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"A desproporção entre esquerda e direita no acervo das universidades públicas

Nas cinco melhores universidades do país, autores liberais e conservadores parecem ter pouco
espaço – ao menos nas bibliotecas

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Beta

Gabriel de Arruda Castro e Murilo Basso [06/07/2017] [18h58] Atualizado em


18/08/2017 às 18h52

Biblioteca da FFLCH, na USP: autores de esquerda em primeiro plano. | Cecilia Bastos Jornal da
USP

Biblioteca da FFLCH, na USP: autores de esquerda em primeiro plano. Cecilia Bastos Jornal da
USP

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O equilíbrio entre esquerda e direita (ou a falta dele) nas universidades públicas é tema de
controvérsia permanente. Dentre os métodos disponíveis para medir a correlação de forças, uma
das formas menos subjetivas é avaliar a bibliografia disponível nas bibliotecas. Foi o que fez a
Gazeta do Povo, levando em conta as cinco melhores universidades públicas brasileiras de
acordo com o renomado ranking da Times Higher Education de 2016.

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(Nota: A versão anterior desta reportagem analisou apenas dez autores. A Gazeta do Povo
expandiu a lista para um total de 50 autores, 25 de cada lado, para aumentar a confiabilidade do
cálculo)

Listas de autores mais influentes serão sempre objeto de questionamento. Mas é possível chegar
a um time de pensadores incontestáveis de cada lado. O nome dos autores utilizados na
comparação está ao fim da matéria. Na direita, entram pensadores liberais ou conservadores. Na
esquerda, socialistas, comunistas, anarquistas e social-democratas.

O levantamento foi realizado através dos sites das bibliotecas e pode conter imprecisões por
causa de falhas no cadastro dos livros e diferenças nos sistemas de classificação. Além disso,
fatores diversos pesam no número de livros disponíveis – um autor com mais obras tende a ter
mais volumes, por exemplo.

Ainda assim, a desproporção é evidente, e um sinal de que a diversidade de ideias não vai bem:
a contabilidade final aponta 17.376 mil obras de esquerda conta 4.091 de direita. A proporção é
de 4,2 para 1.

Mas os números não convencem a todos: “O que importa é a relevância dos autores em relação
à perspectiva histórica e teórica que eles têm. Essa é uma falsa questão”, diz Alexandre
Bernardino Costa, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). “Paulo Freire é um
educador difundido no mundo inteiro. Você vai colocá-lo ao lado de um pensador de direita que
não tem a mesma expressão dele?”, indaga.

Para Antônio Carlos Mazzeo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
(FFLCH) da USP, autores considerados de esquerda predominam porque contestam os poderes
estabelecidos. “O pensamento de repudiar o que está fora da ordem ou do sendo comum é
intransigente, e está mais de acordo com o pensamento da direita”, afirma.

“Em geral a esquerda é mais crítica, porque o próprio referencial teórico dela, o marxismo, é
muito crítico”, defende Mazzeo. Na definição de “direita” do professor, entretanto, autores
liberais como Adam Smith e Alexis de Tocqueville ficam de fora.
O professor Francisco Alambert, também FFLCH, discorda da inclusão de liberais no grupo da
direita. Ele rejeita a ideia de que as universidades são predominantemente de esquerda, e
acrescenta que a lista prova, no máximo, a “indigência do pensamento conservador”, que seria
menos influente do que o pensamento da esquerda. “O Brasil nunca teve um pensamento de
direita sofisticado o suficiente para formar uma tradição. Talvez porque a direita sempre esteve
onde quis estar: no comando da política e da economia”, afirma.

Cerceamento?

Mas, na visão do professor de Filosofia Rodrigo Jungmann, da Universidade Federal de


Pernambuco (UFPE), a contabilidade evidencia um problema crucial: “Isso reflete a maioria
esmagadora de professores esquerdistas nas universidades, que desejam que seus alunos
tenham uma exposição quase que exclusiva a autores de esquerda”.

O docente diz que a falta de equilíbrio traz consequências negativas para os alunos. “Você só
pode formar uma opinião bem abalizada sobre um assunto quando você tem acesso a todas as
perspectivas, as várias linhas teóricas concorrentes e antagônicas em torno do assunto, com a
visão devidamente equilibrada”, argumenta.

Ricardo Vélez Rodriguez, que deu aula de Filosofia Universidade Federal de Juiz de Fora por duas
décadas, diz que as instituições de ensino superior são controladas por esquerdistas desde a
década de 1980, e que um dos efeitos é a falta de espaço para ideias diferentes nas editoras
mantidas pelas universidades.

Ele também rebate a afirmação de que a esquerda predomina nas universidades por ter mais
senso crítico: “Eles falam muito em pensamento crítico, mas são especialistas em impedir as
pessoas de pensar criticamente. A primeira coisa que eles tentam fazer é silenciar aqueles que
pensam diferente”, afirma."

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/a-desproporcao-entre-esquerda-e-


direita-no-acervo-das-universidades-publicas-8v6lu5iximxewnrxfbz3qphn7/

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"O último bunker da esquerda: a universidade

Hoje é impossível negar os verdadeiros hospícios socialistas que se tornaram as universidades


brasileiras

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Beta

Pedro Henrique Alves, especial para a Gazeta do Povo [28/03/2018] [17h45]

| Joseph WilliamsFlickr/Creative Commons

Joseph WilliamsFlickr/Creative Commons

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[64]

A universidade, desde sua origem, tem a única missão (e talvez a mais digna de todas) de investir
esforços estruturais e formativos no intelecto individual e coletivo da comunidade; tais esforços
se destinam à nobre missão de perscrutar a verdade dos fatos independentemente de onde ela
estiver e sob quais adornos figurarem. Após essa primeira exploração e conceituação, sua
segunda missão passa a ser a apresentação da verdade à sociedade em forma de princípios
compreensíveis e pragmáticos.

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Seja a Verdade perene e “imorrível”, ou subjetiva e vaporizada, a missão primeva do culto ao


conhecimento é buscá-la e contemplá-la em suas particularidades e mistérios. Rompendo,
assim, o véu obscurantista das crendices e sobrepujando as sombras aterradoras de nossas
cavernas da ignorância.

Sócrates, Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Santo Anselmo e São Tomás de Aquino podem ter
discordado pontualmente sobre o que era a Verdade (ou as verdades), entretanto, para esses
grandes homens que cimentaram o conhecimento ocidental, se o intelecto em perseguição do
reto conhecimento possui algum motivo essencial de existir, esse é tão somente a busca pela
realidade dos fatos, pela verdade substancial. Não obstante essas obviedades que repeti quase
até a exaustão, parece-nos que tais intuições se perderam em alguma fresta da modernidade.

Assim que as universidades tornaram-se abertas aos anseios de homens que não mais queriam o
conhecimento para permear o solo da liberdade social, mas tão somente para erigir seu poderio
político e o de seu partido; tais intentos desviados se coadunaram justamente com a era das
ideologias políticas pós-revolução francesa.

Se os revolucionários derrubaram as antigas estruturas da aristocracia encastelada; é certo dizer


que os mesmos revolucionários ergueram novas muralhas, ainda mais altas e imponentes, quase
impossíveis de serem transpostas. Denominamos tais muros de ideologias.

Percebeu-se, então, que a máxima expressa por Raymond Aron em “O ópio dos intelectuais”, era
profundamente verdadeira: "Toda libertação, entretanto, traz em si o perigo de uma nova forma
de sujeição" (ARON, 2016, p. 32). A universidade sujeitou-se e, se sujeitando, sujou-se no
lamaçal do fanatismo.

Onde começa a treta

Se antes as universidades serviram ao status quo político e eclesial, não é nenhuma mentira
dizer que hoje elas servem ao status quo político-estatal. Ora, as universidades são as bases
teóricas da sociedade, o terreno da fertilidade intelectual, onde jazem os mananciais de uma
comunidade ordeira e evoluída. Pois bem, assim como os mananciais de água são de bem
comum em um vilarejo, e invariavelmente a todos tocam, seria extremamente maléfico caso tais
mananciais se encontrassem polutos numa comunidade delas dependentes.

Caso se queira destruir ou contaminar uma comunidade inteira de maneira massiva com
qualquer mal, infectar as fontes é um caminho rápido e eficiente; afinal, cedo ou tarde todos
terão que recorrer a elas. A universidade é uma das fontes de que a sociedade necessita e onde
invariavelmente sacia sua sede de conhecimento; é ela o principal manancial que as ideologias
revolucionárias tomaram para poluir a fim de espalharem seus ideais políticos por meio da
alienação.
Foi isso que o marxismo adotou como princípio estratégico no final do século XIX e início do XX,
principalmente com o marxista Max Horkheimer e os demais da escola de Frankfurt. Horkheimer
bem entendeu que a sociedade ocidental se estruturava basicamente sobre três pilares (fontes):
a Igreja, Família e Escola (ou universidade).

Intuíram os marxistas que: para que houvesse uma revolução profunda, eficaz e duradoura,
antes era necessário “contaminar” essas fontes da sociedade - fontes essas que mantinham-na
num conservadorismo cultural de molde judaico-cristão. Tal realidade foi vista em toda a Europa,
no século passado, com o surgimento de pensadores radicais que não escondiam suas oposições
ferrenhas a esses três princípios régios.

Contra a família tradicional, investiu forças o movimento feminista radical, principalmente com
Simone de Beauvoir, Kate Millet, Shulamith Firestone e Judith Butler. Contra a Igreja, os
movimentos eclesiais de base sob o jugo da Teologia da Libertação, movimento esse que obteve
enorme sucesso na América Latina; seus principais expoentes são: Gustavo Gutiérrez, Leonardo
Boff, Frei Beto, Jon Sobrino e Juan Luis Segundo.

Por fim, contra a universidade, investiu a conhecida Escola de Frankfurt e seus descendentes
diretos e indiretos (a Escola de Frankfurt foi herdeira direta do conhecido socialismo científico,
linha de reflexão intelectual criada por Karl Marx), esse foi o movimento intelectual que melhor
conseguiu alcançar seus objetivos revolucionários.

Através da enculturação das teses marxistas na academia (ao ponto de permear quase todas as
matérias de humanidades com interpretações ramificadas do marxismo), essa escola conseguiu
iniciar com extremo sucesso a hegemonia intelectual esquerdista que ainda hoje domina as
academias de ensino ao redor do globo.

Seus expoentes são muitos, tendo ligações diretas ou indiretas com a dita escola, citarei alguns
com o intuito de ilustração: Max Horkheimer, Jürgen Habermas, Theodor Adorno, György Lukács,
Antonio Gramsci, Michel Foucalt e Jean-Paul Sartre. Para um estudo mais profundo da temática,
recomenda-se a leitura de “Marxismo e Descendência”, do intelectual brasileiro Antonio Paim; e
“Pensadores da nova esquerda”, do filósofo inglês Roger Scruton.

Tal realidade foi descrita por Jean Sévillia, jornalista e ensaísta francês, como sendo um
“terrorismo intelectual”, termo que também dá nome ao seu livro onde ele mostra que desde “o
século XIX, os estudos acadêmicos do período revolucionário sempre foram de exclusividade da
esquerda” (SÉVILLA, 2009, p. 143).
A universidade passa, então, assim como a família e a Igreja (religiões de origem judaico-cristãs),
a serem invadidas e contaminadas com o pensamento marxista de maneira deliberada e
estrategicamente pensada.

Em um primeiro momento tal oposição era feita de maneira mais argumentativa e


agressivamente militante; no entanto, com o advento do pensador italiano Antonio Gramsci,
teorizador da ideia do socialismo cultural, ou como denominou “bloco hegemônico”, tal
agressividade é substituída pela tomada crescente de espaço cultural e pedagógico na sociedade
organizada.

O cozimento político e social é vagaroso, porém eficiente. Se lentamente se tomar posições


estratégicas da sociedade, a revolução não precisará de um levante violento de origem
proletária, será necessário tão somente um autorreconhecimento do poderio político-cultural da
massa socialista que governa as instituições, já que a hegemonia estatal e cultural serão suas.

Tal teoria gramscista foi colocada em prática através das universidades e mídias jornalísticas,
afinal, são essas as duas asas da opinião pública. O sucesso é indiscutível.

"No Brasil, contudo, sempre foi a esquerda um movimento de elites intelectuais que
controlam a mídia, as cátedras universitárias e os periódicos de grande circulação" (PENNA,
2017, p. 30).

Dominação no Brasil

As universidades, no mundo como um todo, principalmente após as décadas de 50 e 60, passam


a verborragiar freneticamente um marxismo cada vez mais pulsante e sufocante. Suas teorias
deixam de ser oposição e passam a ser situação, deixam de ser alternativas e passam a ser status
quo. Sobre isso, afirma Roger Scruton:

O entusiasmo esquerdista que arrebatou as instituições de ensino nos anos 1960 foi uma das
mais eficazes revoluções intelectuais na história recente, e recebeu um tal apoio daqueles
afetados por ele que pode ser comparável a poucas revoluções no mundo da política (SCRUTON,
2014, p. 135)
O terreno acadêmico que primeiro foi explorado pela intelligentsia marxistas foi o campo da
História, a teoria histórica-econômica da luta de classes foi de fácil transmissão e aceitação
social, apesar de suas falsidades.

Karl Popper chamou a teoria histórica-econômica marxista de “pseudociência”; arguia o filósofo


austríaco, em seu livro “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos”, que o historicismo marxista
tende a escolher um posto isolado de observação da história e, a partir daquela diminuta visão
da realidade, proclamar dogmas históricos inalienáveis.

Um exemplo é a famigerada “luta de classes”, para os marxistas tudo passa necessariamente


pelo prisma filosófico da luta de classes. Em suma, a teoria histórica marxista, para Karl Popper, é
diminuta, seletiva e defeituosa; uma teoria histórica amputada e narcisista.

Entretanto, foi o discurso que mais docemente foi aceito no Brasil e repetido até a exaustão nas
matérias de humanidades até a atualidade. Do direito à filosofia, da sociologia à economia, da
pedagogia à teologia, todos pensam a partir desse princípio histórico débil e caduco.

Em um mundo de constantes guerras e inimigos, como foi a década de 50 e 60, justificar as


nossas mazelas sociais e psicológicas a partir de um inimigo econômico internacional, de uma
luta de classes entre um Leviatã estrangeiro rico e o trabalhador pobre nacional, era um discurso
muito tentador e de fácil explicação e aceitação. Getúlio Vargas, após a segunda guerra mundial,
utilizou-se muito dessa linguagem ideológica.

Não obstante as duvidosas e, por vezes, infantis teorias interpretativas que o marxismo oferecia
aos intelectos nacionais, as ideias seguiram seu curso e adentraram com toda a força no sistema
educacional do Brasil. Talvez o expoente mais conhecido dessa era intelectual marxista do Brasil
foi o teórico Paulo Freire, com sua teoria pedagógica inteira montada sobre o dogma marxista do
embate de classe.

LEIA MAIS: Cinco ideias indefensáveis de Paulo Freire

Aos poucos, intelectuais e docentes de todos os níveis educacionais passaram a repetir as


máximas marxistas iniciadas pela teoria histórica. Tal teoria oferecia uma espécie de óculos
universal (um dogma) pelo qual era possível interpretar toda a realidade sempre pelo mesmo
catálogo de explicações sociais. Tudo era culpa das batalhas eternas entre burguesia e
proletariado, rico e pobre, patrão e empregado.

A intelligentsia nacional
Após tal contaminação ocorrer de maneira abrangente, há de se erigir os “clérigos” dessa nova
religião civil. Tais clérigos são basicamente feitos de dois tipos de homens: os intelectuais
(intelligentsia) e os políticos revolucionários; os primeiros ditam as regras e os discursos que
devem ser repetidos de maneira compulsória, e os demais arrebanham os militantes a fim de
conseguir representatividade social e política.

Diz José Osvaldo de Meira Penna:

"Na concepção de Gramsci, o que vale é a existência de uma espécie de clero dominante, algo
como a Ordem dos Jesuítas, organizados, obedientes, dogmáticos, revoltados com as injustiças e
maldades do mundo, e firmemente dispostos a corrigi-las a qualquer preço" (PENNA, 2017, p.
31).

Durante a ditadura militar, pode-se ver que, apesar da repressão policial, o pensamento marxista
vigorava com força crescente e constante. Tal fato ocorria porque os militares não se propuseram
a criar um sistema de ensino para contrapor as ideias marxistas, não prepararam intelectuais
capazes de argumentar de maneira coesa contra as suas investidas intelectuais do socialismo -
principalmente no terreno pedagógico.

Seus esforços estavam determinados a parar, esconder e reprimir a qualquer custo o


pensamento socialista. Atitude que nada mais fez do instigar a curiosidade do: “proibido é mais
gostoso” dos jovens universitários da década de 60, 70 e 80; jovens esses que já estavam
embebecidos do ideal hippie do “amor livre”, defensores da ideia do “é proibido proibir”.

Pela formação positivista dos militares, achou-se que reprimindo a militância revolucionária a
base do medo, cassetete e torturas, acabaria com a invasão socialista no sistema educacional
brasileiro. Porém, os militares quase nenhuma atenção dispensaram aos intelectuais que
trabalhavam calados, ou em segundo plano, seguindo as diretrizes de Antonio Gramsci.

Tal atitude tola do regime militar fez surgir no Brasil um paradoxo que ia contra as tendências
geopolíticas do fim da década de 80; enquanto o mundo repugnava e abandonava as ideias
esquerdistas, após a queda do muro de Berlim e o desvelamento dos crimes dos governos
comunistas ao redor do globo, o Brasil as abraçavam e fortemente tendiam a erigir uma
república baseada em seus pilares gelatinosos.

Onde foi parar


O resultado dessa pequena epopeia foi que, ao findar a ditadura militar, e o mundo acadêmico
voltar à suposta normalidade democrática de livre pensamento, viu-se que quase todos os
professores disponíveis tinham sido formados a partir dos moldes socialistas. Suas mentes,
teorias, e óculos pelos quais enxergavam a realidade, estavam todos pré-definidos pela
mentalidade marxista. E assim as universidades estavam novamente sujeitas e amarradas, não
mais aos crivos das mãos pesadas dos censores militares, é verdade; mas estava agora de joelhos
prestando culto diante do altar pensamento marxista, incapaz de conceber maneiras diversas de
pensar, fanatizada por sua ideologia-deus.

Hoje é impossível negar os verdadeiros hospícios socialistas que se tornaram as universidades


brasileiras. Situações escabrosas e deploráveis como o de professores, que são abertamente
conservadores ou liberais, como o caso do professor de filosofia da UFPE Rodrigo Jungmann, ou
Ricardo Felício da USP, sendo intimidados, ameaçados, boicotados. Em alguns casos, até tendo
seus bens depredados. Isso tão somente porque suas ideias não estão inseridas nos catálogos de
permissão ideológica do esquerdismo.

Alunos que não coadunam com o pensamento socialista são rechaçados e agredidos. Como no
caso da exibição documentário do filósofo conservador, Olavo de Carvalho, na UFPE, onde ao
terminar o cine-debate os espectadores foram cercados, ameaçados e agredidos. Outras
situações mais aterradoras se acumulam nesse mar aberrante das universidades brasileiras;
cenas de mostras culturais que mais parecem cenas de filmes de terror, manifestos histéricos e
cognitivamente desconexos da realidade que fazem jus à teoria de Lyle H. Rossiter de que o
socialismo se tornou doença mental.

O pensamento esquerdista, na universidade brasileira, tornou-se hegemônico e manteve-se


dogmático (dois princípios extremamente perigosos quando unidos); contrariá-lo ou questioná-
lo é crime “lesa-pátria” que pode render hematomas e queimas de reputação pessoal e
acadêmica.

Não há espaço para contrapontos e debates saudáveis na academia brasileira; quem já foi
universitário na área de humanidades e tentou se opor à doutrinação sabe que tal realidade é
cortante e inegável.

Chegou-se ao ponto de ser preciso uma decisão judicial para garantir a liberdade de consciência
dos universitários de não participar de oficinas de ideologia de gênero e movimento LGBT na
universidade de Lavras, sem que com isso os estudantes sejam expulsos. Uma sociedade
equilibrada não precisaria de assinaturas de juízes para que a garantia primordial de liberdade
de consciência fosse respeitada.
Outro caso, e a mais recente aberração acadêmica, que não sem motivo está sendo tratado
pelos sensatos como sendo uma afronta às instituições nacionais, é o “curso contra o golpe”.
Várias universidades já aderiram ao “curso contra o golpe”, se referindo ao processo de
impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff.

LEIA MAIS: Onda de cursos sobre “golpe” expõe domínio “acachapante” da esquerda nas
universidades

Ainda que o processo tenha seguido todos os trâmites legais da constituição, tenha tido aporte
da Suprema Corte e da vontade maciça da população, não se cansa de apregoar um “golpe”
fictício a fim de justificar suas militâncias. Em suma, as universidades brasileiras contarão uma
mentira, endossarão um discurso irreal. Atiçarão no campo do direito, ao nível universitário, a
maior das desonras que o mundo das ciências jurídicas pode imaginar para si, isto é: o ativismo
jurídico em prol de uma ideologia política; a prostituição da reta doutrina judicial (que deveria
ser imparcial) em favor de um partido. Não se trata de interpretação diversa, se trata de apologia
deliberada a um ideal político; um parcialismo aberrante e vergonhoso em favor de um partido
ou causa ideológica.

O Ministério da Verdade

Esse curso acima citado, me faz lembrar vividamente de 1984, aclamada obra do socialista
consciente: George Orwell. O personagem principal, Winston, era funcionário do Estado
totalitário da trama, trabalhava ele para o Ministério da Verdade, organização estatal
encarregada de apagar e modificar os fatos históricos para que realidade se amoldasse à
ideologia do Estado e mantivesse intacta a imagem messiânica do supremo líder.

Com esse trabalho, Winston ajudava o Grande Irmão a se manter onipotente no poder e
revigorar na consciência coletiva da população a doutrina da ideologia salvífica e inerrante do
Estado. No caso do Brasil, a situação é assustadoramente análoga, a intenção é criar uma
“verdade” histórica inexistente: o “golpe contra Dilma”. Todos os elementos são
assustadoramente parelhos. As universidades brasileiras estão atuando como o Ministério da
Verdade, encaixotando os fatos históricos entre as paredes claustrofóbicas da ideologia socialista
para dar-lhe o formato que seja favorável às causas que defendem.

Aliás, constantemente vemos isso no comunismo, Dmitri Volkognov, em sua obra Stalin;
Alexander Soljenítsin, com a obra Gulag; e Svetlana Aleksiévitch, em Vozes de Tchernóbil,
concordam em afirmar que o governo soviético era mestre em ocultar, modificar e ditar qual
deveria ser a história oficial.
Não raramente víamos Soljenítsin gastar páginas e mais páginas para nos contar com detalhes
aterradores sobre os teatros e alegorias judiciárias criadas pela URSS a fim de esconder suas
incompetências e erigir bodes expiatórios. Nunca era culpa do partido, nunca é culpa do PT, da
Dilma ou do Lula; sempre havia uma conspiração a ser suprimida pelo partido na URSS, sempre
há um golpe a ser combatido no Brasil.

A propaganda, baseada na construção falsária da história, serviu de impulso e manutenção dos


dois principais regimes totalitários do século XX: o comunismo e o nacional-socialismo. Mas, sem
sobra de dúvida, o comunismo se valeu dessa arma com muito mais destreza e eficiência; basta
ver que se utiliza dela até hoje.

A luta de classes como motor da história, o maior embuste teórico já criado, continua a ser o
filtro pelo qual quase todas as universidades e mídias julgam a realidade. Ainda que mais de 100
anos de estatismo republicano, de protecionismo mercantil, tenha legado ao Brasil uma herança
pobre em desenvolvimento científico, econômico, social e intelectual, a propaganda sindical e
estatista continua a vigorar com enorme sucesso nas penas e bocas dos formadores de opinião.
Ainda que a esquizofrenia ideológica deixada pelo esquerdismo tenha historicamente deixado
um mar de sangue, ainda sim se pensa que o socialismo é a defesa da paz.

Enfim, o socialismo se graduou na arte de propagandear sua teoria apesar da verdade dos fatos;
e quando necessário foi, ousou encaixar a realidade nas suas formas ao invés de acatar o
imperativo do real.

A liberdade pede licença

A liberdade é um princípio que se autoimpõe; os indivíduos sentem que a liberdade é uma


realidade que os acompanham e de alguma maneira clama sem cessar por suas consciências.
Assim como a esquerda triunfou, apesar da censura e do regiscismo militar, o contraponto
conservador e liberal se erguerá independentemente dos esforços de censura das universidades.
Chega a ser paradoxal e terrível ter que concluir que a universidade, hoje, é o grande censor da
democracia nacional; o lugar onde a liberdade deveria figurar como regra, ela tornou-se
maldição.

Uma universidade que se diz aberta por dar cotas e apregoar a diversidade de gênero, ao
mesmo tempo que emudece o conservador e rechaça o liberal, é tudo, menos livre.

É refém de uma mentalidade enganosa, pútrida e verdadeiramente escravizante. O local onde


sustentar ideias diferentes seja motivo de expulsão ou humilhação, não pode arrogar ser um
centro democrático de ensino; é antes um campo de concentração onde os judeus são nossas
consciências.

Uma sociedade só é livre onde o ensino é livre. Dentro das paredes de uma universidade, a
confluência de ideias diferentes não deveria ser algo forçoso, mas sim necessário. A diversidade
de ideias forma o arcabouço científico e filosófico de uma sociedade madura capaz de conviver
com o diferente.

Não é impondo o alternativo que a tolerância se tornará uma virtude, mas sim fazendo com que
o alternativo e o ortodoxo convivam em harmonia e tenham liberdade para discordarem,
debaterem e se converterem (caso seja de livre escolha) a alguma corrente de ideia que julgar
mais coerente; é dessa maneira que poderemos alcançar uma democracia possível, onde as
universidades sejam distribuidoras de conhecimentos e não catequistas de ideologias.

Conclusão

As universidades brasileiras se encontram acanhadas em suas utopias, olham para as paredes de


seu bunker ideológico, pintadas de mundos ideais, e figuram em suas mentes imagens de
êxtases revolucionários e inimigos imaginários sem se dar conta daquilo que ocorre do lado de
fora de seu mundinho fictício.

Mal percebem que boa parte dos brasileiros abandonaram as ideias socialistas e começaram a
requisitar espaço nas universidades PÚBLICAS do país a fim de ensinar e propagar novas ideias.
“Ideias, somente ideias, podem iluminar a escuridão” (MISES, 2017, p. 213), dizia Mises. Nunca
foi tão atual e profético.

Os clérigos socialistas (aqui no Brasil esse termo se torna paradoxalmente metáfora e realidade),
ao olharem pela porta de seu bunker, percebem o avançar ininterrupto de jovens que não mais
se amedrontam com intimidações acadêmicas ou com opressões midiáticas; tais jovens
começaram a estudar apesar da lacuna propositalmente deixada na ementa do conhecimento
político do país.

Levantam-se nas salas de aulas do país e questionam seus docentes sobre a teoria de Eric
Voegelin que demonstrou que o socialismo é baseado no mito amorfo de Joaquim de Fiore;
questionam sobre Ludwig von Mises e Friedrich Hayek que demonstraram que o socialismo
econômico é inviável; questionam sobre as revelações históricas aterradoras feita por Alexander
Soljenítsin, Robert Sérvice, Tmothy Snyder e Stéphane Courtois sobre os morticínios demoníacos
deixado como legado do comunismo.
No Brasil, as universidades se tornaram praticamente o último bunker da esquerda. Os sindicatos
se encontram desunidos e agonizantes após o corte em seus orçamentos feitos pela nova lei
trabalhista que desobriga o trabalhador a pagá-los; no terreno dos três poderes, a partir das
eleições de 2018, a tendência está claramente à direita. É de opinião quase que unânime que
após as eleições teremos uma guinada significativa para as pautas tidas como “conservadoras” e
de “livre mercado.

Roger Kimball em seu livro Radicais na universidade, nos diz: “A verdadeira tirania é privar os
alunos do melhor que foi pensado e dito em nome de uma ou outra versão de retidão política”
(KIMBALL, 2009. p. 267). Ou a universidade se abre ao diferente, ou ela irá ruir unida à sua
arrogância fanática!

As universidades brasileiras mostram-se a última trincheira a ser transposta para fora desse
terreno inóspito da doutrinação política e pedagógica. De duas uma: ou a universidade se
reinventa e deixa de tratar com hostilidade o pensamento liberal e conservador, abrindo espaço
para outras teorias e modos de ver a realidade; ou ela se fechará ainda mais em sua bolha
ideológica, assistindo vagarosamente o avanço irrefreável dos conservadores e liberais
brasileiros.

Diante da missão primeva da universidade: a busca pela Verdade; nenhuma gaiola ideológica
pode impedi-la por muito tempo de procurar pelo objeto de sua vocação. Se a Verdade pudesse
dizer-nos algo diante da censura ideológica moderna, repetiria exatamente o que Irmã Branca
dizia no Diálogo das Carmelitas: “Morro toda noite para ressuscitar a cada manhã” (BERNANOS,
2013, p. 22). A liberdade de pensamento avançará com ou sem esses intelectuais encastelados
nas universidades.

Referências:

ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais, Três estrelas: São Paulo, 2016.

BERNANOS, Georges. Diálogo das Carmelitas, São Paulo: É realizações, 2013

KIMBALL, Roger. Radicais na universidade: como a política corrompeu o ensino superior nos
Estados Unidos da América, São Paulo: Peixoto Neto, 2009.

MISES, Ludwig von. As seis lições: reflexões sobre política econômica para hoje e amanhã, 8ª Ed,
São Paulo: LVM, 2017.

PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX: Ensaios sobre o nacional-socialismo, o


marxismo, o terceiro-mundismo e a ideologia brasileira, 2ª Ed, São Paulo: Vide Editorial, 2017.

SÉVILLIA, Jean. O terrorismo intelectual: de 1945 aos nossos dias, São Paulo: Peixoto Neto, 2009.

SCRUTON, Roger. Pensadores da nova esquerda, São Paulo: É realizações, 2014."

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/o-ultimo-bunker-da-esquerda-a-


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Por que a esquerda domina as universidades?

por Leandro Narloch [ 07/07/2017 ] [ 12:29 ] Atualizado em [ 07/07/2017 ] [ 17:48 ]

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Ilustração/Felipe Lima

Ilustração/Felipe Lima
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A Gazeta mostrou ontem como autores à direita (liberais ou conservadores) têm pouco espaço
nas cinco principais universidades brasileiras. Nas bibliotecas da Unicamp, por exemplo, há 1684
obras de Marx, Lenin, Gramsci, Sartre e Paulo Freire, e só 123 de Adam Smith, Edmund Burke,
Ludwig Von Mises, Roger Scruton e Thomas Sowell.

Na mesma linha, uma pesquisa da Universidade da Califórnia mostrou que os acadêmicos das
principais universidades americanas estão cada vez à esquerda. Em 2008, 56% deles se
identificavam como de esquerda ou de extrema-esquerda – em 2011, a parcela subiu para 63%.

E a economista Amy Liu, entrevistando estudantes de 148 universidades americanas, descobriu


que a chance de formandos se declararem de esquerda é 32% maior que a dos calouros. Os anos
de faculdade os tornam mais favoráveis à legalização da maconha e do aborto e à criação de
impostos sobre fortunas.

Acadêmicos dizem que isso acontece porque a universidade amplia a visão de mundo e a
sensibilidade a temas sociais. Já a direita culpa a doutrinação marxista dos professores. O
psicólogo Richard Nisbett, ele próprio simpático a causas de esquerda, acredita numa explicação
mais abrangente. Para ele, a origem da tendência à esquerda é o “efeito maria-vai-com-as-
outras”: os estudantes e professores se baseiam no comportamento dos colegas e se deixam
influenciar por eles.

Professor da Universidade de Michigan, Nisbett é autor de um livro excelente que acabou de sair,
o “Mindware: tools for smart thinking”, um guia para escapar de falácias e erros sistemáticos de
decisão. Um desses erros é se deixar levar pela influência social.

“Como psicólogo social e acadêmico, posso garantir que os professores são em maioria de
esquerda e não reconhecem a conformidade social que influencia suas próprias opiniões”, diz
ele. As pessoas custam a admitir que são influenciadas pelos outros, mas a verdade é que são
muito mais do que podem perceber.

Essa a influência dos acadêmicos, afirma o psicólogo, se limitaria à própria comunidade


universitária. “Estudantes dessas faculdades de esquerda ingressarão num mundo de pessoas
com um amplo leque de visões – que começarão a influenciá-los numa direção em média mais à
direita.” Ou seja: as universidades podem estar cada vez mais à esquerda, mas isso não significa
que a sociedade como um todo seguirá esse caminho.

Site do MEC privilegia autores de esquerda

Reportagem do jornal O Globo, edição de 20 de dezembro de 2004.

* * *

Dos 166 títulos que compõem a seção de ciências sociais, 86 são sobre ou de intelectuais de
esquerda

Gustavo Alves

Um espectro ronda a seção de ciências sociais do site "Domínio Público", criado pelo Ministério
da Educação para dar acesso grátis a textos, imagens e músicas consideradas clássicos da cultura
- o espectro do esquerdismo, que Vladimir Lênin definiu como "a doença infantil do
comunismo". Dos 166 títulos que compõem esta parte da biblioteca, 86 são sobre ou de
intelectuais de esquerda. Autores considerados clássicos da ciência política que defendem idéias
de outras correntes políticas não estão presentes.

Clássicos como Emile Durkheim e Alexis de Tocqueville ainda não estão catalogados. Mas há pelo
menos 21 textos do fundador do socialismo científico, Karl Marx, nove de seu colaborador
Friedrich Engels, e quatro assinados pela dupla. Os revolucionários comunistas Vladimir Lênin e
Leon Trotsky, respectivamente, são representados com 12 e 15 textos.

- É uma indigência com uma distorção marxista - diz o cientista político Fábio Wanderley Reis, da
UFMG.
Em uma consulta com o nome "Marx" achou 60 títulos de ou sobre ele. Mas não viu nada de
Max Weber, o sociólogo alemão autor de "A ética protestante e o espírito do capitalismo".

Tratados do inglês John Locke não são encontrados

Com tal seleção, quem for buscar no "Domínio Público" as idéias de John Locke, o filósofo inglês
que refutou o direito divino dos reis e o primeiro a lançar as idéias em que se estabeleceram os
governos democráticos atuais nos seus dois "Tratados sobre o governo civil", vai se decepcionar.
Em compensação, há três textos de Nahuel Moreno, teórico argentino e um dos principais
inspiradores do neotrotskista PSTU.

Mas não se pode dizer que outras correntes não apareçam. Há textos do historiador Plutarco, do
senador romano Cícero, do filósofo francês René Descartes e do positivista francês Auguste
Comte.

A abundância de textos de autores comunistas pode ser explicada pela facilidade de acesso: a
reprodução foi possível pela compra de quatro CDs pelo Marxists Internet Archives, biblioteca
virtual de obras comunistas, socialistas e anarquistas, explica o assessor de Tecnologia e
Informação do MEC Espártaco Madureira. Ele informa que foi lançado edital para aumentar o
acervo em 2005.

- O portal tem só 1.015 obras casdastradas. O objetivo é ter 100 mil - diz.

Professor do Iuperj diz que governo usa o que é possível

Para José Eisenberg, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj),
acusar o portal de ser um instrumento de doutrinação de esquerda é falacioso.

- Como você está falando sobre traduções que tenham de ser de domínio público, seria
precipitado e tendencioso achar que há um viés ideológico - defende. - Dadas as restrições, o
governo federal está usando aquilo que é possível.

Mas a justificativa de Eisenberg não convence a professora do Departamento de Ciências Sociais


da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Antônia de Lourdes Colbari.
- Não é porque o texto está disponível que tem de estar no portal. O MEC é uma referência, não
pode ter só esse critério.

TÍTULOS DO PORTAL

QUEM ENTROU

KARL MARX (1818-1881): Economista e filósofo, intelectual de maior influência na esquerda e no


debate político do século XX, autor de "O capital", com Friedrich Engels (1820-1895).

PAUL LAFARGUE (1842-1911): Genro de Marx, é representado no site com a obra que lhe deu
mais notoriedade: "O Direito à preguiça".

VLADIMIR ILIYTCH LÊNIN (1870-1924): Líder da revolução russa, formulou a idéia de que o
socialismo poderia vir não da falência natural e inevitável do sistema capitalista, mas por uma
revolução executada por um partido organizado revolucionário.

LEON TROTSKY (1879-1940): Parceiro de Lênin na execução da Revolução Russa, organizador do


exército soviético, exilado após perder a disputa pelo poder com Joseph Stálin na URSS, foi
assassinado no México a mando deste. Autor da teoria da "revolução permanente", que pregava
movimentos em todos os países para implementar o comunismo.

ROSA LUXEMBURGO (1871-1919): Antes de ser fuzilada por paramilitares a serviço do governo
alemão, a revolucionária nascida na Polônia brigou com Lenin e Trotsky sobre como chegar ao
socialismo e mantê-lo. Chamou a atenção para o risco de os movimentos socialistas se afastarem
do proletariado pela ação de burocratas.

NAHUEL MORENO (1924-1987): Ideólogo argentino, uma das principais influências do


neotrotskista PSTU.

CHE GUEVARA (1928-1967): Um dos líderes da guerrilha que levou Fidel Castro ao poder em
Cuba.
QUEM FICOU DE FORA

EMILE DURKHEIM (1858-1917): Filósofo e sociólogo francês. Apesar de Auguste Comte ser
considerado o fundador da sociologia, foi graças a Durkheim que ela passou a ser praticada e
reconhecida com objeto, método e objetivos claros e definidos.

MAX WEBER (1864-1920): Economista e sociólogo alemão, autor do clássico da sociologia "O
espírito protestante e a ética do capitalismo", em que defende que a ética e as idéias dos
protestantes, especialmente do calvinismo, influenciaram o desenvolvimento do capitalismo.

ALEXIS DE TOCQUEVILLE (1805-1859): Descendente de uma família aristocrata que foi quase
toda dizimada na Revolução Francesa, ele também estudou o movimento. Em "O antigo regime
e a revolução", Tocqueville mostrou a influência que os intelectuais podem ter, ao comentar
como os "philosophes" do século XVII ajudaram a enfraquecer a monarquia.Seu livro mais
estudado é "Democracia na América".

THOMAS HOBBES (1588-1679): Outro clássico do pensamento político, por sua obra "O Leviatã".
Nela, ele defende que, em seu estado natural, os homens vivem em permamente guerra - daí a
necessidade de um Estado forte que medie estes conflitos.

O que estão ensinando às nossas crianças?

Boa parte dos livros didáticos apresenta distorções ideológicas. Por que elas existem e como
comprometem a educação

alexandre mansur, luciana vicária e renata leal

A catarinense Mayra Ceron Pereira, que mora na cidade de Lages, se sentiu incomodada com a
lição de casa do filho, no início do ano. Aluno da 7a série do colégio Bom Jesus, uma rede
privada do sul do país, Gabriel, de 13 anos, tinha de definir o que é a mais-valia. Ela folheou o
livro Terra e Propriedade, da coleção História Temática, que ele usa na escola, e encontrou uma
foto de José Rainha, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Ele
aparecia apenas como líder social”, diz Mayra. “Não havia a informação de que foi condenado
pela Justiça.” Em uma leitura mais atenta, ela se incomodou ainda mais com o que identificou
como maniqueísmo nos textos. “Os poderosos são sempre os vilões, e os proletários os coitados.
Não acho saudável crescer dividindo o mundo entre vítimas e culpados”, afirma Mayra, que é
vereadora do partido Democratas (ex-PFL). “Eu não quero um livro neoliberal. Quero que deixem
meu filho desenvolver seu julgamento no futuro. Nesse livro, as pessoas já vêm julgadas e
condenadas.”

Na central do colégio, em Curitiba, a informação é que o livro está sendo reavaliado como
qualquer outro. “Estamos com essa coleção há oito anos e ela é uma das mais conceituadas na
área. Pode ter problemas, mas nenhum livro é 100%”, afirma o educador Pedro Gardim,
coordenador pedagógico do colégio. Segundo ele, a informação sobre José Rainha não estava no
livro porque a edição usada era anterior à condenação. “O livro fala do MST, que é um
movimento polêmico, mas importante para discutir o tema da terra. Assim como, mesmo sendo
uma escola católica, falamos da Inquisição.” Segundo Roberto Catelli, um dos autores do livro, a
obra não faz nenhuma apologia a José Rainha. Para Catelli, mestre em História Social pela
Universidade de São Paulo (USP), o fato de o livro reproduzir trechos da versão em quadrinhos
de O Capital, do filósofo e economista Karl Marx, sobre o conceito de mais-valia, também não é
pregação ideológica. “O texto deixa explícito que se trata do pensamento de um autor, e não de
uma verdade única”, diz. “O objetivo é que o aluno tenha acesso ao pensamento marxista,
básico no estudo das ciências humanas.”

“No discurso da escola, mérito é um conceito burguês. E isso é visto como negativo”

Bráulio Porto de Matos, da UnB

O caso suscita uma discussão relevante para as famílias de 42 milhões de estudantes do ensino
fundamental e médio no Brasil, nas redes pública e privada. Afinal, o que se ensina às crianças e
aos adolescentes do país? Há um mês, um artigo do jornalista Ali Kamel despertou a polêmica,
ao transcrever trechos do livro Nova História Crítica no jornal O Globo. Para Kamel, o livro é uma
“tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de
todos os problemas é o socialismo”. ÉPOCA analisou o livro e encontrou trechos problemáticos,
como “Adam Smith acreditava que as forças do mercado agiriam como uma mão invisível a
regular a economia. Em suma, o vale-tudo capitalista promoveria o progresso geral de forma
harmoniosa”, uma visão estereotipada do capitalismo, como um sistema desprovido de ética.
Nova História Crítica foi um campeão de vendas. Teve 9 milhões de exemplares distribuídos
desde 1998 pela rede pública de ensino e 1 milhão pela rede particular. Estima-se que 30
milhões de adolescentes estudaram História com ele. O autor, Mario Furley Schmidt, não se
pronunciou. Arnaldo Saraiva, presidente da editora Nova Geração, respondeu que o livro “não é
o único nem o primeiro que questiona a permanência de estruturas injustas e que enfoca os
conflitos sociais em nossa história”. Disse também: “Não publicamos livros para fazer crer nisso
ou naquilo, mas para despertar nos estudantes a capacidade crítica de ver além das aparências e
de levar em conta múltiplos aspectos da realidade”. O livro de Schmidt já não faz parte da lista
de recomendações do MEC. Fora aprovado, com ressalvas, pelas bancas que analisam os livros
didáticos, em 1998, 2001 e 2004. Em 2007, quando a categoria “com ressalvas” acabou, ele foi
rejeitado.

Mas há outros, com teor parecido. ÉPOCA fez um levantamento de 20 livros didáticos e 28
apostilas de História e Geografia adotados por escolas públicas e privadas. Em um país
democrático, pode-se esperar que os títulos reflitam o amplo espectro ideológico e político da
sociedade. Não é o que ocorre. A maioria dos livros – em especial os de História – é simpática ao
socialismo e apresenta o livre mercado como um modelo econômico gerador de desigualdade e
pobreza. Embora a ênfase seja desequilibrada para a ideologia de esquerda, isso faz parte do
jogo democrático. O dado que assusta é a quantidade de distorções que os autores fazem em
nome da visão socialista. Existem dois tipos de problemas. O primeiro é a omissão. Ao tratar de
revoluções socialistas, como a da China e a de Cuba, vários livros deixam de mencionar o caráter
opressivo e ditatorial desses regimes. Além disso, a ideologia leva alguns autores a publicar
informações erradas, como dizer que a globalização aumentou a pobreza mundial. Segundo
dados da ONU, a abertura do comércio internacional da década de 90 fez com que a renda per
capita dos países pobres crescesse mais que a dos países desenvolvidos (confira nos quadros).

“Os professores empreenderam uma grande luta de retorno à democracia. Estamos em uma fase
de transição”

Célio Cunha, da Unesco

O caso mais impressionante é o do material elaborado pelos professores da rede estadual do


Paraná no programa Livro Didático Público. Seus livros vão para 450 mil alunos do ensino médio.
Há até um livro de Educação Física com um capítulo intitulado “Faço esporte ou sou usado pelo
esporte?”, em que a atividade física é apresentada como ferramenta de exploração capitalista.
“Regras: é preciso respeitá-las para sermos bons esportistas. Em nossa sociedade, devemos ser
submissos às regras impostas pela classe dominante”, escreve o autor. “Em nosso convívio social,
devemos respeitar nossos colegas (...), contribuindo com o êxito da equipe ‘de trabalho’, isso
quer dizer ‘enriquecer cada vez mais os patrões’.” O governo paranaense diz que não houve
orientação ideológica para os autores. “Algumas perspectivas podem ser vistas como
reducionistas, mas todas as realidades existem”, diz o filósofo Jairo Marçal, coordenador do
programa. “Seria complicado assumir o relativismo que acaba aceitando todas as posições como
corretas. Não se pode mais fazer uma crítica ao modelo econômico que está colocado?”

Quem escreve livros como esses? Escritores revolucionários? Nem tanto. O autor dos capítulos
de Educação Física do Paraná é Gilson José Caetano, de 30 anos, casado com uma professora de
Educação Física e pai de uma menina de 2 anos. Ele é professor no município de Turvo, com 14
mil habitantes. Sua formação é o curso de Educação Física de uma universidade particular de
Palmas, no interior do Paraná. Caetano é diretor da Escola Joanna s Lechiw Thomé, com 96
alunos entre a 5a e 8a séries. Para chegar lá, todas as manhãs percorre 17 quilômetros de
estrada de terra. Metade do caminho dentro de uma van contratada pelos professores, metade
de carona no ônibus escolar dos alunos. À tarde, leciona para 180 estudantes do Colégio
Estadual Edite Cordeiro. À noite, faz bico como instrutor de uma academia de ginástica. “Aqui no
interior é difícil alguém notar o nosso trabalho. O livro foi uma grande oportunidade”, diz.

Para escrever seu livro de esporte com críticas ao capitalismo, Caetano diz ter escolhido “um
recorte baseado no materialismo histórico dialético”, referindo-se à concepção de História
desenvolvida por seguidores de Karl Marx. Ele afirma que o marxismo seria a base teórica de
consenso entre os professores que criaram as diretrizes da Secretaria de Educação do Paraná.
“Todo livro didático público tem uma visão. Se partirmos da neutralidade, não pensamos um
aluno crítico”, diz. “Isso não significa que eu seja comunista. Nem me interesso muito por
política.” Caetano se diz um atleta frustrado. “Praticava todos os esportes, mas nunca descobria
minha habilidade. Meu professor de Educação Física se preocupava tanto em ajudar os alunos
que resolvi ser como ele. Quero fazer algo pela comunidade por meio da formação dos
estudantes.”

Em uma apostila do sistema Anglo, os autores Claudio Vicentino e José Carlos Moura, de São
Paulo, escrevem: “o império da sociedade de consumo é um mundo em que alguns são senhores
do mercado e a esmagadora maioria sua vítima”. Por e-mail, eles explicaram seu texto.
“Consideramos que esses problemas transcendem uma visão ideológica, seja ela de direita ou de
esquerda, e inclusive por isso assinalamos na mesma página, logo a seguir, que nem o socialismo
real e nem o capitalismo foram capazes de resolver esses grandes impasses da humanidade.”

Já a professora Katya Picanço escreveu um capítulo intitulado “Ideologia” em uma apostila de


Sociologia distribuída na rede pública do Paraná. Em sua obra, a autora afirma que “na
sociedade capitalista, o poder público está a serviço da classe dominante, via seus
representantes no governo”. Na opinião de Katya, “é óbvio que os políticos estão a serviço da
classe dominante, senão a sociedade teria mudado”. Roberto Catelli, no livro Terra e
Propriedade, descreve a revolução chinesa de Mao Tsé-tung, mas não menciona que seu regime
opressor promoveu um dos maiores massacres da História. Catelli afirma que optou por um
recorte econômico, não político. Sua resposta é a mesma em relação à ditadura de Fidel Castro:
“Só mencionamos o bloqueio econômico dos Estados Unidos a Cuba, uma questão política,
porque ele teve impacto direto na economia do país”.

Alguns autores, diante das críticas, afirmam que os livros didáticos com problemas serão
revisados. É o caso de Uma História em Construção, que tem a ilustração de um americano
esmagando o Brasil. O autor, José Rivair Macedo, diz que vai reformular o conteúdo e a parte
gráfica. “Estamos revendo uma série de aspectos conceituais e formais, de modo a tornar a obra
mais objetiva e em consonância com as atuais propostas de ensino”, afirma. Procuradas por
ÉPOCA, as editoras Saraiva, Scipione e Moderna não quiseram se manifestar.

A doutrina política de esquerda não é o único problema do mercado didático. O livro Banzo,
Tronco & Senzala, da editora Harbra, foi recolhido da rede de Brasília em 2003 porque sua
ilustração de capa trazia escravos negros com traços faciais semelhantes aos de macacos. No
início de 2003, o caso foi denunciado por um pai de aluno ao senador Paulo Paim (PT-RS) – que
procurou o governo do Distrito Federal. Embora não fosse distribuído pelo governo, muitas
escolas compravam o livro com orçamento próprio. “O caso é chocante porque é extremo. Mas
não é difícil achar ilustrações que embrutecem a face dos negros nos livros didáticos”, afirma a
educadora Andréia Lisboa de Sousa, doutoranda em currículos escolares na Universidade do
Texas.

Em outra coleção excluída depois de ser distribuída por três anos pelo MEC, os índios são
retratados como seres incivilizados, e os nordestinos como culpados pela pobreza nas grandes
cidades. No volume para a 6a série de Uma História em Construção, lê-se: “Comparando o tipo
de vida dos indígenas com o dos civilizados, notamos grandes diferenças” (o termo civilizados,
segundo consenso dos antropólogos, é preconceituoso, pois implica que os índios não têm
civilização. Seriam, portanto, selvagens). No livro para a 7a série, o autor escreve: “A fome não
diminuiu no Nordeste, mas foi trazida para o Sudeste e para o Sul. Quem trouxe? Os 28 milhões
de migrantes que marcharam para as regiões desenvolvidas”.

Quanto eles vendem

O segmento de livros didáticos deverá movimentar R$ 1,2 bilhão entre 2007 e 2008. Cerca de
58% do faturamento vem da venda para o governo federal

Fontes: Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros)/Fundo Nacional de


Desenvolvimento da Educação (FNDE)

“Livros que induzem a preconceitos e estereótipos levam a uma formação errada, uma visão
distorcida do mundo. Formam pessoas racistas, com xenofobia. As idéias de que no Nordeste só
há seca e miséria e que todos os alemães são nazistas não ajudam o aluno a compreender o
mundo”, afirma a historiadora Margarida Matos, da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Ela coordenou a banca que excluiu o livro Nova História Crítica da lista do MEC neste ano.
A visão doutrinária foi apenas um dos problemas identificados. Schmidt, o autor, faz ainda
abordagens estereotipadas de períodos e personagens históricos e abusa de expressões
coloquiais. No livro para a 5a série, ele especula sobre as razões da expansão do cristianismo:
“Muitas pessoas ricas começaram a adotar o cristianismo. Estavam cansadas de sua vida vazia,
de egoísmos e de futilidades. As orgias alegravam por um tempo, mas depois vinha a
depressão”.

Os escritores de livros didáticos são os maiores vendedores de livros do Brasil. Segundo


levantamento da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, 53%
dos 310 milhões de exemplares vendidos no ano passado no país se encaixavam nessa categoria.
O segmento representa mais da metade do faturamento do mercado editoral brasileiro. Autores
que estão há décadas no mercado já venderam milhões de exemplares e formaram gerações.
Até autores novos no ramo podem alcançar esse volume em apenas uma única venda para o
programa do governo federal de distribuição de livros para escolas da rede pública. São números
expressivos para um mercado em que fenômenos como Harry Potter saem com tiragem inicial
de 350 mil exemplares. Potter precisou de cinco volumes para bater a casa dos 2 milhões de
livros vendidos.

O grande impulso para o mercado de livros didáticos vem do governo federal. O Ministério da
Educação (MEC) destinou R$ 746 milhões à compra de livros didáticos para o próximo ano letivo
nas redes federal, estadual e municipal. O programa brasileiro é o terceiro maior do mundo – só
fica atrás dos programas da China e dos Estados Unidos, segundo estudo do economista Fábio Sá
Earp, coordenador do Laboratório de Economia do Livro da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Para as editoras, é um mercado de mais de 37,6 milhões de alunos da rede
pública. Boa parte dos livros com viés ideológico de esquerda passa pela análise do governo
federal. Em cada disciplina, os livros são analisados por uma banca de especialistas de uma
universidade pública. Dos 587 inscritos no ano passado, 182 foram excluídos. As escolas privadas
não são obrigadas a seguir a lista dos livros aprovados pelo MEC. Mas geralmente a usam como
referência.

Quem escolhe os livros didáticos

Como o material é avaliado nas redes pública e privada

O autor escreve o livro didático. A cada três anos, as editoras encaminham suas coleções
para avaliação do Ministério da Educação. No ano passado, 13 editoras inscreveram 587
coleções

NAS ESCOLAS PÚBLICAS

1 - O MEC envia esses livros para universidades públicas. Cada disciplina vai para uma
universidade, que monta uma banca de professores da área para avaliar o conteúdo

2 - As universidades têm seis meses para elaborar um parecer justificando quais livros
serão aprovados e excluídos. Além de um documento com recomendações e ressalvas para
auxiliar o professor na escolha dos livros aprovados

3 - Entre março e abril, o MEC divulga a lista dos aprovados. E envia a justificativa de
exclusão dos não aprovados para as editoras

4 - A lista fica na internet e as escolas públicas escolhem, com os professores, os livros


que vão usar

5 - O MEC compra os livros e, no início do ano seguinte, eles estão nas mãos dos alunos

NAS ESCOLAS PARTICULARES

1 - Vendedores das editoras mostram os livros nas escolas particulares

2 - A maioria das escolas usa como referência a lista de aprovados pelo MEC, por opção
própria

APOSTILAS

Algumas escolas do país usam sistemas de apostilas feitas por grandes empresas de
educação como Objetivo, Anglo, Pitágoras, UNO e Positivo.

O material feito por essas editoras nem passa pelo MEC

Fontes: Ministério da Educação, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e Associação


Brasileira de Editores de Livros
EDUCAÇÃO FÍSICA

Gilson José Caetano em uma escola estadual do Paraná. Segundo seu livro, “em nossa sociedade,
devemos ser submissos às regras impostas pela classe dominante”

As bancas das universidades que analisam os livros para o MEC costumam rejeitar títulos por má
qualidade do conteúdo. São freqüentes os casos de livros recusados por informações incorretas,
uso de linguagem inapropriada ou mesmo expressões racistas ou preconceituosas. Um dos
critérios para a exclusão de livros é s a doutrinação política. Mas a banca deixa passar títulos que
condenam o capitalismo e enaltecem o socialismo. Apesar da polêmica, o ministro da Educação,
Fernando Haddad, diz que não vai reformular o sistema de avaliação por bancas, iniciado no
governo FHC. “O Ministério da Educação não pode, sob pena de cometer gravíssimo erro, adotar
a postura de censor. Em educação, a avaliação que dá certo é a avaliação feita por pares. Ela
pode ter imperfeições, mas é melhor que qualquer outra”, disse Haddad.

Na avaliação pelos pares, esse viés que condena o capitalismo não choca boa parte dos
acadêmicos. “O professor é de esquerda porque não acredita que haja uma solução para o
problema da desigualdade que emane da direita”, diz o filósofo Renato Janine Ribeiro, diretor de
avaliação da Capes, fundação do MEC que investe na pós-graduação. “Afinal, a direita governou
o país quase o tempo todo. Ela gerou este país.” O próprio Janine Ribeiro apresenta sua visão do
liberalismo econômico. “Para a riqueza das elites aumentar, é preciso mexer no bolo. Se alguns
passam a ganhar mais, é provável que isso diminua o que vai para os que já ganham menos”, diz.
Essa visão se baseia na concepção de que a riqueza é finita. Mas a corrente de pensamento
econômico predominante é de que é possível criar valor – quando um país prospera, sua
economia cresce, o que pode gerar riqueza para todos os estratos sociais.

Por que o ensino de História ganhou esse tom anticapitalista no Brasil? Segundo alguns
economistas e educadores, isso é resultado de uma mudança no perfil dos professores ocorrida
na década de 70. Naquele momento, a expansão da educação básica aconteceu à custa da
redução do salário dos professores. O poder de compra deles hoje é até 70% menor do que foi
na década de 50, de acordo com o sindicato dos professores do Estado de São Paulo (Apeoesp).
Samuel Pessoa, economista da Fundação Getúlio Vargas, diz que o professor reage por conviver,
em sala de aula, com crianças miseráveis, vítimas de violência e sem perspectivas. “É razoável
que os professores se revoltem contra esta situação. Daí a surgir um pensamento de esquerda,
parece meio natural”, afirma.

Segundo Pessoa, no entanto, o discurso marxista chega distorcido e pouco aprofundado, de


modo que o discurso se resume a uma crítica ao capitalismo perverso. “Para entender o mundo,
os professores passam a adotar uma lógica conveniente, simplista e sedutora, em geral
conspiratória da História”, afirma. “Imagine que fácil se toda a tragédia social do país pudesse
ser explicada pela globalização. Se todas as mazelas de países subdesenvolvidos fossem fruto
apenas de forças externas e nunca de opções erradas que se fez durante o desenvolvimento.”

“Para entender o mundo, os professores passam a adotar uma lógica conveniente, simplista e
sedutora”

Samuel Pessoa, da Fundação

Getúlio Vargas

A visão maniqueísta da História pode ser encontrada já no curso de Pedagogia. Para mostrar
isso, Bráulio Porto de Matos, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, compara os
manuais de didática mais usados pelos professores na década de 60 com o livro mais popular de
hoje. O manual de Amaral Fontoura, usado até os anos 70, era principalmente técnico: fazia
críticas ao processo de ensino. A obra mais atual, de Carlos Libâneo, no entanto, já em suas
primeiras páginas fala sobre a perversidade do capitalismo: “As relações sociais do capitalismo
são, assim, fortemente marcadas pela divisão da sociedade em classes, onde capitalistas e
trabalhadores ocupam lugares opostos e antagônicos no processo de produção. A classe
proprietária dos meios de produção retira seus lucros da exploração do trabalho da classe
trabalhadora”.

De certa forma, a esquerdização dos professores no Brasil foi um reflexo do período de ditadura
militar no país, nos anos 70. “Os professores empreenderam uma grande luta de retorno à
democracia”, diz Célio Cunha, assessor de educação da Unesco no Brasil. “Estamos em uma fase
de transição. Naturalmente estes livros refletem a realidade recente do país”, diz. Para ele é
importante manter o direito de livre escolha do professor. “É a continuidade desse processo que
nos colocará, daqui a alguns anos, em um ponto de equilíbrio.” Mas a transição talvez esteja
demorando demais em um país que abandonou a ditadura há 20 anos. E ela não justifica o
maniqueísmo assumido pelos livros.

A qualidade dos livros didáticos e a preocupação com os pontos de vista que eles veiculam não
são uma questão importante somente no Brasil. “Os livros de História de qualquer sociedade
não têm, necessariamente, um compromisso com a verdade”, afirma Bárbara Freitag, pedagoga
da Universidade de Brasília. “Diariamente aparecem denúncias e descobertas que impõem a
revisão do que se escreveu e permitem uma aproximação à verdade.” Nos Estados Unidos,
existem pelo menos três organizações que se dedicam a estudar e, eventualmente, denunciar os
conteúdos ensinados nas escolas e nas faculdades americanas. Elas dizem querer garantir a
liberdade de pensamento e evitar a doutrinação, por parte dos professores, de qualquer crença,
ideologia política ou convicção.

Recentemente, na Inglaterra, alguns pais se mostraram preocupados com a educação de seus


filhos. De acordo com eles, o papel histórico do país como grande colonizador da Índia e de
países africanos e sua participação nas duas guerras mundiais estariam sendo suavizados. A
explicação para o abrandamento da História estaria no fato de que muitos indianos e africanos
oriundos de ex-colônias britânicas estudam nas escolas inglesas. Rever a História e consertar no
papel os possíveis excessos cometidos pela Inglaterra poderia evitar uma animosidade entre os
alunos, impedir a exacerbação do nacionalismo nos imigrantes e da xenofobia nas demais
crianças.

Mas talvez o maior exemplo de vigilância em relação aos livros didáticos seja dos alemães. “O
governo é muito rigoroso com os livros com os quais as crianças vão estudar e com os
professores que darão aulas”, diz Henning Suhr, assessor político da Fundação Konrad Adenauer.
“Se algum professor disser que o nazismo não foi tão ruim, é imediatamente exonerado.”
Demonstrações de nacionalismo, como o ato de cantar o hino nacional nas escolas, são vetadas.

QUEIXAS

Gabriel e a mãe, Mayra, com o volume de História da escola. “Neste livro, as pessoas já vêm
julgadas e condenadas”, diz ela

Há quem diga que a ideologia nos livros didáticos não é um problema. “O viés esquerdista dos
livros importa pouco”, afirma o sociólogo Alberto Carlos Almeida, diretor de planejamento da
empresa de pesquisa Ipsos e autor do livro A Cabeça do Brasileiro. “Porque, à medida que a
pessoa estuda, sua cabeça muda. Em geral, quem estuda mais tem uma visão menos
estatizante.” Outro argumento de pensadores que minimizam o problema é que as fontes de
informação no mundo atual são múltiplas e, por isso, contrabalançam qualquer viés na escola.

Mas, para milhões de crianças e jovens, isso não é verdade. “O material didático tem uma
importância grande na formação do aluno pelo mero fato de ele ser, muitas vezes, o único livro
com o qual a criança entrará em contato”, afirma a pedagoga Bárbara Freitag, da UnB. O
conhecimento registrado no livro escolar também tem status maior que o da televisão, da
internet ou mesmo da conversa com os pais. E, quanto mais nova é a criança, menos capacidade
ela tem de questionar o que é mostrado no livro. “O didático representa para a criança a fonte
do conhecimento valorizado pela sociedade”, afirma Ângela Soligo, coordenadora de pedagogia
da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Por isso, ela tende
a acreditar piamente em tudo o que está ali. Aquele conteúdo é visto como absolutamente
verdadeiro.” Alguns bons professores levam para a sala recortes de revistas e s jornais, filmes ou
outros livros de referência. “Mas algumas vezes o professor usa o livro como bengala”, diz
Bárbara.

Embora a supremacia do livro seja incontestável, a internet já começa a proporcionar conteúdos


capazes de rivalizar com esse conhecimento. Sites como a Wikipédia apresentam informações
cuja veracidade é equivalente à dos livros didáticos. O problema é que essa ainda é uma fonte de
pesquisa restrita. “Poucos professores mandam seus alunos pesquisar na internet. E o número
de alunos que efetivamente pesquisam é menor ainda”, afirma Vani Kenski, da USP, especialista
em tecnologia da educação.

O dano que livros didáticos ruins podem causar ao país vai além da questão política. “Eles
ensinam para crianças e jovens fatos que não são verdadeiros, distorcendo a finalidade da
educação”, diz o cientista político Bolívar Lamounier. É nessa fase do ensino fundamental e do
ensino médio que os jovens se interessam por questões políticas. “Se receberem uma
informação distorcida, criarão uma visão de mundo também distorcida.”

“Se receberem uma informação distorcida, os alunos criarão uma visão de mundo também
distorcida”

Bolívar Lamounier, cientista político

Segundo Bráulio Porto de Matos, da UnB, essa visão gera nas pessoas um sentimento de culpa
indevida diante das riquezas advindas do próprio trabalho. “O sujeito vê que tem três carros na
garagem e acha que tem de votar na esquerda porque aquilo é injusto”, diz. Para Matos, mais
grave é o efeito na vida prática. “Quem analisa o mundo segundo uma ótica de conflito de
classes tende a acreditar menos na iniciativa individual. No discurso da escola, mérito é um
conceito burguês. E isso é visto como negativo.” Segundo Matos, essa educação desestimula as
pessoas a empreender e a buscar o lucro como prêmio pelos esforços. “Esses livros não vão fazer
uma revolução socialista no país, mas o Brasil fica mais pobre de perspectivas”, diz.

A presença de distorções em livros que, muitas vezes, passam pelo próprio crivo do MEC é um
problema complexo. Mas pode ser resolvido. Lamounier aponta alguns caminhos. “Um deles
seria criar comissões de análise mais pluralistas, com membros de diversas filosofias”, diz. “Outra
estratégia seria convidar, para escrever os livros, pessoas com capacidade de expor os fatos de
forma mais objetiva.” Para Marco Antonio Villa, historiador da Universidade Federal de São
Carlos, o ideal seria haver uma profunda revisão dos livros. “A universidade precisa estar ligada a
esse processo”, diz. “Livros didáticos não podem ser obras individuais, precisam ser coletivas.”

O discurso dos livros

Como é a História, segundo alguns dos livros didáticos e apostilas usados por alunos das escolas
brasileiras

CAPÍTULO I

REVOLUÇÃO CHINESA

Em alguns livros, os autores apresentam a tomada do poder pelos socialistas, liderados por Mao
Tsé-tung, e suas reformas. Mas omitem a repressão e o sistema ditatorial que dura até hoje.

O QUE DIZ
“Em janeiro de 1949, abandonado pelos que o protegiam (os Estados Unidos), Chiang Kai-shek
foi derrotado por Mao Tsé-tung e refugiou-se em Taiwan, onde estabeleceu o seu governo.
Triunfava assim a revolução comunista na China.” (História – Origens, Estruturas e
Processos/Ensino Médio. Luiz Koshiba. São Paulo: Atual, 2000)

O QUE FALTA

Sob o regime de Mao Tsé-tung (1949-75), a China teve fome, pobreza e opressão. Estima-se que
até 70 milhões de pessoas morreram. Segundo o livro Mao: a História Desconhecida, de Jung
Chang e Jon Halliday, 38 milhões de pessoas morreram de fome e excesso de trabalho. Pelo
menos 27 milhões morreram em campos de trabalhos forçados. Mais de 3 milhões tiveram
mortes violentas. Outros 3 milhões foram executados, vítimas de linchamento ou se suicidaram.
O país progrediu após a morte do líder, mas a ditadura permanece até hoje. A comunicação é
apenas de fonte oficial do governo. A internet é censurada.

CAPÍTULO II

REVOLUÇÃO CUBANA

Os autores contam os resultados da revolução comunista em Cuba, mas não mencionam a


censura, a opressão e a ditadura que permanecem até hoje.

O QUE DIZ

“A Revolução Cubana conseguiu eliminar o analfabetismo, reduzir a mortalidade infantil e o


desemprego. Os trabalhadores tiveram acesso facilitado à moradia, à saúde pública e à
alimentação.” (História 8, Projeto Araribá, Editora Moderna)

“(...) a guerrilha de Sierra Maestra não era socialista em sua origem, já que a Revolução Cubana
foi uma luta armada contra um ditador, em cujo desfecho a sociedade se viu obrigada a optar
pelo socialismo.” (História – Origens, Estruturas e Processos/Ensino Médio. Luiz Koshiba. São
Paulo: Atual, 2000)

O QUE FALTA

A revolução cubana de Che Guevara e Fidel Castro determinou a opressão dos opositores ao
novo regime e cerceou a liberdade da população. Até hoje os cubanos precisam de autorização
do governo para sair do país. Não há eleição para presidente. Pelas ruas, circulam carros com
décadas de uso. A população depende de vales para obter alimentos, roupas etc.

CAPÍTULO III

CONSUMO
Predomina a leitura de que o consumo é algo negativo, praticamente imposto pelos meios de
comunicação. Não se fala que as pessoas vivem melhor em sociedades afluentes.

O QUE DIZ

“Um jovem hippie dos anos 60. Observe suas roupas. Descontraído, ele despreza a ‘sociedade de
consumo’ que produziu as guerras, a pobreza, o endeusamento do dinheiro. Do outro lado, o
yuppie, executivo dos anos 80 e 90, feliz com seu sucesso financeiro” (Nova História Crítica.
Mario Furley Schmidt. São Paulo: Nova Geração, 2002)

“Ou as próprias preocupações foram induzidas pelo ‘marketing’, pela ‘propaganda’ e não
refletem uma preocupação sobre o ato de consumir (o que você entende por ‘ato de
consumir’?). O indivíduo ‘é reduzido ao papel de consumidor, sendo cobrado por uma espécie
de obrigação moral e cívica de consumir’.” (apostila do programa Livro Público do Governo do
Paraná, capítulo “Dinheiro Traz Felicidade”, Gisele Zambone)

“Muitas sociedades do Terceiro Mundo também sofreram influência de uma série de


valores culturais externos. Hoje em dia, grande parte da moderna tecnologia de comunicação de
massa (internet, cinema, televisão, revistas, jornais) projeta muitos valores que interessam às
sociedades capitalistas mais desenvolvidas e às elites locais desses países: individualismo
extremo, consumismo, ruptura das tradições locais, busca desenfreada do lucro etc.” (História
Global – Brasil e Geral/Volume Único. Gilberto Cotrim. São Paulo: Saraiva, 2002)

O QUE FALTA

Em busca de lucros, as empresas inovam seu processo produtivo. A concorrência faz com que
ofereçam cada vez mais produtos por preços menores. Bens de consumo – como geladeira,
telefone, TV – se tornam acessíveis aos mais pobres e melhoram suas condições de vida.

CAPÍTULO IV

ECONOMIA CAPITALISTA

Predomina a versão de que o sistema capitalista aumenta a pobreza e a desigualdade – mesmo


tendo os países capitalistas gerado maior prosperidade para suas populações.

O QUE DIZ

“No início do século XXI, os resultados práticos desse modelo (neoliberalismo) começaram a
aparecer nas estatísticas, revelando o que seus críticos sabiam desde o princípio: o mercado,
sem controle, não distribui renda nem riqueza, concentra-as nas mãos de uma minoria.
Traduzindo: enriquece mais os ricos e empobrece mais os pobres.” (História do Brasil no
Contexto da História Ocidental/Ensino Médio. Luiz Koshiba e Denise Pereira. São Paulo: Atual,
2003)

“Crie um exemplo de mais-valia, tomando por base alguma situação real de nossa sociedade
capitalista.” (exercício proposto por História Temática: Terra e Propriedade, 7a série. Andrea
Montellato, Conceição Cabrini, Roberto Catelli Junior. São Paulo: Scipione, 2005 – Coleção
História Temática)

O QUE FALTA

A história oferece boas comparações de modelos econômicos. A Coréia do Sul enriquece com o
capitalismo, e a do Norte mantém a pobreza, com altas taxas de mortalidade infantil e baixa
expectativa de vida. A Alemanha Ocidental prosperou mais que a Oriental, comunista.

CAPÍTULO V

GLOBALIZAÇÃO

É apresentada como a nova forma de imperialismo. As nações ricas exploram as pobres. Falta
dizer que a abertura de mercados também dá oportunidades aos países pobres.

CAPITALISMO

Uma loja da rede McDonald’s em Pequim. Mesmo países como a China abrem sua economia

O QUE DIZ

“A riqueza material produzida nos países que adotam o sistema capitalista não é distribuída de
forma equilibrada entre as populações. É brutal o abismo existente entre as sociedades dos
países ricos e as dos países pobres. Calcula-se que 80% da renda produzida no mundo
concentra-se nas mãos de 15% da população do planeta, que vive nos países ricos.”

(História Global: Brasil e Geral/Volume Único. Gilberto Cotrim. São Paulo: Saraiva, 2002)

“Muitas sociedades do Terceiro Mundo também sofreram influência de uma série de valores
culturais externos. Hoje em dia, grande parte da moderna tecnologia de comunicação de massa
(internet, cinema, televisão, revistas, jornais) projeta muitos valores que interessam às
sociedades capitalistas mais desenvolvidas e às elites locais desses países: individualismo
extremo, consumismo, ruptura das tradições locais, busca desenfreada do lucro etc.” (Idem)

“A globalização tende, portanto, a elevar o número de pessoas que vivem em situação de


extrema pobreza, principalmente na América Latina, na Ásia e na África. O resultado tem sido a
organização de movimentos de denúncia da globalização, como o Fórum Social Mundial.”
(História 8, Projeto Araribá, Editora Moderna)

“Esse processo é denominado divisão internacional do trabalho e favoreceu os países


detentores de tecnologia mais avançada, que podiam produzir bens de consumo a preços baixos.
Os demais países ficaram condenados a colocar no mercado internacional apenas matérias-
primas e produtos agrícolas. Esse processo agravou o abismo econômico que separa nações
pobres e ricas.” (apostila com módulo de História do Sistema UNO de Ensino, de Nicolina Luiza
de Petta)

“É o império da sociedade de consumo, perseguidora de maior produção, que continua a


destruir o que resta de meio ambiente saudável no planeta. Cada vez mais destituída de
solidariedade humana, essa sociedade consumista substitui a sociedade de cidadãos. É um
mundo em que alguns são senhores do mercado e a esmagadora maioria, sua vítima; tanto uns
como outros mais e mais desumanizados.” (apostila História 3 – coleção Anglo. Cláudio Vicentino
e José Carlos Pires de Moura)

O QUE FALTA

A globalização beneficiou países periféricos, como China, Índia e Brasil, que atraíram grandes
investimentos de empresas que geram emprego. Esses países também passaram a competir no
mercado global com suas empresas. Dados da ONU mostram que, entre 1985 e 2000, o valor das
exportações anuais de todos os países do mundo aumentou de US$ 1,9 trilhão para US$ 6,3
trilhões. A renda per capita dos países em desenvolvimento subiu, em média, 5% ao ano durante
a década de 1990 – bem acima dos países desenvolvidos. Os Tigres Asiáticos ficaram ricos com a
entrada no mundo globalizado.

CAPÍTULO VI

REFORMA AGRÁRIA

A reforma agrária é apresentada como solução para a concentração de terras no Brasil. Não se
fala que o setor terciário urbano é que tende a absorver essa mão de obra.

INVASÃO

Membros do Movimento dos Sem Terra em propriedade privada

O QUE DIZ

“A luta pela posse da terra é uma guerra não concluída na América Latina.” (apostila com módulo
de História do Sistema UNO de Ensino, de Nicolina Luiza de Petta)

O QUE FALTA

Existe um moderno setor de agronegócios no Brasil que gera um terço do PIB nacional e exige
cada vez menos mão-de-obra. Por outro lado, a população brasileira é cada vez mais urbana e as
oportunidades de emprego tendem a surgir no setor de serviços das cidades.

CAPÍTULO VII

VIVA A REVOLUÇÃO

A revolução armada é apresentada como solução justificável para acabar com a opressão. Os
autores omitem que esses golpes costumam levar a ditaduras.
O QUE DIZ

“Uma vez que os poderosos beneficiários de qualquer sistema baseado na desigualdade social
não estão dispostos a abrir mão espontaneamente de seus privilégios, o confronto violento é
uma das possibilidades permanentes e inerentes a todo processo de mudança histórica
estrutural, o que explica a importância do caráter militar das revoluções.” (História – Origens,
Estruturas e Processos/Ensino Médio. Luiz Koshiba. São Paulo: Atual, 2000)

“No Rio Grande do Sul, mulheres aprendem a atirar – a busca pela terra prometida sempre se faz
através de muita luta.” (Brasil: uma História em Construção/Volume 2. José Rivair de Macedo e
Mariley Oliveira.

Editora do Brasil)

O QUE FALTA

Há 20 anos não há revoluções armadas no mundo. No Brasil, com a volta da democracia em


1985, os cidadãos têm mudado os rumos do país pelo voto. Já elegeram governos de direita e de
esquerda. Países desenvolvidos, como os europeus, oscilam entre governos dos dois tipos
dentro de seus regimes democráticos.

CAPÍTULO VIII

DOMINAÇÃO

Alguns livros didáticos do Estado do Paraná reduzem o mundo a um conflito entre as elites
dominantes e os povos dominados.

O QUE DIZ

“Assim, há uma dominação ideológica que se desenvolve com a intenção de reproduzir a


sociedade e fazer com que as regras e o lugar que cada um ocupa – os que dominam e os
dominados – continue o mesmo (sic), ou que as mudanças ocorram dentro do controle daqueles
que têm interesse em manter tudo como está.” (apostila do programa Livro Público do Governo
do Paraná, Ideologia, Katya Picanço)

“Para o cientista político Norberto Bobbio (1909-2004), o uso da informação realizado pela
indústria cultural produz doutrinação, uma vez que dita o que será veiculado pela mídia,
filtrando o que será produzido e impedindo a difusão da cultura popular e a crítica à cultura
dominante.” (apostila do programa Livro Público do Governo do Paraná, O Estado Imperialista e
Sua Crise, Altair Bonini e Marli Francisco)

O QUE FALTA

As pessoas exercem vários papéis nas sociedades democráticas. As elites no governo são eleitas
pela própria população. Os consumidores têm cada vez mais poder sobre as empresas, exigindo
que seus direitos sejam respeitados e cumpridos. Pela bolsa de valores, os cidadãos podem ser
acionistas das grandes empresas, obtendo parte dos lucros.

CAPÍTULO IX

O IMPÉRIO AMERICANO

Os Estados Unidos são apresentados como um império de influências negativas. Não se fala da
história de independência, democracia e direitos humanos do país.

O QUE DIZ

“Como se livrar da dependência dos USA?” (Brasil: uma História em Construção/Volume 2. José
Rivair de Macedo e Mariley Oliveira.

Editora do Brasil)

“Os EUA logo após o fim da Guerra Fria passaram a ser considerados a única superpotência
mundial, um império implacável, hegemônico, com interferência em muitas partes do mundo,
apologista da globalização ou da mundialização do capitalismo. O ataque às torres gêmeas, em
11 de setembro de 2001, além de mostrar aos EUA que eles também são vulneráveis, significou
um enfrentamento ao imperialismo norte-americano.” (apostila do programa Livro Público do
Governo do Paraná, O Estado Imperialista e Sua Crise, Altair Bonini e Marli Francisco)

O QUE FALTA

Os Estados Unidos têm uma das mais antigas e sólidas democracias do mundo. Sua influência
em outros países se deve também à pujança de sua economia, alcançada graças a um sistema
que incentiva a inovação constante – e que permite a criação de novas tecnologias, como
internet, ou remédios. A globalização é um fenômeno irreversível e com muitos aspectos
positivos, como o investimento de países mais ricos nos mais pobres. A vitória do capitalismo
deve-se ao fracasso dos regimes socialistas, de economia planejada, que resultou no fim da
Guerra Fria. Se não tivesse produzido mais ganhos que perdas, o capitalismo estaria em
extinção.

Quando a bibliografia é sabotada

7 jun '16 Thiago Kistenmacher

ai5 bibliogrrafico

Vou ser breve, afinal de contas, este é um assunto já bastante óbvio, quer dizer, o fato de que a
bibliografia acadêmica nos cursos, principalmente da área de Humanas, é sabotada. Luiz Felipe
Pondé utilizou esse termo e penso que ele sintetiza muito bem a situação.
Mas há algo interessante nisso tudo. Há ventos de mudança, conforme já escrevi, e, com isso, o
surgimento de novas questões. Ainda que minoritária, a parcela dos curiosos pela bibliografia
colocada no index acadêmico está procurando aquele outro mundo a ser explorado. Os
professores logo terão que responder a esses curiosos – e saturados – a respeito de outras ideias
que, por eles mesmos não conhecerem, causarão debates de verdade, em contraposição aos
monólogos ideológicos.

O uso parcial de bibliografia não forma, doutrina. Ao apresentarem somente um lado da questão
e com o professor endossando o texto, é natural que o estudante enverede pelo mesmo
caminho. Seria hipocrisia dizer não há um mal-estar quando algum estudante discorda. O
problema disso tudo é que, como a maioria sequer sabe da existência do outro lado da história,
o “estranho no ninho” que rema contra a maré vermelha é sempre aquele “chato” que pode ser
até mesmo visto como alguém que quer “aparecer” e no qual será colado o rótulo de
“intolerante”.

Leia também: Por que Amoêdo está correto quando diz que o estado não deve interferir em
questões salariais

Outro fato deplorável: quando o texto traz uma perspectiva de esquerda, – sempre – é
analisado, claro, a partir da esquerda, já quando o texto, por milagre, traz uma perspectiva de
direita, é analisado, claro, a partir – também – da esquerda. Ou seja, o papel do professor é
fundamental na formação dos alunos e, como costumo falar, não existe imparcialidade, mas
diferentes níveis de parcialidade.

Que Fazer, como diria Lênin? Talvez levar dois textos sobre o mesmo assunto com diferentes
perspectivas sem colocar a direita “no lado negro da força”? Quem deixaria a bibliografia liberal
e conservadora falar sem sabotá-la? Quem se arriscaria?

Leia também: Uma tragédia nacional com odor fétido e nauseante da hipocrisia esquerdista

Não acho que Marx, Hobsbawm, Foucault, dentro outros, devam ser censurados, porém,
deveriam dar um pause na hipocrisia e tirar a mordaça de Hayek, Isaiah Berlin, Mises, Oakeshott
e semelhantes.

Enfim, sabotar a bibliografia tem, sem dúvidas, colaborado para uma inegável formação de
esquerda, entretanto, também, em longo prazo, surtiu outro efeito aquela acabou sendo vista
com muita curiosidade, como sempre acontece com qualquer material censurado.

É preciso que a sabotagem cesse e que o AI-5 bibliográfico saia de cena, para que a diversidade,
que certo pessoal tanto defende, mas que tanto odeia, possa contrastar em pé de igualdade com
o dogma de que “a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a
história das lutas de classes.” [1]

Leia também: O PT não precisa da nossa ajuda para ser “demonizado”

[1] Citação extraída do Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, de Karl Marx e
Friedrich Engels.

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