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ETANA

Etana é rei de Kish, e personagem quase histórico, uma vez que seu nome
consta da Lista de Reis Sumérios. Neste mito, ele aparece como o primeiro
monarca, especialmente escolhido por Ishtar e aprovado por Enlil para
governar Kish. Apesar de ser um rei justo e poderoso, uma grande tristeza o
aflige, pois não tem herdeiros. Ele segue os conselhos de Shamash, e
montado numa águia, sobe aos céus até onde se encontra Ishar, para pedir-
lhe um herdeiro. Apesar da narrativa ser muito fragmentada, sabemos pela
lista de Reis que Etana teve um filho, portanto sendo seu pedido satisfeito
pelos deuses. O motivo de subida aos céus nas costas de pássaros é uma
constante na grande mitologia mundial, mas este é o relato mais antigo que
temos a respeito deste tema.

Fonte: Dalley, Stephanie (1989) Myths from Mesopotamia: Creation, The


Flood, Gilgamesh and others. Oxford, Oxford Univervisty Press.

TÁBUA 1

[Os grandes deuses, os Igigi] projetaram uma cidade,

[Os Igigi] fizeram a fundação desta cidade

[Os Anunaki] projeraram a cidade de Kish

[Os Anunaki] fizeram as fundações da cidade

[Os Igigi] fizeram as construções de Kish sólidas

...

- Que ... seja seu pastor

Que Etana seja seu construtor (?) {...} o cetro do {...}

Os grandes Anunaki que decretam os destinos

Sentaram-se e conferiram seus conselhos à terra.

Eles criaram os Quatro Quadrantes (do mundo) e estabeleceram a forma


{destes)
Os Igigi [....] decretaram os festivais para todos eles (N.1)

Eles ainda não haviam estabelecido um rei que governasse sobre todas as
pessoas

Naqueles dias, o adereço real da cabeça e a coroa ainda não tinham sido
colocados juntos (N.2)

E o cetro de lápis lazuli ainda não tinha sido empunhado

Ao mesmo tempo, o palanque do trono ainda não tinha sido feito.

Os Sebitti, os Sete Deuses Guerreiros companheiros de Nergal, barravam


os portões contra os exércitos,

[...] barravam os portões contra [a entrada] de outros povos já


estabelecidos,

Os Igigi patrulhavam a cidade [ ]

Ishtar procurava nas alturas e nas profundezas por um rei,

Inina procurava por um pastor

Buscando nas alturas e nas profundezas por um rei

Elil estava procurando uma plataforma para o trono, para dar a Etana

" O jovem por quem Ishtar procura com tanta diligência

Procurando sem cessar [ ]

Um rei é portanto aqui afirmado para a terra, para que se estabeleça em


Kish

Ele trouxe o poder real [

[]

Os deuses da terra

(cerca de 120 linhas estão faltando)

TÁBUA 2
Ele chamou-o de [ ]

Ele construiu com presteza [ ]

O palanque do trono de Adad, seu deus [ ]

Na sombra do palanque real cresceu uma árvore alta e esguia,

Na copa desta árvore, uma águia pousou,

E uma serpente acomodou-se na base desta árvore

Todos os dias, águia e serpente montavam guarda, buscando suas


respectivas presas

A águia fez-se ouvir e falou para a serpente:

- Vamos, sejamos amigas, sejamos companheiras, você e eu.

A serpente fez-se ouvir e falou para a águia:

- Não és digna de amizade aos olhos de Shamash,

És má e tens feito sangrar o coração do deus,

Cometeste atos abomináveis, és uma abominação para os deuses.

Entretanto, que nos levantemos e façamos um juramento

Que seja ouvida esta nossa promessa, que ela chegue aos ouvidos de
Shamash!

Na presença de Shamash, o guerreiro, águia e serpente fizeram um


juramento

" Quem dentre nós ir além do limite estabelecido por Shamash, o próprio
deus deverá levá-lo ao julgamento mais severo, para que seja punido.

Quem ousar ir além dos limites estabelecidos por Shamash

Que a montanha impeça-o de achar seu caminho por sobre ela,

Que a arma afiada acerte seu caminho de imediato na direção do infrator


Que todas as promessas feitas quando do juramento a Shamash

Voltem-se contra o infrator, sem dó nem piedade!

Quando águia e serpente terminaram de fazer o juramento a Shamsh, eles


se levantaram e foram até as montanhas. A cada dia, eles ficavam à
espreita de suas presas.

A águia pegava um touro ou um asno selvagem,

E a serpente se alimentava, guardando alimentos para seus filhotes.

A serpente, por sua vez, caçava cabras e gazelas das montanhas,

E a águia delas se alimentava, guardando alimentos para seus filhotes.

A águia então ia caçar javalis e carneiros selvagens, guardando alimentos


para seus filhotes.

A serpente caçava então gado das planícies e animais selvagens dos


campos,

E a águia deles também se alimentava, sobrando-lhe para alimentar seus


filhotes também.

Os filhotes da serpente tinham uma abundância de alimentos.

Os filhotes da águia cresceram, fortes e sadios.

Quando os filhotes da águia haviam crescido fortes e sadios,

A águia começou a tramar tos de perfídia em seu coração.

Em seu coração a águia passou a tramar um plano de perfídia,

Para tanto sua mente se decidindo a devorar os filhotes de sua amiga.

A águia fez-se ouvir por seus filhotes:

- Vou comer os filhotes da serpente, que certamente ficará furiosa,

Portanto irei habitar os céus. Voltarei a esta árvore apenas para comer de
seus frutos!
Um jovem, mas especialmente sábio filhote dirigiu a palavra à águia, seu
pai:

- Pai, não coma! A rede de Shamash irá pegar você. Os votos que prendem
o juramento a Shamash irão pegar você, pai, se te voltares contra o Deus!
Lembra, pai: aquele que ir além do limite estabelecido por Shamash, o
próprio Deus leva-lo-á a julgamento por suas próprias mãos.

Mas a águia não ouviu aos pedidos de seus filhos, não querendo ouvir as
palavras de seus filhos.

A águia desceu e devorou os filhotes da serpente.

Ao entardecer, ao cair do dia, a serpente retornou, cheia de provisões.

Ela deixou a carne à entrada de seu ninho, e seus olhos se arregalaram,

Pois seu ninho não mais estava lá.

A manhã veio, mas a águia não apareceu,

Pois com seus talões ela havia cravado o solo,

E uma nuvem de poeira se levantava até os céus

A serpente se deitou e chorou, suas lágrimas chegando até Shamash:

- Eu confiei em ti, Shamash, Grande Guerreiro, e ajudei a águia que vive


nos galhos da árvore. Agora o ninho da serpente é a morada da dor. Meu
próprio ninho lá não mais está, enquanto que o ninho da águia permanece
em segurança. Meus filhotes estão espalhados, enquanto que os filhotes da
águia estão juntos e seguros. A águia veio e devorou meus filhotes!

Shamash, sabes do mal que me foi feito, tu tudo sabes, Grande Deus!

Em verdade, em verdade, tua teia é tão grande quanto a terra, teu alcance
tão grande quanto os céus! A águia não deve escapar da tua punição, pois é
tão criminosa quanto Anzu, que fez mal a seus companheiros!

Quando ouviu o lamento da serpente, Shamash fez-se ouvir, falando para a


serpente:
- Segue o caminho que vai até as montanhas, pois lá um touro selvagem foi
pego para ti. Abra seu ventre, o estômago do animal, fazendo um lugar para
ti ali dentro.

Todos os tipos de pássaros virão dos céus para comer a carne do animal. A
águia também estará entre eles. Ela, porém, não saberá do perigo que
estará correndo, indo buscar pelos bocados mais tenros de carne, por estes
investigando toda a área. Penetre no interior do touro selvagem, e quando a
águia ali procurar pelos pedaços mais saborosos, deves pegá-la pela asa.
Corte então as asas dela, as penas e juntas, jogando-a num abismo sem
fundo. Que a águia morra ali de fome e de sede!

Ao comando do guerreiro Shamash, a serpente pôs-se em movimento,


cruzando a montanha até achar o touro selvagem. Ela abriu o interior do
animal, deixando à mostra seu estômago, fazendo ali um lugar escondido
para si.

Todos os tipos de pássaros vieram dos céus e começaram a comer a carne.

Mas a águia estava consciente de algum perigo, e não se pôs a comer tal
qual os outros pássaros.

A águia então fez-se ouvir, falando para seu filhote:

- Venha, vamos até lá para comer a carne do touro selvagem!

Mas o jovem e excepcionalmente sábio filhote disse à águia, seu pai:

- Não desça, meu pai, talvez a serpente esteja escondida no interior deste
touro selvagem!

A águia pensou consigo mesma:

"Se os pássaros sentissem medo, como estariam eles se alimentando de


forma tão pacífica?"

A águia então não prestou atenção, não ouviu as palavras de seus filhos,
descendo e postando-se ao lado do touro selvagem. Ela inspecionou a
carne do touro selvagem, examinando-a e ao terreno de alto a baixo. E a
águia prosseguiu em suas inspeções, até penetrar no interior do touro
selvagem, indo direto até a serpente, que pegou-a pela asa:

- Roubaste meu ninho, roubaste meu ninho!


Fez-se ouvir a voz da águia, que começou a falar à serpente:

- Poupa-me e eu te darei, como um noivo à sua prometida, pagamento


vultuoso, tal qual um dote!

Fez-se ouvir a voz da serpente, dirigindo-se à águia:

- Se eu te libertasse, como poderia responder ante a Shamash, o todo


poderoso?

A punição que te devo infringir voltar-se-ia contra mim, a punição que agora
irei te fazer passar!

A serpente cortou as asas da águia e jogou-a num abismo profundo para


morrer de fome e de sede.

[A águia ali ficou]

Cada dia, ela rezava para Shamash repetidas vezes:

- Devo morrer no fundo deste abismo? Quem se dá conta de que é a tua


punição que me faz sofrer? Salva minha vida por mim, a águia, de forma
que eu possa espalhar tua fama por toda eternidade!

Shamash fez ouvir a sua voz, e falou à águia:

- Foste mau e encheste de tristeza meu coração. Fizeste algo imperdoável,


um ato abominável frente aos deuses. Estás morrendo, e não devo me
aproximar de ti! Mas existe um homem, que estou mandando até ti, e ele
está a caminho. Que ele e somente ele te ajude!

Todo dia, Etana rezava repetidas vezes para Shamash:

- Ah, Shamash, a ti dei os melhores quinhões de meus rebanhos de


ovelhas, a terra bebeu o sangue de meus carneiros, e eu tenho prestado
homenagens aos deuses e respeitado os espíritos dos mortos. Os
intérpretes de sonhos têm usado do meu incenso, os deuses têm se
beneficiado do meu rebanho nos sacrifícios. Ah, meu senhor, que uma
palavra favorável saia de teus lábios, e que eu receba a planta do
nascimento. Ah, meu grande Senhor, mostra-me a planta do nascimento!
Remova minha vergonha e dê-me um filho!

Shamash fez ouvir sua voz e falou para Etana:


- Segue a estrada que cruza a montanha. Procura por um abismo com
cuidado, e vê o que vais encontrar. Uma águia está abandonada dentro
deste abismo. Ela irá te mostrar a planta do nascimento.

Ao comando de Shamash, Etana pôs-se a caminho. Ele cruzou a montanha,


encontrou o abismo, e dentro dele, estava a águia, abandonada, sedenta e
faminta.

Ao ver Etana, a ave ergueu-se.

TÁBUA 3

A águia fez-se ouvir, e falou para Shamash:

- Senhor [....]

Os descendentes de um pássaro {...}

Eu sou [...]

O que for que ele disser [....]

Seja o que for que eu disser [...]

Ao comando de Shamash, [...]

Os descendentes do pássaro [ ...]

A águia fez-se ouvir e falou a Etana:

- Por que vieste até mim? Diga-me!

A voz de Etana fez-se ouvir, e ele falou à águia:

- Minha amiga, dê-me a planta do nascimento, mostra-me a planta do


nascimento!

Remova minha vergonha e dá-me um filho!

Deixa. [...]

Quando saíres [...]

Então a águia falou para Etana:


- Sozinho, devo procurar nas montanhas, para trazer-te a planta do
nascimento!

Quando Etana ouviu estas palavras, ele cobriu a frente do abismo com
junípero

E lançou para baixo....

Portanto, ele manteve a águia viva no abismo.

Etana começou a ensinar a águia a voar novamente.

Por um mês, então por um segundo mês,

Ele manteve a águia viva no abismo, e começou a ensiná-la a voar


novamente.

Por um terceiro mês, então por um quarto mês,

Ele manteve a águia viva no abismo, e começou a ensiná-la a voar


novamente.

Etana ajudou a águia por sete meses.

No oitavo mês, ele ajudou a águia a sair do abismo. A águia agora estava
bem alimentada, forte e saudável como um leão.

A voz da águia fez-se ouvir, e ela falou para Etana:

- Meu amigo, somos realmente amigos, tu e eu! Fala-me do que desejas de


mim, para que possa satisfazer ao desejo de teu coração e ao anseio da tua
alma.

A voz de Etana fez-se ouvir, e ele falou para a águia:

- Muda meu destino e revela o que está escondido!

(Interrupção de cerca de seis linhas)

Etana ajudou a águia

A grande ave caçou pelas montanhas,

Mas a planta do nascimento lá não se encontrava.


- Vem, meu amigo, eu te carregarei para as alturas, até o firmamento

Para que encontremos Ishtar, a deusa dos nascimentos,

E ao lado de Ishtar, a deusa dos nascimentos, que.....

Coloca teus braços ao meu redor,

Põem tuas mãos em cima das juntas de minhas asas.

Coloca teus braços ao meu redor

Põem tuas mãos em cima das juntas de minhas asas.

Etana colocou seus braços ao redor da águia,

Ele pôs suas mãos por sobre as juntas das asas da grande ave.

A águia levantou vôo por uma milha, com Etana às costas:

- Meu amigo, olha para a terra! Como ela te parece?

- Os assuntos da terra parecem frenéticos, tal qual insetos

E o vasto mar é maior do que um grande rebanho!

A águia voou com Etana por uma Segunda milha:

- Meu amigo, olha para a terra! Como ela te parece?

- A terra foi transformada num jardim!

E o vasto mar não é maior do que um balde de leite

A águia voou com Etana por uma terceira milha:

- Meu amigo, olha para a terra! Como ela te parece?

- Estou olhando para a terra, mas não posso [mais] vê-la!

E meus olhos não podem mais ver o vasto oceano!

Meu amigo, não posso ir mais adiante na direção dos céus!


Volte, deixe-me retornar à minha cidade!

A águia deixou Etana cair por uma milha, e pegou-o de volta, isto fazendo
por vezes consecutivas.

(Narrativa é interrompida por aqui. Eles voltam a Kish. Etana tem uma série
de sonhos que o incentivam a fazer uma Segunda tentativa de subir aos
céus[

Etana disse à águia:

- Meu amigo, vi num primeiro sonho,

Que a cidade de Kish estava soluçando [ ...]

Dentro dela, as pessoas estavam de luto

E eu entoei um canto de lamentação:

- Ah, Kish, aquela que a tudo dá vida!

Etana não pode dar-te um herdeiro

Oh, Kish, aquela que a tudo dá vida,

[ ...]

Etana não pode dar-te um herdeiro

(interrupção de tamanho indeterminado)

A esposa de Etana disse a seu esposo:

- O deus mostrou-me num sonho

Como Etana, eu esposo, eu também sonhei

E o deus mostrou-me num sonho

Etana era o rei de Kish por .... anos

E seu espírito....

(interrupção de tamanho indeterminado)


Etana abriu a boca e falou para a águia:

- Meu amigo, o deus mostrou-me outro sonho.

Nós atravessávamos o Portal de Anu, Enlil e Ea.

Juntos, nós nos curvamos, tu e eu.

Nós atravessamos a entrada do Portal de Sin, Shamash, Adad e Ishtar

Juntos, nós nos curvamos, tu e eu.

Vi uma casa cuja janela não estava fechada.

Abri tal janela e entrei

Sentada no dentro da sala estava uma garota sentada num trono, trazendo
nos cabelos uma coroa, e de face de grande beleza.

Em baixo do trono, podiam ser vistos leões ferozes

Eu avancei, e os leões vieram na minha direção.

Acordei aterrorizado.

A águia disse a Etana:

- Meu amigo, o significado dos sonhos é bastante claro!

Vem, deixa que eu te carregue até o firmamento de Anu.

Coloca teu peito contra meu seio,

Põem as tuas mãos sobre as juntas das minhas asas,

Coloca teus braços ao meu redor.

Ele encostou seu peito sobre o seio da águia,

Ele colocou suas mãos por sobre as penas da grande ave.

Etana colocou seus braços ao redor da águia.

A águia prendeu de forma segura sua carga humana,


Alçando vôo com Etana por uma milha, falando a seu amigo:

- Vê, meu amigo, como se parece a terra?

Inspecione o mar, olha com cuidado por todos os seus aspectos

A terra está apenas na ponta da montanha!

E observa o que for que se registrar com relação ao mar.

A águia alçou vôo com Etana por uma Segunda milha:

- Vê, meu amigo, como se parece a terra?

O que é dela?

A águia levou Etana por mais uma terceira milha, falando a Etana:

- Vê, meu amigo, como se parece a terra! O mar transformou-se numa vala
de jardineiro!

Quando eles chegaram ao Portal de Anu, Enlil e Ea,

A águia e Etana se curvaram ao mesmo tempo

Eles atravessaram o Portal de Sin, Shamash, Adad e Ishtar

A águia e Etana se curvaram ao mesmo tempo

[...]

Eles abriram o Portal e entraram....

(O resto do texto está perdido, mas de acordo com a Lista dos Reis
Sumérios, Etana foi sucedido por seu filho Balih).

Notas:

1. Festivais é segundo a Versão Babilônia Antiga. Stephanie Dalley também


dá o termo "nomes" ao invés de festivais. Prefiro festivais, pois acompanha
os pontos da Roda do Ano (Luz de Ishtar)

2. As primeiras coroas eram feitas de duas partes: um adereço cônico alto


e rígido com uma travessa circular ao redor.