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leo caldas

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te

baralho
Um curinga ao
longo do tempo
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De origem milenar,
que remonta à China
do século 13, o artefato
atravessou gerações
e culturas, reunindo
pessoas em torno do
entretenimento, além
de servir à expressão
artística e aos jogos
divinatórios
texto Marina Suassuna

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Se pararmos para pensar sobre


o quanto o baralho está presente
em nossas vidas, veremos que não
se trata apenas de entretenimento.
Quantas expressões oriundas do
carteado se incorporaram ao nosso
vocabulário rotineiro, como “colocar
as cartas na mesa” ou “abrir o jogo”,
equivalentes a revelar algo de maneira
franca, sincera? Quem nunca usou a
expressão “carta fora do baralho” para
designar alguém que está excluído?
Ou preferiu dizer “embaralhar”
no lugar de desorganizar?
“Sentíamos adultos com as cartas na
mão. Nós, as crianças, não podíamos
mexer no baralho, que ficava guardado
na cristaleira ou na gaveta do pai.
Quando os adultos saíam, arriscávamos
abrir aquelas caixinhas, uma azul
e uma vermelha, e retirávamos as
cartas mágicas. De maneira que,
naquela idade em que nem sabíamos
ler, as cartas do baralho nos davam
identidade, foram os primeiros RGs de
nossas vidas. E assim, antes de termos
nos tornado adolescentes e jovens,
havíamos sido nobres, reis, valetes (o
que era um valete?). Eles foram parte
do nosso imaginário na infância, do
mesmo modo que os contos de fadas
e as histórias de Monteiro Lobato”,
recorda o escritor e jornalista Ignácio
Loyola Brandão, no livro Copag, 100 anos
no Brasil – Sempre dando as cartas.
A sensação de imponência que
as cartas de jogar transmitem está
associada à sua própria origem. Quando
foi introduzido na Europa, por volta do 1
século 15, o baralho era um artigo de
luxo reservado aos nobres, que podiam Quando foi da matriz de madeira permitiu a sua
pagar preços exorbitantes pelas lâminas
pintadas à mão. Justamente por isso,
introduzido na distribuição em grande quantidade,
tornando-o mais acessível a classes
até hoje as vestimentas reproduzidas Europa, por volta do menos favorecidas. Além disso, o
nas pinturas pertencem à nobreza: rei,
valete e dama. século 15, o baralho desenvolvimento dos métodos de
fabricação de papel na Europa, na
Tido como ofício nobre, mestre de era um artigo de luxo mesma época, propiciou o surgimento
cartas era o nome dado ao pintor ou de baralhos em diversos países.
estampador que se encarregava de reservado aos nobres
colorir as cartas. De acordo com Ignácio cartas da china
de Loyola Brandão, para tornar-se um Até meados do século 19, o ludus Até hoje, não foi possível precisar a
mestre, era necessário trabalhar três cartarum – nome dado genericamente sua origem. A referência mais antiga
anos como aprendiz e depois mais aos baralhos – ainda era colorido à que se tem desse instrumento remonta
três como oficial. Só assim, adquiriria mão. No entanto, sua popularização ao século 13, na China. No entanto, as
domínio de toda a técnica da produção, foi possível ainda na segunda cartas chinesas pouco se assemelham
que incluía desde a limpeza das metade do século 15, graças à ao baralho moderno. Com dimensões
ferramentas até a secagem e a colagem técnica da xilogravura, que reduziu médias em torno de 10 cm x 2,5
das três folhas de papel que, cortadas, os custos de produção de maneira cm, são mais estreitas que as cartas
resultavam numa carta de baralho. significativa. A impressão a partir modernas, além de se diferenciarem

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CURIOSIDADES
Acontecimentos em torno das
cartas que causam surpresa
HANAFUDA
Pouca gente sabe que a fábrica de jogos
japonesa Nintendo, mundialmente
conhecida pela fabricação de video games,
foi fundada como uma empresa produtora
de baralhos artesanais. Especializada em
hanafuda, um baralho desenhado à mão
que logo se tornou muito popular no Japão,
a Nintendo obrigou seu fundador, Fusajiro
2 Yamauchi, a contratar vários assistentes
1 ORIGEM turcA 3 china para fazer frente à demanda. Até hoje, a
Versão que Origem remonta empresa os fabrica, como forma de manter
se consolidou ao país, no século intacta sua origem, e organiza um torneio
descende dos 13, mas cartas
mamelucos diferem do baralho
de bridge chamado Nintendo Cup.
2 progressão moderno
Sequência PARTIDA LUNÁTICA
evolutiva do padrão Das circunstâncias nas quais o baralho
internacional se fez presente na história, certamente a
terceira viagem do homem à Lua foi a mais
inusitada. No dia 6 de fevereiro de 1971, os
destas no que diz respeito à composição astronautas Alan Shepard e Edgar Mitchell
dos desenhos e dos naipes. jogaram uma partida de gin rummy,
Embora tenha sido identificado modalidade de jogo parecida com o buraco,
o desenvolvimento de lâminas em a bordo do módulo lunar da nave Apollo 14.
locais diversos durante um mesmo
LORD SANDWICH
período da história, a versão que se
Ainda mais curiosa é a contribuição do
consolidou acerca da origem do baralho carteado na invenção do sanduíche.
moderno, com o qual jogamos pôquer, O ilustre inventor do lanche que leva
bridge, buraco e truco, descende dos seu nome, Lord Sandwich, o 4° conde
mamelucos, povo turco que governou o da cidade britânica de Sandwich, era
Egito entre os séculos 13 e 15. São deles um fanático por jogos de cartas e não
3 gostava de interromper uma rodada nem
a estrutura e o padrão das cartas que
para comer. Refeições com garfo e faca
hoje nos são familiares, com dimensões Um dos últimos locais aonde as cartas
poderiam prejudicar sua concentração.
mais largas que as chinesas, totalizando mamelucas chegaram foi a França,
Por isso, durante uma rodada de bridge,
52 cartas, assim como as versões mais especificamente à cidade de Rouen, que no ano de 1762, pediu aos serviçais
populares dos baralhos modernos. nos legou o baralho de desenho e uso que sua carne fosse servida entre dois
Pintadas à mão com detalhes em mais popular atualmente. pedaços de pão. Dessa forma, poderia
ouro, as lâminas mamelucas seguiam Durante a Guerra dos 100 anos, comer com uma das mãos e continuar
a tradição árabe de não reproduzirem nos séculos 14 e 15, vários soldados jogando com a outra sem se lambuzar.
figuras humanas. No entanto, já ingleses voltaram da França com Logo, os conhecidos do conde passaram
a pedir “o mesmo que o Sandwich”.
se identificava a representação de exemplares das cartas, que logo se
reis, primeiros vice-reis e segundos tornaram oficiais em seu país de origem. EMPILHAMENTO
vice-reis de maneira abstrata. Coube Impressos em xilogravuras e coloridos Empilhar cartas de jogar se tornou o
aos europeus, no final do século 14, com pochoir (técnica semelhante ao passatempo de muitas pessoas. Houve,
transformarem essas três figuras reais estêncil) desde o século 17, os baralhos inclusive, quem transformasse a diversão
em dama, valete e rei. Isso foi possível franceses foram aperfeiçoados na em carreira. O recordista norte-americano
graças à intensa relação comercial Inglaterra durante o século 19, a partir Bryan Berg foi reconhecido pelo Guinness
Book, em 1992, pela maior torre de cartas
que mantinham com os mamelucos. das técnicas de impressão em relevo
do mundo. Desde então, ganhou honras
Principais vias de acesso desse e da introdução da litografia. Hoje, por construir outras ainda maiores. Até
comércio, a Itália e a Espanha foram os configuram-se como o sistema de hoje sua maior torre foi construída com
primeiros países a terem acesso às cartas baralho adotado internacionalmente, 2.400 cartas de baralho, medindo 7 metros
precursoras do nosso baralho moderno. por cassinos e jogadores profissionais, e 62 centímetros. Em 2014, o recordista
Daí em diante, não demorou para que produzido por praticamente todos esteve no Brasil, onde elaborou uma réplica
a novidade se espalhasse por toda a os fabricantes do mundo. de quase 3 metros de altura da Catedral da
Europa, chegando às colônias e aos “Um dos aspectos mais interessantes Sé (SP), com 116 mil cartas de baralho.
países de outros continentes. e marcantes deste padrão é a

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4 “Carta da morte”
Governo inglês
imprimia símbolo
oficial no ás de
espadas , para
evitar falsificações.
A desobediência
podia levar à
pena capital.

manutenção, por mais de cinco séculos, uma carta com um grande naipe central, com desenhos especiais, tradição
das características principais dos distinguindo-a das demais. Sua origem mantida pela maioria dos fabricantes.
desenhos das figuras. Talvez seja essa data de meados do século 18, quando Também é possível reconhecer o
a concepção gráfica mais duradoura e o governo da Inglaterra mandava baralho internacional pelos índices
copiada do mundo”, aponta o historiador estampar um carimbo com o desenho usados para designar as figuras, uma
e especialista no padrão internacional oficial do governo, que identificava a variação britânica do sistema francês:
Cláudio Décourt. tributação sobre o produto. Assim, os J, Q, K (Jack, Queen, King), que
Composto por 52 cartas, o baralho fabricantes geravam todas as cartas passaram a substituir V, D, R (Valete,
internacional usa o padrão de naipe para seus baralhos, exceto o ás de Dama, Rei), respectivamente.
francês: diamantes, corações, espadas
e trevos. Constitui-se, ainda, de três “O que mais me COMUNICAÇÃO POPULAR
figuras (rei, dama e valete) e de 10 cartas
numerais para cada naipe. O sistema de
fascina é o fato de ser “O que mais me fascina no baralho
é o fato de ser um objeto de criação
naipe francês é, portanto, uma adaptação um objeto de criação popular há mais de seis séculos
dos naipes mamelucos, que eram
retratados a partir de objetos comuns popular há mais de que até hoje é usado para prática de
jogos ainda muito populares. Nem a
daquela cultura: moedas, espadas, copas seis séculos” tecnologia moderna dos computadores
(cálices) e tacos de polo. “Não só os eliminou essas cartas fantásticas
naipes franceses, mas também as figuras Cláudio Décourt de suas telas”, reflete Décourt.
das cartas desse baralho possibilitavam Grande fonte de conhecimento
maior facilidade de impressão gráfica espadas, sendo obrigados a encomendar no sertão nordestino, o livro Lunário
que, somada à expansão do império essa carta ao governo, o que evitava perpétuo, tido como uma pequena
inglês e à prática de jogos como o falsificação. Se algum falsificador fosse enciclopédia bastante útil aos afazeres
pôquer, o bridge ou o wisp, se difundiu identificado, era punido com pena corriqueiros, trazia o carteado como
pelo mundo inteiro, tornando-se assim capital. De acordo com Cláudio Décourt, um interesse do cotidiano, do qual se
o ludus cartarum por excelência”, descreve há registro de um fabricante condenado deveria adquirir domínio, assim como
Armando da Serra Negra, no livro O que à forca em 1805. “Esta sinistra pena receitas medicinais, tabuada, horóscopo,
é baralho. Assim, quando redesenhado deve ter sugerido a associação do ás astronomia e outros conhecimentos
por diferentes fabricantes, o baralho no de espadas como a carta da morte, gerais. Escrita pelo matemático
padrão internacional se ajusta aos vários superstição ainda vigente entre certos espanhol Jerônimo Cortez e traduzida
exemplares desenvolvidos, mantendo povos, principalmente no Oriente”, em português em 1703, com linguagem
seu conjunto de características genéricas. indica o pesquisador. Mesmo depois da precisa e minuciosa, a publicação levou
Outra peculiaridade desse padrão de identificação fiscal ter sido abolida, o a noção do jogo de cartas para os lugares
baralho é o ás de espadas. Trata-se de ás de espadas continuou a ser fabricado mais remotos do universo sertanejo.

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Não havia quem não comunicação popular é
consultasse o Lunário perpétuo, apontado pela pesquisadora
que viajava no lombo dos portuguesa Natali
burros, algibeiras de padres Assunção como essencial à
e arcas de mascates até permanência dessa prática.
chegar às escrivaninhas, “Além da vantagem de
gavetas, redes de dormir ou um baralho de cartas ser
ao lado do fogão de quem o acessível a todas as classes
consultasse. O lavrador, o sociais, ele é autossuficiente,
comerciante, a cozinheira, o ou seja, não necessita de
poeta, o cantador, todos esses bateria ou energia elétrica
tipos humanos absorveram para funcionar, é de fácil
as orientações e os conselhos transporte e pode ser
trazidos no livro sobre o utilizado em ambientes
modo de compor o baralho fechados ou abertos.” Ela
para fazer alguns jogos, chama a atenção ainda
fossem eles enigmáticos, de para a importância daquela
adivinhação de carta ou de que se tornou a principal
efeitos ilusionistas. utilidade das cartas: os jogos
Se o interesse pelo de azar que, para vários
carteado ultrapassa diferentes psicólogos e historiadores, Personagem
culturas e gerações, é porque
há, neste instrumento, uma
estão na origem de ciências
como a matemática, o CARTAS PARA ALICE
vocação para a tradição. Para cálculo de probabilidades Enorme interesse por jogos foi o de Lewis Carroll, autor de
a designer, pesquisadora e e até a topologia. Alice no País das Maravilhas. Tida como uma obra cheia de
professora da USP Priscila A obra Os jogos e os homens, pequenas alegorias lógicas sobre a sociedade de sua época,
Farias, o baralho mantém de Roger Caillois, é tida por sob o trono da Rainha Vitória, na Inglaterra do século 19, Alice…
a sua identidade enquanto Natali como uma peça-chave põe a protagonista diante de uma Rainha de Copas autoritária,
que rege um exército de baralhos e vê na decapitação de seus
jogo tradicional graças ao na compreensão do papel das
súditos a solução para todos os problemas. A garota ainda vai
design das cartas, dotadas cartas de jogar na sociedade. parar num Tribunal de Cartas, que a julga de maneira simplista
de apego e respeito a Embora se refira aos vários e duvidosa. Caroll utiliza o baralho, seu passatempo preferido,
convenções estabelecidas tipos de jogos existentes, para criticar o reinado de Vitória, marcado pela repressão,
historicamente. “Os baralhos Caillois traça denominadores moral puritana e pelo conservadorismo.
com os quais convivemos comuns entre eles, a “Ele teve o cuidado de relacionar os símbolos das cartas de
hoje carregam elementos exemplo da facilidade, baralho com sua função na sociedade. As cartas de espadas
(spades, em inglês, que também significa pás) são jardineiros.
visuais de muitas culturas, do risco, da habilidade,
As de paus, que no inglês clubs são sinônimo de ‘porrete’,
e traços da influência e descontração e diversão. Ele são soldados. As de ouro (diamonds) são membros da corte
predomínio dos ideais de explica que os jogos sempre e as de copas (no inglês hearts/coração) são as crianças
jogadores e fabricantes que aparecem margeando a reais. Seguindo essa lógica, a rainha de ‘coração’, explicou
marcam nosso cotidiano e organização da sociedade: Carroll mais tarde, é a incorporação da paixão desgovernada”,
nossa memória”, observa a “O espírito do jogo é uma analisou a jornalista Mariana Lucena, na revista Galileu.
designer, para quem as cartas das molas principais do Dotado de lugar privilegiado no imaginário de várias
gerações, Alice no País das Maravilhas traz as cartas de jogar
de jogar constituem parte desenvolvimento das
num contexto de fantasia e nonsense que repercutiu na mente
de nossa história gráfica, mais altas manifestações
de crianças e adolescentes mais por meio da adaptação
afetiva e coletiva, associada culturais em cada sociedade cinematográfica de Walt Disney do que pelas inúmeras versões
à cultura visual e à cultura e da educação moral e de ilustrações que já foram feitas para o livro.
da impressão. “Se os naipes do progresso intelectual A animação se tornou a principal memória relacionada ao
têm algo de familiar e eterno, dos indivíduos.” baralho no campo do audiovisual. Porém, as cartas de jogar já
se as figuras de reis, rainhas, Para Natali, as regras estavam presentes no cinema desde que este era mudo. No
cavaleiros e os misteriosos que conferem o equilíbrio curta Les cartes vivantes, de 1904, são expostas as habilidades
de mágico e ilusionista George Méliès, diretor do filme, mais
curingas remetem a verdades existente num jogo de cartas
conhecido pelo clássico Viagem à Lua. Famoso por conta das
antigas de um mundo do podem ser comparadas à apresentações no Theatre Robert Houdin, em Paris, Méliès resolve
qual temos nostalgia, apesar evolução da civilização, “que levar seus truques para as telas, numa produção descontraída e
de não termos vivido nele, partiu de um universo rude com enfoque no entretenimento fácil. Ele faz crescer cartas de
é porque fazem parte desta para um universo organizado baralho em suas mãos, depois as atira num grande painel, que se
memória que é maior do que e administrado, baseado transforma numa reprodução gigante das cartas. Neste momento,
nós indivíduos.” num sistema consistente e as figuras do rei e da dama saem das cartas como personagens
que adquirem vida própria. MARINA SUASSUNA
O potencial do baralho coerente onde os indivíduos
para instrumento de têm direitos e deveres”.

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A anatomia do baralho
de padrão internacional
Formado por 52 cartas de jogar em formato retangular pequeno
(cerca de 6 cm x 8 cm), numeradas até 10, o baralho é dividido em
quatro naipes, além das figuras reais do valete, da dama e do rei.
De um lado da carta, a frente, estão estampados os números ou as
letras e os naipes. No verso, conhecido como dorso, encontram-se
normalmente arabescos ou imagens reproduzidas de forma idêntica
em todo o conjunto de cartas. Este modelo ficou conhecido como
padrão internacional e é jogado em várias partes do mundo. Dorso
Consiste na parte de trás da carta de
baralho. Contém geralmente arabescos com
motivos geométricos ou florais, contornados
por molduras brancas. Também pode ser
Naipe adaptado para exibir o nome do cliente que
encomendou uma tiragem de baralhos ou
Termo utilizado para denominar os símbolos que são reproduzir qualquer tipo de ilustração. Os
empregados para diferenciar as quatro séries de cartas. dorsos devem ser idênticos, de modo a não
O naipe indica o grupo ao qual a carta pertence. Nos permitir que os jogadores adivinhem por
baralhos modernos, que seguem o padrão internacional, meio deles os valores das cartas.
os naipes são: ouros para diamantes, copas para coração,
espadas para folha e paus para trevo.

Índice
Identificação da carta por
meio do naipe ou caractere
posicionado em seus cantos.

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3
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janio santos

Curinga
Numa combinação de cartas, o curinga pode
assumir o valor de qualquer outra carta do
baralho, sendo considerado, por isso, especial.
O personagem surgiu nos EUA, no século 19,
como carta extra para os jogos de euchre,
que havia sido introduzido naquele país pelos
alemães, tornando-se bastante popular nos
Estados Unidos, sendo, em síntese, um jogo J
O
de trapaças. Importante fabricante americano K
de baralhos no século 19, Samuel Hart foi o E
R
primeiro que introduziu o curinga em seus
baralhos para euchre, em 1865. Naquela
época, ele o utilizou como carta extra,
com a figura do valete, conhecido
como Best Bower. O uso do bobo da

Figuras reais
corte, figura mais popularmente
associada ao curinga, verifica-se
só a partir do final do século 19 R As cartas dos reis, rainhas e valetes homenagearam,
e início do século 20. Em muitas E em diversas ocasiões, personagens históricos e
K
rodas de jogadores, também era O míticos. O rei mais destacado de todos, o de copas, foi
usada como curinga uma carta adicional J retratado durante vários anos pela figura do rei Carlos
que continha o texto de garantia de compra Magno. Henrique III também assumiu o posto durante
do baralho. Alguns dizem que o curinga surgiu o século 17. O de ouros foi representado durante muito
com base no Louco, uma carta do tarô. Nos tempo por Júlio César; o de espadas, por Davi; e o de
baralhos da Copag, ficou famoso através da paus, por Alexandre, o Grande.
taça de bojo arredondado. Já as damas sempre homenagearam figuras
mitológicas femininas como Judite, personagem
bíblica libertadora de Israel, que figurou como rainha
de copas. O mesmo lugar foi ocupado pela rainha
Isabel, da Inglaterra, no século 17, e por Joana D’Arc,
durante a Revolução Francesa. Raquel, esposa de Jacó,

A foi homenageada pela dama de ouros; a deusa grega


Atenas, pela de espada; e Argine, um anagrama da
palavra latina regina, que significa rainha, pela de paus.
Ás
A
Principal escudeiro do Rei Artur na epopeia da
É a carta mais Távola Redonda, Lancelot já ocupou o trono do valete
importante do baralho, de paus; Hector, também da Távola Redonda, o de
podendo simbolizar ouros; Hogier, primo de Carlos Magno, o de espadas; e
também o número 1. La Hire, o de copas.
A
Ás de espada
Herança inglesa, o ás de espada Q K
é conhecido como a carta da
morte, que traz azar no jogo, J
mau agouro. Adquiriu esse
significado por ser tratar
da carta que identificava
o pagamento de impostos
sobre o baralho na Inglaterra
do século 18. A partir dela,
as autoridades inglesas
conseguiam identificar quando
um baralho era falso, o que
podia levar à morte.

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COLÔNIA em circulação os primeiros baralhos


produzidos no Brasil. Até a metade do

O Brasil dá as cartas século 19, predominaram as cartas com


sistema de naipes latinos, geralmente
catalão, que depois foram sendo
A relação do país com o carteado começa no século alternados com os do sistema francês.
18, ainda sob o jugo da Coroa, mas a popularização Em ambos os casos, as cartas eram
impressas em xilogravura e somente
do jogo ocorre nos anos 1940, com os cassinos na cor preta, coloridas posteriormente
texto Marina Suassuna à mão ou com a técnica de pochoir,
conhecida no Brasil como estêncil.
Com o fim do monopólio português
em 1824, o Brasil começou a importar,
inicialmente, baralhos da França e da
Alemanha e, posteriormente, da Bélgica.
No Brasil, as primeiras tentativas colônia, as autoridades portuguesas Mas não demorou para que os primeiros
de impressão de cartas de jogar eram alertadas o tempo inteiro produtores independentes de baralho
aconteceram nos tempos coloniais, sobre falsificações. Há registros de surgissem. “Como capital do Império
de maneira clandestina, desafiando apreensão de produções clandestinas e centro econômico do país, o Rio de
o monopólio de fabricação e venda em Pernambuco, no Rio de Janeiro e, Janeiro passou a atrair imigrantes,
exercido por Portugal desde 1769, ano principalmente, na Bahia. Em 1811, a entre eles técnicos gravadores, que
da fundação da Real Fábrica de Cartas Real Fábrica de Jogar se transferiu para o deram mais qualidade ao que aqui se
de Jogar, em Lisboa. Se, no Reino, a Brasil, sendo anexada à Impressão Régia, produzia”, aponta o colecionador e
Real Fábrica ia de vento em popa, na no Rio de Janeiro. A partir daí, entraram pesquisador de cartas de baralho José

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maior parte de sua produção se concentra
em baralhos para essa modalidade de
jogo, o texas holdem.
No dia 30 de abril de 1946, o
presidente marechal Eurico Gaspar
Dutra assinou o decreto-lei 9.215, que
proibia os estabelecimentos destinados
à exploração dos jogos de azar em todo
território nacional. Entende-se como jogo
de azar aquele em que o ganho e a perda
dependem exclusiva e principalmente da
sorte. O argumento era de que esse tipo
de jogo é degradante para o ser humano.
O decreto-lei afetou o funcionamento e
a dinâmica dos cassinos, que passaram
a sofrer vigilância da polícia, muitos
deles foram fechados. Embora envolva
mais habilidade e raciocínio lógico do
que sorte, o pôquer – praticado com
cartas de baralho – acabou inserido
no pacote de jogos de azar por ser
bastante praticado em cassinos.
“O cassino tem uma atmosfera de
fascínio, a luz, a fumaça. Eu me sentia
um pouco Al Capone. É um lugar que
oferece todo um clima pra você se
viciar”, declara o multiartista Paulo
Bruscky, referindo-se ao gângster
ítalo-americano que comandava uma
rede de casas de jogos e pontos de
apostas na década de 1920. Amante do
pôquer, Bruscky frequentou cassinos
nos anos 1980, quando viajava em
transatlânticos pela Europa. “Eu
não jogava o tempo inteiro. Era um
Luiz Pagliari, autor do artigo Playing-cards A década de 1940 passatempo da viagem. O pôquer é
in Brazil – An introduction.
O Recife teve importante
ficou marcada pelos um jogo que não necessariamente
causa vício. É um jogo inteligente,
contribuição na consolidação do cassinos, nos quais assim como o xadrez, e não apenas
baralho brasileiro. No final do século 19,
os fabricantes de cigarro Moreira & Cia. os jogos de cartas de sorte. Você tem que saber jogar.”
Quando praticado de maneira
e Azevedo e Cia, instalados na capital eram largamente perniciosa, o pôquer pode trazer
pernambucana, passaram a aproveitar prejuízos financeiros, o que acaba
suas prensas litográficas para também difundidos gerando uma impressão negativa do
imprimir cartas de jogar. jogo. “Existem diferentes formas de se
intensamente criativo na Copag, com relacionar com o carteado: profissional,
ANOS DOURADOS baralhos personalizados para cassinos hobby, vício. É muito importante que
Os anos 1940 ficaram marcados pelo e com incremento na produção para quem quer que se envolva com o baralho
esplendor dos cassinos brasileiros. empresas particulares” (leia mais sobre a tenha total ciência da sua relação com
Um dos mais famosos era o Cassino da empresa no box da página 33). este. Papai perdeu muito dinheiro
Urca, no Rio de Janeiro, onde Carmem Não foi por acaso que a Copag se jogando cartas ao longo dos anos”, alerta
Miranda se apresentava. No Recife, tornou um dos principais fornecedores o ator e músico Roberto Rossi, filho
destacou-se o Cassino Americano, na de baralhos para cassino na América caçula do cantor Reginaldo Rossi que,
Praia de Boa Viagem. Era um período Latina, posição consolidada até os dias durante muitos anos, praticou diversos
em que os jogos de cartas estavam de hoje. A empresa foi fornecedora jogos e carteado, com afinidade declarada
largamente difundidos. “Não havia oficial, por dois anos consecutivos, dos pelo pôquer. Roberto conta que o hábito
clube de grã-fino e de classe média que baralhos utilizados na maior série de costumava ocupar o tempo livre do pai e
não tivesse suas salas de jogos”, conta torneios de jogos de pôquer do planeta, as vindas ao Recife. “A relação dele com
Ignácio Loyola Brandão. “Foi um período a World Series of Poker. Atualmente, a o baralho surgiu de reuniões com amigos;

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cada semana havia um encontro e um


anfitrião. Penso que foi uma forma de
ele estar com essas pessoas.”
O fato do pôquer envolver apostas
não impede que o jogo seja motivo de
diversão. Paulo Bruscky desenvolveu o
hábito desde a adolescência, mas sempre
com cautela, para não desvalorizá-lo
enquanto prática esportiva. “Não gosto
de jogo alto. Eu jogo pra me divertir e
não pra fazer disso um meio de vida”,
afirma. “Quando garoto, a turma da
minha rua, na Boa Vista, tinha um
limite de comprar no caixa. Cada um
comprava uma quantidade exata, um
podia emprestar ao outro, mas não podia
comprar mais, pra não gerar vício. Ainda
hoje, o dinheiro que eu boto no bolso pra
perder é uma quantia pequena, que não
5
me faz falta.”
5 família luna
Foi a matriarca,
BRIDGE NO CLUBE Dona Lia (à esq.),
quem iniciou a
Com a restrição aos cassinos, a aura tradição do jogo de
de sofisticação que permeava o cartas na família
carteado neles praticado deu lugar 6 paulo bruscky
Artista se diz um
ao despojamento dos clubes e dos contumaz jogador
ambientes familiares, que se tornaram de baralho
os novos redutos dos jogos de baralho. 7 copag
De acordo com Ignácio Loyola Brandão, Baralho de nº 139
é o carro-chefe da
a produção de cartas aumentou em mais antiga fábrica
função do novo público, em sua do produto do Brasil
maioria amador, para quem o jogo é
divertimento. “Nos cassinos, os crupiês
são profissionais, e nas mãos deles o
baralho dura mais. O profissional não
fica nervoso, não fica suando, não
bebe, não tem a mão molhada, não
come sanduíches gordurosos – tudo
o que acontece numa casa, onde as
6
coisas são informais, descontraídas.
Fatores que arruínam um baralho e, “O salão ficava repleto de mesas de começou a decair. Era cobrada uma taxa
consequentemente, demandam maior bridge e era uma alegria só. As pessoas de R$ 5 a quem quisesse jogar no clube.
produção”, compara. que se divertiam com o baralho no Até hoje, a maneira como o
No Recife, um dos grandes Automóvel Clube hoje estão velhas, brasileiro lida com o baralho é baseada
incentivadores da prática informal do muitas morreram e os jovens acham na informalidade. Uma pesquisa
carteado foi o engenheiro civil Fredi que o jogo é difícil”, comentou Fredi feita no país pela Alcântara Machado
Maia. Falecido em 2009, aos 85 anos, Maia, numa de suas últimas entrevistas, Periscinoto Comunicação (Almap),
Fredi presidiu por mais de 30 anos o em 2006, concedida à jornalista Maíra com 300 entrevistados, revelou que
Automóvel Clube de Pernambuco, que Brandão, que escreveu uma reportagem 79% deles apontam o baralho como
se tornou ponto de encontro da alta especial para a Universidade Católica uma forma barata de lazer, tendo
sociedade, durante as décadas de 1970 e de Pernambuco sobre o assunto. Maia em vista a sua praticidade, já que se
1980, para o jogo de bridge. Considerado lhe contou que cerca de 120 pessoas, pode jogar em qualquer lugar. Dos
um dos mais importantes jogos de entre homens e mulheres, se reuniam entrevistados, 68% preferem jogos
raciocínio já inventados com o baralho, o regularmente na sede do Clube, ainda que não impliquem em apostas, por
bridge ganhou fôlego no Brasil a partir dos hoje localizado na Rua Padre Inglês, no considerarem o baralho uma prática
anos 1960, passando a concorrer com Bairro da Boa Vista, para jogar bridge. Na relaxante, que não deve ser movida por
o tênis no ranking dos hobbies praticados época, foi o carteado que conseguiu, tensão. Entre as motivações do jogo,
pela aristocracia, sendo, portanto, um temporariamente, reerguer o local, foram apontadas não só a diversão,
jogo permeado de glamour e distinção. quando a sociedade automobilística mas também a possibilidade de reunir

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Copag
TRADIÇÃO NACIONAL
Não se pode falar da história do baralho no Brasil sem citar a
Copag, sigla da Companhia Paulista de Papéis e Artes Gráficas,
cuja trajetória se mistura com o desenvolvimento do próprio
baralho, além de ter enorme contribuição para o design de
cartas de jogar. Fundada em 1908, em São Paulo, por Albino Dias
Gonçalves, a Copag é a mais antiga fábrica brasileira de baralhos
ainda em atividade. Inicialmente, produzia itens de papelaria
como envelopes e blocos e papel. Aos poucos, começou a se
dedicar à importação e distribuição de baralhos europeus, até
que assumiu produção própria já com as prensas litográficas.
Os registros mais antigos dos baralhos produzidos pela
companhia datam de 1920. Nesta década, a empresa comercializava
nove modelos de baralho. Segundo a pesquisa da designer gráfica e
professora da USP Priscila Farias para o livro O design brasileiro antes
7 do design, essa variedade diminuiu ao longo da década, passando
a uma média de cinco modelos. A produção voltou a aumentar em
amigos. Quase 90% dos anos de idade, com todas as 1930, quando foram adquiridas máquinas para impressão ofsete,
entrevistados afirmaram regras, e ficava bem chateada que possibilitaram a produção de baralhos fantasias, aqueles
praticar o jogo nas próprias se a gente roubasse. Acho considerados fora dos padrões para jogos, geralmente ilustrados por
residências ou casas de que por isso até hoje sou artistas gráficos. Nessa época, também houve investimento nos
amigos, além de clubes e uma jogadora superchata. modelos sob encomenda para cassinos, associações e empresas,
casas de praias. chegando a cerca de 20 modelos por volta de 1940.
Nunca trapaceio. Pra mim,
O baralho mais famoso da Copag, que se tornou o carro-chefe
o grande lance era ser
da empresa é o de n°139, no padrão francês internacional. Criado em
TRADIÇÃO DE FAMÍLIA tratada como gente grande, 1923, é até hoje um dos modelos mais vendidos pela companhia,
Para a designer paulista Priscila não era uma brincadeira, sendo também o baralho brasileiro mais antigo em circulação.
Farias, o baralho traz a tinha que jogar a sério.” Não é por acaso que se tornou o baralho preferido dos jogadores
lembrança de tardes quentes Dona Lia enxergou no profissionais, o que rendeu à Copag, nos anos 1970, em Londres,
e chuvosas de verão, na praia, baralho, “ainda mocinha”, o título de Melhor Baralho do Mundo na Convenção Internacional
aprendendo a jogar buraco uma maneira de se distrair dos Fabricantes de Cartas para Jogar. “Para os brasileiros,
especialmente os paulistas, nascidos na segunda metade do
com a avó. Ela também se numa época em que a TV
século 20, a predominância dos baralhos da Copag, e em particular
sente atraída pelos desenhos, nem era cogitada como de seu modelo n°139, é tão imponente, que muitos certamente se
que considera “quase principal entretenimento dos surpreenderiam ao saber que há curingas diferentes de taças com
perfeitamente simétricos”, lares brasileiros. Desde então, bojo arredondado e que nem todos os reis de paus têm o mesmo
além de serem motivo de criou afeição pelas cartas e desenho”, aponta Priscila Farias.
debate em longas noites de não abre mão de tê-las por Figura mais famosa da Copag, o curinga se tornou símbolo
competições e bons vinhos perto sempre que a família se memorável da empresa. Para a pesquisadora, a “imponência barroca”
e a “dignidade retrô” da tradicional taça de bojo arredondado que
com amigos. “Oblíquas reúne. A matriarca não gosta
ilustra a carta são até hoje “inabaláveis”. Além dos motivos florais, a
interpretações do futuro de apostar, pois acredita que
taça traz inscrita em sua haste a figura que celebra a identidade da
eram ensaiadas por amigas desvirtua o jogo, e atesta: empresa: o cavaleiro de lança com o escudo da Copag. Diferentes
místicas: rei de copas como “Quem rouba no jogo é modelos do joker foram explorados pela empresa ao longo dos anos.
loiro galante, dama de porque não sabe jogar”. Em Um deles se tratava de uma carta adicional, que trazia informações
espadas como falsa amiga mais de 40 anos de prática, sobre a garantia de compra do baralho. Nos anos 1940, os baralhos
morena e sete de ouros como não lhe faltam histórias pra de modelos Mascotte, Mirim e Popular traziam-no com a ilustração
rica herança inesperada.” contar. “Eu prefiro passar o de um garoto negro em trajes populares, dançando de braços
levantados. Mas nenhum curinga se tornou tão célebre como o da
Já a socióloga recifense tempo jogando baralho do
taça de bojo arredondado, sendo utilizado até hoje na maioria dos
Suzy Luna diz que nunca que estar na frente de um baralhos da empresa.
interpretou de maneira computador. A juventude de Para Ignácio Loyola Brandão, uma das peculiaridades
fantasiosa as figuras do hoje não desenvolve certas das cartas produzidas pela Copag era também o seu dorso
baralho, aprendeu pequena habilidades, porque vai toda atraente, tido como uma arte fundamental do baralho. “Ele trazia
a jogar como os adultos. Na pro computador”, opina. desenhos geométricos ou arabescos com flores e folhas, dentro
família dela, o jogo de cartas Nunca lhe falta companhia na de uma pequena margem branca não impressa. Além disso,
trabalhava-se com cartões cuchê vindos da Suécia, Finlândia e
é uma tradição familiar, casa de praia da família, onde
Noruega. Na chamada copiagem (pré-impressão), usavam-se
introduzida pela avó, Dona todos costumam se reunir em pedras litográficas francesas. Para o acerto de cores, os cartões
Lia, hoje com 88 anos e torno da jogatina. “Uma vez, entravam nas máquinas cinco vezes. O processo, portanto, era
ainda fissurada no jogo de na praia, amanheceu o dia e lento”, explica o jornalista. “A cada mês, saíam da Copag entre
canastra. “Ela me ensinou a nem me dei conta de tanto 10 e 12 grosas de baralho, ou seja, 1.444 e 1.728 maços.” (MS)
jogar por volta dos meus 5 que eu joguei.”

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ARTE de forma frívola, com personagens


ruidosos em torno de uma mesa,

Para além do jogo, bebendo, tocando, discutindo.


“Se olharmos para a história de arte,

a beleza das cartas


veremos que o baralho sempre esteve
presente. Picasso e Matisse foram
alguns dos pintores que exploraram esse
Desde o século 15, esses objetos lúdicos servem elemento. Em suas pinturas de natureza
morta, Vicente do Rego Monteiro sempre
à criação artística, estando presentes em obras inseria uma carta de baralho sobre a
de caráter figurativo e, sobretudo, gráfico mesa”, aponta o artista plástico Paulo
Bruscky. Ele é responsável, junto com os
jornalistas Mário Hélio e Ronildo Maia
Leite, pela reedição do livro Cartomancie,
de Vicente do Rego Monteiro, que traz
Três homens estão concentrados de cartas, criada por Cézanne entre 1890 pequenos poemas visuais em papel e
num jogo de cartas. A presença de e 1895. As outras quatro se encontram formato de cartas de baralho.
mais pessoas no ambiente parece não em grandes museus do mundo, como A iniciativa do trio foi uma
despertar interesse em nenhum deles, o o Metropolitan Museum of Art, de radicalização da ideia que já estava
que reforça ainda mais o protagonismo Nova York; o Courtauld, de Londres; prevista por Rego Monteiro desde a
do carteado naquele contexto. Esse é o o Musée d’Orsay, de Paris; e a Barnes edição princeps (primeira impressão de
tema do segundo quadro mais caro do Foundation, na Filadélfia. uma obra), lançada em Paris, em 1952: a
mundo, assinado pelo pintor francês Segundo historiadores, o diferencial correlação da poesia com a visualidade.
impressionista Paul Cézanne. Comprada da obra de Cézanne é justamente a Para Bruscky, a reedição reforça não só
em 2011 pela família real do Catar, por atmosfera de silêncio e concentração a influência concretista do amigo poeta,
US$ 250 milhões, a pintura a óleo, que na qual os jogadores estão inseridos, como também a vocação do carteado
antes era propriedade do magnata grego característica que vai na contramão tanto para o jogo como para a arte.
George Embiricos, é uma das cinco da escola francesa de pintura, “As cartas de baralho têm essa magia
versões que compõem a série Os jogadores acostumada a retratar jogos de cartas para além do jogo. São graficamente

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riquíssimas. Tanto é que a proposta de superam o objetivo de servirem a um
Vicente era que os poemas fossem lidos determinado jogo, correspondendo ao
enquanto se jogava com as cartas. Eles registro do talento individual de artistas
não tinham uma sequência lógica de que contribuíram para novas concepções
leitura”, diz o artista pernambucano, que de baralho”, aponta Armando Serra
também teve seu momento de criação Negra, no livro O que é baralho.
influenciado pelo carteado. No final dos Outra particularidade dos baralhos
anos 1970, Bruscky encontrou na rua fantasia é que cada edição é única. Com
um ás de ouro, considerada a carta de exceção das reedições, seu desenho
maior valor no jogo de pôquer, do qual é não é repetido, por se tratar, na maioria
jogador assíduo. das vezes, de concepções relativamente
A tendência do baralho para a complexas, ao contrário dos baralhos
contemplação artística tem suas raízes no modelo padrão, fabricados com o
desde que as cartas chegaram à Europa, propósito de serem usados para jogos e,
no século 15. Feitas à mão, elas eram por isso, terem seus desenhos copiados
pintadas em várias cores e enriquecidas por vários fabricantes, que usam as
com ouro e relevo. A diplomação do mesmas características básicas.
mestre de cartas, tido como responsável Em alguns casos, os baralhos
pela pintura manual, só vinha após o artísticos são tidos como itens de
aspirante ter criado um desenho que colecionador, não apropriados para
os guardiões do ofício julgassem uma manipulação pelo seu valor histórico.
obra-prima. Um exemplar de grande É o caso do EPOC, releitura artística
popularidade naquele período foi o de do baralho internacional criada pela
Visconti-Sforza, considerado um dos arquiteta e artista plástica paulistana
9
mais completos e antigos baralhos de Leonor Décourt, em 2004. Considerado
8 os jogadores... 9 dalí
tarô de que se tem notícia. um best-seller mundial, o EPOC é peça ... de cartas é a Pintor surrealista
Seus cartões eram pintados recorrente no acervo dos museus de segunda tela mais criou um jogo de 78
cara do mundo peças de tarô
com guache em cores brilhantes e baralho da Europa. Leonor batizou o
traziam ornamentações baseadas em exemplar com as inicias de cada naipe
manuscritos medievais. O exemplar foi 2012, quando terminou o nosso contrato.
produzido por encomenda do Duque Ao longo dos séculos, Foi um tempo grande de edição”, conta
de Milão, Filippo Maria Visconti, para
celebrar a união de sua família com os
artistas, ilustradores Leonor, que já havia desenvolvido
um baralho artístico em 1976. “Meu
Sforza, por meio do casamento de Bianca e gravadores vêm relacionamento e manejo com as
Maria Visconti com o Duque Francesco
Sforza. A maioria dos estudiosos credita utilizando a carta de cartas de baralho sempre foi muito
fácil. Desde pequena ele esteve entre
a autoria da carta ao pintor Bonifácio baralho como suporte meus brinquedos favoritos. Meu pai era
Bembo, atuante em várias cidades mágico, e fazia truques com baralho.”
italianas na época e contratado para para a criatividade
trabalhar na corte Sforza. Uma de suas CARTAS ASSINADAS
características era o uso abundante de do sistema francês: Espadas, Paus, Ouro Uma iniciativa que tem enchido os
folhas de ouro e prata. Hoje em dia, parte e Copas. Uma das referências de Leonor, olhos dos jogadores apaixonados por
do baralho Visconti-Sforza se encontra que elaborou o design em fundo preto, arte é o Projeto 54, idealizado pela loja
na Academia Carrara de Bérgamo e outra foram os baralhos de transformação. de camisetas El Cabriton, localizada em
parte na Morgan Library, de Nova York. Trata-se de uma modalidade de baralho São Paulo. Trata-se de um jogo de cartas
ilustrado que se tornou comum no ilustrado por 54 designers brasileiros
BARALHOS FANTASIA século 19, no qual os símbolos dos convidados, com impressão da Copag.
É grande o número de artistas, naipes se integram à ilustração de Cada carta é desenhada por um artista
ilustradores e gravadores que fazem cada carta. Um artifício parecido com diferente, de forma totalmente livre e
da carta de baralho um suporte para esse também foi utilizado em algumas autoral. Desde a primeira edição, em
sua criatividade, transformando-a ilustrações do livro Alice no País das 2010, já participaram do projeto, que
numa verdadeira peça de arte gráfica. Maravilhas, de Lewis Carroll. acontece anualmente, mais de 270
Projetados fora do padrão internacional, “Procurei a Copag para saber quanto ilustradores, designers e artistas plásticos.
esses carteados são conhecidos como seria o custo de uma edição e, para Entre eles, esteve a dupla de
baralhos fantasia, por serem feitos minha surpresa e alegria, a própria ilustradores pernambucanos Raone
com total liberdade e desprendimento, empresa se ofereceu para editar e Ferreira e Fernando Moraez, que
tanto na estrutura dos naipes como distribuir o baralho. Durante oito anos, assinava artisticamente como Imarginal,
nas ilustrações, além de se prestarem o EPOC foi distribuído no Brasil e no alcunha que hoje pertence somente a
a várias finalidades. “Tais baralhos exterior. Ele parou de ser editado em Fernando. Na época, os artistas criaram

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o ás de paus, espelhados no Mago (Arcano I) e no Rei


no significado que a carta de Ouros. As demais cartas
adquiriu no baralho de tarô, misturam quadros e retratos
misturando o Surrealismo em colagens arrojadas e
às técnicas de pontilhismo vanguardistas como o próprio
e tracejado monocromático autor. Adquirir esse baralho
que lhe são peculiares. é adquirir uma obra de arte
“Fizemos um desenho em 78 imagens, e desafiar-se
que simboliza a dualidade a conhecer um arcabouço
e o reinício humano, já simbólico sem fronteiras”,
que, no tarô, o ás de paus descreve a apresentação
representa um reinício de ao deck do catalão.
ciclos ou novas ideias”, Não se pode perder de
comenta Raone Ferreira. vista o Toth Tarot, ilustrado
Muitas versões por Lady Frieda Harris,
artísticas de baralhos a pedido do ocultista
foram desenvolvidas com Aleister Crowley, tido
inspiração nas cartas de tarô, como o responsável
por se tratar de um carteado por difundir o caráter
cuja imagem tem grande esotérico dessas cartas.
apelo simbólico. A linguagem O exemplar levou cinco
metafórica e a subjetividade anos para ser concluído,
com que o tarô interpreta a de 1938 a 1943, devido ao
realidade atrai os artistas que perfeccionismo e à intensa
se afinam com o Simbolismo, pesquisa desenvolvida
corrente artística que pelos dois. Diz-se que
privilegia o imaginário e algumas das cartas foram
a fantasia, a ligação entre refeitas oito vezes. Harris
o mundo material e o explorou extensivamente
espiritual, sendo uma das nas lâminas um modelo
precursoras do movimento artístico conhecido como
surrealista. Assim, as cartas traçado de bordas, sugerindo
de tarô acabam sendo terreno estética surrealista baseada
fértil para a criação artística no misticismo e no uso
por meio do Simbolismo, de oráculos. Para atingir
que se caracteriza, esse resultado, abriu mão
sobretudo, pelo estilo de expressões faciais
decorativo e ornamental. humanas e deixou a cargo
Um dos registros mais de símbolos, cores e formas
icônicos dessa influência a transmissão dos conceitos.
é o baralho de tarô criado A forte composição e
por Salvador Dalí, em 1971, combinação de cores é uma
considerado um estojo de das características marcantes
luxo, com cartas ilustradas das cartas criadas por
com guache e aquarela, e as Harris. Os originais foram 10
bordas douradas. “Cada carta desenhados em aquarela
é composta por colagens,
atributos de outros quadros,
com materiais de baixa
qualidade, por causa da TARÔ
pinceladas enérgicas e
pela própria assinatura
dificuldade que predominava
na época devido à Segunda Cartas na mesa para
o jogo da previsão
do artista. É um trabalho Guerra Mundial.
estupendo, mostrando ao Outro exemplar de rara
mesmo tempo a técnica e beleza é o Gaignières Tarot,
o conhecimento simbólico considerado valiosíssimo, que
do autor. O próprio Dalí está hoje se encontra no Museu
O baralho com fins divinatórios encontrou
representado nestas lâminas, da Biblioteca Municipal mais respeitado uso no campo da
como um autorretrato de Paris, com apenas 17 interpretação de símbolos arquetípicos
simbólico atestando sua peças remanescentes.
genialidade. Vemos o artista MARINA SUASSUNA

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gabriel melo/divulgação
10 marselha
Cerca de 60 anos após as primeiras Baralho do século
referências às cartas de jogar na 15 mantém-se
popular entre
Europa, os europeus do norte da Itália tarólogos
adicionaram ao baralho comum 22 11 ivan ferreira
lâminas, que traziam iconografia ”Com os arcanos,
o cliente encontra
típica da época, com imagens que tradução para o
representavam arquétipos naturais que sente”, diz o
e humanos, como a Justiça, a Força, arteterapeuta
o Sol, a Lua, o Imperador, o Louco,
a Sacerdotisa. Ao grupo de cartas
figurativas deu-se o nome de arcanos
maiores, principal diferencial do baralho
divinatório conhecido como tarô. O
mais antigo dos tarôs em uso é o de
Marselha, tido como o mais popular
de todos desde o século 15, portanto,
um baralho clássico. Totalizando
78 cartas, o Tarô de Marselha é
dividido em dois grupos. Além dos
arcanos maiores, há o conjunto dos
arcanos menores, um total de 56.
A partir do século 18, os arcanos
11
maiores passaram a ser vistos como
cartas emblemáticas, dotadas de O tarô está ligado concepção ligada à psi, ao inconsciente

ao campo do
saberes ocultos que representavam coletivo e à sincronicidade.
situações e virtudes. A compreensão “O tarólogo, na perspectiva
metafísica dessas lâminas transformou-
as em instrumentos de leitura de
autoconhecimento junguiana, não interpreta os símbolos,
utiliza os arcanos maiores enquanto
sorte e previsão do futuro, utilização psicanalítico, devido força catalisadora, para que o próprio
que se tornou extensiva a partir do
cartomante francês Jean-Baptiste
ao seu alto grau de cliente descubra em que rede de
símbolos o inconsciente encontra
Alliette, que se autodenominou Etteilla, simbolismo espaço através das lâminas para
pseudônimo escrito propositalmente se apresentar. É uma técnica que
ao contrário. Com ele, o tarô passou tradicionais e populares com baralhos, se torna uma chave importante,
a integrar o cerne do esoterismo como buraco, truco, caxeta, sueca, entre quando bem-utilizada. Muitas vezes,
moderno, assim como a cabala, a outros, utilizam baralhos normais, sem o cliente chega ao atendimento sem
astrologia e a alquimia medieval. os trunfos que caracterizam os tarôs”, conseguir falar uma palavra e é com
Importante como instrumento explica o pesquisador Cláudio Décourt os arcanos que encontra a tradução
de uma série de jogos, o baralho de (leia entrevista com ele a seguir). para como está se sentindo”, explica o
tarô, segundo estudiosos, poderia ter arteterapeuta Ivan Ferreira, que há três
adquirido mais prestígio com seus ARCANOS E O INCONSCIENTE anos realiza atendimentos individuais
jogos do que o pôquer e o bridge, não Uma linha de conhecimento à qual e em grupos facilitados pelo tarô.
fosse a falta de conhecimento a seu o tarô está ligado é o campo do Articulador do portal Clube do
respeito em países como Inglaterra e autoconhecimento psicanalítico. Tarô, referência na área de linguagens
Espanha, que poderiam ter feito sua Devido ao elevado grau de simbolismo simbólicas, Constantino Riemma
difusão nas colônias. Com exceção das dos arcanos maiores, esse conjunto de chama a atenção para o tarô aplicado
Ilhas Britânicas e da Espanha, em todos cartas foi alvo de estudo do importante na cartomancia popular, prática
os países europeus os jogos com tarô investigador da psicanálise do século 20, desenvolvida de maneira sensitiva pelas
ainda são extensivamente praticados. Carl Jung. Para ele, o tarô é um dos mais avós, tias, benzedeiras e parteiras para a
Na cidade de Viena, na Áustria, por poderosos instrumentos de acesso e percepção do outro na convivência diária
exemplo, é comum encontrar sob a compreensão do inconsciente humano. entre grupos sociais restritos. “Quando
mesa dos cafés populares, ou até mesmo Todas as experiências do homem penso nas pequenas comunidades
pedir ao garçom, maços de tarô para se estariam de certa forma condensadas que eu frequentava quando criança, a
jogar com amigos. Na França, há uma em seus arcanos maiores, funcionando cartomancia era um recurso utilizado
federação de tarô, que regulamenta como arquétipos do mundo ocidental. por aquelas mulheres para transmitir
e promove competições desse jogo Tarólogos e terapeutas holísticos são os experiência e aconselhar sem nenhuma
em todo o país. “Nós aqui, no Brasil, profissionais que facilitam processos de manipulação. Porém, essa prática
somos a região na qual o tarô chegou autoconhecimento a partir do tarô. As foi apropriada por mal-intencionados.
mais como oculto. Nossos jogos mais cartas são compreendidas por eles numa Isso não quer dizer que todo mundo

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la cartomancienne, paul rink/reprodução

Entrevista desenvolver métodos de trapaça,


fazendo com que cartas passassem
CLÁUDIO DÉCOURT a ser dirigidas a eles não de forma
aleatória, mas viciada, conveniente à
“OS OBJETIVOS sua vitória. As técnicas usadas pelos

DOS MÁGICOS E trapaceiros ses jogos passaram, em


pouco tempo, a ser utilizadas para
DOS TRAPACEIROS produzir feitos extraordinários com

COM CARTAS SÃO


as cartas, em que o efeito “mágico”
é que encantava as pessoas, sem
MUITO DISTINTOS” nenhuma ligação com qualquer
jogo. A semelhança de técnicas,
no entanto, é notável. Logo, esses
Colecionador e estudioso pioneiros ilusionistas com cartas
das cartas de baralho por mais de jogar perceberam que o baralho,
de 40 anos, Cláudio Décourt além de ser um instrumento ideal
presidiu, de 2004 a 2008, a para trapaças, pelo tamanho e
International Playing Card por outras características físicas,
Society – IPCS, entidade com também era excelente objeto para
12
sede na Inglaterra que reúne magias. Pode-se dizer que o baralho
12 cartomante
Tela de 1898 retrata o uso do colecionadores e pesquisadores se tornou uma ferramenta para
baralho para adivinhações sobre baralhos de todo o mundo. mágicas quase simultaneamente ao
Entre os seus temas de interesse, seu surgimento como instrumento
está a cartomagia, tendo se de jogo. Uma diferença fundamental
que mexa com o tarô nessa linha seja formado no CEMA – Centro de entre as duas aplicações é que, nas
maldoso. Mas muitos passaram a Estudos Mágicos, uma das mais mágicas, o efeito é visível, ou seja,
explorar essa prática comercialmente, de importantes sociedades mágicas os espectadores veem que uma
forma desonesta, depois que a lei que que existiram no Brasil, nos anos carta trocou de valor por outra.
proibia a cartomancia foi revogada, pois 1960. Há cerca de oito anos, é Enquanto, em jogos, os adversários
deixou de existir qualquer restrição.” integrante do Grupo de Estudos do trapaceiro não podem perceber
Riemma acredita que muito da Mágicos Misdirection, em São a troca de cartas, sob pena de ter
propaganda enganosa existente se Paulo. Desde o final da década que pagar de forma exemplar,
deve também a uma forte demanda de 1960, iniciou uma coleção de o que em várias oportunidades
popular por previsões. “Existe uma baralhos que não se esgota, com significou a própria vida. Mas, em
necessidade humana sobre o que vai lugar especial para as cartas de ambos os casos, o procedimento
acontecer em nossas vidas, o que o mágica. Atualmente, possui uma usado para transformar as cartas
futuro nos reserva. Só que o indivíduo biblioteca particular com uma é desconhecido do público e dos
precisa refletir sobre o profissional média de 400 livros sobre o tema. outros jogadores. São utilizados
mais adequado a quem deve recorrer, praticamente os mesmos meios, nas
se um psicólogo, um cartomante, um CONTINENTE Em que contexto duas aplicações. Primitivos livros de
orientador espiritual ou qualquer outro.” as cartas de baralho passaram a ser mágica com baralho – como Giochi
Assim como toda arte humana que utilizadas para truques de mágica? di carte bellissimi di regola e di memoria,
integra diferentes níveis de aplicação CLÁUDIO DÉCOURT Como é escrito por Horatio Galasso e editado
e conhecimento, como o racional, o sabido, baralhos foram inventados em Veneza em 1593 – incluíam tanto
sensível e o prático, a arte divinatória para a prática de jogos. Nesse números de mágicas como manobras
do tarô está longe do consenso. “Ele universo, temos jogos ditos “de de “correção de sorte”, eufemismo
vem de uma informalidade meio salão” e os jogos “de aposta” ou que significa simplesmente
subterrânea, malvista. Ao mesmo “de azar”. Esses últimos envolvem trapaça. Iniciou-se, dessa forma,
tempo, é extremamente rico”, observa o ganho financeiro dos vencedores uma permanente “transferência
Riemma. “As cartas do tarô, quer sejam das partidas jogadas. Em ambas de tecnologia” entre trapaceiros e
encaradas como ferramentas para as práticas, parte do sucesso em mágicos, prática que persiste até hoje.
predição do futuro, quer sejam usadas sair vitorioso depende da sorte
como instrumento lúdico ou ainda de cada jogador conseguir cartas CONTINENTE Em algum momento
como forma de autoconhecimento que possibilitem sua vitória. Por da história a associação entre mágica
psicanalítico, contam uma história essa razão, jogadores/ apostadores e trapaça comprometeu o prestígio e
simbólica pela imagem”, define Carlos desenvolveram prontamente a credibilidade da cartomagia?
Santa Rosa, em sua pesquisa Cartas métodos para “corrigir a sorte”. CLÁUDIO DÉCOURT De fato, essa é
marcadas – Multimodalidade discursiva e Em palavras mais diretas e uma questão delicada. Mas a troca
transitividade em baralhos de tarô. (MS) menos elegantes, passaram a de técnicas e informações é um fato.

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divulgação

intrinsecamente bom pode ser


usado para o mal ou como imagem
dele. Mágicos não são exceções.

CONTINENTE Como identificar se um


baralho é apropriado para a mágica?
CLÁUDIO DÉCOURT Mágicos utilizam
baralhos comuns, comprados em
qualquer loja e usados para jogos.
Como característica principal,
é importante que sejam de
boa qualidade, com cartas não
transparentes, bom deslizamento,
espessura adequada, identificação
de valores de fácil distinção,
bem-impressas, com dorsos bem-
centralizados, armazenados em
estojos também de boa qualidade,
além de outros detalhes de
fabricação. Atualmente, o baralho
mais popular usado por mágicos em
todo o mundo é da marca Bicycle,
criada no final do século 19 e
fabricada até hoje pela United States
Playing Card Co., um dos maiores
fabricantes de baralhos do mundo. O
dorso conhecido como Rider Back,
mostrando anjos em bicicletas é a
marca registrada de praticamente
todo mágico contemporâneo
especializado em baralhos. Vários
fabricantes e editores de baralhos
Na minha visão, não há nenhum “O baralho se tornou têm tentado, ainda sem sucesso,
comprometimento aos mágicos,
porque estamos falando de métodos, um instrumento para substituir o famoso Bicycle Rider
Back por suas marcas tradicionais. No
não de objetivos. Os objetivos dos mágicas quase de entanto, na prática, a maioria dessas
mágicos e dos trapaceiros com cartas outras marcas pode ser utilizada sem
são muito distintos. O primeiro leva forma simultânea ao problemas e com absoluto sucesso
diversão, divertimento às pessoas;
o segundo usa de artifícios para ter
uso como objeto em números de mágica.

vantagens fraudulentas em jogos. O de jogo” CONTINENTE O que leva as pessoas leigas


primeiro tem uma atividade digna. a confundirem mágica com tarô? Como elas
O segundo, não. Assim, embora diametralmente opostos. Parece- podem diferenciá-los?
sejam utilizados métodos muito me difícil distinguir algo que seja CLÁUDIO DÉCOURT A prática de
semelhantes nas duas, parece- puramente politicamente correto em leitura de sorte e outras aplicações
me que o julgamento moral que todos os seus aspectos. Sempre algo esotéricas do tarô, que poderiam
poderíamos fazer delas é muito bom pode ser usado para o mal. Ou ser associadas à mágica em seu
diferente. Uma comparação que me vice-versa, como no caso de magia sentido místico, nada tem a ver com
ocorre se relaciona com a tecnologia e trapaça. A origem foi a trapaça, a mágica como arte de espetáculo,
aeronáutica, por exemplo. Muito da mas as mesmas técnicas acabaram baseadas em artifícios, artimanhas
tecnologia militar, que sempre pode criando um tipo de divertimento e subterfúgios usados habilmente
ser criticada por seus efeitos nefastos, que traz alegria às pessoas. A visão com o objetivo exclusivo de criarem
é aplicada no desenvolvimento de genérica de que o mágico pode ser em seus espectadores a ilusão de
aviões civis, usados no transporte um trapaceiro é usada em alguns se fazer coisas impossíveis. Trata-
de pessoas, na assistência médica e casos. Há, por exemplo, filmes classe se aqui de uma ilusão, embora
social em lugares de difícil acesso, B nos quais o mágico é o bandido existam alguns poucos mágicos
enfim, em várias atividades nobres. ou assassino. Mas outros tipos de que utilizam baralhos do tipo
A tecnologia de produção é a mesma, personagens também personificam tarô para suas apresentações.
mas os objetivos de utilização são bandidos e assassinos. Sempre algo Mas isso é muito raro.

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