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"Os cem melhores poemas brasileiros do século" - Resumo

da obra organizada por Ítalo Moriconi


17/09/2012 00h 05
- Leia a análise dos poemas mais representativos de Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século

Segundo Moriconi, o critério básico para a seleção dos poemas foi a sua “essencialidade”, entendendo
por isso a capacidade de um poema ser exemplar dentro do seu gênero específico. Dessa forma, os
poemas que fazem parte dessa antologia são representantes de uma grande diversidade poética: vão
desde poemas filosóficos e existencialistas à poemas metafóricos e poemas cômicos. Sua diversidade
também está presente na forma (curto ou longo), estilo (livre ou metrificado), poemas genericamente
neutros ou com gênero demarcado, tais como os femininos de Hilda Hilst e Adélia Prato.

O livro foi dividido em quatro partes que seguem uma ordem cronológica (vão do início ao fim do século
XX), mas os poemas dentro de cada parte estão sequenciados, de acordo com Moriconi, de maneira
livre. Ao todo são 61 poetas, que vão de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, a Raul Bopp e
Torquato Neto.

A primeira parte, que leva o título “Abaixo os puristas”, reúne poemas escritos nas primeiras décadas do
século, dando-se ênfase à produção modernista. Esta predileção pelos modernistas é devido ao fato de
para Moriconi o século XX para a poesia ser basicamente modernista. A grande parte dos poemas dessa
parte foram publicados na forma de livro durante os anos de 1930, mas já haviam sido publicados em
jornais e revistas desde a década anterior. Na década de 1920 já haviam sido publicados o Manifesto
Regionalista e a Revista de Antropofagia, além da Semana de Arte Moderna, e na década de 1930 o
movimento modernista no Brasil já estava maduro.

A segunda e terceira partes, nomeadas respectivamente “Educação sentimental” e “O cânone


brasileiro”, correspondem às décadas de 1940, 50 e 60. Aproveitando as conquistas formais, estilísticas
e temáticas da primeira fase do modernismo, estas três décadas puderam produzir uma obra de grande
importância. Versos livres foram o recurso formal mais utilizado para dar vazão à sensibilidade desses
anos e a temática se voltou para questões filosóficas e existencialistas, além de inquietações sociais,
religiosas e amorosas. Segundo Moriconi, sua intenção era mostrar que os poetas que formam o cânone
brasileiro em nada deve para os norte-americanos e europeus.

Por fim, em “Fragmentos de um discurso vertiginoso”, quarta e última parte da antologia, Moriconi traz
um apanhado do que há de mais significativo na poesia produzida da década de 1970 aos anos 90. A
“poesia marginal” dos anos 70 (Torquato Neto, Chacal e outros) foi influenciada pelo Modernismo e pelo
pelos movimentos da contracultura e da Tropicália, tais como o rock, o movimento hippie, histórias em
quadrinhos e o cinema. Tem como marca principal a coloquialidade e espontaneidade, tendendo a uma
experimentação rítmica e musical, ao humor, à paródia e à representação do cotidiano urbano. Ao lado
da “poesia marginal” (ou porque não fazendo parte dela), temos a poesia de cunho feminista, resultado
da revolução feminista na sociedade, cultura e, consequentemente, na literatura. Por fim, Moriconi faz
uma seleção de poetas das décadas de 1980 e 90, cuja principal característica é a revalorização de
linguagens alegóricas e uma inquietação estética e política.

Dessa forma, pode-se dizer que a seleção de Moriconi permite uma visão panorâmica das gerações
literárias do século XX. Porém, através de um olhar contemporâneo e nem tanto academicamente
conservador, abre-se espaço para uma nova compreensão da produção poética brasileira. Além disso,
incluindo-se autores das três últimas décadas do século passado, o leitor pode refletir sobre a produção
poética contemporânea e os rumos que ela tomará daqui em diante, já no século XXI.

Comentário do professor
O professor Deco Duarte do Colégio Gregor Mendes comenta a obra:
“Os cem melhores poemas brasileiros do século XX” é uma antologia que reúne aqueles que podem ser
considerados os melhores textos poéticos da literatura brasileira no período apontado. Como toda
seleção, o critério é subjetivo, não havendo uma verdade definitiva nessa escolha. A pluralidade
presente na obra cria uma dificuldade no seu estudo, pois existem textos mais tradicionais e que
seguem um modelo de poesia mais formal, como os sonetos de Augusto dos Anjos ou de Vinícius de
Moraes, que convivem com obras mais arrojadas e inovadoras como os textos concretos de Augusto de
Campos e Haroldo de Campos. Mesmo aqueles que seguem o rigor formal de um soneto, destoam na
temática abordada, como é o caso mais uma vez dos já citados Augusto dos Anjos e Vinícius de Moraes,
pois tratam, respectivamente, da desilusão diante da vida ou do amor.

Assim, não há um critério unificador para a leitura do livro, a não ser o fato de que todos os textos, de
certa forma, impactam as letras nacionais, seja pela sua qualidade temática, seja pela sua inovação
formal. A tendência da UFBA, entretanto, desde que a obra foi adotada, é cobrar o conhecimento de
autores mais “renomados” junto ao grande público, tais como Manuel Bandeira (UFBA 2009), Ferreira
Gullar e Mário Quintana (UFBA 2010) e Carlos Dummond de Andrade (UFBA 2011). Dessa forma, é sempre
bom conhecer a produção e as contribuições dos grandes nomes da poesia nacional presentes na obra,
tais como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes,
Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, enquadrando-os nos movimentos literários do século XX, em
especial dentro do Modernismo.

Sobre Ítalo Moriconi


Ítalo Moriconi tem formação em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília e é doutor em Letras.
Atualmente é professor de Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade do Estado do
Rio de Janeiro.

Introdução Italo Moriconi Quando fui convidado pela Editora Objetiva para realizar o presente projeto,
fiquei entusiasmado com a proposta - escolher os cem melhores contos do século 20 neste momento de
virada para o 21. Vi logo que teria pela frente um trabalho bastante prazeroso, apesar do esforço de
pesquisa que me exigiria. Por outro lado, havia o desafio colocado pela editora de que a seleção dos
contos se pautasse não em critérios acadêmicos e sim em critérios de gosto e qualidade. Para quem
como eu trabalha na universidade há mais de vinte anos, o desafio equivalia a me colocar em cima de
uma corda bamba. Na Academia estamos sempre relativizando todo e qualquer conceito de qualidade.
Mas, como leitores "normais" que simultaneamente somos, pois também curtimos a literatura para
além das polêmicas doutrinárias, sabemos muito bem que existem o bom e o ruim, o perfeito e o
ridículo, o eterno e o anacrônico. Sabemos bem que sempre é possível separar joio de trigo. Caberá ao
leitor desta coletânea julgar como me saí na tarefa e avaliar se os contos aqui apresentados são
realmente excelentes, como acredito que todos são. Enquanto realizava as pesquisas, leituras e
releituras que me levaram às escolhas finais, não só confirmei que a arte do conto brasileiro moderno é
de nível superior, como tive a alegria de constatar que ela não parou de melhorar e aperfeiçoar-se à
medida que o tempo passava. Claro que temos grandes obras-primas da ficção curta na primeira
metade do século. Elas estão incluídas neste volume. Algumas são bastante representativas dos
movimentos culturais que formataram o sentir e o pensar brasileiros nas diversas fases da história
contemporânea. Mas o fato incontestável é que a partir dos anos 60 o conto passou por verdadeira
explosão em nosso país, uma autêntica revolução de qualidade. A velocidade narrativa, a capacidade de
nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado, lembrando aqui a definição de conto dada
pelo mestre Julio Cortázar, fizeram do gênero o espaço literário mais adequado à tradução dos
sentimentos profundos e das contradições que agitaram nossa alma basicamente urbana no decorrer
das últimas quatro décadas. Pelo menos quando o assunto é ficção curta, essas décadas dominam o
século, tanto em quantidade quanto em qualidade. O período iniciado nos anos 60 instaura também o
próprio conceito de conto ainda hoje vigente. Muitas narrativas classificadas como tal por nossos
autores tradicionais parecem ao leitor atual enfadonhas e arrastadas, por serem muito longas,
ajustando-se melhor ao conceito literário de "novela" em português. Ainda utilizando a definição de
Cortázar, o romance e, por extensão, a novela seriam os gêneros que vencem o leitor por pontos e não
por nocaute. Pelos critérios atuais, pode-se dizer que um conto é uma narrativa de no máximo 20 a 25
páginas. A partir daí, já começam a ser franqueadas as dimensões e o ritmo narrativo daquilo que nossa
tradição literária chama de novela ou noveleta. A seleção aqui apresentada reflete um olhar
compromissadamente contemporâneo, mesmo quando volta-se para os clássicos do início do século e
da fase modernista. Ou seja, aqui estão os melhores contos do século tal como vistos por um olhar do
final dos anos 90, pertencente a alguém cuja cabeça foi feita já depois dos anos 60. Lamento apenas que
os contos de Guimarães Rosa escolhidos para a antologia não pudessem ser incluídos por dificuldades
relativas à cessão de direitos autorais. Seja como for, acredito que meu olhar seletivo, além de trazer do
passado recente um determinado tipo de bagagem, visa também o futuro e revela indícios de como
estaremos lendo, sentindo e julgando nos próximos anos, quem sabe nas próximas décadas. Tenho a
convicção de que a imensa maioria destes cem contos vai vencer o tempo e continuar recebendo o
mesmo nível de reconhecimento e aclamação que aqui lhes é conferido. Diante do fato de que os contos
escolhidos abarcam grande heterogeneidade temática e ao mesmo tempo se relacionam entre si de
maneiras as mais variadas e inesperadas, julgamos, eu e os editores, que a melhor forma de dividir e
ordenar o conteúdo do livro seria por seções que correspondessem a períodos cronológicos, entendidos
porém de modo flexível. Assim, tais períodos devem ser encarados como marcações mais ou menos
genéricas, destinadas a facilitar o manuseio do volume pelo leitor, embora tenham sido recortados de
maneira a dar uma rápida e eficaz idéia da evolução do gênero ao longo do século. A divisão em seções
permite também que o leitor mexa-se no volume com liberdade, sem seguir necessariamente uma
ordem linear de leitura. Haverá leitores que gostam de uma perspectiva mais histórica - a esses se
recomenda que sigam a seqüência cronológica das seções. Já outros estão mais visceralmente ligados à
dinâmica do atual e haverão de querer começar a leitura pelas décadas mais recentes. Creio que
nenhum dos dois grupos sairá decepcionado. Devido à quantidade de material de qualidade de que
dispúnhamos, as décadas recentes foram separadas uma a uma, cada qual com sua personalidade muito
própria. Em contrapartida, dividimos a primeira parte do século em duas grandes seções, uma primeira
que reúne contos publicados entre 1900 e a década de 1930 e uma segunda seção com contos dos anos
40 e 50. A primeira seção ("Memórias de ferro, desejos de tarlatana") busca refletir a diversidade
estética característica das primeiras décadas do século, juntando Machado de Assis a autores
regionalistas e estes a autores já modernistas, tanto da fase "heróica" dos anos 20, como Alcântara
Machado e João Alphonsus, quanto da fase mais "madura" dos anos 30 em diante, como o Graciliano
Ramos, autor do imortal "Baleia", conto que depois apareceu como capítulo do romance Vidas Secas. A
segunda seção ("Modernos, maduros, líricos") traz a produção contística dos grandes autores que
dominaram a cena literária nos anos 40/50 e entraram para os manuais escolares e para os cânones
acadêmicos como os escritores modelares do século. Cabe no entanto observar que alguns destes
últimos acabaram não incluídos no presente volume pelo simples motivo de que não chegaram a
praticar a arte do conto com a assiduidade e relevância que dedicaram ao romance ou à poesia. Estou
me referindo a autores como Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, Jorge de Lima, João
Cabral, entre muitos outros. No entanto, foi possível incluir aqui os belos contos de Erico Verissimo,
Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, que nada ficam a dever aos que saíram da
imaginação de contistas contumazes como Aníbal Machado, Orígenes Lessa, Bernardo Élis, José da
Veiga. O levantamento dos contos escritos nas décadas de 1960 a 1990 levou a algumas constatações
interessantes. Primeiro, como já dito, de que a arte do gênero não cessa de melhorar em nossa
literatura, por mais que muitas vezes se divulgue a idéia de estarmos vivendo tempos iletrados e de que
não existe uma nova geração de escritores profissionais. Esta antologia nega isso peremptoriamente.
Nos anos 90, não apenas o conto como gênero esteve muito em evidência, como também ficou patente
a existência de uma tendência à diversificação estilística e temática, claramente apontando para novos
caminhos estéticos, distintos dos que prevaleceram desde os anos 60 até os 80. Por isso, julguei
apropriado criar uma seção ("Estranhos e intrusos") composta apenas por contos da década recém-
encerrada. Na prática, essa seção constitui uma antologia-dentro-da-antologia, a primeira seleção de
melhores contos dos anos 90 apresentada ao público leitor brasileiro. A mesma coisa se pode dizer da
seção "Roteiros do corpo", que reúne a seleção de contos publicados nos anos 80. Não conheço
nenhuma antologia geral cobrindo especificamente essa década, apesar de agora estar claro para mim
ter sido ela brilhante na área do conto. Nos anos 80 ocorreu uma espécie de retorno do romance que
atraiu muita mídia, deixando meio na sombra a produção contística. Esta no entanto também estava
correndo solta, o que já na época se podia perceber pelo impacto de autores como Márcia Denser, Caio
Fernando Abreu, Sérgio Sant'Anna. Outro fator que impediu a revelação imediata da riqueza do conto
brasileiro nos anos 80 foi o duradouro impacto exercido pela produção dos anos 70, período que entrou
para a história literária como a década do conto, a década em que se deu o boom do conto, como se
dizia na época. Caberia talvez fazer uma pesquisa histórica para tentar entender por que tantos jovens
escritores talentosos invadiram a literatura brasileira nos anos 70, escrevendo sem meios-tons, abrindo
escaninhos sombrios da experiência humana, diversificando a imagem do nacional sem aderir a
linguagens regionalistas. E sobretudo senhores de técnicas narrativas e de agilidade na escrita. Todos
esses traços na verdade se acentuaram na produção dos anos 80. Assim, para além das diferenças,
existe uma profunda linha de continuidade entre os anos 70 e 80, algo que me parece poder ser melhor
visto agora, conquistado certo distanciamento no tempo. O que é próprio e distintivo dos 80 é a
exacerbação do erótico - principalmente feminino - e, no final da década, uma onda de baixo astral fim
de siècle, particularmente nessa área mesma de eros, diante das limitações impostas pela epidemia da
Aids. Cada uma das seções em que foi distribuída a matéria deste livro é precedida de uma nota
introdutória apresentando sucintamente os traços mais característicos do período em questão. Óbvio
que isso não significa que todos os contos ali contidos necessariamente ilustrem o conteúdo da nota
introdutória. O cenário real é sempre mais complexo que as definições histórico-conceituais e tal
complexidade está expressa em todas as seções. Quanto à seqüenciação dos contos no interior de cada
seção, não nos ativemos estritamente à cronologia. Contos mais antigos podem aparecer no final da
seção e vice-versa. A seqüenciação dos contos dentro de cada seção obedeceu a critérios mais soltos,
buscando relacionar e contrastar textos, criar efeitos e associações, mas tudo dentro daquele contexto
de época mais geral definido pela seção. Por isso, preferimos deixar os contos sem indicação de data,
para que sejam lidos apenas enquanto histórias, capazes de agradar a leitores de qualquer época. Quem
quiser saber o ano exato de publicação de cada conto, deverá consultar a seção "Referências
bibliográficas" no final do volume. Aviso aos navegantes. Na seleção aqui apresentada foram feitas
algumas escolhas pouco ortodoxas, que se justificam, além da qualidade intrínseca dos textos, por
indicar ao leitor a porosidade do gênero conto, a capacidade que o conto tem de confluir e confundir-se
com gêneros próximos, como o poema em prosa, a crônica, a página de meditação, o perfil de uma
personagem, a página autobiográfica. Para homenagear o fato de que poetas quando escrevem prosa
de ficção usualmente optam pela narrativa curta, incluímos textos não só do veterano Drummond, mas
também de Adélia Prado e Ana Cristina César, duas escritoras mulheres que romperam barreiras nos
contraditórios anos 70. Para marcar o fato de que alguns de nossos bons contos foram escritos por
exímios cronistas, deixamos de lado o imbróglio conceitual que isso pode acarretar e incluímos
exemplares de Rubem Braga, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo. De Graciliano Ramos, além do
Doublé de conto e capítulo de romance que é "Baleia", optamos por incluir uma narrativa extraída de
Infância, seu livro de histórias autobiográficas, que considero bastante superior, enquanto livro de
contos, ao livro oficial de ficção curta de Graciliano que é Insônia. Dentro ainda do tópico "escolhas
heterodoxas", cabe assinalar que, por outro lado, optou-se por não incluir excertos de narrativas
maiores, algo que às vezes se tem feito em antologias Gostaria de fechar esta introdução agradecendo
aos editores a confiança demonstrada em meu trabalho. Muito especialmente, agradeço a Isa Pessôa
sua dedicação ao projeto. Sem ela e sem os comentários e sugestões das várias instâncias envolvidas na
produção, este livro teria um perfil diferente do que está sendo finalmente apresentado aqui. Eu e Isa
discutimos os contos selecionados um a um e destas discussões surgiram retificações que foram
tornando a coletânea cada vez melhor e mais adequada aos objetivos do projeto. No dia-a-dia da lenta e
apaixonante montagem deste vasto painel do conto brasileiro moderno, junto com Isa Pessôa e sua
valorosa equipe de apoio, é que fui entendendo o que se pretendia com uma seleção não pautada por
critérios acadêmicos. Tratava-se de fazer uma leitura com olhos livres, uma leitura desprovida de pré-
conceitos doutrinários ou teóricos. Tratava-se de não colocar um conto porque fosse representativo de
alguma idéia abstrata, mas sim porque podia agradar ao leitor qualquer, aquele leitor ou leitora
interessado/a apenas numa boa história, bem contada e bem escrita. O mais espantoso de tudo é que
depois de conseguir colocar entre parênteses boa parte de certos hábitos acadêmicos meus, acabei
chegando a uma seleção final que, tenho certeza, agradará tanto ao grande público quanto ao público
das escolas e principalmente das universidades. Agradeço também a minhas colegas do Instituto de
Letras da UERJ, Maria Aparecida Salgueiro e Maria Consuelo Campos, pelos livros e pelas dicas, e a
Soraya Ferreira, sem cujo apoio logístico a primeira etapa da pesquisa teria sido bem mais difícil. Ao
leitor, desejo que se divirta, se emocione, se perca em pensamentos, se revolte, gargalhe e chore com
esses contos, tanto quanto eu me diverti, me emocionei, me perdi e me reencontrei.

De 1900 aosanos 30 Memórias de ferro, desejos de tarlatana Entre o passado triste e rural que persiste
e o futuro vertiginoso que não chegou, o presente das primeiras décadas do século 20 explora
linguagens diversas. Estamos rompendo os ferros da escravidão, alimentamos sonhos de carnaval e
tarlatana, velocidade e multidão. São décadas em que ainda não existe uma linguagem brasileira
padrão. Por isso, os contistas experimentam os mais variados estilos - desde os estrangeirismos à La
mode de João do Rio aos regionalismos gaúcho e paulista de Simões Lopes Neto e Alcântara Machado,
passando pelo insuperável, o eterno e moderno Machado de Assis. Por sorte, o maior escritor brasileiro
do século 19 ainda estava vivo nos primeiros anos do século 20 (morreu em 1908). Tempo suficiente
para escrever a obra-prima com que abrimos este volume.

Anos 40 e 50 Modernos, maduros, líricos Em torno da primeira metade do século, nossos escritores
estão mais maduros. Escrevem numa língua que também amadureceu, está mais uniforme e
representativa daquela usada no cotidiano pelos brasileiros educados, de qualquer lugar do país. O
passado rural começa a desaparecer efetivamente, tornando-se objeto mais de nostalgia do que de
rejeição. As relações afetivas passam a constituir a verdadeira utopia do brasileiro, e também exibem
seu lado difícil. Descompassos na família. Saudades. Lirismos. Na época da consagração definitiva do
movimento modernista, predominam na literatura o romance, a crônica e a poesia, mas a amostra
apresentada nesta seção revela que alguns dos mais belos clássicos do conto brasileiro moderno foram
publicados nesse período.

Anos 60 Conflitos e desenredos Se o clima dos anos 60 foi de revolução em todos os quadrantes do
mundo e dimensões da vida, devemos incluir aí a tremenda explosão de qualidade no campo da ficção
curta brasileira. São desta década algumas das realizações máximas no gênero em nosso país. Contos de
Clarice Lispector e Rubem Fonseca, por exemplo, legam modelos narrativos que vão influenciar todas as
gerações seguintes de escritores. Os contos dos anos 60 falam de nossa contemporaneidade, quase
sempre urbana, agitada por conflitos psicológicos e sociais. Desenredam-se laços, tradições. Homens e
mulheres se dilaceram em conflitos de identidade. Não há mais lugar para a inocência, o lirismo puro.
Ficamos mais adultos. Os leitores inclusive. Querem mais narrativas que traduzam com força dramática
e riqueza metafórica as cruezas do real. A literatura brasileira nunca mais será a mesma depois do
vendaval dos 60.

Anos 70 Violência e paixão Os anos 70 marcam um momento de apogeu do conto no Brasil, depois do
salto de qualidade na década anterior. Intensificam-se ímpetos revolucionários e dilaceramentos
pessoais, agora num contexto de violência política e social até então inédito no país. O conto afirma-se
como instrumentO adequado para expressar artisticamente o ritmo nervoso e convulsivo desta década
passional. Entra na moda um novo e carinhoso retrato de escritor, o "contista mineiro", descendente
legítimo das gerações de Carlos Drummond, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Diante do
consumismo e da internacionalização em que mergulha a classe média, a arte do conto busca trazer à
tona o outro lado, o lado violento e obscuro da realidade. O contista brasileiro dos anos 70 quer
desafinar o coro dos contentes.

Anos 80 Roteiros do corpo Forças liberadas desde os anos 60 encontram aqui seu momento paradoxal
de clímax e crise. A geração que fez a revolução sexual agora coloca no papel suas histórias. Explode o
erotismo feminino. As grandes metrópoles fornecem cenários para as aventuras do corpo. As trocas
sociais, no contexto totalmente urbanizado e erotizado, são roteirizadas pela cultura da mídia, cuja
língua internacional é o inglês. Emerge a problemática homossexual. Mas a década que começou
eufórica termina cética e deprimida por causa da Aids e da crise dos ideais coletivistas. Sensações de
fracasso e vazio parecem anunciar um fim de século melancólico.

Anos 90 Estranhos e intrusos Os anos 90 descartam o baixo astral e inventam um fim de século rico de
imagens e criatividade. É uma década de estranhos e intrusos na festa da cultura: às mulheres somam-
se os negros, os gays, os brasileiros em Nova York... Na época que celebra a diferença, nossos contistas
produzem alegorias do híbrido. Combinam o humano ao animal, exploram a fusão com o tecnológico.
Pelo que deixa entrever a arte de nossos melhores contistas atuais, parece que no futuro próximo
vamos viver num país mais heterogêneo, mais plural, embora um pouco hesitante em relação às suas
novas metas. A diversidade de estilos aponta para um período de transição, como aconteceu no final do
século passado. Mas não há temor nem entusiasmo diante do inesperado, diante do todo outro que
pode vir - ou não.

finalidades sem fim


Companhia Das Letras
Antonio Cicero afirma que a filosofia é o oposto complementar da poesia. Finalidades
sem fim é o ponto onde esses opostos se tocam. Nesta reunião de ensaios, o autor se
debruça sobre os temas cruciais da criação nos tempos contemporâneos. A limpidez da
sua argumentação, sem prejuízo da densidade, lembra o tom equilibrado e luminoso
dos seus versos. Sem dúvida, quem comanda a escrita, aqui, é o Antonio Cicero
filósofo. Mas também poderia ser o poeta.

O assunto principal é o fim das vanguardas. Para Antonio Cicero, elas cumpriram seu
papel; abriram novos caminhos e possibilidades artísticas. No entanto, diz ele, "o fim da
vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena realização".

Esta idéia-chave permite ao autor fazer a crítica do vanguardismo sem se confundir com
um simples reacionário, e ao mesmo tempo exaltá-lo sem passar por mero epígono. As
vanguardas representaram um avanço cognitivo: elas mostraram que a forma artística
não se deixa determinar de nenhum modo, e o horizonte da criação se abre em
possibilidades ilimitadas. Daí Antonio Cicero poder dizer, sobre as teses vanguardistas
em geral: "São verdadeiras na medida em que abrem caminhos, e falsas na medida em
que os fecham".

Essa busca de liberdade já se enuncia na escolha do título, que alude à expressão de


Immanuel Kant, para quem a beleza está na "finalidade sem fim" das obras de arte. O
belo não se submete a nenhum fim: não se deixa determinar por nenhum conceito prévio
de moralidade ou utilidade.

E com essa visão a um só tempo aberta e rigorosa que Cicero relê alguns de seus poetas
preferidos, como Waly Salomão, Carlos Drummond de Andrade e Homero. Problemas
de estética e liberdade também são examinados, num ensaio sobre o tropicalismo e a
MPB e numa discussão da obra do crítico de arte Clement Greenberg.

A poesia e a filosofia, como "dois pólos do pensamento", não podem ser reduzidas uma
à outra. Mas num ponto o poeta e o filósofo Antonio Cicero coincidem perfeitamente:
na mais luminosa e generosa defesa da liberdade de criar.

Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Formou-se


em filosofia na Universidade de Londres. Poeta, tornou-se
conhecido em finais dos anos 70 como o letrista das canções de
sua irmã, Marina Lima. E autor do ensaio O mundo desde o fim
(1995) e de duas coletâneas poéticas: Guardar (1997, Prémio
Nestlé de Literatura Brasileira) e A cidade e os livros (2002).

Jornal O Globo - PROSA & VERSO


Rio, 12 de novembro de 2005

Liberdade e aguda ironia


Francisco Bosco

Finalidades sem fim, de Antonio Cicero.


Companhia das Letras, 354 páginas. R$ 48

Pela clareza e rigor expositivos, pela vasta abrangência do olhar, pelo horizonte ético do
pensamento (o zelo pela liberdade) e, sobretudo, pela perspectiva teórica original, o
novo livro do poeta e filósofo Antonio Cicero, "Finalidades sem fim", uma reunião de
ensaios escritos entre 1998 e 2003, deve ser saudado como um acontecimento
intelectual relevante no país, uma contribuição teórica que se coloca em pé de igualdade
com alguns dos maiores ensaios escritos, em português ou em qualquer outra língua,
sobre os principais temas que se propõe pensar, notadamente: a questão da
modernidade, a experiência das vanguardas, e a relação entre modernidade e
vanguardas.

Ensaio de abertura sobre poesia e paisagens urbanas

Com efeito, são esses os temas que ora constituem o objeto principal, ora atravessam a
mirada dos nove ensaios que perfazem o livro. A clara perspectiva teórica de Cicero já
se deixa compreender inteiramente no ensaio de abertura, "Poesia e paisagens urbanas".
Nele, o ensaísta defende que o saldo da experiência das vanguardas foi um "progresso
conceitual ou cognitivo", isto é, a consciência, através da relativização das formas (não
confundir com relativismo, que é uma corrente filosófica de cuja epistemologia Cicero
parece discordar fundamentalmente), de uma "essência negativa" da poesia - leia-se: da
arte -, ou seja, de que nenhuma das convenções formais que a poesia assumiu
historicamente (por exemplo: a rima, a forma fixa, o metro, o léxico nobre, o tema, etc.)
confunde-se com uma essência positiva da poesia.

Assim, "todas as possibilidades formais descobertas continuam disponíveis e são


empregadas em algum momento ou lugar", pois "o verdadeiro sentido da vanguarda não
foi a renúncia, mas a desprovincianização e a cosmopolitização da poesia". De onde se
conclui que o poeta moderno - aquele "que vive depois que a experiência da vanguarda
se cumpriu" - detém a liberdade de usar quaisquer formas, de acordo com suas
necessidades estéticas, sendo obrigado, entretanto, a estar consciente desse saldo
histórico das vanguardas. A consciência desse saldo é precisamente um dos sentidos
possíveis da palavra ironia na contemporaneidade: consciência crítica de uma dada
situação histórica.

A falta de uma tal ironia, como se observa em muitos artistas contemporâneos, pode
verificar-se (com pífios resultados estéticos) tanto, por exemplo, em um poeta que
escreve sonetos como se o verso livre nunca tivesse existido, como em um poeta que
escreve poemas concretos como se a vanguarda não tivesse acabado.

E o acabamento da vanguarda é o que defende Cicero, em seu duplo sentido, o de plena


realização e o de impossibilidade de continuação histórica: pois se o sentido das
vanguardas (às vezes malgrado elas mesmas, que freqüentemente tinham como objetivo
a determinação de uma essência positiva da arte) foi a consciência de que não se pode
determinar "ex" ante uma forma enquanto garantia da arte, esse sentido já foi cumprido,
e não se pode nem voltar atrás dele, nem ir adiante. Não estar consciente disso é o que
leva alguns artistas à pretensão de fundar no experimentalismo formal uma garantia da
arte.

Ora, primeiramente, esse suposto experimentalismo é ele mesmo questionável, pois, em


geral, não passa de uma reedição formal de experiências de vanguarda; depois, tendo o
"progresso cognitivo" da vanguarda se cumprido, o experimentalismo perde seu sentido
conceitual (que, na época das vanguardas, era capaz de lhe dar uma garantia, não
estética, mas, precisamente, conceitual) e passa a ser uma possibilidade formal como
qualquer outra, tendo que fundar sua qualidade artística em sua própria composição
interna.

Autor de sonetos totalmente contemporâneos

Daí a necessidade de todo e qualquer artista, use ele formas pré-modernas ou


características vanguardistas (e é bom lembrar que, em um sentido mais profundo e
decisivo, toda verdadeira arte é experimental), estar consciente de sua situação histórica.
Nesse momento é oportuno lembrar que o poeta Antonio Cicero detém, como não
poderia deixar de ser, essa aguda ironia (no sentido acima mencionado): ele é, por
exemplo, autor de alguns sonetos absolutamente contemporâneos.

Até aqui, entretanto, em que pesem a clareza e a precisão conceitual na exposição do


tema, acredito que não há propriamente originalidade na compreensão do sentido das
vanguardas por Cicero. Tal originalidade reside em sua concepção de modernidade.
Esta, segundo Cicero, determina-se menos por marcadores temporais do que por certas
características éticas, ontológicas e estéticas. Fundamentalmente, a modernidade é a
época (época de pensamento, mais do que histórica) da dúvida, do indeterminado, do
aberto, ou, como queria Kant, da crítica. É assim que, no belíssimo ensaio "Proteu",
Cicero argumenta que Anaximandro, com seu pensamento do ápeiron (que Cicero
traduz do grego como "o indeterminado"), é mais moderno do que Platão, com sua
ontologia essencialista. Para Cicero, portanto, toda vez ou toda época em que uma
determinada essência positiva pretende usurpar o lugar do indeterminado como
princípio, ocorre um afastamento da modernidade.

A plena realização da modernidade

Tendo o indeterminado, e seus corolários de abertura, relativização e liberdade como


pedras-de-toque, Cicero pode então mensurar o grau de modernidade de artistas e
pensadores. Dessa forma, não apenas o antigo Anaximandro (e também Homero, cujo
Proteu é a própria indeterminação encarnada) é um pensador moderno, como certos
modernistas acabam por se revelar um tanto "modernófobos": é o caso, por exemplo, e
por diferentes razões, de Eliot e Pound, e, entre nós, de Mario de Andrade (como Cicero
argumenta em "Limites do moderno, ou de Mario de Andrade?").

A formulação final, a conseqüência lógica de uma tal concepção da modernidade é a de


que "o fim da vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena
realização". Bem diferente, seja da concepção baudelairiana de modernidade (segundo a
qual toda época tem a sua modernidade), seja da concepção de acordo com a qual o fim
das vanguardas conduz ao pós-moderno (com seus complexos de epigonalidade), a
perspectiva de Cicero afirma a plena modernidade no momento mesmo em que muitos
julgavam-na perdida. Como não acolher um pensamento que supera criticamente toda
tendência à nostalgia e, no mesmo lance, afirma a imanência, a beleza, a liberdade?
Agora descubra, de verdade, o que você ama: e tudo pode ser seu.

FRANCISCO BOSCO é escritor, ensaísta e letrista


http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/189126737.asp