estudo de
caso: microbacia do Arroio Solitário

Luiz Sílvio Scartazzini


Jorge Tadeu Vargas da Silva
Renato de Ávila Cônsul

RESUMO
Este estudo apresenta uma metodologia para identificação de sítios hidroenergéticos em
microbacias hidrográficas utilizando a cartografia, explorando os cursos de água, as declividades
e as áreas de contribuição para os pontos de interesse. Este método é realizado apenas em
gabinete, minimizando os custos de reconhecimento em campo. As proximidades das curvas
sobre o curso de água definem os pontos de interesse e a relação extensão por declividade
fornece a altura. A área de contribuição oferece o elemento para cálculo da vazão, utilizando
as equações das curvas de permanência para vazões regionalizadas. No caso em estudo, na
microbacia do Arroio Solitário, foram identificados, através da carta, cinco pontos com poten-
cial superior a 0,5 kW. Na identificação dos pontos em campo, foram confirmados estes cinco
pontos avaliados na carta e localizados outros dois, visualizados apenas em campo. É discuti-
da a metodologia, sua confiabilidade e são apresentadas sugestões para trabalhos semelhantes.
Palavras-chave: Microbacias hidrográficas. Sítios de potencial hidroenergético. Va-
zões regionalizadas.

Technique to determine the hydric potential in hydrographic


micro basin using Army letters; and study case: Arroio
Solitário’s micro basin
ABSTRACT
This study shows a methodology to identify the hydroenergetic farms in hydrographic
micro basin using cartography, exploring the water’s flow, the declivities and the contribution
areas to the target point. This method is performed only in cabinet, minimizing the costs of
field recognition. The curves proximity to the water’s flow define the target point and the
extension relation by declivity provides the elevation. The contribution area provides the element
to determine the outflow, using the curves equation of permanency to regionalized outflow. In
the study case of the Arroio Solitario´s micro basin was possible to identify, through the letter,
five points with a potential higher than 0,5kw. During the identification of the points, in the
field, five of the evaluated points were confirmed and two others were localized and visualized

Luiz Sílvio Scartazzini é prof. Dr. Curso de Física – ULBRA Canoas.


Jorge Tadeu Vargas da Silva é prof. Mestre em Engenharia (PPGEAM). Curso de Física – ULBRA Canoas.
Renato de Ávila Cônsul é prof. Mestre em Engenharia (PPGEAM). Curso de Física – ULBRA Canoas.

Technología Canoas v.8 n.1 p. 74-82 jan./jun. 2007


74 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007
just in the field. The methodology and its reliability can be discussed, and some suggestions to
similar works are shown here.
Key words: Hydrographic micro basin. Farms of hydroenergetic potential. Regionalized
outflow.

1 INTRODUÇÃO
O rápido desenvolvimento tecnológico e científico da humanidade se faz sentir a
partir da invenção da máquina a vapor, no século XIX com o uso intensivo da energia
principalmente dos combustíveis fósseis.
A utilização de combustíveis fósseis de baixo custo, inicialmente carvão e numa
segunda etapa petróleo e gás natural, provocou o surgimento de uma sociedade pro-
gressivamente dependente destes recursos não renováveis, enquanto que a aparente
inesgotabilidade dos mesmos gerou um crescimento da demanda cuja vertiginosidade
aponta para o esgotamento das reservas em um horizonte temporal de poucas décadas.
O baixo custo do petróleo e do gás natural, que tornava anti-econômica a utiliza-
ção de outras fontes, fez com que o descaso com relação as energias renováveis, redu-
zisse seu desenvolvimento tecnológico e sua utilização a alguns casos isolados.
Após a crise do petróleo e a conscientização ecológica, a partir dos anos oitenta,
a humanidade passou a investir mais nas energias renováveis, entre elas, a hidrelétrica.
Atendendo a necessidade voraz de aumento de geração para satisfazer o cresci-
mento econômico e o consumidor aumento de qualidade de vida, juntou-se também a
pressão das demandas sociais, como a falta de energia elétrica para o meio rural, a qual
justificou grande parte do êxodo rural, que se buscou uma das soluções no aproveita-
mento das fontes locais renováveis de energia tais como: mini centrais hidrelétricas,
biomassa, fotovoltaicas e eólica.
Dentre estas fontes de energia renováveis, o aproveitamento da hidroeletricidade
revela-se bastante viável, devido ao estado da tecnologia de geração presente no mer-
cado. Para o aproveitamento desta fonte energética, basta identificar um local geográ-
fico que apresenta uma queda de água com um volume de água presente. Este local
passa a ser identificada como sítio hidroenergético.
Para uso comercial, os sítios de geração hidroenergéticos passam a ser atrativos
economicamente quando estão próximos da rede elétrica e quando tiverem maiores
quedas de água associadas com grandes vazões.
Para fins sociais, as características de bons sítios de geração hidroenergéticas
são aqueles em que apresentam pequena altura de queda, pequenas vazões e próximas
às residências rurais mais isoladas da rede elétrica convencional. A aproximação das
residências se faz necessário para diminuir o custo com o transporte de energia. A
eletricidade destina-se basicamente a: iluminação, com uso de lâmpadas PL de alto
rendimento, tv, rádio e refrigeração, sendo o uso para banho descartável, devido o alto
consumo do mesmo.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 75


Esta forma de geração de energia revela-se a mais indicada economicamente
para atender a demanda de sistemas isolados no meio rural. A eletrificação destas
propriedades traz um significativo aumento da qualidade de vida para estas popula-
ções, proporcionando melhores condições de trabalho e contribuindo para o desenvol-
vimento local.
A presente proposta objetiva apresentar uma metodologia que busca identificar
os sítios hidroenergéticos presentes em uma área definida pelo divisor de águas da
microbacia hidrográfica, atividade que pode ser realizada exclusivamente em gabine-
te, diminuindo o custo dos levantamentos exaustivos realizados a campo.

2 METODOLOGIA
Com as cartas do Exército, escala 1:50.000, é definido o divisor de água da
microbacia hidrográfica em estudo. São mapeados os cursos de água presentes na bacia
hidrográfica, classificados e medidos em sua extensão. São digitalizadas as curvas de
nível presentes na área da bacia hidrográfica. Cada atividade forma um plano de infor-
mação independente, que é armazenado de forma georeferenciada. Ao serem sobrepos-
tos os diferentes planos de informações, obtêm-se novas informações através do cruza-
mento dos planos. A Figura 1 mostra a seqüência de planos obtidos no processo.

FIGURA 1 – Seqüência de informações obtidas da carta.

76 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


A Figura 1.a) mostra o divisor de águas da bacia em estudo. A Figura 1.b) apre-
senta a malha hidrográfica presente na bacia. A Figura 1.c) mostra as curvas de nível
presentes nesta bacia hidrográfica. A Figura 1.d) apresenta a sobreposição das três
informações anteriores.
A partir da geração da imagem da Figura 1.d) pode-se traçar cenários que são
definidos pelo usuário. No presente trabalho, para localização dos pontos de interesse,
definiram-se os seguintes critérios:
- Declividades iguais ou superiores a 20%;
- Área de contribuição igual ou superior a 0,8 km2 ou a partir de 400 metros de
canal medido de sua nascente;
- locais com potencial livre igual ou superior a 0,5 kW.
Estes pontos podem ser determinados através de programas computacionais que
operam com os planos de informação na forma georeferenciada, ou também, como no
presente caso, definidos visualmente nas cartas.
Para calcular o potencial livre em cada ponto utilizou-se a equação preconizada
em Eletrobrás (1985):

Pl = g.Q.h (1)

Sendo que Pl é o menor potencial livre existente no ponto, presente em 50% do


tempo, dado em kW;
g é a aceleração normal da gravidade dada em m.s-2;
Q é a vazão presente no curso d’água, dado em m3.s-1;
h é a altura da queda dada em metros.
A altura da queda foi definida pela declividade do canal, apresentada na interpolação
das curvas dentro da extensão de 100 metros no local em que ocorria um ponto de
interesse. A vazão foi determinada de acordo com TUCCI (1993), no qual as vazões
médias podem ser determinadas através das equações de regionalização, baseadas nas
curvas de permanência. Dentro desta metodologia, o Arroio Solitário está localizado
dentro da VI Região – e a equação para a determinação das vazões médias é:

Q50 = 0,01294.A0,979
(2)
Onde:
Q50 = vazão encontrável no leito do rio em 50% das vezes (vazão média), dada
em m3.s-1
A = área da bacia de contribuição para o ponto, dada em km2

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 77


Todos os pontos identificados nas cartas foram conferidos em campo e
georeferenciados com G.P.S.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A microbacia hidrográfica do Arroio Solitário está inserida na Bacia Hidrográfica
do Rio Paranhana. Localiza-se no Mapa da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército
(DSG) escala 1:50000, na carta MI – 2971/1 de Taquara. Sua área pertence ao município
de Igrejinha e apresenta os limites extremos nas coordenadas geográficas 50º 48' 32” até
50º 53' 10” de longitude oeste e 29º 31' 21” até 29º 35' 29” de latitude sul.
As principais características da bacia hidrográfica do Arroio Solitário são:
Área: 26,13 km2
Densidade de drenagem: 0,79 km/km2
Cota da nascente: 795 m
Cota da foz: 16 m
Perímetro: 23 km
Comprimento longitudinal da bacia, L: 8,5 km
L2: 72,25 km2
Pelos critérios definidos para o presente trabalho, foram identificados, em carta, cin-
co sítios de potencial hidroenergéticos. A Figura 2 apresenta a localização destes pontos.

FIGURA 2 – Localização dos pontos com potencial igual ou superior a 500 W.

78 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


Com a área de contribuição no ponto desejado e a vazão calculada pela equação
(2), encontrou-se o potencial de cada ponto utilizando-se a equação (1), cujos resulta-
dos estão expressos na Tabela 1.

TABELA 1 – Determinação do potencial hídrico definido por cartografia.

De acordo com a Tabela 1, verifica-se que todos os pontos escolhidos no mapa


da Figura 2, têm potencial superior a 500 W. Dos pontos identificados por carta, P1, P4
e P5 são os que apresentam maior potencial. Este resultado deve-se à combinação dos
valores da área de contribuição e da altura de queda definida pela declividade na carta.
Todos os pontos se localizam na cabeceira da bacia, caracterizando-se por possuírem
pequenas áreas de contribuição e baixas vazões, tendo interesse apenas social, para
atender a demanda de moradas isoladas.
Ao se realizar a conferência em campo, verificou-se que, nos pontos
georeferenciados na carta como quedas, as mesmas ocorriam, confirmando a validade
do método. Porém, na extensão trabalhada em carta, de 100 metros, pode ocorrer um
grande declive em cascata, oferecendo várias pequenas quedas, as quais, por si só, não
representam pontos de potenciais, mas, agrupadas, fornecem um sítio atrativo
energeticamente. Devido a este fator, em campo foi localizado maior número de que-
das, porém, com alturas menores do que as definidas por carta. A Tabela 2 apresenta as
quedas identificadas em campo, com seus respectivos potenciais livres. Das medidas
de campo foram utilizadas apenas as alturas, sendo vazão e área calculadas pelo mes-
mo sistema anterior.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 79


TABELA 2 – Determinação do potencial hídrico identificado em campo.

A Figura 3 apresenta a localização das quedas identificadas em campo.

FIGURA 3 – Localização das quedas d’água encontradas em campo.

Na Figura 3 verifica-se que as quedas identificadas por carta, de P1 até P5, sobre-
viveram, porém, como mostra a Tabela 2, com menor altura. Em campo também foram
identificadas três novas quedas. P6 é uma queda cuja altura, na metodologia cartográfica,
ficou inserida na altura da queda P3 da Tabela 1. A queda P7 que se localiza entre P4 e

80 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


P5, na metodologia cartográfica teve sua altura registrada em uma destas na Tabela 1.
O somatório das potências livres, calculados pela Tabela 1, se reproduz na Tabe-
la 2, se for descontada a potência do ponto P8.
O ponto P8, não identificado em carta, representa um sítio de interesse comerci-
al, visto que se situa em local onde as margens são profundas, podendo, através de um
barramento que mantenha o remanso das águas limitado ao leito do rio, obter-se uma
energia superior a 3 MWh/mês.

4 CONCLUSÕES
A técnica de sondagem das cartas aerofotogramétricas do Exército, escala 1:50000,
para localizar pontos de potencial, revelou-se uma ferramenta poderosa para auxiliar
na identificação de sítios de potencial hidroenergéticos. A comparação entre o somatório
do potencial medido pelo método com o potencial medido em campo, apresentando
valores muito próximos, confirmam a confiabilidade do método.
Scartazzini (1995), utilizando o Sistema Geográfico de Informações – SGI para
identificar sítios hidroenergéticos com este programa, encontrou uma maximização
dos potenciais calculados pelo programa em relação ao potencial identificado em campo,
justificando que o tamanho do pixel (44 metros) utilizado pelo programa considera
como queda o desnível encontrado entre o início e o final desta extensão. Como em
campo foi considerado como queda apenas o desnível vertical, o programa maximizou
o número de quedas.
No presente trabalho, utilizando-se uma extensão de 100 metros, também se
aglutina todo o desnível. Porém, a busca visual de duas ou mais curvas que se agrupam
numa extensão de 100 metros é uma ocorrência menos freqüente e fornece maior
certeza do desnível.
O presente método, do uso apenas das cartas, neste trabalho, revelou-se mais
preciso que o método descrito utilizando o SGI, sendo um método mais simples e mais
econômico.
Contudo, mesmo o bom resultado obtido, não dispensa a identificação em cam-
po, porque este método é limitado pelo grande distanciamento entre as curvas
altimétricas, plotadas de 20 em 20 metros, fazendo com que uma queda com altura
inferior a 20 metros, estando isolada, passe despercebida na carta, como ocorreu com
o ponto P8.

REFERÊNCIAS
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USP, 1991.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 81


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Recebido em: 13/6/05 Aceito em: 18/9/07

82 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


Manejo da vegetação para redução do
perigo aviário para habitats campestres no
Aeroporto Salgado Filho

Paulus Mendes Porto


Bernardo Liberman
Tania Renata Prochnow

RESUMO
Este trabalho apresenta os resultados de um estudo do manejo da vegetação para reduzir
o perigo aviário junto ao Aeroporto Internacional Salgado Filho na cidade de Porto Alegre. O
trabalho foi dividido em duas fases. A primeira fase constou no levantamento inicial da avifauna
no sítio aeroportuário, em pontos selecionados a partir das características do ambiente e da
vegetação natural e da concentração de aves na área do aeroporto. Esta fase compreendeu oito
meses de ações seqüenciadas, desenvolvidas em oito unidades amostrais. A segunda fase foi
desenvolvida em três áreas de estudo, selecionadas entre os oito pontos anteriores, segundo
critérios de similaridade determinados pela análise de Cluster, para testar o efeito do cresci-
mento da vegetação para o controle da avifauna. Esta fase empregou três meses de levanta-
mento seqüenciado para a verificação da interferência da altura da vegetação na ocorrência
quantitativa da avifauna. Os resultados obtidos mostram uma redução significativa da presen-
ça de pássaros nas áreas de estudo onde foi mantida vegetação alta, o que contribuiu para a
uma melhor segurança operacional das aeronaves durante os procedimentos de pouso e deco-
lagem. Os resultados obtidos apontaram uma solução compatível com as necessidades de con-
trole de avifauna para o aeroporto Salgado Filho.
Palavras-chave: Perigo aviário em aeroportos. Manejo da vegetação.

Handling of the vegetation for reduction of the aviary danger for


field habitats in the Salgado Filho Airport

ABSTRACT
This work presents the results of the study regarding the use of vegetation to reduce the
bird strike related incidents at Salgado Filho International Airport, in the City of Porto
Alegre. The work was divided in two phases. The first one consisted of the initial survey of the
avifauna presents in the surrounding airport, which was carried out at areas that were chosen
taking into account natural vegetation and environmental characteristics, as well as population
of birds. This phase included eight months of sequenced actions, developed in eight sampling
units. The second phase was developed in three survey areas, chosen out of the existing units

Paulus Mendes Porto é prof. MSc. Curso de Pilotagem Profissional de Aeronaves.


Bernardo Liberman e Tania Renata Prochnow são profs. Drs. Programa de Pós-Graduação em Engenharia:
Energia, Ambiente e Materiais (PPGEAM).

Technología Canoas v.8 n.1 p. 83-96 jan./jun. 2007


Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 83
in accordance with the similarity criteria determined by the Cluster analysis, in order to test
the effects of vegetation growth in the control of avifauna. This phase included three months
of sequenced survey to verify the interference of vegetation height in the quantity of avifauna.
The results obtained show a relevant reduction of the presence of birds in the survey areas
where the vegetation was kept high, which contributed for more safer take-off and landing
procedures for airplanes. The obtained results showed a compatible solution with the control
needs of operations in the Salgado Filho International Airport.
Key words: Bird strike incidents at airport. Use of vegetation.

1 INTRODUÇÃO
Dados disponíveis sobre colisões com pássaros mostram que, desde 1912, no
mundo inteiro, cerca de 223 pessoas foram mortas em pelo menos 37 acidentes aero-
náuticos relevantes com aeronaves civis; desde 1950, outras 165 fatalidades ocorre-
ram em 353 acidentes aeronáuticos com aeronaves militares. Nos Estados Unidos as
colisões custaram mais de U$ 390 milhões ao ano entre os anos de 1990 a 1999 (ICAO,
2002; CENIPA, 2006).
Nos últimos anos, o agravamento dessa situação de risco aumentou muito, prin-
cipalmente, em função do desequilíbrio ecológico causado pelas áreas, em regiões
próximas aos aeroportos, destinadas à deposição e/ou tratamento dos resíduos sólidos
urbanos, pelos matadouros, entrepostos de pesca e curtumes.
Os aeroportos, em muitos casos, têm se tornado um local propício para a ocor-
rência de aves devido a presença de áreas residenciais próximas a eles, com precária
ou nenhuma infra-estrutura de saneamento básico. Aeroportos atraem um largo núme-
ro de pássaros e outros animais porque eles oferecem uma imensa região para procura
de alimentos e lugares para aninhar-se livres da ameaça de predadores. As áreas de
campo, que geralmente são grandes extensões em aeroportos, funcionam como atrati-
vo para a avifauna. Assim, o manejo adequado dessas áreas poderá contribuir para a
redução de algumas espécies presentes nos aeroportos.
O aumento da frota aérea, os avanços da engenharia tornando as aeronaves mais
velozes e silenciosas, elevaram o número de colisões entre aves e aeronaves, indican-
do, claramente, a necessidade da tomada de medidas de manejo para a redução da
presença da avifauna em aeroportos.
Este estudo apresenta uma proposta de solução que visa controlar ou reduzir os
fatores de atração de aves e mitigar o problema do perigo aviário no Aeroporto Inter-
nacional Salgado Filho (AISF), principalmente, nos procedimentos de aproximação,
pouso e decolagem de aeronaves. A solução proposta relaciona-se com o uso de vege-
tação alta em áreas internas ao aeroporto dificultando a visualização de alimentação e
de presas por parte de certas espécies de aves. A altura da vegetação foi estabelecida
em torno de 80 cm para não prejudicar os procedimentos de pouso e decolagem e
manter uma visão agradável da paisagem.
Entenda-se que as medidas de manejo estudadas referem-se às ações de curto

84 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


prazo, devendo ser ressaltado que as variáveis ambientais que estão diretamente
relacionadas com o perigo de colisão são, em geral, manejadas a médio e longo
prazo.

1.1 Aeroporto Internacional Salgado Filho – Porto Alegre


Segundo a fundação COPPETEC/UFRJ (2002), um dos maiores problemas do
Aeroporto Internacional Salgado Filho, município de Porto Alegre, é sua localização
numa área com drenagem bastante difícil, que favorece o alagamento de extensões do
terreno durante épocas chuvosas. Essas áreas alagadiças são, evidentemente, atraentes
para uma grande variedade e quantidade de aves.
Em certas épocas do ano, garças realizam um deslocamento diário, pela manhã,
e outro ao crepúsculo, entre o delta do rio Jacuí e a foz do rio Gravataí (Figura 1). O
sítio aeroportuário é usado como ponto de parada e descanso de grandes grupos de
garças. Quanto ao número de registros de colisões com aeronaves no sítio aeroportuário
do AISF, o primeiro lugar é ocupado pelo quero- quero (Vanellus chilensis), presente
ao longo de todo o ano; o segundo lugar é ocupado pelas garças (COPPETEC/UFRJ,
2002). Recentemente, janeiro de 2007, uma colisão entre uma ave e um avião, durante
o procedimento de pouso, danificou o aparelho forçando a companhia aérea a realizar
sua troca para dar continuidade à viagem.

FIGURA 1 – Aeroporto Internacional Salgado Filho, delta do rio Jacuí e foz do rio Gravataí.

Além disso, dentro do aeroporto Salgado Filho existem bosques de vegetação


emaranhada desenvolvendo-se sobre terreno alagadiço, onde foram observados ninhais
de garças, documentados fotograficamente em dezembro de 1993 por uma equipe do
CEMAVE (BELTON, 1994).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 85


1.2 Cobertura vegetal do sítio
A vegetação da área do Aeroporto Salgado Filho, de cerca de 3.800.000 m², é
composta predominantemente por uma formação campestre, caracterizada por espéci-
es herbáceas e, em menor número, por algumas formações florestais, sendo enquadra-
da nas Áreas das Formações Pioneiras de Influência Fluvial (VELOSO; GOES-FI-
LHO, 1982).
Dentro do contexto campestre, existem zonas com solos bem drenados, apresen-
tando adaptações peculiares, como folhas reduzidas em tamanho, que diminui a
transpiração, e estruturas subterrâneas de armazenamento de água, com engrossamentos
de raízes e caules subterrâneos (BRACK, 2001). Nestas áreas dominam espécies her-
báceas rasteiras, tendo domínio de espécies invasoras de pequeno porte, tanto
monocotiledôneas como dicotiledôneas, com destaque para gramíneas cespitosas (Fa-
mília Poaceae) dos gêneros Paspalum, Echinochloa e Brachiaria, e outras famílias,
com proeminência para os gêneros Baccaris, Vernonia e Solanum.
Além desta zona campestre, existem locais com solos mal drenados, que são
maioria para estas regiões de várzeas, inclusive no aeródromo, sendo utilizadas valas
de drenagem para evitar alagamentos, com vegetação predominante de gramíneas en-
tre outras famílias, onde pode-se destacar gêneros como Paspalum, Cyperus, Scirpus.
Associada a esta formação pode aparecer, isoladamente, vegetação arbustiva e
arbórea típica como Mimosa bimucronatra (maricá), Erytrina crista-galli (corticeira-
do-banhado) e Sebastiana klotzchiana (sarandi). Este tipo de formação predomina na
maior parte do sítio aeroportuário, principalmente próximo a pista principal, bem como
nas áreas de movimento, manobras e taxiamento aéreo (Figura 2).
A formação florestal concentra-se, principalmente, próximo ao muro sul do ae-
roporto e próximo ao pátio de pequenas aeronaves.

FIGURA 2 – Sítio aeroportuário e as matas nativas.

86 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


1.3 Uso e ocupação do solo
Com relação ao uso do solo existente no raio de 20 km do Aeroporto Internacio-
nal Salgado Filho, constata-se que é composto por um mosaico extremamente diversi-
ficado de ambientes, em sua maioria, totalmente antropizados. Destacam-se em di-
mensão de áreas, as zonas urbanas, as áreas rurais e uma grande área natural configu-
rada pelo Parque Estadual do Delta do Jacuí e o Lago do Guaíba (Figura 1). No sentido
dos municípios de Canoas e Cachoeirinha, tanto ao norte como ao leste, e oeste as
áreas são rurais ou de expansão urbana.
Nas áreas rurais não agrícolas e nas áreas naturais encontram-se matas aluviais,
matas baixas, campos secos, campo com butiás, campo úmidos, potreiros banhados
altos, sarandizal, macarizal, juncal, macrófitos flutuantes e ecossistemas aquáticos.
Quanto ao uso de característica primária, tem-se no entorno do AISF, basica-
mente, campos de pastoreio e, principalmente, lavouras de arroz, sendo que estas ocu-
pam uma área muito significativa da região.

2 METODOLOGIA
O presente trabalho foi dividido em duas fases:
A primeira fase, realizada de outubro de 2004 a junho de 2005 constou no levan-
tamento da avifauna no sítio aeroportuário. As áreas escolhidas para a realização deste
levantamento foram selecionadas a partir das características do ambiente e da vegeta-
ção natural anteriormente relacionada, bem como da concentração de aves observadas
durante as visitas na área do aeroporto. Foram estabelecidos 8 pontos de estudos situ-
ados nas laterais da pista do AISF.
Durante a segunda fase, realizada de janeiro a março de 2006, foram escolhidas
3 áreas entre os 8 pontos citados anteriormente, para testar o efeito do crescimento da
vegetação no controle da avifauna.
Estas áreas foram subdivididas em duas partes para realização do estudo comparati-
vo. Uma parte recebeu as siglas PO I, PO II e PO III, onde a pastagem foi mantida com uma
altura de até 80 cm, e a outra parte recebeu as siglas PC I, PC II e PC III, onde a grama
continuou sofrendo corte regular. Cada uma das áreas foi demarcada com 100 m x 100 m.

2.1 Metodologia da primeira fase


A primeira fase do trabalho compreendeu 9 meses de ações seqüenciadas a partir
de outubro de 2004. Os oito pontos de estudo escolhidos foram os seguintes:
- Ponto I (303281 S, 0502225 W): ao leste do sítio, região degradada? por
terraplenagem, composta por solo saibroso em sua grande extensão desnudo, com
vestígios escassos de um tapete de grama e alguns maricás (Mimosa bimucronata).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 87


- Ponto II (303285 S, 0502042 W): na via lateral da porção norte da? pista com
acesso para a cabeceira 29, onde a vegetação é composta por um campo de gramíneas.
- Ponto III (303266 S, 0501650 W): situado próximo à curva de acesso à via
lateral esquerda, que fica perpendicular ao eixo da pista de pouso e decolagem, tendo
ao norte a área onde está situado um canteiro de obras. Na área estão dispostas valas de
drenagem e vegetação composta por gramíneas.
- Ponto IV (304013 S, 0501690 W): área próxima às drenagens de águas pluviais
paralelas ?à via lateral da cabeceira 29 em sua porção sul, fazendo divisa com os
limites do sítio, onde existem alguns indivíduos arbóreos nativos e exóticos. A área do
interior do sítio está coberta por gramíneas.
- Ponto V (304085 S, 0501639 W): ao sul da pista de pouso e decolagem, com-
preende valas de drenagem e vegetação arbustiva remanescente. Na margem de uma
das valas, encontram-se algumas corticeiras (Enterolobium), estando o restante da área
coberta por gramíneas.
- Ponto VI (304154 S, 0501582 W): próximo ao pátio das pequenas aeronaves
com campo coberto por gramíneas e um remanescente de vegetação secundária a sul.
- Ponto VII (304253 S, 0501530 W): próximo à guarita de entrada para área de
manutenção da Varig, coberta por campo.
- Ponto VIII (303680 S, 0501510 W): campo coberto por gramíneas, situado
próximo ao limite noroeste do sítio, próximo ao estacionamento dos táxis e à BR-116.
As atividades consistiram primeiramente no reconhecimento da área através
da análise de imagens de satélite e levantamento fotográfico no sítio aeroportuário.
Posteriormente, foram realizadas visitas “in loco” para confirmação detalhada do
interior do sítio e de seu entorno, permitindo a partir dessas, o estabelecimento de
áreas críticas, áreas de acesso e de circulação da equipe, para comunicação à
INFRAERO e para normatização do regime de trabalho. Como forma suplementar
às informações, foi utilizada a base de dados existente na INFRAERO (COPPETEC,
2000).
Com base nos dados iniciais deste levantamento, foram criadas áreas específicas
para o estudo e a elaboração final do banco de dados.

2.1.1 Amostragem semanal


O monitoramento de cada ponto foi realizado por 2 pessoas que percorreram,
os 8 pontos, com periodicidade de 4 visitas semanais, em sentidos opostos visando
obter um maior número de informações. Como resultado deste monitoramento, foi
obtida a lista das espécies presentes que serviu como suporte para o restante do
trabalho.
Através de observação direta, conforme BIBBY (1997), foram quantificadas e

88 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


identificadas (observando-se a riqueza) as aves presentes em um raio de aproxima-
damente 90 m de cada ponto, por um período de 10 minutos. O tempo de amostragem
foi estabelecido com base na curva do observador (KREBS, 1999). Para o estudo da
abundância (número de indivíduos de cada espécie) de aves por pontos foi utilizado
o maior registro de indivíduos por espécie durante os 8 monitoramentos, evitando
assim, superestimar a abundância, pois as amostragens foram sempre realizadas nos
mesmos pontos.

2.1.2 Amostragem 12 horas


Durante a estação de verão foram coletados dados da avifauna por um período
de 12 horas. Para isto, os 8 pontos selecionados foram documentados, por 10 minutos,
com intervalos de 60 minutos entre uma amostragem e outra. As atividades tiveram
início às 7 horas, possibilitando a realização de três monitoramentos, sendo um no
turno da manhã e dois à tarde. Às 19h00min, por determinação da INFRAERO, as
atividades foram encerradas, reunidos dados e elaborada a planilha de amostragem.

2.1.3 Amostragem noturna


Durante a primavera foi acordado com a INFRAERO a realização de
monitoramentos noturnos para a identificação de aves ativas durante este período. A
suficiência amostral foi estabelecida com base na curva do observador (KREBS, 1999).
As observações foram restritas a uma única estação do ano, dada às peculiarida-
des do grupo que, no geral, é identificado a partir da vocalização. Estes animais
vocalizam para atrair parceiros para reprodução, o que ocorre principalmente na pri-
mavera.
Entretanto, devido às condições insatisfatórias no local, provocadas pelas in-
tempéries registradas neste período, foi impossível executar um número mínimo de
amostragens para compor o estudo, não sendo apresentado, portanto, o relatório
específico.

2.1.4 Levantamento da avifauna


A riqueza e abundância de aves, nas diversas estações do ano, foram comparadas
através de análise de variância ZAR (1999), sendo considerado um nível de
confiabilidade de 95%, indicando assim possíveis diferenças na riqueza e abundância
de aves ao longo destas estações.
A similaridade entre os pontos, considerando os aspectos de riqueza e abundância,
foi obtida através da análise de Cluster, por ser uma análise multivariada e utilizada para
classificar pontos de observação, segundo as suas características de similaridade.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 89


A nomenclatura científica, assim como o status residentes (espécies que não
realizam movimentos cíclicos de ida e volta além do RS) ou migratórias (espécies que
sazonalmente realizam movimentos de ida e volta para fora do RS) foi empregada com
base em BENCKE (2001).
As aves observadas durante cada estação do ano foram sendo registradas segun-
do agrupamentos alimentares, com base na dieta predominante de cada espécie, de
acordo com SICK (1997): frugívoros (dieta predominantemente de frutos e vegetais
além de, eventualmente, invertebrados), granívoros (dieta predominantemente de grãos),
nectarívoros (dieta predominantemente de néctar além de, eventualmente, pequenos
invertebrados), insetívoros (dieta predominantemente de invertebrados), carnívoros
(incluindo pequenos vertebrados) e onívoros (incluindo frutos, invertebrados e peque-
nos vertebrados na dieta).

2.2 Metodologia da segunda fase


A segunda fase do trabalho, focada na utilização da grama como um elemento
possível de reduzir a presença da avifauna no AISF, analisou a presença da avifauna
em 3 áreas selecionadas por características semelhantes de riqueza e abundância,
dentre os 8 pontos estudados na primeira fase. Para se chegar a um resultado de
similaridade entre os pontos, foi utilizada a análise de Cluster tomando por base
estes 8 pontos.
Cada área foi dividida em uma parte com grama alta, denominada ponto de
observação (PO), e outra parte com grama baixa, denominada ponto de controle
(PC), tendo a extensão de 100 m x 100 m. O monitoramento da ocorrência e inci-
dência de aves nas 3 áreas escolhidas no aeródromo foi realizado segundo a mes-
ma metodologia da primeira fase, obtendo o mesmo número de planilhas de dados
mensais.

2.2.1 Análise da cobertura vegetal


O estudo efetuado nas áreas considerou o tipo de cobertura vegetal de cada área
desta segunda fase. Todas as áreas apresentaram os mesmos tipos de gramíneas, sen-
do, entretanto, predominante na área I, o capim-caninha (Andropogon lateralis), na
área II, o capim-forquilha (Paspalum notalum), e na área III, a cola-de-burro
(Andropogon bicomis).
Foi considerado também que o crescimento destes tipos de gramíneas não causa-
ria problemas de segurança na área do sítio aeroportuário, ou seja, a visualização de
aeronaves e viaturas ao longo da pista, bem como, na sua lateral, não foi afetada pela
altura da grama.
Quanto à possibilidade de ocorrência de um incêndio, a altura especifica de 80

90 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


cm não aumentou riscos de secagem da vegetação minimizando o risco de um incên-
dio no local.

2.2.2 Definição dos procedimentos de campo


A localização das três áreas utilizadas na segunda fase, desdobradas nas sub-
áreas PO e PC, foi:
- Área I, PO I (303281 S, 0502225 W e PC I (303281 S, 0502227 W;
- Área II, PO II (304013 S, 0502042 W) e PC II (304013 S, 0502044 W): próxi-
ma às instalações do radar e
- Área III, PO III (304085 S, 0501650 W) e PC III (304085 S, 0501652 W):
próxima ao acesso do pátio de pequenas aeronaves.

2.2.3 Amostragem semanal


A eficácia do crescimento da grama em cada um dos pontos de observação (PO)
das 3 (três) áreas citadas foi obtida pela comparação desses pontos com os pontos de
controle (PC), os quais mantiveram um corte regular a cada 15 dias. Assim, foi possí-
vel estabelecer uma estratégia de controle da avifauna em áreas críticas no aeroporto
Salgado Filho,
Como forma de comprovar e estabelecer um grau de assertividade ao estudo
realizado nessas áreas foi utilizado o método de análise estatística teste student “t”,
tendo sido atribuído um grau de confiabilidade de 95%.

3 RESULTADOS
No período compreendido entre 16 de outubro de 2004 e 16 de junho de 2005
foram registradas 60 espécies de aves. Esse dado representa 10% da avifauna total
citada para o Rio Grande do Sul que, segundo BENCKE (2001) é de 624 espécies.
O inventário da avifauna no Aeroporto Internacional Salgado Filho apresentou
uma média de 1.057,8 indivíduos na amostragem por pontos. As principais espécies
listadas no inventário ocorreram de maneira homogênea ao longo das estações do ano
(Figura 3). Não foi verificada diferença significativa na riqueza de espécies entre os
pontos, ao longo das estações do ano, bem como, entre estações.

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 91


FIGURA 3 – Média da abundância das principais espécies de aves ao longo
das quatro estações do ano no AISF.

92 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


A seguir, são apresentados os resultados dos 3 (três) relatórios referentes aos
meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2006, assim como, a abundância das espécies
identificadas nas 3 áreas nos respectivos meses.

3.1 Relatório 1
O monitoramento compreendeu o período de 2 a 31 de janeiro de 2006. Foi obser-
vado que as áreas com vegetação mais alta sofreram uma redução na diversidade e abun-
dância de aves, quando comparadas às áreas com vegetação mais baixa (Figura 1).
Conforme os dados obtidos na primeira fase, os monitoramentos locais mostra-
ram a ocorrência, principalmente, de quero-quero (Vanellus chilensis) e garça-vaqueira
(Bubulcus ibis), os quais são predominantes nas áreas de controle, ou seja, onde a
grama está sendo cortada regulamente. Foram registrados em ambas as 3 (três) áreas,
exemplares de maria-faceira (Syrigma sibilatrix). Esta espécie, no geral, vive aos pa-
res, não é gregária, como nos casos do quero-quero e da garça-vaqueira. Segundo
Bencke (2001), as espécies gregárias oferecem maiores riscos de colisões com aerona-
ves do que as demais.

FIGURA 1 – Abundância média de aves para áreas com vegetação alta e vegetação baixa.

A análise dos dados através do teste student “t” apresentou P = 0,0447 < 0,05(95
%) e t = 1,04 < t crítico 1,69, confirmando a existência de uma diferença significativa
da abundância no estudo realizado entre a grama alta e grama baixa.

3.2 Relatório 2
O monitoramento do presente relatório correspondeu ao período de 1° a 28 de
fevereiro de 2006. Durante este segundo mês do monitoramento, as mesmas espécies
do relatório 1 continuaram dominantes. As áreas com vegetação mais alta mantiveram
a redução na abundância de aves (Figura 2).

Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007 93


FIGURA 2 – Abundância média de aves para áreas com vegetação alta e vegetação baixa.

A composição da comunidade das aves apresentou uma alteração com a presen-


ça de andorinha-pequena-das-casas (Notiochelidon cyanoleuca) nas áreas com grama
alta. Entretanto, essas apareceram de forma isolada, não gregária e em 4 ocasiões
somente.
Os monitoramentos locais continuaram apontando, principalmente, o quero-quero
(Vanellus chilensis) e a garça-vaqueira (Bubulcus ibis), como espécies dominantes nas
áreas de estudo.
A análise dos dados através do teste student “t” apresentou P = 0,0445 < 0,05 (95
%) e t = 0,77 < t crítico 1,69.

3.3 Relatório 3
O monitoramento compreendeu o período de 1° a 31 de março de 2006. Verifi-
cou-se que as mesmas espécies dos relatórios 1 e 2 continuaram dominantes. Quanto à
ocorrência da avifauna, foi observado que as áreas com vegetação mais alta mantive-
ram a redução na diversidade de aves, quando comparadas às áreas com vegetação
mais baixa (Figura 3).
A composição da comunidade das aves não apresentou alteração. A presença de
andorinha-pequena-das-casas (Notiochelidon cyanoleuca) não foi registrada nas áreas
com grama alta, conforme registrado no relatório 2. Não foi observada a presença
significativa de outras aves no local. Alguns exemplares de maria-faceira (Syrigma
sibilatrix) apareceram em 2 ocasiões e de forma isolada.
Ainda, os monitoramentos locais continuaram registrando, principalmente, que-
ro-quero (Vanellus chilensis) e garça-vaqueira (Bubulcus ibis), conforme descrito nos
relatórios anteriores.

94 Technología, v.8, n.1, jan./jun. 2007


FIGURA 3 – Abundância média de aves para áreas com vegetação alta e vegetação baixa.

A análise dos dados através do teste student “t” mostrou os seguintes valores:
P = 0,0406 < 0,05(95 %) e t = 0,82 < t crítico 1,97.

4 CONCLUSÕES
O presente trabalho demonstrou que uso da grama alta permitiu uma redução
expressiva da afivauna no Aeroporto Internacional Salgado Filho em Porto Alegre.
As análises estatísticas permitiram estabelecer um meio comparativo quanto aos
aspectos de abundância e riqueza das aves presentes nas áreas de estudo, tanto na 1ª
fase como na 2ª fase. O método mais adequado para demonstrar os resultados do estu-
do apresentado foi a análise de Cluster, a qual, tendo sido elaborada através das distân-
cias euclidianas e disposta em linhas segundo os níveis de similaridade, pode mostrar
o agrupamento e a relação de proximidade dos pontos, durante o monitoramento das
áreas de estudo da primeira fase.
O método de student “t” permitiu verificar a assertividade dos dados observados
durante a segunda fase nas áreas de estudo, considerando um nível de confiabilidade
de 95%.
Comparado com outros estudos realizados (CARTER, 2000), o estudo mostrou
um aspecto positivo no que tange a adequabilidade, praticabilidade e aceitabilidade da
solução adotada.

REFERÊNCIAS
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1994. 88p.
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de Porto Alegre, Ed. Universidade, UFRGS, Porto Alegre, RS, 1998. 228p.
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Recebido em: 25/4/07 Aceito em: 28/8/07

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tivas sobre participações em eventos científicos e tecnológicos em português, espa-
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chave. O trabalho deve incluir o nome e o endereço dos autores. As figuras e as
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completas, colocadas em ordem alfabética e seguindo as seguintes normas: quando o
autor é citado no texto, seu nome vem só com a 1ª letra em maiúsculo, seguido do ano
da publicação entre parênteses – ex.: Einstein (1905) –; quando o autor é citado fora
do texto, seu nome e ano da publicação vêm entre parênteses separados por vírgula e
todas em maiúsculas – Ex.: (EINSTEIN, 1905). No item Referências Bibliográficas,
seguir as seguintes ordens para cada tipo de publicação. Obs.: colocar somente as
referências citadas no texto.

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Revista
VERNEY, J.C.K. de and DUSZCZYK, J. Brazilian J. of Mat. Sci. and Eng.,
vol. 1, n. 1 (1998), p.16-23.

Livro
GERMAN, R.M. Powder Metallurgy Science, MPIF, Princeton, NJ, 1984. 279p.

Conferência
SILVA, M.P., WHITEMAN, J.A., JONES, H. and Sellars, C.M. Proceedings of
PM’90 World Cong., The Institute of Metals, London, UK, July 1990, vol. 2, p.311-
314.

Artigo de livro
WANG, J., LAI, Z. and WANG, P. In: Advances in Powder Metallurgy &
Particulate Materials, eds., M. Phillips and J. Porter, MPIF, Princeton, NJ, 1995, vol.1,
part 1, p.241-250.

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CEP: 92.425-900, Canoas, RS – Brasil
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Periodical
VERNEY, J.C.K. de and DUSZCZYK, J. Brazilian J. of Mat. Sci. and Eng.,
vol. 1, n. 1 (1998), p.16-23.

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Book
GERMAN, R.M. Powder Metallurgy Science, MPIF, Princeton, NJ, 1984. 279p.

Conference
SILVA, M.P., WHITEMAN, J.A., JONES, H. and Sellars, C.M. Proceedings of
PM’90 World Cong., The Institute of Metals, London, UK, July 1990, vol. 2, p.311-
314.

Article from a book


WANG, J., LAI, Z. and WANG, P. In: Advances in Powder Metallurgy &
Particulate Materials, eds., M. Phillips and J. Porter, MPIF, Princeton, NJ, 1995, vol.1,
part 1, p.241-250.

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