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O “EU” E O “OUTRO” NA

ANTROPOLOGIA
CONCEITO

Etimologicamente, a antropologia vem da junção de duas palavras gregas, Antropos, do grego


homem e logia, do grego estudo, assim sendo, o estudo do homem ou, da mesma forma, o
estudo da humanidade. O campo de estudo da antropologia cultural, deixando de lado as demais
vertentes como a antropologia física e a arqueológica, que não vão ser foco neste trabalho, é
entender a nossa diversidade, isto é, a cultura.

Para começarmos primeiro temos que saber o que é, de fato, cultura? Pois essa é a palavra chave
de todo estudo antropológico e vai ser ponto crucial em todo o texto, tanto analisando a figura
do outro para Alcida Ramos, quanto do eu na visão de Jorge Pozzobon, que foram os autores
que escolhi como base desta prova, além de citar outros autores, principalmente do ramo
historiográfico, mas sem fugir do foco antropológico e usar um pouco de filosofia,
principalmente na questão eu e o outro, para facilitar minha imersão no tema.

A CULTURA

Mas afinal, o que é cultura? Cultura, ao meu ver, e fazendo uma sintaxe da definição de Roque
Laraia no seu livro homônimo “Cultura – um conceito antropológico ”, é todo conjunto de
crenças, hábitos, formas de vestir, agir, pensar e falar, é tudo que é passado, aprendido,
adquirido, vivido e compartilhado entre as pessoas. A cultura é um reflexo do processo de
acumulação de tudo isso ao longo do tempo, que é passado a diante, seja por tradição oral ou
escrita, não existindo grau importância maior ou menor, sem hierarquizar valor, se atentando
que todas formas culturais têm suas peculiaridades, e é isso que faz a cultura ser o que ela é, a
sua diversidade. Sem a diversidade não existe cultura, sem cultura não há antropologia.

ANTROPOLOGIA CULTURAL E A ALTERIDADE

A antropologia cultural, nada mais é, que o estudo da alteridade, isto é, a descoberta do outro
perante ao eu. Todas as culturas têm algo em comum, mas é aquilo que as diferenciam que
passa a ser o foco de estudo da antropologia cultural. As diferentes visões e descobertas que o
eu faz do outro, a distância entre a minha cultura e a cultura dele, fazem ambos os lados
entrarem em conflito, pois, na maioria das vezes, estas diferenças são vistas com extremo
preconceito entre as partes, e é ai que entra o papel da antropologia, ela deve desmistificar, tirar
a concepção de primitivo, selvagem, bárbaro, atrasado que termos que o senso comum
atribuem, principalmente a povos nativos, e dar voz a eles, sem julgamentos de valor, sabendo
que toda cultura é importante.
A FIGURA DO OUTRO

Para chegar à minha visão do que a Alcida Ramos tem a dizer do outro, baseado no texto: “A
viagem dos índios maldição ou benção? ”, de autoria dela, antes é preciso relatar como era a
visão do desconhecido em um contexto pré-antropológico, antes da antropologia se estabelecer
como ciência propriamente dita. Irei Expor a história do primeiro encontro entre o império
britânico e os tasmanianos, antigos aborígenes da ilha da tasmânia na Oceania, pegando como
base o capitulo “O casamento entre ciencia e imperio” do livro “Sapiens” de Yurval Hararai,
historiador israelense, é um bom exemplo para ilustrar este choque entre o eu e o outro.

No século XVIII, o império britânico entregou ao capitão James Cook uma expedição para fins
científicos da época, tanto na área de astronomia, para saber distância do sol da terra e medicina,
quanto na medicina, para provar teorias de tratamento para escorbuto. Porém, isso tudo foi a
justificativa para o motivo maior dos britânicos, que era explorar e colonizar as terras, nunca
alcançadas, do extremo leste, que foi o que de fato fizeram. As terras férteis da Austrália e da
Nova Zelândia foram tomadas de seus antigos habitantes. A população nativa foi reduzida em
90%, e os sobreviventes foram submetidos a um regime cruel de opressão racial.

Um destino pior acometeu os nativos da Tasmânia. Tendo sobrevivido por 10 mil anos em total
isolamento, eles foram completamente exterminados, até o último homem, mulher e criança,
um século após a chegada de Cook. Primeiro os colonizadores europeus os expulsaram das
partes mais ricas da ilha e depois, cobiçando até mesmo as terras inóspitas que sobraram, os
perseguiram e mataram sistematicamente. Os poucos sobreviventes foram acossados para um
campo de concentração evangélico, onde missionários tentaram doutriná-los nos costumes do
mundo moderno. Os tasmanianos foram instruídos na leitura e na escrita, no cristianismo e em
várias “habilidades produtivas”, como costurar roupas e trabalhar na lavoura, mas eles se
recusavam a aprender. Foram se tornando cada vez mais melancólicos, deixavam de ter filhos,
perdiam todo o interesse pela vida e acabavam por escolher a única forma de escapar do mundo
moderno da ciência e do progresso: a morte.

Este exceto tirado do “Sapiens”, livro de Harari, sobre a cruel colonização na Oceania, em
especifico na Tasmânia, demonstra muito bem essa intolerância que tínhamos, e muitos casos
ainda temos, sobre a visão de outra cultura. O genocídio ocorrido por lá, em prol de “civilizar”
aqueles povos, mostra o quão difícil, na história da humanidade, foi à aceitação do outro perante
ao eu. Concepção esta que foi, e estar sendo mudado, aos poucos pela antropologia.
Um exemplo desta mudança, pode-se ver, nos trabalhos de Alcida Ramos, antropóloga e
professora emérita da UnB. Ela faz jus ao seu papel de dar voz ao nativo, ressaltando, de forma
benigna, as diferenças que as outras tem em relação a nossa, assim visto no texto “A viagem
dos índios maldição ou benção? ”. Ela demonstra muito bem, com base em sua estadia em uma
aldeia sanumá no norte do pais, como se deve agir, se comportar, perante ao estudo de culturas
tão diferentes da nossa. Usando como material de analise o uso dos psicotrópicos, nessa aldeia,
ela consegue evidenciar as semelhanças, as diferenças e as hipocrisias que temos em relação ao
outro, não querendo homogeneizar à nossa cultura, mas sim, destacar o que há de bom na
cultura do outro, somando ao nosso entendimento do que, de fato, é ser homem.

A FIGURA DO EU

Agora, da mesma forma, tentarei fazer uma contraposição entre a visão racista historiográfica,
do final do XIX e começo do XX, muito bem exposta pelo historiador Victor Leonard no seu
livro “Entre Arvores e Esquecimentos”, com a visão antropológica moderna de Jorge Pozzobon
em “Vocês Brancos não Têm Alma”, no entendimento do eu.

O etnocentrismo que pairava a academia, principalmente com escritores como Varnhagem e


Taunay, que tentavam diminuir a importância dos nativos no processo de colonização e
justificar, com preceitos racistas e egocêntricos, a violência aos indígenas por razão da
“superioridade” do homem branco. Estas ideias foram defendidas pela primeira escola da
antropologia, a chamada antropologia evolutiva, que usava preceitos distorcidos das ideias de
Darwin, para criarem o chamado “darwinismo social”. Estas ideias, ego e etnocêntricas,
serviram como base toda atrocidade que ocorreu no neocolonialismo do século passado.

Em contrapartida temos no texto de Pozzobon as ideias de etnocentrismo derrubadas, ao ponto


de equiparar, e até, ridicularizar a ideia do branco superior, evidenciando como a figura do eu
é chave essencial do processo de alteridade. Sempre se colocando ao lugar do outro, praticando
a boa e velha empatia, que nos faz falta até os dias de hoje.

ENFIM...

Enfim, espero que eu tenha deixado bem claro minhas concepções sobre o estudo
antropológico, principalmente na parte da alteridade, eu e o outro, nós e eles. Pois, para mim,
conhecendo a diversidade podemos nos conhecer como espécie, nos conhecer como homens.
Assim entendemos melhor nós mesmos e nossas culturas.