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SILVIA F. DE M.

FIGUEIRÔA

“Metais aos pés


do trono”:
exploração mineral
e o início da
investigação da
terra no Brasil
SILVIA F. DE
M. FIGUEIRÔA
é professora do
Departamento de
Geociências Aplicadas
ao Ensino do Instituto
de Geociências da
Unicamp.
a 19 de fevereiro de 1783, um decreto real que ordenava a criação
de uma Escola de Minas na França assim se expressava:

“O rei, estando informado de que a arte de descobrir e de


explorar minas não fez em seu reino os progressos esperados,
que dentre aqueles que receberam concessões, uns delas não
fizeram uso algum, outros nelas empregaram fundos consideráveis de
modo infrutífero, e aqueles que foram bem sucedidos não obtiveram
todo o lucro que delas deviam esperar pela dificuldade de encontrar
mestres inteligentes, Sua Majestade havendo se informado sobre os
diferentes meios que se poderia empregar para estimular um gênero
de indústria do qual os estados vizinhos tiram grande vantagem,
reconheceu […] que é necessário formar pessoas para conduzir as
obras com tanta confiança quanto economia; por esses motivos é
que S. M. resolveu estabelecer uma escola de minas […]”1.

Não, leitor/leitora, este texto não está com o título errado.


Pretendo, sim, discutir aspectos técnicos da história da mineração no
Brasil, focalizando particularmente o século XVIII e as possibilidades
e limites das atividades mineiras no marco da condição colonial. Mas,
para melhor desenvolver meu argumento, pareceu-me oportuno citar
um ordenamento legal de um país, à época e até hoje, tomado como
referência nesse período do Iluminismo. E por quê? O que aproxima
e o que separa, nessa época e nesse aspecto, Portugal e França? Pelo
que se depreende da documentação acima citada, há mais seme-
lhanças do que diferenças no quadro que cerca as questões minerais
em ambos os países: falta de pessoal qualificado, desenvolvimento
insuficiente da indústria mineral quando comparado a outros locais,
aperfeiçoamento vislumbrado por meio da educação e da formação 1 Apud Gabriel Arlet, D’Héphaistos
à Sophia Antipolis – Mineurs et
Forgérons, St. Etienne, Gédim,
em espaços institucionais especializados. E mais: o reconhecimento 1991 (vol. 1), p. 11.
de que, na Europa Central, encontrava-se o pequenas galerias. Mas interrompido este
saber técnico necessário, o domínio das artes por qualquer causa, não o sabem procurar
da extração e do tratamento dos metais. Já por falta de conhecimento da geometria
em 1440 houve mineiros e forjadores ale- subterrânea. Além disso, os mineiros não
mães trabalhando na região de Lorena, junto têm instrução alguma da metalurgia, nem
com técnicos franceses. E, ao final do século comumente pessoa que os dirija nas suas
XVIII, Guillot-Duhamel, um dos primeiros operações. E assim não tiram o ouro senão
professores da Escola de Minas de Paris, à força de ouro, e a maior parte dele para
lembrava que a França, a Suécia, a Norue- estes fica inútil ou desconhecida”4.
ga, dentre outros países, haviam buscado
precisamente esses técnicos para constituí- E o naturalista José Vieira Couto, natural
rem seus estabelecimentos mineradores2. do Tejuco (hoje Diamantina) igualmente
No âmbito do império português, nesse repetia que
mesmo período, o discurso e as ações con-
cretas dos ilustrados são de igual teor. Para “[…] em outra ocasião fiz ver com a nossa
o padre José Joaquim da Cunha de Azeredo mineração dos rios, ainda que mais adian-
2 Idem, ibidem.
Coutinho, fundador do Seminário de Olinda e tada e executada que a dos montes, todavia
3 J. J. de C. A. Coutinho, Obras
Econômicas, São Paulo, Nacio- bispo de Pernambuco, “[…] supondo que na- sofria ainda muito pela falta e quase total
nal, 1966. pp. 18-20.
quelas minas haja muito ouro, já contudo não desconhecimento de muitas máquinas pre-
4 D. Vandelli, “Memória sobre é muito para ser retirado por mãos grosseiras cisas […]. Esta verdade salta aos olhos da
as Minas de Ouro do Brasil”
(? 1786), in Anais da Biblio- e sem arte. […] Esta falta dos verdadeiros razão […]. Quem não vê que todas estas
teca Nacional, Rio de Janeiro,
vol. 20, 1898, p. 271. conhecimentos do mineiro é mais uma ruína coisas, dependendo de princípios e pro-
5 José V. Couto, “Memória sobre
e uma perda para as Minas do Brasil”3. fundos conhecimentos de hidráulica e da
as Minas da Capitania de Para o naturalista italiano Domenico mecânica, serão tão mancamente praticadas
Minas Gerais…” (1801), in
Revista do Arquivo Público Vandelli, à frente de uma série de iniciativas por homens que apenas sabem ler, quando
Mineiro, 1905. Para uma
análise aprofundada da obra
de incentivo e promoção da história natural ainda o sabem?”5.
de Couto, cf.: Clarete P. da em Portugal,
Silva, O Desvendar do Grande
Livro da Natureza. Um Estudo Diferentes ilustrados, luso-brasileiros ou
da Obra do Mineralogista José “[…] as enormes despesas que se fazem no estrangeiros, formações distintas, mas opi-
Vieira Couto, 1798-1805, São
Paulo/Campinas, Annablu- Brasil para tirar terras ou areias que contêm niões convergentes: a mineração no Brasil
me/Fapesp/Faep/Unicamp,
2002. o ouro parecem incríveis: não constroem decaía por falta de técnicas, de máquinas
6 Ana Ma C. de Matos e Alice
galerias mas, ou mudam de corrente os e de formação especializada adequada.
C. Martins, “Propostas e Acções Rios para tirar as areias de seus alvéos, Consoante o espírito ilustrado da época,
de Aproveitamento Económi-
co dos Recursos Naturais do ou escavam a terra à mina aberta, fazendo apontavam as mesmas soluções – ciência/
Brasil (Finais do Século XVIII e covas ou muito largos poços, dos quais ti- técnica e instrução6. Muito se tem escrito
Início do Século XIX)”, in Actas
do Congresso Luso-brasileiro ram a terra. E como destes não têm saída as sobre a Ilustração portuguesa, cujo marco
“Portugal-Brasil: Memórias e
Imaginários”, Lisboa, 2000, águas, costumam tirá-las com uma espécie inaugural são as mudanças empreendidas
vol. 1. pp. 593-4. de nora, que é das mais antigas máquinas, pelo primeiro-ministro marquês de Pombal
7 A respeito, ver, dentre outros: a que os mineiros chamam ‘rosário’ pelo a partir de 1750, aproximadamente (conhe-
Francisco J. C. Falcon, A Época
Pombalina: Política Econômica feitio e união das alcatrazes com cadeias. cidas como “Reformas Pombalinas”), e não
e Monarquia Ilustrada, São Porém, como esta não pode extrair senão cabe aqui repetir7. Para os propósitos deste
Paulo, Ática, 1982; Oswaldo
Munteal Filho, “Todo um Mundo uma pequena porção d’água e também a uma texto, no entanto, saliento que o declínio
a Reformar: Intelectuais, Cultura
Ilustrada e Estabelecimentos determinada profundidade, e sendo muita da atividade mineradora, assim como a
Científicos na América Portugue- a água e muito profunda, não se continua solução dos problemas nos setores de
sa”, in Anais do Museu Histórico
Nacional, 1997; José R. Pita, a escavação e fica a mina abandonada por base da economia colonial – a mineração
Farmácia, Medicina e Saúde
Pública em Portugal, 1772-
não se conhecer a bomba a fogo, nem outras e a agricultura –, foram percebidos e en-
1836. Coimbra, Minerva, máquinas hidráulicas, ou por não se saber a frentados, pelo pensamento ilustrado, pela
1996.
arquitetura subterrânea dar escôo às águas utilização da ciência. O objetivo da Coroa
8 F. J. C. Falcon, “Da Ilustração
à Revolução – Percursos ao […]. Quando pois encontram algum pe- era combinar investigações científicas com
Longo do Espaço Setecentista”, queno filão, que os ditos mineiros chamam ações políticas que visassem a um melhor
in Acervo, 1989, vol. 4, n. 1,
pp. 63-87. ‘vieiro’, então o continuam a escavar com aproveitamento dos recursos coloniais8.

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Importa lembrar, ainda, que a ausência a primeira capital portuguesa nos domínios
de universidades ou instituições equivalen- americanos, foi necessário minerar abun-
tes no Brasil no período colonial compelia dantes depósitos de conchas marinhas no
as elites brasileiras a estudarem no exterior, leito do mar da Baía de Todos os Santos a
principalmente na Universidade de Coimbra fim de produzir a cal, que foi intensamente
reformada. Como conseqüência, o contexto utilizada em argamassa e pintura de paredes
científico local constituiu-se mais como das casas. Os fornos foram construídos na
parte do mesmo e simultâneo processo de ilha vizinha de Itaparica, sendo alimentados
implantação das ciências modernas em com conchas de ostras e pedaços de corais
Portugal do que como uma reação contra misturados com madeira.
a dominação cultural externa e metropoli- Mais ao sul, em Santo Amaro, onde
tana – como foi o caso de diversos outros hoje se encontra a região metropolitana de
países9. Isso não quer dizer que os cientistas São Paulo, alguns desenvolvimentos meta-
coloniais do Brasil não tivessem uma “cons- lúrgicos ocorreram em 1552, utilizando-se
ciência nativa”: de variadas formas as elites depósitos de ferro contendo os minerais he-
confrontaram as correntes que alegavam a matita (Fe2O3) e limonita (FeO(OH).nH2O),
inferioridade das Américas10. Entretanto, em cujo teor, apesar das pequenas dimensões
seus textos a dicotomia metrópole-colônia dos corpos, foi considerado elevado. O
não aparece, pelo contrário. Por meio de ferreiro Bartolomeu Fernandes, membro
um processo de cooptação dessas elites da expedição de Martim Afonso de Souza,
pela Coroa, os interesses dos “brasileiros”, foi, ao que se sabe, o pioneiro na fabricação
mais propriamente “portugueses do Brasil”, de ferramentas agrícolas e domésticas. Al-
e os do Estado português foram vistos de guns anos depois, Afonso Sardinha e seu
forma articulada, “como os de uma mesma filho descobriram os depósitos de ferro
9 A respeito do desenvolvimento
família”: do Morro do Araçoiaba (proximidades de práticas científicas como
de Sorocaba, estado de São Paulo). Aí, resistência e oposição às me-
trópoles coloniais, ver o vol.
“Voei ao pico das serras, desci às profunde- ao redor de 1591, ele construiu a primeira 15 (2000) da revista Osiris,
intitulado “Nature and Empire:
zas das cavernas, e recolhi-me das minhas instalação siderúrgica do país, que conta- Science and the Colonial Enter-
peregrinações com as amostras de quase va com dois fornos com capacidade para prise”.

todos os metais, que neste cofre exponho produzir 100 kg de ferro por dia. 10 Instigante análise desse debate
pode ser encontrada em: Anto-
aos pés do Trono. Falei dos interesses ré- Seria tedioso e mesmo inútil citar aqui nello Gerbi, O Novo Mundo:
História de uma Polêmica,
gios, os quais nunca pude separar dos do todas as iniciativas feitas para encontrar “pe- 1750-1900, São Paulo, Com-
povo; e como se poderá jamais separar os dras e metais preciosos” em terras brasileiras. panhia das Letras, 1996. Uma
análise da resposta americana
interesses entre uma mesma família? Entre Importa reter, em suma, que durante todo se encontra em: Maria R. F.
o pai e o filho?”11. o século XVI e parte do XVII a Metrópole Fonseca, A Única Ciência É
a Pátria: o Discurso Científico
empregou recursos financeiros, legislação, na Construção do Brasil e do
México, 1770-1815, tese
títulos de nobreza, trabalho, soldados, arte- de doutoramento, São Paulo,
sãos de todos os tipos (cortadores, mineiros, Faculdade de Filosofia, Letras e

O INÍCIO DA ATIVIDADE MINEIRA construtores e mesmo engenheiros estran-


Ciências Humanas da Universi-
dade de São Paulo, 1996.
geiros – alemães, flamengos, holandeses, 11 José V. Couto, “Memória sobre
NO BRASIL franceses e florentinos) nos trabalhos de a Capitania de Minas Geraes,
seu Território, Clima e Produc-
pesquisa das expedições, sob a supervisão ções … (1799)”, in Revista do
Instituto Histórico e Geográfico
Desde o início, as terras brasileiras apa- dos governadores, mas o que foi encontrado Brasileiro, 1848, p. 1 (apud
receram para a metrópole portuguesa como não esteve à altura do que foi despendido. Silva, op. cit., nota 5).

potencial fonte de riquezas minerais, a se Mesmo os resultados mais positivos tive- 12 Para uma visão geral dos
esforços de prospecção mineral
descobrir e explorar de diferentes formas. ram pouco significado econômico, tanto nos primeiros séculos que ante-
Porém, as primeiras iniciativas visando à em termos de quantidade quanto de teor cedem o “ciclo do ouro”, que
vão resumidos nos parágrafos
descoberta de metais e pedras preciosas dos depósitos – que, aliás, se localizavam seguintes, consultar: Iran Ma-
chado & Silvia Figueirôa, “500
falharam por quase dois séculos12. Para a em lugares de difícil acesso. Concluindo, Years of Mining in Brazil: a Brief
construção, por volta de 1549, do núcleo por exemplo, que as descobertas no século Review”, in Resources Policy,
London, vol. 27, n. 1, pp. 9-24,
urbano que veio a se tornar Salvador (Bahia), XVII eram decepcionantes, o governador- 2001.

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geral Diogo de Meneses Sequeira escreveu economia mineira brasileira oferecia pos-
uma carta ao rei afirmando que “Sua Alteza sibilidades a pessoas de recursos limitados,
precisa acreditar que as atuais minas do pois não se exploravam grandes minas […]
Brasil são compostas por açúcar e Pau e sim o metal de aluvião que se encontrava
Brasil, muito lucrativos e com os quais o depositado no fundo dos rios. […] Tudo
Tesouro e Sua Alteza não precisam gastar indica que a população colonial de origem
um simples centavo”13. européia decuplicou no correr do século da
O último quarto do século XVII assistiu mineração”17.
à extração de algum ouro na região de Pa-
ranaguá: estima-se que entre 1680 e 1697 No processo de exploração e extração,
a produção anual de ouro tenha sido de 50 bastante simples e rudimentar, os mineiros
a 80 kg, declinando para 20-30 kg de 1697 primeiramente trabalharam as areias e cas-
a 1735, quando a fundição local encerrou calhos auríferos das margens e leitos dos
suas operações. Um cuidadoso mapa de rios, sobretudo porque era simples concen-
1653, de autoria de Pedro de Souza Pereira, trar as partículas de ouro com bateia usando
indicava 21 locais de minas auríferas, cuja a água do rio. O ouro de granulação mais
exploração se ateve aos cascalhos. Segundo grossa era retirado no próprio processo de
o autor, as pedras que pareciam conter ouro lavagem, mas o ouro fino exigia o emprego
“são raríssimas, porque em muitos centos de outras técnicas, misturando-se água com
delas que se vêm lavar ao rio para serem suco de frutas para precipitação do ouro
conhecidas se descobre uma”. Com as em suspensão18. Quando a coleta não era
“pedras de maior perfeição e demonstração perfeita, a concentração final era feita em
de ouro” encheu dois caixões e as enviou a pequenas bateias de cobre ou por meio do
Lisboa para serem analisadas14. Esse período processo de amalgamação (que combina
de declínio coincidiu com a descoberta, nas ouro e mercúrio), seguida pela separação
Minas Gerais, de ricos depósitos aluviona- dos dois metais por volatilização – quando
res de ouro, o que abriu todo um ciclo de queimado, o mercúrio se “evapora” e deixa
exploração econômica desse metal. um resíduo de ouro puro.
O sucesso em Minas Gerais novamente
animou as buscas de minerais em direção
a outras regiões interioranas, e as conse-
A INTENSA EXPLORAÇÃO DO qüentes descobertas: em 1718, na Bahia
(Jacobina e Rio de Contas); no mesmo
SÉCULO XVIII
15
13 Cf. Machado & Figueirôa, op. ano, em Mato Grosso (Rio Coxipó-Mirim);
cit.
em 1719, em Goiás; a partir de 1730, na
14 Jefferson Picanço, “A Pesquisa
No século XVIII, a exploração aurífera região do Alto Amazonas (rios Madeira,
Mineral no Século XVII: o
Mapa de Pedro de Souza e diamantífera assumiu um destacado papel Jamari, Corumbiara e Parecis); o encontro
Pereira (1653)”, in Anais do
XL Congresso Brasileiro de na economia colonial portuguesa. A partir dessas novas jazidas acabou por expandir
Geologia, Belo Horizonte de 1698, quando se deram as primeiras o território da América portuguesa até o
(MG), Sociedade Brasileira
de Geologia/NMG, 1998, descobertas, um intenso fluxo migratório se sopé da cordilheira andina. O clímax da
p. 437.
dirigiu às Minas Gerais, fazendo com que a mineração aurífera em terras brasileiras
15 Por ter sido, de longe, a
mais importante atividade de
cifra de pessoas ocupadas com a mineração ocorreu entre 1739 e 1779, com Minas
exploração mineral e sobre a de ouro girasse em torno de 30 a 50 mil, Gerais liderando a produção, sempre. As
qual há mais fontes disponíveis,
vou me concentrar na extração dentre as quais se incluíam garimpeiros, casas de fundição recebiam o ouro em pó,
aurífera, referindo-me a algumas proprietários e comerciantes, e a produção pesavam-no, separavam o quinto para a
outras quando oportuno.
total estimada ficasse por volta das 700 Coroa e fundiam as porções remanescentes
16 Cf. Machado & Figueirôa, op.
cit. toneladas16. Segundo Celso Furtado, em fornos, tentando eliminar as impure-
17 Celso Furtado, Formação Eco- zas, moldando-o em barras, as quais eram
nômica do Brasil, São Paulo,
“[...] a economia mineira abriu um ciclo pesadas e registradas.
Nacional, 1987. p. 74.
migratório europeu totalmente novo para Mas esse ouro que facilmente se extraía,
18 Cf. Machado & Figueirôa, op.
cit. a colônia. Dadas suas características, a oferecendo-se à flor da terra, acabou por dar

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sinais de esgotamento no último quartel do como o estabelecimento de escolas mine-
século XVIII. Além disso, a I Revolução In- ralógicas e metalúrgicas semelhantes às de
dustrial em curso impunha desafios que uma Freÿberg20 e Schemnitz, de que tem resulta-
parte das elites portuguesas, que apoiava a do àqueles países tão grandes e assinaladas
mineração, tencionava assumir e resolver. vantagens”.
Os reflexos no Brasil far-se-ão sentir, por
exemplo, na política de fomento às ativi- De outro lado, aparece a importância
dades mineiras preconizada – e, até onde do controle sobre o que era efetivamente
possível, implementada – por D. Rodrigo extraído, por meio do quinto e, principal-
de Souza Coutinho, conde de Linhares. A mente, da proibição da circulação do ouro
proposta do reformismo ilustrado, além da em pó, reforçando-se a criação das casas
repressão ao intenso contrabando e “desca- de permuta:
minhos”, insistiu na tecla de que o resgate
da mineração só seria possível a partir da “[…] ficará proibida toda circulação do
aplicação das ciências a ela relacionadas ouro em pó; […] e os mineiros e faisqueiros
(mineralogia, montanística – isto é, “arte serão obrigados a levar todas as semanas ou
das minas” – e metalurgia), do aprimora- meses, ou no tempo em que se fizerem as
mento técnico e da melhor instrução dos suas apurações, e realizarem o seu ouro, às
mineiros, como vimos nos excertos citados Casas de Permuta que mando estabelecer,
na primeira parte deste texto. todo o ouro que houverem recolhido; ou a
manifestá-lo nas mesmas, se o quiserem
eles levar à Casa da Moeda que também
mando estabelecer dentro da capitania de
CIÊNCIA E TÉCNICA NO RESGATE Minas Gerais. E tanto nas Casas de Permuta
como da Moeda lhes será pago o seu ouro
DA PRODUÇÃO MINEIRA pelo preço e modo que mais abaixo vai
determinado [troca por moedas]”.
Um importante documento que sintetiza
o pensamento e a política ilustrados sobre Entretanto, parece que o alvará não
a atividade mineradora é o alvará com força visava apenas a um maior controle sobre
de lei que pretendia atualizar sua regulamen- a extração, mas também trazia embutida,
tação19. Sua autoria é atribuída a Manuel consoante a política de fomento à economia,
Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá (1764 uma proposta, ainda que muito incipien- 19 Arquivo do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (AIHGB),
(?) – 1835), o conhecido Intendente Câmara te, de estímulo à indústria da mineração: Códice 807, vol. 4, pp. 59-
70.
do Distrito Diamantino, a quem nos referi- “[…] fica proibido […] o transportar ouro
20 A Bergakademie Freiberg situa-
remos com mais detalhe à frente. em pó sem guia, […]: e toda a pessoa que se em Freiberg, na Saxônia,
A problemática da mineração, nas suas incorrer em tal delito será pela primeira vez região tradicionalmente mineira
desde o século XII (ca. 1168),
várias vertentes, é evidente nesse documen- castigada com o perdimento do ouro que se assim como Shmitz (Schemnitz,
to. De um lado, a ênfase no conhecimento lhe achar”, indo a terça parte do que fosse em alemão), situada na Eslová-
quia mas na época pertencente
científico como instrumento de melhoria confiscado “para as reais caixas de economia ao Império Austro-Húngaro. Foi
uma das primeiras academias
dessa indústria, ao mesmo tempo apoiada de minas e fundições que mando criar para de minas, fundada em 1765,
em exemplos de outras nações européias: bem e fomento dos novos estabelecimentos servindo de modelo a diversas
outras surgidas nos mais di-
de mineração”. E mais adiante, “desejando versos países, inclusive o Real
Seminario de Minería, fundado
“[…] era necessário mais que tudo ex- favorecer os trabalhos da mineração do ouro no México em 1792. Além de
citar os conhecimentos, e práticas das e animar a extração deste precioso metal: germânicos de diversas proce-
dências, lá estudaram europeus
ciências, mineralógica e metalúrgica, hoje determino que o direito real do quinto […] em geral (como Alexander von
tão aperfeiçoadas entre as outras nações fique do mesmo tempo em diante reduzido Humboldt) e latino-americanos,
inclusive outros brasileiros além
da Europa, para que os proprietários das ao décimo, ou meio quinto”. de Câmara e Andrada. Nessa
época, e durante longo tempo,
minas pudessem evitar todo o desperdício As preocupações e o fomento à minera- foi um dos principais centros
na extração, e apurar a maior quantidade ção, embora tenham centrado suas atenções mundiais de referência para
mineralogia, mineração e me-
possível desse precioso metal […] assim majoritariamente no ouro e diamantes, a eles talurgia.

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não se limitaram. Em certa medida, a busca “[…] ainda que sejam suspeitos e equi-
da prata, abundante na América espanhola, vocados todos os caracteres por meio dos
assim como de outras riquezas minerais quais podemos vir no conhecimento da
ocupou a atenção de muitos, de vice-reis a existência de uma mina no interior da terra,
simples faiscadores. O documento intitula- para não falar nas varinhas de aveleira com
do “De Alguns Fenômenos que se Apresen- que certos impostores pretendem abusar da
taram Intentando-se a Análise do Mineral credulidade dos povos”.
Descoberto pelas Diligências do Ilmo. Sr.
Conde Vice-Rei”21 é um exemplo. Trata-se Ainda sobre a prata, pouco ou nunca
de resultados parciais de análises feitas pelo mencionada nos textos sobre história da
químico João Manso Pereira, em 1795, de mineração, chegou a ser explorada no Ce-
amostras provenientes de duas minas (que ará em meados do século XVIII, tendo-se
o documento não explicita quais sejam). valido da importação de técnicos alemães
Pelos resultados apresentados, ainda que como ocorreu em boa parte dos empreen-
obtidos em condições um tanto precárias, dimentos mineiros no mundo colonizado
como afirma o próprio executor das análises, pelos europeus. Uma carta régia de 11 de
no caso de uma delas trata-se da ocorrência outubro de 1742 concedia “permissão a
de ferro. Para a outra, foi-lhe impossível Antonio Glz [Gonçalvez, provavelmente]
identificar o metal presente. de Araujo, Manoel Fernandes Losada e João
Outros aspectos desse curto documento Baptista Rodrigues para mandarem vir da
merecem comentário. O primeiro relaciona- Alemanha cinco mestres e oficiais de fundir
se à presença de duas diferentes tradições e separar metais para o trabalho das minas de
químicas (a química pré-Lavoisier e a quí- prata do Ceará”. Em 1744, amostras foram
mica moderna) no trabalho de João Manso, enviadas para Lisboa para serem analisadas,
refletindo, de um lado, o período de transição quando se verificou que continham também
então vivido por esse campo do conheci- enxofre, cobre e chumbo22. A documentação
mento e, de outro, sua sintonia com o que se disponível indica que, por volta de 1759,
passava nos centros europeus onde a chamada após ordens explícitas de parte do governo,
“Revolução Química” acontecia: os trabalhos mineiros foram encerrados em
toda a capitania.
“[…] porém, nem com o fluxo negro, nem Os cuidados e as dificuldades com a
com o branco, nem com o bórax, nem com identificação de jazidas minerais manifes-
o vidro, nem com a castine, nem com a tam-se também no breve, mas instrutivo,
[herbiu] pude nunca obter o seu regulo: e documento “Noções ou Conhecimentos
vendo sempre o mau resultado das mesmas sobre as Minas que É Útil Comunicar-se
operações, comecei a variar por mil modos aos Habitantes do Campo”23. Sem autoria
diferentes as doses destes fluxos, e a em- e sem data, pode ter sido elaborado por al-
pregar outros novamente inventados pelos gum dos vários naturalistas do período, ou
modernos químicos, como o de Chaptal, o mesmo por algum dos engenheiros-militares
de Scopole, o de Sage e o de Fureroy [Four- estrangeiros trazidos para a colônia brasi-
croy]: nunca por isso desprezando o velho leira em função de alguma obra. Chama a
Cramer, e o experiente Beaume”. atenção o fato de se encontrarem, no códice
em que está conservado, mais três cópias, o
21 Arquivo do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (daqui O segundo ponto liga-se ao parágrafo de que leva a supor uma ação planejada e até
por diante AIHGB), Códice
807, vol. 5, pp. 63-4. abertura do documento, em que fica evidente certo ponto educativa, que pretendeu dis-
22 Barão de Studart, Datas e a dificuldade, comum à época e presente tribuir mais amplamente informações úteis
Factos para a História do Ceará também em outros textos, como os do bispo e práticas visando à descoberta de novas
(1896), Fortaleza, Fundação
Waldemar Alcântara, vol. 1, Azeredo Coutinho, para se descobrir uma minas – no caso, de ferro, cal e enxofre. Os
2001 (ed. fac-símile), pp. 211,
jazida mineral – além de também se iden- parágrafos introdutórios, dos quais mencio-
214 e 216.
tificar a superação de uma tradição mineira narei abaixo apenas o primeiro, ao listarem
23 AIHGB, Códice 807, vol. 5,
pp. 142-6. “antiga” para outra “moderna”: características importantes para a localiza-

16 REVISTA USP, São Paulo, n.71, p. 10-19, setembro/novembro 2006


ção de uma jazida, apontam para o recurso que lhe fica ao sul em curta distância […].
a uma tradição mineira, especialmente da Todo esse lugar é abundantíssimo de lenhas,
Europa Central, que valorizava e somente e com todas as belas circunstâncias para a
compreendia os minerais quando in situ, no erecção de uma grande fábrica”.
contexto de sua “geografia natural”24:
Os dois outros documentos citados abai-
“[…] a presença de uma mina é anunciada xo, além de tratarem de outras importantes
pelas áreas dos rios, que ficam vizinhos a riquezas minerais – a saber, diamantes e
ela, nas quais se encontram palhetas do tal salitre –, têm em comum o fato de envol-
mineral: e também por uma terra untuosa verem dois irmãos, cuja fortuna familiar
e tenra. A situação do terreno costuma ser assentava-se na mineração. O texto “Sobre
montuosa [com montes e outeiros] e muito os Meios Econômicos de Realizar a Extra-
seca principalmente nas montanhas, que ção do Salitre dos Montes Altos”27 foi ela-
formam cadeias continuadas. As fraldas das borado por José de Sá Bittencourt Accioli,
montanhas que contêm metal são comumen- e os outros documentos relacionam-se a
te cobertas de árvores densas e frondosas, Manuel da Câmara de Bitencourt e Sá, já
e os seus cumes se vestem com plantas de mencionado.
folhas denegridas”. Ambos formaram-se em Coimbra, José
em Filosofia (1787) e Manuel em Leis
A preocupação com a descoberta de (1783) e Filosofia (1784). José voltou ao
minas de ferro, mais de uma década an- Brasil em seguida, estabelecendo em Cae-
terior às iniciativas das fábricas de ferro té (MG) uma cerâmica e fundindo algum
de Ipanema (SP), Gaspar Soares (MG) e ferro. Denunciado como participante da
Patriótica (MG), explicita-se em outro do- Inconfidência Mineira, livrou-se da con-
cumento25, preocupação essa a refletir em denação pagando duas arrobas de ouro, 24 Para maiores detalhes das rela-
ções entre a geografia natural e
grande parte a visão política e econômica do e consta que foi aproveitado pela Coroa a mineração, ver, por exemplo:
então ministro conde de Linhares, que pôde para realizar pesquisas mineralógicas e E. P. Hamm, “Knowledge from
Underground: Leibniz Mines
perceber contemporaneamente à I Revolução inspecionar as minas de salitre de Montes the Enlightenment”, in Earth
Sciences History, USA, vol.
Industrial as questões que Portugal deveria Altos (BA)28. O documento traz o resultado 16, n. 2, 1997, pp. 77-99.
encarar caso não desejasse permanecer a dessa incumbência, e nele o autor analisa 25 AIHGB, Códice 807, vol. 5,
reboque de outros países. O documento os prós e contras de uma exploração in- pp. 140-1.

intitulado “Notícias dos Primeiros Passos tegralmente feita pela Coroa ou feita por 26 A respeito da importante atua-
ção de engenheiros-militares
que se Dirigiram nas Indagações das Minas companhia particular. Apesar de menos no campo da história natural
de Ferro”, assim como o anterior, também “glamouroso” do que o ouro e os diamantes, e correlatos, cf.: Ermelinda
Moutinho Pataca, Terra, Água
datado de 1795, é de autoria do tenente-co- o salitre não era, de modo algum, um bem e Ar nas Viagens Científicas
Portuguesas (1755-1808),
ronel Manuel Martins do Couto Reis – e a mineral desprovido de importância, dada a tese de doutorado, Campi-
presença de militares nos assuntos da mi- demanda, principalmente, para fabricação nas, Instituto de Geociências
da Universidade Estadual de
neração não é de surpreender, pois, além de explosivos (para defesa do território e Campinas, 2006.
dos aspectos de segurança da Coroa, muitos para trabalhos de desmonte na mineração) 27 AIHGB, Códice 807, vol. 5,
tinham formação como engenheiros-mili- e, secundariamente, no preparo de carnes pp. 132-8.

tares e conheciam, por dever de formação salgadas e peles curtidas de animais, e na 28 Cf. Marcos C. de Mendonça, O
Intendente Câmara: Manuel Fer-
e de ofício, temas da história natural26. O alimentação do gado. reira da Câmara Bethencourt e
Sá, Intendente Geral das Minas
local encontrado parece promissor: Manuel da Câmara permaneceu na Eu- e Diamantes, 1764-1835, São
ropa após encerrar seu tempo em Coimbra, Paulo, Nacional, pp. 9-11.

“[…] desenganado porém das primeiras tendo sido incumbido como chefe, junta- 29 Maiores detalhes em: Men-
donça, op. cit., e S. F. de M.
viagens e indagações até ali infrutuosas, mente com José Bonifácio e Joaquim Pedro Figueirôa, “Um Pensionário Fiel
por último encontrei uma grande cópia de Fragoso de Sequeira, de uma viagem de dez de Sua Majestade: Manuel
Ferreira da Câmara, 1764 (?)
pedras ferruginosas soltas […]. Um córrego anos pelos principais centros científicos e – 1835”, in A. D. Soto; M. A.
Puig-Samper; L. C. Arboleda
de suficiente volume de águas, certamente mineiros da Europa29. Ao término, regressou (eds.), Científicos Criollos e
capaz de mover grandes máquinas, lhe passa ao Brasil, tendo-se ocupado, ao que parece, Ilustración, Madrid/Bogotá,
Doce Calles/CSIC: Colcien-
ao pé, e vai confluir com o rio Quecerebu, da preparação do texto do alvará de 1803, cias, 1999.

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CONCLUSÃO
Já em pleno século XIX, com o espaço
colonial brasileiro promovido a sede do
Império Português, as queixas quanto à
falta de instrução e de domínio técnico,
assim como os apelos para que Sua Alteza
Real estimulasse a indústria mineira, manti-
nham-se no mesmo tom. José Bonifácio de
Andrada e Silva, intendente-geral das Minas
e Metais do Reino desde 1801 e uma das
mais prestigiadas figuras do período, assim
se expressava sobre ambas as questões:

“Atualmente, há tanta cegueira e uma falta


de zelo em relação a essa questão que poucas
pessoas entre nós são capazes de obter lucros
com as vantagens que a exploração regular
de nossas minas e uma boa administração
metalúrgica produziriam”31.

“[…] esta mineração de ouro pode esten-


der-se e ampliar-se com o andar do tempo.
E quantas outras riquezas, que já conheço,
não darão as Províncias de Portugal um dia,
se Sua Alteza Real, livre dos cuidados da
guerra, se dignar favorecer tão importante
ramo de ocupação e utilidade pública,
como é de esperar da sua Magnanimidade
e Sabedoria?”32.

Apesar dos esforços, o que ainda persistiria


como entrave ao pleno desenvolvimento da
supracitado, aguardando a efetivação de atividade mineira no Brasil, apesar da indis-
sua nomeação como intendente do Distrito cutível abundância do reino mineral? Mesmo
Diamantino, que se deu apenas em 1807. No que tomemos com cautela o discurso ilustrado,
texto de sua carta dirigida a D. João VI antes que repetiu à exaustão o bordão da ignorância
mesmo do soberano e sua Corte aportarem e da falta de formação técnica e prática dos
no Brasil30 é possível entrever-se, na retórica mineiros locais, o fato é que o que se encontra
pomposa com que Câmara se esforça para na documentação pesquisada por diversos au-
30 Cf. Mendonça, op. cit., pp.
143-4. demonstrar sua dedicação ao real serviço, tores tem reforçado essas afirmações. Estudos
31 José Bonifácio de A. e. Silva, um apelo ao fomento à mineração: bastante recentes, de campos disciplinares já
“Mineralogia”, in O Patriota, consagrados e distintos da história das ciências
vol. 2, n. 1, Rio de Janeiro,
1813. “[…] qual outro onipotente, com a pala- e das técnicas, como a história econômica,
32 Idem, “Memória sobre a Mina vra de V.A.R. tudo se fará; e sobretudo se por exemplo, apontam que,
de Ouro da Outra Banda do
Tejo”, apud Alex G. Varela,
fabricará o ferro, que servindo a rasgar as
“Juro-lhe pela Honra de Bom entranhas, assim como a superfície da Terra, “[…] independentemente da natureza do
Vassalo e Bom Português”: Aná-
lise das Memórias Científicas nos armará contra os inimigos de V.A.R., processo produtivo, toda propriedade ru-
de José Bonifácio de Andrada assegurando assim a V.A.R. e a sua real ral tinha o mesmo nível técnico, a mesma
e Silva (1780-819), São Paulo,
Annablume, 2006. descendência este nascente império”. qualidade dos instrumentos de trabalho. Os

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inventários da maior propriedade rural de “[…] pratica-se uma verdadeira caça, sem
Minas [Gerais] […] ou dos mais humildes pensar no futuro. Perseguem-se as camadas
lavradores não traziam diferenças qualita- e os veios em todas as direções, enquanto
tivas, mas simplesmente quantitativas: era os serviços puderem dar lucro, razão pela
o tamanho da ‘fábrica’ que as distinguia qual tal método, sobretudo quando aplicado
quanto às forças produtivas (mais escravos, a uma possante camada, dá origem a um
mais enxadas e foices, mais terras)”33. perfeito labirinto de tocas de toupeiras”36.
Além disso, não nos esqueçamos de que
Assim era na agricultura, assim também a mão-de-obra escrava estava disponível
na mineração. António Pires da Silva Pontes e era razoavelmente barata, facilitando a
Leme abriu sua “Memória” apresentada lavagem de grandes volumes de areias e
à Academia Real de Ciências afirmando cascalhos. Há informações, inclusive, de
que “resta pois somente uma observação que parte dos processos de extração e de
de fato; e é a pouca utilidade das fábricas metalurgia foram trazidos pelos negros:
de minerar para seus donos, a que vamos
suprir com as observações seguintes, que se “[…] os negros minas naturais do reino de
fundam na necessidade das ciências físicas, Tombuco, e Bambuc são pela maior parte
matemáticas, e de metalurgia no continente os melhores mineiros das minas do Oiro
das Minas Gerais pela dificuldade atual da do Brasil, e talvez que eles fossem os que
extração do ouro”. E prosseguia constatando ensinaram aos portugueses daquelas minas
que “minas riquíssimas de pedra se abando- o método grosseiro de tirar o oiro, de que
nam, já pelo muito ferro, e braços que hão ali se usa; como parece pela semelhança de
mister, já por se não usar de outro método, um, o outro método”37; 33 Ângelo A. Carrara, “A Capitania
senão o de lavadeiro, ou de lavagens, que de Minas Gerais (1674-1835):
Modelo de Interpretação de
é o único de que temos idéia naquele nosso “[…] os funcionários da Administração uma Sociedade Agrária”, in
continente aurífero”34. [Diamantina] haviam se formado apenas na História Econômica e História
de Empresas, São Paulo, vol.
O tipo de ocorrência do ouro e do dia- escola dos escravos por ela utilizados”38. III, n. 2, 2000, p. 54.
mante – de longe, os principais bens mine- 34 António Pires da Silva Pontes
rados no período colonial –, abundantes nos Dessa forma, no Brasil, a facilidade Leme, “Memória s/ a Utilidade
Pública em se Tirar o Ouro das
leitos e margens dos rios e em cascalheiras, inicial da exploração não favoreceu o desen- Minas, e os Motivos dos Poucos
Interesses dos Particulares que
propiciaram que a exploração inicial fosse volvimento de técnicas autóctones, como o Mineram Actualmente no Bra-
intensa e não demandasse nível técnico relatado para algumas colônias espanholas, sil”, in Revista do Arquivo Público
Mineiro, Belo Horizonte, vol. 1,
sofisticado. Muito do que se fazia decorria como a Nova Espanha, por exemplo, em 1896, pp. 322 e 325.
da própria prática: que a tradição local obrigou os especialistas 35 Wilhelm L. von Eschwege,
metropolitanos e estrangeiros a um “diálo- Brasil, Novo Mundo, trad.
Domício Figueiredo Murta,
“[…] os diamantes, tanto dos leitos antigos go” com o que havia anteriormente39. No Belo Horizonte, Fundação João
Pinheiro, 1996, p. 186.
como dos mais recentes do Distrito [Dia- momento em que a exaustão dos depósitos
mantino], se distribuem quase que igual- aluvionares reclamou avanços técnicos para 36 Idem, Pluto Brasiliensis, São Pau-
lo/Belo Horizonte, Edusp/Ita-
mente, de modo que, com alguma prática, que se explorassem as jazidas primárias tiaia, vol. 1, 1979, p. 175.
se pode estimar com segurança quantas (isto é, em “rochas duras”), a mentalidade 37 J. J. de C. A. Coutinho, “Me-
gemas podem ser extraídas em determina- iluminista defendeu a instrução dos minei- mória sobre as Minas do Oiro
Lida na Academia de Lisboa e
da área. Diversos feitores experimentados ros e a aplicação das ciências. Mas a elite Composta por Joze Joaquim de
Azeredo Coutinho, hoje Bispo
asseguraram-me, porém, que o leito de um ilustrada não pensava de modo uniforme, eleito de Pernambuco”, p. 39,
rio é mais rico em alguns pontos do que em e muitos haviam abraçado a fisiocracia e apud Matos & Martins, op. cit.,
nota 6.
outros […]. O diamante deve ser procurado defendiam uma vocação agrícola para o país
38 Eschwege, op. cit., p. 183,
no lado em que as águas formam remanso. – que acabou por prevalecer até o século nota 35.
Um bom indício também seria a freqüência XX –, exultando com o momento em que a 39 Ma de la Paz Ramos L. e Juan
de seixos de minérios de ferro”35. “agricultura no Brasil […] logo que aquelas José Saldaña, “Del Colégio de
Minería México a la Escuela
minas totalmente se extinguiram, ela já livre, Nacional de Ingenieros”, in
Quipu, vol. 13, n. 1, México,
Nos casos em que se encontrava minério e desembaraçada desta sanguessuga, que jan.-abr./2000, p. 106.
primário, a situação parece ter sido ainda tantos braços lhe chupa, chegará em fim ao
40 J. J. de A. Coutinho, op. cit.,
mais predatória e carente de planificação: seu maior aumento, e perfeição”40. pp. 12-3.

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