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LAURA DE MEU,O E SOUZA (! f:h......•.
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DESCLASSIFICA DOS
DO OURO
A pobreza 111ineira no s<'.·ctilo XVIII.

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Capa:AnaLuisaEK'Offi
(Arte • partir de gravuras do ili,,) Brbil de M. Ferdiund Den!J)

Revido: Umbeno Fljue!Rdo Piolo


AuruMo.-.eidosSanto!I

1~ e<ilçlo: Seiembro 1982

Direitos adquiridos para Unau,a portuguesa no BrasU


EDITORA GRAAL LTDA.
Rua Hennenealldo de 81.ff'OS, 31-A - Cil6ri•
20.2.41 - Rio de Janeiro - RJ - BruU
Fone: 2S2-&S82

CI Copy~AI by Laura de Mcllo e Sou,a

lmpmso no Brasil - Prutttd ia Brru.il

CIP.BruU.Col&l<lpçlo- .... fCIIIIO


Sllldlcat0 NodaD&.l dm E4i- do U-. RJ

MtlkitSoau, [..au,.d,
V616d Dcs,;laalllcadm do...,..,,• pob,- IIIIMIN 111;1 ..,la ICVIII / Laura Je
Mellu e Som,. - Rio do,.......,
l!diç,(m Orul.. !tal.
(11118-doblolllrla:•.8)

libllapall&

1. Cluoa oa,:lau - M ..... Omalo - 5bllo 18 2. Mllw Otru - ....,,_


-Sklllol8 l,llmlo 11.llmlccA.,.___,._.,,.,....l(VIII 111.S&lo

CDO- lOUOIS
COU - .101.Jll(IJS.I)
AGRADECIMENTOS

Es1e trabalho foi possível devido ao au::dlio de amigos, de co-


legas, ao interesse que por ele manifestaram pessoas com as quais
até então eu nunca tivera eonl1110. As sugestões (citas por elas, o
apoio recebido acham-se presenles nestas páginas, e a todas dei11.:o
aqui meu reconhecimento.
Nos arquivos cm que trabalhei, encontrei compreensão e espí-
rito de solidariedade por parle dos funcionários; ao lado da Fun-
dação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP),
t111c com uma bolsa de mesuado me possibilitou trabalhar dois anos
e meio cm regime de dedicação inlegral, eles foram os responsáveis
pelas condiçÕC'S materiais que viabilizaram a pesquisa.
Sem querer hierarquizar meus débitos, gos1aria de mencionar
especialmente quatro amigos: Fernando A. Novais, que durante
lodos esses anos me deu o privilégio de sua orienlaçllo; Maria Inês
e Sílvio ,;.h: Mello Carvalho, que com sua acolhida encantarem
minhas esladias mineiras; ~rgio Buarque de Hollanda, que acompa-
nhou a pesquisa com a generosidade e o interesse que o caracteri-
zavam, enriquecendo-a ioes1imavelmen1e com conversas e observa-
ções. A ele. es1e livro é dedicado.

UNE'-P A~Sl~ 1:1111.JOTI~ A

~,~~ ,1=11u1r
TüM~O
INTRODUÇÃO, PROBLEMAS E OPÇOES

Além de tantas outras viradas bruscas, os anos 60 e 70 deste


!>êculo revelaram um interesse súbilO pelas minorias, pela margina-
lidade, [)Cia exclusão - a tal ponto que, no futuro, ao lado da
rcvoluçiin comportamcn1al, do movimento estudantil, du incorpora-
ção (/,m, 5e11s111 do Oriente. talvez íiquc este súbito interesse dos
c~tudOlõ acadêmico~ pelo louco, pelo criminoso. pelo mendigo, pelo
migromc 111iscnívcl que o capitalismo selvagem dos países lalino-
amcricano~ despejou ,;obre os !>CUS principais cen1ros urbanos.
Ohjctu de C\lm.lo rcccn1cmcn1c incnrporndo ao repenório tc-
m:itico du Universidade, o marginal carecia. cnirctanto, de estatuto
teórico. Como dc[inir um elemento que pertence e não pertence
à ~ocicdadc, que é parte e neseção do sistema, enfim, que vive
11 cav:ilcirn de dois mundos, na encru1.ilhada de vários caminhos?
No que diíere dos outros. dCK não-marginais, e no que lhes é se-
melhante?
Os ~ociólogos la1ino-americanos debruçaram-se detidamente
~obre a marginalidade - Nun, Quijano, Munnis, Veckemans, Ko-
w:irick. lkrlim:k. para dtar apenas alguns' - , e algumas ins1iiui-
~ücs iamhém privilegiaram esse cempo de estudo, como a CEP AL
e a DESAL. Além da questão do marginal nu sociedade, surgiram
dchatc~ cuio art1cula<lt1r comum foi a questão do "ex~rcito de re-
~crvi, .. " Por nrnis que surgissem discordâncias e aflorassem con-
1 Ah.", no Wl1JUnto J;i pr..Juçãu dcntfí,ca sobre m:ir1inalidudc, ~ in·
1e,e,,,u11c ,le,l;,ç:,1 o p:1J1CI ~ o vulto Jo, csludi050i lo1ino,omcriun01, para
,1urm o problema C c,pcr,;,lmcnlc ,ivn e dolorow. Algun1 c~cmplos: Ma•
,rnd llcrl,nà, M,11i,fo111"/11</r ,.,,:;,./ r rrl,l{',~J d.- ria= .-nr São Pm,lo. i'c-
utipuli,, Vou,;, 19H; Lúcio I'. Kowarid, ('11pi1ali,nro ,. nrargi,mlidad.- ""
l111<·ric,, l.,ui,w, Rio, 197S: José Nun, "Supcrpoblaciún rclDIÍ"D,•ejércilo in·
,1"'1,ial ,!e rc>ervu y masa marginal", R.-,,,,,,. l,,ri,wamtricm,a dr Sociolagi<J,
111lho. 1%11: Aníhal Quijano. "Polo marginal de la economia y mano;, de obra
"""~u1,1d;1". Lima, 1971: A. Quijano, Narn.s ~abr~ ti ,·,>11up10 de la margil!a·
1,dml ,.,,;,,/, S:1111,.,~u. 1971: Rn~er \leckemnn,. MarJ1'1rnlidad .v plfl/o tmpl.-u,
S.11,1i.rio. 1970: ll. Vcclr.cm•n•. "Un~ o:3lrDte11ia para la miscria~, Santia90,
lll·SAL, 1967 e ainda: lllari,iJ!lllidad. incor~raci(m ,- iTll<"}l'rac/Ólr. Santiago
lll'SAI .. Unlc1ín n.~ .17. 1967.
?. l'rrna,ndo Henrique Cardoso. "Comcnlário sobre os ~onceilos de SU·
1-.:11><>pul:,~;iu rclallvm e marginalidade". in Sobr< Teoria.- Mlrodo .-m Socit>-
1,.~,,,, rJ 0.:8RAP. S. Paulo. 1971.

li
tradições. imprecisões e dificuldades, o conceito foi despido do psi-
cologismo com que o revestiu um de seus progenitores, Stonequist 3 ,
e tornou-se definitivamen1c dependen1e das formulações ícitas por
Man1 em O Capilal '· Nii.o era mois possível compreender o pro-
cesso de marginalização sem pensar na c~propriaçào, na acumula-
ção primiliva, na constituição da mõ.o-dc-obra para a indústria e,
uma vez constiluída a sociedade induslrial. na íunção do exército
de n:serva enquamo elemento de contenção salarial. A sociedade
industrial contemporânea é. pois, o cimen10 comum de tantas in-
terpretações di(eren1es.
Entre os historiadores. o problema se delineou de modo di-
ve,so. Mendigos, vagabundos. marginais cm geral têm sido es1u-
dados - ou peln n1enos mencionados - já há muitos anos, mas
só recentemente é que se tomaram uma espécie de íehre acad!-
mica ~. lníelizmcn1c, a indeíiniçii.o do objeto é incomparavelmente
maior entre os estudos de História do que entre os de Ciências
Sociais, atingindo níveis quase insuportáveis. Os colóquios ou
edições eolc1ivas surgidos recentemente refletem essa indcíiniçáo, o
conceito de marginalidade apresentando elasticidade suficiente para
abrigar íeiticeire.s, alquimistas. loucos, seres monstruosos, autores
de tratados de oniromaneia, pícaros, mendigos (íalsos e verdodei-
rns), vagabundos, indígenas, "hippies'', "apaches" 8 , De onde co-
meça o surgir outra discussão: marginal seria an1es o ins6li10, o

3. E. V. Stonequist, O 1,0mm, mur[Zlnal, (1937), trad .. S. Paulo, 1948.


4. Karl Marx. O Capiral, trlld., Rio, 197:S, livro l. volume 2. eap.
xxm.
S. Entre o, precursore, nesse eampo: Ribbon Turner, A Hlstary a/ va-
,ranls a11d ,·agraney, and bt,sars and bqging, Londres, 1887: C, Paultre,
Dt la r~prtsJlon dt la mrndlt/11 ti du vllJlabondQt tn Frantt so11s l'Anclen
Rlglmt, Paris, 1907: W. H. D•wson, Thr •agralrty probltnr, Londres. 1910.
Mai• recentemen!e de11cam-se as se11uin1es obras: Erie J. Hobllb.awn, Prl-
m/liYt Rebt/J - St11dlts ln Archak Fo,ms o/ Social Movtmrnr fn 1/1t 191/r
and 2('1! 1 Crnrury - Londn:s, 1959; e ainda.: BOlld.irs, Londres, 1969: J. R.
Poyntcr - .fodtty a11d Pa11~rlsm - E11gllsh /deas on Poo, Rtlltf, 1795·1834.
Londres,Toron!o, 1969; Jos! Luls Alonso Hern1nckz el alii. Cul1urt ti ma,..
glnal//ls au XVI• slltlt, P11.rh, 1973: Ol~n H. Hufton, The Pao, of Eighlttnfh
Ct11mry F,0111:t - 1750-1789, Oxford, 1974; Pierre Deyon, Lc ttmps dt•
prú,aiu. Par/J, 1975: Quy.ff. Allard et 11.lii, AJp«ls de la Marl(imJ/ilj a.u Moyrn,
A11r. Mon1r~11I, s.d.; Dou9las Hay e! elii, Albi,m·s Fo1ul Tru - Crimr and
Sodtly /11 Ef11/11unrh Ctm11ry England, Londrc:11, 1975: Bronislaw Gercmcc:k,
Z..,.1 margina111 prrri1fr11s au X/V< tt XYe ,ih/ts, Paris, 1976: Jean·Lo11i1
Got1lin, Lts m/Urtrblts da11s l'Otcidrnl MM/lva/, Paris. 1976: Michcl Mollat,
l...,J PQt11•ns ai/ Moyrn-ARt - Erudt Sotlalr, Paris, 1918; villio., Les murg/.
nau.t ti lu r:ulus dans fHis1airt, Paris, 1979, Hi aind1 in(imeros 1rti11os
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6. G. Allard (org.), ,hprtlS dr la murginalirf au Moye11•A11r. Montr91.
J.d. V6ri0$. LtJ maralllll11s ti lts tsclus dans l'Histalrt, Paris, IO·IB, 191!1.

12
exótico, do que o elemcmo vomi1ado por uma ordem incapaz de
o comer? O marginal seria aquele que, deliberadamente, se coloca
à margem, ou o que é co/ocudo à margem? Mais ainda: por que
niio enlender o marginal como o que está mal in1egrado na socie-
dade? Em outras palavras: o que está mal c/anl/icodo.'
Atendo-se freqüentemcnle ao estudo dos canais ins1i1ucionais,
dissociando marginalidade e pobreza, esses estudos pouca luz lan-
çam sobre o conceito, e, se comparados aos estudos dos sociólogos,
apresentam um nível de articulação bas1an1c inferior, dada a he1e-
rogenridade dos perfodos abordados. Nilo há, para uni-los, um
substrato comum, e o problema da especificidade histórica faz com
que o elemento mal acei.lo num dado con1exto possa perfeitamente
se-lo em outro. Daí o enorme gama de categorias abarcadas pelo
concei10 que, nessa variedade. acaba por se esvaziar e perder o
sentido: um concei10 que é 1udo ao mesmo tempo ecaba não sendo
rigorosamente nada. Ou1ro vício curioso presente nos es1udos his-
toriográricos da marginalidade é a omissão cons1an1e - 1alvez, re-
cusa sis1cmá1ica - cm incorporar as boas contribuições dos es1u-
dos sociológicos motlcrnos, o que os acaba levando a delírios em-
píricos pouco írutííeros. Nesse contexto. não chega a provocar
assombro a constatação final de Michel Mollat, grande au1oridade
francesa em história da. marginalidade que, de uma. vez por todos,
decidiu pela pcren!dade da Pobreza 7 •
A pa.rrir dessas constatações, o concei10 de marginalidade usado
pelos sociólogos ganha nova configuração: mesmo quando vago e
impreciso, essas carac1erfsticas não chegam a incomodar muito, nem
;i escamotear a verdadeira natureza do conceito. que é a sua. his-
toricidade. De falo, parece difícil - para não dizer impossível
- dissoci,i-lo da sociedade indus1rial que o engendrou. e has1ante
problcm,itico aplicá-lo a realidades his1óricas que não sejam as da
induslrialização, como é o ca.so dcs1e nabo.lho, que tem por objeto
os de.,c/ru.,ific111/os soâais da mineração no período colonial.
H 1fr.<dt1ni/icruln .1·ocit1/ é uma e,cpressão bastante deíinida
Remele. ohrigatorian1cn1e. ao conceito de rlossi/icoçdo, dci,cando
claro que. se existe uma ordem classificadora, o seu reverso é a
d1•.<d11.l<ifir<Jçdo. Em ou1ras pulavrus: uns são bem classificados
JltHl!UC outro~ não o são. e o descla,~i{icado só existe enquanto
existe o d.i~~ificado social, panes antagônicas e complemen1ares do

1. ~ .... m1,cri,ónlia pode mudar de nome e de íacc: sua na111n:z.11 con-


1in11• sendo a Caridade. percrn: como a Pobrna", Michcl 11,follat. Us pll/ll"US
1111 Mov ..11-tf}[<', Pari,, 1978, p. U9. Res.,at,.a seja feita aos ex,;elent,;., trn-
h;,lhos Jo hi>1oriador polonloi Bronisl.aw Geremeck. dentre os quais dc.l,taca-se
Lu m<Jrgj11a,u parisir,rs "" XJYc r1 XV• JiK/tJ. Paria, 1976.

13
mesmo todo. Nesse conte:uo, ~ impossível pensar em desclassiíi-
cação social sem pensar na vinculação que esta o(erece com o nlvel
infra-es1ru1ural. pane íundan1e do proçcsso de desclassificação.
Contrariamente ao que acontece com o conceito de marginalidade
conforme tem sido empregado por his1oriadores, não há neste modo
de ver ampliludc ilimitada nem dissociação en1re marginalidade e
pobreza, entre o íenômcno e aquilo 11uc o engendrou. Além disso,
rica clara n orientação subjacente: não é quaiquer nã0:-inscrção
que coma - a da íeiliccira. a do louco, a do onirnmancista, todas
elas circuns1anciais e episódicas -, mas e mio-inserção motivada
por dado~ estruturais: a pobrcLa loma-se, assim, o primeiro -
mas não o único - denlre os agentes desclassifica16rios.
Marginalidade pode ainda íazcr pensar cm algo que se separa
de um todo 1111iftJr111e, conslituído, no caso, pela sociedade. Já
desclassificação sugere a c:uerioridade ante a classificação e o dis-
ta11c:iamemo cm íacc de um todo l1e1erogéneo e diversificado.
Ou1ro ponto favorávd ao emprego dtl conceito de desclassifi-
cação soci11l como adequado ao tratamento da realidade colonial
é o fato da sociedade de então apresentar-5e ddinida cm tennos
es1ame111ais, ou seja, de s1aws, de honre (o que remete o c/as.<ifi-
c:açdo) e de. ao mesmo tempo, atravessar um processo de consti-
tuição (o que remete a de.ocfa.Tsificoçiío). Assim, os dois principias
antagônicos e convergentes da ciassi[icação e da desclassificação
conviviam no seio da sociedade colonial. O objeto r.lc cs1udo desta
pesquisa será, pois, ddinirlo, de agora cm dian1c, como desclassi-
ficado social. A sua dimensão espaço-temporal é a região das Mi-
nas Gerais no século XVIII. O objetivo má,i:imo é a compreensão
dos proce~~os que levam ao seu cngendr11men10 e à sua posição
no seio da sociedade colonial.
O desclassilieado social é um homem livre pobre - (reqUen-
1cmentc miserável - . o que, numa sociedade escravista, não chega
a apresentar grandes vanlagens <.-om relaçiio uo escravo. Obje10
de estudo bastante problemático, não costuma povoar as preocu-
pações dos nossos pesquisadores. E,i:ee1uando-se o período repu-
blicano, - cujos estudiosos se voltam cada vez mais para a hisló-
ria da cla.iSC operária nacional - , torna-se diíieil reunir títulos
ciue tratem especificamente das populações pobres. O grande
marco neste assunto continua sendo Home11s Livres na Ordem Es-
rravoc:rato, de Maria Sylvia de Carvalho Franco, estudo magistral
sobre os homen~ livres do Vale do Paraiha nas suas relações com
o poder e com e economia mercantil. E para frisar o atraso que
apresentamos neste campo, é proeiso não esquecer que foi Caio
Prado Jr. quem at.! hoje - lendo-se pas~ado quase 40 ano~ -
melhor colocou o problema do papel da "camada iniermediária'·
na no:.sa hislória 1 .
Como explicar essa ausência?
Diíícil não colocar a questão cm 1ermos ideológicos, mesmo
porque o na1amen10 1angencial dado pelas grandes obras his1orio-
gráficas às populações pobres assim o exige. Em seu clássico Casa
Grande &. Senuila, Gilberto Freyre fornece um exemplo modelar
desse procedimenlo. Preocupado com a ramília enquan10 unidade
básica da colonizaçiio, nega a imporlfincia que porvemura aprescn-
lasse a colonização por indivíduos, - "os soldados de fonuna,
aventur.,iros, degredados, crislãos-novos rugidos à perseguição reli-
giosa, náufragos, traíicantcs de escravos, de papagaios e de madei-
ra•·•-, afirmando não terem estes elementos dei,;ado traço algum na
··plástica econômica·• do Hrasil. Ora, cnne muitos outros, Emília
Vioni da Cosia e Raymundo Faoro apontam a e,;istência de cle-
mcn111s socialmente desclassificados desde os primórdios de nossa
colomz,1çào; ,1 hisloriadora analisando as penas de degredo e rcla-
tiviznndo a 11oção de crime; o jurista indicando a imagem paradi-
síaca da colônia (IUC o estamento dominan1e cm Ponugal divulgava
entre a arrni,1 miúda como chamariz de gente 10.
Es1a extrema reserva com relação às camadas pobres encon1ra
uma explicação - mesmo que esfarrapada - na natureza da do-
cumentação dos nossos arquivos, abundantes em fontes oficiais e
c:uremamcnte pobres cm íonlC5 coletivas - as ·•saurces massives"
1los franceses. Realmen1e, são poucos e bas1ante daniíicadoS os
documentos relativos a assentos de nascimentos, óbitos, casamentos
-- sem falar na documentação que, de uma íonna ou de ouna,
dc1.~a entrever o modo de vida dessa gente. Este problema se
torno c~pcci;1hnentc complicado para o Brasil colonial, onde os in-
tlivldUO\ alfnheti,udus eram pouquíssimos e II situação social se
11clmv11 h11s111n1c complicada pelo cscravismO: como esperar registro
C\crito tle mes1iço~ miseráveis. de forros redm-egressos da escravi-
,ll'lo. de "'caribrn;us" e "canjó~" l!UC vagavam pelos engenhos e pelas
lavrus'/
O his1oriador só pode trabalhar com documen1os que e1.istem:
11;10 pode rnvcntá-los, mas pode rc-inventá-los, 1e.1os com novos

li Caio l'rndo Ir .. Formurilo do Brtuil Co111~mpo~lk!'O, (]942), tJ.•


ed. Saio Paulo. 1973. Eiipecialmcn!e • paMe inlillllada "'Vida Sociar.
?. Gilhcr_!o Frcyrc, C11.<tJ Gr11ndr & Srnu/11, 9.• ed .• Rio, 19S8, p. 25.
IO. Emllu1. Vioni da Cosia, 'ºPrimeiro! povoQdor~ do Brasil". Revista
,/,• lfr11,;rm. n. 0 27. 1956. pp. 3-22 R.aymundo Fooro, Oi drmo., do podrr .
.• • ~d. Porlo Ale1rc. 1974.

15
olhos. Um documemo oíieial pode conter dados sobre camadas
sociais que não entravam na cogitaçlio das pessoas que, durante
Sl!culos, procuraram nele informações sobre administração ou po-
lltica. Para esta l)Csquisa, utilizei não só a documentação oíicial
- a corrcspond!ncia administrativa das autoridades - como do-
cumentos que v!m sendo publicados l)Cla Revista do Arquivo Pú-
blico Mineiro hã quase cem anos. Consul1ei t11mbém documentos
publicados por outnis revistas, e uma grande parte desta l)Csquisa
é comp05ra por m11nuscritos lidos no próprio Arquivo Público Mi-
neiro, em Belo Horizonte, e no Arquivo Eclesiás1ico da Arquidio-
cese de Mariana, em Mariana, onde, acei1ando o desafio colocado
pelo tema, procurei levantar 11s fontes cole1ivas disponíveis, traba-
lhando assim com assentos <.lc prisões, autos <.le querelas e de de-
vassas, estas 1an10 civis como eclesiásticas. As Memórias - pu-
blicadas, na sua m11ior parte, entre os anos 80 do século XVIII
e o inicio do século XIX - . as estatís1icas e os escritos dos via-
jantes dos primeiros vinte ·anos do século XIX completam o quadro
documental.
A suges1iio do cenário - a economia do ouro - veio com
a leitura de Caio Prado Jr., que associa o aumento da camada
intermediária colonial à evo[uçiio "por arrancos, por ciclos, em que
se alternam, no tempo e no espaço, prosl)Cridade e ruína"". e que,
sendo característica da história económica da colônia, teria atin-
gido sua dimensão mais calastrófica e profunda nos distritos da
mineração.
O ouro dominou iodo o nosso século XVIII. lançando raízes
no século XVII e apresentando ecos ainda no século XIX. Trata-
va-se, portanto, de um largo espaço de tempo, o que impunha de
imedia10 o problema da periodizaçiio: como dar conta, numa pes-
quisa, de mais de cem anos?
Já se tem dito com freqüência que a periodização nilo deve
ser apenas cro110Mgica, mas tamMm /6gic'3. A história de um mo-
vimcn10 social deve, dada a própria natureza do tema, apresentar
uma circunscrição cronológic11. bast11.nte rígida, permitindo, quando
muito, uma margem de osçilação pua o delineamen10 de seus an-
tecedentes e de suas conscqUl!nci11.s. Quando se trata. entretanto,
de traç11.r o painel de um processo, não há como evitar os largos
espaços de tempo. O mesmo se dá para um trabalho que busca
a compreens.ão de uma camada social em toda a sua compluida.dc,
o que só pode ser conseguido atrnvl:s da compreensilo do seu pro-
cesso de comlituição. Assim. a análise dos desclassificados sociais

li. Caio Prado Jr .. op. cit., p. 286.

16
só poderá ser bem-sucedida se iluminada pela percepçlo do pro-
cesso dtt desclassificaçiJo que os engendra.
Em anigo intitulado "Periodização da História de Minas" 12,
Francisco Iglésias propõe duas periodizações - uma, com ênfase
no po]í1ico, ouua com ênfase no econômico - a serem cruzadas
para se poder obter uma periodização íinal, mais correia. Com
base no primeiro critério, distingue sete momentos - dos primór-
dios aos dias atuais - , dos quais apenas três dizem respeito ao
periodo abrangido par esta pesquisa: dos primeiros tempos a 1693
- época das enlradas para o sertão e dos primeiros descobertos
do ouro - ; de 1693 a 1720, quando impera a instabilidode da
ordem, o aventureirismo e as rebeliões: de 1720 a 1822, período
mercado pela urbanizoção. pela instalaçil.o da máquina adminis-
lrativa e pelo pico e declínio da mineração 13 . Levando em conta
o segundo cri1ério, a periodização se apresenta um pouco diíerentc:
são qualro os momentos destacados, dos quais cabe mencionar os
dois primeiros: 1693-1710, surgimento, esplendor e declínio da ati-
vidade mincra1ória, e 1770-1830. quando o declínio da minera·
ção nortei1• a busca de outra a1ividade.H
Relom;mdo esta periodização, e levando adiante a sua pro-
posta, o marco inicial adotado nesta pesquisa íoi 1693, ano em
que );e criou a capitania do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas,
sendo Antonio Pais de Sande designado para governá-la. 1805 (oi
a data escolhida para fechar aproximadamente o período, uma vez
lJUe a decadência da atividade mineradora e suas conscqilêneias já
pndiam ser entiio adequadamente avaliadas; aliás, 1804 e 1805 são
o~ anos de publicação de duas memórias signmcativas sobre o
estado de n1iséria da capitania: respcc:tivamenle, a de Azcredo
Couiinho e Basílio Tei.leira de Savedra •1 .

12. Franci<co lglésias, "Pcriodiz.açlo da Hislórie. de Mine.s Ciernis", Rt•


,.;.,,, nrasiMra ,Ir E.<11,dos Po//1lc1>1, vol. 29, julho de 1970.
13. Idem, r. 188.
14, Idem. p. 192.
1~ cr. J. J. da Cunha de Azcredo Co..ninho - ·Discurso ..obre o
e,1:Klo arnal da, minas do Bnsil (1804)", in Obras «mtõmicos .. . , introd.
,k Sór~io B11n~q~c de Holland11. S. Paulo. 1966, pp. 187-l?.9.
n,11ilio Tc,~e1ra de Savedra. "lnrormeçlo da eapi1anie. de Minas Gerai&",
H,·1•r</<1 ,1., Arq11;,,., P,',b/ic., Mi11tlro, vol. li. 1897. A p. 613, o seauinle IU•
,ho ··11 carii~nia de Minas Gerais, que rn n 1t111ndei riquems dos felius
lk,umlo, do Senhor D. Joil.o o $. 0, e do Senhor D. Joú I.º de reliz mcm6·
, ln. •• acha cm es1ado de pobreta. e de mistri1; 1 abundlncia du su:u
"""ª' ,e fez scnslvcl no abatimento do Ylllor dA moeda da Europa in1cira.
fn1 ,nvcja dr mnilil'i noç&s, e c.11e Pais 1c acha aaora llllm e.iremo de
111l,t1ln"

17
Entre um e outro marco, alguns momen1os se des1acam como es·
pecialmentc signi(ícativos pelas 1ransform11çõcs es1ruturais que acar-
retam: 1709, 1érmino da Guerra dos Emboabas, nomeação de An·
tonio de Albuquerque Coelho de Carvalho para o governo da ca-
pitania e primeira grande investida da Coroa no sentido de esta·
belecer sua autoridade na zona mineradora. de que a separação
cmre as capitanias de Slio Paulo-Minas e Rio de Janeiro seria uma
conseqllCncia dire1a, como o seria também o início ollcial do mo-.
vimento urbaniz.ador (1711); 1720. ano da revoha fruslrada de
Felipe dos Sanlos, violen1amcn1e sufocada por Assumar que, en1lo,
se torna o primeiro governador da capitania indepencknte de Minas,
fechando o período ,;:ontorbado dos primeiros descobenos e inau-
gurando a fase da au1oridadc consolidada; 17.12-1736, marcado p::lo
apogeu aurffero que a fesla do "Triunfo Eucarístico•· reflete, e pelo
início do governo de Gomes Freire de Andrada, uma das maiores
figuras do Império colonial ponuguCs; 1748-/752, quando a festa
~: ;~~~: ::~fm E~~cf~:s,:ª~~ d:
:a~~~~~o ~:cai~:~~~~
~~pr;:.
nhora para os senhores de lavra~ com mais de 30 escravos; 1788-89,
quando os colonos mineiros e;,;primem seu descontentamento ante
a situação econômica e polÍlica auavés da Inconfidência
Composta a cronologia - sempre ião imporlantc para qual•
quer trabalho de História - , é preciso ir u/im ,tl.'fa. E endossar,
para II análise da desclassificação social nas Mina~ do ~cuio XVlll
brasileiro, o rmx:cdimen10 teórico proposto por R. Nardeau e C.
Panaccio na conclusão do colóquio canadense sobre marginalidade,
e que os estudiosos do assunto raramen1e oi.lotam: "Parece-nos im·
poname reconhecer que a análise da marginalidal.le é sempre fun-
ção de uma rede de relações, e que não poderia se limitar a uma
simples descrição neuua de objetos emplricos reais tomados cm si
mesmos:· ia

16, R. Nardau e C. Panaccio in G. Allard. op. cit., p. 168.

18
CAPITULO 1,

O FALSO FAUSTO

··r, apç!ar de iudn "que se npõe, e que lan10 conspira


paro si: jul1:arcm e,1a, minas a, mais pobrei;., e d~raçadu
das que vivem cm .ocicdade; não! liio f1Íc;1l afirmar delas
c.,c conccilo, niiu si: olhando mnis que pora o ,icu des-
marcado comércio de importação, e vendo oo lo~ por
cnlrc a n,;:assa lu~ de narraçõe1 adulteradu o si:u luxo
J...,.;,.,ncd1do. M;" si:"""'"'
,,ualqucr para o modo por
que v1ven1 e comerciam os vas.<..1lo<.dc Sua Majcs1adc neste
p:11,. ,cr., 'IUe o unlm~rin <kk, pen~ mal. e olha Lio.so-
meuoe I""·'
um:, í,,ls;, rcpul:içâo. e 1rab11lha por um falso
lmlhanlc uo que pcncncc aos :\CUS que de lonr. quer l!le
lhe :i1ribu:om: prctcmkn,Jo. 11 imilaçiio dm cômicos e fi-
Jlllla> leauois, finBir com palhclm dourada, uun;i maci;o,
ecomvio;Jros lapidados pr«iosa pedrada.•·
- lleprc..entaçào da Clmara de Mariana, 1789.

Em 1733. houve cm Vila Rica uma festividade religio,a que


rc1irnu o Saniíssimo Sacramento da Igreja do Rosário e o conduziu
1ri1111folmcnte para a Matriz do Pilar. O acontecimento ocorreu no
d1;1 24 de maio, mas foi anlecedido por um longo período de pre-
11;1rativos. desde a prociamação oíicial da fes1a até os "seis dias
,111:c.,sivo~ de luminárias·· que precederam imediammente a pro-
,·1";io. Es1a se achava programada para ler lugar no dio. 23, sá-
h;ido, que amanheceu sereno e assim continuou a1é o momento
c111 que a cerimônia deveria 1er início. Foi en1ã0 que, súbita e
11>c\plicavclmen1e, ·'os desejos de lodo o L"Oncurso'" foram c:svane•
ndu~ por uma chuva repentina, "muda voz do Céu" que provocou
" .ullmnento da festa para o di11 seguinle.
A, Janelas foram adornadas com colchas de seda e damasco,
,. ,is rua, ~ enfeitaram com arcos, para além dos quais foi mon-
111,lu um ;1ltar "para descanso do Divino Sacramcn10, e deliberado
,11" dn púhlica vcneniçfio" Completavam o quadro mui1as flores,
,11<1111,1, e 11111a verdadeira exr.ilosão cromática, 1udo islo segundo o
11·,u•111u11ho de Sim,iu Ferreira Machado, aulor do Tri1111fo Eurn-
,1,u, o, 1cx10 cm que 3 traslallaçào é narrada

,.
Parece não ter tido limites a pompa ent!io presenciada por
Vila Rica; danças. alegorias, cavalhadas, figuras a cavalo repre-
sentando os Quatro Ventos, todos luxuosamente vestidos e enfeita-
dos com pedras preeiooas. O bairro do Ouro Preto, onde se si-
tuava a Matriz, também foi representado. ao lado da Lua, das
Ninías, de Marte, de Vênus, de Mercúrio, de Júpiter, do Sol, da
Esuela dºAlva e da Vespertina, entre muitas outras l"iguras_ O
Conde das Galvêas, governador das Minas, .issistiu às ícstas junta-
mente com ''toda a Nobreza, e Senado da Câmara", e Similo Fer-
reira Machado diz não haver lembrança "que visse o llrasil, nem
consta, que se fizesse no América uto de maior grandeza". E,
continua o autor, se dentre os povos o~ portugueses se destacam
pelos seus atos admiráveis, "agora se vêm gloriosamente excedidos
dos sempre memorãveis habitadores da Paróquia do Ouro Preto•·.
que com ·'majestosa pompa e magnífico aparato•· trasladaram o
Santíssimo da Igreja do Rosário para a nova Matriz do Pilar 1 .
Minas estava então no seu apogeu. Vila Rica era, "por si-
tuação da natureza cabeça de toda a América, pel11. opulência das
riquezas a péroia preciosa do Brasil.'º~ Os diamanles tinham sido
descobertos recentemente, e em 1729 D. Lourenço de Almeida co-
municara oficialmente à Coroa o seu achado. O Fisco lançava
vistas gordas sobre o ouro e preparava o terreno para estabelecer
a capitação, o que seria feito cm 1735. Os primeiros resultados
da açllo do aparelho administrativo - cujos bases Antonio de
Albuquerque Coelho de C11rv11lho plantara cm 1711 - começavam
a aparecer, e a inquieta sociedade mineradora dos primeiros tempos
já se apresentava mais acomodada. As fcs1as e as procissües re·
ligiosas çontavam entre os grandes clivertimentos da população, o
que se hannoniza perfeitamente com o extremo apreço pelo as-
peçto externo do çulto e da religião que, entre nós, sempre se
manifestou•. Mais do que expressão de uma religiosidade intensa,

1. Cito a publicailO fac-símile feita por Affonso A.vila cm Rtslduos Stls-


rentiitaJ tni Milll's - rufos do slculo do ouro t tu pro~&3 do mr,ndo
barroco, Belo Horizonte. 1967, voJ. J. As p11,sa,e11S citadu cnconua111-te
entre as pjgi11u IJJ,183, Ml'ldo estu referentes • numcraç.lo original.
2. "Prfvia Alocutdria" ao Triunfo Er,carl"lco, in A. Avilo, op. ,;ít.,
vol, l,p,2,.
3. As fn1ivid.llde reli9ioa.u absorviam recurso, exm10rdin6rios. Boxcr
diz que, como as CAmaras da Mcu6pole, H da colônia esbanjavam dinheiro
11-=s.us fc:llu. ficando sem fundos para seus encarp c.ostumciros (COmtT\\11-
,;fo de es1radas e ponte, ele.). A Cimara de Lisboa teria ido à ba11c:ar-
ro111 com a fcsla de Corpm Christi de 1119. The Por/UI/IH'" Stabomc
Empir,, Londres, 1969, pp. 282·283. PorfURU<'IC Sorltty i,r rhc Troplcs -
tl,t Municipal Co11nclls o/ Gou, Macao, Bal,la, and L.uandu - 1'10-1800,
Madbon, 196'. p. 14). Pun as feslividadcs reliaiosas no Bahia, ver pp.
89--9\,

20
a fu1a religiosa era um acon1ccimento que propiciava o cncon1ro
e a comunicação; aliãs, es1e seu aspecto acabava, mui1as vezes, por
sobrepujar os eventuais anseios místicos, como deixa entrever o
úllimo bispo mineiro do período colonial, Frei Cipriano ele São
José, 11.0 retratar a romaria do Senhor Bom Jesus de Ma1osinhos:
". . . lal era a con(usii.o e tõo dcscompoMo o tumulto, que II capela
de Matosinhos mais parecia praça de ,ouros que Igreja de fiéis."•
'Atrelando-se à 1radição exahatória do mito edénico que ca-
rac1criza a crônica colonial~. o Triunfo E11c:arí$1icv retrata mnilo
bem o e.~tado de euforia da sociedade mineradora numa fes1a "mais
de regozijo dos sentidos do que propriamente de comprazimen10
cspirilual''d. O que está sendo festejado,! an1cs o ê,;i10 da empresa
aurífera do que o Santíssimo Sacramento, e nessa excitação visual
carnc1eristicamen1e barroca, .é 11. comunidade mineira que se celebra
a si própria, esfumaçando. na celebração do metal precioso. as
diferenças sociais que separam os homens que buscam o ouro da-
queles que usufruem do seu produto. A Festa 1em, assim, uma
enonnc virtude congraçadora, orientando a sociedade para o evento
e a fllzendo esquecer da sua faina cotidiana; é o momcmo do pri-
1nado do extraordinário - o sobrcnarnral, o mi1ológico, o ouro -
sobre a rotina. No momento de sua maior abundância, é como se
o ouro estivesse 110 alcance de 1odos, a todos iluminando com o
seu brilho na festa barroca,>
l 74B corresJlOnde a outro grande momento de dusào barroca:
u fc~rn do Áureo Trono Episcopal. que celebra a criação do Bis-
11111111 de M.irian:,. Na verdade, a criação se dera cm 174S, sendo
1lcsii:1111do D. Frei Mmrncl da Cruz. então bispo do Maranhão, para
m:11p11r o c11r1111 pclu primc:1ra vez. O prelado deixara a sua antiga
1h111rw c111 11i:o,1u 1k 1747, c111prccndcndo uma Fantástica travessia
,1111 _,,,w,,, ,111,· ,ú 1,•1111in11riu cm outubro de l74B, "vencendo
,h,~n\H•, lll'IIJol"' ,. 1111\"m.;úc,, ,·u11fortm1Ju rcligiosameme as almas
l1uy111l111 1111 1111,·n,11 v11h' ,111 Sii" Frnnci~co. c<se.1s.~as populações que
dl' .. 1111111'1'111111 11 11,,1,1ti11<111 rcJ,tulm d11 Igreja e que acorriam das
1"111,·, 111111, 11·1111111" ,h1<111dc, ,criúc, e1n huscn <lc hCnçãos e sacra-
1111•111<,. ,1111· ,, h1,11,1 111 1l1,1,1h111111lo ,·m ~"" p.is~,1gern" ;_ Sabendo
'li"' " ,1111 , 11,·~mlu p11ll'1\\::m;1 fc,ti,·111.ulc~ e gas1os excessivos, o
l•i.111, 1•11><111,111 1·1·11111 11ue M: vc11til.1~~c il nolicia, pois, segundo um

~ Aprnt lo,<' Fruem, C;,rr.iio, (flrria, l/um/11/tmr, e rscolas mi11drn.,


,,,1,.,,1.,1, ..~. l',11110, IW.H, p. J7.
1 \ """'' v.,~,iu é <le Aíínn.<o ,\vila em O Mdieo t ,is projer<Ws do
,..,.,,./,, '"""~ "· S 1'1,ulo, 1971. p. 114
f• Mf,.,, .. , Avila, op. ci1., p. 117.
/ A. Av•lu, Hald1tos sdscemis/as .. , p. 27.

21
cronista anônimo, o ouro já estava cm decadência 9 • Não se sabe
se o bispo agiu a~sim por prudência ou se recebeu ordens das au-
toridades mc1ropolitanas. O rato é que a íesla não pôde ser evi-
lada e, como a do Triunfo Eucarís1ico, foi e:iitremamente lu,iuosa.
Se o tel110 da ícsia ele 1733 fala ele pretos e pardos enquanto
in1egrantc:s de lrmandadei; próprias""· o Áureo Trono Episcopal,
re1ratando os pajens mulatinhos, '"iguais na eslatura'' e luxuosa-
mente ataviados com sedas, riras. ouro e diamames. procura integrar
esse.~ elementos na sociedade. razcndo deles os acompanhantes de
uma das figuras principais". Há nindu rcíerência a umo dança
indígena executada por mulatinhos, que assim faziam as vezes do
gentio da terra 10 •
Mais do que o ouro . .! aqui a sociedade mineradora o prin-
cipal protagonis1a: uma sociedade que já se asscmara razoavelmente
e que passava a contar com sua própria sede eclesiástica. Mas Se:'
o caráter de aeampamcn10 aurííero não mais persistia, se suas casas
começavam a se requin1ar e suas cidades a ganharem cdiíicaçõcs,
o ouro escasseava. Neste mesmo ano de 174R, terminavam as
obras do Palácio dos Governadores cm Vila Rica, ampliava-se u
antigo palácio do Conde de As~umar n11 cidade Mariana, onde
também se construiria. 110 ano seguinte. o primeiro chafariz de
repu,io, um c outro cmprccmlimen10 fazendo parte da reformula,
çiio urbanística então !>Ofrida rela cidade mineir.i 11 . A capirnçiio
dos escravos e o censo das indúslria& renderia. enuc 1735 e 1751.
pouco mais de 2.066 arrobas - rcndin1en10 111âximo a1é cnuio

8. " .. mos íoicom odesígnio~lwdc ndno avi<;.u, ..:não na vi1,


pera de suo che5:odll, poro niío tlnr lugnr nm c~cessivos {laSIOS tle ,pompa, e
lu,1rc, com que oa hahimntc, daquele dourado Empório da Amfoca coseu·
mom ostcnlU•k cm scmclhamcs funções, ~rm rmbarRo dr Mr tonra o dr•
cadi11cu, do ""~"'º p(l/i, q11r por acaso sr ac/111 11rlr q11rm possa cam o
dlspl111Jio nrcosário para a consu,·açiJo da wa puwu. r /úl>ricas." Âr1rro
Tro110 Epinopa/. p. 35, O grilo é meu. Cito p:la cdiçiio la,;.s/milc de A
Ávila.
h. r,;..,,J,, E11cari1ri.-o, p. 97.
?. A.urro Troueo . .. p. 100·101.
10. "Scsuia,,e b 10bredi1as íigura, uma dança 1k Carijós, ou gcn1io
da 1erru. Era e.ia ajusmda de onze m11la1inho, de ida,lc ju,·cnil, nu, da
cin1ura para cima, li qual cin11iam v,rios plumas cin1..,n1as caldns oi~ o,
joelhos, formando 111io1c: rodcnvom n1 cabeços pcnnchos da, mesmos 11l11mas,
e outros ein(lido~ de pap:I pinlado. e 10111s crespos: no< hrnços. e nos perna,
tinham ,·órias pri\Õt:s de filos. maravalhPs, e 11uizo,; na variedade dos mu-
dnn;as usavam de uns or,;o,, com que formavam diverM>s enleio,, rnnl:lndo
ao mnmo 1cmpo célchn,1 toada• ao som de tamboril. nautJs, e pífaro~
palloris, \oçado;l'l por outro,; carijó,: mai, adullos, que na iros.scr~, natural
tkl~ gelos cxci1a,·am m<>li'<> de ir:,ndc: jocosidade•· - 0p, ci1., pp. 108-109.
1 1. Dados Lcv11n1od01 em Carrato. op. ci1

22
alcançado --- 1~. mas a decadência já era sensível e 00 r,or aca!.O
encontraria o ob:.ervador alguêm capaz de arcar com o "'dis~ndio
necessário para a con~ervaçàn da sua pessoa e fábricas'· n_
Tudo leva a crer ter sido este o momento cm que se encerrou
o apogeu e começou, lemamente, n decadência, que 01' 1mm 70
presenciaram já evidente e palpável. As duàs [estas barroca~ ,ser-
viriam, assim, para periodizar o período áureo da~ Mina5. consti-
tuindo uma e outra dois grandes monumentos ao luxo e à os1en-
rnção
' Endo~s11ndo-se II idéia de que a ícsta funciona como mecanismo
de reforço, de inversil.o e de neutralização u. teríamo~ no Aureo
Trono a rirnalizaçiio de uma sociedade rica e opulcma - rc/o,ço
. - que procura. através da festa. criar um largo espaço comum de
ri11ueza - riqueza (lllc é de poucos mas que o espetáculo luxuoso
procura aprcscmar como ~cmlo Je muitos. de todos, desde os nobres
senhores do Senado até o mulatinho e o gentio da terra. O ver-
dadeiro caráler d;1 socied;1Ji.: é. aqui, i11vl'rtido: a riqueza já come-
çava a sumir. nrns aparece como pródiga; ela era de povcos, e
aparece rnnm de todos. Por fim, a festa cria uma zona (lictlcia)
de cony1vCm:1a, proporcionando a ilusão (barroca) de que a so-
drda1lc é rica e iguulitária: est.\ criado o espaço da ncu1ralizarão
do~ connilos e diferença!.. A (esta seria, como o rito, um mo-
mento especial construído pela sociedadé, situação surgida .. sob a
é!ti(k e o conirolc do sistema social'·, e por ele programada 1 '. A
rncn,agcm social lk: riqueza e opulência para todos ganharia, com
u ícsla, enorme clareza e força persuasória. Mas a mensagem
virii, como que ciírada: o barroco se utiliza da ilusão e do paradoxo,
r. a,~im, o lu:,;o era ostentação pura, o fausto era falso. a riqueza
l"OIIJC\:l1Va a ser pobreza e o apogeu, decadência. ..Em tal abun-
ili1ncia, quem poderia ver. começamos a ser pobres" ie. >
Ern 1789, o Representação da Câmara de Mariana acusava
11 pnccpção de que os espetáculos teatrais us11m de artirrcios para
1ruh11ir o espectador a uma falsa consciência, fazendo as palhetas
,lomml;,~ r1assarcm por ouro maciço e os vidros lapidados por

17 l·un!c: 1. J. Teillcirn Coelho. "ºlnstru;io pero o 10verno da Ca•


,,,1,,,,.., ,lc Min~s Geral!!'°, RAPM, vol. VIII, p. 49S.
li hte Jocumcnto íoi eilado à nota 8.
•·• l"f 11.oheflo da Mello, Camavait, Malandros t Htr6is, Rio, 1979,
'"1'111110, 1,lc.1
1, R"l-.,un J,. P.bna. op. cit., p. 56.
lt, Jm~ Verí,.,imo lllvnn,s da Silva, ~Memória Histórica sobre• A1ri-
,.,l1u,n 1•.,,111~ur..,.•·. 11pu<l Fernando Novais. PorlU(laf e Brwil"ª
Cris~ do
h""'" .11u,.,,,., ( "''"''ª'·
Siio Paulo, 1979, p. 205. O au1or ci1ado faz es1as
,,.1,.,,lo1ao,ilc:, .ab,c a rca.Jidndc mc!ropglitana, ll8 tp,xa dos descobrimcnlos

23
preciosa pedraria. O que subjaz a este documen10 e,itraordinlirio
é a idéia do paradoxo, do fausto que é falso, idéia qu,; pode ser
rameada ao longo de iodo o s«ulo XVIII mineiro.
O grande paradoxo inicial é o signo da íome que marcou o
nascimento das minas de ouro. O nobre metal - cuja "íigura".
segundo Domingos Vandelli, aparece "em pó. em pequenas lâminas.
cm grilos angulares. em cristais quadrangulares. octógonos. e pira-
midais, em lâminas aplicadas às vezes uma em cima da outra: ou
se acha lambém algumas vezes cm pedaços, como fundido.." - ,r
provocou um afluxo formidável de gen1e, não só da Mc1rópole
como das capitanias viúnhus. Da praça de Santos fugiam soldado~
cm busca da riqueza dus Mim,s. o mesmo acontecendo com os da
guarnição do Rjo de Janeiro, que. em troca da defesa dn cidade,
recebiam o soldo e uma raçilo di;iria de farinha 1". Duran1c os
60 primeiros anos do século XVIII, a corrida do ouro pro\•ocou
na Metrópole a saída de apro,iimadamente 600.000 indivíduos, em
média anual de 8 a 10 mil indivíduos ' 9 • Em 1730, o governador
do Rio de Janeiro dava notícia de dois navios do Porto "com
muita gcn1e, que se não deve apartar deles, an1es voltar para o
reino, mas o seu desígnio é passar para as Minas, o que in1entaram
fazer por mil modos" :i,,_ Na expressão já ião cnnhecida de An·
tonil, "a mistura" foi "de toda a condição de pessoas", para deses-
pero das autoridades, que tentuvam. a todo custo, refrear a onda
migratória~'. Em 1709, era 30 mil o número das pessoas ocupadas
em atividades mineradoras, agrícolas e comerciais, sem folar nos
escravos vindos da Africa e das zonas açucareiras em retroçào:?I!.

17. Domin~ Vandclli, MMemória III. Sobre H minas de ouro do


Bruir, ABN. XX, 1898, p. Ui7.
18. ''C1rtadarainha1opernadord1praçudeSantus"-27·1X·1704.
D./., n. 0 XVI, 189!, pp. 37-38: "CaMa n!gia eS1abelccendo provid!11<:ias a fim
de se eYimr a desci.Ao de soldados da ,:uarni~o do Rio de Janeiro para as
Minas" - 28-111-1711 - D.1., vol. XLIX, 1929. pp. 20.22.
19. Vitorino M. Godinho, A um,111,a da antiga 1ocledadt pa1111gutm,
Li1boa, 1?71. pp. 43-44. Sobre o assun10, diz Caio Pmdo Jr.: .... um
mslt de prop0rç&,I liiaamucas que rclativamcn!e lts condiçlles do co16nia ~
ainda mais a~nmado e violcn10 que o famoso msl, californinno do século
XIX." - H/11órla Ecrm6mlr:a do Bra,11, 11.• ed., S. Paulo, 1971. p. 64.
20. "CaMa do governador do Rio de Janeiro ao Capilio Franci!CO Mcn.
dcs Galvão sobre a tcn!ati"a de deserção para as minu dc muitm indivlduos
rcdm-chcgados do reino ... ~ - 2!-X-1730 - D.I., vol. XLIX. 11129. p, 203.
21. Muitos hisloriadores mineiros cncilam erurc o privilc8ilmcmo do
componcnle reino! (baial10!i) e o do paulista na formaçio inicial da JW>Plt-
laçlo mineradora. Salomão e Sylvio de Vasconocllos ado1av~m a p,-imeira
posiçJo. cnquanlo Diogo de Vas,;omcllo• reM.altava nas suas Hi,16rios o P3·
p,cl do pauliua. seguindo a trodi,çlio de Cl6udio Manuel da Costo.
22. Bo.ur. A Idade de Ouro do Bnuil. t.-.d., S. Paulo. 1969

24
Com os olhos voltados para o ouro. improvisando alojamentos
numa região desena - a1é en1ão, país dllS •·serranias impenetráveis,
dos rios enormes, das riquezas minerais, das feras e dos monslros,
uma espécie das Hespéridas amigas guardadas por dragões" 2 ~ - ,
pode-se imaginar a fome que assolou essas populações. 1697-98
e 1700-01 foram o~ ano~ tlas maiores crises, quando. ainda na
imagem popular de Antonil, os mineiros morriam à mingua ••com
uma espiga de milho na miio, sem lerem outro sustento"~·. A
20 de maio de 1698, em cart11 ao rei, escrevia Artur de Sá e Me-
nezes, governador da capitania do Rio, São Paulo e Minas;
•• ... é sem dúvida que rendera muilo grande quantia, se os mineiros
1iveram minerado es1e ano, o que não lhes foi possfvel pela grande
fome, que c,iperimcniaram, que chegou a necessidade a tal elllremo,
que se aproveiiaram dos mais imundos animais, e íaltando-lhcs es1cs
para poderem alimenrnr a vida. largaram as minas e fugiram para
os matos com os seus escravo,; e sus1entaram-se Jas frutas agrestes
que neles aehuvam .. " 2'·. Com a falta de alimentos, as Minas
se transformaram no ccmro de inflação da colônia: o alqueire de
milho cm vendido por vime oilavas de ouro; o de farinha, por 32,
assim como o de feijão; a galinha alcançava 12 oitavas, e um ga-
tiJJho ou cachorrinho chegavam a 32: o pra10 de sal custava 8 oi-
tavas, e quem quisesse fumar Leria de pagar 5 oitavas pela vara
tlc rumo. Morria-se de fome, "tapanhunos e carijós. por comerem
hid1os de taquara, que para os comer é necessário estar um tacho
110 fogo bem quente, e aliás vão botando os que estão vivos logo
lmlem com a quentura, que são os bons, e se come algum que
esteja morto é veneno re(inado" 20 •
Estes nnos (oram aqueles em que a (orne atingiu os ~us li-
mites extremos, e muito povoado foi deixado para trás pelos mi-
11ciro~. Conhecem-se, entre oulros, os casos do abandono do Ri-
hcir;"w do Carmo e da Serra do Ouro Preto, a deserção desta dando
011i,:cr11 ,1 muilos ou1ros arraiais; a1é os (undadores debandaram: o
l'mlrc Faria foi parn Guaratinguetá, Antonio Dins foi para São
l'uuln. Passou-se, a panir de então, a cultivar roças conjugadas
11, l:1vrns 11 • Procurou-se também aten1ar mais cuidadosamente

lI llin~o de Vasconccllos. Hl.rória Amiga d~ Minas GurdJ. B. Hori·


,.,.,10, l'J!M, p. 8S .
.'·1 An1onil, Culmra r upu/1111:in da Brasil por Juas drogas • Mim,s.
mlro•I A. I'. Cunubrnwa, S. Paulo. 2.ª cd., s.d .• p. 267 .
.'I i\~11,I ()u,~..-. de \',,11.:oncdlos. op. ci1 .. Belo Horizonu:. l'.10-l.
•,, n, .... ,.,.,,mo ,lo (','W.h,;r Co,1a M;,1050 apud Maíalda Zcmelta, O
,,1,,,,,,,,,,,..,,,, ,/,, rnpllwr<n Jr Mimu Grrnis, S. Paulo, 1951, p, 223.
,'! 11,.,11<, ,k, \1;"'""''11"'. op. ó1 .. p. 120 e SC!t'· P;,ra n au1or do
1,,,11,.,.., d,., 1;,,,11,/r:m do n,,.,// ( 1618), o problema da mincnçlo «)[1,i1.
1,,, ,.,,.1, ,,., 4uc cn1 encommr melai•. na diíieuldadc de a]imen1ar a:J minei•

25
para o abastecimento da capi1ania, suprido pela Bahia - onde eram
numerosos os currais - e, a panir da oonsuuçio do Caminho NoYo
- 1crminado em 1725 - , pelas eapi1anias do Sul~·. A fome
nunca mais chegou a ter 1al alcance, pois a concentração de ri-
quezas e a crescente estratiíicação social fizeram com que eh1 vol·
lasse a atuar no seu circulo eosrnmeiro: o da pobrc1.a.
Entre1an10, apesar Uc superado parcialmcnle o fantasma da
fome. apc~ar da imil~cm de uma sociedade ricil, euflirica e demo·
cnitica que chegou alé nós pelas íeMas barrocas, tudo indica que
as ooisas se passaram diferemcmenie. Por certo. e;,;isliram na·
babos. e a hisioriograíia tradicional fixou a imagem do capitão-mor
Antonio Alves Pereira presen1eando a Viscondessa de Condci;,;a -
esposa do governador da capitania em 18011 - com uma terrina
de canjica aurífera; do conuatador Dr. João Fernandes de Oliveira
mandando cons1ruir um lago wm navio e tudo para Chica da
Silva, que não conhecia o mar 211 • Mas. em proporção aos que se
viam privados dela, a riqueza era dimibuida por um número li-
mitado de pessoas "'I. A sociedade era pobre, e creio poder dizer
que as festas eufóricas do século XVIII tenham sido grandemente
rcsponsóvcis por uma monipulaçãn "'au10ritãria" da cstru1ura social
11a medida em que uma das visões [)Ossívcis da sociedade foi Imposta

ru,. Sui:cstão fcirn: .. o rrimciro que se: dc~ia Í37.cr antes de 1-o,lir nc]ai.
::~s, d~ ~~:~r;:0 ~c:~os r::r c~:msi1i: i;:::;;ii;1'~, h0o,~;~~\ d~0 :i~ ~:n~~:,c:~':
0
cm abo.rndlncio, lrtitDr·sc•ia da lavoura das minas: mas i•to <e faz polo con·
1nlrio. porque, sem terem monlimcoto,. entenderam cm 1irar o ouro, e como
DI mina, c,11io milito p,:lo Krlio. O!o que vGo levam de carreio o mnntimen·
to neccssár,o, e como se: lhe acaba, lornom•SoO, e dci~om a levoura que li·
nham ,:ome,;acto. E e,la cuido que é o verdadeira caus.a de darem u ditas
min~s !"'UCO de si.'" -· l)inloROJ dru Grumfrtu, do Bra.iil. introd. CapiSlrtino
de Abreu e notw; de Rodolfo Gorcio, Rio, i!IJO. p. 63. O autor nilo e11,
se: nferindo às Mina, (jcrais, po,~ e5IH ainda não haviam sido dcs,:obcrt,~.
28. Mafalda Zcmclla. op. ,11,, cop. Til, pas.,,ím. A amora arrola aa
glncros consumidos cm 4 calcgOrins: l - cS.WOçiai, à subs.i,tlncia (,;,:reais .
...,_1. aç\1car. carne. 1ouc1nho); 2 - essenciais tiO trabalho nas Minas (utcn·
•ílios de ferro e oço, pólvora, armttS. escravos); J - ar1igos para ,·cstimcnu,,
mohiliáno e ~rusos domO:Sticos, arreios para onim•is. ca,·olGaduru; 4 -
ping~ e 1at>aro. Cr. pp. 189-1110.
29. Jo,io ()ornas Filho. O º"'º das Guoi, r a cfrili:JJÇi10 J,, capi11111ia.
S. Pauli>. 19,7. pp IS-23. Joaquim l'clício dos S0n1os. MrmórioJ do m,.
trito Diamw//mo. J.• ed., k•o. 19,!. pp. 161·162.
JO. ""A 110brcza do oficio e & ,Jo dinheiro eram cv1dentcmon1c uma
minoria que se (Onccmrava nns ,·,las ou em suas imcdiaçócs. nas grandes
propri«J~dc, nnius. e11411.1111u ., "'ª'""' c..:rnvo e'" libcno-. branco,. pardo;
011 prelos. lodos pc,.,.,p.~,r.,,. con,1ituian, uma imcMa niullidão de oprimi·
dos pela, c~t"™"' Jc 111<1,,,. o~ ~ê~eros.· ,>,usu,10 de Lima Jr .. A .-upim,u"n
4.,, \.li,,n, G~rni,. 2.• c,I llrlo Hunwnk -- S. P,mlo. 1978. p, 82

26
crnno a vi:<áe1 cta sociedade. a que mais accrladamente rcnc1ia a
estru1ut11 social - no caso. a vis;'lo de riqueza e de opultncia.
ücntrc u~ historiadores mineiros, talvez tenha sido Eduardo
Friciro o pnmcir<1 11 formular conscientemente a cr/lica a este equi·
voco, num 11rtigo intitul11do "Vila Rica, Vila Pobre··: º'Uma das
pairanhas du nossa história, tal como usualmcn1e se coDla n11s es-
colas, é a da prc1cndida riqueza e a1é mesmo opulência das Minas
Gerais na época da 11.hundânciu do ouro. Em boa e pura verdade
nunca houve a 1i10 propalada riqueza. a não ~er no fantasia, ampli-
íicadora de escritores inclinados às hipérboles româmicas. ( ... )
A rcalid11dc fui hem divers11. Nem riqueza, nem grande1..as. Ape-
na~ o 11t111so econ6mico e II pobreza, como herança dum dcsvairo-
men10 íugaz, próprio de toda~ as Califórnias." ~1
Na sociedade mincradurH - como, de rCsl(), 11as oulras partes
da colônia - , eram privilcgü1dos os elementos que tivessem maior
número de escravo.~. M:•b da metade das lavras estavam concen-
trndas nas mi1n~ de mcno~ de 1/5 dos proprietários de negros; o
próprio crit(:rin de concc~são de datas assentava-se na quantidade
ele c:1livn~ po~~uído~, as maiores ei11cnsôes indo para as mãos dos
grnndc~ senhores. Para estes. o lui10 e a ostentação tllistiram de
foto - não como sintomas de irracionalidade. coníorme disseram
muito~. mas como sinal c:istimivo do J/Qlln social, como ins1ru-
mcn1n de dominação neces5,.irio à consolidação e manutenção do
m,mdo. Acumulação de cscrnvos e lullo aparecem, aqui. como ca-
raclcrísticas de uma sociedade escra\·ista especifica, própria ao
,1,1cm;1 colonial. e indicam o seu earâ1er extremamente restritivo".
l'ouc0i, foram, pois, nos Minas os grandes senhores de ~scravos e
lav,a~. Sílvio ele Vasconcello\ cita documen10 que calcula cm três
a midi,1 de escravos eles senhores ele Rio Acima, sendo que, dos
'JI, pruprietárius de Silo João elcl Rei, apenas 7 possuíam mais de
1~ negros"-'. A partir de dados como este, foram [ei1as inferêneias
,.,hrc u nrnior distribuição da riqueza na sociedade mineira, que,

li. l:duurdn l'rioiro... Vilo Rica. Vila Pobre"' in O Diabo "º l,/1•,aria
,1,, C ,;,,..~,, ,•r,,
e.,,,,., Go11:ana.> E nu,~o• tnmu mi,i~/rru. Belo Hori-
,..oi,·. l'l.~7. p. IM.
Nuu,,, 11rr.1~,iu rn.,i, ret:cnlc. Syhio de Vasconccllos. ""O ouro pro,;lomn
"'l'K., ..,. rlH" "' ,ni,,cratlore, cun1in11am pobre~:· - Mlllcir/Jndr, I::11í<1la dr
t "'"'''"'"im,. lkln llorizonlc. 1968. p. 30.
l! O ca1,il:ili,1:, ç,1,.,rimcnlado cunlrob o 5CU ronsumo r-,s,oal. Já
",,.,,,v"lu '"""""' div1tl.is crc.sccnlc,. tornom.Jo-s.: dcr,cndcntc do mercador-
"'"'·"'"~.,.. cn.i,v,.l:111do Jarnh (iorcndcr. E,a<1,·u1110 Cu/011fol. S Puulo.
1·,1H, •' ·•12 f c111 Genov.,..., 4110..., cnco111ra admirnvclmcnie formul3da a
1.,.,,,,,. ,t,, lu,o < du, ~""º' ,uniuários n:< 10,:inlaJc tKra~i,i:, palrla«:al
/,,.,,,,,..,., l'ol,t1<" ,/,· la e.,:/a,·1w<1. Had .• Bar,;,:lona. s.d .. pp, 24-2,
\ 1 ~ylvn, ,lc V~!ll:ODcCIIO!I. op. CÍI .. p. 61

27
por sua vez, seria mais democrática, Tentarei mosuar que as
co=sas se passaram de modo diíerente
Em análise recente, Wilson Cano u contestou com brilho a
associação entre a capacidade dinamizadora da economia mineira
e a sua alta produtividade. Diz o auior que. apesar de ter gerado
cíei1os produtivos na economia do sul e desenvolvido a urbanização,
o aparelho burocrático e o mifüar, o ouro não engendrou segmentos
produtivos ill loco, pois imponava-sc a maior p;,nc dos meios de
subsiscência e quase não havia prnt.luçâo interna ou retenção local
do c-:,;ccdente rroduzido. Por outro lado, a pequena necessidade
de maquinário condicionou o~ investimcn•os maciços cm mão-de-
obra, originando uma economia de densidade elevada na qual o
escravo, Ulilizado cm larga escala, reprcsen1ava grande porcentagem
de capital imobilizado. As relações entre os gastos com mão-de-
obra e o to1al de ouro produzido seriam do seguinte 1eor;
- lotai de ouro produzido . . . . . . . . . . 644,1 1./ouro
- gastos ouantiíicáveis com mão-de-obra 331.2 1.(ouro
- saldo e gaslos não quantificados . . . 312,9 1.(ouro
A produçilo bruui de ouro foi elevada. e Minas representou
70% da produção da colônia do século XVIII {ver tabelas, pp.
37-43); en1re1an10, o sistema colonial fez com que n fisco. a tribu-
lação sobre os escravos, o sistema monc1ário implantado e as im-
ponações - que se faziam pelo e:,;clusivo de con1ércio - con-
sumissem a sua maior pane. Deduzidos os gastos de compra e
manutenção da escravaria e os gastos não quantifü::íveis, o saldo
se tornava nega1ivo. Dado o bai;,;o nível da remia, poucos foram,
nestas condições, os que fizeram fortuna.
Conforme rareava o ouro, os mineradores se viam impossibili·
tados de suportar o ônus dos custos de manutenção da escravaria,
situação que o mínimo contingen1e de mão-dc-ubra voltada para a
subsinência não podia contornar~'. Máquina dispendiosa, com
pequena capacidade de produzir e:,;ccdente para sua reprodução, o
escravo ccnamentc niio seria capaz de engendrar o supere:,;cedente
necessário à compra de sua liberdade, o que implica uma revisão
das análises das alforrias empreendidas normalmente: estas não
leriam sido obtidas através de recompensas pagas a alguma gema
ou pepita gigantesca que os escravos cncon1rassem cven1Ualmcn1c
nas lavras, nem com o ouro que, ar1i(iciosamen1e, escondiam na

14. "Eeanomia do ooro em Minu Gerai! (ffl:ulo xvmr in Comrno


n. 0 },Sio Pulo. 1977, pp. 91-109.
35. Sc11undo os ,i!.kulos d~ W. Cano. 80% da poupulaÇlo s~ dcdiuvam
à mincraiãO, os 20~ rullmlcs não dando conle do ofer1a nllmentar.

28
carapinha ~n; ela foi, isso sim, a saída possível para os empreende·
dores. a maneira encontrada para conservar parte do antigo capital.
Assim, as alíorrias não se deveram à capacida(]e apresentada pela
escravaria cm comprar a própria iitx:rdade - o que só poderia
oc:orrer com a produçlin de um excedente - ; nãn foram, ponanto,
co11st1J1tidas ~los escravo~. e sim concedidas pelos senhores que,
com a decad!ncia d11s atividades mineradoras, pa~aram a ter nos
~aslos com a reprodução da íorça de trabalho um encargo pesado
demais. Como decorrência desse estado de coisas, "sucateava.se
compulsoriamente a 'máquina'!" ~7•
' Conclui-se que a economia mineira apresentava baixos nlvci.s
de re11da distrib11idos de 1m1a maneira mc11os desigual dn que no
caso dn açúcar ~8 • Mas se a sociedade mineira foi das mais atx:rtus
da cn16nia, essa aberiura teria se dado por baixo, pela falta - quase
ausência - do grande capiial e pelo seu haixo pode~ de concentração.
Daí o número de pequeno~ cmprcende<lorcs, doí o merca<.lo maior
constituído p,cln avultado número de homens livres - homens esses,
entretamo. 1lc haiw poder aquisitivo e pequena dimensão econômica.
Em ~uma, tevi111<.ln-~e adiamc essas considerações, a constituição de·

M. Elia 1~ ~ endossada, co1rc ou1ros. por Joio Camilo de O. Tor-


re•. op. cit .• e Eschwcae, Plu10 B1Qsi/ir11sls.
H. W, Cano,op.ci1 .• p, !O].
M:iuricio Gt>ulan cm A rscra,•idi,o no Brasil - O,u orlfll'1U d u1/..çdo do
1r1í/,ro. J.~ cd., S. Paulo, 1975, aprcscnlD inlCl'l'~lac;ão convcrgcnlc ~ de
f':1110: "A medida que pe=e a empresa, aumcnu1 o número de lihcnos;
jt, thes vimos a,i pomm1BíODll surpreenden1es sobre II pgpulaçii.o, a par1ir
,lo 1786. Seriam a con!ICqüfnçia de pr,;,blcmas intirnos. de rcm°"°" de
t',l11nm hor.i. de pavor do inferno como cu1i,o da carne. Miu, tamboém
"oram do si!unçfto financeira: vuleria mnis nlforriar os cotivos que susten-
!6·1os A Cllplicaçio scnlhncn!nl, docorrcnlc das concubinagcns, calh bem
~""' os mula1os; pode chcsar ~m diswnln,cia até a, neara,; nio uplica,
11orcrn. n magnan•midadc par., com 09 ~linlos. Almle-sc. além disso, no
n11n,rru de forros cm 1739 e 1786; lá, n siluaçiío próspern, mal poS'Savam
,10 l,2'ê wbrc a c:1e:rovaria; eram nioro, nn YllZlln!C, maia de 35%. Niio
111ouori:u11 ,upcr,tieio<os lquclc tempo, ~riam menos relas u eonscio!ncias,
"" 111rnor o medo? Nada diw.. Apena• . .,. ac:crio, de contas eram mais
"""'"""· (inando prole ferio, u concuphcência fora fon1c de pecllnia: e
"'""'''" ,o,~alnr pc,:ndo, 011 mr~liço, chc~n•n n custar }00 oilnvu por arre•
l'""'hnm110, os acordo, com o céu deviam l""rcccr rneno:, urgcnlC'!." p. 169.
IN ' n economia do mincraçio, muito embora tenha ap~s.=nlado
""' 1•crf,I dis,ribo1iwo mrnrn <1e,i~1ml d11 renda, lal disiribuiçlo, ne realidade,
lru, """'" 111111• u ver com um,, t10,1rihu,~·:",o de b11ixos nlvcis de rcntla do
'li" ,Ir n,vc" nu'doo, nu de ol1n, rendi". f'nmo ,-crtomentc operou a CUSIO:I
,,1, ,.,,,,.. prm·nvdmcnlc ,.,u, 11,11r11rn, de lucro eram bai~as para .,. n,,:dia-
'"""rnlo 1.,-,,.,m,dulo,, ª'""· I'"'" '" pomo bcm-aforiunudos, isto ~. para
.,,,uolo ,Ir mnlm IIOll<i m• cnl'IIIIIIO do minério, e lnfimns. e até me:imo ne1a-
1i.a,, 1111111 111u1lm, 1•a1u o, 111111,,11,ahJo," W. Cano, op. cl1 .• pp. \Oj-106.

29
mocrática da socie<lade mineira poderia se reduzir numa exprc!.!l!o:
um maior número de pessoas dividiam a pobreza
"Copiosas de ouro para os desejos da cobiça", <lodivos11s cm ri·
quezas, proporcionando a "felicidade da íor1una·· e ..afluência do
ouro·· a quem a elas recorresse, heis como o Tri11nfo E11c·oríslico
descreve as terras do ouro. Nelas os hnmcn~ \'iviam ··com as
abundâncias do our..i··: "os de Ponugal pelo cornér,.;io participantes.
os da América neste Brasil do manancial pos~uidorcs: uns e ou1ros
?(!r:suadidos, que depois das anligas, e sempre ~uccs~ivas glória~ mi-
litares, começavam II conrnr séculos de riquezas"·'".
As opulenias Minas haviam sido agraciadas com ··1esouro de
riquezas as mais íinas" 11'. n111s os habitantes do Tijucn 11s viam, cm
1738. com olhos diícrcn1cs: impedidos pela administração dii1man-
1ina de minerarem ouro, achavam-se "arruinados e perdidos": arcados
sob o peso de "grandes prejuízos e ruínas''. começaram a de~enar
para as capitanias vizinho~. Muitos outros acabariam seguindo este
exemplo, e. concluíam os autores de uma súplica dirigida a D. João V.
"'es1a comarca, que era uma das mais abundantes e ricas, ficará re-
duzida a miserável estadoº'll.
<Alusões à pobreza, à rui na. ao abandono a que ficavam rele-
gadas as populações mineradoras rcrrcscntam a iónica dominante
dos documemos do s.!culo XVIII mineiro. sejam eles oíiciais ou não.
Os dois leli:tos que descrevem 11s íestns harrocas arircscntmn-sc. por-
tanto, como ex1ren111meme destu1mtcs no concerto ger11l: quase que
se poderia dizer constituírem os únicos registros que ía1.cm menção
à riqueza e à opulfocia. Mais um motivo, pois. rara ~e acrcdi1ar
na i1wersão ,deofógic·ll operada atravl!s da visão que as festividades
conferiam à sociedade. Sendo, como já ficou dito acima. meca-
nismo de reforço, invcrüo e neutralização, a festa servia admiravel-
mente à perpetuação de um estado de coisas que int, r~ssava tanto
ao lado mctropolilano quanto à ~cicdadc escravista .:olonial; em
um e outro, é o mando que se legitima, igualando a, diferenças e.
ao mesmo tempo, a~-cmuando-as; é o poder que se faz autêntico
por conferir um espaço à~ populações pobres - o mulato, u gentio
da terra - e, simultaneamente, mamê-las a uma db1fmci11 respeitosa
que a pompa ajuda a delimitar.,1
Tendo sido um dos temas preferidos pelos homens 1la époc11. é
curioso que a pobreza mineira transparecesse tiiu pouco na histo-

H. Cf. "Prb-ia alocuiória" ao Triunfo E:u,arwico, pp. 1~-20.


40. ,forro Trono E:piscopn/, p. 184.
41. Súpli,n do, hbi1an1e, do Tiiueo diritida a D. Joi\o V. ap"d Jo~-
quim Feli,;io dl?'I ~nro,,, Mm,órias do Distrito Dionionl/'!º· J.• cd,, Rm.
1956; 111 pasi.aRCRS ,;nadas o,;hum•sc rc.,p1:,;1ivamcnlc nus pál'n.lS 7S, 76 e 78.

30
riografia, onde sempre foi cscamolcada e subs111Uida pelo lema da
decadência, território vago que, na maior parte das vezes, apare~
como definido na década de 70. 1763 foi o ano cm que a cote
anual das cem arrobes pôde ser preenchida pela última vez, mas
iudo indica que a decadência vinha de an1es, coníorme se infere da
preocupação de D. Frei Manuel da Cruz ..-m esconder a data de sua
chegoda a Mariana. Mais freqüenle 08 medida em que avançava o
século e a escassez passava a ser flagrante, o 1ema da opulência
surge como rdcrido a uma épcca remota, Idade de Ouro idealizada e
posta a perder devido à incúria dos mineiros.
Conforme já se disse, o período compreendido en1re 1733 e
17411 corres[)ôndeu ao apogeu da economia do ouro em Minas Gerais.
O Conde das Galvêas e Maninho de Mendonço de Pina e de Proença
- este, funcionário da Coroa que, de 1736 a 1737, eJ1erceu interi-
namente a governança - receberam da Metrópole ordens expressas
para instalar nas Minas ;1 ç;1pitnção e u censo das indústrias devido
à "crescente prospcrid11dc das mina~ e a generalização escandalosa
dos e,:1ravlos" ,.,. Ao norneur. em 1735, Gomes Freire t.le Andrada
paru o i;ovcrno das Mirrns, a Metrópole tinha em menle 111010 o
incrcmen10 du dclc~;1 do Sul - pura o que o governante escolhido
aprc~l·ntava qualidades de ~ohra - como o estabelecimenlo de um
s1s1ema fiscal que favorcce~se ma,s in1ensamen1e a Coroa, contando
em amhos os çasos com a íirmc1.a e a autoridade do íurnro Bobadela.
Nu dizer de Afíonso Avila, ussim como D. João V íoi o rei dn
euforia do nuro. íoi o Conde das Galvêas ··o cmhai,iador de sua
rmmpH" '·'. A demarcação do Distrito Diamantino e a criação da
l111c11dênda 1los Diamantes ocorrerem cm seu governo, mas há quem
Ji'• WIH decadência nc,~a érmca. o período áureo sendo idemificado a
11111 lllllllll'lllo mllnmr: "'\'cm o Sr. D. Llmrenço t.lc Almeida, que
1111 " 11·1111•11 111111, fclr, ,1uc tivcmrn a~ Minas, porque ~-orria o ouro
~111,,..,1111m. 111111111 111,,..•,la e tlohrüc, de ouro e mui1a praia e cobre;
uui., 11111\• ,1,. 1111111111~·11 vc111 ;1 1t11111cnrn: porque veio o Sr. Conde
d,., llalvf,1• '' '' J,11c Jo1111u11n lia Rocha partilha da mesma
"1'1111,1u. <illl'lltlo <IUl', 1cmlo <i.,lvê," ~ido encarregado pelo rei de
,,,1,1111·1,·,,·, 11 ,111•11;,~111,, ,u,., u lct ''por ver n (.kcadência cm que
"' ,1,lrn1n 1,1 ., ,·,11111m11H •1uc lhe 101 coníc1id.i 1mm governar"••

1' 1),.,,,. ,k V,'"""'dl.,, llnt""" M(,lw ,/~ Mi,u,, G~ra/1, Belo Ho,
'""'"' 1•,17 p 1,1
11 11 /,j,/1,,. ,· '" l""''I'"' ,lo""'""" /,,,rrocu. pp. 20,.206.
M < '"""' Co,1o, M,,u,"'· :,1,i1tJ W,oldemm de Alrncida Burbo!ia, ffi•-
,, ,,,, d, MI""'· ,·ui 1. lkk, Huri1.0n1e. 1\179, p. 151
1, '""' J,,1111111111 d., l(ocha "Mcmório d3 Capil4nia de Mina, Gerais-.
1111',I/ "'I ll,r -4K6

31
Na ·'Instrução" do desembargador Teixeira Coelho a periodização
da decadência aparece ligeiramente alterada: "Este sovemador
(Galvêas) tinha um grande talemo, e luzes superiores: íoi pruden-
tíssimo, c nunca seguiu a péssima conduta de fazer avullar os seus
serviços à custa de lágrimas, e da substância dos povos. (invernou
pouco lempo, mas com aceno; e os n1esmns povos lamcniaram a
sua retirada, que fi.:tort 1.1 fpac1.1 da r11í1,a de Minas" •6. André de
Mcllo e Caslro, Conde das GaM:as, deixou o governo das Minas
em 1736 para ser vice-rei do Brasil.
Até aqui, (icou dito que, para os homens do século XVIII, a
percepção da de_cad!ncia se apresentava v11ga e a1eo1poro.l - espécie
de consciência difusa e carente de contornos-, e que se opunha
diametralmente a uma opulência mítica e igualmente desprovida de
limites cronológicos. Como contrapanida desta imprecisão. n luxo
das fcslas barrocas e a quantidade de ouro arrecadada pelos quintos
são dados concretos. Foi no ano de 1725 que o quinto ultrapassou,
em Minas Gerais. os mil quilos, mas o pico absoluto íoi nlcançado
no perfodo que vai de 17]7 11 1746, quando apenas uma vez - cm
1744, ou seja, um ano antes da designação de D. Frei Manuel
da Cruz para o bispado de Mariana - a produção não alcançou a
casa dos 1.900 quilos 11 .
Feitas essas considerações, qual seria o signi(icado profundo da
noção de decad&ncia conforme aparece nos textos do século XVIII?
Analisando as considerações acima citadas. vê-se que no
documento do códice Costa Matoso o período do Conde das Galvêas
aparece como tormentoso. adjetivo que, obviamente. não pode se
referir à ía\111 de ouro, pois 1733 é o ano da grande subida na
arrecadação do metal (ver iabelas). A tormenta poderia ser, por
outro lado, a constante ameaça do estabelecimento da capitaçi'io re-
presentada pela figura do Conde, pois que com esse intento a Coroa
o dcsignare pare o governo das Minas. Mais ainda: tonnentosa
seria, pare o minerador ou garimpeiro do Distrito Diamantino, a
proibição imposta cm t 734 pela Coroa sobre a exuação de ouro e
diamantes na Demarcação - proibição essa intentada com vistas a
impedir, nnte o excessivo anuxo de pedras. a queda dos preços no
mercado internacional.

46. J. J.TcixeiraCoclho.·'Jnstruçõe:i.paraosovcrnoda capi1aniade


Minllll Gerais", RAPM, vol. VIII, p. 473. O pifo i meu.
47. Ver nas !abclas (pp, 43·50 d~tc 1rabalho) qllC o pcríOOo de 17))
a 1750 representa o ápice dn produçio du Minas Gerais. No cômputo
gC'l'al, 1750.17,~ rcprcscniario o período d.e maior produção devido no ouro
soiano. O, dados e tQbclas sio de Virsílio Noya Pinto, O 011ro bra. dltiro
to com;,c;o a11gl<>por/11g11ês, S. Pnulo, 1979, pp. 71-75.

32
Já Teixeira Coelho louva a pr~dlnôa do conde, prudeneia esso.
que deve ser creditada à sua a1uaçi!.o no episódio do es1abelecimen10
da capi1ação. De fato, o governan1e, uma vez sondadas as opiniões
dos homens bons, julgou desacertada a medida c inadequado o sis-
1ema de uibutação O , o que comunicou à Coroa. Não procurou
se enal!ecer às custas da taxação ex!on;.iva, é is10 que quer dizer o
lkscmbargador da Relação do Pono. Sua retirada marcou "a época
da ruína de Minas" porque veio Gomes Freire e estabeleceu a
odinda capitação.
A decadência assume agora feição 101almente nova, não mais
rdc, ida ao decréscimo da produção, mas ao ô11us crescente do 1ri-
lmt,1r,i<1 whrc o.r mi11eiros. Conforme aumentava a produção, mais
lucro a Coroa rrocurava eurair do negócio, e mais violen10 se
toni:1v11 o sistema füco.1. A Coroa enriquecia, mas o mineiro fi-
c11v11 rmhre.
l(t-~tu ver 11 1111111cirn pcl11 qm1I a perceçiio da decadencia/pobreza
lilr111l1111vumcn1c cc1lcu lugur /1 cons1111m;ão. por parte dos homens da
Ól)Ol'a, 110• nuuivos c1uc u engendravam.
lk'1dc cedo 1c firmou u imo.gcm de que o ouro, metal nobre
1
ri:::1,::~i;:, 1~::~in,ct;,:~;rc~·ii~ io~;~:!q~e,:~e~:~i:d~!::i~!~~~:~t;~
1w1, •r 111cl11 "c11111111rn para se julgarem estas minas as mais pobres, e
dr~1111u,ml11~ du~ 11uc vivem cm sociedade", "não~ fácil afirmar delas
0111• , "'ll"cllo·· porque II aparência - o luxo, a ostentação - encobre
11 '''""111"111, 11 pohrczu que está por irás da "falsa reputação" e do
··111!•" hdlluuuc"• 0
1"111 1704, D Alvnro dn Silveira de Albuquerque - então go-
~1·1111111..r cl11 lllo. Sno Pnulo e Minas - escreveu ao governador-geral
111m11111ulu t'Xl11'11u1 cnn1rnrictl11dc ante a multidão de genle que
111111111 p11111 11~ Mina~. e dcs11hníando: "Estar minar perdem rodo
"''' li.mi/, ,, hui, 11111i111 í1111 11uc Deus acabara, e se fosse no nosso
trinl'", lirnilnmm c,1c rc,tnntc que nos (alta com mais algum
'""'''M"" "'' Autouil uimhém ressaltaria o aspecto negativo das mi-
1~ o rpi.6tUo é norrado. cnlre ou1ro,, pelo dcscmbarpdor Teixeira
,,,,11, .. "'' ,11..,, 472.
~·1 1'"""11º'" da Represen1ação cilada na epigrafe deste capitulo, RAPM,
... 1 1' I~"/
,11 "C'a,111 ,le n. Alvnro da Silveira de Albuquerque ao goven1ador-
.,,,,.1 ,lo ht11,1u ,ro Dnu1I sobre MJCorros para o Rio de Janeiro e para a
, ,,1~,,.,. ,lo Snnomcnlo e sDbre o ruffl pan as Mina,n - S-V-1704 - DI,
,,.1 'I. 1~m. p. 241. o, arifo, 5Ao todos meus.
1t1,1 .. 1mndo o nnuxo de penle à, Minas. diz o Pe. Manuel da Fonsoeça:
'""' n fnmn tio ouro linho concorrido llDto povo, Dlo só de Sio Paulo
• ,1, i.~111 o Druil, mos pa!.1ando além do mar I noticia de 1&, ptrnlcioso

33
oas, prenunciando a fisiocracia: " ... e depois de descobenas as
minas de ouro, que serviram para enriquecer a poucos e para destruir
o muitos, sendo as melhores minas do Brasil os canaviais e as ma·
lhadas, em que se planta o tabaco" 31 •
Em meados do século, Ale,;andrc de Gusmão apontava o
engodo das minas, recriminando Ponugal UC "correr ignorantemente
em seguimento da riqueza in1t1ginária das Minas de ouro, que nos
tem arruinado e empobrecido, quando nos pareceu encontrarmos aí
toda a nossa (ortuna" ~. Nota-se cm todos estes textos a pri:o-
cupação com os males que o "pernicioso metal" acarretava para
a Mc1rópole e, secundariamente, para a sua colônia: " ... as Minas
são a ruína de Portugal, e o ouro a perdição <las Minas", obscr·
vava o amor anônimo do Roteiro do Moro11/rõo. hierarquizando os
danos e, ao mesmo tempo, atrelando Melrópole e colônia na des--
grai.a comum :.3, Uma e outra se prejudicavam com o engodo do
ouroat.

mc,a/, .\e abalaram tamMm os europeu, ... n Manuel da Fonsca - Ili.da


do vmrrdvr/ Pc- Brld,ior dr Pontrs da Companhia dt Jesus.. (17'2).
S. Paulo. s-d-, p. 204. O grifo ~ meu
51.
52.
Culmro t opu/!ncla .. . , p. 227. O grifo t
Apud Vitorino Mngelhic5 Godinho, op. ci1., p.
=- LSI. O grifo 4

S). ·Roteiro do M•n,.nhão a Goi.b P=la O,pit•nia de Piaur• - R.IHGB.


LXII, 1, p. 116.
Sc1111ndo Godinho, • nobrua melropolilnno de então se P=rdia em "facili-
dades il'Tdlpon.s:iwi.,n que lhe emp~av• o ouro e que a,;abara ,;ontaminan-
do lodo o povo de L.i1boa, para onde u "fal"°' pr<ll!peridadC1 doowo"
alralam ch.u!llll&s de maraJnai.s. - Godinho, op. cit.
54. A dupla fac.e do ouro transpare,:e em um ditado que Di090 de
Vuconcellos cila na 11.111. HlsJór/a Mldta: uno Toca111in1 e nos Crich.b, di·
ÚO·!C que a riqueza vinh.a em um nno, e o morie em -,ia mese1." - p 153.
O tema do foi.o i' pock ser dete.:111110 na hUtória lendiria de Fernão
Dia, Pais, que ,..,.iu par~ o sertin em blJSQ de eameraldas e mcontrou pedras
verde3 sem valor, mor"ndo na iludo de ler de!l(Obcrto as fomosaa pedras
P"cio,as, Carlos Drummond de Andrade tem urna pa!l!.Bjem alw.iva a e.ue
respeito:
uE III emcruldu.,
Min1111, que mntnvam
deciperan,;:;icfebrc
e nunea se achavam
e quando K achavam
eram verde ena•no?"
{- ll.1 lmpurtvudo lmurco, p. 109)
C<>mcntnndo o pobrezn da capt1ania de Silo Paulo, dizia o Morgado de
M~•~u, ''" futuro Pomb.,.I· " ... M:nclo a riqueza. do ouro que aqui ficou urna
r,r.d,11,.1, tran1il<'irin para aq..:le, em cujas ml<II! CSU.YI., pois não podia
fi~~!~":i;~111:t:,...,~;~,~!~.i;:C ~.':..,:"vcezm:;,e.:a:i
,1, l.l•Vlll-11111, ti/ I.XXII, l'J12, p 71
:ó::ed::.~ . ~~i~:~::
34
A percepção inicial de que a Metrópole se prejudicava pen-
sando se beneficiar desdobra;e no desvelamcn10 gradativo da ver-
dadeira natureza da economia mineradora e na conscientização do
estado de pobreza da capi1ania das Minas, que passa a ser o foco
princip11l das a1ençõcs. ' Pressionado, 1alvcz, pelo Morgado de Ma-
teus, então governador de São Paulo e ocupado cm lcvan1ar dinheiro
e tropas para as guerras do Sul, Luís Diogo Lobo da Silva revela
ao colega de cargo a "palheta dourada" que lodos acreditavam
"ouro maciço"; "O conceito, que a V. Exa. deve esta capitania a
rcs[Jeilo da opulência, que lhe considera, é igual ao qüe dela fa.
1.cn1os 11a Europa, e lhe julgam todos os habitadores dos GovcmO'>
do América ( . . ) . Porém logo que se conhecem a fundamen10, e
sccnlrn 11a substancial inteligência da qualidade destas, sua subs1lncia,
romm Uc que dependem, e es1ado atual a que tem chegado, refle-
1intlu ,rn preguiça dos seus habitantes, se vo! com evidência o quanto
,, d,J,·r,•me a realidade, da opinião geral, que logra da riqueza, que
1111., rms.mt' m1. Assim, paradoxalmente, a famosa capitania seria
nu rcalidaUe ·'uma das capitanias mais pobres, que tem a América", o
11uc ,e devia em gra!Kle pane à diminuição dos jornais e ao des--
r1ruo pela agricuhura, manuía1uras e criação de gado. O molivo
1111c kvu a esse desprezo não é, en1rc1an10, abordado.
11nm vez detectada a pobreza e en1endidas as Minas como
n uu l'cnário, elabora-se a fonnulaçio de que o fausto é falso, de
1111r 1, muurcza <lo ouro é intrinsecamente enganadora. Porém, con-
rm111l· ,e cnnfigurn a franca decad8ncia das Minas, começa a surgir
11 11r1·l·,~nlmlc de c:iiplicar esse estado de çoisas e justiíicar a pobreza.
l'11,1r ,e cr111lo porn uma série de racionalizações que, apesar de mais
l'l11hnr ml11\, rcsvnlom no problema sem dar conta da sua vcrda-
,1~11 n n111urez11.
Num 11rlmdrn uivei - o mais elementar de todos - , surge
11 ,·~1•1lt11~nu 1k ,1uc ni\n h(1 riqucz:, Uevido ao e:iilravio e ao con-
l111h1m1lt1 li,• foto, 1111111 indic.i que este e;,;:istiu durante todo o
1w11o~1,, 111111r1,ul,,1. 1·,111,1,1uir,do-sc cm preocupação central das auto-
1!1l11il,•1 .,,1unuil~ A~ medidas con1ra o c:i11ravio e os extraviadores
111l11Ml111111 h1lc11hiclndc m(1ximu no Distrito Diamantino, onde as penas
, ,1111111 ,•,11· ni111c l'rnm violentíssimas e abrangiam uma gama de
1·1111,1,.,,., ,111r III de~dc .i prisiio até o degredo e a mane civil MI_
111111"'' 1'01k1<1'0~ chcgarnm u se envolver nessa atividade ilfci1a,
,,,,,,., 1<·1111 11co111cc1do com o Padre Rolim e a família Vieira
1·,u11,,'"
IS ('uw, de \I-JV,176(,, f)/_ vol. 14, 189S, p. 177. O grifo f meu.
li, ""li"'º
I'·"º ...:rà 1ra1atlo wm m:ii, wpr no capflUIO J,
11 A ollMf'Slllo é de Mowcll, que a.ponll llll!l~m a passive] pa.nici-
l'"~fto <101 nllm funçionârios wloniais no nes,1,çio. Conivente ou alo, o

35
A elCplicação da dc:cad~ncia pelo extravio se articulou basica-
mente do lado do poder: são os bandos, são os governantes, 6, mais
do que ningu6m, Maninho de Mel1o e Castro, o ministro de
D. Maria 1, para quem as "fraudes" conslituíam as causas principais.
Sobre esie ccneza se asseniou a sua Insirução Polllica para o Vis-
conde de Barbacena datada de 1788. 1': necessário atentar para o
fato de, nes1a concepção. riqueza se identificar com rendimenw d~
quot~ do ouro, o que explica o ãngulo privilegiado; é a riqueza da
Metrópole que CQntinua em questão""·
A partir dos estudos cientíricos levados a cabo pelos membros
da Academia de Ciências de Lisboa - entre os quais, D. Rodrigo
de Sousa Coutinho - , o extravio deixa de ser a explicação pre-
ferida e as atenções se vollam para a inadequação dos métodos uti-
lizados na e111ração do metal. Galga-se assim um segundo patamar
na tentativa de compreensão do problema.
Em 179I, a Junta da Fazenda opinava sobre o estado da
capitanie e o decréscimo da arrecadação do ouro, traçando o perfil
do que fora, por lodos equeles anos, o procedimento adotado; apro-
veitamento do ouro aluviona! e de fácil extração; " ... foi naquele
tempo de abundAncia, e quando a extração do mesmo uuro era
mais fdcil e menos dispendiosa; pois que achava junt.1 nos córregos
aonde estava como dep0sitado pelo decurso de lo11gos anos pelas
enxurradas que colidianamente a conduzia dos morros: hoje pon!m
se acha somente no centro dos ditos morros dificultosos de se la-
varem, não só pela sua si1uação, e falta de águas, co'llo l)Clas poucas
forças dos mineiros ... " 119 •
Ume vez e,uraído o metal de aluvifo, os vceiros de grupinra ·
ou mei&-encosta, os de galeria, enfim, 0" -1ue edenlravom pela terra
ep~sentavam extT11çllo mais difícil, para a qual a técnica rudimcn1ar
dos mineiros das Gerais era bes1an1e inadequada. Den1rc as me-
mórias que es1udaT11m o problema e se inserem no clima de re-
próprio desembargador Oonzaga 1erla dia111an1es cm ,un cn!n: se o moai,-
lndo nlo exercia o ilkito wm&'cio, pesso115 chegada, a ele a rninm, n
,{ d~v,un do de111US11, 1rad.. Rio, 1977. PI'· 121-122 .
.S8. •· ... dunmle meio !kulo cm que o rendimento balwu om MlnH
Ocrais ( ... ) de 118 arrobas crn 17j4. mhimo pcrçe~ido, par A \1 11f"'PH,
cutarncnlc 50 amr, dcpoi!, nlio o,;orrcu sequer urn1 ,6 v,1. h ,uhnlnl•trnçlo
outl"D. c~plicaçlo que a rrnude:' Caio Prftdo Jr.. f//mJ,/u /fro,ulmlrn ,/.,
Brm/1. 11.• ctl .. S. Pn11lo, 1969, p. í,I. 01 tln!lo~ do ('11lu 1'rn,to J, o~o
mo pn1eçcm corrclm: nolo <111e o nutor lnma 11 pn11l11,ao rrit,rf ,ln rolll11la
f"'la 1uoil11,ao ,ln, Mlnn, flNnl,, m11lo u nnu ,lo 111nl11, n11~,-,l•1iA11 h•I ,,
"" 171R
1 11
HI I l1 U,• i.",';•;, ,1•::: ·,,:·~,.~~
11
l.';:·:·,~lo ~ 11,::·:··~:~ .. :•:,·~:~,, ''~I" ":;.::::, .. ' :I,, ~,1111,:•,
1

lf~/·~1 ,,.1 VI, 111111 1• 1117


formismo ilustrado vigen1e na Metrópole a panir da década de
90 '°,
tem-se a de Ferreira Cimara e as de Vieira Couto. Este,
na sua primeira memória - a de 1799 - fala da necessidade da
metalurgia do ferro na mineração.
Mas é em Eschwege, anos depois, que o problema aparece
clarameme formulado. Segundo o mineralogista alemão, a pobreza
dominava inúmeros arraiais auríferos: ''Se se pergunta, nesses lu-
gares, sobre a causa dessa decadência, obtém-se como respos1a ter
sido a escassez do ouro que impeliu uma pane da população a
deixar o local e outra a cair na miséria, pelo abandono dos ser-
viçm de mineração. O observador superficial aceitará expli-
ccu;110 como verdadeira, e, propagando-a, dará uma idéia falsa sobre
=
11111 dos assuntos económicos de maior impon.flncia para a capitania
de Minas""'. A regiiío continuava rica nas profundezas, prossegue
1:.Kchwcgc, e a[)Cnas a riqueza superficial havia sido explorada: mas
1•10 11110 sabiam os mineiros, pois eram ignorantes em matéria de
uunnaçiln e adotavam os métodos os "mais inoponunos" or.:_
Em 1813, o Conde da Palma também acusava com clareza os
1111111vo, d;1 decadência: "erram todos aqueles" que não apontarem
11• ,lll1n1ldudcs dos 1rabalhos da mineração, advindas ou da "pro-
run,1hlmk. cm que se acham as formações do ouro com os entulhos
,,,11hlo1 de oum1s lavras indiretamente trabalhadas, ou pela riqueza
1• .,1i,1t,rntu~ que !õC cnconlram nas monianhas, por onde a1ravessam
"' w,·1w~. e cm que existem as matrizes, as quais não (; possível
,l1·,.11h11r ~cm grnndc risco das fábricas e sem muita perda de ser-
11,,,. 11rl11 flllihifü.lutlc tlos rcsultados"t.:1.
111'1 111rm()ri11\ e documcn1os da (;peca onde a conlcs1ação do
1,1111•·1" ,·u1110 l'11lcgori;1 cxplicn1iva da decadência aparece associada
~ 1,11111 ,Ir hra','u~: u~sim cm Eschwcgc, assim no Conde da Palma.

N11111 11'!1 ,•ir" uivei cllplic11tivo, surge a id(;ia de que a mine-


'"ln",. 1111-.\1111 po1quc, na rculidndc. n/lo é lrobolho. E.~le, por sua
,1, 1••11!11111111 ,,. 1l1u11111c11lc ~·,11110/JTtll!" /Jí/Jlin1: penoso, demorado,
11111, li ,· 1""''11 1 ,1,. 11r~c,~órm p;ir11 11 nh1cnçiio final da felicidade;

, 1 •· ln,011,11,n 1111,111,,t,. ~ r,111110,lu nu hv,o ,lc l'ernantlo A. Nc-


1, .,,.,1,. ~,, .. ,.,11 101111,~m .. 111,lu " 1,rnhlrm11 e,n "'llle 9en,,m1ion oí
, '"' """' 11,., l,t.,,. nl 111,111 ... 11110111 ,mpl1e", UI l),,unl Aldcn. ('<>/m1fo/
, 11,,,/,," """º 11., 1,1,~. 1'' / 1, 1111 107 144
1 ,1,.,.,. ,,,,.,,. ''""'"""" t,o,t." r•oulo, l'.144, rr 2-11.n
, • 1 i.1;1" ,1, ,1,111•/N 11,u , •1111111~, 111.,r111ulo, 11Jur,r nnu "'"'"'I"'"
, , . .11,l,1,I• ,,,.1, '"'""11n 4 ,lo 1'1,uln 1,, 11ftu rrtl~m,,. i,~h,u ,'1ot,lir,
1 ,.,,,,,,,1.,/1.,1,1/ 11 A!I
, 1•;;,'"''"1~,.,1,, ,1,, l ,,1.,t, ,1., l'nlm, 1~10 t•l•I" N 1/'A/, .,11
.. uma riqueza achoda de repenle, e com facilidade, nlo nascida da
indúslria, ou de trabalho", será sempre perniciosa 114.
Sendo alividade extrativa, o ouro sempn: acaba, não é eterno 811 ,
mas 11fmi os homens devido ao seu "cará1er mais imediato, e de
primeira espécie""'· Ninguém precisa encorajar os homens para
a a1ividade mineradora, pois "o natural instinto, de que nos dotou
a natureza, de caminhannos sempre pelo caminho mais curto à nossa
felicidade, fará que bajam sempre muitos mineiros··"'· Mas há
que ter muito cuidado, Pois nem sempre o caminho mais curto é
o que, a longo prazo, lraz a felicidade: na verdade, o ouro é riq111m1
aparenle, "que não indo de par com as reais, desaparece de
súbito"""· Is10 não impediu que o Estado português descurasse da
agricultura e se voltasse exclusivamente para a mineração, con1inua
o mineralogista do Tijuco; urge, pois, que se res1aure aquela que ,
a verdadeira riqueza, a "que nos oferece a m11dre terra lodos os
anos, em sua renovada supertlcie"" e que, paro florescer, não
precisa quebrar os montes nem revolver e arrancar as entranh11s que
a geraram. Mas fica uma pergunla no 11r: "Donde vem til.o fatal
inércia? Donde tanta indiferença para a cul1ura de gêneros que
cada um deles poderia faur a felicid11de de muita gente?"
O reformismo ilustrado ponuguês caracterizou-se também por
um revivescer fisiocrático, a "imaginária riqueza das minas" pas-
sando a ser encarada como um mal e a agricultura assumindo a

64. Ra.,Dio Teiui1'11 de Sa\'Wra, Mfnfomu,çJo da eapi1ania de MilllL!I


Gerais" - IIIOB - RAPM, vol. li, 1897, p. 674.
No wmcço do ~ulo pusa.do. Mawc se ucandalizaYa com a popuh,ção
mini,ira e formulaYa sua opinilo: ''A cducaçlo. h'bi1a,, praonceilOI hcredi-
1,riOI os 1om1m inap101 para I vida 11JY11: sempre enln,BIK'S • pe~1iY11
~ enrique,;.er subi11menle, imaainam estar iseoios d1 lei univenal da na-
iureza, que ohrip o homem I ganhar o pilo CDm o suor do S!:U rosto.~ Vlo-
,:ms ao imerlor do Brasil - pr/neipalmeme aos D/Jlrltos do Ouro e Dio-
""""rs. lrad., Rio, 1944, p. 177.
6,. Esia id!ia ac:ha·sc presente na "Mcinória sobre a u1ilidade píiblica
rm,.. cur.i.ir o ouro das Minas e OI moiivo:s dos poucus intcresli:3 que fa-
""' "' rarliculuu, que mineram igualmente no Bruil", de Antonio Pires
•1• Silvi, l',mlc, 1.cmc - RAPM, ~oi. 1, 1896, pp. 417-.426.
M, "l'~r•m•~·no do AOYcrnador D. RodriJo Jos! de Mcnc~ !Obre o
,,.,.,1,. ,Ir ,lr<11,lt\1l(1u d11 rnpilnnia de Minas GN"ais e meios de remediá-lo"
11.0',\f "'Ili, IH'l7. r. 317.
~7 1 Vlrh• C',u,c.,, "Mcmllri~ sobre u Minas da capilania de Minas
11••~1• ~ ... , ,1, ... ,1~t.r,, """'""• e domicilio próprio A maneira de i1inc-
,61I"" 11101 /IA/'Af, vul X, l')(l,. p. 84.
ôM hl~UI, hle111, 11. MI
MI hle,n, hl,rn

38
feição de verdadeira. riqueza ro. Na "Memória" dalada de 1798,
José Elói Ouoni comparava sua época com a ".!poca ven1urosa" de
D. Manuel: "Donde se deve concluir que infelizmenlc para o nosso
Portugal se descobriram as Minas; pois que nos Cizeram desprezar
as verdadeiras riquezas da Agricultura para corrermos cansados após
um !anlasma de riquezas imaginárias." n O "Discurso sobre o es1ado
atual das Minas do Brasil"', de Azeredo Coutinho, 1ambém se atrela
a essa linha explicativa. Cavar ouro significava então cavar a própria
ruína, pois já não se viviam mais os tempos do bullionismo, e a
In~latcrra, onde em 1776 Adam Smith publicara a Rique!.,(J das
N11ç,it•,r, estava cm franca fase de revolução industrial. Na obra do
hispo-cconomista. mais do que em qualquer outra, plan1ar surge
como sinônimo de trabnlho, enquanto minerar significa jogo e aven-
1uru; o agricultor, com o trabalho eon1[nuo e a utilização de má-
cruinas, aumenta a sua riqueza c a da nação: "Não é assim a
rc,pci10 do mineiro: a maior e:uração do ouro não depende do seu
hrm,'u, depende do acaso, e mui111s vezes o que menos trabalha é
o 1111c descobre um tesouro mais rico":~. Riqueza "casual", "va-
n:ivcl" e "caprichosa", o ouro transferia essas virtualidades para
o mineiro e para a nação minera<.lora, assim 1ornada "inconstante":
"lJnw nação sensata não deve imitar os desvarios de um jogador,
,leve c,tahelccer-se sobre bases mais sólidas e mais permanentes" 7~.
F,111, sào as proporcionadas pela agricultura, riqueza verdadeira,
cn11u1111to o ouro não passa de mera represemaçiio da riqueza.
Muitas vezes pertinentes, estas [ormulaçõcs não chegaram ao
l'C1nc e.lo problema, apesar de, uma vez ou oulra, terem nele res-
v11l:illo, Confonne vislumbrara II câmara de Vila Rica em 1751,
111111 hnvi:i na colônia gênero algum que safsse "para fora mais do
,111c o ouro" 71 , e este, uma vez em Ponugal, logo passava para
'" r1ai~s mais adianta<.los <.la Europa, pagando as jmponações do

l~:;'. q~~:~:o;~s:~:!ª~~::e~m:~=~~t~~n~~~j
11 1
~ 1~i(•:;:u;~ln~:~t:;~
IIH'\11!11 e. por isto, as riquezas das minas eram quiméricas para
ln l'ormulaçôes = i s dcscnvoMdns. entre ouLros, por J~ Vcrlaimo
AI,,.,,, ,1,, Sih·.i na ,u:, "Mcmóri~ hi,16ri,;a sobre :o asriculturn ponu1111csa",
, 11,,,1,, I~" l'rrnandu Novai,. op. ci1., p. 20:i.
li '""' 1'161 Ouoni, "Mcmórin sobre o e.lado DIU/li da Capilania de
M11,,,, t,r,.11," 17?11, AIIN. vul. XXX. rr. 310-311.
!.' 1 J. o.ln Cunha Aurcdo Coutinho, op. cit., p. 7.
11 ldt'm, uk1n
'1 ( :,m, ,1;, rAn1J1ru de Vila Rica - 3-IV-l7SI - cil. in Waldcmu
,1, /\l1m·1da 11:,rhn,n, op. d1., p. 199.
1, •> ,UNUll.,11110 An1011il rn11sia1:1r,, c,lc ~lado de coi.!.a!I ao íalar do
.i, .. ,,h1111wllh> tio omo: "r1"'" em pó e cm moeda para os reinos c~lr&•
"'''''· r u 111~nor p1orlf é 11 <1Hc fica cm l'orlugal e no, ,;idades do Brasil .. ·•
A11lnnll, op. eh p. 104

39
ele" u. Anie a miséria das Minas, Vieira Couto se consternava e
dava. o povo como fonte e princípio das riquezas de um país: para
povo laborioso, riqueza; para povo rico, nação igualmente rica.
Nesse caso, continuava, perplexo, o mineralogista, como explicar
"um ente que não existe na na.tureza, um erário rico de uma nação
pobre?" 11
As queslões colocadas por Vieira Couto haviam começado a
ser respondidas com nitidez duranlc o movimen10 da Inconfidência
Mineira, mas delas não parecia o mineralogista (azer caso - talvez
porque a desconíiança de sediciosa tivesse pesado sobre sua (amília.
De fato, foi aquele o momento cm que a percepção do esiatu10
colonial aflorou às consciências mais esclarecidas do Brasil, e não
íoi ocasional o raio desta.~ terem primeiro se mani(estado na ca-
pitania do ouro e do falso íausio. Durante todo o século XVIII,
(ora aquela a região mais lucrativa dos domínios poriuguescs de
ultramar, teatro de violências fiscais e do autoritarismo ilimitado
dos governantes. Aos poucos, a decadê11cia da capitania - que,
como se viu acima, fora alegada desde muito cedo - começou a
assumir contornos precisos nas consciências: não apenas indefinida
e atemporal, mas diíícil d~ ser delineada devido ao falo de estar
imer3a na realidade colonial, e de corporificar a dependência. Não
podia, pois, haver ouro que chegasse para a voracidade do risco, e
a maior quan1idade de ouro encontrado nãn significava, obrigato-
riamente, riqueza. Quase nada escapava às malhas do sisiema co-
lonial: fisco von1z, 1ributaçãu subrc escravos. sistema monetãrio
específico e importações fei1as pelo CJ1clusivo de comércio eram
os meios de que se servia a Merrópo\e para a retirada do ouro.
Es.se mecanismo gerava pobreza, implicando, para o colono.
impossibilidade de comprar escravos; numa sociedade escravista, isto
implicava mais pobreza. O círculo se fechava, e o verdadeiro
tema - o mundo de pobrez.a em que se movia o mineiro - era,
alravés dos tempos, recoberto pelo tema da decad!ncia.
A percepção da decad~ncia do ouro provocou, do lado da
Mcuópole, medidas reforrnislas visando à preservação dos seus do-
mi11ios. Não era a pobreZtJ dD coló11ia que se achava em questão,
nc111 11 percepção clara da pobreza da Metrópole, pois esla impli-
ca,111 wmsformaçõcs radicais que levariam à supressão do sis-
iemu culn11i11I e da dcJ)Cndência portuguesa ante a Inglaterra; daí

11, ,\1,iH1 Mnowell, np. ci1., p, 24


11 Vlgh II l'oulo, "'Mon1ódn 110hrc a capi1ania de Minns Gera D, seu
tt111l(lrlu, dl1111, ti(" t 17119). R/1/GB, vol. XI, 1848, p. JZS.

40
o debale ter se centrado na decadincia do ouro e nos meios de
remediá-la".
Na conscii!ncia do colono, o problema se encaminhou difercn-
tememe. Mais do que a decadi!ncia, importava c)lplicar a pobrtu,,
concrcla e palpável para o habitanle das Minas. Não conta, neste
caso, que os inconfidentes fossem membros da plutocracia local que
Fanfarrão Minésio afflslora do !)Oder e do usufruto de suas benesses;
ta1npoueo i relevante o foto de Tiradentes ser o filho dccnfdo de
unrn fnmília que tivern melhores dias e que ansiava ascender so-
cialmente. O que de (ato interessa é a tomada de consciência do
"viver cm colónias" que então se verificou 19•
Ao Tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada,
1li,.,cra Tiradentes que, apesar de tan1a riqueza, Minas ero pobre
.. ~ó rmrquc a Europa, como uma esponja, lhe 1iv~ chupando toda
11 .,uh~tância, e os E,:mos. Generais de três em nês anos traziam
umu 11uadrilha, a que chamavam criados, que depois de come~m
11 llnnra, a fazenda, e os oííeios, que deviam ser dos habitantes, se
im11 rindo deles para Ponugal" ""· A idéia de que a riqueza, d~-
ruuli, pim, fora, engendrava pobreza, acha-se presente em tudo quan-
'" ,k .,uhvcrsivo se imputou ao Alícre:;: teria abordado Antonio de
Afou,,1.•c.1 Pestana para convend-lo de que "este país das Minas era
íl·11111,,in10 e riquíssimo cm 1udo: a não ir toda a riqueza para fora,
"l'1i11 u 1crr;1 da maior u1i1idade ... " "': José Vasconcelos Parada e
s,,11111 " 011vin1 afirmar que "este país de Minas era riquíssimo, mas
ludo quanto riroduzia lhe levaram para fora, sem nele íicar cousa
ul~u11111 ·• "" Segundo dissera ao 1enen1e José Antonio de Melo,
1111 l ·nvi1lnrii1 r:11::1 da Capitania, Tiradentes considerava desgrnçado
" ~cu lu11nr de ori~c111 '"porque tirando-se dele 1an10 ouro e dia·
11111111c,, 11111111 lllc ficavu, e iudo saía para fora e os pobres filhos da
A1111'1l~11, ~l·mp1c fuminh•~. e t.t:111 nada de seu"""'·

/N ll1lllw. ,1r mu11d1n r"111cmMic;,. 11 análise da crise do !i~lcma co-


i,,1,lul r1upioo,11U,l11 I~" 11r11u,111h1 Nnv;,i, ,,o 1rabalho já ci1ado. A perccp-
\'1" ,lu,o ,lu d1lr11rn me11<11,nll111n" umc "csasiio do ouro para 0$ centro,
1,., 1.,,,,.,,.1,, .. "I'"'''' frn,nuln,ln rn> 1> Rudrigo de Sousa Coutinho. cr.
N .. , "'' "I' ,1,. rr 11111~
,,, A,,.,.,,,.1r,111,.,,,.,t,,cuplulocraciarninciroesobreaproced!n•
,,,. ,,. t11,1olr1ur, fn11n11 111111,uhl\ dr Ma,wcl1. A J,,.,,.ua
da dr,·as~. A CK•
I""'"'"' '''" rm .-.,1<\n,.,,· f dr V,lhcnq. e ~rvc tlc 1[11110 ao capitulo li do
,.,,1o,,11, .. ,Ir e ..rim (;,u1Jir1111e Moua. AmuJ,s dr 1110110.do no Brasil -
/ ',"' 1110/ l "h""• 1'170 Nrtln ,>h11,, a 1oma1b de ,;.omâlrrcia dos ~seres
'"'""'•"" t ,,.,.,11.,,.1,. ,11111 curc11111 rroprictladc.
Nn Ap1~L ~h,wcll, np. cu . p. 1:'i).
NI Apt•I W~hle111ar de Almeida Barbos.a. op. cit., p. 420.
K) tdrm, IJc1n.
RI hl~m. Idem

41
Vinte anos após II lnconfidêneia, o viajante inglês Mawe rc-
gislrava a observação que lhe haviam íei10 os habitan1cs de Vila Rica:
"Quando lhes falávamos da riqueza d11 terra e da quantidade de
ouro que lhe era reputada, eles pareceram salisíei1os de ter encon-
trado oportunidade para dizer-nos acreditarem ser iodo o ouro
enviado à lngla1erra, acrcsccn1ando que sua terra se deveria chamar
atualmente Vila Pobre, cm lugar UC Vila Rica" M_ A riqueza enga-
nadora - apanágio de poucos, consagrada pela ri1ualização barroca
da opulência, filha da fome de muitos e escamoteada, a1ravés dos
tempos, pelo 1ema da decadência; palheta dourada que a ilusão
transfonnava em pepit11 maciça e que o reformismo ilustrado pro-
curava ultrapassar com paliativos - aparecia em toda a sua trans-
parência, uma vez desvelada a sua verdadeira função: propulsionar
a acumulaç-ão primi1iva nos centros hcgemõnicos europeus, ou seja,
desempenhar o papel mhimo das co16nias na época do Anligo
Sis1ema Colonial. Como conseqüência, a pobreza das Minas e o
aniquilamento das (oi-ças vivas do reino; onde, para AlcJ111.odre
Herculano, 11 aventura marítima provocou um enriquecimento apa-
rente, empobrecendo-o e "convenendo-o num grêmio social, cujas
Junções características foram por séculos o madraço e o mendigo" e.a_

M4 MRW~, up dl.. p 168-69


H1. Apud Vllorlno Mn11alhJI..R Godinho. op, çil .. p. 197

42
R.D-"UDle,ITOS EX'lllAIDOS DAS MINAS GERAJS PELA COROA. O QUINTO.

PeriodofllQI l Valores um::adados (u:ri.ainai1) Em .. Sis1ernadccobn.a;a

= 940oitavu ,.. 10% do°!:ro u.lnlfdo


=
ja~ir~ezembro
6.064 " 21,8
=
=
,,..
28
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--
1.648
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1.637

2,1'1
'·'
17,6
.,
1,1·
1.163
=
1710
1711
4.S46
S.682
13.579
16,4
20,4
48,9

=
=
8.618
2.781
31,0

'"'
=
=
?0·3-17\,4/19-3•171S
,20·3-171'119·3-1716
30..-robu
30
30

"'1,0
«1,0
Cota de 3~ anobu

=
1716

=
22•7•1716/11-7-1717
22-7-1717121-7-1718 30
441,0
441,0
C.otade2Sarrobu+d~to

-
22·7-1718121-7•1719
" 367,S

= 22-7-1719/21•7•lnG
22-7-1720/21•7•1721
""
367,S
367,S
daa~m

=
= 22-7•1721/21-7-1722
22•7-1722/31·7-1723 "" 367,S
764A C.o1a de n anubu

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CALCULO DA PRODUÇÃO DE OURO DO BRASIL NO SêCULO XVIII
Em quilosramu

QUioqUbli111 1 Minas Gen.is r


'
Ooi6s
l~"·G•=I Média anual

J7Q0.l70S
1706•1710
1.470
4.410
-- -
-
1.470
4.410
1711-17U
1716-1720
6.SOO
6,500
-
-
-
-600
6.,00
6.SOO

--
1721-1725 ,.ooo ,.ooo
1726-17211 1.,00 1.000 1 8.SOO
1730.1734 1 1.,00 1.000 ,oo ,.ooo
17JS,1731l 10.07 2.000 I.SOO 14.134
1740-1744 10,047 }.000 1.100 14.147
174S·1749 9.712 ,.ooo 1.100 14.812
l7S0-l7S4 8.780 S.880 1.100 U.760
17'5·17S9
1
8,016 uoo
,_,,. 1.100 12.616
1760-1764 7.399 600 10.4119
1765-1769 6.6Sll 2.,00 600 ll.7'11
1771).1774 6.1711 2.000 600 8.7711
177S·17711 s.,18 2.000 600 8.118
1780·178,4 4.RM 1.000 ,oo 6.28,4
171U'•l7811 ) ..'ill 1.000 ,oo 4.1111
1790-17114 ,oo 4.SIO
1711S·179ll
J.)(,0
).249 "º
"º ,oo 4.)911
1

Fonte: Vlrgllio Noy1 Pin10, op. ,:i1.. p. 114.

48
Produção de ouro no Brasil - século X:VIII

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_1-r J ,. ,._ ....
1··1-t--+-1-+-+-+_,.___._
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-J---1- - - --,--1'--+-+---- - -
~ h-

l
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... ,11,, Vh~IIJo Noyo Pinlo, op. ,;il., p,

49
CAPITULO 2,

DA UTILIDADE DOS VADIOS

'"Osvadiosd.006diode1oduasna~civillzadas,c
con1n1 cle1 se tem muims vaa legisl11do; por~m u regru
comuns rclalivas a este ponlO nilo podem ser 1pl.ic,iveis
cm toda a sua cxicnslo ao 1cni16rio de Minu, parque
ela vadios, que cm 0111111 parte seriam prejudiciais, se-
riam ali llleis.'º
-J. J. Tel11eira Coellto.

1. O processo de desdasdfkaçio soclal no Oddente.

A miséria, a vagabundagem, o desnível entn: as condições de


11id;1 dos homens exisliram desde cedo, dela escapando apenas as
soricclades primitivas 1• A guerra, as grandes inu:mpérics climá1icas,
••~ epidemias de doenças misteriosas sempre con1aram enuc os prin-
i;1pnis agentes causadores de indivíduos socialmente desclassificados:
sfo ns determinantes conjunturais, frcqi.lentcs por exemplo na Alta
ldmJc Média, e c;,;tremamen1e impor1an1es para tornar comprecusivel
o pmcc.•;so de desclassificação das populações.
A Idade M&lia é um período especialmente elucidativo para
1111cm csrnda a marginalidade, pois foi cm seu seio que se verificaram
11, ,itrnndes transíorrnaçõc.~ <1ue marcaram a concepção moderna da
jl!thtcta. Durante si:culos, o pobre havia sido o pobre de Cristo, o
1,11t1uhnho que merecia ajuda e com o qual a população das vilas
uu1V11'i;1 ~cm escândalo. Para eles os mosteiros abriam suas portas
1• d1,1nlrníurn seus grãos. Nunc;1 dci;,;.ou de haver quem alertasse
1'11111 11 1likrcm;a entre pobres válidos e pobres inválidos - os vadios
,, '" vugnhundos sendo, via de regra, olhados com desconfian-
~ 11 • mns es~11 tlkotomiu MI se tornaria mais acentuada no Bailio
1,1,uh· Mt'(li11. lniciulmente, os brm;o~ de Cristo se abriam paro
ln,!,,. 1ulo imlishn111me111c. mas pura ltl{JO~ "·
l Vr1 " ro,c rr•JlllllO Ak•umlrc Vediard, /n1rud11ctlo11 d ln st>Clolo,:lr
,fo •••11,1h,,,.,/,,11~. l'Drl1, l'Hó
1 01 voy•l~1rnlo1 1C1m11ro foram OI 1111:nOII ,;o119iduod01. Em iau lm-
hoUu, ,,. ,~un•,r• "" M"yr11-Agr - J:111,lr Soc/a/,r, Pnrll, 1918, p. i,s, MI-

51
Com suas grandes convulsões, com a urbanização e as trans-
íormações na economia monetária e na estrulura da propriedade
rural, o século XII acUM a grande virada. Toda uma série de
mudanças estrull,r<Jis começavam a solapar irremediavelmente o sis-
tema íeudal, engendrando a pobreza e provocando uma mudança
radical na concepção que dela se tivera por todos aqueles séculos:
"A miséria é filha da estrada e da cidade" 3 , AIC então, não fora
reconhecida como problema social, pois a humanidade medieval não
buscava a igualdade; a pobreza era uma riqueza espiritual, e o
pobre, um intermedil'.irio entre o rico e Deus; daí a enorme preo-
cupação com as esmolas, ''eçonomia da salvação" •.
As 1ransfonnaçõcs estruturais - a que se somou a ação de
Si'lo Francisco de Assis - íizeram do pobre uma criulura deste
mundo. As municipalidades e o poder público passaram a se en-
carregar das esmolas. De personagens do discurso dos doutores da
Igreja e dos poderosos em geral, passou o pobre a ser ator do drama,
prorngonista real da História.
Essa entrada definitiva em cena foi anunciada durnnte séculos
pelos movimentos messilnicos, pelo hussismo, por John Ball, pela
Jai;querie, pelas súbitas e rápidas "fúrias camponesas". Afinal, no
SCeulo XIV, sua presença explodiu por toda 11. Europa - uma
Europa combalida pela Peste, pela Guerra e pela Fome. As leis
inglesas e francesas de rcpressilo 1\ vadiagem e de obrigatoriedade do
irabalho foram a resposta mais imediata a esse t.'Slado de coisas,
a legislação e as instituições de caridade se tornando, mais do que
nunca, instrumenlos dos poderosos no seu coníronto com a miséria.
A partir do século Xrv, pois, a pobreza já não pode ser con-
siderada como uma série de casos individuais, e os pobres se !ornam
numerosos demais para serem ajudados. onerando Deus e o Estado.
O trabalho e sua virtude redentora foram então exaustivamente lem-
brados, citando-se, como slosa, a vida dos santos. "O pobre, o
miserável, o humilhado se confrontam, implacavelmente, com essa
dualidade do bem e do mal: por um lado, representam o Cristo
humilhado e, por outro, ameaçam a ordem social" 0 •
~hd Mollat cil3, entre outros, Joio de Friburso, que "cm nome dn lei moral
do 1rabalho, reprova os íalsos pobr,is, os v.ridos prcauiÇOsos e vngabundos".
A c,mol:,. qucdevinscrtirada do su~rfluo, nilo deveria encorojar11 pre(IUiçe.
3. Jc;m,Loms Goglin, Us mldr"blu dllllS iCkddent mblilval, Poria,
1976,p.72.
4. A c,prn..!,o é milinda por Michel Mollal n, obra j4 cil.llda.
,. Go~lin. op. eil.. p. 135. Anali!3ndo as minialllrll!I dQ 8//,//a Mora•
/1r<1mr,lu ,hK1uc d,, 1!0, ...,.,1,, hhr,,. o Audaz. GOj'lin 01"1:rv~ que os ro,10,
dos pobre~ rcu:,1"do, "lcmhr,,n cloll'llnhamcnle o, de carraaco,. de malY.r.dos
e de bnuo.··. é " puhrc,., .,purcccndo como asptt!O dcgndQntc da condiçiio
humana, "form,1 de hun11llu1çilo e de inlâmia, ,;om pc:so de nu.ldiçào.ft -
p. 119.

S2
De cnonne importância t o aparecimento, durante os séculos
XIII e XIV, de um novo tipo <le pobre: aquele a quem Mollat
chama "pobre laborioso", o camponês e:1propriado que, trabalhador,
não conseguia sustentar a família com o seu trabalho•. Conforme
avançava o processo <lc dissolução das relações servis e de acumu-
lação primiliva, aumentavam os contingentes dessa nova camada
social, cuja carac1erlstica mais imponante era a pauperização
crescen1e 1 .
O aparecimento dessa pobreza laboriosa colocou em cheque
as fonnulações att en1ão elaboradas sobre a miséria. Nela, não
havia nada que lembrasse o ''repúdio à vida" do tempo dos eremitas
nem a boemia tolerada dos goliardos e dos clérigos vagabundos,
estudantes e,i1ravagantes e, como François Villon, poetas incon(or.
modos. O homem pobre expropriado não era inválido, e almejava
ter acesso 110 trabalho, mas muitas vezes não o conseguia: mais do
que nunca, eram claras as condições estruturais que faziam dele
um desocupado, um biscateiro inrennitente e, no limite, um mendigo,
um vogabundo, um criminoso. Verificando-se no seio de uma for-
maçil.o social produtora de valores de uso, 41 expansão do setor mer-
cancil provocava a dissolução gradativa dos laços servis e libertava
um número de pessoas superior à capacidade de absorç.!io do sistema.
Tornaram-se fluidas as fronteiras entre o mundo do crime e o mundo

6. "'TradicionatlT!Ollnte, 11 pobreza. raultava. da impossibilidade de pnhar


,cu 1•iio devido à incapacidade (Idade, doença.), ao dcscmp~90, ao fracasso
,lc ,unn 01ividade. à perda de capi1al. Ora, eis quesurae um grupo nurneroeo
,lc pnsoJs curçcodo uma a1ividade rcaular e no cu1an10 iN111icico1e para
futl'·los vi~r decerucrncnte.~ - Mollal, op. ci1., p. 200.
Na sociedade fcudol, hier6rqL1ica ao e11;1remo, nlo havia tem,, sem dono,
11rrn servo um senhor. ChriHophcr Hill ci1a um diillo81) de uma peça de
M1<1<lle1on u1remamentc clucida1ivo a respci10 daa uallllforrn~ verificadu
"" l1ru da Idade M&lio: ··- Whcm= man an 1hou1", pcr111n111 uma pcno-
nu~rrn, ao que n oUlm responde: ''l"m a scrvant, ycl a maucrl= man, sir."
' llon· cnn thnt be?", cxdoma. incn!dulo, o interlocutor. Os ··mwterlen
rnr11' ,e mulliplicaram duranic o fim da Idade M6:lia, a1inaindo o nlÍmcrv
,1, 11 nul no nonc da lngla1erra. cm 1569. Christopher Hill, Tire "'or/d
'"'"''' ,,,,.,,fr ,,,..,,,,, Loudrc::;, 197S, cap. ··Ma.Uerlca, Mcn". p. )9. Sobre o
"'"''""• ,·cr mmhém Mnuriec [)obb, A Evoluç,1o do Copllolümo, trad., ).•
,,t, 1t10, l'Jll. Cop. 11, pp. 49-108.
1 i\nah,onJo o mo•·imcnlo de emier1çio que IIC wrifica a panir 4u
l""l''i"'l<"lr• 1e11lu,r,""· d11 Ouhh ler de ,e con.iimido numa "desc:rÇlo m11.-
,1,,. I"" p,111c do~ p1, .. 11u .. ,c •. que :1e dr11i11avu n rclirar do tistema seu san-
,.,,, "'"'' ,,,.,.,.,.,., .,,jr,edc<"ri•c•111•••111ais:,«·,,.1om~1feudalirioochaN1C
,.,,,,.,11,,.,1., ""' ob,·1110, XI\' e XV. i\ fu~u ,lo, ,·,lõt, que ddltllvam a 1crn
,.,.,1, ... >rir, ,u,11rni11 l'"'I~.,,.,, .. ~.,1 ..,1,,',f"·a, 1.,1110 nn lngl~lcrm quonlo cm
,,,.,, ,,, l11w1u,·,, r uno 111•01111• ,., ~li, 1>a1,, iunncnuor n populnçilo dns çidodcs
, ,, ", 01-, '""'" o l"""''l'·''"'r,uc 11n (011IÍIH!111e co111rihuia p;,ra a coo1inua~Ao
,1., •l"••lillh111 dr 1>101co!h,., d~ v111nbundn11cm t /trq,..,,/rs pcriódi<:at." -
11.,1,1,, "I' d1. 1'1' M-1'11

53
do 1rabalho: uabalho obrigatório pera todo homem pobre váliclo,
integranlc não mais da legião cios "coitaclinhos de Cristo", mas da
"classe perigosa" que começava a assombrar 11s cidades e os burgos
no outono d11 Idade M6dia •.
Foi sobre esse contingente humano heteroglneo que incidiram
violentamente os esforços então empreendidos no sentido de gene-
ralizar II prática cio trabalho: "O tr11balho, reabilitado após 1er sido
desprezado como conseqüência do pecado original, torna-se um dos
valores de uma sociedade que se lança no crcscimenlo econômico, e
a panir do século XIII, as expressões vadio ( oisií) e mendigo válido
tomam-se etiquetas injuriosas auibuidas a cerios marginais"•.
hTolerava-se o mendigo, m11s odiava-se o vagabundo", diz
Moll11t, referindo-se a esse momento histórico em que começava a
se esboçar uma !!_i moral do /rabaflig 10 . Definida como ausência
de domicflio ou como o morar em todn a parte, a v11gabundagem e
a itinedincia eram incómodas numa sociedade em que as relações
pessoais ainda tinham muito peso e para a qual o ía10 de o individuo
não poder se ligar a ninguém e por ning~m poder ser reconhecido
eram sinais ex iremos de isolamento ''. Elemento irregular e instável,
carente de vínculos, o vagabundo "lrabalha às vezes, mendiga com
íreqiléncia, rouba se aparece a ocasião, e pode ser incidentalmente
arrastado para a criminalidade c delinqüência. Mas ele não ~ nada
disso de uma maneira estável" 12 .

8. Sobre c:s,a íluidcz das frontein1, d~ o historiodor po\onb Bronis-


law Geremeet: ~-,. u Jl'C31Uisas sobn: criminalidade fiw:m aparc,;ci- uma
csp6cie de 'lron1eirn' soclal. de ínnja da six:iedadc OT,anizada, onde o ln·
balho se mistura com o crime. A pasugem pan a marginalidade: s,; Jaliu..
,cgundo um 'dcllflldl' de core:s.; não «i.stem barreira,, o:nire I sociedade e
ruas morgcns. entre m grupos e QI indivfdu01 que observam a.s normas c:sta-
bdccidu e 01 que as violam." - "Criminalit~. wpbondagc, paup6rilLmc:
lu marainalitl li, 1'1ubc des Tcmps Modcmc:s". in ReYUt d"Hl.uof~t Mod,r~
et Conttmporai11t. XXI, julho-setembro. 1974. p. 346.
9. Ji,çques Le Goff, ·Les marainawi dam l'Oo;ident mi:ditval", in Lu
m11,ginou• er /e, udus dt111S fHi.stoire, Paris, 1979, p. 23.
10. Mollat. op. eil •• p. 299.
li. A análise~ de Mollal, ep. cit.
12. Vexliard, op. clt., pp. 220-221.
No 11r1iso jli citado, O(:remeck ehama o atenção P1Lra II c~trema mobili·
dndc nislcnic n&s soeicd1dcllpr6-ind111trlais, mobilidadce11aquc, cnlret.onlo,
é .cmprc re~ulamcnlnda, obedci::endo a IT'ljclas pr6-traçadOI: migr.1~ de
companhcim, e e,colare:s. mi..-,.ç,iles ,;,i,mp:iriesas llglldu aos arandei movi-
mcnt"" de mloni1.~çiin. p,ercgrinaç&s. Nenhum m:Del movimentes apre:scn•
lava pniAO: crn "mnbllfdadr não con/,o/ada ou individllll que inquietava
e nmeoçnvR '" sociedutlcs lmdicionoi.s. Gcrcmcck. op. eit. E mailL odUlnle:
·'Ao mesmo 1cmpo cm que II socicd~dc pr6-industrial, com seu corpo or11,11-
nizado, nllo pode 1011:mr o individuo isolado, procunndo cnquadrli-lo cm
imliluiç&:1 e solidoricdndn corporativna, nM laço:s de (1mDils., nu c:1,lhl•

54
Estabelecendo-se uma cronologia sumária das medidas tomadas
contra mendigos. vagabundos e desocupados. pode-se notar a sua
concomi1ãncia cm diferentes pomos da Europa. Em 1308, Fer-
nando IV de Castela ordenava que os mendigos aplos ao trabalho
deixassem Burgos, mas foi Pedro I quem, cm 1351, aperfeiçoou a
repressão. 1311 foi o ano em que o arcebispo de Ravena esta-
beleceu a distinção entre os pobres que recebiam publicamente as
distribuições e 11s esmolas, e os poveri vergo,rnosi. Entre 1346 e
1348, surgia o No1ou11buch, de Dithmas de Mcrckenb11ch, o mais
antigo dos glossários e descriçilo de um meio marginei. Em 1349,
numa lnglalcrru aind11 combalida pela Peste Negra, surgia o Sfofute
oi LAbourers; no ano seguinte, a mendiclincia passava a ser permi-
tida aos incapaze.~ de trabalhar e aos que 1ivessem mais de 60 anos.
Na França, cm 1351. a ordenoção de João li, o Bom, marcou o
início da caça aos errantes: fez-se então um apelo aos pregadores e
monges para que só encor11jasscm a caridade em favor dos inaptos
ao tr11balho, os desocupados devendo deillar Paris sob pena de
4 dias de prisão e, em seguida, mareação com (erTo quente e bani-
memo; em 1367, o prebos1c de Paris convocou os vadios para
cavarem fossos e consertarem as fortificações da cidade, numa po-
lítica já nítida de uliliiação do trabalho forçado que, nos ~culos
posteriores, se tornará comum. Em 1388, 11 lei ingles11 obrigava o
pohrc a se fixar no local de nascimento ou residência, procedimen10
lcmhrado novamen1c em 1405 e em 1509. A utilização compulsória
da força de trabalho aparece também em Castela, em 1395, quando
os rarticulares são autorizados a prender vagabundos e fazê-los tni-
lmlhu cm suas terras por um mês. sem que por isso recebam salário.
Ao fazer com que os vagabundos e delinqüentes emban:assem à força
1111~ galeras, Jacques Coeur introduzia. em 145], o que a partir de
1·1111iu seria o castigo clássico desses indivíduos: as gal& 11.
Como no resto <la Europa, (oi no século XIV que as preo-
rnr•11~·,)c~ da~ autoridade~ e dos governantes portugueses acerca da
"h1111n1one<lodc do 1rabalho se cris1alizaram em leis repressivas que,
111111IM.'111 como nos ou1ros lugares, visavam sobretudo aos mendigos e
1111, 1·11i,i11hundos. 12 preciso, de Início, eslobcleccr uma di(erença que
,I!, 11',Jll'ih1 uo termo empregado pura estes últimos; vagobond e
, "~'''"'' 1· ,ln1 a~ c.\prc,~i'lcs l(UC ;1 legislação inglesa utiliza para indi-

"" u ., ln!611,.·n, 1Mo quo ,h,. r.,.p,:,tu 8 ~• mar&inaii.. ela e ioelioa a


"''' "'I'"''"' ••uAu ,mli,,,11,.., ocn1 h111ç.-.... de grup:, ou de 50lidariedade.
1·.,, '"" 1u,t11hlu" "'"' ln~"'· o1n .e rnmriíica u ~e, um ~ndiao v'1ido; em
,l,.h , .,,,.,IP,, ola v~ V1Mol>1111<!<10 lOllll~oi1,'· - I', 3'9.
11 o, ,l~olo• 1,11nm Hlmldo• dt>a 11e9111n!C3 1rabalh11S: Broni!llaw Ge-
/N""''"' .,....
, • .,,., ~. ' " """lllrl"'" XIV• ti .\'v, <lhlf.T, P11ri1, 1976, p. 30;
Mnll•I "I' dl, lh>Mll11, up cll.

55
car o sujei10 e sua ação; em franc!s, os mesmos são designados
com vagabond e vagaborrdase: vagabund e vasabwuJieren para a
1/ngua alemã, e vagab11ndo e vagab,mdagen para o espanhol, todos,
ponanlo, se reíerindo à expressão latina: vaga1ivu. :e. cvideote que
existem muitas nuances e variações: o errant, 1anto para o inglls
como para o francês, o oisif írancês, e uma infinidade mais de pa-
lavras específicas a cada língua. O in1eresso.n1c t que, exis1indo a
palavra em português - 1•agab1111do -, c lendo ela o mesmo sen-
1ido que as suas equiv1ilcntes em ou1ras línguas, é ao vadio e à
1•odiagem que mais dizem respeito as leis r,ortuguesas, apesar das
menções ao vagabundo e à vagabundagem. A especificidade assumi-
da pelo lermo na legislação portuguesa parece, assim, acusar uma
preocupoção que se vol!a sobre1udo para o combate à auslncia de
trabalho (vadiagem), o perigo ~presentado pelo cará1er andejo do
desocupado ( 1'(1gobw1dayem) passando para segundo plano.
Já no início do século XIII, um diploma régio mandava per-
seguir os vadios, proibindo os desprovidos de bens de raiz, de senhor
ou de ocupação idônea de habitarem o reino 1". Em 1349, quando
governava Portugal o rei Afonw IV, foi expedido, a 3 de julho, um
documento que procurava limitar o número de ociosos e impedir os
abandonos de trabalho, a vadiagem e a memlicincia de que se quei-
xavam as eidadcs; e:s1as deveriam expulsar us vadios, proibindo-lhes
o acesso aos hospiiais e punindo os que tl'I acolhessem. Este sobe-
I11Do fixou ainda um limiic superior para os salários ili_ Alguns anos
depois, em 1371, as Cones de Lisboa se queixavam de abandono
dos lrabalhos do campo, da exigência de altos salários e da
vadiagem ld_ Por fim, em 137S, vinha à luz a célebre Lei das Ses·
marias, coroami.:n10 do esíorço então dispentlido por D. Fernando
para incrementar a agricultura e aumentar o número dos 1ro.balhadores
rurais cm Poriugal. Para esse íim, compelia ao trabalho agrícola os
ociosos, os vadios e os mendigos válidos 1:. Coce relação a estes
últimos, a legislação era biu1ante dura: "se os achassem ter algum
aleijão, mas não tal, que os impedisse poderem servir com outros
membros do corpo" 1~. os juízes os obrigavam a 1raba\har. Os
ociosos que se recusassem a exercer qualquer atividade seriam, na
primeira vez, açoi1ados e, quando reincidentes, "seriam açoitados
com pregão, e ultimamente lançados fora do reino, porque El Rei

R Rui d'Abre-u Tom::s. -Vadiagem", in Joc:I Seirlo (org.). D1f:lo11dr{o


J,, His1ório ,lt" l'ortuttQI r do Bra.,1/, Pono, lniciaúvu E.d.ilori11is. s.d., vol.
IV, p. 219.
IS. Moll~t. op. cil .. p. 246.
16. Mullal, up. ci1.: Rui d'Abniu Tons, op. cil.
17. Mo11nt, op. oil.: Rui d'Abrcu Torn:i., op. cit .• p. 239. Amonio ~r.
1i11, Brrv~ imr:rprctarâo dd lliJf<>r/tJ dr Po,111gal, lisboa, 19n. p. 29.
0
U. Rui d Abru, Torrn, op. cit., p. 18.

S6
mandava e queria que ningut!:m no seu reino Fosse vadio" "'· Com
sua legislação, D. Fernando visava acudir a esses males, mas os
resultados (oram poucos: "Faltou uma elite, que as fizesse cum-
prir (as leis). As herdades continuavam incultas e desenes, os
lavradores não arrotearam 1erras de novo, mas largaram as que pos-
suíam, e os matos invadiram mais fazendas desamparadas pelos se-
nhorios. O êxodo dos campos levava assim as energias para as
terras de beire-mar, para o tráfico marítimo ... " :tu. Seria, na con-
cepção de Anlonio Sérgio, a "pnlílica de transpone" levando a me-
lhor sobre a "política de fixação" - o que sugere que, ao invt!:s
de serem absorvidos pelos trabalhos agrícolas, os desclassiíicados
o foram pela avcn1ura marllima.

z. O Império Colonlal, Clp.fflllo de ddlnqiientes.


De falo, as conquistas marítimas tiveram um papel muito im-
portante na absorção dos mendigos e vagabundos da me1rópole,
muitas vezes rccrmados à força para fazerem serviço militar nas
possessões de além-mar. A jurisprudência selvagem de Portugal
no An1i110 R('gime senlenciava multidões de pequenos larápios e
outros iníratores com prisão e exílio: todo navio que pania para
o Brasil, fodia ou Africa trazia, sobretudo a partir do século XVII,
a sua quota de dc11redados~ 1 •
"As possessões ultramarinas foram sempre para Portugal o er·
,:{1~11110 de seus delinqllentes", disse o historiador português Costa
1 oho Formaram-se imponaotes comntes migratórias para as co-
ll'111ias. sendo a da Jndia parriculannente intensa entre os anos de
1497-1527, quando 80.000 homens dei~aram a Metrópole~~- Pelo
J'J. Rui d'Abrcu Tor,u, '"Mendicidade", in Joel Serrlo, op. dt., vol.
111,p Ili.
}O Anionio ~rgio, op. ,;it .• p, 29. Ver 1.amWm "As duas polllicu oa•
do11ul,". in 1-,"maio.r li, Lisboa, 1972, pp, 63-91.
,' 1 Clmrla R. Do~cr, Tl,r l'or111g11eu s~abome Emplu - /4U·/81:J,
1.. ,,.11<,, 1'169. Sobrcl11do o cap. XIII. "Soldic:rs, 1eulcrs and vapbonds".
A'º'!"'"" tl11 rouca grnvid11dc:, ao• olhos da justi,;a ,;onlcmporAnca, dm
,h•llln• rulf"' ,:11,111uulo, cum dcercdo, •cr Emília Vioui do Co,1.a, ~Primdroa
u,.,;,,.,
r .. ,,.,.,1,,,,, ,~, llra,il", ,/e 1//,1,Jriu, 1956, XIII, n.ª 27. Sc:sundo u
11,,1.,,,,._M, M11m1dimo,. cm trechos citndos pclo autora, o desredo podia ser
1,.,,.,,,,.,1,. "'" "•I"• rMtrn .,._,11nd11• 011 qucbrnm r,orta1 ou as fecham de
"'"''' I'"' fn111", o 1ilnt1., '"" ",1110 c"mprom colmeilL'I p,ira malar u abc:•
º"" .".'
1' 1
A ,I,· .~""'" ~11•11 (·,,.111 foi><,, fll.wlda da ,oci~dtul~ ,m l'<>rtu,:al
, ,,., "'" 11 11,h,.,,, l'IO~. p 4'l. Apena., 1/ IO dm que rml>arcavom
,,,11,,,,,.,. " 1•,,1111~.. 1 "llo, r111h.1nulo,, umo grudo p:,rlc: con,tnv11 de cr,,

.. ~-
'"'""'"" ,,ur """"""' ,r., nM.,rrr "" fnr~o, <MI tle terminar umn pmlr ou
",.,.,. ,I• '""' ,1101 rH> ,1,,,.,1., da Aíflco oo nos ,;udcim." -- op, cll., ~p

l7
alvará de 6 de maio de 1536, D. João DI determinava que os moços
vadios de Lisboa que andavam "na Ribeira a íunar bolsas e a íazcr
outros delitos" fossem des1errados para o Brasil 23 • Nas Cones de
Almeirim de 1544 pediram os procuradores de Lisboa que o mo-
narca mandasse ía1.er de seis cm seis meses "corrcição de patifes
e homens vadios, sem ofício nem senhor com que viviam, e sejam
presos e embarcados para o Brasil" :-1.
Já em pleno desenvolvimento do Império Colonial português,
o alvará de 1570, expedido sob o reinado de D. Scbas1ião, estabe-
lecia a diíerença entre a pena administrada aos peões, que se earae-
tcri7..ava pelo Cato de poderem ser açoitados, e a destinada. às pes-
soas de mor qualidade, cas1igadas muito íreqücniementc com o de-
gredo. lslo não quer dizer que os peões não fossem afcrndos pelo
degredo, mas a reciproca não era verdadeira: uma pelloa dt mor
q11alidade nunca seria açoitada; esta última categoria era degredada
prderencialmente para a África, ao passo que O.\ peões eram expe-
didos para fora de Lisboa, mas continuavam no pais 0 .
, As Orde11arões Filipinas reforçaram, no Livro V, dtulo 68, as
disposições que, trin1a anos an1es, fizera D. Sebastiiío: "Dos va-
dios. Mandamos que qualquer homem que não viver como senhor,
ou wm amo, não tiver oricio, nem outro mester, em que trabalhe. ou
ganhe sua vida, ou não andar negociando algum negócio seu,
ou alheio, passados 20 diaS' do dia que chegar a qualquer cidade,
vila ou lugar, não tomando den1ro dos ditos 20 dias amo, ou se-
nhor, com quem viva, ou mester cm que trabalhe e ganhe sua vida,
ou se o 1omar, e depois o deixar, e não con1inuar. seja preso e
açoilado publicamcn1e. E se for pe!l.~oa, cm que não caiham açoi-
tes, seja degredado para África por um ano",.,,
Se vadios, mendigos e toda espécie de pobres pulularam em
Por1ugal no período compreendido entre a consolidação da dinastia
de Avis no poder e o florescer do Império Colonial, as condições
internas do pequeno reino não íavoreceram a sua diminuição. No
século XVIII, ao se referir às naus que partiam, dizia o cronista
Luís Montez Matoso que "já se vai prendendo para a lndia" :ir:
cm 1667, a Coroa promulgou uma série de edito~ violentamente re-
pressivos, ordenando o scnlenciamento sumário de pessoas que ainda

21. Dr. Jo1é Vieiro Fatenda, "An1iqualhas e mc:mdri11s do Rio de


Janeiro", R/HGD, vnl, 149, 192-4, p, j), Devo m11 indieaçlo nLeila Mcznn
Alarnnli.
24. Apud R11i d'Abreu TorTC$, "\ladiaacm", p. 239.
2,. Apud Virnrino Maaolhães Godinho, op. cit., pp. 116-117.
26. Apud Vilorino Magelh/ies Godinho. op. cil .• pp. 172•17J.
27. Idem. p. 156.

58
esperavam julgamen10. Culpados de crimes como vagabundagem
eram sentenciados ao degredo para Mazagão, cm Marrocos, cn-
quan10 os envolvidos com oícnsas mais graves seguiam depenados
para o Maranhão, Brasil e Cachéu 2111 •
A panir do momento cm que e:,;istiram colônias, o estado mer-
cao1ilis1a europeu se encarregou de propulsionar seu povoamento
com uma grande parecia de elemcnlos socialmente desclassificados.
Por toda a Europa presenciou-se o recrutamento forçado dessa gen-
te,, emigração que, no di1.er de Eriê Williams, "condizia com as
teorias mercantilistas da época que preconizavam vigorosamente que
se pusesse o pobre no 1rabalho induslrioso e Úlil e se favoRcesse
a emigração, voluntária ou involuntária, a fim de aliviar a proporção
de pobres e achar ocupações mais proveitosas no estrangeiro para
oo ociOSO!, e vagabundos da metrópole" 20 • Em 1664, a Inglaterra
baniu para as colônias uma enorme quantidade de vagabundos, va-
dios, desocupados, ladrões e ciganos; nos anos que antecederam o
Toleratiora Ac1 (1689), os dislúrbios políticos e religiosos en11ros-
saram a emigração, que arrastou, entre ouuos, muilos dos prisio-
neiros irlandeses de Cromwell"'. A deportação de criminosos che-
gou a proporcionar lucros, ncgocian1es e juízes instrumentalizando
a lei para aumentar o número de criminosos dcpor1ados para as suas
pli1111ar,.:õcs aniilhanas de açúcar: "Aterrorizavam os pequenos
1ransgrcssores com a perspectiva de enforcamento e depois os indu-
ziam a soliciiar deponaçAo" 31 .
Parte considerável da m.!lo-de-obra recrutada para o povoa-
111cnw <.las colônias norte-americanas foi abarcada pelo sistema de·
n·n'1diio 1emporário: o indivíduo assinava wn contrato em que se
rnmprometia a trabalhar por 1cmpo determinado (enlre 5 e 10
unoq, recebendo, em troca, a passagem, a manu1ençil.o de sua sub-
,t~lência e. no fim do contrato, um pedaço de terra ou uma inde-
111111,;iio cn1 dinheiro-•~. O tratamento dispensado a esses infelizes

.'H ll<>1cr. op. ci1., cup. XIII; '"l!n1 cvmum qw: algumD9 scmooas 11olell
,lo I''""''" 11nu11I rmrn n• lnJia~, circulares oficiais f<llSCm cnYilldn a todos
,., ,,o,,yotlor,, Jn Cnmuca lcmbmndo-OS de reunir e prender os crimiolltOS
,r,11 .... ,.,, roicnci,.;,, 11 f,m Jc que f°""'m ,icn1cnc111dos. ao dc1Rdo para
.1, .. 11.,·· p. 114
."• 1 dr WIiliam,., Cr11>1r.r//rnw r lücr,w/,Mo, Hod., Rio, 1975, p. 14.
IU M,m, pp 11•·17
li lolom, r 1•1
1/ ''Clt '"''"~'" 1uli,o,1,,. 1•1111dpnlmcntc M lne]otcrr.,., para reçnUar
,.,,.,,1,,,1.,. "'' ,o,11n, 1110,.,1,.,m, dr o.:1•iilRo tcmponl.ri11. se intcmifiçaram
'""' • l"'"l'<'ll•la,lo ,1,, uo,,\,.·I,•, l'rn 1,oln• o, meios procurava•II<' induzir u
I""'""' ,11ia lmvlnrn ,.,,111•1hlu •t1111h111cr crinic ou ,nei,mo cont111vcoçio a
'"'"'"''d I'"'" 1rnl•nll11u nu A11,•11c11 0111 ver. de ir PIII"B o d~re. Contudo,

S9
praticamente não diferiu do que receberiam, anos depois, os escra-
vos negros, Ainda para Eric Williams, a servidão bronca teria sido
o sistema sobre que se montou o tráfico de escravos: "base his1ó,.
rica em que se ergueu a escravidão negra"3.1.

3. Brnll: estrutora econ6mlca e processo de desclaulfiaçio &OdaL

Até aqui, íoi rapidamente analisado o processo de paupcri-


7ação crescente que atingiu em cheio a Europa sobretudo a partir
dn século XIV. Mais ainda, os mecanismos de que lançava mão
o Velho Comincntc para. uma vez descoberto o Novo Mundo, mi-
norar o ônus representado pelos pobres improdutivos e, simulta-
neamente, povoar as co18nias que se iam formando. Procurou-se
também mostrar como Portugal, às vésperas de se tornar metrópole
colonizadora, inseria-se no movimento geral europeu. Assim, pro-
cesso de pauperizaçiio e utilização dos pobres e desclassificados co·
mo povoadores das colônias adquiriram feição de dois grandes mo·
vimentos que marcaram a história do Ocidente no perlodo com-
preendido entre os séculos XIV e XVII; tê-los como ponto de refe-
rência é imprescindível para se poder compreender as ralzes do fenô-
meno de desclassificação tal como se processou no Brasil colonial,
mas não é o bastante: a compreensão das condicionantes estrutu-
rais que propiciaram entre nós o aparecimento de uma vasla camada
de homens livres pobres e expropriados só poderá ser satisfa1ória
na medida em que, considerando o que há de comum e genérico,
buscar a ultrapassagem: procurar o cspecííico e o particular.
Colónia americana de uma metrópole européia que o paupe-
rismo atingira desde o s«ulo XN. o Brasil fazia pane do Império
Colonial português. inserindo-se portanto no que ficou conhecido
como Sistema Colonial da Epoca Mercantilista. Mas, antes de sur-
gir nas colônias norte-ameTlcanas, nas colônias do Mar das Antilhas
ou nas do mundo hispânico, foi na colônia portuguesa da América
que se enraizou a escravidão. Mais ainda: enquanto o sistema de

o .suprimento de m!io-ile·obra deveria ser in!oficiente. pois n pr:tltica do raplo


de ;uh1llm e criança. tendeu a transformar-u cm calamidade pliblica nesse
r~oi,.'" ("clst, l'url"do. Fornra,iJo &o11õ111ico do Brrui/. 7.1 cd., Soío Paulo,
1969,p.26
1J. l'ric Willinn1s. op. cit., p. 2'1.
P,uu c~se 1nunr, a, cscmvidlio ufaz parte desse: quadro acrol do lllllll·
nicmo crnd d"s. d."""" ,t,...privilcgiades, dos imcnsiveis leis dos pobros e
severa, leis fcmluos. r ,IH mdifcrcnçn com que a classe çapilaliBla os,;cndcntc
c,1uva .. comc~nndo" c"lc11br" prnsperidadc cm lcmlO!l de librlL!I cstcrlinru
e. . ~co:smmando·sc à ,do!io de ,.acrificJr a vida humana ao impcralivo 111•
Jrwdo do aumento da produçào.'" - p. 9.

60
entrepostos e feitorias que mareou o com6rcio com a Ásia ainda
propiciava lucros a Portugal, no Brasil já se plantava cana e se
comercializava o açúcar, pcnnitindo, assim, que se fale, já para
meados do século XVI, de uma agro-indústria voltada para a expor·
tação de gêneros comerciáveis no mercado externo.
Col6nia da época mercantilista, seu objetivo máximo era dar
lucros à Metrópole e ne:ia propulsionar a acumulação de capital
otravés do exclusivo de comércio e do tráfico negreiro, constituin-
do-se cm "re1aguard11 econ6mica da Metrópole" e lhe garan-
tindo a autonomia 31 • A adoção do trabalho escravo se deveu, nes-
se contexto, à necessidade de maximizar os lucros a1ravés, por um
lado, da supcrcxploraçiio de uma forma de trabalho compulsório-
limite - pois eram apropriados o trabalho e o trabalhador - , e,
por outro, às grandes vantagens comerciais que advinham do trá·
ficoaa.
Assim, 11 cxploroçào colonial se apoiou, desde o inicio, na
grande propriedade agrlcola de cunho comercial e no cscravismo.
Resta saber como um e outro elememo atuaram no processo de for-
mação de desclassificados sociais.
Panindo-se da anfüse da estrutura econômica da colônia, po-
Uc-sc constatar que havia condições favoráveis à proliferação de
de\classilícados; nas suas linhas gerais, tra1ava--se de uma colônia
de exploração voltada para a produção de géneros tropicais cuja
comercialização favorecesse ao mállimo a acumulação de eapilal nos
centros hegemónicos europeus. Uma economia de bases tio frá·

)4. Utilizo aqui a adlisc de Fernando Novais no 1111balho i' citado,


-.ohrcuido o capflulo ?, "A crise do aQtigo ,dae1111. colonial", onde~ aoali·
""I" 1, cotoniuçiio moderna como elemento a~\crador da acumulação pri-
mi1i,·u · " n co/o,ri:uir,io do Novo Mundo na Epoca Modcma ap-n!a•se
como pc~n de um ,i,1cmo. l,w,11mm10 da tKunrulo,çilo prfmil/va da ~po::a
,lo ~apilah,mo mcr~antil. (. . ) Comple1a-sc, entrementes, a cono1açl.o do
,rnli,lo pmíundo da colonização: comucial r capi101/,10, i,to #:, rt~mrnto
,.,,.,,11111/1•<> ,,,, prm:ru" ,Ir Jormariio ,lo copital/Jmo n,oduno." - p. 70.
1\ 1'11r,1 hrm,ndu N,wai,, ~ a porlir do tráfico ne11n=iro que se pode
,111~udr1 " C'<'ru•idiiu ,olon..,I, e m, '"preferência pelo ofricano se revela a
'"''""'~c1u du ,i,1em,, mcrcan1ilis1a de coloni:aição, que vis.ava promover
",.,,,,1101u 1,iu p111nn1va na motrói->lc: oro, o trd/ico nrgrriro, isto#:, o 1bas-
1.. 1m,•u1" d,,. ,.,l(liu.11 rn111 ~sçr~v05, abria um novo e imponanle u1or do
.,.,,,,1 .. ,.,/,.11ml. cn<1u,,1Ho o npresamcnto dos iodip:00! era um ne,&lo
"'"°'· '"
,1., ,.,l,ln,u ganlio,, comcrciois tt3111tantc:s do preaÇlo dos
,.,..,,1,uh.,111,· n:i rnlúni.,. com o,~<1lonos om.,enhados nesse"1!•
"''" ,1,1.,·, u '"'"""l:,ç,io ~rrnda no comércio de africanos. entrelanto,
111,1,. I'~"' ., 111rl11lr~•lo. 10:oli111~a,n-nu ,~ mcrcadcrc,i mot~poli1anm, cnp-
1.. 1,., º" ""~•l«lmont" ,1,.,,, ·m,rtadona'. r'-'SC 11,lvcz ~,n o segredo d1
u,,u,.., ••l~l•l•\•n' do 11~1!<0 • lavoura cscravisla." - p. IOS.

61
geis, Ião prcdrias, centrada na grande propriedade agrícola e na
exploração em larga escala, eslava fadada a arrastar consigo um
grande número de indivíduos, constantemente afetados pelas ílutua-
ções e incertezas do mercado imernacional ,,._ Ao mesmo 1empo,
impedia que as élesprovidos de cabedal livessem acesso às fon1es
geradoras de riqueza.
Por sua. vez, o escra.vismo desempenhava nesle processo um
papel igua.lmente imponante, bloqueando na maior pane das vezes
as possibilidades de utilização da mão-de-obra livre, limitada assim
ao:s inter.;1ício:s que, por um motivo ou por outro. não padiam ser
ocupados pelo 1rabalho escravo. Mais ainda: i=.tcio da economia
e principio articulador da sociedade, o escravismo gerava uma dcs-
qualificaçi!.o do trabalho nos olhos do homem livre, e provocava,
no escravo recém-egresso do cativeiro, uma situação bastante pe-
culiar e que não raro assumia as caracterlstieas de um verdadeiro
deslocamcn10. Mesmo assim, o número dos homens livres e liber-
tos aumenlou muito no decorrer do perlodo colonial.
Essa população livre 1evc, cn1rctanto, um papel extremamente
peculiar no nosso contcxlo colonial. I11icialmen1e, conforme viu
com propriedade Caio Prado Jr., a sociedade foi definida basica-
mente pelos seus extremos: os senhores e os escravos, IJUe os por-
tugueses conheciam e exploravam desde o !óéculo XV 1 :; as funções
sócio-ccon8micas eram, então, bem definidas. No decorrer do pro-
i:esso de coloniZBção, os extremos da escala social conlinuaram a.
ser claramente configurados, mas a estrutura da sociedade foi se

36. Celso Furtado çhama a a1ençlo, llll obra já dtado, parn a enorme
,;opacidade da indÚl1ri11 ai;ue,,reira em rcsi!úr aos Ou.lCl'I e refluxm do mer-
,;ado intnn11cion11I; refe~se cn1rctanlo ao m11Quinllrio, 110! bens de çapi111l.
Pare« evidcn1e que a populaçllo pobre e meJmo remediada muito sofreu
com essa instabilidade, conforme observa outro autor: M • • • i' 1111Sinalci ata
e...:,lui'1o r,or arrancas., por cil:los cm que se allcmam, no tempo e no espaço,
proq,cridadc e ruína, e que raume a his!ória econõmica do Brasil c:o16nia.
A, n:p.,rcuss&:s so,;iais de uma tal hist6ria foram nd1111.u; cm c;ada 111111
descendente, dufaz.-~ um pedaço da CSlnlrura c:olonial, desaanp-sc I pane
da sociedudc alin,id11 pela cri..,. Um n,imcro mais ou ""'~°"nvullado de
individuo, inuliliui-sc, perde 1u11s rafies e base YÍLBI de ,ublt!ltl!ncin. PllS.1.llri
a vcGc1u à margem da ordem social." - Caio Pmdn Jr., Formarão do Bra-
sil Con1,mpor8Mo (1942), u.• ed., Sllio Paulo, 1973, p. 286.
Semclhan1c f I pOliçAo de ~rgio Buarque de Hollanda: M(b Pf'Óprias
,·icios do ,is1cma econômiro de ~rodu~õo tinham çrM.do. em 10<'0 o Bra,il
colonial, uma imensa popula<;,lo flu1u1n1c, 11em pasi~ IOcial nf1ido, vivi:ndo
p,.ntSitariamcnte à moracm das atividadCII regulares e remuneradoras."' -
Monç&.r, 2.• cd .• Sil.o Paulo, 1976. pp. 71-72.
37. Em A E.JC"ra•·idão ofrfctma iro lira.ri/ - dtu orlg11,.r ~ utinção do
mi/it:0, Maurlcio Goulerl for11C1:c um painel 1cral do, pri...,..iros tempos do
c:scniviuno em Ponusal e nu suas ,;olónia1. Cf. c;ap. 1. pp. 7-28.

62
tomando mais complexa devido ao aumento da "camada intermé-
dia", cuja indefinição inicial foi, aos poucos, assumindo o caráter
de descfassificaçílo •.
• A camada dos dcsclassiricados ocupou todo o "vácuo imenso"
que se abriu entre os ex1rcmos da escala social, categorias "nilida·
men1e definidas e entrosadas na obra da colonização" n. Ao con·
trário dos senhores e dos escravos, essa camada não possui estru--
mra social con/igitrada, carac1erizando-se pela nuidez, pela insta-
bilidade, pelo trabalho esporádico, incerto e aleatório"º· Ocupou
as funções que o escravo não podia desempenhar, ou por ser anti·
econômico desviar mio-de-obra da produção, ou por colocar em
risco a condição servil: funções de supervisão (o feitor), de defesa
e policiamento (capit.llo-do-mato, rnillcias e ordenanças), e funções
complementares à produção (desm.atamenlo, preparo do solo para
o plan1io).,
No Brasil, como no Ocidenie modemo, o trabalho decente e
honrado é o que se relaciona à praga bíblica: "amassarás o pão
com o suor do teu rosto". Mas há diferenças b!sicas entre a con·
cepção de desclassiricado na Europa pré-capitalista e no Brasil co-
lonial: lá, a inadaptação a fonnas sistemá1icas de exploração do
lrabalho pode ser explicad11 pelo naseimen10 da sociedade capitalista
que dcses1ru1urou o trabalho de cará1cr colelivo dos servos feu-
dais: aqui, são o escravismo e a necessidade da supere1tploroção os
principais responsáveis pelo avihamen10. do trabalho, avil111men10
C!;.~C (llle torne impossfvcl a compreensão e o persistência das formas
primitivas comunitárias e assis1emé1icas de trabalho, como [oram
111. "'Mas íormaram-u aos poucas ou1ru eateaoriu, que nlo eram de
r..:rnvm nem podiam mr de 1enhoRS. Pan elas olo havia llljl!I' no 1isl:ema
11ro•lu1ivo do colônia. Ap,:mr dino, seus con1insenta fora.m crmcimdo, cre·
1'1111r,uu que lam~m era í11al, e rcsullava do mesmo siucma da coloniza&,ão.
lu ohunm coMlituindo uma par1e ,;o1111idcr!M:I da popula&,ão e 1endmdo sem-
i"" I""" o numenm. O dcsequilibrio era fa1al." - CQio Prado Jr., op. cil.,
1' lf\0
,,, C'i,io Prado Jr .• op. ci1., p. 281.
fü '"l'ar;, tslt sctoc, não se pode nem ao mm"5 falar em 'enrutun
"" h•I', l'""I"º ~ 11 inolnhilidndc e incoer~ncin que a c11mcteriz.em, tendendo
º"' !,~1.,, ,,. cario• pum e,1u formu Hl<CIT)ll5 de dc:sagrt,pçio social, tio
,,.,,.,,., r um,c1rrf,11c,o, du v1du br~•ikir;, e que notei cm oulro capftulo;
" •11,ll,u•11• ~" rnbocli111~Ao." - Cnio Prndo Jr., op. cil., p, 34.
11,u • '" "''" f'rrlm,lo, dl7. l'lorc,1011 l'crnondcs: "Entre es,u doilr e11re-
"'"' '""""'" um, l"'l'""'1·do lfrrr de p,.,.,çao ambíguo, r,redominantemcole
'"""'ª ,1, 1""'"'"' r l1Mll11rnn•, ,1uc"' i,tcnlificnvn com tl Ml8~DIO domi-
'''"'' ,,., '""'"' ,Ir lrHl<1n,lr r ,Ir ,ol~lnr,c,hnk, nm, nem sempre se incluía
,,, ,,,,i..,, "'""""'"' llr~lr "ur,,uucnlo ,1;, economia colon1al foi mais
'"''""" '"' '""" fhu~u ln1unmr111r 111111M"111lin1du, proleBcndo-K sob n ln-
"'' ,1, ,uh,l•l~mlM 111~, '""''"""'"'""' "condl~t'\t~ p,:rmnncn1c1 de unomiu
.... ,,1 • '" """ r.. ~'"'" ~ l'n11lo, 1nfi, "'P "/\ ,w,;icdadl, ncn.vl,111", p. l2

63
a africana e a indígena. Nas melrópol~ e nas colônias, é o mo-
mento da gestação do capitalismo; entretanto, apesar de complc-
imntares, conexas e a1é mesmo indissociáveis, são diversas as for-
mas tom que se apresen1a cm um e noutro ponto do mundo. t
nessa unidade contraditória do ienômeno que se explica a especifi-
cidade do processo his1órico em cada uma das partes.
"'A noção de trabalho vigenle na i;ol6nia é importante para a
compreensão de ouua peculiaridade nossa: a extensão que cnn~
nós assume a expressão Yadiagem e a categoria Yadio. Mais do
que na Europa pré-capi1alis1a, o vadio é aqui o indivíduo que não
se insere nos padrões de nabalho ditados pela oblenção do lucro
imedio10, o designação podendo abarcar uma enorme gama de indi-
víduos e atividades csporádii;as, o que dificulta enormemente uma
definição obje1iva desta categoria social.-,
Alentando-se para algumas das i;ono1ações que a palavra assu-
me no trabalho do jesufta Antonil, pode-se ler uma idéia dessa
multiplicidade de acepções, aqui reíeremes a fins do s6eulo XVII
e inícios do M:culo XVIH, já que a Cult11ra e opu/incia surgiu cm
1711: "Para. vadios, tenha enxada e foices, e se se quiserem de1er
no engenho, mande-lhes dizer pelo feitor que, trabalhando, lhes
pagarão seu jornal. E, desla sorte, ou seguirão seu caminho, ou
de vadios se íarão jornaleiros" u. O vadio é aqui o individuo não
inserido na estrutura de produção colonial, e que pode, de um ma-
memo para o outro, ser aprovciiado por ela. Mais adiante, An-
lonil opõe vadio a homem de cabedal: "Convidou a fama das
minas tão abundantes do Brasil homens de ioda a casta e de Iodas
as parles, uns de cabedal. e ou1ros vadios" 17• Vadio, ncs1a pas-
sagem, é por e.\lensão todo homem desprovido de dinheiro. E ain·
da cm Anionil, a palavra adquire nova cor; "Os vadios que vêo
às minas para tirar ouro não dos ribeiros, mas dos canudos em
que o ajuntam e guardam os que trabalham nas calas, usaram de
1raiçõcs lamentáveis e de mortes mais que cruéis, ficando estes cri·
mes sem castigo•·•~. Este vadio é, portanto, criminoso e ladrão.
Identificados generieamenle aos infratora são os vadios de que
fala a correspondtncia entre Gomes Freire de Andrada e o gover-
nador in1erino Maninho de Mendonça de Pina e de Proença, quan-
do traiam dos mo1ins ocorridos no sertão do rio São Francisco em
1736 e que, segundo Diogo de Vasconcelos, consiitufrem« numa
1ípiea rcbcliiio de potentados locais con1ra o risco, ou seja, conlra

41. André Jo1iu AIIIOPil, op. cil .. p. 161.1.


42. Idem, p. 303.
4l. Idem, idem.

64
a autoridade organizada .. : "No senão houve duas as.suadas, uma
coo1ra o juiz de Papagaio que ia tirar uma devassa na barra do
rio das Velhas, outra nos confins da capitania para a par1e do rio
das Velhas, digo rio Verde, contra o comissiirio Andn! Moreira de
Carvalho, encarrçgado da cobrança da capitação, e suposto que só
constassem de vadio.v que como diziam não queriam que se tiral>SC
devassa aonde nunca se tirou, nem se cobrasse direito algum real
aonde só se devia dízimo a Deus ... " 4&_ Estes vadios são, por-
tanto, indivíduos que, eo que parece, rormulam e0m clareza a sue
resistência ame o Estado, insis1indo na pen.istência do localismo.
Podem, nesse contexto, ser opositores bem situados socialmente,
mas um trecho que segue na mesma car1a faz pensar que scjnm
mandatiirios de potentados: ". . . mandando logo prender Antonio
Tinoco Barcellos, que por car1as de pessoas que reputo zelosos e
verdadeiras, me constava fomentar os vadios que fizeram as nssua-
das" 46_
Em carta de 24 de julho de 1736, Gomes Freire, ocupado com
negócios no Rio de Janeiro, congratulava o interino pelas "admirá-
veis providências que tem 1omado para o senão a extinção dos va-
dio~". aqui cleramente idenlificados a revoltosos 67 • Trabalhador
rspor:idico, homem desprovido de dinheiro, c:Timinoso, ladrão, suble·
\'ado. revoltoso e até mesmo po1en1ado dissidente, eis algumas das
~unot:u;t1cs assumidas pela pcnonagem do vadio colonial. Apesar
d11 unprccisâo. [)Ode-se, na maior pane das vezes, idcntifH:ar vadio
r htm1e111 pobre expropriado, mesmo que para isto seja necessário
unm k1mrn cuidados.a das fontes. O que se toma flagrante a par-
llr dr\sn ldmra é, entretamo, o destaque especial dado no tenno
101110 dcsign111ivo da iníração e da desclassificação, o que jii fora
111H111iudo ocima quando se constatou o uso que dessa palavra se
'"' uu~ leis portugueses. Por' um motivo ou por outro, por mais
11111111111 e fluiilo 11uc 1c11ha ~illo a "camada i11tennédia" nos tempos
, 11h1111111s, nllo pnrrcc 1>equcno o pnpcl nela desempenhado pelo que
,,, , u11vc11cionou chmnur 1,m/io, expressão que, de agorn em diante,
•11•111 hn1Ucrurme111c u~adu ncs1e trabalho como sinônimo de des-
, 111 .. 1lll11do sociul.

11 lllnwn tle Vn'!l;onççJlo,. HimJrla Mhlla de M/,r.as Gtrals, ~pllulo


Mnlli" i,n Ofllílo"
1, 1 ,.,.,, tio Mnrlmho tio McntloftÇII n Gome, Freire - 29-Vl-17JIS,
111 M.. 11.,, "" •011~0 e <>lllrn! ocom!nci& crn Mina,, Gerais", RAPM, vol.
1 U'•n I' M'l
·~ 1,1,111, hl1111 .•, "'º·
4/ "l)qo ~••IH tio HlllO. sr. Oornni Frcin: de Andrade. ·•, in R.4PH•
.,.1 111\!I. 11, 1' Ufl

65
Elemento vomitado por um sistema que simultaneamente o
criava e o dei~ava sem razão de ser, vadio poderia se tomar o
pequeno proprietãrio que não consegüia se manter à sombro do
senhor de engenho; o anesilo que não encontrava meio propicio
para o eiten::ício de sua profissão; o mula10 que não desejava mou-
rejar ao lado do negro - pois não queria ser confundido com ele
- e que não tinha condições de ingressar no mundo dos brancos;
vadio continuava muitas vezes a ser o que já viera de além-mar com
esta pecha: o criminoso, o ladrão, o degredado em geral. A sua
volta formava-se um circulo vicioso: à estrutura econômica engen-
drava o desocupado, impedindo-o de ter atividades constanies; o
desocupado, desprovido de trabalho, tornava-se oneroso ao sistema.
Aparentando-se com os componentes do e11.éreito industrial de re-
serva, o desclassificado se engas1ava, en1retanto, num conte11.to pró-
prio: o do escravismo.

4. 0 proces!O d e ~ DU Minas.
Personagem presente na nossa his16ria desde os inleios da colo-
nizaçilo, a genese e desenvolvimento do vadio 1iveram características
gerais comuns a Ioda a colônia. Ten1ei traçar acima as compo-
nentes es1ruturajs gereis de seu engendramen10, passando, a partir
de agora, a e:ii:aminar as peculiaridades que envolveram a sua pre-
sença na zona mineradora.
Como já foi visto no capítulo anterior. a mineração se estabe-
leceu sob o signo da pobreza e da con1urbação social, marcando-a
sobre1udo o enorme afiWlo de gente que acudiu ao apelo do ouro
e cuja composição social se apresentava bastante heterogenea. Mais
do que em qualquer outro ponto da colônia, foi grande nas Minas
a instabilidade social, a ilinerância, o imediatismo, o caráter pro-
visório assumido pelos empreendimentos.
Os arraiais auriferos foram, nos primeiros 1empos, "freguesias
móveis como os filhos de Israel no deseno" 0 . O autor do diério
da viagem do conde de Assumar às Minas se espanta com o aspecto
de São João dei Rei, que podendo ser das mais bem plan1adas vilas
das Minas, era, en1retan10, uma das piores, ·'per ler quase todas as
casas de palha, e umas mui separadas das outras e juntamen1e pelas
lavras de ouro, que ficam tão perto delas, que hoje se rezem, ama-
nhã as botam em terra para iraba\hu, o que causa ioda a irregu-
laridade ... " 41. De fato, a empresa mineira era 1ronsit6ria e iti·
48. Ao1onil,op.c:i1.,p.264.
49. "Di6rio da jornada que fc:z o Clllll.O, sr. D. Pedro dmde o Rio de
l~neiro RI~ a cid!Kle de Sio Poulo e cksla 116 u Miou, no ano de 1717'"
Ru·l•I" ,lo .\'l'IIAN. n. 0 ), p. 111.
neran1e, caracieriz.ando-se pelo bailio teor de capilal filio e pela
capacidade de deslocamen10 cm tempo M=la1ivllfflente curio. A
exploração aurífera obedecia, no seu desenvolvimento, ao lucro mais
imediato: vollava-sc inicialmen1e para o ouro deposilado no rundo
dos rios (aluvião), depois para o ouro depositado nas encostas (gru-
piaras) e, finalmente, para os veios subterrâneos (galerias). Nesse
conte:uo, era a rase inicial a que maiores lucros apresen1av11. A
população acompanhava os 1rabalhos da ellploração aurííera no seu
i1incrário, canalizando para a mineração lodos os seus esforços e
deixando de lado as outras atividades. Os resultados imedia1os
desse procedimenio eram, por um lado, o desenraizamento constante
da população e, por outro, a fome que, confonne se viu no capí,
tulo anterior, assombrava a empresa mineradora IIO. As pessoas
tendiam a ver como provisório e intermitente 1udo que as cercava;
as primeiras minerações, situadas ao longo dos rios, sujei1avam o
rl1mo do seu uabalho à alternância dos perlodos de chuva e de
seca. A fiução do homem à 1erra só se estabilizava um pouco
niais quando a e11ploração se fixava nos aluviões de meia encos1a,
us ,rrupiaras ou catas alra.sn•.
A itinerância e o senso do provisório per.;istiram por muito
tempo, a ponlo de, em 1808, Mawe copiar seus ecos: " ... os agri-
cullnrcs pareciam agir como se o arrendamento, em virtude do qual
possuíam as 1erras, es1ivesse prestes a ser anulado: ludo em tomo
dele.\ rarccia anunciar criaturas que vivem de ellpedientes" a:.:. Ell·
11lk111ln nas Minas por uma série de fatores ligados ao caráter da

:·1~!~~:~::~ã~::;ir::;ri:S:!t~u~ite~~~=a:~· c:'1o~o:~1,
m1f11içilo rfipic.la e imcdia1a do maior lucro passível a:i.
~~::1~da c~~
Uma sirie

10 l'aro C.'lSII ilineri.ru:ia da empn=u. e o bab10 lcar de çapital (mo,


,., 1·01.., l'urlodo. op. ci1., p. 82.

11~:;::d:t ~=·::r !
,.,,,1,:1:,
11 0
~~~/:':1'°~i=~ : ;
id~-m~:;rp~
""I No, ,1111 "Mcmório'" ~ 179'9, Vieira Cou10 d6 um molivo pllllll!vel: "O
1.,,.,,., ,ln -e ""lcrror um homem em uma mini por iodo um dia, de se
ol••l'.,11, 110 ,mrw:cr do sol de au& brilhante 1~ e de s6 l!ll suiar pelo fraeo
, l,,R,. ,le umo cnndcia, de ouvir e!l!alar a c:ada imuanle a monlanha sobre
, , ~,.,, 1n. • copcrnr a cada pallSO pc:la morcc, parece que cstu coiaa foram
,1.,,,.,1,.,.,1,. 1>m1cn II rouco m homens do trabolho das minas, e enfim 01
I'"'
,1,,,,.,.11,.i11m 11nm •·u purn o mineração dos rioa". - op. cit., p. 300.
•J M,,wr, op cn,, pp. 154-l"iS.
'' i "'" l'rodu Ir. con,i<.lcra mr dcslocl1mcnlos de populaç!.o como en-
'''"' " ,,,01,11,.,, ~<1r11c1cr;,.1c.,rncnle bnl!ilciros de procura dc melhorn coo-
,1,111-, ••!•
Nn llto.,I, ruio ~ 1mrlicuh1rmcn1c ac,11,~cl pelo coráicr que IO·
'""'"" ,,,1,,,.+1 ..,~.,, u111ovoÍILt111omo 11knl6rio cm Cl\do um de .:ui momcnlOIII,
''''"" ••••nio•• "" <111uh"" 11 "'""" ""momio, de orno cnniunturo pus111cim·
"'""'' 1~•,.,hnl 1·1111l•a •e n can" como IIC e~lmi o mno. como maia larde
" 1'1"'1~,~ n ~•••Ml•o "" o cafd 1lmrlD01mcn1a op0rh1Pldo&I do n1omen10 . ··

67
infindável de ditados populares refletem esse estado de coisas, que
empresta suas carac1eristicas tamWm à formação social da colônia,
profundamente marcada pela instabilidade: "Por íora muita fa-
rofa, por dentro molambo só", citado por Gilberto Freyre e que
apresenta oulra variação: "Por fora bela viola, por dentro pilo
bolorento", um e ouuo renctindo a idl!ia do falso fausto que já foi
explorada atrás; "Pai rico, filho nobre, neto pobre", também men-
cionado pelo sociólogo pernambucano, é um ditado que, nas Minas,
assume cor local - "Capitão Tomé ouro só, neto molambo só" -
e que no sul do Bras.il se apresenta como "Pai laverneiro, filho ca-
valeiro, neto indigen1e" e.t; regis1re-sc ainda "Avô ladrão, filho ba-
rão, neto mandrião". Há também os curiosos ditos coletados por
Aires da. Mata Machado na região do arraial da. Chapada, e que,
mesmo quando posteriores à época de ouro da mineração, são extre-
mamente significa1ivos como rcmaoesdncia.s: "Mineração e elei-
ção, s6 depois da apuração", claramen1e alll.'iivo à (raude eleitora.!,
numa comparação enirc o caráter incerto do resultado das eleiçõCll
e o da faina mineradora; ·'Serviço de muita ganga, entra vestido e
sai de 1anga.", onde rica expresso o perigo representado por inves-
timentos de vulto em algo tão aleatório como a mineração. E, por
rim, an1e todos os aspectos adversos desia atividade, o conformismo
do mineiro: "O que há de ser meu está debaixo da terra", onde
o duplo seniido liga inexoravelmente o homem ao seu trabalho a.t~
que sobrevenha. a. morte~~-
Na mineração, como de resto em qualquer atividade primordial
da colônia, a força de 1rabalho era basicamente escrava, havendo
entretanro os inlerslicios oaipados pelo trnbalho livre ou semili-
vrc "". Dificilmente o homem livre destituído de recursos vultosos
poderia se manter como proprietário, sobretudo em Minas, re-
gião que, apesar de 1ida tradicionalmente como rica e democrá1ica,
apresen1ava pos.sibilidades- favoráveis apenas a um pequeno número
de pessoas. A análise empreendida no capllulo a.nterior ten1ou
mostrar es1e aspec10 restrito da riqueza, e os documentos relalivos

- op. ci1 .• p. 73. H, a .mo= ra;peilo uma bela ()IIISIICD1 de Ouimarlc:r, Roa:
··Quem i pobll', pouca se apega, f um 1iro-siro no ~aao das prv.ie, que nem
... plWJl.rOll de rios e la8QILI. O senhor v!; o ZbZim, o melhor meeiro meu
aqui, risonhoch1bilidoso,Pergunto: 'Z.6-Zim,porquciqucvoolnlocria
galinha, d"1m11ola, como lodo o mundo faz.?' 'Quero criar nada alo ... ' -
me deu rc,poalli: "Eu 80310 muito de mudar. . '~ - Grande Strlilo; Vtrlllas,
12. 1 cll., Rio, 1978, p. 3S.
,4. Ciilbcrm 1-"rcyrc. Ctua Gra1rdt d: Strita/a, n:apcctivameate pp. 331,
356 e 86.
5~. Aires Jo M11la M11chrn:lo Filho. O ~,ro e o garimpo em Mina.,
Grrals, Rio, ,.J., p. 12.
J6. Ao.-0110 Fcrnundcs, ··A sociedade CICn.Vilta", i.a op. cl!., pp. :Z0.21.

68
à desisualdede e injus1iça na distribuição das da1as minerais glosam
CS.'iB análise.
De início, pelo Regimen10 de disnibuição das lavras, no1a-se
o caráter restritivo e eminentemente escravista da mineração: as
da1as seriam concedidas coníorme o número de escravos que cada
um possuís.se, donde parece ficar descartada a possibilidade, para
o homem livre pobre, de possuir lavra sua ª1 • Mesmo que se tome
como ponto ele panida a aíirmaçio corrcn1c que diz ler sido muito
raro o homem livre que, mesmo pobre, não possuísse escravos, de-
ír<intamo-nos com uma situação de injustiça e desigualdade, refle1ida
mê nos documentos oíiciais. Essa si1uação acha-se descri1a em car-
ta do Ouvidor-Geral da Comarca do rio das Manes, datada de
1733: "Senhor. Na rorma do capítulo 5. 0 , e 20 do Regimento
tfas terras minerais, é V.M. servido ordenar se repartam estas, sc-
gunUo o número de escravos, que os mineiros 1iverem, repanindo-se
as cla1as, braças e ainda palmos, sendo necessário, para que todos,
assim ricos, como pobres, fiquem acomodados, e exuaiam ouro, o
que se tem praticado 1anto pelo contrário nestas Minas, que os ricos
íi7.cram, e tem feito seleiros das terras minerais, em prejulzo dos
Reais Quintos de V.M., e da observância do capítulo 7. 0 do mes-
nm Regimento, porque as não lavram, e de dos pobres, que não
tcnUo onde uabalhar se sujeitam a me1er os escravos nas lavras
dm1uclcs só pelo terço do ouro que e,araem, ou lhas compram por
Clt1rhi1antcs preços, fico11do os pobres sem terras paro lovror, lw-
1·tuclo-a'> em poder dos ricos e poderosos, de cuja desordem nascem
morte~. demandas e dissenções ... " Os grandes responsáveis por
nw c~lm.lo de coisas seriam, segundo o Ouvidor, os Guardas-Mo-
•c•, que "por sua própria autoridade" davam iodas as lavras aos
r,o.ulcrosu\ e dci:i;avam os pobres ''sem lhe n:panircm uma tio-só
hrn\·11'·. O magistrado pedia solução para as injusliças e uma n:-
r1111t11;ílo n111i~ rncional des terras, de maneira a que ficas.sem ··a&Sim
11w~. curuo poUCrosos, e pobres todos acomodados, e e1traiam ouro,
l' pugucm 11uintos a V.M."11,11.

'7 A primcirn dalo cabia ao descobridor do ribeiro, que 1inh.ti o di•


,.li., ,t, c,colhcr o local; 11 2.• ia pnra a Fazenda Real, sendo vendida cm
., • .,., puh11l·ao ,..1,. maior r~o: a 1erceir11 também ero dada ao descobridor
•'"'" que "minerasse: as demais eram dl!ltribuidu aai. p~1cndcnte, conforme
"'"""'"' de e....,r11vr,,i de cado um: "Se o pretendente tivesse 12 ou m1i1
''" ,.,,.,,., N"""""u umu ,111111 de JO broç11s em quadm (cerca de 66~); u
" ,n1u,11n ,~,.,.,1.,c "'º"'" ,lc 12 c~rnvos, rc«bcrio terra mineral na pro·
•""•ª" ,lo l '""~"" e 111eli1 por cKrnvo (cerca de S,5m'Z)". - Waldcmor de
l\l11u•hl11 lhuhu•n, np. dl .• vnl. [, p, S~.
,N I HII• ,lo n11vi,tor·Ncrnl Ji, conm,c:, do rio das Mones. e 1uperin•
••11,l,111r. 1•,.1111.'iu·n I cllc Tua,ca - 20.VU,1733, in "Terru Mincrai1 -

69
O rei, D. João V, respondeu com uma proviS!o dirigida ao
conde das Gaívêas, ordenando-lhe que se manifestasse sobre a
"desordem" a que aludia o Ouvidor. A preocupação que movia as
autoridades no sentido de procurarem uma distribuição mais justa
das datas não era a situação de penúria em que se encontravam os
mineiros modestos, com quem, de fato, pouco se importavam a Coroa
e seus prebostes; o verdadeiro interesse em jogo era o pagamento
adequado dos Reais Quintos, a que devia concorrer o maior número
possível de pessoas".
A principal resposta do homem livre pobre ante a situação foi,
ao que iodo indica, o garimpo e a faiscagem, que mal davam para
a subsistência. Os "'homens faiscadores" trabalhavam nos rios com
uns poucos escravos, e muitos deixavam esse 1ipo de atividade por
m1o poderem se mamer, nem a seus negros•.
A siiua~Ao continuou difícil para o pequeno minerador du-
rante todo o período. Se a empresa exigia algum serviço mais
custoso, o mineiro não tinha condições de arcar com as despesas 61 •
Não era, assim, de admirar que muitos caíssem na miséria, sobre-
tudo quando a mineração começou a declinar. Não se minerava
sero escravos, e estes eram custosos, além de morrerem em grande

Rcl1çlo das ordens sobre: tcmu mincniis, que, por cópia, foi enviada 10
Conselho Geral da Provf!Kia de Minas Gerais'' - .R.A.PM, 1, 1896, pp.
6911-700.
511. B1111antc lúcida para a fp0Q]. t o (ormulação de Dioao de Vu-
cono.ello, no grande livro que t II HisuJrir, Mblia: '"As duas principais u.U·
11111 que impediram a orp.nizaçio econ&nica d11.1 indúsirias eram as miou
de ouro e a c:so:ravidlo. Como bem ,e adivinha, elas causas deixal'llm o:1
mOÇO$ .sem cmprclJO, a.inda qi& quisc:sscm emprepr-sc: e, como ftl:111 todo,
podiam receber uma eduçaçlo monl suficiente, o.lo era para se estranhar
que os povo:1do!i se cnchci!em de libeninas e turbulentos." - pp. 212-213.
60. " ... a. maior pane deles slo as que andam perdidos, porque nln
1in.m H pedras, que bastem pan,, que o ,cu valor lhe U o llt!llcnto panas
.cus nc1ros .. ."' - .. Cana de D. Lournço de Almeida I S. Mjdc. sobre
pro\id<lncias a tomar na e x ~ dCJS diamanlc::i.~ - JI.VJ.1730, .R.A.PM,
vol. VII, 1902, p. 266.
61. .. . . . sendo-me çomlan1e a grande deçadtncia cm que mio u
lavr11 del11 capi11nia por scn:m limi1adas b faislQuciras dôt serviço, cm
qll<"sc 1rabalhaepornio1eremasmincirC1Saspcll#ln«esslriuparaf11U-
rcm algun! scrvi,os custosos, que poderiam ser de grande ulilidade. •·
Bondo de D. Antonio de Noronha - IS-lli-1776, APM, S.C.• cód. ,o. n,.
68v.
O,z o desembargador Teixeira Coelho: "Ü!I mineiros, que !IC acham
ful1,.,. de cnhfdnis e onerados i:om muitas dividas, nlo J)OOem fozcr servi'r()S
cust,>SM: co111cn1am-sc peln maior parle, por causa da indi11encio, cm serem
simples foiscadorc3, S:ibcm que cm aIBuns sfliOll das ,uu ICrrH IC ocullam
rtCD3 fornmçõe•, e vcciros de ouro: porim como para o extraírem lhes d
preciso íaur .erv,ços que nccdom as suu possibifüladc::i, nno se animam
a entrar na exccuçAo de umo obra que nlo 1cm proporção com 11.1 1uu
for.se." - pp. 499-500.

70
número no serviço insalubre das lavras a:, Carentes de mão-de-obra,
os mineiros com freqüência faziam os trabalhos de maneira ina-
dequada, emulhando canais que ainda poderiam ser úteis: "Desle
modo as tems de mineração em poucos anos se tomam inúteis; e
os mineiros sucumbem aos miscrá~is efeitos da indigência" "". Até
os filhos de antigos e ricos mineiros, empenhados e falidos, caíam
na miséria, e desesperançosos da mineração, escondiam-se nos matos
e nas roças... No início do século XIX, os viajanles traçarão o re-
trato trágico de homens miseráveis que vegetavam nas Hmbrias do
sis1ema, voltados para uma agricultura de subsistência mesquinhe e
esporádica que, muitas vezes, mal conseguia impedir com que
morressem de fome.

5. As ririas fonDll!I da alfBdade do9 ~

Somando-se aos aventun::iros do ouro e aos desclassiíii;ados que


Portugal despejava nas Minas, toda uma camada de gente decalda e
triturada pela engrenagem econômica da colônia ficava aparentemente
sem razão de ser, vagando pelos arraiais, pedindo esmola e co-
mida, brigando pelas estradas e pelas serranias, amanhecendo mona
embaixo das pontes ou no fundo dos córregos mineiros. Muitos
morriam de fome e de doença., mestiços desraçados que, não bas-
t:ts~c a desclliliificação social e econômica, traziam estigmatizada na.
pele a Jesdassiíicaçilo racia.1.... Sua presença. inquietava os admi-
m~wuJurcs coloniais e todos aqueles que escreveram sobre as Minas;
llen1rc es1es, cabe des1acar o desembargador Teixeira Coelho.
~2 ~ como mon.ai!, csdD oa CM:nY'111 111jeilos llo wlhic:e, à dDmçll
~ li mouc, e o,;la muila.!I vaes .e acelera ou dt:baillO d,,9 ruinu de uma cllla
111uru11d11,ounocei.odosrios,qucU1111imprC\'Ulad11:ia0110111roaJau,m
1n,1<l~11te urrombara.~ - J~ Elói Ononi, "Memória sobre o eslado alllal
d• C'np1111n11 de Minu Oenit" - 1798 - A.BN. vol. >OOC, p. 304.
bl ""~ 1'16i ()Uoni, op. eit., p. 305.
6-1 Vieira Couto. '"Considen.çõel sobre a duu cl!IS3Q ... "', RJRGB,
v .l,,;X\', IH62, p. 421.
hl. A idéin curioia da desa:laaificaçlo n1Cial foi, de cata forma, deseo-
,.,1,;.1,. por Ml\rio de Andrade num dO$ mais bel"' emaios que se CSló7e1/Cl"Bm
"" ll1n.il: ·'Que .,. mulatm eram façanhudos. nlo iem diivi:la que sim.
M,,. r11,m p.-.rfm, pelo sill'lplcs í,to de fonnan:m a clUK KrYil numerosa,
""" 11-.e f' u,n1os vezes a classl: que desi:lusifica as holl'lma ... (,,.) Os
11,11101.,, ,.,\u cr:,m ~m milhorei nem piore que brancos ponu~ ou
"'•"" 11h1«L1k>• O q"" clcs ...tavam ena num1 si1u1çlio particular. des,:;lu,
,1f1, ,11ln• I"" nAo lerem raça mais. Nem eram ncg:l"OII sob o bacalhau C!Cfa·
''"'"'" "'"' h1nnc, .. m1nJõcs e donos livre, doúulot duma libenhde muito
, .,,,, ,1ue "~" lmhu 11C"nhum• c•p,!,.:ic ,k cducaçfio, rcm meios para se ocupar
1·•111,1111,111,mrnle Nftu crum (3C;JIIYIJll mais. niio chegavam II ser proletariado,
"""' no,lo ' "O Aloljadlnho" ( 1928), in ,bp«t<n d4I ,fri,4 Plbll~ "º
11111,11, Jilu 1'11110, 1.d., pp. 19-10

71
A sua lrrslmção para o govuno da capitania de Minas Gerais
(1780) é um documento precioso e indispensável à compreensão do
século XVIII mineiro. Nela, o magistrado se estende sobre os
vadios, origem e causa de toda a espéde de desordens, e adota
uma posição c:memamenle peculiar cm face do problema que
rcpn:scn1am: •·os vadios são o ódio de todas as nações civilizadas, e
contra eles se tem muitas vezes legislado; porém as regras comuns
relativas a este J)ODIO não podem ser aplicáveis ao território de
Minas; porque e1tt.1 vadio.s, que em outra partt seriam preiudidais,
.siio ali úttis" "· Negros fonos e mestiços na sua maior parle -
mularos, cahoclos, carijós - , serviam para povoar locais distantes
como Cuicté, Abre Campo e Peçanha, onde se iam estabelecendo
presfdios; engrossavam os contingentes que emravam maio adentro
o:Jestruindo quilombos e prendendo foragidos; cultivavam plantações
o:Je subsist!ncia, enlim, realizavam uma série de tarefas que não
poo:Jlam ser cumpridas pela mão-de-obra escrava.
Os vadios - e eis aqui esta palavra servindo para designar
toda a camada dos desclassificados sociais - existiam em rodos
os países, erum pane constitutiva do momento his16rico, e contra
eles incidia toda a legislação repressiva que, tendo florescido com
especial vigor nos séculos XVI e XVII, entrava pelo século XVIII.
Em toda parte, eram motivo de preocupação para as autoridades,
que os fechavam cm •·workhouscs", cm hosplcios, em instituições de
caridade 81 . Gcrcmcck narra as hostilidade.~ que, já nos séculos XIV
e XV, existiam contra os marginais, e que se lraduziam muitas vezes
cm cxpressõc~ lingüísticas. Dá o exemplo de um vagabundo auxi-
liar de pedreiro que aparece cono:Jenao:Jo com sentença de morte por
ser imí1if ao m1.mdo"". Veredicto pronunciado cm relação a um
vagabundo, Gcremeck o considera como expressão o:Ja opinião cor-
rente sobre os marginais, chegando mesmo a afirmar que "o des·
prezo de que são objeto consti1ui o cimento dessas categorias Ião
diversas, 1io diícrcn1es quanto à sua gênese e às funções que
assumem"..... A idéia de inulifidode de que se reves1e es1a cate-

66. Tei,:cira Cmlho, op. ci1., p. 479. O pifo i meu.


67. Cf. Michcl Fou,;a.ull. llisrolrr dr lo /ollt d NJ~ da;1siqut, Paris,
1972, 1.• pane, cap. 11, pp. S6,91; Pierre Deyon, ú ttmP1 dts prlmns,
Paris. 1975, cop. 11, pp, Jl-4a; Christion Pnullre, Dt /o rJprc.aion dr lo mrn-
1Jkiti rr d11 1·1111llb011dogt tn Francr sous /"A11citn RiRime (1906), Genebra.
1975 (rc-in1prcuilo), 3.~ pane, pp. 1)7-310.
68. Tcx1uolmcn1c, 1 senlCl!iD. dizia: ~E,1oi1 di&nc tk mouri1 commc
inulilc :,u monde, e·~ a"'llvoir d'cslre pendu commc larron'". B. Gcrcmco:k,
Us mori:inmn par/sim• aus XIV• ti XV• slkles, cap. IX ...Ls limilcs du
monde mor1_tim.r', p. 329.
69. Gcrcm«k, op. cil., p. 340.
Poroc:11iãodh intcrpn:laçio do nlito de CarlOll IX, de 1956. um juri.51.o
lionês dcrinc ''ªA"'bund., tb se11uin1r forma: ~vapbollm :111nt gens oiscux faiis-

72
goria social aparece, assim como característica da consciência co-
letiva de um momento histórico: o do surgimento do capi1alismo.
Acha•sc es1reitamcntc associada, creio po<lé·lo aíirn1ar, ao ônus que
representa a reprodução desta gente. Ê a esse ônus que Teixeira
Coelho opõe a u1ilidade dos vadios mineiros, que não eram caractc-
rís1ica exclusiva da colônia ponugursa sctcci:ntisla, mas podiam ser
encarados sob um ângulo especial, que desvendava a sua peculia•
ridade. Ê nesta peculiaridade que reside a qucs1i'lo.
De (ato, o que está por detrás da aíirmação de Teixeira Coelho
é a idéia de uma miio-de·obra afrernativa li escravo, de uma espécie
de exérciro de reserva da escravidão. Era assim que a vadiagem, a
desd11Ssiíicação social. se atrelava a um novo contcxlo, no qual a
utilidade ganhava des1aque mas convivia 1ambém com o ônus.
A documentaçllo permite que se consta1e com segurança a exis.
1,!ncia dos desclassiíicados sociais mineiros, mas não responde
à inc6gnita da sua reprodução. ou seja, as condições concretas de
~ua subsis1i!neia. Como comia e procriava uma "casta de gente"
que vivia de expedientes e de biscates esporádicos? Quem areava
com o ônus da reprodução de uma "gente ociosa que s6 servia
para consumir viveres" 10, quem suponava "o peso enorme da pane
dos vadios" 1 1?
r\ itMia da utilidade dos vadios no século XVIII mineiro se
r1111a. a!l.~im. de modo quase inexuicávcl com a idéia do ônus repre·
'l'Ul:Ll.lo pela vadiagem. Em 1770, escrevia o Conde de Va\ladares,
111wcrnador de Minas, a seu colega Luís Antonio de Souza, Mor•
~11110 llc Mateus e en1ão capitão-general da eapi1ania de São Paulo,
1t·l·611-recriatla: •·De mulatos, cabras e mestiços abunda esta ca-
p1111nia. fazcntlo·sc muitos deles pela sua vadiação, e ociosidade
,h~uO\ de sr /aurr11: sair desta i:api1a11ia e de :.e empreg/lrem em
, """" IÍlá.'i" ;~. A eliminação dos vadios pela sua expulsão da
, 11p111111in ~igniíit:ava ,1 supres.~ão de uma gente onerosa e indesejável,
11111, 1·,111 possihilid;1dc nparccia imediatamente as..~ociada ao emprego
,1111 ,kwla\\ií,c:idu~ c111 :Ligo tí1il. moslrando muito bem a oscilação
,,11, q,11· w 1·1,1111 c,wolvida~ ;1~ au1oridadcs. O mesmo Valladares,
•111,, , "",o w vem atlialllc leve na tentativa de solucionar o pro-

"'""'' I'''" ,,.,,. 11•cu. N""' 3han<lonnc:z. 11cm "'"' domic,lo, sans mcllicrd
,.,,,,1,,., ,, '""'"" ,,., "r11elle r,mfonnancc .S.. la police de Paris. acns qui
,,. •• ,,,.,1 ,1u, ,Ir "'""'"º· ~1111r pm,dr,s /11111//,u trttar". Apud G=meck.
, ,,.,,u,,,l11r ,.,y.,l~,rnlollC, r11ur,trismc .. ", p. 349
'" \,1,11,h", ,Ir ""'"~' M1111,,' .,Mcm6ri~~ d11 província de Min~ Ge·
"" ,uHl/',\/,VII, IKK,.p,42.
•I 11.l/'M •,•I VI, 1'1' 141,146.
1! 1 •• 111 ,lo t ""'Ir ,h· Vul1ndRrc, "" Mor~mlu de Malcu, -- 11).111-1770
111 ,,1 ~ui )(1..,, IKV\ 1• 172 O ,11rlfo l meu

73
blema dos vadios um dos pontos de honra de seu governo, insistia
jun10 aos capilães-mores para que os empregassem: "A minha pre·
sença 1em chegado que no Distrito da Campanha há várias pessoas
ociosas, que cometem suas 1ravessuras, com as quais causam per-
lurbações aos moradores, no que 1em grande culpa o comandante
daquele Distrilo, por não cuidar na forma das minhas ordens, em
os paciíicar, e repreender, ao qual deve admoestar de Ordem Minha,
para q11e reprima os ociosos, e vadios, fazendo q14e todos c11idem em
empregar-se 110.f selLT o/fdos, para que vivendo em paz, não me
venham representações ... " 11 Não rica explíci10 qual o caráter
desses oficios, mas es1á claramenlc formulada a necessidade de
associar a repressão à u1ifidade. O ônus cventualn'lcnlc rcprcscn1ado
pelos desclassiíicados convertia-se, através do castigo, em rraba/ho,
e portan10, em utilidade.
Várias eram as al1crnativas · para a utilização da mio-ele.abra
desclassificada: consiítuição dos corpos que se aventuravam pelo
senão em en1radas; a guarda, deíesa e manutenção dos presldios; o
trabalho nas obras públicas e na lavoura de subsistência; a fonnação
de corpos de guarda e policia privada; a composição de corpos
de inilkia e de oulros recrutados esporadicamente para fins di-
versos; a abertura e povoamento de novas áreas, as fron1eiras 14 •

73. "Pera o cn('iliio-mor Manud Antunes ( .. , )" - 10-1-1773, in APM,


se, eó,J. 11111, fls. 6V-7.
BasUioTeixeim de Savedra sugeria que"" c<tabil«~m novc,s pre:s(dio:s
""para que os prnc,s poUDm trobalhor nas obras púhlicos, pc,SSam alimentar-se
do seu u11hlllho~ - ~informação ... ", p. 678.
74. A milizaçlo dos vadios n...sas íunç<lcs foi. como j& se dis.sc. comum
a Ioda II col6nia: " ... ena p0p11laçilo livre pabrc representava uma esptcie
de 'argamassa parami'i1ar', US11da como um arletc na deíesa das povoações,
napene1raçAodos1CJTitóri..,.desconhccidosenaconq11is11denovasfronlei·
ras'" - Florestan Femaode:s, '"A sociedade escravi,1a", in Clrcu/10 Fechado,
SlioPaulo, 11176,p.33.
Em S.'io Paulo 1amb.em se aproveitaram dcsclas,ificado:11, conforme diz Sú-
sio Bunrque le Hollanda: "'Em m11i1os llljarcs. tai• clemen10,, podiam ser 1pro-
vci11dos com Y11nl11gem, e de Ílllo o eram, na formação de corpo:9 militarci
des1inados à fronteira, no or1ani1.açlo de povoaç&:,il novas, no desbravamen-
lo de scrtõc, des,;,;,nhecidos.. como os <b: Jvof e G11Rrap11ava. Mas nos di!i•
lri,os vizinhos do porlo de embarque das monções, uma grande parle dopes-
soal dt,pon[vd linha de ,cr absorvido no serviço das canaas.•· _ M,;,nç~1.
?.• ed., S. Paulo, 1976, pp. 71-72. Com os vadios do capilania formavam-se
as tripulaçÕC's das monçõe:s QllC partiam de PoMo Feliz (então Ararila,uaba)
para Cuiab;I, e segundo um capi1ilo-mor daquela localidade, ~Por isso c:!lla
gen1c de nleuma moMira devem !Cr respeitados J)Of' sua habilidade no 1ra-
balho do rio·· -- cit. p. 72.
Em Desterro. atuo! Florianópolis. havia car!ncia de mk>-de-obra por
oca1liioda p,scadns bnleins. não bostandoo1 l11VTI1.dorc!i pobrcsqu,c entio ,e
fatiam jornaleiros: "Os irabelhadore:s voluntáriO:!l não eram, todavia, Sllíícicn-
les por Ioda parte. As urmoçõc,,; recorriam, por iao. ac,s circcr~, mobilizando

74
A) Erirrada.s.

O dcvassamen10 do senilo das Minas e o esUlbclecimento dos


primeiros arraiais aurfferos se fizeram sob o signo do aproveita-
mcn10 dos desclassificados sociais nas bandeiras que entravam pelo
maio. Ames mesmo de se procurar ouro no território que depois
ficou chamado Minas Gerais, Gabriel Soan:s, na última década. do
século XVI, recebeu ordens reais para "tirar das prisões os Côn-
Uenados a degredo, que fossem oficiais mecânicos e mineiros; a
estes seria contado como da pena o tempo da expedição" 711 • Agos-
tinho Barbalho Bezerra, que em 1664 foi encarregado pelo rei do
"descobrimen10 e en1abolamento das Minas de Paranaguá", no então
distrito do Rio de Janeiro, recebeu inslruções semelhantes: "E por-
que pade acon1ecer que pelas eapi1anias e senões por onde fizer
jomada ao descobrimeoto das ditas minas andem algumas pessoas
re1iradas por crimes, ou casos por que a justiça seja pane e não
hajam outros: hei por bem que sendo necessário aproveitar-se o dito
Agostinho Darbalho das dilas pessoas para algumas noticias ou infor-
mações do que se pretende neste dcscobrimen10, lhe possa perdoar e
perdoe em meu nome o tal crime, que 1iver come1ido ... "~• A
bandeira não vingou devido à mone de Agostinho Barbalho, e nada
nrnis se sabe sobre estes possíveis infonnantes a serem utilizados
pela expedição. Mas a mesma idtia de informantes de condição
,01:i11I indeíinida aparece na narra1iva que José Joaquim da Rocha
rur. da bandeira de Fernão Dias Pais, que entrou para o senão lc-
"!m1lu cem, haswrdr1s: es1es, às margens do Vupubuçu, foram expe-
dulo, ··11 fim de examinar II finalidade das terras circunvizinhas a
r,1r lngn, a ver se achavam alguma língua, que melhor as infor-
11111,1.e do que buscavam" 11; bas1ardo podia então designar tanto o
filho niiiural como o mestiço, sendo cenamcnte esta a acepção a
,111r di1 rC~Jl'Cilo a passagem citada. De qualquer forma, uarar-se-iam
,tr i·h·111cn10, de mí!;Cra condição. an-egimentados para engrossar 11
~1111111•111 urriscuda do ser1aoista.

..,,.1,,.,,,.,.1,., u lrnhnlhos forçndU'> e olé ""'"mo rcquisilaYl\m ordenan;.as du


0,111,,,,. "" •111r" nlOoopólio real dn, arm.-içücs conlavu com a colabor~lo
1,., ,..,,.,,111,,.1r, Soh ameaç., <k r,risiio. 1am~m sr ra.:ruLIIYam vadios. fn:-
111, "' .. 1.. ,.,, .Ir l,i1cr11,". molivo r,clo quol muim g,,nlc fusia :ao se aprolimar
,, , • .,,,,.,,,,.1,. ,lu "'r""'' d.,. h:!lcia.'" -· Jncob Oorcnd,:,-. op, cii., p. 229.
,, ..\11,iul,, ,lc A,,,uJO M,11.1, "Memória da r,rovlncin de Mina, (;e. ,
,,,,. 11 u·,11. ,nl Vil. l'Hl2, p. 26 '
I!, l,,,.1,.,1.,, r ,,.,.,,,.,., ,te alNun, cs,;ri1os <.om rclnç~o 1a empresa de
'"""ll"h" 11,uh.,lh,, Ur,..,,rn 1>11111 dc1~ohr,mcnlO <lns csmcmld119. Com ol-
i'"'""
1
nl""'"'~/lo, • 11r101IJ1~1'\cc1"
1
l'roYÍ!lio de 20-V-1664 jn RAPM, vol.
1
~~/ /'..,, 'l,,,.,,111111 ,ln Mo,:11• op, dl., p. 4211

75
D. Rodrigo de Cas1c\ Blanco - csnanho aventureiro que
morreu cm condições trigieas, envolvendo Borba Gato CQmo poosivel
criminoso - 1am~m levou, ao que 1udo indica, a sua quota de
desclassificados; pelo menos é o que sugere o "Bando mandado
publicar na vila de São Paul~ e em todas as mais da capitenia,
dando perdão aos criminosos que andavam foragidos (cxccto os de
Lese-Majestade) para que se apresentassem a fim de fazer pene
da força com que D. Rodrigo de Castcl Blanco linha de cnirar para
o sertão cm descoberto de minas" r•.
Ao tratar do estimulo que julgava merecerem as expedições
voltadas pera a procura de pedras preciosas, ouro e outros metais
de valor econômico, José Manuel Sequeira também sugere o apro-
veitamento dos desclassificados: "0 único meio de que me lembro
(se é llci10 um simples vassalo indicar meios que só competem ao
soberano) cru o de um decreto real pelo qual se perdoas.sem todos e
quaisquer delitos antes cometidos que não forem de Lesa-Majestade
110s focinorosos, que vivem 1Jroíugos e foragidos, e que espontanea-
mente se apresentarem dentro de certo tempo para serem ôcupados
no exercício do sertão pelo tempo que merecer a gravidade do
delito" '". As diligências de Lucas de Azevedo no sentido de pro-
curor csmcroldas receberam, por "serem em tanta u1ilidade ao ser-
viço de Sua Majestade que Deus Guarde", o estimulo oficial no
sentido de arregimentarem desclassificados: ". . licença para poder
haver a si todos aqueles chamados gentios forros de mamalucos,
mulatos, negros, índios e bastardos que achar e tiver noticia !i-
rando-os de quolquer parte onde estiverem para o ajudarem nos
ditos descobrimentos ... "8<1 •
.E claro o motivo que norteia a adoção do~ desclassificados
corno componentes 11dequados para entradas e expedições scrtanis1as:
o enveredar pelo mato apresentava cnonne tentação para os ca-
tivos, que, em situaçõesscmelhames, buscavam a fuga e a liberdode.
Al(!m disso, era oneroso à economia colonial aíastar um nesro mi-
ncrodor de sua faina diãria.
Assim, dentro da colônia setecentista. as Minas apresentaram
feição peculiar: situadru, na região central, foram, de certa forma,
o resultado das entradas e bandeiras, que levavam um grande número

78. Mum1cl Euínlsio de Aievedo M11rquc,. Apo11fon1~11tos H/srdrlnu,


G~oi:rúJ/ws, lllotmf/lros, /;Jfof/sfiros " Nmlclosos do Prov/11t:fo d~ São Paulo,
S.Pnulo, l9S4,vo1.l,p.380.
79. José Monud Sequeira. "Memória", publicado in S~raio Buarque de
Holrundu. Mu11,;ões. p. 137.
HO. . .Licença de D. Drús Paltazar da Silveira a Lu"1s de Freil:13 de
Azevedo .. - ?9-V-1717, APM, se, cód. 9, n1. 49V-S0.

76
de desclassificados. A descJas.sificaçio seria, p:,is, panicularmente
intensa naquela regi!lo, que se constituiu assim numa amos1ragem
pri..,ilegioda do fenômeno ao mesmo tempo em que ali-.iou as outras
regiões dos seus elementos indesejados, funcionando como uma
"vé]vula interol!"·

B) Presídios.
Os presídios forem, em grande parte, mantidos e desenvolvidos
às custas do trabalho de desclassifico.dos. Localizavam-se em terro.s
remotas, as co11q11istw, e foram feitos para combater o extravio do
ouro, para inspecionar e impedir o avaoço dos índios, sobretudo
botocudos 81 . Em muilos deles viviam gentios catequiuidos e pa·
cíficos, e era freqüente possulrem campos de lavoura cultivados
pelos criminosos e desocupados. Os mo.is citados são o de Ahr~
Campo, o do Peçanha,. o do Cuicté, que ao que tudo indica é
a mesma localidade que algumas vezes surge designada como Casa
da Casca. ou Casca.~. Situada no lado Sul do rio Doce, era cor-
tai.la por vários córregos, ribeiros e rios menores, e cm suas margens
cnconirava-se ouro; mas havia um grande problema; índio bravo.
holocuUo. E~ta conquista havia s_ido promovida por Luís Diogo
1 oho da Silva. pcio Conde de Valadares e por D. Antonio de
Noronha. Este íihimo procurou torná-la produtiva, paro lá se di-
r111indo cm pessoa a 12 de setembro de 177981J. O presidio de
Ahre Campo fora desenvolvido pelo Conde de Valladarc:s, e sua
rnU\crvuçãn íora considcroda de enorme- utilidade pelo mesmo
1) A11lonio de Noronha: •· ... porque o.\ém de haverem nele Minas
,h111dc se extrai ouro, serve de embaraço ao gentio para. penetrar
1u1ul"lc ,c11:io, e hostilizar as muitos fazentlas, que se achavam po-
\1111111!1, e ~u1tivadi1s nas vizinhança.s do rio Casca ... " st

o envio de v:,dios pera os presíUio~ e conquistas foi medidÍI.


ml11111da por r1ra1icmncnlc todos os governantes nas d~cedos de 60,
/O ,, ,Ih' rnc~mo HO Uo século XVIII. As Cortos Cl1i/e11os criticam
11 ,11hllrn11rdndc de Fanínrrão Minésio e de seus prebostes no traio
l"lll!'Ullill'll(C

RI ·1i,, ..·nhr1mc11lo ,lc Mu1u Gerais - ~la,;:lo cirçunstandada".


ll//lh/1 ,.,1 l(XIX, 1 1, r,r,. ~-114
•J 11,, "'·"l""ll t!n Roçhn: .. Do, sertõe, r-:nctrat!,;a naquele tem-
ln,t
i"' ,,,. " u,,,h ""!hei, " ,1., Ca.a tia Casco nome que se deu a uma aldeio
,1, ••"li" ,1111,,.1., 110 h,Nur hoi<, <knnminndo Cuiett, no meio di• do Rio
1,,,, ,,,,,11,11,.,1,,,1,11tw11n.," -or.cii .. pp.426-427
• • 1,1 .. 1,~ , ,,.lho. <'P. ,,1, rr. 487, 488 e 489
•• 1 ~••• ,lo Jl 1\,111,1111" ,le NorOPhh ci11da em Tel~~in, COlllho, op
,11 •• 11!1J

77
"Os nossos comandantes, que conhecem
A vontade do Chefe, tambl!:m querem
lmirar deste Cabo o ardente zelo;
Enviam para as pedras os vadios,
Que na forma das ordens mandar devem
Habitar em desterro novas terras.""'

D. Rodrigo José de Menezes pensou em aproveitar economi-


camente o Cuieté com atividades outras que a mineração: o apro-
veitamento de madeiras e o cultivo de algodoeiros. Para tal, ordenou
aos comandantes dis1ritais que enviassem os vadios que conseguis.sem
apanhar para a cadeia de Vila Rica, onde, na formulação feliz de
Diogo de V11sconccllos, "escolheriam ou a íarda para o Rio Grande, ou
a foice para o Cuieté" ss. O historiador mineiro considerava ótimo
o sistema de utilização deste tipo de mão-de-obra;· "Porque, pri-
meiro, separava da sociedade sll a pane corrompida que pcrvenia. a
mocidade: segundo, u1ilizava os ociosos em matéria de serviço
público; terceiro, aumentava as ~ceitas da coroa, aliviando em
geral as quotas da dcnama" Ao.
Antes de Diogo, D. Rodrigo também deikOU ~pressa o seu
conceito sobre o aproveitamento dos vadios no incremento do
presídio do Cuielé: "Encarreguei n direção deste obra a um homem
muito perito, e cupez de dar conla de si, e para nele trabalharem
mandei por toda a capitania prcoder os vadios, que se encontrassem,
e remetê-los para aquele sítio, íaicndo deste mudo com pouca des-
pesa aquela impor1a11te obra, e purgando também a sociedade civil
dos perturbadores dela""". Os presídios e as conquistas remotas
era.m locais pouco acolhedores. Segundo um antigo integrante de

85. Carta 3.", venos 164-16?, in Torqulnio J. B. de Oliveira, A.T Ca,-


1os Clrilc,r<J.T - /Ol!lt!S 1r:r1u.al.T, Slo Paulo, 1'72, p. !12
86. DloBO de V1SW1KellCIS, Himíria MM/a. • p, 2)7.
87. Dioao de V1.nconcellos, H/Jfória MM/a .... p. 237. Seau,,-«. nu pp.
238-2)?. 011111 curiosa pu,:agein: ~ . . m vadios, que cm Lados c,s pal$1C:5
forinaram a classe mais imltil e nd1nda, em Mlnu, d/tia D. ANonio dt
Noro/U,a, eram um elemen!o neassirio pa.ra o pov011men1o e ,;ullivo do., ça-
16nias, devendo-se-IM, em grande parte II segurança du parte çiviliz.ada COfl·
tra os indios ferozes, que eles 1Dnlinh11m nos remoLm pre,fdios~. Confron-
1ada wm o lrceho de Teixeira Coelho, d' margem a duns hipóteses: 1) A
formulação de que os Y&dio,s. ódio de todu a.s naç&s civili7.ado~ eram 6lel1
nas Mina, é de D. Antonio de Noronha, de quem Tei:uira Coelho era gran-
de admirador: 2) Dio10 de Vas,;oncello, leu mal Tcixein, Coelho e atribuiu u
fruc do dcwmb:>rgador ao aoverm.nte. De qualquer forma, a i<Uia da u1i-
lidadc dos vadiffl IIIO!.lra a sua p.-nÇa man;an!e.
88. "fapm.içilo do r.overnll<lor D. Rodriaa Joú de Menc1.e• sobre o
estada de decadência da capitania di: Minas Gerais e mdm de rcmcdiHo·•
- RAPM, vol. li. 1897, pp. 314-)IS.

78
várias e11pcdições às conquistas - inclusive da que., no 1empo de
Lufs Diogo Lobo da Silva, se enviou ao Abre Campo - , os indi-
víduos que lá viviam passavam ''várias fomes e calamidades", e
sofriam constuncs investidas dos fndios puris, ficando muitos mortos
pelos matos""· Já oo skulo XIX, um senhor pedia comutação ou
alteração da pena que coubera a um seu escravo, degredado para
o Cuie16: ". . . é um lugar no amtro desla capitania, pouco po-
voado, pouco sadio e infestado pelo antropófago botocudo, para
o qual oos1umam ser remetidos em mui1as ocasiões alguns réus de
crimes menos graves ... "'° De íato, a documentação não indica
1ransgressões graves como mo1ivo de degredo para os pJe.ifdios:
Manuel Lopes Pena, Dionfsio Pereira Brandão e Joaquim de
Almeida Pinto, presos pelo comandan1e de São Gonçalo do Rio
Abaillo, só seriam remetidos para o Abre Campo CBSO ficasse fla-
grante a sua vadiagem, pois caso contrário - "tendo os dilos oflcios,
e trabalhando-os" - cumpririam sele dias de prisão e seriam soltos
a seguir. O bas1ardo J*
Moreira, preso por embriaguez, deveria
se apresentar de ires cm três meses com uma ~nidão de bem-viver
- sem o qµe, sua sone seria o Cuielé ª 1 • Pode-se assim imaginar
a quan1idade de infrações insignificantes que jaziam detrás de muitos
tlo~ moradores daquelas paragens.

Cl Ohro.r públicas e lavoura.

Piua o trabalho em obras públicas sempre foi comum o emprego


d,· tlc,;classiflcados r-, Devido ao terrível depoimento das Cartas
1 'lu/,·111~T, íicou famosa a construção da Casa da CAmera e Cadeia
,Ir Vila Rica empreendida por Luís da Cunha Mene:ztS, o Fa.I1fani1.o

a•i "11:cqucrimenlo que • S. E!La. íaz sobn: d1W de !erra minen.i1


• •""'"'""" :illcri.s João Pereira ( ... ), al(cn=s da ordcoança do deruu::a•
'"""'" ,lo, r,.,,.,,. - 19-X-1770, APM, S.C.. ,;ód. 1&6, fls. 78-79V,
'JII "l',11,, 11 Mc..a ilo Descmbarao do Paço" - 21-01-1811, in RA.PM,
,.,1 ,v111. l'lll,p.499
•11 l',11n o c:011il1io-mor Manuel Funado Leite de McndcnÇa" -
,11 ,,11 ,..n,t, se.. <"<•d. 199, fü. sv-9.
'•/ , ""fnrn,c, ,lc,·rclo de 4-IX-175S. os mcndi8,;,s e os vapbundm W:-
''"" ,,,,1,.,11,~, "'" ohrao de l..i,hon. Rui d'Abrcu Torres. "Mmdicidadcn,
Nu 1 "'º~ª• ,1urm11r " inverno de 1516, pro::urou-se cmprc11r os VI-
"'" 1rnhulho, ,lr-omadm " devnr íonifirnç,...s; quandO" este nlo
,,,..,1 .. ,1,, ,lnnk, m, nlvol ,ol!O dn, ósua!I do Scnn. cmprc11v1m-se
''"'" ,,.,.,.,vro a l,un" e n li~u tlu, ru;,, Gercmeü, '"Criminolilf,
l'""l"'•l•11ir " 1• 111 °'
N,, ,c~,.-,o ,~, v,,k do r,unlh~. oo.
I"'"''' "'""' u1111,,.,1,,. 1•••" "1r"1l•r1 ",rtiourn proMenm da co111
• ,.,,,,.n~\I" ,1• .. u.,1u·· M11ria Srl•I• <lc 1'11v11llm l'r1nrn, ""
" ,,.,,. ,,~ 11,,/,,., ,.,.,,,,.,,,.,.11,,. 1° c,I, ~ l'nuln, 1111"4, p n

10
Min~io "· Há nolfeia de vadios trabalhando na abenura de pi-
cadas e caminhos duran1e o governo de D. Rodriao José de
Menezes "4, e o trabalho nas lavouras dos prcsfdios nil.o deixa de
ler cará1er de obra pública. D. Anionio de Noronha ~fere-se à agri-
culturaçio dos campos do Cuieté como "ofício útil ao público" aii.
A utilidade da lavoura não vinha apenas do falo de ser a capitania
das Minas abas1ecida em sua maior parte por gêneros vindos de fora,
mas está sobretudo ligada ao [ato de o trabalho da terra ser, a
panjr de uma determinada época, encarado como o trabalho por
e1celência, a base sólida sobre que deveria se apoiar a economia M_
Sendo assim, nada melhor do que ele para redimir o desocupado
do vicio da ociosidade . .Em 1734, o Conde das Galvhs lançava
uma ordem segundo a qual os vadios não seriam consen1idos,
obrigando-se-lhes "a servir na cuhura das 1erras" mediante pena de
e1pulsão da eapilania 91 . No Distrito Diamantino, ordenou certa
ocasião o Intendente que se fizesse a circunvalação dos campos la-
vrados "por dez ou doze miseráveis apenados sem paga, sem
ferramenta, e sem alimen1os" "· Em 1807, o governador D. Pedro
Maria de Atalde e Mello cogitava da navegação do rio Doce e
do devassamento de seus sertões, dizendo que "muitos vadios, gen-
talha a mais perigosa da sociedade, seri11m obrigados a povoar e
agricul!ar estas 1erras", c que, nessa empresa, seriam alllliliados pelo
governo 9i. Em 1818, já no fim do pcrlodo colonial, Josf Inácio

93. As Car/4f Chilm4f, fom~s 1u1uoü, ,;arta ).•, pp. 88-95, e cana
4.1,pp.lOl-110.
94. Waldemu de Almeida Barbosa, op. rit .. p. 202 e p. 369.
95. ·e1111do sobtt II limpeza de negros calhambol111; taberneiros: mas-
co,e, de qualquer qllBlidadc - msim bnnco, como nc1ros - e peswas V&·
dills - e ttgularidndcs de ,;api1ães-do-mnto, e pedestres" - B·IV-1764, APM,
S.C., cód. 50, fü. !IJV.
96. Es1c111pc<:1ofoiabordadonocapímloan1erior.
97. Ordem de 24-)(1-1734, "Coltçlo sumária das própriu leis, ,;utu
rtaia.s.. avisos e onlel\l ... ", in RAPM, vol. XVI, p. 4SO.
98. "Administnç:lo Di111111a1in1 - Tr111lado dos 1UIOlil de inquirição
que mandou V. Eu. proceder sobre as c.ondu1u do ln1endcnte dos Diaman,
tu João Inácio do Am1111l Silveira e do Fiscal João da Cunha Soto Maior,
a~im como wbre a imponan1e admini•1ro,çft0, que lhe c,t4 encarTCs,,do". -
RAPM, vol. 11, 1897, p. 154.
Dentrt: a. cnuS11• da decad,!ncin dn aaric11l1Ura pormaueu. arroladas em
17?2 pelo lnlcndc111e--Geral dn ogriculmra, D. L11!s Ferrari de Mordau, a oila,ra
era "Muita 11en1e p0brc e mui!a prc9ulç1", e a dl:cima, "Mui1os vadio,, mui,
IM criado,, muitoo ociosos e mui10, ,g]dados e~traklos da !1V011n". En!n,
outras proposições para o solucionamento do problema, e111va a mobilita,
çio para o trabalho dos "vadios. liczncilldo,,, e pobre, de prof'isslo, p0r ou,
tro modo. v1pbundos, e mendicante!, e mulherc, p(iblicu de mA vida,"
1pud Vitorino Ma9alhles Godinho, op. ci!., p. 1115.
99. "Sc,bn, a navegarão do rio Doce" - cana de 14,IX-1807, RAPM,
vol.)(J,1906,p.)00.

80
do Coito Moreno enviou ao rei um plano para melhorar a agri·
cul1ura da capitania e nela empregar os vadios •00 • O Conselho
Geral da Províru:::ia continuaria a perseguir a idéia do aproveita-
mento dos vadios na agricultura, confonne consta no projeto que,
nesse sentido, foi apresema<lo a 15 de dezembro de 11131 1º1 • Nada
consegui saber sobre a e:1:~uçiio prática de todos esses projetos.

D) Policia pri1Jada.

Tem•se lembrado e:taustivamente a presença dos desclassi[icados


nos corpos de guarda pes.~oal e de policia privada. Nos documentos
acima analisados sobre os levantes ocorridos no sertão do São Fran-
cisco em 1736 íica clara a participação dos vadios como corpo
pessoal dos potentados do lugar. De íalo, era freqüente ver-se um
poderoso com sua guarda pessoal, "brancos de ruim conduta, mu-
latos e negros com armas de íogo, catanas e porretes" como os
que serviam a um certo Manuel José, apaniguado do Ouvidor do
Serro •t12. Como os desclassificados em geral, esses indivfduos eram,
na sua maior parle, mestiços: o Tenente-Coronel Amador de Souza
foi morto em 1738 por um A.nlonio Francisco e seu irmão que,
escorados em carijós por eles armados, pretendiam matar ainda
outras pessoas, lançando os habi1antes de Congonhas na maior
consternação 1ae.
Diogo de Vasconce\los aventa uma hipótese segundo a qual
o~ dcsclassiíicados empregados como guarda pessoal ou como
11gcn1es da repressão fomentariam a paranóia da classe dominante
1111ru justiíicarcm a sua íunçilo: "Para tM:m compreendermos o enredo
cl11t1uelcs tempos, convém lembrar que a bruta classe numerosa de
reitorc~. capangas e capitdcs-do-mato viviam de ellplorar o medo
dn~ ~cnhorcs, pnrn se tornurem necessários. Inúmeros vadios, que
,•111111 pnrnsirns nas íazendQs, 1i11ham-sc por guarda-cosias e espias
,tu, proprietários. Essa grande caterva tinha todo interesse. pois,

IIMl ('nrln do 14-Xl-1818, in OtiRIMII dr ordrtl! r#gllil r ao/$o.r -


UI' IH!f, Al'M. s.c.. livro )77, n." S2.
101 Ar>lnl )\;loier da Vdl!fl, Efrmhidrr Minr/ras _ (1664-/897), Ouro
I',~"' IN'J/. vol IV, pp. J51-J56.
Ili/ .,,.. 111111~11 1111 c~ri1a11i11 de Mina9 Gorai," - corn3polldfncio de
1• 11,..1,lyn ln,t ,le M,i1ru1 com o mini91To Maninho de Mello e CIUlro e
"'" " l luwhlm ,lo S.110 1'1iu Jn;iquim Mnnu.l de Sciia• Ab111nchel -
li O'AI wnl IV, 1K'19, I' 1~.
1111 t 01111 lM·Y·l7lH, 111 APM, S.C.. <"Ód, M, ílN, ,v

MI
de criar boatos e e,iagcni-los" 104 • Não considera, entretan10, o
outro lado da moeda; que num sistema escravista cujo alicerce da
economia eram os escravos, mui10 mais numerosos do que a gente
branca de posses, a manutenção de uma polícia pessoal era extre-
mamente necessária para a am1inujdade da dominação. A paranóia
exislia; nio era criada de fora para dentro, mas correspondia. a a.lgo
profundo, inerente ao sistema. Essa paranóia real poderia. ser a\i-
mcn1ada pelos capangas, mas nunca i1111emada por eles que, dada
as condições acima apontadas, eram ú1eis e necess4rios.

E) Fron,eirar e expansão 1e"ilorial.

Numa colônia cujas fronteiras ainda eram móveis e provisórias,


cujos limites só seriam traçados em 1777 - ma.s que; ai~ o século
XX, seriam redefinidos - , a e,ipansão e as frentes de povoamento
eram e:lllrcmamenlc imporlantes. O aventurar-.se num scnilo inóspi·
to, desconhecido e cheio dos nativos da lerra era uma empresa
arriscada; muilos o faziam tendo cm vistas a riqueza rápida que
daí poderia advir. recru1ando vadios, criminosos e toda a sorte de
infra1ores para engrossarem a expedição. Por outro lado, dada a
diíiculdade de lá chegar o braço da Jus1iça, a paragem longínqua
era atraen1e ao perseguido pela lei. Sob Cõaçâo ou por livre e
esponlànea vontade, os d~lassiíicados - cll!S mesmos, fimbria da
sociedade - se locali1..aram com freqüência na fronteira geográfica,
nas zonas remotas que, muitas ve1J!s, eram alvo da disputa de
duas ou mais capitanias, que brigavm11 pela sua jurisdição. Magotes
de ciganos íicavom de tocaia na.~ bordas dos caminhos, lançando-se
sobre os viandantes e sobre suas cargas, roubando cavalos e man-
1imen1os; caso as autoridades vissem ne~s elementos a possibilidade
de serem ú1cis, agrupavam-nos e os enviavam pare o Sul, grande
sorvedouro de desclassificados por todo o stculo XVIII devido

104. Diogo de Vasconcellos,Hlstór/aMllia ... , p. 172.


Em São Paulo. o Morgado de Mateu1 se queixava ao primoiro-mini.uro de
D. Jost Idos vadlos-,;apansa• que haviam matado um '8pi1ão de ordcnan·
ças e o cscrivio de Taubaté: ··E porque de ordinhio CSl<S delitos são exe-
cutados por homcn! vadio1 e mandados para eslc fím por pessoa• que alrni·
çoadamentc se prelcndcm vinp.r por eues meios, ficando dcst11 :;ortc o,;ullo
o que me.nda, t fugindo o que uccu1a, pela racilidadc com que se passam
pelos matos a outras terra,, e com que fi,;am no mcmio mato vivendo pela•
roçai e pelos chomodos sítios, de que há arandc, quamida.de sem se ,ftbcr
nu11ea, nem se poder averiguar ndnndc param c:stes delinqiicntc:s, pa.rn pode·
rem ser casiigados como merettm os seus dclilos.~ - Carta do Morando
de Matcu, ao Conde de Ocirns - 21-IX-1765 - in DJ,. vol. LXXII, 1952,
pp.94-95.

82
à questão íronteiriça da colônia do Sacramento e, por algum tempo,
dos Sete Povos de Missões 1..i. "Prender para Montevidéu", para
a "Nova Colônia", para o rio da Prata, ou genericamente para o Sul
são e,ipres.sõcs correntes na documentação por todo o perfodo.
As zonas novas recebiam grande anuxo de vadios. Quando
surgiram os descobertos de Paracatu, o governador comentou com
o ouvidor-geral do Sabará sobre a necessidade de ler dragões a
pos1os cm Vila Rica para poder mand4-Jos de uma hora para outra
àquela região, "porque conheço que a sua assistencia conservará
cm respeito a ooleção de vadios que vão a estabelecer-se naquele
descoberto ... " 1"" Os primeiros morado~s do arraial do Ara,i4
sofreram os inconvenientes de um povoado em pleno sertão, longe
das autoridades, para onde afluíam vadios e aventureiros de toda
cs~ie 1r..
Os desordeiros que ~ estabeleceram na regi.ão de Tamanduá,
termo que durante muito 1empo provocou disputas entre as ca-
pi1anias de Minas e Goiás, foram alvo constante das queixas dos
camaristas junto aos governantes. Segundo diziam aqueles, os va-
dios esiavam in1eressados em coníundirem os limites e as jurisdições
para íicarem isentos dos castigos de que seriam merecedores, ra-
zcndo do local um couto para criminosos. Os camaristas são extre-
mamente rigorosos no jufzo que íazem dos individuas aventureiros,
imrojctando, de certo forma, a ótica oficial ante o problema:
"hon1<:ns foragidos, vagabundos, insidiosos, inimigos da paz, das
rcr1íihlicas, cheios de impemosas malave!'llações populares", "[eras
rncionais c im1cionais" 1M.

10.~ '1'cnho no1Jci11 qut: cnuaram neslas Minas IJl'Bllde número de ci•
W""'" <1Uc u Sr. Vice-Rei fa. despejar do diS1ri1o da Bahia, e ainda que jA
a(' !;,um ,.1g11mas qucfau deles, e aqui haja um hando do Sr. Conde das
0~1,!11, para niio viverem no diuri10 das Minas: contudo par ol"II. me pa·
•Nc uccrl11tlo, (a•liaondo ao• que comciercm al1um inwl!o, nlo intender C(lffl
,., "'""· p01quc mio ,uecda junlarcm·sc cm alsuma r,ane rcmoi., salieando
"' ,umiul""· "ljUc 11,110rn serio de pcrnicio!as conscqll!ncins, e dificullosu
""u',hn, c,111mlu 1no di•r,er:1os os dmsiks dtslc r,1"'11dlo; IIC pon!m R V.2.
l'"'°'N 'I"" c,111 Mtnlc po1k -er IÍti/ pnrn o rio dR Praia cam o 1.0 aviso
·~ 1,,,.,11,no onlcn• ~irn,lmc, porn os prenderem as ordcnnnçu, e ~ rcme-
1,,n., u C'-'" ~i<hulc ·· Cnrl11 de Mnrlinho de Mendonçn II Gomes Freire
11 t 1717 ·•1)11, c;irl,., do E~mo. Sr. Gorou F,circ ... ". R.APM, vol.
~ \li ! r• 1114
IIJt> "1'""' u 01iv1<lor,Gcral do Sallar:i Simiio da c»#a e Melldanha"
JI VIII l'/44, Al 1 M, se. ,ód. 84, ns.. 46V-A7.
1111 \l'uhlcmiu de Almeida B.'trbo5a, Dlciolfdrio HIJ1drlco·1~trdfk:o
.i. 1,i.,,., ,.,,.,/,, Hclu Huriwnlo, 1971, p. 4$.
IIIN e ,utu ,I~ c,~n.urn de Tamnndu, aa:rca dUll limilcs de Mina Ge-
'"'' '""' !lnlh 10 V11·17'll, RAPM. vol. li. 1897. pp. 372 e 382 respec.
'''"'"'"'" 1•111 17.,.~." ,ft11111n1 rcilcrnvn sun, qucix1111: "lníormnçilo da C3..
""" ~ ,!•· ~A" ll,1110 ,1., ·1 l!lllllndu~ rnbrc di•rsllc• enirc c11a e 11 ,npilanin de
111,1ft, 111 /t,f/•M, ,nl XI, 1'101,, pp. ~29.410.
F) Mi/feias e corptM militores.

As milícias colonieis l11nç11ram mão com muita freqil.!nci11 do


rccru1amento de de:sclassiíicados. Segundo um historiador mineiro,
"o aprovei1amento mais útil desses viciosos foi na organização de
verdadeiros corr-os de tropa" 1 °".
Na mesma linha, Diogo de Ve.s-
concellos chega a dizer que, em meio às diíiculdades apresentadas
para o recrutamento de vadios, - diíiculdedes essas devidas a
disputas entre autoridades - , a declaração de que tal se fazia para
o serviço militar simplificava imcdia1amen1c os complicados trlmi1es
que, nos outros casos, envolviam o dito recrutamento 11º. Este
muitas vezes se fazia às pressas para o desempenho de alguma
função específica, como é o caso das tropas que se constiiuiam
para combater e arrasar quilombos. Neste sentido, o interino José
Antonio Freire de Andrade ordenou, em 1741, que o sargento-mor
João da Silva Ferreira apenasse '"1odos os capi1iies-do-ma10, carijós,
negros forros e mulatos que não tiverem oíício ou (11zcnd11 em que
trabalhar" para que compusessem um corpo destinado a cn(ren1ar
os quilombos que então proliferavam nos dis1ri1os de Sussul e
Paraopeb11, ambos 011 comarca do Rio das Mortes'º· Luls Diogo
Lobo da Silva também lançou miio de "pardos e negros livres"
miseráveis para enfrentar "os negros do mato, a que vulgarmente
chamam calhambolas" 11~.
Com o objetivo especial de prender os carij6s assassinos e
desordeiros que andavam p0ndo cm alvoroço a população de Con-
gonhas, e dos quais já se falou acima, ordenou o governador que
se arregimentasse quan1os carijós fosse possível sob "pena de pro-
ceder con1111 quem se escusar de obedecer ao ~uplican1c na dita
diligência" m_ Assim, os earijós que, a mandado de terceiros,
haviam cometido assassinato, seriam a1acados por carijós pagos pelo
Es!ado. Nas desordens e na repressão, de um e de outro lado do
Poder, a1u11vam os pro1agonis111.s d11. mi~ria.

109. Flamfnio Çor.,o, T~rra do Ouro, Ouro Prtto, 1932, p. 08.


A u1ilizaçlo dos wdios na, tropas nlo foi peculi1rid1dc mincira: o 1JroSSO
das unidades ~sularts da Bahia era recru1ada entre os wpbundos itinenm·
!es e muletos da !erra. Ver Boller, T!,t Pormg~u StabOTltt Entpirr. Na
/dadt dt 011ro do BraJi/, o mesmo autor fala da pn:domin6ncia de foras-da-lei
do:n1re ~ populaçio rio-1randenk no s&ulo XVIII, mui101 deles colonos q111:
vinham dD Bahia e que eram, na maior parte. vadios convocados nas cidlldC9
p,u ,;, serviçu ik: draslle (cap. IX). Fala 11mbnn da 111iliui9,o que í,ze-
ram oi senhores de engenho de clerncn1os d~lmi(ic:ados na Guerra dos
Mascales, e que ri.aram c,;,nhecidos por Tunda-Cumbé!l (cap. V).
110. DKli:o de Vasroncellos, op. cit., p. 239.
111. Ordem - 28-IV-1741, APM, S.C.. c&I. 69, fl:s. 23V.
112. Bando - APM, s.c.. C<Íd. 50. n... 90-90V.
lll. Cana - 28-V-17)8, APM. S.C .. cód. 69, f\.t. N.

84
A 18 de novembro de 1773, era e11.pcdida uma ordem apro-,
vaodo a organização de uma tropa de pedestres destinada a reprimir
os a1aques de botocudos e prendçr escravos fugidos; compunham-na
vadios e facinorosos 11 •. Parece ter havido certa receptividade à
prática de se recrutarem vadios, talvez por colaboração dos inte-
ressados: a "parte sossegada e laboriosa que os vadios inquie-
tavam" 11 ~ e que, uma vez afastados os infratores, respirava ali-
viada sem se preocupar com os mo1ivos das infrações. Foi este o
caso da mesma Câmara de Tamanduá acima citada que se regozijou
ante a detenninação de uma empresa destinada a "alistar e ma-
tricular a aqueles fescinorosos habitantes fazendo entre eles um
corpo de milícia auxiliar e ordenanças a fim de os civilizar na
obcdiencia às Leis Divinas de Vossa Majestade, que até então só
conheciam as da impiedade" 118 •
.É numa das formas do recru1amento que se pode analisar o
movimento através do qual a utilidade se torna ónus, e este se
transforma novamenle em ulilidade: o episódio que envolve o envio
de tropas para o sul no ano de 1777. Já em 1773, o Moreado
de Malcus escrevia ao conde de Valladares falando do movimento
das uopas espanholas no sul e pedindo que lhe mandasse "toda a
gente que lhe lor inútil para ser empregada com aproveitamento na-
quela fronteira" 117• Sõo Paulo funcionava então como ponlo de
convergência das tropas de Minas, Mato Grosso, Goiás e Rio, re-
crutando tambtm em suas terras os soldados que deveriam seguir
pnra o sul. Em 1775, Lavradio dizia a Martim Lopes Lobo de
Si1ldanlm. governador de São Paulo, que os homens disponíveis para
,1~ 1ropas do sul deveriam seguir de maneira que fosse possível,
wn1 ~rnn<lcs prcocupaçOOS com a sua vestimenta prcdria, com a
fnlta ele armamentos ou de disciplina. A carta l extraordinária como
n·1t:i,1ro da ótica oficial an1e o aproveit8men10 dos homens livres
puhrC", e desocupados: " ... importa muito pouco que o regimen10
d,· ,·oluot{irios ~á menos bem regulado; antes pelo contrário esta
,1u11h1lmlc Je gente. e aquela tropa 1irn as s11as maiores vantagens da
1''"1"111 irn•,:11/ciridmfr". E mais adiame, comentando a açõo dos
,u11IJ.ll" p11ullsrn~ de~hniv;uJorcs: "Nunca foram vestidos regular-
nu·111c, cr11111 nrmado~ à sua fantasia; alguns iam calçados; a maior
I'"' h• ,k'llo, tk~alçfü: ,1s selas de seus cavalos eram uns couros;
,,.,hn 111111vc,,m1do "~pântanos.os rios: subiam e desciam as serras;
ul1u 11111111 "~ inin1igo~. e ~e faziam formidáveis. Sempre que estes

11·1 ,;11vic1 ,lu Vc1y11, up. CÍL., vo1. 1\1, p. 228.


11• l!u,w,, ,k Vu,,nn,cllo,. pp. 212·213
1 Ir, 1 ""~ LI• ( omAn·n de Tomunduá. , p. 377
Ili ·n .. 11,I" nollu11 do nmvin1cnlo do;,,, t:Spanhói• nt> sul e p:dindn·lhc
" ""'Ili" •I• 0111111111 r,11~11" 111-1.1773. DI, vol. XXV, 1901, p. 37.
homens foram chamados <10 Rio Grande nos Companhias Aven-
1urci111s, iam quase em igual desordem; assim 1rabalhavam; e alguma
coiso que por lá se fez boa, quase sempre se lhe deveu a eles. A
e,iperiência deste ser o eará1er de semelhantes homens, e que sempre
toda a tropa ligeira, cm ioda parte do mundo, foi no seu princípio
formada desta forma, íaz que cu insista a V, Elli.ª para que eles mar-
chem oindo que não es1ejam prcparados cm toda regularidade"""·
Difícil encontrar tell.tO onde melhor se exprimam os van1agcns
advindas do emprego, por parte do Estado, de uma mão-de-obra
miserável que pela sua própria miserabilidade 1omava-se Cllitrema-
mcme ú1il.
Por íim, cm 1777, a manutenção de tropas no sul lornou-se
mais premente devido à intcnsiricação das hostilidode.~. O gover-
nador de São Paulo pediu então a D. Antonio de Noronha que
enviosse forças, e este conseguiu arrebanhar 4.000 homens que
Martim Lopes deveria fazer chegar ao sul, onde serviriam sob as
ordens do tenente-generol João Henrique de Dohm, chde das tropas
lá sediadasm.
Em fins de março começaram a chegar a Silo Paulo os pri-
meiros corpos das Mines, e Martim Lopes se consternou ante seu
es1ado, pois vinham praticamente nus - "sem mais que umas
ceroulas e camisas·• - e desarmados - "com muito poucas annes
particulares, e estas desconcertada~" 120 . Pediu ao colego de Mines
que enviasse mantimentos ou auxílio pecuniário para a alimentação
dos soldados, pois achava que o dinheiro de que dispunha não co-
briria os gastos com a alimentação daquela tropa 'li'
Ao receber de Lavradio o aviso de que as 1ropas estavam a
caminho, o governador do Viamão, brigadeiro Marcelino de Fi·
gucircdo, intuiu o tipo de gente que estava para chegar: ". . cu
não sei que gcnlc será: porim é certo que pai:rllflQ, e bisonlw, niio
pode çd :rt!T'tlir, que dt confusão, e /llllo de dinheiro, e momimtnlos,

118. Carla W! Lavradio a MaMim l.Dpe Lobo de Saldanha -


26·X1-l77S, DI, n. 0 17, 1895, pp. 44-4S. O grifo~ meu,
119. Cerca de O. Anlonio de Noronha a Manim LI'.IJ!e! Lobo de Sll.1·
danha. - 20.fll-1777, DI, n, 0 17, 189:S. pp, 28S·2B7, e MParo o capitlo-ae·
ncrul de Minu Gerais, sobre os socorros que de Ili. vem paro o sul'º -
2-IV·l777, DI, vol. 42, 1903, pp. 222-221.
120. "Para o mesmo viu-Ri, sobre a RrnC"II de no1fcia.~ doa inirni·
li°", prisJlo de traidores e cheBQda de 1rop11s vindu de Minas Guoi•h -
2J.IV-l777, DJ, vol. 42, 1903, p. 245.
121. "Paro. o capililo-gencral de Mines Gerais, doniJo.lhe nollcio da
chcpda das forçe de Minas e do mau estado em que viernm." - U-IV·l777,
DJ, vol. 42, 1903, pp. 247•248.

86
e conseqüentemente impossibilitar a subsistência das tropas ... " 1zi
Os dcsclassiíicados onerosos à capitania de Minas haviam, ante
o episódio das guerras do sul, se tomado úteis em outro contexto;
mas a sua misl:ria e o seu despreparo poderiam 1orná-los onerosos
novamente, e prejudiciais aos soldados melhor pn:parados que com
eles se veriam obrigados a repanir sua ração. O brigadeiro teria
suas apreensões confirmadas por cana de Manim Lopes: " ... eu
não me posso dispensar de mandá-las (as tropas), ainda que
conheço a pouca ou nenhuma u1ilidadc deste socorro; porque, aH!m
de ser da mais ú1il gente d11quela capitania, vir descalça, nua e mi-
serável, o seu armamenio consiste em uns paus com um forro na
ponla, a que niio lhe sei der o nome" 12:1. Na medida em que
as tropas iam alcançando Silo Paulo, Marlim Lopes passava-lhes
revis1a para retirar "os quebrados, aleijados e idosos, de 60 a16
100 anos", e que, por incrlvel que pareça, eram muitos 1114 •
Com a chegada das 1ropas ao sul confirmaram-se os 1emorcs
do brigadeiro, cons1ernedo an1e o quadro de mis4ria que tinha sob
os olhos: ". . o E1.6reito 1em custado mui10 a sustentar nes1e
p11ís, quanto mais tanta gente paisana, que nii.o 'Ya\erá o que comem
pela maior pane ... ""ª
Quando as queius dos comandantes do sul e de Martim Lopes
chegarem a Lavradio, este deu mos1ras de estar, desde o início,
ciente do tipo de homem que Minas forneceria, e que, apesar de
rndo. era útil à sua maneira, ou seja, servia para íazer número an1e
n cxércl10 inimigo; "Este socorro das Minas nunca o considerei
corpo que fonnasse linha com o exérci10, mas sim corpo de homens
i;ap:11.c~ para o mato, que junto com as nossas tropas irreg11/areJ
fll/1/('.<.<1· j(lzer 11111 pe!Jo Oll esrraso sobre os nossos inimigos, e csle é
" 111;,iur serviço de que eu os julgo capazes, nem o general se servirá
deles por ouuo modo 1n,

112. ··n,r1;1 do hri11adciro-gov,:rn11dor do Viami1o, Jos.l: Marcelino de


1·1w11r11c,tu, a Marlim l,opcs l.opo de Saldanha" - 16-IV-1777. D/, n.0 17,
1N•I', I' ~'17
1}1 "l'urn o hri9ndeiro Jos6 t,farec:lino de Fill"circdo, enviando-Lhe no-
11,1,,, ,nl•1< "' fnrça,c,pnnhnln e sobre a imr,rc,tabilidntlc dB!l 1ropasde Mi-
""'" ,.,.,.,,, r 1-.,dintlo n 'Ilia prmcçilo pnra um afilhado.'º - )O-IV-1777, DI,
... 1 IJ l•llll,pp.25)-254.
l.'·1 "l'1uu o "icc·n:i do Es1odo, sobre ol9umns necessidades do! lro-
1"'' ,1, .. i,. '"I""""" e imprc,tnhilidndc das forças vindas de Minas Gerais•·
1\11111,/1/,•nl.42, 1903.p.255.
l.'1 lno!u ,to hr11tmlc1rn-suvcrnador do Vinmãn, J~ Marcelino de
1 , • .,,,1,.,1.,_ " Murlim 1.u.,., l.nho de Saldanha" - 8-V-1777, DI, n.0 17,
•• ,,,. I' 1111
u~ 1 ~1111 ,Ir I orathu u MArlim l.npes LDbo de Sa1d1nh• - Z·V·1777,
jl/ O" li 1~11,,p 24N.0111ifotmeu

A7
A posição de D. Antonio de Noronha era análoga à de Lavradio:
"Queira V. E,i;.ª refletir em que o lllmo. e E1.mo. Sr. Marqu!s
Vice-Rei me nilo ordenou que eu formasse um corpo de tropa re-
gular; mas someme que fizesse e,i;pedir para o Rio Grande 4.000 ho-
mens, assim brancos, como mesliços, mulatos e negros: estes
quatro mil homens n1io reputo cu como tropa que possa en1rar em
ação, e só como recruta, para complelar as praças que faliam nos
regimemos do Exército, e para se empregarem nos diíerentes tra-
balhos do campo em que os quiser ocupar o general do mesmo
exército.'· D. Antonio dizia ainda que não tinha condições de
gas1ar (linheiro com uniíonnes e armamenlos para esta gente, pois
"semelhante qualidade de hon1ens, como não têm estímulos de
honra, e se conduzem por violência poderão desertar em gronde
parte antes que cheguem ao lugar do seu destino", levando con-
sigo os fardamentos ou arrebentando-os completamente no decorrer
da ii:iagem, o que tomava esse tipo de despesa absolU1amen1e
inútil un,
Por fim, ante a avalancha de protestos levantados pela tal tropa
cm toda pane por onde passou, Lavradio orclenou que se desse
um sumiço nos elementos inaproveitáveis pelo e,i;ército, já que deles,
no dizer das autoridades, não se poderia tirar nenhuma utilidade, e
mantê-los significava arcar CQm despesas inúteis m. "Multidão de
gentes sem armas, sem vestidos e sem disciplina" 128, que "só para
o consumo tem préstimo" 130, capazes de causar mais danos do que
os próprios castelhanos 131 pcl11. sua vagabundagem e mal pro-
ceder 13 ~, os pobres íarrapos humanos sciviram contudo para muita
coisa. Após tripudiar sobre eles. as autoridade.~ encontraram por
fim uma maneira de transformar o ônus da sua subsistência em
utilidade para o Es1ado: o governador de Viamão íicou com 140,
J:!:7. Carta de D. Antonio de Noronha a Martim Lopes Lobo de Sal-
danhK - ll-V-1777. D/, XIII, 11195, pp, 290-291.
1211. Carta de Lavradio a Martim Lopes Lobo de Saldanha - 22-V-1777,
D/,vol.17. Jll9S,pp.l5J-2S2.
129. Carta de Joio Henriqu. de Bohm II M1rtim L L de Saldallha
- 12-VJ.17T7, DI. vol. 17, 189,, pp. 324-11:S.
130. ·Para o bri11deiro Jo~ Marcelino de FilJUC'ircdo, wbrc a volta
das forças de Mi1111s, socorro a Laguna e prisão de traidore·· - 5·Vl-lT77,
D/, vol. 42, 1903, p. 2114.
131. Carla do brigadeiro-80vernador do ViamAo a Martim L. L. de
~ldanha ,.vJ.1777, DI. vol. 17, 189S, p. 3CM.
132. ·•Eu qn• nenhuma utilidade lhe achei 1omci :, resolução de fazer
rctro«dcr os dit~ des•acamento,, e os remcli inra o sua rcspec1iva capi-
tania, para me livrar du forne. qu. caUS11ria nosta lcrra lanlo homem va•
sabundo, s,:m nenhum serviço mais do quel aurni:nlar neste coruino:nic um
Lilo ,rande bando de ladrões, e ma1fei10<C1 ... ·• - "Oílcio sobre a par1idn
de Min~ Gerais para Sii.o Paulo de um corpo de 4.000 homens~ -
2.Vlll-1777, D/, vol. XXVIII, 1898. p. 344.

88
que vestiu e armou em duas companhias de caçadores 113 ; o
cap:tlio-mor regente de vila de Lages escolheu 200 e os enviou
como socorro para Laguna 111 , e Manim Lopes sugeriu o apro-
veitamento de mais uns cem nos 1rabalhos de "uma dilatada roça"
feita com o intuito de alimentar as tropas 1~~.
Nesta complicada relação en1re o ônus e a utilidade represen-
tados pela existência dos desclassificados, examinei os diíerentcs
aspec1os de que se reveste a u1ilidade, e a maneira como costeia,
com heqüência, o ônus. Por sua vez, es1e costuma ser, de ma-
neira geral, associado aos custos de reprodução e subsis1!ncia da
populaçllo desclassiíicada. Se os povos dão a seu rei "a utilidade
conforme o uso do seu viver", hú que atentar para os vadios, "que
de alguma forma sõ.o perniciosos ao Es1ado" •:ia_ Os homens la-
boriosos - a quem se opõem os desclassificados - não podiam
suponar "o peso enorme da parte dos vadios" - "gente volanie,
ou, como lhe chamam, de pé ligeiro" - , que por incomodar a ma-
nutençllo e romper o equilíbrio dos negócios, devia ser posto para
trabalhar 1" 7 • Só assim se poderia evi1ar que o ócio sobrepesasse
o trabalho 138, pcr1urbando o {uocionamento de economia, o ren-
dimento dos quinlos, o sossego da sociedade. A gcn1e forra e pobre,
estigmatizada pela escravidão, poderia ter "a louca opinião" de que
nflo devia trabalhor 1"º, mas logo lhe caíam cm cima os agentes do
rccru1amento, os potentados em busca de assedas, os proprietários
de fazendas em busca de jornaleiros, as autoridades administra1ivas
(1uc, para maximizar os lucros metropolitanos, superexploravam tanto
o trubalho escravo como o uabalho livre. "Ruína dos Estados".
l'1111;1lha indômita", "gcnle ocioso gue só servia para i;onsumir
0

v1l'cres", a Coma entretanto se lembrava delc.:s nas horas de operto,


IIYc~~cm sessenta 011 até cem anos. E lá iam eles, nus, doemes,
11111111.:0~. sujos, alquebrados, argamossa necessária à consolidação
dn~ froruciras, à continuidade do mando, à manu1enção do sis-
lrmu ,.;olonial.

111 ('11,IR <lc Jo,u! f.far,;elino de Figueiredo n M1utim L L. de Sal·


,l11uhu 11-111-1777, lJ/, vo1. 17. 18?5, p. 308.
11,1 r 111. "l',,r,, u m""mo vice-rei, .10bn: o relr0çcsso das foi.a, de
M1,,.,. r""'"' de ruç1n no caminho do sul. . ~ - l-Vl-1777, Dl. vol. 42,
l'I' 11,nr,
I Ir, Jn,I' loU<1ui111 ,fa Rnd,.,, OJ'. cit .. Jl 507.
,,,,..,,1,,',;. Hrp1r..,ul111fM> d:i C:",m:ora tk M~riana, p, 14!i e p. l!iO repccti-
1'""1"" ~ uu11lu ~,.,mie " mirm,ro de gen!e ocio,m, e de srandc p,:'iO
(;';,;·, '" '":'.;:::::·"::;:r•1 ;;1 ~01;1;:'."'irc,n cs1c, 1üo-,omenle com o quinlo tle S.
1 1~ l/•><llh" ,lo 11uro liAl'M, vol. UI, 111?8, p. 7'
l 1~ llullln lo•••h~ 1k S.uv«lrn, op. ei1., p. 67~

HO
Mais do que em qualquer oulro ponto da eol8nia, fo111m nu-
merosíssimos nas Minas, onde condições especmcas, tanto infra-
estruturais - analisadas neste capítulo - como supcresiruturais -
que serão tratadas a seguir - favoreceram a sua proliferação e,
ao mesmo tempo, os deixa111m sem razão de ser. O seu número
assuslador pesava por sobre a "pane não corrompida" da socie-
dade, que assim se via compelida a encontrar uma utilidade pare
aquele enorme manancjal de mão-de-obra livre. A es1rutura da
economia mineira, mais abena e diversificada, propiciou condições
- mesmo que limitadas - para o aproveitamento desses homens,
fazendo com que o ônus dos vadios se mctamoríoseas.se cm uti-
lidade. Essa meiamorfose não era, entretanto, irreversível: de um
momento para outro, podia-se novamente sentir o peso dos vadios,
aproveitados quase sempre cm tarefas secundárias; a exploraçiio co-
lonial seguia sem eles, mas eles faziam pane da exploração colonial,
eram por ela gerados e colaboravam para e sua manutenção.
Assim, não se pode diu:r que fossem dispensáveis à penis1ência
da produção e da sociedade esc111vista H<>: imbrincados em seu seio,
preenchendo os interstícios deixados pelo trabalho escravo, contri-
buíram para a construção, manutenção e derrocada do mundo
colonial. Negação do trabalho, trabalharam. Negação de revolta,
revoltaram-se com freqüência e alimentaram quase todos os movi-
mentos regenciais. Negação da Ordem, embrenharam-se pelos ma-
tos no encalço de quilomholas e de índios bravos. Camatla fluida,
indefinida, fugidia, imprecisa, espalhou coniudo o:s seus borrões no
seio de uma sociedade estamental, e espraiando-lhe os contornos,
só nele pdde existir.
Longe de ser pacf(ica, essa existência leve grandes percalços,
um dos maiores tendo sido a inimizade constante das autoridades
coloniais, do Poder Constituído que, etravb de medidas altamente
repressivas, nunca deixou de envolver os vadios com suas redes
tentacularcs.

140. a. Fernando H,nriqoe Cardoso, '"CIBDi:!I sociai, e HiS16ri1 ... ",


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