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O ARGUMENTO CÉTICO DA DIVERGÊNCIA DE OPINIÕES

“Em relação a qualquer assunto, tem surgido não só entre as pessoas comuns, mas também
entre os filósofos, um conflito interminável, em virtude do qual somos incapazes tanto de
escolher uma coisa como de a rejeitar, acabando assim por suspender o juízo.”
Sexto Empírico, Hipóteses Pirrónicas

Essa divergência de opiniões (supostamente irremediável) tem levado os cépticos mais


radicais a afirmar que o conhecimento humano não passa de uma ilusão e que os seres
humanos não sabem nada.

Acerca de temas como o aborto, a eutanásia, a existência de Deus ou – entre muitos outros
– o casamento dos homossexuais existem diversas teses a favor e contra, e muitos
argumentos e contra-argumentos para defender e atacar cada uma delas.

De acordo com os cépticos, o facto de haver tais divergências significa que nenhum dos
argumentos em causa constitui uma boa justificação da tese defendida.

Podemos apresentar o argumento da divergência de opiniões sob a forma de um Modus


Tollens muito simples:

Se há de facto justificação das nossas crenças, não há divergências relativamente a


todos os assuntos.
Há divergências relativamente a todos os assuntos.
Logo, não há de facto justificação das nossas crenças.

Ora, a justificação é uma condição necessária do conhecimento. Por isso, argumentam os


cépticos, não há realmente conhecimento desses temas controversos. Trata-se de outro
Modus Tollens:

Se há conhecimento, então há justificação.


Não há justificação.
Logo, não há conhecimento.

Mas terão os cépticos razão? Vejamos três objeções

1. O argumento da divergência de opiniões (tal como o argumento do erro dos sentidos e o


argumento da regressão ao infinito na justificação) pretende justificar a segunda
premissa deste segundo Modus Tollens: “Não há justificação”. Ora isso parece envolver
uma contradição – se não houvesse justificação então não se poderia justificar a própria
ideia de que não justificação.

Esta objeção é uma versão da objeção que acusa o cepticismo radical de se auto-refutar:
se fosse verdade que não sabemos nada então não se poderia sequer saber que não
sabemos nada.

2. Os cépticos radicais afirmam que há divergências em relação a todos os assuntos: “em


relação a qualquer assunto”, diz Sexto Empírico. Mas isso não é verdade. Há diversos
contraexemplos que refutam essa afirmação: muitas ideias da Matemática e da Física são
consensuais.

3. Os cépticos radicais sugerem que as divergências de opinião são irremediáveis e


insuperáveis: “conflito interminável”, diz Sexto Empírico. Mas isso não é verdade. Há
diversos contraexemplos que refutam essa afirmação. Há assuntos relativamente aos
quais já existiu controvérsia e depois deixou de haver. Por exemplo: a causa das marés. E
há assuntos que são hoje muitos menos controversos do que já foram. Por exemplo: a
igualdade de direitos entre homens e mulheres nas sociedades ocidentais atuais é quase
consensual. Por isso, as divergências de opinião não são insuperáveis.

Carlos Pires (adaptado)