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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Educação e Humanidades


Instituto de Psicologia

Marcelo Nuñez Viégas

Os grupos holotrópicos e a fabricação das oportunidades para curar

Rio de Janeiro
2011
Marcelo Nuñez Viégas

Os grupos holotrópicos e a fabricação das oportunidades para curar

Dissertação apresentada como requisito parcial para


obtenção do título de Doutor, ao Programa de
Pós-graduação em Psicologia Social, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Orientador: Prof. Dr. Ronald João Jacques Arendt

Rio de Janeiro
2011
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/A

V656 Viégas, Marcelo Nuñez.


Os grupos holotrópicos e a fabricação das oportunidades para
curar / Marcelo Nuñez Viegas. – 2011.
158 f.

Orientador: Ronald João Jacques Arendt.


Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Psicologia.

1. Respiração holotrópica – Teses. 2. Psicologia transpessoal


– Teses. 3. Teoria ator-rede - Teses. I. Arendt, Ronald João
Jacques. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto
de Psicologia III.Título.

dc CDU 159.96

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial


desta tese.

________________________________ ________________
Assinatura Data
Marcelo Nuñez Viégas

Os grupos holotrópicos e a fabricação das oportunidades para curar

Dissertação apresentada como requisito parcial para


obtenção do título de Doutor, ao Programa de
Pós-graduação em Psicologia Social, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Aprovada em 31 de março de 2011.

Orientador: Prof. Dr. Ronald João Jacques Arendt


Instituto de Psicologia - UERJ
Banca Examinadora:
Prof.ª Dra. Heliana de Barros Conde Rodrigues
Instituto de Psicologia - UERJ

Prof. Dr. Carlos Alberto Marconi da Costa


Centro de Psicologia da Pessoa

Prof.ª Dra. Marcia Oliveira Moraes


Universidade Federal Fluminense / Niteroi / RJ

Prof.ª Dra. Maria de Fatima Aranha de Queiroz e Melo


Universidade Federal de São João Del-Rei, Minas Gerais

Rio de Janeiro
2011
DEDICATÓRIA

Para Alexandra, com todo meu amor e profunda gratidão pelo possível e impossível dessa
inconfundível aventura pessoal
AGRADECIMENTOS

        
                A  presente  pesquisa,  em  seus  caminhos  e  descaminhos,  foi  um  empreendimento
extremamente complexo e, apesar de receber a assinatura de um autor, ela é decididamente
fruto  de  muitas  mãos  companheiras  que  merecem  toda  a  minha  gratidão.  Deixo  aqui,
registrado no texto, meus agradecimentos:
        Ao Prof. Ronald Arendt, por aceitar me orientar e pela paciência com meu modo
peculiar de ser um aluno;
        Aos colegas do grupo de pesquisa pelas discussões teóricas e diversões metodológicas;
        A grande parceira de pós-graduação, Vera, por sua capacidade de me salvar de meu
próprio devir em situações diversas;
                Aos  amados  Zé  Pereira  e  Trequinho,  que  através  de  suas  correções  mágicas
transformaram significativamente o presente texto por meio de seus encantamentos;
                Aos  membros  da  banca  -  Profa.  Maria  de  Fátima,  Profa.  Márcia  Moraes,  Profa.
Heliana Conde e Prof. Carlos Marconi -, que cada um ao seu modo, traz consigo as chamas
da generosidade, ética e delicadeza, que iluminam e aquecem, nos tempos de uma academia
em franca escassez de tais valores;
        Aos meus pais, que se esforçaram muito para me prover de recursos dos mais variados
para que eu pudesse seguir meu caminho;
        Aos meus irmãos, que perto ou longe, no bom e no ruim, sempre foram e serão meus
aliados nos enfrentamentos da vida;
        À Cristina e CG, pelo apoio de sempre e por tomar conta da Flora quando não dava
mais jeito;
        Ao meu sogro Constantino, por criar uma atmosfera de sabedoria ateniense e por me
incentivar a dar um ponto final onde havia reticências;
        À Marília, que me acompanhou de modo delicado e firme nos passos dessa tese onde
ela foi muitas vezes uma assustadora aventura num abismo estranho a mim mesmo;
        Aos amigos Renata, Christiano e Suzana, que deram seu apoio indispensável cuidando
de minhas flores preciosas nos momentos em que estive ausente realizando o trabalho de
campo;
        À Márcia, governanta de nosso lar, que desde que chegou às nossas vidas nos tem
mimado muito;
        Ao Kiu, por sempre me apoiar em minhas viagens holotrópicas e em tantas outras;
        À minha filha Flora, obra de arte inigualável, que em sua paciência comigo deu seu
apoio de modos diversos inclusive realizando seus trabalhinhos de casa ao lado de um pai à
beira de um ataque de nervos e que só fazia escrever;
                Ao  PPGPS,  e  principalmente  aos  seus  funcionários,  pelo  apoio
administrativo-acadêmico;
        Ao CNPq, pelo apoio financeiro;
        Ao Grof Transpersonal Training, representados por Tav, Álvaro, Dora e Ana, por me
receberem  tão  aberta  e  generosamente  e  permitirem  que  eu  acompanhasse  os  grupos
holotrópicos;
        Aos integrantes dos grupos holotrópicos, facilitadores e demais participantes, que me
acolheram  de  modo  fraternal  e  me  ensinaram  muito  sobre  o  mundo  holotrópico.  Minha
gratidão pelos momentos inesquecíveis durante os módulos. A vocês meu agradecimento
irrestrito, pois sem vocês não haveriam historias para serem contadas.
RESUMO

VIÉGAS, Marcelo Nuñez. Os grupos holotrópicos e a fabricação das oportunidades para


curar. 2011. 164 f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) - Instituto de Psicologia,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

A presente tese é fruto de três anos de trabalho de campo durante os quais foram
acompanhados grupos holotrópicos através de sete módulos teóricos e vivenciais do
treinamento no trabalho de Respiração Holotrópica e Psicologia Transpessoal do Grof
Transpersonal Training. O objetivo central da pesquisa é apresentar uma versão acerca do
modo pelo qual se constituiu a prática terapêutica nos referidos grupos. Mediante a associação
entre diversos elementos considerados agentes do campo (actantes), foram ganhando forma
no set e setting holotrópico, complexos e singulares cenários de fabricação do que foi
denominado de "oportunidades para curar", ou seja, situações em que se criaram condições
para a emergência de experiências voltadas para o "autoconhecimento" e "transformação
pessoal" entre os integrantes dos grupos. A realização da pesquisa ganhou seus contornos por
meio da utilização de algumas ferramentas teórico-metodológicas da Teoria Ator-Rede - em
particular aquelas propostas por Bruno Latour e autores afins - que, durante a elaboração do
presente texto-laboratório, entraram em cena como aliados no trabalho de cenarização do
processo de fabricação das "oportunidades para curar" nos grupos holotrópicos.

Palavras-chave: Grupos Holotrópicos. Prática Terapêutica. Teoria Ator-Rede.


ABSTRACT

This doctoral thesis is a result of a three-year fieldwork among holotropic groups in


the course of seven theoretical and experiential modules of Holotropic Breathwork and
Transpersonal Psychology workshops offered by Grof Transpersonal Training. The main
objective of this research is to present a version of how therapeutic practice came about in
these groups. By means of the association between several elements considered field agents
(actants), complex and unique fabrication scenarios called "opportunities to heal" were taking
place in the holotropic set and setting. These scenarios were situations which created
conditions for the emergence of experiences related to "self-knowledge" and "personal
transformation" among the groups members.The research was conducted employing some
theoretical and methodological tools derived from Actor-Network Theory - in particular,
those ones proposed by Bruno Latour and others. During the elaboration of this "laboratory
text", these tools showed up as allies in the scenarization work of the "opportunities to heal"
fabrication process in the holotropic groups.

Keywords: Holotropic Groups. Therapeutic Practice. Actor-Network Theory.


SUMÁRIO

  INTRODUÇÃO 10
1 REFLEXÔES SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS
TEÓRICO-METODOLÓGICA 25
1.1 A fabricação de um pesquisador na relação com o campo 25
1.2 O trabalho de cenarização: de actantes a coletivos 43
2 FALANDO A LÍNGUA DOS NATIVOS: CAMINHANDO COM GROF
RUMO AO MUNDO HOLOTRÓPICO 47
2.1 Os primórdios de Grof 47
2.2 A construção do enfoque teórico grofiano 50
2.3 A concepção do Trabalho de Respiração Holotrópica 60
3 CENARIZAÇÃO DAS OPORTUNIDADES PARA CURAR NOS GRUPOS
HOLOTRÓPICOS 66
3.1 Os grupos holotrópicos e o Movie Yoga 66
3.2 A natureza em ação 78
3.3 Os objetos e seres encantados: o encontro entre o sagrado e o terapêutico 87
3.4 A sessão holotrópica 100
3.4.1 Os salões holotrópicos 102
3.4.2 A apresentação da perspectiva holotrópica 103
3.4.3 A respiração 104
3.4.4 As duplas de trabalho: respirantes e acompanhantes e seus papéis específicos 106
3.4.5 O Curador Interno 108
3.4.6 O papel do facilitador 109
3.4.7 A música 111
3.4.8 Mandalas 117
3.4.9 Sharing 118
3.4.10 O trabalho corporal 119
3.5 Histórias holotrópicas 126
3.5.1 O tiro no pássaro 126
3.5.2 O contato com o feminino divino e o homem que chora 128
3.5.3 O fogo e o felino: consciência e transformação 130
3.5.4 Uma experiência de nascimento 132
3.5.5 A energia que caminha e o chamado profundo 135
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 138
  REFERÊNCIAS 145
  ANEXO A - Dados sobre os grupos holotrópicos 152
  ANEXO B - Paisagem natural nos grupos holotrópicos 153
  ANEXO C - Objetos e seres encantados 155
  ANEXO D - Os salões holotrópicos 156
  ANEXO E - Set de músicas holotrópicas 157
  ANEXO F - Mandalas holotrópicas 158
10

INTRODUÇÃO

A presente tese é o resultado de três anos de trabalho de campo realizados entre os anos
de 2007 e 2010, nos quais me dediquei ao acompanhamento dos grupos que faziam parte dos
módulos de formação no trabalho de Respiração Holotrópica. Ao todo, participei de sete grupos,
quatro em Buenos Aires (Argentina) e três em São Paulo (Brasil). Na experiência com os grupos
holotrópicos, acompanhei, em particular, o modo como determinados elementos, agentes no
campo, se articularam nas situações denominadas, pelos holotrópicos, de oportunidades para
curar. Basicamente, no transcorrer do trabalho de campo, compreendi que a noção de
oportunidades para curar se refere a quaisquer experiências que emerjam no set e setting
holotrópico1 e que ofereçam chance para o autoconhecimento (ampliação da consciência de si e
do mundo) e para a transformação pessoal (mudança de modos de ser). Assim, percebi que, ao
acompanhar as oportunidades para curar, era possível fabricar uma versão2 sobre o modo como se
dá a prática terapêutica nesses grupos. Cabe, antes de qualquer coisa, explicitar as duas situações
do campo que fizeram nascer a versão que será trabalhada na presente tese.
Nessa ocasião o grupo todo estava reunido para o almoço, o clima entre as pessoas era
animado, já estávamos convivendo a cinco dias nos quais compartilháramos várias experiências.
Muitas pessoas do grupo já se conheciam, pois fizeram anteriormente outros módulos juntos, mas
sempre havia pessoas novas. Quase todos já haviam terminado de almoçar e o momento era de
conversação descontraída. A sala onde nos situávamos era ampla, sendo composta por várias
mesas de quatro lugares. Suas grandes janelas deixavam à mostra a bela paisagem do entorno: um
extenso lago rodeado por araucárias, pinheiros e alguns arbustos floridos.
Enquanto pequenos grupos conversavam animadamente, outros estavam mais quietos,
falando mais baixo. Em determinado momento um dos integrantes se levantou e começou a falar
alto com seus colegas de mesa, que a essa altura já estavam rindo. Em tom jocoso, se referia a
outro integrante (que chamarei de Joe) que ocupava a mesa ao seu lado. “Quando eu crescer

1
Cenário mais amplo da prática holotrópica que diz respeito, respectivamente, ao contexto de relações entre facilitadores e
respirantes e o espaço físico onde os grupos se encontram.
2
Esse termo usado por Despret (2001) se refere ao trabalho de produção de conhecimento realizado em ciência, sublinhando seu
caráter de invenção de realidades (construção); de durabilidade e historicidade (situada num tempo e espaço); assim como de
multiplicidade (coexistência com outras versões).
11

quero ser igual a você! Você tem estilo até para palitar os dentes depois que come! Olhe só para
ele, esse cabra é macho pra valer!”
Prestei um pouco mais de atenção à cena e percebi que o dono do palito estava sorrindo.
Entre os dentes - lá estava ele garantindo seu estilo - o palito. Não que fosse um palito diferente,
era desses que se vêem em qualquer lugar, madeirinha clara, apontado nos dois extremos. Pelo
que entendi, a dupla de estilo habitualmente estava junta após uma refeição. No entanto, naquele
momento, àquela dupla articulou-se o comentário jocoso, poderia até dizer elogioso. O dono do
palito tinha seu estilo reconhecido naquela brincadeira, e esta, por sua vez, se misturava bem ao
momento de descontração geral do grupo. Todos riram às gargalhadas, enquanto se ouviam
outras pessoas assentindo: “Isso mesmo! Eu também já tinha visto, ele tem estilo”. É, ele
costumava palitar os dentes depois de comer, ficava com o palito para lá e para cá na boca, com
estilo, é claro, e enquanto fazia isso, por vezes observava o entorno com um ar pensativo, por
outras, conversava com alguém sempre de maneira discreta. Na maior parte das vezes era
silencioso e quieto. Não falava o português e se comunicava através do inglês.
Em meio a toda aquela brincadeira, outro integrante propôs: “Vamos lá, todo mundo de
palito na boca, vamos seguir o estilo”. Aceitação geral, todos os homens do grupo (era um grupo
composto em sua maioria por homens) estavam com palitos nos dentes. Tiramos até uma
sequência de fotos do estilo. Cantarolávamos na maior algazarra, como uma torcida grita o nome
de seu time ou coisa do tipo: Joe, Joe, Joe!
Foi realmente muito divertido. Eu estava completamente entregue e afetado pela
algazarra, inclusive dando sugestões de poses para as fotografias. Ao final, fiquei observando a
mim mesmo, as pessoas, e pensando no palito que se tornara tão agente, um agente de estilo.
Fiquei um bom tempo desfrutando da expressão de alegria do dono do estilo, sem falar do resto
das pessoas. Não era apenas eu, todos se afetaram com a experiência do palitinho.
O palitinho que era agido por uma pessoa, era mais que isso, era estilo. Estilo digno de
nota, capaz de agenciar novos adeptos e promover fotos. O que estava acontecendo? Perguntei-
me se aquele objeto era mesmo um palito ou uma espécie de excalibur disfarçada?
Passado algum tempo do evento, num momento de reflexão solitária nesse mesmo
módulo fui acendendo a memória para lembrar-me de Joe no grupo, em outras situações. Era
quieto, observador, apresentava um olhar um pouco triste. Com efeito, na primeira vez que o vi
falar no grupo, ao se apresentar, ele relatara que vinha experimentando muitas dificuldades em
12

sua vida atualmente e definia seu processo existencial como uma depressão e falta de sentido em
viver seus dias. Ele saíra de seu país natal há muito tempo e fora viver muito longe num país de
língua inglesa, bem distinto do seu3. Veio ao Brasil para participar do módulo e, pela dificuldade
com o idioma, contou com o auxilio da pessoa responsável pela organização dos grupos, que lhe
deu dicas e orientou sua estadia em São Paulo.
Nas sessões holotrópicas, ele viveu processos que faziam aparecer alguns temas
importantes que alimentavam esse estado depressivo e que, segundo seu relato, giravam em torno
de uma imensa dificuldade para expressar suas emoções e mergulhar mais fundo em si mesmo e
na relação com os outros. Os demais integrantes do grupo - incluindo as pessoas que não falavam
inglês - tentavam se comunicar com ele e integrá-lo seja através de brincadeiras (ele foi chamado
de Crocodilo Dundee por um dos integrantes), seja pelo acolhimento daquilo que era dito por ele
em suas vivências nas sessões holotrópicas.
Passei um bom tempo refletindo sobre o que acontecera com Joe no grupo a partir daquele
almoço. Aquele integrante do grupo que costumava palitar seus dentes estava bem diferente, agia
de modo bem distinto daquele de outros dias: estava sorridente e me parecia usufruir com gosto
daquele momento. O palitinho parecia, a meu ver, fazer um convite, mas eu ainda não podia
entender bem seu papel naquele coletivo. Eu podia ver como esse actante 4 propunha ao seu
parceiro humano outro modo de agir, ele aparecia como um conector5 entre outros actantes e por
fim promovia através de sua agência uma movimentação diferente no grupo. Nesse momento,
ainda sem muita clareza, mas atraído pelo que ocorrera, considerei que o mais interessante seria
não tomar o palitinho como um actante isolado e sim como parte de um emaranhado de
associações que me contavam algo de singular sobre esse grupo.
Depois de muita reflexão e passeios pelo diário de campo, encontrei-me com outra
situação ocorrida durante uma das aulas do módulo de junho de 2009, dedicado ao tema da Busca
espiritual, Apego e Vício. Naquela ocasião, o grupo encontrava-se reunido no salão principal de

3
No site do Grof Transpersonal Training Brasil, dentre as informações sobre o treinamento há também uma seção em que são
apresentados os nomes dos formandos junto com os módulos por eles realizados. Optei por não revelar o país de Joe, por
considerar que isso acarretaria a quebra de seu anonimato.
4
O termo actante é utilizado por Latour (2001) e se refere aos elementos que circulam no campo, que podem ser humanos e não-
humanos, enfatizando sua qualidade como agentes (atuantes) em determinadas situações.
5
O termo conector é trazido por Latour (2005) em sua discussão sobre a não existência prévia do „social‟. Este último, na versão
latouriana, é composto por elementos heterogêneos (actantes) e poderia se caracterizar como aquilo que está “colado por muitos
outros tipos de conectores” (p.18). Em minha pesquisa, uso o termo conector entendendo-o como um actante que promove a
entrada de mais elementos no coletivo.
13

atividades participando de uma aula que tratava do trabalho terapêutico direcionado a pessoas
com problemas relacionados ao vício de substâncias, de relacionamentos, entre outros.
Basicamente a discussão pautava-se no modo como, os estados holotrópicos de consciência6
traziam implicitamente um poder curativo e por isso seriam valiosos no tratamento de adictos.
O facilitador que coordenava o curso naquele módulo trazia muitas informações sobre o
tema: ele era muito experiente no trabalho holotrópico com pessoas adictas ao álcool e drogas
ilícitas. Durante sua apresentação ele desenvolve uma extensa argumentação na qual inclui
aspectos da teoria de Grof. Fala sobre as diversas possibilidades de experiências que podem ser
vividas pelas pessoas em estados holotrópicos de consciência e se detém no que ele chamou das
“três dimensões da psique propostas por Grof: o nível biográfico, perinatal e transpessoal7”. Ele
tinha um modo de se expressar muito expansivo, bem como uma habilidade especial para dar
exemplos e contar histórias. Num determinado momento, ele abordou o que chamava de
dinâmicas perinatais explicando que, segundo a teoria de Grof,
Vivenciando estados holotrópicos podemos entrar em contato com a dimensão perinatal do
psiquismo e dessa forma experimentar dois tipos de dinâmicas: a recordação do parto biológico,
algo pelo qual já passamos - uma experiência que está inconsciente em nós - e o processo psico-
espiritual de morte-renascimento8 - que se dá paralelamente ao parto biológico.

Após essa apresentação ele pergunta ao grupo:

Como a recordação de nosso parto biológico pode impactar em nossas vidas? O nascimento é uma
poderosa experiência que implica num processo de morrer e renascer. Morrer em uma condição e
nascer em outra. Se entendermos que somos seres espirituais vivendo uma vida humana, é possível
entendermos também que nossa jornada nessa vida é nossa caminhada para a plenitude e mesmo
que não tenhamos consciência disso, a vida assim se faz: parece que está na natureza da vida. Assim
falava Sri Aurobindo: que toda a vida é uma yoga. Em outras palavras: tudo que é inconsciente tem
um mecanismo interno que parece desejar a consciência.

Ele continua nos seguintes termos:


Estamos falando de algo muito profundo que parece estar na própria raiz da vida, como se a vida se
fizesse nesse processo de tornar-se consciente, de vir à consciência. Toda e qualquer experiência
vivida por nós é um aprendizado, uma oportunidade para nos conhecermos, para aprendermos sobre

6
Na perspectiva holotrópica os estados holotrópicos de consciência são um subgrupo dos estados não-ordinários (ou incomuns)
de consciência e se caracterizam por um movimento da consciência em direção à totalidade. Eles possuem um potencial de cura
que conduz a consciência a um modo de funcionamento mais íntegro e ampliado (Grof, 2000; 1997; 1988).
7
Esses termos serão apresentados mais adiante no presente texto, mas para fins de esclarecimento, eles fazem parte da cartografia
ampliada da psique proposta por Grof (1976) a partir de suas pesquisas com o LSD. A dimensão biográfica tem a ver com a
história de vida de uma pessoa desde seu nascimento; a dimensão perinatal se refere à vida intra-uterina e ao momento do parto e
a dimensão transpessoal diz respeito a experiências de transcendência do ego no tempo e no espaço.
8
Segundo a perspectiva holotrópica o processo de morte-renascimento se refere às profundas transformações na vida de uma
pessoa nas quais há mortes do ego e subsequente ampliação da consciência sobre si mesmo e sobre a vida como um todo (GROF,
2000).
14

a vida, sobre nossa missão nesse planeta. O Curador Interno9 é nosso grande aliado e temos que nos
manter atentos para não perdermos a oportunidade, a oportunidade para curar. O Curador Interno
querendo que sejamos conscientes acaba por nos levar a repetir certas experiências para revivê-las e
transformarmos a nós mesmos, nos oferecendo uma oportunidade, algo como: „acorde:
oportunidade para curar10! Ei veja, você está passando por isso agora: oportunidade para curar‟. Na
maior parte do tempo não estamos atentos e cometemos erros honestos, ou seja, a intenção profunda
é de transformação e resolução de um problema, de ampliar a consciência de chegar ao
renascimento, mas muitas vezes tomamos caminhos disfuncionais e isso aparece nos vícios, nos
sintomas, em tudo aquilo que nos mostra que estamos reduzidos em nosso potencial de vida.
Comportamentos repetitivos surgem assim para que possamos despertar. Eles são oportunidades
para curar! Os processos interiores buscam situações na vida, no mundo. Certos comportamentos
onde o ser humano perde a oportunidade para se curar se tornam repetitivos e até disfuncionais.
Podemos dizer que obtemos a cura quando não é mais necessária a repetição de comportamentos
disfuncionais no mundo e isso pode se dar através de seguidas e seguidas reexperimentações de
processos tanto biográficos como perinatais e transpessoais. É importante que estejamos atentos a
essas oportunidades.

É claro que nesse trecho há inúmeras informações que serão devidamente expostas mais
adiante no presente trabalho. O que eu gostaria de destacar, em especial, é a noção de
oportunidades para curar. Ela foi frisada em outras ocasiões e me pareceu fundamental dentro da
perspectiva holotrópica. Portanto, minhas perguntas começaram a proliferar: o que são as
oportunidades para curar? Como elas acontecem? Aonde elas se dão?
Revendo a fala do facilitador, encontro algumas pistas: as oportunidades para curar
podem aparecer sob a forma de sintomas e de experiências das mais variadas. Elas são definidas
como conteúdos que querem vir à consciência propiciando a transformação, para gerar um estado
de maior consciência de si mesmo e da vida. Eu já havia me interessado por essa fala, porém ela,
de fato, começou a produzir efeitos em mim quando a associei à história do palitinho. Lembrei da
transformação no semblante de Joe, da algazarra do grupo, da sessão de fotos, dos comentários
das pessoas e me perguntei: será que eu acompanhei uma oportunidade para curar? Em outras
palavras, qual seria a relação entre o evento do palitinho e a noção de oportunidades para curar?
O palitinho era um conector que possibilitava a construção junto com outros actantes de um
cenário de fabricação de oportunidades para curar? Se sim, como tais oportunidades poderiam se
tornar visíveis nesses grupos holotrópicos? Que elementos estariam associados às oportunidades
para curar?
Desta feita, o investimento de meus esforços no presente texto foi, a partir dessas
questões, reencontrar-me com os passos dados no trabalho de campo e procurar o modo como as

9
Termo muito utilizado nos grupos holotrópicos para se referir a uma instância da consciência que atua como uma espécie de guia
interior que direciona o processo de cura e transformação de cada pessoa, tornando-as mais conscientes de si mesmas e da vida
como um todo.
10
Esse facilitador era norte-americano e a expressão em inglês usada por ele foi: “opportunity to heal”.
15

oportunidades para curar aconteciam, ou seja, como essas oportunidades para curar se fabricavam
nos grupos holotrópicos. O que considerei no final de minha empreitada é que coletivos, onde
emergiam oportunidades para curar, eram fabricados através de inúmeras associações entre
elementos atuantes no campo (actantes). Centrei, então, meus interesses de ordenamento do
trabalho campo visando contar diversas histórias, onde os integrantes dos grupos holotrópicos,
através de seus relatos, articularam-se às oportunidades para transformação pessoal e ampliação
da consciência de si mesmos e a vida.
Para realizar tal empreitada, lancei mão das proposições teórico-metodológicas da TAR,
principalmente daquelas apresentadas por Latour (2008; 2005; 2004; 2002a; 2002b; 2001; 1997;
1995a; 1995b; 1994), mas também de outros autores - tais como Despret (2001), Favret-Saada
(2005) - com os quais me aliei para construção deste texto-laboratório. Sobre isso, vale sublinhar
que para Latour (2002b) o texto em ciências humanas e sociais é o equivalente do laboratório nas
ciências naturais e exatas, ou seja, é espaço privilegiado para as misturas e composições entre os
elementos da pesquisa. Nas palavras de Melo (2007), “[...] o pesquisador tem o texto como lugar
de suas experiências, utilizando-o para construir uma descrição, para colocar em cena conceitos e
personagens, para invocar fontes e relacionar argumentos” (p. 171).
Vale ressaltar que não obstante o contato prévio com parte desses autores, sua entrada na
pesquisa teve a ver fundamentalmente com o que me foi suscitado durante o trabalho de campo.
Optei por considerar que cada autor atuava em meu texto-laboratório também como um actante.
Assim, eles foram propositivos cada qual ao seu modo, proporcionando reflexões, articulações,
servindo de isca para que eu arriscasse argumentos e proposições. Dessa forma, é possível dizer
que pavimentaram junto comigo e os grupos holotrópicos os caminhos do presente trabalho.
Um ponto que merece atenção é o fato de que minha entrada nesses grupos se deu de duas
formas: como um pesquisador e como um integrante dos grupos de formação, fazendo parte dela.
O motivo principal que me levou a tomar a decisão de cumprir toda a formação e me certificar
como facilitador de Respiração Holotrópica, tem a ver com meu desejo de fazer parte dessa rede
holotrópica, mantendo esse tema como meu objeto de estudos futuros, e, com isso, contribuindo
de alguma forma para essa perspectiva.
Assim, desde o início experimentei-me em dois lugares na relação com o campo: o de
nativo e o de pesquisador. Como era de se esperar, lidar com isso não foi fácil. Por um bom
tempo, inclusive, complicou meu trabalho no acompanhamento dos grupos, pois em muitos
16

momentos eu me via com dificuldades de me deixar afetar pelo modo da surpresa, tendo a
impressão de que tudo que acontecia nos grupos já me era conhecido. Portanto, experimentava
uma desagradável sensação de incapacidade para a realização da pesquisa, o que me colocou
diante das seguintes questões: seria possível me situar criativamente nesses dois lugares? Como
fazer para não me perder numa confusão de papéis?
Por conta disso foi fundamental colocar em relevo o papel da reflexividade em minha
pesquisa, ou seja, disciplinar o olhar e manter a distância11 (LATOUR; WOOLGAR, 1997).
Nesse sentido, foi importante levar em conta que seria preciso encontrar uma via de trabalho que
não fosse, por um lado, a da ironia e, por outro, a da aceitação passiva (Despret, 2001)12. Na
primeira, se pode cair na tentação de fazer desqualificações sobre os acontecimentos do campo e
na segunda o pesquisador se confunde com o campo e por fim se perde em sua pesquisa. De
acordo com isso, compreendi que, realizar um trabalho de campo foi me ver em ação distribuindo
o olhar que deveria se disciplinar diante dos acontecimentos. Parte dessa disciplina foi estar
atento para minha dupla inserção e para delimitar com clareza meu trabalho como pesquisador.
Com efeito, somente depois de um bom tempo caminhando e descaminhando pela complexidade
dessa dupla inserção (nativo/pesquisador), vislumbrei como um bom fio condutor manter-me
focado nos acontecimentos que ganhavam vida no campo e me deixar guiar pelas afetações
geradas na relação com ele. Por isso, considerei importante fazer aparecer no texto, sempre que
possível, a problemática de minha familiaridade com o objeto estudado.
Nesse sentido, vale acrescentar que um grande companheiro nesse processo reflexivo,
nessa aventura, foi o diário de campo, que passou a ser para mim um rico território de
interlocução. Nele pude perceber a construção de um híbrido, onde apareciam articulados o
pesquisador, o campo, bem como as transformações que ambos sofriam. Foi interessante poder ir
e voltar ao campo através de suas páginas. Ele trazia minhas memórias do campo, com anotações,
perguntas, estranhamentos, reflexões: foi um grande companheiro, mostrando a mim mesmo
minha atuação no campo, ajudando-me a que eu pudesse também me colocar em perspectiva.
Cabe frisar que, optei por um diário de campo, por entender que seria interessante realizar
várias experiências nele: seja através de anotações feitas enquanto determinadas situações

11
Essa distância não convida à separação, mas sim ao encontro de uma posição que auxilie esse olhar que se disciplina a enfatizar
os vínculos entre os actantes – no caso o pesquisador e campo.
12
A autora propõe que a saída para essa problemática da ironia e da aceitação passiva é levar em conta que a prática científica se
definiria melhor como um trabalho de produção de versões.
17

ocorriam, ou escrevendo, depois, trazendo os eventos para as suas páginas por intermédio da
memória. De fato, o que nele ficou impresso representa um amalgamado entre minhas
experiências como pesquisador (as afetações, reflexões, questionamentos, estranhamentos, etc.) e
os acontecimentos do campo.
Vale a pena sublinhar que cada grupo por mim acompanhado poderia ser entendido em
sua singularidade, sendo tomado isoladamente. No entanto, me pareceu válido tentar fazer
contato com um cenário mais amplo - traçando um caminho narrativo que prescindisse da
cronologia dos grupos - onde pequenas histórias, ao serem contadas, tornariam visível o modo
como coletivos de oportunidades para curar foram fabricados.
Ainda que o campo não vá ser apresentado seguindo a temporadidade na qual foi feita a
pesquisa, é preciso situar que os primórdios da presente pesquisa remontam ao meu último ano de
graduação no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995). Naquele
período, tomei contato com um livro do psiquiatra, proveniente da antiga Tchecoslováquia,
Stanislav Grof13. Esse livro, que fora publicado primeiramente nos Estados Unidos nos anos 80,
se intitulava “Além do Cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia” e continha
em seu bojo o resultado de quase 30 anos de material coletado e elaborado pelo autor sobre o que
ele denominava de “modernas pesquisas da consciência”.
Grof, junto com Sutich, Maslow e outros, foi, em 1968, um dos fundadores da Psicologia
Transpessoal, vertente que buscava integrar a espiritualidade na Psicologia, através de sua
valorização enquanto uma dimensão válida, bem como essencial da realidade (Grof, 1988). O
referido autor teve um papel importante no desenvolvimento e disseminação da perspectiva
transpessoal tanto nos Estados Unidos como em diversos outros países, chegando a ser presidente
da Associação de Psicologia Transpessoal (1969), ajudando a promover congressos nacionais e
internacionais, além da criação de uma revista destinada à área (Jornal de Psicologia
Transpessoal).
O primeiro aspecto que me chamou a atenção no trabalho de Grof foi, justamente, como
ele iniciou sua atuação clínica (terapêutica). Em meados da década de cinqüenta ele, que já

13
Grof - e sua perspectiva holotrópica - é considerado junto com Wilber (2002) - e sua Psicologia integral – um dos mais
importantes representantes ainda vivos da Psicologia Transpessoal. Seu nome é citado em trabalhos dos mais variados que
incluem proposições teóricas do campo transpessoal (CAMPBELL, 1999; TART, 1996; WALSH; VAUGHAN, 1999) e
discussões sobre a revisão paradigmática na ciência ocidental (CAPRA, 1997; 1994; LAZLO 2006; 2004; TALBOT, 1995;
TARNAS, 2006).
18

assumira o posto de psiquiatra no instituto de pesquisas psiquiátricas de Praga, foi pioneiro, ao


lado de outros profissionais, no estudo do LSD-25 (Dietilamida do ácido lisérgico). Naquele
período, essa droga experimental, sintetizada pela primeira vez no início da década de 40 pelo
químico suíço Albert Hoffman, fora considerada, pelos seus efeitos no funcionamento mental,
como um instrumento capaz de fornecer novos rumos para o entendimento dos transtornos
mentais graves, por ser capaz de engendrar uma psicose experimental (GROF, 2001; 1976).
Por mais de quinze anos Grof desenvolveu pesquisas clínicas com o uso do LSD (terapia
psicodélica) como catalisador dos processos mentais, que envolviam como sujeitos experimentais
desde pacientes psiquiátricos graves, profissionais de saúde (inclusive ele mesmo), artistas,
sacerdotes, pacientes em tratamento paliativo de câncer, dentre outros. Através de sua prática
criou um método terapêutico próprio (que por fim veio a ser denominado de trabalho de
respiração holotrópica ou terapia holotrópica) e consequentemente uma abordagem teórica muito
singular (a abordagem holotrópica). Sua profunda conexão com a terapia psicodélica associada,
tanto com a dificuldade de se levar adiante pesquisas desse tipo no leste europeu da época, quanto
com uma maior abertura para tais estudos nos Estados Unidos, terminaram por fazê-lo imigrar em
1967 para Califórnia, onde reside até hoje.
Se, por um lado, o contexto contracultural dos anos sessenta e setenta cumpriu o papel de
facilitador para a inserção de Grof, e seus trabalhos com a terapia psicodélica, em instituições de
pesquisa psiquiátrica nos Estados Unidos (Johns Hopkins University, por exemplo), por outro, foi
por aí também que as complicações surgiram (Grof, 1988). Por conta da eficácia desse tipo de
prática terapêutica, divulgada na mídia por artistas de Hollywood, o LSD foi ganhando espaço no
mercado negro, sendo muito consumido junto com outros alucinógenos pela nascente
contracultura norte-americana (CASHMAN, 2001; ROSZAK, 1972; WATTS, 2002).
Uma série de medidas administrativas reativas à proliferação clandestina dos psicodélicos
no começo da década de setenta, foi paulatinamente desarticulando o LSD do campo das
pesquisas terapêuticas, sendo ele cada vez mais identificado como uma droga perigosa,
incontrolável e, por fim, ilícita. Como resultado disso, houve uma gradual retirada de
investimentos financeiros para as pesquisas com a substância, culminando em sua proibição
(GROF, 2001). Foi um pouco depois desse processo, em 1975, que Grof, junto com sua esposa
Christina Grof, desenvolveu a técnica da Respiração Holotrópica, considerada por ele o substituto
da terapia psicodélica (GROF, 2000; 1997; 1988).
19

Após ler sobre a prática terapêutica de Grof, fiquei muito curioso sobre a técnica
denominada de Respiração Holotrópica14. Ela é definida, resumidamente, como o resultado da
combinação, em um cenário terapêutico, entre respiração acelerada (hiperventilação), música
evocativa e trabalho corporal de liberação. Sua finalidade era facilitar o acesso ao que é chamado
por Grof de estado holotrópico de consciência.
O encontro com Grof e a Respiração Holotrópica me abriu as portas para o contato com
um mundo de informações demasiadamente estranho, onde se articulavam de modo muito
singular: a psiquiatria, a espiritualidade, o Oriente, o Ocidente, mitologia, ciência, diversas
abordagens da Psicologia, diferentes culturas de épocas e locais muito variados, dentre outros.
Além disso, termos muito peculiares eram forjados para explicar essa articulação, quais sejam:
matrizes perinatais básicas, transpessoal, estados hilotrópicos e holotrópicos15 de consciência,
entre outros.
No ano seguinte, continuei minha peregrinação buscando obter mais informações sobre a
obra de Grof e a prática da Respiração Holotrópica. Nessa época (1996) as informações pela
internet não estavam tão disponíveis e cheguei, graças a uma colega de pós-graduação (na época,
eu cursava uma especialização em Psicologia Analítica de C. G, Jung), ao conhecimento de que
havia um facilitador de Respiração Holotrópica oferecendo workshops de fim de semana no Rio
de Janeiro desde 1992.
Após fazer contato telefônico com essa pessoa, Kiu Eckstein - um alemão de mais de 70
anos que conhecera Grof e a Respiração Holotrópica no tempo em que trabalhara para a TV
alemã e fizera, na década de oitenta, um documentário sobre essa prática – combinamos uma
entrevista para que eu pudesse participar do próximo workshop, que seria em fevereiro de 1997.
Kiu, como todos o chamavam, era uma pessoa muito séria, de poucas palavras, mas bem
diretas; uma pessoa bastante objetiva, todavia, cálida e simpática. Naquele período, ele vivia em
uma cobertura na Barra que tinha dois andares e um pequeno aposento, como se fosse um sótão
que era acessado por uma escada. Já na porta de entrada do aposento havia de frente para quem

14
Atualmente ela tem sido chamada no Brasil de trabalho de Respiração Holotrópica por considerar-se uma melhor tradução para
o termo original em inglês Holotropic Breathwork.
15
Estes termos foram criados por Grof para designar dois estados de consciência específicos: hilotrópico se refere ao estado de
consciência comum em que há um direcionamento desta para a realidade material visando um funcionamento no cotidiano.
Holotrópico é um subgrupo dos chamados estados não ordinários de consciência que se caracteriza por um significativo potencial
de cura e transformação dos indivíduos e diz respeito a um movimento da consciência em direção à totalidade (GROF, 2000;
1988).
20

chegava uma grande escultura de um pássaro de cerca de um metro de altura feita em madeira
maciça. Dentro do quarto havia também um leão de madeira, artesanatos variados de diversas
culturas, fotos e livros, muitos livros. Havia uma escrivaninha muito simples que era ladeada por
uma pequena cama situada abaixo de uma janela que parecia ter sobre o colchão uma esteira de
palha coberta por uma manta que lembrava algum tipo de artesanato indígena desconhecido para
mim.
Confesso que fiquei impressionado com o cenário e não pude evitar comentários sobre o
aposento. Kiu me escutava calmamente e me respondia quando lhe parecia conveniente. Comecei
a falar de como eu havia chegado à obra de Grof e em poucos minutos já estávamos fazendo a
entrevista. Foi uma longa conversa na qual ele me apresentou o enfoque teórico de Grof, me
forneceu informações sobre a Respiração Holotrópica bem como me fez perguntas sobre minha
história pessoal, meu histórico de saúde e minha vida espiritual – se eu era vinculado a alguma
prática religiosa ou se houvera passado por alguma experiência espiritual digna de nota. Falamos
também sobre valores e questões mais operacionais, como, por exemplo, modos de se chegar ao
local do workshop, que seria realizado em uma pousada em Teresópolis, etc.
De fato, em fevereiro de 1997, participei de meu primeiro workshop de Respiração
Holotrópica, tendo feito outros tantos durante os anos que antecederam o início da presente tese
em 2007. Tornei-me bastante próximo de Kiu e com o passar dos anos fui, através de nossas
conversas e do contato com inúmeras experiências vividas e observadas nos workshops,
desenvolvendo o interesse e a curiosidade em estudar mais sobre essa prática.
Em 2003, propus-me a tarefa de tentar realizar uma investigação de mestrado para dar
conta, dentro do possível, de meus interesses sobre Grof e a Respiração Holotrópica e, assim,
nasceu o modesto resultado que foi a dissertação intitulada “O transpersonalismo de Stanislav
Grof: a fabricação de uma versão em psicologia”, defendida no ano de 200616.
No referido trabalho, lancei mão de algumas ferramentas teórico-metodológicas extraídas
das obras de Bruno Latour (e da Teoria Ator-Rede) e de Vinciane Despret. Esses autores
oferecem uma perspectiva interessante para se entender a(s) ciência(s) através do
acompanhamento da prática dos próprios cientistas, buscando tornar visível o que seria um
aspecto capilar das ciências: os pequenos e múltiplos movimentos de construção de sua própria

16
Pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
21

realidade e mobilização do mundo. Nesse sentido, me pareceu bastante viável acompanhar o jogo
de associações que formava o coletivo17 do qual Grof fazia parte, com isso produzindo, eu
mesmo, uma versão sobre sua proposta de Psicologia.
Para tanto, fui seguindo como Grof construiu sua proposta teórica e terapêutica, na
relação com o LSD, entendendo que esse pesquisador se constituiu na relação com esse não-
humano. Foi do encontro entre ambos que um sem número de actantes entrou em jogo, se
associando e construindo um cenário provisório muito interessante de ser investigado. Em linhas
gerais, o que fiz foi acompanhar a construção de uma versão de Psicologia realizando uma leitura
cuidadosa de tudo que pude obter da produção literária de Grof. Diante do resultado, percebi que
um trabalho teórico era apenas uma parte do que poderia ser feito. Assim, me senti impelido a dar
continuidade ao que eu já havia começado saindo dos documentos e partindo para o campo.
Na certeza de que eu gostaria de fazer esse trabalho, inicialmente o foco de minha atenção
se voltou para a prática da Respiração Holotrópica como campo ideal para realizar minha
pesquisa. Nessa época eu acreditava que seria nos workshops desssa prática que eu poderia ver
como os diversos elementos que compunham o mundo holotrópico se movimentavam.
Minha intenção inicial era acompanhar workshops isolados de trabalho de Respiração
Holotrópica. Eu já havia conversado com Kiu sobre a possibilidade de acompanhar os workshops
por ele coordenados no Rio de Janeiro e havíamos feito algumas combinações sobre a conversa
com os participantes e as datas dos workshops. No entanto, como todo bom processo de
elaboração de um trabalho de campo, surgiu o primeiro problema que mudaria os rumos de tudo.
Por motivos de força maior, Kiu teve que reorganizar sua vida e decidiu retornar à Alemanha, seu
país natal. Ele era o único facilitador que atuava no Rio de Janeiro e fiquei um pouco atordoado
com esse imprevisto.
Depois de reflexões sem grandes soluções, resolvi entrar no site do Grof Transpersonal
Training (GTT)18 e buscar informações sobre workshops ou mesmo qualquer outra coisa que

17
O termo coletivo, que será mais bem definido na seção seguinte do texto, se refere à associação entre actantes - humanos e não-
humanos - (Latour, 2001) construindo cenários provisórios através do trabalho do pesquisador.
18
Na obtenção de informações sobre a respiração holotrópica foram úteis os sites: do próprio GTT (http://www.holotropic.com/),
o da facilitadora certificada Ana Maria Aguirre, que coordenava a formação na Argentina (http://trans-formar.ning.com/) e
finalmente o do facilitador certificado que coordena os grupos de formação no Brasil, Álvaro Jardim,
(http://www.aljardim.com.br/). Há outro núcleo importante nos EUA, mas que não forma profissionais, que conecta, numa
extensa comunidade on line, profissionais certificados em respiração holotrópica e também pessoas interessadas na perspectiva
holotrópica e transpessoal que é a Association for Holotropic Breathwork International (http://www.grof-holotropic-
breathwork.net/).
22

pudesse me auxiliar. O GTT tem sua sede na Califórnia, Estados Unidos, e foi fundado por Grof
e sua esposa Christina em 1986. Desde então vem sendo um centro de referência para ensino,
prática e divulgação da perspectiva holotrópica e transpessoal.
Meu passeio pelo site me levou a um setor no qual são fornecidas informações sobre
palestras e workshops ministrados pelo próprio Grof, assim como pelo grupo de profissionais
certificados pelo GTT. Lá encontrei um elemento que especialmente me chamou a atenção: além
das palestras e workshops de fim de semana, havia também avisos sobre módulos da formação
para o que se denomina de Certificação na experiência e estudo da Respiração Holotrópica e na
perspectiva transpessoal, sendo que estes ocorriam tanto nos Estados Unidos como na Austrália,
Espanha, Reino Unido (Inglaterra), Argentina e Brasil.
Pareceu-me uma boa opção saber sobre tais módulos e a possibilidade de em vez de
acompanhar workshops de fim de semana, realizar esse trabalho com grupos de formação.
Durante minhas buscas para obter detalhes mais específicos, descobri que a formação não estava
ocorrendo no Brasil desde 2001 e que o país mais próximo para realizá-la seria na Argentina,
mais precisamente em Buenos Aires.
No começo de 2007, fiz contato com a facilitadora responsável pela formação de grupos
na Argentina, Ana Aguirre e, nesse mesmo ano, em setembro, cheguei a Buenos Aires para dar
início tanto à formação quanto ao meu trabalho de campo. Desde então, acompanhei sete grupos
holotrópicos, sendo que os três últimos tiveram lugar em São Paulo, pois, em 2008, a formação
voltou a ser realizada no Brasil. O mesmo procedimento de pedido de autorização 19 para
acompanhamento dos grupos foi feito com os brasileiros em um dos módulos que participei,
sendo que a solicitação foi endereçada ao facilitador responsável pela formação no Brasil, Álvaro
Jardim (e sua equipe), ao diretor do GTT, Tav Sparks, que também coordenou alguns módulos e
a todos os integrantes do grupo holotrópico. Foi muito gratificante esse momento, pois a recepção
do grupo foi muito positiva e estimulante, já que as pessoas se mostraram colaborativas e
interessadas que eu lhes apresentasse o trabalho concluído.
Gostaria de mencionar que durante o trabalho de campo, senti dificuldades,
principalmente nos primeiros três grupos holotrópicos acompanhados. Demorei algum tempo

19
Vale sublinhar que ao entrar em contato com o Comitê de Ética, fui informado que não haveria necessidade de dar entrada em
qualquer documentação nesse departamento, pois minha pesquisa não produziria intervenções que pudessem gerar quaisquer
interferências nos participantes.
23

para chegar à questão do modo como são fabricadas as oportunidades para curar nesses grupos.
Dos três anos de trabalho de campo, pelo menos mais da metade deles senti que o que eu estava
fazendo não tinha muito sentido, que nada era muito importante. De certo modo a falta de clareza
sobre o que era importante foi se tornando um estado de incerteza que gerava abertura e
receptividade para os acontecimentos; certos questionamentos com um tempero de denúncia
crítica foram ganhando a forma de perguntas a mim mesmo, de reflexividade.
A minha impressão diante da falta de questões para meu trabalho foi inicialmente a de que
eu não estava conseguindo realizar adequadamente aquilo a que me propunha. Acerca disso, me
lembro de uma defesa de tese de doutorado em antropologia que assisti em 2003 na UERJ, na
qual o futuro doutor inicia sua apresentação se colocando ao lado dos seus colegas antropólogos
que fazem trabalho de campo dizendo dos problemas gerados pelas exigências dos órgãos de
fomento em delimitar o tempo de acordo com seus critérios e não com as necessidades
provenientes das singularidades do trabalho de campo do pesquisador. De fato, minha
experiência foi a de que o tempo que um pesquisador que está em campo necessita para encontrar
seu rumo, e suas questões interessantes, é muito variado e está intimamente ligado ao que emerge
na relação entre o campo e o pesquisador.
Um aspecto que considero relevante para a realização do presente estudo tem a ver com o
papel controvertido desempenhado pela Psicologia Transpessoal e a Respiração Holotrópica no
mundo da Psicologia20. Seu ecletismo teórico (GROF, 2005; 1988; FERRER, 2002), bem como
seu foco em assuntos como espiritualidade e estados incomuns de consciência, têm despertado
críticas no campo da Psicologia21. Além disso, há uma baixa produção acadêmica no que se
refere à Psicologia Transpessoal no Brasil. Os poucos trabalhos que existem no campo da

20
Na atualidade Grof, mesmo que se considere um pesquisador da consciência e tenha desenvolvido a abordagem holotrópica, é
apontado por diversos autores do campo da Psicologia Transpessoal como um dos mais importantes profissionais ainda vivos
dessa área da Psicologia. Suas contribuições são tidas como fundamentais para dar corpo ao transpersonalismo. Além disso, a
Respiração Holotrópica tem recebido um lugar privilegiado no âmbito das suas terapias (TABONE, 2003; FERRER, 2002;
WALSH, VAUGHAN, 1999; BOORSTEIN, 1996).
21
No Brasil a Psicologia Transpessoal, bem como a Respiração Holotrópica não são práticas reconhecidas pelo Conselho Federal
de Psicologia. Inclusive psicólogos que se considerem como tal podem ser repreendidos pelos Conselhos Regionais e pelo
Conselho Federal. Essa problemática pode ser observada no Jornal do Conselho Regional de Psicologia, ano 2, n˚ 5, abril 2005, na
fala do psicólogo Hélio Ricardo Lippi Neves, no setor “Cartas”, logo abaixo do Editorial “Por uma Psicologia – Mundo”, que tem
como título: “Advertência aos psicólogos quanto ao uso/prescrição dos Florais de Bach e práticas alternativas”. Em sua breve
carta o psicólogo cita algumas práticas alternativas, dentre elas a respiração holotrópica, e afirma: “Caso algum psicólogo veja um
colega exercendo tais atividades (ilegais), até mesmo em programas de televisão, peço que denunciem ao Conselho” (p. 2).
24

Psicologia se resumem a duas teses de doutorado, que posteriormente se tornaram livros 22 e


alguns artigos23 em revistas de Psicologia. Foram encontrados também alguns artigos na área de
enfermagem.24 Por outro lado, se olharmos para a expansão mundial da perspectiva transpessoal,
é espantoso ver como ela tem ganhado representatividade25 na paisagem mais ampla do campo
das terapias, contando inclusive com uma revista chamada Inner Door, dedicada à Respiração
Holotrópica26. Esse é outro motivo que considero relevante, já que como prática que produz
efeitos no mundo, a Psicologia Transpessoal e a abordagem holotrópica, mais do que deixadas de
lado, devem ser trazidas para perto, para que as questões por ela levantadas possam ser analisadas
e debatidas.
Para finalizar, destaco que este trabalho ficou dividido em quatro capítulos: no primeiro,
apresento o processo que experimentei de fabricação de um pesquisador na relação com o campo
e ponho em relevos os elementos que utilizei para a cenarização do campo; no segundo,
apresento elementos fundamentais do mundo holotrópico através da história de Grof – entendido
como um dos actantes do campo; no terceiro, busco cenarizar as oportunidades para curar nos
grupos holotrópicos e, por fim, no quarto, faço considerações finais sobre a presente pesquisa e
esboço possibilidades de desenvolvimentos futuros deste trabalho.

22
TABONE (2003) e BOAINAIN Jr. (1999).
23
MANFROL; FAGUNDES (1993), OLIVARES (1995), RIBEIRO; PASCHOALI (1994), GONÇALVES FILHO (1995) e
SIGELMANN (1997).
24
FAVERO; MEIER; LACERDA; MAZZA; KALINOWSKI (2009), MATHIAS; ZAGONEL; LACERDA (2006);
NASCIMENTO; ERDMANN (2009) e VIEIRA; ALVES; KAMADA (2007).
25
A primeira associação de Psicologia Transpessoal surgiu em 1969 nos Estados Unidos. Desde então, houve um crescimento de
associações e institutos destinados tanto à formação de profissionais quanto a divulgação da perspectiva transpessoal para um
público mais amplo. Há grupos distribuídos pelos cinco continentes, dentre eles: European Transpersonal Association
(http://www.eurotas.org/members.shtml), Estados Unidos - Association for Transpersonal Psychology (http://www.atpweb.org/) e
Institute of Transpersonal Psychology (http://www.itp.edu/), Austrália - Australian Transpersonal Institute and Association
(http://www.transpersonal.com.au/), Nova Zelândia - Transpersonal Institute of New Zeland
(http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/5484/), Japão - Japanese Association for Transpersonal Psychology/Psychiatry
(http://wwwsoc.nii.ac.jp/jatp/index-e.html) e Japan Transpersonal Association (http://transpersonal.jp/), América do Sul – Escuela
Sudamericana de Psicologia Transpersonal (http://www.transpersonals.com/), Brasil – UNIPAZ (http://www.unipaz.org/) e
Associação Luso-Brasileira de Transpessoal (http://www.alubrat.org.br/), California Institute of Integral Studies
(http://www.ciis.edu/), dentre outros.
26
Para quem tiver interesse, há um livro de TAYLOR (2003) que é uma coletânea de artigos de Inner Door, todos dedicados ao
trabalho de Respiração Holotrópica.
25

1 REFLEXÕES SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS

O presente capítulo aborda o processo pelo qual estabeleci alianças com diversos autores a
fim de organizar a caixa de ferramentas teórico-metodológicas necessária para o trabalho de
cenarização de meu objeto de estudo - as oportunidades para curar nos grupos holotrópicos.
Na primeira parte tratarei do que chamei do processo de fabricação de um pesquisador na
relação com o campo, no qual articulo ao texto alguns autores que me auxiliaram na construção
de uma reflexão sobre meu modo de pesquisar. Pareceu-me importante criar um espaço para
explicitar tal processo, pois durante o trabalho com os grupos holotrópicos, como já mencionado
na introdução, experimentei muitas dificuldades para me situar como pesquisador, em particular
por minha dupla vinculação com o campo (pesquisador/nativo). Além disso, falar da fabricação
de um pesquisador que se constrói na relação com o campo é levar em conta que no trabalho de
pesquisar e forjar um projeto de conhecimento, o pesquisador pode ser entendido como um dos
elementos ativos no campo e, desta feita, vale a pena contar a história de como ele se faz atuante
no campo, de como ele é agido pelos acontecimentos, ou seja, de como ele se articula com seu
campo.
Já na segunda parte, apresento os elementos metodológicos da TAR - tendo como autor
mais proeminente Bruno Latour - dos quais lancei mão em minha movimentação no campo junto
com os grupos holotrópicos.

1.1 A fabricação de um pesquisador na relação com o campo

Identifico hoje, que minha entrada no trabalho de campo foi marcada por uma
constatação: eu não sabia ainda como realizar meu trabalho, mas tinha idéia de que ele produziria
efeitos no mundo. Por isso, eu como pesquisador, deveria ter um pouco mais de clareza de como
trabalhar sem, contudo, cair no risco de aplicar ao campo uma teoria.
Um dos questionamentos que me foram feitos pelos membros da banca de qualificação
em 2009 (Profa. Marcia Moraes e Prof. Carlos Marconi), foi justamente direcionado ao problema
do uso dos métodos e das teorias na pesquisa, mais precisamente, acerca do equívoco de entender
que um estudo conduzido em consonância com a TAR se faz pela mera aplicação de suas
proposições teórico-metodológicas ao campo. Naquela ocasião, dei-me conta de que o modo
26

como vinha me articulando à TAR e ao campo não havia atingindo o grau de reflexividade
necessário para desenvolver o trabalho tal como desejava, e mesmo para me ajudar a
compreender como estava atuando como pesquisador.
Eu não entendia o campo como algo independente do pesquisador, de seus interesses, de
sua movimentação nele. Adotava aquilo que Despret (2001) propõe como sendo uma
característica do trabalho dos cientistas: os saberes produzidos por esta prática científica devem
ser tomados como versões. Isto significa que os saberes dos cientistas acerca dos fenômenos da
realidade, de seus objetos de estudo, coexistem com outros tantos sob o regime da contradição e
da controvérsia. Conseqüentemente, os saberes/versões não perdem o seu caráter de
conhecimento válido, mas devem ser entendidos como possibilidades de produção de realidades,
como resultados de práticas que, dependendo da tradição da qual são herdeiras, serão mais ou
menos privilegiadas em determinada época.
A autora usa a noção de versão em contraposição àquela de visão, considerando que a
primeira tem um caráter mais flexível e capaz de refletir o jogo de negociações e embates que é
característico do trabalho dos cientistas. A noção de visão, por sua vez, se mostraria mais
próxima de uma posição determinista, estática e impositiva porquanto uma visão “[...] é evidente,
ela invade o campo, ela se impõe de fora, e paradoxalmente, utilizando um termo que se refere ao
fato de descobrir o mundo sob o modo da revelação e da evidência, a visão nos remete por fim,
ao que impede o acesso à verdade” (p. 43).
Um bom exemplo de uma visão que exclui a noção de realidades em contrução é dado por
Moraes (2010) ao resgatar a argumentação de Law (2003) sobre o realismo euro-americano.
Nessa visão:
a) a realidade lá fora é anterior a nós, isto é, o real sempre precede qualquer tentativa de conhecê-lo;
b) o real é preciso, delimitado e definido;
c) a realidade lá fora é uma só, única. Uma só realidade, passível de ser conhecida de muitas
perspectivas. Estas diferentes perspectivas são, isso é importante, diferentes modos de conhecer algo
que é único. O mundo lá fora permanece o mesmo, a despeito de ser conhecido de muitos modos (p.
32).

Contrariamente, a noção de versão implica em possibilidade e construção e não de algo


que está dado e preexiste às mobilizações que são feitas pelos pesquisadores no mundo. Nesses
termos, existem múltiplas possibilidades de versões, que coexistem e povoam o campo da
realidade. Sobre isso, Latour (2002a) propõe que o mundo seria melhor entendido como sendo ao
27

mesmo tempo real27 e fabricado e, desta feita, como explicitam Tsallis, Ferreira, Moraes e Arendt
(2005):

É preciso fugir da „escolha cominatória‟ entre acreditar na realidade ou no que é construído. A


realidade existe bem como existe o que é construído. O construtivismo é uma opção, uma defesa
frente aos fundamentalismos que negam as entidades construídas e mediadas (p. 154).

Seguindo nessa trilha de múltiplas versões e possibilidades de realidades, Law e Urry


(2003), exemplificam a dificuldade de se trabalhar com essa noção através de uma antiga
parábola budista sobre os cegos e o elefante28. Ei-la na íntegra:
Os cegos apalparam a cabeça do animal e declararam: “Um elefante é como uma vasilha d‟água”,
mas os que apalparam suas orelhas, disseram: “Ele é como uma peneira” e os que pegaram as suas
presas discordaram: “Não, na verdade, ele é como uma relha de arado” e os que apalparam sua
tromba: “É igual à vara do arado”. Havia alguns acariciando sua barriga, que protestaram: “Não, é
como um barril para armazenamento!” Os que tocaram suas pernas argumentaram que o animal
era igual aos pilares; os que tocaram no seu reto, que era como um morteiro; quem tocou no seu
membro reclamou que era como um pilão; enquanto os restantes, em sua cauda, gritaram: “Um
elefante é como um abano!” E, furiosos, brigaram entre si, com punhos, gritos e berros: “É com
isto que um elefante se parece”. “Não, não é assim que o elefante é.” “O elefante não tem nada a
ver com isso”. “É assim que o elefante é.”. (Campbell, 1992, p. 19).

Não se trata, para Law e Urry (2003) de uma realidade que está esperando pelas diversas
interpretações sobre ela (o elefante), mas sim de diversas versões (realidades). No final das
contas, nessa parábola, teria feito diferença se os cegos tivessem perguntado algo ao elefante
sobre si mesmo? Será que ele diria: “Por que tanto me tocam?” ou “Agora é a minha vez” ou
“Posso chamar meus amigos também?” ou ainda “Por favor não juntem suas impressões pois
vocês criarão um monstro e acho que sou apenas um elefante”.
Todavia, se o pesquisador cria, inventa, versões de realidade mediante sua prática, nessa
sua ação, em contrapartida, ele também se transforma. Latour (2001) evidencia com clareza essas
transformações ao discorrer sobre as relações estabelecidas, no laboratório, entre Pasteur e o
fermento de ácido lático:
Todos concordam que a ciência evolui por meio do experimento; a questão é que Pasteur também
foi modificado e evolui por meio do experimento, como a Academia e até o fermento, por que
não? Todos eles vão embora num estado diferente daquele que apresentavam ao entrar (p. 148).

27
A noção de realidade é definida por Latour (2000), ao tratar da prática dos cientistas, como tudo aquilo que resiste às provas de
força imposta pelos discordantes, ou seja, os colegas cientistas que estão dentro do jogo de forças acerca das controvérsias. Tudo
aquilo que consegue passar por esses testes, provisoriamente, ganha o estatuto de Natureza, em outras palavras, aquilo que era
invisível, mas no momento em que uma afirmação se torna verdadeira se comporta como se sempre estivesse presente.
28
Embora não seja o objetivo do presente trabalho é importante mencionar que a referida parábola também é útil para se refletir
sobre a problemática de trabalhar com visões e não versões. Como não produzir guerras, desqualificações, exclusões e
preconceitos quando acreditamos que „nossa realidade‟ é a única e a verdadeira? Sobre tal temática ver, por exemplo, Despret
(2004; 2001) e Moraes; Kastrup (2010).
28

Ou, ainda de uma forma mais divertida, na introdução do livro, ao anunciar um dos temas
abordados: “No capítulo 4, veremos como Pasteur fez seus micróbios enquanto os micróbios
„faziam seu Pasteur‟”29 (LATOUR, 2001, p. 29). Nesses termos, minha construção como
pesquisador não me dissociaria da versão que eu estaria produzindo, nem tampouco das
estratégias que empregaria para construir a versão de mundo que eu desejava. Assim, enquanto
construía minha versão sobre as oportunidades para curar nos grupos holotrópicos eu,
concomitantemente, me construia como pesquisador em relação com o campo.
A própria relação entre pesquisador e seus objetos de estudo (sejam eles nativos, culturas,
cientistas etc.), é também tematizada por Goldman (2005) quando propõe como recurso para o
exercício da prática etnográfica, a superação da Grande Divisão entre „eles‟ e „nós‟. Para o autor
essa divisão serviria muito mais ao propósito de “proteger o etnólogo (esse ser acultural, cujo
cérebro somente conteria proposições verdadeiras) contra qualquer contaminação pelo seu
objeto” (2005, p. 157). Em consonância com esse propósito, Latour (2001) chama a atenção para
a denúncia crítica, um modo de construir o conhecimento e se relacionar com os objetos de
estudo alicerçado na Grande Divisão entre „nós‟ e „eles‟, bem como entre os próprios elementos
que compõem aquilo que Latour denomina o baixo mundo. Com esse termo, Latour faz
referência ao mundo em sua condição híbrida, sem separações pré-definidas e com inúmeras
possibilidades de conexões. O autor propõe um caminho no qual se transite no campo das
relações e não das separações: a via reflexiva. Consequentemente se há crítica, ela é distribuída
entre o pesquisador e seus objetos de estudo. Ou como diz o senso comum: se você aponta um
dedo, não se esqueça de que há três que se voltam em sua direção30. Dessa forma, o dedo que
evidencia aquilo que, para o pesquisador é bizarro, estranho e impuro, simultaneamente denuncia
o pesquisador e os tribunais acadêmicos científicos que ele representa.
Por conseguinte, a reflexividade desempenha um papel fundamental contra o
empobrecimento pela denúncia crítica, auxiliando o pesquisador a se situar na relação com o
campo. Com efeito, Latour e Woolgar (1997) – que especificamente ocupavam o lugar de

29
Nesses termos, do mesmo modo que os micróbios faziam seu Pasteur, em minha pesquisa os grupos holotrópicos fizeram de
mim seu pesquisador.
30
Articulando tal proposição do senso comum ao mundo da TAR: se você aponta um dedo não se esqueça de que há três que se
voltam em sua direção e você não vai querer ser tratado de modo assimétrico não é?
29

pesquisadores estudando a prática dos cientistas em seus laboratórios - sublinham sua questão
sobre o „observador‟ no campo, chamando a atenção para alguns aspectos levantados pela
etnometodologia e pelo papel da reflexividade. Há um desafio para o pesquisador: encontrar uma
boa medida entre a familiaridade e a distância em relação ao campo. Dessa forma, nas palavras
dos autores, “[nós devemos estar] tão atentos à elaboração de nossos relatos quanto aos relatos
dos cientistas31” (p.31).
Ao aceitar a proposição contida na noção de reflexividade, dei-me conta de que ela me
orientava não só quanto ao modo de agir no campo, mas também quanto à versão que desejaria
construir: uma versão que contemplasse o caráter híbrido do mundo, sem separações e,
principalmente, sem adotar uma postura crítica (pela denúncia) – ou, nas palavras de Stengers
(2003), “tolerante” – em relação ao campo.
Diante disso, concluí que não bastava a clareza quanto ao propósito de meu trabalho, para
que ele fosse preservado, requeriam-se também alguns parâmetros para a formulação das
proposições que lançaria ao campo e para a decisão quanto àquelas proposições do campo que eu
aceitaria. Tais proposições mais do que formuladas para serem respondidas, deveriam ser minhas
aliadas para a manutenção de um estado reflexivo sobre minha prática como pesquisador. Elas
seriam algo semelhante à isca que auxilia o cavalo a seguir seu trote sem, contudo servir de
antolhos que impedem a trajetória pela via da reflexividade. Que parâmetros adotaria para me
orientar no campo?
Para Law (2003) a realidade pode e deve ser mais bem entendida como uma bagunça e,
nesse sentido, qualquer metodologia deve se debruçar sobre esse campo desordenado sem tentar
purificá-lo, limpá-lo. Sendo assim, as práticas de pesquisa que almejam um mundo limpo, são
inférteis. Aos que pretendem exerce-las, recomenda: “Lave as mãos após a mistura com o mundo
real. Então você levará uma boa vida de pesquisa. Seus dados serão limpos. Seus resultados
justificáveis. O produto que você irá produzir será puro. A garantia de ter uma longa vida de
prateleira” (p.3)
Defendendo um modo distinto de pesquisar, argumenta:
Então, existem muitos livros sobre higiene intelectual. Limpeza metodológica. Livros que
oferecem acesso à terra firme metodológica da pesquisa em ciências sociais. Sem dúvida, há muita
coisa boa nestes textos. Sem dúvida que é útil, na verdade, para saber sobre a significância

31
Vale lembrar que os autores eram pesquisadores/cientistas estudando os cientistas em seus laboratórios (LATOUR;
WOOLGAR, 1997).
30

estatística, ou como evitar a tendência do entrevistador. Dicas para pesquisa são sempre úteis. Mas
na medida em que assumem forma de higiene, elas realmente não funcionam, pelo menos para
mim. Na prática, a pesquisa precisa ser confusa e heterogênea. Ela precisa ser bagunçada e
heterogênea, pois esse é o caminho, a pesquisa, realmente é. E também, e mais importante, ela
precisa ser confusa porque esta é a forma como a maior parte do mundo é. Impuro,
incompreensível em sua regularidade e rotina. […]. Clareza não ajuda. Uma disciplinada falta de
clareza pode ser o que precisamos. (p. 3)

De outro modo, Serres (1994), também põe em cena esse aspecto impuro da pesquisa
positivando-o ao invés de higienizá-lo. Segundo o autor,
Ao invés de limpar impiedosamente todos os germes como nos leva a fazer o puritanismo, os
micróbios logo resistindo às nossas técnicas de eliminação, exigindo por conseqüência,
armamentos renovados, deixemos ali o leite talhado: isto produz às vezes queijos deliciosos. (p.
182)

Com efeito, durante o trabalho de campo, pude me defrontar com a desordenação do


campo, dos acontecimentos nas situações por mim experimentadas. Percebi com o tempo que as
coisas aconteciam porque aconteciam. O campo era como um novelo de fios muito bem
emaranhados. A tarefa que se colocava diante de mim era realizar um trabalho de ordenamento
dessa experiência de campo, sem, contudo, empenhar-me em desfazer o novelo, em transformá-lo
naquilo que ele não é: um fio longo disposto em linha reta, plenamente visível, facilmente
acompanhável.
Sobre esse trabalho de ordenação do mundo através da prática científica, Latour e
Woolgar (1997) fazem a seguinte proposta: “Para criar ordem a partir da desordem, o pesquisador
começa por penetrar em seu campo de estudo às apalpadelas para, lentamente, do ruído e da
confusão, fazer emergir „bolsões de ordem‟” (p. 290). Esses bolsões (estabilizações provisórias)
são justamente o trabalho de transformação do mundo em argumentos formulados pelo
pesquisador. Articulando as proposições dos autores citados: trabalhei com versões que criam
realidades, com métodos que levam em conta e positivam a condição selvagem e indócil do
mundo, mundo que sempre escapa por mais que as armadilhas se sofistiquem. Portanto, em vez
de higienizar, limpar, excluir, deveria me debruçar na desordem, no hibridismo do baixo mundo.
Nesses termos, meu caminho seria traçado no contato com o campo desordenado e cheio
de misturas, pouco claro, sem contornos bem definidos, sem esquecer a tarefa de encontrar um
modo de ordenar esse mundo de acontecimentos, isto é, de criar uma versão consistente. Tinha
conhecimento que, seguindo nesse rumo, esse ordenamento poderia se dar no momento em que
como pesquisador, tornasse visíveis e presentes certos elementos e, simultaneamente, deixasse
outros ausentes. Afinal, como afirma Law (2003)
31

À medida que procuramos conhecer o mundo nem tudo pode ser trazido à presença. Por mais que
nós queiramos ser abrangentes, para saber algo plenamente, documentá-lo ou representá-lo, vamos
fracassar. Esta não é uma questão de inadequação técnica. (Há sempre, naturalmente, as
insuficiências técnicas). Pelo contrário, é porque trazer à presença é necessariamente incompleto,
porque se certas coisas fazem-se presentes (por exemplo, representações), em seguida, ao mesmo
tempo, outras também estão sendo feitos ausentes. Necessariamente os dois caminham juntos. Não
pode ser de outra forma. Presença implica ausência. (p. 7)

Essa proposição do autor facilitou-me no trabalho de lidar com o visível e o invisível da


pesquisa. De fato, no trabalho de campo muitas situações complexas emergem. O diário de
campo é testemunha de muitas histórias que constituíram o delicioso queijo de acontecimentos
selvagens vividos no campo. Em prol da fabricação de uma determinada versão, contudo,
algumas ganharam a luz, enquanto outras permaneceram no escuro.
Tomando esse argumento como indicador de um caminho reflexivo sobre a intervenção
do pesquisador no campo, entendo que, mesmo que não seja possível deixar claro o que ficou na
ausência, é fundamental que o pesquisador se posicione quanto a isso, colocando em cena no
texto os motivos que o levaram a fazer determinadas escolhas.
No caso de meu trabalho com os grupos holotrópicos, a escolha foi orientada pelos
acontecimentos do campo que contavam a história da emergência de oportunidades para curar.
Portanto, muitas situações relevantes para os grupos de que participei não ganharam visibilidade
por não se articularem ao tema central que a pesquisa acabou assumindo. Por conseguinte, outras
tantas versões poderiam ser elaboradas a partir do encontro do pesquisador com o campo. Isso
não significa, entretanto, que desde o início minha atenção esteve voltada para tais
acontecimentos. Como já relatei, boa parte do acompanhamento dos grupos se deu na escuridão;
ou seja, os elementos que se tornaram visíveis, só chegaram a essa condição no momento em que
determinados acontecimentos se mostraram atrativos. A partir desse ponto, é que o trabalho ativo
de interferência e ordenação do material coletado foi se dando com mais clareza.
Uma das histórias que selecionei serve para ilustrar minhas reflexões sobre o modo como
estava me endereçando ao campo. No encerramento dos módulos de formação, os participantes se
reúnem, em círculo, para fazer o fechamento do que foi vivido durante os seis dias do trabalho.
Basicamente, cada integrante do grupo conta suas expectativas, impressões, sentimentos, fala
sobre as experiências no grupo nos trabalhos de Respiração Holotrópica. Nessa ocasião, um fato
muito curioso ocorreu.
Durante a fala de um dos facilitadores do grupo, que explicava sobre os trabalhos que
vinham sendo desenvolvidos a partir da perspectiva holotrópica, um forte ruído invadiu o salão e
32

a atenção de todos: parecia que algo havia se chocado com uma das janelas do salão. Minha
impressão foi a de que algum pássaro havia batido no vidro. Todos ficaram em silêncio, sentados
olhando para a janela. Eu, porém, num impulso incontido, me levantei e fui ver o que acontecera.
Debrucei-me sobre a borda inferior da janela e lá estava o pássaro encolhido num canto da parede
exterior do salão. Minha reação foi tomá-lo em minhas mãos a fim de examiná-lo. Apesar de
minha suposição de que ele deveria estar morto, percebi que ainda vivia. Trouxe-o comigo e
voltei para meu lugar na roda do grupo. As pessoas ficaram olhando, algumas perguntaram se ele
estava vivo, o que confirmei positivamente. Como estávamos no meio da atividade, em pouco
tempo voltamos a nos concentrar no assunto em andamento, porém agora com mais um
integrante.
Nosso novo amigo emplumado, e atordoado, aninhado em minhas mãos, vez por outra
recebia o olhar curioso e preocupado de alguns participantes. Por mais ou menos dez minutos ele
ficou quieto. Às vezes me olhava assustado para logo em seguida voltar ao seu estado de torpor
pós-traumático. Fiquei me perguntando (e com isso, deixando de anotar coisas no meu diário de
campo - pelo menos enquanto ocorria o evento) qual seria o momento de levá-lo para fora, pois
cedo ou tarde ele tentaria se livrar. No meio de tais elocubrações, dito e feito: passado mais
algum tempo, de fato, o pássaro escapou. Pulou para o cabelo de uma colega do grupo sentada ao
meu lado - que por sua vez se assustou e me deu dois tapas no braço dizendo (rindo) que eu havia
feito aquilo de propósito (até poderia ter sido, mas naquele momento não o fora) - e voou para o
teto se agarrando com as patas nas madeiras. O teto era todo feito de troncos de madeira
dispostos de modo parecido aos telhados circulares de ocas (em direção ao cume do telhado todos
os troncos convergiam), de modo que não lhe faltariam troncos para se agarrar. Era um tipo de
pássaro trepador - não tenho certeza se é essa a definição exata - que costuma subir pelos troncos
das árvores para, de modo semelhante aos pica-paus, vasculhar sinais de miúdos orifícios
habitados por pequenas larvas de insetos.
Mais instantes de agitação no grupo. Uma pessoa disse: “ih, e agora?”, outra falou: “agora
ele vai ficar aqui sofrendo preso” e coisas do tipo. Vale ressaltar que eu fiquei me sentindo um
idiota colonizador de seres livres da natureza e constrangido por conta de minha ação tão direta e
contundente. Outras pessoas disseram (não sei se vindo ao meu socorro): “o Marcelo curou o
passarinho”. Entre risos e preocupações, lá estava o nosso amigo pulando de tronco em tronco.
Ele tentou de tudo e tentou-se de tudo: uma pessoa se levantou e silenciosamente abriu umas das
33

janelas. Fiquei observando a cena e pensando: se há um modo de fazer algo por ele agora é abrir
as janelas. As janelas estavam fechadas, pois fazia muito frio no dia. Passado mais um tempo
alguém se levantou e abriu mais uma janela; quase simultaneamente outra pessoa fez o mesmo. A
cena era silenciosa. As pessoas abriram as janelas e ajeitaram as cortinas de modo que elas não
obstruíssem o caminho do pássaro. Devo confessar que senti uma angústia bastante incômoda,
principalmente quando escutava o flap flap das asinhas do pássaro (eu já estava imaginando
diversos meios de tirá-lo, e a mim, daquela enrascada), mas me mantive quieto.
De repente, quando eu estava distraído, numa das inúmeras tentativas ele saiu por uma das
janelas e uma pessoa que estava de frente para essa saída gritou: “ah, ele conseguiu; saiu!”. O
grupo deu uma salva de palmas para o recém liberto e eu, é claro, relaxei. Nesse momento do
trabalho de campo, eu ainda estava passando por conflitos em relação à minha função como
pesquisador. A situação veio em boa hora, pois refletindo sobre o acontecimento, percebi que ele
poderia me ajudar a pensar minha posição de pesquisador no campo. Como as metáforas não se
dobram jamais a seus intérpretes – e podem se multiplicar em seus significados - imagino que
cada leitor terá sua própria impressão do ocorrido.
Não obstante, no meu processo, essa situação apontou para a seguinte direção reflexiva:
eu queria trabalhar em um salão de janelas fechadas ou abertas? O pequeno pássaro que se
chocou e desmaiou do lado de fora seguia sua trajetória, eu, por minha vez, fui ao encontro dele e
o trouxe para dentro do salão, que voltou a ficar de janelas fechadas. Esse salão é uma
construção, ele é feito para um determinado tipo de seres, que falam a mesma língua, que
partilham de símbolos, experiências e práticas que aparentemente os tornam semelhantes.
O pássaro retoma sua consciência e quer prosseguir em seu caminho. Escapa daquele que
o segura (e que não necessariamente torna sua vida segura) e se movimenta agora em um
contexto de referências distintas às suas. Sobreveio-me a percepção de que nisso havia um
enfrentamento: o encarceramento pela minha intervenção e a busca por uma saída por parte do
pássaro. Elementos desse salão de janelas fechadas se movimentam e começam um processo de
abertura de janelas, uma, duas, três. O tempo passa e o pássaro segue seu rumo através das
janelas que foram abertas.
Guardando as devidas proporções para o evento, essa história me fala sobre a interferência
inevitável que se faz como pesquisador. No entanto, podemos escolher se as janelas estarão
fechadas ou abertas. Ela me conta como se pode trabalhar através da noção de versão, pois que,
34

nesse sentido as janelas estão abertas. Mas por que digo isso? Por que se na prática de pesquisa
consideramos que versões se criam, não partimos da premissa de que o trabalho do pesquisador é
o de desvelar a realidade e encontrar sua essência. Se as janelas estão abertas, aquilo que ganha
existência através do trabalho ativo de pesquisa, é produto de uma ação e de um sem número de
articulações. Dessa forma, os elementos que emergem nos cenários das práticas de pesquisa são
provisórios e podem povoar outros cenários e serem traduzidos de modos distintos.
Conforme o que foi acima apresentado, meu trabalho com pesquisador deveria se forjar na
aliança entre as proposições que seguem: a pesquisa poderia ser melhor entendida como uma
versão onde a realidade não estaria esperando para ser descoberta, onde haveria um fluxo de
acontecimentos, onde elementos traçando suas trajetórias se movimentavam junto comigo no
campo.
Seguir a via da reflexividade envolvia, para mim, outros questionamentos sobre meu lugar
de pesquisador nos grupos holotrópicos. Minha relação com grupos deste tipo não estava pautada
na total ignorância a respeito do que acontece neles e não somente por ser psicólogo, mas
também por ter participado dos workshops de trabalho de Respiração Holotrópica no Rio de
Janeiro por vários anos. Por conseguinte, o desafio de encontrar a melhor medida entre a
familiaridade e a distância em relação ao campo tinha dimensões mais amplas.
Desse modo, para mim, estava claro, desde o início, que fazer parte destes grupos como
pesquisador/psicólogo seria uma tarefa complexa: eu chegava com uma vinculação prévia com os
nativos32 que eu tencionava estudar. Assim, eu não era um pesquisador ignorante em relação a
seu campo e daquilo que se passa nele. Talvez eu fosse, no princípio, um pesquisador em busca
da ignorância necessária para criar „anticorpos‟ para minha própria ligação prévia com os grupos
holotrópicos.
Minha intenção não era negar minhas experiências anteriores, minhas heranças e
conexões com o mundo holotrópico, pois isso seria impossível. Porém desejava profundamente
manter-me aberto àquilo que o campo - o espaço singular ao qual eu me dirigia - poderia me
mostrar, deixando-me disponível aos acontecimentos.
Paulatinamente, fui me dando conta de que o trabalho de campo era tal como um jogo de

32
Decidi utilizar tal termo como Latour e Woolgar (1997) o usam para explicitar que é possível usá-lo também para os modernos
e ocidentais. Mas, além disso, considero esse termo interessante, pois ele traz consigo a marca de um lugar que o pesquisador não
pode ocupar inteiramente, mas sim se relacionar com ele pela experiência (Favret-Saada, 2005), tema que será desenvolvido mais
adiante.
35

xadrez: com o passar do tempo as jogadas vão ficando mais lentas e as saídas para os “xeques”
do campo menos óbvias. Muitas vezes, as situações que eu acompanhava nos grupos não
geravam questões, nada parecia digno de nota e eu mal tinha motivação para registrar em meu
diário os acontecimentos – aliás, até então um diário bem precário. Eu me perguntava várias
vezes o porquê de minha presença naquele contexto, refletindo se não seria melhor mudar de
tema e se não era uma loucura levar adiante tal empreitada. Esse estado de desânimo e
desinteresse atravessou meu caminho por quase um ano e meio de pesquisa. A partir do quarto
grupo acompanhado, as coisas começaram a mudar e ainda permaneço reflexivo acerca dos
motivos que levaram à constituição desse estado de estranhamento frente ao campo. Uma história
de campo ilustra bem o que pretendo explicitar.
Em uma das aulas do módulo “Emergências espirituais”, em maio de 2009, o facilitador
que ministrava o curso apresentou o conceito de emergência espiritual e tratou dos tipos de
experiências que poderiam ser vividas por pessoas nessa condição. Esse conceito se refere a um
complexo processo de crise de abertura espiritual que pode ser sentido como ameaçador, mas que
é também uma oportunidade para a ampliação da consciência daqueles que o experimentam
(GROF; GROF, 1998; GROF; GROF, 1997).
Em determinada etapa da sua argumentação ele trouxe o relato de pessoas que viram
Ovnis33, assim como daquelas que tiveram contatos com extraterrestres e mesmo experiências de
abdução por parte de seres de outros planetas. O ponto de interesse para a discussão tinha a ver
com o fato de que, segundo o facilitador: “pessoas que passam por esse tipo de experiência
incomum, algumas vezes entram em um forte processo de crise psico-espiritual e necessitam de
um acompanhamento que poderia ser dado pela abordagem holotrópica e transpessoal”. Ficou um
rebuliço geral no grupo, já que o tema gerou muita discussão até o ponto em que uma integrante
perguntou ao facilitador qual seria a sua posição sobre esse tipo de vivência e, também, qual a
posição de Grof. Ele respondeu:
Até o momento não há comprovação científica alguma apontando para a existência de Ovnis e
para mim isso tem mais a ver com um processo interno que diz respeito à consciência daqueles
que assim o relatam, do que com uma explicação materialista de que haveria uma causa externa
para a crise vivida pela pessoa.

E continua a sua argumentação explicando que “para Grof, a questão é mantida em


suspenso e que ele aponta na direção de focar no entendimento do processo como algo que se

33
Contato com Ovnis é considerado por Grof (2000; 1988) como um dos tipos de emergências espirituais.
36

passa com a pessoa, sem negar a possibilidade de existência de Ovnis”.


Nesse momento, senti uma forte inquietação e quando me vi já estava metido em uma
acalorada discussão com o facilitador. Atirei-lhe – e quase fiz de palavras pedras - inúmeras
perguntas tais como:
Como assim explicação materialista? Qual seria o nome da outra explicação? A Psicologia
Transpessoal não é um campo que se abre para abarcar explicações mais amplas sobre os
fenômenos? Qual o problema da existência de Ovnis? Como assim não está explicado
cientificamente? A Psicologia Transpessoal não é justamente criticada por estudar coisas que não
são científicas? Se uma pessoa relata sua vivência, com discernimento, não devemos levar isso em
consideração como a realidade que essa pessoa experimenta e que a vida não seria esse campo de
múltiplas possibilidades em coexistência?

As respostas por ele oferecidas foram promovendo em mim e no grupo reações variadas:
algumas pessoas propuseram reflexões a partir do que emergia no debate; outras buscaram me
explicar em palavras diferentes o que fora dito pelo facilitador. Para algumas, pareceu que eu
havia feito uma interpretação das palavras dele, pois ele não havia dito o que eu entendera; outras
sublinhavam a idéia de que a existência de Ovnis era uma possibilidade. A discussão seguiu por
mais algum tempo até que os ânimos estivessem mais calmos e algumas risadas pudessem ecoar
no ambiente. Não obstante, graças a essa desajeitada intervenção, algo no que tangia ao meu
papel naquele campo começou a clarear. Teve início em mim a produção de um estado de
estranhamento.
Essa história mostra como estar imerso no campo tem efeitos interessantes se o
pesquisador considera que a vida que ali se move transborda qualquer teorização prévia. Em
particular a minha intervenção junto ao facilitador me pareceu uma explosão de crítica pela
denúncia em dois níveis: de nativo e de pesquisador. Várias frases se referem a uma posição
minha de conhecedor do mundo holotrópico e a última, na qual aponto para a importância de
considerar a realidade experimentada por uma pessoa – que, no caso, esteve em contato com
Ovnis – como uma possibilidade dentre outras, percebi como eu atacava o campo com as
ferramentas do pesquisador.
Resgatando esse momento do campo me dei conta de como as coisas poderiam se
misturar durante meu trabalho. Tal situação me colocou frente aos meus riscos de, na imersão no
campo, perder os contornos de meu papel como pesquisador e manter-me atento a isso foi parte
de meu trabalho até o fim da presente pesquisa. Todavia, escapar da denúncia crítica não é cair na
aceitação passiva. Despret (2001) sublinha a noção de versão, agora como uma via para se
escapar tanto desse ataque que desqualifica o que emerge no campo, quanto uma identificação de
37

tal monta com o campo que não há mais pesquisador. Além disso, a proposição da autora traz
implícita a importância da relação, do encontro com o campo, bem como da produção do
conhecimento brotar desse encontro.
Sobre isso, gostaria de fazer um parêntese: no meu trabalho, a opção por fazer uma
descrição do modo como as oportunidades para curar são fabricadas nos grupos holotrópicos
poderia ter os contornos de uma aceitação passiva, pois foi aderida ao campo no sentido de que
eu não me propunha a questionar aquilo que emergia nos grupos holotrópicos (e principalmente
as falas dos facilitadores e integrantes do grupo). Contudo, a maneira pela qual me dirigi ao
campo articulado a TAR, acabou por me fazer fabricar uma versão sobre o modo como se pode
entender que se operacionaliza a prática terapêutica nesses grupos, através da articulação entre
diversos actantes em coletivos de oportunidades para curar.
Em consonância com esse ponto, Latour (2002b) enfatiza o estudo dos fenômenos sem as
limitações impostas por um enquadre teórico prévio. Ele considera que, no afã, de tudo explicar,
a teoria impede a ação dos atores (actantes) ou acrescenta a elas algo que não lhes pertence (“a
explicação do comportamento dos agentes”). Para o autor, estar em campo é o que vai produzir o
conhecimento. Nesse sentido, sobre o uso teórico e metodológico da TAR, explicita Arendt
(2008) que
[...] a teoria é útil contanto que não seja aplicável a nada. Ela é antes de tudo um argumento
negativo. Ela não diz nada de positivo sobre qualquer estado de coisas. Ela propõe não romper os
vínculos entre elementos que pareceriam incomensuráveis em categorias acadêmicas normais. Ela
não pode positivamente dizer o que é o vínculo. Ela é uma teoria sobre como estudar as coisas,
melhor, como não estudá-las, como dar aos atores um espaço para eles se expressarem. (p. 7-8).

Esse tipo de proposta para a entrada no campo é uma das marcas principais da TAR,
fazendo com que haja por parte do pesquisador um cuidado especial em viajar lentamente pelo
campo, atento aos detalhes mais discretos da paisagem e com pouca bagagem (Latour, 2006).
Desse modo, as questões pertinentes à pesquisa surgirão no momento em que se dá o
acompanhamento dos acontecimentos, assim como das trajetórias que se abrem no campo.
Latour (2006), brincando com a própria sigla da TAR (em inglês, ANT – actor-network
theory, letras que formam a palavra que significa “formiga”) afirma que o pesquisador da TAR
também caminha em pequenos percursos sinuosos, coletando todo tipo de objeto e usando suas
antenas assim como fazem as formigas. Um pesquisador, por conseguinte, é aquele que tem sua
bagagem, mas que se interessa muito mais por ouvir seus informantes, seguir os actantes no
38

campo.
Por outra via, Rodrigues (2002) conta também sobre a relação entre seu trabalho como
pesquisadora de história oral e o campo que estudava apresentando a sua experiência nos
seguintes termos:
Maliciosa, comentara com amigos sobre imaginadas possibilidades de, ao entrevistar psis, estar
sujeita a intermináveis histórias, iniciadas pelas expectativas maternas quando de suas existências
intra-uterinas [...]. O trabalho de campo me pôs diante de algo bem diferente desta brincalhona
suposição, por sinal jamais confirmada. Nem sempre a convocação inicial pôde ser mantida [...]. O
contato a dois por vezes se alterou [...]. A confiança, em certos momentos, foi conquistada a duras
penas [...]. Vaidades e provocações sutis inundaram determinados relatos [...]. O prazer narrativo
ocasionalmente trouxe à baila deliciosos contos de época [...]. E, talvez o mais inquietante de
tudo: alguns me falaram de acontecimentos dos quais eu também participara, dando detalhes e
construindo interpretações muito diferentes de minha experiência, lembrança ou compreensão.
Neste caso, peguei-me discordando e polemizando, não obstante polidamente, e saindo do
encontro com a sensação de não ser uma historiadora oral adequada. (p. 128-129).

Nessa situação mais do que um pesquisador desajeitado, vê-se o pesquisador que se


coloca em perspectiva, que pode retroceder, se afetar com o campo, podendo construir outra
realidade que não aquela que lhe parecia ser mais real antes do trabalho ter início. Desse modo,
fazer um trabalho de campo se configurou como a tarefa de adentrar numa mata espessa, onde,
para mim como pesquisador foi inevitável estranhar meu lugar, meu saber, minhas ferramentas,
entre outras coisas mais. Situação, na maioria das vezes, desagradável. Inclusive, entendo que
essa é uma das maneiras de mostrar como, assim como explicita Law (2003), uma pesquisa pode
fazer aparecer a bagunça e a desordem, sua pouca higiene – a pesquisadora torna visível suas
expectativas, sua ironia, fruto do conhecimento de elementos do campo estudado e ao mesmo
tempo conta sobre seu processo de reposicionamento frente ao que o campo lhe ofertou como
reflexões.
Assim, retomando a experiência de interferência na trajetória do passarinho, esta me
colocou em contato com o incômodo de atuar no campo encarcerando os acontecimentos tal
como numa visão. Mas esse não foi o único incômodo. Eu me perguntei qual o motivo de gerar
toda aquela movimentação no grupo - se eu não o tivesse trazido para o salão nada disso teria
acontecido. Porém, se, por um lado, essa pergunta tem um tom de denúncia crítica de mim
mesmo, por outro, ela pode se articular a outras reflexões. Se um processo se iniciara com a
minha intervenção, esse estado que não sei precisar, que me fez trazer o pássaro para dentro,
acabou por promover vínculos entre pesquisador, o pássaro e o grupo. Emergiram nesse coletivo,
comentários, ações, janelas se abriram. De algum modo, outras pessoas partilharam e se
articularam - cada uma a seu modo - a essa minha ação e, então, outra experiência ganhou
39

existência.
Eu não teria outra palavra para descrever esse processo a não ser denominando-o de uma
experiência de afetação, termo empregado por Favret-Saada (2005; 1977). Seu trabalho de campo
acerca da bruxaria no Bocage (região do sul da França) é discutido por Goldman (2005).
Segundo o autor, essa proposição de afeto não tem a ver com algum tipo de emoção que escapa
da razão, “mas de afeto no sentido do resultado de um processo de afetar, aquém ou além da
representação” (p. 150). Articulando essa noção à minha história do campo, compreendi que esse
estado de afetação surge quando o pesquisador está em relação com o campo, seus
acontecimentos e os mundos de conexões entre os diversos elementos que o compõem. Por
conseguinte era imprescindível que eu, como fala Favret-Saada (2005) “experimentasse
pessoalmente por minha própria conta” (p. 157).
Levar em conta no trabalho esse processo de afetar, que não é claramente disponível à
racionalidade e que é alcançado por meio da experiência, fez com que eu retomasse minhas
reflexões acerca de me fabricar como um pesquisador. Como já foi dito, levei muito tempo para
chegar ao meu objeto de pesquisa, precisei de muito tempo (mais da metade daquele destinado ao
trabalho de campo). Inicialmente, isso me pareceu resultante das minhas dificuldades e
inabilidade em realizar o trabalho (o que não descarto como uma das opções). No entanto, foi, de
fato, ao afetar-me pela história de Joe e o palitinho e pela fala sobre as oportunidades para curar
que o trabalho começou a ganhar seus contornos.
Sobre isso vale trazer uma fala de Goldman (2005) sobre o tempo e a afetação, no caso,
para o trabalho do etnógrafo. Segundo ele,
Em lugar de supor que o tempo apenas fornece um meio externo para as relações humanas, é
preciso compreender que ele é, ao contrário e em si mesmo, uma relação. Pois é apenas com o
tempo, e com um tempo não mensurável pelos parâmetros quantitativos mais usuais, que os
etnógrafos podem ser afetados pelas complexas situações com que se deparam – o que envolve
também, é claro, a própria percepção desses afetos ou desse processo de ser afetado por aqueles
com quem os etnógrafos se relacionam. (p.150).

Favret-Saada (2005) diz que foi importante viver sua longa pesquisa sobre feitiçaria como
uma experiência e muitas vezes deixar-se “afetar sem procurar pesquisar, nem mesmo
compreender e reter” (p. 158). Ela se deixava experimentar no campo, expondo a si mesma nele.
Ao mesmo tempo em que trabalhava na pesquisa sobre a feitiçaria, ela se permitia estar próxima
aos nativos, “agitada pelas sensações, percepções e pelos pensamentos de quem ocupa o lugar no
sistema da feitiçaria” (p. 159). E porque isso se torna uma experiência que não se reduz ao seu
40

aspecto intelectual, a autora diz que “esse lugar e as intensidades que lhe são ligadas têm então
que ser experimentados: é a única maneira de aproximá-los” (p. 159).
A leitura do texto de Favret-Saada (2005) contribuiu para que compreendesse o que se
passara comigo no primeiro módulo que acompanhei, em setembro de 2007. Naquela época
estava ainda bastante confuso em relação ao meu projeto de trabalho de campo. Sentia-me um
estrangeiro e não só pelo fato de estar na Argentina tendo que me comunicar em castelhano, pois
o mesmo se deu no primeiro módulo que participei no Brasil, em São Paulo. Era uma sensação
não muito clara de desencaixe que não se esgotava na explicação simples de uma falta de
acolhimento e hospitalidade por parte dos integrantes do grupo. Pelo contrário, muitos vinham
conversar comigo para me conhecer e se mostravam receptivos quando eu me acercava. O que
estava acontecendo então?
No dia em que participei como respirante, da primeira sessão holotrópica em ambos os
módulos citados, passei pelas experiências de quem se dispõe a entrar nesse cenário holotrópico.
Em cada uma delas fui afetado de maneira singular pelos elementos componentes desse cenário.
Percebi que algo havia mudado na minha percepção de mim mesmo e do ambiente, me
sentia mais integrado ao contexto. Pensei: “bem, deve ser por causa de tudo que botei para fora
no trabalho de Respiração Holotrópica”. Mas essa certeza provisória foi dando lugar a uma
reflexão posterior. De fato, algo havia mudado após a sessão holotrópica, algo que não se
relacionava somente com os efeitos das experiências vividas, mas também com a modificação de
meu estado de estrangeiro.
Com efeito, após ter vivenciado com o grupo uma sessão holotrópica, de ter sofrido a
intervenção do grupo, de ter agido no grupo, de ter feito uma mandala, de ter contado minha
experiência nesse grupo, ou seja, de ter adentrado no trabalho de Respiração Holotrópica,
começava a ocupar um lugar junto aos nativos, aos holotrópicos, daqueles grupos. Algo da
distância entre pesquisador e nativo havia sido modificado, movimentado; havíamos
compartilhado de uma experiência num cenário que nos aproximava. Cabe ressaltar que a
transformação nessa distância entre pesquisador e nativo não quer dizer necessariamente cair na
confusão com o campo e na aceitação passiva sem reflexividade - onde se perde a distância que
Latour e Woogar (1997) sugerem. Ela é justamente uma abertura para uma comunicação pela
afetação, através de uma experiência compartilhada.
De algum modo, assim como acontecera com Favret-Saada (2005), parece que
41

metaforicamente eu havia passado pela experiência do „enfeitiçamento‟, mas pelo modo


holotrópico. Boa parte dessa experiência não é intelectual; é uma afetação e cria condições para
que haja um diálogo também em outros moldes com os nativos, um diálogo sem palavras ou
através de palavras afetadas (vinculadas pela própria passagem pela experiência); enfim, uma
experiência vivida numa relação. A autora explicita que ocupar o lugar de ser um experienciador
(aquele que experiencia), de se deixar afetar por esse lugar, “abre uma comunicação específica
com os nativos: uma comunicação sempre involuntária e desprovida de intencionalidade, e que
pode ser verbal ou não” (p.159). E segue:
Suponhamos que eu não lute contra esse estado, que o receba como uma comunicação de alguma
coisa que não saiba o que é. Isso me impele a falar, mas de forma evocada anteriormente (pela
afetação) [...], ou a calar-me. Nesses momentos, [...] se for capaz de esquecer que tenho meu
estoque de questões a fazer [...] se for capaz de dizer-me que a comunicação (etnográfica ou não,
pois não é mais esse o problema) está precisamente se dando, assim, desse modo insuportável e
incompreensível, então estou direcionada para uma variedade particular de experiência humana -
ser enfeitiçado, por exemplo – porque estou por ela afetada. (p. 159-160).

Nesse sentido, a afetação, como uma experiência que aproxima, que cria vínculos onde
antes não havia, fez inclusive que eu relativizasse o temor em relação à minha conexão prévia
com os nativos (ter conhecimento e vínculos com o mundo holotrópico). Se isso me pareceu
complicado no início, agora ganhava outras dimensões através da elaboração do presente texto,
ou seja, poderia ser buscado na pesquisa, porém não no sentido de vir em defesa do campo,
porque eu o conhecia ou acreditava nele. Não se tratava de crença e sim de afetação (Favret-
Saada, 2005). Desta feita, eu estaria compartilhando um mundo (comum), vinculando-me,
circulando entre os elementos do campo ao mesmo tempo em uma aventura pessoal e
pesquisando.
A autora, portanto, consegue transitar entre o trabalho de pesquisa e a entrega ao campo
sob o modo da afetação, e assim produzir a sua versão. De acordo com isso, ela nos convida a
pensar:
Aceitar ser afetado supõe, todavia, que se assuma o risco de ver seu projeto de conhecimento se
desfazer. Pois se o projeto de conhecimento for onipresente, não acontece nada. Mas se acontece
alguma coisa e se o projeto de conhecimento não se perde em meio a uma aventura, então uma
etnografia é possível. (p. 160).

Nesse sentido, meu projeto de conhecimento, deveria incluir a aceitação dos riscos
envolvidos nos trabalhos de Respiração Holotrópica, nas oportunidades de trabalho e de reflexão,
como também naqueles decorrentes de acreditar numa aventura, onde nativos e o pesquisador
podem se relacionar, fazendo algo acontecer. Isso implica, do lado do pesquisador, abrir-se ao
42

desconhecido sem perder-se de um projeto de produção de conhecimento.


Essa noção de afetação da autora me fez recordar uma história contada por Campbell
(1992) que por sua vez fora antes relatada por Leo Frobenius em um de seus importantes ensaios
sobre a força do mundo demoníaco na infância.
Um professor está escrevendo em sua mesa de trabalho e sua filha de quatro anos está correndo
pela sala. Ela não tem nada para fazer e o está perturbando. Então, ele dá a ela três palitos de
fósforo queimados, dizendo: „Olhe, brinque com isto‟, e ela senta-se no tapete e começa a
representar, com os fósforos, Joãozinho, Mariazinha e a bruxa. Assim passa um bocado de tempo,
durante o qual o professor se concentra em seu trabalho sem ser interrompido. Até que, de repente,
a menina grita aterrorizada. O pai corre, perguntando: „O que é? O que aconteceu? A menina corre
para ele, mostrando todos os sinais de pânico. „Papai, papai‟, ela grita, „tire a bruxa daqui! Não
suporto mais a bruxa!‟” (p. 32).

Como se deu a passagem de um simples palito de fósforo queimado, a princípio


inofensivo, para uma bruxa aterrorizante? Inicialmente, ele afetara a menina como um brinquedo
e se transformara em uma bruxa que junto com Joãozinho e Mariazinha compunham um cenário
lúdico. Mas uma bruxa nem sempre é divertida, ela pode querer comer criancinhas depois de
alimentá-las de felicidade – quem nunca conheceu nas histórias o lado feio da bruxa? Que horror!
Nessa pequena história, o jogo das afetações se mostra na medida em que realidades mudam e
que o que antes era experienciado de uma maneira pode ganhar contornos distintos, ou seja, os
cenários mudam (versões se criam) dependendo das associações entre os elementos envolvidos.
Deixar-se afetar, então, é aceitar correr os riscos, sem, todavia, abandonar a missão que
levou o pesquisador ao campo. É isso que defende Crema (1989) ao propor a adoção em pesquisa
de uma postura mais afinada com a busca pelo saber como saborear, o que implica um espírito de
abertura e jovialidade, pelo desapego de certezas e da precisão, pela necessidade de um olhar
original que acolha o incerto e impreciso. Segundo ele, deveríamos ir em direção a uma
“epistemologia do espanto, um trampolim, a partir do qual saltamos no oceano do desconhecido”
(p. 90).
Por fim, durante os três anos de acompanhamento dos grupos holotrópicos através dos
módulos de formação na perspectiva holotrópica e no trabalho de Respiração Holotrópica, o
encontro com as situações experimentadas nesse campo de acontecimentos forneceu inúmeros
elementos essenciais para a minha fabricação como um pesquisador. Utilizo de modo proposital o
artigo indefinido „um‟, mas talvez o modo mais preciso de nomeá-lo seria um-pesquisador-no-
campo-holotrópico. Com isso quero fazer aparecer que no trabalho de campo emergiu um
pesquisador que a ele se articulou e somente sob essa via foi possível acompanhar o modo como
43

detrminados actantes se associaram possibilitando a fabricação de oportunidades para curar.


Considero que, no final da presente pesquisa, forjou-se um pesquisador atento ao papel da
reflexividade - seja pela compreensão de sua conexão prévia com os nativos, seja pela
preocupação em não trabalhar pela via da denúncia crítica -, interessado numa pesquisa afetada
(„enfeitiçada‟) - buscando manter-se aberto às afetações (como via de trabalho) na relação com o
campo -, ciente de que a perspectiva do pesquisador não é soberana, que poderia estranhar a si
mesmo em sua prática. Um pesquisador-formiga disposto a ordenar os acontecimentos de modo a
entender como acontecem as oportunidades para curar nos grupos holotrópicos.

1.2 O Trabalho de cenarização: de actantes a coletivos

Como foi dito na sessão anterior, o trabalho de campo se deu junto com o trabalho de
fabricação de um pesquisador na relação com os inúmeros acontecimentos do campo.
Amadurecendo meu trabalho através da experimentação do campo e de mim mesmo agindo nele,
articulei-me, sob o modo da afetação, às situações relacionadas às oportunidades para curar - que
ganhavam vida nos grupos holotrópicos, por meio de um complexo emaranhado de conexões
entre elementos do campo. Desse modo, o „ordenamento‟ da „desordem‟ do campo foi produzido
também pela articulação à pesquisa de determinados elementos teóricos (tão agentes quanto o
pesquisador), bem como de um método de abordar os acontecimentos com os quais me vinculava
e que por isso se tornavam visíveis na pesquisa. Vale ressaltar que ao lançar mão do termo
ordenamento, refiro-me muito menos à noção de higiene do campo e muito mais à necessidade de
definição de um caminho norteador para a construção de uma versão, o que faz com que
ativamente eu escolha tornar certos elementos do campo visíveis (e outros não).
Para tanto, entendo que essa interferência por mim gerada foi no sentido de propor
cenários de unificação provisórios que se desenham através da associação entre diversos
elementos, que podem ser humanos e não-humanos (LATOUR, 2001), nos quais histórias serão
contadas e, através delas, situações do campo tornar-se-ão visíveis pela minha pena, todas por sua
vez falando algo a respeito de como as oportunidades para curar emergem no campo.
A noção de cenarização (LATOUR, 2001) foi por mim escolhida justamente pelo fato de,
por um lado, propor que o pesquisador é agente em relação ao campo, ou seja, se dedica a
44

desenhar cenários provisórios e, por outro, o trabalho de coleta e associação desses elementos só
é feito porque esse pesquisador-agente é afetado pelo campo (é agido na relação com
determinados elementos do campo). De acordo com isso, segundo Melo (2007) - em um artigo no
qual discute o quadro metodológico da TAR - o pesquisador “é definido como resultante dos
conflitos de apropriação ocorridos no contexto do laboratório ou campo de estudo, como ponto de
uma vasta e heterogênea rede de elementos” (p.170). Nesses termos, não há como separar o
pesquisador do campo, já que a produção do conhecimento através da pesquisa inclui sua
intervenção. Por conta do uso da noção de cenarização, considero que seja interessante explicitar
alguns conceitos da TAR que dão sustentação para o processo de cenarização.
Latour (2001; 2000; 1997), tem como foco de interesse o estudo do processo de
construção das práticas científicas. A partir de suas pesquisas acompanhando os cientistas em
suas práticas ele desenvolve inúmeros argumentos e põe em cena conceitos que considerei
relevantes para a consecução de meu trabalho de campo. Para o autor, o trabalho dos cientistas é
coletivo (uma prática híbrida), ou seja, não é o exercício isolado de um cientista em seu
laboratório, mas sim algo de maior amplitude e complexidade. Nele se encontram envolvidos, de
maneira indissociável, não-humanos, instituições e todo o tipo de pessoas, as quais, muitas vezes,
aparentemente não têm relação alguma com o mundo científico. Em relação a isso, o autor afirma
que os vínculos entre tais elementos não são dados a priori, mas sim poderão ser ressaltados ao
se estudar como um cientista faz seu trabalho.
Assim, para que o acompanhamento das práticas (como um trabalho de campo) seja
alcançado, Latour (2002b) recomenda que o pesquisador siga os traços deixados pelos actantes
no coletivo, caminhando pelas associações que podem ser estabelecidas entre eles. Vale fazer
aqui uma breve apresentação dos termos actante e coletivo, pois, além de serem estes conceitos
fundamentais para o autor, ambos convocam a presença de outros elementos também de grande
importância para a TAR.
Esses dois termos põem em relevo um aspecto central dessa perspectiva, qual seja a
redistribuição do poder entre humanos e não-humanos34. Com isso, o que se propõe é que lhes
seja dado um tratamento simétrico na pesquisa. O autor pontua que, de acordo com o princípio de

34
Latour (1994) propõe a elaboração das bases de uma Antropologia do homem moderno, argumentando que as separações entre
sujeito e objeto, indivíduo e sociedade, natureza e cultura, interno e externo, são produtos do projeto de modernidade. Nessa
direção, a terminologia humanos e não-humanos é uma tentativa do autor de abandonar as noções dicotomizadas de sujeito e
objeto.
45

simetria generalizada, não só os humanos devem ser levados em conta, mas também os não-
humanos. Esse princípio acima citado vem ampliar aquele proposto por Bloor (CALLON;
LATOUR, 1990) – o princípio de simetria – que somente leva em consideração os humanos.
Assim, “O princípio de simetria generalizada não apaga o princípio de simetria restrita, mas
estende-o à questão da natureza e à da sociedade, fazendo aparecer um novo objeto: o coletivo de
humanos e de não-humanos” (LATOUR, 1995a, p. 9). Sendo assim, os conceitos de actante e
coletivo vêm respectivamente substituir aqueles de ator e sociedade, utilizados nas ciências
humanas referindo-se exclusivamente aos humanos.
De acordo com isso, sobre os actantes, Latour (2001) afirma:
O grande interesse dos estudos científicos consiste no fato de proporcionarem, por meio do exame
da prática laboratorial, inúmeros casos de surgimento de atores. Ao invés de começar com
entidades que já compõem o mundo, os estudos científicos enfatizam a natureza complexa e
controvertida do que seja, para um ator, chegar à existência. O segredo é definir o ator com base
naquilo que ele faz – seus desempenhos – no quadro dos testes de laboratório. Mais tarde, sua
competência é deduzida e integrada a uma instituição. Uma vez que, em inglês, a palavra „actor‟
(ator) se limita a humanos, utilizamos muitas vezes „actant‟ (actante), termo tomado à semiótica
para incluir não-humanos na definição. (p. 346).

A escolha pela noção de actante, dentre outras coisas, busca enfatizar a agência desses
elementos, distribuindo de modo simétrico sua capacidade de agir no coletivo, e de ambos,
humanos e não-humanos, serem propositivos. Como aponta Tsallis (2005),

[...] é fundamental entender que os actantes não são uma categoria prévia que permitiria ao
pesquisador sair em busca dela no campo. Os actantes acontecem no campo e não é possível saber
de antemão quais serão aqueles que estarão agindo em uma determinada situação. Eles poderão ser
assim determinados quando agirem de fato e/ou quando deixarem seu traço. (p. 32).

Outro aspecto relevante diz respeito à noção de relação, pois esses actantes, através de sua
agência e das suas proposições vão se articulando e ganhando existência. O trabalho do
pesquisador, em outros termos, é também o de um porta-voz, agindo para compor a realidade
com determinados elementos.
Em particular, o termo coletivo diz respeito às associações heterogêneas entre humanos e
não-humanos. Mediante essas associações vão se constituindo esses cenários provisórios nos
quais os vínculos que são produzidos entre os actantes poderão ser acompanhados e analisados.
Nesse sentido, como explicita Latour (2001) no estudo por ele realizado cenarizando o trabalho
do cientista francês Joliot,
O que importa para os estudos científicos é o fato de um conjunto de elementos heterogêneos, até
então desvinculados, partilhar agora um destino comum dentro de um coletivo comum e de as
46

palavras de Joliot se tornarem verdadeiras ou falsas de acordo com o que circula por esse coletivo
recém-formado. (p. 117).

De acordo com isso, esse conjunto de elementos heterogêneos recebe a intervenção do


pesquisador, que ao se vincular a eles, em seu trabalho, também age como um conector, criando
vínculos entre eles. A cenarização se torna uma complexa montagem de um coletivo onde os
actantes em ação, em movimentação, fornecem solo adequado para que o pesquisador possa
trabalhar para que seus argumentos se façam realidade.
Um ponto que considero interessante sobre o modo como trabalhei com os actantes no
campo tem a ver com a noção de proposição35 articulada (LATOUR, 2008). Esse termo, que foi
absorvido pelo referido autor do trabalho de Stengers (2002) sobre o filósofo Whitehead, remete
ao modo como progressivamente é composto um mundo comum, habitado por entidades
humanas e não-humanas que atuam propositivamente promovendo articulações entre si. Para o
autor, o termo proposição “[...] conjuga três elementos fundamentais: a) denota uma obstinação
(posição), que b) não tem uma autoridade definitiva (é apenas uma pro-posição) e c) pode
negociar-se a si própria para formar uma com-posição sem perder solidez” (p. 45).
Nesse sentido, os actantes, humanos e não-humanos no coletivo, através de sua agência,
oferecem possibilidades de conexões entre si e mediante isso podem articular mais elementos ao
coletivo. Desse modo, no meu trabalho sobre a fabricação das oportunidades para curar, ao
relacionar-me com os actantes que se tornaram presentes no campo, dediquei-me a seguir suas
trajetórias e endereçar-me à sua propositividade e ao que poderia ser articulado a partir de suas
ações singulares. Por fim, nos grupos holotrópicos, determinados actantes foram se tornando
visíveis para mim por serem considerados, mediante suas singulares associações e situações
específicas, agenciadores de oportunidades para curar.

35
Segundo Latour (2001), “O significado ontológico da palavra foi elaborado por Whitehead” (p. 354).
47

2 FALANDO A LÍNGUA DOS NATIVOS: CAMINHANDO COM GROF RUMO AO


MUNDO HOLOTRÓPICO

Durante o trabalho de campo fui percebendo a presença de Grof como um actante com
intensa mobilidade e considerei que seria interessante contar passagens da sua história
enfatizando os passos por ele dados na fabricação dos elementos componentes do mundo
holotrópico. Nos grupos holotrópicos se fala uma „língua‟ muito específica e que diz respeito ao
conjunto de proposições desenvolvidas por Grof no decorrer de sua aventura pessoal e
profissional36 - como pesquisador da consciência, em particular dos estados holotrópicos. Assim,
abrir um espaço para apresentar esses elementos do mundo holotrópico é uma maneira que
transportar o leitor para o mundo de proposições com os quais eu já possuía um contato antes de
iniciar o trabalho de campo propriamente dito.

2.1 Os primórdios de Grof

A história de Grof é contada por ele de modo a estabelecer conexões entre sua história de
vida e sua transformação em pesquisador do campo da consciência (GROF, 1988). Assim, para
cenarizar sua história, acredito que seja importante relatar o modo como ele se fabricou enquanto
pesquisador e proponente de uma versão holotrópica em Psicologia e Psiquiatria.
Grof nasceu em 1931 na cidade de Praga, capital da antiga Tchecoslováquia. Já nos seus
primeiros anos de vida diz que seus “interesses e passatempos preferidos refletiam uma grande
curiosidade sobre a psique e a cultura humanas” (GROF; GROF, 1997, p. 27). Assim resume a
problemática central de sua trajetória de vida:
Minha história pessoal e profissional é um tanto incomum, já que minha pesquisa científica e
minhas observações diárias no trabalho clínico e de laboratório abalaram minha visão ateísta do
mundo e chamaram a minha atenção para o campo espiritual. Isto não é totalmente extraordinário,
visto que há cientistas cujas pesquisas os levaram a uma compreensão mística do universo e a um
tipo de espiritualidade cósmica. No entanto, isto certamente é muito mais comum no sentido
inverso: pessoas que na infância tiveram uma educação religiosa rígida descobrem, com
freqüência, uma visão universal espiritual que se torna insustentável quando têm acesso a
informações sobre o mundo pela ciência ocidental. (GROF; GROF, 1997, p. 27).

36
Essa relação inseparável entre a elaboração de sua proposta teórica e terapêutica e um longo e profundo processo de
transformação pessoal é bastante enfatizada em sua obra (GROF, 2006; 2000; 1997; 1994).
48

Nesse breve trecho, o pesquisador já nos faz ver alguns elementos relevantes que se
juntaram a ele próprio em sua jornada: a pesquisa científica, as observações diárias no trabalho
clínico; a visão ateísta do mundo; o campo espiritual (compreensão mística do universo e um tipo
de espiritualidade cósmica) e a ciência ocidental. Esses elementos falam algo a mais acerca dos
relatos de Grof e que será apresentado mais adiante.
De qualquer modo vale ressaltar como, no discurso de Grof, o processo de fabricar-se se
mescla à própria fabricação de seu trabalho. Ele fala de “sua pesquisa”, “suas observações”, “sua
visão”, mas também explicita algo que o atravessa, que o afeta, que o faz-fazer e tomar certos
rumos, pois os elementos de sua prática o abalaram e voltaram sua atenção, por exemplo, para “o
campo espiritual”, “a ciência ocidental”.
No período final de seus estudos no colegial, término da década de quarenta, Grof, recebe
emprestado de um amigo um exemplar de um livro de Freud – Lições introdutórias de
Psicanálise. Motivado por essa leitura, ele inicia o curso de medicina, bastante interessado na
aplicação prática da teoria psicanalítica. Grof, então, envolve-se amplamente no movimento
psicanalítico de Praga e nesse mesmo período, entra como voluntário do departamento de
psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Praga.
No desenrolar de suas atividades, Grof começa a se encontrar diante de impasses gerados
pelo que ele considera como uma séria discrepância entre o brilho teórico da psicanálise e a sua
ineficácia no trabalho clínico. Assim o pesquisador define seu dilema:
Eu não conseguia entender por que esse brilhante sistema conceitual não oferecia igualmente
impressivos resultados clínicos. O curso de medicina me havia ensinado que desde que eu tivesse
entendido um problema seria capaz de acertar o que deveria ser feito a seu respeito ou, no caso de
doenças incuráveis, perceber claramente o motivo de minhas limitações terapêuticas. Mas agora eu
era induzido a acreditar que, mesmo que tivéssemos conseguido um completo entendimento
intelectual da psicopatologia com que trabalhávamos, poderíamos fazer relativamente pouco a seu
respeito, ainda que num extremamente longo espaço de tempo. (GROF; GROF, 1997, p. 29).

Praticamente na mesma época desses conflitos íntimos, chega ao departamento, onde Grof
então trabalhava como residente de psiquiatria, um pacote vindo da Suíça. Esse pacote tinha
como remetente o laboratório farmacêutico Sandoz e trazia em seu interior amostras de uma
substância experimental denominada LSD-25.
Era a amostra de uma nova substância experimental com propriedades psicoativas notáveis,
descoberta estranhamente, de modo inesperado, pelo diretor químico da Sandoz, o Dr. Albert
Hofmann37. Depois de alguns trabalhos preliminares feitos na Suíça, a companhia estava fazendo

37
Para maiores informações sobre a relação entre o LSD e seu inventor, ver Hoffman (2005).
49

amostras dessa droga, acessíveis aos pesquisadores do mundo todo, solicitando informações sobre
seus efeitos e seu potencial. Entre suas possíveis aplicações atavam a exploração da natureza e das
causas das psicoses, em particular a esquizofrenia, e o treinamento de psiquiatras e psicólogos.
Os primeiros experimentos feitos na Suíça demonstraram que doses mínimas dessa espantosa
substância poderiam alterar profundamente a consciência das pessoas por um período de seis a dez
horas. Os pesquisadores encontraram algumas semelhanças importantes entre essa situação e os
sintomas de psicoses que ocorrem naturalmente. Pareceu claro, então, que os estudos dessas
“psicoses experimentais” poderiam proporcionar descobertas interessantes sobre as causas desse
grupo mais enigmático de doenças psíquicas. A possibilidade de passar por um estado psicótico
reversível era a única oportunidade para todos os profissionais que trabalhavam com pacientes
psicóticos de obterem um conhecimento pessoal de seus mundos interiores, entendê-los melhor e,
como resultado, tratá-los com mais eficiência. (GROF; GROF, 1990, p. 29 e 30).

Em poucas palavras, com a chegada desse simples pacote, não somente aparece o LSD
como também o laboratório farmacêutico Sandoz com seus inúmeros interesses. A fabricação do
LSD - que acaba se tornando um forte elemento de transformação do caminho traçado por Grof –
nesta época oferece a possibilidade de emergência para inúmeros movimentos na pesquisa
psicológica e psiquiátrica, não obstante algumas escaparem ao interesse de seus criadores38.
Dessa forma, o LSD entra em cena como um actante que age propositivamente, tendo um
laboratório farmacêutico e pesquisadores de diversos centros de pesquisa como porta-vozes, cada
um a seu modo, oferecendo oportunidades para que novos rumos possam ser criados na pesquisa
psicológica e psiquiátrica e para que uma nova terapêutica se engendre.

Assim, no final da década de cinquenta, Grof torna-se um dos primeiros sujeitos


experimentais dessa substância. Essa fase é crucial para o seu destino profissional, pois a
experiência vivida durante a sua primeira sessão com o LSD tem um efeito perturbador e
transformador de sua vida pessoal e profissional. Assim o autor relata o evento:
Eu estava muito animado com a oportunidade de participar desse treinamento raro e, em 1956,
tornei-me um dos primeiros que se submeteram a essas experiências. A primeira sessão com LSD
foi um fato que mudou profundamente a minha vida profissional e particular. Defrontei-me com a
minha psique inconsciente, que instantaneamente apagou meu interesse anterior pela Psicanálise
freudiana. Esse dia marcou o início do meu desvio definitivo do pensamento tradicional em
psiquiatria. Fui convidado para um espetáculo fantástico de visões pitorescas, algumas delas
abstratas, outras figurativas e cheias de significação simbólica. Senti também uma série
inacreditável de emoções com uma intensidade que não sabia ser possível suportar. Eu não podia
acreditar no tanto que aprendi sobre a minha psique naquelas poucas horas. (GROF; GROF, 1990,
p. 30).

Em particular destaca:
Um aspecto da minha primeira sessão merece uma atenção especial, já que sua importância
ultrapassou os limites do nível de descobertas psicológicas: na faculdade meu orientador estava
muito interessado em estudar a atividade elétrica do cérebro, e seu assunto favorito era a

38
Um livro muito interessante, que conta a trajetória do LSD desde a sua fabricação até a sua proibição e mostra como ele atinge
não somente o mundo científico, mas também a sociedade foi escrito por John Cashman (1980) e se intitula „LSD‟.
50

exploração da influência das várias freqüências de flashes nas ondas cerebrais. Concordei em ter
as ondas do meu cérebro monitoradas por um eletroencelógrafo, como parte do experimento.
Fui exposto a uma forte luz estroboscópica entre a terceira e a quarta hora da minha experiência.
No momento programado, uma assistente de pesquisa apareceu e me levou a una pequena sala.
Grudou os eletrodos cuidadosamente por todo o meu couro cabeludo e pediu que eu me deitasse e
fechasse os olhos. Então colocou uma luz estroboscópica gigante acima da minha cabeça e ligou-a.
Nesse momento, os efeitos da droga estavam no auge e intensificaram o impacto do estrobo. Fui
atingido por uma radiação comparada ao epicentro de uma explosão atômica, ou talvez um brilho
sobrenatural que, de acordo com as escrituras orientais, aparece para nós no momento da morte.
Esse raio atirou-me para fora do meu corpo. Primeiro perdi a consciência a respeito da assistente
de pesquisa e do laboratório, a seguir sobre a clínica psiquiátrica, depois sobre Praga e, finalmente,
sobre o planeta. Minha consciência expandiu-se numa rapidez inacreditável e atingiu dimensões
cósmicas.
À medida que a jovem assistente modificava gradativamente a freqüência, aumentando e
diminuindo a escala, encontrei-me no meio de um drama cósmico de proporções inimagináveis.
Senti o Big Bang, passei através de buracos negros e brancos, identifiquei-me com as supernovas e
testemunhei muitos outros fenômenos estranhos que pareciam ser pulsares e quasares, e outros
eventos cósmicos espantosos.
Não havia dúvida de que a experiência pela qual eu estava passando estava muito próxima
daquelas que conhecia pela leitura dos grandes livros místicos sagrados do mundo. Mesmo que
minha mente estivesse completamente afetada pela droga, eu era capaz de entender a ironia e o
paradoxo da situação. O „divino‟ manifestou-se e conduziu-me a um laboratório moderno, no meio
de um experimento científico sério, feito em um país comunista com uma substância produzida
num tubo de ensaio de um químico do século XX. (GROF; GROF, 1990, p. 30 e 31).

Apesar de ser um trecho bastante longo, acredito que trazê-lo na íntegra nos apresenta o
modo pelo qual Grof torna visível em suas palavras uma experiência onde o sujeito se articula a
um coletivo experimental que estava sendo concebido, além de adentrar no campo da literatura
mística/religiosa (o divino) e no contexto cultural da época. A imersão nesse coletivo em
construção acabou por oferecer a possibilidade para que Grof se associasse, estabelecesse
relações e se transformasse a partir desse encontro com elementos inusitados. Mais
especificamente, mediante a articulação inicial com o LSD39, Grof vai vivendo um processo de
fabricação de si mesmo como pesquisador no qual ele vai se experimentando gradualmente
menos articulado ao que ele considera uma visão de mundo materialista - bem como a um modo
de fazer ciência afim a essa visão de mundo - se tornando mais articulado ao que ele denomina de
campo espiritual. Poder-se-ia dizer que Grof se vê diante de duas versões: uma onde a ciência
estaria articulada ao campo espiritual e outra onde esse tipo de conexão não seria possível.

2.2 A construção do enfoque teórico grofiano

No início de suas pesquisas, Grof (2001; 1976) trabalhava principalmente com o que era

39
Nesses termos o LSD age como um conector que „convida‟ Grof a se articular à inúmeros elementos antes não presentes até
então em sua prática científica.
51

denominado de método psicolítico, definido como processo de liberação de tensões e dissolução


de conflitos na mente. Este método se caracterizava pelo uso de baixas e médias dosagens de
LSD e sustenta-se teoricamente no modelo psicanalítico de compreensão do psiquismo (GROF,
2001; 1976). Porém, foram as pesquisas clínicas com dosagens mais altas da substância - a
terapia psicodélica40 - que forneceram as bases para a construção de sua abordagem terapêutica
de Grof. Em particular, as experiências observadas e vividas durante seu trabalho com o método
psicodélico o levaram a tomar posições diferenciadas em relação tanto às suas vivências pessoais
quanto profissionais. Em suas próprias palavras, “[minha] compreensão do mundo mudou
gradualmente de um posicionamento ateísta para um basicamente místico” (GROF; GROF, 1998,
p. 31 e 32). Assim ele descreve com mais detalhes o ocorrido:
[...] comecei a testemunhar que minhas experiências eram indistinguíveis daquelas descritas nas
tradições místicas antigas e nas filosofias espirituais do Oriente. Algumas delas eram seqüências
impressionantes de morte e renascimento psicológico; outras envolviam sentimentos de união com
a humanidade, com a natureza e com o cosmos. Muitos clientes também relataram visões de
divindades e demônios de diferentes culturas, e visitas a vários reinos mitológicos. Entre os mais
surpreendentes acontecimentos estavam as seqüências dramáticas e nítidas que eram
subjetivamente vividas como memórias de encarnações passadas.
Eu não estava preparado para observar esses fenômenos em sessões psicoterapêuticas. Sabia sobre
a sua existência através dos meus estudos de religiões comparadas, mas o treinamento psiquiátrico
me ensinou a considerá-las psicóticas, não terapêuticas. Eu estava surpreso com o seu poder
emocional, com sua autenticidade e seu potencial de transformação. Inicialmente, não recebi de
bom grado esse inesperado desenvolvimento na minha aventura terapêutica. (GROF; GROF, 1990,
p. 32).

Grof traz mais claramente a influência do contato de sua prática com o estudo de alguns
aspectos de culturas orientais, de modo a buscar conexões entre o que vinha emergindo em seu
“laboratório” experimental ocidental e aquilo que era descrito no campo filosófico religioso de
outra cultura. É possível perceber como, para ele, o que está em jogo é a semelhança entre as
experiências vividas pelos sujeitos experimentais e aquilo que ele encontrou em seus estudos de
religiões comparadas.
A culminância desse processo resulta na problematização em relação ao campo das
psicoses, na qual Grof (1988) vai questionar o modo como a Psiquiatria e a Psicologia
tradicionais, como ele assim denomina, excluem através de rótulos psicopatológicos aquilo que
não se encaixa em seus parâmetros racionais. Assim o pesquisador apresenta seus
questionamentos: “Contudo, à medida que minha experiência e familiaridade com esses

40
Termo psicodélico foi primeiramente citado por Aldous Huxley por conta da ação de manifestação da mente gerado pelo LSD.
Posteriormente ele foi associado ao mundo terapêutico pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond - amigo de Huxley (GROF,
2001).
52

fenômenos extraordinários crescia, ficava claro que eles eram manifestações normais e naturais
dos níveis mais profundos da psique humana” (p. 32).
E mais,
Eu percebi que não era da nossa conta ditar o que a psique humana deveria parecer em vez de se
enquadrar nas nossas crenças científicas e na nossa visão de mundo. Pelo contrário: é importante
descobrir e aceitar a verdadeira natureza da psique e descobrir como podemos cooperar da melhor
forma com ela. (GROF, 1988, p. 33).

Seu posicionamento agora parece o de querer trazer para o campo da realidade - pelo
menos em termos de ciência - tais elementos de uma forma diferente, isto é, buscando validá-los.
A versão que ele começa a esboçar pode ser entendida tanto como um processo de articulação
com determinados actantes, quanto um processo de articulação entre esses actantes, por meio de
sua prática, no intuito de construir para eles um acesso à realidade. Assim, em seu trabalho Grof
vai elaborando argumentos para situar as experiências provenientes de sua articulação com o
LSD como fenômenos terapêuticos e não patológicos.
Seguindo nesse rumo, Grof se dedica à tarefa de construir um arcabouço teórico que em
seu bojo contemplasse tudo aquilo que empiricamente foi encontrado por ele. A estruturação
teórica de suas pesquisas culminou em uma tentativa de
[...] mapear os territórios experimentais que ficavam disponíveis através da ação catalisadora do
LSD. Por vários anos, dediquei todo o meu tempo ao trabalho psicodélico com pacientes com
vários diagnósticos clínicos, guardando gravações detalhadas das minhas observações e coletando
a narração deles, de suas próprias sessões. Eu acreditava que estava criando uma nova cartografia
da psique humana. Porém, quando completei um mapa da consciência que incluía os diferentes
tipos de níveis de experiência que observara nas sessões psicodélicas, comecei a compreender que
isso era novo apenas do ponto de vista da psiquiatria acadêmica ocidental. Ficou claro que eu tinha
redescoberto o que Aldous Huxley chamava de “Filosofia Perene”41, uma compreensão do
universo e da existência que surgiram com algumas variações mínimas por várias vezes em
diferentes países e períodos históricos. Mapas semelhantes existem em várias culturas há séculos
ou até milênios. Os diversos sistemas da ioga, os ensinamentos budistas, o Vajrayana tibetano, o
Kashmir Shaivism, o taoísmo, o sufismo, a cabala e o misticismo cristão são apenas alguns poucos
exemplos. (GROF, 1988, p. 33).

Em sua prática, o Grof elabora o que ele denomina de uma nova cartografia da psique
humana e desse modo oferece a oportunidade para que, através do encontro com o LSD e da
terapia psicodélica, nesse mapa do psiquismo humano, a psiquiatria ocidental se articulasse com a
filosofia perene. O que Grof (2000; 1988; 1976) denomina de sua cartografia da psique se
caracteriza pela articulação entre três domínios experienciais da psique humana: o biográfico, que
corresponde às experiências da vida de uma pessoa desde o seu nascimento; o perinatal, que se

41
Uma descrição sobre a Filosofia Perene pode ser encontrada em Huxley (1999).
53

refere às experiências relativas à vida intra-uterina e, por fim, o domínio transpessoal, que
abrange todas as experiências que concernem ao que ele chama de transcendência do ego e
apresentam um cunho místico e espiritual. Conforme explica o autor, esses três níveis, não
obstante serem apresentados separadamente, na realidade, são indissociáveis e se mostram
interligados num complexo continuum experiencial (Grof, 1988).
O domínio biográfico se refere a experiências ligadas a memórias da história de vida de
uma pessoa, que abarcam situações relativas a traumas infantis físicos e emocionais, bem como
experiências positivas de bem-estar, conforto e segurança física e emocional. No entanto, um
aspecto marcante no processo experiencial com estados incomuns (holotrópicos) de consciência é
a possibilidade de se chegar a uma autêntica regressão total42. Dessa forma, podem ser
experimentadas emoções, percepções, sensações físicas e mesmo impressões subjetivas originais
de eventos significativos da biografia de uma pessoa. Tais vivências vêm à tona espontaneamente
sem nenhum tipo de programação intelectual prévia.
Já o domínio perinatal é para alguns integrantes da Psicologia Transpessoal
(BOORSTEIN, 1996; FERRER, 2002) uma das principais contribuições das pesquisas de Grof
para a Psicologia e Psiquiatria. Ele se refere ao conjunto de experiências que se remetem ao
reviver de vários aspectos do parto biológico, que traz consigo um amalgamado de sensações
físicas, emoções e imagens simbólicas. O parto é considerado por ele como o trauma mais
profundo vivido por alguém e na jornada psico-espiritual apresenta profundas conexões com
processos de morte-renascimento que podem ser observados em diversas culturas pré-industriais
(GROF, 1988). Segundo afirma:
A íntima conexão entre nascimento e morte, em nossa psique inconsciente, faz grande sentido. Ela
reflete o fato do nascimento ser um acontecimento potencial ou real ameaça à vida. O parto
termina brutalmente a existência intra-uterina do feto. Ele ou ela „morre‟ como organismo
aquático e nasce como uma forma de vida, fisiológica e anatomicamente diferente, que respire ar.
E a passagem pelo canal de parto é, em si, um acontecimento difícil e de possível ameaça à vida.
(GROF, 2000, p. 46).

Grof (2001; 2000; 1997; 1988) faz uma analogia entre o processo biológico da gravidez e
uma jornada experiencial vivida pelo feto e sugere que existam padrões temáticos para essas
experiências, que poderiam ser didaticamente divididas em quatro matrizes perinatais básicas
(MPBs I, II, III e IV).

42
Esse argumento sobre a autêntica regressão total se refere à capacidade de reexperimentação de situações vividas no passado
biográfico de uma pessoa.
54

A primeira matriz (MPB I: união primordial com a mãe) tem como tema principal a união
primordial com a mãe e se estende até o momento em que se inicia o parto. As experiências
ligadas a essa matriz podem ser positivas ou negativas, dependendo da qualidade de interação
entre mãe e feto, dos cuidados que a mãe tem consigo mesma - físicos, emocionais e psíquicos -,
assim como de situações inesperadas, tanto positivas como negativas. Podem ser experienciados
êxtase do tipo oceânico43, experiências de união cósmica ou com a natureza, visões do céu ou
paraíso, entre outros. Podem ser experimentadas, por outro lado, crises fetais, doenças e
sublevações emocionais da mãe, tentativas de aborto, sensações de envenenamento, etc.
O tema da segunda matriz (MPB II: o engolfamento cósmico sem saída), como indica sua
denominação, é o engolfamento cósmico e a sensação de estar sem saída, sendo parto o seu
correlato biológico. Nessa fase, iniciam-se as contrações uterinas, porém a cérvice ainda se
encontra fechada. Não obstante a tremenda força impulsionando o feto adiante, não há como
passar pelo canal de parto. Emergem então dolorosas e dramáticas experiências como
engolfamento cósmico, sofrimento físico e psicológico imensos, imagens infernais, sentimentos
de culpa e inferioridade agonizantes, visões de horrores como guerras, inquisição, torturas,
doenças, epidemias, experiências de falta de sentido e vazio profundos, sensação de opressão e
esmagamento, dentre outras.
A terceira matriz (MPB III: luta de morte-renascimento) tem como seu correlato o
momento em que ocorre a abertura da cérvice e o feto começa seu trajeto pelo canal de parto,
impulsionado pelas contrações uterinas. O padrão de experiência traz intensificação do
sofrimento a dimensões cósmicas, situação limítrofe entre dor e prazer, êxtase tipo vulcânico44,
imagens de batalhas ferozes, destruição, fogo, agressividade, experiências sexuais de orgias,
sacrifícios sangrentos, comprometimento ativo em situações violentas, manifestações físicas
intensas (tensões musculares e descarga subseqüente em tremores e tique, náusea e vômito,
dentre inúmeras outras).
Finalmente, a quarta e última matriz (MPB IV: experiência de morte-renascimento) e é
identificada com o nascimento propriamente dito e expulsão do feto pelo canal de parto. Esse

43
O êxtase oceânico se refere à experiência de paz e união fundamental com a mãe, uma espécie de conexão onde se perdem os
limites entre eu e mundo, entre feto e mãe. (GROF, 2000).
44
O termo se refere a experiências de intensa carga emocional e fortes sensações físicas (GROF, 1988).
55

evento apresenta duas facetas intimamente relacionadas: por um lado configura-se como a
experiência de revivescência do parto biológico original e, por outro, significa a morte e o
renascimento psico-espiritual (que implica profundas transformações da personalidade). As
experiências dessa matriz englobam: sensações de renascimento e redenção, acentuação
sensorial, emergência de sentimentos fraternos, tendências humanitárias e caridosas, ocasionais
atividades maníacas e sentimentos de grandeza, sensação de profunda conexão com a vida e o
universo, êxtase do tipo „iluminação‟45, transição a elementos da MPB I, sensações agradáveis
podem ser interrompidas por crises umbilicais – dor aguda no umbigo -, falta de ar, medo da
morte, entre outras.
Grof (2000; 1997) considera que o domínio das experiências perinatais serve como uma
espécie de limiar de passagem, uma janela para se adentrar no domínio transpessoal. Esse
domínio traz consigo um conjunto de experiências que foram subdivididas pelo autor em três
grupos: 1) Extensão experiencial dentro do espaço-tempo da realidade consensual; 2) Extensão
experiencial além do espaço tempo da realidade consensual e 3) Experiências transpessoais de
natureza psicóide46.
No primeiro grupo (Extensão experiencial dentro do espaço-tempo da realidade
consensual) ocorrem experiências de união dual; identificação com outras pessoas seja individual
seja coletivamente; identificação com outros reinos da natureza – animais, plantas e processos
botânicos, minerais; união com a vida e toda a criação; identificação com o cosmos inteiro.
Podem ocorrem também experiências fetais e embrionárias; experiências ancestrais, raciais e
coletivas; experiências de vidas passadas (reencarnações); experiências de consciência celular,
etc.
No segundo grupo (Extensão experiencial além do espaço tempo da realidade consensual)
emergem experiências de visões e identificação com seres, divindades e demônios arquetípicos
de várias culturas e visitas a fantásticos reinos mitológicos. Podem ocorrer insights acerca do
significado de símbolos universais dos mais variados, comunicação com entidades desencarnadas

45
Este tipo de êxtase possuiu semelhanças com o do tipo oceânico, pela dissolução de fronteiras e sensação de expansão e
conexão do eu com o todo ao seu redor, no entanto se diferencia daquele por se caracterizar como uma experiência de final de um
processo e traz consigo uma qualidade de conclusão (GROF, 1997).
46
Esse termo foi cunhado por C. G. Jung para explicitar a relação entre os arquétipos do inconsciente coletivo e o mundo
fenomenal, enfatizando uma conexão entre a consciência (ou psique) e a matéria. Nesse sentido, os primeiros teriam uma
influência sobre no segundo gerando fenômenos ainda pouco estudados pela ciência. (GROF, 2000).
56

ou supra-humanas (guias espirituais ou habitantes de universos paralelos), além de identificação


com a Consciência Cósmica ou Mente Universal e com o Vazio Supracósmico.
No terceiro e último grupo (Experiências transpessoais de natureza psicóide), podem se
dar façanhas físicas sobrenaturais, tais como fenômenos espíritas e mediunidade física (percepção
e comunicação com seres espirituais), psicocinese espontânea recorrente (poltergeist),
experiências com ovnis, magia cerimonial47, curas e feitiços, entre outras.
Um ponto a ser destacado, que diz respeito à conexão entre esses três domínios, tem a ver
com o que Grof (2000) chama de sistemas de experiência condensada, os COEX. Para Grof
(2000), eles são “como princípios gerais de organização da psique humana” (p. 38). Ele afirma
que “um sistema COEX consiste de memórias com carga emocional, de diferentes períodos de
nossas vidas, que se assemelham pela qualidade da emoção ou sensação física que compartilham.
Cada COEX tem um tema básico e que representa seu denominador comum” (p.37). Inicialmente
cunhou o termo COEX acreditando que ele se referia somente ao domínio biográfico - isto pelo
fato de, nesse período, estar mais vinculado ao método psicolítico. Com o posterior
aprofundamento nas pesquisas com altas dosagens de LSD e com o método psicodélico - que
tinha como objetivo criar condições ideais para experiências ligadas à morte do ego e
transcendência (GROF, 2000; 1997) -, Grof (2000) observou que:
[…] cada uma das constelações COEX parece estar posta sobre e ancorada em um determinado
aspecto do trauma do nascimento. A experiência do parto biológico é tão complexa e rica em
emoções e sensações físicas que contém, de forma prototípica, os temas elementares da maioria
dos sistemas COEX que se pode conceber. Contudo, um sistema COEX típico vai mais além, e
suas raízes mais profundas consistem de várias formas de fenômenos transpessoais, tais como
experiências de vidas passadas, arquétipos junguianos, identificação consciente com vários
animais e outras. (p. 38).

No seu caminho pessoal e profissional, ele vai aderindo à versão de que existem certos
fenômenos que são invariantes, ou seja, podem ser encontrados sem diferenças significativas, em
seus núcleos temáticos, em períodos históricos variados e culturas distintas48. Com isso ele acaba
por articular seu trabalho com aquilo que foi produzido em outros tempos e locais e que até então

47
Grof (1994) cita um interessante caso em que ele e outras pessoas participaram de um ritual de chuva bem sucedido ocorrido na
Califórnia, onde foi chamado um xamã norte-americano para realizar a cerimônia.
48
Segundo Campbell (1992), há duas teorias principais no estudo da distribuição dos temas universais nos povos primitivos
(mitos e mesmo instrumentos musicais, artesanatos e ferramentas). Uma delas fala de um desenvolvimento paralelo ou
psicológico que versa sobre a possibilidade de um fundamento comum no psiquismo humano, que faz com que se produzam
elementos semelhantes mesmo em culturas distintas e sem conexões territoriais prováveis. A outra seria a teoria de uma difusão
transoceânica onde os temas mitológicos se espalharam por conexões ainda desconhecidas entre esses povos, sendo talvez através
de viagens.
57

não pareciam ter muita relação. Por outro lado, seu próprio modo de existir vai sendo constituído
na articulação não só com aquilo que emerje em suas pesquisas, mas também pelo contato que ele
vai estabelecendo com o que é trazido por tais culturas49.
Através de suas pesquisas, principalmente com a terapia psicodélica, Grof foi tomando
uma posição, como psiquiatra e pesquisador, em relação ao material coletado em seu trabalho
psicodélico bem como em relação ao próprio meio científico que habitava. Segundo afirma,
Ao longo da história, a maioria das culturas sempre teve em grande apreço os estados incomuns de
consciência. Eles possuíam, em geral, conhecimentos extraordinários acerca da cartografia da
jornada interior e desenvolviam uma variedade de tecnologias do sagrado – métodos para induzir
experiências espirituais – porque valorizavam altamente o potencial positivo desses estados. Essas
técnicas de alteração mental combinavam varias formas de batuques, cantilenas, danças,
Respiração, jejum, dor física, isolamento social e até mesmo a ingestão de plantas com
propriedades psicodélicas. (GROF; GROF, 1998, p. 117).

Com efeito, ele sublinha a inextricável relação desses povos com tais estados de
consciência. Em suas palavras,
Dos transes extáticos dos xamãs, ou de curandeiro e curandeiras, às revelações dos fundadores das
grades religiões, profetas, santos, e Mestres espirituais, essas experiências têm sido fontes de
entusiasmo religioso, curas notáveis e inspiração artística. Todas as culturas antigas e pré-
industriais tinham em alta conta os estados extraordinários de consciência, considerados
importantes meios de aprendizagem dos aspectos ocultos do mundo e de estabelecimento de
contato com as dimensões espirituais da existência. (GROF; GROF 1998, p. 11-12).

Concomitantemente à assunção dessa posição de aceitação desse potencial dos estados


incomuns de consciência começa também toda a sua problematização da prática psiquiátrica
vigente dessa época. Para Grof,
Os cientistas ocidentais têm ridicularizado e rejeitado esses procedimentos sofisticados,
acreditando que eles foram substituídos com vantagem por abordagens racionais e cientificamente
lógicas. Minhas observações me convenceram de que essas áreas modernas, como a psicanálise e
o behaviorismo, apenas “arranharam” a superfície da psique humana e não poderiam suportar
nenhuma comparação com a profundidade e o raio de alcance desses conhecimentos antigos.
(GROF; GROF 1998, p. 11-12).

Ao afirmar a posivitidade desses estados de consciência tanto para a pesquisa quanto para
o trabalho terapêutico, iniciam-se também as dificuldades de enraizamento e sustentação de seus
argumentos. Conforme explicita,
Aprendi uma importante lição no começo de minhas pesquisas, quando me aproximava de meus
amigos ou colegas imediatos para compartilhar as emocionantes novas observações. Tornou-se
dolorosamente óbvio que uma apresentação honesta e sem censura encontraria profunda
descrença, suspeita e acarretaria um sério risco de desqualificação profissional e ridículo. Dessa
época em diante, a tarefa não era a de encontrar a melhor maneira de articular ou comunicar as

49
Grof não só se articula a tais culturas por leituras de artigos, livros ou conversas com antropólogos, mas faz inúmeras viagens
onde toma contato com povos dos mais variados. Informações sobre esse tema podem ser encontradas em toda a sua obra (GROF,
2006; 2000; 1999; 1998; 1997; 1994; 1988).
58

novas realidades em sua totalidade, mas decidir em cada situação o quanto era possível e razoável
relatar, que metáforas e linguagens usar e como relacionar tais fatos ao corpo de conhecimento
aceito pela comunidade científica. (GROF; GROF, 1998, p. XII).

Desde a sua primeira experiência com o LSD, Grof tomou um rumo muito particular no
campo da prática psicoterápica e psiquiátrica, que incluía elementos ao mesmo tempo estranhos e
atraentes. A situação de isolamento na qual se encontrava deu sinais de mudança após uma
viagem para os Estados Unidos para uma conferência internacional sobre pesquisa com LSD
realizada em 1965. Lá, ele apresenta um artigo sobre suas experiências através das pesquisas em
Praga, que teve boa aceitação por parte dos profissionais, e, durante uma jornada de palestras
após essa conferencia, recebe o convite da Fundação para Fundos de Pesquisa em Psiquiatria de
New Haven, Connecticut, para passar um ano realizando suas pesquisas nos Estados Unidos. Por
fim, em 1967, ele recebe uma bolsa de estudos fornecida pela Clinical Research Fellow,
permanecendo nos Estados Unidos até os dias de hoje.
Sobre o período inicial nos Estados Unidos ele relata que
Na época em que comecei minhas conferências nos Estados Unidos a respeito de minha pesquisa
Européia, o círculo de colegas de mentalidade semelhante havia aumentado rapidamente. Entre
esses novos amigos não só havia pesquisadores psicodélicos, como também antropólogos,
parapsicólogos, neurofisiologistas e tanatologistas, que compartilhavam comigo uma determinada
luta conceitual pela integração na filosofia da ciência contemporânea de resultados de buscas e
pesquisas pessoais e profissionais não-convencionais. Muitos deles possuíam pilhas de materiais e
observações não publicadas e não publicáveis, assim como artigos e manuscritos que não ousavam
compartilhar com seus colegas newtoniano-cartesianos50 ou com o público em geral. Após muitos
anos de isolamento profissional, esse novo desenvolvimento tornou-se muito estimulante e
encorajador. (GROF; GROF, 1998, p. XII-XIII).

Articulado a esse novo contexto, Grof toma contato com o trabalho de Maslow e suas
proposições referentes à psicologia humanista, especificamente no que concernia aos estudos
sobre as ditas potencialidades humanas máximas, que envolviam temas como religião,
autorrealização e as experiências culminantes ou de pico (as peak-experiences). Em particular
essas últimas chamaram mais a atenção de Grof, pois mostravam forte conexão com as
experiências que ele observara em muitas sessões de terapia psicodélica.
Segundo a leitura que Grof (2005) faz da situação da psicologia norte-americana desde
meados do século XX, a psicologia humanista que tinha Maslow (1994; 1993) como principal
proponente traz em seu bojo elementos fundamentais para se rever os conceitos sobre o ser

50
Grof (1988) denomina a ciência tradicional e seus adeptos de newtoniano-cartesianos pelo fato de fundamentarem
exclusivamente sua visão de mundo nos princípios da física newtoniana e na filosofia cartesiana, excluindo tudo aquilo que não se
encaixa em suas proposições.
59

humano e suas potencialidades.


[…] o interesse primordial da psicologia humanista, a terceira força de Maslow, era nos sujeitos
humanos e esta disciplina honrou o interesse na consciência e introspecção como complementos
importantes em relação à abordagem objetiva em pesquisa. A ênfase exclusiva dos behavioristas
sobre a determinação do meio, estímulo-resposta e reforço-punição foi substituída pela ênfase na
capacidade dos seres humanos para serem internamente dirigidos e motivados tanto a alcançarem a
auto-realização quanto a realizarem o seu potencial humano. (p. 1).

Nesse sentido, sobre essa mudança de perspectiva da psicologia humanista Grof (2005)
explicita que:
[…] a psicologia humanista se focava sobre populações saudáveis ou mesmo indivíduos que
mostravam um funcionamento além do normal em varias áreas (tipo de população „em
crescimento‟ de Maslow), sobre o potencial e o crescimento humanos e sobre as mais altas
funções humanas. Ela também enfatizava que a Psicologia deveria ser sensível às necessidades
humanas práticas e servir a importantes objetivos e interesses da sociedade humana. (p. 1).

O encontro de Grof com a psicologia humanista culminou na emergência do que viria a


ser denominado de psicologia transpessoal. De acordo com o autor,
A despeito da popularidade da psicologia humanista, em seus fundadores Maslow e Sutich, crescia
uma insatisfação com a estrutura conceitual originalmente por eles criada. Eles tornaram-se cada
vez mais cientes de que haviam deixado de fora um elemento extremamente importante - a
dimensão spiritual da psique humana […]. O renascimento do interesse em várias tradições
místicas, meditação, sabedoria antiga e aborígine e filosofias orientais, assim como a amplamente
difundida experimentação psicodélica durante os turbulentos anos sessenta, mostraram claramente
que uma compreensiva e transculturalmente válida psicologia deveria incluir observações de áreas
tais como estados místicos; consciência cósmica; experiências psicodélicas; fenômenos de transe;
criatividade e inspiração religiosa, artística e científica. (GROF, 2005, p. 4).

Em 1968, na Califórnia, junto com Maslow, Sutich, dentre outros, Grof participa da
fundação da Psicologia Transpessoal, uma abordagem que aproximava a Psicologia de
fenômenos acima descritos e deveria honrar o espectro total da experiência humana, enfatizando
e reconhecendo o significado da dimensão espiritual51 da psique, além de pôr em destaque o
estudo da consciência e de seus múltiplos estados (GROF, 1988).

51
Segundo Grof e Grof (1988), “O termo espiritualidade deve ser reservado para situações que abrangem experiências pessoais de
certas dimensões da realidade e que dão à vida de alguém e à existência em geral uma qualidade numinosa. C. G. Jung usou a
palavra „numinosa‟ para descrever uma experiência que parece ser sagrada, pura e fora do comum. A espiritualidade é algo que
caracteriza o relacionamento entre a pessoa e o universo e não requer, necessariamente, uma estrutura formal, um ritual coletivo
ou a mediação feita por um sacerdote” (p. 47).
60

2.3 A concepção do trabalho de Respiração Holotrópica

Em 1973, Grof foi morar no Instituto Esalen52, em Big Sur na Califórnia, um importante e
controvertido centro que agregava inúmeras pessoas interessadas em conhecimentos e práticas
que estariam ligadas a uma profunda revisão na visão de mundo ocidental (ANDERSEN, 1983).
Foi também em torno desse período que Grof buscava um modelo alternativo à terapia
psicodélica por conta do processo de ilegalização do LSD e subsequente retirada crescente de
investimentos para a pesquisa com a substância. Foi assim, que em 1975, junto com sua esposa
Christina Grof, uma pessoa com uma longa experiência de estudo com experiências místicas e
espirituais53, foi elaborada a técnica da Respiração Holotrópica.
Essa proposta agrega elementos dos mais variados que foram coletados por Grof (2000;
1997) graças ao seu trabalho com a terapia psicodélica. No encontro com as experiências que
emergiam no contato com estados holotrópicos de consciência, ele teve que transgredir suas
próprias concepções sobre os potenciais humanos, sobre as causas das complexas problemáticas
existenciais vividas por indivíduos.
Com efeito, mediante os achados de suas pesquisas, ele seguiu as suas experiências
pessoais e profissionais com os estados holotrópicos e forjou os alicerces fundamentais da terapia
holotrópica, resultantes de uma articulação entre o método psicolítico e psicodélico (GROF,
2001; 1976); uma complexa integração entre diversas abordagens em psicoterapia54 (GROF,
1988); pesquisas e experiências transculturais enfatizando a compreensão dos estados
holotrópicos em diversas culturas (GROF, 1999; 1997; 1994); uma revisão paradigmática em

52
Sobre este curioso Instituto californiano há um interessante livro intitulado The upstart spring: Esalen and the american
awakening, do cientista político e psicólogo social Walter Truet Anderson, onde são contadas histórias pitorescas do local em seu
período de maior efervescência terapêutica, política e cultural.
53
Christina Grof teve fortes experiências de cunho místico e espiritual deflagradas durante os processos dos partos de seus filhos,
o que a fez mergulhar na busca de conhecimentos mais profundos sobre esses processos por ela vividos. Ela possui um importante
livro chamado A sede de plenitude: apego, vício e caminho espiritual e em especial, dois livros publicados com Grof intitulados:
A tempestuosa busca do ser: um guia para o crescimento pessoal através da crise de transformação e Emergência espiritual: crise
e transformação espiritual.
54
Dentre elas a psicanálise – em especial as abordagens de Freud, Adler, Rank -; a terapia corporal de Reich; a psicologia
analítica de Jung; a gestalt-terapia de Perls; dentre outras.
61

ciência, psicologia e psiquiatria buscando uma relação entre esta e o que ele chama de sabedoria
antiga – filosofias espirituais orientais, pré-industriais, etc. (GROF, 1994; 1988) e o estudo acerca
das emergências espirituais (Grof e Grof, 1998, 1997).
A Respiração Holotrópica, como modelo substituto não farmacológico da terapia
psicodélica, é descrita por Grof (2000) nos seguintes termos:
Ela induz estados holotrópicos muito poderosos através de uma combinação de meios muito
simples – respiração acelerada, música evocativa e uma técnica de trabalho corporal que ajuda a
liberar bloqueios bioenergéticos e emocionais residuais. Em sua teoria e prática, esse método une e
integra elementos de tradições antigas e aborígines, filosofias espirituais orientais e psicologia
profunda do Ocidente. (p. 180).

Em particular, no que tange à respiração e a música, Grof (2000) entende que há um


poder de cura em ambas e justifica esse „fato‟ fornecendo inúmeros exemplos acerca do uso ritual
destes em diversas culturas. Os significados da respiração na Índia (prana), China (chi), no Japão
(ki), na Grécia (pneuma), na tradição hebraica (ruach) se assemelham e estão ligados a noções
tais como: essência sagrada da vida, essência cósmica, espírito ou essência da vida. Com ênfase
nesse aspecto curativo da respiração, ele lança conexões com abordagens ocidentais que também
utilizavam a respiração como recurso terapêutico, dentre elas a gestalt-terapia, a bioenergética, a
terapia corporal reichiana, etc. Além disso, concluiu que a respiração teria o mesmo efeito
amplificador da consciência característico do LSD e afirma que:
O aumento deliberado do compasso da respiração, tipicamente, relaxa as defesas psicológicas e
leva à liberação e à emergência de materiais inconscientes (e superconscientes)55. A não ser que se
tenha testemunhado ou experimentado esse processo pessoalmente, é difícil acreditar, com base
puramente teórica, no poder e na eficácia dessa técnica. (GROF, 2000, p. 182).

No que concerne à música,56 o mesmo percurso de justificação é realizado por Grof


(2000), trazendo exemplos do uso ritual da música para fins de cura pelos índios Navajo, na
dança de transe dos kung bushmen do deserto Kalahari na África, a sanéria cubana, a umbanda
brasileira, os cânticos sagrados de várias ordens sufis, os bhajans e kirtans hindus, nos grupos
cristãos, etc. Em seus termos,
A música cuidadosamente selecionada parece ser valiosa principalmente nos Estados holotrópicos
de consciência, nos quais tem várias funções importantes. Ela mobiliza emoções associadas a
memórias reprimidas, leva-as à superfície e facilita sua expressão. Ajuda a abrir a porta do
inconsciente, intensifica e aprofunda o processo terapêutico e fornece um contexto significativo
para a experiência. O contínuo fluxo de música cria uma onda portadora que ajuda o indivíduo a
passar por experiências e impasses difíceis, superar as defesas psicológicas, render-se e soltar-se.

55
Sobre a ação no cérebro da hiperventilação vale uma leitura pormenorizada do livro de Grof (2001) intitulado LSD
psychotherapy, que contém em seu bojo inúmeras informações técnicas (de pesquisas médicas) sobre o assunto.
56
Sobre os possíveis usos da música na psicoterapia transpessoal ver o livro de Fregtman (1995) intitulado Holomúsica.
62

Nas sessões de respiração holotrópica, que costumam ser conduzidas em grupo, a música tem uma
função adicional: ela mascara os sons emitidos pelas participantes e os entrelaça numa dinâmica
estética Gestalt. (p. 183).

Quanto ao trabalho corporal, os relatos de Grof (2000; 1997) apontam para sua função
curativa como estando relacionada à facilitação da liberação de tensões e de conteúdos
emocionais associados a memórias traumáticas que é produzida pelo aumento do ritmo
respiratório. Segundo afirma,
As tensões que carregamos em nosso corpo podem ser liberadas de duas formas diferentes. A
primeira delas envolve catarse e ab-reação – descarga por meio de tremores, tiques, movimentos
corporais dramáticos, tosse, gaguice vômito das energias físicas contidas. Tanto a catarse quanto a
ab-reação também incluem, tipicamente e por meio de choro, gritos ou outras expressões vocais
[…].
O Segundo mecanismo que pode mediar a liberação de tensões físicas e emocionais representa um
papel importante na respiração holotrópica, no renascimento57 e em outras formas de terapia que
usam técnicas de respiração […]. Aqui, as tensões profundas emergem na forma de contrações
musculares transitórias de duração variada. Sustentando estas tensões musculares por longos
períodos, o organismo consome grandes quantidades de energia anteriormente contida e simplifica
seu funcionamento ao se despojar delas. O profundo relaxamento que tipicamente segue-se à
intensificação temporária de tensões antigas, ou o surgimento daquelas que estavam latentes, é
testemunho da natureza curativa desse processo. (GROF, 2000, p. 189).

Além desses elementos, Grof (2000; 1997) também faz referência ao papel do facilitador,
assim como ao set e setting como aspectos indissociáveis da terapia holotrópica e que foram por
ele forjados ainda em seu tempo de trabalho com a terapia psicodélica. Nesse período Grof
(2001; 1976) foi compreendendo que a relação entre o terapeuta e o cliente deveria ganhar uma
dinâmica diferente do que era proposto pelas terapias da época, principalmente a psicanálise. No
trabalho com estados incomuns de consciência na terapia psicodélica era interessante um contato
físico e pessoal mais próximo entre estes, embora o terapeuta não fosse aquele que orientasse o
processo terapêutico.
Em suas palavras,
O termo set inclui as expectativas, motivações e intenções do sujeito em relação à sessão
(psicodélica); os conceitos orientadores do terapeuta acerca da natureza da experiência com o
LSD; o acordo estabelecido entre o cliente e o terapeuta sobre os objetivos relativos ao
procedimento psicodélico; a preparação e a programação para a sessão e a técnica específica ou
guia usado durante a experiência com a substância. O termo setting se refere ao ambiente atual,
tanto físico quanto interpessoal, além das circunstâncias concretas sob as quais a substância é
administrada. (GROF, 2001, p. 102).

Para o Grof, todos esses elementos poderiam influenciar de modo significativo a natureza
da experiência de uma pessoa em uma sessão com o LSD. Desta feita, quanto mais bem

57
Estratégia terapêutica desenvolvida na década de 1970 pelo psicólogo norte-americano Leonard Orr, que utiliza a respiração em
uma banheira ou piscina, que tem como objetivo o trabalho terapêutico através do reencontro com a experiência do nascimento.
63

elaborados estes estivessem, melhores poderiam ser os resultados terapêuticos. No que diz
respeito, em particular, ao setting ele afirma que:
A maioria das situações em que estímulos externos tiveram uma forte influência no sujeito, e
modificaram a sua experiência com o LSD, pode eventualmente ser entendida em termos do
conteúdo dos sistemas dinâmicos subjacentes que governam a experiência e sua complicada e
recíproca interação com os estímulos do ambiente. Se o setting envolve elementos que
caracteristicamente ocorrem como componentes de sistemas COEX positivos ou matrizes
perinatais positivas, eles tendem a facilitar a emergência de experiências agradáveis ou extáticas.
Como essas experiências têm um grande potencial de cura e valor terapêutico, esta associação
deve ser sistematicamente utilizada nas sessões psicodélicas, assim como muitos elementos que
estão relacionados a sistemas positivos devem ser incorporados no setting de tratamento. (GROF,
2001, p. 108).

Apresento a seguir a descrição feita por Grof (2001) do setting terapêutico por ele
proposto na época da terapia psicodélica e que permanece sendo utilizado no trabalho de
Respiração Holotrópica:
Na terapia psicodélica existe uma grande ênfase em cenários de beleza e riqueza estética. As
sessões de LSD são conduzidas em quartos mobiliados com bom gosto, decorados com flores,
pinturas, esculturas e objetos de arte selecionados. Sempre que for possível, devem ser enfatizados
elementos naturais. Em termos ideais, o tratamento seria bastante facilitado se realizado em
localidades próximas ao oceano, montanhas, lagos ou áreas rodeadas de mata, tendo em vista que
a exposição dos sujeitos de LSD à beleza natural durante o período final das sessões é uma parte
importante do procedimento psicodélico. Se isso não for possível, exemplos da criatividade da
natureza são trazidos para o quarto de tratamento: belos vasos de planta e flores frescas, coleções
de minerais coloridos de formatos interessantes, uma variedade de exóticas conchas do mar e
fotografias de cenário atraente. Frutas secas e frescas, nozes sortidas, vegetais crus e outras
comidas naturais são itens característicos do arsenal dos terapeutas psicodélicos, como o são
também fragrâncias condimentadas e incenso; estas oferecem uma oportunidade para engajar tato
e olfato na redescoberta da natureza. A música joga um importante papel nesta modalidade de
tratamento; uma aparelhagem de som de alta fidelidade, um gravador, diversos conjuntos de fones
de ouvido e uma boa coleção de gravações e fitas são um equipamento básico nas suítes de
tratamento psicodélico. A seleção das músicas é de importância crítica, em geral e em relação a
diferentes estágios das sessões ou seqüências experienciais específicas. (p. 38).

No livro intitulado „A aventura da autodescoberta‟, Grof (1997) aborda mais detidamente


do que ele chama de a estratégia holotrópica de psicoterapia - considerando-a como uma nova
perspectiva em psicoterapia. Como ele já não estava mais em contato direto com o LSD,
mostrou-se de fundamental importância ordenar seus argumentos centralizando-os mais sobre o
trabalho holotrópico. Segundo afirma, no longo trecho abaixo, os pressupostos básicos da terapia
holotrópica são definidos nos seguintes termos:
A estratégia holotrópica de psicoterapia representa uma alternativa importante e efetiva às
abordagens tradicionais da psicologia profunda58, que enfatizam o intercâmbio verbal entre o
terapeuta e o cliente. O nome holotrópico significa, literalmente, buscando a totalidade ou
movendo-se para o todo (do grego holos = todo e trepein = movendo-se em direção a). O
pressuposto filosófico básico desta estratégia é que uma pessoa média de nossa cultura opera numa
forma que está muito abaixo de seu potencial e capacidade reais. Este empobrecimento deve-se ao

58
Esse termo se refere àquelas escolas de psicoterapia que levam em consideração o trabalho com a noção de inconsciente, e que
tem na psicanálise freudiana e na psicologia analítica de C. G. Jung dois grandes representantes (GROF, 1988).
64

fato de o indivíduo identificar-se apenas com um aspecto de seu ser, o corpo físico e o ego. Esta
identificação falsa leva a um modo de vida inautêntico, não-saudável, frustrante, e contribui para o
desenvolvimento de desordens emocionais e psicossomáticas de ordem psicológica.
O desenvolvimento de sintomas incômodos que não têm nenhuma base orgânica pode ser visto
como um indicador de que o indivíduo opera com base em premissas falsas e atingiu um ponto no
qual se tornou óbvio que o antigo modo de ser no mundo já não funciona mais e é impossível
mantê-lo. Isto pode ocorrer numa área limitada da vida – como o casamento e a vida sexual, a
orientação profissional ou a busca de diversas ambições pessoais – ou pode alcançar
simultaneamente a totalidade da vida da pessoa. A extensão e a profundidade deste colapso
correlacionam-se aproximadamente com o desenvolvimento de fenômenos neuróticos ou
psicóticos. A situação resultante representa uma crise, ou mesmo uma emergência, mas também
uma grande oportunidade. (p. 161).

Tendo sempre em vista esses pressupostos acima, ele apresenta os princípios da terapia
holotrópica, assim explicitados:
Podemos resumir agora os princípios básicos da terapia holotrópica. Sua contribuição principal é o
reconhecimento do potencial curativo, transformador e evolucionário dos estados incomuns de
consciência. A terapia holotrópica usa técnicas para ativar e induzir os estados incomuns de
consciência, pois nesses estados a psique humana parece mostrar uma atividade curativa
espontânea. Isto tende a mudar o equilíbrio dinâmico subjacente aos sintomas, transformando-os
num fluxo de experiências incomuns, e consumindo-os neste processo. A função do facilitador ou
terapeuta (o termo é usado aqui em seu sentido grego original de assistia cura) é, portanto, apoiar o
processo experiencial com plena confiança em sua natureza curativa, sem tentar mudá-lo.
É importante que o terapeuta apóie o desdobramento experiencial, mesmo que não o entenda no
momento. Algumas experiências transformadoras poderosas podem não ter nenhum conteúdo
específico. Elas consistem em seqüências de intenso crescendo de emoções ou de tensões físicas, e
profunda liberação e relaxamento subseqüentes. Com freqüência, os insights e conteúdos
específicos emergem mais tarde no processo, ou mesmo nas sessões seguintes. Em alguns casos a
resolução ocorre no nível biográfico, em outros, em conexão com o material perinatal ou com
diversos temas transpessoais. Ocasionalmente, curas emocionais ou psicossomáticas dramáticas e
transformação da personalidade com efeitos duradouros estão associadas a experiências que
escapam à compreensão racional. (GROF, 2000, p.163).

Em outro livro, intitulado „A psicologia do futuro‟, Grof (2000) também apresenta os


princípios da terapia holotrópica de modo muito semelhante, porém acrescenta alguns elementos
a mais como a noção de estados holotrópicos de consciência ao invés de estados incomuns de
consciência. Como afirma,
O princípio básico da terapia holotrópica é que os sintomas das desordens emocionais e
psicossomáticas representam uma tentativa do organismo para se livrar de impressões traumáticas
antigas, curar-se e simplificar seu funcionamento. Não são apenas um incômodo e uma
complicação da vida, mas também uma grande oportunidade. Uma terapia eficaz consiste na
ativação e intensificação temporárias e na subseqüente resolução dos sintomas. (p. 176).
Como descrevi anteriormente, a „função de radar‟ que opera nos estados holotrópicos e que
automaticamente leva à superfície os conteúdos inconscientes que têm uma forte carga emocional
e estão prontos para serem processados. Este é um mecanismo, extremamente útil e importante,
que poupa o terapeuta da tarefa impossível de determinam quais são os aspectos verdadeiramente
relevantes do material que o cliente está apresentando. (p. 176-177).

Considero que este seja, em breves linhas, o cenário terapêutico que fala da terapia
holotrópica - desde suas origens na terapia psicodélica - um complexo coletivo que oferece a
possibilidade para que as experiências do mundo holotrópico ocorram. Nesse sentido, como foi
65

dito no início da presente sessão, inúmeros elementos aqui apresentados entraram em cena nos
grupos holotrópicos, principalmente nos coletivos em que emergiam as oportunidades para curar:
os princípios da terapia holotrópica, as matrizes perinatais, a música, o trabalho corporal, dentre
outros. Nas situações do campo, esses elementos se tornam claros através da ação dos
facilitadores e de demais integrantes do grupo e geram condições de possibilidade para que
oportunidades para curar sejam fabricadas nos grupos holotrópicos.
66

3 CENARIZAÇÃO DAS OPORTUNIDADES PARA CURAR NOS GRUPOS


HOLOTRÓPICOS

Nesse capítulo pretendo mostrar como as oportunidades para curar foram se tornando
claras para mim durante o trabalho de campo. Nesse sentido, gostaria de ressaltar, mais uma vez,
que os elementos que entrarão em cena na presente seção emergiram da desordem do campo.
Todavia, para que eu pudesse contar um pouco mais da história de alguns deles fiz incursões em
sites da internet, em livros, que, segundo minha opinião, apresentavam íntima conexão com
aquilo que se movimentava no campo. Além disso, um ponto a ser ressaltado é que os elementos
que fizeram parte do campo não foram, inicialmente, concebidos como actantes. Com isso quero
enfatizar que minha compreensão prévia deles não os tinha amalgamado em coletivos de
oportunidades para curar. Em outras palavras, me vi surpreendido pelo modo como se
agenciavam e faziam fazer sucessivas oportunidades para curar.
Assim, conforme fui me afetando pelos acontecimentos, trabalhei seguindo as associações
entre determinados elementos que me pareceram ativos e propositivos na fabricação de coletivos
de oportunidades para curar. Com isso, meu trabalho fez com que eu me articulasse à
compreensão de que no set e setting holotrópico poderiam circular, produzindo efeitos: os grupos
holotrópicos e o Movie Yoga; a natureza em ação; objetos e seres encantados que conectavam
cenários rituais e sagrados com o cenário terapêutico; bem como a respiração, a música, o
trabalho corporal, os salões holotrópicos, as mandalas, dentre outros.

3.1 Os grupos holotrópicos e o Movie Yoga59

O Grof Transpersonal Training (GTT) foi fundado em 1986 por Stanislav Grof e Christina
Grof e desde então atua em várias partes do mundo trabalhando com a Respiração Holotrópica,
divulgando essa perspectiva através de palestras, livros, vídeos e formando profissionais

59
Cabe aqui explicitar um aspecto singular da narrativa do campo. Em muitos momentos uso a terceira pessoa do plural e isto se
refere à minha participação direta em determinadas situações. Nesse sentido, sempre que o „nós‟ se faz presente ele torna visível
minha articulação (e a participação direta experimentando situações no campo juntos com outros integrantes do grupo) ao que
ocorria no campo.
67

habilitados a trabalhar e ensinar essa abordagem. Na época em que se iniciou a formação pelo
GTT60, seus fundadores ministravam os workshops que, atualmente, são denominados de
“Formação em Psicologia Transpessoal com certificado de facilitador em Respiração Holotrópica
ou com certificado educacional”61. Seu papel é certificar profissionais habilitados para trabalhar
no mundo inteiro com a técnica da Respiração Holotrópica.
Os grupos holotrópicos62 que acompanhei eram compostos por pessoas que vinham de
diversas profissões, tais como Psicologia, Medicina e Psiquiatria, Serviço Social, Enfermagem,
Comunicação Social, Agronomia, Fonoaudiologia, Informática, Música, Fisioterapia, dentre
outros. Nos grupos que acompanhei na Argentina, havia pessoas de várias partes desse país além
de outras do Chile, Brasil, Uruguai e Paraguai. Em São Paulo, havia, além de paulistas, pessoas
vindas do Rio de Janeiro, Natal, Brasília, Goiás, Chile, Estados Unidos, Portugal, França e
Austrália63. Apesar de ser uma formação que tem como palavra-chave a Psicologia Transpessoal,
normalmente não é exigida uma formação prévia em Psicologia (ou mesmo em qualquer área de
saúde). Isso inclusive foi explicado por um dos facilitadores nos seguintes termos:
Grof quando iniciou os workshops de formação fez questão de sublinhar que pessoas de quaisquer
áreas do conhecimento poderiam se formar como facilitadores de trabalho de Respiração
Holotrópica. Para ele havia muitas pessoas com extensa Formação em Psicologia ou Medicina e
como pouca ou quase nenhuma vocação para ser um facilitador, para ter sensibilidade para
trabalhar com essa técnica. É recomendável que as pessoas busquem ter conhecimentos de
Psicologia, mas não é uma exigência, pois o mais importante é que se tenha a vocação para esse
tipo de trabalho.

Jardim (2011), facilitador e responsável pela formação do GTT no Brasil, descreve,


sucintamente, a estrutura da formação:
O treinamento segue as diretrizes dos Princípios da Respiração HolotrópicaTM, desenvolvidos
pelo Dr. Stanislav Grof e Christina Grof, e das Orientações Éticas para a Respiração
HolotrópicaTM assinados pelos praticantes da técnica.
O enfoque teórico traz o Potencial Heurístico e de Cura dos Estados Holotrópicos de Consciência,
a Arquitetura das Desordens Emocionais e Psicossomáticas, as Crises Psicoespirituais, a Ética, a

60
Vale ressaltar que na própria sigla do GTT, assim como na apresentação da formação, o termo transpessoal tem destaque, no
entanto nos grupos me articulei mais à noção de „holotrópico‟ pela ênfase que lhe era dada nas falas dos facilitadores. A
abordagem teórica e terapêutica de Grof - muito usualmente denominada nos grupos de perspectiva holotrópica e terapia
holotrópica - me pareceu ser a marca singular de Grof na Psicologia Transpessoal.
61
A formação certifica duplamente o formando, ou seja, tanto na perspectiva teórica quanto na terapêutica (o trabalho de
Respiração Holotrópica) de Grof. Informações mais detalhadas podem ser encontradas no site do facilitador certificado Álvaro
jardim: http://www.aljardim.com.br/gttbrasil.htm.
62
Ver ANEXO I.
63
Por conta dessa diversidade, quase todos os módulos que acompanhei contavam com uma pessoa fazendo a tradução
simultânea.
68

Prática da Respiração HolotrópicaTM, a Cosmologia, a Tanatologia, a visão filosófica e


metodológica de Stanislav Grof.
Ao participar da prática, os alunos vivenciam seus processos pessoais e de grupo através da
Respiração Holotrópica, em um local adequado e seguro, preparado e adaptado para essa
finalidade e na presença de profissionais qualificados, cumprindo acordos éticos estabelecidos,
para atender os objetivos propostos.
A integração da experiência vivenciada num novo nível de compreensão é feita através da
arteterapia, do compartilhar das experiências vivenciadas, da dança, e de outros meios de
expressão. O processo de integração é fundamental para que o participante perceba os resultados
do trabalho em si próprio e no ambiente em que vive trazendo autodescoberta, transformação e
cura, dando um novo sentido à sua vida.
O Grof Transpersonal Training é um treinamento que apresenta duas vias de formação: 1.
Educacional, na qual os participantes poderão receber os conhecimentos teóricos e práticos sobre a
Psicologia Transpessoal, à luz da teoria e metodologia prática e vivencial de Stanislav Grof,
podendo ir fundo em seus processos pessoais, no caminho da autodescoberta,
autodesenvolvimento, transformação e cura; 2. Facilitador profissional certificado, na qual os
participantes além do que recebem na via educacional poderão se certificar como facilitadores da
Respiração Holotrópica pelo Grof Transpersonal Training. Ambas vias de formação exigem que os
participantes cursem quatro módulos obrigatórios, três módulos eletivos ou opcionais e um
módulo de certificação (intensivo de 10 dias).
O participante em treinamento deverá, ainda, completar 10 horas de sessões individuais e 150
horas de participação em workshops liderados por facilitadores certificados pelo GTT (podem ser
incluídas as horas realizadas antes de iniciar o treinamento). O participante em treinamento pode
marcar estas sessões com um ou com mais facilitadores certificados pelo Grof Transpersonal
Training. Além disso, quem quiser liderar workshops como profissional deverá, antes, trabalhar
pelo menos em quatro workshops, como aprendiz de facilitadores certificados. A certificação
profissional só é garantida ao aluno quando ele segue os critérios de aprovação e supervisão dos
líderes do GTT.

A apresentação acima é muito importante, pois meu acompanhamento se deu em grupos


que se reuniam associando-se ao que era proposto pelo GTT e, através dele, por Grof. Nesse
sentido, entendo que o GTT cumpre a função de conector entre os grupos e a versão holotrópica
de Grof e é desse encontro que emergem os “grupos holotrópicos”. Nesse sentido, como vem
descrito acima na citação, elementos como a Respiração Holotrópica; um local seguro e
adequado; a presença de profissionais qualificados; os conhecimentos teóricos e práticos da
proposta de Grof balizam o cenário holotrópico e criavam „solo fértil‟ para que os participantes
pudessem experienciar autodescoberta, transformação e cura, dando um novo sentido às suas
vidas. Em outras palavras, esses elementos, entrando em cena, poderiam se articular
singularmente, gerando condições de possibilidade para que as oportunidades para curar
emergissem. A questão que se colocava para mim era: e como isso então acontece? Como esses
elementos criam as condições para as oportunidades para curar? Como agem tais elementos nas
oportunidades para curar?
Num dos módulos, o grupo realizara a sessão holotrópica pela manhã e, após seu término,
69

todos chegaram ao acordo de que o sharing64 seria feito ao ar livre: o dia estava belíssimo e
apesar do sol muito quente estaríamos confortados por grandes árvores do local, assim como pelo
clima ameno, outonal, da região serrana paulista. Aos poucos, as pessoas foram se dirigindo para
o grande gramado em que teríamos essa atividade. Enquanto o grupo não se completava,
passamos o tempo conversando sobre diversos assuntos e num determinado momento emergiu o
tema do interesse pela perspectiva grofiana. De um modo geral, as pessoas ali se mostravam
atraídas pelo modo como Grof, segundo a fala de um dos integrantes do grupo, “fora alguém que
entendia que no fundo a busca de cada ser humano é espiritual”. Uma das integrantes disse: “O
trabalho de Grof é muito importante. Ele consegue juntar elementos da religião e da ciência sem
fazê-lo de um modo dogmático e restritivo”. Outra pessoa concordou:
Pois é, quem lê as coisas dele, mas não conhece a seriedade de seu trabalho acha que ele é um
doido porque fala de pesquisas com LSD e etc. Eu assisti a uma palestra dele e fiquei
impressionada. Ele é um cara pacificado. Sem dúvida, ele é muito trabalhado pessoalmente. É só
ler direito seus livros e ver como ele mergulhou fundo na sua jornada espiritual, se conheceu
muito, enfrentou muito seus dilemas mais profundos. Eu admiro muito isso.

Seguindo na conversa outro integrante relata que


Se não fosse a ajuda que recebi de pessoas que trabalham com a perspectiva holotrópica, há uns
dois anos atrás quando passei por uma fase muito complicada de minha vida, eu teria ficado muito
mal, estaria ferrado. O complicado não foi o que eu estava vivendo. Hoje eu vejo que foram
experiências muito fortes e importantes, nunca fui tão feliz quanto nesse período em que passei
por uma emergência espiritual. O pior foi o jeito que as pessoas que me cercavam entendiam
minhas experiências. Poucas pessoas entendiam, mas o problema não é não entender, o problema é
não respeitar. Graças ao Heitor65, que me pôs em contato com o Fernando66 tudo mudou pra mim.
Sou muito grato ao Fernando, ao Grof, se eu não fosse acolhido desse modo estaria mal. Os
psiquiatras só sabem dar remédio.

Nesse momento, uma das pessoas que escutava o relato acrescenta outra historia:
Rapaz, você está falando isso e me lembrou uma coisa. Uma pessoa de minha família bem
velhinha estava internada com pressão alta. Ela estava muito nervosa no hospital e o médico que a
estava atendendo ficava repetindo a mesma coisa o tempo todo, que ela deveria se acalmar, pois
isso iria prejudicar sua pressão. Eu cheguei lá, fui conversar com o médico, que me repetiu a
mesma coisa e fui falar com ela. É impressionante! Perguntei o que estava acontecendo e ela muito
sem jeito me disse que estava muito preocupada, pois tinha que trocar de roupa e colocar a
camisola e ela nunca tinha ficado assim na frente de outro homem a não ser seu falecido marido.
Você entende? O médico não fez uma pergunta simples. Sabe, a medicina deveria ser mais
humana. Uma das diferenças entre um médico e um xamã é que o xamã entende sobre as pessoas e
trata das pessoas.

Eu, que acompanhava a conversa de perto, me encontrei articulado a um coletivo em que

64
O sharing é um dos elementos constituintes do trabalho de Respiração Holotrópica, no qual as pessoas se reúnem para
compartilhar as experiências vividas durante as sessões holotrópicas. Esse termo será mais bem apresentado na sessão do presente
texto que trata do trabalho de Respiração Holotrópica.
65
Nome fictício de um dos participantes do grupo que não estava presente neste grupo.
66
Nome fictício do facilitador que auxiliou mais diretamente este participante do grupo em sua emergência espiritual.
70

circulavam proposições através de falas-ação67 onde emergem: a importância do trabalho de Grof


mediante sua capacidade de vincular religião e ciência de um modo não dogmático; o seu
trabalho com seriedade; seu modo de trabalhar-se pessoalmente se tornando uma pessoa
pacificada. Tais proposições convocam ao cenário mais falas-ação, que agora contam sobre a
experiência de dois integrantes que se articulam à abordagem de Grof como uma aliada tanto para
suas vivências quanto para questionar a psiquiatria e os médicos.
Articulando tais falas ao que é proposto pelo GTT no site de divulgação da formação,
destaco: a não exigência de uma formação prévia em Psicologia e a priorização da vocação e da
sensibilidade para se trabalhar com a Respiração Holotrópica. Como pesquisador-psicólogo esse
ponto me inquietou. Enfatizando que meu interesse esta voltado para o modo como percebi que a
prática terapêutica - oportunidades para curar - ocorre nesses grupos holotrópicos, pareceu-me
que, de acordo com a perspectiva holotrópica (e a Psicologia Transpessoal), a prática terapêutica
que conduz à autodescoberta, à transformação e à cura desloca a Psicologia de um lugar central.
O que quero dizer com isso? De alguma forma, a Psicologia através de suas proposições,
compartilha nesse coletivo holotrópico um mundo comum com outros elementos propositivos
que apareceram para mim no campo, tais como: o espiritual, a religião, o xamã (xamanismo).
Essa experiência no campo me colocou mais uma vez na encruzilhada entre a denúncia
crítica e a aceitação passiva. Como pesquisador-psicólogo era estranho ver a Psicologia
deslocada, mas ao mesmo tempo isso poderia ser compreendido como outra maneira (versão) de
encarar a prática terapêutica. A solução que me dei foi seguir com o campo no trabalho pelas
afetações e buscar acompanhar que elementos entravam em cena nesses grupos, engendrando
condições de possibilidade para que a prática terapêutica neles se fabricasse. Além disso, foi
importante levar em conta que mesmo sendo um pesquisador-psicólogo, eu não entrara em
campo para necessariamente falar da Psicologia, mas sim eu buscava me relacionar com os
acontecimentos do campo e a partir desse encontro estabelecer aquilo que seria estudado.
Seguindo com o campo, no sharing, percebi que tais oportunidades emergiam em um
cenário holotrópico em que diversos actantes circulavam e que os próprios efeitos dessas
articulações tinham a ver com “efeitos de cura”. Mas, como isso de daria em ação? A seguir,
apresentarei algumas situações em que actantes foram acompanhados através de suas associações

67
A fala aqui é tomada como uma ação propositiva produtora de efeitos e capaz de promover associações no coletivo.
71

e fizeram com que coletivos singulares ganhassem contornos sigulares. Assim, emergiram
situações onde os efeitos de cura holotrópicos se tornaram visíveis no rastro deixado pelas falas-
ação dos integrantes dos grupos.
Um dos elementos atuantes no campo foram as aulas68 holotrópicas. De maneira ampla
elas cumpriam a função de articular os integrantes dos grupos às proposições de Grof e não
somente pela exposição de conceitos teóricos. O que quero dizer com isso? Em particular, as
aulas eram divididas em dois momentos: um teórico e outro prático (ou vivencial), ou seja, os
conceitos teóricos também eram apresentados na conexão com diversos tipos de situações
experienciais, isso, inclusive, era sublinhado pelos facilitadores como algo essencial da
abordagem holotrópica:
[…] acredito que a melhor maneira de apresentar a teoria de Grof, sem ser algo cansativo e
somente intelectual é fazer com que ela seja vivenciada de modo mais integral, uma experiência.
Por isso dentro da abordagem holotrópica intercalamos aulas teóricas com momentos vivenciais,
facilitando que o aprendizado se dê de outras maneiras que não somente intelectualmente.

Com efeito, foi numa dessas situações vivencias produzidas durante uma das aulas que fui
convidado a fazer parte de um coletivo em que emergiu uma oportunidade para curar. No módulo
de junho de 2009 (Busca espiritual, apego e vício), enquanto era feita a apresentação dos aspectos
fundamentais da proposta holotrópica de trabalho com pessoas que experimentavam graves
condições de adição a drogas e álcool, o facilitador que coordenava o curso convidou os
integrantes do grupo a experienciarem, como atividade do módulo, o que ele chamava de Movie
Yoga. As aulas eram dadas principalmente pela manhã e pela noite. Naquela noite quem entraria
em ação seria o Movie Yoga. A atividade em questão foi descrita pelo facilitador como “um
método de acesso ao inconsciente que consistia em ver um filme e fazer uma leitura holotrópica
baseada nas três dimensões da psique (biográfico, perinatal e transpessoal)”. No Movie Yoga,
segundo o referido facilitador, “o filme é vivenciado por cada pessoa como uma meditação, uma
prática espiritual”. O princípio básico dessa atividade seria, em suas palavras,
Manter-se atento ao que é vivenciado ao assistir o filme entendendo que todo material que emerge
do contato com cada filme não é proveniente do filme e sim tem a ver com o que há dentro de cada
um que o assiste. O filme é uma espécie de isca para o inconsciente e o que se experimenta são as
projeções de cada pessoa. Muitas vezes vemos um filme e dizemos: que droga de filme, chorei o
tempo todo de tão angustiado, nunca mais o verei de novo. Colocamos a responsabilidade no
diretor, nos atores, em todo mundo menos em nós mesmos. A proposta aqui é outra: aspectos
ocultos de nós mesmos são ativados pelas imagens e coisas que aparecem nos filmes e podemos
levar em conta o potencial terapêutico de ampliação da consciência através da emergência desse
material. É como uma prática meditativa.

68
As aulas se mostrarm no campo tanto como um actante quanto como um cenário onde os elementos se articulavam.
72

A partir da fala propositiva do facilitador fiquei bastante interessado em experimentar o


Movie Yoga e acompanhar os efeitos que ele poderia produzir nos grupos. Minha curiosidade era
a de vê-lo em ação, já que se articulavam em sua fala elementos que apontavam para a prática
terapêutica via Movie Yoga. Ali se encontravam compartilhando um mesmo coletivo termos
como: prática meditativa, inconsciente e um material emergente que surge no contato entre o
filme e aquele que o assiste. Como todo esse processo ganharia seus contornos?
O grupo se reuniu no salão principal, no qual foram ajeitados os colchonetes e almofadas
e foi preparada uma grande cama coletiva onde todos se deitaram para assistir e viver o Movie
Yoga. Como fora combinado na aula, seria passado um filme sobre a temática do vício, chamado
Réquiem para um Sonho, produzido nos EUA em 2000. Em minha opinião, foi um filme de
embrulhar o estômago. Ele que narra de modo articulado a história de quatro pessoas: um rapaz
inteligente e sonhador e sua linda e rica namorada, ambos seriamente envolvidos com o uso de
heroína; seu melhor amigo negro e parceiro de vício e negócios com a droga; a mãe solitária e
vazia desse rapaz que faz uso excessivo de um coquetel para emagrecimento. Além disso, é claro,
inúmeros outros elementos tais como: heroína, prostituição, famílias sem diálogo, solidão,
loucura, preconceito, os programas de televisão estúpidos, estavam presentes no filme. A história
trata da morte dos sonhos diante da dura e impiedosa realidade do vício. Realmente um filme de
dar náuseas e não tenho como esconder que o Movie Yoga me afetou, o que pareceu também
ocorrer com os demais integrantes do grupo. Ficamos um tempo conversando - trocando nossas
impressões - sobre o filme após seu término e, de fato, como eu suspeitara, todos partilharam um
mal-estar em relação ao contato com ele.
No dia seguinte, voltamos ao salão após o café da manhã. O facilitador que propôs a
atividade recebeu a todos com um bom dia, perguntando sorrindo como fora a noite. Foi uma
pergunta que me sugeriu dois sentidos: um se referindo à noite de descanso e outro à noite com o
Movie Yoga. Muitos começaram a rir (provavelmente em reação ao bom dia ou sobre como fora
a noite) e a fazer comentários entre si. O facilitador aproveitou o momento e comunicou que
“quem desejasse poderia trazer ao grupo sua Yoga do filme”. Disse: “Vocês podem falar um
pouco, se for de seu interesse, sobre como foi a experiência e o que ela trouxe como elementos
para o seu autoconhecimento, mas, antes, vamos fazer uma meditação para que nos aquietemos e
fiquemos em contato conosco mesmos”. Ele tocou uma espécie de sino tibetano comumente
73

usado para meditação chamado ting sha69 e ficamos todos de olhos fechados e em silêncio. Após
alguns poucos minutos de silêncio no grupo ele tocou mais uma vez os sinos e em seguida foi
dado um tempo para que as pessoas que quisessem relatassem suas experiências antes de ser
retomada a aula.
Após um tempo, um dos participantes, que chamarei de Paulo, pede a palavra e faz um
relato emocionado sobre sua vida e sobre um episódio vivido há pouco tempo atrás, no qual
Paulo passara por um grande conflito emocional durante uma experiência em um grupo do Santo
Daime70.
Em tal experiência, ele relata que logo depois de ter participado de um workshop de fim
de semana de trabalho de Respiração Holotrópica, fora participar de uma sessão do Daime, num
local consagrado a essa finalidade. Algum tempo após ter tomado a mistura com a ayahuasca,
teve fortes experiências de componente emocional e sentiu intensa necessidade de expressá-las de
algum modo, de pôr para fora o que sentia. Deu um grito muito alto e logo em seguida uma das
pessoas que tomava conta do grupo do Daime se aproximou e pediu que ele não fizesse isso.
Segundo Paulo: “não ficou muito claro o que estava acontecendo, eu precisava me expressar e ele
me pediu para parar”. Ele explicou que nas sessões do Santo Daime há pessoas que ingerem a
ayahuasca e outras que circulam pelo local onde ocorre o encontro e cuidam para que tudo corra
de acordo com o que é proposto nas sessões.
Paulo segue contando que, durante sua experiência com a ayahuasca, “sentiu um grande
mal estar, pois necessitava expressar o que sentia”. E reafirma que buscara dizer isso para essa
pessoa que o abordou e “ela disse mais uma vez para que [ele] não fizesse isso, que não gritasse”.
Conforme explicita Paulo:

69
Correspondem a dois pequenos címbalos conectados por um cordão de couro de origem tibetana (mas são encontrados também
na Índia, Nepal, Turquia e China). Eles possuem algumas funções para os monges tibetanos: seu som acalma a mente e auxilia na
meditação; são usados como sinal de compaixão e generosidade em oferendas para acalmar os desejos de espíritos demoníacos
famintos e também ao término de massagens a fim de reestabelecer a ligação com o real, com o momento presente (Beer, 2004).
70
O movimento religioso do Santo Daime começou no interior da floresta amazônica, nas primeiras décadas do século XX, com o
neto de escravos Raimundo Irineu Serra. Foi ele que recebeu a revelação de uma doutrina de cunho cristão, a partir da bebida
Ayahuasca (vinho das almas), denominada Santo Daime. A bebida, de uso bastante difundido pelos povos indígenas da região, é
obtida pela coccão de duas plantas, o cipó Jagube (banesteriopsis caapi) e a folha Rainha (psicotrya viridis) ambas nativas da
floresta tropical. Ela tem propriedades enteógenas, isto é, produz uma expansão de consciência responsável pela experiência de
contato com a divindade interior, presente no próprio homem. Segundo o próprio Mestre Irineu, ele recebeu essa Doutrina através
de uma aparição de Nossa Senhora da Conceição, em uma das primeiras vezes que tomou a bebida, na região de Basiléia, Acre.
Os hinos do Mestre, que ele começou a receber a partir do começo da década de 30, trouxeram uma forte ênfase nos ensinamentos
cristãos e uma nova leitura dos Evangelhos à luz do Santo Daime, para afirmar, nos tempos de hoje, os mesmos princípios de
Amor, Caridade e Fraternidade humana.
74

Eu não sabia que não podia fazer isso lá, eu sentia necessidade de me expressar e pensava que
poderia fazer como no trabalho de Respiração Holotrópica. Fiquei confuso com isso. Conversei
com o responsável e disse que necessitava muito me expressar e acabei soltando mais um grito
forte. Depois que eu gritei, ele disse que tudo bem, que eu já havia feito, mas que eu não deveria
repetir mais isso. Sabe, eu me senti mal com isso, precisava pôr para fora.

Esse relato gerou um debate no grupo e um dos facilitadores que coordenavam o módulo
disse:
Realmente a perspectiva holotrópica e o Santo Daime não se excluem, mas são bem diferentes nas
suas finalidades. O Daime é um ritual religioso e as experiências que eles buscam são sempre
nesse fim. O trabalho de Respiração Holotrópica é uma prática terapêutica. Não há dúvida de que
muitas experiências, principalmente as do domínio transpessoal, apresentam um cunho místico e
religioso, no entanto não somos uma religião. Inclusive no Daime os próprios chamados, os hinos
cantados durante as sessões, são músicas com conteúdo religioso que ajudam a conduzir as
experiências dos que estão numa sessão do Daime nesse sentido religioso. Não digo com isso nada
contra o Daime, por favor, me entendam, mas é importante que as coisas fiquem claras, para que
situações como esta não ocorram. No trabalho de Respiração Holotrópica nós incentivamos a
expressão de tudo que seja necessário para a pessoa e estamos num set e setting terapêutico.

Em seguida Paulo disse: “Pois é, eu deveria ter me informado melhor e talvez não tivesse
feito uma coisa depois da outra”. Sobre isso responde o facilitador:
Não sei exatamente o que estava em jogo, mas é fundamental nos darmos um tempo para a
integração das experiências. Muitas vezes vivemos coisas muito fortes em trabalhos de Respiração
e pode-se levar muito tempo no processo de integração. É muito importante ter isso em mente.
Não buscamos as experiências pelas experiências. Terapeuticamente falando o trabalho de
integração é parte indissociável do trabalho na perspectiva holotrópica.

Nesse relato aparece um modo de falar sobre o trabalho de Respiração Holotrópica


através de um contraste em relação ao Santo Daime. A proposição do facilitador não era de
exclusão, mas de diferenciação e diziam respeito a um contexto, ou melhor, a um cenário de
proposições diversas. Como foi dito, na perspectiva holotrópica, há uma finalidade terapêutica, o
que é do campo religioso emerge como uma experiência possível e não como algo a ser buscado
em especial. Nesse cenário a expressão e a integração das experiências são elementos atuantes.
Na perspectiva holotrópica, há um conjunto de elementos que agenciam acontecimentos e geram
movimentos no grupo por conta de um “set e setting” como fala o facilitador que convoca a
noção de terapêutico.
Tomando o Movie Yoga como actante foi possível perceber a fabricação de um coletivo,
onde agiram: o tingh sha – atuando com seu som suave para acalmar a mente na meditação -; o
set e setting holotrópico - que se faz propositivo em termos diferentes que o Daime, pois convoca
a noção de terapêutico enquanto o outro articula as pessoas à noção de religioso – e o trabalho de
integração das experiências. Este último, nas palavras de um dos facilitadores é assim descrito:
Todas as experiências vividas em um trabalho de Respiração Holotrópica devem passar por um
longo processo de integração para que, de um modo duradouro, transformem a personalidade
75

daqueles que por elas passam, possibilitando muitas vezes a cura de problemas dos mais diversos.
Os modos de integração podem ser dos mais variados: através de dança, desenho, meditação, de
psicoterapia que inclua uma compreensão mais ampla da experiência humana. Todos temos um
mito mantenedor que sustenta nossa visão de mundo. A integração das experiências se dá
transformando-o ou fortalecendo-o.

Seguindo no rumo do Movie Yoga, ainda é Paulo quem tem a palavra. Após relatar a
história acima, ele se remete a outro processo que viveu, sem contar muitos detalhes, no qual,
após uma grave depressão teve que fazer uso, contra sua vontade, de medicamentos
antidepressivos. Sua dor era a de que após o uso de tais remédios ele havia perdido o contato com
suas emoções e se sentia vazio e distante de si mesmo. Ele diz: “São muitos anos assim. Eu tenho
a impressão de que estou preso e que não vou sair disso”. O relato era carregado de muito
sofrimento e mobilizou a todos. A tristeza dele ao falar era evidente e comovia o grupo. Muitas
pessoas vieram consolá-lo com palavras de reconhecimento e apoio. Enquanto Paulo falava, o
facilitador o escutou silenciosamente e com muita atenção e, após o término do relato tomou a
palavra nos seguintes termos (fazendo-me recordar a sua palestra sobre os passos iniciais do
tratamento para adições e vícios)71:
Todos nós podemos ver como isso tudo que você viveu te traz dor e sofrimento. Sem dúvida não
deve estar sendo fácil para você. Na sua fala você reconhece que não tem conseguido curar-se a si
mesmo. Nós somos impotentes para te curar apesar de nosso imenso desejo de que você
transforme essa situação em que vive. Mas nós acreditamos que há uma força maior que todos nós
que se encontra em algum lugar e que pode fazer isso por você.

Após sua fala, o facilitador pede permissão ao integrante do grupo em questão para que
nós do grupo fizéssemos junto com ele um pequeno ritual para ajudá-lo, no que ele consente.
Foi pedido, primeiro, para o participante deitar-se com as costas no chão e, em seguida,
que todos os demais integrantes do grupo o sustentassem em seus braços levantando-o do chão.
Antes de isso ocorrer, uma das pessoas do grupo pediu para que ele ficasse embaixo de uma viga
central da estrutura do telhado do salão, pois bem naquele local havia um cristal e isso ajudaria
no processo. Ninguém questionou a proposta, nem mesmo o rapaz envolvido no procedimento, e
assim, todos nós nos dirigimos para lá.
O participante que estava deitado em um colchonete foi levantado por todos do grupo
seguindo as instruções do facilitador. Enquanto lentamente íamos afastando-o do chão o
facilitador falava, de modo suave e cadenciado, mais ou menos nos seguintes termos:

71
O módulo em que se deu essa situação era sobre A busca espiritual, apego e vícios.
76

Estamos todos apoiando você nesse momento, não temos a chave da cura, mas podemos te ofertar
nossas esperanças e nosso forte desejo de que você encontre um caminho, uma resolução para o
que você tem vivido. Nosso desejo é o de que você possa encontrar seja no seu interior, seja em
alguma força maior do que você e do que todos nós essa energia de que você necessita para
romper as barreiras e transformar-se. Nós como grupo e também cada um de nós individualmente
desejamos que você transforme a sua condição atual e viva mais plenamente.

Nesse ponto, a fala-ação do facilitador é performada por todo o grupo através desse apoio
via muitas mãos. Emergem falas-ação que ofertam esperança, um forte desejo de que Paulo
encontre um caminho, seja no interior dele ou na conexão com a “força maior”, todos propondo o
rompimento de barreiras, a transformação, a cura.
Enquanto todos o sustentavam em seus braços alguns começaram a entoar cânticos
(alguns que se assemelhavam a mantras e outros eram canções que eu não conhecia), fazer
vocalizações, dizer palavras que me pareceram algumas em sânscrito e outras em alguma língua
indígena. Além disso, expressavam seu apoio por meio de palavras acolhedoras e compreensivas
em relação ao que ele nos expusera sobre suas dificuldades.
Após tudo isso - talvez o processo tenha durado cerca de quinze minutos – o facilitador
nos solicitou que, lentamente, fossemos trazendo Paulo de volta ao chão. Finalmente, ele
permaneceu deitado durante um tempo. Aos poucos, as pessoas foram se aproximando e lhe
dando abraços, o que, em determinado momento, fez com que ele chorasse. Ao final, o facilitador
pediu que ele, tomando o tempo que fosse necessário, se sentasse. Ele ficou ainda um tempo
deitado e após se sentar disse: “Obrigado!”, ao que o facilitador respondeu: “nós é que temos que
agradecer, pois todos nós fomos presenteados com essa experiência”.
Fiquei observando o cenário pós-ritual: o rosto das pessoas, suas expressões e
principalmente, Paulo, o integrante que fora o centro do processo. O Movie Yoga, agindo como
um conector associa-se a um ritual de grupo, a cânticos diversos e, nesse coletivo, emergindo um
tipo de interação entre as pessoas que se caracterizava por ações de apoio à experiência de um de
seus integrantes. Junto com isso, ganha contornos uma experiência vivida em grupo que se torna
um presente ofertado a todos. Após esse acontecimento no grupo, todos retomaram seus lugares e
foi dado seguimento à aula. Durante um pequeno intervalo para um lanche o que eu pensava que
tinha terminado continuou. Algumas pessoas foram conversar com Paulo, algumas seguiam
transmitindo palavras de incentivo, outras comentavam a respeito do relato de sua experiência,
outras, ainda, conectavam o que ele contara com experiências por elas vividas que pareciam ter
alguma similitude. Uma dessas intervenções eu pude acompanhar mais de perto.
77

Um dos participantes, Julio, falou com Paulo fazendo uma comparação entre duas
mandalas suas que estavam coladas com fita adesiva na parede do salão72: “rapaz você já mudou
muito, eu percebo isso, e olha só essas mandalas” e aponta para a parede onde estavam coladas as
referidas mandalas. “As duas são iguais, é o mesmo desenho, mas a segunda está colorida” segue
falando e ficaram ambos olhando as mandalas detidamente. “Você não acha que elas estão
mostrando que alguma coisa mudou?”, termina perguntando Julio. Paulo, que observava as
mandalas em silêncio, após uns segundos disse hesitante: “é, poder ser” e retornou ao seu silêncio
e à observação de suas mandalas.
Fiquei ao lado dele também olhando para a cena e de fato ambas as mandalas eram
idênticas, a não ser pelo fato de que a que fora feita em seu segundo trabalho de Respiração
Holotrópica, no presente módulo, era bem mais colorida. Ambas se caracterizavam por um
desenho circular, no qual, compondo esse círculo, havia faces monstruosas semelhantes às de
formigas - ou de outros insetos que não sei bem precisar - que apresentavam presas afiadas e
grandes olhos furiosos. Perguntei a Paulo sobre a mandala e ele me disse que representavam
angústia, sofrimento e impressão de uma situação sem saída, como se ele não pudesse escapar
daquele sofrimento.
Refletindo sobre o ocorrido, o ponto de partida de todo esse processo foi olhar para o
GTT como um actante, propositor de uma longa história da construção de uma versão terapêutica
em Psicologia e Psiquiatria (e, nesse sentido, propunha a articulação de vários outros elementos).
Segui os fios desse coletivo e fiz a primeira costura com mais um actante, as aulas, que por sua
vez articuladas ao GTT, puseram em cena a perspectiva holotrópica tendo o Movie Yoga como
actante. O cenário começa a se tornar mais complexo, pois mais actantes entram em ação e
contam, através de sua associação, como humanos podem ser propositivos: onde um grupo - já
holotrópico -, um ritual e elementos de outras culturas distantes falam através de vozes humanas
em forma de melodia. Além disso, um desenho se torna propositivo de uma transformação na
experiência de uma pessoa. Todos foram presenteados, todos foram afetados, cada um a seu
modo - assim finaliza um dos facilitadores atuantes nesse coletivo.
O que se tornou visível para mim foi a maneira pela qual diversos actantes entraram em

72
As mandalas são feitas por cada pessoa após a realização de uma sessão holotrópica. Elas são um modo de expressão e
integração das experiências vividas. Em alguns grupos as pessoas colam suas mandalas na parede do salão como uma maneira de,
como afirmam, “manter a energia do processo viva e representada ali no espaço”.
78

cena e produziram efeitos. Nessa singular relação, aparecem no grupo condições para a
fabricação de uma situação terapêutica, denominada nos termos holotrópicos de: autodescoberta,
transformação e cura. Em síntese, no encontro entre Paulo e o Movie Yoga, este último atua
propositivamente articulando Paulo à proposição de uma „abertura para que elementos pudessem
ser agregados à sua consciência‟. Paulo, articulado ao Movie Yoga, em sua fala-ação, põe em
cena sua história de vida, seus sofrimentos, suas impossibilidades e desejo de transformar sua
vida.
No trecho do campo trazido mais acima onde o facilitador oferece uma breve descrição do
que é o Movie Yoga ele usa o termo isca para o inconsciente. Pareceu-me interessante esse
termo, pois a isca, em uma de suas assunções, é um atrativo 73. Nesse caso, entendo que o Movie
Yoga cumpriu uma dupla função de isca: para Paulo, agiu como um atrativo, vinculando-o a
elementos para a sua transformação pessoal e para mim agiu como um conector que tornou
visível a composição de diversos elementos plenos de ação. Em outras palavras, o participante e
seu relato se tornam disponíveis para que o facilitador se torne agente e proponha um ritual, que,
por sua vez, convoca o grupo a fazer parte desse processo, oferecendo a oportunidade para que
essas pessoas reunidas se movimentem no cenário com seus cantos, abraços, falas, proposições.

3.2 A natureza em ação

Outro actante muito presente nos grupos holotrópicos foi a natureza74 e alguns de seus
elementos. Isso se mostra já de início quando Grof descreve o cenário ideal para a realização da
terapia psicodélica. Assim, tanto na Argentina quanto no Brasil, os grupos holotrópicos se
encontravam articulados a localidades com belas paisagens naturais.
Na Argentina o local onde se deram os grupos se chama Centro Ecológico Torre Blanca,
uma pousada afastada do centro de Buenos Aires com um visual muito singular: uma paisagem
plana, com bastante horizonte. Torre Blanca situa-se em uma região campestre muito tranqüila
chamada Capilla Del Señor, onde campos muito verdes, o chão de terra batida, a presença de

73
Dicionário Aurélio da língua portuguesa.
74
Tanto na terapia psicodélica como posteriormente na terapia holotrópica o contato dos participantes com cenários de beleza
natural, tais como, oceano, montanhas, lagos ou áreas rodeadas de mata era almejado, pois atuaria de modo positivo nas
experiências vividas pelas pessoas tanto em estados holotrópicos de consciência quanto durante a integração das experiências do
trabalho de Respiração Holotrópica (Grof, 2001, 2000).
79

cavalos, vacas e outros animais típicos de fazendas pintam uma paisagem que exala uma
atmosfera preguiçosa e convidativa ao descanso e refúgio da agitação urbana. Já o local em São
Paulo, chamado Espaço Natureza Arco-Íris, fica no bairro do Carmo na região de São Roque em
Vargem Grande Paulista e apresenta algumas características diferentes de Torre Blanca, pois é
uma região montanhosa de clima mais úmido. No entanto, a impressão de que eu chegara a um
local em que tudo no entorno parecia convidativo ao repouso e a quietude era muito semelhante.
Quando as pessoas que fazem parte da formação, ou estão interessadas, buscam
informações a respeito dos módulos, a divulgação do local é fornecida no próprio site da internet
do GTT. Isso não é casual, pelo contrário, é o indício de um processo em que um importante
componente do setting holotrópico entra em cena, a natureza. No site de Torre Blanca encontram-
se as seguintes informações:
El Centro Ecológico Torre Blanca fue especialmente creado para propiciar el autoconocimiento, la
contemplación, la meditación, la nutrición del cuerpo, del alma y de los sentidos, y también la
alegría y el gozo de expresarse en libertad y de integrarse con otros, en armonía con la naturaleza.
Torre Blanca invita a distenderse, a observar la naturaleza, a caminar y participar de las
actividades que se ofrecen, a nutrirse del aire puro y la alimentación natural, a hacer un paréntesis
en la vida cotidiana y dirigir la mirada hacia el interior para entrar en mayor contacto con la propia
esencia, punto de partida de toda transformación hacia una vida más plena, más sana e integrada.
Ubicado en Capilla del Señor, a 80 km de Buenos Aires, Torre Blanca ocupa un campo de 27
hectáreas, plenas de color y aire energizante, con una forestación de más de 1000 árboles, entre los
cuales hay frutales y especies autóctonas.
El lugar cuenta con características naturales que componen un entorno geográfico privilegiado.
Una de ellas es el Arroyo de La Cruz, que está bordeado por un bosque de sauces y acacias.
En el diseño y construcción del Centro Ecológico participaron profesionales expertos en
arquitectura geobiológica por lo que todo el conjunto es energéticamente armónico con la
naturaleza, con la esencia del individuo y con las actividades que se realizan en el lugar.
En el Centro Ecológico se desarrollan diversos programas de actividades tanto informativas como
vivenciales, destinadas al mejoramiento de la calidad de vida a través del cuidado del cuerpo, la
armonización energética y la relajación de la mente. Todos se basan en actividades sencillas que
pueden tener continuidad en la vida cotidiana. Armonía, revitalización, autoconocimiento y
calidad de vida, son conceptos esenciales en Torre Blanca.75

No site do Espaço Natureza Arco-Íris, assim são descritas as informações (que


inclusive conta com uma poesia escrita pela proprietária do espaço descrevendo o
local por outra via):
Bem-vindo ao Santuário Sagrado da Natureza, onde o Arco-Íris resplandece, colorindo o nosso
céu interior com estrelas e sóis.

ARCO-ÍRIS
Azul, verde, amarelo, laranja,
Todas as cores do arco-íris!
Pássaros coloridos, riachos cantantes,
Águas brotantes, cascatas barulhentas,

75
Optei por não traduzir o texto de apresentação para que o leitor pudesse fazer a conexão com ele assim como eu fiz. Mesmo que
cada um se afete de modos distintos, assim como ele esta apresentado cria uma proximidade entre o pesquisador e o leitor.
80

O cheiro da rosa,
O perfume das violetas azuis.

Quantas cores, quantas vidas!


Meu coração palpita feliz,
Quando dentro do arco-íris,
Flutuando nas nuvens,
Adentrando nas matas,
Projetando-se na imensidão azul do céu.

Vida...
Hei-la ! Cheia de emoção e beleza.
Podemos criar o nosso paraíso de arco-íris,
Esteja onde estiver,
Dentro do nosso Santuário
Sagrado do coração.

Cultivemos esse altar em homenagem ao Pai,


Em homenagem a nós mesmos,
Sua máxima expressão de amor!
Explosão de alegria e também de paz.
Seres eternos que somos,
Belezas infinitas do Criador,
Irmãos fraternos do amor,
Criadores e criaturas do Pai.

O Espaço Natureza Arco-Íris é composto de belas paisagens, paz, beleza e harmonia. É um convite
à interiorização, à busca do autoconhecimento, ao equilíbrio interior e à integração com a natureza.
Oferece toda a sua infra-estrutura para os Terapeutas Holísticos e grupos de pessoas. Aberto
também para palestras, retiros individuais e atividades de relaxamento e meditação.
Muito confortável e aconchegante: lareira para os dias mais frios, local para coffee breaks,
banheiros. Oferecemos refeições e coffee-breaks, com alimentação light bem natural. Os cardápios
são adequados a cada grupo de pessoas, mas sempre obedecendo a critérios nutricionais e de boa
saúde.
E ainda, colchonetes para vivências e relaxamentos, equipamentos auxiliares como vídeo,
retroprojetor e projetor de slides.
Na área externa, amplos gramados para danças, vivências e lazer, a mata virgem, o lago com
carpas, o local para fogueiras e a área interna para estacionar os carros...”
O Espaço Natureza Arco-Íris está localizado no município de São Roque, a apenas 40 Km de São
Paulo, num clima fresco de montanha, silencioso e cercado de belas paisagens. São 35.000 m2 de
amplos gramados, lago, mata virgem e jardins floridos”.

Na descrição de ambos os locais, enfatiza-se a natureza e a importância da relação com


ela, seja para o “autoconhecimento”, para a busca do “equilíbrio interior”, “contemplação” e
“meditação” para se alcançar um estado de “boa saúde”. A natureza, na beleza de suas paisagens
- em seus componentes variados de sons, cores e seres -, se vincula à produção de experiências de
paz e harmonia, oferecendo àqueles que com ela entram em contato emoções como a alegria; o
gozo de uma livre expressão e a nutrição do corpo, da alma e dos sentidos. Nessa proposta a
harmonia com a natureza é uma isca para a integração com a própria “essência” de cada um e
com os outros. O direcionamento para o site do local dá inicio a um diálogo implícito com a
perspectiva terapêutica da Respiração Holotrópica. Com efeito, levando em consideração o poder
propositivo da natureza nesses locais, não era pouco comum que, em vários momentos, os
81

integrantes do grupo se encontrassem se movimentando e se relacionando com essa natureza


circundante76.
Em Torre Blanca, por exemplo, articulei-me a uma situação muito singular onde a
natureza atuava de modo significativo. O actante que entraria em cena era uma linda paisagem
vespertina onde sobressaía o sol poente. Os passeios pela propriedade eram uma atividade
corriqueira e muito apreciada por boa parte dos integrantes dos grupos. Dentre tais atividades,
algumas pessoas se reuniam para contemplar o pôr do sol que era incrivelmente bonito. Minha
inclusão nesse cenário teve início no café da manhã de um dos módulos, quando escutei um
grupo de pessoas falando sobre esse evento. Acerquei-me dessas pessoas e acabamos todos
combinando de ir ao encontro do sol poente naquele mesmo dia. Ao cair da tarde, me dirigi, junto
com mais quatro pessoas para assistir à „puesta del sol‟ (como eles diziam) no horizonte de
Capilla Del Señor.
Para chegarmos ao local de destino, tínhamos que caminhar até um pedaço do terreno
repleto de pequenos arbustos onde havia uma estrutura de ferro em forma de torre na qual, em
seu cume, se situava a grande caixa d‟água do estabelecimento. Era a torre branca que dava nome
à pousada. Era uma subida cansativa, pois a torre era alta. Ao alcançarmos o nosso objetivo, nos
sentamos - pois havia uma plataforma que cincundava a caixa-d‟água - e nos pusemos a
conversar sobre assuntos variados: as atividades do grupo, sobre nós mesmos, sobre o local etc.
Estava ventando frio, no entanto, o sol estava acalentador e escutávamos uma diversidade de
pássaros cantando nos arbustos bem abaixo de nós, bem como na floresta, que se encontrava nos
limites da propriedade e que podia ser vista de onde estávamos.
No momento em que o sol começou a se aproximar do horizonte e a apresentar uma
coloração amarelo alaranjada, o céu se fez matizado de uma tonalidade púrpura muito bonita e
todos ficamos em silêncio contemplando o evento do alto da torre branca. A natureza articulada
performava o set e setting terapêutico tornando aquele momento não apenas a contemplação de
um pôr do sol, mas também uma oportunidade para curar e isso percebi durante a conversa com
os integrantes do grupo com quem eu compartilhava aquele acontecimento. Após a despedida do
sol, ficamos mais um tempo no alto da torre conversando e uma pessoa disse: “isso aqui é muito
bonito, sinto uma paz como se nada mais estivesse ocorrendo, só esse momento, até parece que

76
Ver ANEXO B.
82

não há problemas e que o mundo pode ser sempre assim”. A jovem que estava ao meu lado
tomou a palavra: “a gente quase não tem oportunidade no meio de tantas coisas pra fazer uma
parada e viver coisas assim, eu adoro o contato com a natureza, me reabastece”. Outro colega
disse: “eu estava grilado de subir, não gosto de alturas, mas valeu à pena. A vida é assim: a gente
enfrenta nossos medos e pode depois disso encontrar algo muito profundo e transformador. Isso
aqui é demais”. Embora os comentários iniciais tivessem um tom previsível diante do pôr do sol,
a conexão com a idéia de „se reabastecer‟, de „enfrentar‟ e de „transformação‟ davam àquele
momento uma inclinação diferente de somente uma contemplação da natureza. Algo mais era
proposto e eu percebia sua articulação com temas terapêuticos que vinham sendo tratados no
módulo. Naquele instante eu começava a me perguntar: como a natureza se articulava nas
oportunidades para curar?
De fato, eu, como pesquisador e experimentador, tive a impressão de que o tempo havia
se rendido àquele evento durante poucos minutos. Um vento leve e um pouco frio - estávamos no
outono - junto com o calor do sol no rosto e a bela paisagem que se pintava diante de meus olhos:
não há como negar que isso me afetou. Mas aquele momento compartilhado gerou também um
efeito que tinha a ver com as quatro pessoas presentes. Um dos integrantes disse: “sempre venho,
à tarde, aqui, para esse momento, vou chamar vocês amanhã”. Gostamos todos da idéia. Outro
integrante fez novo convite: “em outro dia vamos dar uma caminhada pelo terreno e ver uma
coisa muito linda que vi ontem”. Diante de nossa curiosidade e interjeições, ele continuou “acho
que isso deve acontecer sempre, mas não sei. Amanhã, então, veremos se vai acontecer de novo.
Vamos nos encontrar lá atrás do hexágono77, pois quando chega o final da tarde, muitos pássaros
passam voando, é incrível. São muitos, acho que eles vêm para dormir nas árvores que ficam
depois do rio”.
No dia seguinte, como combinado, fomos nós quatro, além de outros que se juntaram para
assistir a mais esse evento „da natureza‟. O céu apresentava um tom levemente róseo,
provavelmente por conta do sol - que agora não víamos, pois estávamos no solo e não na torre
branca - que realizava seu costumeiro mergulho no horizonte. Daquele ângulo do terreno era
possível divisar com um pouco mais de nitidez o paredão de árvores da floresta que cercava
Torre Blanca.

77
Salão principal em que ocorriam as aulas e as sessões holotrópicas em Torre Blanca.
83

Quando chegamos ficamos conversando por algum tempo, já que estávamos bastante
entretidos falando sobre o módulo, em particular, sobre a sessão holotrópica que ocorrera pela
manhã. Curiosamente, nessa sessão entrara um grande pássaro de uma espécie desconhecida para
mim e que fizera parte de todo o dia de atividades do grupo. Ficamos falando sobre esse episódio
e, como questionou um dos colegas do grupo, de “como o bicho deveria estar agora depois de ter
respirado?”. Rimos muito e uma pessoa disse: “ele teve uma baita experiência: estava numa
segunda matriz, trancafiado, exausto, com fome, com um monte de gente tentando pegar ele e
conseguiu escapar”. Pois é, acrescentou mais alguém: “nasceu: passou pela segunda, pela terceira
e pela quarta matrizes”. Depois das gargalhadas os comentários foram finalizados pela seguinte
frase: “eu até já virei bicho em algumas respirações, mas nunca havia respirado junto com um
bicho mesmo”. Logo depois disso escutamos alguém dizer: “olha!”. Alguns pássaros já
começavam a chegar, passando por nós, descrevendo seu curso até as árvores nas quais
pousavam. Até ali não era nada tão incomum, pois não foram muitos pássaros a voar. Porém com
o tempo foram chegando centenas de pássaros, tantos que uma pessoa comentou que eles
“escondiam o azul do céu”. Realmente era uma visão de prender a atenção. Eu me percebia
envolvido com o evento e observava o rosto das pessoas ao meu redor. Algumas sorriam, outras
faziam comentários sobre o que foi chamado de “espetáculo da natureza” por uma das pessoas.
Com efeito, eu me vi participar desse momento e ser atraído, junto com outros integrantes
do grupo, por esses acontecimentos que tinham a ver com a natureza em ação. Articulados a eles,
nós nos articulávamos uns aos outros e nessa composição de elementos fabricávamos uma forma
de oportunidade para curar. Nesse contexto, em particular, me alio à noção de afetação de Favret-
Saada (2005), pois eu estava diretamente envolvido e compartilhando a experiência com os
outros integrantes do grupo e experimentando os efeitos da natureza em ação. Na esteira desse
processo, eu percebia a natureza como um actante que oferecia chances para que pessoas
compartilhassem suas histórias pessoais, para que falas-ação das mais variadas emergissem, para
diversas expressões - até pássaros poderiam „respirar‟ e serem articulados aos conceitos
holotrópicos.
Refletindo sobre tal acontecimento entendi que a natureza nos grupos holotrópicos não
poderia ser tratada somente como uma bela paisagem, ou como belas árvores, um lindo lago,
pássaros, etc. Nesse coletivo, ela se tornava presente como um elemento ativo que, no arranjo do
set e setting terapêutico holotrópico, servia como isca, um conector, para o agenciamento de
84

experiências diversas. Nesse sentido, me pareceu que esse set e setting através da ação da
natureza ganhava dimensões que ultrapassavam o espaço do trabalho de Respiração Holotrópica,
pois incluía um cenário mais amplo.
Esses dois episódios, sem falar nas conversas enquanto tomávamos sol – uma pessoa num
desses banhos de sol coletivos disse: “deveríamos fazer isso todo dia, nos alimentarmos de
prana78” -, nos passeios seguindo o desenho do rio, que tomaram lugar em Torre Blanca, se
juntam a tantos outros momentos que também se passaram no Espaço natureza Arco-Íris. Em
outra ocasião, ocorrida em uma das aulas no módulo que acompanhei em junho de 2009 (Busca
espiritual, apego e vícios), mais uma vez a natureza entra em ação. Nessa situação, o facilitador
que ministrava a parte teórica do curso falou de como a perspectiva holotrópica se posicionava
em relação ao tratamento de adictos. No decorrer de sua fala um dos aspectos destacados por ele
me serviu de isca para acompanhar mais vínculos com as histórias anteriores. Ao falar sobre a
adaptação do método dos doze passos que é feita pela perspectiva holotrópica, ele diz que:
É fundamental que tenhamos em mente que o trabalho terapêutico holotrópico deve reconhecer
que as adições são causadas por certas dinâmicas psicológicas e emocionais que ficam melhor
entendidas se levamos em conta, além da dimensão biográfica, as dimensões perinatal e
transpessoal. O reconhecimento do papel da espiritualidade é requerido para a recuperação. Não
estamos falando de religião que é quando a inspiração se torna crença ou dogma. Espiritualidade é
uma experiência direta, espontânea, com o Sagrado dentro de nós. O processo se dá através da
reorganização radical da consciência, da destruição do ego desde o fundo de nosso ser. É preciso
saber que se está operando no mundo de modo egoísta e que esse ego não tem o poder para mudar
nosso comportamento. É essencial sair da prisão no falso eu, do ego encapsulado na pele, como
dizia Allan Watts: „o fundamento da recuperação e cura é o colapso profundo do ego‟.

Para se alcançar essa meta, ele relaciona os doze passos ao processo de uma prática
psicológica e espiritual diária em que o adicto se transforma de modo integral. Sobre essa
conexão entre o psicológico e o espiritual no processo terapêutico holotrópico, ele diz que

É preciso reconhecer que sou impotente para transformar minha vida desde o eu falso. Essa deve
ser uma profunda experiência de corpo e alma e cada pessoa tem que buscar consigo própria a fé
profunda de que existe um poder em algum lugar para mudar sua vida. É preciso buscar a fé de
que haja esse poder que seja maior que meu ego, que pode ser reconhecido tanto na natureza como
em outra pessoa. Pode ser encontrado em diversas fontes do divino, no nosso eu verdadeiro, ou
seja, em forças maiores que o ego. Temos que estabelecer uma conexão com esse poder, colocar
nosso ser nas mãos desse poder para que ele transforme nossas vidas.

Essa passagem do campo se articula a história do Movie Yoga: lá também se falava da


possibilidade de resolução de uma problemática vivida por alguém (no caso um dos integrantes

78
O prana é considerado na filosofia Vedanta a energia ou força vital que a tudo permeia e que sustenta a vida dos seres vivos. No
Ayurveda, o sol e a luz do sol são consideradas uma fonte de prana (King, 1999).
85

do grupo) através da conexão com uma força maior. Particularmente aqui, a natureza entra em
ação e é traduzida como um poder superior ao do falso ego. De acordo com isso, ela em ação,
propositivamente como uma força maior, pode engendrar condições para a transformação e cura.
Nesse cenário holotrópico que fala do terapêutico se associam pela fala-ação do facilitador
elementos como dinâmicas psicológicas, espiritualidade, religião, um ego falso, uma força maior,
sagrado, divino. Entendo que os elementos se distribuem nesse coletivo por suas ações e nesse
sentido as relações entre eles através de sua propositividade vão fabricando a prática terapêutica.
Seja como for que esses elementos aparecem no cenário terapêutico, ou num cenário de
proposições terapêuticas holotrópico, me pareceu que na associação entre os actantes poderia ser
visto também como as oportunidades para curar seriam operacionalizadas.
Diretamente ligada a esse episódio está outra história do campo na qual através do relato
de um dos participantes se torna visível um pouco desse engendramento de oportunidades para
curar. Durante uma das aulas foi proposta uma atividade de conexão com uma árvore. Essa
árvore cumpriria a função de um guia que estaria auxiliando as pessoas a encontrarem certas
respostas. O facilitador que ministrava a aula conta que há inúmeros contos de outras culturas
onde as árvores são consideradas sagradas, em suas palavras, “seres dotados de alma”.
Seguindo-se a essa apresentação, ele propõe um ritual da árvore, explicado como “uma
meditação, um exercício de introspecção e autoconhecimento”. Cada um deveria sair do salão e
caminhar pelo espaço verde ao redor e entrar em contato com uma árvore, escolhê-la e ficar perto
dela, ao seu lado. Segundo suas instruções, ao buscar essa conexão “deveríamos dar um tempo
com elas e escutar o que elas têm para nos dizer”. Diz que “pode não ocorrer nada, mas se algum
sortudo conseguir estabelecer um diálogo seria uma bênção”. Essa fala do facilitador me fez
recordar uma história contada por um dos integrantes de um dos grupos que acompanhei na
Argentina, na qual ele se referiu a povos da cultura ameríndia antiga. Segundo o referido
integrante,
No momento em os índios se dirigiam para a floresta para cortar árvores para construir suas casas,
seus barcos e outras coisas, era feito um pequeno ritual em que eles se aproximavam de uma
determinada árvore e lhe pediam, ao mesmo tempo, permissão e perdão, pois teriam que cortá-la.
Assim feito, o que acontecia é que todas as árvores ao redor desmaiavam e nesse momento estas e
não aquela que eles foram conversar eram cortadas.

O participante conclui sua fala dizendo que:


Para esses povos a árvore era um ser sagrado que lhes fornecia a madeira para que eles pudessem
construir suas casas e fazer fogo para aquecê-los e cozinhar seu alimento. Sabe, eles entendiam das
coisas: tudo era feito com o devido respeito por sua alma.
86

Dando seguimento ao ritual proposto, saímos todos do salão. Enquanto eu caminhava pelo
terreno do Espaço Natureza Arco-Íris para estabelecer meu contato com uma árvore pude
observar outras pessoas fazendo o mesmo. Vi uma pessoa abraçada a um enorme pinheiro, outra
com as mãos tocando um grande eucalipto, havia gente sentada em posição de meditação diante
de outras árvores. Cada um tomando seu tempo com sua árvore-guia.
No dia seguinte, na aula, foi feita uma breve meditação, somente para que as pessoas
ficassem em contato consigo mesmas e resgatassem suas experiências de contato com as árvores.
O facilitador ofereceu um tempo para os que desejassem contar como foi seu processo. Muitos
foram os relatos de experiências sobre o encontro com a árvore. Aqui segue o longo relato
fornecido a mim por um dos participantes em uma conversa que tivemos a sós:
Me encantei pela manhã com o cenário local. Fiquei observando grandes pinheiros, araucárias e
alguns eucaliptos muito altos. Depois que o facilitador falou sobre esse ritual de buscar nossas
raízes e irmos de encontro a uma árvore fiquei pensando em como me encanto por elas,
principalmente as de grande porte. Recordei que uma amiga de meus tempos de faculdade sempre
falava que as árvores lhe davam a impressão de sabedoria. Ela dizia que vivem muito tempo e
observam o mundo se transformando. São testemunhas vivas do passar do tempo e de suas
transformações. Nesse clima fui buscar uma árvore pelo terreno e vi outras pessoas ao lado de
árvores, sentadas meditando a seu lado, abraçadas a elas. Por incrível que pareça não foram as
grandes árvores que me atraíram fortemente, mas sim uma árvore de pequeno porte, talvez de uns
dois metros, com uma copa cheia que quase tocava o chão e que estava muito florida. Suas flores
eram pequenas e lembravam flores de pessegueiro só que um pouco maiores. Eu gostei que ela
estivesse num lugar mais reservado no terreno, não sei bem por que, talvez eu me sentisse um
pouco idiota e desajeitado nessa situação, mas certamente eu estava precisando ficar um pouco
quieto e pensar na minha vida, pois ela não anda fácil há um tempo, muita luta, muitas coisas
acontecendo de uma vez só. Até que um cantinho reservado vai bem (risos). Ao me aproximar
mais dela, me senti mais forte. Ando meio fechado e necessitando de mais interiorização. Estou
até meio tímido no grupo, meio fechado. Para mim talvez, no fundo, me abrir é sempre ou quase
sempre um esforço. Isso me faz pensar no paradoxo de algo que é um grande apego meu: o apego
ao olhar do outro e a sua função de valorização de mim, sempre preocupado com o julgamento
alheio a meu respeito. De certo modo, há uma autenticidade em não estar tão aberto nesse
momento (há um tempo que abri a lixeira e estou separando o que presta e o que não presta, tem
coisa que dá pra reciclar).
Uma coisa curiosa aconteceu ao me aproximar mais ainda da árvore, vi que suas lindas flores
estavam repletas de abelhas, o zumbido era grande. Fiquei com medo de me aproximar do tronco,
queria tocá-lo, pois os galhos estavam muito perto do chão, mas estava tudo molhado, pois havia
chovido. Resolvi entrar debaixo da árvore, mas foi como entrar dentro dela, pois a copa quase
tocava o chão. Cheguei perto do tronco, pus a mão nele e outra no meu coração. Senti a
dificuldade de estar aberto. Um monte de coisas na cabeça, preocupação com as abelhas, estava
frio, molhado, zum-zum-zum na cabeça. Fiquei pensando nas abelhas e escutando seus sons.
Lembrei que, na infância, vivia levando picada de abelhas, pois eu tinha uma piscina e sempre
havia uma se afogando, eu tentava salvá-las e de vez em quando levava uma ferroada. Depois de
um tempo o zunido das abelhas cessou, elas deviam ter partido. Dei-me conta que embaixo da
árvore me sentia protegido por seus galhos e folhas e nessa sensação de acolhimento, porque era
como se eu estivesse dentro dela (de seus galhos e folhas) por estar abaixo e perto do tronco,
comecei a rezar uma Ave Maria. Tive a impressão de que era uma árvore mulher e lembrei-me de
minhas esposa e filha, tive muita saudade e desejo de estar com elas. O feminino me encanta. Em
determinado momento, pedi permissão e a bênção de poder conversar com a árvore, é como se eu
estivesse ali há horas. Na minha cabeça veio uma idéia: FIQUE CONTIGO!
No momento em que eu escrevia minha experiência, fui me dando conta como estava difícil olhar
para mim mesmo, pois andei vendo muitas coisas feias em mim, coisas que reprovo e não gostaria
87

que fizessem parte de mim e ao lado da árvore me vinha à mente o convite para ficar comigo
mesmo. Lembrei do facilitador ao contar suas histórias passadas e como ele no processo de
tratamento de si mesmo teve momentos de muita raiva de si mesmo e vergonha pelo que tinha
feito a outras pessoas. Entendi a necessidade de perdoar-se a aceitar-se, eu preciso disso. Durante
o tempo que fiquei com a árvore meditando rolou muita coisa, senti meu peito arder e a respiração
e os batimentos cardíacos alterados, mais acelerados. Acho que estou me sensibilizando de novo;
talvez por isso esteja mais reservado. Ás vezes é bem cansativo saber que temos que arrumar
aquilo que desmoronou e reconstruir a casa, mas é um trabalho que vale a pena realizar com ou
sem cansaço.

Nesse relato, a natureza atua mais uma vez, porém em outros termos, como um elemento
atrativo que pode convocar outros elementos e gerar condições para levar uma pessoa que busca a
transformação a conectar-se com algo mais essencial e verdadeiro que uma falsa noção de si
mesmo, um ego falso. Essa natureza se tornou visível como um elemento atuante nos grupos
holotrópicos. Ela se torna presente na “puesta del sol”- que convida as pessoas a estarem juntas a
“sentirem paz” e a “perderem a noção de tempo” -, na revoada de centenas de pássaros - que
“escondem o azul do céu”. Essa natureza “alimenta o ser humano com sua sabedoria, o ajuda na
tomada de decisões” e se traduz de muitas formas, inclusive galgando seu espaço “ao lado do
Divino”. Essa natureza em suas formas variadas pode ser convocada por meio de rituais, em um
passeio, no resgate de contos de um povo distante, e pode agenciar oportunidades para curar em
cada uma dessas manifestações. Nesses termos ela é elemento atuante do set e setting terapêutico
holotrópico. Contudo, os contornos desse set e setting eram bastante maiores daqueles que eu
tinha imaginado. Em suma acompanhar as oportunidades para curar era também saber trabalhar
com uma natureza capaz de agenciar transformação e cura.

3.3 Os objetos e seres encantados: o encontro entre o sagrado e o terapêutico79

Seguindo os elementos do campo que poderiam se mostrar actantes propositivos de


oportunidades para curar, em minhas visitas ao diário de campo, me encontrei com um episódio
muito curioso ocorrido em um dos grupos na Argentina80. Antes de qualquer apresentação dos
participantes, dos coordenadores e mesmo do que seria desenvolvido durante os seis dias de
atividade, foi proposta uma espécie de cerimônia de abertura do trabalho que seria ali realizado.
Esse ritual se dava com alguns elementos específicos: alguns integrantes antigos do grupo
estavam a frente desse evento recitando umas palavras na língua mapuche, dialeto indígena da

79
Ver ANEXO C.
80
Módulo de Prática B: Música e transcendência, realizado em Buenos Aires em maio de 2008.
88

região dos Andes sul americanos, que eram traduzidos para que todos compreendessem o que era
dito. Era uma espécie de oração solicitando permissão para as quatro direções (Norte, Sul, Leste e
Oeste) e para seus respectivos guardiães animais, para que se pudesse realizar o trabalho
almejado, abrindo o espaço sagrado.
Uma das pessoas que guiava o processo tinha em mãos uma pequena garrafa transparente,
de proporções semelhantes àquelas de molho inglês, contendo um líquido de coloração
amarelada, de tom bem suave. Ao término da fala para cada direção, essa pessoa tomava um gole
do líquido e o cuspia no ambiente. Todos os participantes do grupo tinham que acompanhar a
movimentação realizada pelos guias, se colocando com o corpo voltado para a direção que era
venerada e convocada no momento. Ao final desse ritual o espaço sagrado estava aberto para o
início do trabalho. Curioso sobre esse acontecimento fui conversar com uma das integrantes do
grupo que estava conduzindo o ritual e ela me contou que “esse [era] um ritual de abertura do
espaço sagrado e sempre o usamos para dar início aos nossos trabalhos. Temos uma forte relação
com a cultura antiga andina, ela está nas raízes do nosso povo. Nos ligamos à sua sabedoria
espiritual antiga desse modo”.
Que composição singular: um ritual de uma cultura pré-industrial, a conexão com uma
sabedoria espiritual antiga, um humilde pedido de permissão a espíritos animais guardiães, um
espaço sagrado a ser aberto, um líquido em uma garrafa, um grupo de humanos, palavras mágicas
evocadoras. O que tais elementos criam quando assim reunidos? Na dúvida pensei ser melhor
escolher um desses elementos e seguir com ele o caminho de suas articulações. Em outro grupo
esbarrei novamente com a garrafinha e seu líquido amarelo claro. Dessa vez ela se encontrava
sob uma mesa no centro de uma sala onde os participantes do grupo se reuniam para conversas
informais, para relaxar, ou mesmo, para quem não queria sentar-se à mesa central para almoçar.
A pequena garrafa se encontrava acompanhada de outros objetos: incensos de tipos
diversos e um saquinho com uns pequenos pedaços de madeira eram os mais proeminentes. Ali
estavam todos à mostra, pois um dos integrantes do grupo - que chamarei de Pedro - os vendia
para quem se interessasse. Resolvi perguntar-lhe o que vinha a ser esse líquido na garrafinha. Ele
então me contou que se chamava “Florida” e que “era uma espécie de líquido especial, alcoólico,
feito artesanalmente com um concentrado de tinturas de raízes de cura e pétalas de diversas
flores”. Ele explicou que “A água Florida é muito utilizada por xamãs ameríndios (Peru, Chile,
etc.) para fins cerimoniais voltados à cura de males físicos e espirituais, limpeza espiritual e em
89

particular para afastar maus espíritos”. Pedro me disse também que ela “possui um teor alcoólico
muito alto e algumas pessoas, em suas farras da noite, se embebedavam com ela”. Começamos a
rir com essa parte de suas propriedades e com este seu possível modo de causar efeito nos
humanos. Ela poderia ser usada para a cura e para a farra, contextos muito distintos de
articulação.
Ainda conversando com Pedro, chamei a atenção para outro objeto na mesa, pois o vira
sendo usado nesse mesmo grupo: eram os pedaços de madeira no saquinho. Disse a Pedro que
alguns integrantes do grupo, no momento em que coordenavam sessões de respiração
holotrópica, por vezes, punham fogo em uma das extremidades da madeira, fazendo com que
esta, em brasa, exalasse uma fumaça de perfume bastante agradável. Perguntei-lhe o que eram
aqueles pauzinhos e qual a sua finalidade? Ele me disse que

Chama-se pau santo e vem de uma árvore de mesmo nome e é uma madeira sagrada. Ele é usado
como um incenso que além de ser relaxante e calmante, tinha como propriedade principal a
limpeza energética de ambientes e pessoas. Originalmente ele era utilizado por curandeiros em
rituais sagrados desde os tempos do xamanismo Inca para limpeza e cura e também para afastar
maus espíritos.

Comecei a seguir a Florida e agora já estava em contato com a prática de cura e limpeza
de xamãs em uma imprevista conexão entre culturas e épocas - passado e presente se articulando
de maneira inusitada – e, além disso, eu me deparava com a existência de maus espíritos. Jamais
me parecera tão apropriada a frase “não creio em bruxas, mas que elas existem, existem!”
Estes objetos encantados estavam diante de mim, seja em ação limpando o ambiente no
ritual de abertura ou no salão onde ocorriam as aulas e as sessões holotrópicas, ou seja, em sua
ação atrativa de articular os integrantes à suas proposições de limpeza e cura. Acompanhando os
traços desses actantes, me lembrei de uma situação que observei em outro módulo (setembro de
2007). Quando entrei no salão, antes de ser iniciada a sessão holotrópica do dia, vi um dos
integrantes do grupo com o pau santo já aceso em sua mão, silenciosamente balançando-o para
cima e para baixo e para o lado esquerdo e direito. Muito concentrado, fez isso durante vários
minutos enquanto caminhava por todo o salão, descrevendo uma rota circular, às vezes entrando
para o centro do círculo por ele descrito. Em determinados momentos, com um isqueiro, voltava
a pôr fogo na ponta do pau santo, que ficava mais incandescente e soltava mais fumaça exalando
concomitantemente mais perfume no ambiente. Outras vezes, ele simplesmente aproximava o pau
santo de sua boca e soprava forte, o que fazia com que a ponta incandescente ficasse mais rubra e
90

soltasse mais fumaça. Passado um tempo, outro integrante se aproximou e lhe perguntou: “isso é
pau santo?” “É”, respondeu o que incensava o ambiente. E o que você está fazendo? Como você
utiliza ele?” Sua pergunta foi assim respondida: “estou fazendo uma limpeza do salão para que
façamos o trabalho. Acendemos o pau santo e nos concentramos para que o que desejamos
aconteça”.
Na construção desse cenário em que se encontram associados à água Florida e o Pau
Santo, cada um deles age propositivamente criando condições para que se fabrique um cenário de
convites à cura. Seja através da limpeza dos ambientes ou do corpo, renovando as energias,
convoca os humanos que com ele compõem um mundo comum. Entendo desta feita, que tais
objetos encantados, entrando em cena nesse coletivo singular através de sua agência, tornam
visíveis as condições para que possam fabricar oportunidades para curar num coletivo onde o
terapêutico - como uma prática - se articula com elementos de um cenário de cura xamânico e
sagrado.
Seguindo na trilha dos rastros dos elementos xamânicos, mais dois actantes entram em
cena, o Amanita Muscaria e a rã Kambô, seres encantados que articulados ao contexto sagrado de
suas histórias produzem seus efeitos nos grupos holotrópicos. Duas situações do campo
trouxeram a baila a cenarização das oportunidades para curar de modo igualmente intrigante. Em
ambos os casos, assim como com os objetos encantados, vínculos se estabelecem com o mundo
do xamanismo, porém dessa vez o caminho das articulações rumará, através das historias do
campo, aos confins da Sibéria e para a distante Amazônia peruana. Não obstante serem histórias
contadas por pessoas do grupo considero mais uma vez que o humano aqui aparece como porta
voz dos efeitos produzidos por dois actantes muito pitorescos, quais sejam, o cogumelo sagrado
siberiano Amanita Muscaria - com seu efeito modificador da consciência - e uma rã das florestas
tropicais do sul do continente americano chamada phillomedusa bicolor - com seu veneno
altamente potente e também gerador de forte efeito na consciência humana.
O primeiro módulo que participei no Brasil, onde me encontrei com o Amanita muscaria,
se deu em junho de 2009. Havia pouco tempo que participara do módulo anterior, que ocorrera
um mês antes, meu último na Argentina e onde fui apresentado ao Kambô. Isso foi incomum,
pois, normalmente, eu vinha participando dos módulos tendo entre eles um intervalo de pelo
menos cinco a sete meses. Sempre que eu retornava dos módulos, permanecia por algum tempo
atordoado, muito reflexivo e voltado para o trabalho de campo. Foi justamente nesses módulos
91

que o processo de reorganização de minha relação com o campo e comigo mesmo no papel de
pesquisador ganhou forma.
No segundo dia do módulo Busca espiritual, adições e vícios em São Paulo (junho 2009)
eu ainda me sentia deslocado no grupo, buscando construir acesso tanto ao meu trabalho de
pesquisa, quanto ao contato com os demais participantes do grupo. No referido dia, ainda com
poucos vínculos, eu caminhava pelo terreno do Espaço Natureza Arco-Íris, tentando lidar com
essa minha solidão no campo e desfrutando também da paisagem bem convidativa a um passeio.
Em determinado momento, vi um pequeno grupo de pessoas reunidas em um pedaço do terreno
situado perto do lago e abaixo dos grandes pinheiros que contornavam o lago e a casa principal
do sítio. Para matar minha curiosidade e também meu estado solitário, me dirigi ao encontro
deles. Eram três pessoas, uma em pé ladeando as outras duas que estavam agachadas observando
atentamente alguma coisa colorida na grama, na orla do lago. Aproximando-me mais do local a
pessoa que estava em pé me chamou para que eu me juntasse a eles.
A cena era mais curiosa de perto: eles estavam muito animados fazendo comentários
carregados de surpresa observando o que agora eu conseguia distinguir como grandes cogumelos
vermelhos com pintinhas brancas em alto-relevo, que mais pareciam verrugas. Lembrei-me de
um desenho que assistira quando criança, os Smurfs, pois eles moravam em uma pequena vila
onde as casas eram cogumelos como este.
“Caramba, são grandes,” falei. “Cara isso aqui é incrível” disse o que estava de pé. “Eu
encontrei eles aqui na semana passada81 e fiquei muito impressionado. Todo mundo ficou. A
gente foi falar com a dona daqui e ela disse que são os cogumelos sagrados da Sibéria, os
Amanita muscaria” disse o que estava em pé, que continuou:
Eu fui perguntar para ela como eles apareceram aqui e ela me disse que de início não fazia a
menor idéia, mas que depois de pesquisar sobre eles começou a achar que eles deviam ter chegado
junto com os pinheiros que foram plantados aqui há muito tempo, na terra.

“Eles são muito bonitos e têm uns que são redondinhos e outros que parecem um prato
pequeno aberto” falei. “Acho que os que estão abertos já maduraram, a cor é diferente, os abertos
são alaranjados e os redondos são bem vermelhos, repara só” falou um dos que estavam
abaixados e acabara de se levantar para falar conosco. Muitas pessoas tiraram fotos dos belos

81
A formação pelo GTT reiniciou no Brasil em 2008, tendo sido seus dois primeiros módulos realizados em Goiânia (GO). A
formação no Brasil vem se dando no formato de dois módulos seguidos, sendo facultado às pessoas escolher se farão dois ou
apenas um deles. Por esse fato o participante se referiu a semana passada pois boa parte desse grupo estivera no módulo anterior
que se realizara na semana anterior à minha chegada.
92

fungos gigantes, inclusive eu. Algumas pessoas foram conversar com a dona do sítio, que deu
permissão para que alguns fossem colhidos. Um dia eu estava conversando com ela perguntando
sobre os Amanita e ela me disse que não tomara ele como chá - que era como os siberianos
faziam - mas que os comera após prepará-los do mesmo modo que se faz o cogumelo shitake. Ela
disse que “eles eram deliciosos”, porém que passou muito mal e vomitou tudo e não
recomendava que as pessoas os comessem, pois “provavelmente deveria haver um jeito especial
de prepará-los”.
Durante os dias do módulo os cogumelos sagrados participaram do grupo intensamente
através dos inúmeros comentários dos participantes. Alguns foram para o computador que havia
ao lado do salão de refeições para pesquisar na internet sobre o Amanita Muscaria. Eu acabei
fazendo o mesmo, porém após o término do módulo. A mobilização gerada no grupo pela
presença do Amanita Muscaria me chamou muito a atenção. Eu percebia que ele se vinculava
àquele grupo de um modo singular e que a sua presença era respeitada no âmbito de sua
sacralidade. Isso pode ser visto na seguinte fala de um dos participantes do grupo que pesquisou
sobre o cogumelo sagrado na internet:
Um famoso pesquisador, Gordon Wasson, sugere que ele é o Soma, a bebida sagrada que é
relatada nos Vedas. Os xamãs siberianos usavam o Amanita nos rituais sagrados por causa do seu
efeito alucinógeno e porque eles condiziam a uma sabedoria interior, para a ampliação da
consciência. Ele era usado nos rituais de cura e na iniciação dos xamãs para gerar cura e
possibilitar a visão interior. Eles preparavam o chá e muitas vezes davam os cogumelos para os
cervos comerem e esperavam que eles urinassem para já ter o chá pronto (risos). Parece que na
urina do cervo a concentração fica perfeita para gerar o efeito na consciência.

O Amanita Muscaria nesse contexto não é apenas um belo cogumelo que serve de isca
para encantar os humanos com sua beleza singular, no tom da fala desse integrante do grupo, o
cogumelo sagrado da Sibéria emergia ali entre nós como uma ferramenta para o
autoconhecimento, propondo “sabedoria e visão interior”, “ampliação da consciência” e “cura”.
Naquele grupo holotrópico ele agiu de forma atrativa como um elemento do sagrado e do
religioso, que cria laços com práticas rituais advindas do mundo xamânico. Meu interesse por tal
acontecimento fez com que eu pesquisasse mais sobre o Amanita e encontrasse informações a seu
respeito no livro do antropólogo e pesquisador de etnobotânica Peter Furst (1989), intitulado
Cogumelos Psicodélicos82. O autor conta muitas histórias sobre o Amanita, que vão desde sua

82
Livro traduzido para o português pela Nova Cultural em uma coleção chamada Tudo sobre drogas, que tinha o intuito de
abordar o tema das drogas de modo educativo para pais e jovens, dando orientações de forma “desapaixonada, sem moralismo,
sem hipocrisia” (Prefácio).
93

ligação com o mundo dos fungos, suas propriedades psicodélicas até seu caráter sagrado no
mundo xamânico.
As primeiras referências feitas ao Amanita Muscaria remontam ao período do Czar Pedro,
o grande, final do século XVII e início do XVIII, situando sua procedência na península de
Kamtchatka, no extremo oriente da Sibéria, local onde, desde o período mencionado acima,
inúmeros estrangeiros, inclusive antropólogos, relataram ter presenciado “pastores nômades de
renas e caçadores que, ingerindo cogumelos psicotrópicos, „viajavam‟ para outros mundos e
entravam em contato com espíritos. Os nativos consumiam um fungo que muitos acreditavam ser
mortalmente venenoso” (FURST, 1989, p. 31). Um dos importantes relatos foi feito em 1658 por
um prisioneiro de guerra polonês chamado Dluzyk, que vivera um tempo em uma tribo na Sibéria
Oriental (Ob-Ugrian) e registrava informações sobre os costumes desse povo sublinhando o fato
de que “os membros da tribo ficavam intoxicados com o muito apreciado Amanita muscaria”
(FURST, 1989, p.32).
Todavia, foi somente no início do século XX que antropólogos russos se lançaram ao
estudo das culturas tradicionais de tribos do extremo leste, na Sibéria, (essa região vinha sendo
colonizada pela Rússia desde meados do século XVII), em particular aquelas que usavam o
Amanita muscaria, dentre elas os Koryak de Kamtchatka e os Chukchi do Círculo Polar Ártico. O
contato com o estilo de vida e visão de mundo desses povos trouxe consigo histórias sobre a
origem do Amanita muscaria que está, inextricavelmente, associada à história sagrada desses
povos. Para os Koryak, os mitos de origem de seu povo, que remontam a um tempo mitológico
muito antigo onde o seu herói era o Grande Corvo (um poderoso ilusionista) se confundem com a
própria origem do Amanita muscaria. Em uma destas histórias assim é descrita a origem do
Amanita muscaria:
Um dia o Grande Corvo encontrou uma baleia que se aproximara demais da terra e ficara
encalhada na praia. O Grande Corvo tentou mandar a baleia de volta ao mar, mas descobriu que
sequer conseguia erguer o saco feito de fibras vegetais no qual o mamífero trazia suas provisões. O
Grande Corvo alçou vôo e apelou para os conselhos da grande divindade Vahiyinen (existência).
Vahiyinen lhe recomendou que fosse a um certo lugar perto do mar, onde encontraria seres
espirituais vermelhos, parecidos com pedúnculos, usando chapéus com pintas de cor branca – os
espíritos wa‟paq. Se comesse alguns deles ganharia forças para ajudar a baleia a voltar para o
fundo do mar.
O Grande Corvo se dirigiu a esse lugar onde deveria encontrar os wa‟paq, e lá Vahiyinen cuspiu
sobre a terra. Onde quer que caísse o cuspe, brotavam os cogumelos Amanita muscaria. Esses
eram os wa‟paq. Depois de comer alguns, o Grande Corvo sentiu-se tão forte e alegre que
começou a dançar.
E voltou para o lugar onde a baleia estava encalhada, ergueu o pesado saco feito de fibras vegetais,
como se não pesasse nada, e encaminhou a baleia para o mar. Então o grande Corvo disse: „Deixe
94

ficar os wa‟paq na terra para sempre, e deixe que meus filhos, o povo, vejam o que eles irão
mostrar-lhes‟. (FURST, 1989, p. 34-35).

Os Amanita muscaria cumprem um papel de alta relevância nessa cultura Koryak, sendo
utilizado por xamãs83 em rituais sagrados “para ganhar sabedoria e força sobrenaturais, para
invocar espíritos e para projetar suas almas para outros mundos” (FURST, 1989, p. 37). De um
modo geral, na cultura Koryak todo aquele que comesse os wa‟paq poderiam experimentar seu
poder sagrado e “veriam o futuro, a natureza, a origem de uma doença e o significado dos
sonhos” (p. 37), sendo, inclusive, capaz de mediante o êxtase pela ingestão dos wa‟paq, viajar ao
mundo dos mortos e obter notícias a respeito destes.
Os Amanita muscaria em torno do mundo possuem uma fama controvertida que vai desde
serem cogumelos venenosos (em culturas de raízes céltica, escandinava e outras) - que tem a
capacidade de causar verrugas, sendo também associado às bruxas e ao demônio (Europa Cristã)
– até, em determinadas culturas (Europa pré-cristã e no México e na América do Sul pré-
colombianos), serem articulados ao espírito da terra, com a fertilidade feminina, com a figura da
Deusa Mãe e sua capacidade de concepção. Além destas, ela ganha inúmeros outros apelidos, tais
como: „o cogumelo da boa sorte, da fortuna‟ (Alemanha), „cogumelo dos bobos‟ e „cogumelo dos
loucos‟ (Áustria e Alemanha), „cogumelo louco‟ (Hungria) (FURST, 1989).
Um aspecto que sublinho para minha pesquisa refere ao cenário no qual o Amanita
muscaria é utilizado originalmente: o contexto religioso e ritual. A partir desses contextos é
possível situar que efeitos são por ele produzidos no mundo holotrópico. Como dito
anteriormente as pessoas no grupo, principalmente as mais interessadas no cogumelo falavam do
Amanita com respeito e ligando-o à sacralidade de sua história. Furst (1989) faz a distinção entre
dois tipos de uso: o uso religioso (cerimonial e/ou sagrado) e o uso recreativo. Neste primeiro, o
contexto de uso poderia estar ligado à busca de informações relevantes para a tribo ou mesmo ao
tratamento de alguma enfermidade individual ou coletiva. Era usado para a iniciação de xamãs
para que estes compreendessem um pouco mais sobre os mistérios da vida. No que concerne ao
uso recreativo, o que se construíra fora outro cenário, principalmente situado na virada dos anos
sessenta para os setenta, onde jovens norte-americanos e europeus faziam longas peregrinações
até as tribos indígenas e seus cogumelos sagrados, “em busca da verdade que esperavam

83
Furst (1989) oferece a definição da palavra xamã em sua derivação da palavra saman da língua tungue siberiana, “que significa
adivinho, mágico, médico, criador do êxtase, especialista no sagrado e mediador entre o mundo humano e o sobrenatural” (p. 37).
95

encontrar nas visões provocadas pelo cogumelo” (p.29).84 Esse ponto me pareceu bastante
relevante, pois se tornou visível um modo possível de articular o Amanita muscaria à perspectiva
holotrópica e o ponto de contato tinha a ver com o próprio cenário em que esse actante produziria
efeitos interessantes para o mundo holotrópico. Nesse ponto começava a fabricação de um lugar
na realidade holotrópica para o Amanita muscaria num cenário que integrava a noção de sagrado
com a de terapêutico e onde, em contrapartida, não seriam possíveis articulações com o uso
recreativo.
Essa diferenciação feita por Furst (1989) também apareceu em vários momentos das
discussões feitas durante os módulos, principalmente no que tange ao trabalho terapêutico na
perspectiva holotrópica. Um aspecto que foi destacado muitas vezes é o que eles denominam de
“set e setting qualificado”. Nas palavras de um dos facilitadores,
Quando trabalhamos com a perspectiva holotrópica é fundamental termos em mente que estamos
sendo testemunhas de poderosos processos psico-espirituais e que as pessoas que estão vivendo
seus processos necessitam ser acompanhadas de modo a se sentirem seguras e à vontade para
viverem aquilo que precisam viver. O nosso papel como facilitadores é promover um set e um
setting qualificado, criando um espaço de segurança onde as pessoas poderão encontrar confiança
em si mesmas, em seus curadores internos e na nossa presença facilitadora.

Essa noção de que um set e um setting85 qualificado forneceria um contexto facilitador


para os processos experimentados pelas pessoas no trabalho holotrópico, como já foi dito, teve
como raiz o trabalho de Grof (2001; 1976) com a psicoterapia com LSD. Foi nessa fase de suas
pesquisas que ele forjou as bases de sua abordagem teórica e clínica, propondo um esquema
terapêutico que era composto pelos seguintes elementos: o LSD, a qualidade da relação entre o
terapeuta e o cliente, o papel do terapeuta e o set e o setting. Quando estudei sobre isso em minha
dissertação86, entendi que aquilo que ele chamava de terapêutico se referia a associação entre
esses quatro elementos, o que me fez concluir que na versão terapêutica de Grof, o efeito
terapêutico era resultado de um complexo cenário e não da ação propositiva isolada de cada uma
dessas variáveis.
Entendo que nos grupos holotrópicos as oportunidades para curar nele fabricadas,

84
Um ponto a ser destacado é que tanto Furst como outros pesquisadores interessados no estudo das substâncias alucinógenas – e
Grof é um destes - (sejam provenientes de drogas experimentais ou mesmo plantas e animais) apontam para esse período do
século XX, que tem sido denominado de contracultura (e que traz o uso recreativo, excessivo e indiscriminado dessas substâncias
como um de seus elementos marcantes) como o momento crucial em que essas substâncias foram relegadas a ilegalidade pelos
governos tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
85
Mantive durante o texto esses dois elementos (o set e o setting) sempre juntos, pois eles se encontraram indissociáveis nas falas
dos membros dos grupos holotrópicos por mim acompanhados.
86
O transpersonalismo de Stanislav Grof: a fabricação de uma versão em psicologia.
96

emergem nesse cenário terapêutico - e extrapolam as situações específicas do trabalho de


Respiração Holotrópica. Nesse sentido, no cenário de possibilidades de cura holotrópico, o
Amanita muscaria encontrou conexões como um elemento terapêutico ao ser associado às suas
raízes sagradas e não ao seu uso recreativo, já que, neste último, ele estaria se articulando a
outros elementos que não se tornavam interessantes para o mundo holotrópico. Com isso, o que
se tornou visível pela movimentação de tal actante no campo, era como se fazia possível também
a articulação entre o Amanita muscaria – e seu papel sagrado no mundo xamânico – com outros
elementos, tais como o LSD - e seu papel terapêutico no mundo holotrópico. Isso pode ser
depreendido da seguinte fala de um dos facilitadores ao abordar a temática do uso terapêutico de
substâncias alucinógenas:
Quem conhece o trabalho de Grof com o LSD sabe como ele e diversos pesquisadores, tanto da
Europa quantos dos Estados Unidos, não puderam levar adiante suas pesquisas terapêuticas por
causa do uso indevido dos alucinógenos em contextos não terapêuticos. Grof pesquisou a fundo o
potencial do LSD no contexto terapêutico além de outras substâncias expansoras da consciência
em seus contextos religiosos e rituais. Grof trabalhava em um set e um setting qualificado,
preparado para o tratamento dos pacientes. Muito do que começou a ser investigado e ganhar
corpo nas pesquisas clínicas e acadêmicas em psiquiatria e psicologia há mais de cinqüenta anos
atrás agora tem retornado de outra maneira. O MAPS87 está trabalhando intensamente nesse
sentido, realizando pesquisas e criando condições para o uso terapêutico do MDMA (ecstasy), da
ayahuasca, da psilocibina, da maconha. Em 2010 houve a liberação por parte do FDA 88 para
estudos com essas substâncias e nesses laboratórios clínicos está se buscando uma melhoria na
eficácia delas, com isso novas terapêuticas emergirão. O lema do programa do FDA é „Protegendo
e promovendo a sua saúde‟ e o uso dessas substâncias como drogas terapêuticas nos EUA é
exclusivo para tratamentos clínicos em set e settings qualificados.

Nesses termos o que parece fornecer os recursos para a saída do mundo proscrito e o
retorno ao mundo prescrito é um intenso trabalho de construção de acesso a um contexto
terapêutico, realizado pelos pesquisadores interessados em seus efeitos terapêuticos. No cenário
holotrópico, a entrada do Amanita muscaria-sagrado partilha um mundo comum com o LSD-
terapêutico, o MDMA-terapêutico, dentre outros, me ofertando a possibilidade de tornar visível
uma conexão - nesse set e setting holotrópico - entre mundos aparentemente dissociados, o
mundo ritual, religioso e o mundo terapêutico.
Entendo que há as similitudes entre tais substâncias (maconha, MDMA, LSD) e o

87
O MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) tem como missão: “1) tratar condições nas quais os
medicamentos convencionais oferecem alívio limitado – tais como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), dor,
dependência de drogas, ansiedade e depressão associadas com questões de fim de vida - através do desenvolvimento de programas
com o uso de drogas psicodélicas e maconha; 2) tratar milhares de pessoas através da construção de uma rede de clínicas onde os
tratamentos podem ser prestados e 3) educar o público honestamente sobre os riscos e benefícios dos psicodélicos e maconha.
88
United States Food and Drug Administration.
97

Amanita muscaria, que dizem respeito aos efeitos na consciência e que desta feita eles se tornam
interessantes para a perspectiva holotrópica. De fato eles ganham mobilidade e maior vivacidade
por poderem se encontrar bem vinculados em um coletivo em que possam se encontrar como
elementos terapêuticos. Desse modo, é nesse set e setting holotrópico que os acontecimentos
oferecerem possibilidades para que o engendramento de oportunidades para curar sejam
acompanhadas.
Em maio de 2009, no módulo sobre Emergências Espirituais em Buenos Aires,
acompanhei outra situação que também segue o rumo desses acontecimentos. Ela se refere à
experiência de um dos integrantes do grupo, que chamarei de Henrique. Ele conta sobre sua
viagem aos confins da Amazônia peruana no intuito de visitar uma tribo da região, os Matsés 89,
para participar de um ritual realizado por este povo desde tempos imemoriais, denominado de
Kambô90 (Kampu ou Acate). A história contada me fez estabelecer um vínculo entre ela e as
noções do uso de substâncias dentro de um contexto ritual, sagrado e terapêutico.
A história começa com todos os oito integrantes do grupo sentados, conversando
descontraidamente em um dos intervalos entre as aulas. Uma das pessoas do grupo se dirigiu à
Henrique dizendo que o percebia diferente e que soubera que ele passara um tempo viajando.
“Como foi a viagem? Você foi novamente ter com aquele xamã?”, inquiriu uma integrante do
grupo. Ela disse que “estava curiosa para saber se a viagem e seu estado „diferente‟ tinham algo
a ver com seu contato com o xamã boliviano com quem ele tem trabalhado e aprendido sobre o
xamanismo”. Essa pergunta foi o deflagrador de um curioso relato.
Uns meses antes do módulo, Henrique estivera passando um tempo em um pequeno
povoado indígena ribeirinho denominado Matsés. Ele conta que “os Matsés são uma tribo que
vive no desfiladeiro de Chobayacu, na selva, a uns dias de viagem da cidade de Iquitos, no
nascimento do rio amazonas”. A história é muito complexa, já que ele teve que viajar muitos dias
até chegar a esse povoado, inclusive tendo que seguir de bote por um extenso rio durante parte do
percurso. Ele conta como tomou contato com esse povo:
Um amigo meu me enviou um CD contendo um documentário sobre essa tribo amazônica. Eu o
assisti e soube automaticamente que queria ter a experiência com o Kambô. Desse modo dediquei

89
É possível encontrar mais informações sobre os Matses no site da internet: http://www.matses.info/.
90
O Kambô, Kampu ou Acate é ao mesmo tempo o nome dado por essa tribo amazônica para o ritual e para a rã, que possui o
nome científico de Phillomedusa bicolor. Sua secreção, que é o veneno-remédio usado no ritual também é conhecido por
populações não-indígenas de regiões próximas por „vacina-do-sapo‟ (BERNADE; SANTOS, 2009).
98

um bom tempo tentando encontrar um meio de chegar aos Matsés. Depois de vários meses o que
aconteceu foi que por acaso numa reunião de pessoas conhecidas dei de cara com um
representante deles e perguntei se poderia visitá-los em sua aldeia, coisa que ele aceitou. Foi uma
longa viagem de avião, hidroavião e bote até chegar ao meio do amazonas perto da fronteira entre
Peru e Brasil.

Ele relata que em alguns momentos se perguntava por que estava fazendo aquilo (e ria
junto com todos que o escutavam), pois estaria muito afastado de centros urbanos e não tinha a
menor idéia do que fazer caso houvesse algum problema, por exemplo, uma doença. De fato ele
diz que ficou doente por um mês, tendo febres recorrentes, mas que fora tratado com a medicina
dos Matsés e se recuperara.
Já na chegada ao povoado, teve uma forte experiência. Ele ficaria muito tempo no local e
teria que viver junto com uma família. Assim que teve contato com a família que o receberia
soube que há pouco tempo atrás um dos seus integrantes havia morrido, um bebê de poucos
meses de idade. “Isso foi extremamente constrangedor, pois tinha a impressão que não deveria
estar lá, que os incomodaria”, afirma. No entanto, no encontro com essas pessoas ele percebeu
que “elas, apesar do sofrimento, aceitavam o ocorrido”. Ele inicialmente reagiu com estranheza
em relação à aceitação da morte desse pequeno integrante da família e disse: “isso me fez pensar
em minha filha pequena que eu amo muito. Eu não conseguia imaginar a possibilidade de perdê-
la”. Quando teve uma oportunidade conversou sobre o ocorrido com sua família na tribo (os que
o receberam em sua casa). Segundo Henrique, “eles disseram para mim que a criança fora tratada
pelo seu curandeiro e fora feito tudo que tinha que ser feito”. Ele nos conta isso com admiração,
pois para ele “isso não era algo fácil de ser vivido”. Assim que foi feita uma pausa em seu relato
uma das pessoas do grupo lhe perguntou: “o que aconteceu com o neném?” “Não se sabe”,
respondeu Henrique, que segue dizendo: “Segundo me disseram o bebê estava bem. Aos poucos
foi parando de comer, a barriga foi inchando e então ele morreu”. A pessoa falou novamente:
“nossa, mas por que eles não procuraram um médico? Talvez o bebê sobrevivesse”, no que
Henrique devolveu: “eles fizeram isso, procuraram ajuda de seu pajé, era a autoridade espiritual
de lá. Com efeito, Henrique nos contou que tudo era muito diferente: “em particular a comida era
difícil de enfrentar. Eles comiam principalmente carne de macaco que era cozinhada na água sem
nenhum tempero”. Uma pessoa perguntou: “e você comia?” “Tinha que comer né!”, ele finaliza.
Nesse ponto ele nos dá mais detalhes sobre o ritual que participou, era um ritual que tinha
o nome de uma rã denominada pelos Matsés de Acate, porém, segundo ele: “o nome da rã usada
no ritual no Peru é Acate, mas no Brasil a conhecem como Kambô e seu nome científico é
99

Phillomedusa bicolor”. Ele segue contando-nos sua aventura:


Principalmente me chamou a atenção a medicina dos Matsés, o Kambô, utilizada por essa
comunidade. O que acontece é a extração de um veneno proveniente da exudação da phillomedusa
bicolor. Na comunidade em que estive eles utilizam esse remédio quando alguém está muito
cansado, deprimido ou não tem forças para realizar as tarefas cotidianas, como ir caçar, construir
uma casa, trabalhar a terra91, etc. Em especial também o usam quando um caçador não tem
pontaria; então o melhor caçador da comunidade mescla sua saliva com o veneno e o aplica à
pessoa afetada. Desta maneira, passam ao mesmo tempo a força da rã e a experiência do caçador –
isso ajuda o caçador a ter melhor pontaria.

Ele diz que


Os índios adentram na mata espessa no final da madrugada, ainda escuro, para buscar essa pequena
rã que costuma viver sob as folhas de grandes plantas que por sua vez, ficam abaixo das árvores.
Assim que pegam a rã e retiram seu veneno, o pajé o mistura com a sua saliva sobre um pequeno
pedaço de pau. Depois disso, são feitos pequenos ferimentos com um palito incandescente no peito
do índio e sobre o ferimento é colocado o veneno.

Ele fala que “a experiência é fortíssima, acompanhada de um mal estar com enjôo e
sudorese intensos, se tornado impossível conter o vômito que vem em profusão”. No final, depois
que passa a parte mais crítica, ele conta que “foi levado pelo pajé da tribo para se deitar e
descansar”. Ele se refere ao resultado da experiência como sendo “muito positivo”. Tinha a
impressão de “limpar [seu] corpo profundamente e se sentir mais equilibrado, mais calmo”. Uma
das pessoas que o escutava disse: “realmente vejo isso, teu olhar está mais limpo, você está
realmente diferente, mais sereno. Que lindo isso, isso é muito legal”.
Muito tempo depois desse episódio, perguntei-lhe, numa conversa pela internet92, que
relação ele entendia que pudesse existir entre essa sua experiência com o Kambô e a experiência
holotrópica, o que ele me responde nos seguintes termos:
Que relação? Só o fato de viajar a esse lugar ermo e perdido com essa gente para mim já é uma
grande experiência, forte como uma experiência holotrópica. A experiência com a rã tem algumas
similitudes com outras viagens enteógenas93 ou com plantas, que produzem também um estado
acrescentado de consciência e, como tal, também tem seus poderes curativos. Assim como outras
experiências com plantas ou com a holotrópica esses estados me ajudam no meu
autoconhecimento, a buscar o fundo de meu inconsciente e ver quais problemas devo solucionar
em minha vida.

A experiência de Henrique de fato mobilizou o grupo, o que pude perceber através de


diversos comentários no grupo. Sobre isso falou, na reunião final do módulo, um dos

91
Tal estado de debilidade geral é chamado pelos índios habitantes do Alto Juruá acreano de panema (De LIMA e LABATE,
2007).
92
Sigo em contato com alguns dos integrantes dos grupos holotrópicos tanto de São Paulo quanto de Buenos Aires via correio
eletrônico ou via facebook.
93
Derivada de uma palavra grega em desuso (da mesma raiz de entusiasmo), neologismo vindo do inglês (entheogen ou
entheogenic). O significado literal seria 'manifestação interior do divino'. Seu emprego é relativo à alteração da consciência
quando da ingestão de certas substâncias encontradas na natureza (Fonte: Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).
100

participantes:
Para mim foi muito especial tudo que vivemos aqui e fiquei muito feliz de estar com todos vocês e
muito feliz de testemunhar a transformação profunda vivida por Henrique. Não é sempre que
encontramos pessoas tão comprometidas com suas buscas espirituais. Queria te agradecer por
compartilhar isso conosco Henrique.

Com efeito, algo muito significativo fora vivido por Henrique e sua experiência com o
Kambô servia como isca para que demais integrantes a ele se articulassem através de diversas
falas-ação sobre o valor de uma transformação profunda em sua busca espiritual - algo que é
estimulante para quem testemunha sua aventura: seu olhar estava mais limpo, ele estava mais
sereno, Henrique limpara seu corpo profundamente e se sentia mais equilibrado, mais calmo. Em
suma, nesse grupo holotrópico, eu participara de uma composição muito singular que teve como
ponto de partida a conexão entre uma medicina especial - que se faz através de um ritual
específico e fundamental de um povo indígena distante - e Henrique - entregue à sua busca
espiritual, à sua aventura em busca de mais consciência de si mesmo, mergulhando em seu
inconsciente para encontrar soluções para sua vida.
No cenário dos grupos holotrópicos a oportunidade para curar oferecida pela experiência
de Henrique com o Kambô me fez ver mais uma vez a articulação entre o sagrado/ritual e o
terapêutico. Essa pequena rã, assim como o Amanita muscaria, não aparece no mundo
holotrópico desvinculada de sua história, de suas raízes e como pode ser depreendido das falas
dos participantes dos grupos, a articulação desses actantes no cenário holotrópico se deu através
de sua ligação com o mundo sagrado/ritual. Sendo assim, o kambô, o amanita muscaria, o pau
santo e a florida, junto com o ecstasy (MDMA), a cannabis e as outras substâncias - que se
tornam sagradas, medicinais e terapêuticas -, se articulam e são articuladas a inúmeros elementos
de modo a cenarizar oportunidades para curar, sob a forma de transformação, limpeza do corpo,
serenidade e autoconhecimento.

3.4 A sessão holotrópica

Gostaria de fazer uma distinção entre o trabalho de Respiração Holotrópica e as sessões


holotrópicas, que me ocorreu durante o exercício do trabalho de campo. Sob certo ângulo eles
poderiam ser sinônimos, porém, no campo compreendi que o primeiro se refere ao complexo
conjunto de elementos que compõe a perspectiva holotrópica. A sessão holotrópica foi entendida
101

como cada situação pontual em que o trabalho de Respiração Holotrópica entra em ação. Desta
feita na presente parte do texto destacarei os elementos que se tornaram visíveis, para mim, nas
sessões holotrópicas e mais adiante apresentarei algumas experiências acompanhadas em
diferentes sessões.
O trabalho de Respiração Holotrópica em ação pode ser mais um cenário para a
emergência de oportunidades para curar. Nesta etapa descrevo os elementos do set e o setting do
trabalho de Respiração Holotrópica, onde se articulam os salões das atividades, o enfoque teórico
da perspectiva holotrópica, o papel dos facilitadores, o relaxamento, a respiração, a música, o
trabalho corporal, as mandalas, o sharing e suas ações nas sessões holotrópicas.
Normalmente em cada módulo holotrópico quatro dos seis dias eram destinados ao
treinamento vivencial em sessões de trabalho de Respiração Holotrópica. Essa distribuição
variava por módulo, no entanto, era de costume que o primeiro dia fosse destinado à recepção do
grupo e à apresentação, na reunião de abertura, das atividades do módulo como um todo. Nesse
encontro inicial as pessoas participantes do grupo se apresentavam, contavam um pouco de suas
histórias pessoais, de sua conexão com a perspectiva holotrópica, bem como suas experiências
durante a formação. Do segundo ao penúltimo dia se dava a mescla entre as aulas e a prática do
trabalho de respiração holotrópica acrescido de atividades que, especificamente, ocorreram em
cada módulo. Em determinados módulos houve a proposição de meditações em grupo conduzidas
ou não, encontros do grupo na fogueira, Movie Yoga, mandala-horta94, sessões musicais com
cuencos de quartzo95, dentre outras. O último dia costumava ser dedicado ao encerramento das
atividades, onde cada integrante - incluindo os facilitadores - tinha um tempo maior para falar
sobre suas experiências, sobre as impressões a respeito do módulo, entre outras coisas.

94
Em um dos módulos que acompanhei no Brasil um dos integrantes propôs como atividade para o grupo a construção de uma
horta em forma de mandala. Ele junto com mais um dos integrantes do grupo construíram a estrutura da mandala-horta feita com
troncos de madeira perfazendo uma forma circular, onde cada integrante plantaria verduras e ervas medicinais para que estas
fossem usadas pelos donos do Espaço Natureza Arco-Íris.
95
Em três dos módulos na Argentina houve a presença de uma pessoa que era um dos profissionais certificados pelo GTT e que
fazia apresentações com cuencos de cristal de quartzo (que tinham a forma de vasilhas de vários tamanhos e emitia um som
incrivelmente relaxante e suave semelhante ao de copos de cristal) para o grupo. Essa atividade servia como uma espécie de
meditação conduzida pelos sons dos cuencos.
102

3.4.1 Os salões holotrópicos

As sessões de trabalho de Respiração Holotrópica são feitas em grupo no grande salão de


atividade96. Este salão é preparado para proporcionar conforto e segurança para os respirantes,
acompanhantes (sitters) e facilitadores. Neles havia um grande número de almofadas de
diferentes tamanhos, além de, pelo menos quatro grandes colchonetes para cada respirante.
As almofadas eram utilizadas para proteção dos respirantes (e de facilitadores e
acompanhantes) durante o trabalho de respiração holotrópica, pois não era pouco comum que
houvesse muita movimentação por parte dos respirantes, deitados ou em pé. Além disso, algumas
vezes os acompanhantes e facilitadores as utilizavam como um anteparo para evitar o contato
físico direto entre respirante e acompanhante, principalmente em áreas do corpo mais sensíveis e
mesmo nas partes íntimas do corpo. Elas eram também usadas pelos respirantes de modos
variados, seja para expressar raiva - através de socos e pontapés -, ou para expressar carinho -
através de abraços -, ou mesmo para se esconder no meio delas. Os colchonetes, por sua vez,
correspondiam ao espaço sagrado do respirante, sendo a parte do salão exclusiva de cada
respirante, além de servir como elemento de conforto e proteção para o mesmo. Como explicita
um dos facilitadores:
O colchonete delimita o espaço sagrado do respirante, local exclusivo dele, onde qualquer um tem
que pedir permissão a ele para entrar. É fundamental que esse espaço seja respeitado e honrado,
pois é nele que se darão as experiências profundas dessa pessoa. Tudo aquilo que nele é vivido é
sagrado e especial.

Do mesmo modo que as almofadas, às vezes eles se articulavam de maneiras muito


específicas ao trabalho de respiração de alguns respirantes: algumas pessoas se escondiam sob
eles, utilizavam-no como escudo, se enrolavam nele, usavam-no como se fora um barco ou
mesmo água, dentre outras possibilidades.
O salão também era equipado com uma aparelhagem de som potente com caixas de som
distribuídas por todo o espaço proporcionando um efeito de surround, chegando a ocupar, no
salão de Torre Blanca, até mesmo o teto. Havia muitas janelas, que em ambos os salões (Brasil e
Argentina) davam para a paisagem verde no ambiente externo, e que nos dias muito quentes eram

96
Ver ANEXO D.
103

abertas para ajudar na ventilação do ambiente. O tipo de construção desses salões era mais rústica
e contemplava tanto o concreto quanto madeira, principalmente no teto que era feito com grandes
troncos de árvores. Em particular em Torre Blanca o telhado era feito de palha (realmente como
uma oca) junto com trocos de madeira. Como as janelas eram grandes se tornava muito agradável
o visual, como se elas próprias fossem pinturas de paisagens naturais compondo a decoração dos
salões. Os dois salões contavam com aquecimento, sendo que em Torre Blanca era um aquecedor
elétrico e no Espaço Natureza Arco-Íris havia uma grande lareira.

3.4.2 A apresentação da perspectiva holotrópica

O trabalho de Respiração Holotrópica conta com inúmeros procedimentos preparatórios à


sessão propriamente dita. As pessoas que participavam dos módulos de um modo geral já
possuíam alguma experiência prévia tanto em sessões de Respiração Holotrópica quanto com a
perspectiva holotrópica de Grof. Seja através de fortes experiências pessoais - pessoas que
acessaram estados holotrópicos de consciência em sessões holotrópicas; ou através do uso de
substâncias como a ayahuasca, psicodélicos ou mesmo durante emergências espirituais - ou
mediante o interesse teórico e técnico, os integrantes do grupo já haviam sido atravessados pelos
pressupostos e princípios fundamentais da terapia holotrópica com maior ou menor rigor e
profundidade. Sem dúvida, isso se tornava mais presente por conta de se tratarem de módulos de
formação teórica e prática.
Sobre isso, conta um dos facilitadores durante uma das conversas que antecederam sua
aula:
Vocês que em breve estarão facilitando grupos, vão ter que se ocupar em algum momento de
preparar a apresentação teórica que antecede os wokshops de trabalho de Respiração. É preferível
e recomendável que isso seja feito para que as pessoas que participarão do trabalho de Respiração
Holotrópica possam ter a dimensão da gama de experiências que podem emergir. Cada um de
vocês vai encontrar seu modo de fazer isso, mas é preciso que as informações mais importantes
estejam presentes como, por exemplo, a história de Grof, a cartografia ampliada da psique, o
potencial de cura dos estados holotrópicos de consciência, além dos preparativos para uma sessão
holotrópica. É fundamental que seja distribuído o relatório médico para saber se as pessoas estão
aptas fisicamente e psicologicamente para o trabalho. É muito importante que os facilitadores
sejam pessoas com profundo conhecimento teórico e vivencial da perspectiva holotrópica.

O próprio Grof (1997) faz menção à importância de determinados procedimentos para as


sessões holotrópicas:
Durante a preparação que precede as sessões vivenciais, os clientes tomam contato com a
cartografia ampliada da psique, que inclui o nível biográfico-rememorativo, os elementos do
104

processo de morte e renascimento, e o espectro de experiências transpessoais. Deixa-se muito


claro que qualquer uma dessas experiências é absolutamente natural, e que elas ocorrem sob essas
circunstâncias em qualquer grupo de pessoas escolhidas de modo randômico. (p. 190).

Junto a isso são postos em cena outros elementos atuantes: as regras do trabalho de
respiração; a função da respiração, da música e do trabalho corporal; o papel dos facilitadores e
dos respirantes, dentre outros. Como já foi dito, nos módulos todas essas informações, muitas já
conhecidas pelos integrantes, circulavam nos grupos em situações das mais variadas: nas aulas,
durante a preparação para as sessões holotrópicas, em atividades específicas de cada módulo,
dentre outras. Dessa forma, os aspectos fundamentais da terapia holotrópica eram aprofundados
teórica e vivencialmente e entravam em ação de modos diversos em cada módulo.

3.4.3 A respiração

A respiração é um elemento que se encontra distribuído em todos os grupos holotrópicos.


Ela entra em ação nas sessões holotrópicas por meio da hiperventilação. Ela é considerada um
catalisador dos processos da consciência, permitindo o acesso aos estados holotrópicos e desta
feita dando oportunidade, como um elemento ativo, para que as pessoas se articulem a um
cenário propiciador de cura. Como afirma um facilitador:

A respiração forte e acelerada é um ativador dos processos inconscientes e expande nossa


consciência de modo que podemos adentrar territórios experienciais bem mais amplos do que o
que usualmente transitamos.

Dessa forma a respiração gera um estado de „ativação‟, que, nas palavras de um dos
integrantes do grupo, “faz a gente mergulhar fundo nas experiências e entrar em contato com
experiências incomuns”. Um dos facilitadores se refere a essa ativação como “o acesso a estados
holotrópicos de consciência” onde justamente, ainda em suas palavras, a “consciência se amplia e
podemos alcançar níveis mais elevados de compreensão”. Nesse sentido, nos grupos
holotrópicos, a respiração como hiperventilação propõe um “mergulho fundo”, “expande a
consciência”, oferece possibilidades para que aquele que com ela se articula crie conexões com
“territórios experienciais mais amplos”, já que sem ela, de acordo com outro facilitador “as
pessoas normalmente transitam em terrenos experienciais mais estreitos”.
Todavia no trabalho de campo, encontrei-me com a respiração como um actante em
facetas diferentes. Isso pode ser observado, por exemplo, no contexto do relaxamento (que será
105

apresentado mais adiante) e em particular em meditações em grupo. Uma situação específica


exemplifica uma das possíveis ações da respiração.
No início do módulo de Emergências Espirituais (Argentina, maio de 2009), realizou-se
um ritual de abertura no qual o facilitador que coordenava as atividades propôs uma meditação
visando o estabelecimento do que ele chamou de “conexão entre o céu e a terra”. Segundo ele,
Tudo está interligado e nós também, mas muitas vezes perdemos a noção disso. Vamos agora fazer
uma breve meditação onde vamos buscar essa conexão, nos ligando ao eixo que liga a terra ao céu
e que corresponde ao eixo que a tudo integra.

As instruções dadas foram para que todos se dessem as mãos e focassem sua atenção na
respiração, nos seguintes termos:
Vamos voltando nossa atenção para a respiração e vamos sentindo o ar entrando e saindo - ao
inspirarmos e expirarmos. Lentamente o ar entra e com ele vamos sendo preenchidos de energia e
de luz. Ao expirarmos nos liberamos de nossas cargas e nos esvaziamos daquilo que não
necessitamos carregar. Suavemente o ar entra e sai.

Ele convidou as pessoas a imaginarem uma luz na coluna, que subia iluminando cada
parte dela. Todos estavam sentados em círculo (esse grupo contava com a participação de dez
pessoas – dois facilitadores que coordenavam e oito formandos) na conhecida posição de lótus da
yoga, com as pernas cruzadas uma sobre a outra e com a coluna ereta. Essa “luz que passava pela
coluna”, sugeria o facilitador, representava “o eixo entre o céu e a terra” e na medida em que
ascendia por cada vértebra “iluminava” ao mesmo tempo as “diversas regiões do corpo” e
“integrava” aos poucos cada pessoa ao mundo através da conexão com o referido eixo.
Permanecemos durante cerca de dez minutos nesse processo. No decorrer do percurso, o
facilitador fornecia algumas sugestões e em determinado momento disse:
Em contato com essa luz que se expande por toda a nossa coluna vamos sentindo que estamos
entrando em sintonia com nós mesmos, com nosso eu mais profundo, com este espaço que
ocupamos fora de nós. A luz nos conecta com tudo, nos faz presentes desse momento, de nossa
relação com a terra, através de raízes que saem de nossos pés e mergulham profundamente na
terra, e nos liga ao céu, pois crescemos como uma árvore. Fazemos parte do eixo terra-céu, o eixo
do mundo como muitos povos de culturas e épocas distantes, somos parte disso.

A respiração nessa meditação se reveste de uma ação propositiva – diferente da


hiperventilação - que convida para um mesmo coletivo os corpos, a luz, o eixo que une a terra ao
céu. “Esse corpo que respira iluminado é o mundo, todas as coisas, ele se enraíza na terra e se
estende ao céu. Não há dentro, não há fora, mas sim há tudo-em-conexão”. Com efeito, esse seria
um modo em que eu diria que a respiração age pela suavidade: ela, como na fala-ação do
facilitador, age propondo um preenchimento de luz e energia; “suavemente o ar entra e sai” e
106

convida à “liberação de cargas e ao esvaziamento daquilo que não é mais necessário” e a partir
desse convite, esses elementos em conexão convidam os integrantes do grupo a “lançarem
vínculos com o eixo do mundo, a serem parte de tudo”. Isso torna visível como um mesmo
elemento pode se atuar de maneiras distintas num coletivo.

3.4.4 As duplas de trabalho: respirantes e acompanhantes e seus papeis específicos

Um ponto importante, que apenas mencionei acima é sobre o trabalho se dar em duplas,
ou seja, uma pessoa vai respirar (respirante) e outra acompanhar o processo do respirante. No dia
da sessão, ou, antes, em momentos dos mais variados, as pessoas se convidavam para
trabalharem juntas, para montarem a dupla do módulo. As pessoas faziam suas escolhas por
motivos dos mais distintos: por simpatia, por já se conhecerem e gostarem de trabalhar juntos ou
justamente por não terem trabalhado em dupla antes. Algumas pessoas gostavam de acompanhar
respirantes mais agitados, algumas pessoas se deixavam escolher e não faziam questão de
direcionar sua escolha.
Alguns elementos são ressaltados sobre essa relação entre respirante e acompanhante. Na
aula de um módulo, um dos facilitadores diz que:
Respirante e acompanhante devem fazer um acordo antes do início da sessão onde estabelecem o
modo como as coisas vão se dar entre eles. Tem gente que não gosta de receber toques corporais,
outras que gostam de ser lembradas a voltar a respirar quando param, há pessoas que possuem
pontos sensíveis no corpo por causa de acidentes ou cirurgias pregressas, tudo isso e qualquer
coisa importante tem que ser falada nesse momento. Nós, facilitadores, temos algumas
informações sobre a história de vida dos participantes, porém certos detalhes acabam por ser
contados na hora do acordo e o acompanhante desse modo poderá nos informar isso caso nos
aproximemos para, se necessário, intervir no processo. Estamos todos juntos numa grande e
integrada equipe.

Nesse sentido, há uma correlação entre o papel do acompanhante e do facilitador, que esta
ligada aos princípios que orientam a forma de intervir e compreender o processo vivido pelas
pessoas durante as sessões holotrópicas. Entretanto, uma diferença que se mostrou significativa,
nas palavras de um dos facilitadores, é o fato “do acompanhante [ser] responsável
primordialmente pela segurança e bem-estar de seu respirante. Ele tem que cuidar para que no
mínimo o respirante não se machuque”. O acompanhante é convidado a tomar seu lugar junto ao
respirante e estar atento e conectado, ao seu parceiro, de uma forma muito específica nos grupos
holotrópicos, pois deste é esperado, como afirma o facilitador:
107

Um estado de presença é fundamental. Além disso, é essencial se perguntar, caso haja dúvidas se
se deve intervir ou não no processo do respirante, se essa vontade é uma necessidade de fazer algo,
de ser necessário97, por parte do próprio acompanhante ou de fato uma necessidade do respirante.
Essa é uma questão muito delicada e complexa e devemos escutar a nossa intuição, nos
trabalharmos muito pessoalmente. Se você não souber o que fazer chame a gente (facilitadores) ou
não faça nada. É importante que a intervenção do acompanhante não seja uma invasão e esteja a
serviço do processo do respirante. Acima de tudo estejam presentes e observem os sinais dados
pelos respirantes. Não se deve estabelecer nenhum tipo de contato físico de cunho sexual; proteger
o respirante para que ele não se machuque, não machuque os outros e não infrinja danos ao
ambiente.

Um “estado de presença”, a “intuição em ação”, uma “intervenção que não é invasão”, um


“cuidado que protege”, todos esses elementos, no trabalho de Respiração Holotrópica, atuam no
sentido de fabricar uma realidade para o papel do acompanhante no cenário holotrópico. Aos
respirantes, por sua vez, é dito que, da mesma maneira que é falado para os acompanhantes,
Confiem no processo, no potencial dos estados holotrópicos e principalmente no curador interno.
É importante se entregar ao fluxo de experiências, estar aberto ao que emerge, deixar acontecer,
confiar no set e setting, de que aqui é um espaço seguro para que vocês se permitam ir fundo no
que estão vivendo. É recomendado que os respirantes permaneçam na sala e que vivam o processo
internamente, soltando as expectativas e a necessidade de controlar e conduzir o processo.

Nesse sentido, tanto respirante como acompanhante no trabalho de Respiração


Holotrópica em ação, devem “confiar no processo”, “no potencial dos estados holotrópicos” e no
“Curador interno”. Devem também “confiar no set e no setting”, na sua proposição de segurança
e seguir certas regras. Como um dos facilitadores explicita:
Os acompanhantes não devem sair antes que os respirantes sejam checados tanto por eles, quanto
pelos facilitadores. E como fazemos isso? Temos que conversar com o respirante levando o tempo
que for necessário e se certificar de a respiração dele está livre; se a energia move-se livremente no
corpo, sem bloqueio; se o seu corpo está sem dores, relativamente, pois há trabalhos com muita
demanda de movimentos e esforço físico e é normal que haja certo cansaço físico e uma dor que
seja experimentada pela pessoa como possível de se lidar com ela. A pessoa tem que sentir que
este estado é administrável e que com os recursos de que ela dispõe é possível lidar com o que ela
está sentindo. É importante que o acompanhante observe isso. Nada deve estar num grau
dramático e excessivo, mas sim possível de ser sustentado pela pessoa. A mente deve estar calma e
clara, isto é, funcionando relativamente de modo não confuso ou eufórico.

Nessa citação, a partir da articulação com tais regras - referentes ao papel do


acompanhante holotrópico - é possível mais uma vez observar como se fabrica um
acompanhante-em-ação em um trabalho de Respiração Holotrópica. Diversas falas-ação
articulam as pessoas no grupo holotrópico ao papel de acompanhante, propondo, dentre outras
coisas: a confiança no set e setting, no curador interno, em um processo que está para além de sua
capacidade de condução. Sobre isso, muitas vezes, pessoas que passavam pela experiência do

97
A essa situação eles dão o nome de need to be needed (necessidade de ser necessário) por parte do acompanhante e que deve ser
interiorizada ao invés de atuada.
108

acompanhamento nas sessões holotrópicas comentavam sobre o que por elas fora vivido: “Às
vezes o acompanhamento é uma experiência muito mais forte do que respirar. A gente de um
modo geral não sabe o que está acontecendo e temos que nos manter concentrados e atentos ao
respirante”. Outra pessoa relata:
O Grof conta uma história de uma moça que não se conteve diante das expressões de sofrimento
do seu respirante e o tomou nos braços como se fosse sua mãe. O cara no sharing disse que na sua
experiência era um líder Viking guiando uma batalha e de repente se viu sendo ninado nos braços
da acompanhante. É difícil saber o que temos que fazer. Temos que estar atentos a nós mesmos
também, pois as vivências dos respirantes mexem muito com a gente que está acompanhando.

Conforme isso há um modo muito específico de atuar nesse cenário holotrópico e


facilitadores, acompanhantes e respirantes vão sendo fabricados mediante sua circulação nesse
mundo.

3.4.5 O Curador Interno

Outro elemento muito presente nos grupos holotrópicos é o Curado interno. Com efeito,
os rastros por ele deixados no campo foram tantos que se mostrou complexo o trabalho de
ordenação de suas ações. Ele aparece em diversas situações e, de um modo geral, sua ação era a
de uma espécie de guia que orientava o processo de transformação e cura dentro da perspectiva
holotrópica. Nas palavras de um dos facilitadores, “no trabalho de Respiração Holotrópica busca-
se o foco de dentro para fora, a introspecção, e com isso o que se almeja é estabelecer contato
com o Curador interno”. Outro facilitador explicita que “através da conexão com o Curador
interno, vivendo o processo holotrópico internamente e confiando em sua ação, devemos soltar as
expectativas e a necessidade de controlar e conduzir o processo”.
A confiança no „poder‟ desse actante vincula tanto respirantes quanto acompanhantes e
mesmo facilitadores a uma maneira de criar essa realidade holotrópica nos grupos, pois “é ele que
conduz o processo e não nós”, “é ele que esta impulsionando o processo e é ele que sabe o que
tem que ser”. Desse modo, um dos facilitadores afirma que

Todos nós temos que nos manter abertos para o que nos traz o Curador interno, pois tudo que vier
a acontecer pode ser um meio através do qual ele nos oferece sinais, respostas, informações
preciosas para nosso aprendizado, para nos trabalharmos com mais consciência.

Durante o presente texto ele aparece agindo nos grupos através da fala de facilitadores e
integrantes, em aulas holotrópicas, no trabalho corporal, no sharing e em muitos outros
109

momentos. Um aspecto singular desse actante foi o modo como ele atuou criando condições de
possibilidade para que oportunidades para curar emergissem nos grupos holotrópicos. Ou seja,
articulando-se a ele, uma pessoa pode “soltar a expectativas”, “mais consciência pode advir na
relação com ele”, pois “sinais são ofertados”, junto com “respostas e informações preciosas”. Em
uma das aulas, um dos facilitadores ao se referir ao trabalho com dependentes químicos a partir
da perspectiva holotrópica, fala nos seguintes termos:

Quando trabalhamos com pessoas em graus acentuados de dependência química devemos ter em
mente que essas pessoas num sentido profundo e espiritual têm sede de plenitude. Um dos passos
fundamentais para transformar vício em busca espiritual é compreendermos que somos impotentes
desde nosso falso ego para transformar nossas vidas. É preciso que confiemos em uma força
superior, maior do que nossa estreita compreensão da vida e essa força pode estar fora de nós mas
também dentro de nós como uma centelha divina que nos move em direção à inteireza. O Curador
interno é essa força no interior de nós mesmos que nos guia para um estado de maior consciência e
em cada sinal por ele dado, seja um sintoma, um sonho, um evento qualquer da vida, temos uma
oportunidade para a cura.

De acordo com isso, o Curador interno, no cenário holotrópico, “trabalha dentro de cada
pessoa” e também oferecendo “sinais através de eventos da vida”. Todavia, essa relação
observada a partir da ação do Curador interno se torna muito curiosa: ele está dentro, porém não é
a pessoa. Ele às vezes age fora para que a pessoa tome consciência de algo importante para sua
transformação e cura. Nesses termos, sua atuação é complexa e ele me pareceu cumprir um
importante papel como conector entre os elementos desse cenário, seja como “guia” - uma
espécie de “sábio” -, seja como uma “centelha divina”, trazendo para esse coletivo essa noção de
“força maior”. Através de sua ação se engendra uma significativa transformação: “vício se torna
busca espiritual”, de um “falso ego emerge maior consciência”, possibilitando caminhos de
articulações que dão chance para que mais oportunidades para curar emerjam.

3.4.6 O papel do facilitador

Juntando-se aos actantes acima citados emerge o facilitador e seu papel nos grupos
holotrópicos. De acordo com um dos facilitadores, ao explicitar sua função no trabalho de
Respiração holotrópica, esta seria a de
[...] zelar pelo bom andamento da sessão como um todo, confiar no curador interno, criar um
espaço seguro, espiritual, físico, emocional. Deve-se confiar que o que emerge vem do curador
interno de cada pessoa e ter em mente que a cura vem de modo homeopático através da
intensificação dos sintomas. A gente tem que aprender a fazer sem fazer, aprender a confiar no
poder curativo desse trabalho. A gente, como facilitadores, e aí incluo também os acompanhantes,
deve respeitar o processo profundo que cada pessoa está vivendo, muitas vezes a gente não faz a
110

menor idéia do que está acontecendo e devemos apoiar com cuidado e delicadeza a experiência do
respirante.

Dentre outras coisas o facilitador deve aprender a “fazer sem fazer” e “confiar no poder
curativo do trabalho de Respiração Holotrópica”. Ele parece ocupar ao mesmo tempo um lugar de
saber e não saber, no entanto ele me pareceu propositivo98; ele atua oferecendo uma noção de
“cura”; ele afeta pelo “respeito, pelo cuidado, pela delicadeza”. Por outro lado ele convoca a ação
do Curador interno depositando nele a capacidade de ação curadora. Seguindo na esteira desse
processo, um dos facilitadores fala em outro grupo:
Somos seres espirituais vivendo uma vida material e não o contrário. As transformações profundas
da consciência de uma pessoa são muitas vezes misteriosas e são percebidas por mudanças de
comportamento e visão de mundo e às vezes se leva tempo para identificar o processo que levou a
isso. No trabalho de Respiração é como se ativássemos mini crises durante nossas vivências que
terão um fechamento aqui mesmo no grupo. Nossa função como facilitadores é cooperar com esse
processo, sem julgamento, sem crítica, apoiando, o que ajuda também no processo de integração
das experiências de cada pessoa.

Nesse sentido, o facilitador agencia cooperação, uma compreensão sem julgamento e


crítica, pois não é ele que “conduz o processo”, “não é ele que sabe o que realmente deve ser
compreendido” e “apoiando o processo vivido pelas pessoas no trabalho de Respiração
Holotrópica as auxilia na integração de suas experiências”. Outro facilitador traz mais elementos
para compor esse cenário nos seguintes termos:
Os estados holotrópicos de consciência têm um potencial heurístico 99, muita coisa se pode
aprender através deles, da direção dada pelo curador interno. Não somos nós que orientamos o
processo, cada pessoa seguindo o curador interno vai chegar à sua própria compreensão, cada um
encontra seu caminho, é preciso confiar, se entregar. Nós facilitadores somos um ajudante desse
processo de cura e transformação e não os guias, isso é fundamental.

“Ajudantes no processo de transformação”, articulados ao Curador interno, aos estados


holotrópicos de consciência eles afirmam seu papel no cenário holotrópico. Na esteira desse
processo, alguns exemplos são dados de como intervir de acordo com essa função de facilitador,
tais como:
A ajuda por parte do facilitador sempre deve estar associada àquilo que emerge na experiência do
respirante. Nesse sentido é que se deve facilitar e não dar o rumo. Quando estamos no trabalho, às
vezes tocamos de leve o respirante sem pressionar e esperamos algum sinal do respirante caso
deseje ajuda. Deve-se estar atento ao espaço sagrado do respirante, que é ele quem permite a
entrada de qualquer pessoa em seu espaço, salvo que as regras de segurança sejam quebradas.
Dependendo, também se pode conversar com o respirante para saber como ele está, se ele
necessita de algo por parte dos que acompanham ou facilitam. Normalmente não se trabalha ou

98
Aqui não quero dizer que ele não é o que é para os holotrópicos – não quero trabalhar com uma visão que se impõe de fora -,
mas sim levar em conta sua possível propositividade nos diversos cenários em que entra em ação.
99
O termo heurístico foi definido em uma das aulas do módulo de Psicopatologia através da apresentação em vídeo de uma
palestra do Grof em Goiânia em setembro do ano 2000. Ele se refere à heurística e diz respeito ao processo pedagógico (método
de aprendizagem) de encaminhar o aluno a descobrir por si mesmo a verdade.
111

intervém no processo de um respirante antes da primeira hora da sessão, a não ser que seja
necessário, isso é uma regra básica. É fundamental que cada pessoa encontre seu modo de
expressão e não somos nós que devemos dizer para onde ele deve ir.

Os elementos citados acima pareceram propositivos cada um a seu modo: o espaço físico
que fornece conforto e bem-estar, a preparação prévia que articula os grupos ao mundo de
possibilidades da perspectiva holotrópica, a presença dos acompanhantes e facilitadores que se
dedicam a propiciar um ambiente relacional de segurança e proteção. Através de sua associação
os efeitos são produzidos nos grupos holotrópicos e inúmeras experiências ganham forma e
movimento.

3.4.7 A música

A música100 é um dos elementos que atua de modo crucial no trabalho de Respiração


Holotrópica, e por conta disso há um módulo inteiramente dedicado ao tema da música
holotrópica, intitulado Música e transcendência. Nele as atividades contemplavam o modelo
empregado pelo GTT para pesquisar e montar sets de música holotrópica (trilha sonora
característica dos trabalhos de respiração holotrópica) para os workshops.
O modelo atual de elaboração de um set holotrópico se divide em três partes,
denominadas Hora 1 (drive), músicas com ritmos fortes, variadas percussões, que passam para
percussão com orquestra, melodia, vozes; Hora 2 (épica), as chamadas músicas de viagem, que
podem ter uma qualidade similar às de transição do início do set, ou seja: emoção e melodia e
Hora 3 (integrativa), músicas meditativas que gradualmente vão se tornando mais calmas e
suaves, sendo consideradas músicas de resolução. Cada parte tem, mais ou menos, uma hora de
duração.
Nas palavras da facilitadora que coordenava o módulo,
Na montagem do set é importante atentar para que no início haja pelo menos duas músicas de
abertura, que já tenham um ritmo forte, porém com toques emotivos e melódios para não
pressionar demais os respirantes. As músicas de abertura têm a função de promover o crescimento
gradual, suave ao princípio para aprofundar posteriormente a respiração. Na primeira hora e meia
do set deverão estar as músicas mais fortes da seqüência. As músicas culminantes (que duram na
trilha mais ou menos vinte a vinte cinco minutos) têm a função de juntar tensão e, passados mais
ou menos uma hora e quarenta e cinco minutos da trilha entra em mais um período de transição
com músicas que iniciam uma qualidade de resolução, porém ainda com toques emotivos e
melódicos. Esse momento da trilha ajuda na liberação da tensão acumulada. Quando chegamos na
terceira hora, os primeiros trinta minutos meditativos ainda têm algum movimento, mas na

100
Ver e escutar ANEXO E.
112

segunda parte meditativa, entram as músicas bem mais calmas que sustentam a integração de toda
a experiência. As músicas devem ter pelo menos de três a quatro minutos para construir o ritmo e
podem aparecer músicas estratégicas para lembrar ao respirante que ele deve manter a respiração.
Músicas com ritmo, mas que trazem uma atmosfera misteriosa podem ser utilizadas no início da
segunda hora.

Diversas situações do campo me possibilitaram acompanhar a música em ação no trabalho


de Respiração Holotrópica e perceber como elas afetam não somente os respirantes, mas também
os demais participantes do cenário holotrópico. De um modo geral os respirantes no início das
sessões se mostravam mais agitados junto com as músicas que eram fortes e ritmadas. Durante
esse período surgiam expressões das mais variadas, seja por muita movimentação corporal, por
gritos, através de danças, por meio de choro. Em diversos momentos os acompanhantes e
facilitadores também acompanhavam o fluxo das músicas, sorrindo uns para os outros,
comentando sobre determinada música, dançando, fazendo movimentos percussivos com as
mãos.
No momento em que as músicas se tornavam mais dramáticas, com componentes
melódicos, que sugeriam temas de aventuras épicas, algumas pessoas pareciam expressar
situações muito específicas de danças, lutas, diálogos101 com ou sem palavras e mesmo certa
movimentação corporal complexa e insólita – alguns se contorciam demonstrando extrema
flexibilidade, outros se colocavam em posições muito complicadas (de cabeça para baixo, por
exemplo) e se sustentavam nelas durante períodos prolongados. Havia também pessoas que
entravam em pranto profuso e, muitas vezes contavam com o acolhimento e participação de seus
acompanhantes e/ou dos facilitadores.
Quando entram em cena as músicas que apresentam um tom mais romântico e às vezes
expansivo e lúdico a gama de expressões seguia um curso mais ameno, mas, mesmo assim, havia
situações em que pessoas experimentavam choro intenso, risos ou mesmo dramatizações de
situações das mais variadas. Já o término é bem tranqüilo com músicas suaves, flautas,
vocalizações, cantos orientais, dentre outras. Nesse momento, a não ser em casos em que as
pessoas estavam ainda em trabalho de liberação de tensões e com necessidade de se expressar
mais intensamente, o grupo se apresentava mais aquietado e silencioso.
Em diversas conversas em grupo, surgiam falas das mais variadas acerca da música

101
Acompanhei duas situações em que a pessoa falava línguas incompreensíveis que estavam estreitamente ligadas a vivências
em que ela vivera em épocas e culturas distantes e distintas, o que pude perceber que não é um acontecimento pouco comum
nesses grupos pelo relato de facilitadores e pela leitura de situações como essas descritas por Grof (2000, 1999, 1997).
113

holotrópica. Algumas pessoas consideravam que a música cumpria em suas vivências um papel
de condutor do processo: “Eu fico muito ligada na música, às vezes mais do que ligada na
respiração, vou seguindo o fluxo da música”. Outra pessoa se refere ao papel da música nos
seguintes termos: “Eu gosto muito das músicas mais fortes, ritmadas e das dramáticas, quando
elas estão tocando eu me sinto muito conectado a elas”. Nos termos de outro participante: “Eu
tenho muita dificuldade para chorar e adoro quando chegam as músicas mais emotivas, pois
normalmente elas me derrotam a armadura e me acabo de chorar. Nem sempre consigo, mas
quando consigo é uma bênção”. Ainda no tema explicita uma das integrantes do grupo: “Sabe,
para mim as músicas são fundamentais, elas dão um caminho com diversos percursos possíveis.
Isso pode ajudar muito quando uma pessoa tá muito travada ou quando tá difícil respirar forte,
nariz entupido, essas coisas”. “Eu, por exemplo, têm vezes que me entrego muito a elas, mas têm
vezes que chego ao final da sessão e não lembro bem da trilha. Depende do dia”, finaliza um dos
integrantes do grupo. Na fala dessas pessoas é possível depreender que a música pode agir
produzindo efeitos dos mais variados. Nesse sentido, cada pessoa se articula (ou são articuladas a
determinadas experiências) às possibilidades oferecidas pelas músicas e através disso se criam
condições de expressão para cada uma delas.
As sessões holotrópicas nos módulos da formação apresentam algumas singularidades em
relação àquelas que ocorrem no contexto de um workshop de fim de semana, cuja finalidade não
é formadora, mas sim, terapêutica. Como as pessoas nos módulos estão em treinamento, é feito o
convite, por parte dos facilitadores, para que as pessoas que já realizaram o módulo de prática A
(trabalho corporal)102 façam parte da equipe de facilitadores – sendo chamados de flutuantes, ou
seja, facilitadores em treinamento. Dessa forma, os integrantes do grupo que se dispõem a esse
treinamento se reúnem antes no salão junto com os facilitadores para arrumá-lo, preparando os
colchonetes, as almofadas, os saquinhos e os lenços de papel (que fazem parte do cenário caso
haja a necessidade por parte dos respirantes de expelir secreções). O set de músicas é escolhido
pelo facilitador responsável pela música e algumas instruções são dadas e/ou lembradas, tais
como os princípios do trabalho corporal, da intervenção, a confiança no curador interno, etc. No

102
Na formação no Trabalho de Respiração Holotrópica há dois módulos dedicados ao aprendizado prático: o de trabalho corporal
(Parte A) e o de música (Parte B). A realização de ambos é pré-requisito obrigatório para que os participantes possam participar
dos grupos como flutuantes no treinamento prático como facilitadores em sessões holotrópicas. Informações mais detalhadas
sobre os módulos e suas especificidades podem ser encontradas no site da internet do Grof Transpersonal Training - GTT -
(http://www.holotropic.com/) ou no site do facilitador Álvaro jardim, que atualmente é o membro do GTT responsável pela
formação no Brasil (http://www.aljardim.com.br/gttbrasil.htm).
114

final todos se abraçam e dizem palavras de apoio para se tenha um bom trabalho.
Com a chegada das pessoas no salão, os facilitadores e flutuantes vão fazendo a recepção
das pessoas, conversando com elas alguns assuntos mais reservados e outras vezes fazem
brincadeiras de modo descontraído. Como muitas pessoas já se conhecem e já participaram de
módulos há muitas histórias em comum o que faz com que haja um clima, de um modo geral,
alegre.
As pessoas vão escolhendo seus lugares no salão que são, normalmente, previamente
dispostos pelos facilitadores e iniciam os acordos com seus acompanhantes. As duplas se
abraçam e são ditas expressões de encorajamento e apoio tais como: “vai fundo que estou aqui
contigo” ou “para o que precisar conte comigo”. Além disso, surgem também algumas
brincadeiras, entre pessoas que são amigas, do tipo “se você se mexer muito a gente vai usar o
porrete holotrópico pra te acalmar”, ou “ó, te jogo pela janela se fizer muita bagunça” o que gera
risadas entre os envolvidos.
Após terem sido feitos os acordos entre os respirantes e os acompanhantes, os
facilitadores e flutuantes se aproximam das duplas, conversam com elas, falam sobre a
importância da entrega ao processo, da presença cuidadora dos facilitadores e abraçam cada
dupla, desejando boa viagem aos respirantes e bom trabalho aos acompanhantes.
Os facilitadores e flutuantes se distribuem pelo espaço do salão e o facilitador que
conduzirá o relaxamento começa a falar. Este é um elemento que também está sempre presente
nos trabalhos de Respiração Holotrópica, e costuma dar início às sessões holotrópicas. Segundo
um dos facilitadores, o relaxamento visa gerar “um estado de abertura e disponibilidade para a
experiência no trabalho de Respiração” e continua sua fala dando algumas instruções de como ele
deve ser:
O relaxamento, busca gerar um estado de abertura e disponibilidade do respirante em relação ao
trabalho de respiração. Por isso, mais do que relaxamento, ele deveria ser melhor entendido como
um suave ativador de nossa atenção, de nossa consciência, facilitando um contato com nossos
pensamentos, emoções, nosso corpo e com nosso curador interno para que conectados a ele
possamos seguir nosso processo.
Através de uma fala ritmada não monótona e audível para todos que estão no salão, devemos
ajudar as pessoas a porem o foco de sua atenção em si mesmas; a centrarem-se na própria
consciência. Essas são indicações próximas à prática da meditação, por exemplo: estar cômodo no
colchonete e ter atenção para a posição da cabeça para facilitar a respiração; tomar consciência do
corpo; ajudar a pessoa a focar sua atenção no modo como está respirando, não induzi-la a mudar e
sim por foco nela e convidar a pessoa a soltar as tensões corporais, pensamentos que julgam,
expectativas, críticas e emoções que possam estar presentes. O relaxamento visa ajudar as pessoas
a chegarem nesse momento de voltarem-se para si mesmas. Trazer o foco para a base da coluna,
senti-la no colchonete e levar o foco da atenção até o topo da coluna.
115

O relaxamento deve ser, sem muitos detalhes, não deve ser longo e não deve ser muito complexo
[...] deve ser um momento de ativação suave [...] foco na respiração e deve-se lembrar a pessoa da
força e do papel da respiração nesse trabalho. Podemos usar nossa própria respiração como
exemplo, sempre focar-se na respiração e no corpo, emoções e atividades mentais. Tudo isso pode
durar de dez a quinze minutos. É importante que o facilitador cheque a si mesmo ao preparar o
relaxamento (corpo, emoções e presença). Lembrem-se de tomarem cuidado com as palavras
usadas, pois elas são o que vocês desejam para o respirante [...] lembrar que o conteúdo é de cada
um.

A seguir apresento um trecho do campo referente a esse ponto. Ainda sem a presença da
música, a facilitadora que conduziu o relaxamento em questão inicia sua fala que é calma e
ritmada:
Agora que já foram feitos os acordos entre as duplas, vamos nos aquietando e nos entregando para
o colchonete. Vamos sentindo nosso corpo em contato com ele. Nossa atenção agora se volta para
nossa respiração e vamos observando como ela esta, nós estamos fluindo junto com a respiração.
Vamos percebendo como está também nosso corpo, nossas emoções e nossas expectativas. Vamos
levar um tempo observando como estamos. [PAUSA] Agora, vamos percebendo uma luz que
começa a entrar por nossos pés. Vamos ver, imaginar, sentir essa luz penetrando nosso corpo
desde a planta dos pés. [PAUSA] Ela vai iluminando, aquecendo e relaxando nossos pés e segue
subindo passando por nosso tornozelo, canelas e panturrilhas, relaxando e iluminando. [PAUSA]
Agora ela se dirige até nossos joelhos e fica aí ajudando a relaxar e a liberar tensões e sobe através
de nossas coxas relaxando e iluminando. [PAUSA] Ela toma nossa pélvis por inteiro incluindo os
glúteos e vai relaxando e iluminando. [PAUSA] Agora ela se dirige mais para cima relaxando
nosso abdômen e todos os nossos órgãos, ajudando a liberar e limpar-nos profundamente. Essa luz
se irradia até nossos rins e sobe também através de nossa coluna cervical purificando e relaxando.
[PAUSA] Agora ela já toma nosso tórax, aquecendo e iluminando nosso coração, nossos pulmões,
para auxiliar no trabalho de respiração. [PAUSA] Ela se estende até nossos ombros e braços até as
mãos, trazendo com ela bem-estar e abertura. [NESSE MOMENTO A FACILITADORA SOLTA
UM SUSPIRO] Se quiserem podem emitir sons enquanto a luz caminha por nós. Então, a luz
segue por nosso pescoço liberando as tensões e se encaminha até nossa cabeça, couro cabeludo e
todos os músculos da nossa face e vamos sentido que nossas tensões nos deixam assim como
nossas expectativas, nos permitindo um estado de abertura e disponibilidade para o que vamos
viver aqui. [PAUSA] Agora que essa luz está conosco, vamos voltando nossa atenção para o nosso
corpo relaxado e aquecido, entregue ao colchonete, e focamosnovamente em nossa respiração.
Como ela está? [PAUSA] Fiquemos em contato com ela, respirando profundamente. [PAUSA]
Agora lentamente vamos aumentando o ritmo da respiração e deixando-a mais profunda, mais
rápida e profunda, cada um no seu tempo e do seu modo e vamos seguir respirando rápido, forte e
profundo. [PAUSA] Boa viagem!

Aqui se pode ver como a respiração atua como um elemento que convida a atenção do
respirante para que ele flua com ela. No final do relaxamento, o facilitador já faz outro convite,
para que ela se torne mais rápida, profunda e forte. Mais uma vez, - me refiro aqui à já citada
meditação que propunha a conexão entre o Céu e a Terra, o eixo do mundo - a luz emerge no
trabalho e atua relaxando, iluminando o corpo e a mente, propondo limpeza e liberação de
tensões. Finalmente, convida os respirantes a um estado de abertura e disponibilidade. Essa
proposição oferece oportunidade para que o respirante se articule às outras proposições de
actantes acima mencionados, tais como: o Curador interno, às experiências holotrópicas, aos
acompanhantes, facilitadores e à música.
116

Um ponto que me chamou à atenção é que durante os sete módulos acompanhados, tive a
oportunidade de observar (e experimentar) diversos tipos de relaxamento, alguns com luz, outros
sem luz e um em especial no qual a facilitadora convidava as pessoas a gerarem tensão no corpo
e relaxarem. Desse modo, o que pude ver em campo foi que o relaxamento em ação toma formas
variadas nos grupos holotrópicos.
A duração total de uma sessão holotrópica depende dos processos vividos pelas pessoas.
Entretanto, segundo os facilitadores, “normalmente temos como referência o tempo de duração
do set de músicas que é de três horas. O fechamento de uma sessão vai sendo gradualmente dado
por cada participante: pode estar vinculado ao fim da trilha de músicas holotrópicas ou mesmo ao
cansaço físico”. Normalmente o que caracterizava esse momento de fechamento, na fala de um
dos respirantes era “a percepção de que terminara [seu] processo na sessão”. Segundo algumas
pessoas o término da sessão poderia se dar nas seguintes circunstâncias: “Senti que já não havia
mais nada para ser vivido e parei”, ou “eu trabalhei tanto que me veio uma exaustão que me fez
apagar e dormir”, ou “não dava mais para continuar, eu estava com medo e travei”. Vi pessoas
terminarem com pouco mais de uma hora até uma pessoa que levou mais de um dia para fechar
seu processo.
Quando as pessoas vão terminando seus processos, os facilitadores se aproximam e
permanecem um tempo ao lado da pessoa. Conversam e checam como as pessoas estão. Às vezes
falam de algumas passagens de sua vivência. A instrução geral é que as pessoas guardem suas
experiências e que não falem muito até o momento do sharing (partilha das experiências das
sessões holotrópicas), o que segundo um dos facilitadores
É importante para que a pessoa se mantenha interiorizada, se mantendo em contato com o que foi
vivido. Recomendamos que as pessoas conversem com seus acompanhantes aqui no treinamento,
pois os grupos são muito grandes e desse modo tentamos evitar que os sharings sejam muito
longos e exaustivos. Nos workshops de fim de semana, por sua vez, recomendamos que as pessoas
tragam suas histórias somente no sharing e que permaneçam interiorizadas. Isso é essencial, pois
tem gente que sai do processo muito energizado, por conta de fortes experiências positivas, e por
isso querem falar com todo mundo sobre o que experimentaram na sessão. Isso esvazia o processo,
uma profunda experiência acaba perdendo sua força.

O momento de acolhimento final se mostrou muito significativo, em algumas situações


que observei, pois a chegada dos facilitadores ganhava uma tonalidade emocional forte. As
pessoas se abraçavam e palavras de apoio e incentivo eram ditas. De uma maneira geral, nesse
momento e durante toda a sessão, aqueles que não estavam respirando cuidavam para falar baixo,
pois de acordo com eles essa era uma das medidas para se “respeitar o espaço sagrado dos
117

respirantes”.

3.4.8 Mandalas

Assim que todo o grupo terminava, os respirantes saíam com seus acompanhantes para
desenhar suas mandalas103 e a equipe de facilitadores e flutuantes permanecia no salão para
arrumá-lo e para conversar sobre o trabalho realizado. As mandalas são parte indissociável do
trabalho de respiração holotrópica. Segundo um dos facilitadores,
As mandalas são parte fundamental do processo de integração das experiências de uma sessão
holotrópica. Elas são um recurso criativo, onde usamos as cores, o desenho, o material plástico
para expressar aspectos essenciais do que foi vivido nas experiências. Há outras maneiras de
integrar, que podem ser através do canto, da dança, do manuseio de argila, ou seja, com diversas
técnicas de arteterapia. A integração das experiências é fundamental, sem isso, o processo e seus
conteúdos podem se dispersar e perder seu potencial curativo, pois não vão sendo assimiladas pela
consciência.

As mandalas são feitas num local exclusivo onde se encontram dispostas sobre mesas
grandes folhas de papel, tipo A3, e diversos materiais como: lápis-cêra, lápis pastel a óleo, entre
outros. As pessoas se sentam e ficam em silêncio. Algumas preferem escrever antes de desenhar,
enquanto outras iniciam o desenho rapidamente. Há algumas pessoas que demoram alguns
minutos olhando para o papel ou de olhos fechados diante do papel em branco. Há pessoas que
buscam locais mais isolados para fazer seus desenhos.
Acompanhando a ação das mandalas nos grupos, tornou-se visível como se articulam e
articulam elementos do grupo. Já foi citada mais acima uma de suas ações, quando um dos
participantes do grupo, após o relato de sua experiência com o Movie yoga é convidado por outro
integrante a olhar sua mandala e através dela ver como algo havia mudado em sua experiência. A
mandala agencia um diálogo, oferece a possibilidade de reflexão e revisão de um modo de
entendimento, trata-se, em suma, de uma nova experiência. Elas também “são parte do processo
de expressão e integração das vivências, dos conteúdos que emergem nas sessões holotrópicas” e,
nesse sentido contam algo sobre a experiência vivida por um respirante, mas de modo diferente:
elas falam sem palavras. É curioso como através de suas imagens são porta-vozes do respirante,
porém este se torna seu porta-voz ao apresentá-las ao grupo – é a mandala-respirante/respirante-
mandala: quem fala sobre quem? Segundo um facilitador:

103
Ver ANEXO F.
118

As mandalas contam uma história que ainda não pode ser contada pelo respirante. De tempos em
tempos eu procuro colocar todas as mandalas que fiz, de todos os trabalho de Respiração que fiz,
diante de mim e me deixo levar pelas imagens. Recordo-me de situações, emoções, experiências.
Sempre algo novo aparece e através disso acrescentamos consciência em nossas vidas.

Essa me pareceu uma das formas como uma mandala pode atuar não só em um trabalho
de Respiração específico, mas sim passeando através do tempo, contando e recontando histórias,
estimulando a memória, inventando caminhos, articulando o respirante a experiências, emoções e
propondo, desse modo, mais consciência.

3.4.9 Sharing

Palmilhando as trilhas do trabalho de Respiração Holotrópica, vale a pena sublinhar mais


um actante, o sharing. Ele se caracteriza por uma reunião do grupo holotrópico, na qual ocorre o
compartilhamento das experiências vividas nas sessões holotrópicas. O sharing é coordenado
pelos facilitadores responsáveis pelo módulo; é o momento em que o grupo dos participantes que
respirou fala sobre suas experiências vividas na sessão holotrópica com os demais presentes. Ele
é tido, dentro do trabalho de Respiração Holotrópica, como um importante momento de
integração das experiências. Um dos facilitadores diz o seguinte:
O sharing é um presente para o grupo, pois cada pessoa traz suas experiências, sua intimidade para
o grupo. Devemos honrar a fala dos respirantes, pois não estamos aqui para julgar, criticar e nem
interpretar suas experiências. Cada pessoa vai encontrar suas próprias respostas e os significados
para o que foi vivido. Isso pode levar um tempo e na perspectiva holotrópica devemos respeitar o
mistério de cada processo e a sabedoria do curador interno. Muitas vezes as pessoas têm
importantes insights durante o relato das experiências e muitas experiências relatadas são muito
significativas e ajudam outras pessoas do grupo a refletir sobre suas próprias experiências.

Não obstante ser um momento em que os respirantes estão compartilhando o que foi
vivido, acompanhantes e facilitadores também participam do processo fazendo colocações sem
desconsiderar o quão delicadas podem ser suas intervenções. Como foi dito por um dos
facilitadores “é sempre importante ter em mente que devemos honrar a fala do respirante e sua
experiência, pois não está em nossas mãos a chave do entendimento do processo que é dele”.
Desta forma é sugerido por um facilitador que a cada pessoa que deseje fazer algum comentário
lembre que
Tudo que é dito para um respirante sobre suas experiências são projeções de nossa parte,
impressões, algo que diz respeito ao que nós estamos sentindo sobre o que por ele foi vivido. Se
por acaso alguma apreciação foi interessante, a pessoa pode incorporá-la às suas próprias
impressões. Caso não seja interessante ou não faça sentido ela pode jogar fora.
119

3.4.10 O trabalho corporal

Um dos elementos muito presentes e que tem um módulo inteiramente dedicado a seu
respeito é o trabalho corporal. Ele é definido por um dos facilitadores como algo que surgiu na
terapia holotrópica
[...] da necessidade de checar o estado geral da pessoa. Quando há alguma tensão no corpo ele
(trabalho corporal) se faz necessário, tanto durante uma sessão holotrópica como após ser término.
Ele além de ter a função de liberação de tensões físicas, ajuda na expressão de emoções represadas
e funciona como um dos estímulos à integração de tudo que foi vivido, de tudo aquilo que foi
expresso, pois pode proporcionar um estado de relaxamento profundo.

De acordo com isso, há princípios que norteiam o uso do trabalho corporal, o que aparece
na fala de um dos facilitadores que coordenavam o módulo de trabalho corporal do seguinte
modo:
O princípio do trabalho corporal é sempre o de exacerbar os sintomas, ou seja, aquilo que é vivido
pela pessoa. Nunca devemos pedir para o respirante fazer outra coisa no lugar do que ele está
fazendo. Não somos nós que dirigimos o processo. Nossa intervenção nesse sentido é a de fazer
resistência ao movimento que emerge na própria pessoa em estado holotrópico auxiliando na
exacerbação e intensificação do que está sendo experienciado, para que depois possa haver a
liberação da tensão e purificação de situações traumáticas. A equação é sintoma-intensificação-
expressão-alívio.

Sobre tal ação de exacerbação do que está sendo experienciado, Grof (2001) dá um
exemplo de como o trabalho corporal pode gerar efeitos, por exemplo, numa vivência de
passagem pelo canal de parto. Segundo o autor, os terapeutas
[...] podem facilitar a experiência através da simulação de uma luta travada no canal de parto,
oferecendo suporte físico reconfortante, trabalhando com o assunto em uma piscina aquecida, ou
criar um campo transpessoal, por meio de um canto grupal. (p.145).

Dependendo do processo vivido por um respirante o trabalho de integração das


experiências pode incluir diversos recursos como os descritos na citação de Grof. Em um dos
grupos que acompanhei uma pessoa que, segundo o relato dos facilitadores, teve uma forte
experiência de nascimento e luta contra o processo de anestesia durante seu parto biológico,
recebeu cuidados intensos por parte do seu acompanhante e dos facilitadores. O trabalho corporal
foi intenso e, como explicita um dos facilitadores,
Dedicamos-nos a auxiliá-la a resgatar a energia que estava contida pelo uso da anestesia. Ela vivia
um conflito: estava em franco processo de luta pelo nascimento e atordoada por uma intervenção
externa que bloqueava sua energia, sua vitalidade. Usamos o trabalho corporal para intensificar
sua luta, para que ela rompesse o estado de torpor e anestesia, para que ela atravessasse o limiar e
seguisse em seu nascimento.

É interessante perceber o papel propositivo do facilitador no trabalho corporal no sentido


120

de fabricar junto com o respirante na sessão holotrópica um tipo de experiência muito singular, a
passagem pelo canal de parto, que é vivenciada como uma luta. Mais do que discutir quem veio
primeiro, a experiência do respirante ou a condução por parte do facilitador, o que me chama a
atenção é a possibilidade advinda do encontro entre ambos, onde se fabrica uma realidade a partir
da articulação entre respirante e facilitador numa sessão holotrópica.
Seguindo no trabalho corporal, há momentos importantes onde dependendo do que está
sendo experienciado por uma pessoa, entra em cena o que eles denominam de contenção. Nos
grupos, a contenção é usada quando emergem situações em que as pessoas experimentam um
descontrole intenso, em episódios de experiências muito poderosas que podem envolver muita
agressividade, desespero, fúria, tentativa desesperada de fuga, dentre outras. Nesses casos os
facilitadores e acompanhantes têm que intervir, emergencialmente, visando a proteção, a
segurança e mesmo o desenrolar da experiência do respirante. A idéia geral, segundo um dos
facilitadores, é de que “a contenção transforma uma situação caótica em uma situação terapêutica
para o respirante”.
De acordo com um dos facilitadores:
Às vezes quando a situação está muito caótica, a pessoa se debatendo muito, querendo sair de seu
colchonete, podendo se machucar ou machucar alguém ao seu lado usamos as almofadas para
gerar um limite para ver se a pessoa consegue percebê-lo. Nos casos em que isso não se dá,
buscamos falar com a pessoa que há um modo mais seguro dela expressar a sua experiência. Em
algumas situações a pessoa aceita esse convite, mas em outras temos que fazer a contenção de
modo mais incisivo.

O trabalho corporal em ação pode ser observado por mim em várias sessões holotrópicas,
e, como na citação acima ele conta com a participação não só dos facilitadores e acompanhantes,
mas também das almofadas (como no caso em foco). Creio ser interessante apresentar algumas
situações acompanhadas no trabalho de campo nas sessões.
Numa sessão holotrópica uma pessoa movimentava-se intensamente e colocava ambas as
mãos sobre o peito, pressionando-as repetidas vezes sobre o osso externo. Fazia expressões
faciais que me davam a impressão de que sentia dor no peito ou estava engasgada. Eu
acompanhava o processo de longe, aproveitando que o meu respirante estava muito quieto,
coberto com uma manta, como se estivesse dormindo104. O facilitador se aproximou da cena,

104
Confesso que acompanhar uma pessoa em trabalho de Respiração Holotrópica e atuar como pesquisador era conflitante em
determinados momentos. Em algumas situações, como essa, foi possível estar nesse limiar, cuidando e pesquisando.
121

ficou ao lado do acompanhante e ambos se mantiveram um tempo observando o drama no qual o


respirante se encontrava. Passados alguns minutos ele se aproximou do respirante e falou alguma
coisa em seu ouvido, que imaginei ter a ver com o processo em questão (mais tarde conversando
com o facilitador ele me disse que oferecera ajuda e pedira permissão ao respirante para trabalhar
com ele).
Ele colocou uma almofada sobre o peito do respirante, deitou-se lentamente sobre a
almofada e, chegando pelo lado esquerdo do respirante – que estava deitado de costas no
colchonete – colocou seu próprio peito (mediado pela almofada) sobre o peito do respirante.
Ambos se abraçaram aumentando a pressão no peito. O respirante abraçava com força o
facilitador e como resultado este primeiro se pôs a gritar e depois a tossir. O facilitador levantou
de modo que o respirante pudesse tossir bastante. Isso aconteceu mais duas vezes até que o
respirante parou de tossir. Após o término da sessão fui conversar sobre a situação ocorrida com
o facilitador que atuou junto ao respirante. Ao perguntar-lhe acerca de sua intervenção ele
explicou-a nos seguintes termos:
O respirante estava com alguma energia bloqueada na garganta e no peito. Eu trabalhava com ele e
dava um tempo para ele colocar as secreções para fora com calma. Nada tem que ser vivido com
pressa. Deve-se apoiar a pessoa a seguir no seu processo fazendo perguntas sobre sua respiração e
incentivando mais liberação caso seja necessário. É importante atentar para que sejamos delicados
e respeitosos e não insistir demais já que cada pessoa vai até onde é possível para ela naquele
momento. Esse apoio não deve se tornar um procedimento invasivo para não gerar resistência e
mais bloqueios na pessoa. Nossa insistência pode gerar reações agressivas nas pessoas, pois elas
estão vivendo muitas vezes processos muito difíceis e dramáticos e as coisas não estão fáceis de
serem contatadas. Muitas vezes é a presença e integridade do facilitador muito mais poderosa e
facilitadora para o processo do respirante do que qualquer ação grandiosa.

Perguntei-lhe o que exatamente ele estava fazendo quando pôs a almofada e deitou-se
sobre o peito do respirante e ele me disse que
O que se faz nessas horas é observar o que está acontecendo e dar um tempo para ver se a pessoa
sai da história sozinha, se ela dá conta do processo sozinha. Depois de um tempo a gente propõe
uma intervenção e pede autorização. Eu coloquei o travesseiro, pois teríamos um contato físico
intenso e isso pode ser invasivo para algumas pessoas, temos que ter esse cuidado para não gerar
mais tensão ao invés de trabalhar pela liberação e alívio. Pressionamos o ponto juntos num abraço,
ele fazendo força e eu somente fazia enquanto ele fazia. Quando ele parava, eu parava também.
Ele é quem da os sinais e nós acompanhamos. Fizemos isso até o ponto em que ele começou a
tossir e soltou as secreções. Eu perguntava como ele estava e ele ia me dando indicações de como
se sentia. Em determinado momento ele disse que estava mais aliviado e que o engasgo tinha
passado. Fiquei mais um tempo com ele e depois disso deixei-o junto com o acompanhante.

Tentando me lembrar da cena novamente, durante a conversa com o facilitador, eu me dei


conta de que o acompanhante estava observando de perto a situação e logo que terminou o
trabalho ele se aproximou se colocando bem ao lado do respirante. No presente episódio uma
122

realidade foi fabricada em conjunto, isto é, o respirante foi propositivo, “deu os sinais” – uma
experiência se iniciava -; o facilitador agiu propondo a “intensificação desses sinais”, convidando
o respirante a articular sua experiência a ele; a almofada intermediou o encontro e ofereceu
“proteção, cuidado, limites” e todos, articulados, fizeram emergir um “desengasgo, uma
liberação, um alivio”.
Nesse conjunto de elementos em ação, entendo que condições são geradas para que o
respirante articule nesse coletivo sua fala-ação onde algo se transformou em sua experiência, ou
seja, sua vivência pode tomar novo rumo, o que parecia ser um mal-estar, „uma energia
bloqueada na garganta e no peito‟ tornou-se alívio. Nesse sentido, eu me via diante de uma
situação em que uma oportunidade para curar se tornou tangível, só que agora, mediante o que os
holotrópicos denominam de trabalho corporal.
Em outra sessão holotrópica, acompanhei uma situação dramática de contenção onde o
respirante se movimentava agitadamente dentro do espaço do colchonete, com as mãos postas
sobre a sua cabeça, apertando e massageando-a como se algo estivesse lhe causando intenso mal-
estar nessa parte de seu corpo. O acompanhante estava de pé observando e dois facilitadores se
aproximaram. Em um determinado momento o respirante se colocou de ponta a cabeça apoiando-
se na parede (seu colchonete estava perto da parede da qual era separado por três grandes
almofadas) com extrema agilidade. Seu acompanhante rapidamente colocou uma almofada para
proteger as pernas e os pés do respirante que, por pouco, não tocaram a parede. O respirante ficou
numa posição que me pareceu extremamente desconfortável, apoiando seu ombro esquerdo no
colchonete. Isso se alongou por vários minutos até que ele saiu um pouco mais aquietado dessa
posição. Os facilitadores se entreolharam e falaram coisas entre si, que não consegui entender. De
repente o respirante voltou a se mover tão agitado quando antes, girando deitado, de um lado para
o outro do colchonete. Cada almofada que era colocada para que ele não saísse dos limites do seu
colchonete recebia ataques agressivos de sua parte, fossem mordidas ou mesmo socos e chutes.
Num determinado momento outro facilitador chamou mais duas pessoas que estavam
circulando pela sala como flutuantes. Ele dizia, “segurem os braços dele”. Ambos se
aproximaram e tentaram fazer isso, mas o respirante escapou de várias dessas tentativas. O
respirante gritava e rosnava como se fosse um animal enraivecido, seu rosto estava vermelho e
com uma expressão furiosa. Num determinado momento - e o processo já levava pelo menos uns
dez minutos - o respirante foi contido, primeiramente por duas pessoas, depois por mais outras
123

duas até chegar uma quinta pessoa. Ele fazia muita força para escapar, gritava e insultava.
A contenção se deu da seguinte forma: o respirante foi colocado deitado de costas para o
colchonete com os braços abertos, posição na qual foi muito difícil de chegar por conta da intensa
movimentação e tentativas de fuga por parte do respirante. Sobre cada braço se deitou de lado um
facilitador, cada qual colocando, por sua vez, um de seus braços sob o pescoço do respirante
visando a proteção da sua cabeça. O facilitador que estava deitado sobre o braço direito do
respirante, colocara seu braço esquerdo sob o pescoço dele enquanto que o que estava do lado
esquerdo colocara seu braço direito. Era uma posição complexa, mas que me pareceu eficaz, pois
segurou o respirante.
Foram colocadas almofadas de ambos os lados do respirante que estavam em contato com
os facilitadores. Como este fazia muito esforço para escapar, seus punhos também foram
segurados - um por seu acompanhante e outro por um flutuante. Outro facilitador (a quinta pessoa
envolvida no processo) se aproximou e começou calmamente a estimular o respirante em sua luta
mais ou menos nos seguintes termos: “Isso mesmo, você está indo muito bem, ponha para fora
isso, expresse, estamos aqui para te proteger e não para impedir teu processo - vai fundo!”
Repetiu palavras de incentivo e permaneceu ao lado do respirante até que sua luta foi cessando e
ele demonstrou muito cansado. Nesse momento, o respirante, em um último esforço caiu em
pranto e trouxe as mãos para o rosto. O facilitador que estava apoiando seu processo olhou para
os outros que faziam a contenção e fez um gesto para que relaxassem. Eles foram soltando o
respirante que ficou de lado encolhido ainda chorando muito. Eu estava tão absorto observando o
que estava acontecendo que, ao me desconectar um pouco da cena, percebi que a música que
estava tocando era uma música muito bonita e emocionante. Corri os olhos de volta à cena em
que o respirante chorava e o via sendo acolhido delicadamente pelos dois facilitadores que antes
o continham. Vi-me articulado a um cenário de grande intensidade emocional e não pude conter
uma forte emoção que brotou em mim diante da experiência que eu estava presenciando. Nessa
situação se fez presente a ação da música junto ao trabalho corporal no cenário de luta pelo qual
passava o respirante. Sua ação inclusive articulou-me ao evento, já que sua ação propositiva na
cena serviu de isca para me convocar à cena pela via da emoção, me convidando a fazer parte
desse cenário – eu não estava mais como um observador naquele momento, eu me sentia parte
daquele coletivo, afetado por todo o processo.
Depois disso, o respirante trocou de lado, deitando-se sobre seu lado esquerdo e
124

adormeceu. Voltei minha atenção para a música novamente e ainda era emotiva, porém era o som
de um piano de suaves notas que agora preenchia a atmosfera do salão. Tudo me parecia
inextricavelmente ligado naquele momento. Por fim, seu acompanhante o cobriu e sentou-se ao
seu lado. Fora um trabalho intenso, todos estavam muito suados e foram tomando outros rumos
no salão.
No sharing, fiquei curioso em ouvir o relato do respirante que vivera esse intenso
episódio de contenção. Quando ele pediu a vez para falar, iniciou agradecendo aos facilitadores
por ajudarem-no a “expressar muita raiva, jogar fora tudo isso” e chegar ao que ele referiu como
“esgotamento de suas forças”. Segundo ele,
Tenho passado por momentos muito difíceis e creio que entulhei muita coisa, andei mal. Na minha
vivência sentia muito incômodo na cabeça e pescoço, era uma irritação que foi crescendo. Eu me
pergunto se isso não tem a ver com meu parto. Fiquei numa posição que parecia que eu estava de
cabeça para baixo no útero, sei lá, eu queria expressar o que estava se passando comigo e foi essa
posição corporal que me ajudou a fazer isso. Em outras respirações esse padrão se repete e sempre
que entro nisso vem muita energia, vontade de explodir e sair.
Teve um momento em que tinha um monte de gente tentando me segurar e eu ouvi um dos
facilitadores falar alguma coisa do tipo „disarm him‟ [o facilitador que havia falado era norte-
americano] e aí pensei, tô ferrado, isso é uma guerra (todos começaram a rir pois na realidade o
facilitador dissera na hora a expressão „hold his arms‟, ou seja, dizia para segurarem seus braços e
não para desarmá-lo). Depois que fui saber que era para pegar meus braços, é cômico. Valeu muito
isso, porque foi uma luta muito forte até que não tinha mais forças e tive a sensação de que estava
por morrer. Eu tive a impressão de ter morrido, o corpo desfaleceu. Veio muito choro e tava
tocando uma música do cacete que me arrebentou o peito, aí que o negócio veio mesmo. Lembrei
do monte de drogas que fiz nesses últimos dois anos e do monte de drogas que me aconteceram.
Chorei por tudo isso, culpa, tristeza, vontade de mudar, foi muito bom.
Foi muito bom também o acolhimento que recebi, e todos que estavam trabalhando comigo foram
homens, isso foi importante, ser cuidado por um homem. No meio de tantas confusões desse meu
período de vida uma das melhores coisas foi que me aproximei mais de meu irmão mais velho e de
meu pai e me senti aqui acolhido pelo masculino. Tenho lidado muito com esse aspecto meu,
como amadurecer como um homem. Muito obrigado a vocês, muito obrigado.

Um dos flutuantes que trabalhara no episódio pede a palavra e diz:


Eu fiz muita força durante o trabalho, pois o João105 estava muito forte, fazia muita força para
escapar da contenção. Fiquei preocupado, pois não sabia bem a medida de meu esforço de
contenção. Eu não queria machucá-lo nem atrapalhar seu processo, não queria interferir demais.

Nesse momento João entrou na conversa e falou nos seguintes termos:


Não me senti invadido e o que vocês fizeram me ajudou a chegar na expressão que cheguei.
Depois de um certo momento de luta eu fui me dando conta de que um limite tinha sido
ultrapassado: eu não necessitava mais lutar contra ninguém e sim devia aproveitar o que me estava
sendo oferecido. Em alguns momentos em que eu sentia que estava em uma posição complicada
que poderia me machucar eu me ajeitava. Pode ter certeza que se algo ficasse ruim eu diria.

O facilitador que acompanhou o processo entra na conversa e explicita que:


Esses momentos são muito dramáticos mesmo e a gente tem que ser cuidadoso com o respirante,
conosco e com o resto da sala. Pra nós que estamos trabalhando diretamente numa situação dessas,

105
Nome fictício dado ao respirante em questão.
125

é importante sempre procurar uma posição confortável, uma postura equilibrada com uma boa
base para estarmos seguros em nosso lugar ao trabalhar com alguém. Muitas vezes as pessoas
fazem muita força ou se movimentam muito e devemos atentar para a nossa segurança e também
para a segurança das pessoas que estão respirando no entorno. Devemos sempre estar atentos para
o entorno. Além disso, se a pessoa é muito forte, na verdade nem precisam ser muito fortes, nos
estados holotrópicos de consciência as pessoas ficam ainda mais fortes e ativas, é bom ter mais
pessoas ajudando na contenção. Principalmente protegendo a cabeça. Se a pessoa começa a tentar
escapar, arranhar, bater com as mãos ou pés nas costas dos facilitadores é necessário aumentar o
grau de contenção colocando almofadas sobre o tronco da pessoa contendo a movimentação das
pernas. Em certos casos nos quais a pessoa contida chuta e dá joelhadas com força, põe-se uma
almofada sobre as suas pernas na altura das coxas para não machucar seus joelhos. Em certos
casos é preciso uma pessoa em cada perna e até na barriga. Os braços podem ser segurados por
mais facilitadores. Apoiar a pessoa em sua luta, dizendo que tal contenção não é para inibir seu
processo, mas sim para mantê-la protegida e segura assim como aos facilitadores.
A contenção é feita por medida de segurança, mas também para gerar resistência na pessoa até que
ela gaste sua energia ao ponto de vivenciar a impotência, a descarga necessária para que da luta
emerjam outras vivências, por exemplo, do campo emocional. É muito comum que pessoas após
intensa luta terminem em choro profuso e alentador chegando por fim a um estado de calma e
tranqüilidade.

Esse exemplo da contenção no trabalho corporal holotrópico dá a chance para que muitos
elementos atuem e produzam seus efeitos. Mais uma vez os sinais foram dados pelo trabalho de
Respiração Holotrópica: a experiência de João é deflagrada por algo que o incomoda em seu
corpo, na sua cabeça e pescoço e que vem junto com uma crescente irritação. Ele experimenta
posições corporais para expressar o que se passava com ele. Depois, jocosamente ele se articula a
uma fala de um dos facilitadores que o convocam à luta, pois uma guerra estava sendo travada.
Resultante desse enfrentamento emerge mais uma experiência, de “morte, desfalecimento, não
havia mais como lutar”. A partir daí emergem novas expressões, a música entra em cena, o choro
de faz presente e traz consigo “culpa, tristeza, vontade de mudar”. Nesse momento de sofrimento
os facilitadores e acompanhantes entram em ação mais uma vez agora pela via do acolhimento. O
sharing também entra em ação e João articula sua experiência: “seria um parto?” Fala de sua
vida, de histórias recentes, conta como aquela vivência de contenção pode articulá-lo à sua
própria vida, à possibilidade de seu “amadurecimento como homem”.
Essa complexa situação deixa claro o modo como através da composição entre
determinados elementos um cenário se fabrica e oferece as condições para que mais
oportunidades para curar se tornem presentes. Em outras palavras, sintomas físicos ganham nova
expressão, dores, mal-estar, qualquer sinal de que algo necessita ser liberado se torna uma
oportunidade para a transformação pela expressão (que pode ser vista na luta de João apoiada
pelos facilitadores) e no trabalho de integração (João articula sua experiência à sua vida, busca
mais consciência, nos termos holotrópicos).
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3.5 Histórias holotrópicas

Como parte do trabalho de campo muitas histórias foram acompanhadas nas diversas
sessões holotrópicas. Na presente seção do texto gostaria de contar em breves linhas cinco delas,
as quais considerei interessantes por trazerem à tona, cada uma a seu modo, situações de
fabricação de oportunidades para curar. Descrever as sessões holotrópicas não foi simples, pois,
havia um contrato de sigilo sobre as experiências vividas durantes as sessões, que é uma das
regras do trabalho de Respiração Holotrópica. Destes feita, minha apresentação foi condicionada
a essa regra e, portanto, muitos detalhes foram omitidos. Dessa forma, em cada história, ponho
em relevo alguns elementos que se mostraram atuantes na fabricaram de oportunidades para
curar.

3.5.1 O tiro no pássaro

Uma experiência ocorrida numa das sessões foi muito peculiar tanto por sua comicidade
quanto pelo que emergiu dela no sharing. A sessão corria já há algum tempo. Eu me achava
observando o salão atento à movimentação que nele acontecia: pessoas respirando forte, fazendo
movimentos curiosos com o corpo, outras muito quietas em seus colchonetes, facilitadores
circulando pelo salão e outros ajoelhados trabalhando com respirantes ou simplesmente
observando tudo em silêncio.
Um dos flutuantes se aproximou de um dos facilitadores e fez gestos que pareciam se
referir ao ambiente. Apontava para uma das janelas. Fiquei mais atento ao que se passava e me
dei conta que ele estava achando que o salão estava quente ou algo do tipo. Parece que chegaram
a um acordo sobre isso e esse flutuante se encaminhou até uma das janelas. As janelas desse salão
eram grandes, maiores em altura do que em largura e havia, junto com uma rede de proteção
contra a entrada de insetos, um black out e uma espécie de estrado de madeira branco que
fechava a janela – era como uma tampa. Esse flutuante foi abrir a janela com cuidado, pois
abaixo dela estava um dos respirantes imerso em seu processo. Nesse momento olhei para o
respirante e ele estava deitado com as costas no colchonete com as pernas flexionadas e seus
braços se movimentavam como se ele estivesse voando suavemente. Ele tinha uma expressão no
rosto de calma e suavidade, com um leve sorriso desenhado nos lábios.
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Não sei bem o que ocorreu, mas de repente ouviu-se um estalo seco muito alto e eu que
estava olhando para o respirante levei um susto. Ele, que ainda estava em seu tranqüilo vôo,
soltou um grito grave, pôs as duas mãos sobre o peito e virou de lado estatelando-se no
colchonete. Fiquei um pouco atônito e corri os olhos pelo salão apressadamente para procurar
alguma explicação para o ocorrido. Dei de cara com o flutuante que tentava abrir a janela e me
dei conta que a tampa da janela lhe escapara das mãos e fora ela a responsável pelo barulho. O
flutuante e o acompanhante do respirante ficaram se olhando e depois ficaram observando o
respirante paralisado. Em seguida aproximaram-se mais um flutuante e um facilitador e todos
ficaram conversando baixo por algum tempo. Sem saber o que pensar, permaneci observando a
cena.
Depois de um tempo reunidos, o flutuante e o facilitador que se acercaram posteriormente
saíram rindo discretamente. O acompanhante e o flutuante da janela, agora cruzando olhares
comigo, me fitaram risonhos. Este último provavelmente percebendo minha expressão de
curiosidade fez os seguintes gestos com as mãos: uma arma, um passarinho voando e fez um
gesto muito comum quando dizemos que algo acabou: cruzando as mãos uma sobre a outra.
Comecei a rir, pois não dava para evitar, e eles também. Enquanto isso o passarinho-respirante
seguia inerte, abatido pelo tiro-barulho-da-janela.
Isso foi muito divertido e ganhou dimensões curiosas quando o respirante relatava sua
experiência no sharing. Segundo ele, naquele momento, era realmente um pássaro e sentia
imenso prazer ao voar, estava tudo bem até o instante em que levara um tiro e morrera. Em suas
palavras:
Estava tudo ótimo e aí alguém atirou em mim e morri. Fiquei assim caído, morto, e de uma forma
que nunca me passou antes comecei a ver muitas imagens de minha vida, muitas coisas. Foi
inesperado e bom porque acabei tendo uma experiência que nunca tinha vivido numa respiração:
ver imagens e lembrar-se de coisas antigas. Foi realmente emocionante essa experiência. Ter
morrido foi como viajar através de lembranças da minha vida. É como se eu pudesse reencontra-
me comigo mesmo, com quem fui em outros estágios de minha vida. Pude conversar com outros
eus.

Foi um relato muito divertido de uma história com nuances muitos singulares. O
respirante em questão insultava jocosamente o flutuante depois que soube sobre a sua
participação no barulho da janela. Todos riram muito.
Seguindo as associações entre os elementos em ação encontrei estas composições: um
respirante-passarinho, um tiro-barulho-da-janela, um flutuante interferindo no salão - tentando
cumprir seu papel de facilitador do processo para o grupo. Em outras palavras, pude acompanhar
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uma relação peculiar que pôde emergir entre uma vivência em que um humano - que se tornara
um pássaro voando tranquilamente - e um acontecimento inusitado - o um ruído causado pelo
choque em uma janela – se articularam engendrando uma experiência singular. O barulho da
janela, à moda de um tiro serviu de isca para articular o respirante (pássaro) a uma experiência
emocionante de encontro com imagens da vida, lembranças de coisas antigas.
Nesse caso acompanhei como se fabrica um coletivo particular onde oportunidades para
curar ganham existência. Esse ruído produzido no salão serviu como um conector articulando o
respirante-pássaro a uma sequência de eventos que convocaram, no sharing, um relato
emocionado sobre uma “experiência de morte como uma viagem através de lembranças de sua
história pessoal”. Percorrendo essas páginas de sua vida ele “reencontra-se consigo mesmo em
diferentes períodos do tempo” e estabelece “diálogos singulares com seus outros eus”. Essa
situação me pareceu uma oportunidade para que, nos termos da terapia holotrópica, mais
consciência de si mesmo fosse proporcionada.

3.5.2 O contato com o feminino divino e o homem que chora

Em uma das sessões holotrópicas, um dos respirante teve uma forte experiência com o
que ele definiu de o “feminino Divino”. Em seu trabalho de Respiração houve um momento em
que ele não conseguia seguir respirando forte, pois entrara numa sequência de espirros contínuos.
Por conta disso, tinha que parar de respirar para assoar o nariz constantemente. Decorrido um
tempo nessa luta para respirar ele se colocou deitado de costas no colchonete com as mãos no
peito. Já não mais espirrava e parecia que se concentrava, agora, em seu próprio peito. Deu
novamente início a uma forte respiração só que, doravante, fazendo movimentos com suas mãos
sobre o peito que inflava e desinflava através do exercício respiratório. Decorridos alguns
minutos ele desatou a gritar muito alto, um grito arranhado e agudo. Com os gritos, ele trouxe
suas mãos ao rosto e movimentava seu corpo de modo desarticulado, como se estivesse em
desespero.
Lançando meu olhar para o entorno do respirante percebi que uma das facilitadoras que
circulavam no salão estava postada ao seu lado observando o que acontecia. Após essa espera, ela
pôs a mão sobre o seu peito na altura do osso externo e quase que imediatamente o respirante
reagiu segurando suas mãos e se sentando. Ficaram de mãos dadas e ele começou a chorar de
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cabeça baixa. Ela lhe disse algumas palavras de apoio, sugerindo que ele “deixasse sair tudo isso
que estava sentindo”. Ele começou a chorar de um modo que só consigo descrever como sendo
muito profundo. Eu estava observando não tão de perto e fiquei muito emocionado, pois o que eu
presenciava parecia ser não um homem de meia idade em pranto, mas sim um pequeno menino.
Eles se abraçaram e ele permaneceu em choro durante algum tempo, ali, abraçado com a
facilitadora. Ela parecia também emocionada e permaneceu silenciosamente, abraçada ao
respirante, ambos de olhos fechados.
A cena desse abraço silencioso durou mais alguns minutos e aos poucos o respirante foi se
mostrando mais e mais sereno. A facilitadora lhe ofereceu papéis para que ele limpasse seu rosto
banhado em lágrimas. Tudo transcorria lentamente. Eles sorriram um para o outro e
permaneceram se olhando por alguns segundos. Novamente se deram as mãos e ele se deitou
novamente em silêncio. Não voltou mais a respirar forte e continuou deitado de olhos fechados
até o fim de sua sessão.
No sharing ele disse que “estava com muita dificuldade para respirar pelo nariz, estava
tudo entupido”. Explicita que “tentava respirar, porém ficava agoniado” e por isso buscou
“respirar mais forte para entrar mais fundo na experiência”. Foi esse ponto, no meio dessa agonia
que apareceu a facilitadora. Segundo ele relata:
Quando ela colocou a mão no meu peito veio uma vontade de chorar. Esse toque femininofez com
que eu me lembrasse de minha mãe e de minha namorada. O choro veio mais forte e na hora em
que nos abraçamos me senti em contato com todo esse feminino, sentia a presença Divina do
feminino, como Virgem Maria. Chorei muito, agradeci muito, é como se algo se limpasse no peito.

Um dos integrantes do grupo pediu a palavra e disse:


Foi muito emocionante a tua experiência. Todos nós temos que integrar os princípios masculinos e
femininos em nossa consciência. Na minha projeção, você viveu uma experiência de integração
entre esses princípios. Foi realmente muito bonito teu relato, você é uma pessoa muito sensível,
acho que essa energia feminina é um grande recurso para você utilizar em sua vida.

Sobre isso, para finalizar, comenta o respirante:


É faz sentido isso. Essa energia feminina traz consolo e aconchego. Não é fácil para os homens
lidar com a própria sensibilidade. No meu trabalho tenho que utilizar minha sensibilidade para
escutar as pessoas, para cuidar delas. Às vezes no meio de tantas coisas pra resolver a gente se
fecha e perde contado com isso. Essa experiência me mostra mais uma vez a importância da
energia feminina na minha vida.

Nessa situação a presença da facilitadora, se articulando ao respirante fabrica uma forte


experiência de carga emocional, de encontro com o que é chamado de “feminino Divino”, ou
“Virgem Maria”, assim como convoca a esse coletivo a participação de figuras da vida do próprio
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respirante, “mulheres de sua vida”. Ele se articula à força da respiração, que propõe o mergulho
em um estado de agonia e nesse momento emerge a facilitadora. Considerei essa mais uma
associação de elementos que oferecem na vivência do respirante uma oportunidade para curar,
onde ele pôde articular à sua experiência a “limpeza de seu peito e a gratidão pelo que
experimentou” em sua sessão holotrópica.
Aqui, nessa situação, me pareceu que a presença feminina da facilitadora - sua ação
propositiva que tem a ver com o feminino (um feminino em ação) - serviu como um conector -
com seu efeito atrativo - oferecendo a chance para a participação nesse cenário holotrópico de
mais actantes: a mãe do respirante, sua namorada, uma divindade, essa energia feminina que fala
do aconchego e da sensibilidade, além do que emergiu no sharing no diálogo com o outro
integrante do grupo. Essa me pareceu uma oportunidade para que se desse uma cura pelo
encontro com o feminino, onde se amplia a sua consciência no sentido de sublinhar a importância
da integração dessa energia feminina (e seus efeitos) em sua vida.

3.5.3 O fogo e o felino: consciência e transformação

Em outra sessão holotrópica presenciei uma experiência na qual um dos respirantes


“tornou-se um felino”. Ele estava deitado em seu colchonete e parecia sentir-se muito mal, como
se tivesse dores na região abdominal. Arrotava e apertava sua barriga, fazia movimentos com as
pernas trazendo-as até seu abdome. Fazia várias caretas de mal-estar, cuspia no saco de plástico
que estava nas mãos de sua acompanhante e fazia sons de desagrado. Num determinado momento
virou de bruços e ficou encolhido, com a cabeça e os membros voltados para o centro de seu
corpo como se tomasse a forma de um grande caracol. Ficou imóvel nessa posição por um bom
tempo até que se ajoelhou e se voltou na direção de onde havia uma lareira em brasa (havia uma
lareira nesse salão e fazia muito frio no dia). Virado para esse lado estendeu seus braços rumo à
lareira e assim ficou, como se estivesse buscando algo por lá. Em seguida à permanência nessa
posição, trouxe suas mãos para seu estômago e ficou assim um tempo. Levantou as mãos e
começou a olhá-las (de olhos fechados), foi fazendo movimentos com o corpo como se fosse um
animal. Meteu-se no meio de algumas almofadas e ficava quieto entre elas. Vez por outra, de
supetão, sua mão saia rapidamente debaixo das almofadas como se tentasse arranhar o que estava
fora das almofadas. Algumas vezes ele acertava de leve os pés de sua acompanhante como se
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estivesse prevendo os movimentos dela. Ela ia para seu lado e ele ágil e furtivamente a atacava
(ela, precavida, tinha uma grande almofada em suas mãos).
As pessoas à volta observavam e por vezes riam baixinho da cena. Isso durou um pouco
mais, até que ele se deixou cair de lado e ficou se lambendo e esticando a perna - o que me fez
pensar que este animal seria um gato ou coisa do tipo. Depois ele parou de fazer movimento e
permaneceu deitado quieto.
No sharing ele se referiu ao mal-estar explicando que tem tido azia e mal-estar
gastrointestinal. Disse que depois de um tempo respirando forte começou a sentir arder o
estômago, com enjôo e muitos gases. Num determinado momento disse ter sentido necessidade
de calor e queria ir até a lareira. Como não podia chegar até lá, disse que “se ligou a energia do
fogo, sentindo-o em suas mãos”, e desse modo “a trouxe para seu estômago”. A sensação,
segundo relata, era de “purificação, como se fosse arrancada uma massa escura e viscosa que
tomava toda a região abdominal”. Ele relata que
Teve uma hora que eu com o fogo nas mãos vi minhas mãos se tornarem garras, sei lá, eu me
lembrei do Harry106, é como se eu tivesse me tornado um felino como ele. Eu pressentia os
movimentos ao meu redor e me divertia com a possibilidade de pegar as pessoas de surpresa. Eu
não queria atacar e machucar queria jogar com elas.

Nesse momento sua acompanhante disse que percebera o mesmo e que não lhe pareceu
mesmo que ele estava raivoso. Ele não sabia bem porque com o fogo nas mãos viu as garras do
gato. Disse “não faz o menor sentido, mas vou deixar pra ver o que aparece, nem sempre a gente
entende mesmo não é?”.
Essa história acabou por se estender mais um pouco, pois numa troca de correspondência
eletrônica entre mim e essa pessoa, ela me contou que encontrara em um livro107 algo a respeito
da relação entre felinos e fogo. Segundo me informou:
Eu estava no consultório onde trabalho e na estante onde ficam meus livros e os livros de minha
colega de sala dei de cara com um livro dela que falava da relação simbólica entre certos animais e
a psique. Vi que nele havia uma parte sobre felinos e para meu espanto encontrei referências sobre
a onça ou jaguar como guardiães do fogo. Em muitas culturas indígenas esses animais fornecem
ao homem o poder do fogo, faz parte da mitologia deles. E no livro diz que, normalmente, é um
desses felinos macho e ele cuida de um indiozinho que estava perdido na floresta, longe de casa e

106
Harry era o gato do local em que estávamos realizando o módulo. Era um animal muito interessante que se esteve bastante
presente no ambiente. Em uma situação ele fora estapeado de leve por um dos integrantes do grupo, pois mexia no seu caderno de
anotações. Quando este integrante, em outro momento, estava distraído, conversando com outras pessoas, Harry deu-lhe uma
patada que o fez gritar de susto. Todos começaram a rir. “Ele se vingou pelo tapa que levou”, disse uma das pessoas.
107
O título do livro é „Os animais e a psique‟, um trabalho de pesquisa realizado por diversas autoras sobre as conexões entre os
animais e o psiquismo humano.
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lhe ensina sobre o poder do fogo. Os autores no livro falam sobre esse poder como sendo o
encontro com uma nova consciência. O jaguar macho, como um pai, ensina ao indiozinho sobre o
uso do arco e flecha e ensina também muitas coisas que ele não sabe sobre a coragem e sobre o
uso da agressividade.

Ele me contava tudo isso muito animado, pois tinha a impressão que o encontro com esse
livro era parte de seu processo. Como explicita:
Eu acho que tenho que meditar sobre essas informações. Minha experiência com o felino e o fogo
talvez tenha a ver com a necessidade de ter mais consciência de mim mesmo. De uns anos para cá
andei enfrentando problemas que pareceram maiores que eu mesmo. Agora leio isso e não há
como não relacionar as coisas. Tenho que meditar sobre a coragem, sobre ser agressivo. Você
sabe, agressividade é „ir em direção‟. Às vezes tenho pouca iniciativa e preciso de energia para
mudar coisas em minha vida. Tenho que pensar mais nisso.

Na experiência acima descrita, o respirante, inicialmente, se articula à “energia do fogo”,


que o conecta a uma “experiência de purificação” e em seguida “ao felino”. Essa energia do fogo
atua servindo de isca para que mais elementos entrem em cena nesse coletivo. Na esteira desse
processo emergem proposições diversas: um livro entra em ação e traz em seu bojo um felino-
fogo e aspectos da mitologia de um povo indígena que versa sobre a coragem e a agressividade -
que para o respirante significa ir em direção, ter iniciativa. Nesse sentido, ele então pode criar
possibilidades de conexão com o “poder do fogo”: ter mais consciência e, talvez como o
indiozinho perdido, aprender algo mais sobre si mesmo e para si mesmo com esse felino-fogo.
Não se pode esquecer também do gato Harry, que em sua ação propositiva soube “dar o troco” no
integrante do grupo que o acertara primeiro. Insólitas conexões entre actantes que vinculam o
respirante à necessidade de meditar sobre as informações que recebera ao ler o livro, refletindo-as
em sua própria vida, suas experiências, dificuldades ao enfrentar problemas. Em suma, cenarizar
essa experiência, conta como, através dessa vinculação inicial entre respirante e a energia do
fogo, diversos actantes entram em cena e, juntos, oferecem a possibilidade do respirante se
articular às oportunidades para curar, seja pela via de uma maior consciência sobre si mesmo,
seja pela via da transformação de determinados aspectos de sua vida.

3.5.4 Uma experiência de nascimento

Em um dos módulos presenciei o que foi considerado, pela própria pessoa que viveu a
experiência, como um processo de nascimento. Essa pessoa já no relaxamento estava
visivelmente emocionada, era possível perceber que lágrimas escorriam pelo canto de seus olhos.
No instante em que a música entrou em ação, uma música muito melódica, seu choro ganhou
133

maior expressividade, diminuindo quando ela parou de tocar. Quando as músicas se tornaram
mais fortes, o respirante foi se agitando muito e por algum momento me pareceu fora de controle.
Uma facilitadora, seu acompanhante e mais dois flutuantes puseram almofadas para dar os
limites do espaço para a movimentação dele (o que era um procedimento comum nas situações de
muita agitação). Essa ação pareceu ter liberado uma irritação muito grande nele que começou a
puxar as almofadas e a tentar atirá-las longe. Gritava muito alto e ameaçava as pessoas à sua
volta através de uma expressão feroz no rosto. Ele não permitia que ninguém o tocasse, se
afastava, fazia movimentos de ataque, empurrava as almofadas com seus ombros, pegava o
colchonete em que se encontrava e puxava-o com muita força, parecendo querer arrancá-lo do
chão. Num determinado momento parou numa posição de cabeça para baixo, apoiado em duas
almofadas que estavam sendo seguradas pelo seu acompanhante e por um flutuante. A
facilitadora que atuava na situação dava instruções para os flutuantes e para o acompanhante de
modo que não o deixassem sair do espaço, nem tampouco bater na parede ou cair de lado.
Passado algum tempo nessa posição ele voltou a se movimentar muito, a balançar a
cabeça fortemente, pressionando-a com ambas as mãos. Gritava muito, parecia sentir uma dor
tremenda. A facilitadora conseguiu pôr a mão em seus ombros, porém, de repente, ele se virou e
segurou com as duas mãos outro facilitador que se aproximara e encostou-o na parede do salão;
voltara a parecer furioso. Havia uma movimentação grande de pessoas em torno do respirante,
que a essa altura já havia soltado o facilitador citado. Encolheu-se no colchonete (algumas das
pessoas que estavam envolvidas na situação iam arrumando os colchonetes à medida que ele se
movimentava) e voltou a colocar as mãos na cabeça.
O facilitador, agora livre de seus braços, pôs uma almofada e encostou-a levemente na
cabeça do respirante que, imediatamente, começou a empurrá-la com a cabeça. Novamente a
agitação teve vez, pois o respirante começou a forçar a almofada com a cabeça. Não consegui ver
tão claramente o que se passava, pois havia muita gente cercando o respirante, mas parecia que
ele fora contido finalmente. Quando pude ver o que se passava, ele agora se encontrava com a
cabeça apoiada entre duas almofadas que protegiam a barriga de dois flutuantes. O respirante
ficou fazendo força durante muito tempo sendo contido pelos facilitadores.
A essa altura eu já me deslocara no salão para ver melhor a cena, até que por entre os dois
flutuantes com almofadas foi saindo a cabeça do respirante. A facilitadora se posicionou como
que para receber sua cabeça e apoiando-a em suas mãos. Através de uma complexa
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movimentação, o respirante conseguiu atravessar seus ombros por esse espaço entre as
almofadas, um de cada vez, liberando em seguida seus braços, sendo, por fim, recebido no colo
da facilitadora que o aguardava.
Assim que se aninhou no colo dela começou a chorar e permaneceu abraçado a ela por um
bom tempo até se aquietar. Estranhamente seu choro era decididamente infantil e intercalado por
soluços. Isso durou bastante tempo, até que ele foi se acalmando no colo da facilitadora. Antes de
voltar para sua posição inicial, de costas no colchonete, beijou uma das mãos da facilitadora que
o recebera nos braços e ela sorriu. Eu reparei nas pessoas, estavam sorridentes e muito suadas
fazendo alguns sinais - que me parecerem relativos ao bom trabalho feito em conjunto - uns para
os outros. O respirante permaneceu quieto até o fim da sessão junto com seu acompanhante.
Assim que ele abriu os olhos os facilitadores foram conversar com ele, perguntando-lhe
como se sentia. Ele referiu ter ainda algum incômodo na cabeça. A facilitadora perguntou se ele
queria trabalhar mais um pouco para ver se conseguia expressar mais, no que ele concordou.
Armou-se a seguinte situação: ele se deitou de costas e foi colocada novamente a almofada sobre
o topo de sua cabeça. A facilitadora solicitou-lhe respirar forte e rápido e fazer força com a
cabeça. Ele fazia força e enquanto se dava o procedimento ela lhe dizia para “expressar tudo
aquilo que desejasse”, reafirmando que “todos estavam ali para apoiar seu processo”. Isso durou
mais alguns minutos até que o respirante parou e disse que estava mais aliviado.
No sharing, esse integrante do grupo faz o seguinte relato:
Essa experiência que vivi aqui foi muito parecida com outras que tive em trabalhos de Respiração
Holotrópica, não tenho dúvida que elas têm a ver com meu nascimento. Acho que elas se repetem
porque tenho que limpar muita coisa em meu processo de parto biológico. É sempre muito difícil
passar por isso. Sinto muito mal-estar e muita raiva de quem se aproxima. Não quero saber de
ninguém perto de mim, muito menos me tocando. Dessa vez foi muito forte também e foi muito
bom ter sido acolhido do jeito que fui. Senti que meu choro veio de muito fundo. Meu nascimento
biológico foi extremamente complicado com risco de vida tanto para mim quanto para minha mãe.
Fiquei preso no canal de parto durante horas e sempre que vivencio esse aprisionamento tenho
vontade de explodir e destruir tudo ao meu redor. Acho que as memória traumáticas do parto
guardadas me levam nessa direção e creio que sempre que experimento novamente esse processo
me limpo de mais traumas, tensões e dores profundas.

A facilitadora lhe pergunta como ele estava se sentindo naquele momento, se ainda
incomodava sua cabeça e ele responde que estava bem. Estava “tranqüilo, porém muito cansado
fisicamente”. Disse que “seria bom descansar mais tarde para repor as energias” e explicita seu
estado nas seguintes palavras:
É sempre difícil viver essas coisas, é tudo muito intenso, irracional, mas depois que consigo me
expressar eu sinto como se algo em mim se acalmasse. Talvez eu acumule demais tensões e creio
que os padrões de sofrimento do meu parto biológico me façam cair de vez em quando em estado
135

de tensão intensos. Essas lutas para nascer ao mesmo tempo me exaurem e me renovam as
energias; sinto-me mais forte e pacificado ao mesmo tempo. É difícil pôr em palavras.

Eu pedi a palavra para fazer uma pergunta ao facilitador que colocara a almofada na
cabeça do respirante. Perguntei-lhe se quando ele fizera aquilo ele tinha a noção de que era um
processo de nascimento. Ele me responde do seguinte modo:

Eu não tinha clareza disso, eu não sabia exatamente o que estava acontecendo. Ele fazia uns
movimentos que sugeriam algo perinatal, por exemplo, aquela posição de cabeça para baixo,
porém não dava para saber. Quando coloquei a almofada foi para proteger sua cabeça e senti que
ele se ativou com isso e começou a empurrar com a cabeça. Daí, experimentamos a possibilidade
de uma luta para nascer e acabou que a experiência foi essa.

Nessa situação ganhou forma uma “experiência de luta”, porém desta vez ela ocorreu num
salão holotrópico que, através da ação dos facilitadores se transformou em “canal de parto”.
Nesse cenário, o trabalho de Respiração Holotrópica desse respirante ganhou os contornos de
uma “luta pela vida”, onde há “aprisionamento, dor e sofrimento”. O respirante “em nascimento”
- outrora nascido em outras sessões - em seu processo se articula à música, que atua como um
conector, e uma “poderosa experiência de nascimento” vai sendo fabricada com a entrada de mais
actantes: os facilitadores, as almofadas, o colchonete – elementos componentes do salão
holotrópico – cada um em sua ação propositiva, convocando para esse coletivo, os “limites e a
segurança” necessária ao andamento do processo.
Tal experiência articula o respirante à história de seu nascimento biológico e mais uma
vez, assim como em outras sessões holotrópicas, ele tem que “lutar por sua vida”, “nascer
novamente”, para por fim, através dessa expressão, através da associação entre diversos
elementos nesse coletivo, se vincular a mais oportunidades para curar que agora se apresentam
como mais uma possibilidade para “limpar traumas, tensões e dores profundas” e mediante isso
“sentir mais força e paz em sua vida”.

3.5.5 A energia que caminha e o chamado profundo

Uma das pessoas do grupo começou a sessão respirando forte e em alguns minutos já
estava movimentando seu corpo de modo sincronizado com o ritmo acelerado da música. Em
alguns instantes, ela fazia algumas expressões no rosto que me causavam a impressão de que
havia algo lhe gerando muito mal-estar.
Após isso ela começou a colocar sua mão em algumas partes do corpo, primeiro na
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barriga, depois no pescoço, indo e vindo nesses dois pontos. A certa altura iniciou uma sequência
de movimentos em que apertava suas pernas contra seu abdômen, a meu ver buscando algum tipo
de alívio para um mal-estar persistente. Em determinado momento ela chamou seu acompanhante
e disse que necessitava colocar algo para fora, mas não sabia como.
Seu acompanhante lhe perguntou o que ela gostaria de tentar fazer e ela disse não saber.
Nesse momento tentaram fazer o seguinte trabalho corporal: a pessoa permaneceu deitada de
costas no colchonete e mais uma pessoa que estava flutuando foi chamada para ajudar. Foi
pedido que o respirante esticasse seus braços fazendo força enquanto os dois que a auxiliavam
exerciam uma determinada resistência à força por ela imprimida. Eles pediam: “Faça força e
depois relaxe.” Isso foi feito várias vezes, inclusive em algumas dessas a respirante emitiu alguns
sons, como gritos de esforço, até o momento em que se desencadeou nela um choro. Ela deitou-se
de lado e permaneceu chorando por certo tempo. Seu acompanhante estava ao seu lado
observando, vindo a pousar a mão sobre sua cabeça por alguns instantes.
Ao final, o facilitador que coordenava o grupo se aproximou para checar se estava tudo
bem. Ela disse que ainda sentia um mal-estar na região do abdome. Foi proposto um novo
trabalho corporal, onde o facilitador colocava as mãos no local em questão e pedia que o
respirante fizesse força, empurrando seu corpo contra a mão do facilitador. Após relaxar, a
respirante disse que a dor passara para suas costas. Foi realizado o mesmo procedimento agora
nas costas. Depois a dor foi para o pescoço, depois voltou para o abdome, até o ponto em que a
respirante soltou uma forte gargalhada. Todos que estavam à sua volta terminaram por rir, pois a
pessoa não parava de rir. Após isso tudo, ao „ser checada pelo facilitador‟, ela disse que o
incômodo havia sido liberado.
Essa situação me deixou muito intrigado, pois eu estava diante de uma sequência de ações
muito específicas e que tiveram um desfecho bastante inusitado. Fui conversar com a respirante
sobre o que se passou com ela e esta me relatou que “não sabia como pôr para fora o que sentia e
que no momento em que conseguiu liberar isso se sentiu aliviada. Não sabia dizer o que era, mas
sabia que havia saído”. Mais curioso ainda, fui conversar com o facilitador que participara desse
processo lhe falando como me pareceu engraçado ver uma dor que caminhava por diferentes
partes do corpo. Sobre esse acontecimento ele se refere nas seguintes palavras:

Isso é muito comum de ser observado nas sessões holotrópicas. O que nós presenciamos foi a
energia circulando pelo corpo buscando expressão, buscando liberação. O sintoma do mal-estar ou
137

da dor que aparece no corpo representa sempre essa energia represada. Ao mesmo tempo esse
sintoma é um chamado profundo que em nós emerge para que seja feito algo de nossa parte para
liberá-lo, para que a energia volte a circular livremente vitalizando nosso corpo. O que vimos é
uma forma de comunicação, uma oportunidade para que tomemos consciência do que se passa
conosco.

Nessa situação é essa “energia que vitaliza o corpo” que convoca a articulação entre mais
elementos agentes. O que se tornou visível para mim no acompanhamento da respirante e no
trabalho ao lado do facilitador foi o modo como dessa articulação inicial entre a respirante e o
“chamado feito pela energia” um caminho de associações foi produzido. O próprio sintoma,
assim como dito pelo facilitador, é essa “energia que perde sua fluência”, e que atua como isca
para que a respirante e o facilitador se vinculem em prol da fabricação de mais oportunidades
para curar, onde num trabalho conjunto de liberação e transformação desse sintoma o que era
antes da intervenção mal-estar, “energia represada”, se torna “gargalhada, alívio, liberdade de
fluxo para essa energia” e “mais vitalidade”.
Considero por fim, que essas cinco histórias vividas durante as sessões holotrópicas,
mostram algumas possibilidades de engendramento de oportunidades para curar nos grupos
holotrópicos. Cada uma delas, assim como cada uma das outras situações apresentadas no
presente capítulo, falam do modo como pude perceber a fabricação de coletivos singulares, nos
quais, a partir de conexões iniciais entre determinados actantes do cenário holotrópico, um sem
numero de outros actantes entraram em cena para compor a prática terapêutica holotrópica.
138

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

[…] nunca escrevi nada além de ficções. Com isso não quero dizer que estejam fora da verdade.
Parece-me possível fazer trabalhar na verdade, induzir efeitos de verdade com um discurso ficcional
e, de algum modo, fazer com que o discurso de verdade suscite, fabrique alguma coisa que ainda
não existe, portanto „ficcione‟[...] (Foucault apud Rodrigues, 2007, p. 4).

Se o escritor é um feiticeiro é porque escrever é um devir, escrever é atravessado por estranhos


devires que não são devires-escritor, mas devires-rato, devires-inseto, devires-lobo etc (Gilles
Deleuze e Félix Guattari).

Inicio a sessão final do presente texto me remetendo a três autores que convidam aqueles
que fazem pesquisa a um duplo movimento em sua prática pela escrita: o de invenção de uma
realidade e o de invenção de si mesmos - mediante esse trabalho criativo. Foucault ao dizer que
através de sua escrita ele induzia efeitos de verdade, e que por isso ficcionava, me parece fazer o
convite a uma virada no modo como o pesquisador empreende sua tarefa de pesquisar: estaria ele
descobrindo algo sobre uma realidade que está em algum lugar para ser garimpada ou estaria
construindo possibilidades através do engajamento em seu trabalho? Estaria ele de pé na margem
de um rio fazendo suas anotações sobre como „é‟ esse rio ou estaria ele mergulhado em suas
águas sentindo-se no meio de um torvelinho de afetações e através disso produzindo versões
sobre como muitos rios podem existir e coexistir? E como falam Delleuze e Guattari, a escrita é
um devir, um movimento onde coisas se transformam, onde na instabilidade da ação coisas
estranhas acontecem: feiticeiros, ratos, insetos, um escritor habitam o território da invenção, do
tornar-se possível. Tal ficção vem de encontro ao que busquei produzir na presente pesquisa,
articulando-me à noção de que o que produzi por meio da presente tese foi uma versão acerca do
modo como se dá a prática terapêutica nos grupos holotrópicos que acompanhei.
Articulando-me ao campo, em sua rica desordenação (Law, 2003), busquei uma via de
descrição em consonância com as proposições metodológicas da TAR, em especial de Latour,
onde, mediante o trabalho de cenarização, segui os traços deixados por determinados actantes,
que, através de suas associações, fabricavam coletivos de oportunidades para curar. Além, disso,
a escrita do texto-laboratório, intentou dar visibilidade à articulação entre um pesquisador-na-
relação-com-o-campo. Portanto, não parti da premissa de que minha pesquisa se sobrepunha aos
acontecimentos do campo e sim foi o resultado do encontro com este.
139

Na esteira desse processo, não levei em conta que aquilo que se movimentava no campo
era uma realidade absoluta e imutável e que meu trabalho se daria pela via do desvelamento, da
busca por essências e categorias prévias ao trabalho. O próprio uso da TAR não foi nesse sentido,
pois busquei articular-me à ação de determinados elementos do campo e o que emergia do
encontro entre esses elementos em ação. Sem dúvida a perspectiva holotrópica e grupos
holotrópicos não dependem de mim para existir. Todavia, a versão sobre as oportunidades para
curar – cada uma delas em sua provisoriedade e especificidade - resulta de um encontro singular
entre pesquisador e campo. Nesse sentido, meu papel foi concomitantemente, o de um interventor
– através da descrição eu propus uma maneira se entender como se dá a prática terapêutica nos
grupos holotrópicos – e o de um porta-voz – por meio da descrição trouxe para o texto coisas que
me afetaram, que me fizeram-fazer e empreender a tarefa de tornar visíveis elementos agentes do
campo sem julgá-los em suas ações e proposições.
Com efeito, haveria muitas possibilidades de ficcionar sobre esse campo holotrópico. A
riqueza de acontecimentos não se esgota na versão sobre as oportunidades para curar. Muitas
pesquisas poderiam ser realizadas, muitas realidades poderiam emergir do encontro com os
grupos holotrópicos. Dessa forma, considero que a noção de versão assim como apresentada por
Despret (2001) se tornou muito válida, pois ela respeita a multiplicidade de possibilidades do
campo. Ao mesmo tempo, ela aponta na direção da ação do pesquisador, que é herdeiro de suas
raízes científicas, de seus interesses e que por isso intervém propositivamente na relação com o
campo.
Considero que além do estudo específico que fiz sobre as oportunidades para curar, outras
temáticas poderiam ser tomadas como objeto de investigação, tais como:
1) Que tipo de versão de Psicologia em ação ganha contornos nesses grupos e qual(is) a(s)
possível(is) relação(es) entre essa prática (holotrópica) e o campo da Psicologia contemporânea?
Em um trabalho desse naipe poderiam ser buscadas as tentativas de estabilização realizadas pela
perspectiva holotrópica na Psicologia e deslindar as possíveis articulações com os debates mais
recentes no campo das versões de psicologia, ou psicologias. Suspeito que no decorrer dessa
jornada inímeras controvérsias, pontos de encontro e negociações tornar-se-iam visíveis e
interessantes problematizações ganhariam forma.
2) Outra possibilidade seria propor uma discussão mais detida sobre a inserção das
substâncias expansoras da consciência no campo da psicoterapia, ou mesmo, seguindo a linha do
140

item anterior, no cenário da Psicologia contemporânea. Esse sem duvida é um rumo de pesquisa
bastante rico e controvertido. Considero que uma possibilidade seria a realização de estudos de
caso, ou mesmo, fazer uma investigação sobre a produção científica atual que conecta o potencial
terapêutico do uso das chamadas substâncias alucinógenas e as proposições terapêuticas em
Psicologia. Creio que em um estudo desse porte interessantes conexões entre a Psicologia, a
Psiquiatria, a Antropologia e o campo da espiritualidade dita primitiva ou pré-industrial poderiam
emergir oferecendo um manancial de elementos reflexivos.
3) Além das anteriores, poderia se desenvolver um estudo que enfocasse principalmente o
trabalho de articulação realizado pela versão holotrópica entre os rituais de culturas diversas e a
prática terapêutica em Psicologia. Esse inclusive foi um aspecto do campo que me chamou
bastante a atenção no qual elementos componentes de cenários rituais puderam ser articulados ao
set e o setting holotrópico, sendo covocados a produzir seus efeitos terapêuticos.
Desta feita, uma questão emergiu como resultado do trabalho da presente pesquisa – e que
atravessa as possibilidades de estudo anteriormente citadas: como axcompanhar os diversos
modos de produção de realidades resultantes das práticas terapêuticas, em especial, as
psicoterapias? Seriam elas tão distintas assim? Como cada uma delas constrói acesso à
determinados elementos através de sua prática?
Não tenho dúvida que seriam caminhos de pesquisa muito interessantes e estimulantes,
que não escapariam ao meu interesse como um herdeiro do mundo da Psicologia. Creio que,
nesses termos, a presente pesquisa deixa o pesquisador diante de muitas janelas abertas, além de
deixá-lo hesitante e curioso no meio de uma excitante encruzilhada de caminhos para estudos
futuros, pois não descarto a possibilidade de dar prosseguimento aos meus estudos acadêmicos
tomando alguns desses caminhos.
O ponto que gostaria de destacar - já que citei minha condição de herdeiro da Psicologia -
é que não obstante eu estar acompanhando grupos que se encontravam em treinamento em uma
abordagem terapêutica, em meu trabalho de campo não se tornou visível a presença da Psicologia
como um elemento central. O que quero dizer com isso? Enquanto eu realizava os preparativos
para dar início ao trabalho de campo eu suspeitava que - por ser Grof um psiquiatra e um membro
bastante relevante da Psicologia Transpessoal, por ter sido ele, em meus termos, o proponente de
uma versão em Psicologia - eu acabaria por cair inevitavelmente em um tema que colocasse a
Psicologia no centro de meu trabalho. Contudo, o que pude perceber foi que a Psicologia
141

(representada por certos elementos agentes no campo), entendida como um actante se mostrou
como um dos elementos do campo, sem ocupar necessariamente uma posição central. A minha
impressão foi a de que nesse deslocamento, sua ação se distribuiu (em termos de produção de
efeitos), partilhando um mundo comum ao lado de elementos do xamanismo (Amanita muscária,
Kambô, Pau Santo, Florida), de filosofias espirituais como o budismo e o hinduísmo (uso da
meditação, o Ting Sha), dentre outros. Assim, mais do que pensar a Psicologia, os grupos
holotrópicos me fizeram ver o que estaria em jogo, atuando no processo de fabricação das
oportunidades para curar - e foi isso que me dispus a acompanhar. Nesse sentido, as proposições
do mundo da Psicologia (que não foram poucas a agir no campo) estavam, no cenário
holotrópico, compondo um mundo comum com outras proposições de mundos muitos distintos.
Assim, decorridos três anos de trabalho de campo, foi o tema das oportunidades para curar
que, de fato, me moveu na direção da elaboração da presente pesquisa e do texto, assim como se
me afigurou interessante, justamente, por ter sido acessado pelo modo da afetação (Favret-Saada,
2005). De acordo com isso, foi pelo fato de eu como pesquisador estar imerso no campo,
compartilhando, junto com os demais integrantes dos grupos, a experiência de fazer parte de um
cenário de proposições e associações entre elementos do „mundo‟ holotrópico, que Joe e o
palitinho e as oportunidades para curar puderam compor um mundo comum. Desse primeiro
encontro significativo entre actantes do campo com o pesquisador - articulado e afetado – rastros
deixados por mais actantes foram seguidos, associações entre inúmeros elementos agentes foram
produzidas e coletivos foram ganhando contornos específicos, embora sempre provisórios.
Outro elemento que se fez importante no relato tem a ver com a elaboração de uma
pesquisa resultante de um encontro com o campo pela via da afetação. Meu trabalho foi
negociado porque não foi meramente produto de meus interesses, mas sim da articulação entre
estes e o que me afetou em campo. Assim, 1) o respeito pela experiência das pessoas, a
curiosidade em relação àquilo que me pareceu estranho e sem sentido no início, 2) a abertura para
as demandas reflexivas, 3) a hesitação diante de algumas certezas sobre o que ocorria foram
sendo fermentadas durante meu processo de gestação como pesquisador na relação com o campo
e nutriram um modo de estar em campo e me relacionar com o que lá se passava. Isso me
auxiliou a caminhar pelas articulações e fabricar uma linha de investigação que me permitiu
ordenar, a posteriori, o campo, de modo a entender como se fabricavam as oportunidades para
curar nos grupos com os quais trabalhei.
142

Essa experiência foi muito rica e proveitosa, pois, não obstante minha conexão prévia
com as proposições teóricas e terapêuticas de Grof, tanto o tema escolhido quanto a forma do
texto foram ganhando dimensões surpreendentes para mim. Portanto, a experiência do trabalho
de campo com os grupos holotrópicos me trouxe a compreensão de como uma determinada
prática terapêutica pode ser fabricada. Mesmo com esse contato anterior com o mundo
holotrópico considero que o presente resultado me inventou, ou seja, algo novo surgiu onde antes
estava o conhecido.
Em decorrência disso, sublinho a opção feita por tornar visível o modo como fui, através
do trabalho de campo, fabricando a mim mesmo como pesquisador, levando em conta os
seguintes elementos: o papel da reflexividade, que funcionou como um recurso valioso para lidar
com meu conhecimento prévio em relação ao trabalho de Respiração Holotrópica, bem como
com a perspectiva holotrópica. Além disso, tratar os acontecimentos do campo e o papel do
pesquisador pela via da reflexividade foi um modo de escapar da denúncia crítica e da aceitação
passiva, já que, enfatizando a relação entre o pesquisador e os elementos do campo na produção
do conhecimento, um tratamento simétrico pode ser dado aos actantes.
Nesse sentido, outro elemento emerje, qual seja: a participação do próprio pesquisador
como um agente em campo, um actante. Em algumas situações relatadas durante o texto, busquei
tornar visível como fui afetado pelo campo e - como no caso da entrada do passarinho no salão,
de minha discussão com o facilitador sobre os Ovnis e de minhas primeiras experiências nos
grupos nas sessões holotrópicas - os questionamentos surgiram como resultantes de minha
presença, participação e articulação com os demais actantes que ali agiam.
Seguindo através de um complexo caminho de articulações, fui acompanhando a
singularidade da prática terapêutica nos grupos holotrópicos e situações foram me fazendo chegar
ao entendimento de que as oportunidades para curar, nos grupos holotrópicos, se referiam
justamente aos efeitos gerados por uma série de acontecimentos que compunham o cenário
terapêutico holotrópico. Refletindo sobre como as oportunidades de cura poderiam ser descritas,
percebi que elas ganhavam seus contornos através das falas-ação dos integrantes do grupo,
através de noções como: “autoconhecimento”, “maior consciência e compreensão sobre si mesmo
e sobre a vida”, que apontam para a possibilidade de “transformação pessoal” - recebendo um
papel relevante a “integração das experiências vividas”. Isso pode ser visto nas situações em que
as pessoas se colocavam disponíveis para a troca de experiências; nos momentos em que as
143

pessoas se entregavam à “sabedoria do Curador interno”; quando as pessoas conseguiam


“mergulhar em suas experiências” permitindo a si mesmas “serem guiadas por uma força maior
que elas”, dentre outras situações que se apresentaram no campo.
Um ponto que também me chamou a atenção e que merece destaque foi a importância do
que eles chamam de set e setting holotrópico, que engloba a articulação dos participantes dos
grupos com as proposições da perspectiva holotrópica, seja através da relação entre facilitadores
e demais integrantes do grupo em formação, seja entre todos estes e o contexto físico mais amplo
onde todos compartilham suas experiências. Quando me refiro ao contexto físico mais amplo,
incluo os salões holotrópicos, os diversos espaços onde as pessoas circulavam, bem como a
natureza circundante, os objetos e seres encantados e o Movie yoga. Em particular esse dado me
surpreeendeu e me fez compreender que as oportunidades para curar não tinham lugar somente
nas sessões holotrópicas (espaço onde os elementos do trabalho de Respiração Holotrópica
entram em ação), mas também se encontravam articuladas ao amplo cenário do trabalho de
Respiração Holotrópica. Em outras palavras, tornou-se claro, durante o trabalho de campo, que as
oportunidades para curar nos grupos holotrópicos poderiam emergir em qualquer situação já que
o set e o setting holotrópico, ele mesmo, não se restringia aos limites do espaço dassessões
holotrópicas. Em suma, o cenário de possibilidades para que experiências transformadoras
pudessem agregar mais consciência às pessoas do grupo ganhou dimensões transbordantes e
surpreendentes para mim, em particular por alguns dos actantes que participaram.
Para terminar, correndo os olhos através de todo o corpo da minha pesquisa me
reencontro com Joe e o palitinho e em como a articulação entre ambos trouxe para perto a fala-
ação do facilitador sobre as oportunidades para curar e, junto com ela, veio também a minha
intervenção como pesquisador. Uma versão sobre a prática terapêutica nos grupos holotrópicos
foi então sendo delineada e cada vez mais elementos entraram em ação: um passarinho, que, ao
chocar-se no vidro da sala, convidou o pesquisador a refletir sobre sua prática, sobre a
importância de um trabalho onde a produção do conhecimento se desse como um espaço de
janelas abertas; uma natureza que trouxe suas proposições; assim como Grof e sua teoria; os
salões holotrópicos; os facilitadores; os respirantes, etc. Cada um desses elementos se fez ativo na
pesquisa, todos compuseram um mundo comum nesse amplo cenário de possibilidades
holotrópicas. Nesses termos, creio que um momento muito interessante da presente pesquisa tem
a ver com a devolução que farei do resultado da pesquisa para os componentes dos grupos
144

holotrópicos com os quais me articulei. Esse reencontro com o campo, portando a minha versão,
poderá propiciar questionamentos sobre minha prática que podem enriquecer-me de idéias e
reflexões seja para o presente texto, seja para publicações futuras sobre a pesquisa, bem como
para estudos do porvir. Revendo todo o trabalho realizado desde a entrada no campo até a
consecução do texto-laboratório, a impressão que tenho é a de que, justamente no final da
pesquisa, tenho um momento muito bom para retornar ao campo, como se o trabalho agora
pudesse ganhar novas dimensões.
Sinceramente, espero que a presente empreitada - que nessas últimas linhas estabelece os
limites provisórios desse estudo - possa servir para trazer para a arena de debates da Psicologia
não só os inúmeros elementos do mundo holotrópicos, mas também o modo como a TAR
possibilitou-me acompanhá-los e torná-los visíveis. Com certeza essas alianças teórico-
metodológicas me foram extremamente valiosas não somente para acompanhar a fabricação das
oportunidades para curar nos grupos holotrópicos, como também, para ficcioná-las no texto
através da pena de um pesquisador que se construiu articulado ao seu campo.
145

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ANEXO A – Dados sobre os grupos holotrópicos

CATEGORIAS QUANTIDADE

Módulos 7 (Brasil + Argentina)

Duração de cada Módulo 6 dias / 50 horas

Módulo com maior número de 26 pessoas (Argentina)


participantes

Módulo com menor número de 9 pessoas (Argentina)


participantes

Total de Faclitadores 10 pessoas (Brasil + Argentina)

Total de Partcipantes 54 pessoas (Brasil + Argentina)

Total de Mulheres 26 (Brasil + Argentina)

Total de Homens 28 (Brasil + Argentina)


153

ANEXO B – Paisagem natural nos grupos holotrópicos

Figura 1. Pesquisador se preparando para


uma viagem holotrópica. Foto cedida por
um dos integrantes do grupo. Torre Blanca,
Buenos Aires, outubro de 2008.

Figura 2. Foto tirada por mim da árvore


que escolhi para a realização do ritual da
árvore. Espaço Natureza Arco-Íris, São
Paulo, junho de 2009.

Figura 3. Foto tirada por mim da orla do


lago onde se situava o grupo de Amanitas
muscarias (logo abaixo dos grandes
pinheiros). Espaço Natureza Arco-Íris, São
Paulo, setembro de 2010.
154

Figura 4. Paisagem de Torre Blanca,


Buenos Aires, maio de 2008. Foto
cedida por um dos integrantes do grupo.

Figura 5. Foto de um banho de prana


em Torre Blanca, Buenos Aires,
outubro de 2008. Foto cedida por um
dos integrantes do grupo.

Figura 6. Foto de la "puesta del sol" em


Torre Blanca, Buenos Aires. Fonte: site
de Torre Blanca http://www.torre-
blanca.com.ar/galeriaTB/index.html.
155

ANEXO C – Objetos e seres encantados

Figuras 1. Foto tirada por mim do Amanita


muscaria
Figura 7. ainda
Foto dofechado,
AmanitaSão Paulo, junho de
muscaria,
2009.
maduro, visto de cima cedida por um
dos integrantes do grupo, São Paulo,
junho de 2009.

Figura 2. Foto da rã Phyllomedusa bicolor tirada pela


pesquisadora Bia Labate, onde se pode ver a coleta da
secreção do Kambô. Aldeia Katukina do Campinas,
terra indígena do rio Campinas localizado no Acre em
janeiro de 2005. Fonte: site da internet
http://www.antropologia.com.br/colu/colu27.htm.

Figura 3. Pau santo. Fonte: site da internet


http://incensopalosanto.blogspot.com/.

Figura 4. Garrafas de água florida. Fonte: site da


internet http://incensopalosanto.blogspot.com/.
156

ANEXO D – Os salões holotrópicos

Figura 1. Foto externa do salão


holotrópico do Espaço Natureza Arco-
Íris: na frente, em azul, situa-se o
espaço anexo com banheiro e local para
refeição e logo em seguida vem o
espaço (em branco) das atividades
principais. Fonte:
http://www.aljardim.com.br/gttbrasil.ht
m.

Figura 2. Foto interna do salão


holotrópico do Espaço Natureza Arco-
Íris preparado para uma sessão
holotrópica. Foto cedida por um dos
integrantes do grupo: São Paulo, junho
de 2009.

Figura 3. Foto externa do Hexágono de


Torre Blanca, local do salão
holotrópico. Foto cedida por um dos
integrantes do grupo: Buenos Aires,
outubro de 2008.

Figura 4. Foto interna do salão


holotrópico de Torre Blanca sendo
preparado para uma sessão holotrópica.
Foto cedida por um dos integrantes do
grupo: Buenos Aires, maio de 2008.
157

ANEXO E – Set de músicas holotrópicas


158

ANEXO F – Mandalas holotrópicas

Figura 1. Fotos das mandalas durante um


sharing. Fonte: site do GTT Brasil -
http://www.aljardim.com.br/busca%20espiritual.
htm.

Figura 2. Foto de uma mandala representando


os ciclos de transformação da vida (cedida por
um dos integrantes do grupo).

Figura 3. Foto de uma mandala representando o


renascimento da esperança através da ação
transformadora do sofrimento (cedida por um dos
integrantes do grupo).