Você está na página 1de 80

(Cópias presente de Shemhazai, Babyloniaca, minha tradução)

AS CARTAS FENÍCIAS

de Wilfred Davies e G. Zur

Uma série de dez cartas daquele que tem responsabilidades na Irmandade


de Sar-Ma'na pelo Príncipe da Terra das Quatro Direções, na Escola Real
de Ugarita, sendo [o Príncipe] um aspirante à Irmandade.

Conteúdos:

CARTA 1 - SOBRE O MUNDO NATURAL DOS ELEMENTOS E SEU


SENHOR QUE FAZ A TERRA TREMER, RIMOM, E SOBRE TEMAS A
RESPEITO DO GOVERNO DO MUNDO

CARTA 2 - NA QUAL OS ATRIBUTOS DE NABU, SENHOR DE TODOS


OS ENSINAMENTOS, SÃO EXAMINADOS E DISCUTIDOS

CARTA 3 - CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DOS EFEITOS DE ISHTAR, A


GUARDIÃ DOS SEGREDOS, A AMANTE/AMADA, NO MUNDO

CARTA 4 - A LEI E SEU GOVERNANTE, NERGAL, SENHOR DO MUNDO


SUBTERRÂNEO, MESTRE DOS LIMITES DO MUNDO CRIADO

CARTA 5 - MARDUK, O MAGNÍFICO, AQUELE QUE SEMPRE SE


EXPANDE, A FONTE DE PODER. OS PRINCÍPIOS ATRAVÉS DOS QUAIS
ELE OPERA, SEUS EFEITOS SOBRE A CRIAÇÃO.

CARTA 6 - O MESTRE DA MÁGICA, QUE GOVERNA O DESTINO DOS


HOMENS, EA/ENKI/ENKI A BASE DA FORMA

CARTA 7 - NA QUAL SE DISCUTE O PODER CRIATIVO DA CRIAÇÃO, A


INSPIRAÇÃO DO UNIVERSO CUJA MANIFESTAÇÃO É ATRAVÉS DO
GRANDE SENHOR, O DEUS DOS DEUSES, O SENHOR DOS DEUSES,
O SENHOR DA MONTANHA LESTE, ENLIL.

CARTA OITO - O MESTRE CONSIDERA A FONTE DE TODO O


UNIVERSO, ANU, QUE TUDO TEM, E NADA POSSUI, QUE TEM TODOS
E NENHUM ATRIBUTO, SOBRE O QUAL POUCO SE PODE DIZER

As primeiras sete cartas tratam dos deuses cujos poderes asseguram a


continuidade da vida no plano físico e o desenvolvimento natural destas
forças no Mundo Físico. As cartas remanescentes tratam do conhecimento
da criação e da crescimento da responsabilidade com relação a todos os
mundos. .

CARTA NOVE - O DEUS SHAMASH, SUA ESFERA DE ATUAÇÃO, ELE


TRAZ-NOS DE VOLTA PARA CASA E NOS MANDA PARA O MUNDO
TAMBÉM.

CARTA DEZ - SIN, O FORTE, O GOVERNADOR DOS HOMENS. A NAU


NA QUAL O DILÚVIO FOI CONQUISTADO.

CARTA 1 - SOBRE O MUNDO NATURAL DOS ELEMENTOS E SEU


SENHOR QUE FAZ A TERRA TREMER, RIMOM, E SOBRE TEMAS A
RESPEITO DO GOVERNO DO MUNDO

Ao Filho do Rei, Senhor das Quatro Direções, na Casa dos Príncipes, na


corte do Rei de Ugarita - no terceiro dia de Nisan.

Esta mensagem, juntamente com suas instruções, são mandadas a pedido


de vosso augusto senhor, que vos escreveu para dizer-vos o que segue. O
nome do escritor será mantido em segredo até próxima ocasião. Todas as
declarações desta fonte estão sob o selo de vosso pai, o rei, e podem
apenas ser discutidas com ele (1). Este despacho é o primeiro de dez nos
quais serão escritos a natureza dos deuses, da lei, da arte de governar que
vós estais aprendendo, usando o material de vosso aprendizado na escola
de príncipes de Ugarita.

Primeiramente, os deuses. Deve ser entendido, de forma bastante clara que


os deuses, se forem eles realmente deuses, governam a humanidade e
todas as suas criatures, das alturas às profundezas, e seus poderes não
são devotados a um determinado indivíduo, cidade, estado ou império, pois
os deuses são as causas [de tudo o que existe], independente de posição
ou riqueza.

A ordem na qual os deuses serão apresentados nestas cartas é a seguinte:


RIMON, seguido por NABU, o Mensageiro, ISHTAR a Perpetuadora,
NERGAL o Juiz, MARDUK o deus do Crescimento, EA/ENKI, o deus da
Forma, ENLIL, o Criativo, e ANU a Fonte. Estes serão seguidos por
SHEMESH, o Mestre da Carruagem e SIN, Aquele que Dirige a Carruagem.
Os primeiros oito deuses estão relacionados com o processo da criação:
Ea/Enki ouve, Marduk realiza as possibilidades, Nergal as limita, Ishtar as
perpetua, Nabu harmonisa e atribui-lhes nomes, e Rimon organiza os
elementos, dando-lhes forma física, a carruagem dos deuses.

Que meu senhor o Prínciple preste atenção a estas palavras, que ele
pondere sobre seu significado. Tudo é Anu, Anu é Tudo, incluindo também
os deuses antigos: o caos, as profundezas sem fim, o infinito, o que não tem
fronteiras, o sal e o acúcar, o centro e o que está fora dele, o vórtex do
caos, a ausência e semelhança da luz, tudo o que existe é Anu. Ele está lá
e aqui, Ele é o que É. Não existe outro. Ele é todos os deuses, e todos os
deuses são Ele. Ele é o pivô e as extremidades do círculo. Ele está longe de
nós e ao mesmo tempo estamos tão próximos dele, tal qual nosso sangue
está e flui dentro de nós.

Nele está Rimon, o senhor do eixo e da romã, o senhor da tempestade e do


raio. Da romã vem a semente, da semente vem a árvore, da árvore vêm
muitas romãs. Rimon toca na terra e caem as montanhas, e as planícies
erguem-se tal qual montanhas. Ele respira e as planícies erguem-se feito
montanhas. Ele respira e a tempestade foge ante ele, Ele suspira e uma
chuva gentil desce por sobre a terra. Ele faz trovões se manifestarem e os
céus se abrirem com estrondo. Ele bate no ar tal qual o trabalhador lida com
seus instrumentos de trabalho, e seu brilho cega as multidões. Os mares
avançam por sobre a terra e a terra afunda para encontrar os mares. Ele
sorri e os pássaros cantam, os grãos crescem, pois ele faz haver alimentos
suficientes para todos, e o sol brilha com prazer para iluminar a face de meu
deus Rimon

Meu senhor Rimon é o Touro dos Céus e o Amado da Deusa dos Cereais.
Olhai para os céus à noite. Vós vereis meu senhor Rimon espalhar os
grãos, os grãos dourados das estrelas por sobre os campos dos céus.
Rimon estará semeando os céus. Contai as estrelas no céu: ela são as
plantas das quais ele se ocupa; Rimon, meu deus, separa as nuvens do céu
quando tal ação se torna necessária. Ele é ar e fogo, água e terra. Ele
mistura o fogo e a terra e as montanhas fluem como água, e a fumaça de
sua fornalha sobe para os céus. Todas as coisas dos céu e da terra são
misturadas por Ele. Ele é a terra na qual vivemos, Ele é nossos corpos,
nosso sangue, carne e nossa vida. Sem ar, morremos rapidamente, sem
calor, morremos perecemos também, sem água e os alimentos da terra,
morremos em pouco tempo, pois tais elementos dão-nos a vida. Estas
coisas não nos podem ser tiradas, pois elas são nossa vida. Elas são os
dons de Rimon para nós, os dons que vêm dEle e nos são dados por sua
grande magnanimidade.
Agora, como futuro rei, um de vossos títulos será "Agricultor-Inquilino dos
Deuses", e esta é tanto a vossa posição quanto a posição de toda a
humanidade. Somos todos inquilinos, servos de seus dons. Vós, como
monarca, sois servo desta terra pelo período de vossa vida. Indivíduos
ignorantes pensam que eles possuem a terra. Mas a terra sempre existiu,
bem antes destes indivíduos e existirá quando estas mesmas pessoas
forem enterradas com seus antepassados. Reis ignorantes pensam que
famílias possuem a terra, mas quando chega a hora, famílias também
morrem. Nada de bom pode ser feito sem terra e água, o calor e o ar, oh,
servo agricultor dos deuses! Ao homem, cabe os resultados de seu trabalho
enquanto este viver, mas todos os seus esforços, sem a terra, nada valerão,
pois ele nada poderá produzir sem a terra.

Portanto, adotai cautela, [pois] homens avarentos estão sempre buscando


ganhar o controle da terra, pois esta é a maneira de obter poder sobre
outros indivíduos. Aquele que possui a guarda da terra tem poder sobre
aqueles que são seus servos e que na terra trabalham, mas quem tudo
controla, na realidade, é a terra. Não se podem cercar os rios ou o mar, mas
é possível controlar poços e lagos. Portanto, outro de vossos títulos será
Administrador das Águas dos Deuses. Meu Príncipe, eu vos exorto a
compreender que todas as coisas, tudo o que existe pertence aos deuses, e
o povo que ama os deuses escolhe então um juiz, um oficial, um monarca,
de forma que todos possam compartilhar a riqueza dos deuses. Portanto,
em nosso país, ninguém realmente possui a terra na qual trabalha, ou
alegar posse à água, homem algum, quer seja rei ou sacerdote, e cada
indivíduo deve compartilhar do que produziu de acordo com o trabalho
dedicado, dando uma porção aos deuses, para que os deuses possam
prover por aqueles que não podem trabalhar. Cada indivíduo que é
alimentado do quinhão dos deuses, têm deveres, portanto, de acordo com
seu status e padrão.

Os deveres do rei são a prática da justiça, controlar os fortes, ajudar os


fracos, servir a terra, e defender o povo contra os invejosos e violentos que
quiserem tomar pela força o fruto do trabalho de outros homens. Para
ajudá-lo no seu trabalho, o rei tem sacerdotes, conselheiros, servos e o
exército. Os sacerdotes têm o conhecimento dos tempos; os conselheiros
de estado têm o conhecimento dos homens e interpretam tais aspirações
para o rei. O exércio e os servos auxiliam o rei para que ele aprenda a
utilizar seus julgamentos de forma [mais] prática.

Claro fica, portanto, de se ver que a terra é um presente dos deuses.


Igualmente claro de se ver é que depois da terra Ter sido trabalhada,
plantada e irrigada, outros homens podem através da guerra querer roubar
os frutos desta terra. Alguns dirão que a terra é deles e tentarão tirar
aqueles que nela trabalham à força. Por este motivo devemos pensar em
Ter um exército, pois claro fica que onde governa a força, uma nação
apenas terá direito ao pedaço de terra que souber manter sob sua tutela. O
exército é nosso cercado na terra, e como um cercado, precisa ser mantido
em boas condições. O melhor exército é aquele que luta pelo que é seu,
suas esposas, seus filhos, seus produtos e seus deuses. Portanto, as
pessoas são o melhor exército, mas devem conhecer as artes da guerra.
Por esta razão, todos os homens devem obrigatoriamente saber manejar
com a espada, o arco, o estilingue e o bastão, sabendo usar tais armas e
mantê-las em boas condições.

Não dispomos de fortalezas em nossa terra, apenas armazéns, e a razão


para tal é que fortalezas podem ser cercadas e seus habitantes queimados
ou sitiados até que morram de fome. Confiamos nossa defesa ao
movimento: nossas cidades são construídas no alto das colinas, a alguma
distância das principais estradas que cortam nossa terra; desta forma,
podemos receber avisos de ataque e mobilizarmo-nos para derrotar
invasores de onde vierem, a partir de várias direções. Nossos armazéns
onde guardamos armas e alimentos estão situados em locais remotos nas
colinas. Aprendemos esta estratégia dos vinhedos e rios, pois ambos cedem
à força, a fim de se salvarem, ambos buscando o ponto mais fraco e,
mesmo se acercando do perigo, correm para longe da ameaça,
capacitando-se assim para vencer grandes obstáculos. Tanto o rio quanto
as vinhas usam as qualidades das forças opositoras para atingir seus
objetivos.

Escravos não são capazes de lutar desta maneira. Trabalhadores, que não
têm flexibilidade ou habilidades, e não têm independência, não podem lutar
desta forma também. Homens e mulheres independentes, tendo tanto
habilidades como conhecimento e inteligência ativa, bem como interesse
nos resultados a serem obtidos, lutarão com empenho, mas deve estar bem
claro para eles o que irão obter de seus esforços. Não se poderá confiar
nestes homens independentes se estes se comportarem como derrotados.
Para empreitadas desesperadas, serão necessários homens de coragem e
liderança, indivíduos que criam situações e que não estão à mercê destas.
Tais indivíduos são os capitães e líderes, são os homens nobres. Vós
podeis estar imaginando por que em seu país o filho de um nobre não é
ainda um nobre, mas está sujeito a provações e testes antes de ser julgado
merecer o título de nobre por seu próprio valor e atos. A razão para tal fato
será explicada em breve.
Mesmo os nobres não são de todo confiáveis, pois cada indivíduo apresenta
diferentes atributos. Cada indivíduo cria diferentes situações, cada um tem o
seu próprio entendimento do certo e do errado, se forem fiéis a suas
próprias verdades. Portanto, tais indivíduos devem Ter acima de si mesmos
alguém que saiba, compreenda e que seja capaz de agir. Tal homem é um
monarca entre os homens, pois consegue ver a melhor forma através da
qual várias naturezas e temperamentos podem ser combinados. Ele sabe
quando avançar e quando retroceder. Ele entende as causas das situações
e seus resultados, quando lutar e quando se render. Tal indivíduo considera
todo seu povo e os destinos deste mesmo povo. Mas mesmo o monarca
está sujeito a um grande homem. Há muito, muito poucos homens desta
estatura, e é o dever do rei procurá-los. Grandes homens criam
conhecimentos, formulam leis, estimulam ações, não apenas para uma
cidade ou nação, mas para todos. Há uns poucos orgulhosos que não
podem reconhecê-los, indivíduos egoistas que não conseguem vê-los,
covardes que os temem. Ouvi e compreendei, meu príncipe.

Consideremos agora o escravo. O escravo não possui nada de seu, pois


mesmo seus filhos pertencem ao seu senhor. Todos os frutos do trabalho do
escravo pertencem a outros; se a guerra é perdida, ele ainda será um
escravo; ele poderá Ter um novo senhor num outro país, e sua vida não irá
nem melhorar nem piorar. O escravo também não tem vontade própria: por
que então deveria ele trabalhar com mais empenho? Nada irá ele ganhar,
se mais se esforçar. Alimento, abrigo e punições regem sua vida. Os deuses
do escravo são Rimon, Nabu e Ishtar.

O trabalhador tem um pouco mais de liberdade, pois pelo trabalho, cuidados


e economia ele tem a possibilidade de se tornar um homem hábil, e vender
sua habilidade por um retorno maior. Sua família lhe pertence, seu lar pode
não ser seu, as ele pode mudar-se para outras paragens. Mas um indivíduo
que permanece como trabalhador durante toda sua vida é governado por
seu estômago: seus apetites o impedem de ver mais à frente. Ele tem
pouca força de vontade e não desenvolve sua inteligência, ele é um
prisioneiro (de si mesmo). Seus deuses são Nabu, Ishtar e Sin, pois seus
pensamentos e sentimentos estão dependentes de outrém, bem como os
eventos que marcam sua vida. Ele é levado como um boi ao matadouro. Ele
não consegue ir à luta, a não ser se levado por outros.

O comerciante tem esperança, ele e seus auxiliares têm confiança de que


receberão justiça. Eles confiam no futuro, investem em treinamento para si
mesmos e seus filhos, aperfeiçoando portanto suas habilidades natas. Se
forem independentes, não estarão sujeitos a coisa alguma, laços de
nascimento, ou o que seja, nem seus vizinhos poderão forçá-lo a fazer o
que ele não desejar. O comerciante emprega outros, responsabilizando-se
pelo trabalho realizado. Ele ganha comando sobre outros, pois sabe o que
quer e tenta criar condições para fazer sua vontade acontecer, lutando pelo
que quer e desejam obter no futuro. Entretanto, o comerciante é governado
por outrém no sentido que podem ser objeto de inveja ou admiração, pois o
comerciante tem ambição e orgulho. Seus deuses são Nabu, Ishtar e
Shamash.

Estas três classes de cidadãos são a fundação do estado, e constituem a


maior parte da população. Se forem felizes, o estado funcionará bem, estará
em boas condições. É dever do rei manter o equilíbrio entre eles, pois se
uma destas classes ganhar muito poder sobre a outra, então a riqueza do
povo será prejudicada. Cada uma destas classes deve Ter lazer, pois é o
lazer que possibilita aos indivíduos crescer, e mesmo os escravos podem
atingir a nobreza se souberem Ter lazer e como usá-lo para seu próprio
benefício. É dever do rei incentivar tais aspirações.

Deve-se enfatizar, entretanto, que a riqueza de um estado está na sua


capacidade de produzir frutos. Por exemplo, Paat, a cidade de Nabu,
produziu grandes sábios. Todos desejam que suas cidades tenham homens
sábios, portanto em troca de conhecimento, outras cidades mandam
riquezas para Paat, pois a cidade produz escribas e sábios, que podem falar
e escrever em muitos idiomas, e isto também é riqueza.

Kaph-Zur, a cidade do grande deus Sin, é uma cidade rica, pois seus sábios
são especialistas em oráculos e presságios. Pessoas de outras terras têm
suas perguntas respondidas, e elas trazem presentes para os tempos, o
que enriquece a cidade. Shekel, a cidade de Ishtar, é o lar daqueles que
trabalham com cobre, o metal precioso, e os que se ocupam de espetáculos
públicos; de Shekel, como se sabe, vêm os melhores cantores, dançarinos
e músicos dos mais diversos estilos. A cidade de Ea/Enki troca o que possui
para oferecer com outras cidades. Por este motivo é importante levar em
consideração a natureza do valor. Imaginai que vós possuís uma romã e
que alguém vem até vós com um punhado de uvas, oferecendo-as para vós
em troca de vossa romã. É muito simples de se ver que tal pessoa valoriza
muito mais vossa romã do que as uvas, e se vós fizerdes a troca com ele,
ficará evidente que vós atribuís um valor maior às uvas, ou seja, tais frutas
têm, a vossos olhos, maior valor. É portanto uma condição de troca que as
pessoas envolvidas na transação se beneficiem mutuamente de tal ação.

Agora, se numa cidade, existir apenas um oleiro que faz panelas, e que tal
artesão seja o possuidor da melhor olaria do distrito, então quem quiser Ter
uma panela nova feita por ele, deve pagar o preço pedido, apesar do preço
poder ser alto. É o dever do rei fazer com que haja justiça na aplicação dos
preços pelo bom produto, para que não haja explorações indevidas. Ditar os
preços dos alimentos e do aquecimento, da água, da terra impede a livre
troca de uma coisa por outra. Tal ato dificulta o fluxo do comércio, que irá
então diminuir a riqueza do estado. Deve-se compreender que o mundo do
comércio e do trabalho é o mundo das três classes citadas anteriormente.
Os deuses que governam o mundo do comércio e do trabalho são Rimon,
Nabu, Shamash e Ishtar, e o deus Sin possui domínio sobre eles.

Retornando aos nobres. Tais indivíduos não são muitos em termos de


números. Eles desejam ir além de seus limites, eles querem-se testar talvez
pelas armas, habilidades, aventuras ou viagens. Um nobre é reconhecido
por sua habilidade de se auto-examinar, de se submeter à disciplina, de
manter seus apetites sob controle. Eles não são compreendidos por aqueles
que vivem da força, pois o verdadeiro nobre não vive sua vida pelos
padrões daqueles que se deixam levar por seus apetites.

O rei deve destinar aos nobres tarefas que possam desempenhar, ou eles
irão criar tais condições por eles mesmos. De acordo com suas qualidades
de liderança, tais nobres devem governar outros indivíduos, de forma a
exercer magnanimidade e justiça. Até este momento, dos nobres deve ser
exigida disciplina, devem aprender sobre leis, devem ser testados em suas
habilidades e ser mandados às regiões fronteiriças para zelar e proteger
este nobre país. Caso as habilidades de tais nobres caírem na esfera da
guerra e da liderança, eles devem ser ensinados pelos mestres nestas artes
até internalisarem as leis que dão sustento à nossa civilização. Ao se
tornarem eles mesmos mestres nestas artes, sabendo lidar com sua própria
vocação e exercerem a magnanimidade para com outrém, a estes nobres
será dada autoridade sobre outros indivíduos.. Quando tiverem provado sua
nobreza, os deuses Nergal, Marduk and Shemesh terão domínio sobre eles.

Deve apenas existir um governante para cada cidade ou lugar; quando,


portanto, um indivíduo adquire o conhecimento de um rei natural, chega-se
a um ponto perigoso no exercício das artes do estado, pois tal indivíduo tem
autoridade igual à do próprio rei. Como se deve, então, lidar com o
problema? Neste momento, os homens justos e sábios da terra tornam-se
importantes, e é a estes a quem o rei deve se voltar. Os homens justos e
sábios possuem o poder de instruir os reis, mostrando-lhes os caminhos
que os monarcas devem seguir. É o poder de um rei entre os homens. O rei
deve procurar os homens sábios e justos, pois estes detém o poder de
instruir monarcas em como estes devem proceder. O rei deve reconhecer,
portanto o valor dos homens justos e sábios e aceitar os conselhos deles
advindos. Lembrai-vos de que todo rei é um grande homem em potencial, e
que todo nobre tem dentro de si o embrião de um rei, e que cada homem
livre pode se tornar num nobre. Os escravos podem se tornar trabalhadores
livres. Esta, meu príncipe, é a lei do crescimento humano. Portanto, os
deuses dos reis são Enki/Ea, Enlil e Shamash e os homens sábios são a
imagem sólida de Anu, Enlil e Ea/Enki.

Fundamentalmente, o trabalho dos reis é incentivar o crescimento, pois é


apenas através desta forma que o próprio rei vem a crescer ele mesmo em
estatura e estadismo. Se as condições para tal crescimento forem a
liberdade, a justiça, o lazer e a instrução, se as condições forem boas,
habilidades [novas] desenvolver-se-ão, haverá especialização, cooperação
e troca de idéias, de forma que não haverá necessidade dos homens se
tornarem seus próprios devoradores. Somente desta forma, em conjunto,
poderemos produzir o suficiente para que todos usufruam das benesses de
nosso trabalho, e sermos livres para nos devotarmos à descoberta de
nossas verdadeiras habilidades e natureza.

Mas a base, a fundação de tudo isto, é o acesso livre à terra e ao ar, à água
e ao ar. Todos os produtos do trabalho do homem estão na esfera de
Rimon, pois a humanidade, por sua própria criatividade, controla as
combinações dos elementos, as misturas de água e ar, e fogo e terra que
são os dons de Rimon. Os homens constróem suas cidades para se
protegerem de suas mudanças de humor; eles fazem poços e irrigam a
terra; erguem muralhas e abrigos para resguardar suas sementes das
tempestades, eles represam as águas da chuva, eles cavam a terra e
fundem as rochas em busca de metal, sendo, assim, cada um, Rimon. De
um homem e uma mulher surgiram grandes nações, por uma, muitas vidas.
Pode-se matar ou fazer viver, pode-se ser livre ou escravizar. Temos, pois,
dentro de nós Rimon, e estamos todos ligados a Anu, a Fonte de todas as
Fontes.

Portanto, quando vos aproximardes do templo de Rimon e fizerdes uma


reverência frente à Sua imagem, lembrai-vos de que estais prestando uma
homenagem, tal qual toda humanidade assim o deve fazer, aos oceanos,
rios, planícies e montanhas, ao sol, à lua, às estrelas, ao espaços das
nuvens no ar e das nuvens dos céus. Tudo o que pode ser visto com os
olhos, tudo isto é o deus Rimon, cuja voz é ouvida com a graça de Ea/Enki,
cheirado, tocado, degustado e sentido pelo corpo, tudo isto é o deus Rimon
e sua esposa Shalla, a deusa dos cereais, a compassiva, pois eles dois são
a presença na terra dos grandes deuses.

Notas de Luz de Ishtar e Shemhazai:


1. Rimon - "Aquele que faz a terra tremer" = Adad, o deus das
Tempestades. Ele significa o poder sem limite dos elementos
formadores do Mundo Físico, ante o qual os homens e mulheres da
Antiga Mesopotâmia se curvavam com um misto de admiração e
medo. Sua esposa, Shala, a deusa dos cereais, é o poder da terra de
conceber frutos para a preservação de todos.

CARTA 2 - NA QUAL OS ATRIBUTOS DE NABU, SENHOR DE TODOS


OS ENSINAMENTOS, SÃO EXAMINADOS E DISCUTIDOS

Honrado Senhor, 6 de Ab

Através de vosso pai, soube que vos foi concedido o juramento secreto dos
ritos de Nabu. Por este motivo vos escrevo. Esta carta está sob o signo das
serpentes duplas, a Cobra e a Víbora. O deus do discurso e o deus das
letras, o deus da ciência e deus das letras, o deus da ciência - e por que o
deus da oratória pode se comunicar com a terra? Podemos falar com a
terra? Mas a terra fala. Podemos falar com as águas? Mas as águas falam.
E o fogo. Todos eles falam e devemos tentar reconhecer a linguagem de
cada um deles.

Por que o deus da escrita? No céu, sinais; no fogo, visões; na água, formas
e na terra, letras. Aprendei os sinais e vossos olhos irão falar por eles. Os
homens negros, os amarelos, os de pele amarronada, falam. Nós
escutamos, e ao ouvir, escutamos e não compreendemos. Nos sinais que
eles escrevem podemos entender sua linguagem. Mas os olhos devem
reconhecer.

Por que o deus da ciência? As leis dos animais, a lei das artes, as leis do
crescimento e do envelhecimento, o tempo para se plantar e colher, a
doença e a saúde. As leis das águas, da terra, do fogo e do ar. Quando as
reconhecemos, então sabemos como agir, da forma menos ruidosa, mas
para os melhores resultados.

Antes de todos os antes, o abismo espalhava-se por todos os espaços.


Tiamat e Apsu e Mumu e Aiu, aquele que se expande e as profundezas. No
começo, Lakhmu e Lukhmu tudo rodeavam, como um círculo ao redor de
um centro, e ao fazer isto, criaram o aqui e o lá. Lá, Tiamat reinava
soberana. Aqui, Anu, o firmamento, o nada, a fonte de tudo. Ele, por seu
turno, fez nascer Aquele que Não É Noite, o grande deus Enlil, cujo número
é um, e os dois fizeram nascer Ea-Ninib [Ninib= má tradução de
Ninurta/Saturno), o número dois, que tem o domínio sobre as fronteiras de
Shamash. Portanto, as águas do espaço tocam as costas da Grande Terra.

Então nasceu de Ea-Ninib como almas saem dos mares, Marduk, aquele
que tudo muda, o número três, que conquista o abismo e cria as costas da
Grande Terra; e Nergal, aquele que sabe a hora para se plantar e colher, o
número quatro, para dar vida à terra. Então, de Anu, o Nada, vem a luz que
dorme, Shamash, que faz a semente despontar no solo e que as ajuda a
crescer.

Ele tem ajudantes, Ishtar, que faz girar a terra, fazendo o dia e a noite, o
bem e o mal, o inverno e o verão, abertura e segredo. É ela, Ishtar, a
Grande Amada e Guerreira, que traz tudo à tona, os segredos que se cultiva
na escuridão, impelindo as almas quer queiram ou não até a luz do dia,
dando-lhes leite para crescer. Ela, que não pode ser totalmente conhecida
tem o senhor deus Nabu, o ajudante de Shamash, como seu porta-voz para
falar sobre tudo aquilo que é segredo, pois ela não pode falar. Somente sua
dança fala, somente as mulheres, como uma peça preciosa de prata falam,
com o seu interior para o interior dos homens, pois apenas assim ela pode
ser conhecida. Seu número é cinco.

A voz de Ishtar é a voz de Nabu, e é dele que vem tudo o que pode ser
comunicado, as leis, os sinais e os símbolos - todos são dele, e os olhos e
ouvidos, a boca e o nariz e os dedos, todos os sentidos, são dele. Seis é o
número de Nabu, ele é o seis, seis é o seu sinal, seis são os seus atributos.
Seu símbolo é a estrela de seis pontas. A partir dele, são conhecidos todos
os números. Ele é o arquiteto. Ele mede e pesa. O fundador do quadrado.
Por que o fundador do quadrado? Ele nos deu os segredos do quadrado
pela arte dos números.

O senhor Nabu deixou-nos regras através das quais podemos construir


nossos templos em formas quadradas e verdadeiras, pois se as fundações
não forem quadradas e verdadeiras, nossos templos não se manterão em
pé. Vós sabeis, pois fostes ensinado por vossos professores, que um
comprimento de 12 cúbitos pode ser atado num círculo, e que ao marcar
três cúbitos, sete cúbitos e doze cúbitos, podeis estabelecer um quadrado.
Mas não foi-vos dito a lei que governa tal princípio. Esta lei deve ser
mantida em segredo, pois compreende o mistério do Arquiteto, pois como
sabeis, todos os reis são arquitetos. Aqui está então a regra:
Estabeleçei a vossa direção tomando, dependendo da estação, uma das
estrelas reais. Coloque duas estacas em linha quando esta estrela aparecer
nos céus. Coloque uma outra estaca para o momento em que tal estrela
desaparecer nos céus, de modo a obter três estacas. A do meio é a estaca
mestra, pela qual vós orientais a colocação das estacas da estrela quando
aparece e se põe nos céus; colocai vossa linha entre as estacas das duas
extremidades, pois então vós tereis vossa direção. Ao longo desta direção,
estique a corda de um comprimento multiplicado por si mesmo menos um
cúbito. Finque estacas nas duas extremidades. Numa extremidade, estenda
uma corda com o dobro do comprimento tão próxima ao quadrado quanto
vossos olhos puderem ver. Coloque ali a terceira estaca. Se for um bom
quadrado, o comprimento da Segunda à terceira estaca será aquele
comprimento multiplicado por si mesmo mais um cúbito. Tomai um número
real. Duas vezes duas menos um é igual a três. Duas vezes duas é igual a
quatro, e o lado remanescente é duas vezes ele mesmo mais um cúbito,
que é cinco. Cinco mais quatro mais três é igual a doze. Agora, tomemos
outro exemplo. Quatro vezes quatro menos um cúbito é igual a quinze.
Quatro vezes quatro mais um cúbito é dezessete. Então o outro lado é
quatro mais quatro, que é igual a oito. Esta regra deve ser seguida também
para a construção de edificações de paredes altas, para que vosso trabalho
seja correto e sem erros.

Podeis não estar ciente do método de fazer fundações de forma que vossos
pisos estejam em nível (nivelados). É desta forma. Tendo determinado onde
devam ser as fundações, cavai trincheiras ao redor das mesmas na
profundidade adequada. Permita que água seja derramada nas trincheiras
até a profundidade de meio cúbito. Fazei isto de manhã cedo, num dia seco,
onde não cáia chuva. Tomai bastões de comprimento adequado, e marcai
tais bastões em cúbitos. Enterrai vossos bastões na água na marca do
cúbito, deixando um cúbito acima da água. Deixe-os lá, permitindo com que
Shamash, o deus sol, brilhe por sobre as águas, até transformá-las em
vapor no ar. Todos os topos de vossos bastões estão agora em nível, e
vossos empregados poderão começar a trabalhar neste nível. Desta forma,
vosso trabalho será perfeito, e assim honrareis aos deuses.

Deveis saber que o símbolo de Nabu é a estrela de seis pontas, e que do


centro dela sai uma espiral, e deve Ter chegado aos vossos ouvidos que
esta é a teia da aranha. Mas na realidade não é bem assim. Como vós
deveis Ter ouvido, "do nada surgiu tudo". No centro da estrela de seis
pontas nada pode ser encontrado, e a espiral mostra o crescimento do
número. Uma divisão para a primeira parte, duas para a Segunda, três e
assim por diante. Mas a espiral continua, avançando além de tudo o que é
Rimon. Podeis contar o número de gotas do oceano, os grãos de areia do
deserto, as estrelas do céus, tão numerosas quanto pó, cada qual como um
sol, com deuses para servi-las, cada uma com suas casas, mensageiros e
pessoas para as adorar?

Desta forma, a espiral não tem fim. Seu fim é tudo o que pode ser abordado
pelos números 1, 5, 7, 11 e 13. Estes são os números que falam com uma
voz. Eles são eles mesmos. Eles vêm de Anu e de Enlil. Eles vêm logo
depois de Anu e seguem em espiral da estrela de Nabu, cujo símbolo é seis.
E a forma destes números é seis vezes um número mais um, ou menos um.
Assim, vós irais descobrir que a verdadeira forma da chamada aranha de
Nabu é o coração, o núcleo.

Agora, com relação às letras. Em outros tempos, e mesmo em nosso país


desde o grande rei Sargão, figuras em argila tem sido grafadas com figuras
e símbolos. Mas ao longo de todo este tempo existe o que é chamado de
Alefbeg - o idioma civilizado. Este tem sido mantido em segredo pelos
devotos e sacerdotes de Nabu, pois Nabu tem devotos em muitas terras sob
muitos nomes, e o símbolo de seu trabalho é o círculo, que tem ao centro a
estrela de seis pontas e a espiral.

Fundamentalmente, o círculo é um mistério. Ele é vazio e cheio, ele contém


a causa do Alefbeg, pois se um círculo mede sete cúbitos, então a distância
ao seu redor é de vinte e dois, e sua proporção permanece a mesma, seja
qual for o tamanho do círculo. Aqui podeis ver o mistério do círculo. O
Alefbeg tem 22 símbolos, através dos quais pode-se descrever a criação.

O Alefbeg tem sido comparado como uma tenda de dois pólos, mantida por
oito pilares. Cada pilar é um deus(a). Os polos são Shamash e Sin, cujos
números são oito e sete, e as cordas da tenda são as letras de Nabu, bem
como o arcabouço da tenda. Olhai para ver. Há três membros. Anu está
ligado a Enlil pela domesticação dos animais e pelo domar da terra pelo
arado. Assim é Alef. Enlil está unido a Ea pela construção de vilarejos e
povoações. Assim é Byt. E Ea se junta a Anu pela colheita da abundância.
Portanto, o membro é Gamal. Marduk está unido a Enlil pela dependência
que tem Dele; isto é Daleb, e a Nergal pelo desejo, que é Haveh. E Ishtar
prende Marduk pelo fluir e refluir das águas - Maim. O membro Vav prende
Nergal de forma segura a Ea e o apóia através de Samech, que parte de
Nabu, que por seu turno, pelo crescimento e morte das coisas é preso por
Nun a Ishtar. Nabu faz a sua marca em Rimon pela letra Tav. Ishtar mói o
trigo de Rimon com o dente, a letra Shin..

Agora, as sete cordas de Shamash são as seguintes: a corda mestre, Chet,


vai de Shamash a Anu na direção que parte de Ea - Yadeh - e a corda do
planejamento, o Tyet, que parte de Enlil. O peso avança de Nergal com
Zyin, e os pares das balanças seguram Caph a partir de Marduk. Então
Shamash leva a doce Ishtar ao aprendizado com Lamed, e Shamash
mantém a guarda sobre Nabu , para que ele também possa aprender, em
Ayin.

Então Sin, o :deus de todos os homens e mulheres, se mantém na justiça


junto a Shamash, experimentando e testando como um caçador à espreita
na estrada - Zadiah. Nabu a tudo dá nomes com sua boca, Peh. Ishtar faz
com que o deus Sin dê voltas ao recor da terra, Qoph. Sin é a cabeça de
Rimon, a romã, chamada Resh.

A tenda dos deuses é separada de Apsu e Mumu por Tiamat. Lakhmu e


Lukhmu estão postados ao redor dos limites de Tiamat. Anshar e Kishar and
Kingu estão unidos a Anu. Eles defendem a tenda da pressão de Tiamat. De
Anu vêm as formas sem forma. Sob Nabu elas estão simbolizadas, e agora
explicaremos a história das letras.

O dois touros lutam levantando poeira da terra. Eles se encontram: a terra


treme. O trovão de seus cascos ecoa nas montanhas. O sangue deles é
jorrado sobre a terra. O sangue deles é derramado sobre a terra. O
vitorioso, de pé, contempla o inimigo. Ele brada em desafio ao rebanho. O
vitorioso então se ajoelha e limpa seus chifres no solo rachado; como
senhor, ele caminha e toma seu lugar como líder. As fêmeas o seguem. Nos
campos de batalha, as sementes brotam, anunciando novo crescimento e o
homem se alegre com produtos, e os homens e mulheres se alegrem, pois
eles tudo viram e entenderam. Então há comemorações, pois este é o
primeiro dos sinais: seres humanos podem crescer, prover por suas
necessidades e de outrem e escolher. Ele é o Aleph, o líder, o domesticador,
o civilizador, o que dá nomes a tudo o que existe.

Quando não há necessidade de correrias ou de apressar o tempo, quando


os rebanhos estão em paz em seus campos, pode-se construir um abrigo
que irá durar por muitos anos, e irás cercá-lo, mantendo assim vossa
esposa e vossos filhos seguros ao vosso lado; eles não serão mais
selvagens, eles poderão aprender dos mais velhos, de vizinhos que irão se
estabelecer próximos à vossa casa. Assim serão plantadas as povoações, e
dinastias serão fundadas. Neste local protegido serão erguidos os templos.
Deste ensinamentos tiramos a letra Byt.

De pé em vosso campo, olhai os cereais amadurecerem e os frutos


chegarem à maturidade. Arai o solo e plantai a semente, dormi com vossa
esposa, senti o ventre dela crescer. Em tempo de colheita, enchei vossos
galpões com cereais, olhai a criança no seio de sua mãe. As crianças irão
crescer para se tornarem adultos, casar e continuar a semente de vossa
vida. Quando cada atingir o seu pico, a dependência de cada um de seus
filhos e filhas de vós deve acabar, e eles e elas se separarem de quem as
criou: a criança no seio, o jovem na casa, usai o chicote e soltai a semente;
daí vem Gamal.

Estas três letras, o Aleph, o Byt, o Gamal formam a base da vida civilizada.
Hordas de bárbaros não vivem desta forma, pois elas não aderem à lei.

Quando estiverdes estabelecido num local com vossos rebanhos e vosso


campo, vós não mais podereis seguir o sol e as chuvas; vós devereis
armazenar contra os tempos de míngua; vós devereis cavar poços contra
secas; vós vos tornareis dependente de vossa casa , como uma gota d'água
que pende de um galho. Vossos servos também dependerão de vós, pois é
a lei de que coisas que as coisas dependem de quem provê por elas. Daí
vêm Daleh.

Não há fim para os desejos, pois quando um é atingido, outro surge:


alimentos, água, calor, filhos, segurança, tudo isto é objeto de desejo; o que
é desejado, passa a seu tempo, tudo vem a ser e, com o tempo, se vai.
Desejo traz perigo para os homens e mulheres, e os mantém em
segurança; o todo da vida humana é desejo e amor: sem os dois, nada
pode ser atingido, ou mesmo vir a ser. Nós simbolizamos isto pela letra
Haveh.

Homens e mulheres precisam de ferramentas, pois seres humanos não são


como animais. Eles e elas não têm chifres, presas ou ferrões, homens e
mulheres apenas têm suas mãos, e elas fazem o serviço de chifres e
presas. Assim, eles e elas criaram martelos e cinzéis e facas, clavas,
espadas e lanças, e com a ajuda destas ferramentas eles e elas fazem suas
vidas seguras contra os perigos. Este princípio é mostrado pela letra Vav.

Estas últimas três letras se relacionam com a vida sedentária de homens e


mulheres.

A próxima letra é Maim; as águas, elas caem do céu, enchendo as fontes,


os rios e poços. Guardai a água por certo tempo. Bebei, e logo depois o que
bebestes irá irrigar a terra novamente. Todas as águas passam. Elas irão
fluir de fontes e rios e do mar. O sol por sobre as águas irá fazer as nuvens
do céu. Rimon, com seu martelo, irá bater nos céus, jogando seus raios
através das nuvens, fazendo com que as chuvas caiam por sobre a terra.
Nas águas, crescem os peixes, movendo suas caudas, deslizando. Eles
vêm do mar, Aquele que sempre fluiu [Mar é feminino, a Grande Mãe em
Sumério]; todas as coisas crescem, decaem e morrem: eles e elas
respondem ao movimento das águas.

As ovas dos peixes se espalham e crescem. Muitos crescem, muitos


morrem. Alimento para seres humanos, alimento para outros peixes. Quem
pode saber quando eles, os peixes, irão nascer, crescer e morrer
novamente? Eles, os peixes, os filhos de Ishtar e Nabu, ele, o deus que é
homem e peixe ao mesmo tempo que luta as guerras dos homens.
Crescimento e decadência, aumento e decréscimo: isto é simbolizado por
Nun, que cresce e morre.

Colocai cercas ao redor de vosso campo. Num canto de vossa casa, colocai
uma fazedora de manteiga; os cantos, marcai com marcos de pedra.
Inscrevei nestes marcos as marcas dos deuses. Que o sacerdote aprove
vossos desígnios. Alimentei o menestrel, o poeta, alimentai os deuses e
eles irão dar seu apoio a vós. Apoiai o rei, a lei, a terra e todos eles irão dar
seu apoio a vós. Como a cama na qual vós vos deitais vos dá conforto, a
bênção irá lhe emprestar apoio em tempos de dificuldades. Tais bênçãos
irão ser vossa fonte de apoio durante vossa vida. A letra é Samekh.

Em Maim todas as coisas mudam. Mesmo as montanhas não ficam de pé


para sempre; o dente de uma criança cái e é substituído. As crianças
crescem e mudam. O verde dos campos aparece, os chifres do touro, que
tocam a terra e crescem, mudando dia após dia vagarosamente, à medida
em que o ano passa. Nenhum homem ou mulher permanecem os mesmos.
Podeis parar as estrelas de se moverem ao redor da terra? A beleza que
está dentro pode viver por toda uma vida - beleza que não muda no dia a
dia. Tudo muda. Isto é representado por Shinu.

O aparecimento de mudança é mostrado por marcas. Pelas marcas,


mostram-se as mudanças. Olhai para vossas mãos. Elas estão marcadas
pelos acidentes da vida, deixando suas mensagens na vossa pessoa. Tudo
ao nosso redor tem a marca da mudança, por mais sutis que sejam. Olhai
vossos campos - as marcas sobre eles irão vos dizer tudo o que precisais
saber. A posição das estrelas é a marca do céu. A partir das marcas, podeis
saber os estágios que estão se passando. As marcas na argila. Todos
sinais. Estes são simbolizados por Taveh.

Olhai as letras de Shamash. O oito.


Tudo depende de Anu e Rimon. Eles são o fio sobre o qual as contas dos
mundos estão penduradas. Tudo é um. Daí o medo daquele que está
enterrando na terra. Voai para os portais do céu - para a Grande Terra. Não
há escapatória. Adormecei, adormecei nele. Reis exercem seu poder
naquele que é um. Escravos labutam naquele que é um. Vivei, vivei naquele
que é um, morrei naquele que é um. Não há escapatória, pois os deuses
são todos um. Não há nada mais. Sabei desta verdade, meu príncipe, e
sabereis o mistério da letra Chet. Uma janela para o céu - uma escada com
a qual subir para os mundos do além e voltar para cá, muitas e muitas
vezes. Para onde quereis correr para escapar dele? Não há escapatória.
Shamash não oferece escapatória. Ele é um dos grandes deuses, e todos
os deuses são um.

Enlil é a luz de Shamash. Ele mostra os planos da Grande Terra; sobre a


argila da terra, Ele faz as suas marcas. Ele sabe como e o que vai
acontecer - Ele escolhe. Homens e mulheres não podem escolher sua
forma e circunstâncias. O Tyet liga a terra, os insetos, as pantas, os aniamis
e os homens. O Tyet dá o curso de tudo em sua sabedoria, para que tudo
retorne a Enlil. Enlil é o grande arquiteto. Pela sabedoria, todas as coisas,
toda vida dorme dentro das criaturas, esperando a semente que irá projetar
a forma. A sabedoria torna todas as coisas aparentes. Esta é representada
pela letra Tyet.

Quando a forma puder ser vista, o que mais falta fazer? A mão deve ser
direcionada para produzir algo. O agricultor vê as possibilidades dentro do
solo. Ele então deve colocar mãos à obra para trazer à tona o que deseja.
Uma árvore cresce nas colinas; o Mestre a vê, compreende sua natureza,
poda-a, corta-a então, fá-la secar, trata dela, faz com ela palanques ou
colunas, fá-la brilhar, esculpe-a e a coloca a serviço do fim desejado.
Construí um templo para os deuses; o trabalho deve ser direcionado. Tornai
vossas visões reais. Cedro do Líbano, ouro de Ofir, prata das colinas -
construtores, carpinteiros, escultores, polidores, pintores, oleiros, ferreiros,
fazedores de incenso, sacerdotes, faxineiros, fiéis - todos devem ser vistos
e direcionados. O braço forte do Mestre, a letra Yadeh, direciona.

A mão, a taça, as costas curvadas, todos são servos, todos seguram. Tomai
as pratos da balança. Eles seguram, contendo o que é necessário - espaço
para conter o trigo e o peso. O escravo contém a vontade do patrão, a água
da taça. As bacias e leiteiras são todas servas - todas sujeitas ao poder -
contendo gentilmente. Vossa mão contém gentilmente, assim como os
dentes mordem. Esta é a letra receptiva, passiva e que tudo contém
chamada Caph.
Ouvi, meu príncipe. Que minhas palavras penetrem vossa mente. Que o
som penetre. Que vós pesais em vosso coração o significado das coisas. O
Zyn é como uma espada, uma lança para vosso coração. Ouvi todas as
coisas, então podereis julgar. Nergal, o deus guerreiro, ouve o clamor da
batalha, o som das trombetas. A desculpa do criminoso, a queixa dos
inocentes, as crianças pequenas, o som do chicote e dos bastões. Vosso
povo clama por justiça. Ouvi e compreendei. Todas as coisas podem ser
ouvidas. Que elas penetrem a vossa compreensão. Pesai-as em vosso
coração. Daí justiça, oh príncipe.

Os meninos sentam-se no pátio do templo, repetindo as leituras do escriba.


O mestre-escola está de pé, e a um sinal do escriba, faz as mentes
sonhadoras acordarem. Aprendei, aprendei, para que não vos esqueçais.
Aprendei, pois quando ao cansar-vos, o sono descer, as histórias do
passado desenrolarão as leis do número, as leis da terra, a construção dos
símbolos, seus sentidos em outras formas de falar. Aprendei a manter a
mente na tarefa que tiverdes em vossas mãos. A mente é um animal
escorregadio que precisa de direcionamento - pois prefere dormir ou sonhar.
Fazei com que vossa mente vá para os caminhos que deve traçar. Exigi
dela, pois é um animal preguiçoso, que tendo aprendido de cor irá agir de
impulso. O bastão do mestre é o bastão da disciplina. A mente, esta é
Lamadu.

Que olho veja. Que ele tudo veja. Que a mente permaneça desperta. Que
ela seja como uma fonte inesgotável de atenção, clara como cristal. Que a
luz da razão caia por sobre ela. Olhai o que está em vosso campo de visão
e vós podereis perceber o que não está às vistas dos outros que, o que, ao
verdes, podereis então ouvir a voz dos deuses. Não deixai vossos olhos
fecharem, para que vossos sonhos não vos impeçam de viver neste mundo.
Aqui está o perigo. Este mundo e o outro não estão separados. Sabei tudo o
que vossos olhos vêem, e vós sereis um alto sacerdote e mais. Reis e
sacerdotes podem ser fantoches dos deuses, aquele que vê não é uma
coisa nem outra. Os deuses vêem tudo, mas são cegos. Um homem ou
mulher podem ser cegos. Que ele e ela acordem. Pela visão o olho pode
ser acordado. Não perguntai a vosso pai o que são as coisas. Ele não vos
dirá. Cada um, homem ou mulher, deve descobrir dentro de si mesmo a
fonte da vida. Anu é quem vos lembra deste fato. Não esquecei a letra Ayn,
então.

Agora as sete letras de Shamash são oito com a letra de Sin. Esta é a maior
de todas as letras, o Tzaddi, o Siduto, o alimento dos deuses. Shamash e
Sin vagueiam os céus atrás deste alimento. Eles procuram nas terras do
Mundo Físico por homens e mulheres justos. Eles não se desviam em suas
jornadas, eles mantém-se constantes em seus caminhos. Homens e
mulheres devem ser como Eles. Homens e mulheres justos mantém o curso
de suas vidas no caminho da retidão, o caminho da lei - a lei da terra dos
homens, a lei do deus de cada homem e mulher. Sin é aquele que tem
poder por sobre a humanidade, a lei Dele prevalece contra os testes do
agora. Mas Shamash é o senhor das Terras das Alturas, e tem domínio
sobre Sin. (Não falai abertamente tais palavras, meu Senhor, elas são
perigosas.) O caminho entre um e outro é a senda do caçador da verdade.
Cada um é senhor ou senhora de seu espaço, mas todos devem
reverenciar Anu. O nada vem de onde ele tem origem. Ele é maior do que
Shamash e está acima de Sin. Mas aquele que acredita nas fés humanas
está sob domínio deles. O deus Sin governa os homens e mulheres ao
longo de toda vida, e, ao final dela, espera para comer a alma de homens e
mulheres. Ele parte os corpos humanos em pedaços e Shamash queima os
corpos humanos para testar a retidão dos mesmos. Shamash irá queimar
todas as impurezas, no teste de fogo para saber se restou algum ouro. O
ouro do homem justo leva-o de vida para vida. O Siduto deve conhecer
muitas vidas.

Todas as coisas vêm em seus próprios ciclos, como um ponto na roda que
retorna a seu ponto, mas que ainda não viajou. O raio das coisas é o limite
das mesmas coisas; onde ele começa, é para lá que deve retornar. A mulher
cresce depois de ser criança, e no interior dela cresce outra criança. Esta é
a compleitude do círculo. De semente a semente, de Ano Novo a Ano Novo,
das trevas para as trevas, da ausência do corpo para a ausência do corpo -
todos os finais e começos dos ciclos são um. Koof, macho e fêmea, dá
origem a machos e fêmeas, cada um cópia de seu plano. Reinos se
levantam. Eles caem. Impérios se levantam. Tudo é um ciclo. Todos os
bebês mamam no peito - quem os ensinou? Koof é o segredo da Mulher.
Macho e fêmea é o símbolo. Como ela sabe?

Sabei que um homem e uma mulher necessitam de uma boca para falar e
de nomes para as coisas. Pe é a boca. Pe rodeia e controla, mas a
verdadeira boca, onde está? Pois mesmo quando um homem e uma mulher
não têm boca, eles podem escrever e fazer sinais com os dedos. Onde está
a boca real? Ela está aqui. O homem e a mulher residem no coração de
seus corações, e o coração é a cabeça. Da cabeça, ele e ela falam - daí
eles e elas comem e bebem. A cabeça é a caverna e a abertura daquele(a)
que mora dentro. Este é o local de todo alimento.

Agora vem Rasu. Rasu é a cabeça, o líder, o ator, o local onde homens e
mulheres realmente trabalham e atuam. É ali que eles e elas começam,
onde tudo começa. E Sin é o mestre, Rimon é o mestre, o Resh. Entre eles,
tudo acontece e têm lugar na terra. É o primeiro movimento, o começo de
tudo. A partir de Rasu, tudo o mais pode ser conhecido. Sabei o começo e o
fim estará claro de se ver.

Minhas felicitações a vós, Príncipe do sangue.

CARTA 3 - CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DOS EFEITOS DE ISHTAR, A


GUARDIÃ DOS SEGREDOS, A AMANTE/AMADA, NO MUNDO

9 de Kislev

Honrado Senhor,

Vosso pai, o servo de Anu e Shamash, Senhor das Oito Direções, passou a
mim vossa resposta à carta anterior. Quem sou eu, vosso pai irá vos
responder. Vossos comentários sobre aquela visão do mundo não
misteriosa são interessantes. É preciso que eu vos relembre que todas
estas cartas passam pela mão de vosso pai. Ele está, portanto,
perfeitamente ao par dos conteúdos de nossa correspondência, e em outros
tempos, quando de sua juventude, vosso pai recebeu as mesmas cartas (1),
também a partir da mesma fonte.

O tema desta carta é Ishtar, a deusa de Shalim, a amante do gavião, do


leão, do garanhão e do herói; que mata a quem ela ama, cujas paixões
balançam o firmamento e os deuses, o Mundo Subterrâneo e seus
habitantes, que desvia os planetas de seus cursos e os sóis de seus
caminhos, através do jardim das pedras preciosas, que faz a nascer a
semente na estação correta, e que corta os frutos quando estão maduros.

Considerai o ciclo da água, começando vossas considerações onde


quiserdes. Nos céus, nuvens; na terra, chuva, da chuva para o rio, para o
oceano, para retornar às nuvens. Começai onde quiserdes, oceano, névoa,
nuvem, chuva, rio e fonte, oceano. O ciclo é sempre desta forma
perpetuado. Fogo vem do sol para o nosso mundo e penetra na madeira
para virar calor e vida, e a lenha queima para voltar à terra como cinza, para
os céus como fumaça, para o sol como luz; tudo retorna, muda e nasce
novamente.

Tomai a menor das criaturas que pode servir de alimento por uma mosca,
que é devorada por uma aranha, pega por um pássaro, que é morto pelo
homem, que dele irá se alimentar, sem antes limpá-lo, e cujos restos
voltarão de novo para o seio da terra. Ou considere então uma folha de
grama, que é comida pela lebre, que é morta pelo leão, e cujos restos
também voltam para servir de alimento à terra, que voltará a produzir
grama. Lembrai-vos também que quando morrem o homem ou o leão, eles,
por seu turno, irão alimentar a terra e as minhocas, ou moscas. Tudo o que
come também pode ser devorado, tudo muda, morre e renasce.

Um homem de mau humor é julgado por seus atos desde o momento em


que se levanta da cama de manhã. Ele atira suas sandálias no escravo, que
diz palavras rudes à criada, que não fez direito a limpeza dos alimentos e
desta forma enfurece o cozinheiro, que queima o almoço, enfurecendo
assim o homem de mau humor. Tudo é perpetuado. O rei passa uma noite
agradável, acorda cheio de energia, vendo sua casa e o que lhe rodeia com
bons olhos, tratando seus servos com gentileza, desta forma julgando as
petições de seus súditos com justiça, e estes retornam a suas casas com
esperança no coração e misericórdia para com seus servos. Assim se passa
mais um outro dia na cidade, um dia bem vivido.

E quanto aos mercadores e comerciantes? Eles compram tecidos que dá


trabalho aos costureiros e costureiras, que compram mercadorias para seus
servos, que são capazes de trabalhar para produzir tecidos, que os
mercadores vendem àqueles que deles necessitam, que pagam as taxas do
rei e dos sacerdotes, que empregam os artesãos que precisam comer, e
estes pagam os agricultores que plantam os alimentos. O ciclo se move e
se perpetua, seja qual for a esfera e a atividade, má ou boa, sempre tudo se
perpetua.

Mas se o rei guarda suas taxas no tesouro ano após ano, pagando pouco a
seus servos - o que acontece então? Os servos não poderão comprar os
bens dos mercadores, que não comprarão alimentos, não podendo então
manter seus servos, que não terão como viver, e portanto, o rei terá suas
riquezas diminuídas ano após ano. Aqui então está a razão para a abertura
dos armazéns reais a cada sete anos. O ciclo deve começar novamente.
Assim no começo, da mesma forma como no final do ciclo. Se o ciclo for
ruim, ele deve acabar e um novo começo deverá ser feito. Assim como o rei
toma do povo, ele deve dar de volta a seu povo. O ciclo deve ser
completado.

Os mistérios de Ishtar são simples. Dentro de todos os seres vivos existe


uma vontade, uma força interior que os mantém vivos. Famintos e abatidos,
sedentos e mesmo na ausência de todas as possibilidades, todos se
apegam à vida; mesmo quando toda esperança estiver perdida, há o desejo
de salvar as pessoas que amamos, iremos lutar por elas, mesmo sabendo
que a morte pode advir de tal tentativa, mas tal morte não pode jamais vir
para quem amamos. Entretanto, todos os seres vivos morrem, e sabemos
disso no íntimo. Causar um ferimento a si próprio é infringir-se uma
pequena morte. Temos, portanto, a razão para a mutilação dos servos de
Ishtar. Eles são trazidos, por dança, música e devoção a um estado onde
eles perdem toda concepção de quem e o que são, tornando-se veículos da
deusa. Ela não se importa. Suas paixões são a vida e a morte. Não são dela
o amor e a misericórdia. Nos cheiros, perfumes, dança e movimentos estão
baseados os rituais de Ishtar, e é desta forma com que seus devotos se
unem a Ela, de forma tão intensa que os homens irão cortar seus membros
e as mulheres irão copular uma com a outra, ou com pinhas, e correr pelos
lugares sacros da deusa, levadas pelo desejo de também se perpetuarem.
Portanto, os ritos de Ishtar são secretos, pois qualquer homem que entrar
nas salas do templo nesta hora terá de satisfazer sua necessidade ou pagar
uma pena. Portanto, guardas mantém os homens fora do templo, mas
dentro dele os seguidores de Ishtar. Na sua sabedoria, os sacerdotes de
Enlil, dando-se conta do perigo, instituíram o rito das mulheres na senda de
Ishtar, e a natureza animal dos homens e mulheres é liberada gentilmente
no contexto religioso. Portanto, os homens conhecem o estupro, e da
mesma forma o conhecem as mulheres; e conhecendo que eles podem
tomar seus papéis como homens e mulheres, eles desenvolvem o respeito
devido um pelo outro como seres humanos.

Agora, no tempo certo, vós ireis atuar como monarca nos ritos de Ishtar. Daí
a descrição que vos será dada agora. Vós estareis numa plataforma acima
dos devotos e acompanhado da Alta Sacerdotisa do templo. Ouvi e escutai,
oh Príncipe dos Príncipes. Vós tereis de permanecer no total controle de
vossos sentidos, pois de outra forma vós sereis impelido a juntar-se aos
devotos, onde vós tereis de ser o verdadeiro garanhão, pois não serão duas
ou três damas, mas vinte ou trinta, que desejarão acasalar convosco. O
trono e a Alta Sacerdotisa são vossa proteção, pois poucos príncipes ao
longo da história sobreviveram após Ter sucumbido a tais tentações. Prestai
o devido respeito à Alta Sacerdotisa. Não a tratai com desprezo, mas como
uma pessoa de status igual ao vosso. Ela deve respeitar-vos, ou então ela
irá desprezar-vos. Ela irá, pois é seu dever, tentar seduzir-vos. Vossa tarefa
será conter vossos desejos até a aurora do próximo dia, quando todas as
paixões da noite tiverem morrido. Então vós estareis seguro e podereis dar
de vós [para a Alta Sacerdotisa] como dá de si um rei a uma rainha, mas
não como um suplicante, pois nesta hora está em jogo vosso poder na terra.
Se estes conselhos forem seguidos, vós recebereis o nome de Amado de
Ishtar, e poderá recorrer à ajuda Dela como sacerdote, quando for
necessário.
Mas Ishtar é tudo isso e mais. Ela é aquela que Renasce Novamente. O que
é Ela, então? Nos cantos de vosso jardim vós encontrareis as pilhas onde
todas as plantas mortas, ervas daninhas e lixo, os dejetos de animais e os
rejeitos da cozinha são empilhados. Eles são cobertos por uma camada de
palha encharcada, e terra espalhada por cima. Cada pilha é deixada desta
forma descansar por um tempo, cerca de um ano, e então a pilha que era
só de rejeitos retornou ao solo de onde veio: solo bom, fresco e útil, e
vossos jardineiros irão dizer, melhor inclusive do que o solo de vosso jardim.
Sabei, portanto, oh Príncipe, que a morte é a fonte da vida, que a vida é a
causa da morte. Dumuzi, o Amando de Ishtar, deve morrer a fim de viver.
Anjos e demônios, planetas e deuses, todos devem comer e ser devorados.
Montanhas, oceanos, planícies, todos devem morrer; sementes, homens,
todas as criaturas devem morrer a fim de viver. O sol e a lua comem a terra,
e são devorados pelos deuses Enlil e Ea; Enlil e Ea são devorados por Anu,
que é devorado por Anshar e Kishar; estes são o alimento de Lakhmu e
Lukhmu, que por seu lado são devorados por Apzu e Mumu. Todos são
devorados por Tiamat, que fornece alimento para Rimon, o Deus da Terra
em todos os lugares do Munfo Físico.

Ishtar traz consigo a covardia e o heroísmo, a caça e a presa, a amante e a


amada. Dela, vêm muitos(as), e destes muitos(as) vêm Aquele/Aquela que
é Um/Uma. Vossos antepassados de tempos que se perdem na memória
são muitos, e eles vieram do Oannes/Adapa. Eles são como areia do
deserto, inúmeros grãos, eles todos deram origem a vós, o príncipe. De
muitos, nasce um. Vossa progenia, se Ishtar assim o quiser, extender-se-á
nos anos futuros, como as areias do deserto, e daquele que é um, virão
muitos.

Foi-nos dito que as estrelas sem número que vemos nos céus lá irão habitar
até o final dos tempos. Sabemos que quando um sol ou estrela morrem,
eles se vão num raio de luz após se comprimir até não poder mais, e então
voar numa miríade de partículas, cada parte achando um espaço onde
possa, no amplo firmamento, crescer e se expandir, e no tempo certo se
fazer como um mundo, tal qual o fêz nosso senhor Shamash.

Portanto, ao se voltar sobre si mesmo como um coração batendo no corpo


de sua própria terra, Shamash nosso senhor com seus órgãos atendentes,
os planetas, cada um do seu jeito e a uma diferente batida, inclui todos eles,
sendo maior do que todos os planetas que engloba. Quem souber da sua
grandeza, saberá do começo e do fim da humanidade, e quem souber dos
ritmos dos órgãos de Shamash, conhecerá Ishtar. Pois a Estrela Matutina e
a Estrela Vespertina são uma. Com orgulho, Ela vem antes de Shamash e
com humildade, segue-o na direção da escuridão da noite. Mas ela, Ishtar,
bate para Shamash o ritmo que ele deve seguir.

Nela, em Ishtar, está o princípio de que o poder que não foi usado deve, por
necessidade, retornar novamente. O que não é usado, retorna, como um
martelo volta para uma outra batida ao bater com força num prego. Da
mesma forma com o poder que, se não for usado, volta à fonte. Este
princípio é visto com bastante clareza naquele que trabalha com pedras ou
metais, pois estes artesãos criam com pouco esforço um ritmo certo para
trabalharem durante todo dia. Vós, quando cavalgais, também vos
acomodais a um determinado ritmo, que poderá vos sustentar muito depois
de suas forças terem-se esgotado numa longa jornada. Observai o soldado
que luta com a espada ou lança, trabalhando com suas armas num ritmo
adequado. Aprendei, pois, que ritmo varia de substância para substância, de
pessoa para pessoa. Observai o ritmo com o qual vós fazeis amor e chegai
ao clímax. Tomai todas as ações de acordo com este princípio e vós
descobrireis que quando vós alcançais o ritmo de qualquer matéria, o
esforço de sustentação torna-se fácil.

Mas todos os ritmos têm um fim, este é a morte, e tudo tem um (re)começo.

Notas Carta 3:

1. Esta passagem ilustra o caráter inciático do treinamento do futuro


sacerdote-rei, que é acompanhado pelo seu predecessor. Também afirma
de forma inequívoca que existe uma tradição orientando tal formação, pois a
passagem diz que o rei atual, em sua juventude, também recebeu as
mesmas instruções, através de cartas, de um(a) mestre escolhido(a).

CARTA 4 - A LEI E SEU GOVERNANTE, NERGAL, SENHOR DO MUNDO


SUBTERRÂNEO, MESTRE DOS LIMITES DO MUNDO CRIADO

Cumprimentos ao Príncipe da Casa das Quatro Direções.

Meu rei e senhor vosso pai disse-me que vós fostes bem sucedido no teste
da casa de Tanit. Portanto, os sacerdotes de Ishtar irão aceitar-vos como
irmão deles. Nossas instruções são de continuar com algumas notas sobre
a natureza de Nergal.

Nergal, o deus de Saveh, do obscuro, do certo, da justiça dos deuses, o


deus da Guerra, o ceifeiro, aquele que ara o solo, patrono dos limites e das
leis dos homens. Ele é aquele que queima e destrói, que rejeita e julga.
Jogai uma semente de milho na terra: se o solo for bom, houver água, e o
sol for benéfico, e os ventos gentis, esta semente irá crescer neste local.
Em outro solo, isto pode não acontecer. Em bom solo, a forma da planta

Olhai os animais nos campos, pequenos e rápidos, que se alimentam


rapidamente e dormem sonos curtos. Animais maiores são mais vagarosos
e mais fortes. As bestas de tamanho médio e presas, vivem de outras
presas menores. Animais longos e esguios, rápidos, que vivem nas águas,
nadam rapidamente. Gordos e lentos, que se arrastam na lama, ou aqueles
que vivem em águas doces ou salgadas, quentes ou frias, cada animal de
acordo com a sua espécie. E quanto aos pássaros do ar? Alguns têm asas
largas para voar mais alto, mas são lentos na terra. Os pássaros de asas
pequenas, no entanto, são muito velozes. Quanto maior a asa, mais lenta
será a batida das mesmas; quanto menor o pássaro, mais rápida será a
batida de suas asas, e um exemplo destes é o pequeno beija-flor, que bate
suas asas tão rápido que nossos olhos não podem acompanhar seus
movimentos: só nossos ouvidos percebem a rapidez do movimento. Alguns
animais são como flechas, alguns são gordos e grandes para caminhar ou
nadar, mas todas as criaturas são a variação de um tipo. Cada um tem uma
qualidade de excelência, para que haja um equilíbrio na natureza. Cada um
tem o seu tipo de alimento: o veloz caçador de animais, os corredores
velozes dos caçadores, aqueles que se alimentam de pasto, os que se
alimentam de detritos. As patas rápidas dos corredores só podem ser
usadas para correr. Os animais caçadores são velozes e rápidos por pouco
tempo, e suas presas e dentes não podem ser usadas para pastar. O
homem não é nem rápido ou sorrateiro ao dar um bote, não tem chifres para
defesa, não tem presas com as quais poderia matar. A visão da águia é
muito mais precisa, o olfato do cão mais acurado; mas o homem é o senhor
de todos os animais e os utiliza para obter alimento, proteção e calor.

Nergal, como todos sabem, é mostrado com a aparência de um guerreiro


lutando pelo que é direito e precisando fazer sempre isto, e esta é a Lei.
Vejamos como isto pode ser. Imaginai que em nossa cidade exista um
homem que decide que irá tomar para si mesmo tudo o que desejar. Ele
precisará estar sempre lutando, pois não importa quão forte ele possa ser,
sempre haverá alguém convencido que será capaz de derrotá-lo, e que
tentará fazer realmente isto. Deveras, não importa quão forte um homem
possa ser, sempre haverá alguém mais forte, mais rápido, mas ágil e mais
esperto. Ele precisará estar sempre em guarda, pois se tornará alguém à
margem da lei. Nossa terra é colonizada por muitos homens e mulheres que
vivem juntos, todos sob e obedecendo uma lei comum. Se alguém rejeitar
tal lei, ele terá, por necessidade, tornado-se sujeito a mais e mais leis, a leis
mais rígidas. Se ele ou ela roubarem de uma pessoa forte, ele ou ela devem
temer a derrota. Se ele ou ela roubarem dos pobres em público, as pessoas
poderão atacá-lo (la). Se ele ou ela roubarem e fingirem que não o fizeram,
ele ou ela devem temer serem descobertos, e mesmo quando ele ou ela
tiverem a posse destes bens, ele ou ela devem dispô-los ou vendê-los a
alguém que irá se expor ao risco de ser descoberto, pagando portanto por
estes mesmos bens menos do que um quarto do valor destes mesmos
bens. Mendigos e contadores de contos/vantagem irão observar tal ladrão e
por recompensa, informar aos oficiais do rei, e então tal ladrão ou ladra
podem perder a mão ou mesmo a vida. As mulheres deste ladrão serão
uma fonte de fofoca e perigo. Se um ladrão maior souber dele, este ladrão
pode até mesmo pedir uma parte do roubo para si.

Considere o homem que inveja os bens de seus companheiros. Tudo o que


estes possuírem será objeto de desejo de tal homem, e ele irá sofrer e tecer
mil esquemas para obtê-los. Sua vida não será feliz, pois sempre haverá
alguém que terá mais do que ele. Ele pode inclusive chegar a Ter inveja da
riqueza do rei, e de um grande país. Para conquistá-los, ele deverá
convencer mais e mais pessoas de que o desejo destas equivale ao seu
desejo, mas mesmo assim, à medida em que este homem insatisfeito
crescer, haverá aqueles que o invejarão e desejarão possuir o que ele tem,
tendo ele de viver eternamente em guarda para não perder o que tem.
Inveja irá devorá-lo, e eventualmente possuí-lo, de forma que ele não será
mais um homem, mas a personificação da inveja.

Imaginai um homem ou mulher que mintam para seus companheiros. Então,


seja o que for que ele ou ela ouvirem a respeito de outrém, ele ou ela não
poderão acreditar, pois sabendo como ele ou ela mentem, como poderão
confiar em outras pessoas? Ninguém, à medida em que o tempo passar, irá
acreditar neste homem ou nesta mulher, pois a palavra deles irá ser vista
como falsa, e ele ou ela serão rodeados por mentiras e possuídos por elas.

Todos os homens e mulheres têm um pai e uma mãe, em todos os seus


órgãos, nos ossos, no coração, no sangue, coração e mente. Um homem
que rejeita seu pai ou mãe rejeita parte de si mesmo, ele se divide contra si
mesmo. De si, ele adquiriu pensamentos e sentimentos e formas de agir
com aqueles que o cercam. Isto inclui seus pais, que fizeram muito por ele.
Imaginai que de sua mãe ele tenha adquirido uma atitude para com seus
entes queridos que seja gentil, mas como tal homem não gosta de sua mãe,
então quando com seus entes queridos, ele irá lembrar de sua mãe, de
quem ele não gosta. Este fato irá afetar grandemente a vida deste homem.
Justiça ocorre no momento da ação, pois fora ou dentro, a divisão divide o
homem contra si mesmo. Ele não poderá desenvolver foco, pois dentro de
si haverá um outro homem, gritando, lutando uma batalha. Esta será uma
tarefa impossível, e este homem forçosamente irá ser derrotado por ela,
mostrando também derrota no que se aventurar a empreender.

Agora, consideremos os deuses e suas naturezas, mas é muito importante


que vós, como filho do rei, vos conscientizais de que um dia vós tereis de
mediar entre os seguidores destes diferentes deuses, todos os quais
estarão convencidos da superioridade do deus ou deusa de sua escolha. A
resposta para esta questão deve ser para vós, como monarca, ver
claramente que a figura de muitos deuses e deusas não pode ser
verdadeira, pois se damos superioridade a Anu, o que será de Apsu, que
indiretamente deu à luz a Anu? Todos os deuses e deusas devem ser
aspectos da necessidade, deve haver uma única fonte verdadeira, um único
todo real que inclui todos os aspectos. "Aquele/Aquela" deve ser e não ser,
deve ser bom e seu oposto, antes e depois, presente e inclusive.

Este tema está sendo discutido sob o deus Nergal, que é necessidade. Seja
qual for o aspecto DAQUELE/DAQUELA que está sendo adorado(a) como
o(a) maior por um indivíduo, isto acontece por uma necessidade do
indivíduo, e inevitavelmente, os sacerdotes e sacerdotisas daquele aspecto
serão considerados por este mesmo indivíduo como os mais importantes da
nação. Monarca algum poderá governar de forma adequada, se privilegiar
uma parte da nação em detrimento de outra(s). Pois, ao fazer isto, o rei
estaria privilegiando interesses que poderiam levar a rebelião. O rei deve,
portanto, ser um devoto DAQUELE/DAQUELA cujo Nome não pode ser
pronunciado, porque compreende Todos/Todas. Desta forma, o monarca irá
manter dentro de si mesmo o equilíbrio entre as diversas facções , todas as
quais representam aspectos do Todo/Toda, e que devem ser igualmente
consideradas pelo rei.

Este fato faz as coisas mais fáceis para o rei. Será suficiente que ele
mantenha o equilíbrio entre os diversos ramos das religiões, a fim de manter
o equilíbrio da nação. Sendo um devoto do Todo/Toda que é, adotando esta
visão de pluralidade e unidade, ele saberá que homem algum poderá por si
só representar o todo/toda. Ele não precisará ser outra coisa, senão um
homem completo, ou seja, um ser como um todo, sabendo que tem dentro
de si todos os mundos, visíveis e invisíveis. Ele não precisará temer a
transformação em qualquer aspecto, pois um aspecto é apenas um aspecto,
e ele não precisa acreditar ou se transformar neste mesmo aspecto, `a
exclusão de tudo o mais. As imagens dos deuses serão vistas como
dependentes dos seres humanos, sendo feitas e animadas por eles. O
monarca deve ver em grande escala o que acontece em pequena escala a
cada dia. Olhai como uma criança se transforma num escriba, observai
como ela adquire os maneirismos e o discurso, como a imagem do escriba
cresce dentro dela até ela se transformar realmente num escriba. Vontade é
a chave para a realização de qualquer desejo, e não se deve esquecer dos
motivos pelos quais somos impelidos para fazer algo, ultrapassar nossos
limites, se não quisermos encontrar o braço da justiça mais tarde à nossa
frente.

Aqui está o núcleo da lei: é preciso tomar as vestimentas do ofício para nos
transformarmos no ofício. Algo que um rei jamais deve Ter é orgulho. Ele
deve caminhar sozinho, de forma que o dever do ofício real seja executado
baseado na natureza das coisas, e não no orgulho ou crença de que a ação
tomada seja a mais importante e melhor dentre uma miríade de
possibilidades. Tudo está relacionado e tudo se equilibra pelas limitações
que o todo impõem ao se relacionar com o que o cerca. A natureza de uma
coisa forma a limitação desta coisa.

Contamos às nossas crianças os feitos de grandes homens do passado,


cujos feitos pensamos ser grandes e nobres, exemplos para as gerações
futuras. Os heróis tem muitas coisas em comum: eles encontram
dificuldades que ultrapassam com força de vontade quase super humana
contra forças superiores ou deuses e deusas. O herói é tentado, erra, paga
o preço, e mesmo assim segue em frente, até vencer ao final. Suas
fraquezas humanas o traem pelo menos uma vez, mas ele não deixa que
elas o detenham em sua senda. Agora, os demônios que ele deve
ultrapassar são seus próprios desejos. Um herói estende os limites de um
ser humano para além do normal. Há muitas formas de heroísmo. Há
aquela forma que representa uma magnífica estupidez, onde o herói nada
alcança, salvando nem mesmo sua vida ou a de seu povo, mas levando
consigo até a morte tantos inimigos quanto possível. Ele irá lutar no Mundo
Subterrâneo a batalha que não venceu, pois se diz que quando uma pessoa
morre, tudo o que ela fez é-lhe apresentado, para ver se ela irá lamentar ou
não suas ações. Se ela lamentar e querer coisas que não conseguiu fazer
ou os erros que cometeu, então este é o peso que tal pessoa deve carregar
até a próxima vida. Aqui está o núcleo da justiça: os assessores do inferno
visitarão cada um por seus crimes, e de acordo com seus amores e ódios,
homens e mulheres serão atraídos pelos mesmos eventos, até o final dos
tempos, até que as ações de sua vida não estejam cheias de máculas.

Aromea foi grande, mas ele também teve de pagar por suas ações. Cada
ação acarreta um resultado [diferente]. Ouvi e lembrai, oh príncipe.

Quando um homem ou mulher tomam uma coisa por outra, em geral é a


mentira que ele ou ela desejam abraçar. O ser que busca a perfeição vê
tudo o que acontece com clareza, à medida que se processam os
acontecimentos. Ele ou ela não mentem para si mesmos, nem se torturam
com o que poderia Ter sido, ou desperdiçam pensamentos com lamentos
sobre o passado. O que foi, passou e a única forma de mudar as
circunstâncias é viver o presente, pois é no presente que age a justiça, no
imediato. Para os seres humanos, os eventos exteriores levam tempo para
se resolverem, mas os eventos internos ocorrem à medida em que atuamos
sobre eles, não existe demora pois quando o martelo bate, dá-se a a batida.
Esperar que as coisas sejam de outra forma é esperar que o mundo seja
diferente de sua própria natureza. Necessidade é o eixo da carruagem dos
deuses e deusas, e Nergal é este eixo. Vire a parte de cima da roda e a
parte de baixo vira. Nergal é a roda. Não se pode fugir dele, e portanto, ele
também é chamado de Cruel.

No reino, nossas leis devem refletir esta inevitabilidade. As penalidades


devem ser claras, rápidas e precisas. Quando as pessoas sabem que a
justiça será deles de forma rápida, elas ficarão satisfeitas, pois saberão que
esta será imediata dentro de si, uma vez que a aplicação da lei é precisa no
exterior, na terra e na localidade onde vivem. Que não haja alguém superior
à vossa lei. Portanto, certificai-vos de que vossos oficiais e juízes sejam
homens e mulheres fortes, homens e mulheres que não se curvem ante o
dinheiro ou favor. Apoiai as palavras e as penalidades que eles enunciarem,
mesmo contra os maiores poderes da terra, mesmo contra os sacerdotes ,
reservando-vos a vós somente a prerrogativa da misericórdia. Desta forma,
fareis vossas ruas seguras, vosso povo contente. Que eles saibam de forma
inequívoca, pois vós lereis em para eles, por proclamação, regularmente as
limitações pelas quais a lei de vossa nação se impõem sobre as ações de
vosso povo. Quando a lei for conhecida, vosso povo irá se certificar de que
ela seja seguida à risca.

Meu senhor, uma das grandes belezas da natureza apresenta-se agora


para vossa apreciação: quando há leis para serem obedecidas, estas leis
são continuamente testadas por homens e mulheres para atestar sua
validade ou não. Uma lei que não tenha base na lei natural será
continuamente quebrada, e vossos juízes não serão capazes de administrá-
la. Uma lei que é mista, boa e má, será evadida, não quebrada de fato, mas
em espírito. Revisai, portanto, vossas leis continuamente. Quando houver
evasão da lei, vós devereis reformulá-la. Vossas leis são quebradas, em
parte ou no todo, pelo povo? Então é uma lei que só beneficia alguns e
deve ser mudada.

Aqui podeis ver como manter a lei em bom estado. Pois a lei é tal qual o
solo e o clima para os seres humanos, onde as plantas dos homens podem
ser reguladas para que possam crescer e dar frutos, cada um ou cada uma
da forma que lhes for melhor, à luz de outras e com estas mesmas outras
plantas. Como ocorre com o jardineiro, se ele permitir demasiada liberdade
a certas plantas, algumas poderão ocupar pouco espaço, mas outras terão
de ser rigorosamente podadas. O jardineiro deverá tirar as ervas daninhas,
aguar e cuidar de certas plantas com maior atenção para que o jardim seja
mantido em ordem, e que o caos da natureza, o estado primitivo, seja
mantido à distância.

Numa sociedade, há inúmeras profissões. Quando um menino torna-se um


aprendiz numa profissão, ele começa a aprender a usar instrumentos, e o
aprendizado envolve aprender as limitações dele mesmo e de seus
instrumentos, de forma a não ser dominado por um ou outros. Por exemplo,
a linguagem escrita de nosso vizinho do Leste é governada pela pena que
usam os escribas e o material, argila, também usado por eles para fazer as
suas marcas. Diferentes materiais exigem diferentes ferramentas, portanto
cada pessoa aprende e estuda os materiais sobre os quais irá exercer sua
profissão. Vossa tarefa é estudar e aprender as limitações e leis destes
instrumentos. Artistas, administradores, mercadores, artesãos,
trabalhadores, soldados, escravos, todos têm seu lugar e uso. Em vós, oh
Príncipe, deve haver o rei e a imagem deste mesmo rei. Vossa profissão é
ser um conhecedor de homens e mulheres, para saber melhor usá-los a
serviço da nação. O administrador que delega tarefas, aquele que gerencia
o tesouro, aquele que molda homens e mulheres, o trabalhador do reino, o
agricultor-servo dos deuses e deusas.

Todas as mensagens passam através de Nabu. Mas as mensagens do


ápice das experiências humanas são formadas por Nergal. Quando vossa
mente sobe até a região onde apenas sopram os Ventos Sagrados, e vós
apreendeis coisas de conteúdo maior do que vossa mente pode apreender,
coisas que têm a certeza do Conhecimento, da Compreensão e da
Habilidade, então, dados o Dom de Marduk do amor e da misericórdia,
Nergal, ao estabelecer os limites de vosso conhecimento e julgamento
ordinários, dará forma e conteúdo a esta expansão da experiência do
cotidiano e ordinário. Este é o Dom da escuta, o Dom dos oráculos, o poder
da profecia, pois nossos pensamentos nesta hora têm o poder do heroísmo,
eles quebram os grilhões da conversa do dia-a-dia e dão certeza e força a
todos nós.

O homem e mulher habilidosos, que repetem o que lhes foi ensinado podem
reproduzir fielmente o que outros viram, mas o trabalho deles torna-se rígido
e não mais inédito, perdendo caráter o caráter de inovação. O homem e
mulher habilidosos que aprenderam a usar seus instrumentos de trabalho e
que possuem conhecimento do mundo que lhes rodeia, além de se
conhecerem a si mesmos, podem estender (e realmente assim o fazem!) os
limites da capacidade humana. De tais homens e mulheres até os deuses
têm um pingo de ciúmes, pois ele/ela são verdadeiramente criadores,
fornecendo à mente humana novos limites e novos instrumentos. Considerai
aquele que pensou na roda como um meio para se obter movimento, ou
aquele que acoplou velas a um barco. Tais seres expandiram os limites
humanos. Num caso, a carruagem, o moinho d'água, a roda do oleiro; no
outro caso, a força do vento ajudou-nos a nos mover até onde o vento pode
nos levar, além de nossas forças ao só remar. Cada homem e mulher livre
devem Ter lazer, para que ponderem sobre as formas através das quais
podem expandir seus limites; escrever em argila ou na casca das árvores
permitiu que os pensamentos humanos possam ir a muitos lugares e ainda
fazer com que tais pensamentos permaneçam imutáveis. Sem a escrita,
nosso mundo do presente poderia não existir; contratos não poderiam ser
feitos com certeza, nem os pensamentos de nossos ancestrais conhecidos
com tanta clareza.

Todos os instrumentos e esquemas humanos devem ser usados para a


liberação de todos os homens e mulheres. É verdade que para o ignorante
tais instrumentos podem ser um meio de escravidão, mas esta é a natureza
humana, esta é a lei, o julgamento que homens e mulheres fazem de si
mesmos. Ignorância é sempre e em todos os lugares uma espécie de
grilhão, e podeis ver que o criminoso citado acima trabalha com a
ignorância. O ignorante não sabe da força interior que deve movê-lo, e
medo é a causa da ignorância, sendo portanto o medo a marca da
ignorânica. Seja o que for que causar medo no homem, causa também
ignorância, trazendo o julgamento de Nergal sobre si. O soldado não teme a
espada, nem o arqueiro a lança. O sacerdote não teme a subida ao
sacrifício ou a voz do deus ou deusa da estátua.

Nergal é aquele que queima, o destruidor, pois esta é a última limitação.


Quando alguém morre, ele ou ela, se forem temerosos, irão queimar nas
chamas de seus terrores. Ele ou ela serão partidos pelos cães de seus
próprios desejos não realizados, cortados em pedaços por suas culpas, até
que tudo ao que ele ou ele se apegaram seja purificado e que reste um
pouco, só um pouco de metal, que pode ser ouro, ou cobre, ou mercúrio,
prata ou mesmo chumbo. Este teste acontece cada vez que respiramos e
expiramos, pois a cada respiração uma pessoa morre e renasce a cada dia
renascemos para uma nova manhã e morremos para a vida no sono que
vem com cada anoitecer, onde nossos sonhos podem nos atormentar e
desafiar com as lembranças do que fizemos durante o dia. Aqui, devemos
ser como heróis e heroínas, caminhando sem medo nas trevas de nosso
Mundo Subterrâneo particular, sendo ridicularizados pelas leis contra as
quais nos insurgimos ou quebramos. É nesta esfera que encontramos os
demônios que nós mesmos criamos, que devemos lutar as batalhas que
tiveram lugar durante o dia. Esta é a justiça: devemos receber os
julgamentos que passamos a outros, experimentando-os em nós mesmos.
Somente coragem e constância na verdade e no discernimento são as
armas que dispomos ali.

Mas o que um homem e uma mulher sentem dentro do coração pode não
ser verdade, pois eles podem Ter carregado dentro de si ao nascer os
pesos de seus antepassados, portanto sejai sempre cauteloso, pois vossa
própria natureza pode ser a causa de erro. Deve-se aceitar o passado, tal
qual ferimento que ocorreu no passado, e cuja cicatriz ainda carregamos no
presente. Se a natureza de um homem ou mulher for marcial, ativa, cheia
de vida, facilmente movida pela zanga ou riso, é quase certo que ele ou ela
irão juntar-se a seus iguais, naturalmente desprezando aqueles cuja
natureza é mais circunspecta, sisuda, mais lenta e constante, não capaz de
muitos risos. Crer que homens e mulheres são semelhantes a nós mesmos
é um erro, um ato de ignorância, mas dentro do coração podemos supor
que tal erro é uma verdade. Portanto, vemos aqui como nossa própria
natureza pode nos colocar em erro. É necessário que desenvolvamos a
visão interior para que dentre todas as miríades de sensações que ocorrem
em nossas vidas que parecem ser verdadeiras, possamos ver o que
realmente é verdadeiro, sabendo ver as diferenças não como julgamento,
mas como observação. Nergal tem a desvantagem da certeza, e ele pode
voltar as costas para o que não lhe parecer ser correto. Ele cria as
limitações de todas as coisas, pois é tanto o protetor como o destruidor de
tudo. Considerai a casa de uma noz, ou a casca de qualquer coisa, esta
casca protege, e ao proteger, limita: a casca de uma árvore, a forma de um
homem ou mulher, a ponta de uma faca, todos são invólucros da matéria
que tanto protegem como limitam; este é o equilíbrio da necessidade, todas
as coisas que existem possuem limites. Mesmo um herói ou heroína ou
semi-deus ou semi-deusa são apenas seres humanos em larga escala.
Sabei a forma, e as leis que governam tal forma poderão ser postas em uso.
Mas um homem ou mulher são maiores do que suas próprias naturezas.
Somente se ele ou ela tiverem habilidades em ação, compreensão e
conhecimento, e amor, suas naturezas poderão ser mudadas.

Um monarca deve saber com certeza nascida de dentro de seu íntimo:


espada chama espada, justiça traz justiça, fraqueza causa fraqueza, as
forças de qualquer espécie também contém fraquezas, pois pela própria
força ela pode ser aprisionada.
CARTA 5 - MARDUK, O MAGNÍFICO, AQUELE QUE SEMPRE SE
EXPANDE, A FONTE DE PODER. OS PRINCÍPIOS ATRAVÉS DOS QUAIS
ELE OPERA, SEUS EFEITOS SOBRE A CRIAÇÃO.

Quem é este que brilha na manhã do mundo, mais radioso do que mil sóis,

Cuja voz se espalha até os confins dos céus, como trovão.

Aquele que desperta os ventos, prendendo o caos para fazer os mundos,

Contra ele, quem pode ou poderá?

Atirador de trovões, Amado por Enlil, Filho guerreiro de Ea,

Ele é o Amante que espalha amor por todos os lugares,

No amor, tudo e todos crescem.

À beira de um lago límpido, pegue uma pedra,

Jogando-a para o centro das águas.

Veja-a entrar nas águas, veja a fonte se erguer, espraiando-se na


superfície,

Veja os círculos correrem, sempre maiores e mais amplos,

Maiores e mais devagar eles se espraiam,

E quanto maiores na água, mais longe eles se formam, em círculos cada


vez maiores,

Em ondas mais e mais pequenas.

De Marduk é o poder da água que se espraia, Dele é a força que move,

Ele, o amante que dá vida a tudo o que os seres vivos podem ser.

Ele é a onda na água, o coro da aurora, a luz que desperta, a espada que
divide, o poder que tudo une.

Quando o sacerdote que muito trabalhou, que lutou contra o sono


Passar pelos guardiões que falam ante o Senhor,

Vindo da escuridão que é apenas luz escondida,

Tendo a coragem para lutar contra os deuses dentro dele,

E assim dar um passo na escuridão,

Sabendo que o amante está dentro,

O sacerdote abre os olhos para o amante, curvando o pescoço ao poder

Que mantém as coisas que podem ser

E que mantém sobre o altar tudo ao que o sacerdote mais dá valor

Ao Senhor da Luz interior,

Falando as palavras de submissão que dão entrada à presença do dele,

Marduk, Aquele que Acabou com o Caos, o grande mestre da noite,

Irmão do herói, Sacerdote Rei de todos os sacerdotes,

Aquele que tentou Erish Kigal, o Guerreiro de Enlil,

Ele, o Rei do Portal da Vida,

Então o sacerdote, com o coração inflamado no peito,

Ser um com o amor de Marduk.

Vós deveis por agora Ter aprendido a cantar estes cânticos no serviço de
Marduk. Agora, ouvi o significado dos mesmos, pois nós falamos em
parábolas e canção, e penas desta forma Marduk pode se dar a conhecer.

Tomai um jovem que está aprendendo uma profissão. Que ele seja um
aprendiz de mercador. Ele irá trabalhar por entre as mercadorias, sentindo e
crescendo no aprendizado e conhecimento das mesmas. Ele irá aprender
seguindo as ordens de seu patrão, trabalhando nos pontos de venda deste.
Se ele vender bem, seu patrão irá favorecê-lo e confiar aos cuidados dele
mais e mais trabalho, mais coleta de mercadorias, escolhas e trocas. Ele
aprenderá a viajar, em busca das melhores fontes. Ele aprenderá a ouvir ao
que motiva as pessoas, e usando o que já sabe, tornar-se-á mais flexível,
capaz de avaliar as necessidades de seu patrão e das pessoas a seu
serviço. Caso o mercador desejar expandir seus negócios para outros
locais, ele pode deixar o jovem, agora homem feito, para administrar o
ponto de venda. O mercador estará satisfeito com seu empregado e antigo
aprendiz, e pode pedir que este realiza uma viagem. Uma vez feita esta
jornada, o jovem mercador pode desejar também comerciar defendendo
interesses de outros. A fortuna irá lhe sorrir, pois ele não tem tempo ou
paciência com desordeiros, fazendo suas jornadas pelo lucro pessoal e para
seu patrão. Ao fazer o negócio de seu patrão prosperar, ele também irá
aprender a julgar os homens, fazer muitos amigos no comércio e muitos
bons contatos para os negócios. A palavra do jovem mercador terá valor. As
pessoas virão até ele com confiança, pedir-lhe para resolver problemas do
momento em benefício deles. Ele irá aprender a lidar com os soldados e
coletores de impostos. A palavra do jovem mercador será a expressão da
verdade. Seu patrão irá então dar-lhe a liberdade, pois como um homem
livre ele trará mais benefícios para seu mestre e patrão. Ele irá agregar mais
comércio ao seu redor. Os servos do rei ouvirão suas palavras. Ele saberá o
valor do silêncio. O jovem mercador irá então casar-se e fazer sua casa na
cidade. Sua casa será bem conhecida. Ele não se gaba ante seus
companheiros, nem irá cobrir suas filhas e esposas com jóias e ouro em
demasia para atrair a atenção. Ele irá adquirir servos e fazê-los trabalhar.
Suas palavras terão o Dom da discrição. Assim, ele terá negócios em
muitos lugares. Os servos do rei darão valor à palavra dele. Ele viajará para
outras terras, indo de cidade em cidade. Os sacerdotes adorarão seus
presentes para os deuses. Seus negócios irão se expandir.

Ele vai até a beira do mar. Ele faz amigos dentre os marinheiros que se
arriscam nos oceanos. Ele faz amizade com eles. Ele viajará por sobre
oceanos salgados até terras distantes. Ele obterá a confiança daqueles com
quem fala. O rei o escolherá como embaixador. Sua palavra é verdade, sua
discrição é preciosa. Ele é amado por homens e mulheres. Ele cresce. Ele
não briga. Seus olhos sabem escolher o que importa. Ele faz suas posses
crescerem. Seus filhos seguem seus passos. Ele decide e trabalha por
causas importantes. Ao morrer, ele será lamentado em muitas cidades, pois
ele fez amigos aos milhares e servos às dezenas de milhares.

Na sua vida, este homem mostrou o poder de Marduk, que lutou contra o
Caos, pois ele foi amado por muitos, e o poder do amor espalhou a ordem e
a força entre as nações. Se ele tivesse sido fraco, ele não teria prosperado.
Quando ele se curva, ele prestou homenagens, mas jamais fez uma
homenagem falsa, portanto foi sempre respeitado. Os membros de sua
casa seguiram suas palavras, pois eles o amaram, sem desprezá-lo. Acima
de tudo, este homem despertava confiança. Confiai em Marduk e vós
também merecereis a confiança de outros. Não vos dirijais porém ao grande
deus em assuntos menores. Lembrai-vos que um pouco de brilho,
maquiagem, olhos e dentes brilhantes, mentiras encobertas não inspiram
confiança. Mas confiai no Senhor Marduk. Ele estará à frente de vossa mão
direita. Ele irá erguer o pescoço que se curva. A influência do deus jamais
se esmorece, pois ele estará sempre convosco. Dele é o poder para curar,
ele é o batalhador contra mentiras e desordens.

Portanto, oh príncipe, podeis contemplar o poder civilizatório de Marduk.


Vejai nas ruas de vossa cidade um jovem e uma donzela. Ele brilha ante as
pessoas como sol em seu esplendor e ela como a lua, tem a sua face
voltada para seu amor. Quando eles passam, os velhos sentados às portas
de suas casas sorriem. As senhoras idosas deixam de fazer reclamações.
Olhai o mercado, à medida em que eles caminham, os sorrisos nas faces
das pessoas, espalhando-se por onde quer que eles forem. Vejai o brilho
dourado que os envolve como se fossem um, que é a marca do poder de
Marduk. Não é o poder de Ishtar, que é mais auto-indulgente, mais fogoso,
mais sujeito às suas circunstâncias. O poder de Ishtar pode levar à paixão e
violência; o poder de Marduk dá paz a todos.

Vosso pai deve Ter-vos dito que é necessário que vosso julgamento seja
firme e rígido, pois isto quer dizer agir com presteza e certeza.
Magnanimidade é um Dom da realeza, mas sua medida deve ser controlada
com perfeita exatidão. A razão para tal pode ser vista quando se observa as
conseqüências da indulgência. Imaginai um servo muito amado que
quebrou a lei e que é levado ante a vós para justiça. É fácil para vós ser
bondoso, mas o que os outros servos, aqueles que não vos são tão caros,
irão pensar? Eles irão achar que as leis não deverão ser seguidas. E o
povo, vendo o desrespeito de vossos servos pela lei, não irá mais vos
obedecer ou às leis de nosso país. As comportas estão abertas. Cada um é
livre para procurar seus próprios objetivos e fins, e precisarão ser seus
próprios juízes, soldados e reis. O povo estará dividido entre si e assim
também será a nação.

Vosso pai pode desejar expandir seus domínios. Ele pode soltar o exército
como gafanhotos na terra. Quem irá impedí-lo desta vez? Ele poderia
capturar escravos e receber muitos resgates pela glória de nossa terra. O
exército de vosso pai poderia fazer muitas pilhagens. Mas onde acabariam
as conquistas? Deveria ele continuar até a terra dos Elefantes? Até as
terras dos homens de pele amarela? Até as terras das geadas e da neve?
Até todas as costas do Mar Interior? Quanto mais longe nosso monarca
levar nossos exércitos, mais longe ele estará do centro do poder, da fonte
das decisões. O tempo entre um evento, a circulação de notícias e a
resposta aos eventos seria maior. O incentivo para os líderes da guerra
julgar e agir por si mesmos seria maior; como eles confiariam mais e mais
em suas p´roprias decisões, mais e mais eles ficariam convencidos em suas
próprias habilidades, e alguns inevitavelmente tentariam ganhar coroas para
si mesmos. Grandes porções do exército teriam de ser deixadas nos
centros das terras conquistadas para manter a ordem, e isto enfraqueceria o
centro da nossa terra.

Toda grandeza é perigosa. Quando a terra treme, todos perdem as suas


fundações, as cidades morrem; os oceanos perdem seu lugar. Quem sabe o
caminho do raio; quem pode criar o rolar do trovão? Quando chega o
dilúvio, o que podemos fazer? Qual é a grandeza do homem frente a estes
acontecimentos? O homem pode prender os ventos ou largá-los como ele
laça os laços de seus sapatos? Quando caem as grandes chuvas, onde
está a habilidade deste mesmo homem para lutar as grandes batalhas? As
chuvas vêm, e o homem está impotente ante elas. Elas se vão, e o homem
permanece para fazer os reparos ao que foi deixado pelas águas. Face a
Marduk, o homem é como pó. O homem é o solo na argamassa dos
deuses. O coração de Marduk tem amor por suas criaturas, pois seu poder
é retirado depois de um tempo; tudo passa, esta é a misericórdia do deus, a
promessa dele para nós. Ele jamais irá retirar sua misericórdia de nós. O
raio de Marduk viaja por sobre e além das montanhas, e a voz de sua luz
fica mais lenta e passa por sobre os céus. Os dilúvios vêm e vão. A
humanidade deve se curvar à vontade de Marduk. Em outros tempos,
houveram muitos grandes impérios. Em nossos tempos, há um império que
está crescendo como a lua, e este, também como a lua, irá diminuir de luz e
entrar na escuridão. Em nossos tempos, o poder deste império está se
expandindo dia após dia, seu rei está coletando várias carruagens de
riquezas das nações subjugadas. Os líderes deste crescente império estão
apreciando a gordura da carne. Logo eles serão enfraquecidos pelo gosto
da comida farta, muitas mulheres e escravos, outro e prata. Eles ficarão
dependentes do crescimento de seu império, pois a riqueza por eles obtida
dependerá de muitas conquistas. À medida em que deixarem a terra se
exaurir, eles precisarão de mais terras para levar à exaustão, a fim de
manter o fluxo de tributos.

O que resiste é o espírito disciplinado e o poder para contrabalançar e


controlar o poder de expansão. Considerai nossos amigos do Grande rio do
Oeste. Na terra deles, todos os anos o rio enche e cobre a terra, trazendo
consigo camadas de solo das montanhas. O povo desta terra controla o rio,
capturando a água como espinho se prende a um manto, fazendo mais
lento o seu curso, usando a água e o solo para renovar seus campos.
Portanto, eles lucram muito das cheias anuais. Os grandes ventos sopram e
os marinheiros os pegam e usam-nos para viajar sobre o oceano para terras
distantes. Em cada poder existe um perigo, em cada perigo, esperança.
Perigo controlado, é poder para o homem. O fogo é perigoso, mas
controlado, é o poder de cozinhar, fazer ferramentas e armas. O poder do
homem sobre outros homens, controlado, é o exercício da realeza; sem
controle, é tirania. Os reis trazem paz e ordem; os tiranos, violência e
destruição, bem como grande propósito e motivação. Mas o domínio de um
homem sobre outro não é dado para fazer com que homens morram às
dezenas de milhares. Isto não é paz e ordem, é uma doença espalhada pela
espada. É uma praga entre as nações civilizadas, como se a loucura
estivesse se espalhado. Nações crescem para grandeza conquistando
grandes nações, as quais em seu turno cedem ao barbarismo e a novas
nações. Portanto, pela lei, e ainda mais importante, pela justiça devem ser
controlada as nações conquistadas, com sabedoria e magnanimidade.
Quando esta lei não é seguida, quanto maior a nação, maior a queda.
Impérios se sucedem a outros impérios. Uma nação cujas fronteiras é
controlada por força e poder, que está consciente de sua grandeza, que
ama seu povo e sua terra, tal nação não vale a pena ser capturada. Será
melhor para os grandes reis manterem a paz com ela. Lembrai-vos disso, é
quatro vezes importante Ter consciência deste ponto.

Já vistes os campos de trigo deixados às ervas daninhas, espinhos e


cardo? As ervas daninhas pequenas e verdes vêm primeiro, depois aquelas
que são mais lentas e fortes, cada uma deslocando a outra, até serem
deixados apenas os arbustos de espinhos; então, lentamente, arbustos
maiores começam a crescer, e árvores. Cada retalho de plantas forçando a
outra parte anterior do retalho a se deslocar da área, até que as árvores são
deixadas para dominar a terra, que se transforma numa selva. Todo
crescimento tem a mesma natureza, que é se expandir para preencher o
máximo de terra que puder. Assim é com grandes homens e nações, da
mesma forma com os sacerdotes.

Conservai isto na memória, oh príncipe. Se um homem for ensinado a ser


feliz e alegre durante todas as atribulações, ele terá certeza de que o
caminho que segue para ganhar este estado invejado é aquele que é
correto, e mais ainda, que é a mais abençoada tarefa na terra mostrar a
outros as verdades que lhe foram dadas. Pareceria a ele que aqueles que
se recusam a acreditar no que ele diz é que são cegos, e que a verdade
não está com eles, sendo que para tal homem seria uma tarefa sagrada
trazer outros homens a este estado, pela força, se necessário. E mais, pois
ele teria certeza de que outras formas de ser são mentirosas, pois ele não
chegou a este estado por elas, mas apenas através dos ensinamentos e
experiências que o levaram a tal resultado.
Portanto os sacerdotes, pela melhor de todas as razões, estão sempre
buscando ganhar mais e mais fiéis para seus próprios credos, e serão muito
difíceis de controlar, pois eles serão a causa de muitas guerras pequenas,
principalmente entre eles mesmos. Assim nos ensina nossa história que
muitas vezes os inimigos encontraram uma forma de atacar nosso país
através dos deuses que eles e muitos outros de nossos países vizinhos
compartilham. Muitas famílias nobres estão convencidas que elas são
amigos do povo e que apenas elas possuem o direito de governar, pois
amam seus servos e os habitantes de sua terra, e têm certeza de que pela
expansão natural todos lucrariam com o crescimento do poder da própria
família. O monarca de uma nação é tentado mais do que qualquer outro por
este conhecimento. Pois como poderia ser diferente, se o que é bom para
ele, deve necessariamente ser bom para seu povo. Mas lembrai, oh
príncipe, que todos os homens pensam e sentem desta maneira, pois eles
sabem da verdade destas palavras e não as questionam. Têm havido reis
ao longo de nossa história que tentaram levar o povo por caminhos que eles
não trilhariam, caminhos que teriam sido bons e lucrativos para eles. Em
cada caso, tal boa vontade resultou em rebelião e queda de mais outra
dinastia.

Considerai o vento que causa redemoinhos, o tornado. Primeiramente, o ar


torna-se quente, e suor cobre nosso corpo de forma que sentimos uma
grande pressão, então cái sobre a terra um terrível silêncio, e então com
firmeza começa a soprar o vento, sempre crescendo em intensidade, para
daí começar então a rugir como monstro enfurecido, e então na distância,
ouvem-se os gritos das pessoas. As árvores e plantas são arrancadas do
solo, os sábios e previdentes buscam refúgio nas edificações mais fortes de
pedra, e o terrível tornado vem, levantando para o ar todas as tendas e
tetos soltos; após a passagem deste, quando o centro do furacão passa, até
mesmo os fortes sentem o medo nos ossos. Então aquele vasto tumulto
vem novamente, e à medida em que viaja para outras distâncias, o vento
morre, deixando as ruas vazias de tudo o que não estava bem firmado.
Lavouras são destruídas, as ruas vazias de todos os seres vivos, os
campos arruinados, como se tivessem sido infestados por gafanhotos. E os
agricultor, se tiver sorte, voltará a plantar novamente, se não, passará um
ano de privações. Este é o poder de Marduk, o poder do Senhor dos
Ventos.

Quem pode descrever ou controlar o poder de Marduk? Seu poder é como a


cólera dos reis e a misericórdia do amor que pode partir em pedaços a alma
no local onde se encontra. Quem é capaz de conhecer o poder de Marduk?
Tal poder pode desnudar a alma humana, reduzindo-a ao seu menor
tamanho, removendo dela toda crença, toda esperança, todo sentido de ser,
de modo que, sozinho e tremendo, o homem possa comparecer à presença
do deus amado. Quem pode conhecer os desígnios de Marduk? Na sua
presença, não pode haver qualquer outro, e a alma deve se curvar ao vento,
raio e trovão da presença do grande deus. O amor e a misericórdia de
Marduk também jamais faltarão a quem dele se aproximar. Marduk é a
essência da criação, do nada ele revela a beleza da criação. Mas oh
príncipe, não caí vós no erro de pensar ou sentir que ele, Marduk, é todo-
poderoso. Ele é o instrumento de seu pai, pois o poder de Marduk desce de
Enlil e Ea. Ele apenas encarna tal poder. Portanto, oh príncipe, lembrai-vos
que não obstante o grande poder de Marduk, existem houtros poderes
ainda maiores, mais nobres, menos ruidosos, mais sutis, mais gerais, sem
potencial destrutivo, que são aqueles que estão mais perto de Anu, aquele
que é superior a todos os deuses.

De tudo o que foi escrito, há algo que acima de tudo deve ser lembrado, a
verdade que é Marduk. Ele é Aquilo/Aquele que Ele desejar ser. Suas
formas são infinitas. Ele é a causa de todas elas. O amor vem em muitas
formas e pode iluminar qualquer coisa no céu e na terra, pois ele é o
transmutador de formas, aquele que não pode ser aprisionado ou
restringido por muito tempo. A terra ama o sol, ou a lua ama a terra? O sol
ama as estrelas, ou as estrelas amam as profundezas? Sim! E as grandes
plantas da terra amam as criaturas que delas se alimentam, e o rato ama a
águia? Quando os ventos deixarem de soprar, irá o amor de acabar? E as
enchentes, será que elas amam a terra e o mar? Se vós puderdes entender
tudo isto, vós sabereis que a maçã que vós comeis vos ama. Lembrai que a
vida ama a morte, e a morte ama a vida, e que todos estamos unidos na
perfeição do amor, pois Marduk não pode ser separado da beleza de toda
criação.

4 de Elul

CARTA 6 - O MESTRE DA MÁGICA, QUE GOVERNA O DESTINO DOS


HOMENS, EA/ENKI/ENKI A BASE DA FORMA

Grande Príncipe,

As mensagens do Rei chegaram até mim e as notícias da batalha são


comentadas nas ruas. Boa comunicação, bom julgamento, boa
compreensão são sempre bons de se ver num príncipe, e quando a estas
qualidades também se junta boa sorte, então há esperanças para vossa
dinastia; pois o favor dos deuses em tais questões significa o favorecimento
dos deuses para o povo. Chamar nos outros o herói que eles e elas têm
dentro é ser um líder de homens e mulheres, e quer dizer boa compreensão
das fontes do sucesso.

O rei me pediu para continuar com estas cartas, pois ele sente a presença
dos deuses se aproximar nos dias vindouros. Então, começaremos com as
preces de Ea/Enki, o Senhor do Abismo e da Terra:

Quando nos de outrora, antes dos dias dos grandes reis,

Os oito que não puderam se manter juntos pediram para que Anu existisse

E Tiamat e seus filhos chamaram pela lei da criação,

Perguntando por que suas várias formas não poderiam se manter para
sempre,

E a lei em sua imutável natureza disse em resposta a eles

Que tudo o que não tem uma fundação para viver não pode permanecer o
mesmo.

Então Anu se dividiu em dois, ar de fogo e terra de água,

Enlil acima, Ele dividiu em fogo e ar,

Terra-água ele colocou em baixo, Ea-Damkina, foi como ele os chamou.

Ea permaneceu como a argila do oleiro, antes de ser trabalhada pela mão,

Ea é o deus de todas as formas que existem

Ea é a água, que toma a forma da pele ou do pote.,

Tudo o que existe pode ser destruído, que Ea permanece, imutável.

Queimai o que houver, Ea jamais se extinguirá, ou sofrerá o efeito do fogo,

Oh, grande deus Ea, fundação de todos nós,

Auxiliai-nos a apreender a razão em toda criação,

Deixai-nos ver por que a árvore é madeira e mesa,


Por que a argila é o tijolo, o pote e a fornalha,

Por que a rocha é o martelo e a ponta afiada da espada,

Por que as águas são nuvens, neve e gelo,

O mar, e as cheias, e a chuva e a neblina,

Por que o sol é luz, fumaça e fogo,

O raio, a lamparina, a lua e as estrelas,

Por que o ar está nos céus, no firmamento e no vento,

Nos tufões, e nas brisas da primavera e do verão,

Por que na terra estão esperando a forma da grama, do trigo,

Dos cardos, das árvores , os frutos e os botões de flores,

Por que nas plantas, todas as formas de todos os insetos, pássaros,

E por que todos os seres vivos, [têm suas formas] esperando lá dentro,
escondidas,

Pois de todas as fundações e movimentos das coisas

Esperando o toque da semente para começarem a ser

As formas fixas das coisas, como o óvulo do útero,

Vêm de Enki, o mais sábio de todos os deuses,

Ele que é a raiz de todas as ciências possíveis

Ele sozinho é o deus que dá a causa das formas

Ele é Aquele que impede o Caos [de acontecer], Aquele que dá a forma real
a tudo o que existe.

Agora, passemos ao significado desta prece. Quando se viu que o Caos


não poderia manter sua forma, fica fácil de ver que qualquer mundo,
qualquer coisa, mesmo um deus, não podem existir. Portanto, Anu, a causa
da existência do mundo, se dividiu em dois, em poder e vontade criativa, e
também num poder receptivo e de aceitação. Desta forma, a vontade
criativa adquire substância através da qual possa passar, deixando para trás
uma criação que não possa se manter por si mesma. Podeis pensar nisso
como a argila no moinho do oleiro, e a vontade do artesão. A natureza da
argila é aceitar forma e pressão. Portanto, o artesão cria um pote que, se
seco e cozido, irá durar, mas não como argila. Quebrai o pote, ele será
novamente algo prestes a tomar outra forma. A natureza da argila está não
na moldagem, mas no processo de secagem da forma. Com relação aos
metais, a natureza destes está contida dentro da rocha, e portanto o metal
deve ser derretido, limpo e resfriado. É a mesma coisa com o gelo. Mas
com metais, tudo o que não é metal deve ser queimado e descartado como
resíduo. Portanto, metais também podem ser moldados, mas sendo eles
mais duros, a moldagem dos metais é algo mais difícil. Porque os metais
são a um tempo mais duros e mais maleáveis quando tratados do que
cerâmica, eles podem tomar formas pontudas, que irão cortar e ser mais
afiadas do que peças de cerâmica. É verdade que no passado os povos
usaram pedras e ainda hoje eles o fazem. Mas a ponta de uma pedra é
mais dura e pode quebrar, mais do que cerâmica ou metais. Destes fatores
vêm/apreende-se a natureza dos metais.

Considerai a água em seus muitos estados: névoa, nuvem, chuva, chuva de


pedra, neve, gelo, rios, lagos, mares, etc... A única coisa que permanece a
mesma em todos estes estados é a suscetibilidade à mudança, é a natureza
da água mudar. Colocai uma pele na água, enchei tal pele, e ela toma a
forma de um pote, de ar, névoa e neblina, neve e gelo, na terra, lagos e rios.
Mesmo assim, continua sendo água.

Considerai a natureza da madeira. Ela não é pontuda, não é quebradiça.


Pode ser queimada, pode fazer colunas, mesas, cadeiras, carruagens e
utensílios, rodas, bastões, lanças, camas, cestos, altares, fogo, todas as
coisas que precisamos para viver. Quais são suas características? Como
podeis descrever a fonte de todas estas coisas? Se puderdes, podereis ver
a natureza real da madeira, as leis pelas quais ela opera, o que pode ser
feito com ela, seus pontos fortes e fraquezas, tudo o que a forma da
madeira nos possibilita fazer. Qual é a razão do fogo e da luz? É consumir,
comer, mudar. Luz e fogo se movem em linhas retas pelo mundo. Entre um
homem e a fonte de luz existe sempre uma linha reta; se tal linha for curva,
existe algo entre o homem e a fonte de luz, mas existe sempre uma linha,
até mesmo quando há algo no meio. E o vento, o ar e o espaço, são o que
não flui. Se fluir, existe água no ar, se viajar, contém fogo, se bater, contém
terra. Olhai para os céus. Cada estrela está no seu lugar. Os planetas
mantém seus cursos no espaço. Ar é espaço, extensão e direção, mantém
tudo separado, mas junto ao mesmo tempo.
Vós deveis aprender a ver nos homens e mulheres as suas qualidades.
Quão material é a natureza humana! O que nos mantém unidos, o que nos
separa, o que nos motiva, o que nos incentiva a seguir em frente, o que é
nosso destino. Oh príncipe, não dependei das estrelas ou dos fígados, ou
do incenso ou das profecias. As profecias de cada um são as coisas que
nos impelem para frente. Um monarca deve observar as profecias que
orientam os outros. Ele deve ver a fonte de inspiração de todas as
atividades humanas. Quando ele puder ver as leis e a natureza de seu
povo, ele saberá o que prende tanto seu povo, conhecendo portanto o
destino de sua nação. Tal compreensão é extremamente perigosa, pois um
rei que diz o que vê está fadado a ser deposto de imediato. Poucas pessoas
podem enfrentar o conhecimento de suas ações e suas conseqüências, e
se o destino de um homem for conhecido, ele não tem mais esperança. Não
forçai a compreensão em todos, mas apenas naqueles que podem assumir
seus próprios destinos, serem responsáveis por si mesmos.

Nas formas de todas as coisas está escrito o seu destino. Aprendei a


reconhecê-lo, não a repeti-lo, não a memorizá-lo, pois estas duas coisas
vós não poderíeis jamais Ter a esperança de fazê-lo. Tudo muda, e apenas
pelo reconhecimento da lei sob a qual as coisas operam no momento desta
compreensão é que se pode ver o destino de alguma coisa, e até este
mesmo destino pode mudar. É o destino da pedra do rio ser rolada pela
água, mas um homem pode pegar tal pedra para usá-la num estilingue, e o
destino desta pedra então será alterado. Não muda a forma da pedra, e a
forma da pedra inclui a habilidade para matar, o poder de ser tornada
redonda por fricção, e a habilidade de ser jogada em qualquer direção. De
tudo isto, pode-se ver que o deus Ea não tem necessidade de agir, pois da
forma, que é dada por Ele, vêm todas as formas necessárias de ação.
Lembrai que o destino de tudo é resultado de duas coisas: quando a
vontade criativa toca no poder receptivo de Ea, esta não reproduz
exatamente a forma do poder da vontade. Daí que esta última é levemente
imperfeita. Portanto, quando a forma finalmente passa a existir na terra, há
dentro dela algo que pode ser uma contradição, um equilíbrio entre a
vontade perfeita e a forma imperfeita. O equilíbrio entre estas duas coisas
causa uma mudança na existência real. Este é o destino, pois todas as
coisas tem a possibilidade de se aperfeiçoar e de retornar a Anu.

O significado prático disto para um monarca está em ser capaz de


reconhecer o equilíbrio entre perfeição e imperfeição presentes em cada
coisa criada. Ao reconhecerdes tal equilíbrio em vossos servos, vós sereis
capaz de dar a cada um tarefas que estarão dentro das capacidades deles.
Uma pessoa que é capaz e, mais importante ainda, deseja se aperfeiçoar,
será mais útil quando puder usar seu desejo de aperfeiçoamento ao serviço
do rei e da nação. Tomai um rei que deseja ser capaz de reconhecer e
entender os outros: este deve ser um homem e de mente muito clara, capaz
de ver as coisas como elas são, e não como ele possa desejar que elas
sejam, nem se considerando muito bom, nem diminuindo qualquer outra
pessoa, mas usando cada necessidade de cada um dos membros de seu
povo a serviço da nação.

Isto não é fácil, pois as pessoas dizem muitas mentiras e ficam fortemente
ligadas às coisas viram em tempos passados. Por exemplo, quando criança,
uma vez uma pessoa viu um servo ser batido, e porque esta pessoa tinha
sido envolvida na punição, esta pessoa pode pensar que o servo, por suas
ações, tenha sabido exatamente o que fez e atraído para si a punição. Isto
foi visto como verdadeiro e compreendido de forma certa naquela vez. Se
agora o mesmo servo for punido, seria fácil dizer por Ter-se visto o fato
anterior que as mesmas razões são válidas para o caso presente. Isto seria
muito perigoso. Compreensão passada que não é trazida para o presente é
prisão do pior tipo, e pode ser a causa de grande injustiça e causar ações
ainda mais injustas. Todos os eventos devem ser vistos , julgados e
entendidos de acordo com o momento em que acontecem, clara e
claramente, a cada novo momento.

Agora, grande príncipe, passemos a um grande mistério. Pensai num


campo que está em boas condições. Neste campo, todos os tipos de
cereais e grãos podem ser plantados. Vejai flores, sementes e folhas.
Algumas plantas irão dar flores com duas pétalas, outras terão três, quatro,
cinco, seis pétalas. Haverá folhas largas, folhas longas e curtas. Cada
planta será reconhecida pelas suas várias partes. O poder que sustenta
estas plantas vêm da água e da terra. Algumas plantas não poderão crescer
neste campo, ou se lá crescerem, não serão viçosas. Um bom agricultor
sabe onde melhor plantar suas semente. Ele chama, como sabeis, pelo
grande deus Ea para auxiliá-lo, pois na água e no solo estão adormecidas
todas as formas, cores, tamanhos e usos da semente; pois se todos estes
não estivessem lá, como a semente poderia então chamá-los para si, a fim
de poder existir?

Considerai os céus, ele contém as estrelas com suas influências, o sol, os


planetas e a terra. Todos estes são chamados para a existência como as
plantas vêm da semente, do solo de Ea. A água de Ea dá-lhes a vida. Aqui,
portanto, podemos ver por que Damkina, a esposa de Enki, é adorada como
a Grande Mãe de tudo, até mesmo maior do que a resplandecente Ishtar,
pois Ela é o útero de tudo, Dela todos nascem a seu tempo. No útero de
Damkina, todas as sementes das estrelas, sóis, planetas, terras, luas são
nutridos e nascem quando impelidos por Enlil, pois Ela é a Grande Mãe, a
Grande Senhora. Ea-Damkina são a causa de toda perfeição e imperfeição,
do bem e do mal. Quem não compreender este fato, não entende e nem
pode compreender o mundo. Foi dito por alguns que Anu é completamente
bom e que nele não existe o mal. Isto é correto, mas o mundo tem o bem e
o mal em si, e tudo o que existe vem de Anu, bem como Enlil e Ea.
Portanto, em cada ser criado há um pouco do bem e do mal, pois é a
natureza da forma estar separada da fonte de Tudo, e portanto, imperfeita.
O deus que é o Deus da Compreensão tem a característica da dualidade,
pois para que haja compreensão é preciso que haja uma lei e algo que está
sob aquela lei está, portanto, separado dela. Estes são temas do mais alto
nível, e devem ser discutidos apenas sob juramento, pois os sacerdotes de
muitos deuses não hesitariam em declarar tal tema como perigoso e mau,
como ele o é realmente, pois se muitas pessoas soubessem desta verdade,
elas, da forma mais ignorante possível, iriam pensar que não há então
razões para que busquem a perfeição e compleitude em todos os níveis.
Todos os erros, elas pensariam, poderiam ser atribuídos aos deuses. Tal
crença faria com que as pessoas pensassem que poderiam e deveriam
fazer o que melhor lhes aprouvesse. Portanto, oh príncipe, tomai cuidado
com as formas novas e antigas de compreensão e entendimento, pois cada
uma delas tem sua verdade em seu tempo e lugar. Os reis devem saber, a
fim de direcionar o curso das nações se as verdades são novas ou antigas,
e ao que e para quem elas se dirigem e na realidade pertencem. Já
aconteceu no passado que reis, a fim de preservar suas próprias
importâncias, evitaram novas formulações da verdade e tal fato prendeu
tanto a estes monarcas quanto a seu povo numa escravidão pior do que a
escravatura. Considerai nosso tempo presente: como sabeis, nossos
metalúrgicos provaram que a maneira e método de usar rocha vermelha
para fazer ferro. Isto tem causado muitos problemas com os mineiros de
bronze, que trabalham com rochas verdes e azuis. Eles acusaram os
mineiros do ferro de não serem religiosos e de insultar o nome e poder de
Ishtar. Agora, vosso pai poderia Ter concordado com eles, e o resultado
teria sido de que nosso povo não teria então ferro para fazer boas espadas,
facas, lanças afiadas e todos os tipos de ferramentas. Mas isto não é tudo:
nossas nações rivais teriam ganho muita força e importância sobre nós,
além de vantagem na guerra.

Pois na natureza de cada novo desenvolvimento está aquilo que irá destruir
uma nação que não tentar tirar vantagem deste mesmo desenvolvimento, e
o elemento que irá aumentar o prestígio e poder de quem souber lidar com
o tema. Aqueles que usam novos desenvolvimentos serão mudados por
este, mas a seu tempo e lugar. Todos nós, povos que vivemos nas terras
dos riossabemos e usamos em muitas formas a roda. Imaginai uma nação
sem a roda. Tal nação teria de usar homens ao invés de carruagens para
levar suas cargas. No máximo, eles teriam de empurrar suas cargas,
fazendo-as deslizar por sobre a terra. A cerâmica deles seria moldada à
mão, e não pelo moinho. Seus grãos teriam de ser moídos de forma
primitiva. Além do trabalho extra necessário, pode-se ver que menos
riqueza seria produzida nesta terra, e que nós, com maior conhecimento,
podemos melhor e mais produzir.

Portanto é facil de ver que nosso Senhor Ea, o Senhor das Águas e da
terra, é o deus da fonte escondida da forma, e ao vê-lo em sua verdade
somos capazes de criar novos conhecimentos, novas ciências. Ele é Aquele
que Suporta a Verdade, pois o que é verdade agora, e também foi verdade
em tempos anteriores, é ambos novo e velho, e esta é a Verdadeira
natureza de Ea. Pois os homens e mulheres de tempos mais antigos
fizeram boas construções, bons potes, boas estradas, tantas coisas que,
apesar de exigirem reparos e renovação, ainda têm dentro de si um bom
princípio que não deve ser mudado.

Agora, oh príncipe, quando considerardes a tradição, observai que é tarefa


do rei estar sempre descartando da tradição passado o que foi apenas um
modismo. Cada rei, a seu turno, irá incorporar por sua própria escolha,
valores que considerar importantes e que são a marca de seu tempo, mas
suas tradições irão por necessidade conter assuntos que estão na moda -
moda esta que, como bons jardineiros, os seus descendentes terão de
arrancar as ervas daninhas, e o que não é mais válido. Temos o dever de
ser os bons criadores de todo povo, e quando estivermos no poder, o solo
das realizações humanas, que será trabalhado por nós, também deverá ser
bem cuidado por nossos sucessores. Vós deveis Ter ponderado por que
nossas dinastias têm durado tanto tempo. Esta é a razão: cada rei é
instruído a pensar e praticar a tarefa de que tem de legar a seus filhos a boa
compreensão da lei que realmente governa a humanidade. Cada rei é
testado por eventos e pelo propósito se podem ou não permanecer
intocáveis pela moda e crenças, tanto no presente como no passado. O rei,
portanto, é mantido sob juramento pelas pessoas, cuja tarefa é aconselhá-lo
ele faça cumprir a grande lei. Tais pessoas, vós o sabeis, estão por
juramento comprometidas com a destruição do próprio monarca, caso este
fizer estes dados disponíveis para todos.

Como sabeis, não podemos saber tudo o que pertence a um só propósito, a


não ser se nos tornarmos um com tal propósito. É verdade que algumas
vezes homens e mulheres de grande discernimento entraram pela força de
próprio poder nas mentes das pessoas comuns, mas o que se pode dizer da
natureza deles e delas é que estas pessoas se deram conta que seus ideais
estavam em sintonia com as metas e ideais da vida comum, juntando-se
portanto às aspirações da grande maioria. Esta sociedade ou nação é
diferente de outras nações, e seu povo pode ser encontrado em muitos
países e muitos locais. Os membros de nossa sociedade podem ser reis ou
escravos, negros, amarelos ou vermelhos, idosos ou jovens, homens ou
mulheres. Sejai cauteloso, meu Senhor, com quem falais, pois eles também
podem estar sob o selo da compreensão.

Que O Divino guie vossas ações em todos os mundos. Que vossas


decisões tomem lugar nos pontos corretos. Que vós sejais capaz de ver os
princípios de todas as coisas que estão por trás das aparências. Que vossa
linguagem seja composta de forma adequada para a glória de nosso deus.

CARTA 7 - NA QUAL SE DISCUTE O PODER CRIATIVO DA CRIAÇÃO, A


INSPIRAÇÃO DO UNIVERSO CUJA MANIFESTAÇÃO É ATRAVÉS DO
GRANDE SENHOR, O DEUS DOS DEUSES, O SENHOR DOS DEUSES,
O SENHOR DA MONTANHA LESTE, ENLIL.

Mais caro de todos os príncipes, amado pelos Irmãos e Irmãs, ouvimos de


vosso pai, o Bom Rei das Quatro Direções que, de acordo com a última
carta, vós tomastes o voto de responsabilidade, e portanto vosso título entre
nós será o de Irmão. Deveremos nos encontrar, com tantos outros, no dia
de Taveh, sobre o qual falamos na carta anterior.

Há quatro mistérios remanescentes a serem em parte elucidados. Estes são


os de Enlil, Anu, Shamash e Sin. Neste estágio, falaremos dos mistérios de
Enlil, ou como falamos dele, "Aquele Que não è Noite". Devemos começar
com o hino do quinto dia do ano, quando celebramos o mistério da palavra:

Quando não havia forma por sobre o mundo, Anu deu a Enlil

Aquele Dom sem preço, aquele Dom secreto, a Voz sagrada.

Agora Enlil, o Senhor do fogo e do Ar Superior

Começou sua obra sagrada emitindo a palavra.

O que a palavra não torna possível, não é possível,

A palavra de Enlil é o começo da grande criação,

Pois antes da palavra nada tinha sido criado.


Após a criação da palavra, todos os mundos possíveis passaram a existir.

A palavra é a respiração de fogo que não pode ser vista,

É como o vento por sobre as águas do céu, que faz surgir ondulações nos
espaços do firmamento,

Dando forma estabelecendo a diferença entre uma ondulação e outra,


fazendo as águas fluirem.

A palavra de Enlil é feita da substância da qual é feito o firmamento,

Profundeza sobre a superfície calma do deus Ea

Que fez a água ficar parada e se separar

A palavra é sussurrada no ouvido do rei

E o escravo que estiver sob o chicote pode ouví-la

Nas águas salgadas do oceano as criaturas das profundezas escutam a

E os pássaros do céu dão ouvidos atentamente a este som

Os planetas e as estrelas curvam-se em obediência

À palavra de Enlil, que faz todas as coisas claras

Quem declarar os poderes do firmamento

E o som do trovão que passa por ele

Esta mesma pessoa estará ouvindo apenas à palavra de Enlil.

A palavra de Enlil é como a chama do coração da nuvem

E todas as criaturas declaram a voz do Grande Enlil

Pois em suas vidas elas incorporam o poder da palavra do Grande Deus

Sem a palavra, nada pode ser feito.

Naquela palavra, não há antes nem dpois,


Tudo o que existe tem a palavra ressoando em si em todos os mundos

Se aquela voz cessasse de declarar a palavra, não haveria ancestrais ou


mundos onde eles viveriam,

Nada existiria; e, se nada tivesse existido, quando Ele deu voz à palavra,
passaram a existir

Todas as estrelas, todos os sóis, todos os planetas, todos os mundos

Todas as criaturas vivas, das menores às maiores,

Desde as profundezas do oceano ao mais alto dos céus

Todos os homens e mulheres, do mais sábio ao mais ignorante,

Passaram a existir na palavra que é toda sabedoria e toda inspiração,

Pois no que está sendo criado no momento, em todos os novos possíveis


cursos das criações do mundo,

Tudo está unido com a palavra, e você também é um com Enlil,

[Pois] És o criador/criadora de todos os céus possíveis,

E de todos os mundos possíveis, o zelar por eles,

Para que cresçam e mostrem seus frutos, tarefa esta de Ea-Damkina,

Glorifique então aquela palavra, obedeça-a, ouvi a palavra, cuide dela,


mantenha-a no segredo de Enlil.

Agora, Irmão, vós deveis Ter recebido a palavra, e como vós bem o sabeis,
desta nada pode ser dito. Entretanto, algumas observações são necessárias
para que não ocorram enganos. Aquela palavra é a agulha da Rainha da
Montanha do Leste. Com esta agulha, ela costura as partes espalhadas da
mente, pois à medida em que a palavra segue seu caminho, ela cria e
destrói os mundos da mente. Esta agulha faz tudo parecer uma vestimenta
sem costuras. Não a instruí à medida em que [tal palavra] seguir sua
viagem. Ela sabe. Pois ele, Enlil, declarou na sabedoria os caminhos da
palavra.

Ouvi a palavra em vosso quarto, nas horas silenciosas de vossas preces.


Que ela se declare dentro de vós como mensagem. Tentai não fazer o
caminho da palavra claro ou difícil. Deveras, o melhor é deixá-la em paz
para vossa mente, em sua sabedoria, segui-la. Não existe outra hora para
ouvir a palavra como agora, pois o que vós já vistes ou ouvistes, já se foi.
Apenas agora a palavra pode ser ouvida, apenas neste momento ela pode
ser falada, e apenas neste momento, por Ele, a voz do ar e do fogo.

Foi-nos dada a descrição para nossas mentes entenderem. "Como um


quarto escuro no alto do deserto, quando tudo é calma antes da aurora.
Aquela palavra, tão rápida para ser seguida, tão vagarosa de ser
compreendida, tão poderosa que faz tremer as profundezas, tão gentil e
severa, tanto aquela que fala e o interlocutor, causa e fim. Quem
compreendê-la, nada entende, quem declara sua semelhança, mente; quem
a conhece, é ignorante, quem não a conhece, é ignorante. Aquele que sabe
seu centro, mente; aquele que conhece seu centro, está erra, pis é meio-dia
na cidade agitada".

Lembrai de vossa instrução na palavra, não negligenciai a palavra quando


estiverdes envolvido nos vossos afazeres diários. Não esquecei da
instrução, pois não há outra hora.

Enlil e sua consorte, a Deusa da Montanha do Leste, são os deuses do fogo


e do Ar. Eles são o receptáculo superior da divisão. Eles controlam a luz e
os céus que podem ser vistos. Onde Ea-Damkina são o receptáculo das
profundezas, eles são a parte superior. Anu divide-os es os une, pois de um
ele fês dois e Enlil é um, enquanto que Ea é dois. Vejamos como isto pode
ser. Vós podeis vos lembrar da ocasião em que o rei, vosso pai, adquiriu o
nome de 'sábio'. Havia, como bem o sabeis, um embaixador da terra dos
dois rios. A nação dele clamava direitos de impostos sobre a terra de Chetz.
Os impostos também eram reclamados pelo rei, mas ele apenas clamava
por metade da terra. O problema era avaliar qual e como era esta metade.

Uma vez vieram ao rei dois agricultores que dividiam os produtos de um


campo. Os produtos foram trazidos: grão de bico, tâmaras, romãs e trigo.
Eles não conseguiam chegar a uma divisão correta dos produtos, e o caso
foi levado ao rei para julgamento, pois os dois não puderam ser
reconciliados pelo magistrado, que era parente de uma das partes. O
governador não podia decidir o caso, pois a terra era alugada dos
sacerdotes de Ishtar, e os sacerdotes queriam testar o rei naquela ocasião.
Depois de pensar sobre o problema e Ter ouvido todas as evidências, o rei
emitiu seu julgamento, e perguntou ao embaixador se o julgamento havia
sido justo. O embaixador havida ficado bastante impressionado, e declarou
que estava disposto a fiscalizar sua execução. O rei havia decidido o
seguinte: todos os produtos deveriam ser reunidos ante ao executor. Uma
das partes iria fazer a divisão em 2 partes iguais, e a outra parte iria fazer a
escolha entre uma das pilhas. Isto foi feito, e o embaixador retornou ao rei,
contente e satisfeito, sendo que o rei então declarou que eles iriam proceder
da mesma forma a respeito dos impostos disputados na terra de Chetz com
a nação do embaixador. O rei da terra dos dois rios, tendo ouvido o
acontecido por seu embaixador, não pôde deixar de concordar, sob o risco
de parecer um tolo de outra forma. A história espalhou-se por outras terras,
e o povo da terra entre os dois rios deixou-nos em paz por dez anos.
Portanto o rei, pelo uso de simples palavras, resolveu uma crise entre dois
agricultores, provou aos sacerdotes que tinham de ser cautelosos no trato
com ele e resolveu um impasse entre nações que prometia guerra, se não
tivesse sido resolvido. Podeis pensar que foi sorte os dois eventos terem
acontecido ao mesmo tempo. Mas não é bem assim. O rei, na realidade,
apressou o julgamento dos agricultores e retardou o caso do embaixador,
para que ambos se encontrassem ao mesmo tempo, pois o monarca havia
percebido que ambos os problemas tinham a mesma natureza. Ele criou a
oportunidade para que cada um pudesse trazer luz ao outro. De uma
dificuldade, o rei criou um princípio de justiça que ainda é contado por
contadores de histórias das terras centrais como um exemplo de sabedoria.

Lembrai pois que a sabedoria é um Dom de Enlil, é o corpo da palavra, e


tem o atributo da liberdade. A sabedoria não modifica: ela cria, tem a
qualidade da inspiração. Sabedoria é a descoberta da possibilidade. Em
Enlil, todas as possibilidades existem como potências sem forma; a forma
está em Ea, Enlil é o pai do mundo e está acima, Ea-Damkina são a mãe, e
estão em baixo. Enlil é o potente deus que dá a vida, Ea-Damkina dão
forma a esta vida. De uma gota, do pai, vem tudo o que vive. De muitas
gotas, vêm muitas vidas possíveis, todas as que foram, o são e serão.
Vejamos o ponto central deste tema. O trabalhador habilidoso é chamado
de sábio. Por que? A diferença entre a inabilidade e a grande habilidade
está no fato de que o trabalhador que não tem habilidade despende muito
esforço, mas seus resultados não são bons, pois apesar de trabalhar por
muitos dias, seu trabalho sempre parecerá mal acabado e grosseiro,
enquanto que o trabalho do mestre mostrará sempre o toque do mestre.
Este último mostra precisamente o que é necessário, nem mais, nem
menos. Um toque na pressão correta, no local certo faz que que o material
conheça a vontade do mestre. Assim é Enlil. É a vontade Dele que age. A
vontade de Enlil é a palavra. Não há dualidade, pois a voz do mestre coloca
o mundo em movimento. A vontade de Enlil é tal que penetra no
comprimento, amplitude, profundidade e altura de dez direções. Onde está
a palavra de Enlil, está a sua vontade, gentilmente penetrando com a maior
força, e poder, nem mais, nem menos do que o necessário. Sem esforço,
nada pode retardá-la. A vontade de Enlil se manifesta nas noites e dias dos
mundos. Ele os chama por seus nomes, e cada um responde a Enlil, seja
onde estiverem, a qualquer hora, visíveis ou invisíveis, grandes e pequenos.
Ele em tudo penetra, é a ação mínima para o maior resultado, tal qual o rei
quando levanta o dedo e os exércitos põem-se de imediato a marchar. Quão
grande é o poder de Enlil: ele fala e criam-se mundos. Sua voz ressoa e os
mesmos mundos desaparecem, como se jamais tivessem existido.

Os ventos, os Sete Ventos, os Anunaki, eles são os grandes sete, ante os


quais até os deuses tremem. Ele dá aos Sete Ventos movimento, e
consegue pará-los em suas moções. A palavra de Enlil é a lei dos Sete
Ventos, mas ele são como pequenas formigas por sobre a superfície da
terra. Pensai vós que Shamash e Sin são grandes? À palavra de Enlil,
Shamash e Sin cessam suas jornadas. Enlil chama o oceano e o dilúvio
acontece na terra. Ele sussurra à terra, e ela treme, causando tremores até
nos ossos de Marduk., mas Enlil sabe o peso de sua palavra, pois ela é a
verdade. Sem a verdade, sem a vontade de Enlil, Ea, o senhor do passado,
presente e futuro, nada é.

Considerai o significado da vontade. Desejo não é vontade, pois ele


decresce, flui e muda. Paixão não é vontade, pois sua motivação nem
sempre atinge o seu objetivo. O amor não é vontade, pois ele não depende
só de si mesmo, mas todos estes, desejo, paixão, vontade, necessidade,
todos vêm da vontade. Cada um tem sua força e poder, mas o mais gentil e
mais certo de {tudo) é a vontade. Pois se reconhecerdes vossa vontade
dentro de vós, não haverá mais dúvidas. Não haverá algo contra o qual
lutar, pois se tiverdes certeza, todas as atribulações passarão. Para a
vontade, não há impossível, para a vontade, existem todas as
possibilidades. Não existe o tempo para a vontade. Cinqüenta anos são
apenas um momento, um momento de cinqüenta anos. À luz da vontade, a
ignorância desaparece. Na vontade, não existe escuridão ou luz, pois tudo é
bondade e beleza; qualquer coisa menor é amor, paixão, desejo,
necessidade, imaginação. Na vontade, está o que é real, pois o que não
existe na vontade é irreal. Todavia, a vontade precisa ser feita no Mundo
Físico, ela precisa ser manifestada, e apenas através de Ea-Damkina isto
pode acontecer. Portanto, eles dois, pai e mãe, unidos em um/uma, criaram
o bebê Marduk, que cresceu para se tornar um homem, transformando-se
no herói Nergal, limitando-se por sua grandeza de crescimento, e fazendo
aparecer Shamash.

Cada um, em ordem, de acordo com um número, começaram a existir, e no


final dos tempos voltarão a ser um, para não apresentarem divisões. Mas
vivemos no mundo criado. O mundo se mostra por divisão, e assim ele
multiplica suas partes. A aparência das coisas é como grãos de areia do
deserto. Elas mostram-nos o pequeno e o grande, o bem e o mal, o mais
alto e o mais baixo, o antes e o depois. É nosso dever como irmãos tanto
ver como instruir. Sem sabedoria, não podemos sequer ver ou instruir.
Portanto, fomos ensinados por nossos mestres que não há sabedoria sem
visão, que não há visão sem sabedoria. Como podemos ser simples e tomar
as ações mais fáceis se não tivermos a arte de viver? Nosso dever é nos
tornar-mos especialistas na arte de viver, o que significa não viver no
passado ou no futuro, mas no agora, pois a vida deve ser vivida de
momento a momento. Entre cada momento de nossas vidas há uma
pequena morte que pode, a qualquer momento, ser nossa própria grande
morte. A morte é nossa companheira constante, da qual jamais nos
separaremos. Cada ondulação na água tem uma altura e uma profundidade,
cada respiração é um entrar de vida e sair da morte, cada dia de nossas
vidas uma morte e renascimento da luz. Devemos fazer amizade com esta
amiga que jamais deixa nosso lado. Ela é fiel até o fim, e quando ela vem
sozinha nós devemos ecoar a palavra que se projeta como Enlil.

Lembrai, oh príncipe, de conservar pura a palavra, pois pecado é perder o


alvo, pois a flecha irá atingir outro alvo. A palavra far-vos-á completo, pois
vossa companheira sabe a palavra, e quando os dois de vós pronunciardes
a palavra, o alvo não será perdido, não haverá dois de vocês, mas um. Não
haverá um para falar e outro para escutar, pois ambos falarão e escutarão
como se fossem um.

Lembrai, oh Príncipe e Irmão, da confiança que tendes em vós mesmo. Pois


em dias vindouros, vós vos perguntareis como vos saistes em vossa vida.
Não falai a palavra em voz alta, pois é um bobo e insensato quem assim o
faz., não tendo uma base sólida nesta vida ou na vida posterior, nem tendo
possuído raízes sólidas na vida anterior. A palavra é a voz do senhor em
vossa mente, e não deve existir outra, em maneira ou semelhança, pois se
outra existir, não será a Verdadeira Palavra, mas algum outro deus, outra
imagem do templo, ante a qual deveis fazer um sacrifício. Mas ide ao vosso
quarto secreto e ouvi à palavra em paz e tranqüilidade para vós numa hora
sagrada, num dia de descanso de vossos labores. Sentai vossos guardas
na porta e instruí-os que por algum tempo vós não deveis ser perturbado.
Até a guerra e o desastre são feitas esperar, pois a palavra tem primazia.

Portanto, oh Príncipe, aqui está o fim desta carta. Ficarei feliz de ouvir de
vós, caso tiverdes quaisquer outras questões que sejam possíveis de serem
respondidas por mim.

8 de Adar
CARTA OITO - O MESTRE CONSIDERA A FONTE DE TODO O
UNIVERSO, ANU, QUE TUDO TEM, E NADA POSSUI, QUE TEM TODOS
E NENHUM ATRIBUTO, SOBRE O QUAL POUCO SE PODE DIZER

Caro Irmão,

Vossos despachos foram recebidos e vossa descrição das cartas possuem


muito mérito. Estes são assuntos que ainda podem ser mais discutidos, mas
isto ficará para outra hora, quando nos encontrarmos pessoalmente. Esta
carta tratará de Anu, o Senhor da Criação e Receptor, cujo símbolo é a
coroa de chifres depositada sobre um trono, cujo local é o altar quadrado,
sobre o qual encontra-se a coroa anteriormente citada. A coroa é a marca
do deus, cujas qualidades são desconhecidas, e de seus representantes na
terra, o Alto Sacerdote e o Rei.

Anu é o firmamento, seu lar é a esfera que mantém todos os mundos. O


dragão do Caos é seu, e sua senda corta o globo de Enlil e Ea. É Anu quem
cria as divisões dos céus. Ele é e Ele não é. Ele esteve presente antes de
todos os mundos, onipresente, eterno. Ele é a fonte de todos os deuses, e
quando todos os céus e os mundos terminarem, todos retornarão a ele. Ele
criou o grande deus Enlil como a palavra, e Ea como aquele que tudo
escuta. Anu lançou as leis da criação para que todas as criaturas viessem a
existir, em leis simples, mas tais leis criaram seres incontáveis. Lembrai, oh
Irmão, que nos dias de vosso reino, quando o povo fizer-vos rei e como tal,
divino, que tudo o que podeis ver e conceber é de Anu, e que sem Ele, não
existem deuses, mas apenas o caos. He quebra as cabeças dos grandes
monstros através de seu servo Marduk. He prende os céus e todas as suas
criaturas através de seu servo Nergal. Ele ilumina todas as criaturas através
do rei das Terras das Alturas, Shamash. Nabu e Ishtar e Sin falam aos
homens e mulheres a respeito de Anu. Rimon, o fértil mundo físico, o
Senhor da Terra, é Anu. Todos os deuses devem obediência a Anu. Por que
deveria ele se importar se as leis dos deuses forem quebradas? As leis de
Anu não podem ser quebradas, pois elas são as leis de toda criação. A ele,
pertence tudo o que existe. Ele é força e forma, ação e meio. Ele é o ar e a
luz e as águas num só, ele é a terra. Ele é o grande Inspirador, aquele que
tudo formar, tudo faz crescer, quem tudo limita, aquele que tudo perpetua, e
que a tudo responde, todos em um. Ele é o pai e a mãe, mercador e
soldado e rei, donzela e jovem, tudo o que é fértil. Ele é o Reino. Ele é o
orgulho do leão, aquele que traz a vida, o peixe-cabra, o caçador dos céus.
O carneiro cheio de energia e a ovelha, os peixes do oceano, os homens e
mulheres Escorpião do deserto, aquele que pesa as almas, o estudante, o
professor, o escriba. Nele estão o touro fértil das planícies e a virgem, a
colheita do trigo. Ele é o caranguejo à beira do rio, todos são um Nele.

Anu é o mestre dos homens, o fundador de dinastias, o palácio que a todos


dá guarida. Ele é a colheita mais frutuosa. Ele é a gota de chuva no galho, o
rei de todas as coisas. Ele é a segurança de todos nós, e o som que abala
tal segurança. Ele causa medo em tudo o que existe. Ele é a argila do caos
que é a carne de tudo o que existe. Ele é a mão que aponta [erros?] e a
mão que se estende misericordiosa. Ele é o Professor de todos nós. Dele,
ganham poder todos os oceanos do mundo. Dele, é todo crescimento, toda
morte. Ele força tudo a crescer e se desenvolver. Ele é o olhar que percebe
e a boca que tudo nomeia. Ele é o homem perfeito e aquele que tenta os
homens. São pelos desígnios de Anu que todas as coisas se reproduzem.
Ele é a causa de tudo, o começo de toda criação. Ele é o ciclo de tudo e os
signos deste ciclo. Ele é um, e nada ou ninguém se compara a ele.

Quem puder declarar as qualidades de Anu, terá criado um deus à sua


imagem e semelhança, e como tal jamais aproximar-se do grande deus.
Anu é tudo, e apenas nele encontramos descanso. Quem é capaz de dizer
para si mesmo: "Eu sou e não existe outro", e provar tal fato? Quem pode
dizer "Não tenho pai, nem mãe", ou mesmo dizer "Eu sou nada, pois não
existo"? Se um homem ou mulher incorporarem algo dentro de si, este algo
será tomado deles, pois ao final, nada permanecerá. Aquele que matar,
carregará consigo a culpa como uma carga até o final dos tempos, pois
somente Anu pode remover tal carga. Se um homem ou mulher misturarem
suas sementes (genes) com muitos outros, como poderão escapar das
ligações com muitos povos, pois em cada mistura de genes há uma mistura
de naturezas. Quando chamado para testemunhar, cuidai para serdes uma
boa testemunha, pois não existe nada escondido que não será feito
aparente. Não tomai o que é de outros, pois outros poderão querer o que
lhes foi tomado, e está sob vossos cuidados. Não perturbai as fronteiras das
coisas, pois as fronteiras das coisas são a marca da humanidade, e o que
não tem fronteiras, não tem leis pelas quais pode ser conhecido.

A coroa não tem centro, mas descreve o centro, pois ela o rodeia
delimitando o que o centro não é. Portanto, quando damos graças a Anu,
nós dizemos que Ele é Aquele que Não É, pois como podemos dizer algo
sobre Aquele que é a causa de tudo? Se pudéssemos, então saberíamos a
causa de tudo, e então seríamos Anu. Quando, portanto, procuramos
conhecer o divino, primeiro declaramos a esfera dos deuses, e aquelas
qualidades do divino que são adequadas a serem declaradas, e ntão
procedemos para desnudar estas qualidades e por negação nós iremos
descrever, como um círculo o centro, onde se encontra o divino Anu; pois
quando os deuses se retiram da criação, eles vão ao parapeito dos céus,
que é igual à coroa de Anu. Os deuses lá se congregam, como abelhas ao
redor do mel, como mulheres à beira do poço.

Antes de Anu. Havia o Caos, o que não tem forma, no qual não existe a
individualidade, mas no qual lutavam miríades de formas. Por isso é que se
diz na história de nossos povos que antes de Anu, houveram sete tentativas
para fazer uma criação estável. Aqueles que foram Kingu, Apsu, e Mumu,
Lakhmu e Lukhmu, Anshar e Kishar. Mas Anshar e Kishtar deram à luz a
Anu, e Ele fez as leis para prender o Caos. Aqueles Sete Ele
contrabalançou pelos deuses Rimon, Nabu e Ishtar, Nergal e Marduk, e Ea
e Enlil. Portanto, todos foram equilibrados em Anu, a causa de todos, que
tem dois números, zero e sessenta: pois Nele estão equilibrados a ordem
perfeita e a perfeição do nada. No outro extremo da criação, o Nada e
Rimon lutam por controle, e Ela, a Grande Dragonesa do Caos, mantém o
equilíbrio entre os dois; portanto, tudo está em equilíbrio, tudo persistindo
pela virtude da Lei. Agora, por alguns esta lei é chamada de necessidade, e
para alguns parece claro que Anu não está sujeito à Lei, pois afirmam que
se Anu estivesse sujeito à Lei, então a Lei seria o deus ou deusa supremos.
Mas nosso entendimento é que a Lei é Anu, Anu é a Lei, e que ela é a
verdadeira essência do Pai do Firmamento, pois se não fosse assim, não
haveria caos algum. É importante que vejamos que tudo, tanto as criações
que são perpetuadas com a respiração dos mundos [o Mundo Físico],
quanto a criação que não tem forma e que não pode se perpetuar - pois não
tem morada - são Uma. Como se pode entender isto? Tomai um punhado
de argila e separai deste punhado um pedacinho, dando a este pedaço uma
forma. Agora tendes duas formas, uma que é a do pedaço que foi retirado, a
outra que permanece com uma falta de argila. A forma maior é o Caos, e a
forma que vós fizestes, o pedaço que tendes em vossa mão, é o mundo dos
deuses. Ele, Anu, é Aquele Que Dá Forma, portanto a argila é o Nada. O
Caos é uma ausência de forma no Nada, e a criação é a afirmação da
forma. Aqui, então, temos o mistério da criação, pois não há história da
criação, apenas que cada um, Ea e Kishar, Enlil e Anshar, foram feitos no
mesmo momento pela moldagem do nada no moinho de Anu. Portanto, Anu
é o eixo da necessidade, e sua lei é simples, ou seja, que tudo tem dentro
de si uma afirmação e uma negação, Anu sendo o reconciliador, que é
ambos. Deve-se entender de forma clara que existe um fluxo e refluxo em
tudo o que existe, que para cada negativa existe uma afirmação, que a
crista da onda cria seu ponto mais baixo, que a luz cria a sombra, a vida, a
morte, the na respiração está a causa da expiração. Este princípio é de
grande importância na vida de uma nação, dinastia, família, ou se um único
ser.

Considerai o círculo. A linha de fora separa e descreve. Dentro dela está o


segredo dos mundos celeste e terrestre, pois deste princípio vêm todos os
mundos, a seqüência, os princípios, as faces, as letras. Tudo é um, tudo
tem muitas faces. Os mundos devem passar em seqüência, ilustrando os
princípios das muitas faces; e todos podem ser comparados e descritos
pelas letras sagradas, que deverão ser escritas no fim do mundo em fogo
preto sobre o branco, ou em fogo branco sobre o preto.

O irmão ou irmã que resiste até o fim e retorna, sabendo onde esteve e
como viajou até lá, podendo, portanto, ajudar outros viajantes, compreender
a lei, e como tal está nas graças de Anu. Esta pessoa, quando perguntada
quem é, poderá responder com perfeita honestidade: " Sou e serei o que fui,
serei e sou". Este é o começo e o fim do aprendizado, e este é o nosso
propósito: carregar os mapas e instruções de idade para idade, de geração
a geração. Ele ou ela que tudo procuram compreender sabiamente, que
sabem o comprimento, amplitude, profundidade, altura, presença e
ausência, como as coisas são perpetuadas e imitadas, que possuem
firmeza interior na terra e nos céus, que possuem o reino na sua totalidade
e o vazio, ele ou ela são de fato este ser.

Ainda permanecem dois pontos a serem esclarecidos. Estes são


importnates para nós; os deuses Babbor-Shamash e Sin. Eles formam os
Reis das Terras das Alturas, ou seja, o representante no céu de Anu,
Shamash, e seu representante na Terra, Sin. Estes dois são os mastros da
arca de Utnapishtim através da qual escapamos os dilúvios que assolam
nosso país, e não estou me referindo agora ao dilúvio real, mas ao dilúvio
celeste mandado pelos deuses, sendo que é pela fé nestes mesmos deuses
e deusas que podemos ser protegidos destas tempestades espirituais que
podem nos atacar com todo rigor.

Dado no Menasseh, no Quinto dia de Cheshvan, sob o selo do Rei das


Quatro Direções.

CARTA NOVE - O DEUS SHAMASH, SUA ESFERA DE ATUAÇÃO, ELE


TRAZ-NOS DE VOLTA PARA CASA E NOS MANDA PARA O MUNDO
TAMBÉM.
Ao Príncipe de Sangue, Herdeiro Real do Rei das Quatro Direções, Vice-Rei
dos Templos,

Chegamos agora à esfera das Terras das Alturas, as doze terras do céu, até
os habitantes destas esferas, onde veremos como elas se movem e
retornam. Esta é a esfera da ciência real, a esfera dos astrólogos, daqueles
que fixam as datas. Com relação a este tema, há muitas crenças erradas,
muita superstição, muito diz-que-diz-que, e mesmo entre aqueles que
praticam a ciência, existem muitos discursos bobos.

Primeiramente, consideremos o tema de previsões ou augúrios,


especialmente aqueles que prometem desgraça e destruição sob a forma
de vitória por parte de nossos inimigos, ou seja, quando a queda da nação é
profetizada. Está claro para quem quiser ver que se a nação for
conquistada, então esta má sorte é a boa sorte do conquistador, de modo
que devemos inferir que os mesmos sinais que estão nos céus possuem
[apontam] resultados opostos. Lembrai-vos disso quando tal profecia
ocorrer, e provavelmente vós sereis defrontado com algo deste tipo, pois tal
já aconteceu com monarcas do passado.

É verdade que em certos países que têm um grande senso de


camaradagem entre seus habitantes podem fazer crescer influências que
podem afetar de forma adversa sobre outros povos, mas é importante
considerar que a vontade do povo é maior do que as influências que atuam
sobre ele. Vós tendes visto, como todos nós o temos, um garoto fraco
crescer para se transformar num homem forte e rápido, que não pode ser
vencido em combate facilmente, pois a sede por excelência deste garoto
agora tornado homem foi bem maior do que a necessidade de um outro
garoto que sempre foi considerado, de início, forte e capaz. Este é um
exemplo simples, com o qual vós vos ireis deparar de muitas formas. Pois a
essência de um homem ou mulher, sua própria natureza, não deve ser
limitada por condições físicas. Consideremos agora o caso das nações.
Nações que são pobres, com solo pobre, más condições climáticas e muitos
inimigos estão sempre buscando nações mais fortes e capazes. Desta
forma, todo cuidado deve ser tomado: o aspecto mais difícil com o qual se
defronta um homem, mulher ou nação é a prosperidade, pois em condições
prósperas e fáceis, enfraquecem a mente e a vontade das pessoas. Um
homem ou mulher que teme o assalto de ladrões irá se preparar para o
assalto e assim não perder seus bens. Mas se ele ou ela se considerarem
seguros, tenderão a se descuidar da segurança de sua casa, seus bens.
Eles tenderão a alardear riquezas, e assim atrair a atenção de tais
malfeitores sobre si. Seus bens não estarão mais seguros. Assim ocorre
também com o Mapa das Terras das Alturas: se uma nação, homem ou
mulher, tiver boa influência, é necessário tomar grande cuidado para que
não fiquem indulgentes consigo mesmos. Se houver dificuldades, é o dever
do rei abrandar a natureza da nação, pois há uma distância muito pequena
no primeiro caso entre a escravidão e o barbarismo.

Agora, com relação à influência dos planetas, cuidai para que vós não
acreditais naquelas pessoas bobas que dizem que Ninib é uma má
influência ou que Nergal é perigoso. Todos estes assuntos vós ireis ouvir, e
sem dúvida já deveis tê-lo feito, mas um rei não pode proceder desta forma.
Como sabeis, inimigos podem parecer amigos de uma nação quando outros
países estão fazendo ameaças. Um homem perigoso pode ser necessário
na frente da batalha, e um homem arguto e traiçoeiro pode ser um bom
general. A arte de governar mostra como usar todas estas qualidades
humanas, cada uma no seu lugar adequado; assim como é preciso conciliar
estas qualidades dentro de nós mesmos.

Como sabeis, existem doze signos de domínio através dos quais o deus
Shamash viaja à medida em que se move em seus domínios, e em cada
um, assim se diz, há um perigo para ser enfrentado, uma qualidade a ser
desenvolvida. Alguns seguidores da ciência dizem que os signos são para
as estações, mas não é bem assim, pois em suas viagens pelo oceano, os
marinheiros das terras longínquas do sul dizem que lá as estações são
diferentes, e seus navegadores provaram que tal fato é verdade. Portanto, a
qualidade de um signo deve ser buscada, levando-se em conta os dados
interiores e exteriores para cada situação.

Shamash é aquele que traz a luz para as Terras das Alturas. Dele vem todo
calor, dele vem o fogo. Colocai um pedaço de madeira no fogo. O poder que
é liberado pelo fogo é o poder do sol na madeira. Pode-se fazer fogo por
fricção ou por um golpe. Estes métodos liberam, de acordo com a natureza
do material, seja que tipo de fogo que foi dado ao material por Shamash.

Está na natureza de Shamash brilhar sobre todos, bons e maus, justos e


injustos, e aqui está um guia para entender a natureza de Shamash, que dá
calor e luz para todos. Da mesma forma, o rei deve dar vida ao criminoso e
ao cidadão que acata a lei. O rei é o centro da nação, sendo também criado
por sua nação. Da mesma forma Shamash é o centro deste mundo dos
deuses, mas ele foi criado por todos estes deuses. Shamash é aquele que
distribui as benesses de todos os deuses. Ele tudo equilibra, jamais fazendo
erros nas alturas ou nas profundezas, à esquerda ou direita. O símbolo de
Shamash é o número oito. Oito raios saem dele e se distribuem por sobre a
terra, e Ele recebe também de oito raios. A Shamash, foi dado o fio da vida
por Anu, substância de Enlil, direção conferida por Ea, domínio de Marduk,
decisão de Nergal. Ele dá e recebe instruções de Ishtar e Nabu. A ele, são
dadas notícias de todas as coisas que irão acontecer. A partir de Sin, ele
tanto dá como recebe honestidade e justiça. Ele é a fonte de todo poder
real, Aquele que realmente dá as leis. Pois em Shamash as leis estão
implantadas, a lei da natureza das coisas.

Agora, a causa destas leis é, como já deveis saber, o eixo da necessidade,


o coração e a respiração de Anu. Assim que os deuses passaram a existir,
eles adicionaram leis ás leis, e em Shamash estão incorporadas as leis dos
grandes três, mais as leis de Marduk e Nergal. Shamash dá as leis aos
homens. Deveras, ele as deu ao primeiro homem, o primeiro rei do povo, o
primeiro inquilino de Deus, Bachor, que reinou por 360 anos em Bavez. Eles
vieram dos governantes de Sepparu, Roavel que viveu na terra por 78.000
anos, Daliah 72.000 anos. Dumuzi então governou a mente dos homens por
60.000 anos, e depois veio Hemshukel, que governou por 108.000 anos e
Sippuru, que não mais ocupou um lugar na mente dos homens. Então
Shurapuk tornou-se o centro e Socheria manteve a linha por 60.000 anos, e
ntão veio Kidinmarduk, que reinou por 48.000 anos, e que passou o cetro
para Machachyel, que também reinou por 108.000 anos. Sob Machachyel
aconteceu o grande dilúvio, quando todos foram destruídos, exceto por
Shamash(Ut)-Napishtim.

Machachyel foi o pai de Shamash-Naspishtim [de agora em diante, referido


como Utnapishtim], de quem vieram os reis de Sin, pois antes dele, todos os
reis vinham da terra e suas forças vinham da água. Depois de Utnapishtim,
que é o repouso do sol, os homens tornaram-se reis do mar e suas forças
vieram do sol. Desta forma, sabemos que a destruição da humanidade em
tempos futuros será através do fogo, e deverão haver reis do fogo, sendo
que a força de seus governantes deve vir do ar. Ouvi e compreendei.

Diz-se entre nós que o dilúvio vem para todos. Que todos os homens e
mulheres devem construir uma arca e lançá-la às águas, e que ao fazer isto,
eles e elas tornar-se-ão um com os deuses. Portanto, devemos contar a
história uma vez mais. Depois que nove reis haviam reinado, Enlil, o criador,
observou a criação, sua obra.. Vendo que tinha sido uma boa obra, ele
descansou. Então ele fez o homem do barro da terra, e colocou na terra a
árvore da vida e a fonte da juventude. O homem foi instruído na lei: que
todas as coisas eram para seu uso, mas que o fruto da árvore da vida era a
morte e que o resultado da fonte da juventude eram as águas da morte.
Naquele jardim que tinha sido dado ao homem para que ele dele cuidasse,
havia também a árvore do conhecimento. E esta era da seguinte forma:
O jardim era cercado por fogo e parecia-se com um quadrado. Ele era
cercado por água por três lados e no quarto lado havia uma montanha. A
mesma montanha era a montanha do leste, de cujas curvas vinha um rio
que desaparecendo na montanha, surgia no jardim como uma fonte que
alimentava as fossas ao redor do jardim. Em cada lado da fonte havia
árvores, uma das quais, no lado direito, era a árvore da vida, e do outro
lado, estava a árvore do conhecimento das coisas. Quem quer que fosse
que provasse dos frutos da árvore da vida, iria querer mais e mais vida, e
quem comesse dos frutos da árvore do conhecimento, ansiaria por mais e
mais conhecimento, e quem bebesse da fonte da juventude, iria desejar
juventude todos os dias de sua vida.

Naqueles dias, homem e mulher eram como se fossem um; cada um tinha o
seu lugar, nenhum tinha domínio sobre o outro. Ao homem, tinha sido dada
a habilidade de ver a natureza das coisas, e à mulher, tinha sido dado o
Dom da experiência. Daí a serpente, a embaixatriz do Caos, veio até a
mulher e disse para ela: " Por que vocês vivem tão simplesmente como os
animais dois campos, não pensando no amanhã?" E a mulher respondeu: "
Eu experimento tudo o que acontece; o que mais pode haver para ser
desejado?" Mas o nome da serpente era Previsão, e ela respondeu: " Se tu
fosses capaz de saber o que pode acontecer, quanto mais experiências
poderias Ter!" A mulher respondeu:" Fiquei interessada no que me disseste,
mas Anu, o Senhor, disse 'Não deveis pensar no que ainda não é', e esta é
a lei para nós". " Que bobagem", disse a serpente," quando, ao comeres do
fruto da árvore do conhecimento, pudres tudo conhecer, e quando comeres
do fruto da árvore da vida, puderes conhecer todos os seres vivos, então te
tornarás imortal e serás como os deuses". Mas a mulher não confiou na
serpente, e se voltou para o homem, que primeiramente se recusou, mas
como ela continuasse a lhe perguntar quando eles iriam até as duas
árvores, o homem, num momento de esquecimento, disse: " Vai lá e faz o
que quiseres". A mulher foi e provou da água e a vida de sua infância
brilhou cheia de luz à sua frente, e o homem, vendo o acontecido, também
bebeu da fonte, e lembrou os dias de sua juventude. A mulher foi então até
a árvore do conhecimento e comeu de seus frutos, e soube então a respeito
das formas de todas as coisas. O homem, por sua vez, tomou um fruto da
árvore do conhecimento, e soube tudo a respeito do que anima todas as
coisas. Então, homem e mulher conheceram um ao outro, e tornaram-se
um. E eles conheceram a Deus. Então, a partir deste momento, homem e
mulher adquiriram a habilidade de escolher. Anu então disse-lhes para
deixar o jardim, com estas palavras: "De agora em diante, vocês
conhecerão o trabalho, pois vocês são como deuses, mas a não ser que
vocês desafiem os deuses, vocês irão desejar a juventude e envelhecer,
vocês desejarão o conhecimento e irão conhecer o bem e o mal. Agora, se
vocês não trabalharem na criação entre uma vida e outra, vocês
esquecerão o estado anterior". Para a mulher, Anu disse: "Tua necessidade
e desejo será Ter certeza", e para o homem, Anu disse " Jamais estarás
satisfeito sobre como são as coisas". E então o deus Anu fez o primeiro rei,
Bachor, como administrador de toda terra, e quando Bachor morreu, ele
passou o poder para Zidyah. Desde então homens e mulheres buscam o
retorno ao jardim, mas este está rodeado por rosas de fogo e não pode ser
visto.

Agora, nos dias de Machachyel, Enlil viu as obras que os homens e


mulheres haviam feito por suas próprias escolhas, e viu que eles estavam
criando coisas monstruosas que tinham grande desordem dentro de si, e
determinou que a criação deveria ser exterminada, pois a maldição das
coisas era que dentro delas não havia ordem e a mente humana estava
totalmente envolvida com as suas criações. Enlil então soltou os ventos,
insuflando-os, todos os sete ventos sopraram, e as nuvens rolaram dos
topos das montanhas, até mesmo do Norte distante. Ele então fez com que
o deus Shamash brilhasse com grande intensidade. Então, quando tudo
estava seco, e havia grande sede e seca entre todas as coisas, ele soltou
mais uma vez os ventos, e então começou a chover, chuva após chuva
após chuva, e as montanhas deixaram as águas rolarem, e os mares foram
secos por sobre a terra. Todas as coisas se afogaram. O soldado do portal,
a sentinela da torre, o mercador no seu bazar, o administrador dos canais, a
criança no seio, a amada e o amante, todos foram levados pelos ventos, as
chuvas, as cheias. Como Enlil tinha determinado que haveria de ser, Ele
juntou-se a Ea-Damkina, pois as águas eram deles, e Ea-Damkina por
sinais e portentos deixou claro às estrelas e às águas o que deveria
acontecer.

Havia um homem de Shamash chamado Napishtim [chamado de agora em


diante Utnapishtim], um filho de Machachyel, que, tendo observado os
sinais e os portentos, viu e entendeu que haveria um grande dilúvio. Ele
procurou os conselhos de Rimon, que, tendo sido perguntado sobre como
escapar de uma grande cheia, instruiu Utnapishtim na construção de um
grande barco. 400 cúbitos de comprimento por 174 cúbitos de largura e 200
cúbitos de profundidade, com uma extremidade pontuda, e as laterais em
nível uma com a outra por 200 cúbitos, sendo que das laterais à
extremidade em ponta havia 174 cúbitos também, e a parte traseira,
também em ponta, sendo que das laterais retas à extremidade traseira eram
174 metros. Utapishtim foi até Jericó para buscar piche, e com tal material
ele cobriu o barco, ao qual chamou de arca, por dentro e por fora. Dois
mastros ele fez para a nau, um coberto de prata, dedicado a Sin, tendo 100
cúbitos de altura, colocado na extremidade longa da embarcação, e o outro
mastro ele colocou a 100 cúbitos em linha atrás do matro de Sin, todo
coberto de ouro, ao qual chamou de mastro de Shamash. Ele fez uma casa
para controlar a navegação da nau aos pés de Sin e Shamash, uma casa
onde o navegador da embarcação pudesse ficar e ver para onde ir. Na parte
de trás, ele colocou um leme, e entre o leme e a casa do capitão ele
construiu uma arca para Anu; na arca, ele colocou um cubo de pedra com
chifres, e a arca, anão ser por estes elementos, estava vazia.

A embarcação foi construída em três níveis, e em cada andar Utnapishtim


colocou criaturas do ar e criaturas do sol. As criaturas da terra, ele as
colocou no nível mais baixo; no meio, ele colocou todos aqueles que
andavam por sobre a terra, e no nível mais alto, ele colocou os pássaros e
criaturas do ar. Todos os tipos de criaturas e seres mistos, macho e fêmea,
de criaturas puras, sete pares, e de seres mistos, dois pares de cada. E
para a nau que havia construído, ele levou sua esposa e seus três filhos e
suas esposas. Estes foram os ancestrais de todos os homens e mulheres
que sobreviveram ao dilúvio. Os três filhos de Utnapishtim eram Aytan, Uzzi
e Shem, e Shem era o predileto de Utnapishtim.

Quando os ventos começaram a soprar e o sol a brilhar e a terra a tremer e


se rachar e secar de tal forma que nem tijolos pudessem ser feitos,
Utnapishtim, sua esposa, seus três filhos e suas respectivas esposas e seus
filhos, todos entraram na arca que ele havia construído. Eles não deram
ouvidos ao falatório das pessoas, nem ouviram as ameaças de Machachyel,
pois tinham grande fé em Anu, Ea-Damkina e também em Rimon. Veio
então por sobre a terra o grande dilúvio e todas as criaturas pereceram
nele. Por um ciclo completo de 40 sonos e despertar da alma, eles
permaneceram fechados na grande arca. O arca foi levada aos oceanos do
mundo, sem descanso. Finalmente, ela encontrou seu porto numa grande
montanha, a mesma Montanha do Leste.

Utnapishtim soltou então a águia que, depois de voar em círculos por sobre
a terra, voltou à arca. Depois de horas de descanso, Utnapishtim soltou
então uma pomba, que novamente retornou à arca. Depois de dez dias, ele
então soltou um corvo, que retornou à arca, mas voou novamente para
longe, e não mais regressou. Então Utnapishtim esperou mais a duração de
20 sonos e então soltou todas as criaturas que havia colocado na arca,
andar por andar, casal por casal, ele os libertou. E eles foram férteis e sua
progenia abençoada, de modo que a terra não mais ficou estéril.

Desceram então para a terra Utnapishtim e sua esposa, Aytan, Aytan e sua
esposa, Uzzi e sua esposa e Shem e sua esposa, e todas as crianaças que
estavam na arca, todos saíram; Shem foi para o Oeste; Aytan para o Norte,
e Uzzi e sua família foi para o Sul. Todos seguiram seus caminhos.
Utnapishtim ficou no Leste, e seus filhos avançaram nesta mesma direção,
os filhos de sua maturidade, cujos filhos avançaram ainda mais na direção
Leste, e eles eram muitos em número. Enlil se zangou que a humanidade
havia escapado, mas Ishtar acalmou sua zanga e fê-lo prometer que ele
não mais iria punir os culpados e inocentes, e como um sinal de suas
intenções Ele deu o arco-íris em lembrança de que sua cólera não iria se
perpetuar para sempre. E para Utnapishtim e sua esposa ele deu a vida
eterna, pois os dois haviam prevalecido sobre as águas da morte. Esta é a
promessa: aqueles que prevaleceram sobre as águas da morte, serão
elevados à vida eterna, pois o dilúvio está sempre conosco.

É preciso que todo homem e mulher construam uma nau, pois o que já
ocorreu uma vez, pode ocorrer novamente a cada nova vida. Durante a
existência, homens e mulheres são ultrapassados por suas criações e
afogados nas águas da morte. É preciso que nossa nau seja boa e bem
calçada. Também é preciso que tal nau tenha uma direção precisa, um
capitão, um mastro e um local de adoração. É preciso um curso que seja
mantido entre a força e a firmeza, e que o nome [deste curso?] esteja
próximo, muito próximo e querido aos nossos corações. Aquele que não é
ultrapassado pelas águas, ou seja, pelos sentimentos da massa das
pessoas, pode seguir e chegar a seu tempo na montanha ao leste, que
circunda os jardins do Éden.

Shamash cobre um caminho de 360 graus, e estes 360 graus ele deriva de
Marduk, cujo número é 3, de Nergal, que é 4, de Ishtar, que é 5, e Nabu,
que é 6; e estes quatro estabelecem o caminho de Shamash. Agora,
quando fizerdes um horóscopo, ou seja, um mapa dos céus, fazei uma
figura circular e dividi o círculo em oito. As oito divisões devem ser da
seguinte forma: acima do horizonte, ao ponto da nascente, estão os
assuntos que lidam com os inimigos e as lutas, acima do horizonte, na hora
do poente, estão ao assuntos que regem o após-morte. No ponto alto da
direção Leste, estão todos os assuntos relacionados com o destino e a fama
das nações, bem como temas de importância política. No ponto alto do
Oeste, estão todos os assuntos que têm a ver com os conselhos e o favor
dos sacerdotes. Abaixo do horizonte, no Oeste, estão todos os assuntos
ligados ao equilíbrio adequado de coisas como a saúde e as leis do
comércio. No ponto mais baixo do Oeste, estão os temas relacionados com
crianças e o lar. No ponto mais baixo, a Leste, encontram-se todos os
assuntos referentes à fala, escrita e às trocas entre as pessoas, e abaixo do
horizonte, a Leste, encontram-se todos os temas relativos a países,
interesses e habilidades pessoais e nacionais. Mas tudo isto vós
aprendereis em mais detalhes nos próximos anos, se bem que creio que já
fostes instruído nesta ciência. Minha tarefa é dizer-vos para Ter cautela, e
nem acreditar nem desacreditar em tudo o que vos for mostrado.

Vós sois o príncipe e vós deveis brilhar diante das pessoas. Elas olham
para vós como para um centro. Vós mesmos deveis saber que quando vós
tiverdes ido, o trono será ocupado e a coroa será usada por outro monarca,
pois o poder real segue quando o rei morre. O exercício do poder real é a
continuidade da terra, pois a realeza deve incorporar a verdadeira mente
das pessoas daquela terra, sendo que a pessoa que representa este poder
não é importante. O mesmo ocorre conosco. Nós escolhemos um mestre o
qual, com as graças de Anu, é , na realidade, nosso mestre, mas este
governante pode ser de fato um usurpador. Uma coisa é certa. O usurpador
não pode cruzar o dilúvio, apenas o mestre verdadeiro pode fazê-lo.

Agora, com relação a nossos corpos. Nossas mentes são os mestres, nem
sempre, mas freqüentemente, e para nossas mentes, nossa natureza é o
mestre, e Anu é o mestre de nossas naturezas. Shamash está na mente do
mestre, e Ele age por Anu, o Grande, e portanto Shamash é deus para nós.
Sin age por Shamash e é o deus para o corpo. Nas terras do leste, as
pessoas falam e têm retirado [forças] da árvore da vida. Esta árvore, eles a
fizeram em pedra, é uma árvore dupla e complexa, mas real. Nós,
entretanto, usamos velas ou lamparinas, como sabeis, como todas as
nossas crianças o sabem, que elas representam a Sabá dos Céus. Mas da
base tripla, não se fala, e desta falaremos quando falarmos no deus Sin. As
sete luzes, que são as luzes da esquerda para a direita que vemos no
candelabro, são Nabu, Nergal, Ninib (ou Ea-Damkina). A luz do meio é a luz
de Anu, a partir da qual todas as outras luzes são acesas. Então vêm Enlil,
Marduk e Ishtar. À esquerda, está a mulher, à direita, o homem. Não
perguntai de onde eles vêm, pois eles vêm do rei Bachor. Quanto às bases
do candelabro, elas são Tashmit [Teshmetum =esposa de Nabu, e adorada
com ele em Borsipa] e Tamuz e Rimon e Shalti. Se voltardes para a carta
que trata das letras de Nabu, vós sereis capaz de ver a forma correta da
árvore de Eridu.

Shamash é o senhor da vida, tanto nas terras das alturas quanto em nossa
terra. Ele é Aquele que tenta os homens, Aquele que traz a Luz. Ele deve
ser sacrificado, pois enquanto a natureza do homem for seu deus, ele não
poderá cruzar as águas do esquecimento. Ele está tão perto, e Anu tão
longe. Os efeitos de Shamash são tão fortes, e os de Anu parecem tão
fracos, que o deus Sol parece ser mais forte do que todos os outros deuses,
e deveras vós podeis Ter visto que alguns homens e mulheres consideram-
no o maior dos deuses. Mas sacrificai o coração da Terra Inferior, na
sabedoria, compreensão e conhecimento, purificai vossa mente verdadeira
de todas as coisas que tem origem em vossa natureza, instruí vossa alma,
trazei-a ao fogo de Shamash, Nergal-Ereshkigal, e Marduk-Zirbanit, a deusa
Ai irá salvar e cuidar de vossa mente e vós vos tornareis em um ser tão
grande quanto aqueles que habitam as Terras das Alturas.

Agora, a natureza de Shamash é tripla, pois nele está Ekimmu e a Alma e o


Espírito. O Espírito de Ea-Damkina e Enlil está ligado aos céus, e Ekimmu
está ligado à terra; a alma humana une os dois, pois ela faz a mediação
entre o céu e a terra, entre o que realmente existe e entre o que é pessoal.
A alma humana anda na ponta da espada, e quando seu orgulho não lhe
barra o caminho, ela não irá falhar; mas se orgulho e possessividade se
firmarem, a alma irá entrar no inferno superior ou inferior, os céus ou a terra
e o homem [ou mulher] morrerá. Para realizar a obra da criação, a alma
deve segurar as rédeas tanto do espírito quanto de Ekimmu. Ela deve guiar
a carruagem do sol sem medo e com humildade, pois somente desta forma
o homem [a mulher] pode se transformar num verdadeiro rei [rainha]; daí
segue que todos os homens e mulheres são reis e rainhas pela criação.

De tempos em tempos, Enlil na sua sabedoria manda um filho que, pelo


espaço que reinar, torna-se o rei de todos os homens. Tal rei não é um rei
de países humanos, ele é um rei das menstes dos homens, ele age como
guia e pastor de seu povo até a hora em que um novo filho da sabedoria é
mandado para renovar o impulso que enfraqueceu. Tal homem é um
Shamash, ou seja, tanto um sol quanto um servo, uma luz para todos os
homens e um guia para os caminhos das pessoas em suas vidas. Que vós
sabeis reconhecer e honrar tal ser se tiverdes a sorte de estardes vivo
quando ele for mandado à terra. De outra forma, agi como se fosseis tal
escolhido.

CARTA DEZ - SIN, O FORTE, O GOVERNADOR DOS HOMENS. A NAU


NA QUAL O DILÚVIO FOI CONQUISTADO.

Honrado Príncipe 10 de Tishri

Irmão do povo. Aqui vos escrevo pela última vez. Estou satisfeito com vosso
progresso e mais será dito a este respeito ao final desta carta. Neste meio
tempo, continuaremos a seqüência de cartas começadas até o presente. Na
primeira carta, lidamos com a terra , a existência real de todos nós por
sobre o mundo físico. A Segunda carta, como o sabeis, tratou das forças de
reconhecimento e intercâmbio entre as pessoas, entre as pessoas e a terra,
e também tratou do serviço, pois através do serviço e do trabalho é que nos
comunicamos com os outros e com tudo o que nos rodeia. Isto porque, a fim
de falarmos à natureza, devemos ser capazes de moldá-la de acordo com
as leis da natureza e as leis que orientam nossa existência. A seguir,
movemo-nos para os aspectos que perpetuam todas as coisas, onde
lidamos com a forma através da qual todas as coisas se capacitam para
tornar a existir.

A Quarta carta tentou tratar com a natureza da lei, principalmente da forma


com que a natureza das coisas governa a maneira sobre a qual estas
mesmas coisas interagem entre si, como em suas ações elas se limitam e
ao fazer isto, criam portanto o poder e a lei. Então, prosseguimos para tratar
do crescimento de todas as coisas, a forma através da qual todas as coisas
tentar ser, em todos os lugares, e como ao tentar ser, elas também criam as
forças delimitadoras. Passamos então a tratar da base da forma, a causa da
forma, a fundação de todas as formas, cujo poder criativo dá substância a
tudo o que existe.

Daí, passamos a tratar da força criativa em si mesma, que chamamos de


palavra do Senhor, à enunciação da palavra, aos comandos do próprio
deus. Neste ponto, não achamos palavras para descrever o processo, pois
semelhante apenas pode ser conhecido por semelhante, e mesmo assim,
há o risco de se perder um pouco do significado. Das considerações a
respeito da palavra, passamos ao que nem mesmo podemos começar a
discutir, e que apenas pela lei da necessidade que é criada é que se pode,
de alguma maneira, começar a tentar explicar.

Tocou-se no mundo de Shamash, e foi importante falar da matéria, um tema


de grande importância para todo governante. Pois é através da natureza
das coisas que se exercita a arte de governar. É muito difícil falar da
capacidade de ser de uma mesa, ou da essência de um lírio. Portanto, em
tempos de outrora, foram feitas lendas e contadas como histórias, que
falavam ao coração e à memória da humanidade, de forma que a razão não
interferisse com o contar desta lenda ou história.

Existem dificuldades em tratar de Sin, pois Sin é a imagem das coisas, e


como tal tem a qualidade da mudança, como a lua, que jamais é a mesma,
mesmo por dois dias. Portanto, também devemos falar de Sin em parábola.
A série de histórias que ouvimos sobre Aromea, ou Gilgamesh, como outros
o chamam visam dar à mente humana imagens através das quais se possa
pensar. Neste caso, iremos contar uma destas histórias. Lembrai, Aromea é
uma imagem de um homem, e pode ser uma imagem pessoal que conta
uma história real para cada um de nós. Portanto, as imagens de sonhos e
histórias carregam uma qualidade heróica de tempos passados que é
revivida na vida de cada um de nós.

Conforme deveis Ter ouvido, houve uma vez, na grande cidade de Kaph-
Kur, um grande homem chamado Aromea. Ele tinha uma grande sede de
viver, que brilhava com grande força à sua volta. À medida em que crescia,
esta força fascinava todos que entravam em contato com ele, primeiro as
crianças, depois os jovens e as donzelas, e então os homens e mulheres.
Todos as mulheres nas quais os olhos de Aromea se detinham, ficavam
suas escravas, e seus companheiros, se bem que a contragosto, também
caíam sob o encanto de Aromea. E Aromea, com o correr do tempo, ficou
cada vez mais forte, pois seus desejos ficaram mais fortes com a idade. Ele
tornou-se primeiro no líder dos jovens da cidade, e depois, ao se tornar
mais aventureiro, passou a dominar toda região ao seu redor, e assim a
cidade cresceu em estatura e Aromea transformou-se no capitão do
exército.

Aconteceu que a cidade de Tiach-al-Zach enviou emissários, exigindo


tributo, como em anos anteriores. Os anciãos de Kaph-Zur concordavam
com esta disposição, pois sabiam que apesar de terem de pagar um preço
em termos materiais, o tributo era sem dúvida mas barato do que uma
guerra. Mas Aromea, com sua sede de poder incentivou os jovens da cidade
para que eles se recusassem a pagar o tributo exigido. Então, os anciãos
não tiveram escolha, a não ser também se recusarem a pagar a soma
exigida por Tiach-al-Zach. Os jovens agora tinham a cabeça cheia de idéias
de coragem, glória e conquista e pilhagem, e recusaram-se a deixar que
qualquer tributo deixasse a cidade. As mulheres, vendo os jovens guerreiros
na sua glória, esqueceram que são os homens que lutam e vencem vitórias,
mas que são as crianças, mulheres e idosos que pagam o preço na derrota,
pois são eles e elas que são levados como escravos quando a cidade cái,
também perdendo durante a batalha.

Portanto, os emissários de Tiach-al-Zach retornaram ao rei com a


mensagem que Kaph-Zur não iria se submeter. Então o rei chamou por seus
atiradores de lança, arqueiros e espadachins, bem como suas carruagens, e
eles se levantaram contra Kaph-Zur. Os chifres soaram, foi dado o sinal
para o ataque. As muralhas eram fortes, e os jovens mostraram seu valor e
coragem. O herói Aromea foi com seus melhores soldados contra os
capitães de Tiach-al-Zach e ao final do dia, Aromea e seus companheiros
prevaleceram contra os inimigos. Cada homem de Kaph-Zur havia acabado
com cinco da cidade inimiga, e Aromea tinha ele mesmo matado 22 de seus
inimigos. O povo de Kaph-Zur regozijou-se: os ganhos da batalha foram
divididos entre os vitoriosos, e eles renderam preces de gratidão ao deus
Sin.

A cidade de Tiach-al-Zach era devotada ao deus Shamash, e o rei daquela


cidade foi ao templo e apresentou o problema de Kpah-Zur ao deus
Shamash. Shamash aconselhou-se com Nergal e Marduk, ouvindo também
a Ishtar e Nabu. A todos eles, Shamash se dirigiu, dizendo: " Este homem,
Aromea, está usurpando o poder de Shamash".

Os deuses olharam para a cidade de Kaph-Zur, mas não encontraram faltas


na cidade, pois os anciãos não queriam batalha, e Aromea apenas havia
enfeitiçado os jovens para lutar. Não havia falta nos jovens, a falta era toda
de Aromea.

Ishtar a deusa, porém, amava homens de poder, e ela lançou um olhar


benevolente na direção de Aromea. Nabu, que apreciava o Dom da
eloqüência, fez o mesmo. Os dois, em disfarce, foram até Kaph-Zur, onde
havia uma grande festa na Câmara do Conselho. Ishtar e Nabu foram juntos
ao banquete, dizendo na porta que Nabu iria falar ante aos convidados, e
que Ishtar dançaria para eles. Então Aromea falou para todos: " Quem é
maior que Aromea? Quem é mais ágil? Quem é aquele que é mais
emocionado, cuja língua soa como um sino? Que haja uma competição!" E
assim foi feito.

Então Nabu tomou a lira, e tocou a canção daquele que traz o fogo e
daquele que fez os símbolos. Lindas eram as palavras, emocionantes os
acordes da lira, pois cada som tocou uma corda nas mentes daqueles que
estavam escutando. À medida em que Nabu cantava, os homens idosos
lembraram dos seus dias de apogeu, e as senhoras mais velhas, seus
amores e filhos, e todos lembraram dos dias de suas infâncias. Todos foram
levados ao estado puro do que é ser criança. Em cada olhar havia uma
lágrima, e à medida em que Nabu tocava, ele tocava também nos corpos de
seus ouvintes, que começaram a se mover com a música, de forma com
que todos esquecessem o nó na garganta. Então Nabu tocou outra canção,
agora para encantar o coração dos que o escutavam, tão gentil e
claramente que parecia ele estar falando uma linguagem sem palavras. Ele
tocou as palavras dos deuses nas mentes das pessoas, para que elas
sentissem que conheciam segredos que tinham esquecido.

Aromea, o grande herói, vendo as pessoas tão afetadas e sentindo-se


cauteloso frente a tal eloqüência, bradou alto e forte: "Bom, bom, muito
bom, mas a festa desta noite é uma celebração de vitória. Quem pode mais
contra o poder dos homens de Kaph-Zur? Quem bateu os soldados do
grande rei, que correram como ovelhas amedrontadas? Quem viu seu povo
correr, como cães sob os chicotes da cidade? Quem se parece conosco?
Quem pode fazer melhores potes e utensílios, melhores espadas e
carruagens? Quem tece melhor do que nós? Quem no mundo é melhor do
que nós, o povo de Kaph-Zur?" Aromea então seguiu falando à cada
homem e mulher, elogiando-os, pois ele os conhecia a todos, falando do
orgulho da posse, do orgulho das artes, do orgulho pela cidade. E as
pessoas da cidade, sendo humanas e apreciando os elogios, ficaram
contentes e elogiaram Aromea, pois a eloqüência dele era mel nas suas
bocas, e perfume para seus narizes.

Então Ishtar, a bela, levantou-se e foi até o centro da sala, onde começou a
dançar. Linda de se ver era ela. Olhos como poços no deserto refletindo as
estrelas, faces tão macias quanto o peito de pássaros, enrubescidos com a
cor da aurora e do anoitecer. Seus lábios, eram como flores, carnudos e
saborosos. Sobre seus cabelos, Ela trazia um crescente. Ela carregava um
bastão de lápis lazuli, que tinha uma corrente de ouro redor. No pescoço,
ela trazia um colar cuja cor era o azul do céu de verão, e diamantes podiam
ser vistos nos seus seios. Ela tinha um anel de outro no dedo, e vestia um
corpete de prata. Na cintura, ela vestia uma roupa da cor da névoa de uma
manhã de primavera, que se movia quando ela dançava.

Nas mãos, Ishtar trazia duas velas de cera preciosa, que exalava o cheiro
dos campos e o calor de um dia de verão nas montanhas. À medida em que
Ishtar dançava, seus membros se moviam de um lado para o outro, como o
fluir das águas de um rio, suavemente, sem interrupções, de um lado para o
outro. E todas as mulheres, jovens e idosas, sentiram-se uma com ela. Os
homens todos desejavam possuí-la. E Aromea, vendo isto, viu a Deusa
diante dele, oferecendo-se ante às pessoas. Aromea reconheceu Ishtar,
lembrou dela e tocou o gongo, dizendo:

 Agora, ante o deus Sin, eu falarei. Sei que Tamuz chora todos os
anos, e que o gavião tem as suas asas quebradas. Há um leão ferido
sete vezes e um garanhão batido em seu orgulho, que foi deixado
para morrer de sede. O pastor que se transformou em leopardo, o
que foi feito dele, e meu amigo, o jardineiro, agora transformado num
anão, do qual todos fazem graça por causa de ti? Mas eu, nem meu
povo, sucumbiremos aos teus encantos, pois quem tu amas um dia,
no próximo estará chorando. Sái já daqui!

Então Nabu da língua de prata aproximou-se e desafiou Aromea, dizendo:

 És tão forte e ágil, vamos então lutar um contra o outro!


Aromea, em seu orgulho, avançou e pegou Nabu pela cintura, mas Nabu se
retorceu, escapando de Aromea. Eles lutaram , mas nenhum pode
prevalecer contra o outro. Então Nabu falou:

 Vem comigo, e minhas serpentes ensinar-te-ão na ciência, e saberás


o nome de todas as coisa.

E Ishtar sussurrou no ouvido de Aromea:

 Vem comigo, meu amor.

Mas Aromea rejeitou os dois, clamando por Sin. Sin ouviu Aromea e pegou
Nabu, tentando quebrar suas costas. Nabu transformou-se em dois e
escapou. Aromea voltou-se para Ishtar, mas ela bateu nele com seu bastão
exatamente na coxa de Aromea e também desapareceu.

Um grande medo surgiu em Aromea, que olhou para sua coxa, e viu que
onde o bastão o havia tocado, a pele havia ficado branca. Aromea retirou-se
para seus aposentos, não sem antes chamar pelos médicos. Mas ninguém
pôde curar o rei, e a lepra espalhou-se por todo corpo do monarca. Aromea,
o herói, amado por todos, o líder, começou a ser rejeitado, pois assim era a
lei. Ele orou em voz alta na sua tristeza, ele chamou por Sin, ele chamou
por Rimon. Sin não lhe respondeu, pois estava no quadrante de seu menor
poder. A terra tremeu, e Rimon trovejou no ouvido de Aromea:

' ALÉM DA TERRA, ALÉM DAS ÁGUAS DA MORTE, ALÉM DOS PORTAIS
DO CÉU, ESTÁ A MONTANHA DO LESTE. VÁ PRIMEIRO PARA O
DESERTO, ENTÃO O CAMINHO SER-TE-Á ABERTO'.

Então Aromea, o herói, avançou rumo ao deserto. Por muitos dias ele
vagueou, alimentando-se de mel selvagem e raízes. Então, depois de haver
passado muito tempo, ele se perdeu e não sabia mais para onde ir. Ele, o
grande herói, tinha-se tornado num covarde cheio de lamúrias. Ele chorou e
as sombras saltaram ante tal som, ele se odiou, pois tudo o que um dia fora
tinha-lhe sido tirado. Ele olhou então para dentro de si mesmo e nada
encontrou. Ele olhou para dentro de si mesmo para saber onde estava sua
alma, e nada encontrou, exceto num canto da escuridão interior, ele viu
então como uma flor no solo do deserto, um pequeno objeto branco, tal qual
um trapo por sobre a areia. Então, erguendo seus olhos para os céus, ele
chamou por Sin, o grande deus Sin, e naquela noite, quando o sol se pôs,
ele viu nos céus um sinal de Sin, o dente, e, ao olhar na direção do Leste,
ele viu uma luz brilhante que descia para a terra. Ele marcou o ponto pelas
estrelas e seguiu tal ponto, viajando à noite, pois este ponto não poderia ser
visto no calor do dia. Então Sin emprestou mais e mais luz à jornada de
Aromea, abençoando-a.

Aromea então chegou aos portais do sol e da lua, o portal da morte,


guardado pelo povo do Escorpião, aqueles que estão entre o céu e o
inferno. As feições do povo Escorpião eram terríveis de se ver, seus olhos
de cortar o coração humano. As vozes deles eram como facas no
estômago, fazendo a coragem e o orgulho desmoronarem, e o forte tremer
onde quer que estivesse. Então o homem escorpião voltou-se para sua
esposa e falou:" Quem é este que veio até o portal do renascimento?" Ela
respondeu a seu marido, dizendo: " Ele tem um deus dentro de si e a marca
dos deuses está nele, pois ele carrega uma doença na pele". Então
Aromea, vendo que eles não lhe desejavam mal, tomou coragem e com
humildade para com eles, perguntou como poderia continuar sua jornada.
Eles responderam a Aromea:" Em tempos passados, tu dirigiste o barco de
Utnaspishtim. Relembre então teu estado anterior". "Como então posso
fazer isto?" Eles, falando a uma só voz, responderam a Aromea, dizendo: "
Cada homem e mulher morre muitas vezes. Como podem eles lembrar de
seus nascimentos, se não lembrarem de suas mortes? Pois é o choque da
morte que faz vocês esquecerem de seus nascimentos. Dves te banhar nas
águas da vida e descansar na árvore do conhecimento, a fim de que não te
esqueças novamente de tua tarefa de vida nesta terra". Então eles
alertaram Aromea de que o terror da morte estava diante dele e que devia
ser enfrentado e sobrepujado, e que todos os homens e mulheres morrem,
mas poucos se lembram. Então Aromea caiu em repouso, e vendo sua vida
e as mortes que tinha trazido a outros, começou a tremer, mas segurou com
firmeza aquele pequeno pedaço de trapo branco que havia encontrado no
deserto. Então, ele começou a sentir maior firmeza interior, e disse para si
mesmo: " Morri pela flecha [que atingiu] meu coração", pois ele sentiu uma
pontada no peito. Então ele se viu a si mesmo como muitos homens
morrendo por doença e veneno, pela fome e pela sede. Ele começou a
multiplicar suas mortes, e todos eram Aromea. Então, voltando a si, ele
novamente começou a jornada na direção do leste. Mas não mais ele sabia
seu nome, nem falar podia. Nem seus membros mais lhe pertenciam.

Então Aromea chegou às margens do grande oceano que circunda a terra.


Nas margens das águas crescia uma árvore, maravilhosa de se ver. Seus
galhos eram jóias, e suas folhas brilhavam como luzes tecidas uma dentro
da outra, brilhando em várias cores, sendo que na beira das águas havia
juncos cuja altura era tão grande quanto a dos cedros. Aromea cortou 360
bastões destes juncos, deixando-os secar ao sol. Então, por sobre as águas
da morte, apareceu um bote, e nele Aromea colocou todos os bastões que
havia cortado, pois o povo Escorpião tinha-lhe alertado que ele não deveria
deixar cair sobre si uma gota sequer de água do oceano da morte. Aromea
sentou-se no barco, e zarpou, colocando um dos pólos na água como remo
e contemplando o brilho das luzes da árvore. Cada vez que o bote parava,
Aromea usava outro dos pólos e seguia adiante. Assim foi até chegar ao
120º pólo, quando ele avistou uma ilha. Mas lá ele não pôde aportar por
causa da lama que circundava a ilha, pois tal lama se movia e trocava de
lugar. Tomando mais pólos, Aromea fez uma ponte que ia do barco até a
terra, para isto usando 120 pólos. Então ele avançou pela ponte.

A lama era horrível de se ver, pois tinha dentro de si todo cheiro e cor da
corrupção, se retorcendo e se movendo feito larvas, sendo que todos os
tipos de criaturas mal formadas assomavam à superfície e desapareciam no
ar, à medida em que Aromea avançava pela ponte. Aromea mesmo assim ia
em frente, e todas as coisas que lhe tinham acontecido, a mulheres que
havia amado, os alimentos e bebidas que havia experimentado vieram à
tona na superfície da lama, e ele começou a lembrar desta e outras vidas. E
as vidas de seus companheiros e ancestrais apareceram também.

Daí Aromea chegou à terra firme, que tinha toda aparência de uma jóia
vermelha, que brilhava como se tivesse dentro uma grande luz. Ele ouviu
então uma voz dizer-lhe:" A duração dos dias e a força da vida devem ir e
vir, e o ir e vir de um homem é como um grão de areia no deserto." Aromea
clamou então, conforme lhe havia sido ensinado pelo Povo Escorpião,
dizendo: "Utnapishtim, meu mestre, meu ancestral, ouvi meu lamento, abri
vosso coração ao vosso descendente". Utnapishtim ouviu Aromea e
dirigiu0se a ele dizendo: "Para onde estás indo e por quê estás aqui, pois
esta é uma terra para onde vêm apenas os deuses. Tu não és um deus,
mas certamente tens a marca Deles. Por que estás aqui?" Aromea contou a
ele tudo o que lhe tinha acontecido, dizendo que buscava as águas da cura
e a fonte da juventude. Utnapishtim falou então: " Em tempos passados,
guiastes o bote da vida por sobre as águas da morte. Agora voltaste
novamente. Por causa da lembrança de teu serviço, vou ajudar-te, mas seja
o que for que acontecer nesta hora, tu não deverás cair no sono, pois
quando dormistes, te tornaste humano. Tenta não esquecer disto." Ele levou
então Aromea à montanha leste, ao topo da montanha do Leste, ao lugar
onde começa a fonte da juventude, e Aromea se banhou na fonte.
Utnapishtim então levou para ele uma maçã e colocou-a ao lado da fonte,
dizendo: "Uma hora, a serpente cujo dever é guardar a árvore do
conhecimento irá aparecer e pegar a maçã, para colocá-la de volta na
árvore. Quando a serpente [masculino na versão em inglês, ou seja, o
serpente] deves agarrar a serpente pelo corpo, e ela dar-te-á outra maçã da
árvore da vida".
Aromea então sentou-se numa rocha da montanha do Leste e começou a
observar a maçã. À medida em que a observava, ele começou a ver dentro
os raios do sol brilhando na face, e à medida em que brilhavam, eles se
partiam e se misturavam novamente um com o outro, fazendo aparecer
todas as cores. As cores também começaram a se misturar, algumas mais
fortes, outras mais fracas, e começaram a formar os contornos
[semelhanças no original em inglês] das estrelas, dos planetas e das
nuvens, da água e das montanhas, de todas as criaturas, homens e
mulheres dentre elas, vermelhas, e negras, e amarelas e marrons e
brancas. Então as nações da terra começaram a aparecer dentro da
superfície da maçã e então os deuses em toda sua beleza e terror. Ficou
claro de ver que apareceu na maçã toda semelhança da beleza de Ishtar, tal
qual ela havia dançado na Câmara do Conselho, e Aromea lembrou o
perfume dela, seus movimentos, e começou a lembrar da batalha de Kaph-
Zur e sua vida passada, começando a sonhar com as glórias de então.

E ele sonhou, mas de súbito, viu um raio e a maçã se moveu, e Aromea


estendeu a mão para pegá-la, pegando a cauda da serpente que, enquanto
ele sonhava, pegou-o adormecido e tinha tomado a maçã. A serpente
afastou-se mais e mais de Aromea, deixando atrás a ponta de sua cauda.
Então ele ouviu a voz de Utnapishtim no seu ouvido: " Homem tolo,
novamente falhaste, novamente adormeceste, portanto novamente deves,
como não tiveste sucesso, prosseguir, e morrer, seguir adiante e morrer;
entretanto, leva contigo o fragmento da serpente, pois ela será a tua única
proteção para retornar para a terra dos homens e mulheres. Enquanto a
tiveres, o inferno não poderá te alcançar, teus conselhos terão grande valor,
pois o fragmento da serpente é um fragmento da sabedoria. Sai já daqui,
pois falhaste. O que foi decretado para os homens e mulheres é nascer,
crescer para se tornarem adultos, casar, Ter filhos, e então, no apogeu da
vida, morrer. Tu esquecerás, como já esqueceste antes, que todas as coisas
existem a seu tempo, que todas as tuas vidas estão aqui, e todas as outras,
pois a luz mistura e tudo faz, inclusive a ti, e te faz adormecer, sonhando
com as vidas passadas e futuras. O segredo que aprendeste aqui e que
viste na maçã, irá se apagar, e irá fazer novamente a sua jornada, até que
não mais conseguirás dormir."

Então Aromea seguiu de Dilmun para a ponte dos pólos, avançando rumo
às águas da morte, no barco que o esperava, e impulsionando seus pólos,
120 deles, ele cruzou as águas da morte de volta aos portais dos povo
Escorpião. Lá, curado de sua doença e ainda segurando os fragmentos da
serpente, ele entrou novamente na vida como homem, onde governou como
um bom rei, fazendo a paz com Tiach-al-Zach, casando-se e tendo filhos.
Mas sempre carregou consigo como lembrança um amuleto contendo os
fragmentos de sabedoria, e para que enfrentasse a morte na esperança de
que esta não fosse só um sono profundo, ele fez uma canção para o deus
Sin:

" Poderoso sois vós por sobre a terra, pois colheis os sonhos de todos os
homens, e os moeis para que sejam farinha para vosso pão. No sono dos
homens e mulheres, vós vos tornais mais poderoso, e em vossa maior hora
de luz, vós dais vossa luz a todos os homens e mulheres. Sem vossa
presença, não haveria imagem, ou semelhança por sobre a terra. Não
haveria reis ou governantes, nem haveria alimento para vós, nem grandeza
por sobre a terra. Apenas as criaturas que dormem nas águas existiriam,
pois vós trazeis mudança, e necessidade e sustentação, e homens e
mulheres são criaturas de vossa forma. Sem os homens e mulheres, vós
nada sois, nem haveria qualquer outra coisa por sobre a terra."

Dizem que o deus Sin é o maior de todos os deuses por sobre a terra, o que
é verdade da seguinte forma. O número de Sin é sete, e ele é rodeado pelo
oito de Shamash, o cinco de Ishtar, o seis de Nabu e o nove de Rimon.
Agora, estes quatro fazem o número 28, que é o número dos dias de Sin; o
número de Sin é sete, e sete são os dias de seu crescimento, sete dias são
os do seu apogeu, sete são os dias em que decresce em brilho, e sete são
seus dias de escuridão. Sin se levanta na ponta [dente] do javali dos céus,
como os chifres do Urus celeste ele se levanta, e todas as coisas nele
crescem, todas as plantas, tudo o que deve crescer. Sin floresce na noite,
rivalizando com Shamash, e quando está no seu apogeu, então Ele precisa
dos sonhos humanos, pois Ele media entre este mundo e o sol, tudo passa
por seus portais e ele toma uma taxa de tudo o que possui. Ele é o
administrador do Grande Rei que usrupou o lugar do rei, e os sábios o
reverenciam enquanto do seu reinado, levando em conta o dia que o rei,
Seu mestre acorda, e O manda para a escuridão. Pois quando o rei vai
descansar, Sin aparece por si só, até que seu administrador apareça à luz
do sol, quando Sua luz se torna um pálido reflexo. Então ele posta-se ao
lado de Shamash como um bom administrador. Ouvi, oh Príncipe, e lembrai.
Em todo homem existe um administrador que se posta entre o mestre e o
mundo. Enquanto o mestre dorme, ele ganha seu poder, governando em
nome do mestre; então ele vem pelo espaço de sete dias para governar
sozinho, até o mestre vir [novamente].

Lembrai-vos: o sono traz poder aos servos, e os servos fazem maus


patrões, pois eles consideram apenas sua própria importância. Os
sentimentos dos servos são apenas, na melhor das hipóteses, apenas a
reflexão dos sentimentos de seus patrões. Mas o patrão/mestre sente as
necessidades da nação e nem considera seus próprios sentimentos como
os mais importantes. Sin é quem rege as vidas dos seres humanos. Que
Shamash seja a luz de vossa vida. Antes de nascermos, não temos luz
própria, e até nos separarmos de Shamash, não podemos ser
independentes. Quando nascemos, possuímos a menor, a mais pálida luz
individual, que gradualmente cresce e brilha na escuridão onde o sol não
brilha. Então nossa luz cresce e fica maior, iluminando a terra em que
vivemos, até a luz alcançar o seu pico. Mas quando esta luz não tem
profundidade, ela faz com que possamos ver as coisas e mostram um
caminho a ser seguido, mas não haverá colorido na vida, e a distância não
poderá ser vista de forma bastante clara. Assim é com a luz da nossa vida.
Nós pedimos por empréstimo da luz da nossa vida uma pequena luz, e
quando a luz em nós atinge o seu ponto máximo, então ela começa a ficar
mais tênue, e diminui na proximidade daquela luz que ilumina a vida de
todos. Na luz do sol, todas as coisas podem ser vistas, mas na escuridão da
noite, o que podemos ver? Se as estrelas são brilhantes, então poderemos
ver algumas coisas, mas só de forma difusa.

Que esta seja uma parábola para todos nós. Pois na vida de homens e
mulheres existem tantas partes como estrelas no céu. Este é o espaço da
mente, e na mente existem muitas conexões que se parecem com sinais
que são representados por doze figuras. Dentro de nós, elas são doze
grupos de partes, e temos seis que se movem dentre eles como líderes e
mensageiros. Com Sin, estes perfazem o número de sete. Os doze tomam
sua luz não de Shamash, pois eles sempre existiram desde o começo, uma
vez que Anu ...

Acima deles, colocamos um capitão, um administrador, que tem acesso ao


rei e ao povo. Este é Sin. Nele, está o governo da terra. Nele, está o poder
para administrar o mundo físico. Mas o governante real é Shamash, e além
dele as estrelas do céu: acima, Enlil, em baixo, Enki, no meio Anu, o espaço
dentre eles, Marduk, os limites, Nergal, a vida, Ishtar e as novidades de toda
matéria são trazidas por Nabu. Dentre eles, governa-se e ordena-se a
mente humana.

O deus Sin é em especial aquele que governa as mulheres, pois os meses


da lua são os dias do ciclo sagrado da mulher, e ela irá conceber aos dez
meses do deus Sin. Para cada deus e deusa, um ciclo do deus Sin. O
primeiro mês é o mês de Anu, o segundo de Enlil, o terceiro de Enki, e é
nestes três meses que se faz uma criança. Então, nos próximos três meses,
aqueles de Marduk, Nergal e Shamash, todas as partes são completadas,
para que a criança possa viver. Então, nos próximos três meses, os de
Ishtar, Nabu e Sin, cada órgão é levado à compleição, até que no nono mês
a imagem da criança é aperfeiçoada. Então Rimon, Aquele que Faz a Terra
Tremer, rompe o mundo da criança dentro do útero e a criança é jogada no
mundo. Pode-se ver, portanto, que o mês de Sin é aquele que completa o
crescimento da criança, sendo Sin aquele que causa as ações de Rimon:
desta forma, não existe um alto sacerdote de Sin, mas uma Alta Sacerdotisa
que rege os ritos deste grande deus, e ela dever Ter dado à luz, pois
apenas desta forma ela conhecerá a verdadeira natureza de Sin. Em todos
os aspectos relativos aos cuidados com crianças, Sin é supremo, e os
primeiros quatro anos de um menino ou menina pertencem totalmente a
Sin, pois 52 são os ciclos de Sinque fazem uma criança se separar da mãe,
e por esta razão todo menino ou menina devem permanecer aos cuidados
da mãe por [pelo menos] quatro anos.

No que tange aos cereais, crianças e animais, Sin é soberano, e em seu


caráter de Governador da Vida, ele também tem domínio sobre todas as
doenças. Portanto, o homem sábio apresenta seus respeitos a Sin, observa
seus movimentos e sua relação com os representantes dos deuses que se
movimentam nos céus. Há um tema de grande importância. Os sacerdotes
e astrólogos não mencionam a existência de um planeta [chamado] Enlil.
Este é um segredo sabido apenas pelos altos sacerdotes de Enlil e pela
irmandade. Deve-se saber onde e o quê procurar: ou seja, da colina de Enlil
até a fonte de Enlil na hora determinada pelo Alto Sacerdote, o emissário de
Enlil poderá então ser visto na fonte. Agora, a razão pela qual falo destes
assuntos neste momento é que se Enlil chegar ao ponto mais alto dos céus
quando Sin estiver aparecendo no firmamento no ponto mais alto e com
brilho máximo e que também Shamash estive se pondo, então haverá em
nosso país uma manifestação de Rimon. Fica evidente que Enlil se move de
forma muito lenta, pois o seu movimento tem a duração da vida [de cada]
ser humano, e Shamash também se move lentamente, pois é como se
Shamash e Enlil estivessem retraindo o arco que Sin libera, permitindo a
tensão se manifestar como um terremoto.

Agora devemos acabar com a observação de que em todos estes temas


existe uma grande necessidade de se ver com os olhos da mente nossos
deuses, pois todos nós, seres humanos, colocamos forma na natureza de
tudo o que existe para que possamos compreender o mundo com ordem, e
para não confundir uma coisa com outra. Deve ser observado que as letras,
enquanto que simbolizam coisas específicas, não são o ser ou coisa em si
mesmos, sendo apenas o dedo que aponta a direção.

Vosso progresso durante os últimos dois anos mostrou que a confiança de


vosso pai em vossa habilidade não foi infundada e que no momento certo
nosso país poderá, com as bênçãos de Anu, com outro rei que também
busca trilhar os caminhos da sabedoria. Agora, como crítica, vós tendes
sido contemplado com muita sorte ao longo de vossos testes esta é a causa
de vossa coragem. Vós vos juntastes à nossa companhia e deveis começar
a renunciar à sorte, pois quando o conhecimento chega, a sorte nos deixa
de lado, e como tal devemos estar sempre alerta para os fatos e
acontecimentos que norteiam nossa vida.

Nós já nos encontramos pessoalmente, e sem dúvida vós deveis Ter ficado
extremamente surpreso por descobrir que o instrutor apontado pela
irmandade e vosso pai é aquele que dirige a carruagem do rei. Nós iremos
nos encontrar com freqüência novamente e de acordo com nossas regras.
Nossas conversas deverão ser aquelas do servo que dirige a carruagem, a
quem se dirige o príncipe, não o diálogo de irmãos que compartilham o
mesmo propósito. Apenas sob o selo nos encontraremos como irmãos, e
então apenas no aposento especial do templo, quando da ocasião de um
encontro. Neste momento, vós ireis encontrar nosso membro superior,
sobre o qual cái o dever de reunir nossos irmãos e irmãs em caso de
necessidade. È agora meu dever passar vossa instrução a outrém, e devo
dizer-vos que o atendente real tem a tarefa de ensinar-vos os graus do
conhecimento.

Existem, conforme sabemos, quatro mundos, e a entrada no próximo


mundo será através da mediação de Sin. Que fique claro que na escuridão
da noite, a lua crescente cresce em brilho, até a escuridão, difícil de ser ver,
tornar-se luz. Aquele mundo desconhecido é visto primeiramente de forma
difusa, sem profundidade ou cor, mas à medida em que a lua se dissolve na
luz do sol, também este mundo apenas perceptível, esta sombra, cresce na
escuridão, e então é visto em plena luz do dia, e entre um mundo e outro
passam-se quarenta dias.

É desta forma que as coisas devem ser. Discernimos primeiramente as


sombras e então encaramos a face daquele mundo. O que foi aprendido
dos mestres apenas direciona a atenção. Qual pessoa, ao pedir por água,
olha para o dedo que aponta, e não na direção que está sendo mostrada? O
que aprendemos torna-se real quando vemos o seu uso. Soma e subtração
tornam-se reais quando compramos um melão e duas maçãs ou fazemos
as provisões de suprimentos para uma jornada. O arco de brinquedo torna-
se real para nós quando matamos nosso primeiro pássaro. Todas as coisas
sobre as quais falamos são reais, elas têm uma realidade prática. As cartas
têm um fim, elas não são apenas dedos apontando a direção, pois além de
seu significado mundano, elas falam de uma história que é significativa para
todos. Número e letra, quando colocados juntos, independem da linguagem.
Eles são o mapa do mundo, o quinto mundo que é o mundo real. Que o
corpo seja o servo, que a dor se acabe, que a mente nada veja, pois o
mundo do espírito é o mundo real. Que vosso nome se vá, que vossa
natureza se perca, e nada saiba.

Meus maiores respeitos ao grande Príncipe, o filho do Rei, o Senhor das


Quatro Direções. Que número e letra vos ensinem no caminho dos irmãos.

Arad-Enki, Aquele que Dirige a Carruagem do Senhor das Quatro


Direções.AS

Interesses relacionados