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08/11/2018 Ciência Social Ceará: Um bom sociólogo é um bom escritor

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Ciência Social Ceará


Esse página nasceu da necessidade de se ter um veículo que divulgasse os trabalhos das novas gerações de
antropólogos, sociólogos e cientístas politicos das universidades do Ceará. De muitos faremos uma..E pluribus unum

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Um bom sociólogo é um bom escritor


Publicado por Pedro Mourão Marcadores: ARTIGO,
CIÊNCIAS SOCIAIS, CONSTRUÇÃO SIMBOLICA, cotidiano, ENSINO SUPERIOR,
epistemologia, linguagem, Literatura, sociologia, TEORIA

Um bom sociólogo é um bom escritor:[1]


Dicas, Princípios, observações e conselhos não convencionais
para os novos estudantes de pós-graduação[2]

Harry G. Levine
Departamento de Sociologia
Queens College, City University of New York

Tradução de Pedro Jorge Chaves Mourão

LEVINE, Harry G. Um bom sociólogo é um bom escritor. Tradução. Pedro


J. C. Mourão. Fortaleza: S/Ed. 2013. Disponível em:
http://cienciasocialceara.blogspot.com.br/2013/01/um-bom-sociologo-e-um-
bom-escritor.html

Disponível também em:


http://www.4shared.com/office/VnMs8H5U/Um_bom_socilogo__um_bom_escrit.html?

A primeira vez que estudei sociologia foi como estudante de graduação na


Brandeis University. Lewis Coser e Philip Slater foram meus professores e
exemplos. Eles me convidaram para ajudar em uma tese e me ensinaram
“como fazer sociologia[3]” corrigindo meus rascunhos. Quando Coser
realmente gostava de um capítulo, ele rabiscava "Bravo" no topo da primeira
página, e então ele editava o texto com suas observações. O inglês foi a
terceira ou quarta língua que aprendeu, ele era um escritor muito bom e um
editor maravilhoso.
Eu fui para a faculdade em Berkeley em 1970. Os alunos em Berkeley
quase não recebiam lições de como fazer sociologia profissionalmente,
comparado com o que Coser e Slater tinham me ensinado. Eventualmente, eu
entendi que minhas experiências de graduação eram incomuns comparadas
aos pós-graduandos mais típicos.
Em 1978, quando eu terminei a minha dissertação, "publicar ou perecer"
foi o meu lema. Essa é a lógica no mundo de alta tecnologia de e-mail e
internet conectando o mundo no século XXI. O mercado de trabalho limitado
para doutores significa que uma carreira de sucesso como um sociólogo-
pesquisador[4] requer ser um escritor publicável e moderadamente produtivo.
Mesmo com essa realidade econômica, a pós-graduação, na maioria das
áreas, ainda raramente fornece preparação para uma escrita publicável ou
para a carreira docente. Bem ou mal, os professores mais bem sucedidos
aprenderam a escrever por conta própria.

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Alguns anos atrás, fui convidado para falar sobre ser um sociólogo em
um seminário para novos estudantes de doutorado no centro de pós-
graduação da University of New York. Eu aproveitei a ocasião para resumir
algumas das coisas mais úteis que eu aprendi ao longo dos anos sobre a
escrita sociológica. Eu gostaria que alguém tivesse dito estas coisas para
mim. Como todos os conselhos, essas "dicas, observações e princípios" não
devem ser levadas ao pé da letra.

1. Um bom sociólogo é um bom escritor


Tornar-se um bom escritor é um passo inteligente para a carreira de
sociólogo, pois o sociólogo é acima de tudo um escritor. Para nós sociólogos,
a escrita é a nossa ferramenta e nosso ofício. Acadêmicos de todas as áreas,
que escrevem bem, tem maior facilidade para conseguir editoras e
leitores. Escritores ruins e sem graça tem dificuldade de serem lidos e levados
a sério[5]. Poucos alunos entendem isso quando começam a pós-
graduação. Aprenda isso agora. Compreenda que os grandes pensadores
pensam em si mesmos como escritores. Se você começar a pensar em si
mesmo como um escritor, e tentar se tornar um bom escritor, você estará se
destacando da maioria dos sociólogos.
Bons escritores têm sempre seus rabiscos guardados. Anote sempre
suas reflexões, mesmo que desorganizadas. Até notas confusas e
incompletas podem ser muito úteis mais tarde. Tome notas sobre sua
vida. Copie trechos de livros e frases interessantes que tenha ouvido.
Bons escritores escrevem com frequência. Quando for escrever uma
correspondência não se prive de usar plenamente as palavras. Escreva
poesias, ensaios, notas de leitura e de campo, experiências pessoais e
descrições detalhadas de coisas que são familiares a você. Mantenha
diálogos por e-mail para escrever com frequência. Escreva, escreva, escreva.
Para fazer uma boa sociologia nós precisamos aprender as habilidades
dos contadores de histórias e dos grandes mestres de todas as áreas do
conhecimento. E todos nós somos obrigados a aprender por conta
própria. Portanto, temos que aprimorar a escrita por conta
própria. Recomendo comprar, ler e reler The Elements of Style de Strunk e
White[6], e On Writing Well de William Zinsser. Os escritores profissionais bem
sucedidos estão sempre aprendendo mais sobre seu ofício, mesmo quando
eles estão revendo o que já sabiam e esqueceram.
A primeira regra da boa escrita é: escreva com clareza[7]. Você precisa
tornar a sua escrita de fácil entendimento para o leitor assimilar o que você
está dizendo. Deixe a mensagem clara e saia do caminho do leitor. Use frases
curtas, varie o comprimento das frases no parágrafo, e use palavras difíceis
com moderação. Até certo ponto é bom que o escritor “desapareça” do texto.
Ao escrever de forma clara você ajuda o leitor a aceitar que o que você está
dizendo é verdade. A ciência é em parte uma estratégia retórica.
A segunda regra da boa escrita é: Escreva na voz ativa. Ou, escreva na
voz passiva e depois metodicamente edite seu texto de volta para a voz
ativa[8].
Sociólogos tendem a focar em forças e tendências sociais, enquanto
deixando de mencionar (ou mesmo pensar) a vida, a respiração, os atores
humanos. Por exemplo: "O padrão foi criado", "a política foi alterada", e "A
companhia Ford Motors foi processada".
Todas as três frases deixam em aberto quem fez a criação, a alteração e
o processo. A escrita na voz ativa exige que nós deixemos os atores
explícitos. Em vez disso, diga: "Os Beatles criaram o padrão", "Eleanor
Roosevelt mudou a política" e "os parentes das pessoas que morreram em
chamas processaram a companhia Ford Motor". Se não conseguimos dizer
claramente quem são os atores, provavelmente precisamos de mais
informações sobre os fatos ocorridos.

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A terceira regra da boa escrita é: Organize bem o seu texto. Quando eu


era um estudante de pós-graduação, um escritor de sucesso me contratou
para ajudar a escrever um texto. Sua única recomendação foi: "apenas
certifique-se de usar segmentações de A, B, C e 1, 2, 3 ". Ele quis dizer que
uma texto deve ser bem organizado, que os temas devem ser agrupadas em
parágrafos e seções. Seguir esse conselho e melhorar a organização de uma
obra geralmente envolve a organização da estrutura do texto. Portanto, a
organização das partes do texto é sua amiga.
A quarta regra da boa escrita é: Dar o seu trabalho para várias pessoas,
principalmente aqueles que escrevem com clareza. Primeiro, peça que
digam o que gostaram no texto, o que ficou bom e o que acharam
interessante. Todo leitor vai ter críticas. Embora necessário, a crítica pode ser
desanimadora. Os amigos sempre irão demorar para lhe dizer o que acharam
sobre seu texto. É difícil conseguir deles uma resposta imediata. Então peça
para darem exemplos específicos de coisas que gostaram. Reafirme para eles
em suas palavras e a mensagem central do manuscrito. Mostre sede de
conhecimento. Tente produzir o que seus leitores gostam. Force seus
interlocutores a sugerir frases alternativas e soluções específicas para os
problemas que eles encontraram. E leve as sugestões a sério. Se dois leitores
de confiança encontrarem uma frase, parágrafo ou seção confusa, mude -
mesmo se você acha que é a melhor coisa que você já escreveu na vida.
A boa escrita vem da reescrita. Eu costumo escrever pelo menos 4 a 6
rascunhos de coisas importantes, e às vezes letra por letra. A reescrita
significa releitura, olhando de novo e de novo para as palavras, frases e
sentenças desnecessárias e inadequadas. Mark Twain disse uma vez "A
diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença
entre um raio e um vaga-lume.".
A quinta regra da boa escrita é: Edite o trabalho de outras pessoas. Este
é, de fato, a única maneira de se tornar competente em editar o seu próprio
trabalho. É muito mais fácil ver os problemas em escritos de outras pessoas
do que no seu.
Edite o seu trabalho, divida suas sentenças. Corte suas redundâncias,
reorganizar seus parágrafos, reescreva suas sentenças na voz ativa, dê
alternativas para frases, peça para desenvolver melhor as ideias mal
formuladas. A longo prazo, a edição generosa que você fizer aos outros será a
ação mais egoísta que você já fez. Escrever é um trabalho solitário. Escritores
ficam sozinhos por muito tempo, olhando o texto no papel ou na tela do
computador, dialogando com ele. Ao editar o trabalho de outras pessoas,
escrever para pessoas que conhecemos, aprender o que os leitores
inteligentes gostam de ler, incorporando as sugestões ao texto, isso torna o
trabalho menos solitário e muito melhor.

2. Escrever uma pesquisa: contar histórias a partir de dados.


Nosso trabalho como sociólogos, estudiosos, escritores e professores, é
contar histórias. Nunca se esqueça, e nunca aceite qualquer interpretação do
seu trabalho que não inclua a ideia de que você é um contador de
histórias. Você é um contador de histórias que conta histórias reais.
Para contar boas histórias é preciso dados, geralmente dados fieis, e se
possível de muitos dados. Somente com dados fieis se pode escrever uma
boa história. Os dados vêm em todas as formas - números, imagens, palavras,
gravações, artefatos, pixels, o que seja. Ao contrário do que pensam muitos
estudantes de pós-graduação, sociólogos e jovens universitários que estão
tentando ter suas pesquisas publicadas, os dados obtidos sem teoria são
melhores do que estudar uma teoria sem relacionar com dados.
Para obter boas informações é preciso fazer uma pesquisa antes. Temos
que sair de casa, conseguir os dados, trazer para casa, e trabalhar com
eles. Felizmente, as pós-graduações de Sociologia dão suporte para a

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aprendizagem das técnicas básicas de pesquisa, outra possibilidade é


encomendar a captação dos dados através de empresas de pesquisa[9] que
podem fazer um ótimo serviço. Para a maioria dos projetos de pesquisa é
fundamental ter curiosidade, persistência, sorte e algum recurso.
Para contar boas histórias a partir de dados, nós temos que perceber o
que interpretamos e o que queremos dizer. Isso requer reflexão. A maior parte
do tempo, o escritor passa pelo processo de bloqueio de escrita. Às vezes, o
bloqueio na escrita é causado por falta de dados, e para resolver isso temos
que refletir sobre o que temos. Se você achar que está com bloqueio para
escrever é preciso tomar isso como um sinal de que está precisando pensar
mais sobre o que está tentando escrever, e que também pode precisar de
mais informações. Temos de encontrar histórias para contar usando a
interpretação dos dados.
Todo mundo faz alguma reflexão enquanto está escrevendo. No entanto,
muitos problemas são resolvidos longe do teclado. Andar, caminhar, tomar
banho, andar de bicicleta, dirigir, ler, ouvir música, ou simplesmente se
encostar em uma parede às vezes pode estimular a reflexão e a escrita para
algumas pessoas. Conversar com amigos e colegas também pode ajudar
muito. E alguns escritores só conseguem refletir sobre os dados quando
estão escrevendo. Nesse caso, reescrever é ainda mais importante.
Encontre um modelo de formato de pesquisa[10]. Livros e artigos
acadêmicos que tenha afinidade como o trabalho que você quer fazer. Se não
podemos encontrar bons exemplos do tipo de pesquisa e de forma de escrita
que nós queremos fazer, nós provavelmente não teremos condição de
executar esse projeto.
Busque ler periodicamente revistas de alto nível acadêmico. Um
sociólogo sério é um verdadeiro intelectual, alguém que joga de forma criativa
com ideias e linguagem. Por isso, leia os melhores intelectuais que escrevem
na atualidade. Estude suas obras e imite. Compre seus livros, ou pegue na
biblioteca emprestado e leve para casa, mesmo que não vá conseguir ler
tudo. Todos os bons estudiosos fazem isso. Para ser um intelectual
competente também é preciso aprender a história do que se estuda. Quanto
mais se sabe sobre a história do nosso tema, mais fácil será escrever sobre
ele em qualquer campo, e melhor o trabalho fica.
Ao escrever um artigo, eu recomendo começar trabalhando com dados
específicos, com um caso, e no final buscar desenvolver generalidades a
partir dele. Use a teoria para explicar os dados. Conte a história a partir dos
dados empíricos se orientando pela teoria. Depois de apresentar as
interpretações sobre os dados, se assim desejar, poderá sair de trás “das
cortinas” e explicar melhor as suas intenções no texto. Ao contrário de
historiadores, sociólogos tendem a fazer o oposto - a começar com uma
generalização ou hipótese. Eu acho que os sociólogos têm muito a aprender
com historiadores sobre contar histórias.
Fazer um argumento é criar uma história. Um trabalho científico deve
apresentar uma ou duas mensagens centrais e argumentos que os
apoiem. Um trabalho deve narrar os fatos em torno do objeto de estudo e
buscar traçar uma generalidade a partir deles. A teoria é uma história contada
em um nível um pouco mais elevado de abstração, no entanto, não passa de
uma narrativa. Se algo não pode ser contado como narrativa, então não faz
sentido. E, se algo não faz sentido, não faz sentido contar. Porém, não tenha
medo de não fazer sentido. As mesmas perguntas que podem ser impostas ao
seu trabalho podem ser aplicadas ao trabalho de qualquer outra pessoa: Qual
é o ponto defendido? Qual é o argumento? Qual é a história?
Desenvolva relacionamentos com outras pessoas que estão estudando o
mesmo tema que o seu ou temas semelhantes. Leia seus escritos, converse
por e-mail, fale com eles por telefone. Tente fazer deles seus amigos. No
século XXI, temos a possibilidade de manter relações de trabalho, e até
mesmo amizades íntimas com as pessoas que raramente vemos.

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Escrever e pesquisar com outra pessoa pode ser algo divertido e


produtivo. Duas pessoas podem ser mais espertas do que uma, e um trabalho
escrito por duas pessoas pode ser mais interessante do que qualquer trabalho
que uma das duas poderia fazer sozinha. Mas a colaboração entre duas
pessoas não torna o trabalho menos complexo. Um bom trabalho escrito por
duas pessoas leva pelo menos duas vezes mais tempo para ser feito do que
um trabalho escrito por uma pessoa. Para fazer um bom trabalho sociológico,
muitas vezes é necessário conhecer a fundo pelo menos duas áreas do
conhecimento. Para fazer uma boa sociologia histórica, antes eu tenho que
trabalhar bem com a sociologia e com a história. Ter a expertise em dois ou
mais campos é necessário para muitos tipos de projetos de pesquisa e áreas
de estudo. É necessário muito esforço para alcançar profundidade em dois
campos, mas as recompensas pessoais, intelectuais e profissionais são
substanciais.

3. Ser um sociólogo
Meu velho amigo, Jerry Himmelstein, escreveu um trabalho de
graduação em seu último ano na Universidade de Columbia. Jerry trabalhou
arduamente durante todo o ano. Nas últimas semanas ele virava dias e noites
para concluir o trabalho. Já exausto, ele entregou a monografia no escritório
de seu orientador. O orientador pegou calhamaço pesado, folheou-o
brevemente e disse:
"Bom trabalho Himmelstein - você está querendo ir para a pós-
graduação em sociologia, não é?"
"Sim, eu estou", respondeu Jerry orgulhosamente.
"Bem", disse o professor, "se você trabalhar duro, e se você for muito
bom, você conseguirá fazer isso para o resto de sua vida."
Por que alguém iria querer fazer isso ?
Estou feliz de ser um sociólogo por várias razões, sobretudo por não ser
um trabalho tão alienante. Gosto de ensinar e agora estou ficando muito bom
nisso. Mas eu tenho sido contratado, pago, e promovido para aprender coisas
e escrever um pouco do que eu aprendi. A escrita ainda hoje é algo difícil para
mim, mas o aprendizado é fantástico. Como sociólogo eu posso estudar sobre
quase tudo que eu quero.
Uma das melhores coisas de ser um sociólogo, é que podemos ir a
qualquer lugar, não ver nada, não ler nada, não falar com ninguém, e sempre
poderemos dizer que estávamos fazendo trabalho de campo. E pior que
podemos realmente estar fazendo trabalho de campo. Ninguém sabe o que
será útil para nossos escritos ou nossas aulas - e nós certamente também não
sabemos. Como disse Edward Brecher, “certas coisas não aparecem no
resultado”.
O nosso trabalho como sociólogos é aprender as verdades sobre o
mundo social para escrever sobre elas. Grande parte do tempo, talvez a maior
parte do tempo, nós não podemos estar indiferentes ou desinteressados. Mas
podemos ser honestos e sinceros sobre o que interpretamos. O mundo real é
feito de seres humanos e dificilmente é da forma como gostaríamos que
fosse. As ações das pessoas, palavras e criações são muitas vezes
surpreendentes, até mesmo peculiares, estranhas ou bizarras. Nossa tarefa
como sociólogos é descrever de maneira mais clara e honestamente possível
alguma parcela do mundo social. Se você não acredita que existam coisas
verdadeiramente importantes a serem ditas sobre o mundo social e sobre o
que as pessoas fazem, então você está no campo errado. Considere uma
carreira no direito, filosofia ou economia.
Sociologia é uma ciência. Não é uma ciência puramente positivista ao
molde das ciências naturais. Mas faz uso de muitas das ferramentas lógicas e
empíricas das ciências naturais. Todas as ciências, incluindo a sociologia,
procuram descrever e compreender o mundo. Mas a sociologia é também

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uma forma de arte - entre muitas outras razões, porque é uma variedade de
literatura. (Robert Nisbet tem uma boa discussão sobre isso em seu livro, A
sociologia como uma forma de arte[11]).
Em Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística[12], Peter Berger
diz que a sociologia não é definida pelo que ela estuda, nem pelas teorias e
métodos que utiliza. Ele diz que a sociologia se distingue por suas
perspectivas, especialmente pela sua desconfiança em relação aos dados
obtidos. Berger oferece o que ele chama de “primeira verdade sociológica". A
ideia de que um campo acadêmico tem uma "primeira verdade" é inteligente e
ousado. A primeira verdade da sociologia de Berger é: as coisas não são o
que parecem ser. Eu gosto muito desse conceito.
Berger aponta quatro características que ele considera centrais na
escrita sociológica. Ele chama de desmascaramento (desmascaramento no
sentido de revelar a verdade sobre algo), não-respeitabilidade (olhar o mundo
a partir da perspectiva dos não-respeitáveis, os
perdedores), relativização (compreensão de que quase tudo depende do
contexto), e cosmopolitismo (uma valorização da visão cosmopolita e da
diversidade humana). Eu amo fazer uma ciência com essas
características. Todas essas características são importantes, mas acho que a
primeira é a mais importante. No mesmo sentido de Berger, eu afirmo que os
sociólogos bons são bons contadores de histórias, que mostram que as
coisas não são como parecem ser.
Eu sou um wrightmillsiano. Eu acredito que decifrar os sentidos do
mundo é um trabalho fascinante e útil. Eu amo interpretar o mundo, e para
isso eu preciso de uma representação grande para poder me orientar e ter um
parâmetro. Rotineiramente, eu busco entender quem eu sou, o que eu quero,
e o que eu sinto a partir da observação do contexto histórico em que estou
inserido em relação a minha biografia. Eu entendo minha própria vida
visualizando-a no contexto político, econômico, cultural, institucional e
histórico. Eu acredito que a imaginação sociológica pode realmente ajudar as
pessoas - coletivamente e individualmente - para melhorar suas vidas, as
tornando mais felizes, mais saudáveis e mais eficientes em tudo que
fazem. Acredito que com mais força do que nunca.

4. Boa escrita como uma tradição sociológica.


Para C. Wright Mills, escrever bem era fundamental para a tarefa de
interpretar o mundo social. Para Mills, entre as qualidades importantes que
faziam seus heróis - Emile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, Georg Simmel,
Sigmund Freud, W.E.H. Lecky, Jackob Burckhardt, W.E.B. DuBois, Robert
Park, Karl Manheim, Charles Beard e Thorstein Veblen - a principal era a de
que todos eram escritores bons ou muito bons habilidosos com as palavras. O
que há em comum na maioria dos sociólogos bons ou apenas lidos na minha
geração, nas gerações anteriores, de vertentes políticas e perspectivas
sociológicas distintas, é que todos se viam como escritores e trabalharam duro
para conseguir uma boa escrita. Certamente, alguns sociólogos, a partir de
Talcott Parson a Harold Garfinkle, tiveram uma escrita densa, pesada, e prosa
com jargões cheios. Porém a escrita mais didática também tem se mantido
como uma tradição forte dentro da sociologia. Por exemplo, a partir de
meados dos anos 1930 até meados dos anos 1970, junto com C. Wright Mills
e Peter Berger, outros foram surgindo:
Robert Lynd, Helen Lynd, Lewis Coser, Rose Coser, Phillip Slater, Alice
Rossi, David Reisman, Everett Hughes, Helen Hughes, Howard Becker,
Robert Merton, Louis Wirth, Mirra Komarovsky, Alvin Gouldner, Paul Cressy,
Oliver Cox, Alfred Lindesmith, Seymour Lipset, William F. White, Dennis
Wrong, Jessie Bernard, Nathan Glazer, Elliot Liebow, Ralph Miliband, Vance
Packard, Robert Nisbet, Erving Goffman, Norbert Elias, Betty Friedan, Michel
Foucault, Irving Zeitlin, Eric Fromm, Phillip Reiff, Ralph Daherndorf, Herbert

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Blumer, Arthur J. Vidich, Joseph Bensman, Ned Polsky, Ernst Becker, Robin
Williams, E. Digby Baltzell, Joseph Gusfield, John Seeley, Raymond Aron,
William Domhoff, David Matza, Robert Blauner, Kingsley Davis, Reinhard
Bendix, Herbert Gans, Daniel Bell, e Kai Erickson.
Na mesma época, boa parte dos bons antropólogos, historiadores,
cientistas políticos, geógrafos, linguistas e filósofos também eram escritores
hábeis. Suas obras importantes resistem e continuam a ter importância para
os estudantes e pesquisadores, em parte, porque essas obras geralmente
foram bem estruturadas em termos da frase e de parágrafo. Têm surgido
muitos cientistas sociais que são bons e bem sucedidos, porque eles têm algo
importante a dizer e dizem isso bem. Devemos aprender com os seus
trabalhos e exemplos. No final, somente existem duas tarefas profissionais
para o sociólogo - descobrir o sentido das coisas através do trabalho
sociológico e escrever sobre ele com habilidade.

Harry G. Levine, Departamento de Sociologia, Queens College e Centro


de Pós-Graduação, Universidade da Cidade de Nova York, Flushing, Nova
York, 11367. e-mail: HGLevine@compuserve.com

[1] Agradeço a contribuição dos amigos Vinicius Frota, Napoleão Araujo Neto, Carlos
do Valle, Diego de Almeida Alves
[2] Artigo originalmente publicado em
http://dharma.soc.qc.cuny.edu/soc/faculty/pages/levine/docs/a-good-sociologist.html .
[3] No original “how to write sociology”.
[4] Aqui ele faz uma distinção entre o ofício de sociólogo como pesquisador e como
professor.
Nos EUA essa diferença é mais clara devido a diversidade do mercado de trabalho, já
no Brasil essa distinção ainda é pouco aparente.
[5] Um indício do fenômeno que Levine descreve pode ser percebido na transformação
linguística através das redes sociais eletrônicas e microblogs, como facebook e twitter.
Dificilmente, as pessoas leem textos grandes e complexos nas mídias digitais, que cada
vez mais ganham espaço no cotidiano dos leitores.
[6] Ambos sem tradução para o português:
STRUNK, Jr., William; E.B. White. The Elements of Style. Boston: Ed Allyn & Bacon,
2009.
ZINSSER, William Knowlton.On writing well : the classic guide to writing nonfiction.New
York: Ed First HarperResource Quill, 2001. Disponível em: . Acesso em: 3 dez. 2012.
[7] Lembro que durante minha própria pós-graduação meu orientador, Domingos Sávio
Abreu, sempre fazia a recomendação: Escreva como se sua avó fosse ler. Com isso ele
queria dizer para que eu não fosse prolixo na escrita.
[8] Um exemplo de voz ativa: O deputado roubou o povo. Na voz passiva seria: O povo
foi roubado pelo deputado.
[9] No mercado norte-americano existem diversas empresas que fazem pesquisa de
mercado, pesquisa de opinião e até especializadas em pesquisas acadêmicas.
[10] Aqui o autor se refere à busca por um trabalho que possa orientar na confecção da
estrutura da monografia.
[11] NISBET, Robert. A sociologia como uma forma de arte [orig. ingl.1962].
Trad.S.Garcia.Re.técn.H.Martins.Plural,Revista do curso de pós-graduação em
sociologia da USP, São Paulo, n.7, pp.111-130,10 sem.2000. Disponível em:
http://www.fflch.usp.br/ds/plural/edicoes/07/traducao_1_Plural_7.pdf
[12] BERGER, Peter I. Perspectivas Sociológicas – uma visão humanística. Petrópolis:
Vozes, 1986.

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4 comentários:

Anna Kariny Santos 8 de janeiro de 2013 16:39


Parabéns pela iniciativa de traduzir e publicar o texto.Analisar sempre nossa
escrita é muito importante para a profissão de sociólogo.
Certo que os prazos urgentes também rondam a contação de histórias e ser um
bom contador requer prática e disciplina.
Chegaremos lá!
Responder

natanael pereira 13 de fevereiro de 2013 11:51


Show!!! copiei até algumas coisas...
Parabéns, eu vou começar o curso de Ciências Sociais nesse semestre na
UECE, e tava querendo ler um pouco...
Essas informações vão ser muito bem aproveitadas...
Responder

natanael pereira 13 de fevereiro de 2013 11:55


Me chamou atenção pelo tema...
Realmente muito bom.
Vou começar nesse semestre Ciências Sociais na UECE...
Tava procurando um artigo assim...
Parabéns..
Responder

Anônimo 22 de agosto de 2013 12:20


Como estudante de Sociologia achei muito interessante.
Responder

Obrigado pela sua observação ;)

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