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A FAVELA EMPREENDEDORA: UMA BREVE ANÁLISE DA ATUAÇÃO DO SEBRAE

EM PARCERIA COM AS UNIDADE DE POLÍCIA PACIFICADORA.

Andressa Somogy de Oliveira1

RESUMO: O presente trabalho analisa a atuação do SEBRAE nas favelas “pacificadas” no município do
Rio de Janeiro em parceria com as Unidades de Polícia Pacificadora que, de acordo com o conceito dado
pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, teriam como objetivo central proporcionar uma
aproximação entre a população e a polícia. Essa parceria faz parte do “Programa de desenvolvimento do
empreendedorismo em comunidades pacificadas” e está inserido num contexto chamado de “era do
empreendedorismo”, em que este tem sido colocado pelo discurso oficial como solucionador de problemas
sociais como o desemprego, a exclusão social e a cidadania negada. Analisaremos como tem se dado a
atuação do SEBRAE nas favelas “pacificadas” cariocas, buscando refletir sobre o contexto de precarização
do trabalho e de flexibilização e relativização de direitos trabalhistas, contexto no qual o empreendedorismo
se torna uma política oficial de combate ao desemprego e à pobreza, visando entender as consequências
desse discurso da razão empreendedora2 para os trabalhadores.

Palavras-chave: Empreendedorismo – SEBRAE - Unidades de Polícia Pacificadora – Favelas.

Introdução
As favelas são historicamente marcadas como lugar de falta: sem água, sem luz, sem esgoto,
sem planejamento urbano. Uma precariedade perpassada pela pobreza dos que ali moram e pelo
descaso do poder público. Simultaneamente ao crescimento da visão da favela enquanto um lugar
de carência, foi construída uma imagem da favela enquanto lugar que oferece perigo, como se ali
confluíssem todos os problemas da cidade cuja erradicação é necessária e urgente.
O processo de intervenção nas favelas do Rio de Janeiro não é recente. As reformas urbanas
colocadas em prática na cidade desde o final do século XIX, expulsaram a população de baixa renda
do centro da cidade, obrigando-a a ir para as encostas dos morros. Com o surgimento das primeiras
favelas no final do século XIX e começo do século XX, tiveram início as ações do poder público
nessas regiões.
A época do surgimento das favelas foi caracterizada por um intenso crescimento
demográfico no município do Rio de Janeiro, sendo que a sua população passou de 274.972
habitantes em 1872 para 1.157.141 em 1920 (VALLADARES, 2005, p. 36). O aumento
populacional resultou numa ampliação da quantidade de pessoas sem ter moradia e, essa população,
começou então a construir as habitações coletivas, que eram casas pequenas, enfileiradas, sem as
mínimas condições de higiene e completamente insalubres. Os cortiços, locais com grande

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense


(PPGSD/UFF). Pesquisadora do GEMUT – Grupo de Estudos sobre o Mundo do Trabalho (UFF).
andressasomogy@hotmail.com.br.
2 CASTRO, Carla Appollinario de. Critica à razão empreendedora: a função ideológica do empreendedorismo no
capitalismo contemporâneo. Tese (Doutorado). Universidade Federal Fluminense, 2013.
aglomeração de pessoas vivendo sem saneamento básico, saúde e higiene, se tornaram um local de
proliferação de doenças que, para a sociedade que marginalizava essa população, estavam ligadas
diretamente à pobreza que passa a ser vista também como uma doença (CHALHOUB, 1996, p. 29-
31).
Desde a última década do século XIX as favelas têm sido alvos de políticas públicas ora de
remoção e demolição, ora de tentativa de integração ao resto da cidade. As políticas que visavam a
remoção dos moradores e demolição desses locais têm início com o mandato do prefeito Barata
Ribeiro (1893-94) - responsável pela demolição de um dos maiores cortiços cariocas, o Cabeça de
Porco, - seguido pelo mandato de Pereira Passos (1902–06) - durante o qual estima-se que mais de
vinte mil pessoas foram expulsas dos locais onde moravam no centro e sem opções tiveram que ir
para a periferia e para os morros (CHALHOUB, 1996, p. 19). Na década de 1940 as políticas
públicas em favelas são marcadas pela construção dos parques proletários durante o governo
Vargas; depois as intervenções da Igreja Católica na questão da moradia com a ação da Fundação
Leão XIII e da Cruzada São Sebastião caracterizaram tais políticas. A operação anti-favelas
empreendida por Carlos Lacerda, Negrão de Lima e Chagas Freitas nas décadas de 60 e 70 seguidas
foram exemplos das inúmeras tentativas de remoção e do descaso histórico do poder público com as
favelas e os favelados tendo tais políticas sido sucedidas pelo governo Brizola que tentou melhorar
as condições de vidas dos moradores das favelas e modificar a visão preconceituosa que o senso
comum possuía destas. Após o governo Brizola, a Operação Rio e os governos de Marcello Alencar
e Anthony Garotinho levaram ao extremo a criminalização das camadas populares e o direito penal
do inimigo em suas políticas públicas de segurança; sucedidos pelo governo de Sérgio Cabral,
responsável pela implementação das Unidades de Polícia Pacificadora.
Nesses mais de cem anos de existência das favelas, a maioria das reformas urbanas e as
políticas públicas colocadas em prática na cidade do Rio de Janeiro não tiveram o objetivo de
diminuir as desigualdades sociais e melhorar as condições de vida dos moradores das favelas.
Durante o primeiro mandato do atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (2009-13), mais de
65 mil pessoas, (um total de 12 casas por dia) 3, foram removidas compulsoriamente de seus lares,
em função dos eventos esportivos dos quais a cidade foi e será sede como a Copa das
Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014, as Olimpíadas em 2016, dentre outros.
Atualmente, o modelo de segurança pública que vigora no Rio de Janeiro são as Unidades
de Polícia Pacificadora (UPPs), que começaram a ser implementadas em janeiro de 2008. O

3 MOLICA, Fernando. “Informe do Dia: O Rio que remove: Prefeitura bate recorde de remoções entre 2008 e 2012”. O Dia Rio de
Janeiro, em 24/05/2013. Disponível em: http://odia.ig.com.br/noticia/rio/2013-05-24/informe-do-dia-o-rio-que-
remove.html. Acesso em: julho/2015.

CHAGAS, Maria E.; GRELLET, Fábio. “Livro mapeia remoções de moradores na gestão de Eduardo Paes”. Estadão
Rio, em 24/04/2015. Disponível em: http://brasil.estadao.com.br/blogs/estadao-rio/livro-mapeia-remocoes-de-
moradores-na-gestao-de-eduardo-paes. Acesso em: julho/2015.
objetivo desse programa de segurança pública, desenvolvido e posto em prática pelo Governo e pela
Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (SSP/RJ), seria acabar com o domínio
do tráfico de drogas nas favelas, permitir a entrada de investimentos privados, serviços públicos e
de projetos sociais e culturais nas comunidades, além do desenvolvimento econômico e social.
Desse modo, a principal justificativa para a criação das UPPs foi a necessidade de prover à
Polícia Militar do Rio de Janeiro uma tropa capacitada para lidar com ações que tratassem da
promoção da ordem pública em comunidades carentes.
Em 2015, existe um total de trinta e oito Unidades de Polícia Pacificadora instaladas em
uma área de 9.446.047m², “beneficiando” mais de 1,5 milhão de pessoas. 4 Embora não se tenha
notícias de uma efetiva melhora no que diz respeito aos serviços públicos, tais como: construção e
melhora de escolas, hospitais, serviços de esgoto e saneamento, coleta de lixo, pavimentação de
ruas etc., uma atuação que tem crescido nas favelas e sido tema de diversas pesquisas é a do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o SEBRAE, em parceria com a Agência
Estadual de Fomento (AgeRio) e as UPPs. Apostando no aumento que as micro e pequenas
empresas têm apresentado na economia brasileira e das mudanças que tem ocorrido no mundo do
trabalho, o SEBRAE vem investindo no empreendedorismo em favelas, através de cursos,
atendimentos, formalizações, eventos, incentivos e facilitação na obtenção de microcrédito. Tendo,
inclusive, um programa específico de desenvolvimento do empreendedorismo em favelas
“pacificadas”.5
Na cidade do Rio de Janeiro, a partir do processo de pacificação das favelas com as
Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), da Secretaria de Segurança do Estado, o
Sebrae pôde atuar de forma sistematizada em comunidades antes dominadas pelos
grupos armados de tráfico e milícia. A presença do Sebrae nesses locais está sendo
importante para estimular o desenvolvimento socioeconômico, promover e facilitar
a formalização de empreendedores e proporcionar qualificação empresarial com
assessoria técnica, acesso a serviços financeiros, acesso a mercados, capacitação e
promoção do associativismo. Auxilia-se assim a integração entre comunidade,
órgãos públicos, concessionários de serviços e empresas privadas e,
consequentemente, o desenvolvimento local. (p. 11) 6

No presente trabalho, pretendemos discutir essa parceria entre o SEBRAE e as UPPs,


analisando a implementação do empreendedorismo como um programa de desenvolvimento nas
favelas “pacificadas”. Para isso, analisaremos o empreendedorismo dentro do contexto neoliberal de
informalidade e de flexibilização do mercado de trabalho.

4 UPP/RJ - Unidade de Polícia Pacificadora/Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.upprj.com/. Acesso em:
maio/2015.
5 JORGE, Israel; TEIXEIRA, Carla G. de M (Coords.) Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em
comunidades pacificadas. Rio de Janeiro: SEBRAE/RJ, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal
%20Sebrae/UFs/RJ/Menu20Institucional/SEBRAE_EMP_dez12_MicroEmp_UPP.pdf. Acesso em: junho/2015.
6 Idem.
1. Unidades de Polícia Pacificadora e SEBRAE: a “pacificação” abrindo espaço para o
empreendedorismo.
A implementação das Unidades de Polícia Pacificadora nas favelas cariocas teve início em
2008. Esse modelo de segurança pública, desenvolvido e posto em prática pelo Governo e pela
Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, teria como objetivos acabar com os conflitos
entre traficantes e policiais, permitir a entrada de investimentos privados, serviços públicos e de
projetos sociais e culturais nas comunidades, além do desenvolvimento econômico e social.
As Unidades de Polícia Pacificadora tem sido cada vez mais criticadas tanto por militarizar
esses territórios quanto por não levarem consigo uma efetiva melhora da vida da população e não
garantir acesso aos direitos sociais e nem a mínima garantia de serviços públicos. A “retomada” dos
morros pelo Estado tem se focado na militarização desses territórios e das vidas dos moradores e,
com o incentivo do SEBRAE, no empreendedorismo e no consumo de microcrédito.
A Agência Estadual de Fomento tem, nos últimos anos, oferecido diversas facilitações para
que os moradores de favelas, onde foram instaladas Unidades de Polícia Pacificadora, tenham
acesso ao microcrédito, que são empréstimos de pequenos valores (que não excede R$ 15 (quinze)
mil reais) a juros mais baixos que os usualmente cobrados pelo mercado. No município do Rio de
Janeiro, já são mais de cinquenta comunidades 7 atendidas pelo programa de Microcrédito Produtivo
Orientado, que tem o objetivo de fomentar o acesso ao crédito de pequenos empreendimentos.8
Quando falamos em empreendedorismo, o microcrédito tem uma importância substancial.
Primeiramente por ser um incentivador desses empreendimentos em favelas, posto que é a opção de
concessão de crédito que possui os menores juros e melhores condições de financiamento, e,
segundo, por demonstrar como as favelas têm em si um grande mercado consumidor de crédito,
tendo sido feita até mesmo uma lei regulamentando o Fundo de Microcrédito para Empreendedores
das Comunidades Pacificadas do Rio de Janeiro – o Fundo UPP Empreendedor. Tal Fundo tinha
como objetivo “fomentar a economia das Comunidades Pacificadas, por meio de financiamento
orientado a micro e pequenos empreendimentos produtivos, considerados relevantes para o
desenvolvimento dessas comunidades e do Estado”. 9, de acordo com a Lei 6.139/2011 (que foi
posteriormente modificada em março e em agosto de 2012 através dos decretos 43.504 e 43.708).
Em julho de 2015 o Fundo Empreendedor UPP deixou de existir, passando a chamar Fundo
Estadual de Fomento ao Microcrédito Produtivo Orientado para Empreendedores (FEMPO) e

7 AGERIO - Agência Estadual de Fomento. Disponível em:


http://www.agerio.com.br/index.php/component/content/article/28-pessoa-fisica/477-fundo-upp-empreendedor-
atendimento/. Acesso em: junho/2015.
8 AGERIO - Agência Estadual de Fomento. Disponível em: http://www.agerio.com.br/index.php/credito-para-sua-
voce/. Acesso em: junho/2015.
9 ALERJ - Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em:
http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/f25edae7e64db53b032564fe005262ef/8901a0830aedeb8e83257982006c52
cb?OpenDocument/. Acesso em: maio/2015
aumentando seu atendimento para todo o Estado do Rio de Janeiro, em comunidades pacificadas ou
não, incluindo entre seus beneficiários os artesãos, músicos e pequenos produtores agrícolas, dando
preferência aos empreendimentos produtivos de pessoas com deficiência. O limite de crédito
concedido varia de R$300 a R$15 mil, tendo taxa de juros de 3% ao ano e prazo de 24 meses, com
3 meses de carência. A administração do fundo é responsabilidade da Agência de Fomento do
Estado do Rio de Janeiro S.A. (AgeRio).
O estímulo ao empreendedorismo nas comunidades pacificadas é o objetivo desses fundos.
Em outubro de 2013, depois de um ano de existência, os contratos de microcrédito já haviam
beneficiado mil empreendedores em favelas com UPPs. 10 Em 2015, já são quase oito mil pessoas
beneficiadas com esses recursos, que já somam mais de 33,1 milhões de reais, sendo os ramos de
estética, vestuário e alimentação os que mais receberam recursos. 11 Com o objetivo de alcançar o
maior público possível, a AgeRio tem agido através de atendimento em unidades itinerantes, que
ficam uma semana em cada favela, percorrendo os territórios, tirando dúvidas e abrindo espaço para
que os empreendedores solicitem crédito. 12
De acordo com o que tem sido divulgado na grande mídia, a presença do SEBRAE nas
favelas representa que: “O Estado chega às comunidades com outros serviços, além da polícia.”13
Das diversas críticas feitas às Unidades de Polícia Pacificadora desde seu surgimento, a
principal delas sempre foi ser um programa de segurança pública focado exclusivamente na
presença da mão armada do Estado. Ou seja, a polícia subia o morro e os serviços públicos tão
prometidos continuavam inexistentes. Interessante notar que, para mudar esse quadro, o Estado do
Rio de Janeiro passou a incentivar a chamada cidadania de consumo, na qual este é colocado como
“meta final de vida humana”, como afirmado por Alvim, Nunes e Castro ao analisarem o incentivo
ao empreendedorismo:
Duas consequências podem ser extraídas desse processo, pois além do incentivo à
atividade econômica individual como forma de sobrevivência, verifica-se que, pelo
mesmo discurso, de uma incipiente cidadania, as classes trabalhadoras foram
levadas à ideia de consumo como meta final da vida humana, mesmo quando o
acesso a bens de consumo apresenta-se como limitado. Os indivíduos destas
classes são “convencidos” a passarem de cidadãos (com todas as consequências
políticas e ideológicas inerentes a este tipo de cidadania) a consumidores
distraídos, no quadro da passagem do Estado de bem-estar social (de Seguridade
Social) para o Estado fornecedor de bens. (2012, p. 18, grifo nosso).

10 AGÊNCIA BRASIL. "Mil pequenos empreendedores de comunidades pacificadas conseguiram crédito para seus
negócios". 07/10/2013. Disponível em: http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/10/mil-pequenos-empreendedores-
de-comunidades-pacificadas-ja-conseguiram/. Acesso em: junho/2015.
11 AGERIO. "Comércio de favelas do Rio terá acesso a crédito com juros menores". 09/06/2015. Disponível em:
http://www.agerio.com.br/images/agerionamidia/2015/6Jun/diariodovale_09_06_15.pdf. & "Microempreendedores de
comunidade do Rio têm empréstios a juros baixos". 09/06/2015. Disponível em:
http://www.agerio.com.br/images/agerionamidia/2015/6Jun/agenciabrasil_09_06_15.pdf/. Acesso em: junho/2015
12 AGERIO. "Serviço itinerante amplia atuação da AgeRio em áreas pacificadas". 24/06/2015. Disponível em:
http://www.agerio.com.br/images/agerionamidia/2015/6Jun/diario_oficial_24_06_15.pdf/. Acesso: junho/2015.
13 AGERIO. “Microempreendedores de favelas pacificadas”. 04/06/2015. Disponível em:
http://www.agerio.com.br/images/agerionamidia/2015/6Jun/bomdiario_04_06_15.pdf/. Acesso em julho/2015.
As Unidades de Polícia Pacificadora são colocadas pelo SEBRAE como uma de suas
maiores parceiras no desenvolvimento e incentivo ao empreendedorismo no Rio de Janeiro,
juntamente com a agência de fomento Age Rio, a Prefeitura, o Governo do Estado, o Rotary e a
Agência de Redes para Juventude. O projeto-piloto desse novo programa, que visa o
desenvolvimento territorial através do empreendedorismo tem sido desenvolvido, primeiramente,
nas favelas “pacificadas”. A “pacificação” permitiu que a atuação do SEBRAE nas favelas se desse
de maneira sistematizada, sendo a presença das UPPs uma premissa indispensável para as suas
ações. A presença do SEBRAE seria uma iniciativa de “desenvolvimento territorial por meio do
empreendedorismo” e que promove “a progressão social de milhares de pessoas”. Essa parceria visa
também mudar algumas características das favelas “pacificadas”, como baixa renda média, baixo
nível de escolaridade, informalidade do trabalho, irregularidade na prestação de serviços serviços
públicos, jovens sem ocupação e falta de serviços de apoio ao empreendedor, buscando criar uma
cultural local contrária às atividades ilícitas.14
As favelas são vistas como “mercado consumidor e território de oportunidade de
negócios”15. Nas 63 favelas localizadas em nove regiões metropolitanas e no Distrito Federal, há
12,3 milhões de moradores movimentando 68 bilhões de reais por ano. Nesses locais, a média
salarial aumentou 54,7% no período de 2003 a 2013, sendo que no mesmo período a média salarial
no resto do país cresceu 37,9%. Com o aumento real do salário-mínimo, da renda média e do poder
de compra dos moradores das favelas, esse tem sido um ambiente de crescente interesse devido ao
promissor mercado consumidor ali existente, no caso específico do SEBRAE, o mercado
consumidor de crédito.16
O programa de desenvolvimento do empreendedorismo em comunidades pacificadas teve
início em 2011, e até dezembro de 2013 havia realizado mais de 41 mil atendimentos nas 169
favelas abarcadas pelo programa, estimando-se que cerca de 520 mil pessoas estariam sendo
beneficiadas com a melhoria da qualidade na prestação de serviços e a geração de emprego e de
renda.17 O sucesso do programa foi tamanho, que foi criada pelo SEBRAE uma Coordenação de

14 JORGE, Israel; TEIXEIRA, Carla G. de M (Coords.) Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em


comunidades pacificadas. Rio de Janeiro: SEBRAE/RJ, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal
%20Sebrae/UFs/RJ/Menu20Institucional/SEBRAE_EMP_dez12_MicroEmp_UPP.pdf. Acesso em: junho/2015.
15 AGÊNCIA SEBRAE DE NOTÍCIAS. "Favela Empreendedora". Artigo Publicado no Jornal O Povo na edição do
dia 30/03/2015. Disponível em: http://www.ce.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/CE/Favela-empreendedora. Acesso em
maio/2015.
16 SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Disponível em:
http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/Acesso-ao-cr%C3%A9dito-gera-oportunidades-de-neg
%C3%B3cio-nas-favelas. Acesso em julho/2015. & UPP/RJ - Unidade de Polícia Pacificadora/Rio de Janeiro.
Disponível em: http://www.upprj.com/index.php/acontece/acontece-selecionado/comercio-legal-promove-rodada-de-
negocios-no-morro-dos-macacos/Macacos/. Acesso em julho/2015.
17 JORGE, Israel; TEIXEIRA, Carla G. de M (Coords.) Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em
comunidades pacificadas. Rio de Janeiro: SEBRAE/RJ, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal
%20Sebrae/UFs/RJ/Menu20Institucional/SEBRAE_EMP_dez12_MicroEmp_UPP.pdf. Acesso em: junho/2015.
Comunidades Pacificadas (CPP), visando “fomentar o empreendedorismo e o desenvolvimento
sustentável nas comunidades pacificadas promovendo uma maior integração desses territórios com
a cidade”.18
Nesse contexto:

Qualificar e apoiar a cadeia produtiva dos empreendimentos das favelas dever ser o
objetivo de políticas públicas e referencial para realizar parcerias com instituições
como a Cufa, associações comunitárias e de bairro, as redes de economia solidária
e de bancos populares.19

A experiência colocada em prática nas favelas “pacificadas” teria ações que perpassariam as
dimensões institucional, econômica e social. Institucionalmente, as ações estariam sustentadas na
retomada do território, de modo a proporcionar segurança aos moradores e tornar o ambiente
favorável aos negócios. Economicamente, as ações proporcionariam melhora no faturamento e na
geração de renda. E, socialmente, os ganhos estariam ligados aos impactos que as vantagens
institucionais e econômicas teriam na vida dos moradores.
Para que o programa seja implementado, os passos são: diagnóstico da situação dos
empreendedores nas comunidades pacificadas, sensibilização do público-alvo e articulação de
parcerias, atuação integrada das áreas do SEBRAE e nas comunidades, divulgação do trabalho do
SEBRAE nas comunidades e para a sociedade em geral e monitoramento e avaliação do projeto.20
Há seis eixos estratégicos no programa.
 O primeiro deles é a formalização de atividades. Ela se dá através de eventos para promover
a formalização, apoio à legislação e à fiscalização, orientação e oferta de serviços
personalizados de acordo com as necessidades e preferências dos empreendedores das
favelas.
 O acesso a mercados é o segundo eixo estratégico, que foca em compreender as demandas,
oportunidades e vocações locais, e busca integrar as favelas “pacificadas” com os
fornecedores de serviços e produtos do “asfalto”.
 O terceiro eixo consiste na capacitação técnica e comportamental, focando no “resgate” de
jovens desocupados ou que praticam atividades ilícitas.
 A facilitação e ampliação da oferta de crédito e serviço são traduzidas no desenvolvimento
de produtos customizados.

18 Idem.
19 AGÊNCIA SEBRAE DE NOTÍCIAS. "Favela empreendedora". Artigo publicado no jornal O Povo na edição do dia
30/03/2015. Disponível em: http://www.ce.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/CE/Favela-empreendedora. Acesso em:
maio/2015.
20 JORGE, Israel; TEIXEIRA, Carla G. de M (Coords.) Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em
comunidades pacificadas. Rio de Janeiro: SEBRAE/RJ, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal
%20Sebrae/UFs/RJ/Menu20Institucional/SEBRAE_EMP_dez12_MicroEmp_UPP.pdf. Acesso em: junho/2015.
 O quinto eixo estratégico consiste no acesso à inovação tecnológica e social, se
consubstanciando na busca de soluções inovadoras para os problemas tidos como típicos das
favelas “pacificadas”.
 O apoio a setores específicos e fortalecimento de cadeias produtivas, promovem a
qualificação e o aperfeiçoamento dos serviços e produtos.
Esses eixos, assim como os passos colocados acima, demonstram que o programa do
SEBRAE visa analisar a área e assim desenvolver um empreendedorismo que seja adequado ao
território, que coloque os futuros empreendedores dentro dos padrões para poder sobreviver no
mercado competitivo e se utilizando do empreendedorismo para solucionar os problemas apontados
pelo SEBRAE como “típicos” das favelas.
Os diversos eventos esportivos supra-citados que têm a cidade do Rio de Janeiro como sede
são outra justificativa para essa parceria, visando que os pequenos negócios nas favelas estivessem
preparados para as oportunidades de geração de renda, trabalho e negócio advindas desses eventos.
A política de pacificação proporciona parcerias com o poder público, entidades de
fomento, instituições financeiras, entidades representativas da comunidade,
empresas prestadoras de serviços públicos, universidades, centros de pesquisa e
empresas privadas investidoras, favorecendo um ambiente sinérgico de geração de
trabalho, renda e negócios para o alcance desses resultados. O projeto também foi
planejado para que os pequenos negócios das comunidades, deprimidas
institucional e socioeconomicamente, se preparassem para as oportunidades
geradas por eventos como a Rio+20 em 2012, a Copa das Confederações em 2013,
a Copa FIFA em 2014 e as Olimpíadas em 2016. (p. 11) 21

O interesse do SEBRAE em promover esse programa de desenvolvimento territorial tendo


as favelas “pacificadas” como projeto-piloto fica nítido quando vemos o grande mercado
consumidor e os inúmeros “potenciais empreendedores” ali presentes. No Rio de Janeiro, 22% da
população, ou seja, quase 1,4 milhões de pessoas moram em favelas. É a cidade brasileira onde
mais se tem pessoas morando em favelas, mas qual a importância desses locais para o SEBRAE
enquanto polos de microempreendimentos?
De acordo com a “Pesquisa sobre Microempreendedorismo em Domicílios nas Favelas com
Unidades de Polícia Pacificadora” feita pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade e
financiada e apoiada pelo SEBRAE, publicada em dezembro de 2012 22, a importância dos
microempreendimentos nas áreas “pacificadas” se deve a uma carência de serviços e produtos (p.
123). Contudo, não se coloca a questão da total ausência dos serviços públicos que são obrigação do
Estado e nem mesmo a falta de garantia mínima dos direitos sociais nas favelas. Um ambiente de
abandono estatal, em que as pessoas vivem em condições muitas vezes desumanas, sem acesso à
saúde, educação, moradia digna, saneamento básico, um ambiente cuja boa parte da população é

21 Idem.
22 Idem.
excluída do mercado de trabalho formal e têm na informalidade e muitas vezes nas atividades
ilícitas a única chance de sobrevivência. O empreendedorismo tem sido cada vez mais, como vimos
acima, colocado como a solução para a pobreza e para os problemas sociais. Entretanto, no Brasil,
ele é, na verdade, mais uma alternativa que tem predominado dentro de um contexto de necessidade
do que uma opção por vocação.

(…) cerca de 80% do total dos microempreendedores em UPPs possuem um só


negócio onde quase metade do total de microempreendedores (46%) indica que
o rendimento é de tal magnitude que garante apenas o próprio sustento ou a
sobrevivência. (…) Ainda de acordo com a pesquisa qualitativa, aparentemente o
empreendedorismo não aparece como a primeira alternativa de ocupação
para os moradores das comunidades pacificadas, mas uma forma de inserção no
mercado de trabalho e que garante grau relativo de autonomia por trabalhar
próximo ou mesmo na própria residência. (p. 62) – pesquisa sobre…

Os microempreendedores das favelas tem rendimento apenas para o próprio sustento


continuam vivendo em condições precarizadas, num ambiente de pobreza, sem serviços públicos e
numa realidade onde são ignorados enquanto cidadãos no que diz respeito aos seus direitos sociais,
sofrendo violências constantes por parte da mão armada do Estado.
Nesse contexto, as Unidades do Polícia Pacificadora são “uma fonte adicional capaz de
promover a expansão do mercado microempreendedor ao aumentar a atividade econômica e
estimular a economia local” (p. 123) permitindo que as favelas “pacificadas” sejam um ambiente
com as “condições necessárias para consolidação das vantagens em um mercado competitivo.” (p.
123).23 Como colocado por Botelho (2013), a maneira como o trabalhador assalariado sub-
remunerado ou precário lida com a dificuldade de acesso ou total falta de serviços públicos tem sido
vista como um “modelo de iniciativa particular” e é louvado por demonstrar uma flexibilidade em
um ambiente hostil e competitivo, sem se questionar sobre esse ambiente. Sem a devida análise
crítica e a mudança necessária desse ambiente, ele se vê como algo legítimo e que pode ser
melhorado, mas não superado ou criticado. O Estado então passa a ser visto um “coparticipante”
que ajuda os indivíduos a resolverem problemas que são seus, esquecendo-se que estes são
estruturais e que o Estado é o principal responsável por garantir que tais problemas sejam
resolvidos. A reflexão crítica é substituída pela “administração social da miséria”.
O limite disso, em nome de um pretenso respeito ao ato individual dos sujeitos que
conseguem resolver seus problemas sem depender da assistência estatal, é a
transformação da precariedade em modelo de “iniciativa empresarial
individual”. (BOTELHO, 2013, p. 184, grifo nosso)

Esse empreendedorismo formalizado seria responsável não só pelo desenvolvimento


territorial e pela geração de renda, mas garantiria também dignidade, cidadania e progressão social.

23 Idem.
É a viabilidade desse projeto do empreendedorismo como solução para os problemas sociais e saída
para a crise econômica, como caminho para o desenvolvimento institucional e socioeconômico e
garantidor da integração das áreas “pacificadas” ao “asfalto” que abordaremos no próximo item.

3. Empreendedorismo enquanto solução para os problemas sociais: o falso sonho do “patrão


de si mesmo”.
A centralidade que o empreendedorismo tem alcançado no atual momento do capitalismo,
enquanto maneira de enfrentar o desemprego está diretamente ligada a um retorno a visão do
indivíduo enquanto único responsável por seu sucesso ou fracasso. O neoliberalismo tem a
liberdade e a individualidade como seus principais pilares. Prega-se a lógica do “cada um por si” e
do não-intervencionismo, confiando na neutralidade do mercado enquanto regulador natural da
economia. O padrão de sociabilidade baseado na garantia ao emprego enquanto forma de acesso à
renda e inserção social foi substituído pelo Estado atuando em um papel meramente gerencial de
crises e garantidor apenas de condições para que o capital continue crescendo e lucrando, mesmo
que para isso o mundo do trabalho se torne cada vez mais precarizado e a força dos trabalhadores
seja mitigada.
Os níveis de emprego e as condições destes são cada vez mais relegadas à esfera privada,
ligada a qualificação e capacidade do trabalhador, e tiradas da esfera pública, da política
macroeconômica. Sendo necessário ao neoliberalismo que haja um certa desigualdade para que a
competitividade se acirre e a economia cresça, o desemprego começa a ser visto como necessário e
inerente, cabendo aos trabalhadores a inserção no mercado de trabalho e a garantia de sua
sobrevivência num contexto de precarização, flexibilização e desvalorização do valor da força de
trabalho. (HARVEY, 2008).
A ofensiva neoliberal que tomou o Brasil a partir da década de 1990 trouxe consigo diversas
consequências para os trabalhadores e para o mundo do trabalho. O dessalariamento, os altos níveis
de desemprego, a desregulamentação e a relativização dos direitos trabalhistas, a desestruturação do
mercado de trabalho marcada por uma precarização do trabalho e, por fim, a responsabilização do
trabalhador pela sua sobrevivência são algumas das características que marcam o avanço do
neoliberalismo e, como uma de suas consequências, o fortalecimento do empreendedorismo
enquanto solução para problemas sociais.
A lógica empreendedora no atual contexto de acumulação flexível é marcada pelo
individualismo e pela meritocracia, ou seja, o indivíduo é o único responsável pelo seu fracasso ou
sucesso, cabendo ao Estado apenas a intervenção de garantir condições mínimas para que o
empreendedor cresça e, com ele, cresça a economia do país. No atual contexto, a prática
empreendedora tem sido central na política de enfrentamento ao desemprego.
No Estado do Rio de Janeiro, de acordo com o CENSO 2010, 45% da população está no
mercado de trabalho, metade desses são assalariados com carteira de trabalho assinada, e em torno
de 20% são empregados sem carteira, 22% são empreendedores (somando os trabalhadores por
conta própria e os empregadores).24 O que consistiria em um total de 1,5 milhão de empreendedores
no Estado do Rio de Janeiro em 2010.25
De acordo com dados de pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), divulgados
pelo SEBRAE em seu Boletim nº 40 de abril de 2015, em 2014 a taxa total de empreendedores no
Brasil alcançou seu maior nível atingindo 34,5% da população entre 18 e 64 anos, ou seja, um terço
dos brasileiros possui seu negócio ou esta caminhando para isso. Os incentivos que tem sido
oferecidos aos empreendedores, dentre os quais a Lei Complementar 128/2008 é um marco ao criar
a figura do Microempreendedor Individual, e o crescimento vertiginoso do número de
empreendedores no Brasil, nos faz questionar o contexto em que tal importância ao
empreendedorismo se situa.
O que vemos aqui é que a reestruturação produtiva do capital, baseada na precarização do
trabalho e na flexibilização do uso da força de trabalho, está diretamente ligada a ascensão da razão
empreendedora como solução de problemas sociais, principalmente o desemprego e a cidadania
perdida. A personificação dos problemas leva a uma justificativa do desemprego, primeiro como
inerente ao sistema capitalista e segundo como responsabilidade do trabalhador. Em uma só jogada,
se desresponsabiliza o Estado e o empregador e, através da lógica de falsas autonomia e
independência, propaga-se um discurso que incentiva o trabalhador a viver na ausência da proteção
social o convencendo de que agora é um empresário.
Como a proteção individual deixou de ser central, criam-se mecanismos legais que
imprimem ao trabalho uma falsa autonomia, marcada pelo "desassalariamento",
pela precariedade e pela ausência de comando explícito, como se tais condições
fossem suficientes para transformar trabalhadores em proprietários. (ALVES;
TAVARES, 2006, p. 437)

As atividades “autônomas”, “independentes”, “espontâneas” “empreendedoras” crescem


num contexto de aumento do desemprego e do dessalariamento dos trabalhadores. Com a
liberalização do mercado, a proteção social, que é obrigação do Estado, diminui e o incentivo ao
empreendedorismo se torna uma escolha política dentro de uma agenda econômica liberal
hegemônica e dominante. A precarização do trabalho e o alijamento do indivíduo da proteção do
Estado passam a ser vistos como políticas públicas de emprego e renda as quais inclusive se
utilizam de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador para serem financiadas, uma faceta nítida
da perversidade dessa lógica que precariza o trabalhador o convencendo de que agora é
“capitalista”, “empresário”, “patrão de si mesmo”, e que o descaso do Estado é, na verdade,

24 O que não impede que tal relação seja perpassada de informalidade. Sobre essa questão, ver Malaguti, 2000.
25 Idem.
independência desse trabalhador.
O combate à pobreza e ao desemprego se dá aumentando a precarização e a pauperização
desses trabalhadores através do incentivo a essas pequenas unidades produtivas e a esses
microempreendedores. É criada uma ilusão de que o Estado está intervindo na questão do
desemprego e do aumento da renda, enquanto na realidade a responsabilidade e o risco estão sendo
transferidos para os trabalhadores. Como se sua inserção produtiva e cidadã se desse através de um
arcabouço ideológico e político que tira essas questões da esfera política e econômica e transfere
para a esfera privada, num contexto em que o projeto de desenvolvimento econômico pautado na
garantia do emprego é abandonado, num movimento típico do neoliberalismo de individualizar
questões que são sociais. (ALENCAR, 2007, p. 100).
Portanto, é no contexto neoliberal, no qual temos o dessalariamento gritante da classe
trabalhadora e a renúncia do Estado enquanto garantidor de empregos e prestador de serviços
sociais, assumindo as funções de um Estado gerencial (MALAGUTI, 2000), que o
empreendedorismo é retomado e enaltecido como uma oportunidade para o trabalhador ser dono do
seu próprio negócio. No Brasil essa retomada coincide com uma grave crise de emprego, de 1990 a
2009.
Em sua pesquisa sobre empreendedorismo em favelas “pacificadas” em parceria com o
IETS, o SEBRAE classifica os empreendedores como:
(…) os agentes econômicos por trás do processo de “destruição criativa”,
assumindo o papel de condutores da inovação, esta entendida não só através da
introdução de novos produtos e processos, mas também da melhoria da qualidade
de um produto/serviço, do desenvolvimento de novos métodos de produção ou
ainda do descobrimento de novos mercados. (p. 121)

Entretanto, o que vemos na realidade brasileira é que o empreendedorismo mais presente é o


“empreendedorismo por necessidade”, que seria aquele em que as pessoas envolvidas vivem em
condições pré-capitalistas, praticando atividades de subsistência e sem possuir uma capacidade
mínima de inserção na economia (FALCÃO, 2008). Dados trazidos por Manoel Malaguti (2000, p.
91) demonstram que o “sonho” em ser independente ou trabalhar por conta própria é falso pois, em
realidade, o sonho dos trabalhadores é ter empregos estáveis, assalariados, bem remunerados.
Entretanto, vendo esse sonho cada vez mais longe e improvável, os trabalhadores se veem sem
saída e tornam-se autônomos não por escolha mas por não ter outra opção e ver no trabalho por
conta própria o único caminho de sobrevivência.
Em seu “Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em comunidades pacificadas”
de 201226, o próprio SEBRAE traz dados que comprovam os motivos que levam os moradores das

26 JORGE, Israel; TEIXEIRA, Carla G. de M (Coords.) Programa de desenvolvimento do empreendedorismo em


comunidades pacificadas. Rio de Janeiro: SEBRAE/RJ, 2014. Disponível em: http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal
%20Sebrae/UFs/RJ/Menu20Institucional/SEBRAE_EMP_dez12_MicroEmp_UPP.pdf. Acesso em: junho/2015.
favelas “pacificadas” a se tornarem microempreendedores. No gráfico que analisa a distribuição dos
microempreendedores segundo motivação para a abertura do negócio por tipo de empreendedor,
vemos que 62% do total de microempreendedores abriu seu negócio por necessidade, e 38% por
oportunidade, dos microempreendedores por conta própria, 64% abriu por necessidade e 36% por
oportunidade. Os principais motivos que levaram os indivíduos a abrir negócios, de acordo com o
gráfico, são o desemprego (31%), a necessidade de aumentar a renda (17%), a identificação de uma
oportunidade (16%) e para trabalhar como autônomo (12%).27
Não sendo a primeira opção e nem mesmo o sonho dos trabalhadores, e além de maximizar
a exploração - de acordo com dados trazidos por Malaguti (2000) esses trabalhadores chegam a
trabalhar uma média de 66,95 horas semanais, o que daria uma jornada diária de quase 14 horas em
cinco dias úteis – essa disseminação do empreendedorismo faz com que esses trabalhadores
explorados acreditem que são patrões, conduzindo “(…) à crença de que todos podem ser
capitalistas, quando, na realidade, as atividades denominadas autônomas não conseguem ser nem
ao menos uma alternativa ao desemprego (ALVES; TAVARES, 2006, p. 439, grifo nosso).
O que seria então a saída para a superação da pobreza, do desemprego e da exclusão social,
acaba sendo apenas mais uma maneira do Estado neoliberal se isentar de suas obrigações e de
relegar para o âmbito privado problemas que, na realidade, são sociais. O trabalhador
individualizado é alijado de seus direitos sociais e da proteção estatal e tem sobre si toda a
responsabilidade pelo seu sucesso e inclusão produtiva. O empreendedorismo, então, mostra-se
como mais uma face perversa do capitalismo, aumentando a pauperização desses indivíduos,
iludindo-os com uma ideologia de “patrão de si mesmo” e “todos podem ser empresários” numa
tentativa de manter a produção capitalista, o desenvolvimento do capital e a hegemonia dos
mercados, deixando de lado os problemas sociais e ignorando as consequências nefastas que a
precarização tem trazido para a vida dos trabalhadores.

4. Considerações finais
Vive-se atualmente na “era do empreendedor”, com o empreendedorismo sendo
endossado por instituições educacionais, unidades governamentais, sociedade e
corporações. A educação empreendedora nunca foi tão importante em termos de
cursos e pesquisas acadêmicas. Trata-se, enfim, de uma convergência que coloca o
Sebrae como fundamental para a inclusão produtiva e para a superação da pobreza
no cenário nacional. p. 51

A “era do empreendedor” é uma realidade. Oferecer serviços de formação e formalização de


empreendedores, incentivar o empreendedorismo através da legislação e de incentivos na concessão
de microcréditos, utilizar-se do discurso oficial para enfatizar a importância dessa prática enquanto
solução para o desemprego, garantindo a inclusão produtiva e cidadã, tem sido uma escolha política
27 Idem.
tomada pelo governo brasileiro seguindo uma agenda econômica neoliberal.
Como vimos, dentre as consequências que esse incentivo às atividades “empreendedoras”
“autônomas” e “independentes” temos o aumento da precarização das condições de trabalho, posto
que tais trabalhadores são excluídos da proteção estatal e legal, tendo seus direitos trabalhistas
relativizados e muitas vezes ignorados, a responsabilização dos indivíduos por questões que são
sociais e deveriam ser tratadas com políticas públicas, como o desemprego e o acesso à renda, além
de enfraquecer a força dos trabalhadores, que começam a se ver como “empregadores” e
“capitalistas” e não mais como trabalhadores explorados e que continuam vendendo sua força de
trabalho. Nesse ínterim, há uma desresponsabilização do Estado que passa a exercer um mero papel
gerencial e não mais central enquanto garantidor de condições de emprego e de acesso a renda,
assim como, de direitos como moradia, saúde, educação, etc..
Nas favelas “pacificadas”, onde a atuação do SEBRAE tem crescido vertiginosamente, o
incentivo ao empreendedorismo enquanto caminho para o desenvolvimento econômico e social tem
sido visto como uma atuação do Estado além do policiamento e da militarização. Acontece,
entretanto, que os serviços públicos continuam precários e muitas vezes inexistentes. A realidade
das favelas continua sendo de falta de serviços básicos, falta de direitos sociais e falta de condições
dignas de vida. O que se multiplica agora são indivíduos endividados e encapsulados em mentiras
de serem “empresários” e “patrões de si mesmos”, quando continuam sendo explorados pelo
capital, pauperizados pelo sistema e possuidores de uma cidadania pautada no consumo e alijada de
direitos.
O empreendedorismo foi a alternativa econômica e social encontrada por um modelo
econômico que é desigual e discriminador para manter:
(…) a sobrevivência dos marginalizados do sistema, dos excluídos dos benefícios
das novas tecnologias, da sociedade de consumo, do bem-estar, das conquistas
sociais e da relativa estabilidade do emprego vigente nas grandes corporações
privadas e públicas. (MALAGUTI, 2000, p. 87)

Importante ressaltar que a retomada do empreendedorismo se dá num momento de crise


aguda do capitalismo, de liberalização dos mercados e de diminuição da proteção social do Estado,
acompanhado pela quebra das regulamentações sociais e pelo enfraquecimento da legislação de
proteção e garantia aos diretos dos trabalhadores, não sendo por acaso que tal atividade começa a
ser incentivada como sendo a solução para todos os problemas sociais e o bastião da modernidade e
da inovação.
A atuação do SEBRAE enquanto garantidor de serviços do Estado nas favelas “pacificadas”
é um exemplo nítido da “administração social da miséria” (BOTELHO, 2013) em que as condições
em que os moradores das favelas vivem ao invés de serem criticadas e superadas, são vistas como
aspectos que podem ser melhorados, numa lógica de “menos pior” em que as pessoas são iludidas
pelo status de “empresárias” e “independentes” da assistência social estatal. Os problemas sociais
são travestidos de problemas individuais e o Estado se torna um capacitador para que os indivíduos
resolvam seus problemas.
Procuramos nesse trabalho ressaltar as contradições que acompanham o processo de
implantação dos programas de incentivo ao empreendedorismo nessas áreas de baixa renda,
sobretudo no que se refere ao contexto brasileiro, a partir do baixo impacto no desemprego
estrutural e na informalidade, bem como da ausência de promoção de qualquer forma de inserção
social mais efetiva e, consequentemente, do distanciamento completo dos direitos que deveriam
garantir o status de cidadão para além do consumo e da inserção precarizada no mercado de
trabalho.

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