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R BURKE, A. CHASTEL. M. FIRPO


E. GARIN, M. L. KING, J. LANV
M. MALLETT A. TENENTI, T 'lODOROV t

O HOMEM RENASCENTISTA d

Direcção de Eugenio Garin


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SBD-FFLCH-USP

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EDnORIAL @.:==.
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DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI

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21200002001

FICHATÉCNICA

'litulo original: 1, 'C/omo de/ Rípzascimelzfo


Naxtoes: P. Burke, A. Chastet,M. Firpo
E. Garin, M. L. King, J. Law
h4, b4alíett, A. Tenettíi, T. Todorov
Direcção de: Etzge/zío Gare/z
© 1988Gius. Laterza & Fig1i Spa, Romã-Bari
Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 1991
Traduçãode: Mana Jorre pilar de Figueiredo
Capa: Retrato de um jovem de l4? Pérugf/z
Composição: .Id7R,4SE7E -- .4rres Gr(Í ca& l,da,
Impressão e acabamento: Gz/fde -- .4r/es GrcÍ#cas
l.' edição, Lisboa, 1991 «r
Depósito legal n.' 34050/90

Reservados todos os direitos


para a língua portuguesa à
EDI'EDRIAL PRESENÇA
Rua Augusto Gil, 35-A - 1000LISBOA
Publicámos recentementea obra O }iomem Medical sob a direcção de Jac-
ques le GoÍJ, a qual nos dá um quadro geral de um período em que germina a \

ideia de Europa. O livro twe um bom acolhimento por parte dos leitores e está i
presentemente a ser traduzido em Fiança, Alemanha,.Inglaterra, Espinha e Esta-
dos Unidos. <

.Es/enovo vo/ m6.com o /úzz/oO Homem Renascentista. dirigido por Euge-


nio Garin, obra de reputadosespecialistas,pretendeilustrar um dos momentos
mais brilhantes da cultura italiana, decidi'pona géneseda consciênciamoderna.
Simultaneamenteconstitui um valioso contributo para a compreensãoda forma-
ção e desenvolvimento da ideia de Europa.
Se, com eleito, não é um projecto fácil a constituição de um Mercado Comum
Europeu, não é mais fácil ter consciênciaplena de uma matriz cultural comum.
Este livro, como o precedente,constitui uma etapa de tat percurso.
A Eugenio Garin e a todos os Autores que com ele colaboraram para que esta
obra fosse possível, dirigimos, também em nome dos leitores, um caloroso agra-
decimento,pelo que nospermitiram aprendere pelo seucontributo para o reco-
nhecimentoda unidade cultura! da Europa.

Editores Laterza
f
#

O HOMEM RENASCENTISTA

por Eugenio Garin

1. Largamente utilizada, a expressão um tanto ambígua <<homem do Renasci-


mento>>aparecena Literatura e na História associadaa interpretaçõesgeneraliza-
das de um período histórico muito preciso,o Renascimento,situado por volta de
meadosdo séculoxiv e finais do séculoxvi, e queteveas suasorigensnas
cidades-estadoitalianas, de onde se propagou depois por toda a Europa, como se
nessaépoca tivessem circulado em número relevante tipos e exemplareshumanos
com característicasespeciais,dotes e atitudes particulares e funções novas1. Pas-
sando,com o decorrer dos tempos, das cidadesitalianas para outros paíseseuro-
peus, e propagando-se a outras terras, essasfiguras humanas e essascaracterísti-
cas foram-se naturalmente modificando e por vezesmesmo de uma forma muito
sensível.Assim, a difusão no exterior da ltália de ideias e temáticaspróprias do
Renascimento italiano continuariaa verificar-seainda por muito tempo, assu-
mindo atitudes diversas,para lá dos limites cronológicos habituais, durante todo
o século xvn.
Sublinhe-se, porém, de imediato que, desde as origens do Renascimento, a
ideia do <<renascen>,
do nascerpara uma vida nova, acompanhou como um pro-
gramae um mito vários aspectosdo próprio movimento.A ideia de que uma
nova era e novos tempos tinham nascido circula insistentemente no século xv, de
tal forma que alguns historiadores,em anos não muito remotos, a focam com
insistência, chegando mesmo a considera-la como uma característica distintiva de
todo esseperíodo 2. Se tal conclusão é muito discutível, deve porém ter-se pre-
sente que aquilo que renasce,que se reafirma, que se exalta, não é apenas, nem
é sobretudo, o mundo dos valores antigos, clássicos,gregos e romanos, a que se
regressaprogressivamente. O'despertar cultural, que caracteriza desde o início o
Renascimentoé sobretudo uma afirmação renovadado homem, dos valores
humanosnos vários domínios: desdeasartes à vida diária. Não é por acasoque
aquilo que mais impressiona nos escritorese nos historiadores, desdeas origens,
é essapreocupaçãocom os homens, com o seu mundo, com a sua actividade no
mundo.:Se a célebre frase de Jacob Burckhardt:-- extraída, aliás; de Michelet '--
segundo
a qual <<acivilizaçãodo Renascimento
é a primeiraa descobrire a
l Acerca do conceito de<<homemdo Renascimento>>,
consulte-seo extensotratado de Agnes Hel
ler, ,4 Re/zeszá/zsz .Ember, Budapeste, 1967.
.1!
2 Para as tesesdefendidas por H. Weisinger(1944-45)e, em parte, por Franco Simone, cf
W. K. Ferguson, 7%e Rezzafssa/zceizz .17fsforfca/ 7'houg/zf, Cambridge, 1948.

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realçar totalmente a figura rica do homem>>,está impregnadade retórica e se tor-
nou quase insuportável nos dias de hoje, não deixa de ser verdade que enterra as
suas raízes numa realidade em que as histórias dos homens, os casos dos homens,
as figuras e os próprios corpos dos homens, ocupam um lugar central, em que
pintores e escultores retratam inesquecíveisfiguras humanas e em que os filósofos
repetem: <<Grandemilagre é o homem (mag/zz/mmfrucu/um esf /zona).>>
Quem evocasseagora mentalmente a expressãoanáloga <<homemda Idade
Média>>,e a sua diferente configuração, teria de ter presenteque, aceite a periodi-
zação corrente do Renascimento,o conjunto dos problemas que se apresentam
em relação à Idade Média, e a própria utilização das expressões,são completa-
mente diferentes. São diferentes, acima de tudo, e muito, as coordenadasespa-
ciais e temporais, e estreitamenteligadas a característicasculturais precisasde um
período bem caracterizado, pelo menos hipoteticamente, no plano das actividades
e dos comportamentos.
Como se disse,o Renascimentopropriamente dito, o <<grande>>
Renascimento,
é muito curto se comparadocom a Idade Média: abrangepoucomais de dois
séculos; tem origens italianas e não se confunde com fenómenos medievais,em
certos aspectos análogos, tais como as várias renascençasa partir da época caro-
língia, florescidas noutros sítios e diferentes, embora}existam certas analogias e
mesmo certas influências i. Em Petrarca, porém, as mudanças de uma sensibili-
dade e de uma cultura são já evidentese procuram, e encontram, relação com
acontecimentosde profunda ressonância,muito para lá das fronteiras nacionais
e dos limites dos fenómenosliterários' Por isso, a oposiçãoentrevida activae
vida contemplativa, tão cara a Coluccio Salutati, que utiliza até a habitual forma
retórica dos discursosdúplices, não é decertoinédita, mas.situa-sejá em pleno
naquela exaltação da vida activa, mundana, política, <<civil>>,r.<<empenhada>>
-- Palas Atena nascendo armada da cabeça de Zeus -- destinada a converter-se,
não muitos decénios depois, numa moda dos mais requintados círculos intelec-
tuais toscanos. A contestação da doação constantiniana não começa decerto em
Valia(basta pensar-seem Nicolau de Cuja), masLorenzo Valia já não pertence
propriamente à Idade Média, não é <<homemda Idade Médin>. Pelas suas lutas
políticas e teológicas, pelo elogio da vo/up/as epicurista, pela sua dialéctica e as
suas <<elegânciap>,será devidamente exaltado, compendiado e publicado como o
mestre dos tempos novos, pelo seu grande <<discípulo>>,
o príncipe dos humanistas
da Europa, Erasmo de Roterdão. E precisamente da obra de crítica ao Novo Tes-
tamento de Valia, de;que foi o primeiro editor mal a encontrou, que Erasmo
-- que, em muitas coisas,foi deveraso que se aproximou mais de Valia.-- tirará
a principal inspiração para os seusfamosos trabalhos bíblicos.
O Renascimento durou, portanto, cerca de dois séculos e meio; local de nasci-
mento, sobretudo de algumas cidades-estado de ltália. São estas as coordenadas
onde se deve procurar, e situar, embora com característicasbem definidas, o
homem do Renascimento, ou seja, uma série de figuras, que nas suas actividades
específicas põem em prática, de modo análogo, características novas : o artista,
que não é apenasartífice de obras de arte originais, mas que atravésda sua acti-
vidade altera a sua posição social, intervém na vida da cidade, especializaas
suasrelaçõescom os outros; o humanista,o notário, o jurista, que se tornam

l Pala o tema a que aqui se alude, mas que é muito importante, cf. E. Panofsky, Renailssa/zce
a/zd Re/lasca/ices ízz Mesfer/z.4rf, Stockholm, 1960, e o que eu próprio afirmei em Rfnascffe e uivo/z/-
zío/z/, Laterza, Rama-Bari 1976,pp. 3-47.

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realçar totalmente a figura rica do homem>>,estáimpregnada de retórica e se tor-
nou quase insuportável nos dias de hoje, não deixa. de ser verdade que enterra as
suas raízes numa realidade em que as histórias dos homens, os casos dos homens,
as figuras e os próprios corpos dos homens, ocupam um lugar central, em que
pintores e escultores retratam inesquecíveis figuras humanas e em que os filósofos
repetem: <<Grandemilagre é o homem (mag/zum mirucu/z/mesr /como).)>
Quem evocasse agora mentalmente a expressão análoga <<homem da Idade
Média>>,e a sua diferente configuração, teria de ter presenteque, aceite a periodi-
zação corrente do Renascimento, o conjunto dos problemas que se apresentam
em relação à Idade Média, e a própria utilização das expressões,são completa-
mente diferentes. São diferentes, acima de tudo, e muito, as coordenadasespa-
ciais e temporais, e estreitamente ligadas a características culturais precisas de um
período bem caracterizado, pelo menos hipoteticamente, no plano das actividades
e dos comportamentos.
Como se disse,o Renascimentopropriamente dito, o <<grande>>
Renascimento,
é muito curto se comparado com a Idade Média: abrange pouco mais de dois
séculos; tem origens italianas e não se confunde com fenómenos medievais, em
certos aspectosanálogos, tais como as várias renascençasa partir da época caro-
língia, florescidas noutros sítios e diferentes, embora existam certas analogias e
mesmo certas influências i. Em Petrarca, porém, as mudanças de uma sensibili-
dade e de uma cultura são já 'videntes e procuram, e encontram, relação com
acontecimentos de profunda ressonância, muito para lá das fronteiras nacionais
e dos limites dos fenómenos literários. Por isso, a oposição entre vida activa e
vida contemplativa, tão cara a Coluccio Salutati, que utiliza até a habitual forma
retórica dos discursos dúplices, não é decerto inédita, mas situa-sejá em pleno
naquela exaltação da vida activa, mundana, política, <<civil)>,<<empenhadn>
-- Palas Atena nascendo armada da cabeça de Zeus -- destinada a converter-se,
não muitos decénios depois, numa moda dos mais requintados círculos intelec-
tuais toscanos. A contestação da doação constantiniana não começa decerto em
Valia (basta pensar-seem Nicolau de Cuja), mas Lorenzo Valia já não pertence
propriamente à Idade Média, não é<(homem da Idade Média>>.Pelassuas lutas
políticas e teológicas, pelo elogio da vo/ap/as epicurista, pela sua dialéctica e as
suas<<elegâncias>>, será devidamenteexaltado, compendiado e publicado como o
mestredos temposnovos, pelo seugrande <<discípulo>>, o príncipe dos humanistas
da Europa, Erasmo de Roterdão. E precisamente da obra de crítica ao Novo Tes-
tamentode Valia, de que foi o primeiro editor mal a encontrou,que Erasmo
-- que, em muitas coisas, foi deveraso que se aproximou mais de Valia.-- tirará
a principal inspiração para os seus famosostrabalhos bíblicos.
O Renascimento durou, portanto, cerca de dois séculos e meio; local de nasci-
mento, sobretudo de algumas cidades-estado de ltália. São estas as coordenadas
onde se deveprocurar, e situar, embora com característicasbem definidas, o
homem do Renascimento, ou seja, uma série de figuras, que nas suas actividades
específicaspõem em prática, de modo análogo,característicasnovas: o artista,
que não é apenas artífice de obras de arte originais, mas que através da sua acti-
vidade altera a sua posição social, intervém na vida da cidade, especializaas
suasrelaçõescom os outros; o humanista,o notário, o jurista, que se tornam

l Para o tema a que aqui se alude, mas que é muito importante, cf. E. Panofsky, Re/zaissa/zce
a/zd .Re/lasca/ices //z Mes/ern ..4rf, Stockholm, 1960, e o que eu próprio afirmei em Rfnasc//e e r/vo/u-
zio/zí, ].aterza, Romã-Bari 1976, pp. 3-47.

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Renascimento.>> Os arquivos de algumas cidades estão cheios de memórias; foram
editadas centenas, mas muitas outras permanecem manuscritas, e existem docu-
mentos de todos os tipos que contêm, possivelmenteinseridos numa declaração
cadastral, fragmentos de vida inesquecíveis.E o caso daquele pobre carpinteiro
florentino, que, no cadastrode 1480,anota: <<Já
não tenho oficina, porque não
posso pagar a renda>>,enquanto o filho <<trabalhano hospital e aprende a medi-
tar e não tem salários. Ou o de Antonio di Balduccio, <<doente
e aleijados, com
um rancho de filhos aprendizes, ou que andam na escola para <<aprender a ler>>,
à excepçãode Balducciojúnior que <<nãofaz nada, é muito pequeno,tem seis
anos>>,e com a mãe a seu cargo, <<desetentae dois anos e sofrendo de gota, que
não se pode levantar porque é doente e não pode andar: estáenferma e passamal
e dá trabalho a toda a genteda casa>>.
Por sorte, acrescentaAntonio, <<eue os
meus filhos varões estamos em casa de Bartolomeo di Nicholaio, fabricante de
copos e meu sogro e não Ihe pago renda, e estamosa trabalhar com elos.
Assim até uma declaração de rendimentos -- e há tantas! -- se converte em
esboçode uma página autobiográfica ou talvez no desenhoideum perfil. Para
nãoifdar das epístolas,em latim ou em língua vulgar, simplese eruditas,de
crianças e de mulheres, que se tornam um género cada vez mais divulgado, retra-
tando a vida do dia-a-dia, e convertendo-seconstantementeem auto-apresenta-
ção ou em confronto de personalidades.
No seu extenso trabalho, intitulado precisamente O .17omem do Re/zasclme/z/o,
editado em Budapeste em 1967,Agnes Heller, aluna de Lukács, afirma que o Renas-
cimento foi <<aépoca das grandesbiografiau>, ou melhor, a épocadas autobiogra-
fias. E isso, acrescenta ela, porque muitas figuras excepcionais iam aparecendo
numa sociedadeque seconstruía, se transformava e se relatava a si própria. A um
momento estático ::--} continua Heller =;----;
sucedera um$:momentos dinâmico.
O homem novo, o homem moderno, era um homem que se ia fazendo, construindo,
e que estava consciente disso. Era, precisamente, <<ohomem do Renascimento>>.

4. Se se continua prudentementea manter a distinção entre uma filosofia do


homem, que se vai tornando cada vez mais subtil e profunda, e uma história de
homens, que se transformam de acordo com novos modelos num momento crí-
tico da sociedade, também é óbvio que uma reflexão teórica acerca do homem, da
sua natureza e do seu destino, do seu sentir, das suas funções e das suas activida-
des, das suas relaçõesnão apenascom a sociedadeterrena, mas também com a
Igreja e com Deus, contribui necessariamente
para a sua mudançaliepara a
mudança da sociedade em que vive. A medida que as funções mudam, mudam os
vários tipos humanos. Basta reflectir um instante no peso crescenteque em algu-
mas cidades-estado adquirem, no século xv, certos <<intelectuais>>,
notários, retó-
ricos, <<humanistas>>
e logo, em fundo, se perfilam as figurafdos chanceleres,dos
secretários, dos oradores (embaixadores), em toda a sua variedade, na sua evolu-
ção e transformação, nas suasintervenções,nas suas funções:
Para não falar nos arquitectos, na sua importância nas cidadesque, no Renas-
cimento, se vão transformando. Quando Filarete (Antonio Averlino, por alcunha
o <<Filareto>)dedica o seutratado, que não é só de política mas também de arqui-
tectura, primeiro ao duque de Milho, Francescol Sforza,i depoisFiaPiero di
Cosimo o Velho, põe em destaque uma relação muito precisa entre'o senhor e o
técnico que projecta e discute,de igual para igual, a nova cidade,em todas as
suasestruturas, revelandoao mesmotempo a interdependênciaentre o edifício e
o serviçota que se destina. E já sem falar na arquitectura militar.

12
l

Estamos,é certo, numa época de rápidas alteraçõesnas actividadesque os


homens exercem e nas formas de as exercer. Pense-seapenas, quanto3às variações
dos modos de combater, nas repercussõesque as novas técnicas da arte da guerra,
as novas armas e as novas máquinas têm, por um lado, na arquitectura e, por «
outro, nas tropas, desde os co/zdo/rieri aos mercenários. Citam-se frequentemente
observaçõesargutas e subtis de Guicciardini acerca da mudança radical da guerra
no século xv, e não só devido à introdução do <<furordas artilharias». Mudam
as defesase, consequentemente,mudam as próprias.larquitecturas das cidades.
,/
Mas, acima de tudo, mudam as tropas e o modo de recrutar os homens, e os pró-
prios homens que vão combater. Mudam <<osengenhosdos homens>>,diz Guic-
ciardini que, na /üs/órfã de lr(í/ia, anotava: <<Comoas defesas,começarama
aguçar-se os engenhos dos homens, aterrorizados com a ferocidade dos ataques.>>
Também os soldados mudam. Acerca dos mercenários espanhóis no saque de
Prato, em 15]2, escreveum cronista: <<Oscruéis bárbaros e infiéis.>>Agora são os
Lansquenetesque saqueiam Romã. São as caras horríveis, que durante tanto tempo
povoaram desenhos e estampas, muitas delas mutiladas, de saqueadores e tortura-
dores que sentem prazer em massacrar. São os assassinos,por crueldade e cupi-
dez, que enchem tantas páginas de Erasmo, que fez deles personagens constantes
de uma Europa completamente devastada pelas guerras (<<nãohá canto da Terra
que não tenha estadocheio de desgraçasinfernais, de latrocínios, epidemias,con-
flitos e guerras>>).Também eles são <<homensdo Renascimento>>, soldados do
Renascimento,como ontem Pippo Spano e amanhã FrancescoFerrucci. E mulhe-
res do Renascimentosão, não só as mães devotadascomo Alessandra Macinghi
Strozzi, que vivia apenaspara o comércio e para os filhos, ou as eruditas Noga-
rola e Cassandra Fedele, Alessandra Scala com as suas <<pálidasvioletas>>, Battista
Montefeltro, ou mesmo Margarida de Navarra. Mulheres do Renascimentosão, com
as suas<<colegas>>, Tília de Aragão, prostituta filha de prostituta, autora das páginas
requintadas de Z)/ó/aros da /nÚfnldade do .Amor, e Veronica Franco, com as suas
cartas e as suas rimas, que, em Veneza, em Santa Mana Formosa, se <<entregavn>,
por intermédio de sua mãe, por <<doisescudos>>,
e que prometia nas Berre/rasRimas
<<certasintimidades em mim ocultas/vos revelarei de infinita doçura>>. Para não
falar da Nanna e da Pippa, e das outras heroínasdos Z)ias, de Aretino, que, com
tão amarga e desencantada competência, discutem acerca das técnicas da sua pro-
fissão, do pagamento e dos incidentes do ofício.
Por isso, talvez seja nessareflexão autobiográfica, nesserepensar,nessamemória
e nesseconfronto social -- em suma, no nível cultural adquirido -- que reside a
característica distintiva e a diferença específica da cortesã do Renascimento (ou,
pelo menos, de algumas cortesãs célebres do Renascimento): de Veronica Franco
a Tlilia de Aragão a Gasparina Stampa, que podiam ser recordadas pelos seus escri-
tos ao lado de Veronica Gambara e de Vittoria Colonna. Não é por acaso que em
finais do século xvi Montaigne admirará <<aelegância principesca>>(vesremen/s de
pr//zcesses)das muitas prostitutas que encontrouem ltália, enquantoVeronica
Franco, profissional bastante modesta, parece ter mantido contactos <<literários>>
não só com o cardeal Luigi d'Este, mas também com Henrique 111,de França.

5. Com tudo isto, o leitor, tal como não encontrará sob o título O .17omemdo
Re/zascfmen/o nada que se assemelheà obra histórico-filosófica homónima de
Agnes Heller, também não encontrará o perfil do novo <<soldadoda fortuna>>ou
o da prostituta profissional, com todas as contradições de uma época que está a
mudar. Encontrará, porém, quase na totalidade, as figuras que uma literatura
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consagrada fixou como típicas de uma época: aquelas em que os tempoi<<novos>>
exprimiram formalmente as suas novidades ou que, pelo menos, nos habituámos
a ver indissoluvelmente ligadas ao Renascimento,desdeos títulos dos textos lite-
rários famosos até obras de arte insignes. São as estátuas dos co/zdo//ier/ nas pra-
ças públicas, obras de Donatello e de Verrocçhio; são os tratados sobre o prínl
jipe, o cardeal (de cardfna/a/u), o <<cortesão>>;
são <<asvidas dos mais excelsos
arquitectos, pintores e escultores>>,
que realçam a importância do príncipe e do
condor/lera, do cardeal e do <lcortesão>,do artista e do filósofo, do mercador e
do banqueiro e mesmo do mago e do astrólogo.
Notar-se-á sem dúvida a ausência de algumas figuras típicas. É o caso da figura
do chanceler humanista em várias repúblicas italianas, figura tão característica, quer
na vertente política, quer na vertente cultural, para não falar da crescenteimpor-
tância das técnicas e das actividades de propaganda, promovidas com os mais ade-
quadosinstrumentos <<retóricos>>
que homenscomo Leonardo Bruni conseguiram
impor na Europa. Por outro lado, os maiores,os Salutati e os Bruni, os Braccio-
lini, os Loschi e os Decembri são, em certo sentido, recuperadosassim como todos
os humanistas, os juristas, os intelectuais de qualquer nível, que se misturam de
várias formas à vida política nas cortes dos novos senhores,em redor dos grandes
da Igreja, nas chancelariasdas últimas repúblicas. São, alternadamente,advoga-
dos e cortesãos, ao serviço ou colaboradores de príncipes e de cardeais. São eles
que exploram sistematicamenteas antigas:bibliotecas conventuais e edificam as
novas, enquanto vão difundindo os manifestos da nova cultura através de textos
literários de rara beleza, onde se misturam as notícias da recuperação dos antigos
confrontadas com a vida dos modernos. São eles que lançam as basesda futura
filologia. São eles que organizam de uma forma mais ou menos informal as novas
escolaspara a educaçãode damas nobres como Battista Malatesta, para as quais
até um<<humanista>>célebre como o chanceler de Florença, Leonardo Bruni, pode
escreverum tratado, escolascomo as de cerrara, de Guarino da Verona, ou como
a<<casados jogos>>,em Mântua: dirigida por Vittorino da Feltre, escolas de <<senho-
res>>,Inas que não permanecemisoladas e dão os seusfrutos.
Não é decerto esteo lugar para focar nas suascaracterísticas,na sua evolução
e nas suas raízes, a nova cultura humanística, baseada no regresso às grandes fon-
tes gregase latinas da grande ciência e da grande arte. Mas é certo que essacul-
tura foi envolvendo estratos cada vez mais vastos. Lauro Martines deu a um livro
seusobreascidades-estadoda ltália do Renascimentoo título feliz de .l)owerand
.llnagl/za/ío/z.
Na realidade,no impulsoda culturaparticipam<<mercadores
e
escritores>>,os mesmos mercadores e escritores que serviram de tema para esplên-
didos textos de Vittore Branca, e acerca de quem Christian Beal escreveupági-
nas muito sugestivas.São estudiosose clientes, são livreiros e editores que num
ensaio deste livro se vêem 'surgir em fundolentre mercadores e banqueiros.
E como esquecer que Erasmo é recebido comoBum amigo na casa veneziana de
Amo Manuzio,::perto de Rialto, para acompanhar a impressão dos seus.4dagfa,
um grandelivro que divulgará por toda a Europa a cultura humanística renascida
em ltália? A comida não era grande coisa, mas Venezaera <<amais esplêndida
das cidades>>,e havia animadasconversascom Lascadae Girolamo Aleandro,
grande helenista e futuro núncio apostólico, com helenistaseruditos e famosos

l L. Martines, /)owe/" a/zd /mag/naí/o/z. C/fy-.S/a/esi/z Re/zaissance//a/y, A. Knopf, Nova lor-


que; Ã4erca/zfíscrífforf, sob a direcção de V. Branca, Rusconi, Melão 1986;Ch. Bec,les mamoa/zdx
ócrivai/zs à X7ore/zce/375-/434, Mouton, Paria-La Haye 1967.

14
<<humanistas>>..Erauma <<oficina>>como tantas outras ; o dono era Alberto Pio da
Carpa; entre os amigos, além de Erasmo, Reuchlin. Dessetrabalho comum, muito
antes da chegada de Erasmo, entre 1495 e 1498, resultara a magnífica primeira
edição do texto grego de toda a obra de Aristóteles, em cinco in-fólio, autêntica
obra-prima da cultura e da arte tipográfica. Depois sairiam as ediçõesde Petrarca
e Poliziano. Em 1500 seria a vez de Lucrécio, cujo texto, verdadeiramente inconci- f
liável com a doutrina cristã, Amo editada de novo antes de morrer, em 1515,
numa bela edição de bolso.
Centro do humanismo, com todos aqueleseruditos da Grécia e de todos os
países da Europa, <<academin>insigne e <<oficina>>,.comoas dos grandes pintores,
a casa editora de Amo surge-noscomo uma espéciede santuário dos grandes
<<humanistap>, que se servemdo progressotecnológicopara uma operaçãode
âmbito europeu: pâr em circulação através da imprensa edições preciosas, não só
de Platão e Aristóteles, mas de Poliziano e de Erasmo, e gramáticase léxicos, e
os instrumentos mais válidos de acessoao pensamentoe à ciência antiga e
moderna.
<<Oficinade humanistas>>
era a casa de Amo, como fora, embora de forma
diferente, em Florença, a de Vespasiano de::,Bisticci, que forneceu de elegantes
manuscritos com iluminuras não só as bibliotecas dos senhoresitalianos mas
também a de Manas Corvino, rei da Hungria; ponto de encontro de <<humanis-
tap>, de <<mercadores escritores>> ainda fortemente ligados ao ambiente <<huma-
nístico>>de inícios do século xv, às <<descobertap>
dos antigos, gregos e latinos.
Não é por acaso que a primeira grande colectâneade biografias de <(homensdo
Renascimento>>já ordenadas segundo figuras precisas: pontífices, cardeais e bis-
pos; príncipes e condorfferí; magistrados e humanistas, etc. -- é obra do erudito
<<papeleiro>>
de Bisticci. Na realidade,pelo menosna épocaheróica do Renasci-
mento, <<humanistap> são em certo sentido lodos os intelectuais e uma parte con-
siderável dos magistrados e dos mercadores--. são-no ou tentam parecê-lo, ou
misturam-se com os <<humanistas>>,
enquanto um Marsilio Ficino #dedica a
Cosimo, a Piero di Cosimo,l a Lorenzo e a Federico, duque de Urbino, o Platão
latino. São;.elesos exemplosda validadedo ideal platónico do governantesábio.
E, todavia, se o humanismo pode constituir uma espéciede referência comum
para o <<homem do Renascimento>>, também é verdade que se intitularam <<huma-
nistas>>mesmo os pequenos mestres-escola, os professorespldeGramática e de
Retórica. Foram essesmestres que prepararam os jovens para os primeiros con-
tactos com os:clássicos,que substituíram finalmente os auc/ares ocfo medievais,
que ainda provocavam arrepios de horror a Erasmo e Rabelais. <<Quetempos
aqueles-- dizia Erasmo -- em que com grande pompa e comentários prolixos se
explicavam aos rapazes os versículos moralizantes de Jogo de Garlande.)> Rabe-
lais, em páginas inesquecíveis, apresentará simbolicamente a mudança radical de
uma educação,aindaaque,na realidade,as coisasnão tivessemsido fáceis. No
Verão de 1443,em cerrara, a cidade onde exerceua sua actividade um dos maio-
res educadoresEido séculoxv, Guarino, e onde se situavaa Universidadede
Rodolfo Agrícola e de Copérnico, quem quisesseensinar era obrigado a demons-
trar que possuía as bonde /íf/eram(ou seja, s/udfa #z/ma/zí/aras,estudos humanísti-
cos). O transgressor que continuasse a divulgar barbaridades devia ser expulso
comi.louma, teta Çdecivitate ejiciatur, ut pestifera bettua].
No entanto, a pouco e pouco, os auc/aresoc/o, isto é, os velhos livros medie-
vais para os jovens, desapareceram
completamenteda circulação, deixaram de
ser impressos e, no século xvi, <os pequenos mestres das escolas elementares>>já

15
ensinavam o Latim servindo-se dos Co//oqufa de Erasmo, restituindo à mensagem
humanística o seu valor originário de mensagemde liberdade. Foi isso que Seidel
Menchi nos recordou e documentou amplamente com as suas pesquisassobre a
difusão de Erasmo em ltália, apresentando-nos os muitos mestres-escola <<huma-
nístap>, de quem o juiz dizia: <(Fingindo ensinar gramática, ensinava heresia.>>
l
Mas isso é outra história.

6. O leitor deste livro deve ter presentemais um aspecto: é que o Renasci-


mento como período da História, e da História da cultura ocidental, nas suas.ori-
gens,nos seus limites cronológicos, nos seusconteúdos, nas suas características,
na sua propría consistência, foi sempre, e continua a ser: terreno de eternos con-
titos interpretativos. Discutiu-se, e discute-se, acerca das suas relações com a
Idade Média: se existia um contraste polémico ou uma substancial continuidade ;
se existem limites cronológicos suficientemente nítidos; se uma crise de civiliza-
ção, por vezesradical, e uma profunda alteração da cultura severificaram deveras
ao mesmotempo, ou quase,nos vários sectoresda actividadehumana (artes e
ciências,política e economia, etc.), ou não; se,ao expandir-separa lá.dos limites
das cidades italianas, ondeteve origem, o Renascimento conservou algumas das
suascaracterísticas,e quais. E ainda, quais as relaçõesentre os vários domínios
em que se manifestou.Corresponderãoà grandeza.de artistas como Miguel
Angelo conquistas idênticas no domínio técnico-científico? Poder-se-ia conceber
a excepcional perícia arquitectónica de um Brunelleschi sem um invulgar pro-
gressotécnico global? Em que medida a problemática ético-politica de Maquia-
vel, que continua a perturbar a consciênciahumana, e que é também uma grande
filosofia política, corresponderáa experiênciashistóricas concretase poderá aju-
dar a entendê-las?
Mais em geral, em que medida serão aceitáveis,ou ainda válidos, mitos ou
reproduções consagrados, cujas raízes remotas (muitas vezes renascentistas) se
foram revelando cada vez com mais clareza como programas partidários?
As interrogações,os conflitos interpretativos, sãomuitos, e difíceis de solucio-
nar, e para eles convergem, fatalmente, e talvez por vezes inconscientemente,
preocupações de todos os géneros: ideologias? e mesmo <mrgulhos>>nacionais. Se
D'Alembert, ao apresentar, em 1751,a .E/zcíc/opédia,agradecia ao Renascimento
italiano por ter dado à humanidade<msciências[...], as belas-artese o bom
gosto, e inúmeros modelos de inigualável perfeição>>,ainda há actualmente histo-
riadores que falam do <<chamadoRenascimento italianos, contestando a sua exis-
tência e o seu valor.
Se os nove ensaios aqui reunidos (e o número nove não tem nenhum signifi-
cado esotérico!), todos elaborados por especialistas,pretendem reflectir com
rigor o estado actual da pesquisa,não comportam necessariamente
uma identi-
dade de interpretações gerais. Propositadamente, as várias opções pretendem põr
em confronto, e se necessáriodiscutir, modos e métodos de enfrentar os proble-
mas específicos,de forma a manter em aberto o debate num confronto concreto
com os seres reais. De facto, passa-se constantemente do esboço de uma <<figurn>
típica para os exemplosvivos que a História oferece.Por outro lado, é no desva-
necimentodos tipos, nos seusencontrose encaixes,na sugestãocontinua de
outros tipos, que reemergemem toda a sua individualidade viva mulheres e
homens do Renascimento.

l S. Seidel Menchi, .Erasmoín /fa/la, 1520-1580,Bollati Boringhieri, 'lUrim 1987, pp. 122-42

16
CAPITULOI

O PRÍNCIPE DO RENASCIMENTO
por John Law
\
Introdução

No início do seu .Die Ku/fz/r der Re/zafssance //z //a/ien, de 1860, Burckhardt
conta uma história acerca do papa Jogo XXlll (BaldassareCoesa) e do rei dos
Romanos, Segismundo do Luxemburgo. Os chefes espirituais e seculares da cris-
tandade encontraram-se em Cremona, em 1414, no decorrer das negociações que
conduziram ao Concílio de Constança. O seu anfitrião foi o senhor da cidade,
Cabrino Fondulo, que acolheu os seusilustres hóspedesno cimo do Torrazzo, um
dos pontos mais altos de Cremona, para que admirassemo panorama. Enquanto
o contemplavam, o seuguia sentiu-setentado a empurra-los para os matar. Tendo
como fonte a história de Cremona de Antonio Campo, de 1465,John Addington
Symonds, no primeiro volume do seu Zhe J?e/zaissancein //a/y, intitulado The ,4ge
oÍ.Despe/s ( 1875) oferece-nos uma visão menos melodramática do mesmo episó-
dio : Fondulo só lamenta não se ter desembaraçadodaquela forma dos seusdois
hóspedes, em 1425, quando ele próprio estava para ser executado em Milão.
Burckhardt não nos revela a sua fonte, que era provavelmente.4s J,'idasde
.17omens/7zzs/res,de Paolo Giovio ( 1561),mas no contexto da sua obra o signifi-
cadoda história tem um carácteressencialmente historiográfico. A história con-
tém em si concepções-- umas positivas, outras negativas-- acercado príncipe
do Renascimento,. que Burckhardt partilhava com alguns historiadoresdo seu
tempo e que ajudou a transmitir a outros historiadores.
Em primeiro lugar, e esseé semdúvida o elementode maior dramaticidade,
o príncipe do Renascimentoaparececomo alguém que normalmente se comporta
de uma maneira cínica, cruel e egoístacom os outros, fossemeles quem fossem:
súbditos, conselheiros,outros soberanos e mesmo membros da sua família. Em
segundo lugar, nestas histórias o príncipe revela muitas vezesum certo desprezo
pelo conceito medieval de cristandade e, sobretudo, rejeita a visão de uma socie-
dade hierárquica e ordenada colocada sob as <<duasespadas>>, do papado e do
império. O senhor do Renascimentojá não é um príncipe, no sentido feudal do
termo, mas, de acordo com3asconcepçõesde Maquiavel e de outros pensadores
políticos, que remetem para a tradição clássica, um soberano independente, que
confia mais na sua inteligência e nos seusrecursosdo que nos seus superiores e
na posição que Ihe é proporcionada por Deus numa sociedade piramidal. Em ter-
ceiro lugar, e talvez mais positivamente,o)príncipe do Renascimento
parece
enfrentar os assuntosdo governo com um novo espírito: mostra-se relutante em
conformar-se com os costumestradicionais e disposto, entusiasticamente,à
mudança. Assim exerceriauma maior influência na evolução do Estado.
O objectivo principal deste ensaio será mostrar que os historiadores têm
geralmente sobrevalorizado o papel do príncipe <<renascentista>>
: as mudanças

19
ter sido sancionados por Deus.

A violência e o poder

herança dos Visconti.

20
Por fim, se a violência podia aliar-se à conquista e à manutenção do poder,
também podia caracterizar a sua perda. Em Maio de 1435,Tommaso Chiavelli,
senhor de Fabriano, na zona fronteiriça de Ancona, e muitos membrosda sua
família são vítimas de uma conspiraçãocitadina enquantoassistiamà missa.
A influência de Corrado Trinci terminou quando Foligno foi cercadapor um
exército pontifício comandado pelo hábil e determinado cardeal Giovanni Vitel-
leschí e uma rebelião interna colocou a dinastia reinante nas suas mãos (1439).
A 26 de])ezembro de 1476,na igreja de S. Stefano,em Melão, GaleazzoMana
Sforza caiu sob as punhaladas de um grupo de assassinosque recorreram ao tira-
nocídiopara justificar a morte do duquede Melão.
A forte e persistente impressão de violência que tais incidentes podem criar é
reforçadapelo facto de muitos senhores,
ou aspirantesa senhoresda ltália do
Renascimento terem um temperamento guerreiro: alguns deles eram soldados de
profissão, co/zdo/rierf. Uns provinham de dinastias reinantesjá firmadas, como
os Estende Ferrara, osigGonzagade Mântua, os Montefeltro de Urbano. Outros
salientaram-se nesse período por considerarem que a concessão de um Estado era
uma recompensa atraente,:merecida e prestigiosa para os seus serviços. Nem
todos tiveram êxito. Giovanni Vitelleschi armou um formidável exército ao ser-
viço nominal do papa e apoderou-se de uma quantidade impressionante de caste-
los, senhorias e propriedades do património de S. Pedro. Ascendeu também a
altos cargos eclesiásticos-- o arcebispadode Florença, o patriarcado de Alexan-
dria (1435) e um cardinalato (1437) -- e dizia-se que tinha chegado a ambicionar
a tiara pontifícia. Talveztenha sido esseo motivo da sua prisão em Cartel
Sant'Angelo, onde morreu em .1440.Exito muito maior teve Francesco Sforza,
que provinha de uma família de mercenários
; tambémtentou adquirir senhorias
no Estado pontifício, nos anos trinta do século xv, antes de conquistar o ducado
de Milão, em 1450,em parte por direito de herança,devido aoi?seucasamento
com BrancaMana Visconti, mas sobretudodevido ao seu poderio militar e ao
seu talento político.
Há, obviamente, a tentação de expor em termos melodramáticos essaviolên-
cia que tantas vezesse associaao poder na ltália do Renascimento.Era já essa
atitude dos contemporâneos, dado que as inesperadas viragens da sorte eram um
dos lugares-comuns favoritos dos cronistas e dos moralistas. A prisão de Bernabó
Visconti inspirou a composição de /ámen/os sobre o tema da crueldade do des-
tino. Em 1388,quando uma derrota militar e uma insurreição popular privaram
Francesco<o Velho>>de Carrara dasssenhoriasde Pádua e Treviso, os cronistas
locais narraram que ele se despiu e se flagelou para cumprir a profecia de que
abandonaria Pádua completame;nte nu.
Incidentes desta natureza também exerceramum certo fascínio sobre artistas,
compositores, romancistas e <(tradutores>>em épocas mais recentes. Uma das fon-
tes de inspiração mais ricas ou mais conhecidas sobreessetema são os Bórgias.
O libretista Felice Romana, por exemplo, adaptou a obra .Lucrêce.Borgia, de Vec-
tor Huno, para a ópera homónima de Donizetti. Mas houve também incidentes
relativamentedesconhecidose de importância local que conseguiramdespertar a
imaginação romântica. O massacredos seusinimigos perpetrado em Nocera por
Cortado Trinci inspirou um romancee uma obra teatral.:Romani escreveuo
libreto da ópera .Bea/ricaZe/zdapara o compositor Bellini. Beatrice, muito prova-
velmente, era filha de um co/odor/fera, Ruggero Cane, e desposou outro co/zdof-
ffero, Facho Cane. Depois da morte deste, casou com Filippo Mana Visconti, em
1414;mais velha do que o marido, o dote que herdara de Facho Cane tornou-a

21
+

üãuii:ii:E uu r H l:
politicamente atraente para o duque, que desejavareconstituir o Estado:dos Vis-

Como é natural, a imaginação romântica encontrou também muita matéria.de


inspiração fora do contexto italiano: entre os libretos de Romani para a musica
de Donizetti existeum sobreAna Bolena, outra heroínatrágica, enquantooutra
vítima das insegurançasdinásticas dos pudor, a rainha Mana da Escória, serviu
\ e permanente tema de inspiração .a escritores, artistas e músicos. Mas, embom
seja fascinante para uma história dos gostos e das ideias sobre o passafjo, a lei-
tum ou o <<adomo»romântico da história podem promover uma visão distorcida
do príncipe do Renascimento,
que é concebidocomo uma espéciede amoral
papão<<maquiavélico>>. :itLglc tT :iüln .ial 111 í': .
Também convém lembrar que os príncipes do Renascimento tinham entre os
seus contemporâneos inimigos muito interessados em exagerar premeditadamente
os seuscrimes e em manchar a sua reputação. Por isso, para a Florença republi-
cana Giangaleazzo Visconti não era um verdadeiro <<condede Virtude>>(título
que adquirira com o seu casamento,em 1360,com lsabel de Valois, condessade
Vertus), masum tirano injusto e cruel, um poço de vícios e de enganos..Para os
apo ogistas dos Visconti, 'como o humanista Andrea Biglia, os <<reguli»como
Cabrino Fondulo eram fomentadores de discórdia; acusaçõessemelhantesforam
utilizadas a favor do papado restauradodos séculosxv e xvi contra os súbditos
turbulentos, como os Trinci e os Bentivoglio. As origensespanholase o agressivo
nepotismo concorreram para a má-fama de que os Bórgias gozavamtanto na ltá-
liacomonaEuropacatólicaeprotestante. 1( q ... . }uC.- - .
Por outro lado, no período em questão, nem a moralidade tradicional, nem o
pensamento político perdoavam e ainda menos encorajavam os governantes vio-
lentos. É 'certo que os rivais eram castigadose os inimigos externos derrotados;
foi por essesmotivos que, em 1436,o senadoromano proclamou.Giovanni Vitel-
leschi terceiro fundador de Romã, a seguir a Rómulo, e decidiu erigir uma estátua
equestreem sua honra depois de ele ter desbaratadoa família Colonna. Os êxitos
militares de Francesco Sforza foram celebrados pelos apologistas e partidários da
dinastia, embora neste caso não tenha sido erigida nenhuma estátua equestre
para enaltecer a memória do duque. Mas .o senhor que governava, recorrendo
apenas a força, e cuja residência era uma cidadela fortificada e não um palácio,
em considerado UM tirano e não um verdadeiro príncipe. Este axioma do bom
senso comum, que através de todo o pensamento político medieval pode fazer-se
remontar até à Antiguidade, manifesta-senas preocupaçõesde Afonso V quando
iniciou a construçãoda fortalezade Cartel Nuovo, em Nápoles(por volta de
1440), de Nicolau V, que reforçou Cartel Sant'Angelo (por .volta.de 1450) e de
FrancescoSforza, quando mandou restaurar e ampliar o castelo dos Visconti na
PortaGiovia,emMilão(porvoltade 1450). V Q' 3 ;. . 'q-'.
O mesmo tema transpareceigualmente, embora sob um ponto de vista dife-
rente, no pensamento político ou has obras de propaganda elaboradas por alguns
senhores, como Giangaleazzo Visconti, e, por exemplo, num panfleto anónimo,
muito provavelmente
escritopor volta de 1396,por um cortesãodos Visconti,
onde se faz uma referência dramática a Génova, que se encontrava sob o domínio
do duque. O autor conta que viu eM sonhos Giangaleazzo sentado no trono do
seu <dnexpugnávelcastelos de Pavia. Mas a grandeza do duque, embora.<dmpe-
riab>, '«majestosa>>e <aublimo>, é expressamais em termos de magnificência,

22
8

sabedoria, justiça e prestança física do que em termos de fôrça militar. Perante


ele, Génova surge com o aspecto de uma mulher suplicante que inventaria os
males que se tinham abatido sobre aquela cidade, que outrora fora grande, refe-
rindo que o maior dessesmalesé o da <<facção
diabólica e infernal>>;Gianga-
leazzoconstitui a única esperançapara livrar a cidade dessesmales; apelos seme-
lhantes, e em termos idênticos, a favor de Génovaforam dirigidos aos sucessivos
senhoresVisconti e Sforza.
A imagem, oferecidapelo tratado de 1396,do senhorjusto que magnanima-
mente governa uma corte sumptuosa, permite-nos-fazermais uma consideração:
se a reputação do príncipe do Renascimentotem os seusaspectosobscuros e vio-
lentos,por outro lado, ele e a sua cortçpsurgem
como uma síntesedo bom gosto
e da civilização do Renascimento ; até (=abrino Fondulo conseguiu obter um privi-
légio imperial para a universidade dei CremonaliA historiografia considerou
Federigo Montefeltro, conde e depois (1474) duque de Urbano, como a personifi-
cação da cultura e da sensibilidade de Renascimento. Embora tivesse conquistado
o poder devido ao homicídiode Oddantonio,seuirmão mais velho e herdeiro
legítimo (1444), embora ele próprio fosse um mercenário e tivesse tido responsa-
bilidades no horrível saque de Volterra ( 1472), Federigo,é geralmente considerado
como um mecenasdas artes e um benfeitor dos seussúbditos.A civilidade que
caracterizavaa corte dos Montefeltro, em Urbino, foi imortalizada por Baldassare
Castiglione em O Cor/esmo(1528), enquanto a leitura da rica e bem conservada
correspondência que decorria entre a corte de Urbino e as de Mântua, Ferrara e
outras cidades, foi fonte de inspiração e de material para uma série de estudos de
carácterbiográfico por parte de autorescomo Dennisone Cartwright, para citar
apenas dois exemplos de estudiosos ingleses que fizeram escola.
Essa correspondência revela também uma certa forma de devoção convencio-
nal, que pode ser confirmada por outros testemunhos.Niccolõ d'Este (1393-1441
)
dirigiu-se em peregrinação a Jerusalém e a Viena (para visitar o relicário de Santo
António Abade); seu filho, Ercole, patrocinou o incremento de:música sacra.
Para além disso, embora as dinastias dominantes da ltália do Renascimento não
produzissem santos, delas saíram homens e mulheres muito piedosos, alguns dos
quais -- como, por exemplo, Paolo Trinca(falecido em 1391)ou Battista da
Varino(falecido em 1524) -- foram mais tarde beatificados. Galeotto Roberto'
Malatesta de Rimini tinha tal reputação de rigorosa observância religiosa que,
quando morreu, em 1431,a sua figura foi o centro de um culto local que se mani-
festou durante algum tempo. E certo que essaostentaçãode piedade podia ser, E
por vezes,expressão de um remorsoou de um sentimentode culpa. Em 1446,li
Filippo Mana Visconti estava,segundoparece,tão perturbadocom a cargafiscal
que impusera aos seus súbditos, que se dirigiu a uma assembleia de teólogos para
saber a sua opinião..Bona de Sabóia, viúva de Galeazzo Mana Sforza, confessou
ao papa os pecadosdo seu marido. Foi em consequênciade uma derrota militar ll
e política que Afonso ll de Nápoles seretirou, em 1494,para um mosteiro sici-.:l
Mas tais actos de contrição, e o apoio dado pela Igreja aos senhoresque pos-
suíam cargose riquezas de que podiam servir-se,são fenómenoscorrentesem
toda a Idade Média, o que levanta algumas dúvidas acerca da especificidade tipi-
camente<<renascentistm>
do comportamento político dos príncipes que até agora
analisámos. Na sua campanhabde propaganda contra Sigismondo Malatesta,
Pio ll acusou o senhor de Rimini de paganismo ê idolatria, e concebeu para ele
uma esliéciede canonização,em sentido inverso,para garantir ao seu inimigo

23
A procum da legitimidade

24
Segismundocom a coroa de ferro dos Lombardos,em Milão, um ocorrência
espectacular que eventualmente poderia aumentar o seu prestígio; mas é provável
quem) gesto de Filippo Mana tenha sido mais uma prova de temor do que um
desafio ; com efeito, em muitas outras ocasiões, mostrou-se ansioso por obter o
apoio de Segismundoe o seu reconhecimentodo ducado dos Visconti. O facto de
Francesco Sforza se ter feito proclamar duque pelo povo de Milho, em 1450
-- por um processo que ele e seus filhos sabiam não ser ortodoxo, dado que con-
tinuaram a solicitar a investidura papal até 1493,quando finalmente Ludovico, o
Mouro, obteve o título das mãos de Maxiniiliano por 400 000 ducados -- revela
despeito e não desprezo por essatradição. Em 1461,Francesco recusou um título
nobiliárquico francês que Ihe tinha sido oferecido com a condição de reconhecer
a supremacia francesa em detrimento da supremacia imperial.
Mas, nessa época, a expressão mais conhecida da recusa do conceito medieval
de autoridade talvez seja a crítica demolidora que, em 1440,Lorenzo Valia fez à
9 Z)Darão de Co/zsran/f/zo, um documento de que o papado se servia para justificar
o seu domínio secular sobreos Estados da Igreja e o seu domínio feudal sobre o
reino de Nápoles e sobre aiiSicília, a Sardenha e a Córsega.:EValla não escreveu
.v

apenaspor amor à pesquisahistórica e filológica, como tendem a repetir os his-


\ toriadores do Humanismo, mas também para agradar ao seu mecenas,Afonso v
de Aragão, cujos títulos sobre o reino de Nápoles e sobre as ilhas ficavam com-
prometidos com as pretensõesde supremacia expressaspelo papa; e, em 1443,
quandoo papadoe o rei chegarampor fim a um acordo,os ensinamentos
de
Valia foram esquecidospelos políticos.
Na realidade,na ltália do Renascimento,
a ordemtradicionalera objectode
um consensotão amplo que será mais oportuno considerar o problema numa
perspectivapositiva. Durante todo esseperíodo, as casasreais e principescas da
Europa e as novas famílias ligadas às suas cortes foram objecto de uma curiosi-
dade e de um interesse efémeros; um interesse que investigações recentes demons-
traram existir, quer nas repúblicas, quer em outros tipos de regime,e que progres-
sivamentese foi intensificando à medida queijos acontecimentositalianos se
ligaram mais estreitamenteaos da Europa. Por vezes,esseinteressereflectia preo-
cupações de carácter militar e político, como, por exemplo, durantellas várias
fasesda disputa pelo trono de Nápoles entre as famílias dos Anjou-Durazzo,
Anjou-Provença e Aragão.Trastamara. Noutras ocasiões, centrava-se em factos
mais longínquos, tais como as surpreendentesvitórias de Henrique v de Ingla-
terra e a humilhaçãodo reino francês,seguidada morte prematurade Joana
d'Arc. Até as visitas dos reis à penínsulapodiam despertaro interesse,como
demonstra a viagem do rei: da Dinamarca, em 1474.
Estreitamente associadoa tudo isto, o orgulho reveladopelos senhoresitalia-
nos ao receberem honrarias e privilégios das mãos de príncipes e de reis. Os regis-
tos imperiais que documentam as expediçõesa ltália do rei dos romanos, Segis-
mundo, estão repletos de referências a favores concedidos ou vendidos pelo
imperador: investidurascavaleirescas,nomeaçõespara cargos na corte, títulos
feudais, o direito de se ornar com o brasão imperial. Um beneficiário importante
foi o conde Amadeu Vlll de Sabóia, que em 1416foi promovido a duque. Outro
foi Gianfrancesco Gonzaga, que foi nomeado marquês de Mântua em 1433.
Algum tempo antes tinha-lhe sido concedido o direito de envergar a libré real
inglesa,privilégio que foi reconfirmado,em 1433,por Henrique VI. O retrato de
Federigo de Montefeltro, executado por Justo de Gand ou por Pedro Berruguete,
mostra o duque com as insígnias da ordem do Arminho (que Ihe tinham sido

25
L

26
\

episcopal de Trento ou.a casa de Sabóia, por exemplo), quer na monarquia do Sul
e dasilhas e no papado.
A situação política e jurídica não era a mesma nas zonas da península onde
os fundamentos jurídicos da autoridade eram mais ambíguos, ou seja, nos domí-
nios situados em territórios do Estado da Igreja e no reino de ltália, onde conti-
nuava a considerar-seimportante manter algo mais do que uma simples aparên-
cia de consensopor parte das comunas interessadas.Esseaspectoé bem claro no
caso da sucessãoSforza ao ducado de Melão: apesar do seu poder militar, Fran-
cescoconsideravaimportante salvaguardara ideia de que as comunidadesque
estavamsob o seu domínio o faziam livremente e preparou a sua aclamaçãocomo
duque de Melão para compensar a debilidade das suas pretensõeshereditárias.
O mesmoaconteceuna senhoria de Piombino, dos Appiano: em 1451,quando
deixou de haver sucessãomasculina por linha directa, atribuiu-se à comuna a
função de entregar a sucessãoa Emanuele. Até Casar Bórgia, depois de ter con-
quistado a Romagna, em 1499,não se sentiu dispensadode requerer o consenso
das comunas dessa província.
Na maior parte dos casos,porém, é raro que a autêntica iniciativa proviesse
da populaçãosubmetida.O título vitalício de <<magistradosupremo>> conferido a
Giovanni ll Bentivoglio resultou mais das pressõese da protecção de potências
estrangeirassuasaliadas do que de uma decisãopor parte da comuna de Bolo-
nha. Geralmente,to consensodas comunas e os títulos por elas conferidos eram
importantes sob o ponto de vista da propaganda, ou também porque constituíam
demonstrações de <<livreescolha>>que ligariam mais completamente os súbditos
ao novo regime. Todavia, é indubitável que, mesmo onde persistiam formas de
participação popular, os príncipes da ltália do Renascimentopreferiam assentar
sobre outras bases os seus direitos de governação.
Nos Estados secularesitalianos, o direito mais óbvio e tradicional era o here-
ditário, e o forte e constanteapeloa essedireito pode ser constatadono modo
como as dinastias dominantes exaltavam ou inventavam completamente a história
das suas origens antigas e os feitos dos seus antepassados.A continuidade era
frequentemente realçada pela adopção deHum número relativamente restrito de
nomes de baptismo -- por exemplo, Jacopo entre os Appiano, Ugolino e Corrado
entre os Trinca. A propaganda dinástica constituía um aspecto muito importante
da:cultura da corte em ltália, tal como aconteciaem toda a Europa da Idade
Média e do Renascimento;em finais do séculoxiv, Giulio Cesareda Varano
mandou inserir os retratos da família no esquemadas decoraçõesdo seu palácio
de Camerino. A crença no princípio hereditário podia encontrar uma expressão
mais concreta quando os senhoresassociavamao governo os seus sucessorese
tentavam regulamentar a sua sucessãopor testamento.Leonello d'Este foi assu-
mindo um papel cada vez mais importante no governo dez anos antes da morte
de Niccolo 111(1441); antes de morrer, em 1424, Rodolfo 111da Varano fez diver-
sas tentativas para preparar a sucessãoentre os seus filhos.
Os príncipes da ltália do Renascimentotambém tentaram adquirir direitos
hereditários de governo junto dos seus superiores. Tanto no Estado da Igreja
como no território imperial, os senhoresprocuravam acumular cargos vicariais
para garantirem uma herança aos seus sucessores.Também estavam dispostos a
empreendem
«á:ios esforços, a nível político, diplomático e financeiro, para se
apoderarem de títulos feudais que tivessem carácter hereditário. Embora fazendo
parte do território imperial, o reino de ltália ofereceo exemplomais famoso deste
fenómeno: o de Giangaleazzo,que obteve o título de duque em 1395,e que foi

27

'../
28
O apoio dado por Segismundo àqueles que pretendiam a herança dos Della
Scala, em Verona, e a Ludovico de Tek, que pretendia a Aquileia, constituíram
uma ameaça para a república de Veneza, que tendia a expandir:se no território
italiano e o desafio imperial a Venezatornou-se ainda maior quando o império
passoupara as mãos dos Habsburgos.

Aspectos do governo

As honras e os títulos de que falámos nos parágrafos anteriores significam


algo mais do que simplesprestígio, já que podiam converter em mecenasaqueles
que delesbeneficiasseme reforçar a sua autoridade. O direito de envergara libré
real inglesa, conferido a Gianfranco Gonzaga, permitia-lhe alargar tal privilégio
a cinquenta dos seus cortesãos. O título de conde Palatino, que os imperadores
conferiam com uma certa generosidade, dava aos seus titulares o direito de legiti-
mar os bastardose nomear notários. Os títulos feudais, tal como o de marquês
ou duque, aumentavam o poder dos governantes de fazer doações e atribuir feu-
dos, abrir inquéritos para estabelecera legitimidade dos direitos que os seussúb-
ditos confirmavam ou afirmavam possuir, decidir nos conflitos ou investir os súb-
ditos" favoritos ou "mais importantes com outros títulos feudais de menor
importância. O título de duque encorajou Filippo Mana Visconti a examinar as
pretensões de jurisdição territorial expostaspela família dos Pallavicinoe dos
Anguisola: o processoconclui-secom o não reconhecimentodas pretensõesda
primeira família, em 1428,e com o reconhecimentodas pretensõesda segunda,
em 1438. Em 1428, Segismundo ordenou às grandes famílias feudais; dos Malas-
pina, dos Fieschie dos Campofregosoque respeitassem
a autoridadedo seu
representante, Filippo Mana Visconti.
A utilização prática dos títulos e das honrarias por parte dos governantes con-
duz a uma análise mais geral da autoridade do príncipe. Este assunto suscitou
durante muito tempo o interessedos historiadores, que viram no Renascimento
um período de transformação rápida e radical da estrutura do Estado, que con-
duziria a um significativo incrementoda autoridadedo senhor.Em termosmilita-
res, por exemplo, essa mudança revela-se na existência de exércitos profissionais
e permanentes cada vez mais sólidos. Para fazer face a tais compromissos, os
governostiveram de aumentar o peso dos impostos e adoptar políticas de cariz
mercantilistapara apoiar a economialocal e privar os adversáriosde recursos.
Sob este ponto de vista, considera-setambém que o príncipe do Renascimento
desafiou as liberdades <<medievais>>
usufruídas pela nobreza, pela Igreja e pelas
corporações,para desenvolvermais organícamenteos seusobjectivos, impondo a
sua autoridade atravésde uma burocracia mais evoluída e profissional.
Esta interpretação deve muito, nas suas origens, a Burckhardt, que descreveu
o Estado italiano dos séculosxv e xvi como o<<resultadoda reflexãoie do cal-
culismo>>: o Estado era <<umaobra de arte>>.Segundo Burckhardt, os senhores do
Renascimento, tal como os artistas e os literatos seuscontemporâneos, ter-se-iam
libertado das restrições que lhes eram impostas no mundo medieval: os governan-
tes ter-se-iam podido empenhar mais na consecuçãodos seus objectivos, a sua
autoridade teria dado provas de um crescentedomínio das técnicas e dos instru-
mentos de governo e ter-se-iam tornado mais avisados na avaliação da importân-
cia da propagandapolítica e do cerimonial público da corte.
29
30
oportuno defini-lo em termos de guerra, política e diplomacia do que em termos
de governo e de administração. Por fim, durante;o Renascimento, não só nenhum
L regime italiano conquistou uma soberaniajurisdicional plena, como a maior parte
l deles dependia da benevolência e da protecção de outros poderes. No século xv,
l a senhoria dos Appiano sobre Piombino podia subsistir apenasdevido ao facto
Ide eles serem apaniguados (accomoda//) de Génova, Florença e Nápoles.
Para uma análise mais pormenorizada do principado do Renascimentopassa-
remos agora a examinar alguns pontos-chave da actividade do governo : as finan-
ças públicas, a administração e o papel da corte. E para os ilustrar referir-nos-
-emos aos regimes italianos mais importantes e duradouros da época.

Os impostos

As finanças públicas são um tema central para o estudo do Estado do Renas-


cimento, mas embora al#procuradeáreceitastivesse.:aumentado durante esse
período(em grande parte devido ao incremento das despesasmilitares), as princi-
pais fontes de receita à disposição dos governos já tinham sido fixadas antes, na
Idade Média. Algumas delas derivavamde antigos direitos reivindicadospelo
Estado. Por exemplo,$;ascomunidades judaicas eram sujeitas a impostos espe-
ciais. As propriedades dos rebeldes eram confiscadas. A venda do sal era em geral
considerada monopólio do Estado, enquanto outros direitos de regalia eram mais
característicos de determinadosÊEstados. A coroa dei"Nápoles,,por exemplo, tal
como a de Castelã, reivindicavao direito de concederuma licença para transu-
mâncias maciças de gado. O papado tentou criar um monopólio para a produção
do alúmen depois.da descobertadas minas de Tolfa, em 1462.
Mais comuns e mais importantes para as finanças públicas eram os impostos
indirectos, mas o seu valor tendia a decrescerprecisamentenas alturas em que o
governo mais necessitavadeles: em tempo de guerra, epidemia ou carestia. Por
isso tinha de recorrer-se a métodos de cobrança, que outrora tinham sido conside-
rados <<extraordinários>>,
mas que se foram afirmando cada vez mais durante o
Renascimento.O imposto directo foi aplicado pelos regimesda ltália central e
setentrional, enquanto no principado feudal do Piemonte-Sabóiae nos reinos de
Nápoles, Sicília e Sardenha se adoptava o processode submeter.os impostos ao
consenso do parlamento. Perante a assembleia parlamentar, os pedidos de impos-
tos podiam ser justificadosgembtermos tradicionais de tributo feudal(embora,
pouco a pouco, e cada vez com maior frequência, se começassea apelar também
para motivaçõesrespeitantesà segurançado reino). Em 1500,por exemplo,o par-
lamento da Sardinha votou a favor de Ferdinandoum do/zaf/vocom a duração
de três anos e uma ajuda financeira, manifestamentepara cobi'ir as despesasdo
casamento de sua filha.
A variedade de recursos financeiros a que o governo podia deitar mão, bem
como a documentação que nos ficou acerca da fixação e da cobrança dos impos-
tos podem sugerir que a história das finanças públicas confirma ahimagem de
uma crescentedautoridadei
do príncipe do Renascimento.Mas altos níveisde
imposição fiscal não implicam necessariamentea existênciade um governo forte :
depois do assassíniode Galeazzo Mana Sforza (1476), os níveis do imposto foram
reduzidos e a autoridade de seuirmão Ludovico Mana, por alcunha o Moz/ro,:foi
abalada pela propagação de boatos segundo os quais os súbditos do rei de França
só costumavam pagar os impostos se os tivessemaprovado.

31
11
JI

queiros toscanos e romanos

A administração e a corte

11

32
chancelaria de muitos Estados italianos cuidaram cada vez mais da formação dos
funcionários, sobretudo para garantirem que a correspondência oficial fosse
escrita em bom latim clássico. Isso permite-nos compreendera utilização sempre
crescente dos humanistas por parte dos vários regimes, desde a <<senhoria>>dos
Carrara, em Pádua, até à coroa de Nápoles. +
Por fim, a corte que, embora seja mais difícil de definir como instituição,
facto social ou acontecimento, se considera geralmente como o reflexo da nova
autoridade e das mais amplas ambiçõesdo príncipe do Renascimento.Os palá-
cios citadinos e as moradias suburbanase rurais edificadas por famílias como os
Da Varano, os Este e os Montefeltro não tiveram apenasuma função prática e
social, mas parecem ter servido de espelhosaduladores do príncipe e de instru-
mentos da sua propaganda. A mensagem do príncipe não se confinava ao interior
dasparedesdo seupalácio; por tradição, ou por intençãoconsciente,os cerimo-
niais da corte tinham um carácterde extremapublicidade.Afonso V encomen-
dou estandartes que proclamavam, em termostheráldicos, osnseus direitosçao
trono de Nápoles; em 1442, fez a sua entrada em Nápoles;num carro triunfal
acompanhado pelas insígnias dos seusvários reinos e por carros que exaltavam as
virtudes da justiça, enquanto o acontecimentofoi comemorado com um arco de
triunfo em estilo renascentistacolocado à entrada de Cartel Nuovo.
' Mais uma vez#não se deve exagerar nem a eficiência e a competência do
Estado do Renascimento, nem o controlo do príncipe sobre a sua corte e a sua
propaganda. Houve alguns.regimes que permaneceramitinerantes ejsem uma
base fixa, ou corte, como, por exemplo,a casa de Sabóia. Os arquivos dos gover-
nos têm um carácter misto que, se for considerado em paralelo com a prolifera-
ção dos cargospúblicos, sugereuma falta de especializaçãoe de direcção. A ava-
liação da importância dos documentos escritos não eraduma preocupação
exclusiva do governo central, e pode revelar mais as dificuldades encontradas pelo
príncipe do que a deferência dos seus súbditos. Por exemplo, os estatutos das
guildas e das comunidades que lhes estavamassociadas,embora publicados em
nome do príncipe, são mais um reflexo da tradição e do interesse do grupo do que
da vontade do governante.
A proliferação dos cargos públicos, fenómeno comum a todos os principados,
reflecte$frequentementeuma confusão administrativa e o desejo do príncipe de
recompensar os seus partidários e defensores ou, como já se disse, de recolher
fundos e aumentar as fontes de crédito. A utilização que Afonsqãr fazia dos car-
gos públicos para recompensar os seusapoiantes espanhóis provocou um certo
ressentimento, como o próprio rei compreendeu, não por parte de eventuais
reformadores do Estado do Renascimento, mas sobretudo por parte dos súbditos
napolitanos e sicilianos que se sentiam preteridos. As tentativas de reforma contra
os abusos são raras, descoordenadas e ineficazes : em 1455 e 1456 foram endereça-
das a Afonso V petições para uma amnistia geral quando ele tentou controlar a
corrupção no seio da administração.
Por fim, uma boa parte daquilo que os historiadorestendem a definir em ter-
mos de propaganda era algo demasiado pessoale demasiado secreto para se inserir
nesta descrição, assumindo uma evidência especial quando se trata de certas for-
mas tipicamente<<renascentistas>>. A medalha, por exemplo, claramente inspirada
no modelo antigo e representandoamiúde as aspiraçõesdo senhor e não só as suas
feições, não se destinava à circulação maciça mas a poucos privilegiados e muitas
das divisas adoptadas pelos senhores do Renascimento eram deliberadamente obs-
curas e ambíguas, de tal forma que só podiam ser apreciadas pelos iniciados.

33
O facto é que a corte estava muito longe de ser uma emanaçãoclara e arti-
culada da vontade do príncipe. Os príncipes e os seusconselheiros realçaram mui-
tas vezesa necessidadede seremgenerosospara com os seusamigos e os seus
defensores; a mag/za/zfmi/asera uma virtude tradicional, que se esperavados
governantes, como recordava, talvez com uma certa relutância, Francesco Sforza,
justificando a sua decisão de concederbenefícios nos seusdomínios pela obriga-
ção de recompensar amigos e apoiantes. Os tratados sobre a corte.podem muitas
vezes subentender, explícita ou implicitamente, este aspecto, adulando e ideali-
zando ao mesmo tempo a figura do próprio senhor, a quem obviamente essas
obras são dedicadas : um bom exemplo é-nos oferecido pelo .De/nsfffur/one Regf-
menf& .Dlg/zírafum, dedicado no início do séculoxv pelo humanista itinerante
Giovanni Tinto Vicini ao senhor de Fabriano, Battistachiavello Chiavelli.
Tais obras podem, porém, identificar-se com a tradição medieval num outro
sentido: retomam sarcasticamente o interesse egoísta e as intrigas do cortesão,
quando se alimenta da generosidade do príncipe e se aproveita da sua.ignorância
e da sua boa índole; é um aspecto que podemos encontrar, por exemplo, nos tra-
tados de Giovanni Conversinide Ravenna(1343-1408),baseadosnas suasexpe-
riências pessoaisna corte dos Carrara e tambémnas observaçõesde duas das
mais típicas figuras do Renascimento,Leon Battista Alberti.(1404-1472).e Enea
Silvio Piccolomini( 1404-1464),que aliaram as suasexperiênciaspessoaisà leitura
das obras de um cortesão anglo-normando da corte de Henrique 11,Walter Rap
( 1140-]209).Um relatório sobrea corte dos Da Varano em Camerino, redigido em
1502-1503,parece considera-la mais uma fonte de banquetes, óperas, mexericos,
diversões,tumulto social e desgostospara os súbditos do que o palco de uma
espécie de espectáculo de reverência para com Giulio Cesare Varano, que orgulho-
samente se proclamava Se/z/zor.

Conclusão

O relatório de 1502-1503
era endereçadoa AlexandreVI, que expulsaraos
Da Varano de Camerino em 1502.Logo após a morte do papa, a dinastia foi res-
taurada; mas a partir de 1545o pequeno principado de Camerino foi finalmente
inserido no Estado da Igreja, o que nos permite analisar uma tendência muito nítida
na história dos principadosdo Renascimento,
que confereum forte sentidode
urgência e de tipicidade aos outros textos dos historiadores e dos políticos da época,
como Guicciardini ou Maquiavel: nesseperíodo verificou-se uma diminuição do
número dos Estados autónomos. Isso não significa que quasetodos os Estados
mais pequenos desapareceram -- os Este, em Ferrara, e os Gonzaga, em Mântua,
conservaram o seu poder, respectivamente, até 1598 e 1708--, significa, porém,
que o mapa político da ltália e da Europa é agora dominado pelas grandes monar-
quias, que reduziam progressivamenteos seusvizinhos mais pequenos,como os
Appiano, em Piombino, ou os Pio, em Carpi, a uma mera classede apaniguados.
O facto de issonão ter acontecidoantes fica a dever-seem grande parte às divi-
sões internas e às ameaças externas vividas pelos maiores Estados da Europa do
século xv, e esta pode ser uma das razões pelas quais os principados da ltália do
século xv adquiriram a reputação de constituírem exemplos preciosos de constru-
ção do Estado e do poder do príncipe. Mas um dos objectivos principais desse
ensaio foi precisamente defender que os historiadores, na maior parte das vezes,
sobrevalorizam o grau de mudança que interveio nesse<<modelo>> italiano. Foram

34
feitos esforços para se maximizar os recursos económicos e fiscais. Os exércitos
ampliaram-se, tornando-se permanentes e profissionais. A relevância da burocra-
cia aumentou e a sua acção foi documentada de uma forma mais completa. Os
interessesculturais do Renascimento reavivaram a vida da corte,'influenciando a
natureza do mecenato e da propaganda praticados pelo príncipe.
Mas as aparências podem enganar. Os arquivos dos governos do Renasci-
mento, por exemplo, tiveram mais possibilidades de chegar até nós do que os dos
períodos anteriores e são, graças ao aparecimento da imprensa e a uma utilização
mais ampla da língua vulgar, mais acessíveisaos historiadores modernos. Toda-
via, isso'anão prova uma inesperada ou essencial mudança nas ideias acerca {do
Estado em particular e da <<mentalidade>>
em geral: os documentos de governo
não são só por si a prova de uma autoridade acrescidado príncipe ou de uma
melhor eficiência por parte dos seusservidores. Os historiadores, e não só aqueles
que se ocupam do príncipe do Renascimento, mostraram muitas vezesuma certa
relutância em reconhecerque a maior parte dos testemunhosde arquivo vêm «de
baixo>>,ou que mostram o Estado na defensiva enquanto se esforça por negociar
com os seus teimosos, litigiosos e oportunistas súbditos.
Além disso, os historiadores tendem sempre a ser demasiado <<amigosdo reb>,
para utilizar as palavraPdeZK. B. McFarlane referindo-se aos finais da Idade
Média em Inglaterra. Certas demonstrações de fidelidade e certas interpretações
de todo o Estado, sob o ponto de vista do senhor,revelamuma tendênciapara
exagerar a eficiência do governo central e para aceitar os seus objectivos. Por
outro lado, descuram-seem certa medida os arquivos provinciais, que exprimem
o ponto de vista daquelesque assistiamao espectáculoda corte e a reacçãoda
nobreza feudal.
Por fim surgem as advertênciasde C. H. Haskins, que se ocupou dos reinos
normandos e dos suevosna Sicília; para Haskins, não é tarefa do historiador jul-
gar os príncipes a partir da sua <<modernidade>>.Não ter em conta essas advertên-
cias pode levar facilmente a exagerarou a distorcer a natureza da mudança. Por
exemplo, como já afirmei quanto ao tema da busca da legitimidade, a passagem
da <<senhoria>>
para o «principado>>,que foi muitas vezesreconhecida como fenó-
meno típico do Renascimento,constitui uma passagempara uma concepção do
governo mais tradicional e mais <<medieval>>, ainda que nenhum dos novos prínci-
pes da ltália central e setentrional tenha conseguidoconquistar aquela autoridade
sagradareivindicada por monarquias como as de Nápoles e de França e de que
o papado também usufruía. Convém ainda acrescentar que a reputação do Przh-
cepede Maquiavel é tal que se corre o risco não só de exagerara sua novidade
como de ignorar a literatura anterior acercado mesmoassunto; por conseguinte,
o carácter conservador e tradicional da maior parte do pensamento político do
Renascimentonão é tido suficientementeem consideração.Uma certa ambigui-
dade -- pelo menos para os modernos -- continua a envolver o conceito de
Estado, que foi concebido quer como uma expressãogeopolítica, quer como atri-
buto pessoal do próprio senhor.
Um bom exemplo desta concepçãode Estado como propriedade pessoal do
soberano é fornecida por berrante de Nápoles, que se serviu da sua autoridade de
rei para incentivar especu]ações
nos mercadosde cereais,do ó]eo e da ]ã. O seu
contemporâneo do Norte, Henrique Vll de Inglaterra, partilhou da mesma repu-
tação de astuta rapacidade. Esta analogia faz-nos pensar que se, no caso da ltá-
lia, se exagerou a importância do príncipe do Renascimento, algo de semelhante
pode ter-se verificado no resto da Europa. Todos os argumentos historiográficos

35
do século xvi'?

36
CAPITULOll
OCONDOTTIERO
por Michae! Matlett
Cada figura do Renascimento é feita de claros-escuros, com /7as/zes brilhantes
e sombras contrastantes; e não há grupo de personalidadesrenascentistasque o
provem tão bem como os chefes de mercenários italianos. Aliás, é assim que nos
são apresentadospelos seus contemporâneos.Os italianos mais eminentesdos
séculos xiv e xv foram os humanistas; do estudo das obras clássicas tinham her-
dado a admiração pela actividade militar levada a cabo no interesseda comuni-
dade em geral, o entusiasmopelos heróis e pelos feitos guerreiros, mas também
uma forte aversãoaos mercenários.Os mercenárioscondenadospor Aristóteles e
Platão, e lamentados por Vegécio, eram mercenários estrangeiros importados por
tiranos ou impostos pelo declínio de uma civilização que já não se mostrava
capaz de se defender. Os mercenários atacados por Petrarca, porém, eram na sua
maioria estrangeiros,não italianos, como as companhias de alemãese húngaros,
as tropas francesase inglesas, que percorreram a Ttália durante grande parte do
século xrv. A desaparição gradual dessesgrupos de além.Alpes e a sua substitui-
ção por chefes italianos nos últimos anos do século xiv deram a Petrarca, Salu-
tati e Bruni a esperançade que as antigas virtudes militares ressurgiriam. Mas a
vaga crescentede orgulho cívico local e de patriotismo, que acompanhou o nasci-
mento do sistema estatal italiano, levou os humanistas do século xv a deplorar o
emprego de capitães mercenários provenientes de fora das fronteiras do Estado,
quer fossemitalianos, quer fossemde além.Alpes.Os co/vdo/íferíconstituíam
uma ameaçapotencial para as liberdadescivis e a sua utilização privava o Estado
da possibilidadede desenvolveras suasdefesasnaturais e o sentido cívico dos
cidadãos. Estas ideias propagaram-se de forma especial em Florença, que vivia
no medo constante de acçõespor parte da nobreza rural e de exércitos de saquea-
dores. Em outras partes da ltália, onde os humanistas eram muitas vezes os
porta-vozes dos governos principescos, realçava-se mais a necessidade de capitães
eficientes e fiéis, sem se ter em conta as suas origens, e olhava-se com maior sus-
peita a alternativa óbvia, ou seja, a preparação de uma milícia urbana. Os huma-
nistasda corte, Pier Candido Dezembro,Guarino Guarini e Flavio Biondo escre-
veram panegíricos e denúncias dos co/zdorrfer/, apoiados não só em precedentes
clássicose nas tendências políticas da época, mas também na observação do com-
portamento dos próprios capitães.
Muitos destestemas foram redescobertosnos primeiros anos do séculoxvt
por escritores ainda mais influentes : Nicolõ Maquiavel, Francesco Guicciardini e
Paolo Giovio. Neste período,. a sombra da dominação estrangeira ameaçava
mesmo os mais altivos e fortes Estados italianos e já não se realçava apenaso
modo como a defesa, entregue às armas mercenárias, enfraquecia a população mas
também o evidente fracasso dos mercenários no desempenho cabal da sua missão.
Com Maquiavel e Guicciardini, a condenação dos co/zdo/rierí atingiu um novo
39
ver estes problemas.

40
As rivalidades citadinas, inicialmente económicas e depois cada vez mais territo-
riais, conduziram a uma situação de tensão permanentee de guerra em pequena
escala. Durante o século xm, as comunidades urbanas tiveram cada vez maior
dificuldade em recrutar o número suficiente de cidadãos para utilizar nas campa-
nhas de agressãocontra os vizinhos numa altura em que o crescimento econó-
mico continuava a incrementar não só novaspreocupaçõescomo os recursospara
recrutar tropas profissionais. A defesados muros de uma cidade era uma coisa.
os cercos prolongados e as campanhas de devastaçãoeram algo completamente
diferente. Além do mais, o aumento da população, a tradição das cruzadas e uma
mudança em relação ao direito de primogenitura entre a classedos proprietários
de terrasde algumaszonas da Europa começavama produzir um excedentede
homens aptos, mas muitas vezesdesocupados, grupos de guerreiros que começa-
ram a dirigir-se a ltália, onde as possibilidades de emprego e de saque pareciam
mais prováveis.
No início, a maior parte dos grupos de mercenários disponíveis não era ita-
liana. A conquista.do Sul de ltália pelos Anjou introduziu no país um grande
número de tropas francesas,que ficaram logo disponíveispara seremrecrutadas
noutras partes da ltália; os catalães, por exemplo, estavam muito bem representa-
dos nas primeiras companhiasde mercenários.No início do séculoxiv, a che-
gada de Henrique Vll e o restabelecimento de ambições imperiais e do interesse
pela ltália trouxeramnatestepaís muitos alemãese, em 1340,o casamentode
Joana l de Nápoles com o irmão mais novo do rei da Hungria e o posterior assas-
sínio do seu consorte húngaro provocaram a chegada de grandes contingentes de
tropas húngaras. O ano de 1360assistiu à aparição de companhias organizadas
francesas e inglesas, que se encontravam sem trabalho depois de a Paz de Brétigny
ter provocado uma trégua passageirana guerra dos Cem Anos.
No início, essas companhias estrangeiras eram relativamente pequenas. As
primeiras condor/e de que temos notícia remontam a uma data que .sesitua entre
os anos sessentae os anos setentado século xm e os capitães que as firmaram
ficaram logo conhecidos como condorrfer/. Essesmercenáriosestrangeirostive-
ram inevitavelmentemais tendência para operaremcomo companhias dolque
para venderemos seusserviços individualmente; por isso, era natural que os che-
fes reunissem o maior número possível de seguidores e que os governos tentassem
satisfazeras suas necessidadesmilitares com o maior número possível de contra-
tos. A partir de 1320operaramem ltália companhiasmuito grandese o profissio-
nalismo e a experiência dessesgrupos foram aumentando cada vez mais a dificul-
dade de os Estados tentarem travar guerras sem recorrerem aos seus serviços. Em
certos aspectos, essascompanhias desenvolveram um espírito de corpo e mecanis-
mos para as decisõescolectivase a#repartiçãodos saques,que asl faziam
assemelhar-semais a corporações do que a um séquito de chefes militares. Toda-
via, o chefe, embora não fossefrequentementeo único signatário do contrato de
engajamento da companhia, como se começou a fazer a partir do séculoxv,
tinha um papel decisivo no êxito e na reputação da companhia, e não é realista
traçar-se uma linha de fronteira demasiado marcada entre uma época de compa-
nhias e uma época de co/odor/feri.
E é igualmente pouco realista traçar-se essa linhaHde fronteira entre um
período em que a guerra mercenária em ltália foi dominada pelos estrangeirose
outro em que os italianos seimpuseram como co/zdo/rferíde prestígio. Por vários
motivos, as companhias estrangeimsde mercenáriosoperaram em ltália, sem quais-
quer problemas, até aos anos setentado séculoxiv; eram normalmente maiores

41
nr - l

il
11

42
Veneza, a recorrer com mais frequência aos serviços dos condorrferí e a pagar-
-lhes mais generosamente.Até à sua morte, em 1394, Hawkwood foi a pr ncipal
defesade Florença; em seguida,Florença, embora gastando somasenormes com
a guerra, sentiu dificuldades em estabeleceruma relaçãoduradoura com um co/z-
d/ff/ero de prestígio. Disse-semuitas vezesque os condor/feri preferiam colocar-se
ao serviços dos príncipes, e é indubitável que Florença demonstrou não ter con-
fiança nos.teus capitães, o que constituiu 'um obstáculo à eficácia da sua força
militar no Renascimento. Veneza, porém, a partir de 1404, encaminhou-se decidi-
damente para a constituição de uma força própria, de início mediante a formação
de um quadro de co/zdo//feri menores, empenhados num serviço a longo prazo
que nâo exigia a atenção e a fidelidade de personagensde maior importância. Isso
dependeuem parte do facto de, durante os primeiros trinta anos do século xv. a
atenção dos capitães mais ambiciososse ter centrado na Itália central e meridio-
nal. As divisões nos Estados pontifícios e em Nápoles, efeito das crises recorren-
tes devidas ao cisma e à rivalidade entre os Anjou e os Aragão, prepararam o ter-
reno mais favorável para o tipo de ambição e de acçãoindependenteque tantas
vezesassociamosaos condoff/erf. FoiDnessas circunstânciasque as rivalidades
entre as duas escolas de co/odor/ier/, a de Braccio e a de Sforza, pareceram mais
importantes do que as que existiam entre Romã e Avinhão ou entre os Anjou e
os Aragâo. Em 1420, a entrada de Maninho V em Romã, corno papa incontes-
tado, marcou indubitavelmenteo início de um novo Capítulona' história do
Estado pontifício, embora inicialmente o papa dependessemuito do seu capitão
general, Braccio da Montone. Do mesmo modo, a ascensãogradual de Afonso V
de Aragão em Nápoles provocou uma situação nova que levou de novo os co/zdo/-
rieri mais ousados a procurarem emprego noutros locais.
Novas oportunidades surgiram do prolongado conflito entre Milão e Veneza
-= e em que Florença participou quase ininterruptamente--, que dominou o
período que medeiaentre 1425e 1454WNoentanto, se o facto de se tratar de uma
série quasecontinua de guerras, representou,por um lado, um trabalho acrescido
para os co/zdo//feri, por outro, conduziu ao desenvolvimentoformal de exércitos
permanentes e a uma continuidade de serviço, que refreavaqualquer ambição polí-
tica que os soldadospudessemter acalentado.Alguns dos maiorescapitãesdeste
período eram na realidade príncipes co/odor/feri,mas eram príncipes antes de
seremco/zdo/fiar/, e a sua importância como co/zdo/fiar/ dependia dos recursos
dos seus Estados. Guidantonio Manfredi, Giovanfrancesco Gonzaga Niccolà
d'Este, Sigismondo Malatesta e Federico da Montefeltro desempenharam todos o
papel de co/zdof/fera durante as longas guerras daqueles decénios. Mas nos anos
quarenta do século xv, os comandantesmais importantes não eram verdadeiros
príncipes co/zdo/rferí, mas capitães-generais autorizados pelos Estados a recrutar
companhias de 2000 a 3000 homens. Foi assim que Niccolõ Piccinino, Carmag-
nola, Gattamelata, Michele Attendolo, FrancescoSforza e Bartolomeo Colleo;i
ficaram famosos. FrancescoSforza foi promovido, por assimdizer, desposandoa
filha de Filippo Mana Visconti e tornando-se, como duque de Melão, o maior
príncipe co/zdofffero. Globalmente, este período proporcionou aos.condor/fe/f
trabalho, honrarias e grande bem-estar, mas muito poucas perspectivas de uma
evolução pclíticl.
ã#: partir.de 1454,e depois da Paz de Lodi, assistiu-seem ltália a um período
de calma relativa. Nos quarenta anos seguintes houve guerras e ecos de guerras,
mas que eclodiram por questõesrelativamente menores e, além disso, houve a

43
44
o serviço era pedido para uma campanha particular e a duração oscilava de um
mês a seis meses,no máximo. Havia poucas ou nenhumas probabilidades de o
contrato ser prolongado ou renovado,sobretudopara lá da época normal das
campanhasmilitares. No fim de cada contrato, os conde/rierí voltavam a ser
pessoas livres. No século xv, porém, a possibilidade de renovar um contrato
era inerente ao reconhecimento de um período de respeí/o ou óe/zep/ác//o que se
seguia ao serviço militar normal; isso concedia ao senhor um período de opção,
durante o qual podia decidir se-lrenovariao contrato ou autorizaria o co/zdo/=
rzeroa procurar serviço noutro local. A possibilidade de manter em serviço as
companhias durante o Inverno e, depois, de um modo permanente,corresponde-
mm períodosde contrato mais longos.Em meadosdo séculoxv, a maior parte
dos Estados tinham tendência para firmar contratos, que tinham como mínimo
a duração inicial de um ano, e quase todos os co/zdoffierí se viram na perspec-
tiva de um serviço permanente. Ahrenovação dos contratos converteu-se, na
maioria dos casos, numa formalidade e os próprios contratos tornaram-se mais
flexíveis e menos restritivos. Um dos sinais dessa flexibilidade era a utilização
dos próprios contratos para os serviços em tempo de paz ou.de guerra com tari-
fas de pagamentodiversase com uma reduçãodas dimensõesda companhia
contratada. Assim, no âmbito de um mesmocontrato, um co/zdo/rieroque, em
tempo de paz, se mantinha nos aquartelamentosde Inverno, podia ser chamado
a prestar a sua ajuda em caso de guerra, autorizado a recrutar outras tropas e
depois pago segundo tarifas mais elevadas. O sistema era igualmente importante
quanto ao seu funcionamento inverso, ou seja, quando um certo grau de desmo-
bilização e de redução das despesasmilitares podia ser levado a efeito no
âmbito do próprio contrato e sem incorrer nos riscos ligados às desmobilizações
em larga escala. No século xv, os problemas das companhias desmobilizadase
as pressões exercidas sobre os Estados no fim das guerras pelos conde/fierí, que
se viam perante o problema do desemprego,foram o estímulo principal para a
criação de um sistema de contratos mais flexível. Quase desdeo início, o coa-
do//fera renunciara a um certo grau de independênciaem troca da segurançado
empregoe isso deveter sido um importante aspectodo contexto em que nós
o consideramos.
Teoricamente,cada soldado que assinavaum contrato para o serviço militar
era um co/zdof/fera e o termo referia-senormalmente quer aos homens de armas
que se comprometiam a fornecer cinco companheiros, quer aos grandes capitães
que comandavam 2000 homens. No entanto, é aos capitães de significativos cor-
pos de tropas a cavalo que costumamos referir-nos quando utilizamos o título de
co/zdo//fera. Os capitães de infantaria eram recrutados dd mesmo modo, mas
eram designados por condestáveis e não por conde/fierí; contudo, muito do que
pode ser dito a propósito dos condorrferf é igualmente válido para eles, mesmo
sobo ponto de vista do prestígiosocial.
Grande parte dos co/zdo/rlerf era de origem nobre. Em finais da Idade Média,
as capacidades, o s/arras e a base económica exigida para recrutar e comandar as
tropas eram essencialmenteos da classenobre e foram raros os que, não perten-
cendo a essa classe,conseguiram ter êxito na carreira militar. Houve, natural-
mente, excepções;Muzio Attendolo, conhecido como Sforza, embora possuísse
terras e tivesseligações que o favorecerammuito no recrutamento dos homens,
pertencia a uma família de pequenos proprietários rurais da Romagna. Muzio
adquiriu o título de nobre e por isso seu filho, Francesco,frequentementeconsi-
deradocomo o protótipo do co/zdorrierobem sucedido,teveum bom início para

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:'

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dependia efectivamente o seu futuro, dependia quer da sua habilidade para recru-
tar e controlar tropas eficientes e para tomar decisõespolíticas, quer da sua habi-
lidade especificamentemilitar. Uma crónica florentina acercada oportunidade de
seatribuir uma co/zdof/amais importante a SigismondoMalatesta, por volta de
1450, comentava: <(Seria muito oportuno pagar a Sigismondo pelas gentes que
tem, pela perícia nas armas e pela autoridade de que goza junto de todos.>>De
facto, Sigismondo não possuía a mesmahabilidade política do seu contemporâ-
neo Federico da Montefeltro e, por consequência,teve pouco sucessonos seus
pedidos de um emprego compensatório e prolongado. Em meados do século xv,
a qualidade mais exigida pelos Estados:? empregadores era um elevado àxgrau
de fidelidade e de estreita observância do contrato: Estas eram as qualidades do
capitão a longo prazo, cujos devereseram, simultaneamente,,manter as suas tro-
pas disponíveis em tempo de paz e comanda-las em tempo de guerra.
Na realidade, grande parte da concepção tradicional do co/zdorfiero sem raí-
zes, arrogante e ambicioso, deve ser revista à luz da evolução do século xv. Con-
tinuavam a existir soldados ambiciosos,mas as ambiçõeslimitavam-se à criação
de uma base segura e à obtenção de um certoenível de prestígio e de condição
social. Uma vasta propriedade ou um feudo e um rendimento garantido, mais do
que o controlo senhorial de uma cidade, eram a ambição máxima do co/zdo//fera
médio, em meadosdo séculoxv. Havia ainda personagens
irrequietascomo
Roberto da Sanseverino, que, ainda em 1480,parecia incapaz de aceitar uma posi-
ção de inferioridade quer no comando militar, quer nas deliberaçõespolíticas.
Mas a maioria dos capitãesaprendeua equilibrar o oportunismo e o interesse
pela sua reputação, a corageme a prudência: A guerra podia significar melhores
pagamentos, companhias maiores, momentos de exaltação, feitos:valorosos e, de
vez em quando, maiores ganhos. Mas também comportava perigo de perdas subs-
tanciais, em caso de meios limitados, prejuízo para a boa reputação duramente
ganha e latente perigo de vida. E interessanteconstatar que, no século xv, os
maiores co/zdoffíerí italianos revelavamescassointeresseem combater os turcos,
nos Balcão. Isso não era devido ao facto de as condições objectivas serem prova-
velmentemais difíceis e os perigos.maiores,amasao facto#de tais batalhas os
poderem afastar de um sistema que oferecia recompensas decerto limitadas mas
seguras. Quando, em 1463, Sigismondo Malatesta consentiu em comandar o exér-
cito veneziano no Peloponeso, depois de alguns dos maiores coado/rierí terem
recusado essahonra, apercebeu-sede que durante a sua ausênciaa sua posição
em Rimini era ameaçada pelo papa.
Um elemento importante na crescenteinstabilidade do sistema dos óo/zdoffierí
eram as próprias companhias. A companhia constituía o capital do condoírfero ;
a sua#reputação e a possibilidade de um emprego remunerado a longo#prazo
dependiam da sua habilidade em manter a companhia fiel e pronta para o com-
bate. Por estemotivo, uma baseseguraera muito importante; o co/zdoíflero
necessitavade uma área sua para os acampamentosde Inverno, onde a compa-
nhia pudesseficar alojada sem perigo durante um período em que os acampa-
mentos de Inverno não eram oferecidos pelo Estado empregador. Mesmo antes de
ter a certeza de um emprego estável, o co/zdoííiero devia, se possível, manter os
elementos da sua companhia em serviço permanente.;aparaisso$estipulavaco/z-
do//e automaticamente renováveis com os seus comandantes de esquadrão e com
muitos dos seushomens em serviço, ligando-os assimà sua pessoadurante deter-
minados períodos. Os contratos no interior da companhia não tinham nenhuma
relação cronológica com os contratos a que estavam sujeitos os co/zdoífierí e toda

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8

11'

H$.
\\\\l

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existia entre as tropas mercenárias profissionais e as milícias urbanas ou rurais, reu-
nidas à pressa,era de molde a tornar difícil a resistência às exigênciasde um deter-
minado co/zdorrferopor parte de um Estado que confiasseapenasnas suas pró-
prias forças. O prejuízo que uma companhia de mercenáriospodia provocar nas
vias comerciais e nas regiões rurais, embora isso pudessenormalmente ser evitado
pela ocupação e pelo saque de uma cidade importante, era causa de graves preocu-
pações.O perigo de uma insurreição popular, provocadapela escassezdos produ-
tos alimentares, ou mais directamente pelos saques militares, constituía um receio
constante para os governos. No entanto, fazer pesar demasiado este prato da
balança significa subavaliar a força crescentedos Estados italianos de finais do
século xiv e a sua maior atenção às estruturas permanentes. Se, no século xlv,
uma pequena cidade-Estado podia ser vítima dos abusos de uma grande compa-
nhia mercenária, no século xv, os grandes Estados eram menos sensíveis a tais
ameaças. Esses'testados desenvolveram mecanismos de controlo e de disciplina
para coado//feri de grandes companhias, que lhes permitiam resistir às ameaças de
capitães e de companhias inteiras reforçando as suas defesasestáveis.'llido isso
constituía uma força de dissuasãopara um eventual golpe militar. Ainda mais sig-
nificativo é o facto de os Estados terem começado a conceder recompensas ade-
quadas a longo prazo, que tornavam menos atraente qualquer tipo de deslealdade.
De todos os mecanismosde supervisão inventados pelos Estados italianos
para controlarem os co/odor/feri, o mais conhecido é o emprego de comissários
civis, que acompanhavam os exércitos mercenários no campo de batalha. Existia
uma antiga tradição dessescomissários,que remontava ao séculoxm. Eram
sempremembros idosos da classepolítica dos Estadosempregadores,que tinham
por tarefa aconselharemos capitães mercenáriosem matéria de política bélica e
relatarem o comportamento do exército aos governos dos Estados empregadores.
E evidente que esseshomens tinham poucas possibilidades de verificar se um coa-
do/fiero decidira romper o contrato e também não podiam fazer mais nada senão
relatar o mau comportamento das tropas. Semkumasubstancialestrutura de
apoio, que incluíssefuncionários civis responsáveis apelo recrutamento, apela
redacção dos contratos,. pelas inspecções,pelos pagamentos, pelo aquartela-
mento, pelos abastecimentos,etc., os comissáriostinham um poder muito limi-
tado. Foi em finais do séculoxiv e início do séculoxv que essaestruturade
apoio adquiriu importância em grande parte dos Estadositalianos. Fazia parte da
evoluçãoglobal de uma administração burocrática e centralizada. A presençade
um grande número de funcionários civis, muitas vezesconhecidoscomo co//a/e-
ra/í, nos exércitos, coincidia globalmente com a crescenteestabilidade do sistema.
Os co/zdo/fferí não eram só acompanhados nas campanhas de guerra pelos comis-
sários veteranos, eram também controlados e assistidos permanentemente por um
grupo de oficiaisi=menores. Existem tratados sobre a organização militar da
segunda metade do século xiv, nomeadamente o 7}zzradoda .A///fala, de Chierig-
hino Chiericati, que mostram a importância dessetipo de supervisão. Chiericati
desempenhoudurante muitos anos o papel de v/reco//a/era/f,no período em que
o controlo sobre toda aTorganização do exército estava confiada a Belpetro
Manelmi, uma figura lendária nos anais da história militar de Veneza. Chiericati
transferiu-se para Romã em 1460, a pedido de Paulo 11,como supervisor do exér-
cito papal para o resto do pontificado. Entre 1460e 1470,Orfeo da Ricavo
desempenhou as mesmas funções no exército milanês.
As relações entre os soldados e os funcionários civis eram naturalmente muito
tensas,mas ao mesmo tempo constituíam ocasiõesde cooperaçãoe prova de

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50
/

o Estado e o capitão mercenário. Do mesmomodo, as efígies que foram criadas


posteriormente serviam quer para honrar o conde//fera, quer para infundir res-
peito pelasvirtudes militares nos súbditosdo Estado.
A relação entre os condorffer/ e os seussenhorestinham, porém, um outro
aspecto. Nenhum sistema de recompensas podia ficar completo sem um sistema
análogo de punição e de desonra. De facto, não havia nada menos sistemático do
que a sançãoextrema, a execução,imposta aos condor/ier/ perigososou rebeldes.
A decisão de passar pelas armas ou de matar um capitão não devia ser tomada
levianamentee normalmente era uma represáliacontra a deserçãoou um meio de
a evitar. A execuçãode Carmagnola, a mando de Veneza,em 1432,constitui um
dos exemplosmais significativos. Em 1426,Carmagnola tinha abandonado o seu
cargo em Milho para se colocar ao serviço de Veneza; foi a única grande infideli-
dade da.sua.vida, provocadasemdúvida pela inveja,a suspeitae a traição de
Filippo Mana Visconti. Em parte como consequênciada suamudançabrusca,
Venezadepressacomeçou a conquistar territórios em prejuízo de Melão, mas o
receio de que ele pudessevoltar a ser fiel aos milanesesobcecavaos venezianos.
Vigiavam todos os seusmovimentos e interceptavamtodas as cartas. As relações
entre o co/zdo//fera e os seuspatrões pioraram tanto que os venezianosnão tive-
ram outra solução senão passa-lo pelas armas. Não é provável que tivessem uma
prova irrefutável de qualquer conjura, pois se assim fossepoderiam tê-la tornado
pública, mas um co/zdo//fera de que se suspeitavaabertamente era um co/zdof-
rlero perdido e Venezanão podia dar-seao luxo de permitir que Carmagnola
regressassesem problemas a Milão.
Todavia, a execuçãopública de Carmagnola foi um episódio excepcionalna
história dos condorrfer/; a maior parte dos poucos que morreram às mãos dos
seus senhores foram eliminados de forma o mais possível discreta. Presume-se
que Jacopo Pycinino tenha sido lançado da janela da sua prisão, em 1465, por
ordem do rei Ferrante de Nápoles, embora se dissesseque tinha caído quando
tentava evadir-se; como acontecera com Carmagnola, desconfiavam dele, tnas éra
demasiadoperigoso demita-lo. Niccolà da Tolentino e Tiberio Brandolini foram
condenados à morte por Milho, aquele como represáliapor uma antiga traição,
este por suspeita de traição. No caso de Brandolini, uma elaborada e um tanto
exageradaconfissão foi-lhe extorquida pelo chanceler,Giovanbattista da Narni. e
tornada pública; essaconfissão era um rol de indiscriçõesinsignificantese de
contactos falhados com outros potenciais senhoresdurante os mais de dez anos
de serviço às ordens de Milão. O facto é que nenhum valoroso co/zdoírfero podia
evitar totalmente#esses contactos. O primeiro estratagema utilizadoTJpor um
Estado quando era ameaçado por um exército temível consistia em tentar estabe-
lecer um contacto com o comandante desseexército, ou pelo menos com um dos
co/zdoffferf mais importantes. Essa manobra não tinha.Qnecessariamente por
objectivo derrotar o capitão, mas evitar o ataque e garantir possivelmenteuma
trégua. Todavia, para o senhor, qualquer contacto do capitão era suspeito e podia
ser exageradoaté se converter em potencial traição. No caso do despedimentode
Baldacciod'Anghiari por parte dos florentinos, em 1441,a ofensanão era tanto
o facto de Baldaccio ter acordado em segredoentrar para o serviço do papa, que
nessemomento era aliado de Florença, mas sim a prova de que se tinha deixado
envolverem .intrigas políticas pela facção de Capponi, que se opunha ao predo-
mínio dos Médias na cidade.
A execução,porém, quer pública quer privada, era uma solução extremae
relativamente insólita para os problemas que surgiam entre os co/odor/fer/ e os

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52
sua extraordinária capacidade de conhecer cada soldado e de Ihe inspirar con-
fiança, a altiva combatividadede Niccolõ Piccinino e a determinaçãocalma e
resoluta de Francesco Sforza e de Bartolomeo Colleoni. Não podemos deixar de
evocar com admimção a famosa marcha de Gattamelata através da neve, na zona
a norte do lago de Garda, para escapara uma emboscadamilanesa,e a igual-
mente famosa passagemde Roberto da Sanseverino através dos pântanos do Tár-
taro, para ,atacar Ferrara, em 1482. Mas estariam a brincar às guerras, como
insinuava Maquiavel, demasiado interessados emliconservar os seus limitados
recursose demasiado atraídos por despojos fáceis, para correrem riscos em
autênticas batalhas? As suas companhias seriam anacronismos, que conservavam
umaPtradição cavaleirescajá ultrapassada, numhperíodo em' que a infantaria
armada com lanças e canhõesestavaa revolucionar a guerra para lá dos Alpes?
Não existem respostas fáceis para estas perguntas. Até certo ponto, éverdade que
na segunda metade do século xv a ltália parecia cansada dessasguerras em larga
escala,mas isso significava mais uma reacção política aos custos e aos danos da
guerra do que uma perda de energia ou de entusiasmo por parte da classemilitar.
A partir de 1454, as guerras em escala reduzida impeliam forçosamente os capi-
tães para. actividades mais pacíficas, mas ao mesmo tempo davam a alguns a
opo:tunidade de arranjarem trabalho no exterior, especialmentejunto do duque
de Borgonha, onde os seustalentos eram muito apreciados. No entanto, o que
mais nos interessa é que o período de calma relativa não foi um período em que
as armas foram esquecidas. A partir desse momento, os Estados italianos tiveram
exércitos permanentes e recursos consideráveis para os manter eficientes e para
melhorar as suas capacidades bélicas.: Foi um período de experimentação activa
e de desenvolvimento da artilharia, especialmente em Veneza e Melão, e de inova-
ções.na construção de fortalezas erigidas por uma geração de extraordinários
arquitectos--- Baccio Pontelli, Francescodi Giorgio Martini, Giuliano da San-
gello, o Velho --, em muitos aspectosguiados e inspirados pelos capitãese pelos
príncipes co/zoo/rferf.Foi também um período em que a proporção da iílfantaria
profissional nos exércitos italianos aumentou rapidamente e em que muito poucas
companhiasde condorfierínão incluíram um corpo de infantaria; ao mesmo
tempo, os co/zdo///erí tomaram consciência do valor da cavalaria ligeira e as suas
companhias compreendiam normalmente esquadrões de besteiros a cavalo e
outros tipos de cavalaria ligeira.
E decertoum tanto injusto acusaros condor/feri de atraso técnico.Já no iní-
cio do séculoxv, quando em ltália ainda não existia uma tradição clara de
infantaria como a dos archeirosinglesese dos hussitas,os maioresconcíoffled
começavama incluir a infantaria nas suas companhias, em parte para responde-
rem ao uso muito corrente das fortificações de campo durante as guerras na l.om-
bardia, entre 1425e 1454. Mas já em finais do séculoxív o costume de mandar
desmontar os homens para a batalha e de os utilizar juntamente com os archeiros
e os besteiros foi adoptado pelos co/zdo/r/eríitalianos, a exemplo de Hawkwood
e dos seus capitães ingleses.Em 1373,Pietro da Fontana usou essatáctica com
efeitos devastadores,comandando os venezianoscontra os paduanos.
Dado o papel permanenteda infantaria e o desenvolvimentoconstanteda
artilharia e das armas de fogo, o facto de a guerraitaliana no séculoxv diferir
muito pouco em gravidade e derramamento de sangue das guerras de além-Alpes

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54
Este tema pode ser referido de novo, de uma maneiraglobal, ao abordarmoso
assunto do mecenatismo cultural. O ideal guerreiro era uma parte integrante da
cultum italiana; era um mundo onde Vénus e Marte coabitavam; cenas de bata-
a adornavamas paredesdo quarto de LOurençode Médias; um soldado(um
soldado?) contempla a camponesa na Ze/vzpes/ade, de Giorgione; o homem de
armase de letras tornou-se o ideal humanísticodo indivíduo. Arquitectos' ouri-
ves e pintores trabalham com fervor na construção de fortalezas,'na criação de
armasde fogo e no desenhode estandartespara torneios. O torneio era um dos
entretenimentostípicos, até como campo de treino para os soldados.
É natural que, sob um determinado ponto de vista, o mecenatismodos coado/-
üeN pudesseidentificar-se com projectos de guerra específicos. As efígies dos sol-
dados dominavam a arte funerária, mas nem sempre eram exigidas pelos soldados
ou pelas suasfamílias; os tratados militares eram, em geral, escritos pelos huma-
nistasque faziam parte do séquitodos coado/íferí. A armaduraera, na maioria
dos casos, projectada e decorada para os soldados. Também é possível reconhecer
em que medida o mecenatismo dos soldados era influenciado por factores específi-
cos. Muitas vezes,a procura de um estatuto social no seio de uma sociedademais
móvel e mais flexível é considerada o objectivo principal do mecenatismo cultural :
de uma forma geral, os co/zdo//ier/ possuíamum certo nível social, mas alguns
deles adquiriram posição e fama através da carreira militar, que transcendia a sua
posição na sociedade e os induzia a patrocinar projectos culturais pretensiosos.
Bartolomeo Colleoni é um bom exemplo de conde/raro que atingiu o ponto mais
alto da sua profissão como capitão-general permanente do exército de Veneza.
Recebeuum vasto feudo em Malpaga, perto da fronteira milanesa, onde podia
estacionar com as suas tropas e onde decidiu fundar uma corte. Para além dos edi-
s, dos frescose das decoraçõesque faziam parte de Malpaga, exerceuum
papel dominante na vizinha Bérgamo, onde tinha construído a sua capela fune-
rária. Colleoni provinha de uma família da baixa nobreza e fez carreim como
comandante de uma companhia modesta -- uma posição ajustada à suã condição
social -- , mas veio a ser uma das mais importantes figuras da cena política e social
italiana, sempre cercado de reis e de príncipes. Essa circunstância foi claramente
um estímulo para os seusprojectos de mecenatismocultural. De qualquer modo,
a maioria dos condor/feri não atingia essetipo de promoção social e haverá por-
tanto que procurar outros factores que justifiquem o seu mecenatismo.
O estilo de vida dos rondo/rierí, o perigo de uma morte inesperada, as ocasiões
de violência e de extorsão podem ter contribuído para uma atitude particular em
relação à Igreja. O risco de se exagerar ao considerar estas características como
específicasda vida militar, ou melhor, como fazendo parte dela, deve ser tido sem-
pre em conta. Todavia, na ltália do século xv, os co/zdo//feri iam mais frequente-
mente ao encontro da morte ou de uma doença imprevistas do que muitos outros ;
tinham mais oportunidades para revelar um comportamento não cristão perante
os seus próprios .homens. O número infinito de capelas construídas pelos conde/.
rierí nas igrejas italianas testemunha uma necessidadeparticular desseshomens.
quer da mediação da Igreja, quer do perdão divino. São poucos os co/zdof/fe» de
que nos ficaram significativas informações não associadasa um projecto de mece-
natismo religioso. Do Templo quasepagão de Sigismondo Malatesta, em Rinlini,
às tradicionais doaçõeslegadasem testamento por Antonio da Marsciano a vinte
e cinco pequenasigrejas úmbrias, aos conde/roer/ofereciam-sevárias opções,
desdesatisfazerem o seu desejo de beneficiar a Igreja até à perpetuação da sua
memória nos portais das igrejas.

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56
Michelloti e Tartaglia como a guerra que então se travava. Isso não sucedia ape-
nas porque alguns serviam agora a França e a Espanha, mas também porque os
Estados que os tinham contratado, os Estados italianos ou de além-Alpes, tinham
mudado bastante profundamente e nos exércitos por eles comandados tinha
finalmente começado a verificar-se um domínio da infantaria. Nessas circunstân-
cias, era natural que Maquiavel visse como ponto de chegada um exército nacio-
nal em que uma massa de cidadãos relativamente não adestrada pudesse ter um
papel. Exagerouao especificar o grau de separaçãoentre os soldados e as socie-
dades que eles serviam, mas teve o mérito importante de destacar um problema
tão real como a unidade e a coerência do Estado. Todavia, a solução imediata
não era uma milícia nacional, mas um exércitoprofissional controlado pelo
Estado e constituído cada vez mais por voluntários, ou mais tarde, finalmente,
por elementos recrutados entre a população do Estado. Nesta fase de transição na
forma de fazer a guerra da Europa moderna estavamjá presentesos conde//feri,
como escreviaMaquiavel. Até que ponto os rondo//feri já faziam parte, em finais
do séculoxv, de um sistemade exércitospermanentesera muito menosclaro
para um florentino como Maquiavel porque, sob esteponto de vista, Florença
tinha conhecido uma continuidade e uma estabilidade maiores do que os outros
Estadositalianos. Esta é uma das razõespelasquais as diatribes do secretárioflo-
rentino devemser consideradascom uma certa cautela e a história dos conde/roer/
deve ser reescrita.

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CAPITULOlll
O(:ARDEAL
por MassimoFirpo
lo Em 1510,áno em que os Portuguesesse apoderavam da longínqua Goa, e
ano da morte de Botticelli e de Giorgione, enquanto,em ltália, Júlio ll contra-
tava mercenários suíços, submetia Modena, declarava guerra a Ferrara e combatia
com o rei de França, era publicado um livro de grande sobriedade clássica intitu-
lado Z)ecardo/za/aíue dedicado ao pontífice reinante. O autor, Paolo Cortesã,
falecido pouCOantes, tinha-o concebido e escrito na tranquilidade da sua casa,
perto de San Gimignano, para onde se retirara em 1503, por ocasião da morte de
Alexandre VI, passados mais de vinte anos como scrlp/or e depois como secretá-
rio apostólico junto da cúria pontifícia, durante os quais pudera adquirir a expe-
riência que Ihe permitia abordar tal assunto, servindo-se da sua recordação vivida
de homens e de coisas. Não é possível reproduzir aqui adequadamente o retrato
do;príncipe ideal da Igreja desenhadopor"Cortesi nos três livros:da sua.obra
(E//zfczlsef con/e/np/ar/vus, peco/zomicz/s e Po/í/icz/s), que marcavam igualmente
o ritmo da vida cardinalícia,caracterizadapor seriedadereligiosa,rigor moral e
empenho de governo, público e privado, na severa consciência de uma altíssima
dignidade e dos muitos e árduos deveresque ela comportava, consubstanciados
nas vestespurpúreas, símbolo do empenho na defesada fé usque ad (:#üsfo/zem
sa/zgz/f/z&.
O que devesublinhar-se,todavia, é o facto de o livro, publicado no
mesmo ano que a /nsfífur/o c/zrisr/a/zfpr//zcilpfs, de Erasmo de Roterdão, e pouco
antesda redacçãodo grandelivro de Maquiavel,nasceraoriginariamentecom a
intenção de tratar Z)e pr//zcfpe, objectivo que Cortesã acabou por deixar de parte,
impressionado com a eminente alteração das coisas na tumultuosa época em que
Ihe couberaviver. O centro da vida política e cultural italiana não eram os frágeis
Estados, grandes ou pequenos, abalados por crises profundas, entregues apenas
às manhas da diplomacia e ao <<benefíciodo tempo>>,vacilantes em relação às
grandes monarquias europeias, que tinham a península por cenário, mas a Igreja
de Romã, guiada por pontífices capazes de usar, sem qualquer preconceito, tanto
infantes e cavaleiros como interditos e excomungados, confirmando a validade
universalda regrade Guicciardini, segundoa qual <<não
se pode manter Estados
segundo a consciência>>.Uma Igreja capaz de atrair energias, de oferecer possibi-
lidades de acção e de carreira, de fornecer canais de promoção social ao talento
e à ambição. O mesmoGuicciardini, o leigo inflexível que não poupou invectivas
e rancor desdenhosoàqueles<<celeradospadres>> que o seu <<particular>>
Ihe impu-
sera servir, na juventude pensarafazer-seclérigo, <<nãopara mandriar com as
enormesreceitas-- escreverá-- como faz a maioria dos outros padres, mas por-
que me parecia que, sendo eu jovem e com algumas letras seria um fundamento
para me tornar grande na Igreja e poder esperarvir a ser um cardeal>>.
Por isso,
como Carlo Dionisotti nos explicou em;.páginasde extraordináriasubtileza,
Z)e cardlna/a/z/ e não -De Prf/zcipe foi a obra de Paolo Cortesi.

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11

11

lll llil

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11!

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criado, três anos mais tarde, Castellesi oferece um retrato completo do cardeal
renascentista,das suas contradições e, no fundo, do seu próprio mito.
Aliás, aquele <<homemcarnal>>que -- segundo a convincente definição de um
dos seus contemporâneos -- foi Alexandre VI, tinha nomeado cardeal um dos
seus numerosos filhos ilegítimos, o famigerado duque Valentino, e mais outros
cinco, entre sobrinhos, primos e descendentes,e tinha enchido o sacro colégio de
personagens capazes de;3comprar o galeão com dinheiro sonante, de homens de
acção capazesde apoiar a desenfreadaambição de ascensãoda família e os vastos
desígnios de um pontífice, que não podia decerto considerar-se satisfeito -- como
porém afirmava, em Agosto de 1493 -- por <(gozar o papado em paz e sossego>>.
Vale a pena recordar alguns dessescardeais, que formavam um sacro colégio de
dimensões inauditas em relação ao passado: quarenta e três foram os cardeais do
papa Bórgia, quando em teoria não deveriamultrapassar os vinte e quatro, vinte
e seis (embora, dentro em breve, Cortesãconsiderasseadequado um p/e/zum de
quarenta membros). Alexandre Farnese, por exemplo, foi decerto um homem res-
peitável, mas não há dúvida de que a relação não exemplarmentecasta que uniu
o pontífice espanhol a sua irmã Júlia (<<sponsa
Christi>>,segundo uma blasfémia
muito popular, <<concubina papae>>,como a definiu sem hesitar o diarista da
cúria) foi importante para a sua nomeação; lppolito d'Este, também ele nomeado
cardeal em 1493, com catorze anos, será capaz de mandar arrancar os olhos a seu
irmão por ter sido preterido por uma mulher por quem se apaixonara; o seu ilus-
tre primo, Luís de Aragão, nomeado cardeal aos vinte anos, em 1494, dois anos
depoisde ter ficado viúvo de uma sobrinha de InocêncioVlll, era um príncipe
requintado, amante da música e da caça, da boa mesa e das belas mulheres, dos
cavalos:e do Carnaval,$que aproveitava para se mascarar (provavelmentef:de
muçulmano) :e divertir-se a <<burlar prati>>; Giuliano Cesarini, descendente de
uma família de prelados recentemente aparentados com os Bórgias, é recordado
por Marin Sanudo como um <(jovemde pouca reputação>>;Amanieu d'Albret,
irmão do rei de Navarra, podia apresentarem seu favor o facto de se ter tornado
cunhado do duque Valentino um ano antes da sua ascensãoao cardinalato, que
não pareceuporém induza-lo a alterar o seutipo de vida, não propriamente ínte-
gro; no momento da sua nomeação, o enérgico Francisco Remolins, <<homem de
engenho, da raça do papa Alexandre>>,como seria caracterizado, em 1517, pelo
embaixador veneziano, parece que seria casado com uma mulher oportunamente
encerrada num mosteiro : já inquisidor de Savonarola, com ou sem razão, foi con-
siderado um <(dospiores e mais cruéis e celerados homens que junto de Sua San-
tidade habitava>>,a ponto de ter de fugir para Nápoles após a queda dos Bórgia;
segundo boatos que então correram em Romã, Giovan Battista Ferrari teria sido
mandado envenenar em 1502pelo papa, com a intenção de se apoderar da grande
fortuna que este soubera<<cupidissimamente>> acumular na sua qualidade de
datário; já não falando, por fim, do próprio CésarBórgia, pronto a renunciarao
cardinalato em 1498, quando a outros locais o chamaram as suas ambições e
quando a única preocupação do papa, como se escreviaem Venezaem Fevereiro
desseano, era <<darposição aos seusfilhos>>.Na realidade, os nomes de muitos
destes cardeais revelam apenas a oscilação do pêndulo político entre a França e a
Espanha, ou a necessidadede receitas dos cofres pontifícios para o financiamento
das empresas de Vâlentino na Romagna: a chegada de Carlos Vlll a Romã, por
exemplo, foi assinalada pela nomeação de dois franceses em Janeiro de 1495, a que
se seguiu, pouco mais de um ano depois, quando o vento da diplomacia papal
sopravanoutra direcção,.a de quatro espanhóis;e cerca de 130000 ducados,

63
IH
B

segundo parece, foi o lucro da grande fornada cardinalícia decretada em Setem-


bro de 1500 por um papa que, como escreveu Sigismondo de Conti, <<pecuniae

.! l a uns manda para o


À vista de todos (o dentre) algum traidor,
11
1 exílio,a outros para as o preço dos melões, das
e ninguém se queixa o direito reside nas armas
roscas e da água. á não se mexem
e nessestraidores, e por aí tem constante-
paraextirpar mais, desde as avé-
mente o seu manifestamente de todo
-manas até à uma hora, são ievaaasao raiar-v,
Palácio se fez prostíbulo de todas as imundícies.

lL

64
em Março de 1511sobressaíampersonagenscomo Matthaeus Schinner, o suíço
capaz de salvar o papa com os invencíveis quadrados de infantaria dos seus com-
patriotas, ou Mattheus Lang, o <<audaz,altivo e duro>>conselheiro imperial, <(de
nascimento humilde e por virtude soberano>>, conhecido como grande <<devora-
dor de prebendas>>,
que Giovio considerará<(maisdigno de ser incluído entre os
excelentíssimoscapitães de guerra do que entre os cardeais>>.E certo que o sacro
colégio também albergava personagens diferentes, homens cultos como Oliviero
Carafa, unanimemente considerado pelos seus contemporâneos como <<guia
exemplar do cardinalato>>, na opinião de Sanudo, ou Giovanni Antonio Sangior-
gio, o <(jurisconsultodo príncipe>>,ou Domenico Grimani, enquanto outros eram
apenas descendentesde poderosas famílias aristocráticas. Havia no entanto pou-
cos, e mesmo muito poucos, homens dotados de uma certa consciência religiosa,
como Francisco Jiménez de Cisneros, regente de Espanha durante a ausência de
Carlos V, mas também teólogo místico de grande envergadurae rigoroso refor-
mador da ordem franciscanaa que pertencia,fundador da universidadehuma-
nista de Alcalá de Henarese promotor dessemonumento da filologia renascen-
tista que foi a Bíblia poliglota complutense.
Convém, todavia, sublinhar que nada disto parecia provocar particular escân-
dalo,,,desde o momentouem que a consciência comum se revelava substancial-
mente alheia a uma nítida separaçãoentre!.clérigose leigos e à imagem austera
e contrita da vida religiosa,que só na épocacontra-reformistaviriam a afirmar-
-se, até tornarem completamente impensáveiscomportamentos, que eram consi-
deradosnormais no início do século, como a participação dos cardeaisem festas
carnavalescas, bailes.de máscaras, jogos e brincadeiras de todosjos géneros.
O mesmo se pode dizer dos hábitos sexuaisnão propriamente irrepreensíveisde
numerosos cardeais dessesdecénios, muitas;vezes rodeados por uma prole mais
ou menos numerosa, mas quase sempre devidamente legitimada e mesmo dotada
de alguns bons rendimentos eclesiásticos. Pense-senos muitos e irrequietos filhos
que o cardeal Rodrigo Bórgia tinha tido da célebreVannoza e que condicionaram
depois a sua política papal, tal como a de Inocêncio Vlll Cabotinha sido condi-
cionadapela necessidade
de casar adequadamente
o filho, Franceschetto(de tal
forma que por ocasião da sua morte expressou o desejo de que se <<arruinasse
Cristo e Santa Mana com toda a corte do céu, já queljestouarruinado>>).doutro
futuro papa, AlessandroFarnese,feito cardealem 1493,com vinte e cinco anos,
terá pelo menos quatro filhos, um dos quais virá depois a ser o primeiro duque
de Parma e Piacenza. E outros tantos terá o cardeal Innocenzo Cabo, <<dedicado
aos prazeresmundanos e a alguma lascívia>>,segundo o embaixador veneziano
em 1533,tal como o notabilíssimo Ercole Gonzaga, que morrerá em Trento como
presidente da última convocatóriaüdo concílio,!em Março de 1563. Acerca de
Marco Vigeri, o fiel colaboradorde Júlio ll e por elenomeadocardealem 1505,
escrever-se-áque era <<homemmuito dedicado à sensualidadee à carne que, tendo
publicamente uma mulher por conta, deixou dela alguns filhos depois de mor-
rer>>.Um diarista pontifício podia tranquilamente anotar, em Julho de 1506,que
a morte de outro membro do sacro colégioldevia atribuir-se sem sombra de
dúvida aos seus desregramentos eróticos, <<exnimio, ut dicunt, coitu)>. O mesmo
disse Garimberti de um sobrinho de Leão X, o cardeal Luigi de Rossi, na sua opi-
nião [evado precocemente ao túmu]o pe]a <<imora] [...] infame e licenciosa vida
que foi a sun>. E em 1549,tambémessefamigeradopatife que foi o cardeal
Benedetto Accolti morreu de uma apoplexia provocada, segundo os médicos, pelo
<<constantee extraordinário uso das bebidas que fez durante muitos anos>>,pelas
<<muitas orgias e mulheres, e na noite em que morreu tinha uma com ele>>.

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66
início à construção da Romã renascentista, a partir da Basílica de S. Pedro, ofere-
cendo cargos e espaço projectual aos maiores artistas do seu tempo e chamando
à corte papal <<todosos homenseruditos do mundos, de Braccionea Valia, de
Manetti a Decembrio, de Aurispa a Vespasianoda Bisticci, que quis depois exal-
tar a sua grande liberalidade, o seu <(divinoengenho>>
e o seu<<conhecimento
uni-
versalde todasi;ascoisas>>.Foi ele quem nomeou Nicolau de Cuja para o sacro
colégio, enquanto ao seu tão diferente sucessor,Calisto 111,todo imerso nos seus
sonhos de cruzada e nas suas desmedidas ambições nepotiscas, caberia elevar ao
cardinalato Enea Silvio Piccolomini, que, menos de dois anos mais tarde, em
Agosto de 1458, com o*mome de&Pio 11, receberia a tiara.
Destino extraordinário e único foi o de Piccolomini, que conseguiu fazer car-
reira apesarda pobrezada sua família, com o seutalento e estudo,a sua sólida
competência de jurista discípulo de Mariano Sozzini e o seu prestígio de huma-
nista formado no latim dos clássicos, capaz de escrever versos eróticos, discursos
políticos, comédiaslicenciosas, tratados pedagógicose doutrinais, obras históri-
cas e geográficas, e de pâr o seu saber e a sua eloquência ao serviço de um invul-
gar talento diplomático. Ambição e inteligência, falta de escrúpulose cultura,
habilidade e também sorte, vasta experiênciados homens e das coisas foram as
armas de que se serviu para se tornar secretáriode bispos e cardeais,para ser
celebrado como poeta (.4eneas Sp/véus.f)oe/afoi durante algum tempo a sua assi-
natura), para passar da chancelaria do Concílio de Basileia para a do antipapa
Filipe V. e da chancelaria do imperador para a do pontífice, até à cátedra episco-
pal de Trieste e depois de Siena, e à nomeação para cardeal, conseguindo fazer
esquecernão tanto a sua notória sensibilidadeao fascínio feminino como o seu
empenho prático e teórico em defesado conciliarismo e obras como .Devenera/&
co/zci//l az/f/zorí/a/e, cujas teses não recuará desmentir em .De gesffs .Bas//fensfs
cona/fi. <<Aeneamreiicite, Pium recipite>>,costumará dizer futuramente o pontí-
fice que investirá todas as suas energiasno grandiososonho de uma cruzada
europeia contra o alastramento do poderio otomano. Foi ele quem nomeou car-
deais o erudito Giacomo Ammannati e frei Alessandro Ogiva da Sasoferrato, que
ascendeupor talento e saber ao cargo de geral dos agostinhos, <(pauperemmona-
chum, angustae cellae cultorem>>,como o definiu o próprio Pio ll nos Commen-
rarfí, onde com palavras de intensa dor quis recordar a morte desse<(ingenssacra
colleggi decus>>.
Também Francesco Della Rovere, o confessor de Bessarione, o geral dos fran-
ciscanosque se tornou cardeal em 1467e foi depois$eleitopapa em 1471com o
nome de Sinto IV, ficou a deverà sua fama de pregador, de teólogo escolástico,
de professor ilustre nas.mais prestigiosas cátedras da península, de austero e efi-
ciente organizador, uma auspiciosa carreira eclesiástica, que das modestas origens
familiareso faria ascenderao cume de um poder que o seu irreprimível nepo-
tismo e o dilúvio de prebendase benefícioscom que quis inundar a sua família
tentarão transmitir aos seus herdeiros. <<Aessa eleição seguia-se quase a ruína da
Igreja de Deuo>, escreveráVespasianoda Bisticci. Alguns anos mais tarde, os
Della Roveresuplantarãoos Montefeltro no ducado de Urbinoi: tendo Sisto IV
nomeado para o sacro colégio quatro membros da sua família(para além dos
sobrinhos Raffaele Sansoni-Riario, com dezasseteanos apenas, e Pietro Riario,
também muito jovem), um dos quais viria depois a ser o papa Júlio 11.Foram
trinta e quatro os cardeaispor ele nomeados,número superior às nomeaçõesfei-
tas pelos seustrês antecessores.E foi durante o seu pontificado que o sacro colé-
gio sofreu uma mudança nítida, no sentido de uma acentuada mundanização e de

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para Romã, em 1482, foi absolvido e reintegrado em todos os seuscargos, recupe-
rou privilégios, rendas e benefícios, e soube encontrar na corte vaticana novos
espaços de acção e um renovado poder. Enviado para a sua pátria na qualidade
de legado pontifício, em 1483, por ocasião da sucessãode Carlos Vlll, regressou
a Romã dois anos mais tarde carregado de honrarias, riquezas e favores, na quali-
dade de embaixador francês junto da Santa Sé, onde continuará a desempenhar
um papel político de primeiro plano até à sua morte, em Outubro de 1491,<<puri-
ficando finalmente o colégios, como escreveráGarimberti, pronto a denunciar a
cada instante <<apéssima e fraudulenta [...] natureza>>de Ba]ue, <<umaverdadeira
fera>>.Uma experiência excepcional, naturalmente, mas também um caso exem-
plar para se compreenderos mecanismosde uma carreira totalmente devida à
astúcia política e à confiança do soberano, substancialmente extrínseca ao domí-
nio eclesiástico.
Na mesma época, houve outros ministros do rei de trança que, embora não
apresentem a mesma rudeza de Balue, tiveram sortes análogas, como, por exem-
plo, o borgonhês Jean Jouffroy, que Pio TI teve de nomear contra vontade para
o sacro colégio, em 1461,devido ao facto de nele parecer residir toda a <<auctori-
tas Gallicae nationis>>.Foi terrível a opinião por ele pronunciada acercadesta per-
sonagem, a quem reconhecia engenho e cultura, mas cuja avidez, ambição <<etin
mone vitium prolapsi mores>>denunciou veementemente. Monge beneditino,
abade de Luxeuíl e depois bispo de Arras, provido de numerosos e ricos benefí-
cios eclesiásticos,üJouffroyconseguiu fazer carreira sobretudo graçasà sua cul-
tura jurídica, ao seu subtil talento diplomático e aos favoresde Luís XI. Embora
nuncafquisesse envergar as vestes cardinalícias, preferindo-lhes o saio da sua
ordem, e embora o ódio do papa Piccolomini e do cardeal Ammannati acabasse
por transmitir dele uma imagem totalmente negativa, vale a pena assinalar uma
prédica pública por ele pronunciada em Paris, em 1468,em que definiu o cardi-
nalato como a máxima <<fontem[...] g]oriae>>e <<segetem honoris>>,que compro-
metia os que a ele ascendessema seremdignos e a não se pouparem a esforços
ou evitaremo perigo <(profedeatque sedeRomann>.Não muito diferente,por
fim, foi a vida de Jean de Bilhares-Lagraulas, filho mais novo de uma família da
pequena nobreza da Gasconha e por isso destinado à carreira eclesiástica, homem
de confiança de Luís XI e depois de Carlos Vlll em delicados cargose missões,
bispo de Lombésem ]473, sucessorde Jouffroy no ano seguintecomo abadeda
rica abadia de Saint-Denis, embaixador do rei cristianíssimo em Espanha, na
Germânia e em Romã, onde Alexandre VI o nomeou:cardeal, emr1493. Favore-
cido com uma sérieimpressionantede benefícioseclesiásticosmas sem se preo-
cupar minimamente com a sua direcção espiritual, morreu em Romã, seis anos
mais tarde, pouco depois de ter encomendadoa célebrePfe/ã a Miguel Ângelo.
Observemosagora os dois cardeaisvenezianos,Domenico Grimani e Marco
Cornaro, nomeadospe]o papa Bórgia em ]493 e em 1500,respectivamente,perso-
nagensmuito diferentes entre si e divididos por uma franca antipatia. Se Marco
Cornaro era um homem medíocre e até mesquinho, Domenico Grimani era um
homem muito culto, reputado como <mmais douto de ltália em todas as escritu-
ras, moderado, de dignos costumes e venerandos, como referia em 1517o embai-
xador da SereníssimaRepública de Veneza,grande coleccionador de livros, qua-
dros, antiguidades, objectos preciosos, admirador e correspondentede Erasmo,
que Ihe dedicou aNsuaparáfrase da epístola de S. Paulo aos Romanos, e por
várias vezesprestes a usar a tiara. No entanto, ambos tinham ascendido ao cardi=
nalato em virtude dos milhares de escudos desembolsadospelas suas ricas famílias

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HI

11 naqueles anos aos seus negligentes pastores florentinos.

70

R
com o nome de Alexandre VI, que a legou a seu filho César,o qual, renunciando
em 1498ao cardinalato, a transmitiu a outro cardealda casa Bórgia, Giovanni,
que morreu poucos mesesmais tarde, tendo a diocese passadopor fim para seu
irmão Pier Luigi, que em 1500 foi igualmente nomeado cardeal;
A situação não se alterou substancialmente no século seguinte, quando a pró-
pria reforma tridentina pareceráde facto passarcomo uma leve.e acariciadora
brisa sobre o uso e abuso da acumulaçãodos benefícios e sobreo tráfico dos ren-
dimentos eclesiásticos,cujo montante global usufruído pelos expoentesdo sacro
colégio sofreu mesmoum aumento (que, em 1571,ultrapassou o milhão de escu-
dos), embora se devater em conta o notável&aumento numérico dos seusmem-
bros e a acentuaçãodas disparidades nas suasfortunas. Entre 1530e 1562foram
mais de vinte e cinco as abadias atribuídas por comenda, em vários momentos,
ao poderoso cardeal de aournon, enquanto em 1524 Agostino Trivulzio adminis-
trava ao mesmo tempo as diocesesde Le Puy, Alessano, Toulon e Reggio Cala-
bria, em 1532 Giovanni Salviati$!administravaêasfide Ferrara, Biteto, Volterra,
Teano e Santa Severina, em 1534 Domenicoüde Cupis administrava as de Trani,
Macerata, Recanati, Montepeloso, Adria e Nardõ, e ainda em 15481i-- após os
decretos tridentinos e papais que impediam tal acumulação de bispados -- lppo-
lito d'Este era designadopara as de Autun, Tréguier,.Lyon e Milho. E trata-se
apenas de alguns exemplos entre os muitos que poderiam ser apresentados,
mesmo no que. respeita às pensões sobreÚasrendas do bispado e aos benefícios
menores, que muitas vezes eram às dezenas e que podiam ser alienados, trocados,
cedidos -- com direito de acessoe de recurso e, com especial autorização papal,
podendo dispor deles em testamento -- a parentes e amigos, até à mais completa
confusão entre bens privados e bens eclesiásticos.Uma realidade que contribui
para explicar o progressivo declínio do episcopado entre 1400 e 1500 e que legi-
tima a definição satírica do cardeal como <<arsenal deÊlofícios e de benefícios>>.
Se setiver em conta o facto de que, em finais do séculoxv, em Romã, o rendi-
mento de um artesão atingia as poucas dezenasde ducados por ano, mas que um
embaixador veneziano necessitava pelo menos.::de 200Qjpara poder viver com o
decoro adequado à sua categoria, não surpreendeque já nos acordos eleitorais dos
conclaves de 1471 e 1484 o rendimento mínimo para um cardeal fosse fixado na
soma considerável de 4000 ducados. Mas as receitas efectivas de muitos membros
do sacro colégio ultrapassavam muitas vezesesselimite e, em alguns casos, larga-
mente, atingindo os 20 000 ducados e mais de Giuliano Della Roveree de Marco
Cornaro ou os 30 000 de Ascanio Sforza no pontificado de Alexandre VI. Núme-
ros aliás aproximados por defeito, e talvez não pequeno, que legitimam o acesso de
cólera do duque de Milão, que em 1465 condenava a gula dos <<chefesdo clero, que
têm uma garganta insaciável>>,e a pungente sátira de Ariosto: <<Semprepercebi e
sempre me foi claro / que dinheiro que lhes baste nunca têm / bispos, cardeais e
pastores supremos>>.E de facto, alguns decénios mais tarde, embora se deva ter em
conta a desvalorizaçãoda moeda durante o séculoxvi, atingiram-se as somas
relatadas num rol de receitas cardinalícias de 1571, isto é, 130000 escudosi$para
Cardos de Guise e somas que variam entre os 60 e 80 000 escudos para os cardeais
de Bourbon e de Portugal, para lppolito d'Este e AlessandroFarnese.Quanto a
este último (o sobrinho homónimo de Paulo lll), «praepotens divitiis et clientelis>>,
como o definirá um colega em 1565,de quem se dirá aquando da sua morte,'em
1589,que poderia dispor de um rendimento de 120 000 escudos,que tornava quase
insignificantes os patrimónios de mais de 200 000 escudosdeixadospouco antes
em herançapelo seu primo Guido Ascanio Sforza de SantaFiou e pelo cardealde

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111
quem, como «cardeal pobre>>,era paga uma pensão.complementar que Gregó-
111

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111
do sacro colégio, e muitas vezesdos mais ricos e poderosos, terem de recorrer em
mais de uma ocasião ao crédito dos banqueiros para suprir às suasexigênciasdei-

EIH:llÊâlÉii:Éh;! ::1:2W!=;='z=ú:;:;:;:::i.:::
tinhamdefazerfrente.mê ©«<} ----'t :.} :*: . w.
Cada palácio cardinalício constituía de facto uma espéciede pequena corte
incipesca, dotada de um papel político próprio na cena romana e internacional,
il onde se apinhava toda uma multidão de amigos: colaboradores, secretários, cria-
dos, cozinheiros, soldados, sicários, a.que amiúde se juntavam músicos, pintores,
bobos astrólogos e uma enorme comitiva de parentese parasitasde toda a espé-
IH
l cie. É evidente que sob este aspecto, as diferenças também eram.notáveis dado
H que, como se referiu, o património global de alguns cardeaiserajnferior ao rendi-
11
mento anual de outros. Na vésperado saquede 1527,por exemplo, as vinte e uma
cortes cardinalícias então existentesem Romã oscilavam entre um mínimo de 45

li lll j l

72

L:
a algumas das quais cabia o ambicionado título de Jamf/iarfs domesffcus e/ co/zff-
nz/as, juridicamente reconhecido com os privilégios e isençõescorrespondentes.
Fossemfidalgos ou artistas, colaboradoresfiéis ou humildesservos,todos esta-
vam abrangidos na definição comum de <<bocas>>,
como então se costumava dizer,
cujo sustento comportava problemas que não eram de desprezar. Mesmo um
<<grandesenhop> como Francesco Sforza, nomeado cardeal quando tinhaapenas
dezasseteanos, teve grandes dificuldades para encontrar em Romã um palácio
onde pudessefixar-se juntamente com o seu séquito, que no momento da che-
gada à cidade ultrapassava já as 80 pessoase compreendia um mordomo, um
auditor, um secretário,um criado pessoal,um notário, um médico,um barbeiro,
vários capelãese camareiros,e também dezenasde criados, palafreneiros e escu-
deiros. A estes vinham ainda juntar-se outros familiares que, por sua vez, podiam
trazer os seus criados.
Semelhante multidão, como é óbvio, exigia amplos espaços de habitação, está-
bulos, armazéns, equipamentose locais de serviço, aprovisionamento regular de
cereais, azeite, vinho, forragem, que representavam umas centenas e até milhares
de ducados por ano, acrescidos dos que eram necessários para o pagamento dos
salários e pensõesvárias, enquanto o aluguer ou a compra de edifícios adequados
em dimensõese representatividadesocial comportavam despesasmuito elevadas.
Pelo menos 1500 ducados mensais era o custo normal da corte de César Bórgia,
que se mostrava portanto capaz de consumir os rendimentos de duas ou três ren-
das;ldoepiscopado. Realisticamenteem .De cardo/za/afu,Cortesi defenderaque a
corte de um cardeal não podia contar com menos de 140 membros e que as despe-
sas correntes não podiam cifrar-se em menos de 12 000 ducados por ano. E, de
facto, por volta de 1540, alami7fa de Niccolõ Ridolfi custava cerca de 6500 escu-
dos e a de Giovanni Salviati 10/11 000, enquanto, alguns anos mais tarde, a corte
de Alessandro Farnese chegavamesmo a custar 30 000 (cerca de 18 000 para o
aprovisionamento). Para não falar das verdadeiras montanhas de ouro que podia
exigir a construção de uma daquelas esplêndidas moradias cardinalícias, que
ainda hoje se podem admirar, do bramantescopalácio de Rafael Riario ao palá-
cio Veneza, do palácio Médias (actualmente Madama) ao palácio Farnese, a que
se juntavam muitas vezesos jardins para veraneio sobre as colinas e as luxuosas
vivendas suburbanas, segundo um costume que perduraria no futuro : a villa Giu-
lia, os jardins farnesianos,a villa Borghese,a villa Pamphili, etc. O cardealBer-
nardo Salviati,apor exemplo, que nos anos sessentado séculoxvl usufruía de
uma série de rendimentos avaliados em cerca de 20 000 escudose mantinha uma
corte de cerca de 100 pessoas(o que não a incluía, portanto, no número das
maiores e mais sumptuosasdo seutempo), que não Ihe custavamenos de 5/6000
escudos,gastou mais de 40 000 para edificar o seu palácio na Lungara. Uma
insignificância, aliás, em relação aos quase 250 000 escudos consumidos na cons-
trução do palácio Farneseaté 1549,ou ao património gasto por lppolito d'Este
na sua magnífica casa do Tivoli, com os seus famosos jardins, as suas fontes, os
seusmaravilhososjogos de água, em cujos trabalhos foram utilizados cinquenta
escravosturcos que se viu obrigado a comprar. E claro que nem todos os cardeais
podiam dar-se ao luxo de semelhantesmoradias, mas no início do século a aquisi-
ção de um edifício adequadolcustava sempre alguns milhares de ducados. A isso
vinham juntar-se os quadros,tos frescos, as esculturas, os móveis luxuosos para
decorar essespalácios, os túmulos grandiosos, que dariam aos vindouros uma
imagem solene e imorredoura dos seus antepassados,o restauro de antigos edifí-
cios e a construção de novas igrejas, muitas vezescom o nome altissonante de

73
este aspecto,não há dúvida de que a esplêndida Romã renascentista,ponto.de
encontro dos maiores artistas da época, não seria sequer concebível sem as gran-
des encomendas eclesiásticase as inesgotáveis capacidades de despesadas cortes
papais e cardinalícias, que constituíram uma das suas premissassociais mais sig-
nificativas. . {! }ü) fj i"#í . ..
Outros custos enormeseram impostos aos cardeaispelas frequentesdesloca-

a longa viagem empreendida pelo cardeal de.Aragão entre a Germânia, a Flan-


dres e a França não custou menos de 15 000 ducados, uma parte gasta com a
manutenção do séquito (embora extremamente reduzido) de umas quarenta.pes-
soas e outra parte coú ~aaquisiçãode objectos,instrumentosmusicais,galgos,
dezenas de cavalos e centenas de cães de caça: uma despesa.extraordinária, que
consumiria uma boa parte dos 24 000 ducadosde receitaque Ihe eram então atri-
buídos, e que também se destinavaa satisfazero seu gosto pelo.novo e pelo pito-
resco, pelos monumentos, as obras de arte e a cultura, sem receio de se endividar
de forma catastrófica e tendo em atenção o esplendor adequado à sua categoria

que, em 1471,despiu o saio franciscano para endossara capa cardimalíciae que,

HW.Fg.,'S=ã,HI'i:=:HIL:H3'::;::Uagd::
l f:
banquetes sumptuosos : <(Sea morte não interrompesse a violenta torrente dos
seus enormes desejos -- dir-se-á L, cedo esgotaria os tesouros da Igreja.)> Um
fausto principesco que, para além da exacerbadaostentaçãoda fortuna pessoal,
e de
possui também um significado político, constituindo um cenário de parada
corte, uma (demonstraçãode força e de riqueza expressanão só em função dos
desígnios de grandeza pessoal e'familiar do cardeal sobrinho, mas também da
dignidade da Igreja e da sua triunfal exaltação.Além disso, o mecenatismoartís-
tico e cultural,'o financiamento de instituições religiosas e caritativas, por vezes
o jogo(em que alguns cardeais não receavam.perder alguns milhares de ducados
por noites, o desejo de coleccionar objectos de arte, jóias e tecidos preciosos, o
dever de satisfazer um ávido séquito de parentes, cortesãos?uma clientela esfo-
meada de prebendas, de favores, e sobretudo de ofícios curiais e de rendas benefi-
ciárias, tudo isso -- até às loucuras de algum cardeal sobrinho megalómano --
confluía üum estilo de vida principesco, que era consideradocomo exigência
social iniludível, feito também de emulação mobiliária, de empenho em testemu-
nhar exteriormenteo peso de uma influência particular, uma <<reputação>>
pessoal
e familiar, a supremadignidade da função que sedesempenhava,com.toda.a sim-
bologia do poder e da grandezaque isso comportava.Daí, como é óbvio, um
regime de despesas elevadíssimo, 'totalmente desproporcionado e'n relação. as
modestas receitas concistoriais e aos direitos de recepção de benefícios que
cabiam aós cardeais, e por isso insustentável se não fosse suportado pelo seu

74
património pessoal, mantido em certos casos pelas pensões (não decerto desinte-
ressadas)dos príncipes e soberanosestrangeiros,pelos rendimentos dos poucos
cargos cardinalícios ricamente retribuídos (sobretudo o de vice-chanceler, peni-
tencieiro e camerlengo), e sobretudo pela incessantecorrida ao açambarcamento
dos benefícios eclesiásticosa que anteriormente se aludiu.
Uma confirmação indirecta de semelhanterealidade pode ser extraída dos
projectos de reforma que, tal como no passado, se foram sucedendoneste
período, embora nunca fossem postos em prática, e que testemunhavam,pelo
menos, a consciência de um problema evidente, da sua crescente gravidade e da
necessidade de o resolver. De facto, já no Concílio de Constança soara a denúncia
dos infinitos males da Igreja, das muitas pragas de que o seu corpoSsofria
í/z cap//ee //z memZ)rü,denúnciaque voltou pontualmentea fazer-seouvir e a
investir, referindo que um dos pontos mais doentes era precisamenteum sacro
colégio inadequado às altíssimas funções que Ihe competiam. Pio ll elaborou um
projecto de reforma da cúria em que, entre outras coisas, se prescreviaque, no
momento da sua entrada em vigor, os cardeaisexistentesnão poderiam ter uma
corte de mais de 60 pessoas,e todos os que futuramente viessem a ser nomeados,
para os quais se estabeleciatambém um limite máximo de rendimentos beneficiá-
rios no montante de 4000 florins, não podiam contar com mais de 40 pessoas.
Proibia-se igualmente a participação dos cardeais em caçadase em festins com
músicas profanas, e limitava-se o número de cavalos de que podiam dispor, já
que, em ocasiões solenes,"muitos costumavam apresentar-se no palácio com um
séquito de dezenas de cavaleiros. O próprio Alexandre VI, no breve e logo des-
mentido período de empenho religioso que pareceu suceder ao rude golpe que
sofreu com o misterioso assassíniodo seu filho predilecto, o duque de Gandia,
nas ruas de Romã, em 1497,decidiu criar uma comissãoencarregadade lançar as
basesde <<umasantareforma da lgrejn>, comissãoessaque trabalhou com base
num projecto já discutido no tempo de SintoIV. A bula de reforma, que natural-
mente se ficou pela intenção, previa severasdisposições destinadas a impedir uma
vida excessivamentemundana, o jogo, as caçadas,os torneios, os banquetes, os
teatros, as festas carnavalescas, proibindo a acumulação de bispados,nprescre-
vendo a obrigação de residir perto da cúria e estabelecendo limites,;às receitas
beneficiárias (6000 ducados), às despesasde representaçãoe às dimensões das
famílias cardinalícias, que não podiam ir além de 80 pessoas,e tinham de incluir
uma elevada percentagem de eclesiásticose excluir jograis, cantores, saltimbancos
e outras pessoas do género. Essencialmente análogas, e igualmente não postas em
prática, serão depois as prementesexortaçõesa uma reforma, cada vez mais ina-
diável, que ecoaram nos anos seguintes,sobretudo por ocasião do Concílio de
Latrão ( 1512-17),como, por exemplo,no Z,ÍZ)e//us ad l,eo/zem.X (1513),obra dos
severospatrícios venezianosVincenzo Quirini e Tommaso Giustiniani, que suge-
riam a interdição de qualquer benefício eclesiásticoaos cardeais(que deveriam
ser sustentados por um cofre pontifício próprio), ou na bula de 5 de Maionde
1514que, através de uma série de minuciosas disposições (que permaneceram
letra morta), recomendaraaos cardeaisque vivam <<sobrie,casteet pie>>e que se
ocupem com pastoral solicitude das igrejas e abadias entreguesao seu governo.
Por conseguinte,durante este período, e juntamente com os apelos reforma-
dores,asipolémicas e as invectivas contra a corrupção da Igreja, a ignorância, a
cobiça e a indolência do clero, e a degeneraçãoda cúria foram-se sucedendoininter-
ruptamente: por parte de um Savonarola, como já se referiu, que incansavelmente

75
lução dos seusconflitos.

76
\
\

É nesta situação de fundo, a que só nos é posjiível aludir sumariamente, que


os pontífices e os prelados que os rodeiam assumamalgumas das características
que tentámos delinear. No sacro colégio os cardeais estrangeiros, cujo número se
vai reduzindo progressivamente,são quaseexclusivamentefrancesese espanhóis,
o que testemunha o conflito político existente entre as duas grandes potências
pelo domínio da ltália, que vê o papado directamenteenvolvido e obrigado a
oscilar entre uma aliança e outra. Cada vez com mais frequência, de resto, esses
cardeaisnão vivem em Romã, mas nas cortes dos seus soberanos,desempe-
nhando em muitos casos-- sobretudo, em França -- funções de poderosos minis-
tros da coroa. Já se falou de personagenscomo Jean Balue e Jean Jouffroy, mas
vale a pena recordar outros, como Guillaume Briçonnet, <<súmulaldetodo o
governo>>, segundo Guicciardini, a quem sucederá o omnipotente <<cardeal de
Ruão>>Georgesd'Amboise, de acordo com uma tradição que continuaria a existir
em pleno século xvn com Richelieu e Mazarino. Igualmente influente foi o papel
de personagenscomo Thomas Wolsey,chancelerde Henrique Vlll, de Matthaeus
Lang ao lado de Maximiliano l de Habsburgo, de Francisco Jiménez de Cisneros
e de Adriano de Utreque, em Espanha.A diminuição dos estrangeirosno sacro
colégio e a atenuação da sua função de representantesda Igreja universal nas suas
várias articulações nacionais resultam entre outras coisas da progressivaredução
da sua participação nos conclaves:9 em 18,no de 1458,mas 4 em 26, no de 1484,
e mesmo 2 em 23, no de 1492,aumentando para 14 em 36, no de 1503 (após o
pontificado de Alexandre VI) e baixando depois novamentepara 6 em 25, no de
1513,e para 3 em 39, em 1521,aquando da eleição de Adriano VI, o último papa
não italiano durante mais de quatro séculose meio. Aliás, mesmose vivem em
Romã, os cardeaisestrangeiroscomportam-se mais como embaixadoresdos seus
países,mais em função dos Estadosdo que da Igreja, o que reflecte em certa
medidao ofuscamento
do conceitode c/zrisria/zf/as,
paralelamente
à crisedo
império, ao desenvolvimento das monarquias nacionais, à consolidação do sis-
tema dos Estados italianos e à crescenteimportância do Estado pontifício. Não
é por acaso que o cargo de cardeal protector das <<nações>>
estrangeiras se institu-
cionaliza precisamentea partir de finais do século xv, enquanto os representan-
tes das dinastias já confirmadas no poder da península se vão aproximando do
sacro colégio, que depois ocuparão de uma forma estável. O primeiro Gonzaga
nomeado cardeal será Francesco(146]), a quem se seguirão Sigismondo (1505),
Ercole e Pirro (1527), Francesco (1561), Federico (1563), Gianvincenzo (1578) e
Scipione (1587), enquanto o primeiro Este, lppolito, receberá o chapéu cardinalí-
cio em 1493,seguindo-se-lhe,em 1538,outro lppolito e, em 1561,Luigi. Sinto IV
nomeou cardeal um Sorza e Inocêncio Vlll nomeou Giovani de Médias, que,
como Leão X, conseguirá consolidar o domínio da sua família sobre Florença e
garantir a constante presença de um dos seus membros no sacro colégio, desde
Giulio (1513)a lppolito (1529), de Giovanni(1560) a Ferdinando (1563) e a Ales-
sandro (1583).
Todavia, aquilo que falta ao papado nesta lógica interna e externa de constru-
ção estatal é a própria base do novo poder central que por toda a parte se vai a
custo impondo, ou seja, a continuidade de uma dinastia e de uma monarquia
nacional. De facto, a máxima autoridade religiosa do Ocidente cristão, aquele
que governa Romã e a Igreja, proclamando-sesucessorde Pedro e vigário de
Cristo, sofre de toda a precaridade de um poder electivo, não transmissível here-
ditariamente e em geral, devido à idade muitas vezesavançadado papa, de breve
duração. No decorrer da profunda crise atravessadapela autoridade pontifícia na
77
época dos cismas, isso contribuiu para reforçar o papel político dos cardeais, que
depois entrou em criseljcom a derrota do conciliarisino e a consolidação da
monarquia papal, que o sacro colégio continua porém a desejarcondicionar, con-
trolar e a que por vezesse opõe, como aconteceuainda nos primeiros decéniosdo
séculoxvl com o concíliorebeldede Pisaou a conjuraurdidapor Alfonso
Petrucci contra Leão X. E nesta realidade que se enterram as raízes das próprias
divisões internas do sacro colégio,ique se acentuam no período de sede vazante,
originando verdadeiras facçõescorrespondentes às diversas fidelidades políticas e
aos interessesprivados dos seusmembros, e da sua função de sedede confronto,
conflito e mediação de pressõesparticulares, de ambições pessoais, de exigências
opostas das cortes estrangeiras,prontas a firmar acordos individuais com car-
deais a fim de influírem sobre as orientações da política papal. Mas daí deriva
também o seu comportamento corporativo, opondo-se ao pontífice para limitar
a sua autoridade e para reivindicar riquezas e privilégios para os seus membros,
tentando aproveitar-se do conclave para impor ao futuro papa acordos eleitorais
vinculativos e opondo-se a qualquer tentativa para alargar o senado da Igreja e,
consequentemente,
para diminuir o seuprestígio. Durante todo o séculoxv, as
nomeações cardinalícias têm de ser duramente negociadas pelos pontífices, cujas
exigênciasse defrontam com as do corpo eleitoral que os escolheu.As primeiras
nomeações anunciadas por Pio 11, em 1460, por exemplo, provocaram a severa
oposição do concistório, que conseguiu fazer reduzir drasticamente o número
daquelesque <<cibumnobis auferant>>.
Quem pronunciou estaspalavras,em seu
nome e em nome dos seusconfrades, foi o poderoso cardeal Trevisan que (não
sem provocar o sorriso de alguns <<quihominem norant>>) protestou vivamente
contra a proposta de nomeação de homens de origens modestas,<lquos nolim
-- disse desdenhosamente -- in coquina mihi aut in stabulo famulari>>.
De resto, basta analisar os acordos feitos nos conclavesseguintespara se ver
ressurgir os mesmosproblemas: o apelo para que se tomem medidasem prol da
reformada Igreja, da convocaçãodo conclave,da extinçãoda heresia,da luta
contra o Turco, do restabelecimentoda paz, ressoará,imutável, cada vez mais
ritualmente ligado à muito mais concreta reivindicação de favorese privilégios e
sobretudoda garantia de um rendimento mínimo (que, em 1522,ainda era de
6000 ducados), da promessa de não se proceder a novas nomeações, do empenho
em conceder os benefícios maiores só com o consentimento do concistório e em
ouvir o seu parecer em todas as questõesmais importantes. Todavia, o facto de
tais acordoseleitoraisKnão
teremsido normalmentepostosem prática e de o
número dos cardeaisaumentar continuamente durante todo o período aqui anali-
sado demonstra o esvaziamento progressivo das suas funções senatoriais perante
o reforço da monarquia papal. O que é confirmado também pela derrota defini-
tiva dos defensoresda instituição divina do sacrocolégiocomopais corporls
papal e, portanto, do fz/s dívlnzzm que Ihe competia enquanto corpo colectivo res-
ponsável,juntamente com o pontífice, pelo governo da Igreja. Daí o enfraqueci-
mento da autoridade do concistório, enquanto novos espaçosse abriram à acção
individual dos cardeais em quem os papas quererão depositar de novo a sua con-
fiança. Sob esteponto de vista, é lícito afirmar que o fausto e a riqueza dos car-
deais renascentistas são apenas a outra face da medalha (a compensação, se se
quiser) da perda do seu poder político colegial e do declínio das suas reivindica-
ções oligárquicas e constitucionais na condução da instituição eclesiástica.
Aliás, é sobretudo nesta perspectiva,isto é, pela necessidadevital que os pon-
tífices sentiam de dispor de conselheirose de homens de governo em cujo poder

78
\

pudessem confiar, de colmatar a ausência de um poder hereditário e de iludir a


oposição do sacro colégio, que se explica o nepotismo dos papas renascentistas,
que parecem mesmo dar vida a uma tentativa, embora embrionária, de transmis-
são do trono papal aos seus descendentes.
])e facto, entre 1455e 1534, alter-
naram-se na cadeira de S. Pedro dois Bórgia, dois Piccolomini, dois Della Rovere,
dois Médias (um terceiro será papa durante algumas semanas,em 1605), a que
devetambém acrescentar-se
Eugénio IV Condulmer e Paolo ll Barbo, também
eles ligados por laços estreitos de parentesco. Em 1473, o faustoso cardeal Pietro
Riario, que <<seafirmava ser um segundopontífico>teria mesmoLrecorrido
a
intrigas para substituir seu tio, SismoIV. na cadeira de S. Pedro. Se Valentino não
consegueconstruir o seu Estado em ltália, tal como fracassaráa tentativa dos
Médias para substituíremos Della Rovereno ducado de Urbino, a tiara de
Leão X e de Clemente Vll revelar-se-á todavia decisiva para manter Florença sob
o domínio dos Médias. E é precisamentenos anos do Concílio de Trento que
Paulo 111conseguiráutilizar uma parte dos domínios da$1grejapara fundar o
ducado farnesiano de Parma e Piacenza,que perdurará durante muito tempo na
história de ltália. Em seguida,naturalmente, parentese sobrinhos continuaram a
afluir ao sacrocolégio,a adquirir um papel político cruciallla acumularenormes
fortunas: pense-seem Carlo Borromeo, no tempo de Pio IV. ou em Carlo
Carafa, no tempo do seu antecessor.O caso deste último, juntamente com o do
incorrigível Innocenzo Del Monte, o menino entreguepara adopção por um
irmão e depois, apenas com dezasseteanos, nomeado cardeal por Júlio lll (um
dos cinco parentesentre os vinte cardeaispor ele nomeados),que mais vezesteve
de ser encarcerado e inutilmente entregue a religiosos piedosos para Ihe indicarem
o bom caminho, demonstra como em meados do século continuavam a fazer-se
nomeações escandalosas.Antes de conceder o chapéu cardinalício a essesoldado
violento e blasfemo que era o seu sobrinho,'o papa Carafa terá mesmo de o
absolver com um breve <mb excessibus [...] et quibusvis rapinis, sacri]egiis, funis,
depredationibus, vulnerum illationibus, percussionibus, membrorum mutilationi-
bus, homicidiis et quibuscumqueanis criminibus et delictis, et3forsan praemissis
maioribus per eum tam solum quam cum anis comp]icibus [...] commissis>>. E será
estapersonagemque conduzirá a política romana durante o seupontificado, para
ser condenadoà morte, em 1461,pelos muitos delitos de que se tornara responsá-
vel, enquanto um outro cardeal da casa Carafa, Alfonso, acusado de ter falsificado
uma bula papal, escaparáao castigorenunciandoa todos os ofíciose pagando
100 000 escudos.Mas nem um Del Monte, nem um Carafa, nem nenhum dos
outros futuros cardeais sobrinhos poderá voltar a servir-se dos tesouros, dos exérci-
tos e da autoridade da Igreja para se apoderar de um principado.
Em suma, entre o séculoxiv e o séculoxv, a' Igreja edificou-secomo um
Estado da rica, culta, esplêndida ltália do Renascimento,de que Romã se torna um
dos centros mais fúlgidos e uma das capitais políticas. E os homens que foram cha-
mados a governa-la, os papas como Sinto IV. Alexandre VI, Júlio ll e os podero-
sos personagens por eles distinguidos com a dignidade cardinalícia, que se reúnem
em concistório e em conclave, que governam legações,que repartem entre si bispa-
dos e abadias, correspondem a essa lógica. Era precisamente contra semelhante
situação que se revoltava Guicciardini numa célebrepágina da /7hfórfa de //(í/fa,
ao relataros factosque tinham ocorrido apóso regressodos papasa Romã:

Elevados ao poder terreno, perdida pouco a pouco a memória da salvação das almas
e dos preceitos divinos, .e voltados todos os pensamentospara a grandeza mundana,

79
não usando mais a autoridade espiritual senão como instrumento e ministério da tempo-
ral, começaram a parecer'semais com príncipes secularesdo que com pontífices. Deixa-
ram de se preocupar e de se ocupar com a santidade da vida, o aumento da religião, o zelo
e a caridade para com o próximo, e passaram a preocupar-se com exércitos, com guerras
contra os cristãos, tratando os sacrifícios com pensamentos e mãos cheias de sangue, acu-
mulando tesouros, ditando novas leis, novas artes, novas insídias para receberem dinheiro
de todos os lados; e sem respeito usaram para este fim as armas espirituais e sem vergonha
venderam as coisas sagradas e profanas. As riquezas repartidas por eles e por toda a corte
continuaram as pompas, o luxo e os costumes desonestos,a luxúria e os prazeres abominá-
veis; nenhum cuidado com os sucessores,nenhum pensamento para a majestade perpétua
do pontificado, mas, em seu lugar, desejo ambicioso e pestífero de conceder a filhos, sobri-
nhos e parentes não só riquezas imoderadas mas principados, reinos ; já não distribuem as
dignidades pelos homens beneméritos e virtuosos, vendendo-as quase sempre pelo maior
preço ou desperdiçando-as com pessoas ambiciosas, avaras ou voluptuosas. Por tudo isso
se dissipou totalmente nos corações dos homens o respeito pelo pontífice, conservando-se
pelo menos em parte a autoridade do nome e da majestade, tão poderosa e eficaz, da reli-
gião, muito ajudada pela faculdade que têm de gratificam os príncipes e os outros podero-
sos com dignidades e outras concessõeseclesiásticas.Donde,[...] desde há muito tempo
que a ambição desmedida de elevarem os seusparentes de graus privados a principados foi
muitas vezes o instrumento para suscitar guerras e incêndios novos em ltália.(F. Guicciar-
dini, S/aria d'/fa/ia, sob alidirecção de S. Seidel Menchi, Einaudi, Torino 1971,
PP. 427-428.)

Na realidade,para lá da indignaçãomoral de Guicciardini(destinada,de


resto, a perdurar com sucessona historiografia), o reforço das monarquias nacio-
nais e as concordatas quatrocentistas tinham entregue o controlo de uma grande
parte do sistema beneficiário aos soberanos e príncipes europeus, prontos a
servir-se dele param:dotaremamigos e colaboradores, obtendo assim, indirecta-
mente, consideráveis recursos financeiros para imporem o controlo estatal sobre
a Igreja. Não podendo considerar a Europa cristã como uma espéciede inesgotá-
vel fonte de dinheiro a que se vai beber sem escrúpulos mediante décimas, cruza-
das, indulgências, anuidades, os pontífices viram-se, por vezes, obrigados a nego-
ciar politicamente tais formas de rendimento, a compensara sua diminuição com
o papel acrescidodos tribunais centrais da cúria na conciliação dos contenciosos
de natureza eclesiástica e sobretudo a encontrar dentro do seu Estado, através dos
instrumentos da fiscalidade secular,os recursosfinanceiros de que necessitavam.
Não é por acaso que o protesto de Lutero explode em breve precisamente na Ale-
manha, naquele acervo de terras imperiais divididas e desarticuladas, privadas de
um sólido poder central capaz de deter a invasão romana e as formas mais ambi-
ciosas de exploração do sagrado : <<Bastanteme admiro -- escreverá Lutero em
1520 -- que a nação alemã [...] possua ainda um tostão por cu]pa desses ]adrões,
celeradose patifes romanos, inomináveis, inumeráveis, indescritíveis>>
que se ani-
nhavam na corte papal, que para ele era mais escandalosa<<doque foram
Sodoma, Gomorra ou Babilónia.>>
Muitos dos cardeaisdestesdecéniosforam, naturalmente,personagens de
notável estatura(pense-senum Giuliano Della Rovere,num Georgesd'Amboise
ou num Thomas Wolsey,para referir apenasalguns dos nomesmais conhecidos),
embora de espiritual tivessem apenas o título e as vestes e não considerassem que
a sua categoria comportava um empenho religioso particular, sem que isso provo-
casse demasiado escândalo em muitos dos seus contemporâneos, habituados a
ver nelesmais príncipes do que clérigos. O que não deixavade ter consequências

80
e parecia tanto mais gravequanto não se limitava aos mais altos cargosda igreja,
mas invadia as suas múltiplas estruturas, espalhando-se por todo o corpo do clero
regular e secular, com as dioceses muitas vezes entregues ao governo de modestos
vigários devido à crónica ausência dos bispos, os canonicatos das catedrais redu-
zidos a lucrativos privilégios das mais poderosasfamílias citadinas, os mosteiros
e os conventosem condições gravíssimasde corrupção e amiúde completamente
isentos de qualquer forma de controlo e de autoridade. Basta por fim recorrer à
rica documentaçãopós-tridentina para entrever(especialmentenas zonas mais
periféricas e nos campos) os abismos de ignorância em que se encontravam os
padres curadores de almas, que tinham chegado ao ministério sacerdotal graças
ao pagamento de uma qualquer soma em dinheiro e que muitas vezesnão pos-
suíam as mais elementaresnoçõesreligiosas. No entanto, essasigrejas e as ceri-
mónias que aí se celebravam,as vestessolenes,os símbolos antigos, os anéis, as
cruzes,as mitras, as pastorais, a própria linguagem, os modelos e as formas do
poder eclesiástico evocavam funções, problemas, necessidadescolectivasvtanto
mais vivas e inquietas quantojmais entreguesa si próprias por uma instituição e
por uma hierarquia incapazes de lhes dar as respostas adequadas. E é também
nesta contradição e nas tensões profundas por ela provocadas que enterra as suas
raízesa maior crise atravessadana sua história pela Igreja de Romã, com a trau-
mática ruptura da reforma protestante.

5. Não há dúvida de que a pessoamenosadequada para enfrentar semelhan-


tes problemas era o filho de Lourenço, o Magnífico, Giovanni de Médias, discí-
pulo de Poliziano e destinado desde a infância à carreira eclesiástica,que tinha
sido nomeado cardeal em 1489, dois anos depois do casamento de sua irmã
Madalena com Franceschetto Cabo, quando ainda não atingira a adolescência.
Quando, em 1513,e apenascom trinta e seteanos, assumiu a tiara e o nome de
Leão X, pareceu exprimir claramente as suas intenções nas palavras que teria
escrito a seu irmão Giuliano no dia seguinte à faustosa cerimónia da sua coroa-
ção : <<Gozemos o pontificado pois que Deus no-lo deu.>> A eleição desta persona-
gem afável e alegre, <<quenão queria trabalhop>, amante da poesia e das coisas
belas, mas também das festas e do Carnaval, do jogo e das caçadas, <<dedicadís-
simo à música, às facécias e aos bobos>>, como escreveu Guicciardini, e de <<suma
liberalidade, se é que esse nome se adequa aos gastos excessivosque ultrapassam
toda a medida>>,
pareceuanunciar o início de uma idade de ouro, de paz e de
esplendor, em que as armas e a guerra deixariam o campo livre às artes e às letras.
A ascensãoao sólio papal de um Médias sancionavatambémos estreitoslaços
que já há bastante tempo ligavam a Santa Sé aos banqueiros florentinos, que
satisfaziam as enormes necessidadesde crédito e de ajudas financeiras da corte
romana e procediam à organização da fiscalidade secular e espiritual da Igreja.
Em todos os ramos da administração e nos ofícios curiais, os dois papados dos
Médias assinalaram uma verdadeira invasão toscana de Romã (<em todas as coi-
sas estão florentinos>>,dizia-se em 1520, em Veneza, enquanto Pasquiano não
tinha dúvidas de que mesmo o Espírito Santo <<se
fosseflorentino/seria um mal-
vado>>),que.não deixou de se reflectir também no sacro colégio, onde Leão X
decidiu introduzir, para além de seuprimo e sucessor,Giulio, quatro sobrinhos
(GiovanniSalviati, InnocenzoCabo,Nocciolõ Ridolfi e Luigi de Rossi)e uma
enorme multidão de compatriotas : Lorenzo Pucci, Bernardo Dovizi da Bibbiena,
Biovanni Piccolomini, Raffaele Petrucci, Silvio Passerini,Francesco Ponzetti,. o
81
velho Niccolõ Pandolfini. Como escrevia Ariosto numa das suas sátiras, <<os
sobrinhos e os parentes que são muitos / têm de beber primeiro, pois que o aju-
daram / a vestir o mais belo de todos os mantos>>.
Por conseguinte, entre os novos cardeais sobressaíam homens de confiança
dos Médias, como Passerini e Bibbiena, <<humiliifacturm>, <<fidelissimo servos,
como ele próprio se definia nas cartas endereçadasaos seuspoderosos patrões,
mas também personagenscomo Pucci, que ascenderaaos mais altos cargos da
administraçãoÍipontifícia já antes da eleição do novo papa,Üde cuja política
financeira será um dos principais responsáveis.De resto, a Penitenciária apostó-
lica, um dosóprincipais ministérios da cúria cujo governo exigia competências
bancáriasadequadas,foi transmitida semsoluçõesde continuidade de um para
outro dos três cardeaisPucci que, entre 1513e 1547,se sucederamno sacro colé-
gio. Um papel de primeiro plano ao lado de Pucci foi desempenhado pelo
homem de negócios tão hábil quanto privado de escrúpulos que foi Francesco
Armellini, que veio doKnadae fez uma brilhante carreira adquirindo os cargos
currais com o dinheiro ganho em empreitadase especulaçõesmais ou menos líci-
tas e que conquistoua confiançae o reconhecimento
dos dois papasMédias
pela sua fértil criatividade em conceber,em estreitaligação com a grande banca
florentina, ::novas fontes de receita adequadas às suas inesgotáveis exigências
financeiras, sobrecarregandoconstantementecom novos impostos os romanos e
os súbditos da Igreja, criando débitos a taxas exorbitantes,incentivando o
comércio das indulgências, pondo à venda toda a espéciede ofícios, e cuja vena-
lidade se foi assim estendendo,durante esseperíodo, a todos os níveis da admi-
nistração pontifícia. Em todos essesnegócios, <<essenegro Armellino / que céu
e terra daria por um tostão>>não deixou, naturalmente,de cuidar, com todas as
intrigas possíveis,dos seuspróprios interesses,conseguindoacumular a imensa
fortuna que, em 1517,Ihe permitiu comprar o cardinalato e depois o cargo de
cámerlengo:
Foi precisamentedurante o pontificado de Leão X que se manifestou a última
forma visível de desafiocontra a autoridadepontifícia por partede um grupo de
cardeais, com a pretensa conjura de Alfonso Petrucci, em 1516.Aliás, só poucos
anos antes se concluíra a iniciativa cismática iniciada com a secessãode alguns
cardeais, sob a direcção do notabilíssimo Bernardino Carvajal, e com a convoca-
ção do Concílio de Pisa de 1511-12, sob o patrocínio da França, no âmbito dos
complexosfactos políticos dessestumultuosos anos e tendo por base uma oposi-
ção ideal às tendências de Júlio ll e à cada vez mais marcada degradação da
autoridade e das funções decisórias do senadocardinalício. Muito diferente, isto
é, isenta de uma conscientereivindicação do papel colectivo e dos deveresecle-
siásticos que cabiam ao sacro colégio, privada portanto de qualquer significado
que fossepara além do descontentamentoe da frustração pessoaldos seuspro-
motores, foi pelo contrário a conjura de 1516,da responsabilidade,sobretudo, de
um grupo dos chamados <<cardeais jovens>>,os principais obreiros da eleição do
papa Médias e muitos deles companheiros predilectos das suas festas e dos seus
ócios, que se consideravam traídos nas suas expectativas e lesados nos seus interes-
ses. Quem promoveu a conjura foi Alfonso Petrucci, de Siena, o belo jovem que,
em 1511,apenascom dezanoveanos, fora nomeado cardeal por Júlio 11, que ficou
furioso com o apoio prestadopelo papa Leão à substituiçãodo seuodiado primo,
Rafaelle, pelo irmão Borghese no domínio da sua pátria. A ele se foram associando
outros cardeais: Bandinello Sauli, FrancescoSoderini, Adriano Castellesie o já

82
idoso camerlengo Raffaelle Riario, o poderoso sobrinho de Sinto IV. qué,%na
opinião de Guicciardini, <<pelas
riquezas,pela magnificênciada sua corte, e
pelo tempo em que desempenharáaquelas funções, era sem dúvida o principal
cardeal do colégio>>. As preocupações pessoais, a leviandade e as humilhações de
Petrucci, enquanto natural de hiena, associavam-seassim às antigas rivalidades
familiares que animavam Soderini(irmão de Pietro, magistrado da República flo-
rentina, que o regressodos Médias expulsara da cidade), à cobiça e talvez às desi-
lusões sofridas pelo grande amigo de Petrucci, Sauli, <<bommercador>>
que
-- segundo se disse -- em 1511desembolsara 50 000 escudos <(para se tornar car-
deal>>,às ambições pessoais de Castellesi e de Riario, que os conspiradores dese-
javam que fosseo futuro pontífice, incitado pelos velhos rancoresanta-Médias da
conjura dos Pazzi e as recentesferidas dal:fracassadaeleição e da guerra de
Urbino. Portanto, na vésperade acontecimentose.ídealteraçõesprofundas, que
assinalariam o fim da cúria renascentista, essaconjura revela claramente algumas
característicassignificativas do modo como osücardeaisinterpretavam o seu pró-
prio papel, como instrumento de enriquecimentoe de poder, como arma de
reforço e tutela do patrimóniopda sua própria família, e portanto também como
elemento de representaçãonos mais altos cargos da Igreja de interessespessoais
e privados, de cuja soma o sacro colégio era, em certa medida, depositário e res-
ponsável perante a autoridade pontifícia.
Petrucci pagarát;com a vida a criminosa intriga por si urdida, enquanto
outros, como Castellesie Soderini, terão de se refugiar no exílio, e Sauli e Riario
serão obrigados a ceder a humilhantes cerimónias de arrependimento e a pagar
enormesmultas (150 000 ducados, no caso do riquíssimo Riario). Soderini, que
Cortesãdefinira como <<homorerum usu limatus et9magnarumartium scientia
dissimulanter doctus>>e que Giovio designará por <dlustre e astuto afrancesado>>,
também acabará por ser encarcerado pelas suas intrigas à ordem de Adriano VI.
Todavia, pondo de parte estescasospessoais,a descobertada conjura proporcio-
nou ao papa Leão a oportunidade de impor ao relutanteconcistório a grande
fornada cardinalícia de l de Julho de 1517,a mais considerável até então odor:
rida. Apoiado pela situação de profundo mal-estar que os acontecimentosti-
nham provocado no sacro colégio e realçando a necessidadede renovar profun-
damente a sua composição para pâr fim à sua grave mundanização e proceder
à reforma da cúria, não só com o propósito evidentede destruir qualquer forma
de oposição e diminuir o seu papel político,)mas também pela necessidade
inconfessada de voltar a encher os cofres papais onde a infeliz guerra de Urbino
tinha aberto um abismo sem fundo,.o pontífice anunciou a nomeação de 31 car-
deais, embora os últimos acordos eleitorais tivessemreconfirmado em 24 o
número máximo de cardeaisque naquelemomentoeram, aliás, 33. Alguns
dessescardeaisjuntavam-se aos poucos até então nomeadospeloUpapaLeão
para agradar às cortes estrangeiras;outros, porém, eram personagensde ori-
gem humilde, experientes colaboradores do pontífice, masB<<poroutro lado>>
-- segundo Guicciardini -- <<não [...] capazes de tamanha dignidade>>, como o
financeiro sem escrúpulos Armellini, o ambicioso datário Passerini(<<nunca um
deles foi ávido ou rapace que o outro não concorresse com ele em ambição>>,
escreveráGarimbetti), ou Francesco Ponzetti, que enriquecera com os inúmeros
cargosque desempenhouna cúria, desdeo de médico de InocêncioVlll ao de
tesoureiro geral do papa Médias; outros ainda eram peritos emodireito curial,
como Paolo Emilio Cedi e Domenico Giacobazzi. ou membros de notáveis fa-
mílias de Romã (Piccolomini, Petrucci), de Florença (Pandolfini), de Génova

83
(Pallavicini), de Modena (Rangoni), de Bolonha (Campeggi), dois Trivulzio, da
Lombardia, e três sobrinhos doQpontífice.
Não3deixaram de se: fazer ouvir os boatos maisndísparesi=acerca da soma
que semelhantemultidão de cardeaistrouxera para os vazios cofres papais, mas
tratou-se sem dúvida de uma soma significativa (cerca de meio milhão de duca-
dos, segundoos cálculosde Sanudo),se se tiver em conta que -- ao que se
disse -- a maior parte dos recém-eleitos teve de pagar 20 000 ducados, que
aumentaram para 30 000 no caso de Ponzetti, que tinha porém atrás de si uma
longa e sólida carreira na cúria, e mesmopara 40 000, no caso de Bonifacio Fer-
reri e do riquíssimo Armellini. Portanto, não se pode dizer que tais nomeações,
essencialmente coerentes (à excepção do número) com os critérios seguidos no
passado, servissempara renovar o sacro colégio, embora se possa detectar um pri-
meiro;sinal nessesentido notfacto de terem sido nomeadosos gerais de três
ordens religiosas : o dominicano Tommaso de Vio (o cardeal Gaetano), o agosti-
nho Egídio da Viterbo e o franciscano Cristoforo Numas, homens de sólida cul-
tura teológica e animados daquelas conscientesexigênciasreformadoras cuja ins-
piração fora enunciada no V concílio de Latrão pelo próprio Egídio nas célebres
palavras com que tinha expresso a exigência de <<hominesper sacra immutari [...],
non sacra per homines>>.No entanto, foi essaeleição maciça que, para lá das con-
tingências específicas da época, sancionou a definitiva supremacia da autoridade
pontifícia sobrea do sacrocolégio, no seiodo qual não voltariam a verificar-se
as formas de oposição que o concílio cismático de Pisa e a utópica conjura de
Petrucci ainda revelam. É talvez a partir dessadata, tendo por pano de fundo a
cruciante fractura religiosa iniciada poucos meses depois com a difusão dafiZese,
de Wittenbert, que oücolégiocardinalício começaa transformar-seno corpo de
ilustres funcionários do governo e da administração curial, maciçamente dedica-
dos ao serviço da sedeapostólicae privados de qualquerveleidadede oposição
ou mesmo de mera negociação política com o detentor das supremas chaves,que
setenta anos mais tarde sancionará a grande reforma sistina.
Leão X morreu em Outubro de 1521, deixando um mar de dívidas (<<Cristo
seria vendiddjpara pagar as despesas>>,
como insinuava mestre Pasquino), mas
também a fama, celebradapor Giovio, de ter <<fabricadoa idade do ouro>>com
o seu generoso mecenatismo. Todo um mundo, aquele século de Leão X que, pelo
seu esplendor artístico e cultural, Voltaire comparará à época de Alexandre, de
Augusto e de Luís XIV. começava já a desmoronar-se. Poucos meses antes,
Lutero tinha queimado publicamente, na praça de Wittenberg, a bula .Eksz/rge
Z)omíne juntamente com os textos canónicos e, depois da dieta de Worms, em
Maio, tinha sido banidodo império.Um ano antes,enquantoFernandoCortez
conquistavao México e Solimão, o Magnífico, assumia o poder no império oto-
mano, enquanto as doutrinas luteranas alastravam na Alemanha e aí encontra-
vam poderosos defensores, em Romã morriam Rafael e o omnipotente <<alter
papa>>Bernardo Dovizi. Com as suascontradições,a figura do inteligente, arguto
e versátil cardeal Bibbiena, o sagazorganizador da eleição papal no conclave de
1513,incansável homem de negócios, fiel chanceler do Magnífico e hábil diplo-
mata dos Médias, cujos sucessos acompanhara até ser por eles recompensado
com o chapéu cardinalício, cortesão espirituoso e galante, insolente autor da
Ca/a/zdria, exprime da melhor forma a substancial inadequação do vértice da
Igreja para compreendere enfrentar os novos e dramáticos problemas que a
reforma3protestante impunha brutalmente à corte pontifícia, não só no plano
político e diplomático mas tambémreligioso,pastoral e doutrinal. De facto, na
84
culta e requintada Romã de Leão X, entre cujos secretáriosse incluem porém
homens como Bembo e Sadoleto, ainda não se consegueconsiderar Lutero senão
como um turbulento monge alemão, que será necessárioreduzir ao silêncio, ao
mesmotempo que se conclui o morno V concílio de Latrão, onde, depoisde se
ter amplamente discutido as muitas reformas por todos julgadas necessárias,
pouco ou nada se fez para as promover.
O pontificado do austero e piedoso Adriano de Utreque, filho de um modesto
artesão flamengo, que fora professor em Lovaina, preceptor de Carlos de Habs-
burgo, bispo e cardeal, grande inquisidor e regentede Espanha, até à inesperada
eleição papal de 1521levada a efeito por um sacro colégio onde -- como escreveu
Guicciardini -- se incluíam honlens<<cheiosde ambição e de incrível cupidez, e
quase todos atreitos a delicadíssimos, para não dizer desonestíssimos, prazeres>>,
foi demasiado breve para que a situação pudesse modificar-se. A notícia da sua
morte súbita, menos de dois anos mais tarde, e apenasum passadoem Romã a
braços com o grasnar da peste, foi saudada com um suspiro de alívio e<<prazer
inestimável>>
por uma cúria que Ihe fora quaseunanimementehostil, e que tinha
expresso no seu altivo desprezo por aquele <<bárbaro> estrangeiro o receio de que
o seu pontificado pudesse prejudicar abusos e privilégios de que todos beneficia-
vam, arriscando-se a estragar<m cauda ao faisão desta Santa Sé>>,segundo a feliz
expressãousada por Giovio, algum tempo depois. <<EmboraLeão fosse uma san-
guessuga de dinheiro -- escrevia-se em Ferrara'em Março de 1523 -- ao menos
gastava-o, mas este suga e não gasta, e por isso Romã inteira está de muito má
vontade e não se recorda de tanta tristeza>>.<<Ospobres e infelizes cortesãos/ saí-
dos das mãos dos florentinos / e dados em pasto a alemães e marranos>>, escrevia
Francesco Berni no seu mortífero Capa/o/o dí papa .4d/feno, investindo contra os
<(quarentapoltrõeP>, os<<malvados ladrões cardinalícios>>culpados <<deterem
precipitado a Igreja num precipícios com a eleição de umU<<papasanto / que
todas as manhãs diz a sua missn>, um <<inimigodo sangueitaliano>>,um vilão
bêbado que presumia <<dominaro beloPnome latino>>.E encontrava eco numa
outra violenta sátira contrasos italianos responsáveisLbor
<<teremperdido''o
papado / para um bastardo tirano renegado>>:<<Ovil canalha, ó burros de pan-
cada/ animais sem saber, sem intelecto/ nascidos só para pastar e estar na cama
/ com putas, rapazes e enzoneiros.>>
O único cardeal nomeado pelo papa Adriano, poucos dias antes de morrer, foi
o seu fiel datário Wilhelm van Enckevoirt,:logo rebaptizado <(Frincaforte>>.
Trinta
e três foram, no entanto, os nomeados pelo seu sucessor, Clemente Vll, o primo
do papa Leão, que após um breve intervalo assinalavao regressodos Médias à
cadeira de S. Pedro.l Prelado de costumes irrempreensíveis, sério e inteligente,
<<prudentee sábio [...] homem justo e homem de Deus>>,segundo o embaixador
veneziano, governante experiente, mas:j<<vacilante,tímido, avaro, irresoluto>>, na
opinião de Guicciardini, que o conheceu de perto, Giulio de Médias acabou por
ser<<maisfeliz cardeal que papa>>,como escreveuum diarista romano.

Um papado feito de respeitos


de considerações e de discursos,
de poréns, de pois, de mas, de ses, de talvez
de muitas palavras sem efeitos
de pensamentos, de conselhos, de conceitos,
de escassasconjecturas,
que te entretém, embora sem pagar,

85
com audiências, respostas e belas palavras
de$firmeza e de neutralidade,
de paciência, de demonstração,
de fé, de esperança e caridade...

Será esta a opinião sarcástica e cáustica de Berni para estigmatizar as mil dúvi-
das, as constantes hesitações, as volúveis indecisões e os subterfúgios tacanhos de
uma política receosae inconcludente, que arrastou a Santa Sé para o trágico saque
de Romã em 1527, quando a cidade desarmadafoi deixada entregue às lanças
imperiais de Frundsberg,que com implacáveldureza a devastarame sobrecarrega-
ram de impostos, provocando o seu <extermínio e total ruína>>,como se escreveu
então em Mântua para relatar o <<atrozespectáculoque faria chorar as pedras>>dos
inúmeros assassínios,roubos, estupros, sevíciase horrores de todo o género que aí
tinham tido lugar. Se o papa e alguns cardeais puderam refugiar-se em Cartel
Sant'Angelo, outros, como Pucci, Piccolomini, Gaetano,Numai e Ponzetti, foram
maltratados, torturados e vítimas=de chantagem, enquanto bandos de soldados
embriagados andavam. pela cidade, alguns envergandoas vestescardinalícias e
prontos a investir com invulgar ferocidade contra igrejas e conventos, impelidos
pela sede de despojos e pelo violento escárnio anti-romano aprendido na escola da
invectiva protestante. Durante essesterríveis dias, o grito de }'ívaf Z,zz//zeros
po/zff-
Jex ecoou escarninhamente pelas ruas de Romã, e ainda hoje se pode ler o nome
do:monge saxão numa inscrição feita no fresco de Rafael, o Zr/u/!áo do San/o
Sacrumen/o,j:na Câmara da Assinatura,.no Vaticano.
As próprias nomeaçõescardinalíciasdecretadaspelo papa Clementeforam
muito condicionadaspor todos essesfactose em especialpela necessidade
de
recursosfinanceiros para reagir à trágica situação em que o pontífice acabarapor
se encontrar, privado de tropas e de dinheiro, prisioneiro numa Romã atingida
também por uma atroz epidemia de peste, à mercê de Carlos V. Daí -- embora
de má vontade>>= o recursoao usual sistemada venda do chapéu cardinalício
(<<40mil ducados por um>>,escreveuSanudo) a todos ou quase todos os novos
cardeais nomeados na véspera da entrada em Romã dos soldados de Frundsberg,
nos primeiros dias de Maio,' e depois em Novembro, quando a corte ainda estava
encerradano castelo. Não admirará, portanto, o facto de o papa, pressionadopor
imperiosas necessidadesde crédito e obrigado mesmo a mandar fundir por Cel-
lini os cálices da missa, a baixela e as próprias tiaras dos seus antecessores,ter
chamado ao sacro colégio numerosos membros de famílias de grandes.banquei-
ros, como os genovesesGirolamo Grimaldi e Agostino Spinola (a que se seguirá,
dois anos mais tarde, Girolamo Dona, sobrinho de Andrea), o florentino Niccolà
Gaddi, e os venezianosMarino Grimani e Francesco Cornaro, ambos sobrinhos
de cardeais.O mesmo aconteceu,aliás,:não só com Vincenzo Carafa, Ercole e
Pirro Gonzaga, mas também com BenedettoAccolti, um tratante cruel e corrupto
que, apesar da sua cultura humanista, pareceu empenhar toda a sua energia a
desmentir a definição que dele fazia Ariosto ao considera-lo <<glóriae esplendor
do santoconcistório>>
e a confirmara de Giovio,que o caracterizava
como
homem <<violento e amante de dinheiro>>,Jtornando-se responsável por toda a
espécie de delitos e de violências, especialmente durante o seu tirânico governo da
legação de Marca, por ele adquirida, em 1532, por 19 000 ducados, período em
que foi confrontado com acusaçõesde homicídio, estupro,.abusos,intrigas e rou-
bos de toda a espécie,até à suaprisão,em 1535,e à suacondenaçãoà morte,
depois comutada numa pesada multa. Por fim, foram chamados ao sacro colégio

86
os homens de confiança do imperador, agora em situação de ditar leis em ltália
e em Romã, entre os quais se contavam alguns napolitanos, como Sigismondo
Pappacoda, que se deu mesmo ao luxo de recusar o cardinalato.
A excepção do ambicioso primo de dezoito anos, lppolito de Médias, <<demó-
nio louco>>que iria dar-lhe muitas preocupações (a começar pela recusa de tomar
ordens de subdiácono), e do seu concidadão Antonio Pucci, quase todos os car-
deais depois nomeados por Clemente Vll foram-no a pedido das cortes estrangei-
ras, tornando-se peõesdo complicado e instável labirinto político em que, entre
Romã e Florença, entre Habsburgose Valois, o papa tentou manobrar. Entre eles
figurava o erudito geral dos franciscanos Francisco de Quióones e, por. ocasião da
paz com o imperador celebrada no solene encontro de Bolonha de 1530, o enér-
gico Garcia de Loaysa, geral dos dominicanos e confessor de Carlos V, o chance-
ler imperial Mercurino de Gattinara, o bispo de Trento, Bernardvon Cles, o
saboianoLudovico de Challant, o bispo dejBurgos,leigo de Zúãiga, a que três
mesesmais tarde sejuntaram Alfonso Manrique de Lara, arcebispode Sevilhae
grande inquisidor, Juan Pardo de Tavera,regentede Espanha, e, finalmente, em
1533,Stefano Gabriele Merino, que em criança -- como se dizia -- tinha sido
<<vistoem Romã a cuidar dos cães em casa do cardeal Ascanio Sforza>>,que foi
bispo de Jaentje patriarcaf+das Índias;'<<sapientíssimo ='cardeal eJ:prático9mui
famosos na opinião do embaixadorveneziano.Os franceses,'
que até então
tinham tido que contentar-se com as nomeaçõesdo chanceler Antoine Duprat
(1527), que morreu uns anos mais tarde <<degordura e de crapulice>>,riquíssimo,
tendo <<passado de umas'ínfima :fortuna para uma enorme>>, como escreveu
Garimberti, e com o remorso (segundo as palavras de i:uml;historiador do
século xvn) de <<n'avoir point observé d'autres lois que ses intérets propres et la
passion du souvrain>>,de François de Fournon e do embaixador em Romã,
Gabriel de Gramont (1530), de Jean de Longueville, sobrinho de Luís XI (1533),
só puderam reequilibrar essasituação após a reaproximação entre o pontífice e o
rei cristianíssimo, sancionada pelo casamento de Catarina de Médias com o her-
deiro do trono, Henrique de Valois, com a nomeação de quatro cardeaisfrance-
ses,decretada em Marselha, em Novembro de;1533: entre essescardeais encontra-
va-se Odet de Coligny, membro da grande família huguenote, que viria a
abandonar a dignidade cardinalícia da Igreja de Romã para se casar e morrer
como bom calvinista em Inglaterra, em 1571.

6. Depois do atroz saquede 1527,episódiotraumático para os contemporâ-


neos, que o interpretaram em termos apocalípticos, embora nãoxprecisamente
reduzida a um <<galinheiro>>
como alguém a considerou, a Romã papal deixou de
ser a desinibida Romã renascentistadeÉSistoIV, de Alexandre VI, de Leão X.
<<Muitoarruinada e desabitada>>,
como aparecia, ainda em finais de 1528, a um
visitante, empobrecidade homens, de artistas, de literatos, a cidade nunca mais
voltará a ser o que era, enquanto novas inquietações espirituais, novos problemas
religiosos não tardarão a penetrar mesmo na corte vaticana e nos palácios dos
cardeais.O alastramento da Reforma na Alemanha, a sua propagaçãoà Suíça, à
Inglaterra, aos paísesescandinavos,à Europa Oriental, e o pulular das doutrinas
heterodoxasmesmo em França e na ltália exigiam uma mudança decisiva de
orientação e o fim de uma política eclesiásticareduzida a política italiana de um
papaou de uma família. Eram já iniludíveiso início de um confronto com os
protestantes que fosse além de uma apressadae sumária condenação, a convoca-
ção de um concílio, o lançamento de uma reorganizaçãoinstitucional que permitisse

87
aos mais altos cargos da cúria não s(5apresentarem-secom um rosto mais credí-
vel, mastambém retomarem o controlo do clero e da sua formação religiosa, esti-
mularem a renovação do empenho pastoral, caritativo e assistencial, disciplina-
rem a vida religiosa dos leigos, enfrentarem as?lárduasletarefasimpostasJpelo
confronto polémico com os heréticos, pela repressãodas dissensõesinternas, pela
expansão missionária, pela evangelização de zonas rurais só superficialmente cris-
tianizadas. De tudo isso, dos objectivos a atingir e dos meios a utilizar, a Igreja
Católica irá aos poucos tomandoficonsciência nosíianos e decénios posteriores,
tendo por pano de fundo a //zhda conciliar e as mudanças profundas que marca-
ram a época da Contra-Reforma.

A opulência dos antigos papadas está aniquilada -- escreverá,amargurado e preocu-


pado, Giovio em Fevereirode 1535-- por ter cuidado mais do temporal do que do espiri-
tual; e assim perdendo-se aos poucos a reputação e a autoridade da religião, a loja já não
dá lucro e fomos conduzidos onde estamos,à necessidadede um grande concílio, de que
nenhum bem se pode esperar, se Deus não colocar em nós a sua mão direita.

Mas não foi decerto uma personagem como o papa Clemente, demasiado
receoso de que um concílio pudesselevantar a questão dos seus filhos ilegítimos,
quemdeu um passonessesentidoou promoveuas tão desejadasreformas.Com
toda a rispidez de que era capaz, na sua paródia ao Or/ando /n/zamoraro,de
Boiardo, terminada em 1531, Berni dava livre curso ao seu pungente ressenti-
mento que nestas páginas, que não ficaram inéditas por acaso, se tingia mesmo
de explícitas conotações reformadoras :

Dizem certos plebeus que agora o papa


quer reformar-se, com os outros prelados
Eu digo que é coisa impossível
que os doentesnão têm saúde, nem força
e que do azeite não se pode fazer mosto;
digo que se reformarão
quando o calor não tiver moscardos
e o talho não tiver ossosnem cães.

Por conseguinte,o problema do concílio e da reforma só pôde ser enfrentado


com a eleição de um novo pontífice, a 13 de Outubro de 1534, na pessoado
decano Alessandro Farnese,<<homemdotado de letras e aparentemente de costu-
mes -- segundo a muito feliz definição de Guicciardini -- e que tinha exercido o
cargo de cardeal com melhor arte do que o obtivern>, eleito por unanimidade por
ser velho e considerado doente (<mpinião que foi apoiada por ele com alguma
manhm>).Rodeadode respeitounânime, figura de outros tempos pela cultura e
pela experiência (completara os seus estudos na Florença do Magnífico e recebera
o chapéu cardinalício das mãos de Alexandre VI, mais de quarenta anos antes),
não decerto atormentado por profundas inquietaçõesreligiosas (tinha dito a sua
primeira missa em 1519,com 51 anos, após 26 de cardinalato) e pessoa-- como
escreveráem breve o embaixador veneziano --<<entregue constantemente a volú,
pias e prazereo>,diplomataastuto e capaz,decididoa continuar a política de
reforço daHautoridade pontifícia sobre as terras da Igreja e sobre o baronato
(como testemunham as guerras contra Perúgia, Camerino e osEColonna)e ao
mesmo tempo animado pelas ambições nepotistas que, em 1545, o levaram a con-
ceder ao seu perverso filho, Pior Luigi, o ducado de Parma e Piacenza, roubando

88
as terras aos domínios eclesiásticos,Paulo 111soube todavia enfrentar com reno-
vada energia as muitas e graves questões por demasiado tempo adiadas pelos
papas Médias e por demasiadas vezes subordinadas aos seus interesses de floren-
tinos. Com efeito, foi o papa Farnesequem instituiu a primeira comissãoa sério
de emendando ecc/esta e propôs a reforma das pastas financeiras, como a Chan-
celaria, a Datada e a Penitenciária (<oficina de malvadez>>,segundo as palavras
do cardeal Gonzaga), onde se enterravam algumas das raízes mais sólidas da cor-
rupção da cúria. Os resultados dessasiniciativas acabarampor ser modestos,
mesmotendo em conta a necessidade de não prejudicar fontes vitais de receita,
mas não há dúvida de que algumas medidas assumirampelo menos um valor
simbólico de mudança de clima, como a disposição emanada poucos dias após a
eleiçãoldo novo papa para que todos osãprelados<<enverguem
o hábito conve-
niente -- escrevia-se em Lula -- coisa que não agrada aos cardeais mais jovens
e a outros acostumados a todas as licenciosidades>>;
ou como o decreto de 18 de
Fevereiro de 1547, que estendia aos membros do sacro colégio a disposição conci-
liar que impunha aos bispos que possuíssemum único benefício, com obrigação
de residência.Foi ele quem aprovou a instituição da Companhia de Jesusde
Santo Inácio dezLoyola, em Setembro de 1540, e apoiou as novas ordens que
viriam a ser outros tantos pilares da Contra-Reforma: barnabitas, teatinos, capu-
chinhos. Foi ele quem acedeu, embora contra vontade, ao pedido imperial para
entabular discussõessobre religião com os protestantes,reunindo a uma mesma
mesa os eruditos e os moderados de ambas as partes em busca de um acordo dou-
trinal improvável, e se empenhou seriamente,superando notáveis dificuldades e
não infundados receios,na convocaçãodo concílio. Foi ele quem tornou possível
o acordo acerca da cidade onde se realizaria o concílio, a cidade de Trento, e
assistiu à conclusão da primeira e decisivafase, entre 1545e 1547,com a aprova-
ção de alguns decretosteológicos fundamentais. Foi ele quem instituiu, em Julho
de 1542,o tribunal da Inquisiçãoromana,escolhendoparao dirigir a primeira
das congregaçõescardinalícias permanentes,que os decénios seguintesse multi-
plicarão param'responder às exigências específicas das várias frentes emr que
a Igreja estará empenhada, cujo número e cujas funções serão depoisí forína-
lizadoscom a bula /imensa ae/er/z/Z)e/, de 22 de Janeirode 1588,e com as
grandes reformas sistinas que sancionarão a definitiva exauturação política do
concistório e, ao mesmo tempo, do sacro colégio como órgão de governo colec-
tivo da Igreja.
Tal mudança de rumo exigia, porém, forças e capacidades novas por parte das
mais altas individualidades da cúria e não podia, portanto, deixar de se reflectir
na decisiva renovaçãodo sacro colégio promovidas:porcPaulo 111, resultante
não tanto do seu aumento;;numérico (quando Clemente Vll morreu, havia
46 cardeais, e no início do conclave de Júlio 111, quinze .anos depois, havia
54) mas das pessoas,<<dequalidades excelentíssimap>,na opinião do embaixador
veneziano,que dele faziam parte já desde 1535.É certo que, na melhor tradição
renascentista e indiferente ao <<enormemurmúrio>> de desaprovação que se fez
ouvir, mal foi eleito, o papa elevou à dignidade cardinalícia os seus dois jovens
sobrinhos (um de catorze anos e outro de dezassete)Alessandro Farnese e Guido
Ascanio Sforza de Santa Fiou, a que se juntaram, em 1536,um primo de treze
anos, Nicola Caetani di Sermoneta e, em 1545, outro sobrinho, Ranuccio Farnese,
então com quinze anos. Críticas igualmente ferozes foram suscitadaspela conces-
são do galero a certas personagens de modesta estatura ou de moralidade duvi-
dosa, como Durante de Duranti, <<vilnascido em Brescia e que viveu na corte

89
romana durante mais de 30 anos, alli servitii in minoribus di Noutro Signore, sem
letras ou outras boas qualidades>>,segundo o diarista do concílio, que morreu
com fama de homem <(quenunca foi útil na sua vida a coisa nenhuma>>,ou como
o meio-irmão dos filhos do papa Tiberio Crispo, desprezadopor um outro car-
deal enquanto <<virpenitus illiteratus nequeingenio admodum perspicaci>>.
Entre
os 71 cardeais por ele nomeados durante o seu pontificado também não faltaram
os que foram nomeados a pedido das cortes estrangeiras,Armagnac, Annebault,
Amboise (todos sobrinhos de cardeais)e Lenoncourt, Guise, Bourbon, o erudito
arcebispo de Paras,Jean du Bellay, ou Alvarez de Toledo, Manrique de Aguilar,
Mendoza y Bobadilla, Abalos, de la Cueva, Pacheco, Truchsess von Waldburg,
Madruzzo, e mesmo um filho do rei de Portugal, que se juntaram a dois Bórgia,
a um Contarini e a um Cornaro de Veneza,um Estede cerrara, um Fregosode
Génova, um Carafa de Nápoles, um Ferreri do Piemonte, um Pucci de Florença,
um Guidiccioni de Lula, um Crescenzie um Savellide Romã,um Della Rovere
de Urbino (os dois últimos ainda muito jovens), mas também a outros descenden-
tes de famílias cardinalícias, como Giovanni Mana Del Monte (depois Júlio lll),
Federico Cesi, Cristoforo Giacobazzi. Mas, como prova da mudança!,que nesses
anos se vem delineando cada vez com maior nitidez, serão precisamente alguns
destespersonagens que interpretarão de uma nova forma o seu altíssimo papel na
cúria, alegando motivações religiosas e exigênciasreformadoras que num passado
ainda recente teriam parecido pelo menos excepcionais.
É o caso, para nos limitarmos a alguns exemplos,dessafigura extraordinária
que foi Gasparo Conterini, protagonistade uma!crise religiosa que o levaraha
reflectir sobre a justificação e a graça em termos não muito diferentes daqueles
que seriam depois propostos por Lutero, a seguir importantes estudos filosóficos
e teológicos em Pádua, a discutir o pensamentodo seu mestre Pomponazzi, a
escrever,em 1517, um Z)e cl#7cio bo/zí vfrf ac proa/ epfscopi e mais tarde a con-
testar a ConÚessfo.4agusfa/za. Nascido em 1486, as suas opções humanas e espi-
rituais foram-se tornando mais claras no decorrer de um intenso debate com
outros dois patrícios venezianos,TomasoGiustiniani e Vincenzo Quirini(este
último nomeado cardeal em 1514,pouco antes da sua morte), a quem já nos refe-
rimos como autoresdo corajoso apelo reformador contido no Z,/be//usad l,eo-
/zem.r. Embora partindo de premissas comuns, Contarini dissociara-se da deci-
são dos amigos de se retirarem para o ermitério de Camaldoli, para optar pelo
empenhoactivo no mundo, na vida civil e política da república de Veneza,que
servira em numerosasmissõesdiplomáticas e de governo, adquirindo a altíssima
autoridade humana e intelectual que Ihe garantiu a estima de Carlos V e sugeriu
a Paulo111,em Maio de 1535,a chamadaao sacrocolégiodessesimplesleigo
admirado por todos (<<esses padres roubaram-noso melhor fidalgo que havia
nesta cidade>>,foi o comentário imediato de um respeitávelsenador veneziano,
de notórios sentimentosanta-romanos),para Ihe entregarpassadopouco tempo
a missão de levar a cabo, embora entre inúmeras dificuldades, as primeiras tenta-
tivas de reforma da cúria.
Diferente, masigualmente útil para se compreendera mudança sofrida nesses
anos, foi o caso de Gian Pietro Carafa, personagemmuito diferente de Contarini
quanto a carácter e atitudes,Hpromotor de uma orientação doutrinal e política
rigorista nitidamente oposta, mas também ele animado por uma profunda von-
tade de renovação pessoal e institucional da vida religiosa. Nascida em 1476,pro-
vido de uma cultura humanista que Ihe valeu o apreço de Erasmo, descendentede
uma ilustre família napolitana por várias vezesrepresentadana sacro colégio,

90
bispo de Chieti em 1505e depois núncio em Espanha, tinha porém parecido re-
cusar-se a percorrer a esplêndida carreira eclesiástica que estas premissas pare-
ciam garantir-lhe para se inserir na experiênciado Oru/ór/o do Z)/v/no .4mor e
depois afastar-se de Romã por ocasião do saque e renunciar mesmo à dignidade
episcopal, retirando-se para Venezacom Gaetano de Thiene e os primeiros irmãos
da ordem teatina que com ele fundou. Animado por um intransigente zelo refor-
mador e por um consciente desígnio global, Carafa irá concentrando a sua enér.
gica acção na luta implacável contra todas as formas de desobediência e divergên-
cia religiosa, baseadono princípio, já teorizado num lúcido memorial enviado em
1532 a Clemente Vll, de queü<<osheréticos devem ser tratados como heréticos>>.
Chamado ao sacro colégio em 1536,soubemanobrar e depois dirigir com obses-
sivo rigor o Santo Ofício romano, a ponto de se tornar <<omais odiado e temido
cardeal [...] que houve no nosso tempo>>,como se dirá depois da sua morte, cargo
de que se serviu, semescrúpulosnem consideraçãopor ninguém, para impor o
seu inflexível rigor ortodoxo e condicionar, cada vez mais significativamente, as
orientações da política papal, até à grande repressão por ele desencadeadaentre
1555e 1559quando, com o nome de Paulo IV, ocupa a cadeira pontifícia. De
resto, nesta época, e embora com formas, intensidades, modos e tempos diversos
a centralidade da questão religiosa acabou por envolver também personagens
como o poderoso filho de lsabella de Este, Ercole Gonzaga, cardeal de Mântua,
o príncipe-bispo de Trento, Cristoforo Madruzzo, o cardeal de Inglaterra, Regi-
nald Polo, primo de Henrique Vlll, o grande diplomata Giovanni Morone, ou
Federico Fregoso, não só patrício genovêsmas também literato e teólogo, autor
de textos que não tardaram a ser colocados no Index e difusor de algumas tradu-
ções de Lutero, enquanto na própria biblioteca do filho de Lucrécia Bórgia, o
famoso cardeal lppolito d'Este, se reunirão os' principais textos de Erasmo de
Roterdão,cujas Opera omnia serão condenadasno primeiro Index romano de
1559,masde quem, no início do pontificado de Paulo 111,setinha falado como
de um possível candidato à dignidade cardinalícia.
Por outro lado, o renovado empenho diplomático da Santa Sé a favor da paz
entre as potências europeiascom vista ao concílio garantirá brilhantes carreiras
eclesiásticas,e mesmo o cardinalato, aos núncios e aos legadosque se distingui-
ram nas difíceis missõesem França e Espanta, em Portugal e na Alemanha,
como Ennio Filonardi, Rodolfo Pio de Carpa,IJberto Gambara, Girolamo Capo-
diferro,:-BonifaciokFerreri, Giovanni Morone, FrancescoSfondrato, Girolamo
Verallo e depois, no pontificado de Júlio 111,o dominicano Pietro Bertano, Gio-
vanni Rica, FabiosMignanelli, GíovanniPoggio, Girolamo Dandino.'.E serão a
experiênciana cúria e a preparaçãojurídica, para além da confiançapessoaldo
pontífice, que determinarão as nomeaçõesde homens como Girolamo Ghinnaci,
Giacomo Simonetta, Pier Paolo Parisio, Bartolomeo Guidiccioni, FedericoCedi,
Marcello Crescenzi e Niccolõ -Ardinghelli. Foram sobretudoias necessidadesda
reforma e do confronto intelectual e teológico com as doutrinas reformadas que
sugeririam a captação para os mais altos cargosda Igreja não só de personagens
dotadas de sólida preparaçãoteológica, como o geral dos servitas Dionigi Laure-
rio, o beneditino Gregorio Cortese,o dominicano TommasüBadia, mestredo
Sacro Palácio, mas também de humanistas,literatos, leigos de grande cultura e
prestígio. Já se aludiu a Contarini, a cuja influência na cúria se devemsemdúvida
as nomeações,em 1536,do erudito latinista lacopo Sadoleto,que pouco antes do
saque de Romã se retirara para Carpentras,para se ocupar da sua diocesee dos
seus estudos predilectos, do inglês Reginald Polo, que já discordara asperamente

91
de HenriqueVlll acercada questão.do divórcio elàdocisma e autor da obra
Pro ecc/esfasrfcaeu/zí/ans dqáe/zsío/ze,
de Girolamo Aleandro, helenista de mérito
e profundo conhecedor do mundo alemão e, três anos mais tarde, de Federico
Fregoso e Marcello Cervini, o mestre e secretáriodo jovem cardeal Farnese,que
virá a ser papa com o nome de Marmelo11.Foi precisamentea estaspersonagens,
Carafa, Sadoleto, Contarini, Pole, Fregoso,Aleandro, Cortesã, Badia e Gilberti
(este já datário e poderoso ministro de Clemente Vll, que depois do fracasso da
política anta-imperial se retirou para a sua diocesede Verona, onde serviu de pri-
meiro modelo de bispo exemplar da época tridentina), que Paulo 111confiou, em
1536, a tarefa de redigir o Co/zs///um de emenda/zda ecc/esta, que foi entregue ao
pontífice em Março do ano seguinte. <<Omnesfeu reverendissimifavent reforma-
tioni; incipit immautari faciesconsistorii>>,
podia escreverdois mesesmais tarde
Contarini. Perante semelhantesmudanças, passadopouco tempo, em Outubro de
1540, um típico expoente da época de Leão X como Paolo Giovi declarava numa
carta endereçada
ao futuro cardealGiovanniPoggioRque
já tinha renunciadoà
ambição <<demerecer o chapéu vermelho, que compete aos filhos da boa sorte>>.
A mais emblemática de todas as nomeações cardinalícias, até pelas oposições
que não deixou de suscitar,foi, em Março de 1539,a de Pietro Bembo,patrício
e célebre letrado veneziano, historiógrafo oficial da república de Veneza, autor de
G// .4so/a/zf (dedicados a Lucrécia Bórgia, que ele amara apaixonadamente), das
Frase de//a Ho/garZ,e/água
e dasRime logo tomadaslJcomo
modelode toda a
época do petrarquismo. Expoente de um mundo de outros tempos que já se apro-
ximava do fim, a ponto de ter renunciado à esperança de obter aquela honra <<que
tanto se busca e que por acaso se devia witar>>, como tinha escrito em 1527, já
há muitos anos que vivia longe de Romã. Tendofrequentadona juventude as
célebres cortes renascentistas de Ferrara e de Urbino, amigo de Bibbiena e secretá-
rio das brevesde Leão X juntamente com Sadoleto, mestre indiscutível de toda
uma civilização literária, rodeado pelos filhos que tivera da bela e terna Morosina
(que revelavamuma fidelidadeque se vira obrigadoa tomar para continuar a
usufruir dos seusnotáveis benefícios eclesiásticos),Bembo era sem dúvida um
dos representantesmais insignes dessaelevadacultura para a qual a Igreja agora
se voltara em busca de ajuda, recursos e energias a fim de fazer face à sua crise
mais profunda: <<Umhomem -- escreveu Dionisotti -- para quem o cardinalato,
numa Igreja visível que estivessena vanguarda da cultura humanista, valia bem
uma missa>>,a missa que ele disse pela primeira vez, já com setentae um anos,
em Julho de 1541,por ocasiãoda morteúdeFregoso,o seuamigo que também
fora nomeado cardeal e que como ele, trinta anos antes, figurava entre os interlo-
cutores de Urbano de O Cor/esmo,de Baldassar Castiglione. Com a entrada desses
homens no sacro colégio -- e com o seu activo empenho nas comissões curiais,
nas nunciaturas, nas legações, na política conciliar -- parecia concretizar-se final-
mente o ideal que Paolo Cortesã expusera no -Z)ecardo/za/a/u: <<A experiência de
uma cultura -- como escreveigualmente Dionisotti -- que, na crise dos Estados
italianos, encontrara refúgio na Igreja, e na crise da Igreja transmitia a sua útil
mensagem de persuasão e de diálogo, de uma clássica moderação e de continui-
dade dos pensamentos e das palavras no tempo.>>
O rigor da moral, a dignidade intelectual, a vontade reformadora comum não
são todavia suficientes para definir o significado do empenho religioso destas
personagens,algumas das quais acabaram por ser pessoalmenteenvolvidas nas
questões propriamente teológicas da grande crise religiosa do século. A tentativa
pacífica de reconciliação, a vontade de confronto livre e de mediação que animavam

92
Contarini na ilusória utopia dos colóquios de religião, até ao definitivo fracassode
Ratisbona, na Primavera de 1541(que marcou igualmente o fim da sua liderança
política e a sua substancialmarginalizaçãona cúria), não podem de facto esgotar
as tensõese as inquietações, que não se reflectiram tanto na experiência de homens
comonPole, Fregoso e Moreno (e, de formas e em medidas diversas,de outros
membros do sacro colégio), que já se tinham afastado do ventre comum contari-
niano para se abrirem a orientaçõesdoutrinais por vezesmuito próximas das pro-
testantes, mas também completamente desprovidos de qualquer desejo de ruptura
institucional. Aquela que para alguns foi uma adesãoincondicional e libertadora
à doutrina da justificação pela f&pâde assim conjugar-secom uma indiscutível
fidelidade à Igreja de Romã e com a própria classecardinalícia, em nome de um
requintado espiritualismo (aliás foram designados por <espirituais>>)onde se entre-
cruzavam matrizes diversas e que conseguia servir de intermediário entre as contra-
diçõesexistentes,concedendoamplos espaçosà consciênciaindividual, à voz inte,
dor da inspiração divina e a uma providencial confiança nos tempos duradouros
da mudança, a coberto de uma interpretação:do cristianismoi#como experiência
pessoale privilegiada de regeneração,e de uma corrosiva desvalorizaçãodas for-
mas exteriores da vida religiosa e da árida ciência polemista dos teólogos.
Não é possível, neste ensaio, determo-nos adequadamenteem semelhantes
comportamentos, nas opções pessoais, nas formas de agregaçãoe de acção a que
deram vida, nos complexos laços que, durante algum tempo, se foram criando
com homens e ambientes da dissensão heterodoxa dessesanos. A aprovação, em
Janeiro de 1547, do decreto tridentino acerca da justificação assinalou o fim das
esperanças e talvez das ambíguas ilusões deste restrito mas notabilíssimo grupo de
cardeais,contra quem, por outro lado,anãotinham tardado a manifestar-seinsi-
nuantes suspeitaspor parte de uma personagemcomo Gian Pietro Carafa, deci-
dido a erradicar, onde quer que ela se manifestasse, a alastrante peste da heresia.
Com efeito, já por volta de 1540-41,os homens chamadospouco tempo antes ao
sacro colégio para apoiarem Contarini parecem substancialmente divididos, ou
melhor, inseridos em frentes opostas, entre aqueles para quem a reforma da Igreja
nãotpodia deixar de passar também pela teologiaí(e medir-seportanto com a
reforma) e aquelespara quem, pelo contrário, a reforma devia apenasvisar um
reforço institucional que tivessepor objectivo uma luta mais eficaz contra os seus
inimigos (e tornar-se, portanto, contra-reforma),inimigos tanto mais perigosos
quanto mais insidiosamente aninhados no seu seio e mesmo nos mais altos car-
gos. Nessesentido, a instituição do Santo Ofício, em Julho de 1542,marcou uma
nítida viragem a favor de Carafa, que conseguiu assimdotar a sua linha político-
-religiosade um instrumento decisivopara começara investigarnão só pregado-
res heterodoxos e conhecidos cripto-reformistas, mas também, e talvezâacimade
tudo, os <<espirituais>>,
seusamigos e colaboradores, a fim de revelar aquilo que
não tardará a ser definido como gravesldesvios, cumplicidades,heresias.Já em
Agosto desseano, enquantoContarini morria em Bolonha, eram chamadoa
Romã, para ser processado,o grande pregador de Siena, Bernardino Ochino, o
geral dos capuchinhos por todos aclamado e venerado,amigo de Pole e de Vitto-
ria Colonna, de quem se falara, em 1539,para uma nomeaçãocardinalícia e que,
com um gesto clamoroso que parecia feito de propósito para confirmar as piores
suspeitas, se viu obrigado a fugir para a Genebra de Calvino.

7. Portanto, durante essesanos, a luta contra a heresiaconverte-setambém


numa luta feroz no interior do sacro colégio para estabelecerobjectivos e conteúdos

93
da reacçãoao desafio reformador em que a Igreja de Romã estáempenhada.
Com as denúncias e os depoimentos secretamenterecolhidos com paciente tenaci-
dade, semreceio de desafiar a própria autoridade do pontífice, e depois desabu-
sadamenteutilizados na política curial e nos conclaves,Carafa conseguiuevitar a
eleiçãopapal (na vésperadada como certa) de Polo,em 1549,e de Morone, em
1555. Como foi devidamente observado, os próprios debates conciliares e os seus
resultadosdoutrinais devemser apreciadostendo em conta o crescenteclima de
suspeita e de intimidação, que nessesanos se foi consolidando, até.ao definitivo
sucesso dos intransigentes com a eleição, em 1555, de Cervini, antes, e do próprio
Carafa, depois. Agora, só lhes restavatornar essesucessoirreversível, com a defi-
nitiva sanção jurídica e tecnológica doseterrosde que os seus adversários se
tinham tornado responsáveis,
com asformalizaçãodosnprocessos
contra Pole,
Morone e muitos prelados e intelectuais, que no passadotinham partilhadoÊlas
suas orientações religiosas, .com a tentativa de reconstruir sz/ó specie /nqz/üíf/o/zís
a história recenteda crise da Igreja(entre outras coisas,com o início de investiga-
çõespóstumaspor conta de Savonarolae do próprio Contarini), com o primeiro
e severo/ndex dos livros proibidos. Foi graçasà protecção de Mana pudor e de
Filipe de Habsburgo que o cardealde Inglaterra, privado da legaçãoem que se
mostrava tão empenhado na restauração do catolicismo na sua pátria, onde mor-
reu em Novembro de 1558, pede evitar a humilhação de ter de obedecer à convo-
cação a Romã para aí ser inquirido juntamente com Morone, que, durante mais
de dois anos, entre Maio de 1557e Agosto de 1559, esteveencarceradoe sujeito
a interrogatórios em Cartel Sant'Angelo. SÓ a morte do papa, saudada por um
tumulto popular que arremeteu precisamentecontra as coisas, os homens:e os
símbolos doãSanto Ofício, salvou o cardeal milanês de uma condenação certa e
possibilitou a sua reabilitação, ainda que precária, durante o pontificado de
Pio IV; quando a última fase conciliar e a necessidade de encarar a mediação
política com as pressõesreformadoras e com as exigênciasdos Estados europeus
tornou indispensável o recurso às capacidades,ao prestígio e à credibilidade pes-
soal de homens como o próprio Morone, como Ercole Gonzaga,como Bernardo
Navagero e Girolamo Seripando(ambos nomeados cardeais em Fevereiro de 1561),
a quem, em épocasdiferentes,foi confiada a presidênciada assembleiatridentina.
Tratou-se, porém, de um brevee frágil parêntesis no desenvolvimento de uma
linha já traçada e privada de reais alternativas ideais e culturais, definitivamente
sancionada pela elevação ao trono pontifício de Pio V, o tenaz artífice da vitória
de Lepanto, esseMichele Ghislieri que fora nomeado cardeal por Paulo IV para
o recompensar da sua longa carreira de incansável inquisidor, que presidirá ao tri-
bunal encarregadode julgar Morone e que se preparavapara retomar e intensifi-
car a severa repressão desencadeada pelo papa Carafa. <<Como se fosse Inverno
/ queima Pio cristãos como se fossemi-lenha/ para se acostumar ao fogo do
Inferno>>, recitava mestre Pasquino em 1570, tal como no passado tinha recomen-
dado: <<Filhos,menos juízo ;/ e mais fé ordena o Santo Ofício. / E raciocinai
pouco / porque contra a razão existe o fogo. / E moderai a língua, / porque a
Paulo IV agrada o assado.>> A própria eleição de Ghislieri, o humilde domini-
cano de Boscó, perto de Alexandria, nomeado cardeal devido à sua total dedica-
ção à salvaguarda da ortodoxia, que o seu colérico patrono e antecessor não hesi-
tara em maltratar no concistório, apelidando-o de <<fradeborzeguim>>,é algo que
pouco tempo antes teria sido simplesmenteimpossível e permite avaliar em toda
a sua profundidade a nítida fractura que essesanos assinalamem relação a um
passado ainda recente.

94
Uma viragem que envolveu também o sacro colégio, para o qual, além de três
sobrinhos, Paulo IV decidiu nomear sobretudo pessoasque Ihe eram incondicio:
nalmente devotadas, instrumentos dóceis da sua vontade, experientes colaborado-
res em quem pudesse delegar cargos e missões. Assim, ao lado de algumas perso-
nalidadesÊide nome ilustre (Gaddi, : Trivulso, Strozzi) e de poucos estrangeiros,
vieram a ocupar lugar no: concistório sobretudo /comi/zes /zoví, cujal$presença
maciça entre os cardeais recém-nomeados revela claramente o obscurecimento da
figura do grande príncipe da Igreja renascentistaem proveito da nova figura do
alto funcionário da burocraciacurial. Homensobscuros,<<seus
servidoresde bai-
xíssima condição>>,na opinião do embaixador veneziano, como Scipione Rebiba
e Virgilio Rosário, ou o teatino Bernardino Scotti(homem, como depois se dirá,
<(nihilurra breviarum et aliquas litteras sacrasnoscensi>>)
e Giovan Battista Con-
siglieri(irmão de um dos quatro fundadores da ordem) ficaram a dever o chapéu
cardinalício à sua fidelidade antiga e à sua total subordinação ao pontífice, tal
como ao rigor pessoal, à preparação teológica e à severaintransigência em defesa
da ortodoxia!!romana o devem o franciscano Clemente Dolera e o dominicano
Michele Ghislieri, e à competência administrativa, jurídica e canónica o devem o
francêsJean Reumano e Giovanni Antonio Capizucchi. Foi a essaspersonagens
que, juntamente com os sobrinho, Paulo IV decidiu entregar as tarefas mais deli-
cadas,e em particular a direcçãodo SantoOfício, como o prova o facto de a
comissão do sacro colégio encarregada, em 1557,de processar Morone ser consti-
tuída apenas por novos cardeais (Ghislieri, Rebiba, Reumano e Rosário), o que
revela a desconfiança que em semelhantes questões o pontífice demonstrava em
relação àqueles que, no entantoj' o tinham eleito.

<<INopassado] por vezes-= escrevia em 1557o embaixador veneziano e futuro cardeal


Bernarda Navagero -: os cardeais foram apenas seis e tinha-se grande respeito e grande
consideração ao nomear-se um cardeal, porque sejulgava que a esta dignidade era necessá'
ria a nobreza do sangue aliada à virtude e sobretudo à bondade; e por isso se considerava
honrada não apenas uma casa, mas uma cidade e uma província que por acaso tivesse um
cardeal. Agora são sessenta e seis, e a maior parte é tão obediente ao pontífice que por
ignorância ou por medo não ousa ou não sabecontradizer nada.>>(Re/arórfosdos embaf:
dadores venezia/zos/zo Se/fado, sob a direcção de E. Albéri, série 11,vol. 111,Società edi-
trice fiorentina, Firenze 1846,p. 412.)

Não foram muito diferentes os critérios de escolha dos cardeais seguidos por
Pio V, que decidiu retomar explicitamente a herança do papa Carafa e seguir as
suas orientações não só na duríssima repressão inquisitorial por ele posta em prá-
tica, mas também na entrega da gestão dos assuntoseclesiásticosa homens em
quem Paulo IV já confiara, na reabertura do processocontra Morone e na impo-
sição da revisão do processo contra os sobrinhos do papa napolitano condena-
dos, em 1561,e na concessãodo chapéu cardinalício ao piedoso e erudito Anto-
nio Carafa. Depois do parêntesis do pontificado de Pio IV e da realização do
Concílio de Trento, durante o qual a oposição curial conseguiratravar um decreto
específicode reform%dos cardeais,o novo pontífice tentou promover medidas
capazesde moralizar um sacro colégio, que ainda em 1560o embaixadorvene-
ziano considerava<<nãodemasiado sacro nem santo>>,ainda <Kheio -- como disse
o próprio Pio V --. de homens ambiciosose de pouca consciência>>.
Assim, foram
nomeados cardeais fiéis colaboradores do pontífice, como o secretário Girolamo
Rusticucci, gerais de ordens religiosas, como o cistercienseJérâme Souchier,
95
o franciscano e inquisidor Felice Peretti(depois Sinto V), o dominicano Vincenzo
Giustiniani(dominicanos foram tambémArcangeloBianchi, confessordo papa,
e o próprio cardeal sobrinho Michele Bonelli: <<SuaSantidadequeria que Romã
inteira fosse um mosteiro de S. Domingos>>,escrevia-seem 1566), juristas expe-
rientes na direcção dos ministérios curiais e das legações,como Giovanni Aldo-
brandini, Pier Donato Cedi, Giovanni Paolo Della Chiesa, Marcantonio Maffei,
CarlorGrassi, Giovanni Girolamo Albani, antigo amigo do papa, autor de um
tratado Z)ecardina/aru e .incansáveldefensor da jurisdição eclesi.ástica,e esse
homem de vasta cultura canónicae litúrgica que foi Giulio Antonio Santoro,
severoperseguidorda heresiae intransigenteguia do SantoOfício romano até
à sua morte, em 1602.
A partirldestes anos, uma situação de progressivo endurecimento doutrinal e
disciplinar e de uma cada vez mais nítida clericalização da vida religiosa, o cardi-
nalato tenderá a transformar-se na coroação de uma carreira totalmente inse-
rida na instituição religiosadevido a competênciasessencialmente
jurídicas, não
havendo já qualquer possibilidade de seremcooptados para os mais altos cargos
simples leigos e grandes intelectuais como Contarini, Pote e Bembo. O que, per-
mitindo entre outrasicoisas pâr à venda os altos ofícios currais deixados vagos
pelos recém-eleitos, contribuirá, sem substanciais prejuízos para os cofres papais,
para pâr fim à consolidada prática renascentistade exigir consideráveissomasem
dinheiro em troca do chapéu vermelho.Daí também o desaparecimento,pelo
menos exteriormente, das formas mais mundanas e secularizadas do fausto cardi-
nalício e a adopção de um estilo de vida mais adequado à dignidade eclesiástica
dos cardeaise à contrição devotada cultura contra-reformista. Naturalmente, no
interior de um sacro colégio cujo p/enz/m Sisto V fixará em 70 membros, perma-
necerão os sobrinhos dos pontífices, que se chamarão Borromeo, Altemps, Ser-
belloni(Pio IV), Bonelli(Pio V), Buoncompagni(Gregário XIII), Montalto
(SismoV), Aldobrandini(Clemente VIII), Barberini(Urbano VIII), que conti-
nuavam a ser ricos e poderosos, mas que já não ambicionavam Estados; perma-
necerão muitos dos antigos abusos no sistema beneficiário; permanecerão as
dinastias cardinalícias da aristocracia romana, das famílias papais, das estirpes
principescas: um Piccolomini e um Carafa serão ainda nomeados cardeais em
1844,um Riario Sforzaem 1845,um Borromeoem 1866,um Chigi em 1873...
Mas, como já tivemos oportunidade de sublinhar, o concistório como sede
incumbida das funções senatoriais do colégio irá perdendo toda a autoridade,
assumindo um papel meramente consultivo e reduzindo-se a um local incumbido
da ratificação de decisõestomadaspor outrem. Uma evoluçãoque transparece
com clareza da densa e muitas vezesdébil tratadística contra-reformista acerca do
cardinalato, de Girolamo Manfredi(-De cardo/za/obus
Sa/zc/aeRama/zaeEcc/esfae,
\S64 \ De perfecto cardinali, \S84 \ De maiestate dominorum cardinalium, \S9\ \
Z)e nome/zíbusfere/zissimusdoma/zorzzm
cara/na//um, 1591)çaFabio Albergati
(.De/ cardina/e, 1598), de Giovanni Botero(-De/ zl#7ffo de/ caril//za/e, 1599) a Giro-
lamo Pialti(.De caril/na/is dfg/zffa/eef Q#lcio, 1602),no âmbito da qual se destaca
a corajosa mas já obsoleta defesa da colegialidade cardinalícia e das suas prerro-
gativas feita por Gabriele Paleotti no Z)e sacraco/zcfs/oríf co/zsu//a/ío/z/óus( 1593).
De facto, o bispo, e já não o cardeal,será a figura portadora do novo ordena-
mento organizativo e pastoral do catolicismo pós-tridentino.
Em 1570,juntamente com Santoro, fora nomeado cardealPaolo Burati, advo-
gado famoso e homem de governo em Nápoles, que depois foi frade teatino e
enérgico bispo reformador: as figuras destasduas personagenspodem em certa

96
medida ser tomadas como símbolo de uma nova geração de prelados elevados ao
cardinalato durante os pontificados de Paulo IV e de Pio V, do seu diligente zelo
pastoral, da sua seriedade moral, do seu empenho caritativo e devocional e da sua
limitada cultura controversista, severos guardiões de imóveis certezas, felizes
administradores de uma ecleseologiajurídica e clerical, incansáveispropugnado-
res da <aazãoda lgreja>>.Burali será beatificado em 1772: agora reforçada nas
suas estruturas, disciplinada no seu conjunto e desejosa de se reflectir a si própria
e aos seus êxitos em novas certezashagiográficas, a Igreja da Contra-Reforma
poderá por fim apresentar também nos seus cargos mais elevados, como não
acontecia há séculos, modelos de vida cristã e heróis da fé. Pio V, o papa que
nomeara Burali cardeal, será igualmente beatificado em 1672 e santificado em
1712;um século antes dele, em 1610,fora elevado às honras dos altares S. Carlo
Borromeo, o jovem cardeal sobrinho do papa Pio IV, o bispo exemplar da dio-
cesemilanesa, o ascetadevoto e consumido nas suaspenitências. John Fischer, o
bispo de Rochester adversário de Henrique Vlll e por ele condenado à morte,
que, em 1535,Paulo 111tentara em vão salvar nomeando-o cardeal, também será
santificado em 1935.Cinco anos antes tinha-o sido o jesuíta e grande polemista
Roberto Bellarmino, nomeado cardealem 1599,o inquisidor de Giordano Bruno
e de Galileu Galilei que, em 1931,o papa XI quis proclamar doutor da igreja.

97
CAPITULOIV

O CORTESÃO
por PeterButke
\
1. 0 que é a corte?

Graçassobretudo a Castiglione, o cortesão é, juntamente com o humanista e


o príncipe, uma das figuras sociais do Renascimentoque nos são mais familiares.
E compreende-se.jporquê:
o diálogo de Castiglioneé apenaso mais famosode
uma série de tratados sobreo cortesãoredigidos nos séculosxv e xvi. Um estu-
dioso americano catalogou mil e quatrocentos sobre o cortesão e oitocentos sobre
a cortesã, muitos delesrepletos de notas acerca do tema das cortes.
todavia, não é fácil dizer o que era exactamente um cortesão. Parafraseando
Aristóteles, seríamostentados a dizer que o cortesão é um animal cujo:/zaó//ar
natural é a corte; mas nesseambiente circulavam muitos outros servidores, que,
na época, não eram designados por cortesãos.
E nem mesmoa corte pode ser definida faci]mente,seja qual for o termo utili-
zado (curta ou au/a em latim; coz/r em francês; coz/rf em inglês; /zof em alemão;
dwor em polaco, etc.). Como escreveuum dia o eclesiásticoe cortesão inglês do
séculoxn Walter Map: <(SÓDeus sabe o que é a corte, eu não>>,de tal forma é
<<mutávele vária>>.
No sentido mais óbvio, a corte era simplesmente
um local, na maioria das
vezesum palácio, com posto da guarda, pátios, salão e capela (não muito dife-
rente de um co//egede Oxford ou de Cambridge),mas que incluía tambémum
aposento para onde o senhor podia retirar-se e uma ou mais antecâmaras onde os
postulantes esperavam ser recebidos em audiência.
No entanto, a corte era também um tipo especialde instituição, o meio social
onde muitas obras de arte, que para nós representam o Renascimento, foram pro-
duzidas e apreciadas. Essa instituição está hoje tão longe da vivência da maior
parte das pessoas,que merecea atenção do antropólogo, e de facto existem inú-
meros:estudos de carácter antropológico sobre as cortes.
Há um estudo antropológico -- ou quase antropológico --zde vanguarda,
relativamente pouco conhecido, que conserva todavia o seu valor, e não só porque
consegue provocar aquilo que Brecha definia como um ve/:/}pmdzz/zgZZgek/,
impelindo o leitor a olhar com uma sensaçãode estranhezaticoisas que normal-
mentedá como certas: na biografia de Filipe 11,publicada em 1938pelo historia-
dor e literato alemãoLudwig Pfandl, há um capítulo dedicadoaos rituais da
corte, em que o autor traça paralelos com a Afríca Ocidental e remete para as
ideias de Sir James Frazer e dos antropólogos (por exemplo, quando analisa o
<<tabu>>
da realeza).
Todavia, o mais famoso destesestudos é. certamente.4 Sociedadeda Corte
(1969),de Norbert Ellas (que preferedefinir-secomo sociólogo).ÉElias
analisa
predominantemente a corte de França nos séculos xvn e xvm, mas tem também

101
.'

102
constantemente por prazer, como é o caso de Francisco 1, que ia caçar para a flo-
resta de Fontainebleau; ou de Jaime 1, que ia às corridasüa Newmarket.
Sobre outros pontos de vista, porém, a corte itinerante apresentavaevidentes
desvantagens. Em 1603, quando Rubens foi a Espanha numa missão diplomática,
ao chegar a Madrid descobriu que a corte se transferiu para Valladolid, e quando
chegoua Valladolid,a cortevoltaraa partir paraBurgos.:
As dimensões
do
séquito real criavam problemas sempre crescentesde alojamento e alimentação,
sobretudo quando a corte se encontrava a meio caminho entre duas cidades. Nos
anos quarenta do séculoxvi, enquanto acompanhavaa corte de Franciscol,
Benvenutto Celinni queixou-se das condições em que era obrigado a trabalhar :
<<Seguíamos a dita corte para lugares onde por vezeshavia apenas duas casas;
e tal como fazem os ciganos, construíam-se barracas de pano e muitas vezes
sofria-se bastante. >>

2. A estrutum da corte

Poderia ser maisílsimplesdescrevera corte como um grupo de pessoase não


como um lugar e -- se não quiséssemos ser demasiado precisos -- poderia ser
suficientedizer que uma corte é a <<família>>
de um soberanoou de qualquer
outra pessoa importante: por exemplo Guidobaldo, duque de Urbino.
Uma família desse género contava muitas vezes centenas, e por vezes milhares,
de pessoas,meticulosamente registadas nos documentos financeiros. Na época de
Castiglione,a corte de Urbanocontava350 membros.Nos inícios do séculoxv,
contavam-se cerca de 600 na corte de Milão e quase 800 na corte de Mântua no
terceiro decéniodo séculoxvl. No pontificadoãde Leão X, a corte de#Roma
incluía cerca de 2000 pessoas. Em comparação com as suas homólogas estrangei-
ras, estascortes eram muito grandes,mas durante o séculoxvl também as de
outros governantes conheceram uma rápida expansão. Em 1480, a corte de França
contava apenas 270 membros, um número muito inferior ao da de Urbano.- Mas
a partir de 1520, quando Francisco l ainda era jovem, o número dosSseusmem-
bros situava:seentre os 500 e os 600, ou seja, um pouco menos que os da corte
de Mântua; em finais do século xvi, porém, o número dos seus membros oscila
entre 1500e 2000, atingindo quase as dimensõesda côrte de Romã. Quando o impe-
rador Carlos V se retirou para o mosteiro de Yuste, foram escolhidas 762 pessoas
para o acompanhar, antes de ele reduzir essenúmero para 150. A partir de finais
do século xvi, o crescimento das cortes começou a criar graves problemas finan-
ceiros : Henrique 111de França e lsabel de Inglaterra foram dois dos soberanos que
tentaram poupar dinheiro reduzindo o número dos seuscortesãos.
Para complicar ainda mais as coisas, descobrimos também que na Inglaterra
de Henrique Vlll, porcexemplo,a corte era maior no Inverno, quando se fixava
em Londres ou nos seus arredores (Richmond, Greenwich, Hampton Court, Whi-
tehall ou no palácio hoje desaparecidode Nonsuch) do que no Verão, quando o
rei partia para as suas viagens. A corte de Romã ia <<deférias>>no Verão, quando
o papa se retirava para a sua ví//a dos castelos.As pessoascom direito a comida
e alojamento na corte não exerciam necessariamente esses direitos durante todo o
ano: Havia grupos de cortesãosque prestavamo seu serviço por turnos, por
períodos de três ou seismeses.Todos podiam obter dias livres por motivos fami-
liares, depois de terem pedido licença ao camareiro-mor. Por exemplo, antes da
sua viagem ai:ltália, em)i1530,Carlos V permitiu que os cortesãosespanhóis

103
abandonassem o seu serviço. Em certas ocasiões, para poupar dinheiro, a.corte
podia ser dissolvida; Filipe, o Bom, dissolveua corte da Borgonha em 1454,na
véspera da sua partida para Regensburg.
Dada esta Hexibilidade, é difícil definir com exactidão os verdadeiros corte-
sãos.Poder-se-áconsiderarTiciano um dos cortesãosde CardosV? Se,por um
lado, estavaao serviçodo imperador e usufruía dos seusfavores,por outro, não
o acompanhava nas suas viagens. Ser-lhe-ia difícil pintar (como para Cellini seria
difícil esculpir), se fosse obrigado a deslocar-se constantemente. . . ,
Dificuldades ainda maiores surgem quando tentamos definir a <<família>>
do
príncipe com um pouco mais de precisão. A corte de um rei ou de um nobre divi-
dia-se geralmente em duas partes, que no B/ack .Book -- a descrição oficial da
famlia do rei Eduardo IV de Inglaterra -- são denominadas <<casade magnificên-
cia>> (dama/s mag/zÍ#ce/z/iae) e <<casa de providência>> (domzls providenfiae)
Como qualquer outra casa nobre, uma corte necessitava dos serviços .prestados
por cozinheiros, senescais,copeiros, ajudantes de cozinha, lavadeiras, barbeiros,
jardineiros, guardas, porteiros, capelães,médicos=cantores, secretários, falcoei-
ros. etc. Etambém necessitavade fidalgos e de fidalgas, que incrementavam a
magnificiência da corte e para os quais o serviço do príncipe constituía uma
grande honra. O iconógrafo do Renascimento Cesare Ripa: descurando, como era
normal neste período, os servos de baixa condição, definiu a corte como <<uma
união de homensde qualidade,servosde pessoailustre e principab>.. xn
Este último grupo sofre ainda uma subdivisão. De facto, seria errado.conside-
rar os cortesãoscomo um grupo unilbrme, mas pode serútil traçar uma tipologia
ou classificar hierarquicamente asxxIrias figuras de cortesãos. No topo dess.ahie-
rarquia podem colocar-se os aristocratas que desempenhavamcargostradicionais
de gmnde prestígio : o camareiro, o senescal, o escudeiro, etc. Estes cargos tinham
origens de carácter doméstico. O camareiro, por exemplo, devia.tratar dos apo-
sentos e das roupas do príncipe, o grão-senescalvigiava a comida e o escudeiro
tinha de cuidar dos cavalos. Na realidade, essasfunções domésticas eram exerci-
das pelo seu titular apenasem ocasiõesespeciaise ritualizadas. Robert Dudley,
conde Leicester, era o'À/asrer of //ze //orbe da rainha lsabel, mas é evidente que
não passavao seu tempo a cuidar dos estábulos.
O soberano gostava de se rodear dos seus nobres :mais importantes, para se
aconselharcom eles, como fora tradição na Idade Média, ou para os ter sob con-
trolo, separando-osdas baseslocais do seu poder nos.campos, e para os poder
vigiar e levar à ruína mediante o mecanismo competitivo do consumo sumptuá-
rio. Esta técnica de controlo pode ser utilmente designada por <oíndroma de Ver-
salhep>, embora devamos reconhecer que não foi inventada por Luís XIV ou por
Colbert, visto já ter sido utilizada por Pedro de Toledo, o vice-rei de Espanta em
Nápoles, em meados do séculoxvi, e por Henrique 111de França (quando os
Guise abandonaram a sua corte em 1584,a sua partida foi consideradaum acto
de protesto e mesmo de rebelião). Seja como for, os príncipes gostavamde se
sentir rodeados pela sua alta nobreza, de cujos gostos compartilhavam, e de con-
quistar fama tratando-a com <<magnificênciu>,uma qualidade pela qual os prín-
cipes eram frequentemente louvados. Os debates renascentistas acerca da magni-
ficência parecemajustar-se tão estreitamenteàs teorias de Cliffor Greetz acerca
do «estado expresslvo>>
como a luva de veludo, bela e cara, se ajustava à mão do
cortesão.
Quanto aos Dobres, os motivos pelos quais iam. para a corte eram bastante
variados: para terem a confiança do rei, para receberemo seu favor, ou seja,

104
r

na realidade,os seusfavores(marcadas,como se diz em espanhol,<<graças>> ou,


por outras palavras,dádivas). Uma dasrazõesda revolta dos catalães,em 1640,
foi a ausênciado rei, que permaneciaem Madrid: essefacto impediu a nobreza
local de recebero tão almejado fluxo de pensões,dotes e outras prebendas.Outro
motivo para se ir à corte era ver a figura sobre-humana,carismática, do príncipe
e, naturalmente, ser-se visto por ele. Essa magnífica e brilhante encenação exercia
um fascínio muito especial. A corte era imaginada como um Olimpo, a casa dos
deuses,como revela a comparação sugerida por Ronsardnas suaspoesias e ilus-
trada pelaspinturas da época, em que Júpiter aparececom as feiçõesde Henri-
que ll de França e Juno se parece com Catarina de Médias, exemplo concreto
dessa concepção geral que na corte via o reflexo da ordem sobrenatural.
O exílio da corte representava
um castigo.Carlos V infligiu-o a Garcilasode
la Vegae Filipe ll ao duque de Alba (em ambos os casos,por teremcombinado
casamentosde família semterem primeiro consultadoo rei). Outro poeta do
Renascimento, o conde de Surrey, caiu em desgraçajunto de Henrique Vlll e foi
mandadopara Windsor por ter ferido um dos seusparesnum duelo efectuado
dentro do recinto do palácio real de Hampton Court.
Homens de menor importância dirigiam-se à corte com a esperançade se ele-
varem socialmente: entre os grandes aristocratas e os humildes servidores, a corte
compreendia também um sólido grupo intermédio.
Em primeiro lugar, havia aquilo a que Hugh Trevor-Roper chamou <<amá-
quina burocrática do governo>>,ou seja, por outras palavras, administradores,
juízes e políticos, com uma posição e uma preparação(geralmente baseadanos
estudos jurídicos na universidade) cada vez mais profissionais. Como na Idade
Média, essegrupo incluía um certo número de eclesiásticos,como o cardeal Wbl-
sey, em Inglaterra, o cardeal de Amboise, em França, e o cardeal Bakócz, na
Hungria (para dar apenastrês exemplosfamosos,todos do início do séculoxvi).
A corte papal, naturalmente, estavacheia de homens da Igreja. Entre os corte-
sãos-burocratas leigos havia homens da envergadura de Mercurino de Gattinara,
na corte de Carlos V, de William Cecil, na corte da rainha lsabel, ou de Sully,lna
corte de HenriqueIV de França,e também,apesardos protestosda nobreza,
homens de origem humilde, como António Pérez, na corte de Filipe 11, ou Jõran
Persson,filho de um pároco, na corte de Erik XIV daHSuécia. Teoricamente,o
papel destespersonagensera dar pareceresao soberano e relatar as suas ordens;
na realidade, era possível que colaborassem mesmo mais estreitamente com ele
(como no caso de Cecil e lsabel ou de Richelieu e Luís XIII) e até que tomassem
pessoalmente
as{.decisões-chave,
como fazia Wólseynafcorte do jovem Henri-
que VIII. Nos séculos xv e xvl, alguns departamentos do governo, tais como a
justiça ou as finanças, estava<<forada cortou, no sentido em que tinham uma
sede estável e não acompanhavam o soberano nas suas viagens, embora as deci-
sõesmais importantes fossem sempretomadas no interior de uma comissão res-
trita e normalmente na presença do príncipe.
Em segundo lugar, um papel importante na corte era desempenhado pelos
chamados <<favoritos>>-- na sua maioria, jovens nobres --, que faziam compa-
nhia ao soberanono seutempo livre, tal como os conselheirospassavamcom ele
as horas de trabalho. Olivier de la Marche, na sua descrição da corte de Carlos,
o Temerário, duque de Borgonha, fala de dezasseis <<camareiroo>e acrescenta que
«quando o duque tinha despachadoos seusassuntose dado audiência a todos,
retirava-separa os seus aposentos,onde essesnobres se juntavam a ele para Ihe
fazerem companhia. Uns cantavam, outros liam romances de cavalaria, enquanto

105
n:;Hn%U;lm;lliT:iiHEHXI
do séculoxn, e de privado, no espanholdo séculoxvl.

deira fortuna em roupas, tanto que usava brincos e sapatos ornados de jóias.
'Na historiografia tradicional, esses companheiros. do rei adquiriram uma

8 BEix uiTn:iH
pudessem conviver informalmente.
Aliás, reconhecia-se a necessidadede o rei ter horas de lazer, como prova um
exemplo do século xlv. Eduardo ll de Inglaterra tinha..um favorito, <<oseu mais
íntimo e mais amado companheiro>>(camerarízzsjamí/farfssímz4s ef va/de df/ec-
/zzs), um tal Piers Gaveston. A crónica que nos fala de Gaveston chega ao ponto
de nos explicar que os barões o odiavam por causa do seucomportamento.arro-
gante, mas que nada tinham a objectar.quanto a.essarelaçãoparlicuiac <<nole,
praticamente em todas as casasnobres, há um indivíduo que goza do afecto parti-

mfg/zonado rei, o duque de Epernon. Contudo, Henrique apercebia-seda necessi-


dade de ter favoritos como Epernon e Joyeuse,a quem por motivos políticos con-
feriu o título de duques,para compensaro poder do duque de Guise. . m . ..
Por outras palavras, a posição que, com um certo tom de desaprovação,defi-

(o ritual tem as suas vantagens para o. príncipe, como. veremos, mas essas vanta-
gens têm um preço). O papel de favorito era por isso indispensáv-l nâs cortes do
Renascimento europeu, tal como o fora nas cortes mediwais e como voltaria a sê-
-lo na época de Goethe (companheiro de bebida do duque Karl August

106
em teimar, pór volta de 1770), no tempo do imperador Guilherme ll e do seu
favorito Eulenberg.
Resumindo, a corte era uma instituição onde conviviam muitas funções dife-
rentes. Não era só a. família do soberano, mas também um verdadeiro instru-
mento de governo. Para além disso, o facto de o príncipe e dos seuscompanheiros
sentirem necessidadede se distraírem à noite com a poesia ou com a música, ou
jogando xadrez ou jogos de azar, ou mesmokinventando anagramas, divisas, adi-
vinhas ou cortejando as damas, favoreceua transformação da corte em centro
cultural; Daí a convicção de que a literatura teria um valor prático, convicção que
podemos encontrar em O Przhcfpe, de Maquiavel, na .Edz/caçãodo Przhclbe Crfs-
fão, de Erasmo (escrito para Carlos V) ou na Éldacação do Przhcfpe (escrito para
Francisco 1). Na realidade, a importância da novidade e a moda fizeram da corte,
nestecontexto, um dos principais centroslideinovaçãocultural tanto na Europa
medievalcomo na Europa da primeira idade moderna.
Algumas cortes em especial promoverama poesia e as outras artes. No
séculoxn, as cortes do Languedoque e da Provença foram,apor assim dizer, o
habitat natural onde se desenvolveua poesia dos trovadores, ainda que essacul-
tura da corte se extinguisse repentinamente nos tempos da cruzada contra os albi-
genses. No século xii, Henrique 111de Inglaterra empenhou somas consideráveis
na arquitectura. Em meados do séculoxiv, quando Roberto de Anjou ofereceu
a sua protecção a Simone Martini, Petrarca e Bocaccio, a corte de Nápoles era
um importante centro de inovação. Os historiadores falaram de uma <<culturada
corte internacional>>
em finais do séculoxiv, que pode ser exemplificadana
Praga de Carlos IV ou na Londres de Ricardo ll.
Na segundametade do séculoxv, a corte da Borgonha atingira o máximo do
seu esplendor, o mesmo acontecendo com muitas pequenas cortes italianas, como
as de Urbino, cerrara e Mântua(que tem uma importância particular no campo
artístico após o casamentode lsabella d'Este com Francescoll Gonzaga, em
1490).Mateus, rei da Hungria, foi outro generosoprotector de arquitectos e eru-
ditos, e fundou uma biblioteca de cercade três mil volumes,nomeando para o
cargo de bibliotecário um humanista italiano, Galeotto Marzio. Osf:primeiros
anos do séculoxvi constituíram um período particularmente favorável para o
mecenatismo na literatura, nos estudos e nas artes,rjprimeiro coma'os papas
Júlio ll e Leão X, depois graças ao imperador Carlos V e aos seusrivais, Fran-
cisco l e Henrique VIII. Erasmo chegou a definir a corte de Henrique Vlll como
<<asedee a cidadela dos estudoshumanistap>.O próprio rei tentou aprendero
grego, enquanto quer Catarina de Aragão, quer Ana Bolena protegeramos erudi-
tos. Em finais do século,Henrique 111de Françae o imperador Rodolfo 11, eles
próprios intelectuais, foram mecenasde homens cujos interessespartilhavam.
A imagem recorrente do escritor que, de joelhos, oferece o seu livro ao prín-
cipe (uma imagem que surgeem muitos manuscritos do séculoxv) corresponde
frequentemente à realidade. Em 1515, por exemplo, Erasmo apresentou a sua
.Eaz/cação
do PrzhcfpeCr&/õo a CardosV, na sua corte em Bruxelas.Diz-seque
Maquiavel apresentoupessoalmenteo seuPrzhcÜleao jovem Lourenço, o Magní-
fico; o mesmolivro sugereexplicitamente
a utilidadepolíticadessaformade
mecenatismo: Maquiavel escreveque um dos processosde o príncipe adquirir
fama é <<revelar-se
amante das.virtudes, dando guarida aos homens virtuosos e
honrando os excelentes numa arte>>.A aplicação desta generalização tornou-se
muito clara na dedicatória,onde Maquiavelse dirige cortesmente ao seuprín-
cipe: <<Se
VossaMagnificência, do augeda sua altura, dirigir por vezeso olhar
107
para estashumildes paragens,verá quão indignamente suporto uma grande e con-
tínua maldade da fortuna.>>Mas não pareceque isso Ihe tenha proporcionado o
mínimo benefício.
Muitas vezes os soberanos incentivavam actividades artísticas e literárias que
podiam desenvolver-senoutros locais. No entanto, a corte foi o meio onde foram
criadas formas de arte específicas e, em especial, essa espécie de miscelânea
musico-poético-coreográfica conhecida em ltália por f/zfermedfo (dado,.ter-se
desenvolvido a partir dos fn/ermezzos que demarcavam os vários actos das obras
teatrais), em França por ba//er de corar (pela importância que era conferida à
dança) e em.'lnglaterra por masqzle (os actores usavam máscaras), e que contava
com a participação dos nobres e por vezestambém dos soberanos.Uma das suas
característicasera a abolição da linha de fronteira, que normalmente separa os
espectadores dos actores. Outra característica deste tipo de festa de corte era a sua
estrutura alegórica. De um modo mais ou menos evidente,alguns temas da mito-
logia clássica eram disfarçados para darem lugar a significados exemplares.
Entre os mais famosos#exemplosdo género, podemos mencionar o Ba//e/
comiqz/e de /a Rop/ze, apresentado em Paris, em 1581, no casamento do mogno/z
de Henrique11, o duque de Joyeuse,com a meia-irmãda rainha,amariade
Lorena; o l/zrermedfoapresentado,em 1589,em Florença, por ocasião das núp-
cias de Ferdinando de Médicisüe#deCristina de Lorena, e a .AZasqueoÍ //ze
Ç2uee/zs,apresentada em Londres, em 1609. No Ba//ef comiqzle, por exemplo, os
deuseslibertavam Ulisses e os seus companheiros dos encantos de Circe, que era
levada prisioneira à presençado rei de França. Com muito a-propósito, aliás, re-
correu-seà música para auxiliar Catarina de Médias nas suas tentativas.de con-
cretização de uma harmonia política e religiosa em Fiança durante a guerra civil.
Se considerarmos a estrutura da corte num período suficientemente amplo,
vemos que os elementos de continuidade são mais evidentes do que os de mudança.
Mas também severificaram mudanças. Entre elas, a mais óbvia é o crescimento, em
dimensõese importância, de algumas cortes em detrimento de outras, sinal exterior
do#processo de incessantecentralização do poder. Desde OKséculoXTTTaté(ao
século xviii, em cada uma das regiões da Europa, em França, por exemplo, pare-
cem ter-se alternado fases de centralização e de descentralização,mas, se analisar-
mos a Europa no seu conjunto, é mais fácil observar um movimento de centraliza-
ção progressiva, que acompanhava a ascensãoda <<monarquiaabsoluta>>.
As mudanças na organização e na cultura da corte não se limitaram a reflectir
as mudanças no mundo político exterior a ela; ajudaram-nas também a manifes-
tar-se. Vejamos o exemplo do ritual. A difusão de um ritual cada vez mais elabo-
rado e formal no serviço dos príncipes seculares(servi-los à mesa, entregar:lhes a
roupa quando se levantavamde manhã, etc.) pode ser documentadaa partir de
finais do séculoxiv na corte do imperador Carlos IV, na Inglaterra de Ricardo ll
(genrodo imperador),na corte da Borgonha,no séculoxv, na corte de Espanta,
no séculoxvls(introduzido em Espanhapelo imperador CarlosV, que o impor-
tara dos Países-Baixos)e na corte de Henrique 111de França, que criou o cargo de
grão-mestre de cerimónias em ]585. Essesrituais,tique para alguns contemporâ-
neos, evocavam o culto dos antigos imperadores romanos, incitaram quer os que
nelesparticipavam, quer os ausentes,a assumir um apropriado sentido das distân-
ciasge a tratar o soberano como um ser sobrenatural. Fossem ou não consciente-
mente concebidos com esseobjectivo, essesrituais favoreceram o processo de cen-
tralização, transformando em subordinados el4cortesãos os membos da alta
nobreza, que outrora tinham sido verdadeiros príncipes, embora em escala reduzida.

108
3. O cortesão como artista

Como o príncipe de Maquiavel, o cortesão de Castiglione converteu-senuma


personagem essencial da nossa imagem do Renascimento. O Cor/esmo apresenta
o cortesão como homem <<universal>>,
tão versado nas armas como nas letras,
capaz de cantar, dançar, pintar, escrever poemas e <<cortejar>>
as damas, como se
dizia na linguagem do amor neoplatónico que estavana moda. Essa figura ideal
pareceencarnar todo o movimento do Renascimento:o cortesãocomo um artista
que se exibe, que procura retratar-se e tornar-se uma obra de arte em si mesmo,
como diria Jacob Burckhardt. Mas, na teoria e na prática da <<cortesaniD>,a con-
tinuidade da Idade Média é tão marcada que;é impossíveldizer-se quando uma
época termina e outra começa.
Essestraços de continuidade são talvez mais evidentes na linguagem que utili-
zamos para descrevero tipo de comportamento apropriado nas cortes, sobretudo
a <<cortesia>>.
A cortesia foi descrita como uma invenção medieval. Não havia cor-
tes na Atenas de Platão ou na Romã de Cícero e, embora algo de semelhante à corte
tenha surgido no império romano, a prática da corte careciaainda de teorização.
A partir do século x, porém, podemos ver escritores medievais, que adaptam
o vocabulário ciceroniano das boas maneiras (z/rbanfras, decorram, etc.) ao
ambiente da corte. Os bispos cortesãos, e depois os cavaleiros, começaram a ser
elogiados pelas suas maneiras graciosas (gra/ía morzzm). O termo cortês e os seus
equivalentes(Gaffes,em provençal,cozer/oys em francês,corar/ecusem inglês,
/zóvesc/zem alemão, etc.) eram termos medievaisque, subentendiamimplicita-
mente que a maneira adequada de uma pessoa se comportar era seguir o exemplo
da corte. Adjectivos deste tipo aparecem frequentementena poesia dos trovado-
res, nos romances de cavalaria sobre a corte do rei Artur, e nos manuais de boas
maneiras, conhecidos..em inglês porucolzr/esy-books, livros que já existiam em
grande número em finais da Idade Média, embora o exemplo mais famoso, o
Ga/a/eo, remonte à ltália do Renascimento.
Nas poesiasdo trovador Marcabru, por exemplo,compostasno séculoxii,
nas cortes de Poitiers, Toulouse, Barcelonae outras, podemos ver a importância
dos temas da <<cortesia>>
e da <<mesura>>
(mesura, termo provavelmente não muito
distante do decorzJmciceroniano).

De cortesia is pot vanar


Qui ben sap Masur'esgardar
Mesura es de gen parlar
E cortesia es d'amar.

(De cortesia se pode gabar / quem sua mesura bem sabe guardar / a mesura
está no gentil falar / e a cortesia está no amar.) Os trovadores também ensinavam
a importância da conofsse/zsa,da capacidadede discriminação, e em especial da
capacidade de distinguir a cortesia autêntica da cortesia aparente (<<ostentação
cortesã)>,
cor/ez'uÚa/za).
GuilhermeIX,lque governoua Aquitânia no início do
século xu, era ele próprio um trovador e foi descrito pelos seus contemporâneos
(à semelhançado encómio que Castiglione fez de Carlos V, quatrocentos anos
depois), como <<umdos homens mais corteses do mundo>> (z/n deusmaÜors cortes
det mota).
Os romancesde cavalariatambém forneciam ao leitor, ou ao ouvinte, uma
imagemclara e muito viva do ideal do comportamentonobre,geralmentenum
109

P
ambiente de corte. Com efeito, as cortes reais podiam ser vistas pelos contempo-
râneos através de lentes deformantes, inspiradas na óptica dos romances cavalei-
rescos:numa carta que enviou à família, um nobre inglês que visitara a corte de
Carlos, o Temerário, comparou-a à do rei Artur.
Na Alemanha do séculoxin, o herói do Tristão de Gottfried de Estrasburgo
obteve um grande sucesso na corte de Mark da Cornualha, graças às suas <<virtu-
des corteses>>
(/z(2/sc/ze
/ere), ou seja, devido à sua habilidade e aos seusconheci-
mentos no domínio da caça, da música e das línguas. cristão revelava sobretudo
uma espéciede desdémna forma tranquila como exibia essasvirtudes. Podemos
recordar que o herói de um romance cavaleirescodo século xv que já mencioná-
mos, Jehan de Saintré, exibia os seusdotes, e a sua afabilidade, cortesia e graça
(/rabi/frei, dou/cez/rs. corar/ofsiesef bebo/z/paire/ez)no modo como cantava, dan-
çava, montava a cavalo, jogava ténis e servia à mesa. No prólogo dos seusC2z/z/er-
óury Za/es,Geoffrey Chaucer descreveo seu modelo de nobre numa linhagem
ainda mais próxima da de Castiglione, comentando os talentos do' seu <<squire>>
(o cavaleiro aprendiz) na equitação e nos torneios, no canto e na dança, na escrita
e na pintura.
Não faltam os coar/esy-Z)ooks,que completam as obras literárias, detendo-se
nos pormenores da vida quotidiana, por exemplo, explicando como se deve estar à
mesa em casa de um lorde, e enumerandoas atitudes a citar(não falar em voz
demasiadoalta, não tirar o melhor pedaçoda travessacomum, não dar estalidos
com a língua, não palitar os dentesdurante as refeições,não limpar a boca à toa-
lha, não fazer ruídos inoportunos, etc.). Se podemosfacilmente imaginar que, por
vezes,o comportamento efectivo não correspondiaa essecomportamento ideal,
destestratados emergetodavia uma imagem muito viva, ainda que não propria-
mente agradável, daslrefeiçõesna corte. Por outro lado, se essestratados forem
estudadospor ordem cronológica revelamuma tendênciaa longo prazo para um
autocontrolo cada vez mais acentuado,que Norbert Elias analisou no seu famoso
estudo (/ber de/z.Prozessder Z/v//Zsa//on(1939).Foi precisamenteatravésda corte
que um instrumento tão útil para se comer educadamentecomo é o garfo (uma
invençãoitaliana, segundoparece),se propagoupor toda a Europaem finais do
século xvi. Mas as boas maneiras à mesa constituem apenas um elemento de um
processo mais geral. A corte do Renascimento foi também a criadora de novidades
como o sabão e a pasta dentífrica. A elaboraçãodo ritual foi outro instrumento de
autocontrolo(que talvez possaser melhor definido como aceitaçãode um controlo
do sistema em relação ao indivíduo). O cortesão era, ou devia ser, imediatamente
reconhecívelpelo seu porte e pela linguagemdo seu corpo, que se revelavano
modo de cavalgar, andar, gesticular e(talvezlacima de tudo) dançar. Os tratados
sobre a dança demonstram que se tratava de uma actividade que era tida em
grande consideração,desde a época, se não mesmo antes, do .De ar/e sa/fa/zdí
(1416)de Domenico Piacena, e os mestresde dança italianos, como CesareNegri
de Melão, eram muito requisitados pelas cortes da Europa. A dança tinha um
papel importante nas festasda corte, e parece que alguns cortesãos seserviram dela
para conquistar os favores do rei. Segundoum contemporâneo,foi assim que
Sir Christopher Hatton, capitão da guarda da rainha lsabel, e mais tarde Lord
Chanceler, atraiu pela primeira vez a atenção da soberana.
E evidenteque neste processode adestramento,de educação,em suma, de
transformação do cavaleiro em cortesão, a mulher desempenhavauma função
central. A corte de Urbano, que na ausência do duque se convertia em verdadeiro
salão graças à presença da duquesa e das suas damas, pode ser adoptada como

110
símbolo desseprocesso de evolução. Processo que pode, porém, fazer-se remontar
no tempo até à corte de Eleonora de Aquitânia, que, como rainha de França e de
Inglaterra, ocupou uma posição-chavena transmissãodos valorese da poesia dos
trovadores. No século xv, duas princesasitalianas, Beatriz de Aragão, que des-
posou Mateus, rei da Hungria, e Bona, de Melão, mulherÍde Segismundo,rei da
Polónia, serviram-seda sua posição para difundir por toda a Europa os valores
do..Renascimento. No século xvi, a corte de Margarida de Navarra, em Nérac,
atraía escritores e estudiosos, enquanto a rainha lsabel, um tanto avara como
patrona das artes, soube no entanto servir-sedo seu papel de <<mulherfraca e
delicadn>para domar a nobrezainglesa.
Na suatentativapara tornar requintadae polida a rude nobreza,estasprincesas
foram ajudadas, como é óbvio, pelas outras damas da corte. Na época de Ricardo ll
de Inglaterra, a presença de um grande número de damas era tão insólito que susci-
tava especial atenção. Dizia-se que na corte de Carlos, o Temerário, a presençadas
damas custava ao duque cerca de 40 000 liras por ano. Em Fiança, no início do
séculoxv, a escritora Christine de Pizan foi nomeadadama de companhia da rai-
nha; mas só em finais do século(segundoo testemunhode Brantõme) é que a rai-
nha Ana da Bretanha, esposa de Luís Xll, <<commença la grande tour des dames>>.
Gradualmente foi-secafirmando a ideia de quem(comodiz CesareGonzaga em
O Cor/esmo,de Castiglione) <<cortealguma, por maior que ela seja, pode ter orna-
mento, ou esplendor, ou alegria sem damas, nem cortesão algum pode ser gracioso,
amável ou valente, ou fazer obra airosa de cavalaria, se não movido pela prática do
amor e do prazer das damas>>.Em 1576, os Estados-Geraisde França, na tentativa
de reduzir as despesasreais, exigimm que as damas da corte fossem despedidas e
mandadas para suas casas. Todavia, já nessa época não era possível conceber uma
corte sem damas. Entre outras coisas, portanto, a corte era uma instituição educa-
tiva, a <<greatschool mistress of all curtesy)>, como escreveu Spenser na aderia
Qz/ee/ze,que ensinavaos seusmembros a falar, rir, calar ou andar e até(como subli-
nham algumas críticas da época) a enganar. Os jovens eram enviados para a corte
(quer para as cortes reais, quer para as famílias dos nobres) na qualidade de pajens,
e aí permaneciamcomo escudeirose em seguidacomo cavaleiros.Nesseambiente
aprendiam não só as boas maneiras e as artes marciais, mas também algumas
noções de música e de poesia. No entanto, não sabemos com exactidão se a litera-
tura e a instrução em geral eram ministradas na corte de um modo formal ou infor-
mal(a escolade Vittorino de Feltre,em Mântua, constituiuma excepçãobem
documentada).O facto de na cortesepoderadquirir essesinteresses
e essascapaci-
dades,torna-se, porém, mais claro se examinarmos a carreira de alguns nobres escri-
tores, como os dois pares de Inglaterra do séculoxv, Richard Beauchamp,conde
de Warwick, e .John Tiptoft, conde de Worcester. Tiptoft, que foi definido como <<o
nobre inglês do seu tempo que mais se assemelhavaao modelo do príncipe italiano
do Renascimento>>,tinha estudado na universidade de Pádua e na escola de Gua-
rino di Verona, embora seja mais conhecido como mecenasdo que devido à sua
obra literária. Por outro lado, o duque Carlos de Orleães que, durante os cerca de
vinte e cinco anos do seu cativeiro em Inglaterra como prisioneiro de guerra, se
dedicou à poesia para passar o tempo, é actualmente mais conhecido como poeta.
Na verdade, alguns dos mais famosos poetas do Renascimento eram nobres, cor-
tesãos ou soldados, que ficariam provavelmente bastante surpreendidos se soubessem
que conquistariam uma fama imortal não devido a;osseusfeitos, mas devido aos seus
versos. Balassi Bálint, por exemplo, um barão húngaro protestante, que passou
grande parte da sua vida(1554-94) a combater os turcos, viveu na juventude durante

111
algum tempo na corte de Viena e tornou-se uma figum de destaquena corte de
Estêvão Batory(príncipe da Transilvânia e depois rei da Polónia). Balassi sabia
oito ou nove línguas e actualmente é mais conhecido como poeta:.recordam-se as
poesias em que celebrava o seu amor por Afina Losonczi e Anna Szárkándy, com
versosnitidamente influenciados pela tradição italiana e, em alguns casos,turca.
Para dar outro exemplo, Garcilaso de la cega, filho de um cortesão, foi para
a corte a pedido de Cardos V (Carlos l de Espanha) e.serviu o seu soberano como
diplomata em França e como soldado no Norte de África e em Navarra (onde foi
morto) Tocavamuito bem harpa e os seusmodos e versostornaram-no um favo-
rito das damas. As suas poesias em honra de lsabel Freyre, dama de companhia
da infanta lsabel de Portugal, seguiama tradição do amor cortês. Mas Garcilaso
era tão versado nas armas como nas letras (escrevia em latim e em castelhano)-
Por conseguinte,este<<caballero
muy cortesano>>,
como o definiu um dos seus
contemporâneos, parece ser a pessoa mais conveniente para desempenhar um
papel decisivo na introdução de O Corrosão,.de Castiglione, em terras de Espa-
nha..Garcilaso, de facto, enviou uma cópia dessetratado ao seu amigo Boscán,
que o traduziu, e escreveuum prólogo à tradução, onde definiu O Cortesão como
um livro <<sábio>> (este libro tan sábio).
O conde florentino Giovanni de' Barda,condede Vernio, é actualmentemais
conhecido pelo seu papel na criação dos i/zfermed/na corte dos Médias. No seu
tempo, porem, era também conhecido como soldado, e tinha tomado.parte na
guerra contra hiena e na defesade Malta contra os turcos. Aliás, Castiglione teria
apreciado muito esseconde que, nos intervalos de duas batalhas, ainda encon-
trava tempo para escreverpoesias,obras teatrais e para compor mUslcR.
Quanto à Inglaterra, podemos pensar em Wyatt e Surrey, poetas da corte de
Henrique Vlll, e em Sidney e Raleigh na época isabelina. Sir Thomas Wyatt,
«guarda -costap>,do rei Henrique, seguiu uma carreira predominantemente diplo-
mática, enquanto Henry Howard, conde de Surrey, foi sobretudo um militar. Para
ambos, compor versos era um passatempo; Surrey dedicou-se à poesia na época
do seu exílio da corte. De uma maneira geral, os nobres do Renascimento mostra-
vam uma certa relutância em publicar livros e as poesiasde Wyatt e de Surrey,tal
como as de Sidney e de Raleigh, só foram publicadas após a sua morte. Por uma
curiosacoincidência,quer Wyatt, quer SurreyconheciamO Cor/essa Ainda se
conserva a cópia de Surrey, anotada pelo seu próprio punho, enquanto a sátira de
Wyatt acerca da corte parece aludir precisamente às ideias de Castiglione.
As carreiras de Philip Sidney e de Sir Walter Raleigh também se podem inter-
pretar como a tradução prática dos ideais expressosno diálogo de Castiglione.
Depois de ter frequentado três universidades(Oxford, Cambridge e Pádua).e a
escolade equitação da corte imperial em Viena, Sidney seguiu a carreira militar,
e foi morto em Zutphen, combatendo com os holandesescontra Filipe de Empa:
nha (por ironia do destino, fora justamente em sua honra que o implacável pro-
testante Sidney recebera o mesmo nome). O seu amigo Greville contou duas his-
tórias acerca da morte de Sidney, que, sendo ou não literalmente verdadeiras,
exprimem bem os valores do homem e da sua classe.Morreu devido a uma ferida
na coxa por se ter recusado a envergar a armadura no dia do combate, dado ter
descoberto que um dos seus companheiros se preparava para fazer o mesmo e não
admitir que ninguém assumissemais riscos do que ele. Mortalmente ferido, Sid-
ney recusou-se a beber antes de um soldado moribundo o }er feito, dizendo <<pre-
dsas mais do que eu)>.Greville fala-nos de Sidney como de <um homem capaz de
cumprir os maiores e mais difíceis feitos>>.Esse homem de acção era também

112
um bom escritor, em verso e em prosa. Sidney, de facto, foi autor de uma famosa
sequência de sonetos petrarquistas, de um romance pastoral, intitulado (a exem-
plo de Sannazzaro).4rr(ídfa, e de uma defesada poesia.Esta última obra era
igualmente uma apologia dos <cortesãoscultos>>,cujo estilo era considerado
mais natural e mais ponderado do que o dos eruditos. <<Thecourtier, following
that which by practicehe fittest to natura,therein (though he know it not) doth
according to art, though not by art.>>[<<Ocortesão segueaqui]o que por experiên-
cia considera mais conforme com a natureza, e assim se harmoniza (embora sem
o saber) com a arte, não mediante artifício.>>]
E naturalmenteimpossíveldistinguir a vida de Sidneyda biografia que dele
fez Greville, e em que é retratado de forma a <<fazerboa figura>>.Por isso pode
suspeitar-sede que a sua vida, e a sua obra poética, tenham sido criadas cons-
cientemente como obras de arte. Suspeitas deste género tornam-se certezas no
caso de Sir Walter Raleigh, cuja acentuada propensão para a autodramatização se
tornou evidente ao cortejar a já madura rainha lsabel e ao aceitar desempenhar
publicamente o papel de apaixonado da corte da remota divindade Cynzia, de
quem é o cão fiel (a rainha chamava-lhe<<cachorrinho>>).
Mas, nos bastidores,
Sir Walter perseguia calorosamente uma presa diferente: uma das damas de com-
panhia da rainha, Elisabeth Throckmorton. Quando a rainha teve conhecimento
do matrimónio secreto de Sir Walter com Elisabeth (que estavagrávida), não con-
seguiu conter a sua cólera e o casal foiêaprisionado na torre de Londres. A car-
reira de Sir Walter estavaarruinada. Quanto a lsabel, tinha tomado a sério, ou
com alguma seriedade,o jogo (ou o ritual) do amor (não é fácil encontrar os ter-
mos apropriados para descreveros comportamentos da corte, sempre oscilantes
ao longo da linha de demarcaçãoentre os factos e a ficção). A corte do Renasci-
mento era o cenário extremamenteestilizado daquilo que o sociólogo americano
Erving Goffman definiu como a <<representação de si na vida quotidiana>>.Ou,
como a rainha lsabel afirmava: <<Digo-vos que nós, príncipes, estamossempre
num palco.>>

4. O artista como cortesão

Alguns cortesãos, como Garcilaso de la Veda e Wãter Raleigh, eram, ou


tornaram-se, artistas, quer no sentido metafórico quer no sentido literal do
termo. Em sentido inverso, alguns artistas (pintores, escultores, arquitectos, músi-
cos, poetas, etc.) tornaram-se cortesãos por terem sido chamados à corte, devido
aos seus talentos artísticos, por príncipes interessados nas artes ou que desejavam
ser conhecidos como mecenas soberbos e magnânimos.
A música, por exemplo, tinha uma importante função na vida da corte. Os
príncipes precisavamde cantores para as suas capelas, de trombeteiros para as
procissões e de harpistas e tocadores de alaúde para a música de câmara. Parece
que os duquesde Borgonha amavama música de um modo especial.Filipe, o
Bom, chamou à corte dois bons compositores,Gilles Binchois e Guillaume
Dufay, o primeiro como capelão e o segundocomo mestre de música de seu filho,
Carlos, o Temerário. Carlos aprendeua cantar, a tocar harpa e a compor música
e fazia-seacompanhar pelos seusmúsicos mesmo durante as campanhasmilita-
res, como no caso do cerco de Neuss, ;por exemplo. Outro famoso mecenas dos
músicos foi Ercole d'Este, duque de Ferrara, e uma famosa carta mostra-nos as
suashesitaçõesentre dois candidatos, Heinrich lsaak e Josquin des Prós.

113
As vantagens do mecenatismo da corte são realçadas pelas histórias de alguns
sucessos.no campo da música, como, por exemplo, as carreiras de Orçando
Di Lasso na corte dos duques Alberto V e Guilherme V, da Baviera, ou de Vãlen-
tin Bakfark, na corte de SegismundoAugusto,rei da Polónia.:Lasso,um fla-
mengo que vivera alguns anos em ltália na corte de Mântua e noutros locais, pas-
sou quase quarenta anos na corte da Baviera, na qualidade de mestre-de-capela,
casou com uma dama da casaducal e foi agraciado com um título nobiliárquica
pelo imperador Maximiliano 11. As suascartas testemunhama estreita relação
com o duque Guilherme, e uma delas termina com a sigla Or/a/zdissimo/assfs-
sfmo amorevo/fssimo.Bakfark, um tocador de alaúde da Transilvânia, passou
quase vinte anos na corte da Polónia e recebeu muitos privilégios do rei.
Mas os exemplos dos favores concedidos pelos príncipes aos músicos podem
multiplicar-se com uma certa facilidade. O tocador de alaúde inglês John Dow:
land, que na sua pátria não conseguiraconquistar o lugar desejado na corte, foi
honrado e bem recompensadona corte do landgrave de Aix e pelo rei da Dina-
marca, o jovem Cristiano IV. O músico Luigi da Milano ficou a devera sua posi-
ção de relevo à corte.de Valência (que depois descreveuno seu fascinante diálogo
.E/ cor/esano) ao seu talento de intérprete e de compositor de árias para a vf/zzle/a
de mano.
Também alguns pintores conseguiram posições elevadasna corte, onde os seus
serviços eram requeridos não só para decorarem os aposentos mas também para
pintarem os retratos e projectarem os trajes e a cenografia das festasda corte. Jan
van Eyck era o va/er de c;zambree também o pintor oficial de Filipe, o Bom,
duque da Borgonha, e acompanhou a embaixada de 1429 a Portugal com o
encargo de pintar o retrato da futura duquesa. Como pintor:da corte, estava
isento das restriçõesda sua corporação. Durante o século xv, treze artistas (onze
dos quais italianos) foram honradoscom títulos de nobreza,e, no séculoxvi,
essahonra coube a cinquenta e nove artistas, dos quais vinte e nove italianos (só
o imperador Rodolfo 11 concedeuonze títulos nobiliárquicos a artistas). Ticiano,
nobre de nascimento,constitui um exemploóbvio de artista, que sabiacomo
comportar-se na corte. O mesmo se passavacom Rafael: via-se que era amigo de
Castiglione, e Vasari não elogia apenasa sua arte mas também os seuscostumes
e sobretudo <<asua graciosa afabilidade, que semprese mostra doce e agradável
com toda a espéciede gentee em qualquer situação>>. Pelo menosaparentemente,
Bartholomeus Spranger era muito íntimo do imperador, que costumava passar
com ele dias inteiros, conversandoe admirando o seu trabalho.
Apesar disso, a condição do artista na corte permaneceem certa medida
ambígua,como nos revelaa famosa autobiografia de Cellini. Cellini conta-nos
pequenas histórias em que Francisco l Ihe chama mo/z ami ou o grão-duque
Cosimo de Médias Ihe faz <<infinitascarícias>>
e Ihe promete grandesrecompen-
sas; mas também nos conta que era obrigado a estar todo o dia à espera à porta
da amante do rei, Madame d'Etampes, ou que era difícil conseguir que o tesou-
reiro [he pagasse o dinheiro que Francisco ] ]he tinha prometido, e que Cosimo
Ihe tinha retirado os seus favores e Ihe chamava .A/a/ve/zz/ío em vez de Benvenuto.
Os artistas que tinham de se esforçarpara conseguiruma posiçãodestacada
e estável na corte tendiam a transformar-se cada vez mais em empresários das
artes. Velásquez, por exemplo, passou muito tempo ao serviço do rei desempe-
nhando as funções de curador da colecção de arte de Filipe IV. decidindo quais
os quadros a comprar, onde coloca-los, etc. Na corte de Rodolfo 11, em Praga,
Hans von Aachen não se limitava apenasa pintar retratos; tinha tambémde

114
/

executaras cópias dos quadros de que o imperador gostava,e comprar os que se


destinavam à colecção oficial. Outros artistas assumiam a responsabilidade de
organizar as festas.na corte, como, por exemplo, Bernardo Buontalenti em Flo-
rença,: BaldassareBelgioioso em Paria,: Michael Sustris no Mónaco e Giu-
seppe Arcinboldo na corte imperial de Praga. E possível que Gil Vigente, actual-
mente mais conhecido pelas suas obrasçiteatrais,mas que Manuel, rei de
Portugal, empregavacomo ourives da corte, desempenhasse uma função análoga.
O facto é que o rei Manuel despendeugrandessomas em dinheiro para as festas
da corte
Mais definida e segura era a posição dos escritorese dos intelectuais(oü, para
usar o termo da época, dos literatos). Na realidade,nestedomínio, o contraste
entre o cortesão/artista e o artista/cortesão já quasenão existe,embora continue
a ser possível distinguir cortesãosmais ou menos a tempo inteiro e de condição
mais ou menos elevada. Sir Philip Sidney, por exemplo, foi mais cortesão que
poeta, enquanto Edmund Spenserfoi mais poeta que cortesão.
Alguns soberanos apreciavam a companhia e a conversa dosehumanistas,
como Afonso de Aragão, rei de Nápoles, em cuja corte eram recebidos Lorenzo
Valia, Bartolomeo Fazio e Antonio Beccadelli, e em todas$:ascortes havia cargos
à disposição dos literatos. Um dessescargosera o de pregador da corte: o frade
humanista Antonio de Guevara, por exemplo, era o pregador de Carlos V. e ape-
sar de Ihe ter sido atribuída uma diocese,onde deveriaresidir, passoumuitos anos
na corte,lsobretudo em Valladolid (uma experiência pessoal bem visível no seu
,4víso de Privados e sobretudo no Me/zosprecíode Cor/e). Outro cargo reservado
aos intelectuais era o de médico real, cargo que foi por vezesocupado por huma-
nistas, como, por exemplo, Thomas Linacre, médico de llenrique Vlll, ou Guil-
laume Cop, que esteveao serviço de Francisco l. :Havia ainda o cargo de pre-
ceptor dos filhos do príncipe, que foi ocupado, entre outros, por humanistas
renascentistas como Rogar Ascham.(tutor da futura rainha lsabel), George
Buchanan (preceptor dos filhos do duque da Baviera) e Jerónimo Osório (que se
encarregou da educação do neto do rei João de Portugal).
As oportunidades de emprego para os intelectuais multiplicaram-se durante os
séculosxv e xvi. Depois da invenção da imprensa, as bibliotecas propagaram-se
rapidamente e foi necessário recorrer aos serviços de eruditos bibliotecários,
como GaleottoMarzio (bibliotecáriodo rei Mateusda Hungria) ou Guillaume
Budé (bibliotecário de Francisco 1). Francisco contratou também o escritor Jac-
quesColin para /ecfeardu roy, que estavaencarregadode ler em voz alta para
ele. O imperador Fernando l nomeou antiquário da corte o mercador de arte
Jacopo Strada, e o seu sucessor,Maximiliano 11,chamou a Viena Carolus Clu-
sius para desempenharas funções de ervanário da corte. O sucessorde Maxi-
miliano, Rodolfo 11, chamou a Praga o erudito$dinamarquês'lycho Brahe para
ocupar o cargo de <<matemáticoimperial>>(por outras palavras, de astrónomo ou
astrólogo) e Tycho levou consigo um jovem assistente,Kepler, que Ihe sucedeu.
Começoutambém a tornar-se cada vez mais vulgar a contratação de escritores
para secretáriosou historiadores da corte. Henrique Vlll nomeou seu secretário
particular o humanista italiano Ammonio, provavelmentedevido à sua capaci-
dade de escreverem bom latim clássico. Budé desempenhou uma função análoga
junto de Francisco l e o poeta Jan Kochanowski foi secretário de Segismundo
Augusto da Polónia e passou quase dez anos na sua corte. Georges Chastellain foi
o cronista oficial de liilipe, o .Bom, da Borgonha, cargo desempenhadopor Her-
nando del Pulsar na corte de Fernando e lsabel.
115
Os humanistas desempenhavamfrequentementeo cargo de historiadores ofi-
ciais: Paolo Emilio, na corte de Luís Xll, de França, Johann Aventinus, na corte
da Baviera, Benedetto Varchi e Giambattista Adriani, na corte do grão-duque
Cosimo de Médias, etc. Esperava-senaturalmente que relatassemsob o melhor
ângulo a gesta dos príncipes e dos seusantepassados,mas também lhes era mui-
tas vezesproporcionado um acessoprivilegiado às fontes de.arquivo: O..duque da
Bavíem escreveuaos abades do seu ducado recomendando-lhes que facilitassem a
Aventinus o acesso aos documentos medievais conservados nos seusmosteiros, e
Cosimo mandou fazer o inventário do conteúdo dos arquivos de Estado em bene-
fício de Adriani.
Também dos poetas se esperavam louvores. Alguns deles tornaram-se poetas
laureados, ou mesmo coroados literalmente com coroas de louro pelo imperador.
Petrarca orgulhava-sedo facto de ter sido coroado pelo imperador Carlos IV;
Segismundo coroou Panormita, e Frederico ll coroou Enea Sjlvio Piccolomini,
Ermolao Bárbaro e (possivelmente)Conrad Celtis, enquanto Maximiliano confe-
riu tal honra a Glareanus, a Dantiscus, a Vadianus e a Hutten. Para obter esse
reconhecimento,ou em troca dele, os poetas adulavam os seusmecenas.Celtis,
por exemplo, foi bastante generoso no elogio de Frederico, o sucessorde Maximi-
liano : dedicou-lhe livros e escreveuobras teatrais em sua honra.
Poemas épicos em estilo virgiliano retratavam também os príncipes de menor
importância como outros tantos Augustos. Os Sforza tiveram a sua SHorzzhda
(escrita por Filelfo), Federico de Urbano teve a sua Re/fria, e Borco d.Este.uma
Bons/as.A Humphrey, duque de Gloucester,irmão mais novo de Henrique V. de
Inglaterra, foi dedicada uma .17tz/ndrofdas (da autoria de um humanista italiano
da suacôrte, Tito Lívio de' Frulovisi).Ronsard,que não em decertoo pior dos
poetas, escreveuuma .f;ra/zcíadepara o rei de França, onde chegava mesmo a for-
mular uma profecia acercada futura grandezade Carlos IX. A primeira parte
desta obra épica foi publicada em 1572, ano do massacre de São Bartolomeu ; não
admira por isso que Ronsard a tivesse deixado incompleta. Os reis de Portugal
tiveram os seus.Luszbdas,publicados pelo grande poeta Luís de Camões,em
1572, no mesmo ano do poema épico de Ronsard, e dedicados ao rei Sebastião,
cujos feitos são comparados aos de Rodamonte,.Romeiroe Orlando; no poema
convidava-se o príncipe a conquistar uma glória ainda maior. Sebastião parece ter
tomado esseconvite demasiadoà letra, dado ter sido morto em combate no Norte
de Africa, permitindo assim que o seu reino fosse incorporado no império de
Fila
Ronsardtambém escreveuversospara as festasda corte: para os festejosde
Bayonne,em 1565, quando Catarina de Médias se encontrou com sua filha,
a minha de Espanha, para a recepçãoao embaixador polaco, em 1572, e para
o casamento do duque de Joyeuse, em 1581 (nesta última ocasião recebeu 2000
escudospelos seuspréstimos). Podemosconsiderar Ronsardum.bom exemplo.do
poeta-cortesão,até'porque a corte era o ambiente em que ele tinha crescido,visto
ter sido pajem do delfim Francisco, o primogénito de Francisco 1, que morreria
ainda criança. A carreira de Clément Marot não foi muito diferente. Filho de um
cortesão, Marot foi pajem do secretário de Francisco l e va/e/ de c/zambreda
irmã do rei, Margarida'de Navarra.Não escreveunenhumpoemaépico.nem fez
versospara as festas da corte, mas muitas das suaspoesias têm o selo da corte:
são cartas dirigidas ao rei ou aos membros do seu e/zfouruge,brevesepigramas
acercados cãesdo rei, etc.A protecçãodo rei e de suairmã (eaquandoMarot
visitou a ltália, a protecçãode Renata,mulher de Ercole d'Este, de Ferrara)
116
/

revelaram-seindispensáveispara a salvaçãodo poeta e para a sua sobrevivência


já que sobre Marot recaía a suspeita de heresia.

5. Crítica da corte

A enumeração de todas estas histórias, a que não seria difícil acrescentar


outros exemplos, pode dar uma impressão um pouco rósea de mais da corte como
ambiente de artistas, escritores, eruditos. Algunsldeles não conseguiram nunca
obter qualquer cargo na corte e muitos dos que o conseguiramacabaram por se
arrepender.Se,para alguns, a corte era um paraíso, um <<paraíso terrestre>>,
como
disse Claude Chappuys, havia outros que a consideravam o inferno (comparação,
de resto, que pode fazer-se remontar a Wãlter;iMap, no século xií).
Vejamos o caso de8Edmund Spenser.Spenserera um cortesão de segundo
plano (protegido de um cortesãomais importante, Sir Philip Sidney), autor de
um poema épico, 7'he .füerie Qaeene, que era simultaneamente uma glorificação
da rainha lsabel e uma espécie de livro de boas maneiras (em especial, a história
do cortês Ser Calidore, no livro sexto). Mas Spenser não foi bem recompensado.
Recebeuapenas uma exígua pensão da rainha e o cargo de secretário do vice-rei
de Irlanda. Nada mais. As suas referências no poema às <<vãssombras dos favores
da corte>> (s/zadows vafne / of coz/r//y Javoz.fr) exprimem bem a sua amargura
e a sua frustração. John Lily foi outro dos escritoresi$desiludidos
da corte da
rainha lsabel. Apesar de ser autor de um romance que fez sucesso,o .Eup/lhes
(1579), e de algumas obras teatrais, não conseguiu ser nomeado para o cargo de
<<Master
of the Revels>>
(mestredos banquetes),nem para qualquer outro cargo
na corte
Por motivos diferentes, houve um certo número de escritoresque abandonou
a corte e foi viver para o campo,como,porlexemplo,Jan Kochanowski,que
abandonou Cracóvia paralir para os seus amados domínios dedCzarnolas, ou
mesmo o próprio Ronsard, que nos últimos anos da sua vida começou a passar
períodos de tempo cada vez mais longos no Maine.
Sir Walter Raleigh, autor de uma amargae violenta descriçãodo meio que se
preparava para abandonar (Say ro f/ze coz/rr í/ g/ows / .4/zd s/zi/zes /fke ro//en
wood: diz à corte que ela arde / e reluz como madeirapodre) retirou-separa
Sherborne, no Dorset, para uma propriedade que a rainha Ihe dera quando ainda
era um dos seus favoritos. Ariosto, porém, nunca deixou Ferrara, mas as suas
sátiras exprimem bem até que ponto ele preferia a independênciaao serviço na
cole e a sua casa aos salõesdo palácio ducal.
O comportamento dos artistas em relação à corte era muitas vezesambiva-
lente. BaldassarePeruzzi deixou a corte papal para regressarà sua cidade natal,
Siena, <<poramar mais a liberdade da antiga pátria -- como nos relata Vasari --
do que o favor do papa>>.Mantegna hesitou durante muito tempo antes de aceitar
um convite para a corte de Mântua, reflectindo sobreast:<<muitas
persuasõesde
outros em contrário>>.E já falámos das queixasde Cellini acercada maneira
como fora tratado nas cortes de Franciscol e de Cosimo de Médias.
Alguns dosfque permaneciamna corte desejavam,ou afirmavam desejar,
poder manter-se afastados dela. A crítica da corte era um lugar-comum de cariz
moral e literário, que tinha as suasorigens na Antiguidade tardia (como testemu-
nham as sátiras de Juvenil e de Luciano), que ressuscitouna Idade Média e foi
mantido e perpetuado durante todo o Renascimento.
117
Exemplos típicos dessa crítica tradicional são.as opiniões segundo as quais
<<acorte é com:'um mar, cujas ondas são o orgulho e a inveja>>; ou bela é bons:

paspmpriedartuno sugerir que se faça uma distinção entre a crítica da corte e


a crítica do cortesão.'Muitas vezesa corte era criticada do ponto de vista do cor-

epistolar com o seu amigo Johannesde Eich e que remonta a 1444.O autor mis-

#@Ü8Hiu:EI:n ug:'u$;:!
surgem repetidamente o da desoladora constatação de que as pessoas de pouco
valor são premiadas e os homens valorososenlanguescem,o da instabilidade da
vida de todos os dias (<<quemontem era favorecido hoje caiu em desgraçn>).eo

à dormida. Os servos<<sãomuito lentos quando têm de trazer a comida, mas são

iisu fl BWg:i$
i$Rhi:ai':iHI
em questões de higiene) e por vezesaté era preciso ir dormir para os.estÍjbulos ou
compartilhar a cama com um estranho. Em suma, na corte, não há nenhuma pri-
vacidade. "
A propagada descrição da corte como local de inveja, de calúnia, de adulação
e de toda a espéciede ciladas já nos diz algo acercada forma como os cortesãos
do Renascimentoeram consideradospelos outros, embora a.lista dos .vícios,que
lhes eram atribuídos não se esgotenessadescriçãoe seja praticamente infindável.
Os cortesãos eram frequentemente descritos como ignorantes, ociosos, pretensio-
sos obcecados pelas aparências : os homens, efeminados; as mulheres, desavergo-
nhadas. Não se dwe, porém, tomar à letra estas críticas. Entre outras coisas,

118
&
/

garfos, pastas dentríficas e perfume (tudo sinais de efeminação, segundo o crítico


anõmmo).
Um dos temas mais frequentesda literatura anticortesã dessaépoca é aquilo
que poderemos definir como italofobia, uma reacção ou uma revolta contra a cul-
tura do Renascimento
ou, pelo menos,contra certosaspectosdessacultura, só
pelo facto de ser estrangeira.Como a <<americanização>>,
nos nossos dias, a <<ita-
lianização>>era denunciada naquele tempo por moralistas etnocêntricos. Termos
como //a/fanlsar/o/z, ífa/ia/zfsé ou i/a/fa/zfza/eur podem encontrar-se em dois diálo-
gos do tipógrafo protestante francês Henry Estienne, pub]icados em ]578. Como
acontece com as críticas modernas aos <<francesismos>> e aos <<anglicismos>>,
Estienne estavapreocupado com a corrupção da nobre língua francesa devido à
influência de modos de falar estrangeiros. Associava a í/a/fa/zlsarfo/zao courrisla-
nisme: era precisamentenos círculos da corte, pensavaEstienne, que as pessoas
achavam muito requintado dizer, por exemplo, <<àbastanse>>(bastante) em vez
de assaz
A crítica dos costumesitalianos não selimitava, porém, ao domínio linguís-
tico. l.Jm tanto ironicamente, dada a recusadessa atitude por parte de O Cor/e-
smo,o livro e o seuautor converteram-seem símbolode afectação,pelo menos
em alguns círculos de Inglaterra, França e noutros países. O fátuo cortesão, obce-
cado pelos trajes e pelos rituais cerimoniosos,é uma personagemassíduaem
muitas comédias inglesas da época de Shakespearee, frequentemente, para refor-
çar a mensagem, dá-se a essa personagem o nome de <<Baldassare>> ou <<Castilio>>.
Muitos estrangeiros associavamos italianos a adulação, a engano, a astúcia e
(nem sequer seria necessáriodizê-lo) a Maquiavel. Estas reacçõesde carácter
xenófobo foram particularmente violentas em França, em cuja corte, desde os
tempos de Francisco l (e ainda mais, por razõesóbvias, no período de Catarina
de Médias), viviam muitos italianos, mas comportamentosanálogospodem
encontrar-setambém noutros locais, desde a Inglaterra até à Polónia.
A partir de inícios do século xvn, as críticas da corte, outrora de cariz indivi-
dual e moral, tornaram-se políticas e colectivas. A <<corte>>
e o <<campo>>
(court e
coza/z/ry),que durante muito tempo tinham sido apenas nomes que designavam
duas alternativas de estilo de vida dos nobres, transformaram-se em etiquetas de
dois partidos políticos, duas facções.Lucy Hutchinson,na biografia do seu
marido, o coronel Hutchinson, descrevea corte de Jaime 1, que frequentara nos
tempos da sua juventude, como <<umberço de luxúria e de intemperança[...].
A maior parte da nobreza deste país aprendeudepressaa moda da corte e todas
as grandescasas do país se transformaram em imundas pocilgas>>.Aqueles que
denunciavama imoralidade da corte, continua Hutchinson, eram chamados
<(puritanos>>.
A visão apocalípticade Lucy Hutchinson, que via a sociedadedividida entre
os <(filhosda luz>>e os <(filhosdas trevas>> (estesdominadospela corte) é real-
mente a mais radical das críticas da corte que até agora examinámos; mas essa
visão não era apenassua e teve importantes consequênciaspolíticas. O conflito
entre os filhos da luz e os filhos das trevas é mais conhecido como guerra civil
inglesa, em que o coronel Hutchinson se colocou ao lado do parlamento. Esta
notável transformação introduzida no clima político, que abrangeu não só a
Inglaterra mas toda a Europa Central, faz da primeira metade do século xvn um
momento apropriado para encerrar este ensaio sobre o cortesão do Renas-
cimento.

119
CAPITULO V

O FILOSOFO E O MAGO
por EugenioGarin
1. Pode parecer estranho fazer do filósofo -- mas trata-se de um filósofo que
se veste também de mago e de astrólogo, e talvez de homem de ciência -- um tipo
humano característico do Renascimento,ou melhor <<renascido>>
precisamenteno
Renascimento.No entanto,Jacquesle Goff tinha razão quando,no já remoto
ano de 1957,ao apresentaros <<intelectuais>>
da Idade Média, não quis usar o
termo de <<filósofo>>.
Foi aos <<intelectuaip>,e não aos <<filósofos>>
que foi dedi-
cado um ensaio inserto no volume simétricos,deste intitulado O .17omem .AZedfe-
va/. Tinha razão quando afirmava, referindo-seaosvários Bonaventurada Bag-
noregio, Tomas de Aquino e outros teólogos e santos, que <<ofilósofo, para nós,
é uma personagem diferente>>,e quando considerava, mais ou menos explicita-
mente, o que tinham sido os filósofos das cidadesgregas e do mundo antigo em
geral: mestresde vida e cientistas, médicos das almas e dos corpos, reformadores
e críticos radicais, prontos a testemunhar;!mesmocom a morte -- Pitágoras e
Empédocles,Sócrates e Platão, Demócrito e Epicuro, Pirro e, depois, Plotino,
sem esquecer Cícero e Séneca.
Pois bem, o regresso dos filósofos antigos no Renascimento, que abriu cami-
nho a rios de retórica, alterou, porém, o próprio aspectoda investigação,e reno-
vou a imagem do filósofo e da filosofia: antes do mais, já não, ou não neces-
sariamente, mestre-escola H não . vinculado a ortodoxias de qualquer espécie,
intolerante em relação a qualquer pretensãohegemónica,crítico por vocação
e muitas vezesrebelde, investigador inquieto e experimentador de todos os do-
mínios da realidadecomo Leon BattistaAlberti ou Leonardoda VincijJcon-
testador de verdades consagradas como Pomponazzi, ansioso por verdades
ocultas e por revelaçõesmisteriosas como Ficino, mago como Cornélio Agrippa,
propagadorda paz universal'como Erasmo, médico dos corpos em harmonia
com as forças da natureza como Paracelso, testemunha de verdades como Gior-
dano Bruno.
Sea filosofia rompe duramentecom o passado,não se reconheceem nenhum
<<livro>>
nem'jem nenhum <<auton>,e descobre caminhos novos e novas alianças,
o filósofo é também aquele que não conhecebarreiras ou caminhos predetermi-
nados, que se abre à vida activa, que se interessavivamente pelo mundo moral e
político, pelo homem e pela existência do homem. E, no fundo, é ele, o filósofo,
o homem universal do Renascimento, acerca de quem se gastou e continua a gas-
tar tanta retórica. Inicia um novo modo de procurar, de viver e de fazer cultura.
Ao contrário do p/zl/osop;zedo séculoxvm, com quem tem todavia uma subtil
...êpalogia, não se reproduz em muitos exemplares,porque se são muitos os filoso-
faiítes, os filósofos não são em grande número, mas dão origem a uma categoria
de homens dos mais característicos de uma época: para além de madres à pensar,
mestres de vida.

123
Aliás, não é por acaso que é a época do grande sucessode Diógenes Laércio,
traduzido em latim e em italiano (Veneza1545),mas sobretudodifundido em
curiosos compêndios e adaptações,mesmo de origem medieval, vulgarizados niti-
damentepara uso <(popular>>
e profusamenteilustrados, mastambém providos de
máximas ensinamentos morais, diálogos reparadores inspirados no .mundo clás-
sico Assim, pam dar apenasum exemplo, em finais do séculoé publicada a obra
Vidas dos antigos .filósofos e das suas elegantísslmas sentettças, extraídas de Dió-
genesZ,aérc/oe de ozzrrosautores antigos, ornada de belas gravações, que se ven-
dia Em F7ore/zça, rzo .4rceblspado, em 1953.

2. Em 1621 apareceu em Oxford um dos livros mais singulares do século, que


iria conhecer um excepcional sucessoao longo de todo o século xvii: 7'he .4/za-
/omy of ]We/a/zc/zo/y'(.4 .4/za/omfa da À4e/a/zco/fa), obra de um enigmático
Democritus Junior, ou seja, Robert Burton, nascido em 1577e que, em 1626,
viria a ser bibliotecário do Christ Church College. Quando o seu livro foi publi-
cado, Shakespearenão morrera há muito, e Francis Bacon ainda vivia e exercia a
sua actividade..Bom astrólogo,Burton no seu livro maciço e bizarro condensou
e ofereceuà Inglaterra culta grandeparte da reflexãofilosófico-científica acerca
do homem que abrangia um período de cerca de dois séculos,o período do
Renascimento,justamente, concedendoum espaçoparticularmente amplo à pro-
dução italiana, de que foi um dos canais privilegiados de difusão no seu país;.
'Logo a partir do tema escolhido, a melancolia e o melancolico, Burton indi-
cava. embora sem o afirmar"explicitamente, uma das suas fontes6predilectas,
Marsilio Ficino, que cita constantemente. Melancólico, nascido sob .o signo..de
Satumo é o intelectual,ou melhor,o filósofo, e sobretudoo novo tipo de filó-
sofo, que há pouco tempo começara a circular pela Europa, e?Sactamente como
Ficino: moralista e médico: mago e astrólogo, que, como os sábios antigos, ri .e
chora com as coisasdo mundo, e para quem a melancolia assumeas característi-
cas da divina mania de Platão. A própria ideia de se ocultar sob a máscarade
DemocritusJunior pode ter sido sugeridaa Burton precisamentepor Ficino, que
numa das paredes da sua <<academia>>
pintara a esfera da Terra .e, num dos lados,
Demócrito rindo das loucuras dos homens, e no outro Heraclito chorando com
as suas desventuras.
No entanto, na extensaintrodução à sua obra, Burton explica quem tinha.sido
Demócrito, retratando-o d/ forma muito expressivapara mostmr quer embora
nao reproduzindo fielmente a sua imagem, é ele o seu.modelo. Um modelo clás-
sico, repare-se,construído a partir das cartas pseudo-hipocráticasa que Burton
confere grande importância: um modelo, acrescente:se: sobre.o qual já no
séculoxv se tinha detido demoradamente,e com particular eficácia, Leon Bat-
tista Alberti, numa obra excepcional que no século xvl teve duas edições latinas,
uma tradução italiana e uma tradução espanhola: o .A/omzzs.<<Entreos filósofos
-- escreviaAlbertiW!: só encontrei duas pessoasque ouvi fazerem discursospro-
fundos e racionais: Demócrito e Sócrates.>>E detinha-seem Demócrito, apresen-
tando-o como o ideal do cientista da natureza, interessadoem captar as estrutu-
ras profundas dos seres.nTambém
para Burton, Demócrito é o:lfilósofo que a
própria cidade, Abdera, tem em grande conta, e que <<por demasiada sabedoria>>
a maioria das pessoaspensa que enlouqueceu,porque ri das <<coisas grandese
pequenas>> e procura as verdadesocultas. Burtont Democritus,Junior, sabeque
não é o sábio antigo : não possui todos os seusconhecimentos físicos e matemáti-
cos, não desempenhacomo ele cargos na cidade. Procura todavia escrevero seu

124
livro apaixonado sobre os homens e a sua <<melancõlin>,para os curar, como o
velho Demócrito, o Demócrito da correspondênciapseudo-hipocrática,costu-
mava fazer.
Não vamos seguir a imagem do <<filósofm>, de Demócrito, e de Democritus
Junior, que Burton esboça.Se o fizéssemos,porém, vê-la-íamosdelinear-sena
galeria de figuras que emergemdas suas infindáveis citações, por vezes,aparen-
temente, sem qualquer ordem, mas, em geral, tão subtilmente escolhidas e tão
representativas.E o <<filósofo>>
novo, o oposto dos muitos P/z//osop/zasfrfque ele
tinha criticado numa das suas comédias juvenis representada a 16 de Fevereiro de
1617no Christ Chruch College: P/zi/osop/zas/rf,Theo/ages/rí,ou seja, burros que
enchemas escolas,com a única missão de pâr outros burros em circulação.
Assim são os professores,e as universidades,mesmo as mais antigas e as mais
famosas: Accipiamus pecuniam, demitamus asinum, ut apud Patavinos rali.
O discurso de Burton, de Democritus Junior, erajá, em certos aspectos, quase
um lugar-comum, mas realçavacom originalidade sobretudo duas características
do novofilósofo, em contrastecom o velhomestreuniversitário:o <«ábio>> res-
peitado e consultado pela cidade, em suma, o filósofo <<civil>>;
ou o filósofo
«naturab>, que deseja conhecer as coisas para agir sobre as coisas: médico.
«magoa, astrólogo. Daí o significado da referência a Demócrito como modelo de
filósofo de tipo novo, comum, com século e meio de diferença, a Alberti e a Bur-
ton. SegundoAlberti, Demócrito, não podendo autopsiar o homem, dissecaos
animais(<<parecia-me
ímpio cortar com o ferro os sereshumanos>>)
com uma
intenção terapêutica precisa: <<Paradescobrir o lugar onde se situa a principal
doença dos homens, a cólera (fracund/a), e compreender assim a origem dos
impulsos, das agitações, do fogo que perturba a mente humana e destrói qual-
quer forma deàracionalidade.>>
Portanto, a figura do filósofo, cuja imagem é fixada segundo os ideais clássi-
cos, e que é proposta como modelo a imitar, ou é a do mestre da moralidade.
cujo exemplorecorrente é Sócrates,ou a do investigador desencantadocom a rea-
lidade natural, como Demócrito. Restaem ambos os casosa aspiração a resulta-
dos práticos, desde a previsão do futuro à cura das doenças. Por vezes, e em certa
medida, será esseo caso de Marsilio Ficino, os dois modelos. e as suas missões.
acabam por encontrar-se até se fundarem: a medicina do corpo funde-se com a
medicina da alma.

3. 1.Jmaprova singular da transformação da imagem do <<filósofo>> é-nosofe-


recida por uma grande obra de arte: os crês .f?/áç(!áos,de Giorgione, com as três
enigmáticas figuras absortas, enquanto o mais jovem, sentado, estupefacto e
expectante,contempla aquilo a que Leonardo da Vinci chamou <<aameaçadorae
escuraespelunca>>,
talvez a cavernade Platão. Depois de tantas e tão diversas
conjecturas, talvez já não tenha grande sentido saber quem são os três filósofos;
gu, na realidade, como já vários afirmaram no passado,talvez queiram apenas
simbolizar três filósofos, daquelesque se podiam encontrar numa corte, ou num
/

gabinete:um jovem cientistainteressadona natureza,um velho venerandoe um


oriental. Filósofos, sublinhemo-lo,de acordo com a imagemdo <<filósofo)>
que
tinha vindo a delinear-selentamenteno séculoxv, e muito diferentedo mestre
universitário medieval. No entanto, o grande valor deste quadro reside no facto
de nele se conservar a história das suas várias versões e a sucessão das imagens
apagadas e corrigidas permite-nos <<ler>>as transformações de uma <<figura>>:
a figura do filósofo.

125
Como é sabido -- e foi referido há algunsanos por SalvatoreSettis numa
reconstituição feliz -- , nos anos trinta do nosso séculofoi feita a radiografia dos
crês .FT/ósoÓos, que revelou que os filósofos eram os Reis Magos, e que o <<onen-
tal)>era nitidamente um negro. Além do mais -- e nesteponto a interpretação de
Settis é de particular interesse --, os magos com os seus cálculos estão a observar
a Estrela que anuncia a vinda de Cristo e indica o caminho, se for devidamente
interpretada. Como é sabido, no séculoxv, a questão da Estrela dos Magos
tinha suscitado uma discussão bastante viva entre defensorese críticos da astrolo-
gia judiciária. Marsilio Ficino dedicara uma das suaspredfcaíiones ao problema
de S/e//a .4/adoram e sobre o mesmo tema se debruçará Pico della Mirandola.
Pois bem. na versão definitiva dos crês /l/óscláos os astrólogos transformam-se
em filósofos, que investigam os mistérios da natureza, servindo-se: pelo menos o
mais jovem, de cálculos e de medidas, o que traduz fielmente.a.posição por vânas
vezes expressa por Ficino acerca da sucessão no tempo dos vários tipos de investi-
gação. Por outras palavras, o filósofo não faz mais do que elevar ao nível de
investigaçãoracional as exigênciasa que magos e filósofos tencionavam respon-
der, ao passoque do filósofo de hoje se podem<<ler>>
à transparência
as raizes
mágicas.
Por outro lado, o novo filósofo, tal como os magose os astrólogos, continua
a debruçar-se sobre a caverna, que, por um lado, remete para Platão, mas, por
outro, não pode deixar de reevocarfortementeLeonardoe o famosotexto do
Códice Arundel:

desejoso de ver a grande cópia das variadas e estranhas formas feitas pela artificiosa natu-
reza, [...] cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qua], [...] dobrado em arco,
e com a mão cansada pousada sobre o joelho, com a mão direita fiz sombra para !s desci-
das e cerradaspestanas; e muitas vezesme inclinei aqui para ver se .dentro.se discernia
alguma coisa. Fiquei assim algum tempo, e de repente senti em mim.duas coisas, medo e
desejo medo da ameaçadora e escura espelunca, desejo de ver se lá dentro existia alguma
coisa milagrosa.

Perscrutar a caverna, ou seja, penetrar a fundo na realidade natural; interro-


gar as estrelas;dissecaros vivos; ditar as leis à cidade, ou melhor, construir a
cidade: curar a melancolia e a loucura: eis algumas das tarefas de quem é consi-
derado e apontado como filósofo entre os séculos xv e xvi: num Progressiva
ajustamentodo termo, que sevai adaptandoà profunda mudançacultural que
então se verificava e à nova difusão dos filósofos antigos.
Quando, em 1554, Johannes Herold apresenta a nova edição de Basileia das
obras completas de Petrarca, em quatro tomos in-fó]io (per ]7e/zrfcum Perra), e
que será reeditada em 1581,a sua preocupação mais evidenteé mostrar que se
trair de um filósofo dos novostempos.Logo no frontispícioé indicadocomo
filósofo, orador e poeta, <<defensore restaurador da literatura renascente e da lín-
gua latina, inquinada e quase destruídapor algunsséculosde horrenda barbá-
rio>. Mais: nas suas obras encontram-seassociadasa filosofia natural e a filo-
sofia moral. assimcomo a enciclopédiade todas as artes liberais (/ibera/íum
queque arríum Encyc/0/cediam),a nova enciclopédia. Não basta, porém: .na
introdução, Herold, que propositadamentecita Erasmo e Cardano, panegiristas
de Petrarca, insiste : Petrarca foi por natureza um amante.da filosofia; Petrarca
não teria podido ser o mestre de estilo que foi, se não tivessesido filósofo; a obra
de Petrarca é a reconstituição da enciclopédia das artes.

126
/

Há, portanto, duas coisasque ficam claras: a imagembastantedefinida do


grande intelectual, expoente re/7orescen/fs///eru/urbe (ou seja, ligado a uma reno-
vação real), exterior às escolas (Petrarca recusa uma cátedra universitária), mas
reconhecido no seu valor tanto por Cardano como por Erasmo e por Vives, e a
convicção de que essa cultura é a filosofia, de que quem a possui é o filósofo,
e de que essefilósofo não pode deixar de ser considerado como guia e modelo
civil das cidades bem administradas. <<Quemnegará que este Petrarca, e outros
homens semelhantesa ele, são justamente venerados pelos Estados bem organiza-
dos2 (.Quis igitur negar, vel hunc Petrarcham, vet etiam altos vires huic símiles,
a rebus publicas bebe institutos, mento poli ?)}ü
O nome e a personalidade de Petrarcanão são evocadossem profundas ra-
zões.Estamosainda no século xlv, mas a polémica por ele iniciada, e a sua pró:
proa figura, assumem, no plano cultural, um significado periodizante.; O seu
famoso diálogo, ainda hoje muitas vezesmal compreendido, intitulado ironica-
mente <<daignorância própria e de muitos outros>>(de szí/ ips/z/seí mu/fora/m
fg/zoran/la //ber), concluído e transcrito em finais de 1367,mas difundido apenas
em 1371,é uma espéciede manifesto contra o modo então corrente nas escolasde
concebere ensinar a filosofia, um modo a que são contrapostos comportamentos
que se irão afirmando nos séculosseguintes.Não se trata de uma obra antiaver-
roística e, se virmos bem, nem sequer antiaristotélica. Trata-se da oposição muito
nítida da imagem da filosofia própria dos clássicos, dos antigos, à imagem domi-
nante nas escolasda época: a filosofia como livre procura racional da verdade,e
a filosofia como comentáriodo <<livro>>,
do <<autor>>,
ou melhor, de um livro
e de um autor: Aristóteles. Para Petrarca, Aristóteles é grande, ou antes, muito
grande,mas não é o único: há Platão, de quem ele possui, ali, diante dos olhos,
muitos livros (P/afonfs //aros doma /zabeo); há Pitágoras e Anaxágoras, Demó-
crito e Diógenes; há Sócrates; há Plotino e Porfírio, Cícero e Séneca.E cada filó-
sofo tem a sua filosofia, a sua posição, num diálogo cerrado com os outros, que
não é lícito ignorar. Embora o não anuncie de uma cátedra por entre os toques
das trombetasí Petrarca::--- logo seguido por outros :-- provoca um enorme terra-
moto. A uma filosofia que é <<leitura>>
e <<comentário>>
de uma verdadecaptada
na sua substância,que se esclarecee desenvolveapenasnos seus pormenores,
opõe-seuma filosofia que é procura múltipla, discussão,análise do fazer, plurali-
dade de concepções do mundo e da vida, multiplicidade, variação. O regresso ao
passadoclássico é renúncia, não à religião, mas às filosofias cristãs, árabes ou
hebraicasenquan/o filosofias ligadas a uma religião, para se restaurar a filosofia
como interrogação racional do homem acercado homem, do mundo e das coisas.
Mas, acima de tudo, acerca do homem, acerca da sua acção no mundo, acerca do
seu destino. Na introdução dos seusEssafs, <<nodia l de Março de 1580>>, Mon-
taigne confessava: <<Leitor,eu sou a matéria do meu livro.)> Cerca de dois séculos
.antes, Petrarcateria podido escrevero mesmono início, não de um livro, masde
/

todos os seus escritos, de todos os seusversos, de todas as suas cartas. SÓ que


-- mas isso também é válido para Montaigne -- na sua experiênciahumana,
inquieta, atormentada, contraditória, reflectia-setudo : a sociedadedos homens,
a experiência dos homens, os sentimentos dos homens, filtrados, analisados, dis-
cutidos através da história dos homens, e os documentos da história dos homens:
livros, obras, crenças,ilusões, sonhos. Esta é a sua filosofia. Petrarca é tão vee-
mente nos tratados como nas cartas,aondea polémica da /gnoránc/a se amplia,
investindo contra a lógica -- a lógica <<barbárica>>dos britânicos -- e a física
(certa <<física>>
dos pormenores sem sentido), para insistir no homem.
127
Por outro lado, o homem de Petrarca, se até certo ponto exalta a solidão, não
é um solitário. Viaja constantemente
pela Europa, ama ou pelo menosamou
apaixonadamente; chora os mortos; precupa-secom o destino do seu país, con-
tacta com senhorese soberanos- é, a seu modo, igual a eles. Acima de tudo,
«recordn> os séculos remotos da Antiguidade clássica, reevoca e reaprende os
seusvalores e a sua sabedoria. A sua filosofia não é matéria de cursos académi-
cos, é a sabedoria de Sócrates e de Séneca e, consequentemente, é a filosofia nova
que está a nascer fora das escolas e co/z/ru as escolas -- a grande filosofia que se
está a redescobrir nos antigos filósofos gregos e latinos.
Não se pode ler sem uma certa emoção um livro que foi por várias vezesedi-
tado no séculoxvn, -Lesafe rêgo/zzconfie /a Jor/lzn oz/ /e /)errarqz/e,de Mon-
sieur de Crenaille, prisioneiro de Estado na Bastilha, autor de uma tradução livre
do .Z)eremedífsdede outros textos petrarquistas.Petrarca,dizia ele, tinha-o aju-
dado a enfrentar as provações mais terríveis ; Petrarca, acrescentava, <<ressuscitou
os Estoicoo>, ou melhor, <<ocupouo lugar dos Estoicoo>.
A sensibilidade de Petrarca, por um lado, e o seu modelo do sábio, por outro,
contribuíram muito para o esboço de uma imagem da filosofia, que chegaria ao
século xvu: a primazia da filosofia do homem como moral, política e estética,
sobrea lógica e a física; a luta contra o dogmatismo da Escola; o pluralismo filo-
sófico, ou seja, a ideia, que se irá tornando cada vez mais clara no século xv, de
uma multiplicidade de vozes, que é possível fazer convergir, mas que também é
necessário confrontar, fora de qualquer pretensão dogmática. Ao mesmo tempo,
Petrarca deu início -- e em parte precisamente com as suas discussões acerca dos
médicos e da medicina -- àquilo que se converterá em discussão de fundo, ou
seja, a relação entre as disciplinas, <<adisputa das arteo>, a crise da própria estru-
tura da enciclopédia do saber -- enfim, a relação entre saber e fazer, entre vida
activa e vida contemplativa.

4. Durante alguns decénios(e, em parte, ainda hoje) um dos pontos da dis-


cussão#acerca do Renascimento, e mais propriamente acerca dalfilosofia do
Renascimento.foi a incidência dos srudla /lume/z//afãssobrea filosofia, e se seria
lícito considerar <<filósofos>>,
e se contribuíram para o progresso da filosofia
e das ciências, <<humanistas>>
indiscutíveis como Leonardo Bruni e Lorenzo Valia,
Erasmo e Vives, e se, vice-versa, se poderiam intitular humanistas filósofos indis-
cutíveis como Marsilio Ficino, ou grandes conhecedoresndo mundo clássico,sa
começar pelos poetas. Folhearam-se léxicos e documentos universitários para se
determinar o que pretendiam os humanistas quando se diziam <<humanistas>>,
quais eram os ensinamentosque ministravam, e que títulos tinham as cátedras
dos mestres famosos. Perante a crise que se verificara no plano cultural, e que,
limitada na origem a pequenosgrupos de vanguarda, acaboupor abalar profun-
damente não só toda a organização do saber, a começar pela língua, mas toda a
sociedadecivil e teve profundas repercussõesno campo religioso, julgou-se que
seria possível interpreta-la negando a sua existência, isto é, reinserindo-a pre-
cisamentenos institutos que tinha posto em causae nos quadrosculturais que
recusara.
A limitação mais grave de todas estastentativas de interpretaçãofoi ter-se
tomado como ponto de referência as escolas universitárias, sem se reparar que era
justamente a universidade medieval que era posta em causa e caía em descrédito,
enquanto a cultura e a investigação procuravam outros centros, ou começavam
a construir outras estruturas. Através da revolta contra a barbárie do latim

128
!

escolásticoscontra a esterilidade da lógica nominalista, contra a opressivadita-


dura de Aristóteles, contra as péssimase falseadastraduçõesdo próprio Aristóte-
les, contestavam-semétodos e instrumentos do saber. No campo propriamente
filosófico ia-se mais longe: punham-se em dúvida as próprias distinções entre dis-
ciplinas, a sua ordem, a sua hierarquia. A discussãoacercada poesia e dos seus
mitos, que passade um artista como Boccaciopara um jurista, moralista e filó-
sofo como Coluccio Salutati, para ir depois animar as obras filosóficas de Cristo-
foro Landino e de Marsilio Ficino, terá ressonânciasprofundas mas tem sobre-
tudo o grande mérito de abalar os limites demasiadorígidos não só entre a
filosofia e a poesia, mas também entre as artes e a reflexão filosófica, abrindo
caminho à moda das teologias poéticas.
Abordar, como alguns fazem, o tema da filosofia do Renascimentocom cate-
gorias inadequadase distinções não funcionais significa excluir a possibilidade de
entender precisamente aquilo que talvez exista de mais genial e original em pensa-
dorescomo Marsilio Ficino ou Giordano Bruno, a começarpelateoria da magi-
nação. Já não falando da vastíssimautilização de Platão e'dos platónicos, que
significa a abertura de um acessodiferenteà realidade,uma outra forma de a
conceber,uma forma diferentede fazer filosofia e de concebera filosofia, desde
o diálogo como instrumento turístico por excelência até à teoria da recordação
(da memória e do seu significado), da relação ambígua com a poesia à concepção
da matemática. De importância decisiva, sempre, os prob]emas da linguagem, da
tradução,da relação palavras-coisas,até ao uso tão significativo da imagem do
livro da natureza, do mundo como=livro, cujas linguagens e técnicas se devem
encontrar para se poder decifra-lo.
Para lá das metáforas é nessadirecção que se afirma a nova filosofia. e cons-
cientemente contra a filosofia das escolas, apelando, provocatoriamente, à revolta
dos <<gmmáticop>. Em 1509, em Paria, o editor Josse Bade apercebe-se perfeita-
mente do carácter <uevolucionário>> da obra de Valia, em particular da Z)fa/éc/ica.
que publica como obra que contém <<osfundamentos da filosofia universal», e
onde se refuta não só Aristóteles, Boémio e Porfírio, mas os filósofos modernos
(recen/forespÀf/osop/z/).Era aquilo que mais de meio século antes Valia tinha
orgulhosamente proclamado perante acusações de toda a espécie (na Z)eHe/zs/o
de 1444). A Z)fa/écffca é apresentada por ele como uma espécie de Z)ásczz/sedo
Àdérodo que investe contra todo o saber científico, precisamente porque põe em
causa todas as categorias. E Valia estava consciente disso. Mas o gesto de Josse
Bade na Paria de 1509, na Paris da Sorbonne, isto é, da maior universdade
medieval,explica-semelhor se nos lembrarmos que em Abril de 1505já ele tinha
publicado as .4no/anões(a Co//a//o) de Valia ao Novo Testamento,que Erasmo
encontrara num manuscrito da Abadia de Parc (Lovaina). A admiração de
Erasmo por Valia e pelas E/ega/zrfae(de que fará mesmo uma Parar/zrusz's.sez/
poríz/s .E»//ome) é bem conhecida. SÓ que as .4/zo/anões eram outra coisa.
A comparação do textolatinocomo textogregodo livro sagradopunhaem
causa, no campo linguístico, com rigor <<científico>>, a palavra de Deus. O <<gra-
mático>>tornava-seteólogo, e colocava, como preliminar de qualquer discussão,
o problema da língua, do texto, das traduções, com todas as implicações históri-
cas que comportava. Erasmo apercebera-se imediatamentenão só da impor-
tância excepcionalda obra de Valia, masde tudo o que ela implicavaem relação
ao saber tradicional. A belíssima carta-prefácio a Cristopher Fischer, escrita em
Paria em 1505, foca precisamente o tema <<gramática>>-filosofiae teologia, pro-
clamando que nenhum dos <<grandes>>
(isto é, dos verdadeiros eru:ditos, dos

129
competentes)hesitou em incluir Valia <<entre
os filósofos e os .teólogos>>
(-txzuren
ríz/m [.. ] 'i/z/er p/zí/osop/zzzsquoqzle ac r/zeo/ocos). Erasmo declara saber muito
bem que os adversários de Valia são muitos e que não toleram que um «gramã-
tico>>se dedique à filosofia e à teologia. A gramática, todavia, .alerta Emsmo,
<dnteressa-sepor coisas muito pequenas, mas sem as quais ninguém se pode tor-
nar grande; agita questõesde pouca monta, mas que têm consequências
muito
sérias>>.Sem um profundo e sólido conhecimento da linguagem e da.estrutura do
discurso é' impossível captar seriamente os significados de um discurso. Em
suma, Erasmo compreendeu que não é uma disciplina -- a gramática -- que quer
usurpar as funções'da filosofia e da teologia, mas que é um método de leitura e
de interpretação dos textos, que tenciona substituir os outros métodos. Se não se
conhecera língua, se não se estiver familiarizado com as suasestruturas, se nao
se tiver em conta o contexto histórico-cultural em que um texto nasceu,não se
pode sequertentar aborda-lo. Seainda por cima setrata de traduçõesde textos
que são traduções de outros textos, então é necessárioenfrentar toda a problemá-
tica da tmdução, ou seja, da delicadaoperaçãode transferênciade um discurso
de um contextolinguístico-culturalpara outro. Não foi por acasoque, em 1516,
quando Erasmo publicou na Froben o .Novo Zes/ame/zíoem.grego e em latim, fez
uma obm profundamente revolucionária, em que a exegesefilológica era na reali-
dade uma grande operação de renovação da <<filosofia cristã>>e se ligava estreita-
mente, por um lado, ao .Enc/zlrídfo/z mí/íris c/zrfs/fan/(O ]Ua/zua/ do. So/dado
Cltsrão) de 1503 (e 1515) e, por outro, à Ins/ífuffo prí/zc@ís c/zrisffa/z/ (de .1516) e
a Qzzere/aPacfs (de 1517),ou seja, àquele humanismo cristão de que se tornara
o campeão europeu.
Valia e Erasmo: na verdade,ainda que de formas e em medidasdiferentes,
filósofos e grandesintelectuaisda épocado Renascimento, humanistasde pro-
funda preparação filológica, mas adequada a uma intensa actividade reforma-
dora e a uma concepçãooriginal da vida e da realidade.Críticos do poder.tempo-
ral da Igreja, hostis ao cristianismo peripatético dos escolásticos,profundamente
marcados pelos clássicos, são interlocutores de soberanose de pontífices, pata
quem escreveramobras de grande ressonância..Valia, que nas .E/eganfiae pas:a da

(mais moderada nas versõesposteriores):que volta a circular na Europa no inIcIo


do século xvl a exemplo da Co//aria e da .Dia/écíica. Tal como Valia com as E/e-
gan/fae, também Erasmo, tantas vezese .tão infelizmente comparado a Voltaire,
sincero campeão de um rigoroso humanismo cristão, ofereceà Europa, com os
,4dagfa e os Co/7oqzlia , não o classicismo dos novos pedantes, mas a mais elevada
herançado mundo antigo com uma crítica conscienteque no Jb/oriaee/zcomiu#z
(o .Elogio da Z.augura)atinge talvez o seu ponto mais alto e, no fundo, mais trá-
gico. E é precisamente reflectindo sobre Valia e Erasmo, e sobre a sua diferente
mHuência e presença, que seconsegue detectar o laço que existe entre humanismo
e filosofia, isto é.a <<nova>>
filosofia, já não escolástica,que caracterizaa época
do Renascimento.

5 .: De facto, deve ter-se a coragemde dizer de uma vez por todas que não se
trata deofilósofos /novos,mas de filósofos, porque só no Renascimentonasce
o <(filósofo>>(eo cientista) como figura antes inexistente, e nasce na medida em
que repzasceo filósofo (e 'o cientista) antigo com quem estabeleceuma relação

130
complexa, já que o considera um modelo de que deve partir, mas também um
modelo de que deve destacar-se,conquistando assim a sua autonomia e respon-
dendo às perguntas dos tempos novos. Em suma, a verdade,ou seja, a filosofia
(tal como a ciência) não é algo que seencontra num livro a comentar ex car/zedna,
de que posteriormente se comentará o comentário (Averrois e S. Tomas comen-
tam Aristóteles, João de Jandun e Tomas de Vio comentam Averrois e S. Tomas,
e assim por diante): A procura da verdade também não está condicionada pela
relação com uma <<revelação>>,
pouco importa se hebraica, cristã ou muçulmana.
A verdade é uma resposta que deve ser procurada na experiência das coisas e na
história dos homens, e que deve ser decerto comparadacom os livros, mas só na
medida em que esseslivros sejam documentos das suas tentativas e portanto dig:
nos de serem apreciados racionalmente. Com o Renascimento fechava-seum ciclo
e, como dizia Maquiavel, regressava-se às origens.
Nicolaulde Cusa,provavelmente
o maior filósofo do séculoxv, num texto
muito significativo de 1433, a propósito do regresso aos antigos escrevia: <(Vemos
que todos os grandes talentos de hoje, mesmo os maiores estudiosos de todas as
artes liberais e mecânicas, procuram as coisas antigas, e com grande avidez, como
se se pudesse esperar que estivesse prestes a concluir-se todo um ciclo (ac sf rofius
re'volutionis circutus proxima compteri speraretur}.
Na verdade, fechava-se um ciclo : mudava a<<árvore>>do saber e, consequente-
mente, a relação entre as disciplinas; os lugaresincumbidos da investigaçãoe do
ensino, ou seja, as universidades medievais, viviam uma vida difícil enquanto iam
nascendo novos tipos de encontro e de colaboração e se delineavam novas insti-
tuições para a procura e a transmissão do saber, muitas vezesem relação ambígua
com a universidade. Acima de tudo, e devido aos renascidos estudos da Antigui-
dade, à difusão dos conhecimentos do grego e à descoberta maciça dos autores
latinos, verifica-seuma rápida mudança de <<autores>> e de <<autoridades>>.
Em
especialno campo das ciências e da filosofia assiste-seà abertura de uma nova
biblioteca de elevado nível, que, passado pouco tempo, teria efeitos revolucioná-
rios em muitas disciplinas. Tornavam-se acessíveisPlatão e Plotino, mas também
Arquimedes e Pappo de Alexandria; Proclo e Jâmblico, mas também Héron e
Ptolomeu. E enquanto se transformam as bibliotecas subverte-sea velha ordem
do saber. Já Coluccio Salutati se perguntava qual seria o laço entre poesia e teolo-
gia, pelo menos para os pagãos. E entre astronomia, astrologia e filosofia? Qual
o lugar da filosofia moral e da política? O homem universal do Renascimentoé
sobretudo aquele que destruiu os limites dos vários domínios do sabere do fazer,
que numa pintura escreveum ensaioildepensamentopolítico ou, como Rafael,
ilustra DiógenesLaércio e as vidas dos filósofos, que numa lírica resumeum
ensaiode moral, que num tratado de arquitecturaescreveum livro sobre o
Estado, que numa obra sobre a pintura condensa uma dissertação de filosofia ou
os princípios de um tratado de perspec//va.Por outro lado, para setraduzir Pro-
clo é necessárioser-sefilósofo, mas também matemático, e sobretudo saber bem
o grego, e ainda mais se se quiser entende-lo a fundo e comenta-lo. Pelo menos
no início, a ligação entre o estudo das línguas antigas e as disciplinas científico-
-filosóficas é quase indispensável, embora posteriormente sevenha a tentar a vida
da colaboraçãoentre filósofos, filólogos e cientistas.Em inícios do séculoxv,
quando o texto gregoda Geogn{/7a,de Ptolomeu,setorna disponível,para além
de JacopoAngeli de Scaperia,que o traduzirá entre 1406e 1410,também Leo-
nardo Bruni, filósofo, pensarátraduzi-la para latim. O texto, como se sabe,fora
transmitido sem os mapas, que os geógrafos voltaram a desenhar baseando-se

131
132
como Nicolau Maquiavel, que fora da escolaperturbará durante séculosos sonos
dos filósofos da escola.
A <<revoluçãocultural>> que acompanhara o regresso maciço dos filósofos
antigos não alterava apenasas relaçõesentre as disciplinas, nem incidia apenas
nas instituições. Desenhava uma imagem diferente do teórico, do <<filósofo>>,
apresentando-o como aquele que reflecte criticamente sobre#as suas próprias
experiências e que, para além de teorizar, age.
Emblemática, neste sentido, é a figura de Marsilio Ficino, que teve um papel
tão importante na cultura europeia entre os séculosxv e xvi. Médico e filho do
médico de Cosimo, o Velho, não sabemos onde fez os seus estudos de medicina,
nem se os concluiu. É certo, porém, que se dedicou à medicina, que foi tema de
alguns dos seus textos. A partir dos anos sessentado séculoxv, inundou o
mundo dos filósofos traduzindo do grego uma biblioteca inteira de obras platóni-
cas e neoplatónicas, que abrange a Idade Média bizantina de Prelos, mas cujo
centro é Platão e Plotino, que não só traduziu integralmente mastambém comen-
tou. A partir de 1463, porém (embora a publicação seja de 1471), dedicou-se
igualmente àqueles que considerava teólogos muito antigos, talvez contemporâ-
neos mas não posteriores a Moisés, os herméticos, que segundo ele tinham for-
mulado as basesunitárias das crenças religiosas humanas e que consolavam todos
quantos,no mundo, se batiam pela recuperaçãodaqueleideal da paz da fé que
Nicolau de Cuja tinha transmitido num diálogo esplêndido de Setembro de 1453,
logo após a conquista de Constantinopla pelas ti.opas turcas de Maomé ll.
Grande texto o .DeFace/}deí e enorme filósofo Nicolau de Cusa, aberto aos pro-
blemas da ciência, mas não mestre universitário e longe da problemática da esco-
lástica tardia, cardeal da Santa Igreja Romana, homem de acção e de governo
entre cismas e concílios. Tal como essapersonalidade eminente que foi Marsilio
Ficino, entre príncipes e senhores, fora das universidades, mas professorqnato
com o seucírculo de <<confilósofos>>
na vf//a de Careggi,que o velho Cosimo
sonhara para sede da nova academia platónica. O hermetismo, essamistura sin-
gular e fascinante-- que Ficino conseguiucombinar -- de gnosenão cristã,
magia e astrologia, irradiada de um ambiente neoplatónico, suscitou a partir de
1471um interesseexcepcional,espraiando-se
por todo o lado: na poesiae nas
artesbfigurativas, nas temáticas religiosas e no traje. Encontramo-la frequente-
--mente nos círculos parisiensesmais avançadosde Lefêvre d'Etaples, que afirmava
amar Ficino como um pai(<<amoreMarsi]ii Ficini, quem tamquam patrem [...]>>)
e que em 1514editara todas as obras de Nicolau de Cuja. Em 1515,um filósofo
envolto em fumos infernais como Cornélio Agrippa abre na Universidadede
Pavia um curso sobre Hermes Trismegisto com uma introdução que quase não é
mais que uma transcrição de Ficino.
Assim, na onda de popularidade provocada pelas versõese pela propaganda
de Ficino, Hermesinvadeo séculoxvi. Hermetismo significa sobretudoexalta-
çãoçdo homem: um homem que não é mais que o hermético deus Anthropos
humanizado -- <<grandemilagro>, como repetia no seucélebrediscurso Giovanni
Pico della Mirandola. Hermetismo é uma visão da realidade como vida universal,
universal amor e luz (e inteligibilidade) universal. Num dos seus textos mais
famosos, e mais difundidos e editados ao longo de todo o século xví, os Livros
da ride ÍDe vira/fórf /res), Ficino insisteno tema da vida do universo,de uma
vida cósmica que chove dos céus e fecunda a terra nas núpcias de todas as coisas,
de uma luz e de um amor universal entendidos como substância e força motriz de
tudo. Numa .4po/agia, escritapara defendera sua obra da acusaçãode magia
133
que Ihe foi movida pelos meios eclesiásticosapesar da protecção de Lourenço de
Médias, Ficino escreve:<(Océu esposoda terra não Ihe toca nem se une a ela
como normalmentese julga. Com os raios das estrelasque são?osseusolhos
envolve a esposa, e no amplexo fecunda-a e gera seresvivos. E diremos nós que o
céu, que por todo o lado propaga a vida só com o seu olhar, é privado de vida?>>
Os Livros da Vida(De veta libré ires), O Livro do Amor;!1O Prazer (De volup-
fa/eJ, O Z,/vro do So/ e da l,z/z (De se/e ef/um//zeJ a que se podem juntar tradu-
ções e compêndios com comentários, como <<osmistérios de Jâmblico>, <<afanta-
sia de Prisciano>>, <<osdemónios de Pselos>>,<<ossonhos de Sinésio>>,são as obras
de títulos sugestivos, que, juntamente com as grandes traduções e os comentários,
tornam conhecido em toda a parte o nome de Ficino e o seu eco encontra-seem
todo o lado. É a pesquisade terras pouco frequentadas(o mundo da fantasia), é
o fascínio do oculto e a sedução da magia, é o encaixe sugestivo de poesia e filo-
sofia no encontro entre Lucrécio e Plotino; é, num grande séculode arte, o movi-
mento constante à margem da poesia e das artes figurativas: todavia, é aí, muito
mais do que na sistematizaçãoda Theo/og/ap/afo/zfca,que resideo segredodo
sucessode Ficino, que ainda perdura em finais do século xvi. Segundouma tes-
temunha, quando Giordano Bruno deu uma série de lições em Oxford, no Verão
de 1583, um erudito que estavana assistência,provavelmenteo médic04Martin
Culpepper, acusou-o de plagiar o terceiro livro do Z)e vira(o famoso Z)e vi/a coe-
///zzsco/zzparu/zda)e obrigou-o a interromper. Não se sabe se o que impressiona
mais é a utilização de Ficino por parte de Bruno ou a familiaridade com as suas
obras manifestada pelo erudito inglês.
Campeão do platonismo numa altura em que a autoridadel4deAristóteles
estavaem crise, mas respeitandoAristóteles como respeitavatodos os grandes
pensadoresclássicos,incluindo Epicuro; defensorda rainunitária das religiões
numa prfsca //zeo/ogfa;convencido do significado religioso da tradição platónica
a ponto de, em 1487,<(ler>>
Plotino na igreja dos Angioli, com grandeescândalo
do geral dos Camaldulenses Pietro Delfin, Ficino causou grande perturbação pela
firmeza com que em ]489 defendeuque o filósofo é mago na medida em que se
ocupa de ciênciasda natureza e age no plano natural, retomando a tesede Pico,
que aliás já tinha sido condenada,da <<magianatural>>como parte prática da
ciência da natureza. Ficino é de uma extrema clareza ao resgatar dentro de certos
limites também a astrologia enquanto estudo e utilização de forças naturais que
existem nos corpos celestes.Como o agricultor -- diz ele -- <<preparao campo e
as sementes para receberem as dádivas ce]estes [...], a]go de seme]hante fazem o
médico e o cirurgião no nosso corpo, quer para reforçar a nossa natureza, quer
para melhor a adaptarà naturezado universo>>.
O mesmo<<faz
o filósofo a que
costumamos chamar mago>>.
Não vamos,qevidentemente, discutir aquiha questãoda magia de Ficino. E
certo que utilizou muitos textos mágicos, detendo-seminuciosamentenos talis-
mãs, cuja eficácia não negou. E também não pode escandalizar,no século xvi,
a circulação de um elegantelivro de bolso, por várias vezesimpresso, que reúne
uma parte consideráveldastraduçõesde Ficino, de cunho, para além de hermé-
tico,. propriamente <<mágico>>.

6. Giovanni Pico, senhor de Mirandola e Concordia,uma das figuras mais


complexase significativas do séculoxv, é também um<<filósofo>>,ou melhor, um
<(filósofonovo>>,do mesmotipo de Marsilio Ficino. De família muito rica e pode-
rosa, não é professor universitário embora estivesseligado a muitos professores

134
famosos, e se mostrasse ávido de discípulos. :Tal como Ficino, interessou-se pelo
hermetismo, e é com uma citação hermética que começao seutexto mais conhe-
cido, o discurso sobre o homem: <<Grandemilagre, ó Asclépio, é o homem!)>
Todavia,ao contráriode Ficino,ao hermetismo
acrescenta
.o misticismoda
cabala hebraica, que aprende a conhecer muito cedo, e pela qual sente grande
entusiasmo porque julga ver nela a via para uma reunificação religiosa de hebreus
e cristãos.De formaçãoaristotélica,descobremuito cedo Platão e Plotino, e
escrevesobre a teoria platónica do amor em harmónica discórdia com Ficino.
Continua, porém, a apreciar Aristóteles e sonha com uma <<concórdia>> dos filó-
sofos, animados todos, na sua opinião, por uma igual tendência para a verdade,
considerada sob pontos de vista diferentes, mas que acabam por ser conciliáveis.
Sabe grego, ama os antigos, mas não condena em bloco os escolásticos, reconhe-
cendota muitos deles um lugar importante.
É firme na defesados direitos da razão e por isso combate contra a astrologia
adivinhadora, ou seja, contra a pretensão-- contida no horóscopo -- de associar
a causasuniversais (a luz, o calor, etc.) factos particulares (o acidente que acon-
tece ao indivíduo). Defende, porém, a astrologia matemática, ou seja, o estudo
das leis que regem os movimentos celestes.Rejeita a magia necromântica, mas
defende a magia natural que, segundo ele, é a fase operativa da ciência da natu-
reza. O mago, como afirma repetidamente,<<casa
o mundos, ou seja, aprovei-
ta-se das relações naturais existentes entre as forças para obter novos resultados.
Ficino, em textos aliás muito belos, insiste nas núpcias entre o céu e a terra, reto-
mando o tema de Lucrécio do amor e da vida do universo que, imanentesa tudo,
fazem pulular as existências. Pico, porém, preocupa-se em definir as linhas preci-
sas de demarcação entre processos reais aceitáveis e laços arbitrários e fantásti-
cos. E talvez a linha de demarcaçãoentre os dois filósofos, que depois se torna-
ram amigos, embora Pico tenha polemizado com Ficino, se situe precisamentena
menor indulgência de Pico em relaçãoao imaginário, a essepoder da fantasia
que, pelo contrário, é tão forte em Ficino.
E é, provavelmente, essaatitude quejustifica a defesada linguagemtécnica
dos filósofos que Pico fez em textos eloquentes,mas onde mostrou não captar o
valor de fundo das posiçõeslinguísticasdos <<humanistas>>. Em 5 de Abril de
1485, Ermolao;Bárbaro escrevera-lhe regozijando-se por ter ligado ao conheci-
mento de Aristóteles o de Platão (<<porquenão pode falar de Aristóteles quem o
separa de Platão>>).Mas regozijava-se sobretudo por ele ter abandonado o estilo
bárbaro dos escolásticos,fique ainda pensam estar vivos,j;mas que na realidade
estão mortos (<<esses
Germanos e Teutões,que nem quando eramvivos viviam de
verdade [...] sórdidos, rudes, incultos, bárbaros>>).
Bárbaro era um exemplar típico do <<novofilósofo>>: de família nobre e culta,
conhecedor do grego, vivamente interessado pelas ciências da natureza, estudioso
insigne dos textos de Plínio e de Dioscórides, estava convencido de que, se não se
percebemcom exactidão os termos de uma obra científica, também não se com-
preende nada de ciência. Em 1485 confessavaa um amigo que tinha dado uma
aula em Pádua sobre os livros morais de Aristóteles e que se tinha empenhado no
ensino, acrescentando que se propunha ilustrar no texto grego original a física, a
teologia, a poética e a retórica de Aristóteles, utilizando os comentários gregos.
Os escolásticoslatinos e árabes, segundo afirmava, não tinham feito mais que
plagiar os gregos, e fora precisamentepara o demonstrar que se <<distraírn>a tra-
duzir Temístio.

135
No dia 3 de Junho de 1485,Pico respondeu-lhecom uma carta célebre,mas
que corria o risco de se converter numa defesa dos escolásticos.(ainda que depois
Leibniz o venha a negar) : <<Vivemosfamosos, ó Ermolao, e assim viveremos futu-
ramente, não nas escolas dos gramáticos, não onde se ensina os jovens, mas na
assembleiados filósofos e nos círculos dos sábios, onde não se fala nem se discute
sobrea mãe de Andrómaca, os filhos de Níobe e insâniasdo género,mas sobre
os princípios das coisas humanas e divinas.)>A carta de Pico suscitou também
longas discussõesdevido às suas qualidades formais. Bárbaro respondeu-lhe ime-
diatamente e com muita firmeza, fazendo-lhe notar que mesmo ele, Pico, se preo-
cupavasobretudo com uma coisa: a propriedade da.linguagem:a precisãoe a ele-
gância do texto. Bárbaro sabiaque, por detrás da discussãosobrea forma: o que
nteressavaera a filosofia, a nova filosofia, e era acercadela que se discutia: cla-
reza de ideias e clareza de expressão. É certo que a filosofia é feita de coisas (p/zi-
/osop/zfam rebzls co/zsfare), não de palavras; mas, precisamente por isso, as pala-
vras devem exprimir com precisão as coisas que não devem ser maculadas por
termos inadequados (.sordidis vereis et igrtobilibus inqujnari, contaminari, pollui
/zon debere).' Bárbaro sabia que não era uma questão de adorno, mas de clareza
e de precisão -- de rigor.
Ora, em 1485,:Ficino e o próprio Pico (mas também.outros, como Giannozo
Manetti) já tinham começado a escreverobras de filosofia em língua vulgar. Algo
de diferente da gíria das escolas,mas não só: a nova filosofia tendia agora a pro-
duzir um tipo diferente de obras, dirigidas a ozz/ropúblico : legíveis, breves, agra-
dáveis e muito acessíveis.O próprio Pomponazzi, que era professor, embora um
tanto escandalosoe provocante,não só reduzia a imortalidade da alma a um per-
fume agradável, como o afirmava num livrinho de fácil leitura, e expunha a sua
teoria sobre a relação entre milagres, encantos e <(fantasias>>
num agradável opús-
culo repleto de temas de Ficino.
Mas há mais: os novos filósofos fazem circular cada vez com mais frequência
as suas ideias, não em fastidiosos e incompreensíveis manuais, na maioria copia-
dos uns dos outros, mas em epístolas, geralmente elegantese, por vezes,já no
séculoxv, em língua vulgar. Ao latim escolástico,:uma horrível <<gíria>>
para ini-
ciadosridicularizada nos versos<<macarrónicos>>, sucedeum latim claro, acessí-
vel, que em breve iria sendo substituído pela língua vulgar. Ou seja: a ciência e
a filosofia, a <<novn>ciência e a <(nova>>
filosofia, procuram um público diferente
a quem dizer coisasdiferentesde um modo diferente.Como afirmamm .alguns
teóricos do século xvi -- por exemplo, em ltália, Alessandro Piccolomino ou
Sperone Speroni :--, era preciso começar a pensar-se que as mulheres, os homens
de negócios, os governantese todos os que não têm tempo nem vontade de estu-
dar o latim e o grego também querem ler e aprender, referindo implicitamente
que a filosofia é, ou também é, lógica e moral, política e poética, ciência da natu-
reza e psicologia, em suma, uma coisa diferente.
Por isso a discussãoprovocadapelo conflito entre Bárbaro e Pico não seesgo-
tou. No século xvi retomou-a por várias vezesFilipe Melâncthon, e não.só em
1523no ,E/zcomíum
e/oque/z/fae,
mastambémem 1558na <<Réplica
a Pico em
defesa de Ermolao>>. Em 1670, não é por acaso que Leibniz a retoma, embora
com demasiadaindulgência para com Pico (<<tentava
reduzir e encobrir as culpas
dos escolásticos, mais do que defendê-los>>).Mas já na primeira metade do século
Descarnes recordara que as ciências se baseiam <<nãonas coisas obscuras e gran-
des, mas nas coisas fáceis e mais óbvias>>e escreveraem francês o seu -Dlscours.
E a partir de 1555 Ramus escrevera igualmente em francês a Z)fa/ecfíque.

136
7. Ficino, Pico, Ermolao Bárbaro: todos, semdúvida, exemplarestípicos de
grandes intelectuais de tipo novo, fora das universidades ou em relação ambígua
com alguns dos seus representantes, que contactam directamente com príncipes e
cardeaise participam naquilo a que chamaríamos hoje a política cultural do país.
Com fortuna pessoal, protegidos por senhores,ou usufruindo de benefícios ecle-
siásticos, movem,se numa trama de relações que não tem limites, enquanto ten-
dem, como Ficino, com o apoio dosMédias, a fundar novas<<instituições>>
cultu-
rais, como a academia de Careggi. São eles quem geram novos processos de
pesquisaque caracterizarãouma profunda revoluçãonão só no domínio especí-
fico da filosofia, mas também nas várias formas de abordagem da realidade, nas
várias <<artes>>.
Quem ler obras de grande relevo, e de grande beleza, como o
Z,ívro do :,4mor, de Marsilio Ficino, compreende mais a fundo a nova relação que
se estabeleceuentre as artes e a nova filosofia: a teoria da beleza e do amor, a teo-
ria da vida e da luz, relacionam-se
com as experiências
platónicas,massob o
ponto de vista dos mestresdo sécu]o xv. ])aí a extremadificuldade em distinguir
por vezeso artista, ou o cientista, do moralista e do filósofo. Que é uma conota-
ção de muitos destes intelectuais, sejam eles literatos, pintores, técnicos de ele-
vado nível (arquitectos, engenheiros) ou cientistas (astrólogos/astrónomos, mate-
máticos). Onde terminal Policiano poeta e começa Policiano filólogo? !aonde
acabao <<gramático>>e começao <<lógico>, o teóricoda retória e da dialéctica?
Uma historiografia infelizmente ainda muito difundida, enquanto falseia
Ficino encerrando-oem esquemase problemasque já não são os seus,não sabe
depois onde situar figuras como as de Alberti e de Leonardo, e acaba por se des-
cartar colocando-os sob ambígua etiqueta de<<homensuniversais>>,expressãotão
sonora como desprovida de sentido,}iquando era precisamente neles, na sua
inquieta e insaciável procura do saber,mas reforçada por interrogações precisas
dirigidas à experiênciae por interferências contínuas entre as coisas, que se con-
cretizavaa nova função do filosofar, entendidocomo visão de cohjuntoêdo
mundo e do homem.
Paramuitos, e notáveis,contemporâneos,Leon Battista Alberti foi um pensa-
dor em certa medida ligado à renovaçãoficiniana. Cristoforo Landino, professor
na universidade,
fá-lo protagonistas
da discussãoj:acerca
do primadoda vida
activa ou da vida contemplativa, colocando-o, ainda que erradamente, ao lado
dos platonizantes, enquanto ele era sobretudo um expoente da nova orientação
cultural,. um técnico, mas também um estudiosode matemática e de óptica, um
grande autor de tratados sobre pintura, escultura e arquitectura, interessado nos
problemasda sociedadeda época, da cidadee da família. De algumasdas suas
páginasitalianas, e de muitas das latinas, emergeuma visão sombria das coisas,
em que a inspiração estóica se tinge de cores singularmente escuras,como se ele
tivesseconsciência da crise profunda do seu tempo. Por isso, a uma concepção
desencantadado mundo, alia-se uma singular sensibilidade às exigências do
século,a que se oferecemrespostasnão evasivas;a utilizaçãoque se deseja
extraordinariamenteprecisa das duas línguas, italiana e latina, e o diálogo que
aceita todas as contestações revelam essa consciência. Tentou-se reduzir a sua
obra à estética, à harmonia e à beleza, e talvez à racionalidade matemática. Na
realidade, tem-se mais a impressão de uma abertura a todas as contradições, e de
uma visão da filosofia como tomada de consciênciada dramaticidadeda con-
dição humana. Também não é fácil esquecero elogio já mencionado dos dois
únicos filósofos verdadeiros,Sócratese Demócrito,;wsúnicos que, na opinião
de Alberti, são dignos dessenome. Como não é fácil esquecera acusaçãode
137
inconstância e de vacuidade feita a todos os <outrop> filósofos, cada qual com o
seu modelo diferente de mundo: um número infinito de mundos possíveis(e um
número infinito de loucos), porque cada filósofo persegueo seumundo próprio.
Como demonstram claramente as suasobras, Alberti está bem informado no
plano filosófico, mas, nos domínios particulares de pesquisa,enfrenta problemas
teóricos e questões técnicas precisas, quer se trate da <(perspectiva>>
ou dos <<ludos
matemáticos>>, de questõesastronómicasou de problemasde.Óptica..Por outro
lado, se o seu interessemais forte e a sua pesquisamais fecunda.são do domínio
das ciências morais, desdeas estruturas arquitectónicasde cidades e vilas até ao
sentido da vida, a sua ambição é enciclopédica e visa uma .concepçãoglobal da
realidade, em suma, uma filosofia. No fundo, as cruas ironias do .A/obus decla-
ram-no abertamente.Era, não nos esqueçamos,uma aspiraçãocomum nos artis-
tas. A pintura, bem como as outras artes, implica um conhecimento universal e,
portanto, também uma filosofia. O casoexemplardos Come/z/aríí,de Lorenzo
Ghiberti, é educativo, sobretudo o terceiro comentário, seja qual for, a opinião
acercada sua composição. O caso extremo, todavia, continua sem dúvida a ser
Leonardo da Venci. Se não têm qualquer importância as inúmeras questõesmal
colocadas acerca do seu contributo para o nascimento da ciência nova ou acerca
das suas antecipações e invenções, são porém de grande interesse, para se com-
preender uma época, as suas tentativas para construir uma grande enciclopédia
capaz de tirar proveito das experiênciasculturais mais vivas. Na enorme quanti-
dade dos seus trabalhos sobressai, por um lado, a procura constante de técnicas
inovadoras e, por outro, o esforço para definir um ponto de referência unificador,
que acaba por ser encontrado precisamente na filosofia como aquilo que, só por
si, é capaz de se colocar na raiz da aparência. Imprelslona, é certo (in Madrid./7,
107r), a asserção: <<Emborapor fim todas as matemáticas sejam especulação.filo-
sofica.» Mas impressionaainda mais o discursosobre a pintura, sobretudo
quando se tem presenteo que é a pintura de Leonardo, e o poder que ela tem de
reproduzir <<superfícies>>,
cores e figuras de todas as coisascriadas.pela.natu-
.eza» Daí a tesede que a <<pinturaé filosofia porquetrata do movimentodos
corpos na prontidão das suasacções>>, embora depois«a filosofia penetre nos
proprlos corpos, considerando neles as suas virtudes próprias>>. Onde se suben-
tende a re ação 'mente/olhos, luz/beleza, que aliás Leonardo expõe com grande
clareza: <<Quemdespreza a pintura não ama a filosofin>, porque <<se.
desprezares
a pmtura,~que é a' única imitadora de todas as obras evidentes..danatureza,
decerto desprezarás uma subtil invenção, que com filosofia e subtil especulação
consideratodas as qualidadesdas formas>>.Dirá ainda, exprimindo um tema
constante na sua obra: <<Primeiro na mente, depois nas mãos.>>
Antes de 1474, Ficino escrevera no Z,ívro do .Amor que a beleza <<resplandece
no corpo pela influência da sua ideia>>.:Lendo as coisas que Leonardo escreveu
sobre pintura, é difícil abstermo-nos de pensar na bela prosa em língua vulgar de
Ficino, assim como, lendo os comentários em língua vulgar ao .Ba/zqz/e/e
plató-
nico de Ficino e de Pico, é impossível não evocar imediatamente as obras dos pin:
teres contemporâneos(a começar por Botticelli). Mas em Leonardo existe -- e.é
esseo seu fascínio --: uma tensão constante, empenhada em ligar a mente do
homem (e a sua obra) à realidade, a obra do artista à verdade da natureza: <<VI
a andorinha voar e pousar nos ferros pintados.)>
Vinha; é certo, da <<oficina>>
de Verrocchio,filho natural.de notário Piero;
<<naerudição e nos princípios das letras teria grande.sucesso,se não fosse tão
caprichoso e instáveb>. Foi todavia grande engenheiro, arquitecto, construtor

138
de máquinasde todos os tipos, interessadoem física, perito em hidráulica,
extraordinário conhecedorda anatomia humana, cujos pormenoresmais secretos
tentou captar com a arte do desenho.Tratou de igual para igual com soberanos
como Francisco 1, de cuja hospitalidade pareceu querer aproveitar-se para organi-
zar, em vista.]defutura publicação, a sua gigantescaenciclopédia(na verdade,
de om/zfbus reZ)use/ de qu/Z)z/saema//ü) admiravelmente ilustrada. Pelo menos,
é assim que o descreve numa página bem conhecida o cónego Antonio de Beatas,
no /ff/zerãrfo da viagem do cardeal Luís de Aragão. André Chastel, evocando Cel-
lini, comenta que, para o rei de França, Leonardo era <<umverdadeiro filósofo,
um mago prodigiosos. Era-o, de facto, condensandoem si toda a ambiguidade
da personagem,com a sua visão do mundo, mole corpórea que vive devido à
perenecirculação das águas, como o homem vive devido à circulação do sangue
(<<tal causa move a água [...] que é aque]a que move o sangue na espécie
humana>>),numa sucessãoconstante de máquina e organismo, de mecanismo e
espontaneidade.Tudo na pesquisainsatisfeita -- para usar as palavras de Gior-
dano Bruno -- da <<profunda magim> que consiste em <<saberextrair o contrário
depoisde se ter encontrado o ponto de união>>. H;l
O olhar do filósofo já não sesatisfaziacom a glosada páginaescrita; voltava
a fixar-se nas contradições da realidade, nos enigmase nos dramas da vida. Pen-
se-se em Pietro Pomponazzi, médico e professor de Filosofia, e nos seus famosos
ensaiossobre a imortalidade da alma, o destino e os encantos (Z)e fmmor/a///a/e
anfmae, depara, de /mean/a/ío/zibz/s),onde todas as possibilidades do comentário
de Alexandre de Afrodísia são exploradas em função de uma visão desencantada
e toda terrena e <<material>>
do destino humano, uma visão que iria seduzir não
só os libertinos eruditos da França do.úséculoxvm, mas que se propagada,
aliada à impiedadede Giulio CesareVanini, em Inglaterra até ao limiar do
século xvm através da me/a/zco//a de Burton. Os seus contemporâneos e adver-
sários -- com destaque para o agostinho Ambrogio Flandino -- fizeram dele o
protótipoüdo libertino : ateus.ematerialista, intemperante e de maus costumes,
vicioso e insolente, pronto a exaltar os estóicos e a imitar os epicuristas (Zenonem
laudo et Epicurum vivo).
Nos seusensaios, Pomponazzi não utiliza reticências nem disfarces. A imorta-
lidade não passa de um <<perfume>>
de imortalidade; a ordem natural não é mais
do que o destino que obriga forçosamente ao devir das coisas per i/!#nífa saecz//a,
e/ i/z i/!#nírum. A afirmação agostinianade que a sombrado mal contribui para
tornar mais resplandecente a luz do bem, converte-se na frase escarninha: <<De
facto não é uma crueldade que uns sejam escorraçadospelos outros, que uns
ordenem e outros sirvam; trata-se de algo natural, como o lobo que come o cor-
deiro, ou a serpenteque mata os outros animais.>> Sempreque, avisa Pompo-
nazzi, queremos permanecer no plano natural e nos limites da razão (soandoin
puris naturalibus, et quantum dat ratio humana). Devido ao destino, e dada a
mortalidade da alma (si a/zfma esí mor/a/is), não há liberdade, nem virtude, nem
justiça, nem religião (nu//a //Z)er/as,/za//a virrzz8 /zzf//are/ig/o). Quanto aos encan-
tos, e aos factos que parecemmilagrosos, Pomponazzi explica-os servindo-se da
imaginação, convergindo assim com Ficino.
Se Pomponazzi, entre polémicas, invectivas, livros bqueimados nazipraça
pública (o .De fmmor/a///a/e, em Veneza),desafiou as iras dos frades de meia
Europa sem ter o mesmo fim -- como dizia, brincando -- das castanhas assadas;
se, durante dois séculos, largamente transcrito até por Vanini, conseguiu impor a
ousadia do seu pensamento,não menor difusão teveHeinrich Cornelius Agrippa
139
von Nottesheim, médico e mago, que comentava o rima/zero em Pavia enquanto,
em Bolonha, Peretto trabalhava na .Ihorfa/idade da .4/ma, e que ainda era lido

teólogos oficialmente reconhecidos.

heim), Francesco Zorzi de Veneza [...]

140
81 iUU 1: Zlj :l
e não só os de Colónia, que o condenaram por ter atacado /o/am C/níverxííafem ,
toda a universidade. Banido dos territórios imperiais, procurado por Francisco l,
morrerá tristemente em Grenoble, enquanto o seu cão preto que, como se sabe,
era o diabo disfarçado, se lançava ao lsêre. Na realidade, embora isolado, embora
perseguido,era um representantetípico da <<filosofin>,da nova <<filosofia>>, isto
é, do filósofo-mago já conscientedos problemas epistemológicos impostos pela
crise do sabermedieval, e que se iam repercutindo fatalmente nas instituições tra-
dicionais de ensino e de investigação: a escola, as universidades.
Não é por acaso que, na mesmaépoca e de uma forma não muito diferente,
andavapela Europa o ainda mais inquieto e estranhoParacelsoou, como às vezes
se apresentava, Filipe Aurélio Teofrasto-;Bombastus Paracelso von Hohenheim,
médico e alquimista, filósofo e mago (<<EusouÊTeofrasto,e valho mais do que
aquelescom quem me comparam.Eu sou eu, sou o monarr/zamedfcorzzm e
possodemonstrar-vosaquilo que vós não podeis demonstran>.)
Com toda a
razão, o seu estudioso mais erudito, Walter Page1recordou o -De ví/a, de Marsilio
Ficino, que Paracelsonão hesitavaem definir como <mmelhor dos médicositalia-
nos (/fa/orum med/corzlm opíimz/s>>).Ficino tinha escrito (e disso se deve ter arre-
pendido): <<Costumamoschamar mago ao filósofo perito nas coisas naturais e
celestes.>>
Era uma afirmação que Paracelsopodia adoptar para si.
Não se pode falar resumidamentede Paracelso,mas no estranho acervo da
sua obra confluem, como base da nova medicina, a concepçãoda natureza como
vida universal, como força viva e <<mágica>>
a relação microcosmos-macrocosmos,
uma reinterpretação da astrologia, uma concepção do poder criativo da imagina-
ção, que faz remeter para Ficino e Pomponazzi, tudo escrito num alemão dialec-
tal e não no latim dos eruditos novos e velhos, embora tenha tido contacto com
o príncipe dos humanistas, Erasmo, editado por Forben. <<Eunão provenho das
suas escolas, nem escrevo como eles -- repetia --, eu sou um filósofo que não
frequentou as vossas escolas.>>
Contra Galeno e Avicena investe a;cada passo,
embora não os:tenha queimado na praça pública. Aristóteles''parece-lhe uma
espéciede musgo, de fungosidade,de bubão.A medicinabaseia-sena filosofia,
na astronomia e na alquimia, porque se baseia na natureza. <<Omédico deve pro-
ceder a partir da natureza; o que é a naturezasenão a filosofia? E o que é a filo-
sofia senão a natureza invisível?)>E ainda mais duramente:

Não confieis na frase estulta ''os nossospais são Galeno e Avicena''. As pedras
esmaga-los-ão.O céu gerará outros médicos que conhecerão os quatro elementos. Para
além destes,também as artes mágica e cabalística que estão porém diante dos vossos olhos
como cataratas. Serão geomânticos, serão adeptos, serão arqueus, serão espagírios, pos-
suirão a quinta-essência, possuirão os arcanos, possuirão os mistérios, possuirão os rudi-
mentos. O que será das vossasmixórdias nojentas sob esta revolução? Quem pintara os
lábios macios das vossas mulheres e lustrará os narizinhos aguçados? O diabo com o pano
negro da quaresma.

Um grande historiador como Alexandre Koyré, se errou ao negar-lhe uma


notável informação sobre o pensamento da sua época, teve razão em reconhecer-
-lhe não só uma grande eficácia, mas também um grande fascínio. <<Curiosadou-
trina -- escreveu--se certamente confusa. Mistura de mística, magia, alquimia,
mas muito bela, porque representa um esforço muito sincero para ver o mundo
em Deus e Deus no mundo, e o homem participante de ambos e que a ambos ''com-
preende''. E doutrina abertaeao futuro, embora a sua ''experiência'' e as suas
141
''experimentações'' tivessem muito pouco a ver com o experimentalismo da ciên-
cia moderna e a sua fé na fantasia, na.imaginação, e talvez no sonho e na visão,
superea sua fé na razão.Por outro lado, como esquecero valor positivo que num
momento de revolta contra a tradição e a autoridade pode assumir um comporta-
mento tão radicalmente não convencional?

8. Mais magia e astrologia, imaginaçãoe sonhos(quantos sonhos!), inquieta-


ção e uma vida atormentada,processosinquisitoriaise descrença:trata-sede
Girolamo Gardan (1501-1576),médico e matemático, que percorreu o mundo com
as suas desgraçase a sua genialidade, a sua filosofia e a sua astrologia que Ihe
permite fazer um horóscopo preciso de Cristo (que provocará bastante escândalo)
e o de si próprio e da sua longa vida.
Opõe-sea Niccolõ Tartaglia na solução das equaçõesdo 3.' grau, mas é sem
dúvida um matemático respeitável. Os seus textos matemáticos serão editados
pelo seu amigo Andrea Osiander, o teólogo e autor da famosa carta-prefácio
(Ãabz//aaósurdlss/ma, como a definiu Pierre Ramus) à edição do Z)e levo/u/fo/zf-
bzzsorbíum cae/esríum de Copérnico (<<deixemospois que estas novas hipóteses se
dêem a conhecer ao ladolTdasantigas, em nada mais verosímeis>>).Essa publica-
ção garantiu a Cardan ampla ressonância: <<Este foi o início da nossa glória>>,
escreverá em 1562.
Todos os temas ventilados pela reflexão de mais de um século são por ele reto-
mados: a natureza,'a vida, o ocultismo, a descrença,o poder do homem, a
magia. Dirá de si próprio : magras,inca/z/afoc re/fgionis co/z/emp/or; possui-o a
cz/pfd//asomnium occz///atum arr/zzm.E ainda: <<Entreas minhas descobertas,
não saberíeis a qua] dar a vossa preferência [...]. No campo das matemáticas,
renovemquase toda a aritmética e a parte de]a a que se chama á]gebra [...]. Na
geometria [ ... ] estudei o infinito na sua relaçãocom o finito, emborajá Arquime-
des o tivessefeito:l Na música descobri novas notas e consonâncias,ou melhor,
ressusciteias que tinham sido descobertaspor Ptolomeu e Aristóxeno>>.
Tem consciência de que a antiga enciclopédia;já não é válida e mete mãos
à nova. Em 1547 publica o célebre.De szzbrf/f/a/e,e em 1557, <<como material
que ficou por utilizar>>,e ao qual não conseguiu <<darordem e conclusão>>,o
Z)e Feri/m varie/are. O .De subrí/í/a/e, por várias vezeseditado, traduzido em fran-
cês, em ]556, por Le Blanc e logo reeditado, refutado durante muito tempo
e com pedante minúcia por Giulio CesareScaligero, difundiu amplamenteideias
e fantasias.
Cardan gostava de se gabar das suas singularidades e não foi por acaso que
as relatou no seu mais feliz, ou pelo menos,no mais famoso dos seuslivros, a sua
autobiografia: um retrato cru das suasaventurase da sua grandeza.Reafirma-
va-se como::J14agu8//zcan/a/oc re/igíonfs co/z/em/2ror, isto é, cientista e mago,
ocultista e descrente.Naljrealidade, era apenas um da não densa mas crescente
multidão daquelesque, tendo começadopor opor germes e Platão a Aristóteles,
procuravam agora, independentemente de Platão (senão de Hermes), a <<natu-
reza>>
com o contributo dos sentidos, como fazia Bernardino Telésio,que atacava
todos quantos inventam os mundos e confundem a sua fantasia com coisas verda-
deiras. <<Fingemum mundo de acordo com o seu próprio arbítrio e a sua von-
tade>>,
dizia. E acrescentava:
nós, porém, <<amadores
e observadores
de todo o
saber humano, decidimos estudar es/emundo, e cada uma das suas partes, e tam-
bém as paixões e as acções e as operações das coisas, que nele estão contidas>>,
cuidando apenas <<daquelas coisas que o sentido terá manifestado>>.

142
Por outro lado, Francis Bacon, que, como sesabe,sereferiu por várias vezes
a Telésio,não :viu nele mais que um renovador da filosofia pré-socrática de Par-
ménides,censurando-o,tal como a Patrizi,:.a Bruno, a Campanellae a muitos
outros, por também terem confundido as suas fábulas com a ciência, sem se
terem libertado dos erros peripatéticos (Peripateticis scilicet notionibus deprava-
tus). No entanto, se era verdade que aquela <<natureza>>, solicitada pela dialéctica
de forças físicasprimordiaisÊ:)(o
calor e o?jfrio),era tambémuma <<fábula>>,
e
pouco tinha a ver com a física de Galileu ou com a <<fábula>>
de Cartésio, era por
essavia que estavama surgir a nova ciência e a nova filosofia. E certo que tam-
bém Telésiocontava uma fábula, a sua fábula, mas movia-seagora num hori-
zonte novo e procurava novos caminhos.
Não ensinava em nenhuma das antigas universidades. Contentava-se emüdar
livre curso aos seus <<sonhos>>
numa academia da sua Cosenza, enquanto o:Êseu
fiel discípulo Antonio Persio, seu propagandistas.eeditor, seria incluído, com
algumas restrições (foi o <<linceopóstumo>>),;na Academia dos Lancei com Gali-
leu, suscitandoem FedericoCedi um grandeinteressepela sua obra. Por outro
lado, como esquecerque Telésioe Patrizi figuravam no /ndex, que Pierre Ramus
foi assassinadoem Parasna noite de S. Bartolomeu, que Bruno e Vanini foram
queimados, e Campanella foi condenado a prisão perpétua, para não falar da
condenaçãode Copérnico e de Galileu, deixando de partem: Cartésio,í!que por
medo3nunca publicougO .A4u/zdo?
Eram ainda minorias que continuavam a ser suspeitase muitas vezespersegui-
das, embora no século xvl já tivessem:deixado de ser apenasminorias bizarras.
As <<escolas>>,
é certo, continuavam com o seu Aristóteles, e os seuscomentários
novos e velhos, enquanto os vários Pietro Tartareto, em Parisi Crisostomo Javelli
Canapicio, em ltália, e alguns outros do mesmo género,continuavam impertur-
báveis a embalsamar nos seus famosos manuais um peripatetismo fora de tempo.
Escreviam, naturalmente, num latim horrível, enquanto já em meados do sé-
culo xv Pierre de la Raméee Alexandre Piccolomini publicavam em francês e em
italiano os seus livros de filosofia, pensando nas damas da nobreza e nos homens
de negóciose governantes.Mas Piccolomini e Ramuseram homens diferentes,
que se dirigiam a mundos diferentes, agora separadospor um sulco que desde o
princípio do séculoxv se fora aprofundando cada vez mais. Eram os rebeldesà
tradição da escola, aqueles que com os antigos tinham aprendido que não há um
livro único, mas muitos livros ; que, além do mais, e antes dos livros dos homens,
há o grande livro da natureza; que, para o compreender,a autoridade é inútil e
a razão necessária. Eram aqueles que queriam conhecer, mas agindo ; que esta-
vam prontos para tudo, mesmo para procurar os segredosda <<magia>>
natural
para dominar o mundo, mas empenhados em libertar a<<ciência>> da <<magia>>.
Viviam já num outro mundo, não conciliável com o velho: um mundo sem fron-
teiras, onde se moviam infindáveis outros sistemas, onde a Terra girava em volta
do Sol, onde o homem procurava uma medida de certeza não só cavando dentro
de si como Montaigne, mas esforçando-se (ainda como Montaigne) por conhecer
melhor os habitantes de terras desdesempre desconhecidas, difíceis de inserir nos
quadros teológicos tradicionais (de que Adão vieram os americanos, e que Reden-
tor os redimiu?).
Eram homens que a Igreja condenava sem excepção,precisamente porque des-
truíam o seumundo: condenoua filologia e a teologia de Xaile e de Erasmo,
como condenou a astronomia de Copérnico e de Galileu, a política de Maquiavel
e a psicologia de Pomponazzi, a filosofia da natureza de Telésio e a de Palingénio

143
Stellato ou de Giordano Bruno. Excluídosou mal vistos nos antigos santuários
do saber (as universidades), os novos filósofos foram construindo, no isolamento
e em segredo,outros locais de encontro e de pesquisa,sob a protecção de prínci-
pes ou de soberanos. AÍ, em academias e sociedades, esforçaram-se por criar em
bases seguras, ou pelo menos criticamente discutidas, a nova enciclopédia do
saber,a nova ciência capaz de instaurar o reinado do homem, libertando as vias
da razão da insídia do oculto : a astronomia da astrologia adivinhadora, a física
da magia cerimonial. Ao longo de dois séculos foi este o esforço de um número
não muito grande de homens obrigados a combater em muitas frentes, sem uma
caracterização precisa: sem saberem bem o que eram e o que procuravam. A crise
da enciclopédia medieval tinha não só destruído barreiras, mas também distin-
çõesantigas. O artista tornara-se cientista, o filólogo tornara-se teólogo, o histo-
riador tornara-se moralista, o físico era agora filósofo. Foram os <<novosfilóso-
fos>>,inquietos e rebeldes, uma espécie de cavaleiros andantes do saber, que se
movimentaram entre sonhos e magias, entre utopias e ilusões de paz universal e
perpétua, entre vagabundagensmísticas no meio das almas das estrelase de
fórmulas matemáticas capazesde traduzir os seus impulsos, finalmente já não
circulares.
Quase simbolicamente, após dois séculos de polémicas e de dúvidas, Descartes
parece encerrar um longo capítulo de extraordinárias aventuras. Encontrara os
Rosa-Cruze lera todos os livros que tinha encontrado <<das
ciênciasconsideradas
como as mais curiosas e raras>>,mas fechara-os para sempre.Tivera três sonhos
extraordinários -- mais do que os de Cardan -- e descrevera-os minuciosamente,
mas não falou mais deles. Aprendera também que todas as ciências estão concâ-
tenadas na unidade da <(matemática universab> e formam a enciclopédia (<(quippe
sunt concatenataeomnes scientiae [...] et tota simul encyclopaedia>>).
Foi ao que
dedicou o restosda sua vida.

144
CAPITULO VI

O MERCADOR E O BANQUEIRO
por Atberto TeneKti
A caracterizaçãode um tipo social numa determinadaépoca é, pelo menos
teoricamente, possível, embora sob certas condições. Em vez de tipo poder-se-ia
talvez falar de classe,mas estetermo é inegavelmentemais vago e ambíguo e por
isso menos delimitável. A noção de tipo é bastante mais ambiciosa e também dis-
cutível no plano histórico, sempre tão variado e complexo, que não sepresta facil-
mente a simplificações ou a reduçõesa categorias:Julgamos, porém, que não nos
encontramos sujeitos a reservasou a realcesdeste género. Com efeito, o nosso
objectivo é conseguirmos determinar em.;que medida é possível identificar e
caracterizar o tipo humano do mercador e do banqueiro no âmbito do período
renascentistaeuropeu' Isto é, não partimos de um tema preconcebido ou dado
como certo; consideramo-lo apenas como uma perspectiva explorável e um cami-
nho a percorrer. A investigação teórica compraz-se,e com'razão, em realçar as
mudanças, as diferenças e as variantes. Não Ihe deve, porém, ser proibido sondar
e perseguir as..constantes,individualizar e traçar perfis.
Isso não impede que tal experiênciaesteja sujeita no plano histórico a pres-
sões, gerais e específicas. Assim, a caracterização do mercador medieval não obe-
dece às mesmas exigências -- e não oferece as mesmas dificuldades'.= da do mer-
cador renascentista.Antes do mais, porque a Idade Média é ainda hoje concebida
como uma fase milenária, durante a qual se alternaram necessariamentetipos
sociais e humanos diferentes. Já se fala de Idade Média muito antes do feuda-
lismo, ao qual não pode portanto reduzir-se; ma$ ainda se fala de Idade Média
quando alguns dos:.seus caracteresndistintivos já se encontram profundamente
alterados ou largamente ultrapassados. Se a tarefa de quem se dispõe a definir
tipos ao longo de todo o chamado período medieval não é totalmente inviável, o
mesmo não se passa em relação ao Renascimento. Trata-se, de facto, de uma fase
muito mais delimitada, que abrange quasesó um número de decéniosequivalente
ao dos séculosque dura a Idade Média. Apesar das diferençasnotáveis que ainda
hoje distinguem os vários países europeus, a sua integração estava sob muitos
aspectosmais adiantada do que durante o milénio anterior -- o que torna o dis-
curso muito mais homogéneo e coerente.
Não se esconderá,todavia, que o anormal lapso de tempo que se atribui à
Idade Média exige algumas precisõesde natureza cronológica. De facto, e inde-
pendentemente do apetite dos medievalistas e da quantidade de séculos que esta-
riam dispostosa devorar,entre o ambientemercantil anterior ao séculoxnl e o
posterior, no âmbito da Europa Ocidental, há muito pouco em comum. É certo
que algumas inovaçõesvão surgindo de uma forma lenta e descontínua.Masn
entre os séculosxui e xiv são introduzidos no comércio processosque virão a
ser característicos dos séculos seguintes : o uso dos algarismos árabes, a contabili- l
dade em partidas dobradas, os seguros, a letra de câmbio, etc. Por isso, pode

147
parecer inútil continuar a falar-se de mercador medieval só por.ele se mostrar
ainda sujeito a certas crençasreligiosasou impedimentosteológicos.Não seria
muito mais sensatocaracterizaro meio mercantildo interior, a partir dassuas
características novas e específicas, e não do exterior?
Estas observaçõespareceram-nosoportunas e até necessáriaspara delimitar,
ainda que aproximadamente, o campo desta análise. Porque os séculos xlil e xiv
afiguram-se, sobretudo -- embora não exclusivamente -- no âmbito do tema que
nos propomos tratar, como uma fase de início, por um lados e de viragem, por
outro. Situando o início do período renascentistapor volta dos primeiros decé-
nios do século xv, pretendemos realçar que mesmo no plano específico! ou.seja,
no das técnicas cada vez mais amplamente utilizadas, o meio mercantil diferen-
cia-se nitidamente do medieval. Competir-nos-á depois demonstrar como, no
caso do mercador e do banqueiro;"o emprego dessesvários processos se liga
estreita e coerentementeaos comportamentos que lhes são próprios não só no
plano social e político mas também nas suas relaçõescom a arte e a cultura.
Sem querermos adoptar o início do século xv como uma discriminante abso-
luta, válida uniformemente sob todos os pontos de vista, não nos parece porém
poder haver muitas dúvidas acercada sua plausibilidade. Menos fácil pode pare-
cer a delimitação no que respeitaao fim da faseque nos interessa.De facto, mui-
tas das características principais do mundo mercantil do Renascimento continua-
ram a dominar duranteum períodobastantelongo, pelo menosaté finais do
século xvn. Todavia, parece-nos razoável e justificado não prolongarmos a
nossaanálisepara além de 1570,aproximadamente.No plano dos ritmos longos
de desenvolvimento, qualquer data demasiado precisa acaba por ser contestável
ou inadequada. Mas se alguns dos instrumentos das actividades mercantis não
mudammuito a partir da segundametadedo séculoxvl, o contextohistórico
sofre maiores diferenças durante esseperíodo, e em quasetodos os planos, do que
entre finais do séculoxvi e inícios do século xvn. O grande movimento renas-
centista transforma-se nitidamente e evolui nitidamente para formas religiosas,
culturais e político-sociais diferentes,embora não da mesmamaneira em todos os
países. Sem nos querermos referir directamente nem ao Concílio de Trento :nem
à criação das duas potências opostas, católicas e protestantes,parece-nospelo
medos oportuno aceitar essadivisão como momento terminal da nossa análise.
Mas, como a evolução da história europeia é complexa, pode .parecer insufi-
ciente limitarmo-nos a divida-la cronologicamente. A partir dos primeiros séculos
que se seguiram ao fim do império romano, a sociedade fixou-se em classes relati-
vamente definidas, que correspondiam mais ou menos às funções que eram consi-
deradasfundamentais: o clero, os guerreiros nobres ou cavaleirose os campone-
ses.Não foi então atribuído um papel suficientementeautónomo e essencialao
mercador e ao banqueiro -- tanto mais que uma boa parte das relações económi-
cas da época prescindiam deles. Na Europa meridional e centro-setentrional, a
situação modificou-se a pouco e pouco, sobretudo a partir dos séculosxi e xn.
Em meados do século xm, um franciscano, Bertoldo de Ratisbona, subdividia o
corpo social de uma forma muito mais articulada e reservavapara os mercadores,
uma das nove classesem que o repartia. A realidade correspondia mais ou menos
a essasclassificações teóricas ou ideológicas, às quais escapavadecerto o que
havia de mais original na actividade mercantil. De facto, enquanto se tentava
identificar tipos sociais mais ou menos imutáveis, com o objectivo de ordenar o
mais rapidamente possível a esferahumana, não se percebia o carácter dinâmico
e explosivo do comércio, actividade que provocava uma atitude crescentede
148
desconfiançae de condenaçãoparcial como se se sentisseque era a única que
podia constituir uma cilada para a hierarquia elaborada.
Encontramo-nos, por isso, peranteuma classee um tipo de actividadesa que
durante séculos a cultura dominante se opôs ou que tentou desacreditar. Embora
esseproblema tenha indirectamente a ver com o Renascimento,vai muito para
além dos seuslimites e abrangequase toda a duraçãoda civilização europeia.
O facto de o mercador terksidovisto com maus olhos duranteKum)4)eríodo tão
longo pela cultura de matriz eclesiástico-nobiliarnão significa apenasque isso
serviu para enraizar vários preconceitos na mentalidade dos vários países. Essa
aversãocolectiva e esseclima desfavorávelrepercutiram-secertamente, de modo
talvez indirecto mas não menos eficaz e duradouro, mesmo naqueles que se dedi-
cavamao comércio,ainda que com ardor e convicção.Não se pode deixarde
ficar surpreendido com o facto de, no Ocidente, embora em tempos diferentes e
de formas diferentes, se ter vindo progressivamentea exaltar e a mitificar a classe
eclesiástica e nobre, a classe dos pastores-camponeses e operários e nunca a classe
mercantil.
Não é esteo lugar para nos propormos explicar essaatitude de toda uma civi-
lização e daquilo que se pode denominar como a sua cultura superior. Provavel-
mente também devido ao seu irremediável individualismo,unem mesmo mais
recentemente o mercador e o homem de negócios provocaram aqueles acessosde
admiração que parecia poder tributar-se a quantos se dedicavama causascolecti-
vas: desdeo missionárioao médico,do próprio militar ao sindicalistaou ao polí-
tico. Bastaria, porém, consultar os actuais e mais modernos dicionários biográfi-
cos para nos apercebermosfacilmentedos vestígiosdessasantigasprevençõese
desseinconfessadoostracismo. Seum mercador foi também um viajante, um lite-
rato ou um tipógrafo, o autor do seuperfil dedicaráainda hoje muito mais
espaçoe muito mais atenção aos seusméritos no campo da geografia, da litera-
tura ou da edição e passará quase em silêncio, considerando-as pelo menos como
totalmente secundárias, sobre as suas actividades económicas.
Assim, o mercador assumiu algum relevo por méritos o mais possívelindirec-
tos ou póstumos, enquanto antecessorou primeira encarnação do capitalista. l
Enquanto tipo social que constituiu, pelo menosem parte, a alma da burguesia,
gerou um fantasmaclaramentenegativo: o da <<trahison
de la bourgeoisie>>.
Por
isso, uma análise da sua figura e da sua imagem ao longo de todo o percurso da
civilização ocidental ofereceria uma espéciede psicanáliseou de radiografia dessa
civilização. A estenível, o período renascentistaé demasiadobrevepara fornecer
respostas adequadas, mas, por outro lado, revelar-se-á extremamente significa-
tivo.RConvémno entanto recordar que tudo o que nele se poderá detectar não
constitui um episódio talvez brilhante mas isolado e sim um momento de particu-
larürelevo de um processo multissecular. Por outras palavras, o tipo social e
humano que se vai evocar remetepara uma dupla perspectivaem profundidade:
aquela que, pelo menos sob certos aspectos, permite que o consideremos como o
ponto de chegadade todo um desenvolvimentoanterior e aquela que nos pode
fazer considera-lo, noutros planos, como um luminoso ponto de partida.

Já se acentuou, pelo menosde fugida, que, na nossa opinião, se atribuiu uma


importância excessiva a tudo o que os eclesiásticos escreveram a propósito de cer-
tas actividades mercantis. Teria sido muito mais coerente ou pertinente interrogar
os próprios Mercadores e os seus comportamentos para tentar deduzir-se algo de
concreto.Aconteceporém ainda hoje que, em vez de se examinaras condições
149
históricas e os procedimentos específicos dos operadores económicos,. se evoca
apenas a imagem que deles traçaram os teólogos. Assim procedendo, cai-se numa
autêntica armadilha historiográfica, já que mais ou menos se acaba por admitir
l que todos os mercadoresestavamradical e permanentementedivididos entre a
vontade de enriquecer e a angústia de serempunidos por isso.depois da .morte.
Todavia, não será esse,em grande parte, o resultado.de uma óptica eclesiástica,
cuja influência real sobre cada indivíduo está longe de se provar? Pode supor-se
que o próprio mercador também tenha tido em conta tudo o que pregavam
padres, monges e frades. Mas a influência efectiva de tais sermões é demasiado
difícil de avaliar e, de qualquer modo, só se pode fazê-lo validamente do interior
e não do exterior. O que fica por demonstraré se o mercador,mesmomedieval,l
era realmente vítima de uma dissociação da sua personalidade. '
Os historiadores não se comportaram de modo muito coerente perante seme-
lhantes problemas e muitos delesmostram ainda hoje que sedeixaram influenciar
pela matriz eclesiásticaprópria dosséculos passados.Daí resulta um retrato con-
traditório do mercador não só da Idade Média mas também do Renascimento.
Seg«çlg.êlgun$,.PQ!.y!!L1149,.9.!PçlçêçlaUlçs!!gPgiÉçyl9.3b-ê!!!dg:g$!á,-@:
temente lmDulaoaummiinento-íeligios.QlrêdjçlQnalKBegyndo outros, a partir
eiã"épocadas Cruzqdalz..g$.yepezianospisavam sem escrúpulos qualquer tõiigide-

adniitír-se que de uma região para outra os comportamentos colectivos tivessem


diferido de forma notável. Mas mesmoquem sublinha o vivo apegoà fé dos .mer-
cadoresquinhentistas e a sua grande devoção, reconheceque nenhum obstáculo
espiritual os"detinha na expansão das suas empresas..Ter:se-ia assim, em ple.:2
Renascimento, uma enorme ressonância nas consciências das proibições lançadas
pela Igreja, mas, ao mesmotempo,. os.próprios indivíduos as.teriam iludido por
outras vias, que não modificavam de facto a natureza das actividadesprescrita!
Não é de facto fácil sair das aporias destasdiscutíveisposiçõeshistoriográH.
cas,tanto mais que a questãonão foi examinadana prática, de uma forma siste
mágica e do seu interior. Os testemunhos em que nos baseamos ou são indirectos
e exteriores, como os teológicos, ou totalmente esporádicos e muitas vezes.pouco
convincentes. Recorda-se, por exemplo, o número muitas vezes relevante de mis-
sasou a quantidade considerável dos legados piedosos que os mercadores ordena-
vam à hora da morte, masnão se tem em conta de modo adequadoque essaspra-
ticas já faziam parte dos costumese que, quando tinham meios, os eclesiásticos
e os nobres faziam o mesmo pelas suas almas. Esses af?!glge devoção, como os

ainda hoje não é claro que, pelo menos a partir do século xuT, os operadores
económicos no seu conjunto se sentissematormentados na condução dos seus
negócios pelas proibições eclesiásticase que se preocupas:emdiariamente sobre-
tudo com o conflito inconciliávelentreDeus e Mamona. Não sesentiamdecerto
mais angustiados do que os outros cristãos, que de uma.forma ou de outra tam=
bém ambicionavama possede bensterrenos.Na medidaem que o mercador
atendia às imposições da Igreja, fazia-o sempre.-.Pomo de resto a maioria dos
fiéis, cada qual no seu domínio - de forma a conciliar as suasexigênciascom as
exigênciasda sua actividade. Em geral,.essecompromisso era estabelecidocom
vantagem e não com prejuízo para os negócios, ou seja? subordinando à obtenção \

de lucros certas concessões marginais às exigências eclesiásticas.

150
Uma das fontes de mal-entendido nesta matéria consiste no facto de se:ter con-
fundido a religião ou a moral com os ditamestda Igreja. É certo que esta, para
além de propor como obrigatório um certo conjunto de crenças, pretendia arrogar-
-se o monopólio não só do culto mas também dos critérios do bem e do mal. Toda-
via, não se analisou até que ponto essas exigências eclesiásticê&Êoram deveras acei-
tes e satisfeitas. ]!bi;:a.ntes;-sublinhado-a-facto de::g:lgrçj4 Çêlólieà.:ter.conseguido
exercer um uência mais amDlã.e-eficaz..-sab ldQ.após-o-Concílio:de-4rentis;::=='
ooder-se-ia â -ãüê'ã'resultados análogos chegaram as igrejas protestantes
nos paísesonde predominaram. Por outro lado, foi oportupgBçi!!gBoçado que a
lglçjg:.dLBaixaJdade :Média-e adoptou e lncremeQto14~praticas piedo-
sas, e mesmo crenças, que eram iírito mercantil da'--
sàêiêiíããê'íeiÉã Eã primeiro lugar3 um verdadeiro
trãfiêõ;ãue envolveunaturalmentetarieOwopMãores económicoscomo como os
os ecle.
ecle- .. .
siásticos. Clássico e bem conhecido é o exemplo dos Fugger que, em troca do:eX'
empréstimo por eles concedido a Alberto de Brandeburgo para poder adquirir a {=\i (;iáa#\
dignidade de arcebispo de Mogúncia, obtiveram metade das receitas que o prelados\
recebesse com a venda das indulgências. =Contudo, as indulgências não eram ajl
única operação financeira a que os eclesiásticosse dedicavam:para além do paga-jl
mento dos dízimos, das anuidades, etc., havia ainda as consideráveis percentagenst\
que a cúria exigia para a concessãode muitos benefícios.
Para uma análise.adequadado comi)ortamento do mercador, não devemos por-
tanto limitar-nos a confrontar algumas tomadaside posição teológicas, por um
lado, e as eventuais repercussões que teriam provocado nas consciências, por outro.
Dever-se-á tçLÊH..QQDêidÊl3ção,e talvez ainda:l!!Bj$.a mercantilização da lgrqja. Se
os operadores económicos podiam com tanta facilidade; ê'tãaã'$êii cais ampla-
mente, estabeleceracordos com ela, isso também era devido ao facto de elaçse
orientar em muitos sectoresde forma consonantecom a sua mentalidadese com os
seus processos de enriquecer. O que era, por exemplo, a promoção da crença da
expiaçãodas culpas no Purgatório a não ser uma dupla especulaçãoeconómica,
um autêntico mercado? Por um lado, o cristão adquiria méritos gastandodinheiro )
para o alívio das almas do Purgatório, por outro, os cofres eclesiásticosiam-se/
enchendo,. concedendo em recompensaum créditosmais ou menostimagináriol
junto da misericórdia divina. Não seria por isso muito paradoxal afirmar-se que,
pelo menos a partir do séculoxív,li osicomportamentos mercantis invadiram a
Igreja com uma força que superava a sua capacidade de atrair os fiéis para a mera
observância dos seus preceitos mais austeros em matéria de lucro.
Pode, por conseguinte, formular-se um conjunto de constatações que dizem
particularmente respeito ao período renascentista. Acima de çydQ.--ó:hercadõF=:"
não se distingue de facto -- como aconteceçom certos'intelectuaishumanistas --
por uma independência especial-emrelação aos preceitos da Igreja e muito menos
se distancia deles. Participa dg..desíoçãn..colectiva elambénl-é- sensível às tensões
rçljgipsas do seu tempo- Não foi por acaso que os mercadoresdesempenharam
um papel de certo relevo na difusão da reforma protestante, embora não se possa
dizer que a ela aderiram em massa, mesmo nos países nórdicos. Muitos deles não
se encontravam na mesma situaçãoida maioria da população, mais ou menos
confinada ao seuburgo e portanto a uma árearestrita. Viajavam frequentemente,
tinham contactos constantes$etrocavam opiniõeslcom mercadoresde outras
regiõese sobretudo nos vários centrosurbanos onde se encontravamuns com os
outros, sabiam ler e escrevere tinham acessoa uma importante rede de informa-
ções, orais e escritas. A sua cultura e a sua própria religiosidade eram portanto
151
de um cariz mais aberto e mais crítico, mais requintada e dúctil do que a da maio-
ria dos camponesese dos citadinos mais humildes. Entre a devoçãoancestral,
consuetudinária, supersticiosa e rude da maioria e a sua própria devoçãohavia
uma separação nítida. Foi devidamente observado que o mercador e o banqueiro
l consideravama Igreja, a todos os níveis, como uma potência cuja estima era útil
e necessáriomanter. Aliás, um bom número dos membros das suasfamílias não
l se dedicaram à carreira.eclç$já$jjca? :..J ii W y.......................-T
:Por conseguinte, os mercadores são-acima detudo':büíÊüesêíiiiiêressados nos
seusnegóciose no êxito da sua família. Por isso, de uma maneira geral, têm boas
relações com uma instituição tão respeitada e influente como a.Igreja -- e mesmo
com as várias igrejas protestantes.Mas a sua religião não se limita a isso. Tam-
bém part cipam no património de crenças comum, embora com um,elevado grau
de autonomia e de auto-suficiência, que provém justamente da .posição.bastante
elevadaque ocupam na sociedadee do facto de fazeremem geral parte dos meios
urbanos mais evoluídos. Durante o Renascimentojá quase não. há vestígios --
nem mesmonuma documentaçãoparcial como a eclesiástica-- de aversãoe ani-
mosidade para com actividadesmercantis que no passadotinham suscitadocon-
denações e ásperas censuras. Quanto ao mercador, sobretudo o católicos pode
sentir ainda alguns escrúpulos em relação ao carácter laico de. certas.operações?
mas não consideraque o bem-estare a riqueza na terra sejam inconciliáveis com
a salvação da alma.'Nem os teólogos lhes recusam essa dupla satisfação, embora ,.

com algumas reservase cautelas.Por um lado, a convicçãode que o êxito nos


negóciosnão pode desagradar a Deus, antes confirma o seu favor, é partilhada
tanto pelos mercadores católicos como pelos protestantes. Por outro, são precisa-
mente as vaias igrejas que sentem um certo embaraço perante o grande aumento
dQSlucros económicos ê o desenvolvimentqmundjêLdas mgóçjos:

Já é porém tempo de examinarmais de perto as.coordenadasda psicologia


colectiva do mercador e do banqueiro renascentistas.Embora não sejam propria-
mente secundárias, as suas preocupações religiosas revelavam..gpçnas..11111.ê$Peçto

dê':üiíiãÍÕiiiiãiõlidã'rõigaiiiiiããã'Fõíõiiiiã:'jãíãi;raia por um lado, o mercador


e o oanqueiro emm cristãos"íêõiii o tal tinham mais ou menosproblemas morais
substancialmente comuns a todos os fiéis. Devido a algumas das suas actividades,
e em especial as creditícias, tinham sido alvo das acusaçõesdo clero durante a
Idade Média, como se se dedicassema operaçõesparticularmente condenáveis.
Nos séculosxv e xvi, todavia, muita água correra debaixo das pontes das pró-
prias fobias e prescriçõeseclesiásticas,que passarama ser muito mais maleáveis
e compreensivas ou se foram tornando progressivamente.inócuas. Por outro lado,
sobretudo em relação ao universo psicológico do mercador e ao.conjunto mental
que ele soubera forjar, essesobstáculos não passavamde um problema muito par-
ticular e de peso específicolimitado. Embora num tom um tanto menor,.paralela-
mente às do clero e dos nobres, e sem o seu contributo, o mercador tinha elabo-
rado uma visão.própria, suficientementeautónoma, da vida e.da acçãodiária.
Não deixa de ter significado que, no plano conceptual e teórico,. a esferada
economia se tenha libertado, no mundo ocidental, muito mais tardiamente do
que as da política, da própria religiosidade e também da filosofia e da ciência
Para ter os seus Quesnay, os seus Smith e os seus Ricardo, teve de esperar pelos
finais do século xvm e, no séculoxvi, não tem ninguém que se possa comparar
a um Maquiavel ou a um Copérnico. Essa visão autónoma de que os mercadores

152
f foram porém portadores capazese inegáveisnão se inscrevenuma franca moder-
nidade mas numa fase intermédia entre o que foi classificado como medieval e
aquilo que virá a ser o moderno. Como já se referiu, os seusinstrumentos profis-
sionais e os seus&horizontespsicológicos emergeme definem-se já entre os sécu-
los xni e xiv, para se imporem largamente&a partir do período renascentista.
Sublinhe-se todavia que as tomadas de consciência dos operadores económicos
apresentam-se,como em surdina, em formas ideologicamentedébeis,conscientes
mas não explosivas. Também não é por acaso que os perfis mais definidos deste
tipo de homem e da sua actividade que se podem encontrar durante esta época
não ficam a dever-seà pena de verdadeirosmercadores,
já que Leon Battista
Alberti o não era e o próprio Benedetto Cotrugli só o era muito parcialmente.
Consciente da utilidade não só pessoal da sua acção e convencidçlJq $pbst4n-
cial legitliiiiüã(lc'e'coerência ética cla sua acção o mercador renascentista sente-se
cada vez maíià'çõiiEade no campo.da.sua.pióptiê.aç;!jj:j4adenPFocede todavia de
uiiii%oi-fila'muito pragmática, como se não fossecapaz -- e provavelmente,em
geral, não o era -- de explicar lucidamente as suas necessidadese os seus objecti-
vos ideais. Comporta-se como se não pretendesseafirmar a sua originalidade ou
a sua novidade, que se revelavam, é certo, nos factos mas que não eram assumidas
no plano teórico nem apresentadascomo reivindicações. Limita-se a forjar com
tenacidadea sua auto-suficiência, satisfazendo-secom uma cada vez mais sólida
e prestigiada inserção numa sociedade onde há muito tempo enterrara as suas raí-
zes. Torna-se aliás um dos factores determinantes da própria evolução da socie-
dade europeia, ainda que de maneira diferente segundo as zonas e as conjunturas.
A sua formação cultural e profissional, aliás notável, está porém estruturada de
modo a não procurar, e de facto a evitar, as tomadas de posição teóricas e o con-
fronto intelectual. Dois outros elementosconcorrem de forma indirecta mas sen-
sível para essa delineação, aparentemente modesta, das exigências mercantis: o
não reconhecimento antigo, que perdurou por muito tempo -- ou o demasiado
tímido e reticente reconhecimento posterior -- das actividades económicas, sobre-
tudo comerciais e financeiras, de que já falámos, mas também o ambiente de rela-
tiva apatia, que, antes da eclosãodos conflitos quinhentistas,domina durante
uma grandeparte do séculoxv, época em que as tensõesfermentam mas são
contidas pela procura do compromisso, pela tendência para uma espéciede har-
monia e pelo desejo da coexistênciapacífica. Um comportamento análogo não
manifestam as geraçõeshumanísticas$contemporâneas,que no entanto tinham
nas mãos ou estavam a reapoderar-se de um oz/í///age mental pelo menos poten-
cialmente mais agressivo?
Todavia, se os humanistas precisaram de recuperar o património ético clássico
para se fortalecerem e afirmarem a emergenteautonomia da sociedadecivil em
relação aos ideais eclesiásticos,os mercadorescriaram a sua auto-suficiência,
ainda que de modo menos retumbante e com um estilo bastante mais humilde.
É um /e//-morfv constanteafirmar-se que a cultura laica se foi impondo aos pou-
cos, realçando cada vez mais os valores da vida activa em relação à vida contem-
plativa ou consagradaà religião. Neste processo,os mercadoresderam muito
cedo uma contribuição de notável importância, embora menos pronunciada ideo-
logicamente. De factor um/ei/-moíív historiográfico é agora o de contrapor o
tempo do mercador ao da Igreja. Essa oposição vale porém muito menos do que
sejulga no plano da verdadeiramedida do tempo quotidiano. Na realidade,não
só os primeiros relógios portáteis e pessoaissurgem antes de finais do século xv,
como, naturalmente, a sua difusão é muito lenta e estácircunscrita à élite. Talvez
153
sejaainda mais necessárioinsistir no facto de que, até ao séculoxv, mesmoos
relógios públicos eram raríssimos e foram instalados num número extremamente
limitado de centros urbanos. Já sem referir que a medida eclesiásticado tempo,
e a sua influência na vida quotidiana,nuncatinha deixadode se fazer sentir
mesmo nos meios urbanos dos séculosxiv, xv e xvi.
O que há de mais vigoroso na visãomercantil ao nível da consciênciado
tempo é algo de diferente e tem um sentido mais profundo. Ainda durante os
seculos xlv e xv, enquanto os eclesiásticos insistem na inconiiâiiõiã'ããmção
humana e na raciiêãl'fragilidade lda.s.uq:dihênsão têiõjiõlãE:j®:j$jêÊcãdoljêg3ãÕ só
acreditam ';i;ãlÓ;'d'e'ià4jLl!©.,doLseus-instantes .WmQ.í.wbK-Usa-lglna que
constroem as suas foNunas çg!!çlçtg$..!.elaboram g !çy..Hgdelo de vida. Evocando
a-parábõlãêi;ãngéliêã'a&;'talentosênãêgilespara que Trutificãisem, o citado Ber-
toldo de Ratisbona tinha insistido no tempo que ])eus concedeuao homem para
o eihpregar nas canseirasterrenas e na salvação eterna..Na primeira metade do
séculoxv, um humanista nascidoe educadonuma família de grandesmercado-
res apresenta a situação sob um aspecto bem diferente do do frade alemão. Retra-
tando a vida de um pai de família empenhadonos seusnegócios,Leon Battista
Alberti já não alude minimamenteao destinoda alma nem o seutempo é evo-
cado como algo por que se deva responderno Além. O tempo do mercador,
1.como de qualquer homem activo, é apresentadocomo consubstancialao seu ser
11profundo.'<<Somoo>, escreve Alberti, <<almae corpo : mas a nossa essência é tam-
11bém tempo e, num certo sentido, é acima de tudo tempo porque é pela.sua escala
11que nos medimos.>> Nas páginasdo seudiálogo, toda a actividade do burguês
11surge organizada como uma contínua autoprogramação com. vista ao emprego
não só calculado mas intensivo dessedevir que cadaum forja para si próprio.
Quanto mais completa e densaé a utilização do tempo, mais cada um se realiza,
fornecendo mesmo o máximo e o melhor de si.
Esta visão dinâmica da duração transmitida pelo mundo mercantil encon-
tra-se também nas cartas que se trocavam entre aqueles cuja actividade estava
completamente absorvida pelos negócios. Antes do mais, já não lhes parece per-
doável que se façam contas sem se mencionar as datas precisas das operações cor-
ndentes; em primeiro lugar, porque o essencial é perceber imediatamente a
relação entre 'os meses que vão decorrendo e o lucro que se tem: não deve haver,
como se escrevecom alguma ironia, anos de dezoito meses. Outra relação que se
tenta cada vez mais detectar é a que existeentre o movimento das mercadorias e
dos navios no espaço e no tempo exigidos por tais deslocações : o lucro está estrei-
tamente ligado a essarelação, assim como o reinvestimento dos capitais que vão
sendo ganhos. A falta de aproveitamento do tempo útil e oportuno para se con-
cluir um novo negócio equivale de facto à esterilização da soma investida e esse
eventualtempo morto provocaum prejuízo,a interrupçãodo lucro. Uma das
máximas da actividade mercantil renascentista -- e não só renascentista -- é fazer
tudo para não seter <<os dinheiros mortos>>,
como se diz de uma forma elíptica
e co]oquia]. A mentalidade do mercador mede-sepor essasimagens que ilumi-
nam como lâmpadas a constante procura de lucros. Desperdiçar o tempo.S as
oportunidades não é minimamente admissívele, reciprocamente,<<aprontidão é
mãe das riquezas>>.Do mesmo modo, uma esperaerrada e improdutiva de.um
negócio é um acto qualificado como <(bestial>>,
ou seja, contrário à racionalidade
mercantil e objecto'de desdém. O mercador apercebe-semuito b"m da lei inexo-
rável do tempo, dimensão do lucro desejado e também do prejuízo temido.. Com
a sua marchainexorável,o tempo parece-lhepois como aquilo que devora
154
o lucro, quando o resultado positivo do investimento se faz esperar demasiado.
E, consequentemente,quanto mais um crédito envelhece,menos vale, e quanto
mais os negócios estagnam,mais o mercador corre perigo: <<Estamos
como mor-
tos>>,escreve,::por exemplo, Andrea Bereng03de Aleppo, no Outono de 1555,
quando se revela inútil esperar pela seda a negociar.
Embora se saiba que, na época;:lrenascentista,
os lucros dos negócioseram
muitasl:vezes bastante elevados, seria profundamente ingénuo deduzir que QS
lucros eram mais ou menos regulares, senão mesmo automáticos. A vida do ope-
rador económico é, pelo contrário, bastantedramática: a confiança nas suas
energias e a ousadia no emprego dos capitais estão longe de assegurar o sucesso.
A consciência profunda e organizada do valor do tempo alia-se,a constante ten-
são para vencer as distâncias, extrair benefícios dos ritmos de afluência de merca-
dorias e evitar as armadilhas de toda a espécieque são outras tantas ameaças
inesperadas. Para o mercador, a Fortuna não é uma figura meramente alegórica:
é um emaranhado de ciladas que ele sabe não poder controlar e que já não se
contenta em enfrentar só com o recurso a Deus, cujo soberano poder não hesita
porém em reconhecer. A título de exemplo, poderemos ainda :citar o mesmo
Andrea Berengo, que, no preciso momento em que recomenda o recurso ao Espí-
rito Santo,baconselha a firmar um contrato de seguro, recurso que o mercador
criou quase ex-novo a partir dos séculos xu/xni, mas que se afirma verdadeira-
mente a partir do período renascentista, embora nem todos segurem as suas mer-
cadorias, e muito menos pelo montante total do seu valor, e os seguros não se
verifiquem com igual frequência em todas as praças. Todavia representam,a par
da concepçãovivida e profissionalizadado tempo, um segundopilar fundamen-
tal da visão e da actividade comercial renascentista.O seguro é um mecanismo
que se utiliza para compensar um desafio demasiadoousado aos riscos e uma fé
demasiadoampla em Deus. E certo que se tem consciênciade que o talento pes-
soal e dos sócios é uma das melhoresgarantias para se ter êxito e, por outro lado,
parece que se pratica cada vez melhor o ofício que se aprendeu, em geral, desde
a infância. Contudo, inventando e sobretudo recorrendo cada vez mais larga,
mente ao seguro, o mercador desta época demonstra a sua maturidade,já que faz
nasceradaprópria lógica do lucro seguradoruma sólida garantia contra a dimi-
nuição dos seus lucros.
A visão dinâmica e intensa do tempo e a prática do novo instrumento que Ihe
proporciona segurançapermitiram que o operador económico enfrentasseorigi-
nalmente as dimensõesdo tempo e do risco. Outra prática, também já existente
anteriormente, mas agora extremamente difundida e sabiamente organizada, per-
mite-lhe resolver racionalmente certas dificuldades provenientes das distâncias.
Ao domínio do tempo e do risco vem juntar-se o do espaço,graçasa uma densís-
sima rede de relaçõesepistolares,que constituem o suporte e ao mesmo tempo al
constante verificação das operações levadas a cabo. E não consideramos estar a
ultrapassar o que é legítimo, incluindo no volume das cartas comerciais que circu-l
.»$
lam a enorme quantidade das letras de câmbio : em ambos os casos, ainda que eml
medida diferente, trata-seudeinstrumentos estudadose habilmente aproveitados
para o sucessodos negócios.O mercador continua a deslocar-secom frequências
mas já não poderia prescindir do precioso auxílio de uma correspondênciaa quê
dedica uma parte relevante da sua actividade. Nesta época, ninguém se dedica
tanto como o operador económico a essaabundante e sistemática troca de notíf
das, que chega a ser um autêntico sistema de informações.

155

L
O progressivoe organizado domínio do tempo, do espaçoe do risco não cons-
tituem os únicos pilares do mundo mercantil renascentista,mas revelamjá a sua
robustez e a sua autonomia peculiar. Os outros suportes,aparentementemais tra-
dicionais, são a estrutura familiar e a imagem que os operadoreseconómicospro-
põem e impõem de si próprios no contexto social. Já se referiu que essaimagem
se divide em realidade e em representação.No Renascimento,o mercador e o ban-
queiro ocupam já um lugar indiscutível e preponderante,mas ainda encontram
obstáculospara exprimirem e fazeremvaler a sua afirmação.tipológica concreta.
A velha condenação eclesiásticade algumas das suas actividades, instalada em
certa medida no sentir comum, junta-se aosl;vestígiosda não menos antiga e
ultrapassada tripartição da sociedade em guerreiros, sacerdotese camponeses.
O mercador nunca foi mentalmente capaz de se insurgir contra os preconceitos
dos teólogos em relação a ele, ou de demonstrar a pouca ou nenhuma consistên-
cia dessatripartição arcaica. Foi-seimpondo devido ao peso real das suas activi-
dades,à importância dos seusserviços e também à sua capacidadepara criar uma
gama própria de valores essenciaise de instrumentos operativos. No entanto, em
vez de adoptar um comportamento atrevido, em vez de reivindicar as suasprerro-
gativas junto das outras classes,o mercador contentou-se em inserir-se na hierar-
quia consagradas aceitando a sua verticalidade. Por outras!.E!!gyla$,.dura11tea
B$!nascimento,-.p;eticamente..nãa.contestou
a.iiiÍiêiiõíítlãdê3as--passes..nQbrç.ç
eclesiástica. E pãQ.$Ó;.parçççtllhq. mesmo que . pode!!g-çlçvaL:se--socialmente
entraüdó-nas -fileiras do clero e, sobrelpdo:.dã..üõbreza.
Este procêssõ'assumofonnas um tanto diversasde lugar para lugar e de uma
ara outra da Europa. Poder-se-iaassimcitar o casodos dois irmãos Ver-
kinchusen, naturais da Vestefália e ambos mercadores internacionais na área das
cidades hanseáticas.O mais velha, Hildebrand, que viveu até 1426,é mais aven-
tureiro e também menos afortunado. Embora se tenha tornado cidadão de Lube-
que, negoceiasobretudo em Bruges: casaprimeiro com a filha do burgomestrede
Dortmund e depois com a de um rico mercador de Rega. Nas suas transacções
conhece sucessos e fracassos. Negoceia com Veneza, mas o seu sócio Peter Kar-
bow gereos seusinteressesde forma a causar-lhegravesprejuízos.Imprudente-
mente, empresta 3000 coroas ao imperador Segismundo, que demora muito a
reembolsa-lo, pelo que é preso por insolvência e nunca mais conseguira recom-
por-se. Pelo contrário, seu irmão, Sievert, depois de ter trocado Lubeque por
Colónia, regressae rapidamente se evidencia, fazendo fortuna sobretudo com o
comércio do âmbar. E justamente graçasà prosperidade dos seusneg(Seiosque,
em 1431,passa a fazer parte do patriciado de Lubeque. Mais significativo ainda
é o destino dos irmãos Kunz, Hans, Paul e Mattias Mulich, oriundos de Nurem-
berga e estabelecidos em Lubeque, de onde se tornam cidadãos. Entre os últimos
decénios do século xv e o início do século seguinte, negoceiam activamente com
a Livónia e a Escandinávia,por um lado, e com a Alemanhameridional,por
outro.=O mais novo, Mattias, sobressairásocialmente,tornando-sepatrícioilde
Lubequeem 1515e aparentando-secom as famílias dos Castorp e dos Kerckring,
da mais alta linhagem, e relacionando-se com os duques de Schleswig e de Meck-
lemburgo, e com o rei da Dinamarca, que Ihe outorgará um feudo em Oldesloe.
Se se passardo mundo germânico para o mundo ibérico, podemos deter-nos
nas fortunas emblemáticas de Juan de Torralba, que exerceua sua actividade na
primeira metadedo séculoxv. Este comerciantejá ocupavaum lugar de relevo
na praçade Barcelonapor volta de 1425.De 1428a 1435dirigiu uma companhia
mercantil internacional e a partir de 1437tornou-se também armador. Depois

156
', def ter adquirido uma grande nau genovesade 1200 tonéis, colocou-a sob o
comando do genro, Juan Sabastida, de família nobre e proprietário rural. A rede
dos seusnegócios e das suas relaçõessociais ampliou-se. Sem nunca abandonar
de facto os negócios, desempenhou altos cargos na administração barcelonesa;
por outro lado, intensificou as suasrelaçõescom a corte de Aragão. A partir de
1431,Torralba participara naaconcessãode um empréstimo ao rei Afonso V.
futurossoberanode Nápoles. Pouco depois, enquanto,lipor um lado, investia
somas nas rendas da dívida pública e recebia impostos sobre bens públicos e ecle-
siásticos,por outro, dedicava-seà actividadebancária.Por fim, a partir de 1440,
deu início a uma considerável série de aquisiçõesimobiliárias, tornando-se pro-
prietário de pelo@menos cinco prédios em Barcelona.Todavia,esta fortuna iria
permanecer praticamente sem sequência. Na realidade, o genro, embora se dedi-
cassecom o navio que Ihe fora confiado a negócioslucrativos e a não menosren-
dosas acçõescorsárias por conta de Torralba, quando estemorreu (1458)abando-
nou essasactividades e retirou-se para as terras dos seusantepassados.
Constatações análogas podemos extrair do que aconteceu noutros países, da
Polónia à França. O veneziano Pietro Bicarani, que exerceua sua actividade em
Breslau no início do séculoxv, não tardou a entrar em profícuo contacto com o
ambiente da cidade de Cracóvia, à qual concedeu um considerável empréstimo
depois de se ter tornado cunhador das moedas reais polacas. Um pouco mais
tarde, juntamente com o sobrinho, alugou durante mais de um decénioas salinas
de Vieliczka e de Bonchia. Dadas as suasrelaçõescom a corte, a República de
Venezanomeou-o embaixador até à sua morte (1424).Bastante idêntica foi a car-
reira do florentino Antonio Rica na mesmazona. Depois de ter alugado as duas
salinas de Cracóvia, arrendou também, em sociedadecom os irmãos, as que se
situamênosarredores de Leopoli., Instalado em Bratislava, será nomeado conse-
lheiro dessacidade. Nicolà Serafini, outro florentino, sucedeua Rica na direcção
das referidas salinas até 1456,eacumulandouma enorme riqueza. Acabou9por
adquirir a cidadania polaca, o que Ihe permitiu passara fazer parte do patriciado
de Cracóvia. Igualmente idêntica será a carreira de Aghinolfo Tebaldi, que, na
seguida metade do século xv, para além de inúmeras e importantes salinas, foi
encarregado de gerir uma boa parte dos rendimentos da coroa polaca, cargo que
Ihe permitiu vir a ser proprietário feudal de muitíssimas aldeias. Morreu em Cra-
cóvia, em 1495.
Apesar da distância, os destinos de outros italianos na cidade de Marselha
não são muito diferentes. Os Remesan, por exemplo, transferem-se de Savona
para essegrande porto e naturalizam-se franceses.De Marselha negoceiam, por
um lado, com a Espanhae, por outro, com a ltália, e com as terras doilinterior
até Lyon. Um deles, Giacomo, chegaráa fazer parte da aristocracia mercantil da
cidade, em finais do»séculoxv. Uma análoga trajectória segue, no mesmo
ambiente, a família genovesa dos Vento, que acabaram por ascender à nobreza
depois de terem sido fornecedores do exército francês estacionado em ltália. Os
mercadoreslocais de maior prestígio não se comportam de modo diferente,a
começar por Jean de Villages, magistrado da comunidade marselhesa, armador e
corsário. Este rico empresário, particularmente activo entre 1462e 1477, chegou
mesmo a comandar não só a frota de Jacques Coeur mas também duas esquadras
navais, uma enviada em 1461contra Savonae a outra, em 1466,contra a Catalu-
nha. Para além de ser proprietário de algumas casas em Marselha, Jean de Villages
tornou-se também senhor do castelo de La Salte em Valbonnette. Jacques Forbin,
pelo seu lado, que exerceua sua actividade nos últimos decéniosdo séculoxv,

157
não se contentou com os seusprósperos negóciose adquiriu em 1482o domínio
de Gardanne: Outro Forbin, Jean, seu contemporâneo,embora homem de negó-
cios famoso e armador, fez questão em que o rei Renato de Anjou Ihe .concedesse,
em 1474,a senhoria de La Barben. Até uma mulher, a ousada.MadeleineLartis
sat (1480-1545),não hesitou em orientar-se no mesmo sentido. Negociante de
escravose armadora, esta marselhesapor adopção tornou-se directora comercial
do almirante-corsárioBertrand d'Ornezan, Barão de Saint-Blaulard, mas, por
outro lado, partilhava com Louise de Remesan a senhoria da. ilha de Pomêgues.
Poder-se-ia encerrar esta primeira análise sumária do meio mercantil com o
perfil dos membrosda família Spannocchide Siena:com.eçandopor Giacomo
(m. 1420) filho de um retalhista. Aparentemente, não haveria nada de especial na
sua vida: abandonou Siena por motivos políticos e fixou-se em Ferrara,.onde
abriu um banco e um armazém de tecidos'de lã. Mas não Ihe faltava espírito de
iniciativa já que, depois de comprar três casas,entre 1411e 1415,transformou-as
em dois albergues. Já mais fora de comum é a figura de .Ambrogio Spannocchi
(1420-1478)que depois de seter fixado em Romã conseguiuentrar para o círculo
de Calistollll, tornando-se provedor-geralpontifício contra os turcos?ao mesmo
tempo que concedia empréstimos ao papa para.o apetrechamentoda sua frota
e abria um banco em Veneza,cidadenatal dos Bórgia. São ainda mais notáveis
os seusêxitos no tempo de Pio 11, que o nomeou depositário da Câmara.apos-
tólica e Ihe permitiu 'esquartelar nas suas armas as luas dos Piccolomini com
as espigasda sua linhagem, enquanto se abria em Romã um banco Spannocchi-
-Miraballi. Passadopoucotempo, fundou um banco em Nápolese tornou-se
conselheirodo rei Ferrante.Não tardou a tornar-searmadorparalegociar em
cereaise alúmen. Depois de ter sido nomeado tesoureiro por Sisto IV, .este.notá-
vel homem de negócioscomeçoua adquirir terrenosnos arredoresde Siena e
mesmo no coração da cidade, onde mandou erigir o seu paláciopobra de
Benedetto e Giuliano da Maiano, executadaentre 1472e 1474.Quando morreu,
foi sepultadona capela da sua família, que mandaraconstruir na igreja de
S.Domingos,emSiena. k M & $âl;';:inu ã nn .ir.."'l'' .

libi este o' poderoso início da ascensão social dos Spannocchi, entre finais do
séculoxv e os primeiros decéniosdo século xvl, ascensãoque é depois persona-
lizada pelos dois irmãos, Antonio (1474-1530)e Giulio (1475-1535):
.Em 149$. o
prnneiro, com pouco mais de vinte anos, já era embaixadorde AlexandreVI,
enquanto o segundojá fazia parte do governo de Siena. Nem por isso,sededica-
ram menos aos negócios,empenhando-sejuntos na produção do .alúmen e no
comércio de cereais e tecidos. Enquanto, em Siena, o seu banco fazia as vezesde
tesouraria de Estado, em Romã, os Spannocchisucederamaos Médias como
depositários da Câmara apostólica desde a eleição de Ala(andre. VI. Não tarda-
ram porem a sentir algunsrevezes.Em 1503,o seubancode Sienafaliu e, em
1504 aconteceu o mesmo ao de Nápoles, obrigando-os a vender muitos bens
imóveis que tinham adquirido nos últimos anos do século xv nos arredores de
Siena. Conservaram todavia a propriedade da vila de Campriano, cujo castelo
tinha sido cedido pelos habitantes de Siena à sua família. A sorteados dois
irmãos, que se retimram dos negócios depois da ruína financeira, não termina,
porem. Antonio ocupará durante nove anos o cargo de tesoureiro da Marca de
A.ncona e, em 1528, Giulio será nomeado juiz do povo em Siena; além disso,.a
partir de 1505,e durante nove anos, ambos receberamo imposto do consumo do
vinho na sua cidade.

158
Evocamosüdeliberadamente uma série de operadores económicos .notáveis.
sobretudo no séculoÜxv, evitando citar outros muito mais conhecidos e de maior
importância. Não se pode semdúvida afirmar que os seuscasos,relativamente
mais vulgares, são por isso mesmo mais significativos, mas podem servir-nos ao
menos para enquadrar melhor as carreirasde famílias ou de figuras mais famosas
de que falaremos em breve. Para além disso, os seus perfis permitem-nos uma
sériede observações que nos parecemindispensáveisa propósito do mercadore
do banqueiro do Renascimento.
Antes de mais, é um facto que os conhecimentos de que se dispõe neste domí-
nio -- e mais do que acontece noutros - dizem demasiado unilateralmente res-
peito àqueles que fizeram fortunaTou que se distinguiram também em campos
diferentesdo da economia.O estudodo meio mercantil, em si e por si, dos ope-
radores económicos de estatura secundária ou média, desenvolveu-seaté hoje de
uma forma muito insuficiente em relação aolpeso específicoque eles tinham na
vida social europeia. Médias, Fugger, Affaitati e outros situam-se no vértice de
uma pirâmide com uma base extremamente larga. Existe um grande número de
mercadores, que poderemos definir como rurais, cujo raio de acção não é muito
vasto, já que não ultrapassaos limites do seu país. Citar-se-áa propósito um des-
conhecido como Pierre Garet, negociantequinhentista e curtidor de Saint-l.oup,
perto de Poitiers, que não vive de facto confinado à sua província: dispondo de
meios notáveis, compra títulos do Hotel de Ville de Paras. Mas as notíciasgsobre
a sua categoria e sobre tudo o que o caracteriza não abundam, tal como não
abundam quando se trata de operadores.seconómicospurbanos. Cadal cidade,
porém, é um viveiro de mercadoreslocais e estrangeiros,que se dedicam não só
à produção e distribuição das mercadoriasmas também à sua troca a média ou
a grande distância. No entanto, está-seainda na faseem que é praticamente per:
miudo falar quase só daqueles que animam o comércio internacional.
Isso não pode deixar de se reflectir na imagem que se tem do mercador renas-
centista. De facto, em que medida estavaele predominantemente sediado na sua
empresa ou na suasloja e pouco empenhado nas viagens a terras longínquas?
A resposta não é fácil devido não só à escassasistematização das pesquisas nessa
matéria mas também a numerosos outros factores. É evidente que as empresas de
maior vulto têm uma direcção central na cidade onde o patrão reside com um
certo carácter de permanência a fim de acompanhar e coordenar as várias opera-
ções. Mas essas sociedades de maior relevo são também as menosnnumerosas,
embora o seu peso específico seja notável e talvez determinante. Abaixo delas há
uma larga faixa de operadoreseconómicos sobretudo de duas espécies: uns são
também sedentários na medida em que estão ligados à sua loja ou ao centro onde
se efectua a produção das mercadorias que negoceiam (açúcar ou livros, sabão ou
tecidos); outros deslocam-sefrequentementemas por motivos vários. Há os que
se limitam a frequentar as feiras da zona ou o centro principal em redor do qual
gravita a sua actividade, sem contar com os que exercemo comércio ambulante.
Há depois uma categoria, cujo comportamento, tanto quanto sabemos,contribui
mais para caracterizar o tipo do operador económico da época. É o mercador
que, geralmente em sociedade com outros, exerce a sua actividade numa praça
diferente da sua e passa depois a negociar também noutras praças, em função dos
objectivos das sociedadesem que sucessivamentese vai empenhando.
E o mercador internacional, que pode negociar de Génova a Marselha ou de
Ancona a Spalato,ou da Inglaterra às Costasda Guiné, de Sevilhaao Novo
159
Mundo. Embora atraiam a nossaatenção mais do que o devido, essesnegócios a
média ou a longa, e por vezeslonguíssima, distância são muito intensos e frequen-
tes. Impõem a deslocação física dos jovens que vão aprender o ofício mercantil
e por vezes dos mercadores mais maduros, que necessitam de superintender pes-
soalmente actividades de grande relevo e de responsabilidade evidente. As suas via-
gens não se medem apenas em meses: muitas vezes obrigam a anos de residência
no estrangeiro.Daí que, juntamente com o militar e, se se quiser,com o peregrino,
o mercador seja, nesta época, aquele que se desloca mais amiúde e com raios de
acção mais variados. É bastante difícil avaliar se as deslocaçõespor via terrestre
são mais ou menos importantes do que as que se faziam por via marítima, embora
estas se possam confirmar mais facilmente e sejam muito mais expressivas.As
empresas de transporte por via terrestre podem dispensar o mercador de acompa-
nhar as mercadorias, mas nos portos e através dos navios ele sente-se mais empe-
nhado em negociar pessoalmente.Sabe-se,por fim, que durante os séculosxv
e xvi o comércio europeu por via marítima aumenta desmesuradamente.
Convirá agora desenvolveruma outra série de observações,que são todavia
válidas tanto para o período anterior como para o período posterior ao Renasci-
mento. A primeira diz respeito à gama dos objectos negociadose aos próprios
tipos da actividade económica.Na maioria dos casos,o mercador desta época
não é um operador especializado,ou seja, não se abstém de procurar qualquer
fonte de possível lucro. Há certos tipos de mercadores, como, por exemplo, os
livreiros e os editores, que trabalham quaseexclusivamentecom uma mercadoria,
mas são nitidamente uma minoria. Em geral, quem negoceia atende mais às pos-
sibilidades de lucro do que à natureza da mercadoria. Habitualmente, cada um
troca os artigos que a situação geográfica em que se encontra Ihe proporciona
negociar com receitas mais segurasou maiores. Bartolomé de Axila, por exemplo,
que exerciaa sua actividade em Valladolid na primeira metadedo séculoxvi,
especializou-se em tecidos e sedas, mas de tipos muito variados e de diversas pro-
veniências. O seu contemporâneo Sansin de Villanueva, mercador na mesma
praça, negoceiapor seu lado toda a espéciede artigos, desderelógios a cartas de
jogar, jóias, tecidos, espelhos,livros, tesouras,facase candelabros.No inventário
post' morrem de um comerciante de Rostock, em 1566, eram mencionados cerca
de duzentos e cinquenta produtos diferentes. Não é de admirar que essamultipli-
cidade do mercador não diga apenas respeito à mercadoria e se verifique em
quasetodos os domínios da sua actividade.i.Em primeiro lugar, na frente da pro-
dução : mesmo que seja um editor, pode possuir refinarias de açúcar e fábricas de
sabão,como os Giunta, estabelecidosem Veneza.Mas também em matéria de
investimentos se sente atraído pela aquisição de terras e de imóveis e pelas activi-
dadesde armador, pelos títulos de dívida pública ou pelasapólicesde seguros.
Esta é uma das razões que nos levaram a não separar a figura do mercador da
figura do banqueiro. É certo que a maior parte dos mercadoresse limita a empe-
nhar-se de uma forma mais ou menos marginal em actividades monetárias ou cre-
ditícias e não exerceactividades bancárias propriamente ditas. Reciprocamente,é
de notar que aqueles que se dedicam unicamente à gestão de um banco são rarís-
simos. A propósito, vejamoso exemplode dois membrosde uma família vene-
ziana cujo ramo se dedica predominantemente a essa actividade : Andrea (1444-
-1493) e Antonio Cappello (1461-1541). O primeiro tinha feito estudos jurídicos e
na juventude negociara entre a Flandres e a Inglaterra. Em 1480, fundou com os
irmãos Lippomano um banco privado, que depressaveio a ser um dos maiores de
Veneza. Se, por um lado, Andrea Cappello emprestou enormes somas ao Estado

160
em troca das receitasfiscais, pelo outro, não tardouríatornar-semembrodo
Senadoda República. Acabará os seusdias em Romã, onde fora enviado como
embaixador. Também Antonio se tinha antes dedicado aos negócios na praça de
Londres juntamente com os irmãos Silvano e Vittore e, posteriormente, com eles
e com Lula Vendramin, abrira um banco em Rialto (1507). Embora esta impor-
tante actividade tenha durado mais de vinte anos, não o impediu de exercervários
cargos: desde provedor da Comuna, em 1509, aol de peritoidos impostos, em
1521.Titular de quotas consideráveisda dívida pública, comprouvárias casase
lojas no centro da cidade, construiu pelo menos oito casasnum terreno comprado
em Murano e, de parceria com seu irmão Silvano, não hesitou em mandar cons-
truir um edifício para a fundição do chumbo. Para completar o seu retrato sumá-
rio acrescente-seque, também de parceria com Silvano, era proprietário de um
palácio no Canal Grande e de uma vastíssimapropriedade em Meolo, no conti-
nente; possuíalainda uma bela casaem Murano, para onde gostavade se retirar.
Se tivéssemos escolhido outros exemplos, encontrar-nos-íamos perante carrei-
ras análogas. Se nem todos são gestores de bancos, essaactividade constitui fre-
quentementeo complemento quasenatural das grandes fortunas familiares e das
sociedadesmais abastadas.Em suma, mais do que em si e por si, a actividade
bancária é exercida em paralelo com outras que já se revelam prósperas, e com a
participação de sócios, como acontece noutros sectores. Em vários casos, dada a
relevância pública da gestão de um banco, a sua abertura e o seu encerramento
são acontecimentosque interessamà comunidade e que levam o governo a tomar
posição. No entanto, os bancos não só continuam a ser quase sempre empresas
privadas mas também são geridos como as empresassimilares, muitas vezescom
basefamiliar e produto da iniciativa de uma família.
Os mercadores e os banqueiros do Renascimento distinguem-se dos d0.3pe-
rio(to anteflõíDelã iilãi(ií propensão para !pvy$t11çttt.ç)s.sçy$.ç4pjtaj$.jí8.proprie
dadwfundiárias; elR.Íilióliiêig.'urbanos..e-em-r=sidênçias-fora-da-cidade.Não consr
-deraMõi félevante determinar aqui se a classemercantil dos séculosxv e xvi se
distinguiu deverasda anterior pela satisfação que teria extraído da posse de ter-
ras, não só porque já na primeira metade do séculoxnl uma obra norueguesa
aconselhava explicitamente a dedicar à aquisição de terras dois terços das receitas
das operações comerciais que se tivessem verificado particularmente rendosas,
mas também porque já desde os séculosxln e xiv as burguesiasde importantes
centros urbanos se tinham estabelecidode forma considerávelnos campos vizi-
nhos. Por conseguinte,no Renascimento,assiste-sesobretudo ao incremento de
um processojá iniciado. O fenómenoassumetodavia proporçõesmaiores não
tanto pelo desenvolvimentodos lucrosi,masporque nonconjunto da. elite se vai
impondo um estilo de vida, que leva a usufruir de maiores comodidades reais e
de mais acentuadas gratificações sociais.
O mercador mostra-se particularmente sensívela essassolicitações, cuja satis-
fação Ihe confere também um mais elevado grau de prestígio e um prazer aristo-
crático. É evidenteque se trata sobretudo das famílias mais ricas ou, pelo menos,
consideravelmente abastadas. Desde a primeira metade do século xv que Leon
Battista Alberti, ao esboçar o8retrato do operador económico, dava absoluta-
mentecomo certo que a sua família fossepelo menosproprietária de uma casa
nos arredores da sua cidade. Uns trinta anos depois, o seu contemporâneo de
Ragusa, Benedetto Cotrugli, propunha que as propriedades fora da cidade fos-
sem duas: uma mais próxima, para o abastecimento alimentar da casa da cidade,
e outra num local particularmente adequado ao lazer e ao repouso. Ao contrário do

161
humanista florentino, que enaltecia a ví//a como um verdadeiro paraíso terrestre,
Cotrugli exprimia ainda uma certa desconfiançaem relação às delícias campes-
tres. Embom reconhecesseque eram aliciantes, temia que induzissem o mercador
a entregar-se ailelas e a abandonar aos poucos os outros assuntos, geralmente
mais incómodos. Se não se demonstrou que essereceio era fundamentado, pelo
menos no período renascentista, sabe-seque nesta fase os mercadores gostavam
de repousar e de se divertir nas suas residênciasrurais. Quando Alberti escreveu
o seu tratado .Z)earc/zfrec/z/ra, dedicou propositadamente várias páginas à cons-
trução da ví//a -- que não era certamentededicada aos nobres e aos eclesiásticos,
mas sobretudo aos cidadãos e aos homens de negócios, que, nos séculosxv
e xvi, {conseguiram equilibrar o empenho nos negócios com os prazeres do
campo e a aura de senhoresque a posse de terras conferia.
No interior da sociedaderenascentista,
os mercadores
italianosde um certo
nível adquiriram um nível de vida tendencialmente,e por vezesabertamente,aris-
tocrático, mas quase nunca se preocuparam em introduzir-se no seio da nobreza:
afinal, já eram membros de patriciados urbanos de prestígio e continuavam sensí-
veis aos valores republicanose antifeudais.Porém, quando contactavamcom
príncipes estrangeiros,não desdenhavamos títulos com que eram distinguidos.
Para além dos que foram evocados, poder-se-ia citar o caso de Gaspare .Ducci, de
Pistoia (1429-1577),que fez fortuna na Flandres e em França. Primeiro, como
intermediário e agenteem Antuérpia, representaraa firma de Luca Arnolfini-
-Nobili, mas depressase tornou perito em operaçõesfinanceiras na Bolsa. Tendo
auferido lucros consideráveis,pede emprestar3{enormes somastanto ao rei de
França como a Carlos V. Enquanto este o nomeou conselheiro,Francisco l en-
carregou-o de organizar o sistema dos empréstimos públicos.: Tornado nobre
e senhorQde Cruybeke, comprou uma sumptuosa vf//a em Hoboken, vivendo
rodeado de uma' vintena de servidores armados -- que encarregou mesmoKde
exercer violências sobre os seus adversários.
Fora da península italiana, os mercadoresque adquiriram títulos nobiliárqui-
cos foram bastante mais numerosos..É o caso da família dos Najac, que teveuma
rápidaascensão
emToulouse
na primeirametadedo séculoxv. Em 1426,já
tinha sido distinguida com um título nobiliárquico por Carlos Vll e fora-lhe atri-
buída a senhoria de duas aldeias. Huc Najac exerceuvários cargos de prestígio e
empregou os seusproventos na aquisição de prédios e de terras. No entanto, e tal-
vez devido às excessivasdespesas de representação, a família em breve ficou arrui-
nada. Bastante diferente foi a carreira do seu conterrâneo Jean Amic (m. 1460),
comerciante de toda a espéciede produtos, tanto a retalho como à escalainterna-
cional, para além de cambista e empreiteiro. Proprietário de um palácio em Tou-
louse e'de, pelo menos, uma meia dúzia de outros prédios, preferiu adquirir
senhorias,cujo título ostentava, mas continuou a ser um homem de negóciose
um partidário fiel do poder real. O inglêsRichardGresham(1485-1549), desde
jovem dedicado ao comércio, muito cedo começou a auferir notáveis lucros, que
Ihe permitiram tornar-se armador e emprestardinheiro ao seu soberano.A partir
da subida ao trono de Henrique Vlll, as suasrelaçõescom a corte e com os seus
principais ministros tornaram-se cada vez mais estreitas,pelo que foi distinguido
com um título nobiliárquico em 1537,um ano antesde ter sido nomeadogover-
nador da companhia dos ]Werr/za/zf.4dve/zfz/reis.Não muito diferente foi a ascen-
são do flamengo Erasmo Schetz (1495-1550)de Maestricht, que rapidamente.fez
fortuna em Antuérpia. Em 1539,mandouconstruir um palácio ondesehospedou
CardosV. em 1545, ano em que adquiriu a senhoria de Grobbendonck mediante

162
um pagamentoanual de 1000florins. Banqueirodo imperador, foi ele quem Ihe
emprestouprontamente a soma necessáriapara o transportar, bem como ao seu
séquito, de Londres para Espanha, em 1523. Poderemos igualmente citar o caso
de Bartolomeu Welser,especializadono comércio com a::América espanholae
agente das minas de cobre do Haiti. A sua família foi elevada à nobreza em 1531,
precisamentequando detinha o monopólio da importação de escravos.Mencio-
naremos por fim o banqueiro e joalheiro Joris de Vezelaere(1493-1570),superin-
tendentedurante vinte e cinco anos da casada moeda imperial de Antuérpia:
entre 1533e 1535 mandou construir o castelo de Deurne, continuando porém a
exercera sua actividade de retalhista e de prestamista.

Se o mercador e o banqueiro desta época foram inegavelmenteportadores de


valores profissionais e culturais próprios, também?sofrerama influência do
ambiente em que viveram e emique desenvolveram características de notável
relevo,como se constatou, ainda que de passagem,atravésda sua não rara inser-
ção nas fileiras da nobreza, e poderá constatar-seainda mais no plano das suas
relaçõescom os soberanos,do gosto artístico e da edição. Num certo sentido,
portanto, o mercador e o banqueiro do Renascimentotêm de enfrentar também
\ um problema de identidade. Na sociedadedo período anterior, a sua figura podia
\parecer mais caracterizada,sobretudo na medida em que quase não se inseria no
patriciado e muito menos na nobreza, tinha episódicos contactos com os sobera-
nos é uma esferacultural em grandeparte profissional. Mais uma vez, se isso
pode ser válido antes do ano 1000 ou ainda nos séculos xl e xn, começa a sê-lo
bastante menos nos séculos xin e xiv. Todavia, no Renascimento, é já evidente /
qPe o mercador é uma personagem familiar não só nos .governosmas também l. .bOCa
nÓsmeios principescos. Além do mais, é levado a financiar iniciativas artísticas
oÜ (culturais já não só enquanto membro de confrarias ou corporações mas a
título pessoal.
No quarto livro da sua obra sobre a .f;bmz7fa
Leon Battista Alberti considera
que um mercador.çle.categoria-devesaber conquistaras boaslrãÇãfde um prín-
cipeleigãõü eclesiástico, e durante págip4$j11teiras:descreveas vias :quélhe pare-
cemseiKs:mais-adequadasÉpara=ó-íofiseguir.O humanista não pretendia fazer do
opeFãdor econóihico um verdadeiro cortesão, mas pelo menos uma personagem
capaz de se movimentar no meio da corte. Desde os séculos xn e xni, os merca-
dores tinham compreendido bem as vantagens tangíveis que podiam derivar do
favor dos soberanose por isso tinham muitas vezesacedido a emprestar somas
enormes, mesmo com grande risco e a fundo' perdido. Nos séculosxv e xvl,
príncipes e monarcas tinham reforçado notavelmentea esferado seu poder, mas
não tinham desenvolvido adequadamente os mecanismos financeiros para se vale-
rem a si próprios e sobretudo para fazerem face às ocorrências extraordinárias.
Aos operadores económicos abria-se assim um leque bastante amplo de oportuni-
dades, que iam das isençõesalfandegárias aos monopólios, das empreitadasde
minas- à cobrança de impostos ou gabelas em troca dos adiantamentos em
dinheiro sonante. Pode-setambém dizer que neste período não há príncipe$que
não se sirva dos seus empréstimos, enquanto os mercadoresestão relativamente
menos expostosàs insolvênciasódossoberanoscujas fontes de rendimento são
mais articuladas e variadas do que antes.
A personagem que ilustra melhor essatroca de favores interessadostalvez seja
Jacob Fugger (1460-1525),inicialmente destinado à carreira eclesiásticae enviado
depois, ainda jovem, deiIAugusta para Veneza para se exercitar nas técnicas

163
comerciais. Durante a sua estada em Veneza, foi despertando para mais amplas
exigênciasculturais e artísticas e, uma vez regressadoà sua terra, toma consciên-
cia do seu novo estatuto. 'lendo permanecido até ao fim um verdadeiro mercador
cujo único objectivo era o lucro, Fuggersoubeaproveitar-sedas necessidades de
vários príncipes. Como garantia de um empréstimo,o arquiduque Segismundode
Habsburgo concedeu-lhe,a partir de 1487,a parte que Ihe cabia na produção de
prata das suasminas tirolesas. O comércio do preciosomineral, e mais ainda o do
cobre de outras minas, bem como as fundições e depois a banca, constituíram as
bases essenciaisda fortuna do empresário alemão, que durante algum tempo
deteveo monopólio das transferênciasde dinheiro enviado à cúria pontifícia
pelos eclesiásticos de uma grande parte das regiões a norte dos Alpes. Graças a
essesmonopólios, e a outras operaçõessimilares nos reinos ibéricos, Jacob aca-
bará por merecero epítetode <«ico>>
devido ao património acumulado.Após o
seu casamento,bem1498, começou a levar uma vida de fausto e o imperador
Maximiliano concedeu-lhe os condados de Kirchberg e Weissenhorn, tornando-o
senhor de numerosos vassalos. Embora continuando, tallicomo o seu sucessor
Anton, a viver do comércio, em 1519,ofereceu-- como se sabe -- mais de meio
milhão de florins ao jovem Cardosde Borgonha para a sua eleição como impera-
dor. Depois, em Augusta, mandou construir um bairro para os pobres (a Fugge-
reí) constituído por cento e seis casasindependentes,cujos inquilinos pagavam
um aluguer simbólico e tinham de rezar todos os dias um /)atire .Nosso, uma .4vé
.A4arfae um Credo pelas almas dos fundadores e das suas famílias. Calculou-se
que dois anos depois da morte de Jacob, o património dos Fugger ascendia a
quasedois milhões de florins em ouro.
Embora a uma escala um tanto menor, os êxitos e os comportamentos de mer-
cadores e banqueiros italianos que poderiam citar-se -- dos Chigi aos Affaitati --
foram muitas vezesanálogos. Mas a situação da península revelavaalgo de dife-
rente: os seusoperadores económicosnão se limitaram aos lucros em dinheiro e
muitos delesconverteramo seupoder mercantil em poder político. As organiza-
ções municipais de grandes empórios comerciais e pré-industriais como Veneza,
Florença e Génova permitiram que os mais ricos se servissemamiúde da sua
supremacia para gerirem mais ou menos directamente os respectivos governos.
É certo que a situaçãodessasrepúblicasvariava muito de umaspara outras,
masnão há dúvida de que Florençafoi aquelaem que a fortuna patrimonial se
transformou mais explicitamenteem predomínio político. AÍ, em certa medida
seguindo o exemplo de outras grandes famílias como os Alberti e os Albizi, os
Médias conseguiram passar de cidadãos mais abastados a chefes efectivos do
governo florentino durante sessentaanos (1434-94).Durante esseperíodo, usu-
fruíram de uma senhoria não oficial nem declarada mas efectiva, que, depois de
se ter servido em grande parte dos bens familiares para fazer face ao sustento da
comunidade, conseguiu manter o seu domínio mesmo quando as fortunas econó-
iDicas-começaram a diminuir e deixaramde o apoiar.Wl}grande<<negócio>> dos
r/Médicigdonsistiu em fazer da própria Florença,dassuasfinança! e do favor polí-
""lied;'tm suma, do Estado, uma espécie de propriedade de famí]i!] Graças aos for-
tuitos acontecimentosde finais do séculoxv e início do séculoseguinte,com o
concurso da posição cardinalícia e depois do trono pontifício a que ascenderam
dois dos seusmembros, essafamília de mercadorestornou-se, a partir de 1530,
uma linhagem de duques e grão-duques, que reinaria até ao século xvnl.
Diferente, mas substancialmentecomparável ao seu destino, ainda que de
forma e em medidasbastante.diversas, foi o dos Grimani ou dos Gritti em
164
Veneza, dos Buonvisi em Lula ou de algumas das maiores famílias de Génova.
Aquém e além-Alpes, a mescla de negóciose de poder, monárquico ou republi-
cano, acabou por ser uma das maiores característicasdas grandes famílias mer-
cantis do Renascimento -- embora a grande massa dos operadores económicos
permanecesse no interior da sua esfera profissional específica. Provavelmente
análogas são as considerações que poderão ser feitas acerca das relações entre o
mercador e o banqueiro, por um lado, e a cultura e a arte, por outro. Como acon-
tecia ao nível da ligação entre política e negócios,foram a evolução e as caracte-
rísticas gerais da nova sociedade que ofereceram a oportunidade aos mais ricos
para se converterem em mecenase promotores culturais. Talvez não menos cruel
do que as outras fases da história europeia, o Renascimento foi todavia aquela
em que a élite foi mais compósita e simultaneamentemais solidária e intercomu-
nicante. Os humanistas e os literatos, os pintores e os arquitectos pertenciam ao
círculo dos príncipes e dos governantes,onde acabaram por encontrar-sede
modo igualmente imediato os mercadores, os agentes, os financeiros. Estas cate-
gorias não se fundiram com as outras, mas em certos casos coabitaram estreita-
mente com elas, de tal forma que por vezesdavam a impressão de que uma parte
da sua identidade se tinha confundido com a das outras camadassociais, embora
durante um período relativamentebrevede cercade um século.
Já se referiu que, entre os séculosxiv e xv, o mercador tinha forjado os ins- l
trumeótos fundamentais da sua actividade graças à elaboração de um núcleo dç l
técnicas novas que constituíam o seu património intelectual peculiar. ;Até a sua l
escrita se diferenciavamuitas vezesda dos copistas e dos outros meios cultos. No 1
plano da instrução, para além detler e escrever,aprendia normalmente os rudi. l
mentor da matemática, da geografia e do direito. Observou-setambém que ano-l (
tava continuamente as suas progressivas aquisições, como inspirado pelo interessei
de uma formação contínua. No Renascimento,portanto, não são escassosos con- C
tributos que as suas necessidades e as suas experiências deram não só à contabili-l
dade, à cartografia e à geografia e mesmo à astronomia, mas também ao saberl
naútico, económico e financeiro. A sua contribuição para a articulação da cul-
tura geral é o mais aberta e dúctil possível. Qual foi, por exemplo, a importância
da pressão indirecta do seu meio em expansãona promoção do uso das línguas
vulgares? E não foi graças ao seu rigor, cada vez mais traduzido em números, que
se propagou o hábito do espírito de precisãoaté então tão débil ou pouco difun-
dido? O seu constante manejar das medidas e dos cálculos não pôde deixar de
desenvolveras atitudes colectivas neste domínio, embora não seja fácil demons-
trar a suainfluência directa sobrea visão matemáticado mundo. Já seafirmou
que o número foi de certo modo um instrumento de acção ao serviço de interesses
comerciais antes de se converter em meio de compreensão para a ciência. A subs-
tituição das concepções antropomórficas ou semimágicas por uma forma de pen-
sar cada vez mais racional ficou a dever-se,pelo menosem parte, à imposição da
visão mercantil em sentido lato.
Não menoscomplexo é, por outro lado, o problema das relaçõesentre merca-
dores e banqueiros e a esfera artística e cultural do Renascimento. É difícil definir
a sua efectiva sensibilidadeneste domínio, tanto mais que só se pode avançar
mediante exemplos e raramente a partir de observações sistemáticas. O que não
parece discutível é o apego do mercador à sua casa e o seu gosto por uma residên-
cia de prestígio. Sendo a arquitectura, de certo modo, a forma de arte mais utili-
tária e com maiores referênciassociais, foi a ela que o operador económico con-
cedeu prioridade. De facto, não se contentou com a casa no campo; desejou
165
e edificou com empenho ainda maior a sua casa na cidade, que assumiu.muitas
vezesas proporçõesde um palácio -- aquilo que traçam com tanto cuidado os
teóricos da arquitectura renascentista,a partir de Leon Battista Alberti. A lingua-
gem da construção civil é a mais eloquente, a mais apta a exaltar e sancionar no
palco urbano o êxito e o prestígio de uma família de mercadores.Neste domínio,
os exemplos são tudo menos esporádicos, como testemunham ainda hoje alguns
centros europeus. Trata-se frequentemente de construções imponentes e maciças,
mais ou menos todas inspiradas no novo estilo renascentista,grandioso e severo.
Nesseplano, os seusproprietários já não tinham praticamente nada a invejar aos
nobres e aos prelados.
As relações dos mercadores com as outras formas de arte são menos unívocas,
bastante mais variegadas. Se, por um lado, não se pode afirmar que eram insensí-
veis à beleza, é bastante difícil precisar com que objectivos e com que intensidade
a procuravam. Já se referiu que, embora com intençõesmúltiplas, se foram. tor-
nando de uma forma cada vez mais nítida clientes e não meros financiadores
de obras encomendadas colectivamente. :Isso também contribuiu para o grande
desenvolvimentodos génerosdo retrato e do monumento tumular. Mas isso não
significa que os mercadores soubessemnormalmente escolher os melhores artistas
ou que pretendessem as suas obras predominantemente por motivos artísticos.
E inegável que gostaram de ornar com frescos as paredes exteriores e interiores
das suas casase de decorar as divisõescom numerosastelas, mas é difícil provar
se a isso foram induzidos pela moda da época ou se,pelo contrário, o fizeram
por gosto pessoal. O que está fora de dúvida é que, pela sua disponibilidade deil
dinheiro, se não#igualaram, competiram validamente comi-os clientes.nobres e .
eclesiásticos do seu tempo. Para além disso, a sua maior curiosidade pelos países:
estrangeiros e as suas frequentes viagens contribuíram para fazer deles coleccio-
nadores notáveis, sobretudo de moedas eqdemedalhas.
Se, de uma forma geral, parecem ser bastante raros os mercadores que possuí-
ram um verdadeiro gosto artístico pessoalou uma formação humanístico-lite-
rária, não se pode descurar uma das suas categorias, um tanto particular mas
tipicamente renascentista: a dos tipógrafos-editores.Embora .fosseinegavelmente
um veículo de cultura, o novo produto que era o livro foi também, desdeo início,
um produto de fabrico em série,de vendae de concorrência. Seo bibliófilo inven-
taria com paixão os incunábulos e exalta as obras mais belas, o historiador deve
sublinhar que a imprensa foi uma nova e notável actividade económica. Os edito-
res mercadoresdesta época constituíram -- como nos outros ramos da produção
e do comércio -- toda uma gama de operadores,mas, mais uma vez, os negó-
cios que se conhecemmelhor são os dos mais abastados.William Caxton (1420-
-1491j, por exemplo, principiou como empregado de comerciante e, em 1465,
foi nomeado director da filial de Bruges da Mercer's Company inglesa. Passando
para o serviço da duquesa de Borgonha, começou a .traduzir obras literárias e, a
partir de 1471,dedicou-seà arte da imprensa Depois de se ter aperfeiçoadoem
Colónia, foi ele quem publicou os primeiros livros em inglês (1474). Em catorze
anos, instalado .em Westminster e favorito das cortes de Eduardo IV e de Ri-
cardo 111,compôs mais de 80 000 páginas e traduziu mais de vinte e um livros.
No continente, os seusrivais foram muito numerosos.Em Paras,entre a ponte
de Nobre-Dame, Saint-Severin e a rua Saint-Jacques, Antoine Verard (m. 1512)
publicou e vendeu mais de duzentas obras francesas. O alemão Sebastian Greyff
(Grifo), homem de uma notável formação cultural, exerceua sua actividade em
Lyon desdeí11528
até à sua morte (1556),produzindo obras em latim, francês,
166

11
grego e hebraico. Originário da Turenne e aprendiz de tipógrafo em Caen, Cristo-
phe Plantin (1520-1589)fez fortuna em Antuérpia, tornando-seo primeiro tipó-
grafo daquela praça. O florentino Filipo Giunta (1450-1517)descendia de uma
família de mercadoresde lã. deve uma boa formação erudita e, a partir de 1497,
começou a imprimir em itálico sobretudo obras latinas e italianas. Os seus livros,
de preço reduzido, cómodos e elegantes,rivalizaram com os de Amo Manuzio,
com quem manteve uma duradoura polémica comercial, que acabou por vencer.
Devem-se-lhe mais de cem edições, mas Luc'Antonio Giunta (1457-1538)publicou
ainda mais. Bastante mais hábi] do que Manuzio no plano dos negócios,
Luc'Antonio, o Velho, distinguiu-se também pela sua perícia técnica na impres-
são, sobretudo de clássicos, para além de obras de medicina e de liturgia.
Poliédrica, a figura do mercador e do banqueiro marcou de forma indelével a
vida da sociedade renascentista. Não consubstanciou apenas os seus estratos
médios, constituindo um insubstituível tecido conectivo da renovada organização
civil da época. Representou um fermento de dinamismo e de consciente espírito
de iniciativa que tiveram então o mais amplo reconhecimento.Mesmo as formas
menos perecíveisda civilização (se queremosainda referir-nos a estaperspectiva)
muito ficaram a dever aos mercadorese aos banqueiros, desdea arte à ciências
das técnicas à cultura. /'/
/

167
T
It
CAPITULO Vll

O ARTISTA
por André Chaste!
O termo <<artista>>
não existe no Renascimento.Procuramo-lo em vão no
acervo de textos de Leonardo, a mais vasta herança literária que um pintor
alguma vez deixou. Quando soou a hora de celebraros tempos novos,Giorgio
Vasari dedicou a sua colectânea aos <<artíficesdo desenho>>,ou seja, <<àquelesque
praticavam as artes visuais>>.Não se deve esquecereste cariz profissional para se
privilegiar o tesouro de anedotasque dele transbordam. De facto, a sua originali-
dade resulta também de uma insistência surpreendentenas exigênciase mesmo
nos aspectos pesados do ofício, nos problemas concretos e, se assim se pode dizer,
na <<física>>
da actividade artística. O que há de novo durante os dois séculos
da liderança italiana em matéria de cultura é precisamente,a par da exaltaçãoda
personalidade, essa atenção ao trabalho dos peritos, esseinteresse pelas técnicas.
Os literatos, os homens de letras, não desenvolviam nessa mesma época o estudo
do alfabeto,a paleografia,a lexicologia
e, simultaneamente:
a teoriada elo-
quência?
Não era negando a realidade material; concreta, das <<artesdo desenhos e o
facto de pertencer, natural e necessariamente,ao campo das artes mecânicas, que
se pretendia dar um estatuto mais elevado a essesartífices. Pelo contrário, preten-
dia-se consegui-lo exaltando os recursos do ofício e aprofundando o carácter
<<operativo>>
da suaactividade.Trata-seevidentemente
de um dos aspectos-- e
não dos menos importantes :-- da revalorização da vira acr/va que torna os huma-
nistas, e os homens de negócios, favoráveis à conquista, à exploração, à posse do
conteúdo positivo do universo. O século xv é um dos grandes séculos da técnica.
E por técnica devemosentender o jogo precisodos instrumentos e a sua explora-
ção total, tanto na organização do espaço como no domínio da representação.
Para o..Renascimento,:arráex é aquele que participa com os.seus próprios
meios numa empresageral que visa, segundoo velho lema, o belo e o útil. Evi-
tando emprestar ao termo implicações lisonjeiras, indulgentes e um tanto miste-
riosas que ficamos a dever ao Romantismo e ao Simbolismo, temos algumas
possibilidades de observar um fenómeno característico da:<(humanidado> do
Renascimento.

l.ARTIFEX

Um lugar na sociedade

As <(oficinas>>
ocupavamum lugar importanteque, nas ruas das cidades,
sedivisava com facilidade. Era aí que as pessoasse forneciam de todos os
objectos úteis: móveis, roupas, armas... e, ao mesmo tempo, bugigangas, imagens

171
Í

ceu por volta de 1400:

Úlã#Ü:='raiz':;Zm;,
i::
.Klí/zsffÀeorie,Lípcia 1914,vol. 1, P. 183). (N- do -4.)
am
172
algumas coisas em mármore e em bronze; e conseguiu fazê-las tão bem que foram a causa
de [...] (Vasari,; l,'lfa d/ l,uca de//eRobóia, ed. Club, vol. 11,pi 137).

Este esquema evolutivo repete-seconstantemente; uma formação especial, demo-


rada, depois, <<criadoânimos, a iniciativa, e por vezeso passo em frente do
génio, que nunca perde o contacto com o ofício.
Em quasetodas as carreirasdignas de nota verifica-se o mesmo fenómeno de
ambição crescente: vê-se o artesão <<subir>>,
como diz por várias vezes o nosso
mestre biógrafo Vasari. Trata-se de ascender não necessariamente a uma condição
social superior, mas a um elevado grau de responsabilidade e de influência na sua
própria categoria. O caso de Cellini esclareceperfeitamente a questão: os seus
fozlrs de/orbe técnicos, a febril fusão do Perdeusão narrados com insistência por-
que a época -- e ele sabia-o melhor do que''ninguém -- sentia uma verdadeira
paixão por essasobras. Mas toda a sua biografia revela uma preocupaçãoobses-
siva: o único desejode Benvenutoé passarda condiçãode ourivespara a de
escultor, que Ihe garantirá uma maior consideração.
Se o êxito se mete de permeio, pode haver a tentação de explorar essefacto até
ao infinito; é o que se observa em Perugino, mestre na publicidade favorável, e
em muitos outros. Mas é algo que faz recair sobre eles as desenfreadascensuras
dos moralistas: não se deve sacrificar ao dinheiro as promessasda verdadeira gló-
ria, que exige sempre maiores esforços e maiores cuidados : sfz/dfz/m e/ df/fge/afia.
As profissões são mantidas vivas pela concorrência e pelas encomendasdevidas
aos grandesêxitos. Há uma <<dinâmica>> dos ofícios que parte das obras-primas,
o que é um facto particularmente digno de nota. Donatello, homem de pequena
estatura e de enorme energia, pretende mostrar aos florentinos,caos romanos e
aos paduanos coisas extraordinárias no domínio da escultura. Para o conseguir,
choca por vezesos costumes. Surpreendee tem êxito.

Contmtos

As formas jurídicas tinham grande importância; para a ltália do século XTn


ao séculoxvn existeuma enormequantidadede contratosde encomendaque
foram assinalados,publicados e comentados,mas raramente de modo exaustivo,
depois da memorável colectânea de G. Gaye (1839-40). O exame dessesdocumen-
tos põe sobretudo em destaqueum formalismo prudente, esclarecimentosmate-
riais e financeiros,fórmulas de salvaguardaem casode atrasoou de má execu-
ção...; a actividade do pintor ou do escultor é apenasum caso particular do
artesanato.Essescontratos são estipulados -- como se demonstrou -- segundo o
modelo da /ocaffo operaram que comporta marcas, mas não comporta preríum ;
a marcas compreende toda a espécie de vantagens em géneros e de esclarecimentos
acerca do fornecimento dos materiais que constituíam sempre um problema
devido ao seupreço: o ouro e o azul-ultramar.
Nada disto parecerevelar tempos novos. Muitas vezes,o cliente impõe ao
pintor um modelo que ele tem de executar,reservando-seo direito de recusar
173
a obrar. Pro ma/zusua estáprevistauma pequenaquantia, o que não indica,
como se chegou a pensar, um apreço pela qualidade (seria uma avaliação irrisó-
ria), mas o tempo de execução. Estas cláusulas abrangem tanto os pequenos como
os grandes, porque em certo sentido eram automáticas, e não se pode avaliar a
condição dos artistas através dessesdocumentos a não ser mediante um atento
trabalho de interpretação.De facto, os contratos são tanto mais rígidos.quanto
menos cumpridos são. Precisavam de ser renovados periodicamente: foi o que
aconteceu com Piero della Francesca, que nunca chegou a entregar o retábulo de
Perúgia,ou com Leonardo,que, em 1483,firmou contrato com a confrariada
Imaculada Conceição de Milão para a execuçãode um retábulo, que só será
entregueem 1508,após várias negociaçõese diligências, e que não passa de uma
cópia de uma obra anterior, ,4 1'1rgemdos Roc/ledos do Louvre, com acabamen-
tos da autoria de Da Prédio.As diferençasentreo plano laboriosamenteporme-
norizado e a obra acabadasãolipor vezessurpreendentes.Em Maior;de 1515,
Andrea del Sarto assinaum contrato com os monges de um mosteiro florentino
para a execuçãode uma Madonna com o Menino coroada por dois anjos, entre
frei S. Boaventura e S. João Evangelista. O retábulo deverá ficar terminado no
prazo de um ano e há uma cláusula que estipula a restituição do sinal em casode
não cumprimentopor partedo pintor. O painel foi terminadoem 1517(a data
figura na parte inferior), S. Francisco substituiu S. Boaventura e os anjos ampa-
ram Mana, que não tem coroa.
Mas não se deve generalizar. Muitas oficinas cujas contas se conhecem, como
a de Neri di Bica ou dos Vivarini, respeitamos seuscompromissose entregamas
suas obras sem discussões. São sobretudo as vede/as da arte que costumam dis-
cutir com os clientes. Em muitos casos foram pagas somas consideráveis e, se o
túmulo de Júlio ll se transformou numa <(tragédia>>para Miguel Angelo, com
projectos sucessivosque Ihe reduziram as dimensõese os elementos,isso deriva
do facto de os herdeiros de della Rovere conhecerem a quantia excepcionalmente
elevada paga antecipadamente pelo papa.
Em Dezembro de 1502, a Senhoria de Florença escreveao marechal de Gié,
que já começava a impacientar-se por causa do Z)avfd de bronze encomendado a
Miguel Ângelo : <<Quandose trata de trabalhos de pintores e de escultores, como
sabeis,é difícil fixar prazos precisos.>>
O go/!Áa/o/zfere
Soderini terá oportunidade
de o repetir por várias vezesàs autoridadesfrancesas,que não tinham muita
consciência desse facto. Para lá dos Alpes, tais manifestações de independência
nao se usavam.
Um exemplo ilustre pode bastar para esclareceras coisas' Lorenzo Ghiberti,
ourives, está inscrito na corporação da seda devido aos fios de ouro e de prata
exigidos pelos tecidos de luxo. Goza de uma situação excepcional, mas a conven-
ção de 1407para a porta principal do Baptistério prescreveque: 1. o cliente, a
corporação de Calimala, fornecerá o bronze necessário; 2. o mestre <<deveem
todos os dias que se trabalha trabalhar durante todo o dia, como''faz quem

2 Isso é claramente indicado no contrato para a À/ado/z/zaRzzce//alde 12 de Abril de 1285:


«Quod si dieta tabula non erit pulchra et laboradaad voluntatem et placibilitatem eorundemlocato-
rum quod ad dictum pretium me aliquam partem ei persolvendumnullatenus teneantur>>(Arquivode
Estado, Florença.) Este documento revelou algum interesse para os historiadores, porque provava que
a obra não era de Cimabue, como sejulgava na época de Vasari, mas de Duccio. A cláusula da recusa
mantém-se, embora vá sendo atenuada. Mas se, como conta Vasari, o'administrador de Santa Mana
Nuova em Florença recusou, em 1515,o quadro para altar de ll Rosso,por as figuras Ihe parecerem
<<diabólicas>>,
estava decerto autorizado pelo contrato.(At do .4.)

174
$
recebe salário, e havendo greve o grevista Ihe deve ser posto na conta>>3. Esta
regulamentação
do <<empregado>>
apareceem inúmeroscontratos.E é aí que se
detectaa condição do artista juridicamente obrigado a cumprir os prazos. Mas a
eficácia dessas obrigações é outra questão.
A cláusulado trabalho diário não deveser interpretada como se toda a obra
tivesse de ser executada pelas suas próprias mãos. Seria impossível, dada a impor-
tância do estaleiro e os numerosos compromissos assumidos por Ghiberti em
simultâneo com as duas portas do Baptistério. 'rata-se sempre de um trabalho de
equipa dirigido pelo mestre. A Ghiberti exige-se que execute pessoalmente só <<as
partesque são de mais perfeição, como cabelos, nus e similares>>.A divisão do
trabalhono interior da oficina tem uma importância capital, mas na maioria das
vezesé difícil de precisar.Não há frescosEsemassistentes,não há retábulossem
colaboradores, não há esculturas monumentais sem ajudantes.
E uma prática corrente, seguida tanto pela equipa toscano-úmbria da capela
Sistina, em 1481,como nas Câmaras de Rafael. Quando o êxito surge, a oficina
aumenta e os colaboradores, fiéis executores dos cartões do mestre, intervêm cada
vez com maior frequência. Num número considerávelde casos, o arras/a é a assi-
na/z/ru.E temos de nos servir de um talento um tanto ou quanto aventuroso para
distinguir as partes que são devidas a uns e a outros. As atribuições modernas da
crítica --ee do mercado -- descuram demasiado esta realidade. O que conta é a
etiqueta de origem, a proveniência. Daí o aparecimento da assinatura, sobretudo
para as obras destinadas à exportação. E muitas vezesa obra <<autenticadm>com-
porta uma notável colaboração de assistentes.
Muitos dos contratos prevêemhonorários pagos em géneros: sacos de cereais,
tonéisde vinho. Se se trata de dinheiro, paga-seao ar/{áexem moedas de prata
(liras)ou em moedasde ouro (florins). As diferençasde salário podem ser notá-
veis: os favoresde que se usufrui e a fama têm uma grande importância. A aná-
lise das modalidades de pagamento conduziu alguma observação importante:
<<Omomento que assinala a ascensãoa uma posição social idêntica à do merca-
dor das artes maiores é [...] aque]e em que a retribuição é fixada em moedas de
ouro>>(Alessandro Conta.) É o que acontece em Romã à equipa da Sistina, na
épocade SismoIV, a Giovanni Bellini em Veneza,ao .David de bronze de Miguel
Ângelo, em Florença. E logo se compreende melhor uma anedota de Vasari a
propósito de Leonardo:

Diz-se que, indo ao banco para receber o salário que todos os meses costumava receber de
Pietro Soderini, o caixa quis dar-lhe alguns pacotesde centavos; e ele não os quis receber,
respondendo-]he:<<Eu
não sou pintor de centavos.>>
lendo sido acusadopor Pietro Soderini
de o ter enganado, Leonardo foi muito criticado, pelo que, auxiliado pelos amigos, conseguiu
arranjar o dinheiro e levou-o para o restituir, mas Pietro não quis aceitar((ip. ci/. , 111,P. 405).

Leonardoficou ofendido: eleestavaacimada classeartesanal, mas porquê aquele


pagamentoem centavos?E porque fez Leonardouma colecta entre os amigos
para reembolsarSoderini? Devemossupor que Soderini, descontente com os atra-
sosde Leonardono início da pintura da grandesala da senhoria, tivessequerido
dar uma lição aoüpintor,lmandando-lhepagar emolumentos de categoria infe-
rior? Tudo o que diz respeito a Leonardo é singular.

3 R. e T. Krautheimer, .Lorpa.zoG/z/Z)era,.2 volt., Princeton 1956, vol. ll.2 P. 369

175
a obrar. Pro ma/zusz/aestá previstauma pequenaquantia, o que não indica,
como se chegou a pensar, um apreço pela qualidade (seria uma avaliação irrisó-
ria), mas o tempo de execução. Estas cláusulas abrangem tanto os pequenos como
os grandes, porque em certo sentido eram automáticas, e não se pode avaliar a
condição dos artistas através dessesdocumentos a não ser mediante um atento
trabalho de interpretação. De facto, os contratos são tanto mais rígidos quanto
menos cumpridos são. Precisavam de ser renovados periodicamente: foi o que
aconteceucom Piero della Francesca,que nunca chegou a entregar o retábulo de
Perúgia,ou com Leonardo,que, em 1483,firmou contratocom a confrariada
Imaculada Conceição de Melão para a execuçãode um retábulo,í'quesó será
entregue em 1508, após várias negociações e diligências, e que não passa de uma
cópia de uma obra anterior, .4 1''7rgem
dos Roc/zedasdo Louvre, com acabamen-
tos da autoria de Da Prédio. As diferençasentre o plano laboriosamente porme-
norizado e a obra acabadasão porivezes surpreendentes.Em Maio de 1515,
Andrea del Sarto assinaum contrato com os monges de um mosteiro florentino
para a execuçãode uma Madonna com o Menino coroada por dois anjos, entre
frei S. Boaventura e S. João Evangelista. O retábulo deverá ficar terminado no
prazo de um ano e há uma cláusula que estipula a restituição do sinal em caso de
não cumprimento por parte do pintor. O painel foi terminado em 1517(a data
figura na parte inferior), S. Francisco substituiu S. Boaventura e os anjos ampa-
ram Mana, que não tem coroa.
Mas não se deve generalizar. Muitas oficinas cujas contas se conhecem, como
a de Neri di Bica ou dos Vivarini, respeitam os seuscompromissos e entregam as
suasobras sem discussões.São sobretudo as vede/asda arte que costumam dis-
cutir com os clientes.Em muitos casosforam pagassomasconsideráveise, se o
túmulo de Júlio ll se transformou numa <(tragédia>>para Miguel Angelo, com
projectos sucessivosque Ihe reduziram as dimensõese os elementos,isso deriva
do facto de os herdeiros de della Rovere conhecerem a quantia excepcionalmente
elevada paga antecipadamente pelo papa.
Em Dezembrode 1502,a Senhoriade Florençaescreveao marechalde Gié,
que já começava a impacientar-se por causa do .Davfd de bronze encomendado a
Miguel Ângelo : <<Quandose trata de trabalhos de pintores e de escultores, como
sabeis, é difícil fixar prazos precisos.)> O go/!Áa/o/afereSoderini terá oportunidade
de o repetir por várias vezesàs autoridadesfrancesas,que não tinham muita
consciência desse facto. Para lá dos Alpes, tais manifestações de independência
nao se usavam.
Um exemplo ilustre pode bastar para esclareceras coisas. Lorenzo Ghiberti,
ourives, está inscrito na corporação da seda devido aos fios de ouro e de prata
exigidos pelos tecidos de luxo. Goza de uma situação excepcional, mas a conven-
ção de 1407para a porta principal do Baptistério prescreveque: 1. o cliente, a
corporação de Calimala, fornecerá o bronze necessário; 2. o mestre <<deveem
todos os dias que se trabalha trabalhar durante todo o dia,Kcomoufazquem

2 Isso é Claramente indicado.'no contrato para a À/ado/zna Ruge//aí de 12 de Abril de 1285:


«Quod si dieta tabula non erit pulchra et laborata ad voluntatem et placibilitatem eorundem locato-
rum quod ad dictum pretium me aliquam partem ei persolvendumnullatenus teneantur>>(Arquivode
Estado, Florença.) Este documento revelou algum interesse para os historiadores, porque provava que
a obra não era de Cimabue, como sejulgava na épocade Vasari,mas de Duccio. A cláusula da recusa
mantém-se,embora vá sendoatenuada. Mas se, como conta Vasari, o administrador de Santa Mana
Nuova em Florença recusou, em 1515,o quadro para altar de ll Rosso,por as figuras Ihe parecerem
<<diabólicas>>,
estava decerto autorizado pelo contrato.(.NI do .4.)

174
$
recebesalário, e havendo;greve o grevistaIhe deveser posto na conta>> s. Esta
regulamentaçãodo <<empregado>> apareceem inúmeros contratos. E é aí que se
detectaa condição do artista juridicamente obrigado a cumprir os prazos. Mas a
eficácia dessas obrigações é outra questão.
A cláusula do trabalho diário não deve ser interpretada como se toda a obra
tivesse de ser executada pelas suaspróprias mãos. Seria impossível, dada a impor-
tância do}estaleiro e os numerososcompromissosassumidospor Ghiberti em
simultâneo com as duas portas do Baptistério. Trata-sesemprede um trabalho de
equipa dirigido pelo mestre. A Ghiberti exige-se que execute pessoalmente só <<as
partes que são de mais perfeição, como cabelos, nus e similares>>.A divisão do
trabalho no interior da oficina tem uma importância capital, mas na maioria das
vezesé difícil de precisar.Não há frescossemassistentes, não há retábulossem
colaboradores, não há esculturas monumentais sem ajudantes.
E uma prática corrente, seguidatanto pela equipa toscano-úmbria da capela
Sistina, em 1481,como nas Câmaras de Rafael. Quando o êxito surge,a oficina
aumenta e os colaboradores, fiéis executores dos cartões do mestre, intervêm cada
vez com maior frequência. Num número considerávelde casos,o ar/fs/a é a assf-
nafzzra.E temos de nos servir de um talento um tanto ou quanto aventurosopara
distinguir as partes que são devidasa uns e a outros. As atribuições modernas da
crítica --: e do mercado -- descuramdemasiadoesta realidade. O que conta é a
etiqueta de origem, a proveniência. Daí o aparecimento da assinatura, sobretudo
para as obras destinadasà exportação.E muitas vezesa obra <<autenticada>>
com-
porta uma notável colaboração de assistentes.
Muitos dos contratos prevêem honorários pagos em géneros: sacos de cereais,
tonéis de vinho. Sese trata de dinheiro, paga-seao arfa/êxem moedasde prata
(liras) ou em moedasde ouro (florins). As diferençasde salário podem ser notá-
veis: os favores de que se usufrui e a fama têm uma grande importância. A aná-
lise das modalidades de pagamento conduziu a uma observação importante:
<<Omomento que assinala a ascensãoa uma posição social idêntica à do merca-
dor das artes maiores é [...] aque]e em que a retribuição é fixada em moedas de
ouro>> (AlessandroConti.) E o que aconteceem Romã à equipada Sistina,na
época de Susto IV. a Giovanni Bellini em Veneza, ao .David de bronze de Miguel
Angelo, em Florença. E logo se compreendemelhor uma anedota de Vasari a
propósito de Leonardo:

Diz-se que, indo ao banco para recebero salário que todos os mesescostumava receber de
Pietro Soderini, o caixa quis dar-lhe alguns pacotesde centavos;e ele não os'quis receber,
respondendo-lhe:<<Eu não sou pintor de centavos.>> 'lendo sido acusado por Pietro Soderini
de o ter enganado, Leonardo foi muito criticado, pelo que, auxiliado pelos amigos, conseguiu
arranjar o dinheiro e levou-o para o restituir, mas Pietro não quis aceitar(op. ci/. :, 111,p. 405).

Leonardo ficou ofendido : ele estava acima da classe artesanal, mas porquê aquele
pagamentoem centavos?E porque fez Leonardo uma colecta entre os amigos
para reembolsar Soderini? Devemos supor que Soderini, descontente com os atra-
sosde Leonardo no início da pintura da grandesalada senhoria,tivessequerido
dar uma liçãoliaotpintor, mandando-lhe pagar emolumentos de categoria infe-
rior? Tudo o que diz respeito a Leonardo é singular.

3 R. e T. Krautheimer,Zune/zzoG#/óerff, 2 vais Princeton 1956, vol. 11, p. 369

175
b
Artifex polytechnes

A <<dinâmica>>
dos ofícios comporta fenómenosnovos. Um exemplo: Giuliano

são os mármores mais polidos, mais perfeitos que já alguma vez foram vistos.
Quando alguém se impõe num.ofício, é raro que não tenha o mesmo exmo

competências : Francesco di Giorgio, pintor e escultor, constrói igrejas e escreve


um tratado de arquitectura. Há pintores que organizam espectáculoscom máqui-
nas, e em ocasiões de festa juntam aos carros ornamentados construç?es.em
gesso Rafael e Giulio Romano serão ao mesmo tempo pintores, decoradores e

cadas por essearriáex de trinta anos, mas é característica de uma certa tendência
das grandesoficinas no último terço do séculoxv. O problema do ar/{/êx torna-

se mais P como sempre,oficinas especializadas.A de Neri di Bica, de horizon-


tes modestos, para os retábulos; os'Della Robbia, com a sua indústria de cerâ-
mica vitrificada; os Vivarini, em Veneza;os ourives que trabalham em..Romã

em Romã, um século mais tarde. Há uma solicitação crescente do espectáculo


citadino. A acumulação das obras nas igrejas, nas casas, não passa de um aspecto

sa exigência.este ponto, para se descrever o fenómeno em toda a sua dimensão,

Mercúrio apresenta as actividades correspondentes.: our-ivesaria, ,escultura, pib'


tuna astronomia e música, ou seja, tudo o que se insere no domínio do cálculo
e da técnica. Esta descrição correspondia à visão comum da ordem prática,

176
do mundo da técnica. Setenta anos mais tarde, um gravador do);Norte, Hans
SebaldBehaim, retoma, num estilo mais vigoroso, a fórmula que continua a ser
válida. Não deixa de ter interesseobservarque a mesmadefiniçãoglobal se
encontra nos filósofos. A categoria dos <<mercuriais>>
é claramentecaracterizada
por Ficino: a par dos mensageirose dos ladrões,nela se incluem os inventores,
os técnicos, os engenheiros,todos aquelesque recorrem à ráfia. A inclusão do
músico nessalista é interessanteporque nos recordaque em quasetodas as ofici-
nas se fazia música; os mestres davam o exemplo: Leonardo, Giorgione, Sebas-
tiano Luciani... Em suma, a unidade das artes existia realmente.
Por isso não surpreendeque com o termo, simplesbmasválido, de <<artes
do
desenho>>nos tenhamoshabituado a definir a unidade do mundo daquelesque
praticam as artes. Hoje, muitas das implicações desse termo escapam-nos.
Fixar-se-á como instituição académica na época do duque Cosimo de Médias,
mas a sua dimensão era mais vasta. Um dia, Miguel Angelo chegou mesmo a
elogia-lo à maneira dos dialécticos. Para ele, o desenhointervém onde quer que
se exerçaa inteligência: na guerra, na navegação,no estudo das estrelas,no
embelezamento
das casase dascidades...
Num séculoou dois, a ideiatinha
amadurecido.

Pequena sociologia do meio

Os meios artísticos não gozavam de boa reputação. As disputas por causa de


dinheiro, as rivalidades que podiam ir até à difamação ou mesmo atélao crime,
o vinho, os escândalos,a libertinagem constituem uma rica matéria para mexeri-
cos e relatórios de polícia onde nem tudo é forçosamente lendário. Os turbulentos
arfa/ices formavam uma pequena sociedade dentro da sociedade; com os seustra-
jes e as suas fantasias fizeram as delícias dos autores de crónicas.
Na altura do Concílio de Florença (1438-39),quando a autoridade dos Médi-
asjá se encontra consolidada, os pintores enviam cartas e mais cartas a Piero de
Médias, que passapor ser um amador competente.Em Abril de 1438,Domenico
Venezianopede que Ihe seja confiada a execuçãode um retábulo, que será uma
obra-prima, etc. Quinze ou dezasseismesesdepois, em Agosto de 1439,chega
uma carta suplicante e enfadonha de frei Filippo Lippi :

e é claro que sou um dos mais pobres frades que vive em Florença, e fiquei com seis sobra
nhas donzelas, e enfermas e inúteis...

Cosimo, e depois o papa, necessitarãode grande indulgência para com o frade


carmelita, que não gosta só de dinheiro mas também de mulheres. E um dos pri-
meiros na longa lista dos artistas dissolutos. A expressãode Cosimo acerca deste
tipo de homens insuportáveis que é obrigado a tolerar -- <<nãosão asnos carro-
ceifos>>-- abre de facto um capítulo original na história.
De facto, as oficinas não eram apenaspequenoscentrosde vida em grupo,
mas por vezestambém uma espéciede cenáculos. A novela 136 de Sacchetti(por
volta de 1390) referia um colóquio realizado em S. Miniato em torno de Taddeo
Gaddi: lamenta-se que, depois de Giotto, a pintura tenha deixado de ter valor. As
anedotas abundam: à noite, reuniam-se em casa de Botticelli, e discutiam sobre
tudo, sobre política (Savonarola encontrará aí um terreno muito favorável)

177
e sobre arte. Um pouco mais tarde, no início do século, o mesmo acontecia em
casade Baccio d'Agnolo, um dos carpinteirosque setornaram arquitectos:

não deixando nunca a oficina, aí se demoravam ele e muitos outros cidadãos, os melhores
e mais famosos artífices das nossas artes: e aí, principalmente no Inverno, faziam belíssi-
mos discursos e discussõesimportantes.

E Vassari enumera os íntimos dessescolóquios

O primeiro delesera Rafael de IJrbino, ainda jovem, e depois Andrea Sansovino, Filip
pino, Maiano, Cronaca,Antonio e Giuliano Sangalli,Granaccio,e às vezes,masrara
mente, Miguel Ângulo e muitos jovens florentinos e forasteiros( K7íadf Baccío d:4g/zo/o
ed. cit.; V. p. 140).

Estas informações são preciosas.Podem fazer-serecuar no tempo, dado que


os conciliábulos de artistas eram já um hábito firmado. Os novelistas referem-se
a eles.Como não supor, por exemplo,que Ghiberti tenha ficado a devera sua
autoridade a reuniões deste tipo? E é claro que, com o passar das gerações, essas
discussões,que versavamsobre os problemas da arte, conduziram à instituição
académica e às <<disputationes>>
organizadas.
O individualismo anárquico e anticonformista destesgrupos não se orientava
nesse sentido. Um exemplo: Giovan Francesco Rustici era um original. Ofendido
com o comportamento do júri, que devia fixar os honorários para.o grupo de
S. João no Baptistério, mantinha-se à parte, o que não o impedia de participar
em curiosas <<confrarias>>onde se divertia muito : os seus divertimentos consis-
tiam sobretudo em banquetesorganizadoscom extraordinária fantasia, com
«entremezes>>galhofeiros, ou melhor, f/zfermezi. Estas soda/ffaíes parodisticas e
um tanto rabelaisianas desenvolveram-se no século xvi. Em 1512, Andrea del
Sarto. servindo-se de salpicões, gelatina, parmesão e maçapão, tinha executado
para a confraria do Paiuolo um templo octogonal, como o Baptistério, mas pro-
vido de colunas. Como a confraria do Paiuolo não bastava,criou-sea da Caz-
zuolla. sob a tutela de Santo André, uma espéciede clube privado que se propu-
nha reunir as pessoasdo meio, artistas, músicos, poetas... decididos a divertir-se
em cenários de paródia, disfarçados; um dos mais notáveis foi uma fantasia de
<<maçõep>.Organizavam-se espectáculos completos, como por exemplo a descida
de Plutão ao inferno. Estas actividadestiveramcomo consequência
natural a
encenação pública, como aconteceu com a Ca/amaria ou a À4a/zdrago/a.
Algo de semelhantese verificavaem Veneza.Por volta de 1500,multipli-
cam-se serões privados, festas com dança e música (reuniões), cujos animadores
e cujas vedetassão pintores e músicos como Giorgione. A ./ezznesse
dormereu-
nia-se em clubes um tanto libertinos, que eram acusadosde provocar alarido
nocturno: o mais conhecidoera / Compag/zfde//a Ca/za, que se distinguiam
pela beleza dos trajes (destacam-se,por exemplo, na multidão de Carpaccio)
e eram animadores de festas, recepções,comédias. Os artistas encontravam-se
naturalmente associados aos ambientes de divertimento e de prazer. Quanto
a Romã, Cellini instruiu-nos narrando, num tom muito livre, alguns serõesde
festa. Assim, fora das corporaçõese das confrarias, onde, por definição, deviam
ocupar um lugar, os arr{/ices tendiam a formar pequenosgrupos independentes
na sociedade.

178
Os artistas <ísérios>>
não gostavam dessespequenos bandos, sobretudo quan-
do, como em Florença, incluíam vadios e intriguistas. Vasari descrevea situação
que se verificava por volta de 1550:
estando naqueles tempos em Florença a arte do desenho reduzida a um grupo de pessoas
que tratavam mais de escarnecere gozar do que de trabalhar e cujo estudo era reunirem-se
nas oficinas e em outros locais e malvadãmente e com as suas algaraviadas censurarem as
obras de alguns [...] ( 1,'7/a df .4r&/ofe/e da Sa/zga//o, ed. cit., ;p. 312).

Um dia, ao regressara cavaloa sua casana companhiade um criado, encontrou


um bando junto do palácio Médias e um delespediu ironicamentenotícias de Sua
Senhoria. À4esserGiorgio, furioso com o tom escarninho, respondeu brutalmente
que em vez de ser um miserável como eles, enriquecera: julgavam-no <<desajeitado>>
mas agora gozava da estima do clero. Acrescentou que, em vez de um velho fato
de pintor, usavaum fato de veludo,<westitodi que'panniche vestonoi dipintori
che son poveri ed or sono vestito di velluto>>.Todos estes sinais de respeitabilidade
são a prova do sucessoe é por elesque se distingue o verdadeiro artista da massa
incapaz da canalha invejosa. O costume dos manifestos satíricos, que atacavam as
obras apresentadasem público, explica, por outro lado, que se temesseessespeque-
nos grupos escarninhos de onde provinham as críticas injuriosas. Mas era assim a
vida artística, sobretudo a florentina, bem conhecida pela vivacidade das reacções.
Donatello dizia que não havia nada de mais estimulante.
A questão do traje não é indiferente. Pense-sena famosa passagemem que
Leonardo defende a superioridade da pintura em relação à escultura só porque o
escultor parece um empreiteiro <<enfarinhadode pó deÍ;mármorejjcomo um
padeiro>>,enquanto o pintor está à vontade diante do seu cavalete, bem vestido,
como um fidalgo (C.U.20v'). Leonardo opõe o pintor <<chiquo>,tque frequenta a
corte, ao escultor, que não passa de,um operário; mas não se referia a todos os
pintores e a todos os escultores.Já há algum tempo que, em função do seu com-
portamento e do seu êxito financeiro, uns e outros se situavam,.aum nível social
diverso. Na I''l/a, de Cosimo o Velho, Vespasiano da Bisticci conta que o grande
Médias, muito amigo de Donatello,
deu-lhe um manto rosado e um capuz, e fez-lhe uma capa para usar debaixo do manto
[...]:{.Usou-os uma vez ou duas, depois pâ-]os de ]ado e não os quis vestir mais, porque
disse que Ihe parecia que troçavam dele (ed. A. Grego, Firenze 1976, 11, p. 194).
Nestecaso,o artista recusaa promoção social que Ihe é conferida pelo traje. Uma
cáustica observaçãode Vasari, a propósito de Alfonso Lombarda,ajuda-nos a
compreender o motivo por que receavaque troçassem dele: Alfonso, que era um
peralta vaidoso, <<costumavausar nos braços, ao pescoço e nas roupas, adornos
de ouro e outras bugigangas, que o faziam parecer mais um homem da corte las-
civo e inútil do que um artífice sedentode glória>>
(ed. cit., IV. p. 353).
O quadro institucional das profissões só se alterou com o aparecimento tardio
das <<academias>>.E nos costumes que se observa ao mesmo tempo a expansão e
a diversificação dos comportamentos. A sociedadeabre-seaosar/{/ices e todos os
caracteres se esboçam, desde o artesão dócil ao génio insolente, que atrai a aten-
ção do executor simpático e criativo ao perito introvertido, melancólico e solitá-
rio, do artista devoto ao cínico semescrúpulos.Num século,um séculoe meio,
a capacidadeprodutiva dos ar/{/ices expandiu-seem todas as direcções; e, pela
força das circunstâncias, nota-se neste ambiente uma multiplicação de tipos origi-
nais : o artista converteu-se em personagem <<cultural>>.

179
Incidentes em Veneza

O traço mais inesperadoe que acabapor sermais reveladordessaevoluçãoé o


momento em que o artista se distancia do cliente. lsabella d'Este enviava nu-
merosasmensagensa Leonardopara que ele Ihe fizesseo retrato prometido
(o famoso desenho do Louvre tinha sido executadopara essefim, em Mântua).
E não se tratava apenasdo habitual adiamento. Os desacordosentre a mesma
marquesa lsabella e Giovanni Bellini, por intermédio de Pietro Bembo, são um
dos bons exemplosde relaçõesdifíceis. Numa das cartas em que Bembo relata as
suas inúteis diligências encontra-se a explicação, tão esclarecedora quanto insó-
lita, daquilo a que voltaremos a referir-nos em breve:

que muitos dos termos assinadosnão se dão com o seu estilo e que costuma sempre
vaguear à sua vontade nas pinturas (Gaye, 11, p. 71)

Não nos esqueçamosque o artista trabalha semprepor encomenda(não estamos


no século xix, em que o pintor trabalha para si e só depois vende as suas obras);
mas,dentrodo plano fixado por contrato,pretendemover-seà suamaneirae sem
coacçõese, para além disso, encontra meio de fugir a certos vínculos.
Trata-se, bem entendido, de casos excepcionais. Nem todos os arriPces se
comportam assim. Longe disso. Perugino, que aceita demasiadasencomendas,
atrasa-sepor vezesalguns meses,mas a entregaestá garantida, mesmo enviando
um produto um tanto atamancado. Mantegna, antes dele, .era pontualíssimo na
execução dos seus trabalhos. Quando, em 1506, Dürer se fixou em Veneza, onde
apenasBellini se mostra amável para com ele, executaem cinco mesesa .A4adona
do .Rosário, destinada a S. Bartolomeo, a igreja dos alemães.Comporta-secomo
bom artesãosetentrional,consciencioso
e preciso,como acontececom muitos
arfa/icesitalianos que conhecemos e que assinam, datam e entregam as suas obras
com admirável pontualidade. Nem todos se comportam com a independênciae a
desenvoltura de alguns grandes mestres da arte em relação às suas obrigações.
Graçasàs cartas de Dürer podemoster uma ideia da vida do artista. O cidadão
de Nuremberga, chamado pelos mercadoresdo Fondaco, encontra mau acolhi-
mento por parte dos seusconfrades: vai chocar com o proteccionismo da corpo-
ração. Mas a sua personalidade fascinante granjeia-lhe alguns amigos; recebe
bons conselhos,obtém adiamentospara o seu trabalho e começaa divertir-se.
Dedica-se um pouco ao comércio -- sobretudo de pedras preciosas --. como,
segundo parece, acontecia com a maioria dos artistas que têm a oportunidade de
viajar. As pessoasesão
muito simpáticase, como escreveem Fevereiroao seu
amigo Pirckeimer, <<osfidalgos gostam de mim, mas os pintores gostam pouco».
Sente-se
muito feliz,o meio<<cultural>>
agrada-lhe.
E na suaúltima carta,de
Outubro de 1506,pensandojá no regresso,tem estaexclamaçãoque viria depois
a ser muito comentada: <<Hierbin ich ein Herr, daheim ein Schmarotzem>,<<aqui
sou um senhor,aí um parasita>>. Precisamosde ter em conta o êxito final de
Dürer: com a sua obra-prima, .4 ]\dadonado Rosórío, quadro à veneziana,e com
as suas gravuras, vendidas e copiadas um pouco por toda a parte, passara, se
assim se pode dizer, à categoria superior. Tinha, em suma, obtido a sua promo-
ção, transformando-se naquela espéciede <<senhor>>
que, em ltália, era um artista
reconhecido. O problema que nos interessaestáem certa medida resumido neste
episódio de 1506.

180
ll--l1l)OUTRINA
Um lugar na cultum

Com Nicolau V e Pio ll iniciou-se para a Igreja uma evoluçãodecisiva: a arte


moderna tornou-se arte da Igreja. No entanto, após os episódios espectaculares
de Júlio ll e de Leão X, houve o pontificado breve mas decisivo de Adriano VI.
que gostaria de ter posto fim a essasituação. Os Médias tiveram o mérito de pro-
teger as artes, mas o intermédio de Savonarola teve o seu significado. Se Casti-
glione, o amigo de Rafael, se julga obrigado a recomendar4aohomem da corte
que se comporte como amador iluminado, não deixa de confessar que nem todos
estão de acordo. Por outras palavras, o impulso geral para uma produção e até
para uma superprodução artística não estava isento de resistências e de oposições.
Durante todo o Renascimentohouve uma espéciede luta entre aquelesque
por razões religiosas, morais, intelectuais, viam com desconfiança a crescente
emancipação dos artistas e as simpatias de que gozavam e, por outro lado, aque-
les que, confiando instintivamente numa nova repartição das disciplinas, tendiam
a privilegiar as manifestações artísticas.
O argumento apresentado era sempre o da dimensão espiritual,bcientífica ou
poética da arte. A frase de Leonardo: <<Apintura é coisa mental>>,voltdla ser
debatida. Recusandoa discussão,Miguel Ângelo afirmava simplesmenteque o
artista mereceum estatuto de intelectual:<<Pinta-senão com as mãos mas com o
cérebro.)> Mas conta-se também que troçava de Botticelli que, sendo <<pessoa
sofisticada>>, se julgava capaz de ilustrar Dante.

O problema do arquitecto

A esterespeito, o preâmbulo do contrato de Luciano di Laurana, assinadopor


Ludovico de Montefeltro em 1468,é um texto-chave:

Pensamos que devem ser honrados e louvados os homens dotados de engenho e de vir-
tude, e que possuem os dons que sempre foram apreciados pelos antigos e pelos modernos,
como é o dom da arquitectura fundada na arte da aritmética e da geometria, que são as
principais das sete artes liberais, porque estão no primeiro grau da certeza, e é arte de
grande ciência e de grande engenho por nós muito estimada e apreciadail(Gaye, l,
PP. ói+-iJJ.

Nesta declaração notável e completa encontra-se resumido tudo o que precisamos


de saber. Em primeiro lugar, um discurso em forma de manifesto, que expõe as
intenções<<culturais>>
do príncipe: a arquitectura é a arte fundamental e não deve
inserir-seno âmbito da prática; a sua razão de ser, a sua <<virtudo>, é o funda-
mento matemático, e por essavia ascendeà dignidade das ar/es/íóera/es.A refe-
rência à Antiguidade, que é em certa medida um recurso estilístico, revela uma
intenção declarada a favor de um procedimento racional, erudito. Esta forma de
justificar a escolha do arquitecto de um castelo é bastante insólita. Os habituais
termos ]audatórios que adornam os contratos transformaram-se num manifesto e
num programa. No fundo, vislumbra-se um desejo de abertura das disciplinas: o
qaadr/v/um universitário já não detém o monopólio do saber,que pertencea cer-
tos possuidoresdo engenho e das virtudes necessáriasà modernidade.

181
Não se trata, pois, de uma mera constatação,mas de uma abertura ao futuro,
no sentido de que semelhantespropostasexigemmuito de quem pretendatra-
duzi-las em actos. Deve surgir um novo tipo de arquitecto, um representanteda
arte-ciência.
Em todas as cidades, oqpoder afirmava aosua imagem pública através de
empreendimentos arquitectónicos. A autoridadeHda Comuna manifesta-se no
lábio da Senhoria, a das ordens religiosas e .dos.grandesprelados exprime-se
nos santuários... A preocupaçãogeral é a organização do espaçocom tudo o que
ela exige: arcadas, estátuas, lugares adequadas para as cerimónias e a liturgia. Se
uitectura é vista como a arte por excelência,exige arquitectos preparados e
conscientes.O extraordinário sucessode pessoascomo Brunelleschi, Bramante,
Antonio da Sangallo... não se explicaria semessatendênciageral. E ao arquitecto
erudito que as pessoasse dirigem para a construçãode ví//as nos arredoresde
Florença ou de Nápoles, para o ordenamento urbanístico em redor dos principais
monumentos de Romã ou de Veneza. Em caso de necessidade, os arquitectos são
convocados: na qualidade de peritos, Francescodi Giorgio, Giuliano da Sangallo,
Bramante, eventualmenteLeonardo da Vinca, são chamados a Milão, Pavia.
O arquitecto é o interlocutor privilegiado do poder. Até o senadoveneziano, que
não aprecia os cargos exclusivos, acaba por aceitar o de Jacopo Sansovino. Por-
que se trata de recorrer à ciência e não só à prática.
A condenação da construção sem regras, aquela que, simplificando, será cha-
mada <<gótica>>,
significava que se esperavatudo de uma ciência de elevado nível,
a matemática, indiscutível e, em princípio, acessívela todos. O texto divertido
onde se narra a entusiástica participação dos cidadãos de Florença na proposta
de um projecto de fachada destinada a Santa Mana del Fiore, em 1490, prova,
pelo menos, que a vontade de construir sob forma de projecto era geral. Mas era
o momento das formulações teóricas, da reflexão, dos tratados que expunham os
métodos adequados. Lula Pacioli ficou a dever uma boa parte do seu sucesso
como conferencista ao facto de oferecer ao seu vasto público receitas <<científi-
cas>>,de que essepúblico podia tirar proveito. O Z)e dfví/za propor/ío/ze é sem
dúvida a expressãomais ousada -- e, na opinião dos modernos, menos convin-
cente -- desse propósito de captar a estrutura matemática inerente a todas as ope-
rações técnicas.
A <<pesquisa
arquitectónica>>
insere-sepois no campo intelectual. Mas o recurso
aos textos antigos cria uma espéciede obstáculo ao saber, encerrado entre os pro-
blemas da construção e a arqueologia. O tratado Z)e re aed{/7ca/orlade Alberti,
que terá as honras de uma publicação oficial, com o prefácio fundamental de Poli-
ciano(1485), é um esforço destinado a promover um novo raciocínio em matéria
de arquitectura. Partindo de Vitrúvio e da assimilação do antigo, toma-se. consciên-
cia da lógica e das implicações da construção e extraem-se as consequenctas respec-
tivas. A passagemda teoria à prática faz-se,em princípio, semproblemas: o.cliente
bem informado converte-seem arquitecto,como FedericoildeUrbino, Malatesta,
Lorenzo de Médias, que são louvados nas crónicas pelos seus dotes de construto-
res. Há uma espéciede intercâmbiode responsabilidade.
Seexisteum fundo dou-
trinal comum bastante elaborado, como indica a referência à ordem matemática,
as autoridades podem apoderar-se dele e um grande senhor pode tornar-se arqui-
tecto. O termo assumeum valor quasesimbólico. Já não designauma profissão,
mas em certa medida uma disposição do espírito humano.
Tudo isso provocava uma efervescênciaespeculativa e imaginativa. que faz
dessemeio século -- 1470-1520-- um período particularmente rico de iniciativas,

182
tanto no campo dos projectos como no dos textos (raramentepublicados). Viria
uma época em que, embora se afirmasse que a ar= pede/7ca/zdf
era uma ciência,
se exigiria uma certa especialização. O caso de uma personalidade <(média>>
como
Baccio d'Agnolo (1462-1543)pode tornar mais clara essaevolução,que atinge o
seu ponto decisivo na polémica contra os construtores impreparados, vindosrde
outras profissões, que pretendem exercero grande ofício da arquitectura:

a ciência de entender a perspectiva que não tem sido exercida há alguns anos senão por
entalhadores, ou por pessoassofisticadas que dela faziam profissão, sem Ihe conhecerem
os termos e os princípios básicos (Vasarii }'lfa di Baccfo d:4g/zo/o, ed. cit., V, p. 139).

Estamos em 1550''Vasari apresentou Bramante como um modelo absoluto, mas


está a par das desilusõesque provocaram as suasconstruções; agora, precisa de
defender a causa da competência. Os arquitectos improvisados, quer sejam deco-
radores, escultores ou pintores, são levados a manipular <<ascolunas, as cornijas,
os pedestais e todas as formas dela (isto é, da arquitectura))>; são as personagens
(as/7gure), diz graciosamente,que a arte de construir traz à cena. Mas isso não
basta: a técnica não é uma produção de imagens. Por isso, a biografia de Baccio
é concebida como uma crítica acerba dessesarquitectos decoradoresque invadi-
mm Florença; e essacrítica evoca uma outra, violenta e feroz, feita por Miguel
Angelo a propósito do patamar da cúpula de Santa Mana del Fiore:

Miguel Angelo Buonarroti [...] vendo que ao fazer-seesta obra se cortavam as pedras
de esperaque Filippo Brunelleschi tinha propositadamentedeixado de fora. fez tamanho
alarido que deixou de trabalhar, dizendo que Ihe parecia que Baccio tinha feito uma
gaiola para grilos, e que aquelaconstruçãotão grandeexigiacoisa maior e feita com
outro desenho,arte e graça que não ]he pareciaque tivesseo desenhode Baccio [...].

O resultado, como aconteceu frequentemente em Florença, foi a reunião de


comissões que deixaram sempre tudo em suspenso.
Estas discussõesexprimem bem a vitalidade do problema da arquitectura.
O manifesto a favor de Laurana tinha um fundo doutrinal que perdurou por
algum tempo. O arquitecto, modelo da arte-ciência, conhecedor das possibilida-
des da matemática, assumia facilmente um significado universal. No fundo, esse
arriPce de nível superior é parente do homem completo descrito porrPico, feito
para dominar a natureza. Já no Z)e dfg/zí/a/e e/ exce//e/z/faóomf/zis, de Giannozzo
Maneta, se lê que a grandeza do homem é expressapela sua capacidade de cons-
truir: às Pirâmides, à pomba mecânica de Arquitas, às invenções de Arquimedes
acrescenta-seagora a cúpula de Brunelleschi. Na sua fase optimista, Ficino e os
seus amigos não perdem nenhuma oportunidade de exaltar o tempo presente em
que os trabalhos do arquitecto, do engenheiro e do pintor demonstram a nobreza
do espírito humano: através do exercício da Razão organizadora, o homem torna-
-se dezzs l/z /erres. A possibilidade de conquistarem uma denominação tão exal-
tante era uma tentação para certos espíritos particularmente inteligentes e activos.
Podia então formar-se uma ideia nova do artista; <(divino>>
tornou-se o elogio
supremo.
O motivo por que o arquitecto podia servir de paradigma é bastanteclaro.
Mas seria injusto não nos referirmos também à música, pela qual quasetodos
183
os meios interessadosna arte e presentesna nossa discussãorevelaram um inte-
resse baseado aparentemente numa preparação notável: a música, tal como a
arquitectura, remetia para as ar/es //pera/esjá que dispunha de uma teoria cujo
alcance o tratado de Gafurio, 7heorica musfcae(1492),por exemplo, nos ajuda a
compreender. O número dos artistas músicos e requisitados como tal conquistara
um lugar notável na vida e na cultura das oficinas. Sendo harmonia e resolução
das dissonâncias, a música acabava por se apresentar como um ana/ogon da
beleza. O termo é por vezes usado com um valor elevado e geral, um pouco à
semelhançado que aconteceracom o termo «poesia>> no séculoanterior. Ficino
fez-seeco, segundoparece, de uma avaliaçãocorrente quando afirma que o prin-
cípio representado pela música <<apoderando-seprogressivamente do corpo
humano, todas as criaturas, oradores, poetas, pintores, escultores e arquitectos
extraemdele inspiração para as suasobrao> (Carta a Canisiano, Ep. L, p. 65):' SÓ
um filósofo remeteria assim para uma unidade ideal todas as actividades do espí-
rito que visam introduzir a ordem racional no discurso e nas imagens. Era uma
forma de registar-- num momentode optimismo -- uma aspiraçãoda nova
r
cultura
1]

Na via. tão clara na teoria e tão arriscadana prática, da arte-ciência,houve


um espírito de excepçãoque foi o mais longe que era possível.Durante quarenta
anos, exibindo-se em todos os domínios, manejando todas as técnicas, Leonardo
empreendeua construçãode um novo tipo de saber,que abrangeriatodo o real
e daria bases novas e seguras às operações concretas do arfiáex. Daí resultava, à
margemda cultura literária (<<homem
semletras>>),
um outro tipo de cultu1latlar-
gamente derivadoÜjdas curiosidades e das experiências familiares nas oficinas,
onde se formava o arfeáex po/y/ec.hnes. Mas não se podia perceber o sentido da
sua iniciativa. O problema do artista em geral, e já não apenasdo arquitecto, é
faseado por este exemplo singular, que deixa embaraçados e estupefactos os seus
contemporâneos. O próprio Castiglione lamenta que o grande pintor tenha cor-
rido atrás de quimeras e que por isso se tenha perdido para a arte. Leonardo, com
o seu fascínio pelo impossível, criara uma dimensão ou, pelo menos, uma nova
atracção do <<artistauniversal>>.

Audendi potestas

Nunca se deve esqueceraté que ponto os textos antigos recuperados, editados


e comentados apaixonadamente, serviram de modelos para o comportamento dos
artistas, acabandopor animar as suasbiografias'IExibindo um precedenteantigo,
conferia-se aos procedimentos pessoais uma validade suplementar. Apesar de
tudo, olhava-se com admiração para as obras abandonadas:por Leonardo,
lamentando-se que tivessem ficado inacabadas. Essa atenção podia beneficiar de
uma bota de Plínio, o Velho:

as:obras tardias dos artistas e os quadros que à sua morte ficam inacabados são mais apre-
ciados do que as suas obras acabadas. Isso porque neles se distingue a intenção e a concep-
ção original, enquantoaRtristezaque inspira o desaparecimento
do autor nos lwa a
glorifica-lo (Plínio, N. H., XXXV. 145).

O nome de Apelemconcentrou em si o maior número de situaçõesexemplares:


a competição com Protógenes, a recusa do crítico incompetente, a máxima

184
do trabalho constante: /zu//a ellessine //nea, a recompensasuprema: a devoção
deferentede AlexandreMagno que Ihe cedea bela Campaspes.. Em breve,por
uma espéciede osmoseentre a cultura humanista e a cultura das oficinas, estes
episódios recheados de frases maliciosas passaram a fazer parte do folclore artís-
tico. A partir daí, deixam de poder contar-se os artistas que beneficiaram com a
analogia: Botticelli, Leonardo, Ticiano. Nos elogios publicitários que começam a
multiplicar-se, essaspequenas referências surgem constantemente. O encom/um
de tipo antigo contribui para dar uma ideia lisonjeira do artista e das suas capaci-
dades. É esseo objectivo das pequenas listas de arf /ices de que falámos.
Esta <<literaturaartísticn>, que começavaa nascer,isolava no conjunto social
ou, se se preferir, na obra comum da civilização, uma categoria privilegiada. Mas
um simplesolhar para a realidade bastapara avaliar o carácter artificial, publici-
tário, perspéctico dessa operação. Pouco falta para fazer esquecer que, tal como
no passado, os artistas, pequenos ou grandes, estão em toda a parte em contacto
com as autoridades eclesiásticas ou com as organizações piedosas, ou ao seu ser-
viço. A produção de carácter profano, retrato, história, alegoria, ocupa compara-
tivamente um lugar quase mínimo. Na Igreja existe uma corrente <<rigorista>> que
se preocupa não só com a imortalidade dos homens mas também com a decência
das obras. Essa preocupação manifesta-se periodicamente através de censores que
se queixam de uma evolução sem controlo. Santo António que, em Florença, no
convento de Fra Angélico, não pode negar o valor da arte, formulPireservas
acercados caprichos iconográficos cada vez mais numerosos que se manifestam
nos pintores. Há uma tendência <<pietista>>,
pouco escutada, que prepara de longe
os esforçosda reforma católica. Mas como relatar a extraordinária liberdade de
que gozavam pintores e escultores?
E um problema difícil. Como recordou C. Dionisotti, o futuro de um <<inte-
lectual>>situava-se quase totalmente na esfera de influência da Igreja, quer nos
serviçosda cúria, como no caso de G. B. Alberti, quer nas ordens, com a ambi-
ção, como coroamento, do chapéucardinalício, que Bembo, Giovio e outros con-
seguiram. Segundo a lenda, Bibbiena teria pensado concedê-lo a Rafael. Sebas-
tiano Lucianirecebeude ClementeVll o ofício remuneradodo chumbo(e logo
deixou de trabalhar muito, conta Vasari). Mas»asrelaçõesdos artistas com a
Igreja eram normalmente relaçõesde fornecedores.
A procura em matéria de estátuas,retábulose decoraçõespara os cadeiraisou
as sacristias era tal que não surpreendia ver religiosos dedicarem-se à pintura ou
à decoração: Fra Angelico é a grande figura do monge pintor que honra a sua
ordem. E a sua memória, o seu exemplo, serão semprecitados pelos reformado-
res, os defensores da arte devota. Houve aliás uma verdadeira <<escolade S. Mar-
coo>em volta de Fra Bartolomeo,quandoeste,depois de ter abandonadoa
pintura por influência de Savonarola,regressouà arte com iniciativas que tive-
ram peso.
O problema não está aí e liga-se a um dado simples: no Ocidente não havia,
nem sequernos cânoneseclesiásticos,uma doutrina precisada arte. Não havia
uma teologia da imagem, como em Bizâncio, nem uma codificação geral. Havia
apenas o costume, a tradição (co/zsue/udo). Certas definições elementares, como
) famoso quod legentibus scriptura, hoc idiotas cernentibus prciebat pintura, de
GregórioMagno, tinham ocupadoo lugar dessadoutrina durante toda a Idade
Média. Já Durando de Mende (por volta de 1280)reconhecia que as s/orfae da
Bíblia são tratadas livremente pelos pintores. E Cennino Cennini limita-se a refe-
rir-se a isso no início do seu tratado (1420). Pelo menos a partir do séculoxm,

185
preendentes do artista:

Já não setrata de um artesão ao serviço de uma princesa magnânima, mas de um


artista, no sentido moderno do termo, que pretende fazer respeitar o seu l/zge-

Mantegna, um Ticiano.

186
T

Não surpreenderá,portanto, ver como a preocupaçãode figurar entre as per-


sonalidadesda cultura deu finalmente lugar à<<casade artista>>.Nos tratados de
arquitectura, onde tudo é calculado em função dailhierarquia;lsocial, a <<casa
do pobre artífice>> não passa de uma oficina ampliada, como as de Francesco
di Giorgio, por volta de 1500, e de Serlio, por volta de 1540.Donatello, que
mudava muitas vezes de casa, devia contentar-se com pouco. Pelas declarações
fiscais sabe-seque Masaccio ocupava só um cantinho de oficina, mas Ghiberti já
necessitava
de um pátio com pórtico. Em Mântua, Mantegnaacrescentouao
<<estúdio>>
uma sala aparentementedestinadaàs colecçõese colocou uma estátua
de Mercúrio sobre a porta de sua casa. A geração seguinte subordina a zona de
trabalho à fachada, que se torna a de um palácio. Foi o que Rafael fez em Romã
e, seguindo o seu exemplo, Giulio Romano em Mântua, e Zuccaro em Romã e em
Florença, onde cobre de fantásticos adornos a casa de Andrea dellSarto. E o
mesmo fez certamente Vasari na sua espectacular casa de Arezzo. A viragem
completa-se.

lll.VIRTUDE E GLÓRIA

Um lugar na História

Z)um viga///, viga/ífpícfzlra(carta de Enea Silvio a Nicola de Wile, por volta de


1456); ao poder literário correspondeo poder da arte.;Mas será mesmo em geral
ou apenas pausas grandes figuras (ainda não se diz os <<génios>>)?
A resposta
surgeum pouco mais adiante: post Pe/ruir/zam convexser /z//íf/erga post Jocrum
szzr/exere
pícrorum manas. O termo mantasrecorda que se trata de um ofício
manual, mas mencionam-se duas pessoase a equação Petrarcã-Giotto assinalará
uma Gata.
Façamospumabreve análise de um texto ilustre que teve muita importância.
A menção de Giotto e de Cimabue no canto XI do Purgatório não é, como por
vezes se disse, uma espécie dei'glorificação incondicional das artes figurativas.
Trata-sede mostrar aos culpados de orgulho a inutilidade da glória, /lafotdí
ve/zío, e o poeta oferececomo exemploa superaçãode Cibamue por Giotto por-
que eram artistas muito conhecidos. Os seusversos confirmam a notoriedade dos
dois pintores, fenómenonotável, mas nada mais. Não se assistea uma maior
exaltação<<cultural>>dos dois artistas em voga do que dos dois miniaturistas Ode-
risi e Franco, cuja arte, para se dizer a verdade, não parece ser excepcional.
A menção dos dois pintores: teve enormes consequências devido ao peso dos
comentários,que não se fixaram na arte, mas na personalidadede Giotto: cau-
sava admiração que, depois de Dante e através dele, um simples artesão pudesse
alcançar a glória. Os comentadores eram literatos feridos por verem dois &om!/zes
ig/zo/i /zominfs ef bassaear/ís comparados a dois poetas famosos como Guido
Guinizelli e Guido Cavalcanti. E é conhecida. asexplicação de Benvenutosda
Imola, quem
forneceum ponto de referênciaiHpara
aalprimeirametadedo
século xxx \ appetitus gloriae ita indiferentes occupat omnes quod etiam parva
arti$ces sunt solliciti arca itlam acquirendam, sicut vidimus quod pictores appo- .
/zz//zrdomina.BObservação duplamente importante: se os pintores começaram a apor
a sua assinatura nas obras -- o que se pode confirmar a partir dos retábulos --
isso não é olhado com bons olhos por todos, sobretudo pelos clérigos, pelos inte-
lectuais, que consideram tal facto como uma manifestação de orgulho tanto mais

187
188
Fugia das pessoas,<(pensandoque comportar-se como filosofeco porco e sem
regra de viver e fugindo à conversacom as pessoas,era o caminho para se tornar
grande e imortal>> ( 1''1/adf Gfova/zni .4/z/on/o Zappo/í, ed. cit., V. p. 417). :Há
energias que se desperdiçam.
E impossívelavaliar a influência que teveLeonardo com as suaspesquisastéc-
nicas e a sua exploração metódica, insaciável, dosilmistérios da natureza. da
fecundidade, do organismo humano, mas pode falar-se de um <<efeitoLeonardo>>,
que incita os pintores a apresentarem temas raros, a assumirem atitudes delicadas
e a gabar-se de especulações esotéricas. Segundo se disse, alguns desses originais,
como Beccafumi, Francesco Rustici, Parmigianisno..., pessoasque trabalhavam
por conta própria, dedicavam-se
a pesquisassobrea congelaçãodo mercúrio,
maneira popular de denunciar experiências secretassobre matérias que provoca-
vam curiosidade. Cellini, com todos os seusmexericos, ajuda-nos a perceber que,
para a multidão, a <<aura>>
do artista devia comportar uma certa dose de fantas-
magoria. Ele próprio se sentia orgulhoso de ter participado numa sessãode
necromancia, no Coliseu. Mas acima de tudo, depois de uma crise de intensa pie-
dade vivida em Cartel Sant'Angelo,gaba-sede uma característicasingular:

Não quero deixar para trás a maior coisa que pode ter acontecido a um outro homem
[...] que a partir de entãome ficou um esp]endor,que maravi]ha! sobrea minha cabeça
(cap. 128).

Essa auréola vê-se muito bem de madrugada, mas também ao crepúsculo. SÓos
iniciados a vêem. Ficamos perplexos. seremos percebido bem? No Renascimento,
o orgulho não conhece limites.
A'cristalização dos lugares-comuns lendários em volta de certos artistas
fazia-os entrar no folclore. Mas, na <wirtü>>,o poder criador -- que pode afastar-se
do seu caminho -- distingue-sepor uma aspiraçãototal, explícita, apaixonada à
<<glorificação>>,
ou sqa, ao acessoa essaordem superior na memória dos homens
que justifica e desculpatudo. No entanto,a glória tem na vida dos homensum
adversário implacável: a /;br/una. As obras interrompidas e contestadas, os aciden-
tes, as paixões, a morte dos protectores::.são outros tantos golpes da sorte. Há
poucas carreiras sem dramas, sem desventuras. Quando o artista demonstrou a sua
capacidade <(divina>>,acusa-se a inveja celeste de o roubar aos homens:
A exaltação do <<génio>>do artista podia levar a iniciativas surpreendentes.
Quando Giulio Romano morreu, no dia de Todos-os-Santosde 1546,fizeram-lhe
o epitáfio seguinte:

Júpiter via as formas esculpidas e pintadas/ palpitantes de vida e as moradas dos mor
tais iguais ao céu:/ obra da <<virtü>>
de Giulio Romano. Furioso, reuniu o concílio dos deu
ses:/ e roubou-o à terra, por não poder suportar/ ser superado ou alcançado por um rabi
tange da terra 4

Este e/ogíum, de puro estilo pagão, foi publicado por Vasari, em 1550,e supra
mêdo em 1568.

4 <<VidebatJuppiter corpora sculpta pictaque/ Spirare,et andesmortalium aequarier caelo/ Julii


virtute Romana.lbnc iratus/ Concílio divorum omnium vocato/ lllum e terris sustulit: quod pau
nequiret / Venci aut aequari ab homine terrigenal>,Vasari, lira dí Gíu/ío Rama/zo, ed. cit. V.
p. 295, n.l

189
Benvenuto da Imola indignava-se com a ambição de notoriedade implícita na
assinatura das obras. Esta prática, sem ser gemi, foi muito corrente no século xv:
houvera falsa inscrição, o <<cartellino>>
mais ou menos ostensivo,o nome que se
deixa como por acaso num degrau, num vaso, ou mesmo, por brincadeira, na
madeira de uma seta(Perugino). Em muitos casostratava-se de uma marca comer-
cial. Lê-se 77ffanus Cadorüzzs pf/zxíf no retábulo de Ancona(1520) mas não no de
Pesarodestinado à igreja dos Frari(1519-26). Mas o que dizer do auto-retmto?
A sua história põe muito exactamente em evidência a viragem que nos interessa, isto
é, a passagem do estado artesanal devidamente aceite para a ostentação do .<<vir-
tuoso» que foge à obscuridade.No séculoxiv, o autor de um fresco repleto de
retratos, introduz voluntariamente a sua própria imagem nos bastidores, ou seja, à
margem da cena(Taddeo Gaddi). Masaccio e Fihppino farão o mesmo.na capela
Brancacci. Com Perugino, com Signorelli, com Pinturicchio, o pintor destacou:se
da multidão : o seuauto-retrato é emoldurado. Em seguida, surgiram todas as varia-
ções possíveis, inclusive a imagem deformada pelo espelho. Vasari fez uma recolha
dessesretratos de artistas quando compreendeu que chegara o momento oportuno
para extrair delesilustraçõespara.a segundaedição das suas I''í/e(1568).
No prefácio das .lüs/orlas suí remporü Paolo Giovio fez uma declaraçãoque
considera muito importante:
in hac veta \...\ nihit beatius essepotest quem nominis fumam \...\ ad non incertam spem
sempiternae laudis extendisse.
Com estas palavras pretendia dizer que todos os grandes homens têm necessidade
do elogio literário e tem portanto interesseem asseguraro concurso de um autor
eloquente.Mas o artista também é muito útil porque, como afirmou a doutrina
antiga, a pintura e a esculturaforam inventadaspara conservara memória dos ros-
tos. Um autor e um artista são, pois, os dois instrumentos da retórica indispensável
à boa gestão da glória. Neste sentido, Giovio deu a Vasari a ideia do fresco da Chan-
celaria, onde Pkzu/z/sdispa/zsafpruemfa, ou seja,<<o prémio da glória>>;em redor
de Paulo 111vêem-se,além de Giovio, Polo, Sadoletó,Bembo e Miguel Angelo.
As J''i/e, de Vasari, correspondiam a uma preocupaçãoidêntica. O quadro
biográfico impunha-se: é a tradicional resenhados homens famosos combinada
com a expressãoliterária dos e/ogfa. A origem da recolha não veio de um serão
em casa do cardeal Farneseem que interveio precisamente Paolo Giovio? O autor
incorporou nela, portanto, todos os argumentosque desdehá um século e meio
eram apresentados para demonstrar a dignidade <<cultural>>
dessaspersonalidades
e tudo aquilo que Ihe pareciaadequadopara fazer compreendero seulugar na
sociedade.Se este escritor improvisado podia assim fazê-lasentrar pela primeira
vez, e semdificuldade, na história, deve-seao facto de os artistasterem vencido
essaespéciede batalha que o narrador ilustrada. R '"l ..
Em 1540,Paulo 111tinha emancipadooficialmente Miguel Angelo e Pieranto-
nio Cecchini da corpomção(ars sca/pe//i/zoom). Em 1571,Cosimode Médias faria
o mesmo com todos os artistas. A peroraçãode Giorgio Vasari tinha conseguido
o seu objectivo.. Entretanto, era criada a Academia de Desenho:.quegarantiaaos
artistas o estatuto não artesanal desejado pelas artes maiores. A discriminação fatal
entre artista e artesão começava a concretizar-se. Mas vejamos o que se passa na
capela da Confraria de S. Lulas, no claustro da Annunziata, onde Vasari desejava
ser sepultado, e cujas paredes decorara. Por detrás da imagem do santo patrono
dos pintores continua a ver-se a pessoa que dilui as cores: o bom artesão entregue
ao seutrabalho.

190
CAPÍTULO Vlll

A MULHER RENASCENTISTA
por Mdrgaret L. King
Em finais da Idade Média e no início do Renascimento, nasgravuras,nos
retratos, nos vitrais, a mãe de Deus sorri pela primeira vez ao seu filho, que
seguraao colo, alegree cheio de vitalidade. A explosiva cultura do Renascimento
nascedesseabraçode mãe e filho que a esculturagótica e a cor do séculoxv
projectam numa dimensão eterna. O homem do Renascimentonasce da mulher
do Renascimento.
O homem do Renascimentotem muitos rostos perfeitamentedistintos e os
outros capítulos deste livro falam-nos de oito deles. A mulher do Renascimento.
porém, parecequase sem rosto. Um homem pode ser príncipe ou guerreiro,
artista ou humanista, mercador ou eclesiástico,sábio ou aventureiro. A mulher só
raramente assume tais papéis, e, se o faz, não são essesos papéis que a definem,
masoutros: é mãe, filha ou viúva; virgem ou prostituta, santa ou bruxa. Mana.
Eva ou Amazona. Estas identidades (quelderivam apenas do sexo a que per-
tence) submergem-natotalmente e apagam qualquer outra personalidade a que
ela aspire. Durante todo o Renascimento,a mulher luta para se exprimir a si pró-
pria. Mas é uma luta destinada ao fracasso, dado que, a partir de finais do Renas-
cimento, a fixidez dos papéissexualmentedefinidos da mulher foi reafirmada a
todos os níveis da sociedadee da cultura e a condição feminina não progrediu,
antes se encaminhou para um progressivo declínio.

A mãe e o menino

Uma grande parte das mulheres do Renascimentoforam mães e a materni-


dade constituiu a sua profissão e a sua identidade. A sua vida adulta (a partir dos
vinte e cinco anos, aproximadamente,na maior parte dos grupos sociais, e a par-
tir da adolescência,nas elites) era um ciclo contínuo de partos, aleítamentose
mais partos. As mulheres que pertenciam às classessuperiores davam à luz um
filho de vinte e quatro em vinte e quatro ou de trinta em trinta meses.Entre dois
partos havia o período de aleitamento, que reduz a fertilidade: quando a criança
deixava de mamar, podia conceber-sede novo. As mulheres ricas tinham ainda
mais filhos do que as pobres.A necessidade de garantir um herdeiro, corolário
da necessidade de se transmitir eficazmentea riqueza, obrigava-asà fertilidade.
Como não amamentavamos filhos (voltaremosem breve a essarenúncia), os
intervalos entre dois partos podiam ser mais breves.Alessandra Macinghi Strozzi,
descendentedas dinastias comerciais florentinas dos Alberti e dos Strozzi, deu à
luz oito filhos no decénio entre 1426e 1436.Henrietta Mana, esposado rei Car-
los l de Inglaterra, esteve grávida quase ininterruptamente entre 1628 e 1639. Esta
fertilidade, que podia atingir, com algumas oscilações, níveis superiores à média

193
máxima da fertilidade biológica para a fêmeahumana, que é de doze partos, era
exigidano interesseda família, que necessitavapelo menosde um herdeiro varão
vivo se queria assegurara sua continuidade. Entre os séculosxiv e xvn, todas as
geraçõesde mulheresda família Donato de Venezaatingiram aquelamédia.
A mulher venezianade FrancescoMarcello, Magdalucia, deu à luz vinte e seis
filhos em finais do séculoxv, ultrapassandoportanto aquelelimite.
Trazerem si um filho é um privilégio e um fardo para a mulher. Em ltália e
em França, a mulher que acabavade dar à luz um filho era festejada e mimada.
O cónegomilanêsPietro Carola, em 1494,descrevea alcovade uma mulher da
nobre família Dolfin, de Veneza, que acabara de ser mãe. O aposento tinha sido
enfeitado com ornamentos que valiam.pelo menos 2000 ducados, enquanto as
mulheres que cuidavam da parturiente ostentavamjóias, cujo valor atingia pelo
menosos 100 000 ducados. Como uma noiva no dia do casamento,a mulher que
acabavade dar à luz ocupavatransitoriamente um lugar de honra que não tinha
paralelo. Estar grávida era um sinal de honra. A .A4adon/za de/ ,f)ar/o, de Piero
della Francesca'que aponta para o ventre onde traz Cristo, representatambém a
figura da mulher comum que está prestes a gerar uma nova vida: Quando o nobre
bispo veneziano Gregorio Correr"falou a Cecilia Gonzaga, filha do duque:::de
Mântua, das tentações que se aninhavam em sua casa e que podiam demovê-la da
sua resolução de ir para um convento, referiu-se também aos ventres prenhes das
mulheres de seusirmãos e aos gritos dos recém-nascidosque as chamavampara
elas os amamentarem. A mulher de Francesco Datini, o famoso mercador de
Prato cuja vida é afortunadamente testemunhadapor uma série de documentos
que chegaram até nós, desejou durante muito tempo um filho, e como não.o pede
ter, dedicou todo o seuamor ao filho que o marido tivera de outra mulher.
Das mulheres das classesmais altas esperava-seque amassemos filhos, e de
facto muitas delaso faziam: alimentavamos filhos e educavam-nosaté à idade
de sete anos (e as filhas até ao casamento),encontrando assim na maternidade
um meio de criatividade e de expressão.As circunstânciasobrigaram Alessandra
Macinghi Strozzi, a mãe daquelesoito filhos de que já falámos, a não selimitar
a dar à luz mas também a educar os seusfilhos mais pequenos,quando o marido
(falecido pouco tempo depois) e os filhos mais velhos foram exilados da cidade
por serem opositores dos Médias. As setenta e duas cartas que ela lhes.escreveu
testemunham a preocupação materna pelo seu bem-estar. A seu filho Filipe, que
se esperavaque pudesserestaurar a fortuna da família, Alessandraenviava conse-
lhos médicos, notícias sobre investimentos, peças de linho, queijos curados e notí-
cias acercados progressosdos irmãos mais novos e dos primos.
De condição mais elevada,mas não menos solícita, foi Margaret Beaufort,
descendente
do ramoinglêsdosLancaster,queincitou seufilho, o futuro Henri-
que Vll, a grandes empresas e a uma rigorosa virtude. Esta patrona e precursora
das mulheres instruídas de condição elevada da época pudor fez constantes intri-
gaspara colocar o seuúnico filho no trono de Inglaterra. Mãe e filho trocavam
cartas que revelam um amor muito profundo. Ao enviar-lhe os parabéns pelo seu
aniversário, ela chamava-lhe <(única jóia desejada deste mundos. Pelo seu lado,
ele confessava-séreconhecido pelo seu amor materno e mais ligado a ela do que
a qualqueroutro ser vivo. Menosde um séculodepois,uma compatriota.da
Beaufort, Elizabeth Grymeston, escreveuum extensotratado para seu filho
Bernye, .onde Ihe dava sábios conselhos acerca da educação, do casamento,
da devoção e da morte. A força do amor é a força maior que existe,diz-lhe ela,
e não há amor maior do que o da mãe pelo seu filho. Era tão vulgar as mães

194
continuarem a guiar os filhos já crescidos, especialmente os do sexo masculino.
que as cartas, os manuais, os diários escritos para essefim constituíam o princi:
pal género da actividade das mulheres como autoras.
Todavia, mesmo as mulheres que amavam os seus filhos podiam ter receio do
parto. Numa perspectivaaterradora, o parto era o castigo que Deus infligiu a
Eva pam a castigar pelo seu comportamentoambíguono' Eden; um castigo
menor do que o que fora infligido ao homem, como afirmava a humanista de
Verona, ]sotta Nogarola; um castigo maior, respondia o seu interlocutor mascu-
lino num diálogo sobre o assunto: a mulher sofre ambas as penas; um trabalho
sem fim e as dores do parto. O grande humanista Erasmo definiu as dores do
parto como as piores de todas as coisasque atingem os sereshumanos. O nasci-
mento do seu primeiro filho levou a mística inglesa Margery Kempe a uma
depressãoque durou seis meses. Todavia, uma consequência do parto muito maia
gravedo que a depressãoera a morte. Acompanhadas por parteiras que tinham
apenasuma preparação prática, as mulheresnão conseguiamsobreviveraos par-
tos complicados ou às infecções bacterianas, uma ameaça que continuou a atingir
quer as ricas quer as pobres mesmo já em tempos mais avançados. Gregorio Dati
anotou a morte das primeiras três das suasquatro mulheresnuma espéciede lita-
nia, que podemos considerar um monumento fúnebre para as mulheres do pas-
sado: Bandecca foi para o paraíso em 1390,depois de uma doença de nove meses
provocada por um aborto; Bettà subiu ao paraíso depois do nascimento do seu
oitavo filho (1402); Ginevra, que tinha dado a Gregorio onze filhos, morreu de
parto (pouco depois de 1421)após enormessofrimentos, e reuniu-se às outras no
paraíso. Em Inglaterra, os tormentos de Lady Danby foram recordados de modo
análogo por sua irmã, que, em 1648, escreve:depois de ter dado à luz nove filhos
e de ter tido seisabortos, Lady Danby pariu pela décima sextavez e abençoou a
morte, que sobrweio duas semanas depois. No Inverno de 1774, uma epidemia de
febre puerperal alastrou numa enfermaria de Edimburgo, infectando todas as
mulheresque tinham dado à luz há menos de vinte e quatro horas; todas as que
contraíram a doença morreram.
As mães que sobreviviam,porém, tinham por vezesde assistir à morte dos
filhos que tinham dado à luz com tantos sofrimentos (era esseo <(trabalho)>das
mulheres). Na Europa, a mortalidade infantil oscilava entre os 20 e os 50qo. As
criançaseram vítimas da peste,da diarreia,da gripe, da constipação,da tubercu-
lose ou da inanição. As que conseguiamsobrwiver à primeira' infância conti-
nuavam a ser extremamente vulneráveis durante a adolescência. Em Pistoia, no
séculoxv, cercade 18qodascriançasmorreramentreo primeiroe o quarto ano
de vida; cerca de ligo, entre os cinco e os nove anos e 8%), entre os dez e os catorze
anos.Em Melão,em 1470,5qo dosrecém-nascidos
morreramno primeirodia de
vida. O mesmo Data, que enumerara as suas mulheres passadas e presentes, relatou
a história dos nascimentose das mortes dos seusfilhos: de, pelo menos, vinte e
cinco .filhos legítimos(a que se acrescentam ainda um ilegítimo e dois abortos),
quando morreu, emç'1435, ter-lhe-ão sobrevivido apenasnove. Dos vinte e seis
filhos nascidos a Magdalucia Marcello só treze sobreviveram até à idade <<robusta>>.
Dos cinco filhos de AlessandraStrozzi só restaramdois depois da morte do mais
novo, Matteo, ocorrida em 1459.A sua morte custou-lhe, escreveAlessandra, mais
do que a de qualquer outro, mas confortou-a saberque o filho tinha recebidocui-
dados médicos e religiosos adequados e .fora acolhido por Deus no paraíso.
A preocupação com a morte da criança estava sempre à espreita em cada nasci-
mento. Seja como for, o recém-nascido era considerado pelas mães do Renascimento

195
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196
se tivessemsido confiadas aos cuidados maternos. A sua morte podia resultar de
uma série de causas diversas : a pobreza, a má nutrição, o desleixo. O notário tos-
cano Ser Lapo Mazzei confiou a uma ama catorze filhos logo após o nascimento :
só sobreviveramcinco. Numa cidade do Buckinghamshire,em Inglaterra, entre
1578e 1601,6qo dos funerais foram de crianças entregues a amas. A criança que
sobrevivia, apesar das privações e da negligência, podia vir a sucumbir devido à
maldade da ama. Os filhos nem sempreeram desejadose muitas vezesas amas
eram obrigadas a desembaraçar-sedeles. Um método clássico era o da asfixia: a
pretexto da inocência do sono, a ama voltava-se na cama e sufocava a criança; era
uma morte que podia parecer um acidente. Outros modos eficazespara se liberta-
rem das crianças indesejadas era mata-las à fome, enjeita-las, droga-las. Em 1765,
das vinte e três crianças entreguesaos cuidados de uma tal Mrs. Poole, em Ingla-
terra, dezoito morreram no primeiro mêsde vida, duasregressarama suascasas
com pouca mais idade e junto dela ficaram vivas apenastrês.
Um dos factoresda morte dascriançasentreguesàs amas poderia ser a falta
de afecto materno (tal como, nas instituições modernas, a ausênciade afecto
por parte de uma única figura tem um grandeimpacte negativonos recém-
.nascidos). Na sua Cfvf/elconversazione, Stefano Guazzo parece lamentar-se
de ter sido abandonado, num excerto em que uma criança censura a mãe por se
ter limitado a trazê-la no ventre durante nove mesespara depois se desembaraçar
dela entregando-aa uma ama durante dois anos. Muitas criançaspassavamde
uma ama para outra e, se a mãe morria, podiam viver com as amas durante anos.
O florentíno Giovanni Morelli conta que seu pai :(nos primeiros anos do
séculoxív) viveu em casa de uma ama até completar os dez anos de idade. Na
realidade, não surpreende que o costume de se desfazer das crianças das classes
superiorespara aliviar as mães, um costume praticado durante alguns anos e
durante alguns séculos, tenha representado um notável instrumento de morte e de
sofrimento.
As amas podem ter infligido às crianças que eram confiadas aos seuscuida-
dos todo o tipo de abusosBque as ,conduziam à morte; mas também as mães o
faziam (e os pais). godos os séculos antes do nosso conheceramo infanticídio.
Forma normal e aceite de limitação demográfica na Antiguidade (especialmente
no que dizia respeito à população feminina), o infanticídio foi proibido e contra-
riado nos séculosda era cristã. Apesar disso, continuava a ser praticado. A mais
elevada concentração de infanticídios verificava-se entre os pobres e as mulheres
não casadas. No interior de comunidades camponesasconsolidadas, a maior
parte dos nascimentosilegítimoseramüevitados
com sucesso,por vezescom o
casamento em caso de gravidez prematura. Na cidade e no campo, porém, entre
as mulheres pobres e as prostitutas, verificavam-se nascimentos ilegítimos. O des-
tino de muitos dessesrecém-nascidos era lamentável: na maioria dos casos eram
vítimas da violência das mães que, por sua vez, eram também vítimas da violên-
cia. As sentençasdos tribunais contra essasmulheressão muito claras. Muitas
vezes-- se a criança tinha sido baptizada -- as mães eram tratadas com com-
preensão pelo delito de terem disposto assim de um filho indesejado que não
poderiam criar. Mas quando eram condenadas,o castigo era inequívoco e severo.
O infanticídio era punido com a morte: uma morte (por afogamento ou na
fogueira) muito mais terrível do que a que era normalmente infligida aos crimino-
sos do sexo masculino : o enforcamento. Em Nuremberga, no século xvi, a infan-
ticida era punida com o afogamento: em 1580,ano em que foram expostasao
público as cabeçasde três infanticidas, a pena passoua ser a decapitação. Muitas

197
mulheres tiveram essedestino porque o infanticídio, a seguir à bruxaria, era a
maior causa de condenações à morte para as mulheres do Renascimento.
As mães que não tinham condiçõespara cuidar dos seusfilhos, legítimos ou
ilegítimos, podiam também abandona-los,esperando.J que o1labandonoconsti-
tuísseum pecadomenor do que o homicídio(emboramuitas vezeso resultado
fosseo mesmo), e que alguma pessoacaridosacuidassedo seufilho. Os asilos de
crianças abandonadas, instituídos já a partir do século vlu em algumas cidades
italianas, foram-se multiplicando desde o século xlv até ao século xvi. Os recur-
sos dessasinstituições eram na maioria dos casosinsuficientespara educarfios
órfãos. SÓ podiam ocupar-sedos recém-nascidosrecorrendoàs amas, com os
resultados insatisfatórios que já vimos.jOs que sobreviviam à primeira infância
tinham apenas sombrias perspectivas de atingir a idade adulta. Em Florença, no
século xv, as taxas de mortalidade oscilavam entre os 25 e os 60qo, uma vaga de
mortes infantis que só parece poder comparar-se ao limite dos 90qo que se atingiu
por vezesnos asilosde Paris, Londrese Sampetersburgo,
no séculoxvm.
Se as mulheres pobres abandonavam com tanta frequência os seus filhos nos
asilos, e as mulheres ricas os entregavamàs amas, o que é feito daquela feliz
comunhão dexmãee filho com que iniciámos esteretrato da mulher do Renasci-
mento? As dores do parto, a insegurançada riqueza, a ferocidade da lei, tudo
isso subverteuuma e outro.

Mulher e marido

Tal como a feliz díade da mãe e do filho tem um reversotrágico, o mesmose


passacom o terno par do marido e da mulher. O casamentoera resultado de um
cálculo, dado que essainstituição servia sobretudo como mecanismo de produ-
ção, conservação e transmissão da propriedade. O veículo dessapassagemda pro-
priedade da velha unidade familiar para a nova era a mulher.
Tal como os homens, as mulherespodiam herdar as propriedades(fazer valer
direitos ou fazer parte de uma guilda) pelo menos em algumas partes da Europa,
em muitas cidades da Flandres e em poucos mais lugares. Era mais frequente as
mulheres serem:excluídas da herança das propriedades familiares mediante os
direitos de primogenitura, por vínculos ou por tradição. As mulheres tinham
porém um título certo: o seu dote, que as colocava em condições de se casarem
e, seera elevado,de casarembem, usufruindo assimdos frutos de uma elevada
condição social enquanto durasseo casamento(já que com o dote o marido
podia me]horar a sua situação financeira). O pagamento do dote libertava o pai
da noiva de posteriores obrigações económicas respeitantes ao bem-estar da filha,
e esseera um aspecto que interessavasobretudo ao homem que não tinha grandes
meios: podia ocupar-sedos outros filhos. O objectivo do rico, pelo contrário, era
sobretudo garantir a passagemda propriedade de umas mãos para outras, e não
assegurar o bem-estar da mulher que nominalmente era proprietária do dote.
Uma mulher dada em casamentopodia assegurarà sua descendência por
linha paterna uma vasta herança,no casode o seudote ter atraído um compa-
nheiro rico. Os laços criados pelo dote garantiam o bem-estarde sobrinhos por
linha paterna. O mesmodote de que beneficiavam os descendentes paternos asse-
gurava à família do novo marido uma provisória fonte de receitas capaz de produ-
zir ulterior riqueza. Em geral, os maridos eram os principais beneficiários das
várias somas postas em nome das mulheres das classes mais elevadas. Os pais

198
Z U11Sl:Hl;H$UnU!:nB:$,
dinheiro, e era pago imediatamente ao marido. A família Donato de Veneza,
conseguiuacumular durante dois séculosuma somalíquida de 123177ducados.
que constituía a vantajosa diferença entre as receitas e as despesascom dotes.
A mulher herdava apenas o direito à riqueza que essecostume obrigava seu
pai, ou quem exerciaas suas funções, a conceder-lhe,mas raramente tinha opor-
tunidade de se s.ervirdela. A soma (bastante relevantepara onerar as proprieda-
des e desencorajarportanto o casamentode todas as filhasj era fixada imedia-
tamenteantes da cerimónia do casamentoe passavalogo para o controlo do
marido. SÓregressavanovamente à posse da mulher, sem quaisquer equívocos, se
o pai e o marido morriam. Competia-lhedispor delaem casode morte: o dote
era transmitido, sempre por via testamentária, aos filhos dele ou a outros paren-
tes (e, em menor proporção, pelo menosem ltália, às filhas). Seo marido tinha
gerido os fundos do dote irresponsavelmente,algumas mulherespodiam exigir a
sua restituição:.Todavia, muitas mulheres perderam o capital a que presumivel-
mente teriam direito devido à imprevidência dos maridos.' Em 1403, o florentino
Giovanni Morelli conta o caso de sua irmã Sandra, uma mulher demasiadocon-
descendentea quem o marido convencera a colocar' algumas propriedades em seu
nome.Jacopoficou arruinadoe Sandra,na épocado relato de Morelli, acabou
por se encontrar na situação de jovem viúva com um filho de doze anos, sem dote
e obrigadaa viver em casado irmão comouma parentepobre.
O dote era portanto a base de casamentosque tinham sido decididos (muitas
vezes pelos .pais) com .objectivos de carácter material. Esperava-se que os dois
esposos aceitassem as decisões dos pais. Alberti, para quem a necessidade de per-
petuar a estirpe e .motivos patrimoniais tinham um peso igual no ajuste de um
matrimónio, sugeriaque seempregassem medidasmuito severascontra um filho
que não só se opusesseà escolha do pai(que Ihe podia oferecer uma certa vafie-
.dadede esposas.adequadasa ele) mãs também ao casamento enquanto tal: a par-
tir de certa idade (Alberti sugereos vinte e cinco anos), o pai deveria ameaçar
deserdáJo.A lógica do argumento é convincente: vistas bem as coisas, o objec-
tivo da herançanão era o divertimentodo filho masa continuação"daestirpe.
Alberti gabava-sede a sua família ter sido rica durante duzentosanos (um
período muito longo, se considerarmos a oscilação das fortunas típicas de Flo-
rença).e de ter sido a única família que conseguira transmitir uma grande fortuna
até à terceira geração.
Sobretudo em Inglaterra, havia algumasmulheresda classesuperior que resis-
tiam, aliás como parece que faziam alguns homens italianos, ao esquema de uma
escolha matrimonial jjdeterminada pelosHpais. Margery Paston,' filha de um
fidalgo rural inglês, recusouo marido que seupai tinha escolhido;como conse-
quência dessa recusa viveu isolada durante longos mesese foi frequentemente
espancada. Quando casou depois com o intendente das propriedades da família.
foi banida para sempreda presençados pais, que não despediram,porém, o
o. FrancesCoke.(filha do célebrejurista Sir EdwardCoke)fugiu de casa
depois de ter sido obrigada a desposar,em 1617,o incapaz iohn'Villiers irmão
do favorito do rei, George,duque de Buckingham. Em consequênciade ter aban-
donado o tecto conjugal por adultério, foi ostracizada: conquistara 'a indepen-
dência mas por um preço muito elevado. Todavia, estesexemplos de independên-
cia são bastante raros. Dia após dia, na sua qualidade de filhos respeitosos,

199
obrigadosüpela autoridadebdos pais e pela lógica económica do matrimónio,
homens e mulheres juraram permanecer fiéis uns aos outros.
Na época pré-moderna,o casamentoera, na maioria das vezes,definitivo,
embora também existissem, ainda que insólitos, motivos reconhecidos de separa-
ção ou de anulação. Entre essesestavamincluídos a consaguinidade,o adultério
(da mulher, mas não do homem), a impotência, a lepra e a apostasia. Em.certos
casos,embora muito raramente, a extrema brutalidade de um marido podia dar
lugar a um processo de separaçãolegal. Alguns teóricos protestantes(o próprio
Lutero. Martin Bucer e, no horizonte da idade moderna, mais ruidosamente, o
poeta John Milton) defenderam a necessidadede alargar a área dos motivos que
davam lugar ao divórcio. No entanto, mesmo nos paísesprotestantes,.ao$ casa:
mentos continuava ainda a pâr-se fim mediante o recurso ao expediente não legal
do abandono (uma prerrogativa masculina). Na cidade inglesa de Norwich, em
1570.mais de 8qo das mulherescom idadesentre os trinta e um e os quarenta
anos eram mulheres abandonadas. Nas classesmais elevadas, as mulheres podiam
deixar um marido adúltero e exigir o seu sustento: em finais do século xvi, a
mulher do conde de Sussexobteveum dote de 1700libras anuais por essemotivo.
Se o divórcio, a separação ou o abandono não punham fim ao casamento,
intervinha, com uma celeridademaior do que nos nossosdias, a morte. As expec-
tativas de vida eram baixas e os casamentosterminavam muitas vezesantes de a
mulher ter ultrapassado a idade fecunda. Eram muito raros os casaisque podiam
assistirà maturidadedos filhos. O casamentoera um período transitório entre a
idade da auto-suficiência económica (por volta dos vinte anos, para os homens,
um pouco antes para as mulheres,na maior parte dos paísesda.Europa.e para.a
maior parte da população) e uma morte precoce.Após a morte do marido, ou da
mulher, normalmente casavam-sede novo e assim as famílias podiam ser conside-
radas como uma constelação permanentemente oscilante de filhos de diferentes
pais e de diferentes mães, que combatiam entre si para asseguraremdireitos e pri-
vilégios. Uma mulher que se casassede novo podia ser obrigada a renunciar a
qualquer pretensão (excepto o dote) sobre as propriedades do marido e mesmo
sobre'os filhos. Uma viúva, porém, podia viver em casado marido enquanto
vivesse <<castamento>e até os filhos estarem presentes. Em todas as casas nobres
venezianashavia sempredisponíveisuma cama e um pequeno fogão para a even-
tualidade do regresso de uma filha cujo casamento se tivesse dissolvido ou que
deixasse de se sentir bem em casa do marido.
Alguns casamentos, apesar das suas origens mercenárias, eram muito seme-
lhantes ao modelo do casal romântico imaginado pelo nosso séculoxx: um
modelo baseadona camaradageme na maturidade. Essescasaisque conseguiam
usufruir de tais relações de amizade no casamento representavam a realização
total de um ideal pré-moderno (mas também moderno), válido para os católicos
e para os protestantes.Esseideal de amor e devoçãorecíprocosaparecianos
manuais de confissão de finais da Idade Média, nos sermõesda Reforma, nos
livros dos humanistas. Frei Cherubino, na sua Rego/ade//a vila marrímon/a/e, de
finais do século xv, realçavaa necessidadede um afecto genuíno e insistia no
facto de os espososdeveremviver juntos, confortando-see protegendo-se dos
pecados.Um compatriota de Cherubino, o patrício Bárbaro, escreveuque uma
boa mulher deve amar o marido, conforta-lo e inspira-lo. A relação conjugal
deveria ser um modelo de <<perfeitaamizade>>,
em que as mais íntimas preocupa-
ções fossem partilhadas e os fardos de ambos os cônjuges aliviados. Ao serviço
desseideal, Bárbaro minimiza na mulher os dotes de belezae de riqueza (mas
200
convémter presenteque se dirigia a uma classede espososmuito ricos), real-
çando a importância de um bom carácter e de um bom parentesco. Também
Alberti colocava no mesmo plano, como qualidades principais, o carácter e a
família e observava que o objectivo secundário do casamento (o primeiro era per-
petuar o homem nos seusfilhos) era permitir uma relaçãode confiança e de com-
panhia. O erudito alemão Cornelius Heinrich Agrippa von Nettesheim ia ainda
ndxs \oRBe na seu De nobilitate et praecellentia .foeminei sextas declamatio (\SQ9Ü:
se o casamentose baseasse
no amor e na amizadee não no dinheiro e no inte-
resse,não haveria mais adultérios nem divórcios.
Se os guias espirituais católicos e protestantes realçavam a iihportância de
uma relação de amizade entre os cônjuges,também apontavam para a obrigato-
riedadede uma relação de tipo patriarcal. Sugeria-se,portanto, uma condição
contraditória: o amor devia ser recíproco, mas a autoridade do homem devia ser
absoluta. A concepçãopatriarcal do matrimónio, em que a mulher estavasujeita
à autoridade do marido, foi um modelo que se foi aprofundando cada vez mais
durante os séculosdo Renascimento.Bárbaro advertia que a mulher devia amar
o marido, mas que também Ihe devia obediência; com efeito. de uma mulher não
se podia pretender dote mais importante dodque a obediência. Um inglês,l W.
Whately, no seu Zhe .Br/de .Bus/z,de 16171fazia a mesma recomendação: uma
mulher devia sempre reconhecerque o marido é seu superior e seu senhor. Cal-
vino considerava a submissão da mulher ao marido como um modelo da sua nor-
mal submissãoao próprio Deus.
As mulheres cujo comportamento era considerado absolutamente incorrigível
podiam ser espancadas:'Frei Cherubino sugeria esseremédio só quando as boas
maneirase a persuasãotivessemfalhado: se assim fosse,a mulher que errava era
espancadaruidosamente(não com fúria, mas com amor) para salvaçãoda sua
alma. Alguns chefes protestantes opunham-se a este costume, e na Genebra calvi-
nista aqueles que espancavam as mulheres podiam ser denunciados ao Concistó-
rio. Porém, na Inglaterra protestante, essehábito estevemuito em voga até tem-
pos recentes. A expressão inglesa <uule of the thumb>> (regra do polegar) refere-se
a uma norma tradicional da lei consuetudinária pela qual uma mulher só podia
ser espancada
com um pau cujo diâmetronão ultrapassasse
o de um polegar.
A própria literatura que traçava as linhas do casamentoideal definia também,
explícita e exaustivamente, a limitada gama de comportamentos sexuais aceitáveis
no casamento,único âmbito, aliás, em que a actividade sexual se podia tolerar.
O seu principal objectivo era a procriação, o que constituía quaseum refrão para
os eruditos: as relaçõessexuaisno casamentotêm como objectivo a concepção
dos filhos que podiam alcançar a salvação eterna e ocupar os lugaresvagos no
céu, tal como afirmava frei Cherubino. Um segundo objectivo da actividade
sexualno matrimónio, aceite por todos com relutância, era prevenir o adultério.
Se o homem ou a mulher estivessem dispostos a pagar o <<débito conjugal>>
quando lhes era pedido, o cônjuge apaixonado não cairia em tentação.Fossequal
fosse o objectivo, porém, o próprio acto sexual tinha de obedecer a certas regras :
devia verificar-se no lugar devido e em tempo devido, com os órgãos (//z deb/ro
vaso) e nos modos devidos (/n deóiío modo, e em todos os casos, não besrfa/crer).
Todas as outras práticas sexuais eram consideradasindecentes e'consequente-
mente proibidas e mesmo as actividades conjugais permitidas, se fossem pratica-
das comodemasiado entusiasmo, eram pecaminosas. O Chevalier de la Tour
Landry (1371)recomendavaàs filhas que se abstivessempelo menostrês dias por
semanapor amor à castidade conjugal; ou então, às sextas-feirase, caso fosse
possível, aos sábados, como sinal de respeito pela Virgem Mana.

201
uva criatividade do parto.

O tmbalho das mulheres

202
os trabalhos agrícolas. Reuniam os rebanhos,tratavam do galinheiro e recolhiam
os ovos, mugiam$asbvacas,transportavam a palha, plantavam e preparavam o
linho e o cânhamo, que depois lavavam, batiam, fiavam e teciam para fazerem
roupas e toalhas, tosquiavam as ovelhas, fiavam e teciam a lã para fazerem capas
e mantas, tratavam da horta, colhiam os legumes e as ervas para cozinharem.
Mas também não estavamexcluídasdos mais duros trabalhos dos campos: lavra-
vam, preparavam os feixes, apanhavam o feno,tespalhavam o estrume, semeavam.
faziam as colheitas, respigavam. As mulheres da aristocracia também se ocupa-
vam dos trabalhos agrícolas mas a nível organizativo, quando os maridos estavam
ausentes, o que acontecia frequentemente por causa da guerra. Em Fiança, na
Primavera e no Verão de 1689, a condessa de Rochefort inspeccionou as colheitas,
mandou reparar o moinho, inventariou 178 frangos e perus, dirigiu a cardação da
lã e a produção da seda, provou e armazenouo vinho e tratou da sua venda.
Tã] como acontecia com as do campo, as mulheres da cidade executavame
vigiavam os trabalhos de casa. Nas famílias suficientemente abastadaspara terem
móveis,linhos, baixelas e produtos alimentaresque era preciso escolhere armaze-
nar, as mulheres ficavam responsáveispor essastarefas. Giannozzo Alberti, um
mercador já idoso, interlocutor de Alberti em ///brf de//alamig/fa, inicia nas suas
novas tarefas a mulher com quem acaba de casar, mostrando-lhe a casa. Indica-lhe
os lugares onde se devem conservar os cereais, o vinho e os tonéis, e os serviços de
mesa, que Ihe compete administrar; mostra-lhe depois a prataria, as tapeçarias, as
roupas e as jóias, de que ele se ocupará pessoalmente,e por fim os seusdocumen-
tos e os Razões,coisas em que a mulher nem sequerdeverátocar. O papel que os
autores italianos do século xv confiam às mulheres na administração+doméstica
está documentado em termos idênticos nos <divros de conselhos>>protestantes dos
séculos xvi e xvn. Os deveres do marido exerciam-se fora de casa: competia-lhe
adquirir bens, dinheiro, víveres,negociar com os outros, viajar, discutir e vestir-se
adequadamentepara tais ocasiões.Os deveresda mulher eram, pelo contrário,
totalmente confinados ao círculo restrito das paredes domésticas : colher, conservar,
ordenar, reordenar, tomar conta dos bens, não desperdiçar nada, não dizer nada e
vestir-se para ser ;atraente aos olhos do marido.
Mas, nas casas a que estavam confinadas, algumasumulhereslisouberam
empenhar-senum tipo de trabalhos produtivos de alto nível e que exigiam uma
certa habilidade; o que lhes permitiu usufruir dos frutos de um considerávelsen-
timento de auto-estima. Entre as mulherestrabalhadorasdo Renascimento,as
mais privilegiadas eram provavelmente as esposase as viúvas empenhadas na pro-
dução ou no comércio do sectorQtêxtil. Nessasmanufacturas familiares, essas
mulheres dirigiam muitas vezesoutros trabalhadores -- filhas, aprendizes, jorna-
leiros -- e adquiriram assim um certo hábito de autoridade. Trabalhandoem
casa, podiam prover a outras necessidadesfamiliares e educar os filhos.i Na
Europa do Norte, em trança e na Inglaterra, mas sobretudo nas cidades alemãs
e flamengas, essas mulheres começaram a fazer parte das corporações, quer
ocupando o lugar dos falecidos maridos, quer por seu direito autónomo. Teorica-
mente, a lei proibia-as de comprar ou de vender bens, conceder ou obter emprés-
timos em dinheiro, ou fazer doaçõessem a aprovaçãodo marido ou do tutor;
mas, na prática, muitas mulheresconseguiamiludir essasnormas. Havia uma
grande varina'.=le de mulheres que se dedicavam aos vários ramos do comércio.
Em Estrasburgo, em meados do século xv, uma lista enumera mulheres que
desempenhamas funções de ferreiro, ourives, carroceiro, mercador de cereais,
jardineiro, alfaiate e tanoeiro. Em Paris, as fiadoras de seda podiam controlar

203
o trabalho dos aprendizes(embora a natureza e o número destetipo de empregos
fosseestritamente limitado). O marido e a mulher que se dedicavamem conjunto
à produção de rendas de algodão e de seda podiam contratar o .dobro dos apren-
dizes que o marido sozinho podia contratar; mas as viúvas dos cortadores de
vidro e dos joalheiros, a quem era aliás permitido continuar o trabalho dos mari-
dos, não podiam contratar aprendizes,porque se consideravaque era um tipo de
trabalho demasiadodelicado e perigoso para que uma mulher pudesseensina-lo.
Em Bristol, na Inglaterra, uma lei de 1461proibiu a contrataçãono sectortêxtil
de mulheres casadas,raparigas e mulheres em geral, a fim de prevenir o desem-
prego masculino ; exceptuavam-seas mulheres que já trabalhavam ao lado dos
maridos.
Enquanto o artesão ou o comerciante teve casa e loja no mesmo local, e
cinto a sua identidade económica foi garantida .por laços que o ligavam à
estrutura corporativa e ao patriciado urbano, também a sua mulher ou a sua
viúva tiveram acessoà vida económica pública. Quando, nos últimos dois séculos
douRenascimento, essas condições se modificaram e foram progressivamente
dando lugar a unidades económicas mais vastas e situadas longe de casa, a condi-
ção da mulher ressentiu-se negativamente. Foram estabelecidas novas restrições
legais para impedir que as mulheres possuíssem e transferissem as propriedades
ou usufruíssem das vantagens ligadas ao facto de pertencerem às associaçõescor-
porativas. As mulheres das classesmédias, por outro lado, não podiam. abando-
nar as suas casas para se dirigirem ao local de trabalho: esseera um destino reser-
vado às jornaleiras pobres. Aquelas tinham de se contentar com um trabalho
menos prestigioso executado em casa; estas foram obrigadas a sujeitar-se a um
trabalho que, ao sair da loja familiar, perdia prestígio.Assim, as mulheresde
todas as classesforam obrigadas a uma condição de dependênciae de penúria,
emboraGcontinuassem a trabalhar. Seria essa a condição da maior parte das
mulherestrabalhadorasao longo de toda a história.
Em ltália, à semelhançado que aconteciano Norte, as mulheresparticiparam
na produção têxtil e na organização dos ofícios, mas só nos primeiros.anos do
Renascimento. Por volta de 1300,um estatutoda corporaçãoda Lã, de Siena,
proíbe os seus membros de pagarem aos fiandeiros antes da ultimação do traba-
lho e dá ordem aos encarregados da corporação para verificarem se todos os tece-
lões, <<machose fêmeao>,têm os pentes do tear em ordem. Em Florença não era
permitido àssmulheres o acesso aos ofícios mais importantes; .podiam porém
fazer parte do dos Linheiros, menos prestigioso. As mulheres, aliás: foram excluí-
das dessasocupações na Alemanha, em Fiança e depois na Flandres. As restri-
ções do século xv concluíram-se, no século xvi, com a exclusão. As mulheres
excluídasdos ofícios têxteis urbanos encontraram trabalho na sericultura: o trata-
ment08dos bichos-da-seda, a extracção da seda crua, a tecitura do produto aca-
bado eram tarefas que podiam ser desempenhadasnas casasde campo, indepen-
dentementeteda economia citadina. Em certo sentido, essas ocupações
substituíram, nos séculosxvi e xvn, aquelasque se tinham ido perdendo no
domínio dos ofícios da lã durante o século xv. Mas tratava-sede ocupaçõesque
proporcionavam 'menossatisfaçãoe menor riqueza. A condição das camponesas
pobres que trabalhavam na sericultura não se podia comparar.à.função substan-
cialmente idêntica desempenhada pela companheira e pela herdeira do artesão do
Norte no domínio da indústria têxtil.
As mulheresaquetrabalhavam no âmbito da unidade produtiva familiar,
quer como administradoras,quer como comerciantes,atingiam uma posição
204
económica e socialmente elevada. As mulheres que trabalhavam fora do contexto
familiar não usufruíam de nenhum dessesbenefícios. As mulheresque trabalha-
vam a dias eram as deserdadasda Europa, que se deslocavamem busca de um
salário miserável como criadas, fiandeiras e carroceiras. Em França, onde as pos-
sibilidades.Ide emprego eram em grande parte de tipo agrícola, a mais vasta cate-
goria de mulheres era a que compreendiaas filhas dos pequenoscamponesesou
dos jornaleiros agrícolas, poucos dos quais eram capazesêdesustentar as suas
famílias. As primeiras vítimas da pobreza eram as filhas: os filhos herdavam o
pouco que havia para herdar e por isso elas encontravam-senuma posição de des-
vantagem. Desdea primeira adolescênciaaté à idade de casarem,se não morres-
sem antes de fome ou de privações, essasraparigas dedicavam-sea uma variedade
enorme de tarefas. Se tinham sorte, encontravamtrabalho em qualquer herdade
e adquiriam assim capacidades que lhes permitiriam ajudar um marido campo-
nês, ou servir em casa de burgueses ou de nobres. Ou então, emigravam para a
cidade à procura de trabalho em lojas ou oficinas, ou como operárias nas grandes
manufacturas têxteis. Onde quer que trabalhassem,iosseussalários montavam a
cerca de metade dos dos homens; na verdade,o salário das mulheres nunca foi
entendidocomo basesuficiente para a sobrevivência;e, de facto, não era sufi-
ciente. As mulheres anotavam num livro o que ganhavam, tentando arranjar um
dote com aquela atenção muito especialque o pobre dedica aoüseupequeno
monte de ouro. Aprendiam um ofício e punham de parte o salário, esperandoque
os anos de trabalho mal pago produzissem uma espéciede combinação de capital
e de capacidades que lhes permitisse arranjar marido. Pareceque em ltália a con-
dição das mulheres pobres era ainda mais desfavorecida. Se, nas cidades do Norte
da Europa, as mulherespodiam trabalhar como artesãsou lojistas, vendedoras
ambulantes ou no mercado, em ltália eram excluídas dessasocupações públi(ias.
A protecção da honra da mulher -- uma preocupação económica também, já que
o sucessodo casamento dependia de uma casticidade comprovada -- exigia, na
Europa do Sul, o seu isolamento.
Ricas ou pobres, as mulheres sempre fiaram e teceram: são as descendentes de
Andrómaca, que vigiava o trabalho dassuasaiasenquantoHeitor guerreava;de
Penélope, quelãfiava dia após dia, aguardando o regresso de Ulisses. Numa das
extremidades da escala social -- a do prestígio e do bem-estar económico -- esta-
vam as mulheresda Europa do Norte, membrosreconhecidosdas guildas. Na
outra extremidade, servindo em casa e nas lojas, estavamas pobres desenraizadas,
que já não se encontravam sob a protecção da família: as jornaleiras, as filhas
privadas de dote e obrigadas a depender de alguém, as solteironas(sp//zs/er, em
inglês: e o nome provém da arte da fiação -- <<fiar>>diz-se ro spf/z - que era a
sua ocupação inevitável) é, por último, as viúvas. Vejamos o caso das viúvas: a
mãe viúva do inglês William Stout viveu primeiro com um filho; dep.ois com
outro, fiando continuamenteaté quatro mesesantesda sua morte, ocorrida em
1716,com a idade de oitenta anos. Como filha, como esposae como viúva sem-
pre tinha fiado e nuncapensaraem deixarde o fazer.
Para algumas mulheres pobres, uma alternativa era a prostituição, que tam-
bém era, de facto, uma forma de trabalho das mulheres.Toleradana Idade
Média, a prostituição foi aceite e mesmo institucionalizada no Renascimento.
Toulon abriu um bordel municipal a partir de finais do século xlv. As prostitu-
tas de Montpellier, no Sul de França, foi atribuída uma zona especial da cidade,
de onde não podiam sair nem ser expulsas.Em meados do séculoxv, a protecção
real estendeu-seaos prostíbulos. A partir dessemomento, a prostituição autorizada

205
tornou-se regra em muitas zonas da Europa e as próprias prostitutas adquiriram
uma certa posição social. Essa indulgência oficial em relação à prostituição fal-
tou nos séculosseguintes.Tanto a ideologia do protestantismo como a da Contra-
Reforma tendiam a desencorajaraquilo que era considerado como imoralidade
sexual e a propagação das doenças venéreas e do crime nas proximidades dos bor-
déis reduziu o entusiasmo por tais:;instituições.
Apesar de a prostituição institucionalizada começar a estar em declínio na
maior parte da Europa em finais do Renascimento,o fenómeno continuava a flo-
rescernas sumptuosascidadesitalianas. Foi essaa principal razão que levou o
humanista inglês Roger Ascham a aconselhar que não se expusessemos inocentes
rapazesinglesesao contacto com os costumesimorais dos italianos, que ele
denunciou amplamente no seu influente Sc/zoo/mas/er(publicado postumamente
em 1570).Era o principal vício que figurava nas acusaçõesque os protestantes
faziam a Romã: vejam-se as acusaçõesfeitas a Júlio ll por Erasmo (que utiliza
como porta-voz S. Pedro, que fecha ao papa as portas do paraíso) no seu Ju//us
exc/zlsus.Havia algo de verdade nessascríticas. Em 1500,cerca de doze mil pros-
titutas constituíam uma boa porção da população total de Veneza,que montava
a 100 000 habitantes. No submundo, junto da ponte de Rialto, viviam as prostitu-
tas vulgares. Esplêndidos apartamentos acolhiam, pelo contrário,rias <<honradas
cortesãs>>que, elegantemente vestidas, com talento para a poesia e para a música,
entretinham viajantes galantes e patrícios locais (entre estes, havia muitos que
eram ainda solteiros por motivos de interessepatrimonial e que davam uma
importância particular à sua presença). Em 1570, o Ca/ó/ogo das pri/zc/pais e
ma&/zonrudas cor/esãkde He/leiamencionava duzentas e quinze. Entre elas há
duas das mais importantes poetisas italianas : Gaspara Stampa e Veronica Franco.
Esta, que fora iniciada na profissão por sua mãe, retirou-se por volta dos sessenta
anospara fundar um asilo para as prostitutas pobres.
Curiosamente, estas cortesãsbem colocadas,com os seus adornos e os seus
apartamentos de luxo, os seus talentos poéticos e os seusgrupos literários, os
alaúdes e os seus canil/zes, assemelhavam-seàs mulheres dos patrícios e dos
nobres,»que se foram progressivamente distanciando do mundo do trabalho
durante todo o Renascimento.Sujeitas a longas horas de ócio, dedicavam-sea
actividadesrepetitivas e inúteis (bordados e trabalhos de malha, recepçõese visi-
tas, jogos de cartas e mexericos) que, sem terem a aparência ou a marca do enge-
nho, podiam preenchero vazio dos seusdias. O seutrabalho, na realidade,era
reflectirem a honra do marido: uma honra que .seria lesada se o bordado da
mulher tivessecomo objectivo a utilidade prática ou a venda, mas que aumenta-
ria se hão tivesse senão um objectivo meramente decorativo. Segundo alguns
autores (como, por exemplo, os escritores ingleses Daniel Defoe e Mary Wollsto-
necraft), à medida que as mulheresforam perdendooFseupapel produtivo na
família europeia, converteram-senuma espéciede prostitutas legais. Entretanto,
para as classesabastadas,a dignidade do trabalho resgatavaas mulheres da ver-
gonha do concubinato; para as pobres, o fardo do trabalho era um tipo de escra-
vidão de que o .concubinatoera apenasum aspecto-

Filha, mãe:, viúva

As três pessoasdo sexo feminino -- virgem, mulher, velha -- são-nos familia-


res desde os mitos da Antiguidade. Essa divindade de três cabeças representa

206
também a condição da mulher do Renascimento. Para o homem do Renascimento,
as mulheres representamalgo de diferente em$função de cada fase da sua vida.
A mulher-mãe, fecunda e produtiva, garantia a riqueza e a ;honra da família.
A velha-viúva apareciacomo uma trabalhadora, uma dependente,uma mãe dege-
nerada que abandonara os filhos e a família, alguém que através de uma aprendi-
zagemmercenáriaadquirira riqueza ou, o que era ainda pior, como o inimigo iso-
lado da sociedade:a bruxa. A filha-virgem era um temível fardo ou um potencial
elemento de troca na negociação da riqueza, uma criatura completamente esque-
cida, ou um valor espiritual. No Purazko(XV. 103-105),Dante fiou da desventura
daquele pai que, ao nascer-lhe uma filha, tem ainda de arcar com o peso de um
dote. Os genealogistas das famílias nobres pouca importância dão às filhas e assim
nos informam acercado valor que lhes era atribuído na sociedadedo Renasci-
mento: o facto é que se limitam a omitir 30qo do total dos nascimentose registam
pormenorizadamenteapenas os nascimentos de indivíduos do sexo masculino.
Poucovalorizadasem si próprias, essasfilhas representavam o laço entre os
chefesde família. Eram elas quem preservavama descendênciadas famílias. Era
atravésdelas que se transmitia a riqueza, uma riqueza de que, aliás, não podiam
dispor a não ser para envergarem trajes de seda ou adornos guarnecidos de pedras
preciosas. Para essastarefas só lhes era exigida uma qualidade: a castidade,'.que
garante a legitimidade dos herdeiros. No século xvm, o erudito inglês:.Samuel
Johnson, para quem a.virgindade de Mana, veneradapela Igreja Católica ro:
mana, não tinha qualquer esplendor especial, explicou muito sumariamente o sig-
nificado da castidadefeminina: segundoele, é a condição de que dependea pro-
priedadeno mundo. Fora da família, a filha virgem era aindamais apreciada:
como religiosa, deixava de ser uma ameaçae passavaa ser um bem para a famí-
lia. Nos primeiros anos do século xv, Leonardo Giustiniani pedia a Francesco
Bárbaro para não se lamentar por uma das suas filhas ter decidido"fazer-se
monja: com as suasorações seria muito mais útil do que dando à luz herdeiros.
A filha-virgem, escolhida para desempenhar aquela que era considerada como
a sua missão fisiológica predestinada, a de gerar filhos; acabará por se converter
na figura de mãe-mulherantes de atingir o estadode velha-viúva.É esseo des-
tino de Eva. Todavia, para a filha-virgem a quem se destinavaum caminho dife-
rente, havia apenasoutra possibilidade autêntica: imitar o modelo de Mana, vir-
gem mesmo na maternidade, imutável na sua essência, eternamente imaculada.
A mulher do Renascimentoque se unia à comunidade dos santos e não à família
do marido era ao mesmo tempo privada de uma feminilidade madura e libertada
dos limites dessa feminilidade.

A monja
Para controlarem o excessode população feminina, os homens da cristandade
medieval podiam servir-se de um instrumento desconhecido na Antiguidade, na
Afia ou no mundo islâmico: o convento. Paralelamente às suas congéneres masculi-
nas, as comunidades religiosas femininas propagaram-se desdeos primeiros séculos
da era cristã. Com o passar do tempo, a população dessesconventos e os seus supe-
riores começaram a sair das classesmais elevadas,que podiam mais facilmente
reclamar o privilégio de um refúgio humano e útil para as suasfilhas inúteis. Patrí-
cias e mulheres nobres(levando um dote, embora mais pequeno do que o matrimo-
nial) encheram os conventos de toda a Europa. Na ltália do Renascimento, uma
larga percentagemda população feminina era constituída por monjas. Durante todo
o século xv, em Florença, Veneza e Melão, cerca de 13qo das mulheres eram monjas.

207
Em 1552, em Florença, 15 a 16qodas mulheresviviam nos conventos(e este
número não inclui as mulheres florentinas que viviam hos conventos fora da

$#ã@Ü Ü:lH:1?3%:li:m

seculo xvm. passando para 75%. O impulso para .o matrimónio era muito forte.

mulherespermaneceramno celibato que outros tinham escolhido para elas.


Muitas das que tinham entrado para o convento contra a sua vontade deixa-

Z$1É;mezaxUsn:sUa
Um lugar-comum dos tratados de educação sugeria que não se ensinasse as rapa-
rigas a escreverou a ler a nâo ser qzzese destinassema tomar votos. Nos conven-

$HNN:gÜ::
208
.nmamüm
elas, sobressaemmuitas representaçõessagradasescritas para as festas da Igreja,
que constituíam um dos poucos géneros através dos quais essasmulheres de con-
vento podiam exprimir a sua personalidade, ainda que um tanto indirectamente.
Uma dessasobras, Z'amor d/ vir/z), é um protesto contra a prisão conventual das
mulheres.Escrita em meadosdo séculoxví pela monja florentina Beatrice del
Será(1515-86),do convento dominiciano de San Niccolõ, em Prato, esta obra
apresentamuitas imagens de grutas, muros e torres onde as mulheres estão encer-
radas contra a sua vontade. As mulheres não nascerampara ser felizes, lamenta
uma das personagensdo drama, mas para seremmantidas prisioneiras, escravas
e submissas.Neste caso, a heroína é salva da prisão. A autora, porém, continua
a sofrer com a falta daquela liberdadeque Ihe foi roubada em tenra idade, à
espera de uma recompensa eterna pela sua paciência. Entretanto, não pode fazer
mais do que dirigir-se ao microcosmos das suas companheirasde prisão, cujos
sussurros alcançam o mundo da cultura masculino sem conseguirem modificar a
sua hostilidade.
A monja veneziana Arcangela Tarabotti dirige-se directamente ao mundo mas-
culino, protestando contra as autoridades citadinas por encorajarem a tomada de
hábito das raparigas sem dote. Essasraparigas não passavam de penhores, afirma
na sua irónica diatribe Z,a semp/feiraf/zga/zna/a(publicadapouco antes da sua
morte, em ]652), instrumentos de uma8política conscientetendente a prevenir o
empobrecimentodas famílias nobresque de outra forma não poderiam proporcio-
nar-lhes dotes adequados. No período em que ela escrevia, nos conventos venezia-
nos havia perto de 3000 mulheres, um número elevadíssimopara a época. No
século seguinte, estecostume começou a declinar. Nas suas memórias, o comedió-
grafo Carlo Goldoni fala dajdecisão que tomara em relação à sua sobrinha e
pupila, decidindo que fosse educadanum convento. Mas quando a rapariga disse
que assim se sentia <<entrecadeias>>,ele compreendeude súbito que a vida conven-
tual não era feita para ela. A sobrinha saiu do convento e casou-se.
Por mais comoventes que sejam, os casosdas mulheres encerradas no claustro
sem o seu consentimento e sem qualquer esperança não devem impedir-nos de ver
que muitas mulheres eram,;porém, monjas entusiastas.n O ideal da castidade,
extraordinariamenteapreciado pela teologia católica romana, e amplamente pro-
clamado nos púlpitos, atraía aquelasmulheres a quem estavavedado o acessoa
outras metas de umycerto valor social. Dado que não podiam normalmente
adquirir por si grandes riquezas ou grande poder, nem desenvolver gratificantes
capacidades de trabalho, artísticas ou intelectuais, a castidade, realizável através
de uma simples renúncia, representavaum apogeu pelo qual ainda podiam lutar.
A coroa da virgindade tornar-se-ia, no fim dos tempos, a coroa:dalialegria,
quando as 144 000 virgens se reunissem em redor de Cristo ressuscitado. Conse-
quentemente, as mulheres renegavam o seu corpo em todos os seus aspectos, a
fim de consumarem
plenamente
a suallunião
como divino.A autonegação,
o
jejum, a mutilação e a autodestruição convertiam-seno caminho atravésdo qual
muitas mulheresesperavamconquistar uma excelênciaque não lhes era permitida
no mundo secular. Na castidade, um triunfo da renúncia, as mulheres podiam
encontrar uma realização análoga à da mulher-mãe, tão apreciadana sociedade
secular,e, no matrimónio com Jesus,uma união sem obrigaçõesnem riscos car-
nais (ainda que, muitas vezes,com muitas imagenscarnais).
Se,no convento, as mulheresUpodiamassumir o papel de <<esposas>>indepen-
dentemente do mundo secular e dos seus perigos, também podiam empenhar-se
num trabalho produtivo semiiincorreremnos riscoseconómicose sociais que
209
ameaçavam as suas irmãs seculares..As monjas cuidavam dos pobres, dos doen-
tes, dos loucos e das crianças abandonadas: se não fossem elas a fazê-lo, quem
o faria? Que rica seara de satisfação podia colher a monja laboriosa atravésda
execuçãodessastarefas de importância vital! Podiam fundar escolase ensinar,
transmitindo/às geraçõesfuturas a cultura dos antepassados
com a riqueza e a
segurança comique as mães biológicas desempenhavam uma função análoga
quando falavam aos filhos. Se os seusinteresseseram de tipo intelectual (o. que
era bastante comum entre elas), podiam escreverobras de devoção, traduzir as
vidas dos santos do latim para a língua vulgar, para benefício das irmãs menos
cultas, e até compor versos e dramas de carácter religioso. Da privilegiada segu-
rança da comunidade conventual podiam enviar cartas aos grandes e aos podero-
sos da terra, exortando-os a uma obediência mais rigorosa. Uma minoria dirigia
as comunidades na qualidade de abadessasou prioresas,;:atingindo um poder
equivalente ao dos homens a um nível que lhes seria impossível alcançar na
sociedade.
Muitas mulheres procuravam paz e dignidade na vida religiosa. Desde criança
que Cecilia Gonzaga, filha do marquêsde Mântua e aluna do humanista Vitto-
rino da Feltre,desejavaabraçara vida religiosa.Depois de semprese ter oposto
aos seuspedidos e de ter tentado obriga-la a casar-seno interesseda família, o
pai acabou por permitir no seu testamento que ela realizasseos seus desejos.
Quando ele morreu, em 1444,Cecilia entrou para um convento de.que sua mãe,
e sua melhor amiga, fora benfeitora. Quaseum século antes, Sancha, mulher de
Roberto, o Prudente, rei de Nápoles, ajudara a causa dos franciscanos espirituais
com generosasdoações, desafiando corajosamente o papa. Quando o rei .Roberto
morreu, a viúva entrou para o convento da Ordem de Santa Clara, em 1344.Mor-
reu um ano depois e os seus despojos permaneceram no convento sem se decom-
porem nem exalaremmau cheiro. Entre as mulheresque se distinguiram nas
ordens religiosas do Renascimento, um lugar de especial relevo cabe a Santa Cata-
rina de Siena, que viveu no século xiv. Abnegada e incansavelmente (as suas
obras publicadas constamiide onze volumes)Bdirigiu uma grande comunidade
(incluída na Ordem TerceiraDominicana), cuidou dos pobres e dos doentes,cola-
borou na definição de um plano de cruzadacontra os turcos, empenhou-seem
restabelecero papado cismático em Romã, exortou os chefes da Igreja e os gover-
nantes seculares a libertarem-se da enorme cegueira em que, segundo afirmava,
tinham caído.
Na concretização dos seussantos objectivos, estasheroínas dos claustros do
Renascimento assumiram por vezesatitudes que poderíamos definir como suspei-
tas de um ponto de vista secular e pós-freudiano. A sua vida emotiva tendia para
o narcisismo, a anorexia, a histeria e para um violento erotismo centrado na
figura de Cristo. Uma análise mais profunda sugere-nosque essesdistúrbios (atri-
buíveis, em alguns casos, a doenças mentais crónicas) derivavam da pressão e da
coacção que caracterizavam a vida sexual e social das mulheres nos séculos passa-
dos. Num estudo de carácter estatístico, foi demonstrado que 42qo das santas,
contra 19qo dos santos do sexomasculino,experimentaramconflitos dessegé-
nero, derivados de experiências de carácter sexual. Se analisarmos os casos indi-
viduais, poderemosconfirmar os indícios fornecidos por essesdados. No sé-
culo xv, a italiana Angela da Foligno oferecia-senua a Cristo e bebia a água em
que lavara os pés dos leprosos. No mesmo país e no mesmo século, Elena de
Udine, depois de ter estado casadadurante vinte e seteanos com um membro da
família florentina dos Cavalcanti,quando o marido morreu retirou-separa um

210
convento da Ordem' dos Agostinhos, onde se entregou a uma severapenitência
cujos rituais imitavam a paixão de'fCristo: cingia a cabeçacom uma coroa de
espinhos de ferro, usava cordas pesadas em volta do pescoço e entregava-se às
práticas correntes de cilício e da flagelação. Catarina de Génova, que aos 16 anos
casara com um marido depravado, aprendeu a suportariias suas violências após
uma experiênciade conversãoque Ihe deu forças para transformar um tipo de
sofrimento físico num outro, entregando-sea práticas de penitênciade extrema
dureza dentro das paredes de sua casa: usava cilício, dormia sobre pregos, jejuava
e rezavaajoelhada durante horas sem fim.
Na maioria dos casos, a experiência das mulheres que entravam e permane-
ciam voluntariamente'anosconventos era diferente da dos homens que tinham
escolhido uma vida semelhante. As ordens femininas eram de clausura,Émesmo
quando as ordens masculinas correspondentesonnão eram. Para além disso, as
monjas e as freiras eram colocadas sob uma supervisão masculina, que limitava
o seu direito a autogerirem-see a executaremautonomamente a missão sagrada
que tinham escolhido livremente. As Clarissas, a ordem.lgémea fundada por
Santa Clara(que esperarapoder agir, como os seusirmãos, no cenário tumul-
tuoso da sociedadeurbana) foram isoladas do mundo logo após a sua fundação.
E se viviam isoladas e enclausuradas, só podiam ocupar-se dos outros dentro dos
muros do convento e ensinar apenas as crianças que eram acolhidas no mosteiro,
mesmo nas localidades citadinas.
Três séculos depois, Santa Angela Merici fundou uma nova ordem feminina
não conventual (uma derivação da confraria masculina do Divino Amor). O seu
objectivo era empenhar as mulheres que viviam no mundo secular em actividades
educativas e em obras de beneficência. No entanto, as Ursulinas acabaram por ter
o mesmo destino das Clarissas. Em 1612,o papa Paulo V decidiu que a ordem
fosse encerrada no claustro sob a regra agostiniana. Em 1609, a dissidente inglesa
Mary Ward, da ordem jesuíta (que não reconhecianenhum superior masculino a
não ser o papa) tentou, e durante um certo período com êxito, estabelecerem
toda a Europa uma redede escolas-- a que deu o nome de Instituto da Beata
Virgem Mana --elreservadasàs raparigas que, em 1631,contavam 500;alunas.
Como no caso de Angela Mereci, as mulheres que trabalhavam na ordem de Mary
Wãrd não tinha de entrar para o convento,mas também sofreramentravespor
parte da igreja oficial. Os opositores de Mary Ward apelaram para o papa, quei-
xando-sedos seuscomportamentos agressivosem questõesde carácter espiritual
e, em 1624,ela própria apelou para o papa Urbano Vlll; a ordem foi suprimida
em 1629 e Mary Ward, que opas resistência, foi declarada herética e cismática.

Fora do claustro: piedade,bruxaria e protestantismo

As mulheresque, por qualquer motivo, não viviam nos conventos-- viúvas


ou mães, pobres$que não podiam pagar umi;dote conventual, aspirantes a um
género diferente de experiência religiosa -- encontravam outras oportunidades
para exprimirem a sua fé religiosa fora do claustro. Uniam-se às multidões que se
ajoelhavam durante horas na praça para ouvir pregadores como S. Bernardino ou
aglomeravam-seatrás de Savonarola. Participavam nas inúmeras procissões paro-
quiais organizadas para implorar a cessaçãodas epidemias e das carestias, ou
para celebrar as festas. Assim, no interior da sociedade secular, essasmulheres
visavam muitos dos objectivos das religiosas conventuais. A mística inglesa do

211
derramava lágrimas por criaturas vulgares como ela, às quais dedicava a sua vida,
identificava as suas relações com o Salvador e com as pessoas de quem cuidava
com aquelasque mantivera na grandefamília em que decorreraa sua vida de

H
M
mentes de enriquecimento espiritual e de educação que se opunham às institui-
ções tradicionais. Protegidas pelos Imiãos da .Vida Comum e pelo seu fundador,
Gerhard Groote, as Irmãs da Vida Comum tinham objectivosidênticos.
Menos interessadasnas actividades caritativas do que na contemplação e na
comunhão com o divino, houve mulheres qué perseguiram objectivos pessoais
de ordem religiosa sem nenhuma conventualização formal. A veneziana Elena

ordem. No seu leito de morte, Elena Cornaro foi assistidapor um monge erudito
que fora seu director espiritual e que mais tarde oficiou o seu funeral, que se
desenrolou, por vontade da defunta, segundoo rito beneditino. Esta mulher, que

IÉH:Üm! : l:H:lW:lã
e limitado ao mesmo tempo uma grande parte das suas antepa?sadas. . . .* ..
Não só fora do claustro, mas também fora das normas aceitesda vida reli-
heréticas e as bruxas
giosa, nos séculos do Renascimento, estavam as mulheres
que, segundodizem os seusacusadores,eram em grandenúmero. Os finais da
Idade Média tinham sido perturbadospela presençade movimentos.populares
heréticos ou pouco ortodoxos em que as mulheres tinham desempenhado uma
função de primeiro plano: valdenses,albigenses,irmãos do livre espírito: begui-
nas, begardos,lolardos e hussitas. Em todos essesgrupos, alguns dos quais con-
tinuaram a existir no Renascimentoemboranão Ihe tivessemsobrevivido,as
mulheres exerciam frequentemente papéis de certa importância. Ao mesmo

212
tempo, essesmovimentos figuraram entre as vítimas da Inquisição e da repressão.
As grandes realizações da arte e do espírito que caracterizaram o Renascimento
não conseguiramimpedir que esteperíodo vivesseno medo do desconhecidoe na
continuação da imposiçãobviolenta da ortodoxia. Mais, ifoi precisamente üno
Renascimentoque a intolerância atingiu o seu ponto mais alto nos processosda
Inquisição (especialmenteem Espanha) contra os judeus e os muçulmanos con-
vertidos, e o medo atingiu o seu auge no terror da feitiçaria, cujas vítimas foram
sobretudo mulheres. Mesmo não tomando em consideraçãonenhum outro indí-
cio, a brutalizaçãodo sexofeminino por parte da Igreja inquisitorial mostra que
o Renascimento não é de facto umüRenascimentoádasmulheres.
Nascida nos Alpes,Ha bruxaria propagou-sesobretudosna Europa no
século xvl e, antes de desaparecer com o Iluminismo, teve uma última explosão
na Nova Inglaterra do século xvn. A maior parte -- de 70 a 90qo -= das pessoas
acusadase condenadaspor bruxaria eram mulheres(e, normalmente, viúvas ou
núbeis, em suma, mulheres sem um protector masculino). A palavra ma/q/7ca,
convémnotar, é um substantivofeminino. Na opinião de peritos como Heinrich
Kramer e Jacob Sprenger, autores do manual dos caçadores de bruxas, o .4Za//ez/s
.A4a/e/7carz/m
, as mulheres eram mais predispostasà bruxaria, já que são cruéis,
falsas, instáveis, estúpidas, apaixonadas e carnais (<<insaciáveis>>).
O erudito Jean
Bodin (historiador, jurista e teórico político) aponta ainda a cobiça como causa
da bruxaria feminina e diz que por cada bruxo do sexo masculino havia cinquenta
bruxas. Para se provar a veracidadede uma acusaçãode bruxaria utilizavam-se
todos os processos.8A acusada era interrogada. Nessa altura, algumas suspeitas
confessavam, por acabarem mesmo por acreditar(devido ao seu estado físico, por
auto-sugestão ou por persuasão) que estavam de facto possuídas pelo demónio.
Outras não confessavame eram torturadas. Se a tortura não conduzia à confis-
são, as acusadas eram torturadas de novo, repetidamente, até confessaremlque
eram culpadas de bruxaria ou até a sua <<teimosia>>
tornar evidente a sua <<culpn>.
As execuçõescapitais e os sofrimentos foram muitos.
Entre 1480 e 1700foram mortas mais mulheres por bruxaria(normalmente,
queimadasvivas) do que por todos os outros crimes. Em toda a Europa foram
levadas a julgamento cerca deg100 000 suspeitas e o número das condenadas é
pouco inferior. No reino de Inglaterra (onde a tortura era proibida por lei) foram
mortas cerca de 1000pessoas, e na Escória mais de 4000. Vinte e duas aldeias no
território de Trier queimaram 368 mulheres acusadas de bruxaria nos seis anos
que medeiam entre 1587 e 1593, e, em 1597, na zona de Toulouse, foram queima-
das 400. O cardeal Allizzi conta que, em 1631, assistiu à elevação, no exterior das
muralhasrtde muitas cidades alemãs, de numerosos postes, ondelldepois eram
amarradas e queimadas muitas mulheres.
As bruxas italianas não foram em grande número, mas houve mulheres italia-
nas que foram acusadase por vezesiicondenadas por outros crimes contra a
Igreja. Documentos sicilianos referentesao período que medeia entre 1540e 1572
mostram que em relação aos crimes perseguidospela Inquisição os culpados eram
sobretudo mulheres, acusadas de judaizantes(50qo mas a este respeito, os docu-
mentos detêm-se em 1549), bígamas (39%) e da prática de magias ilícitas (29qo).
Em Nápoles, de 1564 até 1740, 34qo de todos os que foram processados pelo
crime de magia ilícita eram mulheres. No Friuli, entre 1596 e 1685,as mulheres
eram acusadas de preparar filtros de amor, vários feitiços e curas mágicas(prática
em que o seu número é superior ao dos homens). Surpreendentemente,porém,
segundo um esquema mais característico da Europa do Norte, estão presentes

213
numa proporção esmagadoraentre os suspeitosde bruxaria: há uma relação de
cinco mulheres para um homem acusadono período entre 1506e 1610e de seis
mulheres para um homem entre 1611e 1670. A comparação de todos estes dados
mostra todavia que os italianosgeram bastante moderados na perseguição das
mulheresem matéria de ortodoxia.
No protestantismo, as mulheres com capacidade e determinação para perse-
guirem objectivos religiosos encontraram novos espaçosde liberdade que não
tinham conhecido na velhaElgreja. O protestantismoÓincitava cada crente a uma
relação directa e pessoal com Deus servindo-se das escrituras. Assim, as mulheres
que sabiam ler encontravam quer no Antigo quer no Novo Testamento inspiração
para exerceremum papel relevanteno domínio da procura espiritual. lam à igreja
para ler e compreendere, como membros da congregação,pam cantar (os corais
eclesiásticosda época estavamlimitados às vozes masculinas). Todavia, as mulhe-
res eram ainda excluídasdas discussões teológicas.De facto, aceitava-seque
pudessemrecebere partilhar a inspiraçãodivina e a misericórdiade Deus,mas
ainda não se aceitavaque procurassemdefinir a doutrina ou guiar as novas insti-
tuições da Igreja reformada. Os homens subiam ao púlpito; as mulheres visita-
vam os doentes. Catherine Zell, mulher do ex-padree neoluterano de Estrasburgo
Matthew Zell (excomungado em 1527 precisamente devido a esse casamento),
simbolizou a DOVãfigura da mulher protestante activa que tenta ultrapassar os
limites impostos aoáseu sexo no contexto da nova religião. Visitava tanto os
pobres como os ricos, cuidava dos doentes,enterravaos mortos, enquanto as
outras mulheres enfeitavam as suas casas e pensavam nas recepções. Em sua casa
recebeu luteranos, zwinglianos, partidários de Schwenkfeld, e anabaptistas, como
ela própria escreveuem tom de desafio a Ludwig Rabus de Memmingen: um opo-
sitor do seu ecumenismo: a reforma trouxera um sentimento de liberdade, não de
conformismo. No funeral do marido, Catherine falou em público e, embora não
se aventurasseem discussõesteológicas,ilustrou o seu discursocom exemplos
extraídos das Escrituras.
Também Anne Hutchinson, uma imigrante inglesa na nova colónia de Massa-
chusetsBay, enfrentou pessoalmenteos limites impostos à espiritualidadedas
mulheres no seio do puritanismo protestante. Chegada a Boston em 1634, precisa-
mente para seguir a fé reformada dos puritanos que tinham optado pelo exílio,
acreditava ainda mais intensamente do que eles na aliança de graça estipulada
por Jesus.A sua teologia da graça era tão radical que a levavaa recusartotal-
mente a eficácia das obras no caminho da salvação, caindo assim na heresia do
antinomismo. Enquanto a sua heresiapermaneceuum delito privado, conseguiu
evitar o conflito com os ministros da comunidade,mas Anne Hutchinson tam-
bém ensinavaa suadoutrina, por vezesa sessenta e mesmoa oitentaouvintes,
homens e mulheres, reunidosono seu salão particular. Levada perante a Corte
Geral, defendeu o papel público que tinha desempenhadoe, citando as Escritu-
ras, travou uma autêntica batalha de argumentos com os eclesiásticos masculinos
que a acusavam.A sua defesasó caiu por terra quando ela afirmou ter tido uma
revelaçãodirecta de Deus, apelando assim para uma revelaçãoextra-escriturasda
verdade religiosa. Foi exilada para Rhode lsland, que era um refúgio para as víti-
mas, de ambos os sexos, dos defensores da ortodoxia. As mulheres de alguns des-
tes grupos dissidentes pretendiam maiores vantagens em consequência das suas
relações privilegiadas com Deus. Os anabaptistas eliminaram as distinções basea-
das no sexo e no seu clero estavamincluídas as mulheres.dAsmulheres quakers
podiam pregar e ensinar com a aprovaçãodos seuschefes.Segundoelas, homens

214
e mulheres tinham sido igualmente criados+à imagem;;e semelhança de Deus e,
embora sujeitas ao homem em consequência do pecado, deviam ser de novo ele-
vadas à mesmadignidade dos homens em virtude da restauraçãode Cristo. Mas
as autoridades seculares não estavam de acordo. Em 1653, duas mulheres quakers
que se tinham consideradotl suficientemente dotadasElpara ousarem pregar em
público foram chamadasà presença:pdo
major de Cambridge (em Inglaterra) e
condenadas ao açoitamento.
O protestantismo nãoÍatraiuSmuito os italianos, homens$emulheres. No
século xvi, em todas as regiõesde ltália onde foram levados a efeito inquéritos
sistemáticos, menos de 4qo dos suspeitos de protestantismo eram mulheres. Mas,
como o movimento reformista se impôs no seio da própria Igreja de Romã, rece-
beu um impulso directo de algumas damasda nobreza.A duquesade Ferrara,
por exemplo, Renata de França (filha do rei Luís Xll, de trança, e excluída da
linha da sucessão)defendeu a nova fé, embora sem a aceitar abertamente.Nos
anos trinta do século xvl, deu asilo na sua corte a crentesitalianos e a exilados
franceses.A poetisa Vittoria Colonna,tjfamosa pelo seu neoplatonismo eàpelas
relaçõesque mantinha com muitas eruditos, sentia-seigualmente atraída pela
reforma, embora tivesse sido dissuadida de aderir a ela pelo cardeal inglês Pole.
Houve, porém, algumas mulheres que se converteram à nova fé(e que foram
reduzidas ao silêncio em 1542, ano em que foi instituída$a Inquisição romana).
Entre elas, algumasÊoptarampelo exílio,gnomo lsabella Bresegna,por exemplo,
que morreu na Suíça, ou Olimpia Morata, que morreu na Alemanha. Renata e
Olimpia, a dama a quem a lei tinha negadoo trono que por direito Ihe cabia, e
a erudita de Ferrara exilada em casa do seu marido protestante, constituem um
testemunho do poder de impacte que o protestantismo tevenas mulheres perten-
centes às classes mais elevadas da sociedade.
Margarida d'Angoulême (e, após o seu casamento, de Navarra), irmã de Fran-
cisco 1, rei de França, era parente de Renata. Educada ao lado de seu irmão, Mar-
garida era provavelmenteainda mais culta do que ele,mas, como muitas mulheres
de sanguereal ou nobre, não podia assumiras funçõesmais elevadasnansua
pátria. Ponderadae inteligente, reuniu à sua)volta os principais humanistase
proto-reformadoresdos inícios do séculoxvi em Paria (JacquesLefêvresd'Eta-
ples, Guillaume Briconet, Guillaume Budé) estendendoa sua protecção(tinha
suficiente poder para exercer semelhante mecenatismo) a algumas vítimas poten-
ciais da ortodoxia católica. Sua irmã, a extraordinária Jeanned'Albret, tornou-se
uma campeã da causa dos huguenotes, como aliás fizeram algumas damas em
França, desde 1550 até aos anos oitenta do século. De sangue real, Jeanne era
mãe de Henrique de Navarra, que mais tarde subiu ao trono como Henrique IV
de França. Na sua região -- Béarn e Navarra -- difundiram-se os calvinistas, que,
vindos de Genebra, encontravambom acolhimento para a sua causa.
As mulheres francesasque não pertenciam à aristocracia e que se tinham con-
vertido ao protestantismo,divertiam-sea enganaro clero de cuja autoridade a
nova doutrina as libertava. O Z,furo dos -A4arf#/os, de Jean Crespin, mostrava as
mulheres huguenotes discutindo com bispos, monges e teólogos. Recrutadas em
grande parte nas classesartesanaise dos ofícios, nem todas essasmulheres eram
muito instruídas, e aquelas que podiam citar as Escrituras constituíam uma
minoria. O calvinismotestavabem enraizadoem Lyon nos anos setentado
séculoxvi, quando uma grandeparte das mulheresprotestantesainda não era
capaz de escrever o seu próprio nome. Na realidade, a maioria das mulheres cultas
da cidade permaneceram fiéis à velha fé: a mais notável foi a poetisa Louise Inbé.

215
As mulheres e as igrejas: liberdade e coacção

No cristianismo do Ocidente, as instituições da Igreja Católica Romana, e


eventualmente, da protestante, proporcionavam um ambiente paralelo ao da famí-
lia, no seio do qual as mulherespodiam viver. Sob um certo aspecto,nasinstitui-
ções religiosas, as mulheres encontrarambespaçosconsideráveis de liberdade e
oportunidades para se exprimirem. Escreviam e falavam das suas experiências,
formulavam ideias acerca dos dogmas e das organizações religiosas, dirigiam ins-
tituições de caridade e escolas e alcançavam uma posição6de grande relevo e
poder. Mas, por outro lado, as instituições religiosas também refreavam a vitali-
dade humanaEe o peso dessascoacçõesrecaía sobretudo nas mulheres. Muitas
monjas eram encerradas no convento contra a sua vontade para benefício dos
seus irmãos e irmãs: não sabemos o seu número exacto mas eram numerosas.
Muitas mulheres reprimiam os seusapetites sexuais e alimentares, o seu desejo de
amor, até um extremo que consideramos<<anormal>>
; voltavam as suas pulsões
fisiológicas elas suas paixões espirituais para olícone da Igreja. No entanto,
houve muitas mulheres que combateram a Igreja e, ao mesmotempo, a própria
ordem social com actividades não convencionais e autodestrutivas. Outras não
ofereciam semelhante resistência mas foram igualmente vítimas de severoscasti-
gos. lãl como os homens, as mulheres foram martirizadas pela causa do protes-
tantismo ou do catolicismo e submetidasa torturas terríveis. A experiência reli-
giosa das mulheres do Renascimentoreflecte o seu difícil papel na sociedade.

A alta cultum: mulheres guerreiras e minhas

A civilização que com admiração definimos como do Renascimentoassenta


nas realizaçõesda alta cultura desdeo séculoxiv até ao séculoxvn. Nessaele-
vada cultura do poder,;ida beleza e das ideias participou um número restrito de
homens e uma quantidade ainda menor de mulheres. As poucas que tiveram êxito
adquiriram fama pelo exercíciodo poder ou do mecenatismo,ou devido ao seu
saber egaosseus escritos (ou por outras capacidades), Todavia, para adquirirem
essafama, tiveram de defrontar-se com a visão profundamente negativa das capa-
cidades femininas, que era própria das figuras masculinas mais autorizadas. Con-
quistaram o respeito um tanto relutante dessesseverosjuízes, que, para as definir,
criaram um novo modelo de existênciafeminina, alternativo ao de Eva(a mulher
na família) ou de Mana (a mulher no claustro): essemodelo é o da virago asse-
xuada, uma mistura de virgem e de velha, um homem-mulher perigosamente
hábil: ayamazona.
Este modelo apresenta-se
com maior clarezanas mulheresque exerceramo
poder, militar ou político, antiga prerrogativa do outro sexo.Envergando arma-
duras masculinas, a virgem e mística camponesaJoana d'Arc combateu pelo seu
rei provocando admiração e medo nos seuscontemporâneos.E um exemplo de
mulher que tenta conquistar o poder da maneira mais directa. Exaltada nas épo-
cas posteriores, Joana foi condenada, no seu século, a morrer na fogueira como
uma bruxa. Dadas as normas dominantes, a sua morte, enfrentadacom a mesma
coragem com que agia, provocou grande alvoroço. Dadas as normas dominantes
(já que a sua pobreza e a sua pureza, embora evidentes, não a protegiam), era ine-
vitável que tivessede sofrer por ter tentado comportar-se como um homem. Na
realidade, na época feudal, muitas damas nobres tinham por vezes agido em vez

216
dos maridos, quando estesestavamausentes,administrandoou defendendoos
seus domínios. Mas em Joana d'Arc o elemento de novidade está precisamente na
motivação autónoma que a levou a agir: não agiu como substituta de um poder
masculino, mas com plena autonomia. No mesmo século, a italiana Caterina
Sforza foi uma personagemtalvez um pouco mais tradicional mas igualmente
corajosa e independente. Primeiro ao lado do marido, Girolamo Sforza, e depois
sozinha, quando ele foi assassinado, defendeu com grande altivez os interessesda
família e as cidades de Imola e Forli, pelas quais se dispôs a sacrificar os seusseis
filhos. Por fim, enquantocomandavaa defesadessasfortalezas,foi derrotada,
talvez violentada e conduzida sob prisão a Romã por César Bórgia.
Embora estas duas mulheres tenham assumido funções militares, não conquis-
taram o poder. SÓmuito poucas, mesmo entre as das mais ilustres famílias nobres
ou reais, o conseguiram. As duas maiores excepçõesa esta regra foram a italiana
Catarina de Médias, viúva de Henrique 11, rei de França (e regentepelos seus
dois sucessores, Francisco 11, rei de Fiança (e regente pelos seus dois sucessores,
Francisco ll e Carlos IX) e lsabel pudor de Inglaterra. Ambas conseguiram forjar
o modelo'irenascentista
do soberano-mulher,
queexprimiaa ambiguidade
dos
papéis quefidesempenhavam. A primeira adoptou pessoalmenteo símbolo de
Artemisa, uma das mulherescastase guerreiras,mas também conhecida pela sua
fidelidade à memória do marido prematuramente desaparecido, Mausolo. Com
esse símbolo podia agir com decisão ou demonstrar piedade pelos soberanos
varões, para quem constituía, por sua vez, um instrumento de transmissão do
poder. Com a sua grande capacidade para construir uma imagem pública, lsabel,
mais independentee mais audaz do que Catarina, apresentava-seaos seussúbdi-
U
tos sob uma variedade de figuras femininas: Astreia, Débora, Diana. Ao mesmo
tempo, para conseguir apoios, nos momentos2decrise, para essefenómeno sem
precedentes que era a existência de um soberanoodo sexo feminino, difundiu ima-
gensandróginasda sua função (homem-mulher,rainha-rei, mãe-filho) e altiva-
mentedesignava-se a si própria como <<príncipe>>,com um corpo de mulher e o
coração de um rei. Perfeita díade em si própria, lsabel nunca casou. Insistia no
seu direito a governar e foi a única mulher que teve poderes absolutos durante
todo o Renascimento.
Nos finais do século xvi, uma grande parte da cultura da corte pudor girava
em volta dessa figura de virgem viril, nome pelo qual ainda hoje é identificada:
de facto, continuamos a falar de cultura isabelina. Poetas,comediógrafos e erudi-
tos da épocabcomentaramsubtilmente nas suas obras semelhanteprodígio. O
principal foi semdúvida William Shakespeare;
nas andróginasheroínasde algu-
mas das suas comédias podem encontrar-se figuras da soberana, avisadíssima e
desmedidamente exaltada. Essas personagensafemininas -- rapazes vestidos de
mulheres que, por sua vez, se vestem amiúde de rapazes para criarem seresde
identidade sexual cada vez mais confusa --8fascinam e apresentam-secomo a
própria rainha.HOgénio shakespeariano
intuir até que ponto o fenómenoda
rainha-rei violava profundamente a ordem natural das coisas. No aparentemente
burlesco So/z/zo de C/ma .No/íe de Herõo, fala da anormalidade de uma ordem
política dominada por uma mulher, quando a amazona Hipólita, uma figuração
de lsabel, desposano fim o legítimo detentor do poder. Como Joana d'Arc, lsa-
bel era considerada (e considerava-se)uma amazona e, na consciênciageral da
época por ela dominada,será profunda a sensaçãode incómodo provocada por
uma virgem armada, uma fêmea racional, uma força emotiva que não podia ser
limitada pela ordem natural das coisas.

217
Era raro que uma mulher herdasseo poder,como aconteceucom estasduas
rainhas. De facto, para que isso acontecesse,era necessário que tivessem morrido
todos os pretendentesmasculinos. No entanto, se a maior parte das mulheres das
classesdominantesnunca chegoullaconquistar o poder, algumasconseguiram
partilhar certas prerrogativas da soberania. No vibrante ambiente artístico e inte-
lectual do Renascimento,e especialmenteem ltália, isso significa concretamente
que exerceram o poder do mecenatismo. As mulheres que não governavam efecti-
vamente nem comandavam com os seus exércitos as forças da destruição, podiam
todavia, com a sua autoridade e o seu dinheiro incentivar o pensamentoe a cul-
tu
Uma dessasfamosasmecenasfoi lsabella d'Este, filha do duque de Ferrada,
irmã de Beatrice (que desempenhouum papel análogo,embora um pouco mais
tímido, em Milão) e de Alfonso, Ferrante,lppolito e Sigismondo?com os quais
rívalizou na fama. Educada por Battista Guarini, o pedagogo filho do grande
humanista Guarino Veronese,dominava o grego e o latim, o que era sinal de um
sério programa de estudos, sabia tocar alaúde, dançar e manter uma conversa bri-
lhante. Casada com o senhor de Mântua, lsabella presidia às festase às represen-
tações da corte, protegia artistas, músicos e estudiosos,encheu as bibliotecas de
elegantesvolumes, mandou ornar toda a corte com estátuas,escrínios, relógios,
mármores, alaúdes, baixelas, roupas, jogos de cartas e decorou-a com pinturas,
ouro e jóias. Ariosto, Bernardo da Bibbiena e Gian Giorgio Trissino contavam-se
entre os seus favoritos. lsabella estudava os mapas geográficos e a astrologia e
tinha frequentes discussõeseruditas com o bibliotecário ducal Pellegrino Pris-
ciano. O srz/dío/o e a prof/a, aposentos sumptuosamente decorados do palácio
ducal, são os seusmonumentos de glória. Para estese outros projectos desenhou
esquemas alegóricos, depois de ter consultado os seus conselheiros humanistas.
Tendo governado brilhantemente quando o marido esteveprisioneiro durante.as
guerras que agitaram a ltália depois da invasão das forças francesas, espanholas
e imperiais, foi recompensadacom o desprezopela maneira corajosa como exer-
cera a sua autoridade e viu-se reduzida a exprimir os seus grandes dotes como
mecenas.
A rica dama veneziana Caterina Cornaro foi expulsa do mesmo modo após
um breveperíodo de soberania. A sua cidade, depois de ter usurpado o rico.reino
insular por ela herdado,recompensou-a
com a minúsculailha de Asolo. Nessa
corte, Caterina Cornaro reinou como uma rainha sobre um selecto grupo de lite-
ratos, entre os quais figurava Pietro Bembo, que, nos .4so/í, nos dá testemunho
das actividadesa que Caterina presidia. A sua corte evocavaaté certo ponto a de
Urbino descrita por Baldassare Castiglione. Em O Cortesão, as guias e as inspira-
doras da discussão acercado comportamento mais adequado a ambos os sexos
são mulheres: a duquesa Elisabetta Gonzaga e a sua amiga, Emilia Pia.
Em ltália, onde as cortes abundavam como centros de riqueza, de actividade
artística e de discursos, as mulheres inteligentes tinham muitas oportunidades
para desempenharemo papel de mecenas.Em toda a parte, praticamenteem
todas as cortes onde havia suficiente riqueza e segurançaparaãpermitir esse
género de actividades, as consortes dos príncipes foram mecenasdas artes e da
cultura.ÇJá falámos de Margarida de Navarra, irmã de Francisco 1, de trança,
que foi autora de um .f;rep/amara/ze que, sendo ela própria uma pensadora origi-
nal, reuniu à sua volta um cenáculo de eruditos. Antes dela, Ana da Bretanha,
mulher do rei Carlos Vlll, encomendarauma tradução do Z)e c/arü mu/fer/bus,
de Boccaccio, enquanto na sua corte se reuniam inúmeras mulheres instruídas

218
e floresciam os debates sobre o amor platónico. Em Espanha, a extraordinária
lsabel dirigiu a reforma religiosa e a vida intelectual. Em Inglaterra, sua filha,
Catarina de Aragão, a primeira mulher de Henrique Vlll, depois de repudiada,
apoiava a obra de Erasmo, Juan-Luis Vives e Thomas Elyot. Uma geração antes,
Margaret Beaufort (de quem já falámos como mãe do primeiro soberano pudor
do país) fora, por assimdizer, o protótipo da mecenasrealceda mulher culta
inglesa.Na corte dos antecessores de seu filho, Eduardo IV e Ricardo lll,
rodeara-se de menestréis e eruditos, subvencionara a arte da imprensa, então no
início, instituiu cátedrasde teologia em Oxford e Cambridge (onde fundou tam-
bém dois colégios), orientara a educaçãode seufilho e dos seusnetos e traduzirá
do latim a obra devocional The .Aürror olf Go/d of //ze Si/!Áu/Sou/.

A educação das mulheres

As mulheres que exerceramo mecenatismo das artes e das letras no Renasci-


mento estavampreparadas para desempenharessepapel e tinham requintados
padrões de gosto. A instruçãoE:quereceberamera extraordinária. As mulheres
pobres, como os homens pobres, não tinham porém nenhuma instrução, embora
muitos homens e algumas mulheres tivessem uma certa preparação em determina-
dos ofícios. As mulheres das classesmédias e altas eram porém iniciadas numa
cultura feminina particular, que as ensinavaa cumprir funçõesdomésticas:tra-
tava-se de um regime que abrangia os trabalhos de agulha, a literatura devocional
e a prática do silêncio e da obediência. Essetipo de educaçãotinha um objectivo
duplo: em primeiro lugar, levar a jovem a desenvolveros traços de carácter mais
adequados a possíveis casamentosbde cariz patriarcal; em segundo lugar, ins-
trui-la nas funções mais úteis da economia doméstica.
O .De i/zsf//u/fome
Joemf/zaec&r&ria/zede 1529,de Juan-LuasVives, que cir-
culou em cerca de quarenta edições e foi traduzido para espanhol, inglês, holan-
dês, francês, alemão e italiano, tornou-se a principal obra do século xvi sobre o
tema da educação da mulher, oferecendo uma síntese de todas as sugestõesque
eram dadas sobre o assunto. Não existem defeitos congénitos na mente das
mulheres que impeçam a obtenção do saber, afirmava Vives. Todavia, as mulheres
devem ser atentamente postas de sobreaviso para não assumirem comportamentos
impróprios porque os principais objectivos da sua educaçãoeram a honestidade
e a castidade. Esta advertência paradoxal, paradigmática da posição do huma-
nista masculino em relação aos problemas da educação da mulher, realça a neces-
sidade de proporcionar às mulheres uma certa instrução,almasavisa que essa ins-
trução não deve ser excessiva. O que é apropriado são as Sagradas Escrituras, as
boas maneiras e preceitos morais simples, mas é inoportuno o ensino da ciência,
da filosofia e da retórica. Rezar,ler, trabalhar são ocupaçõesúteis que podem
preservardo ócio, mas não devem ter um objectivo secular. São actividades que
devemmanter a jovem ocupada enquanto está em casa; e não deve sair de casa
a não ser para ir à igreja. As mulheres não podiam transpor os limites da esfera
privada para se introduzirem no espaçoexterior onde, na vida económica, social,
política e intelectual, quem prevaleciaera o homem. Esseregimede castidade,
decoro,kobed;a=cia e silêncio era reservado às mulheres.
Uma vez que as suaspersonalidadestinham sido aniquiladas adequadamente
por essaespécie de instrução negativa, pretendia-se que as mulheres se transfor-
massem em membros industriosos e produtivos do grupo familiar. Já vimos o seu

219
papel na organização dos trabalhos domésticos e têxteis. A costura e a fiação
ocupavam uma grande parte da sua educação: no seu Z,/Zerodí buoní cosrzlml,
Paolo da Certaldo, um florentino do séculoxiv, adverte que o dono da casa
devia vigiar constantemente as mulheres da família e assegurar-sede que estavam
sempre a$trabalhar, a fim de evitar o ócio, um comportamento perigoso para
todos e em especialpara as mulheres.Devia ensinar-seas filhas a coser, a cozer
pão, a limpar os frangos, a fazer as.camas, a tecer, bordar ,e remendar as peugas,
mas não a'ler (a não ser que sedestinassemà vida religiosa). Assim seriam.prepa-
mdas para o seu futuro papel de mulheres casadas. Segundo Alberti, a mãe deve
arar a filha para o casamento,ensinando-aa fiar e a coser.A instrução gera
donas de casa desleixadas e desacordos conjugais, segundo o humanista francês
Agrippa d'Aubigné, que desaprovavaos pedidos que as filhas Ihe faziam no sen-
tido de a sua educaçãoser semelhanteà dos irmãos. Em 1683,o seucompatriota
Fénelon afirma que o homem (rico) deveensinar as suas filhas a ler e a escrever,
mas não considera necessário que aprendam o latim, como fazem os rapazes,
dado que não precisariamdele.Madamede Maintenon, que escreve..no mesmo
ambiente trinta anos depois, sugereque as estudantesda classemédia recebam
uma instrução adequada à sua classe:como governar a.casa, como comportar-se
com o marido e com a criadagem; como cultivar as virtudes apropriadas à sua
classesocial: não há espaço,porém, para o enriquecimento dos seusespíritos..O
mais tardar em 1753, Lady Mary Wortley Montagu, uma dama inglesa muito
pouco conformistai numa carta em que dá conselhos a sua filha sobre a educação
a dar à neta, acrescentaa um ponderado currículo académicoa ordem de a ensi-
nar a coser: para uma mulher era tão importante manejar a agulha como para o
homemsabermanejaraespada. m P $8Q ..# H ,iiiB 'l?
A noção de que o essencial da educação das Mulheres consistia nos trabalhos
de fiação era tão predominanteque, para uma geraçãode mulheresintelectual-
mente'independentes, as agulhas, os fusos e outros utensílios do.género se conver-
teram nos símbolos da sua sujeição. Assim, a humanista Olimpia Morata (que se
convertera ao protestantismo) escreveuque abandonara os. símbolos do.seu,pró-
prio sexo:a roca, a lançadeira,o cestoe o fio. Uma poetisafrancesado século
xvi, Louise Labé, aconselhava as mulheres a elevarem os seus pensamentos para
lá das rocas e dos fusos, enquanto Catherine des Rochesexprimia uma maior
ambivalência,jurando amor eterno ao seu fuso e afirmando que o seguraria
numa mão enquanto com a outra seguraria a pena.
Se a maior parte das mulheres das classesdominantes recebiauma educação
tradicional, que consistia numa mistura de formação do carácter e de tmbalhos
de corte e costura, também havia raparigas que frequentavama escola. Giovanni
Villani conta que em Florença, em 1388,de 8000 a 10 000 rapazese raparigas
aprendiam a ler nas escolaselementares(em seguida,só os rapazesprosseguiam
os estudos em escolas onde lhes ensinavam o cálculo, de que precisavam para os
negócios,ou a lógica e o latim, necessáriospara a instrução universitária). Uns
anos antes, na mesma cidade, uma doc/rfx pueromm de nome Clementia ensi-
nava latim. Em Londres, em 1390, a órfã de um fabricante de velas frequentava
a escolaelementar dos 8 aos 13anos. Na mesmacidade, em 1561,foi criada uma
escolade alfaiataria, a Merchant Taylor School, que dava uma educaçãoelemen-
tar às raparigas. Ainda em Inglaterra foram fundadas outras dome sc#oo/s onde
se proporcionava uma educaçãoreligiosa e se ensinavaa jer, a fiar e.a tecer. As
escolasdas beguinas, em algumas cidadesdo Norte da Europa, reuniam rapazes
e raparigas. Os decretos municipais de Ypres sobre a protecção dos órfãos e da

220
infância abandonada (1535) exigiam a preparação das raparigas nos trabalhos
domésticos correntes bem como na leitura e na escrita. Na Flandres, Vives fez
propostas concretas para a instrução dos rapazes e das raparigas pobres. Na
cidade francesa de Lyon, de 1490 a 1570, havia uma proporção de cinco professo-
ras para oitenta e sete professores (que só podiam ensinar os rapazes)! No
entanto, nessa miscelânea : de <<pequenas>>
escolas, colégios de freiras, escolas
municipais e de bairro, onde exerciamprofessorase regentes,só um número res-
trito de raparigas, pertencentes às classesmédio-baixas ou à classetrabalhadora,
começavam
a aprendera ler, escrevere contar.
A Contra-Reforma estimulou muitas iniciativas educativaspara as mulheres,
a fim de as proteger dos males do Humanismo, do laxismo e do protestantismo.
Em Brescia, Angela Mereci deu início a um programa de educação cristã, ;que se
propagou por toda a ltália do Norte, a Bélgica, a França, a Holanda e a Alema-
nha católica, e que continuou a exerceruma notável influência até ao séculoxvn.
Devido à forma como estavaorganizado,o objectivo principal desseprograma
não era preparar religiosas de profissão mas boas mães. Emlcertas zonas, essa
educaçãoera apenasa nível elementar, com uma instrução mínima nos domínios
da leitura e da escrita, mas em alguns colégios aristocráticos dirigidos pelas Ursu-
linas as raparigas podiam receberuma educação secundária, que incluía noções
de latim; italiano, geografia,composiçãoe, naturalmente,
Édoutrinareligiosa.
Outras escolas da Contra-Reforma seguiram um modelo análogo, por exemplo, as
que foram instituídas no século xvn por Mary Ward, ou as dos jansenistas de
Porá-Royal;sob a direcçãode JacquelinePascal(irmã do filósofo). Em todas
estas escolas ensinava-se a ler, mas liam-se apenas livros religiosos«
O impulso mais forte para a educaçãoelementar das mulheres proveio natu-
ralmente do protestantismo. Se cada crente devia conciliar-se pessoalmentecom
Deus, e se Deus falava através das Escrituras, então todos deviam aprender a ler.
Lutero desejavaque fossem instituídas escolaspara as raparigas, onde deveria ler-
.seas Escrituras durante uma hora por dia, em alemão ou em latim. Em 1553,
Elsa von Kaunitz fundou uma escola em Wittenberg, a cidade do#reformador.
Filipe Melâncton, o executor do programa pedagógicoluterano, ordenou que fos-
sem instituídas escolas para as raparigas (geridas por professoras), que as alunas
deveriam frequentar durante uma ou duas horas por dia, durante um ano ou dois.
Também o reformador Martin Bucer se declarou favorável à fundação de uma
escolapública em cada paróquia, onde se deveriaensinar a ler tanto os rapazes
como asüraparigas.ãA partir de finais doêséculoxvi,8 decretos emanados pelo
príncipe ou pelasHautoridades citadinas instituíram escolaspara raparigas em
Hamburgo, Lubeque, Bremen, na Pomerânia, no Schleswig-Holsteine em Wurt-
temberg. O impulso para a educaçãodas mulherescontinuou intenso nos Estados
alemãesãno século xvn e nos séculos seguintes; de início, os objectivos dessas
escolas eram limitados: as raparigas eram educadas para cumprir os seus deveres
religiosose não obtinham uma instrução de$caráctergeral. Munidas de um
mínimo de instrução, regressavama suas casaspara fiar. O resultado destespro-
gressosfoi que no«limiar da nossa épocaümuitasmulheresadquiriram o nível
médio de instrução que tinha sido atingido pelos homens. No fim deste período,
em Inglaterra, havia uma mulher alfabetizada por cada quatro homens, mas em
Londres a proporção era de cinco para sete.
Durante o Renascimento, poucas foram as mulheres que se esforçaram por cul-
tivar as suas capacidades intelectuais a um nível mais elevado do que o que era ofe-
recido pelos métodos de educação tradicionais ou pelas novas escolaselementares,

221
dedicando-se ao requintado género de estudos que estava disponível pam os
homens da época e que fora elaborado pelos humanistas do século xv. Desse
grupo sobressai,na ltália do século xv, e um pouco por toda a parte no resto da
Europa no século seguinte, esseautêntico prodígio da cultura do Renascimento
foi o fenómeno da mulher erudita. Ainda antes do início do século, a
paduana Maddalena Scrovegni era admirada pela sua cultura (e pela sua casti-
dade) pelo humanista veronêsAntonio Loschi. Na geraçãoseguinte,.Leonardo
Bruni preparou um sério programa de estudospara Battista da Montefeltro. Estas
mulheres foram as precursorasde um grupo de mulheres humanistas que pos-
suíam uma boa erudição latina (e também grega, no caso de Alessandra Scala) .e
que se distinguiram pelas suas actividades criativas em vários domínios da cul-
tura. De lsotta Nogarola, Laura Cereta, CassandraFedele,AlessandraScala e
Olimpia Moratah(que viveu nos primeiros anos do século xvi) conservamos
ainda cartas, poemas, orações e tratados que revelam até que ponto eram capazes
de rivalizar com os humanistas da época. As últimas quatro foram educadas
pelos pais, estudiosos de profissão ou aristocratas ou ambas as coisas; lsotta
Nogarola, pelo contrário, foi educada por um humanista da escola Guariniana
sob a supervisão da mãe, que ficara viúva. No entanto, exceptuando alguns raros
humanistas que lhes dirigiram palavras de elogio e de admiração, tiveram de
enfrentar a oposição da comunidade intelectual masculina, que, embora pare-
cesseconsiderar necessárioque as mulherespossuíssemum certo nível de educa-
ção, também pensava que uma instrução demasiado elevada as tornaria masculi-
nas e desagradáveis.As suas ansiedadese frustrações, a sua insatisfação pelas
oportunidades concedidas às mulheres transparecemnas suas obras, sobretudo
nas de lsotta Nogarola e de Laura Cereja. Essas mulheres representaram a conse-
cução de uma realização académicafeminina de alto nível que só em raros casos
foi atingido durante toda a idade moderna.
O fenómeno italiano da mulher erudita pode encontrar-se, pelo menos:até
certo ponto, também noutros meios. Em algumas cidades alemãs, por exemplo :
Cantas Pirckheimer, uma monja de origem nobre, a quem as autoridades tinham
proibido de publicar as suas obras, deixou-nos uma abundante colecção de cartas
particulares.'Em França, o modelo de mulher erudita é personificado por Chris-
tine de Pisan, nascida em ltália, de quem voltaremos a falar, egque, como
as outras mulheres humanistas que já mencionámos,provinha do patriciado
urbano. Nos reinos de França e de Inglaterra encontramosmais amiúde um
modelo diferente de mulher culta, pertencenteà mais alta nobreza ou mesmo às
famílias reais. Vem a propósito o caso de Margarida d'Angoulême, irmã do rei.
Em Inglaterra, à excepçãodas filhas de ThomasMore (que pertenciaà ge/zrry,a
nobreza rural), cuja cultura brilhou nos primeiros anos do século xvl, as mulhe-
res que possuíam uma instrução clássica estavam todas ligadas à família real:
A católica Catarina de Aragão (educada na corte da rainha de Espanha, lsabel)
e sua filha, Mana pudor (que teve como perceptor Juan-Luas Vives), tiveram uma
instrução de tipo predominantemente devocional. A protestante Catherine Pari, a
sexta mulher de Hpnrique Vlll (e a única que conseguiu sobreviver-lhe) incenti-
vou a escolarização feminina mas igualmente de tipo devoto, sendo uma das oito
mulheres inglesas que publicaram textos entre 1486e 1548.Na geração seguinte,
houve duas mulheres que superaram as suas antecessorase que foram magníficas
representantes da tradição humanista: trata-se de Jane Grey, a filha mais velha de
Henrique Vll que foi sacrificada às ambições da família que aspirava ao trono de
Inglaterra, e de lsabel pudor, filha de Henrique Vlll, que sucedeua seu pai.
222
Para Lady Jane Grey, como para algumas das eruditas italianas que mencio-
námos, a cultura representavauma possibilidade de libertação de uma vida res-
trita e limitada. O humanista Roger Ascham conta uma conversaque teveum dia
com a jovem quando a encontrou em sua casaabsorta a estudar o .f;ydo/z,de Pla-
tão (em grego), enquanto os seus familiares andavam à caça. Quando Ascham Ihe
perguntou porque não se dedicava a essedesporto, ela respondeu que o estudo de
Platão Ihe dava um prazer muito maior, visto que, segundoconfessou,sempre
que se empenhavaem outras actividades, os seusausterose exigentespais corri-
giam-na ou batiam-lhe, mas quando estudava era livre. Devido aos limites impos-
tos pela sua posição social e à brevidade da sua vida, não pôde prosseguir os estu-
dos até à maturidade, mas a sua descoberta da liberdade no trabalho especulativo
evocaa experiênciados grandeshumanistasitalianos. Na sua juventude, a rainha
lsabel estudou igualmente sob a direcçãode Ascham que, em 1550,escreveuque
nenhuma outra mulher a podia superar em matéria de erudição. lsabel falava cor-
rectamente o latim, sabia grego, estudava história três horas por dia e dedicou-se
também ao estudo da teologia, da filosofia e dasl.outrasdisciplinas que faziam
parte do programade estudosdo seu tempo. Ao contrário da sua parente, Jane
Grey, lsabel continuou a exerceros seusformidáveis talentos, que essaeducação
masculina tinha refinado.
A educação humanista das mulheres atingiu o seu auge .em ltália no
século xv, propagou-se por toda a parte no século xvi, e começou a decair irresis-
tivelmente no seio das classesmais elevadasa partir do séculoxvn. O novo ideal
para as mulheres dessaclassesocial não era intelectual. Quando muito, esperava-se
que as mulheres jovens adquirissem um certo tipo de <<capacidades>>(desenhar,
dançar, falar línguas, tocar música) destinadas a entreter os membros da família e
os hóspedese que deviam constituir um atractivo aos olhos dos pretendentesade-
quados. O Cor/esmo,de Castiglione, abriu caminho a este ideal alternativo ao afir-
mar que as mulheresdeviam conheceras letras, a música, a dança e a pintura e
estar à altura de manteremuma conversaarguta. Substituiu assimo cânonetradi-
cional da educação da mulher .-- fiar, coser, tecer e serem castas -- por um outro
cânone,igualmente prejudicial para a imagem da mulher, erudita ou trabalhadora.

A voz da mulher e a resposta do homem

O silêncio era a tal ponto recomendado às mulheres que chega a parecer estra-
nho que elas conseguissem falar. Porém, do quase silêncio da Idade Média a sua
voz converte-se,hno séculoxvn, em suavemurmúrio: em finais do século,em
Inglaterra, cerca de 2qo de todas as obras publicadastinham sido escritaspor
mulheres. Durante todo o Renascimento, as mulheres continuaram naturalmente
a constituir uma minoria entre todos aquelesque se dirigiam ao público através
de obras escritas, mas é uma minoria que, com toda a justiça, exige a nossa aten-
ção. Elevando a sua voz, as mulheres pedem a essepúblico que reconsidere na sua
avaliaçãodo papel da mulher no seumundo.
Uma das primeiras, e talvez uma das maiores autoras desseperíodo, foi Chris-
tine de Pisan, que nasceuem Venezae enviuvou em Paria: nos primeiros anos do
séculoxv, ganhou a vida com a pena. Autora de muitas obras -- livros de histó-
ria e de poesia, cartas e tratados -- que impressionampela sua coragem e pela
sua originalidade, Christine confessaos seus sentimentosna C/ré des:damas,
onde descreveuuma comunidade feminina auto-suficiente, em que as mulheres

223
mandam. trabalham e se dedicam ao estudo. No Z,ívre des rrofs verfzzs(1405), tra-
çou as linhas gerais para uma educaçãoapropriada das mulheres das várias clas-
sessociais, desde as que pertenciam à família real e à aristocracia da corte e rural
ou à burguesia urbana e artesã até às trabalhadoras agrícolas. A educação das
raparigas'devia ser incentivada, dado que, segundoela, o intelecto feminino, se
for alimentado convenientemente, é tão perspicaz como o masculino. No seu caso
fora o pai que a encorajaranos estudose a ensinaraa deliciar-secom os seus
conhecimentos de nível superior, enquanto sua mãe tentara dissuadi-la de seme-
lhante ocupação, sugerindo-lhe que se limitasse ao fuso.
O exemplo de uma séria actividade de autora dado por Christine de Pisan e
os seustemas feministas foram retomados, após a sua morte, pelas humanistas
italianas lsotta Nogarola, Laura Cereta, Cassandra Fedele,Alessandra Scala e
Olimpia Morata, que se revelaram no século seguinte. Estudiosas empenhadas, as
suas obras requintadas contêm também uma mensagem urgente. A afirmação da
inocênciade Eva, a mãe primordial, por parte de lsotta Nogarola, e os ataques
de Laura Cereta às mulheresque se submeteme não têm objectivospróprios, e
a quem considera traidoras do seu sexo,constituem momentos inesquecíveisde
grande violência e vivacidade da tradição feminista. No século xvl, as mulheres
eruditas italianas viveram fora da tradição humanista mas continuaram a debru-
çar-se sobre os temas importantes que eram capazes de lançar uma nova luz sobre
a condiçãoda mulher. 17mer/fo de//e dome(escritoantes de 1592)de Moderata
Fonte, exalta a independência feminina através de uma das suas personagens, a
erudita Corinna, que declara preferir morrer a submeter-seaos homens.Vene-
ziana como Moderata Fonte, LucreziaMarinella conquistou grande popularidade
com o seu Z,a nobí//ã ef /'ecce//anca de//e don/ze (1600), onde defendia a efectiva
superioridade das mulheres em relação aos homens. Uma outra veneziana, a
monja relutante Angela Tarabotti, na sua polémica contra a conventualização
feminina forçada, .Z,asemp/ícíf f/zga/znaía, defendia a causa da indispensável
liberdade das mulheres.
Vozesimportantes foram também as de algumas poetisas do século xvi (que
escreviamem latim mas mais frequentementeem língua vulgar) que, reflectindo
sobre os seus esforços e sobre os seus amores, exprimiram a vida íntima das
mulheres. Entre as maiores podemos recordar as italianas Vittoria Colonna, Gas-
para Stampa e Veronica Franco e a francesa Louise Labé. Veronica Franco e
Louise Labé, respectivamenteuma cortesãe uma filha de cordoeiro, desafiaram
abertamente a dupla convenção da castidadeae do silêncio feminino : explícitas,
belas e corajosas, as descriçõesque fazem da sua posição social e sexualconsti-
tuem o fulcro da sua mensagem.Ambas ficaram a devera possibilidade de elabo-
rarem livremente as suasobras ao contexto urbano onde trabalhavam -- um con-
texto complexo, fluido, pulsante -- e ao facto de as suas identidades sociais se
situarem numa posição intermédia em relação às distinções normais de classe.
Mas, à parte estasoportunidades,estavamtambém limitadas pela sua posição
social quase única: na tentativa de concretizarem as suas ambições, dependiam da
admiração, da atenção e da disponibilidade dos homens. Rebeldesem relação .à
propriedade sexual,'continuavam porém a depender de homens de.posição social
elevada,como se, ironicamente, nunca tivessemabandonado o salão.
Ao contrário destastemerárias, outras mulheres, autoras de obras em língua
vulgar dos séculosxvl e xvn, continuarama produzir as suasobrasdentro dos
géneros usuais de que já falámos neste ensaio. Os seus textos giravam em volta de
dois pólos: a família e Deus.Em primeiro lugar, escreviamsobre os filhos,
224
para os filhos e aos filhos. Depois, escreviam a Deus, para Deus e acerca de Deus.
A partir da autora francesado séculoix, Dhuoda, e da africana Perpetua,do
século n, eram estes os principais géneros praticados pelas poucas mulheres que
escreviam. Algumas, porém, autênticas antecipadoras, alargaram o raio da refle-
xão feminina a partir do século xvn, incluindo nele a história e a autobiografia,
géneros até então reservados aos homens (Christine de Pisan é uma excepção).
Sobretudo na Inglaterra, durante o período da guerra civil, cujo caos permitia
uma certa independência, as mulheres começaram a narrar aspsuasexperiências e
deixaram-nos úteis testemunhos acerca dos acontecimentos da sua época; nessas
narrativas, porém, continuam a insinuar-se osÍhábitos tradicionais das mulheres
escritoras que, embora adoptassem géneros novos, escreviam apenas, ou princi-
palmente,sobre a família ou para a família.
Todavia, os géneros literários através dos quais as mulheres se exprimiam a si
próprias foram conhecendouma notável expansãoatravésdos séculos,proporcio-
nando à voz feminina uma plateia mais vasta. Os séculos.'que assistiram à deca-
dência da condição jurídica e económica da mulher, à imolação das mulheres por
parte dos caçadoresde bruxas e da Inquisição, ao seu progressivoconfinamento
às paredes de suas casas enquanto os homens exploravam e conquistavam, ouvi-
ram também a voz do seu protesto. Essasrebeldesnão eram tão cultas comoeos
homens, mas nem por isso deixaram de falar com a mesma coragem com que os
homens agiam. Algumas compreenderam a natureza e as consequências da sua
luta como se para ela tivessempegado em armas. A monja Beatrice del Seráreal-
çou a equivalência que existia entre a espadae a pena (tal como outras tinham
falado da oposiçãoentre a pena e o fuso): se algumasmulherestinham ousado
pegar em armas e travar batalhas, porque é que outras não deviam combater, pela
paz e não pela guerra, com a pena? Esta atitude militante por parte de tais escri-
toras permite-nos talvez explicar o motivo por que a literatura do Renascimento
apresenta um tão grande número de personagens femininas armadas e perigosas :
de Ariosto a lasso, de Spensera Milton, enchemas páginasdos livros dos dois
séculos que se seguiram à invenção da imprensa.
Essasmulheres são, em suma, outras tantas Joanas d'Arc: armadas com a
pena, invadem um território alheio, empenham-senuma missãoilsagradae são
admiradas por poucos e odiadas pela maior parte daqueles que se sentiam desa-
fiados só pelo facto de elas existirem. As suas ambições e o seu destino levam-nas
a adoptar um papel de amazonas, a combater corajosamente nos reinos masculi-
nos da cultura e da sociedade, a carregar mesmo com o fardo de uma sexualidade
confusaou ilegítima. Era o que aconteciasempre,quer o palco onde recitavam
fosse político, económico ou cultural. Essasmulheres eram vistas, e viam-se a si
próprias, como seresmasculinos, ferozes,grotescos.E só podiam escapar a esses
rótulos e a essasvisões de si próprias adaptando-seà rígida série de normas que
eram aplicadas às mulheres no seu mundo social: castidade, silêncio e obediência.
Os autores masculinos responderamà agressãofeminina no reinoida cultura.
Uma já longa tradição de literatura misógina foi perpetuada no Renascimento,
naquela espéciede competição$agonístico-culturalque em França é mais conhe-
cida por qz/ere//edesJemmes.As defesasda excelênciafeminina(escritas por
homens e mulheres) provocavam novos ataques, a que se seguiam novas defesas.
A intensidadecom que estadiscussãosobre o valor essencialdas mulherescondi-
cionou todos os debatesliterários indica quão profundo era o mal-estar dos
homensnão tanto em relação à presençadas mulheresmas em relação ao seu
explícito pedido de;íatenção.A qz/ere//ealastrou, em latim e em língua vulgar,

225
em ltália, França, Inglaterra e nos Estados alemães, entre os católicos, os protes-
tantes, os judeus. A faísca que provocou a quere//e foi o ataque desencadeado
contra as mulheres. na continuação do Roman de /a Fase, de Jean de Meung, que
foi entusiasticamente reforçado no comentário de Jean de Montreuil (1401). Esta
obra, enviada directamentea Christine de Pisan para que pudesseexamina-la,
provocou por sua vez uma apologia das.mulherespor parte .destaprecursora do
feminismo. Seguiu-seum debate que se desenrolou no circuito,dos literatos pari:
slensese que se prolongou até ao limiar da idade moderna. No período que vai
de 1595a 1655foram publicadasem França pelo menosvinte e uma obras contra

Mu/fer parece conter a cristalização de todo o ódio dos homens em.relação àque-
las''mulheres que ambicionavam desempenharpapéis públicos e literários : essa
assexuada <<macho-fêmea>>deveria abandonar as suas <<disformidades>>para se
revestir das qualidades que lhes eram próprias : silêncio, castidade, obediência ao
marido e amor aos filhos.
Se a maior parte dos homens aderiu a esta antiga tradição misóginat outros
homens (em obras que, na sua maioria, eram dedicadasàs mulheresilustres)
defenderam a ideia de que também as mulheres possuíam boas qualidades. O eru-
dito e poeta Giovanni Boccaccio pretendia decerto elogiar as mulheres quando
compôso seu/)e c/arfa mz{/fer/bus,uma obra que tevegrandeinfluência. Esta
espéciede desfile de mulheres notáveis, que vai do Antigo Testamento até à Idade
Média, contribuiu para colocar sob os olhos dos leitores um sexo.emgeral total-
mente esquecido no âmbito literário. Talvez não se deva censurar demasiado Boc-
caccio pelo dano que involuntariamente causou às mulheres,.já que muitas das
que são por ele elogiadas resumiam em si as tradicionais virtudes da castidade, .do
silêncio e da obediência, de forma que o seu exemplo não faz mais do que refor-
çar aquela concepçãomisógina. As poucaspor ele descritasque agiram e produ-
ziram algo na cena pública(personagensterrificantes como Zenóbia, Pentesileia,
Camila e similares) tinham também violado, de uma maneira.ou de outra, as nor-
mas sexuais válidas para as mulheres, coisa por que eram devidamente castigadas.
O seu exemplo, embora aliciante para as novas gerações de.mulheres que ambicio-
navam quebrar as suas cadeias,serviu de facto a causa da opressãoda mulher.
Boccaccio deu início a um autêntico dilúvio de obras de eruditos masculinos
acercadas mulheresilustres da Bíblia, da AntiguidadeClássicae da história
local: entre eles podemos mencionar Filippo da Bergamo, .Giulio Cesare Capado,
Ludovico Domenichi, Jacopo Filippo Tomasini(que publicou também as cartas
de Inura Cereta e de Cassandra Fedele), Bernardo Scardeone. No século xv, na
cidade de Ferrara governada por membros masculinos da família d'Este.mas onde
as suas consortes tinham alguma importância, o humanista Bartolomeo Goggio
escreveuo Z)e Laz/dfbus mu/ferram para Eleonora de Aragão. O grande humanista
e prato-reformador Erasmo foi um infatigável defensorda instrução das mulhe-
res A roca e o fuso (ei-los, mais uma vezj são úteis às mulheres,mas q estudos,
que empenham todo o seu espírito, são ainda mais úteis. Num dos Co//oqz/fa,
Erasmo retrata uma mulher culta discutindo com um abade a propósito da edu-
cação da mulher, a que o eclesiástico se opõe.
' O anaisnotável dos defensoresdo direito da mulher ao.estudo e ao progresso
foi o erudito alemão Cornelius Heinrich Agrippa von Nettesheim.No seu
De nobititate et praecellentia joeminei sextas declamatio , exD \ \e uma COnNXCçaO

226
que tem algo de surpreendente: a única diferença entre o homem e a mulher é
uma diferença de carácter anatómico. Criados para o mesmo fim, homens e
mulheres possuem no mesmo grau os dons do espírito, a razão e a palavra. Na
origem dos tempos, o maior pecador foi Adão, e não Eva (aqui o humanista ale-
mão concordacom lsotta Nogarola), e foi por isso que Jesusdecidiuvir ao
mundo, para redimir a raça humana, como homem e não como mulher. Também
o inglês Sir Thomas Elyot defendeuenergicamentea causa das mulheres. No seu
The .Dleáe/zse
olf Good morre/z(1540), escrito não só em homenagema uma
mulher soberano,mas, mais em geral, a favor do direito da mulher de assumir o
governo, Elyot coloca ao mesmo nível o homem e a mulher na escalados seres
racionais. A antiga rainha Zenóbia, uma das figuras militantes que surgem entre
as heroínas de Boccaccio e nas dos seuscontinuadores no género das biografias
colectivasdas <<mulheres ilustres>>,surgetambém nessaobra a solicitar uma edu-
cação adequada para as mulheres.

Eva, Mana e as Amazonas

Com um tão grande número de campeões,poi.que é que as mulheres não


triunfaram nos séculosdo Renascimento?Tentemosreduzir o problema aos seus
elementos mais simples. Quando os homens louvavam as mulheres como mu//ze-
ros, elogiavam-lhesaquelas qualidades que podiam exprimir-se apenasentre as
paredesda casa, ou ao abrigo dos claustros, onde as mulheres fiavam, teciam,
oravam e, quando sabiam ler (não se podia negar que eram capazes de o fazer),
liam livros de devoçãoe, quando sabiamescrever,escreviamapenaspara si pró-
prias e para as suas famílias. Mas quando os homens elogiavam as obras ou as
rea/ilações das mulheres, nesse elogio existia sempre uma nota amarga: essas
mulheres tão capazes não eram verdadeiras mulheres. O maior cumprimento que
Boccaccio fazia às mulheres era afirmar que eram <<viris>>
; Ascham não encon-
trava nenhum vestígio de natureza feminina na sua aluna lsabel. As mulheres
deviam permanecer prisioneiras do seu sexo ou renunciar a ele: deviam escolher
entre os modelos de Eva,: Mana ou da amazona.
O homem do Renascimento tem oito rostos. As mulheres têm três: Mana, Eva
ou amazona, ou então, virgem, mãe, velha. As duas primeiras figuras, que se
opõem irremediavelmenteuma à outra, representamos pólos fixos das possibili-
dadesda mulher: o futuro esconde-se
na terceirafigura. Da amazona,essafigura
rígida que surgeem todo o lado na civilização do Renascimento,nasceua mulher
moderna, que transporta consigo o pesado fardo da solidão da amazona e que
ainda não conquistou plenamente a sua liberdade, essaliberdade que talvez possa
alcançar um dia, num Renascimento das mulheres, séculos depois do Renasci-
mento dos homens.

227
CAPITULOIX

VIAJANTESEINDIGENAS
por Tzxetan Todorov
Em finais do séculoxv e início do séculoxvi não se pode deixarde ter a
impressãode que a história europeia,e mesmomundial, se acelerade um modo
extraordinário. Em 1490,um europeu pode ter uma ideia satisfatória da Europa e
dos paísesque circundam o Mediterrâneo. Zem igualmente uma vaga .noção do
resto da África e da Ária, mas são noções que não podem combinar-se num todo
coerente.])o mesmo modo, afirma que a Terra é sem dúvida redonda, mas não
sabe bem quais são as suas dimensões. Depois, num espaço de trinta anos, tudo
muda. Em 1492,Colombo atravessao Atlântico e <<descobre>>
as Antilhas; nos
anos que se seguem, chega ao continente americano. Em 1498, Vasto da Gama
dobra o cabo da Boa Esperança e abre o caminho marítimo para a Índia. Em 1500,
Pedro Alvares Cabral aproa à costa brasileira. Em 1519,Cortez desembarcano
México e dá início.jà conquista organizada do continente. Por fim, em 1522, as
naus de Magalhães concluem a primeira volta ao mundo, depois de uma viagem
que durou três anos: Nunca trinta anos modificariam tanto a face do mundo.
Na realidade,a mudançafaz-seem duasdirecções.Por um lado, o mundo
atinge proporções difíceis de imaginar. O processojá tinha começado nos anos
anteriores, com a descoberta do mundo greco-romano: a memória recentemente
adquirida multiplicava por dez ou por vinte a duraçãoda história e, correlativa-
mente, a estatura da humanidade. Agora, à expansão no tempo acrescenta-sea
expansão no espaço. Ao Mediterrâneo vêm juntar-se os oceanos Atlântico, Indico
e Pacífico;a Europavê-seconfrontadacoma América,a África e a Agia.
O mundo era muito grande, não só em relação à ideia que dele se tinha, mas tam-
bém doido à lentidão das deslocações (que nos séculos posteriores não deixará
de ir diminuindo constantemente).As viagensjá não duram meses,mas anos.
Por outro lado, porém, o mundo pode começar a aperceber-sede que é finito e
dar os primeiros passospara a sua unificação. Dantesnão seia tão longe, mas,
como o mundo$continuavaa ser na sua maior parte desconhecido,podia pen-
sar-se que era infinito. As <<descobertas>>
geográficas continuaram, é certo, até ao
século xix, mas já só se trata de eliminar, um após outro, os espaços em branco
de um mapa onde os contornos de conjunto já se encontram traçados. Quanto à
unificação, a viagem de Magalhãesnão passade um primeiro e tímido passo;
permite-nos, porém, conceber e imaginar essaunidade que também irá aumen-
tando com o avanço das comunicações.
Os literatos europeus sabem as notícias atravésdos relatos dos próprios via-
jantes, ou pelos autores das crónicas que ficaram em terra e que recolheram rela-
tos orais. Na verdade,e por mais paradoxalque isso possaparecer,os relatos
precedem as viagens. Desde a Alta Idade Média que relatos mais ou menos fanta-
siosos gozam do favor do público e mantêm desperta a sua curiosidade. Vem-se
a saber, por exemplo, que o monge irlandês S. Brandão levou seta anos
231
para alcançar o paraíso terrestre, depois de ter enfrentado todos os perigos e
encontrado toda a espéciede seressobrenaturais.No início do século xiv, Marco
Polo, regressado de uma viagem à China, deixa-nos o Z,ívro das ]b/arar///zas que,
emboranão pendapara o sobrenatural,justifica o seutítulo. Ainda um pouco
mais tarde, John Mandeville escrevel,legam de U7framar, uma miscelâneainex-
trincável de factos reais e de fabulosasinvençõesem que também descreveo
paraíso terrestre. Na mesma época multiplicam-se os compêndios, Cosmogn{/7as
ou /mago/zs do .Afundo(entre os quais o célebre /mago JWz//zdf,do cardeal Pierre
d'Ailly), que inventariam os conhecimentossobre todos os paísese povos da
Terra. Estas obras são pois bem conhecidas e preparam os relatos dos novos
viajantes, que as consideram aliás como informações seguras: e é assim que
Colombo parte levando cartas para o Grande Khan, descrito por Marco Polo, e
Vasto da Gama faz o mesmo para o Prestes João, personagem lendária, habitante
das Índias, segundo o relato de Mandeville.
Leitores e ouvintes não ficam portanto verdadeiramente impressionados quan-
do chegam até eles os primeiros relatos das novas descobertase é de crer que o
mesmo se passassecom os próprios viajantes, que também tinham sido leitores e
ouvintes. Há para isso uma segundarazão, e não apenasa popularidade dos rela-
tos antigos::que tem a ver com uma particularidade da história europeia. As con-
dições geográficas do Mediterrâneo asseguram o: contacto entre populações
muito diferentestanto do ponto de vista físico como cultural: europeuscristãos,
mouros e turcos muçulmanos, africanos animistas. No Renascimento, a essahete-
rogeneidade geográfica Veio juntar-se a'tomada de consciência por parte dos
europeus da sua heterogeneidade histórica: de facto, começam a considerar-se os
herdeiros de duas tradições muito diferentes, a grego-romana, por um lado, e'a
judaico-cristãfpor outro; esta, de resto, já deixou de ser monolítica, dado que
representao exemplo singular de uma religião baseadanuma outra (cristianismo
e judaísmo). Por outras palavras, os europeus, baseados no seu passado e no seu
presente,já conhecembem a pluralidade das culturas: têm, em certo sentido, um
compartimento vazio onde podem colocar as populações recentemente descober-
tas, sem que isso perturbe a sua imagem global do mundo.
E o que se nota claramente,por exemplo,durantea conquistaespanholada
América. Quando os conquistadores descobrem lugares de culto, chamam-lhes
espontaneamente <<mesquitao>, automatismo que deriva do facto de esseatermo
começar a designar qualquer templo que funcione para uma religião não cristã.
Quando os espanhóis descobrem uma cidade de certa importância, chamam-lhe
imediatamente <m grande Cairo>>.Para tornar mais precisas as suas impressões
sobreos mexicanos,um dos primeiros cronistas,Franciscode Aguilar, recorda
prontamente : <<Emcriança e em adolescente comecei a ler numerosas histórias e
relatos acercados Persas,dos Gregose dos Romanos. Tambémconhecia, através
de leituras, os ritos que se praticam nas Índias portuguesas.>>
As ilustraçõesda
época oferecem também um amplo testemunho dessa projecção do que é familiar
(ainda que o facto ou o objecto possamparecerum tanto estranhos)no que
é desconhecido.
Há inúmeros viajantes e relatos de viagens: durante o século xvi, em todos
os principais países europeus, contam-se às centenas. Naturalmente, a diversidade
é grande, o que seexplica, em parte, pela diversidade dos paísesvisitados. Eviden-
ciam-setrês grandespólos. Em primeiro lugar, a América* a mais estranha,a
mais selvagem. Na direcção oposta, a China, que naquela época se tem dificul-
dade em penetrar, mas cujos habitantes não são decerto selvagens.Por fim, a

232
lurquia, encarnação do mundo muçulmano, próxima mas enigmática, odiada e
temida. Aliás, a Turquia é o país que suscita maior interesse,contrariamente ao
que hoje se poderia imaginar. Outra causa dessa variedadeé a própria natureza
da viagem: o país é diferente quando é visto pelos olhos do conquistador ou do
missionário, do comerciante ou do simplescuriosa, e também se se viaja porque
assim se decidiu ou porque se foi obrigado a empreendero caminho do exílio.
Existem também, evidentemente, diferenças nas personalidades dos viajantes e na
qualidade dos seustextos bem como uma grande variedade nos retratos de indíge-
nas que daí emergem.Todavia, em vez de tentarmos analisar a totalidade desses
retratos, deter-nos-emos em alguns exemplos particularmente interessantes, limi-
tando-nos apenas às viagens à América.

Cristóvão Colombo

Não é surpreendenteconstatarmos que o primeiro e mais célebredos grandes


viajantes da época não é uma encarnação perfeita..da mentalidade nova que
começaa nascer nessemomento. Cristóvão Colombo (1451-1506)é mais a perso-
nagem que provoca a mudança do que a figura que a ilustra. Do nosso ponto de
vista actual, é um homemi;dedupla face: pertenceao passadoe, ao mesmo
tempo, anuncia o futuro. E evidente que aquele que tanto contribuiria para o nas-
cimento do mundo moderno não podia pertencer já a essemundo.
A multiplicidade dos motivos que levam Colombo a empreender a sua viagem
permite desde logo tornar clara a ambivalência da personagem. 4:;px:!Dcipal:Êç!!;çg;3'
d
OSO. r.SSe
medida dis
çjiD..çeÇlp.giedjdadissimulado-pela.repetição .Ç &
obsessjvãl'aÕ.têiii4.dQ.ouro,.sglDbQIQ.
çlÊ..!jgygzWyg..DêQC.E.$iluê!!êg..ÜQ$
.antjwdaB.&üLJrç14çãQ..àê..êl2i11âçêÊE.Eligiqsq:,l.]
Mas é apenasuma aparência. Colombo fala do ouro, promete encontra-lo, desco-
bre vestígios da sua existência, porque é isso que Ihe pedem os seusinterlocutores,
os marinheiros das suas naus, os ricos armadores que financiam as expedições ou
os reis católicosude Espanha, Fernando e lsabel. ;B.BÕQ..$e..çngaiia.n06ieus.Eál
ç!!!Qg..çglDQdÊmons11ê..g.;bççg.gç.ÇQlg!!!bQ..!çl..çêídQ..çlD..dç$gtêç.a q#aJldQa8.,Bçr-
!gs recentemente descobertas deixam de conter grandes quantidades de ouço.
©:Éãidê..ãêlj©:êÊJ'êõlõiãbê.]jBiiíia'bife rêiiiêT'ãüêídê fendêi:'ã'=iigi ao
cristã em todas as partes do mundo''Sab(::$õiãui3;íêii; em mafêõ"Pode),
que o
Grande Khan, ou seja, o imperador da China, deseja converter-se ao cristianismo
e parte para ir ao seu encontro, seguindo a <<viaocidental>>,para o ajudar a pâr
em prática essa sábia decisão. Para lá deste projecto imediato perfila-se um outro,
mais grandioso: ÇglQ!!!bl2..:g!!!!ê..rSçonquj$!êllçlusajéD..Ê,graças às suas via-
gens, esperaobter os fundos necessários'Dará--ftüanciaruma nova cruzada. No
diário da sua primeira viagem refereesseprojecto: esperaencontrar ouro, escreve
ele, <<eem tal quantidade que os réis possam num prazo de três anos preparar e
levar a cabo a empresa da conquista dos lugares santos. Foi por isso que manifes-
tei a SuasAltezas o desejo de ver os proventosda minha presenteempresaconsa-
grados à conquista de Jerusalém; e SuasAltezas riram-se...)>.Durante as viagens
seguintes,Colombo recorda o projecto e transmite-o aos seusherdeiros: devem
utilizar a sua herança para equipar uma armada que se apoderara do Santo
Sepulcro.
Trata-se de um projecto decididamente anac11éDjç.ou
em finais do século xv já
ninguém pensa seriamente nas cruzadas í'êõmpreende-se que os Reis Católicos

233
não o tenham levado a sério. No..entanto,-paralelamente..a-este.:matisla..religioso..7
existe 1IM.outro!-çonlpletamente-.dizer lon+bo-está- \
l;ã88Lli;.eçÜ.aalx]çgu.]'2Es?slg1l$1391ê.>""--'.1+?1"?bfa!:#'
novas terr nó$Zãg:!ii6.H14iítmã:'Tal como, .para o homem
modernosuma coisa, uma acção ou um ;éi'só são belos se se justificam a si.pró-
pno$ para Colombo <<descobrip>
é uma acçãoque contém em si a sua propria
recompensa. <<Q.g.yçel4:ggçÇg.É.xçJ=.g,gÊFl99blit.g.gHi$XUMia,..escreve .no seu
diário; basta que lide assinalem a existência de uma nova ilha para que sinta von-
tade de a visitar. Durante a sua terceira viagem, esta tendência parece tornar-se
ainda mais precisa: <<Disseque estava pronto a abandonar tudo para.descobrir
outras terras e ver os seus segredos.>> <<O que mais desejava», segundo dizia, <<era
ampliar as suas descobertas.)>O objecto da descobertaimporta agora menos do
que a própria acçãode descobrir.
O contacto de Colombo com o mundo longínquo que revelou aos europeus
revela a mesma ambiguidade. A aceitação dos preconceitos e das autoridades tra-
dicionais entra constantemente em conflito com os resultados da experiência e, na
maioria das vezes, é essa aceitação que prevalece. O seu estudo de diversas profe-
cias e de relatos fabulosos levou-o a acreditar que oéontinente se encontra a sete-
centas e cinquenta léguas da ilha de Hierro : percorrida essa distância, desiste de
viajar de noite, receandonão ver a terra que sabepróxima. No regressoda sua
viagem, Colombo escreveum Z,furo das ProÚecfas,colectânea de fórmulas extraí-
das dos livros sagrados,que na sua opinião preconizam a sua aventura e o que
dela resultou. E no prefácio escreve:<<Jádisse que para a realização da empresa
das Índias, a razão, a matemática e o mapa-mundonão me serviram de nada. Tra-
tava-se apenas de cumprir o que lsaías tinha predito.)>
O mesmo se passa com a'identificação das terras que descobriu. Colombo
tenta chegar por Ocidente a Cataio (a China) e a Cipango (o Japão): nenhuma
observaçãoque pudessedesmentir a sua decisão serátomada em consideração,e
até ao fím da sua vida acreditará que está na Ária ou nas ilhas que a costeiam.
Assim, um dia, decide que Cuba faz parte do continente e põe fim.às discussões
obrigando todos os membros da sua tripulação ajudar que setrata do continente.
Em compensação, durante a terceira viagem, quando aproa às costas sul-america-
nas,'apercebe-se
de que se encontradiante de um continente novo, devido ao
facto de, dessa vez, se poder basear em Pierre d'Ailly, que anunciara que existem
na terra quatro continentesque ocupamos quatro segmentosde um círculo;
Colombo imagina, pois, a América do Sul como complementoda Ásia, um
pouco comoa África em relaçãoà Europa.
.a Não é este o único elemento de uma percepção fortemente influenciada pelos
preconceitos. Colombo viaja tendo em mente uma lista de monstros elaborada a
partir das suasleituras, e vêmo-lo assinalarmentalmentea sua presençaou a sua
ausência: amazonas, sim; homens com duas cabeças, não; com cauda, sim; com
cabeçade cão, não; e assimpor diante.<<OAlmirante diz que o vigia, quando
andava no rio do Ouro, viu três sereiasque saíram do mar.>><<Para
poente ficam
duas províncias po.r onde não passei: uma delas chama-se Havana e as pessoasde
lá nascem com uma cauda.>>Colombo também leu em Mandeville e em Pierre
d'Ailly que o paraíso terrestre deve situar-se numa região temperada, para lá do
Equador, e durante a sua terceira viagem convence-sede que o encontrou na costa
sul-americana.
O mesmo princípio, por fim, preside aos primeiros contactos de Colombo
com os índios.'De início, a comunicaçãonão existe,devido ao facto de ignorarem

234
a língua uns dos outros. Mas, em vez de admitir essefacto e de tentar superar os
seusinconvenientes,Colombo decide põr na boca dos índios o que deseja ouvir.
Convencido de que se encontra no Cataio de Marco Polo, <<julgouperceber que
iam até lá naus de grandetonelagem,pertencentesao Grande Khan.>>Segundo
referi;,..êé..llle falam dÊ.oui:Q, g de espçclptmsç de::xjços .merçQtbres e dé. nobres ü/
:governadora!:.ÇQlg!!!bg.ç$!á.c.onçencidó çlç que os índios CQmpreeãElêin-tüd(J'o
que e]e ]hes diz, mas os seus rejj#qjJiró\fam.]iíõÉ]Õ:çgntia.rlgR'as'suas abordageüi
.ãmiêá;vtii34êllÜlêfl)rêtãilas-coma.acçÕ.çs .de guçrra e vice-yeiSã:
Em compensação, Colombo dá provasde um espírito modernona suarelação
com a natureza não humana. Em primeiro lugar, impressiona o verdadeiro culto
que Ihe dedica: a sua admiração perante as montanhas e os regatos, as planícies
e as árvores, os peixese os pássarosé constante. E certo que Colombo tem inte-
resse em apresentar as suas descobertas sob o melhor ângulo possível, mas os seus
superlativos ultrapassam a mera convenção e o seu comportamento .reflecte-o:
por várias vezesinterrompe a viagem para melhor admirar a beleza; <<Pàra.ele foi
uma maravilha tão grande ver as árvorese a frescura, a água límpida, os pássaros
e a amenidade daqueles lugares que disse julgar nunca mais querer partir'dali.>>
Mas Colombo não se contenta em admirar e amar a natureza:litambém sabe
interpreta-la. E isso explica os seusêxitos de navegador: sabe escolher sempre os
melhores ventos e as melhores velas; inaugura a navegação pelas estrelas e desco-
bre a declinação magnética. 'làmbém sabe observar as plantas, os animais e os
corpos celestes,o que Ihe asseguraum dos seusraros êxitos na comunicação entre
homens. Encalhado na costa jamaicana há oito meses,já não consegueconvencer
os índios a fornecer-lhe gratuitamente víveres.TDdayi4ucQnlQsabe çgLgue data.
ge.ílalá.pm.«lipse.da..Lua,:anuncia aos.seusinterlocutores.que,[Qubará o.aslre.;da
noite se.eles não satisfize.rem.os...seus.,pedidos.QuandcLa-ameaçacomeça..a-con-
çrQtjzar:se,.: gs caciques-Dbe:dcêêbi..
Pode dizer-se que a descoberta da América fica também a dever-se a todos os
aspectos da personalidade de Colombo. SÊBãQ.Üyes.$Q..sido-bom~observador.da,
natureza.Ê..bábiLnavegêdaB-a..s.çu.projççto puncails..teria: realizado. Mas se não
til7êÊbé\ávidono mundo semifabuloso dos antigos relatos e das profecias, o pró-
prio projecto nunca teria existido : marinheiros mais realistas do que ele conside-
ravam a viagem demasiado longa (porque se ignorava a existênciada América) e
demasiadoarriscada. Para se levar a cabo uma empresatão audaciosaera neces-
sária a fé de Colombo.
Mas o que dizer dos indígenas, não como Colombo os encontrou (coisa que
nunca saberemos), mas como os descreveu?Colombo é mujlQ.melbQt.obsely4doF
da n4tW.çz4.].Wue.-.dos-homens-
Antes do mais, impressiona-oa sua nudez.
E üm facto real, masíiColombo temcrazões suplementares#para insistir nele.
Aqyçlê:.gente..Dãg conhece a velgQ!!!!gHsgêQ..!glyçz..$ç.pelhantes a AdgQ.êDtçs-da
queda? E não seria essauma razão suplementarpara peligãf'qüd'o paraíso terres-
tre estava muito próximo? Todavia, mesmo que tivesse de renunciar a esta hipól=.,Ü
tese fascinante, ÇPlombQ.sentç$e feliz.com .a.nudez -que..para elç, .simboliza á?F
ay$Ência de..çpllur4:S..PQr.consegilínte:a"façilidade-coma que'os -indígenas abraça-
rãí).p cristi,anismQ,,
Cóin o. $assál-dó tempo, a sua imagem dos índios evoluirá. De.iníci]],.deséb
jglg.gg--jzalQljêê11..ê.sua.dçsc012etlla..#ecjêia
que--é-tudo-perfeito..Qtjpdios -sãa
dócçj$.s-amáveis,-paçífjços at(i..Ê(ç:Qbardiái-são
os seresmais generosos do mundo :
dão sem qualquer pesartudo o que se lhes pede. No entanto, mais tarde, quando
Colombo se empenha na colonização do país, as suas impressões são o oposto.

235
Vê-serodeado de inimigos cruéis; os índios que atacam os espanhóis parecem-lhe
seresaudazese vingativos. Quanto à sua generosidade,converte-seem tendência
para o roubo: os índios tiram as coisas alheias com a mesmafacilidade com que
dão as suas. Não se tratará de um conceito diferente da propriedade privada?
Sem dúvida, mas as observaçõesde Colombo são demasiadosuperficiais para
que se possa acrescentar algo mais.
BêsEêdo nesta imagem!,..Çolombo concebe projectos ioga menlg.grllblg!!gli.Ên,
E(:la''=' i=P(5Íum lado, fiel ao uiiiçêãsalismaêHêtão, decideque secon:
verterao; concede-lhes,portanto, um estatuto de súbditos livres e na plena posse
dos seus direitos, mesmo que no seu inconsciente etnocentrismo nunca pergunte
a si próprio se eles consideram essareligião tão universal como Ihe parece a eles
Mas, por outro lado, o próprio projecto de propagaçãouniversaldo cristianismo' ÍI
exige que se consigam os fundos necessários para as expedições (para armar uma \
, cruzadaé preciso'dinheiro). Por conseguinte,Colombo esperaobter lucros das '
suasdescobertas.CQllw-leão..BH-acertezado consenljtnento..doslndios.trqtp,
numa primeira.fase, de ocupar mj]ilê!;çQçnte.aE.têillê!;..!evasoldo(]í)s-e...constiõit
ft;liãlêããl:liÊüi;;'ãi'aeélãtãêõêÇ'ltiíliêãi..ae Colombo e'ág"'aéclarações de guerra ' {
não passa muito tempo.
Mas os proventos tardam a concretizar-se: o ouro é raro e não existem ricos
mercadores. ColombQ.decide.então,numa segunda-fase,peggl.Eg.guç.epcontla.à-
mão.:..©síndios,.ç Vende:los.em.Espanha-como-escravos.As naus que levam mer- Ç
cadorias da Europa não deviam regressar vazias: <(As escoras poderiam receberá
em pagamento escravoscanibais, gente feroz, mas de boa constituição, e inteli-
gente; arrancados ao seu estado humano, serão, julgamos, os melhores escravos

' e os maus canibais.Os reis de Espanhanão vêemcom muito bons olhos a


empresa que, todavia, começa por ser posta em prática: Colombo chega a enviar
algumas naus cheias de escravos, mas cerca de metade morre durante a viagem. &

Como podemos associar o nome de Colombo a estas duas imagens aparente-:l'w


mente contraditórias dos indígenas,isto é, a dos <<bonsselvagens>>
e a dos escra-
vos potenciais? As duas imagens assentam numa base comum:. ignorância e
recusa de os reconhecer como plenamente humanos mas diferentes dele. Colombo
descobriu a América, mas não descobriu os americanos.h© ,:" 'i''lbuü l

Américo Vespúcio

Mas porquê a ,4mérica e não a Co/õmZ)ia?A respostanão é evidente. As via-


gens de Américo Vespúcio (1454-1512) são incertas e os seus méritos de navega-
dor, discutíveis. A única fonte de informação sobre as suas empresas é ele próprio
e a veracidadedo seu relato pode ser posta em dúvida. Para além disso, mesmo
supondo que as expedições se tenham efectuado, Américo não era o chefe -- mas
toda a glória recai habitualmente sobre ele. Par.oulrcL-lado,-aindaWe-wesq!!ç-
çam todas estas reservas, permanece g-façtq.lJe-AmÉljçg.]lêsplãçiQ.n.ãQJell..g.E.ro-
meiro em nada: nem a .atravessar-a...Allãpçlç9,..tlçlR.g;41ijQgjl..o.continente-pçm.â
rêconhecê-la.cama.tal. }vlas então, porquê? Porque Américo Vespúcio nos deu os
melhores relatos de viagem, duas cartas.çgp!!ççldag $(}b.g.DÇ)ing.gç.;&/zlWdle./ZQyzzs
e dç..Qya/zzoc./zqviga(içtze!,que interessaram vivamente agg.seuscontemporâneos
e, mais em particular, aos eruditos de Saint-Dié, que em qllQ.Z)pubncamuma obra
de geografia em que o novo continente recebeo nome de América. 4.:EggmpqnBa

236
\

Ç vgLpêra o escritQlnnêo-p41.aQ,nayçgador: Cg!!]..AHéEiçQ..]G:spúçin....enconüamo-


ng!.p(2BWçrante um ilgvQJipo- .de viajante..intelectual.e..attigê:
Para determinar as suas qualidades literárias é oportuno comparar duas car-
tas que muito se assemelham pela extensão: a que é endereçada por Colombo a
Santangel,emK1493,e a que Vespúcioenviaa Lourençode Médias (quenão é
Lourenço,o Magnífico),em 1503,conhecidasobo título de JMundz/s
/zovzzs;
são
de facto as duas obras mais populares da época, as mais publicadas (a de Vespú-
cio mais do que a de Colombo); foi essacomparação,implícita ou explícita, que
provocou a decisão dos literatos de Saint-Dié.
Comecemospor observar a estrutura geral. A carta de Colombo não revela
um plano concertado. Descrevea suaviagem, depois descrevea naturezanas ilhas
(Haiti e Cuba) e a seguir faz o retrato dos habitantes. Volta de novo à geografia
acrescentandomais8pormenoresacerca dos índios. Passadepois a referir-se aos
monstros, e conclui garantindo ao rei que aquelasterras são de certezariquíssi-
mas e agradecendo a Deus por Ihe ter permitido fazer aquelas descobertas.
A carta de Awéi:!çg.VçsJ;ÉçiQ,..pçlQ.ÇQittráEip..ievelê.uma
certa.educação-rçlé-
rjçá,.Começa-e.-termina,..comalguii!.parágrafos quç.resumem o essencial e onda
esjlá,.coDtidâ..4.perturbante afirmação da noyi4adç.daquele.JDÜRdçl'Dentro' desse
quadro, o texto divide:ie'claramente êm duas partes : a primeira descrevea viagem
(com uma digressãoacercadas qualidades de Américo como piloto); a segunda
descreveos novos países, com três subsecçõesanunciadas de antemão (no final da
primeira parte) respeitantes aos homens, à tel'ra e ao céu. A carta de Américo
Vespúciotem uma áQrma.çluasegeométrica, que não existqnà de ColombQ:j31»
bõtada '$fõpositadawente.paro.!ãscinai(jõ'leitõE
'l)ê factõ;'ha carta de Vespúcio,o leitor (iõupa o lugar de honra, ao passo que
a carta de Colombo não demonstrapreocupar-secom ele. Çgnvémd!?qr-gue.4
». posição do$.dois,*RâvegRdQre8=B4rradores é.íadiç.êl ç l& djfçlçntç,i:Na
mesmoquando escrevea SantangeÍ:'alta'funcionário e armador, ou a outras per-
realidade,

sonagens,Colombo dirige-se em primeiro lugar aos reis de Espanha, Fernando e


lsabel, a quem quer convencer da riqueza das terras descobertas e da necessidade
de se empenhar em novas expedições; trata-se, portanto, de cartas instrumentali-
zadas, uti]itárias. Nada de semelhante acontece com ADérica.]b$púçio, que viaja
para conquistar a glória, e não para ganhar dinheiro, g guç..escrevepela..lpesma
razão(<(oara perpe!!!g!...g;..glória.,da..,meu:.nomo>ppara...í(Drç$!ÍgjQ.d4.,.pJqha
yçltljçç»).; as stiãí'êãrtas visam acima de tudo surpreender os seusamigos de Flo-
rença, distraí-los e encanta-los; iDgpgê..FaduzjX:.:4/z//zdz/s./zppleg
parzLlalllnLpai.q.
que o povo çultQ.dç,.toda:a Europa <<possasaber quantas .coisas maravilhosas se
descobrem.toldo.!.os-dias».Em Ç2uarüii: zavfgár/odes:escrito ém forma de'êartã
a Soderini, outro notável de Florença, Américo Vespúciovolta a insistir na cer-
teza de que o seu destinatário sentirá prazer em lê-lo; e conclui com uma frase
que, embora seja convencional, não é menos significativa. <<Embora Sua Magnifi-
cência esteja constantemente ocupado com as coisas públicas, terá algumas horas
dç.Ópio.para dedicar um pouco de tempo a coisas agradáveis e deleitosos, e como
a,...Ü c(.funcliii,ke serve normalmente a seguir aos alimentos saborosospara facilitar a
digestão, podereis, para repousardesdas vossasimportantes ocupações,mandar
que vos leiam a minha carta.)>Colombo escrevedocumentos, Américo Vespúcio
faz literatura.
Não só se dirige a um homem mais com a intenção de o distrair do que leva-lo
a financiar novas expedições,como pensa que terá outros leitores,::eocupa-se
igualmente deles ao longo da carta. Daí, a clareza do plano, ou os resumos
$x«
237
u'

no princípio e no fim: essegosto pelaclareza, essapreocupação com a compreen-


são dos outros, são essenciais.Assim, quando se envolveem temas de cosmogra-
fia, em que o leitor pode não ser versado,explica-sepor duasvezes,justifican-
do-se: <<Paraque postais compreender mais claramente>>e acrescenta mesmo um
pequeno diagrama. Nada de semelhante existena carta de Colombo. Em Quaruor
/zavigarfones,Américo Vespúcio,como narladoLexperiente-ppegcppa:se
com o
interesse do leitor e não só com a sua comprçensãa,,.aliçiandou.o .com..ê.promessa
do quê virá a seguir. «Nesta'viagem vi coisas que são autênticas maravilhãi,
êõfii6'VoÉsã'Magnificência verá)>
; <<pessoas
que eram piores do que animais,
como Vossa Magnificência compreenderá)>.
Mesmo na escolha das matérias tratadas, Américo Vespúcio revela que se
preocupa com o leitor. Qs..Ü.çtQg..Qbservndosz.(ou-imaginados).-nãQ-sê.o-porém
muito diferentesem Colomba.e~enl.Me$púçio,.
Colombo descreveos índios nus,
receosos,'ÊéiiêíõiÓi:"j5rivados de religião e por vezescanibais. Américo Vespúcio,
partindo dos mesmosdados, desenvolvê-los-áem três direcçõesdiferentes. Reu-
nindo as indicações de nudez, de ausência de religião, de não agressividade e d$,---;3\
indiferença pela propriedade e associando-seàs antigas representaçõesda Idade. \ we:
do Ouro projectará a imagem moderna do bom selvagem.<<Nãotêm roupas de
lã, nem de algodão, porque não precisam delas; e, entre eles, não existe nenhum
património; todos os bens são comuns a todos. VjyÊm sem rei nem govgrnqpjg-ç
cada qual é patrão de.5i.prQpng. Uem tantas mulheres quantãi querêü, e o filho
vive com a mãe. o irmão com airmã, o primo com a prima, e cada homem com
a primeira que aparecer. l)j$solvem,os seus ç.asamentossempre que querela.gAãç)w
têm.nen]!uxn8..]Êi,8..esse.respeito.Dãa.têmJemplQ$unemLreljgjão,.Ê.nãQ,$ãQ idóla=
jr4s- O que posso#acrescentar
mais? Vivem segundoa natureza.>> Sabe-seque
Thomas More encontrarianesta descriçãoa fonte inspiradorada sua Utopia; o
mesmo acontecerá com inúmeros outros autores posteriores.
A.-sçgun(!ê.yertentlLÍ.g:. çlg canibgljs.mQ ombo referia-o por ter ouvido
dizer (quando não percebia'nada'ãã língua dos índios). Américo Vespúcio,pelo
seu lado, midtipliçR-$ç ep..gç)mentá111g!;..olíndios
çppturam;prisionçjlcl!.gÊ.gue1lra
para os.$Qmerem-depois; Q.boinem.nãn.tçmduaisquer..problemas çiD.dqyofar.a
mülliei;.+.o&filhos ; e ele, Américo, chegoumesmoa falar com um homem que Ihe
confeéêou ter comido mais de trezentos dos seus semelhantes; e durante UQ..pas-
seio entre,ns índios,.viu:carne.humana. sêlgadasuspensa nas:traves,+como.nós
fazemos çom a carne de porco. Américo refere estespormenores, digamos, pican-
tes."antesde nos comunicar a opinião dos índios, que não percebema repugnân-
cia dosileuropeusperante uma comida tão suculenta.}qãQ..hádÚ)ddade gue a
esco[ha dQ.tema.é. hábiLBastê.yçt.a]tgquêDçj3.CQ]D..qBÇ.4parççg,:gaq..jjpsgêçoes
da .ÉpocaQu--nos relatos posteriores.
Por fim, a terceiravertentedo relato de Vespúcioé a da sexualidade.A esse
propósito, Co]ombo limitava-se a dizer : <<Emtodas estas ilhas os homem.paB;....
cem contentar-se com uma única mulher.>> Américo Vespúcio está no:........:..aS
perante o mesmo tema, a sua imaginação .é,gllttciT...:.....
. Afirma repetidãHênte que
as mulheresdos índiosusãoextremamenteÇlúbricasD
e,.entretémos seusleitores
(homens europeus) :com pormenores deste gêüerõ: arranjam animais'venenosos
para morderem o pénis dos seus parceiros; o pénis atinge proporções incríveis,
depois rebenta e os homens ficam reduzidos a eunucos(imagina-se a emoção e o
alívio dos leitores). Outro prémio, porém, aguarda o leitor europeu, que logo
é informado do sucesso que os viajantes europeus -- que não são sujeitos,
presume-se,àquele perigoso tratamento -- obtêm junto das mulheres índias, ©\
238
l

«Impelidas pela sua excessivalubricidade, quando têm a possibilidade de se unir


aos cristãos, corrompem-se e prostituem-se.>>E Vespúcio chega mesmo a afirmar
que não nos diz tudo: <<Coisas
que não recordareipor pudor>>;ou, em Quaruor
navega/fomes, <<Opudor exige que omita o artifício de que se servem para satisfa-
zer a sua desenfreadaluxúria.>>Expedientemuito conhecido para excitar a imagi-
nação dos leitores...
star oartes do .A/unc;l!!g.po.vl6dirigem-se ao conjunto dos leitores:.(Dêle ]llpê
ve;,.!ggg! !!open.s,.IQÉb!.gulgpçus). }lá outiãs'ijüêmVeliíSügêitàííaõrgultiã dos
melhores entre eles, os literatos, e iiüõ ao mesmo tempo devem permitir que todos
'\ se sintam pertencer à elite cultural. lilti..QKÇ«p [ navfgario/zes, }lgsp14çlQ.çÍlq:guto=
&

!es-.a](!!idos
e modernos, Plínig, Parte,..Petralça;.eD..AZ&pdlgÊnovzzs,
depois de ter
\

@$çdtã:Õ!.®ãi"mV&éiig::,BHclqi..eU ]pq,.nejliWeR! : ;<É;aéi:iê=lãiF'déü:.iii


mais comoçêpiçul:iêlas)do que com;i3;i8i:lÕ3Í'nouiib'pasmo nãodeixa de(êVõêãi!)
os textos dos filósof(it Na primeira parto da carta, llá.Ql8ra:.pa$!49emmuiiõ"aÉ-
!!ig!!tiyg :-Amêrjç:o. .;lêmenlg..quç..IL..plJQIQ..Ü.JnaU-.SÊ;ja-:unl...&iiÕiãiiie"Üm
Américo, ninguém teria sabido qual a distância percorrida; é 'Õ-Uhiê='dentro da
nau que é capaz de ler as estrelas,e de se servir do quadrante e do('ãstroiãbii:l>
E acrescenta:<(Apartir degÉé'diagozo'entre eles de consideraçãolVfacto,
demonstrei-lhes que, Ein12ç!!g.Eãgpossuísse expg!epclg:p14ÜÊ$ graças aos ensina-
mentos das cartas de navegaçãoe'iã'iiiãi=hábij-dç)..gl4Ê.Jadp} os pilotos deste
.glgn!=lUEstes, com efeito, só conhecem:'as'águasem que já iíái;êÊãf'aiii3' Nãd
é por acaso que a imagem de Américo Vespúcio transmitida pelas gravuras da #

X
época é também a de um erudito.
Por fim, independentemente de todas as atenções que Américo Vespúcio dedi-
cava ao seu leitor, os seus textos colocavam-no de súbito num universo que Ihe
estava próximo, graças às referências aos poetas italianos, aos filósofos da Anti-
guidade e, ainda que em muito menor número, às fontes cristãs. Colombo só tem
em mente os livros sagrados,e os relatos prodigiosos de Marco Polo e de Pierre
d'Ailly. Sob.este..ponto de s'jstan.Colombo é um.homem.da Idade:Média e Amé-.
riqg.Vespúcio. q.pm homens do Renascimento,lo..que.aliás.nos é igualnlçnte reve-
lado-por-alguns rudimentos.de.relativ.esmo .çul!.oral, preseiiié'iiiiTespúcio, qui
gQsjrans.creme.o.qug-sabe.acçrcadafo.rlnaanmQ. qgJndioX..Põem...ps . çuropeu$1
(e não só o modo como ele próprio vê os outros). Ora, os leitores ávidos de'iióçi.:
dades também faziam parte dos tempos modernos. Além disso,.aQ.CQQjráriQ.do
quq.acontece. em .ÇQlgmbos g mundo representado Õõi Ve$pygQ..S..meramente
humanos As monstruosidades que desciêve'nãõ' sã(i'dd''âmbito sobrenatural"='al
palavra <<mgBgtlyosida4e>> surge, por exemplo, quando evoca os $RfQ11ps...dos
ígçiios, que furam as faces ou õilábios e introduzem pedras nos orifícios. As úni-
cas inverosimilhanças em Américo Vespúcio são exageros; revelam mais a má-fé
do vendedor ambulante do que a ingenuidade de quem nele acredita: a certo
passo diz que os índios vivem até aos cento e cinquenta anos, e em Qz/amor /zavi-
garfones descreve-nosdemoradamenteuma população em que as mulheres são
tão altas como os homens europeus e os homens muito mais altos. Basta ver a
alusão que Colombo e Vespúcio fazem do paraíso terrestre, para avaliar aM- -» +.3
renca aue..Hblg.ely11:...SIÊ$: Çolg1l1lllJWdita piamente nele e julga tê-lo visto ;
Vespúcioutiliza-o como simples0lip:!bole,janimada talvez pelasevocaçõesestáti-
cas de Colombo), para coroar uma'descrição perfeitamente convencional da natu-
reza daquelas paragens : <<Claroque, se existe um paraíso terrestre no mundo, não
duvido que seja pouco diferente deste país.>>

239
r

Um historiador do séculoxx, Alberto Magnaghi, encontrou sólidos argumen-


tos para afirmar que Américo Vespúcio não era o autor das cartas publicadas sob
o seu nome, que eram obra de alguns literatos de Florença, de escritores profissio:
naif que se tinham apoderado de um tema em voga. As conclusões de Magnaghi
foram, por sua vez, contestadas, mas são fascinantes : quem as perfilhasse pode:
ria afirmar que essascartas não só não foram escritaspara os leitores, mas até
pe/os leitores; nS»ç-cgêç!.âçliam-um.símbolo da..triunfo..daJitçr4tpra.

Fernando Cortez

Depois de Colombo, g.p4vçgadQr, e de Américo Vespúcio, o.esçdlor, temos JS 'q+


Cortez, o.çgnqyistadoLQ481J.!4Z)uO conquistador do México mereceser aqui
referido, nao se porque foi o primeiro a efectuar uma verdadeira conquista mili-
tar, mas também porque o seu exemplose imporá de uma forma taxativa: os que
vieram depois dele imitaram inconscientementeo seu comportamento ou tenta-
ram escaparà sua influência. Çorlça É..Q.2dlneüoviajante.que-.ü)i.até.àAllxérica
CQ.i]].Elçwú.oilÃçiênçia-do -seu-papel PQlílico.n.-mesma.histórko. Antes dele, houve
o$..nawsadoi:esjLurxlinadQ$,...ççma,Colpmba,oy curiosos-coma..Ãmél=jçQ.Vespg=
cio. e sobretudo uma massa de aventureiros,que procurava nas descobertasum
meio dç..ÊQr.iqt4Sçç11.deW.rçs$ê..q
leia esforço. É' devia'êéi:'êsse tado de espírito
do próprio Cortez antesde assumir"Õ'comando
de uma expediçãodestinadaa
explorar o território mexicano. Todavia, a transformação já ocorrera quando as
primeiras terras eram avistadas.Um dos seus marinheiros sugeriu-lhesque
enviassealguns homens armados à procura de ouro. <<ÇgnezlndQ:Jeqpgncleu
que nãQXlçla.para. ç411mçsqu+nhices,mas pqjl!.-seryj!..Deus..g,Q
.rei.)>,Mal toma
EÕiiiiétlimento da existência do'féihõ'de Mohtezuma, decide não se contentar em
extorquir riquezase projecta submeter o próprio país. EsseçompçXtament!.opõe-
se aos desejos dos seus soldados, mas ele permanece(jjÍahovív'ell)
Cortez põe ao.sçr-viço-doseu pmjsçlg.polítka uw.ÇQDhççjjilçn.!Q.çlQ$
.}ndíg%
nas lealmente..nQVQ.ç..ymeontrolQ impreciso da comunicação que.se estabelece
0' entre..si e eles. Ao chegglt..a..terras,mexicanas,.o sep primeiro pensamento não,é
IÍpç2gç14[=$ç.dQ.gãílQa-mq$.arranjar.pin intérprete. Começa por descobrir um espa-
nhol que, depois de ter naufragado naquelas paragens, vive lá já há alguns anos
e que aprendeu a língua da terra. Em seguitla, toma ao seu serviço.uma índia visi-
ve[menie dotada pêlo.@$,].ínguâ:..(g.!!!111béD.2êEê.wdÍliçê), a célebre Malinche,
ou Dona Marina cujas qualidades se revelam inestimáveis: intérprete eficiente,
transmite a Çorte&.3ã.p413y.l:asque.Ihe.sãa.,.dirigidas,-mas;também.interpreta;g$
.mlnUQU41neDÇQS.dos..êdye11$ário$:
Assim, segurode que percebea língua, Cortez não desperdiçanenhuma opor-
tunidade de co]her novas informações e recompensa generosamente.g$.5e]!sli].BIL
m3dÉ)res;.QgÊ3iJ:Q!::Wiljl41ÊSsó se explicam deste modo. Rapidamente descobre a
4 existência ddGãisseglÊÊà entre os vários grupos de .índios e as.resistências que..\ l
alguns deles i: poem ao poder central representado pelos aztecas, f%ctQ.gug.dç$eD-( l
/
Ó

PÊphêrá..y!!!..29pçLggAimçilQ. plalip..pi2.decurso.da.guegai Cortez jogará ha- J


.2
bilmente com as rivalidades locais, apràiêhtãndo:se"cõiho 'libertador de umas
primeira população contra uma segunda,depi)is da segundacontra uma ter
ceira, e assim porá(diante; garantirá assim a colaboração activa dos indígenas:..:J
&
.Simbolicamente,.,a.quedaJinaLdQ..iinpé.rla..az.teço:.Í..Bualgl:eillg.gprçslada oela
)
.sériede informaçê!!.!Êçolhidas: Cortez vem a saber da fuga de Cuauhtemoc,
240
o sucessorde Montezuma, e consegueaprisiona-lo; com a prisão do rei, o reino
renal-se
.Mas Cortez não se contenta em recolher eficazmenteinformações; uma parte
importante da suã êstraãéÉiã'íiambémêõãÉtituídãÕêlãêfíiíêsão de iíiiãis destina-
dos a provocar conljusêQno inimigo. Está muito atento à imagem que o seu com- ,x
poitããiento Õi o dos seiiÍ'iÕlãaãos deixará nos índios: castigaseveramenteos
saqueadoresque pertencem ao seu exército: roubam o que não se deve roubar
(os bens pessoaisdos índios) e dão o que não se deve dar (uma má imagem dos
espanhóis).Quando, numa outra faseda suaconquista, sobecom Montezuma ao
topo de um dos templos do México, depois de terem subido cento e=catorze
degraus,o imperador azteca convida-o a descansar.<(Porintermédio de intérpre-
tres, Cortez responde-lhe que nem ele nem nenhum de nós se cansava, fosse qual
fosse o motivo.>> Um cronista fá-lo revelar o segredo dessa atitude num discurso
que teria feito aos seus soldados : <(O-ê2Liledê: guelra:.dçpçll4e.em grande'parto da
.PQ$$4repylgçãQ:Z
Ao mesmo tempo, Cortez vela para que os índios não poisam perceber bem 9
o seu sistema de informações e de comunicações. lbt.mempIQ,..!á.::las..acreditar
que::$4beçloq.seis-mgylDentos.Jlão..porinformadorQ$mmas-pdlacon\yjtada-bús-
$ç214:l
No início, os índios não sabem se os cavalosdos espanhj5is,seresdesconhe-
cidos, serão mortais ; para os manter nessadúvida, Cortez mandará sepultar cui-
dadosamenteos cadáveresdos animais, na noite segujDteà.batalha. Comporta-sea'
com uma ambiguidadeintencional obrigandoosQigyiléljgy' aztecasa opções L
impossíveis,que os fazem, ao mesmo tempo, confiar e desconfiar dele. Quando
se sente fraco, faz acreditar na sua força; quando se sente forte, faz acreditar na ;/
sua fraqueza, atraindo assim os aztecaspara armadilhas mortais.
Durante toda a campanha manifesta a sua predilecção pelas acçõesespecta-
culares, consciente do seu valor simbólico. Por.e8çmplQ,.-Lessencial vendei:wKL
Jpejla batalha contra os índios, destruir os ídolos aõ"Õiíniêifõ'deiãfíãaõí'sãêel::'
dotes, para demonÉtràf"a n\vulnerabilidade,ElCÇDçç!no primeiro encontro
lge bergantins e canoas dos índios, queimar um olLgulro paláõía'il=jêjd4çjê;
p4Eê..me$tliacquãa.!!Qlávçl..é..a..SH4..)gnlpgeln,-
subir a um templo jiãiã que todos
o vejam. Raramentecastiga, mas quando o faz é semprede forma exemplar e de ,ç/a )

modo a que todos o saibam. A própria utilização que faz das suas-arma$xéde 'Ç'
llmê..ÊDçáçiê..Dêle.git!!bliliq4..do que prática. Manda construir umas:êêlêpwlM\que
não funcionará, mas que nem por issoeprovocará menos medo entre osi'índios. ' CX'

Também se serve dos seus canhões mais para atemorizar os seus interlocutores dQ
que para destruir muralhas; e os seus cavalostêm uma:função idêntica. :~h
Este..mmpQnam.ente..de-.Gortez.]evailEl;sistivdmenlç..g:.pensa!.EQU®amen-
!Q&.qtla8ç..çeíHel1lporâneos.de.MaqHjpveluMaisdo que de uãa influência directa
.trata:se-da-espíi:üo.-de..uma.época, que xe .revela;Tios.]çXIQg.de..um.x nos -actos-de
a.utrQ;. aliás, o.{çLçlçêlé!!çg!! Felpall4guçujg cppdl49;.ilãQ.PQçli& s.ÇLjgngrada por
"Çg111çz,é..ÇBêlçlQ.p4)[.Maqui3veJ.coma..modelo-.da--<<novo....príncipo>.Como hão] ]
relacionar os estratagemasde Cortez com os preceitos de Maquiavel, que coloca l \
a reputação e o fingimento no cume de uma nova hierarquia de valores? <<Um
príncipe não precisa, portanto, de possuir todas as qualidades enumeradas,mas
é necessário que pareça possuí-las. Atrever-me-ei até a dizer que, se as possui e as
respeita sempre,o prejudicam, mas se fingir que as possui, ser-lhe-ão proveito- 'w
sas.>>(Przhcipe, 18.) No mundo de Maquiavel e de Cortez o discurso não é deter-
minado pelo objecto queisdescreve nem apela conformidade a uma tradição, À.>
constrói-seem função do objectivo que procura atingir.
z, \

241

d
P

4: aunipulação.mais sompkxa-em-queKempç!!boB-.ÇQ11ez.é..ê.do.mito..dq
QuetzalcQ41L.Este
HitQ.índio.falida.partidadcLdeus-QuetzalcoatL-e.promete.gue
íi;iilãjii..ugressará.CQHçnnja..a sabê©e-.utiliza-.cc-âselt.falou afirma a Monte-
2uma que o seu sot;;lrano (Carlos V) é totalmente idêntico a Quetzalcoatl. Em
seguida,os índios omitem esselaço intermédio e identificam directamenlç.Quem
zalçQatl.com..Q..ptóprlQ..ÇQ!!$Zu A operação é vaníãjõiã a todos os níveis : Cortez
l;ode assim gabar-sede uma legitimidade perante a população local. Para além
disso, fornece aos índios um meio de racionalizarema sua própria história: de
outra forma, a vinda de Cortez seria perfeitamente incoerentee pode imaginar-se
que a resistênciateria sido bem mais feroz.
Todas .estas observações.tSpdçm B proy41:AP(i.ÇQÜçl.çpRIKçs. bbastante.beD.os
í!!dios ; talvez não tenha sido capaz de expor esseconhecimento em termos abstrac- )
tos, i;iãi sg.Ul2ç-intçrjçtizá::la..dç..mede.a.Jbzí:!.ílEIÊ.,ê.b!$(:.gg.seiLçglppogam:e.nlg=

O contrasta, tanto com Colombo como com Américã Vespúcio,é surpreendente.
Nele pode ver-se simultaneamente, de forma esporádica, um interesse real pela cul-...õ
Lurados índios. Se,numa primeira fase,se preocupa apenasem derrubar os ídolos
e em destruir os templos (isso faz parte do simbolismo da sua estratégiamilitar),
pouco d$pqjEdn conquista.preocupa-se-Êll! prolegê-los, como te.stemunho!;dg.gyl-
tui:ããzteca.. <(Mostrou-se muito contrariado porque queria qué'õÉ temlplos dos ído-
IÉs Bêi:i;lãnecessem como monumentos>>, declara um dos seus adversários.
1141.$!!êS.QPIBlãç!.êçç11(;g..d91941çc::l$wCgllçllçvela
admiraçêgi é provável que,
como Colombo, procure valorizar as suas descobertas, mas iestima que revela pelos
seusadversários parece autêntica..<<Nosseus comportamentos e nas trocas que fazem
/ entre eles seguem quase os mesmos modos de vida dos espanhóis, e a ordem e a
© Ç harmonia reinam como aí.)> As cidades estão bem organizadas, ás casas são boni-
q
V d tas. os mercados abundantes, os costumes requintados; as jóias e os tecidos sâo
'elle
/< admiráveis. '!bdavi lciaLdD.ÇQDt&çtQ.eD:
.o destes, em lentidêdç:.çlü kpois nq-suapró-
proa vida considera-se que em finais do século xvi restam apenas um décimo, e
mesmo menos da população que Cortez encontrara à sua chegada: é o resultado
do <Khoque microbiano>>). Por conseguinte, pode:sç.çonhecet e.até adt }s
e contribuir T)arao seu extermínio, Mas como é possível?
rtez.adm.irmos--objectosproduzidos-pelo :faças
ma ies#indivíduos :como seres humanos=a colocar.no,.mesma..
Õlãiiã que ele ocupa. Os índios podem ser bons operários, valorosos guerreiros,
aliados fiéis, iDasnunca-serão Considerados-4)or-Cortezcomo szíZ)dífosno sentido
pleno da palavra, ou seja, inqQÍ(!uo!.ggladg!.gS.yQ.a..yçlnta4ç..:jure. Quando,
numa outra ocasião, tem de 'êxprimij:'ã":üã''õbinião acerca da escravidão dos
índios, analisa o problema segundo um único ponto de vista: o.da,.prpficuidade
da-empresa;nunca se faz caso do que os índios, pelo seu lado, poderiam querer.
E, simbolicamente,no seu testamento,Cortez não se esquecede mencionar
nenhum daqueles que merecem o seu dinheiro : a sua família e os seus servidores,
os conventos, os hospitais e os colégios ; faltam apenas os índios que, todavia, são
a única fonte de todas as suas riquezas.

Bartolomeu de Las Casas l q-Zc\. l S6 É'


ColQlnbo, Vesp!!çjg.Ê.Çortez são viajantes que, perante os indígenas, 'pensam
jantei gç..tulig.ep. si mesmo!, na süã'tultüfã:'lias vantãÉéhg"quépodem êxtraií.
242
0 Çclql.Eg$$B$g$ Êl4$4-15ó6) a mudança é radlç41: preocupa-se, em primeiro lugar,
em poupar aos indígenas ós'gõfrifneótõgl'a$ extorsõesa que os sujeitam os con-
quistadores e os colonizadores: a sua"ãlêunha não é por acaso <<odefensor dos
índiop>? Para falar verdade, durante a iüã longa carreira, Las Casas modifica por
várias vezesa sua posição e, embora sem se entrar em todos os pormenores,
temos de distinguir etapas {diferentes e diferentes graus dessa <<defesa>>.
Nascido em Espanha, Las Casaschega pela primeira vez às Antilhas em 1502.
Ó com a idade de dezasseteanos; instala-se na ilha Espanhola (Haiti) e empenha-se
numa-dupla-actividade;"'de-colono-e«4e-padre.
Em 1514sobrevéma sua primeira
<<conversão>: a sua experiência pessoal, por um lado, mostrou-lhe quão grandes
são os sofrimel!!Q! dos índios; por outro lado, ficou impressionado com as con-
denações da('insídÜs espanholas, pronunciadas do alto do púlpito por frêdçs
dominiçanosjWdqçs çhega mesmo. a recusar-lhe...ê..confissãoporque possui
Índios, oque é40ntfário ao:espírito cristãcb Las Casasrenuncia ehtãó aos seug©
índios e começa a militar a favor dos seus direitos. Prega, ao mesmo tempo, a
colonização pacífica e embarca à cabeça de um grupo de camponeses e agriculto-
res (já não soldados),para colonizar terrassituadasna actual Venezuela.Mas o H J

conflito armado,}apesar de tudo, explode e a expedição falha. Dá-se então a?o 4!

segunda<<conversão>>: em 1523,entra para a ordem dominicana; durante mais de


dez anos vive afastado do mundo, aumentando muito a sua cultura livresca.
AHarljLdeJ-535 -regressa.à.Jlil:aaçtiJza.pelos-diremos-dos"índiosl-tanto;no conti-
alonizaçãaTacfnca-omnllhê..!3uêk. ')

mala.}'êunlo em Esnanha-junto..daaets das autoridades n:ligiosa!;/ ii:;


= (!:,/;)(1..r.9u y
Nessa época surgemgas suas intervençõêgmãis'êéRebiê='Em J)romeiro lugar, ./-/'(< \
dÊnunçjâ.jnçansave]ment9 a-cruç]dade dos conquistadores .e..dos..cõ]on])odores }
npanhóis: a Brevhima Relación de la Desfrucción de las Índias é o exemp\omais
célebredessa denúncia, mas não é o únicoiiEm segundo lugar, propõe medidasCÕ
jurídicas e políticascconcretas,que contribuirão para melhorarCasituação nas'<'
co[ónias americanas.Em terceiro lugar, ref]ecteacercados fundamentos morais e
filosóficos da suaacçãoe encontraa suajustificação última no princípio -- para
ele:.cristão .:. =.da unidade: do género. humano e.Éla.igual dignidade de todos os
seusmembros....
{<Asleis e as:regrasnaturais e os direitos dos homens-sãocomuns
atadas as nações,.cristãs ou gentílicas, de qualquer seita, lei, estado, çor e condi-
ção, seú qualquer. diferença.)> Com este credo, Las Casas surge aos nossos olhos
comohm dos. primeiros militantes,dos direitos.do .tomem,
/
'f-«'Mag as coisascomplicam-se precisamenteporque Las Casascontinua a ser um
&

')cristão fervoroso e um adepto da conversãodos índios. A ideia de uma religião


universal é interiormente ambígua, porque, à.fs]ça:.dS..gt]arer.ser.
comum q.lodos,
&

a lçligião.4{t$ça-sç a pelçleL4..$ya.identidade.;e, inversamente,se permaneci'nel


a si própria, vê reposta em discussãoa sua universalidade.<<Areligião cristã, que
é uma via universal, íbi.concebida.pelamisericórdia-divina a'todos os-povos,para
qHe abandonem-os-caminhos-e,as seitas-doslmfiéis.)> Mas o que será necessário
fazer se os outros povos não têm a mesmaideia do ideal universal?Deverão
obrigar-se pela força após o fracasso das tentativas pacíficas?
Para superar essaoposição e permanecer ao mesmo tempo fiel à religião cristã
na sua particularidade e ao seu ideal universal, semtodavia aceitar recorrer à
foi.ça, !!ê19asa!.tem.uma--úMçasoluçãw-esquecer- as-diferenças--entre.-.povos-'e,
entre. Culturas; ver os..índios en} função..das.suas-necessidades,ouseja.como.$e
j4:.est.!cessemprovidos-dequalidade$...ctislãs-x<Nunca, em outros tempos ou entre b l
outros povos, se viram tantas capacidades,ütantas
disposições,tanta tendência \ l
#

243

]
para esta conversão. Não há..gonundo-povçl-Duais-dócil--ou-menos -rebelde-iwm .(
mais. apto ou mais..disposto-do-..que--este..a.!çççbe!..g..Wgo-de-Cristo>x.
Os índios,
cõfiío-nãã::iê cansa de repetir, são humildes, pacíficos, dóceis, generosos: em
suma, são já providos de virtudes cristãs.
Confinado à sua estratégia,Las Casasofereceportanto um retrato estranha-
mente pobre dessesmesmos índios que devia porém conhecer bem e a quem dedi- (b
cava um verdadeiro amor. <<Detodas as maneiras, todos estes povos universais e
inúmeros Deus criou-os extremamentesimples?sem maldade nem falsidade,i:.F
muito obedientes e fiéis aos seussenhores naturais e aos cristãos que servem; são
os mais humildes, os mais pacientes, os mais pacíficos e tranquilos do mundo; \

semrancor e semalarido, não são violentos nem litigiosos, não guardam ressenti-
mentos, nem ódio, nem desejo de vingança.» Impressiona ver como Las Casas,d
fiel aos /opas da idade do ouro, é levado a descreveros índios em termos quase
exclusivosde negaçãoou de privação: /zãotêm defeitos,não são /zemisto /zem
aquilo... Pode perguntar-se então se Las Casas, que combêlçg..a violênciiL:qsica
e a agressão militar, não se torna aqui cúmplice de um:(jlÍgjênç!!.!gacç11114a1-2eVi-
dentementemuito menoscruel do que a outra, mas que não deita de ter conse-
quências importantes : recusa-se a reconhecer os }índigg.por.4qpilo ql4g.sêo e
jlnpoQ'lhes uma imagem que provém dele próprio.\Qs índio!,!ãç) àss/mf/ado!!g$>
\- cristãos:'->
a meslnp sç PQdpquase dizer.das:iqejê$..propriamente.políticas de.LasCasas.
Tanto no decorrer do episódio da Veneiuela como, mais tarde, no da Guatemala,
não se opõe ao princípio da colonização, nl41.plglÊlg.ê..ao1loni44çã(!mcífiça;.s..PiQ-<'
grç$$jv©lê$.gliç!!a! e aos massgçre!:.O resultado, como ele afirma constantemente,
;l:ibreiierivei nao se pãía o bem-estardos índios, mas também para o das finan:
ças do rei. «Declaramo-nos prontos a pacifica-los e a coloca-los ao serviço do rei
nosso senhor, e a converta-los e instrui-los no conhecimento do seu criador; (!çpais
faremos,co.mwestê$:pool!!gçgelJQdQ&çls-ano$Xggy.çlg.Eibutos e pres.bem sexy'
çg$ a-Sua:Mêjesladg..ds-acglya-.çom.aLpossibilid4qç&.91çJ:çêidãb.lpêlós-seus.!gçilt;
so$..!!!gg.ÊUI.prova:ilg.dQ.tei,.da Espanha.a.de$tçX.paí$ç$.>>Las Casas não quis deter;o':)ü &
a expansão do império espanhol como não quis limitar a difusão da religião c$;stã 7
Sonha simplesmentecom uma boa colonização,levadaa efeito sob a egidP'dos
religiosos-- um Estado teocrático, portanto, cujo poder espiritual prevalecepobre
o temporal. Por conseguinte, também neste plano Las Casas permanece um asse:
l
milacionista: Qlãle.z.assimilação é.inegavKbmenle.prQfQEiyçLaa e©çtlnípág, não é V
todavia um comportamento .isento.de:quajquer.r:lítica-.í qüe:ükük )m it 1 . o.
Mas as mudançasde Las Casasnão ficam por aqui. Embora não se possalfãlar;t
de uma terceira <<conversão>>, tç111.dg..se-çgnstatÉlt.qye.parag.$!g..4g:.$pa vida as
a suas posições. se,tornanlMmbéli..nlâi$Mdiçêis, e.a-fazem-adaptaluQxoup!!!Q! de
vista.ÊD.3slgçgp. aos,índias... Poder-se-ia situar gta última.!Du©êBçê,.Êgt.]©lt4 de
1]550.ando uma discussãopública em Valladolid o opõe a um erudito leigo,
'b(g;ini;l;ããgyç,.s.Q.ügDÇ.dâ .çlgutjliRagg.ébli$1óleles.a.calca dos esçlêllqs:pgL:alu-
ãÜ:i dcjêlêlêMdins-sS1:9ê..j!!ikliglçg.9.jwiliina.a..g!!!!!!,!g:!11t.!!Êâ. iãs Clasas?
opõe-se vio entamente a esta visão, e é aguçando os seus argumêiiiõi contra Sepúl- q OV
veda que parece ter atingido as suas últimas posiçoes. A discussão não ter!..l11111J
conclusão oficial, mas acabará tendencialmente a favor de Las Casas. .---"T"''
O ponto em que Las Casas sentiu necessidadede melhorar a sua argumenta-
ção diz respeito aos sacrifícios humanos praticados pelos aztecas.TH facto ferira U
tanto a imaginação pública como o canibalismo e os autores hostis aos índios
viam nele a melhor prova da sua inferioridade natural, o que tornava legítimas as

244
N

./
guerras de conquista ou a sua redução à condição de escravos.Las Casasaceita
/
g-desqfigLluão tenta evitar a discussãoa esserespeito.A sua estratégiaêpoli;ãê?
liça é duplo. Por um lado, tenta fazer parecermenos estranhastais práticas,
\eêõtdando todos os sacrifícios que surgem na Bíblia. Por outro lado, e isso é o
mais importante, adopta uma nova posição de princípio em relação às várias reli-
giões e portanto também à pluralidade das culturas.
Las Casasdistingue agora entre o objecto do culto religioso e a qualidade da
experiênciareligiosa, e sugereque a excelêncianestedomínio é preferível à que se
poderia encontrar naquele. Praticando o sacrifício humano, os aztecaserram
quanto ao objecto ; a.Deus çi:istãe.nãe.çxlgjria.m.saçrifíçios4ue.n.mngrentQ-lez;
'c41#pgçàéxiéç,)No entanto, agindo como agem, testemunham a intensidade do a
'seu sentimento religioso, já.quÊ.estão. protKQ$.B..d3[:.êQ..s.ç]LDeus-.o-
quG..exiêtç.dF
mqi$ precioso : a vida humana. <<Ospovos que ofereciam sacrifícios humanos aos
s'eusdeusesmostravam assiiií, como idólatras transviados,o alto conceito em que
tinham a excelência da divindade, o vvalot.doq..$eRs-dçp$e$;...g..quão.n.Qb.Q,.g!!êÉ)
çlexcaçla..sra..a.XRa
veneração d:1.4ixjndadç. Demonstraram pois possuir, mais dÓ \
que os outros povos, a reflexão natural, a rectidão da palavra e o juízo racional; \
melhor do que os outros serviram-sedo seu intelecto. E, em matéria de religiosi-
dade, superaramtodos os outros povos, porque os povos mais religiosos do
mundo são aquelesque, para bem dos seuspovos, oferecemem sacrifício os seus
próprios filhos.)> . .... c)-l
O argumento de Las Casas éGnsidigsÕ (apregentalpmQ.pgi .suicÍçlip ç? quç]
um bg!!!jçídio), mas isso pouco importa; o. problema do sacrifício humano
lêiiou-o a uma tolerância nova. Como a religio;idade.Boi.separadadarQbgião. e
g!.aztecas.são-.de(:Lacadosmaia..[Êjjgjg$osdo que os espanhóis, isso não signifi-
cará que a conversão ao éíistianismo não é tãd'urgente como parecia antes? Lasli:
Casasacredita na superioridade da sua religião, mas admite que são muitas as
vias que conduzem a Deus e aprende assim a respeitar a religião dos outros.
O mesmo acontece no plano político: durante esse mesmo período (a partir dep
1550), chega a sugerir ao rei que desista das suas conquistase restitua aos anti-
gos governantesas suas prerrogativas; se esteso pedirem, e só então, o rei de .
Espanha deverá admiti-los no seio de uma especiede união federal, onde eleÍX
ocupará o lugar mais elevado, mas onde os chefes locais manterão toda a sua
autonomia. E evidente que tais sugestões não serão aceites por aqueles a quem
Las Casas se dirige.
Durante a sua última fase, Las Casasleva portanto mais longe o seu igualita-
rismo e o seu reconhecimento da livre vontade dos outros. Mas pode perguntar-se
se essapretensão não estará associada (e nisso seria um precursor das transfor-
maçõesmais recentesda nossamentalidade) a um excessode relativismo cultural.
O mesmo impulso que Ihe permite reconheceraos índios o direito de viverem a
sua religiosidade como a entenderem,leva-o a renunciar a qualquer juízo trans-
cultural, e a declarara <<barbárie>>
como uma categoriameramenterelativa.
<<Comonós consideramos bárbaras as populações das índias, assim elas nos con-
siderama nós porquenão nos compreendem.>>
Todavia,para.né$,.g.Wcrifício
humano é um acto muito mais bárbaro do que o gesto descender um círióDTudo
se passacomo se Las Casassó conhecesse
as posiçõesçeiHemaç:"'dêiíõíi
de ter
identificado o ideal universal como a religião cristã, renuncia a defender qualquer
escala de valores absolutos. No entanto, para fugir do Cna do etnocentrismo será
mesmo necessário cair no Caríbdis do relativismo?

245
Bernardino de Sahagún

Las Casasé acima de tudo um humanistamilitante, embora tenha deixado


textos que contribuem para um melhor conhecimento dos índios. Mas um outro
grupo de autores, que fará desseconhecimento a sua preocupação principal, sur-
girá durante o século xvi: trata-se de autoresijqueviajaram e estudaram menos
em função de objectivos políticos e militares, religiosos e artísticos, do que para
aprofundar especificamente tal conhecimento. O franciscano Bernardino de
Sahagún (1499-1590)é o seu representante mais notável e poderá ser considerado
o símbolo desse grupo de viajantes.
A biografia de Sahagún é, significativamente, pobre de acontecimentos; não
se compara em nada às vidas movimentadas de Colombo e de Américo Vespúcio,
de Cortez e de Las Casas. Sahagún nasceu em Espanha onde, ainda muito jovem,
entrou para a ordem franciscana.Em 1529,atravessao Atlântico e nunca mais.?
abandona o México, onde morre. País.awiçjê.g-awndef'g:â.ensiqab..ê..!ç! e a
escrever.
<<Eradócil, humilde e pobre,muito discretono discuriõ'e afávelêt)m
todos>>, refere um dos ,seus confrades.
Ensina sobrçtudg.DO..coHglo~de Tlabelolco, um bairro do México onde vivem
os filhos dos dignitários-.êztec3ga quem inicia na religião cristã e na gramática
latina. Trata-se,porém, dé"üiha aprendizagembilateral: enquantoensinalatim,
Sabêgún aprovQjlê:.gs-seus-.çç)nlg(;!Qlgpara:.gprçBçlç!.a.!ÍDgua
dos azlçcas.vencidas-
É, 'ê;identemente, uma atitude interessada, pois, graças a esse conhecimento,
poder-se-ádifundir mais eficazmentea religião cristã. Não deixa, contudo, de ser
uma atitude que revela um comportamento novo: nem Cortez nem Las Casas,
para não falar dos primeiros viajantes, setinham preocupadoem aprenderbem
uma das línguas índias. À parte as motivaçõesúltimas de Sahagún,o seu pri-
meiro gestoconsiste mais em submeter-seaos outros (à língua dos outros) do que
em exigir a sua submissão.
Sahagún não se contenta com essa aprendizagem linguística; ao mesmo
tempo, procura informar-se acercaÍ:dacultura dos mexicanos.Recolhediversos
textos, discursos rituais, hinos religiosos, relatos da conquista, e quando o seu
superior Ihe pede para elaborar uma espéciede descriçãoda cultura aztecapara
uso dos religiososespanhóisencarregados da conversãodos índios ao cristia-
nismo, Sahagún alia o seu fervor religioso à sua paixão pelo sabere concebeuma
obra monumental, única no seu género,uma espéciede enciclopédiada cultura
azteca, intitulada .lüs/arfa Ge/lera/ de/as Cosas de/a N eva .Espada. Este livro,
que encontra muitas resistênciaspor parte da hierarquia religiosa e leiga, só será
publicado no século xix.
A obra.deSahagún.insere-se,.peloseu.projecta,numa.tradição que a religião
cristã conhece.bem : o e$tudQ .dê .religião*.da .çyjtura .e dos Costumes.dos.pagãos,
destinado, afinal de contas, a facilitar a sua conversão ao cristianismo. Portanto,
ó que é novo aêo B Q..projecto, .Has .a seriedade com que. Sahagún çe empenha na
sua missão e a qualidade.do seu trabalho. O conhecimento dos outros transforma-
l:ÊÉ'Õlogressivamentede meio em fim, como o demonstra o facto de Sahagún redi-
gir a obra não em espanhol, masem na/zzlaf/,acrescentandouma tradução em vez
de uti]izar essatradução como sendo o texto original. E$!çLli](!g..bilinguetela,.paio
UU:du121g.destinatál:iQiu«i:eligiososespanhób-.qllg.pl99uram acelçrq! p.ÇQpversãQ
dos.indios=map-também-os-literataslnexiçanos..quç..güisessçm.conhçcela.históti4.
e Q! antlHos aostuHesdo-seu país Esta decisão confere a Sahagún um.!!!gaj;.à.p!!g l
entre os religiosos que, como ele, se apaixonaram pela cultura indígena. iw # l
4
246
O primeiro problema que tem de resolver é a constituição do carpas.: Sahagún
anda num vaivém entre a investigaçãono local e a exposiçãosintética. Um pri-
meiro contacto com os seus alunos permite-lhe estabelecerum plano e elaborar
questionários, que;:entregaaos maiores conhecedoresdas tradições, numa pri,
medra cidade onde se encontra; durante dois anos reúne as respostas, transcreve-
-as e ;tradu-las. Depois, muda de cidade e parte do zero: durante mais um ano,
novos especialistas, a quem mostra os resultados do primeiro inquérito, novas res-
postas, novos comentários. Ea! fím, terceira fase Sal!!g!!g.!eúne-se com os s!!B
melhoresalunos, revê toda a iiiãiéi:iãl'ãiçidê:í'êiií'ãozé'llVfõ$:-ãiiêíã:íilê"õi
documentosrecolhidos anteriormente e, por fim, faz uma tradução livre em espa-
nhol e manda ilustrar o manuscrito. Q !!g:balho, no seu conjunto»o.cupã.$gb4gú4u.
com algumas-intendo.çêçs, durante quarenta.ÊIJtQi3iíãg'õ'rêgüliada-.á..ewepçlgnql
Todavia, não se pense qüê SQ.yêt!..ç.WMral.-ne.$!g.Jiy11o 4..pêlgylg,.dQS..íQdiQ$
li.yre.dg. qualquer !;!i$!!114.cnm-.4..dQg-espanhóis..Sahagún, pot mais que se inte-
ressevivamente pela cultura na/zua//, CQpljnua,jãjller uma meDtaljdêde..espanhola;
e por mais que transcreva fie]mente as pa]avras dos ]lü'õr madores, essas palavras
çpntinqam.g..SBr:lhe.djdgidas,a ele, espanhol e çlísl4g; ora, o destinatário de um
di;êüf:õ é também responsáifél-pela-seu' conmêliao(embora a sua responsabilidade
seja menor do que a do autor). As intervenções de Sahagún assumem formas
diferentes. Por vezes,dirige-se directamente aos seusinformadores, suplicando-
-lhes que renunciem às superstições ; outras vezes, dirige-se ao leitQb-lamentando
o destino dessespovos transviados. Por outro lado, compara o(panteãoàazteca
com o dos romanos. Mais em profundidade, o plano de conjunto é imposto por
Sahagún(desce-sedo nível mais elevadopara o mais baixo, do mundo dos deuses
para o das pedras); o mesmose passacom a organização de cada capítulo, onde
se nota a articulação ditada pelos questionários. Na realidade,a .IDsforia Ge/peru/
de/as Cosas de/a -Nüeva .Espada não pertence nem à cultura espanhola nem à
cultura dos aztecas:é mais o primeiro grandemonumento da cultura mexicana,
limpa cultura.híbrjd% nascida do encontro de dois mundos.
A mesma ambiguidade transparece das opiniões que Sahagún dá do mundo
azteca no seu conjunto. Não pode deixar de observar que a chegada dos.ç$pê:
nhóis..rQDsideradt ÇQQQ..portadora..dQ.bçn!.11já
.qye introduz o cristianismo).
acabapQcteit:5Qbretudo-efeitos..negativos. «A corrupção, ã'3Ê'mé'fíqüéza, o a
egoísmodos espanhóisrevelaram-secontagiosos.Um pouco como Las Casas,
observaque os índios, antes da chegadados espanhóiseram mais religiosos,o
ainda que a sua religião não fossea boa; mas uma melhor religiosidade não será
preferívela uma boa religião?A obra de Sahagúné percorridade um lado ao
Quilo por dual.fç)[ças-contr4Ejês. derivadas de duas necessidades: contribuir para
a cristianização dos-mêkicanose constatar que a conversãoos afasta de Deus em
vez de os aproximar dele.
As opiniões de Sahagún acerca dos indígenas provêm do mesmo universa-
lismo cristão que existia em Las Casas.<<Umacoisa é certa: são todos nossos
irmãos, nascidos como nós da estirpe de Adio; são o nosso próximo que deve-
MOs-âmdrcomo a nós mesmos.>> Mas esteprincípio, ao contrário do que acon-
tececom Las Casas,não o impede de evitar qualquer idealização: os índios não
sãó nem melhores nem piores do que os espanhóis. O facto de se pertencer a uma
cultura diferente não comporta automaticamenteum juízo moral; o bem e o mal
encontram-se em todo o lado.
Dar-se-ia provas de anacronismo se$e.lesse.emSahagún o primeiro@tnólogo,
não só devido aos seus objectivos dl](proselitismoÕtmastambém porquê'nühcã
247

.J
volve o olhar para si próprio e não pratica o confronto racial entre si e os outros.
Mas Sahagún, e aqueles que procedem como ele, na América e noutros locais,
têm o mérito de ter aceite o desafio representadopela fabulosa multiplicação da
superfície terrestre após as novas descobertas. Aosiseus olhos revelou-se um
mundo totalmente desconhecido,um mundo de que os Europeusignoravam tudo
e que iria desaparecerrapidamente, sob o efeito das conquistas e das influências
físicas e culturais. Sahagún e os seus semelhantes, que levaram a investigação
etnográfica a um nível antes desconhecido,permitem-nos entrever hoje o rosto
dessemundo ignorado; permitem-nos assistir como espectadoresnão previstos ao
mai!..DQtáveLeDCÇ)njirQFntre
viajantes e indígenas que a humanidade conheceu na
sua hisçérjê,

248
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CAPÍTULO lll

Na infindável bibliografia sobre esteassunto(histórias da Igreja e dos papas -- entre as


quais é ainda indispensável a de Pastor --, estudos sobre Romã e o Renascimento, biogra-
fias de cardeais, pasquinadas e crónicas romanas, diários, correspondências diplomáticas,
epistolares, e textos de contemporâneos, a partir dos de Cortese, Maquiavel, Guicciardini,
Giovio e Garimbetti), para mais amplasreferênciasbibliográficas remete-se
para o traba-
lho de P. M. Baumgarten, Ho/z den .Kàrdi/zã/e/zdes sec/zsze/z/zfe/z Ja/zrz//zderfs,F. Alen,
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EUGENIO GARIN (1919) é professor da Escola Normal Superior de Pisa. Entre as suas
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1983),J.a ca/rz/ra de/ l?í/zascimen/a(Melão, 1988).
JOHN LAW nasceuém Kilmarnock(Escória) em 1945.:Ensina História Medievalno
Colégio Universitário de Swansea(Universidadede Galês) desde 1971.Membro da
Royal Historical Society e membro correspondente da Deputazione Veneta di Storia
Pátria, é vice-director da <<Renaissance
Studies>>
da Oxford University Press.É autor
da obra /fa/y f/z f/ze .4ge oÍ /ãe Re/zaüsanceescrita em colaboração com Denys Hay.
MICHAEL MALLETT nascido em 1932, ensina História na Universidade de Mzarwick.
Entre as suas obras citamos The F7ore/zri/zeGa//eysin f/ze .f;!ffee/zf/zCe/zrury
(Oxtold, \9Gn)\ The Bargias: the Ride aKd the])ectine of a ReKaissaKceDynasty
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dres, 1974),(com J. R. Hale); The .A47/ffaryerga/zfza/io/z oÍ a .Re/zaissa/zce S/afe;
He/zic /400-/ó77(Cambridge, 1984).
MASSIMO FIRPO nasceuem Turim em 1946.Professorde História Moderna na Facul-
dade de CiênciasPolíticas da IJniversidadede Cagliari, publicou: Píerro .Bkzarrí
esute italiano de! CinqueceKto (]uM, \yl\ ) \ AntitriKitari KeíÍ'Ensopa orieKtale dei
SOOÇHotença, \9'11)\ }t problema della toleraKza religiosa Kelt'età moderna. Dana
R forma pro/esta/zfê a Zocke(Turim, 1978).
PETER BURKE(1937) professor de História na Cambridge University, é Fellow do
Emmanuel College de Cambridge. Entre as suas obras traduzidas em italiano
cantam-se: Cultura e sociefà neZ{'ifalia de! Rinascimenfo (Turlm, 1984); Cultura
papo/are /ze// mover/za(Melão, 1980); Socio/agia e s/or/a (Bolinha, 1982);
acerte di pita que(idiana reli'lfalia moderna (Rama-pari, 1988).

ALBER:jlO TENENTI nasceuem 1924, em Viareggio. Membro correspondenteda British


Academy desde 1981e do Instituto Venenodi Scienze, Lettere e Arti, ensina História
Social das Culturas Europeias na Ecole des Hautes Etudes en SciencesSociales.
Entre as suas publicações citamos Z,a vie ef/a mora õ fraverx /'arí dzí XHe siêc/e
(Pax\s, \9S'Z e \983)\ 11 senso della morte e !'amore della vira tte! Renascimento:
Era/zelae /fa/la(Turim, 1957); He/zeziae f corsarí.' .ligo-.ró75(Bari, 1961); Z,aJorma-
zio/zede/ mo/zdo mover/za. X71'cÃK77seco.(Bolonha, 1980) e uma colectâneainti-
\)J\ada Stato: utt'idem, una lógica. Dat comune italiano alí'assotutismo lfrancese
(Bolinha, 1987).

253
ANDRÉ CHASTEL (Paras, 1912) é um dos maiores historiadores da arte italiana. Director
de estudos na IV Secção da Ecole des Hautes Etudes em SciencesSociales, ensina no
Collêge de France. É autor das obras fundamentais sobre o Renascimento e a arte
italiana, entre as quais : .4r/e e uma/zesímo a Fere/zzca/ rampa df Z,arenga f/ ]b/ag/zí-
.Pco (Turim, 1979); / ce/zfrf de/ Rf/zascfme/zfo (Milão, 1965) ; Gra/zde (!C7lcl/za(Melão,
1966) e, na Editorial Laterza, l,'liso de//a s/orla de//'arfa( 1982); Lufgi d:4rugo/za.
Un cardinale de! Renascimentoin viaggioper I'Europa (.\981)\ Storia der'arte ita-
/ia/za (1987).

MARGARET L. KING. nascidaem Nova lorque em 1947,ensinaHistória no Brooklin


College(New York City) e é Graduate Program in History pela City University of
New York. Entre as suas publicações citamos: .17er /hmacu/a/e/za/zd.' Se/ec/ed
}Horks By a/zd .Aboli/ f/ze Homem .líumanfsfs olf Quaírroce/zro /ra/y(Binghamton
NY, 1983); %ene/ia .f7uma/züm in a/z .4ge of .f)afrfcfa/z Doma/za/zce(Princeton Uni-
versity Press, 1986).

TZVETAN 'lDDOROV nasceu em 1939, em Sófia(Bulgária), e reside em França onde se


ocupa de teoria literária, história das ideias e análise da cultura. Entre as suas publi-
caçõescitamos : À/zkAaí7Bak/zrf/z&/e prl/zcÜe dfa/ogiqzze(Paras,1981); Za co/zqzzê/e
de /}4mérfque, /a quesrio/zde /'aufre (Paris 1982);Critique de la critique (Paras,
1984) ; Erê/e Z)o/z/zeu4 essas sur Rozzsseau (Paras, 1985).

254
ÍNDICE

O HOMEM RENASCENTISTA, por .Eügenio Gare/z


1. 0 PRÍNCIPE DO RENASCIMENTO, por Jo/zn Z,aw 17

Introdução 19

A violência e o poder 20

A procura da legitimidade 24

Aspectos do governo 29

Os impostos 31

A administração e a corte 32

Conclusão 34

11. 0 CONDOTTIERO, por Michaet Ma1lett 37

111.0 CARDEAL, por .A4assfmo


/ardo 59

IV. O CORTESÃO, por Pe/er Burke 99

1. 0 que é a corte? 101

2. A estrutura da corte 103

3. O cortesão como artista 109

4. O artista como cortesão 113

5. Crítica da corte 117

V. O FILOSOFO E O MAGO, por auge/z/o Gare/z 121

VI. O MERCADOR E O BANQUEIRO, por .4/ber/o Zune/z// 145

255
VII. O ARTISTA, por .4/zdré C/zasfe/ 169

1.Artifex 171

Um lugar na sociedade 171

Contratos 173

Artifex polytechnes 176

Pequena sociologia do meio 177

Incidentes em Veneza 180

11.Doutrina 181

Um lugar ;na cultura 181

O problema do arquitecto 181

Audenti potestas 184

111.Virtude e Glória 187

Um lugar na História 187

Vlll A MULHER RENASCENTISTA, por .A/argarerZ,.;'JG/zg 191

A mãe e o menino 193

Mulher e marido 198

O trabalho das mulheres 202

Filha, mãe, viúva 206

A monja 207

Fora do claustro : piedade, brüxafia e protestantísho 211

As mulheres e as igrejas ; liberdade e coacção 216

A alta cultura: mulheresguerreirase rainhas 216

A educação das mulheres 219

A voz da mulher e a respostado homem 223

Eva, Mana e as Amazonas 227

256
IX. VIAJANTES E INDÍGENAS, por Zzve/a/zZodorov 229

Cristóvão Colombo 233

Américo Vespúcio 236

Ferrando Cortez 240

Bartolomeu de Las Casas 242

Bernardino de Sahagún 246

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 249

SBD/FFLCH/USP
SEÇÃO DE: HISTÓRIA TOMBO:209020
AQUISIÇÃO: DOAÇÃO/
MILENE C.G.M.
DATA : 30/05/01 PREÇO: R$ 20,00

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