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POR QUE É TÃO DIFÍCIL FALAR DE SUICÍDIO ENTRE JOVENS GAROTAS?

REFLEXÕES SOBRE SAÚDE MENTAL E LESBOFOBIA NA ADOLESCÊNCIA


Yasmin Aparecida Cassetari da Silva1; Fernando Silva Teixeira Filho2

RESUMO: Este artigo visa discutir a problemática do suicídio em referência ao modo como esta atinge a
população jovem feminina em fase escolar. As reflexões aqui apresentadas são oriundas de duas palestras
proferidas durante uma campanha de prevenção ao suicídio realizada em duas escolas de ensino médio do
centro-oeste paulista. Neste artigo são apontadas as percepções advindas da plateia, por conta das
perguntas, comentários e conversas após o evento, bem como das constatações acerca do referencial
teórico abordado frente à temática em discussão Pode-se averiguar como tal assunto ainda trás
delineamentos morais e espaços de não fala caracterizados pelo tabu frente às ideias suicidas e a
expressões do gênero feminino destoantes do padrão determinado socialmente. Visibilizando as
manifestações lesbofóbicas em espaço escolar, esta escrita corrobora para o trabalho de conscientização e
problematização acerca deste debate frente à questão da saúde mental e lesbofobia na adolescência, que
pode originar graves consequências, tais como a alarmante onda de autoflagelação e tentativas de suicídio
entre jovens garotas.

INTRODUÇÃO
Falar sobre a temática do suicídio ainda representa romper com sigilosos rituais
de invisibilidades frente a este processo. Uma vez que o ambiente circunscrito a este
assunto é permeado de moralismos e de conjecturas mais interessadas em julgar o
sujeito que realiza3 o ato suicida do que propriamente traçar linhas de enfrentamento a
esta temática. Frente ás concepções existentes nos estudos sobre suicídio, optamos por
denominar de processo suicida todo o arcabouço circunstancial deste fenômeno por
acreditar que este possua uma trajetória, um percurso que não se inicia nas ideações
supostamente subjetivas do suicídio, e que não se findam apenas nas tentativas suicidas
(Bertolote, 2012).
O suicídio é apenas uma das dimensões do comportamento suicida, o qual inclui
um leque de comportamentos marcados por pensamentos negativos, autodestrutivos,
repletos de autoameaças, de gestos e tentativas de suicídio até o ato final. Para cada uma
dessas sensações, são formuladas atitudes tendo-se em vista a especificidade de cada
situação, mas que objetivam colocar fim à vida. É neste ponto que investigar as causas,
as configurações e situações desencadeadoras de tais sentimentos torna-se primordial
para uma efetiva medida de entendimento e prevenção ao suicídio.

1
Mestranda em Psicologia e Sociedade na Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” – Campus
Faculdade de Ciências e Letras de Assis/SP.
2
Professor Livre Docente em Psicologia na Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” – Campus
Faculdade de Ciências e Letras de Assis/SP.
3
Neste artigo opta-se em usar o termo realizar o ato suicida, ao invés do comumente termo “cometer”
por conta do teor pejorativo desta palavra, ligada a crença da qual a tentativa de suicídio se caracterize
como crime.
Por se tratar de um fenômeno multifatorial, os estudos a respeito do processo
suicida encontram dificuldades em afirmar qual fator, dentre os aspectos biológico-
psíquico-psíquicos/psíquicos/sociais/culturais, teria maior peso na efetividade das
ideações suicidas. Ademais, outra dimensão ainda pouco trabalhada no Brasil nos
debates correlacionados ao processo suicida se refere aos aspectos relacionados às
questões de expressões de gênero e orientações sexuais.
Os estudos de gênero, segundo a definição de teóricas do feminismo (SCOTT,
1995; NICHOLSON, 2000), diz respeito ao enquadre social estipulado em relação às
atitudes frente identidade de mulher e homem segundo as ações desempenhadas em
sociedade. Assim, tem-se que a construção das performances esperadas para cada um
dos gêneros existentes, feminino ou masculino, pode ocasionar grande sofrimento, fato
ignorado como um dos possíveis propulsores ao enredo suicida.
O fato comprovadamente atestado em relação à temática do suicídio e gênero
encontra algumas repercussões atestadas em alguns estudos que apontam o padrão
predominante nos suicídios é de taxas de mortalidade três a quatro vezes maiores entre
os homens. (WAISELFISZ, 2014), e de números maiores de tentativas de suicídio entre
mulheres (LOPES, 2003; LOVISI et al., 2009). Dentre a população com idades de 15 a
39 os suicídios constituem a terceira principal causa externa de morte, com 10,2%,
sendo inferior apenas ao número de acidentes de transporte e agressões. (SEADE, 2016)
Contudo, tais pesquisas acabam alocando a problemática da prevalência do
suicídio entre homens e de tentativas entre mulheres meramente por aquisição de modos
menos ou mais agressivos. Isto sem se colocar em questão como essa pessoa enfrentava
seu dia a dia. As pesquisas ainda apontam a forte tendência ao suicídio pelos sujeitos
em sofrimento psíquico (OMS, 2017).
Diante destas colocações, nos depararemos com algumas questões, tais como: o
como se forma as noções de gênero? Qual o peso dessa noção? Como as(os) jovens em
idade escolar estão lidam com estas formações frente suas orientações sexuais? É em
relação a solucionar, ou vislumbrar respostas a estas dúvidas que apresentaremos o
relato de experiência a seguir.

CAMPANHA DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO EM ESCOLAS DE ENSINO MÉDIO

Em meio ao cenário alarmante de automutilações, ideações e tentativas de


suicídio dentre alunas de duas escolas de ensino médio, uma de ensino técnico e outra
de ensino regular, do centro-oeste paulista, tornou-se necessária à discussão acerca de
medidas preventivas. Após o recebimento do convite da direção para a realização de
uma palestra que versasse sobre os aspectos do enredo suicida entre jovens, a grande
questão emergente se pautava no como fazer isso? Uma vez aceito o compromisso, a
tarefa foi buscar material que referenciasse a fala, de modo a torná-la dinâmica e
compreensível para as alunas e alunos das três séries do ensino médio.
Contudo, a temática acerca do suicídio é repleta de interditos e de regimes de
segurança frente à maneira como se deve abordar tal assunto (OMS, 2000). O primeiro
percalço se mostrou diante da quase inexistência de experiências de fala sobre suicídio
com as(os) jovens, todo material encontrado se referi a trabalhos com docentes e
gestoras(es) escolares. Essa dificuldade assinalou a problemática da falta de diálogo
com as(os) adolescentes sobre esse assunto.
Com o estabelecimento e criação de estratégias para a fala, ocorreu à palestra de
modo dinâmico e participativo. Houve muitas questões acerca da temática, abaixo se
listam as perguntas que foram feitas nas duas escolas, tais como:
1. Uma pessoa com pensamentos suicidas é perigosa para as (os) outras(os)?
2. Qual país tem o maior número de suicídios?
3. Quem se mata mais, homens ou mulheres?
4. Por que as pessoas se matam?
5. Quem tem depressão tem mais chance de pensar em suicídio?
Essas questões despertaram novos questionamentos, inclusive das(os) docentes
presentes na palestra.
O primeiro destaque frente à exposição da fala nas duas escolas foi a realização,
por parte das plateias, de uma quantidade grande de perguntas direcionadas à depressão,
apontando que pessoas depressivas eram potenciais suicidas. Essa ideia da associação
entre depressão e suicídio é muito corriqueira, e pode acarretar consequências
complicadas. Uma delas referentes ao reducionismo a um fator de risco ao suicídio,
desconsiderando, como nos coloca Cassorla (1998) que as ideações e comportamentos
suicidas são derivados de uma relação entre fatores de risco e proteção.
Findada essa problemática, os questionamentos começaram a tatear o enredo das
expressões de gênero e orientações sexuais, alterando os ânimos da plateia. Na primeira
escola, uma garota disse achar interessante à temática, ainda mais em saber que não é
apenas quem é louca(o) que tenta suicídio. Relatou como a opressão social sobre
meninas tidas como “fora do padrão” corporal e de vestimenta causa sofrimento. E que
não achava estranho alguém com essa vida pensar em findar esse caminho. Ainda disse
que as pessoas nem sabem se alguém é ou não homossexual e já começam a tirar sarro.
Afirmando que isso já era uma situação complicada para quem não era, questionando
assim como efetivamente deveria ser terrível para quem é.
Após a conversa, outra aluna muito abalada com a fala sobre a relação entre
suicídio na adolescência e as manifestações de preconceito, ojeriza e rejeição a
orientações sexuais divergentes da “norma” heterossexual, relatou a perda recente de
uma amiga muito próxima por conta de ter se assumido lésbica para a família. Ela disse
não ter compreendido o porquê de sua amiga optar pela morte, apontou que sentiu raiva
por ela ter partido sem falar sobre isso. Chorando, afirmou se sentir culpada, mas
entendia agora que a dor e sofrimento da amiga eram maiores do que ela imaginava.
Em relação às professoras e professores presentes, no momento da fala, a
percepção predominante advinda de suas colocações se referiu a demonstração de
pouca empatia com o assunto, ou até mesmo de medo. Uma professora questionou sobre
a possibilidade de uma pessoa após ouvir falar sobre suicídio pudessem começar a
pensar e te mesmo tentar se matar. Outro professor questionou se suicidas podem matar
outra pessoa. Contudo, a pior reação foi o comentário de uma docente para outra colega
de que se homossexuais se matavam era por “castigo de Deus”, por não seguirem as
“normas”, por escolherem “pecar”.
Observa-se que essas falas e esses questionamentos mesclam visões
representativas da falta da problematização do suicídio e dos fatores de risco desse
processo. Além de que também simbolizam, sinalizam o espaço claustrofóbico da vida
demarcada por suposições acerca dos papéis estabelecidos de mulher e homem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: A RELAÇÃO ENTRE LESBOFOBIA E SUICÍDIO

Mediante colocações de estudos determinados como feministas encontramos que


tal noção está diretamente alocada nas dinamicidades sociais, isto por que, gênero é a
organização social da diferença sexual (SCOTT, 1995; NICHOLSON, 2000). Caso
analisemos essas diversidades seguindo a ótica disseminada pela estrutura de poder
hegemônica acerca das definições de gênero veremos que o ser homem e ser mulher
possuem marcas subjetivantes que delimitam seu campo de existência.
Assim temos que o ideal de mulher corresponde a atitudes submissas,
acobertadas pela noção de carinho, dedicação e sensibilidade para com as circunstâncias
da vida do lar e, recentemente, do trabalho. Contudo, toda e qualquer marca que se
apresente destoante dessa concepção e entendida como desvio, algo a ser criticado e
revisto. Como coloca PERROT (2003, p.14) para aquilo que se determinou como
espaço feminino, “a própria beleza constitui um capital simbólico”. Assim para as
garotas tidas como “fora do padrão” sofrem com o acentuado menosprezo masculino,
bem como com a competitividade dentre as meninas.
Frente estas colocações, a questão das lesbianidades entre jovens, como afirma
Lima (2009), torna-se de extrema importância tendo-se em vista como as identidades
lésbicas foram silenciadas e culpabilizadas historicamente. Esta sequer recebera um
nome frente à definição da prática amorosa entre mulheres, demarcando o total vácuo
discursivo e representativo das formas de relacionamento não heterossexuais entre
mulheres.
(...) a luta pela visibilidade faz sentido na medida em que as lésbicas são
vistas a partir de uma referência que não é a delas. É que elas, em sua
maioria, não se veem representadas nas pesquisas, na mídia (...) O que muitas
dessas mulheres propõem é poder falar em nome próprio sobre seus desejos,
como vivenciam suas experiências amorosas, como é estar com outra mulher,
enfim, como é vivenciar algo que foge aos padrões heterossexistas. (LIMA,
2009. p. 48)

Com a constatação da qual a lesbofobia não é pensada como um fator de risco ao


suicídio, a falta da percepção acerca de como a construção de subjetividades não
esperadas diante do padrão heterossexual machista pode ocasionar grande sofrimento. A
interiorização da LGBTfobia, bem como as diversas manifestações de hostilidade contra
a comunidade LGBT estabelecem o cenário propício para o enredo suicida, este fator
ainda é pouco teorizado tendo-se em vista as ideações e tentativas de suicídio entre
jovens lésbicas.
Como foi possível observar, o processo suicida se constitui como uma
problemática complexa, respaldada por fatores de risco pertencentes às esferas
bio/psico/socioculturais humanas. Circundada pelo sentimento desesperança, tendo
como outros fatores:
(...) baixa autoestima e autoconfiança, um modelo de autoapreciação e de
culpabilidade negativamente distorcido, com sentimentos de derrota,
aprisionamento, frustração e falta de sentido de pertença (belonging), assim
como pobre capacidade de resolução de problemas interpessoais.
(CARDOSO, 2016. p.27)
Ainda em relação a estes fatores, os estudos acerca do suicídio já apontam a
vulnerabilidade da população LGBTI (Lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e
intersex) frente esse processo:

Há uma clara relação entre adolescentes LGBTI, o suicídio e uma prevalência


elevada de distúrbios do humor, abuso e/ou dependência de substâncias,
rejeição familiar e vitimização; porém, mesmo após o controlo destes fatores
de risco, o risco acrescido de suicídio persiste. Para além do mais,
adolescentes de minorias sexuais possuem menor número de fatores de
proteção do que adolescentes heterossexuais. (CARDOSO, 2016. p. 27)

Por fim, mediante este relato, torna-se evidente como a educação e o modo como
as escolas se organizam, ocasionam espaços de opressão e violência contra a população
LGBT, mas que em relação às garotas essa pressão se acentua pela não fala da
sexualidade homossexual feminina. Esta temática, aliada ao processo suicida constitui
um tabu engessado de modo contundente na esfera social contemporânea. Cabe a
responsabilidade pública a tomada de providências acerca do incentivo a produção de
estratégias de promoção de saúde mental a esta população e de combate à homofobia,
não somente no âmbito escolar, mas em todas as configurações sociais. Essas vozes
precisam ser ouvidas.

Referências

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CARDOSO, G. T. Comportamentos autolesivos e ideação suicida nos jovens. (Trabalho


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