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Design Contemporâneo

Material Teórico
Período Pós-Industrial e Arte Moderna

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Me. Christian David Rizzato Petrini

Revisão Textual:
Prof. Esp. Claudio Pereira do Nascimento
Período Pós-Industrial
e Arte Moderna

• Introdução;
• Fotografia;
• Arts and Crafts;
• Arte Moderna e Design.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
• Estudar a relação e a influência que as evoluções pós-industriais e os movimentos
artísticos da Arte Moderna tiveram para o Design Contemporâneo e têm para a função e a
atuação do designer nos dias atuais.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam-
bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de
aprendizagem.
UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

Introdução
Finalizamos a unidade anterior falando que a evolução, fruto da Revolução In-
dustrial, não aconteceu somente na imprensa. A industrialização também impactou
diretamente a fotografia na época, como veremos a seguir.

Fotografia
A palavra fotografia vem do grego fós, que significa luz e graphein, significa es-
crita, ou seja, fotografia significa “escrever (desenhar) com a luz (contraste de tons)”.

É importante ressaltar que a fotografia não surgiu nesse período, contudo, foi
no século 19, após a Revolução Industrial, que temos o advento da máquina foto-
gráfica, que recebeu o nome de “Arte na era da máquina”. Além disso, também
teve impacto muito grande nas formas de comunicação e no Design e na própria
imprensa que falamos anteriormente, já que os jornais puderam receber as imagens
produzidas pelas máquinas fotográficas.

O que antes era uma Arte que precisava ser produzida manualmente, um pro-
cesso artesanal usando um aparato de grandes dimensões, passou a ser feito de
maneira automatizada em um aparelho que poderia ser transportado facilmente,
em comparação com os anteriores.

Como comentamos, no início, a fotografia precisava de uma câmara escura do


tamanho de uma sala, o que dificultava em muito o seu transporte. E como exem-
plo do tempo em que existe um esforço do homem para retratar um momento atra-
vés da fotografia, esse princípio da câmara escura já existia no século 5 a.C., criado
por Mo-Ti, filósofo chinês, e a mesma câmara escura ainda permanece em 1545,
nos estudos fotográficos de Reiner Gemma Frisius, físico e matemático holandês e
na grande câmara escura construída em Roma, em 1646, por Athanasius Kircher.
Foi o próprio Athanasius Kircher, ainda no século 17, que desenvolveu uma câmara
escura portátil.

Durante séculos, os artistas utilizaram a câmara escura como recurso auxiliar do


desenho, o único elemento que faltava nessa época era um material sensível à luz
capaz de capturar essa imagem.

É quando entra em cena Joseph Nicéphore Niépce, o primeiro a realizar expe-


riências de capturar uma imagem da natureza em uma placa de metal. Em 1793,
captou imagens em negativo, ou seja, quando o preto e o branco aparecem de
maneira invertida.

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Ainda com a técnica de captar a imagem em negativo, porém, somente em
1826, já depois da Revolução Industrial, que Niépce desenvolveu o processo de
heliogravura, quando a luminosidade do Sol contribuía com o processo.

Em 1829, Louis Jaques Daguerre se associa a Niépce para aperfeiçoar a he-


liografia, quando cria um método muito mais detalhado de captura de imagens, a
daguerreotipia. Em outras palavras, Daguerre concretizou a tecnologia para fazer
imagens mecanicamente.

A daguerreotipia consiste na formação de imagens também sobre uma placa


de cobre recoberta por uma camada de prata. Essa placa era revelada em vapor
de mercúrio. Obtêm-se a imagem negativa que, fixada em uma solução alcalina,
tornava-se positiva, ainda na placa de metal.

Para essa técnica de Daguerre, era necessário um alto tempo de exposição para
a captação da imagem, portanto, para captura de imagens de pessoas, era utilizado
um outro aparelho para deixar a pessoa retratada imóvel.

Outra personalidade que contribuiu com a evolução da fotografia foi William


Henry Fox Talbot. Em 1835, ele desenvolveu uma pequena câmera de 6,3 cm3,
com base numa ratoeira, carregada com cloreto de prata. Era necessária apenas
meia hora de exposição.

A imagem era fixada com sal de cozinha ainda na placa de cobre e invertida ao
ser colocada em contato com um papel sensível ao cobre. Essa técnica começa a
aproximar a fotografia com o processo de fotografia.

E as participações continuam. Em 1840, Sir John Herschel desenvolveu o


método que utilizava tiossulfato de sódio para fixar as imagens. Seu método foi,
posteriormente, adotado por Daguerre e Talbot. Em 1850, Frederick Archer
publicou seu novo processo que reduzia drasticamente o tempo de sensibiliza-
ção pela luz que substituiu todos os processos anteriores. Archer decidiu não
patentear sua invenção.

Em 1865, a empresa Canson desenvolveu uma invenção que teve especial re-
percussão no universo fotográfico. Solicitou a patente pelo aperfeiçoamento do
procedimento de transferência da imagem para um papel que simplificava as ope-
rações de revelação, por um custo inferior aos outros procedimentos. Com esse
papel, não era necessário o uso de cloreto de ouro ou de platina que serviam à
inversão da imagem negativa para positiva.

Até que, em 1888, George Eastman uniu várias das invenções anteriores em
uma só. Ele produziu uma película emulsionada em rolo, feita com nitrato de celu-
lose, muito mais fina e transparente, que ainda reproduzia a imagem em negativo.
É o rolo de filme fotográfico portátil que era inserido dentro da máquina. Ele foi o

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

criador da máquina Kodak que tinha o slogan: “Kodak nº 1. Você aperta o botão
e nós fazemos o resto.”

Essa invenção de Eastman facilitou em muito o processo de captação da imagem


e, usando o papel fotográfico da Canson, que falamos anteriormente, revolucionou
a indústria da fotografia.

Como vimos, a fotografia em si não é recente, existem exemplos de milhares de


anos. Mas como descrevemos aqui, foi depois da Revolução Industrial, em 1820,
que começaram a surgir diversas invenções para o ato de usar a luz para reproduzir
uma imagem. Primeiro em uma placa de cobre, até ser reproduzido diretamente em
uma película fotossensível e ser transferido para o papel fotográfico. Em menos de
70 anos o homem conseguir diminuir o aparelho usado para fotografar e simplificar
o processo de revelação.

Até a evolução da fotografia no final do século 19, os meios de comunicação e


os designers usavam uma forma de impressão de imagens que era uma espécie de
concorrente da fotografia, a litografia, impressão por pedra.

A litografia se trata de um processo de impressão de imagens inventado em


1796 por Aloys Senefelder, mas foi durante o século 19, após a Revolução Indus-
trial, que ela fez frente à fotografia, por não depender de uma máquina.

Nesta técnica, uma pedra lisa era umedecida e podia ser desenhada com um
lápis oleoso. Após o desenho, a própria pedra se tornava uma lâmina/prancha de
impressão. Para isso, bastava encostar o papel nessa lâmina/prancha de pedra que
o desenho a óleo que estava na pedra passava para o papel.

A princípio, essa técnica da litografia só possibilitava a impressão em preto, já


que o lápis oleoso usado para desenhar na pedra só tinha essa cor. Até que, em
1837, Godefroy Engelman patenteou um processo chamado de cromolitografia.

Cromo é um prefixo usado para significar a palavra cor, ou seja, com isso, foi
possível imprimir cores, logo, imagens. O impressor separava uma série de lâmi-
nas/pranchas de pedra e desenhava cada cor em uma lâmina/prancha. Essas cores
eram transferidas para o papel, uma por uma.

Por se tratar de uma técnica de impressão que dependia da capacidade do ilus-


trador, proporcionava uma impressão de muita qualidade.

No final do século 19, surge uma evidente concorrência que foi chamada de
“batalha dos cartazes”. Na metade final do século 19, o cartaz, usando a fotogra-
fia e a tipografia, concorria com um cartaz mais figurativo e sedutor, impresso em
litografia, com texto e imagem, praticamente desenhado à mão.

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Trocando ideias... Importante!
Essa “batalha dos cartazes” foi extremamente importante para o Design e para a comu-
nicação da época, pois possibilitaram uma melhora em ambas as técnicas e deixaram
uma herança para nós designers atualmente. Hoje, temos a oportunidade de escolher
qual a melhor técnica para um trabalho específico, de acordo com as nossas possibili-
dades. Podemos usar a tipografia de uma maneira rápida e simples, escolhendo uma
fonte instalada no computador e compor nosso trabalho com uma fotografia feita em
nosso celular; podemos criar um trabalho usando ilustração, não necessariamente como
na técnica da litografia que falamos, mas deixar um trabalho mais personalizado atra-
vés do traçado da mão humana; ou mesmo usando todas essas técnicas em um mesmo
trabalho. O importante é que hoje temos possibilidades graças aos avanços que vieram
após a Revolução Industrial.

A influência da industrialização não foi importante somente para todas as téc-


nicas que mencionamos até aqui, para impressão, tipografia e reprodução de foto-
grafias. A Revolução Industrial foi importante também para dar origem a um dos
primeiros e um dos mais importantes movimentos do Design, o movimento Arts
and Crafts.

Arts and Crafts


Apesar dos esforços para produzir livros de qualidade com as técnicas de im-
pressão que vimos anteriormente, alguns designers acreditaram que o Design de
livros decaiu até o final do século 19. Foi baseado na qualidade dos livros que surgiu
o movimento Arts and Crafts, pois este surgiu como um esforço para ver o livro
retomado como objeto de Arte, com um conceito de edição limitada.

Esse pensamento dos designers do movimento Arts and Crafts em relação ao


livro como objeto de qualidade, com um conceito de edição limitada, posteriormen-
te, influenciou toda a produção comercial da época.

O movimento nasceu como reação à uma ideia de confusão social moral e artís-
tica que a revolução Industrial trouxe. Os designers do movimento Arts and Crafts
abominavam bens baratos e vis, advogavam pelo Design e um retorno aos ofícios
manuais. Para os artistas do Arts and Crafts, com a Revolução Industrial, os pro-
dutos se tornaram piores.

A industrialização, para eles, fez com que os produtos, feitos em grande escala,
passassem a sem produtos de um enfraquecimento da qualidade, o que eles cha-
mam de “produtividade anônima”. Por esse motivo criaram um movimento de
reação. Isso impactou no Design Gráfico, no Design de Produtos, na arquitetura e
em qualquer outra vertente relacionada ao Design em geral.

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

Esse movimento nasceu nas últimas décadas do século 19, aproximadamente


em 1870 na Inglaterra, e coincidiu com a Era Vitoriana, período em que o Reino
Unido foi governado pela rainha Vitória, de junho de 1837 a janeiro de 1901. Por
isso, o movimento Arts and Crafts ficou muito relacionado à Era Vitoriana. Tem
como principal característica a busca pelos trabalhos manuais e fica evidente uma
certa nostalgia aos ornamentos rebuscados e bem trabalhos que eram realizados
em trabalhos artesanais.

O auge do movimento Arts and Crafts se estendeu até o ano de 1900, mas ele
nunca teve fim, uma vez que é considerado até hoje um dos mais importantes movi-
mentos do Design e serve como referência e influência para um profissional realizar
um trabalho com aparência vitoriana ou antiga. Essa tendência rebuscada do Arts
and Crafts se conectou com outro movimento artístico relacionado ao Design, a
Art Nouveau, como falaremos mais adiante nesta disciplina.

Já que mencionamos o final do século 19, em concordância com o que des-


tacamos na unidade anterior, nesse período pós-Industrial é inevitável destacar
a aproximação que o Design teve com a Arte, uma vez que alguns artistas rela-
cionados a manifestações do Design também atuaram e são citados na Arte e
vice-versa. É nesse momento da História que surge a Arte Moderna, um termo
que se refere às expressões artísticas surgidas no final do século 19, que se esten-
deram até a metade do século 20, e que se relacionaram com o Design.

Arte Moderna e Design


A Arte Moderna tem esse nome fruto da sensação de modernidade causada
pela industrialização. Na Arte Moderna vê-se a influência da Revolução Industrial,
ou seja, das máquinas a vapor, do aumento das velocidades, da fotografia, do ci-
nema, do avião, do estudo da mente, entre outros elementos que contribuíram
para a mudança do pensamento e das atitudes.
A aproximação da Arte Moderna com o Design se dá com o resultado da indus-
trialização, que fez com que a Arte Moderna se voltasse para 3 correntes:
• Estilo: os artistas buscaram o rompimento das regras na busca de um novo
estilo capaz de expressar a vida moderna;
• Mente: os artistas experimentalistas declararam que o objetivo da Arte não era
o da simples representação do visível, mas a expressão interior da emoção e
da sensibilidade;
• Função: designers, ilustradores e arquitetos passaram a se preocupar com a
funcionalidade da Arte, sem o descuido da forma, sendo o modo de vida das
pessoas a maior preocupação.

As 3 correntes da Arte Moderna são importantes para a atuação de um designer.


Cada pessoa pode ter um estilo próprio e aplicar esse estilo em seus trabalhos;

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o resultado de um trabalho é fruto do que pensamos, ou seja, é resultado do que está
em nossa mente; devemos sempre pensar em facilitar a vida de um indivíduo por
meio de nosso trabalho, ou seja, resolver o “problema” ou preencher a “necessidade”
de uma pessoa com o que oferecemos.

Porém, de acordo com o que vimos anteriormente, sobre a característica do Design


em unir tudo o que é visualmente agradável ao que é funcionalmente eficaz, podemos
relacionar a corrente da Função, da Arte Moderna, com o Design, ou seja, a Arte se
aproxima do Design ou o Design se aproxima da Arte. Tanto que é nessa corrente fun-
cionalista da Arte Moderna que surgem os primeiros movimentos relacionados à Arte,
mas, principalmente, ao Design como: Arts and Crafts, Art Noveau, Construtivismo,
Bauhaus, De Stijl, Art Déco, entre outros.

Alguns movimentos artísticos citados como o Construtivismo e o De Stijl são mo-


vimentos que derivaram da Arte e transitaram também para a Arte, como veremos
mais adiante nesta disciplina, porém, são movimentos ligados ao Design, ou seja,
movimentos derivados da Arte Moderna que influenciaram o universo do Design.

Além dos movimentos que citamos acima, que derivaram da Arte e se associa-
ram ao Design, outros movimentos particularmente relacionados à Arte também ti-
veram influência no Design. Podemos citar o Cubismo, o Futurismo, o Dadaísmo
e o Surrealismo. Podemos destacar também a relação de todos estes movimentos
artísticos com o Design.

A Arte é uma referência para designers, ou seja, até hoje, profissionais do Design
podem e devem se inspirar em movimentos artísticos para realizar seus trabalhos.
Nos primeiros anos após a Revolução Industrial, isso já acontecia com os primeiros
designers. Outros movimentos e estilos artísticos que marcaram a Arte, mais precisa-
mente a Arte Moderna, já influenciavam seu modo de pensar e de trabalhar.

O Cubismo foi um movimento que tratava as formas da natureza por meio de fi-
guras geométricas, sendo que a representação das imagens não tem nenhum com-
promisso com a aparência real das coisas. Teve como fundadores Georges Braque
e Pablo Picasso, sendo que o quadro “As garotas de Avignon”, 1907, de Picasso, é
conhecido como marco inicial do Cubismo.

A aplicação da realidade sob uma ótica geométrica é a marca mais evidente do


Cubismo e pode ser relacionada como a técnica utilizada pelos egípcios da Antigui-
dade. Os egípcios antigos já reproduziam uma parte do corpo humano, de um ani-
mal ou de um objeto a partir do seu ângulo de maior visibilidade. Como falamos,
os movimentos artísticos sempre se influenciaram.

A obra “As garotas de Avignon”, de Picasso, que citamos acima, usa a técnica da
assamblage, ou seja, uma reunião de elementos e objetos sem se preocupar com a
coerência, assim como os egípcios faziam.

O Cubismo tem influência dos egípcios antigos, porém, tem origem nas másca-
ras tribais africanas e nas obras do pintor impressionista Paul Cézanne. Do ponto
de vista da influência das máscaras africanas, podemos destacar que os artistas

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

europeus sempre tiveram curiosidade e interesse pelas Artes dos povos nativos da
África, Ilhas do Pacífico e da América do Norte. O próprio artista cubista Pablo
Picasso e outros artistas de movimentos além do Cubismo, como o pós-impressio-
nista Paul Gauguin e o fauvista Henri Matisse, são alguns dos nomes que se inspi-
ravam na simplicidade e expressividade destas Artes.

Por outro lado, a inspiração em Cézanne vem do estilo próprio que distorce e
altera as perspectivas, ressaltando o volume e o peso dos objetos, ou seja, as obras
de Cézanne buscavam as formas fundamentais da natureza: a esfera, o cilindro e
o cone, isso passou para o Cubismo. Além disso, também retratavam paisagens
de maneira sutilmente geométricas. Em naturezas mortas, Cézanne trabalhou com
diferentes pontos de vista, produzindo vários planos e uma angulação de visão di-
versificada, também como os egípcios antigos.

Em pouco tempo, o Cubismo se espalhou pela Europa e pelo mundo, sempre


mantendo as seguintes características:
• continuação da proposta de Cézanne em representar objetos com todas as
partes em um mesmo plano;
• objetos divididos, analisados e remontados, compondo formas abstratas;
• a geometrização resulta em uma Arte intuitiva e abstrata, derivada da “expe-
riência visual”;
• baseia-se essencialmente na luz e na sombra;
• multiplicidade de pontos de vista para representar o sujeito em um contexto
maior;
• plano de fundo e objeto se entrelaçam;
• rejeição da representação realista;
• o artista cria uma “sugestão” da estrutura dos objetos, apresentados sob dife-
rentes ângulos visuais;
• cria-se a sensação de poder perceber todos os planos e volumes;
• sensação de que os objetos estão abertos, com todos os lados expostos no
plano frontal;
• as obras não têm relação com o naturalismo, ou seja, a aparência real das coisas;
• representação de tridimensionalidade em uma superfície plana, com formas
geométricas e predomínio das linhas retas.

No Brasil, não existem registros de artistas expressivos com características


exclusivamente cubistas, entretanto, muitos foram influenciados pelo movimen-
to e traziam características dele em suas obras, como: Tarsila do Amaral, Anita
Malfatti e Di Cavalcanti.

O Cubismo deixou um legado para a Arte e para o Design:


• introduziu o conceito de representação independente da natureza;

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• Picasso e Braque recolocaram na pintura o plano bidimensional e estabelece-
ram o Design como o principal elemento do processo criativo;
• o uso de letras estampadas ou gravadas nas pinturas deu novas possibilidades
à tipografia;
• influenciou movimentos posteriores e grandes artistas como: Piet Mondrian,
Kasimir Malevich e Marcel Duchamp.

O Futurismo, por sua vez, é um estilo influenciado pelo movimento literário


Manifesto Futurista, de Fillippo Tommaso Marinetti. Retrata uma sugestão à ve-
locidade das máquinas e como exaltação ao futuro. Para os futuristas, os artistas
de outros movimentos não tinham visão de futuro. Os artistas futuristas pregavam
o fim da Arte do passado e uma ode à Arte do futuro. Para eles, a forma e a cor
não bastam mais para representar o dinamismo moderno. Como um movimento
organizado e não mais como uma ideia, não sobreviveu ao final da Primeira Guerra
Mundial, em 1918.

Um trecho do Manifesto Futurista diz que: “deve ser feita uma limpeza radical
em todos os temas gastos e mofados a fim de se expressar o vórtice da vida moder-
na – uma vida de aço, febre, orgulho e velocidade vertiginosa.”

Desenvolveu-se em muitas formas de Arte, principalmente na literatura que po-


demos relacionar com o Design Editorial, e tem forte influência na criação de
outros movimentos artísticos modernistas como o Dadaísmo e o Concretismo, na
Tipografia e no Design modernos.

No caso da literatura, que relacionamos com o Design Editorial, podemos per-


ceber como características:
• versos compostos em linhas curvas;
• espaços em branco criam imagens;
• liberdade e invenção de palavras;
• palavras escritas sem a continuidade tradicional;
• propunha a destruição de sintaxes;
• incentivava o menosprezo por verbo, adjetivo e pontuação tradicional;
• pregava a utilização dos versos livres, ou seja, sem a necessidade da estrofe, da
rima e da harmonia;
• incorporação de colagens ao texto poético.

Como falamos, também deixou um legado para nós, principalmente no Design


Tipográfico e Editorial.

O Dadaísmo nasceu por artistas franceses e alemães em oposição à Primeira


Guerra Mundial. A principal crítica dos artistas é que a Guerra não tinha nada a
acrescentar à humanidade, a Guerra não significava nada, portanto, criaram uma
Arte que não significava nada. O próprio nome dada, significa cavalo de pau,

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

ou seja, o próprio nome retrata a essência do movimento, não tem relação ou


significado nenhum com a obra. Tem como principal característica os elementos
que fugiam do racional e eram combinados por acaso. Os artistas negavam sua
cultura e representavam um protesto. A colagem presente nas obras representava
a desordem que a Europa vivia na época. Os principais artistas são Francis Pica-
bia, Man Ray e Marcel Duchamp.
O Dadaísmo, no lugar de características, tem princípios:
• negação de todas as tradições sociais e artísticas;
• oposição à burguesia e ao naturalismo;
• buscava a destruição da Arte acadêmica;
• admiração pela Arte abstrata;
• desvalorização do acaso e do absurdo;
• tendências irônicas e antirracionais.

Os mesmos princípios da Arte também são visíveis no Design, onde também


teve contribuições importantes:
• reforçou a ideia cubista do uso da letra como experiência visual;
• despertou os designers para o fato de que o chocante e o surpreendente pode
chamar a atenção do receptor;
• uso de tipografia e montagem fotográfica dadaísta deu um padrão diferente e
flexibilidade para o Design;
• exploração da fotomanipulação.

O Dadaísmo teve grande importância para a Arte e para o Design do século 20


e fez parte de um processo de libertação da Arte de valores pré-estabelecido, além
disso, o Dadaísmo deu origem a outro movimento artístico muito importante do sé-
culo 20 e que influencia a comunicação e o Design até hoje, o Surrealismo.

Em 1924, foi escrito por André Breton um Manifesto Surrealista. Um trecho


desse manifesto ilustra bem a ideia do Surrealismo: “Não é o medo da loucura que
nos vai obrigar a hastear a meio-mastro a bandeira da imaginação.” Também em
1924, Atonin Artaud definiu: “O Surrealismo não é um estilo. É o grito da mente
que se volta para si mesma.”
O Surrealismo nasceu com um grupo de jovens escritores e poetas franceses
ligados à revista Littérature, em 1919. Se consolidou como um movimento, com a
publicação do Manifesto Surrealista, em 1924, dedicado principalmente a práticas
literárias. Lá Révolution Surréaliste foi um veículo oficial do movimento, lançado
em outubro de 1925. A história do movimento surrealista está marcada por sua
filiação ao partido comunista e foi classificado como marveilleux, maravilhoso em
francês, pois:

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• tem origem, espontaneamente, de lugares onde a razão não tinha afetado: a
infância, a loucura, a insônia, a alucinação, sociedades primitivas e sonhos;
• se trata de um movimento artístico que tem uma comunicação com o irra-
cional e o ilógico;
• busca desorientar e reorientar a consciência por meio do inconsciente;
• tem auxílio do fluxo de consciência e escrita automática.

Como vimos, o Surrealismo nasceu oficialmente em 1924, porém, entre 1919


e 1924, ele já existia associado ao Dadaísmo, que tratamos anteriormente, pois
Breton estava associado com um nome do Dadaísmo, Tzara, no entanto, quando
Breton rompeu com Tzara, iniciou-se a “temporada dos sonhos”, o Surrealismo.

O Dadaísmo era um movimento de protesto contra o vazio da Primeira Guerra


Mundial, era um movimento crítico. Onde o Dadaísmo foi destrutivo, negativo e
exibicionista, o Surrealismo tinha uma fé poética no homem e no seu espírito.

O Surrealismo é uma maneira de enxergar o mundo, uma vanguarda artística


que transcende a Arte. Busca restaurar os poderes da imaginação, castrados pelos
limites do utilitarismo da sociedade burguesa e superar a contradição entre objetivi-
dade e subjetividade, tentando consagrar uma poética da alucinação, de ampliação
da consciência.

Breton declara no Manifesto Surrealista sua crença na possibilidade de reduzir


dois estados aparentemente tão contraditórios, sonho e realidade, “a uma espécie
de realidade absoluta, de sobre-realidade.”

Para os surrealistas, o movimento não é um estilo estético, mas uma forma de


pensar, de conhecer, de sentir, trata-se de um estilo de vida.

Recebeu influências de diversas áreas completamente diferentes:


• teorias de Freud;
• ênfase no papel do inconsciente na atividade criativa;
• Marxismo;
• surgimento do novo homem que se liberta das convenções instituídas pela
sociedade burguesa;
• aproveitaram e utilizaram os ensinamentos do Dadaísmo, assim como as suas
técnicas, principalmente a colagem;
• libertação das exigências da lógica e da razão, das convenções morais e sociais;
• combinação do representativo, do irreal, do abstrato e do inconsciente;
• expressão de sonhos, devaneios, fantasia e loucura;
• tem como principais metodologias a colagem, sobretudo com Max Ernest;
• na literatura, usa a escrita automática, ou seja, escrever sem pensar;

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

• a pintura e a ilustração surrealistas também são automatizadas, não buscam


coerência lógica e racionalismo;
• associação de ideias sem a procura de sentido e desencadeada livremente;
• escrever ou desenhar em estado semi-hipnótico, sob a influência de álcool, da
fome ou da droga que provocariam alucinações;
• discursos ditos ou ditados durante o sono ou relatos de sonos;
• junção de escritas simultâneas de várias pessoas, uma forma de colaborativis-
mo, muitas vezes, sem nexo.

O fim do Surrealismo como movimento organizado aconteceu em 1929, com o


surgimento de dissidências no grupo. Entre 1935 e 1938, mesmo depois desse en-
fraquecimento, o movimento alcança fama internacional. Com a Segunda Guerra
Mundial, em 1939, o grupo se dispersa completamente. Tenta uma revitalização,
em 1947 e 1959, com algumas palestras de Breton, contudo, o fim definitivo vem
em 1966 com a morte de Breton, seu fundador.

Como mencionamos anteriormente, no Surrealismo, as obras eram represen-


tações ilógicas do subconsciente, como imagens vistas em sonhos ou alucinações.
Podiam também representar aspectos da realidade em excesso, com elementos ine-
xistentes. Dois dos principais nomes do Surrealismo são Salvador Dalí e Joan Miró,
contudo, o Surrealismo apareceu em diversas áreas do conhecimento: na literatura,
no teatro, no cinema e na pintura.

Para a aproximação com o Design, nos concentramos na pintura surrealista,


onde era colocada a emoção e o inconsciente do artista, para representar seu mun-
do concreto.

A pintura surrealista atuou em duas correntes cronológicas: a primeira corrente


trabalhava com a distorção e justaposição de imagens conhecidas para gerar a
abstração; a segunda corrente libertou a mente e deu vazão ao inconsciente, sem
nenhum controle da razão.

Além dos mais conhecidos Dalí e Miró, podemos mencionar também Ernst,
Magritte e Masson, entre outros, espalhados pelo mundo, sempre com pinturas
automáticas, com justaposições inesperadas. São as pinturas dos sonhos, uma fo-
tografia da “irracionalidade concreta”.

Nas pinturas de Frida Kahlo, podemos perceber, em muitos casos, a sua própria
imagem representada na obra. Ela nunca se considerou uma artista surrealista, mas
tem uma explicação para isso: “Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui.
Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.”

Assim como no caso do Cubismo, que mencionamos anteriormente, no Brasil,


não tivemos artistas notoriamente surrealistas. Tivemos alguns artistas com traços
surrealistas, entre eles: Ismael Nery, Tarsila do Amaral e Cícero Dias, na pintura; e
Maria Martins, na escultura.

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O Surrealismo também influenciou o Design:
• reforçou a técnica da colagem e do decalque na ilustração e na pintura;
• inseriu profundidade à página impressa chapada;
• uso de fantasia e intuição em termos visuais;
• elementos surreais na fotografia e na criação publicitária;
• imprevisíveis justaposições do inconsciente;
• associação de ideias para revelar o subconsciente dos seus personagens.

Como vimos, desde o final do século 19 até o meio do século 20, os movimen-
tos artísticos deixaram herança para o Design da época e mesmo para o Design
atual. A influência da Arte foi importante para fornecer referências para designers
da época, mas ainda fornecem referências para designers atuais.

Na próxima unidade veremos que os assuntos que estudamos nesta unidade são
importantes para os próximos movimentos relacionados ao Design. A tendência re-
buscada do movimento Arts and Crafts se conectou com outro movimento artístico
associado ao Design, a Art Nouveau. Além disso, alguns movimentos da Arte Mo-
derna que vimos aqui, como o Dadaísmo e o Surrealismo, foram importantes para
o surgimento do movimento De Stijl, mais um movimento relacionado ao Design.

Veja exemplos de tudo o que falamos nesta unidade e aprimore seus estudos. Assista à vi-
Explor

deoaula desta unidade!

Em Síntese Importante!

O conteúdo desta unidade menciona algumas referências que datam de muitos anos ante-
riores, porém, levando em consideração os avanços da Revolução Industrial e a contribui-
ção que eles tiveram para o Design Contemporâneo, o que estudamos aqui se concentra
no século 19, a partir de 1820. A fotografia, a litografia e o movimento Arts and Crafts se
desenvolveram durante esse período. A Arte Moderna, como vimos, é um termo que se
refere às expressões artísticas surgidas no final do século 19, até o meio do século 20. Para
ressaltar a proximidade que alguns movimentos da Arte Moderna tiveram para o Design,
estudamos movimentos desse período, últimas décadas do século 19 e primeira metade
do século 20.

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UNIDADE Período Pós-Industrial e Arte Moderna

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Livros
Arte Moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos
ARGAN, G. C. Arte Moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São
Paulo: Companhia das Letras, 1992.
Para entender a arte: história, linguagem, época, estilo
PRETTE, M. C. Para entender a arte: história, linguagem, época, estilo. São Paulo:
Editora Globo, 2008.
História do Design Gráfico
PURVIS, A. W.; MEGGS, P. B. História do Design Gráfico. São Paulo: Cosac
Naify, 2009.
Conceitos da Arte Moderna
STANGOS, N. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1994. 306p.

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Referências
BONSIEPE, G. Design: do material ao digital. Trad. Cláudio Dutra. Florianópolis:
FIESC/IEL, 1997.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. E. H. Gombrich – Trad. Álvaro Cabral. Rio


de Janeiro: LTC, 2008.

PETRINI, C. D. R. Legenda Cinética: tipografia em movimento e traduções nar-


rativas. São Paulo: Gênio Criador, 2018.

PURVIS, A. W.; MEGGS, P. B. História do Design Gráfico. São Paulo: Cosac


Naify, 2009.

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