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A historiografia brasileira", explica Manoel Luiz

Salgado Guimarães no presente livro, "esteve tão


entretida em rfabalhar os temas da história do Brasil
que a reflexãoWerca da história da historiografia ainda
não recebeu aMgvjda atenção. Este livro tem como
intuito contribuir par ver essa reflexão". Nesse
sentido, Historiografia e o Brasil está
HISTORIOGRAFIA E
destinado a ser uma referência nos estudos, sobre a
historiografia brasileira do século XIX. O livro tem a NAÇÃO NO BRASIL
escrita da história como objeto de estudo, apresenjâpdo 1838-1857
um quadro geral do Instituto Histórico e Geográfkjo
Brasileiro (IHGB) e de sua produção historiografia
entre 1838 e 1857. Sua leitura revela o lugar quê o
pensamento histórico ocupou no Império do Brasil, 130 MANOEL LUIZ SALGADO GUIMARÃES
contexto de construção do Estado nacional. Trata-se de
trabalho precursor, escrito na década de 1980,
originalmente em alemão, e que somente agora vem a
público no Brasil.

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50 anos
HISTORIOGRAFIA E NAÇÃO NO BRASIL
1838-1857

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EDIÇÕES ANPUH

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Reitor
Ricardo Vieiralves de Castro

Vice-reitora
Maria Christina Paixão Maioli

HISTORIOGRAFIA E NAÇÃO NO BRASIL


1838-1857

Manoel Luiz Salgado Guimarães


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EDITORA DA UNIVERSIDADE DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Tradução de
Paulo Knauss e Ina de Mendonça
Conselho Editorial

António Augusto Passos Videira


Flora Síissekind
ítalo Moriconi (presidente) edf
uerj
íOatios
Ivo Barbieri
Luiz António de Castro Santos Rio de Janeiro
2011
Pedro Colmar Gonçalves da Silva Vellasco
Copyright © 2 0 1 I , E d U E R J .
Todos os direitos desta edição reservados à Editora da Universidade do listado do Rio de Janeiro.
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Editor Executivo ítalo Moriconi


Coordenador de Publicações Renato Casimira
Coordenadora de Produção Rosarúa Rolins
Prefácio 7
Coordenador de Revisão Fábio Flora
Revisão Shirley Lima Apresentação 23
Projeto, Capa e Diagramação Heloísa Fortes
Tradução das citações em francês Lúcia Maia
1. Introdução 25
O tema da nação nas ciências humanas brasileiras 25
ANPUH
Associação Nacional de História O movimento de Independência e a questão
Presidenle Durval Muniz de Albuquerque Júnior (UFRN) nacional no Brasil 34
Vice-Presidente Raquel Gle/er (USP) Historiografia e questão nacional: o tratamento
do tema nas ciências sociais brasileiras 50
Fontes e periodi/ação do trabalho 55
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/NPROTEC
G963 Guimarães, Manoel Luiz Salgado, 1952-2010. 2. Nação e História: a fundação do Instituto Histórico
Historiografia e nação no Brasil : 1838-1857 / Manoel Luiz e Geográfico Brasileiro 59
Salgado Guimarães, tradução de Paulo Knauss e l na de Mendonça
- Rio de Janeiro: EdUERJ, 2011. Edições Anpuh. A pesquisa acerca do Instituto Histórico
284 p. e Geográfico Brasileiro 59
Originalmente apresentada como tese de doutorado à Universitat
Berlin com o título Geschichtsschreibung und nation in Brasilien,
A história de sua fundação: como, para que e
1838-1857. por quem o Instituto foi criado 68
Inclui bibliografia. L'Institut Historique de Paris: um modelo para
ISBN 978-85-7511-200-7
os fundadores do Instituto Histórico e
1. Brasil-Historiografia--1838-1857. 2. Instituto Histórico Geográfico Brasileiro 99
e Geográfico Brasileiro - Historiografia. 3. Varnhagen, Francisco
Adolfo de, 1816-1878. I. Título.
3. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e
CDU930.2(81)"1837/I857" a historiografia 115
O prqjeto de uma história do Brasil 115
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
e sua revista 142
A questão indígena 143
Relatórios de pesquisas e viagens 158
A história das diversas regiões 163

4. Francisco Adolfo de Varnhagen 165


A pesquisa sobre a obra de Varnhagen 165 PREFACIO
Francisco Adolfo de Varnhagen: servidor público
e historiador 178
As obras históricas de Varnhagen 196
O surgimento do mito de Varnhagen como "pai da
Olmtoríadonmmjantf!:
historiografia brasileira" 222 itinerário rio fíio de Janeiro a Jerusalém

5. Uma nação sem rosto: a historiografia e a questão


da identidade nacional 229
"Voltemos a Berlim [em 1982, a América Latina foi o tema
do II Festival das Culturas Mundiais], cidade àquela altura
Referências 259
ainda dividida e, por isso mesmo, marco contemporâneo dos
I. Fontes 259
valores da ocidentalidade, para irmos encerrando nossa via-
1. Fontes manuscritas 259
gem: nossas origens parecem estar ligadas inevitavelmente a
2. Fontes impressas 260
certos 'mitos do novo rnundo', em que um papel central para
explicar-nos e decodificar-nos para os europeus parece ainda
II. Bibliografia 264
caber à Natureza. Uma unidade parece também existir; aquela
1. Bibliografia sobre o IHGB 264
denominada 'América Latina', em que um todo, agora cons-
2. Bibliografia sobre Varnhagen 265
truído pela ideia de uma dominação comum, parece conferir-
3. Bibliografia geral 266
nos essa identidade coletiva. A História, como 'inventário das
diferenças', persistiria como uma tarefa difícil? Talvez pensar-
mos a história dessa memória nos possa ajudar na invenção de
oulro futuro e, com isto, fazermos a viagem que não fizeram."
Manoel Luiz Salgado Guimarães'

"História e natureza em von Martins: esquadrinhando o Brasil para construir


a nação", História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, pp.
389-411,2000.
Preíáuo
8 Historiografia e Nação no Brasil J838-1857

i. o mundo através dos óculos de Heródoto? As Histórias não se torna-


Quando Chateaubriand viajou de Paris a Jerusalém, em 1806, rão esse espelho em que eles verão o mundo, crendo descrevê-lo?",
a cidade estava quase esquecida: um século antirreligioso teria cau- pergunta François Ilartog.'' Michelet na França, Ranke, no que viria
sado a perda da memória desse berço da religião; "como não havia ser a Alemanha, e Francisco Adolfo de Varnhagen, no Brasil, encar-
mais cavaleiros, parecia que não havia mais Palestina". A impressão naram essa dupla figuração do historiador-viajante.
é que Jerusalém estava no fim do mundo e "a imaginação se divertia
ao semear obstáculos e perigos sobre as avenidas da Cidade Santa". II.
Ao aventurar-se nessa viagem, aconteceu a Chateaubriand o que, se- Um dos propósitos de Chateaubriand, explicado em seu Voya-
gundo ele, ocorre a todo aquele que "marcha sobre o objeto de seus ge en Amérique, consistia em procurar "os anéis da cadeia que liga os
medos: o fantasma se esvaneceu", e em seu lugar surgiu um espetá- viajantes antigos aos viajantes modernos".7 Não precisamos ir mui-
culo de ruínas. Seu Itinerário, realizado "sem acidentes graves", tivera to longe para compreender que a obra histórica de Manoel Luiz
o "pequeno mérito de abrir", ou de reabrir, o caminho para outros Salgado Guimarães pode ser filiaria a essa condição intelectual que
viajantes que, como ele, reescreveriam a história dessa peregrinação caracterizou o século XIX, objeto preferencial de suas pesquisas:
científica? Urna busca pela exatidão, pela descrição escrupulosa, ten- um historiador em movimento. Sempre partindo do Rio de Janei-
do em vista que, para ele, "as viagens são uma das fontes da história".3 ro, sua cidade natal, para a qual ele sempre retornava e da qual
Prática comum no século XIX, a conversão de relatos de via- não se cansava de apreciar a beleza. Da capital carioca a Lisboa, em
gem em documentos históricos passou, desde então, a fazer parte plena Revolução dos Cravos, em abril de 1974, passando por Madri,
do ofício do historiador. Tal procedimento variava de uma aplicação a Casablanca. Do Rio de Janeiro a Berlim, passando por Manaus,
rígida do método crítico (verificação efetiva da veracidade do texto e Brasília, Porto Alegre; do Rio de Janeiro a Paris, passando pelo
do autor) à aquiescência irrefletida de suas informações. O fato de os sertão nordestino, pelo centro-ocste, a Atenas e a Roma; do Rio
relatos funcionarem ora como suporte de sonhos e ilusões, ora como de Janeiro aos Estados Unidos, passando por Cartagena, Quito,
guias de ação, não lhes subtraía, entretanto, o valor cognitivo, ou o Buenos Aires, Montevidéu, a São Paulo c Fortale/.a. Tantos países,
efeito de rm/que provocavam no leitor. Assim, desde a Odisseia e His- tantas cidades, tantas paisagens, tantas ruínas, tantas bibliotecas,
tórias, de Heródoto, o discurso do viajante relaciona-se ao conheci- arquivos, museus... Finalmente, em 2009, Jerusalém, sua última via-
mento histórico: "Heródoto, o pai da história, como Homero é o pai gem académica.
da poesia, era como Homero um viajante", pensava Chateaubriand; 1 O gosto pelas viagens impeliu Manoel Luiz Salgado Guimarães
"Ulisses retornou pleno de espaço e de saber", sinteti/a o poeta Ossip à Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, para realizar seu dou-
Mandelstam; 3 "os viajantes e outros agrimensores não tenderão a ver toramento sob a orientação do professor Hagen Schul/.e, estudioso
da questão nacional e do nacionalismo na Europa, com ênfase no
2 CHATEUBRIAND, René. "Itinérairc de Paris à Jerusalém", Giuvrcs com-
caso alemão.s Foi ainda na cidade dividida pelo Muro (que conse-
pletes de Chateaubriand, Paris: Garnier, t. 6, 1861, pp. 13-14.
6 HARTOG, François. Lê miroir d'Hérodate. Essai sur Ia representai i on de l'autre.
3 CHATEAUBRIAND, René. "Voyage en Amériquc (1827)", OEuvres completes
Paris: Gallimard, 1991, p. 359.
de Chateaubriand, Paris: Garnier, t. 6, 1861, p. 5.
7 CHATEAUBRIAND, René. "Voyage en Amérique", op. cit., pp. 3-4, p. 10.
4 CHATEAURR1AND, René. "Voyage cn Amérique", op. cit., p. 6.
8 No Brasil, Hagen Schul/.e é conhecido pela difusão de seu livro publicado
5 MANDEI.S'1'AM, Ossip. Selected Poems. New York: Pinguin Books, 1989, p. 28.
10 Historiografia e Nação no Brasil 18384857
Prefacio

guira transpor, em um misto de euforia e angústia, várias vezes) que III.


defendeu, em 1987, a tese A escrita da história no século XIX. Histo- Se a origem é mítica e o começo é histórico, como definia Paul
riografia e nação no Brasil (1838-1857), que ora vem a lume, com tra- Ricceur, não seria exagero situar este livro, senão como um início,
dução dirigida por Paulo Knauss. Anos depois, realizaria estudos ao menos como precursor de outra forma de refletir sobre a escrita
de pós-doutorado em Paris, sob a supervisão de François Hartog, da história ou a história da historiografia brasileira.9 Não necessaria-
conhecido historiador francês, cuja obra é marcada pelo livro so- mente melhor, mais moderna (ou pós-moderna!), do que as formas
bre Heródoto, o pensador da Antiguidade que fez da viagem a base precedentes de se pensar a historiografia; apenas um modo diferente
para a construção do conhecimento histórico. Tratar-se-ia de um de problematizar seus temas.10 De um modo ou de outro, vários dos
olhar distanciado acerca da história brasileira? Por um lado, pelo pró- problemas historiográficos sobre a questão da escrita da história brasi-
prio deslocamento etnográfico, evidentemente que sim; por outro, leira do século XIX, que seriam desenvolvidos posteriormente, já se
nem tanto: de certa forma, o Brasil não era tão longe dali! Aliás, encontram, ainda que muitos de forma embrionária ou apenas su-
seus estudos o conduziram a se aproximar de pensadores brasileiros gerida, neste estudo seminal. Não surpreende, portanto, a recepção
marcados em sua trajetória pessoal por esse olhar distanciado em positiva que o artigo "Nação e civilização nos trópicos: o Instituto
relação ao Brasil. Anísio Teixeira, cujo pensamento foi o foco de sua Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacio-
pesquisa de mestrado, sob a orientação do filósofo Eduardo Jardim nal", um resumo do presente livro, publicado no primeiro volume da
de Moraes, no antigo Programa de Pós-Graduação em Pensamento Revista Estudos Históricos, em 1988, no dossiê significativamente intitu-
Brasileiro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi lado de "Caminhos da historiografia", obteve entre os historiadores.11
marcado pelos anos de formação nos Estados Unidos da América e
pela permanente interlocução com o pensamento norte-americano;
9 RICCEUR, Paul. La mémoire, Itiistoire, 1'oubli. Paris: Seuil, 2000, p. 174.
Varnhagen, que foi o pensador brasileiro que ganhou destaque em
seu estudo de doutorado, foi diplomata de carreira e, graças à sua 10 Manoel Luiz Salgado Guimarães jamais desprezou seus antecessores, profes-
sores e/ou pesquisadores, sobretudo José Honório Rodrigues, o que não sig-
experiência nos arquivos europeus, pode revisitar a história pátria
nifica que deixasse de fazer uma apreciação crítica e rigorosa de sua obra. Ver,
a partir do exterior. Manoel Luiz Salgado Guimarães guardou em nesse sentido, "Repensando os domínios de Clio: as angústias e ansiedades
si, através das fontes que estudava e da constante interlocução com de uma disciplina", Revista Catarinense de História, Florianópolis, v. 5, pp. 5-20,
colegas e amigos (o que o diferencia do solitário Varnhagen), o con- 1998.
tato com o que, na falta de melhor definição, poderíamos chamar de 11 GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. "Nação e Civilização nos Trópicos: o Ins-
brasilidade, ou seja, mesmo sem abrir mão do ponto de vista cosmo- tituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma História Nacional",
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. l, 1988, pp. 5-27. Destaque-se, entre as
polita, caro ao Iluminismo kantiano, sua análise não se desprendeu
demais importantes contribuições desse volume, o artigo de Ricardo Benza-
da especificidade que representava o Brasil. Por isso, a "teoria" da quém de Araújo, "Ronda noturna: narrativa, crítica e verdade em Capistrano
história não aparece artificializada em sua "prática" historiográfica, de Abreu", justamente por ir ao encontro, de certa maneira, das preocupações
pela simples razão de que a distinção entre uma e outra lhe é com- de Manoel Luiz Salgado Guimarães, Revista Estudos Históricos, n. l, v. l, 1988.
Nesse mesmo ano, a UERJ promove um importante Colóquio sobre o tema
pletamente estranha.
"Narrativa. Ficção & História". A propósito desse evento, Manoel Luiz Salgado
Guimarães, em seujá citado artigo "Repensando os domínios de Clio", comen-
ta: "particularmente centrais para o nosso interesse são as contribuições de
em Portugal: SCHULZE, Hagen. Estado e nação na história da Europa. Lisboa: Luiz Costa Lima, Ricardo Benzaquém de Araújo e José Américo Motta Pessa-
Presença, 1997. nha, cujo eixo central de reflexão situa-se em torno do papel da narrativa his-
12 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Prtfácio

Manoel Luiz Salgado Guimarães apresenta ao leitor uma apro- ao IHGB, que se torna um dos braços intelectuais desse propósito,
ximação, à época inusitada, entre a escrita da história como discurso, ordenando as evidências e os vestígios do passado nacional, faz par-
no sentido que lhe atribuía Michel Foucault, e sua forte relação com te dessa lógica, que, por influência deste e de outros trabalhos de
a história política, especialmente com a historiografia sobre a nação. Manoel Luiz Salgado Guimarães, foi denominada de retórica da nacio-
Nesse sentido, é no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro nalidade, ou seja, um conjunto de estratégias discursivas cuja caracte-
(IHGB), que, desde a sua fundação, em 1838, assumira os encargos rística é a dispersão de seus elementos constituintes, utili/.adas para
de coligir documentos para a elaboração da história nacional, que o persuadir os brasileiros de que, a despeito da natureza heterogénea
autor identifica um grande número de controvérsias epistemológicas e compósita de sua formação social, compartilhavam um passado co-
em concomitância às demandas políticas peculiares à consolidação mum e, consequentemente, a mesma origem e identidade.
do Estado monárquico no Segundo Reinado.12 Muitas dessas polé-
micas decorriam do fato de que, enquanto a identidade da nação IV.
estava sendo construída, a história, como disciplina científica, estava Assim, o livro de Manoel Luiz Salgado Guimarães nos mostra
ainda em seus prolegômenos. Logo, o processo de autonomização da como a produção intelectual no Brasil das primeiras décadas do sé-
história como disciplina implica o embate de diferentes concepções culo XIX foi marcada, como diríamos hoje, pela progressiva historici-
de como ela deveria ser escrita que se relacionavam de um modo não zação das noções de nação, de história e de literatura como efeito de
excludente ou antagónico, mas também não necessariamente con- uma experiência da aceleração do tempo, que, por sua vez, refletia e
sensual. Corn efeito, os homens de letras brasileiros, embora tivessem sinalizava um processo mais geral de articulação e acomodação con-
uma meta em comum - o relato histórico sobre o Brasil —, divergiam ceituai que ocorria em outros países, tanto europeus quanto latino-
frequentemente quanto à melhor forma de execução de um prqjeto americanos.14 A concepção de nação, vigente no período, articular-
historiográfico que a viabilizasse, quer dizer, normalizasse as condi- se-ia com uma noção específica de temporalidade como qualidade
ções para a pesquisa científica (ou filosófica, como diriam os represen- intrínseca e imanente à realidade. Com o projeto romântico, a nação
tantes da primeira geração do IHGB). despontaria como categoria de reflexão privilegiada para a apreen-
Desse modo, o processo de construção da ideia de nação brasi- são dessa historicidade e em suas manifestações mais evidentes e sin-
leira deve ser compreendido como um "autêntico prqjeto de Estado", gulares. Esse conjunto de transformações gravita em torno do que
em que a elite letrada e os agentes estatais (que, na maior parte das Reinhart Koselleck designou como a experiência da história na mo-
vezes, confundiam-se) mobilizam uma série de recursos políticos, dernidade, cujo alcance excederia o território epistemológico para
económicos, culturais e simbólicos a serviço de sua criação.13 O apoio
do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, n. 30, 1998, pp. 7-35; ver também
tórica e de suas relações com a ficção. Os três textos indicados atualizam para
SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. "A invenção do Brasil: um problema
o público brasileiro as questões centrais envolvidas nesse debate, significando,
nacional ?", Revúta deHistária, n. 118, 1985, pp. 3-12.
portanto, uma referência central para constituir esse campo de discussão".
H Para uma visão mais contemporânea no caso brasileiro, ver: ARAÚJO, Valdei
12 Ver MATTOS, limar R. Tempo saquarema. A formação do estado imperial. São
Lopes de. A experiência do tempo. Conceitos e narrativas na formação nacional bra-
Paulo: Editora Hucitec, 2004, e também: BARMAN, R. Brazil The forging of a
sileira (1813-1845). São Paulo: Editora Hucitec, 2008, p. 124. Para uma pers-,
nation, 1798-1852. Stanford University Press, 1988.
pectiva, igualmente atualizada, porém mais geral, ver PALTI, Elias. La nación
13 SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. "De projeto de império à independên- com,o problema. Los historiadores y Ia "cueslión nacional", Buenos Aires: Eondo de
cia. Notas acerca da opção monárquica na autonomia política do Brasil". Anais Cultura Económica, 2002.
Prefácio 15
14 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

nal e o IHGB, sua fundação e seu modelo, o Institui Historique de Paris


condicionar, de modo mais amplo e perceptível, todas as formas de
elaboração do passado.15 (a mímesis captada pelo olhar "estrangeiro" do autor); 18 o segundo,
no qual analisa especificamente o projeto histórico do IHGB através
Tornou-se indiscutível, portanto, o nexo entre nação e história.
de uma leitura detalhada dos principais temas de sua Revista (na qual
Com efeito, a história, aquela escrita pelos historiadores, se impôs um
o discurso da viagem se faz presente); o terceiro, que é inteiramente
pouco por todos os lugares ao longo do século XIX, ao mesmo tem-
consagrado à obra do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen
po que a nação aparecia como o horizonte intransponível de toda a
(a visão do historiador-viajarite apreendida em seus movimentos e
história passada, presente e futura. No entanto, de um ponto de vista
obra); por fim, em um longo epílogo, cujo título, por si só, é um
global, as relações entre as noções de história e de nação não foram
estímulo à continuidade da pesquisa - "uma nação sem rosto" -, o
homogéneas, tampouco simétricas. No caso do Brasil, ainda havia,
autor retoma as questões da historiografia e da identidade nacional.
até a tese e o conhecido artigo publicado na Estudos Históricos por
Manoel Luiz Salgado Guimarães, uma grande desproporção entre os
V.
estudos sobre a emergência do Estado e da nação como instituições
As pesquisas de Manoel Luiz Salgado Magalhães marcam um
políticas, económicas e culturais e as pesquisas sobre a constituição
momento em que os historiadores brasileiros (inicialmente um pe-
da noção de história. A partir daquele momento, constituiu-se entre
queno grupo) debruçaram-se sobre a sua disciplina e passaram a es-
os historiadores brasileiros certo consenso de que "a ideia contempo-
tudar sua própria memória disciplinar e os motivos de seus esque-
rânea de Brasil se funda quando se consolida na historiografia uma
cimentos. Embora, como ressaltam dois importantes pesquisadores
ideia de nação",16 ou de que, "nos anos que se seguiram à indepen-
da nova geração, Fernando Nicolazzi e Valclei Lopes de Araújo, não
dência, e durante todo o século XIX, uma construção historiográfica
tenhamos uma agenda autónoma de investigação no que diz respeito
foi adquirindo consistência" e seu objetivo seria o de "conferir ao
a conceitos, noções e problemas mais específicos, o que não quer
Estado imperial que se consolidava em meio a resistências uma base
dizer "uma produção surda ao diálogo com a história social, cultu-
de sustentação no constituído de tradições e de uma visão organizada
ral ou política", mas a busca de uma singularidade apoiada em seus
do que seria o seu passado".17
objetos e, portanto, em um questionário próprio,19 o certo é que, ins-
O livro encontra-se dividido em cinco partes: a introdução, na
qual o autor discute o problema da nação no âmbito da historiografia
brasileira, apresenta as fontes e estabelece o marco temporal do tra- 18 Manoel Luiz Salgado Guimarães voltará ao tema e à perspectiva das relações
balho; o primeiro capítulo, dedicado à relação entre o projeto nacio- entre o IHGB e o Institui Historique de Paris cm mais dois artigos, "Emre ama-
dorismo e profissionalismo: as tensões da prática histórica no século XIX".
Topai, Rio de Janeiro, v. 3, pp. 184-200, 2002, "Reinventando a tradição: sobre
13 KOSELLECK, Reinhart. Contribution à Ia sémantique dês temps historiques. Paris : antiquariado e escrita da história", Revista Humanas (IFCH/UFRGS), Porto
EHESS, 1990, pp. 9-16. Alegre, v. 23, ri. 1/2, pp. 111-143, 2000 (no qual acrescenta a relação de cola-
boração dos institutos brasileiro e francês com a Sociedade dos Antiquários
16 MOTA, Carlos Guilherme. "Ideias de Brasil: formação e problemas (1817-1850)".
do Norte da Dinamarca).
In MOTA, Carlos Guilherme (org.). Viagem incompleta (1500-2000). A experiência brasi-
leira. Formação: histórias. São Paulo: Editora Senac, 2000, pp. 197-238 (citação p. 233). 19 NICOLAZZI, F. e ARAÚJO, V. "A história da historiografia e a atualidade
do historicismo: perspectivas sobre a formação de um campo", In ARAÚJO,
17 JANCSÓ, István e PIMENTA,João Paulo G. "Peças de um mosaico (ou apontamen-
Valdei Lopes de (org.). A dinâmica do historicismo: revisitando a historiografia mo-
tos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira)". In MOTA, Car-
derna. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2008, pp. 10-11. Cabe destacar aqui-o
los Guilherme (org.). Viagem incompleta (1500-2000). A experiência brasileira. Formação:
papel aglutinador de pesquisadores nessa área em torno do Núcleo de Estudos
histórias. São Paulo: Editora Senac, 2000, pp. 132-133, e nota 14.
16 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Prefácio 17

pirados por trabalhos como os de Manoel Luiz Salgado Guimarães, algumas pesquisas na área passaram a propor problemas historiogr-áficos,
constatamos, nos últimos anos, o acréscimo significativo do número ancorando-se em uma preocupação epistemológica de historicizar os
de dissertações, teses e artigos relacionados à história da historiogra- pressupostos teóricos e as práticas da escrita da história. 22 De modo
fia brasileira.
A produção historiográfica, antiga e moderna, tornou-se fonte
DR1GUES, J. H. Vida e história. Rio de Janeiro: Editora Civili/ação Brasileira, 1966;
relevante para os historiadores, pois, segundo nosso autor, somente STEIN, SlanleyJ. "A historiografia do Brasil, 1808-1889", Revista de História, XXXIX,
sob o crivo da reflexão histórica, "os textos de história deixam de ser 59, 1964, pp. 81-131; CARDOSO, C. F. Os métodos da. história. Rio de Janeiro: Graal,
meros pretextos para se constituírem em núcleos centrais de inves- 1979; ODAL1A, Nilo. As formas do mesmo. Ensaios sobre o pensamento hisloriográfico de
Vamhagen e Oliveira Vianna. São Paulo: Eunesp, 1997; FICO, Carlos e POLITO, Ro-
tigação (...) reintroduzindo a escrita da História num esforço que
nald. A história do Brasil (l 980-1989): elementos para uma avaliação historiográfica. Ouro
busca compreendê-la como parte de uma cultura, capaz de definir a Preto: UFOP, 1992; FICO, C. e POLITO,R. A história no Brasil Ouro Preto: EUOP,
abrangência e os limites da própria História".20 A historiografia bra- 1996; WEHLING, Amo. A invenção da história. Estudos sobre o historicismo. Rio de Ja-
sileira, explica Manoel Luiz Salgado Guimarães no presente livro, neiro: Editora Central da Universidade Gama Filho/Editora da Universidade Fede-
ral Fluminense, 1994; WEHLING, Amo. "O histerismo e as origens do Instituto His-
"esteve tão entretida em trabalhar os temas da história do Brasil que
tórico", A invenção da história: estudos sobre o historicismo, Rio de Janeiro: EUGF/F'UFF,
a reflexão acerca da história da historiografia ainda não recebeu a ] 994; WEHLING, A. Estado, história e memória: Vamhagen e a construção da identidade
devida atenção. Este trabalho tem como intuito contribuir para pro- nacional Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999; WEHLING, Amo. "As recepções do
mover essa reflexão". Tradicionalmente orientados pela exteriorida- descobrimento: história, memória e identidade no historicismo brasileiro", Oceanos.
OacharnentodoBrasil,T\. 39,julho/setembro, 1999,pp. 144-154.
de dos pressupostos de pesquisa, os estudos historiográficos privile-
giavam procedimentos mais descritivos de autores e obras, em que os ' Destacaríamos, neste sentido, a título de exemplo, além dos trabalhos do pró-
prio Manoel Luiz Salgado Guimarães, listados na bibliografia que se encontra
aspectos ideológicos ou económicos dos contextos de produção sem-
no final desta Apresentação, as seguintes obras: ARAÚJO, Valdei Lopes de. A
pre foram evocados como chave explicativa preponderante para a experiência do tempo, op. cit.; GUIMARÃES, Lúcia M. Paschoal. "Politique à 1'Acadé-
escrita da história.21 A partir das abordagens iniciadas nos anos 1980, mie. Ia construction de Ia mémoire de 1'empire brésilien (1838-1850)", In GUER-
RA, François-Xavier. Mémoires en devenir. Amérique Latine XW-XX' sif.de, Bordeaux,
Maison dês Pays Ibériques, 1994, pp. 207-220; GUIMARÃES, Lúcia M. Paschoal. "O
em História da Historiografia e Modernidade, criado recentemente, e do qual 'tribunal da posteridade'", PRADO, Maria Emília (org). O estado como vocação. Ideias
participara os autores citados, além de docentes e discentes do Departamento e práticas políticas no Brasil oitocentista. Rio dejaneiro: Access Editora, 1999, pp. 33-57;
de História da Universidade Federal de Ouro Freto. Desde 2008, o Núcleo GUIMARÃES, Lúcia M. Paschoal. "Debaixo da imediata proteção de Sua Mages-
publica a revista eletrônica História da Historiografia. tade Imperial: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838-1889)", Revista do
1HGB, 156, n. 388, jul./set. 1995, pp. 459-613; HRUBY, Hugo. Obreiros diligentes e
20 GUIMARÃES, Manoel L. S. "A cultura histórica oitocentista: a constituição de
zelosos auxiliando no preparo da grande obra: a História do Brasil no Instituto Históri-
uma memória disciplinar". In PESAVENTO, S. ]. História Cultural: experiências
co e Geográfico Brasileiro (1889-1912). Porto Alegre: PUCRS, 2007. Dissertação
de pesquisa. Porto Alegre: UFRGS, 2003, p. 21.
de Mestrado; NICOLAZZ1, Fernando. Um estilo de história: a viagem, a memória,
21 O que nada lhes retira de sua validade e importância científica. Trata-se somente o ensaio. Sobre Casa Grande & Senzala e a representação do passado. Porto Alegre:
de abordagens diferentes. Por exemplo: RODRIGUES, José Honório. Teoria da His- PPGHIS/UFRGS, 2008. Tese de doutorado; OLIVEIRA, Maria da Glória de.
tória do Brasil: introdução metodológica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, Crítica, método e escrita da história em João Capistrano de Abreu. Porto Alegre: PP-
2 ed., 2v.; RODRIGUES, José Honório. A pesquisa histórica no Brasil. Sua evolução e. GHIST/UFRGS, 2006. Dissertação de mestrado; TURIN, Rodrigo. "A 'obscura
problemas atuais. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969 (2a edição revista e história' indígena", GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado (org.). Estudos sobre a
aumentada); RODRIGUES, J. H. História da história do Kras.il Historiografia colonial. escrita da história. Rio dejaneiro: 7 Letras, 2006, pp. 86-113; TURIN, R. Narrar
São Paulo: Editora Nacional. 2 ed., 1979; RODRIGUES, J. H. História da história, do o passado, projetar o futuro: Sílvio Romero e a experiência historiográfica oitocentista.
Brasil A historiografia conservadora, v. II, t. I, São Paulo: Editora Nacional, 1988; RO- Porto Alegre: PPGHIST/UFRGS, 2005. Dissertação de mestrado.
18 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Prefácio 19

geral, percebe-se a emergência de uma perspectiva de trabalho "mais


VIL
vigilante às sirenes dos reducionismos".23
Jerusalém, agosto de 2009. The 15 World Congress ofjewish Stu-
dies, Manoel Luiz Salgado Guimarães pronuncia a conferência "Me-
mória do Holocausto e escrita da história". O subtítulo poderia ser,
VI.
diz ele: "por uma ética contemporânea do ofício". Após, ele projeta
Após, e a partir da tese, a pesquisa de Manoel Luiz Salgado
uma imagem que:
Guimarães, mesmo tendo por enfoque preferencial a escrita da histó-
ria do século XIX, diversifica-se. Viajante contumaz e leitor erudito,
Reproduz - segundo explica ao público - uma instalação rea-
sua biblioteca, ao longo dos anos, cresce vertiginosamente (é preciso
lizada pelo artista plástico Horst Hòheisel a partir da projeção
explicar às novas gerações que o acesso ao mundo virtual dos livros,
na noite de 26 para 27 de janeiro de 1997 de imagens de dois
para compra ou consulta, foi uma descoberta tardia para boa parte
símbolos poderosos para a história moderna da Alemanha [o
de sua geração...)- História, filosofia, psicanálise, arte, literatura, en-
portão de Brandemburgo e os portões de entrada dos campos
sino, património ctc. compõem um rico e amplo acervo que demons-
de concentração]. Dois portões, duas entradas com semânti-
tra sua curiosidade científica e um resquício, que ele não fazia muita
cas e memórias radicalmente diversas. De forma mais geral
questão de dissimular, de um antiquário moderno.
uma memória positiva, a outra evidentemente negativa. Nas
O resultado foi uma produção intelectual regular, porém dis-
palavras do artista plástico, por alguns momentos era possível
persa, e, sobretudo, rigorosa.24 Nesse sentido, Manoel Luiz Salgado
transformar os dois portões nurn único quadro, duas memó-
Guimarães pode ter escrito menos do que se esperava dele, e mais,
rias separadas agora parecendo se confundir e desta maneira
talvez, do que tenha desejado. Ele gostava mais de ler, ensinar e
assumindo um caráter provocativo. Num primeiro momento,
orientar do que de escrever. Não que haja alguma incompatibilidade
a performance havia sido proibida, mas logo autorizada para
entre essas competências. Contudo, para ele, escrever requeria ler
que velhos fantasmas não viessem atormentar um país recém-
cada vez mais, fosse na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no
unificado, lutando para cicatrizar as feridas decorrentes de
IHGB, na Biblioteca da Universidade de Berlim, na Biblioteca Na-
quarenta anos de separação, iniciada com a criação de cada
cional de Portugal, na Biblioteca Nacional da França, na Biblioteca
um dos estados alemães nos anos subsequentes à Segunda
do Arsenal em Paris (onde explorou o acervo do Instituí Historique),
Guerra Mundial. Em 2003, [Horst Hòheisel] esteve no Brasil
em tantas outras, em qualquer lugar onde houvesse "luz", ou sim-
realizando dois projetos cuja temática estava ligada à memória
plesmente em seu apartamento em Santa Teresa. Se para Foucault
recente da ditadura militar no Brasil: na Pinacoteca do Esta-
escrever era resistir, para Manoel Luiz Salgado Guimarães escrever
do de São Paulo, um projeto de reconstrução do portal (mais
era parar de ler. Os leitores, mesmo os menos compulsivos, reconhe-
uma vez, a obsessão pelos portões) de entrada do presídio Ti-
cerão a dificuldade do gesto. Logo, a escrita não poderia ser outra
radentes, e no Centro Universitário Maria Antônia, um traba-
coisa senão perseverança, rigor e erudição.
lho a partir dos vestígios daquele espaço como centro de re-
sistência ao regime militar. (...) Para o autor, como lembrar a
'" HARTOG, François. "L'histoire tentée par 1'épistémologie?", Evidence de 1'histaire. Ce dizimação de um povo senão pela destruição da representação
que voienl lês fústoríens, Paris: Ed. EHESS, 2005, pp. 230-235. monumental, inadequada a essa forma de lembrança? O tema
24 Uma bibliografia completa segue ao final desta Apresentação. da impossibilidade da narrativa acerca do Holocausto, já ex-
20 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Prefácio 21

piorada pela literatura, é retomado aqui pela interrogação da foram os últimos temas tratados por Manoel Luiz Salgado Guima-
arte. Seu tom provocativo partia de um pressuposto: o de que rães. Não será difícil para o leitor relacionar vários deles ao texto que
a memória só se torna efetivamente significativa quando in- se segue, desenvolvido desde um comentário breve, de uma interro-
terrogada, questionada, problematizada e não provocada. (...) gação, de uma nota de pé de página, de uma intuição luminosa, e
Andréas Huysen, em seu livro Seduzidos pela memória, sublinha verificará não apenas um pesquisador amadurecido, como também
a importância da instalação de outro artista plástico, Christo, um pensamento inquieto sobre a história.
quando envolveu outro dos símbolos importantes da memória Finalmente, outra coincidência, ele retoma, de certo moclo, o
coletiva alemã: o prédio do Parlamento. Segundo Huysen, foi término da epígrafe citada na abertura desta Apresentação. Em ambas
necessário estender o período da instalação, tamanho foi o o futuro está implicado: se lá a história talvez' "possa ajudar na inven-
afluxo de público, curioso por admirar o trabalho. Sua atua- ção de outro futuro e, com isto, fazermos a viagem que não fizeram",
ção encobrindo o pesado prédio do Reichstag tornou-o mais aqui formular uma questão sobre o futuro "é ainda acreditar na vida
visível ao lhe dar uma visibilidade que não tinha a olho riu! e nas possibilidades de transfornação pelaação humana, sem, contu-
Curioso paradoxo próprio da relação entre visível e invisível, do, acreditar que o futuro nos aguarda com a casa pronta. Termino
tensão presente no trabalho do historiador, que tem de lidar com ítalo Calvino, para quem só teremos algum futuro se quisermos
com uma ausência como condição para a realização de sua e fizermos um presente. E acrescentaria - diz o historiador-viajante:
escrita do passado. A iconoclastia de Horst Hoheisel e os riscos se formos capazes de reinventarmos constantemente nosso passado".
que ela pode representar para o trabalho de sacralização da Fim do Itinerário. Fim da viagem.
memória talvez nos ajudem a compreender por que no ano
de 2000 o Ministério do Interior da República Federal e os res- Paulo Knauss (UFF)
pectivos ministérios do interior dos estados federados aprova- Temístocles Cezar (UFRGS)
ram uma lei restringindo reuniões públicas em lugares consi-
derados portadores de 'forte carga simbólica'. São os poderes
da memória para o exercício do poder!
Voltando ao nosso ponto de partida, à instalação de Horst
Hoheisel aqui apresentada, constatamos que, ao produzir um
quadro entrelaçando duas distintas lembranças, convida o es-
pectador a refletir, escolher, valorar, atitudes estas capazes de
fundamentar uma ética humana, uma ética corno condição e
necessidade de tornar possível a vida dos que se situam aquém
dos deuses e além dos animais, nesse entredois a que nós, hu-
manos, estamos irremediavelmente condenados.

Ultima viagem: retorno a Berlim, via Jerusalém.


Memória, esquecimento e escrita da história, a crítica ao poder
do discurso e aos usos do passado, enfim, a ética do historiador. Esses
APRESENTAÇÃO

O presente trabalho resulta da tarefa de investigar os primór-


dios da historiografia brasileira e sua relação com a questão nacional
no Brasil do século XIX. Essa relação, que, até hoje, passa desperce-
bida, pode contribuir para esclarecer uma página importante do de-
bate acerca da questão nacional no Brasil. Além disso, esta obra visa
promover a reflexão sobre a produção científica acerca da História
no Brasil. O fato de, logo após a fundação do Estado Nacional, ter
sido inaugurado também um instituto histórico, com o surgimento,
em pouco tempo, de uma obra sobre a história geral do país, é uma
constatação recorrente da pesquisa histórica. No entanto, essa evi-
dência ainda não encontrou repercussão correspondente no plano
da investigação. Essa constatação foi o ponto de partida deste livro.
Este trabalho e sua contribuição para o conhecimento apon-
tam para a abertura de um campo amplo de questões e temas re-
ferentes à historiografia no Brasil, o que talvez venha a despertar o
interesse por novos horizontes de pesquisa.
Contei, para a execução desta tarefa, com a colaboração de
diferentes pessoas, às quais gostaria, agora, de manifestar minha mais
sincera gratidão. Em primeiro lugar, ao meu orientador, Professor
Doutor Hagen Schulze, que, depois de uma conversa no verão de
1982, aceitou-me como seu doutorando. Sua confiança, interesse e
crítica foram muito importantes nas diferentes fases de realização
desta obra. Minha amiga Silvia Ninita de Moura Estevão assegurou a
ligação Rio de Janeiro-Berlim, bem como o acesso a fontes importan-
24 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

tes. Claudia Hahn-Raabe me facilitou a dura aproximação com uma


terra estrangeira. Durante minha estada no Brasil, entre fevereiro e
maio de 1984, os funcionários da biblioteca e do arquivo do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro mostraram-se muito receptivos e
dispostos a me ajudar, num prazo relativamente exíguo. Da mesma
forma, José Gabriel da Costa Pinto, do Arquivo Nacional, sempre
foi muito atencioso no compartilhamento de seus conhecimentos e
contatos pessoais. Os funcionários da biblioteca do Instituto Ibero-
Americano de Berlim aliviaram significativamente a difícil carga de
INTRODUÇÃO
problemas que, às vezes, surgem em virtude de grandes distâncias.
Oswaldo Giacóiajr., apesar do trabalho com sua própria tese, sempre
encontrou tempo para discutir o texto comigo. Mechthild Hellmig e
O tema da nação nas ciências humanas brasileiras
Heiner Widdig corrigiram com muita atenção o manuscrito. A Dra.
Krúger, do Instituto para Promoção de Talentos (Institut fúr Begab-
"... amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogéneo,
tenfõrderung) da Fundação Konrad Adenauer, promoveu o atendi-
como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios etc. etc.,
mento de todas as obrigações burocráticas necessárias. Por último,
em um corpo sólido e político."
mas nem por isso menos importante, a Fundação Konrad Adenauer,
José Bonifácio de Andrada e Silva, 1813
por meio da concessão de bolsa de pesquisa, proporcionou as condi-
ções financeiras para a realização deste trabalho.
"Nossas cidades, enseadas, rios, minas, florestas, o Brasil inteiro
tem sido visto, examinado, estudado, copiado por sábios e
Berlim, janeiro de 1987.
por artistas da Europa: encaminhemos a nossa juventude
para imitá-los, transplantando da Europa ao Brasil
tudo quanto pode dilatar a esfera dos
nossos conhecimentos, e dos nossos gozos."
Ministro do Império, 1839

"Há tempos que com profunda lástima temos visto aparecer


entre nós sérias tendências de nos fazerem esquecer
a nossa verdadeira origem, dando-nos outra, não só falsa,
porém, o que mais é, muito mais baixa. Outras Nações, separadas
do berço por um grande número de séculos, querendo elevar-se, têm
esquecido a história, e fundadas em fábulas, hão procurado
para si uma origem não verdadeira, porém sempre ilustre. Alguns dos
nossos patrícios, porém, querem esquecer-se de que
são filhos de Portugueses, não para que a sua genealogia se vá prender a
Introdução 27
26 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

tronco mais nobre, mas sim para fazerem-se descendentes A partir de suas obras, dispondo de métodos existentes nas di-
dos Tupiniquins e Botocudos. Não lhes gabamos o gosto, antes queremos versas ciências humanas, esses autores tentaram explicar o Brasil.2
provir dos Vascos da Gama, dos Castros, dos Mens de Sá, do que dos Apesar de sua formação diferenciada - Caio Prado Júnior e Sérgio
Ambircs,Jagoanharos e de outros bárbaros mais ou menos antropófagos." Buarque de Holanda estudaram Direito, enquanto Gilberto Freyre
Pinheiro Guimarães, 1856 cursou Ciências Sociais nos Estados Unidos -, é possível dizer que
eles têm ern comum uma perspectiva histórica na abordagem de seus
As três citações iniciais surgiram em três épocas distintas: a pri- objetos de pesquisa.
meira é de quando ainda não havia um Estado nacional brasileiro; No Brasil daquele tempo, ainda não havia a possibilidade de
a segunda tinha como pano de fundo as grandes querelas sobre a uma formação universitária no domínio das. ciências sociais e histó-
estrutura interna do Estado (em resumo, centralização versus descen- ricas, uma vez que a primeira universidade brasileira foi fundada em
tralização); e a terceira foi produzida durante a consolidação da mo- São Paulo, em 1934. Esses autores colocaram em foco as visões esta-
narquia parlamentar. Ainda assim, elas têm algo em comum: o fato de belecidas e os mitos construídos pela historiografia brasileira tradi-
espelharem no plano político-cultural a mais importante discussão cional. A história de mártires e heróis, que exigia um estilo biográfico
do Brasil da primeira metade do século XIX: o debate sobre a questão e descritivo, ou a história factual, dita histoire évenementielk, deveria
da Nação e o caminho para uma integração nacional, tão ampla quan- ser libertada por uma história preocupada com os processos e as es-
to possível, de todos os habitantes do Estado surgido no ano de 1822. truturas sociais, colocando-se a serviço da explicação. Gilberto Freyre3
Sem dúvida, a questão nacional, sobretudo em seus aspectos expôs, pela primeira vez, no plano científico os problemas da escra-
políticos e económicos, tem ocupado largamente as pesquisas das vidão, enquanto Caio Prado Júnior 4 interpretou, pelo viés da teoria
ciências humanas no Brasil. marxista, a história colonial do Brasil.
Desde os anos 1930, a questão nacional, na condição de estudo Esses autores desempenharam papel fundamental no "Redes-
da "especificidade brasileira", foi ganhando cada vez mais importân- cobrimento do Brasil", para utilizar o conceito de Carlos Guilherme
cia no interior do campo das ciências sociais no Brasil, sendo um Mota, na medida em que suas obras serviram para estabelecer um
tema que, desde o século XIX, ocupava não só a arte, a literatura, ponto de partida para estudos acerca do passado de nosso país. Pon-
mas também a historiografia. A Revolução de 1930, com seu projeto to de partida, porque propunham um novo questionamerito, o qual
de um Brasil novo e moderno, buscou criar um ambiente intelectual estabelecia uma ruptura radical com a tradição da historiografia pra-
dedicado ao trabalho sobre o passado. No fundo, o que se impunha ticada pelos diversos "Institutos Históricos". Uma década mais tarde,
era a ideia de que um futuro diferente só seria possível quando fos- evidenciaram-se os primeiros resultados de uma prática científica na
sem elucidados os recursos do passado da ciência histórica. Os mais Universidade de São Paulo, especialmente no campo da antropolo
importantes representantes dessa geração de cientistas sociais brasi-
leiros são Gilberto Freyre (1900-1987), Sérgio Buarque de Holanda 2 MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974). 3 ed. São
(1902-1982) e Caio Prado Júnior (1907-1990).! Paulo: Ática, 1977. 303p. O autor estabelece em seu trabalho uma periodiza-
ção para a historiografia brasileira entre 1933 e 1974. O período abarcado
entre 1933 a 1937 é chamado de "Redescobrimento do Brasil".
1 FREYRE, Gilberto. Casa~gran.de e senzala. 2 ed. Rio de Janeiro: Schmidt Editor,
1936, 360p.; HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes doBra.nl. 9 ed. Rio de Janei- 3 FREYRE, G., op. cit.
ro: Livraria José Olympio Editora, 1976, 154p. [Col. Documentos Brasileiros - 1];
PRADOJR. Caio. Evolução política do Brasil. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1957,264p. 4 PRADO JR, C., op. cit.
28 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 29

gia, da sociologia e da geografia, em cuja sombra a ciência histórica O livro de Jacques Lambcrt - Os dois Brasis (1959) - desenvol-
ainda se colocava. veu essa teoria utilizando o exemplo do Brasil.6 O princípio dualista
Apesar da relativa precariedade do desenvolvimento científico partia do pressuposto de que, ao lado de um setor moderno e pro-
da história no Brasil, a Faculdade de Filosofia da Universidade de gressista
o
(indústria), havia um setor subdesenvolvido (agricultura) que
São Paulo lançava a Revista de História, que, ao seguir a orientação do representava um empecilho para o desenvolvimento harmónico da
exemplo dos Annales franceses, assumiu uma marca interdisciplinar. sociedade. A superação dessa contradição por meio da moderniza-
A ideia da criação de uma revista de História ocorrera já no ano de ção da agricultura possibilitaria, finalmente, a prosperidade de toda
1937, ria mesma época em que Fernand Braudel lecionava na Uni- a sociedade e colocaria o Brasil no rol dos países desenvolvidos.
versidade de São Paulo. Com a intenção de enfatizar o parentesco Os representantes dessa teoria têm como pressuposto a exis-
espiritual com os Annales, o que também era útil ao próprio reconhe- tência de uma contradição política entre os interesses da burgue-
cimento científico, a Revista de História publicou em seu primeiro nú- sia industrial nacional, que são vistos como os portadores do pro-
mero, como artigo principal, a conferência que Lucien Febvre pro- gresso, e os interesses dos latifundiários ligados ao estrangeiro pela
ferira em 1949, na Universidade de São Paulo, intitulada "O homem exportação.
do século XVI".5 Enquanto a "burguesia nacional" esteve comprometida com
Na época do governo de Juscelino Kubitschek (1955-1960), o o progresso e a modernização do país, os latifundiários fortalece-
estudo do passado serviu à disseminação de uma política cujas ca- ram a "reação", que se colocava no caminho dessa modernização.
racterísticas eram o nacionalismo como ideologia de massa, a con- A luta política do Brasil nos anos 1950 foi fortemente impregnada
solidação das instituições democráticas e o crescimento económico dessa postura teórica. O populismo, como fenómeno político da épo-
acelerado por meio de uma rápida industrialização do país. Funda- ca, encarregou-se de difundir esse princípio do dualismo e tentou
mentalmente, tratava-se de promover a independência do Brasil. O instrumentalizá-lo, visando obter, assim, cada vez mais o apoio da
lema de seu governo, "50 anos em cinco", e a construção de Brasí- sociedade em favor da modernização política. Francisco Wcífort, po-
lia, no Brasil Central, como a nova capital, simbolizavam a principal litólogo da Universidade de São Paulo c especialista do fenómeno do
aspiração de sua política: a possibilidade de um Brasil moderno e populismo,7 caracterizou-o como o fenómeno político que permitiu
desenvolvido. a incorporação de massas cada vez maiores na sociedade industrial
Fortemente influenciada pelos trabalhos de organização que então se desenvolvia. Por meio de uma estreita relação do líder
da Cepal (Comissão Económica para América Latina da ONU, populista, que tinha acesso ao aparelho de Estado, com as massas
com sede em Santiago do Chile), surgiu, nessa época, como a urbanas, a condução política teve êxito, por um lado, ao conseguir
teoria mais difundida das ciências sociais latino-americanas, a a aprovação de sua política por ocasião das eleições. Por outro lado,
modernização baseada no princípio do dualismo de todas as 50- a massa ampliada de trabalhadores foi bem-sucedida em sua iiitegra-
ciedades subdesenvolvidas, as quais contêm em si, segundo essa
tese, duas realidades contraditórias.
6 LAMBERT, Jacques. Os dois Brasis. 3 ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional,
1967, 277p. [Gol. Brasiliana, 335.]
7 WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e
Revista de Históna, São Paulo, 1(1), 1950, pp. 3-17. Terra, 181 p.
30 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857
Introdução

cão à sociedade industrial, uma vez que o Estado encontrava-se com- A rápida difusão da teoria da dependência, inclusive em ambien-
prometido em fazer concessões para alcançar aprovação nas urnas. tes académicos europeus, como principal modelo de explicação para
Segundo Francisco Weffort, uma política ambivalente (com a a história da América Latina, tem relação direta com o questiona-
possibilidade, por um lado, de controle das massas, e, de outro, de mento antes apontado.10 Partindo dessa contrateoria dos fundamen-
os mesmos trabalhadores estabelecerem as próprias demandas) pres- tos da modernização, a maior parte dos estudos das ciências huma-
supunha um crescimento continuado como condição para a integra- nas brasileiras, no período referido, dedicou-se à dependência no seu
ção de novos grupos.
sentido económico, bem como cultural e espiritual.
A derrubada do regime democrático em 1964 e a consequente Reportando-se a uma tradição marxista, as análises, em vez de
construção da ditadura militar apoiada na coalizão da indústria e do sublinharem a oposição entre as nações, enfatizavam a contradição
latifúndio impuseram uma revisão dessa teoria dualista para o en- entre os interesses de classe que ultrapassam as fronteiras nacionais.11
tendimento do desenvolvimento brasileiro. O que se evidenciou no Por essa perspectiva, foram propostas as seguintes questões:
campo da política foi algo muito diferente de um estado agravado Até que ponto existiu no Brasil do século XIX um nacionalis-
do confronto político entre os industriais e os latifundiários. O traba-
mo no sentido europeu?
lho de Francisco de Oliveira8 assumiu, nessa perspectiva, uma crítica Até que ponto o viver em colónia tornou possível um naciona-
radical à teoria do dualismo válida até os anos 1970. Em vez de uma lismo no quadro das limitações impostas ao desdobramento de uma
contradição entre um Estado moderno (indústria) e outro regressivo
esfera pública?
(agricultura), a análise procurou ressaltar as ligações entre os dois Até que ponto é possível falar da existência de uma cultura
setores complementares. O populismo foi fortemente criticado, uma brasileira autóctone ou somente da existência de uma transplan-
vez que a superestimação do nacionalismo e do projeto de desenvol- tação da cultura europeia, que teria uma nova manifestação nos
vimento nacional encobria as reais contradições da sociedade e os
trópicos?
diferentes interesses de classe.9
Será que é possível falar de algo especificamente brasileiro?
A construção dos diversos regimes autoritários na América La-
tina, ao longo dos anos 1960 e 1970, em alguns países com acentua-
dos traços nacionalistas provocou tratamento renovado das questões
relativas à história desse continente: a questão nacional e a particula-
ridade do surgimento de Estados nacionais, no século XIX, nas anti- 10 Para o tratamento do tema em alemão, veja-se: EVERS, Tilman Tõnnies &
WOGAN, Peter von. "Dependência", lateinamerikanische Beitàge zurTheorie
gas colónias, bem como o fracasso das formas de Estado democráti- der Unterentwicklung: Das Argument. Berlin, 15 (4-6), 1973, pp. 404-54; LIN-
co, que, com frequência, constituíram-se mais em exceções do que a DENBERG, Klaus (org.). Lateinammka; Herrschaft, Gewalt und internationale
regra da história do continente. Abhàngigkeit. Bonn, Verlag Neue Gesellschaft, 1982, 358p.; SENGHAAS, Die-
ter (org.). Peripherer Kapitalismus; Analyse úber Abhàngigkeit und Unterentwi-
cklung. Frankfurt/M., Suhrkamp, 1981, 392p.; PUHLE, Hans-Júrgen (org.).
OLIVEIRA, Francisco de. "A economia brasileira: crítica à razão dualis-
Latanamerika; Historische Realitàt und Dependencia-Theorie. Hamburg, Ho-
ta". In . Questionando a economia brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1975, pp.
ffrnann & Campe, 1977, 239p.
5-78.
11 Como exemplo de trabalho nessa perspectiva, veja a importante obra de CAR-
IANNI, Otávio. O colapso do populismo no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: Civiliza- DOSO, Fernando Henrique e FALLETO, Emo. Dependência e desenvolvimento
ção Brasileira, 1975, 223p. Crisis m Rrazil. Tradução de Phyllis B. Eveleth. New
na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de [aneiro: Zahar, 1970,
York: London, Columbia University Press, 1970, 244p.
143p.
32 Historiografia c Nação no Brasil 1838-) 857 Introdução 3.3

Esse conjunto de problemas aponta para uma reorientaçao da elite dominante brasileira, cuja base económica continuou sendo a
pesquisa sobre a questão nacional, na medida em que coloca em xe- escravidão até o fim do século XIX, nunca se colocou a necessidade
que alguns pontos fundamentais da tradição transmitida pela histo- de impor seus interesses por meio de uma transformação socioeco-
riografia nacional, que enfatiza a oposição entre colónia e metrópole nômica da sociedade. A Independência não foi o resultado de uma
como etapa para a constituição da nacionalidade. Revolução, mas, sim, produto de uma negociação com Portugal. Os
A teoria de Barringtori Moore12 sobre o surgimento das socie- representantes dessa teoria colocaram em xeque a ligação automá-
dades democráticas e a consequente recepção de sua obra nos cír- tica entre Independência e nacionalismo e se encarregaram de ob-
culos académicos chamou a atenção para o problema da moderni- servar que, mesmo com a fundação do Estado nacional, era possível
zação correspondente ao processo de se engendrar uma sociedade antever certo processo de continuidade. 14
orientada ao mercado no Brasil ao longo do século XIX. O modelo A historiografia brasileira tradicional, orientada pelo sentido
teórico de Moore ofereceu uma explicação para o entendimento do nacional e tomada pelo modelo rousseauniano dos colonos, que rom-
desenvolvimento político do Brasil.13 peram seus grilhões, abordou a Independência como consequência
A teoria da especificidade do Brasil, desenvolvida nos anos de uma consciência nacional crescente. Essa interpretação surge
1970, a partir da referência de Barrington Moore, atribui ao modelo como problemática aos olhos dos autores mais novos.16 A disparidade
de colonização o fracasso da estabilidade democrática no país, mar- de interesses regionais determinados e as diferenças sociais e étnicas
cando, inclusive, o processo de modernização do século XIX. Para a - que foram reconhecidas pelos políticos mais antigos do movimento
de Independência - contribuem para colocar em dúvida qualquer
12 MOORE, Barririgtori. Social origins of dictatorship and democracy. Lord and Pe- tratamento unívoco de uma consciência nacional no fim do século
asant in the making of the inodern world. Boston: Beacon Press, 1966, 559p. XVIII e início do século XIX.
13 As obras mais importantes que se dedicam à especificidade do Brasil no pro- Novos impulsos para o debate da questão nacional no Brasil
cesso de constituição de uma sociedade orientada pela economia de merca- surgiram especialmente no domínio da antropologia. Roberto Da-
do são: FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro:
Matta16 estabeleceu, a partir de suas pesquisas sobre a sociedade bra-
Zahar, 1973, 413p.; MELLO, João Cardoso de. O capitalismo tardio: contribuição
à revisão crítica da formação e desenvolvimento da economia brasileira. Tese de dou- sileira, um importante questionamento no plano teórico, em torno
torado. Campinas: Unicamp/Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 1975, da identidade brasileira referente ao funcionamento da sociedade.
203p.; VELHO, Otávio Guilherme. Capitalismo autoritário e campesinato: um es- A partir da investigação de fenómenos sociais vivos importantes
tudo comparativo a partir da fronteira em movimento. São Paulo: Difel, 1976, 261p.
na sociedade brasileira, como, por exemplo, o carnaval, ele propõe
Os três trabalhos ressaltam a particularidade do desenvolvimento capitalista
do Brasil, sem perder de vista as estruturas globais do sistema. A especificidade questões provocativas e um modelo explicativo para a análise da so-
do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, em comparação com a Europa
e a América do Norte, fica clara face à organização política do sistema. Espe- 11 DIAS, Maria Odila da Silva. "A interiorização da melrópole (1808-1853)".
cificamente, a posição dos autores é a de que a revolução burguesa no Brasil In MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: dimensões. São Paulo: Perspectiva,
só ocorreu no plano económico, e não no plano político. Em consequência, 1972, pp. 160-184.
segundo esses autores, trata-se de um sistema cuja particularidade só pode ser
15 Iclem.
compreendida a partir da história. Na verdade, o que eles reivindicam é uma
historici/.ação das categorias de modernização e capitalismo. Categorias como ca- 16 Veja, em especial, DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros c heróis: para uma
pitalismo tardio, capitalismo autoritário ou modelo autocrático-burguês são utilizadas sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 272; do mesmo
como elementos de construção do entendimento de uma realidade particular, autor, A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo: Bra-
que resultou do processo de colonização do século XVI. siliense, 1985, 140p.
84 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Introdução 35.-w..

ciedade brasileira. O estudo dos rituais possibilita, segundo seu pon- A presença do Estado português na colónia trouxe consequên-
to de vista, uma abordagem da totalidade social. É assim que estrutu- cias importantes para o movimento de Independência: a Casa de Bra-
ras fundamentais da sociedade são dramatizadas. aança manteve o governo do novo Estado, apesar da Independência.
A partir dessa postura, ele se aproxima da sociedade brasilei- Uma situação inusitada, quando comparada, por exemplo, com o
ra com a intenção explícita de entender a especificidade do que é conjunto das colónias espanholas vizinhas.
"brasileiro". O livro Carnavais, malandros e heróis, de sua autoria, tem Nas antigas colónias espanholas, o desenrolar dos fatos se deu
como pergunta norteadora, segundo suas próprias palavras, investi- em direção bastante oposta. Lá, Independência significou forte dis-
gar "o que faz o Brasil Brasil".17 tanciamento em relação à Espanha e valorização da cultura indígena.
O exemplo dessas colónias, em cujos territórios se fundaram várias
O movimento de Independência e a questão nacional no Brasil repúblicas a partir da Independência, sempre assustou a elite brasi-
leira. De acordo com a concepção de mundo vigente, a República
Ao lado dos obstáculos de natureza étnica, é preciso acrescen- pertencia ao mesmo universo da anarquia e precisava ser detida a
qualquer custo.
tar o isolamento das diferentes províncias, que, ao menos parcial-
mente, só foi sendo superado, pouco a pouco, a partir de 1808, com O desenvolvimento diferenciado das colónias espanholas e
a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, a conse- portuguesas deve ser compreendido também por meio das possibili-
quente construção de estradas, as expedições científicas e a elabora- dades de formação das elites locais. Ao contrário de Portugal, a Espa-
ção de cartas geográficas. nha autorizou a fundação de universidades na América Latina, o que
A produção voltada à exportação da colónia do Brasil e a forte fez com que, desde muito cedo, a camada dirigente local pudesse
centralização política portuguesa tornaram difícil por bastante tem- se preocupar com o viver em colónia. Em 1551, as universidades do
po o desenvolvimento de relações mais estreitas entre as diferentes México e Peru foram fundadas, e o número de formados no ensino
regiões do Brasil. Somente a partir do século XVIII, com a prosperi- superior no final da colonização - cerca de 150 mil para o universo
dade do ouro da região das Minas Gerais, desenvolveu-se um merca- hispânico e 1.242 para o universo colonial português - demonstra
do interno a partir do abastecimento da região enriquecida. claramente a distinção de cultura política entre as duas potências
coloniais.18
A transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro,
motivada pelas invasões napoleônicas da península ibérica, alterou, No caso das famílias abaetadas do Brasil, seus filhos tinham o
seguramente, em boa medida, essa situação. O Rio de Janeiro, como percurso individual de formação determinado, de antemão, pela or-
a capital de fato do Império português, tornou-se também o centro dem de nascimento: o primogénito herdava os bens materiais, en-
do governo e ultrapassou o estatuto de uma cidade de província para quanto o segundo era enviado para estudar em Portugal, com vistas
se transformar em residência de vários legados estrangeiros. Novas à sua qualificação para ocupar altas funções de Estado. Para esse pe-
exigências surgiram a partir de então e o Rio de Janeiro se tornou queno estrato social é que se colocava à disposição a Universidade
um centro de consumo importante, influenciando a produção das de Coimbra. Essa universidade foi fundada em 1308 e reformada no
outras regiões do Brasil.
18 Sobre o sistema universitário latino-arnericano: STEGER, Hans-Albert. Die Uni-
versitãten in der gesellschftlichen Entwicklung l siteinamerikas: deis lateinamerikanische
Universilàtswesen zwischen geschichticher úberlieferung una geplanter Zukunft. Guler-
sloh, C. Bertelsman Verlag, 1967, 305p., v. l .
17 DAMATTA, Roberto, op. cit., p. 14.
36 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857

final do século XVTI1, na época em que o Marquês de Pombal era pri- e redator, resume nas páginas do jornal Aurora Fluminense, que ele
meiro-ministro, em nome dos ideais do Iluminismo, representando fundara no Rio de Janeiro, a opinião dessa elite: "Nada de excessos.
apenas uma primeira ameaça à tradição aristotélica predominante. Queremos a Constituição. Não queremos a Revolução."20
A concentração em torno de uma única universidade teve como A Casa de Bragança surgia como garantia de liberdade dentro
consequência a homogeneização intelectual da elite letrada do Brasil. de uma ordern política e, ao mesmo tempo, como possibilidade de es-
É evidente que, além de Coimbra, havia outras opções para se alcançar capar ao caos social exemplificado pelas antigas colónias espanholas.
uma formação de nível superior. Elas se constituíam, contudo, em ex- Essa elite e sua ligação com os interesses e o mundo intelectual
ceção na preferência dessa elite letrada. Foi exatamente quando outro de Portugal representavam a maioria dos setores dirigentes nacio-
percurso de formação se afirmou (o que é, em certa medida, o caso nais, que ficou encarregada da tarefa de construir o Estado brasilei-
da elite letrada de Minas Gerais, por exemplo) que se tornou possível ro a partir de 1822. Ainda que a cultura política de Portugal tenha
a articulação de prqjetos políticos radicais. Após a Independência, a tido como objetivo promover a homogeneização intelectual - o que
unidade intelectual da maioria da elite letrada brasileira facilitou o realmente terminou acontecendo -, não se pode afirmar de todo que
desenvolvimento do Brasil rumo ao Estado monárquico centralizado não houvesse, no interior dessa elite, diferenças de natureza tanto
e inviabilizou a divisão do país em diversas repúblicas - contrastando, económica quanto regional. Especialmente diante da Independên-
assim, com o que ocorrera no universo colonial espanhol. cia e com o processo de consolidação do Estado nacional, prqjetos
A postura da elite dirigente do movimento de Independência políticos alternativos foram formulados - de caráter mais radical -,
é traduzida em um trecho do Correio Braziliense -jornal que surgira mas não alcançaram sucesso na estruturação do Estado nacional.
em Londres entre 1808 e 1822. Pouco antes de atingir a Independên- No final do século XVIII, na província de Minas Gerais, já era
cia, ojornal escrevia: possível perceber claramente certa insatisfação com a política colo-
nial portuguesa. A consciência de sua especificidade e da autonomia
... lambem não queremos uma revolução e uma revolução será espiritual da população da província se fundava na riqueza das minas
se mudarem as bases de todo o edifício administrativo e social de ouro, que eram conhecidas desde o início do século XVIÍI. A par-
da monarquia; e uma revolução tal c repentina não se pode tir dessa base, emergiu uma ordem social que não se parecia com
fa/,er sem convulsões desastrosas, e é por isso que não a dese- a ordem tradicional da sociedade colonial, apoiada na agricultura.
jamos.19 A alta lucratividade e a concomitante especialização da economia
das minas de ouro contribuíram, pela primeira vez, no Brasil para
Alguns anos mais tarde (1828), depois que essa camada diri- o desenvolvimento de um mercado interno.
gente já detinha o poder de Estado, Evaristo da Veiga, como editor Na região mineradora, rapidamente floresceu a vida urbana
em sua diversidade: não apenas como lugar do governo, como era
usualmente o caso das cidades do litoral, onde a agricultura dava o
111 Apud DIAS, Maria Odila da Silva, op. cit., p. 180.
O editor desse jornal foi Hipólito da Costa, que, em 1805, emigrou para Lon- tom, mas também como lugar de aproximação dos diferentes gru-
dres devido à perseguição da Inquisição. Seguidor dos ideais do Iluminismo, pos sociais; proprietários de minas de ouro, mercadores, que tinham
através de seu jornal, ele almejava promover o progresso do Brasil; pretendia,
assim, viabilizar a suspensão do estatuto colonial c a.convivência com Portugal 20 Apud COSTA, João Cruz. "As novas ideias". In HOLANDA, Sérgio Buarque
numa monarquia parlamentar. Veja-se também: RIZ7JNI, Carlos. Hipólito da de (org.). História geral da civilização brasileira: o Brasil monárquico; o processo de,
Costa e o Correio Brasilimsf. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1957, 31 Op. emancipação. São Paulo: Difel, 1965, p. 182, v. I, t. II.
38 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857
Introdução 39

grande importância no abastecimento da região mineradora, e uma de uma literatura brasileira, fala de um autopúblico para caracteri-
elite letrada que, por sua vez, tinha contato com outras fontes do zar os integrantes das academias. Tratava-se de uma esfera pública
Iluminismo (em especial do Iluminismo francês, por exemplo). Des- muito restrita, pois, no fundo, eles formavam seu próprio público.
se modo, enquanto o latifundiário de uma região agrícola (princi- A literatura daquele tempo, que seguia os padrões formais europeus
palmente os da Região Nordeste, eni torno da cultura da cana-de- na abordagem de seus temas - reconhecimento da própria realidade,
açúcar) se fixava primordialmente em suas terras, o empresário da valorização dos filhos da terra e crença no progresso do país —, aca-
região das minas ficava na cidade e participava dos salões das socieda- bou por representar as transformações sociais da época.
des literárias, deixando-se contagiar por outras experiências. O ponto alto desse esforço de contestação foi o movimento
Esse conjunto de fatores certamente contribuiu para que a re- político sufocado pelo governo colonial, ocorrido na região das Mi-
gião de Minas Gerais oferecesse um quadro diferenciado do Brasil nas Gerais em 1789. O grande número de intelectuais envolvidos
nos tempos coloniais, cujo caráter se dissolveu com a crise da pro- (clérigos, poetas e diplomados em universidade) e sua confiança na
dução das minas e depois com a forte repressão da insurreição de filosofia do Iluminismo francês - o assim chamado espírito francês -
1789. A grande crise económica de Portugal no final do século XVIII caracterizaram a conspiração política.
conduziu ao fortalecimento geral da política colonial para controlar Kenneth Maxwell, em sua pesquisa sobre essa conspiração
o contrabando de ouro. Nessa época, organizaram-se movimentos política,22 identificou três grupos que se engajaram no levante: os as-
de contestação em algumas cidades do país, que se reuniam em tor- sim chamados ativistas, com seu papel de liderança no desenrolar do
no das recém-criadas sociedades culturais, denominadas academias. movimento; os intelectuais, que, em grande parte, depois da estada
Alguns dos integrantes dessas sociedades, inicialmente consentidas na Universidade de Coimbra (a metade dos estudantes brasileiros
pelo governo colonial, não haviam estudado em Coimbra, mas, sim, em Coimbra, dois anos antes do levante, eram "mineiros", habitantes
na França, estabelecendo uma ponte com as correntes intelectuais de Minas Gerais), empreendiam viagens por outros países europeus
em voga. A filosofia do Iluminismo francês, que, no meio das cor- como Inglaterra e França; e um estrato de comerciantes ricos, em-
rentes intelectuais de então, era mais radical que as ideias receitadas presários da mineração e contratadores de impostos, um grupo que,
em Portugal, era discutida tomando-se como referência a situação embora abastado, tinha grandes dívidas com a Coroa portuguesa. O
do Brasil. montante das dívidas dessa camada social se viu aumentado com a
Pela primeira vez desenvolveu-se certo debate acerca de temas crescente crise das minas de ouro, repercutindo na diminuição de
delicados como a questão da escravidão. A repercussão social dessas suas receitas.
sociedades foi muito mais restrita do que nos exemplos correlates A política do governo português de redução do montante das
europeus, uma vez que, no Brasil, se tratava de uma ordem social dívidas, especialmente a partir da nomeação do Visconde de Barba-
composta por grande parcela de escravos e não havia qualquer siste- cena como governador de Minas Gerais em 1786, aproximava ainda
ma educacional organizado. mais essa camada social da conjuração política. Não à toa constava
António Cândido de Mello e Souza (cientista da literatura da do programa de Inconfidência Mineira (como o movimento ficou
Universidade de São Paulo),21 ao abordar, em seu estudo, a formação

?I SOUZA, António Cândido de Mello e. Formação da literatura brasileira: momentos


'• MAXWELL, Kenneth. A devassa da Devassa; a Inconfidência Mineira: Brasil e Por-
decisivos. São Paulo: Martins, 1959, 2v. tugal, 1750-1808. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, 317p.
41
40 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857

E rcuniam-se elas iifio só em casas particulares mas ainda nos


conhecido pela historiografia) a suspensão de todas as dívidas rela-
lugares públicos, com a ocasião das atuais alterações da Euro-
cionadas com a Coroa portuguesa.
pa, a altercar questões sobre o governo público dos Estados e
Além disso, constavam do programa dos mineiros diversas
em que algumas das referidas pessoas têm escandalosamente
medidas de natureza económica destinadas ao novo Estado que
proferido: que os reis não são necessários; que os homens são
pretendiam fundar e que deveria estabelecer-se com base em
livres e podem em todo o tempo reclamar a sua liberdade;
princípios republicanos: incentivo às rnanufaturas locais, severa-
que as leis por que hoje se governa a Nação francesa são justas
mente proibidas pelo controle português; promoção da explora-
e que o mesmo que aquela nação praticou, se devia praticar
ção de minério abundantemente disponível na região, que, por
neste continente. 23
sua vez, era importante na extração do ouro, na medida em que
se constituía em matéria-prima para a produção de importantes
Ao final do século XVIII, começaram a se tornar previsíveis os
ferramentas.
primeiros sinais de uma crise do sistema colonial constituído desde o
A Revolução Americana parece ter fornecido um parâmetro
século XVI, vislumbrando como resultado de sua derrocada a possi-
primoroso para o plano dos conjurados. O vínculo entre uma polí-
bilidade de se constituírem diversos Estados nacionais.
tica fiscal injusta e um levante político, como se evidenciou no caso
A partir de 1808 - quando o rei português transferiu sua Corte
americano, apresentou-se integralmente na avaliação dos atores en-
para o Rio de Janeiro, devido à ameaça napoleônica de cerco continen-
volvidos no movimento. A fundação de uma universidade na capital
tal que se abatia sobre Portugal -, o Brasil recebeu o novo status de cen-
das Minas Gerais, Vila Rica, também fazia parte das previsões do pro-
tro do império colonial português. Assim, o período entre 1808-1821
grama do levante.
ficou marcado por uma série de reformas empreendidas em vários
Fator problemático no movimento foi a discussão cie questões
âmbitos (por exemplo, governo, cultura). As consequências se apresen-
como, por exemplo, a abolição da escravidão, uma vez que alguns de
taram tanto no plano da economia como no plano político-cultural.
seus membros importantes eram senhores de escravos. Uma solução
Com a suspensão do monopólio comercial português, desmontava-se
de compromisso terminou sendo encontrada, chegando-se ao acor-
um dos pilares do sistema colonial. A exclusão de Portugal como ins-
do de tornar livres todos os negros nascidos no país.
tância intermediária do comércio e a consequente baixa dos preços
Ainda que houvesse contato entre Minas Gerais, São Paulo e
atendiam a uma das grandes demandas da economia brasileira.
Rio de Janeiro, o movimento manteve caráter marcadarnente regio-
Como contrapartida ao apoio oferecido a Portugal contra Na-
nal. Isso dificilmente se coaduna com a interpretação do movimento
poleão, a Inglaterra obteve taxas alfandegárias preferenciais e tor-
fixada pela historiografia nacional brasileira, que o identifica com o
nou-se, assim, a maior beneficiária da liberdade comercial brasileira.
nascimento da consciência nacional.
O estreito relacionamento entre Portugal e Inglaterra não era um
Outros movimentos políticos de caráter similar ocorreram
fenómeno novo. Desde 1703, com a afirmação do Tratado de Me-
também no Rio de Janeiro (1794), onde se situava, desde 1763,
thuen, Portugal obrigava-se a aceitar o ingresso do algodão inglês
a sede do governo-geral colonial, e na Bahia (1798). A devassa
livre de taxas de importação, enquanto a Inglaterra se comprometia
levada a cabo pela Justiça lusitana na sequência da repressão à
em favorecer a importação do vinho português.
Inconfidência do Rio de Janeiro constatou a leitura de autores
como Monlesquieu, Voltaire, Mably e os enciclopedistas. Consta
23 Apud COSTA, João Cruz, op. cit., p. 180.
dos autos:
42 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Introdução 43

Na primeira metade do século XVIII, Portugal se colocava em Especialmente no meio das forças militares, sob o comando
terceiro lugar na lista dos importadores de produtos ingleses, depois do general inglês Beresford (1768-1854), cresceu um sentimento de
da Holanda e da Alemanha. Os privilégios concedidos à organização insatisfação que se manifestava em defesa da honra nacional. Para
dos comerciantes ingleses da cidade do Porto e de Lisboa existente desencadear o movimento, estrategicamente, lideranças do levan-
desde o século XVII ilustram muito bem a conexão desses interesses.24 te militar aproveitaram a viagem de Beresford para o Rio de Janei-
Em 1815, o Brasil foi elevado à parcela com os mesmos direi- ro, oportunidade em que pretendia apresentar ao rei d. João VI a
tos do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, o que era, então, situação crítica de Portugal. Após o levante do Porto, nas regiões sob
equivalente, no plano político, ao sentido económico que o Brasil o controle das tropas e dos oficiais revoltosos, os oficiais ingleses das
assumira no império colonial português. O fato inusitado na histó- forças armadas foram destituídos de suas funções.
ria colonial latino-americana da transferência da Corte possibilitou A difícil situação económica de Portugal se complicou ainda
à elite brasileira acesso aos cargos mais elevados na administração mais pelo fato de que grande parte das receitas públicas havia sido
de Estado, adiando a urgência da necessidade de se promover uma gasta pela Corte no Rio de Janeiro. Assim, estabeleceu-se um quadro
independência política. em que todas as águas corriam a favor da revolução. José Trazimundo
Desse modo, a elite brasileira, aliviada economicamente desde Mascarenhas Barreto (1802-1881), membro da aristocracia, em suas
1808, quando o monopólio comercial foi afrouxado, e com acesso memórias,23 descreveu do seguinte modo o clima político:
político ao aparelho de Estado e à Corte no Rio de Janeiro, não co-
locou no horizonte de suas expectativas a solução de uma separação As ideias de revolução eram gerais. Rapazes e velhos, frades
radical de Portugal. Foi somente no decorrer dos eventos políticos e seculares, todos a desejavam. [...] e todos queriam a Corte
que ocorreram em Portugal, em 1820, que a separação como opção em Lisboa, porque odiavam a ideia de serem colónia duma
política se impôs no quadro de discussões, a fim de garantir a manu- colónia.26
tenção dos privilégios económicos e políticos conquistados.
Em 24 de agosto de 1820, no Porto, cidade ao norte de Por- Com isso, esse membro da nobreza expressava um sentimento
tugal, levantaram-se diversos regimentos militares, dando início à que encontrou grande ressonância na sociedade portuguesa, qual
"Revolução Liberal" (assim denominada pela historiografia). A eclo- seja, de que Portugal se tornara colónia do Brasil. E que essa inversão
são desse movimento, com importantes consequências para a Inde- dos papéis estabelecidos, ou ao rnenos a ameaça dessa inversão, não
pendência do Brasil, deve ser vista em relação com o contexto da podia ser tolerada, manifestando-se através de uma firme política de
sociedade portuguesa e suas condicionantes económicas e políticas. recolonização originada das forças políticas da revolução cm anda-
Desde a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, em 1808, que mento.
em Portugal a preexistente hegemonia da Inglaterra aumentou ain- A experiência da ocupação napoleônica em Portugal e a trans-
da mais seu peso. Essa hegemonia não proporcionava apenas vanta- ferência da Corte atingiram alguns setores da sociedade portuguesa
gem económica à Inglaterra - como, por exemplo, o controle do co- de modo profundo, como se pode constatar com as manifestações
mércio colonial com o Brasil; tinha também consequências políticas.

2a BARRETO, José Trazirnundo Mascarenhas. Memórias do Marques de Fronteira e


d'Alorn.a. Coimbra: Imprensa Universitária, 1928, v. l, 493p.
24 MAXWELL, K., op. cit., p. 25. 2f 'Idem, p. 194.
44 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 45

por ocasião da "Revolução Liberal". O discurso se colocava sempre As mesmas ordens, os mesmos lugares, os mesmos ofícios, o sa-
em defesa da restituição da honra nacional, e o mesmo Mascarei!hás cerdócio, a magistratura, todos serão respeitados no livre exer-
Barreto conseguiu traduzir a impressão de sua classe diante da trans- cício da autoridade que se acha depositada nas suas mãos. 31
ferência da Corte, qualificando-a de "fuga vergonhosa cia Casa de
Bragança".27 A cidade do Porto tinha para o norte de Portugal grande im-
Após a leitura de uma proclamação às tropas reunidas - a qual portância como centro de manufatura e comércio,"'2 e a adesão ao
terminava com as seguintes palavras: "Que vivam o Rei, as Cortes e a movimento veio primeiro da parte setentrional do país. Uma semana
Constituição" -,28 o Senado da cidade do Porto foi convocado para depois da proclamação da direção militar, a representação dos co-
formar um governo provisório. Esse governo provisório, composto merciantes da cidade do Porto anunciou, em 1° de setembro de J 820,
de representantes da Igreja, da aristocracia, dos altos oficiais de Esta- seu apoio irrestrito e a disposição em aderir ao movimento "com pes-
do e das diferentes regiões, tinha como objetivo: soas, conhecimentos e bens".33 Em seus escritos, os representantes
dos interesses comerciais se referiam ao núcleo central de suas reivin-
1. exercer o governo em nome do rei; dicações: a perda do monopólio comercial do Brasil, que, conforme
2. zelar pelos princípios da Igreja católica; sua própria expressão, "nós felizmente ocupamos e possuímos".34
3. convocar as Cortes, que desde 1689 não mais haviam sido Em 15 de setembro de 1820 - data da libertação de Portugal
convocadas, a fim de preparar uma Constituição.29 da dominação napoleônica através de um levante na capital -, Lis-
boa, de natureza similar à revolta do Porto, também organizou um
No mesmo dia, o governo provisório se encarregou de di- governo provisório com os mesmos objetivos. Os "governadores do
fundir um Manifesto aos Portugueses*1 em que se estabeleciam os Reino"35 foram perseguidos, depois de terem condenado energica-
objetivos do novo governo. Ressalte-se, nesse documento, a insis- mente o levante da cidade do Porto na proclamação de 2 de setem-
tência em que a revolta se tornara uma necessidade para restabe- bro de 1820.36
lecer uma situação que deveria resultar ou num governo de base Os dois governos se unificaram, constituindo, em 28 de se-
constitucional já existente ou no retorno da Corte para Lisboa. Se- tembro de 1820, um único governo para todo o país, e conduziram
gundo o manifesto, o prejuízo dessa situação era o motivo da crise eleições para a assembleia das Cortes que deveriam realizar-se em
portuguesa. Paradoxalmente, tratava-se de uma revolução que fi- dezembro de 1820.
xou em seu programa:
31 Idem, p. K).
32 Veja SANTOS, Fernando Piteira. Geografia e economia da Revolução de 1820. Lis-
boa: Europa-América, 1962, 185p.
27 Idem, p. 29. 33 Felicitação do Corpo do Comércio de 1/9/1820. I» SANTOS, C. J. dos, op.
cit., p. 19.
28 SANTOS, Clemente José dos (org.). Documentos para história das cortes gerais da
nação portuguesa: 1820-5. Lisboa: Imprensa Nacional, 1883, p. 6, v. 1. 34 Idem.
29 Idem, pp. 7-9. 35 Representantes do rei em Portugal durante sua permanência no Brasil.
30 Manifesto aos portugueses de 24/08/1820. In SANTOS, C. J. dos, op. cit., pp. 36 Proclamação dos Governadores do Reino, de 2/9/1820. In SANTOS, C J. dos,
9-10. op. cit., pp. 21-2.
Introdução 47
46 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857

objetivo esvaziar o movimento. 2. Suspensão da liberdade de co-


A discussão para a convocação das Cortes já estava deixando
mércio. 3. Concentração principalmente em Lisboa das instâncias
claro que havia diferentes facções no interior do movimento, num
de decisão (decreto de 29 de setembro de 1821) e convocação, para
espectro que ia da convocação das Cortes de acordo com o padrão
Portugal, do filho do rei, o príncipe-real Pedro IV. Supressão da
tradicional (com representantes das três ordens da sociedade) até a
máquina de governo estabelecida no Rio de Janeiro desde o tempo
defesa de um direito de voto generalizado.
da transferência da Corte para o Brasil e, ao mesmo tempo, apo-
Ao final, encontrou-se uma solução intermediária que, de um
sentadoria dos servidores com metade da remuneração (decreto
lado, introduzia uma representação direta e, de outro, previa um
de 11 de janeiro de 1822). Esse decreto encaminhava, na verdade,
censo. A assembleia assim eleita e reunida recebeu o nome de "Cor-
medidas que já haviam sido abarcadas no decreto de 29 de setem-
tes", simbolizando, desse modo, um marco dessa sociedade, que reu-
bro de 1821. Foi exatamente a aprovação dessa política que fez da
nia novos ideais e princípios políticos da vida política com antigas
Independência do Brasil a única solução possível para uma elite
estruturas.
brasileira, a fim de inviabilizar o restabelecimento de um antigo
Outro exemplo disso é a nova denominação do lugar da pro-
Estado.
clamação às tropas reunidas, que deslanchou o movimento em 24
As tensões entre os objetivos da recolonização da nova ordem
de agosto de 1820, através do decreto de 23 de dezembro de 1820:
política de Portugal e os interesses da elite brasileira em favor da
a praça na qual se conclamou a "Revolução" deveria ser chamada, a
manutenção de suas "liberdades" conquistadas foram claramente ex-
partir daquela data, de "Praça da Regeneração".87
plicitadas na assembleia constituinte. Um conflito que se mostraria
O resultado das eleições para a assembleia constituinte deu
insolúvel sem a separação política.
uma expressiva maioria para os servidores da Justiça, pouco mais que
Apesar das tensões, até pouco tempo antes da declaração de
a uma elite de formação (cerca de 65%), em contraposição a apenas
Independência, o discurso sempre foi o do desejo e do anseio de
cerca de 5% de comerciantes.38
uma unidade com Portugal, até onde os interesses brasileiros pudes-
E verdade que a assembleia constituinte previa a representação
sem ser contemplados. As instruções aos representantes de São Paulo
do Brasil - cerca de 70 representantes em relação a 130 de Portugal -,
na assembleia constituinte de Lisboa41 continham os pontos progra-
mas, mesmo assim, logo ficaram evidentes os objetivos de recoloni-
máticos que deveriam servir de pauta nas negociações políticas para
zação, fortalecendo o pacto colonial por vários decretos:39 1. Retorno
os representantes brasileiros na assembleia.
do rei a Lisboa (decreto de 7 de março de 1821), uma medida que os
A integridade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve,
governadores do Reino já haviam recomendado ao rei por carta de
assim como a igualdade de todas essas partes do organismo político
29 de setembro de 1820, na sequência dos distúrbios no Porto.40 Com
(por exemplo, o mesmo número de representantes), foram os pri-
isso e com a convocação das Cortes, os governadores tinham como
meiros pontos desses princípios norteadores. Mais adiante, o docu-
mento apresentava o ponto de vista de que deveria haver um governo
37 Decreto de 23/12/1820. In SANTOS, C. J. dos, op. cit, p. 126.
executivo no Brasil. Nessa perspectiva, a troca de correspondência
38 SANTOS, Fernando Piteira, op. cit., p. 95.
39 Sobre o conceito de "pacto colonial", veja: NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil 41 "Instruções do Governo Provisório de São Paulo aos deputados da província às
na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1979, p. 420. Cortes Portuguesas, para se conduzirem em relação aos negócios do Brasil". In
SILVA, José Bonifácio de Andrada c. Escritos políticos. São Paulo: Ed. Obelisco,
40 Carta dos "Governadores do Reino" ao rei, de 2/9/1820. In SANTOS, C. J. dos, 1964, pp.13-24.
op. cit., pp. 23-5.
Historiografia c Nação no Brasil i 838-1857 49

entre o príncipe-real Pedro e seu pai, o rei d. João VI, é bem escla- f...] o perigo da desunião está iminente, circunstâncias urgem,
recedora. Enquanto ainda em 4 de outubro de 1821, em suas anota- a salvação da pátria impera f...] Convoque vossa alteza real já
ções ao pai,42 o príncipe-real evitava qualquer tentativa de se tornar nesta corte uma assembleia geral das províncias do Brasil, e a
eventualmente imperador do Brasil: "O que se queria, [mas] eu juro união com Portugal será mantida e a das províncias do Brasil
a Sua Majestade que eu nunca vou quebrar o juramento e que eles consolidada.41'
só cometerão esta loucura, depois de enfrentarem a mim e a todos
os portugueses".48 Logo depois de seu retorno a Lisboa e da indicação do filho
Com o passar do tempo e com a sempre crescente pressão como seu suplente, o rei d. João VI demonstrou, em seu último con-
interna, sua postura se alterou completamente. Sua carta de 19 de selho ao príncipe-real determinada premonição política, na qual o
junho de 182244 espelhava claramente essa mudança: a política de príncipe se fiou para justificar a possível adesão a favor de um gover-
recolonização da assembleia constituinte de Lisboa fora aprovada, no brasileiro autónomo: '"Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para
e o príncipe-real avaliava então a possibilidade de ser aclamado rei ti, que me hás de respeitar, do que para algum aventureiro." 47
do Brasil. Na mesma carta, ele argumentava que o Brasil não podia Não foi diferente a postura do comando político do movimen-
admitir uma política de recolonização devido à sua superioridade, to de Independência que empreendeu a organização do Estado na-
diante do quadro cada vez mais evidente da força do Brasil face a cional no Brasil. Por certo, tratou-se de uma separação, mas de modo
Portugal. algum isso significou uma transformação profunda da ordem social.
A defesa, até o último momento, da unidade com Portugal, A herança portuguesa, a busca por sintonia entre o novo c o antigo,
sustentada por parte da elite brasileira, deve ser atribuída ao receio fora deslanchada. O filho do rei foi coroado imperador, como Pe-
de que uma separação tivesse como consequência a divisão do país, dro I, e, assim, os antigos atores sociais continuaram dominando a
estabelecendo, assim, a "anarquia". Em seu discurso diante do Se- cena. Em correspondência com uma esfera pública política muito
nado da cidade do Rio de Janeiro, cm 23 de maio de 1822,45José limitada, uma parte considerável da população manteve-se distante
Clemente Pereira (1787-1854), futuro político do Primeiro Reinado, do desenrolar da política. Assim, apenas 1% a 3% da população ob-
formulou os principais pontos de crítica à assembleia decisiva de Lis- teve direito de voto.
boa, não obstante tenha ainda sublinhado a unidade com Portugal A declaração de Independência não significou o controle sobre
também como garantia da unidade das províncias brasileiras: todo o país do poder central, sediado no Rio de Janeiro. No período
de governo de Pedro I (1822-1840), houve divisões com movimentos
autónomos, em parte armados, no norte e no sul do Brasil, que levan-
taram reivindicações mais radicais, como, por exemplo, a dissolução
42 "Carta do príncipe-real d. Pedro ao seu pai, o rei d. João VI, de 4/10/1821". In da monarquia. O risco de uma repartição do país não parecia ex-
SANTOS, C. J. dos, op. cit., p. 256. cluído. Somente no decorrer de duas décadas é que a centralização
43 Idem, p. 256.
46 Idem, p. 370.
44 "Carta do príncipe-real d. Pedro ao seu pai, o rei d. João VI, de 19/6/1822". In
47 "Carta do príncipe-real d. Pedro ao seu pai, o rei d. João VI, de 19/6/1822".
SANTOS, C. J. dos, op. cit., pp. 358-60.
In SANTOS, C. J. dos, op. cit., p. 359. O príncipe-real lembra ao seu pai a
45 "Discurso de José Clemente Pereira, presidente do Senado da cidade do Rio de conversa que os dois tiveram dois dias antes da partida do rei para Portugal.
Janeiro, de 23/5/1822". In SANTOS, C. J. dos, op. cit., pp. 366-70. O rei se referia aos acontecimentos na América espanhola.
50 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Introdução 51

do país e seu projeto político correspondente conseguiram se afir-


No século XX, a mesma questão continuou fazendo parte dos
mar.
mais diversos movimentos culturais, como no caso do Modernismo
dos anos de 1920 (a Semana de Arte Moderna de 1922) ou do Tropi-
calismo no final dos anos de 1960. Ainda que a interrogação acerca
Historiografia e questão nacional: o tratamento
cias bases da nação continuasse sendo proposta, o questionamento
do tema nas ciências sociais brasileiras
se impunha noutro quadro de relações e, por consequência, em sua
discussão, naturalmente novos caminhos e respostas vieram à tona.
À independência política, deveria corresponder, igualmen-
Enquanto os românticos procuravam o correspondente brasileiro ao
te, uma independência cultural: a questão da identidade brasileira
herói europeu da cavalaria medieval, os modernistas descobriram
emergiu como tema importante. Nessa época, a análise das bases da
um anti-herói, um mestiço de negro e índio, preguiçoso, manhoso
nação tornou-se tarefa fundamental dos intelectuais e políticos. O
e astuto.
melhor exemplo dessa orientação é a atividade político-literária dos
Mário de Andrade (1893-1945), um dos mais importantes es-
autores do Romantismo brasileiro do século XIX.
critores do movimento modernista do Brasil, foi quem melhor con-
Uma identidade nacional era tomada como pressuposto para
seguiu dar consistência a essa orientação com Macunaíma, seu livro
que o Brasil se afirmasse plenamente como nação no quadro interna-
lançado em 1926.4S Macunaíma, um mestiço que vivia na floresta,
cional. Tratava-se, porém, de se afirmar como uma nação civilizada,
decidiu ir para a cidade de São Paulo e lá seria confrontado com a
de acordo com os padrões europeus. Nação c civilização eram vistas
realidade, "o progresso", a industrialização e a sociedade de massas
como equivalentes. O projeto de análise das bases da nação se articu-
que ele desconhecia.
lava a partir dos padrões europeus. O índio, que surgia nos romances
A crença num Brasil oculto e autêntico, em contradição com
do século XIX como símbolo da nacionalidade e como portador da
um Brasil aparente e falso, era o que estava por trás do pensamento
brasilidade, apesar da diferença do traje, era, no fundo, um herói
de Mário de Andrade, compartilhado com outros representantes do
europeu. A dedicação ao exame do que era "verdadeiramente bra-
movimento.
sileiro" contagiou os mais diversos movimentos ao longo do século
A análise das raízes de uma cultura brasileira autóctone con-
XIX e XX.
duziu, nos anos 1960, com o Tropicalismo, a um desabrochar da lite-
No século XIX, como já mencionado, os românticos se ocu-
ratura, da música e da pintura. No contexto do reforço da ditadura
param intensa c programaticamente da questão em torno da identi-
militar no Brasil a partir de 1968, com a discussão da "dependência"
dade brasileira. Nesse contexto, seu direcionamento para a história
emergiu, mais uma vez, a questão da identidade nacional, ainda que
assumiu significado especial, tendo sido interpretado também pela
de modo intensamente politizado, pois os canais políticos (como os
perspectiva da busca por uma base histórica para a nação brasileira.
partidos, por exemplo) haviam sido lesados em sua função tradicio-
Houve grandes divergências na época, colocando a historiografia e
nal. Os inúmeros festivais de música dessa época eram, ao mesmo
a literatura em campos opostos no que se refere ao tratamento das
tempo, uma demonstração política e uma oportunidade de exercer
bases da identidade brasileira. Quando abordarmos a obra do his-
a resistência.
toriador Varnhagen, retomaremos essa querela. Foi num contexto
histórico e político muito preciso que os autores do Romantismo
abordaram a questão nacional.
48 ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.
52 Historiografia e Nação no Brasil 183S-1857 Introdução 53

Nas ciências sociais brasileiras, é possível encontrar contribui- O presente trabalho pretende ser uma tentativa de levar a cabo
ções em torno da investigação das relações entre a questão nacional urna investigação nesse sentido. Interessa, aqui, elucidar e analisar
e os movimentos citados.49 a extraordinária importância da escrita da história na discussão da
Nesse âmbito, contudo, observa-se uma lacuna nas ciências so- questão nacional.
ciais. Os historiadores brasileiros se ocuparam apenas pontualmente Não me parece obra do acaso o fato de que exatarnente no
da história de sua disciplina científica. José Honório Rodrigues, que instante de consolidação do poder central (1822-1840) se tenha de-
é reconhecido como especialista nessa área, com sua ainda parcial- senvolvido interesse na elaboração de uma história nacional. Km
mente divulgada História da, história do Brasil, tentou traçar um ba- 1838, com apoio direto do Estado, foi fundado, no Rio de Janeiro, o
lanço geral.50 A época decisiva do século XIX, quando a dedicação à Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Normalmente, o próprio
história do Brasil foi uma obrigação generalizada dos setores sociais imperador dirigia as reuniões do instituto. As tarefas do instituto,
mais cultos, até hoje só foi analisada a partir de aspectos particula- cujas salas de trabalho e reunião, inicialmente, ficavam no próprio
res."'1 Ainda faltam pesquisas dedicadas às relações entre os primór- palácio imperial, foram definidas da seguinte forma:
dios da historiografia e a constituição do projeto nacional.
[...] coligir, metodizar, publicar ou arquivar os documentos
necessários para a história e geografia do Império do Brasil; e
49 Vejam-se, nessa perspectiva, os trabalhos do colóquio "Cultura brasileira:
realidade ou ilusão?", Belo Horizonte, de 17 a 19 de outubro de 1979; Cader- assim também promover os conhecimentos destes dois ramos
nos do Centro de Estudos Rurais e Urbanos, São Paulo, 13 de setembro de 1980, filológicos por meio do ensino público, logo que o seu cofre
pp. 7-69; WHITAKER, Dulce C. A. "Ideologia e cultura no Brasil: sugestões proporcione esta despesa.52
para uma análise do nosso processo cultural, à luz da teoria crítica da socie-
dade", Perspectivas, São Paulo, 5, 1982, pp. 5-14; GULLAR, Ferreira. Vanguarda
e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969, 132p; ou do Não se tratava mais, como até então, de elaborar crónicas
mesmo autor, Cultura posta em questão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, e narrativas, mas, ao contrário, impunham-se a pesquisa sistemá-
1965, 126p.; RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, tica e a escrita da história brasileira com base em metodologias
1972, 146p. (especialmente o Capítulo IV). Um importante trabalho sobre o
conceito de "cultura brasileira" é a tese de livre-docência de MOTA, Carlos
adequadas. A fundação do IHGB significava um importante passo
Guilherme. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974). São Paulo: Ática, 1977. rumo à institucionalização e à profissionalização da historiogra-
Sobre a questão nacional e os movimentos culturais, ver: LAFETA, João Luis. fia no Brasil. Na sessão de fundação de 1° de dezembro de 1838, os
1930. A crítica e o modernismo. São Paulo: Duas Cidades, 1974, 213p.; LOEZ, membros do Instituto prepararam a primeira versão da periodização
Telc Porto Ancona. Mário de Andrade: ramais e caminhos. São Paulo: Duas Cida-
des, 1972, 265p.; da mesma autora, Macunaíma: a margem e o texto. São Paulo:
da história brasileira, a qual deveria servir de referência para a busca
Hncitec, 1974, 127p.; MORAIS, Eduardo Jardim de. A Irrasilidade modernista: de fontes a ser empreendida nas províncias.
sua dimensão filosófica. Rio de Janeiro: Graal, 1978, 193p.; HOLANDA, Heloísa
Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960-1970. São
homem branco: Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional,
Paulo: Brasiliense, 1980, 199p. 1974, 295p.; eJANOTTI, Maria de Lourdes M. João Francisco Lisboa: jornalista
50 RODRIGUES, José Honório. História da história do Brasil: historiografia colonial e historiador. São Paulo: Ática, 1977, 253p.João Francisco Lisboa (1818-1863),
2 cd. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1979, 534p., v. 1. (Os volumes seguintes são contemporâneo de Varnhagcn, teve com ele uma disputa acirrada sobre sua
dedicados à historiografia nacional e à ideologia.) posição em relação à questão indígena.

51 Dois trabalhos que tomaram a historiografia do século XIX como objeto de 52 "Estatutos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", Revista do Instituto
pesquisa devem ser destacados aqui: DIAS, Maria Odila da Silva. O fardo do Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, l (1), jan.-mar./1939, p. 22.
Introdução 55
Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

Em 1854, veio a público o livro de Francisco Adolfo de Varnha- ao sul do Rio Grande, colocando em risco os interesses dos Estados
Unidos nesse território.
gen, História geral do Brasil, dedicado ao imperador. Em sua dedica-
tória, Varnhagen agradecia o incentivo imperial e sublinhava que o Embora a historiografia brasileira durante os anos 1960 e 1970,
estudo da história nacional "é muito importante para o brilho da na- a partir das recérn-fundadas universidades e dos institutos de pesqui-
ção, para a cultura geral e também para o bom governo da nação".53 sa, desenvolvesse novas abordagens e perspectivas, não se deve me-
Este livro trata dos primeiros tempos da historiografia oficial nospre/.ar a repercussão das obras de Varnhagen e do Instituto His-
no Brasil em suas relações com a formação do Estado nacional e com tórico e Geográfico Brasileiro.
a discussão da questão nacional. Pretendo investigar como a histo- Parece-me importante ressaltar que, para os intelectuais do sé-
riografia, que teve início com a fundação do Instituto Histórico e culo XIX, a escrita da história tinha relação intrínseca com a questão
Geográfico Brasileiro, contribuiu, em primeiro lugar, para determi- nacional. Naquele contexto, a historiografia atendia a determinados
objetivos políticos e ideológicos. Seu sentido só pode ser compreen-
nado modelo de escrita da história, ainda com elementos de uma his-
toriografia iluminista, e, em segundo lugar, para afirmar um modelo dido ao se levar em conta a questão fundamental de sua época.
Em minha opinião, é no plano político que reside a conexão en-
indiscutível de nação.
A difusão da concepção de história - tanto a do instituto como tre a consolidação do Estado nacional e o início da historiografia. Entre
a de Varnhagen, que era um homem do Instituto - influenciou, em 1840 e 1850, o processo de construção da nação se torna cada vez mais
visível. O nativismo surge como barbárie. Certamente a historiografia
grande medida, toda a historiografia brasileira até os anos 1930. So-
também deu sua contribuição para a constituição desse quadro.
mente a partir dessa época novos pressupostos metodológicos colo-
caram em questão a metodologia estabelecida, tal como já exposto
Fontes de pesquisa e periodização do trabalho
no início.
Nesse sentido, constituem verdadeiros marcos os trabalhos ci-
tados anteriormente, de Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Para a análise da formação de um modelo nacional na histo-
riografia brasileira, tomo como ponto de partida dois tipos de fontes
Buarque de Holanda,54 e a fundação da Universidade de São Paulo,
de pesquisa:
que desempenhou papel de liderança no campo das ciências sociais,
fortemente influenciado pelas ciências sociais francesas.
* A obra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, funda-
Nos anos 1960, descobriu-se um novo campo para a pesquisa
histórica - o período republicano - a partir do trabalho de historia- do em 1838 e apoiado pelo Estado.
dores americanos — os assim chamados "brazilianistas". O interesse * O livro de Varnhagen, História geral do Brasil, publicado em
1854.
crescente dos círculos académicos dos Estados Unidos tinha relação
com o aumento da importância da América Latina para o conjunto
A fundação do Instituto - ao qual se atribuiu o dever da escrita
da política exterior americana naquela época. O modelo de Cuba
da história nacional brasileira - e a obra de Varnhagen representam,
ameaçava transformar em barril de pólvora o continente americano
por mérito próprio, a origem da historiografia científica sistemática
no Brasil.
53 VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História Geral do Brasil. Rio de Janeiro/ Além disso, parto do princípio de que é preciso aproximar
Madrid, 1854-57, 2v.
da pesquisa proposta a literatura e os debates da política daquele
54 FREYRE, G., op. cit.; HOI ANDA, S. B. de, op. cit.; PRADO JR, C., op. cit.
56 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857
Introdução 57

tempo, uma vez que aí também se encontram as marcas das dispu- cados, os concursos lançados e os prémios concedidos pelo Instituto,
tas acerca da nação. Os historiadores de então também foram alivos bem como os relatórios das diversas direções, fornecem relevantes
escritores e políticos, e, nesses termos, Varnhagen rião foi exceção. referências para a compreensão da concepção de historiografia que
Ao lado de sua obra histórica, ele foi autor de romances e peças de essa instituição representava.
teatro, dedicando-se também à pesquisa da épica nacional. A obra de Varnhagen, que representa outro pilar deste traba-
A literatura de então, que se debruçava intensamente sobre a lho, é integralmente publicada, assim como parcelas de sua corres-
problemática da formação da nação e de seus alicerces, desenvolveu pondência. Seu espólio privado está depositado no arquivo do antigo
ternas históricos com certa frequência. As abordagens do passado da Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro. Tendo em vis-
literatura e da historiografia se diferenciam, contudo, no que diz res- ta que a obra de Varnhagen é muito diversificada, concentrei-me em
peito aos verdadeiros elementos portadores da cultura. suas três mais importantes obras históricas.56 A análise desses livros
A forte crítica de Varnhagen ao poema de Domingos Gonçal- permite determinar os elementos mais significativos da compreensão
ves de Magalhães (1811-1882) atacando seu "indianismo" serve como de Varnhagen acerca da historiografia.
exemplo que atesta a contraposição a esse tipo de avaliação do pas- A periodização da história nunca é tarefa fácil. Além disso, é,
sado.55 segundo minha opinião, imprescindível. A impressão que tive acerca
Para a análise do trabalho do Instituto, existem duas fontes dos marcos temporais já na primeira consulta às fontes me parece
importantes que permitem a reconstituição de suas atividades: em que continua sendo a mais sustentável: da fundação do Instituto His-
primeiro lugar, a revista trimensal, publicada regularmente desde tórico e Geográfico Brasileiro (1838) até a publicação do segundo vo-
1839 até hoje, constituindo-se, no século XIX, num foro extraordi- lume de História Geral do Brasil, de Varnhagen (1857). Nesse ínterim,
nariamente importante de discussão das questões mais relevantes o poder central de Estado se consolidou no Rio de Janeiro. A nação
daquele tempo; em segundo lugar, o arquivo do Instituto e de seus adquiriu seus contornos mais importantes, os quais seriam exibidos
presidentes, situado no Rio de Janeiro. até o fim do século XIX.
No trabalho com as fontes, elegi documentos de caráter dife-
renciado - estáluas, listas de sócios e correspondentes - para retratar
a história do Instituto como instituição. Além disso, há documentos
em que ficaram registradas suas atividades científicas. Esses materiais
compõem um único conjunto, na medida em que as atividades cien-
tíficas do InstitiKo não podem ser dissociadas de sua história como
instituição. A análise da revista se revelou fundamental para a inves-
tigação da atividade científica do Instituto: os autores e temas publi-

36 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral do Brasil: Isto é do descobrimento,


13 O poema cie Gonçalves de Magalhães, ativo sócio do Instituto Histórico e colonização, legislação e desenvolvimento deste Estado, hoje Império independente, es-
Geográfico Brasileiro, que é reconhecido como o introdutor do Romantismo crita em presença de muitos documentos autênticos recolhidos nos arquivos do Brasil,
na literatura brasileira, chama-se "A Confederação dos Tamoios" e foi publi- de Portugal, da Espanha e da Holanda. Rio de Janeiro: E. H. Laeimnert, 1854-
cado em 1856. Wilson Martins considera o poema o épico oficial do Segun- 57, 2v.; e do mesmo autor, História da independência do Brasil. Rio de Janeiro:
do Reinado. Veja-se MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. 1855- Imprensa Nacional, 1917, 598p.; e também História da luta com os holandeses no
1877. São Paulo: CAihrix, 1977, 554p, v. 3. Brasil desde 1624 a 1654. Wien, Garlos Finstcrbeck, 1971, 365p.
NAÇÃO E HISTÓRIA: Â FUNDAÇÃO
DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

A pesquisa acerca do Instituto Histórico e


Geográfico Brasileiro

A historiografia brasileira dedicou-se muito pouco, até o momento,


à reflexão sobre o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
No entanto, curiosamente é constante a referência ao papel e ao sig-
nificado que o instituto exerceu na vida cultural do Brasil do século
XIX em trabalhos no âmbito das ciências sociais. As pesquisas, con-
tudo, ainda não construíram qualquer análise científica abrangente
sobre o tema.
Parece, assim, uma obviedade que a instituição, fundada em
1838, tenha desempenhado papel relevante no processo de forma-
ção nacional. Mas que tipo de papel social assumiu e em que sentido
a escrita da história pode contribuir - e contribuiu de fato - para o
processo de construção da identidade nacional? Essas são questões
que ainda não conseguiram receber um tratamento sistemático das
pesquisas acerca do instituto. Como se pode explicar que esse tema
ainda não tenha recebido a devida atenção, uma vez que, ao longo
de todo o século XX, a historiografia brasileira foi marcada pela obra
do instituto?
Dois tipos de abordagem acerca do instituto podem ser deli-
neados: de um lado, os trabalhos que resultaram da pena dos sócios
60 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico c... 61

do instituto. 1 Especialmente por ocasião do centenário de fundação Sua concepção da história do instituto, ao qual pertenciam na condi-
do instituto, ern 1938 - com a marca de um clima de forte sentimento ção de sócios, era formulada preferencialmente a partir de determi-
nacionalista, multiplicaram-se, na revista do IHGB, artigos sobre o nadas datas comemorativas do instituto, ou em função de referências
tema, que chegaram até mesmo a difundir fontes para o estudo da oficiais. Produzidos sob tais condições e sem tomar qualquer referên-
biografia de seus fundadores. cia de uma história-problema, os textos distinguem-se muito pouco
A organização do III Congresso de História do Brasil, então, entre si e só com muitas reservas podem ser considerados propria-
dedicou à interrogação seis sessões de um total de 55 com os seguin- mente científicos.
tes temas: O valor desses trabalhos consiste principalmente na sistemati-
zação das fontes. Principalmente as biografias publicadas oferecem
- IHGB: sua fundação um grande manancial de informações sobre os fundadores do IHGB.
- IHGB: patrocínio e atividade do imperador d. Pedro II É preciso não esquecer que uma formação científica no cam-
- IHGB: sua influência cultural po da história, decorrente da profissionalização da historiografia de
- IHGB: sua obra científica e a Revista do IHGB acordo com os padrões universitários, só se tornou possível no Brasil,
— IHGB: sua obra científica e os congressos promovidos pela primeira vez, a partir de 1934, na cidade de São Paulo, com a
- IHGB: suas grandes personalidades fundação da universidade. Novos métodos e teorias, então, foram in-
troduzidos no campo das ciências sociais brasileiras, com a vinda de
A consciência do papel desempenhado pelo instituto como cientistas franceses convocados.
guardião da história nacional encontrou expressão no discurso do Há, assirn, ainda um segundo grupo de trabalhos que foram
orador oficial do jubileu de fundação: Guarda de nossa História, da preparados por autores que não são ou que não foram sócios do ins-
opulência do nosso património moral, jamais poderá desaparecer.2 tituto, e que se valem de um tipo de abordagem analítica.3 Em vez da
Os trabalhos apresentados tinham como marca o caráter des- mera descrição, procuram partir de um questionamento para abor-
critivo e a representação panegírica do instituto e de sua atividade. dar o tema do IHGB. A fundação e a função social do IHGB são
Seus autores não eram historiadores de formação, mas, ao contrário, abordadas a partir de determinadas relações e, pela primeira vez, o
eram, em sua maioria, como os fundadores do instituto, juristas, objeto se submete aos critérios de uma historiografia produzida e
militares e médicos. Esses homens se definiam como "literatos", desenvolvida a partir da universidade.
o que poderia ter como correspondente europeu o homme de leltres.
Maria Alice de Oliveira Faria, com seu ensaio, lançado em
1965, sobre os brasileiros no Instituto Histórico de Paris, forneceu
BITTENCOURT, Fcijó. Instituto Histórico. Os Fundadores. Rio de Janeiro: Im-
prensa Nacional, 1938, 518p.; CASTRO, Olegário Herculano cTAquino. "O
COELHO, Geraldo M. História e ideologia: o ItíGB e. a República (1889-1891).
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", Revista do IHGB. Rio de Janeiro,
Belém: Universidade Federal do Pará, 1981, 94p.; FARIA, Maria Alice de Oli-
60, 1887, pp. 171-201; CORREIA FILHO, Virgílio. "Como se fundou o Institu-
veira. "Os brasileiros no Instituto Histórico de Paris", Revista do IHGB. Rio de
to Histórico", Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 297, 1927, pp. 3-50; FAZENDA,
Janeiro, 266, 1965, pp. 68-148; POPINO, Rollie E. "A century of lhe Revista do
José Vieira. "Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Subsídios para sua his-
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", The Hispamc American Historical
tória. 1838-1911", Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 74, 1911, pp. 277-439.
Review. Durham, 33 (2), mai/1953, pp. 307-323; WEHLING, Arno. "As origens
"Discurso de Alfredo Valladão", Boletim da Revista do Instituto. Rio de Janeiro: do Instituto Llistórico e Geográfico Brasileiro", Revista do IHGB. Rio de Janei-
Imprensa Nacional, 1939, p. 77. ro, 339, abril-junho/1983, pp. 7-16.
Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Nação c história: a fundação do Instituto Histórico c...

valiosas considerações para a pesquisa sobre as relações entre a insti- Acredito poder situar, dentro dessa perspectiva, o Instituto
tuição francesa c o IHGB.4 O ponto de partida de sua investigação foi
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). A instituição e o pa-
originalmente a análise da influência francesa na cultura brasileira
pel que ocupou na sociedade brasileira do século XIX, assim
do século XIX, especialmente sobre o Romantismo brasileiro.
como o tipo de história que elaborou, operaram no sentido de
A medida dessa influência pode ser demonstrada, entre outras produzir c reproduzir uma fração da ideologia da classe domi-
evidências, pela elaboração na língua falada no Brasil do conceito nante brasileira, e a partir do conceito de ideologia, a história
de afrancesamento. Não é por acaso que a autora, no decorrer de seu integraria uma forma mais ampla de como a classe dominante
trabalho, deparou com esses dois institutos históricos. Personagens
explicava sua posição no sistema de classes. Assim, os intelectu-
essenciais do movimento romântico no Brasil foram sócios tanto do
ais que se organizaram em torno dó IHGB, atuarido em nível
Institui Historique de Paris como do IHGB - temas históricos foram
de superestrutura, produziram um modelo de historiografia
frequentemente motivo de sua construção literária. O objetivo dessa
- a história oficial - que consagrava o sistema de dominação
dedicação à matéria da história foi destacar o que distinguia o Brasil
existente no Brasil, fazendo com que essa produção intelec-
de todas as outras nações.
tual exercesse uma ação de retorno sobre a estrutura. 7
Outro trabalho publicado que se ocupa cientificamente do
tema é o artigo de Geraldo M. Coelho.5 Ao recorrer ao universo de
conceitos marxistas, o autor procura analisar o debate acerca da Pro- Geraldo M. Coelho pressupõe, em sua análise, que a sociedade
clamação da República no interior do IHGB - afinal, um produto da brasileira do século XIX era uma sociedade de classes, sem, contudo,
monarquia. problematizar a utilização do conceito de "classe" para o tratamento
Dois conceitos desempenham papel relevante em sua aborda- da realidade social brasileira da época.8
gem do instituto: em primeiro lugar, o conceito de aparelho ideoló- Assim como Coelho, o cientista político José Murilo de Car-
gico de Estado elaborado por Althusser.6 Em sua concepção, o IHGB valho, em um de seus livros, interroga a hegemonia no aparelho
refletia a visão de mundo da classe dominante do Brasil a partir de de Estado dos grandes senhores de terra, com base em rico mate-
seu trabalho de construção de uma história oficial, efetuando, as- rial empírico.9 O autor introduz o conceito de ''elite política" e de-
sim, uma generalização das "visões de mundo privadas" do latifún- monstra como a origem socioeconômica desse grupo era hetero-
dio baseado na escravidão. Na medida em que o instituto reproduzia génea. Além disso, no seio dessa elite, é possível reconhecer certa
essa ideologia, exercia a função de aparelho ideológico de Estado e homogeneidade.
contribuía, desse modo, para garantir a reprodução permanente das Enunciada já na introdução deste livro, essa homogeneidade
relações sociais constituídas. intelectual da elite dirigente dos negócios de Estado resulta de algo

7 Conforme nota 3. COELHO, Geraldo M., 5v.


Conforme nota 3. FARIA, Maria Alice de Oliveira.
8 Veja-se, em especial, o trabalho de: FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Ho-
Conforme nota 3. COELHO, Geraldo M. Originalmente dissertação de mes-
mens livrei na ordem escravocrata. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros,
trado apresentada à Universidade Federal Fluminense, publicada em 1981,
1969, 249p. A autora afirma explicitamente que, no Brasil do século XIX, ain-
pelo historiador e professor da Universidade Federal do Pará.
da não se havia estabelecido uma sociedade de classes.
ALTHUSSER, Louis. "Idéologie et appareils ideologiques d'Etat (Notes pour
5 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ardem: a elite política imperial. Rio
une recherche)", LaPensée. Paris, 1951, junho/1970, pp. 3-38.
de Janeiro: Campus, 1980, 202p.
Nação c hi.stória: a fundação do Instituto Histórico e.. 65
64 Historiografia e N?ação no Brasil J838-1857

comum em sua formação e carreira: a Universidade de Coimbra e a siadamente mecânica. Mais adiante, no desenvolvimento da análise
magistratura eram etapas típicas da carreira de um membro da elite sobre o IHGB, vou retomar ainda a questão das relações sociais dos
sócios do instituto.
política.
Não estou convencido de que a definição do IHGB como O segundo conceito ao qual Geraldo M. Coelho recorre em
"aparelho ideológico de Estado", pressuposto básico do argumen- sua análise é o de inlelletuali organid (intelectuais orgânicos) .10 A par-
to de Coelho, represente efetivamente uma compreensão renovada tir desse conceito elaborado por António Gramsci, o autor interpreta
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Dito de outro modo, a ação c a função dos intelectuais reunidos em torno do instituto: "Os
acredito que o tratamento aprofundado cia especificidade do IHGB intelectuais (historiadores) reunidos no IHGB, seriam, assim, inte-
fica comprometido na medida em que a definição do instituto como grantes daquelas 'categorias especializadas' ligadas à classe dominan-
"aparelho ideológico de Estado" é tomada como dado, antes mesmo te da sociedade brasileira."11
de o resultado do trabalho se afirmar. Ou seja, o que deveria ser Essa camada social representava, segundo a abordagem de
o resultado do processo de investigação já estava estabelecido antes Coelho, uma historiografia que identificava a história do Brasil com
mesmo cia realização da pesquisa. a ascensão da classe dominante: a assim chamada história oficial.
Em urna perspectiva histórico-teleológica, o autor caracteriza Conforme seu ponto de vista, trata-se da história do Estado e da anti-
os sócios do instituto, no que se refere à escrita da história, por sua história da nação.12
ação em defesa de um único objetivo, qual seja, a conquista da estabi- Por trás dessa afirmação, fica anunciada uma conclusão pro-
lidade cia ordem vigente. Desse modo, a historiografia é relacionada blemática: a de que a história oficial é uma história falsa, portanto
com esse objetivo, sem que seja colocado em questão o motivo pelo o oposto de uma história verídica. A História, ou seja, a verdadeira
qual a historiografia se integraria nesse processo. história, c, então, a história da nação, uma história que se desenrola
Segundo minha opinião, ainda que haja sentido em se busca- noutro plano e que se contrapõe ao Estado.
rem eventuais relações entre a historiografia do instituto e os interes- Em conexão com esse pensamento, é possível postular a ques-
ses sociais de seus membros, parece-me que a conclusão de Coelho é tão nacional tomando como referência os próprios componentes
simplificadora e carece de problemati/ação. Um passo adiante seria da nação e compreender a história verdadeiramente a partir de sua
dado, na verdade, pelo questionamento das razões que fizeram com perspectiva particular. A história da nação seria então a história das
que a sociedade brasileira do século XIX sentisse necessidade da his- classes não representadas pelo Estado, deixando certa indefinição
toriografia, tendo optado por uma organização na forma similar das em torno do conceito de nação. Coelho supõe, com isso, que os ha-
academias, o IHGB. bitantes do Brasil tinham uma consciência nacional, o que, na minha
No Anexo l de seu trabalho, Coelho apresenta uma lista dos perspectiva, parece algo bastante problemático.
membros da primeira direção do IHGB, acompanhado de seu res- Consequentemente, a tarefa do historiador consiste, segundo
pectivo status social. O fato de a maioria dos membros dessa direção Coelho, em procurar por trás de toda interpretação histórica seu
deter alguma alta posição no serviço de Estado é interpretado pelo
autor como mais uma comprovação de sua hipótese de que o insti- 10 Veja-sc: GRAMSCI, António. Gli intellectuali e 1'organizzazione delia cultura. Tori-
no: Giulio Einaudi Edilore, 1974, 203p.
tuto se constituía como instância da classe dominante da sociedade
imperial brasileira do século XIX. Essa dedução direta da ação políti- 11 Conforme nota 3. COELHO, Geraldo M., p. 8.
ca e intelectual a partir da origem e do status social me parece dema- 12 ldem, p. lOv.
66 Historiografia e Nação no Brasil 183H-1857
Nação c hislória: a fundação do Instituto Histórico

"sentido oculto", o "não dito". O historiador pode descobrir a verda-


dos textos produzidos pelo instituto são um pressuposto incondicio-
deira história na medida em que se posiciona frente a uma "falsa his-
nal. Esses textos serão tratados como discursos, no sentido definido
tória". Coelho supõe que os atores envolvidos com a fundação de um por Foucault,13 e não no sentido de falsificação do real, como no caso
instituto histórico escondem a verdade para preservar a dominação do trabalho de Geraldo M. Coelho.
de sua classe. O procedimento de Coelho conduz a uma "des-histori-
Interrogo o que e quando é enunciado no instituto, na expec-
cização" cio objeto que pretende investigar. Essa "des-historicização" tativa de que tanto a especificidade da instituição quanto seu ambien-
ocorre a partir do momento ern que Coelho opera generalizações te social possam ser compreendidos. O objetivo desta investigação,
que contêm em si elementos a-históricos. Esse alto grau de generali-
portanto, não é encontrar uma razão genérica admitida para justifi-
zação dificulta a compreensão e a explicação do quadro da história.
car a preocupação com a hislória pelas sociedades, mas, sim, descre-
Os discursos produzidos pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasi- ver o significado da historiografia brasileira do século XIX diante do
leiro praticamente não são tratados em sua pesquisa, uma vez que, de processo concomitante de construção da nação.
acordo com sua abordagem teórica, escondem a realidade de fato.
Outro trabalho que se debruçou sobre o Instituto Histórico e
A análise empreendida por Coelho referente ao instituto atende a Geográfico Brasileiro é o artigo de Arno Wehling publicado na Re-
um único objetivo, ou seja, trata de uni objeto que se situa fora do vista do IHGB, resultado da transcrição de uma conferência realizada
instituto. no instituto. 14 O autor conclui que a fundação do IHGB foi resultado
O procedimento metodológico do qual Coelho se vale para a
da repercussão de uma política de determinada elite de orientação
abordagem do instituto conduz a resultados duvidosos. Em vez de moderada e que também teve participação na afirmação do Estado
enfrentar o assunto propriamente dito de sua investigação, ele aceita
nacional. Wehling indica, assim, que as concepções políticas e histó-
a singularidade como mera consequência de um processo histórico. ricas desse círculo de pessoas estavam profundamente enraizadas no
Os fatos relativos ao instituto e à sua história interessam ao autor .historicismo.
somente quando confirmam sua hipótese de que se trata do fato de
Em seu trabalho, José Honório Rodrigues, o único historiador
o instituto ser um aparelho ideológico de Estado e de que as pessoas brasileiro que até o momento se dedicou com afinco à história da
envolvidas se caracterizam como "intelectuais orgânicos" da classe historiografia brasileira, sublinha o caráter revolucionário da obra
dominante brasileira do século XIX. Nesses termos, qualquer análise do IHGB.1' No entanto, considerando que seu livro tem como objeto
de instituições similares - como, por exemplo, a escola e diversos uma apresentação geral da pesquisa histórica no Brasil, ele não leva
outras associações - chegaria ao mesmo resultado e, assim, pouca muito adiante a avaliação da obra do instituto.
contribuição traz para elucidar a especificidade histórica cie tais ins-
tituições.
Aqui, desenvolvo uma investigação acerca do instituto a partir
de outra orientação metodológica. A mim, interessa reconstruir um
quadro histórico no qual o instituto encontra sua inserção. Como '"' Especialmente importante nesse sentido é FOUCAULT, Michel. "Réponse à
une question", Espril, Paris, 36 (371), mar/1968, pp. 850-74; do mesmo autor
num quebra-cabeça, obrigatoriamente as várias partes desse quadro
ainda, L'ordre du discours. Leçon inaugurale au Collége de France prononcée
têm relação entre si, sem que qualquer uma delas tenha preeminên- lê 2 décembre 1970. Paris: Gallimard, 1971.
cia sobre o conjunto. Na análise do instituto, parece-rne importante l> Conforme nota 3. WEHLING, Arno.
atentar para a teia social que lhe deu origem. Para tanto, o estudo
15 Conforme nota 3. RODRIGUES, José Honório.
68 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do I n s t i l u i o Historie

A historiografia brasileira esteve tão entretida em trabalhar os sua opinião, no caso da fundação da instituição tratava-se sobretudo
temas da história do Brasil que a reflexão acerca da história da histo- do brilho da nação.'8
riografia ainda não recebeu a devida atenção. No pano de fundo, como Leitmotiv da fundação do instituto,
estava a veneração da nação, sendo a história vista como instrumento
para elevar seu brilho e sua honra. Além desse laço entre a fundação
A história de sua fundação: como, para que do instituto e um sentimento nacional ainda difuso, outro vínculo
e por quem o instituto foi criado era estabelecido. O instituto foi criado no momento em que o país
buscava proteçao contra a "revolução". Fica claro, portanto, o marco
"Procura o comércio dos sábios cultores da História Nacional, da tradição em que o instituto é fundado: os "princípios republica-
bate à porta desse Areópago ilustre, que se chama nos anárquicos" são rejeitados e combatidos. A manutenção da mo-
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro."16 narquia é tomada como garantia e pressuposto para a integração do
país.19
A ideia da fundação de um instituto histórico e geográfico e
Com estas palavras, Ramiz Galvão - sócio desde 1872 e por
a disposição para dar os passos necessários para sua materialização
longa data orador oficial e diretor da revista do 1HGB - manifestou
surgiram de duas personalidades do movimento de Independência e
as razões que o levaram a se aproximar do instituto. Nessa agre-
do consequente processo de fundação do Estado.
miação de iniciados, seguindo seu discurso, parecia-lhe possível
Raimundo José da Cunha Matos, militar formado em Portugal,
desenvolver em bases razoáveis certo sentimento patriótico. O es-
foi decisivamente marcado pela experiência de luta contra a ocupa-
tabelecimento de um laço entre o trabalho do instituto e a afirma-
ção da Península Ibérica pelo exército napoleônico e as "ideias fran-
ção de um patriotismo, ou seja, de uma identidade nacional, não
cesas". No ano de 1815, encontrando-se no Rio de Janeiro na Corte
parecia algo excepcional. No ano de 1919, Solidônio Leite, em seu
de d. João VI - pai do primeiro imperador brasileiro -, o militar pros-
discurso de ingresso como sócio do IHGB, tornou a levantar esse
seguiu, nesse lado do Atlântico, sua carreira como fiel servidor do
mesmo vínculo:
Estado, previamente iniciada em Portugal. Depois da proclamação
da Independência, ele se colocou ao lado do novo imperador e foi
E vem de longe, Senhores o vosso trabalho. Começou, pode
enviado a Goiás como comandante-mór, a fim de garantir a consoli-
dizer-se com a própria nacionalidade, com a história da qual
dação do novo Estado naquela província do interior. Como parte de
vem, assim, a identificar-se a deste Instituto... 17
suas obrigações, dedicou-se à pesquisa das condições geográficas e da
situação de vida da população indígena naquela parcela do império,
Imediatamente após a fundação do instituto, Januário da
Cunha Barbosa, primeiro-secrctário do IHGB, afirmou que, segundo
18 Veja-se, nesse sentido, o discurso programático de [anuário da Cunha Barbosa,
de 25 de novembro de 1838, por ocasião da sessão fundadora do IHGB. Revista
dolUGK. Rio de Janeiro, l ( I ) , jan-mar/1839, pp. 10-21.

"' Boletim da Revista do IHGB. Rio de janeiro: Imprensa Nacional, 1939, p. 63. i l!) Essa conexão surgiu claramente no discurso de Max Fleiuss, por ocasião do
Centésimo Jubileu do Instituto. Veja-se: FLEIUSS, Max. "Instituto Histórico y
!/ Solidônio Leite. Fala de ingresso do ano de 1919. Arquivo do IHGB. Rio de i Geográfico Brasileíio. Cien anos híen vividos", Boletin de Ia Academia Nacional
Janeiro - Lata 570. Pasta 8, p. l. dela Historia. Buenos Aires, 15 (I I), 1938, pp. 281-94.
70 Historiografia e Nação no Brasil ] 838-1857 Nação e história: a fundação do ínstitulo Histórico c...
71

e, mais adiante, ao combate da imprensa de inspiração republicana, Como secretário da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacio-
que, em sua perspectiva, contagiava com "teorias políticas absurdas" nal, fundada em 1837, Cunha Matos propôs, em 18 de agosto de
o norte da província.20 Talvez seja possível atribuir a essa experiência ] 838, à sociedade a fundação cie um instituto histórico e geográfico.23
sua posterior dedicação científica e publicista à questão indígena - um Januário da Cunha Barbosa foi seu parceiro nessa empreitada e co-
tema importante para o instituto, que se espelha de igual modo em autor do memorial que definiu as bases para um instituto histórico
sua revista - e à problemática da estagnação da economia brasileira. e geográfico. No tempo em que o Estado exercia o direito de patro-
Com seu retorno de Goiás, então como representante parla- nato sobre a Igreja, Cunha Barbosa recebeu o cargo de capelão da
mentar da província, entre outras coisas, engajou-se na defesa de capela real, em 1808, por ocasião da chegada da família real ao Brasil
uma política económica nacionalista, tornando-se crítico ferrenho provocada pela fuga das tropas napoleônicas. Reconhecido pela sua
da política desenvolvida pelo Estado, no sentido de favorecer o do- oratória, qualidade cujo significado no Brasil do século XIX não era
mínio dos interesses ingleses no Brasil. Sua posição torna-se ainda digna de menosprezo, ele deu início a uma atividade incessante no
mais clara após um acordo firmado entre os governos do Brasil e da domínio público, tornando-se maçom, além de coeditor do jornal O
Inglaterra relativo ao tráfico negreiro.21 Revérbero Constitucional Fluminense, de papel destacado no processo de
Segundo a opinião de Cunha Matos, o tratado atingia a sobera- Independência.
nia brasileira em favor da Inglaterra e condenava à ruína a economia Cunha Barbosa, como figura da linha de frente na luta por
agroexportadora baseada no trabalho escravo, o que, obrigatoriamente, um regime constitucional, usou seu jornal para fazer propaganda em
levaria a um decréscimo das receitas estatais. Na seguinte fala parlamen- favor da opção pela monarquia constitucional com o filho do rei por-
tar, ele denuncia que, segundo sua ótica, sob a máscara da humanidade tuguês como imperador.
dos negros, escondiam-se verdadeiros interesses ingleses: Devido a seu posicionamento político, que defendia a submis-
são do poder imperial ao controle de uma assembleia constitucional,
Senhores, não acreditem nas pinturas que nos apresentam ele se colocou em oposição ao mais importante dos ministros de d.
os ingleses, nos seus estudos escritos da Associação Africana, Pedro í, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), representan-
nem os eloquentes discursos dos parlamentares; a política tem te do fortalecimento do imperador.
maior para nesses pomposos discursos do que a verdadeira fi- Foi assim que, depois de 1822, ele conheceu o exílio com dois
lantropia e benefício dos pretos! outros companheiros políticos: José Clemente Pereira (1787-1854) e
Quem quer exercitar obras de caridade, não tem precisão de Gonçalves í^edo (l 781-1847), que, assim como Cunha Barbosa, também era
sair fora da sua pátria; os ingleses querem fazer-se senhores da
África, assim como já estão da Ásia; Deus os ajude, mas falem- Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro: Pongetti, 193J, p. 99.
nos a verdade e não nos venham iludir com filantropias ima- 23 A utili/ação do termo "indústria" pode dar ao leitor atual uma falsa ideia. No
ginárias.22 uso brasileiro do vocabulário do século XIX, "indústria" significava o conjunto
do setor produtivo da economia, o que incluía a agricultura. Na medida em
que o Brasil do século XIX era primordialmente um país agrário, a Socieda-
20 Citado por BITTENCOURT, Feijó. Conforme nota l, p. 151. de Auxiliadora da Indústria Nacional empenhou-se principalmente na pro-
21 Nesse acordo de 1827, o Brasil se comprometia a acabar com o tráfico negreiro moção desse setor económico. Veja-se: CARONE, Edgar. O Centro Industrial do
Rio de Janeiro e sua importante participação na Economia Nacional (1827-1977). Rio
em três anos.
deJaneiro: Cátedra, 1978, 196p.; Protocolo da sessão 195, de 18 de agosto de
**• «íittdw por«SOAKES, Gerusa. Cunha Matos (1776-1839). Fundador do Instituto 1838, da SAIN. Arquivo do IHGB, Rio de Janeiro - Lata 443, pasta 30.
72 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Nação e história: a fundação do Instituto Histórico e... 73

coeditor do jornal O Revérbero Ganstilucumalfíurnmense. Após seu retorno do dores, dar sua contribuição para o desenvolvimento em outro plano.
período de banimento vivido na França e na Inglaterra, inconformado corn Conforme sua concepção, a história tinha uma função esclarecedora
a acusação de ser muito radical e a fim de rebatê-la, ele fortaleceu ainda mais e deveria apontar caminhos para os que se ocupam da política: no
suas convicções monarquistas, intensificando sua atividade de publicista na fundo, ela continuava sendo a magistrae vitae.
imprensa, como diretor da imprensa oficial, deputado e cónego da capela Em outro momento, vamos nos ocupar mais detidamente da
real. concepção de história representada pelo instituto, quando da abor-
A carreira de senador do Estado era uma das características dagem do projeto para se escrever uma história nacional.
dos dois mais importantes fundadores do IHGB, o que, aliás, era Importante é entender que tanto a Sociedade para o Apoio
compartilhado com vários outros intelectuais reunidos no instituto. da Indústria Nacional (SAIN) como o Instituto Histórico e Geográ-
Essa perspectiva é detalhadamente desenvolvida mais adiante. fico Brasileiro (IHGB) foram fortemente influenciados pela crença
Importa destacar que a iniciativa de fundação do IHGB teve no progresso difundido no século XIX. A SAIN deveria promover o
origem em uma sociedade dedicada à promoção do desenvolvi- progresso compreendido como crescimento económico, enquanto
mento económico do Brasil. Assim como posteriormente ocorreu o IHGB exercia a tarefa de representar esse progresso linear e conti-
com o IHGB, também essa sociedade esteve sob a proteção impe- nuado em sua historiografia. O dever do IHGB era apresentar o pro-
rial - sempre elegendo uma pessoa de confiança do imperador cesso civili/ador que o país atravessou e durante o qual se aproximou
como presidente -, e sua revista tornou-se plataforma da difusão do padrão europeu.
de estudos e de descobertas para o benefício económico do país.
Além disso, a publicação tentou, ainda, através da tradução de A nossa história, dividindo-se em antiga e moderna, deve ainda
artigos que surgiam nas revistas estrangeiras, tornar público, no ser subdividida em vários ramos e épocas, cujo conhecimento
Brasil, o estado atual do desenvolvimento tecnológico na Europa. se torne de maior interesse aos sábios investigadores da marca
A respeito da relevância dessa sociedade, que seguia o exemplo cia nossa civilização.2:l
europeu, Ignácio Alvares Pinto de Almeida, em seu discurso de
posse no cargo de primeiro secretário da SAIN, manifestou-se nos No domingo de 21 de outubro de 1838, reuniram-se os 27 fun-
seguintes termos: dadores do instituto nas dependências da SAIN e instalaram defi-
nitivamente o instituto. Em 25 de novembro, foram apresentados e
[...] nenhum País floresce, e se felicita sem Indústria; por ser aprovados os estatutos da recém-fundada instituição. Esses primeiros
ela o móvel principal da prosperidade e da riqueza, tanto pú- estatutos estabeleciam dois objetivos principais para o instituto, quais
blica, como particular de uma Nação culta e realmente inde- sejam, a reunião e a publicação das fontes importantes para a história
pendente. 21 do Brasil e o apoio a estudos históricos através do ensino público.26
Além disso, na ocasião, fixou-se que o instituto manteria contato com
Enquanto a Sociedade para o Apoio da Indústria Nacional foi
concebida como uma contribuição ao desenvolvimento do Brasil no 25 Discurso do então primciro-secretário do [HGB, Januário ria Cunha Barbosa,
plano económico, o IHGB deveria, segundo os planos de seus funda- por ocasião da sessão de fundação do IHGB. Revista do IHGB. Rio de Janeiro l
(l),jan-mar/1839, p. 12.
* Estatutos do IHGB. Revista do IHGB. Rio de Janeiro l (1), jan-mar/]839, pp.
Contbrme nota 23. CARONE, Edgard, op. cit., p. 16. 2J-4.
Xação e história: a fundação do Instituto Histórico c... 75
74 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

Essa proteção trouxe um apoio financeiro que, no orçamento


instituições similares, bem como incentivaria a fundação de institutos
anual do instituto, só fez. ganhar importância. Em junho de 1838, o
históricos nas províncias do Império. comité diretor convocou uma sessão especial para preparar um re-
Ojornal Correio Oficial, cm 25 de outubro de 1838, cumprimen-
querimento de auxílio financeiro ao Estado. Com a necessária apro-
tava a fundação do instituto como "necessidade fundamental para
vação do parlamento, o auxílio foi anualmente renovado. Enquanto
um país civilizado".27 Nas páginas do jornal, foram ressaltadas a histó-
a primeira subvenção oficial (1839-40) representava 44% da receita,
ria e a função que lhe era atribuída de reunir o conjunto dos eventos
total do instituto, essa participação subiu para 75% no ano de 1843."M
auspiciosos de um Estado para as gerações vindouras, assim como
Na previsão do conjunto de fontes de renda do IHGB, os es-
o valor de uma instituição dedicada a essa causa. No dia seguinte, o
tatutos aprovados em 1851 já contavam antecipadamente com a sub-
mesmo jornal manifestou a esperança de que a fundação do Instituto
venção oficial, ao lado das contribuições dos sócios e da renda oriun-
Histórico e Geográfico Brasileiro significava um primeiro passo para
da da venda da revista. Se levarmos em conta que, além disso, o IHGB
a formação da Academia Brasileira, segundo o modelo francês.28
recorria ao Estado também no caso dos prqjetos especiais, como a
O relatório de 1838 do ministro do Império, Francisco de Pau-
realização de viagens de pesquisa, é possível afirmar com segurança
la de Almeida e Albuquerque (1792-1868), apontava como valor, da
que o Estado teve importância decisiva na existência económica da
história seu significado pragmático para a vida política do país, o que
instituição. Na mesma sessãojá referida, em junho de 1839, o comité
estava presente tanto na concepção de história do instituto como na
diretor tomou ainda a decisão de encaminhar a proposta da criação
de Varnhagen. Concretamente, o ministro estabelecia uma relação
de um cargo oficial com competência específica, enviando um adido
entre a pesquisa da história e a solução para as questões do governo
para a Europa, cuja tarefa deveria ser a realização de pesquisas nos
e da diplomacia do país.29 arquivos de Espanha e Portugal.
Mesmo que a iniciativa da fundação do IHGB se tenha origina-
Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878), ao escrever sobre a
do na SAIN e que, em seus primórdios, sua existência se deva ao fato
relevância desses arquivos a Januário da Cunha Barbosa, o primeiro-
de que a SAIN havia disponibilizado suas instalações, o instituto organi-
secretário do instituto, incitava a ideia de que o Estado também deve-
zou a própria direção de modo independente. A nova comunidade da ria participar de tal iniciativa:31
agremiação era formada por 50 sócios - 25 que compunham o setor de
história e outros 25, o setor de geografia-, além dos sócios honorários e
Sobre este assunto devia talvez intervir o governo, que deven-
de um número infinito de sócios correspondentes do interior e do exte-
do alimentar o espírito de nacionalidade deve ter presente
rior. Assinale-se que, já na sessão inaugural de l" de dezembro de 1838,
que são a primeira base talvez desta, a história e conhecimento
esses sócios evocaram e colocaram-se sob a proteção do imperador. do país natal.32

30 Essa porcentagem parece ter-se mantido constante. O balanço do tesoureiro,


ern consequência, indicava, no ano de 1888, igualmente que 75% da parcela
^Zb de outubro de 1838. Arquivo Nacional. Rio de
dos créditos do Instituto vinham do Estado. Revista do IHGB. Rio de Janeiro,
Janeiro - IE 76. 51, 1888, pp. 1-4.
'» Veja-se: Correio Oficial, de 26 de outubro de 1838. Arquivo Nacional. Rio de 31 Para informações relevantes sobre a biografia de Varnhagen, veja-se o Capí-
Janeiro - IE 78. tulo 4.
29 Relatório do ministro do Império Francisco de Paula Almeida e Albuquerque 32 Carta de Francisco Adolfo Varnhagen a Januário da Cunha Barbosa, datada de
para o ano de 1848. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro.
76 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico f 77

Com o passar do tempo, foram-se acumulando os exemplos de lado rios Estados Unidos, por conta de sua participação ria revolta de
dependência material do instituto em relação ao Estado. O entrela- ;1817, que também havia acontecido ern Pernambuco (Revolução
çamento entre os intelectuais e o Estado imprimiu marcas na tarefa Pernambucana) -, o movimento almejava a fundação de uma con-
de elaboração de uma história do Brasil, deixando vestígios nas ativi- federação de províncias corn uma forma republicana de Estado. O
dades desenvolvidas pelo instituto. ideólogo do movimento foi o frei Joaquim do Amor Divino Caneca
Os estatutos anteriores à reforma de 1851 determinavam corno (1779-1825), editor do jornal Tifo de Pernambuco e que, assim corno
condição para ingresso no IHGB apenas a indicação de urn sócio e Manuel de Carvalho Pais de Andrade, integrara o levante de 1817 na
a aprovação da comissão na qual o pretendente propunha a se inte- mesma província.
grar. Não se impunha, portanto, a exigência de uma contribuição Os componentes do movimento eram recrutados principal-
científica no campo da história ou da geografia. mente em setores do Estado, c seu projeto político de constituir unia
As duas posições mais importantes na direção do instituto eram ordem social republicana provocara intensa reação por parte do go-
preenchidas por antiguidade: o posto de presidente era responsável verno central do Rio de Janeiro. Além disso, a referência dos revol-
por conduzir as sessões de reunião e pela tomada de todas as decisões tosos ao exemplo haitiano deixou em estado de alerta os grandes
necessárias; e o primciro-secrclário tinha como tarefa dirigir a revis- proprietários de terra da província, que tinha como base a escravi-
ta, a biblioteca, o museu, o arquivo e substituir o presidente. Ao lado dão. Em 17 de setembro de 1824, as forças armadas imperiais con-
das comissões de história e de geografia, os primeiros estatutos de seguiram impor a derrota do movimento de apenas dois meses. A
1 838 previam ainda duas outras comissões: uma para a administração resposta do governo central ao anseio de autonomia de Pernambuco
da finanças e outra cuja obrigação consistia em editar a revista. foi o exílio ou a execução de seus líderes.
O ano de 1849 representa urn marco de virada no desenvol- Vinte e quatro anos mais tarde, a província de Pernambuco
vimento do instituto. No campo político, tudo indicava que a cen- foi novamente palco de uma revolta contra o poder central. A opo-
tralização e a consolidação do Estado nacional estavam traçadas. sição encontrou base teórica nos escritos dos autores do socialismo
A real ameaça à unidade nacional representada pelas sublevações utópico e dos teóricos da Revolução de 1848 na Europa. A partir do
regionais, que duraram até a década de 1 840, foi eliminada pela ação levante, surgiram várias divisões de relevo entre os publicistas: os jor-
militar massiva, ou pelas negociações políticas do podei" central. nais de oposição denunciavam o poder dos latifundiários e dos por-
Em 1824, dois anos depois da proclamação da Independên- tugueses que controlavam o comércio nas cidades, atribuindo-lhes
cia, as províncias do norte se levantaram contra o poder sediado no responsabilidade pelas dificuldades económicas da província.
Rio de Janeiro. A partir da província de Pernambuco, formou-se um Os eventos de Pernambuco não são o único exemplo da re-
movimento contra a Constituição outorgada por d. Peclro I, cm l de sistência das províncias contra a centralização comandada a par-
março de 1824, que previa rigorosa centralização do poder em favor tir do Rio de Janeiro. No norte do Brasil, outras disputas militares
da cidade do Rio de Janeiro. ocorreram no Pará (l835-1840), na Bahia (1837) e no Maranhão
Fortemente tomado por princípios federativos - o líder da re- (1838-1841). No sul do Brasil, os rebeldes da Guerra dos Farrapos
belião, Manuel de Carvalho Paes de Andrade (1780-1855), vivia cxi- (1835-1845) conseguiram proclamar a República do Piratini (1838)
e, assim, colocaram em risco o Império, por conta das fronteiras com
a Argentina e o Uruguai e importantes regiões de ligação com a pro-
5 clc outubro de 1839. Revista do IHGB. Rio de faneiro, l (4), out-dcv./1839p.,
?.76p.
víncia do Mato Grosso.
"78 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação e história: a fundação do Instituto Histórico e... 7'J

O ano ãe 1850 vale para a historiografia tradicional como o para a história do Brasil deveria passar por uma reorientação. Em
início da era de ouro do Império. Ao lado da constituição do Es- relação a essas mudanças, colocou-se, igualmente, o aprimoramento
tado centralizado, ocorreu crescimento económico condicionado dos critérios de ingresso de novos sócios, impondo-se como requisito
à expansão das plantações de café, pois havia um mercado sempre a apresentação de um trabalho científico para sua aceitação.
crescente para esse produto na Europa. A instalação nas novas dependências serviu como pretexto a
É preciso observar que, nesse cenário, houve transformação e vários discursos que, em certa medida, foram marcados por um ca-
ampliação das atividades do instituto, o que tem como consequência ráter programático. D. Pedro II, ern sua fala, abordou a questão das
a profissionalização de seu trabalho, aprofundando o entrelaçamen- expectativas em torno da mudança de trabalho do instituto e do en-
to entre o Estado e o IHGB a partir da historiografia. No processo de trelaçamento cada vez maior entre o Estado c o IHGB:
consolidação do regime, tanto em seus aspectos políticos quanto eco-
nómicos, a historiografia ganhou um peso cada vez maior em relação Sem dúvida, Senhores, que a vossa publicação trimensal tem
à história do Estado. Tratava-se, fundamentalmente, de ressaltar o prestado valiosos serviços, mostrando ao velho mundo o
perfil desse Estado "ilustrado" como portador da civilização e motor apreço, que também no novo merecem as aplicações da in-
do progresso. Nesse quadro, a estabilidade do Império contribuía teligência; mas par que esse alvo se atinja perfeitamente, é de
para conferir novo impulso à historiografia. mister que não só reunais os trabalhos das gerações passadas,
A instalação do IHGB nas novas dependências do "Paço da ao que vos tendes dedicado quase que unicamente, corno
Cidade" - a sede de trabalho do Imperador no Rio de Janeiro - na também, pelos vossos próprios, torneis aquela a que pertenço
data de 15 de dezembro de 1849 é extremamente simbólica para digna realmente dos elogios da posteridade: não dividi pois
a transformação que se realizava: a partir de então, o imperador as vossas forças, o amor da ciência é exclusivo, e concorrendo
passou a participar da maior parte das sessões, contribuindo para todos unidos para tão nobre, útil, e já difícil empresa, erijarnos
a construção historiográfica de seu perfil como monarca culto e assim um padrão de glória à civilização da nossa pátria.
ilustrado. Congratulando-me desde já convosco pelas felizes consequên-
Até então, sua presença no instituto se limitara à participação cias do empenho, que encontrais, reunindo-vos em meu palá-
ritual na sessão anual de jubileu da fundação do instituto. Daí em cio, recomendo ao vosso presidente que me informe sempre
diante, ele passou a ter um poder direto de influência ao propor te- da marcha das comissões, assim como me apresente, quando
mas, estabelecer prémios e apoio financeiro para garantir a expansão lhe ordenar, uma lista, que espero será a geral, dos sócios que
das atividades empreendidas. O significado dessa mudança torna-se bem cumprem com os seus deveres; comprazendo-me aliás em
ainda mais evidente quando se observa que, a partir de 1849, as ses- verificar por mini próprio os vossos esforços todas as vezes que
sões de jubileu subsequentes abandonaram a data original de funda- tiver a satisfação de tomar parte em vossas lucubrações.33
ção, para serem previstas para o dia 15 de dezembro como marco do
novo início da obra do instituto. Na mesma sessão, o imperador distribuiu a quatro sócios do
Marco desse recomeço é também a intenção declarada de prio- instituto a tarefa de abordar os seguintes temas para que seus resulta-
rizar a reordenação da futura produção dos trabalhos específicos das dos fossem apresentados ao instituto:
áreas de história, geografia e etnologia. Em consequência, o peso do
trabalho até então desenvolvido de coleta de fontes fundamentais
' Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 12 (16), out-de/, 1849, p. 55]v.
Historiografia <• Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico c... 81

- Existe a possibilidade de civilizar os índios do Brasil? tada por ele e dois dos mais importantes escritores do Romantismo,
- Qual a influência que as línguas indígenas têm sobre o por- encarregou-se de esboçar o significado das realizações do instituto:
tuguês falado no Brasil?
- A imitação das formas da literatura romântica atrapalha ou Ao literato já não pertence essa existência secundária na or-
promove o desenvolvimento de uma literatura genuinamente dem social, essa vicia de um crepúsculo que só depois da morte
brasileira? se devia engrandecer: os seniços intelectuais do ministério das
- O Descobrimento do Brasil foi resultado do acaso ou será ideias foram nivelados com os outros elementos civilisadores,
que Pedro Álvares Cabral seguia instruções recebidas?34 e a sua glória igualada a do general, do magistrado e do es-
tadista; os elos de cadeia civilisadora se acham entrelaçados
Especialmente os dois primeiros temas receberam atenção sig- fraternalmente, e caminhando para a mesma direção. Este
nificativa por parte do instituto no período abarcado por este livro. triunfo tão solene, e que tanta l u/ vai derramar sobre a histó-
Em relação a isso, um aprofundamento mais preciso é apresentado ria da América, é equivalente àquela lei providencial, àquela
no tratamento dispensado à revista, desenvolvido na Seção 3.2 deste reivindicação que pelos atos de posteridade o tempo concede
livro. O interesse que esses temas despertaram será levado em conta ao génio.
a partir de sua conexão com a realidade social. Amanhã quando a nova Fama das cem bocas, a imprensa ti-
A primeira vista, os resultados formais da instalação em novas ver espalhado do Prata ao Amazonas as vozes do Soberano do
dependências de uma agremiação de intelectuais foram plenamente Brasil, o literato, até agora colocado na esteira secundária da
realizados em seu sentido simbólico: fica claro que o Estado confere ordem social, se erguerá da mesa, tendo na mão as suas obras,
certo destaque aos intelectuais e à historiografia. Desse modo, a tra- olhará em torno de si, e dirá... também eu sou homern; tam-
dição cultivada em Portugal entre o Estado e os intelectuais é levada bém eu me posso sentar diante do Soberano! As minhas obras
adiante, e o serviço público era praticamente a única trajetória que são os meus títulos de nobreza.35
possibilitava esse tipo de atividade.
Numa sociedade de estruturas sociais impermeáveis, o serviço Ainda que se sentissem lisonjeados com a afirmação de que,
público representava para as camadas sociais inferiores, ria maior par- através da participação pessoal do imperador, sua sociedade especi-
te dos casos, a única possibilidade de ascensão social. Na medida cm ficamente literária se tornara uma "instituição do país", os sócios do
que o Estado brasileiro não recrutava seus servidores exclusivamente instituto se colocaram contra essa posição de caracterizá-los como
dos setorcs sociais tradicionais ou mais favorecidos, amenizavam-se "instituição oficial". O epíteto de "oficial" era compreendido por eles
as consequências dessa estrutura social, proporcionando o encontro como uma contradição em relação às suas motivações de erguer um
de grupos sociais distintos, o que seria impossível em outros planos órgão neutro política e exclusivamente dedicado a seu caráter cien-
da vida social. tífico.
Enfaticamente, Manoel de Araújo Porto Alegre, ativo militante No contexto das discussões travadas em torno de um texto es-
do instituto, em 15 de de/.embro de 1849, na revista Guanabara, edi- crito em 1852 por José Joaquim Machado de Oliveira (1790-1867),
sobre a questão dos limites de fronteira entre Brasil e Uruguai, co-

34 Esse tema faz parte até hoje do programa de ensino de história nas escolas
brasileiras. 35 Revista doIHGB. Rio deJaneiro, 12 (16), out-de//1849, pp. 555-7.
82 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação e história: a fundação do Instituto Histórico <•

locou-se o problema de saber a partir de qual ponto se ultrapassava tara Bellegarde apontavam para o fato de que os trabalhos do institu-
a tarefa do instituto no tratamento de temas políticos contemporâ- to deveriam ser julgados por critérios "objetivos", e não por critérios
neos.36 Apesar dessa consideração, curiosamente, o instituto não se políticos. Reconhecendo o valor da parte histórica do trabalho de
intimidava em publicar na revista trabalhos acerca de questões da Machado de Oliveira, julgaram útil seu ensaio, sem se posicionar erri
atualidade política. relação às conclusões decorrentes de sua posição política. No decor-
O mencionado texto de Machado de Oliveira abordava a ques- rer do debate, é possível sentir certo esprit de corps, avaliando positi-
tão das fronteiras do sul do Brasil, um antigo problema que ocupara vamente o trabalho de um dos sócios da casa. Exceção foi Duarte da
o governo português no período colonial. Em seu trabalho apresen- Ponte Ribeiro, o mais ferrenho dos críticos do ensaio polémico, por-
tado em 1851, o autor criticava a solução firmada por tratado entre que, de acordo com sua perspectiva, essa tomada de posição "contra-
Brasil e Uruguai. A partir de uma argumentação histórica, Machado riava a tarefa do instituto em ser objetivo".38 A disputa teve fim com a
de Oliveira tentou comprovar que o tratado ia contra os interesses publicação de um texto elaborado por todos os envolvidos na quere-
nacionais, já que, através dele, abria-se mão de áreas ocupadas pelos la, sem que, contudo, o instituto tenha tomado uma posição oficial.39
criadores de gado brasileiros. A mudança no instituto, que se tornava visível a partir de 1849,
Pelos limites de fronteira traçados, o autor argumentava que encontrou expressão em junho de 1851, na aprovação dos novos
alguns brasileiros foram submetidos ao um Estado nacional que não estatutos, espelhando o alargamento das atividades do IHGB. Nas
correspondia à sua nacionalidade. Ademais, a província do Rio Gran- linhas condutoras aí contidas, a arqueologia, a etnografia e a língua
de do Sul veria suas fontes de receitas reduzidas e, para o conjunto dos indígenas do Brasil foram descritas como novos campos de pes-
do Império, essa fronteira representava risco político-estratégico em quisa do instituto. Essa ampliação caminhava junto com a concepção
seus limites meridionais. O risco do Império, segundo a perspectiva da história como processo progressivo e com um sentido final que só
de Machado de Oliveira, consistia na diversidade dos processos de seria possível descrever na medida em que a cadeia da civilização fos-
construção do Estado no país, o que ficava evidente numa região em se traçada, motivo pelo qual essas disciplinas eram tidas como funda-
que a afirmação da centralização política foi extremamente difícil, mentais. Enquanto o instituto, em seus primeiros estatutos de 1838,
como a Guerra dos Farrapos (1835-1845) exemplificava. apoiava-se na proteção da SAI N, a partir de 1851 essa função passou
Duarte da Ponte Ribeiro (1794-1878), em parecer preparado a ser exercida pessoalmente pelo imperador. No total, o número das
em 1853, criticou severamente a perspectiva de Machado de Oliveira, comissões foi ampliado para 10, com as seguintes novidades:
na medida em que acusava de errónea sua interpretação dos fatos
históricos, bem como de injusta sua avaliação da política imperial.37 - Comissão de revisão de manuscritos
Ele propunha ao instituto, então, uma tomada de posição oficial, que - Comissão de apoio aos trabalhos da comissão de estudos
históricos
deveria distanciar-se da posição de Machado de Oliveira.
Outros sócios do instituto, intencionalmente, participaram da - Comissão de arqueologia, etnografia e línguas indígenas
discussão, para que não fosse enfatizada a dimensão política da dis- - Comissão de admissão de sócios
puta. Cândido Batista de Oliveira, Gonçalves Dias e Pedro de Alcân-
38 Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 16(12), dez/ 1 853, p. 507.
:ífi Veja-se: Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 16 (12), out-dez/1853, pp. 385-423. 39 O número inteiro da revista foi dedicado ao debate em torno desse tema. Con-
forme nota 36, pp. 385-560.
3' Conforme nota 36, pp. 426-51.
8-1 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação e história: a fundação do Instituto Histórico c... 85

- Comissão de o levantamento de manuscritos e documentos José Feliciano Fernandes Pinheiro, primeiro presidente do
- Comissão de apoio aos trabalhos da comissão de geografia IHGB, provinha de uma família da província de São Paulo, uma das
menos importantes das províncias do Brasil daquele tempo.42 Sua
A partir de então, a fim de fortalecer as atividades intelec- biografia é, em certo sentido, típica dos intelectuais daquela época,
tuais, a admissão no IHGB passou a ficar condicionada pela exigên- que se esforçaram para superar o empobrecimento da família ou a
cia de comprovar urna contribuição científica em um dos campos ti- simplicidade de sua origem através de uma trajetória de servidor do
dos como relevantes no instituto. Ein 1839, o ano em que mais houve Estado e por uma formação intelectual. Marca característica dessa
ingressos no instituto, houve a admissão de 213 pessoas; em 1852, o elite intelectual e política era a carreira no serviço público, com o
ano subsequente ao anúncio dos novos estatutos, apenas urna pessoa objetivo maior de obter reconhecimento como fiel servidor do Esta-
conseguiu atender às novas exigências, sendo que, até 1889, foram, do, que se expressava através da concessão de um título de nobreza.
em média, menos de 10 novos sócios admitidos por ano no instituto. Esses títulos não hereditários davam ao Estado condições para mani-
Ainda que o primeiro-secretário, em seu relatório anual, apontasse festar seu reconhecimento público, o qual não era determinado pela
as condições rigorosas de admissão como razão principal para o nú- riqueza pessoal.
mero reduzido de novas admissões, é preciso registrar, ainda, o fato Esse ideal "de servir ao Estado" fica explícito quando José Fe-
de que o setor intelectual no Brasil do século XIX, do qual poderiam liciano Fernandes Pinheiro enfatizou cjue, para ele, era mais impor-
sair os novos sócios, era numericamente muito restrito. tante "ter um nome honrado, através do qual todos os meus antepas-
Para se ter uma representação mais exata, é possível indicar al- sados sejam colocados a serviço do Estado",43 do que ser nobre por
guns dados do censo demográfico realizado pela primeira vez somen- nascimento. Trata-se de um ethos acima de tudo tradicional, presente,
te em 1872, segundo o qual apenas 0,08% da população brasileira ti- inclusive, no seio da nobreza portuguesa.
nha curso superior completo.40 O número da população alfabetizada Em suas memórias, José Trazimundo Mascarenhas Barreto
não era mais auspicioso: apenas 23,43% da população masculina e (1802-1881, Marquês de Fronteira e d'Al orna),'14 representante desse
13,43% das mulheres dominavam a leitura e a escrita.41 Diante disso, grupo social, ressaltava a importância do serviço de Estado: de sua
afirma-se, com certeza, que todos aqueles que poderiam ser integra- parte, qualquer aristocrata que não se destacasse em algum serviço
dos como sócios já se encontravam nas comissões do 1HGB. dedicado ao Estado não seria digno de alta consideração. O mero
No questionamento dos cargos de presidente e de primeiro- atestado de origem, segundo sua opinião, não era suficiente para va-
secretário, os novos estatutos cancelavam o princípio de antiguidade. lorizar o reconhecimento dessa camada social.
De fato, os ocupantes desses cargos eram sempre reconduzidos às Esse ethos, muito presente na sociedade portuguesa, pode ser
suas funções, de modo que, no período estudado, o IHGB só contou historicamente relacionado com o momento de fundação da nação
com dois presidentes:José Feliciano Fernandes Pinheiro (J 774-1847,
Visconde de São Leopoldo), presidente do instituto de 1838 a 1847, 42 A descrição biográfica de José Feliciano Fernandes Pinheiro tem como base
duas fontes principais: BITTENCOURT, Feijó. Conforme nota 1; PINHEIRO,
c Cândido José de Araújo Viana (1793-1875, Marquês de Sapucaí), José Feliciano Fernandes. "Autobiografia", Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 37,
presidente do instituto entre 1847 e 1875. '] 874, pp. 5-69; 38, 1875, pp. 5-38.
43 Citado por BITTENCOURT, Feijó. Conforme nota l, p. 28.
10 Conforme nota 9, p. 65. 44 Veja-se: BARRETO, José Trazimundo Masrarenhas. Memórias do Marquei de.
" Conforme nota 9. Fronteira e d'Alorri(i. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928, v. l, 493p,
86 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Nação c história: a fundação do Instituiu Histórico e... 87

portuguesa rio combate contra os mouros. O surgimento desse ethos


Piora fluminense (Flora da província do Rio de janeiro), resultado de
pode ser atribuído a um processo precoce de centralização da ordem
uma expedição científica de oito anos pela província, foi publicada
estatal, condicionado pelas exigências impostas pela luta de expulsão
sob a proteção de d. Pedro 1. No âmbito da política iluminista portu-
dos mouros. O serviço de Estado se confunde, assim, com a dedica-
iniesa, a Casa Literária do Arco do Cego deveria servir como contri-
ção patriótica, que pode ser remetida ao momento de formação da
buição para o progresso de Portugal. No catálogo da casa editorial,47
nação portuguesa.
constavam, lado a lado, livros de Conceição Veloso, como, por exem-
José Feliciano Fernandes Pinheiro iniciou seus estudos em São
plo, Fazendeiro do Brasil — um tratamento sobre diversos produtos da
Paulo, como era comum entre os religiosos, mas, ao lado do estu-
agricultura do Brasil; traduções de obras sobre o clima e a produção
dos dos clássicos, ele se voltou também para o estudo da língua fran-
agrária na América do Norte e um manual de mineralogia.
cesa, o que era absolutamente incomum e despertou a ira de urn
O programa da editora se coadunava com a missão que o llu-
tio, que via o aprendizado da língua de Voltaire como um perigo,
minismo assumira em Portugal, qual seja: ampliar o conhecimento
colocando-o em contato com as obras de "hereges, desalmados, liber-
científico da natureza e do domínio técnico. Em 1801, essa casa edi-
tinos e ateus".45 Porém, o "perigo" podia ser afastado se o jovem de
torial foi anexada à imprensa régia.
19 anos, apesar da difícil situação das finanças da família (depois de
O primeiro presidente do IHGB, na qualidade de represen-
concluir os estudos, ele se via obrigado a pagar as dívidas assumidas
tante típico da elite envolvida no processo de construção da nação,
para custear sua formação), fosse estudar em Coimbra, onde a tradi-
inseria-se nessa tradição de combate às ideias da Revolução Francesa.
ção do Iluminismo francês não havia encontrado recepção.
O trabalho na gráfica permitira a Pinheiro constituir as relações que
Após o término de seus estudos e "sem influências decisivas",
lhe faltavam, de modo que ele pôde colocar-se sob a proteção do
tendo por base suas próprias palavras, ele assumiu um posto em Lis-
príncípe-real para escrever sua Nova e completa história da América.
boa (em troca apenas de casa e comida), em uma gráfica que esta-
Por força desse relacionamento, José Feliciano Fernandes Pi-
va sob a influência do ministro para os Negócios do Ultramar, d.
nheiro também obteve seu primeiro posto no serviço público, que
Rodrigo de Souza Coutiriho (1745-1812). O objetivo do apoio esta-
o conduziu ao Rio Grande do Sul, na região meridional do Brasil,
tal a essa empresa literária era, entre outros, a tradução de autores
onde assumiu a missão de erguer um posto alfandegário. Essa tarefa
estrangeiros - como, por exemplo, Edmond Burke (1729-1797) -46
precisa ser entendida no contexto da política portuguesa, diante da
que haviam desenvolvido alguma reflexão acerca dos princípios da
questão das áreas de fronteira com os domínios coloniais hispânicos.
Revolução Francesa. Com isso, o governo português almejava conter
Tratava-se de uma política que visava conter a afirmação da autono-
o arsenal das ideias revolucionárias francesas.
mia regional e o fortalecimento da ligação com o governo central
Em 1799, foi fundada a Casa Literária do Arco do Cego, assu-
do Rio de Janeiro. O estabelecimento dessa condição foi dificultado
mindo a direção o padre brasileiro José Mariano da Conceição Ve-
pelas grandes distâncias e pela quase inexistência de infraestrutura.
loso (1742-1811), especialista em botânica. Sua obra em 11 volumes,
Desse modo, uma viagem de barco entre o Rio de Janeiro e o Rio
45 Citado por BITTENCOURT, Feijó. Conforme nota l, p. 24. Grande do Sul podia levar até um mês.
46 A obra principal de crítica aos princípios da Revolução Francesa foi publicada
por Burke em 1790 e estabelecia, segundo Jacques Godechot, "lê bréviaire de Ia
contre-révoluíion ocádentale . Veja-se: GODECHOT, Jacques. La contre-révolution.
4/ Veja-se: Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 2 (Suplemento), oui-de7./4840, pp.
17894804. 2 ed. Paris: PUF, 1984, p. 65.
609-14.
88 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 89

As posturas políticas de Pinheiro foram reforçadas pela experi- do Império, depois senador da Província de São Paulo e, como ponto
ência acumulada no cargo que ocupara. A partir de então, conduziu alto de sua carreira, foi nomeado secretário do Conselho de Estado.
suas atividades para o âmbito dos interesses luso-brasileiros na região O que os diferentes cargos assumidos têm em comum é que, para
do Prata. No contexto das guerras de Independência das colónias seu exercício, era preciso haver uma decisão pessoal do Imperador.
espanholas, Fernandes Pinheiro procurou, com todas as suas forças, Em 1828, José Feliciano Fernandes Pinheiro transferiu-se para
impedir a propagação das ideias republicanas na província. Nessa o Rio Grande do Sul, recolhendo-se à vida privada, depois de haver
época, surgiu seu livro sobre a história do Rio Grande do Sul, com o discordado da decisão governamental de devolver a Cisplantina (ter-
qual ele procurava esclarecer o problema das fronteiras meridionais, ritório do atual Uruguai) à Argentina, o que considerou uma derrota
que, como já apresentado, era uma das questões que mobilizavam os política pessoal. Depois de três anos de ausência do cenário político,
ânimos da política ao menos até os anos 1850. terminou retornando ao Rio de Janeiro para reassumir uma cadeira
José Feliciano Fernandes Pinheiro não vivenciou, no palco dos no Senado, a fim de contornar dificuldades financeiras que emergiam
acontecimentos, a notícia da declaração de Independência do Brasil, do fato de que não mais contar com renda ligada a qualquer cargo.
em 7 de setembro de 1822, pois viajara para Lisboa no início de 1822, A abdicação de d. Pedro I (1831) e a guerra dos Farrapos
como deputado para a assembleia geral que deveria elaborar uma (1835), no sul do Brasil, fizeram ressurgir em Pinheiro o temor de
Constituição para Portugal e Brasil. Como representante da provín- uma divisão do Império. Durante a guerra, mas por pouco tempo, o
cia de São Paulo, defendeu a unidade de Estado de Brasil e Portu- governo imperial chegou a pensar em delegar a Fernandes Pinheiro
gal - que, segundo sua perspectiva, também acompanhava a vontade a condução das medidas de Estado contra o levante. Esse pensamen-
do príricipe-regente - como única possibilidade de impedir que o to, no entanto, não se materializou, decidindo-se convocá-lo para in-
exemplo hispânico da divisão em várias repúblicas fosse seguido. Sua tegrar uma comissão cuja tarefa consistia em pesquisar as fronteiras
assinatura constou inclusive da Constituição aprovada em Lisboa. do Brasil, a fim de disponibilizar material fundamentado cientifica-
Em 1823, retornou ao Brasil e, no dia seguinte à sua chegada, mente para servir às negociações sobre as questões de fronteira com
dirigiu-se ao Paço para "beijar a mão do Imperador" e para explicar os Estados vizinhos.
seu comportamento na Assembleia Constituinte. Como defensor da O tratamento das fronteiras do Brasil, como veremos adiante,
estruturação de um Estado centralizado, ele construiu carreira no viria a ocupar bastante espaço tia revista do instituto. Corno especia-
serviço de Estado. Na Assembleia Constituinte do Brasil, convocada lista na matéria, sua posição foi afirmada em "Quais os limites natu-
em 1823, participou como deputado da província do Rio Grande do rais, pactuados e necessários ao Império do Brasil", de sua autoria e
Sul e defendeu, em um de seus discursos, o ponto de vista de que o publicado com destaque pelo IHGB. Pinheiro dedicou especial aten-
governo era "coisa como de um único". ção a Alexandre de Gusmão, que teria assumido, no século XVIII,
A questão das fronteiras do Brasil e a fundação das faculdades posição decisiva nas negociações entre Portugal e Espanha sobre as
de Direito de São Paulo e Recife - ambas surgidas em 1827, no perío- fronteiras dos antigos territórios coloniais e a quem, segundo a pers-
do em que foi ministro - foram pontos de sua plataforma de ação po- pectiva de Pinheiro, se devia o tamanho do Brasil.
lítica na Assembleia Constituinte. As etapas de sua carreira 110 serviço Os melhores pré-requisitos para que Fernandes Pinheiro deti-
público servem para caracterizar a trajetória da elite dedicada à cons- vesse o cargo de presidente, desde a fundação do IHGB, em 1838, até
tituição do Estado nacional brasileiro: foi presidente da província do o ano de sua morte, em 1847, foram sua ocupação intensiva com as
Rio Cirande do Sul, indicado como ministro dos Negócios Interiores bases do Estado brasileiro e sua estreita relação com a Corte.
90 Historiogiafia e Nação 110 Brasil 1838-1857
Nação c história: a fundação do Insiituio Histórico e...

Na coletânea de dados dos 27 fundadores cio instituto - os de Recife e São Paulo, durante o século XIX, tiveram uma importân-
quais, por sua vez, podem ser reconhecidos como típicos represen- cia que não deve ser desvalorizada no processo-de homogeneização
tantes da elite político-intelectual -, percebe-se com clareza que, se- da visão de mundo da elite política e intelectual brasileira.49
gundo descrição biográfica de Fernandes Pinheiro, entrelaçam-se os É preciso ainda destacar que o então presidente do instituto,
ideais e as condições cie vida, que são representativos para a maioria José Feliciano Fernandes Pinheiro, desempenhou papel decisivo no
dessa camada social.48
estabelecimento das faculdades jurídicas no Brasil. Prontamente em
Diante dos dados que se apresentam, é possível inferir que 1823, ele apresentou à Assembleia Constituinte um projeto nessa
uma parte considerável dos fundadores do IHGB nasceu ainda em direção. No período de seu mandato como ministro da Justiça, em
Portugal. Esses sócios do instituto haviam acompanhado, em 1808, 1827, o projeto foi definitivamente realizado.'
a família real portuguesa em sua fuga para o Brasil, escapando das Na análise da tabela, chama a atenção o fato de que a maioria
tropas napoleônicas. Trata-se, com certeza, de um sinal de fidelidade dos fundadores exercia sua atividade profissional no serviço públi-
à Casa de Bragança. A experiência e a divergência em relação a Na- co: seja ria magistratura, na carreira pública de nível superior, no
poleão e os princípios da Revolução Francesa foram comuns a todos. caso dos portadores de diploma de formação em faculdades jurídi-
Dos 23 fundadores - de acordo com as informações disponí- cas, ou ainda como militares ou funcionários públicos, que, mesmo
veis -,18 tinham formação superior e, no caso dos clérigos e mili- sem a conclusão de um curso superior, conseguiam qualificação no
tares, deve-se ainda admitir uma qualificação equivalente. O grupo exercício profissional. Além disso, uma vez que o Estado no Brasil
profissional dos militares sempre esteve representado entre os sócios do século XIX detinha o poder do padroado sobre a Igreja e, além
do IHGB e, com base em sua formação, dedicou-se preferencial- disso, a Constituição declarava o catolicismo como a religião oficial
mente aos trabalhos geográficos. Desse modo, por exemplo, é que o do Império, é possível ainda incluir os religiosos no conjunto dos
cofundador do IHGB, coronel Conrado Jacob Niemeyer, publicou, servidores públicos.
em 1846, a Carta Creral do Império, que, por sua excelência, mereceu É preciso considerar que, numa sociedade agrária, com de-
destaque do instituto. O trabalho prático-administrativo no instituto senvolvimento técnico restrito, quase exclusivamente sustentada no
se tornou, principalmente, campo de atuação dos sócios sem forma- trabalho escravo, além do serviço público não havia muitas alterna-
ção superior concluída, como, por exemplo, no caso da função cie tivas profissionais para pessoas com formação no campo das ciên-
tesoureiro. cias naturais e técnicas. Por sua vez, observando-se a origem social, é
Observando-se os dados biográficos disponíveis, chama a aten- possível dizer que os funcionários públicos brasileiros do século XIX
ção o grande número de juristas. O estudo da jurisprudência parecia não constituíam uma camada social homogénea, uma vez que o Es-
ser a formação mais promissora para as camadas mais cultivadas da tado não recrutava seus servidores exclusivamente em determinadas
sociedade. As faculdades jurídicas de Coimbra e, depois de 1827, as camadas sociais superiores. Ao assegurar rendimento e prestígio so-
cial, o serviço público possibilitava, de um lado, ascensão social e, de
18 As informações dessa tabela foram extraídas das seguintes obras: SACRAMEN- outro, dificultava o empobrecimento de antigas famílias abastadas.
TO BLAKE, Augusto, Dicionário bio-bibliográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Tipo-
grafia Nacional, 1883, 7v.; DUTRA, José Soares. Cairu: precursor da economia mo-
49 JoséMurilo de Carvalho constatou que a elite política do Império, ao menos
derna. Rio de Janeiro: Vecehi, 1943, 169p.; SISSON, Sébastian Auguste. Galeria
até a metade do século XIX, obtinha sua formação em Coimbra. Somente na
dos Brasileiros ilustres. (Os Contemporâneos.) São Paulo: Martins, 1948; 2v - v.
segunda metade do século XIX é que as duas faculdades brasileiras passaram
l, 332p., v. 2, 352p.; BITTENCOURT, Feijó. Conforme nota 1.
a desempenhar papel claro nesse sentido.
Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico t... 93

Especificamente da biografia dos clérigos, é possível deduzir que a construção romantizada, tornando algo problemático toma-las como
formação religiosa se oferecia frequentemente como a única possi- fonte de fatos precisos.
bilidade de uma existência segura para crianças órfãs ou de famílias Das informações passíveis de interpretação, cristalizam-se três
pobres. grupos de fundadores do IHGB. No que se refere à origem das famí-
Dos 27 fundadores do instituto, 17 (o que corresponde a 62%) lias, um terço já contava com servidores públicos na geração familiar
exerciam mandatos políticos. Como deputados ou senadores, eles anterior; 27,8% tinham famílias cuja riqueza se devia ao latifúndio
eram eleitos, mesmo levando-se em conta que a escolha de urn se- ou ao comércio. O grupo relativamente maior, com 38,9%, foi carac-
nador seria validada apenas com o consentimento do imperador. Os terizado na tabela pelas "relações simples". Sob essa rubrica, enten-
ministros, diplomatas, presidentes de província e secretários do Con- demos famílias sem posses significativas, que'poderiam ser também
selho de Estado - o mais alto grémio do Império - eram indicações denominadas de "setor pequeno burguês".51
pessoais do imperador. Essas indicações expõem a forte representa- O perfil cios fundadores do IHGB revela, assim, diferenças de
ção da elite política do Império no IHGB. origem social, mas uma grande homogeneidade no que diz respeito
Com efeito, 72% dos fundadores com estudos superiores con- à formação e à carreira: é comum que tenham formação universitária
cluídos exerciam um mandato político, o que aponta para o mesmo e carreira 110 serviço público.
fenómeno que foi analisado por José Murilo de Carvalho.50 Impres- Aqui já houve várias menções à Universidade de Coimbra e a
siona o grande número de diplomados entre os detentores de man- seu papel na homogeneização dos setores intelectuais do Brasil em
datos políticos do século XIX. Essa situação contribuía ainda mais geral e, especialmente, para os intelectuais que se ocupavam do ato
para acentuar o abismo existente entre a elite e as outras camadas de escrever e se dedicavam à história. Assim, parece ter sentido apre-
da sociedade, fato condicionado ainda por outros elementos (como, sentar alguns elementos que caracterizam a formação em Coimbra,
por exemplo, os de natureza económica). para um melhor entendimento das bases espirituais dos intelectuais
Quando se leva em conta, ainda, que, nas outras camadas da do Brasil.5-
sociedade brasileira do século XIX, a taxa de analfabetismo era bas- A referida universidade, fundada em 1290, em Lisboa, e trans-
tante elevada, constata-se que as possibilidades de interação, que re- ferida para Coimbra em 1308, manteve-se a partir de meados do sécu-
lativizariam esse abismo social em alguma medida, eram ainda mais lo XVI sob o controle direto dos jesuítas, até sua expulsão em meados
restritas. No entanto, o número de fundadores do IHGB sem título do século XVIII. Os estudos realizados nas quatro faculdades - teo-
superior que exerciam algum mandato político era surpreendente- logia, direito canónico, jurisprudência c medicina - baseavam-se nos
mente elevado (60%).
Os dados sobre a origem social dos fundadores do IHGB não
permitem uma reflexão muito objetiva, uma vez que, para um terço '' Aqui, mais uma vez, remetemos à obra de José Murilo de Carvalho, na qual ele
dos 27 fundadores, não foi possível obter informações para a análise traz quantitativamente a não muito significativa representação de latifundiá-
do conjunto. Por sua vez, é preciso observar que os dados disponí- rios e grandes comerciantes na elite política.
veis se baseiam em biografias frequentemente produzidas por uma "'-' O trabalho mais abrangente sobre a Universidade de Coimbra é a obra em
quatro volumes de Theóphilo Braga, à qual nos reportamos neste trabalho.
BRAGA, Theóphilo Braga. História da Universidade de Coimbra nas suas relações
com. a Instrução Pública Portuguesa. Lisboa: Tipografia da Academia Real de
7'" Conforme nota 49, p. 63v. Ciências, 1892, v. l, GOOp.; v. 2, 84fip.; v. 3, 771p.; v. 4, 656p.
94 Historiografia e Nação no Brasil ] 838-1857 Nação e história: a fundação do ínstuuto Histórico c... 95

princípios da Ratio Studiorum, renegando a filosofia cartesiana, assim mas igualmente do conjunto do sistema de educação, das formas de
como a ciência de base experimental. difusão de informação (como, por exemplo, a imprensa) e da vida
A maioria dos estudantes em Coimbra se submeteu a uma for- cultural, pode-se afirmar que eles exerciam monopólio ideológico.
mação jurídica com o objetivo de seguir carreira no serviço público. Além disso, a Companhia de Jesus construiu um património consi-
A observação de José Murilo de Carvalho parece sintetizar as conse- derável, com inúmeras iniciativas, especialmente o comércio. Ela de-
quências de uma formação jurídica sustentada no direito romano: senvolvia uma política independente, que escapava ao controle fiscal
e financeiro do Estado. As acusações levantadas contra ela por for-
Os juristas estavam para os Estados absolutos, assim como os mar um Estado dentro do Estado ocuparam o centro das discussões.
advogados estavam para os Estados liberais... Os advogados Considerando que Pombal, por meio de sua política, se esfor-
eram fruto da sociedade aquisitiva e, quanto mais forte esta, çava para reforçar o poder do Estado nacional, naquele momento
tanto maior sua influência e mais generalizada sua presença. um poder rival só podia ser encarado por ele como uma ameaça.
Os juristas, por outro lado, principalmente os de tradição ro- Além disso, não se pode esquecer que a Companhia de Jesus estava
mana, preocupavam-se antes com a justificação do poder real sob o controle de um poder supranacional - a Igreja em Roma -, o
e com a montagem do arcabouço legal dos novos Estados.53 que, por sua vez, colocava em questão os princípios da política em-
preendida por Pombal. Na luta contra os jesuítas, sua força e amea-
As primeiras duas faculdades de direito no Brasil, fundadas ça foram se acentuando desmedidamente, pois seu poder se enraíza
por egressos da Universidade de Coimbra, com poucas adaptações, igualmente em elementos concretos.
deram continuidade a essa tradição. Ao mesmo tempo que promoveram a expulsão dos jesuítas,
O período de governo do rei português d. José I (1750-1777) ocorrida em 1759, d. José l e o ministro Pombal se empenharam
ficou marcado na historiografia como tempo de despotismo esclare- em difundir os princípios do Iluminismo em Portugal. Todavia, é
cido, devido à política conduzida por seu Ministro Pombal (Sebastião necessário distinguir o Iluminismo defendido por esse governo do
José de Carvalho c Melo, 1699-1782). Essa política tinha por objetivo Iluminismo francês. O fato é que a interdição da Companhia de Jesus
o fortalecimento do poder central de Estado e a superação do atraso não significou que o governo português incorporasse a seu programa
de Portugal, que se agravou com as oscilações do preço do açúcar ideias anticlericais iluministas. A leitura dos teóricos do Iluminismo
no mercado internacional e com a retração da produção aurífera do francês permaneceu proibida, na mesma medida em que se manteve
Brasil.54 o caráter "católico e politicamente conservador" do Estado lusitano.
O estabelecimento da política de Pombal instalou um verda- O processo de secularização do sistema educacional e sua defi-
deiro combate à Igreja, especificamente contra os jesuítas, tendo em nição como tarefa de Estado tiveram início logo após a expulsão dos
vista o poder evidente que detinham tanto em Portugal como nas co- jesuítas, com a criação de uma Diretoria Cera! dos Estudos. O dever
lónias. Uma vez que tinham o controle não apenas da universidade, dessa instituição, renomeada em 1768 como Tribunal da Real Mesa
Censória, consistia na reforma do ensino médio e no controle do
conjunto da impressão de livros.
53 Conforme nota 49, p. 33v. Nos anos 1771 e 1772, foram reformados os estatutos da Uni-
54 Sobre as relações entre as sociedades ibéricas e as sociedades nórdicas, veja-se versidade de Coimbra, e todo o sistema educacional ficou submetido
o importante trabalho de: FALCON, Francisco José Calazans. A época pombali- a duas instituições: 1) o Tribunal da Real Mesa Censória para os n í-
na (política económica e monarquia ilustrada). São Paulo: Ática, 1982, 532p.
Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 97

veis do estudo fundamental e médio; e 2) a Mesa de Consciência e leccu em Portugal, distirigninclo-sc da França, país clássico, por ex-
Ordens para os estudos superiores. celência, do Iluminismo, ansiava pelo desenvolvimento do homem,
O movimento de reformas dirigido por Pombal, no que se re- para que pudesse servir sempre melhor ao Estado.
fere à renovação do sistema educacional, baseava-se em duas obras: A reforma da Universidade de Coimbra deve ser vista no con-
em primeiro lugar, 110 trabalho de Luís António Verney, O verdadeiro texto dessas transformações que Pombal conduzia pessoalmente. Os
método de estudar, que rejeitava os princípios estabelecidos pela Ratio novos estatutos, que ganharam força em 1772, previam a introdução
Studiorum dos jesuítas e defendia uma formação apoiada na expe- de novas disciplinas científicas: ao lado da física experimental, tam-
rimentação, que tivesse relação e utilidade para a vida prática; em bém se incorporou ao currículo, por exemplo, o direito nacional,
segundo lugar, ria publicação das Cartas sobre a educação da mocidade, com o propósito de diminuir o predomínio dó direito romano. Nos
de António Nunes Ribeiro Sanches, que assumia o pensamento ilu- anos que se seguiram à reforma, formou-se em Coimbra um grande
minista e acreditava na possibilidade de o espírito humano se desen- número de cientistas no campo da mineralogia, botânica e matemá-
volver por meio da educação, posicionando-se a favor de uma edu- tica, dos quais o Estado esperava um conhecimento abrangente que
cação dirigida à nobreza, para que esta pudesse atingir as condições se constituísse nos fundamentos da superação do estado de atraso de
necessárias para enfrentar as demandas dos novos tempos.M Seus pla- Portugal e suas colónias.
nos continham também uma reforma da educação das camadas mais Do mesmo modo, no norte do Brasil, onde especialistas inves-
alargadas da população e tinham como alvo a formação orientada tigavam as possibilidades de exploração económica da flora nativa,
para a prática dos trabalhos de ofício. assim como na região das minas de ouro do Brasil Central, onde
Essas ideias encontraram materialização na criação de duas novos métodos da extração de metal nobre eram testados, era possí-
instâncias de educação: a Aula de Comércio e o Colégio dos Nobres, vel perceber a repercussão da nova política científica/' 8 Entretanto,
cujas bases de financiamento foram viabilizadas pelo confisco dos em 1777 morreu d. José 1. Os grupos da aristocracia e da burocracia
bens dos jesuítas. A função dessas instituições consistia na forma- que se colocavam na oposição à política representada por Pombal
ção do "homem de negócio perfeito" e, respectivamente, do "nobre encontraram em sua sucessora, d. Maria l (avó do primeiro impe-
perfeito".5b O ideal de Ribeiro Sanches era a formação do "homem rador brasileiro), uma defensora de seu ponto de vista. O período
perfeito", mesmo que um critério decisivo dessa perfeição fosse a fi- do governo de d. Maria l, que se caracteriza pelo fim da política
delidade ao Estado.1'7 A interpretação do Iluminismo que se estabe- iluminista de Pombal, ficou conhecido na historiografia como A
Viradeira.
53 Além do trabalho já mencionado de Theóphilo Braga sobre a Universidade de O reitor nomeado no curso cias reformas da Universidade de
Coimbra, veja-se também: CARRATO, José Ferreira. Igreja, humanismo e escolas Coimbra, Francisco de Lemos, logo após as festividades da aclamação
mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, 311 p. de d. Maria I, traçou uma caracterização das mudanças empreendi-
56 Citado a partir de CARRATO, José Ferreira. Conforme nota 55, p. 136.
:" Na justificativa para a introdução de uma educação para a nobreza atualizada dissolução, montar a cavalo, jogar a espada preta, e ir à caça: é necessária já ou-
com seu tempo, Ribeiro Sanches argumentava que a nobreza estaria em con- tra educação, porque o Eslado já tem maior necessidade de súditos instruídos
dições de continuar dirigindo o Estado apenas quando estivesse preparada em outros conhecimenlos.". Citado em CARRATO, José Ferreira. Conforme
nota 55.
como "súdito instruído em outros conhecimentos" que,não sejam apenas "sa-
ber ler e escrever, as quatros regras da aritmética, latim e a língua pátria", e 58 DIAS,Maria Odila da Silva. "Aspectos da Ilustração no Brasil", Revista do IHGfí.
"toda a ciência do catecismo da doutrina cristã", e muito menos com o "ócio, Rio de Janeiro, 278, jan-mar 1968, pp. 105-170.
98 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Nação e história: a fundação do Instituto Histórico e... 99

das. Em seu ensaio dirigido aos ministros do reino, defendeu a nova o empenho do reitor Francisco Rafael de Castro se fazia sentir, rein-
ordem dos estudos, que se contrapunha aos riscos das rivalidades troduzindo alguns elementos das reformas iluministas.
religiosas. Contra as trevas da escolástica, que condenou Portugal ao Nessa atmosfera espiritual de contradições é que se deu a forma-
atraso, Lemos propagava as luzes do novo tempo, "que se irradiavam ção da maior parte da elite política e intelectual do Brasil, dos homens
por tocla a monarquia"/' 9 Em seguida, enumerou os novos princípios: que se engajaram na formação do Estado nacional, entre os quais al-
na reorientação da teologia, em direção às escrituras sagradas; no guns se dedicaram a escrever a história nacional no âmbito do IHGB.
direito, rumo à razão; e, na história e nas ciências naturais, a obser-
vação e a experimentação. Em sua justificativa, ele tinha como alvo o
centro da discórdia em torno das pretensões iluministas de Pombal: L'Institut Historique de Paris: um modelo para os fundadores
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Descubramos finalmente a máscara aos declarnadores contra
os novos Estatutos. Este é o ponto que mais os toca. Não que- "Numa época de inteligência e de ação, a história tornou-se uma
rem que a Igreja se encerre rios limites que prescrevem o seu necessidade imposta a todos nós; ela é, de fato, o complemento de todo
divino legislador: querem que estes se estendam sobre o tem- estudo, a condição de todo progresso. "
poral das monarquias... querem que a cabeça visível dela seja
também a fonte visível de todo o poder, e que dela dimane "A carência da história nos acompanha por toda parle e
tudo quanto há de jurisdição e autoridade no mundo. Eis aqui em todos os momentos. "
a doutrina dos declamadores.''0
"Desejamos fazer as leis? É preciso antes sabermos quais são as que
O novo reitor nomeado, João Francisco Mendonça Furtado, faltam e. perguntarmos à história qual é o caráter, o atribulo das leis
reintroduziu em 1779 o antigo estatuto, fundando, assim, nas pala- que serviram à causa da humanidade, que é
vras da sátira da época, o "Reino da Estupidez".(l1 a peculiaridade dessas que combateram o progresso. ''ô2
No âmbito da universidade, a perspectiva reacionária não con-
seguiu se impor plenamente, nem por muito tempo. Depois de 1785, Com essa reflexão orientadora, Casimir Broussais, ao sinte-
tizar o trabalho de fundação em 1834 do Institui Historique de
Paris, formulava claramente o conceito de história representado
por essa instituição: história como necessidade dos tempos, como
59 BRAGA, Theóphilo Braga. História da Universidade de Coimbra nas suas relações
com a Instrução Pública Portuguesa. Tomo III. 1700-1800. Lisboa: Tipografia da condição de todo o progresso e como possibilidade para o apren-
Academia Real de Ciências, 1892, 771p. dizado do presente e do futuro. Essas ideias precisam ser vistas em
sua relação com os princípios do Iluminismo: da história, ganha-se
60 Conforme nota 59, p. 583.
conhecimento para estimular continuamente o desenvolvimento
61 O médico brasileiro Francisco de Mello Franco redigiu um poema em que
satiri/ava as mudanças na Universidade de Coimbra. A "burrice" surge, em seu da humanidade. Os fundadores do IHGB atribuíam à história ta-
poema, no norte, de onde teria sido expulsa pela civilização, acompanhada refa semelhante.
do "fanatismo, superstição e hipocrisia", para encontrar em Portugal seu do-
mínio. In RIBEIRO, João (org.). Satíricos portugueses. Rio de Janeiro: Garnier,
6'Journal de 1'Institut fiislorigue, Paris, l (1), ago 1834, p. 1.
1910, pp. 109-50. [Coleção de poemas herói-cômicos-sauricos.]
l 00 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857
101

Esses princípios representam, certamente, o paradigma gene- O francês era a língua dos salões, de modo que a revista Min<r-
ralizado do pensamento do século XIX, tendo, como pano de fun- va Brasiliense publicava com naturalidade artigos nessa língua.61
do, a crença inabalável no progresso humano. Nesse sentido, ambos A orientação do Brasil cm dircção à cultura francesa existia an-
os institutos estavam em sintonia com a corrente espiritual de sua tes mesmo da fundação do Estado Nacional. Em 1816, d. João VI con-
época. O Brasil encontrava-se, contudo, na periferia do desenvolvi- vocou para a Corte no Rio de Janeiro um grupo de artistas franceses,
mento, cujo centro estava naturalmente na Europa. Visto de modo que constituíram a chamada Missão Artística Francesa e receberam
abrangente, o "sistema colonial" tinha não apenas consequências a tarefa de estabelecer uma Escola Real cias Ciências, Artes e Ofícios.
económicas que se expressavam na forma da dependência das coló- Com a transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro,
nias, rnas que também repercutiam no âmbito cultural, impondo a desenvolveu-se uma demanda por produtos de alta qualidade. Para
orientação dos modelos europeus. a satisfação dessa demanda, fez-se necessária a contribuição da mão
A Europa sempre foi uma instância de legitimação da produ- de obra local, a ser formada pelos especialistas franceses. Os artistas
ção cultural e, ainda hoje, podemos nos perguntar se o Brasil con- convocados por d. João VI introduziram no Brasil o neoclassicismo,
seguiu emancipar-se dessa dependência cultural. Por longo tempo, um estilo que viveu o apogeu no período do governo de Pedro II.
como já registrado, apenas na Europa um brasileiro encontrava pos- Jean Baptiste Debret integrou a Missão Artística Francesa,
sibilidades de estudo. Nesse quadro, resultava inexoravelmente que como pintor de quadros históricos, tendo ingressado no Instituí His-
a reflexão sobre a história desenvolvida no Brasil acompanhava os torique de Paris depois de seu retorno à França em J 831, com o regis-
modelos e princípios que eram estabelecidos em outro lugar. Seria tro de sua experiência no livro Voyage Pitloresque et historique au lirésit.
elucidativo investigar como foram operados esses modelos e princí- Seu aluno, Manuel Araújo Porto Alegre (1806-1879), agracia-
pios, tornando-os passíveis de serem empregados em outra realidade. do com uma bolsa de estudos imperial, seguiu o mestre na Europa
Enquanto a Inglaterra conseguia garantir preponderância eco- e foi igualmente aceito no Institui Historique de Paris. Alguns anos
nómica no Brasil, a França fornecia, com sua cultura e civilização, os depois, Porto Alegre regressou ao Brasil c assumiu papel decisivo no
critérios de gosto. No Brasil, a ideia da função civilizaclora da França 1HGB. Em Paris, manteve contalo próximo com dois outros brasilei-
foi muito difundida. Emile Adet, escritor francês que vivia no Brasil, ros que, assim como ele, também eram sócios do IFIP e, mais tarde,
escreveu, em 1843, na revista Minerva Brasiliense, que se dirigia a um se engajaram no IHGB: Domingos José Gonçalves de Magalhães, cuja
público cultivado: obra é reconhecida como inauguradora do Romantismo na literatu-
ra brasileira, e o político e jornalista Francisco Sallcs Torres Homem.
Percorrendo-se o círculo cios conhecimentos humanos no Em conjunto, os três lançaram cm Paris uma revista literário-
Brasil vê-se que a França é a Nação que mais tem contribuído científica de vida curta: a Revista Nitheroy, que tinha uma pauta diver-
neste século para o rápido progresso civilizador deste Império. sificada, abarcando de astronomia a economia política, passando por
Descobre-se no seu desenvolvimento intelectual, debaixo de literatura e física.
todas as modificações que são inerentes ao caráter nacional, a
ideia francesa dominadora.63
64 A título de ilustração, cabe fazer referência ao exemplo em que a revista, ao
discutir a programação de teatro da cidade do Rio de Janeiro, reclamava da
1)3 "Minerva Brasiliense", Jornal de. Ciências, Letras e Artes. Rio de Janeiro, l, nov má pronúncia das companhias de teatro francesas que passavam pela cidade.
1843, p. 37. Veja-se Minerva Brasiliense. Rio de Janeiro, 2, 15 nov. 1843, p. 57.
102 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico c... l (Í3

Os três nomes mencionados, contudo, não foram os únicos A fundação do IHP deve ser vista a partir de suas conexões com
brasileiros entre os sócios do Institui Historique de Paris. Para o pe- o movimento do Romantismo e o interesse que essa corrente de pen-
ríodo de 1834 a 1850, Maria Alice de Oliveira Faria65 aponta 46 bra- samento tinha pela história. O passado não forneceu aos românticos
sileiros como membros do Instituto Histórico de Paris. Entre eles, 26 apenas material lilerário, mas se configurou igualmente como objeto
pertenciam também ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. de um trabalho sistemático. No contexto desse interesse crescente
Esses contatos indicam uma relação estreita entre as duas insti- acerca da história, deve levar-se em conta também a "questão na-
tuições, especialmente nos primeiros anos após a fundação do IHGB. cional", ou, l ai como Michelet formulava, "Ia personalité nalionale" .(*
Não se deve despre/ar o fato de que, para os fundadores do IHGB, a De início, tratava-se da busca das raízes nacionais e da construção
repercussão de seu trabalho por meio de uma instituição com sede e difusão de uma imagem da nação que dela resultava. Na França,
em Paris significava legitimá-lo. Por sua vez, o IHP, enraizado na voltava-se a atenção especialmente para duas épocas: a Idade Média
crença da função civilizadora da cultura francesa, surgia como mo- tornou-sc um dos temas preferidos da pesquisa histórica, enquanto
delo para a fundação do IHGB. A viagem pitoresca e histórica ao Brasil, a arqueologia se empenhava em obter maior conhecimento acerca
de Jean Baptiste Debret, recebeu uma resenha positiva no Journal de dos gauleses.
1'Inslitut Historique de Paris. Logo no primeiro número da revista do IHP, em um de seus
artigos, colocava-se a questão de como os gauleses influenciaram a
Se é glorioso para a França ver seus filhos propagarem a civili- cultura clássica greco-romana. A intenção dos autores era expor a
zação além-mar, que louvores não cabem àqueles que, depois continuidade da "missão civilizadora" da França desde tempos anti-
de terem reali/.ado essa missão arriscada, ainda vêm nos contar gos e, assim, construir uma fundamentação histórica para o papel da
a natureza e os costumes das nações que visitaram!06 França no século XIX.

Quis provar que, nos tempos antigos de nossa história, os gau-


O dever da França c definido como uma missão perigosa, po- leses não haviam sido nem tão ignorantes que se tornaram
rém, quando essa cruzada civilizadora se dirige contra a barbárie. O depois da invasão dos bárbaros, nem tão bárbaros eles pró-
par conceituai de civilização e barbárie estava igualmente no pano de prios, como disseram com frequência os gregos e os romanos.
fundo de todas as avaliações que o IHGB colocava acerca da socie- Felizmente, os depoimentos que não puderam conservar con-
dade brasileira. Desse modo, parece pertinente observar mais deta- tradizem as injúrias que dissiparam. Esses depoimentos, e não
Ihadamente as ideias dos membros do Institui Historique de Paris.67 evoquei outros, são suficientes para restituir a glória de nossos
antepassados nas ciências e nas letras; para mostrar como for-
65 Conforme nota 3. FARIA, Maria Alice de Oliveira. neceram pelos discípulos de Pitágoras o modelo das primeiras
66 Journal de 1'Institut Historique. Paris, 1(1) ago 1834, p. 53v. academias filosóficas da Grécia, como eles próprios abriram
67 Para traçar um panorama do trabalho do instituto, investiguei a revista que
está disponível na Biblioteca Nacional de Paris. Além disso, FARIA, Maria Ali-
ce de Oliveira. "Os brasileiros no Instituto Histórico de Paris", Revista do IHGB. toriques au cours d'un ciècle (1833-1933)". Revue dês Eludes Histmiques. Paris,
100, 1933, pp. 283-96.
Rio de Janeiro, 266, 1965, pp. 68-148; DESLANDES, Paulo. "Lês débuts de
l'Institui Historique (1834-1846)", Revue dês Eludes Hi.stm.ques. Paris, 88, 1922, 8 Veja-se: BARRIERE, Pierre. La vie intellectueUe en France du I6e. sie.de à l'époque
pp. 299-324; COMBES DE PATRIE, B. "La société et Ia Revue dês Eludes His- contemporairif. Paris: Albin Michel, 1974, p. 482.
104 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico c... J 05

as primeiras escolas entre os romanos e prepararam o grande des, senão penetrar o mistério das sociedades em si, explicar
século de Cícero, de Horácio e de Virgílio.69 sua origem, o fim, a organização, o mecanismo; n tuna palavra,
queremos constituir a ciência social o mais completa possível,
restabelecendo a uma unidade harmónica c fecunda seus frag-
Essas concepções encontravam também repercussão no cam- mentos dispersos e desconhecidos."
po literário, na medida em que a epopeia se tornou um dos géneros
literários preferidos daquele tempo. Na vida literária do Brasil, o gé-
nero foi igualmente valorizado. Esse género literário, além de atrair Essa afirmação abrangente encontrou sua expressão nos esta-
Varnhagen, foi alvo da dedicação dos românticos, que o afirmaram tutos publicados do IHP de 1836, que descreviam detalhadamente
em sua poesia. seu campo de atuação.
No quadro desse ambiente literário traçado, o jornalista Eugè-
ne Garay de Monglave (1796-1873) e o historiador Joseph Michaud Ele (o Instituto Histórico) se ocupa de pesquisas sobre a ge-
(1767-1349) se empenharam em estabelecer um instituto histórico ografia antiga, a cronologia, as línguas, as literaturas, as ciên-
em Paris. Michaud era reconhecido como especialista da história cias, as artes, as antiguidades, os monumentos, as moedas, os
das cruzadas, editor da Biographie Universelle e opositor das ideias de manuscritos, os impressos curiosos de todos os países, de todos
1789. Na primeira edição dojounal de l'Instilut Historique de Paris, os os tempos, e, geralmente, de tudo o que constitui a ciência
editores formularam a tarefa do IHP: "cncourager, diriger et propa- histórica.' 2
ger lês études historiques en France et à 1'étranger".70 O pressuposto
da necessidade da história diante dos tempos decorria da concepção Uma vez que a reflexão teórica e metodológica tinha lugar
dos intelectuais reunidos em torno do IHP, no sentido de que a his- seguro e reservado na revista cio instituto, é possível reconstruir a
tória como ciência era capaz de abarcar e explicar o conjunto da vida concepção de história que era representada. Ao lado da compreen-
social. são da história como ciência social abrangente, atribuiu-se à mesma
disciplina ainda uma função pragmática: a história como mestra da
Qual é, portanto, nossa missão, senhores? O que queremos? vida.73 Em sua atividade, o instituto deu-se o direito de reunir e pro-
Entendamo-nos. Nós queremos o grande todo que se chama mover trabalhos de diferentes perspectivas acerca da história, não se
mundo, conhecer a parte principal e soberana, a humanida- definindo como uma escola específica. Casimir Broussais expressou
de; queremos saber se seu desenvolvimento foi progressivo,
se o progresso continua e em que direção avança. E, como
a humanidade se traduz, se manifesta, em meio a essas agre- 71 Journal de. 1'Institut Jlistarique, Paris, l ( 1 ) , ago 1834, p. 30.
' O

gações de homem que formam a sociedade, não queremos n Journal de. 1'Institut Historique. Paris, 4 (19), fcv-jtil 1836, pp. 38-40.
nada como resultado ao estudar a humanidade nas socieda- 13 Interrogações teórico-metodológicas também faziam parte dos temas do I Con-
gresso Histórico Europeu. O primeiro tema da primeira seção foi o seguinte:
"Quel est lê bout de l'histoire?" Um resumo dos resultados da discussão for-
ftl Veja-se: VLLENAVE, Mathieu. Journal de 1'Institul Historique. Paris, l (1), ago mulou a seguinte resposta: "... Ia právoyance de 1'avenir dans 1'cidre de Ia libre
1834, p. 20. . activité humaine." Consulte-se: Journal de Vlmtitut Historique. Paris, 2 (12), jul
70 Journal de 1'Institul Historique, Paris, l, ago 1834, p. 1. 1835, p. 273; c Journal de 1'Institut Historique. Paris, 3 (18),jan 1836, p. 287.
106 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Nação c história: a fundação do Instituto Histórico e... 107

claramente essa posição no primeiro número Ao Journal de Vlnstitul Sem dúvida, a história deve reproduzir com cuidado as modifi-
Hislonque de Paris. cações que os tempos e as regiões apresentam à humanidade,
deve acompanhar com atenção as transformações da socieda-
Mas os membros do Instituto Histórico, por se terem associado de; mas essa não é sua única tarefa, pois ela deve acompanhar
ao interesse da ciência que cultivam, não se ligaram de forma sob diversas formas o elemento constante da humanidade, c
alguma a essa ou aquela escola. Aqui não é de maneira algu- assinalar, assim, a harmonia das diferentes épocas que a desen-
ma uma questão de clã ou de facção; não se trata de forma cadeiam, ou seja, as leis que a dominam. 75
alguma de fazer predominar um sistema; trala-se de constatar
e de fazer progredir a ciência da história, de aproximar para O vocabulário utilizado (anatomia, leis) já indica que as ciên-
fecundá-la pelo contato, tanto de trabalhos isolados, relativos cias naturais se constituíam como modelo de cientificidade.
a inúmeros assuntos diversos, quanto de fatos ern vários senti- O alcance da meta que, por meio de seu trabalho, era almejada
dos diferentes. 74 pelo IHP deve levar em conta a pretensão da francesa cie se afirmar
como guia e líder da civilização. Tratava-se, portanto, da autoimagem
Esse ecletismo teórico conduziu para o fato de que, entre os da nação que tanto deveria repercutir para fora como para dentro do
sócios do instituto, encontravam-se tanto defensores de perspecti- país. A França - ou mais precisamente, Paris, como lugar do saber do
vas historiogrãficas baseados em modelos e princípios das ciências conjunto da humanidade, o que deveria ser alcançado com a escrita
naturais como aqueles que pretendiam apresentar os eventos como da história da humanidade - era a esperança não manifestada da
de fato ocorreram. O objetivo — apresentar acontecimentos históri- maior parte das pessoas do IHP. O nome das seis seções do instituto
cos "nas cores de seu tempo" - corresponde às concepções do his- ilustra esse empreendimento pretensioso.'6 Paris como "Ia capitale
toricismo. Os adeptos da orientação de uma '"anatomia histórica" du monde intellectuel"77 e a língua francesa como "Ia vraie langue
científico-natural partiam do pressuposto de que a história como de Ia civilisation moderne"78 - dois elementos determinantes da au-
um todo era passível de ser elucidada pela reconstrução da história
de suas parcelas. Ern decorrência desse princípio, propunham, por
73 Journal de ('Institui Histonque. Paris, J (4), nov 1835, p. 211.
exemplo, a realização da história de cada uma das províncias france-
sas para obter um quadro geral da história da França. Outros sócios
76 1a. Seção: História Geral
do IHP, igualmente orientados pelos métodos das ciências naturais,
2a. Seção: História das Ciências Sociais e Filosóficas
esforçavam-se por investigar aquilo que era perene e imutável na his- 3a. Seção: História das Línguas e das Literaturas
tória e descobrir as leis dos fenómenos históricos. 4". Seção: História das Ciências Físicas e Matemáticas
Numa resenha da Histoire dês ducs de. Burgogne, de M. de Ba- 5a. Seção: História das Belas-Artes
6a. Seção: História da França
rante, Frédéric Boissière, sócio do IHP, formulou a seguinte posição
Journal de 1'Institut Histarique. Paris, 2 (12),jul 1835, p. 273.
metodológica:
77 Discurso realizado em 31 de julho de 1834, diante do Instituto, pelo relator da
comissão formada para a preparação do Congresso Journal de 1'Institut Histori-
que. Paris, l (1), ago 1834, p. 39.
78 Discurso do vice-presidente do IHP sobre a avaliação do I Congresso Histórico
74 Journal de 1'Institut Histonque. Paris, l (1), ago 1834, p. 2. Europeu. Injournalde 1'lniti.tutHistorique. Paris, 3 (16), nov. 1835. p. 187.
108 Historiografia e Naçãu no KraíH 18S8-1857
109

tocompreensão cia nação francesa - eram convicções que estavam no filosóficas, que o orador Victor Cousin (1792-1867) se encarregava
pano de fundo do trabalho historiográfico cio IHP. de anunciar. 81
A pretensão do IHP de não se atrelar a nenhum princípio es- Enquanto o IFIGB, praticamente desde o início, colocou-se
pecífico da ciência histórica se manifestou também no campo políti- sob a influência do Estado brasileiro, o Institut Historique de Paris
co. Uma vez que questões intelectuais e científicas se colocavam no refletia outro quadro de relações sociais, eis que o Estado não se imis-
centro das discussões, era possível, sob a representação do presiden- cuía necessariamente no campo da produção cultural da sociedade.
te, trabalharem juntos membros de diferentes orientações políticas O exercício de uma função no IHGB não estava condicionado pela
no IHP. E, de falo, encontravam-se na instituição representantes de remuneração, mas pela aquisição de prestígio.
perspectivas políticas diversificadas: o espectro político do instituto Na França, a historiografia era exercida como profissão e,
abarcava desde o presidentejoseph Michaud, que se colocava ria tra- desse modo, o primciro-sccretário do iHP era agraciado com sa-
dição dos que renegavam a Revolução Francesa, até os republicanos lário fixo e residência funcional. Elucidativo é que as duas insti-
e representantes do saint-simonismo. Não se pode esquecer, inclu- tuições deparavam com constantes dificuldades financeiras. No
sive, que o Institnt Historique de Paris, na ocasião de sua fundação, caso do IHGB, o aumento das contribuições de Estado surgia como
contava com a simpatia do ministro da educação Francois Guizot única e óbvia solução monetária para os problemas. Por sua vê/, o
(1787-1874). instituto de Paris, que se mantinha graças ao apoio Financeiro pri-
vado, reagia às mesmas dificuldades, com a adoção de medidas de
Não pertencemos todos à mesma opinião política, mas que o restrição de gastos: instalação em sede menos onerosa, assim como
mais perfeito consenso reine em nossas assembleias...79 diminuição dos rendimentos do primeiro-secretário e da edição da
revista.
Discussões políticas no interior do instituto estavam submeti- O número de duzentas ações de participação obtidas após os
das por estatuto a determinadas cláusulas. três primeiros anos após a fundação não foi superado para garantir o
saneamento financeiro da instituição. Um discreto auxílio financeiro
Toda discussão estranha à ciência puramente histórica é proi- estatal só foi obtido em 1844, em troca de vinte assinaturas por parte
bida nas assembleias gerais, o conselho, as categorias, os comi- do Ministério da Educação Pública. 8a
tés, as comissões, c em geral em toda c qualquer reunião do A leitura do ]ournal de 1'Jnstitut Historique de Pari1?* permite uma
Instituto Histórico. s" descrição das atividades da instituição. A divisão em determinadas

De acordo com esse quadro, é possível perceber uma conexão H1 No Brasil, a obra de Victor Cousin também teve certa recepção. Domingos |osé
entre o "ecletismo" do Institut Historique e a recepção de tendências Gonçalves de Magalhães, primeiro Ordinário pura Filosofia do Colégio Pedro
II, expôs, cm sua aula inaugural, as linhas gerais dessa filosofia. Gonçalves de
Magalhães estudara em Paris com Théodor (ouffroy, aluno de Victor Cousin.
7" Discurso do presidente do IIIP Joseph Michaud (J 767-1839), na abertura do I Veja-se: BARROS, Roque Spcucer Maciel de. A significação educativa (to roman-
Congresso Histórico Europeu, que também presidia. No decurso de sua fala, tismo brasileiro: Gonçalves de, Magalhães. São Paulo: Grijalbo, 1973, 266p.
ele destacou o caráter do Instituto Histórico como uma "assemblée de famil- s- Veja-se: DESLANDES, Paulo. "Lês dcbuts de rinstitm Historique (1834-1846)",
\c". Joumal de. 1'lnstitut Historique. Paris, 3 (16), iiov. 1835; p. 187. Rmue. dês Eludes Jlistoriques. Paris, 88, 1922, pp. 299-324.
80 Journal de 1'lnstitul. Historique. Paris, 4 (19), fev-jul. 1834, pp. 38-40. 83 A revista do instituto teve, ao longo de sua existência, diversos títulos: 1834-
110 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Nação e história: a fundação do Instituto Histórico c... 111

rubricas evidencia com clareza a intenção do instituto de manter seus Depois de definir o instituto como uma instituição "animada pelo
sócios atualizados com as discussões correntes do campo da ciência espírito da civilização europeia", ele destacou o interesse da França
histórica. Publicavam-se os debates em torno de questões de histo- nessa construção:
riografia, resenhas de livros, informações bibliográficas e artigos de
trabalho do instituto. O IHP promovia anualmente, em Paris, um AFrança, cujas Artes já têm estendido, sobre solo ainda virgem,
congresso sobre os temas da história, assumia o controle geral sobre tão profundas raí/.es, e produzido frutos que prometem para o
os cursos públicos e, após 1835, concedia um prémio anual para o futuro tão abundantes colheitas, acha-se mais interessada que
melhor trabalho histórico. qualquer outra nação da Europa nos progressos da civilização
Os contatos privados com o ambiente cultural e os interesses brasileira; e a mini, via qualidade de francês e membro
lusitanos do primeiro secretário do IHP, Eugène de Moiiglavc,84 e o correspondente do instituto, também me é permitido associai-
papel de modelo que a França desempenhava sobre a vida cultural me por este duplo título.86
no Brasil levaram ao relacionamento estreito entre o IHP e o IHGB.
No primeiro ano de sua existência, 11 brasileiros integraram-se ao Francisco de Monte Alverne, padre, estimado como orador
IHP, sendo que 10 deles, mais tarde, se tornaram sócios do IHGB.85 e intelectual de sua época, em ensaio escrito por ocasião de sua
Círculos sociais cultivados da França mantinham, ao menos desde admissão no IHP, afirmava com destaque o papel civilizador da
a Missão Artística Francesa, algum conhecimento e conta to com o França.
Brasil. Considerando que ria Revue de Deux Mondes não era raro se
encontrarem artigos sobre o país, é possível supor que a fundação Essa filiação literária continua a grande obra da civilização do
de um império no continente sul-americano ia ao encontro de certos género humano, confiada à França; ela revela ao Brasil que
circuitos sociais franceses. ele não tardará em figurar entre os povos que se distinguiram
Tanto no Brasil quanto na Franca, cristalizou-se lentamente a por seu Iluminismo. A França se confraterniza com todas as
imagem que se formou de nosso país como guardião da civilização nações civilizadas; ela as reúne em torno de si, ela se faz o
europeia no Novo Mundo. Raoul Rochette, secretário da Académie centro das relações sociais e morais...87
Royale dês Beaux Arts, formulou essa ideia numa carta de
agradecimento redigida após a sua admissão nos quadros do IHGB. Em 1843, os naturalistas conde de Castelnau e visconde de
Osery receberam do governo francês a incumbência de pesquisar
o continente sul-americano do Rio de Janeiro até Lima, tendo sido
184.Q: Journal de rinstitut Historique; 1840-1883: L'investigateur, 1883-1899: Reiiue
de Ia Société dês Etudes Historiques; 1899-1930: Revue dês Etudes Hutoriques. bem recebidos pelo IHGB. Contudo, após a publicação de suas
observações sobre o estado bárbaro do país, ganharam a antipatia
4 Eugène Garay Monglave (1796-1873) encontrava-se no meio de uma estada de
dois anos no norte do país, na allura da fundação do Império. Como outros
viajantes dessa época, participou de diversas expedições ao interior do país, 86 Raoul Rochette, secretário vitalício da Académie Royale dês Beaux-Arts, em
em busca de riquezas naturais. Em 1827, publicou em Paris uma biografia de carta enviada a Januário da Cunha Barbosa, primeiro-secretário do IHGB, da-
d. Pedro I, que continha também a correspondência entre o primeiro impe- tada de 26 de janeiro de 1843. In Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 5 (18), abr-
rador do Brasil e seu pai, d. João VI. Além disso, afirmou-se como tradutor de jun 1843, p. 244v.
escritores brasileiros. K' Francisco de Monte Alverne, em 5 de novembro de 1834. In Journal de 1'Instilut
85 Conforme nota 3. FARIA, Maria Alice de Oliveira, p. 147. Hislorique. Paris, 2 (8), mar. 1835, p. 117.
11 2 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857

do i n s t i t u t o . Dois anos antes, o IHGB estabelecera cont.ato com o como o americano do norte lhe oferece isso nesse momento
cientista francês dr. Martin de Moussy, membro da Sociedade de a si próprio.ss
Geografia de Paris. Seu interesse recaía sobre a transformação que
os europeus sofriam ao serem submetidos ao clima dos trópicos, Em nome do instituto, o Journal de 1'lnstitut Historique saudava
bem como sobre as doenças endémicas e as pesquisas no campo da a revista em língua portuguesa que surgira em Paris, Nitheroy: "Eles
geografia e da etnografia. expandirão além-rnar a influência de lima ideia que deve dar a volta
O Journal de 1'lnstitut Historique servia como fórum de discussão ao mundo", opinava a revista.89
dos problemas das ciências humanas brasileiras. Logo no primeiro O embaixador brasileiro em Paris, Lu is Moutinho de Lima
número, escreviam três brasileiros: Domingos José Gonçalves de Alvares e Silva, mantinha assinatura do Journal de 1'Jnslitul Historique
Magalhães problematizava a questão do início de uma literatura para as bibliotecas públicas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife.
nacional no Brasil, enquanto Francisco Salles Torres Homem (1812- Em 1839, o primeiro-secretário do 1HP, Eugène Garay de Monglave,
1876) apresentava o desenvolvimento das ciências no Brasil - para ofereceu um curso sobre literaturas portuguesa e brasileira.
tanto, ele ressaltava especialmente os entraves resultantes da herança Como vimos, mesmo antes da fundação do Império do Brasil,
de Portugal como metrópole. Manoel de Araújo Porto Alegre havia uma grande influência da França sobre a vida cultural do
descrevia o estado das artes no Brasil, estabelecendo a distinção entre país. A orientação do IHGB em direção ao l H P se constitui nos
arte e arte indígena, além de caracterizar a repercussão da Missão limites dessa tradição. Os atores envolvidos no trabalho das duas
Artística Francesa como ponto de mutação da história da arte no instituições assumiram, de modo direto, a influência do IHP sobre
Brasil. o IHGB.
Na sequência, o Journal de 1'lnstitut Historique publicou Num artigo da época da fundação do IHGB, o primeiro-
informações bibliográficas sobre o Brasil. Jean Baptiste Dcbret secretário do IHP, Monglave, destacava o papel de liderança que
relatou algumas de suas observações feitas no Brasil aos sócios do o instituto francês desempenhava na fundação daquela instituição
instituto, reafirmando a imagem da função civilizadora da França do similar e correlata.90 Numa carta a Eugène Garay de Monglave,
outro lado do Atlântico.
88 Manuscrito inédito do segundo volume da Voyage Pittoresque et Historique <m
A moda, essa mágica francesa, irrompeu no Brasil bem cedo. tírésil, de Jcan Baptiste Debret, apresentado em 23 de outubro de 1834 diante
O império de D. Pedro tornou-se um de seus mais brilhantes da 5a. Seção do IHP. In Journal de 1,'htstitut Historique. Paris, l (3), out. l834, p.
171v.
domínios: ali ela reina como déspota, seus caprichos são leis;
nas cidades, vestuários, refeições, dança, música, espetáculos, 89 Relatório de Eugène Garay de Mongalve sobre o lançamento da revista Nithe-
roy. In Journal de 1'lnstitut Hislmiquc. Paris, 4 (231),jun. 1836, p. 209.
tudo é imitado, calcado no exemplo de Paris, e, sob esse
aspecto, como sob alguns outros, algumas províncias da 90 O artigo lançado na revista do IHP sobre a fundação do IHGB é, ao mesmo
tempo, um balanço do trabalho de cinco anos do IHP. Monglave dirigiu a
França ainda são bem mais atrasadas que as províncias do
formação da Comissão Real de História em Londres, Bruxelas e Turim e a
Brasil. fundação da Sociedade de História em Boston, Washington e no México, se-
Em resumo, é isso, o povo que percorreu três séculos todas as guindo o exemplo francês. Como consequência das atividades do instituto, ele
fases da civilização europeia e que instruiu, através de nossas via ainda a organização das "Comissões Históricas", criadas pelo ministro da
Educação Pública, Guizot. Veja-se: fonrnalde 1'Instilut Historique. Paris, 10 (57),
lições, nos oferecerá cm breve, talvez, os rivais dignos de nós, abr. 1839, pp. 101-15.
11 -i HiMoriogiafia c Na^ão no !>rasil ISiiS 1

Januário da Cunha Barbosa, pi imeiro-seci etário do IHGB, abordou a


mesma questão do ponto de visla brasileiro.

Ao vos fazer esse toinunicado por ordem do novo Instituto


e em virtude de seus estatutos, devo lembrar-vos de que seus
dois principais fundadores, como verão pela nota sucinta que
3
precede meu discurso, são os membros do Instituto Histórico
da França, e, que, por consequência, a glória dessa fundação
deve naturalmen te pertencer à honrosa Sociedade da qual eles
O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO
fazem parte; essa glória será tanto maior quanto mais rápida E A HISTORIOGRAFIA
e efica/. for vossa cooperação com as pesquisas que interessam
à ciência. 91

A partir dos fatos, especialmente 110 caso dos Estados nacionais O projeto de uma história do Brasil
em processo de construção, depreende-se que a ocupação com a
própria história correspondia a uma exigência muito mais ampla. No texto em que apresentam suas ideias acerca da fundação
Assim, é preciso levar em conta o fato de que o Instittit Historique de do IHGB, Raimundo José da Cunha Matos e Januário da Cunha. Bar-
Paris representava um modelo para a instituição brasileira correlata bosa caracterizam o trabalho da nova instituição a partir da formula-
e, acima de tudo, constituiu-se em instância de sua legitimação social. ção de dois objetivos: "coligir e metodizar os documentos históricos
e geográficos interessantes à história do Brasil". 1
Os primeiros estatutos acrescentaram a função de sensibilizar
a esfera pública por meio de cursos, palestras e urna revista de publi-
cação regular dedicada às questões históricas e geográficas.2 O pro-
pósito de escrevei' uma história do Brasil, embora não enunciado ex-
plicitamente, no entanto, constituía o pano de fundo de um trabalho
que, à primeira vista, poderia parecer apenas motivado pelo interesse
documental. A recolha de dados tinha como sentido possibilitar uma
"História Geral do Brasil", sendo o instituto, nas palavras do primeiro
secretário, "a luz que tiraria nossa história do caos obscuro"/1

' As motivações apresentadas pela SAIN para a fundação de um Instituto His-


tórico e Geográfico. Raiista do 1HGB. Rio de Janeiro, l ( l ) , jau-mar/1839, pp.
5-9.

2 Primeiros estatutos do IHG15. Revista do IHGB. Rio de Janeiro, ! ( 1 ) , jan-


1 Carta de Januário da Cunha Barbosa a Eugène de Monglave, de ]0 de janeiro mar/1839, pp. 22-24.
de 1839, Journal de rinstitut Historique. Paris, 10 (57), abr. 1839. '' Relatório do primeiro-secrctário do IHGB, Januário fia Cunha Barbosa, por
l l (i Hisloiio^ialia c Nação no Brasil 1SHS-1857
O I n s t i l u t o l íjslorico r C<:"L;I aftco lii asilriro... ] 17

A partir da const.ata.cao do "caos obscuro", planejava o IG11B A importância do ,ema e das circunstâuaas sociais que permi-
tra/.er "luz e ordem" à história. A metáfora utili/ada correspondia tiram o surgm.cnto de um discurso a respeito de indígenas e de tor-
perfeitamente ao espírito da época. "Ordem" era também a meta dos na-los o objeto de uma apreciação "científica- será examinada mais
estadistas e políticos, ocupados em fortalecer o Estado monarquista de perto no contexto da análise da revista. Por ora, basta frisar que a
e constitucional, a fim de manter distância em relação ao caos das etnografia tmha uma importante contribuição a dar para a formula-
nações republicanas vi/inhas. cão da história do Brasil.
O presente era entendido como uma época que carecia de luz, Na reunião de 10 dejunho de 1847, foi apresentada a proposta
clare/a, ordem e, finalmente, identidade. Trata-se, como expressou de se fundar, sob o patrocínio do instituto, uma sociedade dedicada
(anuário da Cunha Barbosa, da revelação de nosso "verdadeiro c ara- exclusivamente a literatura, linguística e arte dramática. Para tanto
te r nacional". 4 E o IHGB deveria contribuir nesse sentido. a comissão formada pelo instituto lançou os fundamentos da Acade-
A ilustração geográfica e social do país, por meio do instru- mia de Literatura Brasileira.
mental da geografia e da história, constituía dois momentos de um O IHGB partia da suposição de que só a fundação do Estado
processo cujo fim era a estruturação do quadro geral da nação. In- nacional, em 1822, havia criado as premissas capa/es de abarcar uma
vocando Cari Ritter, considerado o fundador da geografia moderna, fnstória geral do Brasil. Aqui, portanto., surge uma marca da história
Januário da Cunha Barbosa definia a geografia como "palco das ativi- a ser formulada, ou seja, a ênfase no Estado brasileiro. Januário da
dades humanas", 5 com o que pretendia deixar claro que tinha plena Cunha Barbosa expressou essas ideias da seguinte forma:
consciência do íntimo relacionamento entre ambas as disciplinas.
Mesmo contando com o recurso a outras disciplinas como ar- Relalados diversamente por escriture,, ou nacionais ou es-
quelogia, etnografia e literatura, história e geografia constituíam as trangeiros. ,,ão podiam / os fatos / ale o ícli, momento de
fontes principais para obter acesso aos vários materiais que permi- proda,nar-se a nossa independência, dai base sólida à nossa
tissem formular a história. Na reunião do IHGB de l" de agosto de nacionalidade. Foi preciso, portar,.,,, que brasileiros inflama-
1840, Francisco Adolpho Vamhageii leu um memorial de sua autoria dos no amor da pátria se dessem a patnótica tarefa de estabe-
a respeito da necessidade de aprender e pesquisar as línguas indí- lecer ,„„ íoco de luxes históricas e geográficas, reunindo-as
genas. Suas ideias constituíram o fundamento teórico para a Seção de t a n t a s recordações gloriosas, que semsscm a forma, um
Etnográfica do IHGB. A relevância atribuída a essa seção decorre da complexo de doutrinas purificadas no cadinho da crítica, e
sugestão de Varnhagcn em se dar preferência à publicação de maté- digno por sua veracidade de ser levado ao conhecimento de
rias dessa área temática.1' todas as nações.'

ocasião do segundo jubileu do Instituto. Rfíiisía do IHGB, 2 (8), ouKlcv/1840, jMomover, quaisquer noções especiais relativas aos indígenas deste território
pp. 557-589. " as qi.a,s, alem de pela sua nature/a serem estranhas à geografia física e história'
'' Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 2 (8), out-dcz/1840, p. 570. poluíra, demandam apmfundado espírito e indivíduos que se votem com assi
dmclade e quase exdusivamenle a obter ejuntar esclare, imentos etnooráucos
3 Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 2 (8), out-dez/1840, p. 574. acerca dos autóctones do Brasil, proponho..." Revista do IHGH, Rio de [aneiro
?> (9), jan-mar/1841.
11 Na introdução às suas propostas, ele formulou a necessidade de uma seção
etnográfica do IHGB da seguinte forma: "Sendo evidente necessidade, para Relatório anual do IHGB. Kmixta do ,HGB, Ri() (1(, |anein) - ,c }
se conhecer bem o Brasil e a sua história, que o Instituto tanto tem em vista 1S4.I, pp. 1-31. ' >'
j l8 Historiografia e Nação no Brasil -í 838-1857
O I n s t i t u t o Histórico e Geográfico Ki aMleiro.. J ]Q

Dessa forma, Cunha Barbosa formulava a reivindicação do ins- estudos científicos, fosse notar faltas de ciência em Plínio, ou
tituto de ser a única instância legítima para escrever a história do em Lineo. '
Brasil. Com isso, desqualificava outras obras, como, por exemplo, o
livro elaborado em 1822, de Robert Southey, sobre a história do Bra- Após o aparecimento de sua História do Brasil, essa boa vontade
sil. Embora o membro José Joaquim Machado de Oliveira, em 1824, foi totalmente abafada pela autoconsciência de ser o primeiro a cum-
houvesse proposto a tradução da obra, reconhecendo sua importân- prir a tareia de escrever uma obra desse tipo.
cia, o instituto adotou uma atitude que pode ser caracterizada, no Antes de Varnhagen, houve outro autor, dessa vez brasileiro,
mínimo, como discreta em relação ao trabalho de Southey, e, certa- que tentou contar a história do Brasil: o general José Inácio de Abreu
mente, é possível afirmar que o fato de ser inglês tenha desempenha- e Lima (1794-1869) publicou, em 1843, um Compêndio da História do
do papel decisivo para a definição dessa postura. Brasil.
Varnhagen levantou outra ressalva em relação ao livro de Ro- Abreu e Lima era da província de Pernambuco, onde a tradi-
bert Southey: ção de oposição ao poder central continuara viva, tendo vivenciado,
como filho de um dos líderes da Revolução Pernambucana, de 1817,
Não diremos que fez uma obra completa: ele mesmo reco- vários anos de exílio nos Estados Unidos. Durante a luta pela inde-
nheceu que não, quando, em dezembro de 1821, dizia avaliar pendência das colónias espanholas, ele se colocou do lado de Simón
quanto à mesma História do Brasil podia ser acrescentado por Bolívar. O título de um livro de sua autoria, de 1855, O socialismo.11
alguém que viesse a compulsar os arquivos em Lisboa: rnas fez também marca seu posicionamento político, bem diferenciado das
quanto pôde, e ninguém naquela época faria melho . 8 opiniões dos principais membros do instituto.
A apresentação do Compêndio da História do Brasil deu lugar, no
A falta de um trabalho documental e realizado em arquivos, instituto, a uma controvérsia em que coube a Varnhagen o papel de
praticado intensamente por Varnhagen para sua própria obra, foi principal opositor. Numa carta dirigida ao instituto, o general narra
atribuída a Southey, como uma deficiência.9 Mas também se pres- as dificuldades que teve em preparar seu livro sem qualquer ajuda do
sentia certa boa vontade por parte de Varnhagen, ocupado que esta- governo. Além disso, o autor sublinhava a importância de sua obra,
va com seu próprio livro: que deveria ser considerada uma tentativa e o primeiro resultado dos
anseios do instituto no sentido de elaborar uma ampla história do
Notar hoje erros em Southey, pelo socorro dos novos inventos país.
(na maior parte dos quais tive parte) é proceder tão miseravel-
mente quanto um pedante, que ao concluir atualmente seus Uma coisa, porém, ressalta no meu Compêndio, e é quanto
basta para dar-lhe algum valor. Tudo quanto existia escrito
acerca do Brasil era sem método nem plano algum histórico:
8 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Juízo sobre o Compêndio de História do
Brasil escrito por José Inácio de Abreu e Lima", Revista do IHGB, Rio de Janei-
ro, 6 (21),jan-mar/1844, p. 63. 10 Carta ao primeiro-secretário do IHGB Januário da Cunha Barbosa, de
9 Sobre Robert Southey e o significado de sua obra, veja-se: DIAS, Maria Odila 1/4/1846. Revista do IHGB, Rio deJaneiro, 13 (19), jul-set/1850, pp. 395-401.
da Silva. O fardo do homem branco; Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Com- " LIMA, José Inácio de Abreu c. O socialismo. 2 ed. Rio de Janeiro: Pa/ e Terra,
panhia Editora Nacional, 1974, 298p. 1979, 343p.
120 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 121

era um montão de fatos atirados ao acaso sem discriminações neceu. "O Brasil é quase totalmente desconhecido dos brasileiros",
de épocas nem de períodos; e tanto c isto assim que o Instituto constatava a revista Minerva Brasilien.se, prosseguindo:
já se ocupou deste objeto, tratando, antes de tudo, de triangu-
lar o terreno sobre que devia um hábil corógrafo traçar a carta Estranhas umas às outras, falta às nossas províncias a força do
de nossa história. Não havendo, porém, o Instituto decidido laço moral, o nexo da nacionalidade espontânea que poderia
definitivamente esta importante questão preliminar, tomei a prender estreitamente os habitadores desta imensa peça que a
resolução de fazê-lo neste Compêndio pela maneira por que natureza abarcou com os dois maiores rios do universo. A his-
se acha delineado nas oito épocas ou capítulos em que dividi a tória do país, ou depositada em antigos e fastidiosos volumes
história pátria ate a coroação do Sr. D. Pedro II. e geralmente ignorada, ou escrita até certo ponto por mãos
Portanto, vê o Instituto que na divisão das épocas busquei sem- menos aptas, por estrangeiros, como Beauchamp, trataram só
pre uma cor que as distinguisse: mas esta cor devia ser tal que de compor um romance que excitasse a curiosidade de seus
se apresentasse à primeira vista; e, para ser bem compreendi- leitores na Europa, não pode despertar no espírito de nossa
da, era mister que cada época tivesse o seu cunho particular, juventude o nobre sentimento de amor de pátria, que torna
isto é, uma mudança, uma variação do estado anterior. o cidadão capa/, dos maiores sacrifícios, c o eleva acima dos
cálculos mesquinhos do interesse individual.
A crítica de Varnhagen à obra do general Abreu e Lima visa-
va principalmente ao fato de que se baseava na obra de Alfonso de Uma história geral e completa do Brasil resta a compor e, se até
Beauchamp, que o primeiro, por sua vez, dizia ser plágio do livro aqui nem nos era permitida a esperança de que tão cedo fosse
de Southey. Nesse caso, a falta de um trabalho de arquivo não pa- satisfeito este desideralum, hoje assim não acontece, depois da
recia representar problema para Varnhagen, ainda mais porque ele fundação do Instituto Histórico, cujas importantíssimas pes-
confessava que suas pesquisas pessoais em arquivos só puderam ser quisas no nosso passado deixam esperar que esta ilustre corpo-
realizadas graças ao apoio oficial. A controvérsia, que em seu auge fez ração se dê à tarefa de escrevei a história nacional, resultado
Abreu e Lima anunciar sua saída do Instituto, mostra bem em que final para que devem convergir todos os seus trabalhos. '
medida o instituto se havia transformado na "instância de crítica" em
relação a obras históricas. Assim, determinou os parâmetros pelos A pretensão que caracterizava a vontade do instituto de se tor-
quais deveria ser escrita a história do país. nar o local adequado para escrever a história nacional é confirmada
Mesmo após a desqualificação das obras de Southey e de Abreu pela revista Minema Brasiíicnse em nome de seus leitores, as elites cul-
e Lima, o desafio para se escrever a correia história do país pcrma- tas do Brasil.
Uma vez que a história, por parte dos membros do IHGB, bem
como das elites cultas do Brasil, mereceu papel de destaque e era
12 Revista do IIIGB, Rio de Janeiro, 5 (19), jul-set/1843, p. 370v. Sobre a atuali-
dade do debate, veja-se também a nota 8. Além disso: LIMA, José Inácio de encarada como necessária, é preciso examinar o conceito de história
Abreu. Resposta ao cónego Januário da Cunha Barbosa ou Análise do l" Juízo de. próprio desse círculo de pessoas, o qtte eles entendiam por história,
Francisco Adolfo Varnhagen acerca do Compêndio de História do Brasil. Recife: Tipo- procurando compreender as bases teóricas que determinavam sua
grafia de M. F. de Faria, 1844, p. 148. Veja-se também a carta de José Inácio de
Abreu e Lima ao primeiro-secretário do IIIGB, Januário da Cunha Barbosa, de
23/4/1844. Arquivo do IHGB, Rio de Janeiro - Lata 661, Pasta 2fi. 13 Minema Rrasiliense. Rio de Janeiro, J (2), nov/1843, pp. 51-3.
122 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 O Instituto Histórico c Geográfico Brasileiro... ] 23

abordagem. A seguir, ilustra-se como a ocupação com a história se nheiro, a prova da existência de um "génio" brasileiro que, devido às
expressou na prática do IHGB. circunstâncias históricas, não pôde desenvolver-se por completo. Só
Pessoas formadas numa universidade em que as reformas fo- após a independência é que esse "génio" pôde tomar corpo, tendo
ram inspiradas no espírito do Iluminismo eram confrontadas com as sido o elo entre as academias do século XVIII e o Instituto Histórico
posturas reacionárias do governo de D. Maria i, pois os intelectuais e Geográfico do Brasil.
do Brasil identificados com a história, de maneira geral, represen- Resgatar do esquecimento as contribuições científicas de pes-
tavam a tradição do Tluminismo. A bem dizer, um Iluminismo cujo quisadores brasileiros do século XVIII parecia ao IHGB, por um lado,
objetivo se constituía da ilustração dos dirigentes governamentais, a necessário, em virtude de suas indicações práticas, e, por outro, por-
fim de que esses pudessem governar melhor. que, graças ao redescobrimento desses fatos, -comprovava-se o "gé-
No primeiro número da Revista, foi publicado um artigo de nio" brasileiro. Por esse motivo, solicitou-se ao ministro de Assuntos
José Feliciano Fernandes Pinheiro em que ele expressava a intenção Internos do Império a publicação de todos os manuscritos de Alexan-
do instituto de se filiar a essa tradição.14 Partindo das ideias do filó- dre Rodrigues Ferreira (1756-1815) disponíveis em Portugal.16
sofo francês Victor Cousin, Pinheiro desenvolveu a ideia de que o Esse pesquisador da natureza brasileiro empreendeu, de 1786
Brasil deveria incorporar como país e/ou nação: Brasil como centro até 1792, uma viagem de pesquisa pela região amazônica para estu-
da luz e da civilização no Novo Mundo:"... tudo, enfim, pressagia que dar as possibilidades de se utilizarem os recursos naturais da região.
o Brasil é destinado a ser, não acidentalmente, mas de necessidade, A atividade de Ferreira não foi exceção, mas a concretização de um
um centro de luzes e de civilização, e o árbitro da política do Novo projeto que radicava profundamente nos princípios do Iluminismo. )7
Mundo". ID Como adepto dessa concepção de que um desenvolvimento
Dessa autoavaliação como vanguarda da civilização no Novo continuado da ciência só seria possível mediante o acúmulo de co-
Mundo, derivou a pretensão do Brasil de desempenhar o papel de nhecimentos, o IHGB recebeu pedidos de sociedades de igual natu-
árbitro na política. Ambições políticas e ideológicas se confundiam reza no sentido de contribuir para essa reunião de conhecimentos
nessa apresentação do país e na formulação de um quadro nacional, humanos. 18 Isso vinha confirmar e concretizar a reivindicação do
cujos primeiros contornos se desenhavam recentemente. No pano instituto de ser o lugar em que e a partir do qual seria possível falar
de fundo do artigo de Pinheiro, aparecia a ideia do Brasil como país acerca do Brasil de modo qualificado.
dos superlativos, uma avaliação de nosso país até hoje costumeira
entre os brasileiros.
O tema principal do artigo era a descrição das academias fun- 16 Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 3 (9), jan-mar/1841, p. 135.
dadas no Brasil no decorrer do século XVII, academias que, seguindo 17 O IHGB se reportava, com frequência, aos resultados dessa investigação. As-
os princípios do Iluminismo português, dedicavam-se essencialmen- sim, José Vieira do Couto, também pesquisador da natureza do século XVIII,
te às ciências naturais. Essas academias constituíam, na opinião de Pi- trabalhou, a partir de sua exploração da região de Minas Gerais, elaborando as
bases de uma teoria acerca da proto-história do país, que foi perpetuada pelo
14 PINHEIRO, José Feliciano Fernandes. O Instituto Histórico e Geográfico Bra- instituto. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 3 (12), out-dez/1841, p. 524.
sileiro é o representante das ideias de Ilustração que, em diferentes épocas, 18 Veja-se a carta de Ph. Vandermaelen e do dr. Meisser, sócios-correspondentcs
se manifestaram em nosso continente. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, l (2), do IHGB que viviam na Bélgica, com o pedido de colaboração do Instituto e
abr:jun/1839, pp. 77-86. com a notícia do envio da publicação chamada Epistemonomia. Revista do IHGB,
15 Conforme nota 14, p. 78. Rio de Janeiro, 3 (12) out-de7.;1841, p. FiOlv.
l 24 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

A intenção do IHGB de oferecer conhecimentos ao governo e depósito derivam elas a necessária instrução, ou para se regularem
de tornar sua atuação perene na historiografia pode, igualmente, ser no presente, ou para penetrarem o futuro, seguras cm sua marcha."2''
vinculada ao pensamento iluminista. São numerosas as provas dessa convicção e seria entediante
enumerá-las aqui. O que me parece importante é constatar que cabe
O instituto, por seus trabalhos, acompanha a marcha gloriosa à história uma função com correspondentes consequências político-
de seu governo e, dando luz a seus atos, fará chegar ao co- pragmáticas para o presente e o futuro.
nhecimento da mais remota posteridade os memoráveis acon- Como então pôde o IHGB corresponder, na prática, à função
tecimentos do império de Santa Cruz, felizmente regido por autoibrmulada de oferecer aos homens de estado, através de conhe-
um príncipe nascido no seu solo e reconhecido desde seus cimentos derivadas da história, recomendações para a ação política?
primeiros anos como Augusto protetor das letras brasileiras. 19 António de Mene/es Vasconcelos de Druminond (1794-1865), repre-
sentante diplomático brasileiro em Lisboa e membro do instituto,
Aqui tocamos o cerne da visão do IHGB a respeito de história. enviou ao IHGB documentos acerca da história da Província do Ma-
Na medida em que os membros do instituto pretendiam transmitir ranhão, que, àquela época, se rebelava contra o governo central. Ao
lições aos governos, partiam do princípio de que seria possível filtrar ver dele, esse material poderia contribuir para entender melhor os
exemplos e modelos da história para o presente e o futuro. A histó- problemas da província: "Em presença de documentos desta natu-
ria, entendida como a experiência de gerações passadas, poderia in- reza é que eu quisera que os nossos legisladores legislassem para o
dicar como fazer as coisas. Mas a história sei pode fornecer exemplos Império, e não imbuídos em máximas, ou princípios excelentes, se
e ensinar o presente desde que se entenda ser ela um continuum, um quiserem, mas sem aplicação entre nós."24
processo direcionado para frente. 20 É indubitável que o IHGB partia A mesma opinião era partilhada por Januário da Cunha Bar-
dessa premissa. bosa, em seu relatório referente ao ano de 1840, em que ressaltava a
A alocução de Januário da Cunha Barbosa por ocasião da inau- necessidade da história para o homem de Estado:
guração do instituto é elucidativa nesse sentido. 21 Após haver citado
Cícero para frisar a utilidade do Instituto Histórico, prosseguia com A História, tornando-lhe presente a experiência dos séculos
as seguintes palavras: "Não duvidamos, Srs., que as melhores lições passados, ministra-lhe conselhos tão seguros como desinteres-
que os homens podem receber lhes são dadas pela história."22 sados, que lhe aclaram os caminhos que deve seguir, os esco-
Em seu 5a relatório anual, surge a mesma ideia: "A História lhos que deve evitar, e o seguro porto a que uma sólida mano-
é a memória das Nações, disse um sábio filósofo, e de seu copioso bra pode felizmente fazer chegar a nau do Estado."1

'" Reuisla do IHGfí, Rio de Janeiro, 3(12) out-dez/1841, p. 537.


23 Relatório a n u a l do primeiro-secretário do IHGB, Januário da Cunha Barbo-
20 Veja-se; KOSELLECK, Reinhart. "Historia magistra vitae". In Vergangenc Zuku- sa, de 10/12/1843. Revista do JHGH, Rio de Janeiro, 5 (Suplemento), out-
nft. Frankfurt/M, Suhrkamp, 1984, pp.38-66. dez/1843, pp. 4-29.
-' Discurso inaugural de Januário da Cunha Barbosa por ocasião da fundação do 24 Carta de António Menezes Vasconcelos de Drurnmond a Januário da Cunha
IHGB, em 25/11/1838. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, ] (1), jan-mar/1839, Barbosa, de 24/8/1840. Retrísta do IHGfí, Rio de Janeiro, 2 (8), oul-dez/1840,
pp. 10-21. p. 526.
- Conforme nota 21, p. 16. 25 Revista do IHGIS, Rio de Janeiro, 2 (8), ont-dez/1840, p. 573.
126 Histori()<ir;i(u( c N;ic,So no Brasil IK»]857
( ) I n s l i t u t o Histórico c (-«-Ogi Ú Í K o Urasileiro... l 27

A ocupação com a vida de personalidades importantes parecia Partindo do instituto sediado no Rio de Janeiro - intérprete
ao instituto a possibilidade de tirar da história exemplos paia o pre- -uitori/ado da história-, a luz deveria espalhar-se por lodo o Império,
sente. Foi assim que o primeiro-secretário, em seu relatório anual, re- U,P. conceito que se ajusta sem prejuízo à política estatal de centrali-
íenu-se à vida de membros falecidos para "servirem de exemplo para zação.
os vindouros".26 Igualmente- na revista foi aberta uma coluna para a A política cultural estatal, afinal, visava fa/.er do IHGB o local
publicação de biografias de "personalidades de destaque". ein que se concentrava a totalidade dos conhecimentos disponíveis
Como a história atua politicamente, fornecendo aos governan- a respeito do Brasil. O fato de esse objetivo também corresponder
tes do presente exemplos e vivências, também atua ideologicamente aos interesses dos membros ficou demonstrado na proposta de 4 de
e, nesse processo, afirma-se determinado papel ao historiador: dezembro de 1842, de a biblioteca do instituto ser nomeada como
lugar obrigatório de todas as obras publicadas no Brasil, embora no
Deve o historiador, se não quiser que sobre ele carregue grave Rio de Janeiro já houvesse uma biblioteca pública. 28
e dolorosa responsabilidade, pôr a mira em satisfa/.cr os fins A pedido do IHGB, os presidentes das províncias enviavam ao
político e moral da história. Com os sucessos do passado en- instituto um exemplar de seus relatórios anuais de prestação de con-
sinará à geração presente em que consiste a sua verdadeira tas, com o que o IMGB penetrava na área de atuação do Arquivo
felicidade, chamando-a a um nexo comum, inspirando-lhe o Nacional, fundado ern 1838. Outra prova da expansão da área de
mais nobre patriotismo, o amor às instituições mouárquico- funções do IHGB é o plano de Januário da Cunha Barbosa de tornar
constitucionais, o sentimento religioso e a inclinação aos bons o instituto lugar de coletânea de todos os dados estatísticos levanta-
costumes."' dos no Império; atividades que, à primeira vista, parecem extrapolar
a função precípua do IHGB de escrever a história do Brasil. A razão
Ao historiador que, como pessoa esclarecida, sabe em que con- disso, encontramos na opinião esposada pelo instituto de que histó-
siste o objetivo da história, cabe a tarefa de instruir seus contempo- ria tem de ser global e retratar a nação em sua totalidade.
râneos naquilo que constitui sua felicidade: serem fiéis súditos do Os primeiros passos concretos no sentido de uma história do
Estado monárquico. Brasil datam de 1840, quando Januário da Cunha Barbosa instituiu
Assim, aos elementos já mencionados do conceito de história um prémio para o melhor trabalho dedicado ao terna c que apresen-
do IHGB, acrescentou-se, ainda, a vontade de se colocar de modo tasse um plano a partir do qual se deveria escrever a história do Bra-
suprapartidário c abordar a história por meio de um método. O não sil. O prémio coube, em 1847, ao pesquisador naturalista e etnógrafo
atendimento desses critérios constituía o cerne da critica do instituto alemão Karl Friedrich Phiiipp von Martius (1794-1868), que, entre
sobre as publicações de até então acerca do Brasil. O procedimento 1817-1829, juntamente com J. B. von Spix, empreendera uma viagem
metódico dos historiadores ligados ao instituto se explicita com cla- pelo Brasil. Dessa experiência, nasceu a obra em três volumes dos
reza no decurso das propostas apresentadas de projeto da história dois autores, Reise in Brasilien (Viagem no Brasil), que foi tradu/Jda
nacional. por iniciativa do IHGB em 1938, na ocasião de seu centenário de
fundação. Von Martius publicou diversos estudos nas áreas da etno-
grafia e da linguística, tendo sido nomeado professor universitário
Revista do I f-fG li, Rio de Janeiro, 16 (12), abr-jun/1853, p. 567.
7 Revistada U l G li Rio de Janeiro, 9 ((i), abi-jim/1847, p. 286. -" Revista do 1HGR, Rio de Janeiro, 4 (15), jul-set/ 1842, p. 529.
128 HJSK i-alia c \aça<> no Brasil ]8:>,8-lS.r>7

cm Munique cm J. 826 c, posteriormente, cm 1832, dirctor do Jardim estaria predestinado a criar, a partir da fusão dessas três "raças", uma
Botânico de lá. nova nação. E interessante notar como, na visão de von Martius, essa
Indubitavelmente, o Brasil constituiu o objeto central de sua fusão ocorreria como um movimento de baixo para cima:
atividade científica, como se pode depreender da carta de agradeci-
mentos que, cm 1840, por ocasião de sua aceitação como membro Jamais nos será permitido duvidar que a vontade da Providên-
correspondente, ele fé/, chegar ao instituto. Seu trabalho científico cia predestinou ao Brasil esta mescla. C) sangue Português, em
naquele momento estava voltado para um livro, sob o patrocínio do urn poderoso rio, deverá absorver os pequenos confluentes
Imperador, a respeito da flora medicinal brasileira e a história dos das raças índia e Etiópica. F.m a classe baixa tem lugar esta
nativos do Brasil. No que se refere aos nativos do Brasil, defendia a mescla e, como em todos os países se formam as classes su-
teoria de que, muito antes da chegada dos portugueses, haviam vi- periores dos elementos das inferiores, e por meio delas se vi-
venciado uma civilização de nível mais elevado. A leitura de sua carta vificam e fortalecem, assim se prepara atnalmente na última
estimulou Varnhagen a formular a proposta de que o IHGB, além classe da população brasileira essa mescla de raças, que daí
de seu interesse pela língua dos nativos, se interessasse também por a séculos influirá poderosamente sobre as classes elevadas, e
outras matérias de sua história.'9 lhes comunicará aquela atividade histórica para a qual o Impé-
C) trabalho de von Martius, intitulado "Como se deve escrever rio do Brasil é chamado.' ~
a história do Brasil" (Munique, 1843), chegou a ser publicado, já em
1844, na l\evista do f H GB.™ lima vez que, nesse texto, foram formula- Direcionada por forças cxtra-históricas. a história tem reserva-
dos princípios que correspondiam ao conceito de historia do IHGB, do para cada qual um papel determinado, uma tarefa a ser cumprida.
é preciso tratá-lo mais de perto. Von Martius colaborou na construção da afirmação fundamenta) da
Partindo da máxima idealista — "o génio cia história está cm mãos historiografia nacional brasileira, no sentido de que nosso país é uma
dos homens" —, SI o autor defendia o ponto de vista de que era preciso democracia racial. Esperava-se do historiador que, para isso, ele des-
levar em conta os elementos étnicos, que desempenharam papel rele- se sua contribuição.
vante na formação dos brasileiros. Constatava von Martius que os bra-
sileiros são a mistura de três "raças", a indígena, a negra c a branca, e Portanto, devia ser um ponto capital para o historiador refle-
que a história do país forçosamente teria de espelhai' a interação des- xivo mostrar como no desenvolvimento sucessivo fio Brasil se
sas forcas diferenciadas. Na opinião do autor, a cada "raça" humana, acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento de
corresponde determinado movimento histórico, sendo que no Brasil, três raças humanas, que nesse país são colocadas uma ao lado
devido à predominância portuguesa, a influência da "raça" branca é a da outra, de uma maneira desconhecida na historia antiga../"
decisiva. De resto, imbuído de um otimismo que atribuía importância
destacada ao futuro do Brasil, o autor defendia a tese de que nosso país Imbuído da fé hnmanístico-iluminista acerca da possibilida-
de e da necessidade do aperfeiçoamento da condição humana, von
-'•' Revista do IIIGtí, Rio de Janeiro, 2 (7), jul-set/1840.
:l" MARTI l 'S, Karl Friedrich Philipp von. "("orno se eleve escrever a História do
Brasil". Rruima do IHGB, Rio dcjaneiro.fi (24), jan/1845, pp. 381-403. "Idem.
:" Conforme nota 30, p. 383. •"Conforme nota 30, p. 384.
O Instituto Histórico c Geográfico Brasileiro..

Martins acreditava que esse posicionamento correspondia ao histo- determinar a contribuição da raça branca para a cultura brasileira. Um
riador. aspecto relevante da história portuguesa teria sido o traslado de certas
No decurso de sua obra, von Martius se dedicou a diferentes instituições para o Brasil. Nesse contexto, o autor achava que as ordens
grupos étnicos, partindo da premissa de que sua história é parte da religiosas, sobretudo a dos jesuítas, devido a seu papel "civilizador" e à
história do Brasil. As abordagens por ele desenvolvidas para a apre- multiplicidade dos vestígios deixados, tinham especial significado. O
ciação da história parcial foram, posteriormente, empregadas pelo papel das ordens - em seu trabalho missionário e coloni/ador dos in-
instituto nos trabalhos empreendidos. dígenas - permitia, igualmente, maiores conhecimentos a respeito de
No tocante aos indígenas, o autor sublinhava a necessidade de sua história.
se assegurarem os vestígios deixados, a fim de haver condições de Von Martius assinalou outro aspecto das relações entre a Europa
se reconstruir sua história. Passas opiniões não eram apenas dele e, e o Novo Mundo: "Uma tarefa de sumo interesse para o historiador
como vimos, também Varnhagen recomendava o estudo das línguas pragmático do Brasil será mostrar como aí se estabeleceram e desenvol-
dos índios. Como etnógrafo também, von Martins acreditava que co- veram as ciências e artes como reflexo da vida europeia."34
nhecimentos a respeito dos indígenas constituíam importante pre- Olhando os "brancos" e seu papel na história brasileira, von Mar-
missa para se escrever a história do Brasil. tius salientava igualmente o significado das viagens dos bandeirantes
Hm primeiro passo indispensável seria a pesquisa das línguas, a pelo interior do Brasil e das contribuições escritas dos participantes des-
parti)- do que, com a ajuda de métodos linguísticos, seria possível ob- sas expedições. Os "bandeirantes" do século XVTf, segundo sua perspec-
ter conhecimentos a respeito da estrutura social desses grupos. Como tiva, tiveram uma contribuição inimaginável na expansão do Brasil.
outro passo, von Martius aventou ainda o estudo de mitologias, teo-
gonias e geogonias indígenas, além da consideração das condições Uma exposição aprofundada destas viagens para o interior
jurídicas e sociais peculiares às unidades étnicas. Ele julgava indis- conduzirá necessariamente o historiador a certa particularida-
pensável a comparação com grupos demográficos similares em outras de, que excitou muito a minha atenção. Eu falo das numerosas
partes do mundo, a fim de desenvolver o trabalho do historiador em histórias e lendas sobre as riquezas subterrâneas do país, que
um patamar superior. Da arqueologia, ele esperava, entre outras coi- nele são o único elemento do Romantismo, e substituem para
sas, a comprovação de vestígios arquitetónicos de "civilizações" mais com os brasileiros os inúmeros contos fabulosos de Cavaleiros
evoluídas, porém desaparecidas, no continente americano. c espectros, os quais fornecem nos povos europeus urna fome
A análise da Revista do IHGB, ao longo do próximo item deste inesgotável e sempre nova para a poesia popular/ 0
capítulo, permitirá demonstrar como os processos desenvolvidos no
texto de von Martius foram aplicados 110 trabalho do instituto. Dessa forma, von Martius tocava num dos motivos do interesse
A partir da tese de que o Brasil foi descoberto no decurso de nessas viagens: é que supriram matéria e temas para a literatura na-
uma expansão do comércio português, von Martius chamou a aten- cional brasileira do século XIX.
ção dos historiadores sobre as mais importantes rotas do comércio Por seu turno, as indicações de von Martius quanto ao estudo
daquela época, através das quais eram transportados produtos tropi- do terceiro elemento étnico do Brasil foram bastante circunscritas.
cais especialmente valorizados na Europa.
A reprodução da vida europeia no século XV, bastidor do des- 1 Conforme nota 30, p. 394.
cobrimento do Novo Mundo, parecia a von Martius indispensável para 11 Conforme nota 30, p. 396.
132 Historiografia c Nação no Brasil 18S8-1857
O instituto Histórico c Geográfico lirasilciro... 133

Quanto aos negros, apenas a questão de suas características raciais


Von Martius trouxe em seu trabalho ainda uma relação de im-
específicas e o problema do tráfico de escravos pareciam merecer
portantes obras acerca do Brasil e que deveriam constituir o acervo
algum destaque. básico de urna assim chamada Biblioteca Brasiliana.
No final de seu trabalho, von Martius defendeu a posição de
A comissão do IHGB encarregada de julgar os trabalhos rece-
que a história do Brasil a ser escrita deveria dar menos ênfase às re-
bidos tinha plena consciência das dificuldades inerentes a uma obra
giões em suas particularidades e que, em vez, disso, deveria ser su-
histórica elaborada àquela época de acordo com os princípios deli-
blinhada a interdependência orgânica de todas as províncias. Essa
neados por von Martius: "Se alguma coisa se podia dizer contra ele é
opinião a respeito do significado e do sentido da obra histórica era
que uma história segundo aí se prescreve talve/ seja inexequível na
compartilhada pelos membros do IHGB. atualidade: o que vem a dizer que ele é bom demais". ^
Da correspondência entre o IHGB e von Martius, apenas pude
Por fim devo ainda ajuntar uma observação sobre a posição do
ter acesso às cartas dirigidas ao instituto. De sua leitura, contudo, c
historiador do Brasil para com a sua pátria. A história é uma
possível indicar com grande dose de probabilidade que o IHGB, já
mestra, não somente do futuro, como também do presente.
em 1844, na época da publicação de seu trabalho na líevista do Ins-
Ela pode difundir entre os contemporâneos sentimentos e
tituto, havia proposto a von Martius que ele mesmo levasse a cabo e
pensamentos do mais nobre patriotismo. Uma obra histórica
materializasse o plano que elaborara. Von Martius se sentiu honrado
sobre o Brasil deve, segundo a minha opinião, ter igualmente
pela aceitação dos princípios advogados por ele, embora, devido à
a tendência de despertar e reanimar em seus leitores brasilei-
sua idade, já não mais estivesse em condições de realizar tal tarefa."8
ros amor da pátria, coragem, constância, indústria, fidelidade,
Além das questões teórico-metodológicas, o instituto também
prudência, em uma palavra, todas as virtudes cívicas. O Brasil
cuidou dos problemas da abertura de importantes fontes para a his-
está aíeto, em muitos membros de sua população, de ideias tória e a geografia do país. Essa questão foi tema de um artigo de
políticas imaturas. Ali vemos republicanos de todas as cores. Rodrigo de Souza da Silva Pontes, lido perante os membros do IHGB
Ideólogos de todas as qualidades. E justamente entre estes que e publicado na revista.39
se acharão muitas pessoas que estudarão com interesse uma
O autor, membro do serviço judiciário superior, político e di-
história de seu país natal; para eles, pois, deverá ser calculado
plomata do Império, sugeria uma orientação temática para a explo-
o livro, para convencê-los, por uma maneira destra, da inexi-
ração cie importantes arquivos, tanto privados como oficiais, a ser
quidade de seus projetos utópicos, da inconveniência de dis-
encabeçada por comissões do IHGB. Embora o próprio autor adrni-
cussões licenciosas dos negócios públicos, por uma imprensa
desenfreada, e da necessidade de uma monarquia em um país
"Relação de Francisco Freiro Alemão,Joaquim da Silveira e Thonia/ Gomes dos
onde há um tão grande número de escravos. Só agora princi- Santos, de 20/5/1847. Revista do IHGfí, Rio de Janeiro, 9 (6), abr-jnn/1847,
pia o Brasil a sentir-se como um Todo Unido.' ' pp. 279-87.

38 Carta de Karl Martins de 8/3/1844, ao primeiro-secretário do IMGB. Revista do


Aqui se delineia claramente um conceito de história que está IHGB, Rio de Janeiro, 6 (23) jul-set/1844, pp. 372-4.
vinculado a determinado prqjeto político e que se engaja na realiza- 39 PONTES, Rodrigo de Souza e Silva. "Quais os meios de que se deve lançar
ção desse projeto. mão para obter o maior número possível de documentos relativos à História
e Geografia do Brasil?" Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 3 (10), jul-set/1841,
pp. 149-57.
'"' Conforme nota..30, p. 401 v.
134 Historiografia c Nação no Brasil 13Í8-1H57
O I n s l i i u l o Histórico e Geográfico BraMÍriro.... l35

tisse que os vestígios materiais do passado no Brasil não fossem ião


numerosos quanto noutras partes do mundo, recomendava a reali-
nação do Romantismõ""nõ Brasil. Depois de seu regresso, ingressou
zação de viagens fie pesquisa, a fim de garantir esses vestígios. Outro
no serviço público, tendo sido confiadas a ele predominantemente
resultado desse tipo de expedições seriam dados geográficos precisos
questões políticas e diplomáticas, publicadas regularmente na revista
a respeito dos palcos de acontecimentos históricos.'"' do instituto.
O conjunto de temas que se desenvolveram no contexto dessas
O texto premiado de sua autoria é um relatório detalhado do
viagens de pesquisa e desses trabalhos de arquivo é reencontrado
ponto de vista do governo sobre a revolução na província do norte
posteriormente na revista. Antes, porém, de nos dedicarmos à análise
do Brasil. E lógico que ele condenava a revolta, "sustentada na ig-
da revista, vejamos os p roje tos de pesquisa que o instituto apoiou e
norância bruta das massas",'13 elogiando a correção das medidas do
incentivou. presidente enviado do Rio cie Janeiro. Em tese, era o trabalho que
A reforma dos estatutos de 1851 determinou que, no orçamen-
se deveria esperar de um secretário cie governo cioso de seu dever.
to anual do IHGB, certo montante fosse reservado à outorga de pré-
Mas o autor pretendia com seu texto mais cio que fa/.er um relatório:
mios. Isso institucionalizou na prática o que já havia sido iniciado em
os acontecimentos do passado deveriam servir de lição para as ações
1840. Nesse ano, foi instituída uma medalha de ouro como prémio
t decisões políticas futuras. Foi com esse obj clivo que ele se lançou
para o melhor artigo sobre o tema A Legislação do Brasil na Época Colo-
à descrição da revolução que ocorreu no Maranhão, expressando,
nial.^ Nesse mesmo ano, Januário da Cunha Barbosa, em parte com
assim, concomitanteinente, a reivindicação que inspirava o trabalho
recursos privados, lançou um prémio que foi ganho por von Martius.
do instituto. 1 1 Simultaneamente com Gonçalves de Magalhães, José
Nos anos que se seguiram, foram lixados, nas reuniões come-
Joaquim Machado de Oliveira ( l 790-1867) foi premiado por seu arti-
morativas anuais, os ternas para esse tipo de competição intelectual. go acerca dos indígenas da Província de São Paulo. 45
Por vezes, alguns membros chegavam a contribuir com recursos pró-
José Joaquim Machado de Oliveira, nascido em São Paulo e
prios. A partir de 1842, o Imperador instituiu prémios anuais para os
filho de um militar, atuou com êxito como político, diplomata e mi-
melhores trabalhos nos campos da estatística, da história e da geogra- lilar, dedicando-se aos problemas fronteiriços e dos indígenas de sua
fia. Na área da história, o primeiro prémio foi dado a Domingos José província de origem. A distinção recebida por seu trabalho a respeito
Gonçalves de Magalhães, pela sua história sobre a revolta na Provín-
da questão dos índios c indicativa da relevância que o instituto dava
cia do Maranhão. 42 a essa área de problema. Na revista do instituto, foram publicados,
Domingos José Gonçalves de Magalhães, o futuro Visconde
diversas vezes, estudos e artigos de Machado de Oliveira sobre a ques-
de Araguaia, depois de estudar medicina no Rio de Janeiro, viajou
tão indígena, por ele elaborados com o propósito declarado de con-
para Paris, onde, juntamente com dois outros brasileiros, publicou a tribuir para a catequese dos índios. 46

40 Conforme nota 39, p. 151. j


11 Conforme nota 42, p. 352.
41 Revista do 1HGH, Rio de Janeiro, 2 (8), out-dez/1840, p. 522. l
^ Conforme nota 42, p. 265.
42 Domingos José Gonçalves de Magalhães viajou através do Maranhão como se- j
cretário de governo de Luiz Alves de Lima, nomeado presidente da província > J: 'Esse artigo foi publicado na revista. Veja-se: Revista do HIGB, Rio de Janeiro, 8
-<-ki-M<*rti«du.Bi:asil que se revoltara. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 10 (11), j (2), abr-jun/1846, pp. 204-50.
jul-set/1848, pp. 263-354. -\a Minertia
""ConformeRrasilieme,
nota 45,àp.qual
245. coube importante papel na dissemi-
ais do imperadoí" não ficassem amarrados a temas, o IHGB sem-
O comportamento de Machado de Oliveira foi assumido por pre contava com o tratamento de certos deles. Esses temas, via de
Joaquim Norberto de Souza e Silva, cujo artigo sobre os índios da ,-ep-ra, espelhavam as áreas de interesse do IHGB.
Província do Rio de janeiro, de 1854, igualmente merecedor de uni No ano de 1848, foram agraciados com prémios os seguintes
prémio imperial, foi publicado na revista do instituto.' 1 ' Após descre- lenias: "Quais vestígios confirmam a tese de que o Brasil já teria sido
ver diversas aldeias indígenas da província do Rio de Janeiro, o autor descoberto antes de 1500 por europeus?" c: "A história dos jesuítas no
se posicionou a favor da instituição de um povoado indígena exem- Brasil e a história da Cidade do Rio de Janeiro". 49 Eventualmente, o
plar, que também deveria servir de modelo para a cristiani/.ação dos imperador também outorgava prémios especiais, como, por exemplo,
índios. Nisso, ele advogava a continuidade estalai de uma tentativa em 1850, quando, pessoalmente, se empenhou em prol da pesquisa
iniciada por particulares. da cultura indígena e da elaboração de um dicionário das línguas ín-
Assim é que João da Silva Machado (1782-1875), mais tarde dias.5" Essa área também merecia a atenção do IHGB, de modo que,
agraciado com o título de Barão de Antonina, assentou índios ern em 1852, o trabalho de Joaquim Norberto de Souza e Silva a respeito
seu latifúndio. Convencido de que esses índios poderiam ser aprovei- dos índios da Província do Rio de Janeiro foi agraciado.51
tados como mão de obra, ele propôs, em 1843, ao governo da pro-
víncia de São Paulo financiar o assentamento de indígenas mediante ... e, quando se não chegue ao desejado efeito, a descoberta
a colocação à disposição de terras, sementes e apetrechos agrícolas. de terrenos que podem ser vantajosos ao Estado compensará
Na opinião de Silva Machado, esses assentamentos-modelo deveriam decerto os esforços que se fizerem com este filo. Assim o Brasil
também exercer poder de atração sobre indígenas ainda nómades. tem sido devassado em muitas partes de seu interior, e tem
Outro ponto de vista fora aventado, vinte anos antes pelo militar e pago superabundantemente as fadigas de afoilos aventureiros
ex-direlor de todos os assentamentos indígenas de São Paulo, José com tesouros de que ainda se aproveita o Estado;''
Arouche de Toledo Rendou (1756-1834): "Este sistema, bem execu-
tado em todas as Províncias do Império, dará milhares de braços à
agricultura c nos aliviará em parte da necessidade do negro comércio
da raça africana". 4S '•'-' Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 1 l , 1848, p. 118.
A atenção dispensada à problemática indígena, que envolvia fl" Na reunião de l (i/2/1850, o imperador manifestou-se do seguinte modo:
interesses diversos, precisa ser vista em conjunto com a formulação "Convido a reunir Iodas as notícias que existem a respeito da língua indígena,
cie uma política indigenista estatal. interessante por sua originalidade e poesia, e pelos preciosos dados que po-
derá subministrar à etnografia do Brasil, lembro ao Instituto que encarregue
O prémio geográfico foi recebido, como o primeiro, por Con-
alguns de seus sócios da investigação do que houver sobre esta matéria em suas
rado Jacob Niemeyer, por um mapa do Império. Embora os prémios respectivas províncias. Os trabalhos, que assim se tiverem feito, serão remeti-
dos ao Instituto, enviando-os este a uma comissão, a quem incumbirá de apre-
47 SILVA, Joaquim Norberto de Sou/a e. "Memória histórica e documentada das sentar a gramática e dicionário geral da língua indígena com as alterações dos
aldeias de índios da Província do Rio de Janeiro", fíaiisla do IHGli, Rio de Ja- diferentes dialetos". Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 13 (J 7), jan-mar/ 1850,
p. 131.
neiro, 17 (14-5), abr-set/1854, pp. 109-552.
18 RENDON, José Arouche de Toledo. "Memória sobre as aldeias de índios da 51 O IHGB dedicou dois números à publicação desse trabalho. Veja-se: Revista do
província de São Paulo, segundo as observações feitas 110 ano de J 798, opinião IHGB, Rio deJaneiro, 17 (14,15), abr-set/1854, pp. 109-552.
do autor José Arouche de Toledo Rendou sobre a sua civili/.acão". /tenista do 52 Revista doIHGI), Rio de Janeiro, 3 ( 1 2 ) out-de//1841, p. 528.
IHGli, Rio de [anciio, 4 (15). jukset/ 1842, p. .'517.
138 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
O instituto Histórico c Geográfico Brasileiro... 139

Se não se podia servir à ciência, pelo menos o Estado deveria


de Andréa (l 781-1858), de 23 de janeiro de 1845,55 ele solicitava aju-
levar vantagem corn isso. da financeira adicional.
Em 1841, o Padre Benigno José de Carvalho e Cunha, origi-
Empreendimentos aventureiros também adquiriam importân-
nário da Bahia, engajou-se na realização cie uma viagem de pesquisa
cia, encontrando apoio de órgãos oficiais, num momento em que a
ao interior da Bahia, a f i m de localizar os restos de uma cidade de-
pesquisa e a abertura do país assumiam a dianteira do interesse públi-
saparecida. Ele pretendia comprovar a existência de uma civilização
co. Embora no centro da expedição descrita se situasse a descoberta
da época dos descobrimentos, semelhante à do México. Os recursos
de urna antiga cultura como contribuição à historiografia brasileira,
necessários para isso foram pedidos pelo IHGB ao governo, que os
o foco dos interesses políticos e económicos aliados à exploração do
colocou à disposição do padre. Enrbora a petição elaborada pelo Ins-
interior do país não deveria ser desprezado. Em seu arrazoado sobre
tituto e dirigida ao Imperador, de novembro de 1841,53 salientasse o
sua empreitada, Carvalho e Cunha alinhava até a existência de minas
significado cultural desse empreendimento, não deixava de frisar os
de diamantes e de demais recursos do solo na região em questão.
aspectos prático-concretos (tanto políticos como económicos).
Desse modo, com o propósito de se favorecer dos resultados
Sob o ponto de vista económico, a abertura de novas áreas
das pesquisas, o IHGB apoiava viagens de cientistas ao interior do
poderia ser vantajosa para a agricultura e para a conquista de re-
país. Em relação a 1843, o relatório anual do primeiro secretário re-
cursos do solo. Sob o prisma da política, uma expedição desse tipo,
gistra o acompanhamento de vários cientistas de diversos países e
de acordo com o documento, seria um estímulo à "interiorização da
sua incorporação ao instituto na qualidade de membros correspon-
civilização", permitindo um conhecimento mais preciso da fronteira
dentes.56 Quando os governos da França, dos Estados Unidos e da
ocidental do Império, para melhor protegê-la. Além disso, o apoio
Sicília encarregaram pesquisadores da realização de investigações de
imperial, na opinião dos que redigiram a petição, representaria uma
ciências naturais, o IHGB aplaudiu essa atividade, queixando-se, ao
valiosa contribuição para fornecer às gerações futuras um quadro
mesmo tempo, cie que o governo brasileiro não parecia ainda ter
positivo do Império, ou seja, de um monarca que fez muito em prol captado a importância dessa tarefa.
"das ciências e das belas-artes brasileiras".
Isso nos permite constatar as múltiplas faces dos interesses que
Muito lastima o Instituto que ainda o Governo Imperial não
envolviam uma expedição científica. Após oito meses de pesquisas,
tenha as necessária.* proporções para fazer acompanhar essas
Carvalho e Cunha ainda não havia alcançado os resultados desejados
comissões científicas, que o amor da ciência traz ao nosso Im-
e lamentava, em carta ao instituto, datada de 20 de agosto de 1842, o
pério para examinarem as matas, rios e montanhas do nosso
que, segundo sua avaliação, considerava a parca dotação financeira.54
interior, de alguns jovens engenheiros e naturalistas das esco-
Mesmo depois de três anos de um trabalho improfícuo, o pa-
las militar e média, que muito aproveitariam a si e ao Estado,
dre ainda nutria esperança quanto a um apoio oficial. Numa missiva
praticando com distintos sábios, colhendo muitos esclareci-
ao presidente da Província da Bahia, Fraiiciscojosé de Souza Soares
mentos de que ainda carecemos, e muitos produtos naturais
33 Petição do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro a Sua Majestade Imperial que enriqueceriam o Museu Nacional.
de 7 de novembro de 1841. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro - NA IE 78.
M Carta de Benigno José de Carvalho e Cunha ao primeiro-secretário do Institu-
to, Januário da Cunha Barbosa, de 20/8/1842. Revista doIIIGB, Rio de Janeiro, 55 Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 7 (25), abr/1845, pp. 102-105.
4 (15), jul-set/1842.
56 Revista doIJlGfí, Rio fie Janeiro, 5 (Suplemento), dez/1843, pp. 7-10.
] -10 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 O Instituto Histórico c Geográfico Brasileiro... 14j

Tempo virá cm que esla ideia tenha o seu necessário desenvol- estão prontas pela namre/.a: só falta conhecê-las para por elas
vimento, para que se não diga que os estrangeiros sabem mais escorregarem as locomotivas. Alcançar-se-ia igualmente ob-
do nosso do que nós mesmos.:> servações importantes sobre a atmosferologia e climatografia,
assim como a aquisição de preciosas coleções do reino orgâni-
Em 1852, António Gonçalves Dias, membro do instituto, per- co e inorgânico para o nosso museu; e quem sabe, se talvez a
correu, por encargo do imperador, oito províncias do norte, a fim descoberta de algum novo produto que em breve se tornasse
de compilar documentos a respeito da História do Brasil e elaborar rival dos mais lucrativos. A expedição seria, portanto, gloriosa
um relatório detalhado acerca do sistema educacional naquela re- para o Brasil, como e não menos para os que a empreendes-
gião. Gonçalves Dias, que, após concluir seus estudos universitários sem, e o bom resultado da primeira serviria para excitar novas
em Coimbra, foi chamado para ser professor de latim e de história explorações.58
brasileira no Colégio Pedro II, foi um dos mais conhecidos poetas
c escritores do Romantismo no Brasil e que, no seio do instituto, se A proposta de criação de uma comissão científica foi enviada
dedicou intensamente a estudos etnográficos. A temática dos índios ao ministro do Império Luiz Pedreira do Couto Ferraz (1818-1886),
também se refletiu fortemente em sua obra literária. Os resultados em 9 de junho de 1856,59 por um grupo de membros do instituto.
de sua viagem, os documentos e estudos a respeito dos indígenas das Essa comissão deveria servir a múltiplos interesses: o esclare-
regiões que ele percorreu foram por ele entregues ao instituto. cimento de questões científicas se aliava a expectativas económicas
Somente em 1856 é que o instituto teve a chance de concreti- concretas. Imediatamente, ria reunião seguinte, o instituto recebeu
/,ar suas pretensões de uma ampla viagem de pesquisas. Na reunião a resposta positiva do governo referente ao financiamento do em-
de 13 de maio de 1856, Manoel Ferreira Lagos (1816-187J) criticou preendimento, tendo sido confiada a Gonçalves Dias a tarefa de ad-
enfaticamente o relatório do naturalista francês Conde Casterieau, a quirir na Europa os livros e os instrumentos necessários. A comissão
respeito da viagem realizada pelo interior do país. Com base nessa científica foi, então, subdividida nas seções de botânica, geologia e
crítica, ele descreveu a importância de uma comissão científica na- mineralogia, zoologia, astronomia e geografia, etnografia e relatórios
cional, cuja função seria pesquisar as menos conhecidas províncias de viagens, e ao IHGB cabia o encargo de nomear seus componentes.
do Império: Em novembro de 1856, as diretrizes que norteariam o trabalho da
comissão já podiam ser submetidas ao imperador. 60
Tudo seria do mais alto interesse nessa exploração; conheci- Esse documento atesta que a pretensão principal de seu autor
mentos positivos da topografia, do curso dos rios, dos mine- era pesquisar o país a fundo. A razão que levou à instituição da Co-
rais, plantas e animais, dos costumes, língua e tradições dos missão Científica era a mesma que se apresentava por trás do proces-
autóctones, cuja catequese seria também mais facilmente em- so de criação de outras instituições científicas daquela época.
preendida. O governo imperial ficaria melhor habilitado para Os prémios instituídos e as viagens de pesquisas realizadas ti-
conhecer as urgências do interior c decretar a abertura de no- nham por objctivo promover a exploração de diversos setores do país.
vas vias de comunicação, que aumentariam as relações comer-
ciais e, por consequência, a renda nacional; muitas estradas já 58 Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 19 (Suplemento), de//1856, p. l 14.
°s Arquivo Nacional, Rio de Janeiro - IE 78.

'" Conforme nota 56, pp. 8 c 9. 60 Renhia do ÍJJGB, Rio de Janeiro, 19 (Suplemento), de//J856, pp. 43-73.
] 42 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

A desproporção que realmente se observa entre a publicação


Desse modo, os conhecimentos conquistados serviram de fundamen-
de manuscritos antigos e a dos trabalhos dos membros do ins-
to para uma historiografia mais abrangente em seu entendimento.
tituto explica-se pela conveniência que há em salvar de urna
vez dos sorvedouros do tempo essas memórias do passado, que
por felicidade lograram chegar ale nós, vencendo os gelos de
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sua revista
uma fatal indiferença que tantas obras nos fé/ perder. 0 '

"Não é um arrojo de orgulho, é uma verdade incontestável:


a coleção de nossas revistas se tem tornado um cofre precioso,
Uma avaliação da revista por (emas mostra que, tanto na repro-
onde se guardam em depósito tesouros importantíssimos;
dução de fontes como na publicação de artigos, certas áreas temáti-
cas gozavam de preferência.
e a leitura delas será muitas vezes frutuosa para o ministro, o
legislador e o diplomata, e, em uma palavra, para iodos aqueles que não
Elaborei uma lista dos 15 temas abordados com mais
olham com indiferença para as coisas da pátria."'"1
frequência na revista e, por sua vê/, associei-os a três áreas de proble-
mas gerais. Obras e fontes a respeito da questão indígena, da história
Os tesouros aqui mencionados pelo primeiro-secrelário do regional, bem como relatórios de pesquisas e de viagens, que ocu-
IHGB eram, em essência, fontes primárias publicadas. De acordo pam cerca de 73% da totalidade das publicações na revista.
com o conceito de história do instituto, essas fontes seriam de grande
A questão indígena
utilidade para as lideranças do Estado no encaminhamento de suas
atribuições.
Uma análise da revista comprova que a publicação de fontes Esse campo temático, que terminou por ocupar a maior parte
primárias ocupava amplo espaço nas publicações oficiais do IHGB.62 da revista, abarcou textos e documentos a respeito das diversas tri-
Como já dito, o imperador criticava esse procedimento, já que, a seu bos indígenas, seus costumes c línguas, a catequese e o trabalho de
ver, por esse motivo, seria insuficiente o número de obras criadas missões religiosas, bem como a questão de seu aproveitamento como
pelos próprios membros. Porém, o primeiro-secretário justificava a mão de obra. A relevância que foi atribuída a esses temas pode ser
reconhecida pelo fato de que, sempre que os recursos previstos se es-
necessidade de se publicarem fontes primárias:
gotavam, o IHGB recorria ao parlamento solicitando financiamento
adiciona], como, por exemplo, no ano de 1843, para a publicação de
61 Relatório do primeiro-secretário do IHGB, Joaquim Manoel de Macedo, por
ocasião das comemorações de jubileu, em 15/12/1852. Revista do IHGB, Rio
material sobre as línguas indígenas.
de Janeiro, 15 (8), out-dez/1852, pp. 480-512. A rellexão de von Martius e um artigo de Varnhagen 04 lança-
02 O cientista americano Rollie E. Popino publicou, ern ]'J53, unia análise da ram as bases teóricas do intenso trabalho desenvolvido pelo IFÍGB ern
Revista do IHGB. Ele classificou os artigos publicados, respectivamente, pelos torno da problemática indígena. Ern seu artigo, Varnhagen tratou
períodos da história brasileira que são tratados. Para nosso propósito de tra-
balhar o conceito de história e as áreas de interesse do IHGB, pareceu-nos 63 Relatório anual do primeiro-secretário do IHGB, Joaquim Manoel de Macedo.
mais adequada a classificação dos artigos por determinados campos temáticos. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 16 (12), out-dez/1853, p. 568.
Através disso, ficou mais fácil tecer as relações entre a produção intelectual
M VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Reflexões sobre a necessidade do estudo e
do Instituto e as discussões do seu ambiente social. Veja-se 1'OPPINO, Rollie
E. A century ofthe Revista do Instituto Histórico e Geográfico Hrasi leira. The Hispanic do ensino da línguas indígenas do Brasil". Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 3
(9),jan-mar/1841, pp. 53-61.
American Histórica! Review. Durham, 33 (2), mai/] ( J53, pp. 307-28.
C) Instituto Histórico c Geográfico llrasileiro... 145

das razões para a preocupação com a questão indígena. O aprendiza- bem como sobre a cristianização empreendida principalmente pelos
do da língua desses grupos populacionais, a seu ver, era fundamental jesuítas e sobre a experiência previamente acumulada nas ações de
para a cristianização e a integração ao projeto nacional, oferecendo, pacificação dos indígenas. O conhecimento adquirido deveria cons-
ao mesmo tempo, a possibilidade de se obterem noções a respeito de tituir o cerne de uma política indígena.
sua história. A revista do instituto era um espaço privilegiado para a pu-
A essa altura, Varnhagen ainda acreditava ser a língua e a cul- blicação de tais considerações. Já em sua segunda edição, a revista
tura dos índios fonte de uma literatura nacional rccém-surgida, po- publicou um trabalho do então primeiro-secretário do instituto,
sição que ele declinou em obras posteriores; publicações acerca do Januário da Cunha Barbosa, dedicado à questão do melhor sistema
vocabulário dos índios e sua influência sobre o português, aspectos para civilizar os indígenas que deveria ser adotado.65 Sua conclusão fi-
da vida social, como, por exemplo, a religião e o papel das mulheres, nal era nítida e clara: a catequese, ou seja, civilizar através da religião
bem como a questão da antropofagia, serviram ao objetivo do ins- e da renúncia ao recurso da violência, eram os meios mais adequados
tituto de apresentar uma descrição exaustiva da vida desses grupos para o alcance da meta pretendida. O projeto por ele desenvolvido,
étnicos. no sentido de libertar os índios da condição de barbárie, sustentava-
A guinada para a dedicação intelectual com a questão indí- se em três ideias-chave. Cunha Barbosa planejava despertar nos indí-
gena precisa ser encarada a partir de suas conexões com as discus- genas necessidades que poderiam ser satisfeitas apenas pelo contato
sões da época. Só a combinação de interesses históricos, políticos e permanente com os brancos. Ele acreditava que "... o comércio tem
também económicos pode explicar a razão de esse tema ter tido ta- sido em todos os tempos um poderosíssimo instrumento da civiliza-
manha ressonância. Para as rodas intelectuais do Brasil, a ocupação ção dos povos".'*
com os indígenas assumia um significado especial naquele momento Igualmente importante lhe parecia a educação dos filhos dos
ern que. no centro das preocupações, se colocava o questionamento índios, já que acreditava poder integrá-los completamente à cultura
acerca da integração e do aprofundamento do país, em busca das branca. E, finalmente, Cunha Barbosa propugnava pela "miscigena-
origens da nação, ou. dito de outro modo, a questão da construção ção" entre brancos e índios como mais uma oportunidade de acele-
da nação. rar a absorção desses últimos pela cultura branca. Entendendo a ação
Denlro de; quadro do conceito de história do Instituto Históri- de civilizar os índios como uma missão, Cunha Barbosa propunha o
co e Geográfico do Brasil, a história dos índios despertava interesse estabelecimento, em diversas regiões do país, de centros de formação
como parte da história do Brasil. Sob a influência das ideias de von para realizar essa tarefa específica. Paralelamente aos princípios da
Martius, o instituto nutria a expectativa de encontrar provas de uma religião católica, o estudo das línguas indígenas deveria ser parte in-
época áurea dos índios. A existência de uma época de ouro dos na- tegrante e indispensável do plano de ensino.
tivos, tal como noutras paragens da América Latina, poderia ter for-
necido elementos importantes para as bases nacionais em formação.
Contudo, não se tratava apenas de incluir a história dos ín- 65 BARBOSA, Januário da Cunha. "Qual seria hoje o melhor sistema de coloni-
dios na história nacional, mas, concretamenle, tratava-se, sobretu- zar os índios entranhados em nossos sertões: se conviria seguir o sistema dos
Jesuítas, fundado principalmente na pregação do Cristianismo, ou se outro do
do, da integração social de determinadas parcelas da população, qual se esperam melhores resultados do que os atuais?", Revista, do 111GB, Rio
viabilizando a realização de determinado "processe) civili/.ador". Isso dejaneho, Z ( 1 ) , jan-mar/1840, pp. 3-J8.
trazia à baila questões a respeito da possibilidade dessa integração, 6(1 Conforme nota 65, p. 16.
146 Historiognilia r Nação no Brasil 1838-1857
O í n s [ i l u t o Histórico f Geográfico Brasileiro... 147

Varnhagen. frisou o significado das línguas indígenas para a


integração dessas parcelas da população com a ajuda da religião: ''£ mesmo tempo, por uma parte abei to o caminho para as van-
sem dúvida é, Senhores, que por tal intuito há de ser de grande auxí- tagens e opulência do comércio cr agricultura; e, por outra,
lio a conversão do catecúmeno que este ouça na sua própria língua sem obstáculo para nosso uso e proveito, as estradas para as
as palavras de doçura que o devem atrair e domar".''7 Minas, e outros sertões, nas quais tantas vezes têm sido acome-
No número 19 de sua revista, o instituto publicou o "plano tidos e mortos inumeráveis viajantes; poder-se-ão agricultar os
para a civilização dos índios do Brasil", elaborado no período colo- terrenos de que se acham de posse estes gentios, assim como
nial por Domingos Alves Branco Moniz Barreto. 68 C) autor apresen- cia riqueza que neles se acha depositada, o que virá a servir de
vantajosa remuneração de mais algum dispêndio e trabalho
tava as bases fundamentais de uma política indigeiiista, atribuindo
importância especial à redução da influência das ordens religio- que é necessário se laça, nos primeiros anos, enquanto se con-
segue o principal fim, que eleve ser: primeiro: o aumento da
sas. Segundo sua opinião, os aldeamentos indígenas fundados e
religião; segundo: civilização de tantos homens. 1 ''
administrados por ordens religiosas deveriam ficar sob o controle
da administração do Fstado. Dessa forma, Domingos Alves Branco
propunha ao governo a total reestruturação desses aldeamentos, Em 1842, o IHGB publicou um artigo, escrito em 1823 por
levando em conta não apenas aspectos políticos, mas também ar- José Arouche de Toledo Rendem,' 0 contendo recomendações para
urna política pública de trato com os índios. O autor, após concluir
quitetônicos e sociais. Com suas propostas, ele se posicionava, de
forma incisiva, favorável à criação de um sistema público de ensino. seus estudos jurídicos em Coimbra, ingressou no exército, tendo sido
nomeado, em 1798, diretor de todos os aldeamentos indígenas da
Isso, afinal, nos aproxima das mesmas ideias de uma integração
Província de São Paulo, função em que empreendeu múltiplas via-
dos indígenas mais tarde adotadas por parte dos afores políticos
do Estado nacional. Todos compartilhavam a ideia de supremacia gens de inspeçâo através da província. A partir dessa experiência, ele
sustenta sua posição acerca da necessidade da integração dos índios
da cultura branca, na qual os indígenas deveriam integrar-se. Uina
no novo Estado.
tarefa difícil, mas que, segundo o autor do plano, uma vez concre-
tizada, seria de grande vantagem.
Estamos na época feliz de não sermos colonos: o Brasil é um
Conseguida esta necessária c. importante reforma entre os ín- Império Constitucional... Trata de aumentar as forças deste
dios bravos e os índios mansos, não só virão eles a ser felizes gigante com o aumento de sua população; entre os diversos
pelo bem espiritual da religião, mas ainda pelo temporal, na meios de conseguir este tão útil como necessário fim terá sem-
vassalagem e proteção de uma soberana, em quem resplande- pre lugar o da civilização e catequese dos índios, que vivem em
hordas errantes nas imensas matas do solo brasileiro/
cem tantas virtudes, e gozarão, à sombra das leis, da liberdade
civil e política que permite a nossa Constituição; ficando, ao
Toledo Rendon pretendia formular, com sua obra. as bases de
um plano de- Estado para a civili/.ação e a cristianização dos indíge-
" Conforme nota 64, p. 53.
Hl Conforme nota 68, p. 91.
6S BARRETO, Domingos Alves Branco Moniz. "Plano sobre a civili/.ação dos ín-
dios do Brasil", lievisla ao IHGB, Rio de Janeiro, 19 (21), jan-mar/1856, pp. '"' Conforme nota 48, pp. 295-31 7.
33-91.
70, p. 296.
148 HisloridKi-alia r Nacfio no Brasil l tv.H-18.r)7 O I n s t i t u t o I t i s l ó r i í o f Geográfico Brasilrito... ] 49

nas. 7 - Do sen ponto de vista, a polílira pública deveria ser orientada giosas para civili/ar os índios ainda vivos, revela que as experiências
por quatro princípios básicos: adquiridas nos séculos XVII e XVIII deveriam ser aproveitadas no
- Renúncia a qualquer tipo de acão baseada no recurso da vio- presente-.'"
lência contra os índios, já que esses temiam os brancos de qualquer Desde logo, em ra/ão de sua quantidade e dispersão geográ-
forrna e tinham interesse na sua amizade. fica, a atenção se voltou para os jesuítas. Gonçalves Dias propôs ao
- Uma boa conduta para com os índios, para que desenvolves- instituto, sob o ponto de vista das vantagens para o progresso, com-
sem confiança nos brancos e para deles se valerem como árbitros, no parar os eleitos do esforço dos jesuítas no Brasil com os resultados da
caso de disputas entre tribos. política anlijesuítica de Pombal.
- O assentamento de índios próximo aos povoados brancos, Nos bastidores, receava-se que o apoio'aos jesuítas poderia,
para que pudessem familiari/ar-se com a agricultura. mais uma vê/, levar a uma concentração de poder fora do controle
- A separação dos filhos de seus pais, de preferência sem pro- do Estado. No século XVIII, a Ordem controlava diversos assenta-
vocar a indignação destes, confiando sua educação a "famílias boas", mentos transfronleiriços com mais de 100 mil habitantes, ignorando
às quais se poderiam conceder certos poderes quanto à mão de obra a separação de uma região colonial espanhola e portuguesa.
das crianças.' 3 Em 1842, numa edição da revista, foram descritos minuciosa-
Era claro o objetivo de seu projeto: a "branqui/.ação" dos ín- mente os problemas dos portugueses e dos espanhóis na implemen-
dios e sua integração à cultura branca. Nesse sentido, a obra dos je- tação do Tratado de Madri de l 750 sobre a demarcação das fron-
suítas despertou interesse, já que, nos séculos XVII e XVIII, haviam teiras duas áreas coloniais, comando com a resistência dos jesuítas.
registrado êxito no assentamento de indígenas de forma duradoura. Relatórios e avaliações a respeito da vida social nas povoações dos
No interior do instituto, discutiram-se intensamente,- as ra/.ões jesuítas apareciam com frequência nas páginas da revista:
que levaram os jesuítas a esse tipo de atividade, bem como a cul-
tura que se desenvolveu nas missões indígenas. Na sessão de 17 de Pois que, ignorando os miseráveis índios que havia na terra
março de 1842, por exemplo, Rodrigo de Sou/a da Silva Pontes poder que fosse superior ao poder dos padres, criam que estes
(1799-1855) defendeu a tese de que a arte desenvolvida nos centros eram soberanos despóticos dos seus corpos e almas; ignoran-
missionários se devia aos escravos negros. Assinalava, desse modo, do que tinham Rei a quem obedecer, criam que no mundo
que, sob a orientação dos jesuítas nas décadas passadas, o desen- não havia vassalagem, mas que tudo nele era escravidão; e, ig-
volvimento das aptidões artísticas dos índios havia sido um impor- norando enfim que havia leis que não tossem da vontade dos
tante elemento no contexto do processo de civili/ar e cristianizar seus Santos Padres (assim os denominam), tinham por certo e
os nativos.' 4 infalível que tudo o que eles lhes mandavam era indispensável
A proposta de um membro do instituto, apresentada em 27 de para logo obedecerem sem a menor hesitação.''
abril de 1844, no sentido de examinar a relevância das ordens reli-
Num momento em que o ainda jovem Estado se constituía, é
72 Idein. evidente que os jesuítas, cujo trabalho se norteou contra princípios
7:1 Sen conceito não difere fundamentalmente das ideias desenvolvidas desde
1798 por Domingos Alves Branco Moni/ Barreto. Veja-se nota 08. 0 Reuistrt do Ilífil), Rio de Janeiro, O (22). abr-jtm/1844, p. 257.
71 Revista do IlICtí, Rio deJaneiro, 4 (l 3), jan-mar/1812, pp. 65-80. n Revista tio IJ1GH, Rio de Janeiro, 4 ( 1 5 ) . out/1812, pp. 265-8:5.
O Instituto I Iistónro c (k-ounlfico Brasileiro... ] 51
150 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

nacionais e de Estado, tinham de, forçosamente, ser vistos de modo objetivo primordial de converter os indígenas incrédulos, até que.
crítico. Na ação de civilizar os índios, dever-se-ia dar precedência a em 1581, Cláudio Acquaviva (1543-1615) assumiu sua direção. Sob o
métodos religiosos ou seculares? O tratamento dessa questão impu- controle de Acquaviva, os interesses económicos assumiram tamanha
nha ao instituto e à sua revista a tarefa de colocar à disposição o co- preponderância que o assentamento dos índios passou a atender às
nhecimento necessário para sua resposta. metas económicas da Companhia de Jesus:
Joaquim Fernandes Pinheiro (1825-1876), para sua admissão
no IHGB, preparou, em 1854, um artigo a respeito dos jesuítas, em A oligarquia entronizada no Gesu pedia ouro, e mais ouro e
que apresentava, na segunda parte, uma descrição de seu papel no sempre ouro aos seus sátrapas do Brasil, e ei-los que, para cum-
Brasil.77 O autor criticava os jesuítas por causa de sua politização, afir- prir a santa obediência de que tinham feito voto, procuravam
mando que teria sido mais vantajoso para o Brasil se o Estado portu- tirar do trabalho dos miseráveis índios as riquezas que tão so-
guês, em vez de expulsar os jesuítas, tivesse subordinado seu trabalho fregamente lhes eram reclamadas. 8 '
de assentamento dos índios ao controle de uma burocracia civil.'8 No
final do trabalho, o autor resumiu sua opinião da seguinte maneira: Eis por que Pinheiro pleiteava reinvocar as tradições jesuí-
ticas originais, que, segundo sua visão, na época que se seguiu ao
Hoje, porém, não desejamos a sua volta: ser-nos-ia danosa, descobrimento da terra, haviam desempenhado importante papel na
uma vez que, se não despissem pisando as nossas fronteiras do cristianização dos indígenas. O autor se referia, principalmente, à
manto de políticos, o que seria talvez exigir deles o impossível. atuação de jesuítas, tais como Anchieta e Nóbrega, que entraram na
Cônscios de sua superioridade intelectual, querem dominar historiografia como civilizadores do Brasil.82 Ao analisar o passado do
por ela; esquecem muitas vezes o lugar de modestos operários processo de cristianização dos nativos, foi cada vez mais solidificada a
do Evangelho para se emaranharem no intrincado labirinto ideia de que era preferível o modo não religioso de civilizar os índios.
da política, e então tornam-se prejudiciais, deixam de ser uma A atenção dispensada à problemática indígena foi tam-
congregação religiosa para se converterem em seita política, bérn adquirindo relevância através de sua relação com a questão
em carbonários da Igreja.
político-estratégica da segurança das fronteiras. A integração das
parcelas de populações residentes nas regiões limítrofes significava
Num trabalho publicado em Í856, Pinheiro se ocupou, de for- maior consolidação do Brasil, através do fortalecimento das frontei-
ma mais detalhada, do sistema jesuítico de cristianização.80 Segundo
51 Conforme nota 80, p. 390.
sua opinião, a Companhia de Jesus perseguira no Novo Mundo o
1)2 Manoel da Nóbrega (1517-1570) estudou os "Cânones" em Coimbra e veio
paia esta terra em 1549 com Tomé de Souza, o primeiro governador enviado
77 PINHEIRO, Joaquim Caetano Fernandes. "Ensaio sobre os Jesuítas", Revista do para o Brasil. Seu plano para a "cristianização" dos índios previa o estabeleci-
IHGfí, Rio de Janeiro, 18 (17), jan-mar/1855, pp. 65-157. mento de missões, que eram administrativamente autónomas e impediam o
78 Conforme nota 77, p. 154. contato dos índios com os coloni/adores brancos. Nessas missões, os índios
eram familiarizados com a agricultura e com o trabalho manual. José de An-
79 Conforme nota 77, p. 157. chieta (1533-1597) ingressou na Companhia de Jesus em 1551 e veio ao Brasil
só PINHEIRO, Joaquim Caetano Fernandes. "Breves reflexões sobre o sistema de em 1553, com o segundo governador nomeado para o Brasil, Duarte da Costa.
catequese seguido pelos jesuítas no Brasil". Revista do lUGil, Rio de Janeiro, 19 Em 1595, redigiu uma gramática da língua dos índios existentes na costa bra-
sileira.
(23),jul-set/1856, pp. 379-97.
l 52 I li.sloriograíia c Nação no lírasil ] S3.S-1857

rãs. Em 1845, o instituto iniciou a publicação de uni manuscrito que colidia froiilalmente com os interesses dos latifundiários, sobretudo
tratava de duas tribos de Mato Grosso, situadas na fronteira com a os da Província do Rio de Janeiro, onde, desde a década de 1830,
antiga área colonial espanhola. Esse parecer, de 1803, de autoria de houve forte expansão das plantações de café. Somente em 1850, após
Ricardo Franco de Almeida Serra, foi confiado ao II1GB com a anu- maciça intervenção inglesa, parcialmente militar, é que o governo
ência do presidente da Província de Mato Grosso. Após uma detalha- brasileiro conseguiu fazer valer a lei sobre a proibição do tráfico ne-
da descrição dessas tribos, o documento salientava a importância de greiro. Nesse contexto, entende-se que todas as ideias a respeito de
se manter a paz com esses grupos. eventuais alternativas para a escravidão adquiriram importância espe-
cial. E a Revista do II] GR era o foro ideal para essa espécie de reflexão.
Estas são as principais utilidades, que nos resultam da paz e
Desde o início do debate, os participantes estabeleceram uma
ami/ade com os Uaicurus ainda independente do seu aldea-
conexão entre a escravidão e a questão indígena. }á na primeira
mento e perfeita redução: utilidade que julgo devemos con-
edição da Revista do [J-JGR, Januário da Cunha Barbosa escreveu um
servar com empenho e custo; tanto para bem c. tranquilidade artigo sobre a questão, discutindo em que medida a existência da
desta fronteira, como para não engrossar, perdendo o poçler,
escravidão representava obstáculo para civilizar os índios. Ele che-
a força, e número cios nossos vizinhos, sempre: rivais, sempre
gou ainda mais longe, concluindo que a escravização dos negros não
suspeitosos e inimigos ocultos, utilidade que só com menor impedia apenas a ação de civilizar os índios, como também se havia
despesa podemos conseguir... transformado em um freio para o desenvolvimento contínuo da so-
ciedade corno um todo.84
Para a jovem monarquia, cercada de repúblicas que eram ca- Assim, Januário da Cunha Barbosa representava uma posição
racterizadas como rivais, a garantia de suas fronteiras físicas assumia de expressão no interior do IIIGB: o repúdio à escravidão como cau-
importância fundamental. sa do atraso no país. Uma atitude pública contra a escravidão foi to-
Para descrever e entender a multiplicidade do discurso sobre mando corpo, marcando o início de um longo processo, que só che-
os índios, precisamos nos deter em seu aspecto económico. Os inte- gou a termo em 1888, com a abolição da escravidão. Cunha Barbosa,
resses económicos não suscitaram a atenção científica para com os em seu artigo, advogava a integração dos índios em vista de seu papel
índios, mas certamente lhe deram um novo alento, ao menos depois como força de trabalho do futuro.
da década de 1840. A partir de então, a perspectiva económica da
problemática indígena não pode mais ser desvinculada do debate Lembramos este fato para provarmos que eles não são tão
acerca da escravidão, ressaltando claramente sua conexão com as dis- avessos ao trabalho como os pretendem pintar os patronos da
putas políticas. escravidão africana, e para que se veja que, se forem removi-
A Inglaterra condicionou o reconhecimento da Independên- das certas causas de seu horror e desconfiança; se iorern bem
cia do Brasil à abolição do tráfico negreiro. Em 1827, o governo tratados, cumprindo-se fielmente ,is convenções que com eles
brasileiro se comprometeu a, por meio de uma convenção, impedir se fizerem; se forem docemente chamados a um comércio van-
o tráfico negreiro até o ano de 1830. A imposição dessa proibição tajoso e a uma comunicação civili/.adora, leremos, senão nos
•s3 Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 13 (19), set-dez/1850. p. 393. Para um trata- 84 BARBOSA, Januário da Cunha. "Se a introdução do trabalho africano emba-
mento abrangente, veja-se também: Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 7 (26), raça a civilização dos nossos indígenas". Revista do IliGB, Rio de Janeiro, I (3),
abrjun/1845,pp. 204-18. jul-set/1839, pp. 159-66.
O Instituto Histórico c Geográfico Brasileiro... ] 55
154 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857

que hoje existem habituados à sua vida nómade, ao menos em Interessada em acumular conhecimentos o mais amplos possí-
seus filhos e em seus netos, uma classe trabalhadora que nos vel, a revista também se voltou para trabalhos que propagavam alter-
dispense a dos africanos.1 nativas à escravidão. Assim é que o livro de Henrique Ternaux-Com-
pans, membro correspondente do instituto, teve uma boa acolhida,
A reflexão a respeito dos índios devia contribuir para o desen- ao se posicionar a favor do assentamento de trabalhadores europeus
n a Guiana Francesa. 89
volvimento de eventuais alternativas à escravidão. Tornava-se neces-
sário esclarecer a dtivida acerca da viabilidade de os indígenas serem Quem se posicionou contra a imigração de mão de obra es-
capazes de adotar um modo de vida sedentário. As recomendações trangeira foi José Joaquim de Oliveira, urn dos especialistas sobre a
já mencionadas e que foram publicadas na revista não deixavam questão indígena, em seu Plano de uma colónia -militar no Brasil?0
qualquer dúvida de que, por trás de uma possível ação de "civilizar" A partir da constatação da falta de mão de obra na agricultura,
os índios, escondia-se o desejo de utilizá-los como mão de obra na o autor advogava o emprego de brasileiros no meio agrário, uma vez
agricultura e na mineração.86 Constatando sua atitude de rechaço que, segundo sua visão, a população nativa se identificaria melhor
à lavoura, o autor frisava como seria complicado um projeto desse com o país. O objetivo de seu projeto não era apenas desenvolver
tipo.87 A redação da revista, no entanto, se empenhava na publicação alternativas para a escravidão, mas também propiciar o sentimento
de relatórios a respeito dos êxitos na ação de civilizar índios, ante nacional brasileiro e o apoio de pessoas que "tinham amor à pátria".9'
a convicção de que as experiências havidas seriam de valor para o Para a instituição das colónias organizadas segundo princípios
trabalho futuro. 88 militares, Machado de Oliveira tinha em mente, sobretudo, militares
já dispensados de seu tempo de serviço, tendo em vista que eram
8;' Conforme nota 84, p. 165. portadores da disciplina necessária. A execução desse projeto, com
a criação de numerosos pequenos empreendimentos agrícolas, teria,
86 Conforme nota 83.
ainda, o sentido de um contramodelo da estrutura agrária predomi-
87 O parecer foi preparado por ordem do governo português e deveria servir, nante do Brasil, o latifúndio. Seu plano foi submetido ao Conselho de
entre outras coisas, como base para as negociações entre Portugal e Espanha
sobre as fronteiras do Mato Grosso. Enquanto o autor fazia um julgamento até Estado, que o apoiou, expedindo instruções para sua implementação.
certo ponto cético da possibilidade de civilizar os índios, seu superior, Caetano Essa importância que a questão indígena tinha para o IHGB
Pinto de Miranda Montenegro, era, nesse sentido, muito mais otimista. Uma ocupava uma seção da Comissão Científica, que fora fundada cm 18:">6
vez que, segundo sua opinião, um dos obstáculos se constituía da "carência de e se ocupava da etnografia. Na primeira publicação a respeito da co-
desejos e necessidades" dos índios, ele se propunha a promovê-las e, assim,
lhes mostrar o caminho "para se nivelar à civilização". Veja-se: Revista do IHGB, missão científica, foram resumidas as razões para a ocupação com os
Rio de Janeiro, 7 (26), abr-jun/1845, pp. 204-18. índios:
88 Nesse sentido, é exemplar o texto redigido ainda no século XVIII por José
Freire de Monterroyo Mascarenhas, no qual o autor descreve o processo de
civilizar um ramo indígena da província da Bahia no Nordeste do Brasil (On-
zes). O Instituto salientou em um nota o significado de um trabalho desse tipo
89 Revista do IHGtt, Rio de faneiro, 6 (Suplemenfo), jan/1845, pp. 1-52.
para a história do Brasil. Veja-se: MASCARENHAS, José Freire de Monterroyo.
"Os orizes conquistados". Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 8 (4), out-dez/1846, 90 "Plano para uma colónia militar no Brasil". Revista do 1HGR, Rio de Janeiro, 7
pp. 494-512. O autor expôs, de modo detalhado, o esforço empenhado para (26), abr-jun/1845, pp. 240-55.
colocar tal ramo indígena sob o controle português, através da religião católi-
5)1 Conforme nota 90, p. 24 l.
ca, e sublinhou com isso a necessidade desse trabalho.
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" i.

-l
156 Historiografia c Nação no Brasil 18.">8-lcS57 O Instituto Histórico c Geográfico Hrasiieiro

Além do que o homem genuíno americano pode ser chama- Os textos disponíveis, sem excecão, recorrem ao par
do a compartilhar os bens da civili/ação, e voluntariamente conceituai de "natureza e barbárie" para caracterizar os índios e a
prestar-se à comunhão brasileira, se empregarmos os meios civilização, ou seja, o estado social que caracteriza o mundo dos bran-
consentâneos com a sua índole e constituição fisiológica nos cos. Apesar de seu baixo nível de desenvolvimento, civilizar os índios
primeiros tempos. Não é necessário di/er mais para demons- parecia orientar-se por um horizonte realista, enquanto a mesma
trar quantas vantagens resultarão para nós do conhecimento possibilidade era vista como duvidosa em relação aos negros.
perfeito dos autóctones do Brasil.~~ O que se depreende, portanto, dos textos disponíveis é que a
integração dos índios deveria ser objetivo da política de Estado. O
Todos os trabalhos que se colocaram para nós a respeito dos latifundiário João Machado da Silva (1782-1875), futuro Barão de
índios e a questão correlata dos jesuítas permitem identificar certas Antonina, chegou a formular isso muito claramente numa carta en-
premissas de seus autores no julgamento dos indígenas, premissas viada ao governo da Província de São Paulo.91 Em vez de continuar
que foram assumidas e consolidadas pela historiografia nacional. confiando na catequese dos índios em mãos de pessoas privadas, ele
A integração dos índios na nação brasileira em formação surge aí incluído, o governo deveria assumir essa função diretamente. Ma-
cm todos os textos como um objetivo desejável, sobretudo num mo- chado da Silva considerava, igualmente, que tinha papel relevante o
mento em que ajovem nação se via confrontada com a problemática argumento económico de abrir novas reservas de mão de obra em
racial. A promoção do sistema educacional e do comércio pareciam épocas de um boom agrícola. Especialmente tendo em vista a circuns-
ser os meios capazes de apoiar a integração pretendida. As ordens tância de que as vias tradicionais de aquisição de escravos estavam
religiosas não ficariam excluídas dessa tarefa, embora sua atuação destinadas a se tornar a cada dia mais difíceis.
devesse ocorrer dentro dos marcos impostos pelo Estado nacional. Detentor de um prémio imperial, o já citado especialista na
Uma autonomia ilimitada, como a que foi desfrutada pelos jesuítas questão indígena, José Joaquim Machado de Oliveira, chegou a for-
no início da era colonial, estava completamente fora cie questão dian- mular claramente o objetivo da preocupação com os índios: adquirir
te da nova situação histórica. O Estado guardava para si a supervisão conhecimentos a respeito deles.
dos projetos iniciados.
Os atores envolvidos no prqjeto nacional estavam conscientes ... para mais bern calar e melhor impressionar-se no ânimo dos
dos problemas resultantes da diversidade étnica do Brasil para a for- governantes a viva necessidade de se promover e garantir a ci-
mação do Estado nacional. Januário da Cunha Barbosa, em um tex- vili/acão e o bem-estar dos indígenas que devem suscitar todas
to já mencionado,93 citava A/credo Cominho, que alertava para os as simpatias, e reclamar todas as considerações.' J
riscos de uma ação conjunta de índios e negros, em vê/ da desejada
integração dos índios na sociedade dominada por brancos. No pano
de fundo dessas reflexões, colocava-se a experiência colhida com a
rebelião dos escravos no Haiti e a formação dos assentamentos de 94 Carta de João da Silva Machado ao presidente da Província de São Paulo, Coro-
escravos foragidos, os chamados "quilombos", no interior do Brasil. nel Joaquim José Luiz de Souza, de 2/9/1843. Revistado TH GB, Rio de Janeiro,
8 (2) abr-jnn/1846. pp. 250-4.
95 OLIVEIRA, José Joaquim Machado de. "Notícia raciocinada sobre as aldeias de
92 Conforme nota 60, p. 68.
índios da província de São Paulo, desde o sen começo até a atualidade". 1-imúta
9> Conforme nota 65, p. 13. do 1HGB, Rio de Janeiro, 8 (2), abr:jun/1846, pp. 204-50.
158 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857
O ínsiinuo Hislóiico <' r.eográíico Brasileiro... 159

Relatórios de, pesquisas e viagens Essas regiões haviam siclo também zonas de problema, inclusi-
ve para a administração colonial portuguesa, especialmente a partir
A identidade de uma nação exige, obviamente, também o co- das guerras napolcônicas, que alteraram a constelação europeia de
nhecimento das características físicas e geográficas do território do poder e cujos efeitos se fizeram sentir também na área colonial por-
Estado. As publicações e pesquisas pertinentes tratavam também da tuguesa e espanhola.
questão cias fronteiras, aspecto relevante para um Estado que ainda A Colónia do Sacramento significava a presença de Portugal
estava em constituição. Dar atenção às fronteiras do país e tratar de na área do Rio da Prata e assegurava a ligação entre o Mato Grosso e
fixá-las e garanti-las, tanto para dentro como para fora, é parte inte- o Rio de Janeiro, que, na falta de uma ligação por terra, tinha de ser
grante do processo de formação de uma nação. Tratava-se de definir feita através desse rio.
seus contornos exatos. A colónia francesa, no limite norte do país, desde a Revolu-
A leitura dos relatórios de viagens nos permite compartilhar ção Francesajá se apresentava, primeiro à administração portuguesa
a cuidadosa ação do olhar perscrutador, cioso de compilar conhe- e, mais tarde, ao governo brasileiro, como foco de perigosas ideias
cimentos a respeito das diversas regiões do país. Não apenas o políticas. A ocupação de Caiena por tropas portuguesas pretendia
comprimento dos rios e a altitude das montanhas são analisados, contrarrestar esse presumido perigo e criar as premissas estratégicas
mas também as possibilidades de exploração e aproveitamento para a ocupação do restante da Guiana. Na opinião de Maciel da
económico, bem como a situação dos índios na respectiva região. Costa, administrador civil português de Guiana entre 1810 e 1817,
Um plano de muitas facetas, que é também parte de um projeto de o Estado monarquista estaria assim mais fortalecido, constituindo-se
formação de urna nação. em contrapolo aos Estados Unidos republicanos.
Embora, em tese, todas as regiões do país fossem consideradas O governo de D. Pedro I! tentou resolver a problemática das
de igual importância, o instituto dedicava atenção especial às áreas fronteiras via diplomática e fixar definitivamente os limites territo-
fronteiriças, o que se manifesta na diversidade de materiais sobre o riais do Império. Os conhecimentos colhidos nas regiões em questão
tema. Num artigo sobre a questão lindeira, José Feliciano Fernan- podiam ser aproveitados para a tomada das necessárias decisões po-
des Pinheiro, o primeiro presidente do IHGB, acentuava a relevância líticas.
desse problema, recomendando ao governo o aproveitamento dos Em 1851, Francisco Adolfo Varnhagen, então primeiro-secre-
conhecimentos adquiridos: "Um governo sábio e previdente não es- tário do IHGB, a pedido do ministro dos Assuntos Estrangeiros do
pera pelo desfecho, molda a seu jeito o tempo, e as circunstâncias".9'3 Império, reuniu uma lista dos materiais que seriam utilizados corno
Três regiões de fronteira se revelaram especialmente ricas em fonte de informação sobre a questão da fixação das fronteiras. Mapas
conflitos, tornando-se, por essa razão, objeto de estudos cuidadosos: das regiões de fronteira, a correspondência produzida na época da
110 sul do Brasil, a região da Colónia do Sacramento, uma fortificação demarcação das fronteiras e observações e artigos contemporâneos
militar no Rio de Prata, fundada em 1680 pelos portugueses; no norte foram incluídos nessa lista.9'
do Brasil, a fronteira com a Guiana Francesa; e, no oeste do Brasil, a
fronteira da Província de Mato Grosso.
97 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Memória sobre os trabalhos que se po-
96 Memórias do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Programa Geográ- dem consultar nas negociações de limites do Império, com algumas lem-
fico. "Quais são os limites naturais, pactuados, e nec<tóiários.,ao Império do branças para a demarcação destes". Arquivo do IHGB, Rio dejaneiro, Lata
Brasil?" Arquivo do 11IGB, Rio de Janeiro, 41, l, 18, n. l, p. 38. 340, Pasta 6.

l
160 Historiografia c Nação no Brasil O I n M i U i t o Hisiórico c Geográfico Brasileiro... 161

No parecer que lhe fora pedido, ele fundamentou detalhada- províncias do Pará e de Mato Grosso. Sua earta-resposta foi enviada
niente a importância do tema para o Estado, formulando propostas por Monteiro Baena, em 23 de março de 1845, ao primeiro-secretá-
para a criação de povoados nas áreas de fronteira. O sentido de se rio do Instituto, [anuário da Cunha Barbosa, porque esse tema, de-
lançar mão da história, segundo sua perspectiva, era aprender com vido à sua relevância, deveria ser focalizado na Revista do Jnslituto.W]
as experiências colhidas em entendimentos anteriores para aplicá-las I\ opinião dele, a construção de estradas era útil para qualquer país,
nas negociações futuras. 98 uina vez que:
A publicação de inúmeros relatórios cie viagens na Revisla do
Instituto precisa ser vista, igualmente, em conjunto com a pretendida ... elas dão aos povos comunicação mútua, que, originando a
integração político-adrninistrativa e a exploração da infraestrutura civilização, consequen temente promove o giro do comércio, o
do país. A administração colonial portuguesa, até então, havia pre- aumento cia indústria, o aperfeiçoamento das artes, a difusão
judicado esse processo, na medida em que centralizava todas as de- dos conhecimentos científicos, o estreitamento dos laços da
cisões referentes ao Brasil em Lisboa. Além disso, a orientação para sociedade, e a consolidação do corpo político. 10 '
a exportação cia economia brasileira, condicionada pelas estruturas
coloniais, atrasava o desenvolvimento de um mercado interno. O autor, porém, não se manifestou apenas sobre a ligação viá-
O precário sistema de estradas c caminhos dificultava a ligação ria entre as duas províncias, mas também forneceu informações de-
entre as províncias e a capital do novo Estado, com todas as con- talhadas a respeito das possibilidades de exploração do país e sobre o
sequências para a imposição das decisões do poder central. Assim quadro da demografia regional, em suma, aspectos que eram repeti-
é que a notícia da declaração de Independência, de 7 de setembro de damente abordados pelos autores da Revista do Instituto.
1822, só chegou no mês de novembro à Província de Goiás, situada Em 1847, Monteiro Baena, por solicitação do presidente da
no interior do país, e Caetano Maria Lopes da Gama (1795-1864), Província do Pará, preparou um parecer sobre as condições de apro-
designado presidente dessa Província, só conseguiu assumir o cargo veitamento para o comércio da via fluvial entre as províncias do Pará
vários meses após a sua própria nomeação." e de Goiás, tendo sido igualmente apontado na Revista, do Institulo.m
O significado da abertura de estradas para a integração do país Desde o traslado da Corte portuguesa para o Rio de faneiro,
foi salientado pelo militar António I.adislao Monteiro Baena (1781- em 1808, a administração colonial portuguesa também passou a dar
1850) numa carta publicada na Revisia do Inslitulo.um Essa carta, da- atenção à abertura do país em matéria de transportes. Enquanto,
tada de 8 de fevereiro de 1844, é a resposta a uma indagação oficial até aquela época, o intercâmbio entre o Rio e as demais partes do
do presidente da província nortista do Pará, José Thoma/ Henrique;;, país st: fazia quase exclusivamente por via marítima, negligenciando,
quanto à necessidade de se concretizar uma ligação viária entre as por força da própria natureza, as regiões do interior do país, sob a
pressão das mudanças políticas e administrativas, vias alternativas de
98 Conforme nota 97, parágrafo 14.
transporte se colocaram no centro dos interesses.
99 Veja-se HOf ANDA, Sérgio Buarque de (org.). História geral da civilização brasi-
leira; o Brasil monárquico — dispersão e unidade. São Paulo: Difusão Europeia do "" Carta de António Ladislao Monteiro Baena ao primeiro-secrelário do Institu-
Livro, 1972, T. II, v. 2, p. 187v. to, Januário cia Cunha Barbosa, de 23/3/1845. Revisia do I/lG/i, Rio de Janeiro,
100 Carta de António Ladislao Monteiro Baena ao presidente da Província do. 7 (27), jul-set/1845, p. 329.
Pará, José Tliomaz Heririques, de 8/2/1844. Revista do IHGfí, Rio de Janeiro, 102 Conforme nota 100, p. 338.
7 (27), jul-set/1845, pp. 337-345.
m Revista fio 1HGB, Rio de Janeiro. 10 (9).j.uvmar/184íj,.pp. 83-107.
O f n s t i t i i l o Histórico c Geor^iafico lirasilrim... j (•>.•>
l 62 Historiografia c Nação no Urasil 181?H-líSf>7

Por instrução do Príncipe-Regente D. João, em 1808 Luiz ser o Paraná, bem como em defesa da ação de civilizar os índios
mediante catequese e reassentamento. Por ocasião do envio de um
Thomaz de Navarro viajou por caminhos de terra desde a província
relatório ao institulo acerca dos trabalhos de pesquisa reali/ados en-
nordestina da Bahia até a capital do Rio de Janeiro. Os resultados
dessa viagem de 54 dias foram expostos num relatório de sua auto- tre 1844 e 1847 para a criação de uma ligação rodoviária entre São
Paulo e Mato Grosso, ele se manifestou a respeito da relevância de
ria, cujo manuscrito foi encontrado por Varnhageu e encaminhado
sua ativiclade:
ao instituto para publicação."^ O propósito declarado dessa viagem
era criar condições básicas para o estabelecimento de uma ligação
postal permanente entre Bahia e Rio de Janeiro. O resultado foi uma Desta maneira ficam patentes ao Governo e aos nossos conci-
descrição detalhada da rota terrestre entre ambas as regiões, com dadãos os esconderijos que ocultavam aspérrimos sertões, o
anotações a respeito das características geográficas e climáticas, das que facilitará os meios de se aproveitarem as melhores terras
do Brasil para colónias agrícolas por serem todas cortadas por
relações entre a ocupação e a composição étnica da população, bem
soberbos rios e seus tributários.
como acerca das possibilidades económicas dessas paragens do país.
Navarro, da mesma forma que Monteiro Baena, já citado Essa rica Província de Mato Grosso, que tantos produtos natu-
rais tem para explorar, fica habilitada para melhorar sua sorte,
anteriormente,' 05 também chegava à conclusão de que o estabeleci-
estreitando os laços com a família brasileira, com quem per-
mento de ligações viárias e uma ativa política de assentamento pode-
riam dar uma contribuição importante para civilizar o país. Por isso mutará os géneros de que é fértil seu solo vivificado por um
clima produtor. Outra vantagem é a facilidade com que o Go-
mesmo, trabalhos dessa tendência encontraram abrigo na Revista do
verno poderá ia/cr respeitar nosso território nas f r o n t e i r a s . . .
Instituto.
A publicação de numerosas descrições de viagem sobre o in- Todos estes motivos me induziram a empreendei tais explora-
terior do Brasil na Revista do Instituto atendia a diferentes interesses: ções para, de alguma maneira, ser útil à nossa cara pátria, que
tudo merece de serrs filhos. (1
por um lado, servia para tornar conhecidas as regiões inexploradas
do país e, de outro, a pesqtiisa das rotas para sua exploração econó-
João da Silva Machado destaca, assim, os mais importantes
mica e integração política.
Nesse sentido, são exemplares as expedições levadas a cabo pontos dos debates contemporâneos nas rodas cultas do Brasil: a
abertura económica e política do interior do país, a fim de contribuir
por João da Silva Machado (1782-1875), o futuro Barão de Antonina,
para a consolidação do jovem Estado nacional.
descritas em detalhes na revista.
João da Silva Machado, por sua vê/., como membro do institu-
A história das diversas regiões
to, se ocupou intensamente da organização de viagens de pesquisa
para o interior das Províncias de São Panlo e Mato Grosso. De resto,
dedicou-se ainda às soluções do problema da força de trabalho. As- Inspirados no desejo de conhecer a fundo o país, os cientis-
tas ocupados com essa tarefa, com muito acerto, também se vol-
sim é que eleja em 1826, se engajou na luta pela fundação de uma
colónia alemã na região de São Paulo, que, futuramente, passou a tavam para os acontecimentos históricos nas diversas províncias,
entendendo-as como parle da história do Império como um rodo.
104 itevista do 1HGB, Rio de Janeiro, 7 (28), oiit-de7,/18'l.r>, pp. 433-68.
106 Revista d< i lííGK, Rio t lê Janeiro, 10 (3), abr : juu/ ! 848, p. 'J(>0\
105 Conforme nota 100.
Porém, não se tratava de salientar as peculiaridades e idiossincrasias
das diversas regiões, mas antes de acentuar o qne tinham em comum.
Expressão do conceito de Estado centralizado, era fato que o IHCiR,
sediado no Rio de Janeiro, se ocupava dessa tarefa. Por assim dizer, a
central chamava a si o conhecimento oriundo e a respeito das provín-
cias. Vale a pena notar que, nesse sentido, foi dada atenção especial
às províncias de fronteira.
A subdivisão dos artigos, ensaios e materiais publicados na FRANCISCO ADOLFO DE VARNHAGEN
revista em três conjuntos de temas serve para facilitar a descrição.
O entrelaçamento desses temas decorre das circunstâncias políticas,
sociais e económicas da época, e o produto de sua apreciação cientí-
fica, por sua vc/., tornava a influenciar essas mesmas circunstâncias. A pesquisa sobre a obra de Varnhagen
Desse modo, pode-se di/.er que a Revista do IfIGB compilava e trans-
mitia o conhecimento que resultava das pesquisas e observações so- No tratamento da história do Instituto Histórico e Geográfico
bre o país, constituindo um saber a serviço da imposição de determi- do Brasil, fundado ern 1838, mesmo reconhecendo sua inquestioná-
nada ordem social. vel relevância, constatamos as lacunas das pesquisas desenvolvidas na
instituição.
No caso de Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878), encon-
tramo-nos diante- de um fenómeno análogo. Ninguém pode ocupar-se
da história no Brasil ou trabalhar com ela e, ao mesmo tempo, ignorar
Varnhagen como historiador. Sobre Varnhagen, ainda que inúmeros
cientistas tenham manifestado seu ponto de vista, ora ideali/ando-o
como o fundador da historiografia brasileira, ora cunhando-o como
historiador reacionário e representante de um compreensão conser-
vadora da sociedade, tal como defendem os representantes de uma
ciência crítica, não existe qualquer obra a respeito de Varnhagen que
possa atender a exigências científicas.
Os estudos publicados sobre Varnhagen são primordialmen-
te de natureza biográfica, apresentando claramente a tendência
de salientar seu significado como figura-símbolo da historiografia
nacional. Os diversos autores interpretam a obra de Varnhagen a
p a r t i r de sua inclinação patriótica e nacional. A designação de Var-
nhagen como "pai da historiografia brasileira" c como aquele que
concebeu "um monumento da historiografia brasileira" comparti-
lha estereótipos generalizados.
1 66 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Francisco Adolfo de Varnhagen 167

O primeiro tratado biográfico a respeito de Varnhagen, apare-


ceu em 1873, ainda no tempo em que estava vivo, na revista O Novo Seguramente, a razão disso foram os posicionamentos assu-
Mundo, publicada em Nova York.1 O autor, José Carlos Rodrigues midos por Varnhagen sobre os índios e seu significado para a na-
(1844-1923), após concluir seus estudos de direito em São Paulo, em cionalidade brasileira, contestados por alguns escritores, dentre os
1866, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde passou a editar, de quais Macedo. Deixando de lado essa crítica, o discurso de Macedo já
1870 a 1879, em língua portuguesa, a revista O Mundo Novo— contan- anunciava certos conceitos que sempre tornariam a surgir em obras
do com Varnhagen entre seus autores. As informações necessárias ao futuras sobre Varnhagen. De modo conclusivo, Macedo resumiu:
"Varnhagen foi um homem-monurnento". fi
esboço biográfico foram fornecidas pelo próprio Varnhagen, que,
em carta de 12 de maio de 1873 a José Carlos Rodrigues, expres- No mesmo ano, o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927)
sou sua satisfação com o artigo produzido, 2 elogiando, sobretudo, o publicou, no Jornal do Comércio, um necrológio sobre Varnhagen, em
acompanhamento da lista de suas obras. que, ao lado de uma apresentação dos dados biográficos, tentava de-
Era costume dar destaque aos membros falecidos no ano res- senvolver urna interpretação da obra de Varnhagen. Ele procurou fa-
pectivo, no contexto das reuniões comemorativas anuais do Instituto zer uma espécie de balanço tanto das qualidades corno das fragilida-
de» do digno colega falecido. As primeiras palavras de Capistrano de
Histórico e Geográfico do Brasil. Assim, no ano da morte de Varnha-
Abreu - "a pátria está de luto pelo falecimento rle seu historiador" -c
gen, em 1878, o escritor Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882)
sinalizavam a direção de sua argumentação: Varnhagen como histo--
recebeu o encargo de fazer o discurso em sua memória, na qualidade
riógrafo da nação, como representante de uma historiografia nacio-
de orador do instituto. 3
nal. Assim, a pedra fundamental do monumento da ciência histórica
Se lembrarmos que Varnhagen figurava entre os mais impor-
fora lançada: "Varnhagen, o primeiro historiador brasileiro".
tantes colaboradores do Instituto, para cujos trabalhos sempre havia
Nesse artigo, pela primeira vez, Capistrano comparou Varnha-
espaço à disposição na Revista do Instituto, constitui surpresa o fato
gen aos bandeirantes do século XVII, uma metáfora corriqueira dali
de não ter sido o primeiro entre os falecidos citados na ocasião; de
em diante. Bandeirantes foram os grupos de desbravadores que, par-
igual forma, surpreende o fato de Macedo ter formulado uma críti-
tindo de São Paulo, terra natal de Varnhagen, haviam adentrado o
ca acerca do conceito de historiografia de Varnhagen: "Escrevendo
Brasil em busca das riquezas da terra para a Coroa portuguesa. E, tal
sobre história, ele não procurava discutir nem averiguar mais: ditava
como os bandeirantes do século XVII haviam aberto o caminho para
sentenças; em sua consciência de mestre, que realmente era, julgava
a. grande nação brasileira conforme a caracterização da historiografia
sem apelação: era Pitágoras 'magister dixit'".4
de caráter nacional, Varnhagen abriu no século XIX o caminho para
a historiografia brasileira nacional: "Varnhagen atende somente ao
1 RODRIGUES, José I lonório. "Biografia de Francisco Adolfo Varnhagen". Revis- Brasil, e, no correr de sua obra, procurou sempre e muitas vezes con-
ta do instituto Histórica e Geográfico de São Paulo. São Paulo, 13, 1911, pp. 95-105 seguiu colocar-se sob o verdadeiro ponto de vista nacional". 7
2 Carta de Varnhagen a José Carlos Rodrigues de 12 de maio de 1873. In LESSA,
Ciado Ribeiro de (org.). Francisco Adolfo Varnhagen; correspondência ativa. Rio de 5 Conforme nota 3, p. 489.
Janeiro, INL, 1961.
3 Discurso de Joaquim Manoel de Macedo. Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 41 6 ABREU, Capistrano de. "Necrológio de Francisco Adolfo Varnhagen, Viscon-
out-dez/1878, pp. 471-506. de de Porto Seguro". In Ensaios e. Estudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1975, pp. 81-91.
4 Conforme nota 3, p. 488. 7 Conforme nota 6, p. 90.
168 Historiografia e Nação no Brasil ]8:SS-1H57 iicisro Adolfo de Varnhagen l 09

Capistrano de Abreu criticava, na obra de Varnhagen, a au- Lima (1865-1928) I0 na Academia Brasileira de Letras. Ele escolhe-
sência de sínteses. Como adepto da escola positivista, Capistrano ra Varnhagen como patrono de sua recém-criada cadeira, apresen-
considerava os fatos históricos uma consequência de leis básicas de tando em seu discurso uma interpretação da obra de Varnhagen, se-
fundamentos naturais, censurando Varnhagen pelo desconhecimen- guindo a mesma linha de Capistrano de Abreu. A partir da constata-
to dessas leis básicas e da sociologia empírica como nova disciplina ção de que não era movido pela "crítica a um predecessor, mas pela
científica. Apesar da crítica assinalada, Capistrano recomendava Var- canonização de um santo padroeiro", 11 Oliveira Lima frisou o papel
nhagen e sua obra como objeto de "veneração", um paíhos, que conti- de Varnhagen como criador fia historiografia brasileira. Isso, aliás,
nuou a ser cuidadosamente preservado pela historiografia orientada apresentava de novo sua interpretação de Varnhagen como repre-
pelo sentido nacional. sentante de uma historiografia pragmática, que, além da descrição
Quatro anos mais tarde, apareceu um artigo de jornal, igualmen- de fatos e acontecimentos, visava tecer comentários e reflexões poli-
te de autoria de Capistrano de Abreu, em que analisava a obra magna ticamente úteis. Oliveira Lima, portanto, não via Varnhagen apenas
de Varnhagen, a História Geral do Brasil? Capistrano salientou, então, a como historiador, mas também como professor de costumes, capaz
importância desse livro, (iestacando-a como autêntica obra da historio- de extrair da história lições para os contemporâneos. Essa tarefa, Var-
grafia em comparação com os trabalhos anteriores dedicados ao mes- nhagen teria cumprido exemplarmente através de sua obra e, por
mo tema, os quais ele distinguiu como crónicas. isso, "mereceu veneração pública". 12
Na opinião de Capistrano, uma vez que Varnhagen dera um Por ocasião do centenário de nascimento de Varnhagen, no
tratamento integral à história do país, não havia necessidade, em ano de 1916, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil pôs-se a
tempo previsível, de uma nova exposição geral. Eis por que recomen- lembrar de seu sócio mais destacado, aquele que havia concretizado
dava aos historiadores brasileiros, preferencialmente, a pesquisa de o prqjeto do Instituto de escrever uma história do Brasil. No discurso
aspectos particulares da história nacional. Segundo a compreensão de Pedro Lessa (1859-1921), foram repetidos conceitos corno o de
de Capistrano, Varnhagen não havia logrado elaborar o que havia de "criador da historiografia brasileira", "primeiro historiador do Bra-
específico nas épocas históricas singulares. O que separa e diferencia sil", reforçando a imagem de Varnhagen já esboçada. 13 Pedro Lessa
os períodos entre si não se evidencia claramente na História Geral do também criticou a falta de uma generalização na obra de Varnhagen,
Brasil. o que, segundo sua perspectiva, deveria ter sido assumido e realiza-
Traçando o balanço da historiografia brasileira, o mesmo au- do, com base em fatos históricos, pelo próprio historiador. A razão
tor, contudo, confirmava que nenhum outro historiador se igualara dessa lacuna, Pedro Eessa atribuía à orientação de Varnhagen pela
em nível e importância a Varnhagen. Stia conclusão era, portanto, de ciência histórica francesa, que, segundo Pedro I .essa, prescrevia uma
que Varnhagen continuava como "mestre, líder e senhor".9
Em 1911, a Revista, do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil de
São Paulo publicou o discurso de ingresso de Manoel de Oliveira 10 LIMA, Manoel de Oliveira. "Francisco Adolfo Varnhagen, Visconde de Porto
Seguro". Revista do Instituto Histórico e Geográfico de. São Paula. São Paulo, 13,
1911, pp. 61-91.
" Conforme nota 10, p. 65.
s ABREU, Capistrano de. "Sobre o Visconde de Porto Seguro". In Ensaios e Estu-
dos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, pp. 131-47 12 Conforme nota 10, p. 77.

9 Conforme nola 8, p. 147. 1:1 LESSA, Pedro. Revista do JHCK. Rio de Janeiro, 80, 1916, pp. 611-66.
l 70 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Francisco Adolfo de Varnhagen 171

"caçada a documentos".14 Essa lacuna, no entanto, na perspectiva de A obra de Varnhagen deveria transmitir lições para enfrentar o pre-
Lessa, perdia importância diante da dificuldade enorme de assumir sente com otimismo em relação ao futuro do país.
a "tarefa de criador de nossa historiografia". 1 -' Dentro de igual contexto, Armando Prado publicou na Revis-
A época em que Lessa proferiu seu discurso era vivenciada ta do Brasil uma biografia de Varnhagen. 19 O trabalho em si seguia
como de mudança radical, tanto no plano internacional como no
os mesmos princípios já mencionados. Mais importante é notar que
nacional. A guerra deflagrada na Europa teve também consequên-
a publicação apareceu numa revista que explicitamente se definia
cias sobre a economia brasileira, começando a romper a estrutura
como "centro de uma propaganda nacionalista".20 A partir da cons-
tradicional de uma sociedade agrária. tatação de que a nação no Brasil ainda não se havia formado ple-
Na visão de Pedro Lessa, podiam ser extraídas lições da obra
namente, os redatores da revista tinham a intenção de promover o
de Varnhagen para o presente: "Do que precisamos para vencer a fortalecimento da nação e, para isso, parecia-lhes necessário apoiar o
presente crise (e ainda é o conhecimento da história, a comparação conhecimento do passado como caminho. Com essa clara mensagem
do presente com o passado, que no-lo revela), é de predicados que já "nacionalista", que, aliás, não deveria ser entendida como "anties-
tivemos e facilmente podemos readquirir"." 1 Ou ainda: "Em períodos trangeira", a revista lançou a biografia de Varnhagen logo em seu
como este que ora atravessamos, rnais claramente se patenteia a in-
segundo número, o que também sinalizava o espírito segundo o qual
contestável utilidade do conhecimento exalo do passado".1' o historiador era interpretado.
Lessa também invocava Varnhagen como fonte contrária às
Em 1923, o jurista e escritor Celso Vieira (1878-1954) publi-
teorias difundidas a respeito da desfavorável composição étnica do cou igualmente uma biografia de Varnhagen. 21 Partindo do fato de o
povo brasileiro e de um pessimismo daí derivado quanto ao futu-
pai de Varnhagen haver dirigido, durante longos anos, uma das pri-
ro do país: "Cumpre lê-la e meditá-la. Por ela ficamos sabendo que
meiras fundiçãos do Brasil, o autor comparava o trabalho histórico
a nossa raça e o nosso meio físico não são obstáculos às ações de
de Varnhagen com a atividade de um ferreiro. A imagem metafórica
maior perseverança, espírito de sequência, de demorada submissão
de que, com Varnhagen, teve início a era do ferro no Brasil perpassa
a provações".ls todo o livro: "Alegoricamente, a História Geral do Brasil é também um
O que se depreende da leitura da obra principal de Varnha-
diadema de ferro, talhado para a vetusta majestade colonial de três
gen, na opinião de Pedro Lessa, é que a nação surgida no decurso séculos ungidos por Deus, aventurosos e batalbadores".22
da história brasileira se tornou tão forte e vigorosa quanto as demais
A interpretação de Vieira da obra de Varnhagen girava em tor-
nações. Partindo de uma problemática de seus dias, Lessa abordava
no do modelo básico, aqui já esboçado e preconizado por outros
as ideias de Varnhagen com determinadas expectativas e exigências. autores: Varnhagen lhe parecia ser aquele que deu ã história função
educativa e pragmática. À diferença de Robert Southey, autor da pri-

14 Idem, p. 660. 19 PRADO, Armando. "Francisco Adolfo Varnhagen". Revista do Brasil. São Paulo,
l (2),fev/1916, p. 137-59.
15 Idem, p. 662.
20 Revista do Brasil. São Paulo, l (1), jan/1916, p. 2.
16 Idem, p. 664.
21 VIEtRA, Celso. Varnhagen (o homem e, a obra). Rio de Janeiro: Álvaro Pinho Edi-
17 Idem, p. 665. tor, 1923, 94p.
18 Idem, p. 663. 22 Conforme nota 21, p. 94.
172 Historiografia e Nação no Brasil 18:584857

nieira história do Brasil, Varnhagen corporificava o surgimento da incorporado como anexo ao segundo volume da terceira edição da
consciência nacional na historiografia. Com isso, ele teria conquis- História Geral do Brasil/13 O autor encarregado da publicação da nova
tado o primeiro lugar dentre os historiadores do Brasil, por haver edição apresentou um ligeiro esboço biográfico e, pela primeira vez,
transmitido à nação em construção um sentido e um significado a assumiu a tarefa de compor uma bibliografia completa de Varnhagen.
A obra mais abrangente que se debruçou sobre Varnhagen é
partir da história.
Tendo em vista a origem claramente não brasileira de Varnha- a biografia de novecenlas páginas elaborada por Ciado Ribeiro de
gen, Celso Vieira se lançou à tentativa memorável de demonstrar seu Lessa (1906-1960),27 O biógrafo foi médico no Rio de Janeiro e se
dedicou aos estudos históricos, qualificado como especialista em Var-
"abrasileiramento". O quadro de Varnhagen traçado foi resumido
por Celso Vieira da seguinte forma: "... o tempo, que elevou o ho- nhagen. Além da publicação da biografia detalhada, ele editou a tro-
mem a super-homem, perpetuando-lhe a figura, entre os beneméri- ca de correspondência de Varnhagen, uma importante coletânca de
fontes dispersas a respeito do historiador. 28
tos da pátria, na sua galeria escultural".23
Por ocasião do cinquentenário da morte de Varnhagen, em À semelhança do discurso de Basílio de Magalhães, Ribeiro de
1928, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou um evento Lessa descreveu os diversificados campos de atuação de Varnhagen.
em sua memória. O discurso ali pronunciado por Basílio de Maga- Na leitura da biografia, percebe-se claramente a tomada de partido
lhães (1874-1957) foi posteriormente publicado na revista.24 do autor a favor de Varnhagen; quase seria possível falar de uma
Basílio de Magalhães, adepto do positivismo, jornalista e pro- identidade com a personagem retratada. Assim é que todo o trabalho
fessor de História do Colégio Pedro II, foi quem se encarregou da pode ser caracterizado como um elogio permanente de Varnhagen e
publicação da História da Independência, obra de Varnhagen publica- como uma justificativa de seu conceito de história e de suas posições
da pela primeira vez em 1917, muitos anos após o falecimento de políticas. Como adversário do positivismo, cujos representantes ern
seu autor. Em seu discurso, o orador enfocou os múltiplos círculos Portugal (como, por exemplo, Theóphilo Braga, 1843-1924) se ha-
de ação de Varnhagen: como historiador, etnógrafo, diplomata, lite- viam confrontado enfaticamente com Varnhagen, Ribeiro de Lessa
se encarregou de criticar essa orientação filosófica, que. no Brasil do
rato, político e economista. Foi ele quem cunhou Varnhagen com o
predicado de "historiador pragmático" e interpretou sua obra como fim do século XIX e no início do século XX, teve importância decisi-
orientadora da nação rumo ao futuro. Além disso, recomendava Var- va na vida cultural.
nhagen como monumento admirável a ser imitado: "Oxalá tivésse- A tomada de posição de Ribeiro de Lessa a favor de Varnhagen,
mos a dita de conlar muitos homens como esse, não apenas para em suas próprias palavras, era definida como um posicionamento
"contra a opinião das massas", nada cortejadas nem por Varnhagen,
legar-nos admiráveis compêndios de história, mas para elaborar as
nem por seu biógrafo. Desse modo, o autor construía tuna argumen-
nossas leis e empunhar o leme do nosso governo".25
Igualmente motivado pelo cinquentenário de seu falecimento, 2" GARCIA, Rodolfo. "Ensaio bibliográfico sobre Francisco Adolfo Vaniliagen,
Rodolfo Garcia (1873-1949) elaborou um ensaio que mais tarde foi Visconde de Porto Seguro". In VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral
do Brasil. ?>''. ed. São Paulo, Melhoramentos, s.d., pp. 436-52.

23 Conforme nota 21, ]>. 82. 27 LESSA, Ciado Ribeiro de Vida e obra de Varnhagen. Revista do 1HG11. Rio de
Janeiro, l v. 223, 1954, pp. 82-297; 2, v. 224, 1954, pp. 109-315; 3 e 4, v. 225,
'-" MAGALHÃES, Basílio de. Rnista, do IIIGB. Rio de Janeiro, 104 (158), 1929,
1954, pp. 120-293; 5, v. 226, 1955, pp. 3-168; 6 e 7, v. 227, 1955, pp. 85-236.
pp. 890-975.
28 Conforme nota 2.
'-'"' Conforme nota 24. p. 904.
Francisco Adolfo de Varnhagcn 175
174 Hisioriograíi.t f Nação no Brasil 1838-1857

tacão que o próprio Varnhagen usara em própria defesa contra os em São Paulo, o Colégio Porto Seguro, cujo nome se deve ao título
de nobreza outorgado a Varnhagen.
críticos.
A Andrà, coube salientar especialmente o caráter educativo
Ribeiro de Lessa, contudo, não se limitou a apresentar ou ava-
da obra, designando Varnhagen como "formador rio sentido mais
liar os posicionamentos de Varnhagen, deixando, além disso, trans-
parecer as próprias posições a respeito dos problemas tratados. Assim amplo". S1 Numa descrição fortemente simbolizada, o autor se em-
é que o biógrafo não se restringia a defender Varnhagen - que, du- penhou em identificar, já na época da infância de Varnhagen, os
rante toda ávida, sempre fora fortemente criticado por suas opiniões - germes que mais tarde revelaram sua intensa atividade intelectual.
A fundição dirigida pelo pai, em cujos arredores Varnhagen
a respeito da questão indígena -, mas terminava se pronunciando a
favor de procedimentos ainda mais radicais contra os grupos étnicos passara a infância, na opinião de Andrà era o lugar apropriado
para incentivar certas características do menino: "A marca de quem
envolvidos.
trabalha, planeja e cria, interroga, dá forma e estrutura era o que cor-
Mirando a atuação diplomática de Varnhagen, Ribeiro de
respondia à personalidade de Varnhagen".82
Lessa o caracterizava como "diplomata bandeirante", criando um
Na opinião do autor, grandes coisas podiam se esperar de Var-
elo com esses desbravadores do interior brasileiro - uma metáfora,
nhagen, uma vez que nascera no município paulista de Sorocaba,
aliás, já por nós reconhecida em outros trabalhos. Com essa caracte-
região 'prenhe de significado' marcada pela Fundição São João do
rização, a partir da análise da obra de Varnhagen, Ribeiro de Lessa
Ipanema que se impunha como símbolo cie um futuro de progresso.
distingue três características: sentimentos monarquistas, patriotismo
O destino reservado a Varnhagen seria o de
e a veneração da tradição - fato que, mesmo no caso de uni conheci-
mento superficial do trabalho de Varnhagen, não surpreende. A pre-
um grande fundidor, um pesquisador de riquezas de nature/a
sença dessas características bastou para que Ribeiro de Lessa desse à
muito especial; ... mas suas minas não deveriam permanecer
obra de Varnhagen o predicado de '"autêntica". A escolha dessas ca-
no seio da terra, mas antes situar-se nos arquivos negligencia-
racterísticas, no entanto, nos insinua qtie o biógrafo, desde o inicio,
dos, desordenados, saqueados e apodrecidos em todas as par-
visava exalam ente a esse resultado com suas pesquisas. Na apreciação
tes do jovem império brasileiro.í!1
final de Varnhagen, Ribeiro de Lessa também formulou, de forma
expressiva, o objetivo pretendido com seu trabalho: "Ninguém mais
Assim, a obra de Varnhagen era interpretada por um viés de
do que ele mereceu da pátria, em nosso humilde parecer, abaixo de
destino a ser cumprido.
D. Pedro II. Que possa este livro contribuir a cimentar essa convicção
Coube a Helmut Andrà identificar a tradição espiritual na qual
no espírito dos leitores é o nosso mais ardente desejo".29
Varnhagen se integrava. O autor mencionava, especialmente, seu
Em 1958, apareceu, em língua alemã, o trabalho de Helmut
acesso à cultura alemã e sua familiaridade com os métodos da Monu-
Andrà (a respeito de Varnhagen), :io como parte integrante das festi-
menta Gennaniae Histórica, que não deixou de ter influência sobre seu
vidades por ocasião do 80S aniversário de fundação da escola alemã

31 Conforme nota 30, p. 3.


29 Conforme nota 27, parte 7, p. 226. w Conforme nota 30, p. 9.
30 ANDRÀ, Helniut. Francisco Adolfo riu Varnhagm; Visconde de Porto Seguro; Aus sa-
33 Idem.
nem Leheii míd sanem Werk. São Paulo: Instituto Hans Staden, 19D8, 35p.
l 76 Historio«i;ifi.t e N;IOIO 110 Unisil 18.'i8-18.r>7

próprio trabalho com fontes. Esse aspecto estranhamente quase não Outro artigo foi de autoria de fosc Honório Rodrigues, um his-
chegou a ser levado em conta por outros autores. toriador que tinha a questão da historiografia brasileira como ponto-
O ano de 1966, que marcou o sesquicentenário do nascimento chavc de suas pesquisas.M Sua opinião era de que Varnhagen merecia
de Varnhagen, deu ensejo para que, mais uma vez, os meios cien- o título de "mestre", na medida em que sua obra marcou o surgimen-
tíficos se ocupassem dele. Na revista americana The Hispanic-Ameri- to do sentimento nacional na historiografia brasileira.
can-Historical AVrww, o brasilianista Stuarl B. Schwatz, então ainda José Honório alinhava Varnhagen na tradição intelectual do
estudante universitário da Universidade de Colúmbia, publicou um Iluminismo português, ressaltando, sobreludo, a absoluti/ação da ra-
artigo intitulado "Francisco Adolfo rle Varnhagen: diplomai, palriot, zão de Estado promovida por Varnhagen.
historian"/ 11 O livro de Nilo Odália, publicado em 1979, com trechos das
Schwartz avaliou a obra-prima de Varnhagen como a história obras de Varnhagen, deu um novo tom às pesquisas acerca de Var-
mais importante da era colonial do país e, conforme já dá a entender nhagen. 39 Logo na introdução, fica evidente que o autor, professor
o título do artigo, prossegue na tradição que vê Varnhagen como da Universidade de São Paulo, acercava-se da obra de Varnhagen re-
um patriota muito especial. Seu procedimento científico se revela ao correndo a crilérios científicos, algo que também norteou a seleção
fa/.er observações sobre a origem teórica e metodológica de Varnha- dos tcxlos.
gen, aludindo a Ranke e ao criticismo francês. Ao definir "Nação", "Estado" e "Papel dos Brancos no Brasil"
No mesmo ano de 1966 e com a mesma motivação, o Institu- como temas fundamentais de Varnhagen, Nilo Odália levantou a per-
to Histórico e Geográiico do Brasil organizou uma série de eventos. gunta a respeito do sentido de uma leilura renovada desse estudioso.
Os autores das contribuições que foram publicadas no ano seguinte A introdução de Odália desperta diversos interesses para a análise da
visavam abarcai" globalmente o espectro do historiador Varnhagen. obra de Varnhagen, como, por exemplo, a apreciação de sua obra
Américo Jacobina Lacombc, em sen trabalho, 3 - 1 examinou as ideias em conexão com as questões políticas da época, bem como os impor-
políticas cie Varnhagen e, ainda que sem muita precisão, afirmou que tantes aspectos ideológicos de suas obras históricas, sem que se: possa
a discussão de Varnhagen da história havia tocado questões fulcrais perceber, contudo, uma avaliação aprofundada de Varnhagen.
de seu tempo. Segundo sua opinião, Varnhagen atribuía à história Em face dos trabalhos elaborados em torno do legado de Var-
uma função que: "... procurou fazer dela/História/uma arma para, nhagen, fica evidente que todas têm em comum a percepção desse
explicando o passado, armar a nação para a conquista do futuro". 3 ' 1 estudioso como grande brasileiro e patriota. Ao longo da leitura, vai-
Um artigo centrado na atuação literária de Varnhagen 37 salientou a se concreti/ando a importância de Varnhagen como pai, pioneiro e
relevância da temática acera do Brasil nesse campo de sua criação. inaugurador da historiografia brasileira.
Salvo algumas poucas exceções, os autores, ao longo de suas
31 SCHWARZ, Stuart B. "Francisco Adolfo de Varnhagen: diplomai, patriot, his- análises, preferiram identificar-se com a obra de Varnhagen, contri-
torian". Tlic Hispatiir American Historical Hnneia. Durhain, 47 (2), inai/1%7, p. buindo, dessa forma, para a consolidação de um mito, em vez de
185-202.
' "' IACOMBK, Américo Jacobina. "As ideias políticas de Varnhagen". Kevixla do c brasileira". Itoiista do IHCfi. Rio de Janeiro, 275, abr : juu/l967, pp. 155-69.
///G/i. Rio de Janeiro, 275, ahr-jun/1907, pp. 135-54.
33 RODRIGUES, fosé Honório. "Varnhagen, mestre da história geral do Brasil"
•1" Conforme nota 35, p. 154. Reirí.tUi do flIGIl. Rio de Janeiro, 275, abi : jun/1967, pp. 170-90.
37 MOREIRA, Thiers Martins. "Varnhagen e a história da literatura portuguesa 39 ODÁLIA, Nilo (org.). Venmhagm. São Paulo: Atiça, 1979, I76p.
l 78 Historiografia c Nação no Brasil I838-18:>7
Francisco Adolfo cie Varnhagen 179

chegar a novos conhecimentos a respeito do tema por eles tratado


do Primeiro Reinado (1822-1831), que, além disso, veio a ser
O sentido da importância de Varnhagen na historiografia brasileira o tutor de Pedro II.
já fora indicado por Capistrano de Abreu, no século XIX. Desde en-
tão, essa percepção marca os conceitos, as avaliações e a dedicação
Após concluir sua formação no Instituto de Ensino da Minera-
cm torno de Varnhagen como tema de estudo, deixando-o em unia
ção, em Kassel, Friedrich Ludwig Varnhagen entrou para os serviços
redoma sagrada.
da Coroa portuguesa e, em 1806, casou-se com a portuguesa Maria
Flávia de Sá Magalhães. No ano seguinte, participou da luta contra
Francisco Adolfo de Varnhagen: servidor público e historiador
as tropas francesas que invadiram Portugal. Após a ocupação do país
pelos soldados de junoí, em 1809, seguiu para o Brasil, onde estavam
Não é intenção, no presente capítulo, descrever exaustivamen- a família real e o governo português.
te a biografia de Varnhagen. C) que pretendo, aqui, é esboçar certa
fá que naquele momento, devido às jazidas de ouro em fase de
imagem do historiador, salientando aspectos relevantes de sua vida
exaustão, a economia exportadora do Brasil se encontrava em crise, o
que permitam elucidar uma melhor avaliação de sua construção his-
governo planejava desenvolver novos ramos de produção. Foi por essa
toriográfica. Acho que a obra de Varnhagen é mais difícil de ser en-
razão que técnicos suecos foram chamados ao país, a fim de tornar
tendida sem o conhecimento de certos elementos biográficos e do
realidade o projeto de uma fundição na Província de São Paulo.
entorno histórico.
Friedrich Ludwig Varnhagen, inicialmente, foi contratado
A exposição do presente capítulo se sustenta em biografias já
como observador da empresa, até que, em 1814, assumiu a direção da
referidas e no espólio de Varnhagen que consta dos arquivos do ex-
usina. A família Varnhagen morava no lugar da fundição, cm Soroca-
Ministcrio das Relações Exteriores no Rio de Janeiro.
ba, um ponto de encruzilhada dos transportes e centro do comércio
inleino brasileiro. Varnhagen, que, graças à sua função, tinha acesso
Tomo a liberdade de comunicar a Vossa Excelência que, no
a pessoas importantes no serviço público, frequentemente recebia
dia 17 do mês, aportou ao mundo nesta fabrica, após uma via-
cientistas e viajantes estrangeiros, aos quais Sorocaba e a fundição
gem bastante feli/, um pequeno fundidoí V" Com essas pala-
São João do Ipanema eram apresentados como exemplo das forças
vras, Friedrich Ludwig Wilhelm Varnhagen (1782-1842), em
adormecidas do país.
carta de 20 de fevereiro de 1816, comunicava ao governador
Em 1821, a família se mudou para o Rio de Janeiro, onde
da Província de São Paulo, Conde de Palma (1779-1843), o
o menino Francisco Adolfo teve suas primeiras aulas nas matérias
nascimento de sen sétimo filho, pedindo-lhe, ao mesmo tem-
elementares e no idioma francês, até que, em 1823, acompanhou o
po, que aceitasse ser o padrinho do recém-nascido. O trato
pai para Portugal, onde o mesmo fora contemplado com o cargo de
com as posições mais elevadas no serviço público não era estra-
administrador das matas portuguesas.
nho à família Varnhagen. Ainda em Portugal, o pai, Friedrich
As primeiras letras, as primeiras vivências intelectuais e advida-
Ludwig, tivera contato com José Bonifácio de Andrada e Silva
dês profissionais de Francisco Adolfo Varnhagen, foram em Portugal,
(1763-1838), líder político do movimento da Independência e
onde o Iluminismo de Pombal deixara fortes marcas e o Romantismo
estava prestes a florescer.
Em 1825, Francisco Adolfo Varnhagen iniciou sua formação
•"' Citado segundo ANDRÀ, Helmut, conforme nota 30, p. 8. escolar no Real Colégio da Lu/, destinado especificamente a filhos
J 80 stono^ialla f Nação no Hrasil 1
l-Yaniisco Afíolto de Vai nhai;<'n l8i

de militares. Após concluir com êxito os seis anos de estudos nessa Como se vê, o ponto forte de seus estudos se situou no campo
instituição, cm 1832 ele se matriculou, para um ano de estudos de das ciências naturais, matérias que representavam o entendimento
matemática, na Real Academia da Marinha, fundada no final do sé- da importância da ciência para a mudança e o bem-estar da socieda-
culo XVII com o objetivo iluminista de "disseminação da hi/.". de, colocando-se, pois, na tradição do Iluminismo.
Na década de 1830, Portugal assistiu a disputas acirradas em Mas Varnhagen também se dedicou a estudos das ciências hu-
torno da política interna e da dinastia. O primeiro imperador bra- manas, sobretudo no âmbito da história, para o que certamente rece-
sileiro, IX Pedro I, que, em 1831, abdicara da função a favor de seu bia impulsos graças a seu conlato intenso com os círculos românticos
filho, já havia, cm 1826, abdicado da Coroa portuguesa, benefician- de Lisboa. Assim é que cie se tornou amigo pessoal de Alexandre
do sua filha Maria da Glória (1819-1853) - cujo marido, D. Miguel Herculano (1810-1877), uma das mais importantes revelações da li-
(1802-1866), era, ao mesmo tempo, irmão de I). Pedro —, e não pre- teratura portuguesa, cujo interesse pela história resultou em sua ///s-
tendia satisfazer-se somente com a Regência, manifestando sua pre- tórifi de Portugal, de quatro volumes. 41
tensão pessoal à Coroa. Ao grupo dos românticos portugueses, pertenciam igualmente
Os adversários representavam, cada qual, diferentes conceitos o poeta António Eeliciano de Castilho (1800-1875), o escritor, dra-
estatais: D. Pedro, D. Maria da Glória e as forças sociais que os apoia- maturgo e servidor público Almeida Garrei (1799-1854) e o diretor
vam queriam uma monarquia constitucional, ao passo que D. Miguel da renomada Biblioteca de Évora, Joaquim Heliodoro da C u n h a Ri-
e seus adeptos perseguiam o ideal de uma monarquia absolutista. No vara (1809-1879), com quem Varnhagen mantinha volumosa corres-
ano de 1833, as disputas militares visavam chegar a uma decisão. pondência e com o qual colaborou no contexto de suas ativiclades na
Após a conclusão bem-sucedida de seus estudos, em vez de revista O Panorama.
desfrutar de férias, o jovem Francisco Adolfo Varnhagen, voluntaria- A Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, que se fi-
mente:, tomou parte dos combates como tenente de artilharia ao lado liava aos românticos, desde 1837 editava, sob a proteção da Rainha
das forcas de 1). Pedro. Nessa decisão, que, de igual forma, atingia a D. Maria II (antes Maria da Glória), a revista O Panorama, cujo am-
maior parcela dos intelectuais portugueses aliados ao Romantismo, plo espectro temático pretendia alcançar todas as "classes cie cida-
já se registrava o posicionamento político que também acompanha- dãos", chegando, no primeiro ano, a ter uma edição de cinco mil
ria Varnhagen mais tarde: a defesa incondicional de uma monarquia exemplares. 4 -
subordinada à Constituição.
Após o fim dos combates, com a vitória de I). Pedro e Maria da 41 Carta de Varnhagen a Joaquim Heliodoro da Cunha Rivera, de 3 de julho de
Glória, Varnhagen continuou sua formação corri estudos de quatro 1839, p. 21; HERCLLANO, Alexandre. Histúriti de. Poilnyil. Lisboa: IVrtraud,
anos na Academia Real de Fortificação, a futura Fscola do Exército. 18-16-53, 4v, v. l, p. 518; v. 2, 455p.; v. 3; 51-lp.; v. 4, 488p.
Em compleinentação, frequentou ainda aulas de alemão no Colégio dos ''- O artigo 47 dos estatutos da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Lieis
Nobres e cursos de ciências naturais, bem como um curso de paleogra- definiu o objetivo de seu jornal ria seguinte forma: "O jornal se ocupará de
f i a , diplomacia e ciências políticas na Escola Politécnica de Portugal. considerações sobre a história nacional e estrangeira; notícias de antiguida-
des e monumentos; estatística e geografia do país; biografia de nossos varões
Em 1837, nomeado capitão-teuente do Exército português c ilustres, em armas e letras; literatura propriamente dita, compreendendo os
a j u d a n t e do Visconde de Sá da Bandeira [Bernardo de Sá Nogueira elementos da teoria do discurso, e a sua aplicação à língua portuguesa. A ju-
de Figueiredo (1795-1876)], FVancisco Adolfo Varnhagen concluiu risprudência, a economia política, o direito administrativo, a indústria, o co-
sua formação corno engenheiro militar. mércio e as belas artes servirão também de assunto a alguns artigos, pobres de
aparato tecnológico, mas ricos de noções simples e úteis." In RIBEIRO, José
Fnintisco Adolfo de Varnhageii 183
182 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

Alexandre Herculano assumiu a função de editor dessa que foi A abordagem positiva do Brasil na esfera pública portuguesa
a mais importante plataforma dos românticos, em que Varnhagen seguia certos modelos decisivamente importantes para a autocom-
também atuou como redator. A meta dessa publicação era o agi or- preensão e a auloavaliação da nação brasileira, tanto para dentro
namento de Portuga], a fim de permitir ao país uma integração mais corno para fora: o Brasil como país civilizado do Novo Mundo, como
rápida aos países adiantados da Europa Ocidental. país do futuro, que traz em si as sementes do progresso, como jovem
país de esperança e força em oposição aos países da velha Europa.
Assim a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis
julgou dever seguir o exemplo dos países mais ilustrados, fa- Afiguram muitas pessoas o Brasil como um país ainda inculto
zendo publicar um jornal que derramasse uma instrução va- e bárbaro: crêem que a civilização, as artes e os cómodos da
riada, e que pudesse aproveitar a todas as classes de cidadãos... vida são apanágio só dos europeus. Erro miserável é este, que
cumpre derrubar pelo pé.
Trabalhemos por nos instruir e melhorar nossos costumes, au-
Verdade é que ainda hoje está em muitas coisas atrasado; mas
mentando a civilização nacional.43
as fontes de sua prosperidade tem-nas em si mesmo, e só pre-
cisa ser administrado com juízo para aumentar sua grandeza,
Para alcançar a meta autoestabelecida, a revista abriu suas
ao passo que as velhas nações da Europa, sobrecarregadas
páginas a uma ampla palheta de temas, que iam desde as ciên-
em grande parte cie população, contidas em limites estrei-
cias naturais e as invenções técnicas, passando pela história, até
tos, precisam de mil cálculos e combinações económicas e
as questões de arqueologia. A clara inclinação para o campo da
políticas para prosperarem, c talvez muitas delas para não
história e, nisso, especialmente, da Idade Média portuguesa,
decaírem.43
coadunava-se com a pesquisa das raízes nacionais e a descrição
do glorioso passado de Portugal. O redator Varnhagen se dedica-
va, sobretudo, à pesquisa e à publicação das criações literárias da Nos numerosos artigos a respeito dos aspectos físicos, estru-
tura demográfica, caráter nacional, o teor das reportagens não
Idade Média.
era outro: "Talvez não fosse arrojada opinião o compará-lo aos
Desde o início, a revista publicava artigos a respeito de temas
relacionados com o Brasil. Afirmação determinante, em artigos ca- franceses /o povo brasileiro/ ou antes chamar aos brasileiros os
franceses da América".46 Em 1840, Varnhagen, após ausência de 17
racterizados pelo tom de simpatia, eram a ênfase na herança cultural
comum e a justificativa da separação cie ambos os países pela me- anos, empreendeu sua primeira viagem para o Brasil, tendo, então,
táfora do filho adulto que deixa a casa materna. 44 Essa separação, constatado com desaprovação a forte europeização da capital do
contudo, na perspectiva da revista, não deveria constituir óbice para Rio de Janeiro. 47
estreitos contatos entre os países.
45 Idem.
46 O Panorama, Lisboa 2 (46), 17 de março de 1838, p. 83.
Silvestre. História dos estabelecimentos científicos. Lisboa: Tipografia da Academia
Real das Ciências, 1976, v. 8, p. 406. 47 Carta de Varnhagen a Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, de 2 de agosto
de 1840, p. 51: "A cidade em si é puramente europeia; e até o é demais, pois
43 O Panorama, Lisboa, l, rnai-dez/1837, p. 2. quanto a mim devia ser menos servil a arquitctura das casas e mais acomodada
ao clima c às riquíssimas madeiras da América."
44 O Panorama, Lisboa, dez/1837, p. 279.
l 84 Historiografia e Nação no lirasi] 1838-1857 Francisco Adolfo tlc Varnhagcn l 85

Como já dito, um dos motivos para sua inclinação pela história Em 1857, Varnhageii publicou, em O Panorama, um artigo a
f. para a empresa intelectual, como a edição da revista O Panorama, respeito do papel dos índios na nacionalidade brasileira, o que pro-
era a vontade de resgatar as origens de Portugal, de sua civilização e vocou significativo debate no Brasil. Noutra parte, voltaremos a nos
cultura. ocupar desse artigo de forma mais detalhada. 19
Essa motivação iníluenciou igualmente o modo c a forma de Varnhagen e alguns expoentes do movimento romântico inte-
tratar o Brasil corno posto avançado da cultura portuguesa no Novo graram a redação de outra revista, editada pela primeira vex, em 1841.
Mundo. A forma da argumentação e do pensamento pode ser exem- O objetivo da Revia ta Universal JÀsbonense era a modificação da socie-
plificada exemplarmente num artigo sobre a literatura brasileira pu- dade em bases evolucionistas: "... um jornal que só ensina e aconse-
blicado em 1841. O autor recomendava aos escritores brasileiros usar lha... que tem por dogma que só pela transformação progressiva de
moldes europeus que apenas teriam de receber o colorido local. No todas as moléculas sociais, e não pelas revoluções, se aperfeiçoam e
lugar de mitologias gregas e romanas, seria possível, então, recorrer felicitam os povos...".50
às fabulas cios índios e à descrição de suas misteriosas circunstâncias O patrocínio da revista se devia a uma sociedade de letrados
de vida. E o papel dos cavalheiros da Idade Média europeia pode- que, além da Revista Universal Lisbonense, mantinha um gabinete de
ria, então, caber aos bandeirantes brasileiros do século XVII. A lei- leitura com publicações estrangeiras e um salão de exibição prepon-
tura das obras dos autores do Romantismo brasileiro mostra que sua derantemente de inovações técnicas.
atuação literária possuía bases similares. Além disso, Varnhagen e os líderes do movimento romântico
Essa mistura do familiar e do exótico convinha ao gosto dos em Portugal eram também membros de outro empreendimento cul-
círculos literários europeus, o que permitiu à literatura nacional tural, a saber, o Conservatório Geral da Arte Dramática (Conservató-
brasileira encontrar uma boa acolhida por parte dos grupos do Ro- rio Real a partir de 1840). Essa iniciativa cultural, fundada em 183(>,
mantismo europeu, fonte que não pode ser subestimada para a auto- com apoio estatal, era dirigida por Almeida Garret e visava à forma-
confiança dos escritores brasileiros. O estreito relacionamento com a ção de atores nacionais. Além disso, o Conservatório ainda promovia,
Europa se revela nas propostas pragmáticas do artigo citado: por meio de competições e prémios, a produção de peças teatrais.
Foi nesse ambiente marcado por dois princípios básicos - a
Os americanos devem buscar na história, nas cenas das crença na aperfeiçoamento cio ser humano com a ajuda de conheci-
regiões que habitam, os símiles, as imagens para compor ou mentos científicos e a inclinação para a história como caminho para
adornai os seus escritos, assim como os talentos europeus nos- solidificar a identidade nacional - que o engenheiro militar Francis-
sos contemporâneos vão buscar aos fatos, às tradições da Idade co Adolfo Varnhagen publicou, aos 23 anos, em 1839, seu primeiro
Média a origem e progresso sucessivo das respectivas nações trabalho histórico.51 Ele se ocupou de um dos primeiros trabalhos,
modernas, os fundamentos de suas composições. A literatura escrito ainda no século XVII, a respeito do Brasil.
do Novo Mundo deve apresentar pensamentos novos corno
ele, singulares como a nature/a que tem patente aos olhos.48
49 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Os índios perante a nacionalidade brasilei-
ra". O Panorama, Lisboa, 14 (34), 1857, p. 265-8; 14 (35), 1857, pp. 276-9.

1 O artigo publicado na revista portuguesa intitulava-se: "Das naturais tendên- D" Revista Universal Lisbanense. Lisboa, 1841, p. 2.
cias da futura literatura Brasiliense". O Panorama, Lisboa, 5 (214), 5 de j u n h o 51 VARNIIAGEN, Francisco Adolfo. "Reflexões críticas sobre o escrito do século
de 1841, p. 183.
XVI, impresso com o título de 'Notícias do Brasil'". In Academia Real das C.icu
Francisco Adolío de Varnhagen 18 /
] 86 S lisioriograíia r Na<,ão no Brasil ] 838-1857

quer parte deste Reino... Pretende ser empregado no serviço


Esse trabalho, que teve recepção posiliva, abriu-lhe as portas
do Brasil, sua pátria de nascimento; e nós ganharíamos com
da Academia Real de Ciências de Lisboa, na qual foi admitido como
isso, suponho eu, mormente se ele fosse empregado com o
membro naquele mesmo ano, por recomendação de D. Francisco cie
título de adido a esta Legação, com encargo especial de coligir
São Luís (1766-1845).
documentos e diplomas para a História do Brasil e diplomá-
O trabalho bcm-sucedido foi enviado por Varnhagen também
tica, coordená-los e analisá-los de modo que verifique datas
ao Rio de Janeiro, ao Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, que 0
e acontecimentos e apure a verdade do fabuloso que abunda
recebeu como membro em 1840.52 A recomendação que para isso se
nas relações daquele tempo de propensão maravilhosa.5'1
fazia necessária foi-lhe dada por um homern que ele conhecia de Lis-
boa, António de Menezes Vasconcelos de Drummond (1794-1865),
Com sua nomeação como adido da delegação brasileira em
que, de 1837 a 1853, foi representante do Brasil em Portugal. 5 ' 5 Foi
Lisboa, Varnhagen inicia sua carreira no serviço público. Como já
ele também quem recomendou o ingresso de Varnhagen no serviço
mencionado, isso o colocava em sintonia com a maioria dos intelec-
público brasileiro, a fim de lhe assegurar um cargo seguro, servindo-
tuais brasileiros de sua época. Podemos partir da premissa de que
lhe de base material para a concretização de seus planos intelectuais.
Varnhagen, para garantir o sustento de sua vida, dependia de uma
Em 14 de dezembro de 1839, Vasconcelos de Drummond es-
atividade que lhe rendesse algo, uma vez que, por exemplo, o testa-
creveu ao ministro de Assuntos Estrangeiros do Brasil, Caetano Maria
Lopes da Gama (1795-1862): mento que lavrou no Rio de Janeiro, em 1861, não inclui dados sobre
valores patrimoniais significativos.'"
Porem, quando Varnhagen ainda pertencia ao exército portu-
Recusa também qualquer emprego português, procura o Bra-
guês como engenheiro militar, e, portanto, antes da possibilidade de
sil, sua pátria de nascimento, por amor c porque promete en-
assumir seu cargo no serviço público brasileiro, tornou-se imperioso
grandecimento e elevação. E por isso que emprega seu talento
esclarecer a questão de sua nacionalidade. O ingresso no serviço pú-
em coisas de interesse do Império. E ninguém melhor do que
blico brasileiro era permitido exclusivamente a cidadãos brasileiros
ele está em circunstância de prestar importantes senicos neste
e, no artigo 7 da Constituição do Império do Brasil, declarava-se que
género histórico e geográfico, não só pelas relações íntimas
perderia seus direitos como cidadão do Brasil quem "sem permis-
que tem com os empregados dos arquivos e bibliotecas deste
são do Imperador aceitasse serviço, aposentadoria ou distinção de
Reino e da Academia Real das Ciências, de que é membro,
mas também porque conhece praticamente tudo quanto exis-
te acerca do Brasil, de que fa/, seu particular estudo em qual-
1 Carta de António de Mentves Vasroncdlos de Drummond a Caetano Maria
Lopes da Gama, de 14 de de/embro de 1839. Arquivo do IHGB, Rio de Janei-
rias de Lisboa (org.). Lisboa, Tipografia da Academia, 1839, v. 3, 120p. Colcção ro. Lata 62, Doe. 5.
de Notícias para a Hislória e Geografia das Nações Ultramarinas que vivem nos
domínios portugueses ou lhes são vizinhas. ' Arquivo privado de Francisco Adolfo Varnhagcn. Ministério das Relações F.x-
teriorcs, Rio de Janeiro. L. 351, p. V. No decorrer de sua correspondência,
52 Carta de Varnhagen a Januário da Cunha Barbosa, de 5 de outubro de 1839. encontram-se, com frequência, reclamações em relação aos gastos excessivos
Arquivo do IHGB, Rio de Janeiro. Lata 140, Doe. 44. que ele se via obrigado a despender devido às obrigações de sua função de
diplomata. Veja-se, por exemplo, a carta ao imperador, de 10 de setembro de
53 Carta de António de Mene/es Vasconcdlos de Drummond a Januário da
1874. Arquivo do Museu Imperial, Petrópolis. 7735. Veja-se também nota 2,
Cunha Barbosa, de 10 de novembro de 1839. Revista do IHGH. Rio de janeiro,
2,jan-mar/1840,pp. 138-40. pp. 479-96.
188 Hi.storioi;i 1-YaiirÍM-o Adullb de V;irnl),]s:.-i, 189

qualquer governo estrangeiro".''' Por essa razão, Varnhagcn viajou Durante sua estada no Brasil, de julho de 1840 a março de
em 1840 para o Brasil, abrindo mão de um cargo de: preceptor cios 1841, Varnhagen aproveitou para viajar à sua província natal. São
filhos do casal real, o que lhe teria possibilitado uma estada para fins Paulo, a fim de trabalhar nos arquivos e tomai' parte nas reuniões do
de estudos na Alemanha. Desde: a sua mudança com a família para Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
Portugal, cm 1823, esse foi o primeiro contato de Varnhagcn com o Como membro de uma delegação do Instituto, conheceu o
país em que nascera. Imperador Pedro II por ocasião de sua proclamação antecipada. Em
A ambição de Varnhagen pela nacionalidade brasileira foi dada carta a seu amigo Cunha Rivara, ele descreveu essa viagem: "Aqui
por futuros interpretes de sua obra corno a expressão de sua profunda tenho visto a nature/a, conversado os livros e frequentado as socie-
comunhão com o país de seu nascimento. Nilo Odália'' 7 complementa dades e bailes".58
esse falo di/endo que essa decisão deveria ser vista em conjunto com A carreira diplomática levou Varnhagen a Lisboa (de 1842 até
os ideais dos românticos. Pode-se, com segurança, partir do fato de 1847), Madri (de 1847 até 1858), Assunção (1859), Caracas (de 1861
que o ambiente dos círculos literários de Lisboa contribuiu paia que até 1863, com competência para a Colômbia e o Equador) e Viena
Varnhagen percebesse esse caminho como uma chance de concreti- (de 1868 até 1878). Até Viena, todos os postos ocupados pelo diplo-
zar seus planos e a oportunidade para um sacrifício heróico em prol mata Varnhagen estiveram determinados pela questão das fronteiras.
de sua pátria. Tal vê/, outra característica de seu caráter, a ambição, Na Espanha, ele recebeu a incumbência de compilar docu-
tenha contribuído para que ele procurasse encontrar a sorte no novo mentos pertinentes à época colonial, e, por sua vê/, os países latino-
grande Império. A leitura de suas cartas deixa perceber claramente a amcricanos em que serviu, com exceção do Chile, tinham fronteira
medida de sua ambição e o entendimento de seu trabalho como algo comum com o Brasil. Essa experiência o levou, em 1851, a ser convo-
muito importante. cado pelo Ministério dos Assuntos Estrangeiros para ficar vários me-
Após receber a nacionalidade brasileira em fevereiro de 1842, ses no Rio de Janeiro, a fim de elaborar uni parecer sobre a questão
em maio desse mesmo ano seguiram-se a nomeação de adido no ser- da delimitação das fronteiras/' 9
viço diplomático e a promoção a tenente do Corpo de Engenharia O então ministro de Assuntos Estrangeiros, Paulino José So-
Imperial, ao qual pertenceu até 1851. No contexto do serviço diplo- ares cie Sou/a (1807-1866), quatro anos mais tareie voltou a se valer
mático, durante sua carreira alcançou o grau mais alto. dos conhecimentos de Varnhagen por ocasião das deliberações acer-
Em Varnhagen, sempre estiveram intimamente relacionados ca da fronteira com a Guiana Francesa.
a prestação das funções públicas, a identificação com o Estado brasi- Em aditamento à sua atuação como perito, durante sua esta-
leiro e os trabalhos historiográficos. Entre suas funções como adido da no Brasil de maio até de/embro de 1851, Varnhagen assumiu a
em Lisboa, figurava a aquisição de fontes importantes para o Impé- função de primeiro secretário do Instituto Histórico e Geográfico
rio, sobretudo no tocante às fronteiras territoriais. Os interesses do do Brasil. É provável que date dessa época seu contato pessoal com
jovem Estado marcaram, então, diretamente as atividades científicas o Imperador Pedro II, que costumava comparecer às reuniões do
de Varnhagen.
:'s Conforme nola 47, p. 52.
:'h Constituição do Império do Brasil. In TORRES. João Caetano de Oliveira. A
w VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Memória sobre os trabalhos que se podem
democracia ramada. Petrópolis: Vo/es, I!)(i4, p. 47
consultar nas negociações de limites do Império, com algumas lembranças
:" Conforme nota '59. p. !). para a demarcação destes", An/uivo do IHGB, Rio de Janeiro. Lata 340, Pasla 6.
190 Historiografia c Nação no Brasil 1838-J8:j7
Fram isco Adolfo <U- Varnhagfii 19 l

Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Foi o que aconteceu, por res de Souza se empenhou em rejerrar^aTTfftindicações da Argentina
exemplo, quando, na reunião de 6 de junho de 1851 Varnhagen leu em relação aos territórios do Uruguai e do Paraguai, cuja concretiza-
para os membros do instituto uni manuscrito de sua obra. ção teria significado urna melhoria da posição estratégica do Estado
Já dois anos antes, Varnhagen havia redigido, exclusivamente republicano face ao Brasil. Varnhagen, pois, em relação a suas opi-
para o ministro da Guerra, um memorando a respeito de importan- niões quanto ao "mais terrível inimigo" do Brasil, estava em sintonia
tes medidas de reestruturacão do exército imperial. h °Além de pro- com os responsáveis políticos de sua época.1'"'
postas de natureza técnica, para as quais sua formação lhe garantia E dessa mesma época outra obra importante e de caráter pro-
qualificação, o documento de Varnhagen apresentava ideias para a gramático, a qual tinha um efeito político. Durante sua temporada
defesa das fronteiras nacionais, sobretudo cm relação à Região do ern Madri, Varnhagen escreveu, de 1849 a 1850, um Memorial orgâni-
Prata. Nesse memorando, já se faz sentir a posição básica de Var- co, apresenlando-o ao parlamento brasileiro. 63 Logo no início, ele lis-
nhagen de que a nação brasileira deveria delimitar-se em relação às tava os seis problemas que, a seu ver, eram os mais urgentes do país:
repúblicas vizinhas.
- Fortalecimento das fronteiras
Todo homem de Estado que se possuir bem da posição em - Inadequação da capital do Império
que física e moralmente se acha a sua nação para com as ou- — Necessidade de abrir o interior do país mediante um amplo
tras - limítrofes principalmente - conhecerá como por instin- sistema de comunicações
to qual será aquela contra a qual pelas armas mais .se deve estar — Disparidade das províncias, favorecida por dimensões terri-
de sobreaviso... Esse mesmo insi.iulo dirá a todo brasileiro que toriais desequilibradas
a nossa fronteira meridional, que há séeuio e meio lautas ve/.es - Falta de uni plano de defesa e de uma política de ocupação
tem servido de teatro de guerras, é a mai.s exposta do Império, segundo pontos de vista estratégicos
e que nas margens do Prata existe o mais U:naz, mais turbulen- — Estrutura populacional étnica, que se opõe a uma consolida-
to e mais terrível inimigo, contra quem nos devemos a tempo ção da nação.
precaver.'1'
Na introdução, Varnhagen levanta a tese de que o Brasil,
Para melhor compreensão dos trabalhos apresentados por mesmo 25 anos após a Independência, ainda não era uma "nação
Varnhagen, é preciso levar em conta as condições gerais políticas que firme", 0 '' mas a reunião de múltiplas colónias que viviam ern total
envolvem o ambiente de sua elaboração. dependência do comércio exterior. Uma situação ameaçadora que.
A política exterior do Império visava fortalecer a fronteira su- em sua opinião, punha em jogo a existência do Brasil como nação
liiia e estabilizar a constelação de poder na área do Rio Prata. Desde independente.
que assumiu a pasta de Assuntos Exteriores (1849), Paulino José Soa-

VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "Memorial sobre algumas inovações úteis íf' Conforme nota 60, p. I .
ao Exército Imperial em Campanha". Arquivo Histórico do Museu Imperial, (i! YARNHAGKN, Francisco Adolfo. Memorial orgânico. 1849/50. Biblioteca do
Petrópolis. Maço l 12, Doe. 5526. IHGB, Rio de Janeiro, 44, 2, 27.
1 Conforme nota 60, p. l v. M Conformo nota 63, p. 2.
Fram ist o Adolto de Vaniha"ei 193

Segundo Varnhagen, ao imperador rabia a tareia de iniciar No ensaio introdutório, Varnhagen já tratava do domínio ho-
a organização básica do Império, encerrando a introdução às suas landês sobre o nordeste do Brasil durante o século XVII, que, para
observações com as seguintes palavras: "Ou se adulem os meios qu c sua abordagem da nacionalidade brasileira e o projeto de escrever
propomos ou se adotem outros, o essencial é tratarem-se radicalmen- unia história da civili/.aç.ão brasileira, veio a se- tornar de extrema re-
te os males apontados". 1 " Na segunda parle de seu escrito, Varnha- levância. A seu ver, foi com a expulsão dos holandeses da Bahia e de
gen assinalava que os seis itens citados di/iam respeito a problemas Pernambuco que começou a literatura brasileira. Kle interpretava a
fundamentais do Império e, na terceira parte, reivindicava assinalai- lula contra os holandeses como resultado de um sentimento nacio-
as correspondentes soluções. O projeto detalhado e cuidadosamente nal que abria, ao mesmo tempo, a possibilidade de definir o Brasil
elaborado no fundo tinha como objetivo a adoção de certo modelo como algo particular.
nacional.
Varnhagen, porém, não se restringiu à publicação de textos Toda a guerra cie alguns anos, quando bem dirigida, convém
de nature/a político-programática, mas igualmente st: dedicou à li- de tempos a tempos às nações, para as despertar de sen torpor.
teratura. Km 1854, ele editou um volume com textos épicos sobre O sangue é fecundo, quando bem derramado, c a conquista
o Brasil 1 "' e, em 1850, uma coietânea de poetas brasileiros/'7 A moti- de glórias é tão necessária a uru povo corno o aumento de suas
vação para essas iniciativas literárias de Varnhagen certamente deve rendas.™
ser buscada na ideia dos românticos de se voltarem para a herança
literária da nação. A lula contra os holandeses adquiriu significado simbólico para
O critério que presidiu a inclusão na coietânea de poetas bra- a historiografia nacional em constituição, e o tema foi abordado por
sileiros foi o lugar de nascimento do respectivo autor, pois uma di- Varnhagen num livro publicado em Viena, em I871.W'A permanência
ferenciação entre escritores brasileiros e portugueses por critérios de Varnhagen em situação funcional, na Europa, sofreu interrupção
estéticos e temáticos não teria sido possível. em 1858, quando de sua convocação para chefe da representação
No ensaio introdutório da colelânea. Varnhagen desenvolvia o brasileira no Paraguai.
paradigma de sua conceituação de fenómenos culturais brasileiros. Sua carreira, no lodo, pode ser chamada de bern-sucedida: 16
Ser "americano", argumentava Varnhagen, não significava a aboli- anos após o ingresso no serviço diplomático, ele estava na cúpula da
ção de princípios c cânones clássicos, mas os temas do Novo Mundo representação do Brasil num país vizinho de importância na época.'"
deveriam ser apresentados segundo esses princípios e modelos. No
primeiro plano, o que se colocava para Varnhagen era sublinhar a '* Conforme nota 67, p. l 7.
herança civilizatória dos europeus contraposta à existência da barbá-
w VAKNHAGKN, Francisco Adolfo. "História das lulas com os holandeses no
rie dos indígenas. Brasil desde ] 02') a 1651". Viena: Carlos Finsterbcck. 187!, :'.65p.
70 A Lei n. 614, de 2 de agosto de 1851, regulamentou o serviço diplomático bra-
sileiro. Segundo os princípios da burocracia, que estabeleceu as regras tanto
b:' Conforme nota 53, p. 2v. do ingresso, q u a n t o da carreira no serviço diplomático, a lei previa três (lasses
de funcionários no serviço diplomático: "Enviados Extraordinários e Ministros
'"' VAKNHAGKN, Francisco Adolfo. Mnnoriul orgânico. 1849/50. Biblioteca do
Plenipotenciários"; "Ministros Residenles"; e "Encarregados de Negócios". O
1HGB, Rio de Janeiro, 44, 2, 27.
decreto n. 941. de 20 de março de 1852, estabeleceu o número e os níveis
das representações diplomáticas brasileiras no exterior. Segundo o mesmo
194 Historiografia c Nação no Brasil 1838-1857 Francisco Adolfo de Varnhagcn l 95

Sua fama de "o historiador" do Império se havia consolidado, sobre- a que oferecem as Repúblicas, para entregar-me a trabalhos intelectu-
tudo a partir do segundo volume da Hixtúria do íimsil, publicado em ais, começando pelo da redação e publicação da minha 2Í edição". 73
1857. Varnhagen teve pleno reconhecimento, lanlo cie seus serviços Uma caria enviada a Pedro II, de 9 de março de 1870, de Vie-
para com o Estado quanto pelo seu desempenho intelectual. na, é prova de quão profundamente se haviam arraigado as experiên-
Desde 1852, costumava corresponder-se regularmente com Pe- cias colhidas na Repúblicas, reforçando sua rejeição dessa forma de
dro II, uma troca de missivas que se estendeu por 25 anos e que, para governo e mostrando quão forte era sua ambição:
ele, foi de grande importância: "(Eu) aprecio a honra de escrever a
V.M.I. como o maior dom de quantos me pudera em seu vasto domí- Concluo suplicando a V.M.I. que não me mande para nenhu-
nio outorgar o punho imperial..." 71 ma república, nem me mande a outra parle sem melhorar-rne
Nessa troca epistolar que abordava múltiplos temas, Varnhagen de categoria, pois qualquer cias coisas equivaleria para mini
dava ao imperador conselhos políticos, apresentava propostas, sem dei- a uma verdadeira facada, que não creio ter merecido de nin-
xar de colocar os próprios serviços no foco certo, sempre se queixando guém e muito menos de V.M.I.'' 4
de ter sido preterido profissionalmente. Como expressão desse contato
pessoal, o imperador tornou-se padrinho da filha do historiador. O decreto imperial de 22 de fevereiro de 1868 transferiu Var-
A partir de 1859, Varnhagen serviu como representante do nhagen para Viena, para a corte de Francisco fosé I, a quem apre-
Império em diversas repúblicas sul-ameriranas, em sua maior parte sentou suas credenciais em 4 de julho de 1868. Por ocasião de sua
limítrofes do Brasil. Devido às questões fronteiriças e a seu estado liti- transferência para Viena, Varnhagen solicitou urna promoção que.
gioso, justamente nessa época as relações diplomáticas eram expostas no entanto, apenas lhe foi concedida ern 1871, no contexto de uma
a fortes pressões. Não era uma tarefa fácil para um homem como Var- viagem de Pedro íl à Europa e que marcou o ponto alto de sua c.ai-
nhagen, que, como ele mesmo expressou numa carta ao imperador i eira a serviço do país. Coroando seus leais serviços à pátria, em l S72
de 25 de otitubro de 1867, via a forma de governo monárquica como lhe foi outorgado o título nobiliárquico de "barão" c, dois anos mais
salvação de toda a América.72 tarde, a promoção a "visconde".
A eclosão da Guerra do Paraguai (1865-1870) encontrou Var- Da temporada em Viena, data a obra de Varnhagen, publicada
nhagen no Peru e resultou no rompimento das relações diplomáticas em 1871, a respeito dos holandeses no Brasil,7:> e, como continua-
entre os dois países. Em 1868, ele pediu ao imperador sua transfe- ção da "História Ceral do Brasil", a "História da Independência do
rência para um país europeu, uma convocação que ele não pretendia Brasil",76 que o Instituto Histórico c Geográfico do Brasil só publi-
qtie fosse vista como premiação pessoal, mas como vantagem para a cou em 1916. Essa obra deixa claro, escrevia ele em 16 de j u n h o de
nação. Nisso, ele vislumbrava "mais tranquilidade de espírito do que 1875 a Pedro H, 77 que seu pai, Pedro I, fora o verdadeiro herói da

decreto, ao Paraguai correspondia um "Ministro no Serviço Exterior". Fonte: '-' Carta de Varnhagen ao Imperador, de 26 de outubro de 1867, p. ">\'.'>.
Relatório da Repartição dos Negócios Estrangeiros Apresentado à Assembleia 11 Carta de Varnhagen ao Imperador, de 9 de marco de 1870, p. 340.
Geral Legislativa na Quarta Sessão da 8a. Legislatura pelo respectivo ministro e
secretário de Estado Paulino José Soares de Sou/.a. Rio de janeiro: Tipografia /:> Conforme nota 69.
Universal Laemmert, 1852, 29p. + Anexos. ''' VARNHAGEN, Francisco Adolfo. "História da Independência do Brasil". AVv
'' Carta de Varnhagen ao Imperador, de 1°. de fevereiro de 1852, p. 170. Ia doIHGlí. Rio deJaneiro, 79, 1916, pp. 21-598.

'•' Carta de Varnhagen ao Imperador, de 20 de j u l h o de l KG;-!, p. 292. '' Carta de Varnhagen ao Imperador de 6 de outubro de 1875, p. 432.
l 96 l listoriograíia r Nação 110 l»!asil
I<Yandsco Adolfo ri.- Varnhao,.,, [97

Independência brasileira. Também dalam dessa época as pesquisas


O objetivo do presente tópico é a exposição acerca das princi-
de Varnhagen a respeito da origem do grupo "tupi" estabelecida em pais obras históricas cie Varnhagen nas quais se manifestava sua con-
diversas regiões do Brasil. Com base em estudos filológicos compa- cepção histórica, bem como o contexto intelectual em que foram
rados, Varnhagen chegava à conclusão de que esse grupo indígena elaboradas.
originalmente teria vindo da região do Mar Mediterrâneo. Dessa for-
Já em 1838,SI Varnhagen sonhava com uma descrição da geo-
ma, ele acreditava haver comprovado que a maioria da população grafia do país, ainda então fortemente impregnada por sua formação
brasileira era de origem europeia. /cS de engenheiro militar.
No ano anterior à sua morte:, de maio até outubro de 1877,
Geografia era uma matéria importante do ensino, cuja influên-
Varnhagen esteve no Brasil pela última vez. para empreender uma via- cia também se fazia sentir nas obras de história: a descrição de eventos
gem de pesquisa ao interior do país. O objctivo de sua viagem consis- em Varnhagen sempre vinha acompanhada de um relato preciso das
tia em encontrar um lugar para a nova capital que ele vislumbrava, 79 circunstâncias geográficas que os envolviam. E, com frequência, a visita
avaliar as possibilidades de uma ligação ferroviária entre a costa c a a uru local histórico servia para o autor como preparativo para o traba-
nova capital, bem como as chances de abrir o interior do país com a lho científico sobre o acontecimento que havia ocorrido naquele lugar.
ajuda de imigrantes europeus. Na sessão de G de junho de 1851, ele apresentou aos membros
O historiador, que se ocupou da questão fia nação, também do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil alguns capítulos da obra
se dedicou à concreti/ação de seus pontos de vista teóricos: sua em que trabalhava.
obra se coloca, assim, no enlrelaçamenio da ciência com as ativida- No contexto de sua troca de: correspondência, Varnhagen cos-
des da prática política. tumava informai' ao imperador regularmente as etapas do trabalho
na História do Brasil. Buscando reconhecimento, em 29 de j u n h o de
1852, comentava que a obra de história não lhe estava deixando tem-
As obras históricas de Varnhagen po para outra atividade intelectual, manifestando a esperança de po-
der vir a concluir a obra em um ano e meio. 82
Da abrangente obra de Varnhagen,' Su despontam três prin- Km 2 de de/.embro de 1852, por ocasião do aniversário do im-
cipais obras históricas: a História Geral do Brasil, em dois volumes perador, com orgulho ele anunciava a conclusão da primeira parte. s:i
(1854-57), a História da Independência do Brasil (1916), concebida Essa dedicação provavelmente lhe dava a cerle/a de indicar em sua
como sua continuação, e a História das Guerras contra, os Holandeses no próxima carta que não tinha dinheiro suficiente para financiar uma
Brasil (\87l). edição que "estivesse à altura do século".'*1 Ele não deixava dúvidas
quanto ao lugar de onde esperava ajuda: "Entretanto, para um em-
7S Carta de Varnhagen ao Imperador de 6 de outubro de 1875, pp. 434-5.
Sl Veja-se a carta que Varnhagen escreveu para o primeiro-secretário do IHGB,
'•' O tema da transferência da capital do Império para o interior do país foi trata- em 5 de outubro de 1839, logo após o envio de seu primeiro trabalho. Arquivo
do por Varnhagen em diversos textos. Veja-se, por exemplo, M/unnrial orgânico. do riIGB, Rio de Janeiro- Lata 140. Doe. 44.
1849/50. Biblioteca do IHGB, Rio de Janeiro, 44, 2, Ti.
h2 Carta de Varnhagen ao Imperador de 29 de j u l h o de 1852, pp. 184-7.
s" A melhor bibliografia dos trabalhos de Varnhagen foi produziria por HOKC11,
J lans. Fmncism Adolfo Vtirnhagnt; subsidiou paru uma bibliografia. São Paulo: Krli- 83 Carla de Varnhagen ao Imperador de 2 de dezembro de 1852, pp. 19.3-5.
tora Unidas, 1982, 454p. "' Carta de Varnhagen ao Imperador de 7 de fevereiro de 1853, pp. 195-7
198 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857
Adolfo d<- Vai-iibaçen 199

presa destas, eu não devo deixar de contar, em caso de necessidade, ... o autor foi i m p e l i d o por s e n t i m e n t o s m u i t o mais elevados:
com a proteção do governo e em lodo caso conto, e creio que conto a escrevê-la pelo mais puro amor da pátria; a publicá-la em
bem, com a Munificência de V.M.I."85 vida por i n t e i r a dedicação e obediência à sagrada pessoa
As expectativas de Varnhagen se cumpriram, obtendo o apoio de V.M.I., cujo reinado (que oferece já assunto a brilhantes
imperial. A conduta de Varnhagen, que a nós pode afigurar-se como páginas dignas da história) imploramos todos os seus fiéis
algo atrevida, precisa ser vista no contexto de sua época. No século súditos ao Altíssimo que perpetue por dilatados anos para
XIX, muitos intelectuais do Brasil se dedicavam à sua atividade con- glória sua, esplendor do trono americano e felicidade do
tando com a ajuda de sustento estatal ou imperial. Brasil. ss
Nesse sentido, Varnhagen não constituía exceção, mas se jun-
tava, entre outros, ao ator João Caetano, ao pintor Pedro Américo No verão de 1853, Varnhagen viajou a Paris, a fim de esclarecer
de Figueiredo e ao compositor Carlos Gomes, cuja atuação cultural questões relacionadas com a impressão de seu livro e aconselhar-se
dependia, para mais ou para menos, de bolsas imperiais. Interessante com Ferdinand Denis (1798-1890). Em última instância, em Paris
é o fato de que todos eram tidos como inauguradores de uma forma acabaram sendo feitas tão-somente as ilustrações, ao passo que o livro
"nacional" de ver as coisas, fosse na historiografia, no teatro, na pin- propriamente dito foi impresso em Madri. Varnhagen informou to-
tura ou na música. Pedro II, com isso, fundamentou seu papel consa- dos os detalhes dessa empreitada ao imperador, lendo dele recebido
grado na história de incentivador da arte e da ciência.8'1 numerosas indicações e ideias.
Em maio de 1853, Varnhagen pôde anunciar a Pedro II a con- A remessa dos exemplares acabados para o Rio de Janeiro foi
clusão de sua obra,8' enviando-lhe, ao mesmo tempo, a dedicatória motivo para Varnhagen, ao invocar os consideráveis custos incorri-
que prefacia o livro; urna proclamação patética de seus sentimentos dos, dirigii-se ao imperador a fim de pedir a liberação de impostos
monarquistas: aduaneiros brasileiros. 89 Pela mesma mala postal, em 20 de junho
de 1855, ele pôde submeter ao imperador um primeiro exemplar
da História Geral do Brasil, embora com o pedido de não deixar que
85 Conforme nota 84, p. 197. esse fato chegasse a público. Submissamente, aceitava de antemão
85 Heitor Lyra, que escreveu uma biografia do segundo Imperador cio Brasil em uma possível crítica do Imperador: "... imploro também agora a Sua
três volumes, realçou bastante o perfil de Pedro II como sábio, destacando a Soberana Censura, submetendo-me desde já a toda a supressão ou
atividade do Imperador tio campo dos estudos linguísticos. Veja-se: LYRA, Hei- mudança que M.V.I. possa julgar conveniente". 9 "
tor. História de d. Pedro II; 1825-1891. São Paulo: Itatiaia, 1977, .".v, v. l , 331 p.;
A partir de 1856, a empresa K. & H. Laemmert começou a dis-
v. 2, 251p.; v. 3. 377p. Hélio Vianna, a partir de seus estudos sobre a biblioteca
imperial, considerou o Imperador "intelectual que casualmente foi colocado tribuir o primeiro volume da obra de Varnhagen. Os irmãos E. &
no trono". VIANNA, l lélio. "A biblioteca do Imperador". Revista Brasileiro de H. Laemmert, desde 18-18, dedicavam-se, rio Rio de Janeiro, ao co-
Cultura. Rio de Janeiro, 2 (5),jul-set, 1970, pp. 29-64. Na verdade, esse quadro mércio de livros e artigos musicais, movimentando, paralelamente
já havia sido indicado por vários contemporâneos: expressões como "sábio" ou
à editora Garnier, a maior casa editora do Brasil. A segunda edição
"rei filósofo" surgiam com frequência para caracterizar o Imperador d. Pedro
II. Veja-se, por exemplo, o discurso do segundo secretário do Instituto Histó-
rico e Geográfico Brasileiro diante do Imperador logo após o jubileu da Cons- •^ Conforme nota 87, p. 202.
tituição em 25 de março de 1860. Arquivo Nacional, Rio de janeiro — I F. 7. 8. 89 Caria de Varnhagen ao Imperador de 20 rir jttttho de 1855, pp. 228-30.
87 Carta de Varnhagen ao Imperador, de 6 de maio de 1853, p. 20). "" Conforme nota 89, f). 228.
I''iaiK"iS( cj Adolfo df Vamhagcn 201
200 Historiografia r Nac;ao no 111 asil IH38-18:,7

rém, Vainhagen teve de esperar ainda quase 20 anos. O imperador


dos dois volumes surdiu em l 877. ainda cm vida de Varnhagen, com
imaginava que a causa da dúvida de Varrihagen seria a timidez de
alterações que tinham por base, ao menos em parle, as veementes
assumir responsabilidade, o que este negava de forma veemente. 95
discussões após a primeira publicação. A História Geral do Brtiúl, portanto, saiu publicada sob o nome
Preocupado com a continuação de sua obra,.já em 18!>.-, Var-
de Varnhagen e, embora ainda sem título nobiliárquico, sua auto-
nhagen havia designado Joaquim Caetano da Silva (1810-18/3), no
confiança continuou inalterada:
caso de uma prematura morte sua, para publicar a fhslona Geral do
/imví/. Pouco ames de- acabar a obra, houve um episódio que lança
Toda modéstia não é bastante: para que eu não reconheça que
uni enfoque característico sobre alguns aspectos da personalidade
a História do Brasil, ao menos em muitos dos seus períodos, fica
peculiar de Varnhagen. com a m i n h a obra de uma vê/, escrita, e ela viverá /a obra/
Em F, de de/.embro de 1854, ele propôs ao imperador publi-
eternamente e fará e t e r n a m e n t e honra, Deus mediante, ao
car seu livro sem indicação de nome, apenas com a anotação de que
Brasil e ao reinado de seu excelso Protetor.""
fora elaborado por um membro do Instituto Histórico e (,eograíico
do Brasil'-« À primeira vista, uma proposta que não casava bem com
Acompanhado de uma missiva detalhada, Varnhagen remeteu
sua conhecida vaidade. Como justificativa, ele invocava experiências
a Pedro U, em 14 de julho de 1857, um exemplar do segundo volume
colhidas na corte espanhola, de- que seu sobrenome alemão não o
da História Geral. Yarnhagen pedia ao destinatário da carta, em tom
ligaria ao Brasil e oue. por isso, a obra sem seu nome seria ... de um patético-drarnático, que, após a leitura, a destruísse, já que revelava
frasilciroo* do Instituto l listórico e Geográfico do Brasil; e, portanto,
coisas pessoais em demasia.' 1 Considerando que essa carta permite
do Brasil lodo"™ De acordo com suas palavras: "V.M.I. sabe quan-
tirar conclusões a respeito do carátei, da personalidade e da aufocsti-
to o público, o universo todo se leva por nomes c- outras nnagens
ma de Varnhagen, vale a pena observá-la mais de perto.
externas' 7 . 91 A guisa de introdução, ele agradecia a Deus pela inspiração de
Fie talve, estivesse sugerindo um "abrasUeiramento de seu
prestar um grande serviço à nação e pela chance de concreti/ar esse
sobrenome, algo que poderia ser viável mediante a outorga de um
serviço sob o governo de Pedro IF. O fiel servidor público não hesitou
título nobiliárquico. Para que esse desejo se tornasse realidade, po-
eni relacionar seus serviços prestados ao Estado e de salientar a rele-
vância de sua obra científica.
í^^rí^bV^gon, &„•„„ lançadas duas edições de *™^™ Orientado por parâmetros aristocráticos, Varnhagen declarava
Geral d,, K.avl \a c a segunda ed,rao rcvisu consnnuram a h. d e -
explicitamente que seu cargo como responsável em Madri, o corres-
se trabalhe,. VARNHAGEN, Francisco A«l«,lfo. //«/ómi (*« « '^^
descobri,*»^ colação, legação t d^nMmnto d«ta ^ ^ J t ™ «
pondente tratamento, Vossa Mercê, e a admissão à Ordem de Cristo
rf^drn/,. escrita «« 1'^nça de »«/,* donnn,,^ au^:oS reM n* W™
d lira,,!, d,rllrtu,al, da E>Par,lial'da Holanda. R,o dejaneux,: ^ H - L '"'"^
1854-7 "'v v l 4 M ( Í i . - v 2 mV.; História Ural do Rravl; ^itórf«.«m.w./w«(">
^^MWL 2 cd.Mn.to aunu-nucia e numerada pelo amo, *o 95 Carta de Varnhagen a José Maria Velho da Silva, de 23 de outubro de 1853,
de Janeiro: K. H. Lacunnert, 1877. 2v., )220p. p. 207.

92 Cana de Varnhagen ao Imperador de 5 de fevereiro de 1854, p,>. '212-4. % Conforme nota 92, p. 213.
'•" Carla de Varnhagen ao Imperador de l 1 de j u l h o de 1857. Arquivo do Museu
"Mdem.p. 213.
Imperial, 1'eirópolis - Doe. 62.34.
" 4 Idc-m, p. 2M.
202 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Francisco Adolfo cie Varnha

não ihe pareciam à altura de seu serviço.98 E com toda a clareza, resu- O livro, dividido em dois volumes, abrangia todo o pcríndo
mia o sentido não apenas de sua obra histórica, mas do conjunto de que vai do Descobrimento do Brasii (1500) à Independência do país
sua atividade intelectual: (1822), reivindicando realçar o "geral" na história.
Num momento em que o Estado monarquista havia logrado
... era para ir assim enfeixando-as /as províncias/ todas e fa- impor, no piano político, os princípios de um Estado nacional cen-
zendo bater os corações dos de umas províncias em favor dos tralizado, parecia desejável uma descrição do passado que salientasse
das outras, infiltrando a todos nobres sentimentos de patrio- os aspectos comuns como base de uma identidade nacional: "Assim
tismo de ilação, único sentimento que é capaz de desterrar a integridade do Brasil já representada majestosamente no Estado e
o provincialismo excessivo, do mesmo modo qne desterra o no Universo pela Monarquia, vai agora, bem que mui humildemen-
egoísmo, levando-nos a morrer pela pátria ou pelo soberano te, ser representada entre as histórias por uma história nacional".101
que personifica seus interesses, sua honra e sua glória. Numa anotação posterior do primeiro volume, Varnhagen des-
Em geral busquei inspirações de patriotismo sem ser no ódio crevia seu procedimento metodológico, a fim de salientar o desejado.
a portugueses, ou à estrangeira Europa, que nos beneficia com
ilustração; tratei de pôr um dique a tanta declamação e servilis- ... um dos maiores empenhes que tivemos neste Ensaio (que
mo à democracia; e procurei ir disciplinando produtivamente tal lhe devemos por enquanto chamar) foi o de ahaicar, por
certas ideias soltas de nacionalidade..." assim dizer, no menor volume possível, os fatos capitais ycoii-
tecidos nas diferentes províncias: a fim de que o desenvolvi-
Desse modo, ele próprio colocava a medida de suas atividades mento sucessivo do todo se chegasse a apreciar meihoi. u que
historiográficas, enquadrando-as no contexto histórico. Sua intenção não se poderia conseguir, parando de quando em quando de-
de promover a formação da nação brasileira também marcou, é cla- masiado num ponto... e reduzindo a narração a uma enfiada
ro, sua historiografia. de pequenas narrações. 102
Os contornos da historiografia de Varnhagen foram nitida-
mente marcados, em igual medida, pela ligação do autor com o Es- É parte do quadro histórico de Varnhagen, igualmente-, a exis-
tado e seus representantes. Varnhagen finaliza uma carta a Pedro II: tência das raízes de uma "brasilidade" já no século XVIí, algo que,
"Porém, Senhor, seja qual for o ardor do espírito para as lides e traba- segundo sua opinião, apresentou-se na luta contra as tropas coloniais
lhos mentais, o coração e o braço hão de ser de Vossa Majestade".100 holandesas:
Sobre esses dois pontos, traremos maiores detalhes na parte final.
Vejamos agora os princípios metodológicos e o entendimento A verdadeira nacionalidade brasileira de hoje nascer, a i i i e s d.i
de história em que se fundamenta a obra. independência, já existia 110 Arraial de Bom Jesus cm Pernam-
buco, em frente do poder dos holandeses, c não eia índia:
9S Nessa carta, ele se queixava de que seu nome não havia sido incluído na lista
dos dignitários do Império de dois anos antes. Na época, ele teria se calado,
pois pretendia esperar o término de sua obra. Conforme nota anterior.

09 Idem. 101 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral do Brasil, l ed.,


100 Idem. 102 Idem, p. 478.
204 Historiografia e Nação no Brasil 183S-1857 Francisco Adolfo de Varnhagcn 205

era crioula e cristã, era, portanto, já há m a i s de dois séculos, Interessante notar quais conceitos são atribuídos a que parce-
brasileira.1"3 la da população: civilização aos colonizadores portugueses, barbárie
aos escravos negros e selvageria aos indígenas. Uma vez sendo a in-
Por conseguinte, ele finalizou o primeiro volume da História tenção declarada de Varnhagen escrever "uma história geral cons-
Geral com a expulsão dos holandeses, evento em que o autor reco- cienciosa da civilização de nosso país",105 ele agia de modo coerente
nhecia a forja do sentimento nacional brasileiro. A história era inter- ao acentuai- com uma tónica especial o papel dos brancos.
pretada por Varnhagen como a história da nação em desenvolvimen- Em consonância com esse conceito, o historiador iniciou seu
to c, para ele, a nação era idêntica ao império. O Segundo Império trabalho com o Descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral,
surgia para ele como a coroação de uma história que decorre re- no ano de 1500. Algumas expedições de brancos também foram
tilínea, com o Estado monarquista, na pessoa do imperador, corno mencionadas, mas é corn Cabral que "se inicia verdadeiramente a
suprema ratio. história de nossa colonização e civilização".101'
É preciso lembrar aqui, rnais uma vez, que Varnhagen se for- A população indígena natural da terra aparece pela primeira
mou na tradição do Iluminismo português, que se orientava forte- vez no oitavo capítulo (de um total de 31) do primeiro volume.
mente pelo Estado e, ern consonância com esse conceito, Pedro II se Isso nos aproxima do cerne da polémica que se seguiu à publi-
aproximava do protótipo do soberano ilustrado - embora também cação da História Geral. Os que criticavam Varnhagen assinalavam es-
com certo atraso: o imperador que se valia do conhecimento para pecialmente dois pontos: a descrição da colonização e, com ela rela-
melhor governar. cionada, portanto, a avaliação dos indígenas e de sua contribuição à
Civilização, um dos conceitos centrais do discurso do Ilumiriis- nacionalidade brasileira. Os adversários da rejeição do "indiauismo"
rno, também desempenhou papel significativo na historiografia de e do "caboclismo" de Varnhagen eram, em sua maioria, os poetas e
Varnhagen. Isso porque ele tratou de apresentar o quão importan- escritores românticos, que viam rio indígena o verdadeiro responsá-
te a colonização branca do Brasil pelos portugueses era responsável vel por uma nacionalidade brasileira.
pelo património da civilização: Sua posição fundamental em torno da questão indígena já fora
formulada pelo próprio Varnhagen, n u m a reação à descrição posi-
Insistimos, porém, mais do que nenhum dos que nos precede- tiva dos indígenas, publicada por Gonçalves Dias (1823-1864) - uru
ram em trabalhos idênticos, na verdadeira apreciação compa- dos mais conhecidos poetas do Romantismo brasileiro.
rativa do grau de civilização dos coloni/.adores, do de barbárie Em 18 de julho de 1852, ele enviou ao imperador seu texto
dos colonos escravos trazidos impiamente da África e cio de concebido como resposta: "... de não deixar para mais tarde a solu-
selvageria dos povos, últimos invasores nómades que ocupa- ção de uma questão importante acerca da qual convém muito ao país
ram em geral o território que hoje chamamos Brasil." 14

05 Conforme nota 101, p. VI.


103 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. Como se deve entender a nacionalidade na histó- 06 Carta de Varnhagen a Manuel de Araújo Porto Alegre, l". Secretário cio
ria do Brasil. Anuário do .Museu imperial. Petrópolis, 9, 1.918, pp. 229-36. 1HCB, de 20 de novembro cie 1857. Arquivo Histórico do Museu Imperial,
"l4 Conforme nota 10!, p. TX. Petrópolis- Doe. 023-1.
207
206 Historiografia c Nação no Brasil 1838-lHf>7

e ao Trono que a opinião não se extravie, com ideias que acabam por ração dos 7"a moios,110 dedicada ao imperador, em que a cokmi/ação
ser subversivas".107 é apresentada como violência e conquista, interpretando-se- a resis-
Varnhagen também expôs suas ideias em 1857, na Academia tência contra isso como luta justificada do que é americano e/ou
de História em Madri, sendo que, no mesmo ano, ele próprio as fez brasileiro contra o que é português.
publicar no jornal O Panorama,10* tendo ainda aproveitado o texto O imperador, a quem Magalhães fez uma apresentação pessoal
como introdução do segundo volume da História Geral do Brasil na Corte, colocou-se a favor da epopeia: entre otitras coisas, median-
Invocando Joseph de Maistre (1753-1821), Varnhagen salien- te apoio financeiro da publicação e envio de exemplares a intelectu-
tava que a história brasileira estava intimamente ligada aos elementos ais, tais como Varnhagen e o português Alexandre Herculauo, com a
europeus da colonização, e que só isso já bastava para se considerar a solicitação de se manifestarem a respeito da obra.
história do Brasil como uma história da civilização. A publicação da obra de Magalhães deu lugar a uma polémica
Mas mesmo Varnhagen tinha de reconhecer que os indígenas, radical na imprensa, em que se fizeram ouvir escritores como José de
excluídos da história nacional, haviam deixado suas marcas na cultu- Alencar, Manoel de .Araújo Porto Alegre e até o próprio imperador.
ra, como, por exemplo, na língua. Enquanto José de Alencar, autor do romance histórico mais
Considerando que a ideia de Varnhagen era a de que os indí- importante da literatura brasileira - O Guarani-, em que ilustrava o
genas não habitavam o solo brasileiro, mas dele apenas dispunham ideal da fusão pacífica entre os portugueses brancos e os índios, havia
(ao menos enquanto não estivessem ocupados em se eliminarem criticado de modo agudo a obra de Gonçalves de Magalhães, Manoel
uns aos outros, como ele polemizava), ele combatia energicamen- de Araújo Porto Alegre e o imperador assumiram posição favorável
te a interpretação da colonização a partir da exploração dos ín- em relação à obra.11'
dios. A colonização, a seu ver, foi o primeiro passo rumo à civiliza- Varnhagen não se deixou intimidar pelo engajamento impe-
ção, e aos indígenas jamais coube qualquer direito ao país: rial em prol da obra de Magalhães, e, numa carta de 25 de setem-
bro de 1856 enviada ao imperador, agradeceu o envio do exemplar,
... os índios não eram donos do Brasil, nem lhes é aplicável
negando a Magalhães qualquer qualificação literária e colocando-o
como selvagens o nome de brasileiros: não podiam civilizar-se enfaticamente sob julgamento: "infelizmente está o poema mui lon-
sem a presença da força, da qual não se abusou tanto como se
ge de poder, no mais mínimo, aspirar às honras da epopeia nacional
assoalha; e finalmente de modo algum podem eles ser toma- do século de Pedro II. Nem o assunto de tal Confederação bestial é
dos para nossos guias no presente e no passado em sentimen- verdadeiramente épico...".112
tos de patriotismo ou em representação de nacionalidade.109 Quatro anos mais tarde, o alvo da crítica radical se defrontou
na Revista do Instituto com as opiniões de Varnhagen acerca da ques-
Em 1856, Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882)
publicou, no Rio de Janeiro, a epopeia nacional brasileira A Confede- 110 MAGALHÃES, Domingos José de. A Confederação dos Tamoios. Rio de Janeiro:
Empresa Tipográfica 2 de dezembro. 1857, 324p. + 20p. Notas.
10/ Carta de Varnhagen ao Imperador de 18 de julho de 1852, p. 187v. 111 Para a reconstiliiição desse debate, veja-se: CASTELLO, José Aderaldo. "A
polémica sobre 'A Confederação dos Tamoios"'. São Paulo: FFCL-USP, 1953,
108 Conforme nota 49.
139p.
'"" Idem, p. 279. Veja-se também: VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral do
Brasil. ]. ed. Rio de Janeiro: Laemmcrt, 1854-7. v. 2, p. XXVIII. 112 Carta de V>mffSȒWao Imperador de 24 de setembro de 1856, pp. 235-8.
208 Historiografia c- Nação no Brasil ] 838-1857 pTaiidsco Adolfo de Vai nhagrn

tão indígena, como expostas na História Gemi do Brasil.u* O ohjelivo a nossa língua; e nós cumpriríamos assim um dever que nos
de seu artigo foi "a reabilitação do elemento indígena como parte impõem a religião, a moral, a dvili/ação e o Patriotismo." 1 '
que é da população do Brasil"."4
Por reabilitação, Gonçalves de Magalhães entendia provar ser O sentido representado por Magalhães em matéria de polí-
íalso designar os indígenas como bárbaros. Com a ajuda da análise de tica indígena surgia de um relacionamento alternativo entre urna
fontes históricas e, portanto, trabalhando do mesmo modo metológi- descrição positiva dos indígenas na literatura e projetos para sua in-
co adotado por Varnhagen, Magalhães provou que, na sociedade dos tegração concreta à sociedade brasileira.
indígenas, existiam instituições que correspondiam às instituições da Tanto Magalhães como Varnhagen não tinham dúvidas de que
sociedade portuguesa. Como prova, ele mostrava que, entre outras a concretização de um projeto nacional não seria.possível sem a in-
coisas, a estrutura social dos indígenas funcionava igualmente basea- tegração da parcela indígena da população, como já dito. Ambos, no
da em certos princípios e que dispunha de uma espécie de conjunto entanto, divergiam fortemente quanto ao modo e à forma de incluí-
de conceitos jurídicos. Desses fatos, ele concluía que, em toda parte, los e como os indígenas deveriam ser descritos no plano literário.
existiria um mesmo espírito humano. A existência de um sentimen- Num texto inicialmente concebido como introdução à Histó-
to, como o da hospitalidade, por exemplo, a seu ver provava que os ria Geral do Brasil, Varnhagen apresentou suas ideias a respeito da
indígenas possuíam propriedades semelhantes às dos povos cristãos. nacionalidade brasileira. Ele deu a esse texto o título prograiriatico
Em sua descrição, os indígenas eram apresentados como por- de "Como se deve entender a nacionalidade na história do Brasil".117
tadores de uma racionalidade e de uma moral que, mesmo com base O objetivo de Varnhagen e de todos que se engajavam em prol
em atitudes peculiares, também se apresentavam com condições para da formação de uma nação brasileira era, como na Europa, "... por
ser considerados "civilizados". Enquanto Varnhagen acreditava que a meios lentos, cautelosos e políticos, fazer que, em séculos futuros, da-
força era o meio apropriado para tratar os indígenas, Gonçalves de qui a duas ou três gerações, não haja um só servo, nem bugres bravos,
Magalhães se empenhava em "conclamar os indígenas à civilização e e todos venham na Pátria a ser cidadãos".118
ao cristianismo"." 5 A nação, no futuro, poderia certamente ser tuna comunidade
A revisão almejada por Magalhães da imagem do indígena no de cidadãos, mas só se os responsáveis por essa nação fossem brancos,
plano ideal - nesse sentido, deve-se mencionar, sobretudo, o âmbito já que, só sob a sua liderança, a nação poderia surgir:
da literatura, em que a epopeia indígena frequentemente aparecia
como a de heróis positivos - não era motivada, porém, exclusivamen- E desgraçadamente: quanto mais remontamos ao primitivo Es-
te por considerações de ordem humana, mas perseguia também ob- tado dos nossos Tupinambás, mais tropeços encontramos para
jetivos práticos: reabilitar ante a civilização, à qual nunca teriam chegado sem
os esforços quase excepcionais, de abnegação, dos primeiros
Se eles nos não dessem logo braços à lavoura e à nossa Ma- jesuítas...
rinha, dariam seus filhos, já sujeitos às nossas leis e falando

11:1 Rmisla dolHGB, Rio de Janeiro, 23, 1860, pp. 3-66. 116 Idcrn.
114 Idein, p. 6. "'Conforme nota 103.
"Mdem, p. 66. 118 Idcm, p. 232.
2! O Historiografia t.- Nação no Brasil l SÍÍX- I8f,7
Francisco Adolfo de Vai nhagrn 2i l

Não, a nacionalidade brasileira atual e futura, não é neta da


O quadro dos indígenas que se nos afigura com base em sua
antropofagia que a raça tupi havia trazido à nossa terra." 11 ' 1
descrição detalhada era considerado pelo próprio Varnhagen pou-
co prazeroso e urna crítica aguda em relação à apresentação do
Mesmo antes de Varnhagen chegar a examinar os indígenas
indígena como lê bon sauvage,: "A vista do esboço que traçamos, sem
cm sua História Geral ao Brasil, chegou a pronunciar opiniões que
nada carregar as cores, não sabemos como haja ainda poetas, e
iriam cunhar seus estudos.
até filósofos, que vejam no estado selvagem a maior felicidade do
homem..."123
Nos selvagens não existe o sublime desvelo que chamamos pa-
Varnhagen chegou a ponto de classificar contatos sexuais en-
triotismo, que não é tanto o apego a um pedaço de terra, ou
tre mulheres indígenas e homens brancos como contribuição das
bairrismo (que nem sequer eles como nómades tinham bairro
mulheres indígenas ao processo civilizador e à libertação do jugo de
seu), corno um sentimento elevado que nos impele a sacrificar
seus homens.124
o bem-estar e até a existência pelos compatriotas, ou pela gló-
A imagem dos indígenas traçada por Varnhagen justificava a
ria da pátria, com a só ideia de que a posteridade será grata...1-11
colonização corno empreendimento cíviíizador e iuta contra a bar-
bárie, em vez de criticá-la como empreendimento de conquista, tal
Uma vez que somente os portugueses possuíam o sentimento
como opinava parte da literatura contemporânea.
de patriotismo tão valorizado por Varnhagen, e apenas eles estavam
Como já mencionado, Varnhagen, após a publicação de sua
em condições de transmiti-lo, Varnhagen terminava por articular
obra, sofreu violentas críticas pelas opiniões vertidas acerca dos indí-
com isso uma nova comprovação quanto à necessidade de fazer deri-
genas. Na segunda edição da História Geral, ele ira to u dos indígenas
var a nacionalidade brasileira dos coloni/adores brancos.
no segundo capítulo, ainda antes cio descobrimento do país pelos
O tratamento da temática indígena para Varnhagen servia tão-
portugueses. Ele esperava, com isso, reduzir a censura de que sua
somente para a comprovação de que eles viviam em condições de
história brasileira teria sido escrita sob prisma português, crítica que,
barbárie e de; atraso. Todos os aspectos dessa sociedade "selvagem",
entre outras coisas, lhe era feita sob a alegação de -que os indígenas
de acordo com as palavras de Varnhagen, eram descritos em deta-
apareciam, na primeira edição, apenas no oitavo capítulo. 1 ' 25 Essa re-
lhes, sempre invocando a sociedade branca para fins comparativos.
formulação, porém, não era expressão de uma mudança de base em
Assim ele julgava a sociedade indígena: "os laços de família, primeiro
sua avaliação da problemática indígena.
elemento de nosa organização social, eram mui frouxos". 121
Não era apenas por parte da literatura que as opiniões de
Algumas páginas adiante, ele caracterizava os indíge-
Varnhagen a respeito dos indígenas eram criticadas. Varnhagen
nas como "falsos e infiéis; inconstantes e ingratos, e bastante
também teve unia polémica com um historiador contemporâneo,
desconfiados".12*2

119 Conforme nota 103, p. 232v. 123 Idem, p. 133.


120 ;o Adolfo. História Geral do Brasil, l ed., v. i, p. 98.
VARNHAGEN, Francisco 121 Idem, p. 172.

121 Idem, p. 46. ~ Essa crítica foi formulada por D'Avezac, cm análise da obra de Varnhagen
122 Idem, p. publicada no fíulldin (k La Société, de Geographie. Desse í ato, desci i volveu-se um
debate entre os dois membros da Société de Géographie.
212 Historiografia c \u<;ao no brasil 1838-1857

João Francisco Lisboa (1812-1863),12(1 cujos pontos centrais não di- , em todas as províncias - povo - classe social que algumas não
vergiam de sua controvérsia com Domingos José Gonçalves de Ma- possuem".128
galhães. 127 Com isso, Varnhagen tocava o problema básico de um país
O historiador Lisboa, que inicialmente costumava qualificar-se cm que uma terça parte da população era composta de escravos e
como aluno de Varnhagen, criticava em seu texto os comentários des- u m número desconhecido de pessoas vivia fora de determinado
te a respeito da colonização como luta justificada contra a barbárie "contrato social". 129 A minoria tinha plena consciência da profunda
c os métodos que Varnhagen defendia para "integrar" os indígenas. brecha entre essa minoria ciosa de pensamentos nacionais e urna
Tratando-se de uma polémica entre historiadores, ambas as vasla massa quase intocada por essas ideias, e dos riscos ciai resul-
partes procuravam apoiar seus argumentos em fontes. Um debate tantes para a consolidação do Estado nacional.
de estudiosos, cuja dimensão política contemporânea, contudo, era A constatação de Varnhagen de que o "povo" não existia em
muito clara, ou seja, como resolver a questão indígena. todas as províncias tocava nessa problemática. A força lhe parecia
Coerente com seu conceito de história, o historiador Varnha- : um recurso apropriado no trato com os indígenas: "A experiência
gen buscava encontrar na história também respostas para os desafios de cada dia nos está provando que sem o emprego da força não c
do cotidiano político. Quanto à integração à nação brasileira da par- ; possível repelir a agressão dos mais ferozes, reprimir suas correrias; e
cela populacional indígena, ele preconizava como modelo a atuação mesmo evitar as represálias a que elas dão lugar".1""
dos bandeirantes do século XVII, que haviam organizado empreen- , Pelo seu posicionamento cm relação aos indígenas, Varnha-
dimentos para capturar indígenas e empregá-los como mão de obra : gen, cie certo modo, distanciava-se daqueles que achavam que a cris-
na lavoura. i tianização era o meio apropriado para a solução da problemática in-
Varnhagen propunha que o Estado deveria apoiar iniciativas dígena.1'''1 Varnhagen julgava a catequese demasiadamente lenta para
privadas dessa espécie. Aos que realizassem tais caçadas humanas, se chegar ao objetivo almejado: "civilizar" os índios, a fim de tornar
dar-se-ia, como recompensa pela "ação de civilizar" os indígenas, um o Brasil independente dos escravos negros. A escravidão, na visão de
período limitado para disporem dessa força de trabalho. Esse mode- "* Varnhagen, era o maior mal, embora não tanto em ra/ão de escrú-
lo traria também uma solução para o problema da escravidão negra, : pulos morais, mas devido a seus efeitos, entre outras coisas, sobre a
pois, ern vez de buscar mão de obra noutro continente, tal "ação • cultura da emergente nação brasileira:
!
de civilizar" de indígenas brasileiros engendraria: "... um aumento l
de braços menos perigosos que os dos negros, porque, daqui a pou- • Sem identidade de língua, de usos e de religião entre' si, só a
co, estariam misturados conosco em cor e cm tudo, e então teria- i cor e o infortúnio vinha a u n i r estes ínfeli/es, coinunicaiido-se
i na língua do colono, estrangeira a todos, e por isso sempre por
• eles cada vez mais estropiada, em d e t r i m e n t o ate da educação

126 Sobre o historiador João Francisco Lisboa, veja-se: JANOTI I, Maria de Lour- ls Conforme nota 63, p. 32.
des M. João Francisco Lisboa: jornalista e historiador. São Paulo, Alica, 1977, p. 253.
129 ídem, p. 33.
1L" Sobre esse debate, veja-se: LISBOA, João Francisco. "Sobre a escravidão e a
130 Conforme nota 120, p. 178.
História Geral do Brasil pelo sr. Varnhagen". In Apontamentos para a História do
Maranhão. 1'etrópolis, Vozes, 1976, p. 577-605; VARNHAGEN, Francisco Adol- 131 Sobre isso, vcja-.sc neste trabalhe.) a descrição do tratamento deste terna do
fo. Os índios bravos e o Sr. Lviboa. Lima: Imprensa liberal, 1867, p. 65. ponto de visia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
214 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857 Francisco Aclolíu dt: V a r u ] i , i L > e n 235

da mocidade, que, havendo começado por aprender com eles os maus costumes: "... por seus hábitos menos decorosos, seu pouco
a falar erradamente, tinha depois mais trabalho para se desa- pudor, e sua tenaz audácia".136
vezar de muitas locuções viciosas.135 Ao nos referirmos, na primeira seção desta parte do trabalho,
aos escritos de Varnhagen, pudemos constatar ente sua atuação mui-
No Memorial orgânico^3 anteriormente referido, Varnhagen tas vezes era marcada pelo predicado de "pragmática". O mais impor-
sustentava a necessidade de urna solução política para a questão tante paradigma da historiografia brasileira situada na tradição do
da escravidão, aludindo à terrível imagem de uma rebelião dos Iluminismo daquela época era a ideia de que, da história, era possível
negros: extrair lições para o presente.137
As interpretações de Varnhagen acerca da história do Brasil
É urgentíssimo irnpedir-se que entrem ntais; e antes pedirmos eram fortemente impregnadas por questões políticas da época, para
todos amanhã esmolas e andarmos descalços que ver o belo e cuja solução a história, como cadinho de experiências passadas, ti-
risonho Brasil - a nossa pátria - convertida numa catinguenta nha uma contribuição a dar. Nesse sentido, sua observação do passa-
Guiné. E cuidado que eles não dormem tanto como se pensa! do era pragmática.
Já têm feito seus ensaios em vários anos, no Dia de Reis, em Um bom exemplo disso é a História das Lutas contra os Holan-
que se juntam por todo o Brasil, e só é para temer que uma vez deses no Brasil, publicado em 1871, em Viena.138 A obra foi iniciada
se combinem a um tempo. em 1867, por ocasião de uma estada no Brasil com o propósito de
E necessário tratar de equilibrar as raças, proteger por todos estimular os que duvidavam da vitória do Brasil na Guerra do Para-
os modos o seu cruzamento, para assim termos daqui a um ou guai (1865-70) . I39 Segundo a perspectiva de Varnhagen. os brasileiros
dois séculos uma população homogénea, condição essencial poderiam encontrar coragem para o presente a partir da luta de seus
para evitar no fururo contínuas guerras chás.131 antepassados, que durou 24 anos e foi coroada de êxito, contra um
dos maiores poderes da Europa na época.
O Memorial orgânico, redigido em 1849, foi a contribuição a Por sua vez, ria História Geral do Brasil, Varnhagen havia rela-
um intenso debate de política interna acerca da problemática do co- tado, em detalhes, a invasão dos holandeses no Nordeste do Brasil
mércio de escravos. Sua opinião era de que aqueles que apoiavam o durante o século XVII. As lutas que daí surgiram, segundo a visão
comércio de escravos apenas preparavam "um vulcão sombrio e terrí- de Varnhagen, foram úteis para o Brasil por dois motivos. Em pri-
vel para o Brasil".135 Varnhagen considerava o transporte de escravos meiro lugar, porque a nação brasileira se formou quase no sangue
negros para o Brasil desde o início da colonização a causa de todos do combate:

Cremos, sim, que uma guerra de tempos a tempos pode erguer


um país de seu torpor; cremos... poderia estabelecer, como

136
132 Conforme nota 120, p. 180. Conforme nota 120, p. 185.

133 Conforme nota 63. ; 137 Sobre o conceito de história do IHGB, veja-se o Capítulo 3 deste livro.

m Idem, p. 8. J ™ Conforme nota 69.

1:15 Idem, p. 30. \' Idem, pp. 5-29.


2 LG Historiografia t- Na<;ão no firasil 18:58-1857

estabeleceu, mais união e fraternidade, em toda a família já vendidos no nordeste, e abriram novos territórios. Achava Varnhagen
brasileira; cremos que se estreitam muilo nas mesmas fileiras que, com isso, como resultado da ocupação holandesa, tanto o norte
os laços de que resultam glórias comuns, e que não há víncu- como o sul do Brasil experimentaram um movimento civilizador.
los mais firme s que os sancionados pelos sofrimentos; e tanto Na perspectiva de Varnhagen, enfeixavam-se dois dos mais im-
que ao estrangeiro que peleja ao nosso lado e que derrama o portantes problemas de sua época num acontecimento histórico do
seu sangue pela nossa causa, lhe conferimos pelo batismo do século XVII: o advento da nação e sua definição como representante
sangue a mais valiosa carta de naturalização... 140 da civilização, razão pela qual, na obra de Varnhagen, a esse aconte-
cimento se atribui um significado simbólico tão intenso.
Com isso, Varnhagen, de forma muito elegante, também resol- Fiel à sua convicção de que cabe ao historiador proferir sen-
veu o problema dos estrangeiros que participaram da luta contra os tenças, Varnhagen opinava a respeito dos resultados da guerra con-
holandeses. }á que a guerra fez deles todos brasileiros, o princípio da tra os holandeses:
nacionalidade, tão importante no século XIX, pôde ser soerguido.
A presença dos holandeses, no entanto, promoveu a civilização O perigo comum fez aproximar mais do escravo o senhor e o
tio Brasil ainda em outro sentido. soldado europeu do brasileiro, ou do índio amigo... Por outro
De acordo com Varnhagen, por um lado, só o contato com lado, também o perigo comum aumentou muito a tolerância
a cultura holandesa elevou o nível das províncias (então chamadas dos povos de umas capitanias para as outras, e estabeleceu
capitanias) da Bahia e de Pernambuco. Nisso, ele destacava especial- maior fraternidade; de modo que quase se pode assegurar que
mente a atuação do Príncipe Maurício de Nassau e o embelezamento dessa guerra data o espírito público mais generali/ado por
da capital do Recife.141 todo o Brasil.
Para acompanhar a argumentação de Varnhagen, é preciso lem- Em definitivo: da invasão holandesa resultou algum proveito
brar, de- forma sucinta, o que de fato levou os holandeses àquela épo- para o Brasil? — grande: responsabilidade envolve a resposta,
ca ao nordeste: a região canavieira. O que pretendiam era dominar a quando, ao pensar dá-la, como que acometem nossos ouvidos
totalidade do comércio de açúcar, razão pela qual, de forma coerente, os lamentos de tantas vítimas... Confessamos que o primeiro
ocuparam também os portos da costa africana, de onde os negros eram impulso do nosso coração é o deixar a pena e chorar com
transportados como mão de obra para o Brasil. Devido à ação dos ho- elas... Infelizmente, porém, a civilização humana semelha-se
landeses, o comércio de escravos entre Brasil e África ficou fortemente em tudo ao homem: nasce chorando e sofrendo passa grande
prejudicado. Foi também essa a razão pela qual vieram para o sul des- parle da infância, até que se educa e robustece... F, não há
povoado do Brasil claramente menos escravos negros do que antes. De- dúvida de que, passados esses choros e esses sofrimentos, se
vido à sua conhecida posição negativa em relação aos escravos, Varnha- apresentou mais crescido e rnais respeitável..."'
gen julgava esse fato por si só como positivo para a evolução civilizatória
do Brasil. Isso porque, motivados pela falta de mão de obra, os bandei- Em resumo, é possível afirmar que Varnhagen interpretava os
rantes cruzavam o interior para capturar indígenas, que também eram eventos ocorridos durante os embates com os holandeses como passo
decisivo rumo à civilização do país e à formação de uma nação.
140 Conforme nota 120, p. 337.
H2 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. Uistóna Gemido fímsil, 2 ed., v. 2, pp. 6/9-80.
111 kU-m, p. 376v.
Francisco Adolfo de Varnha^eri 219

Não eram apenas questões de sua época que influenciavam a que... veio a conduzir-nos à única situação em que podemos, sern no-
íbrma como Varnhagen via a história, mas igualmente sua convicção vos ensaios, procurar ser felizes, e fazer-nos respeitar como nação".14b
monarquista e a fidelidade à dinastia de Bragança. No prefácio da Varnhagen estava convencido de que a monarquia, graças a
História Geral, do Brasil, ele formulou sua crença política: uma lei da providência, era o único caminho político possível para
a nação: opinião que era do maior significado para o cotidiano po-
Politicamente sendo por fortes convicções monarquistas, ad- lítico. Vale lembrar aqui que a monarquia como forma de Estado, à
miramos também a bela instituição das nossas assembleias época em que a obra foi redigida, de fato eslava sendo contestada
anuais, fomentadoras da integridade da nação, atalaias do por parcelas da opinião pública.
seu governo e fiscais dos próprios tributos; e rebclamo-nos Mais negativamente ainda, Varnhagen opinava a respeito da
sempre contra todo o exclusivismo dos poderes, contra toda revolta na Bahia em 1798, cujos seguidores haviam lutado contra a es-
absurda tirania, contra todo arbitrário absolutismo, parta cravidão e em prol de um Brasil republicano independente. Varnha-
donde parta. 143 gen abnegava decididamente os princípios da Revolução Francesa
que influenciava os atores sociais daquela revolta e desclassificava-os
No pano de fundo dessas orientações políticas, Varnhagen es- nos seguintes termos: "Nenhum deles homem de talento, nem de
tabelecia um julgamento dos movimentos políticos e sociais que se consideração; e quase todos libertos ou escravos, pela maior parte
formaram, sobretudo na segunda metade do século XVIII, contra a pardos".H/ Em sua crítica das ocorrências na Bahia, ele igualmente
Coroa portuguesa e sua política. Como exemplo, podemos mencio- formulava, com toda a nitidez, o medo eternamente presente das
nar aqui a Inconfidência organizada, em 1789, por grupos letrados camadas dirigentes do Brasil de uma revolta dos escravos:
da província de Minas Gerais, que em seu programa convocavam à
instituição da República (veja-se a introdução ao presente trabalho). ("orno se não fosse de bastante escarmento tudo quanto em
Ao descrevei os acontecimentos, Varnhagen reduzia o movi- França acabava de suceder, ao som desse grito, não falta-
mento à "incrível ousadia e leviandade"144 do aspirante Joaquim José ram na Bahia espíritos exaltados que de novo o invocaram;
da Silva Xavier (1746-1792), que, como único dos inconfidentes con- esquecendo-sc de que, quando em uma província com tanta
denado à morte, desde a inauguração da República era homenageado escravidão, a sua generosidade lograsse triunfo, libertan-
como herói nacional com o apelido de "Tiradentes" (epíteto que lhe do a todos os escravos, como prometiam, depressa, como
foi conferido porque era conhecido como alguém que sabia extrair se viu no Haiti, seriam vítimas destes, desenfreados e em
bem dentes). Com isso, Varnhagen tratava de menosprezar a impor- muitíssimo maior número. 148
tância desse movimento. Assim, Varnhagen considerava uma sorte a
descoberta a tempo da conjuração, pois, a seu ver, a instituição da Da "Revolução Pernambucana", uma revolta iniciada em 1817
República, "em meio ao Império majestático de Santa Cru/., seria um no nordeste do Brasil, cujo objclivo era a limitação do poder central
mal".145 E prosseguia: "Curvemos a cabeça ao decreto da Providência,
" 6 Idein, p. 281.
113 Conforme nota 120, v. 2, p. X. 147 Idem, p. 293.
144 Conforme nota 121, p. 1022. 148 Conforme nota 120, v. 2, p. 292. Veja-se também nota 134. No mesmo texto,
145 Conforme nota 120. v. 2, p. 281. esse perigo é claramente indicado.
sediado no Rio de Janeiro, o historiador da história brasileira teria Desde que Portugal estava no domínio estrangeiro a princí-
preferido nem haver tomado conhecimento: "E um assunto para o pio, c logo absolvido em uma guerra que mal podia sustentar,
nosso ânimo tão pouco simpático que, se nos fora permitido passar o Brasil, que fazia então de melrópole e representava a nação,
sobre ele uni véu, o deixaríamos fora do quadro que nos propusemos devia bastar-se a si mesmo, a fim de por meio de novos impos-
traçar".1'19 tos manter o governo e o decoro nacional.1-'"
No mais, Varnhagen advertia para o fato de que não se deviam
interpretar movimentos políticos de natureza regional, como os mo- A apresentação do Brasil como representante da nação indica
vimentos revoltosos mencionados, como precursores do movimento o rumo da opinião esposada por Varnhagen, no sentido de interpre-
da Independência, como sinal de anseios nacionalistas locais. tar a nação brasileira como ramificação da nação portuguesa. Por
Como Varnhagen declaradamente queria traçar a imagem de conseguinte, diante dos olhos de Varnhagen, a transferência da Cor-
um país homogéneo, esses movimentos significavam desagradável te e a política relacionada a isso (por exemplo, a abertura dos portos
contestação de seu conceito. O comentário final de Varnhagen a res- brasileiros ao comércio internacional) ganham o caráter de precur-
peito da "Revolução Pernambucana" desembocava numa louvação sores da Independência do Brasil. Movimentos fora do contexto esta-
patética da pátria: tal tinham de lhe parecer pôr em perigo e levantar obstáculos para o
papel civilizador do Estado.153
Ao provincialismo, associam-se apenas ideias de interesses pro- O ensaio de Varnhagen a respeito da história da Indepen-
vinciais, quando principalmente as de glória andam anexas ao dência do Brasil avaliava sua evolução de forma decididamente favo-
patriotismo, sentimento tão sublime que faz até desaparecer rável.'54 Esse desenrolar, de acordo com seus critérios, era determi-
no homem o egoísmo, levando-o a expor a própria vida pela nado pela presença do príncipe-herdeiro, o que servia igualmente
pátria, ou pelo soberano que personifica o seu lustre e a sua como garantia da coesão de todas as regiões do futuro Império. A
glória.™ partir da relação com Pedro I, o ensaio de Varnhagen se encenava
com as seguintes palavras: "Terminamos, pois, saudando, com vene-
Ao contrário das pretensões regionais, a mudança da Corte ração e reverência, a memória do príncipe FUNDADOR DO IMPÉ-
portuguesa para o Rio de Janeiro (1808) era descrita positivamen- RIO". Em sua obra-prima da História Geral do Brasil c no ensaio con-
te, com o então d. João elogiado como "o primeiro que teve a ideia cebido como sua continuação, a História da Independência do Brasil,
de fundar um novo império no Brasil".151 A transferência do centro Varnhagen preconizava conceitos e ideias qtte durante longo tempo
do Império português para o Brasil foi interpretada por Varnhagen ainda continuaram como determinantes cia historiografia brasileira.
Além dos círculos cultivados, a obra de Varnhagen provocou efeito
sobre as ideias de Nação e de identidade nacional de amplas camadas
da população.
119 Coníorrnc nota J 20, v. 2, p. 373. Nesta descrição do movimento, Varnhagen se
esforça para desvalorizá-los, na medida cm que acusava seus a to rés de copiar
algumas manifestações da Revolução Francesa. 1M Conforme nota 121, v. 2, p. f .092.
If '° Conforme nota J 20, v. 2, p. 392. 153 Conforme nota 120, v. 2, especialmente p. 375.
lr>> Icrlcm, p. 313. lr"1 Conforme nota 76.
222 Historiografia e Nação no Brasil 1838-1857

O surgimento do mito de Vamhagen eosno "pai da historiografia Com base na troca epistolar com o imperador, ia foi apresentado
brasileira"
aqui o quanto Varnhagen manifestava apreço pelo próprio trabalho,
entendendo-o como serviço à nação.l;>7 Esse serviço mereceu reconheci-
Neste item, examina-se a questão em torno das razões que le- mento por parte do Estado e de seus representantes; assim foi mediante
varam Varnhagen a entrar para a historiografia brasileira como seu o empenho do imperador em prol das obras de Varnhagen e a outorga
"fundador" e/ou "pai", apesar de sua obra, vista meramente em or- a ele de um título nobiliárquico. O título que lhe foi conferido de "ba-
dem cronológica, não ter sido a primeira descrição global da história rão" (mais tarde "visconde") de Porto Seguro, carregado de simbolis-
do Brasil.153
mo, indicava o sentido pelo qual sua obra deveria ser entendida. Porto
A classificação de Varnhagen como "pai da historiografia bra- Seguro era o nome da baía situada na Bahia, 'em que Pedro Alvares
sileira" já era adotada por seus contemporâneos, como se deduz da Cabral, em 22 de abril de 1500, pisou pela primeira vez o solo brasileiro.
manifestação do historiador João Francisco Lisboa em sua carta a A distinção, portanto, relaciona o nome de Varnhagen com
Varnhagen de 9 de maio de 1856.1SO a fundação, o descobrimento e o princípio. Assim como na baía de
E indubitável que seu trabalho representou um marco no que Porto Seguro começou, no século XVI, a existência física do Brasil, a
diz respeito a qualidade e volume, embora não me pareça ser essa a metáfora teve início, no século XÍX, com o Barão de Porto Seguro, a
única razão pela qual o mito surgiu e pôde consolidar-se. Sua utiliza- existência do Brasil como nação válida.
ção de processos metodológicos para a avaliação c o aproveitamento Varnhagen figurava como aquele que criou uma descrição des-
das fontes, a existência de um roteiro de indagações e interesses de sa nação - e para essa nação. A dedicatória dirigida ao imperador na
conhecimentos, que se situavam em seu contexto contemporâneo, segunda edição da História Geral dr> Brasil mostra o quanto Varnhagen
davam a seu trabalho um significado e uma especificidade especiais, tinha consciência dessa metáfora:
que certamente fundamentaram a construção do miio.
Ainda assim, o que foi objetivamerit.e novo ria obra de Varnha- A aceitação por V.M.I. desta dedicatória e os decretos de 14 de
gen não basta para íazê-lo o "pai da historiografia brasileira". Pode- agosto de 1872 c 16 de maio de i 874 - decretos que elevaram
mos nos valer de elementos da realidade histórica em sua relação Varnhagen à categoria de nobreza) - associando-rne ao ponto
com a avaliação da peculiaridade de sua obra histórica para bus- de partida da história da civilização do Brasil, são atos de sua
car compreender o surgimento do mito. Imperial magnanimidade, que por si sós acusarão aos leitores
futuros o reinado fecundo que produziu a obra, bem que ain-
da com defeitos, filha de aturado trabalho de uma vida sempre
1:1:1 Tal como já mencionado neste trabalho, a primeira descrição gera! da história voltada ao estudo e à investigação da verdade. 1 " 8
do Brasil teve origem com Robert Southey.
1;'6Ele se manifestou nos seguintes termos sobre Varnhagen: "Ao partir do Rio
de Janeiro para esta Capital, vinha já com o propósito de dirigir-me a v. e.,
a quem respeitava e estimava já como incansável e erudito investigador das
cousas pátrias, e ultimamente como pai da nossa história...". Carta de João 157 Como exemplo, pode-se tomar ;i cana já citada de Varnhagen ao Imperador
Francisco Lisboa a Francisco Adolfo de Varnhagen de Lisboa de 9 de maio de cie 14 de julho de 1857. Conforme nota 97.
1856. In VARNHAGF.N, Francisco Adolfo. Os índios bravos c o Sr. Lisboa. Lima: IBS \/f.j a _ sc a dedicatória de Vamhagen ao Imperador que consta da segunda edi-
Imprensa Liberal, 1867, p. 67.
ção do seu livro. Conforme nota 88.
224 Historiografia c Nação no brasil 1838-1857 Francisco Adolfo de Varnhagen 225

Na primeira seção desta parte, vimos como o mito Varnhagen A estas considerações respondem os negreiros: Histórias! Sem
perpassa todos os trabalhos escritos a respeito dele: mesmo que um o couro da Guiné, que seria do Brasil? Bárbaros! - O Brasil
autor criticasse- as posições de Varnhagen, sua importância como fun- seria então mais do Brasil e menos dos negros!159
dador da historiografia brasileira nunca foi posta cm dúvida. Muito
pelo contrário, esses trabalhos contribuíram para manter o mito sem- Colocando o foco no futuro da nação, Varnhagen condenava
pre vivo. aqueles que, por interesses de momento, defendiam o comércio de
Urna possível explicação para esse reconhecimento seria ver escravos necessário às plantações de café sem levar em conta, a partir
Varnhagen como membro e ideólogo da camada dominante do de suas categorias, a única possível estabilização da nação.
Brasil. A formação do mito "Varnhagen" certamente não será enten-
A questão aqui é saber em que medida, com base nessa consta- dida sem se levarem em conta sua vida e as etapas de seu desenvolvi-
tação, lemos condições de entender como foi possível para ele apre- mento intelectual.
sentar certas ideias, certamente marcadas por determinada elite, mas Já se disse que o interesse pela história nele foi despertado por
que extrapolavam as fronteiras desse grupo. Além disso, surge a se- seus contatos pessoais com os românticos de Portugal. Naquela épo-
guinte pergunta: "Na sociedade brasileira do século XIX seria ima- ca, contudo, nem em Portugal nem no Brasil, havia possibilidade de
ginável a produção de- um discurso histórico que não fosse marcado se treinarem historiadores, de modo que os interessados pela história
por uma elite cultivada e que, correspondentemente, conteria suas dependiam de métodos autodidatas. Tampouco existia a profissão de
ideias?" historiador, mas os que se dedicavam à história faziam-no de fornia
Vista mais de perto, constata-se, ria obra de Varnhagen, que marginal, paralelamente à sua profissão principal.
algumas de suas opiniões contrastavam com os interesses dos círcu- Como vimos, Varnhagen também foi, em verdade, diplomata.
los influentes e economicamente poderosos do país. Esse fato exige, No seu caso, porém, tanto na sua autocompreensãc como no enten-
pelo menos, uma avaliação matizada de suas alividades como ideó- dimento de seus contemporâneos, a "ocupação marginal" tornou-se
logo cia classe dominante. Isso pode ser explicado pelo exemplo da a ocupação principal. Varnhagen não foi um diplomata que se aven-
escravidão e do comércio de escravos. No Alc-worialrgânicosubmcíidu turava pela história, mas "o primeiro historiador do Brasil": sua inter-
aos deputados parlamentares, Varnhagen se ocupava dctalhadamen- pretação da história do Brasil provou-se a mais bem-sucedida.
te da escravidão, advertindo, com insistência, a respeito dos riscos A decisão cie Varnhagen de se dedicar à história teve tanto
que, em sua visão, eram ameaçadores: razões pessoais como necessidades sociais. Apenas olhando ambas
as circunstâncias é que podemos avançar na explicação de seu sig-
Egoístas insensatos! E sacrificais assim o futuro do vosso país a nificado.
um conto tle réis* (*antiga moeda cio Brasil) de menos ou de Uma história geral do Brasil correspondia à necessidade de
mais para as alfândegas! Quereis, pois, ver o vosso Brasil, daqui uma nação em busca de sua própria identidade. Sua interpretação da
a séculos, igual ao continente d'África fronteiro e vossos netos história brasileira pretendia fornecer não só a seus contemporâneos,
redu/idos talvex. à condição de servos dos netos dos africanos? mas também às gerações futuras, possibilidades para uma identifica-
(...) ção nacional.

159 Conforme nota 53, p. 30.


226 l listoriografUi r Nação no Brasil

Nesse sentido, vale a pena mencionar outra vez a caria de Var- Kssa mestiçagem, da qual Yarnhagcn também esperava o de-
nhagen, de 14 de julho de 1857, a Pedro II, em que insistia em cha- saparecimento total dos negros da nação brasileira, comprovava, a
mar a atenção para as consequências futuras de sua obra."'" Interpre- seu ver, a brandura dos contatos entre os colonizadores brancos e
tando o passado e oferecendo soluções para problemas de sua época, outros grupos étnicos. Foi dessa forma que se compôs, já entrando
o autor conseguiu impor certas interpretações da nação brasileira no século XX, a imagem apreciada dos brasileiros corno o povo do
que cunharam a sociedade e que se tornaram elementos quase: natu- ''homem cordial".
rais de uma identidade brasileira. Como um homem de sua época, O e n t e n d i m e n t o de Varnhagen da história brasileira sofreu a
ele interpretava o passado de uma forma que cainhava o futuro. influência da crença na função civilizadora da colonização, cujo tér-
No plano das ideias c a partir da perspectiva confessadamente mino já continha as sementes da realização das possibilidades exis-
limitada de uma elite cultivada, ele logrou formular a base da naciona- tentes.
lidade brasileira. Aqui certamente está a razão importante pela qual O Brasil aparecia como uni país do futuro, que abrigava em si
ele — e nenhum outro — se tornou "pai da historiografia brasileira"."'1 o necessário para se tornar um país rico no sentido rnais amplo possí-
Varnhagen vivia em meio a uma rede social, e sua interpre- vel. Essa crença, que se tornou bem comum, influenciou as relações
tação da história brasileira certamente também foi impregnada por políticas e as manifestações de atores sociais em todas as épocas da
essa mesma rede. Por outra parte, seu trabalho também influenciava história brasileira. As diversas guinadas na história política do Brasil
essa rede, fornecendo-lhe orientações, atitudes e modelos de identi- eram justificadas pelas pessoas responsáveis sempre sob essa perspec-
ficação. tiva. A mudança política servia em cada caso ao brilhante futuro do
À luz dos capítulos precedentes, voltemos, de forma breve, a Brasil, apresentado como fato indiscutível, e era assim legitimada,
descrever a força das interpretações de Varnhagen. l'm mito e uma utopia nacional, para cuja formação a obra de Var-
No capítulo a respeito da coloni/.acao do Brasil, Varnhagen nhagen certamente prestou contribuição decisiva.
muitas vezes acentuou a brandura desse processo em comparação Varnhagen, que, no decurso de sua vida, só passou curió
com o que ocorreu em outros países. Tanto a escravidão como tam- tempo no Brasil, era considerado um grande patriota, já que, atra-
bém a atitude em relação aos indígenas no Brasil teria sido mais hu- vés de sua obra, oferecia às camadas responsáveis pela nação mo-
mana do que, por ex., nos EUA, e nada tinha do exagero de que se delos de identificação, com a ajuda dos quais era possível sentir-se
falava: "A abundância de mestiços e mamelucos... vem em auxílio dos corno uma comunidade nacional. E como membro de uma elite
que cremos que o tipo índio desapareceu, mais em virtude de cruza- cultivada branca, ele logrou, com sen t r a b a l h o , criar valores e pon-
mentos sucessivos que de verdadeiro e cruel extermínio". 11 ' 2 tos de referência para uma identidade, que no decorrer dos tempos
foram sendo adotados por amplas camadas da nação. Inteiramente
160 Conforme nota 97. na tradição do Iluminismo, Varnhagen tinha uma elite cultivada
"'' Um procedimento de pesquisa valioso poderia ser a investigação de como como interlocutor, que: deveria ser educada consoante os novos
nesse caso a imagem da nação inicialmente muito circunscrita se transformou princípios. Assim, essa elite cultivada, ilustrada, teria condições de:
num motivo de identificação geral do conjunto da sociedade, lima investi-
gação do sistema de educação, especialmente no qvie se refere ao ensino da
organizar a sociedade de acordo com esses novos princípios. Como
história, poderia fornecer elementos de explicação. Contudo, um empreendi- se fosse um movimento de cima para baixo, em cujo final o conjun-
mento desse tipo extrapolaria os limites desta obra. to da sociedade teria sido abarcada, caso o processo da formação
162 Conforme nota 121, v. l, p. 207. da nação se completasse.
5

UMA NAÇÃO SEM ROSTO: A HISTORIOGRAFIA E


A QUESTÃO DA IDENTIDADE NACIONAL

"A hospitalidade que concedeis aos homens de inteligência,


o acolhimento que prestais aos idealistas não é infrutuoso para
a vossa gloria e paia o futuro do vosso trono: com eles marchareis
ao arquelipisnio da perfectabílidade; com eles tereis asas para voar
do Amazonas ao Prata; com eles formareis a alavanca que deve erguer o
vosso reinado acima cios de vossos antepassados; com eles
se hão de real i/ar vossas ideias sublimes/''

Foi assim que Manoel de Araújo Porto Alegre (1806-J879), na


qualidade de orador oficial do Instituto Histórico e Geográfico Bra-
sileiro, dirigiu-se ao Imperador d. Pedro II. O discurso foi proferido
no ano de 1848, por ocasião das festividades de inauguração das es-
culturas de dois fundadores do Instituto: Januário da Cunha Barbosa
e Raimundo José da Cunha Matos.
A celebração, que teve lugar no Paço da cidade, não bastasse
a presença do Imperado, assumiu um caráter oficial também pela
participação de ministros e do corpo diplomático. Segundo as esti-
mativas do instituto, o número de convidados chegava a 400. O dis-
curso de Araújo Porto Alegre reflete, com toda nitide/, a percepção

1 Discurso de Manoel de Araújo Porto Alegre, orador oficial do Insituto, em


0/4/18-18, Rívista d« IHGB. Rio de Janeiro, 11,1848, pp. L' l 5-34.
230 l lisiorioKralia c Nação no Brasil 183K-185/

daqueles intelectuais que estavam fortemente engajados no projeto das contingências desse mesmo processo. K bem verdade que o tra-
de uma historiografia do Brasil. A citação mencionada c um bom tamento do passado conquistou relevância no caso do Brasil, o que
exemplo do valor dado pelos intelectuais à importância e ao senti- pode ser explicado fundamentalmente por duas razões.
do de urna historiografia, que, segundo percepção da época, fa/ia De um lado, o passado como colónia e, ern consequência, a
parte do processo de construção da nação. Mais ainda, a história dependência política d i f i c u l t a v a m , â primeira vista, a constatação
nacional surge como marco de uma nação civilizada. No mesmo dis- de uma nação brasileira independente preexistente. Ao contrário,
curso, Porto Alegre comparou os povos que- não dão importância à a história mostra como o Brasil integrava o império colonial portu-
história com bárbaros sem futuro.' Portanto, não há nação civilizada guês e, portanto, constituía-se em parcela dependente- dos princí-
sem história. pios da política colonial lusitana. Na historiografia brasileira então
Neste capítulo final, pretende-se abordar a questão de como e em formação, o Estado como conceito político desempenhou papel
em que medida a historiografia brasileira, que- teve seu início tanto extraordinariamente i m p o r t a n t e (o Kstado como prova de inde-
no trabalho do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro corno na pendência e de maturidade), razão pela qual os acontecimentos
aluação de Varnhagen, desempenhou papel importante no processo de 1808, em torno da transferência da corte para o Rio de faneiro,
de construção da nação. De resto, trata-se de ressaltar características adquiriram importância especial no quadro histórico traçado por
importantes dessa historiografia que se desenvolve no processo de Varnhagen.' A alteração jurídica da condição do Brasil, ocorrida
construção da nação. sete anos mais tarde (elevação â K e i n o Unido de Portugal, Brasil
A relevância da história no processo de construção da nação e Algarve), por isso mesmo não mereceu atenção espeeial de Var-
e no processo de elaboração da identidade nacional se evidencia na nhagen. Disse ele: "Para nós Brasil já sem essa declaração era reino
medida em que contribui para distinguir as nações entre si. indivi- emancipado desde 1808..."'
dualizando-as a partir de determinadas qualidades. No processo de Justamente aí, quando o passado colonial se manifesta clara-
construção da nação, a história é interpretada de tal fornia que o mente contra uma nacionalidade autónoma e- independente, exige-
próprio processo surge como fato dado e perene. Do ponto de: vista se da historiografia uma clara delimitação da mãe-pátria, a fim de for-
da nação, a história é interpretada como se a nação já ti/esse parte do talecer e salientar a identidade peculiar. Um processo dessa natureza
núcleo do passado.3 Corno já assinalado, o ponto de vista de Varnha- já parecia ter sido trilhado por um país como o México.1'
gen, a respeito da questão do sentido da história brasileira, pode ser
resumido ria busca das raízes da nacionalidade brasileira na história. ' VARXHAÍ ;KN, Francisco Adolfo. J Intima gimt ao Brasil, l ed., 2v., cm especial
De antemão, ele reconhecia indícios disso nos latos cia expulsão dos capítulos -W, 50 e 51. Varnhagcn resumiu nos seguintes ferinos o significado
holandeses, no século XVII. da transferência da Corte para o Brasil: ''Pelo que respeita ao Brasil, urna nova
era vai abrir-se-lhe: em vê/ de colónia ou de principado honorário, vai ser o
Nesses termos, no Brasil do século XIX, o tratamento do pas- verdadeiro centro da monarquia regida pela casa de Bragança; e para nós da-
sado não foge à regra: sua interpretação deve levar em conta o con- qui começa a época do icinado, embora o decreto de elevação a reino .só veio
texto do processo de construção da nação, a fim de esclarecer os elos a ser lavrado em fins de 1815" (p. 298).

2 Idem, p. 219. Sobre o papel da historiografia paia a identidade mexicana, veja-se: VAS-
QUKS, Joseíma /.oraida. \ricwnalis>n« v fducacum eu México. México: Kl Colégio
1 Sobre o sentido de unia história para o devh da nação, veja-se ALTKR, 1'etei.
de México, l'.)/<.), :«lp.
Nalimm!.ismus. Frankínrt a. M., Snhi kamp, H)S5, I79p.
F, bem verdade qnc, no Brasil, a evolução foi diferente. Aqui como referência. Se fôssemos aplicar o conceito de povo elaborado
a historiografia se viu perante a tareia, não ele sublinhar uni rompi- por Karl Oeulscb, 9 seria problemático falar cie um povo brasileiro, a
mento em relação a Portugal, mas antes de traçar unia continuidade. essa altura.
Em carta já cilada de Yarnhagen ao imperador, de 14 de julho de Seu conceito de povo implica dois aspectos importantes: um
1857, o historiador assinalava que o patriotismo que defendia não processo de mobilização, o qual, por sua vez, exige uma comunica-
se baseava na premissa de uma ruptura em relação a Portugal, nem ção intensa entre os atores envolvidos nesse processo.
As duas mudanças sociais não são passíveis de identificação no
mesmo em relação ã Europa.'
A razão disso, nós já conhecemos: a política colonial adotada Brasil da primeira metade do século XIX. Mesmo assim, a partir de
pelo Estado português tinha um caráter civilizador e. assim, favorecia alguns dados dessa realidade, é possível obter uma imagem concreta
o progresso tio Brasil. A colonização do Brasil se apresentava como da sociedade.
missão civilizadora e era, pois, estimada corno muito positiva. A população não se distribuía uniformemente no país, mas
mostrava forte tendência de concentração em duas regiões - o nor-
deste e o sudeste - onde era produzida a maior parte dos artigos de
Não cremos razoável, nem generoso, nem nobre, nem anima- exportação.
dor da c.oloni/acfio europeia de que tanto carecemos, lembrar No decorrer do século XIX, nessas duas regiões vivia cerca de
de parte a. parte só o que de queixa, sem pôr ao lado o m u i t o 85% da população brasileira. No que tange à concentração dos escra-
que pede louvor e gratidão." vos, repetia-se a mesma tendência, com uma concentração de- cerca
de 90% dessa parcela populacional nas duas regiões citadas.
Certamente, o passado colonial do Brasil frisava a necessidade A maior cidade do país era o Rio de Janeiro, cujo número de
habitantes, à época do traslado da Corte, em 1808, era de 54.255
de dedicação à história, para traçar um quadro do país c da nação
pessoas. Um ano após a Independência, esse número havia quase
com sentido particular, sem que isso fosse visto como um rompimen-
dobrado (100 mil pessoas), sendo que, de acordo com os dados do
to com a antiga metrópole. recenseamento oficial, a população cia capital do Império, em 1872,
Existe ainda um segundo aspecto que imprimia um forte sig-
alcançara a cifra de 274.972 moradores. Aliás, o Brasil manteve o ca-
nificado à ruptura com o passado no caso do Brasil. A estrutura po-
ráter de um sociedade agrária apoiada no trabalho escravo ao longo
pulacional m u i t o diferenciada, tanto no sentido social como racial,
de todo o século XIX. 10
exigia, na medida do possível, a promoção de uma imagem da na-
cionalidade que tivesse validade geral e que servisse para eliminar ' Karl Deiitsch d e f i n i u nos seguintes termos o conceito de povo: ''Uni povo é, por
imagens divergentes. sua vê/., t u n a larga rede de comunicação para todos os sentidos emrc os seres
Essa estrutura populacional de cai ater variado dificultava invo- humanos. K uma reunião cie indivíduos que conseguem se c o m u n i c a r entre
car uma herança comum, inviabilizando, assim, a instauração de al- si de modo cfetivo t' rápido, ultrapassando distâncias e sobre diferentes temas
e conteúdos." Cl. DKUTSCII, Karl. Natiim und WelL In WINKLEK, Heinrich
gum elemento de comunhão importante ou um ponto de identidade August (org.). Natwnalismw. Kõnigstein/Ts., Vedagsgruppe A t h e n ã u m , liain,
Skriplor, Hanstein, 1978, p. 50v.
Carta de Varnhagen ao Imperador, de 1-1/7/1857. Arquivo do Museu Impe- 10 O número de habitantes das principais cidades do Brasil em 1823 correspon-
rial, 1'etrópolis, Doe. 0234. dia precisamente a 8,49% do total da população do país e, em 1872, 10,41%.
Veja-se CAKVA1.I IO. José Murilo de. A construção da ordem; a elilt' política impe-
" VA RN! IAGF.N, F. A., op cit,, p. '.M 7.
234 Hisioiiosjr.itía e Nação no Brasil 1838-1857

Nessa época, o que se produzia era. primordialmente açúcar,


algodão e caie. Muito impressionantes são os seguintes dados: no ESTRUTURA DEMOGRÁFICA DO BRASL
período de 1821-23: de todas as receitas da exportação do Brasil,
l _— „

67,7% se deviam à exportação desses mesmos produtos; etn 1871-74, 1808 1823 1850 1864 1872
os mesmos três produtos representavam 79,1% de todas as expor- Escravos
1.147.515 2.500.000 1.715.000
tações (o café participava, sozinho, com 50,2%). n 1.510.806
" — -—
Livres
Não há, portanto, referências que ptidessem indicar uma reor- 2.813.351 4.734.000 7.230.000 8.419.672
Total
denação profunda da sociedade, capa?, de representar um processo 2.419.000 3.960.000 7.234.000 8.945.000 9.930.478
de mobilização social no Brasil. Embora não se possa propriamente
falar de uma sociedade estamental, 12 é preciso admitir que a ordem C) aparato conceituai de Deutsch também se fundamenta na
instituída, caracterizada pela marca da grande propriedade de terra, comunicação entre as pessoas, o que significa um intercâmbio de
constrangia as possibilidade de nrobilidade social. Vide tabela:13 ideias e notícias. Isso, por sua vez, implica uma alfabetização da po-
pulação e a criação de um público.
riai Rio de Janeiro: Campus, 1980, p. 73. Os números, no entanto, nos dão um quadro sombrio no que
" Veja-se LKFF, Nathaniel H. Underdevelopmeni and Developmenl in Brazil, v. II. diz respeito à alfabeti/ação da população brasileira no século XIX.
Reassessing tlie obstacles to economlc development. London: Georg Allen & Apesar de a constituição do Império garantir educação primária gra-
Unwiii, 1982, p. 9. tuita para todos os cidadãos, as cifras nos mostram uni nível bem
12 A constituição cio Império do Brasil no parágrafo VIIÍ "Das disposições gerais e baixo de alfabetização.
garantias dos direitos civis e políticos dos cidadão brasileiros", artigo 179, afir- No ano de 1857, na época do mais forte boorn económico ca-
ma claramente que todos os privilégios que não estejam relacionados com as
feeiro, quando eram aparentes os sinais de prosperidade, o número
funções públicas ficam extintos. In TORRES, João Camilo de Oliveira. A demo-
cracia coroada; teoria política do Império do BrasiL Petrópolis: Vozes, ]964, p. 495. de alunos nas escolas primárias piiblicas era de 70.500 e de 12.500
alunos nas escolas primárias privadas, o que quer dizer que apenas
13 Até 1872, não havia no Brasil censo demográfico oficial e, por isso, todos os da-
dos têm o caráter de estimativas. Os números resultaram das seguintes fontes: cerca de 1% do total da população e cerca de 6,8% da população em
Memória estatística do Império do tírasil. Tomando por base o princípio mercanti- idade escolar obrigatória frequentavam a escola e podiam ser alfabe-
lista de que o bem-estar de uma nação é o termómetro do crescimento popu- tizados."
lacional, esta obra resulta da elaboração de indicadores para o período que se
estende entre 1808 e 1823. Em relação ao ano do primeiro recenseamento, ocorrido em
Veja-se: Revista do 1HGB. Rio de Janeiro, 58, 1895, pp. 91-99. 1872, estimava-se em cerca de- 8 mil (0,08%) o número dos que ha-
Além disso: viam concluído os estudos de faculdade. } a fosé Murilo de Carvalho
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Diretoria Geral de Estatística.
Recenseamento do Brasil, 1/9/1920, v. I. Rio de Janeiro, 1922. logo após a
realização do censo demográfico de 1920, o ministério encarregado lançou a
público um estudo retrospectivo sobre a estrutura demográfica do Brasil no prusent. Baltimore, London:John Hopkins University Press, 1979, 385p.
século XIX.
14 Veja-se r 1AV1GHLÍRST, RobertJ. &• MOREIRA, J. Roberto. Sodely and educai um.
LEFF, Nathaniel H. & KLEIN, Herbert S. "O crescimento cia população não
in Brazil. Univesity of Pittsburgh Press, 1965, p. 85.
europeia antes do início do desenvolvimento: o Brasil do século XIX". In
Anais de História. Assis, 6, 1974, pp. 51-70. MERRICK, Thomas W. & GRA- 13 \'"eja-sc LKFF, Nathaniel II. (mderdevdofjirtcnt and Daidopment in Brazil. v. U.
E1AM, Douglas H. Population and emntmuc developmenl in Brazil. 1800 to the Reasscssing the obstadas to cconom/f devdrrfmient. London: Gcorg Allen & Unvvin,
1982, p. 65.
2;Í6 Historiografia c Na<,ão no Brasil 18:.!8-18:V

caracterizou essa situação de "unia ilha de sábios"."' Não íoi a par- cado pelos princípios cio Iluminismo, numa reprodução precisa das
tir de uma esfera pública ampla, mas antes no seio de um pequeno áreas circunvizinhas, mas espelhando também um interesse prático
círculo limitado que surgiram os temas, conceitos e ideias da nação no sentido de conhecer melhor o país.
brasileira. Lma nação brasileira tinha como condição uma área mais me-
No que concerne à comunicação dentro do Brasil, o quadro nos estruturada, tarefa que o Segundo Império havia atacado a partir
não era muito diferente: cm 1854, no Brasil, só existiam 14 km de dos vários níveis da vida social: integração da infraestrulura do país,
linhas ferroviárias (à mesma época nos Estados Unidos já existiam a centralização política e a imposição do Estado burocrático, mas
mais de 20 mil km), sendo que os transportes dentro cio país se igualmente o apoio à historiografia como tradição instauradora da
realizavam ainda por meio de animais de carga ou por vias aquáticas, comunidade.
como ocorria nas províncias situadas na costa oceânica.17 Embora, no caso do Brasil, o uso do conceito de povo em seu
Praticamente não é possível falar de um mercado integrado, sentido alemão pareça um tanto problemático, não se pode negar a
ainda mais porque o transporte de mercadorias, inclusive dentro do evidência de um Estado brasileiro a partir de 1822. Desde o traslado
Brasil, era onerado por tributos. Nesse sentido, é muito ilustrativo da corte para o Rio de Janeiro (1808), o Estado português já havia
o exemplo da Guerra dos Farrapos (1835-45) no sul do Brasil, cuja empreendido medidas decisivas no sentido de uma atenuação da
principal queixa contra o governo central era que os impostos e a po- condição de colónia do Brasil (por exemplo, a decretação da abertu-
lítica financeira do mesmo oneravam demasiadamente a produção ra dos portos brasileiros ao comércio internacional).
regional de carne seca e de couro, impossibilitando a produção de A existência histórico-objetiva de uma circunstância política
competir com a produção originária da região cio Rio de La Plata. no caso do Brasil favoreceu a promoção e o advento da nação. Além
As pessoas, para se locomoverem, e para se disseminarem disso, o processo de formação da nação foi facilitado pelos limites
as notícias, do interior ou do exterior, ainda demandavam muito geográficos rigidamente existentes, e a divisão da terra brasileira foi
tempo, já que rio Brasil a divulgação de notícias só foi acelerada ern herança da estrutura administrativa portuguesa.
1874, com o telégrafo. Em 1853, a organização administrativa do Império compreen-
Analisando a revista do instituto, já bavíamos assinalado que se dia 21 Províncias e um Município Neutro (comunidade neutra). Um ter-
dava muita atenção ao terna da exploração do interior do país e aos ritório fixo c a proporção continental de sua área geográfica como
relatórios de viagens. Não há dúvida de que esse fato espelha certo referências desempenharam papel significativo para a construção da
ponto de vista das ciências humanas, engajado, num contexto mar- nação brasileira. Acrescente-se a isso a disseminação generalizada do
idioma português por todo o território do país, o qual, apesar de algu-
mas peculiaridades regionais decorrentes da influência dos idiomas
'Mdem, p. 51.
dos negros e- cios indígenas, não criou quaisquer dialelos específicos.
17 Sobre as estradas mais importantes que fa/iam a ligação entre o interior e Mesmo que o idioma francês (osse obrigatório na elite cultiva-
a capital, Rio de Janeiro, veja-se LE.NHARO, Alcir. As tropas da moderação; o
da, o que era herança do sistema educacional lusitano, o idioma por-
abastecimento da Corte na formação da política fio lírasil - 1808-1842. São Paulo:
Símbolo, 1979, p. 148. tuguês se tornou a língua de comunicação generalizada. 18 O desafio
O autor demonstrou, ern seu trabalho, que os caminhos existentes no século
XIX eram os mesmos que já existiam desde o tempo do boom do ouro, ocor- 18 Quando Varnhagen publicou o primeiro volume de sua obra, repeliu com
rido no século X V I I I . Nesse sentido, da expansão das plantações de café na firmc/a, no pósfácio, a recomendação que recebera para preparar a edição cm
província do Rio de janeiro, decorreram ourras mudanças. francês. A recomendação era quase um xingamcnlo, afirmou ele.
238 Historiografia c Nação no Brasil 18.'!8-1857

da tarefa de criar uma nação foi assumido pelo Estado e pelos intelec- como resultado de determinada evolução histórica, que se desenrola
tuais de muitas formas diversas relacionadas com a mesma intenção. no caso do Brasil apenas no século XIX. Quer dizer, não se trata de
Isso porque, à diferença, por exemplo, da Alemanha, a inteligência um (ato que sempre existiu, cujas raízes já se poderiam constatar no
no Brasil eslava muitíssimo mais integrada aos trabalhos do aparelho início da colonização, obedecendo aos princípios de uma ocorrência
estatal e no poder.19 genealógica, mas de uni fenómeno determinado historicamente. 2S
As atividades dos intelectuais reunidos no instituto Histórico Hans-jurgen Puhle, em seu artigo sobre o tema do naciona-
e Geográfico do Brasil, bem como o grupo de Francisco Adolfo Var- lismo na América Latina, caracteriza esse nacionalismo desenvol-
nhagcn, são prova cabal disso. O Estado e a nação constituem urna vido no século XIX como nacionalismo tradicional, "em oposição
só unidade c a mesma coisa, e é assim que se nos apresenta a histo- ao nacionalismo que, no século XX, foi se tornando um naciona-
riografia de Varnhagen: uma história do Estado, primeiramente do lismo anti-imperialista, motivado economicamente, c cada vez mais
Estado português, depois do Estado brasileiro, como motor da vida importante...". 23
social. Como passo rumo à construção da nação, caberia ao Estado K importante notar que, no seio desse processo, a lealdade para
inclusive a tarefa de promover o povo como produto social. com a nação por parte dos indivíduos adquire um lugar mais
Em um de seus textos, o Memorial orgânico, Varnhagen expres- proeminente do que qualquer outro tipo de vínculo. Essa leal-
sava plena consciência do papel que cabia ao Estado nesse processo, dade, porém, não surgiu por si sei; ela teve de ser doada, e Varriha-
sobretudo em relação a uma política indigenista que precisava ter gen tinha plena consciência de sua formação: "O patriotismo para
como meta a integração desse grupo populacional. 20 com a nação" é o mais importante antídoto para o regionalismo e o
Num lexto cie 1863 sobre o fumo ria província da Bahia, com egoísmo, e provoca um sentimento de autossacriíício pela nação e/
propostas para melhorar seu aproveitamento, essa preocupação se ou pelo soberano, que, na opinião de Vanibageii, representa a per-
manifesta outra vez, no sentido de que o apoio desse ramo agrícola sonificação dos interesses da nação.24 Assim, Varnhagen expressou,
deveria contribuir para a criação de uma categoria de pequenos pro- com toda a nitidez, o entendimento de nação que se tinha no Bra-
prietários de terras, o que, por sua vez, serviria muito para a "conso- sil daquela época: o Estado, a coroa e a nação reunid/os numa só
lidação da nação".-1 O Estado e a nação, no caso do Brasil, estavam unidade.
em íntima relação. A compreensão e a formação do conceito de nação no Brasil
O período por nós aqui estudado coincide com o processo de se deram numa tradição totalmente diferente, por exemplo, da In-
promoção da nação brasileira. Foi nessa mesma época que esse pro- glaterra ou da França. A formação da nação, à diferença desses dois
cesso adquiriu seus contornos e sua feição. Entendemos esse processo países da Europa ocidental, não ocorreu ao final de um processo de

19 SCHULZE, Hageu. "Die Geburt der deutschcn Nation". In BOOCKMANN,


Hartrnut; SCHILLING, Hein/.; SCHULZE, Ilagen & STURMER, Michael. Míl-
ten in Europa. Deutsche Gcschiclite. Rerlm, Siedler, 1984, pp. 201-88. :? Veja-se: KO! IN, Hans. "Die Idee dês Naticmalismus". Ursprungund Geschichte bis
20 VARNHAGEM Francisco Adolfo. Memorial orgânico. 1849/50. Biblioteca do ziirFranzõsisclien Reiioluticni. Frankfurt a. M. Fiscbei Verlag, 1962, 573p.
IIIGB, Rio de Janeiro, 44, 2, 27, p. ?>2. 23 PUHI.E, Hans-furgcn. "Nationalisnms in Lateinamfrika". In WINKLER, Hein-
21 Veja-se: VARNIIAGEN, Francisco Adolfo. O tabaco na Bahia. Caracas: Eliodoro rich August (org.). Nationalisinus. Kõnigstein / Ts., 1978. 268p.
Lopcz, 1863. Além disso: Carta de Varnhagen ao Imperador, de 20 de julho M Veja-se a carta muito importante e sempre citada de Varnhagen ao imperador,
de 1863, p. 289. de 1-1 de julho de 1857. Arquivo do Museu Imperial. Pelrópolis. Doe. 6234.
240 Historiografia c Nação no Brasil l S38-] 857 Uma nação sem rosto 241

convulsão social, que dera lugar a unia forte mobilização no seio das de que essas eleições ocorriam sob forte influência do poder dos la-
sociedades desses países. tifundiários e eram pouco representativas. Mesmo a tentativa do go-
No Brasil, não constatamos qualquer decisão política livre de verno central de impor seus próprios candidatos no nível das provín-
um cidadão consciente para com a nação; nenhum movimento de cias, por vezes, esbarrava na dura resistência dos interesses regionais.
revolução da ordem existente. 20 Além disso, a ideologia de nação não Como exemplo, vamos dar aqui o caso da eleição para o Senado na
serviu à integração de amplas massas da população, que, no decorrer província de São Paulo no ano de 1852.
do século XIX, continuaram ainda fortemente marginalizadas, tanto O governo central recomendou o candidato José António Pi-
política como economicamente. menta Bueno (1803-1878), político recusado pelo partido governa-
No processo das decisões políticas na sociedade brasileira, as mental em São Paulo (Partido Conservador). O então presidente em
massas tinham muito pouco peso. O sistema eleitoral inaugurado exercício na província, José Thomaz Nabuco de Araújo (1813-1878),
pela Constituição de 1824 limitava muito a participação da popula- um político nomeado pelo governo central, apresentou ao presiden-
ção. Quando da eleição do regente, no ano de 1835, cujo resultado te do gabinete no Rio de Janeiro um relatório ern que expunha os
foi a eleição do padre Uiogo António Feijó (1784-1843), o eleitorado riscos da imposição de uni candidato sem a anuência da província,
compunha um universo de cerca de 6 mil eleitores de uma popula- embora, ao mesmo tempo, na qualidade de fiel servidor do Estado,
ção de homens livres de mais de 3 milhões de pessoas no seu con- ele se declarasse disposto a defender os interesses do governo cen-
junto, o que significa que aproximadamente 0,2% da população não tral, até mesmo à custa de sua carreira política.
escrava teve acesso às eleições.
A província do Rio de Janeiro, inclusive a capital do Império,
O princípio da autoridade vale tudo no Brasil, pode muito
nos anos de 1857-18(50 tinha um eleitorado cie 1.425 eleitores, no
aqui, mas V. Excia. há de concordar comigo que não é tão
universo de uma população de cerca de 1.200.000 pessoas. Ou seja,
absoluto este pressuposto que chegue ale à imposição e ex-
0,1% dos moradores da mais rica província do Império tia época é
clusivismo, até a ponto de alicnar-sc o governo de todos, de
que dispunha de direitos políticos.2''
prescindir de Iodos. Esse princípio vale tudo e pode muito, e
Se a isso se acrescentasse o fato de que as eleições não eram
por isso a eleição do Pimenta e a exclusão do Pacheco são pos-
secretas e de que o controle dos resultados eleitorais no interior do
síveis e talvez prováveis, mas são difíceis, principalmente por-
país só era possível sob inúmeras dificuldades, chega-se ao resultado
que, pondo-sc em luta o princípio da autoridade com os dois
25 Theodor Schieder apontava, em seu ensaio em torno da "Tipologia e formas
partidos militantes na província, o governo carece de esforços
de surgimento do Estado nac.ional na Europa", três etapas para a origem dos dobrados e de uma ostentação que hão de comprometer a sua
movimentos nacionais na Europa, que, de todo modo, deve ser encarado como força moral ["... | Seja como for. os dados estão lançados, por-
uma construção intelectual de um tipo írfea/para a análise desses movimentos. que considerando a dificuldade da minha substituição nesta
"Na primeira etapa, o Estado nacional moderno se formou na Inglaterra e
na França através de uma revolução interna ao Estado, em torno do qual o
ocasião, aceito o sacrifício de presidir esta eleição que me há
conjunto dos cidadãos de um Estado previamente existente fundou, sob de- de estragar completamente; resignado, paciente e leal, levarei
terminados valores políticos e, ao fim e ao cabo, na vontade do povo, a volante esta cruz ao Calvário.-7
génèrale no sentido de Rousseau, uma comunidade de vontade." veja-se WIN-
KLER, íieinrich Atigust (org.)- Nationalismus. Kônigstein/Ts., 1978, p. 122.
' Citado a partir de: NABUCO, Joaquim. Ihn estadista no Império. Nabuco de Araú-
26 Veja-se Almanaque Laemmcrt, de 1857. jo. Sua -ilida, suas opiniões, sua época. Companhia Editora National, 1936, p. 94v.
LM 3

O governo central conseguiu impor seu candidato, embora o os latifundiários, ocupados com a produção de produtos destinados
resultado cio partido que regia a província de São Paulo tenha feito ã exportação, filiavam-se preferencialmente ao Partido Conservador
com que se contestasse o resultado das eleições com queixa na Jus- (em especial os das regiões cie Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro),
tiça. Interesses regionais por ve/es tinham força suficiente para se os latifundiários das regiões periféricas ao sistema orientado para as
opor ao poder sediado no Rio de Janeiro.
exportações (São Paulo, Minas Gerais c- Rio Grande do Sul) tendiam
O processo da construção de urna nação em sua primeira fase
a se filiar ao Partido Liberal. Especialmente para os últimos, a políti-
no Brasil serviu para favorecer a integração das diferentes elites re-
ca de centrali/ação do Estado, em parte, implicava alguns sacrifícios
gionais dentro do recém-constituído Estado. Quer dizer, não se trata-
económicos. Carvalho, em seu trabalho, além disso, constata que os
va de nenhum processo apoiado em movimento das massas. Em vista
burocratas envolvidos na organização do Estado imperial eram mem-
de sua natureza, apresentava características típicas de um movimento
bros do Partido Conseivador, enquanto os profissionais liberais (os
que st: desenvolveu numa sociedade em que não havia uma cidadania autónomos) se filiavam ao lado do Partido Liberal.
forte o suficiente para patrocinar o reordcnarnento da vida social.
A política de coligação referida era chamada política de concilia-
A partir de 1853, houve esforços no sentido de levar essa inte-
ção, lendo sido seu iniciador Honório I íermcto Carneiro Leão (1801-
gração à política concreta, ou seja, a tentativa de instituir um governo
1956), Marquês do Paraná, que estruturou o gabinete de setembro
de coalizão que incluísse representantes dos dois partidos existentes.
de 1853. Preponderava corno programa de governo a expansão fias
Esses partidos se estruturaram, no período da regência, num contex-
vias de comunicação, a navegação e .1 promoção da coloni/ação e da
to político, levando a uma política de maior autonomia para as pro- imigração.
víncias. O Partido Liberal surgiu em 1831 e o Partido Conservador
A meta dessa política consistia em acelerar o curso do progres-
em 18.37, diferenciando-se principalmente no que di/ia respeito à
so económico mediante a criação de um clima de conciliação política
política de centrali/ação e de descentralização.
como premissa indispensável. De outra parte, essa política visava à
Enquanto o Partido Liberal defendia uma monarquia federati-
validade das normas jurídicas para a regulamentação da convivência
va e se posicionava a favor de medidas como a autonomia provincial social.'"'
e a recomendação de eliminação do Quarto Poder, o Partitlo Conser-
Nas palavras do ministro da Justiça do gabinete Nabuco de
vador, por sua vê/, reivindicava uma forte política de centrali/ação,
Araújo (l813-1878): "Quem nada melhora nada recebe",'"1 expres-
com o controle central da magistratura e da Polícia, bem como o for-
sando o cerne da política de conciliação, ou seja, a combinação de pre-
talecimento do Quarto Poder.
servação e progresso. Noutras palavras, os arquitetos dessa política
A respeito da base social dos dois partidos, até agora aparece-
visavam encontrar modos de conciliai" a necessidade da moderniza-
ram diversas teses na historiografia brasileira c, sem dúvida, a lista-
ção em conjunto com a preservação de certos princípios. Trata-se de
gem dessas posições excederia totalmente o quadro deste capítulo.
um antigo dilema da história brasileira e qne se estende bem alem do
Aqui, seguimos a tese de José Murilo cie Carvalho, que se fundamenta
numa ampla base empírica. 28 Esse autor, sustentado nos resultados
de investigação desenvolvida, chegou à conclusão de que, enquanto
"' Veja-se a interessante análise de Joaquim Vabuco cm seu livro citado.
111 Citado a partir de: IGLKSIAS, Franrisco 'Vida política, 1816-1866". In H()-
™ LEKF, Nathanicl II. Underdevelopmenl and Divelvpment in Bmz/l. London: (>eorg
IANDA, Sérgio Buarque de (org.). l[isl<"ii ('<-f(il da civilização bmuli'na. t. I I .
Allen ífc Unwin, 1982. Veja-sc especialmente o Capítulo 8.
São Paulo: Difusão F.nropcia do I.ivro, lí^í. v. .'í. p. -li).
período cie tempo quc aqui se estuda e que marcou profundamente do Brasil como "filho adulto" que sai da casa da família e que, ainda
a vida social. assim, não mereceu o "despre/o" de sua mae/ ! Essa é a metáfora ilus-
Um tom mais conservador cunhou o processo de construção trativa da fundação do Estado, que, de fato, ocorreu em 1822, pelo
da nação brasileira, indicando os limites deulro dos quais a nova so- filho do rei português -separação sim, embora sc-in delimitação.
ciedade deveria organi/.ar-se. As consequências para a história brasi- No momento em que o advento da nação no Brasil se confun-
leira foram de amplo significado: a política como reservatório das eli- dia com a organi/.acão do Estado e por ele era incentivada, opera-se,
tes e uma dificuldade: parcialmente intransponível de conviver com como já diio, uma identificação da nação com a monarquia, sendo
os conflitos democráticos e de resolvê-los mediante uma ação política que a demarcação da nação assume o caráter de uma delimitação de
democrática. Os exemplos se acumulam na história brasileira até os formas estatais diferentes, ou de repúblicas.
tempos mais recentes/ 11 Os inimigos da nação são antes as repúblicas sul-americanas
O que o processo de construção da nação no Brasil represen- vizinhas, unia atitude que certamente cunhou a progressão futura da
tou foi uma tentativa de sintonizar ideias antigas r novas: combinar história, quer do Brasil, quer do continente. Já se mencionou aqui o
a velha lealdade e o sentimento de pertinência sensato para tom a horror do historiador Varnhagen etn relação ás repúblicas. A política
dinastia reinante, com uma nova lealdade relativa á nação no senti- exterior do Segundo Império demonstrou a importância que as re-
do dos tempos modernos. A fidelidade à nação corno novo conceito públicas vi/inhas tinham para o cálculo político dos donos do poder
significativo se mistura com a fidelidade à Casa de Bragança, inscre- no Brasil.
vendo na constituição o entendimento do imperador expressamente As campanhas militares contra a Argentina (1852) e o Para-
como "o primeiro representante da nação".35 guai (1865-7(1) constituíram o ápice cios conflitos contra as repúbli-
Mas o processo da construção da nação dependia de uma de- cas sul-americanas, o que contribuiu em muito para a delimitação da
limitação que tinha como propósito completai' o quadro de uma "barbárie", de acordo com a impressão da época.
nação como peculiaridade do que se delimitava a nação brasileira. Questões estratégicas e de identidade se mesclavam na nação
Certamente não de Portugal, graças ao que a ideia dos brasileiros <• emergente: a resolução das questões cios limites não t i n h a apenas
dos portugueses como irmãos de ambos os lados do oceano se tornou importância para o Império do ponto cie vista estratégico, mas, para
viável, ou, como o jornal português O Panorama formulou, a ideia alem disso, integrava-se no processo de uma nação em busca de sua
identidade. Demarcações políticas, mas igualmente delimitações po-
" João Camilo de Oliveira Forres, cm seu livro sobre a teoria política do Império lítico-ideológicas, constituem a.s duas laces cia mesma moeda.
do Brasil — cuja 2''. edição data de 1964, ano em ( j i i e u m golpe m i l i t a r ocorreu Na busca de uma delimitação historicamente fundamentada,
no Brasil —, resumiu do seguinte modo o que cie chamou de "missão histórica
Varnhagen identificou, mesmo antes de; processo de coloni/açao, di-
do Império":
"I1', como todos viviam tranquilamente, e como havia facilidades maiores de ferenças de natureza sociogeográlica que facilitavam a coloni/ação
ascensão social, o resultado é que era uma sociedade equilibrada e modesta, das áreas espanholas, em comparação com os esforços que para os
.sem as tensões que dificultam ávida democrática..." portugueses t i n h a m de empreender nesse sentido. 34
A democracia igualava-se à representação idílica de uma vida social livre de
tensões, o que era o mesmo que di/.er que as tensões não deveriam existir,
salientando o sentido cie quc elas se constituíam em ameaça à democracia. 13 Veja-se artigo no jornal O Panorama, de .'•!() de de/embro de 1837, sobre o Brasil.
"'' Veja-se o Capítulo V da constituição imperial, artigo 98. In TORRES, João Ca- 14 Veja-se VAKN'1 I.AGKN, Francisco Adolfo. lntrnd\i(ão à 2'. cilição da História Cera!
milo de Oliveira, op. dt., p. 487. do Brasil. 2 ed., v. i , pp. 7-9.
246 Hisio

Os espanhóis encontraram em sua área colonial, segundo controle central sobre o sistema educacional público e privado, que,
Varnhagen, regiões mais vastas, que se prestavam à pecuária e uma por si, comprometeria a uniformidade da educação.
população que já possuía maiores graus de organização política, o O ministro, no relatório do ano cie 1847, chamava a atenção
que, por outra parte, facilitara sua subjugação. Ao contrário disso, os especialmente para a não conliabilidade do sistema educacional pri-
portugueses se defrontaram com um mundo selvagem que tinham vado sem controle. Na opinião do ministro, poderiam representar
de combater. Essa circunstância possibilitou que sua interpretação um risco, já que as escolas privadas se norteavam por princípios de
da coloni/ação do Brasil parecesse mais heróica. O que se pode de- lucro e possuíam livre ação para, aplicando conceitos pedagógicos,
duzir é que os portugueses se teriam engajado muito mais em favor espalhar "doutrinas perigosas e exemplos amorais"/"1 A solução desse
da civilização. problema deveria dar-se, no contexto da política de centralização do
O Estado como promotor e criador da nação rio Brasil colo- governo, da seguinte maneira: a criação de um órgão central ao qual
cou como tarefa apoiar importantes setores da vida social, sobretudo caberia a fiscalização da totalidade das instituições educacionais do
aqueles setores em que era possível promover o despertar de um sen- Império: "... um poder fiscal, porém instruído, que seja o centro de
timento de comunidade. O programa que existiu de 1827 até 1854 onde emanem como de sua fonte a unidade cio pensamento, de ins-
em prol das escolas primárias no Rio de Janeiro, por exemplo, previa trução e de ordem".37
que, por"rneio da leitura da Constituição brasileira e da história bra- Esse órgão de fiscalização chegou de fato a ser criado no seio
sileira no ensino, ocorresse o aprendi/ado da leitura. O empenho do ministério do Império e ficava subordinado à chefia clireta do
do Estado nacional se concentrava, sobretudo, na implementação do ministro. A seus vinte membros, cabia a função de elaborar a totali-
sistema educacional nacional. dade da política educacional do governo, desde o planejamento até
Importantes fontes para se pesquisar esse empenho são os re- a implementação.
latórios apresentados ao Parlamento pelos ministros da pasta do Im- Outro problema no caso do diagnóstico do Estado consistia no
pério que tinham a educação sob sua competência. Esses relatórios treinamento deficiente dos professores e a consequente- falta de mé-
transmitem, por todo o período estudado aqui, um quadro "triste e todos apropriados, sobretudo para a escola primária. O que se pro-
melancólico'' - para reproduzir uma formulação que, volta e meia, pôs foi a criação de estabelecimentos de treinamento específicos - as
se apresenta no que tange à condição da educação. Além disso, esses Escolas Normais, como aquelas que existiam na Europa - para fonnar
documentos sugerem como a partir do ponto de vista do Estado era pessoal para as escolas. Também com muito frequência, os relatórios
possível implementar soluções. sublinhavam a necessidade de uma efetiva presença do Estado no
Após a constatação de que o futuro da nação dependeria da apoio ao professorado - o que deveria ser concretizado por meio de
educação, esse diagnóstico oficial repetia com surpreendente mo- urna política salarial e social motivadora.
notonia as razões do sombrio quadro do sistema educacional bra-
sileiro.35 ("orno problema mais grave, parecia oíérecer-se a falta de
ciosa, ou ainda mesmo pouco cuidada, pode-se com quase certeza contar que
35 Relatório do ministro Francisco de Paula de Almeida e Albuquerque, do ano o coração se perverterá" (p. 14v).
de 1839. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. % Relatório cio ministro cio Império Manoel Alves Branco do ano de 1847. Arqui-
Sobre a importância do ensino fundamental, o ministro do império mani- vo Nacional, Rio cie Janeiro, p. 5 v.
festou-se da seguinte forma no mesmo relatório: E nas escolas primárias que
começa a íormar-se o coração do homem, e se a educação ali recebida for vi- ' I ciem.
Hf1 248 H i s c u r U m r a Í M e Na<,ao no Rrasil l 8.18-1857 Uma nação sem ro 249

Out.ro motivo de queixa por parte do ministro era a lalta de tinha também a incumbência de reunir fontes importantes para a
prédios escolares apropriados, o que forçava a direção das escolas a história do Brasil.
instalarem seus alunos em construções que haviam sido erigidas para Tanto no campo da educação como na sociedade brasileira
outros fins. do século XIX, o Estado se empenhava em delinear seriamente sua
C) que se depreende claramente desses relatórios é a intenção área de ação, o que se pode caracterizar com o advento de um orde-
do governo de organizar a educação, sobretudo sob o ponto de vista namento burocrático visando regulamentar ávida política e social.40
de uma tarefa nacional. Na questão da educação, esses anseios se apresentam com cla-
Francisco de Paula de Almeida e Albuquerque, ministro no reza: um sistema educacional tino para a totalidade do império, a fim
ano de 1839, chegou até mesmo a traçar um paralelo com o serviço de promover a unidade da nação.
militar 38 para sublinhar essa função. Nesse sentido, defendia-se a opi- Como parte do sistema educacional, o governo imperial tam-
nião de que caberia ao Estado o papel mais importante ria concreti- bém dedicou atenção às mies: o exemplo da Academia Imperial das
zação dessa tarefa. Os ministros faziam ver que a liberdade ilimitada Belas Artes, fundada no Rio de Janeiro, em novembro de 1826, de-
da família em matéria de educação poderia ter consequências peri- veria ser seguido em várias províncias, consoante o princípio de in-
gosas para a sociedade. Porém, para dar conta dessa tarefa, o Estado teiiorização da civilização, mas com uma mensagem favorecedora da
teria de se equipar de meios adequados, ou seja, trazer para o Brasil nação.
as experiências colhidas na Europa nesse sentido. Diz o ministro li- De acordo com o relatório do ministro do Império, a execução
teralmente: de tal empreendimento possibilitaria que "as paredes de nossas casas,
hoje decoradas com tapeçarias e reproduções estrangeiras, em pou-
co tempo viessem a luzir quadros de nossas paisagens deslumbrantes
Sendo, porém, impossível que em tão transcendente empresa
e com acontecimentos marcantes da história do Brasil". 41
se obtenha satisfatório resultado sem um estudo profundo dos
A busca do que é nacional nas artes também se fazia presente
métodos e dos sistemas seguidos na instrução dos diferentes
iia música. Em 1857, o ministro do Império, Euis Pedreira do Cou-
povos civilizados da Europa, que mais se têm avantajado no
to Ferraz (1818-1886), apresentou ao Parlamento o projeto de uma
aperfeiçoamento de suas escolas, é intuitivo que para acertar
Opera Nacional que previa a apresentação de peças estrangeiras em
em tão difícil caminho nos devemos aconselhar com essa mes-
idioma português e que, além disso, visava apoiar obras nacionais.
ma Europa.39
No contexto desse processo, em que ao Estado coube papel
decisivo como promotor da nação, integrava-se também a historio-
Foi com esse objetivo que, em 1854. o escritor Gonçalves Dias grafia. O fato de o Estado ter consciência de seu importante papel
empreendeu uma viagem, que, paralelamente à visita de instituições para a criação da nação brasileira também é testemunhado pela par-
educacionais europeias em Portugal, Bélgica, França e Alemanha, ticipação do Estado na fundação do Instituto Histórico e Geográfico

4" Sobre o surgimento de uma ordem burocrática no Brasil, veja-se especialmen-


te: URICOCHEA, Fernando. O minoiauro imperial; a buroantização do estado pa-
;18 Ele almejava que o Brasil seguisse o exemplo das "nações cultivadas", onde a trimonial brasileiro no século XIX. São Paulo: DIFEL, 1978, 332p.
educação e o serviço militar são obrigatórios. Idem.
41 Relatório do ministro Francisco de Paula de Almeida e Albuquerque, do ano
39 Idem. de 1839. Arquivo Nacional, Rio de janeiro.
250 J i i s t u n í ^ i a n a t: Nação no Brasil 1838-1857

Brasileiro, bem corno por sen apoio direto na concreti/ação da Histó- sua lustória, opinava Varnhagen, várias nações tiveram de pagar
ria Geral do Brasil, de Varnhagen. preço alto, a saber:

A História e ;i Geografia pátria não podem deixar cie merecer I - . . J o de serem vilimas do jugo estrangeiro, e outras a perda
a mais especial atenção dos poderes do Estado. Cada geração de sua pá/, e tranquilidade, envolvendo-se em guerras civis c- de
tem para com as seguintes o dever de concorrer para o seu raças intermináveis, sem poderem mais encontrar núcleo de
desenvolvimento, e para que não se percam, nem as tradições cristalização, que sirva de base a novos princípios de organi/a-
nacionais, nem a notícia de objetos cujo conhecimento possa çao, admitidos por todos os cidadãos, pela poderosa e elica/
interessar o futuro. 4 -' sanção dos séculos."

O faio de a História representar um campo de interesse do Na introdução à segunda edição de sua obra, a história se con-
Estado é também confirmado pelo ministro 18 anos depois da fun- fundia com "novos princípios organizacionais", ou seja, colocava-se o
dação do Instituto. Foi também o mesmo ministro que, no âmbito da conceito de nação como algo que dá sentido à sociedade.
educação, concretizou importantes reformas, cujos objetivos nacio- O quadro das condições a partir das quais a historiografia bra-
nais eram muito claros. sileira surgiu t i n h a um n i n h o fortemente político, o que tornava
Kohn, 5 ' 1 em sua já mencionada análise do nacionalismo, cha- m u i t o fluido o limite entre mitologia nacional e ciência.
mou a atenção para o fato de que a convivência de homens dentro de Dois elementos estavam presentes no pano de fundo dos esfor-
uni Estado não só é determinada por uma comunhão assumida, mas, ços empreendidos pelo I n s t i t u t o Histórico e Geográfico Brasileiro,
além disso, serve para gerar certos sentimentos capazes de fortalecer bem como pela obra de Varnhagcn: o interesse pelo conhecimento
essa comunhão assumida. Embora a existência de um Estado seja ele- do passado, porém entrelaçado com a ação política.
mento importante para o processo de forjar uma nação, esse proces- Varnhagen, ao elogiar o apoio imperial ao instituto, acreditava
so ainda exige outros componentes. A historiografia que surgiu do que a história tinha utilidade para "o estadista, o estudioso do direito,
desenvolvimento da nação teve um rol decisivo: com ela, vi