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Pontifícia Universidade Católica do Paraná – Escola de Educação e Humanidades.

Giovanna Molina; Lais Alicia.

Licenciatura em História – Manhã – 2º Período

Curitiba – 13/11/2018

Análises e compreensões históricas de O Cortiço de Aluísio Azevedo

Os estudos da História e da Literatura se aproximam a partir dos anos 90, estando


presente em muitas pesquisas e trabalhos publicados desde então. A fonte literária
apresenta conteúdos complexos para o estudo e o trabalho do historiador, trazendo
informações e características importantes que ajudam a construir uma melhor análise
sociocultural da época. Porém, o historiador precisa considerar uma criticidade acerca da
fonte, textos e imagens que influenciaram o publico a tomar certo partido ou, então, que
relatam a cultura profunda que foi disfarçada pelos documentos que eram utilizados
primeiramente.

O uso da literatura como fonte histórica abriu horizontes para os pesquisadores terem
uma melhor interpretação do cenário histórico.

“[...] a relação entre a História e a Literatura se resolvem no plano epistemológico,


mediante aproximações e distanciamentos, entendendo-as como diferentes formas de
dizer o mundo, que guardam distintas aproximações com o real” (PESAVENTO, 2004,
p.80).

Considerando o surgimento da História Cultural, que segundo Chartie (1994) procura


identificar as reapresentações, as intenções dos indivíduos, e da coletividade, modos de
pensar e agir, das relações sociais e econômicas utilizando a incorporação de novos
elementos, que no caso utilizaremos a literatura, tendo como principal objetivo identificar
determinada realidade cultural.

Todavia, as fontes literárias também carregam consigo expressões do autor e de sua


época. Para uma análise coerente e precisa é relevante considerar que os livros são
ficcionais e interessam aos leitores do momento em que foi escrito, evitando
anacronismos. De acordo com Fustel de Coulanges a “habilidade (do historiador) consiste
em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que
eles não contêm”.

A literatura é uma fonte rica de significados, representações e metáforas sobre o universo


amplo em que a obra está inserida, sendo uma nova forma de repensar a história e
oferecendo aos historiadores inúmeros elementos de espaço e tempo para a questionar e
repensar antigos padrões e verdades históricas preestabelecidas. Sevcenko afirma:

“A literatura portanto fala ao historiador sobre a história que não ocorreu, sobre as
possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se concretizaram. Ela é o
testemunho triste, porém sublime, dos homens que foram vencidos pelos fatos”.
Este trabalho utilizará do romance do naturalista Aluísio Azevedo como fonte de análise
para a construção do cenário do final do século XIX no Rio de Janeiro, mais precisamente
no bairro do Botafogo. O livro descreve a condição de vida das pessoas, o momento
histórico brasileiro em meio à regência, revoltas nas províncias e a abolição da
escravatura. São várias situações e contextos que trabalham os relacionamentos diversos
entre diferentes pessoas, de diferentes grupos sociais, sendo abordados de forma
animalesca, uma característica indispensável do naturalismo. O autor também emprega
no romance a ascensão das elites brasileiras e a formação de cortiços com o crescimento
da população nas cidades em um contraste claro e denunciatório.

No livro, o personagem principal é João Romão, um português dono de um cortiço que faz
fundo com uma pedreira, onde alguns dos moradores da propriedade – em suma
brasileiros brancos e negros, pobres, escravos livres e imigrantes que dividem a
convivência diária – trabalham. Romão, que explora ao máximo os habitantes de seu
cortiço e dos que frequentam sua venda, só pensa em garantir sua ascensão social e
econômica, e pretende consegui-la formando laços e/ou seguindo os passos de seu
vizinho Miranda, um português que enriqueceu após casar com a filha do seu patrão. A
partir desse núcleo do romance, percebe-se um emaranhado de atitudes e situações que
condizem com a formação das elites brasileiras no fim do séc XIX – sendo João Romão a
representação dela –, como a busca por títulos, roubos, fraudes, a necessidade de
casamentos bem realizados e de enriquecer a qualquer custo.

“Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o ‘Cabeça-de-Gato’ […]. E João
Romão, estalando de raiva, viu que aquela nova república da miséria prometia ir adiante
e ameaçava fazer-lhe à sua, perigosa concorrência. Pôs-se logo em campo, disposto à
luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando fiscais e guardas
municipais, para que o não deixassem respirar um instante com multas e exigências
vexatórias; enquanto pela sorrelfa plantava no espírito dos seus inquilinos um verdadeiro
ódio de partido, que os incompatibilizava com a gente do ‘Cabeça-de-Gato’”. (O Cortiço,
1997, pag.121)

Jerônimo e sua esposa Piedade, portugueses que moravam no cortiço de João Romão,
apesar de coadjuvantes no romance, são personagens importantes ao ressaltar a onda de
imigração – portugueses e italianos principalmente – naquele período. A adaptação a
cultura, aos alimentos, clima e forma de viver são abordados de forma clara e
interessante, compreendendo as novidades e dificuldades que esses novos moradores do
Brasil precisavam enfrentar para sobreviver. Aluísio também expõe diversos
comportamentos, de forma satírica, considerados característicos dos portugueses,
mesmos igualados economicamente com o resto dos moradores do cortiço – ou não,
como no trecho abaixo –, em relação aos brasileiros e a situação nacional.

“Jerônimo viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, tentar a vida no
Brasil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em cuja fazenda mourejou durante dois
anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma
grande birra pela lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que sujeitar-se a
emparelhar com os negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante,
encurralado como uma besta, sem aspirações, nem futuro, trabalhando eternamente para
outro.” (O Cortiço, 1997, pag.39)

O dia a dia dos outros moradores do cortiço são ricos em detalhes e esteriótipos. Aluísio
expõe o estilo de vida, brigas, roupas, comidas, gostos e desgostos daquela gente.
Jeronimo, apesar de sua esposa, se envolve com Rita Baiana, uma personagem que
ganha destaque em momentos diversos do romance. Rita é uma lavadeira que, segundo
o narrador onisciente, vive uma vida devassa de idas e vindas dentro do cortiço. Ela é a
representação dos “encantos” da mulata brasileira, onde, destacando sua motivação para
festas e rodas de samba e seus envolvimentos sexuais com vários homens, o autor
reforça o imaginário da mulher negra que perdura até o presente momento, de forma a
denunciar o racismo e a exploração do corpo da mulher.

“E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços
nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de
prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça
irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de
serpente e muito de mulher.”(O Cortiço, 1997, pag.59)

Bertoleza, uma escrava que fora morar junto com Romão, dono do cortiço e da venda, e
que começou a trabalhar para ele buscando garantir sua alforria, foi enganada após João
conseguir seu título de visconde a abandoná-la. Em seguida ela se mata. Outros
personagens que compõe o enredo também são exemplos de como era a vida de
escravos e ex escravos que vivam nas cidades durante aquele determinado período. Pois
Bertoleza, que participa e auxilia o dono do lugar durante todo o processo de crescimento
da estalagem, não obtém reconhecimento algum, além de não ter o direito de se
manifestar sobre qualquer incomodo ou injustiça, relevando as situações constrangedoras
em que essas pessoas precisavam se submeter devido ao sistema escravocrata.

“Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, sempre
atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em nada, em nada
absolutamente, participava das novas regalias do amigo; pelo contrário, à medida que ele
galgava posição social, a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João
Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não
precisamos para continuar a viagem. Começou a cair em tristeza.”(O Cortiço, 1997,
pag.124)

Assim, é concebível que se utilize o romance de Aluísio Azevedo, O Cortiço, como uma
fonte histórica para o melhor entendimento e estudo daquela sociedade, nos seus
aspectos sociais, econômicos e políticos. Entendendo que é preciso uma análise paralela
histórica, mas considerando a visão do autor e a possível visão que as pessoas tinham
sobre o que se passava. Pois a literatura colabora e está ligada diretamente com o
imaginário e percepções do referido momento.

“Essa deformação é, a um só tempo, recurso e risco. Tanto pode lançar uma luz nova
sobre aquilo que de tão conhecido já não se vê, quanto mutilar dramas e esconder
preconceitos, simplificando o que é complexo para tentar expressar o indizível.” –
Dalcastagnè, Regina.
Fonte:

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo, Ed. Ática. 36ª edição - 5ª reimpressão. 2002.

Referências:

MENDES, Lavínia de Sousa Almeida. Aluísio e o Cortiço: um agente histórico e um


produto sociocultural. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus
Goiânia
.
ADAN, Caio Figueiredo Fernandes. A Literatura como evidência histórica: cotidiano
popular em “O Cortiço”. Revista de História e Estudos Sociais. Vol. 5. Setembro 2008.

DALCASTAGNE, Regina. Da senzala ao cortiço – história e literatura em Aluísio Azevedo


e João Ubaldo Ribeiro. Revista brasileira de História. Vol.21, no.42. São Paulo, 2001.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na


Primeira República. 2ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003
JUNIOR, Gilberto Ferreira Sena. Realidade versus ficção: A literatura como fonte para a
escrita da História. UEFS.