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Edição e Arte Final: José Ednilson Gomes de Souza Júnior

Revisão: Neiva Albres de Aquino


Realização: APILMS
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

OFICINAS

Vocabulário Tecnológico da Libras................................................................... 02

Guia-Interprete para pessoas Surdacegas ...................................................... 04

Tenha “olho caro”: a Interpretação de Expressões Idiomáticas


da Língua de Sinais Brasileira ......................................................................... 07

Técnicas de Interpretação Língua de Sinais para Português .......................... 17

Fundamentos da Tradução e Interpretação em Língua de Sinais ................... 19

Classificadores de Libras em Conteúdos Escolares ........................................ 21

PALESTRA

Entre a Visibilidade da Tradução da Língua de Sinais


e a (in)Visibilidade da Tarefa do Intérprete ...................................................... 23

Da Missão a Profissão: Produzindo Novas Experiências na Surdez ............... 46

Estudo Epidemiológico dos Distúrbios Ocupacionais


Relacionados aos Membros Superiores nos Intérpretes de Surdos ................ 56

Saúde Mental e Qualidade de Vida do Intérprete de Libras ............................ 70

Tradução e Interpretação em Língua de Sinais como


Objeto de Estudo: produção acadêmica brasileira: 1980 a 2006 .................... 78

Prolibras: A Formação e a Certificação do Intérprete


de Língua de Sinais ....................................................................................... 105

RELATO DE EXPERIÊNCIAS DE INTÉRPRETES DE LIBRAS

A Atuação do Intérprete de Libras no Sistema Educacional .......................... 106


A Atuação do Intérprete de Libras no Detran e Auto-Escola ......................... 109
A Atuação do Intérprete de Libras em Provas e Concursos .......................... 111
A Atuação do Intérprete de Libras em Conferência ....................................... 112
A Atuação do Intérprete de Libras no Interior do Estado ............................... 115
A Atuação do Intérprete de Libras no Sistema Judiciário e Policial ............... 117
A Atuação do Intérprete de Libras na Mídia .................................................. 119
APRESENTAÇÃO

Nestas últimas décadas tem-se assistido ao fenômeno da globalização,


em que ocorrem grandes movimentos de interação entre nações ou grupos
determinados, que adentram esse milênio com boas perspectivas para seu
desenvolvimento e grandes esperanças em seu futuro. Urge, então, a
necessidade de momentos voltados para o resgate histórico de atuação de
Profissionais Tradutores Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais em MS bem
como a sua profissionalização e a busca por sua valorização.

O ponto relevante desse encontro foi a consolidação da ASSOCIAÇÃO


DOS PROFISSIONAIS TRADUTORES/INTÉRPRETES DE LÍNGUA
BRASILEIRA DE SINAIS DE MATO GROSSO DO SUL e o reconhecimento do
profissional que atua no mercado ainda considerado amador, mas que
necessita urgentemente de uma reestruturação e qualificação adequada.

Com o sistema cada vez mais competitivo a busca da qualidade dos


serviços prestados torna-se uma meta prioritária para aqueles que desejam
obter um melhor reconhecimento, o que só será possível através da união da
classe, melhoria contínua da capacitação de interpretação e do nível de
atendimento prestado ao surdo.

Nosso objetivo principal é prover ambiente propício para discussões,


troca de experiências e conhecimentos entre os profissionais, fazendo com que
se aproximem suscitando novas idéias na busca de sua profissionalização e
valorização.

JOSÉ EDNILSON GOMES DE SOUZA JÚNIOR


Presidente da APILMS
OFICINAS

1
VOCABULÁRIO TECNOLÓGICO DA LIBRAS

Milton Fernando Leonel Terrazas 1

A idéia de fazer o Dicionário de LIBRAS para Informática 1.0 - DLI 1.0 -


surgiu durante meu curso de graduação em Tecnologia em Processamento de
Dados, quando me vi tendo de estudar e inventar os sinais para poder facilitar
meus estudos. Durante algumas conversas e experiências com outros alunos
surdos, intérpretes e professores. Decidi socializar o que já tinha em sinais com
os futuros alunos da minha área o que facilitaria muito não só o trabalho do
profissional intérprete, como também o aprendizado dos surdos. Nesses anos
de estudos, durante horas tive que estudar os significados das palavras, depois
de entendê-los trazia para o contexto lingüísticos da LIBRAS e fazia a
formação dos sinais.
A comunicação é hoje um fator imprescindível. Em se tratando de uma
relação professor-aluno, é mais importante ainda. A idéia de se criar um
dicionário de LIBRAS para área de informática/tecnologia veio para facilitar o
aprendizado, de futuros acadêmicos surdos, sendo também uma ferramenta de
consultas para professores e intérpretes. Dentro desse projeto estão os sinais
formulados durante o meu curso como: link, arquivo, programação, entre
muitos outros pesquisados, que totalizam 70 sinais.
Os surdos de hoje têm muitos problemas devido à precariedade da
comunicação, a sociedade ignora a LIBRAS e como conseqüência nós
sabemos muito pouco de Português.
Vivemos uma luta constante para não sermos alienados dos problemas
e atividades sociais. Dessa forma, muitos de nós já ingressamos em
faculdades, especializações e até em mestrados, nos deparando com
dificuldades ainda maiores.
Durante minha formação acadêmica as maiores dificuldade dos
intérpretes, que foram três durante o curso, foram em primeiro lugar não
dominar o assunto expositivo, pois suas formações eram em outras áreas.

1
Graduado em Tecnologia em Processamento de Dados e instrutor Surdo de Libras.

2
Outro fator era não ter estabelecidos sinais específicos de informática. Assim,
juntos tivemos que estudar na formulação e pesquisa destes.
É muito importante essa inovação de cada área de ensino ter seus
termos técnicos traduzidos em Língua de Sinais, pois, como aluno surdo,
vivenciei a dificuldade da falta destes. Dividindo experiências com meus
colegas, verifiquei que todos estão passando pelas mesmas situações que
passei, seria inevitável o surgimento de trabalhos como estes, que acredito
futuramente já existiram em todas as áreas.
Hoje no mundo existem novas tecnologias na internet, televisão, etc, o
DLI 1.0 tem por objetivo ajudar aos surdos a acompanharem essas novidades
na área da informática. Pretendo somente ajudar meus colegas compartilhando
aquilo que criei, porque conhecedor das dificuldades relacionadas à falta de
comunicação e sinais específicos, sei que posso evitá-las aos futuros
estudantes da área de informática. Visando aprimorar cada vez mais o ensino e
a aprendizagem dos surdos, no Brasil.

3
GUIA-INTÉRPRETE PARA PESSOAS SURDOCEGAS

Danielle Terezinha Mocelim 1

Da comunicação e deslocamento dependem o contexto social do ser


humano, permitindo assim planejamentos e ações necessárias nos afazeres
cotidianos. Dessa forma, conhecer, entender e contribuir com esse sistema é
propiciar e criar oportunidades.
Comunicar-se de forma voluntária com qualquer pessoa e locomover-se
independentemente é desejo de todos, mas algumas vezes tais funções são
dificultadas por motivos alheios a essa vontade. Assim as pessoas que
apresentam concomitantemente dificuldades visuais e auditivas (surdacegas –
pré e pós-lingüísticas), convivem diariamente com tais dificuldades e para
superar essas barreiras, contam com o apoio de alguns recursos materiais,
tecnológicos e humanos específicos, dentre eles o guia-intérprete.
Guia-intérprete é aquele profissional que serve de canal de comunicação
e visão entre a pessoa surdocega e o meio no qual ela está interagindo (o
mundo). Sendo assim, esse profissional deve apresentar algumas habilidades
essências para que consiga transmitir todas as informações de modo fidedigno
e compreensível à pessoa surdocega. (Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e
ao Múltiplo Deficiente Sensorial, 2005)
Diante da significativa realidade, sobre as necessidades peculiares dos
surdocegos (pré-lingüísticos e pós-lingüísticos), o guia-intérprete deve ser um
profissional com graduação superior, titulação e certificação em cursos e
formações específicas, como: Orientação e mobilidade, formas de
comunicação utilizadas pelos surdocegos e adaptações de materiais.
O guia-intérprete precisa ser capaz de compreender as mensagens
através das diferentes modalidades de comunicação utilizadas pelos
surdocegos, contextualizar o sentido na língua de origem e destino para que
haja uma efetiva comunicação. Necessita possuir criatividade e habilidades
suficientes para descrever o que ocorre em torno da situação de comunicação

1
Terapeuta Ocupacional, Pós-Graduanda em Educação Especial e Guia-Intérprete do
CAS/SED/MS.

4
tais como: disposição e movimentação dos objetos e pessoas, características e
atividades envolvidas.
Este profissional atua em diversas situações formais e informais, sejam
elas realizadas em ambientes internos e externos, de cunho particular,
pedagógicas e culturais como: escolas, palestras, reuniões técnicas, igrejas,
fóruns judiciais, programas de televisão, domicílios, ruas, turismos e em
qualquer situação onde sejam necessárias comunicação e locomoção de
pessoas surdocegas.
Tem ainda o dever de proporcionar com segurança e tranqüilidade o
deslocamento e a mobilidade da pessoa surdocega no ambiente em que ela se
encontra, bem como em outros que por algum motivo ela necessite e deseje
estar. Lembrando que, toda pessoa possui características singulares,
habilidades, interesses e necessidades, que as diferem umas das outras, com
o surdocego esse também é um processo natural, e se este não contar com o
auxilio de um guia-intérprete eficiente, pode acarretar inúmeros prejuízos como:
não participar adequadamente de inúmeras atividades, não avançar em termos
educacionais, ficar desmotivados em eventos, pela falta de informações ou
porque a informação não lhes chega de forma satisfatória.
Precisa lembrar que é impossível ter profundo conhecimento a respeito
de tudo que cerca a humanidade, mas que é possível ter sensibilidade, estar
atento, e ampliar ao máximo sua bagagem cultural, para que a precariedade ou
a falta da mesma não seja impedimento ou barreira para a pessoa surdacega
se comunicar com desenvoltura, pois o guia-interprete é um instrumento que
permite seu desenvolvimento. Juntos, guia-intérprete e surdocego formam uma
equipe de trabalho como se fossem elos de corrente, onde cada um tem uma
função especial, e nesse percurso irão compartilhar muitas coisas particulares,
englobando caráter, personalidade, gostos e preferências, muitas vezes
encontrarão barreiras, e por isso necessitam ter e trabalhar a humildade, estar
bem física e emocionalmente para que a comunicação possa fluir
naturalmente.

5
Bibliografia:

BRASIL, Grupo de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial- São


Paulo/SP

BUSCATÒ, j.m. Cómo desarrollar lãs relacionesinterpesonales. En Actas IV


Conferencia Estatal de Personas Surdociegas. Madrid: Asociación de
Surdociegos de España (2001)

MASINI, Elcie F. Salzano. Do sentido...pelos sentidos...para o sentido...-Niterói:


Intertexto; São Paulo: Vetor,2002

MORAL, Silvia Janaina. “Quebrando o Silêncio”Um breve documentário sobre o


mundo dos surdos- Ottoni Editora, Sorocaba 2005

JURGENS, Mary Rose. Confronto entre a criança surdacega e o mundo


exterior - Como tornar seu mundo viável através de estrutura organizada,
Projeto Horizonte- AHINSA/ PERKINS

6
TENHA “OLHO CARO”: A INTERPRETAÇÃO DE EXPRESSÕES
IDIOMÁTICAS DA LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA.

Neiva de Aquino Albres 1

RESUMO:

Tivemos como objetivo desenvolver um levantamento das expressões idiomáticas da


LSB e desenvolver um estudo descritivo-analítico. Assumindo como ponto de partida a
intuição de um falante nativo da língua, registrando 243 expressões comumente
usadas por seus interlocutores surdos. Os vocábulos foram divididos em quatro
categorias. a) LS e LP: expressões compartilhadas nas duas línguas com o mesmo
significado; b) Língua Portuguesa e Língua de Sinais: mesma expressão com
significados diferentes; c) LS e LP expressões diferentes com significados
equivalentes, d) Expressões Idiomáticas específicas da Língua de Sinais.

INTRODUÇÃO

A palavra pode apresentar significados diversos dos encontrados no


dicionário, conforme o contexto na qual está inserida. A essa pluralidade de
significados dá-se o nome de polissemia. Ainda assim há os significados que
podem ser considerados sentidos denotativos, uso geral, comum, literal, para
finalidade prática, utilitária, objetiva, usual e outras com sentido conotativo uso
expressivo, diferente daquele empregado no dia-a-dia, depende do contexto.
Este último mais conhecido como sentido figurado.
A Língua de Sinais também apresenta conotação, pois utiliza-se das
figuras de linguagem para valorizar o texto, tornando a linguagem mais
expressiva. As figuras de linguagem podem estar relacionadas à escolha de
palavras, à estruturação da frase, à formulação das idéias ou à escolha de
fonemas de um texto (expressão, frase...) (MINCHILLO, TORRALVO,
PELACHIN, 2001)

1
Mestre pelo Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul. Fonoaudióloga, psicopedagoga, professora de surdos,
intérprete de Libras. Diretora administrativa FENEIS/SP e professora assistente do curso de
Letras/Libras UFSC no pólo USP - São Paulo.

7
SENTIDO SENTIDO
DENOTATIVO CONOTATIVO

No Japão Os vizinhos
aconteceu um estão
terremoto “quebrando o
pau”

Tomamos como objeto de estudo a Comparação, Metáfora e


metonímia. Há uma pequena diferença entre esses três processos Assim na
comparação estabelece a aproximação de dois seres (objetos, idéias,
realidades), por se perceber entre eles uma característica comum.
Gramaticalmente, a comparação é caracterizada pela presença de conectivos e
/ ou advérbios de intensidade. Já na metáfora a depreensão de uma
característica comum entre um ser e outro, pode determinar o emprego de uma
palavra no lugar de outra. Toda metáfora pressupõe uma comparação, cujos
elementos de comparação (nexos gramaticais) foram eliminados. Metáforas
simples fazem simples comparações, podem estar relacionadas à mudança de
sentido de uma palavra ou frase, como meter a mão em cumbuca, fazer das
tripas coração, estão relacionadas a imagens, como fumar como uma chaminé,
ficar de nariz torcido. Já nas metonímias substituem um elemento pela citação
de outro que lhe está relacionado, que lhe é próximo.

8
COMPARAÇÃO METÁFORA METONÍMIA

/
igual a/ parece com
Dinheiro voa Cabelos brancos
Há necessidade do uso de Um termo substitui o outro Parte pelo todo
termos de comparação:
como, parece, tal qual.

As publicações existentes sobre a LSB até o presente momento


apresentam o léxico de forma dura, sem discutir sua polissemia. A tradição
lexicográfica da produção da Língua Brasileira de Sinais é constituída da
produção de “dicionários” ou livros de Língua Brasileira de Sinais que
compilem os sinais por ordem alfabética ou por classes de palavras.
Parece não levar em consideração que as palavras e sinais têm carga
cultural, aditivadas com conotações que os membros da comunidade surda
atribuem.
Consideramos que pela característica objetiva e da língua de sinais, e
pela menor incidência de conectivos (preposições, conjunções) na fala
espontânea dos usuários da língua, é menos comum o uso da comparação em
detrimento ao uso de outras figuras de linguagem.
Tais evidências de uso da comparação talvez estejam no uso da língua
de sinais, em suas formas de narrar as histórias e/ou de adaptar histórias
clássicas, mas Karnopp (2006) denuncia que são praticamente inexistentes
textos que apresentem as narrativas que circulam entre surdos, contadas e
recontadas em língua de sinais.

9
Assim, para construção da análise nos detemos apenas nas metáforas e
metonímias usadas para construção de expressões de uma língua,
respectivamente, que seriam instrumentos comparativos e relação de
proximidade ou vizinhança de sentidos que se transferem.
As expressões podem recorrer a diferentes analogias, como com as
partes do corpo, com animais, com termos de percepção, termos sensoriais,
termos de textura, termos de alimentação, termos de viagem/ deslocamento, as
emoções, estados mentais e atividades. Para este capítulo apresentaremos
apenas uma introdução a essas categorias e suas respectivas expressões na
Língua Brasileira de Sinais. Mas decidimos subdividir a apresentação em
quatro categorias que se referem mais ao processo analógico da Língua
portuguesa do que ao referente que é comparado. Coutinho (2000) já havia
registrado que as expressões idiomáticas da língua de sinais não são
necessariamente frases ou palavras iguais da língua portuguesa.
Faria (2005) já desenvolvera uma pesquisa semelhante, todavia na
perspectiva do leitor surdo ao tomar os textos escritos em português, fez a
opção por denominá-las de ‘fraseologismo’, pois são unidades lexicais com
mais de uma palavra. Procurou identificar a localização e interpretação de
pistas contextuais que levavam os alunos surdos a identificar blocos de
sentidos no processo de leitura. Constatou que para um trabalho com surdos é
necessário que se mostre a eles que “dentro dos diferentes contextos as
palavras mudam seu sentido original, “ressignificam” e surgem novas
possibilidades de interpretação, normalmente aceita pela comunidade que as
usa”. ( ibid, 2005, p.196)
Tomamos essa análise da interpretação, no sentido de procurar
identificar o objetivo da enunciação no contexto proferido. Consideramos que
os intérpretes de libras não podem se prender a relação palavra/sinal. Mas é
agente no processo de interpretação e esta passa por suas vivências e
constroe-se na subjetividade.

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Levantamos 243 expressões e as dividimos fazendo uma comparação
com a língua portuguesa

CATEGORIA EXEMPLO
1) Expressões
compartilhadas nas duas /AMOLAR/ : aborrecer,
línguas com significado importunar
equivalente:

121

2) Expressões /COROA/
compartilhadas nas duas
LP: mulher velha
línguas com significados
LS: pessoa entendida no
diferentes assunto

26

3) Expressões diferentes LP: Te peguei no flagra


com significados
LS: /VER-HORA/
equivalentes
Existe uma correspondência
14 perfeita de idéias, mas não
nas formas usadas para
representar essas idéias.

3) Expressões Idiomáticas
específicas da Língua de
Sinais

82

11
150

100

50

0
Expressões idiomáticas da Libras
Expressões compartilhadas nas duas línguas com o mesmo significado;

Mesma expressão com significados diferentes

Expressões diferentes. Existe uma correspondência perfeita de idéias, mas não


nas formas usadas para representar essas idéias
Expressões Idiomáticas específicas da Língua de Sinais

Temos que aprofundar esse estudo, para tanto estamos procurando


trabalhar a luz da lingüística cognitiva. Wilcox (2004) e Wilcox e Jarque (2004)
apontam achados da pesquisa na lingüística cognitiva sobre Língua Americana
de Sinais e consideram essencial a análise da articulação entre metonímia,
metáfora e iconicidade.
Devemos fazer, neste momento, uma distinção entre língua e
modalidade. A língua é um sistema de uso e produto social, é um instrumento
do pensamento e de interação, está sempre em aberto e em construção. Não
há uma determinação unívoca dos significados do léxico “justamente porque se
determinam no discurso e pelo discurso adquirem novos matizes” (GERALDI,
2003, p. 78). Ao nos referirmos à modalidades, entendem-se canais por meio
dos quais as línguas são produzidas, e os principais são: o falado, o escrito e o
sinalizado (WILCOX, WILCOX, 2005).
Para a análise, delineou-se uma hipótese de partida. Se há essa forte
influencia, não seria apenas porque a língua é de modalidade gestual visual,
mas, sim, pela necessidade de concretizar as questões abstratas trazendo-as
para aspectos mais visíveis, ou melhor, sensitíveis aos seres humanos, como
uma aproximação conceitual de interpretação das questões mais abstratas.

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Essa modalidade gestual visual propicia a construção
da língua altamente ligada a iconicidade, pelo menos no diz
respeito à motivação inicial de ampliação do léxico. Se
analisarmos a construção do sinal para /PALHAÇO/,
encontramos o sentido denotativo (artista de circo que diverte
as pessoas) e sentido conotativo (cena ou ação ridícula).
Para construção do sinal utiliza-se a representação do nariz
de palhaço, relacionado à iconicidade. Recorta-se a parte
marcante da vestimenta de um palhaço, ou seja, o nariz
redondo e vermelho, e dele se constroe o léxico da língua.
Esse mesmo referente pode proporcionar em outro contexto discursivo o
sentido de prestar-se ao ridículo, ou até mesmo ser interpretado com a
expressão da Língua portuguesa “levar um bolo”, isso dependerá do contexto.

Neste exemplo identificamos um caminho para a construção da


expressão idiomática:

ICONICIDADE METONÍMIA METÁFORA EXPRESSÃO IDIOMÁTICA

Cabe ao intérprete na ação de seu trabalho não usar uma leitura


imediata, mas sim pensar em uma relação entre X e Y, buscando semelhanças
que viabilizem a metáfora na língua alvo, como um processo de decifração e
processamento analógico. A metáfora não precisa ser uma mínima palavra,
mas pode ser uma unidade semântica.

A metáfora é um processo pelo qual se transfere o significado próprio de


uma palavra para outra significação que lhe convém apenas em virtude de uma
comparação mental, como em: a chama do desejo, as luzes da alma. A
metáfora carrega dentro de si a oralidade, pertence à transmissão oral.
(CASULA, 2005)
Lakoff e Johnson (2003) afirmam que as metáforas têm sido pensadas
como fenômenos marginais, mas refutam essa idéia, pois consideram que as
metáforas são de importância vital para o próprio funcionamento da mente
humana, uma vez que sem a sua atuação constante, o pensamento em si se

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tornaria impossível. Não a analisam apenas pelas suas características
relacionadas à linguagem, mas, sim, à própria atividade de cognição.
Esclarecemos que as expressões de uma língua podem recorrer às
metáforas (comparação) ou não. Por exemplo, boa sorte é uma expressão
idiomática em língua portuguesa compartilhada na LIBRAS, mas que não
recorre à metáfora, apenas é produzida por composição de duas palavras que
permanecem com seus sentidos isolados.

As metáforas podem tornar-se comum a ponto de ser considerado um


sinal da Libras.

A metaforização é um processo de vasto uso na criação


de léxico. Uma metáfora pode se vulgarizar a ponto de se
converter em léxico. Em muitos casos, a percepção da
origem metafórica chega a se dissipar. A metáfora
lexicalizada, a rigor, deixa de existir como metáfora.
(RADAMES, 2006)

Neves (1998) observou que as metáforas do cotidiano são usadas para


a produção do humor, geralmente com conotação sexual, como simples
comparação, mas como representação de experiências vividas.
As metáforas estão presentes em fábulas, contos e piadas de surdos
que geralmente tematizam a importância da língua, cultura e identidade surda.
Revelam a situação bilíngüe social que os surdos vivem e criam humor a partir
das situações mais corriqueiras.
Após a apresentação das definições sobre as expressões idiomáticas da
Libras, passamos a construção da oficina para intérprete de Libras que
tematize o processo de transposição desses aspectos da língua de sinais para
a língua portuguesa e da língua portuguesa para a língua de sinais.
O objetivo principal foi de incluir os intérpretes nesse processo de
reflexão, caberia então propiciar situações de discussões entre os intérpretes e
surdos participantes, em que se pudesse contribuir com o processo de
interpretação, principalmente na interpretação da língua de sinais para língua
oral, uma solicitação antiga dos intérpretes.
Assim a dinâmica preparada para a oficina foi a formação de grupos (4
pessoas) e a distribuição de fichas que continham desenhos com expressões

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da Libras e frases com expressões em Língua Portuguesa. Incentivando os
grupos a discutir e apresentar as possibilidades de interpretação para a outra
língua, ao final sendo apresentado ao grupo todo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história da Língua de Sinais nos revela que ela foi por muito tempo
considerada pobre, e no período de uso da proposta educacional da
Comunicação Total foi subordinada à Língua Portuguesa. Atualmente estamos
em processo de descobrimento das riquezas e sutilezas da Libras.
Esse espaço de compartilhar as experiências dos intérpretes e surdos
pode contribuir para a melhor atuação dos intérpretes e o conseqüente acesso
à informação pelos surdos. A tomada de consciência das figuras de linguagem
existentes na Libras e a possibilidade de discussão (compartilhar) nos leva a
melhor compreensão do “mundo dos surdos”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARRION, Wellington. Expressões idiomáticas. Imaster. Acessado em


24/03/2005 <http://www.imasters.com.br/imprimir.php?cn=3220&cc=205>

CASULA, Consuelo C. METÁFORAS - Para a Evolução Pessoal e


Profissional. Rio de Janrito: Editora Qualitymark, 2005.

COIMBRA, Rosa Lídia. Metáforas de perder e ganhar nos títulos de imprensa


desportivos, in: ABREU, Luis Machado de (coord.) Diagonais contemporâneas
das Letras Portuguesas, Avieiro, Fundação João Jacinto de Magalhães, 1996,
pp. 161-169.

FARIA, Sandra Patrícia. A metáfora na LSB e a construção dos sentidos no


desenvolvimento da competência comunicativa de alunos surdos.
Dissertação de mestrado do instituto de letras da Universidade de Brasília -
UNB, 2005.

_______Metáfora na LSB: debaixo dos panos ou a um palmo de nosso nariz?


<143.106.58.55/revista/include/getdoc.php?id=272&article=114&mode=pdf>
Revista Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n.2, p.178-198, jun. 2006.

15
GERALDI, João Wanderley. In: XAVIER, Carlos Antonio e CORTEZ, Suzana
(orgs.) Conversas com lingüistas: virtudes e controvérsias da lingüística. São
Paulo: Parábola, 2003 p.77-90.

KARNOPP, Lodenir Becker. Literatura Surda. Literatura, Letramento e


Práticas Educacionais: Grupo de Estudos Surdos e Educação.
<143.106.58.55/revista/include/getdoc.php?id=272&article=114&mode=pdf>
Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n.2, p.98-109, jun. 2006

LAKOFF, O George e MARK, Johnson. Metáforas da Vida Cotidiana.


Mercado das letras, 2002.

NEVES, Marilene. Metáforas que nos Fazem Rir. IN: PAIVA, Vera Lúcia
Menezes de Oliveira (org) Metáforas do Cotidiano. UFMG, 1998.

WILCOX, Sherman; WILCOX, Phillis Perrin. Aprender a ver. Editora Arara


Azul: Rio de Janeiro, 2005. (Coleção Cultura e diversidade)

RADAMES, Manosso. Elementos de retórica. acessado em 25/03/06


<http://www.radames.manosso.nom.br/retorica/metafora.htm>

16
TÉCNICAS DE INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUA DE SINAIS
PARA LÍNGUA PORTUGUESA

Alessandro de Assis Rocha 1

O que envolve a técnica de interpretar/traduzir?


Envolve um ato COGNITIVO-LINGÜÍSTICO ou ,seja, é um processo em
que o intérprete/tradutor estará diante de pessoas que apresentam intenções
comunicativas especificas e que utilizam línguas diferentes. O intérprete está
completamente envolvido na interação comunicativa (social e cultural) com
poder completo para influenciar o objeto e o produto da interpretação. Ele
processa a informação dada na língua fonte e faz escolhas lexicais, estruturais,
gramaticais, semântica e pragmáticas na língua alvo, que devem se aproximar
o maximo da informação dada na língua fonte. Assim sendo, o
intérprete/tradutor também precisa ter conhecimento técnico para que suas
escolhas sejam apropriadas tecnicamente. Portanto, o ato de
interpretar/traduzir envolve processos altamente técnicos e complexos.

O que é técnica? O que poderia estar inserido em uma técnica?


É o procedimento ou o conjunto de procedimentos que têm como
objetivo obter um determinado resultado, seja no campo da Ciência, da
Tecnologia, das Artes ou em outra atividade. Estes procedimentos não excluem
a criatividade como fator importante da técnica. A técnica implica no
conhecimento das operações, como o manejo das habilidades, tanto das
ferramentas como os conhecimentos técnicos e a capacidade de improvisação.
O mesmo que ferramenta, procedimento empregado para a utilização de
um método.

1ª ferramenta: Conhecimento prévio do assunto; Saber do que ele(a) vai falar


antes de traduzir (quando for apresentar um trabalho, em palestras, nos
FORUNS, delegacias, hospitais, etc...)

1
Graduado em História e Teologia, Pós-graduado em Ensino Especial, professor e Intérprete
de Libras da APADA/DF e Presidente da APILDF.

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2ª ferramenta: Conhecer o surdo ou ter contato com o surdo (vivencia,
conhecer seus dialetos)

3ª ferramenta: Vocabulário amplo conhecer sinônimos (pra não ficar repetitivo –


ex: medo, pânico, aterrorizado).

4ª ferramenta: Cuidados com os vícios da língua portuguesa. (né, pois é, iai,


ele disse...).

5ª ferramenta: Ser fiel na tradução (fazer um paralelo entre a expressão e a


entonação).

6ª ferramenta: Tempo de movimento que se usa na língua de sinais fazendo


um paralelo com o ritmo da fala. Ex: isso é muito bom; foi muito bom te
encontrar.

18
FUNDAMENTOS DA TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO
DA LÍNGUA DE SINAIS

José Ednilson Gomes de Souza Júnior 1

A tradução e interpretação é uma prática necessária na humanidade


desde a Torre de Babel. Por meio do reconhecimento da Língua de Sinais
como meio legal de comunicação das comunidades surdas a participação
intermediadora do tradutor/intérprete tem sido cada vez mais evidente em
inúmeros espaços.
O que pretendemos nesta oficina é disponibilizar informações de modo
que a práxis do tradutor/intérprete de Língua de Sinais seja consolidada.
Mas quem é ou o que faz este profissional? O tradutor/intérprete de
Língua de Sinais é um intermediador lingüístico, ou seja, ele é o elo entre
interlocutores surdos a ouvintes. Jean Cohen oferece um esquema que nos
possibilita compreender este processo:

REMETENTE > Mensagem I > TRADUTOR/INTERPRETE > Mensagem II > DESTINATÁRIO

Este processo pode ser realizado de duas formas: Interpretação


Simultânea ou Interpretação Consecutiva. Além desses tipos de Interpretação
também podemos destacar a relais, retour e chochutage.
BARBOSA (1990) combinou elementos de estudos teóricos da tradução
já realizados e aglutinou um conjunto de procedimentos técnicos da tradução
que categorizam as escolhas do tradutor/intérprete. São elas:

1. Tradução Palavra-por-Palavra
2. Tradução Literal
3. Modulação
4. Equivalência
5. Omissão
6. Compensação
7. Explicação

1
Graduando em Comunicação Social e Normal Superior, Intérprete de Língua de Sinais e
Presidente da APILMS.

19
8. Reconstrução de Períodos
9. Melhorias
10. Transferência
11. Decalque
12. Empréstimos

Uma tradução ou interpretação poderá conter vários procedimentos


técnicos. Essas escolhas competem ao profissional e reflete diretamente na
qualidade do trabalho realizado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

THEODOR, Erwin. Tradução – Ofício e Arte. São Paulo: Cultrix, 1976.

BARBOSA, Heloisa Gonçalves. Procedimentos Técnicos da Tradução.


Campinas: Pontes, 1990.

20
CLASSIFICADORES DE LIBRAS EM CONTEÚDOS ESCOLARES

Alessandra Souza da Cruz Daniel 1


Renato Borges Daniel 2

Classificador é um definidor que estabelece um tipo de concordância em


uma determinada língua.
Em Libras, os classificadores são configurações de mãos que,
relacionadas à coisa, pessoa e animais, funcionam como marcadores de
concordância. São formas que, substituindo o nome que as precedem, podem
vir junto ao verbo para classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação
do verbo.
Os classificadores para PESSOA e ANIMAL podem ter plural, que é
marcado ao se representar duas pessoas ou animais simultaneamente com as
duas mãos ou fazendo um movimento repetido em relação ao número.

Os classificadores podem ser:

1. Classificador Descritivo: Refere-se ao tamanho, forma e textura. É usado


para descrever aparência de um objeto;
2. Classificador que especifica o tamanho e a forma de uma parte do corpo:
Refere-se ao tamanho, forma e textura de uma parte do corpo de um animal
ou pessoa;
3. Classificador de Parte do Corpo: Retrata uma parte específica do corpo em
uma posição determinada ou fazendo uma ação;
4. Classificador de Localização: Retrata um objeto em um determinado lugar
em meio a outros objetos;
5. Classificador Instrumental: Mostra como é usado algum objeto;
6. Classificador do Corpo: A parte superior do corpo do sinalizador se torna o
classificador que exprime o verbo da frase, especialmente os braços;
7. Classificador Semântico: Retrata um objeto em um lugar específico;

1
Instrutora Surda de Língua de Sinais.
2
Instrutor Surdo de Língua de Sinais.

21
8. Classificador do Plural: Ele indica o movimento ou a posição de um número
de objetos, pessoas ou animais;
9. Classificador de Elemento: Retrata o movimento de elementos ou coisas
que não são sólidas como: ar, água, fumaça, chuva, fogo, etc.;
10. Classificador de nome: Utiliza as configurações das mãos, do alfabeto
manual ou dos números, mas é parte de uma descrição.

Em uma interpretação existem algumas palavras que não possuem um


sinal próprio e é onde podem ser usados os classificadores. No contexto
escolar os classificadores são importantes em todas as disciplinas, na Física ou
na matemática, etc. Sabemos que para essas matérias muito dos conteúdos
são desprovidos de sinais correspondentes aos termos utilizados, mas a
explicação pode ser compreendida se usarmos os classificadores
corretamente. A expressão facial e corporal são itens indispensáveis para o
uso dos classificadores.

(Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES - www.ines.gov.br)

22
PALESTRAS

23
ENTRE A VISIBILIDADE DA TRADUÇÃO DA LÍNGUA DE SINAIS E
A (IN)VISIBILIDADE DA TAREFA DO INTÉRPRETE.

Andréa da Silva Rosa 1

“A tradução é objeto privilegiado da prática(..).”


Silveira JR.(1983,p.33)

RESUMO:

O objeto do presente trabalho é discutir a prática do intérprete de língua de sinais,


examinado pelo campo dos Estudos da Tradução; tais estudos abordam de diversas
maneiras o que seja traduzir. Tomar esta perspectiva, no caso da educação de surdos,
é uma novidade, uma vez que a tarefa do intérprete de sinais tem sido normalmente
discutida a partir do enfoque da educação especial. Assim sendo, é usualmente
considerado mediador da aprendizagem do aluno surdo (entendido como deficiente
auditivo) na escola regular (entre alunos considerados “normais” porque falantes e
ouvintes). A inexistência de estudos nessa direção, fez com que a autora definisse
como objetivo, ainda que modesto, colaborar na produção de conhecimentos no
campo da formação de intérprete de língua de sinais, fazendo de seu percurso um
caminho possível para pensá-lo. Ao final, optou por assumir a visão de linguagem e
tradução presentes no pós-estruturalismo, que traz a concepção de multiciplicidade
dos significados, de participação dos sujeitos na construção destes, de suas diferentes
leituras de mundo, e da desconstrução do mito da neutralidade do intérprete de língua
de sinais.

PALAVRAS-CHAVES: Tradução, Intérprete de língua de sinais, formação.

A interpretação é a atividade mais antiga da história; os primeiros


intérpretes foram os hermeneutas, que se propunham a traduzir a vontade
divina para o povo.

Historicamente a interpretação é mais antiga do que a


tradução, que depende da palavra escrita, mas ela se subtrai
à quantificação documentada, uma vez que reside
exclusivamente no âmbito da palavra falada. Apenas desde a
invenção dos meios de gravação tornou-se possível
documentar a ação dos intérpretes. (THEODOR, 1980, p.16)

Na Antiguidade, antes do Renascimento, os intérpretes raramente eram


mencionados; uma possível causa para esse fato era a primazia dada ao texto

1
Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp. Pedagoga/intérprete de
língua de sinais – CEPRE/FCM/Unicamp. Docente do curso de Pedagogia da Universidade
Paulista – UNIP.

24
escrito em relação à palavra oral. A posição social dos intérpretes pode
também explicar sua omissão nos anais da história: híbridos étnicos e
culturais, muitas vezes do sexo feminino, escravos ou membros de um grupo
social desprezado, isto é, cristãos, armênios e judeus que viviam na Índia
Britânica, esses intermediários não receberam nos registros históricos o
tratamento devido. (DELISLE e WOODSWORTH, 2003)
O conhecimento sobre o trabalho que os intérpretes de línguas orais
realizaram no passado tende a ser derivado de fontes tais como: cartas,
diários, memórias e biografias dos próprios intérpretes.
No passado, os usuários dos serviços de interpretação não distinguiam,
como fazemos hoje, entre as diferentes categorias de intérpretes: intérpretes
de conferências, de tribunal, acompanhamentos e comunitários. Esses
profissionais podem ser classificados de acordo com os vários papéis
desempenhados: a serviço do Estado ou de uma religião, em expedições de
descoberta ou conquista, a serviço de militares ou da diplomacia, muito
embora essas categorias às vezes se embaralhem. De qualquer modo, no
passado os intérpretes foram não só testemunhas da história, mas também
participaram do seu desdobramento. (DELISLE e WOODSWORTH, 2003)
A história dos intérpretes das línguas orais tem sido construída como
num mosaico de fatos. Entretanto, a história dos ILS ainda mal começou a ser
contada. O ILS até pouco tempo não era considerado como profissional, ou
seja, não era remunerado em qualquer situação, não tinha preocupação com
sua formação ou treinamento para o exercício da profissão. A história da
composição do ILS se embaralha com a própria história da língua de sinais.
Devido à inexistência de registros oficiais sobre a atuação do intérprete
de língua de sinais na sociedade, algumas lacunas provavelmente nunca
chegarão a ser preenchidas, especialmente com respeito àqueles períodos em
que as relações de poder conferiam demasiado prestígio à oralidade, proibindo
e desestimulando o uso da língua de sinais pela comunidade surda.
No Brasil, a profissão de intérprete ainda não é reconhecida e, por essa
razão, essa atividade abarcou profissionais de diferentes áreas, como:
pedagogos, fonoaudiólogos e pastores, entre outros. Vale ressaltar que esse
trabalho tem sido desenvolvido por profissionais que, em diversas situações,
realizam o trabalho de interpretação pelo envolvimento que possuem com os

25
grupos e/ou organizações de surdos, pois nem sempre é possível esperar
remuneração (ROSA,2003).

Como resultado de este surgimiento “natural” de la


interpretación, especialmente para personas sordas, se
presentó y aún se da el hecho de que muchos jóvenes y
niños oyentes hijos de padres sordos, quienes por esta
situación son bilingües, han debido actuar como intérpretes
aún desde edades muy tempranas, sin contar ni con la
formación específica para tal fin ni con la mínima madurez
requerida para enfrentar una tarea de la magnitud y
responsabilidad que implica la interpretación. (PLAZAS, 2000,
p. 130)

A interpretação em língua de sinais no Brasil é exercida, principalmente,


por pessoas que se tornam intérpretes de modo fortuito.
No Brasil a atividade de interpretação ocorre com maior freqüência nas
instituições religiosas; aliás, nesses lugares, a atuação do ILS tem sido uma
prática há décadas, mais exatamente desde o início dos anos 80, o que
explica que os melhores intérpretes de língua de sinais – salvo os filhos de
pais surdos - são oriundos das instituições religiosas.
Esse cenário começou a mudar quando as pessoas que atuavam, e
ainda atuam, em instituições religiosas começaram a ser convidadas a
intermediarem a comunicação entre surdos e ouvintes em congressos, mais
especificamente, sobre educação; posteriormente, muitos desses mesmos
intérpretes foram convidados a assumirem esse papel na sala de aula de
universidades e, mais recentemente, no ensino médio e fundamental, com
menor freqüência neste último. Porém, a sua presença ainda acontece como
concessão (e não dever) da instituição escolar. .
Até recentemente, a formação dos intérpretes acontecia exclusivamente
nos espaços religiosos, “formação” resultante da prática quase que diária da
atividade de interpretar.
Do ponto de vista do que se tem atualmente, a profissão de intérprete
de língua de sinais está ligada à Coordenadoria Nacional para Integração da
Pessoa Portadora de Deficiência - CORDE, órgão governamental de cunho
assistencial. Segundo o Dicionário Houaiss (2003), “assistência” significa
amparo e proteção. Ou seja, o ILS é entendido pelo Estado como um
ajudador das pessoas surdas, diferentemente do tradutor/intérprete que está

26
enquadrado no 36º grupo no plano da Confederação Nacional das Profissões
Liberais (portaria no. 3264 de 27 de setembro de 1988 do Ministério do
Trabalho). Apesar de ser compreendida como uma profissão liberal, o trabalho
de tradutor/intérprete também não é regulamentado, como ocorre com o ILS.
A luta pela regulamentação da profissão de tradutor no Brasil data
desde de 21 de maio de 1974 e remonta à fundação da Associação Brasileira
de Tradutores - ABRATES. Os objetivos da ABRATES eram melhorar as
condições de trabalho do tradutor e aprimorar a qualidade profissional da
tradução. (ESQUEDA, 1999).
Em 1977 a ABRATES elaborou um projeto-lei para a regulamentação
da profissão no Brasil, que foi engavetado pelo Ministério do Trabalho. Uma
das razões da não aprovação da regulamentação da profissão do tradutor foi
justamente a necessidade da definição dos parâmetros da formação
acadêmica do tradutor, que está intimamente ligada à questão do que seja
traduzir e como se dá o ato tradutório. (ESQUEDA, 1999).
Vale ressaltar que um dos fundadores da ABRATES foi Paulo Rónai, e
o primeiro Conselho Deliberativo era constituído por: Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira, Antônio Houaiss, Carlos Drummond de Andrade entre
outros.
O Sindicato Nacional de Tradutores - SINTRA foi criado a partir da
ABRATES, e tem dado continuidade na luta pela regulamentação da
profissão, orientando sobre tabelas de preços, cursos de aperfeiçoamento,
listas de discussão e outros para os tradutores e/ou intérpretes.
Interpretação
Atualmente tem-se pensado o trabalho do intérprete de língua de sinais
como um direito conquistado pelos próprios surdos de compreenderem, e
serem compreendidos, pela comunidade ouvinte, ou como resultado dos
movimentos das comunidades surdas frente à sua educação.
Todavia, a defesa da presença do intérprete de língua de sinais em
diversos segmentos da sociedade, e mais especificamente no campo da
educação, pode esconder discursos oralistas 2 .

2
A palavra oralista esta se referindo a ideologia oralista, que oferece susbtrato para a idéia
que se deve se normatizar os surdos através do ensino da fala. O intérprete pode ser mais uma
forma de normatizar a comunidade surda.

27
A sociedade majoritária é ouvinte e usuária do português oral, não
conhecedora da língua de sinais, e nem se espera que todas as pessoas na
sociedade sejam fluentes na língua brasileira de sinais. Para possibilitar a
comunicação entre esses dois grupos lingüísticos existe o ILS. No meio
acadêmico, à prática tradutória escrita é denominada “tradução”, enquanto o
termo “interpretação” é utilizado para a referência à prática tradutória oral.

Ambos, los intérpretes de lenguas habladas y los intérpretes


de lenguas de señas funcionan como mediadores entre
miembros de diferentes grupos lingüísticos y culturales. No
obstante, los intérpretes de lenguas de señas adicionalmente
funcionan como mediadores entre miembros de una mayoria
poderosa ( Los oyentes) y miembros de una minoria oprimida
(Los sordos). Y muchos de los intérpretes de lenguas de
señas, en virtud de su condición de oyentes son miembros de
la mayoria poderosa. Este factor básico es de crítica
importancia para entender el contexto en el cual trabajan los
intérpretes. (PLAZAS, 2000, p. 135)

Diferente do tradutor, o ILS é visível, pois a língua de sinais se apresenta


numa modalidade visual-gestual; sendo assim, o ato interpretativo só pode
acontecer na presença física do ILS. Segundo Veras (2002), o intérprete é
tradicionalmente aquele que faz uma tradução ao vivo, usando a voz ou o
gesto, de corpo presente, representando como no teatro.

O prefixo INTER, na palavra intérprete, significa o que está


entre uma língua e outra, pondo essas línguas em relação,
criando uma afinidade entre elas. Os gestos da intérprete
constroem o sentido do que digo; e ela depende disso que
digo para sua construção, assim como dependo de seus
gestos para que esta fala sobreviva. (VERAS, 2002).

O ILS viabiliza a comunicação entre surdos e ouvintes, identificando-se


com o orador, exprimindo-se na primeira pessoa, sinalizando e representando
suas idéias e convicções, buscando imprimir-lhes similar intensidade e mesmas
sutilezas que as do enunciados em português oral.

Interpretar nos es una simple transcodificación del mensaje


en una nueva lengua; el principal reto de un intérprete
consiste en transmitir el sentido del mensaje expresado

28
originalmente, en la lengua de destino. (PLAZAS, 2000, p.
131)

O trabalho do intérprete de língua de sinais consiste em pronunciar, na


língua de sinais, um discurso equivalente ao discurso pronunciado no
português oral (ou vice-versa).
O ILS trabalha em variadas circunstâncias, precisando ser capaz de
adaptar-se a uma ampla gama de situações e necessidades de interpretação
da comunidade surda, situações às vezes tão íntimas quanto uma terapia,
sigilosa como delegacias e tribunais, ou tão expostas como salas de aulas e
congressos. Existem vários tipos de interpretação, que podem ser consecutivas
ou simultâneas, sendo esta última a que contribui para a identificação imediata,
tanto do intérprete de língua oral como do ILS, por ser mais conhecida na
sociedade.
Na interpretação consecutiva, o intérprete senta-se junto à pessoa, ouve
uma longa parte do discurso e, depois, verte-o para uma outra língua,
geralmente com a ajuda de notas.

Na interpretação, o canal escrito pode servir de apoio à


tradução simultânea, através da leitura prévia de resumos das
conferências ou palestras a serem proferidas e/ou confecção
de glossários, ou, no caso da tradução consecutiva, mais
sistematicamente, pela tomada de notas, taquigráficas ou
não. (AUBERT, 1994, p.63).

Embora, hoje em dia, a interpretação consecutiva tenha sido


amplamente substituída pela simultânea, continua a ser relevante em certos
tipos de reuniões, principalmente em: tribunais, almoço de trabalho, visitas a
locais de produção e investigação, ou ainda quando não existem equipamentos
adequados para a realização da interpretação simultânea. (DELISE e
WOODSWORTH, 2003).
No caso do ILS, a interpretação consecutiva ocorre quando este
profissional atua em situações de acompanhamento da pessoa surda, como:
consultas médicas, audiências em tribunal, entrevistas de emprego e sala de
aula.

29
Todavia, o mais comum é o ILS fazer uso da interpretação simultânea,
ou seja, sinaliza a fala do ouvinte em tempo real, acompanhando, em frações
de segundos, o discurso produzido em português.
Nesse tipo de trabalho, não há espaços para pensar frases ou palavras
mais apropriadas; essa, aliás, é a diferença entre ser tradutor e ser intérprete.

Para algunos autores la características definitoria de la


interpretación es que la transmisión del mensaje a la lengua
de destino sea inmediata, lo que implica que el intérprete
escucha un mensaje en una lengua y realiza el cambio del
miso a la otra lengua con un breve lapso de tiempo de por
medio, lapso apenas suficiente para oír y procesar el mensaje
y al cual se le conoce por su nombre en francés: décalage.
(PLAZAS, 2000, p. 132)

Mesmo quando o ILS conhece todas as palavras apropriadas, o ato


Interpretativo exige uma reação tão imediata que não há tempo para pensar:
faltam segundos, os sinais certos são lembrados uma frase mais tarde, quando
já não adiantam mais. Uma reação imediata apenas é possibilitada pela
combinação de conhecimento lingüístico das línguas envolvidas e a
capacidade e poder de decisão ultra-rápidos. (HOFMANN e LANG, 1987
p.271). Para realizar essa tarefa, é necessário ao intérprete de língua de sinais
conhecer os equivalentes entre as expressões típicas da língua de partida
(português) e as da língua de chegada (língua de sinais), nem sempre vertendo
em sinais todas as palavras pronunciadas pelo ouvinte, mas procurando
manter o sentido e buscando os efeitos produzidos pelo pronunciador do
enunciado oral (os mesmos efeitos possíveis por certos atos lingüísticos
marcados na prosódia, no corpo etc.).

A construção de frases na Libras possui regras próprias. Se


compararmos com o português, observamos que em Libras
não usarmos artigos, preposições, conjunções, porque esses
elementos estão “dentro” do sinal. Modos e tempos verbais,
sufixos e prefixos, são produzidos por movimentos das mãos
no espaço, em várias palavras. Seria também impossível
pensar em traduzir ao “pé da letra” uma frase sinalizada, para
outra língua qualquer. (Por exemplo: em inglês, perguntamos:
How old are you? (“quanto velho você é?”). Em português,
corresponde a: “quantos anos você tem?”. Em Libras,
sinalizamos: mão direita em “Y”, tocando de leve com o dedo

30
mínimo na altura do lado direito do peito, e uma expressão
fácil da pergunta). (VALVERDE 3 , 1990 p.106.)

Nesse contexto, realizar interpretação para a língua de sinais não


significa sinalizar todas e/ou as mesmas palavras pronunciadas no português
pelo ouvinte, ou seja, ser literal. Assim sendo, é possível afirmar que ser
intérprete de língua de sinais é sinalizar, respeitando a estrutura gramatical da
língua de sinais, um discurso 4 equivalente já dito no português, possibilitando,
dessa forma, a compreensão da mensagem pela comunidade surda. Ao ILS é
necessário tomar um tópico qualquer e entender a sua estrutura, estabelecer
um vocabulário em língua de sinais, habilidades estas sem as quais é
impossível interpretar.

Anderson (1978) describe la posición del intérprete como de


potencial conflicto, en la cual el intérprete debe trabajar bajo
presiones de tiempo, tensión mental y posible fatiga, mientras
que toma decisiones rápidas. El intérprete pude desear ser
simplemente un eco, pero los usuarios podrán intentar
colocarlo en le papel de aliado o consejero. (PLAZAS, 2000,
p. 136).

Isso leva, muitas vezes, a pessoa que pretende atuar como intérprete a
perceber que ela não teria condições de desempenhar profissionalmente essa
função.

Não se traduz, afinal, de uma língua para outra, e sim de uma


cultura para outra; a tradução requer, assim, do tradutor
qualificado, um repositório de conhecimentos gerais, de
cultura geral, que cada profissional irá aos poucos ampliando
a aperfeiçoando de acordo com os interesses do setor a que
se destine seu trabalho. (CAMPOS, 1986, p. 27-28)

Nem sempre o profissional ILS tem consciência da necessidade de


atualização de assuntos gerais, o que se deve, principalmente, à concepção
assistencial de que se o surdo tiver alguma informação em LIBRAS já lhe é

4
Discurso, neste trabalho, será compreendido como [...]”colocação em funcionamento de
recursos expressivos de uma língua com certa finalidade, atividade que sempre se dá numa
instância concreta e entre um locutor e um alocutário.” (POSSENTI, 2001 p.64)

31
suficiente. Desse modo, é em parte compreensível que o trabalho do ILS ainda
esteja relacionado ao voluntariado. A presença do ILS não é considerada um
direito de cidadania, e sim um ato de benevolência as pessoas ainda
consideradas deficientes.
Penso o contrário: ao ILS é necessário estar em constante atualização
pois, como a comunidade surda pouco se beneficia dos meios de comunicação
de massa, uma vez que somente três canais de televisão possuem serviços de
legenda oculta 5 e em horários pré-selecionados, são inúmeras as situações
em que o palestrante cita acontecimentos da atualidade para completar ou
significar a sua fala. Assim sendo, o ILS precisa estar pronto a esclarecer, para
a sua comunidade interpretativa, detalhes do assunto tratado pelo palestrante
ouvinte. Dessa forma, o assunto exposto sobrevive na língua de sinais.

Muitas vezes, a fim de estabelecer uma ponte entre as duas


culturas a tradução tem que explicitar conhecimentos que são
comuns entre os leitores do original, mas dos quais não
partilham os leitores da tradução, por meio de notas de
rodapé, glossários e outros recursos. (TRAVAGLIA, 2003
p.85).

As informações que são acrescidas pelo tradutor, nas notas de rodapé,


quase sempre acontecem, no caso do intérprete de língua de sinais, durante o
ato interpretativo.
Nessas situações, o intérprete terá que escolher entre ignorar o
desconhecimento do assunto pela comunidade interpretativa e seguir
interpretando todo o discurso - isto é, todo o discurso que for captado por ele -
ou interpretar menos informações do que está sendo dito e fazer com que a
idéia do palestrante seja de possível compreensão pela comunidade surda,
explicitando algumas informações já dadas como conhecidas pelos ouvintes e
acrescentando as novas, figuradas pelo palestrante.
O intérprete necessita fornecer pistas suficientes à interpretação e à
reconstrução do sentido na língua de sinais, tendo o cuidado, entretanto, de
não explicar excessivamente, para não restringir a compreensão dos surdos,

5
Os canais que oferecem esses serviços são: Rede Globo de Televisão, Rede RECORD de
Televisão e Sistema Brasileiro de Televisão-SBT.

32
além da preocupação em não deixar conceitos totalmente desvinculados, que
vão dificultar ou até impedir o estabelecimento da coerência do discurso na
língua de sinais, ou seja, na língua de chegada.
Durante a interpretação, não raro, o ILS é interpelado pelo surdo, que
solicita esclarecimento sobre um sinal desconhecido. Normalmente, o
intérprete faz a opção por explicar o significado do referido sinal ou palavra que
possa ter sido soletrada por meio do alfabeto manual (datilologia).
Um exemplo disso ocorreu num congresso de alcance nacional, com
relação ao sinal inclusão. Após o ILS sinalizar repetidas vezes o sinal de
inclusão, muitos surdos presentes lhe perguntaram o significado daquele sinal.
O intérprete escolheu não continuar interpretando e, sim, esclarecer aos surdos
a que o orador estava se referindo quando mencionava a palavra “inclusão”.
Nessa ocasião, o palestrante fazia uso da palavra “inclusão” para
designar a entrada do aluno surdo na escola regular; inclusão, portanto,
significava surdos e ouvintes juntos na mesma sala de aula na escola regular,
qualificada como inclusiva. Depois de ter compreendido o significado do sinal,
um surdo formulou a seguinte pergunta para o palestrante: E, se o surdo quiser
estudar numa escola para surdos, ele pode escolher entre incluir-se ou não? O
entendimento da palavra, portanto, possibilitou a participação do surdo no
debate.
Porém, dessa opção, advém um questionamento freqüente: E o que
palestrante disse, durante o tempo em que o intérprete estava dando os
devidos esclarecimentos sobre a palavra inclusão, os surdos perderam? Em
meu ponto de vista, a minha resposta para essa situação especifica é não.
A perda estaria, a meu ver, em não compreenderem o contexto, a idéia
da mensagem do orador, em não poderem expor a sua opinião sobre a sua
própria educação, em não poderem estar incluídos pela palavra. O não-
esclarecimento ocasionaria uma suposta fidelidade e a ilusão de ser possível
transmitir tudo, durante o ato interpretativo. No momento em que o assunto foi
esclarecido, o discurso do orador ganhou sobrevida na língua de sinais. Vale
ressaltar que o sinal de inclusão surgiu devido à participação da comunidade
surda, com a presença do intérprete de língua de sinais, nos congressos sobre
a sua educação, nos quais este assunto tem sido abordado constantemente
pelos ouvintes. O próprio sinal de “inclusão” já seria, para parafrasear Derrida

33
(2002), uma sobrevida do discurso sobre a proposta de educação para os
surdos; ou seja, pela via da interpretação, os dizeres e os saberes produzidos
na língua de origem tem ecoado na língua de chegada, isto é, na língua de
sinais.
Em situações assim, o intérprete terá que escolher entre ignorar o
desconhecimento do assunto pela comunidade interpretativa e seguir
interpretando todo o discurso. Essa é sempre uma escolha conflitiva para o ILS
que, vale lembrar, em geral desempenha militância (política e /ou religiosa) no
campo da surdez.
Algumas vezes, por conta desse papel militante, muitas vezes se atribui
ao ILS a autoria do enunciado que ele próprio traduz, como se ele tivesse
ignorado o que o surdo tivesse sinalizado e criado seu próprio texto. Essa
atitude evidencia a desqualificação que se faz dos surdos, no que se refere a
sua capacidade de compreensão do assunto tratado; ao mesmo tempo, o
intérprete é desqualificado ao ser colocado no lugar do trapaceador ou traidor.
Além disso, existem outros fatos que impedem, ou dificultam, uma boa
interpretação, e que devem ser aqui considerados. Se o orador não tiver um
domínio da própria língua (português) e/ou do assunto, que lhe possibilite
expressar com clareza as suas idéias, ou seja, se a mensagem for emitida em
condições desfavoráveis na língua de partida, dificilmente será compreendida
pelo ILS. Freqüentemente, essa situação gera embaraço para o ILS e para os
surdos pois estes percebem a insegurança do próprio intérprete. Nesses casos,
os surdos tendem a interromper a interpretação e a pedir esclarecimentos.
Nessas situações, quando a platéia percebe que não está sendo
realizada uma interpretação coerente, é comum atribuir o fracasso ao ILS (às
vezes esse fracasso é mesmo da responsabilidade do próprio intérprete). E
haverá outros que irão atribuir a não-compreensão do assunto à falta de
capacidade da comunidade surda, reforçando o conceito da suposta
incapacidade do surdo. A responsabilidade pelo fracasso será julgada segundo
a concepção que as pessoas presentes têm sobre surdez, sobre a
interpretação e sobre comunidades surdas. Entretanto, nunca se questiona o
próprio orador, pois este já está revestido de imunidade (é falante da língua
majoritária, possui legitimidade institucional para falar - em geral, possui algum
título que o autoriza a estar na posição de palestrante ou professor/educador).

34
Não podemos ignorar que o intérprete de língua de sinais raramente tem
acesso ao texto com antecedência, e, por essa razão, vai construindo a
interpretação na língua de sinais à medida que o orador vai expondo suas
idéias. Essa exposição, porém, nem sempre é seqüencial; usualmente, o
orador se perde na mensagem, dando voltas no assunto sem dar nenhuma
pista, o que deixa o intérprete perdido, nem sempre conseguindo retomar ao
texto. Nessas ocasiões, não raro, a platéia ouvinte também se perde. Quando
isso acontece, normalmente o ILS deixa de ser interlocutor/intérprete e torna-se
locutor na língua de sinais, criando, inventando seu próprio discurso, quando
conhece um pouco do assunto ou leu obras da pessoa que está com a palavra.
Assim, pode ser possível que ele, o intérprete, faça um discurso coerente e, de
modo geral, em concordância com o locutor ouvinte; caso contrário, o ILS
segue escapando totalmente da mensagem enunciada no português.

Os piores desses problemas, cabe notar, decorrem em geral


de uma falsa noção de “liberdade” de alguns tradutores, que,
no afã de se mostrarem “livres”, parecem esquecer a
“necessidade” do cumprimento de um compromisso mínimo
assumido para com o autor da obra original; tais traduções,
em não raros casos, descambam para o plano de meras
“variações” sobre o tema ou os temas do original, com toda a
sua carga de conotações, além das suas especificidades
denotativas. (CAMPOS, 1983 p.129)

Nem sempre, portanto, há equivalência entre os textos originais e os


vertidos em língua de sinais. O modo como o ILS entende que deva ser,
eticamente, seu papel também influi. Caso o ILS considere a língua
transparente e possível decodificar um único sentido no discurso, esse
intérprete realizará o seu trabalho da forma mais literal possível e, desse modo,
já estará agindo sobre o discurso, pois ignorar informações que seriam
necessárias para a compreensão da mensagem pelo surdo. O que lhe importa,
nesse caso, é a língua em si e não a compreensão e apropriação do surdo pelo
assunto exposto.
Em contrapartida, há aqueles que, partindo do pressupostos de que a sua
compreensão é a mais correta, realizam uma interpretação totalmente aleatória
em relação à fala do locutor ouvinte, criando seu próprio texto.

35
Como vimos no item anterior, o ato interpretativo será efeito do
conhecimento que o ILS tem sobre comunidade surda, língua de sinais e
assunto versado.
Segundo Humberto Eco (1997), há uma grande diferença entre usar um
texto e interpretá-lo. O uso estende, sem nenhum parâmetro, o universo de
sentido do texto. A interpretação, ao contrário, respeita a coerência do texto, ou
seja, a unidade, a continuidade de sentido que ela possui e o contexto em que
está inserido. Se há algo para ser interpretado, a interpretação deve falar de
algo que deve ser encontrado em algum lugar, e de certa forma respeitado.
(ECO, 1987, p. 50).
Reportando-nos aos documentos da Coordenadoria Nacional para
Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE (BRASIL, 1996)
podemos dizer que, para o exercício da profissão de intérprete de língua de
sinais, são necessários três requisitos básicos: conhecimento sobre a surdez,
domínio da língua de sinais e bom nível de cultura.
“Conhecimento das implicações da surdez no desenvolvimento do
indivíduo surdo” (BRASIL, 1996, p. 4)
Essa exigência, colocada pela CORDE, desmistifica a idéia de que o
intérprete de língua de sinais é neutro. Pois, como sabemos, há diferentes
concepções sobre a surdez e, ao cumprir esse requisito, o ILS já estará de
antemão constituído de um pré-conceito sobre a surdez e, conseqüentemente,
sobre a pessoa surda. Esta informação afetará diretamente a sua atuação
como intérprete.
A guisa de um rápido resumo, lembro que há dois modos distintos de se
entender a surdez. Para um deles, conhecida como clínico-terapêutica, a
surdez é vista como doença/déficit e o surdo como deficiente auditivo.
Considerando-se a surdez como um déficit, defende-se a tese de que a pessoa
com surdez necessita de um trabalho de reabilitação oral para suprir, ou sanar,
essa falta e, assim, ser “curada”. A “cura”, nos casos de crianças que nascem
surdas, está relacionada, na maioria das vezes, ao aprendizado da linguagem
oral, ficando implícito que, quanto melhor a sua fala for, melhor terá sido seu
processo de reabilitação. Nessa concepção, a língua de sinais é tida como
inferior à língua oral, e só é ensinada ao surdo quando adulto e quando este
não foi capaz de ser oralizado. (SILVA, 2000)

36
Contrária à visão clínico–terapêutica, a visão sócio-antropológica utiliza
o termo “surdo” para se referir a qualquer pessoa que não escute,
independentemente do grau da perda (no melhor ouvido). Nesta visão, a
surdez é concebida como diferença e os surdos, como membros de uma
comunidade lingüística minoritária. Assume-se, nesta perspectiva, como direito
das crianças surdas o acesso à língua de sinais o mais cedo possível.
Considerar a surdez uma diferença implica, entre outras coisas, respeitar a
língua de sinais enquanto tal e aceitá-la como forma legitima de aquisição de
conhecimento pela pessoa surda. (SILVA, 2000).
A partir da escolha de uma dessas concepções, o ILS irá construir o
discurso em língua de sinais, podendo ser mais ou menos equivalente ao
discurso do ouvinte, dependendo do conceito que ele tem sobre surdez e,
conseqüentemente, sobre a língua de sinais.
No caso do intérprete de língua de sinais, se estiver inscrito na primeira
concepção, ou seja, na clinico-terapeutica, considerará o seu trabalho como
assistencial, se perceberá um ajudador que, no momento interpretativo, está
praticando uma boa ação. Por conta disso, geralmente aceita interpretar
gratuitamente, pois a sua satisfação está justamente em “ajudar os
necessitados”.
Normalmente quando se tem essa concepção, o intérprete pode sentir-
se perfeitamente à vontade para criar novos “sinais”, crendo estar ampliando o
“vocabulário das pessoas surdas”.
Essa atitude acarreta uma situação interpretativa de baixa qualidade, e
contribui para propalar vários estereótipos sobre os surdos, principalmente
aquele que diz que a língua de sinais pode ser aprendida facilmente e que é
simples. Do mesmo modo, pode endossar a classificação preconceituosa do
surdo usuário da língua de sinais como limitado em sua habilidade para
compreender e expressar pensamentos abstratos.
Quase sempre, quando um intérprete realiza um trabalho ruim, seja
utilizando a LS de maneira confusa ou simplista ou traduzindo o discurso de
uma pessoa com sinais ininteligíveis, é o surdo que se sente diminuído,
humilhado e desprezado intelectualmente.
Em contrapartida, se o intérprete tem como escolha a segunda
concepção, ou seja, tem a comunidade surda como minoria lingüística, a

37
postura durante o ato interpretativo será outra. Não se colocará, tão facilmente,
diante da comunidade surda como um protetor e sim de profissional da
tradução.
Terá, talvez, uma preocupação maior com a qualidade da interpretação,
e principalmente, terá menos (ou nenhum) preconceitos com relação a língua
de sinais. Essa atitude produzirá uma interpretação mais coerente e não
inferior a mensagem enunciada no português.
Ao se colocar como profissional da tradução, o intérprete de língua de
sinais tende a pesquisar sobre a sua atuação e a não se limitar a
aprendizagem decorrente da prática.

2.“Bom nível de cultura”, aqui neste trabalho compreendido como


conhecimento de mundo. ( BRASIL, 1996 p.4)
Segundo Graça (2002), do ponto de vista da praticada tradução, a cultura
é, num sentido mais amplo, um lugar de conhecimento intersubjetivo que
permite atualizar, cada vez com mais eficácia, uma relação de equivalência
interlingual. A cultura permite intuir, reconhecer, experimentar ou investigar os
hábitos lingüísticos e extralingüísticos, as idiossincrasias e os mecanismos
inconscientes que podem estar por detrás da produção e recepção do texto de
partida e do texto de chegada. Segundo a autora este lugar de
operacionalidade é componente insubstituível da competência do
tradutor/intérprete.
Num sentido mais restrito, os conhecimentos adquiridos pelo intérprete
(ou a sua cultura) lhe permitem selecionar alternativas translatórias, nos casos
em que o contexto lingüístico e o contexto situacional não sejam suficientes,
porque, no ato tradutório, se atualizam horizontes de natureza ideológica,
lógica, emocional e textual.
De fato, nosso conhecimento de mundo é produto das nossas vivências
de cada dia, efeito de estudos, leitura e/ou experiências de vida. Adquirindo,
não se apresenta como uma espécie de massa desordenada e estática, mas
como algo dinâmico, que se renova e está disponível para ser ativado pelas
solicitações do cotidiano. (TRAVAGLIA, 2003).
Não me refiro, neste trabalho, às diversas experiências de mundo para
locutores diferentes dentro da mesma língua, mas considero o que poderia

38
ser comum e o que poderia ser diferente, numa esfera maior, para pessoas
pertencentes a diferentes grupos lingüísticos.

Os elementos lingüísticos que o texto oferece, porém,


representam apenas uma parte daquilo que é necessário para
que se possa estabelecer o seu sentido; a outra parte vem do
conhecimento do mundo, esta espécie de grande dicionário
enciclopédico do mundo e da cultura que temos na memória e
que nos permite, então, fazer a ponte entre o lingüístico e o
extralingüístico. (TRAVAGLIA, 2003 P.79)

Ao ouvirmos um discurso é o nosso conhecimento de mundo, com tudo o


que ele tem de complexo, que nos auxilia estabelecer as diversas ligações
necessárias para que esse mesmo discurso tenha significado, isto é, seja
coerente para nós. Para que possa ser compreensível, é necessário, pois, um
certo equilíbrio entre as informações “novas”, que constituem a própria razão
do discurso, e as informações “velhas”, isto é, os “dados” nos quais o receptor
ou público alvo vai ancorar-se para construir sentido.
Ao produzir um discurso, o locutor pressupõe que seu ouvinte
compartilhe de uma dose de conhecimentos que lhe possibilite entender o
assunto. Tanto é assim que, à medida que produz seu discurso, vai realizando
os ajustes necessários para evitar, ao mesmo tempo, o excesso de
informações novas e de informações supostas por ele velhas, o que tornaria o
discurso repetitivo e maçante para sua platéia. O público-alvo, ao ouvir o
discurso, situa-se, de certa forma, naquele circuito de conhecimentos
partilhados com o locutor do discurso original, o que lhe facilita a compreensão.
Quanto ao intérprete, que não deixa de ser um interlocutor especial, uma
vez que sua compreensão tem como objetivo a construção de um outro/mesmo
discurso na língua de sinais, podemos dizer que deve partilhar de uma dose de
conhecimento se não equivalente, pelo menos aproximada ao do receptor do
discurso original, isto é, da platéia ouvinte, mas também deve partilhar do
conhecimento da comunidade surda a quem está sendo destinada a
interpretação.
“A atividade tradutória é inerentemente intelectual – portanto, o exercício
intelectual, seu alicerce”. (ALFARANO, 2003, p. 37).
O ILS, na realidade, partilha dos dois mundos veiculados pelas duas

39
línguas: o do original (português) e o da interpretação (língua de sinais).
O ILS é quem se encarrega de (re)conciliar, num outro/mesmo discurso,
essas diferentes visões de mundo e, nessa mediação, estará presente a
própria visão de mundo do intérprete, que normalmente é um ouvinte, e iniciou
a sua participação na comunidade surda já na idade adulta.
3.3. “Domínio da língua de sinais, que compreenderemos como
conhecimentos lingüísticos.”(BRASIL, 1996 p.4)
O intérprete em geral só adquire fluência na língua de sinais na
convivência com a comunidade surda. Vale lembrar que a oferta de cursos de
língua de sinais com instrutores surdos é bem recente; na cidade de Campinas,
especificamente, esses cursos começaram a ser divulgados em 1999 6 .
Anteriormente a esse período, os cursos de língua de sinais eram oferecidos
por ouvintes que já realizavam trabalhos em instituições religiosas.
Normalmente, os cursos eram oferecidos gratuitamente.
Atualmente, existem, em algumas cidades brasileiras, tais como: Rio de
Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, cursos oferecidos pela
FENEIS, com instrutores surdos, que ensinam sobre gramática da língua de
sinais. Mas nem todos os intérpretes que atuam nas instituições de ensino
realizaram esses cursos; na sua grande maioria, a fluência da língua de sinais
está nas mãos daqueles profissionais que possuem constante contato com a
comunidade surda fora dos espaços institucionais, ou seja, nas associações,
shoppings e em eventos diversos.
Não podemos, de forma alguma, descartar como auxílio para os
intérpretes os dicionários de língua brasileira de sinais produzidos
recentemente. Existem dois dicionários em formato de CR-ROM: um produzido
por surdos do Instituto Nacional de Educação dos Surdos – INES 7 , na cidade
do Rio de Janeiro, e outro produzido pelo Governo do Estado de São Paulo 8 ,
ambos oferecidos gratuitamente. E há ainda, produzido na USP, pelo

6
A principio o curso começou a ser oferecido na Faculdade de Educação da UNICAMP, no
Centro de Pesquisas e Estudos em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel Porto – CEPRE e
posteriormente na Associação de Surdos de Campinas – ASSUCAMP.
7
Dicionário Digital da Língua Brasileira de Sinais – versão 1.0 – Secretaria de Educação
Especial- SEESP-MEC-INES. 2002.
8
Dicionário de LIBRAS Ilustrado – Governo do Estado de São Paulo , junho de 2002.

40
pesquisador Capovilla 9 , o Dicionário Trilingüe da Língua Brasileira de Sinais,
que é composto por dois volumes, onde podemos encontrar a palavra em
português, o sinal em língua de sinais, a palavra em inglês e na escrita da
língua de sinais. É uma obra gigantesca, indispensável a todos os intérpretes.
E ainda há os vídeos de histórias infantis, em língua de sinais, produzidos por
surdos do INES, e também os vídeos produzidos pela LSBvideo, com histórias
infantis, fábulas, números e outros dados variados .
Todo esse material tem contribuído para o aperfeiçoamento do ILS, pois,
através desses recursos tecnológicos, os intérpretes se apropriam de conceitos
construídos para o estudo da língua de sinais tais como: classificadores,
expressão corporal, expressão facial, gramática e outros.
Também na convivência com os surdos, o ILS desenvolve o seu
conhecimento de sinais, que excede os seus aspectos formais e que abrange
os usos sociais dela (expressões idiomáticas, trocadilhos, etc) que dela são
constituídos. Durante o ato interpretativo, tais conhecimentos poderão ser
utilizados como recursos lingüísticos, na ocasião em que o locutor ouvinte fizer
uso de termo engraçado e que, não raro, nada significa para o surdo. Dessa
forma, é possível produzir-se, nos surdos, a mesma reação que se desejou
produzir na comunidade ouvinte.

O conhecimento lingüístico, ou seja, o conhecimento dos


recursos de que dispõem tanto a língua de partida quanto a
língua de chegada para concretizar a intenção comunicativa
dos seus falantes é de inegável importância para o tradutor,
uma vez que este parte de um objeto concreto e deve chegar
a outro objeto concreto; trabalha a partir das marcas formais
da língua de partida e deixa impressas marcas formais na
língua de chegada. ( TRAVAGLIA, 2003, p. 78-79)

Uma questão bastante ignorada na formação de intérpretes de língua de


sinais é o quanto esse profissional deveria conhecer a língua portuguesa;
talvez seja pelo fato de: a) o não reconhecimento do direito do cidadão surdo
ter um profissional competente; b) a imagem desqualificada e assistencial do
ILS qualquer um serve; c) a LS é concebida como um código de segunda

9
Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilingue da Língua de Sinais Brasileira, Vol. I e I: Sinais de
A à Z/ Fernando César Capovilla, Walkiria Duarte Rafathel: ( Editores) Ilustração: Silvana
Marques. São Paul: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.

41
ordem em relação ao português – qualquer um que fale português e conheça
os sinais também serve.
Se o ILS não tiver conhecimento do português, provavelmente terá
dificuldade em ser coerente na construção do discurso em língua de sinais, ou
poderá omitir um trecho da mensagem, por não conhecer o vocabulário
exprimido pelo locutor.

La proficiência en las dos lenguas es un aspecto fundamental


para el buen desempeño de la interpretación pues la falta de
conocimiento del funcionamiento de la lengua de señas o de
la lengua oral, en una situción particular de comunicación,
poe ejemplo, cuando el intérprete se enfrenta a palabras
técnicas que ignora o a expresiones propias de una de las
dos lenguas que desconoce, pueden llevarlo a utilizar le
lengua que domina con mayor fortaleza ante la situación,
sacrificando la comprensión del receptor sordo o sordociego. (
PLAZAS, 2000, p. 135)

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45
“DA MISSÃO À PROFISSÃO: PRODUZINDO NOVAS EXPERIÊNCIAS
DA SURDEZ”

César Augusto de Assis Silva 1

RESUMO:

O objetivo desse artigo é expor, de maneira breve, alguns dados de minha etnografia
sobre as relações do campo religioso brasileiro que se ocupa dos surdos e as
transformações históricas pelas quais a surdez tem passado desde as últimas
décadas do século XX. Procuro evidenciar como algumas instituições religiosas se
destacam, por diferentes razões, e como a experiência missionária protestante parece
desempenhar um importante papel por ter engendrado um modelo de intérprete, e
nesse processo, contribuído para a conformação da surdez como diferença lingüística
no espaço público.

PALAVRAS CHAVES: religiosidade; atividade missionária; formação de


intérprete.

Desde quando me propus a realizar uma reflexão antropológica sobre


surdez e, para tanto, iniciei a minha etnografia em locais em que surdos se
encontram na cidade de São Paulo, shoppings e bares sobretudo, chamou-me
a atenção o grande número de ouvintes, amigos de surdos, presentes nesses
locais, que possuía trajetória religiosa protestante. Somado a isso, o fato de
somente haver intérprete televisivo, naquele momento, para apresentações
religiosas - missas da TV Canção Nova e cultos da Igreja Internacional da
Graça de Deus - e o fato de um número expressivo de intérpretes possuir
origem protestante fizeram com que eu percebesse a necessidade de realizar
uma reflexão que dialogasse as experiências do campo religioso brasileiro que
se ocupa dos surdos com as transformações pelas quais a surdez tem passado
desde as últimas décadas do século XX.
Não são poucas as instituições religiosas cristãs que possuem atividade
de congregação específica para os surdos. Essa prática está bastante
espraiada e é realmente difícil reconstruir com exatidão quais foram os
caminhos que permitiram sua proliferação. Entretanto, algumas instituições se
destacam, seja pelo seu pioneirismo, pela sua grande difusão ou pela

46
capacidade de criar modelos de comunicação entre surdos e ouvintes que não
parecem ter ficado restritos ao âmbito religioso.
O objetivo deste artigo é fazer uma brevíssima reflexão sobre o papel
que as experiências religiosas tiveram para fundar um modelo de intérprete de
língua brasileira de sinais (Libras). Para tanto, é necessário que primeiramente
nos perguntemos sobre o processo de constituição da atividade de
interpretação, desnaturalizando essa prática e nos lembrando que ela é
relativamente recente. Ademais, é necessário considerar que nem todas as
vertentes do cristianismo que se ocupam dos surdos formam intérpretes, não
havendo nenhuma relação necessária entre essas duas variantes. Portanto, a
questão que cabe compreender é por que algumas experiências religiosas se
obstinaram em formar intérpretes e por quais mecanismos essa prática parece
ter influenciado experiências seculares relacionadas à surdez.
Entre a enorme diversidade de instituições religiosas que se ocupam dos
surdos nos parece que quatro possuem um papel histórico de indubitável
destaque; quais sejam, a Igreja Católica, a Igreja Evangélica Luterana do
Brasil, a Testemunhas de Jeová e a Igreja Batista. Pretendo, de maneira breve,
fazer algumas considerações sobre essas experiências, justificando as razões
pelas quais vou me deter nas experiências protestantes.
Embora a Igreja Católica possua um papel basilar na história da surdez,
não nos parece que tenha sido essa instituição a primeira a colocar em questão
a necessidade de intérpretes para os surdos. Suas maiores contribuições foram
a fundação de escolas especiais ao longo do século XX, em diferentes regiões
do Brasil; a fundação de algumas associações de surdos, direta ou
indiretamente, por meio de padre Vicente Penido Burnier; e por fim, as
publicações do padre norte-americano redentorista Eugênio Oates sobre a
“linguagem das mãos” (Oates, 1988 [1969], 1990 [1961]), que parecem
constituir capítulos fundamentais da história da Libras.
A instituição religiosa de caráter milenarista Testemunhas de Jeová
possui também um notável destaque no campo religioso que se ocupa dos
surdos. Iniciou essa atividade em meados dos anos 1980 no Rio de Janeiro, e
tal como a experiência luterana e batista, que tratarei a seguir, também

1
Antropólogo doutorando em Antropologia Social pelo FFLCH/USP.

47
formava intérpretes de maneira pioneira. Entretanto, no final dos anos 1990 e,
paulatinamente, no presente século, essa instituição religiosa passou a
produzir incessantemente matérias em Libras e a realizar suas reuniões nessa
língua, tornando desnecessária a prática de interpretação, fundando as
“Congregação em língua de sinais” em alguns Salões do Reino. O foco deixou
de ser formação de intérpretes e passou ser a tradução de suas publicações e
a formação de preletores (surdos e ouvintes) fluentes em Libras, o que tem
consistido uma experiência ímpar na experimentação dessa língua. De
qualquer modo, a prática de interpretação ainda desempenha um importante
papel no período que antecede a fundação da “Congregação em Língua de
sinais”, e não são poucos os membros ouvintes dessa instituição que atuam
profissionalmente como intérpretes no meio secular.
A Igreja Evangélica Luterana do Brasil possui um papel histórico
fundamental no processo de formação de intérpretes. O pedagogo e Pastor
Ricardo Ernani Sander entre outros luteranos, já no início nos anos 1980 em
Porto Alegre, difundiram a prática de interpretação e a Comunicação Total, que
sucedeu as práticas oralistas, no meio luterano e laico. Embora seja necessário
levantar mais dados para compreender a importância dessa experiência e os
seus desdobramentos, sugiro que os limites da difusão da prática de
interpretação por essa experiência estejam dados pela sua concentração na
região Sul e pelo seu caráter de “protestantismo de migração alemã”
(Camargo, 1973).
A Igreja Batista, por razões semelhantes à experiência luterana, se
destaca nesse processo pelo pioneirismo da prática de interpretação. Segundo
relatos de informantes, a atividade missionária com surdos iniciou-se no final
dos anos 1970, em Campinas, com a vinda de missionários norte-americanos.
A difusão dessa prática se deu sobretudo por meio das Igrejas Batistas de
tradição histórica ligadas à Convenção Batista Brasileira. É possível que nem
toda a experiência batista com surdos seja oriunda dessa região, pois também
há relatos de jovens batistas brasileiros que visitaram os Estados Unidos e
tomaram conhecimento de tal atividade, o que os fez iniciar essa prática em
suas congregações. De qualquer modo, a influência norte-americana e a
iniciativa de jovens missionários são constantes nessa experiência, assim
como nas experiências luterana e da Testemunhas de Jeová.

48
Para além do pioneirismo, a experiência batista se destaca por uma
série de outras razões. Foi sobretudo essa experiência que fez da atividade
missionária com surdos sinônimo de interpretação e liderança de Ministério.
Por conta disso, embora o objetivo fundamental do trabalho missionário seja
“converter” surdos para o cristianismo, indiretamente, essa instituição se tornou
uma grande formadora de intérpretes em diferentes regiões do Brasil.
Acampamentos e encontros pluridenominacionais e oficinas do pastor Marco
Antonio Arriens – de formação teológica batista, que esteve durante cinco anos
na Igreja do Evangelho Quadrangular - fizeram com que essa prática se
desdobrasse para todo o campo religioso brasileiro, não ficando restrita ao
âmbito batista. Somado a isso, a penetração considerável em médias e
grandes cidades brasileiras e o fato de ser “protestantismo de conversão”
(Mendonça, 1989; Camargo, 1973), ampliou a capacidade dessa prática se
multiplicar.
As experiências protestantes com surdos citadas, batista e luterana, e os
seus desdobramentos pentecostal, neopentecostal e adventista, são
formadoras por excelência de um modelo de intérprete que parece ter se
desdobrado para esfera secular. É precisamente disso que se trata esse artigo.
A partir da minha etnografia e entrevista com atores sociais que tiveram um
papel fundamental nesse processo, pretendo de maneira preliminar expor um
pouco desse argumento. Embora meus dados tenham sido coletados
sobretudo em Igrejas Batistas, descrevo essa experiência como protestante,
pois acredito que seja parte de um processo mais geral.

A experiência protestante: a fundação de um modelo de intérprete.

O modelo de atividade missionária com surdos que veio dos Estados


Unidos foi fundamentalmente do missionário de surdos que atua
necessariamente como intérprete, figuras que se tornaram indissociáveis na
experiência protestante. Coube a esse missionário se tornar um mediador
fundamental, transformando todos os sons da igreja em expressões visuais, ou
seja, em termos apreensíveis aos surdos.
É necessário considerar que essa experiência não se constituiu pela alta
hierarquia da congregação, mas pela base. Foram os jovens missionários,

49
alguns adolescentes, com um “chamado” que iniciaram esse trabalho, muitas
vezes contrariando os poderes estabelecidos na igreja. Geralmente, o
intérprete começou no fundo da igreja, ou nas galerias superiores, sentado;
paulatinamente, com o desenvolvimento dessa atividade e para permitir uma
maior funcionalidade da interpretação, ele veio para o palco ou para a frente do
palco, para se posicionar em pé; e os surdos tomaram as primeiras fileiras em
frente ao intérprete. O intérprete e os surdos fixaram os seus lugares na igreja,
muitas vezes contrariando a opinião de músicos, coral, diáconos, pastores e
outros membros, que se incomodavam com essa disposição espacial
privilegiada. Dada a distância entre intérprete e surdos, no momento do culto, o
meio de comunicação estabelecido foi essencialmente visual.
Ainda é necessário inventariar com precisão por quais meios intérpretes
e surdos garantiram um espaço no culto e uma sala no prédio com móveis e
materiais para o Ministério dos surdos. De qualquer modo, esse processo
parece ter sido uma importante conquista histórica, visto que surdos puderam
se conformar como um grupo diferente lingüisticamente com direitos na
congregação, ainda que, paradoxalmente, boa parte dos membros da
congregação possa não vê-los dessa maneira. Evidentemente, que o
intérprete-missionário, por conta de geralmente liderar o Ministério, teve um
papel político fundamental ao falar em nome dos surdos frente a uma
congregação ouvinte. Ele pôde se tornar um especialista em “cultura surda”,
cabendo a ele explicar aos demais membros que o surdo não é “surdo-mudo”
ou “deficiente auditivo”, que a Libras é uma língua, e não uma linguagem, e
tecer infinitas comparações entre surdos e ouvintes. É necessário lembrar que
em termos práticos, mesmo quando a comunicação dos surdos não era
reconhecida oficialmente como língua, ela foi utilizada como tal na experiência
protestante, por conta da prática de interpretação.
Devido a centralidade dessa atividade missionária ter sido o intérprete,
ele foi exercitado de maneira extenuante, em certos casos cotidianamente, e o
culto foi o local por excelência desse treino. Como tudo na experiência
protestante está no plano da oralidade, não havendo representação imagética
alguma, o intérprete teve que converter essa rica discursividade para termos
visuais. A interpretação das pregações, dos testemunhos, das leituras bíblicas,

50
dos louvores, das orações e dos avisos permitiu o desenvolvimento de um
know how interpretativo que parece não ter paralelo em outros contextos.
Essa atividade de interpretação não era meramente técnica. Por estar a
serviço da missão cristã, o intérprete fez de seu corpo instrumento divino para
converter um “povo” e a interpretação constituiu um momento de adoração a
Deus. Por conta disso, geralmente a interpretação assumiu um caráter plástico
e performático, o que foi acentuado quando ela esteve colada aos louvores,
arte protestante por excelência. O carisma individual se tornou requisito
imprescindível para o sucesso dessa prática e, nesse processo, os intérpretes
colocaram em circulação uma estética da surdez e da Libras.
Para além da prática de interpretação, que implicou necessariamente
uma relação de intersubjetividade entre surdos e intérpretes, ou seja, um
acordo sobre os sentidos dos sinais, a própria prática protestante de conversão
radicalizou a experimentação da Libras como língua mediadora de relações.
Não foi por acaso que a Bíblia se tornou um livro com conteúdo bastante
sinalizado e as Escolas Bíblicas Dominicais constituíram local de trocas
lingüísticas riquíssimas e momento de comparabilidade entre português e
Libras. Isto ocorreu, pois está propriamente no cerne de toda atividade
missionária protestante a tradução lingüística como condição imprescindível
para o entendimento da Palavra pelos “povos não alcançados” pela missão
cristã (Almeida, 2006).
Ao fazer com que os surdos fossem vistos como um “povo” a ser
cristianizado, indiretamente a experiência protestante acabou por formar um
modelo de intérprete. Esse modelo consiste no intérprete que se posiciona em
pé, do lado oposto ao preletor; que interpreta para um público surdo,
independente de laços de sangue ou afinidade; que faz de seu carisma
individual um requisito fundamental de sua prática; que se tornou especialista
na conversão de som em imagem e português em Libras; que interpreta de
maneira plástica e performática; por fim e mais importante, que se tornou um
ator político fundamental nos processos de reivindicações dos direitos dos
surdos.

51
Desdobramentos para o meio secular.

A importância dessa experiência religiosa para a história da surdez foi


que esses intérpretes tornaram-se mediadores fundamentais entre surdos e a
sociedade civil mais ampla. Conteúdos de toda ordem, não somente religiosos,
foram traduzidos para Libras. Esses jovens passaram a interpretar em diversos
locais e instituições sociais, primeiramente voluntariamente e/ou a serviço da
missão cristã, e num segundo momento, profissionalmente. Tiveram um papel
crucial na mediação entre as reivindicações de um movimento social surdo e o
Estado, assim como entre os intelectuais dos Estudos Surdos 2 , em Simpósios
e Congressos, e a platéia surda. Atuaram em intermediação de conflito entre
surdos e autoridades oficiais (promotor, juiz, advogado, polícia, etc), bem como
entre surdos e pais e/ou professores. Estão desempenhando um importante
papel na reforma pedagógica em curso, que visa garantir o acesso à educação
em Libras para os surdos, bem como na inclusão de surdos em empresas que
os contratam para vagas de “deficientes”. Portanto, a conformação da surdez
como diferença lingüística no espaço público está diretamente vinculada a
atuação dos intérpretes.
A prática de interpretação inventada, desenvolvida, sistematizada e
treinada no interior das igrejas se desdobrou para a esfera secular. Os padrões
estéticos – como interpretar, com quais roupas e de quais cores, posicionando-
se em qual ângulo, em qual fundo, com quais velocidade e intensidade – e
éticos – o que e quando interpretar, tendo honestidade, sigilo, fidelidade,
confiabilidade – desenvolvidos no interior da experiência religiosa tornaram-se
técnicas da profissão. Ademais, a interpretação televisiva, primeiramente
treinada em transmissões religiosas católicas carismáticas e neopentecostais -
instituições mais afeitas com tecnologias de mídia (Mariano, 1999) - tornou-se
obrigatória em propagandas políticas e comunicações oficiais do Estado.
Evidentemente que nem todos os intérpretes vêm do meio religioso, é
necessário considerar que alguns parentes, namorado(as) e professores de
surdos também se tornaram intérpretes. Entretanto, não nos parece que outras

2
O que estou chamando de Estudos Surdos são publicações de lingüistas e pedagogos, que
surgiram a partir dos 1990, que afirmam a Libras como língua e a necessidade de uma
educação bilíngüe para os surdos. Como exemplo, livros de Ronice Quadros e Carlos Skliar.

52
configurações sociológicas tenham desenhado um modelo de intérprete
dominante e feito espraiar esse modelo. Intérpretes que possuem origem laica,
provavelmente, tiveram que se associar com intérpretes de origem religiosa e
se enquadrar num modelo que veio dessa experiência.
Por conta dessa trajetória pioneira que garantiu ricas experiências, o
intérprete de origem religiosa, algumas vezes já desvinculado dessa
experiência, teve um importante papel na conformação do campo profissional.
Entre as razões que lhe confere uma certa proeminência, estão elas: ter se
tornado modelo para os intérpretes em formação, fora e dentro da igreja; ter se
tornado intérprete oficial de líderes do movimento social surdo; ter circulado na
tv entre famosos; ter se tornado intérprete de intelectuais dos Estudos Surdos;
ter sido contratado por partidos políticos e pelo Estado para interpretação
televisiva; estar se organizado em associações de classe e ter contato com
organizações semelhantes no exterior. Essa trajetória, que lhes confere status
e poder político, faz com que ele tenha legitimidade para a avaliação de outros
intérpretes.
Como essa tecnologia, a interpretação para Libras, foi desenvolvida para
atender os interesses da missão cristã, é possível que surjam algumas
contradições no momento em que ela é transbordada para o mundo secular
sob uma lógica de mercado.
Em termos bem gerais, a atividade missionária implicou numa relação
calcada na atividade de interpretação voluntária, sem tempo determinado;
interpretação essa motivada por uma ética cristã, em que o intérprete tinha o
dever moral de mostrar o que é certo e errado para o surdo, dando a sua
opinião de cristão. Ademais, o intérprete, de certo modo, desempenhou outras
atividades que não somente de intérprete, mas também de pastor, professor,
psicólogo, advogado, médico e protetor, ou seja, uma certa assistência esteve
presente. Evidentemente, que não estou querendo reduzir essa relação surdo-
intérprete a mero assistencialismo, já que o que melhor caracteriza essa
relação no interior da experiência religiosa é o partilhar de códigos
comunicativos.
Ao contrário da experiência religiosa, no mercado não pode haver
trabalho voluntário, o trabalho é pago por tempo determinado, até mesmo para
assegurar e legitimar a profissão. Nesse caso, a ética profissional é não

53
mostrar o que é certo ou errado, a interpretação deve estar desvinculada de
qualquer doutrinação moral. Se na missão o intérprete deve refletir em seu
corpo a doutrina cristã, no mercado o intérprete deve pretender ser
transparente e neutro, esse é o seu dever técnico.
Evidentemente que nesse processo as expectativas dos surdos do que
deve ser um intérprete também devem se alterar, já que aquele modelo foi
construído conjuntamente com eles. O intérprete não é mais o protetor
missionário, que lembra dos seus compromissos, ajuda com suas obrigações,
está disponível em qualquer dia da semana ou em qualquer hora. Ele é tão
somente um profissional pago por determinado tempo para realizar uma
função. Por conta de essa relação assumir critérios comerciais, os surdos
podem escolher intérpretes que melhor se adeqüem aos seus hábitos
lingüísticos e gostos.
As alterações jurídicas recentes, o decreto federal 5626 de 22/12/2005,
parecem sinalizar reformulações na relação surdo-intérprete. Há agora
garantias jurídicas e institucionais para conformar a surdez como diferença
lingüística no espaço público, e nesse processo, intérpretes passam
definitivamente por um processo de profissionalização, com formação laica
específica. Nos parece que foi a consonância entre o movimento social surdo,
os Estudos Surdos e essa atividade missionária que forjaram essa nova
experiência da surdez. É necessário considerar que esse esforço de
secularizar a profissão não implica a diminuição da prática de interpretação na
experiência religiosa, já que diferentes instituições religiosas, em todo o
território nacional, permanecem formando intérpretes. De qualquer modo,
intérpretes, fora ou dentro da igreja, continuam tendo o papel crucial de
produzir novas experiências da surdez.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Ronaldo de. “Tradução e mediação: missões transculturais entre


grupos indígenas”, in: MONTERO, Paula. Deus na aldeia: missionários,
índios e medicação cultural. São Paulo: Globo, 2006.

54
CAMARGO, Cândido Procópio F. de. Católicos, protestantes e espíritas.
Petrópolis: Vozes, 1973.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo


no Brasil. São Paulo, Loyola. 1999.

MENDONÇA, Antônio Gouveia. Um panorama do protestantismo atual. In:


LANDIM, Leilah (org.) Sinais do Tempo: Tradições Religiosas no Brasil. Rio
de Janeiro: Cadernos do ISER – Instituto de Estudos da Religião, nº 22, 1989.

OATES, Eugênio. No silêncio da fé: catequese e oração na linguagem das


mãos. Aparecida: Santuário, 1990 [1961].

______________. Linguagem das mãos. Aparecida: Santuário, 1988 [1969].

55
ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO DOS DISTÚRBIOS OCUPACIONAIS
RELACIONADOS AOS MEMBROS SUPERIORES NOS
INTÉRPRETES DE SURDOS.

Eugênio da Silva Lima 1

RESUMO:

Os surdos comunicam-se entre si utilizando livremente a língua de sinais. Para


promover a interação destes com o meio devido às políticas publicas de inclusão, a
profissão de interpretes de sinais tem estado em evidencia. Esses utilizam
repetitivamente o membro superior da cintura pélvica até acima da cabeça para a
sinalização, predispondo ao desenvolvimento de problemas músculos esqueléticos
devido à alta repetitividade de movimento, essas são chamadas lesões por esforços
repetitivos. O objetivo deste estudo foi analisar as possíveis causas e fatores dos
distúrbios ocupacionais que acometem os interpretes de Campo Grande, MS. Estes
foram avaliados através de um questionário especifico sendo realizado um exame
físico dos membros superiores, que era composto por avaliação postural de membro
superior, dinamometria, goniometria e perimetria. Os resultados revelaram através do
teste T-student e do qui-quadrado que algias nos membros superiores eram
principalmente em 80% dos que trabalhavam há mais de 2 anos. Alem disso
observou-se diminuição na força de preensão palmar do lado dominante nos
interpretes com quadro álgico no ombro. Estes resultados sugerem que os fatores
relacionados aos movimentos repetitivos em conjunto com posturas ergonomicamente
incorretas, aumentam os riscos de distúrbios ocupacionais. Devido a esse fato
observamos a necessidade de encaminhamentos futuros para se estabelecer
protocolos de prevenção ergonômica dentro das instituições onde trabalham os
interpretes a fim de evitar o desenvolvimento de patologias relacionadas ao trabalho
repetitivo.

PALAVRAS-CHAVES: Língua, Sinais, Membros superiores, Distúrbios


ocupacionais.

INTRODUÇÃO

No Brasil atualmente segundo o IBGE (2000), cerca de vinte e quatro


milhões de pessoas são portadoras de algum tipo de deficiência,
representando 14% da população, desse total cerca de 5,7 milhões são
portadoras de deficiência auditiva. Essa população convive no meio social com
uma comunicação livre conhecida como Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).¹

1
Fisioterapeuta.

56
O profissional que promove a interação da pessoa surda com a
sociedade e a comunidade ouvinte é o intérprete. 6Estes tem ganhado espaço
e vem sendo contratados para atuar em todas as frentes de trabalho. ²
No Brasil em função da implantação das políticas de inclusão que
promovem a inserção dos surdos em escolas desde o ensino fundamental,
também em empresas e em outros setores, observou-se a necessidade desse
profissional na vida social do surdo promovendo assim a interação com a
comunidade ouvinte. 4
O Ministério da Educação e Cultura – MEC conceitua o intérprete ou
tradutor como sendo a pessoa que traduz de um língua para outra.
Tecnicamente, tradução refere-se ao processo envolvendo pelo menos uma
língua escrita. Assim, tradutor é aquele que traduz um texto certo de uma
língua para a outra. Esse profissional está completamente envolvido na
interação comunicativa social e cultural com poder completo para influenciar o
objeto e o produto da interpretação. Ele processa a informação dada na língua
fonte e faz escolhas lexicais, estruturais, semânticas e pragmáticas na língua
alvo que devem se aproximar o mais apropriadamente possível da informação
dada na língua fonte. 5
A ferramenta desse profissional é a linguagem de sinais, sendo que o
campo visual para o desenvolvimento dessa linguagem, abrange a área da
cintura pélvica até acima da cabeça , sendo as estruturas do membro superior
(pulso, região palmar, dorsal, região lateral, dedos mínimos, anulares, médios,
indicador, polegar e ponta dos dedos, antebraço, cotovelo, ombro) muito
utilizadas. Dessa forma é necessário que essas estruturas referidas estejam
biomecanicamente corretas para uma melhor performance durante a
sinalização.6,7
Em função da intensa utilização dos membros superiores como já
citado anteriormente nessa linguagem podem ser desenvolvidas alterações no
sistema musculoesquelético, devido ao uso repetitivo da sinalização com o
membro superior os chamados distúrbios ocupacionais.³
Essas não se relacionam somente com os intérpretes, pois, toda
atividade manual já utilizada por períodos prolongados pode desencadear as
lesões por esforços repetitivos (LER).

57
As LER constitui problemas relacionados às patologias do trabalho e se
configura como um fenômeno universal de grandes proporções e em franco
crescimento. Tem sido considerada causadora de grandes distúrbios em
alguns centros urbanos, com prejuízos generalizados para pessoas,
8
organizações, Previdência Social e sociedade.
Segundo normas técnicas sobre LER do INSS (1993), é uma
terminologia usada para determinar as afecções que podem acometer tendões,
sinóvias,músculos, nervos, fascias, ligamentos, de forma isolada ou associada,
com ou sem degeneração dos tecidos, atingindo principalmente os membros
superiores, região escapular e pescoço, de origem ocupacional, decorrente de
forma combinada ou não do uso repetido de grupos musculares, do uso
forçado de grupos musculares e da manutenção de postura inadequada.25
Outros autores definem como disfunções que se manifestam
clinicamente através de sintomas, tais como, fadiga, sensação de peso e
queimação, que aparentemente decorrem de em desajuste entre a exposição a
uma demanda física e a capacidade individualmente do organismo a uma
reação. 9,10
Fatores de risco para a LER, seja, principais ou primários são: força,
repetitividade, postura e movimentos. Outros fatores são considerados como
risco para o surgimento de distúrbios ocupacionais em situações especificas,
tais como: vibração, compressão mecânica.¹¹
Autores relataram que em virtude da alta repetitividade de movimentos,
o uso de força excessiva e as posturas extremas e incorretas favorecem o
aparecimento de conjunto de lesões e disfunções que acometem os membros
superiores.11,12
A LER também esta associada a sintomas psicológicos e um baixo
nível de controle ergonômico no trabalho, contribuindo para que fatores
biomecânicos interfiram para o aparecimento dessa patologia. 13,14
A profissão de Intérprete tem sido identificada como risco para
problemas relacionados ao trabalho em função das formas de comunicação
manual exigirem uma função única dos membros superiores, com isso os
movimentos repetitivos de mão, punhos e braços são intensos podendo
desencadear transtornos biomecânicos.15,16

58
Até a presente data em revisão de literatura que abordam essa
temática encontramos estudos escassos para identificar as causas de doenças
ocupacionais nos intérpretes, pouco se sabe a respeito das complicações e
queixas que a língua de sinais realizados por esses profissionais pode causar
em relação a doenças ocupacionais, mas a idéia que se tem é que as
interpretações prolongadas sem um período de descanso também levam a um
risco de lesões nos membros superiores.13,17
Em função da Língua de Sinais ser desenvolvida através dos
movimentos dos membros superiores Cohn (1990) relata ser imprescindível à
investigação da presença ou não de distúrbios ocupacionais relacionado aos
membros superiores nos intérpretes de pessoas surdas a fim de apresentar
informações e estimular a prevenção de doenças ou lesões causadas por
diversos fatores ergonômicos.18,19
Contudo, a importância da implementação de estratégias para redução
de risco de doenças ocupacionais torna-se necessário, tendo em vista as
complicações musculoesqueléticas dos intérpretes já relatadas na literatura.
Faz-se necessário um estudo epidemiológico dos distúrbios ocupacionais
nestes profissionais na cidade de Campo Grande, MS, objetivando constatar
possíveis alterações nos membros superiores para posteriormente serem
implantadas estratégias para redução de risco dos distúrbios ocupacionais,
objetivando a melhoria na qualidade de vida profissional dos interpretes de
língua de sinais.

METODOLOGIA

A população previamente estudada foram 30 intérpretes de Campo


Grande – MS, escolhidos aleatoriamente em diversas instituições públicas e
privadas especializadas no trabalho com a pessoa surda, sendo de ambos os
sexos na faixa etária entre 20 e 47 anos. Entretanto 5 não atenderam as
necessidades e foram encaixados no critério de exclusão, após explicado os
objetivos do estudo todos assinaram um termo de consentimento informado.
Para a coleta dos dados foi elaborado um questionário constando dados
pessoais e perguntas objetivas sobre suas atividades de vida diária e
Profissional (tempo de profissão, dia e horas trabalhados).

59
Após a aplicação do questionário procedeu-se ao exame físico que
constava de goniometria da articulação do ombro, cotovelo e punho, perimetria
de braço, antebraço e dedos, dinâmometria de ambos os lados e teste de força
muscular e posteriormente coletado imagens através de câmera fotográfica
(Benq®, Taiwan, China) dos principais sinais que causam desconfortos nos
intérpretes.
Foram explicados os objetivos do estudo para os voluntários e a seguir
os que concordaram assinaram um termo de consentimento informado, como
critérios de exclusão foi estipulado que os voluntários não deveriam estar em
tratamento médico, ter sofrido traumas ou lesões nos membros superiores, ou
que sejam digitadores, pintores ou costureiras e que trabalhem num período
inferior a 5 horas diária. A pesquisa foi realizada no período de 22/08/2005 à
29/08/2005 em diversas instituições publicas e privadas (Escola Municipal
Arlindo Lima, Centro Apoio ao Deficiente da Audiocomunicaçao – CEADA,
Primeira Igreja Batista de Campo Grande, Centro de apoio ao Surdo – CAS,
Escola Estadual Vespasiano Martins, Escola Municipal Bernardo Franco Baís)
de Campo Grande,MS.
Na realização do exame físico com goniometria (CARCI, São Paulo,
Brasil), foram realizados mensurações da amplitude articular do ombro, braço,
cotovelo, antebraço e punho de ambos os lados estando os indivíduos em
posição ortostática, com o goniômetro colocado de forma que permitisse a
máxima angulação da amplitude do voluntário. A seguir foi realizado mesmo
processo para mensuração com fita métrica da circunferência muscular de
membro superior (braço, antebraço, mão, cinco e quatro dedos) utilizando a
distância de 7 centímetros. Para a verificação da força de preensão palmar
utilizamos o Dinamômetro Isométrico (JAMAR®, Nova York, E.U.A) onde os
participantes permaneceram sentados em uma cadeira com encosto, com o
braço junto ao corpo e cotovelo na angulação de 90º. o teste foi realizado 3
vezes em ambos os membros superiores sendo feita a média final das três
avaliações.
Em seguida procedeu-se a avaliação postural de membro superior
sendo realizada com o participante em posição ortostática em vista ântero-
posterior, postero-ânterior e de perfil observamos presença ou não de
assimetrias dos ombros, escapulas e ângulo de Tales. Também foi realizado

60
teste muscular manual de Kendall (1974)20, para verificação e comparação de
alterações ou não quanto a força nos membros superiores dos interprete, este
teste foi realizado com o paciente sentado sendo aplicada sobre cada
musculatura especifica e em ambos os membros superiores.
Objetivando uma melhor identificação dos sinais que causam
desconforto a essa população foi solicitado ao voluntário que permanecesse
em posição ortostática e reproduzisse o (os) sinal (is) na linguagem de sinais
que proporcionasse algum tipo de desconforto, sendo este em seguida captado
por câmera fotográfica.
Os dados colhidos foram dispostos em tabelas e enviados para analise
estatística. Para tratamento estatístico foi utilizados o teste qui-quadrado e o T-
student independent e o programa estatístico eleito foi o Sigmastat versão 2.0.

RESULTADOS

Os resultados deste estudo mostram que dos 30 intérpretes que foram


voluntários somente 25 participaram sendo que 5 foram excluídos da pesquisa,
pois, não atenderam as necessidades estipuladas para o prosseguimento da
pesquisa. A idade dos participantes variou entre 20 e 47 anos, sendo a média
de 29,48±6,29 anos. Em relação ao sexo, 80% (n=20) dos entrevistados eram
do sexo feminino e 20% (n=5) eram do sexo masculino.
Quando questionados quanto ao tempo de profissão em anos que os
intérpretes exerciam o resultado foi de 4,51±3,39 anos. Em relação a carga
horária média de 7,12±2,26 horas por dia.
Com relação à pratica de atividade física apenas 36% (n=9) praticavam
regularmente sendo que 3,56±1,51 praticavam 1 vez por semana, e o restante
cerca de 64% (n=16) não praticavam nenhum tipo de atividade física.
Ao analisarmos o lado dominante do intérprete, verificamos que dos 25
entrevistados apenas 1 era canhoto e os demais destros e utilizavam sua
própria dominância para datilologia. Apenas 1 intérprete já havia realizado uma
tenorrafia no membro superior direito, especificamente no túnel do carpo
devido alta repetitividade de movimentos.
A pesquisa revelou que 36% (n=9) já foram submetidos a tratamento
fisioterapeutico desses apenas 15% (n=3) foram para os membros superiores,

61
onde no tratamento fisioterapeutico visou à redução do quadro álgico e melhora
da força muscular dos membros superiores.
Em relação ao quadro álgico nos membros superiores 80% (n=20)
referiram dor, sendo que 65% (n=13) destes apresentavam dor localizada no
ombro. Na figura 1 é representado o valor percentual para cada segmento
corporal do membro superior que são mais afetados pela dor.
Os 20% (n=5) que não apresentaram quadro álgico nos membros
superiores eram do sexo feminino e isso tem grande significância em relação a
dinâmometria para as mulheres com dor e sem dor.
Questionados quanto ao tipo de dor cerca de 40% (n=8) dos intérpretes
relataram ser esta do tipo queimação, 30%(n=6) latejante, 25% (n=5) ardência
e 15% (n=3) pontada, sendo que uma grande parcela relatou intensidade leve
55% (n=11), 35% (n=7) relataram dor moderada e apenas 10% (n=2)
apresentavam dor do tipo forte. Os resultados quanto ao horário de acentuação
do quadro álgico após vários períodos de interpretação foi relatado pelos
intérpretes em 70% (n=14) como sendo no período noturno, e os demais foram
15% (n=3) no período vespertino, 10% (n=2) no período matutino e 5% (n=1)
relataram ser em períodos variados.
Questionamos sobre o caráter da dor sendo que esta foi considerada
por 80% (n=16) dos intérpretes como intermitente e 20% (n=4) relataram dor
constante. Em relação a afastamentos do trabalho apenas 12% (n=3) dos
entrevistados haviam sido afastados do trabalho por lesão grave ambos os
membros superiores compatível com lesões por esforços repetitivos.
Dos 25 entrevistados apenas 40% (n=10) relataram realizar sinal na
língua de sinais e que durante ou após a realização causaram desconforto,
sendo o sinal de “mundo” (representado na figura 2) relatado por 20% (n=5)
dos intérpretes. Outro sinal cerca de 15%(n=3) relataram que o sinal que
representa a letra “E” (apresentado na figura 3) é o que causa maior
desconforto para sinalizá-lo, e os sinais representando letra “X”, “E” e “G” foram
apresentados apenas por 1% dos intérpretes.
O fator desencadeante de dor em 90% (n=18) relacionasse com o ato
de sinalizar e apenas 10% (n=2) relataram que qualquer outro tipo de esforço
desencadeava dor nos membros superiores. A elevação do ombro acima de
90º de amplitude 65% (n=13) era o fator de exacerbação do quadro álgico nos

62
membros superiores e 30% (n=5) eram por posturas incorretas durante a
sinalização.
Dos entrevistados, 40% (n=8) relataram que o quadro álgico nos
membros superiores interfere nas suas atividades de vida diária e profissional
No exame físico, 76% (n=19) apresentavam posicionamento normal do
ombro, 24% (n=16) apresentavam assimetria de ombro à direita e dor a
esquerda, e apenas 2 participantes apresentavam ângulo de Tales menor a
esquerda e escápula alada., sendo observado em postura ortostática em perfil,
ântero-posterior e postero-ânterior.
Na avaliação com dinâmometria, a preensão palmar média para
indivíduos do sexo masculino foi de 33,0±7,0 Kgf e 30,6±6,3 Kgf para os lados
direito e esquerdo, nas pessoas do sexo feminino a preensão média foi de
22,0±3,9 Kgf e 23,2±4,4 Kgf para os lados direito e esquerdo respectivamente.
Devido a grande quantidade de participantes do sexo feminino 80%
(n=20), o teste T-Student revelou na avaliação com dinamômetro que a
preensão palmar do lado direito das mulheres que relataram dor (22,0±0,9), foi
significantemente menor do que das mulheres que não sentiam dor (26,8±3,9;
p=0,03). Já para o lado esquerdo não houve diferença significativa entre as que
sentiam dor (22,0±0,9) e as que não relataram dor (21,5±0,9; p<0,05). Estes
dados estão representados na figura 4 em comparação de ambos os membros
superiores.
Em relação a goniometria, a amplitude de movimento das articulações
dos membros superiores avaliadas estavam dentro dos padrões de
normalidade em todos os examinados, corroborando com a literatura
(CIPRIANO, 1999)21 que descreve os padrões normais para amplitude articular
de membros superiores. O resultado obtido em relação a perimetria não
demonstrou haver diferença significativa quando comparado em ambos os
membros superiores o que mostra que a circunferência muscular de ambos os
lados tanto ombro, braço, antebraço, cinco dedos e quatro dedos se
mantiveram na sua normalidade.
Durante a avaliação da força muscular dos membros superiores
(ombro, braço, antebraço, cotovelo, punho e dedos) todos os avaliados
apresentavam grau 5 para força muscular, ou seja, segundo Daniels (1986)22

63
completam todo arco de movimento vencendo a gravidade e a resistência
imposta pelo examinador.

DISCUSSÃO

O presente trabalho avaliou dentre a população de intérpretes para


pessoas surdas na cidade de Campo Grande, MS, as possíveis causas de
doenças ocupacionais que acometam essa população, utilizando como método
de análise avaliação física (incluindo goniometria, dinâmometria, perimetria e
avaliação postural). Foi aplicado um questionário especifico para coleta dos
dados, sendo estes considerado suficiente melhor identificação dos problemas
que afetam os intérpretes, já que representam dados fidedignos relatados pelos
avaliados.
Todos os participantes da pesquisa exercem a profissão de interprete
em determinadas instituições, seja ela escola, universidade, empresas por mais
de dois anos corroborando com os demais autores que relatam a incidência de
LER a partir de dois anos de trabalho.9
De acordo com nossos resultados verificamos que as pessoas do sexo
feminino são mais expostas a desenvolver doenças ocupacionais, justificando
assim esse resultado. Também um outro fato a ser considerado é que revela a
quantidade de mulheres interprete que na maioria das vezes são em grande
quantidade numa determina região.3,13,15,16,23
A faixa etária da população foi uma variável considerada em nosso
estudo, pois, importantes causas de distúrbios ocupacionais são detectadas de
acordo com a idade, observa-se que a idade entre 20 e 47 anos ocorre um
declínio no sistema fisiológico o que contribui para mal ajustes posturais
acentuando-se a tendência de doenças ocupacionais, sendo que a literatura
relata que idade entre 25 e 45 são fatores para o surgimento de distúrbios
ocupacionais.14,16,24
Corroborando-se com um relato da literatura nossos resultados foram
significantes em relação a prática de exercícios regular, onde são relatados
como fator de melhora do stresse e fadiga pelos interpretes, mas infelizmente a
pratica não regular se mostra ineficaz entre os interpretes o que promove o
surgimento de fatores para distúrbios ocupacionais.3

64
Continuando a análise, em relação a dominância foi constatada
preferência pelo lado direito e também ressalta a existência de maiores casos
de lesões por esforços repetitivos, onde na literatura esses dados são
escassos, até o presente momento.
Outra variável investigada em nossos estudos foi a realização de
intervenção cirúrgica nos membros superiores o que mostrou apenas um
tenorrafia do túnel do carpo. A literatura relata ser comum na pratica clinica
cirurgias que envolvam o canal do túnel do carpo em conseqüência da
descarga maior de movimentos repetitivos nessa região.7,16
Ao questionarmos sobre tratamento fisioterapeutico realizado pelos
intérpretes em virtude da LER nossos resultados demonstraram que quando
realizado o tratamento nos membros superiores apenas 15% (n=13) foram
executados simplesmente com o objetivo de reduzir quadro álgico e ganhar
força.19
Face exposto, em nosso estudo que o quadro álgico é uma das
principais causas de doenças ocupacionais, cerca de 80% da população
avaliada, corroborando com a literatura de que a causa primaria para o
surgimento de distúrbios ocupacionais são o quadro álgico juntamente com o
fator psicológico.14
Em contrapartida, autores revelam que os interpretes trabalham a mais
de um ano na profissão sem ter um cuidado especifico para o surgimento da
LER sem levar em consideração as causas futuras que isso pode acarretar no
seu sistema musculoesquelético.7,19 Causas essas que levam a exacerbação
do quadro álgico durante ou após a sinalização, onde na maioria dos casos são
acentuadas no período noturno, com quadro de dor latejante e intermitente. A
literatura relata que a dormência e a fadiga são revelados pelos intérpretes
como um fator que desencadeia a LER e até mesmos lesões nos tecidos moles
são causas dessa patologia.13,14
As elevações constantes do ombro acima de 90º associado a posturas
inadequadas por longos períodos foram relatadas por 65% (n=13) e 30% (n=5)
respectivamente, como uma agravante dos fatores de risco para o surgimento
dos distúrbios ocupacionais durante a interpretação (sinalização), o que mostra
que mesmo com a utilização dos membros superiores desde a cintura até
acima do ombro pelos interpretes se torna difícil a correção a menos que as

65
instituições estipulem ou elaborem programas de prevenção ergonômicos, para
uma melhor interpretação, até por isso se faz necessários essas correções
para que os sinais não sejam mal elaborados e mal interpretados pelos
próprios surdos que são o publico alvo.19,23
O exame físico dos intérpretes 76% (n=19) apresentavam
posicionamento normal de ombro, sendo esta amostra compatível com os
parâmetros de normalidade, mas a literatura revela que esses quadros podem
se agravar devido a excessos de interpretações como possíveis assimetrias do
ombro, hipertrofia de determinadas musculaturas, retessamento de nervos
especificamente do túnel do carpo, pelo desenvolvimento excessivo das
articulações gleno-umeral e principalmente radio-carpal.14,16,24
Devido à abordagem pioneira de nosso experimento, os dados contidos
na literatura são escassos e fragmentados, o que mostra a relevância de
nossos ensaios.
Desta feita ao mensurarmos a força de preensão palmar através de
dinamômetro isométrico, observou-se dentro dos parâmetros de normalidade
para homens e mulheres um déficit na força de preensão palmar relacionado
ao lado dominante. Nossos resultados mostraram que a perda significativa de
força de preensão palmar nas mulheres que relataram quadro álgico foi menor
naquelas que não sentiam sintomas álgicos (p=0,03), isto ocorre por existir um
significativo número de mulheres interpretes e onde verifica-se os maiores
fatores de risco para problemas ocupacionais.
Ao serem avaliados para observação da amplitude articular, os
resultados revelam não haver alterações significativas dos parâmetros de
normalidade, corroborando com a literatura do Cipriano (1999)21. E a
mensuração da circunferência muscular com distancia de 7 centímetros
demonstraram estar de acordo com os parâmetros de normalidade.
Sendo assim, entendemos que a verificação dos fatores e causas que
contribuem para o dos distúrbios ocupacionais nos interpretes torna-se
imprescindível tendo em vista os dados escassos sobre essa população até o
momento, pois, verificamos que esse exercício profissional torna-os
susceptíveis a lesões por esforços repetitivos.

66
CONCLUSÃO

Os resultados obtidos neste estudo mostram que os distúrbios


ocupacionais relacionados aos membros superiores dos intérpretes estão
associados a um conjunto de movimentos repetitivos e posturas
ergonomicamente incorretas de toda a estrutura dos membros superiores,
fatores esses que se relacionam com os distúrbios ocupacionais, além disso, o
excesso de interpretações diárias sem intervalos para repouso dos interpretes
favorecem o aparecimento de lesões por esforços repetitivos.
Com os resultados desse estudo pretendemos mostrar aos
profissionais intérpretes a necessidade de conhecer os fatores risco
profissional e a importância da prevenção destes evitando assim o
aparecimento de LER e propor encaminhamentos futuros para programas de
Fisioterapia preventiva na questão ergonômica dentro de instituições para que
os interprétes trabalhem visando que se evite afastamentos ou até mesmo
dispensas do trabalho por afecções relacionadas aos trabalhos repetitivos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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portadora de deficiência auditiva. Boletins Técnicos do Senac, São Paulo;
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69
SAÚDE MENTAL E QUALIDADE DE VIDA DO INTÉRPRETE DE LIBRAS

Sandro Teodoro Sandim 1

RESUMO: Desenvolvemos uma análise das situações cotidianas que afetam a


saúde mental do intérprete e dos processos de superação das dificuldades
para manter-se a qualidade de vida.

PALAVRAS-CHAVES: saúde mental, qualidade de vida, intérprete de libras.

Saúde Mental e Qualidade de Vida do Intérprete de LIBRAS

O tempo parece passar cada vez mais rápido. Os afazeres do cotidiano,


problemas e situações a serem resolvidas, compromissos, vida social, familiar
e vida profissional .
Com tantos afazeres e tanta correria, o nosso corpo começa a sentir-se
desconfortável com tudo isso. Mas será que é somente o corpo físico? E a
nossa mente, como reage?
Na verdade a mente humana é a primeira a sentir a sensação de
desconforto em relação ao corpo físico. Nosso cérebro emite sensações e
estímulos ao nosso corpo, dizendo que alguma coisa está errada.
A vida ativa e cheia de cobranças, em que nos encontramos hoje, onde
as inseguranças e incertezas são estampadas a cada amanhecer, nos levam
muitas vezes a não impor limites em nossos afazeres, e isso pode ser
perigoso, ainda mais se, aliado as tarefas que exigem certo esforço, de
atividade física ou mental.
Nestas circunstâncias, o indivíduo pode desencadear “doenças da
mente”, como patologias, stress, depressão, síndromes, transtornos e outros.
Sendo assim, a saúde mental e a qualidade de vida deste indivíduo,
estará seriamente comprometida em todos os aspectos.
Falaremos aqui sobre a saúde mental e a qualidade de vida do
Intérprete de LIBRAS. Para isso faz-se necessário compreender melhor o
significado de saúde mental e qualidade de vida.

1
Psicólogo e intérprete de língua Brasileira de Sinais.

70
O que vem a ser Qualidade de Vida?
Segundo BULLINGER e COIS 1993, o termo Qualidade de vida é bem
mais geral e inclui uma variedade potencial, maior que condições que podem
afetar a percepção do individuo , seus conhecimentos e comportamentos
relacionados com seu funcionamento diário não se limitando a sua condição de
saúde.
Para WHOQOL (World Health Organization Quality of Life) Qualidade de
Vida, se define na percepção do individuo em relação a sua posição de vida no
contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos
seus objetivos , expectativas, padrões, e preocupações.
Mas afinal, de modo claro, o que vem a ser qualidade de vida, ou vida
com qualidade?
Muitas respostas soam a mente, tais como: é ter muito dinheiro, ou é ter
tudo que eu preciso, ou mesmo ter muita saúde, e assim por diante. Mas é
necessário levar em conta, entre outros aspectos, a individualidade de cada
pessoa, a sua cultura e ambiente de vivencia, o tempo histórico vivido.
Apesar disso, no domínio da medicina e da psicologia tem havido uma
preocupação em avaliar os parâmetros que definem o que realmente vem a ser
uma vida boa, tendo-se focado quer na identificação dos domínios do
quotidiano que são relevantes para essa qualidade da vida, quer na
determinação das suas dimensões e das variações comportamentais e afetivas
associadas com as características pessoais e ambientais.
Com efeito, a avaliação da vida é considerada como uma medida das
ligações de uma pessoa à sua vida no presente, em resultado não apenas do
prazer e da ausência de desconforto, mas também da esperança, da crença no
futuro, dos propósitos, do sentido da vida, da persistência e da auto-eficácia.
Neste sentido, a avaliação da vida é o conjunto dos juízos, emoções e
projetos no futuro de onde decorre, entre outras, a idéia de quanto tempo se
deseja viver. Esta noção implica o modo como os fatores ambientais, pessoais,
os acontecimentos negativos e positivos, a doença expressa no corpo ou na
mente, contribuem, em conjunto, para o modo como as pessoas avaliam a sua
vida.
Desde os anos 70 que tem havido uma preocupação em investigar,
através dos indicadores sociais, os níveis de bem-estar, satisfação e qualidade

71
de vida nas populações e identificar quais são os determinantes destes
estados.
Alguns dos resultados dessas investigações parecem demasiado óbvios:
os indivíduos são mais felizes em sociedades mais prósperas, quando estão no
topo e não no início da escalada social, quando são casados e quando têm
redes de suporte social adequadas.
Contudo, apesar destas generalizações simplistas e muita propaganda,
outros estudos têm demonstrado que este bem-estar social não é a condição
necessária para que se desenvolva um sentimento de bem-estar. Não só os
cidadãos não parecem mais felizes pelo fato de a economia dos seus países
estarem a aumentar o seu rendimento per - capita, como as pessoas que
ganham na loteria não parecem mais felizes do que a média das pessoas e
mesmo alguns doentes vivem de uma forma muito positiva e satisfatória com
as suas doenças consideradas pelas pessoas sadias como sendo
extremamente severas e indesejáveis.
Então o que será importante para que alguém se sinta bem?
Um recente estudo da OMS em 15 países distribuídos por vários
continentes, salienta que existem alguns indicadores universais para uma boa
qualidade de vida. Segundo esse estudo as pessoas valorizam alguns
aspectos práticos da vida como a possibilidade de desempenharem as
atividades do dia-a-dia de uma forma autônoma e sem moléstias físicas, a
possibilidade de ver e ouvir bem, de ter energia e ser capaz de se mover. Ao
contrário do que alguns poderiam pensar, quer a imagem corporal e a
aparência, quer a satisfação com a sua vida sexual não mereceram, a julgar
por esse estudo, um lugar de primazia.

O que vem a ser é Saúde Mental

Segundo OMS, saúde mental (HUMANA) = capacidade de, mediante a


interação harmônica de intenções passíveis de serem verbalmente
representadas, orientar o próprio comportamento de forma a, dentro das
limitações impostas pelo meio ambiente, obter o máximo possível de prazer e
de funcionalidade.

72
Saúde mental é como nós pensamos, sentimos e agimos ao enfrentar as
situações da vida, é bom funcionamento dos processos psíquicos. É como
vemos a nós mesmos, nossas vidas e as pessoas que conhecemos e
queremos bem.
A saúde mental também nos ajuda a determinar como controlamos o
nosso estresse, como nos relacionamos com outras pessoas, como avaliamos
as nossas opções e como tomamos as nossas decisões. Como a saúde física,
a saúde mental é importante em todos os estágios da vida.

Problemas relacionados à Saúde Mental

Problemas de saúde mental nem sempre podem ser notados, mas os


sintomas podem ser reconhecidos. Alguns destes problemas são a depressão,
ansiedade, conduta, alimentação e distúrbios de hiperatividade e atenção.
Problemas de saúde mental afetam uma em cada cinco pessoas, em qualquer
momento. A saúde mental de uma pessoa não tem nenhuma relação com a
sua capacidade intelectual.

Cuidado com as doenças psicossomáticas

A palavra “psicossomático” (“psico” = “mente”, enquanto que “somático”


= “soma” = “corpo”), significa que algo atinge seu corpo produzindo sintomas
cuja causa é originada em processos mentais de pensamentos e sentimentos.

Conflitos mentais podem desencadear ou agravar sintomas ou doenças


como dor nas costas, dor muscular, dor de cabeça, certas doenças de pele, dor
nas articulações, colite ulcerativa, infecções freqüentes e tantas outras
enfermidades e sintomas.
Como saber se seus sintomas têm origem no corpo ou na mente? Que
caminhos tomar para adquirir saúde? Segundo o Psicoterapeuta César
Vasconcellos, podemos tomar os seguintes cuidados :

73
1. Submeta-se a um exame médico com clínico geral dando preferência ao
profissional que tem a visão do paciente como um todo, com as dimensões
física, mental e espiritual.
2. Se após o exame físico e de laboratório não houver causa física conhecida
que explique seus sintomas, considere submeter-se a uma avaliação
psicológica com psicólogo clínico ou psiquiatra.
3. Antes de tudo, se seus sintomas não são emergenciais ou graves,
modifique seu estilo de vida e verifique o que ocorrerá dentro de um a três
meses, e sua saúde. Modificações no estilo de vida incluem: eliminar
cafeína (bebidas “cola”, café, guaraná, chá verde, chá preto), eliminar
bebidas alcoólicas, adotar alimentação vegetariana, praticar exercícios
físicos diários (caminhadas diárias de 30 minutos pelo menos), ingerir água
pura entre as refeições, tomar duas refeições ao dia (desjejum e almoço)
substanciosas, e um lanche leve, se preciso, pelo menos três horas antes
de dormir à noite, não tomar líquidos às refeições, não beliscar entre as
refeições, expor-se ao sol 15 minutos diariamente, ir dormir no máximo 10
da noite em ambiente ventilado e escuro, descansar do trabalho regular um
dia por semana, etc. Com tais modificações em sua vida, sua saúde
melhorará muito e você poderá não mais necessitar de medicamentos
convencionais e sintomas poderão desaparecer.
4. Desordens psicossomáticas são defesas usadas pelo corpo para aliviar a
mente.
5. Desordens psicológicas são expressões de sofrimento.
6. Somos uma unidade corpo-mente-espiritualidade. Corpo afeta a mente e
vice-versa.
7. Saúde total tem que ver também com desenvolvimento espiritual. Deus nos
convida para nos dar uma mente espiritual que não é dependente de
cultura, posição social, riqueza material.
8. Cultive pensamentos positivos. “... tudo o que é verdadeiro, tudo o que é
honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o
que é de boa fama, se há alguma virtude”.
9. Cultive sentimentos bons como: compaixão, perdão, simpatia, bondade,
cooperação compreensão.

74
Hoje em dia, fala-se muito em saúde mental. Mas afinal, quais
seriam as dicas para se ter uma mente saudável?

Quem muda o corpo, muda também sua cabeça e suas emoções.

Mente e corpo estão baseados num elemento básico que é o oxigênio.


Portanto, um grande aliado é a prática de um exercício físico, de preferência
atividades cardiovasculares. Não podemos solidificar uma saúde mental, em
cima de um corpo débil, incapaz de reparar as perdas inerentes às próprias
necessidades diárias.

Ganho mental, emocional e espiritual.

É preciso fazer um contato com a natureza para se ter um ganho mental,


emocional e espiritual.
Ao correr ou caminhar, você entra em estado de meditação ativa, pois
quanto mais você envolve e exige do seu corpo fisicamente, mais você repousa
a sua mente e o seu cérebro, porque o cérebro se 'desobriga' de pensar. E isso
é meditação.
Procure um tempo para se desligar dos problemas cotidianos. Procure
os amigos para bater um papo, conversar assuntos agradáveis.
Em momentos de situações difíceis de enfrentar, procure não mergulhar
e se envolver somente nos aspectos negativos. Pare, pense, analise a
situação, faça as melhores escolhas. Procure relaxar e pensar positivo, sempre
há uma saída.
Sorrir é um ótimo remédio.
Ter fé em Deus. Estudos recentes descobriram no cérebro humano, um
ponto espiritual, chamado “Ponto de Deus”. Este ponto do cérebro é
responsável pela fé do ser humano. Desenvolver o lado espiritual, ( de forma
construtiva ) ajuda na saúde mental.
Estudando o processo teórico sobre qualidade de vida e saúde mental,
como então poderemos compreender o intérprete de LIBRAS neste contexto ?
Em que dinâmica este profissional se encaixa, em relação a sua saúde mental
aliada com sua qualidade de vida?

75
Sabemos hoje, que existe uma carência deste profissional, tanto no
mercado de trabalho, quanto no contexto social. Através de muitas lutas e
reivindicações, hoje se tem alcançado poucos, mais importantes avanços para
a inclusão, com isso a procura pelos cursos de LIBRAS vêem crescendo a
cada dia. Mas mesmo assim este número é considerado pequeno.
Pela carência do profissional, os intérpretes precisam se revezar, em
turnos de trabalho que muitas das vezes se tornam exaustivos, já que devem
conciliar, na maioria dos casos, o estudo e a obra religiosa ( já que muitos
intérpretes são orientados à sua formação em igrejas , para o atendimento
ministerial ). A problemática pode chegar ao ponto do intérprete “fugir” dos
surdos, dado ao seu cansaço físico e mental.
Outro fator importante é a questão da tradução do Português para Libras
e vise-versa. O intérprete precisa aperfeiçoar e desenvolver um processo
rápido e hábil de memória, cognição, percepção, motricidade e expressão
corporal, para que a tradução venha alcançar êxito, e a mensagem seja
fielmente transmitida.
Com essa dinâmica, muitos intérpretes, acabam por desenvolver certa
ansiedade, causada por vários fatores, como: cansaço mental, medo do
fracasso (em não entender ou não saber sinalizar corretamente ) dificuldades
na sinterização do Português x LIBRAS, entre outros. Esta ansiedade, pode
ser normal, desde que não se desenvolva de um estado passageiro e
momentâneo decorrente a situação, para um estado prolongado e duradouro,
onde há o perigo de desencadear vários tipos de problemas psicológicos,
como por exemplo, o indício de uma depressão.
Hoje a função do intérprete de LIBRAS, não é totalmente reconhecida,
como deveria. Não há plano de carreira, não há concursos públicos nem leis
que regularizem a situação do intérprete junto aos governos, já que as
estatísticas indicam que a grande parte dos intérpretes são funcionários
contatados pelos governos, para desempenharem a função de professor-
intérprete ( interpretar e auxiliar o aluno surdo junto ao processo de ensino-
aprendizagem nas instituições de ensino ), que em muitas das vezes não é
respeitado como profissional dentro da instituição de ensino por parte do corpo
docente.

76
Com este contrato, o profissional intérprete acaba que ao encerramento
das aulas, sendo dispensado, sem qualquer tipo de segurança das leis
trabalhistas (que negligenciam em relação a este s tipos de contratos
temporários), e sendo possivelmente contratado no início do próximo ano, ao
retornar o calendário escolar.
Sendo assim, como então se falar em qualidade de vida e saúde mental,
com tantas incertezas, inseguranças, e falta de instabilidade em seu campo de
trabalho?
Portanto, busquemos dentro de nós, a promoção do bem estar e a
crença que “somos aquilo que pensamos ser”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Family Should Know, 1998. DHHS Pub. No CA-000. Washington, D.C.:
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TEIXEIRA, João Marques. REVISTA SAÚDE MENTAL /VOLUME II, Nº2.


MARÇO/ABRIL 2000 Editorial 06 / 07

77
TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO EM LÍNGUA DE SINAIS COMO OBJETO
DE ESTUDO: PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA: 1980 a 2006.

Neiva de Aquino Albres 1

RESUMO

Tivemos como objeto de estudo a categorização dos artigos, dissertações e teses


produto de pesquisas elaboradas no Brasil a partir da década de 1980, que versassem
sobre a interpretação em língua de sinais. Para tanto, selecionamos os trabalhos e
desenvolvemos um mapeamento e construção de reflexões sobre estes textos e seus
conteúdos. Neste artigo, indagou-se a localização temporal e institucional da pesquisa
sobre interpretação em língua de sinais, bem como a identificação de tendências
quanto aos possíveis campos de pesquisa dos trabalhos. Agrupamos os textos em
sub-áreas conforme mapeamento proposto por Williams & Chesterman (2002) dentro
dos Estudos da Tradução. Constatamos que os mesmos estão tendendo à área de
atuação principalmente educacional, e de lexicografia. Verificamos a necessidade de
inserção da área em outras instâncias de conversação como política, estudo
comparado, entre outros.

PALAVRAS CHAVES: estudos da tradução, intérprete de libras, pesquisas


brasileiras.

INTRODUÇÃO

Se traçarmos, historicamente, o percurso da preocupação com a


definição e o mapeamento do campo disciplinar estudos da tradução, o resgate
nos leva a perceber nas publicações pioneiras seus fundamentos na lingüística,
tanto no contexto nacional quanto no contexto internacional. O trabalho de
Holmes, apresentado inicialmente em 1972 em Copenhague e publicado em
1988, configura-se como o primeiro veículo a manifestar a tentativa de
definição da área de estudos que, segundo proposta do próprio Holmes,
poderia beneficiar-se da denominação “Estudos da Tradução”: em The name
and nature of translation studies (1988), a nova disciplina é apresentada à
comunidade científica, em uma comunicação numa sub-seção de Lingüística
Aplicada.

1
Mestre pelo Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul. Fonoaudióloga, psicopedagoga, professora de surdos,
intérprete de Libras. Diretora administrativa FENEIS/SP e professora assistente do curso de
Letras/Libras UFSC no pólo USP.

78
A historia dos tradutores e intérpretes de língua oral não é recente, pois
a tradução no Brasil data a mais de 500 anos, mas o primeiro curso só foi
criado em 1968 na PUC –Rio, assim os estudos e formação destes
profissionais está praticamente entrando na maturidade neste momento.
(WYLER, 2004) Para Rónai (1952) a tradução até então era uma atividade que
se aprendia na prática e a custas dos leitores.
Aubert nos lembra que por muito tempo a tradução foi pensada como
uma estratégia pedagógica para aprendizagem de segunda língua, geralmente
quando utilizadas metodologias de gramática e tradução, considera que a “[...]
relativa recém-chegada à dignidade acadêmica, a teoria da tradução (por vezes
denominada como estudos Tradutológicos ou Translaition Studies) também
enfrenta situação de insegurança. (AUBERT, 2003: p. 11) Essa insegurança se
faz por conta do pouco tempo de cursos de tradução instituídos em
universidades, aproximadamente 30 anos, e escasso número de pesquisas
desenvolvidas em programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) com
linha de estudos específicos à tradução.
Em 1985, é criado o Grupo de Trabalho de Tradução da ANPOLL -
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística.
Em consonância com as tendências do cenário internacional, em 1997, a
ANPOLL cria os Grupos de Trabalhos Regionais de Tradução; o GTTRAD
Regional sediado na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, lança o
primeiro número dos Cadernos de Tradução. Na USP, são lançados Cadernos
de Literatura em Tradução e a revista TRADTERM. (PAGANO E
VASCONCESSLOS, 2004) Provavelmente reflexo dos trabalhos em âmbito
internacional, pois começam a ser lançados periódicos sobre tradução e teorias
da tradução em 1995 e 1997 respectivamente.
Mas na ANPOLL, as discussões sobre língua de sinais e o processo de
interpretação da mesma esteve ligado ao grupo Trabalho Linguagem e Surdez,
que dentre oito linhas de pesquisa destaca uma específica: Questões de
tradução e interpretação.
Encyclopaedia of Translation Studies (Baker, 1998.) é considerado um
marco divisor de águas, pois aparece no período do “boom” dos Estudos da
Tradução. Os anos 90 período de institucionalização, dentro da academia, da

79
formação de tradutores e intérpretes. Consideramos este marco
conseqüentemente pelo período de forte globalização.
No Brasil há uma vertente forte de estudo fundamentado no trabalho
descritivo, de sistematização dos procedimentos lingüísticos adotados nas
diferentes categorias de estudos tradutológicos derivadas da lingüística
comparada ou contrastiva (BARBOSA, 2004), como também nos estudos
historiográficos (WILER, 2004) que retratam o início da atividade de tradução
no Brasil.
Tivemos como objetivo a reconstrução, ainda que parcial, de
pressupostos históricos e teóricos relacionados à institucionalização dos
estudos da tradução no Brasil e principalmente da entrada dos temas de
interpretação de e para Libras, com vistas à elaboração de um histórico desse
campo de estudo.
No que concerne aos estudos da tradução e interpretação de e para
língua de sinais no Brasil, esse é um período inicial, influência também da
recente tentativa de implementação da perspectiva bilíngüe na educação de
surdos. Os estudos lingüísticos pertinentes às línguas de sinais se
preocuparam inicialmente em descrever a língua, já que o reconhecimento da
atuação do tradutor intérprete de língua de sinais se faz vinculada ao
reconhecimento da língua de sinais. A mesma foi reconhecida como língua em
diferentes municípios e estados do país a partir de 1995, mas em âmbito
federal a homologação do projeto de lei ocorreu no dia 24 de abril de 2002, que
reconhece a LIBRAS com língua oficial usada pela comunidade surda do
Brasil.
Como nas línguas orais, ocorre também com Libras, pois a prática de
tradução em língua de sinais brasileira precede o reconhecimento e os
estudos lingüísticos sobre a mesma (ALBRES, 2003). Mas, os tradutores e
Intérpretes de Língua de Sinais procuraram de alguma forma aprofundar-se
nessa atuação realizando Encontros para discutir a prática da interpretação
em Língua de Sinais.

80
O Primeiro Encontro Nacional de Intérprete de Língua de Sinais foi no
Rio de Janeiro e data de 05 e 06 de agosto de 1988, o mesmo foi promovido
pela FENEIS com o objetivo de “levantar a necessidade de haver ILS e suas
funções perante a comunidade surda, uma tentativa de diminuição de
bloqueio de comunicação”. (FENEIS, 1988)

Desde então algumas entidades ligadas à atuação dos intérpretes,


como também as próprias associações de intérpretes existentes em alguns
estados como Mato Grosso do Sul e São Paulo têm realizado encontros com
temas relacionados à atuação dos mesmos. Dentre estes, poucos são os que
estão pautados em estudos vinculados a universidades, podemos citar os
desenvolvidos em Santa Catarina, como o Segundo Encontro de Intérprete de
Língua de Sinais de Santa Catarina com a temática Conhecendo a realidade
dos Intérpretes de Santa Catarina: Por um Futuro Profissional. Realizado na
UFSC dias 18 e 19 de junho de 2004, as mesas redondas apresentavam
discussões nas seguintes áreas: o trabalho atualmente desenvolvido pelos
intérpretes de língua de sinais no estado, a perspectiva dos surdos em
relação ao profissional intérprete de língua de sinais, como pode vir a ser o
trabalho dos intérpretes de língua de sinais, e formação continuada do
intérprete de língua de sinais. (Grupo de Estudos Surdos, 2004)

81
Conforme a programação desses encontros, pouco ou quase nada teve
de apresentação de estudos sendo resultados de pesquisas científicas sobre
a área da tradução e interpretação, os mesmos estão repletos de
apresentações sobre a prática ou a história de construção dessa profissão.
Constatamos que os tradutores intérpretes de língua de sinais têm
recorrido aos estudos dessa área, buscando a teorização que geralmente traz
exemplos do inglês/português ou francês/português, mas vale ressaltar que
os mesmos têm reconhecido a relevância da teoria em seu trabalho. Vide as
questões apresentadas e debatidas na lista de discussão 2 via e-mail, como
também a criação de página dos intérpretes de língua de sinais por Pereira
(2000) que traz uma gama de referencias nacionais e internacionais sobre
teorias da tradução.
Barbosa (2004) considera que é da teoria, ou da teorização, que derivam
as práticas conscientes e se constroem verdadeiramente os profissionais. “A
teoria é importante na formação do tradutor, porque lhe confere um poder de
reflexão sobre sua vida profissional. Dá-lhe segurança nas tomadas de decisão
e nos posicionamentos profissionais [...]” (BARBOSA, 2003, p.59)
Há um projeto lei de regulamentação da profissão do tradutor e
intérprete de língua de Sinais Brasileira e Língua Portuguesa, em que prevê
também a criação de cursos para sua formação. No ano de 2005, no segundo
semestre, houve a criação de cursos para formação do Intérprete de Língua de
Sinais, na Universidade UNIMEP - SP e Estácio de Sá - RJ.
Após apresentar esse breve histórico, consideramos que um longo
caminho está por ser trilhado. Nos estudos sobre tradução foram desenvolvidos
mapas com subáreas possíveis para a tomada do objeto de estudo. Neste
trabalho tomamos como parâmetro de referência as categorias conjuntas
utilizadas em Classificação de pesquisas no CD – ETB segundo categorias da
Bibliography of Translation Studies e dos Translation Studies Abstracts
compilados por Pagano e Vasconcesslos (2004). Nesse trabalho, são
apresentadas 30 categorias dentro das quais podem ser desenvolvidas
pesquisas em tradução, reunidas na tabela que se segue:

2
http://www.interpretels.hpg.ig.com.br/

82
1. Audio-Visual and 11. Intercultural Studies 21. Specialized
Multimedia 12. Interpreting Studies Translation
Translation 13. Literary Translation 22. Technical and Legal
2. Bible and Religious 14. Localization Translation
Translation 15. Machine(aided) 23. Terminology and
3. Bibliographies Translation Lexicography
4. Community/dialogue/ 16. Multi-category works 24. Translation and
public service 17. Process-oriented Cultural Identity
interpreting studies 25. Translation and
5. Conference and 18. Research Gender
Simultaneous Methodology 26. Translation and
Interpreting 19. Screen translations Language Teaching
6. Contrastive and 20. Signed Language 27. Translation and the
Comparative Studies Interpreting Language Industry
7. Corpus-Based 28. Translation Policies
Studies 29. Translation Theory
8. Court and Legal 30. Translator/Interpreter
Interpreting training
9. Evaluation/Quality/As
sessment/Testing
10. History of Translation
and Interpreting

Tabela 1 – Classificação das pesquisas no CD – ETB segundo categorias da Bibliography of


Translation Studies e dos Translation Studies Abstracts apud PAGANO E
VASCONCESSLOS (2004)

Estudos Brasileiros: mapa dos Estudos da interpretação em Língua de


Sinais Brasileira

Levantamos os autores brasileiros que pesquisaram sobre a tradução e


interpretação em Língua de Sinais. Desenvolvemos o levantamento em bancos
de dados que compilem as pesquisas desenvolvidas nas universidades
brasileiras com publicações, ou seja, temos como fonte dissertação, teses e
livros, artigos apresentados em anais de congressos ou revistas da área de
educação de surdos, utilizamos também base de dados on-line em sites na
internet. Tomamos cuidados referentes aos artigos encontrados na internet,
pois a mesma é um canal sem censuras, tomamos como critério a seriedade e
rigor dos dados apresentados. Desenvolvemos uma seleção criteriosa dos sites
e páginas disponíveis, selecionamos apenas os sites institucionais
(essencialmente de universidade e centros de pesquisas) e de bibliotecas
virtuais.
Nos sites, constatamos que muitos dos trabalhos apresentavam apenas
o resumo, tanto como resenha ou sinopse, como indicado NBR 6028 (1990),
portanto estes constam apenas no levantamento e não no corpo de análise.

83
Descartamos também as produções de traduções, como por exemplo, os
vídeos de história infantil, pois as mesmas configuram-se em produção de
tradução, mas não no estudo da tradução com o desenvolvimento de análise
dessa prática.
Apresentamos a seguir o levantamento dos trabalhos encontrados,
organizamos conforme as sub-áreas eleitas dentro dos Estudos da Tradução
segundo Williams & Chesterman (2002). Resultando no cenário apresentado
na tabela abaixo, desconsideramos a categoria 20 Signed Language
Interpreting, pois todos os trabalhos selecionados referem-se à tradução em
língua de sinais:

CATEGORIAS No
01 Audio-Visual and Multimedia Tradução Audiovisual e de
-
Translation Multimídia
02 Bible and Religious Translation Tradução Religiosa e Bíblica -
03 Bibliographies Bibliográfica -
04 Community/dialogue/ public service Interpretação de Serviço Público e
-
interpreting atendimento à Comunidade
05 Conference and Simultaneous Interpretação Simultânea de
-
Interpreting Conferência
06 Contrastive and Comparative Studies Estudo Contrastivo e
5
Comparativo
07 Corpus-Based Studies Estudos Baseados em Corpus -
08 Court and Legal Interpreting Interpretação Legal -
09 Evaluation/Quality/Assessment/Testing Teste de Qualidade, -

10 History of Translationand Interpreting História da Tradução e


7
Interpretação
11 Intercultural Studies Estudos Interculturais 1
12 Interpreting Studies Estudos de Interpretação 2
13 Literary Translation
Tradução Literária 6

14 Localization Localização -
15 Machine(aided) Translation Tradução Automatizada 6
16 Multi-category works Trabalho com Múltiplas Categorias 3
17 Process-oriented studies Estudos Orientados -
18 Research Methodology Metodologia de Pesquisa -

84
19 Screen Translations Tradução Fílmica e Televisiva 1
20 Signed Language Interpreting Interpretação de Língua de
Todos
Sinais
21 Specialized Translation Tradução Especializada 50
22 Technical and Legal Translation Tradução Técnica e Legal -
23 Terminology and Lexicography Terminologia e Lexicografia 9
24 Translation and Cultural Identity Tradução e Identidade cultural 3
25 Translation and Gender Tradução e gênero -
26 Translation and Language Teaching Tradução e Ensino de Línguas -
27 Translation and the Language Industry A Tradução e Indústria da língua -
28 Translation Policies Políticas em tradução 3
29 Translation Theory Teoria da Tradução 1
30 Translator/Interpreter Training Formação de Tradutores e
8
Intérpretes
TOTAL 105

Tabela 2 – Classificação das pesquisas sobre tradução em língua de sinais, segundo Sub-
áreas dentro da Bibliografia dos Estudos da Tradução e Estudos Abstratos de Tradução
(Bibliography of Translation Studies and Translation Studies Abstracts), apud PAGANO e
VASCONCESSLOS (2004).

Ao analisar os trabalhos desenvolvidos não se pretendeu tecer qualquer


juízo de valor das propostas, mas tão somente prosseguir na busca de um
maior entendimento sobre a organização interna dessas publicações, reunindo
elementos que permitam catalogá-las a partir da forma como elas vêm
analisando a atuação do tradutor e intérprete de Língua de Sinais no Brasil.
Assim, podemos ter uma visualização geral dos trabalhos. Dentre as 30
categorias, apenas em 14 tem trabalhos publicados na perspectiva da Língua
de sinais.

85
50
40
30
20
10
0
Produções sobre interpretação em
Libras
Estudo Contrastivo e Comparativo História da Tradução e Interpretação Estudos de Interpretação
Tradução literária Tradução Automatizada Trabalho com múltiplas categorias
Tradução filmica e televisiva Tradução Especializada terminologia e lexicografia
Tradução e Identidade cultural Políticas em tradução Teoria da Tradução
Formação de Tradutores e Intérpretes

Ao desenvolver este levantamento surgiram alguns questionamentos:

a) Por que há quase um vácuo nos estudos sobre tradução de Língua de


Sinais anteriormente à década de 1990?
b) Porque alguns campos de estudos da tradução são mais evidentes?
c) Qual pesquisador, de que área (ciência) toma para si este objeto de
estudo?
d) Em que regiões do país são desenvolvidas e publicadas tais pesquisas?
e) Quais os meios de divulgação de tais estudos?
Verificamos quase um vácuo nos estudos sobre interpretação em língua
de sinais anteriormente à década de 1990. A “explosão” destes estudos se
concentra nos anos 90. Consideramos esse fato ser muito relevante, pois
nessa década há um grande número de estudos sobre a língua de sinais, a
descrição lingüística para que ela seja reconhecida legalmente no país como
tal.
O trabalho na perspectiva oralista proibia os sinais, já na Comunicação
Total se apresentam em formato de orientação aos professores preocupados
com o processo de interação, mas nesse momento a língua de sinais era
entendida com relação direta à fala. Os trabalhos na perspectiva bilíngüe
apresentam outra característica, a língua de sinais independente, e a

86
transposição de uma língua portuguesa para língua de sinais e vice-versa
demanda diversos processos que fomentam a investigação. Assim a categoria
interpretação especializada é consideravelmente a mais estudada e publicada.
Discutiremos as outras questões concomitante a apresentação dos
dados, as publicações foram classificadas com base na categoria principal à
qual o trabalho pode ser associado. A classificação revela duas categorias que,
quantitativamente, se destacam: “história da tradução”, “área profissional”, as
demais categorias mostram subáreas emergentes, algumas delas em função
de desenvolvimentos tecnológicos que só se tornaram disponíveis na própria
década de 1990, como é o caso dos estudos para desenvolvimento de
tradução automatizada, como a construção de tradutores eletrônicos.
Identificamos a perspectiva da automatização do processo tradutório com o
projeto FALIBRAS em Alagoas e o XLIBRAS um ambiente virtual. (FUSCO,
2004; CORADINE, 2004) Há também o caso do projeto do Tradutor, onde se
vislumbra a criação de um boneco (um protótipo) que seja utilizado a princípio
nas escolas e futuramente como intérprete até em programas de TV, esse
projeto envolve uma equipe multidisciplinar. (FELIPE, 2002)
O estudo do léxico pode ser dividido em três ramos: lexicologia,
lexicografia e terminologia, embora sejam complementares. A primeira ocupa-
se dos problemas teóricos que embasam os estudos científicos do léxico. Já na
área de lexicografia voltados para técnicas de elaboração de dicionários,
encontramos uma dissertação (SOFIATO, 2005), mas o mesmo não foi
computado. Ou seja, selecionamos apenas os materiais que apresentam a
exposição dos sinais organizados por categorias, que funcionem como um
material de pesquisa específico à determinada área de interpretação.
Consideramos que os dicionários de língua de sinais são materiais importantes
de consulta aos tradutores intérpretes de Língua de Sinais, mas não os
classificamos como pertencente aos estudos da tradução. Sendo assim
identificamos principalmente dois trabalhos nos estudos de terminologia, pois
tomam como objeto de estudo o termo, a palavra especializada, os conceitos
próprios de determinadas áreas de especialidades (OATES, 1987; CAPOVILLA
E RAPHAEL, 2004/v1; 2005/v.2, v.3, v.4)
A classificação de Williams & Chesterman (2002) apresenta a
possibilidade de um trabalho estar em múltiplas categorias, consideramos dois

87
dos trabalhos analisados como casos de trabalhos pertencentes a categorias
múltiplas. As combinações de categorias mais freqüentes são em “análise
contrastiva e comparada”, “história da tradução” e “área profissional”, como no
livro de Quadros (2004), dissertação de Leite (2004) e Rosa (2005) que
apresentam diversos capítulos.
Como citado anteriormente o maior número de trabalhos foram
categorizados como pertencendo à categoria principal “tradução especializada”
no total 50, sendo principalmente fruto pesquisas sobre interpretação em
ambiente acadêmico, conhecida também como atuação do intérprete
educacional e tendo como foco o processo inclusivo de aluno surdos em vários
níveis de escolaridade, estes são geralmente publicados em ANAIS de
Congressos de Educação.
Já os estudos sobre tradução literária são emergentes, pois alguns
grupos de pesquisas têm se dedicado à construção de material literário para
surdos. Conforme estudos anteriores (ALBRES, 2005) inicialmente foram
desenvolvidos Vídeos com narrativas em Libras, dentre estes se destacam o
INES e Editora Arara Azul, há também a equipe de pesquisa sobre Língua de
sinais e Educação de Surdos que tem desenvolvido livros com adaptações em
histórias clássicas escritas em sinais, como: Cinderela Surda e Rapunzel Surda
de Carolina Hessel, Fabiano Rosa e Lodenir Karnopp ; Adão E Eva e Patinho
Surdo de Fabiano Rosa e Lodenir Karnopp.
Todavia, para compor o corpus que esta sendo analisado
desconsideramos as publicações dos materiais em si, e selecionamos artigos
que discutissem o processo de construção da tradução e fizessem uma análise
critica, constatamos seis trabalhos nesta perspectiva Referente a categoria
“história da tradução”, encontramos um trabalho específico, mas podemos
considerar que outros também abordem temática, pois há os que estão em
múltiplas categorias.
A perspectiva histórica sobrepõe-se à literatura comparada, o discursos
teórico sobre a tradução em língua de sinais abandonam os leitores que atuam
como intérpretes de língua de sinais, os textos em sua maioria procuram
demarcar o caminho trilhado e pouco trazem de fundamento teórico. Aubert
(2003, p.12) considera que a vertente historiográfica é “de fundamental
importância para o entendimento da inserção da atividade tradutória nos

88
percursos sociais e literários brasileiros e que têm, claramente, uma vocação
inerente para o esclarecimento da prática tradutória”.
Já os estudos de corpora, ou mesmo o “estudos contrastivos e
comparados”, são os estudos desenvolvidos mais recentemente destacando-se
no século XXI. Encontramos os livros de Coutinho (1996, 2000) e pesquisa de
Quadros (1999), Pires (1999) respectivamente são as principais referencias a
este estudo.
Os estudos parecem voltar-se para a tradução de textos literários.. Há
dois trabalhos na área da Literatura, RAMOS (2000) e KARNOPP (2004)
trabalham principalmente com a literatura infantil e a interpretação dos
clássicos da literatura mundial, desenvolvem uma reflexão do processo de
interpretação de textos na perspectiva de construção coletiva entre surdos e
ouvintes, para que os surdos tenham acesso à cultura socialmente
desenvolvida.
Para a questão inicialmente levantada, sobre quais pesquisadores, de
que área (ciência) tomam para si este objeto de estudo, constatamos que os da
área de educação apresentam um número maior de publicações e em segundo
lugar da lingüística. Mas os primeiros publicados concentravam-se nos estudos
de área de atuação, a educação e da construção da história da profissão, no
entanto o segundo grupo no processo da tradução e seus aspectos lingüísticos.
Consideramos esse fato, de um número maior de estudos realizados por
educadores é advindo do contato direto dessas questões diante da educação
de pessoas surdas e dos projetos de implementação de propostas bilíngües em
um momento inclusivo, onde se faz necessário o apoio do tradutor intérprete
em escolas inclusivas, proposta de âmbito nacional. Conforme orientações do
Programa Nacional de Educação de Surdos (MEC, 2002)
A esse momento vivido pela teoria da tradução, a Língua de Sinais
expressivamente da alteridade pode tomar seu lugar na dimensão institucional,
pois vivenciamos a necessidade da criação de cursos de formação específicos
para tradução e interpretação em Língua de Sinais, que potencializem a
teorização questionadora dessa prática. Consideramos que nas instituições de
ensino superior que trabalham com as vertentes: ensino, pesquisa e extensão
surgirão novas discussões e pesquisas nessa área tão específica.

89
O exame da produção dos pesquisadores brasileiros revela aspectos
importantes, não apenas por meio das categorias contempladas na
classificação, mas também por aquelas que estão ausentes. Não foi registrado
nenhum trabalho em nenhuma das subdivisões no âmbito de estudos sobre
“bibliografia”, “metodologia de pesquisa”, “gênero”, “serviços de prestação
lingüística”, “políticas de tradução”. Observa-se a carência de estudos em
várias áreas.
Há certa regularidade na distribuição do campo temático com a área
(ciência) que toma para si este objeto de estudo, à grande incidência de estudo
sobre o intérprete educacional coincide com o elevado número de educadores
e fonoaudiólogos pesquisando. Constatamos também uma alta concentração
da produção do eixo Sul-Sudeste corroborado pelo maior número de
Universidades e de orientadores experientes nessa área.
Constatamos ainda que, referente aos autores, há uma construção de
trajetória dos pesquisadores, pois produzem várias obras ao longo dos anos,
tomando para si não só o objeto de estudo, mas também o foco para
aprofundamento. Geralmente um autor tem entre duas e quatro publicações na
mesma temática.

Os meios de Publicação dos estudos

50
40
30
20
10
0
Meios de apresentação dos textos
Pesquisas
Revistas
Anais de Congressos, Seminários e Encontros
Livros
sites institucionais

90
Dentre as pesquisas vinculadas à academia, encontramos uma de
iniciação científica, duas monografias de graduação, uma monografia de
especialização, nove dissertações de mestrado e uma tese de doutorado.
As revistas que apresentam tais artigos, são em sua maioria revistas
especializadas, em primeiro lugar com maior número de publicações sobre o
tema encontramos a Revista da FENEIS, logo depois Revista Espaço do INES
e depois encontramos na Revista Sentidos; outras apresentaram pelo menos
um artigo como a Revista de Iniciação científica da ULBRA, Revista on-line
Unicamp e um jornal da UFRJ.
Os Anais de Eventos dentre todos os meios de comunicação foram os
que mais apresentam artigos sobre a interpretação em Libras. Encontramos
apenas 3 livros específicos da área, mais 11 capítulos em livros organizados.
Os sites institucionais geralmente apresentam textos informativos sobre
eventos ou atuações dos intérpretes. Assim selecionamos apenas os que
disponibilizassem textos dissertativos com padrão de artigo. Encontramos as
produções nos sites da FENEIS, UFRJ, IST SINTRA.

Considerações Preliminares: caminhos da tradução em Língua de Sinais

A observação de alguns momentos relevantes na consolidação do


campo disciplinar dos Estudos da Tradução, a partir de obras publicadas,
sobretudo na década de 1990, corroboram a perspectiva de construção de
futuras pesquisas ao construirmos um panorama dos Estudos da Tradução em
Língua de Sinais.
O levantamento de dados, embora limitado, pois podemos não ter tido
acesso há algum estudo desenvolvido no país, nos proporcionou um
mapeamento importante, que possibilita traçar um percurso dos Estudos da
Tradução no país e das subáreas mais pesquisadas. Mas está longe de saturar
a questão, assim apenas nos mostra os caminhos que ainda estão por ser
trilhados.
Consideramos que os intérpretes de Libras estão sedentos por formação
e a precariedade de divulgação sobre esse campo empírico não contribui para
o desenvolvimento do profissional. Assim, esse levantamento pode ser

91
compartilhado pelo site da Associação dos Profissionais Intérpretes de Libras
de Mato Grosso do Sul – APILMS.

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com surdez. In: Secretaria de Estado de Educação/MS. Educação Especial
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WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil.


São Paulo: Rocco, 2004.

93
ANEXOS

Levantamento das produções sobre tradução e interpretação de e para Língua de Sinais

CATEGORIA TRABALHOS
01 Audio-Visual and Multimedia Translation Tradução Audiovisual e de Multimídia
02 Bible and Religious Translation Tradução Religiosa e Bíblica
03 Bibliographies Bibliográfica
04 Community/dialogue/public service interpreting Interpretação de Serviço Público e atendimento a Comunidade
05 Conference andSimultaneous Interpreting Interpretação Simultânea de Conferência
06 Contrastive COUTINHO, Denise Maria Duarte. Libras e língua portuguesa (semelhança e diferenças). Paraíba: Idéia Editora,
and 1996.
Comparative Studies
COUTINHO, Denise Maria Duarte. Libras e língua portuguesa (semelhança e diferenças) Volume II. João Pessoa:
Estudo Contrastivo e Arpoador, 2000.
Comparativo
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08 Court and Legal Interpreting Interpretação Legal
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Tradução Filmíca e
Televisiva

1
20 Signed
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104
PROLIBRAS: A FORMAÇÃO E CERTIFICAÇÃO DO INTÉRPRETE
DE LÍNGUA DE SINAIS

Maria Emília Borges Daniel 1

Texto não disponibilizado pela palestrante.

1
Doutora em Língüística, professora do Departamento de Letras do CCHS/UFMS e
Coordenadora do PROLIBRAS em Mato Grosso do Sul.

105
RELATO DE EXPERIÊNCIA

106
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS NO
SISTEMA EDUCACIONAL

Dolores Alves Pereira de Britto 1

Tenho experiência de contato com a comunidade surda há 15 anos,


mas como intérprete educacional há apenas 8. Hoje me sinto muito feliz pelas
conquistas realizadas por essa comunidade, ao longo desse tempo, dentre elas
o direito de freqüentar o ensino comum e poder ter a presença de um
profissional intérprete na sala de aula.
Em 1999, eu iniciei como intérprete educacional na Escola Municipal
Professor Arlindo Lima, era contratada do Estado e cedida para a Prefeitura.
Lembro-me que temia muito, pois este ano foi o início da inclusão da pessoa
surda no município, no Estado já acontecia desde 1997. Meu temor era
principalmente porque sabia que os profissionais que iriam nos recepcionar
eram totalmente alheios a esse trabalho, era novo também para mim, enfim os
desafios surgiriam com certeza!
Uma dos primeiros impasses foi a questão do professor achar que
estávamos ali na sala de aula como “espiões”, “fiscais” de seu trabalho, etc. e
também a desconfiança em relação à fidelidade da transmissão do conteúdo
ou mesmo em relação a estarmos “passando cola” ou não.
Um outro fato que ainda persiste é que na maioria das vezes os
alunos Surdos são dos intérpretes e não da escola ou do professor, ficando sob
nossa responsabilidade seu sucesso ou fracasso no aprendizado, na realidade
a escola ainda não aceitou o Surdo ou qualquer outro aluno com necessidades
especiais de fato, mas apenas de direito.
Acredito, porém, que estamos passando por mudanças que fazem
parte de um processo, e enquanto processo, elas não ocorrem de uma hora
para a outra.
Hoje percebo que já houve alguma mudança, temos buscado
formação profissional e somos capazes de confrontar e expor aos profissionais
que ainda não entendem nosso verdadeiro papel na sala de aula, que é a de
intermediar na comunicação entre a pessoa surda e o professor e também com

1
Graduada em Normal Superior e Intérprete de Língua de Sinais.

107
os demais colegas de turma e escola. Acredito que agora com o Decreto 5626,
que institui a LIBRAS como disciplina e prevê formação para os intérpretes em
muito contribuirá para este processo e para o efetivo reconhecimento do nosso
trabalho profissional.
Através da nossa atuação como intérprete educacional o Surdo tem
tido a oportunidade de acompanhar os conteúdos utilizando-se de sua Língua,
a LIBRAS, apropriando-se dos conhecimentos com mais facilidade. Eles
interagem com o professor, os colegas e com a escola em geral. Na
experiência que tenho tido na maioria das vezes um bom número de colegas
se interessam em aprender a LIBRAS para se comunicar diretamente, isso é
uma das coisas faz com que o Surdo se sinta verdadeiramente inserido na
comunidade escolar, sabemos que ainda há um longo caminho a ser
percorrrido.

108
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS NO
DETRAN E AUTO-ESCOLAS

Cláudia de Almeida Gonçalves 1

Iniciei a interpretar libras a mais ou menos oito anos, o começo foi no


susto como a maioria dos intérpretes, já tive experiência de interpretar nas
mais diferentes situações, em vestibular, concursos, cursos, escolas, médico,
igreja, faculdade, palestras, congressos, entrevistas, auto-escola e atualmente
faço interpretações esporádicas quando necessário e interpreto junto ao Detran
do estado.
Minha primeira experiência de interpretar no trânsito foi junto a uma
auto-escola como contratada particular do surdo, mas isto foi antes da lei de
reconheceu a libras como língua e da regulamentação feita a posteriori.
Entrei como funcionária concursada no DETRAN/MS em fevereiro deste
ano, porém o órgão já possuía um contrato de que o CAS estaria enviando os
intérpretes quando necessários para a realização das provas tanto na capital
como no interior.
Todavia, certo dia apareceu um surdo para fazer prova escrita sem que
houvesse o agendamento ou a solicitação de intérprete, então por intermédio
de uma amiga descobriram que eu interpretava e me chamaram para
interpretar a prova.
Depois desse fato fui procurada pela responsável do setor de recursos
humanos que me perguntou se haveria a possibilidade de estar interpretando
junto ao DETRAN para eventuais necessidades, eu disse sim e logo depois fui
nomeada como interprete oficial do DETRAN/MS.
Hoje faço um atendimento ao surdo mais com relação aos serviços, tais
como atendimento pata renovação de CHN, licenciamento, exame médico,
etc...
Todavia essa função há de mudar, já fui comunicada de que quando se
tratar de interpretação na capital serei chamada a interpretar, até porque
sempre que solicitado os serviços de um intérprete é pago um valor pelos
serviços e o órgão não deseja arcar com muitos gastos.

1
Advogada e Intérprete de Língua de Sinais.

109
Mas o surdo que desejar tirar a carteira de habilitação nacional deverá
primeiro contatar a auto-escola, é ela a responsável por providenciar intérprete
e agendar seus exames no Detran solicitando inclusive o intérprete para o dia
da prova.
O Detran não se responsabiliza por intérprete na auto-escola porque se
trata de uma atividade privada que visa auferir lucro e, portanto, dever também
arcar com os riscos do negócio, ou seja, contratar um intérprete.
Por isso intérpretes, quando solicitados a interpretar em auto-escolas
solicite primeiro a elaboração e assinatura do contrato de prestação de
serviços, onde conste o valor a ser pago pelos seus préstimos, caso contrário
pode correr o risco de trabalhar de graça.

110
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS
EM PROVAS E CONCURSOS.

Cirley Vilanova Olah¹

Depois de muita luta o surdo hoje pode solicitar um intérprete de língua


de sinais para interpretar no vestibular, em provas e concursos.
Ao intérprete é pago um pouco a mais do que um fiscal comum. Não
temos outro intérprete para revezar quando precisamos tomar água, formos ao
banheiro até mesmo para um lanche. Caso precisa sair da sala, o surdo ficará
sozinho.
Há surdos que pedem para ler uma questão mais de uma vez, fazendo
com que ocupe todo o tempo disponível para realização da prova.
Quando tem redação no vestibular, nós explicamos o tema, e o surdo
desenvolve o assunto no rascunho, sendo posteriormente passado a limpo em
Língua Portuguesa.
Algumas instituições responsáveis em realizar vestibular e concurso não
possuem nenhum tipo de conhecimento sobre a surdez ou Língua de Sinais,
com isso nos deixa a vontade para fazermos nosso trabalho.
Neste tipo de trabalho, há candidatos que possuem nível escolar que
deixa a desejar e por isso o mesmo espera que o intérprete auxilie-o nas
respostas. Por preceitos éticos deixamos que ele mesmo exponha seus
conhecimentos.
Aqui no Mato Grosso do Sul, a instituição que precisar de um intérprete
de Libras deve procurar a APILMS - Associação dos Profissionais
Tradutores/Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais de Mato Grosso do Sul ou
o CAS – Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de
Atendimento às Pessoas com Surdez.
Ao surdo é dado o direito de utilizar o Intérprete de Língua de Sinais e
ele é o responsável por buscar esse e outros direitos garantidos. Além disso,
também lhe é assegurado o direito de usufruir de acréscimo de tempo na
realização das provas.

111
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS
EM CONFERÊNCIAS

Janete de Melo Nantes 1

O intérprete de Língua de Sinais, conforme a Drª Ronice Muller de


Quadros descreve em seu livro intitulado O Tradutor e Intérprete de Língua de
Sinais e Língua Portuguesa, é o profissional que domina a língua de sinais e a
língua falada do país. No caso do Brasil, a Língua Portuguesa e a LIBRAS.
Além do domínio das línguas envolvidas no processo de tradução e
interpretação, o profissional precisa ter domínio dos processos, modelos,
estratégias e técnicas de tradução e interpretação.
Alguns preceitos éticos devem ser observados durante o ato
interpretativo: confiabilidade, imparcialidade, discrição, distância profissional,
fidelidade.
Além das línguas envolvidas o intérprete deve entender as culturas em
jogo, ter familiaridade com cada tipo de interpretação e com o assunto.
É importante que o intérprete seja capaz de identificar o tipo de discurso
em que está exposto a fim de executar um trabalho mais eficaz. Alguns tipos
de discursos existentes podem ser:
o narrativo – reconta uma série de eventos ordenados mais ou menos de
forma cronológica;
o persuasivo – objetiva influenciar a conduta de alguém;
o explicativo – oferece informações requeridas em determinado contexto;
o argumentativo – objetiva provar alguma coisa para a audiência;
o conversacional – envolve a conversação entre duas ou mais pessoas;
o procedural – dá instruções para executar uma atividade ou usar algum
objeto.

Certas situações exigem um posicionamento ético do profissional


intérprete e uso do bom senso na tomada de decisões. No caso de dúvidas faz-
se necessário refletir e conversar com outros intérpretes sobre o contexto da

1
Pedagoga, Pós-graduada em Educação Inclusiva, Intérprete de Língua de Sinais e Vice-
presidente da APILMS.

112
situação interpretativa sempre com base nos princípios éticos do código de
ética do tradutor/intérprete.
Exemplos de diferentes situações que podem surgir durante a atuação
do intérprete em conferências:
o Uma empresa contrata o serviço de um intérprete e depois se nega a
apagá-lo porque a pessoa surda não compareceu;
o O palestrante fala muito rápido;
o Quando interpretando e as luzes são apagadas e o intérprete não foi
informado que isso aconteceria;
o A platéia surda conhece o intérprete e conversa com ele durante a
interpretação;
o A platéia surda faz observações sobre a palestra para o intérprete;
o O intérprete foi colocado em uma posição inadequada com visualização
comprometida;

Em todas essas situações o intérprete deve agir com bom senso e expor
sua opinião a partir do conhecimento a respeito dos direitos dos surdos e do
papel do intérprete.
A contratação de um Intérprete de Língua de Sinais deve ser realizada
mediante a celebração de um contrato entre o profissional e o contratante. O
mesmo tem por objetivo assegurar os direitos do profissional Intérprete de
Língua de Sinais bem como garantir ao contratante o cumprimento dos deveres
do profissional na atividade a qual fora contratado.
Você pode encontrar no site da APILMS (www.apilms.org) um modelo de
contratação de Intérprete de Língua de Sinais disponível para download,
baseado nas clausulas do modelo de contrato recomendado pelo Sindicato
Nacional de Tradutores.
De acordo com Andréa da Silva Rosa coloca em seu texto intitulado “A
Presença do Intérprete de Língua de Sinais na Mediação Social entre Surdos e
Ouvintes”, o intérprete tem um papel de suma importância no processo de
conquista de espaço da comunidade surda na sociedade. Por isso o intérprete
deve ter o cuidado de não suprimir nem adicionar informações no discurso do
conferencista de forma que prejudique a comunidade surda fazendo com que
esta continue à margem da sociedade, sem conhecer seus direitos e deveres.

113
O intérprete de Língua de Sinais precisa refletir constantemente sobre
sua prática buscando aprimorar-se cada vez mais e, em relação à interpretação
em conferências, ter consciência de que não está prestando um favor, mas
atuando como um profissional e deve comportar-se como tal, atendendo as
exigências do contratante, desde que não fira os preceitos éticos da profissão.

114
ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
NO INTERIOR DO ESTADO

Raquel Elizabeth Saes Quiles 1

Primeiramente, devo destacar que sou de Dourados/MS e, portanto,


tenho condições de falar com exatidão apenas das experiências do meu
município. Quanto aos outros municípios do interior, temos algumas
informações pela troca de experiências que com o tempo acabamos realizando
com os outros intérpretes do Estado. Por isso, destaco que falarei pelo
município de Dourados, apesar de acreditar que a nossa realidade se reflete
também nos outros municípios.
Uma questão emblemática e que merece destaque é a dificuldade que
temos de capacitação continuada. A Secretaria de Educação, UNAI (Unidade
de Inclusão do Estado) e Universidades têm realizado cursos de LIBRAS para
os professores da Rede municipal e estadual e comunidade. A demanda tem
aumentado a cada ano; percebe-se que muitas pessoas têm se despertado
para a aprendizagem da LIBRAS. Não se sabe exatamente qual tem sido as
motivações dessas pessoas, mas para tanto, seria necessário a realização de
uma pesquisa mais aprofundada.
Apesar desses cursos oferecidos, percebo que ainda falta uma
continuidade dessas ações, bem como discussões teóricas mais
substanciosas, principalmente para os intérpretes que já têm uma caminhada
mais expressiva com a comunidade surda e possuem maior domínio da
LIBRAS. Essas pessoas acabam não tendo momentos de troca e possibilidade
de maior crescimento e estudo.
Penso que essa seja uma dificuldade devido ao fato de não haver no
interior um núcleo voltado para os intérpretes, de forma que os mesmos
precisam se reportar à capital para buscar a melhoria de suas formações.
Considerando que a grande maioria está em atuação, se torna inviável essa
capacitação, apesar de perceber que muitos têm buscado por conta própria o
aperfeiçoamento, participando de Pós-Graduações na área de Educação e

1
Pedagoga, Mestranda em Educação pelo Programa de Mestrado em Educação da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus de Campo Grande/MS.

115
Educação Especial, Congressos e Eventos que abordem a questão da
diferença. diversidade, surdez etc, cursos de LIBRAS que são oferecidos no
país, etc. Todavia, uma formação que seja contínua e não pontual, que
promova de fato um crescimento profissional voltado para a atuação do
intérprete, não acontece de forma permanente.
A atuação dos intérpretes no interior se dá principalmente no campo
educacional; existem profissionais bastante capacitados e interessados no
processo de aprendizagem e autonomia dos surdos. Os surdos estão inseridos
em praticamente todas as modalidades de educação: educação infantil, ensino
fundamental, ensino médio, educação de jovens e adultos, salas de recursos e
estão sendo acompanhados pela Secretaria de Educação e UNAI, órgãos que
contratam os intérpretes.
Existem também igrejas que têm realizado trabalhos consistentes com
os surdos, os atendendo no aspecto espiritual, familiar e social. Destaca-se que
grande parte dos profissionais que têm atuado com os surdos atualmente,
iniciaram suas formações nessas igrejas, a partir dos cursos que sempre foram
oferecidos nesses espaços.
Como em todo lugar, percebe-se que muitas pessoas ainda que não têm
noção nenhuma de quem seja o surdo, como é a sua língua, quais as
diferenças culturais e lingüísticas desse “grupo”, etc, o que significa que os
intérpretes juntamente com os surdos ainda têm muito a realizar.
De uma forma geral, apesar de perceber muitos avanços e considerar
que diante das dificuldades, o trabalho com surdos tem sido realizado e a
LIBRAS divulgada, saliento que ainda seja necessário que os intérpretes não
apenas do interior, mas de todo o Estado, se organizem para buscarem
soluções para os problemas cotidianos, para que Mato Grosso do Sul avance
ainda mais em suas ações, na busca de políticas públicas que sejam inclusivas
aos surdos e que também garantam uma carreira aos profissionais da LIBRAS,
de forma a reconhecê-los e valorizá-los no trabalho muitas vezes complexo que
os mesmos têm realizado.

116
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS NO
SISTEMA JUDICIÁRIO E POLICIAL

Maria Tereza da Costa 1

Falar sobre acesso a justiça é um grande desafio, entretanto, tratar


deste tema vinculado à pessoa surda constitui-se ainda, em desafio maior.
Não há dúvida de que desde os primórdios, a humanidade passa por um
constante processo evolutivo e com o surgimento da globalização, a sociedade
caminha rumo à evolução, em passos ágeis, visando garantir a sua própria
sobrevivência.
Em contraposição ao avanço tecnológico, figura o aumento considerável
das problemáticas sociais que tem colocado em “xeque” as políticas públicas,
ora implantadas, principalmente, aquelas voltadas ao atendimento das
especificidades afetas as pessoas com os mais diversos quadros de limitações
funcionais.
A abordagem direta da temática proposta, ou seja, o acesso da pessoa
surda aos órgãos pertencentes a justiça, traz a lume uma figura extremamente
importante, diria imprescindível, o profissional Tradutor/Intérprete de Língua
Brasileira de Sinais.
Conforme asseveram os doutores Mauro Cappelletti e Bryant Garth em
seu livro Acesso à Justiça, traduzido e revisado por Ellen Gracie Northfleet
“nenhum aspecto de nossos sistemas jurídicos modernos, é imune à
crítica”.
Sendo assim, vale ponderar que para a obtenção de direitos e o
exercício de deveres é necessário, a priori, conhecer. Intentar uma ação na
esfera judicial sem o prévio conhecimento de direitos e de deveres, é no
mínimo, ingressar em aventuras jurídicas que levará a um caminho certo, o
desgaste.
E o que dizer do surdo nesse contexto? Sabemos que são pessoas
capazes, portanto, imputáveis, porém será que o surdo tem como os ditos
“normais” pleno conhecimento de como funciona o sistema jurídico neste país,
acredito que não!

1
Graduanda em Direito e Intérprete de Língua de Sinais.

117
Contrapondo as engrenagens jurídicas que funcionam a base de
português aos óbices de comunicação encontrados pelos surdos frente a
sociedade hodierna, que não vê problema algum em aprender inglês, muito
menos em utilizar o juridiquês, mas que, entretanto, apesar de ver a Língua
Brasileira de Sinais – LIBRAS, como uma língua espacial linda, impõe
obstáculos intransponíveis para a sua aceitação e conseqüente inclusão social
da pessoa surda em todos os aspectos, chega-se a uma única conclusão, há
que se avançar.
Face a demanda apresentada, hodiernamente, órgãos ligados a justiça,
parecem despertar para a real necessidade de preparo, que tem por escopo o
atendimento a demanda específica apresentada.
Diante do quadro em tela ficam as seguintes indagações: Qual é a visão
da justiça acerca da pessoa surda? E a força policial, quais os procedimentos
adotados para o seu atendimento, seja como pessoa vitimizada ou acusada de
cometer algum ato antijurídico? E o profissional Tradutor/Intérprete de LIBRAS,
legalmente falando pode exercer tal função e se puder será que está
capacitado para atuar na esfera jurídica em que os liames são tão sutis?

118
A ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS NA MÍDIA

Wellington Ortega 1

Atuando como intérprete, desde 1998, tive a oportunidade de trabalhar


em diversos tipos de eventos, em salas de aula, e até mesmo para informes
publicitários e campanhas na mídia.
É exatamente sobre a minha atuação na mídia que eu irei relatar, falar
das experiências, dos fatos importantes e de pontos positivos e negativos de
quando um intérprete resolve atuar nessa linha da interpretação.
Dentre as várias atuações, há algumas que quero pontuar. A que eu
considero de maior destaque foi uma campanha publicitária realizada pelo
Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul intitulada “CIDADÃO POR
INTEIRO” que consistia na interpretação de uma história num formato
apropriado para pessoas com deficiência auditiva ou visual e as não-
alfabetizadas.
Quando recebi o texto com a proposta, aceitei imediatamente e coloquei-
me a estudar o texto, pois já imaginava que não seria um trabalho tão fácil,
juntamente com alguns amigos surdos elaboramos para os personagens os
sinais, quais seriam as melhoras maneiras para se transmitir a mensagem,
priorizando a língua de sinais, dentro da identidade surda. Baseamo-nos muitos
em materiais visuais da editora Arara Azul e vídeos da FENEIS.
As primeiras tentativas de filmagem fracassaram, pois não havia um
material adequado para a filmagem nem tão pouco um lugar apropriado. Tudo
estava sendo feito com uma câmara digital de uso doméstico nas
dependências do próprio TRE, não haveria edição de imagens e outros
recursos que só estariam disponíveis em uma produtora.
Uma semana antes do lançamento do projeto, fiquei sabendo que uma
produtora faria o uma nova filmagem para então dar a qualidade que a
campanha merecia. O que me chamou a atenção no momento da filmagem,
havia uma falta de conhecimento em LIBRAS por parte da produtora no
momento de fazer os encaixes de tempo da fala com a sinalização. Foi

1
Graduado em Letras, Pós-graduando em Educação Especial e Intérprete de Língua de Sinais.

119
sugerido também que não se colocasse o famoso “quadradinho” no canto
inferior da tela com aquele fundo azul, como na maioria das vezes acontece e
sim a projeção do interprete diretamente na imagem do texto onde estavam os
personagens, enfim.
Para a minha surpresa no dia do lançamento e apresentação dos
materiais da campanha, bem como a projeção do vídeo, lá estava o
“quadradinho” minúsculo com uma resolução pior ainda. Pensando que a
interpretação seria projetada em um fundo diferente coloquei uma camisa de
cor preta e o resultado não foi dos melhores, pois no fundo azul, a imagem deu
uma conotação muito carregada, sem falar nos cortes da sinalização para que
a sinalização e o áudio fossem executados ao mesmo tempo.
Em uma outra experiência não tão diferente da primeira, no que se
refere ao trabalho da produtora, tive uma série de outros desafios. Logo pela
manhã recebi um telefonema, que perguntava se eu poderia fazer a
interpretação de um informe publicitário, aceitei sem questionar como seria e
quando seria ou o que seria sinalizado. Quando cheguei à produtora me fiz a
seguinte pergunta: - Por que eu não perguntei antes? Deparei-me com um
vídeo já pronto e que a sinalização seria sobreposta a imagem, para meu
desconforto não havia tempo para treinar, estudar ou sequer elaborar sinais.
O vídeo tinha a duração de cerca de onze minutos aproximadamente e
não era possível fazer cortes para editar posteriormente, pois eles afirmaram
que não saberiam o tempo exato da sinalização na hora dos encaixes. Até ai
tudo bem, o pior aconteceu quando me perguntaram se não tinha como não
fazer “essas caras”. Ficou provado mesmo que nada sabiam sobre a Libras.
As situações com que nos deparamos são inúmeras umas engraçadas
outras preocupantes, mas o que nos deixa felizes é que sempre de alguma
maneira tudo acaba se resolvendo e por pior que pareçam os surdos, ainda
assim, receberão as informações. As intenções são boas, os métodos
inadequados ou insuficientes, mas vale lembrar que mesmo errando, tentando
acertar estão fazendo algo.

120
SED
Secretaria de Estado
de Educação
CEADA
Centro Estadual de Atendimento
ao Deficiente da Audiocomunicação

Arquitetura e Construções

IGREJA BATISTA
Realização
M 11 -
AT
O 10 - 197 7 L
GR
OSS SU
O DO

BELO HORIZONTE
Ministério Mãos que Louvam