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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Programa de Pós-Graduação em Psicologia

Marina Reis Botelho

O PROCESSO DE TRANSMISSÃO
MULTIGERACIONAL FAMILIAR DA DEPRESSÃO:
a busca do padrão familiar com o uso do genograma

Belo Horizonte
2018
Marina Reis Botelho

O PROCESSO DE TRANSMISSÃO
MULTIGERACIONAL FAMILIAR DA DEPRESSÃO:
a busca do padrão familiar com o uso do genograma

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Psicologia.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Roberta Carvalho


Romagnoli.

Área de concentração: Processos de Subjetivação.

Belo Horizonte
2018
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Botelho, Marina Reis


B748p O processo de transmissão multigeracional familiar da depressão: a busca
do padrão familiar com o uso do genograma / Marina Reis Botelho. Belo
Horizonte, 2018.
111 f.: il.

Orientadora: Roberta Carvalho Romagnoli


Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Psicologia

1. Depressão. 2. Relações entre gerações. 3. Genogramas. 4. Família -


Aspectos psíquicos. 5. Terapia familiar. 6. Bowen, Murray, 1913- . I. Romagnoli,
Roberta Carvalho. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Psicologia. III. Título.

CDU: 615.851
Ficha catalográfica elaborada por Fernanda Paim Brito– CRB 6/2999
Marina Reis Botelho

O PROCESSO DE TRANSMISSÃO
MULTIGERACIONAL FAMILIAR DA DEPRESSÃO:
a busca do padrão familiar com o uso do genograma

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Psicologia.

Área de concentração: Processos de Subjetivação.

___________________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Roberta Carvalho Romagnoli – PUC Minas (Orientadora)

___________________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Ceneide Maria de Oliveira Cerveny – PUC-SP (Banca Examinadora)

___________________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Stella Maria Poletti Simionato Tozo – PUC Minas (Banca Examinadora)

Belo Horizonte, 9 de abril de 2018.


A meus pais, por sempre investirem em meu aprendizado e me darem tanto amor, e
minhas avós, Maria e Julieta, cuja força e cujo trabalho foram transmitidos geracionalmente.
AGRADECIMENTOS

Agradeço imensamente à minha orientadora, professora Dr.ª Roberta Carvalho


Romagnoli, por acreditar e incentivar constantemente a realização deste trabalho. Obrigada pelo
respeito, pela dedicação, pelo comprometimento e pelo cuidado com a minha subjetividade, e
também por suas admiráveis potência e alegria, que me proporcionaram tranquilidade e
confiança para fechar esse importante ciclo da minha vida. Deixo registrados aqui minha
admiração e meu sentimento de gratidão por sua espontaneidade e delicadeza, encorajando-me
sempre a seguir em frente.
À professora Paula Bedran, por despertar a minha paixão pela teoria sistêmica ainda na
graduação, quando dividiu seu conhecimento e permitiu o estabelecimento de uma parceria de
afeto e aprendizagem que, desde então, me movimenta profissional e emocionalmente.
Obrigada por estar sempre presente nos meus mais importantes momentos acadêmicos,
contribuindo com sua brilhante postura profissional.
À professora Dr.ª Stella Tozo, por aceitar tão gentilmente o convite para participar desse
processo. Também pelo acolhimento e pela assistência oferecidos tão legitimamente a meu
trabalho e a mim e pelas ricas contribuições para o fechamento desta dissertação. Saiba que seu
auxílio foi fundamental!
À professora Dr.ª Ceneide Cerveny, por aceitar o convite para avaliar minha pesquisa.
Esteja certa que suas contribuições foram extremamente importantes e me motivaram a
concretizar este estudo! Sinto-me honrada com sua presença.
Agradeço também à professora Dr.ª Maria Ignez Costa Moreira pelas imprescindíveis
contribuições durante a disciplina de Seminário de Pesquisa. Pitucha, a proposta de
apresentação dos projetos foi muito proveitosa!
Um agradecimento especial ao Centro Universitário Newton Paiva, por contribuir para
a realização do mestrado, e ao meu colega de profissão Allisson Vasconselos, que montou todos
os genogramas e fez com carinho e competência a revisão e a formatação deste trabalho.
Aos participantes da pesquisa, que se disponibilizaram confiando e dividindo
gentilmente suas histórias familiares. E a toda minha família, pelos constantes apoio,
compreensão, amor e paciência e por todo o cuidado que tiveram com a minha filha, enquanto
eu precisava fechar esse ciclo do mestrado.
Sou muito grata a todos vocês!
Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
(ANDRADE, 1989, v. 4, p. 237)
RESUMO

Esta dissertação tem como escopo o estudo do processo de transmissão multigeracional familiar
da depressão mediante a construção do genograma familiar com seis estudantes universitários,
de 21 a 47 anos, que vivenciaram pelo menos um episódio de depressão. Nesse seguimento, e
utilizando a teoria de Bowen, seu objetivo foi investigar o processo de transmissão
multigeracional familiar da depressão ao longo de três gerações e verificar se esse transtorno se
repete de geração em geração e quais membros do sistema familiar ele acomete. Para alcançá-
lo, fez-se necessário apresentar o conceito de transmissão geracional, estudar a teoria
boweniana, de modo a articular a depressão com os conceitos de diferenciação do self,
ansiedade (aguda e crônica), triangulação, projeção familiar e processo de transmissão
familiar multigeracional, e utilizar o genograma familiar como recurso gráfico para visualizar
a repetição da depressão durante a análise de seis casos clínicos. Como resultado, foi possível
perceber que a depressão afeta a dinâmica familiar e atravessa gerações. Cada entrevistado
contribuiu com seus relatos individuais e experiências particulares, descrevendo com suas
próprias palavras o transtorno e seus sintomas e comentando o papel da família durante o curso
da doença. Diante disso, a presente pesquisa se justifica pela necessidade de aprofundamento
nas investigações sobre a participação da família no processo de depressão de seus membros,
pois acredita-se que esse conhecimento poderá embasar outros trabalhos que envolvam esse
tema e propiciar intervenções no trabalho clínico em terapia familiar. Além disso, este estudo
poderá servir de base para diversos profissionais das ciências humanas, assim como para o
desenvolvimento de políticas públicas.

Palavras-chave: Depressão. Teoria Boweniana. Transmissão Geracional. Genograma.


ABSTRACT

This dissertation aims to study the family’s multigenerational transmission process of


depression through the construction of the family genogram with six university students, aged
21 to 47 years, who experienced at least one episode of depression. In this follow-up, and using
Bowen's theory, the objective of this study was to investigate the family’s multigenerational
transmission process of depression over three generations and to verify if this disorder repeats
from generation to generation and which members of the family system it affects. To achieve
this, it was necessary to present the concept of generational transmission, to study the Bowenian
theory, in order to articulate depression with the concepts of self-differentiation, anxiety (acute
and chronic), triangulation, family projection and family’s multigenerational transmission
process, and to use the family genogram as a graphic resource to visualize the repetition of
depression during the analysis of six clinical cases. As a result, it has been found that depression
affects family dynamics and goes through generations. Each participant contributed their
individual narratives and particular experiences, describing in their own words the disorder and
its symptoms and commenting on the family’s role during the course of the disease. Therefore,
the present study is justified by the need to deepen the research on family participation in the
depression process of its members, since it is believed that this knowledge can base other works
that involve this theme and provide interventions in clinical work in therapy family. In addition,
this research can serve as a basis for several professionals in the humanities, as well as for the
development of public policies.

Keywords: Depression. Bowenian Theory. Gerational Transmission. Genogram.


LISTA DE ABREVIATURAS

Cap. Capítulo
Ed. Editor
N. Número
Org. Organizador
P. Página
V. Volume
LISTA DE SIGLAS

ABRATEF Associação Brasileira de Terapia Familiar


BVS Biblioteca Virtual em Saúde
PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
SciELO Scientific Electronic Library Online
TGS Teoria Geral dos Sistemas
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 21
2 FAMÍLIA E DEPRESSÃO ................................................................................................. 25
2.1 Breve Panorama do Desenvolvimento da Terapia Familiar ........................................ 25
2.2 Teoria dos Sistemas Familiares de Bowen ..................................................................... 32
2.3 A Depressão e o Sistema Familiar ................................................................................... 39
3 O GENOGRAMA FAMILIAR COMO INSTRUMENTO METODOLÓGICO NA
PESQUISA QUALITATIVA ................................................................................................ 45
3.1 A Busca de Significados e o Genograma ........................................................................ 45
3.2 Como Conhecemos a Transmissão Familiar da Depressão .......................................... 51
4 A DEPRESSÃO NA VISÃO DOS ENTREVISTADOS .................................................. 57
4.1 Conhecendo as Famílias ................................................................................................... 62
4.2 Transmissão Geracional Familiar ................................................................................... 66
4.3 Ansiedade .......................................................................................................................... 73
4.4 Nível de Diferenciação ...................................................................................................... 77
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 83
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 87
APÊNDICE A – ROTEIRO DAS ENTREVISTAS SEMIESTRURUADAS
REALIZADAS COM OS ESTUDANTES ........................................................................... 95
APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ........... 97
APÊNDICE C – GENOGRAMA FAMILIAR DE BÁRBARA ....................................... 101
APÊNDICE D – GENOGRAMA FAMILIAR DE IRMÃ CECÍLIA .............................. 103
APÊNDICE E – GENOGRAMA FAMILIAR DE PEDRO ............................................. 105
APÊNDICE F – GENOGRAMA FAMILIAR DE CARLA ............................................. 107
APÊNDICE G – GENOGRAMA FAMILIAR DE AMANDA ........................................ 109
APÊNDICE H – GENOGRAMA FAMILIAR DE SÔNIA .............................................. 111
21

1 INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem como escopo o estudo do processo de transmissão multigeracional da


depressão por meio da construção do genograma familiar com seis estudantes universitários, na
faixa etária de 21 a 47 anos, que vivenciaram pelo menos um episódio de depressão. Seu marco
teórico abarca as ideias de Murray Bowen.
De acordo com Baptista, Cardoso e Gomes (2012), embora uma das explicações da
depressão esteja relacionada a fatores genéticos, a pesquisa sobre o aspecto transgeracional tem
ganhado espaço no estudo das psicopatologias presentes em membros de uma geração e de suas
influências nos membros de outras. Em uma tentativa de explicar a repetição de padrões
relacionais, especificamente o processo de projeção familiar, Bowen (1982) elabora o conceito
de transmissão multigeracional, que abrange a transmissão dos níveis de diferenciação do self
familiar por meio de múltiplas gerações e conduz a doença emocional para além do indivíduo
e de sua família, isto é, para várias gerações passadas (COSTA; PENSO; RIBEIRO, 2008).
Bowen (1982) delimita duas variáveis que influenciam o sistema emocional humano: a
diferenciação do self e a ansiedade. A ansiedade é a que mais impacta esse sistema, estando
relacionada ao medo diante de uma ameaça real ou imaginária e podendo ser aguda ou crônica.
A ansiedade aguda consiste na resposta do organismo a uma ameaça real e pode ser facilmente
observada e descrita. Suas consequências, em geral, limitam-se ao período de sua ocorrência, e
a pessoa que é afetada por ela recupera-se rapidamente. Suas manifestações são claras e
envolvem os âmbitos físico e psicológico. A ansiedade crônica, por sua vez, refere-se a um
estado ou uma condição orgânica de existência que independe de qualquer contingência ou
estímulo específico. Pode ser transmitida por gerações e em termos individualizados na forma
como o sujeito percebe o mundo e se comporta perante situações diversas.
Além da ansiedade crônica, outros comportamentos podem ser transmitidos de pais para
filhos, se analisarmos minuciosamente os padrões de cada sistema emocional humano. Isso nos
possibilita inferir que os comportamentos que ocorrem com frequência em uma determinada
situação têm grande probabilidade de voltar a ocorrer em circunstâncias semelhantes, bastando
observar o padrão de funcionamento familiar para antevê-los.
Bowen utilizou um instrumento nomeado diagrama familiar para explorar a
composição multigeracional das famílias. No entanto, foi a nomenclatura genograma familiar
que se popularizou com a publicação de McGoldrick e Gerson (1985), a qual apresentava, de
forma didática, os tipos de construção do genograma e sua aplicação em famílias famosas ao
redor do mundo, como as famílias Bush e Einstein e a família real britânica (CERVENY, 2014).
22

O genograma familiar é um recurso utilizado para visualizar, junto às famílias, os


padrões relacionais que se repetem no decorrer das gerações. É a representação gráfica
multigeracional que vai além do simples desenho da árvore genealógica, pois inclui também as
relações e interações entre seus componentes. Nele, são representados os diferentes membros
de um sistema familiar, suas formas de relacionamento entre si e suas principais morbidades.
Além disso, podem conter dados como ocupação, hábitos, grau de escolaridade e outras
informações relevantes. Como salienta Curra (2006), a demonstração gráfica da situação do
sujeito possibilita a ele refletir sobre a dinâmica familiar na qual está inserido, os problemas
mais comuns que o afligem e o enfrentamento dado a esses problemas por seus familiares.
Nesse seguimento, utilizando a teoria de Bowen e o genograma familiar, definimos o
objetivo de nossa pesquisa, que é investigar o processo de transmissão familiar multigeracional
da depressão ao longo de três gerações e verificar se esse transtorno se repete de geração em
geração e quais membros do sistema familiar ele acomete. Para alcançá-lo, faz-se necessário
percorrer alguns passos, sendo eles: apresentar o conceito de transmissão geracional;
desenvolver uma leitura da teoria boweniana, definindo principalmente os conceitos de
diferenciação do self, ansiedade (aguda e crônica), triangulação, projeção familiar e processo
de transmissão familiar multigeracional; compreender a depressão como padrão familiar que
se repete ao longo de gerações, articulando-a com os conceitos supracitados; e utilizar o
genograma familiar como recurso gráfico para visualizar a repetição da depressão nos seis casos
clínicos que serão analisados.
Do ponto de vista profissional, associado à psicologia clínica com ênfase na família e
na sociedade, o conhecimento de dinâmicas familiares de gerações anteriores pode favorecer a
compreensão de dinâmicas atuais, funcionando como esteio de práticas preventivas em pequena
ou larga escala, no caso de famílias que vêm sendo atendidas tanto em consultórios particulares
como em programas familiares definidos pelas políticas públicas de saúde (BAPTISTA;
CARDOSO; GOMES, 2012).
O interesse pelo tema em questão surgiu de nossa prática clínica sistêmica com famílias
ao longo de dez anos. Nesse cenário, os diversos casos atendidos e supervisionados, que tinham
como fio condutor a depressão e possibilitam o uso do genograma familiar como técnica que
possibilita a representação de dados históricos dos membros de uma família e de suas relações
ao longo de gerações, contribuíram significativamente para a ampliação de nosso olhar sobre a
repetição de padrões familiares. A prática em consultório e as supervisões de caso com
estudantes na Clínica-Escola de Psicologia da PUC Minas em Betim, no ano de 2011, e na
Clínica-Escola do Centro Universitário Newton Paiva em Belo Horizonte, desde 2013,
23

alimentaram e alimentam a cada dia nossa satisfação com o trabalho clínico, que pode e deve
continuar sendo ampliado para a clínica social.
O presente estudo se justifica ainda pela necessidade de aprofundamento nas
investigações sobre a participação da família no processo de depressão de seus membros, haja
vista a incidência cada vez maior dessa doença em nossa sociedade. Tal conhecimento poderá
embasar outros trabalhos que tratem do mesmo assunto e propiciar intervenções no trabalho
clínico em terapia familiar. Além disso, esta pesquisa poderá servir de base para diversos
profissionais das ciências humanas, bem como para o desenvolvimento de políticas públicas.
Com vistas a atingir os objetivos propostos, este trabalho está dividido, de forma inicial,
da seguinte maneira: no segundo capítulo, apresentaremos um breve panorama do
desenvolvimento da terapia familiar, descrevendo principalmente a influência dos modelos
psicodinâmicos na clínica de família e explanando o contexto brasileiro dessa modalidade
terapêutica. Nesse capítulo, ainda estudaremos a teoria dos sistemas familiares de Bowen, que
é o aporte teórico escolhido para esta dissertação. Para encerrá-lo, serão apresentados alguns
trabalhos relacionados à depressão e à família.
No terceiro capítulo, examinaremos o genograma familiar como recurso clínico e
instrumento metodológico para a realização de pesquisas científicas em diversas áreas, como a
enfermagem, a medicina e a educação, focalizando o campo da psicologia de família. Ademais,
nesse capítulo, discorreremos acerca do modo como chegamos aos participantes da pesquisa,
explicando o contexto em que suas entrevistas foram realizadas.
No quarto capítulo, serão apresentados os genogramas dos seis entrevistados, de modo
a contextualizar a depressão de cada um deles. Nessa parte da dissertação, realizaremos ainda
a análise de conteúdo das categorias transmissão geracional familiar, ansiedade e nível de
diferenciação.
Por fim, traremos à baila as considerações finais acerca de nossa pesquisa, assim como
as referências nas quais nos fundamentamos para sua realização.
25

2 FAMÍLIA E DEPRESSÃO

2.1 Breve Panorama do Desenvolvimento da Terapia Familiar

Os anos pós-Segunda Guerra Mundial podem ser descritos como um período em que
profissionais e pesquisadores especialistas em saúde mental precisaram voltar sua atenção ao
papel da família na criação e na manutenção de distúrbios psicológicos. Acostumados a
trabalhar somente com um indivíduo por vez, esses especialistas não estavam aptos para o
trabalho que envolvesse mais de um membro da família. Nesse período, além dos psiquiatras,
que se encarregavam das psicoterapias, outros profissionais passaram também a oferecer ajuda.
Psicólogos clínicos e assistentes sociais, por exemplo, começaram a focalizar as relações
familiares no intuito de, ao modificá-las, levar o indivíduo doente a alcançar o bem-estar
(ESTEVES DE VASCONCELLOS, 2007). A partir dessa nova visão, o indivíduo, que antes
era tido como locus do problema e alvo do tratamento, não é mais o único a ser tratado; a família
passa a ser incluída como alvo das intervenções.
Nesse contexto, a terapia de família se desenvolveu nos Estados Unidos pela influência
de duas linhas de trabalho e foi se expandindo pela Europa e pela América do Sul (AUN, 2007).
Uma dessas linhas seguia a tradição da psicanálise freudiana. A influência psicanalítica inicia
com o caso do Pequeno Hans, sujeito cuja fobia foi tratada pelo próprio pai, conforme
recomendações de Freud. Este o aconselhou a observar as circunstâncias familiares envolvidas
no sintoma da criança. Nesse viés, apesar de reconhecer que a intervenção clínica tinha como
base as interações familiares, Freud manteve o foco no indivíduo.
Além de Freud, Adler pode ser considerado outro expoente da terapia de família
enviesada pela psicanálise, já que, para ele, o comportamento só podia ser entendido levando-
se em conta o ambiente ou o contexto social. Por exemplo, a posição dos filhos na ordem de
nascimento criaria contextos sociais diferentes para cada um deles. No entanto, assim como
Freud, Adler não trabalhou terapeuticamente com famílias.
Como Freud e Adler, outros dois teóricos se destacaram no âmbito da terapia de família,
ambos psiquiatras e com formação em psicanálise. Harry Stack Sullivan, ao trabalhar com
esquizofrênicos, enfatizou o papel das relações interpessoais no desenvolvimento da
personalidade. Ele especulava a relação entre a vida familiar e a produção da confusão mental
do esquizofrênico. Nathan Ackerman adaptou deliberadamente as formulações psicanalíticas
para o estudo da família. Ele é considerado um dos grandes representantes da abordagem
transgeracional na área de terapia familiar. Em um primeiro momento, é visto como um
26

psicanalista que influenciou essa modalidade terapêutica, mas, depois, ele atuou de fato como
terapeuta de família (ESTEVES DE VASCONCELLOS, 2007). Segundo Hintz e Souza (2009),

Um dos primeiros pioneiros foi Nathan Ackerman, psiquiatra e psicanalista infantil,


que, no final da década de 1930, passou a observar as famílias junto com o paciente
em sua clínica, em Nova Iorque. Ele afirmava que as famílias deveriam ser vistas
como uma “unidade social e emocional”. (HINTZ; SOUZA, 2009, p. 92)

A outra linha que desempenhou papel importante nos trabalhos relacionados à família
está ligada principalmente ao conceito de feedback, ou retroalimentação, advindo da Teoria
Geral dos Sistemas (TGS) e que será explicado no quadro a seguir. O biólogo austríaco Ludwig
von Bertalanffy começou a desenvolver suas ideias nas décadas de 1920 e 1930, mas, só depois
de 1940, sua teoria começou a se firmar, influenciando a terapia de família nos Estados Unidos.
Bertalanffy foi pioneiro na ideia de que um sistema é mais do que a soma de suas partes, fazendo
analogia com um relógio, que é mais do que uma coleção de engrenagens e molas. Essa ideia,
aplicada àquela modalidade terapêutica, apontava que “[...] um sistema familiar deve ser visto
como mais do que apenas uma coleção de indivíduos e que os terapeutas devem focar as
interações em vez da personalidade” (NICHOLS; SCHWARTZ, 2007, p. 105). Para
Bertalanffy, os organismos vivos são ativos e criativos, trabalham para manter uma organização
e apresentam equifinalidade, que é a capacidade de atingir um objetivo final de maneiras
diversas, o que difere dos sistemas mecânicos, em que o estado e o meio para esse estado são
fixos.
Cerveny (1994) e Nichols e Schwartz (2007) descrevem os principais conceitos
relacionados ao funcionamento dos sistemas. A família, dentro dessa concepção, opera com
certos princípios ou propriedades, como homeostase, morfogênese, feedback, causalidade
circular e não-somatividade. Além da TGS, a cibernética, fundada pelo matemático Norbert
Wiener no final da década de 1940 nos Estados Unidos, influenciou o surgimento da terapia de
família. Ela desponta como uma disciplina científica inserida entre as ciências dos sistemas,
embora também possa ser entendida como uma ciência do controle e da comunicação em
sistemas complexos de máquinas (RAPIZO, 1996). Conforme Féres-Carneiro (1996),

[...] após a publicação em 1948, por Norbert Wiener, do livro Cybernetics, várias
ciências começaram a enfatizar os sistemas homeostáticos com processos de
retroalimentação (feedback) que tornam os sistemas autocorretivos. Assim,
desenvolvimentos teóricos da Biologia, da Sociologia, da Antropologia, da
Informática, da Teoria Geral dos Sistemas, influenciaram significativamente as
primeiras formulações da teoria e da técnica do trabalho terapêutico com famílias.
(FÉRES-CARNEIRO, 1996, p. 39)
27

Para uma melhor compreensão dos conceitos relacionados ao surgimento da terapia


familiar, apresentamos o quadro a seguir:

Quadro 1 – Propriedades dos sistemas


Processo autorregulador que mantém a estabilidade do sistema e
protege os desvios e mudanças. Refere-se à tendência da família em
HOMEOSTASE
manter um certo padrão de relacionamento e empreender operações
para impedir que haja mudanças nesse padrão estabelecido.
Possibilidade de adaptação e flexibilidade dos sistemas que permite
a eles que se autotransformem de forma criativa. A família tem
MORFOGÊNESE potencial para mudança e a morfogênese propicia a aquisição de
nova configuração qualitativa, diferente da anterior, de forma
estrutural e funcional.
Mecanismo de retroalimentação do sistema com a função de
fornecer informações e definir o relacionamento entre seus
membros. O feedback positivo aumenta a atividade do sistema, ou
seja, confirma e reforça a direção que o sistema toma, e o feedback
FEEDBACK
negativo pede correção do sistema, revertendo-o, ou seja, indica que
o sistema está se desviando do alvo e quais correções são
necessárias para trazê-lo de volta ao curso, sinalizando que o
sistema precisa restaurar seu status quo.
Sugere que mudanças em um elemento do sistema provocam
CAUSALIDADE mudanças em todos os outros e no sistema como um todo. No
CIRCULAR sistema familiar, isso indica que cada membro do sistema influencia
os outros, sendo, ao mesmo tempo, influenciado por eles.
Por esse aspecto, é impossível ver partes do todo como entidades
isoladas ou somar características das partes para entender o todo,
NÃO-
pois qualquer sistema é maior do que a soma de suas partes. Os
SOMATIVIDADE
indivíduos só podem ser compreendidos dentro dos contextos
interacionais nos quais funcionam.
Fonte: Elaborado pela autora com dados extraídos de Cerveny (1994) e Nichols e Schwartz (2007).

A influência dos estudos sobre esquizofrenia e família se deu a partir de 1950. Nos
Estados Unidos, muitos pesquisadores, cientistas e clínicos começaram a se interessar pela
28

investigação do impacto da comunicação nas famílias em seus membros esquizofrênicos.


Nomes como Gregory Bateson, Theodore Lidz, Lyman Wynne, Paul Watzlawick, Don Jackson
e Janet Beavin contribuíram para que o grupo familiar fosse visto sob uma ótica interacional,
ou seja, “[...] não só como um conjunto de indivíduos, mas como uma entidade, uma totalidade
que tinha uma estrutura específica” (CERVENY, 1994, p. 24).
Conforme Hintz e Souza (2009),

Na década de 1950, vários grupos estudaram, pesquisaram e trataram esquizofrênicos


e suas famílias. Grande parte dos fundamentos da terapia familiar partiu do interesse
que os profissionais mostraram pelo atendimento de seus pacientes esquizofrênicos
nas relações e comunicações trocadas com suas respectivas famílias. (HINTZ,
SOUZA, 2009, p. 92)

O esquema abaixo sistematiza as informações explicitadas neste trabalho até aqui:

Figura 1 – Influências para o surgimento da terapia familiar


Teoria Geral dos Sistemas
Psicanálise Ludwig von BERTALANFFY
Sigmund FREUD 1936 - Teoria dos sistemas aplicada aos
Pai da ideia: família influencia o seres vivos
indivíduo Norbert WIENER
1948 - Cibernética

Nathan ACKERMAN Gregory BATESON


1937 - Família como uma unidade 1952-1962 - Teoria do duplo vínculo,
Desde 1950 - Atende família famílias de esquizofrênicos
conjunta Grupo MRI
Costa Leste - USA Costa Oeste - USA
Fonte: Adaptado pela autora com dados extraídos de Aun (2006).

Como podemos observar, na Costa Leste dos Estados Unidos, surgiram muitos trabalhos
relacionados à família seguindo a tendência psicanalítica freudiana. Por sua vez, na Costa Oeste,
houve grande influência das pesquisas e trabalhos relacionados às áreas das ciências exatas
(TGS e cibernética), assim como das pesquisas e trabalhos com famílias de esquizofrênicos.
Esta dissertação se fundamenta no conceito de família proveniente da teoria sistêmica,
que a considera um sistema dinâmico e plural em constante movimento de mudança. Tal
conceito sofreu influências de teóricos de diversas áreas do saber, dentre eles, físicos, biólogos
29

e matemáticos. Inclusive, a noção de família como sistema cujos membros interagem


circularmente e atingem um padrão de funcionamento estável, obedecendo a regras relacionais,
foi um importante avanço, o qual permite hoje entender os sintomas como produtos das inter-
relações. Nesse sentido, cada indivíduo está imerso em uma rede e é dela indissociável
(RAPIZO, 1996).
Desse modo, o sistema familiar é considerado também uma unidade emocional na qual
todo comportamento é resultado de uma interação. Logo, a conduta dos componentes afeta
diretamente todo o sistema. Nesse caso, as atitudes de uma parte (os pais, por exemplo) reflete
na outra (os filhos), e vice-versa, mantendo um movimento de feedback recursivo, que se
retroalimenta constantemente, conservando um equilíbrio funcional.
Assim, a confluência de diferentes campos científicos contribuiu para o
desenvolvimento da terapia de família. Nas palavras de Rapizo (1996),

A terapia sistêmica de família tem como tradição fundante o desenvolvimento de seus


aportes teóricos a partir de outros campos da ciência. Entre eles estão a cibernética, a
biologia, a química, a teoria dos sistemas; disciplinas, que tradicionalmente, não são
referências básicas para o desenvolvimento de teorias e práticas nas áreas da
psicologia e psicoterapia. (RAPIZO, 1996, p. 13)

O desenvolvimento da psicanálise e das pesquisas sobre esquizofrenia e família


influenciaram o modelo transgeracional da terapia familiar. O campo das terapias familiares
transgeracionais tinha esse nome por ser inspirado na corrente psicodinâmica, que leva em
consideração aspectos da teoria psicanalítica no trabalho sistêmico com famílias. É possível,
nesse campo, observar a repetição de padrões familiares que indicam a influência da história
familiar na subjetividade do indivíduo. A esse fenômeno observado pelos terapeutas de família
deu-se o nome de transmissão psíquica, que, em nossa pesquisa, se mostra essencial, uma vez
que o estudamos relacionado à depressão ao longo das gerações familiares, tendo como aporte
a corrente psicodinâmica.
Sabemos, então, que o contexto histórico do pós-guerra propiciou um crescimento do
movimento psicanalítico no tratamento das doenças mentais e que foi a partir dessas doenças,
principalmente a esquizofrenia, que muitos psiquiatras e psicanalistas se interessaram pela
pesquisa sobre as famílias. Um desses estudiosos foi Murray Bowen, nosso interlocutor neste
estudo, que começou seu trabalho clínico estudando as mães e seus filhos esquizofrênicos. Seu
maior interesse na época era a simbiose mãe-criança, que o levou a elaborar o principal conceito
de sua teoria, o de diferenciação do self (NICHOLS; SCHWARTZ, 2007).
30

Bowen, um dos mais ilustres pensadores originais na área da terapia familiar, elaborou
uma teoria – a “teoria dos sistemas familiares” – considerada o andaime intelectual
sobre o qual se erigiu boa parte dos trabalhos em terapia familiar. As contribuições de
Bowen - teóricas e práticas-representam uma ponte entre as abordagens
psicodinâmicas, que enfatizam o autodesenvolvimento, as questões intergeracionais e
a significação do passado, e as abordagens sistêmicas, que focalizam a atenção na
unidade familiar, tal como está constituída e interagindo no presente. (ESTEVES DE
VASCONCELLOS, 2007, p. 253)

Além desse pensador, que criou a teoria dos sistemas familiares, temos outros terapeutas
de família considerados psicodinâmicos, como Ivan Boszormenyi-Nagy, que voltou seu
interesse ao impacto das lealdades intergeracionais familiares no aparecimento do sintoma, e
Maurizio Andolfi e James Framo. Todos eles tinham em vista algum aspecto familiar de outras
gerações interferindo no sintoma atual de algum membro do sistema (ELKAIM, 1998).
Para Esteves de Vasconcellos (2007), “quase todos os primeiros terapeutas de família
foram treinados na psicanálise, mas eram receptivos à ideia de que tanto as forças intrapsíquicas
quanto as interpessoais operam de modo recíproco” (p. 242). Esses terapeutas tinham o objetivo
de desenredar o indivíduo da rede familiar. Portanto, eles tendiam a manter o foco no indivíduo,
tratando-o na família. Seu propósito era entender como as experiências intrapsíquicas e os
conflitos interpessoais se interligavam.

Assim, as abordagens que refletem uma perspectiva psicodinâmica dirigem-se a dois


níveis de compreensão e intervenção: de um lado, motivos, fantasias, conflitos
inconscientes e lembranças reprimidas de cada um; de outro, interações entre os
membros e a dinâmica familiar. (ESTEVES DE VASCONCELLOS, 2007, p. 243)

Para Féres-Carneiro (1996), o campo da terapia familiar apresenta um panorama variado


e complexo, não sendo possível estabelecer um único corpo teórico. Alguns terapeutas de
família trabalham com a proposta de uma abordagem sistêmica pura e outros, com a proposta
de uma abordagem psicanalítica sem nenhum suporte sistêmico. Há, entretanto, aqueles que
buscam uma articulação dos dois enfoques para trabalhar com famílias e casais. Nesse sentido,
“é importante escolher um quadro de pensamento, mas este não deve ser rígido, pois também,
do nosso ponto de vista, a visão sistêmica e a visão psicanalítica não se excluem mutuamente”
(FÈRES-CARNEIRO, 1996, p. 42).
Embora a terapia familiar tenha nascido nos Estados unidos, ela também se desenvolveu
em nosso país. Segundo Nichols e Schwartz (1998), “a terapia familiar nasceu na década de
1950, cresceu nos anos de 1960 e ficou adulta na década de 1970” (p. 27). Foi nessa época que
ela chegou ao Brasil.
31

Segundo Hintz e Souza (2009), no Brasil, a trajetória começa a ficar mais visível quando
os profissionais percebem certa inviabilidade de tratar as ciências por partes isoladas, passando
a abranger uma prática clínica que tratava do organismo como um sistema e não mais somente
como causa e efeito. “Como aconteceu nos países onde nossos profissionais estudaram, foram
sendo fundados centros ou instituições que se ocuparam com a família, e não somente com o
indivíduo” (HINTZ e SOUZA, 2009, p. 96). Assim, na década de 1980, surgiu a necessidade
de os terapeutas oficializarem um espaço de discussão de ideias e buscar uma formalização da
prática clínica com famílias e casais.
Na intenção de produzir uma visão panorâmica sobre a terapia de família no Brasil,
Ponciano e Féres-Carneiro (2005) escreveram um artigo que descrevia o campo de estudos
nacional dessa modalidade terapêutica. Para desenvolvê-lo, essas autoras fizeram um
levantamento de artigos publicados em periódicos nacionais, a partir de uma busca nas bases
de dados SciELO e INDEXPSI. Além disso, elas fizeram uma análise dos resumos publicados
nos Cadernos de Resumo dos Congressos Brasileiros de Terapia Familiar realizados em 1994,
1996, 1998 e 2002. Nas duas bases de dados, foram empregados como descritores os termos
família, terapia de família, terapia familiar, casal e casamento. Na INDEXPSI, foi estabelecido
pelas autoras o intervalo de busca de material entre 1980 e agosto de 2003. Já na base SciELO,
o período definido foi de 1996 a agosto de 2003. O intervalo de tempo foi determinado pela
abrangência de cada uma das bases.
As autoras encontraram 529 referências ao todo. Os assuntos com maior predominância,
tanto nos periódicos nacionais quanto nos Congressos Brasileiros de Terapia Familiar, foram
criança, casal, adolescente, violência, escola, psicose, drogadição e educação. Além desses,
outros temas aparecem nos periódicos nacionais como saúde da família, trabalho, terapia de
família, gênero etc. Nesse seguimento, as autoras optaram por apresentar uma visão panorâmica
do campo de estudos da terapia de família no Brasil, destacando a diversidade temática que ele
concentrava em interesses que englobam tanto o indivíduo quanto a família em seu contexto
sócio-histórico, enfatizando a relação entre eles (PONCIANO; FÉRES-CARNEIRO, 2005).
Em entrevista publicada na revista Nova Perspectiva Sistêmica, em agosto de 2013, a
psicóloga, terapeuta de família e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP), Rosa Maria Stefanini Macedo, explicou a diversidade temática dos congressos de
terapia familiar no Brasil. O primeiro congresso, realizado em 1994, tinha como tema “Família,
lugar seguro para crescer”. Os trabalhos que nele foram apresentados tinham enfoque exclusivo
no contexto clínico. Após quase 20 anos, no congresso realizado em 2013, o tema foi “Família
e terapia de família: expandindo horizontes”, o qual já abrangia outras áreas de interesse que
32

não somente a área clínica (MACEDO, 2013). Atualmente, a 13.ª edição do congresso está
sendo organizada, e ele acontecerá na cidade do Rio de Janeiro, em 2018, com a seguinte
temática: “Interação entre terapeutas, práticas e famílias”.
No Brasil, a Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF) foi fundada em 20
de julho de 1994 e, segundo informações obtidas em seu site, sua fundação se deu a partir do
“[...] desejo e da necessidade de terapeutas familiares em desenvolver trocas colaborativas,
promover o estudo e desenvolvimento da Terapia Familiar, dar legitimidade aos terapeutas
familiares, aos que estão em formação e aos interessados no estudo e práticas de atenção e
cuidado da família” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TERAPIA FAMILIAR, 2018). A
ABRATEF contribuiu e continua contribuindo para a realização dos congressos brasileiros de
terapia familiar e é fonte de destaque quando se aborda temas diversos na área da família.

2.2 Teoria dos Sistemas Familiares de Bowen

Foram explanadas anteriormente as origens da terapia familiar a partir do pensamento


sistêmico, o qual compreende o mundo em constante inter-relação; mundo este em que estamos
influenciando e sendo influenciados a todo o momento por tudo que nos rodeia (família,
sociedade, trabalho, meio ambiente etc.) direta ou indiretamente. Nessa perspectiva, para
abordar o grupo familiar, é preciso pensar em relações e processos.
Segundo Dias (2011), a visão sistêmica e comunicacional procura entender as interações
que ocorrem dentro do sistema familiar. A visão sistêmica considera a família como um todo.
Os membros da família, ao interagirem e se comunicarem, estabelecem relações que servem
para manter o sistema em equilíbrio. O desequilíbrio do sistema pode provocar desequilíbrio
no indivíduo, e vice-versa. Sendo a família um sistema de relações contínuas e interligadas,
quando há mudança em um de seus membros, há também mudança nos outros membros.
Cerveny (2007) define a família como um sistema de relações que são significativas,
mesmo que não haja interdependências entre os vários subsistemas. Ou seja, não é necessário
que seus membros convivam no mesmo espaço, embora suas relações sejam sempre
significativas. Pode-se perceber que a família, por se tratar de uma estrutura dinâmica, sofre
modificações ao longo do tempo e a todo momento, consistindo em uma área de estudo e
pesquisa que necessita de constantes atualizações.
Sabendo que uma pessoa vive em diferentes sistemas, pode-se inferir que esses se
influenciam mutuamente. Para Ackerman (1986), a família é a unidade básica de crescimento
e experiência e de desempenho ou falha. É também a unidade básica de doença e saúde. A força
33

de influência da família é inegável, tanto para o bem como para o mal, e a comprovação disso
impulsionou vários profissionais de diversas áreas a voltar para a família seu foco de interesse.
Entre os pesquisadores que se interessaram pelos estudos das heranças familiares e da
repetição de padrões familiares ao longo das gerações, que é tema de interesse desta pesquisa,
podemos destacar nomes como o de Murray Bowen, Ivan Boszormenyi-Nagy e Maurizio
Andolfi, como vimos anteriormente (ELKAIM, 1998). No Brasil, nomes como o de Terezinha
Féres-Carneiro, Ceneide Maria de Oliveira Cerveny, Maria Aparecida Penso e Liana Fortunato
Costa têm trabalhos importantes nesse tema de interesse. A teoria de Murray Bowen, integrante
da corrente psicodinâmica, e o conceito de transmissão multigeracional servirão de aporte
teórico para esta dissertação, na relação da repetição da depressão ao longo das gerações
familiares. Para uma melhor compreensão, detalharemos a seguir a teoria dos sistemas
familiares de Bowen.
Murray Bowen nasceu em 31 de janeiro de 1913 na cidade de Waverly, estado do
Tennesse (EUA), e morreu em 9 de outubro de 1990. Graduou-se na Universidade do Tennesse,
onde também fez seu mestrado, na Escola de Medicina. Bowen, como médico, trabalhou com
o exército durante a Segunda Guerra Mundial (1941-1946). Foi aceito pela equipe de cirurgia
da Clínica Mayo depois da guerra, mas suas experiências fizeram com que seus interesses
fossem transferidos da cirurgia para a psiquiatria. Seus estudos em psiquiatria começaram em
1946, quando desenvolveu um projeto de pesquisa por cinco anos no Instituto Nacional de
Saúde Mental em Bethesda, Maryland. Esse projeto envolvia famílias com um membro
esquizofrênico em uma ala de pesquisa por um longo período de tempo. Bowen se transformou
em um membro do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Georgetown. Foi professor,
clínico, diretor de programas de família e, em 1975, fundou o Centro da Família Georgetown,
do qual foi diretor até sua morte (BOWEN, 1991).
De acordo com Elkaim (1998),

Ele [Bowen] sugeriu que a saúde mental de um determinado indivíduo está associada
ao grau de diferenciação que este é capaz de estabelecer em relação à sua própria
família; além disso, ele acreditava que a dificuldade de um indivíduo em se diferenciar
é passível de ser transmitida de uma geração para outra e que esta transmissão poderia,
às vezes e em certos casos específicos de uniões sucessivas de casais pouco
diferenciados, concorrer para o surgimento de um esquizofrênico. (ELKAIM, 1998,
p. 59)

Seu método terapêutico foi desenvolvido a partir de sua teoria, tanto que suas técnicas
se modificaram ao longo dos anos para acompanhar sua evolução conceitual, de uma
perspectiva psicanalítica para uma mais sistêmica. Bowen é representante da vertente
34

psicodinâmica, escola cujos seguidores também são chamados de terapeutas familiares


intergeracionais. Estes são terapeutas de família que também são psicanalistas, ainda que
tenham se distanciado da psicanálise tradicional e da prática centrada no indivíduo, associando
a teoria psicanalítica à teoria sistêmica desde a década de 1960. Baseados em Sigmund Freud,
principalmente no conceito de identificação parental, e focando suas técnicas na eliminação do
sintoma, esses teóricos criaram uma série de leituras e procedimentos clínicos que, apesar de
mesclarem modelos teoricamente diferentes, incrementaram a terapia familiar. Entre os
representantes da vertente psicodinâmica, encontram-se Ivan Boszormenyi-Nagy, Maurizio
Andolfi, James Framo, Norman Paul, Helm Stierlin e Giuliana Prata, que trabalhavam com
temas que estabeleciam sempre uma relação entre o intrapsíquico e o interpessoal e incluíam,
muitas vezes, outros membros da família como estratégia terapêutica (ELKAIM, 1998).
Bowen (1982) compreendeu a família como uma combinação de sistemas emocionais e
de relação. Isso significa que os membros do sistema se encontram interligados
emocionalmente entre si, a ponto de um influenciar diretamente o outro. Os sintomas emergem
de processos que se desenvolvem dentro da unidade familiar, e é essa unidade, denominada de
massa de ego familiar indiferenciada, que é o objeto de intervenção e tratamento bowenianos.
O componente do sistema que porta o sintoma pode funcionar de maneira menos eficiente,
enquanto os outros membros podem apresentar um superfuncionamento. Isso pode fazer o
sintoma surgir, piorar, melhorar e desaparecer, em resposta às condições de mudança
apresentadas tanto pela unidade quanto pelo ambiente (PAPERO, 1998). “Bowen sentia a
tendência da família a puxá-lo para o centro dessa massa de ego familiar indiferenciada e tinha
de fazer um grande esforço para continuar objetivo” (NICHOLS; SCHWARTZ, 1998, p. 49).
A teoria dos sistemas familiares de Bowen é composta por dois conceitos fundamentais,
os quais ele nomeou de variáveis que influenciam a operação do sistema emocional humano: a
diferenciação do self e a ansiedade. O conceito de diferenciação do self ocupa lugar central na
teoria, e a ansiedade é dividia em ansiedade aguda e ansiedade crônica. Os outros sete conceitos
da teoria (processo de projeção familiar, processo de transmissão multigeracional, processo de
triangulação, processo emocional da família nuclear, rompimento ou corte emocional, posição
entre irmãos e processo emocional da sociedade) são influenciados sempre por essas duas
variáveis (diferenciação do self e ansiedade) e definidos pelos seus efeitos nas famílias e na
sociedade (PAPERO, 1998).
Bowen (1982) define a ansiedade como o medo diante de uma ameaça real ou
imaginária. A ansiedade aguda seria compreendida na reposta do organismo a uma ameaça real,
podendo ser facilmente descrita. Geralmente, seus efeitos, com manifestações claras, limitam-
35

se ao seu período de atuação, o que permite ao indivíduo se recuperar rapidamente. No entanto,


eles podem variar de grau de indivíduo para indivíduo, manifestando-se mais gravemente em
um sujeito do que em outro. Já com relação à ansiedade crônica, esta se refere a um estado ou
uma condição orgânica de existência. Ela interfere na maneira como o indivíduo percebe e
interpreta o mundo, podendo influenciar no nível de sua ansiedade aguda, aumentando-a ou
não. Além disso, a ansiedade crônica, aparentemente, é transmitida por gerações.

Em uma dada família, cada geração recebe o legado de um determinado nível de


ansiedade crônica que lhe é deixado pela geração que a precede. Seu eventual aumento
ou diminuição no espaço nessa nova geração dependerá dos esforços das pessoas
envolvidas e dos desafios funcionais enfrentados por este grupo. (PAPERO, 1998, p.
76)

O outro conceito considerado basal de sua teoria é o de diferenciação de self. Bowen


postulou que o cerne do funcionamento de uma família está diretamente relacionado à
diferenciação do self, que destaca o grau em que as pessoas se fusionam ou se fundem
emocionalmente com as outras para criar um eu comum. A fusão egóica é mais presente nas
famílias com menor maturidade, mas, naturalmente, aparece em todas as famílias, exceto
naquelas cujos membros alcançaram a completa maturidade emocional.
Para uma melhor compreensão teórica, Bowen desenvolveu uma escalada nomeada
escala de diferenciação do self. Nesta, que vai de 0 a 100, quanto mais os pais necessitam da
criança para completar seus próprios egos parciais, mais a criança está propensa a desenvolver
a necessidade de ter outra pessoa para totalizar sua própria realização, o que se denomina
indiferenciação. Por seu turno, os pequenos graus de separação entre pais e filhos marcam uma
progressão da completa simbiose à completa autonomia. Portanto, quanto mais acentuado o
grau de diferenciação apresentado por uma pessoa perante sua família de origem, menos
vínculos emocionais indiferenciados ou não resolvidos terão de ser gerenciados pelos
indivíduos em seus relacionamentos fora da família de origem (BUENO et al., 2013).
A escala de diferenciação evidencia o nível de imersão do indivíduo nos valores e
crenças do sistema familiar. O sistema emocional humano tende a funcionar mais
emocionalmente ou mais racionalmente; quanto mais emocionalmente for seu funcionamento,
mais propenso à fusão e à reatividade ele será, e quanto mais racionalmente funcionar, mais
propenso estará à individualidade. Quando o nível de diferenciação é baixo (de médio para
baixo), podemos dizer que a pessoa tem dificuldade de se posicionar diante das circunstâncias
de sua vida, tendendo à fusão com mais facilidade. Quando o nível de diferenciação já é mais
alto (de médio para cima), a pessoa está mais preocupada em buscar os seus objetivos do que
36

ficar fusionada no sistema, tendendo assim à individualidade (BOWEN, 1991). É importante


ressaltar que tanto o excesso de fusão quanto o excesso de razão podem ser disfuncionais, ou
seja, níveis muito altos ou muito baixos podem prejudicar as relações dos indivíduos. No
entanto, “ninguém atinge o ponto 100, ou seja, a total discriminação e escolha entre os vários
tipos de comportamento e em todas as circunstâncias” (PAPERO, 1998, p. 80).
Em face dos conceitos de sua teoria dos sistemas familiares, Bowen (1982) explica que
os “[...] padrões pelos quais os pais projetam seus problemas aos filhos é denominado de
processo de projeção familiar” (p. 308). Ele diz que esse processo é parte do processo da família
nuclear e existe em algum grau em todas as famílias.
Sobre o processo de projeção familiar, Papero (1998) ressalta que os filhos mais
expostos à ansiedade crônica dos pais sairão desse período com níveis de indiferenciação
idênticos ou ainda maiores do que os paternos, e seus irmãos, que tenham sido menos expostos,
sairão apresentando graus de diferenciação levemente mais altos e graus de ansiedade crônica
mais baixos. Nesse sentido, é possível compreender outro conceito da teoria de Bowen,
denominado processo de transmissão multigeracional, que diz do nível de imaturidade
emocional dos pais que são transmitidos a um ou mais filhos. Esse conceito compreende a
transmissão de ansiedade crônica projetada de geração em geração e que pode variar de filho
para filho. Por exemplo, o filho mais envolvido na fusão familiar apresentará níveis mais baixos
de diferenciação do self, enquanto o filho menos envolvido na fusão egóica familiar apresentará
níveis mais elevados e, portanto, menor nível de ansiedade crônica. Ou seja, o processo de
projeção familiar é transmitido multigeracionalmente de geração para geração e leva a família
a alcançar níveis mais baixos ou mais altos de diferenciação.
Bowen observou que, na família, vários triângulos se formavam e se desfaziam de forma
repetitiva, o que ele nomeou como processo de triangulação, que envolve um par e um terceiro.
O processo de triangulação é criado como resposta à ansiedade e não é nem bom nem ruim. Na
verdade, todos os sistemas familiares formam triângulos; a dificuldade está em sua cristalização
e reprodução. Embora o autor tenha primeiramente descrito o triângulo pela observação das
famílias com esquizofrênicos, posteriormente ampliou o conceito para abranger uma
característica mais geral das famílias que se encontram ansiosas.

A façanha mais importante de Bowen foi destriangular-se dos pais, que tinham o
hábito de queixar um do outro para ele. A maioria de nós fica lisonjeada ao receber
tais confidências, mas Bowen acabou se dando conta dessa triangulação e do que isso
significava. (NICHOLS; SCHWARTZ, 1998, p. 49)
37

Grande parte do funcionamento do sistema emocional ocorre fora dos limites da


consciência humana, e, com os triângulos, não é diferente. Eles se formam de modo
inconsciente para aliviar alguma tensão no sistema familiar, propiciando certo equilíbrio na
relação entre seus membros. “A diferenciação do self em relação à família se completa quando
esses relacionamentos forem mantidos sem se tornarem emocionalmente reativos ou sem
triangulação” (NICHOLS; SCHWARTZ, 1998, p. 50). Cabe ressaltar que, na família, vários
triângulos se formam e se desfazem repetidamente. No entanto, alguns podem se tornar
crônicos, uma vez que a maior parte dos problemas familiares são triangulares. Além disso, o
“terceiro” elemento no processo de triangulação não precisa ser necessariamente outra pessoa;
muitas vezes, uma das pontas de um triângulo é um objeto, um emprego, uma relação fantasiada
ou mesmo um animal (CERVENY, 2014).
O conceito de processo emocional da família nuclear se relaciona a alguns processos
que se desenvolvem no subsistema conjugal, envolvendo o casal e a família nuclear. Cada
cônjuge leva para o casamento certo nível de ansiedade crônica que desenvolveu no
relacionamento com seus pais, e o nível de diferenciação dos parceiros e a intensidade da
ansiedade determinam a ocorrência de sintomas em cada um dos quatro processos funcionais
internos à família nuclear (PAPERO, 1998). Os quatro padrões de ansiedade entre cônjuges
determinados por Bowen são: distância emocional, conflito entre os cônjuges, disfunção de um
dos cônjuges e projeção do problema sobre um dos filhos.
A distância emocional consiste na redução do contato mútuo do casal à medida que a
ansiedade aumenta, podendo chegar, em um ponto extremo, ao divórcio emocional, tornando a
distância tão grande que ambos acabam não sabendo mais sobre os pensamentos e sentimentos
um do outro. O conflito entre os cônjuges diz respeito à energia que os parceiros empregam
para provocar um ao outro, propiciando reações emocionais em cadeia e dificultando a busca
para a solução de um problema. A disfunção de um dos cônjuges se refere ao desencadeamento
de uma disfunção emocional, física ou social em um dos pares, por conta da manutenção de
uma relação em que um deles delega ao outro a responsabilidade por seu próprio ego. Nesse
processo de reciprocidade, um dos cônjuges reduz seu funcionamento e o outro, inversamente
proporcional, o aumenta. A projeção do problema sobre um dos filhos representa a operação
intensa envolvendo o triângulo parental e conta com uma participação intensa da ansiedade
materna, que gera uma resposta ansiosa do filho, o que faz parecer que a criança tem um
problema. Desse modo, há um esforço parental ansioso de superproteção, muito mais em função
de uma ansiedade materna do que pela real necessidade do filho, o qual vai se tornando cada
38

vez mais exigente. Ao longo do tempo, esse processo pode ser motivado tanto pela ansiedade
da mãe quanto pela ansiedade do filho (PAPERO, 1998).
Os últimos três conceitos da teoria dos sistemas familiares de Bowen são os de
rompimento emocional, posição entre irmãos e processo emocional na sociedade. O conceito
de rompimento emocional corresponde à ocorrência de casos extremos de distância emocional,
que podem se apresentar de modo físico, quando há um distanciamento real, chegando a
quilômetros de distância, ou podem se dar internamente, levando o indivíduo a fazer uso de
vários mecanismos intrapsíquicos para evitar o contato com o outro. No entanto, mesmo usando
todas essas estratégias de distanciamento, o indivíduo permanece emocionalmente ligado à
família ou a um membro do sistema familiar. A posição entre irmãos diz respeito às forças
emocionais que operam dentro da família no cumprimento de funções e papéis no contexto do
nascimento de cada filho, que ocupa um determinado lugar na ordem de nascimentos. “As
circunstâncias de vida e as suas relações como casal constituem esse contexto histórico familiar,
que afeta a forma como essas forças emocionais atuam e influem em cada um, diferentemente”
(COELHO, 2007, p. 284). O grau de ansiedade dos pais vai se alterando ao longo da vida
familiar, não se encontrando da mesma maneira na ocasião dos nascimentos de cada filho. O
último conceito consiste na reação emocional apresentada pela sociedade e que interfere no
ambiente em que as famílias se ajustam. As mesmas forças e processos que operam na
sociedade operam também na família, e, como há diferentes sociedades, há diferentes
ansiedades.
Concluindo, segundo Papero (1998), “[...] a teoria sobre os sistemas familiares de
Bowen é uma ampla teoria do comportamento humano [...]” e “[...] considera o sintoma numa
família como o produto do interjogo do nível de diferenciação mais a intensidade do nível de
ansiedade presente, em um momento particular” (p. 92-93). O sintoma apresentado pode regular
o excesso de ansiedade de uma unidade do sistema, organizando papéis e posturas e deixando
outras unidades livres de sintomas.
Finalmente, a teoria boweniana enfatiza que, para compreender a família, é necessário
desvelar o que acontece nas gerações que a precederam e ampliar o olhar para a família extensa,
elucidando nós que, no estudo estritamente da família nuclear, podem permanecer camuflados.
Assim, sua proposta é a de diminuir a ansiedade e aumentar a diferenciação do self do indivíduo
frente às situações de sua vida, seja familiar, social e conjugal. Estar mais diferenciado é ser
capaz de funcionar de forma autônoma, evitando agir reativamente às situações. O indivíduo,
estando mais diferenciado, tem melhores condições de crescimento e de autonomia.
39

2.3 A Depressão e o Sistema Familiar

De acordo com Lawall et al. (2012), enquanto o saber médico se ocupa da pesquisa dos
aspectos genéticos dos indivíduos, o saber psicológico busca o que há de particular na história
familiar do sujeito e na maneira como este se insere na trama das relações que compõem essa
história. Desse modo, abre-se a possibilidade de ressignificar essa história e encontrar outra via,
que não a do adoecer. Propicia-se, a partir daí, um espaço de discussão onde saberes e práticas
interdisciplinares pode se complementar na perspectiva de uma integralidade na prevenção e
promoção da saúde.
A história familiar pode, então, ser considerada um fator de risco e de saúde, e os
profissionais das diversas áreas da saúde apontam-na como fator decisivo na determinação de
aspectos relativos ao processo de adoecimento. Entretanto, tal história é abordada de maneiras
distintas pelos diferentes profissionais e por cada sistema em particular, de acordo com o
enfoque que é tomado.
Correa (2000) parte do princípio de que o núcleo familiar constitui um espaço dinâmico
no qual crenças, hábitos e valores são compartilhados de forma verbal e não verbal, podendo
ser assimilados consciente ou inconscientemente pelos membros do grupo e que acabam por
emprestar a ele características que o tornam único. Esta maneira de “ser família”, isto é, do
sistema familiar funcionar, passa de geração em geração, circulando através de rituais,
comportamentos, comunicações gestuais e nas circunstâncias mais corriqueiras, tais como o
jeito de comer e se divertir, e também nas mais complexas, como a forma de lidar com as perdas,
as separações e as humilhações.
Nesse contexto, os estudiosos da família concebem a história familiar como algo que
transcende os laços sanguíneos e destacam as alianças subjetivas estabelecidas entre os
indivíduos através das identificações, dos mitos e legados que marcam a existência do indivíduo
desde antes de seu nascimento. Nesse seguimento, cada membro da família se apropria em parte
daquilo que o outro carrega consigo, ou seja, daquilo que o outro é. Para Féres-Carneiro (1996),
“[...] em qualquer família, coexistem as tendências ou componentes do funcionamento familiar
que mantem a saúde emocional, e as tendências ou componentes que predispõem a
enfermidade” (p. 21).

Na teoria sistêmica, o aspecto fundamental é que o ser “doente”, ou a pessoa que


apresenta problemas, é apenas um representante circunstancial de alguma disfunção
no sistema familiar. Enquanto o modelo tradicional de práticas psicoterapêuticas diria
que o transtorno mental se manifesta pela força dos conflitos internos ou
intrapsíquicos, tendo sua origem no próprio indivíduo, o modelo sistêmico daria
40

ênfase a tal transtorno como expressão de padrões inadequados de interações


familiares. (BALIEIRO; CERVENY, 2013, p. 155)

No momento em que as ligações emocionais estão fusionadas, há a probabilidade de


geração de sintomas, o que faz com que um dos membros do sistema familiar adoeça, alterando
o equilíbrio funcional da família como um todo. Dentre os diferentes tipos de padrões de
comportamentos repetidos ao longo de gerações, é possível perceber a transmissão tanto de
experiências benéficas quanto de experiências prejudiciais (BATISTA; CARDOSO; GOMES,
2012). Em Penso e Costa (2008), por exemplo, estão selecionados trabalhos teóricos acerca da
transgeracionalidade em contextos como o de violência intrafamiliar, atos infracionais, famílias
alcoolistas e abuso sexual infantil, entre outros.
De acordo com Cerveny (2014), “[...] em 1955, Bowen começou a se interessar pela
origem multigeracional da doença tendo em vista que, para ele, o distúrbio emocional era muito
mais um processo evolutivo com origens profundas na história familiar do que um padrão de
relacionamento definível com precisão” (p. 5). A depressão pode acometer um ou mais
membros do sistema familiar e ser considerada uma afecção transmitida multigeracionalmente.
Isso significa que a vivência da doença por membros das gerações anteriores contribui para sua
vivência em membros da família na geração atual. Para Bowen (1982), o nível de
indiferenciação dos pais influencia o nível de indiferenciação de cada filho; portanto, quanto
mais fusionados e tendendo ao funcionamento emocional, menor o nível de autonomia e
diferenciação do indivíduo.
Considera-se que um nível de diferenciação muito baixo facilita a vivência de
transtornos depressivos. Além disso, a depressão, dentro de um processo de triangulação, pode
ser considerada como um dos vértices do triângulo, o qual inclui o sistema familiar, o indivíduo
e a doença, propiciando um equilíbrio funcional em determinados momentos vividos pelo
sistema como um todo. Para Bowen, em situações como casamentos, mortes, doenças e
nascimentos, a massa indiferenciada do ego familiar e o nível de ansiedade podem ser maiores.
Ou seja, são sobretudo nesses momentos do ciclo de vida familiar que há maior tendência para
a ocorrência de fusionamento entre os membros ou circunstâncias e formação e manutenção de
triângulos crônicos.
Na busca por trabalhos nacionais sobre depressão e família, Antunes et al. (2016)
tentaram compreender a influência das crenças em saúde e dos hábitos culturais na procura dos
pais e responsáveis por tratamento da depressão de suas crianças analisando os processos e
motivações que levavam esses mesmos pais à percepção da doença e à consequente procura por
atendimento especializado.
41

Trata-se de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, composta por um médico,


um enfermeiro, uma psicóloga e uma nutricionista, que analisou qualitativamente cinco
entrevistas de casos atendidos em um ambulatório de psiquiatria de um hospital universitário
estatal do interior do estado de São Paulo. As análises das entrevistas possibilitaram refletir que
as crenças individuais e coletivas, como o estigma acerca da psiquiatria e da loucura e a não
aceitação de processos depressivos em crianças, interferem negativamente na busca de
atendimento especializado para as crianças com depressão. Em contrapartida, aspectos como o
conhecimento prévio da doença e a ação de profissionais de saúde e educadores aliada à crença
na efetividade da intervenção são fatores que influenciam positivamente e possibilitam o início
precoce do tratamento.

Evidenciou-se que os pais e os cuidadores, possuem uma função essencial no processo


terapêutico psicológico da criança. Além disso, futuros estudos poderão fornecer
subsídios para a compreensão da importância em se realizar um diagnóstico com
eficácia e, sobretudo, o papel central dos pais e seus responsáveis no tratamento de
crianças diagnosticadas com depressão infantil. (ANTUNES et al., 2016, p. 164)

Rheinheimer e Koch (2016), duas psicólogas do estado do Rio Grande do Sul,


realizaram uma pesquisa bibliográfica para investigar e reunir estudos sobre o papel da família
no cuidado com a pessoa portadora de transtorno mental. Para alcançar o objetivo proposto,
elas realizaram uma coleta de dados nas bases bibliográficas da Biblioteca Virtual em Saúde
(BVS) e da Scientific Eletronic Library Online (SciELO) entre os anos de 2007 a 2014, usando
os seguintes termos em sua busca: “saúde mental”, “transtorno mental”, “cuidado” e “família”.
A partir da análise das duas bases, e considerando a repetição de trabalhos, a amostra final de
artigos da pesquisa em questão totalizou dez publicações, sendo que a maioria pertencia à área
da enfermagem.
Diante desses estudos encontrados, as autoras concluíram que a família cumpre o seu
papel de cuidadora, dando suporte e oferecendo um espaço de apoio e proteção à pessoa
portadora de transtornos mental. Elas também ressaltaram a importância e a necessidade de
efetuar os cuidados com o cuidador de pessoas portadoras de transtornos mentais. Entretanto,
em sua maioria, os estudos tiveram o objetivo de analisar o desempenho e/ou atuação dos
profissionais da saúde em relação ao cuidado e tratamento das pessoas portadoras de transtornos
mentais e de seus familiares. Eles não tratavam das formas como a família percebe tal situação.
“Ao relatarem a sobrecarga e o sofrimento intenso por parte dos cuidadores, surge a demanda
de que as famílias também precisam ser tratadas” (RHEINHEIMER; KOCH, 2016, p. 58). Por
fim, as autoras sugeriram que os profissionais e pesquisadores da área da psicologia
42

investiguem, de maneira mais profunda, quais são os papéis que a família desempenha no
cuidado com a pessoa portadora de transtorno mental.
Camargo, Calais e Sartori (2015) pesquisaram uma possível correlação entre a presença
de estresse, a gravidade da depressão e a percepção de suporte familiar utilizando o Inventário
de Sintomas de Stress de Lipp (ISSL) para adultos (2000), o Inventário de Depressão de Beck
(BDI, Beck Depression Inventory), de Cunha (2001), e o Inventário de Percepção de Suporte
Familiar (IPSF), de Baptista (2009). O primeiro instrumento tem como objetivo identificar o
estresse e a sintomatologia física ou psicológica; o segundo investiga sintomas de depressão
através de aspectos como sua intensidade, gravidade e profundidade; e o terceiro mensura o
construto do suporte familiar, que pode ser proveniente tanto da família nuclear quanto da
família constituída.
Foram aplicados esses três instrumentos em 200 estudantes de ambos os sexos
matriculados no último ciclo dos cursos de uma escola técnica profissionalizante de um
município do oeste paulista, todos com 18 anos completos e ensino médio concluído. Os
resultados mostraram que 61% deles apresentaram estresse, 28,5%, indicativos de depressão e
55,5% avaliaram seu suporte familiar em níveis médio-baixo e baixo, indicando, então,
correlação positiva entre estresse e depressão e correlação negativa entre depressão e suporte
familiar.
Baptista, Carneiro e Lemos (2011) pesquisaram as relações entre suporte familiar,
sintomatologia depressiva e crenças irracionais utilizando os seguintes instrumentos de
avaliação: Inventário de Percepção de Suporte Familiar (IPSF), Inventário de Depressão de
Beck (BDI) e Escala de Crenças Irracionais (ECI). Todos os três instrumentos estão validados
em português. Participaram do estudo 377 voluntários de uma universidade do estado de São
Paulo, com idade média de 20,69 anos e prevalência do sexo feminino (68,2%). Após análise
estatística, foi possível verificar que, quanto maior a percepção de autonomia, afetividade e
adaptação, dentre outras características do suporte familiar, menor é o número de sintomas
depressivos e de crenças irracionais. Além disso, constatou-se que, quanto maior o número de
crenças irracionais, maiores são os sintomas depressivos.

Neste contexto, esses resultados sugerem a importância da família em programas de


intervenção de tratamento para casos de depressão associados a pensamentos
negativos, uma vez que o núcleo familiar pode ser considerado coadjuvante nos
transtornos mentais. (BAPTISTA; CARNEIRO; LEMOS, 2011, p. 27)
43

Ainda sobre depressão e suporte familiar, Bueno (2009) utilizou o Inventário Beck de
Depressão (BDI) e o Inventário de Percepção de Suporte Familiar (IPSF) para comparar os
sintomas depressivos com a percepção de suporte familiar de universitários. Participaram da
pesquisa 56 alunos do curso de graduação de psicologia de uma universidade do interior do
estado de São Paulo, com idade média de aproximadamente 24 anos, sendo 76,4% mulheres e
23,6% homens. Os resultados indicaram correlação negativa no que diz respeito à
sintomatologia depressiva e à percepção de suporte familiar do indivíduo. A pesquisadora
concluiu que o suporte familiar empobrecido nessa amostra foi associado a um maior índice de
sintomas depressivos.
Feitosa, Bohry e Machado (2011), todas elas profissionais da área de enfermagem,
buscaram identificar as principais dificuldades enfrentadas por familiares no tratamento de
pacientes com depressão. Também buscaram compreender o conhecimento que a família e o
paciente possuem sobre a doença, a etiologia e a forma de tratamento. O estudo foi realizado
com 20 familiares e 20 pacientes com idades entre 18 e 65 anos no Distrito Federal, os quais
foram entrevistadas por meio de questionários semiestruturados. Os resultados apontaram que
65% dos familiares apresentavam dificuldade em entender e identificar os sinais característicos
da depressão e que 55% só procuraram ajuda médica após tentativa de suicídio do paciente e
45%, após agravamento dos sintomas da doença.
Mesmo não considerando o aspecto familiar diretamente, Boing et al. (2012) realizaram
um estudo transversal com 1.720 adultos, de 20 a 59 anos de idade, em Florianópolis, Santa
Catarina, no ano de 2009. Esses adultos reportaram ter recebido ou não o diagnóstico de
depressão e outras doenças crônicas por algum profissional da saúde. A prevalência de
depressão foi mais elevada em mulheres, nos mais idosos, nos viúvos ou separados, nos mais
pobres, entre os que não praticam atividade física, naqueles que consultaram médico nas duas
últimas semanas e naqueles hospitalizados no último ano.

A prevalência de depressão é expressivamente mais elevada entre pessoas com maior


número de doenças crônicas, configurando-se esse grupo como de especial atenção
por parte de profissionais da saúde, serviços e formuladores de políticas em relação
ao seu acompanhamento. (BOING et al., 2012, p. 617)

Desse modo, verificou ainda que a prevalência de depressão foi 1,44 vez maior entre as
pessoas que reportaram ter uma doença crônica e 2,25 vezes maior entre aqueles indivíduos
com duas ou mais doenças crônicas, comparando às pessoas sem doença.
44

Sem dúvida, a depressão é uma doença multideterminada, com disfunções orgânicas e


subjetivas. Nessa complexidade, que desafia os profissionais e os serviços de saúde, optamos
por destacar os atravessamentos familiares que se dão entre as gerações, na trama tecida na
descendência, na qual se transmite angústias e indiferenciações, que examinaremos na
continuidade deste estudo, no capítulo que se segue.
45

3 O GENOGRAMA FAMILIAR COMO INSTRUMENTO METODOLÓGICO NA


PESQUISA QUALITATIVA

3.1 A Busca de Significados e o Genograma

Pesquisar o processo de transmissão multigeracional evidenciando as relações dos


aspectos familiares que favorecem, de geração a geração, a repetição do transtorno depressivo
não só significa abordar a questão no plano teórico, como também implica compreender as
percepções e os significados construídos pelos indivíduos em seus universos particular e
familiar, demonstrando a complexidade e as contradições presentes na vinculação e na
indissociabilidade de suas interpretações com a história da família. Tendo em vista a dimensão
e o alcance dos resultados do presente estudo, podemos caracterizá-lo como uma pesquisa
qualitativa. “A pesquisa qualitativa”, como descrevem Gerhardt e Silveira (2009), “preocupa-
se [...] com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na
compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais” (p. 32), as quais são também
tecidas na trama do grupo familiar.
Segundo Laperrièrre (2008), as abordagens qualitativas investem na qualidade e na
análise contínua da interação entre o observador e o observado, isto é, o pesquisador e os
sujeitos pesquisados. Nessas linhas, portanto, deve-se considerar o conhecimento aprofundado
do contexto e a diversidade de perspectivas dos envolvidos na situação de pesquisa. Como ele
complementa,

Assim, os quadros interpretativos e o posicionamento psicológico e social dos sujeitos


da pesquisa, tanto quanto os do pesquisador, deveriam ser cuidadosamente anotados
e analisados o longo da pesquisa, visando nela obter uma correta análise dos dados
coletados. (LAPERRIÈRRE, 2008, p. 413)

Crepaldi, Moré e Schultz (2014) afirmam que a produção de conhecimento associada a


estudos sobre a família tem se enriquecido significativamente em virtude da contribuição da
metodologia de pesquisa qualitativa. Como recurso investigativo para esses estudos, é possível
empregar o genograma familiar. Wendt e Crepaldi (2007), em seu artigo A utilização do
genograma como instrumento de coleta de dados na pesquisa qualitativa, demonstram a
pertinência da aplicação dessa ferramenta em pesquisas que envolvem a estrutura e a dinâmica
familiares. Eles ainda sinalizam a importância da construção conjunta com os informantes, já
que esse processo torna possível o incremento de informações sobre as relações e padrões
46

familiares. Vale destacar que esse procedimento metodológico também impulsiona o diálogo
com nosso marco teórico.
Como vimos no capítulo anterior, Murray Bowen criou conceitos relevantes para a
compreensão do sistema emocional familiar, principalmente no que se refere à transmissão
geracional dos aspectos familiares, que é justamente o escopo de nossa investigação, sobretudo
no que tange à depressão como fenômeno multigeracional. Ele observou o funcionamento das
estruturas familiares destacando as relações triangulares de seus membros e a importância de
um trabalho que visasse à melhoria do nível de diferenciação do self dos indivíduos,
examinando, por conseguinte, a repetição de certos comportamentos entre gerações. Foi a partir
da teoria dos sistemas familiares de Bowen e da técnica desenvolvida por ele para explorar os
aspectos multigeracionais nas famílias, denominada inicialmente diagrama da família, que o
instrumento genograma foi construído. Seu intuito: examinar tais aspectos. Como lembra
Carrasco (2014),

No campo da psicologia foi o desenvolvimento da terapia familiar sistêmica


boweniana que impulsionou a utilização do genograma como instrumento clínico. A
partir das ideias de Murray Bowen, que descreve o conceito de transmissão
transgeracional, as características emocionais de uma pessoa são o resultado do
relacionamento de seus pais, que por sua vez, são o resultado dos padrões geracionais
precedentes. (CARRASCO, 2014, p. 152)

De acordo com Carrasco (2014), “[...] o genograma, hoje amplamente utilizado em


terapia familiar, teve na medicina, através dos estudos do biólogo Johann Mendel1 (1822-1884),
suas primeiras utilizações” (p. 151). Muitos são os termos utilizados para se referir a esse
instrumento, e, dentre eles, pode-se citar a árvore genealógica, o familiograma, o genetograma
e o genograma. Optamos por utilizar o termo genograma, por ser o que geralmente aparece nas
pesquisas e estudos sobre o tema no Brasil.
Os genogramas são mapas familiares construídos com símbolos padronizados por um
comitê do Grupo Norte-Americano de Pesquisa em Cuidados Primários cujos membros
trabalham com medicina e terapia de família. Nesses mapas, são representados graficamente
tanto os componentes da família nuclear como os membros da família extensa. Podem ser
incluídos ainda indivíduos não consanguíneos que viveram ou desempenharam um papel
importante na vida familiar. Conforme McGoldrick, Gerson e Petry (2012), “os genogramas
podem ser criados para qualquer período da história da família, mostrando as idades e relações

1
As leis de Mendel se referem às leis de herança biológica descobertas a partir do cruzamento entre variedades de
ervilhas. Essas leis são utilizadas para descrever as linhas de transmissão familiar de algumas doenças clínicas na
medicina.
47

daquele momento para melhor entender os padrões familiares enquanto eles se desenvolvem
através do tempo” (p. 23).
O mapeamento da árvore familiar tem como objetivo registrar informações sobre os
membros de uma família e suas relações em pelo menos três gerações. Além disso, podem
incluir eventos familiares relevantes na história da família. Tais dados podem ser obtidos
através de entrevistas com um ou mais membros de uma família. Os genogramas podem ser
desenhados manualmente ou através de programas computadorizados disponíveis.
Como arrematam McGoldrick, Gerson e Petry (2012),

Compartilhar a história de uma família é um contrato sagrado, não uma questão de


mera coleta técnica dos fatos. O desenho, contudo, precisa se adequar a determinadas
regras de modo que todos os terapeutas tenham o mesmo entendimento da linguagem
do genograma. (MCGOLDRICK; GERSON; PETRY, 2012, p. 37)

Nesta dissertação, os símbolos empregados na construção dos genogramas dos sujeitos


entrevistados foram baseados em McGoldrick, Gerson e Petry (2012). A escolha desses autores
como referência deve-se à nossa maior familiaridade com suas produções na prática clínica e
no trabalho acadêmico. Acreditamos que isso proporciona um contexto de entrevista de maior
segurança, o que facilita a dinâmica do processo de obtenção de dados e potencializa a
construção do mapa da família junto ao entrevistado.
Além de símbolos que representam os membros do sistema familiar, empregamos
símbolos que indicam as relações travadas entre essas pessoas. A seguir, apresentamos alguns
dos principais símbolos padronizados para a construção de um genograma. Como será possível
observar, os homens são representados por um quadrado e as mulheres, por um círculo.
48

Figura 2 – Principais símbolos do genograma

Fonte: MCGOLDRICK; GERSON; PETRY, 2012.

Figura 3 – Padrões interacionais entre as pessoas

Fonte: MCGOLDRICK; GERSON; PETRY, 2012.


49

Figura 4 – Vício, doenças ou outros problemas

Fonte: MCGOLDRICK; GERSON; PETRY, 2012.

Figura 5 – Tipos de relacionamento e/ou relações

Fonte: MCGOLDRICK; GERSON; PETRY, 2012.

Segundo McGoldrick, Gerson e Petry (2012), as aplicações do genograma podem variar,


por exemplo, desde a descrição básica de informações demográficas de uma família em uma
entrevista médica e rápida até o mapeamento multigeracional do sistema emocional familiar,
50

usando uma estrutura de Bowen. Além da aplicação do genograma em contextos clínicos, seja
de maneira individual com os pacientes, seja em grupo com os familiares, é possível incluir
esse instrumento no campo das pesquisas científicas, conforme propomos neste trabalho.
Nessa perspectiva, e fazendo um recorte voltado aos estudos brasileiros que usaram o
genograma para a investigação científica relacionando-o com qualquer temática, temos
produções nas áreas de enfermagem, medicina, educação e psicologia. Na enfermagem,
Nascimento, Rocha e Hayes (2005) pesquisaram qualitativamente as contribuições do
genograma e do ecomapa para o estudo de famílias no campo da enfermagem pediátrica. Ao
entrevistarem nove famílias de crianças com câncer do interior de São Paulo, descreveram sua
experiência de utilizar esses dois instrumentos no levantamento de dados de uma pesquisa,
apontando vantagens e alertando sobre suas limitações. Musquim et al. (2013) escreveram sobre
a potencialidade do uso do genograma e do ecomapa como ferramentas de análise que compõem
o itinerário terapêutico de compreensão da experiência de adoecimento crônico de pessoas e
famílias. Na medicina, Rebelo (2007) demonstrou como o genograma pode ser um método
importante para o médico de família, analisando tanto suas indicações quanto suas restrições.
Por seu turno, Muniz e Eisenstein (2008) concluíram que tal instrumento facilita o entendimento
dos processos de saúde e doença na medicina de família. Nos termos desses autores, “a
construção interativa do genograma e o interesse pela narrativa apresentada e pela história
familiar do indivíduo favorecem o vínculo e a comunicação, contribuindo positivamente para a
relação médico-paciente” (p. 79).
Na área da educação, Castoldi, Lopes e Prati (2006) descreveram o uso do genograma
como instrumento de pesquisa sobre o impacto de eventos estressores na transição família-
escola em famílias cujos filhos encontravam-se em processo de adaptação à educação infantil.
No campo da psicologia de família, Kruger e Werlang (2008) abordaram o uso desse
instrumento como recurso no espaço conversacional terapêutico de duas famílias do Rio Grande
do Sul que haviam vivenciado uma tentativa de suicídio de um de seus membros. Os resultados
evidenciaram que os genogramas das duas famílias apontavam para a relevância do trabalho de
reconstrução das histórias transgeracionais. Wendt e Crepaldi (2008), em estudo sobre a
utilização do genograma como instrumento de coleta de dados na pesquisa qualitativa,
concluíram que essa ferramenta é adequada à utilização em estudos que envolvem a dinâmica
e a estrutura das famílias.
51

3.2 Como Conhecemos a Transmissão Familiar da Depressão

Os estudos sobre a depressão sustentam-se na dimensão médica, precisamente na


psiquiátrica, enfatizando seus aspectos orgânicos. Por outro lado, a psicologia, em uma de suas
vertentes teóricas – a saber, a leitura sistêmica –, se interessa pelo fenômeno relacional e
histórico-geracional da doença, ou seja, enfatiza como a família influencia o acometimento de
seus membros em diferentes gerações pela depressão.
Com o objetivo de compreender as percepções e os significados que as pessoas com
depressão constroem em seus universos individual e familiar, empregamos o procedimento
metodológico de entrevistas semiestruturadas com roteiro previamente estabelecido (apêndice
A). Em meio a essas entrevistas, construímos ainda o genograma familiar junto com cada
participante. Nesse contexto, realizamos seis entrevistas com estudantes de cursos de graduação
no período de setembro a outubro de 2017, todas elas na cidade de Belo Horizonte.
A escolha dos entrevistados ocorreu mediante a indicação de colegas psicólogos que
têm ou tiveram pacientes que são estudantes de cursos de graduação e já passaram por pelo
menos um episódio de depressão e se trataram com psiquiatra. Alguns dos entrevistados
também indicaram colegas que se encaixavam no perfil da pesquisa e manifestavam o desejo
de participar. O contato telefônico foi disponibilizado tanto para os colegas psicólogos quanto
para os entrevistados, que o repassaram a colegas de turma interessados em participar da coleta
de dados. Optamos por não realizar entrevistas com nossos clientes e alunos, por entendermos
que a presença desses sujeitos em outro contexto relacional poderia interferir nas informações
coletadas.
No contato inicial com os entrevistados, realizado por telefone, reiteramos o tema e o
objetivo da pesquisa. Explicamos também que a coleta de dados aconteceria, primeiramente,
por meio de uma entrevista sobre o episódio de depressão e a relação deles com esse episódio.
Em um segundo momento, construiríamos juntos o genograma familiar. Os entrevistados
forneceriam as informações sobre os membros de sua família, enquanto nós elaboraríamos
questões sobre isso, a respeito de seus papeis e das relações que travaram uns com os outros ao
longo de, no mínimo, três gerações. Assim, juntos, produziríamos o mapa familiar.
Ainda por telefone, informamos aos entrevistados acerca da possibilidade de a entrevista
ser realizada em suas casas, em nosso consultório, em seus campi universitários ou mesmo em
outro lugar acordado entre as partes, em que eles se sentiriam mais à vontade. As entrevistas
com os participantes 1 e 6 ocorreram em uma sala no campus em que cada um deles estudava,
fora do horário de aulas e estágios. Os entrevistados 2 e 4 preferiram participar no local em que
52

trabalhavam, reservando sala e horário que consideraram mais adequados, de modo a evitar
interrupções externas. Por fim, os entrevistados 3 e 5 optaram por participar em nosso
consultório, combinando conosco data e horário em que estariam disponíveis.
Antes de iniciar as entrevistas, os participantes leram e assinaram o termo de
consentimento livre e esclarecido (TCLE), que foi registrado no Comitê de Ética e Pesquisa
(CEP) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) sob o código CAAE
64259817-2-0000-5137. Cada participante recebeu uma via do TCLE em que constava nossos
número de telefone e endereço, caso fosse necessário tirar dúvidas sobre a pesquisa e sua
participação, a qualquer momento.
As entrevistas foram gravadas e transcritas para possibilitar a realização da análise dos
dados coletados. Os entrevistados 1, 2 e 3 foram indicados pelos colegas psicólogos e as
entrevistadas 4, 5 e 6, respectivamente pelos entrevistados 3, 4 e 5. Nesse sentido, alguns dos
sujeitos pesquisados indicaram colegas que também se encaixavam no perfil da pesquisa e
estavam dispostos a participar. A essa técnica de busca de participantes dá-se o nome de bola
de neve. A amostra por bola de neve (em inglês, snowball sampling) é uma técnica de
amostragem não probabilística em que os sujeitos selecionados para o estudo convidam outros
sujeitos pertencentes a suas redes de amigos e conhecidos. Como esclarece Vinuto (2014),

A execução da amostragem em bola de neve se constrói da seguinte maneira: para o


pontapé inicial, lança-se mão de documentos e/ou informantes-chaves, nomeados
como sementes, a fim de localizar algumas pessoas com o perfil necessário para a
pesquisa, dentro da população geral. Isso acontece porque uma amostra probabilística
inicial é impossível ou impraticável, e assim as sementes ajudam o pesquisador a
iniciar seus contatos e a tatear o grupo a ser pesquisado. Em seguida, solicita-se que
as pessoas indicadas pelas sementes indiquem novos contatos com as características
desejadas, a partir de sua própria rede pessoal, e assim sucessivamente e, dessa forma,
o quadro de amostragem pode crescer a cada entrevista, caso seja do interesse do
pesquisador. Eventualmente o quadro de amostragem torna-se saturado, ou seja, não
há novos nomes oferecidos ou os nomes encontrados não trazem informações novas
ao quadro de análise. (VINUTO, 2014, p. 203)

Segundo Vianuto (2014), essa técnica pode ser usada com o intuito de compreender
melhor um tema, além de ser útil para estudar questões delicadas, de âmbito privado, que
requerem indicações de pessoas que se conheçam por integrarem um grupo ou uma rede.
Abordar o tema da depressão na família, para alguns indivíduos, pode ser tarefa delicada e
incômoda, enquanto que, para outros, pode ser uma empreitada interessante e curiosa.
Nesse contexto, é importante explicitar ao máximo para as sementes e os demais
participantes os objetivos da pesquisa, o cuidado e o respeito que serão tomados com seu sigilo
e sua subjetividade e a preocupação com a boa execução da entrevista. Durante o processo de
53

coleta de dados, outros estudantes, colegas de alguns dos seis entrevistados, nos contataram
informando seus desejo e interesse de participar de nossa pesquisa. Porém, como nosso estudo
se trata de uma pesquisa qualitativa, agradecemos e informamos que faríamos contato se fosse
necessário, até mesmo porque analisar o processo e os resultados de seis entrevistas e seis
genogramas demanda dedicação e atenção, se quisermos obter dados relevantes sobre o
processo de adoecimento na família. “Em suma, a amostragem em bola de neve é apenas uma
ferramenta, num contexto maior de trabalho, que pode auxiliar o pesquisador, mas que depende
necessariamente da boa execução das outras fases da pesquisa” (VINUTO, 2014, p. 217).
Contudo, essa alta demanda de participação nos faz pensar a necessidade de, cada vez mais,
realizar uma abordagem familiar e uma escuta nessa direção, de casos de depressão.
Como mencionamos anteriormente, no contato telefônico com os entrevistados,
explicamos que primeiramente eles responderiam a algumas perguntas sobre o(s) episódio(s)
de depressão e, a partir disso, conversaríamos sobre a percepção de seus familiares sobre o
problema que eles vivenciavam, podendo ser abordados outros pontos relacionados ao tema,
conforme sugerido no roteiro de entrevista que se encontra no apêndice A deste trabalho. Após
essa conversa, iniciaríamos a construção do genograma familiar do entrevistado, a partir das
informações fornecidas por ele na entrevista inicial e também durante o desenho do gráfico
familiar, que seria realizado conjuntamente. Para Macedo (2014),

[...] fica clara a importância do uso do genograma não como uma técnica em si, ou só
um instrumento útil e prático, mas, sobretudo como um meio riquíssimo para a
compreensão do funcionamento do sistema familiar em pauta, em seus aspectos
relacionais, emocionais e transgeracionais, ampliando em muito as possibilidades de
trabalhar com as famílias, ajudando-as a perceber as interligações entre seus
componentes, os padrões que se repetem, os cortes emocionais, as triangulações,
enfim, o nível de diferenciação nas sucessivas gerações e suas influências.
(MACEDO, 2014, p. 10)

Caso fosse preciso, algumas anotações referentes a pessoas, eventos e relações da


família pesquisada seriam escritas em uma folha à parte, entrando como legenda em seu mapa.
Os genogramas dos seis entrevistados se encontram no capítulo 4 desta dissertação, referente
ao processo de análise dos dados. O quadro a seguir apresenta um perfil geral dos entrevistados;
porém, para uma melhor análise dos dados, essas e outras informações serão descritas
novamente no próximo capítulo.
54

Quadro 1 – Perfil geral dos entrevistados


Nome Fictício Graduação e Ano do 1º Outros Fez Parentes Parente fez
e Idade Escola episódio episódios tratamento com tratamento
de depressão
depressão
Psicologia 2013/2014 Sim, em Sim Avós, mãe, Sim
Bárbara, 21 4º p. PUC MG 2016, aos padrinho,
20 anos. tia.
Artes Visuais 2011/2012 Sim, Sim Mãe Não
Cecília, 36 (quase acha que
concluindo) aos 15
Unopar anos.
Psicologia 2009 Sim, Sim Mãe, Não
Pedro, 35 4ºp. Universo início prima, tio.
BH 2017.
Psicologia 2017 Não, está Não Mãe Não
Carla, 47 10º p. tendo no
Universo BH momento
.
Psicologia 2007 Sim, no Sim Família Sim
Amanda, 25 4º p. Universo momento materna
BH . (avó, 6
tios, mãe)
Psicologia 2016 Sim, no Não Mãe Não
Sônia, 41 10º p. momento
Universo BH .
Fonte: Elaborado pela autora.

A partir do material coletado, o instrumental de análise dos dados obtidos nas entrevistas
foi a análise de conteúdo e as respectivas categorias temáticas oriundas deste procedimento de
interpretação.
Segundo Bardin (2011) “[...] a análise de conteúdo é um conjunto de instrumentos de
cunho metodológico em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a discursos (conteúdos e
continentes) extremamente diversificados” (p. 15). A autora sugere que a análise seja
organizada conforme as seguintes etapas: pré-análise (organização do material e demarcação
do que será analisado nos documentos); fase exploratória (identificação das unidades de
registro) para definição das categorias; fase de codificação, classificação e categorização; fase
das interpretações e inferências; e, por fim, fase de tratamento dos resultados, que é considerada
a parte mais subjetiva do processo de análise, em que se usa a intuição, a crítica e a interpretação
(BARDIN, 2011).
A análise de conteúdo associa o exame apurado do material coletado e a interpretação
criativa, em busca do que está por trás das falas e das colocações dos entrevistados. Usamos
essa proposta em nosso estudo, para a elaboração de categorias, de modo a organizar os dados
em temas, criando núcleos de sentido nas falas e nos genogramas. Assim, a partir desse
procedimento, levantamos as seguintes categorias temáticas, que serão examinadas no capítulo
55

que se segue: transmissão geracional familiar; ansiedade como sintoma; ansiedade crônica; e
nível de diferenciação.
57

4 A DEPRESSÃO NA VISÃO DOS ENTREVISTADOS

Neste capítulo, efetuaremos a articulação do conteúdo das entrevistas com a teoria dos
sistemas familiares de Bowen, descrita no segundo capítulo desta dissertação. No entanto,
consideramos importante apresentar o que os participantes descreveram como fator
desencadeante para os sintomas da depressão e o que eles acreditam ser a depressão, de modo
a lhes dar voz.
Bárbara2, a primeira entrevistada, explicou que o contexto de competição e pressão
vivenciadas no período em que estava matriculada no curso preparatório para o vestibular
contribuiu para o surgimento dos sintomas depressivos. Segundo ela, “o processo de pressão,
de competição, de ‘você não é nada’ no cursinho é muito grande, e essa energia, e essas questões
todas foram me pesando muito. No meio do ano eu estava em um nível que eu não queria sair
do meu quarto”. Já para a Irmã Cecília, a depressão surgiu no momento em que ela sentiu as
cobranças da congregação religiosa para que ela fosse para a faculdade. Em suas palavras,

Então tem algumas cobranças que a gente tem que cumprir. Então eu entrei muito
jovem na congregação. Entrei com 15 anos. E aí, por ter dificuldade de aprendizagem,
ter dislexia, agora a síndrome de Irlen, também. Então tinha dificuldade para estudar.
Então, quando colocavam a proposta para eu ir para uma faculdade, minha casa
desabava. Porque, sendo religiosa, morando dentro de uma escola e atuando, precisava
de um curso superior. Apesar de ter a Teologia. Mas a teologia, para nós, é obrigatória
para todas as irmãs que querem seguir a vida religiosa. Depois a gente tem que fazer
a opção por um curso superior. Então, aí, diante dessas cobranças e tentar várias vezes
e não conseguir e aí eu comecei a entrar nesse processo de depressão, mesmo. (Irmã
Cecília)

Podemos identificar que a depressão, tanto para Bárbara quanto para a Irmã Cecília,
estava associada à vivência de cobranças sentidas por elas no contexto educacional, no
momento que envolvia a escolha de um curso de graduação e precedia a entrada na
universidade. Pedro, nosso único homem entrevistado, associou o surgimento de seu primeiro
episódio de depressão ao rompimento de seu casamento, após nove anos da união, precisando
estabelecer novos acordos e uma nova rotina, tanto com a ex-mulher quanto com a filha.
Para contextualizar o surgimento de seu primeiro episódio de depressão, Amanda
retorna à história de doença em sua infância.

Quando eu tinha uns 6 anos, eu tive toxoplasmose, que é uma doença que é um parasita
e ele não... com seis anos afetou só as glândulas, aí tratei, mas os médicos falavam
que ele continuava no meu corpo. Ai com uns 10 anos eu tive no olho, aí quando eu

2
Todos os nomes dos entrevistados citados são fictícios.
58

descobri eu já tinha perdido 70% da visão do olho direito e aí eu fiquei estrábica, e foi
bem naquela fase de transição (referindo-se à transição da infância para adolescência).
Então foi aí que eu acho que começou o problema. (Amanda)

Amanda acrescenta ainda que, além dos efeitos colaterais advindos da forte medicação
que precisou tomar no tratamento da doença, foi informada pelo médico que a imunidade
ajudava a doença a ficar ativa, então, ela precisava estar sempre bem. Ela tinha medo de ficar
triste e a doença voltar, o que gerou muita preocupação e ansiedade.
Levando em consideração os fatores apontados por Pedro (divórcio) e por Amanda
(doença) para o surgimento do primeiro episódio de depressão, retomamos Bowen (1982), que
destacou que, em alguns momentos do ciclo de vida familiar, como casamentos, mortes,
doenças e nascimentos, o nível de ansiedade tende a ser maior, aumentando a possibilidade de
fusão, reatividade emocional e indiferenciação. O segundo episódio de depressão de Bárbara,
por exemplo, se deu após a morte de um amigo, que foi assassinado, e da prima, que morreu
em função de um câncer. As duas perdas aconteceram no mesmo mês.
De acordo com Carter e McGoldrick (1995) a família, enquanto um sistema humano
composto por membros de diferentes gerações, também passa, ao longo de sua existência, por
um ciclo de vida próprio, permeado pelas mais variadas tarefas e pelas mais distintas demandas
e adaptações. Esse ciclo possui características específicas, de acordo com cada etapa a ser
enfrentada, e fundamenta o contexto primário em que o ser humano se desenvolve. É preciso
destacar que cada nova etapa a ser enfrentada conduz a uma resistência contra a transição, e é
importante considerar que o grupo familiar efetua uma tentativa de manter o presente. Os pontos
de transição de um estágio a outro conduzem a família a um estresse gerenciado pelo paradoxo
central de seu modo de ser: equilíbrio necessário versus mutação constante.

[...] o estresse familiar é geralmente maior nos pontos de transição de um estágio para
outro no processo desenvolvimental familiar, e os sintomas tendem a aparecer mais
quando há uma interrupção ou deslocamento no ciclo de vida familiar em
desdobramento. (CARTER; MCGOLDRICK, 1995, p. 8)

Essas autoras consideram ainda que o fluxo de ansiedade em uma família pode ser tanto
vertical quanto horizontal. Para elas, o fluxo vertical está relacionado aos padrões de
relacionamento e funcionamento que são transmitidos para as gerações seguintes,
principalmente através do mecanismo de triangulação emocional proposto por Bowen, e inclui
as atitudes, tabus, expectativas, rótulos, padrões, mitos, segredos e legados familiares com os
quais crescemos. Já o fluxo horizontal se relaciona à ansiedade produzida pelos estresses na
família, conforme ela avança no tempo, e inclui tanto os estresses desenvolvimentais, isto é, as
59

transições do ciclo de vida, quanto os estresses impredizíveis, como morte precoce, doença
crônica, nascimento de uma criança com deficiência, uma guerra etc. Para elas, “[...] quando o
estresse horizontal (desenvolvimental) faz uma interseção com o vertical (transgeracional),
existe um aumento importante da ansiedade no sistema” (CARTER; MCGOLDRICK, 1995, p.
12).
Além do estresse herdado de gerações anteriores e daquele experimentado enquanto se
avança no ciclo de vida familiar, é preciso levar em consideração os estresses advindos dos
contextos sociais, econômicos e políticos que impactam as famílias em diferentes fases e
contextos ao longo do ciclo de vida. Por exemplo, os seis estágios estabelecidos pelas duas
autoras foram baseados no contexto de famílias norte-americanas de classe média. São eles, os
quais seguem essa ordem: 1) saindo de casa: jovens solteiros, 2) união de famílias no
casamento: o novo casal, 3) famílias com filhos pequenos, 4) famílias com adolescentes, 5)
lançando os filhos e seguindo em frente e 6) famílias no estágio tardio da vida (CARTER;
MCGOLDRICK, 1995).
No Brasil, Cerveny e Berthoud (2009) frisam que as metas das famílias estão
relacionadas a tarefas para garantir um patrimônio no início do ciclo vital, educar e formar os
filhos para a vida profissional e cuidar de filhos e netos ao longo dos anos. Além disso, os
casamentos acontecem um pouco mais tarde por conta do foco na profissão, a mulher ainda se
encontra sobrecarregada, com dupla jornada de trabalho, e os filhos do casal são planejados e
em menor número. As observações e pesquisas com famílias brasileiras levou Cerveny (1997)
a classificar os estágios do ciclo vital no contexto brasileiro em quatro fases, com nomenclatura
diferente dos estágios propostos para o contexto norte-americano.
A fase de aquisição engloba o período da união do casal até a entrada dos filhos na
adolescência. Nessa fase, define-se um modelo próprio de família e há a aquisição da
parentalidade e de objetivos comuns. A segunda fase, denominada família adolescente, tem
como característica o fato de os pais reviverem a própria adolescência com a convivência da
adolescência dos filhos. Ademais, as regras da primeira fase já não são suficientes para o bom
funcionamento da família. A fase madura é considerada a terceira fase e a mais longa também.
Compreende a saída dos filhos de casa, a entrada de agregados e netos, o início de perdas e de
cuidados com a geração anterior, o preparo para a aposentadoria e o cuidado com o corpo por
conta do envelhecimento. Segundo Cerveny e Berthoud (2009), “[...] essa é a fase da casa cheia,
ao contrário do ninho vazio americano” (p. 26). A última fase, para as autoras, inicia-se quando
o casal volta a ficar sozinho. A qualidade e as características dessa fase estão relacionadas ao
modo como as fases anteriores foram vividas, e a viuvez talvez seja a experiência mais difícil.
60

Todas essas fases foram descritas pelas autoras baseadas em observação e pesquisa no trabalho
com famílias. Elas fazem questão de enfatizar que a família está sempre em processo de
transformação e os ciclos de vida acompanham todas essas mudanças.

Nesses mais de 10 anos de estudos, foi consolidada a convicção de que a família


brasileira se vê de uma forma bastante positiva, possui clareza sobre sua importância
e sobre suas funções e luta para garantir que elas sejam cumpridas, apesar de todas as
dificuldades que a vida em família traz, em especial aos pais e, muito em especial, às
mulheres, sobrecarregadas com novos papeis decorrentes de todos as transformações
de gênero e de comportamentos sociais ocorridas nos últimos anos. (CERVENY;
BERTHOUD, 2009, p. 34)

A sobrecarga de tarefas, experimentada principalmente por muitas mulheres na


contemporaneidade, nos faz retomar as falas dos entrevistados. Carla e Sônia situam o
surgimento da depressão após um período de excesso de atividades e cumprimento de
responsabilidades em suas rotinas. Carla menciona, durante sua entrevista, que sempre cuidou
de tudo: do filho, da mãe, das pessoas da comunidade que a procuram como referência religiosa.
Ela relata que está sempre trabalhando muito. Em suas palavras: “a gente fica, né, meio assim,
nossa tá acontecendo isso comigo, né? E acontece com todo mundo. Você tenta ajudar todo
mundo e, no final das contas, você não consegue ajudar você mesma”.
Sônia explicou que os estudos, os cuidados e as responsabilidades com o filho, o marido
e a família fizeram com que os cuidados consigo mesma ficassem em último plano. Ela
compartilhou o seguinte relato:

... e isso tudo eu fico nessa preocupação, ah eu tenho que preparar o almoço, eu tenho
que preparar o jantar, é menino pedindo isso, é menino pedindo aquilo, eu tenho que
parar pra buscar em escola, eu saio daqui e tenho que ir embora rápido pra levar ele
na escola, porque se minha mãe não puder ou meu pai não puder. Então isso tudo eu
tento fazer as coisas do mais perfeito possível e eu vejo que isso está me afetando!
(Sônia)

Na experiência clínica em consultório particular, de 2006 até o momento, e como


supervisora de estágio para alunos do curso de psicologia do Centro Universitário Newton
Paiva, desde 2013, é perceptível a frequência de casos de pacientes que procuram o processo
de psicoterapia para tratar de sintomas da depressão e da ansiedade que surgiram por conta do
excesso de atividades e responsabilidades assumidas na rotina profissional e familiar. A doença
desponta como um alerta para essas pessoas desacelerarem e refletirem sobre a necessidade de
“terem que dar conta de tudo”, como muitos relatam no contexto da clínica.
61

Miranda e Moreira (2006) enfatizam que a subjetividade dos indivíduos não está
separada da cultura e da sociedade em que vivem e que a existência humana está associada ao
fenômeno cultural de forma contextual. O contexto cultural contemporâneo nos “obriga” a
realizar dezenas de atividades e tarefas diárias e semanais com a expectativa de completude e
prazer. A ideia da busca de prazer como algo intrínseco a culturas pós-modernas foi defendida
por Bauman (2001) em sua obra Modernidade líquida. A temporalidade acelerada da vida
contemporânea nos distancia da possibilidade de refletir sobre o que fazemos, como estamos
fazendo e o porquê de nos impormos a fazê-lo. Desse modo, quando o indivíduo adoece e busca
por ajuda médica e/ou psicológica, ele tem a possibilidade de parar para repensar sobre como
tem conduzido sua vida. Kehl (2009), em sua obra O tempo e o cão: a atualidade das
depressões, exemplifica essa aceleração do tempo na contemporaneidade na relação da mãe
com o filho. Como ela descreve,

O próprio fato de a mãe estar incluída na temporalidade acelerada da vida


contemporânea faz com que ela se apresse, automaticamente, a atender da forma mais
eficiente possível aos apelos da criança. O comportamento automático de rapidez e
eficiência, característico das mães razoavelmente boas do terceiro milênio – mães
excessivamente preocupadas com seu desempenho e angustiadas com o pouco tempo
que poderão dedicar a seus bebês -, tende a abreviar o tempo vazio necessário para
instaurar o trabalho psíquico, trabalho de representação do objeto de satisfação, em
seus bebês. (KEHL, 2009, p. 274)

Refletindo sobre o que é a depressão, acreditamos que cada entrevistado contribuiu com
seus relatos individuais e experiências particulares, descrevendo os sintomas que vivenciaram.
Crises de choro, vontade de fugir, vontade de morrer para não sentir mais angústia, falta de
vontade para trabalhar ou para se alimentar, falta de disposição para as atividades do dia-a-dia,
isolamento social, tristeza, raiva, nervosismo e insônia, além de sintomas físicos como dores
no corpo, incontinência urinária e taquicardia, foram dados coletados durante as seis entrevistas
realizadas. Na prática clínica, percebemos que todos esses sintomas, e muitos outros associados
a esses, descrevem uma sintomatologia da depressão com ou sem comorbidade com transtornos
de ansiedade. Porém, nesta dissertação, que é influenciada pela visão sistêmica, interessa-nos o
que cada indivíduo, cada entrevistado, associa e relata como traço do problema.

... que eu comecei, devido aos estudos, eu tenho um filho de cinco anos, essa rotina
de casa e tudo, foi dando aquele peso, de todas essas atividades, foi me dando um...
eu tive a depressão daquela atípica, que é aquela mais leve, mas pelos sintomas eu sei
que foi uma depressão, porque eu tive muita tristeza, ao mesmo tempo eu tive raiva,
eu tinha crise de choro, eu comecei a ganhar peso, que eu estava bem mais magrinha.
Mas tudo isso, devido a toda essa minha rotina dos estudos, é... eu passei a me cuidar
menos como eu me cuidava, porque eu era bem vaidosa! Mas isso também não foi
62

uma questão do “ah, porque eu quis deixar de lado”, foi por causa da minha prioridade
que eu estou dando aos estudos, a meus cuidados com minha família e então, mas foi
um processo bem difícil, porque eu comecei a ter sintomas físicos, eu fui parar no
cardiologista, sabe... (Sônia)

Alguns desses entrevistados percebem com mais clareza a possibilidade de a depressão


também ser descrita como algo transmitido multigeracionalmente, ou seja, eles conseguem
apontar a depressão em outros membros do sistema familiar, tanto nas gerações anteriores
quanto nas posteriores.
Mediante o material coletado através das entrevistas realizadas, desenvolvemos a
análise dos processos de transmissão geracional presentes nas famílias dos estudantes
universitários com depressão e trabalhamos as seguintes categorias: transmissão geracional
familiar, ansiedade e nível de diferenciação. As categorias estabelecidas serão aqui examinadas
dentro de uma perspectiva boweniana. Antes, porém, apresentaremos as seis famílias e os seus
respectivos genogramas.

4.1 Conhecendo as Famílias

Família 1 – Os pais de Bárbara são primos de primeiro grau e seus avôs são irmãos. Sua
mãe ficou grávida aos 21 anos de idade. Os pais são separados e têm uma relação conflituosa.
O pai de Bárbara teve um primeiro casamento e, nele, teve dois filhos. O segundo casamento
foi com sua mãe. Houve ainda um terceiro casamento, também com divórcio, no qual não houve
filhos. Bárbara mora com a mãe, os avós maternos e a tia, que é irmã da mãe. Nesse núcleo
familiar, todos têm depressão e tomam remédios para tratar da doença, exceto o avô. Além
desses membros, o padrinho e a avó paterna de Bárbara também já tiveram depressão. A relação
da estudante com sua mãe é de muita proximidade. Além disso, ela também mantém bom
relacionamento com o padrinho, que mora em outra cidade e é irmão do pai. A mãe de Bárbara
também tem boa relação com o padrinho da filha.
63

Figura 6 – Genograma familiar de Bárbara, construído em 25 de setembro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pela entrevistada.

Família 2 – A família de Irmã Cecília mora no Nordeste do Brasil e, por conta de sua
entrada na congregação religiosa, ela é a única que mora em outro estado. Seu pai teve um
primeiro casamento e, nele, uma filha, que hoje é pastora e tem três filhos. O segundo casamento
do pai foi com a mãe de Irmã Cecília, e eles tiveram quatro filhos. Quando o pai morreu, a
estudante estava com oito anos de idade, e, apesar de ele ter sido agressivo com a mãe e com
os outros filhos, ele e a filha tinham uma boa relação. Após a morte do pai, a mãe se tornou
agressiva com Irmã Cecília, e a relação das duas melhorou apenas à época de sua saída de casa
e sua entrada na vida religiosa. Irmã Cecília tem uma tia que também é religiosa, embora a
família tivesse perdido o contato com ela, achando inclusive que ela já tinha morrido. Porém,
em um encontro de jovens com a igreja, as duas coincidentemente se encontram e descobriram
que eram realmente parentes.
64

Figura 7 – Genograma familiar de Irmã Cecília, construído em 26 de setembro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pela entrevistada.

Família 3 – Após o divórcio, Pedro voltou para a casa de seus pais, que o acolheram.
Mas, com o tempo, ele decidiu financiar um apartamento e, há quatro anos, já mora sozinho.
Pedro ficou casado por nove anos, tendo uma filha dessa relação, que hoje está com 14 anos.
Ele mantém uma boa relação com sua família, tanto com os pais quanto com o irmão.
Recentemente, Pedro esteve em um namoro, o qual também se findou. Atualmente, ele está sem
relacionamentos amorosos. Ele informa ainda que a avó paterna faleceu recentemente, aos 103
anos.

Figura 8 – Genograma familiar de Pedro, construído em 30 de setembro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pelo entrevistado.


65

Família 4 – Carla engravidou aos 22 anos de idade e, nessa época, foi morar sozinha e
criar o filho. Ela trabalha desde os 12 anos de idade. A mãe de Carla também engravidou muito
precocemente, quando estava com apenas 16 anos de idade, e não conseguiu cuidar dos filhos.
Carla tem uma irmã que estudou em um colégio interno, e a relação entre as duas sempre foi
distante. Sua mãe teve uma primeira relação, da qual sua irmã nasceu. Ela, por sua vez, nasceu
da segunda relação. Seu pai, segundo ela, é médico e rico. Ela tem uma relação próxima com
sua mãe e com seu filho.

Figura 9 – Genograma familiar de Carla, construído em 30 de setembro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pela entrevistada.

Família 5 – Os pais de Amanda são divorciados desde quando ela estava com nove anos
de idade e não conversam entre si. Atualmente, ela mora com o pai, a avó paterna e a tia, que é
irmã do pai. Sua mãe já teve cinco abortos, usou drogas e, hoje, toma remédios por conta própria
e não trabalha. Muitos membros da família materna têm ou já tiveram depressão. Seu pai teve
um AVC (acidente vascular cerebral) no dia em que ele completou 25 anos de idade e enfartou
no dia do aniversário de 18 anos de sua filha. A relação com sua avó paterna é de muito afeto e
proximidade.
66

Figura 10 – Genograma familiar de Amanda, construído em 2 de outubro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pela entrevistada.

Família 6 – Os pais de Sônia são primos de primeiro grau, e ela é a filha mais nova do
casal. Sua relação com sua mãe é hostil. Aliás, um dos aspectos que contribuíram para seu
adoecimento é a necessidade de a mãe ajudá-la a cuidar do filho, enquanto ela estuda. A irmã
de Sônia teve paralisia cerebral e, agora recentemente, aos 42 anos de idade, conseguiu um
emprego. Os pais sempre a protegeram muito. Assim que finalizar os estudos, Sônia planeja ter
mais um filho.

Figura 11 – Genograma familiar de Sônia, construído em 3 de outubro de 2017.

Fonte: Elaborado conjuntamente pela autora e pela entrevistada.

4.2 Transmissão Geracional Familiar

Durante as entrevistas e a elaboração do genograma foi possível investigar a ocorrência


da depressão em membros da família de origem e da família extensa, e o processo de
transmissão geracional familiar ocorreu em todos os seis casos. Bárbara, por exemplo, deu o
seguinte relato: “[...] E aí... minha avó tem depressão, eu moro com ela. E ela olhou e falou
67

assim para a minha mãe: ‘Essa menina não está boa não. Ela está igual eu!’”. E ainda: “Minha
família é muito tranquila porque o histórico de depressão da minha família é assim. Lá em casa,
todo mundo toma antidepressivo, menos o meu avô”.
Para os membros com depressão, foi incluído no genograma o termo depressão em azul
claro, abaixo de sua função em relação ao entrevistado, nomeado como Paciente Identificado
ou Pessoa Índice (PI).
O termo paciente identificado foi explicado por Minuchin e Fishman (2007) da seguinte
forma: “a família tem geralmente identificado em um membro a localização do problema.
Acreditam que a causa seja a patologia internalizada deste indivíduo” (p. 17). Na visão do
terapeuta de família, entretanto, o paciente identificado é somente o portador do sintoma,
estando a causa do problema relacionada às transações disfuncionais na família (MINUCHIN;
FISHMAN, 2007). Nesta dissertação, o termo PI se refere a cada entrevistado, ou seja, a cada
um dos seis participantes que tiveram pelo menos um episódio de depressão e cujos genogramas
foram construídos baseados em suas histórias e percepções individuais.
Além da informação colhida na entrevista de Bárbara de que sua avó materna, sua tia
do lado materno e sua mãe já tiveram depressão, durante a construção do genograma3, foi
possível averiguar que a avó paterna e o padrinho (irmão do pai) também já tiveram a doença.
Ou seja, a construção do genograma ampliou as informações sobre o aspecto da transmissão
geracional da depressão, demonstrando que a doença se repete, no mínimo, ao longo de três
gerações consecutivas. Segundo Esteves de Vasconcellos (2007), “Bowen desenvolveu o uso
do genograma, um gráfico para a investigação do problema, diagramando-se pelo menos três
gerações” (p. 257). O autor ainda acrescenta: “admite-se que os padrões familiares tendem a se
repetir e que as mesmas questões emocionais não resolvidas aparecem de geração para geração”
(ESTEVES DE VASCONCELLOS, 2007, p. 257). Dessa maneira, podemos afirmar que “o
processo de transmissão multigeracional descreve a herança da ansiedade da família de geração
a geração, sendo seu acúmulo ao longo das gerações um dos dificultadores de melhor
diferenciação dos membros da geração atual” (CERVENY, 2014, p. 9).
Segundo a teoria de Bowen, a transmissão de padrões transgeracionais ocorre,
sobretudo, devido ao mecanismo de triangulação. O triângulo tem a função de proporcionar
equilíbrio nos momentos em que a relação entre uma díade se encontra com níveis elevados de
ansiedade, sendo necessária, então, a entrada de um terceiro elemento para reequilibrá-la. O
terceiro elemento não precisa ser necessariamente uma pessoa, e uma doença pode muito bem

3
Em todos os genogramas, além da legenda, foi incluído um quadro com informações adicionais consideradas
relevantes pelos entrevistados durante o processo de construção conjunta do mapa familiar.
68

servir como mecanismo de equilíbrio, por exemplo. Martins, Rabinovich e Silva (2008), a partir
de um estudo de caso, observaram que o casal pouco diferenciado de suas famílias de origem,
ao se casar, aumentou o nível de ansiedade e a capacidade de lidar com ela. Desse modo,
buscaram, através de diversas triangulações, lidarem com a carga emocional excessiva que
permeava sua relação atual.

Enquanto estiveram emocionalmente triangulados no passado, permaneceram


paralisados nas posições que ocuparam em suas famílias de origem, e o processo de
crescimento pessoal estacionou. Sujeitos a fusões emocionais, transmitidas
transgeracionalmente, a emoção de Ana Maria e Sérgio inundou sua capacidade
elaborativa, prejudicando o funcionamento e a competência racional de cada um.
(MARTINS; RABINOVICH; SILVA, 2008, p. 194)

Penso, Costa e Sudbrack (2008) discutiram sobre os aspectos transgeracionais


relacionados ao uso de drogas, buscando compreender como a teoria sistêmica aborda essa
problemática na família. Basearam-se no estudo de caso de um adolescente que cumpria medida
socioeducativa de semiliberdade e fazia uso de drogas ilícitas. Um dos aspectos observados
pelas autoras foi o processo de triangulação na família. Com a ausência do pai, o adolescente
assume esse lugar, unindo-se à mãe para ajudá-la a criar os irmãos, protegendo-a contra todos,
inclusive contra o pai. “[...] nesse momento, fica preso ao triângulo familiar, assumindo o papel
de ‘filho parental’, que o impede de caminhar rumo à construção de uma identidade” (PENSO;
COSTA; SUDBRACK, 2008, p. 161).
No caso de Bárbara, durante a entrevista, ao relatar um episódio de depressão da mãe,
ela disse:

Minha mãe foi uma época que ela ficou longe de mim e a depressão dela atacou. Ela
ficou seis meses morando longe de mim e sozinha, em outra cidade. Ela falou que
sentiu muita falta e que não aguentava ficar longe de mim e voltou para cá, para Belo
Horizonte. (Bárbara)

A dependência emocional entre mãe e filha provavelmente fez com que o nível de
ansiedade crônica se elevasse no período em que as duas moravam longe uma da outra,
tendendo, pois, à maior reatividade emocional e pouca diferenciação. A doença – no caso, a
depressão da mãe – surgiu como mecanismo de alerta, para retornar ao estado anterior, isto é,
a fusão entre as duas.

A ansiedade crônica vem das gerações passadas e influencia no presente, na medida


em que os membros da família lutam para equilibrar o estar-junto (interdependência)
e o diferenciar-se (independência) [...] Para Bowen, a ansiedade crônica representa a
base da sintomatologia e seu único antídoto é a diferenciação, que livra o indivíduo
69

de seguir indefinidamente os roteiros da família. (ESTEVES DE VASONCELLOS,


2007, p. 256)

Outro triângulo formado recentemente por Bárbara, segundo informações colhidas


durante a entrevista, se refere ao aumento do uso de bebida alcóolica, como um terceiro
elemento, para aliviar sua tensão com sintomas depressivos. A triangulação é um mecanismo
que se perfaz de forma quase que inconsciente e como uma tentativa de proteção do self. Vale
lembrar que, na família, vários triângulos se formam e se desfazem repetidamente. No entanto,
alguns podem se tornar crônicos. A maior parte dos problemas familiares é triangular. Ao
perguntar à Bárbara se ela estava usando a medicação para depressão, ela disse que sim e
completou:

Sim, só que eu percebi que eu aumentei o nível da minha bebida alcóolica nesses
últimos meses, agora eu bebo o dobro... é uma forma de anestesiar o que estou
sentindo, porque na hora que estou ali eu esqueço de tudo e, facilita para outra coisa.
Eu choro. Coisa que eu não faço normalmente. (Bárbara)

Retomando a categoria da transmissão geracional familiar, durante a entrevista com


Irmã Cecília, obtivemos o seguinte relato, referindo-se à possibilidade de a mãe ter tido
depressão:

Então, assim, apesar de ser muito jovem eu lembro que a minha mãe ficava no canto
da parede, ela chorava muito. Às vezes ela gritava por ele, várias vezes, meu pai, ele
era motorista, e ele chegava de madrugada. Ela fazia todo mundo levantar para ir para
o portão de madrugada sempre que ele estava chegando. Levantava todo mundo. A
gente ficava horas esperando, aí ela começava a entrar naquele pranto, começava a
chorar. Quando ia fazer comida, que não conseguia fazer, ela chorava muito. Porque
aí a mãe dela teve que passar um tempo com a gente para poder ensinar tudo que ela
não conseguiu aprender porque meu pai fazia tudo. (Irmã Cecília)

Por essa narrativa, é possível inferir que há uma dependência da mãe em relação ao pai
da estudante, e, quando a mãe se sentia desamparada mediante a ausência do pai, que era
motorista e precisava, ela ficava reativa e chorava, não conseguindo ter autonomia para cuidar
de si, dos filhos e da casa, sendo necessária a entrada de outro elemento (a avó materna) para
suprir essa função que a filha não conseguia exercer. De qualquer modo, a mãe de PI, não tendo
como permanecer fusionada ao marido, se tornou dependente também de sua mãe (avó materna
de PI), que cuidava dos filhos e de tudo mais. Muitas vezes, alguns triângulos se concretizam
com a família de origem.
Medeiros, Santos e Barbieri (2017) buscaram compreender os psicodinamismos
familiares da transmissão psíquica envolvidos no surgimento e na manutenção da tendência
70

antissocial por meio de um estudo de caso com uma menina de cinco anos de idade. Eles
realizaram o estudo com a participação da avó, da mãe e da menina que apresentava alguns
sintomas antissociais. O pai da criança não quis participar, mesmo estando presente no local e
no dia da entrevista. Por sintomas antissociais, os autores se referem aos comportamentos de
brigas, agressividade, oposição, mentiras, fugas, entre outros. Os resultados revelaram que os
sintomas da criança estão intimamente relacionados às angústias, sofrimentos e incertezas dos
membros de sua família.

[...] foi possível entender que as manifestações da tendência antissocial de Mariana


estão intimamente relacionadas à maneira como ela está inserida na dinâmica familiar
e às angústias, sofrimentos e incertezas de seus ancestrais. Os psicodinamismos de
cada participante estruturam e definem o funcionamento afetivo do grupo familiar, de
modo que Mariana recebe, a partir da transmissão transgeracional, conteúdos não
elaborados de vários dos membros da família. (MEDEIROS; SANTOS; BARBIERI,
2017, p. 293)

Penso e Costa (2017), ao pesquisarem a transmissão geracional familiar em adolescentes


que cometeram ofensa sexual, ressaltaram que “[...] o conhecimento do funcionamento
psíquico, emocional e social desse adolescente é tão fundamental quanto o conhecimento da
dinâmica familiar” (PENSO; COSTA, 2017, p. 1007). O uso do recurso do genograma familiar
no estudo das autoras acrescentou informações sobre a repetição do padrão de violência como
mediador dos conflitos ao longo de muitas gerações, possibilitando a ampliação do olhar sobre
o significado do ato do adolescente. “Chama atenção a presença de dois fatos preponderantes
para o surgimento de atos violentos praticados por adolescentes: a falta de supervisão parental
e o consequente abandono afetivo, assim como conflitos intergeracionais” (PENSO; COSTA,
2017, p. 1007).
Com frequência, a repetição do padrão de interação e da dinâmica da família de origem
encontra-se na família dos próprios filhos:

Minha irmã mais velha, ela também deve que entrou num processo, também, diante
da separação, quando ela separou do marido e teve que voltar para a casa da minha
mãe, eu percebia que a minha irmã, às vezes, também, por ela ser muito tímida, muito
calada, demonstrava que também tinha quadros de... acho que isso já vem de família
mesmo, né? Porque querendo ou não, eu acho que é de família. (Irmã Cecília)

A categoria transmissão familiar foi observada tanto na entrevista quanto na construção


dos genogramas. A depressão dos pais, principalmente da mãe, foi percebida por todos os
entrevistados.
71

E aí eu percebi que a minha mãe entrou nesse processo de depressão. Que tinha dias
que a gente chegava da escola e ela estava lá no canto da parede. Eu até lembro a
fisionomia assim... parecia que estava dentro do útero da mãe. Tão encolhida, mas tão
encolhida. E chorava tanto. Que aí os quatro iam e se agarravam a ela, e começavam
os quatro a chorar ali. E ficavam horas os quatro chorando abraçados. Porque ela não
tinha força para reagir. (Irmã Cecília)

Minha mãe teve uma depressão muito forte! Ela teve uma depressão, teve uma
separação... ela foi traída, e aí ela teve uma depressão muito forte. (Carla)

Além disso, foi possível perceber que a depressão pode ser vista como predisposição e
vivencidada com intensidade. Conforme Pedro, em seu relato:

Mas a minha mãe... ela tem! Ela tem muito! De vez em quando ela liga chorando, ela
tem uma predisposição assim, não sei se é certo falar predisposição, ela tem alguma
coisa assim. Mesmo as coisas dando certo ela sente uma tristeza, ela tem uma estrutura
muito boa, vive numa casa boa, mas ela sente uma tristeza que eu não sei explicar o
que que é. (Pedro)

Pelos relatos dos entrevistados, foi possível notar que, na visão deles, a depressão na
família se dá de modo “naturalizado”. Nessa mesma direção, Almeida, Magalhães e Féres-
Carneiro (2014), em estudo sobre o processo de transmissão geracional da profissão na família,
apontaram que a repetição da escolha profissional foi percebida como um processo
naturalizado, como um elemento de continuidade geracional. Assim,

Observou-se que seguir a profissão dos familiares, na percepção dos participantes da


pesquisa, é algo considerado como um caminho “natural”, como se já tivesse sido
traçado, ainda que nenhum dos sujeitos entrevistados tenha sido pressionado a segui-
lo. A influência da família na escolha profissional dos participantes não se deu de
forma explícita, ou seja, não houve, na maioria dos casos, desejo expresso
verbalmente de que os filhos/netos seguissem a mesma profissão. (ALMEIDA;
MAGALHÃES; FÉRES-CARNEIRO, 2014, p. 460)

Sem dúvida, a depressão afeta a dinâmica familiar e atravessa gerações. De acordo com
Nichols e Schwartz (2007), para Bowen, no centro da diferenciação, encontra-se a relação
primária de uma pessoa com seus pais. Vivenciar a depressão e a dificuldade de neutralizar a
ansiedade faz com que os filhos se tornem vulneráveis, comprometendo o nível de diferenciação
do self do indivíduo adoecido. O nível de diferenciação diz respeito ao grau em que as pessoas
se fundem com outras, e é na família que isso é aprendido.
Vejamos os casos de fusão de Bárbara ou de Carla com suas respectivas mães. No caso
de Bárbara, embora exista uma relação mais harmoniosa comparado ao de Carla, que é marcado
por um conflito, percebemos que há uma interdependência entre mães e filhas. Ao ser
questionada sobre sua relação com seus parentes, Bárbara diz ser tranquila, apesar dos conflitos
72

do dia-a-dia, dos momentos em que um irrita o outro. Porém, todos conversam muito. Como
ela acrescenta: “Minha mãe e eu, então. Pelo amor de Deus. Parece duas gêmeas. Não
desgrudam”. No genograma familiar de Bárbara, também é demarcada a relação próxima entre
as duas.
Com relação à Carla, esta relata que a convivência com sua mãe sempre foi difícil. No
entanto, quem cuida da mãe é sempre ela. Em suas palavras: “Porque hoje quem cuida dela sou
eu, porque ela tem a casa dela, mas ela já teve depressão, síndrome do pânico, e todas as vezes
que ela teve crise ela morou comigo”. Percebe-se uma relação afetiva ambivalente entre as duas.
Carla aponta que sua mãe “[...] tem muitos medos, e o medo dela, a síndrome do pânico dela
sou eu. É uma coisa muito louca”. Pedimos a ela para explicar melhor, e ela pontuou:

Quando minha mãe era nova e eu também, ela fez uma coisa muito grave comigo de
mãe para filha. Ela era muito bonita e eu também era muito bonita, eu era igual uma
miss e ela era bonita. E aí ela tomava meus namorados, ela queria ficar com o que era
meu. Então ela falava mal de mim para eles, mas ela me amava. (Carla)

Segundo Coelho (2007), Bowen menciona que há na família padrões de relação em que
um de seus membros responde automaticamente ao estado emocional do outro, sem estar
consciente desse processo, e que o mesmo ocorre de forma silenciosa entre pessoas que tem
relações mais estreitas. Fora do contexto familiar, por exemplo, os membros da família,
principalmente os pais, podem atuar de forma diferente em suas relações sociais e de trabalho,
não se emaranhando com os outros. Ou seja, esses padrões são exclusivos do contexto familiar.

A minha irmã! Ela sofre de depressão a vida inteira! Ela é mais velha do que eu, ela
teve paralisia cerebral ao nascer, só que agora eu estou vendo que ela está melhorando,
a autoestima dela está melhorando, porque em fevereiro ela conseguiu seu primeiro
emprego, aos 43 anos! Ela conseguiu emprego nesse sistema de inclusão, aí ela
trabalha no supermercado BH, já até arrumou um namorado lá também! Mas a vida
inteira ela foi superprotegida, mesmo antes de eu saber, e eu não sabia nada de
psicologia, eu já percebia na minha família essa superproteção que atrapalhava ela,
mas eu não tinha como... eu não tinha como tirar ela daquilo né? Eu sou uma simples
filha também, vendo o que minha mãe fazia ali que é errado, minha mãe e meu pai,
de não deixar ela conhecer o mundo né, ela se libertar pro mundo! (Sônia)

Na verdade, os filhos, como constituídos a partir de um sistema familiar ansioso, podem


fazer parte de interações que favoreçam a formação de triângulos, que podem se tornar crônicos.
O indivíduo mais indiferenciado é o mais vulnerável e tem mais probabilidade de desenvolvê-
los. Essa vulnerabilidade é resultado de uma sequência multigeracional em que todos os
membros da família são agentes e reagentes, ou seja, eles contribuem de algum modo para o
73

padrão de funcionamento de um determinado sistema familiar, como vemos na fala acima, da


participante Sônia.
No genograma familiar de Carla, pode-se observar a relação próxima entre mãe e filha.
Percebemos que a relação dela com seu filho também é de muita proximidade. Trata-se de um
processo de transmissão multigeracional da mãe de Carla em direção à filha e de Carla em
relação a seu filho, ao longo de três gerações. Além disso, a ocorrência de depressão se repete
exatamente com esses três membros. Sabemos que Bowen (1982) descreve o processo de
transmissão multigeracional como o modo pelo qual a indiferenciação dos pais é passada para
os filhos ao longo das gerações, ou seja, cada filho é envolvido em graus de ansiedade
diferentes, pois estes dependem do grau de ansiedade e diferenciação no momento de seu
nascimento. “Quanto mais afetado um filho, mais baixo seu nível de diferenciação do self. Se
o filho consegue crescer mais afastado da influência da massa do ego familiar indiferenciada,
poderá diferenciar-se mais” (COELHO, 2007, p. 283).
Na verdade, os processos que se repetem entre gerações, associados à indiferenciação
que citamos acima, estão relacionados à ansiedade, e essa categoria será examinada a seguir.

4.3 Ansiedade

Para Bowen (1982), a ansiedade é a maior variável que afeta o sistema emocional
humano, o que significa que ela é uma ameaça ao equilíbrio psíquico. A ansiedade corresponde
tanto ao medo diante de uma ameaça real ou imaginária (ansiedade aguda) quanto ao estado de
existência independente de qualquer estímulo específico que está relacionado com a percepção
do mundo de cada indivíduo. A esse segundo tipo de ansiedade, chamou-se de crônica.
Aparentemente, ela é transmitida por gerações.

O indivíduo apresenta uma ansiedade básica, que interfere no nível de diferenciação


do self (intrapsíquico) e da diferenciação familiar (interpessoal), podendo ser
controlada e mantida, sem surgimento de sintomas. Se a ansiedade é intensa, a tensão
emocional produzida se manifesta por meio de sintomas, disfunções ou enfermidades.
A presença ou não dessa ansiedade crônica é um indicador importante para determinar
o nível de diferenciação do self e o nível de diferenciação familiar. (COELHO, 2007,
p. 274)

No relato de Sônia, por exemplo, é possível perceber como o nível de ansiedade e


indiferenciação da mãe se projetava na comunicação e na relação com a filha, aumentando o
nível de tensão e ansiedade da entrevistada.
74

[...] então eu pensava assim: “uai o que ela sofreu então ela quer fazer a gente sofrer!
Se ela sofreu a gente tem que sofrer também!”. Não estou falando que isso é um
sofrimento, mas assim, a gente tem que passar por isso porque ela já passou! Então a
questão do meu filho, de eu falar com ela, de eu marcar com ela um dia que não é
combinado, mesmo que é o dia combinado, ela tem o prazer de me torturar
psicologicamente, ela sabe que eu estou precisando, mas ela tem o prazer de ficar
reclamando! “Ah meu Deus do céu, mais um dia eu não aguento isso! Nossa senhora,
aí eu tenho que preocupar com almoço, eu tenho que preocupar em dar banho, se o
seu pai não estiver aqui eu tenho que levar na escola, que não sei o que”, sabe? Ela
tem prazer de fazer essa tortura psicológica, parece que ela está fazendo uma pressão
pra eu largar tudo e falar com ela “pode deixar eu não vou mais”. E eu já pensei muitas
vezes no decorrer desses cinco anos em trancar a faculdade, porque ela falava, quando
a gente brigava principalmente “não vou olhar seu filho semestre que vem!”, já teve
vezes de eu colocar ele na escolinha e ela ficar falando “ah, mas esse menino hoje
voltou com uma mancha, ele machucou lá”, então ela queria por coisa na minha
cabeça, e como ele é muito branco então qualquer coisinha que ela via “oh, isso pode
ter sido lá na escolinha”. Então assim ao mesmo tempo que ela falava que não ia ficar
com ele, mas aí eu ia e pagava uma escolinha ela já fazia essa pressão psicológica que
alguma coisa estava acontecendo na escolinha, “ah eles estão maltratando ele lá, não
estão dando comida pra ele direito”, aí você pensa, o que que eu vou fazer? (Sônia)

Esse padrão de ambivalência na comunicação e o atravessamento da relação entre mãe


e filha também foram examinados no estudo de Medeiros, Santos e Barbieri (2017), que
observaram que “[...] uma vez que parece haver um padrão de relacionamento simbiótico por
um lado, mas, por outro, a criança vivencia certo abandono e negligência de cuidados” (p. 284).
Na análise da interação familiar do caso clínico desses autores, cuja queixa é a agressividade
da criança de cinco anos, foi apontado que, ao mesmo tempo em que a mãe não permite que a
filha tome banho sozinha, dentre outras proibições, impedindo-a de buscar movimentos de
independência e autonomia, ela permite que a menina assista a filmes de terror pela madrugada,
dificultando o estabelecimento de hierarquia entre uma criança e um adulto. Desse modo,
podemos notar que a indiferenciação mantém relações de dependência e submissão.
Essas atitudes deixam a criança confusa e ansiosa, e a agressividade pode ser
interpretada como um modo de chamar a atenção para suas necessidades, como no caso de
nossa entrevistada Sônia, que fica angustiada, “sem saber como agir” diante da comunicação
ambivalente de sua mãe – fato que pode contribuir para sua ansiedade e seu adoecimento
(depressão). A comunicação paradoxal entre Sônia e sua mãe prejudica o estabelecimento de
uma parceria amistosa e compreensiva, aumentando o nível de ansiedade e contribuindo para a
possibilidade de adoecimento.
O indivíduo com depressão tende a ficar mais ansioso e a responder mais reativamente,
funcionando de forma mais emocional nas relações e dificultando ações com segurança e maior
autonomia, conforme a teoria dos sistemas familiares de Bowen. Observamos, no relato de
Carla, essa relação de fusão entre ela e a mãe a partir da descrição da rotina das duas, o que nos
forneceu a dimensão de certo grau de indiferenciação na relação de dependência de uma com a
75

outra, que contribui para o aumento de ansiedade e estresse, além de ampliar a possibilidade de
adoecimento.

Só que isso me esgota! Porque tudo sou eu, vamos fazer uma compra, vamos na
padaria, vamos no sacolão, vamos comprar não sei o que, então eu estou esgotada! É
medico sou eu, passa mal eu tenho que desmarcar cliente, mandar cliente levantar da
cama, tenho que desmarcar as clientes do dia, o eu o que eu ganho por exemplo, é pra
me manter no meu dia-a-dia, eu não tenho dinheiro guardado, o que entra é o que eu
pago né! Eu moro de aluguel e tudo, aqui também é aluguel, então tudo sou eu! Ela
recebe uma pensão de salário mínimo que ela não paga aluguel, então pra ela sozinha
dá! Só que tudo sou eu que estou ali cuidando, sabe? (Carla)

Sabemos, então, que no grupo familiar é possível que haja uma predisposição à
ocorrência de doenças, como a depressão. As relações na família contribuem tanto para o
adoecimento quanto para a melhora e promoção da saúde. No trabalho de Baptista e Souza
(2008), sobre associações entre suporte familiar e saúde mental, os autores concluíram que o
suporte familiar, compreendido como manifestação de atenção, carinho, diálogo, proximidade
afetiva, autonomia e independência entre os membros de uma família, pode ser pensado como
agente de proteção, frente ao risco de doenças mentais, e agente amortecedor, frente aos eventos
estressantes.
Além da associação entre o aumento do nível de ansiedade crônica e a ocorrência de
depressão, observada a partir das entrevistas de alguns de nossos participantes, foi possível
destacar também a ocorrência da ansiedade enquanto doença com duas dos seis participantes.
Elas relataram ter tido crises de ansiedade, principalmente síndrome do pânico, como
nomearam, convergindo com a depressão.

Aí eu comecei a frequentar a faculdade, só que aí no começo estava tendo muitas


manifestações no Rio de Janeiro e eu sofri uma situação nesse processo de
manifestação que eu tive a síndrome de pânico. E que assim, ali eu acho que foi muito
pior que a depressão que eu tive. Eu me senti muito pior. Era a vontade de morrer
mesmo e a irmã tinha que ficar o tempo inteiro comigo. (Irmã Cecília)

Na fala de Irmã Cecília, podemos constar que a síndrome do pânico, como ela nomeia
seu estado psicopatológico, ocorreu logo quando ela se mudou de Belo Horizonte para o Rio de
Janeiro. A transferência de cidade e de local de trabalho foi uma tentativa de ajudá-la a melhorar
da depressão, e a manifestação nas ruas do Rio de Janeiro foi um gatilho para o aparecimento
dos sintomas da crise de ansiedade. Foi a partir disso, inclusive, que ela precisou fazer uso de
medicação, para tratar tanto da ansiedade como da depressão.
76

Borsonello et al. (2002), em estudo sobre a associação do afastamento por acidente do


trabalho com a ocorrência de ansiedade e depressão com vistas a averiguar se haveria
desencadeamento de transtornos somáticos, constataram a presença de aumento significativo
de sintomas daqueles transtornos após o sujeito ser afastado do trabalho. O retorno ao trabalho,
aliás, foi impossibilitado devido à persistência das doenças e o desenvolvimento de outras
manifestações patológicas. Os autores concluíram que o afastamento do trabalho consiste em
um estímulo estressor, já que, além de causar transtornos psíquicos, ele provoca também
alterações orgânicas. Nesse sentido, acreditamos que a mudança de cidade e de local de trabalho
vivenciada por nossa entrevistada pode ter atuado da mesma maneira.
Para Irmã Cecília, a presença de uma Irmã, que a ajudou durante seu adoecimento no
seu contexto profissional, foi importante para seu restabelecimento orgânico e mental. Apesar
de ter se afastado do trabalho em Belo Horizonte, que a estava adoecendo, a ida ao Rio para
trabalhar foi fator de saúde para a melhora de seus sintomas, associada, claramente, à
participação de uma pessoa de apoio, como foi o caso dessa Irmã.
A ansiedade tomada como sintoma, muitas vezes associada à depressão, foi um aspecto
também observado no relato de Carla. Nas palavras da entrevistada:

[...] foi a primeira vez que eu senti isso, agora eu tô sentindo o mesmo frio, ai eu falei
“bom eu estou com síndrome do pânico, ou com alguma coisa”, né, que eu analisei. E
aí eu... e com isso é... é, agora por exemplo, eu acredito que se eu não procurar ajuda,
e parar de tomar o remédio, eu estou com medo de parar de tomar remédio e voltar à
crise, porque eu não tenho ninguém pra... que eu possa me... me, que possa cuidar de
mim! Sabe? Eu tenho assim, meu filho, que ele é jovem, mas ele tem a vida dele, né,
e tudo, então a minha mãe não tem condição de cuidar, porque ela tem uma demência
assim... às vezes um pouco de Alzheimer, às vezes olho assim, hora tá bom, hora não
tá. Então eu que cuido, e aí eu fico assim, agora igual eu estou te falando, eu estou
precisando mais de ajuda, e eu trabalho o dia todo! (Carla)

Assim como Irmã Cecília, Carla nomeou o conjunto de seus sintomas como síndrome
do pânico. Pellegrini et al. (2015), em pesquisa sobre a diferenciação de um adulto jovem
analisado em um caso de atendimento familiar, enfatizaram a necessidade de buscar novas
formas de se relacionar em família, formas estas que não envolvam muito sacrifício da
autonomia individual. Conforme observaram, “[...] as vivências na família de origem podem
dificultar o autodesenvolvimento e o processo de diferenciação do adulto jovem”
(PELLEGRINI et al., 2015, p. 118).
Assim, os processos que envolvem fusão emocional tendem a aumentar o nível de
ansiedade crônica no sistema familiar, o que contribui para o estabelecimento de doenças como
a depressão e a ansiedade, enquanto sintoma. Uma possível saída, que é também o principal
77

objetivo de Bowen (1982), é a diferenciação, processo contínuo relacionado ao


desenvolvimento do indivíduo em seu meio familiar, levando-o a se tornar capaz de equilibrar
pensamento e sentimento e agir com maior autonomia e tranquilidade nas suas relações. Esse
processo de diferenciação será analisado a seguir, a partir dos relatos dos entrevistados.

4.4 Nível de Diferenciação

O conceito de diferenciação do self é variável central na teoria dos sistemas familiares


de Bowen. Não é à toa que melhorar o nível de diferenciação consiste no grande objetivo do
processo psicoterapêutico, já que isso leva ao aumento da autonomia do indivíduo. Em
contrapartida, a fusão emocional é considerada por Bowen o maior obstáculo enfrentado pelas
famílias, uma vez que dificulta o processo de diferenciação e mantém, por conseguinte, os
membros indiferenciados.
Nas duas categorias anteriores – transmissão geracional familiar e ansiedade –, foi
possível analisar como a ansiedade crônica e o nível de diferenciação das gerações anteriores
influenciam o padrão de relação intrafamiliar e inter-relacional dos membros da geração atual.
Observamos ainda como as experiências podem reduzir ou elevar o nível de funcionamento do
self, levando o indivíduo a escolhas mais reativas ou a um modo equilibrado de lidar com as
pressões emocionais, o que otimiza o padrão de relações.
Nas entrevistas de três dos seis participantes, foi possível perceber quais estratégias
contribuíam para melhorar o nível de diferenciação dos participantes, produzindo uma saída do
adoecimento e fazendo com que eles se sentissem competentes e aptos a viver e se relacionar.
No caso de Irmã Cecília, por exemplo, terminar os estudos em um curso superior é vislumbrado
com muita satisfação. Assim, ela afirma que “[...] vou formar no curso superior que eu achava
que nunca ia conseguir”.
Além disso, para Irmã Cecília, saber qual diagnóstico corresponde a seu problema e,
concomitantemente, ter uma clareza sobre sua doença foram aspectos que contribuíram
significativamente para melhorar seu nível de diferenciação, o que fez ampliar sua autoestima
e a crença nas suas potencialidades.

Antigamente foi mais difícil porque eu não tinha o diagnóstico. Hoje eu tenho. Então
eu tenho meios para procurar, para superar aquela dificuldade. Porque até então não
tinha como procurar meios porque não sabia o que eu tinha. Hoje eu sei. (Irmã Cecília)
78

No caso de Pedro e Amanda, o processo de acompanhamento psicoterapêutico foi uma


estratégia de suporte que contribuiu para melhorar sua autoestima e fazê-los retornar a uma
rotina saudável de vida. Consequentemente, aumentou-se o nível de diferenciação do self de
cada um.

E eu acho que isso me ajudou nesse ponto, que eu, assim, não é só eu, igual eu falo
isso muito na terapia, eu não tenho com quem conversar, porque acaba que as pessoas
que estão a minha volta estão sempre do lado negativo da situação, que eu prefiro nem
conversar pra não entrar nessa negatividade toda! (Amanda)

Para Amanda, a psicoterapia lhe permitiu que conversasse e compreendesse o padrão de


funcionamento de sua família de origem, possibilitando, então, que ela viesse a se sentir mais
confortável para distanciar-se de fusões e relações nesse âmbito que contribuíam para seu
adoecimento. Para Pellegrini et al. (2015) “[...] adquirir a capacidade de separação não
pressupõe que o indivíduo deve deixar de investir em suas relações familiares, pelo contrário,
ele investirá de uma forma diferente e mais adaptativa” (p. 126).
Camicia, Silva e Schimdt (2016), a partir do estudo do caso clínico de uma jovem adulta
atendida em uma clínica-escola de uma faculdade de psicologia do Rio Grande do Sul,
descreveram como o trabalho clínico relacionado a aspectos transgeracionais contribuiu para a
transformação da relação da paciente com sua filha de cinco anos, com sua mãe adotiva e com
sua história de vida, em um processo trigeracional. Assim, o processo terapêutico favoreceu a
construção de uma nova forma de a paciente se relacionar com sua família de origem, passando
a ocupar, nesse sistema, uma função diferente da que vinha ocupando até então.

[...] fez-se necessário abordar o nível de diferenciação entre Laura e Isabel, na


perspectiva de que a cliente buscasse se pautar no seu próprio “eu” e na sua própria
história de vida, de modo a reduzir o emaranhamento emocional com a mãe [...] as
reflexões promovidas no processo de terapia propiciaram retomar experiências da
trajetória de vida pregressa da cliente e da história transgeracional de sua família,
analisar como essas experiências se atualizavam nas relações contemporâneas e
ressignificá-las, no sentido de re(orientar) práticas parentais presentes e futuras.
(CAMICIA; SILVA; SCHIMDT, 2016, p. 77)

Por outro lado, Pedro relatou que, assim que procurou a ajuda de um psicólogo, o
profissional o orientou, logo na primeira sessão, a também procurar um psiquiatra, de modo
que esse médico lhe prescrevesse uma medicação que ajudasse a aliviar seus sintomas
depressivos. Ele fez uso do remédio pelo período indicado e continua frequentando a
psicoterapia. Em suas sessões, ele trabalha questões relacionadas a sua vida amorosa e sua vida
profissional, dentre outros temas.
79

Eu vivo num momento que eu sempre precisei de superar as coisas rápido, até sem
escolha, eu não tinha escolha! Por exemplo, as contas vão chegando, e a vida tá aí, eu
sou um cara jovem, eu casei jovem, tenho 35 anos, eu casei eu nem me recordo, tenho
que fazer essa conta. Mas assim, eu busquei estratégias! E assim, a psicoterapia, ela
me deu estratégias na época. (Pedro)

Bueno et al. (2013), ao se posicionarem sobre o processo de diferenciação proposto por


Bowen, apontam que as disfunções físicas, emocionais e sociais estão relacionadas com o ajuste
que se faz da coletividade com a individualidade. “Assim, a diferenciação é um processo
fundamental nos relacionamentos, já que se refere a um processo de
individuação/independência emocional” (BUENO et al., 2013, p. 17).
Além da possibilidade de melhora do nível de diferenciação no âmbito individual, como
demonstrou a análise feita a partir das histórias familiares dos entrevistados, é possível melhorar
o nível de diferenciação do self dos casais. A visão sistêmica relacional leva em consideração
as relações que podem ser tanto de pais e filhos quanto de indivíduos com outros sistemas
(profissionais, pessoais, sociais), como casais na relação com suas famílias de origem.
Martins, Rabinovich e Silva (2008), no estudo do caso clínico do casal Sérgio e Ana
Maria, “[...] confirmaram a aplicabilidade dos conceitos bowenianos quando começam a
diferenciar as questões familiares de suas experiências vividas nas respectivas famílias de
origem, ressignificando-as na sua vida atual [...]” (p. 193). Nessa perspectiva, o casal conseguiu
equilibrar escolhas pessoais e conjugais revendo o modo como se relacionavam anteriormente,
construindo, portanto, novas possibilidades.
Retornando ao relato de Amanda, sobre seu processo de psicoterapia:

Eu acho que fica um pouco mais tranquilo porque acaba que inevitavelmente a gente
compara a nossa vida com a dos outros, aí quando eu vejo que todos os meus amigos
estão formando e eu comecei agora, aí eu fico “mas nossa, a fulana já faz isso, já é
dona de empresa...”, mas aí eu percebo que a criação deles, o estímulo deles foram
outros, e isso pra mim me ajudou muito! Eu tinha uma culpa, porque eu achava que
eu que era assim, que eu que... eu achava que era só culpa minha. Eu entendo que tem
sim minha parte nisso tudo, mas entendo que o ambiente que eu estou influencia!
(Amanda)

Compreender legitimamente que as famílias funcionam de maneiras diferentes e que


cada uma carrega sua própria história propicia um equilíbrio maior entre o funcionamento
emocional e o intelectual do indivíduo, levando-o a alcançar maior nível de diferenciação. “Para
Bowen, o conceito de diferenciação do self elimina a ideia de indivíduo ‘normal’, porque
expressa um processo que ocorre no desenvolvimento contínuo da vida [...]” (COELHO, 2007,
p. 277).
80

Vale ressaltar mais uma vez que a depressão não é resultado de fatores somente
individuais, tampouco exclusivamente familiares. Há multifatores que contribuem para o
surgimento da doença e para sua repetição, manutenção e transformação, em um processo
criativo de reinvenção e resiliência. Ou seja, manter ou transformar padrões relacionais
disfuncionais depende de uma conjunção de fatores de risco e proteção. Na pesquisa de campo
que realizamos para esta dissertação, foi possível perceber como os três participantes citados
anteriormente encontraram formas de melhorar o nível de diferenciação do self, se comparados
a outros membros familiares mais indiferenciados, e como eles compreenderam que é possível
encontrar mecanismos para lidar com as dificuldades, quando estas aparecem.
Aspectos familiares transmitidos multigeracionalmente devem ser, sem dúvida, levados
em consideração. No entanto, a possibilidade de repetir ou não determinado aspecto familiar
depende da disposição do indivíduo para perceber se quer mantê-lo ou transformá-lo, de acordo
com suas sensações e vivências em determinados momentos de seu ciclo de vida. Rodrigues e
Chalhub (2014) analisaram, por meio de pesquisa bibliográfica, a experiência de paternidade
de homens oriundos de ambientes familiares violentos, buscando conhecer a relação entre a
vivência de violência na família de origem e a experiência da paternidade na família atual.
Verificaram que é possível identificar que a violência intrafamiliar vivenciada na infância
influencia a experiência da paternidade, quando os filhos se tornam pais. No entanto, é
necessário considerar fatores de proteção que contribuem para a não manutenção dos padrões
relacionais disfuncionais da família de origem.

A hipótese desta pesquisa era que a violência intrafamiliar vivenciada na infância


influencia na construção do significado e na experiência da paternidade, quando os
filhos da violência tornam-se pais. De acordo com a pesquisa bibliográfica, foi
possível identificar que a vivência de violência na família de origem é um fator de
risco para a ocorrência de violência intrafamiliar quando da experiência de
paternidade, ou seja, é uma possibilidade de manutenção dos padrões disfuncionais
da família de origem. Mas isso não é uma sina, uma determinação do destino. Fatores
de proteção individuais, relacionais e sociais contribuem para que haja ressignificação
do padrão interacional baseado na violência. Dentre esses, a resiliência surge como
principal fator de proteção. (RODRIGUES; CHALHUB, 2014, p. 89)

Retomando o caso da Irmã Cecília, a entrada na vida religiosa propiciou boas e más
vivências. O distanciamento de sua família de origem não foi fácil, mas ela percebeu que sua
relação com a mãe se tornou mais amistosa, já que, após o falecimento do pai, a convivência
entre as duas havia se tornado hostil. Além disso, embora tenha tido depressão durante a
permanência em uma das congregações religiosas, logo quando mudou para outra congregação,
ela encontrou alguém com quem pôde estabelecer uma função maternal de acolhimento e
81

compreensão, e isso contribuiu para a melhora de sua doença. Para Coelho (2007), algumas
relações podem reduzir ou aumentar o nível de funcionamento do self e, dependendo das
escolhas relacionais do indivíduo, algumas vão impedir sua negociação e fortificação, quando,
por exemplo, as escolhas forem feitas mais reativamente, mais impulsivamente. Outro tipo de
escolha, por seu turno, vai fortificar e contribuir para o enfrentamento de pressões emocionais,
indo de um encontro a um funcionamento mais autônomo e consciente.

O interessante é que na vida religiosa tem uma pessoa superior que comanda toda a
casa, que administra, como se fosse uma mãe. E eu acho que nesse processo que eu
estava, foi uma pessoa que eu me afeiçoei muito. Eu tinha muita confiança. Que às
vezes eu me comportava como se fosse filha. E às vezes ela chegava “pera aí, calma
aí”. Às vezes vêm algumas atitudes que eu não consigo segurar, por estar tão longe da
minha família e por estar passando por este processo. “A única pessoa que eu confio
e posso contar é você”. Que realmente é a pessoa que administra, é a cabeça. Como
se fosse a mãe mesmo. (Irmã Cecília)

Irmã Cecília será a primeira pessoa de sua família a se formar em curso superior (Artes
Visuais), e o processo de escolha do curso não foi simples. A partir do momento que percebeu
que o desenhar contribuía para melhorar a depressão, e com a prática foi sentindo mais
confiança em si mesma, decidiu enfrentar o vestibular.

É um curso que eu me identificava. Eu gosto muito de desenhar, de pintura. Então foi


uma coisa, também, que me ajudou nesse processo da depressão. Quando eu estava
muito mal eu pegava os lápis e começava a desenhar. Era alguma coisa que me
confortava. Era os desenhos que eu fazia, que ia surgindo. E foi aí também que eu
descobri que eu desenhava tão bem. (Irmã Cecília)

Na pesquisa de Almeida, Magalhães e Féres-Carneiro (2014) sobre a transmissão


geracional da profissão na família, uma importante categoria foi a de necessidade de
diferenciação da família, representada principalmente pelos membros da terceira geração. Estes
demonstraram que não se sentiam confortáveis ao serem protegidos pela família no âmbito
profissional. A busca de um caminho diferente, sem a ajuda dos familiares, gerava neles uma
sensação de conquista e mérito próprio, permitindo uma diferenciação maior daquele sistema.
Adquirir a capacidade de individuação não pressupõe que o indivíduo deve deixar de
investir em suas relações. Na verdade, o investimento se dará de forma mais adaptativa e
consciente a partir da análise do seu próprio papel, como um participante ativo nas suas
diferentes relações.

A teoria de Bowen nos ajuda a compreender a dimensão relacional dos processos


emocionais da família e sua transgeracionalidade, constituindo uma fundamentação
82

importante para embasar a atuação do profissional que lida com as relações humanas
com uma visão sistêmica. [...]. (COELHO, 2007, p. 288)

Estar com um bom nível de diferenciação do self indica uma capacidade de se manter
objetivo e se comportar mais racionalmente diante das pressões de nosso funcionamento
emocional, agindo com menos reatividade e mais autonomia. Em nosso estudo, as categorias
examinadas nos mostraram a importância de cada um desses conceitos (transmissão familiar,
ansiedade e nível de diferenciação) na relação depressão-ansiedade. Em nossa análise, fica claro
como esses elementos se interpenetram na tessitura da vida familiar e na produção de sintomas
no grupo.
83

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em nosso estudo, buscamos examinar o processo de transmissão multigeracional


familiar da depressão, investigando as relações dos aspectos familiares que favorecem a
repetição da doença de geração em geração. Para isso, escolhemos a teoria dos sistemas
familiares de Bowen como alicerce teórico da análise dos dados; dados estes que foram obtidos
através da realização tanto da entrevista inicial, semiestruturada, quanto da entrevista de
construção dos genogramas.
Cabe enfatizar mais uma vez que há multifatores que contribuem para o surgimento da
doença e para sua repetição, manutenção e transformação. Ou seja, a depressão não é resultado
de fatores somente individuais e/ou exclusivamente familiares. Para nós, a teoria boweniana
sempre foi uma lente essencial para a compreensão dos casos atendidos ao longo desses doze
anos de prática clínica. O estudo e a formação buscados através da aprendizagem da construção
do genograma familiar se revelaram, muitas vezes, fortes aliados na ampliação do olhar sobre
pacientes com questões familiares urgentes, que precisavam ser esclarecidas e trabalhadas.
Nesse sentido, a associação entre a teoria de Bowen e o uso do genograma alicerçou um diálogo
importante e necessário neste estudo, desvelando uma parceria complementar.
A depressão, tema escolhido para esta dissertação, entrou nesse encadeamento por, além
de ser uma queixa frequente na clínica particular e nas supervisões de casos na clínica-escola,
trazer uma inquietude e uma curiosidade para além das informações médicas e psiquiátricas
que se pode encontrar na teoria.
Em nosso estudo, é preciso destacar a pesquisa de campo e sua riqueza. Nesse processo,
analisamos que cada encontro com os entrevistados e cada construção conjunta do genograma
tiveram suas características próprias, mesmo que tenham seguido um rumo específico e tenham
também aspectos em comum. Nesse sentido, em todas as histórias, houve a possibilidade de
uma (re)conexão com a família de origem e a família extensa dos entrevistados, revendo ou
resgatando características dos membros de cada sistema familiar. Assim, optamos pela
apresentação de cada uma das seis famílias antes da realização das análises de conteúdo,
inclusive para que essa singularidade encontrasse um lugar.
Na análise de dados, percebemos que a família tem um papel fundamental, ora
propiciando modelos de identificação e repetição que paralisam e fazem adoecer, ora
oferecendo modelos saudáveis de relação que permitem avanços e maior diferenciação. Diante
dessa compreensão, identificamos que a depressão para duas das entrevistadas, por exemplo,
estava associada à vivência de cobranças sentidas por elas no âmbito educacional; cobranças
84

estas que envolviam a escolha de um curso de graduação. Para outros dois entrevistados, o
acontecimento de dois eventos nodais (divórcio e doença) no ciclo de vida de suas famílias foi
o gatilho para o adoecimento. As últimas duas participantes adoeceram por conta da sobrecarga
de tarefas em suas rotinas ao longo de muitos anos.
O olhar transgeracional possibilitou observar a ocorrência da depressão em membros
tanto da família de origem quanto da família extensa. Cada geração cria sua história, suas regras,
seus legados e seus mandatos, os quais costumam se perpetuar para as gerações seguintes.
Segundo a teoria de Bowen (1982), a transmissão de padrões transgeracionais ocorre,
sobretudo, pelo mecanismo de triangulação. Demostramos, em cada família, como os triângulos
se formavam como tentativa de administrar a ansiedade na relação entre seus membros e os
acontecimentos que atravessavam suas rotinas.
Os processos que envolviam fusão emocional, por exemplo, aumentavam o nível da
ansiedade crônica no sistema familiar, contribuindo para a ocorrência de doenças como a
depressão e a ansiedade, enquanto sintoma. Dentro das duas primeiras categorias apontadas
(transmissão geracional familiar e ansiedade), foi possível analisar como a ansiedade crônica e
o nível de diferenciação das gerações anteriores influenciam o padrão de relação intrafamiliar
e inter-relacional dos membros da geração atual. Observamos também como as experiências
podem contribuir para a triangulação, podendo gerar redução ou elevação do nível de
funcionamento do self, levando o indivíduo a escolhas mais ou menos reativas.
Uma possível saída, que é também o principal objetivo de Bowen (1982), é melhorar o
nível de diferenciação do self. Este consiste no processo contínuo relacionado ao
desenvolvimento do indivíduo em seu meio familiar, que o leva a se tornar capaz de equilibrar
mais saudavelmente a razão e a emoção, proporcionando um agir com maior autonomia e o
estabelecimento de relações mais tranquilas. No caso de dois entrevistados, o processo de
acompanhamento psicoterapêutico foi uma estratégia de suporte que contribuiu para melhorar
a autoestima e retomar uma rotina saudável de vida. Além disso, a psicoterapia elevou o nível
de diferenciação do self de cada um. Para outra entrevistada, ser a primeira da família a concluir
um curso de graduação aumentou sua autoestima e a crença na sua capacidade de alcançar
objetivos até então impossíveis de serem concretizados.
Aspectos familiares transmitidos multigeracionalmente devem ser, sem dúvida, levados
em consideração. Porém, a possibilidade de repetir ou não determinado aspecto familiar
depende da disposição do indivíduo para perceber se quer mantê-lo ou transformá-lo, de acordo
com suas sensações e vivências em determinados momentos de seu ciclo de vida. Construir o
85

genograma das famílias permitiu um olhar para o passado, mas também oportunizou um
trabalho no sentido de melhorar o futuro, embora não tenha sido esse o enfoque da pesquisa.
Apesar de os estudos da depressão geralmente se centrarem no indivíduo e sua
sintomatologia, nossa pesquisa nos possibilitou resgatar os atravessamentos e a importância do
grupo familiar nesse contexto. Contudo, este estudo não pretendeu esgotar a temática proposta,
mas, pelo contrário, servir inclusive como um gancho para aumentar as pesquisas que tratam
de depressão e família sob diversos olhares.
87

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95

APÊNDICE A – ROTEIRO DAS ENTREVISTAS SEMIESTRURUADAS


REALIZADAS COM OS ESTUDANTES

Nome Fictício: ____________________________________________________________


Idade atual: __________ Idade na qual teve depressão: ___________
Data da entrevista: ________________

Modelo de Entrevista (baseado em Gerson, McGoldrick e Petry, 2012).


1) Como foi a depressão para você? O que sentiu, como foi esse processo.
2) Como sua família lidou com isso?
3) Consegue apontar alguém na família que já teve ou tem depressão?
4) Por que acha que isso aconteceu?
5) Como vê sua relação com esse parente?
6) Você percebe alguma influência desse caso com seu episódio depressivo?
7) Há algo mais que considere importante dizer e deseja acrescentar?
97

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS


Pró-Reitoria de Pesquisa e de Pós-graduação
Comitê de Ética em Pesquisa - CEP

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

N.º Registro CEP: CAAE 64259817.2.0000.5137

Título do Projeto: O processo de transmissão multigeracional familiar da depressão: possíveis


transformações do padrão familiar com o uso do Genograma

Prezado Sr(a),

Você está sendo convidado (a) a participar de uma pesquisa que estudará o processo de
transmissão familiar multigeracional da depressão buscando construir qual a relação dos
aspectos familiares que favorecem a repetição do transtorno depressivo de geração em geração.

Você foi selecionado porque teve pelo menos um episódio de depressão diagnosticado e tratado
por médico/psiquiatra e com acompanhamento psicológico. A sua participação nesse estudo
consiste na sua colaboração em participar respondendo a uma entrevista sobre esse episódio
vivenciado e sobre aspectos que envolvem a depressão na família. A coleta de dados se dará na
casa dos entrevistados ou no consultório da pesquisadora, ou nos campus universitários dos
estudantes ou em outro lugar acordado pelo participante e pela pesquisadora em que este se
sinta mais à vontade. A entrevista será gravada, transcrita, realizada análise com os dados
coletados e após o período de 5 (cinco) anos os materiais serão destruídos conforme Resolução
466/12, pois seu uso é exclusivo para os fins da pesquisa a que este termo se refere. Será
mantido sigilo sobre o que você disser.

Sua participação é muito importante e voluntária. Você não terá nenhum gasto e também não
receberá nenhum pagamento por participar desse estudo.
98

Espera-se que, como resultado deste estudo, você possa ampliar o seu conhecimento sobre os
fatores que contribuem para a ocorrência do episódio depressivo e a influência da história
familiar de depressão, no intuito de auxiliá-lo na prevenção de novos episódios depressivos.

Os desconfortos e riscos que você poderá sentir estão relacionados ao sentimento de


desinteresse em relação ao tema ou mal estar com algum assunto abordado. Nesse sentido, a
gravação das entrevistas poderá ser interrompida se você sentir necessidade. Pode haver
também um desconforto na divulgação da pesquisa, mas fica enfatizado o caráter confidencial
dos registros. Além disso, as questões a serem abordadas na entrevista podem suscitar
lembranças não muito agradáveis, sob o ponto de vista psicológico e podem até mesmo
ocasionar um novo episódio de depressão. Portanto, a pesquisadora se compromete a indicar
tratamento e acompanhamento psicológico na clínica escola do curso de Psicologia do Centro
Universitário Newton Paiva, situado à Avenida Silva Lobo, 1718, bairro Nova Granada, na
cidade de Belo Horizonte – Tel.: (31) 3516 2669.

As informações obtidas nesse estudo serão confidenciais, sendo assegurado o sigilo sobre sua
participação, quando da apresentação dos resultados em publicação científica ou educativa, uma
vez que os resultados serão sempre apresentados como retrato de um grupo e não de uma pessoa.
Você poderá se recusar a participar ou a responder algumas das questões a qualquer momento,
não havendo nenhum prejuízo pessoal se esta for a sua decisão.

Espera-se que os resultados dessa pesquisa ampliem o seu conhecimento e dêem subsídios para
a prevenção de novos episódios depressivos.

Para todos os participantes, em caso de eventuais danos decorrentes da pesquisa, será


observada, nos termos da lei, a responsabilidade civil.

Você receberá uma via deste termo onde consta o telefone e o endereço da pesquisadora
responsável, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação, agora ou a qualquer
momento.
99

Nome da pesquisadora: Marina Reis Botelho


Endereço: Rua Stella Hanriot 45/201
Bairro: Buritis - Belo Horizonte - MG
CEP: 30575-120
Telefone: (31) 99735-3778
E-mail: mreisbotelho@yahoo.com.br

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais, coordenado pela Prof.ª Cristiana Leite Carvalho, que poderá ser contatado em
caso de questões éticas, pelo telefone 3319-4517 ou email cep.proppg@pucminas.br.

O presente termo será assinado em 02 (duas) vias de igual teor.

Belo Horizonte, ______ de ______________________ 2017.

Dou meu consentimento de livre e espontânea vontade para participar deste estudo.

_________________________________________________
Nome do participante (em letra de forma)

_________________________________________________ _______________
Assinatura do participante Data

Eu, Marina Reis Botelho, comprometo-me a cumprir todas as exigências e responsabilidades a


mim conferidas neste termo e agradeço pela sua colaboração e por merecer sua confiança.

_________________________________________________ ______________
Marina Reis Botelho Data
(Pesquisadora)
101

APÊNDICE C – GENOGRAMA FAMILIAR DE BÁRBARA


103

APÊNDICE D – GENOGRAMA FAMILIAR DE IRMÃ CECÍLIA


105

APÊNDICE E – GENOGRAMA FAMILIAR DE PEDRO


107

APÊNDICE F – GENOGRAMA FAMILIAR DE CARLA


109

APÊNDICE G – GENOGRAMA FAMILIAR DE AMANDA


111

APÊNDICE H – GENOGRAMA FAMILIAR DE SÔNIA