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Pesquisa feita por

Adilson Santos de Jesus


Matilde Alexandre Alves de Barros.
Roxana Maria Filetti

Disciplina
Educação para Jovens e Adultos
Prof. Victor Martins
2016

Dados de uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo e Instituto


DATAFOLHA em junho de 1995.
Deixamos alguns links para consulta e também acrescentamos
algumas matérias recentes para que o estudante do sistema EJA
possa estabelecer relações das transformações no tempo entre a
matéria publicada e a pesquisa que irão empreender.

Esperamos auxiliar os estudantes na tarefa de pesquisar e


compreender o mundo que vivemos.
Do racismo cordial ao racismo amedrontado
ROBERTO MELO

Em 1995, o Datafolha fez o mais completo solução foi ler aqueles mesmos números "às
levantamento sobre o preconceito de cor avessas": em vez de perguntar a quantidade
jamais realizado no Brasil. Durante seis de negros pobres, quis saber se já havia
meses, mais de 700 profissionais foram negros com poder aquisitivo suficiente para
envolvidos num projeto ambicioso: comprar supérfluos -revistas, por exemplo.
descobrir se o brasileiro é racista e que tipo A surpresa: cruzando dados demográficos
de racismo seria esse. Publicado em um de população e idade do IBGE, conclui que
caderno especial deste jornal em junho do há 5,4 milhões de negros e mulatos adultos
ano passado e depois transformado em com renda familiar acima de 20 salários
livro, o estudo provou que o brasileiro é mínimos. É uma cifra gigantesca, pois, entre
racista, sim, só que esse racismo é "cordial". os brancos, esse número não passa de 7,1
O resultado mais emblemático dessa milhões. Silenciosamente, os negros
"cordialidade" é o fosso existente entre os brasileiros chegaram à classe média e já
que consideram haver racismo (89% dos ocupam alguns postos no topo da sociedade.
brasileiros) e os que admitem ser, eles Pode ser que ainda não comprem iates ou
próprios, racistas (10%). frequentem campos de golfe. Mas e daí?
Num país rigorosamente cego em números, Aprendemos a ver o Brasil dividido entre
a tarefa foi grandiosa. O livro em questão brancos ricos e negros pobres, e o que
("Racismo Cordial", editora Ática) foi surgiu foi muito diferente: um país
particularmente útil e decisivo quando a composto por um oceano de pobreza
direção da editora Símbolo me incumbiu de "bicolor" (90% dos negros e 83% dos
medir o público potencial da primeira brancos têm renda familiar abaixo dos 20
revista de grande porte voltada para os salários mínimos) e uma ilhota de consumo
negros, "Raça Brasil". A revista foi lançada também repartida.
em setembro, com uma venda em bancas Não se trata de comemorar o fim da
inesperada para o mundo do marketing desigualdade racial. Tudo o que "Racismo
brasileiro, que sempre alimentou o dogma Cordial" detectou também é verdade. A
de que o negro brasileiro não tem orgulho "democracia racial brasileira" é uma falácia,
da própria raça, e que, portanto, seria inútil a desigualdade existe, só que não mais tão
fazer uma revista para eles. profunda quanto era 20 ou 30 anos atrás.
Em minucioso levantamento, a pesquisa do Todas essas informações estavam em
Datafolha mostra a desigualdade social "Racismo Cordial", mas a descoberta de
entre brancos e negros, fruto de séculos de uma classe média negra numerosa e sólida
escravidão e décadas de discriminação, escapou aos próprios analistas da pesquisa,
além de desvendar sutilezas no que mantiveram seu olhar fixo na missão
comportamento preconceituoso brasileiro. prioritária -desvendar o racismo entre nós.
Mas eu tinha um problema prático: Escapou a todos, pois aprendemos a ser
estabelecer a tiragem inicial da revista. A racistas, mesmo tentando não sê-lo. No dia
em que eu, um branco, fui encarregado de "a revista dos negros brasileiros" quando
quantificar o público leitor negro, tentei não há uma "revista dos brancos
lembrar se havia negros fazendo compras brasileiros". Ora, há cerca de 1.900 títulos
em shopping centers. Minha memória disse em circulação no país. Exceção feita a
que não. Na primeira oportunidade, fui poucas e corajosas publicações para negros,
conferir "in loco". Eles estavam lá! Nas de tiragem e recursos modestos, as demais
praças de alimentação, nas lojas de roupas e ignoram 59% da população. Quando surge
discos, nos cinemas. Consumindo, como uma que resolve prestar esse serviço, então
qualquer cidadão. esta é racista?
O fato de 200 mil exemplares se esgotarem Essa atitude revela medo de saber que os
em poucos dias, obrigando a uma negros estão paulatinamente ocupando
reimpressão de mais 100 mil, mostrou que, espaço. Neo-racistas do Brasil, relaxem! Os
além de poder de consumo, os negros negros querem apenas ser tratados como
brasileiros têm orgulho da raça ou, pelo consumidores. Pedem produtos específicos
menos, passaram a ter. para sua pele, seu cabelo, seu gosto e sua
O que dizem os brancos sobre tudo isso? A cultura. Querem se ver bem-sucedidos,
primeira reação à notícia de que haveria viver com auto-estima. O racismo cordial,
uma revista de grande tiragem foi vaticinar que aqui se instituiu como uma maneira
seu fracasso, com base nos argumentos de quase "preguiçosa" de excluir, se converte
sempre. Depois do lançamento, a última em racismo amedrontado. Tomara que seja
moda entre os racistas tem sido dizer que sua última face.
"Raça Brasil" é racista, pois se define como

Entenda como é a metodologia da pesquisa:


MAURO FRANCISCO PAULINO
GERENTE DE PESQUISAS DE OPINIÃO DO DATAFOLHA

O Datafolha mobilizou cerca de 700 pessoas para realizar a mais ampla pesquisa sobre
preconceito racial no Brasil.
A pesquisa foi realizada em todas as unidades da Federação, ouvindo 5.081 pessoas maiores de
16 anos em entrevistas pessoais, em 121 cidades, de 4 a 6 de abril.
Esse número de entrevistas permite um detalhamento pormenorizado nos cruzamentos. É
possível analisar opiniões, por exemplo, de cada grupo étnico segundo a faixa etária ou região
de moradia.
Há dois conceitos presentes em todo levantamento feito por amostragem: são a margem de erro
e o intervalo de confiança.
A margem de erro define variação dos resultados da pesquisa. Neste estudo, a margem de erro
é de dois pontos percentuais. Assim, quando se diz que 89% dos brasileiros afirmam que os
brancos têm preconceito de cor em relação aos negros, numa leitura rigorosa o correto seria
afirmar que de 87% a 91% têm essa opinião.
O intervalo de confiança serve para se saber o número de vezes que a pesquisa poderia ser
realizada sem que o resultado ficasse fora da margem de erro. Neste estudo, o intervalo de
confiança é de 95%.
Um intervalo de confiança de 95% significa que se fossem feitos 100 levantamentos
simultâneos com a mesma metodologia, em 95 os resultados ficariam na margem de erro de
dois pontos percentuais.
Todas as projeções foram baseadas no número de brasileiros acima de 16 anos (97.659.740
habitantes) divulgado pelo IBGE a partir do Censo de 1991, aplicadas as taxas de crescimento
para 1994.
Também foi baseado em conceitos do IBGE o critério de classificação por etnia. Essa
classificação foi feita de três formas distintas:
1) Antes de cada entrevista os pesquisadores anotavam a cor observada dos entrevistados
segundo os critérios do IBGE (branca, preta, parda, amarela e indígena);
2) Os entrevistados classificavam-se espontaneamente de acordo com a nomenclatura que
habitualmente utilizam;
3) Os entrevistados eram solicitados a se auto-classificarem de acordo com os critérios do
IBGE.
Esta pesquisa foi realizada a partir de um processo de amostragem estratificada por sexo e
idade, com sorteio aleatório dos entrevistados. O conjunto da população adulta do país é
tomado como universo da pesquisa e dividido inicialmente em quatro subuniversos que
representam as regiões.
Em cada subuniverso os municípios são agrupados de acordo com a localização geográfica e o
nível socioeconômico.
Dentro de cada grupo são sorteados municípios estratificados pelo porte correspondente.Num
processo de sorteios sucessivos chega-se ao bairro e ao indivíduo.

A direção do Datafolha é exercida pelos sociólogos Antonio Manuel Teixeira Mendes e


Gustavo Venturi, tendo como assistentes Mauro Francisco Paulino e as estatísticas Renata
Nunes Cesar e Karla Mendes. A direção comercial é de Eneida Nogueira e Silva.
A razão das diferenças (artigo publicado na pg 2 do caderno)
PAUL SINGER

Uma das diferenças mais evidentes, no ele mesmo. O que é reconfortador,


Brasil, entre brancos e pretos é a condição convenhamos.
econômica: a dos primeiros é nitidamente É interessante notar que entre os que se
superior à dos últimos. A pesquisa do consideram brancos, a relação entre maioria
Datafolha ofereceu à escolha dos e minoria é igual -58% x 26%- à da
entrevistados duas explicações para este totalidade. Entre os que se consideram
fato: 1. "o preconceito e a discriminação dos pardos, o desnível entre maioria e minoria -
brancos contra os negros ou 2. "os negros 61% x 24%- é um pouco maior. O
não aproveitam as oportunidades que têm espantoso é que entre os que se identificam
para melhorar de vida. 58% votaram a favor como pretos, o desnível é bem menor - 53%
da primeira razão e apenas 26% a favor da x 31%. Entre os próprios inferiorizados, a
segunda; 8% acharam que as duas razões proporção que acusa o preconceito é menor
são verdadeiras. Há portanto uma maioria e a proporção que culpa a si mesmos maior
folgada, de mais de duas vezes, que atribui a do que nos outros dois grupos étnicos
pobreza da população negra à discriminação distinguidos na pesquisa.
em relação aos que acham que o principal Dentro de cada um dos três grupos étnicos,
culpado pela situação de penúria do negro é há outras características pessoais que
marcam posicionamentos distintos. A mais 41% deles aceita a idéia que muitos de seus
importante neste sentido é a escolaridade. A irmãos de raça são mais pobres porque não
relação entre os que concordam com a 1ª aproveitam as oportunidades que têm. É
razão e com a 2ª, é de 52% x 30% entre os possível que parte dos negros mais
brancos com até o 1º grau, de 68% x 20% intelectualizados desejem assumir uma
entre os brancos com 2º grau e de 59% x postura de isenção para não parecer guiados
17% entre os brancos com grau superior. pelo auto-interesse. Ou então nutrem
Fica claro que quanto maior a escolaridade, opiniões muito mais críticas em relação à
tanto maior é a consciência de que a sua própria etnia do que brancos e
população negra é vítima de discriminação. sobretudo pardos com a mesma
Esta influência da escolaridade é ainda escolaridade.
maior entre os pardos: para os que têm até o Convém notar que não é apenas a população
1º grau, a relação entre os que escolheram a negra mas também a população parda que
1ª razão e a 2ª razão é de 54% x 28%; para sofre de condições de vida piores que a
os que têm 2º grau, a relação é de 72% x população branca. Mas, como a pergunta
18% e para os que têm grau superior a feita só faz referência aos negros, isso pode
relação é de 74% x 15%. Já entre os negros ter deixado os pardos mais à vontade para
a influência da escolaridade é menor: entre atribuir unicamente ao preconceito a causa
os que têm 1º grau, a relação é 50% x 34%, da diferença.
entre os que têm 2º grau ela é de 61% x A atitude dos negros talvez possa ser
23% e entre os que têm grau superior ela é melhor interpretada, se a compararmos com
de 55% x 19%. as respostas oferecidas a uma outra
Em cada um dos grupos étnicos, os que têm pergunta, a respeito de uma pessoa negra
apenas o 1º grau ou menos apresentam jovem, que se disponha a trabalhar duro
proporção relativamente alta que acha que a para melhorar de vida. Os respondentes
culpa é dos próprios negros. Esta proporção escolheram uma de duas alternativas: 1ª a
cai nos que completaram o 2º grau, tanto pessoa negra conseguirá seu intento; ou 2ª
entre os brancos como entre pardos e ela não tem chance de êxito, por mais que se
negros. Mas a influência neste mesmo esforce. É interessante observar que os
sentido do grau superior só é inequívoca brancos e pardos que admitem ter
entre os pardos. Tanto entre os brancos preconceitos contra negros optaram mais
como entre os pretos com grau superior pela 2ª alternativa do que os brancos e
cresce a proporção que aceita as duas pardos que não têm preconceitos. O que
razões, isto é, acham que os negros são sugere que a 1ª alternativa, longe de negar o
vítimas e culpados ao mesmo tempo. São peso do preconceito contra o negro em
12% dos brancos e 22% dos pretos. nossa sociedade, demonstra confiança em
As atitudes assumidas pelos que se sua capacidade de superá-lo. A relação entre
identificam como pretos são algo os que optaram pela 1ª alternativa e pela 2ª
enigmáticas, sobretudo dos que alternativa no conjunto da mostra foi de
completaram curso superior. Praticamente 78% x 17%. Entre os negros foi de 75% x
19%, mas entre os negros com grau superior negros no Brasil não denotam tanto
foi de 82% x 6%! autopreconceito como a ansiedade de não
Parece claro que, com exceção de uma parecerem parciais em causa própria.
pequena minoria, os pretos com grau Deveria valer a pena utilizar outros
superior confiam em seus irmãos. O que instrumentos de pesquisa, como discussões
reforça a hipótese de que suas respostas a em grupo, para atingir melhor entendimento
respeito da causa da maior pobreza dos da questão.

Datafolha revela o brasileiro


FERNANDO RODRIGUES Datafolha também descobriu que o
DA REPORTAGEM LOCAL brasileiro não gosta de ser chamado de
``pardo". Prefere ser moreno, uma
No início dos anos 60, o sociólogo Florestan designação que o IBGE não reconhece.
Fernandes, cunhou uma frase: ``O brasileiro Os pobres, e não os ricos, são os que mais
não evita, mas tem vergonha de ter manifestam preconceito contra negros. Mais
preconceito". da metade dos negros aceita o enunciado
O Datafolha furou essa vergonha. Fez a ``negro bom é de alma branca". E os negros
maior pesquisa da história do Brasil sobre dizem estar satisfeitos consigo mesmos:
preconceito de cor. No levantamento, 87% 77% dos entrevistados não querem mudar
dos pesquisados não-negros manifestam sua aparência.
algum preconceito ao responder o O Datafolha relatou sua pesquisa em 167
questionário. Mas só 10% enxergam páginas. Hoje, a Folha a apresenta neste
preconceito naquilo que fazem. caderno especial.(FR)
FERNANDO RODRIGUES
DA REPORTAGEM LOCAL

Pergunte a um brasileiro de 16 anos ou mais Esse ``racismo cordial" é mais intenso do


se ele tem preconceito de cor em relação a que os 10% de preconceituosos assumidos.
negros. O Datafolha fez isso no país inteiro. O Datafolha mapeou também esse
Em cada cem pessoas, dez disseram ter fenômeno.
algum preconceito. Com 12 perguntas indiretas, foram
Em números absolutos, esses 10% identificados os brasileiros que não se
representam mais de 9 milhões de dizem preconceituosos, mas que escorregam
brasileiros (não-negros de 16 anos ou mais). no seu comportamento diário.
O número é inédito. O Datafolha mostra, ``Negro bom é negro de alma branca" e
cientificamente e pela primeira vez na ``negro quando não faz besteira na entrada,
história do Brasil, quem são os intolerantes faz na saída" são frases comumente usadas
raciais. por muitos que se dizem não-racistas.
Mas esse percentual não desvenda quantos Mais precisamente, 87% dos brasileiros
são os brasileiros que nutrem secretamente - não-negros não vêem problema em pelo
por ``cordialidade" ou vergonha- menos uma das 12 frases ou atitudes
preconceito em relação a negros. listadas.
Esses 87% são aproximadamente 80,8 ou mais. Todos, em maior ou menor grau,
milhões dos brasileiros não-negros têm preconceito contra negros.
(brancos, mulatos, pardos etc.), com 16 anos

Pesquisa reforça preconceito, diz geógrafo


MAURICIO STYCER
DA REPORTAGEM LOCAL

Milton Santos, professor-titular de geografia Abaixo, trechos de entrevista à Folha feita


humana da USP, acha que a pesquisa do no último dia 16:
Datafolha reforça a intolerância contra os (Maruricio Stycer)
negros por não definir claramente alguns
conceitos fundamentais, como preconceito e Folha - O sr. poderia comentar números que
discriminação. mostram o racismo de negros contra negros?
Ex-professor da Sorbonne (Paris), Columbia Milton Santos - Eu não estou seguro que a
(Nova York) e Dar-es-Salaam (Tanzânia), Folha esteja tratando corretamente a questão.
Santos, 69, é hoje uma das mais respeitadas O nível de imprecisão com que a palavra
figuras de sua área no mundo. No ano ``preconceito" foi utilizada inutiliza muitos
passado, recebeu na França o prêmio Vautrin dos resultados.
Lu, o Nobel da geografia. Folha - Por exemplo?
Santos é negro, casado com uma francesa, e Santos - Toda pesquisa. O que é admitir
pai de dois filhos. preconceito? Falta essa definição.
Folha - Qual o problema com a palavra Santos - Mas vocês não trabalharam isso. O
``preconceito"? trabalho pára aí, nessa constatação. Essa
Santos - Essa palavra não quer dizer nada e pesquisa é um esforço importante, mas
quer dizer tudo. Portanto, não se presta a ser largamente insuficiente. É uma pesquisa
usada numa pergunta. fundada nos preconceitos. Para saber que o
Folha - O sr. conhece algum termo melhor? brasileiro é racista não precisava fazer essa
Santos - Não. Esse teria que ser definido pesquisa.
melhor. A maior parte das questões Folha - Mas nunca havia sido quantificado
colocadas servem a uma estratégia de esse racismo.
marketing, não a um trabalho social. Essa é a Santos - Não era necessário.
minha crítica central. Admito que o jornal se Folha - O sr. conhece algum estudo que
interesse por marketing. mostre isso?
Folha - Constatar o racismo é marketing? Santos - Pesquisa não é estudo. Há dezenas
Santos - Não. Marketing é fazer perguntas de teses que mostram isso. Quantificar é até
apenas sobre o discurso e não sobre o pior. Porque, como não é estudo, ela
comportamento. Estou exagerando, porque prestigia o resultado que não tem
há perguntas sobre comportamento. Já estou obrigatoriamente validade. Faltou esse
pensando na próxima, que eu sei que a Folha cuidado na pesquisa.
vai fazer. Folha - Qual a importância das
Folha - Quando o Datafolha pergunta se o comemorações dos 300 anos de Zumbi?
entrevistado concorda com a frase ``Negro Santos - O centenário da Abolição, em 1988,
bom é negro de alma branca"... deu lugar a comemorações, a festas, a
Santos - Eu não vejo mais interesse nesse imprensa se ocupou do assunto e depois
tipo de frase. Isso vai ajudar a resolver a nada. Eu tenho medo que esses 300 anos de
questão? Temos que ultrapassar essa fase. Zumbi dêem na mesma coisa. Não dá mais
Folha - E ir em qual direção? para ficar só na constatação do racismo.
Santos - Acho que o resultado dessa Folha - O que o sr. acha que é preciso fazer
pesquisa é criar outros preconceitos. Pior do para sair daí?
que os anteriores, porque aparentemente se Santos - Haveria que se encontrar um projeto
tornam científicos. Eu, portanto, primeiro no qual a cidadania limitada do negro fosse
contesto a idéia de pesquisa para testar esse objeto de medidas objetivas. Por exemplo:
tipo de questão. Como é que eu faço para que a USP tenha
Folha - O sr. não acha que essa pesquisa mais alunos negros?
ajuda a tornar público algo que é Folha - O sr. defende o chamado sistema de
subterrâneo? cotas?
Santos - Mas quase todas as perguntas Santos - Essa pergunta gera um bloqueio do
repetem os preconceitos. Os que idealizaram debate. Porque você só tem duas formas de
a pesquisa não tiveram imaginação para responder: sim ou não.
inventar outras coisas a partir da realidade. Folha - Qual seria a pergunta correta?
Não houve esforço inovador. É uma Santos - O que eu devo fazer para que o
pesquisa cara, dá para notar, só que vai negro entre e permaneça na universidade? A
reforçar preconceitos. resposta seria: com políticas compensatórias.
Folha - No momento em que se constata, O mundo inteiro tem políticas
através da pesquisa, que a maioria dos compensatórias de conquista social. Não me
brancos brasileiros manifesta algum refiro aos negros.
preconceito em relação aos negros... Folha - O sr. não está falando de reparações?
Santos - A reparação é necessária. Na Ela pode ser uma contribuição para dar
medida em que uma comunidade é respaldo científico a formas de expressão da
secularmente posta à margem, a nação tem exclusão, se não for acompanhada de uma
que se ocupar dela. Os negros não são outra coisa.
integrados no Brasil. Isso é um risco para a Folha - O quê?
unidade nacional. Santos - Como é que se manifesta essa
Folha - O sr. poderia dar exemplos de vontade de excluir.
medidas reparadoras concretas? Folha - Mas isso aparece na pesquisa. A
Santos - As grandes universidades brasileiras questão do casamento intraracial, dos
são a cada ano mais elitistas, não do ponto vizinhos...
de vista intelectual, mas do ponto de vista Santos - Sim. Não estou dizendo que nada
sócioeconômico. É inaceitável haver uma está certo. Estou pedindo mais. Acho que é o
educação para um tipo de pessoas e outra momento de pedir mais.
para outro tipo de pessoas. Com a saúde Folha - Não sou especialista, mas há
também. Para ficar doente e ser bem tratado limitações nesse tipo de pesquisa
no Brasil você precisa ser ministro! As quantitativa.
políticas compensatórias servem para manter Santos - Também não sou. No caso do
a coesão. Brasil, a discussão deveria passar também
Folha - O sr. já viveu na França, nos EUA, pela ideologia da democracia racial,
no Canadá, na Tanzânia. Qual é a elaborada há três séculos na Bahia e que o
especificidade do racismo brasileiro? país todo aceitou. Está na hora de agir. É
Santos - Aqui é natural os negros serem nesse sentido que eu acho a palavra
tratados de forma subalterna. Você não tem preconceito insuficiente. A pesquisa faz a
como reclamar. Se você protesta, é visto contabilidade de algo que não foi definido.
como alguém que está perturbando o ``clima Folha - Essa ideologia de três séculos é
agradável" que possa existir nesse ou responsável pelo racismo de negros contra
naquele lugar. negros?
Folha - Aqui no seu prédio convivem, porta Santos - Vivendo dentro de uma sociedade
a porta, um elevador com placa ``social" e bárbara, eu sou objeto dessa sociedade. Mas
outro ``de serviço". O sr. nunca protestou não usaria a palavra racismo. Não é isso.
contra isso? Folha - É o quê?
Santos - Sim. Já pedi para tirarem. Nos foi Santos - Sei que não é fácil. Com frequência
dito, então, que colocássemos os há mais preconceito do que discriminação.
empregados para comerem conosco na mesa. Folha - No seu contato com a comunidade
Uma típica confusão entre o público e o negra, o que o sr. tem visto?
privado, que só o brasileiro faz. A nossa Santos - Há um cansaço, uma consciência de
sociedade é bastante tranquila em relação à não pertencer completamente à sociedade
miséria. brasileira... Prefiro fazer compras em Nova
Folha - Como assim? York do que em São Paulo.
Santos - Só no Brasil e nos EUA a exclusão Folha - O sr. é maltratado?
aparece como algo natural. Só que nos EUA Santos - Olhado com desconfiança. Parece
você tem iniciativas fortes para contrariar que isso faz parte do ethos (caráter peculiar a
essa tendência à exclusão. O grave é que determinado povo). A grande aspiração do
nesses dois países as diversas formas de negro brasileiro é ser tratado como um
exclusão encontram apoio da ciência. homem comum.
Essa é a minha crítica à pesquisa da Folha. Folha - Quando mais o sr. não é tratado
como homem comum? pedir que as pessoas sejam amáveis com os
Santos - Em aviões. Os comissários só falam negros em shopping-centers? Não tenho
comigo em inglês, o que é insuportável. Há como pedir. Por enquanto não tem solução.
duas semanas, num avião da Varig em Paris, Folha - O sr. acha que deveria haver alguma
reclamei em português sobre o meu lugar. iniciativa do tipo Ministério do Negro?
Ele respondeu em inglês. Eu disse: ``Não Santos - Não. Isso seria criar um gueto. Mas
fale em inglês". Ele respondeu: ``O sr. me creio que a questão do negro não pode mais
desculpe, mais ainda não sei falar francês." ficar no Ministério da Cultura. Não é uma
Isso é preconceito? Isso é discriminação? questão de cultura. Tem que ser do
Folha - O que é? Ministério da Justiça. A solução é via a
Santos - Ele não sabia que estava me política.
chateando. Mas me chateei. Como eu posso

`Preto é gente', diz absolvida por racismo

Folha Imagem

FERNANDO RODRIGUES
DA REPORTAGEM LOCAL

Quando a professora e diretora de escola diz não ser racista.


estadual aposentada Maria Thereza Ferraz Maria Thereza faz propaganda dos negros.
Ramos Féris, 59, diz que ``tem preto que é Teve várias testemunhas negras depondo a
gente", não tem intenção de ser racista. E ela seu favor num processo que respondeu por
acusação de racismo, em 90. no qual afirmaram que eu impedi a matrícula
Em Paulínia (120 km a noroeste de São de alunos negros na escola. Outro porque
Paulo), ela dirigia uma escola estadual. A uma professora se disse ofendida. Fui
professora Ana Augusta da Silva acusou absolvida dos dois, por unanimidade, em 93
Maria Thereza de proibi-la de entrar na e 94, no Tribunal de Justiça de São Paulo.
escola. E, mais, de ter dito: ``Lugar de negro Nunca fui procurada pela imprensa depois de
é na senzala". as sentenças terem sido reformadas.
Passados cinco anos, Maria Thereza hoje Folha - Até quando a sra. continuou
festeja sua absolvição em segunda instância. dirigindo a escola estadual em Paulínia?
Tanto no caso da professora que a acusou Maria Thereza - Até o dia que teve uma
como em um outro, no qual alegavam que passeata e os meus nervos despencaram, em
ela teria impedido a matrícula de estudantes janeiro de 91. Levaram escola de samba de
negros. Campinas, televisão... Eu estava para sair de
Magoada, Maria Thereza chora com casa, quando a Polícia Militar avisou que era
facilidade quando é obrigada a lembrar-se do perigoso.
caso. ``Se eu tivesse um pouco de culpa, eu Eu não merecia isso... (chorando) Se eu
nem estaria aqui. Nem estava lhe dando tivesse um pouco de culpa, eu nem estaria
bola", disse ela durante uma longa entrevista aqui. Nem estava lhe dando bola. Mas é uma
à Folha, a primeira desde que foi absolvida. mágoa tão grande que eu tenho de ter me
Durante duas horas e meia, Maria Thereza enlameado...
repetiu incontáveis vezes não ser racista, Folha - A sra. acha que muitas pessoas no
muito pelo contrário. Ainda assim, soltou Brasil hoje não gostam de negros?
frases do tipo ``gosto não se discute" (sobre Maria Thereza - Eu acho que,
gostar ou não de negros) e ``fui defendida assumidamente, não há ninguém. Pode ter
por eles. Por incrível que pareça". até no íntimo. Mas, assumidamente, não.
Maria Thereza é um exemplo vivo dos Folha - O que acontece se uma pessoa, sem
brasileiros que desejam ser cordiais em tomar uma atitude prática, disser que não
relação aos negros. Mas acabam gosta de negros?
escorregando em algum momento, como os Maria Thereza - É um direito que ela tem de
87% identificados na pesquisa do Datafolha gostar ou não gostar. Gosto não se discute.
publicada hoje. Folha - O que poderia ser feito para que a
A seguir, os principais trechos de sua atitude das pessoas mudasse?
entrevista: Maria Thereza - Precisava uma campanha
(FR) com a criança negra: para ela não ser a
primeira a reconhecer. É horrível quando o
Folha - Quando a sra. foi condenada? negro diz: ``Ela me `xingou' de negro". Pelo
Maria Thereza - Em outubro de 1991. amor de Deus!
Folha - Quando foi a absolvição em segunda Folha - Como assim?
instância? Maria Thereza - Você está admitindo que
Maria Thereza - Houve dois processos. Um negro é inferior. O negro não pode dizer
isso. teriam sucesso em qualquer profissão"?
Folha - Depois do seu processo, a sra. Maria Thereza - Claro, como qualquer ser
desenvolveu algum tipo de preconceito humano. Eu acho que no momento que eu
contra negros? posso casar, cruzar com um negro e ter
Maria Thereza - Não. Eu não poderia ter filhos, isso significa que ele é igual. Porque
porque eu fui defendida por eles. Por incrível eu não posso casar com um macaco, com um
que pareça. Se ofereceram. Pessoa que não cachorro -eu não terei filhos. Posso até ter
presta não tem cor. É cor de burro quando relações sexuais, mas não ter filhos.
foge. Folha - É o caso, hoje em dia, de as pessoas
Folha - Como a sra. recebeu a sua sentença? tomarem cuidado com as coisas que dizem,
Maria Thereza - Eu levantei de madrugada, quando estão discutindo um branco e um
liguei a televisão e fiquei sabendo que tinha negro?
sido condenada a quatro anos de cadeia. Maria Thereza - Principalmente o branco.
Comecei a passar mal. Na minha cabeça, de Mas precisava acabar com isso, porque gera
manhã cedo o camburão ia me levar para a animosidade, a raiva. Você já viu algum
penitenciária. Dei uma entrevista de manhã e português te processar? Algum judeu te
fui direto para o hospital. Fiquei internada. processar, porque você contou uma piada? E
Peguei infecção hospitalar e até hoje tenho o que tem de repertório de piadas de
problema nos rins. Depois, fiquei (em casa) português burro... É isso o que eu quero: que
com enfermeira, por sinal, preta. a criança preta tenha o espírito do português.
Folha - Essa enfermeira sabia sobre tudo o Ele não se sente, no fundo, inferior; dá
que se passava? risada.
Maria Thereza - Olha, eu vou dizer para o
sr.: tem preto que é gente.
Folha - O que a sra. acha da frase ``se
pudessem comer bem e estudar, os negros
55% dos negros querem reserva de vagas

DA REPORTAGEM LOCAL

A idéia de uma legislação que assegure estão há dois anos discutindo o assunto.
vagas para os negros nas escolas e no ``Temos que lutar primeiro para que haja um
trabalho é apoiada pelos entrevistados. Entre reconhecimento de que discriminação
os negros, 55% deles disseram concordar existe", diz Ivair Augusto Alves dos Santos,
totalmente ou em parte com a militante negro.
obrigatoriedade de quotas. Já para Vicentinho, presidente da CUT, ``as
Outros 44% discordaram da idéia. À medida quotas não seriam necessárias se houvesse
que aumenta o nível de escolaridade, cresce oportunidades para todos". ``Mas diante de
o número de negros que discorda do sistema tantas diferenças, seria interessante que a
de vagas. sociedade garantisse mecanismos de
Para Carlos Eduardo Uchoa Fagundes, um igualdade."
dos diretores da Fiesp -Federação da Fulvia Rosemberg, pesquisadora da
Indústria do Estado de São Paulo-, mais Fundação Carlos Chagas e professora de
importante do que quotas seria dar psicologia social da PUC de São Paulo e a
oportunidades a todos. socióloga Regina Pahim Pinto, pesquisadora
No seu conceito, não há discriminação racial da mesma fundação, afirmam que as
no país, mas uma diferença cultural e de crianças pretas e pardas começam a perder a
aptidão: corrida para as brancas já na pré-escola.
``os japoneses são mais hábeis em coisas Em São Paulo, 50% das crianças em creches
pequenas e delicadas, os negros têm mais são negras, duas vezes mais que a proporção
facilidade no serviço pesado." de pretos e pardos da cidade. Para
A comunidade negra e o movimento sindical Rosemberg, ``a política social brasileira é de
pobre para pobre. Escola para pobre é pobre, pobre."
ônibus para pobre é pobre, equipamento é

`Minha irmã vê racismo até em janela'


MAURICIO STYCER
DA REPORTAGEM LOCAL

O preconceito racial está presente na vida do ``O que supera as barreiras é a capacidade do
piloto negro Alexandre Dias desde a sua homem, não a sua cor", replica Alexandre.
infância, mas há uma diferença fundamental Formado piloto profissional em 1973,
entre ele e sua irmã, a pedagoga Tereza Dias Alexandre, 42, foi trabalhar em uma empresa
Lindolfo: ``Ela vê racismo até em janela", de táxi aéreo em Cuiabá. Único piloto negro
diz. da empresa, era também o único não
Essa diferença é facilmente notada no dia-a- autorizado a voar no melhor avião da
dia das duas famílias. companhia.
``Faço militância dentro de casa. Cultivo a Voltou para São Paulo, depois trabalhou na
auto-estima das minhas filhas. Conto a Taba (Amazônia) e na Rio Sul, antes de ser
história da Branca de Neve dizendo que era aprovado em um teste para a Varig. Dentro
uma pretinha linda, uma estrelinha da noite", da maior empresa de aviação brasileira,
diz Tereza. passou por vários estágios, até chegar a
comandante de Boeing 767. Tereza precisou de dez anos e um curso de
Em 1985, ainda era co-piloto, quando uma teatro para recuperar a coragem de falar em
passageira de classe executiva cismou de público. ``Na faculdade rompi o medo.
viajar na primeira classe. Depois de discutir Percebi que o racismo está presente em
com as comissárias, a passageira invadiu a todos os momentos da nossa vida", diz.
cabine de comando para reclamar. Deu de Casada com um militante negro, o sociólogo
cara com Alexandre e exclamou: ``O quê? João Lindolfo Filho, 37, Tereza sonha com o
Um crioulo sentado aí?" Era a cantora Eliana dia em que sua duas filhas, Cintia e Taís,
Pitman, negra. terão professores negros. Em casa, as duas
``Ri. A melhor forma de enfrentar o racismo brincam com bonecas negras e recortam
é ser superior a ele", ensina. fotos de negros, em revistas estrangeiras,
Casado com Silvana, que é branca, para os trabalhos escolares.
Alexandre tem um filho, Otavio, que sonha ``Não basta dedicação ao trabalho. É preciso
ser astronauta. ``As mulheres brancas que uma enorme capacidade de resistência", diz
me interessavam só tinham interesse por João, defensor do sistema de reserva de
brancos", diz. vagas para negros no trabalho e nas
Sua irmã Tereza, hoje com 37 anos, viveu universidades. ``Seria um tratamento
um trauma pesado quando tinha 14. diferenciado para quem sempre foi
Única aluna negra em sua classe, foi também diferenciado", diz.
a única a tirar dez na primeira prova de João defende a tese que as diferenças entre
francês. ``Quando a professora chamou meu brancos e negros têm que ser aprofundadas -
nome para entregar a prova, ela ficou e não acobertadas. ``Para depois, eles
chocada ao ver que a melhor nota era da caminharem juntos, reconhecendo a
negra. A partir daí, começou a me diferença e respeitando um ao outro".
perseguir."
Até réu tem preconceito contra juiz negro
MAURICIO STYCER
DA REPORTAGEM LOCAL

Até ir a julgamento, no plenário B do 1º de praxe. Perguntou a ocupação de Oliveira:


Tribunal do Júri, em São Paulo, Roberto ``Sou juiz", respondeu, para ouvir uma
(nome fictício) só havia cometido um crime: réplica imediata do policial: ``Juiz de
homicídio (pena de 12 a 30 anos). futebol?"
Ao explicar as razões do crime, cometeu um Nascido em Prado, na Bahia, filho de um
segundo: ``Não gosto nem de japonês nem lavrador e de uma dona-de-casa, Oliveira foi
de pessoas de cor", disse o réu. o único entre os quatro irmãos da família a
Com um olho nos jurados e outro no juiz, o conseguir um diploma superior.
promotor Paulo Ferreira Lima explorou Antes, na Bahia, foi engraxate, jornaleiro,
teatralmente essa demonstração de office-boy. Em São Paulo, enquanto
preconceito do réu. Deu certo: ao fim do estudava direito à noite em uma faculdade
julgamento, Roberto foi condenado a 14 particular, trabalhou como bancário e depois
anos e 6 meses de prisão. foi escrevente de Justiça.
``Nem lembrei disso na hora de dar a Formado em 1985, fez vários concursos,
sentença. Estou acostumado", garante Nilton entre os quais para juiz. Em 91, depois de
Santos Oliveira, 37, único negro entre os 11 exercer a advocacia por alguns anos, foi
juízes do 1º Tribunal do Júri. nomeado juiz em Caraguatatuba.
Estar ``acostumado" significa ouvir Como outros negros de classe média que
diariamente pessoas entrarem em sua sala, conseguiram superar barreiras sociais e
olharem para ele e perguntarem: ``Onde é a econômicas, Oliveira acha que o esforço
sala do juiz?" Ou: ``Você viu o juiz?" Ou: pessoal é uma das principais chaves do seu
``O juiz já chegou?" sucesso.
Oliveira tem por hábito responder: ``Eu sou ``O preconceito incomoda, mas não me
o juiz." Essa frase costuma ser dita com impede de agir com naturalidade. O excesso
tamanha naturalidade que, invariavelmente, de preocupação com o preconceito pode
provoca uma mesma reação: ``As pessoas atrapalhar. Se eu não pensasse assim, não
ficam com a cara no chão. O que me deixa teria feito nada."
feliz", diz ele. Divorciado de uma mulher branca, está se
Quando era juiz em Caraguatatuba, no litoral preparando para casar com uma mulher
de São Paulo, Oliveira com frequência era morena. ``A única diferença é que as pessoas
parado na estrada por policiais rodoviários brancas que namorei tiveram mais
impressionados com o fato de um negro oportunidades na vida."
dirigir um Monza do ano. Oliveira é contra um sistema de reserva de
Em uma ocasião, o desconfiado policial não vagas no mercado de trabalho para os
ficou satisfeito em verificar os documentos negros. ``É melhor o preconceito ser velado
do que explícito, como é nos EUA", diz o juiz.

HÉLCIO ZOLINI Cândido Júnior é também procurador da


DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO República do Estado. Na sua opinião, o
HORIZONTEPresença óbvia na posse de preconceito contra o negro deve ser
Sepúlveda Pertence na presidência do STF enfrentado e denunciado, mas ele próprio
(Supremo Tribunal Federal), o presidente da nunca se abateu com os casos de que foi
Ordem dos Advogados do Brasil de Minas vítima. ``Aprendi com meu pai (que era
Gerais (OAB-MG), Raimundo Cândido professor de direito e chegou a presidir a
Júnior, mais uma vez teve o dissabor de ser OAB-MG) a tirar de letra os preconceitos",
confundido com um profissional muito diz.
menos qualificado do que é. Alguns advogados mineiros tiveram a
``Alguns hóspedes do hotel onde me instalei, oportunidade de expressar o que pensam de
em Brasília, me confundiram com o porteiro. um presidente de entidade negro na última
Isso ocorre também em shoppings. Outro eleição de Cândido Júnior (ele está em seu
dia, saí da OAB dirigindo meu carro e uma segundo mandato). ``Em algumas poucas
pessoa me perguntou se onde eu trabalhava cédulas escreveram `crioulo safado'. Dizer
precisavam de outros motoristas", conta. que no Brasil não existe preconceito é querer
Único negro a presidir uma OAB regional, esconder a realidade", afirma.
Marlene foi escrava dois anos em Recife
DO ENVIADO ESPECIAL A RECIFE ``Ela começou a bater em mim quatro meses
depois que eu trabalhava para ela. Me
Marlene Maria Lino da Silva, 20, trabalhou chamava de nega sem-vergonha e falava que
por dois anos para uma patroa que não pagou todo negro nasceu para ser escravo."
uma única vez seu salário. Mirrada, aparentando cinco anos a menos
Espancou-a, queimou sua pele com óleo que sua idade real, ela é filha de um
fervendo e não permitiu, por todo esse verdureiro, hoje fixado na Paraíba. Nasceu
tempo, que ela saísse à rua ou telefonasse no interior de Pernambuco, estudou até a
para alertar a família ou a polícia sobre sua quarta série e tem seis irmãos.
detenção em cárcere privado. Afirma com simplicidade que se realizaria
É sua versão dos fatos. Seu jeito profissionalmente se trabalhasse numa
acabrunhado e simples leva a crer que ela lanchonete no Rio.
fala a verdade. Lindáuria, diz ela, dava-lhe de comer feijão
A Folha tentou entre 16h de domingo, dia e uma salsicha por dia. Nenhuma verdura e
11, e 18h de sexta-feira, dia 16, localizar a frutos só quando já estavam estragados.
ex-patroa de Marlene, Lindáuria de Santana A rotina dos dois anos de cativeiro foi, em
Araújo, 59. Seu telefone não atendeu, e um sua versão, monótona: permanecia num
de seus vizinhos informou que ela o instruiu quarto de despejo, no fundo do quintal, e só
para não ser localizada. era autorizada a entrar na casa para os
Marlene conseguiu escapar no dia 16 do mês serviços de limpeza, sempre em companhia
passado. O inquérito policial corre no da patroa.
distrito de Espinheiro, um bairro de classe Esta dizia que, se Marlene fugisse, seria
média em Recife. confundida com crianças contraventoras e
O delegado João Veiga afirma que Marlene, apanharia da polícia.
uma negra, foi vítima de escravidão. Apanhar por apanhar, Marlene ficou com o
Em seu primeiro depoimento à polícia, algoz mais familiar. Não assistia à televisão
Lindáuria negou ter tolhido os movimentos e só viu a primeira cédula de real há um mês,
da empregada.
nas mãos de sua irmã, em Igarassu, subúrbio
de Recife.
Seu rosto, seus braços e seu pescoço estão
cobertos de cicatrizes irregulares, como se
fossem marcas tribais de algum ritual de
iniciação que não obedece a nenhum
princípio de geometria.
Cada cicatriz traz sua pequena história. Uma
delas foi a borda da frigideira. Uma outra foi
gordura de uma panela.
Nas costas, uma vértebra foi deslocada pela
surra que diz ter levado -obrigada a ficar de
quatro no chão- com um martelo de cozinha
para amaciar bife.
``Senti saudades de andar de bicicleta",
conclui Marlene, com um sorriso mais para o
de uma criança que sofreu.

Brasil quer ser chamado de moreno e só 39% se autodefinem como


brancos
CRISTINA GRILLO
DA SUCURSAL DO RIO

Os tons da cor da pele variam, mas há um consenso: os brasileiros não gostam de ser chamados
de pardos e preferem a denominação de morenos.
A pesquisa do Datafolha mostra que 43% dos entrevistados se auto-atribuem a cor morena e
suas variações -moreno claro e moreno escuro- contra 6% que se autodefinem como pardos e 1%
como mulatos.
O total de morenos, morenos claros e morenos escuros é até mesmo maior do que o de brancos.
Na resposta espontânea -onde cada um pode se dizer da cor que achar mais adequada- apenas
39% se consideram brancos.
Quando se compara a resposta espontânea com a cor observada pelos pesquisadores, a rejeição
ao termo pardo fica mais visível.
Setenta e um por cento dos que se classificaram como morenos são vistos como pardos pelos
pesquisadores.
Há também o outro lado da moeda. Dos que se consideram morenos, 24% foram vistos como
brancos pelos pesquisadores.
``Moreno é a cor do Brasil. Ninguém gosta de ser chamado de neguinho ou de branquinho",
sintetiza Ézio San, vocalista do grupo de pagode Os Morenos.

Brasileiros confirmam que a mulata é a tal


FERNANDA SCALZO
DA REPORTAGEM LOCAL

Todo brasileiro sabe que a mulata é a tal. Ela sexualmente atraente e esse foi um ponto
é considerada a ``melhor de cama" pela forte da nossa proximidade", diz.
maioria dos entrevistados: 32% do total, Mas Conceição nunca se deixou pegar pelo
contra um empate técnico entre brancas estereótipo da mulata: para começar, não
(12%) e negras (13%). sabe dançar samba. ``Por incrível que
Casada com Anselmo, branco de origem pareça, não danço samba. Acho super
portuguesa, Conceição Aparecida Simão, 39, bonito, super legal, mas não sai. Minha mãe
sabe que é atraente. ``Acho que sou sempre dançou, meu irmão dança super bem,
s eu fiquei de fora dessa", diz. diz Conceição, que trabalha como analista de
Sua beleza cultuada, Conceição só foi sistemas.
descobrir há alguns anos, depois de enfrentar A pesquisa Datafolha mostra que as
o divã. mulheres preferem seus iguais no que diz
``Eu não me achava bonita, vivia de rabo-de- respeito à cor da pele. Caetana Dultra Britto
cavalo e não usava nem batom. Meu não fugia a essa regra até conhecer Antonio
terapeuta reforçou muito minha feminilidade Luiz dos Santos, com quem vive há sete
e a partir daí comecei a me arrumar mais", anos.

Conheça a lei sobre racismo


DA REPORTAGEM LOCAL

A seguir, extratos da lei 7.716, de 5 de Art. 8º - Impedir o acesso ou recusar


janeiro de 1989: atendimento em restaurantes, bares,
Art. 1º - Serão punidos, na forma desta Lei, confeitarias ou locais semelhantes abertos ao
os crimes de preconceitos de raça ou de cor. público.
Art. 3º - Impedir ou obstar o acesso de Penas - reclusão de 1 (um a 3 (três) anos.
alguém, devidamente habilitado, a qualquer Art. 9º - Impedir o acesso ou recusar
cargo da Administração Direta ou Indireta, atendimento em estabelecimentos esportivos,
bem como das concessionárias de serviços casas de diversões ou clubes sociais abertos
públicos. ao público.
Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. Pena - reclusão de 1 (um) a 3 (três anos).
Art. 4º - Negar ou obstar emprego em Art. 10 - Impedir o acesso ou recusar
empresa privada. atendimento em salões de cabeleireiros,
Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. barbearias, termas ou casas de massagem ou
Art. 5º - Recusar ou impedir acesso a estabelecimentos com as mesmas
estabelecimento comercial, negando-se a finalidades.
servir, atender ou receber cliente ou Penas - reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.
comprador. Art. 11 - Impedir o acesso às entradas sociais
Pena - reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos. em edifícios públicos ou residenciais e
Art. 6º - Recusar, negar ou impedir a elevadores ou escada de acesso aos mesmos.
inscrição ou ingresso de aluno em Pena - reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.
estabelecimento de ensino público ou Art. 12 - Impedir o acesso ou uso de
privado de qualquer grau. transportes públicos, como aviões, navios,
Pena - reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos. barcas, barcos, ônibus, trens, metrô ou
Parágrafo único - Se o crime for praticado qualquer outro meio de transporte
contra menor de 18 (dezoito) anos, a pena é concedido.
agrava de 1/3 (um terço). Pena - reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.
Art. 7º - Impedir o acesso ou recusar Art. 14 - Impedir ou obstar, por qualquer
hospedagem em hotel, pensão, estalagem ou meio ou forma, o casamento ou convivência
qualquer estabelecimento similar. familiar e social.
Pena - reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos. Pena - reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.
Não que os três delegados, três escrivãs, oito
investigadores, quatro agentes policiais e um
de telecomunicações estejam executando
mal as suas funções.
O problema da Delegacia de Polícia de
Investigações sobre Crimes Raciais (tel. 011-
227-1331) é outro: poucas pessoas aparecem
ali com um caso real de racismo, de acordo
com a lei brasileira.
``Há muita confusão na cabeça das pessoas.
Pensam que tudo é racismo", diz o delegado
Freire.
A lei em vigor que descreve as penas para
crimes de racismo é a 7.716, de janeiro de
1989. Quase todos os seus artigos
(reproduzidos nesta página) começam com
três verbos no infinitivo: ``impedir",
``recusar" ou ``negar".
Racismo, no Brasil, não é apenas xingar
alguém fazendo referência à cor da pele.
Racismo é, entre outras coisas, impedir
alguém de fazer algo por causa da cor da
pele.
Por isso, muita gente que vai a uma
delegacia de polícia acusando alguém de
racismo sai apenas com a perspectiva de
Na delegacia, 'racismo' quase abrir um processo de injúria, calúnia ou
sempre é injúria difamação.
O delegado Freire explica:
FERNANDO RODRIGUES ``Quando uma pessoa chama a outra de
DA REPORTAGEM LOCAL `macaco', isso é injúria. Se a ofensa for
chamar alguém de `ladrão', sem provar, isso
O delegado de polícia Maurício José Lemos é calúnia. E no caso de um profissional
Freire, 39, ficou um ano como titular da classificar o outro de `incompetente', aí é
única delegacia especializada em crimes difamação. Tudo isso aí é muito confundido
raciais do Brasil. ``Quase tudo que aparece é com racismo, principalmente quando há um
injúria", diz. branco e um negro envolvidos."
Instalada no 17º andar de um prédio, vive de
pouca ação ``a primeira delegacia de crimes Como processar
raciais do mundo" -como a descrevem os A pessoa que se sente ofendida racialmente
seus responsáveis. tem de colher provas e apresentar
Neste ano, apenas 53 ocorrências foram testemunhas para conseguir ganhar um
registradas. Menos de uma por dia. Mais processo.
exatamente, até hoje, são 3,3 dias para cada Se um negro for impedido, por causa da sua
Boletim de Ocorrência. cor, de entrar em um restaurante, terá de
provar.
Se na hora da tentativa de entrar no crime de racismo é inafiançável. Uma vez
restaurante apenas o porteiro da casa estiver comprovado, a pessoa vai direto para a
presente, dificilmente o negro terá sucesso cadeia, não cabendo a possibilidade de
ao tentar processá-lo. Será palavra contra pagamento de fiança.
palavra. O réu quase sempre vence. (FR)
A especificidade da lei se justifica porque o

Ex-favelado é empresário e (Internacional de Tecnologia), tem para 1995


uma previsão de faturamento de US$ 100
milionário milhões. É especializada em serviços
transmissão de imagem digitalizada.
JOÃO BATISTA NATALI Instalada por enquanto no centro de Recife,
DO ENVIADO ESPECIAL A RECIFE ela poderá se mudar dentro de pouco mais de
um ano para um prédio com 15 andares
Adson Carvalho, 58, entrou numa
revestidos de mármore e enfeitado, no topo,
concessionária para obter informações sobre
com uma esfera metálica de 15 metros de
um automóvel Mercedes 300 E. Mas o
diâmetro. Vai se chamar Adson Tower.
vendedor lhe perguntou se, em lugar do
Adson Carvalho é provavelmente o mais rico
carro, não era um caminhão que ele em
dos negros brasileiros. Nasceu numa favela
verdade desejava.
em Belém (PA), ficou órfão aos 3 anos e foi
Semanas atrás, à entrada do hotel Sheraton
criado por um tio sapateiro.
Mofarrej, em São Paulo, um hóspede um
Trabalhou como auxiliar de escritório da
tanto amistoso bateu-lhe no ombro e
Panair do Brasil (uma empresa aérea) e,
indagou-lhe se eram bem pagos os
quando nos anos 60 ela quebrou, ele,
motoristas de limusine.
estudante de engenharia em Recife, prestou
Adson jamais choferou quem quer que seja,
concurso e entrou para a IBM.
possui sua própria Mercedes de US$ 140 mil
Criou sua própria empresa em 1975. Ela
e projeta para em breve comprar um jatinho.
possui filiais em São Paulo, Santiago do
Nos dois episódios, foi assimilado a alguém
Chile e Atlanta, nos Estados Unidos.
humilde simplesmente porque é negro.
Os mal-entendidos racistas são frequentes
Sua empresa de informática, a IT
em sua rotina, mas Adson Carvalho diz que
dificilmente se deixa aborrecer por causa Pai de cinco filhos, morador num
deles. apartamento de 500 metros quadrados na
Sua relativa bonomia, nessa questão praia da Boa Viagem, em Recife, ele se
dolorosa para os negros mais pobres, relaciona com o mundo do qual saiu por
fundamenta-se no discurso do self-made- meio de um assistencialismo constante e
man. discreto.
``Sou contra qualquer marca de desgosto e Sustenta um cursinho pré-universitário,
não concordo com os movimentos que instalado numa favela, e está projetando uma
estimulam o conflito. Se eu tivesse tempo escola de informática numa das regiões
para militar, participaria de algum grupo pobres da cidade.
conciliador", diz ele. Define-se como empresário nordestino. ``O
``O que não quero é me envolver com que eu não tenho é complexo de
qualquer movimento de revolta", reafirma, inferioridade por ser negro. Não me acanho
como se já tivesse há tempos a frase na em falar com quem quer que seja."
ponta da língua.

Orgulho da raça negra vai dos pés à cabeça, mas engancha no


cabelo
FERNANDA SCALZO
DA REPORTAGEM LOCAL

A população negra brasileira aparece como bastante orgulhosa de sua imagem na pesquisa
realizada pelo Datafolha: 77% dos entrevistados não querem mudar nada em sua aparência.
Mas entre os que querem mudar algo, o cabelo, eterno alvo de piadas e preconceito, vem em
primeiro lugar. Segundo a pesquisa, 8% dos entrevistados gostariam de mudar o cabelo, índice
que vai a 12% entre as mulheres.
Nos salões especializados em cabelos afro, um ``boom" de cosméticos importados mostra que os
profissionais já perceberam o mercado ávido por produtos nessa área.
Os cosméticos nacionais para cabelos de negros se limitaram a desenvolver as fórmulas caseiras
que usavam soda cáustica para alisar. Estão sendo desbancados pelo ``relaxamento", uma técnica
que, além de não agredir o couro cabeludo, valoriza os cachos e a aparência natural.
``Toda avó tem uma receita para deixar o cabelo `bom"', diz com ironia Clodoaldo Arruda, 22,
rapper e colaborador da revista ``Pode Crê!". ``Tem mãe que nem deixa a filha ir na festa se não
alisar o cabelo", acrescenta.
A idéia de ``cabelo ruim" é quase uma tradição. A maioria das negras sofreu quando menina nas
mãos de mães que alisavam seus cabelos com pente quente. A senadora Benedita da Silva e sua
cabeleireira Day lembram os tempos em que eram obrigadas a alisar os cabelos. ``Era um crime
passar soda cáustica na cabeça de uma criança", diz a cabeleireira.
``Poucos negros no Brasil têm síndrome de Michael Jackson, de querer mudar a cor da pele ou o
nariz. Mas o cabelo pega muito forte ainda", diz Arruda, rapper do Resumo do Jazz.
Hoje, uma nova estética que chega via rappers norte-americanos valoriza as diferenças, as
tranças, e o cabelo ``black power" volta às ruas na onda dos anos 70.
Orgulho é com os negros americanos. Um estudo realizado na Universidade de Arizona,
publicado pela revista ``Newsweek", mostra que 70% das adolescentes negras americanas estão
satisfeitas com sua aparência. Entra as garotas brancas, 90% gostariam de ser mais magras e
estão insatisfeitas.
No Brasil não é muito diferente: somente 8% das mulheres negras gostariam de mudar alguma
coisa no seu corpo.

Benedita já alisou para `ser bonita'


CRISTINA GRILLO
DA SUCURSAL DO RIO

``Já alisei, passei pasta, tudo para entrar no estereótipo da mulher bonita: de pele clara, cabelo
liso, feições finas. Agora já podemos assumir nossa negritude", diz a senadora Benedita da Silva.
Há quinze anos, Benedita, 53, cuida dos cabelos com Idalice M. Bastos, 45, a Day (lê-se Dái),
dona do salão AfroDay, no Rio.
A cabeleireira é tão importante na vida da senadora (PT-RJ) que foi sua convidada de honra na
cerimônia de posse no Senado.
Day conta que seu aprendizado foi longo. ``Cresci ouvindo que o cabelo dos negros era ruim",
diz a cabeleireira, que começou a trabalhar aos 14 anos.
Na época, ela usava ferros quentes, pasta e henê para alisar os cabelos -seus e de suas clientes.
Agora usa cremes naturais a base de pepino, cenoura, mamona e óleo de rícino.
Benedita acredita que a situação do negro consumidor já melhorou. Há alguns anos, era
impossível encontrar maquiagem para a pele negra, por exemplo.
Nilcéia, 33, filha de Benedita, compra os produtos da marca paulista Muene -caros, segundo a
senadora.
A pesquisa virou livro
Quando eu nasci, minha mãe, pedagoga, me deu duas bonecas exatamente iguais, uma negra e uma
branca. E para mim elas eram exatamente iguais. Na verdade, são até hoje. Eu fazia o jardim de
infância num colégio de freiras Montessori, onde as outras crianças tinham três babás e nos davam
brinquedos Waldorf e aulas de etiqueta. Na época eu acompanhava minha mãe, também professora em
escolas rurais da periferia, no Projeto Minerva e Projeto Rondon, onde as crianças não tinham sapatos
e brincávamos com vaquinhas feitas com manga verde que apanhávamos nas árvores das fazendas e
montávamos com gravetos.

Até então eu percebia e vivia ludicamente a diversidade entre crianças impecavelmente tratadas e
coercitivamente disciplinadas do colégio e aquelas remelentas e divertidas das escolas rurais e
extremas periferias, com quem eu aprendi a subir em árvore, fazer brinquedos com sucata e brincar em
rios.

Eu entendia e vivia a diversidade como igualdade. A diferença era riqueza, a possibilidade de várias
realidades a serem experienciadas onde o julgamento de valor das diferenças não era verticalizado pelo
etnocentrismo. Éramos diferentes, mas não éramos desiguais. Cada elemento da diversidade que o
Outro trazia não era visto como preconceito, era mágico! Eu trocava bonecas da Estrela por bonecas de
pano com cabelos de sabugo de milho e sentia que saía ganhando - e na verdade saía mesmo! Qualquer
criança com possibilidade econômica podia ter uma boneca da Estrela, mas só eu tinha a boneca feita
pela Dona Diassis, como era chamada Maria de Assis, merendeira da escola rural que confeccionava
bonecas para as filhas à mão.

Com o tempo percebi que os adultos configuravam a diferença que eu via como diversidade, sob o
estigma da desigualdade, onde aquelas crianças de pele mais escura, de pés descalços e roupas
esfarrapadinhas eram vistas e tratadas de forma diferente das crianças de tez mais clara, de cabelos
impecavelmente penteados, adornados com fitas e roupas que as impediam de brincar comigo na areia
do colégio, onde eu sempre me enfiava pra brincar como brincava com as crianças da escola rural e
onde comecei minha longa jornada de maus exemplos - que nunca abandonei vida afora. Eu não
entendia porque eu podia trazer as crianças negras e pobres para brincar em casa assim como eu trazia
as crianças do colégio e as mães dos meus colegas não deixavam essas crianças ir brincar em suas
casas. Só com o tempo eu entendi.

Entre as crianças da escola rural e da periferia, eu era a branquela, a gorda, a rolha de poço, a
italianinha e tinha o tiziu, o leitão, o japonês, a neguinha. Nossas diversidades eram razão de
brincadeira, de tiração de sarro, de jocosidade, a diferença era diversidade, horizontal, marcadores de
individualidades e não de desigualdades.

Esses mesmos adultos, dentre os quais os pais dos meus colegas do colégio de freiras, cujo
comportamento, em suas minúcias, expressava a desigualdade em relação aos meus amigos de
infância, criaram umas regras e hoje eu não posso chamar meubrother de fumaça, minha amiga de
neguinha, não posso fazer brincadeiras sobre as nossas diferenças como fazíamos quando éramos
crianças, pois segundo os politicamente corretos, esses chatos-hipócritas, qualquer referência jocosa a
cor da pele que não seja a branca é racismo, preconceito, visão pequena, burguesa de exclusão das
minorias, crime inafiançável e, acima de tudo, determina que você é DO MAL.
Mas enquanto eu não posso mais fazer aquelas brincadeiras de crianças com meusbrothers, grande
parte dos que não fazem brincadeira por que hoje é crime e 'pega mal' em círculos sociais, tem atitudes
discriminatórias veladas, associam negro a pobre - esse é o grande preconceito que perpetua o racismo
no Brasil e tratam crianças e adultos de 'outra' etnia com uma condescendência e 'compaixão
desigualitária' de madame que dá esmola ao filho de cego pedinte na rua.
O racismo é um grande problema em muitos países, gera guerras, mata e machuca muita gente. Razão
pela qual muitos alegam que no Brasil, como não ocorrem essas coisas em função da discriminação-
ativa, ele não exista, pois racismo mesmo é como os dos norte-americanos, que quando racistas nem
conversam com ou aceitam ser atendidos por negros ou a etnia a qual discriminam. Mas vejam, quando
este cidadão é racista de fato, ele expressa, expõe e sustenta seu racismo, por mais hediondo e
desumano que seja, ele é explícito.

No Brasil, um pais de 'homens cordiais', de homens e mulheres que pensam mas não expõem opiniões
para não afrontar o status quo, ou os círculos de poder, o pior dessa herança patriarcal rural - de um
quase-feudalismo emocional de senhores e vassalos, que 'abafam o caso', que sempre entram com um
'deixa disso' no meio de um debate acalorado - é que o fato da não exposição de idéias e sentimentos
em relação a algo gera esse preconceito enrustido, esse 'racismo que não ousa dizer o nome', que se faz
de politicamente correto e humanista e diz que "Ora, não sou racista, tenho amigos negros", mas que se
questionado sobre ter um genro ou nora negra e misturar o sangue, já declara "bem, aí muda tudo, aí já
é diferente...".

Sim, ninguém cria uma guerra pelo racismo no Brasil, mas é só ir numa delegacia na periferia de São
Paulo e ver a estatística de jovens trabalhadores e estudantes que são mortos constantemente pela
policia e a despeito das desculpas esfarrapadas de que foram confundidos com criminosos, foram
assassinados por uma única razão: são negros.
Me lembro até hoje, quando eu fazia doutorado na USP, do caso em que o grande geógrafo Milton
Santos foi dar uma palestra na ECA e foi barrado na entrada da universidade por seguranças que
queriam saber "o que ele ia fazer lá", despertando suspeitas porque ERA NEGRO, ao que o grande
virou as costas e foi embora, com toda a razão.

O racismo cordial, ou racismo à brasileira é uma mácula na nação. É aquele racismo que não se mostra
racista, que diz que aceita porque toma café junto mas não mistura o sangue, que diz que sempre tratou
bem aos negros porque deu sapatos usados para a empregada e que passa isso de forma atávica para os
filhos por meio das pequenas estruturas condicionantes de desigualdade que desqualificam a diferença.

A diferença é a melhor coisa que nós temos. A diferença é o traço do aumento de repertório, da inclusão
do novo, da ampliação do olhar para fora, de sair da caixinha, de ampliar horizontes ao perceber,
reconhecer e trazer o Outro para si. Mas a diferença não é desigualdade e enquanto o brasileiro não
entender os significados distantes destas duas palavras, o racismo cordial vai continuar ferindo a nós
todos enquanto nação.

14/11/2012 - 20h00
Negro no Brasil, episódio do programa Caminhos da Reportagem que venceu o prêmio Abdias Nascimento
2012, mostra a desiguladade entre raças e o preconceito – velado, muitas vezes – com o negro brasileiro.
Um dos pontos altos da reportagem é o depoimento do diretor do Instituto Análise, Alberto Carlos Almeida,
que escreveu o livro A Cabeça do Brasileiro. Nele, pesquisadores viajaram por todo o Brasil e mostraram a
pessoas comuns fotos de oito brasileiros de raças diferentes, vestidos de maneira igual. A cada uma, faziam
perguntas do tipo "qual o mais educado?", "qual o mais pobre?", "qual tem mais estudo?". Os números apontam
que o racismo é um fato.
– O resultado demonstra, com toda clareza, que o brasileiro é racista. O brasileiro vê negativamente as pessoas
com cor de pele mais escura e positivamente os brancos.
Pesquisadora da Universidade Cândido Mendes, Silvia Ramos também dá seu relato.
– 98% da população do país acham que existe racismo no Brasil, mas quando se pergunta a essas pessoas se
são racistas, 95% respondem que não. O Brasil é o país do "racismo cordial": todo mundo reconhece que existe
racismo, mas não reconhece o racismo em si mesmo – explicou
O episódio premiado ainda aborda temas como casamento inter-racial e trazem o relato de pessoas negras que
tiveram que superar o preconceito para alcançar seus objetivos.
De acordo com o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcelo Paixão, o casamento inter-
racial faz parte da agenda da luta antirracista:
– A luta pelo direito dos indivíduos se relacionarem livremente é parte de uma agenda histórica da humanidade
pela liberdade e de um direito inalienável de os indivíduos se encontrarem.
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) também esteve representada no prêmio Abdias Nascimento pelo
episódio Quilombos – Luta e Resistência, também do Caminhos da Reportagem, pela Rádio Nacional do Rio
de Janeiro, na categoria Rádio, e pela Radioagência Nacional na categoria Internet. Cada um foi finalista em
sua respectiva categoria.

Links:

https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-
8#q=racismo+cordial+folha+pdf

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/6/25/caderno_especial/index.html

http://www.brasilpost.com.br/valeria-brandini/do-diferente-ao-desigual-o-racismo-cordial-
brasileiro_b_5315882.html