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FACULDADE DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DO PARANÁ

THIAGO DANIEL RECCHIA

QUAL AS POSSÍVEIS RELAÇÕES DECOLONIAIS NO PROCESSO DO MOVIMENTO TRANSFORMADOR MASSIVO E COMO ESTE TIPO DE EMPREENDEDORISMO SOCIAL SE RELACIONA COM OS ÍNDICES DE IDH PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO?

CURITIBA

2019

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THIAGO DANIEL RECCHIA

QUAL AS POSSÍVEIS RELAÇÕES DECOLONIAIS NO PROCESSO DO MOVIMENTO TRANSFORMADOR MASSIVO E COMO ESTE TIPO DE EMPREENDEDORISMO SOCIAL SE RELACIONA COM OS ÍNDICES DE IDH PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO?

Trabalho de conclusão de curso entregue como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Empreendedorismo Social e Negócios Sociais da Faculdade de Educação Superior do Paraná.

Orientador: Isabela BonetProf.

CURITIBA

2019

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AGRADECIMENTOS

Agradecer de sincero coração ao Instituto Legado que tem promovido uma guinada especial na vida de muitos empreendedores sociais pelo Brasil. Que seu legado continue e se amplie sempre.

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RESUMO

Esta proposta de trabalho visa trazer relações dos aspectos decoloniais na relação do movimento transformador massivo e como este tipo de empreendedorismo social pode mudar fatores de subdesenvolvimento dentro do atual resultado da colonização. Neste sentido propõe-se relacionar a demanda de alternatividades ao atual sistema econômico vigente aos países em desenvolvimento, trazendo bases históricas da construção da Modernidade e sua geografia da desigualdade, no meio ambiente e sociedade. A metodologia adotada foi a pesquisa bibliográfica, seguida de reflexão filosófica sobre o tema através de práxis já realizadas a determinados setores mais vulneráveis. Assim a proposta quer ampliar a visão do setor de negócios sociais ou empreendedorismo social na mudança de fatores aos países em desenvolvimento com maior demanda de mudanças sociais positivas no planeta, visando mais consciência para melhorar índices de desenvolvimento humano para essas regiões.

Palavras-chave: movimento transformador massivo, empreendedorismo social, decolonial, geografia da desigualdade.

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SUMÁRIO

1. Introdução

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2. Referencial teórico

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3. Metodologia

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4. Resultados

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5. Considerações finais

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Referências

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INTRODUÇÃO

Hoje fala-se muito dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e suas 136 metas, conhecidas também pela simples siglas 17 ODS . Nessa nova proposta para um mundo sustentável no século XXI, numa sequência dos 8 Objetivos do Desenvolvimento do Milênio encerrado em 2015 e continuando concomitantemente com as 17 ODS para o ano de 2030, vê-se uma ampliação das demandas socioambientais para o mundo, além de um aumento dos objetivos e metas para diminuir os impactos negativos ambientais. Sabe-se que o mundo hoje tem mudado drasticamente através dos impactos antropomórfico (antrópico), agregados a grandes ondas de consumo e seus respectivos descartes de resíduos, ao qual os poluentes derivados do petróleo são o principal problema. Pegando-se o panorama das periferias mundiais (e em consequência das periferias urbanas) e suas problemáticas socioambientais pelo planeta, ver-se-á senão uma relação cada vez mais triste, em sistemas cada vez mais negativos: poluição do ar, inversão térmica, ilhas de calor, lixo, aterros gigantes, contando ainda com o grave desequilíbrio às questões de desigualdade e injustiça social, com um grande número de pessoas em condições de miséria e aumento da violência. Vê-se com isso grandes problemas ambientais e graves de fatores humanitários, ao qual será necessário mudanças diárias para melhorar estes quadros, ao qual as ODS viriam diminuir estas problemáticas. Para um trabalho de colaboração para os negócios sociais, ou empreendedorismo social , num sentido de reflexão filosófica e intelectual ao que este tema necessita para bons desempenhos e impactos nos locais onde se propõe as várias propostas, podendo colaborar com as ODS, é preciso certa análise socioambiental do contexto onde estes empreendimentos são montados, neste caso aqui em ambientes latinoamericanos, mais em específico Curitiba, localidades estas

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1 Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também chamado de ODS são uma iniciativa da

Organização das Nações Unidas (ONU) da sua agenda

de 2015, os ODS definiram os 17 temas humanitários que devem servir como prioridade nas políticas públicas internacionais até 2030. 2 Pelo conceito de Bill Drayton em 1980. Seria o conceito para um movimento transformador massivo onde as pessoas faziam parte desse campo como verdadeiros empreendedores com um propósito único: o bem comum da sociedade. Desde o começo Drayton acreditou que as empreendedoras e os empreendedores sociais seriam as pessoas catalisadoras de mudanças sociais.

Em vigor desde setembro

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que são consideradas pelas Nações Unidas como países em desenvolvimento e onde hoje encontram-se inúmeras estatísticas de baixo IDH no sentido da qualidade de vida. Para melhor compreensão no campo dos países em desenvolvimento, no caso o Brasil, sugere-se aqui uma contextualização pelo viés sociológico do campo macro, buscando elementos sociohistóricos da geografia da desigualdade para as Américas Latinas através das teorias da complexidade e suas relações socioambientais e, desta forma embasar novos conceitos acadêmicos através do viés da pós-modernidade, visando dar propriedades sociológicas e historiográficas a argumentação sobre para que tipo de realidade estamos aplicando os negócios sociais; já sob outro olhar, o cultural e comportamental, analisar também através de estruturas da sociologia e antropologia as vivências empreendedoras, ficando uma pergunta: que mudanças de mindset precisa fazer-se para que o empreendedorismo social possa impactar nas causas em que atuam para localidades em desenvolvimento? Para isso, pode-se ser necessário fazer análises cronológicas do processo de colonização do conhecimento e geografia que se seguiram nas antigas colônias e ao qual todas estes países, hoje ex-colônias, estão na classificação de países em desenvolvimento dado seus índices de IDH, com uma única exceção, os EUA. Sendo assim, vemos uma espécie de esboços do movimento transformador massivo no processo que desencadeou recentes independências, essas que mudaram radicalmente as organizações sociais e sua relação econômica do tabuleiro de xadrez mundial. Hoje todos estes movimentos evoluíram com suas circunstâncias sociais, passando a alcançar certa maturidade e visando agora um foco em alternatividades maiores com relação ao processo capital e preocupação com meio ambiente e sociedade. Mas estes novos movimentos sociais alternativos, ou o movimentos transformadores massivos, precisam ser melhor analisados para que seus impactos possam amenizar fortemente o resultado da colonização mundial do século XVI, subordinando etnias, locais e saberes, deixando como estrutura desigualdades

3 É um termo usado para descrever um país que possui um padrão de vida entre baixo e médio, uma base industrial em desenvolvimento e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) variando entre médio e elevado.

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sociais a grandes impactos ambientais no planeta. Como poderia começar-se este processo de reflexão mais profunda? É isso que este trabalho estará propondo nas próximas páginas.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

Há hoje uma série de novos termos epistemológicos que vêm ampliar a base do movimento transformador massivo, que passaram a mover diversos movimentos

e atores para a continuidade destes novos processos socioambientais de mudanças

e melhorias aos ecossistemas planetários e que podem colaborar para boas

mudanças: geonautas, pensamento sistêmico, visão sistêmica, hipótese Gaia, teoria geral dos sistemas, biologia sistêmica, teoria do caos, fractais, efeito borboleta, sociedade de redes, neotribalização, biosemiótica, autopoiese, ecosofia entre outros. Neste sentido todos estes termos visam somente uma única coisa: trazer o elo de ligação de uma sociedade mais justa e que anda lado a lado com seu meio ambiente. Para o sentido sociológico das mudanças que o mundo precisa e trabalhando conceitos transdisciplinares, ao qual sem estes hoje qualquer negócio social e até mesmo nossa própria sociedade como a conhecemos tende a não se desenvolver em sua plenitudade, podemos encontrar um pensador interessante para falar sobre

a geografia das desigualdades através das complexidades sistêmicas e, assim

buscar outras formas resolver conflitos e problemas seculares. O sociólogo francês Edgar Morin, por seu grande referencial para os sentidos das complexidades transdisciplinares, chama a atenção em seu texto, Da Necessidade de um Pensamento Complexo, para o sentido de como hoje podemos situar os problemas que se tornaram de níveis globais, partindo do global para o local, e do local para o global, buscando atitudes não só de contextualização dos problemas, mas ainda de mundializa-los, através do uso da transdisciplinaridade científica.

Deveríamos, portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos permitisse ligar as coisas que nos parecem separadas umas em relação às outras. Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar a ligação. A organização do conhecimento sob a forma de disciplinas seria útil se estas não estivessem fechadas em si mesmas, compartimentadas umas em relação às outras; assim, o conhecimento de um conjunto global, o homem, é um conhecimento parcelado. (MORIN, 2012, p. 02)

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Neste sentido passa-se por diversas dificuldades no quesito transdisciplinar de conhecimentos que tratam do meio ambiente e ser humano. Como sugere Morin, há a necessidade da reforma do pensamento para sair-se do sentido linear, determinista, reducionista e mecanicista, herdado dos filósofos da Revolução Científica do século XVII, para um aspecto maior da causalidade em círculo e multirreferencial de meios e processos, metodologias que vários negócios sociais hoje se propõem.

O que se põe em jogo é em que medida a teoria reducionista,

assentada na ausência de visão ética do agir econômico (do empreendedor neutro eticamente), deixou uma lacuna a ser preenchida pela postura estritamente técnica da economia, isto é, quais foram os estragos causados ao pensamento científico em virtude do inegável empobrecimento substancial da economia como resultado do distanciamento entre a economia e a ética (SEN, 2001), e, também, de que modo se poderá introduzir um ponto de equilíbrio teórico no conhecimento econômico já que não se apresenta suficientemente completo um enfoque em estado puro, tão somente técnico ou tão somente ético. (ANASTASIO, FILHO, MARINS, 2018, p. 18)

Por toda parte, se reconhece a necessidade de

interdisciplinaridade, esperando o reconhecimento da relevância da transdisciplinaridade, seja para o estudo da saúde, da velhice,

mas a transdisciplinaridade só é uma

solução no caso de uma reforma do pensamento. É preciso substituir um pensamento que separa por um pensamento que

une, e essa ligação exige a substituição da causalidade unilinear e unidimensional por uma causalidade em círculo e multirreferencial, assim como a troca da rigidez da lógica clássica por uma dialógica capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e antagônicas; que o conhecimento da integração das partes num todo seja completada pelo reconhecimento da integração do todo

no interior das partes. (MORIN, 2012, p. 26)

da juventude, das cidades

Estes parâmetros de uma reforma do pensamento e seus possíveis impactos positivos dentro de qualquer projeto no empreendedorismo social, servem para maiores reflexões sobre a antiga política de relacionamento econômico e social da civilização européia moderna e suas relações de sentido nas formas de conhecimentos através de sua racionalidade e suas relações de valores com a vida, que violentamente subordinou muitos povos, credos e culturas. Mas hoje há várias possíveis formas de mudar racionalidades violentas e desiguais, todas em desequilíbrio. Para Morin, toda e qualquer informação num âmbito cultural tem um

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sentido em relação a um contexto estabelecida pelo próprio local, onde esse conhecimento precisa ser apropriado aquele campo, passando, no processo de mundialização, os problemas a serem globais a partir dos locais.

Todos os problemas se situam em um nível global e, por isso, devemos mobilizar a nossa atitude não só para os contextualizar, mas ainda para os mundializar, para os globalizar; devemos, em seguida, partir do global para o particular e do particular para o global, que é o sentido da frase de Pascal: "Não posso conhecer o todo se não conhecer particularmente as partes, e não posso conhecer as partes se não conhecer o todo". (MORIN, 2012, p. 02)

O processo da Modernidade vem carregado de complexidades nunca antes imaginado. Uma delas, seria no âmbito das relações através de estruturas monoculturais e que passam em dado momento a ter apenas um único conjunto como centro, a Europa. Juntamente com a Modernidade surgiram os relacionamentos globais e a consequente mundialização das informações, num processo formação em pacote único e universal ao qual a humanidade deveria toda caminhar junta. Nesses vieses de problemas particulares (pelo olhar etnocêntrico europeu) tudo passa a ser universal. Mas ao mesmo tempo que há a universalização de problemas, num processo dicotômico, há a divisão do conhecimento eurocêntrico em várias módulos, cada qual fechada em si mesma e compartimentadas umas em relação às outras em campos disciplinares, tendo a Europa como único vetor da construção das verdades. Com isso, tem-se um universo de um conjunto global de conhecimento parcelado e com uma única origem racional em seu sentido histórico e, por isso difícil de solucionar suas problemáticas e resultados negativos ambientais e sociais presentes pela sua descontextualização dos fatos em como estão construídos e organizados. Hoje os problemas locais estão muitas vezes fora de seus contextos reais, sendo que fatores positivos contribuintes no processo científico não alcançam soluções de médio e longo prazo no sentido da diminuição dos atuais desequilíbrios socioambientais para as atuais demandas de melhorias socioambientais, devido a complexidade do problema.

Vivemos numa realidade multidimensional, simultaneamente econômica, psicológica, mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões separadamente, e não umas em relação às outras. O princípio de separação nos torna talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas nos

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torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto. (MORIN, 2012, p. 02)

Essa é uma difícil reflexão, sendo preciso muita abstração filosófica para alcançá-la. Mas depois de alcançado, este pensamento pode vir gerar benefícios consistentes quando se pensa no campo do empreendedorismo social, pois entende-se melhor a gênese dos atuais problemas. Este tipo de abstração pode ser útil no sentido de alcançar-se outros mecanismos de reflexão transdisciplinar decolonial , juntamente com o conceito de decolonização epistêmica ambiental ao campo do empreendedorismo social, para melhor captar os processos de constitutivos das desigualdades socioambientais e seus consequentes preconceitos contemporâneos,, estes que caminham lado a lado aos processos de desenvolvimento material e suas dependências subalternas, que geram infinitos entraves na qualidade de vida das pessoas em zonas desfavorecidas. Isso passa a ser tornar válido por tratar de problemas sistêmicos e que envolvem inúmeros segmentos das áreas do conhecimento amplo, numa espécie de contradição dentro do próprio humanismo científico, mas ao se aplicar “antídotos” em novas práticas e soluções que visam sair deste antigo paradigma científico e social, podem trazer as mudanças mais consistentes que o país precisa. Para melhor problematizar a Modernidade, se apropriará do termo “modernidades múltiplas” (FLORIANI, 2013), que pressupõe uma melhor forma de compreender o mundo contemporâneo e explicar a história da modernidade, concebendo uma história mais ampla e de constituição contínua de uma multiplicidade de programas culturais no globo terrestre após as descobertas. O termo "modernidades múltiplas" pode ter duas implicações. A primeira é que modernidade e ocidentalização não são idênticas em nenhum lugar; o padrão, ou padrões ocidentais de modernidade não constituem as únicas modernidades "autênticas" e iguais nas diferentes partes do mundo: o que acontece no Brasil devido a 4ª Revolução Industrial, pode ser muito diferente dentro de seu próprio

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4 No sentido de trazer complementações para o empreendedorismo social através do debate decolonial por eixos transdisciplinares que transitem entre si na construção de outros conhecimentos mais integrados e holísticos para os países em desenvolvimento, como no caso do Brasil. 5 Para o debate da decolonização epistêmica ambiental é necessário formular conceitos e estruturas de linguagem que possam agregar fatores positivos aos atores penalizados pela colonização, mas como também agregar a perspectiva ambiental as argumentações propostas, coisa que raramente se encontra na maioria dos textos, onde o aspecto antropocêntrico ainda é muito maior.

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território, quanto mais ao que acontece com nossos vizinhos Chile e Uruguai, por exemplo. Sendo assim, as vezes uma proposta de negócio social pode ter diferentes resultados dependendo das regiões que serão aplicados e os contextos culturais envolvidos. Essa mimesis cultural, para sentidos humanistas da civilização europeia, mesmo adotando comportamentos similares, acabam se comportando diferentemente em cada regionalidade. No segundo momento, vê-se que o termo “modernidades” implica no reconhecimento de a modernidade não é "estática" e que se encontram em constante mutação e diferenciação pelo planeta todo. Sempre haverá necessidades diferentes dependendo do modelo da raiz cultural. Dessa forma pode-se tecer que da maneira da construção do conhecimento ocidental, reducionista e divisório, diminuiu as formas do conhecimento amplo das partes maiores que a constituem, colaborando para a construção de um discurso focado no desenho colonial e imperialista na geopolítica do conhecimento, seguidos sa subalternização epistemológica, ontológica e humana de vários seres e locais, estes que ainda hoje são usados indiretamente para manter novos outros processos exploratórios (WALSH, 2005). Sendo assim, a metodologia racionalista cartesiana e determinista não foi suficiente para compreender as diferenciações humanas, trazendo desequilíbrios, desigualdades e caos no longo prazo. Este processo racional inicia-se na construção de lógicas normativas de sociedades dentro do ethos europeu e seus padrões são atuantes das ações na construção de papéis sociais e dominação/subordinação de dados atores sob os valores determinantes dentro de interesses individuais. Talvez por essa questão da razão da lei do mais forte, das teorias biológicas de Darwin, tenham sido tão bem recebidas pelas ciências sociais em sua época.

O fenômeno da dominação seria próprio de toda a sociedade, já que não se poderia imaginar uma sociedade totalmente igualitária, onde todas as necessidades seriam satisfeitas, embora cada qual contribuísse dentro de suas possibilidades. Toda dominação se caracteriza, entre outras coisas, pela vontade de normar o comportamento dos outros segundo os interesses dominantes. (DEMO, 1981)

Trazer essa reflexão mais densa ao ato de empreender é necessário para que as ações tenham conhecimento de causa profunda e, dessa forma, com ações mais conscientes de seus significados, sair-se do senso comum de fazer o bem por

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apenas fazer. Há muito mais coisas envolvidas nisso e uma construção histórica das desigualdades que muitos hoje lutam para minimizar pode colaborar para inúmeros entendimentos ainda cobertos por véus. Para Morin (2012), haveria na sociedade certas interações entre os indivíduos; interações, essas que formam conjuntos à sociedade, possuidora de uma cultura transmitida aos indivíduos de geração a geração, sendo necessário um modo de transmissão do conhecimento mais amplo e que permitiria compreender suas organizações e seus sistemas vigentes, estes que produzem qualidades fundamentais para o mundo, suas representações e simbologias, havendo a necessidade de olhares holísticos e não apenas restritivos no processo da construção do conhecimento científico, isso para alcançar-se grandes mudanças planetárias urgentes. Muito do processo do movimento transformador massivo tem essa perspectiva das mudanças mais profundas planetárias ao que o mundo necessita. Outro autor que traz reflexões teóricas consideráveis a reflexão sobre os resultados da modernidade para o mundo, e que também garimpa em objetos e ferramentas transdisciplinaridades, é o economista Ignacy Sachs, que lançou alguns dos fundamentos do debate contemporâneo sobre a necessidade de um novo paradigma do desenvolvimento para transformar realidades prejudicadas durante o processo moderno, visando impactar no resultado negativo da ciência moderna e sua estruturação na organização das geografias da desigualdades, essas que trouxeram desequilíbrio para muitas regiões do planeta. Sua teoria baseia-se em conceitos inter e transdisciplinares da economia, ecologia, antropologia cultural e ciência política. Em seu texto Barricadas de ontem, campos do futuro, Sachs, nos coloca a pensar nas possibilidades de reconstrução das periferias do mundo e na perspectiva de um novo campo de desenvolvimento de mudanças para se sair das condições da subalternidade, mudanças essas necessárias a base do antigo paradigma do desenvolvimento econômico das potências mundiais: o liberalismo econômico. Processo intrincado, ao qual Edward Said pode dimensionar o tamanho estrutural e suas organizações na construção do atual resultado do problema da subalternidade e suas desigualdades, onde o processo mais recentes de neocolonização européia por França e Inglaterra,

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mostram seus discursos como sendo os detentores do sentido de uma única verdade, o que valeria para o restante planetário, definindo através do modelo geral de cultura imperial e da relação do sentido do “nós” e “eles”, o gargalo epistêmico contemporâneo e as rotinas da subalternização e suas consequentes desigualdades.

Em que consistem alguns dos materiais aqui utilizados e que não pertencem à área do Oriente Médio? São textos europeus sobre a

África, a Índia, partes do Extremo Oriente, Austrália e Caribe; considero esses discursos africanistas e indianistas, como foram chamados, parte integrante da tentativa europeia geral de dominar

O que há de marcante nesses

discursos são as figuras retóricas que encontramos constantemente em suas descrições do “Oriente misterioso”, os

estereótipos sobre o “espírito africano” (ou indiano, irlandês, jamaicano, chinês), as ideias de levar a civilização a povos bárbaros ou primitivos,a noção incomodamente familiar de que se

fazia necessário o açoitamento, a morte ou um longo castigo ( eles não eram como “nós”, e por isso deviam ser dominados. (SAID, 2017, p.09)

);

povos e terras distantes (

)

Citar Said aqui seria mais no sentido de uma amarração histórica mais ampla do problema contemporâneo da modernidade dentro do conceito história problema, com análise de fatores socioeconômicos e que hoje se tornaram socioambientais, se permitindo usar um pouco da práxis da Escola Annales , para alcançar-se sentido temporal de séculos, buscando uma reflexão mais elástica, fora de reflexões fechadas, para poder-se empreender dentro de uma ex-colônia e suas latentes desigualdades com mais propriedade e seriedade devido ao tamanho da estruturação dos problemas. Desta forma, empreendedorismo social pode ser considerado um paradigma emergente e que precisa de boas bases teóricas para sua ampliação sistêmica. Este tipo de exercício de abstração filosófica para sentidos históricos mais amplos sobre as atuais problemáticas, traz razões e entendimentos mais significativos de possíveis comportamentos e sensos comuns e como sair-se disto. Estes sentidos chaves para designar as atuais relações contemporâneas e suas estruturas são profundas e muitas vezes de difícil análise. Sachs traz outras análises importantes aos atuais problemáticas ambientais e sociais. O autor sugere que uma mudança possível para geografias subordinadas se

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6 A escola dos Annales é um movimento historiográfico do século XX que se constituiu em torno do periódico acadêmico francês Annales d'histoire économique et sociale, tendo se destacado por incorporar métodos das Ciências Sociais à História.

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daria através da chamada “revolução duplamente verde”, onde o ambiente e

território teriam juntos os artifícios para um outro futuro nestes países de margens socioambientais, tornando-se mais justos material e socialmente através desta lógica. Mas para isso, segundo o autor, seria necessário alcançar-se, durante todo o século XXI, novas metodologias inovadoras para construção de outras formas de conhecimentos, para que esses possam tornar as antigas organizações do conhecimento mais capilarizadas entre si, sendo uma possível solução para diminuir impactos ambientais negativos e equilibrar setores sociais há tempos arraigados em subcondições ao sistema capital do atual desenvolvimento hegemônico, que geram misérias humanas, desequilíbrio ambiental além de todas as formas de preconceitos

e opressão. É isso que o negócio social, ou empreendedorismo social, vem trazer

como nova perspectiva, ampliando as bases das revoluções sociais através do movimento transformador massivo. Vale lembrar que o olhar de Sachs se dá em sentido estritamente econômico

e materialista, onde considera uma vantagem a grande população rural, os fatores

de biomassa e o clima dos países pobres para o impacto de mudanças positivas. Para este sentido ele deixa de lado os fatores culturais e conta com o fim da “era do petróleo” para o início de uma “nova civilização verde”, sugerindo que entre o fim da era do petróleo para o início da civilização verde muitas crises podem aparecer (SACHS, 201, p. 26). No sentido geral, suas visões são apenas de sentido otimista. Trazer este viés sociológico para o campo do empreendedorismo social ajuda

a ampliar visões sistêmicas para amplas atuações transformadoras. Para lidar com o empreendedorismo social é preciso melhor entender as dinâmicas capitais dentro da produção neoliberal e seus sentidos das acumulações das riquezas materiais e como colaborar para mudar isso.

Pautado pelo crescimento dos lucros, exigia, portanto, alguns preceitos para desenvolver-se: retorno dos investimentos em curto prazo ou margens de lucro excepcionalmente altas para casos de retorno em prazos mais longos; crescimento econômico ao menor custo possível, incluindo miséria de grande parte da população mundial (via expropriação do trabalho). (HACON, LOUREIRO, 2014, p.60)

Pode-se

perceber

como

a

relação

do

desenvolvimento

do

capitalismo

moderno

durante

o

neoliberalismo

entra

em

choque

não

somente

com

as

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desigualdades sociais humanitárias, até então muito discutidas nas várias correntes teóricas, como no marxismo, mas também com um fator consequente de todo o processo capital contemporâneo: a discussão da problemática ambiental e seu conflito com o desenvolvimento do capitalismo. Essa problemática foi discutida pela primeira vez em Estocolmo, em 1972, e formalmente proposta em 1987 no relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e desenvolvimento, também chamado de relatório de Brundtland, onde se populariza o termo “desenvolvimento sustentável”, sendo esses olhares ainda muito recentes.

Neste processo, convenientemente, ignoram-se as diferenças socioculturais e as desigualdades econômicas entre os variados grupos - que determinam, por exemplo, a forma como os agentes agem sobre o meio ambiente e seus respectivos impactos -, imputando à coletividade um nível equitativo de responsabilidade por impactos ambientais causados ao planeta que, no entanto, são fruto de um determinado modelo de desenvolvimento. (HACON, LOUREIRO, 2014, p.62)

Neste fragmento, há outro tipo de ensejo a reflexão da subalternidade contemporânea: a que os indivíduos desprovidos de condição devido sua etnia ou classe pagam preços mais altos relacionados aos impactos ambientais negativos, pois são reféns do sistema socioeconômico anterior vigente; sistema esse que se importa com grandes corporações e suas pequenas elites estruturantes e que por isso não consegue rever seus padrões de desenvolvimento, estes baseados na exploração da Natureza e seres humanos, sugerindo ainda que a melhor alternativa não seria mudar a base estrutural das indústrias, mas sim criar novas tecnologias e planejamento racial (HACON, LOUREIRO, 2014); proposta que a 4ª Revolução se coloca, mas que demanda de pessoas mais qualificadas para estes ações. Deve-se ter sempre em mente neste processo geral, para quem quer trabalhar com resolução de problemas socioambientais, que há grupos tradicionais que ainda estão à margem do processo e que ainda dependem de estruturas que possam facilitar suas adaptações para o século XXI.

A Quarta Revolução Industrial promete avanços tecnológicos que podem transformar dramaticamente a natureza da vida na Terra. Ao mesmo tempo, enfrenta-se uma série de desafios críticos que ameaçam desestabilizar radicalmente as sociedades e a ecologia do planeta. Estes desafios incluem mudanças climáticas aceleradas, desigualdades sociais crescentes, agitações políticas, rupturas nos mercados de trabalho e deslocamentos em massa de pessoas, dentre muitos outros. Dessa forma, a Quarta Revolução Industrial também provoca uma complexidade maior na

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modelagem de soluções de impacto socioambiental, trazendo novos atores, causando integração de novas formas de conhecimento e exigindo profissionais multidisciplinares, principalmente para explorar as oportunidades e desafios que a realidade brasileira enfrentará nas próximas décadas. (ANASTASIO, FILHO, MARINS, 2018, p. 94)

Grupos que não se incluem na lógica econômica hegemônica - como os povos designados tradicionais, que possuem formas distintas de significação e uso dos recursos naturais e do território - buscam manter ou resgatar suas formas tradicionais de relacionar-se com a natureza face à tentativa de apropriação particularizada destes espaços, ora pelo Estado, ora pelo capital privado (não necessariamente de forma dissociada). (HACON, LOUREIRO, 2014, p. 64)

Mas dentro deste campo das relações desiguais na perspectiva socioambiental, há hoje propostas que entram no nível da resiliência e não da resistência, ao qual não tem a intenção de gerar atritos e sim conseguir encontrar locais de pensar e agir em conjunto com o sistema funcional já existente. Neste sentido o empreendedorismo social é o locus perfeito para isso. A perspectiva de resistência e choque pode mais atrapalhar que ajudar um processo que alguns visionários do final do século XX e início do século XXI já chamam de fase de “transição planetária”, onde novas mudanças positivas estão acontecendo no planeta e na existência humana hoje. Nesta nova epistemologia em germinação é preferível não se usar termos que promovam enfrentamentos, que podem gerar enfraquecimento das novas propostas. Para o sentido das ciências políticas, vemos que é o Estado moderno, através de correlações de forças, que codifica o discurso hegemônico no campo social, onde ideologias dominantes encontraram difusão na ação e no discurso, funcionando exclusivamente para determinados grupos de interesse, ao qual outros grupos subalternizados se encontram em desvantagens no contexto de disputas físicas e simbólicas, implicados a não legitimação suas visões e práticas de mundo.

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7 Propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. Devido seus significados mais flexíveis e maleáveis, além de um sentido figurado mais colaborativo e acolhedor para o sentido de mudanças positivas de ecossistemas, prefere-se o uso deste termo ao termo resistência, mais duro e que tente ao choque.

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Dentro desta perspectiva, a relação dos grupos sociais em desvantagens e subalternizados, na chamada ecologia política em paralelo a geografia da desigualdade, Henry Acselrad, traz reflexões na atualidade sobre a construção do debate socioambiental. Ele também considera o Brasil um dos países de “fácil” transição da civilização do petróleo para a da biomassa. Em seu texto intitulado Ambientalização das lutas sociais - o caso do movimento por justiça ambiental, Acselrad coloca em reflexão sociológica sobre a caracterização da historicidade 9 ambiental e a noção de ambientalização (ACSELRAD, 2010). As formas de subalternidade através da lógica cartesiana da eurociencia e sua forma de gerar riqueza, o capitalismo, trazem com ela formas de dominar que atravessam e produzem outros grilhões inimagináveis. Por isso uma transição em curso parece estar presente no campo empreendedor, devido a sua renovação de postura e linguística. Muitas destas tais problemáticas ambientais e sociais começaram a ser discutidas com mais “afinco” a partir de 1968 no mundo, com a fundação do Clube de Roma e o relatório “The Limits to Growth" (Os limites do crescimento). Somente após estes encontros que passou-se a pensar olhares e movimentos de transformação ambiental e social, dando abertura ao final do śeculo XX há uma série de relatórios e acordos tratando da problemática ambiental e seus impactos sociais. Em muitos destes casos eram com relação aos países em desenvolvimento (ex-colônias) e suas regionais desigualdades sociais, apontando que países da periferia do capitalismo neoliberal precisariam alcançar índices de desenvolvimento como das potências industriais, mas esquecem de mencionar que os países em desenvolvimento foram necessariamente países colonizados pelos menos mais de três séculos e, que junto com o processo de degradação ambiental e social, são os que já mais sofrerão durante todo o século XXI com as problemáticas socioambientais.

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8 É o estudo da relação harmônica ou desarmônica entre os grupos sociais e o ecossistema em que estão inseridos, ficando alguns grupos com os recursos e outros sofrendo mais com a poluição, desigualdades e diferenças. É uma interdisciplina relacionada com a geopolítica do poder.

9 Para este sentido da historicidade vê-se a necessidade de trabalhar seu sentido maior, que visa conhecimentos amplos e profundos através de métodos pluridisciplinares, como propõe a Escola Annales de Marc Bloch e Lucien Febvre. Esta abordagem traz métodos da ciências sociais à história. Uma ótima referência nesta linha é Carlo Ginzburg e o conceito de micro-história, essa que busca tratar o racional mas não de forma racionalista.

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Vive-se num mundo contemporâneo que melhor admite-se as correlações entre questões ambientais e desigualdade social, ou, entre meio ambiente e justiça social, movimento que ganhou mais força na década de 1980 o que culminou na realização no Rio de Janeiro da Conferência da ONU em 1992, o Fórum Brasileiro de ONG e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, abrindo-se pautas comuns ao meio ambiente e questões de complexidade social (ACSELRAD, 2010). Vê-se assim, para melhor falar de subalternidade e geografia da desigualdade, não há como debater se não o for pela pluri, multi, inter e transdisciplinaridade e suas complexidades e possíveis soluções para sair de escassez de recursos e conhecimento. Neste sentido os negócios sociais e/ou empreendedorismo social são a chave para alternativas palpáveis. Desta forma será possível trazer melhores e outras compreensões para amenizar profundas consequências da lógica industrial capital atual, garimpando novas válvulas de escape aos resultados problemáticos da Modernidade. Enrique Leff no seu texto Complexidade, Interdisciplinaridade e Saber Ambiental trata das problemáticas ambientais e sociais contemporâneas, num sentido sobre o sintoma da crise da civilização humana, ao qual está se dando pela forma da fragmentação do conhecimento e sua contínua degradação com o meio ambiente:

“… marcados pelo logocentrismo da ciência moderna e pelo transbordamento da economização do mundo guiado pela racionalidade tecnológica e pelo livre mercado” (LEFF, 2011)

Desta forma, Leff considera que há hoje muito nitidamente uma crise ambiental e de saberes, que surgem na acumulação das externalidades do desenvolvimento do conhecimento, juntamente com o crescimento econômico, onde este processo nega dados conhecimentos locais. Para melhor absorver os embates da lógica eurocientífica e trazer possíveis alternatividades, é preciso aprofundar, pouco a pouco, em cima de novas referências que também se propõe a refletir através de novos olhares a consequência da dominação colonial e seus resultados, buscando conexões inter e transdisciplinares cabíveis a este debate, aprimorando o sentido das propostas do desenvolvimento transformador massivo. Mas há uma questão patológica de inferiorização de

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indivíduos que precisa ser levada em conta antes de qualquer novo projeto no campo das interferências positivas as desigualdades socioambientais através do empreendedorismo social.

3. METODOLOGIA E RESULTADOS

Para que se possa ampliar o debate do movimento transformador massivo para as atividades de empreendedorismo social dentro de um campo teórico para além de prática, é necessário outras novas reflexões sobre o que está se propondo e como fazer isso. Desta forma, busca-se neste TCC, trazer análises de materiais e método de pesquisas simples e convencionais, com leituras de obras e textos que trataram do assunto pesquisado, além de pesquisas na internet de artigos e material com imagens sobre o assunto, podendo até mapear algumas propostas de alternatividade empreendedora local num outro sentido às práticas neoliberais. Após a leitura dos textos iniciais já citados, constrói-se outros olhares da necessidade de outros aparatos no empreendedorismo social, esse ao qual tem maior atuação humana e ambiental em suas propostas. Neste sentido visa-se o cruzamento de autores no campo da geografia da desigualdade e os aspectos da subalternidade com autores com propostas alternativas ao campo do empreendedorismo social, sendo necessário um longo caminho a se seguir na construção inter e transdisciplinar de tal proposta aqui apresenta. A metodologia neste momento se deu apenas de expertise anterior a esta pós no campo do empreendedorismo social, atrelado agora a reflexões teóricas que possam melhorar processos dos entendimentos do porquê da necessidade hoje de projetos que atendam o meio ambiente seguido com a sociedade. Ficando assim o método proposto: pesquisa bibliográfica sobre o tema decolonial e empreendedorismo social. Após isso partiu-se para o relacionamento dos dois temas através do olhar da antropologia cultural e sociologia, visando trazer reflexões contemporâneas dentro de aspectos culturais e históricos do Brasil e suas possibilidades de desenvolvimentos sociais através do empreendedorismo social.

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Para o campo das reflexões filosóficas, tentar estabelecer resultados é um pouco difícil, pois não tem-se nenhum material de apoio para gerar números ou estatísticas sobre que se fala, se tratando então de um tema mais de abstração do que de coisas palpáveis. Mas nos sentidos de debate teórico a proposta aqui visa problematizar a construção do debate da modernidade com relação às suas atuais problemáticas de conflito nos campos ambientais e sociais através de construção de alternatividades por meio do negócio social ou empreendedorismo social. Dessa forma, busca-se ampliar os atuais referenciais dos movimentos transformadores massivos pelo olhar decolonial, que pode gerar outras novas sinergias para o processo de mudanças positivas que o campo epistemológico dos países em desenvolvimento precisam, encontrando outras racionalidades que atendam as mudanças destas localidades, além do exercício de sair dos modos de pensamento da subjetivação exercidos do viés modelo eurocientífico frente ao colonizado não-europeu. Para isso, se usou usado métodos de pesquisa trans e interdisciplinares, dentro da teoria da complexidade, aproximando categorias de análise (identidade, resiliência, subalternidade, projetos e práticas alternativas, crítica ao pensamento e à racionalidade hegemônica do produtivismo de mercado através do empreendedorismo social) para complemento da argumentação. Sendo assim, espera-se para um futuro próximo, colaborar para a complementação do debate acadêmico com relação a temática do movimento transformador massivo no campo das discussões sociológicas da atual mudança de paradigmas socioambientais, oportunizando melhores contextualizações na construção de projetos dentro da linha do empreendedorismo social.

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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para este trabalho, partiu-se de uma contextualização prática através da atuação em projeto de cunho socioambiental chamado Portas Abertas em Curitiba Paraná, ao qual o aluno organiza atividades de desenvolvimento sustentável dentro da comunidade Vila Torres, projeto este que teve capacitações através do Instituto Legado no ano de 2017 e 2018 com foco em empreendedorismo social. Dentro da perspectiva de atuação no campo de trabalho proposto, a comunidade Vila Torres, iniciando-se um trabalho de campo ao final de 2016, e durante todo o ano de 2017, 2018 e ainda em 2019, viu-se diariamente processos de subcondições amplamente estruturados em fortes campos sociais e que somente uma iniciativa de empreendedorismo social parecia não atender a grande demanda que uma comunidade com aquele tamanho e complexidade precisaria estar trabalhando para melhorar seu IDH, onde várias políticas públicas do Estado, junto com sociedade civil vieram tentar atender estas demandas, mas que em certo sentido não conseguiram fazer a alavanca que aquelas realidades precisam para saírem do processo de subcondição. A comunidade Vila Torres está localizada a margem do rio Belém no bairro Prado Velho, estando a 2km do centro de Curitiba. A região se formou devido às ocupações ocorridas depois da mudança do Jockey Club para o Tarumã no antigo bairro Prado, sendo depois disto a região chamada apenas de Prado Velho. Sua população é de aproximadamente 1.456 famílias e 6.077 habitantes (IPUC, 2015), dos quais 51,39% são mulheres. Nesta área têm-se 243 hectares uma densidade demográfica de 24,97 hab/ha, ocupando 0,56% do território curitibano. Mesmo sendo pequena a região é uma das mais violentas da cidade. 29,22% da população vive com renda de até 1 salário mínimo e 25,30% de até 2 salários mínimos. Com isso, vemos que 45,48% da população vive com menos de ½ salário mínimo. Sua principal fonte de renda é coleta de materiais recicláveis. Neste sentido, fazendo a observação participante, atuando em atividades internas independentes e em parceria com outros projetos locais, juntamente inclusive com poder público, viu-se grandes esforços por diversos atores para que

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problemas socioambientais fossem minimizados, mas com pequenos impactos na mudança de comportamentos daquela comunidade. Ao se refletir sobre estas questões, sem perder o ânimo do trabalho de empreendedorismo social proposto, sentiu-se a necessidade de fazer reflexões sociológicas mais profundas para que fosse possível entendimentos coerentes daquelas realidades, elaborando propostas para o contorno destes problemas arraigados secularmente. Desta forma, percebeu-se, através de correntes teóricas como o decolonialismo, um grande fosso socioambiental devido aos resultados históricos de uma exploração material, herdeira das subcondições atuais: processo de colonização seguido de escravidão de dadas etnias. Quando se passou a alcançar outros níveis de reflexão para as propostas de empreendedorismo social nesta localidade, percebendo com maior nitidez o fosso socioambiental secular, passou-se a ver o problema com olhares menos superficiais como simplesmente vir a montar um projeto de atuação para melhora na qualidade de vida da região, onde formas seculares de subordinação ainda se fazem presentes, o que dificulta a autoestima de seus moradores no processo de empoderamento e autonomia de muitos desses indivíduos. Sendo assim, entender o processo de colonização de nosso país com maior maturidade, pode proporcionar projetos de empreendedorismo sociais mais completos, maduros e profundos e que atendam melhor as demandas em localidades que vivem com índices baixos de IDH.

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