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EVIDÊNCIA INTERNA DA COMPOSIÇÃO MOSAICA

Gleason Archer

Além dos testemunhos diretamente oriundos do próprio Pentateuco, de Jesus e dos


apóstolos, temos o testemunho de alusões fortuitas a acontecimentos ou questões da
época, a situações sociais ou políticas ou a assuntos relacionados ao clima ou à geografia.
Quando todos esses fatores são pesados de modo imparcial e correto, chega-se à seguinte
conclusão: o autor desses livros e seus primeiros leitores devem ter vivido no Egito. Além
disso, esses fatores revelam que tiveram pouco ou nenhum conhecimento direto da
Palestina, dela sabendo apenas por meio de tradições orais, vindas de seus antepassados.
Citamos as seguintes evidências:

1. O clima e as condições atmosféricas mencionados no Êxodo são tipicamente


egípcios, não palestinos (cf. a referência à seqüência da colheita, em relação à
praga da saraiva, em Êxodo 9.31, 32).
2. As árvores e os animais a que se faz referência de Êxodo a Deuteronômio são todos
naturais do Egito ou da península do Sinai, e nenhum deles é peculiar à Palestina. A
árvore chamada acácia é nativa do Egito e do Sinai, mas dificilmente se encontra em
Canaã, exceto ao redor do mar Morto. Essa árvore forneceu madeira para grande
parte do mobiliário do tabernáculo. As peles com que o exterior do tabernáculo foi
recoberto eram de um animal chamado ​taḥaš, ou dugongo, que é estranho à
Palestina, mas encontrado nos mares adjacentes ao Egito e ao monte Sinai. Quanto
à lista de animais limpos e imundos que encontramos em Levítico 11 e em
Deuteronômio 14, alguns são peculiares à península do Sinai, como o ​dîśōn​, ou
ovelha montês (Dt 14.5), o ya‘anāh, ou avestruz (Lv 11.16), e o ​te’ô​, ou antílope
selvagem (Dt 14.5). É difícil imaginar como uma lista desse tipo poderia ter sido
feita nove séculos depois, em uma terra onde não havia nenhum desses animais.
3. Mais conclusivas ainda são as referências geográficas que anunciam perspectivas
de uma pessoa não familiarizada com a Palestina, mas boa conhecedora do Egito.
1) Em Gênesis 13.10, em que o autor deseja transmitir aos leitores como era verde o
vale do Jordão, ele o compara a uma localidade bem conhecida da região oriental
do delta do Nilo, perto de Mendes, entre Busiris e Tânis. Declara ele que o vale do
Jordão era "como a terra do Egito, como quem vai para Zoar" (egip., T-; -r). Nada
poderia ser mais evidente, com base nessa referência casual, que o fato de o autor
estar escrevendo para um grupo de pessoas não familiarizadas com a aparência das
regiões da Palestina, mas pessoalmente familiarizadas com a aparência do baixo
Egito. Tal familiaridade só poderia ter se desenvolvido no próprio Egito, e isso se
enquadra muito bem à datação mosaica para a composição do livro de Gênesis. 2) A
fundação de Quiriate-Arba (nome pré-israelita de Hebrom, no sul de Judá), segundo
Números 13.22, ocorreu "sete anos antes de Zoã, no Egito". Isso implica com toda a
clareza que os primeiros leitores de Moisés estavam bem cientes da data da
fundação de Zoã, mas desconheciam a data em que Hebrom — que se tornaria uma
das mais importantes cidades de Israel após a conquista — havia sido fundada. 3)
Em Gênesis 33.18 há uma referência à "cidade de Siquém, em Canaã". Para um
povo que havia vivido na Palestina mais de sete séculos a partir da conquista (de
acordo com a data atribuída a essa passagem pela escola de Wellhausen),
parece-nos estranho ser preciso dizer que uma cidade tão importante como Siquém
ficava "em Canaã". Todavia, seria perfeitamente cabível a um povo que ainda não se
houvesse estabelecido ali — como era o caso do povo conduzido por Moisés.
4. A atmosfera e a ambientação do deserto prevalecem por toda a narrativa, desde
Êxodo 16 até o fim de Deuteronômio (conquanto haja algumas referências à
agricultura, como previsões das condições da terra que logo o povo haveria de
conquistar). A importância atribuída a um grande tabernáculo (tenda) como lugar
central de culto e reunião dificilmente teria pertinência a um público leitor que
houvesse vivido na Palestina mais de sete séculos e só estivesse familiarizado com
o templo de Salomão ou com o de Zorobabel como santuário central. A explicação
de Wellhausen para isso, que o tabernáculo era simplesmente extrapolação artificial
do templo, não se harmoniza aos fatos. O templo era muito diferente em tamanho e
no mobiliário, em comparação ao tabernáculo descrito na Torá. Todavia, nem
mesmo essa teoria de ficção histórica explica por que os contemporâneos de Esdras
teriam estado tão interessados num mero tabernáculo a ponto de a ele devotar
tantos capítulos em Êxodo (25-40) e a ele referir-se em quase três quartas partes de
Levítico e também com tanta freqüência em Números e em Deuteronômio. Não se
consegue encontrar em toda a literatura mundial outro exemplo de tamanha
atenção dada a uma estrutura que na verdade (segundo Wellhausen) jamais existiu
e nunca exerceu influência sobre a geração para a qual aqueles textos foram
escritos.
5. Há grande evidência de natureza técnica e lingüística que se pode reunir em apoio
da existência de um contexto egípcio para todo o texto da Torá. Podem-se encontrar
exemplos cheios de minúcias a esse respeito em meu livro ​Merece confiança o
Antigo Testamento? Basta que se diga que existe um enorme número de nomes
egípcios e de palavras tomadas de empréstimo da língua egípcia que se encontram
mais no Pentateuco que em qualquer outra seção das Escrituras. Isso é o que se
poderia esperar de um autor que, educado no Egito, escrevesse para um povo
nascido e vivido nesse mesmo ambiente.