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V Seminário Internacional – Direitos Humanos, violência e pobreza: a situação de

Crianças e Adolescentes na América Latina.


Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Universidade de Buenos Aires.
Data: 26, 27 e 28 de Novembro de 2014.
GT I: Direitos humanos, violência e criminalização da pobreza.
Título do trabalho: “A ESCOLA BOSQUE É UM LOCAL ONDE ELES AINDA VÊM
ESPERANÇA”: estudo sobre o acompanhamento pedagógico às crianças vítimas de
violência doméstica na Escola Bosque, Belém-Pa.
João Luiz da Silva Lopes. Mestre em Sociologia. Professor na Universidade do
Estado do Pará.
Resumo
O trabalho tem como objetivo analisar o acompanhamento
pedagógico junto às crianças vítimas de violência doméstica
pela equipe técnica e professores da Escola Bosque,
mostrando as dificuldades enfrentadas por esses profissionais
no cotidiano escolar. O estudo justifica-se pela ausência de
uma abordagem mais sistematizada da temática no cotidiano
escolar. Esta pesquisa foi realizada a partir de uma abordagem
qualitativa, com base nos casos de crianças do ciclo 01 da
Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira. Participaram da
pesquisa 3 (três) pedagogos regentes, 3 (três) pedagogos
técnicos, 1(um) geógrafo, 1(um) assistente social, 1(um)
psicólogo. Como técnica de coleta de dados, utilizamos a
entrevista. Os resultados mostraram que apesar de haver certa
falta de articulação da equipe técnica e professores em relação
ao processo de intervenção pedagógica nos casos de
violência, seja por falta de informação, falta de recursos ou por
qualquer outra questão, existe uma grande preocupação com o
bem estar destes alunos. E que a escola precisa dar um
suporte maior a esta equipe, para que o trabalho pedagógico
possa alcançar não só os alunos, mas também suas famílias.
Palavras chave: Escola, Violência Doméstica,
Acompanhamento Pedagógico, Pedagogo.
Abstract
This study aims to analyze the pedagogical accompaniments
with children victims of domestic violence that the technical staff
and school teachers, showing the difficulties faced by these
professionals in school life. The study is justified by the
absence of a more systematic approach to the subject in school
life. This research was conducted from a qualitative approach,
based on the cases of children 01cycle of Escola Bosque
Professor Eidorfe Moreira. Participated of the search three (3)
conductors educators, three (3) technical teachers, one (1)
geographer, one (1) social worker, one (1) psychologist. As
instruments for collecting data, use the interview. The results
showed that although there is a lack of coordination of the
technical staff and teachers in relation to the process of
pedagogical intervention in cases of violence, either by lack of
information or lack of resources or for any other question, there
is great concern the well-being of these students. And the
school needs to give more support to this team, for the
pedagogical work can achieve not only the students who are in
school, more for their families.
Key words: school, pedagogical monitoring, domestic violence,
pedagogue.

João Luiz da Silva Lopes 1


Ana Paula Gomes Marinho2
Pâmella Naisse Miranda da Silva3

INTRODUÇÃO

A pesquisa tem como objetivo, analisar a maneira como os profissionais da


educação vem realizando o acompanhamento pedagógico às crianças vítimas de
violência doméstica, que estudam na Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira.
Se a violência já ganhou visibilidade no seio da sociedade brasileira, como
problema de saúde pública, com a interferência de diversos profissionais, tais como
os médicos, os enfermeiros, os advogados, os psicólogos, os assistentes sociais, o
mesmo ainda não ocorreu no campo da educação, pois são poucos os estudos que
investigam a atuação dos profissionais de educação junto a esse problema.
O interesse pela temática surgiu a partir de nossas observações da
massificação do tema na televisão, um meio de comunicação que toda a população
tem acesso através de programas que enfatizam a violência em suas diversas
formas.
A relevância pedagógica se dá a partir do momento em que problematiza a
atuação da escola enquanto instituição, no sentido de evidenciar a temática e
aprimorar o diagnóstico e acompanhamento das vítimas por seus profissionais.
Precisamos ter consciência da importância do profissional da educação para
intervenção nos casos de violência doméstica, pois o professor é o agente que está
mais próximo dessas vítimas, devido ao tempo significativo que a criança passa na
escola. Na grande maioria dos casos essas crianças apresentam certos sintomas,
como por exemplo, falta de atenção, isolamento, agressividade, sentimentalismo em
excesso, queda no rendimento escolar, entre outras coisas. Portanto ele deve ser o
primeiro a desconfiar, a diagnosticar e encaminhar o educando para outros
profissionais.

1
Professor da Universidade do Estado do Pará-UEPA, Ms. em Sociologia pela UFPA.
2
Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará-UEPA.
3
Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará-UEPA.
Sabemos que a informação é um importante passo para mudar essas
estatísticas, pois quanto mais pessoas souberem identificar as marcas da violência
doméstica e trabalhar com a prevenção, mais contribuiremos para enfrentar o
sofrimento de milhares de crianças, sendo assim é preciso romper o silêncio e
garantir os direitos de crianças e adolescentes.
Elegemos o Centro de Referência em Educação Ambiental Escola Bosque
Professor Eidorfe Moreira enquanto lócus da pesquisa, por se constituir em
importante projeto de política pública na área de educação nos anos de 1990, no
município de Belém. E por possuir uma equipe multidisciplinar composta por
Pedagogos, Psicólogos e Assistentes Sociais.
O estudo demandou uma abordagem qualitativa descritiva, do tipo Estudo de
Caso, pois buscou conhecer as estratégias utilizadas pelos professores e
profissionais da equipe multidisciplinar da referida instituição, diante de casos de
violência doméstica, sofrida e/ou presenciada pelos alunos.
A técnica de coleta de dados utilizada na pesquisa foi a entrevista, a partir
de um roteiro com perguntas sobre diagnóstico, acompanhamento, dificuldades e
parcerias institucionais para lidar com os casos de violência doméstica.
Foram selecionados, aleatoriamente 3 (três) professoras do turno da manhã;
1 (uma) Pedagoga do Núcleo de Acompanhamento Pedagógico - NAP, responsável
por atender os alunos em foco; 1 (uma) Assistente Social; 1 (uma) psicóloga; 2
(dois) Pedagogos e 1 (um) professor de Geografia, que atuam no Projeto Agentes e
Monitores Ambientais – AMA.

Contextualização da Ilha de Caratateua e da Escola Bosque

Segundo Relatório de Gestão de 2009, da Administração Regional de


Outeiro, a Ilha de Caratateua, mais conhecida como Ilha de Outeiro, está localizada
a aproximadamente 35 km do centro de Belém, sendo a Ilha mais próxima da capital
paraense, separada do continente pelo Furo do Maguari e interligada pela Ponte
Enéas Martins Pinheiro. Possui pouco mais de 63.353 habitantes e 14.266
domicílios. É banhada pela Baía do Guajará e possui belas praias de rio. O nome
tem origem indígena, que em Tupi-Guarani, significa “lugar das grandes batatas” (ou
das muitas batatas).
O processo de ocupação, mais recente, da ilha se intensificou em
consequência da urbanização da cidade de Belém, que segundo Mitschein, Miranda
e Paraense (1989), assumiu a forma de uma nivelação ‘para baixo’, concretizando-
se através da potencialização de problemas sócio-ecológicos como desemprego e
subemprego em massa, favelização dos bairros periféricos, poluição do meio
ambiente pela falta de serviços básicos entre outros.
Numa análise mais específica Rodrigues (1996), mostra que as pessoas
apropriam-se do espaço-ambiente de forma diferenciada, num processo de
segregação que exprime a exclusão social, ou seja, as condições de vida na cidade
estão condicionadas à correlação de forças entre as classes sociais.
O crescente processo de urbanização, nos últimos anos, tem ocorrido de
forma desordenada ou espontânea em direção às áreas insulares e periféricas
imediatas da grande Belém. A construção da ponte Enéas Martins em 1986,
conectando a ilha ao continente, facilitou o fluxo das pessoas que iam sendo
expulsas da área urbana de Belém e as que vinham direto do interior.
Esta área vem sofrendo de vários problemas socioambientais, resultantes da
intensa ocupação espontânea. De acordo com o Idesp (1990), o resultado da
ocupação desordenada é uma cidade cujo mal uso dos recursos naturais e do meio
físico causa transformações na sua topografia, qualidade dos solos, dos recursos
hídricos, cobertura vegetal, nas condições microclimáticas e, finalmente na
qualidade de vida da população.
Segundo Silva (1995), em todos os bairros da ilha há grande deficiência nos
serviços de infra-estrutura urbana e demais serviços coletivos como nos transportes
urbanos, drenagem e pavimentação de ruas, falta de serviços como agências
bancárias, correios, iluminação pública, abastecimento de água, sistema de esgoto,
escolas e unidades de saúde mais eficientes, o que se reflete na condição atual de
vida da população.
Para Rodrigues (1996), uma das formas de viver no espaço-ambiente, para
os desfavorecidos, exige que estejam mais ou menos organizados para lutar pelo
direito à cidade.
O próprio contexto de violência social ao qual essa população foi submetida,
propiciou a compreensão da necessidade de se organizar. Assim, foram criados os
Centros Comunitários, Associação de Moradores, de Produtores, de Barraqueiros,
de Artesãos e ONGS Ambientais. Como aprendizado da luta, essas organizações se
juntaram, formando uma organização maior chamada de CONSILHA (Conselho de
Representantes da Ilha).
Dentre as várias reivindicações dessa organização, iniciou-se a construção
de um projeto que fosse mais eficaz, no enfrentamento do crescente processo de
degradação socioambiental. Assim, entre vários encontros e desencontros
discutindo o projeto de uma instituição que atendesse as necessidades e anseios da
população da Ilha, no sentido educacional, ambiental, econômico e de participação
política, chega-se a conclusão que seria uma Escola.
Após o projeto concluído, aparece o problema do financiamento, então se
recorre ao poder público municipal para apresentar a proposta de investimento. Aí
se inicia novamente outra negociação em relação aos possíveis ajustes, para a
concretização da proposta.
O fato é que, em 02/01/1995 foi criado, através da lei 7.743 de, o Centro de
Referência em Educação Ambiental Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira. E em
virtude da abrangência do projeto, transformou-se em fundação pela lei de número
002 20/11/95.
A implantação de uma Fundação Municipal como Centro de Referência em
Educação Ambiental no Município de Belém e mais precisamente na ilha de
Caratateua, constituiu-se numa ação inovadora, que denota uma visão mais ampla e
complexa de educação e cidadania, sintonizada com o contexto amazônico, pela
compreensão de que o educando passa a considerar e lutar pela preservação e uso
racional do meio ambiente e conseqüentemente pode tornar-se um agente ativo de
um processo de desenvolvimento sustentável, com vistas a perseguir os princípios
de democratização e inclusão.
O projeto contava com uma área de 120.000m 2 e vários espaços para a
realização das atividades como: salas de aula, biblioteca, brinquedoteca, sala de
leitura, sala de audiovisual, coleção zoobotânica, laboratórios de informática,
pedagógico e de ciências (física/química e biologia). Projetos de horta escola,
plantas medicinais e ornamentais, de reciclagem de papel, de compostagem... Os
professores selecionados com pós-graduação e recebiam uma gratificação, o que
diferenciava seus vencimentos dos colegas da rede municipal de ensino; e os alunos
selecionados eram atendidos em tempo integral, com atendimento pedagógico,
nutricional (lanche e almoço), odontológico, psicológico e de assistência social,
através do Núcleo de Assistência Pedagógica-NAP. O projeto pedagógico abordava
a Educação Ambiental como eixo norteador, com atividades de ensino, pesquisa e
extensão comunitária, onde o aluno ingressaria na Educação Infantil e sairia como
técnico de nível médio.
Ao ser implantado, o projeto já trazia algumas limitações como o alto custo
de funcionamento e manutenção; o atendimento de apenas 750 aluno, diante de um
intenso processo de ocupação desordenado; Influências políticas partidárias, devido
sua vinculação ao Gabinete do Prefeito, favorecendo relações clientelistas e
personalizadas, a partir de um determinado número de Cargos de Confiança e
contratos; formação de recursos humanos inoperante, devido a grande rotatividade
do corpo docente e operacional, pela falta de concurso. Gerando práticas
descontextualizadas e ingênuas; conflitos nas relações de poder entre atividades
pedagógicas e administrativas, por se tratar de uma escola no interior de uma
fundação.
A escola começa a funcionar em caráter experimental em agosto de 1995, é
inaugurada no dia 26 de abril de 1996. No ano seguinte muda radicalmente a gestão
administrativa do municipal e o projeto se torna alvo de vários questionamentos, o
principal deles é o custo de funcionamento e o número de alunos atendidos. Então
se amplia o número de alunos e a essência do investimento em educação em tempo
integral se perde.
Em 2007 se inicia uma tentativa de ir reduzindo gradativamente o número de
alunos e liberando alguns espaços como sala de leitura, videoteca, laboratório de
informática entre outros, que foram transformados em sala de aula. Em 2008 é
realizado Concurso Público para efetivação do corpo docente, só que com a carga
horária da jornada de trabalho reduzida para 6 horas, o que dificulta a lotação do
professor e o atendimento dos alunos. Em 2013 muda a gestão administrativa
municipal e novamente se amplia o número de alunos, troca funcionários... Em
suma, entre avanços e retrocessos a instituição ainda não conseguiu se firmar como
referência em educação ambiental.

Referencial Teórico

A violência na perspectiva de Velho (1996), não se limita ao uso da força


física, mas a possibilidade ou ameaça de usá-la constitui dimensão fundamental de
sua natureza e está associada a uma idéia de poder, quando se enfatiza a
possibilidade de imposição de vontade, desejo ou projeto de um ator sobre outro.
Nesse sentido, podemos acrescentar o alerta de Pedrazzini (2006), que devemos
desconfiar da “criminalidade dos pobres”, que é fruto de complexos processos
socioeconômicos, e questionar as ideologias que visam transformar os setores mais
desfaforecidos em “monstros”. A violência urbana deve ser abordada como um fato
social total e transversal, excluindo assim, qualquer análise setorial ou isolada do
fenômeno, ou seja, a violência não é um fenômeno em si, pois como sabemos, todo
ato humano está inserido em um contexto social, histórico e territorial.
Além disso, seguindo a reflexão do mesmo autor, no atual contexto de
combate ao terrorismo, não podemos negligenciar a violência social:

O terrorismo não deve dissimular a situação cotidiana daqueles que se


submetem ao terror da pobreza, da fome, da vida errante, do racismo do
desemprego, da repressão política e policial, da gestão desigual do serviço
de abastecimento de água, da ausência ou da privatização de serviços
públicos, do difícil acesso à educação, do trabalho infantil, do fanatismo
religioso, do machismo, dos traficantes de drogas, da corrupção dos
funcionários públicos, dos abusos de toda espécie... (PEDRAZZINI, 2006, p
161).

Utilizaremos, neste trabalho, o conceito de violência doméstica de acordo


com Guerra:

Portanto, a violência doméstica contra crianças e adolescentes representa


todo ato de omissão, praticados por pais, parentes ou responsáveis, contra
crianças e/ou adolescentes que – sendo capaz de causar dano físico,
sexual e/ou psicológico à vítima – implica, de um lado uma transgressão do
poder/dever de proteção do adulto e, de outro, uma coisificação da infância,
isto é, uma negação do direito que crianças e adolescentes têm de ser
tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de
desenvolvimento.(GUERRA,1998, p. 32-33)

Neste trabalho compreendemos o acompanhamento pedagógico, como as


diversas ações realizadas pelos profissionais de educação para auxiliar o aluno,
principalmente no interior da escola, na perspectiva de promover a qualidade da sua
aprendizagem e consequentemente, seu sucesso educacional.

A Escola Bosque e a violência doméstica

Os trabalhos de campo iniciaram no mês de março de 2014 e se estenderam


até junho de 2014. As entrevistas ocorreram na própria escola e foram gravadas
com a autorização dos mesmos/informantes. Posteriormente foram transcritas para
serem utilizadas neste trabalho.
No período em campo, a observação se constituiu em ferramenta
metodológica indispensável na busca de interpretações acerca dos diversos
sentidos e sensibilidades vigentes no espaço investigado.
Os interlocutores foram codificados para garantir o anonimato, visto que
usamos códigos para identificar cada um deles. O consentimento foi obtido
verbalmente após explicação dos objetivos do estudo e finalidade dos resultados.
Os resultados evidenciam que não há um planejamento coletivo das
atividades; não existe um projeto de formação continuada; O Projeto Político
Pedagógico não é discutido coletivamente e atualizado; A Violência Doméstica não
se constitui em eixo de atuação sistemática da Escola, do NAP e nem dos
professores.
Para que o acompanhamento pedagógico venha acontecer de forma
completa, existem preocupações que precisam ser tomadas quanto aos indivíduos
que necessitam de intervenções. Os professores devem estar preparados para
fazerem o diagnóstico prévio de possíveis casos a serem encaminhados ao NAP.
Dentre estes casos, existem os que estão diretamente ligados aos casos de
violência doméstica.
Porém percebemos que existe certa dificuldade dos professores na
realizarem o diagnóstico dos alunos vítimas de violência. Isto porque muitos deles
relataram que existe um déficit em sua formação para tal problemática e que a
escola não proporciona nenhum tipo de formação continuada para trabalharem junto
a este problema. Situação que é denunciada pelas autoras a seguir:

Embora há décadas se lute para acabar com a violência doméstica contra


crianças e adolescentes, vários pontos ainda precisam ser enfrentados com
maior eficiência. O primeiro deles é o descompromisso da universidade,
especialmente nos cursos de Saúde, Educação, Justiça, Ciências Sociais
etc., quanto à compreensão e eliminação do fenômeno. O resultado disso é
a sua naturalização e banalização no cotidiano de todos nós e a convivência
pacífica dos profissionais com uma realidade, no mínimo trágica e ultrajante,
da infância e da adolescência. (AZEVEDO & GUERRA, 2003, p. 23)

Muitas vezes o professor só identifica casos de violência doméstica, quando


este se apresenta na forma mais cruel e triste: as marcas da agressão física, como
relata uma professora:

Na atualidade eu não tenho alunos que foram vítimas de violência, mas eu


já tive aqui na escola e o procedimento foi o seguinte: eu comuniquei a
Coordenação Pedagógica que foi ao Conselho Tutelar que fez todo o
encaminhamento e a criança foi parar em um abrigo provisório enquanto
resolvia com os pais e os pais perderam a guarda e a criança ficou no
abrigo. E nesse caso a madrasta machucava a criança, queimou a mão dela
com uma moeda porque a criança pegou dinheiro como castigo para ela
aprender a não pegar mais dinheiro de ninguém. Então a criança chegou
aqui com um buraco, ela passou talco para disfarçar então a criança chegou
aqui toda assustada e não me comunicou o que havia acontecido ela falou
para uns coleguinhas que me contaram e eu fui descobrindo várias coisas a
partir disso, então chamei a coordenação, comuniquei e depois a
coordenação levou para o Conselho Tutelar. (Pedagoga Regente C,
10/06/14).

Isto também acontece porque as crianças ainda guardam o silêncio, tem


medo de contar o que está acontecendo em casa. Às vezes compartilha com um
colega de sala de aula e este colega é que acaba relatando a professora.
Segundo Elsen, et all (2011), a escola costuma ser o segundo ambiente social que a
criança freqüenta após a família, tendo características, finalidades, organização e
estrutura de poderes independentes do que ocorre no contexto familiar. Pois, a
criança que é oprimida pela violência doméstica, vai encontrar na escola um
ambiente favorável para revelar seu sofrimento e buscar ajuda. Isso depende do tipo
de relações que vive na escola. Quando se trata de um ambiente acolhedor,
certamente se sentirá protegida e segura de que a instituição estará ao seu lado no
caso de desvelar a presença de abusos ou maus-tratos por parte de familiares.
A formação dos professores enquanto agentes é importante, tanto no
sentido de identificarem os sintomas da violência doméstica em sala de aula, como
na orientação aos pais/responsáveis:

Claro que a violência verificada nas denúncias é apenas a ponta do iceberg


das incontáveis agressões cometidas contra crianças e adolescentes em
qualquer sociedade. Há muitos casos não notificados e o número deles
depende do tamanho do complô de silêncio, do qual muitas vezes
participam profissionais, vizinhos, parentes, familiares e até a própria vítima.
Por isso, não basta pesquisar apenas a violência doméstica denunciada. É
preciso estudar também a sua prevalência para que se possa ter uma idéia
aproximada das dimensões da cifra oculta. Ou seja, de quantos casos
acabam fora das estatísticas. (AZEVEDO & GUERRA, 2003, p. 17)

As atividades de orientação e atendimento às famílias, são fundamentais


para o estranhamento ou desnaturalização da violência doméstica no interior da
comunidade, que são muito comuns:

Na cabeça de muitos brasileiros, talvez até da maioria, os pais continuam


tendo poder de vida e morte sobre os filhos; crêem que a melhor educação
só se consegue com a punição e humilhação; persiste a idéia de que é
necessária a violência física para conter a desobediência e a rebeldia dos
jovens e das crianças. (SANCHEZ e SOUZA, 2006, p. 30).

Ou seja, há uma reflexão sobre essa forma de conceber e tratar as crianças,


muito recorrente nos dias atuais, que se chama negligência:

As negligências representam omissão em relação à proteção integral.


Expressam-se na falta de provimento de alimentos, roupas, cuidados
escolares e médicos e de outros que são necessários ao desenvolvimento e
crescimento infantil. (SOUZA e SANCHEZ, 2006, p. 35).

Compreendemos que o Acompanhamento Pedagógico é uma conseqüência


do diagnóstico. Assim, observamos que não há uma preocupação especifica quanto
ao acompanhamento das crianças vítimas da violência doméstica, existe uma
atuação de forma fragmentada, quando surge à problemática, mas nada
sistematizado. Como se vê na afirmação da professora a seguir:

É bem pontual, não é uma coisa que a gente tenha retorno, relatório, que a
gente tenha registro que possamos consultar num outro momento. Não há
encaminhamento para o Conselho Tutelar e eu nem citei os alunos que são
especiais, que não tem laudo até então, como por exemplo, eu estou há
três anos com a mesma turma e esse ano foi a primeira vez que eles
tiveram um acompanhamento especializado, eu tenho crianças com
paralisia cerebral, crianças que são imaturas quanto à idade cronológica.
(Pedagoga Regente B, 10/06/14).

Percebeu-se certa falta de circulação das informações entre os professores,


NAP, Projetos e Coordenação. Alguns professores chegam a relatar que existe a
necessidade desse retorno, para que este possa trabalhar melhor junto ao aluno:

Deveria ser mais sistematizado, com registros, deveria ser acompanhado e


bem pontual mesmo. Às vezes os mesmos casos, no ano seguinte a gente
não tem retorno. Têm casos que resolve com uma conversa, a gente
percebe que há uma melhora, mas pra outros casos a gente precisaria ter
um maior respaldo, um relatório, um encaminhamento para o Conselho
Tutelar e não é que eu ache que o Conselho Tutelar vai resolver tudo, mas
acho que pelo menos encaminhando a gente vai fazer nossa parte, porque
eu sei também que o Conselho Tutelar deixa muito a desejar e às vezes se
o aluno tivesse na escola evitaria dele estar em algum lugar sendo exposto
a sofrer alguma violência. (Pedagoga Regente B, 10/06/14).

Com isso entendemos que existe a necessidade de uma reorganização do


grupo que faz este acompanhamento. As intervenções realizadas precisam estar
devidamente registradas. Primeiro porque se trata de uma instituição (A Escola),
segundo porque o professor precisa ter acesso a estas informações, precisa estar
ciente do que está acontecendo junto ao seu aluno.
Assim como o acompanhamento não é sistemático, os resultados não
podem ser os melhores, pois ainda existe muito a se fazer. Alguns professores
elogiam o trabalho que o NAP tem executado junto aos alunos que necessitam de
acompanhamento. Mas há os que acreditam que pode e deve ser melhor, como se
ver a seguir:

Apesar de a escola possuir um número maior de alunos do que quando ela


foi projetada, não podemos esquecer que ela possui um atendimento
diferenciado, ela tem um psicólogo, assistente social, orientadora, professor
de educação especial então a gente tem esse diferencial. Por exemplo,
numa outra escola se um aluno precisar receber esse atendimento do
professor de Educação Especial é um professor para a Rede, então tem
que esperar a visita, e aqui não a gente tem todos esses profissionais
lotados para isso, temos assistente social na escola então não precisa ir eu
professora fazer o trabalho de assistente social, de ir na casa, de fazer
visita, então não precisa isso, então acho que a gente poderia ter um
rendimento melhor, poderia ter um trabalho mais assim, de retorno do
acompanhamento. (Pedagoga Regente B, 10/06/14).

Em resumo, não há indicadores concretos sobre os resultados do


acompanhamento pedagógico realizado.
Durante o trabalho realizado pela equipe técnica em parceria com professor
regente de sala de aula, existem inúmeras dificuldades que aparecem para intervir
neste acompanhamento, visto que, a equipe do NAP e os professores regentes de
sala precisam estar aptos para trabalharem junto a estes casos e superarem as
dificuldades, como se pode constatar a seguir:

Temos dificuldade com a vinda da família desses alunos na escola, quando


a presença desses responsáveis está associada a algo negativo, fica mais
difícil trazê-lo para a escola. (Pedagoga Regente A, 06/06/14).

Com isso percebemos que existe a preocupação da escola na busca pela


conscientização da família, mas que por ausência da mesma, este trabalho não
alcança o sucesso que deveria. Mas como observa Tavares (2006), a escola e a
família são considerados espaços primordiais para a realização de ações
preventivas e por mais difíceis que sejam suas circunstâncias, há sempre uma
parcela de responsabilidade das pessoas que nelas atuam.
Outra dificuldade relatada por um dos entrevistados é que a escola possui
muitos alunos com casos que exprimem violência entre outros, e que a quantidade
de técnicos e profissionais do atendimento (NAP), é insuficiente para atender a
demanda dos alunos. Fala transcrita abaixo:

Que a escola tem um número grande de aluno, e que dificulta determinadas


vezes no atendimento desses alunos. Seria necessário que mais
profissionais dessa área fossem disponibilizados na instituição. (Pedagoga
Regente A, 06/06/14).

Sendo assim, é importante transcrever o que os profissionais do NAP dizem


a respeito das dificuldades encontradas no cotidiano no seu trabalho:
Olha a gente tem muitas dificuldades. A primeira é a demanda de alunos
que é muito grande, a Escola Bosque contando com as ilhas, a gente tem
mais de 2.000 alunos, uma escola que foi projetada para 700 alunos. Esse
inicio do ano a gente teve um problema sério com relação à matrícula,
muitos alunos foram matriculados e a gente não tem condições de atender a
demanda que vem dessa comunidade, é preciso investir em políticas nessa
comunidade que é muito carente, ampliação do número de escolas. Eu vejo
assim, que a Escola Bosque é um local onde eles ainda vêem esperança,
ainda é um local bom comparado com as outras escolas ainda tem uma
estrutura melhor (...). Então não dá para ter um acompanhamento
sistemático com um aluno, porque são diversas situações pra gente
atender, ta atendendo um aqui e no meio do caminho já aparece outro,
então é muito difícil essa é a primeira dificuldade. Outra dificuldade é a
questão dos recursos, nem sempre a gente tem os recursos necessários. A
gente tem o profissional, mas não dão condições de trabalho pra ele, coisas
mínimas como um computador, por exemplo, como a internet, um telefone
para fazer ligação... outro exemplo a realizar visitas na casa do aluno,
muitas vezes não tem um carro para ir. E aí como é que a gente vai fazer?
A gente vai a pé, a gente vai de ônibus? Não tem como! (Técnico A do
NAP)

Com a citação transcrita a seguir é importante percebemos que o


entrevistado reconhece as lacunas deixadas diante ao acompanhamento
pedagógico que a instituição realiza:

As dificuldades são principalmente a distancia que a gente tem, como por


exemplo, as Redes geralmente funcionam mais em Belém, então quando a
gente tem que encaminhar, por exemplo, pra DATA, PROPAZ, que são
órgãos que atendem criança e adolescente vítima de violência, então
geralmente a família não tem condições de arcar com o transporte. O CRAS
daqui não tem os profissionais suficientes então tem que ser encaminhado
para outros locais fora da ilha de CARATATEUA, o Sistema de Saúde aqui
na Ilha também são precário, então eles tem que procurar outros Postos de
Saúde fora da Ilha. Então as dificuldades são mais nesse sentido mesmo,
que aqui na Ilha não é oferecido. (Técnico B do NAP)

A falta de Redes de Apoio nas proximidades da escola, dificulta bastante o


atendimento aos alunos, que muitas vezes deixam de ser atendidos devido à
ausência de quem acompanhe, de dinheiro para transporte, entre outros.

Que às vezes pra gente obter um resultado positivo a gente precisa desse
apoio da família e as dificuldades às vezes é essa. A escola faz tudo que
esta a seu alcance, mas se a família não cumprir com seu papel também de
acompanhar a gente não consegue com certeza obter o resultado tão
positivo como a gente espera. (Técnico C do NAP).

As parcerias de trabalho entre a escola e as instituições de apoio às crianças


vítimas de violência doméstica, são dispersas e frágeis.
É importante ressaltar que, apesar de todos os problemas e dificuldades, há
um esforço em atender e acompanhar pedagogicamente as crianças vítimas de
violência doméstica na Escola Bosque.

Considerações finais

Considerando a relevância social deste tema, acreditamos que seja


necessário um olhar mais cuidadoso e atento das autoridades governamentais,
através da criação e desenvolvimento de políticas públicas visando combater este
fenômeno, assim como proporcionar uma assistência mais adequada às vítimas
desta violência, que constitui uma flagrante violação aos direitos humanos.
A concepção da Escola Bosque, pelo movimento popular (CONSILHA), foi
muito interessante, como instrumento para enfrentar os problemas socioambientais,
que se intensificaram após a construção da ponte Enéas Pinheiro em 1986.
A concretização da experiência enfrentou e enfrenta vários problemas:
vinculação ao Gabinete do Prefeito; custos de manutenção; gestão de recursos
humanos; constantes mudanças na gestão administrativa...
Embora a violência doméstica seja um fenômeno bastante recorrente na
sociedade e mais especificamente na Ilha de Caratateua, ainda não se constitui
enquanto eixo de atuação na Escola Bosque.
Há um esforço por parte dos profissionais da Escola Bosque no
enfrentamento da violência doméstica, mas ainda é muito tímida e esbarra em várias
dificuldades como a ausência de formação continuada em relação ao tema,
desarticulação no planejamento e realização das ações, interrupção no fluxo de
informações, constantes mudanças na equipe gestora...
Portanto, concluímos que não há um trabalho efetivo e sistemático de
acompanhamento pedagógico às crianças vítimas de violência doméstica na Escola
Bosque.
Proposições para a prevenção da Violência Doméstica e para o
Acompanhamento Pedagógico na Escola Bosque: Formação continuada sobre
Violência Doméstica; ampliação do número de profissionais que atuam no NAP;
elaborar um Protocolo de Atendimento para os alunos vítimas de violência
doméstica e celebração de parcerias de trabalho com organizações que atuam na
proteção das crianças e adolescentes.
Referências

AZEVEDO, M. A & GUERRA, V.N de A. Mania de bater: a punição corporal


doméstica de crianças e adolescentes no Brasil. São Paulo: Iglu, 2001.

AZEVEDO, M. A. & GUERRA, V. N. A. Violência doméstica contra crianças e


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