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ADUQUESACORTESÃ

Wicked Deceptions 1

JOANNASHUPE
Sinopse
Pode uma mentira imprudente conduzir ao amor eterno?
Júlia Colton se casou aos dezesseis anos com o sétimo Duque
de Colton, Nicholas Francis Seaton, conhecido como o Duque
Depravado. Depois do matrimônio, ele pede duas coisas:
dormir em quartos separados e liberdade para estar com outras
mulheres sem que ela se incomode. Júlia não esperava muito
mais, mal se conheciam e seu matrimônio fora um acordo entre
famílias. Mas agora, oito anos depois, seu marido é um
estranho, e ela está zangada e aborrecida. Assim, trama um
plano para seduzir o marido que a ignora.
Um plano bastante indecoroso, mas incrivelmente
prazeroso: aprender os segredos mais íntimos da mais
importante cortesã de Londres. Fazer-se passar por cortesã,
com o nome de Juliet Leighton. Viajar para Veneza e localizar
seu marido. Seduzir seu marido, conceber um herdeiro e
assim, assegurar seu futuro. O que começa sendo um
tormentoso flerte termina convertendo-se em uma autêntica
paixão, e o sentimento é mútuo.
A duquesa cortesã descobrirá o amor de sua vida no
homem com quem se casou?
Capítulo 1
Uma mulher inteligente é capaz de transformar-se naquilo que a
situação requeira.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Veneza, novembro de 1816

A primeira vez que a Duquesa de Colton viu seu marido


após suas apressadas bodas, o encontrou sentado a uma mesa
de cartas com uma mulher peituda em seu colo, suas pernas
pendurando pela lateral da cadeira. Júlia pôde vê-los
claramente do outro extremo da sala de jogo. A mulher…
desfrutava enquanto o duque, com uma mão por dentro de seu
espartilho, movia os dedos sob o tecido lhe acariciando o seio
com abandono. Sua outra mão, junto com sua atenção, seguia
nas cartas.
Aquela demonstração impressionou Júlia. Escandalosa,
mas curiosamente sedutora, aquela encenação serviu para lhe
recordar que a vida de seu marido não podia ser mais distinta
que sua própria e resguardada existência londrina. O que mais
podia esperar de um homem apelidado de o Duque Depravado?
— Raciocinou. Tragou a humilhação e continuou observando o
desenvolvimento da cena.
Tomou consciência de quão bonito ele era. Nas bodas
Júlia o tinha visto fugazmente, ambos eram muito jovens, para
não dizer que ela era uma garota tímida e aterrorizada de
dezesseis anos. Agora ele parecia mais velho e… mais
corpulento. O cabelo castanho um pouco comprido lhe caía ao
redor da gola da camisa e emoldurava seus traços perfeitos:
nariz reto, maçãs do rosto marcadas e lábios grossos. Era
verdadeiramente imponente.
Algumas mulheres haveriam se corroído de ciúme ao
surpreender seu marido em atitude semelhante. Júlia não.
Esse homem era um desconhecido para ela e não sentiu mais
que uma combinação de raiva e aborrecimento. Raiva de que
Colton a tivesse ignorado durante oito longos anos, e
aborrecimento por haver se visto obrigada a urdir tão complexa
artimanha e cruzar o continente para valer-se dela.
Júlia observou como a moça em seu colo começava a
ofegar. A mulher fechou os olhos e estremeceu da cabeça aos
pés; a cabeça para trás em êxtase. A expressão de Colton não
deixou entrever nada sobre sua acompanhante nem suas
cartas, ao mesmo tempo que os outros jogadores pareciam
estudar suas próprias mãos de cartas com perplexidade. À
margem de Júlia, na sala ninguém lhes prestava a mínima
atenção. Colton tinha uma mulher… encontrando o prazer em
seu colo e ninguém se voltava sequer para olhar. Seria algo
frequente?
Assim que a mulher recuperou o fôlego, inclinou-se para
sussurrar ao ouvido de Colton. Ele sorriu, ajudou-a
educadamente a descer de seu colo, e lhe deu um tapinha no
traseiro antes de deixar que partisse. Voltou a concentrar-se na
partida.
O bom amigo de Júlia, Simon Barrett, o Conde de
Winchester, apareceu ao seu lado.
— Tem certeza que quer fazê-lo? Não é muito tarde para
voltar atrás, já sabe.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não. Fui muito longe para deixá-lo agora.
Simon era um homem muito bonito, especialmente esta
noite, com seu cabelo loiro e seus olhos azuis, que
contrastavam agradavelmente com seu traje de noite negro.
Empenhou-se em acompanhá-la a Veneza para fazer-se passar
por seu amante atual, e que lhe deixasse escoltá-la e protegê-
la. No fundo agradecia sua ajuda.
Sorriu-lhe.
— E depois do que acabamos de ver, eu diria que meu
plano é perfeito.
— Temia que dissesse isso.
Ficou séria. Esta não era a batalha de Simon e lhe
pareceu justo lhe oferecer a mesma possibilidade de escapar.
— Simon, já te disse muitas vezes que posso fazer isto
sozinha. Sua amizade com Colton não tem por que ver-se
afetada por sua implicação.
Ele olhou para o duque do outro lado da sala.
— Tenho minhas razões para te ajudar. Me ocuparei com
o aborrecimento de Colt quando chegar o momento.
Ela ficou nas pontas dos pés e lhe deu um beijo na
bochecha.
— É um bom amigo. Baixou de novo os calcanhares ao
chão ao mesmo tempo que lhe recordava com doçura: — Agora
sou a inigualável senhora Juliet Leighton, a cortesã mais
conhecida de Londres. Me deixe uns minutos com ele, mas não
mais que isso.
— Muito bem. Só espero poder te reconhecer.
Ao inteirar-se da predileção obstinada de seu marido pelas
ruivas, Júlia tinha pintado os cabelos para converter
temporariamente seus cachos de cabelo loiro claro em um
vermelho raivoso.
— O importante é atrair a atenção de Colton.
— Eu não me preocuparia com isso. — Simon lhe ofereceu
o braço. — Vamos?
Ela assentiu e aceitou que a acompanhasse. As mesas de
cartas estavam alinhadas junto à parede do fundo, de modo
que Simon e ela tiveram que passear entre os grupos de
convidados e alguns criados que levavam taças de champagne
para poder chegar ao seu destino. Embora Simon lhe tivesse
advertido do que cabia esperar de uma festa privada de moral
duvidosa, à Júlia estava custando não se fixar no que ocorria
ao seu redor. Não havia esposas presentes; ou melhor, as
mulheres eram amantes, atrizes e prostitutas. E os homens,
em sua maioria antigos membros do governo veneziano ou
enriquecidos comerciantes, pareciam desejosos de aproveitar-
se da situação. Os casais se beijavam à vista de todos e se
acariciavam com descaramento, o ar denso de fumaça, luxúria
e suor.
Sua confiança em si mesma aumentou conforme
avançavam pela sala. Nenhuma das pessoas com as quais
falaram suspeitou que fosse uma impostora, e a trataram de
maneira informal, como a uma cortesã, não uma duquesa.
Apesar dos nervos, o certo era que a situação não dava
margem para outras opções. Este plano tinha que funcionar. Se
o odioso primo de Colton, lorde Templeton, cumprisse sua
recente ameaça de reduzir mais ainda sua atribuição, em
poucos meses não teria dinheiro suficiente para pagar os
serventes nem o aluguel de sua casa de Mayfair. A mãe de
Colton tinha deixado claro que não era bem-vinda em
nenhuma das propriedades ducais, o que significava que sua
tia e ela ficariam na indigência.
Necessitava de um filho varão, um legítimo, que servisse
de herdeiro para o imóvel Colton. Só então poderia desbaratar
as intenções de Templeton para com o ducado.
Seu plano era infalível. Seis meses antes tinha vendido
todas as jóias que tinha, a fim de contratar em segredo Pearl
Kelly, a autêntica rainha das cortesãs de Londres, para que a
assessorasse. Pearl tinha resultado ser uma verdadeira fonte
de informação que havia dito à Júlia exatamente como vestir-
se, atuar, falar e flertar como uma prostituta.
Pearl inclusive tinha ajudado a costureira das cortesãs a
desenhar os vestidos de Júlia. O guarda-roupa resultante era
soberbo e elegante, de suntuosos tecidos e atrevidos decotes,
como o vestido verde esmeralda intenso que usava esta noite. A
roupa interior encomendou em Paris, e ainda a ruborizava. As
joias eram problemáticas, já que nos últimos anos tinha
vendido todas as joias boas, por isso Pearl lhe tinha
emprestado gentilmente vários conjuntos esplêndidos, que
incluíam o custoso colar de diamantes e pérolas que agora
levava no pescoço.
Do mesmo modo, tinha aprendido a usar cremes e
maquiagem para realçar ao máximo suas feições. Até então se
aplicara pós de pérola branca no rosto, creme rosa nos lábios e
nas bochechas, e uma fina camada de carvão nos cílios e nas
sobrancelhas. As melhoras combinadas com seu cabelo
avermelhado a deixaram completamente irreconhecível para
qualquer um familiarizado com a loira e discreta Duquesa de
Colton.
Aproximaram-se do duque. Ao cabo de um segundo Colton
elevou a vista e seu rosto denotou a surpresa.
— Winchester! — Deixou as cartas na mesa e se plantou
ante eles alongando sua silhueta desajeitada. — Não posso
acreditar nisso. Por que não me escreveu para informar que
vinha?
Simon conseguiu aparentar surpresa e deu umas
palmadas nas costas do duque.
— Chegaram-me rumores de que continuava por aqui,
amigo.
— Não tenho motivos para ir. — Colton se voltou para
Júlia e se centrou nela com educado interesse. — Vejo que não
está sozinho. Rogo-te que nos apresente.
— Naturalmente. Colton, apresento a inimitável senhora
Juliet Leighton. Juliet, este pândego é meu amigo de toda a
vida, o Duque de Colton.
Ela fez uma marcada reverência e pestanejou coquete
enquanto seu marido se fixava no assombrosamente
pronunciado decote de seu vestido, por onde seus generosos
seios ameaçavam aparecer a qualquer momento.
— Senhora Leighton, sua reputação a precede — disse o
duque enquanto ela se incorporava. — Não ouvi mais que
elogios de sua beleza e engenho. Comentam que você é a
mulher que tem toda Londres na palma da mão.
Júlia ficou aliviada ao constatar que tinham chegado aos
ouvidos de seu marido os rumores que eles mesmos tinham
espalhado.
— Talvez não a toda Londres, sua excelência, mas uns
poucos afortunados sim, efetivamente, sentiram a palma da
minha mão.
Ele arqueou uma sobrancelha negra e lhe dedicou um
sorriso diabólico que, sem dúvida, derreteria as vísceras de
uma mulher mais débil.
— Winchester, estou começando a te invejar — Colton
murmurou sem separar dela seu olhar cinza esfumaçado.
— Não estranho. Estou totalmente a mercê da senhora
Leighton.
O sorriso cúmplice de Simon não deixou lugar a dúvidas
sobre a natureza daquela relação.
— Que adulação! — Júlia disse com sua voz mais coquete.
— Simon, querido, me deixe um momento a sós com sua
excelência. Seja um bom menino e vá me buscar um pouco de
champagne.
Simon lhe lançou um olhar de apaixonado que em
qualquer outra circunstância teria feito Júlia rir.
— Por ti o que for, amor. — Afastou-se para deixar Júlia a
sós com o marido que não tinha visto em oito anos.
Deveria ficar sem fala, pensou enquanto observava o
homem que exercia, inclusive de tão longe, um poder enorme
sobre ela. Mas ante o ardente brilho de interesse masculino nos
olhos de Colton, o modo em que a esquadrinhava com atenção,
soube que agora ela segurava as rédeas.
— Sua excelência, — começou dizendo. Então se
aproximou com descaramento e lhe agarrou um braço — tenho
a sensação de que já nos conhecemos. — Júlia o conduziu para
as portas que davam ao terraço.
— Ah, sim? — Ele foi contornando com destreza outros
casais e pôs sua mão grande nas costas de Júlia enquanto
saíam à fresca escuridão. — Se nos conhecêssemos, senhora
Leighton, estou convencido de que me lembraria.
— Oh! Me chame de Juliet. Todos os meus bons amigos o
fazem.
— Nesse caso, me chame de Nick. Nunca gostei muito do
meu título. — Alto e ágil, apoiou-se no corrimão do terraço;
como cortina de fundo, um trecho surpreendentemente limpo
do canal. De perto era ainda mais bonito. Seus ombros eram
largos e sua força, latente sob sua roupa feita à medida com
aprimoramento. De repente se sentiu muito… viva e ficou
muito nervosa em sua presença poderosamente atraente. Não
era de estranhar que seu marido se convertera em semelhante
aventureiro e descarado.
— Se insiste, Nick. — Arrastou as palavras, reparando em
como ele observava seus lábios. — Amigos, não é?
— Isso espero, sem dúvida. — Seu rosto se suavizou com
um sorriso insinuante e as pernas de Júlia tremeram; a
intensidade daquele insignificante gesto lhe excitou até os
dedos dos pés. — Está gostando de Veneza, Juliet?
— É linda. Esta é minha primeira viagem e reconheço que
não é absolutamente como imaginava. A comida é magnífica e
as pessoas são apaixonadas e amáveis. E você? Está há muito
tempo aqui?
— Uns três anos. Antes estive em Viena, Colônia, Paris…
— E pensa retornar algum dia à nossa formosa Inglaterra?
Suas feições se esticaram muito levemente.
— Não. Não pretendo retornar. Lá não tenho nada.
No peito de Júlia germinou a raiva, ardente e intensa.
Como se atrevia? Não tinha nada… e sua esposa? Embora sua
mão lhe pedisse para dar-lhe um bofetão na bochecha, forçou o
que esperava que fosse um gesto cúmplice e reduziu sua voz a
um rouco ronrono:
— Que sorte tive de encontrá-lo aqui, então!
— Certamente. E justo quando começava a pensar que
Veneza tornara-se aborrecida. Faz muito tempo que conhece o
Winchester?
— Não, não muito. Embora me falou de você. Entendi que
são amigos de toda a vida.
— Assim é. Desde Eton, de fato. Fomos…
— Aqui tem, amor.
Simon apareceu com uma taça de champagne.
— Bom, Winchester, — começou o duque — me conte que
tal estes dois últimos anos.
Dois anos! Júlia afogou um grito e quase se engasgou com
o sorvo de champagne. Fazia dois anos que Simon não via seu
marido? Se Colton não estivesse presente teria dado em Simon
um bom chute na perna por não haver lhe dito.
— Extraordinariamente bem. E você?
— Passo bem aqui — Colton respondeu. — Os venezianos
são muito simpáticos, apesar da animosidade com a presença
austríaca. Entretanto, tinha pensado em viajar a São
Petersburgo no ano que vem.
— Passaram oito anos. Não te parece que transcorreu
suficiente tempo…?
— Não o diga. — A voz de Colton se tornou incisiva e seu
rosto se escureceu. — Depois de nossa última briga pensava
que tinha aceitado deixar de me incomodar para voltar.
— Agora a sério, Colt. Sua esposa merece…
— Ah…! Se refere à marionete do meu pai? — Ergueu-se
em toda sua altura. — Chega. Não faça com que me arrependa
de te haver mantido a par do meu paradeiro todos estes anos.
«Marionete? Mas que diabos…?» Júlia estava ansiosa por
estar a sós com Simon para obter respostas.
Simon elevou as mãos em sinal de rendição.
— Não quero brigar contigo, especialmente em presença
de uma mulher tão formosa — disse, rodeou Júlia com o braço
e lhe estreitou os ombros em gesto tranquilizador.
Seu semblante uma máscara de atenta cortesia, centrada
no duque.
— Sua excelência, depois de amanhã, à noite, queríamos
ir ver a representação do Tancredi a Fenece. Talvez queira nos
acompanhar.
— De fato já tinha pensado em assistir — Colton
respondeu, sua postura novamente relaxada. — Seria uma
honra que ambos se unissem ao grupo do meu camarote.
Júlia procurou fingir surpresa, embora já conhecesse seus
planos. O valete de Simon tinha persuadido uma das criadas
do duque para lhes dar informação a respeito da agenda social
cotidiana de Colton, em cujo futuro haveria mais encontros
casuais com a senhora Leighton.
— Isso seria maravilhoso, sua excelência. Estou desejando
que chegue o momento.
Nicholas Francis Seaton, o sétimo Duque de Colton,
presenciou clandestinamente a ida de Winchester e da senhora
Leighton de seu assento à mesa de cartas. Desde que voltou do
terraço não tinha sido capaz de afastar os olhos da
acompanhante de seu amigo, que cativou todos os homens da
festa. Era boa. A melhor, de acordo com os rumores sobre seu
extraordinário engenho, encanto, inteligência e paixão. Mas
Nick nunca tinha dado muito crédito aos rumores. Não depois
que sua própria vida deu um tombo devido aos falatórios e as
insinuações, e se tivesse visto obrigado a abandonar seu lar e
seu país.
Não, ele estava muito mais interessado em descobrir por si
mesmo os talentos daquela mulher.
Se tivesse que evocar a imagem da mulher perfeita, seria a
da bela senhora Leighton. De pele alabastro e olhos azuis
claros, seu cabelo tingido de vermelho, suas feiçõesadas e sua
silhueta exuberante, tudo estava composto e disposto para
brilhar ao máximo. Uau! Era uma autêntica deusa. O decote do
vestido mal cobria seus generosos seios e Nick juraria ter visto
de soslaio uma escura aréola.
E aquele sorriso de comissuras misteriosamente curvadas
para cima… Sua boca provocava e seduzia. Pedia a gritos que
um homem passasse a língua por seu contorno com a
esperança de que tivesse a metade do sabor que parecia ter.
Tinha visto uma centena de vezes um sorriso atraente de
mulher, mas jamais um tão cativante como o da senhora
Leighton. Quase lhe tinha dado a impressão de que se divertiu
paquerando com ele.
Não era de estranhar que Winchester parecesse tão
perdidamente apaixonado. Desde jovens, muitas mulheres
tinham saltado de sua cama à de Winchester e vice-versa. Não
era mais que um jogo. Mas a ternura com que seu amigo tinha
cuidado esta noite da senhora Leighton resultava
surpreendente, de modo que teria que avaliar os sentimentos
de Winchester por aquela mulher antes de dar qualquer passo.
Embora ela tivesse flertado descaradamente com ele, não
ofenderia um dos poucos homens que ainda tinha por amigo.
Três quartos de hora depois, mostrou seu jogo. Tinha sido
uma noite rentável e estava cansado. Tresnoitava muito
ultimamente. Recolheu seus lucros e partiu.
Já na rua, Fitzpatrick, o valete de Nick, e escolta por
designação própria, saiu da escuridão.
— Boa noite, sua excelência.
— Deus, Fitz! Pare de me chamar assim.
— Que não queira ouvi-lo não significa que não seja
verdade — Fitz disse com seu áspero sotaque irlandês; e
começou a dirigir-se para a gôndola.
Nick murmurou uma obscenidade e Fitz riu entredentes.
Nick sabia que seu valete usaria sempre o devido tratamento de
respeito, por mais que dissesse ao irlandês que não o fizesse.
Sete anos antes Nick tinha tirado aquele gigante de uma
espantosa briga em um beco de Dublin. Dois rufiões o
seguravam enquanto um terceiro homem fazia incisões em seu
rosto com uma adaga. Nick os tinha identificado a todos como
ladrões locais, assim interveio, apesar de estar em minoria.
Naquela época ele tinha sede de briga e, junto com Fitz fez os
três criminosos em migalhas. Infelizmente, o homem tinha
sofrido cortes severos na briga, cicatrizes que ainda
conservava.
Fitz considerava que Nick lhe tinha salvado a vida. Após
se aproximou do duque, e este compreendeu em seguida que
era mais fácil contratá-lo que tentar desfazer-se dele. O
irlandês começou a trabalhar como valete, mas os problemas o
seguiam aonde fosse; de modo que Fitz assumiu a
responsabilidade de velar também por sua segurança e
devolveu o favor lhe salvando a vida uma e outra vez.
Voltaram uma esquina e desembocaram em uma rua
pouco iluminada relativamente solitária. Aproximaram-se um
par de homens e Fitz deslizou uma mão no casaco disposto a
tirar a pistola do cinto. Entretanto, os homens seguiram
absorvidos em sua conversação e passaram ao longo sem
incidências. Fitz relaxou e continuaram andando para a água.
— Preocupa-se muito — disse Nick. — Faz oito meses que
não temos uma briga.
— Três ataques isolados em dois anos, para não
mencionar o contratempo de Viena. Talvez deveria preocupar-
se um pouco mais, sua excelência.
Era uma conversação recorrente, e Nick sabia que não
poderia dissuadir Fitz da idéia de que o perigo o espreitava.
Subiu à sua gôndola.
— Quantas vezes tem que salvar minha miserável vida
para que se dê conta de que não mereço? — «Pirralho indigno e
ingrato», ouviu seu pai dizer com desdém. Nick rechaçou a
lembrança, como tantas vezes antes. — Poderia estar vivendo
tranquilamente em seu país natal, Fitz. É uma tolice que se
exile por mim.
Fitz tomou assento na parte de trás, perto do gondoleiro.
— Você me salvou a vida. Até que a dívida esteja saldada
ou deixe de me necessitar, ficarei.
Discutir era inútil, por isso se reclinou para contemplar as
demais embarcações que passavam flutuando.
— Esse que saiu uns minutos antes que você era seu
amigo lorde Winchester?
— Sim — Nick respondeu.
— Levava um exemplar adorável pelo braço.
Nick esboçou um sorriso. A senhora Leighton era muito
mais que uma prostituta qualquer.
— Averigue onde se hospedam, ok? Eu gostaria de mandar
uma nota a Winchester amanhã.
«E possivelmente também um pequeno presente à senhora
Leighton.»

***
— Dois anos! Viu-o faz dois anos e não me disse? — Já em
sua gôndola, Júlia tirou as luvas e as deixou sobre o assento
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da felze . As cortinas estavam puxadas e a única lamparina
interior arrojava um quente resplendor amarelo sobre a cabine.
Estava muito zangada para sentar-se, mas pouca opção tinha
no reduzido espaço. — Como pôde me ocultar isso Simon?
A embarcação se afastou do cais e ele se deixou cair ao
seu lado.
— Para que lhe ia contar isso. Vim a Veneza e tentei
convencê-lo a voltar comigo. Falei de ti. A verdade é que lhe
cantei seus louvores, mas não consegui convencê-lo. Deu-me
medo que se inteirasse e pudesse ferir seus sentimentos. —
Enquanto Júlia pensava nisso, ele continuou: — A única razão
pela qual o mencionei esta noite foi para que fosse plenamente
consciente do que enfrentará com o Colton.
— A que se referia quando disse que eu era a marionete de
seu pai? Marionete do quê, exatamente?
Simon suspirou.
— Segundo ele, é a mulher com quem seu pai o casou sem
ter em conta seus desejos a respeito. Como te dizia, era o filho
esquecido até que seu irmão faleceu. E ao converter-se no
herdeiro, seu pai quis, por todos os meios, fazer seu único filho
vivo entrar no bom caminho para que se tornasse responsável.
Na opinião de Colt, você é simplesmente outro intento de seu
pai por manter seu filho rebelde em rédea curta. — Simon
esticou suas longas pernas. — Mas já sabe quão bem resultou
aquilo, porque se foi a Paris assim que fez os seus votos, não?
Sim, e aquilo lhe tinha doído. E embora conseguisse
imaginar como Colton se sentira manipulado, Júlia precisava
concentrar-se em seu plano; um plano do qual Simon não
estava inteiramente ciente.
— Vamos ver… se interessou pela senhora Leighton.
Depois de enrolá-lo poderei lhe dedicar tempo não em
qualidade de esposa, mas sim como mulher. Assim poderei
satisfazer minha curiosidade por meu marido — mentiu.
— Que Deus salve os homens das mulheres inteligentes —
Simon murmurou com um bocejo. — Não sei se este vínculo
com Pearl Kelly foi benéfico, Júlia. Antes não era tão…
descarada.
— Que remédio! Estou farta de esperar e me perguntar se
Nick voltará. Estou farta da compaixão e do desdém, de todos
os rumores. A esposa ingênua do Duque Depravado; se se
tratasse de outra pessoa, seria ridículo. Já falamos sobre isto,
Simon. No mínimo, eu deveria ser capaz de conhecer o homem
com quem estou casada. Ver se encaixamos.
— Ora! Esse é Nick, não é?
A gôndola se deteve e Simon se levantou para estender
sua mão. Subiram ao cais e continuaram para as escadas de
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seu palazzo alugado.
— Insisto — ela disse. — Já te disse que estava
interessado.
— Claro que está interessado! Seria uma idiotice não
estar, e Colton não é idiota. Como te dizia, aprovo totalmente
este plano. Colton está há muito tempo ignorando suas
responsabilidades.
***

Procuraram alguns serventes locais à sua chegada, e


ninguém suspeitava que os inquilinos não fossem quem diziam
ser. Na frente dos serventes, o trio incluía um rico lorde inglês
que viajava com sua querida, e a dama de companhia desta.
Júlia, sua tia, Theodora, e Simon se esmeraram por manter as
aparências, a menos que tivessem certeza absoluta de estarem
a sós.
Uma vez dentro, Simon tirou a capa de Júlia e a deu ao
criado. Tia Theo apareceu na porta do salão.
— Alguém quer um xerez?
A julgar pela alvoroçada desordem de cachos na cabeça de
Theo, Júlia supôs que sua tia ia já pela segunda ou terceira
taça.
— Sim, acredito que a mim sim. Querido? — Soltou
lançando ao Simon um sedutor sorriso dedicado ao servente
que rondava ali por perto.
— Adiante, meu amor — ele disse com desenvoltura,
fazendo um gesto para a porta.
— Que tal sua noite? — Theo perguntou ao mesmo tempo
que acomodava sua figura arredondada e exuberante no divã.
A tia de Júlia gostava do xerez e dos bolos, e estranho era
o dia em que não se desse o capricho de consumir ao menos
uma das duas coisas.
— Produtiva — Júlia respondeu fechando a porta ao
entrar. — Simon, me traga uma taça do que for que vá tomar.
O xerez me produz náuseas — disse e se deixou cair em uma
poltrona em frente de sua tia.
Simon lhe pôs uma taça na mão e Júlia tomou um sorvo.
Viu que era um bordeaux e tomou outro gole agradecida.
— Oh, tia Theo! — Júlia suspirou. — Não imagina como
era essa festa. Escandalosa seria uma forma irrisória de
descrevê-la. Que liberais são estas mulheres! Certamente nada
a ver com o clube Almack.
— Essa liberdade não dura muito quando seu físico se
murcha ou seu benfeitor se farta de ti. E a saúde periga! —
Theo agitou um dedo para Júlia. — Não as inveje. É uma vida
dura, cheia de incerteza e desdém.
— Mas exercem uma quantidade determinada de poder.
Pearl teve aventuras com dois duques, um conde, um visconde
e um príncipe bávaro. Concederam-lhe duas rendas vitalícias e
só tem trinta e um.
— Júlia, não seja ingênua — Simon disse. — É impossível
que todas as mulheres sejam como Pearl Kelly.
— Conhece-a? — Júlia perguntou-lhe.
— Sim, a conheci no Vauxhall Gardens. Uma noite saímos
em grupo para jantar e ela acompanhava lorde Oxley. É
inteligente e engenhosa — confessou. — Não só é capaz de
levar uma conversação, mas também escuta. E Pearl faz com
que um homem tenha a sensação de que o que diz é
importante; o que, no caso do Oxley, seria um autêntico
milagre. Embora seja muito cara.
— Se a metade do que me disse é verdade, vale todas as
notas e jóias que recebe.
— Quase me compadeço do seu pobre marido — Simon
disse alargando as palavras.
Júlia franziu as sobrancelhas. Colton não merecia
compaixão alguma. Era um depravado. E a tinha deixado à
mercê de seu estelionatário e lascivo parente.
Ia rebater, mas Simon levantou uma mão.
— Eu disse «quase». Ninguém sabe tão bem como eu quão
infeliz foi nestes últimos anos. Colt merece um castigo pelo que
fez, e mais. Entretanto, dá a impressão de que está no caminho
de conseguir seu objetivo.
— Oh, louvados sejam os Santos! — Theo se deu uma
palmada na coxa. — Quanto tempo crê que ficaremos em
Veneza?
— Não muito. Aposto que pouquíssimo — Júlia respondeu
com um sorriso travesso.
— Bom, vou-me. — Simon se levantou e tomou de sua
taça. — Sei de um par de festas mais às quais eu gostaria de ir
esta noite; sem o olhar atento da senhora Leigthon,
naturalmente.
Júlia elevou a mão.
— Não diga nada mais. Desejamos-lhe sorte, não é, tia
Theo?
Theo, que era uma louca maravilhosa, assentiu, seus
cachos castanhos movendo-se para frente e para trás.
— Assim é. Pelo vinho, as mulheres e as canções, milord.
Simon lhes dedicou uma pomposa reverência e partiu.
— Crê que esta estratégia funcionará? — Theo perguntou
assim que ficaram a sós.
— Tem que funcionar. A última visita de Templeton segue
me provocando pesadelos.
Depois de lhe informar, de novo, da redução adicional de
sua atribuição mensal, aquele grotesco homem tinha sugerido
que serviços poderia oferecer Júlia para compensar a diferença.
E por serviços não se referia a lhe remendar a roupa.
A ideia de ter relações íntimas com Templeton, de
pequenos olhos negros, testa suarenta e atitude degradante,
quase a adoecia fisicamente. «Odeio Colton por me haver posto
nesta situação!»
— Como eu gostaria que meu pai estivesse vivo!
— A estas alturas seguramente seu pai teria agarrado seu
duque pelas bolas e o teria levado para casa.
Júlia se pôs-se a rir.
— É possível. Seja como for, Templeton não seria um
problema. Sei que meu pai acreditava que umas bodas com um
duque era um acerto sem precedentes para sua única filha,
mas quero pensar que teria repensado se soubesse os
problemas que isso me proporcionaria.
— O problema é que seu duque ignora suas
responsabilidades caseiras. Deixou-te oito anos à própria sorte,
sem ter notícias dele! — Theo soprou com desdém. — E que
lave as mãos com relação ao imóvel. Acaso pensa que todos os
administradores de imóveis são honestos? Sabe perfeitamente
que Templeton está subornando o braço direito de Colton para
que ele o obedeça.
— Ao Colton tanto faz. Ele mesmo me disse que não tem a
menor intenção de voltar para a Inglaterra. Por isso tínhamos
que fazer algo. Como bem sabe, destinamos nossas últimas
jóias para pagar Pearl e financiar o vestuário da senhora
Leighton. Mal temos para sobreviver até à primavera.
— Sigo pensando que poderíamos ter pedido ajuda a
Winchester. Ou talvez a lorde Wyndham.
Júlia ficou furiosa.
— Sabe que não podemos pedir que outro homem nos
mantenha indefinidamente. E de meu lorde não tem nada.
Disse-te que unicamente tinha flertado com Wyndham com a
esperança de forçar Colton a voltar para Londres, mas ou meu
marido não ouviu os rumores ou não lhe importou que lhe
pusesse os chifres, porque não funcionou.
— Pois se ao Colton não importa que lhe ponha os
chifres…
— Mesmo assim seria incapaz de fazê-lo. Colton saberia
que o filho não é dele, e não posso me arriscar a que conte a
alguém. Se soubesse, meu filho seria um marginalizado. Não,
Colton tem que ser o pai do meu filho. E quando descobrir que
estou grávida, voltaremos para Londres e lhe escreverei para
lhe explicar o que fiz.
Ambas permaneceram em silêncio pensando na reação do
duque a semelhante carta enquanto o relógio de mesa fazia um
tic-tac forte e regular que se ouvia em toda a habitação.
— Pergunto-me se Colton reconhecerá o bebê — disse sua
tia, que sorveu seu xerez.
Júlia franziu as sobrancelhas.
— Por que não o faria? Todo mundo quer um herdeiro.
— Ora… o que acontecerá se der à luz a uma menina?
— Vou amá-la loucamente; do cárcere para devedores.
Capítulo 2
Para chamar sua atenção, seja sedutora e inocente ao mesmo
tempo. Uma rameira inocente é o que a maioria dos homens
deseja ao fim do dia.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

3
O duque de Colton andou a passo ligeiro para a piazza
São Marco, esquivando-se dos enormes atoleiros que a
inundação do começo da semana tinha deixado. Nesta época do
ano, Veneza tinha acqua alta, o que significava que as partes
baixas da cidade com frequência ficavam inundadas devido às
copiosas chuvas. A água, tanto dentro como ao redor da
cidade, era ali uma circunstância natural.
Nick continuou pela margem direita da Piazza e entrou no
Florian. Localizou Winchester imediatamente, sentado a uma
mesa ao fundo do abarrotado café.
Este se levantou e lhe deu umas palmadas no ombro.
— Que alegria receber sua nota! Passou muito tempo.
— Certamente, amigo. — Os homens se sentaram, e Nick
se serviu de uma xícara de café da jarra da mesa. — Confesso
que ontem à noite me surpreendeu.
— Sim? Parece incrível que está há duas semanas em
Veneza e não nos tenhamos encontrado até agora. Claro que
estive bastante ocupado.
— Ah…! Refere à sua senhora Leighton? É encantadora.
Sabia que «encantadora» não fazia justiça à mulher.
«Espantosa» e «fascinante» eram atributos muito mais
adequados.
— Isso é temporário. Ninguém a retém por muito tempo.
Não imagina o que tive que lhe prometer para conseguir que
viesse de viagem. Mesmo assim, temo que me substitua assim
que atracar em Londres; se não antes.
— É uma ardilosa mulher de negócios, não é?
Winchester assentiu.
— Ardilosa e implacável. Ela quase não necessita mais dos
quartos. É uma mulher de recursos que pode escolher seus
amantes por distintas razões.
— E por que razão escolheu a ti?
— Além de minha reputação na cama, quer dizer? — Nick
soprou e Winchester pôs-se a rir. — Prometi uma estadia em
Veneza tão longa quanto quisesse. Isso e um arsenal de jóias o
bastante grande para empalidecer uma princesa.
Nick esperava que Juliet ficasse tempo suficiente para que
os dois se conhecessem melhor. Tinha notado a atração da
noite anterior e, depois que tinha flertado com ele estava
convencido de que ela também o tinha notado; mas no
processo não queria ofender um de seus amigos mais antigos.
— E se encontrar outra pessoa estando em Veneza?
Winchester encolheu os ombros e tomou um sorvo de café.
— Não posso dizer que me surpreenderia. — Lançou ao
Nick um olhar cúmplice. — Ora, acho que pretende ganhar a
partida. Que feio, Colton!
Apesar do tom zombador de Winchester, Nick quis
apaziguar seu amigo.
— Só com sua aprovação. É um dos poucos homens que
me apoiou todos estes anos. A senhora Leighton é fascinante,
mas não tanto para arruinar uma amizade de vinte anos.
Winchester se mostrou momentaneamente embaraçado, o
que desconcertou Nick. Talvez todos estes anos fora o tivessem
tornado mais sentimental do que era apropriado na velha e
mal-humorada Inglaterra.
Começou a desculpar-se, mas Winchester elevou uma
mão.
— Não me importa que lhe jogue o olho, Colt. Não seria a
primeira mulher que perco para você. Mas ela tem suas
próprias razões para escolher acompanhante. Retê-la seria
como reter o vento.
— Que poético! — Nick zombou. — Está ficando muito
eloquente com a idade.
— Tendo em conta que só temos a diferença de uns
meses, deveria se abster de fazer comentários sobre a idade.
Mesmo assim, se pretende cortejar a minha Juliet, eu diria que
deveria ir procurando uma substituta. Que tal as mulheres em
Veneza?
— Abundantes — Nick respondeu com um sorriso. —
Talentosas. Formosas. — Sua mente evocou Francesca, quem
tinha sido sua amante durante quase um ano. De pele de oliva,
cabelo moreno e longas pernas, seu temperamento fogoso
casava com o seu próprio. Deitar-se com ela tinha sido uma
batalha feroz pelo controle. — Ardentes. Nada a ver com as
inglesas.
— Não se precipite no julgamento. Há uma inglesa em
concreto que, certamente, é todas essas coisas.
— Se eu tiver a oportunidade de comparar. Há um senhor
Leighton?
— Não. Faleceu há anos deixando a pobre mulher
totalmente carente de recursos. Mas tem um pouco de nobreza
em suas origens. Seu pai era primo do conde de Kilbourne,
acredito. — Então Winchester ficou sério e Nick imaginou o que
vinha a seguir: — Colt, por minha amizade com sua mulher me
sinto ao menos obrigado…
— Já basta. Não falamos disso ontem à noite? Tenho…
— Me deixe falar! — Winchester deixou a taça com
brutalidade. — Pode ser que um dia chegue a lamentar o
péssimo trato que deu a essa mulher. Inclusive agora os
carreiristas a rodeiam como a um cordeiro precioso. Se cansará
de te esperar e que Deus te ajude quando isso aconteça, Colt.
Nick ignorou a ligeira culpa que lhe produziram as
palavras de Winchester. Sua esposa não era mais que o
instrumento de controle de seu pai, Nick recordou-se. «É o
melhor que te acontecerá na vida, pirralho ingrato. Ou crê que
merece algo mais, menino?» Nick não tinha a menor intenção de
fazer nada do que seu pai tinha querido que fizesse, embora o
arrogante filho de sua mãe levasse tempo morto.
Com perito controle reprimiu a desolação e a raiva de seu
peito e tomou um pequeno sorvo de café.
— Se minha mulher encontrar outra pessoa, melhor. Não
quero um herdeiro, nem serei um duque nem um marido como
Deus manda. Sua excelência é livre para fazer o que lhe
agradar. É duquesa, maldição, e não tem um marido que limite
sua liberdade, de que demônios pode ter queixa?
Winchester tamborilou com os dedos sobre a mesa, um
claro sinal de que a resposta do Nick lhe tinha incomodado.
— Chama-se Júlia, Colt. É uma pessoa de carne e osso, e
não teve nada a ver com o que aconteceu. Sei que culpa seu
pai, mas a está fazendo sofrer desnecessariamente. Se não quer
viver na Inglaterra, manda a alguém buscá-la. Traga-a para cá.
Uma parte de Nick aceitou a sensatez daquelas palavras,
mas a maior parte e mais raivosa de seu ser desejava castigar
todos os membros de sua família: incluída a mulher que se
casara com ele. Além disso, por que uma dama de ilustre berço
ia querê-lo, um homem muito mais familiarizado com os
bordéis que com os salões de baile? Deus! Que jovem, formosa
e inocente estava no dia de suas bodas! Como poderia manchar
uma garota tão casta depois de ter empurrado seu próprio
irmão…?
Nick reprimiu deliberadamente aquela linha concreta de
pensamento. Não, à sua esposa mais valeria encontrar um
jovem galã carregado de títulos que soubesse ser um amante
cuidadoso e respeitoso.
— Não mandarei ninguém para buscá-la nem me
desculparei por isso. Se realmente é seu amigo, confio em que
lhe transmitirá o que te disse. Deixa que encontre a felicidade
em outra parte, porque em mim não a encontrará.
Winchester se reclinou e cruzou os braços diante do peito.
— Muito bem, mas comete um engano.
Nick observou com ar pensativo o seu amigo.
— Sente algo por minha esposa? Está inusitadamente
preocupado por sua felicidade. — Winchester ficou de um
vermelho apagado, e Nick acrescentou: — Não albergo
sentimentos amorosos por essa mulher. Mas, se você os sentir,
prometo-te que não afetará a nossa amizade. De fato, explicaria
por que está tão empenhado em ver-me retornar à Inglaterra.
— Não fantasio com a Júlia. Essa honra corresponde ao
Wyndham. — As sobrancelhas de Nick se arquearam ante
aquela novidade, mas não fez nenhum comentário, por isso
Winchester continuou: — Mas não crê que deixou que dure o
suficiente? Refiro-me ao escândalo. Maldição, passaram oito
anos, Colton. E ver o Templeton comportar-se como se ele fosse
o duque… Deus! É revoltante.
Nick sacudiu a cabeça.
— Toda Londres acredita que seduzi a minha cunhada,
coisa que fez com que meu irmão fosse às nuvens e caísse do
cavalo, quebrando o pescoço. Isso, além de todo esse disparate
do Duque Depravado, garante que as más línguas não me
esqueçam nunca.
— O apelido é justo, posto que eu mesmo vivi grande parte
de sua depravação juvenil. A imprensa apenas se utilizou do
rótulo uma vez que assumiu o título. — Sua voz se apagou. —
Mas Colt, ambos sabemos as verdadeiras circunstâncias que
há atrás da morte de seu irmão.
«E carrego diariamente a culpa dessas circunstâncias.»
— Isso não muda nada. Para não falar de que enquanto
minha mãe respire está esbanjando o fôlego.
A viúva do duque era tão merecedora, se não mais, da
raiva de Nick como todos os outros; depois de tudo, foi ela
quem se assegurou que a instrutora levasse unicamente seu
irmão ao salão para a inspeção diária de seus pais. «Nicholas é
um mal-educado e não é digno do sobrenome Seaton. Só Harry
terá a honra requerida. Ninguém mais.»
A partir daquele momento Nick tinha decidido que não
necessitava da sua família. E herdar o título não tinha mudado
nada.
— Os animais que comem as suas crias têm mais instinto
maternal que essa mulher — Winchester murmurou. — Vi-a
recentemente. Fulminou-me com o olhar da outra ponta de um
salão de baile abarrotado.
— É evidente que desaprova nossa duradoura amizade
quando quase todos os outros tiveram a sensatez de me
espezinhar. Rogo-te que invente as histórias mais
espantosamente sensacionalistas sobre mim e se assegure de
transmitir à viúva do duque na próxima vez que a veja. Temo
que meu paradeiro atual está muito afastado de Londres para
que minha sagacidade chegue de outro modo aos seus ouvidos.
— Falando de sagacidade… — Winchester disse
arrastando as palavras. — Se a coisa prosperar com Juliet,
será… cuidadoso com ela, não é?
— Cuidadoso?
Nick arqueou as sobrancelhas. O que preocupava
exatamente o Winchester? Se a senhora Leighton era tão
talentosa como apontavam os rumores, poderia defender-se
sem problemas de qualquer homem.
Winchester agitou uma mão.
— Já sabe a que me refiro.
— Não, não sei. Não tenho nem uma maldita ideia ao que
se refere.
— Pode parecer que… é uma mulher do mundo, mas é
uma boa atriz. Em realidade, todas as mulheres de sua
condição o são — acrescentou. — Não queria vê-la sofrer.
Ali havia algo suspeito. Nick intuía. Talvez Winchester
albergasse realmente sentimentos por Juliet, sentimentos não
correspondidos pela senhora Leighton; ao fim e ao cabo, seu
amigo não seria o primeiro homem a apaixonar-se por uma
cortesã. Só tinha que fixar-se no Fox e sua senhora Armistead.
— Se preferir que eu não…
— Não — Winchester interrompeu. — Unicamente quero
que seu seguinte protetor seja tão… generoso com ela como o
fui eu.
— Então não tem nada que temer. Serei extremamente
amável e generoso, se quiser estar comigo.
— Ainda não conheci nenhuma mulher que tenha
resistido a ti, Colt, nem sequer antes de se converter em duque.
Mas a senhora Leighton decidirá por si só.

***

Na noite seguinte, Júlia e Simon entraram no camarote do


duque em La Fenece. O interior da Ópera com sua majestosa,
mas singela arquitetura, era suntuoso. Fileiras de camarotes
privados para os patronos enriquecidos circundavam o interior
dourado, enquanto que à platéia oferecia um espaço amplo
para aqueles com menos recursos.
Com seis homens pelo menos e igual número de mulheres,
o grande camarote de Colton estava repleto. A necessidade de
localizar seu marido, entretanto, resultou ser desnecessária
porque apareceu imediatamente ao seu lado.
— Senhora Leighton — o duque a saudou ao mesmo
tempo que ela fazia uma reverência. Reparou em seu vestido
bordado de cetim branco com adornos prateados e
acompanhado de uma túnica verde esmeralda.
— Esta noite você está deslumbrante.
Ela poderia dizer o mesmo dele. O duque usava fraque e
calças negros feitos à medida em cima de um colete branco reto
que acentuava seu torso forte. Sua gravata, que formava uma
série de complicados nós sob seu queixo bem barbeado,
oferecia um marcado contraste com suas feições escuras.
Quando viu que ela o olhava fixamente, lhe obsequiou com um
sorriso cúmplice e ardiloso ao mesmo tempo, quase como se os
dois compartilhassem uma brincadeira íntima. A respiração
dela acelerou um pouco apesar de sua determinação em
permanecer impassível.
— Boa noite, sua excelência.
Nick saudou Simon e logo os apresentou ao resto do
grupo. Havia dois embaixadores, um antigo e outro atual,
assim como um conde russo, um pintor veneziano e um ator
francês. Embora as mulheres fossem formosas, por seus
vestidos e porte podia apreciar que não havia presença de
esposas. Isso sem contá-la, pensou Júlia.
Nick os conduziu aos seus assentos. Ela aproveitou a
ocasião para arrumar uma mecha de cabelo que lhe tinha caído
sobre a testa. Fiorella, a jovem que tinha contratado como
criada pessoal não era tão competente com o cabelo como Meg
em Londres. Esta noite Fiorella lhe tinha recolhido os grossos
cabelos ruivos em uma série de engenhosos cachos com uma
fita prateada. Mas uma mecha rebelde não queria cooperar e
caía, lhe tampando virtualmente a totalidade do olho direito.
Ante a impossibilidade de arrumar o penteado por si só, não
teve mais remédio que ignorá-lo.
Ao tomar assento não a surpreendeu ver-se sentada entre
Nick e Simon. Ao outro lado de Simon havia uma poltrona
vazia, mas logo a ocupou uma espantosa atriz veneziana. Nick
relaxou em seu assento e pressionou a parte externa da perna
contra o joelho de Júlia. Ela elevou o binóculo para
esquadrinhar o público enquanto ordenava ao seu coração que
fosse mais devagar.
— As flores tiveram sua aprovação, senhora Leighton?
No dia anterior Nick lhe tinha enviado um enorme ramo de
rosas brancas habilmente dispostas em um colorido vaso de
cristal de Murano. Era um arranjo esplêndido. Seu cartão tinha
sido conciso e ardiloso: «Pela amizade».
Por um lado, indignou-a tanto esse gesto que quis lhe
gritar como uma lavadeira. Era incapaz de mandar à sua
esposa, fazia oito anos, uma simples nota… e, em troca, não
duvidava em enviar um presente como demonstração de estima
a uma mulher a quem não fazia nem vinte e quatro horas que
conhecia. Júlia tragou a indignação e o ressentimento e
recordou o papel que representava e o motivo daquilo. Nesta
noite o objetivo era flertar, para garantir assim o interesse do
duque por seus encantos.
— São muito belas, sua excelência. Você é muito generoso
— respondeu ela, apertando os olhos.
— Temo que você tenha o padrão muito alto, senhora
Leighton; ao fim e ao cabo, ouvi que em certa ocasião devolveu
um colar ao Wellington porque continha um número ímpar e
não par de diamantes.
Júlia mordeu a bochecha para evitar rir. Essa anedota em
particular era uma das contribuições de tia Theo à lenda da
senhora Leighton.
— Ah…, que fastidiosa é essa história! Eu não fiz tal coisa.
— Júlia levantou de novo seu binóculo para olhar com
despreocupação ao público. — O devolvi porque era feio.
Nick soltou uma estrondosa e sincera gargalhada.
— Pois tentarei por todos os meios ser mais seletivo em
meus presentes.
— Haverá mais presentes, sua excelência?
Pretendia que o comentário fosse travesso e insinuante,
mas sua voz a delatou com um tom rouco e íntimo.
Ele fechou as pálpebras e se aproximou mais dela.
— Terá o que desejar, senhora Leighton.
Júlia não pôde evitar o calafrio que percorreu seu corpo.
Graças às instruções de Pearl, não lhe escapou a sensual
promessa que encerravam suas palavras. Embora soubesse
perfeitamente o que ele queria dela, não podia estar mais que
agradecida de que Nick não suspeitasse o que ela queria dele.
A música encheu a sala evitando a necessidade de
responder.
Com a perna de seu marido comodamente apoiada na sua,
qualquer intenção por concentrar-se na ópera colossal de
Rossini fracassou. Aproveitou a ocasião para refletir sobre seu
plano.
Primeiro, ganhar o interesse de Colton. Logo, encenar uma
discussão com Simon em público; assim Colton a perseguiria e,
em poucos dias, ela se deixaria caçar por ele. Só faltaria
dedicar-se às atividades tão ancestrais como o tempo com a
maior assiduidade possível.
Júlia estava nervosa, mas não assustada. Pearl lhe tinha
proporcionado os detalhes básicos do processo, além de formas
de intensificar o prazer de um homem. Do mesmo modo,
apesar de sua vergonha inicial, tinha aprendido sobre seu
próprio prazer, dado que Pearl sustentava que uma cortesã
competente como a mítica senhora Leighton se asseguraria de
que ambos os membros do casal gozassem da experiência.
Mas Júlia não tinha estado preparada para o que sentiria
sentada ao lado daquele homem irresistivelmente bonito, seu
marido, enquanto o calor de sua musculosa coxa lhe
esquentava a perna transpassando as capas de roupa. Seu
corpo bem proporcionado tão próximo, seus ombros roçando-se
ligeiramente, fez com que suas vísceras palpitassem ao ritmo
dos batimentos do seu coração. Não tinha imaginado que se
sentiria tão atraída por ele; depois de tudo, estava há tanto
tempo ignorando-a que ela tinha acumulado uma quantidade
considerável de ressentimento por sua pessoa. Mas esses
sentimentos estavam desvanecendo-se com celeridade ante sua
presença perversamente poderosa.
Ao expor se gostava de verdade, Júlia se perguntou se tal
coisa fazia mais fácil ou mais difícil conseguir seu objetivo;
afinal de contas, o que importava? Tinha que deter Templeton,
e engendrar o herdeiro dos Colton era a única maneira de fazê-
lo.
Decidiu provocá-lo um pouco; ao fim e ao cabo, tinha que
seduzir um homem. Deixou que o binóculo caísse das suas
mãos ao chão acarpetado entre eles, onde aterrissaram com
um golpe seco.
— Oh! — Ela sussurrou.
A cabeça do duque se voltou em sua direção, uma
sobrancelha negra arqueada, inquisidora.
— Sua excelência, parece que o binóculo caiu. Teria a
amabilidade…?
Nick inclinou educadamente a cabeça antes de agachar-
se, seus dedos tateando o binóculo na penumbra. Júlia
esperou uns instantes e a seguir levantou a prega da saia e a
anágua até meia tíbia. Deslizou a perna um pouco para ele e
recebeu sua recompensa quando as gemas dos dedos de Nick
roçaram seu tornozelo embainhado em uma meia.
Os ombros de Nick se esticaram como se ela o tivesse
surpreendido, e Júlia sentiu então como sua mão, sempre
muito lentamente, deslizava pantorrilha acima, seu roce uma
descarga quente através da seda. Não pôde impedir que lhe
escapasse um grito afogado. Ao chegar à parte posterior do
joelho, seus dedos se detiveram ali, desenhando delicadas
figuras na suave parte inferior da coxa. Júlia fechou os olhos e
mordeu o lábio ao mesmo tempo que procurava manter a
compostura. Algo ardente e compulsivo se desdobrou em seu
ventre, uma sensação que intuía que fosse uma excitação
desenfreada por seu marido.
Ele não parecia ter nenhuma pressa por retirar a mão e
ela não sabia quanto mais poderia aguentar sem gemer de puro
desfrute.
— O vê, sua excelência? — Ofegou então.
Ele retirou a mão e ao cabo de um segundo se ergueu.
— Seu binóculo, senhora Leighton.
— Obrigada — ela murmurou e pegou o binóculo de sua
mão.
— Sempre ao seu dispor — ele disse, seu tom rouco
evidenciando claramente o significado.
As bochechas de Júlia arderam e agradeceu que a luz
tênue ocultasse seu rubor. Procurou tranquilizar-se durante o
resto do primeiro ato.
Justo antes que começasse o segundo ato, Nick voltou a
inclinar-se para ela e seu perfume de cítricos e almíscar, já
familiar, lhe rondou o nariz.
— Posso acompanhá-la depois a casa, senhora Leighton?
— Simon me acompanhará. E por mais solícito que se
mostre esta noite, atualmente não estou procurando outro
companheiro de cama, sua excelência.
— Oh, não! É muito cedo para que sejamos amantes. —
Nick se aproximou de seu ouvido, seu fôlego morno lhe fez
cócegas na pele. — Quando por fim a possuir, Juliet, quando
por fim a tiver nua sob meu corpo, esquecerá todos os outros
homens com quem esteve. Não pensará mais que em mim… e
me suplicará que a possua.
Júlia exalou todo o ar do peito com um suspiro.
Percorreu-a um estalo de desejo tão intenso que, se estivesse
em pé, provavelmente lhe teriam falhado as pernas. Nick era o
próprio demônio, todo misterioso e proibido e o que lhe faltava
na vida.
Estava totalmente desconcertada. Tentou dizer algo
gracioso, mas não lhe ocorreu nada. Até que recordou as
palavras que tinha ouvido Pearl dizer há uns meses atrás, e
que saíram atropeladamente de sua boca.
— Pergunto-me se verdadeiramente possui a habilidade de
avaliar sua arrogância.
Os olhos de Nick mudaram para um tom prata líquido.
— Se encontrar um lugar afastado, encantado da vida lhe
demonstrarei minhas habilidades antes que acabe a
representação; ao fim e ao cabo, é justo que conheça o que
obteria.
A menção do lugar foi como uma ducha de água fria.
Quantos lugares e quantas mulheres havia em seu passado?
Não cabia dúvida de que tinha tido encontros em edifícios de
Paris a Pisa. Mesmo assim, ela desempenhou seu papel.
— Um lugar? Não o achava tão pouco original.
Pretendia ofendê-lo, mas ele se limitou a lhe piscar um
olho.
— Nesse caso estarei desejoso de lhe demonstrar
exatamente quão criativo posso chegar a ser.
***

Depois da ópera o grupo inteiro se transladou a um café


próximo. Simon a acompanhou de um local ao outro, mas uma
vez ali, Nick administrou habilmente a distribuição dos
assentos para assegurar-se de que os dois se sentassem
juntos. Simon acabou na outra ponta da mesa, ao lado de
Verônica, sua companheira na ópera.
O grupo do teatro estava animado e alvoroçado, e o aroma
de café impregnava o espaço aberto. Júlia pediu café puro,
4
enquanto Nick pediu um caffè corretto com um jato de
5
grappa .
Enquanto conversava com a amante de um pintor local,
pôde sentir os olhos de seu marido, penetrantes e escuros,
cravados nela como se fosse sua seguinte refeição. Cada
fragmento de sua pele cobrou vida, arrepiando-se, ofegante, ao
perceber. Pearl Kelly lhe tinha ensinado a não desperdiçar
jamais uma oportunidade de exibir seus encantos, assim, já
que Nick estava olhando… deslizou os dedos por debaixo da
dupla e larga fileira de pérolas que levava ao pescoço e brincou
com elas, deslocando daqui para lá as suaves bolas cor nata
em cima dos seios de seu baixo decote enquanto conversava.
Notou que Nick se inclinava para ela, a boca junto à sua
orelha.
— Oh, o que daria para ser uma pérola neste preciso
instante!
Júlia levantou a vista pestanejando.
— Seriamente? Não pensei que quisesse ser algo tão…
pequeno, sua excelência.
Lançou-lhe um sorriso malicioso, sua voz um sussurro
grave.
— Quem disse que é pequeno?
Felizmente nesse momento chegaram as bebidas. Júlia se
entreteve acrescentando creme e açúcar ao seu café,
agradecida de ter algo no que centrar-se além de seu marido.
Uma vez que o grupo esteve servido, Nick se dirigiu a ela.
— Bom, senhora Leighton, o que achou da obra de Rossini
desta noite?
— Excitante — respondeu, e todos os olhares se voltaram
para ela. — Uma verdadeira evolução desde suas obras
6
tempranas e a absoluta essência do bel canto . A obra é uma
7
prova rigorosa das habilidades de seu mezzo-soprano , quem
deve possuir uma verdadeira agilidade e resistência vocais para
interpretar o papel. Gostei especialmente de Dava tanti palpiti,
embora acredite que o final da história necessite de um
retoque.
Ninguém falou. Em alguma parte uma colher repicou em
um pires. Júlia tomou um sorvo de café deleitando-se na
surpresa produzida por sua resposta. Jamais reconheceria,
mas tinha estado ordenando suas idéias desde que o pano de
fundo caiu com a esperança de impressionar o duque.
— Necessita de um retoque? — Perguntou alguém do
fundo da mesa.
Júlia assentiu.
— É muito escuro. Rossini teria sido mais útil se Tancredi
aprendesse da inocência de sua amante e voltasse para casa
triunfante. Não crê, sua excelência?
Olhou com dissimulação ao Simon, quem lhe piscou um
olho incentivando-a.
— Sim. — Nick se reclinou na cadeira. — Embora
semelhante giro dificilmente concordaria com a história do
Voltaire em que se apóia a obra.
— Como Voltaire está morto, não terá que preocupar-se de
que vá desaprovar a tomada de liberdades — Júlia disse
sorrindo de orelha a orelha, incapaz de refrear seu deleite com
o intercâmbio.
— Homem, tomar-se liberdades é algo com que Colton
está sem dúvida familiarizado — soltou o atual embaixador
britânico na Áustria, lorde Lanceford, do outro lado da mesa, e
todo o grupo riu.
— Certamente. Como iria ganhar o apelido de Duque
Depravado? — Júlia perguntou-se em voz alta.
— Nunca tomei liberdades — Nick sussurrou só para ela.
— Sempre me foram generosamente oferecidas.
— Acredito — ela respondeu. — Não o imagino forçando
donzelas inocentes.
— As donzelas inocentes me fazem chorar de
aborrecimento. Prefiro abertamente forçar ruivas insolentes de
olhos azuis claros como o Mediterrâneo.
— Que… gostos tão precisos, sua excelência!
— Sei o que quero, senhora Leighton. E quero a você
precisamente. Nua. Estremecendo debaixo de mim, gritando
meu nome.
Júlia procurou não ruborizar, mas entre a pele branca e
suas palavras subidas de tom, o calor lhe subiu lentamente
pela nuca. Tomou um gole de café e rezou para que seu marido
não notasse.
— Minha querida senhora Leighton — Lanceford começou
a dizer. — Que encantador ver que uma mulher com sua
experiência ainda é capaz de ruborizar-se!
— Bom, temo que não é mais que a combinação do café
quente e o ar morno — mentiu. — Me reporei em instantes.
Atreveu-se a olhar para Colton e viu que ele a estudava
atentamente, as comissuras de seus lábios curvadas no mais
leve esboço de sorriso. Morta de calor, apartou os olhos e
procurou distrair-se escutando o resto dos convidados.
A conversação derivou para a política e a atenção de Júlia
se dispersou. Em um intento por pensar em algo que não fosse
Nick, visualizou o terceiro quarto de sua casa de Mayfair. Seria
uma habitação esplêndida para seu filho. Como a decoraria?
Talvez faria pintar histórias de cavaleiros e donzelas nas
paredes…
De repente notou que sua saia se movia. Um pé enorme
abriu passo por debaixo do tecido e lhe esfregou a perna.
Tragando um chiado, procurou afastar-se, mas o pé a seguiu.
Suspeitou imediatamente de Nick, mas um olhar furtivo para
baixo a fez ver que suas pernas não estavam se movendo.
Quando elevou a vista, Lanceford captou seu olhar e lhe lançou
um sorriso fugaz.
Júlia entreabriu os olhos para lhe fazer saber com
exatidão o que opinava de suas insinuações. Entretanto, em
lugar de recuar, Lanceford subiu com ousadia o pé ainda mais
por sua pantorrilha. De modo que ela fez o primeiro que lhe
veio à mente: deu à sua perna estática o chute mais forte de
que foi capaz.
— Auch! — Ele grunhiu e retirou bruscamente os pés para
seu lado da mesa.
Todo mundo ficou imóvel.
— Minhas desculpas — o embaixador murmurou. — É
que me doeu uma velha ferida.
O rosto de Nick escureceu, sua atenção posta agora em
Lanceford. Ela supôs que seu marido conheceria as intenções
daquele. Certamente ele mesmo tinha jogado muitas vezes o
mesmo jogo de paquera, o canalha. Embora neste momento
Nick parecesse tão zangado que era impossível prever o que
faria. Júlia lhe pôs uma mão no braço e lhe dedicou uma leve
sacudida de cabeça para lhe dar a entender que se ocupara do
assunto.
— Senhora Leighton, — Verônica interveio com marcado
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acento veneziano — travou amizade com Sarah Siddons ?
Chegaram-me muitas histórias sobre seu talento no cenário.
Júlia tossiu para dissimular um grito afogado. Se ela, uma
duquesa, se relacionasse com uma atriz, embora fosse a
senhora Siddons, de talento por todos conhecido, o escândalo
resultante seria espantoso. Mas recordou a si mesma que
Juliet Leighton não era uma duquesa. Tomou um gole de café e
decidiu responder com diplomacia.
— Embora não sejamos amigas, vi-a atuar numerosas
vezes. É verdadeiramente talentosa.
— Entendi que se retirou da profissão — outra mulher da
mesa comentou.
— Sim, assim é, embora se retirou muitas vezes — repôs
Júlia, que de novo separou do olho a ditosa e obstinada mecha
de cabelo. — Assisti a sua última atuação de despedida e do
meu assento do camarote não consegui ver um olho seco entre
o público.
— Tem um camarote no Covent Garden? — Nick
perguntou.
«Sim, o seu», quis responder.
— Com efeito, sua excelência. De que outra forma
podemos ver e sermos vistos em Londres?
— A senhora Leighton é uma grande atriz por direito
próprio. E mais: diria que não vi outra melhor — Simon disse
arrastando as palavras. Inclusive do outro extremo da mesa ela
detectou a diabólica intenção nos olhos azuis de seu amigo.
— Isso é verdade? — Verônica se inclinou para diante. —
Me conte que papéis representou.
Júlia se surpreendeu momentaneamente e, antes que
pudesse ignorar as palavras de Simon, ele respondeu por ela.
— Eu gostei especialmente da Escola das Mulheres, de
Molière.
Por pouco lhe caiu a xícara de porcelana. Então Simon
pensava aproveitar-se da oportunidade de meter-se em suas
aulas com Pearl. Se o tivesse mais perto também lhe teria dado
um chute.
— Ah, sim? Que detalhe, milorde! Embora prefira
claramente meu papel em sua obra posterior: As Mulheres
Sábias.
Ao Simon lhe escapou uma intensa gargalhada. O resto do
grupo pareceu desconcertado, assim Júlia resolveu
educadamente voltando-se de novo à Verônica.
— E que papéis representou, senhorita DiSano?
Verônica começou uma explicação exaustiva de sua breve
carreira teatral, e Júlia aproveitou a ocasião para fulminar
Simon com o olhar e fazer um discreto gesto para a porta com o
queixo. Tinha tido suficiente por esta noite. Entre seu
desgrenhado penteado, os comentários sardônicos de Simon, o
pé de Lanceford e a poderosa presença de Nick, ficou sem
energias. Este lhe correspondeu assentindo levemente e ambos
ficaram de pé.
Outros homens também se levantaram, e ela disse ao
grupo:
— Desfrutei da companhia de vocês, mas temo que esteja
muito cansada para continuar. Rogo-lhes que prossigam com a
farra enquanto lorde Winchester me acompanha a casa.
Nick observou o casal abandonando o café. Nunca tinha
invejado tanto Winchester. Que maldição! Mas é que a senhora
Leighton era cativante. Preparada, bela, engenhosa… o que
mais necessitava um homem de uma mulher?
Assim que ela partiu a noite perdeu seu encanto. Inclusive
quando Verônica se sentou ao seu lado e lhe sussurrou ao
ouvido certas proposições realmente obscenas, sua mente
permaneceu centrada em Juliet.
9
— Esta noite não, cara — sussurrou a Verônica.
Não muito depois Nick também partiu. Quase
imediatamente Fitz apareceu ao seu lado.
— Que cedo você vai para casa! — Seu amigo comentou ao
partir.
— Um pouco. — Ainda não era uma hora e não estava
acostumado a chegar em casa antes das três. — A noite
resultou aborrecida.
— Depois de ir-se sua dama, quererá dizer.
— Sim, embora não seja minha dama. Ainda.
As ruas de Veneza estavam animadas essa noite.
Soldados, mulheres elegantemente vestidas, prostitutas e
cavalheiros, todos passeavam em uma noite fresca e nebulosa.
Fitz assinalou uma rua lateral.
— A embarcação está por aqui, sua excelência.
— Se te dobrasse o salário conseguiria que deixasse de me
chamar assim?
Fitz riu entredentes.
— Não.
— Que aborrecimento! — Nick resmungou sem saber com
segurança se se referia ao seu título ou ao Fitz. Provavelmente
a ambos.
Por fim chegaram à embarcação e os dois subiram sem
problemas com um salto. Permaneceram em silêncio uns
instantes enquanto a gôndola se afastava do embarcadouro. O
gondoleiro navegou pelo estreito canal e rodeou o resto das
embarcações na escura noite veneziana. Nick contemplou as
negras e reluzentes águas, e se perguntou qual seria a melhor
maneira de perseguir a senhora Leighton. Gostava da caça. E
tinha cortejado um sem-fim de mulheres ao longo dos anos,
portanto deveria ser fácil, embora fosse evidente que a senhora
Leighton não era como as demais mulheres.
— Conta com a aprovação dessa mulher. — Fitz disse.
Nick esticou a vista para ele.
— Por que o diz?
Fitz encolheu um ombro.
— Vi nos olhos dela. Estive olhando pela janela. Quando
você não estava atento ela o observava atentamente.
Curiosa notícia.
— Devo andar com cuidado. Como sabe, veio a Veneza
com o Winchester.
— Vi-os juntos. Não são amantes, ao menos já não.
As sobrancelhas de Nick se arquearam.
— Por que está tão seguro?
Se essa informação fosse certa não economizaria esforços
em seduzi-la.
— Manteve-se a certa distância dele, unicamente
segurando-o pelo braço. Nada de sorrisos nem cochichos
enquanto caminhavam juntos. Olhares cúmplices, mas não a
classe de olhar que lhe dedicou.
Nick averiguaria por si mesmo, mas nestas coisas Fitz
costumava acertar.
A senhora Leighton que se preparasse.
Capítulo 3
Nunca faça o que ele espera. Surpreendê-lo é manter seu
interesse.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Na manhã seguinte, Júlia e tia Theo estavam já no salão


de café da manhã quando Simon desceu.
Piscou um olho a Júlia e ficou a assobiar enquanto se
dirigia ao bufett para encher o prato de ovos e uma porção do
delicioso bolo de amêndoas que sua cozinheira fazia
diariamente. Antes de sentar-se olhou ao servente que rondava
por ali.
— Está desagradavelmente contente esta manhã, Simon
— Júlia comentou quando estiveram os três a sós. — Tem algo
a ver com a adorável Verônica? Ontem à noite vi que voltou a
sair depois de me acompanhar a casa.
— Como cavalheiro seria impróprio de mim tratar um
assunto como este na presença das damas — Simon disse com
evasivas enquanto se servia de uma xícara de café. — Mas
tenho que me lembrar de agradecer ao Colton por nos
apresentar. As venezianas são tal como me disse, e mais.
Júlia entreabriu os olhos e tamborilou com os dedos sobre
a mesa. Era de esperar que Nick tivesse o que dizer das
venezianas, tendo em conta que provavelmente tinha fornicado
com todas as mulheres das imediações que se prestaram a
isso. Duas vezes.
Disse-se que não lhe importava. De seu marido
necessitava uma coisa, e uma vez conseguida ele poderia voltar
para sua vida dissoluta de amancebamento.
— Foi um detalhe da sua parte dispor os lugares para que
os dois se sentassem juntos — Simon disse.
— Juntos? — Theo inquiriu.
— Tanto no teatro como depois no café — Júlia explicou.
— Meu plano progride satisfatoriamente.
— Estupendo! — Tia Theo disse e aplaudiu.
Seu criado, Sérgio, bateu na porta, entrou e a seguir
entregou um cartão a Júlia.
— Senhora Leighton. Trouxeram flores para a senhora.
— Mais flores! Seu duque está louco por ti — Theo
declarou. — Conte o que pôs no cartão, por favor.
Júlia deu uma olhada à nota e soltou um grunhido.
— Obrigada, Sérgio. Em seguida vou pegá-las. — O criado
partiu e Júlia deixou o cartão de lado. — As flores são do
embaixador, lorde Lanceford.
Simon riu.
— Ora! A senhora Leighton tem outro admirador.
— Pare de rir, bobalhão. Não tem graça. Ontem à noite no
café o homem tratou de me colocar o pé por dentro da saia,
bom, da saia da senhora Leighton.
Theo afogou um grito.
— Espero que lhe tenha dado um chute.
Júlia assentiu.
— Sim. Com força. Colton por pouco saltou sobre a mesa
para estrangulá-lo.
— Foi o que imaginei quando Lanceford de repente uivou
de dor — Simon disse. — Mas antes que atire essas flores ao
canal, talvez sirvam para dar ciúme a alguém que eu sei quem
é.
Júlia se reclinou na cadeira e tomou um sorvo de chá.
Simon teria razão? Nick ficaria ciumento?
— Isso é muito perverso; boa idéia. Disporei as flores do
Lanceford na entrada principal.
— Bom, estou desejando ver o que Colton envia hoje —
Theo disse ao mesmo tempo que passava manteiga num
pedaço de bolo de amêndoas. — As flores e o vaso de ontem
eram espetaculares, mas intuo que mandará jóias. Rubis,
possivelmente?
— Esmeraldas — Simon conjecturou.
Júlia pôs os olhos em branco.
— Como sabem que enviará algo?
— Depois de os ver ontem à noite eu diria que agora
mesmo aceitaria qualquer coisa que lhe pedisse. Por isso, se
quiser alguma bagatela que recorde ao Colton naquelas longas
e frias noites londrinas… — Simon encolheu os ombros —
bastará que a senhora Leighton deixe cair um par de oportunas
indiretas.
A ideia tinha seu mérito. Céus! Se não conseguisse ficar
grávida, um colar de diamantes poderia manter a sua tia e a
ela com modéstia uma boa temporada. Mas depois o quê?
Empenhando jóias não conseguiria mais que isso. Não,
necessitava de uma garantia de futuro mais firme. Um filho
implicaria liberdade econômica e o fim das intromissões de
Templeton.
Para não mencionar que uma parte dela já tinha
acariciado a idéia de ter um bebê. Uma vida diminuta vinda ao
mundo para abraçá-la e amá-la. Haveria lanches campestres,
contos e brincadeiras… e dado que Colton provavelmente não
exerceria a função de pai, pensava amar tanto seu filho que
sua ausência não importaria muito.

***

Avançada a tarde, Júlia e sua tia estavam lendo junto ao


fogo na sala do segundo piso. Era um lugar alegre, de grandes
janelas com vistas a um plácido canal. Ao abri-las se ouvia o
tangido dos sinos do Campanile di San Marco.
Sérgio bateu e entrou.
— Senhora Leighton, tem visita.
Entregou-lhe um cartão. Júlia deu por certo que seria
Nick, por isso se surpreendeu ao ler o nome.
10
— Que suba, Sérgio, per favore . — Quando o criado saiu
11
Júlia se voltou para Theo. — O signore Marcellino, da
joalheria Marcellino e Filhos.
Os olhos de Theo se abriram desmesuradamente.
— Sabia que seriam jóias. E do Marcellino! Será a inveja
de todas as mulheres de Londres.
— Chsss…! — Júlia sussurrou. — Chegará de um
momento a outro.
Fizeram entrar um ancião de curta estatura e cabelo
grisalho. Impecavelmente vestido, levava um estojo negro, que
deixou no chão para inclinar-se sobre a mão de Júlia.
12
— Signora Leighton. Um prazer conhecê-la. Espero não
a interromper.
— Não, signore. Minha tia e eu só estávamos passando
uma tarde tranquila entre livros. Peço-lhe um chá?
Júlia se virou para avisar ao Sérgio, mas Marcellino a
deteve.
— Se não lhe importar, signora, eu gostaria de passar
diretamente ao assunto que nos ocupa.
Levantou seu estojo e o pôs em cima da mesa, e ato
seguido lhe indicou com um gesto que tomasse assento no
sofá. Marcellino abriu o estojo e descobriu tantas pedras
preciosas cintilantes que quase doeram os olhos de Júlia ao
reparar em todas elas. Mal podia respirar. Havia diamantes,
rubis e camafeus primorosamente esculpidos e montados em
ouro, todos eles convertidos em deslumbrantes colares,
braceletes e brincos de lágrima.
— Signore! — Ela exclamou com uma mão no coração. —
Que maravilhas traz!
Marcellino estava cheio de orgulho.
— Vim em nome de sua excelência, o Duque de Colton.
Sua excelência selecionou três conjuntos de requintadas jóias e
me pediu que as trouxesse a fim de que a senhora escolhesse.
Acredito que lhe deu medo dar um… passo em falso, como
vocês, os ingleses, dizem.
Sua tia desabou no sofá e deu uma cotovelada em Júlia
para que lhe desse um lugar.
— Céu santo! — Exclamou e agarrou Júlia com força pela
mão. — É impossível escolher. São todos esplêndidos.
— Se me permite… — Marcellino propôs. Tirou um
espelhinho da parte de trás de seu estojo. — Que a signora os
prove e diga qual prefere.
— Ah, não! — Theo sacudiu a cabeça. — Necessitará de
um espelho muito maior. Direi ao Sérgio que traga um.
Levantou-se e correu até o cordão da campainha.
Deslumbrada pelas jóias expostas ante si, Júlia só foi
capaz de as contemplar. Nick não tinha nada de tolo e lhe tinha
dado opções. Era um gesto adulador e extravagante. «Sim, um
gesto para com uma cortesã», recordou-lhe a esposa que havia
nela. Mas a mulher que levava dentro estava igualmente
sobressaltada.
— Primeiro os diamantes — Theo interveio já de volta no
sofá.
Júlia assentiu olhando ao signore Marcellino.
— Sim, comecemos pelos diamantes.
O joalheiro sorriu. Pegou um colar do qual pendiam
diamantes. Havia uma pedra amarela e grande em forma de
lágrima no centro, com pedras brancas menores que a
flanqueavam a cada lado.
— Este colar contém mais de trinta diamantes — disse
enquanto o fechava ao pescoço. — A pedra central é um
diamante amarelo, que é muito pouco comum.
O peso lhe pareceu imoralmente pecaminoso, com o
diamante maior descansando em cima de seu decote. Júlia não
duvidou em colocar o bracelete e os brincos de lágrima que
combinavam para ver o resultado. Levantou-se e cruzou a
habitação até onde Sérgio tinha colocado o espelho de corpo
inteiro que havia trazido de seu aposento.
Ficou sem fôlego ao ver seu reflexo. Jamais tinha usado
nada tão vistoso. Nem sequer as jóias que Pearl lhe tinha
emprestado podiam competir com este conjunto. Inclinou-se
ligeiramente e examinou as pedras. Quem era esta mulher
embelezada de um modo tão ridiculamente exuberante? Era
excessivo. Não podia aceitar. Uma coisa era uma demonstração
de estima, mas aceitar um presente tão generoso a fazia se
sentir suja.
Mesmo assim eram lindas. Acariciou as pedras com
reverência e suspirou porque sua consciência hoje clamava.
— Não, sinto, signore. Isto não foi feito para mim.
Retornou ao sofá, onde Theo estava boquiaberta.
— Não foi feito para ti? Querida, tudo em ti cai bem. O
único requisito necessário são um pescoço e duas orelhas.
— Não, tia Theo. Estas peças são de uma beleza
indescritível, mas não são para mim. — Sorriu ao Marcellino.
— Provamos os rubis agora?
Quase tão ostentoso como os diamantes, o colar de rubis
tinha várias pedras grandes de um vermelho intenso rodeadas
de diminutos diamantes que lhe cobriam com delicadeza o
pescoço. Mas sua própria imagem no espelho luzindo o
conjunto lhe produziu idêntica sensação desagradável no
estômago. Não podia aceitar as jóias.
— São lindas, signore Marcellino, mas temo que os rubis
tampouco foram feitos para mim. — Júlia não se incomodou
em olhar para Theo, posto que agora uma confusão evidente se
estendia pela sala.
Devolvidos os rubis ao estojo, estudou com atenção os
bonitos camafeus.
— Provamos o último conjunto, tudo bem?
Marcellino extraiu o colar para que ela pudesse ver os
detalhes do camafeu. O ônix branco tinha sido esculpido com
delicadeza para representar a cabeça de uma romana. Em
cima, uma minúscula grinalda de flores, feita de ônix negro,
estava intercalada com seu cabelo. A peça estava montada em
um pequeno marco de diamantes e pendia de uma magra
corrente de ouro. Marcellino assegurou que um homem de
grande talento chamado Pistrucci, que trabalhava em Roma, a
tinha esculpido.
— É único — disse, porque Pistrucci jamais esculpia duas
vezes o mesmo desenho.
Assim que colocou o colar e os brincos combinando Júlia
soube que os queria antes de olhar-se no espelho. Não era o
mais caro nem o mais ostentoso da seleção, mas lhe assentava
bem. Singelo, clássico e único. Embora… o que suporia aceitá-
lo?
Acariciou o camafeu ofegante. Oxalá o presente fosse
simplesmente de um marido à sua esposa! Ficou de pé e
devolveu o colar, antes que mudasse de idéia.
— Obrigada por seu tempo e sua paciência esta tarde.
Para qualquer mulher seria uma honra aceitar uma destas
seletas peças, signore Marcellino, mas devo recusar o gentil
oferecimento de sua excelência.
Theo afogou um grito, mas Júlia a ignorou. Marcellino
arqueou as sobrancelhas e um tênue brilho de suor apareceu
em sua testa.
— Signora, está segura? Sua excelência insistiu muito…
Júlia teve piedade dele.
— Entendo-o, signore, e lhe peço desculpas por qualquer
aborrecimento que isto possa lhe causar com seu cliente. Mas
temo que eu também devo insistir.
Ele fez uma reverência.
— É claro, signora.
Ato seguido guardou as jóias no estojo e se retirou.
Tia Theo saiu disparada de seu assento com uma mão no
peito como assaltada por uma aguda dor.
— Céus! Necessito de um xerez. — Depois de servir uma
taça no móvel bar, meneou a cabeça. — Pearl estaria muito
decepcionada contigo.
Júlia suspirou.
— Sei, mas, tomada a decisão terei que viver com isso.
— Isso é o que importa, então. — Theo tomou um sorvo de
sua taça e recuperou seu assento. — Como explicará ao Colton
sua negativa? Porque nenhuma prostituta em seu são
julgamento recusaria jóias.
Júlia franziu o nariz.
— Não sei muito bem o que lhe direi, mas não me pareceu
bem as aceitar. Sei que custa entender, mas… seria incapaz de
as usar com orgulho. E Colton terá que aceitá-lo e pronto.
Francamente, deveria me estar agradecido porque acabo de lhe
economizar uma dinheirama.
— Os homens e seu orgulho — sua tia advertiu.
— Bom, eu também tenho meu orgulho. Colton não
demorará para descobri-lo.
Ao cabo de uma hora bateram na porta, justo quando
Theo e Júlia se serviram um chá. Sérgio entrou e lhe deu um
cartão.
— Uma visita, signora.
O coração de Júlia saltou. Seria Colton? Deu uma olhada
ao cartão e franziu o sobrecenho.
— Que suba, Sérgio, per favore. — O servente assentiu e
Júlia se voltou para sua tia: — É Lanceford. E se se atrever a
me deixar a sós com ele jogarei ao canal até a última gota de
álcool que haja no palazzo — sussurrou.
Theo abriu desmesuradamente os olhos, horrorizada pela
ameaça. Aninhou-se em sua cadeira e as duas mulheres
esperaram em silêncio que Lanceford aparecesse pela porta.
Júlia ficou de pé e lhe dedicou a sabida reverência.
— Meu senhor embaixador, que surpresa. Tomará um chá
conosco?
Lanceford, um homem atarracado com quatro fios de
cabelos castanhos penteados sobre seu cocuruto sem fios,
olhou para Theo com inquietação. Evidentemente o embaixador
contava surpreender Júlia a sós.
— Bom dia, senhora. Obrigado, aceito o chá.
Júlia o apresentou à Theo, e a seguir Lanceford ocupou a
cadeira que havia em frente de seu assento no sofá.
Serviu-le uma xícara de chá e, a pedido dele, adicionou
leite e açúcar.
— Vi minhas violetas em seu saguão — Lanceford disse
uma vez servido. — Me adula que lhes tenha concedido tanto
protagonismo.
Júlia reprimiu um sopro.
— São lindas, e foi um gesto muito considerado. Desfrutou
da representação de ontem à noite?
Ele assentiu.
— É claro que sim. Embora jamais poderia expressar
meus pensamentos com palavras tão eloquentes como as suas,
senhora Leighton. Francamente, hoje sua dissertação se
propagou como o fogo por toda Veneza. — Lanceford lançou à
Theo outro olhar furtivo e pigarreou. — Senhora Leighton,
queria lhe expor a possibilidade de passar um momento… a
sós… com você.
Júlia deveria ter previsto tamanha ousadia, mas aquilo a
pegou completamente despreparada. Sua mente ficou a pensar
a toda pressa qual era a melhor forma de proceder.
— Meu senhor embaixador, embora a idéia seja
aduladora…
Sérgio entrou voando pela porta, interrompendo a
conversação.
— Signora, o Duque de…
Colton avançou empurrando o criado, seu formoso rosto
tenso e sério. Com o cabelo castanho alvoroçado e seu traje
desalinhado, parecia como se Nick tivesse atravessado Veneza
correndo para ir ao seu encontro. Deteve-se bruscamente ao
ver Lanceford comodamente reclinado em uma cadeira, e
entreabriu os olhos.
O criado de Júlia ficou gelado, retorcendo as mãos junto à
porta sem saber o que fazer com o duque, que não tinha
esperado ser anunciado. Júlia se compadeceu dele.
13
— Grazie , Sérgio — disse ficando de pé. — Pode ir.
Júlia se surpreendeu que tia Theo se levantasse também
de sua cadeira.
— Se me derem licença, acredito que eu também me
retirarei — disse sua tia com um sorriso enigmático em seu
rosto angélico enquanto se apressava para a porta.
Nick se aproximou, e Júlia fez uma gentil reverência.
— Sua excelência. Que maravilha que se una esta tarde a
nós!
Nick esboçou um sorriso, embora em nenhum momento
chegasse aos olhos.
— Senhora Leighton. — Inclinou-se sobre sua mão, e logo
se voltou para o embaixador. — Lanceford.
O duque aceitou a cadeira de Theo e todos se sentaram.
— Aceita um chá, sua excelência?
Ele assentiu e, uma vez que foi servido fez-se um
incômodo silêncio. Júlia não sabia muito bem o que dizer. Nick
dava a impressão de que de um momento a outro faria
Lanceford sangrar com uma surra, e este se removia incômodo
sob o olhar ardente do duque.
— Está há muito tempo em Veneza, lorde Lanceford? —
Perguntou.
Não estava interessada na resposta, mas sim desesperada
por dizer algo.
— Três meses. Só ficarei seis semanas mais antes de
retornar à Áustria.
— Ficando tão pouco tempo em Veneza, pois, não
quereríamos o afastar de todas as obrigações importantes às
quais, sem dúvida, terá que atender.
Nick tomou um sorvo de chá e olhou ao Lanceford com ar
indiferente.
— Sim, enfim… — Lanceford balbuciou deixando a xícara
em cima da mesa. — Devo ir. — Levantou-se e fez uma
reverência. — Senhora Leighton, a verdade é que me alegrou o
dia vê-la.
Júlia ignorou o sopro que Nick emitiu e chamou Sérgio.
— Obrigada pelas flores, senhor.
Ele abriu a boca para dizer algo mais, mas reparou na
expressão ameaçadora de Nick e fechou a mandíbula no ato.
Sérgio chegou para acompanhar Lanceford até à saída e a porta
se fechou às suas costas.
Nick não demorou muito em dar início à sua retórica.
— Que transtorno, — começou a dizer enquanto ela
voltava a ocupar seu assento — o que a fez recusar uma
fortuna em jóias? Dei-lhe opções, por Deus. Enviei-lhe as
melhores peças disponíveis em Veneza. Rogo-lhe que me diga
de que maneira feri sua delicada sensibilidade com tão
generosa demonstração de minha estima.
Júlia suspirou discretamente. Como explicar-se? Para
qualquer mulher seria impensável recusar semelhante
presente, menos ainda um que suscitava prazer e cobiça.
— As jóias eram muito belas, Colton…
— Nick — ele corrigiu.
— Muito bem, Nick. Sua seleção não me ofendeu, nem
tampouco o gesto. Mas mal nos conhecemos, e semelhante
generosidade sem dúvida alteraria o delicado equilíbrio da
nossa relação.
Ele piscou.
— Ouvi cada palavra e, entretanto, não consigo entendê-
la. Se por acaso não é consciente, alterar o delicado equilíbrio
de nossa relação é precisamente onde estou. — Nick soprou e
cruzou os braços sobre o peito como um menino carrancudo
que não se deu bem. — Juro-lhe que me desorienta em cada
curva. Atrai-me para você e no segundo seguinte me rejeita.
Você é pior que uma virgem caça-fortunas.
Era evidente que havia dito em brincadeira, de modo que
ela forçou uma gargalhada, embora lhe doeu o comentário. Não
estava errado.
— Nick, — Júlia se serviu de mais chá — é evidente que
não sou virgem e não ando atrás de sua fortuna. Não é
necessário que me impressione com presentes esplêndidos.
Tenho gostos… singelos.
— Ainda não conheci uma mulher que não tenha gostos
caros.
Inclinando-se para diante para encher lentamente sua
xícara, Júlia o presenteou com uma prolongada vista da parte
superior de seus seios, que estavam a ponto de sair da borda
do vestido. Ao voltar a deixar o bule na bandeja satisfez-lhe ao
comprovar que o olhar de Nick se nublara.
— Talvez tenha encontrado sua cara-metade, sua
excelência.
Levantou sua xícara e se acomodou de novo no sofá.
Dedicou-lhe um sensual meio sorriso que cortou a
respiração de Júlia.
— É possível, senhora Leighton. — Nick também relaxou e
esticou suas longas pernas para frente, os pés guarnecidos de
botas e cruzados à altura dos tornozelos. — Me surpreendeu
encontrá-la tratando com atenção o Lanceford. Passará a
formar parte de seus amigos?
Ela com muita dificuldade reprimiu o calafrio.
— Não. Lorde Lanceford é um homem distinto, mas não foi
feito para mim.
— Espera mais visita esta tarde?
Júlia franziu as sobrancelhas, desconcertada, e deixou a
xícara em seu pires.
— Não, por quê?
— Porque estava pensando em passar o ferrolho à porta,
me aproximar do sofá e beijá-la até fazê-la perder o sentido. Na
realidade, não pensei em muito mais desde que pus um pé
nesta sala.
Ela observou, hipnotizada, como ele deixava
cuidadosamente a xícara na mesa. Com natural elegância Nick
se levantou da cadeira e foi até ao sofá, seu imponente e
esbelto corpo pressionando contra o dela. Elevou uma mão e
lhe roçou a bochecha com os nódulos em uma carícia suave
qual sussurro antes de enredar um cacho de cabelo ao redor de
seu dedo.
Esse simples contato produziu em Júlia um calafrio na
coluna. Sua respiração se voltou entrecortada e superficial, e a
inquietava que ele percebesse seu nervosismo; mas os nervos
eram irremediáveis. Estavam os dois a sós em um espaço
reduzido; o calor do corpo de Nick a prendeu e a enjoou. E
embora se fizesse passar por uma mulher experiente, na
realidade era uma donzela. Um dado que Nick não devia
suspeitar.
Tinha que manter o controle, seguir com sua artimanha…
e flertar um pouco mais com ele. Umedeceu-se o lábio inferior
deslizando a ponta da língua de uma comissura à outra.
— Advirto-lhe que sou extremamente difícil de conquistar.
Ele manteve o olhar fixo em sua boca um bom momento.
— Eu gosto dos desafios. E dado que você é
economicamente independente, pretendo seduzi-la de outras
maneiras.
Desceu lentamente a gema de um dedo por seu braço nu,
sua pele formigando com o passar do atalho desenhado. Ao
chegar à sua mão, levantou-a, a virou, e logo se inclinou para
pressionar os lábios quentes na palma. Continuou depositando
beijos fugazes e suaves na palma de sua mão sem nenhuma
pressa. O coração de Júlia pulsou com força em seu peito e lhe
derreteram as vísceras.
Era assim que pretendia seduzi-la? Porque certamente
estava conseguindo. Júlia tragou saliva e procurou não sair do
foco.
— Pretende me dar algumas aulas de depravação, não é?
— Tenho que fazer honra ao meu apelido — Nick
resmungou, seus olhos cravados nos dela ao mesmo tempo que
seus lábios deslizavam pela sensível pele do pulso de Júlia.
Então se endireitou, mas reteve sua mão, mantendo os dedos
de ambos entrelaçados. — Me invade a curiosidade por sua
pessoa, Juliet. Nunca tinha visto o Winchester tão cativado por
uma mulher, pelo menos não antes de partir de Londres. E as
histórias que circulam sobre você são absolutamente
sensacionais, quase como se fossem inventadas. E logo, ao
conhecê-la, comprovei que você tem um ar de inocência muito
atraente. — Júlia abriu desmesuradamente os olhos, mas
antes que pudesse responder, ele continuou: — Sinto uma…
atração por você que jamais senti por uma mulher. Estou
intrigado.
Céus! Seu marido podia chegar a ser encantador. Fez o
possível para manter a serenidade, apesar de notar a língua
grossa pelo desejo.
— Intrigado? E eu que tinha imaginado que diria
interessado. Ou, melhor ainda, obcecado.
— Bom, também estou todas essas coisas. — Roçou-lhe a
bochecha com os nódulos em um gesto terno. — Nossa
amizade não irá violar o que tem com o Winchester, não é?
— Não sou propriedade de ninguém. Tenho o luxo de
poder controlar meu próprio destino. Para lorde Winchester e
para mim não supõe problema algum ter numerosas…
amizades.
— Nesse caso é mais compreensivo que eu. — Nick se
inclinou para frente, sua boca perigosamente perto da dela. —
Porque o que me acontece é que a quero toda só para mim.
Ele se moveu para pôr os lábios sobre os seus, suave,
docemente, como provando-a. Quando ela se relaxou e
começou a lhe devolver o beijo, ele sorriu em contato com sua
boca. Deslizou as mãos por seu cabelo imobilizando-a
enquanto intensificava o beijo. Embora Júlia notasse um
estremecimento nas vísceras, afinal, era seu primeiro beijo de
verdade!, tinha que ser valente para convencer Nick de que era
uma cortesã experiente. Se titubeasse ou se mostrasse tímida
seu plano fracassaria.
Pôs as mãos em seus ombros e a aproximou mais, seus
seios esmagados contra ele. Abriu ligeiramente a boca e ele
aproveitou a ocasião rodeando-a com os braços e deslizando a
língua serpenteante dentro de sua boca.
Foi uma delícia. Selvagem, mas habilmente controlado, o
beijo foi mais do que imaginou. Os seios turgentes, os mamilos,
agora pontas endurecidas sob a roupa, produziram-lhe um
formigamento ao roçar a dura parede do peito de Nick. Suas
respirações se mesclaram enquanto as línguas continuavam
batendo-se em duelo, e o sabor dele, a chá e especiarias,
ameaçava dominá-la. Tudo aquilo era muito, mas de algum
modo insuficiente. Sem que pudesse evitar, Júlia gemeu dentro
de sua boca.
— Deus! Você tem um sabor melhor do que imaginava —
ele murmurou e sua boca desceu uma vez mais, os lábios
apoderando-se dos seus em uma exibição de possessividade
brutal e necessidade urgente.
Sua língua se estendeu por dentro, friccionando e
acariciando, provocando-a. Suas respirações se aceleraram e se
voltaram entrecortadas na quietude da sala enquanto o beijo
seguia e seguia.
Pearl lhe tinha explicado com detalhes explícitos o que
acontecia com um homem e uma mulher. Entretanto, havia
uma grande diferença entre o conhecimento e a experiência.
Júlia não tinha sido consciente de como o pulso martelaria
com deslumbrante intensidade; como a região da virilha
palpitaria ofegante com um desespero diferente a tudo que
havia sentido. Seu corpo se esfregou contra ele com
desassossego, procurando mais, esperando aliviar a intensa
ânsia.
Nick lhe cobriu o seio turgente com uma mão, rodeando-o
e apertando, empurrando para cima para deixar ao descoberto
ainda mais carne de seu pronunciado decote. Com os mamilos
dolorosamente eretos, ela não manifestou protesto algum
quando lhe baixou a roupa com um puxão. De repente sua
boca estava ali, a língua raspando o duro casulo antes de sugá-
lo com os lábios. A aguda sensação percorreu o corpo de Júlia,
que afogou um grito, o que fez com que ele sugasse com mais
força e ela afundasse as unhas em seus ombros, bem abraçada
a ele.
Nick lhe soltou o seio e elevou a vista.
— Se não pararmos irei possui-la aqui mesmo, neste
maldito sofá.
Com a respiração agitada e os olhos ardendo de desejo,
Nick parecia tão desajeitado como ela se sentia. E embora Júlia
o desejasse com frenesi, este não era o momento nem o lugar.
— Um fato que, sem dúvida, deixaria perplexo a quem
quer que entrasse pela porta.
Ela se obrigou a afastar-se e, com mãos trementes,
recompôs a roupa.
Ele reclinou a cabeça no sofá.
— Me deixe tratá-la com atenção esta noite. Preciso vê-la.
A porta se abriu de repente e apareceu Simon.
— Colton! Me disseram que estava por aqui. — Sorrindo
amavelmente, Simon se aproximou para beijar a mão de Júlia.
— Querida — disse com um olhar terno antes de se deixar cair
em uma cadeira desocupada.
Se sabia o que tinha estado a ponto de interromper não
deu mostras disso.
Nick lhe dedicou uma direta saudação com a cabeça.
— Winchester.
Simon observou Júlia com o rosto franzido de
preocupação.
— Teve uma tarde ocupada com visitas, querida? Parece
cansada. Não queria que se fatigasse muito antes do nosso
jantar desta noite.
— Jantar? — Nick inquiriu.
— Sim. Aqui, esta noite. Juliet não te convidou?
Custou a Júlia conter sua surpresa. Aquela noite não
havia nenhum jantar organizado, um dado do qual Simon era
perfeitamente consciente. O que estava tramando?
Ambos a olharam espectadores.
— Sim, sua excelência — atinou a dizer. — Seria uma
honra que também se unisse a nós.
Capítulo 4
Todos os homens se consideram irresistíveis. Encha-o de
entusiasmo e acreditará que você é a mais competente das
amantes.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

— Um jantar, Simon? — Júlia perguntou assim que os


dois ficaram a sós. — Que ardil absurdo está tramando?
— Sua tia me contou sobre esta tarde. Depois de me
recuperar da consternação que causou sua repulsa às joias,
pensei que deveríamos encenar nossa rixa e acabar com o
sofrimento do Colton. — Esfregou o queixo pensativo. —
Embora deva dizer que eu adoro ver Colt sofrer.
— Como vou organizar um jantar em… — olhou para o
relógio — três horas?
Ele agitou a mão.
— Já está organizado, Jules. Convidei algumas pessoas e
Theo falou com o serviço. O precisa fazer é seguir com seu
papel da formosa e encantadora senhora Leighton.
— Às vezes tenho vontade de te matar — ela resmungou.
— Me deixar assim diante do Colton.
— Guarde a raiva. Logo gritará comigo esta noite na
presença de todos os nossos convidados.
Sorriu e se levantou, voltando-se para partir.
— Espera, Simon. Tenho que te perguntar algo. De onde
Nick pode ter tirado os recursos para oferecer à senhora
Leighton as valiosas jóias que vi hoje? Nunca disse que tratava
com os banqueiros sobre o imóvel de Colton.
— Não o faz. Colt não quer nada de sua família. Não
aceitou dinheiro do imóvel desde que abandonou a Inglaterra.
Não percebeu a pilha de lucros amassados na outra noite na
festa privada? Colton se mantém jogando cartas. É
extraordinário fazendo isso.
— Lógico, pelo que sei das finanças do imóvel — ela disse
olhando pela janela; jogador e, além disso um patife.
Que decepção de marido lhe tinha entregado a sorte!
Simon inclinou a cabeça.
— Espera, o que significa isso? O que acontece com as
finanças dos Colton?
— Não estou segura. Sei tão somente o que me diz
Templeton e que minha atribuição ficou virtualmente em nada.
Os olhos azuis de Simon faiscaram com um brilho impuro.
— Aquele imóvel rende quase sessenta mil libras ao ano, e
reduziu sua atribuição? — Retorceu as mãos junto ao corpo. —
Eu juro que o mato.
Sessenta mil libras? Não tinha nem idéia… mesmo assim
o dinheiro era insignificante se não podia tê-lo.
— O que se há de fazer, Simon?! Fui ver a viúva do duque
e me olhou como se fosse algo detestável como estrume de
cavalo. Imagino que Templeton esteja subornando o
administrador do ducado, mas não tenho provas. Nick é o
único que pode fazer algo, porém deixou claro repetidas vezes
que não lhe importa o que aconteça comigo ou ao imóvel.
— Vou matá-lo— Simon resmungou de novo.
— Não pode matar Templeton, por mais que o mereça.
— Não me referia ao Templeton, embora me ocuparei dele.
Referia-me ao Colton, esse egoísta desgraçado.
— Não, por favor. Eu me ocuparei disto, Simon.
Ele passou uma mão pelo rosto.
— Por que não recorreu a mim? Sabe que teria te dado
dinheiro.
— Não posso aceitar seu dinheiro. Evidentemente, se não
fosse mais que um pequeno empréstimo, teria ido a ti, mas não
pode manter Theo e a mim pelo resto das nossas vidas. O que
pensariam?
— Desde quando passa por isto?
Ela encolheu os ombros fingindo uma indiferença que não
sentia.
— Pouco mais de três anos.
Simon foi aos tropeços até uma cadeira.
— Pensei nisso. Esta artimanha, este ardil teu… me disse
que tinha que encontrar Colton, satisfazer sua curiosidade por
seu marido, mas não tem nada a ver com isso. É pelo dinheiro.
Para forçar a posição do Templeton, mas como? — Franziu o
cenho. — Se tinha a esperança de conseguir suficientes
bagatelas do Nick para as vender, por que rejeitou as jóias?
— Não é questão de bagatelas. — Não queria dizer-lhe
assim, mas imaginou que o melhor era ser honesta. — Tenho a
intenção de ficar grávida. Do Nick. O único modo de conseguir
certo poder pessoal é engendrar o herdeiro dos Colton.
Simon empalideceu e desabou na cadeira.
— Santo Deus!
Júlia não contava com aquela reação desmedida. Acaso
Simon não via que era a única maneira?
— Simon…
Elevou uma mão para sossegá-la, mordeu a língua para
não dizer o que tinha estado a ponto de dizer. Simon fechou os
olhos e massageou a testa durante um longo minuto.
— Não direi nada que possa sabotar seus planos. Essa é a
razão pela qual não me contou antes, certo? — Como Júlia não
respondeu, ele ficou rapidamente de pé e resmungou: — Colton
será afortunado se eu não lhe der um soco na mandíbula antes
que acabe a noite. E pode estar completamente segura de que
quando voltarmos à Inglaterra investigarei o que Templeton
está fazendo.
Suspirou e esfregou o rosto com ambas as mãos. Simon
não se zangava facilmente, mas quando o provocavam tonava-
se rancoroso. Júlia não tinha nem idéia de como esta
informação afetara sua amizade com Colton.
— Simon, funcionará. Eu sei.
Não parecia convencido.
— Lamento que não confiasse suficientemente em mim
para me contar isto, Jules.
O estômago dela apertou. Simon tinha sido um bom amigo
e em nenhum momento tinha pretendido feri-lo.
— Confio em ti, mas tenho que me sujeitar. Nick criou
este caos, assim terei que o obrigar a pôr ordem, embora seja a
contragosto.
***

No que ao Nick concernia, o jantar foi infernal.


Desde o momento em que chegou nada foi como deveria
ser. Evidentemente, Winchester estava zangado com ele. O
olhar de seu amigo era duro como pedra cada vez que pousava
nele, embora ignorasse o motivo. Além disso, Winchester não
tinha deixado de lhe grunhir em toda a noite e, francamente,
estava um pouco farto de ser o objeto daquele ódio sem
nenhuma razão aparente.
A vivaz e encantadora senhora Leighton da ópera ainda
não tinha feito ato de presença; ou melhor, Juliet se mostrou
comedida, sua jocosidade forçada, como se percebesse a
discórdia entre ele e Winchester. Observou-os com cautela,
procurando que durante o jantar a conversação fosse
corriqueira. Em mais de uma ocasião viu-a repreendendo
Winchester com um olhar fulminante depois que seu amigo
dissesse algo.
Verônica estava sentada ao lado de Winchester e os dois
flertaram toda a noite com descaramento. Nick se perguntou
fugazmente se a presença da outra mulher tinha causado o
estranho humor de Juliet, mas recordou que esta havia dito
que sua relação com Winchester não impedia que nenhum dos
dois tivesse outros pares. Então o que estava acontecendo?
Embora os demais convidados fossem conhecidos, não
considerava nenhum deles como amigo. O banqueiro
proeminente, o proprietário de uma grande frota de navios e o
rico advogado ali presentes provinham de uma classe social
veneziana mais respeitável que os degenerados com os quais
estava acostumado a relacionar-se. Pelo menos as damas
presentes eram mais de seu agrado: uma cortesã, uma atriz,
uma bailarina e uma viúva. Ah…, Deus guarde as mulheres de
prazer atrevido!
O garfo de Juliet repicou em seu prato surpreendendo o
grupo.
— Simon, me ouviu? Porque a verdade é que estou um
pouco cansada de me repetir esta noite.
Nick viu que Winchester apartava os olhos do decote de
Verônica para dedicar à senhora Leighton um olhar aborrecido.
— Perdoe, querida. O que dizia?
— Não importa. — Juliet se voltou para Nick, sentado à
sua direita. — Sua excelência, já explorou boa parte dos
arredores de Veneza desde que está aqui?
— Um pouco — ele resmungou, fascinado com a dança da
luz das velas sobre o tom rosa de seus lábios. Recordou o beijo
daquela tarde, e foi o que impediu que se jogasse sobre ela em
pleno jantar.
— Entendi que a ilha de Torcello é uma maravilha — ela
afirmou deslizando o lábio inferior entre os dentes e mordendo-
o brandamente, como se conhecesse a direção dos
pensamentos de Nick.
Seu pênis começou a inchar e se obrigou a desviar a vista
da boca de Juliet para não colocar a si mesmo em evidência.
— Sim, a catedral contém alguns mosaicos esplêndidos.
Seria uma honra que me deixasse acompanhá-la ali logo que
lhe seja possível. Amanhã talvez?
—Talvez — ela respondeu de forma evasiva.
— Querida, — Winchester disse do outro extremo da mesa
— prometi te levar às compras, como recordará.
— Não será necessário, Simon — respondeu e deixou a
faca e o garfo no prato, indicando que tinha acabado.

***

Pouco tempo depois os homens voltaram a unir-se às


senhoras no salão. De seu lugar no sofá, Nick saboreou uma
taça de grapa e observou como Winchester levava Juliet à
parte, perto da janela, para uma conversação privada.
Verônica se sentou sigilosamente ao seu lado no sofá.
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— Acredito que há problemas no paradiso — sussurrou
assinalando para o casal, agora absorto em um diálogo mais
acalorado, mas em voz baixa.
Winchester parecia suplicar a Juliet, que se limitava a
negar com a cabeça. Nick viu que ela formava um «Acabou,
Simon» com os lábios, e conteve o fôlego. Seria isso possível?
Juliet se voltou para ir-se e Winchester lhe pôs uma mão
no braço para impedir-la. Lançou-lhe um olhar duro o
suficiente para enrugar o pênis de um homem. Era o olhar
firme, altivo e resoluto próprio de uma duquesa. Nick ficou
impressionado e encantado de não ser o receptor de
semelhante olhar. Então a soltou imediatamente, e Juliet se foi
com toda dignidade ao outro extremo da sala, onde cercou
conversação com alguns dos convidados.
Seu amigo foi correndo ao sofá e, ignorando-o
completamente, estendeu uma mão a Verônica.
— Senhorita DiSano, quereria vir comigo? Ao que parece
já não me necessitam como anfitrião esta noite.
Sem dizer nenhuma palavra mais, os dois partiram.
Perplexo, Nick se perguntou tanto pela rudeza de Winchester
como pelo fato de que Juliet já não estivesse unida com seu
amigo de toda a vida. Apesar de lhe haver assegurado o
contrário, a Winchester talvez tivesse incomodado que ele
cortejasse a senhora Leighton. Suas insinuações tinham
afastado Winchester e Juliet? Amanhã iria vê-lo para
esclarecer.
Mas no momento… no momento queria passar o tempo
com a única mulher na qual não tinha podido deixar de pensar
há dias. Notou uma sensação ardente e aguda na nuca, e ao
levantar a cabeça viu Juliet caminhando para ele a passo
longo, seus quadris rebolando brandamente e um sorriso
enigmático em seu formoso rosto. O decote de seu vestido de
cor safira deixava ver a parte superior de seus generosos seios,
a carne macia saltando ao ritmo de seus passos. O desejo se
precipitou de seu ventre ao seu pênis. Demônios, era cativante,
e estava impaciente por possui-la.
Nick ficou de pé.
— Parece que ficou sem anfitrião esta noite.
Ela suspirou sem mostrar excessiva consternação ante a
idéia.
— Pobre Simon. Alguns homens custam aceitar o
inevitável, não crê, sua excelência?
Nick se inclinou para sua orelha. Cheirava a glória, como
a gardênias e a sol.
— Eu poderia dizer o mesmo de algumas mulheres,
senhora Leighton.
Notou que a respiração dela cortou e se apoderou dele
uma imensa satisfação. Não faltava muito para que as pernas
de Juliet envolvessem seus quadris enquanto ele entrava em
seu doce ardor. Conduziu-a longe do grupo, onde ninguém
pudesse os ouvir. Abandonou-a perto da janela.
— O que lhe parece se nesta noite concluírmos nosso jogo
e podermos ver que prazer achamos juntos? O que posso lhe
oferecer para lisonjeá-la? Jóias não, obviamente. Que tal
dinheiro? Ou possivelmente um coito único?
Ela começou a notar um rubor na nuca e sua pele
delicada adquiriu um formoso tom rosa.
— Ora…, poderia ser isso? Como eu gosto de vê-la
ruborizar-se, Juliet! Pergunto-me se seus mamilos são do
mesmo tom. Que gosto terão quando colocá-los na boca e
minha língua brincar com eles? — O pulso da base da nuca de
Júlia pulsou forte e acelerado, clara mostra de seu desejo. Ele
foi incapaz de deixar de atormentá-la. — Gostaria de notar
quão duro estou unicamente por estar tão perto de você? Quer
constatar como meu pênis deseja afundar-se em você?
Os olhos de Júlia vidraram e um gemido entrecortado
escapou de seus lábios; Nick sorriu.
— Venha comigo, ao meu palazzo, tesorina. Vamos juntos.
Ela assentiu rapidamente com a cabeça e logo tossiu.
— Assim que partam os convidados.
Antes que ele pudesse dizer algo mais, ela passou por seu
lado e se integrou na sua festa.
Curiosamente, seu pênis ficou ainda mais duro. Teria que
ficar ali, de frente à janela, até que pudesse voltar a virar-se.

***

Ao aproximar sua gôndola ao palazzo do duque, Júlia


sentiu certa inquietação. Esta noite seduziria seu marido
fazendo-se passar por outra pessoa. E se ele descobrisse sua
mentira? Se fosse assim, seu plano fracassaria, seu futuro
estaria em perigo, no melhor dos casos, e Nick provavelmente a
atiraria de cabeça ao canal mais próximo. Veio-lhe à mente
uma imagem de Templeton e inspirou fundo. Ela nunca,
jamais, seria amante daquele homem. Antes preferiria morrer
de fome.
Não tinha mais opção que levar a cabo seu ardil. Um ardil
que tinha demorado mais de cinco meses em preparar, durante
os quais tinha investigado, planejado e escutado. Tinha
pensado em uma resposta para quase cada embate que tia
Theo lhe tinha exposto.
A primeira preocupação de Theo tinha sido a concepção,
porque o próprio Nick ignorava o tema. Dado que Pearl disse
que muitas cortesãs não podiam ter filhos, o resultado de
interromper muitas gravidezes não desejadas, Júlia pretendia
dizer isso ao seu marido e esperava que ele não questionasse.
Entretanto, em caso dele não acreditar ou se preocupar em
contrair enfermidades, na bolsa de Júlia continha alguns
preservativos, cada um meticulosamente cravado no extremo
para fazer um furinho pelo qual passasse seu sêmen.
Então Theo puxou o assunto de sua virgindade. Como
Júlia justificaria o sangue? Pearl acreditava que, devido a sua
idade, era bastante provável que tivesse perdido o hímen, mas
Júlia não tinha certeza. Pearl lhe tinha sugerido que
previamente usasse um pênis de madeira para garantir sua
eliminação, mas Júlia não teve coragem.
Quando sua embarcação se deteve junto ao cais do
palazzo de Nick, enviou ao céu uma oração silenciosa para que,
se sangrasse, Nick não desse conta. Lástima que não pudesse
fazer amor no canal, onde a água arrastaria o sangue.
O desejo não seria um problema. Não havia dúvida de que
o desejava. Sua forma de beijá-la… seu aroma… até seu modo
de andar pela sala fazia com que esquecesse todas as razões
pelas quais deveria odiá-lo. Seu marido era atraente e a fazia
desejar coisas que sabia que jamais teria.
E aquilo que lhe havia dito fazia um momento… Deus do
céu, por pouco tinha se derretido em um atoleiro no chão.
Ao subir ao cais viu que um homem grande saía dentre as
sombras.
— Boa noite, senhora Leighton. Sou Fitzpatrick, o valete
de sua excelência. O duque me pediu que a leve para dentro.
Seu valete? Júlia tragou a surpresa e disse:
— Encantada de conhecê-lo, senhor Fitzpatrick. Você na
frente, por favor.
— Me chame de Fitz — ele disse antes de voltar-se.
Enquanto se dirigiam ao palazzo ela examinou o valete de
Colton. Grande e corpulento, Fitz era sem dúvidas um homem
ao qual alguém quereria esquivar-se em um beco. Era uma
cicatriz o que lhe atravessava o rosto? Seus nervos, já à flor da
pele, não se acalmaram com a presença de Fitz. Por que o
duque necessitaria de um criado tão grande e imponente?
Júlia meneou a cabeça. Uma autêntica prostituta estaria
preparando-se para cativar o duque enquanto contava para si
as fileiras de pérolas que pretendia comprar com seu dinheiro,
não refletindo sobre seu valete. A senhora Leighton tinha que
ser deslumbrante, coquete e inteligente. «concentre-se»,
repreendeu-se.
Fitz abriu a porta e se colocou de lado para a deixar entrar
no palazzo. Ela cruzou a soleira e viu Nick descendo as
escadas. Júlia por pouco ficou muda de assombro ante sua
beleza. Seu cabelo de ébano estava molhado e penteado para
trás, realçando a elegante linha de suas maçãs do rosto. Não
usava colete, gravata nem casaco; em seu lugar, uma fina
camisa branca de linho cobria seu torso forte, um punhado de
pêlo negro aparecendo pela parte superior. Suas calças e
sapatos eram pretos e o faziam parecer incrivelmente alto e
forte.
E o sorriso triunfal e cúmplice que lhe dedicou
transbordava de perversas promessas. Ela estremeceu ao
entregar sua capa ao Fitz.
— Minha querida senhora Leighton — Nick disse ao
chegar ao último degrau. Inclinou-se para lhe beijar a
bochecha. — Seu resplendor arrebata o ar dos meus pulmões
— murmurou, a voz rouca e grave em seu ouvido. Puxou-a pela
mão. — Venha comigo.
Nick se aproximou bem dela ao subir pelas escadas. Os
joelhos de Júlia tremiam ligeiramente, mas ou isso ou dava
meia volta e punha-se a correr para a porta. Embora tivesse
chegado muito longe, tinha muito a perder para voltar atrás.
Subiram outro lance de degraus em silêncio e chegaram
por fim ao piso de cima, onde Nick abriu uma porta que deixou
ver seu quarto. «Posso fazê-lo. E não me descobrira.» Repetiu
uma e outra vez para si mesma para ter coragem enquanto
entrava com acanhamento.
Frente a uma mesinha e duas cadeiras se encontrava sua
enorme cama. Gigantesca cama. Deu um pequeno tropeção e
ele a agarrou pelo cotovelo, segurando-a.
— Pensei que gostaria de tomar uma taça primeiro —
disse. — Gosta de amêndoas? Fazem um licor de amêndoas
perto daqui que é delicioso.
Júlia assentiu e tomou assento. Nick serviu duas taças do
líquido marrom claro e lhe passou uma. Sentou-se em frente,
sem afastar em nenhum momento os olhos de seu rosto
enquanto se acomodava na cadeira, suas longas pernas agora
esticadas ante si.
— E então?
Ela deu um sorvo e a surpreendeu seu sabor doce.
— Muito bom — afirmou inclinando o copo para outro
gole.
Embora sua postura fosse relaxada, ela pôde perceber a
expectativa de Nick em sua tensa mandíbula e seus ombros
rígidos. Era um enorme felino da selva esperando
pacientemente para jogar-se sobre ela. A idéia resultava
aterradora e emocionante ao mesmo tempo.
Uns olhos cinza escuro entreabertos lhe estudaram o
rosto.
— Está nervosa?
Júlia negou com a cabeça, embora seu coração pulsasse
apressadamente.
— Não — mentiu. — Só tenho curiosidade.
Elevou o copo e o calor se estendeu por seus ossos. Os
nervos começaram a dissipar-se e a agradável sensação do licor
lhe deu coragem.
— Bem, vamos satisfazer sua curiosidade.
Ofereceu sua mão. Ela se levantou e foi em frente à
cadeira de Nick, onde lhe retirou a taça das mãos e a deixou
em cima da mesa.
Antes que pudesse fazer algo, ele a segurou pela cintura e
puxou-a para sentá-la de lado em seu colo. Segurou-a com
força pela cintura, imobilizando-a enquanto a mão que estava
livre subia até afundar-se em seu cabelo. Seus rostos estavam
perto, tão perto que ela podia notar sua respiração, agora tão
irregular como a sua própria. A ereção de Nick se achava
debaixo dela, dura e imperiosa face às camadas de roupa que
havia entre eles. A prova de seu desejo a excitava. Encorajava-
a. Júlia o olhou com ousadia, sentindo um formigamento na
pele, e esperou.
O olhar nublado de Nick pousou em seus lábios.
Inconscientemente, a ponta da língua de Júlia apareceu para
umedecê-los e ele a segurou com mais força.
— Malvada — ele sussurrou e se inclinou para cobrir sua
boca com a dele. No instante em que seus lábios se
apoderaram dos de Júlia o desejo latente entre eles explodiu
em algo selvagem.
Então ele intensificou o beijo, girando ligeiramente a
cabeça de Júlia para ajustar o ângulo, deixando que sua língua
deslizasse dentro; e o quarto deu voltas. Ela afundou as unhas
nos ombros de Nick em um intento por resistir ao arremesso da
sensação.
Ele a persuadiu com carícias, sua língua quente e úmida
como veludo contra a dela, e ela foi incapaz de concentrar-se
em nada mais que seu beijo. Não existia mais nada, salvo
aquele homem perversamente cativante e o que estava fazendo
com sua boca. Júlia esfregou os seios, agora turgentes, contra
seu duro peito em uma tentativa desesperada de aliviar a ânsia
interior.
A mão de Nick deslizou até seu joelho, por debaixo de seu
vestido, ao longo de suas meias, até que chegou à coxa nua.
Seus dedos brincaram ali, na pele nua, dançando e provocando
enquanto sua boca prosseguia com o assalto aos seus sentidos.
O sexo de Júlia ardeu e sabia que ele a encontraria quente e
lubrificada se subisse um pouco mais. Em suas vacilantes
explorações corporais não havia sentido nada como aquilo.
Não, isto era muito mais, mais do que jamais teria acreditado
possível; e mesmo assim não era suficiente.
Inclinou os quadris para seus dedos exploradores,
procurando, suplicante. Nick deslocou os lábios ao seu
pescoço, mordiscando e beijando a pele sensível.
— Pretendia a fazer implorar, — ele sussurrou ao seu
ouvido ao mesmo tempo que sua mão ascendia lentamente —
mas a mais pura verdade é que dentro de uns minutos cairei
de joelhos e lhe prometerei o que for para que me deixe
acariciá-la.
— Me acaricie, por favor — ela disse agarrando-o com
mais força.
Ele chegou ao topo de suas coxas e deslizou os dedos
entre as úmidas dobras para dar com seu fogo, e ela afogou um
grito. Suas carícias eram suaves, depositadas exatamente onde
mais ela as ansiava.
— Que úmida está por mim! — Ele sussurrou. —
Pronuncie meu nome. Diga quem a fez ficar tão quente e
úmida, Juliet. — A ponta de seu dedo riscou círculos ao redor
da diminuta protuberância, acariciando-a e intensificando sua
excitação. Com a roupa à altura da cintura, as pernas
embainhadas em meias se separaram sobre seu regaço sem
oferecer resistência alguma. Tinha deixado de a preocupar
parecer frívola. — Diga-o, querida — ele ordenou.
— Nick — ela suspirou e inspirou com brutalidade quando
ele introduziu um dedo em sua entrada.
Então a beijou com intensidade, sua língua encontrando a
dela. Mal podia pensar nem respirar enquanto ele a provocava,
seu dedo entrando e saindo para aumentar sua excitação.
Interrompeu o beijo e jogou a cabeça para trás, ofegando
conforme o prazer se incrementava.
— Deus, que estreito está isto! — Ele sussurrou contra
seu pescoço. Acrescentou outro dedo, alargando-a,
preparando-a. — Já não aguento mais.
Agarrando-a pela cintura levantou-a para que se sentasse
escarranchada sobre ele, o ardor de Júlia diretamente sobre
sua ereção. Ela o agarrou pelos ombros para se equilibrar,
longe demais para fazer qualquer coisa salvo procurar respirar
enquanto Nick colocava a mão entre eles para desabotoar as
calças.
Quando ela se deu conta, o pênis de Nick ficou livre e
empurrou brandamente contra sua abertura. Ele segurou a
base com uma mão e pressionou os quadris de Júlia para baixo
com a outra, o prazer mesclando-se com a dor enquanto Nick
ia entrando em seu corpo.
Ele blasfemou entredentes, um ligeiro brilho de suor em
sua testa.
— Que estreito, que gostoso! Que prazer!
Quanto mais ele empurrava, mais Júlia se esforçava em
permanecer relaxada. Sabia que, se se esticasse ele não poderia
entrar facilmente; e a última coisa que queria era que Nick se
desse conta de que era sua primeira vez. Respirando com
regularidade, Júlia deslizou as mãos por seu peito, notando os
duros músculos sob sua fina camisa para apartar a atenção da
crescente dor de sua virilha.
Pearl lhe havia dito que o puxasse em seguida para que o
pênis perfurasse o hímen o antes possível. Talvez assim Nick
não notasse sua presença. De modo que agarrando-se forte aos
seus ombros e inspirando fundo para fazer provisão de
coragem, Júlia baixou os quadris com todas as suas forças e se
sentou inteiramente sobre ele. A dor a rasgou por dentro
enquanto ele a enchia por completo, mas procurou dissimulá-
lo com um gemido que esperou que parecesse de prazer.
Nick não pareceu dar-se conta. Também gemeu, sua
cabeça reclinando-se na cadeira enquanto seus dedos se
afundavam nos quadris de Júlia.
— Demônios, Juliet! O que está me fazendo?
Deus, que dor! Mas já estava feito, e ele não se deu conta.
Júlia sentiu que a invadia uma sensação triunfal, um rugido
interno de poder feminino pelo êxito. Agora a dor estava
diminuindo, tal como Pearl lhe disse que aconteceria, e surgiu
uma estranha e nova sensação, uma de deliciosa plenitude.
Balançou os quadris e o desejo se estendeu por todo seu canal
quando o pênis de Nick saiu e ato seguido voltou a entrar nela.
— Oh, sim! — Ele gemeu, os olhos fechados e o rosto
tenso de prazer. — Me monte, tesorina.
Desesperada por sentir de novo o desejo atordoante, Júlia
subiu e voltou a descer, seus quadris procurando engolir seu
pênis. Ele guiou seus movimentos a princípio, ajudando-a a
mover-se acima e abaixo, e o prazer começou a aumentar
conforme ela se moveu mais depressa. Nick deslizou as mãos
por suas costas até os botões de seu vestido e não demorou
para soltar a parte superior o suficiente para que unicamente a
camisa lhe cobrisse os seios.
Seus generosos seios tinham sido sua eterna cruz; as
modistas se queixavam constantemente de ter que retocar os
moldes para cobri-los com folga. E Júlia sempre tinha invejado
as silhuetas das mulheres magras sem seio, que tão elegantes e
régias pareciam com seus vestidos de cintura fina. Ao lado
delas se sentia gorda e desajeitada, tentando continuamente
tampar o decote com um xale, por decoro.
Mas pelo modo que Nick a contemplava agora enquanto
lhe baixava a camisa de renda para deixar descobertos seus
seios, não mudaria um ápice de seu corpo. O olhar de Nick, tão
reverente e apaixonado, abrasou-a, e seus mamilos se
endureceram quase até lhe doer. Arqueou as costas ao mesmo
tempo que seus quadris cavalgavam uma vez mais sobre seu
pênis, ondas de êxtase percorreram seu corpo. As mãos de Nick
rodearam seus seios.
— Você é como uma deusa saída diretamente do mais
profundo dos meus sonhos — ele sussurrou antes de introduzir
um mamilo na boca.
Os lábios de Nick puxaram deliberadamente um mamilo
rígido e uma explosão de sensações se precipitou pelo abdômen
de Júlia e se instalou em seu útero. Seus quadris se moveram
mais depressa por vontade própria, seu corpo deleitando-se no
prazer que lhe produziam tanto a boca como o pênis de Nick.
Este lambeu um mamilo com a língua e passou rapidamente ao
outro para lhe dedicar a mesma atenção. Júlia notou que seus
músculos se esticavam, cada nervo esticando-se conforme o
prazer aumentava. Ele continuou lhe sugando o mamilo com os
lábios, e lhe passou os dedos pelo cabelo para lhe imobilizar a
cabeça. Cada sucção de sua boca disparou vertiginosamente o
prazer de Júlia, seus quadris investindo com mais força contra
seu pênis, até que acreditou morrer. Era muito maravilhoso.
Nick colocou a mão entre eles e utilizou o polegar para
acariciar o diminuto amontoado de nervos sobre seu sexo.
Uma, duas vezes, e então Júlia explodiu, uma descarga ardente
se ativou em seu interior.
— Nick — gemeu, alongando seu nome ao mesmo tempo
que seu corpo se convulsionava contra ele. Logo notou que ele
a agarrava com firmeza pelos quadris e a penetrava com uma
força quase feroz. Nick ficou rígido, um gemido escapando do
mais fundo de seu peito enquanto estremecia e ejaculava
dentro dela.
Ofegante e suada, Júlia deixou cair a cabeça em seu
ombro. Céus, aquilo tinha superado todas as descrições de
Pearl. Não estranhava que os homens o fizessem cada vez que
se apresentava a ocasião.
— Deus! — Nick exclamou ofegante. — Não pensava
possui-la em uma cadeira na primeira vez. — Retirou-lhe o
cabelo do rosto com uma suave carícia. — Não sei o que me
aconteceu. Pensará que sou um descarado.
Ela esboçou um sorriso. Sim, tinha-o por um exímio
descarado, mas não pelos motivos que ele acreditava.
— Acredito que o que aconteceu entre nós o surpreendeu
tanto como a mim — Júlia sussurrou.
Precisava levantar-se, assear-se e comprovar se havia
sangue, mas ainda era incapaz de mover-se. Nick seguia dentro
dela, e Júlia desejava prolongar o contato o máximo possível.
Suas grandes mãos lhe acariciaram as costas, e ela
relaxou sobre ele. Acabava de fazer amor com seu marido, a
idéia lhe pareceu tão absurda que teve que reprimir uma
gargalhada, e tinha sido magnífico. Para falar a verdade, estava
ansiosa por repetir o espetáculo.
Ele se moveu para sair dela.
— Espere, tesorina. Deixe que eu pegue uma toalha para
limpá-la.
Júlia se esticou. Nick não podia fazer isso, porque o
mesmo encontraria sangue em qualquer um deles.
— Não, não, por favor, sua excelência — ela sussurrou
voltando-o para sentar na cadeira. — Feche os olhos e relaxe.
Deixe que eu o limpe.
Beijou-o com ternura com a esperança de garantir sua
aquiescência.
— Sabe que detesto meu título? — Resmungou, seus cílios
descendo sobre suas bochechas. — Pois menos mal que não
quer que eu me levante, porque não sei se minhas pernas
responderiam neste momento.
Ela o beijou de novo, incapaz de conter-se, antes de se
levantar da cadeira e subir o vestido para tampar o seio. A
bacia estava do outro lado da habitação, onde encontrou uma
toalha e água fresca. Depois de assegurar-se de que os olhos de
Nick seguiam fechados, inclinou-se para dar uma olhada à face
interna de suas coxas. Com efeito, uma leve salpicadura de
sangue lhe manchava a pele. Apressou-se a enxugá-la para
eliminar de seu corpo a prova de sua virgindade. Uma vez feito,
lavou a toalha e retornou junto ao Nick.
Escancarado na cadeira, ainda completamente vestido
salvo por sua virilidade meio flácida, era a coisa mais formosa
que ela já tinha visto. As feições de seu rosto estavam
relaxadas, menos à defensiva. Com o cabelo castanho
alvoroçado, tinha cara de travesso, mais própria do desajuizado
que sabia que era.
Limpou-o com ternura, fascinada pela transformação de
seu pênis. Pearl lhe tinha mostrado ilustrações e até tinha
insistido em que sustentasse um pênis de madeira, mas aquilo
era diferente. Sem estar rígido como antes, a pele suave e rosa
era macia, mas surpreendentemente firme. A cada carícia da
toalha parecia palpitar sob seus cuidados, voltando a crescer.
— Se continuar me olhando dessa maneira, não
demoraremos para repetir o que acaba de acontecer nesta
cadeira.
Levantando-se, ela sorriu e retornou tranquilamente até À
bacia para voltar a deixar a toalha na água. Pearl havia dito a
Júlia que possivelmente estaria dolorida após sua primeira vez.
Por agora não notava incômodo algum, mas não havia por que
precipitar-se, pensou Júlia, assim decidiu cercar conversação
com ele.
— Venha à cama comigo — disse oferecendo a mão ao
Nick.
Nick colocou o membro nas calças e fechou alguns botões.
Ela viu como ficava de pé e preenchia suas taças. Passou-lhe
uma e a ajudou a subir à gigantesca cama com dossel. Ela se
acomodou enquanto ele se agachava, tirava-lhe com ternura os
sapatos e os deixava no chão.
— Agora sei por que Winchester parecia tão apaixonado
cada vez que os vi juntos. — Deu um sorvo de licor e se
tombou. — Você é uma mulher capaz de arrebatar a alma de
um homem.
Ela dissimulou o sorriso atrás do copo, tomando um trago.
— Só que é bem sabido que você não tem alma a
arrebatar.
— Isso é o que dizem?
— Entre outras coisas. Segue sendo um tema de
conversação recorrente em Londres. Levo bastante tempo
ouvindo falar de você.
Ele deixou o copo na mesa e ato seguido se apoiou sobre
um cotovelo.
— Muito se disse do depravado Duque de Colton ao longo
dos anos. Por que não me conta o que ouviu e eu lhe digo se é
verdade?
Nick arrastou um dedo comprido e elegante pela clavícula
de Júlia e ela estremeceu.
— Que se deitou com lady Sherbourne e sua irmã ao
mesmo tempo.
Ele sorriu, seus dentes uniformes e brancos.
— Verdadeiro.
— Além de seu irmão.
O sorriso se esfumou.
— Falso.
— Que teve duas amantes ao mesmo tempo e lhes
comprou casa, uma ao lado da outra.
— O que requereu memorizar unicamente uma direção.
Muito prático, em minha opinião.
Nick esticou o braço para enroscar um de seus caracóis
ruivos em seu dedo.
— Dizem que você era cliente habitual do bordel de
Theresa Berkley, onde esta praticava suas artes flageladoras
com você.
— Cliente habitual não, mas terei entrado um par de
vezes, sim. Essas coisas despertam curiosidade, já sabe.
Nick estava tentando escandalizá-la, mas não havia
maneira de dissuadir Júlia.
— A mulher do seu irmão. Isso também é verdade?
O belo rosto de Nick se crispou fugazmente antes de
recuperar sua habitual expressão indolente.
— Ah…, querida! Acaso não é isso o que todos querem
saber? Se o perverso irmão mais novo seduziu a esposa de seu
irmão mais velho, causando tal desespero que o herdeiro sofreu
um acidente fatídico? — Nick introduziu um dedo na manga do
vestido afrouxado de Júlia e puxou, deixando descoberto a
parte superior de seu seio direito. O tecido lhe caia
perigosamente de tal modo que uma inspiração profunda
liberaria seu seio do espartilho e da camisa. — Essa
informação, tesorina, tem um preço.
Capítulo 5
Ao princípio lhe prometerão o que for.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

— E que preço está pensando? — Juliet perguntou-lhe.


Como se Nick fosse dizer a ela, só a ela e a mais ninguém,
em realidade. Tanto Fitz como Winchester intuíam a verdade,
mas ele jamais tinha confirmado nem negado suas hipóteses.
Deslizou uma mão pelo seu quadril redondo.
— Um mais alto do que jamais conseguiria pagar.
Sorriu-lhe, piscando, e o coração de Nick de repente se
encolheu. Decidido a ignorar o que fosse que estivesse
sentindo, voltou para o assunto em questão.
— Com a pressa, em nenhum momento nos preocupamos
em evitar a concepção. Não sei se me atrevo a perguntar…
— Não posso conceber — ela se apressou a dizer.
— Lamento — ele repôs. Embora nunca tivesse desejado
ter filhos, Nick sabia que muitas mulheres sentiam o desejo de
ter descendência.
Juliet agitou uma mão no ar.
— Provavelmente será o melhor.
Nick não soube muito bem o que dizer, então lhe
assinalou o cabelo.
— Posso soltá-lo?
Ela assentiu e se voltou ligeiramente para que ele
chegasse às presilhas que sustentavam sua soberba cabeleira
ruiva. Extraiu-as uma a uma com parcimônia, como se
quisesse torturar a si mesmo, colocando-as cuidadosamente
em cima da mesa antes de localizar a seguinte. Quando tirou a
última presilha passou os dedos pelos sedosos fios,
contemplando como o resplandecente fogo se deslizava por sua
pele. Desejou sentir aquele macio calor contra suas coxas
quando ela introduzisse seu membro na boca. A mera idéia
aumentou o desejo em seu ventre, seu pênis cobrando vida.
Queria-a nua; agora. Inclinou-se para acariciar a generosa
turgidez do seio que seu pronunciado decote deixava à vista.
Maldição, aqueles seios… bastavam para fazer um homem
adulto chorar de gratidão. Seria capaz de contemplá-los e
acariciá-los durante horas.
— Dispa-se para mim.
A confusão faiscou nos olhos de Júlia antes que baixasse
seu cílios. Sua reação foi desconcertante. Seguramente já lhe
tinham feito esta petição. Com aquele corpo tão exuberante,
qualquer homem fantasiaria vendo-a despir-se lentamente.
Juliet era uma estranha combinação de atrevimento e
inocência, e para ele ambos os traços pareciam decididamente
atraentes.
Ela umedeceu os lábios com a ponta de sua língua rosa.
— Quer ficar olhando enquanto tiro a roupa?
Ele deixou que todo o desejo agudo e ardente que sentia
nesse momento se refletisse em seus olhos enquanto
percorriam seu corpo.
— Nunca desejei tanto algo em toda minha vida.
Os lábios de Júlia se separaram e lhe escapou uma
exalação. Ele viu que o pulso lhe pulsava acelerado e com força
na base da nuca, e sorriu. Por sorte não era o único afetado.
Ela se ajeitou e se aproximou da beira da cama para
deixar a taça em cima da mesa enquanto segurava o vestido
solto diante dela a modo de escudo. O cabelo lhe caía até o
meio das costas, uma cascata de vermelho resplendor. Nick já
excitado, o pênis ia arrebentar de dentro das calças e isso que
ela ainda não tirara nem uma só peça.
Juliet se voltou e apartou o olhar em todo o momento,
quase com acanhamento. Deus, a capacidade de uma mulher
tão experiente em parecer novata o deixava em suspense. Com
um movimento suave Júlia levantou as mãos pelos lados e o
vestido caiu ao chão. Nick ficou com a boca seca. Deus do
amor formoso, que visão! De pé com uma simples anágua, uma
fina camisa de renda, meias e um curto espartilho, quase podia
ver sua silhueta inteira através do tecido transparente. Pernas
longas e torneadas, cintura de vespa, um triângulo de pêlo
claro sobre suas coxas, ventre plano… e seus seios
emoldurados de forma tão tentadora. Estava ansioso por
saboreá-la.
De repente o incomodou sua própria roupa. Levantou-se
brevemente para tirar a camisa pela cabeça e a atirou ao chão
junto aos pés de Júlia.
Ela arqueou uma sobrancelha, seu olhar acariciando
agora o torso nu de Nick.
— Assim está melhor.
Ele sorriu e tombou sobre as almofadas.
— Mostrarei mais quando você me mostrar mais.
Ela mordeu o lábio e se concentrou no diminuto
fechamento frontal da anágua. Mais fina que o papel, a roupa
lhe desceu pelos ombros e revoou até o chão.
— Necessitarei de ajuda com as fitas do espartilho — Júlia
disse lhe dando as costas.
Nick se aproximou com uma velocidade da qual não se
acreditava capaz. Levantou a cortina ruiva, levou-a ao nariz e
inspirou profundamente. «Gardênias», pensou aspirando uma
vez mais a doce fragrância. Soube que associaria para sempre
esse aroma com ela.
Colocou-lhe o cabelo sobre o ombro, apressou-se a desatar
as fitas e voltou para seu lugar na cabeceira.
Juliet rebolou para desprender-se do espartilho, deixando
que a malha caísse ao chão, e o corpo inteiro de Nick se esticou
tentando evitar jogar-se sobre ela. Era adorável. O peitilho de
renda da camisa não fazia nada para ocultar as escuras
auréolas nem os mamilos rosáceos de seus seios, o delicado
tecido mal continha a generosidade.
«Que coisas fazem hoje em dia com a roupa interior
feminina…»
— Não o tire — ele disse com voz rouca, tinha-lhe secado a
garganta. — Venha aqui.
A insolente harpia sacudiu a cabeça e assinalou suas
calças.
— As calças, Nicholas.
Ele resmungou. Estava bem empregado por deitar-se com
uma amante tão experiente. Desabotoou-se em seguida e
levantou os quadris da cama para tirar a roupa restante. Nu e
obviamente excitado, caiu na cama de barriga para cima e
cruzou os braços atrás da cabeça.
O olhar de Juliet escureceu ao pousar em seu pênis, agora
erguido sobre seu abdômen. Nick separou um pouco as coxas e
rodeou o membro com uma mão, acariciando-o devagar ao
mesmo tempo que a olhava. Em poucos segundos seu membro
estava duro. Com a pele sensível, os nervos respondiam à
mínima carícia enquanto estimulava o pênis dentro do punho.
Com os músculos tensos Nick procurou manter um ritmo
pausado. Poderia ir rapidamente, ejacular meramente
contemplando seu lindo corpo.
— Suba aqui, Juliet. Morro de vontade de saboreá-la, de
que me saboreie.
Ela subiu à cama sem pressa, a camisa subiu deixando à
vista suas coxas leitosas, e Nick teve que deixar de masturbar-
se; do contrário explodiria. Juliet deslizou as mãos por suas
pernas enquanto se aproximava, lhe rodeando as pantorrilhas
com as pontas dos dedos, por cima de seus joelhos. Acomodou-
se entre suas coxas, e ele ficou tenso de expectativa.
— Eu também estou morta de vontade de saboreá-lo, sua
excelência.
Seu cabelo vermelho sedoso caiu como uma carícia sobre
Nick, da cintura para baixo, enquanto abaixava a cabeça para
seu pênis.
Ele quis lhe dizer outra vez o muito que odiava seu título,
mas só conseguiu gemer porque lhe havia tocado a ponta do
pênis com a língua. Deu-lhe uma lambida vacilante que fez
com que ele contraísse todos os músculos do corpo,
paralisando-o. Reprimiu o impulso de incorporar-se e a obrigar
a meter seu membro quente até o fundo de sua garganta. Sua
paciência se viu recompensada quando, com uma mão firme na
base, ela deslizou a boca pela extensão de seu pênis, sugando-
o com tal perfeição que acreditou que perderia o juízo.
— Oh, Jesus! Sim, cara, chupe-me. — Retorceu as mãos
nos suaves fios de cabelo que formavam uma ardente cortina
ao redor de seu rosto. — Meta-o na boca.
Então ela começou a mover-se com entusiasmo. Nick não
podia respirar, não podia pensar, unicamente podia olhá-la
fixamente: seus lábios, tão rosados e inchados, rodeando seu
membro com força, com seus voluptuosos seios quase saindo
de sua camisa cada vez que lhe subia e baixava a pele do pênis.
Uma e outra vez… o ritmo perfeito. Ao ver que se
desembrulhava com tanta habilidade, o prazer lhe aumentou
na coluna, endurecendo-lhe as bolas, e soube que não faltava
muito.
Então ela começou a arranhar brandamente seus
testículos com as unhas, e aquilo foi a perdição de Nick. Pôde
sentir o orgasmo emergindo do fundo de sua alma. As paredes
retumbaram com seu grito quando ejaculou dentro da boca de
Júlia, seu corpo estremecendo pela intensidade da descarga.
Durou uma eternidade, e ela tragou tudo o que ele lhe deu, até
que tombou de barriga para cima, absolutamente exausto.
Soltou-o e se incorporou para deitar-se ao seu lado.
— Deus! — Ele ofegou procurando recuperar-se. —
Acredito que nunca voltarei a ser o que era.
Se fosse menos homem sucumbiria ao entristecedor desejo
de dar a volta e adormecer, mas desejava desesperadamente
lhe devolver o detalhe, saborear o orgasmo de Júlia com sua
língua.
Ficou de lado e lhe rodeou a bochecha com a mão,
obrigando-a a olhá-lo. Seus extraordinários olhos azuis
brilhavam de excitação. Então a beijou, doce, mas
impetuosamente, saboreando o sabor salgado de sua boca. Ela
se agarrou aos seus ombros com força e o beijou com ardor,
sua língua agora tão agressiva como a de Nick. O rasgou por
dentro uma satisfação brutal ao comprovar que lhe dar prazer
tinha incrementado o desejo de Júlia.
Nick se incorporou. Juliet estava de barriga para cima,
seus cabelos sedosos pulverizados como chamas revoltas sobre
o travesseiro, por trás da cabeça. Com as duas mãos pegou a
borda de sua fina camisa e a rasgou, a malha ligeira
rompendo-se sem problemas em suas mãos. Ela afogou um
grito.
— Comprarei dez mais — ele prometeu enquanto retirava
os farrapos.
Baixou-lhe meias e ligas, uma por uma, deixando ver a
macia e leitosa pele de suas pernas.
Já estava nua. Deus do céu, era perfeita. Nunca tinha sido
possessivo com uma mulher, mas a idéia de que outro homem
desfrutasse dela como ele tinha feito, como ia fazer, o enchia de
ciúme; assim sem mais, inclinou-se para introduzir um mamilo
protuberante de excitação em sua boca; ela afundou os dedos
em seu cabelo para imobilizá-lo, embora ele não necessitasse.
Nick lhe rodeou o outro seio com uma mão e lhe beliscou
brandamente a proeminência. Júlia o recompensou com um
gemido prolongado e gutural.
Seus outros amantes tinham sido bruscos? Delicados?
Neste momento Nick seria o que ela quisesse. Tinha que
proporcionar a Juliet mais prazer que todos os homens com
quem tivesse estado.
Deslizou a mão pela pele macia de seu corpo, por seu
ventre plano, até à parte de seus íntimos cachos. Adorava essa
primeira incursão dos dedos no sexo de uma mulher, em cuja
entrada notava a excitação acumulada. E… oh, Juliet estava
úmida! Úmida e quente! Empapou dois dedos com o fluxo e
ascendeu ligeiramente para rodear a pequena protuberância do
topo. Seguia inchada depois do coito prévio, suplicando suas
carícias.
— Oh, Nick! Sim! — Ela exclamou com um ofego.
Juliet se agarrou à colcha e abriu mais as pernas.
Encantavam-no as mulheres que sabiam o que queriam,
mas tinha outros planos. Embora ansiasse notar seu orgasmo
na língua, que ela chiasse seu nome enquanto se
convulsionasse, precisava prolongar aquilo, deixá-la tão louca
de desejo que jamais o esquecesse. Inclinou-se para alcançar
sua taça de licor da mesa.
Um indício de receio dançou nos olhos de Juliet. Não
sabia o que ele se dispunha a fazer, e Nick gostava disso. Esta
noite apagaria as lembranças de todos os seus anteriores
amantes, e se ela não sabia o que estava por vir, melhor.
— Nick, o que…? — Júlia começou a dizer até que uma
pequena quantidade de líquido lhe salpicou o torso nu.
Tomou ar de repente e ele observou, fascinado, enquanto o
líquido de cor âmbar descia serpenteando pelo vale entre seus
seios e a seguir descia por seu flanco. Seu maravilhoso corpo
se contorceu diante dele qual banquete, inclinou-se com avidez
e pressionou a língua contra suas costelas, enxugando a doce
umidade de sua pele com a boca. O sabor de amêndoas e
damascos misturado com sua pele macia, o gosto e o tato de
Júlia sob a aspereza de sua língua eram mais embriagadores
que qualquer licor.
Ele seguiu acariciando-a mais acima, até que lhe lambeu
a parte inferior de seu seio, banhando com suavidade a pele
aveludada e turgente. Foi incrível, porque o pênis cobrou vida e
cresceu com um desejo desesperador que só esta mulher
parecia lhe suscitar. Jamais tinha sido tão insaciável, mas
Juliet o fazia se sentir libidinoso qual garoto em sua primeira
cópula.
Começou a estimular o vale entre seus seios, depositando
lentamente úmidos beijos em sentido ascendente por seu
esterno, um atrás de outro até que ela arqueou as costas e lhe
segurou a cabeça. Ele ainda não tinha usado as mãos, feito de
que ela era perfeitamente consciente. Júlia tentou que ele
voltasse com a boca à ponta rosada de um seio, mas Nick
escapou, decidido a atormentá-la.
Levantando-se sobre ela, arrastou a língua ao longo de
sua clavícula limpando a viscosidade do licor conforme
avançava. Ela respirou entrecortadamente e se moveu inquieta
na cama, mas ele quis ser paciente.
— Nick, por favor.
Mordiscou-lhe o delicado pescoço. Quando ela tentou unir
suas bocas, ele se apartou e se dedicou a observá-la: seu rosto
ruborizado pela paixão e os olhos fechados em doce entrega;
nunca tinha visto mulher mais formosa.
— Por favor — ela ofegou e a paciência de Nick se quebrou
ante sua gutural súplica.
Verteu um longo e fino jorro de licor sobre seu corpo
acabando justo por cima de seu montículo. Ela deu uma
sacudida e estremeceu, e Nick jogou distraidamente a taça ao
chão, toda a atenção posta em sua carne nua.
Inclinou-se e rapidamente deslizou a língua pelo rastro de
licor e se instalou entre suas pernas sem perder tempo. O
aroma de doce almíscar combinado com as amêndoas e os
damascos endureceu ainda mais seu pênis.
— Quero a ouvir gritar, Juliet. Não se contenha — Nick
disse antes de abaixar a cabeça e passar a língua com audácia
pela extensão de suas dobras. Ela subiu os quadris a modo de
resposta e ele sorriu; pretendia desfrutar disto tanto quanto
ela.
Servindo-se dos polegares, Nick separou os lábios
brilhantes e soprou com suavidade. Ato seguido banhou a
pequena protuberância de carne inchada com a língua,
desenhando círculos rítmicos até que ela gemeu embaixo dele,
agarrou-o com força e ficou a ofegar. Deus! Poderia passar
horas fazendo aquilo. Mas queria lhe dar mais, incrementar
seu prazer, de modo que introduziu um dedo em seu canal
morno e úmido, ao que seguiu outro. Juliet se arqueou na
cama, gritou seu nome e ele soube que lhe faltava pouco.
Nick seguiu usando a língua, sugando um pouco
inclusive, até que as coxas de Júlia começaram a tremer. Seus
músculos internos se contraíram ao redor dos dedos de Nick, e
ficou rígida. Ele notou como o orgasmo lhe percorria o corpo
inteiro, e ela gritou tanto que a escutariam em Roma.
Quando Júlia deixou de tremer ele não pôde pensar em
outra coisa que não fosse possui-la uma vez mais. Com o pênis
dolorosamente duro, ficou de joelhos, segurou-a pelas coxas e
penetrou até o fundo de sua estreiteza com um suave
empurrão de quadris. Ela torceu o gesto e soltou um grito.
Ele ficou gelado, o atordoamento que lhe produzia a
luxúria desaparecendo imediatamente de seu cérebro.
— Dói-lhe?
Ela apertou com força os lábios.
— Um pouco, — sussurrou — mas…
Ele tirou o pênis e a beijou na bochecha.
— Sinto muito, Juliet. Não deveria lhe exigir tanto em
nossa primeira noite juntos. Me perdoe.
— Sou eu quem deveria desculpar-se, Nick…
— Não, tesorina. — Nick rodou e a rodeou com os braços a
fim de que ela descansasse sobre seu peito. — Não tem por que
desculpar-se. Prometo deixá-la descansar, se ficar comigo.
Gostou de senti-la colada a ele, toda suave e quente. De
fato, já não recordava quando fora a última vez que tinha
estado tão contente.
A modo de resposta, ela se aninhou junto a ele. Nick, com
um leve sorriso no rosto, ouviu sua respiração lenta conforme
adormecia.

***

Na tarde seguinte Sérgio entregou uma nota a Júlia.


— Grazie — ela disse pegando o papel. Era de Nick.

Minha querida senhora Leighton:


Conceder-me-ia a honra de me acompanhar esta noite ao
teatro? Temo não entender bem a encenação, a menos que você
esteja ali para me ilustrar.
Seu,
Nick.

— Seu valete está esperando resposta? — Perguntou ao


seu criado.
— Sim, signora.
— Pois me conceda uns instantes.
Júlia se levantou do sofá e foi até o pequeno escritório da
sala. Escreveu uma nota direta em que dizia a Nick que seria
um prazer e que passasse a pegá-la avançada a tarde.
Quando o criado saiu com sua nota Júlia se voltou para
sua tia.
— Esta noite vou ao teatro com o Colton.
Theo sorriu.
— Isso significa que voltará a passar a noite fora?
— Talvez — Júlia respondeu ignorando a emoção que fluía
por ela ao imaginar outra noite com Nick.
As lembranças de seu encontro, a sensação de tê-lo
dentro, aturdiam-na por momentos; e a forma em que tinha
bebido o licor de sua pele nua… suspirou. Aquele homem era
deliciosamente perverso.
Baixou sigilosamente de sua cama cedo pela manhã, o
duque meio adormecido. Nesse momento lhe tinha parecido
mais fácil, mas parte dela desejava haver ficado mais tempo
para experimentar mais a perversidade em suas mãos.
Sua tia a observou.
— É evidente a que se dedicaram ontem à noite. Hoje está
absolutamente radiante.
Júlia notou que o calor lhe subia pela nuca.
— Nada disso.
Theo soprou.
— Querida, relaxe um pouco mais e durma. Suponho que
não preciso te perguntar se os rumores a respeito da destreza
de seu marido são exagerados.
Júlia franziu as sobrancelhas. Não queria imaginar Nick
deitando-se com outras mulheres; mulheres como a senhora
Leighton. Não cabia dúvida que as mulheres que formavam
parte de seu passado eram muito mais formosas e experientes
que ela, a esposa inexperiente a quem não tinha intenção de
voltar a ver. Toda a conhecida ira que tinha arrastado durante
oito anos, o ressentimento que tinha esquecido com quatro
beijos apaixonados, começou a ferver em seu interior.
As coisas que havia dito, e feito, na noite anterior eram
muito íntimas e pessoais. Ele fazia e dizia isso a todas as
mulheres com as quais se deitava? Ou os homens, por
natureza, mostravam-se assim… carinhosos com uma mulher
num dia e com outra no seguinte? Para logo dizerem que as
mulheres eram criaturas volúveis.
Júlia esfregou a testa. De nada serviria ficar muito
sensível por isso. Tinha vindo a Veneza para seduzir o patife de
seu marido. Que fosse um patife só faria a ajudar a obter seu
objetivo. Já tinha triunfado. Logo estaria grávida, com o que
partiria e não voltaria a vê-lo jamais. imaginar sobre a longa
lista de mulheres que a tinham precedido ou as que, sem
dúvida, viriam depois dela não servia absolutamente para
nada.
Além disso, estragaria a euforia de sua vitória. Porque já o
tinha feito; tinha seduzido seu marido.
— Pense, tia Theo, que poderei estar grávida neste preciso
instante. — Levou a mão ao abdômen. — Crê que eu serei uma
boa mãe? Não recordo grande coisa da minha.
— Será uma mãe excelente. Carinhosa, compassiva e
disposta a proteger seu filho com unhas e dentes. Uma mulher
que é capaz de fazer o que você tem feito para conseguir o que
quer… tem garra, Júlia. Sua mãe não era tão forte.
— Por que diz isso?
Theo mal falava da falecida marquesa. Havia falecido,
junto com o bebê, ao dar à luz a sua irmã. Ela então tinha
quatro anos.
— Tem a teima de seu pai, meu irmão. À sua mãe não
importava que outros tomassem as decisões por ela, cumpria
os desejos de seu pai. Não sei por quê, mas acho que seu
matrimônio seria idêntico.
— Que matrimônio? Se Colton não me quer como esposa?
— Talvez o que tem agora seja melhor para ambos.
Júlia sorriu afetuosamente.
— Como chegou a ser tão sábia, tia Theo?
— Por meu matrimônio ser fugaz com um marido que teve
a gentileza de falecer prematuramente.
Antes que Júlia pudesse responder, Simon irrompeu.
— Boa tarde, senhoras — saudou e desabou em uma
cadeira.
Cruzou o olhar com Júlia e se deteve, avaliando-a com
atenção.
— Não é que queira detalhes, mas, por favor, me diga que
Colton não a machucou.
— Simon!
Júlia notou o rosto quente pela segunda vez em escassos
minutos.
Ele elevou uma mão.
— Jules, perguntaria o mesmo a uma irmã, que é
precisamente como a vejo.
Tão óbvio era que já não era virgem?
— Colton não me machucou, não.
— Bom, porque se o fizer terei que matá-lo. — Inclinou-se
para diante para servir uma xícara de chá. — Me pediu que
jantemos, devo supor que para averiguar o motivo de minha
hostilidade de ontem à noite. Ainda não tenho claro o que lhe
direi.
— Simon, não pode seguir zangado com ele por minha
situação econômica. Diga que foram ciúmes passageiros.
— Ou… — Theo interveio — uma artimanha para juntá-lo
com a senhora Leighton; por aquilo de estar unidos frente a um
inimigo comum.
Simon não disse nada, limitou-se a contemplar o interior
de sua xícara. Júlia viu, pela tensão de sua mandíbula, que
estava reprimindo a raiva.
— Pode ser que te console pensar que meu plano está
funcionando, Simon. E Nick não suspeita da minha dupla
identidade.
Seguiu sem dizer nada. Júlia mudou de tema.
— Esta noite irei ao teatro com o Colton. Virá você
também?
— Não, esta noite tenho um compromisso em outro lugar.
— Com a Verônica? — Theo perguntou enquanto remexia
seu chá.
Simon pôs os olhos em branco.
— Não há intimidade em uma casa com duas mulheres?
Sim, com a Verônica. — Inclinou-se para diante. — Jules,
Colton te disse dos atentados contra sua vida?
Júlia piscou e a cabeça lhe deu voltas. Agarrou-se nos
braços da cadeira para manter o equilíbrio.
— Os… o quê? Atentados contra sua vida? Para matá-lo?
Simon assentiu.
— Chegaram-me rumores. E não só em Veneza. Ao que
parece os problemas seguem Colt em qualquer lugar que vá. É
uma das razões pelas quais tem aquele mastodonte como
valete.
— Mas matá-lo? Por quê? — Theo inquiriu.
— Ninguém sabe ao certo. Colton nega, naturalmente.
Dizem que em Viena o apunhalaram. Agora nunca sai de noite
sem o Fitzpatrick ao seu lado.
«Apunhalaram-no!», Júlia pensou horrorizada.
Não tinha visto indício algum de cicatriz em seu corpo,
claro que ontem à noite se fixou em outras coisas.
— Em qualquer caso, — Simon continuou — quando
estiver com ele tome cuidado. Se assegure de que Fitzpatrick
esteja perto se saírem de noite. Não gostaria que se
machucasse.
— Acredito que eu tampouco — ela resmungou, sua mente
dando voltas à notícia. Por que alguém ia querer matar o Nick?
Bom, além da esposa que levava oito anos ignorando. Mas ela
não queria matá-lo, então… quem estava tentando matar o
duque?

***

Até a metade do primeiro ato da obra Júlia não se deu


conta de que algo ia mal.
Sim, ao chegar juntos o legendário Duque Depravado e a
infame senhora Leighton, as cabeças se viraram para eles.
Tinham esticado o pescoço ou se levantado da poltrona para
ver melhor o camarote de Colton. Tinha desconcertado Júlia
um pouco, mas Nick pareceu tomar tudo com filosofia.
O que a preocupava era que durante a obra os olhares
eram dirigidos a ela. Não de expressão hostil, mas de
aprovação. As mulheres a observavam e faziam comentários
aos seus acompanhantes com dissimulação, mais
concentradas nela que no cenário. Por pouco não ficou louca. O
que estariam murmurando todas elas?
Inteirou-se quando Verônica e Simon entraram no
camarote durante o intervalo.
— Simon! — Júlia exclamou, levantando-se para saudá-lo.
— Boa noite, senhora Leighton. Colton. Suponho que se
lembra da Verônica DiSano. — Com sua esbelta silhueta
perfeitamente composta com um suntuoso vestido de noite
azul, parecia ter problemas com o penteado. Uma longa mecha
castanha escura caía sobre a testa da formosa atriz. Júlia
procurou não olhar enquanto trocava saudações com a mulher.
Júlia se voltou para Simon.
— Acreditava que esta noite tinha um compromisso em
outra parte.
Simon inclinou a cabeça para Verônica.
— E assim era, até que se inteirou que você estava aqui.
A pele azeitonada de Verônica se voltou de um vermelho
apagado.
Voltou-se para Júlia enquanto destacava a cabeça. — O
que acha do penteado? Todo mundo começou a copiá-lo.
Pedem às suas donzelas que «leightonizem» o cabelo.
Júlia ficou boquiaberta. Deu uma rápida olhada ao teatro
e se fixou em que mais de uma mulher difundiam tão
extravagante estilo. Céus, a senhora Leighton estava marcando
tendência.
— Adula-me — conseguiu dizer, e olhou ao Simon, cujos
olhos azuis faiscavam de satisfação.
— Parece que a senhora Leighton tem algumas fiéis
admiradoras — disse procurando visivelmente não rir.
Nick deslizou a mão para rodear a cintura de Júlia e
estreitá-la contra si. Com a outra mão segurou-lhe os dedos, os
levou aos lábios e lhe depositou um beijo nas pontas, seus
penetrantes olhos cinza lhe atravessando a alma. Ela
estremeceu.
— Totalmente merecidas — comentou. — Até eu estou
desejoso de aumentar as filas dessa multidão…
— Veremo-nos logo no Florian? — Simon inquiriu.
Júlia olhou para Nick, que estava incrivelmente bonito e
ducal com seu impecável traje de noite preto. Mostrou-se
atencioso e relaxado durante toda a noite, mas cada vez que a
olhava, a avidez de seus olhos por pouco a deixava sem ar.
Intuía que tinha planos concretos para quando saíssem do
teatro.
— Não, não acredito — Nick respondeu, sua mão
apertando com força o quadril de Júlia.
— Bom, então vamos. Que desfrutem do resto da atuação
— Simon disse antes de levar Verônica a toda pressa.
Nick acompanhou Júlia de novo à sua poltrona.
— Virá para casa comigo, tesorina?
O desejo lhe percorreu a coluna vertebral. Júlia recordava
cada instante da noite anterior, como suas carícias haviam a
deixado louca. Era quase como se alguma força a atraísse para
ele, fazendo com que Nick lhe resultasse irresistível. Mesmo
que não estivesse tentando conceber, duvidava que pudesse
rejeitá-lo. Como não sabia se lhe falharia a voz, respondeu à
sua pergunta assentindo com a cabeça.
Lançou-lhe um sorriso relaxado cheio de promessas.
— Talvez devêssemos partir logo.
— Nick! — Ela sussurrou, espantada. — Todo mundo nos
veria.
— Desde quando nos preocupa o que falam? — Os atores
saíram à cena e o interior do teatro guardou silêncio. Os lábios
de Nick deram com a orelha de Júlia. — Poderia possui-la aqui,
no camarote. Introduzir meu pênis e nos deixar loucos de
prazer. Só diga a palavra mágica.
Suas palavras fizeram com que o calor corresse pelo corpo
de Júlia. Não duvidava absolutamente. Se lhe dissesse que sim,
acharia o modo de fazê-lo.
— Comporte-se, Nicholas — conseguiu dizer.
— Resulta-me extremamente difícil com você perto.
Sobretudo com esse vestido.
Júlia tinha esolhido uma tonalidade de seda azul
especialmente intensa esta noite, com um decote próximo ao
escandaloso. A princípio se absteve de ficar com um vestido tão
atrevido, mas Pearl tinha aplaudido contente ao ver o resultado
e tinha insistido em que ficasse com ele. Pelo menos Nick
também sabia apreciar.
— Agrada-me que o percebeu — ela respondeu, incapaz de
evitar sorrir.
— Como não ia perceber? Todos os homens do teatro
estarão perguntando-se em que momento lhe sairão os seios.
Tomou a mão enluvada de Júlia e a colocou em seu pênis,
onde ela notou sua ereção, longa e grossa, através de suas
calças.
«Oh, céus!»
De repente lhe faltou ar; não queria afastar a mão, de
nenhuma das maneiras. Flexionou os dedos, movendo-os sobre
seu membro lentamente através do suave tecido. Seu pênis
palpitou sob suas carícias, e Nick gemeu.
— Se não parar logo, isto pode ser verdadeiramente
vergonhoso.
Como não fez gesto para detê-la, Júlia tomou como um
estímulo.
Pressionou a palma sobre seu membro e percorreu várias
vezes a extensão deste.
— Juliet — Nick resmungou.
Sua cabeça caiu para diante e fechou os olhos. Qualquer
um diria que estava adormecido, se não fosse pelo músculo que
se esticava e afrouxava em sua mandíbula. “Senhor, como era
bonito”. Júlia olhou para o cenário tentando apaziguar seu
coração acelerado.
Mas não sentia mais que Nick, duro e quente, inclusive
através das cmadas de roupa… e com muita dificuldade podia
ficar quieta, porque o desejo intenso se espalhava sob a pele.
— Vamos — ele sussurrou, puxando Júlia para que se
levantasse.
Quando ela se deu conta estavam fora do camarote
descendo pelas escadas para a saída.
— Minha capa! — ela caiu em conta entre risadas
enquanto ele virtualmente a arrastava.
— Comprarei dez mais — ele disse antes de puxá-la
rapidamente à fresca noite veneziana.
O ar pressagiava chuva e a lua projetava um brilhante
resplendor com o passar do canal. Nick foi incapaz de falar
enquanto conduzia Juliet até sua gôndola; que o céu o
amparasse porque com muita dificuldade era capaz de pensar.
A cativante atrevida quase o fez ejacular dentro das calças.
Sim, porque tinha começado como o jogo de pôr a mão de
Júlia em seu pênis convencido de que ela a retiraria, mas o
tinha surpreendido acariciando-o, excitando-o mais do que
nunca tinha acreditado possível.
Aquela mulher era perigosa.
Fitz tinha se limitado a arquear as sobrancelhas quando
saíram do teatro, como se soubesse o que tinha ocasionado a
precipitada saída; mas ele não se importava. Levava toda a
noite meio excitado, desde que a tinha visto com aquele
vestido. Cintura estreita, pele cor de nata, seios voluptuosos…
Juliet era o próprio pecado com um pingo de inocência. Não
sabia o que tinha de completamente distinto de suas anteriores
amantes. Sentia-se protetor com ela, como se de algum modo o
necessitasse. Ridículo, na verdade, posto que as mulheres de
sua estirpe se apreciavam por serem independentes, mas
mesmo assim não conseguia se livrar do sentimento.
Estendeu-lhe uma mão enquanto ela subia à embarcação
e a seguir fez o mesmo com um salto. Fitz os seguiu
discretamente e em questão de segundos a gôndola partiu,
bamboleando com suavidade na água.
Nick se sentou ao lado de Júlia na escura cabine. O
passeio lhe tinha baixado um pouco a excitação, assim decidiu
não a despir até que a tivesse em uma cama. O que lhe
recordou que…
— Surpreendeu-me despertar só esta manhã — disse.
— Lamento. Supus que seria mais fácil que me fosse antes
que você despertasse. Ficou decepcionado?
— Naturalmente que sim. E teria me aborrecido muito se
não fosse porque Fitz a seguiu até seu palazzo e me assegurou
que tinha retornado bem. Como lhe ocorre ir sozinha daquela
maneira? Veneza pode ser tão perigosa como qualquer outra
grande cidade.
— Sim, já me inteirei de quão perigosa é para você. Por
que não me contou que atentaram contra sua vida?
Inclusive sob a tênue luz podia ver-se com claridade a
preocupação no mais profundo de seus olhos azuis.
Nick não estava acostumado a que alguém se preocupasse
com ele. Bom, Fitz o fazia… mas era Fitz. Pagava-lhe para isso.
Entretanto, o interesse de Juliet por sua segurança o
incomodava.
Encolheu os ombros.
— Faz oito meses uns trombadinhas nos assaltaram. Fitz
acredita que o sucesso forma parte de uma conspiração mais
sinistra, mas eu acredito que passamos por ali no momento
inoportuno.
— Momento inoportuno? — Ela soprou. — Seriamente crê
nisso?
A mulher era inteligente, isso estava claro. Mesmo assim,
não havia nenhuma necessidade de avivar o temor ou a
preocupação pelos ataques.
— Sim. E por que discutimos sobre isto quanto
poderíamos estar falando de assuntos mais importantes, tais
como de que maneira desejo passar uma semana com você em
minha cama?
Ela riu pensando que ele brincava, mas Nick franziu as
sobrancelhas. Acaso Júlia não acreditava que a queria só para
ele? Não tinha falado mais a sério em toda sua vida.
— Não é uma brincadeira — disse com veemência.
Ela arqueou as sobrancelhas e o esquadrinhou.
— Nick, a ideia de passar uma semana em sua cama é
absurda. Uns dias, possivelmente, mas não queria que… se
cansasse de mim.
— Isso é muito pouco provável. — Nick se inclinou para
frente e lhe depositou um terno beijo nos lábios. — Inclusive
diria que nem sequer uma semana bastaria para descobrir
todos os seus segredos.
Seus lábios voltaram a roçar-se, desta vez com mais
ímpeto.
Ela se derreteu com o beijo, abrindo a boca e sem opor
resistência alguma, e o pênis de Nick começou a endurecer. O
beijo se tornou ardente, ambos tentando devorar-se
mutuamente. Ele bebeu cada suspiro e leve gemido que ela
lançou, deleitando-se com a demonstração de sua paixão.
Nenhum dos dois percebeu a diminuição de velocidade da
embarcação.
— Sua excelência — Nick ouviu que Fitz dizia.
Nick interrompeu o beijo e blasfemou em voz baixa.
Voltava a estar muito excitado e esquecera o casaco no teatro.
«Deus!» Se a coisa seguisse assim, não poderia aparecer com ela
em público.
Fitz riu com dissimulação quando Nick passou por seu
lado, plenamente consciente do alcance e motivo pelo qual
estava violento.
«A puta que te pariu», pensou lançando um olhar sinistro
ao seu amigo antes de ajudar Juliet a desembarcar da gôndola.
— Querida, — disse a Juliet — como se chama sua criada
pessoal?
— Fiorella. Pelo amor de Deus! O que pretende…?
Nick não se deu ao trabalho de lhe responder. Não queria
dar a possibilidade de o contradizer.
15
— Fitz, vá ver a signorina Fiorella. A senhora Leighton
precisa de roupa para ficar uma semana em meu palazzo. Será
nossa convidada durante os próximos sete dias.
— Nick! — Juliet exclamou. — Me é totalmente
impossível…
— Vamos — Nick disse acompanhando a senhora Leighton
para o palazzo. — Vá, Fitz — disse por cima do ombro.
Fitz assentiu e Nick confiou plenamente em que seu valete
administraria. Deus! Só a ideia de ter Juliet à sua mercê
durante sete dias… apertou um pouco o passo.
— Que ponha na mala meus cosméticos e loções, por
favor! — Juliet gritou ao Fitz por cima do ombro antes de
chegar à porta.
— Comigo não precisará de enfeite algum, Juliet. Inclusive
diria que nem sequer necessitará de roupa, mas vale tê-la, no
caso de precisar. — Abaixou-se, passou-lhe um braço por
debaixo dos joelhos e a levantou. — Amanhã mandará uma
nota ao Winchester e à sua tia lhes fazendo saber que estará
comigo toda a semana.
— Nick, me desça! — Júlia gritou e lhe rodeou o pescoço
com os braços para segurar-se enquanto ele caminhava a
passo longo para as escadas.
— Dentro de sete dias, senhora Leighton. Até então, é
minha.
Capítulo 6
Se for necessário, deixe-o assumir a liderança, mas só
brevemente. Controlá-lo é controlar seu próprio destino.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa do Colton

Júlia olhou ao duque com receio.


— Faz isto com regularidade? Sequestrar mulheres? — Ele
a tinha deixado em cima de sua cama e agora estava despindo
apressadamente o casaco. — Não pode me reter aqui sete dias,
Nick.
Júlia reprimiu o pânico. Se não colocasse sua tintura de
cabelo, ao término da semana o ruivo voltaria para seu loiro
natural. E nesse momento Nick saberia que o tinham enganado
e provavelmente faria com que Fitz a jogasse pelo escarpado
veneziano mais próximo.
«Por favor, Fiorella, não se esqueça.»
Talvez pudesse mandar uma nota à Theo, e sua tia, se
necessário, poderia de algum modo introduzir às escondidas a
loção no palazzo de Nick. A isto se reduziu sua vida, à busca de
subterfúgios por uma tintura?
Não tinha mais remédio. Se Nick descobrisse sua
identidade tudo aquilo pelo que tanto tinha lutado iria por água
abaixo. Não haveria bebê; não haveria dinheiro nem haveria
marido, porque Nick jamais voltaria a lhe dirigir a palavra.
— Não, não estou acostumado a fazê-lo. Nunca convidei
uma mulher para passar um dia inteiro, e menos ainda sete.
Mas sei que você quer estar aqui, Juliet. — O colete de Nick
saiu voando. — Você sabe, e eu sei. Para que nos negar tão
desenfreado prazer quando não faz mal a ninguém e beneficia a
ambos? — Disse-lhe e se concentrou em sua gravata.
— Nick.
Júlia suspirou, debatendo-se entre o rebater ou ceder.
Certamente o último, posto que queria ficar com ele. Isso não
só lhe facilitaria a concepção, mas gostava de estar perto dele.
Apesar de sua reputação, seu marido podia ser terno e
carinhoso. Na noite anterior tinha estado abraçado a ela toda a
noite, estreitando-a contra seu corpo, resistente a soltá-la; mas
não estava disposta a que lhe arrebatassem a opção de
escolher.
Ele reparou em seu cenho franzido enquanto desabotoava
a braguilha. Paralisaram-lhe as mãos e a seguir ficou
pendurada ao longo do corpo.
— Tanto lhe desgosta realmente a idéia de ficar aqui?
Ela se ajeitou e balançou as pernas pela beira da cama.
— Não sou uma valise, Nicholas, que você possa
transportar e conservar ao seu desejo. Nem sempre vai ser
como você quer.
— Sei — ele disse, as sobrancelhas negras franzidas pelo
evidente desconcerto. — É uma compensação o que necessita?
Posso…
— Absolutamente. Acaso não deixamos clara essa questão
em seu momento? Não quero seu dinheiro. Quero que tenha
em conta os meus sentimentos além dos seus. Sei que você é
um duque, mas não é meu protetor. Deixe de me dar ordens
como se…
Fechou a boca de repente. Tinha lhe faltado pouco para
dizer «como se estivéssemos casados». Por sorte se conteve a
tempo. Qualquer menção ao matrimônio estaria ridiculamente
desconjurada por numerosas razões.
Nick se aproximou. Com um dedo por debaixo de seu
queixo levantou a cabeça de Júlia até que seus olhares se
encontraram.
— Eu adoraria que ficasse comigo. Não porque eu a tenha
obrigado, mas sim porque você assim o deseja. — Acariciou-lhe
o maxilar com o polegar. — Ficará?
A sinceridade de Nick comoveu Júlia. Mesmo assim, havia
mais coisas em jogo que seu orgulho: sua tintura, para ser
exata.
— Prometa que me deixará ir em casa quando quiser
durante os próximos sete dias — ela disse. Ele quis falar, mas
ela o interrompeu. — Sem me perguntar o motivo.
Nick retrocedeu e arrastou uma mão por seu cabelo.
— Se de verdade não deseja ficar, pode ir. Não pretendo
retê-la aqui contra sua vontade.
Júlia sacudiu a cabeça.
— Quero ficar, Nick. Mas é possível que haja uma razão,
uma razão de peso, pela qual deva me aproximar do meu
palazzo. Preciso saber que me deixará partir e não me
perguntará por quê nem quando vou voltar.
— Voltará?
— Sim, voltarei. As sete noites e quantos dias que me
sejam possíveis. — Pegou sua mão e puxou-o para que voltasse
para a cama. — Quero estar aqui, Nick. Com você.
Ele sorriu e se inclinou para lhe dar um beijo
surpreendentemente doce e terno.
— Obrigada por entender — ela sussurrou junto a sua
boca.
— Poderia me agradecer despindo-se — ele sussurrou a
modo de resposta.
Júlia se desfez dos sapatos entre risadas. Nick tirou a
camisa pela cabeça. Nu da cintura para cima, ajoelhou-se, a
cama curvando-se sob seu peso.
— Não tire nada mais, cara. Deixe que eu a dispa, peça
por peça, como o presente mais delicioso que jamais me
tenham concedido, até que a tenha suplicando debaixo de mim.
Nick se agachou para lhe beijar a sensível pele justo atrás
do lóbulo da orelha.
— Por onde acredita que eu deveria começar? — Seu olhar
cinza era misterioso e ardente, prata líquida que repassou seu
corpo inteiro. Passou-lhe os dedos com delicadeza pela parte
superior dos seios. — Mmm… acredito que começarei pelo que
levo toda a noite sonhando.
Júlia se recostou na colcha e ele fez o mesmo, inclinando-
se para deslizar os lábios ao longo de sua clavícula. Ela fechou
os olhos, deleitando-se nos ternos beijos que ele depositava
sobre sua pele. Nick cheirava a sabão e a um toque de madeira
de sândalo.
Foi deixando um caminho de fogo por onde passava sua
boca. Júlia notou seus seios turgentes de espera.
— Vire-se, querida.
Ela rodou de barriga para baixo, as mãos entrelaçadas sob
o rosto. Esperou pacientemente enquanto Nick ia afrouxando o
vestido.
E então ficou gelado, um gemido brotou das
profundidades de seu peito e ela não pôde conter o sorriso.
Tinha encontrado sua surpresa.
— É outro presente para mim? Que travessa!
Júlia se virou de barriga para cima, segurando o vestido
solto sobre seus seios e tampando o espartilho escarlate.
— Assim é. E pode ser que o deixe vê-lo se se comportar
muito bem comigo.
O olhar de Nick era ardente e intenso, a excitação lhe
afiava as feições.
— Já pensava me dar muito bem com você. Temo que terá
que encontrar outro pretexto, tesorina.
— E, em troca, peço-lhe que seja muito, muito mau
comigo?
A boca de Nick deu um puxão e esboçou um sexy meio
sorriso.
— Ohhh! Sou perfeitamente capaz disso. Não se mova.
Quero me pôr cômodo.
Nick avançou até apoiar-se na cabeceira, os braços
cruzados sobre o torso: um rei disposto a passar em revista
todos os preceitos, pensou Júlia com uma gargalhada.
A aguda intensidade da atenção dispensada valeu a ela
uma comichão enquanto se levantava. Uma vez junto à cama,
ficou quieta… e então se desprendeu do vestido. Este caiu ao
chão com um assobio e Nick abriu desmesuradamente os
olhos.
— Por Deus bendito! — Sussurrou.
De brilhante cetim escarlate, a zona superior do espartilho
era rodeada, forçando seus seios para cima e para fora, e se
segurava com finas fitas vermelhas. Uma renda negra cobria as
barbatanas ao longo da caixa torácica e a parte superior das
coxas estava adornada por uma fina renda. Do umbigo para
baixo, a fina malha era virtualmente transparente.
Júlia se sentia muito ridícula com aquela roupa. Não só
era incômoda, também parecia inútil. Pearl se tinha
empenhado em que não eram necessárias as anáguas nem o
corpete, o que tinha incrementado seu desconforto. Entretanto,
o ardor do olhar de Nick fez com que o incômodo valesse a
pena. Júlia se sentia sexy, uma mulher capaz de fazer qualquer
coisa ou ter a quem quisesse. Poderosa.
— Se quiser surrupiar segredos de governo a um homem,
sugiro-lhe que use isso — ele disse com voz rouca.
Ela arrastou com frouxidão a ponta de um dedo sobre a
turgidez de seus próprios seios.
— E tem segredos que valha a pena eu conhecer, sua
excelência?
— Eu diria que balbuciarei como um paspalho, se sentar
em cima do meu pênis desse jeito.
Os dedos dele desabotoaram voando os botões restantes
de suas calças e com um hábil movimento ficou completamente
nu.
Júlia conteve o fôlego. Ágil e esbelto, Nick não era muito
musculoso, mas estava perfeitamente proporcionado, com
braços, pernas e torso salpicados de um crespo pelo moreno.
Sua ereção era impressionante, o pênis muito duro e rígido
levantado para o abdômen. Derreteu-se por dentro, a umidade
acumulando-se entre suas coxas.
Fez-lhe gestos com um dedo.
— Venha aqui, cara.
Júlia deslizou sobre a cama e devagar, coquete, foi
arrastando-se até ele. O coração lhe esmurrava o peito, cada
parte de seu ser vibrando agora de emoção. Desta vez não
havia acanhamento. Desejava Nick desesperadamente; tanto
que lhe doía. E tendo em conta que ele estava quase ofegando
enquanto a via aproximar-se, o sentimento parecia totalmente
mútuo. Adorava ser capaz, ela, sua inocente esposa, de
suscitar aquele desejo febril em semelhante pecador.
Quando se aproximou o bastante, Nick a agarrou pela
parte superior dos braços e puxou-a, apoderando-se de sua
boca com um beijo fogoso.
Seus corpos retomaram do ponto onde tinham ficado na
gôndola. Respirando com força, beberam-se mutuamente, os
beijos intensos e úmidos. As mãos de Júlia, tremendo de
necessidade, acariciaram-no onde alcançou. Sob seus dedos ele
era ânguloso, duro, de músculos tensos e pele masculina
áspera e ardente.
Nick puxou Júlia por uma perna, com o que ela ficou meio
escarranchada sobre ele, os seios esmagados contra seu peito.
Uma das mãos de seu marido lhe rodeou uma nádega ao
mesmo tempo que a outra lhe acariciava um seio através do
espartilho.
Então deslizou os dedos em sua fenda, que acariciou e
estimulou até não poder mais, sem pressa aparente por fazer
nada mais. Ela interrompeu o beijo e pressionou os lábios
contra seu pescoço, procurando resistir enquanto a deliciosa
sensação percorria seu corpo. Então introduziu dois dedos
nela. Colocou-os e os tirou.
— Nick — ela ofegou flexionando os dedos dos pés pela
doce agonia. Afundou as unhas na pele de seu corpo e só
conseguiu gemer enquanto ele se apropriava dela.
— Que úmida está por mim! Toque o que eu toco, cara.
Observe como seu corpo reage a mim.
Ele a voltou de barriga para cima e se apoderou de sua
mão direita.
— Toque-se, Juliet. Me deixe ver como leva as rédeas de
sua paixão. — Guiou sua mão até que seus dedos deslizaram
pela viscosidade de sua fenda. Ela quis retirá-la, mas a obrigou
a deixá-la onde estava. — Me pediu que seja muito mau,
recorda? Me deixe observá-la — Nick sussurrou, sua voz grave
e quebrada.
Júlia titubeou, lambendo os lábios nervosa. Seria capaz de
fazer algo tão indecoroso? Entretanto, o malicioso brilho dos
olhos de Nick lhe deu segurança; soube que ele desfrutaria com
isso tanto quanto ela.
Ele se reclinou e ela começou a acariciar-se com
atrevimento, as pálpebras fechadas em sinal de entrega. Umas
sacudidas de euforia lhe percorreram as extremidades e levou
os dedos até à diminuta protuberância de carne, sobre a qual
riscou círculos. Então estremeceu e mordeu os lábios para
evitar gritar.
Pearl tinha insistido em que aprendesse a dar prazer a si
mesma, a familiarizar-se com seu próprio corpo, mas ela
jamais imaginou que algum dia o faria diante de outra pessoa.
Era sem pudor. Sentia-se verdadeiramente… depravada,
atuando assim diante dele. E isso deixava tudo ainda mais
excitante.
Riscou círculos ao redor do clitóris, agora escorregadio e
inchado, torturando-se até que respirou com diminutos ofegos.
Os lábios de Nick deram com o montículo do seio que o
espartilho deixava à vista, e arrastou a boca pela pele sensível.
Saber que ele a estava olhando aumentou a excitação de Júlia,
desesperou-a mais. Seus dedos se moveram mais depressa,
cada toque incrementando a maravilhosa pressão que crescia
nela.
Ele gemeu, um som gutural puramente masculino.
— Tinha que ver quão formosa é! Não aguento mais.
Nick se deixou cair de barriga para cima e sentou Júlia
escarranchada sobre ele. Alinhou-se com ela e com um forte
impulso de quadril a penetrou. A ambos lhes cortou a
respiração; as mãos de Nick seguraram os quadris de Júlia
enquanto inspirava fundo várias vezes. Ela sabia que estava
tentando controlar-se, só que não queria que ele recuperasse o
controle. Apertou-lhe o membro com seus músculos internos e
logo rebolou.
— Espere, Juliet, oh, Deus!…
Nick afrouxou as mãos e os quadris de Júlia começaram a
balançar-se como lhe tinha ensinado em sua primeira vez
juntos na cadeira, subindo sobre seu pênis e logo voltando a
deslizar até embaixo. Com mais força. Mais depressa. Marcou
um ritmo determinado, sem piedade, dando prazer a ambos,
jogando a cabeça para trás de puro gozo. Nick se sentia ótimo
enchendo assim seu corpo e acariciando suas sensíveis
paredes. Aquilo era completamente distinto a tudo que ela
imaginou; e agora não era capaz de imaginar-lo com ninguém
mais.
Quando as mãos de Nick acharam seus seios e lhe
esfregaram os mamilos através do cetim, um arrebatamento de
ardor foi parar diretamente em seu útero e perdeu o controle.
— Não posso parar, — ele disse entredentes — então me
ajude, porque preciso penetrá-la até o fundo.
O corpo de Júlia se esticou e pôde sentir que sua liberação
estava próxima. Olhou para Nick: tinha os olhos fechados, a
mandíbula apertada pelo prazer intenso de sua cópula. Ela era
a causadora; havia o tornado completamente louco. De repente,
um orgasmo colossal e titânico percorreu Júlia. Afundou as
unhas no peito de Nick, agarrando-se a ele, gritando enquanto
sentia os espasmos.
— Oh, Deus! Sim!
O corpo de Nick a investiu, os quadris dando sacudidas
com frenesi ao chegar também ao clímax. Esticou-se, todos os
músculos suspensos, e ela notou as pulsações de seu pênis, a
descarga de seu sêmen alagando-a.
Os dois ainda ofegantes, ela desabou na cama junto a ele,
exausta. Todas as suas cópulas tinham que ser assim? Tão
frenéticas, tão intensas?
Ele a estreitou contra seu flanco com um braço.
— Deus, mulher! Você deixa-me sem palavras.
Júlia só consegui suspirar.
— Tesorina, deixe que lhe tire isto.
Ela esperou que ele soltasse as fitas que atavam o
espartilho. Deslizou-o pelo corpo e atirou a roupa ao chão. A
seguir as meias e ligas. Logo a abraçou contra si, as costas de
Júlia contra seu peito.
Envolta no calor de seu corpo, bocejou. Ele riscou com
frouxidão desenhos em seu quadril nu com os dedos e ficaram
ali, em silêncio, um bom momento, simplesmente desfrutando
do mero contato.
— Me fale do senhor Leighton — disse Nick. — Era feliz
com ele?
Ela se esticou. O que podia dizer de um homem fictício?
Júlia imaginou o marido ideal e decidiu começar por aí.
— Era um bom homem. Um homem amável. Não era
egoísta nem cruel. E era fiel.
— Bom, não é difícil entender por quê — Nick murmurou
a beijando no ombro. — Parece que sabia quão afortunado era.
Júlia se reconfortou com o elogio de Nick.
— Obrigada. Fomos felizes. Eu fui tão afortunada quanto
ele.
— Parece que sinto um ciúme tremendo de um homem
morto.
— Não imagino você invejando nenhum homem, sua
excelência.
Em brincadeira, Nick lhe deu uma palmada em uma
nádega.
— Isso é por usar meu maldito título. Não é uma
circunstância que aceite de boa vontade. Eu tenho a sensação
de que a conheço faz muito tempo, embora acabemos de nos
conhecer. Não sei, tenho a sensação de que devo protegê-la.
Ela sorriu, cheia de alegria por sua declaração. E então
recordou suas circunstâncias, a artimanha tramada, e a alegria
se apagou grandemente. Nick era tão terno e tão honesto com
as demais mulheres de sua vida?
Este homem era seu marido. Ela também tinha a sensação
de que devia protegê-lo, embora de pouco havia lhe valido esse
sentimento para percorrer a Europa e deitar-se cada noite com
uma mulher distinta. Ela tinha ido à Itália disposta a odiá-lo; a
enganá-lo, a conseguir o que queria, a partir e esquecê-lo
quando tivesse acabado; a deixá-lo com suas outras mulheres
enquanto ela criava seu filho.
Mas não tinha contado com sua capacidade de sedução.
Sua forma de a fazer esquecer com bonitas palavras e suaves
carícias. Júlia faria bem em não esquecer que isto era
passageiro, que era puramente físico.
— E o que me diz de sua mulher? — Ela inquiriu.
Ele ficou tenso.
— Da minha mulher? — Nick disse com tensão. — Com
muita dificuldade é minha mulher.
— O que isso significa?
— Significa que o matrimônio nunca se consumou nem se
consumará jamais.
A fenda ainda lhe palpitava depois de fazer amor e a
deliciosa ardência entre as pernas lhe recordou quão falsa era
sua afirmação.
— Ou seja, é feia.
Ele suspirou, evidenciando que esta conversação o
incomodava.
— Não, eu a lembro muito formosa. Loira, como um anjo.
Mas jovem. Inocente. Casamo-nos quando ela tinha só
dezesseis anos, e eu parti assim que terminou a cerimônia.
— E por que não volta agora? Não sente curiosidade por
vê-la?
— Não — ele disse, rodando de barriga para cima. — Não
sinto a menor curiosidade. Meu pai a escolheu por mim,
obrigou-me a casar com ela me chantageando habilmente.
Nunca, jamais serei um homem casado.
Júlia não quis assinalar que era um homem casado,
gostasse ou não.
— Mas quererá um herdeiro não?
Nick soltou uma gargalhada, mas era seca e sem regozijo.
— Não, a verdade é que não quero ter um filho. Jamais.
Não daria ao meu pai essa satisfação. A última coisa que quero
é que a dinastia Seaton continue.
— Mas não tem um dos títulos mais antigos e ilustres?
Por que…?
— Um título que meus pais nunca quiseram que fosse
meu. Deixaram-me perfeitamente claro que eu não estava à
altura de seguir com o legado familiar. De maneira que não, a
dinastia se acaba comigo.
A fresta de esperança de um futuro comum se desvaneceu
quando ela percebeu o empenho que estava implícito nas
palavras de Nick. Não quereria filhos, nunca? Céus, a verdade
é que a odiaria quando soubesse o que tinha feito.
Júlia inspirou fundo e se voltou para ele. Ele tinha o olhar
cravado no teto, a expressão séria. Pôs-lhe uma mão no peito.
— Merece ser feliz, Nick.
Ele demorou tanto em dizer algo que ela estava
convencida de que não responderia.
— Há muitos tipos de felicidade — sussurrou ao fim. — O
que lhe faz pensar que não sou?
Júlia se inclinou sobre ele e o beijou com ternura na
bochecha. Apoiou a cabeça em seu ombro e lhe acariciou com
naturalidade o pêlo suave e cacheado do peito.
Deus, o que tinha feito?

***

À manhã seguinte Júlia despertou desorientada. Então


recordou. Estava no palazzo de Nick. Espreguiçou e ao virar-se
viu ao seu lado o espaço vazio. Nick não estava, já tinha se
levantado. De certo modo teve uma decepção.
Em algum momento da noite a tinha despertado com
ternos beijos e suaves carícias para lhe esquentar o sangue.
Sua cópula tinha sido doce e lenta, uma escalada regular e
sensual antes da atordoante explosão de prazer. Depois tinha
se agarrado a ela, a cabeça sobre seu peito enquanto voltava a
dormir.
Ela o tinha estado observando longamente enquanto
dormia, àquele homem complicado que tão distinto era de
como ela imaginara todos estes anos; mas não podia tornar-se
emocionalmente apegada. Sim, era seu marido, mas nunca
tinha querido ser um marido ou pai como era devido. No
momento em que descobrisse sua identidade, em que
descobrisse que estava grávida, odiá-la-ia para sempre.
E embora não pudesse culpá-lo, tampouco podia voltar
atrás. Esta era a única maneira de garantir seu futuro.
Bateram na porta. Júlia cobriu o corpo nu com o lençol.
— Sim? — Perguntou.
Fiorella mostrou a cabeça.
— Está acordada, signora?
— Fiorella! — Júlia exclamou, ajeitando-se. — Você veio.
Não pensei que você também podia vir.
A jovem entrou no quarto.
— O duque prometeu me dobrar o pagamento da semana
se viesse — disse com o rosto radiante de felicidade. —
Imagina? Que generoso é o duque, não é?
Júlia assentiu com a cabeça.
— Sim, é sim. Trouxe todos os meus cremes e loções?
— Sim, signora. Prefere tomar um banho esta manhã?
Júlia por pouco desmaiou de alívio. Fiorella tinha sua
tintura de cabelo.
— Sim, por favor, Fiorella. Obrigada.
Uma hora depois tinha tomado um leve café da manhã,
banhara-se e vestira-se para o dia. Tinha o cabelo recolhido em
um delicado coque e usava um vestido de dia de musselina
verde claro listrado. Agora estava preparada para dirigir-se a
Nick.
Encontrou-o fazendo esgrima no salão de baile com Fitz. A
cena era digna de ver. Os dois homens descamisados, seus
torsos nus reluzentes de suor enquanto seus peitos subiam e
baixavam agitadamente pelo esforço. Giraram em círculo e
esquivaram estocadas sobre um enorme colchonete, o som de
seus floretes metálicos ao entrechocar no espaço cavernoso.
Fitz era mais corpulento e musculoso que Nick, mas o duque
era mais rápido. Conseguiu esquivar as tentativas de ataque
um tanto torpes de seu valete ao mesmo tempo que lhe atirava
rápidas estocadas.
Nick estava de costas e Júlia então a viu: uma cicatriz
bastante horrível junto a sua omoplata direita, o lugar onde o
tinham apunhalado em Viena. Revolveu-lhe o estômago. Santo
Deus! Simon tinha razão. Alguém tinha tentado assassinar seu
marido.
Certamente fez algum som leve, porque ambos os homens
pararam e se voltaram para a porta. Um sorriso se desenhou
no formoso rosto de Nick e foi para ela tranquilamente, os
lustrosos músculos da parte superior de seu corpo vibrando e
meneando-se enquanto se aproximava.
— Bom dia, querida.
— Bom dia. Não pretendia interromper — ela disse quase
com acanhamento.
— Já estamos terminando. Sente-se… — Nick assinalou
com o florete uma cadeira junto à parede — e observe como
acabo com este bobalhão.
Fitz bufou. Nick deu um beijo fugaz em Júlia.
— Você me dá sorte — disse, e se firou para seu
competidor.
Júlia relaxou na cadeira, encantada de observar seu
ritual. Foi uma maravilhosa exibição de virilidade e força. Nick
se movia com graça, seguro de si mesmo e de suas habilidades,
seus movimentos seguros e rápidos. Os músculos de seus
braços e costas se contraíam sob a pele úmida. Atacou, o suor
escorrendo por seu torso nu, as calças negras coladas às suas
fortes coxas…
A excitação se apoderou dela, uma reação visceral à
encenação de Nick. Sentiu calor e uma comichão da cintura
para baixo ao recordar como deslizou sobre sua nudez. Que
maravilhoso era sentir sua dureza dentro dela, dilatando-a!
Deus! Sentiu vontade de lambê-lo da cabeça aos pés.
Inclusive sabendo o quanto chegaria a odiá-la e que não
queria ter filhos, Júlia não podia evitar suspirar por ele. Esse
homem era como uma droga, como ópio que era incapaz de
controlar.
E foi incapaz de apartar os olhos da esplêndida visão de
seu corpo. Sua pele cobrou vida, ansiosa e impaciente, ao vê-lo
dar voltas e flexionar-se. Então se agarrou às bordas laterais
da cadeira para evitar jogar-se sobre ele.
Nick ouviu que escapava um leve gemido de Juliet. Lançou
um olhar para ela e reconheceu imediatamente os indícios de
excitação em seu rosto: pele rosada, os lábios ligeiramente
entreabertos, olhar intenso e vidrado… notou que seu próprio
corpo reagia em consequência, seus genitais esticando-se
enquanto o sangue afluía para seu pênis.
Ela o observava com abrasadora intensidade, agarrada às
laterais da cadeira, e ele a olhou fixamente, incapaz de…
O ar vaiou e Nick se viu de repente arqueado de barriga
para cima, o florete de Fitz no pescoço. Maldição! Tinha
baixado a guarda e seu amigo se aproveitou.
— Então ia acabar comigo, não é?
Fitz retrocedeu e esticou a mão.
Nick blasfemou e se levantou com sua ajuda. Fez uma
careta de dor. Senhor! O ombro lhe doía horrores. Certamente
tinha aterrissado sobre ele ao cair.
— Distraí-me — disse entredentes.
— Lógico.
Fitz sorriu, inclinando a cabeça em direção a Juliet.
Recolheu os floretes junto com sua camisa, murmurando em
gaélico, e partiu.
Nick, que não voltou a pôr a camisa de propósito,
aproximou-se tranquilamente dela. Com os braços cruzados se
plantou diante dela com as pernas ligeiramente separadas.
A ponta da língua de Júlia apareceu para umedecer os
lábios, provocando-o.
— Distraí-o, sua excelência?
Ela tinha feito a pergunta com bastante inocência, mas
Nick pôde adivinhar suas intenções em seus olhos azuis.
— Sabe perfeitamente que sim, diabinha. Como me
compensará?
Nick sentia curiosidade por ver o que faria Júlia, a ousada
harpia. Sempre esteve rodeado de mulheres que gozavam do
prazer sexual tanto quanto ele, e por mais maravilhosos que
tivessem sido esses encontros prévios, não eram nada em
comparação com Juliet. Seu entusiasmo inocente, seu
profundo conhecimento do corpo masculino… era como se lhe
tivessem ensinado onde tocá-lo, como deixá-lo louco.
As mãos de Júlia foram aos botões de suas calças e, com
um ardiloso sorriso, foi desabotoando lentamente, tomando-se
seu tempo, um a um, até que seu membro ficou liberado.
Em questão de segundos Nick se esqueceu por completo
do combate de esgrima.

***

Os dias seguintes transcorreram rapidamente. Nick não


recordava uma época de maior satisfação ou alegria. Juliet e
ele eram curiosamente compatíveis, inclusive fora da cama.
Estavam juntos em todos os momentos, e ele não se cansou
nenhuma só vez de sua presença como sempre lhe tinha
ocorrido com as mulheres.
Ela sabia de literatura tanto quanto ele, se não mais. Era
impactante pensar que lhe tinham obrigado a estudar os
clássicos no colégio e ela os tinha lido por sua conta. Além
disso, Juliet tocava o pianoforte, coisa que fazia em sua honra
todas as noites depois do jantar.
Nick queria a presentear com algo especial antes do
término de sua semana juntos. Recordou seu desejo de ir à ilha
de Torcello e decidiu surpreendê-la com uma viagem.
Passariam a última manhã visitando os lugares de interesse e
logo fariam um piquenique. Como lhe havia dito que essa
manhã necessitava de mais tempo para arrumar-se, organizou
tudo enquanto esperava.
Quando ela desceu, a gôndola estava carregada e pronta
para partir.
Com os exuberantes cachos ruivos recolhidos em um
coque alto e um conservador vestido azul claro, poderia
confundir-se com qualquer dama que passeasse pela rua
Strand de Londres; mas foi o sorriso malicioso e cúmplice que
lhe dedicou o que lhe encolheu o peito de emoção. Nick não
queria sentir ternura por nenhuma mulher, levava anos
evitando as confusões de saias. Juliet, entretanto, de algum
modo tinha transpassado suas defesas. Afeiçoou-se a ela.
Poderia convencê-la de que prolongasse a estadia
estipulada em sete dias?
Quando Júlia chegou ao pé das escadas, fez-lhe uma
reverência.
— Senhora, sua carruagem a espera.
— Carruagem? — Ela inquiriu.
Nick se endireitou e encolheu os ombros.
— Bom, a gôndola. Foi o máximo que consegui. — Puxou-
lhe pela mão. — Hoje seremos turistas e passearemos pela ilha
de Torcello.
— Oh! — Júlia murmurou, agarrando-se a ele de emoção.
— Seriamente?
Ele assentiu.
— Lembrei-me que queria explorá-la. E faremos um
piquenique por ali.
Logo estavam na água, deslizando em direção norte para
as ilhas da Lagoa. Juliet e ele se sentaram na cabine, a felze,
enquanto Fitz e o gondoleiro estavam fora, falando em voz
baixa ao mesmo tempo que a embarcação os balançava
brandamente.
— Quanto se demora para chegar lá? — Ela perguntou.
— Mais de uma hora. Torcello é a ilha da Lagoa mais
afastada de Veneza. Também é a mais tranquila; de fato, só
vivem quatro gatos ali.
— O que faremos enquanto isso?
Ela entrecerrou os olhos e ele sentiu que seu sangue
começava a despertar.
— Por quê? Não sei.
Virou-se e lhe acariciou o pescoço com o nariz, justo por
debaixo do lóbulo da orelha. Era como se soubesse quanto ela
gostava.
Ela soltou um longo suspiro e jogou a cabeça para trás
contra o assento para lhe facilitar o acesso.
— O que você gostaria de fazer até que cheguemos lá? —
Ele sussurrou contra seu pescoço.
— Que tal se falarmos de política? Não ocupou seu banco
na Câmara dos Lordes, mas estou convencida…
— Preferiria ir a nado até Torcello que falar de política.
Temo que terá que pensar em algo melhor, querida.
Passou os dedos ao longo da curva de sua clavícula, a pele
era muito macia e delicada. Recompensou-o com um calafrio.
Inclinando-se sobre ela deslizou os lábios pelo seu pescoço,
depositando pequenos beijos. Júlia cheirava muito bem, a
sabão e flores, e pensou em saboreá-la inteira.
— Mmm… ora, nada de política. E de fofocas? Posso lhe
contar tudo o que aconteceu ultimamente em Londres.
Ele soprou e continuou lhe beijando o pescoço, e ela pôs-
se a rir.
— Quer que lhe recite um poema?
— Detesto poesia — ele balbuciou.
Júlia voltou a rir.
— Ora, eu também, que casualidade! Bom, pois então só
fica uma coisa. — A mão de Júlia encontrou a coxa de Nick e
começou a deslizá-la para sua virilha. Seu pênis cresceu em
seguida e ele conteve o fôlego, esperando suas ternas carícias.
— Falar de nós mesmos.
Nick deu um pulo, espantado.
— Falar de nós mesmos? — Suas mãos não duvidaram em
levantá-la nos braços para lhe colocar as pernas sobre o
regaço. — Tenho uma ideia muito melhor. Por que você não
fala enquanto eu encontro a maneira de me entreter com seu
corpo?
Levantou-lhe a saia e a anágua, logo subiu os dedos pelo
lado interno de sua coxa até que achou seu ponto quente.
Estava deliciosamente úmida, seu corpo preparado para
ele. Então brincou e se entreteve, seus dedos nada pressurosos
por lhe aliviar a tortura, apesar de suas súplicas. Dedicaria
cada instante deste trajeto a deixá-la louca.
Muito depois, quando chegaram a Torcello, Nick ajudou
Juliet a descer da gôndola. Tinha-a levado ao clímax duas
vezes durante o trajeto, e lhe disse que as pernas ainda não a
sustentavam. Não pôde evitar sorrir.
— Poderia dissimular um pouco sua satisfação, sua
excelência — ela balbuciou ao o agarrar pelo braço.
— Se voltar a me chamar «sua excelência» uma vez mais,
dar-lhe-ei prazer três vezes no trajeto de volta.
— Promete-me isso? — Ela disse, a malícia dançando em
seus olhos azuis.
Ele riu entredentes.
— Fitz — gritou. — Voltaremos dentro de uma hora e meia
para comer. — Seu amigo assentiu, e Nick conduziu Júlia pelo
cais para a ilha. — Não imaginei que você seria tão insaciável,
senhora Leighton.
— Preocupa-lhe não ser capaz de aguentar o ritmo?
— Sim — ele respondeu com exagerada sinceridade,
fazendo-a rir. Nick se deu conta de que adorava vê-la rir. —
Paremos primeiro na catedral para ver os mosaicos.
Conduziu-a para um campanário gigantesco, e depois de
contemplar os mosaicos e subir ao alto da torre, disse-lhe:
— Agora tem que sentar-se no Trono de Átila.
No pátio dos fundos lhe mostrou um enorme assento de
pedra.
— E para que vou sentar-me aí?
— Porque é o que fazem os turistas, querida. —
Acompanhou-a até o trono e sustentou sua mão enquanto ela
tomava assento. — Os aldeões dizem que se alguém se sentar
no Trono de Átila, algum dia voltará para Torcello.
Nick levou sua mão à boca e lhe depositou um beijo no
pulso, junto à borda da luva.
Sorriu-lhe e ele se surpreendeu sorrindo-lhe à sua vez de
orelha a orelha como um idiota, e sem lhe importar o mínimo.
— Talvez algum dia possa voltar a me trazer — disse em
voz baixa.
Nick não soube muito bem o que responder a semelhante
afirmação. Ambos sabiam que sua relação não era estável, mas
a voz de Júlia tinha um tom curiosamente melancólico. Acaso
não desejava dar a esta mulher tudo o que estivesse ao seu
alcance? Isso sim era perigoso.
Decidiu ignorar o comentário e puxou-a para que se
levantasse.
— Vamos comer.
O resto da excursão tinha sido uma delícia, pensou Júlia
enquanto retornavam para Veneza. Tinham compartilhado um
piquenique no interior de um antigo palazzo abandonado e
posteriormente Nick a havia possuído com delicadeza sobre as
suaves mantas. Nos últimos dias estavam fazendo amor com
menos frenesi, mas certamente não com menos intensidade.
Uma vez arrumados, tinham passeado um pouco mais, pela
mão e dando-se beijos enquanto exploravam. Em definitivo, um
dia perfeito.
Já na gôndola, Nick se tinha deitado na felze com a
cabeça sobre seu colo. Em poucos minutos adormeceu.
Júlia lhe retirou o cabelo da testa. Sem contar hoje, tinha
dois dias mais com ele. É verdade que poderiam seguir se
vendo, mas agora mesmo desfrutava de sua companhia dia e
noite.
Adormecido, seu rosto parecia mais juvenil e sereno.
Acordado, havia algo turvo nele, uma ferida da juventude que
Nick não podia ou não se dava permissão para esquecer. Isso o
tornava frio e cínico. Mas também havia doçura, a ternura de
um homem que nunca tinha conhecido o amor, que o ansiava
inclusive mais do que acreditava.
Durante o almoço o tinha animado a falar de sua infância.

— A verdade é que não há muito o que contar — havia dito.


— Me dediquei a pular pela casa, fugindo da instrutora sempre
que podia. Eu adorava estar ao ar livre. Sigo gostando, sempre
que posso. Logo fui a Eton e durante os anos seguintes só voltei
um punhado de vezes. Não se importavam se eu estivesse vivo
ou morto.
— Quem? — Ela tinha perguntado.
— O duque e a duquesa. Afastaram-se de mim muito cedo.
De fato, não recordo nenhum momento de ternura com meus
pais. Todas as lembranças agradáveis que tenho de minha
infância são da minha instrutora e do jardineiro chefe, que eu
estava acostumado a seguir a todas as partes à menor ocasião.
— E o seu irmão mais velho?
Nick tinha introduzido uma azeitona na boca.
— Dávamo-nos bastante bem, mas os tutores o mantinham
ocupado. «Um futuro duque tem responsabilidades», estavam
acostumados a dizer. Fizeram Harry realmente desventurado.
Eramos dois meninos: um recebia muita atenção e o outro,
nenhuma.
— Oh, Nick! — Ela havia dito com pesar.
Ele tinha encolhido os ombros com uma indiferença que ela
suspeitava que não sentia.
— Meus pais são uns miseráveis. Em certo modo, melhor
que me deixassem à minha sorte, por mais solitária que fosse.
Harry tinha que ver meus pais regularmente, explicar-lhes o que
tinha estado aprendendo e atuar como um macaco domesticado
em uma jaula. Eu quase nunca os via. De fato, uma vez contei
quanto tempo seguido tinham me evitado. Contei oitenta e nove
dias.
Júlia tinha afogado um grito.
— Oitenta e nove dias sem ver seus pais! Isso é terrível.
— Era uma casa tremendamente grande.
Essa foi sua resposta.
— E o que fazia nas férias e nos dias festivos?
— Viajar, ficar em casa com Winchester ou Quint… quando
tive idade suficiente fiz um par de amigas às quais não
importava ter um adolescente insaciável e eternamente
libidinoso rondando pela casa.
— Vejo que a coisa não mudou muito, porque você segue
sendo insaciável e eternamente libidinoso — ela tinha falado.
— Sim, sou. Mas pelo visto só quando estou perto de você.
E acaso não lhe alegra?

Já eram águas passadas, mas Júlia começou a entender


por que Nick se afastou de sua família, inclusive da esposa que
seu pai lhe tinha imposto. A culpa lhe oprimiu com força o
peito e, por um instante fugaz e desatinado até pensou lhe
confessar sua verdadeira identidade. Entretanto, o medo lhe
atou a língua.
Se concebesse não se via capaz de dizer-lhe. Sabia quão
devastadora seria a notícia para seu marido. Nick não queria
ser pai, coisa que hoje havia tornado a manifestar com
absoluta certeza.
Não, uma carta longa e bonita solucionaria o problema.
Enviada de algum lugar muito, muito longínquo.
Baixou o olhar para ele: longas pestanas pretas
descansando nas bochechas enquanto dormia, a sutil barba
escura de três dias na mandíbula. Sentiu uma pontada no
peito e a verdade a sacudiu como um raio.
Estava se apaixonando por seu marido.
Oh, Senhor! Não podia consentir que ocorresse algo tão
completamente estúpido. Apressou-se a tentar recordar todas
as razões pelas quais deveria odiar Nick, como a tinha ignorado
durante oito anos; sua reputação de sedutor de mulheres; a
Templeton, aos seus serventes, todos os que estariam em breve
na rua.
Mas não podia seguir fazendo-o. Não odiava Nick;
entendia-o. E podia ver além da fachada que ele projetava ao
mundo: o Duque Depravado, um jogador degenerado que se
bastava a si mesmo. Não, esse não era o homem real. Nick
tinha se justificado com ela nos últimos dias, dando-se mais e
mostrando uma faceta de sua personalidade doce e atenciosa.
Durante toda sua maquinação e seus preparativos ela não
tinha pensado em nenhum momento em proteger seu coração.
Nem lhe tinha passado pela cabeça que se afeiçoaria a ele. E
agora corria o iminente perigo de amar um homem que a
odiaria para sempre quando descobrisse o que tinha feito.
«Seja forte» — disse para si. — «Pode sobreviver dois dias
mais sem sacrificar seu coração.»
Capítulo 7
Proteja seu coração. Mantenha-o a salvo, porque ninguém deve
confundir jamais a luxúria com o amor.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Quando chegou seu último dia juntos já tinham adquirido


uma agradável rotina.
Como quase a cada manhã, Nick a despertou com ternos
beijos e dedos peritos preparando seu corpo para logo deslizar
em seu interior. O ritmo foi lento e pausado; Nick, dedicado a
fazer aflorar o prazer até que ela virtualmente enlouquecesse e
se agarrasse a ele, suplicando e implorando o fim da doce
tortura.
Limitou-se a rir junto ao seu ouvido.
— Quero prolongar isto, tesorina. Embora hoje pretendo
possui-la pelo menos duas vezes mais.
Júlia não pôde mais. Empurrou Nick pelos ombros e o fez
rodar de barriga para cima. O rosto deste denotou surpresa
quando ela se sentou em cima dele escarranchada e colocou o
pênis em sua entrada.
— Acho que eu vou possui-lo pelo menos duas vezes mais
hoje.
Baixou os quadris, ele a penetrou com força e ambos
gemeram.
Voltou a fazê-lo, cortando a respiração de Nick, que teve
que agarrar a cabeceira de madeira.
— Jesus! Eu adoro quando faz isso, maldita seja.
Suas mãos encontraram os seios de Júlia, beliscou-lhe os
mamilos e os retorceu com as pontas dos dedos enquanto ela
continuava montando-o. A fricção não demorou para levá-la ao
limite, e ele sabia. Incorporou-se e introduziu um mamilo na
boca, alternando a sucção intensa e com as lambidas no
diminuto casulo com toda a extensão da língua.
— Oh, Nick! Sim! Deus, sim! — Ela ofegou, seus quadris
meneando-se freneticamente.
Nick desceu a mão entre eles e acariciou sua sensível
protuberância com o polegar.
— Grite meu nome — ele sussurrou contra seu seio.
O clímax chegou e Júlia teve um orgasmo feroz, as pernas
tremendo, o corpo arqueando-se pela deliciosa tormenta.
Vagamente ouviu-se gritar o nome de Nick.
Quando voltou a descer das nuvens os olhos dele estavam
escuros e frágeis, olhando-a fixamente.
— Fica tão formosa quando explode de prazer! Faz-me
sentir o homem mais poderoso da Terra.
Júlia mal teve tempo para processar aquelas palavras,
porque ele mudou de posição, colocou-se entre suas coxas e
começou a investir com uma determinação que ela não
conhecia nele. Estava possuído, a boca aberta em um rugido
selvagem, o peito agitado pelo esforço. Pouco depois se esticou
e lhe escapou um grito.
Desabou, assegurando-se de apoiar-se nos cotovelos para
não a esmagar. Júlia lhe esfregou a pantorrilha com um pé e
acariciou seus ombros escorregadios de suor, encantada de
notar seu peso em cima enquanto ambos tratavam de
recuperar o fôlego.
Finalmente ele deitou-se na cama e a abraçou contra sua
esbelta silhueta.
— Talvez devêssemos passar o dia na cama.
Enroscando os dedos no pelo negro de seu peito, Júlia
sorriu.
— Talvez, mas eu gostaria de tomar um banho em algum
momento.
— Deixará banhá-la novamente?
A lembrança do banho do dia anterior, quando Nick lhe
tinha ensaboado e esfregado todas as partes do corpo, a fez
ruborizar.
— Pode brincar de ser criada sempre que quiser, sua
excelência.
Acariciou-lhe o pescoço com o nariz.
— Eu gosto de servi-la, querida.
Comeram na cama, onde tomaram sem pressa o festim
enviado por sua cozinheira, no que Nick de vez em quando
dava a Júlia de comer com os dedos. Depois tomou todas as
suas necessidades na banheira, e a água já estava gelada
quando ela acabou.
Cinza e fria, a tarde na biblioteca, diante do fogo, parecia a
melhor opção. Acomodaram-se os dois no sofá com seus livros,
a cabeça de Nick apoiada no colo de Júlia enquanto liam.
Voltou a fazer amor outra vez com ela antes do jantar e
logo a ajudou a colocar um vestido de noite. Ela o observou
enquanto se trocava, encantada de estar no mesmo quarto que
ele. Com seu traje negro de noite, seu marido estava muito
bonito. O ar arrogante de sua boca, a largura de seus ombros,
aqueles lábios indecentemente grossos curvados em um sorriso
cúmplice destinado só a ela… acelerou-lhe o coração quando
seus olhares se encontraram no espelho.
— Conheço esse olhar — ele sussurrou enquanto acabava
de atar o lenço. — Quer que saltemos o jantar?
— Ah…, não! Preciso manter as forças. Você é muito
exigente com as mulheres.
Nick riu entredentes e se aproximou dela com segurança.
— Eu poderia dizer o mesmo de você, tesorina.
Deu-lhe um beijo apaixonado e seguiu vestindo-se.
— O que significa isso? Tesorina? Chamou-me assim
desde que o conheço.
Ele abotoou o colete verde esmeralda com listras brancas.
— Os venezianos a usam para dizer «querida». Entretanto,
literalmente significa «meu pequeno tesouro», que é o que penso
cada vez que a vejo nua.
O coração de Júlia se derreteu até não poder mais.
Recordou que devia guardar distância, que no dia seguinte
partia, mas seria difícil se ele seguisse sendo tão atencioso e
encantador.
No jantar conversaram tranquilamente enquanto comiam,
compartilhando ideias e opiniões de vários temas. Era incrível a
quantidade de coisas nas quais coincidiam, pensou Júlia. Em
outras circunstâncias até teriam sido amigos.
De sobremesa, ele tinha encomendado seu doce favorito:
gelados de neroli, feitos à base de flor de laranjeira amarga. O
sabor resultante era agridoce e aromático, e Nick riu
dissimuladamente quando ela não só acabou sua tigela, mas
também a dele.
Como podia um homem tão amável e atencioso ignorar a
sua mulher durante oito anos? Distinguir o homem que
acreditava que era do homem que agora conhecia era uma
provocação; especialmente porque ele supunha que ela era
outra pessoa. O engano lhe desceu tão azedo na boca como a
sobremesa que acabava de ingerir.
Era indubitável que tinha armado uma boa.
— Me diga… se arrepende de algo que fez ou de como
viveu sua vida? — Perguntou-lhe na sobremesa.
Ele inclinou a cabeça franzindo ligeiramente o cenho.
— Suponho que como todo mundo. — Tomou um gole de
vinho enquanto pensava naquilo. — Gostaria de ter tido mais
tempo com meu irmão antes de morrer. E também tem a
questão da minha esposa.
Júlia se esticou.
— A que se refere?
— Winchester passa a vida insistindo que me apresente à
duquesa, e que faça o que tenho que fazer. E tem razão,
naturalmente. Deveria fazê-lo. Mas o que faço? Me apresento
em sua porta como se fosse um marinheiro que desapareceu no
mar há oito anos? Temo que seria o bobo de Londres. — Nick
suspirou. — Jamais deveria ter aceitado me casar com ela.
Deveria ter enfrentado meu pai e ter achado o modo de me
defender. Se tivesse feito isso teria estragado uma vida a menos
com toda esta história. De modo que sim, arrependo-me de não
ter sido bastante forte no momento mais crucial.
Júlia tragou saliva procurando não manifestar indício
algum da comoção que sacudia seu interior. Nick lamentava
realmente o trato espantoso que lhe tinha dado. A revelação foi
impactante.
«Não é muito tarde!» — Quis exclamar. — «Jamais seria o
bobo de Londres. Ela se ajoelharia e agradeceria ao céu sua
volta.»
— Então de verdade não pensa voltar para a Inglaterra?
Era tal o turbilhão de emoções que resultava difícil saber
que resposta Júlia esperava. Sua semana juntos chegava ao
fim de uma maneira muito distinta do que imaginou no
princípio.
— Não, embora voltar a vê-la poderia ser a primeira razão
de peso que tenha para retornar. — Nick levantou sua mão e
pressionou seus quentes lábios contra o interior de seu pulso.
— Isso significa que quer voltar para ver-me?
— Não estou segura — ela respondeu com franqueza.
O olhar de Nick se tornou pensativo, quase terno, e
continuou segurando sua mão.
— Há algo muito refrescante e honesto em você, em nós.
Você é uma mulher sem duplicidade, totalmente transparente
em suas relações e estilo de vida. E eu sou muito decidido com
o sexo mais frágil. Diria que nos equilibramos, que estamos a
gosto um com o outro, não?
Com a boca pastosa pela culpabilidade, assentir foi tudo
que Júlia foi capaz de fazer. «Uma mulher sem duplicidade.» Por
pouco pôs-se a rir. Sim, deu-se conta do a gosto que estavam
juntos, precisamente tinha estado pensando nisso mesmo
durante o jantar, mas só porque ele na realidade não a
conhecia nem estava a par de suas intenções. Uma pontada lhe
rasgou o coração.
E nesse preciso instante entendeu o muito que desejava
que tudo isto, ele, durasse eternamente. «Ah, não! Não, não e
não!» Amava-o. Amava seu marido profunda, intensa e
sinceramente; de todo coração. Ah, não! Fechou brevemente os
olhos.
— Eu gostaria que ficasse comigo o tempo restante que
esteja em Veneza — ele disse, seu polegar lhe acariciando a
palma da mão. — Há lugar e estou convencido de que
Winchester entenderá. Quero-a aqui, ao meu lado. Todos os
dias, todas as noites.
O pânico revoou no ventre de Júlia. Não gostaria de nada
mais que ficar com ele, para sempre, se possível, mas Nick
ignorava o que ela tinha feito. Odiá-la-ia por isso, e não poderia
suportar ver seu carinho turvado quando a traição fosse
descoberta.
E agora se apaixonou por ele; apesar de sua determinação
de não o fazer. «Ah, não!»
Nick a olhou com tranquilidade, esperando claramente
uma resposta. Ela tomou um sorvo de vinho para umedecer a
boca seca. A única forma de responder sem despertar sua ira
nem levantar suspeitas seria se esquivar da pergunta.
— Mmm…, pensarei, Nick. Tenho que voltar uns dias ao
meu próprio palazzo, mas logo falaremos.
— Estupendo, mas não renunciarei a isto, Juliet. Quero-a,
e estou acostumado a conseguir o que quero.
Em circunstâncias normais da boca de Júlia teria saído
alguma insolência, mas não soube o que dizer. A angústia
tomou conta de sua língua.
— Venha, querida. Quero lhe mostrar algo.
Segurando-a com mais força pela mão, ajudou-a a
levantar-se da cadeira. Júlia procurou saborear o tato de sua
pele cálida e forte, e esquecer do resto. Nick seguia ali, terno,
alheio ao que ela tinha feito.
Sem pronunciar palavra subiram dois lances de escadas
até uma porta ao final do corredor. A porta se abriu e apareceu
outra série mais curta de escadas.
— Aonde levam? — Ela inquiriu.
Com um brilho nos olhos conduziu-a escada acima.
— Já verá. Me siga.
No alto Nick abriu outra porta e Júlia sentiu uma rajada
de ar fresco, e se estremeceu ao sair ao terraço do palazzo.
Então Nick tirou o casaco, o jogou sobre os ombros de Júlia e a
conduziu para a lateral do edifício. Abraçou-a contra si, de
costas para ele, seus braços rodeando-a para lhe dar calor
enquanto ela contemplava atônita a vista que tinham adiante.
As luzes piscavam onde olhassem, os altos arcos da Ponte
do Rialto visíveis ao longe. As gôndolas deslizavam
silenciosamente sobre as escuras águas dos canais, o
resplendor de seus tênues faróis amarelos ricocheteando na
superfície. As lamparinas do interior dos palazzos e
restaurantes faziam a cidade cintilar.
Aquilo resultava aprazível, e Júlia imaginou perfeitamente
Nick ali pelas noites, vigiando a cidade.
— Este é o meu lugar predileto de toda Veneza —
sussurrou-lhe sobre o cabelo.
— É impressionante.
— Sei que esta noite faz um pouco de frio para estar aqui
fora, mas queria que visse isto. É a razão pela qual adquiri este
palazzo em concreto.
— Celebro que o fez, porque é lindo.
Ele fez Júlia girar e ato seguido lhe levantou o queixo.
— Não tanto como você, cara.
Abaixou a cabeça, os lábios apoderando-se dos seus,
roçando-os suave, meigamente, e ela por pouco se derreteu em
um atoleiro no chão. Embora lhe ordenasse que não o fizesse,
seu estúpido coração transbordava de amor por aquele homem.
Aferrou-se a ele e derrubou suas emoções no beijo, dizendo-lhe
sem palavras o que sentia; que o amava. Que maravilhoso e
inesperado presente o desses últimos sete dias! E quanto
lamentava quão doído estaria ele quando, ao fim, revelasse seu
segredo!
Porque nesse momento compreendeu o que tinha que
fazer para proteger a ambos.
Deu-lhe um beijo de despedida.

***

Nick se surpreendeu assobiando, assobiando, por Deus!,


enquanto dava os últimos passos em direção ao Florian.
Pensava tomar um café com um velho amigo e logo passaria
pelo palazzo de Juliet para lhe fazer uma surpresa.
Sentia falta dela. Embora mal levava dois dias sem vê-la,
tinha a sensação de que tinham passado dois anos. E não era
só pela mera liberação física. Tinha saudades de despertar ao
seu lado. E de seu aroma. Tudo dela, vá. Maldição! Ele
delirando por uma mulher; tinha que ouvir-se. Jamais
imaginou que lhe aconteceria algo assim, mas já que
aconteceu… não lhe importava. Estes sentimentos que
abrigava por Juliet lhe faziam se sentir bem.
Entretanto, Juliet esteve curiosamente apagada na última
vez que a viu, ao abandonar seu palazzo após seus sete dias de
amor. Não estava seguro da razão de seu estado de ânimo, por
isso tinha decidido surpreendê-la com um presente.
Inteirou-se pelo signor Marcellino do quanto ela gostou
quando colocou o conjunto de camafeus, de sua expressão
ofegante enquanto estudava com atenção os delicados
entalhes. Nick sabia que desejava o conjunto, mas o orgulho a
tinha impedido de aceitar tamanho presente; de modo que o
tinha comprado e pensava dar-lho nesse dia.
Morria de vontade de ver sua expressão quando abrisse o
estojo.
Então entrou no café e procurou Quint entre a multidão.
Como era de esperar, viu seu amigo quase ao fundo,
rabiscando como um possesso em um caderninho, alheio a
uma atraente garçonete que tentava captar sua atenção.
Nick foi até lá.
— Quint! Vejo que não mudou — disse e inclinou a cabeça
para a garota que se afastava.
— Colton! Caramba, que alegria te ver!
Damien Beecham, visconde de Quint, levantou-se e os
dois se deram umas palmadas nas costas.
Nick esquadrinhou seu amigo e concluiu que Quint
realmente não tinha mudado desde a última vez que o viu. Um
pouco mais alto que ele, ia desalinhado como sempre, com o
cabelo castanho penteado para trás de qualquer maneira e com
um conjunto que desafinava a mais não poder. Entretanto, era
extraordinariamente inteligente e extremamente leal.
— Não nos vemos há o quê… três anos? — Nick inquiriu
enquanto tomava assento.
— Algo assim. Fui ver-te em Paris. Estivemos com aquelas
duas belezas…
— Recordo-o — Nick disse rindo. — Deus! Eu adorei Paris,
embora Veneza também me trate bem.
A garçonete voltou e lhe pediu um café. Ato seguido se
voltou para seu amigo.
— Winchester também está aqui, sabia?
Nick, Quint e Winchester eram íntimos desde Eton. Essas
amizades da infância foram as únicas que sobreviveram ao
escândalo, e Nick estava agradecido com ambos por o haverem
apoiado.
Quint o olhou com assombro.
— Não. Este último mês estive em Roma. Imagino que
estarão aprontando bastante.
— Não o vi muito, na verdade. — De fato, não lhe tenho
visto nos últimos nove dias. — Onde se hospeda?
— Não muito longe daqui, na verdade. Cheguei faz dois
dias. Há um erudito em Veneza com quem quero falar sobre…
— Seguramente a conversação será fascinante. — Ao
longo de seus vinte anos de amizade Nick tinha aprendido a
cortar Quint antes que seu amigo começasse a falar de
filosofia, engenharia ou ciência. — Como estão as coisas desde
a última vez que te vi? Vem sem esposa, vejo.
— Não se inteirou? — Ao ver que Nick sacudia a cabeça,
Quint continuou: — me comprometi na primavera passada. A
garota fugiu à Gretna Green com um cavalariço a uma semana
da cerimônia. Estupendo, não é?, porque a última coisa que
queria era me casar.
O olhar de preocupação de Quint deixou transparecer a
mentira. Era óbvio que a garota lhe tinha partido o coração.
— Minhas condolências — Nick disse com absoluta
seriedade.
Quint apartou a vista.
— Sobreviverei, não é? Falando de matrimônio… — Nick
gemeu, por isso Quint riu entredentes. — Quero lhe dizer que
vejo sua esposa com certa frequência em Londres. Não sabe o
que perde, amigo.
— Acredito, se for a metade maravilhosa como assegura
Winchester, sou perfeitamente consciente do poderosa que é;
mas pouco importa isso.
Quint levantou as mãos.
— Calma, que não prosseguirei. Bom… como são as
venezianas?
Nick pensou em Juliet e não pôde evitar sorrir. Quint o
olhou assombrado.
— Estupendas, não é? Porque está sorrindo de orelha a
orelha. Quem é ela? Me conte…
Nick estava sorrindo, sim. Não pôde evitar.
— De fato, estive me vendo com a ex-amante do
Winchester. Seguro que a conhece. É a senhora Juliet
Leighton.
Quint inclinou a cabeça.
— Quem?
— Sim, homem, sim, a senhora Leighton. — A expressão
de desconcerto do Quint não se alterou, por isso Nick entrou
em detalhes. — A que teve um idílio com o Wellington e o
príncipe Regente ao mesmo tempo; deu um jantar e serviu
champagne em um urinol, e possui uma coleção de diamantes
que dizem que não tem nada que invejar às jóias da Coroa.
— Perdoa, Colt, mas não tenho nem idéia de quem está
falando. É a ex-amante do Winchester, diz?
— É de Londres. Juliet Leighton. Seguro que terá ouvido
falar dela. — Nick franziu as sobrancelhas e procurou não se
alterar pela falta de cor de seu amigo. Entretanto, os rumores
sobre Juliet eram brutais. Qualquer varão de sangue quente de
mais de doze anos saberia seu nome. — Vamos, Quint!
— Pois não, não ouvi falar dela. E pelo que diz é uma
mulher da qual demoraria para me esquecer. Talvez Winchester
lhe esteja pegando. Já sabe como gostava de nos fazer
brincadeiras.
Quint sorveu tranquilamente seu café enquanto Nick
tratava de assimilar essa afirmação. Winchester faria algo
assim? Com o objetivo de ganhar o quê? Precisaria da
colaboração de Juliet para semelhante ardil. Por que foram os
dois a…? Não, essa idéia era absurda.
Nick desprezou o desgosto que sentia nas vísceras e sua
conversação não demorou para desviar-se a outros assuntos.
Transcorreram várias horas e se deu conta de que estava
desejoso de ver Juliet.
— Tenho que ir, Quint, mas passe logo mais e sairemos de
noite.
Nick partiu e ao sair Fitz foi ao seu encontro; o valete
apareceu pela lateral do edifício quando ele se dirigia em sua
direção.
— Quero ir a pé até o palazzo da senhora Leighton. Pega a
gôndola e me espere ali, certo?
Fitz assentiu.
— Tome cuidado.
— Estamos em plena luz do dia. Estarei bem. Preciso
limpar a mente com um passeio.
Sem mediar mais palavra deu a volta e se afastou grandes
passadas, abrindo caminho entre os soldados, compradores e
visitantes da Piazza San Marco.
À sua chegada ao palazzo de Juliet, Nick tinha convencido
a si mesmo que não tinha com o que preocupar-se. Quint não
podia conhecer todo mundo em Londres e ultimamente tinha
estado viajando. Claro que também cabia a possibilidade de
que a senhora Leighton não fosse tão conhecida como
apontavam os rumores. Estava familiarizado com o poder das
falsidades e a rapidez que se pulverizavam.
Mas seguia havendo uma fresta de dúvida. Já o tinham
enganado antes e tinha aprendido a não confiar em ninguém.
Tentou tranquilizar-se com algumas inspirações
profundas. Não funcionou. Não se acalmaria até que visse
Juliet e lhe fizesse em pessoa essas mesmas perguntas. «Quem
é? Winchester e você estiveram zombando de mim?»
Bateu na porta, esperando na quente tarde veneziana
enquanto trocava o peso de um pé no outro. Voltou a chamar.
Onde demônios estava todo mundo?
Nick girou o pomo e a porta se abriu com um chiado.
Entrou no vestíbulo.
— Juliet? Winchester? Há alguém?
Como não viu ninguém, continuou escada acima até ao
piso principal. A penumbra o envolvia. Nem lamparinas nem
velas acesas, as janelas fechadas; e o medo lhe oprimiu o peito.
— Juliet? — Gritou.
Subiu correndo outro lance de escadas e encontrou a
resposta. No primeiro quarto as gavetas estavam abertas, todas
angustiosamente vazias, como se o ocupante partira de forma
precipitada.
— Maldição! — Bramou, indo de quarto em quarto como
um louco; só que todos estavam iguais.
Desceu ao primeiro piso cambaleando. Nem rastro dela.
Foi-se sem dizer uma maldita palavra? Já não podia seguir
negando a verdade: tinham-no enganado. Se não, porque Juliet
ia fugir do palazzo sem dizer-lhe? Deus! Não era de estranhar
que Quint nunca tivesse ouvido falar dessa mulher.
Nick foi ao salão dando tombos, esperando achar algum
sinal de vida, algum indício de que ela realmente não o tinha
abandonado; mas não havia nenhum. O mobiliário permanecia
em silêncio, nem rastro dos ocupantes de carne e osso.
No suporte da lareira uma nota captou sua atenção.
Estava dirigida a ele. Seu coração bateu mais forte. Talvez fosse
de Juliet para lhe explicar sua apressada partida. Jogou-se
sobre ela e rompeu o lacre, esperando ler algum imprevisto que
a tivesse arrancado de Veneza.
Entretanto, não era de Juliet. A nota era de Winchester. E
as palavras lhe gelaram o sangue.

Colt,
Se está lendo isso é porque já sabe que fomos.
Já te disse em certa ocasião, meu amigo, que se seguisse
ignorando a sua esposa, lamentá-lo-ia. Temo que esse dia
chegou.
A senhora Juliet Leighton nunca existiu. Foi um produto da
imaginação de uma mulher levada pela desesperança. Uma
mulher à beira do desespero, que estava convencida de que sua
única esperança era inventar um personagem legendário para
captar a atenção de seu marido. Você.
Sim, Juliet Leighton em realidade é Júlia Seaton, a
Duquesa de Colton.
Sei que possivelmente nunca me perdoe pelo que fiz. Só
espero que chegue a entender as razões pelas quais me
compadeci da mulher que abandonou faz oito anos. Fiz por ti,
além disso.
Voltamos para Londres. Não sei o que ocorreu entre Júlia e
você nos últimos dias, mas está desesperada para ir embora de
Veneza. Não tenho mais remédio que as acompanhar, à sua tia e
a ela, a casa.
Não sei quando voltarei a ver-te, Colt, mas desejo de
coração que sigamos sendo amigos. Espero que algum dia
entenda.
Um abraço,
Simon.

Nick cambaleou até uma poltrona, aturdido. Podia ouvir


sua corrente sanguínea nas orelhas. A sala dava voltas, então
se agarrou pelos braços da poltrona para sustentar-se.
Horrível! Era verdade? Juliet era… sua mulher?
Enrugou a nota na mão, sua incredulidade tornando-se
fúria esmagadora. Esticaram-se os músculos e com muita
dificuldade via, aturdido pela raiva. Tinham-no enganado. Sua
mulher! Dedicou-se a lhe sorrir, a rir dele, a deitar-se com ele…
consciente em todo momento de que estava mentindo.
Pequena cadela.
Tudo tinha sido um jogo. Os rumores, a paquera, os
beijos. Ela unicamente tinha querido que fosse atrás dela, que
caísse rendido aos seus pés. Pois tinha caído, e de que
maneira, maldito idiota! Tinha sido uma espécie de vingança
por havê-la ignorado durante oito anos. Deus! E as coisas que
lhe tinha contado? Tinha lhe descoberto parte de seu ser que
não tinha mostrado a ninguém, jamais.
E Winchester e ela rindo dele todo o tempo.
A dor o dobrou. Nick nunca havia se sentido tão traído.
Nem sequer quando seu irmão não tinha acreditado nele, nem
quando sua família lhe tinha dado as costas. Não, isto era cem
vezes pior. Tragou a bílis que lhe subia pela garganta e colocou
a nota no bolso do casaco.
Saiu indignado do palazzo em direção à gôndola, suas
botas golpeando com ímpeto o pavimento. Sentiu o peito oco,
gelado; carente de qualquer sentimento ou emoção. Fitz estava
no cais, aguardando sua volta sem alterar-se.
— Para casa! — Gritou Nick, que saltou à embarcação.
Desabou no assento e apoiou a cabeça nas mãos.
Então rememorou cada instante com ela, cada falso
sorriso, cada fingido suspiro enquanto flutuavam pela curta
distância até seu palazzo. Winchester e ela eram amantes?
Winchester tinha negado que albergasse sentimentos pela
duquesa, mas que homem se esforçaria dessa maneira para
ajudar uma mulher que não amava?
Fizesse o que fizesse, fosse onde fosse, jurou que os dois
lamentariam haverem zombado dele.
Quando a gôndola se deteve junto ao cais desembarcou de
um salto e sua mão roçou algo no bolso de seu sobretudo. De
repente recordou o presente que tinha comprado a Juliet, bom,
à sua mulher: o singular conjunto de camafeus de complexo
entalhe. Singelo e elegante, tal como em seu momento lhe tinha
parecido que era Juliet. Extraiu o estojo e o segurou com mão
tremente, a fúria percorrendo seu corpo. Era vítima de sua
própria estupidez.
«E o que me diz de sua mulher?», ela tinha perguntado.
«Não sente curiosidade por vê-la?» Com um rugido dilacerador
Nick lançou o estojo com todas as suas forças às escuras águas
do canal.
***

— O que foi, Colton? O que aconteceu? — Quint


perguntou da soleira da porta.
Caía a tarde e Nick pretendia fechar todos os seus
assuntos em Veneza com um golpe de sua pluma. Nesse
instante recordou que havia dito a Quint que fosse vê-lo de
noite. Sendo que a última coisa que precisava era companhia,
mas se viu curiosamente incapaz de pedir ao seu amigo que
fosse embora.
Quint se sentou em uma cadeira em frente da
escrivaninha.
— Noto-te zangado. O que acontece?
Não havia razão alguma para ocultar a verdade de Quint.
Breve seria o bobo de toda Londres, que se regozijaria com a
humilhação do Duque Depravado. Pensando que lhe falharia a
voz, limitou-se a esticar a Quint a nota de Winchester e
continuou escrevendo.
Transcorreu um longo minuto. A sala permaneceu em um
silêncio sepulcral enquanto Quint lia a carta. Quando acabou,
dobrou o papel e o deixou em cima da mesa.
— Que maravilha de mulher, não é?
Nick levantou de repente a cabeça olhando a Quint com
olhos entreabertos.
— Como vadia, sim. Maravilhosa — disse e voltou a
centrar-se na carta que estava redigindo, sem ver o que punha
na folha.
— Vamos lá, Colton! Deitou com sua mulher, muito bem,
e daí? E, a julgar por seus comentários prévios no café, parece
que desfrutou. Embora ninguém goste de ser enganado, ao
menos pode riscar «consumar o matrimônio» das coisas que tem
que realizar antes de morrer.
— Isso estava em minha lista de coisas que não tinha que
fazer, jamais — Nick disse. — E a mulher com quem me deitei
não era virgem, Quint. Tinha experiência nas artes da
fornicação. Ou seja, com quem esteve adquirindo tanta
experiência? Winchester? — Disse gritando, por isso se obrigou
a relaxar.
Quint franziu o cenho.
— Não, isso parece improvável, mas depois das bodas se
separou dela. É difícil culpar à garota de querer ser amada.
— Senhor! Quint, não é momento para nos pôr analíticos.
— Nick passou uma mão pelo rosto. — Muito bem, se o que diz
é verdade, por que veio então me procurar? Poderia estar com
quem quisesse em Londres. Para quê criar esta fantástica
história de uma cortesã a quem nenhum homem pode resistir e
logo me seduzir?
— Detesto as especulações, mas talvez não tenha exposto
o motivo mais óbvio de todos.
Além da humilhação ou do revanchismo, Nick foi incapaz
de conjecturar nada mais.
— Que é…?
— Que outro homem tenha plantado sua semente em sua
mulher e ela está tentando te convencer de que é teu.
A respiração de Nick cortou e ato seguido o percorreu uma
fúria renovada e mais intensa, que lhe fechou a garganta. Essa
idéia não lhe tinha passado pela cabeça.
«Levada pela desesperança», dizia Winchester em sua
nota. «Uma mulher à beira do desespero.» E de repente tudo
encaixou: o personagem, o fato de que tivesse ido procurá-lo, a
cooperação de Winchester… essa mulher queria fazer passar o
bastardo concebido com algum outro homem por seu filho.
Pois que fosse ao inferno!
— Espera, — Nick disse de repente — seu abdômen não
mostrava indícios. Em que mês começa a notar-se a barriga
das mulheres?
Quint levantou as mãos e encolheu os ombros.
— E eu sei lá! Tenho entendido que durante uma época
Wyndham e ela intimaram o bastante. Mas embora um filho
ilegítimo seja fruto de sua relação com outro homem, de
verdade te importa? Acredito que para ti seria um alívio, tendo
em conta que nunca teve a intenção de lhe dar um filho.
Nick massageou a testa. Talvez teria pensado isso antes de
conhecê-la; antes de havê-la estreitado em seus braços. A idéia
de outro homem possuindo-a, esvaziando-se dentro de seu
corpo… o deixava virtualmente louco de ciúme.
— Pois não me sinto aliviado — disse antes de devolver a
atenção aos seus papéis. — Isso é tudo, Quint?
Nick ouviu seu amigo suspirar.
— Conheço-te o suficiente para saber que não deixará isto
passar; então me diga, o que pretende fazer?
Nick manteve o olhar em seu escrito.
— Que o lamentem, naturalmente. Assim que possa vou a
Londres.
Quint suspirou, desta vez mais profundamente.
— Pois então te acompanho.

***

Júlia, agarrada ao corrimão, colocou-se de lado no navio


porque acabava de esvaziar seu estômago no Canal da Mancha.
Céus! Nunca em sua vida tinha tido tantas náuseas.
A viagem de quatro semanas tinha sido um horror. Além
da culpa que sentia por deixar Nick com tanta brutalidade,
suas regras não tinham aparecido. Tinha atingido seu objetivo:
estava grávida.
Pressionou uma mão sobre seu abdômen, onde uma vida
diminuta crescia agora em seu interior. Enquanto uma parte
de seu ser estava aliviada porque seu plano tinha funcionado,
outra maior sofria pelo pai que seu bebê nunca chegaria a
conhecer, pelo marido que ela jamais teria. Por Nick.
Mas agora não tinha tempo para lamentações. “Fez a
fama, dorme na cama” como tia Theo estava acostumada a
dizer. Tinha que seguir adiante e criar o filho que esperava.
De volta à Londres, tinha pensado lhe escrever.
Desculpar-se-ia por haver partido de Veneza tão
repentinamente e lhe falaria de sua verdadeira identidade. E
embora ele a odiasse, pelo menos poderia lhe contar os motivos
por trás das suas ações; talvez algum dia pudesse perdoá-la.
Deus, como sentia falta dele. Em sua última noite juntos
tinham feito amor com frenesi. Ao descer do terraço de seu
palazzo devoraram-se mutuamente, arrancando a roupa antes
inclusive de chegar ao aposento de Nick. Depois, ele a tinha
abraçado muito forte, com um não sei o quê no olhar que antes
não tinha estado. Estava quase segura de que seu marido tinha
começado a guardar sentimentos por ela.
Talvez a quisesse tanto como ela o amava; que era a razão
pela qual havia partido de Veneza, para pôr fim ao seu ardil
antes que qualquer um dos dois sofresse mais.
— Encontra-se melhor?
Tia Theo apareceu junto a Júlia, seu rosto angélico
contraído pela preocupação.
— Sim — Júlia respondeu dirigindo-se lentamente para
uma espreguiçadeira. Sentou-se e fechou os olhos, exausta. O
vento frio e revigorante contribuiu a rebater as ondas
encrespadas, e seu estômago se acalmou. Enrolou-se em sua
capa forrada de arminho e colocou as mãos no colo.
— Estou preocupada — Theo disse e se acomodou na
cadeira contígua à de Júlia. — Nunca a vi tão mal.
16
— É um simples mal de mer . Assim que chegarmos a
Dover me recuperarei.
— Não me refiro a isso. E sim ao seu marido. Está
apaixonada por ele.
As lágrimas de Júlia quiseram sair e mordeu o lábio em
um intento por evitar que a umidade fluísse. Não respondeu a
Theo, mas seu silêncio foi bastante eloquente.
— Oh, querida! — Theo introduziu a mão no regalo para
dar à sua sobrinha um apertão. — Esteve muito abatida
durante a viagem e imaginava o motivo. Lamento muito. Amar
um homem sem ser correspondida… é muito doloroso, sem
dúvida.
— Esse é o problema. Acredito que ele abriga sentimentos
por mim, bom, pela senhora Leighton. Talvez até a ame. E o
machucar desta maneira… não podia seguir fazendo-o. Por isso
tínhamos que partir. — Júlia inspirou entrecortadamente. —
Jamais pensei que isto chegaria tão longe. Jamais pensei que
acabaria amando-o.
Theo suspirou.
— O coração ama a quem ama. Não podemos controlá-lo.
Permaneceram vários minutos em silêncio.
— Então, vai contar para ele? — Theo inquiriu.
Júlia assentiu.
— Assim que voltemos para Londres. É o mínimo que
posso fazer.
— Contará sobre o bebê também?
Júlia voltou bruscamente a cabeça para sua tia.
— Sabe?
— Naturalmente que sei. É possível que algumas noites
tenha os olhos um tanto embaçados, mas ainda vejo. O bebê te
faz feliz?
Júlia dedicou a sua tia um sorriso trêmulo.
— Sim. Sempre terei uma parte do Nick e, embora nunca
voltemos a nos ver, terei um filho ou uma filha fruto de uma
maravilhosa semana juntos. — Júlia apertou a mão de sua tia.
— Theo, me ajudará a criar o bebê?
— Claro que sim! — Theo exclamou. — Será uma honra,
querida.
— O que será uma honra?
Simon apareceu, o chapéu desenhado e um grosso
sobretudo de lã protegendo-o da forte brisa.
— Theo, — Júlia disse — importar-se-ia de me deixar um
momento com o Simon?
Sua tia assentiu e se levantou.
— Rogo que desça para descansar um pouco quando
acabarem.
— Farei — Júlia prometeu antes que sua tia se fosse. —
Simon, sente-se, por favor.
Simon a olhou com receio, mas tomou assento.
— Segue vomitando?
— Sim, mas não é isso o que tenho que te contar. —
Inspirou profundamente. — Estou grávida. Do Colton.
Ele sorriu.
— Então preciso te felicitar. Me alegro muito por ti.
— Sim? Pensei que se zangaria; Colton é seu amigo. E
certamente sabe que ele não quer ter filhos.
— Não estou zangado, Júlia. Alegra-me que tenha
conseguido o que queria. E, quem sabe? Talvez tudo saia
melhor que o esperado.
— O que quer dizer com isso?
Ele encolheu os ombros e se voltou de rosto ao mar.
— Escreverei ao Colton assim que chegar a Londres — ela
acrescentou instantes depois.
— Supunha. — Simon esticou as pernas para diante. —
Vamos ver o que responde.
O estômago de Júlia fez um nó. Mandar-lhe-ia uma
resposta depois de tudo? Em sua opinião, não era muito
provável. Nick ficaria furioso, mas ela necessitava que
reconhecesse a criança.
— Quantos dias crê que faltam para chegar em Dover? —
Perguntou.
— Dois. Por quê?
— Porque não sei se aguentarei tanto tempo.
Júlia saiu disparada da cadeira e foi correndo até o lado
do navio, onde ficou a vomitar.
Capítulo 8
Procure ser amável e dócil, evitando as discussões quando for
possível. Um amante raivoso e vingativo não lhe trará mais que
problemas.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Poderia aguentar ali toda a noite sem vomitar no chão?


Esse era o pensamento que Júlia tinha na cabeça
enquanto esperava em uma lateral de Collingswood, o salão de
baile. O calor e a multidão lhe tinham produzido náuseas, por
isso tinha ficado perto da porta do terraço para poder
entreabri-la. Inspirar profundamente o revigorante ar frio de
fevereiro a tinha ajudado a assentar o estômago.
De momento, estar grávida não era o estado ditoso que
imaginou em sua juventude. Passava mais tempo esvaziando o
conteúdo de seu estômago que propriamente comendo.
— Jules!
Júlia se virou e viu sua melhor amiga, lady Sophia,
aproximando-se.
— Oh, Sophie! — Júlia exclamou depois de abraçá-la. —
Me disseram que tinha chegado à cidade. Queria ir vê-la
ontem, mas estou um pouco cansada da viagem.
A verdade era que Júlia estava esgotada. Saltou a maioria
dos eventos sociais desde sua volta fazia três semanas e nem
sequer esta noite teria vindo se tia Theo não tivesse insistido.
Mas se alegrava muito de ver Sophie. Sua amiga estava
cheia de vida, parecia um bombardeiro e era, por conseguinte,
muito divertida. Espantosa morena de enormes olhos
castanhos, lady Sophia era a única filha de um influente
marquês e tinha jurado que nunca se casaria. Júlia a invejava.
— Que tal Paris? — Sophie inquiriu. — Morro de vontade
que me conte tudo. Com certeza comprou toda classe de coisas
maravilhosas ali. Que inveja! Viu lady Morgan? Também foi a
Paris. Ai, me conte!
Quando se mantinha uma conversação com Sophie às
vezes custava intervir.
— Tenho muitas coisas para te contar, — Júlia respondeu,
consciente de que tinha que dizer à sua amiga a verdade sobre
Veneza — mas este não é o melhor lugar. Amanhã irei ver-te.
— É melhor. — Sophie desceu o olhar para o xale negro de
Júlia. — Minhas condolências por sua sogra. Pensava que a
velha viveria eternamente, mas… — disse e encolheu os
ombros.
Júlia tinha pensado o mesmo. Embora a morte da viúva
do duque tenha sido uma comoção, caiu um lance de escadas e
quebrou o pescoço, não foi motivo de grande tristeza.
— Obrigada. Nego-me veementemente a me vestir de luto
rigoroso por ela, mas Theo não teria me deixado sair de casa
sem um xale negro. Certamente o acidente foi uma surpresa,
porque na última vez que a vi parecia cheia de vida.
— Crê que Colton voltará agora que está morta?
Júlia apartou a vista.
— Não, não acredito. E mais, eu acredito que nada poderia
forçar a volta de Colton a Inglaterra.
— Que lástima! Sempre desejei ver o Duque Depravado.
Me diga, tirará lady Lambert da mansão Seaton com um chute?
— Sophie parecia muito emocionada com a idéia. — Sei que a
viúva do duque e ela estavam unidas, mas o que vai fazer a
esposa do irmão de Colton com esse imóvel imenso para ela
sozinha? Quando o irmão de Colton morreu não estavam
casados nem há um ano. Deveria ser tua.
— Para falar a verdade, não tinha pensado. Não sei muito
bem se tenho direito de mandá-la embora, mas por que ia fazê-
lo? Não tenho nenhuma vontade de viver ali. — Embora
mudar-se para Norfolk poderia aliviar parte de sua carga
financeira, agora que pensara nisso. Decidiu comentar a idéia
com Theo essa noite.
— Uf! Falando de assuntos ducais, lá vem lorde
Templeton. Espero-te amanhã, Jules — disse dando um
apertão na mão de Júlia antes de desaparecer entre a
multidão.
Júlia sentiu a necessidade de inspirar o ar frio.
Entretanto, pensando bem, vomitar em cima de Templeton
tinha uma estranha atração; pelo menos a liberaria dele, não?
— Sua excelência — Templeton saudou.
Júlia deduziu que ele estava tentando sorrir, mas o
esforço o fez pôr cara de pequeno roedor retorcendo-se de dor.
Ela fez a cortesia de rigor e ele se inclinou sobre sua mão. Esse
leve contato lhe deu arrepios.
— Peço-lhe desculpas por não o ter recebido desde minha
volta, milorde. Ainda estamos tentando nos recuperar. Estou
convencida de que entenderá.
Nos últimos quinze dias Templeton tinha passado em
numerosas ocasiões para deixar seu cartão, mas Júlia tinha
dado ordens estritas aos serventes de não o deixar entrar no
palacete. Sabia que queria lhe falar da nota escrita
vertiginosamente que lhe tinha enviado antes de partir para
Veneza, mas ela necessitava de uma resposta de Colton
reconhecendo o bebê que esperava antes de informar sobre seu
estado a Templeton e ao resto da sociedade.
— Naturalmente que sim. Entretanto, desejaria falar com
você com a maior brevidade possível. Intriga-me o conteúdo de
sua última nota.
«Estou segura disso», Júlia pensou. Deus! Como gostaria
que seu marido voltasse para fazer mingau do Templeton,
porque este último teria dificuldade com Nick.
Encolheu-se o coração. Sentia muitíssima falta dele. Que
injusta era a vida. Por que tinha que apaixonar-se pela única
pessoa que jamais poderia ter?
Então lhe revolveu o estômago. Afundou as unhas na
palma da mão procurando evitar jogar sua explicação sobre o
chão do salão de baile.
— Quando voltar a receber, o farei saber, milorde. Se me
permite… — ela disse despachando-o.
A boca de Templeton se esticou, mas não discutiu. Fez
uma reverência, voltou-se e desapareceu entre a multidão.
Assim que Templeton partiu Júlia se apressou para a
porta francesa e saiu ao terraço.
A noite se tornou gélida, mas mal notou. Andou até à
borda e apoiou as mãos no corrimão de pedra, inspirando
profundamente e fechando os olhos. Se ficasse quieta e
tranquila por uns instantes a sensação de vômito poderia
desaparecer.
Procedente do escuro lugar que ficava à sua direita, ouviu
o roce do salto de uma bota sobre a pedra e girou; estranhava
que algum outro convidado desafiasse a rude temperatura.
Então brilhou a luz de um charuto aceso, iluminando um rosto
que ela não esperava voltar a ver jamais.
— Eu gostava muito mais de você ruiva, sua excelência.
Júlia afogou um grito e ato seguido ficou a vomitar sobre
as botas do Duque de Colton.
Absolutamente horrorizada, cambaleou. Tinha-lhe
chamado «sua excelência»? Procurou recuperar o equilíbrio,
agitando a mão para tentar achar o corrimão.
— Não é exatamente as boas vindas que eu esperava — foi
o que disse Nick antes que umas mãos fortes a levantassem e a
descessem pelas escadas até o jardim.
Júlia mal podia respirar. A cabeça dava-lhe voltas. Era
Nick. Havia retornado. Mas… por quê? Era impossível que
tivesse recebido sua nota e viajado à Inglaterra nesse lapso de
tempo. O que significava que ainda não tinha recebido sua
carta e não tinha nem idéia do bebê.
Franziu as sobrancelhas. Havia retornado por ela? Mas
lhe tinha chamado de «sua excelência», portanto tinha se
informado de sua verdadeira identidade. «Oh, Deus!» Como
tinha se informado? Debatia-se entre a vergonha pelo que tinha
feito e o medo à reação dele. O que pretendia fazer?
— Colton, me desça. Não sei onde acredita que me leva…
Ele a agarrou mais forte.
— Se fosse você, minha mulherzinha, não discutiria comigo
— resmungou em um tom que não lhe tinha ouvido usar
anteriormente; afiado e cortante, como o fio de um florete; um
calafrio percorreu-a.
Cruzaram uma grade e pegaram uma ruela. Colton
assobiou, um assobio agudo e estridente, e em questão de
segundos apareceu uma carruagem. Fitz e um cocheiro iam
sentados na boléia.
— Coloque-a dentro — Nick disse, e então deixou Júlia
nos braços de seu descomunal criado.
Fitz instalou Júlia tranquilamente no assento da
carruagem. Ela se expôs a possibilidade de fugir pela outra
porta, mas sabia que em seu estado atual não chegaria longe.
Fora da carruagem, Nick tirou as botas. A seguir se desfez
das meias e as atirou ao chão.
— As deixe — Júlia ouviu que Nick dizia ao Fitz. —
Acompanhemos a duquesa a casa, sim? Está indisposta.
Nick subiu à carruagem descalço. Inclusive na penumbra
ela pôde perceber seu aborrecimento: a mandíbula apertada, a
postura rígida, uns olhos de cor cinza tormenta, frios e duros.
Sacudiam-no ondas de fúria. Este não era o mesmo homem
que tinha flertado com ela e a tinha seduzido em Veneza. Então
seu coração se rasgou mais, e seu peito transbordou de uma
nova sensação de angústia.
Tragou saliva.
— Sinto ter estragado suas botas — sussurrou.
Nick levantou uma sobrancelha com sarcasmo.
— Em vista de tudo o que fez, parece muito próprio de
você, não é?
Ela sentiu a necessidade de explicar-se, de lhe fazer
entender, de diminuir seu aborrecimento; ao fim e ao cabo, se
ele não a tivesse abandonado durante oito anos, ela jamais
teria tido que recorrer a artimanha alguma.
— Nick…
Ele deu dois golpes no teto e a carruagem acelerou.
— Não lhe dei permissão para usar meu nome de batismo,
minha mulherzinha. Pode dirigir-se a mim como «sua excelência»
ou «Colton».
Júlia ficou furiosa. Seu afã conciliador desapareceu.
— Muito bem, sua excelência. A que veio? Por que voltou
para a Inglaterra depois de todos estes anos?
— Não imagina?
— Não.
O sorriso de Nick era pura maldade.
— Por quê? Para me vingar, naturalmente.
Júlia voltou a notar que a bílis lhe subia pela garganta.
Certamente lhe notaria na cara, porque Nick gritou «Alto!» e
abriu a porta da carruagem. Ela se atirou ao chão e tirou a
cabeça por uma lateral para vomitar outra vez.
Apareceu um lenço junto à sua orelha e o pegou para
limpar a boca.
— Obrigada — Júlia resmungou.
Ao cabo de um par de minutos seu estômago se acalmou e
se sentiu menos enjoada. Depois de outra inspiração se
arrastou de novo até o assento.
— Vejo que lhe assenta bem a gravidez — Nick disse com
rancor.
O coração de Júlia bateu mais forte.
— Como disse?
— O bebê. Seu estado. Vejo que lhe assenta bem. — Nick
cruzou os braços sobre o peito. — Ou eu não teria que saber?
— Colton, é lógico que esteja zangado comigo, mas deveria
saber que lhe enviei uma carta assim que voltei para Londres
explicando-lhe tudo.
— Claro, em vez de me explicar isso pessoalmente. — Nick
se inclinou para frente, seu olhar fulminante e implacável. —
Senhora, se pretendia rir de mim e logo voltar para casa toda
altiva acreditando que o truque lhe tinha saído bem, está
equivocada.
— Rir de você? — Ela disse com voz entrecortada. — É
isso o que pensa?
— Queria-me, minha mulherzinha. Infelizmente, diria eu,
para mentir, enganar e roubar para conseguir seus objetivos.
Pois bem, agora já me tem. Pergunto-me durante quanto tempo
antes de fazer com que lamente de verdade. Porque não se
equivoque, lamentará.

***

Nick nunca tinha visto a sala principal do White tão


silenciosa.
Tinham passado oito anos desde que foi pela última vez ao
legendário clube de homens da St. James, mas ali nunca
mudava nada. Atrás daquelas paredes, os homens da elite mais
em voga procuravam um refúgio; principalmente de suas
esposas. Uma realidade em que, por desgraça, agora se via
refletido.
As conversações cessaram quando apareceu o Duque de
Colton. Todas as cabeças se voltaram em sua direção. Até os
empregados esticaram o pescoço, curiosos por conhecer a
causa do afastamento abrupto do ruído.
Mas agora não podia centrar-se naquilo, não quando tinha
algo muito importante para fazer.
Os rumores o seguiram conforme se aventurou para as
mesas do fundo, onde lhe haviam dito que poderia encontrar
exatamente o que procurava.
Nick o viu em seguida. Simon Barrett, o conde de
Winchester, esparramado em frente a uma mesa, sua cabeça
loira abaixada contando seu dinheiro, alheio ao feito de que ao
seu redor a sala ficara em silêncio.
Então seguiu avançando até chegar junto ao seu amigo.
Simon levantou a vista e denotou surpresa meio segundo antes
que Nick lhe desse um murro na cara.
O impacto do golpe jogou Winchester no chão. Este não
fez gesto de levantar-se, a mão na bochecha.
— Maldição, Colton! Sei que mereço, mas na próxima vez
avisa antes, por Deus!
Nick se agachou e resmungou:
— Não haverá próxima vez, Winchester. Para mim não é
nada. Nem um amigo nem um inimigo; nada. Preferiu a ela
antes que a mim e jamais lhe perdoarei isso.
Levantou-se justo quando Quint entrava correndo na sala
e freava derrapando.
— Maldição — Quint murmurou ao ver Winchester
escancarado no chão. — Estava na sala de jantar e pensei que
chegaria a tempo.
Nick se voltou para o resto dos homens da sala enquanto
arrumava os punhos.
— Cavalheiros, peço desculpas por interromper seu jogo.
Deu meia volta e partiu.
— Pode se levantar? — Quint inquiriu.
— Sim — resmungou Simon, que rodou sobre um flanco.
Diabos, doía-lhe o rosto. Ficou de quatro e se ergueu. — O
desgraçado me pegou despreparado.
Quint deu umas palmadas no ombro de Simon.
— Venha, tomemos uma taça.
Os dois homens foram tranquilamente ao salão, onde
havia duas poltronas vazias em frente ao fogo. Não demoraram
para pedir brandy. Deste modo Quint pediu ao empregado que
umedecesse um pano, deixasse-o ao ar livre dez minutos e logo
o trouxesse para a mesa.
— Para que pediu isso? — Simon quis saber quando o
empregado se foi.
— Para o seu rosto. O frio diminuirá a dor e qualquer
inchaço.
Simon tocou com cuidado a bochecha ferida e pôs cara de
dor.
— Passou muito tempo, mas com os anos parece que os
murros do Colton são mais fortes.
— Um homem é capaz de extraordinárias exibições de
força quando provocado. O que me leva a perguntar… por que
ajudou a mulher dele? Acredito que sua traição quebrou mais o
Colton que a dela.
Simon suspirou.
— Devia a ela. Em certa ocasião evitou que eu cometesse
uma autêntica estupidez.
— Qual? — Quint perguntou ao ver que Simon não
entrava em detalhes.
— Não lhe vou dizer isso. É muito humilhante. Mas Júlia
foi uma boa amiga. E embora Colton também fosse um bom
amigo, o trato que lhe deu foi péssimo; então ela me pediu
ajuda e…
Encolheu os ombros.
Chegou o brandy e Simon tomou um bom sorvo com a
esperança de anestesiar a ardência do soco de Colton.
— Colton acredita que está apaixonado pela mulher dele
— Quint explicou. — Disse-lhe que não estava, verdade que
não?
Ao Simon faltou pouco para pôr os olhos em branco.
Acaso já não tinha deixado claro ao Colton que não abrigava
sentimento algum pela duquesa?
— Não estou apaixonado por ela, embora em alguns
momentos desejei estar na pele de Colton. É preparada,
divertida e valente. Não me ocorrem qualidades melhores para
uma esposa.
— Pois duvido que lhe vá passar logo. Nunca o tinha visto
tão furioso. Mal disse um par de palavras em toda a viagem de
volta de Veneza.
— Ora, se apaixonou por ela, Quint. Vi-o. Colton e Júlia se
apaixonaram em Veneza. Estavam loucos um pelo outro, até
que a culpa se apoderou dela. Não quis o machucar e partiu. E
é só questão de tempo para que se deem conta de que
nasceram um para o outro.
— Seriamente crê nisso? — Quint zombou. — Não acredito
que Colton a perdoe.
— Não terá mais remédio. E chegará um dia em que me
agradecerá por havê-la levado a Veneza.

***

«Porque não se equivoque, lamentará.»


Na manhã seguinte as palavras de despedida de seu
marido perseguiram Júlia. Meg tinha descido para pegar uma
bolacha e um chocolate enquanto ela, com o coração partido e
náuseas, esperava na cama.
O que Colton tramava? Queria vingança, mas qual?
Tinha sido uma ingênua por acreditar que seu plano não
teria consequências. Nick a odiava. O amante afetuoso e alegre
que tinha conhecido em Veneza fora substituído por um
homem frio e furioso decidido a lhe amargurar a existência.
Contraiu-lhe o coração. Por mais que desejasse o contrário,
ainda o amava; que ele a desprezasse a rasgava por dentro.
Apesar do dano que tinha causado, seu bebê não era um
erro. Levava em seu interior uma vida nova e preciosa, e Júlia
jamais se arrependeria de ter seu filho.
Já sabia que Nick se zangaria quando soubesse sua
identidade, mas ontem à noite a veemência de seu ódio a tinha
pego despreparada. Tinha-a acusado de zombar dele. Céus! A
sério pensava algo assim?
A porta se abriu de repente e apareceu a silhueta
rechonchuda de tia Theo.
— Toda a cidade sabe, toda a cidade!… Eu que o diga.
Acabo de estar no mercado das flores e todo mundo me parou
para falar disso.
O medo se apoderou de Júlia, que se incorporou. Estava
convencida de que na noite anterior ninguém a tinha visto com
Nick.
— Te falar do quê?
— Que seu marido está aqui, em Londres. — Theo agitou
histérica os braços. — Ontem à noite deu um soco em Lorde
Winchester, no White, diante de todos. Não se fala de outra
coisa.
Nick tinha dado um soco em Simon? Isso não tinha
nenhum sentido. A menos que… Nick devia estar furioso com
Simon porque a tinha ajudado. Júlia se deixou cair na cama.
— Aii! É tudo minha culpa, tia Theo. Toda esta confusão.
Maldita hora que me ocorreu ir ao encontro do Colton!
Theo se sentou na beira da cama de Júlia.
— Winchester não é tolo. Aceitou te ajudar consciente dos
riscos que havia. E acredito que é perfeitamente capaz de
defender-se do Colton. Preocupa-me você e o que Colton fará se
te encontrar.
— Já me encontrou.
— Ah, sim? Quando?
— Ontem à noite em Collingswood. Saí ao terraço para
tomar ar e Colton estava me esperando fora.
— Reconheceu-te? — Theo inquiriu. Como Júlia assentiu
com a cabeça, ela insistiu: — Bom, e o que aconteceu?
— Vomitei em cima dele.
Theo riu a gargalhadas, estrepitosamente, e enxugou as
lágrimas de diversão dos olhos.
— Ah…, querida! É a melhor notícia que me deram em
todo o dia.
— Foi extremamente embaraçoso — Júlia confessou. —
Está indignado, Theo. Odeia-me. Perguntei-lhe por que tinha
voltado para Londres e me disse que para vingar-se. Só de
pensar me dá vontade de vomitar. O que estará tramando?
— Como soube que era você?
Júlia franziu o cenho.
— Não sei, pegou-me tão despreparada que não me
ocorreu perguntar. Por algum dos serventes de Veneza, talvez?
Theo descartou com um gesto da mão.
— Não, nenhum sabia sua verdadeira identidade e diante
deles fomos prudentes. Pode ser que o cabelo e a maquiagem
não a camuflaram como esperávamos, e logo Colton te viu no
baile e te reconheceu.
— É possível — Júlia disse. Parecia improvável, mas que
outra explicação podia haver? — Sabe que estou grávida.
— E o que disse do fato de que o bebê que espera seja
dele?
— Nada, além de um comentário jocoso, depois de eu
vomitar na carruagem, sobre o bem que me assentava a
gravidez.
— Mas não disse que vomitou em cima do Colton?
— Assim é — Júlia respondeu. — E depois voltei a me
enjoar no trajeto até aqui.
— Oh, pobrezinha! — Theo exclamou com doçura. — Bom,
descansa um pouco. Hoje nos bombardearão com visitas. —
Levantou-se. — Ou prefere se encerrar o dia inteiro em seus
aposentos?
Júlia sacudiu a cabeça.
— Tenho que lhes fazer frente; do contrário, a fofoca não
fará mais que piorar.
Golpearam brevemente a porta e Meg mostrou a cabeça.
— Tenho o chocolate, sua excelência.
— Entra, Meg, por favor. Espera-nos um longo dia.
Já havia um montão de cartões esperando quando Júlia
se vestiu. O do Simon era a primeiro. Virou-o e leu a nota
escrita de sua mão: «Volto dentro de uma hora».
Júlia seguiu até o salão para esperar junto com tia Theo a
inundação de visitas. Sentia-se um pouco como a mulher que
recebe condolências de caminho à forca.
— Hoje está muito elegante — Theo disse ao reparar no
vestido de dia de musselina lilás de Júlia. — Que tal seu
estômago?
— Revolto, embora não sei muito bem se é pelo bebê ou
porque estou nervosa pelo Colton.
Theo lhe serviu uma xícara de chá.
— Seu duque simplesmente tem o orgulho ferido. Nenhum
homem gosta de ser enganado, seja pela razão que seja.
Querem pensar que são superiores a toda a raça feminina, já
sabe. Dê-lhe umas semanas para recuperar-se e mudará de
idéia.
— Oxalá estivesse tão segura quanto você — Júlia
murmurou e aceitou o chá das mãos de sua tia.
Seu mordomo abriu a porta e anunciou Simon.
— Que suba, por favor — Júlia disse. — E não deixe
entrar nenhuma visita mais até que lorde Winchester se vá.
Ao cabo de um minuto Simon entrou tranquilamente na
habitação, com uma nódoa escura e grande em sua bochecha
esquerda.
Júlia afogou um grito enquanto ele fazia uma reverência.
— Oh, Simon! Que horror! Sinto-me péssima. Foi tudo por
minha culpa.
Theo entreabriu os olhos e aproximou o monóculo para
dar uma olhada mais de perto.
— Um pequeno contratempo. Acertou em cheio, milorde.
Ele desabou em uma cadeira, reclinou-se e sorriu.
— Não teria sido tão contundente se Colton não tivesse me
pegado despreparado. De todos os modos aceitei te ajudar
sendo consciente das consequências, Júlia. Faz séculos que
sou amigo do Colton e é bastante previsível. Além disso, —
cruzou as pernas — preocupa-me mais você. Já veio ver-te?
Ela assentiu taciturna.
— Ontem à noite foi ao meu encontro no baile em
Collingswood. Deu-me um susto de morte no terraço.
— Conte o melhor — Theo insistiu.
Simon arqueou uma sobrancelha inquisidora, e Júlia lhe
disse:
— Vomitei em cima dele.
As paredes do salão retumbaram com suas gargalhadas,
os olhos azuis faiscando de prazer.
— Ah…, teria me encantado estar ali para vê-lo!
— Agradeça por não ter visto, porque foi muito
embaraçoso e Colton estava furioso. O que não consigo
entender é como me reconheceu, porque não duvidou em
dirigir-se a mim como «sua excelência».
Simon se removeu incômodo em sua cadeira.
— Isso foi por minha culpa. Não lhe disse isso, mas deixei
uma nota em Veneza. Confessei-lhe quem era e me desculpei
por te haver ajudado…
— Simon! — Júlia exclamou escandalizada. — Por que não
me disse isso?
Ele elevou as mãos.
— Francamente, não imaginei que te seguiria até Londres.
Mas sabia que de todos os modos lhe escreveria para contar
sua versão. Por isso quis… prepará-lo, suponho. Está zangada
comigo?
Ela ficou olhando seu velho amigo.
— Como vou zangar-me contigo? Pagou um preço muito
alto por me ajudar, Simon. Agradecer-lhe-ei isso eternamente.
A propósito, por curiosidade, o que Colton te disse depois de te
bater?
— Nada significativo — Simon respondeu. — Logicamente,
está furioso, mas me ocuparei dele mais adiante.
— Disse-lhe também que o bebê que espero é dele?
— Não. Sabia?
— Sim, mas possivelmente as náuseas me delatassem. —
Tomou um sorvo de chá, agora maravilhosamente morno.
Assentava-lhe melhor assim. — Falou de vingança, Simon.
Disse-me que eu tinha zombado dele e que eu viveria para
lamentar. O que fará?
Simon pôs os olhos em branco.
— Colton está ficando muito dramático com a idade, mas
não te fará mal, Júlia. Eu me assegurarei disso.
— Possivelmente você não possa o impedir — Theo
advertiu. — Ao fim e ao cabo, esse homem é seu marido.
Simon meditou sobre isso.
— Se me necessitar, de dia ou de noite, manda alguém me
buscar e virei. Não acredito que Colton vá te machucar, mas
pode ser que durante uma temporada… ponha as coisas
difíceis.
Justo quando Júlia se dispunha a perguntar o que queria
dizer com «difíceis», a porta se abriu de repente e o tema de sua
conversação entrou com passo decidido.
Vestido com um elegante casaco azul, um colete brocado
de cor creme e botas de cano alto sobre uns calções de cor
bege, o duque de Colton esquadrinhou a habitação com olhos
frios e cinza.
— Ora, que cena mais encantadora!
Simon ficou de pé de um salto.
— Suas aparições surpresa começam a ser um costume,
Colton. Antes era muito mais direto.
Deu a impressão de que Colton se erguia mais, a fúria
plasmada nos severos planos de seu rosto.
— Vá embora da casa da minha mulher. Isso parece-te
suficientemente direto, Winchester? — Nick grunhiu.
Simon soprou e os dois homens se olharam fixamente.
Júlia não sabia o que fazer. Olhou para Theo, que tinha os
olhos como pratos. Com os punhos apertados e a mandíbula
em tensão, Simon e Nick estavam mantendo uma conversação
silenciosa que só eles entendiam.
— Está bem, — Simon disse entredentes — mas logo
passarei para falarmos cara a cara e é melhor que me receba,
Colton. — Voltou-se para Júlia e Theo, e fez uma reverência. —
Senhoras.
Saiu irado da habitação e fechou a porta com força ao
abandoná-la. Colton se voltou para Theo.
— Lady Carville, queria falar em privado com minha
mulher.
Disse a última palavra entredentes como se lhe custasse
horrores pronunciá-la.
De modo que também tinha averiguado a identidade de
Theo. Sua tia lhe lançou um olhar de inquietação.
— Naturalmente, sua excelência. Com sua permissão… —
disse antes de sair do salão.
Júlia se reclinou e levantou o queixo. Negava-se a
intimidar-se diante desse homem. Tinha-a ignorado durante
oito anos e tinha tido que lidar com isso. Era evidente que o
que tinham compartilhado acabara e que ele estava
desanimado. Pois bem; ela também estava.
Parou a dor de seu coração e se armou de coragem.
— Já afugentou todo mundo, Colton. O que quer?
A franqueza de Júlia o deixou atônito. Pôs cara de ligeiro
desconcerto, mas só uns instantes.
— Não acreditaria que já me viu o suficiente, não é,
mulherzinha querida? — Aproximou-se e tomou assento em
uma cadeira, levantando a aba do casaco. — Porque pretendo
ficar.
Júlia não quis reparar em seu atrativo, em como tinha o
sedoso cabelo castanho retirado de qualquer maneira de seu
anguloso rosto. Estava barbeado, mas recordava com clareza a
sensação de sua barba sobre a pele suave da parte interna de
suas coxas. E, pelas noites, ainda sonhava com a firme
investida de sua ereção ao penetrar sua umidade.
Ela se conteve e seus olhos voaram para os de Nick.
Observava-a com atenção e o brilho daquele cinza intenso lhe
indicou que sabia perfeitamente no que ela tinha estado
pensando. Um sufoco lhe subiu pela nuca e começou a sentir
calor.
— Que bonito! — Ele murmurou. — Que falso!
Ela se endireitou.
— Sua visita se deve a algo?
— Sim. Quero saber quem é o pai do seu filho. Penso
matá-lo antes que acabe o dia.
Sem dúvida, dramático, pensou ela. E o que tinha querido
dizer? Oh, Deus!… Não acreditava que…
— Você é o pai, Colton.
Ele jogou a cabeça para trás e riu, o som áspero e carente
de toda alegria.
— Senhor! Deve pensar que sou um ingênuo.
Ela o olhou boquiaberta.
— Colton, você é o pai deste bebê. Não estive com
ninguém mais.
Nick esticou todo o corpo e se inclinou para frente,
zangado.
— Deixe de mentir, minha mulherzinha, que a primeira vez
que a possuí não era virgem.
Ela deu um pulo. Pelo menos já sabia por que Nick
pensava que rira dele. Acreditava que, ao descobrir que ficara
grávida, ela tinha ido a Veneza para legitimar o bebê deitando-
se com ele.
Era tentador lhe contar sobre o Templeton, mas o orgulho
a impediu. Possivelmente lhe explicando seus problemas
econômicos chegaria àquele recanto hostil do peito de seu
marido, onde deveria estar seu coração, mas Júlia se deu conta
de que era incapaz de fazê-lo. Queria que ele acreditasse que o
bebê era dele porque confiava nela.
— Queira acreditar ou não, é a verdade. Limpei o sangue
para que não se inteirasse. Queria que pensasse que eu era
uma cortesã, Colton.
— Não acredito. — Cruzou os braços sobre o peito. — É do
Wyndham?
Ela abriu muito os olhos pela surpresa. Quem tinha falado
ao seu marido sobre o Wyndham?
— Sim, estou a par do seu galã, senhora. Embora
Winchester não me tivesse falado dele em Veneza, quando
cheguei a Londres havia um punhado de pessoas
absolutamente ansiosas por me informar.
— Lorde Wyndham e eu só flertamos, que é mais do que
posso dizer de você, Colton. Com quantas mulheres se deitou
desde que fizemos nossos votos matrimoniais?
— Isso é irrelevante — ele retrucou. — Eu não corro o
risco de conceber um bastardo — gritou e assinalou o ventre de
Júlia.
— Este filho não é bastardo. Seu cretino! — Ah…, tirava-a
do juízo! O sangue quase lhe fervia sob a pele. Sentou-se mais
erguida. — O reconhecerá e logo partirá de Londres. Volte para
Veneza ou vá a São Petersburgo. A única coisa que preciso é
que esta criança leve seu sobrenome.
— Isso não acontecerá jamais. Sei que esse bebê pertence
a outro homem. Nenhum filho seu levará meu sobrenome.
Ela o viu muito convencido; impossível dissuadi-lo. Júlia
estava furiosa, sim, mas de repente sentiu o súbito impulso de
chorar. Com as emoções à flor de pele, quis estar a sós; para
refletir sobre a maneira de resolver o caos que tinha provocado.
— Parta, Colton!
— Se acredita que as lágrimas me abrandarão, está muito
equivocada, senhora.
Júlia levou os dedos ao rosto e notou a umidade de suas
bochechas. Nem sequer era consciente de que tinha começado
a chorar. Realizou uma inspiração longa e entrecortada. O café
da manhã ameaçava aparecer de novo e o último que desejava
era voltar a ficar em evidência diante de seu marido.
Ficou de pé. Ele permaneceu sentado, estúpido arrogante,
olhando-a tranquilamente com uma sobrancelha arqueada.
— Bom dia, senhor.
Júlia contornou a cadeira de Nick e caminhou para a
porta.
Ele se levantou disposto com um salto e a agarrou pelo
braço, detendo-a.
— Não pode me ignorar, duquesa — disse entredentes, seu
fôlego quente na orelha de Júlia. — E não pode livrar-se de
mim para seguir com seu bando de amantes aqui na cidade. —
Ela ficou rígida e tentou soltar-se, mas ele a agarrava com
força. — É do Winchester? O bebê que espera é do Simon?
Júlia elevou a mão que tinha livre e, sem poder evitar,
estampou-a contra a cara do Nick. Ficou gelada, perplexa pelo
que tinha feito, enquanto o som, áspero e desagradável,
ressoava por toda a sala. Ele voltou lentamente a cabeça para
olhá-la. Seus olhos cinza brilhavam de ódio, fúria e, para
grande surpresa de Júlia, desejo.
Estreitou-a contra seu corpo, seus seios esmagados contra
seu peito. A ela lhe acelerou o pulso, mas infelizmente não de
raiva. Realmente estava aturdida. Como podia seguir sentindo
algo por este homem depois de todas as barbaridades que
havia dito?
Então Nick subiu a mão que tinha livre pelo flanco de seu
tórax e a deixou debaixo de seu seio, o polegar percorrendo a
proeminente parte inferior com frouxidão. Júlia fechou os olhos
pela súbita, aguda e imperiosa necessidade que percorreu seu
corpo. Sua respiração se tornou rápida e agitada, e lhe faltou
pouco para lhe pôr o seio na palma da mão. Tinha os seios
sensíveis, a gravidez os tornara mais receptivos, e lhe doíam,
ávidos pelas carícias do Nick.
— Não teve nenhum inconveniente em ser a puta de um
duque… — ele murmurou, seu polegar deslizando para cima
para estimular seu mamilo através das camadas de roupa. —
Estaria igualmente disposta a ser de um marido?
Ela afogou um grito e deu um pulo; e desta vez ele a
soltou.
— Desgraçado — ela resmungou antes de sair irada da
habitação.
Capítulo 9
Os homens são às vezes criaturas caprichosas. Se abandonar
sua cama por despeito, deixe-o partir. Logo voltará.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Nick saiu do palacete de sua mulher e foi até sua


carruagem com passo comprido, mais alterado do que queria
admitir.
Maldita seja! Face ao que Júlia fazia, seu corpo ainda a
desejava. Não, suspirava por ela. Tinha-o fulminado com o
olhar, furiosa e indignada, enquanto ele não pensava mais que
em tombá-la no carpete, colocar o pênis em sua deliciosa
viscosidade e meter com ímpeto.
Depois do que tinha feito, deveria odiá-la. E a odiava, sim,
mas ao agarrá-la pelo braço e notar o considerável peso de seus
seios contra o peito, o pênis se havia posto duro até lhe doer.
Diabos, que confusão!
— Para casa, Fitz — disse com brutalidade antes de subir
à carruagem.
Se recostou contra as almofadas e contemplou pelo guichê
as já conhecidas ruas de Mayfair. Tinha conseguido
permanecer fora por oito anos, vivendo em lugares que
ninguém sabia ou sem que a ninguém importasse sua
reputação ou o escândalo. Oito ditosos anos de anonimato,
livre de seu passado. Agora havia retornado. A mentirosa e
trapaceira de sua mulher lhe tinha obrigado a retornar a casa.
Não pôde evitar que o peito lhe fervesse de raiva enquanto
o veículo o levava a casa.
Com o cabelo loiro Júlia estava igualmente formosa,
possivelmente mais. A cor dourada de seus cabelos, em lugar
dos atrevidos caracóis acobreados de Veneza, a fazia parecer
delicada e etérea; embora não tivesse mostrado nenhuma
delicadeza quando ele tinha insistido em que não era o pai de
seu filho. Não, nesse momento Júlia tinha sido uma rainha
guerreira de atitude régia e penetrantes olhos azuis,
empenhada em que o filho era dele.
Embora ele não acreditasse.
Contornaram a esquina e pôde ver o palacete. Uma
monstruosidade isolada de pedra cinza e ferragem negra, era
imponente e fria; justo o que cabia esperar do legado dos
Seaton. Seus antepassados, seus próprios pais incluídos, não
eram precisamente conhecidos por ser gente afável e bondosa.
Pelo menos seus pais estavam mortos. Tinha sido um
alívio voltar para Londres e descobrir que sua mãe não estaria
ali para martirizá-lo. A última vez que a viu, depois do funeral
do Harry, tinha lhe feito saber que já não era seu filho.
«Oxalá tivesse morrido você em lugar do Harry.»
Nem sequer tinha assistido às bodas de Nick, por fugaz e
pouco memorável que estas tivessem sido. Tampouco a podia
culpar muito, porque ele tampouco tinha querido assistir às
suas bodas. Mas seu pai se encarregou disso. Ao que parecia,
nada como as ameaças e a chantagem para fazer seu filho
entrar no bom caminho.
Às duas semanas do funeral do Harry o duque tinha
despertado Nick de uma bebedeira para casá-lo com Júlia.
Como este se negou, o velho desgraçado ameaçou astutamente
revelar as verdadeiras circunstâncias da morte de Harry. Nick
se sentia muito culpado pelo acontecido. Era consciente de que
a memória de Harry não merecia a desonra de que o mundo se
inteirasse de que se enforcou no escritório da mansão Seaton.
De modo que tinha aguentado a cerimônia e partira naquela
mesma noite, jurando não voltar jamais nem consumar seu
matrimônio.
Juramento agora quebrado devido à perfídia de sua
esposa.
Nick suspirou e sepultou a antiga dor ao mesmo tempo
que a carruagem se detinha. Uma vez que apeou, voltou-se
para Fitz.
— Quero seu palacete vigiado. Quero saber quem entra e
quando sai.
Fitz assentiu.
— Vinte e quatro horas?
— Sim, claro, as vinte e quatro horas. — Se recebesse
visitas noturnas, quereria sabê-lo, sem dúvida. — Quero
relatórios regulares. Vá procurar alguém que comece já. Leve a
carruagem.
Fitz assentiu de novo e Nick se dirigiu para a casa. Subiu
as escadas com ímpeto e a porta se abriu no ato. Apareceu
Marlowe, o mordomo.
— Boa tarde, sua excelência. Espero que seu encontro
tenha sido bom.
Marlowe pegou o chapéu e o sobretudo de Nick.
— Estupendo — Nick murmurou e foi para seu escritório.
Necessitava de um gole.
— Sua excelência, tem visita — Marlowe disse em voz alta.
Nick ficou gelado.
— Quem?
— Lorde Winchester o espera na biblioteca. — Teria sua
excelência a bondade de vê-lo agora? Insistiu muito em esperar
até que retornasse.
Em lugar de responder Nick andou com passo decidido até
à porta da biblioteca, abriu-a e encontrou Winchester
esparramado em uma poltrona.
Winchester elevou a vista, na palma da mão sustentava
uma taça de clarete.
— Está cômodo? — Nick perguntou com desdém. —
Porque não recordo haver te dado uma taça. — Plantou-se ante
ele com as pernas separadas e os braços cruzados diante do
peito. Além de sua mulher, Winchester era a última pessoa que
queria ver neste momento. — Nem de te haver deixado entrar,
de fato.
— Marlow tem melhores maneiras que você — Winchester
comentou. — Me diga, pretende voltar a me bater ou está
disposto a falar como uma pessoa sã e racional?
Nick se aproximou um passo mais.
— Não saberia te dizer. Por que não se levanta e
averiguamos?
Winchester suspirou.
— Nesse caso acredito que seguirei sentado.
Nick foi com grandes passadas até à licoreira. Pegou uma
taça de cristal e se serviu dois dedos do melhor brandy de seu
pai. Seu pai era um canalha, mas perito em licores.
Nick tomou assento em frente a Winchester e fulminou
com o olhar seu antigo amigo. Quase podia visualizá-lo com
Júlia, suas loiras cabeças coladas enquanto sussurravam e
beijavam. Enquanto conspiravam. Ferveram-lhe as vísceras de
ciúme e ira. Tomou um bom gole de brandy e o aliviou que o
ardor do licor lhe queimasse agora as vísceras.
— E então? — Nick perguntou.
— Não vai me pôr isso fácil, não é?
— Por que o faria? Tem a maldita sorte de que ainda não
te pedi explicações.
— Explicações? A mim? — Winchester explodiu. — É…
idiota. Eu sim que deveria te pedir explicações pelo vergonhoso
trato que deu a Júlia.
— Cuidado — Nick advertiu com voz muito baixa. — Se eu
fosse você não me ameaçaria. E, de agora em adiante, não se
dirija à minha esposa por seu nome de batismo.
Winchester meneou a cabeça olhando ao teto, exasperado.
— Idiota. Maldito presunçoso, estúpido arrogante. Deve-
me uma desculpa em toda regra quando isto acabar. — Nick
emitiu um som de desdém e Winchester entreabriu os olhos. —
Já vejo que não crê. Deus, não sei nem por que me incomodo.
Se não fosse por sua mulher…
— O quê? Por tudo o que mais queira, acabe a frase.
Estou desejando me inteirar do que sente por minha mulher —
Nick provocou. — Você jogou fora, Winchester?
Winchester o fulminou com um olhar tão aceso que Nick
soube a resposta. Seu amigo não se deitara com Júlia. Uma
fugaz corrente de alívio percorreu seu corpo até que recordou
que ela se deitou com alguém mais além dele mesmo.
— Sabe que não. Eu não faria isso com você, e Júlia foi
como uma irmã para mim. E se não guardar a língua e atender
à razão, Colton, ver-me-ei obrigado a te partir os dentes.
Nick abriu a boca para desafiar Winchester, mas este
elevou uma mão.
— Não, pelo amor de Deus, homem, não me desafie. O que
tenho que dizer é muito importante. Deixa de falar até que eu
termine, nada mais.
Depois do direto assentimento de cabeça de Nick,
Winchester começou:
— Conheço sua mulher desde que tinha sete anos. — Nick
emitiu um som de impaciência, e Winchester soltou: — Sei que
não é nada novo, mas me deixe contar tudo. Embora seja mais
velho quase nove anos, sua mulher é a irmã que nunca tive.
Em férias, voltava para casa do colégio e ali estava ela, indo
daqui para lá com os aldeãos como se não fosse filha de um
marquês. Seu título remonta até Carlos II, mas Júlia não era
esnobe nem sentenciosa. Todo mundo gostava dela. É uma das
melhores pessoas que conheço.
Nick se removeu, incômodo. Não queria ouvir as virtudes
de sua mulher nesse momento, nem em nenhum outro, na
verdade, mas não interrompeu Winchester, que continuou:
— Agora bem, o que não sabe é que seu pai tinha os
credores esmurrando sua porta. Quando nos inteiramos já era
muito tarde, naturalmente, mas teve uns problemas de jogo
tremendos. Ela não teve dote, mas como seu pai e o marquês
eram amigos, o duque pagou uma dinheirama pela Júlia.
Dinheiro que desapareceu em poucos anos.
Winchester tomou um sorvo de clarete.
— O que é importante pelo que aconteceu quando você se
foi. O pai da Júlia faleceu no ano de suas bodas. À sua morte,
ela se deu conta de que tinha que vender tudo para pagar as
dívidas que o pai tinha contraído jogando. Não recebeu herança
alguma dele.
Nick blasfemou em voz baixa, e Winchester assentiu.
— Isso mesmo. Júlia tinha um dinheiro que tinha herdado
quando a mãe morreu anos atrás, mas não era grande coisa.
Entretanto, sim, recebeu uma atribuição do imóvel Colton,
estipulada por seu pai no momento das bodas. Uns trocados,
na realidade. Sua mãe nem sequer queria que Júlia cobrasse
isso, mas não pôde impedir; em troca, impediu que vivesse em
quaisquer das propriedades ducais, por isso se viu obrigada a
gastar com prudência e austeridade, e ela e sua tia alugaram
seu pequeno palacete de Mayfair. Lembra-se de seu segundo
primo, lorde Templeton?
Nick encolheu os ombros.
— Vagamente.
— Poucos anos depois que seu pai morreu, Templeton
apresentou uns documentos que garantiam seu posto de
guardião do imóvel Colton em sua ausência. Sua mãe poderia
havê-lo freado, mas não o fez, e Templeton seguiu
monopolizando cada vez mais controle, e mais dinheiro. Leva
os últimos três anos baixando a atribuição de Júlia. Ao
comprovar que seus recursos eram tão escassos, sua mulher
foi ver sua mãe.
Nick torceu o gesto, pensativo enquanto fazia girar o
brandy dentro da taça. Júlia estaria muito desesperada para ir
ver a viúva do duque. E seguramente sua mãe se negou a
ajudar a qualquer um que tivesse algo a ver com seu filho
menos favorito. Por que Júlia não lhe tinha escrito? Winchester
tinha sabido onde encontrá-lo em todo momento. Sua esposa
poderia ter pedido ajuda, e ele… talvez tivesse intercedido por
ela.
— Pode imaginar como foi aquela conversação —
Winchester disse. — Quando sua mãe se negou a ajudá-la,
Júlia se desesperou. E logo Templeton foi outra vez a vê-la para
a informar de um novo corte em sua atribuição. Com o que
ficou frenética, porque já era curta. Quando protestou, seu
primo lhe disse que podia complementar a atribuição lhe
fazendo favores sexuais. E se se atrever a sugerir que ela
aceitou, te estrangularei.
Nick não disse nada. Em sua cabeça se formaram
redemoinhos de diversas teorias, mas nenhuma adequada para
compartilhar com Winchester, que pelo visto pensava defender
a duquesa até o último fôlego.
— Abandonou-a durante oito condenados anos, Colton.
Sua família se aproveitou dela, enganou-a e por pouco a deixa
na indigência. Foi você quem prometeu ante Deus cuidá-la e
mantê-la, e não fez nenhuma das duas coisas. O ardil para te
seduzir, embora insensato, era seu último intento por
conseguir certo controle. Pensou que se conseguisse dar à luz
teu filho, o herdeiro dos Colton, sua mãe a brindaria com mais
apoio econômico.
Nick tragou mais brandy para assimilar as palavras de
Winchester. Sim, tinha prometido amar e honrar a sua mulher,
mas foi um juramento contra sua vontade. Jamais quis estar
casado, embora entendesse que deixá-la à sua sorte durante
oito anos tinha sido bastante… cruel por sua parte.
Mesmo assim, Júlia não tinha direito de enganá-lo. E a
ideia de que em seu primeiro encontro tinha sido virgem era
absurda. Tinha-o montado em uma cadeira, pelo amor de
Deus. As damas de linhagem eram educadas para manter
relações conjugais só na cama, na escuridão da noite, sob os
lençóis e unicamente com mínimo contato. Ele tinha ejaculado
em sua boca. Nenhuma dama refinada consentiria algo
semelhante. Não, Júlia e ele sabiam a verdade. O tempo lhe
daria a razão.
Winchester o estava olhando fixamente, assim Nick
perguntou:
— Acabou?
Winchester suspirou e assentiu.
— Pode ser que você creia nessa história, mas eu não.
Deitei-me com ela e te digo que não era virgem. Tinha
experiência que uma mulher casta jamais teria. — Winchester
ia protestar, mas Nick elevou uma mão. — Não, eu te escutei;
agora me escuta você. Embora a história do drama financeiro
pareça certa, coisa que recompensarei por pouco que possa, eu
acredito que descobriu que estava grávida, coagiu-te para que a
levasse para Veneza e me seduziu para legitimar seu bastardo.
— Isso é ridículo! — Winchester bramou derramando o
clarete da taça ao ficar rapidamente de pé. — Tinha experiência
porque contratou uma cortesã para que a assessorasse. Jesus,
Colton! — Começou a caminhar de um lado ao outro. — É
necessário que pense o pior de todo o mundo? Sei que sua mãe
te ignorou e seu pai era um imbecil, mas nem todo mundo é
assim. Júlia jamais te enganaria dessa forma. Nem em sonhos.
É muito orgulhosa.
Nick também ficou de pé.
— Bom, suponho que veremos quando nascer a criança,
não? Já fiz as contas. Se o bebê for meu, nascerá em setembro.
— E Júlia terá que esperar sete meses para que reconheça
o bebê que ela espera? Deus, que teimoso é! Sabe o que os
abutres e a imprensa farão com sua reputação enquanto isso,
não é? Sei que está zangado, mas deixar que a esquartejem é
extremamente cruel; inclusive vindo de ti. E a reputação do seu
filho? Colton, pensa em alguém que não seja você mesmo, para
variar.
Nick não havia considerado os falatórios, mas não estava
disposto a confessar a Winchester. Sentiu certa culpabilidade;
uma chateação. Então lhe ocorreu uma solução que resolveria
o problema da reputação de Júlia e o daquele com quem sua
mulher estivesse lhe pondo chifres.
— Está bem. Irei mandá-la para longe da cidade, à
mansão Seaton.
Winchester se pôs-se a rir.
— Você crê que Júlia aceitará.
— Não terá mais opção.
— Nick, deveria saber… — Winchester começou, mas se
deteve.
Sacudiu a cabeça e desviou a vista.
— O quê?
— Nada, não penso seguir me envolvendo. Já são
grandinhos, que Deus os ajude. — Bebeu o clarete de um gole e
deixou a taça em cima da mesa. Então olhou ao Nick com
dureza. — Mas não a machuque, ou virei atrás de você, juro-o.

***

Avançada a tarde, um criado pessoal do serviço de Colton


chegou com uma nota. Era sucinta.

Faça as malas. Irá à mansão Seaton pela manhã.


N.S.

Júlia começou a sentir picadas no olho, assim pressionou


a zona com dois dedos, massageando-se.
— O que ocorre? — Theo perguntou.
— Ordenaram-me que vá à mansão Seaton. — Levantou a
vista para o criado. — Tenho que enviar uma resposta. Um
segundo, por favor.
Ele assentiu e foi esperar no corredor enquanto Júlia
mostrava a nota à sua tia.
— Homem de poucas palavras, não é? — Theo resmungou.
— O que vai lhe dizer?
— Direi que não, evidentemente. — Júlia foi até seu
escritório, onde pegou sua pluma. — E «vá ao inferno» é uma
resposta muito brusca? — Perguntou a Theo.
— Em minha opinião, não, mas tem que reparar seu
orgulho. Um pouco de ternura faz maravilhas em um homem.
Júlia murmurou toda classe de barbaridades sobre o
orgulho masculino antes de usar a pluma. Escreveu:

Agradeço sua inquietação, mas considero insensata essa


medida. É muito cedo para meu confinamento.
J.S.

Mandou a resposta e deu umas risadas com Theo a


respeito. Só a idéia de que a mandassem à casa de campo de
Nick… o que o fazia pensar que ela aceitaria algo semelhante?
Retomou a leitura de seu livro convencida de que o assunto
estava resolvido.
Em vinte minutos o criado do duque estava de volta.

Você é minha mulher, senhora, portanto irá onde eu lhe


disser. Minha carruagem chegará amanhã às oito da manhã em
ponto. Se não estiver esperando preparada, Fitz tem ordens de
recolhê-la como estiver.
N.S.

Theo estalou a língua ao ler a nota.


— Suponho que o melhor será que faça as malas.
— Não penso ir — Júlia declarou categoricamente. —
Deixe que Fitz venha e me leve. Colton não pode me obrigar a
fazer nada.
Theo arqueou as sobrancelhas.
— Sério, Júlia, não estou segura de que semelhante luta
vá beneficiar o bebê.
Aninhou em seu peito uma pontada de culpabilidade. A
última coisa que queria era prejudicar seu filho. Theo teria
razão?
— Quanto tempo Colton pretende que eu fique ali? A idéia
de me obrigar a sair de casa é… medieval.
— Bom, não nos ponhamos pessimistas. Para o bebê,
nascer no campo será o melhor. Considere simplesmente uma
oportunidade para se assentar antes que esteja em avançado
estado de gestação.
Júlia tamborilou com os dedos sobre a mesa. Tinha a
intenção de ir ao campo no sexto ou sétimo mês. Talvez ir antes
tivesse seu sentido. Suspirou.
— Se eu for, diga que virá comigo, por favor.
— Sabe que detesto o campo, querida. Tanto ar fresco e
tanto tédio… acabará farta de mim.
— Por favor, tia Theo. Necessito-a ali. Só até que o bebê
nasça.
Tal como Júlia imaginou, mencionar o bebê funcionou. A
cara de Theo se suavizou e assentiu.
— Se me pede isso assim, como vou negar. Pois claro que
irei contigo! Deus, será melhor que vá agora mesmo me ocupar
das malas.
Júlia sorriu.
— Obrigada, tia Theo. Não sei o que faria sem ti.
Theo deu-lhe um abraço.
— O mesmo digo eu. Durante todos estes anos evitou que
eu seja uma viúva velha e solitária.
Júlia enxugou os olhos.
— Céus! Nunca tinha chorado tanto.
— Isso é devido ao bebê — Theo disse dirigindo-se para a
porta. — Logo passará.
Júlia escreveu uma resposta:

Decidi que irei, porque o ar do campo será benéfico para o


bebê. Minha tia aceitou vir comigo. Virá você também?
J.S.

O duque não respondeu até a hora do jantar. Júlia e Theo


estavam na recolhida sala de jantar saboreando uma sopa de
tartaruga quando o criado do duque reapareceu. Júlia abriu a
nota e leu a resposta de Colton:

Não.
N.S.

Nenhuma explicação, nenhuma promessa de ir vê-la. Uma


palavra foi a única coisa que seu marido foi capaz de lhe
dedicar. Uma só palavra vinda do homem que em Veneza tinha
perseguido com tanto ardor a senhora Leighton. Mais irritada
do que queria admitir, Júlia espremeu o papel e o atirou no
prato de sopa, que não tinha provado.
Essa insignificante criancice a fez sentir melhor.
— Sua excelência gostaria de enviar uma resposta? — O
criado de Colton perguntou, atônito ao ver a missiva do duque
flutuando na sopa de tartaruga.
— Não, não será necessário.
Quando Theo e ela voltaram a ficar a sós na sala de
jantar, Júlia lhe contou o ocorrido.
— Não virá? — Theo clamou.
— Não. Não sei se estou furiosa ou aliviada. Esse homem
desaparece durante oito anos e assim que volta me manda a
uma de suas casas de campo. Sozinha! Mas o que se acredita?
— Temo que vai ter que brigar muito com seu marido.
Júlia suspirou.
— Sei. Está zangado e está claro que não quer ver-me.
Talvez seja o melhor.
— O melhor? Uma ova! Como duas pessoas vão ao...
ahhh...Theo suspirou e pegou a colher. — Não estranho que
queiram matar esse homem.
— Tia Theo!
Júlia adorava a sua tia, mas às vezes dizia autênticas
barbaridades.
— O quê? É a verdade. Ouça, pode ser que seja o xerez,
mas não consigo recordar onde se encontra a mansão Seaton.
— Justo nos subúrbios de Norfolk. Eu só estive lá uma
vez, quando fui pedir ajuda à viúva do duque. É um imóvel
lindo, embora teremos que ir deixando miolos de pão para nos
assegurar de encontrar o caminho de volta.
— Procurarei colocar alguns na mala — Theo disse com
um sorriso. Assinalou o prato de Júlia. — Quer mais sopa,
querida?
***

Irritável e inquieto, Nick passeou de um lado ao outro de


seu escritório. Era muito tarde para lutar com Templeton essa
noite, por isso não haveria válvula de escape para a sensação
de ardência que notava debaixo da pele. A frustração por um
lado, a ira pelo outro e algo mais que raiava a culpa o
impediam de sentar-se.
As palavras de Winchester ainda o atormentavam. Não
gostava de refletir sobre a dor e o sofrimento padecidos por
Júlia em sua ausência. No que sua mãe estaria pensando?
Ceder o controle do imóvel a Templeton tinha sido uma
autêntica estupidez e sua mãe sempre tinha sido uma mulher
ardilosa e calculista. Tinha sido uma manobra para fazer com
que seu filho voltasse para a Inglaterra? Agora que havia
falecido nunca teria a possibilidade de perguntar-lhe.
Então Júlia e Winchester não tinham sido amantes. Então
quem tinha sido? A quem sua mulher havia convidado à sua
cama? Wyndham era o que parecia mais provável, embora
poderia ter tido mais de um amante no passado; ao fim e ao
cabo, a ampla experiência de Júlia não era fruto de um par de
coitos fugazes no jardim durante um baile. Nem era fruto de
um par de conversações com uma cortesã. Não, algum homem
instruíra sua mulher. Tinha lhe ensinado onde acariciar, como
beijar. Tinha lhe mostrado a maneira exata de deixar um
homem louco.
E ele pretendia averiguar exatamente quem tinha sido.
Visualizou-a, a última vez antes de despedir-se em
Veneza, visualizou seus carnudos lábios ao redor da ponta de
seu pênis, e quase gemeu. O desejo estava ali, bulindo em suas
vísceras embora o tivesse enganado. Por desgraça, ao seu corpo
não importava o que sua mente sabia. Desejava-a tão
desesperadamente que temeu ficar completamente louco.
Pois bem, tinha chegado o momento de fazer algo a
respeito, então andou com resolução para a porta.
— Marlowe — gritou. — Que tragam minha carruagem.
Marlowe apareceu e ordenou a um criado que fosse
correndo às cavalariças.
— Seu casaco, sua excelência?
Quando tinha pego o casaco, o chapéu e a bengala, a
carruagem se deteve em frente à porta principal, Fitz nas
rédeas. Nick deu uma direção que não tinha esquecido em oito
anos.
O trajeto não foi longo e logo estava subindo de duas em
duas as escadas da modesta casa de três plantas. De fora
ninguém diria jamais que aquele era o bordel mais elitista de
Londres, um lugar que Nick recordava à perfeição. Um homem
do tamanho de Fitz abriu a porta, e ele entrou tranquilamente.
Madama Hartley foi correndo ao seu encontro.
— Sua excelência. Disseram-me que havia retornado.
Estava desejando que viesse para ver-me.
Com seus delicados traços e maneiras refinadas, madame
Hartley era uma mulher formosa. Reparou em seu elegante
vestido de noite de seda limão e em suas luvas. Se a visse pelas
ruas de Londres, jamais saberia que era a abadessa do
convento de monjas mais exclusivo da cidade.
— Como não ia vir? — Ele sussurrou enquanto um criado
lhe oferecia uma taça em uma bandeja. Uísque. Madame
Hartley lembrou. — Vejo que não houve muitas mudanças em
oito anos.
No salão principal da direita, onde um papel de parede
vermelho profusamente estampado rodeava o elegante
mobiliário, os homens de moda da sociedade alternavam com
as garotas de madame. Nesse momento havia muito
movimento. Nada menos que seis homens relaxavam na sala
com dois copos na mão, predispostos a uma noite de desenfreio
civilizado.
Nick inspirou profundamente o familiar aroma de perfume
barato e enjoativo misturado com sexo, que foi como um
bálsamo para sua alma lasciva. Estava como em casa. Tinha
passado ali uma infinidade de noites.
Um fato que seu irmão lhe tinha reprovado naquela
fatídica noite. «Tratou a minha mulher tão mal como uma das
putas de Hartley. Talvez papai tenha razão. Talvez não distinga
uma puta de uma dama.»
— Algum requisito específico para esta noite, sua
excelência? Ou quer esperar para ver se alguma é de seu
agrado?
Madame Hartley começou a acompanhá-lo para o salão
principal, mas Nick a deteve.
— Confio em você, madame. Conhecemo-nos o bastante.
Os lábios de Hartley se curvaram para cima.
— Assim é, sua excelência. Esta noite será uma ruiva,
acredito.
Virou-se e sussurrou a uma garota que havia por ali. Nick
esteve a ponto de lhe dizer que sob nenhum conceito queria
uma ruiva, mas sim a queria, Deus! Queria uma ruiva em
concreto.
Possivelmente esta noite pudesse esquecê-la.
Poucos minutos depois conduziram Nick ao que sabia que
era o quarto maior e mais luxuoso do segundo andar.
Comprovou que ter sido um cliente habitual tinha suas
vantagens. A cama era grande e em uma parede havia uma
lareira de mármore nem muito grande nem muito pequena em
cujo interior resplandecia uma agradável luz. O quarto era
masculino, de verdes escuros, azuis e maciços móveis de
madeira. Uns desenhos eróticos decoravam as paredes.
Deixaram Nick esperando sozinho, mas não muito tempo.
Quando a porta se abriu apareceu uma garota e o coração
de Nick quase parou. Era assombroso. Parecia-se tanto a Juliet
que mal podia respirar. Seios voluptuosos e generosos, cintura
estreita, cabelos de um vermelho intenso recolhidos no alto da
cabeça. Então pousou os olhos em seu rosto e em seguida
reparou nas diferenças. Essa mulher não tinha as delicadas
feições nem a pele de cor nata de Juliet. Não, era mais tosca,
menos refinada. E seus olhos eram marrons, enquanto que os
dela eram do azul mais claro que alguém esperaria ver…
Nick afugentou esse pensamento. Esqueceria, sim.
Levantou um dedo e fez gestos à garota para que se
aproximasse. Ela avançou com um descarado rebolado de
quadril e ato seguido fez uma reverência.
— Sua excelência. Gostaria de tomar primeiro uma taça?
Nick sacudiu a cabeça.
— Não, não será necessário.
A garota mostrou a ponta da língua e a deslizou pelo lábio
superior.
— Quer que o dispa?
— Deus, sim! — Ele resmungou. — Mas primeiro solte o
cabelo.
A garota lhe sorriu e começou a tirar as forquilhas do
cabelo. Pouco a pouco as longas mechas vermelhas foram
caindo no meio das costas. Sacudiu o cabelo com um meneio
de cabeça e ele esticou a mão para deslizar os dedos por este.
Não era tão suave como…
«Jesus.» Mas o que lhe ocorria?
Nick pegou a garota pelas mãos e as colocou nos botões de
suas calças. Enquanto seus ágeis dedos começavam a
trabalhar, tirou o casaco e o atirou sobre uma cadeira do outro
lado do quarto. Tinha começado a desabotoar o colete quando a
mão da garota deu com seu pênis nu.
Ele gemeu e deixou cair as pálpebras. Ficou duro em
questão de segundos. Balançou os quadris para diante para
investir contra o punho fechado da garota, que o liberou da
roupa e logo se ajoelhou. Quando quis dar-se conta do que
acontecia ela introduziu seu membro na boca.
— Sim… — ele disse entredentes enquanto lhe estimulava
a base com a língua.
Deslizou os lábios por seu membro e o introduziu até o
fundo, a ponta de seu pênis lhe chegando à garganta. Passou-
lhe os dedos pelo cabelo e evocou outro momento, outro lugar.
Ela se moveu mais depressa, sugando-lhe o membro com
mais força, acariciando-o, e o peito de Nick começou a subir e
descer pelos ofegos. A luxúria lhe percorreu a coluna e notou
que ainda o punha mais duro.
— Oh, sim, Juliet! Chupe-me, cara.
De repente a boca retrocedeu, soltando o membro com um
úmido estalo. Nick piscou e olhou para baixo.
— Assim quer me chamar, Juliet? — Inquiriu um rosto
desconhecido. Não era o rosto em que ele tinha estado
pensando.
Quando se viu cara a cara com a realidade procurou
manter a compostura.
— Como diz?
— Chamou-me de Juliet. Meu nome é Sarah, embora não
importe como me chame.
— Ah, sim?
Nick se afastou pela vergonha e a frustração. Não queria
esta mulher. Queria a outra, a que o tinha abandonado em
Veneza.
Chamou-se a si mesmo de exímio idiota enquanto
abotoava as calças. Poderia algum dia fugir de sua lembrança?
— Me desculpe-disse. — Farei com que lhe paguem a noite
inteira.
Colocou o casaco sem incomodar-se em abotoá-lo e saiu
irado ao corredor.
Capítulo 10
Aos homens convém certa rivalidade.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Às oito e quinze em ponto da manhã seguinte, Júlia e sua


tia subiram na opulenta carruagem de cavalos ducal rumo a
Norfolk. O gélido ar de fevereiro fez com que se aninhassem
dentro com tijolos quentes e grossas mantas enquanto Fitz e o
cocheiro foram abrigados com luvas, casacos e peles.
Antes de partir Fitz tinha dado instrução a Júlia de
golpear o teto se por qualquer razão precisasse parar. Ao que
parecia não tinha esquecido que tinha vomitado na outra noite
pela lateral da carruagem. Agradeceu e ele acrescentou:
— Sua excelência disse que hoje não a forcemos muito,
embora certamente não gostaria que eu estivesse repetindo-o.
Piscou-lhe um olho e a seguir subiu à boleia.
— Este homem dá medo — Theo sussurrou enquanto a
carruagem se afastava estralando. — De onde Colton o tirou?
— Não sei. Talvez descubramos quando pararmos para
comer.
Theo se removeu com pesar em seu assento.
— Céus, odeio viajar! Nunca fico cômoda nessas
conduções. Como se encontra? Tomou o café da manhã esta
manhã?
Júlia levantou a bolsa que sua cozinheira lhe tinha
preparado.
— Sim, e levo um montão de madalenas, macarons e
pãezinhos para ter algo no estômago durante a viagem.
— Estupendo. Pergunto-me se Colton comunicou à sua
cunhada que chegaremos amanhã.
— Ora! — Júlia exclamou. — Tinha me esquecido
totalmente dela. Como nos receberá? Porque imagino que não
lhe fará muita graça ter convidados.
— Não sei, mas é de supor que estará muito sozinha. —
Theo se removeu de novo em seu assento e, resmungando,
disse algo sobre as distâncias longas em carruagem. — Alguma
vez se perguntou o que aconteceu realmente entre Colton e ela?
Júlia suspirou.
— Procuro não pensar nisso. Colton jamais negou que a
seduzira, mas tampouco o confirmou. Quando lhe perguntei a
respeito em Veneza deu-me a sensação de que aí havia algo
mais. É… doloroso para ele.
— Ora, posso imaginar isso. Devido aos seus atos seu
irmão morreu.
— Suponho. Embora acredite que podemos dar por certo
que os Seaton nunca foram uma família unida.
Theo soprou e fechou os olhos.
— Desperte para comer, querida. A única maneira de
suportar este espantoso suplício é dormindo — disse e puxou
as grossas mantas até cobrir o peito e bocejou. Em dez minutos
começou a roncar.

***
Na manhã seguinte que Júlia foi para o campo, Nick e seu
advogado recém contratado, se apresentaram no palacete de
seu primo. O mordomo de Templeton os fez entrar no escritório
com prontidão para que esperassem que viesse o dono da casa.
Não havia dúvida de que Templeton vivia bem, Nick
percebeu. Era uma casa pequena nos subúrbios de Mayfair,
mas todos os móveis pareciam bastante novos. Não havia nada
desgastado nem deteriorado: flores frescas habilmente
dispostas em toda parte, inclusive tulipas, que não eram
baratas; enormes tapetes turcos pulverizados pelo chão e
quadros cobrindo as paredes; uma infinidade de licoreiras de
cristal colocadas na mesa, todas cheias de licor. Sim,
Templeton vivia bem para ser um homem que supostamente
recebia menos de trezentas libras ao ano.
Embora para falar a verdade, a Nick não preocupava o
legado dos Seaton nem lhe preocupava muito o imóvel Colton,
embora o preocupasse que o extorquissem. E lhe preocupava
muito, muitíssimo que Templeton roubasse dinheiro de sua
mulher com a esperança de obrigá-la a deitar-se com ele.
Templeton se deu bem? Era seu primo o pai do bebê de
Júlia?
A porta se abriu e entrou um homem que Nick supôs que
era lorde Templeton. De cabelo castanho espaçado e testa alta,
Templeton tinha um nariz afiado e queixo bicudo. Nick o
reconheceu imediatamente do baile de Collingswood. Ele estava
no terraço observando a sua mulher e este homem a tinha
abordado justo antes que ela saísse. Para vomitar.
Júlia não tinha reagido a ele favoravelmente. De fato,
tinha-lhe revolto o estômago. Se este homem e a duquesa eram
amantes, ele era o arcebispo de Canterbury.
O que significava que Winchester havia dito a verdade.
Templeton tinha chantageado a duquesa para meter-se debaixo
de suas saias.
Um novo ataque de fúria o sacudiu. Oh, como ia desfrutar
com isto!
— Sua excelência, que grata surpresa — Templeton disse,
seus impenetráveis olhos pousando em um e outro visitante. —
Bem-vindo de novo a Londres.
— Obrigado. Me permita que o apresente ao meu novo
advogado, o senhor Barnaby Young. A partir de agora se
ocupará de todos os assuntos do imóvel Colton.
Sentou-se e tirou uma penugem imaginária dos calções
enquanto deixava que Templeton assimilasse o alcance
daquelas palavras.
— Não… não o entendo, sua excelência. Estou seguro de
que não quererá ocupar-se dos assuntos do imóvel durante sua
breve estadia aqui em Londres — disse sentando-se, e Nick viu
que o suor cobria o lábio superior de seu primo.
— Diz bem, por isso contratei o senhor Young, quem à sua
vez contratará um administrador de imóveis competente, e os
dois velarão por meus interesses. De modo que dure o que dure
minha estadia aqui, não é necessário que você siga
encarregando-se de tudo.
Templeton moveu a boca como se quisesse falar, mas não
encontrasse as palavras. Nick lhe dedicou um sorriso nada
cálido.
— Não me agradeça, Templeton. Sei que esta notícia é um
alívio para você e quão complicado foi seu trabalho estes
últimos anos. — Assinalou ao senhor Young. — E agora, se não
for inconveniente, o senhor Young necessita que assine uns
documentos que pedi que redigisse.
O advogado extraiu um montão de papéis de sua pasta e
os deu ao Templeton, quem os aceitou a contragosto.
Nick ficou de pé e foi tranquilamente até a mesa enquanto
Templeton lia o conteúdo. Ouviu-o suspirar.
— Siga lendo — disse ao seu primo. — Logo melhora.
Sobre a mesa Nick viu pilhas de faturas de diversos
lojistas e comerciantes.
— Sua excelência, — disse Templeton soltando uma
exclamação — isto é ridículo. Aqui põe que se descobrir que
nos últimos anos houve apropriação indevida de recursos,
requererá que os devolva ao imóvel.
— Correto, o que não será um problema, não é, primo?
A mão de Templeton tremeu ao deixar os papéis em uma
mesa auxiliar.
— Mas o administrador do imóvel também administrava
os recursos, por que vou eu cobrir os recursos que ele tenha
podido desviar? Isso é tremendamente inapropriado e
absolutamente injusto.
— Tenha a segurança de que o senhor Young e eu
falaremos hoje com o ajudante do meu pai. — Pegou a pluma e
a fez girar entre seus dedos. — Se tiver roubado recursos do
imóvel terá que atuar em consequência. Enquanto isso conviria
que você assinasse estes documentos.
Templeton assinalou para os papéis.
— Não estou seguro de que deva assinar nada ainda.
Talvez meu advogado devesse lhes dar uma olhada.
— Senhor Young, rogo-lhe que espere um momento no
corredor.
Sem dizer uma palavra, o advogado de Nick saiu da sala
fechando a porta discretamente ao fazê-lo.
O sorriso de Nick se esfumou. Deus, tinha vontade de
esmagar o Templeton. Saltava à vista que o tipo era culpado,
embora certamente negaria até seu último fôlego. O qual, tendo
em conta o que tinha feito a Júlia, possivelmente chegasse
mais cedo que tarde.
A ira que Nick tinha tentado controlar explodiu então com
virulência. De pé ante Templeton, apoiou um pé na borda da
cadeira e a empurrou para frente. A cadeira ficou sobre os dois
pés traseiros e, com um empurrão mais, esta e Templeton
caíram contra o chão.
Nick pisou em seguida no pescoço de Templeton com o
salto da bota. O tipo abriu desmesuradamente os olhos pelo
medo, seu rosto avermelhado, por isso Nick pressionou um
pouco mais.
Os olhos de Templeton lhe saíam das órbitas e Nick soube
então que tinha monopolizado a atenção de seu primo.
— Se acreditava — resmungou — que eu ia deixar que me
roubasse e fizesse proposições desonestas à minha mulher,
você está muito equivocado. Caso lhe ocorra voltar a dirigir a
palavra à duquesa, seja para o que for, ou sequer olhar na sua
maldita direção, não me darei ao trabalho de ir vê-lo à alvorada
como um cavalheiro. Não, o pegarei de noite em uma rua
escura, o arrastarei até um beco e lhe arrancarei o coração do
peito com as mãos.
Ao ver que a pele de Templeton ficava roxa, Nick levantou
o pé, deixando o homem respirar. Retrocedeu e alisou o casaco,
encantado de que o homem se afastasse dele sufocando.
— Sua implicação em meus assuntos acabou, Templeton.
Agora pode assinar esses papéis voluntariamente e sofrer as
consequências, ou passar o resto de sua vida olhando cada
noite por cima de seu ombro, perguntando-se o que vou fazer e
quando.
Templeton tragou saliva e assentiu.
— Magnífico — Nick disse, e a seguir fez entrar de novo o
senhor Young na habitação.
Se ao advogado lhe surpreendeu ver uma cadeira
derrubada e a Templeton respirando com dificuldade, não
deixou notar.
Depois de assinar e atestar os papéis, o senhor Young os
guardou.
— Agora necessitaremos de qualquer livro de
contabilidade ou papel que tenha relacionado com o imóvel
Colton, Templeton.
Nick cruzou os braços diante do peito e esperou.
Cinco minutos depois Nick e seu advogado saíam.
Templeton tinha assegurado que os livros de contabilidade
estavam com o antigo administrador do imóvel, e não lhes
tinha ficado mais solução que acreditar.
— Senhor Young, vá em minha carruagem ver o ajudante
do meu pai. Comunique-lhe o afastamento de seus serviços e
tire-lhe todos os papéis e contas que possamos necessitar. Não
acredito que vá dar-lhe problemas, mas se o fizer, mande meu
lacaio vir me buscar.
— Sim, sua excelência.
— Leve o senhor Young onde tiver que ir — Nick gritou ao
seu cocheiro.
Um de seus lacaios saltou da carruagem.
— Desculpe, sua excelência, mas o senhor Fitzpatrick me
disse que, em sua ausência, siga-o para onde for.
Nick suspirou. Era como ter uma ditosa babá.
— Fique com o senhor Young, David. Pode ser que
necessite de sua ajuda mais que eu. — Quando o rapaz quis
protestar, Nick elevou uma mão. — Irei andando ao meu clube,
que não fica longe. E estamos em Mayfair, pelo amor de Deus.
Não me acontecerá nada.
— Fitz não gostará disso — murmurou o rapaz.
— Ora, mas o salário quem lhe paga sou eu — Nick
retrucou e se foi rua abaixo.
Só que não se dirigia ao White. Tinha mentido. Ficava
uma tarefa desagradável mais nessa manhã, uma que tinha
que fazer sozinho.
Do outro lado da Grosvenor Square vivia um tal lorde
Robert Wyndham. Embora tivesse passado algum tempo, Nick
recordava Wyndham dos clubes e de havê-lo visto pela cidade.
Era vários anos mais novo que ele e parecia bastante
reservado. Um rato de biblioteca, diria Nick; certamente tinha
esse perfil. Não entendia o que Júlia tinha visto naquele
homem.
Dez minutos depois Nick estava dando seu cartão ao
mordomo de Wyndham. Embora não fossem horas para fazer
visitas, ninguém deixava um duque esperando na porta,
especialmente um tão infame como o Duque Depravado. Como
cabia esperar, foi acompanhado no ato ao salão e o servente foi
confirmar a disponibilidade de sua senhoria.
A Nick não cabia nenhuma dúvida de que Wyndham
apareceria.
Não muito depois a porta se abriu. Wyndham, ao que
estava claro que acabava de sair da cama, entrou
apressadamente. Tinha umas feições bem pouco agraciadas:
cabelo castanho curto e olhos marrons, e uma barba espaçada
que não servia para conter o rubor de sua pele. Estupendo.
Wyndham sabia por que Nick estava ali.
— Sua excelência, — Wyndham saudou com recato
enquanto ambos os homens se sentavam, bem-vindo à casa.
— Obrigado, Wyndham. Sinto vir tão cedo, mas é uma
visita que preferiria que passasse desapercebida.
Wyndham tragou saliva.
— Necessita de algo, sua excelência?
Nick contemplou pensativo o outro homem, estendendo o
momento. Quando Wyndham se removeu incômodo em sua
cadeira, perguntou-lhe:
— Há algo que queira me dizer, Wyndham?
— Mmm… não sei a que se refere. — Pigarreou. — O que
ia querer… lhe dizer?
— Descobre-se certas coisas. Embora tenha vivido longe
de Londres, surpreender-se-ia quão desejosas as pessoas estão
por falar do que aconteceu e acontece aqui na cidade. — Nick
se reclinou e apoiou um tornozelo sobre o joelho contrário.
Embora pudesse aparentar tranquilidade, por dentro palpitava
de incerteza e raiva; mas era isso ou jogar-se sobre o
Wyndham, jogar-lhe as mãos ao pescoço e o obrigar a confessar
se tinha se deitado ou não com Júlia. — Assim estou bastante
a par de todos as últimas fofocas.
— Pois se tiver ouvido algo com respeito a minha pessoa,
— Wyndham retrucou — não há nada de certo no rumor.
Absolutamente nada.
Olhou para Nick diretamente aos olhos, sem pestanejar.
Podia ser que Wyndham fosse um mentiroso de primeira,
mas Nick acreditou. Mesmo assim, não estava completamente
seguro, nem estaria até setembro.
— Alegra-me ouvir isso, porque se pensasse que
determinados rumores são certos, ver-me-ia obrigado a me
ocupar do assunto. E com certeza sabe que não costumo seguir
o rumo estipulado. Para não mencionar que não gosto de me
levantar à alvorada. Não, prefiro com acréscimo o elemento
surpresa, ter meu inimigo em suspense. À espera do contra-
ataque. Não é muito limpo por minha parte, sei, mas é
imensamente mais divertido. Entende, Wyndham?
Wyndham assentiu energicamente.
— Sim, sua excelência. Certamente que sim.
— Magnífico — Nick anunciou, e ficou de pé. — Então
acredito que estamos bem.

***
Não muito depois de chegar à mansão Seaton, Júlia se
dedicou a percorrer a enorme e labiríntica estrutura. O valete
de Nick, Fitz, tinha voltado para Londres pouco depois de as
deixar, e Theo tinha ordenado a Júlia que descansasse dois
dias inteiros depois da viagem. Agora que se encontrava
melhor, estava desejosa de explorar seu novo lar; pelo menos
seu novo lar durante os próximos meses.
A casa em si era enorme. Como ainda fazia muito frio para
estar ao ar livre, percorreu o interminável labirinto de
corredores a fim de não pensar em suas permanentes náuseas,
para não mencionar a raiva e o desgosto pela recente crueldade
de Nick.
Oxalá não tivesse conhecido nunca o homem carinhoso e
terno que com tanta devoção a tinha cortejado em Veneza!
Tinha lembranças tão bonitas! Lembranças agora empanadas
pelo conhecimento de que seu marido pensava o pior dela. De
fato, acreditava que ela tinha ido a Veneza para legitimar o
bebê que tinha concebido com outro homem; tinha-a chamado
de vadia e a tinha acusado de se deitar tanto com Simon como
com Wyndham.
E agora a tinha enviado para longe.
— Sua excelência?
Júlia levantou bruscamente a cabeça. Lady Lambert, a
esposa do falecido irmão de Colton, estava a pouca distância.
Tinha lhes dado calorosas boas vindas ao chegar, para grande
alívio de Theo e Júlia.
— Bom dia, lady Lambert.
— Por favor, me chame de Angela. — Sorriu com
acanhamento e fez um gesto para a sala vazia que havia às
suas costas. — Se importa que nos sentemos um momento? Eu
gostaria de falar com você.
Júlia assentiu e entrou atrás dela no que resultou ser a
sala de música. No canto se achava um grande pianoforte
rodeado de cadeiras enquanto diversos instrumentos de corda
e trompas decoravam as paredes. Angela tomou assento e com
a mão indicou a Júlia que fizesse o mesmo.
— Espero que não pense que sou uma descarada —
começou Angela antes de alisar a saia. Pigarreou. — Mas eu
adoraria que fôssemos amigas. Entendo que possivelmente
tenha… motivos para não estar interessada em ter amizade
comigo. Disseram muitas coisas sobre mim, sobre… seu
marido, por isso queria lhe assegurar que qualquer rumor que
possa ter ouvido é falso.
Júlia ia falar, mas Angela levantou uma mão.
— Não, espere. Me deixe dizer tudo o que tenho que dizer.
Eu amava o meu marido. Fiquei desolada quando faleceu.
Muita gente acreditou nos rumores sobre seu marido e eu, e…
depois daquilo não tive muitos amigos. Quase toda a sociedade
me deu as costas, salvo a viúva do duque. Tratavam-me com
educação, naturalmente, mas quando acreditavam que não os
ouvia diziam coisas horríveis de mim. Os convites também se
acabaram. A viúva do duque foi muito… boa comigo, e lhe
agradecerei eternamente que me desse um lar quando ninguém
o fez.
Angela baixou os olhos e Júlia viu os olhos da mulher
alagados em lágrimas. Esticou um braço e tomou a mão de
Angela, dando-lhe um breve aperto.
— Alegra-me muito que você esteja aqui — Angela
sussurrou lhe devolvendo o aperto. — Faz muitos anos que não
tenho amigos mais ou menos da minha idade. A verdade é que
estive muito sozinha. Não sabe o quanto eu gostaria que
pudesse esquecer o que ouviu e… que, por favor, desse-me a
oportunidade de ser sua amiga.
— Naturalmente! — Júlia exclamou. — Eu adoraria,
Angela.
Angela relaxou visivelmente.
— Estupendo. — Enxugou os olhos e inspirou fundo. —
Bom, que tal se encontra hoje?
— Melhor, obrigada. Cada dia tenho menos náuseas.
Embora Angela soubesse que o bebê era do Nick, Júlia
não tinha divulgado as circunstâncias nas quais ficara grávida.
Não pensava revelar a ninguém… jamais.
— Pois já que se encontra melhor talvez queira me
acompanhar em meus passeios matutinos. Não vou muito
longe e seria agradável ter companhia.
Júlia assentiu.
— Eu adoraria. O ar fresco e o exercício serão de
maravilhosos.
— Excelente! Volto a perguntar: tem certeza que não
prefere que me mude à casa pequena? Acho estranho ficar aqui
quando legitimamente pertence a você. A outra mansão não
está longe e poderíamos seguir nos vendo.
— Céus, não! — Júlia respondeu. — Esta casa é
suficientemente grande para as três. Diria que inclusive
convidando trinta pessoas mais nunca tropeçaríamos, salvo
nas refeições.
— Ora! Obrigada. Agradeço muito. Depois de estar aqui
tantos anos com a viúva do duque, estou sedenta de falar de
festas e de moda… e escândalos que não tenham a ver com
minha pessoa.
— Bom, Theo é sem dúvida uma perita em tudo isso. —
Júlia riu entredentes. — Me diga, você não tem família?
— Não. Minha mãe faleceu poucos meses depois que
Harry. Meu pai morreu em um acidente de carruagem quando
eu era pequena e nunca tive irmãos nem irmãs.
— Pois estamos iguais — Júlia murmurou. — Exceto
Theo, não tenho mais família.
— Tem ao duque — disse Angela, como se esse dado
tivesse que ser um consolo.
Júlia emitiu um som evasivo e ficou olhando o pianoforte.
Não queria falar de seu marido. Ainda tinha o coração dolorido;
a raiva por suas dúvidas era muito recente.
Estiveram um bom momento em silêncio. Então Angela
perguntou:
— Acredita que virá vê-la?
Júlia percebeu algo na voz de Angela, mas não soube a
que correspondia: Esperança? Entusiasmo? Medo?
— A verdade é que não sei.
— Bom, Theo e eu podemos mantê-la distraída enquanto
isso. — Angela se levantou. — Acredito que tocarei um
momento o pianoforte. Irei vê-la pela tarde, sua excelência.
— Me chame de Júlia, por favor; depois de tudo, somos
cunhadas.
Angela sorriu.
— Obrigada, Júlia.
Depois de despedir-se com a mão, Júlia partiu e
continuou com seus passeios pela mansão. A conversação com
Angela lhe tinha produzido certo desgosto. Angela tinha
interesse em Nick? Se realmente em sua época tinham se
deitado juntos, podia ser que estivesse ansiosa por retomar a
aventura. E Nick? A rejeitaria? Melhor não saber a resposta a
essa pergunta.
Transcorreu um mês, e Júlia teve que aceitar que Nick
não iria vê-la. Tampouco lhe tinha escrito. Não tinha tido
notícias suas desde o breve trocar de notas em Londres. Uma
vez mais a tinha deixado à sua sorte.
Só que não estava exatamente sozinha. Uma minúscula e
preciosa vida crescia agora em seu interior. O bebê de Nick.
Havia dias em que lhe custava acreditar que em poucos meses
seria mãe.
Nas últimas duas semanas os enjôos tinham começado a
reduzir. Agora só se encontrava mal pelas manhãs, antes de
encher o estômago. O resto do dia tinha fome a todas as horas
e comia tudo o que via. Em lugar de controlar a linha, os
vestidos começavam a ficar apertados.
Júlia e Angela tinham tomado gosto por passear juntas a
cada manhã. Tia Theo se negou a as acompanhar, aduzindo
que uma anciã só era capaz de suportar tanta natureza até
certo ponto.
As duas jovens falavam abertamente enquanto percorriam
o imóvel. A imensidão da propriedade dos Seaton deixou Júlia
impressionada. Havia um sem-fim de colinas e campos, jardins
espetaculares, um bosque espesso e inclusive o rio Wensum a
atravessava em determinado ponto. Quase era capaz de
imaginar Nick quando pequeno, um menino moreno e precoce
brincando de correr daqui para lá e fazendo travessuras.
Essa manhã em concreto Angela lhe propôs passear pelo
bosque, por um atalho que ia do lago até a outra mansão.
Foram vestidas com múltiplas anáguas e grossos casacos para
se protegerem do frio de abril. Na noite anterior a névoa havia
coberto tudo e não se via o horizonte, mas este era um atalho
que tinham tomado outras vezes.
Angela falava sem parar e Júlia se deu conta de que
estava escutando pela metade. Os jardins estavam lindos, a
erva fresca salpicada de delicadas flores de açafrão púrpura,
branco e amarelo. Face ao que sentia por seu marido, a beleza
da residência da família ducal era inegável. A última vez que
esteve de visita, tinham-na tratado como uma intrusa. Uma
marginal. Desta vez era a senhora da casa. Todos acatavam o
que dizia em ausência de Colton e ali ninguém contradizia seus
desejos; nem provavelmente fizessem nunca, posto que era
evidente que seu marido não tinha a intenção de ir vê-la.
Entraram no bosque, onde o som de pássaros e insetos
ressoava com força na quietude da manhã. Ali o terreno se
inclinava abruptamente com o passar do estreito atalho.
Devido à escassa luz sob a entupida abóbada de árvores, as
folhas e o musgo estavam escorregadios, obrigando Júlia a
olhar bem por onde pisava.
Perguntou-se de novo o que Nick estaria fazendo em
Londres. O orgulho a impedia de lhe escrever ou a quem fosse
para perguntar. Tinha escrito a Sophie, mas unicamente para
informar à sua amiga da prolongada estadia na mansão
Seaton. Sophie lhe tinha respondido dizendo que iria vê-la, mas
do duque não tinha notícias.
Teria uma amante? Parecia provável, posto que a idéia de
que o Duque Depravado se mantivesse casto era no mínimo
ridícula.
Disse a si mesma que seguia zangada com ele e que,
portanto, não lhe importava que se deitasse com outras
mulheres. Mas sim, importava. E muito. A lembrança de suas
hábeis mãos e sua ardente boca a atormentava. Seu corpo,
exuberante e túrgido pela gravidez, recordava-o, suspirava por
ele na solitária escuridão de seus aposentos.
Para não falar de seu estúpido coração, que se negava a
desprender-se das ternas lembranças de sua maravilhosa
semana juntos em Veneza. De sua forma de lhe sorrir. De sua
risada. De como a tinha feito sentir a mulher mais formosa e
mais desejável do mundo. Tinha sido uma loucura acreditar
que o que sentia por ela era mais que luxúria?
— Não crê, Júlia? — Angela inquiriu, tirando-a de seu
devaneio.
— Perdoe, o que me perguntou? — Júlia tropeçou em uma
pedra. — Não estava atenta.
— Percebo. — Uma risadinha escapou de Angela, e se
adiantou para saltar uma raiz que havia no atalho. — Sugeri
que redecorem o quarto infantil. Talvez…
Júlia saltou a raiz e calculou mal, porque a ponta do
sapato se enganchou e perdeu o equilíbrio. Em lugar de erguer-
se, inclinou-se para um lado, o chão movendo-se sob seus pés,
e caiu, deslizando sobre as folhas e erva úmidas do
pronunciado aterro. Júlia não pôde agarrar-se a nada e rodou
para baixo.
— Angela! — Gritou enquanto tentava agarrar-se ao
espesso matagal. Mas tudo estava muito escorregadio para
segurar-se e seu medo aumentou.
Deu tombos rodando até o pé do aterro, cobrindo o
abdômen com as mãos para proteger o bebê durante a
vertiginosa queda. Enganchou a perna em um galho, ao que
seguiu um doloroso rasgo no tornozelo.
Então deu um golpe na cabeça com o tronco de uma
árvore e sentiu uma dor aguda no crânio até que tudo ficou às
escuras.
A luz a incomodava horrores. Júlia fechou as pálpebras
com força e procurou lembrar-se. Céus, doía-lhe a cabeça e o
tornozelo. Moveu as mãos, tocando folhas, ramos e ervas. Sim,
tinha tropeçado e caído pelo pronunciado desnível do atalho do
bosque. Onde estava Angela?
Inspirou várias vezes para manter a calma, entreabriu as
pálpebras e não viu ninguém. Talvez Angela tivesse ido pedir
ajuda. Apalpou as extremidades com cuidado para avaliar o
alcance dos ferimentos. Estava melhor do que temia. Além do
tornozelo e uma dor de cabeça terrível, seguramente poderia
subir até o atalho. Não tinha sentido esperar que viesse alguém
para ajudá-la.
Arrastou-se com cuidado para o atalho, ajudando-se com
as raízes e ramos caídos. O chão estava escorregadio e em
várias ocasiões deslizou uns metros abaixo até que conseguiu
agarrar uma raiz para continuar subindo. O tornozelo dolorido
a incomodava um pouco, mas com força de vontade conseguiu
voltar a subir o atalho. Uma vez em chão plano, localizou um
ramo alto e grosso que faria as vezes de bengala, e que
empregou para retornar à mansão.
Pareceu-lhe que demorara horas em chegar e quando
entrou na casa esteve a ponto de desabar de esgotamento.
Ofegando, deixou que o mordomo aproximasse uma cadeira à
porta. Este mandou então um lacaio procurar o médico do
povoado.
Justo nesse momento Angela dobrou a esquina, seguida
muito de perto por Theo e outro criado. Os três se detiveram
em seco ao vê-la, suja e molhada, em uma cadeira no saguão.
— Júlia! — Angela foi voando ao seu lado, o alívio refletido
no rosto. — Voltei para casa correndo para procurar ajuda; não
sabia o que mais fazer. Se machucou muito?
— John, leve sua excelência pelas escadas — Theo
ordenou. —Angela, mande procurar o médico e logo peça à
cozinheira algo para comer. Eu irei tomar um brandy.
— Já foram buscar o médico — Júlia disse cansada
enquanto o criado a levantava da cadeira. — E não quero
comer nada. Só que me ajudem a subir.
Logo Júlia esteve agasalhada na cama, rodeada de
travesseiros em um quarto cheio de rostos preocupados.
— Estou bem — disse. — Theo e Angela se sentaram aos
pés de sua cama, as sobrancelhas franzidas em sinal de
inquietação. — De verdade estou bem. Tenho dor de cabeça e
me dói horrores o tornozelo, mas viverei.
— E o bebê? — Angela inquiriu em um tom de pânico. —
Céus, se acontece algo ao bebê eu morro. Não deveria havê-la
levado àquele atalho hoje. Estava muito nebuloso e úmido.
— Chsss…, jovem! — Theo disse. — Não é sua culpa e não
conheceremos o estado do bebê até que venha o médico; não
serve de nada ficar histérica.
Júlia tomou outro sorvo de brandy.
— Estou cansada, nada mais. Acredito que poderia dormir
durante dias.
E para demonstrá-lo, bocejou.
— Não durma — Theo disse. — Não até que venha o
médico e possa te examinar.
O médico chegou meia hora depois. Homem agradável e de
certa idade, tomou seu tempo para examiná-la. Foi delicado e
respeitoso, e esteve falando sem parar tanto para relaxá-la
como para mantê-la acordada.
Quando acabou, Theo e Angela entraram de novo no
quarto de Júlia para ouvir o resultado.
— Sua excelência tem uma leve concussão, que com um
pouco de repouso deverá desaparecer em uns dias. Deixarei
láudano para a dor, mas lhe sugiro que não tome a menos que
seja absolutamente necessário. Fez uma torsão no tornozelo,
deve mantê-lo vários dias para cima. Dentro de
aproximadamente uma semana sua excelência deverá estar
bem.
Aclarou a garganta.
— No que concerne ao bebê, não saberia dizer se sua
excelência o perderá ou não. Houve quedas que precipitaram
um aborto. De modo que se sua excelência não tem perda de
sangue…diria que é provável que a gravidez siga seu curso. Se
sua excelência, entretanto, começar a ter cãibras ou perdas de
sangue, avisem a parteira. Eu ficarei encantado de vir também,
mas a senhora Popper tem experiência de sobra na hora de
perder e dar à luz bebês. Possivelmente possa lhe dar algo que
contribua para deter o processo.
Reinou o silêncio no local. «Houve quedas que precipitaram
um aborto.» As palavras ressoaram nos ouvidos de Júlia.
Encolheu-se-lhe o peito, e lhe doeu tanto como o tornozelo.
Angela acompanhou o médico à porta enquanto Theo se
aproximava e se sentava na cama de Júlia.
— Não chore, querida — disse sua tia, acariciando-lhe o
cabelo. — Tudo sairá bem. Verá.
— Isso não sabe — Júlia sussurrou, as lágrimas fluindo
com abundância. — Ninguém sabe. Oh, Theo! O que farei se
perder este bebê? Não me perdoaria isso nunca — disse e lhe
escapou um soluço do peito quando Theo a rodeou com os
braços.
— Chsss…, não é sua culpa. Foi um acidente; nada mais.
Sua tia lhe esfregou as costas, embalando-a enquanto
chorava e chorava.
— Venha — Theo disse ao fim. Sua tia a obrigou
brandamente a recostar-se de novo sobre os travesseiros. — Se
não reservar suas forças, perderá o bebê. Seja forte, Júlia. Esse
pequenino te necessita. Chorar e dramatizar não servirá de
nada, mas descansar um pouco e comer sim.
Júlia enxugou os olhos com a beirada da colcha.
— Tem razão. Tenho que procurar manter a calma e me
repor.
— Durma, querida. Voltarei dentro de um momento para
ver como está.
Aquele dia e aquela noite foram nebulosos. Dolorida e
cansada, Júlia não tinha vontade mais que de dormir. Theo
entrou para vê-la a cada poucas horas, despertando-a quando
era necessário para lhe dar de comer e beber. Ajudou Júlia a
urinar, o que a esta deu uma vergonha infinita, mas o fez com
tal naturalidade que o agradeceu.
Pela manhã dormiu até tarde, mas se encontrava
notavelmente melhor. Até o momento não tinha tido perdas de
sangue nem cãibras; muito bom sinal de que tudo iria bem
com o bebê. Propôs-se seguir os conselhos do médico e fazer
todo o possível para não se preocupar. Theo tinha razão: devia
reservar suas forças.
Depois do café da manhã, Theo trouxe vários exemplares
antigos de La Belle Assemblée para que ambas lessem
enquanto ela permanecia na cama. Logo Angela foi vê-la um
momento pela tarde para substituir Theo.
— Não necessito de supervisão constante — Júlia disse à
sua cunhada. — Theo e você deveriam aproveitar o dia e não
ficar aqui sentadas comigo. Vá. — Fez um gesto para a porta.
— Além disso, quero dar uma cochilada.
Convencida de que Júlia dizia a verdade, Angela partiu.
Então se aninhou bem entre os travesseiros e voltou a dormir.
Passou o resto do dia de forma muito similar, descansando e
assegurando às outras duas mulheres que seu estado tinha
melhorado.
Meg acabava de levar sua bandeja do jantar quando a
porta de acesso aos seus aposentos se abriu de repente.
Seu marido, tão esquálido e desalinhado como nunca o
tinha visto antes, entrou correndo no quarto. Uma barba de
um dia pelo menos lhe salpicava a mandíbula, e tinha os olhos
avermelhados e rodeados de escuros círculos, a gravata,
torcida, e a roupa enrugada e coberta de pó do caminho.
— Colton! — Júlia exclamou, boquiaberta. — O que faz
aqui?
Ele pigarreou e entrelaçou as mãos às costas.
— Um dos lacaios me deu a notícia de seu acidente,
senhora. Quis avaliar por mim mesmo o alcance de seus
ferimentos.
Preocupou-se com ela? Tinha que ter galopado como um
desvairado para chegar tão rápido. A alegria brotou no peito de
Júlia, que procurou não sorrir.
— Me diga o que ocorreu. Estava passeando pelo bosque?
Estava sozinha?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não. Estava comigo lady Lambert.
— E tropeçou?
— Sim, em uma raiz. Suponho que calculei mal o passo.
Logo perdi o equilíbrio e rodei por um aterro. Mas estou bem.
Uma concussão leve e um tornozelo torcido, ambos melhorando
grandemente porque Theo não deixa me levantar da cama.
— E o bebê?
Júlia esperou, esquadrinhando os olhos de Nick em busca
de alguma emoção além da inquietação. Esperança? Reparou
que não havia dito meu bebê, mas sim o bebê. Teria abrigado a
esperança de que sofresse um aborto?
Deus do céu, seguramente por isso tinha se deslocado ao
seu lado. A alegria experimentada fazia tão só uns instantes
murchou como uma flor sob o sol ardente. Tinha ido ali voando
com a esperança de que ela perdesse o bebê, coisa que daria
uma solução adequada a todos os seus problemas.
Júlia inspirou fundo para combater o desespero que a
abatia. Não havia nada que fazer. Jamais o faria mudar de
opinião. Nick nunca acreditaria nem aceitaria seu filho.
— Lamento decepcioná-lo, meu marido, — disse em voz
baixa — mas não perdi o bebê. Pelo menos não ainda.
Ele franziu as sobrancelhas.
— À margem do que eu pense sobre a criança, não lhe
desejo sofrimento algum, Júlia.
Ela não se viu capaz de responder, porque um aborto a
faria sofrer. Nunca se recuperaria disso. Seu corpo, sim; mas
jamais haveria um filho concebido em circunstâncias similares,
com semelhante paixão e afeto. Agora não havia mais que uma
fria desconfiança entre eles, e já não tinha energias para seguir
batalhando.
Girou a cabeça, afastou o olhar e desejou com todas as
suas forças que se fosse.
Instantes depois, ele suspirou.
— Pensei ficar uns dias, até que tenha se recuperado —
disse em voz baixa. — Quando retornar a Londres, Fitz ficará
aqui para cuidar de ti.
Júlia cravou bruscamente os olhos nele.
— Não acredito que necessite de escolta, Colton. Só
tropecei.
— Não estou tão seguro. E até que eu esteja, Fitz ficará. —
Aludiu com um gesto ao pequeno quarto do qual se apropriou à
sua chegada fazia dois meses. — Por que não está nos
aposentos da duquesa?
Júlia encolheu os ombros.
— Angela ficou com essas habitações quando sua mãe
faleceu. Não me pareceu justo lhe pedir que se mudasse. Além
disso, tenho mais que o suficiente com este quarto.
Nick deu meia volta e foi em grandes passadas até à porta.
— Vá imediatamente procurar lady Lambert — disse a um
criado que estava passando pelo corredor.
— Colton, de verdade… — Júlia começou, mas se deteve
quando ele elevou uma mão.
— Você é a senhora desta casa e merece ser tratada como
tal. Para não mencionar que dormirá onde eu lhe diga que
durma.
— Não, depois de oito anos não — ela replicou. Seriamente
acreditava que podia dedicar-se a lhe dar ordens depois de
havê-la ignorado tanto tempo? — Não pode escolher ao seu
desejo quando exercer seus direitos em qualidade de marido,
Colton.
Ele fechou as pálpebras e lhe lançou um sorriso relaxado
e petulante.
— Acredito que ambos sabemos que eu nunca precisaria
recorrer aos direitos maritais, Juliet.
Capítulo 11
Os homens gostam de oferecer amparo, mesmo que não o
necessitemos. Geralmente o melhor é aceitar para não ferir seu
ego.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Júlia afogou um grito ao ouvir seu nome, o que


certamente não tinha sido um lapsus. Ai…, se pudesse lhe
apagar aquele sorrisinho da cara! Justo quando ia mandá-lo ao
diabo, a porta se abriu.
— Sua excelência! — Angela exclamou com expressão de
surpresa. — Não sabíamos que tinha chegado.
Theo entrou justo atrás dela e ambas olharam para Colton
estranhando.
— Sei. Subi aqui primeiro. — Eu gostaria que minha
esposa ocupasse os aposentos contíguos aos meus, posto que é
seu direito legítimo nesta casa. Rogo-lhe que tire seus
pertences esta noite.
As bochechas de Angela se ruborizaram.
— Oh, naturalmente! — Murmurou. — Em nenhum
momento pretendi faltar ao respeito com Júlia. Ofereci-lhe me
mudar, mas me disse…
— Bem, pois agora o digo eu — Nick disse, sua voz
austera.
— Naturalmente. Agora mesmo. Com sua permissão…
Angela se voltou e se foi.
— Colton, não precisava disso — Júlia protestou.
— Não, tem razão — Theo interveio da soleira da porta. —
Deveria ter cedido esses aposentos sem que o pedissem. Boa
noite. Sua excelência — disse e fez uma reverência.
Nick fez à sua vez uma leve genuflexão.
— Lady Carville.
— Pensa ficar uns dias conosco?
— Sim, até que minha mulher se recupere.
Theo olhou fugazmente a Júlia.
— Curioso… — murmurou. — Bom, tratarei de que
limpem e preparem ambos os quartos.
Saiu do quarto fechando a porta ao sair.
Júlia fechou os olhos e massageou as têmporas. Céus,
estava esgotada, desconcertada e zangada. Colton não tinha
sido mais que um estorvo desde sua chegada a Inglaterra.
Seriamente o tinha decepcionado que ela não tivesse sofrido
um aborto? Tão cruel era? Os olhos lhe alagaram de lágrimas,
tanto por seu filho como pelo homem do qual se apaixonou em
Veneza, um homem que sabia que não voltaria a ver jamais.
— Tem que descansar — Nick disse em tom categórico. —
Voltarei para ajudá-la a mudar-se para seu novo quarto.
Ela assentiu e o ouviu sair do quarto. Rodou de lado e deu
rédea solta às suas lágrimas, sobre o travesseiro.
Nick fechou a porta do quarto de sua mulher e caminhou
pelo corredor a grandes passadas. Tinha um nó no estômago
de tantas emoções e necessitava desesperadamente de uma
taça. Tinha cavalgado metade da noite e o dia inteiro, sem
deixar os arreios salvo para trocar de cavalo, o temor pela
saúde de Júlia deixando-o louco.
E, ao vê-la tão pálida e cansada, faltou-lhe pouco para
estreitá-la em seus braços e não a soltar jamais.
Mas o que lhe acontecia?
Júlia certamente o tinha enganado da forma mais feia em
que uma mulher podia enganar um homem, e mesmo assim
não conseguia tirá-la da cabeça. Levava seis semanas tentando
esquecê-la, e tinha fracassado. O pior eram as noites, porque
seu aroma… seu tato… seu sabor, o atormentavam. E depois
do que tinha passado no bordel de madame Hartley, não sentia
desejo de voltar para tentar com outra mulher. De maneira que
estava desesperado por estar com a única mulher que não
podia permitir-se ter.
Tinha jurado que não se aproximaria da mansão Seaton,
com a esperança de que a irrefreável necessidade se dissipasse.
Logo, em setembro, quando soubesse se o bebê era dele ou
não, poderia ir sem remorsos. Depois de tudo, ela não queria
um marido; queria um bebê nascido sob o amparo do
sobrenome Seaton. A própria Júlia lhe havia dito que voltasse
para Veneza.
Era evidente que não estranhava. Por que estava então tão
fascinado com ela?
Deu com Thorton, o mordomo. Estava na mansão Seaton
desde que ele se lembrava, embora em seus quase setenta ou
setenta e algo, era incrivelmente ativo para sua avançada
idade. Horas antes, quando ele e Fitz tinham chegado, quase
tinha saído correndo para advertir ao serviço da presença do
Duque.
— Localize o senhor Fitzpatrick e diga que vá ao escritório
— Nick ordenou.
— Sim, sua excelência — Thorton respondeu em seu
áspero tom de barítono.
Nick entrou com resolução no opulento escritório, um
local utilizado por seu irmão, seu pai e o resto dos ditosos
Duques de Colton. E como se não bastasse ser deprimente, o
local lhe trazia lembranças especialmente desgraçadas, posto
que ali tinha descoberto o cadáver de seu irmão.
Foi até o móvel bar e agradeceu encontra-lo bem sortido.
Serviu-se um bom copo do melhor uísque de seu pai. Pelo
menos já não tinha que lutar com sua mãe. Ainda recordava
muitas das reprimendas que lhe tinha dado, em presença de
seu pai, naturalmente, nesse mesmo lugar. Seu tema favorito
sempre era o quanto seu filho mais novo os tinha
decepcionado.
Logo, de noite, depois do funeral de seu irmão, tinha
estado ali com seus pais, que olharam ao seu único filho vivo
com o ódio e a culpa refletidos em seus olhos. Tinha tentado
explicar, mas ninguém acreditou; por isso deixou de tentar.
Tomou um pouco da bebida para afugentar as amargas
lembranças com o uísque de sabor carvalho e turfa. Deus,
detestava aquele lugar!
Em vez de sentar-se atrás da grande escrivaninha, Nick
escolheu uma poltrona junto à lareira. Chamaram brevemente
à porta e Fitz entrou no escritório com moderação.
— Boa noite, sua ex…
— Não o diga — disse Nick. — Me tem excelenciado até
não poder mais desde que voltei para este maldito monte de
pedras. — Levantou-se e retornou junto ao móvel bar, onde
serviu outro uísque para Fitz. — Sente-se, Fitz. — Nick passou
o copo ao Fitz e voltou a tomar assento. — Amanhã quero ir a
cavalo até o atalho do bosque e ver onde minha mulher caiu.
Quero comprovar por mim mesmo se foi um acidente.
— Suspeita do contrário?
Havia algo ali que o fazia desconfiar. Duas quedas
misteriosas em um período tão curto de tempo, contando a
morte de sua mãe… podia ser uma coincidência?
Quando o informaram do falecimento da viúva do duque,
tinha dado por feito que Satanás se cansou de esperar aquela
harpia e tinha vindo procurá-la, mas agora as circunstâncias o
punham a pensar. Tropeçou ou tinha sido… outra coisa?
Parecia improvável; depois de tudo, era muito difícil acabar
com a maldade personificada. E quem ia querer carregá-lo? Um
criado descontente e cansado de reprimendas?
Apesar de sofrer uma boa dose de contratempos, Nick
tinha aprendido a confiar em seus instintos. E, naquele
momento, duas quedas pareciam excessivas para serem
ignoradas; quando menos até que visse por si mesmo o lugar
do acidente de Júlia.
Encolheu os ombros.
— Pois não sei, francamente, mas tropeçar e cair justo
onde o atalho se faz mais pronunciado… você conhece melhor
que ninguém o perigo de dar por feito que os sucessos trágicos
são puro azar. Assim, até que satisfaça minha curiosidade,
quero que ela esteja protegida. De fato, quando voltar a
Londres, quero que em minha ausência fique aqui.
Fitz franziu o cenho, a cicatriz do rosto torcendo-se de má
maneira.
— Por quê?
— Porque resulta que minha mulher necessita de mais
vigilância que eu.
Fitz negou com a cabeça.
— Não. Por que voltará para Londres?
«Porque não posso ficar aqui sem tocá-la.»
— É melhor que eu vá.
— Melhor para quem? — Fitz tomou um gole de uísque, o
copo pequeno e frágil quase cômico em suas enormes mãos. —
Nunca o tive por um covarde.
Nick ia rebater, mas Fitz o conhecia muito bem, por isso
não disse nada e se limitou a contemplar o fogo.
— Quanto tempo ficará, então? — Fitz perguntou.
— Até que ela se recupere. Pode ser dois ou três dias.
— Está bem, irei a vigiar, mas em Londres tome cuidado.
Se lhe acontecer algo estando eu aqui, não o perdoarei jamais.
— Não se preocupe. Quint mal se separa do meu lado.
Levou ao pé da letra suas advertências a respeito da minha
segurança.
— Me diga, quando perdoará lorde Winchester?
Os ombros de Nick se esticaram.
— Quando me der a maldita vontade, Fitz. — Não tinha
falado com Winchester desde aquele dia em que seu amigo lhe
falou em seu escritório dos problemas econômicos de Júlia. —
Por que pergunta?
— Por nada, embora seja uma pena jogar no lixo uma
amizade de toda a vida, porque Winchester se comportou como
um cavalheiro.
— Como um cavalheiro? — Nick resmungou com a
mandíbula em tensão. — Ajudando a minha mulher a fazer-se
passar por uma vadia para me enganar? Rindo de mim?
Mentindo na minha cara? É isso o que fazem os cavalheiros de
onde vem?
Fitz sacudiu a cabeça.
— Não. De onde eu venho, se um homem ignorar a sua
mulher durante oito anos, deixando-a morrer de fome, a família
desta o aborda em um beco e lhe dá uma sova.
— Exato, a família dela. Não o melhor amigo de seu
marido.
— Winchester a considera parte de sua família. — Fitz
apurou seu copo e se levantou; — E você sabe, só que não quer
reconhecer que se equivocou. Nunca o faz. Você é um duque
condenadamente obstinado.
Nick entreabriu os olhos.
— Sim, e esse duque obstinado te mandará dormir nos
estábulos.
Fitz jogou a cabeça para trás, rindo.
— Dormi em lugares piores que seus estábulos, sua
excelência. De fato, são um palácio em comparação com certos
becos de Dublin nos quais tive que viver. Vou pra cama, a
menos que necessite de algo mais…
— Não, já fez bastante por esta noite.
Ato seguido apareceu Thorton.
— Sua excelência, já estão preparados os aposentos
principais para vossas excelências.
— Obrigado. Irei me ocupar de instalar a minha esposa
em seu novo aposento. Que a criada pessoal de sua excelência
mude suas coisas pela manhã.
— Muito bem, sua excelência. Boa noite.
— Boa noite, Thorton.
Nick acabou o uísque e se espreguiçou. Estava esgotado.
Quanto antes acomodasse Júlia antes poderia ir pra cama.
Ao chamar com suavidade à porta de sua mulher não
houve resposta. Abriu a porta e viu que dormia profundamente.
Aproximou-se com cuidado, decidido a levantá-la em seus
braços, mas se encontrou junto à sua cama sem reação.
Sua respiração era regular e profunda, parecia em paz.
Inofensiva. Seu cabelo loiro formava redemoinhos ao redor de
um rosto esculpido pelos anjos, e embora os lençóis não lhe
deixassem ver seu corpo, Nick recordava cada fascinante
palmo. Sonhava com suas curvas todas as noites. O mero feito
de estar na mesma habitação que ela o deixava louco.
Era difícil de explicar, mas queria que estivesse no
aposento imediatamente contíguo ao seu.
«Porque é idiota», sussurrou uma voz em sua cabeça.
Retirou os lençóis e conteve o fôlego. A camisola de Júlia
tinha aberto, deixando ver umas macias coxas de cor nata,
enquanto seus seios, agora ainda maiores pela gravidez,
endureciam a parte superior da camisola. O desejo o golpeou
com força nas vísceras e fechou os olhos, procurando recuperar
o controle.
Tentou não pensar em colocar-se discretamente em sua
cama, nu, e fazer amor com ela.
Quando recuperou certa serenidade, abriu as pálpebras e
foi então quando se fixou na suave protuberância de seu
abdômen. Não se notava muito, mas pôde ver uma
protuberância debaixo do fino algodão. Senhor! Ali havia um
bebê de verdade. Nick passou uma mão pelo rosto, pelas
emoções.
O plano era consciencioso, recordou-se a si mesmo.
Quando se demonstrasse que o bebê não era dele, poderia
partir do país sem dar ao menino ou à menina o amparo de seu
sobrenome. Se resultasse que se equivocou e era seu… enfim,
nunca tinha querido ser pai, não sabia por quê, na verdade, e
não queria ficar na Inglaterra.
Embora com certeza não seria filho seu… não é?
Pensar nessa possibilidade o transtornava. Deslizou os
braços por debaixo de Júlia, um por trás da nuca e o outro por
debaixo de seus joelhos. Ao levantá-la ela suspirou e jogou os
braços ao pescoço. Nick afogou um gemido. Não só tinha seus
seios esmagados contra o peito, mas sim também seu aroma, a
gardênias, que doce e familiar lhe resultava! Envolvia-o. Fez-lhe
ter saudades das inocentes noites em Veneza, antes de inteirar-
se de seu engano.
Nick percorreu devagar o comprido corredor. Os aposentos
da duquesa terminavam com os seus no extremo da ala leste,
embora ele nunca tivesse dormido na suíte principal. A última
vez que esteve na mansão Seaton, seu pai ainda vivia. Foi pelo
funeral do Harry.
Então empurrou a porta com a bota e entrou nas novas
dependências de Júlia. Os aposentos eram grandes e tinham
sido decorados pela dura mão de sua mãe. Nick tomou nota
mentalmente para dizer à sua mulher que as redecorasse a seu
gosto. Agora que tinha repassado a contabilidade do imóvel,
sabia que podiam permitir-se tranquilamente qualquer reforma
que ela quisesse fazer na mansão Seaton.
Demônios! Por ele Júlia poderia queimar a casa e a
levantar de novo. Inclinou-se para deixá-la com cuidado na
cama. Quando quis erguer-se, ela o abraçou com mais força.
— Nick — sussurrou junto ao pescoço.
Ficou gelado. A indecisão se apoderou dele, a raiva e o
orgulho combatendo o urgente desejo de sua virilha. «Que fácil
seria ceder», pensou. Afundar em sua maciez e saciar sua sede
dela, e depois o quê?
Uma rápida olhada ao seu rosto o convenceu de que
estava adormecida. Aliviado, desprendeu os braços de Júlia de
seu pescoço e levantou os lençóis para cobri-la. Ficou um
minuto mais, observando e desejando-a. Torturando-se.
Não pôde evitar e se inclinou para lhe depositar um terno
beijo na testa. A pele de Júlia estava fria e suave, e foi um
suplício apartar-se. Foi entre suspiros ao aposento contíguo e
desabou na cama, com a roupa e tudo.
Na manhã seguinte as duas mulheres estavam no salão de
café da manhã quando Nick chegou.
— Bom dia, sua excelência — disseram alegremente em
coro lady Lambert e lady Carville.
— Bom dia, senhoras — ele respondeu. Depois de uma
noite em claro, levava horas levantado, já tinha tomado o café
da manhã e tinha dado um passeio matutino a cavalo. — Lady
Lambert, teria a amabilidade de sair comigo a cavalo esta
manhã? Queria ver o lugar exato do atalho onde minha mulher
caiu.
A esposa de seu irmão assentiu.
— Certamente, sua excelência. Será um prazer
acompanhá-lo. Vou me trocar; em uns vinte minutos irei ao
seu encontro.
Levantou-se e saiu apressadamente do salão.
Lady Carville o olhou com astúcia.
— Por quê? Se não lhe importar que o pergunte.
— Ainda não sei. Pode ser que não seja nada, — Nick
respondeu com franqueza — mas os anos que passei no
estrangeiro me ensinaram a recear os acidentes.
— Sim, soube que você mesmo sofreu vários supostos
acidentes. Acredita que Júlia está em perigo?
— Espero que não. De todos os modos, quando for,
deixarei o Fitz aqui para que vigie as três.
— Acredita que é necessário? Talvez devesse ficar até que
seu filho ou sua filha nasça.
Nick deu um pulo. Esteve a ponto de dizer que o bebê não
era dele, mas se conteve. O tempo lhe daria a razão.
— Não, devo partir, mas se o bebê não nascer antes de
setembro, voltarei.
Lady Carville suspirou e seu olhar lhe indicou que o tinha
entendido.
— Pensou nas consequências de sua falta de confiança,
sua excelência? É provável que ela nunca o perdoe.
— Então estaremos em paz. Com sua permissão, senhora.
Nick, sem dúvida abatido, encontrou Fitz nos estábulos
preparando três montarias. Havia uma égua pequena para lady
Lambert, um imponente cavalo destinado a caçadas para o Fitz
e o novo garanhão de Nick, Charon. Adquirido três semanas
antes na casa de leilões de cavalos Tattersalls, Charon media
dezesseis palmos de altura e era completamente negro. Rebelde
e teimoso, Nick tinha desfrutado soltando-o horas antes pelos
campos.
— Está seguro que quer que o acompanhe? — Fitz
perguntou a Nick enquanto este se aproximava.
— Muito seguro. Preferiria não estar a sós com lady
Lambert. Além disso, quero sua opinião sobre o lugar no qual
se supõe que caiu minha mulher.
— Preocupa-lhe que se jogue sobre você, não é?
Nick recordou vários encontros violentos com a mulher de
seu irmão durante a vida de Harry. Ela tinha aproveitado
qualquer ocasião para flertar com ele, inclusive diante de
Harry. Jamais lhe tinha dado motivos, mas ela, surpreendida
de que o Duque Depravado se opunha a enganar seu irmão,
mostrou-se persistente.
E logo chegou aquela fatídica noite em que tudo se
converteu em um inferno.
— Fique perto — Nick resmungou enquanto segurava as
rédeas de Charon, e com um movimento fluido, subiu à sela de
um salto.
— Ora, aí vem…
Fitz assinalou para a casa, e Nick se voltou e viu lady
Lambert passeando muito contente para os estábulos com um
traje de montar marrom.
Nick percebeu seu desgosto quando ela os alcançou e
reparou no fato de que havia três montarias, não duas.
— Fitz virá conosco — Nick anunciou.
Ela assentiu e foi até a escadinha. Um cavalariço lhe
segurou as rédeas enquanto ela se sentava na égua.
Nick dedicou a Fitz um gesto de impaciência, ante o que
seu amigo montou rapidamente no cavalo para caçadas.
— Vamos — disse Nick conduzindo Charon para o bosque.
Os três saíram a uma velocidade constante. Era uma
manhã de primavera limpa e fresca, e as vistas e os aromas
com os quais Nick estava familiarizado lhe recordaram uma
infância em que trotava pelos campos. Ainda se lembrava do
jardineiro chefe, um grisalho senhor Thompkins que jamais
teve inconveniente algum em que um menino pequeno o
seguisse a todas as partes. Graças ao senhor Thompkins, sabia
o nome de quase todas as flores e as árvores da propriedade,
embora de pouco ia servir-lhe essa informação.
Então se perguntou quando lady Lambert começaria a
falar. Antes não calava nunca e imaginava que depois de oito
anos teria muitas coisas a lhe dizer.
Não teve que esperar muito. Assim que passou o lago, lady
Lambert aproximou seu cavalo ao dele, deixando Fitz atrasado.
— Sua excelência — começou, sua voz um mero sussurro.
— Não deveríamos ao menos falar do que aconteceu naquela
noite?
— Não.
Aquela noite era no que Nick não queria pensar. Manteve
o olhar à frente, a atenção posta no atalho.
— Mas terá que deixar que me desculpe.
Nick não disse nada. As desculpas não devolveriam seu
irmão nem reparariam o dano feito à sua reputação. Nenhuma
desculpa eliminaria jamais a sua culpa.
— Mudei, deveria saber — ela continuou. — Me dei conta
de quão tola era então. Oh, Nick…!
Ele pousou os olhos nela, entreabertos em sinal de
advertência.
— Quero dizer… sua excelência. — Lady Lambert se
ruborizou e desviou o olhar. — Unicamente queria que
soubesse o muito que lamento o que ocorreu. Espero que
algum dia possamos ser amigos.
Nick foi incapaz de articular uma resposta o bastante
educada para ser ouvida por uma dama, assim seguiu calado e
rezou para que ela também se calasse.
— Quanto falta, lady Lambert, se não lhe importar que o
pergunte? — Fitz disse.
— Diria que uns dez minutos. Foi justo antes da grande
curva do atalho. — Lady Lambert se removeu na sela e alisou a
saia. — Foi visitar a tumba de sua mãe, sua excelência?
Ele suspirou. Ao que parecia aquele trajeto ia ser
ilimitadamente chato.
— Não, não fui, mas fique tranquila que dançarei uma
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giga em cima dela antes de ir.
Lady Lambert fechou a boca de repente. Nick teve um
maravilhoso momento de silêncio antes que lhe dissesse:
— Sua mulher é absolutamente adorável. Nos tornamos
amigas.
— Ah, sim?
— Sim. É esperta e…
— Por que ficou, lady Lambert? — Nick perguntou,
interrompendo-a. Ela abriu muito os olhos pela surpresa, mas
ele insistiu. — Por que confraternizou com a viúva do duque
todos estes anos? Por que não voltou para a casa com sua
família?
Ela não titubeou.
— Não tenho família. Não tenho para onde ir. Sua mãe foi
minha família durante os últimos oito anos.
— Então me permita que lhe ofereça um lar. Pode ficar
com a mansão pequena, escolher a casinha de campo que
quiser ou comprar um palacete em Londres e me mandar a
fatura.
— Está me obrigando a partir, sua excelência?
— Não me ponha nessa posição. Preferiria não a obrigar a
partir, mas não consigo entender sua insistência em ficar aqui.
Esporeou Charon e o cavalo se adiantou a meio galope.
Minutos depois chegaram ao lugar onde Júlia caíra. Nick
desmontou e lançou as rédeas sobre um ramo baixo. A zona
que rodeava o atalho era frondosa e a um lado havia um
pronunciado aterro.
— Prendeu o pé nessa raiz aí — lady Lambert disse
assinalando com o dedo. — Havia bastante névoa naquela
manhã e temo que escorregou quando tentava recuperar o
equilíbrio.
Nick assentiu. Queria indagar, mas não necessitava de
seu incessante falatório para fazê-lo.
— Obrigado por sua ajuda esta manhã, senhora. Quer que
Fitz a acompanhe de volta à casa?
Os olhos de lady Lambert brilharam, provavelmente pela
surpresa de ver que não precisavam dela, pensou.
— Não, não precisa. Sei voltar sozinha. Bom dia, sua
excelência.
Fez girar seu cavalo e se afastou a meio galope. Quando já
não podia ouvi-los, Fitz sorriu e a imitou com a voz:
— Espero que algum dia possamos ser amigos.
— Vá ao inferno, Fitz — Nick grunhiu. — E desça desse
maldito cavalo e venha aqui.
Fitz, rindo, passou sua longa perna por cima do cavalo e
saltou ao chão.
— O que estamos procurando?
— Não sei, mas há algo que não me convence. Tropeça e
cai rodando por um declive? Talvez esteja um pouco torpe
pela…
— Gravidez? — Fitz acabou por completar arqueando uma
sobrancelha com incredulidade. — Nem sequer pode dizê-lo?
— Sim, posso — Nick disse. Andou com ímpeto até à raiz e
a moveu com a ponta do pé. — Parece bastante solta, não crê?
— Parece-se mais a uma corda que a uma raiz. — Fitz a
levantou sem problemas enquanto Nick se aproximava do
aterro, e puxou a grosa raiz até que teve seu extremo na mão.
— Observe — disse.
Nick voltou correndo com o Fitz.
— Parece como se tivessem atado algo neste extremo, não
é? Uma corda, talvez?
Nick não estava seguro. O extremo estava curiosamente
retorcido, sugerindo que tinha envolvido algo mais. Mas esse
algo poderia ter sido outra raiz.
— Vamos ver se encontramos ao que pode ter estado
atada.
Fitz assentiu e cruzou o atalho para as árvores.
No aterro, Nick deu uma olhada no amontoado de folhas
do chão. Havia um montão delas e lady Lambert havia dito que
estava nebuloso naquela manhã. Passou a bota sobre as folhas
para comprovar quão escorregadias eram. Mmm…
Ele olhou para a encosta. Com cautela, desceu-a,
segurando-se a troncos e ramos para evitar cair. Ao chegar ao
pé desta, pôde ver o percurso que tinha feito o corpo de Júlia
sobre as folhas até deter-se. Gelou-lhe o sangue.
Jesus! Tinha rodado até ali embaixo? Era um autêntico
milagre que não houvesse quebrado o pescoço.
Voltou a subir e encontrou Fitz esperando-o.
— E então?
— O chão está muito úmido para conservar os rastros, se
é que havia algum. Pode ser que haja algumas marcas de corda
em uma árvore ao longe, mas são muito tênues para estarmos
seguros.
— Maldição! — Nick resmungou. — Tinha a esperança de
descobrir de um modo ou de outro.
Fitz agarrou as rédeas de seu cavalo para caçadas.
— Segue querendo que eu fique quando retornar à cidade?
— Sim.
Nick não tinha prova alguma, mas havia algo estranho na
queda. E embora não quisesse admitir, não gostava de deixar
Júlia desprotegida. A idéia de que lhe acontecesse algo…
Afugentou esses pensamentos da mente e subiu no lombo
de Charon. O grande garanhão recusou o peso adicional e ficou
a sapatear, e Nick segurou as rédeas com mais força.
— Não perca de vista a minha mulher. Não saia de seu
lado, Fitz. Refeições, passeios, chá… o que for fazer com seu
tempo.
— É claro, embora seria melhor que você…
— Não o diga — Nick resmungou e esporeou Charon com
os calcanhares.

***

Júlia não viu seu marido em três dias. Sabia que seguia
ali porque cada noite, quando ia para a cama, ouvia seus
passos no aposento ao lado. Que na realidade ansiasse
qualquer indício de sua presença dizia bastante do tédio de
seus dias.
Theo a mantinha a par do paradeiro do duque. Como era
de esperar, este passava a maior parte do tempo no lombo de
seu cavalo com Fitz atrás. Pelo visto os jantares foram um
tanto violentos, posto que na primeira noite Nick, Theo e
Angela já tinham esgotado todos os temas de conversação
possíveis.
Essa noite Júlia decidiu unir-se a eles. Tinha o tornozelo
muitíssimo melhor e a idéia de passar um dia a mais na cama
era superior a ela.
Chamou Meg com a campainha e procurou não se expor,
por que nos últimos dias Nick não tinha aparecido. Desde
aquela primeira noite não tinha ido nem uma só vez para a ver
nem para comprovar como estava. Estaria esperando a notícia
de um possível aborto?
Pois teria uma decepção, ela pensou levantando o queixo
com orgulho. Conforme lhe havia dito esse dia a parteira, o
bebê estava bem; coisa que a aliviou ao escutar. De fato, tanto
Júlia como Theo tinham chorado de felicidade ao ouvir a
notícia.
Meg chegou e as duas ficaram a falar do que colocaria
para jantar.
— Ainda tem um par de vestidos dos que levou a Veneza
que deve poder colocar uma ou duas semanas mais — Meg
sugeriu. — Chamará a atenção de sua excelência.
— Não estou muito segura de querer sua atenção — Júlia
resmungou.
Seguia zangada e doída. Nick lhe havia dito coisas
horríveis, sem duvidar em pensar o pior dela.
Não que Meg estivesse a par disso, mas os serventes
falavam e evidentemente Meg sabia que o duque e a duquesa
não tinham estado juntos desde a chegada deste.
— Coloque o vestido rosa, sua excelência. Agora mesmo
vou buscá-lo.
Quase uma hora depois Júlia se olhou no espelho.
— Bom…, Meg. O que acha?
— Acredito que dará um chute no traseiro de sua
excelência, se sua excelência não se importa que eu o diga.
Júlia soltou uma risadinha. Tinha tido que prescindir do
espartilho para entrar na roupa, mas o resultado compensava.
A seda rosa lhe abraçava o torso, o decote do corpete
empurrando os seios para cima e para fora. A malha suave
como um sussurro caía com delicadeza até o chão, lhe roçando
coxas e pantorrilhas por cima de suas muito finas anáguas. As
mangas curtas lhe acentuavam os ombros e o pescoço, e a cor
do vestido ressaltava a cor nata de sua pele.
Uma lástima haver vendido as pérolas de sua avó.
— Soou o gongo. É melhor sua excelência se apressar.
— Com o tornozelo dolorido? Com sorte chegarei antes da
sobremesa — Júlia brincou. — Me deseje sorte, Meg.
— Esse vestido é quanta sorte necessita sua excelência.
Júlia riu e iniciou uma lenta descida ao primeiro piso.
Quando chegou à sala de jantar tinham começado o primeiro
prato. Todos se levantaram e correram para ajudá-la, e a
surpreendeu ver que Nick chegava primeiro.
— Querida, — Theo a saudou enquanto Júlia segurava
seu marido pelo braço. Notou seu calor e sua força debaixo da
mão e sentiu mariposas no estômago — tem certeza que pode
estar em pé?
— Estou bem, tia Theo. — Nick caminhou para o outro
extremo da mesa, o lugar habitual de Júlia. — Colton, rogo-lhe
que não me faça andar até lá. Se não lhe importar, irei me
sentar nesta ponta daqui, ao seu lado.
Ela viu que Nick, pigarreando, os olhos em seu decote.
— Como desejar, senhora.
Capítulo 12
Os homens não compartilham seus sentimentos como caberia
esperar. De fato, talvez descubra mais coisas pelo que não
dizem.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Nick mal olhou em sua direção em toda a noite. Os pratos


se fizeram intermináveis porque Angela e Theo falavam
incansavelmente, enquanto que seu marido se concentrou em
comer sem participar da conversação. Júlia quase acabou
desejando haver ficado na cama. Quando por fim chegou a
sobremesa reprimiu um bocejo.
— Querida, — Theo lhe disse — deve estar cansada. Se
quiser se retirar, estou convencida de que Colton te
acompanhará encantado aos seus aposentos.
Nick levantou bruscamente a cabeça e seu olhar foi de
Theo a Júlia.
— Naturalmente que sim. Não tem mais que pedir.
— Obrigada, mas com certeza consigo ir sozinha.
— Bobagens — Theo disse. — Deixa que teu marido te
acompanhe. Não queremos que volte a cair.
Júlia não estava em posição de discutir, especialmente
porque Colton já se levantara, sua figura alta e musculosa
procedendo com elegância para lhe retirar a cadeira. Suspirou
resignada.
— Boa noite, Theo. Angela…
Ele a pegou pelo braço.
— Apoie-se em mim — disse-lhe, sustentando seu peso
enquanto ela saía coxeando da sala de jantar.
Não falaram. O mero toque das mãos de Nick fez com que
ardesse o corpo de Júlia, coisa que a perturbava tendo em
conta quão mal ele se portara. Como podia seguir sentindo-se
atraída por um homem que tinha sido tão cruel? Era
exasperante.
Ao chegar às escadas Júlia pôs por engano o pé mau no
primeiro degrau e torceu as feições de dor.
— Não deveria estar sequer em pé — Nick protestou antes
de abaixar-se para levantá-la nos braços.
— Me desça. Posso caminhar sem problemas.
— Não duvido, mas eu gostaria de chegar antes do dia de
São Miguel.
Nick subiu os degraus como se não carregasse nada, os
músculos contraindo-se e movendo-se sob as pontas dos dedos
de Júlia. Cheirava exatamente igual em Veneza, a cítrico e
almíscar, e ela sentiu o absurdo impulso de descansar a cabeça
nele. De fato, se ele girasse para vê-la, mal teria que inclinar-se
para o beijar.
Desprezou a idéia. Por que estava pensando em beijar?
Não sabia, mas assim era. Oh, céus! Aninhada contra ele, Júlia
recordou aquela maravilhosa semana em Veneza; ou melhor,
seu corpo a recordava. O coração martelou veloz, os mamilos
lhe arderam por dentro do vestido conforme a necessidade que
tinha tentado negar ameaçava tomá-la.
Oxalá as coisas entre eles não fossem tão complicadas!
Nick empurrou a porta de seu aposento e entrou. Como se
já não pudesse suportar mais seu toque, deixou-a
imediatamente no tapete. Afastou-se e cruzou os braços sobre
o peito, pigarreando.
— Fui com o Fitz ao lugar onde caiu e, embora resulte
suspeito, não há provas conclusivas que apontem algo sinistro.
De todos os modos, precisará ter mais cuidado. Fitz a
acompanhará a qualquer lugar que vá.
— Sinistro? Colton, tem que ver quão dramático é! Já lhe
disse que tinha sido uma simples queda.
— Uma simples queda que poderia havê-la matado,
senhora.
Ela reprimiu o impulso de pôr os olhos em branco.
— Se não há provas, por que necessito que Fitz me siga a
todas partes?
Nick levantou uma sobrancelha negra.
— Porque eu o disse.
Júlia ficou boquiaberta. A arrogância daquele homem a
pasmava.
— Isso é tudo, Colton? — Ela perguntou mal-humorada.
— Não sei, é? — Ele articulou com lentidão enquanto seus
olhos a repassavam de cima a baixo. — O certo é que esta noite
é inevitável reparar em seu hábil desdobramento de encantos.
Talvez pretenda atrair minha atenção.
A excitação que Júlia sentiu ante o olhar escrutinador de
Nick a contrariou, por isso sua voz gotejou veneno.
— Meus encantos, como muito acertadamente disse você,
com muita dificuldade cabem em algum lugar a estas alturas.
Isto — disse assinalando seu vestido — não foi por você.
— Acreditaria se não soubesse o quanto é ardilosa e
mentirosa.
Aproximou-se, mas ela não cedeu um ápice.
— Não teria me visto obrigada a mentir, se você não
tivesse desatendido suas responsabilidades durante oito anos
— rebateu. — Não imagina o que sua família me fez sofrer. Sem
ir mais longe, Templeton…
Fechou a boca porque se negava a lhe contar quão horrível
realmente tinha sido. Para quê? Para Colton tanto fazia.
— Sobre Templeton está solucionado, senhora. Não só se
solucionou sua situação econômica, como meu primo não
voltará a lhe dirigir a palavra na vida.
A esperança e o horror rivalizaram em seu interior
enquanto refletia sobre as palavras de Nick.
— Matou-o?
Nick riu jogando para trás a cabeça, o primeiro sorriso de
verdade que tinha visto desde Veneza.
— Não, não o matei, embora deveria havê-lo feito tendo em
conta que lhe fez proposições desonestas como se fosse uma…
— Vadia — Júlia acabou a frase quando ele deixou de
falar. — Acaso não é isso o que pensa de mim, meu marido?
No rosto de Nick se refletiram uma miríade de emoções.
Antes de poder as distinguir, cortou a distância entre seus
corpos. Rodeou-lhe a nuca com uma mão e com a outra lhe
pressionou com força a parte baixa das costas, imobilizando-a.
— Entretanto não posso evitar desejá-la. — Algo selvagem
e misterioso flamejou em seus olhos de cor cinza tormenta. —
Cada minuto, cada segundo de cada dia… — sussurrou antes
de abaixar a cabeça e apoderar-se da boca de Júlia com a sua.
Assim que seus lábios entraram em contato desapareceu
tudo o resto. O desejo ardeu feroz e ardente entre eles
enquanto a língua de Nick a invadia, saboreando-a e
torturando-a. Júlia se agarrou aos seus ombros, afundando as
unhas na roupa, preparando-se para o arremesso de sensações
maravilhosas.
Com a respiração agitada, suas bocas se devoraram com
desespero, ambos procurando manter o controle. Não foi um
beijo terno, e sim intenso e violento, o ressentimento e o receio
amadurecendo. A Júlia não importava. De fato, pensou que
morreria se ele deixasse de beijá-la. E quando ele pressionou
contra ela sua ereção, grande e dura, gemeu em sua boca.
Nick se apartou para deslizar os lábios por seu pescoço, a
língua veloz sobre sua pele desenhando um erótico atalho. Ao
chegar à base do pescoço, mordeu-lhe a curva do ombro
afundando brandamente os dentes nos músculos e tendões.
Júlia estremeceu, a mescla de dor e prazer lhe produzindo uma
candente labareda entre as pernas.
Cobriu-lhe um seio com uma palma quente e empurrou
para cima para que seus lábios estimulassem a generosa curva
de carne que seu vestido deixava à vista. Ela se arqueou para
trás, ansiando mais, seus seios tenros e doloridos e… ávidos
dele.
De repente Nick esticou os braços, plantou-lhe as mãos
nas nádegas e a levantou. Júlia lhe rodeou a cintura com as
pernas de maneira instintiva e quando se deu conta tinha as
costas contra a parede. A boca de Nick encontrou uma vez
mais a sua e deram um beijo arrebatador, sua ereção, dura e
rígida, encaixou perfeitamente no vale entre as coxas dela, que
não pôde evitar friccionar sua fenda contra o membro de seu
marido, que gemeu, um som grave e excitante; assim que ela
voltou a fazê-lo.
Logo tocou a ele e balançou os quadris para estimular a
carne mais sensível de Júlia. Cada toque lhe arrancou um
ofego, o prazer lhe chegando aos dedos dos pés, mas não lhe
bastava. Estava ardendo, sua pele quente e fria ao mesmo
tempo, nunca havia se sentido tão vazia. Tão desesperada.
Muito tempo tinha passado, mas seu corpo recordava
perfeitamente a sensação de o ter dentro.
— Nick — Júlia suspirou movendo os quadris ao mesmo
tempo que ele.
Ele exerceu mais pressão, esmagando-a contra a parede,
sua boca ardente e premente sobre o pescoço de Júlia. Ela
ofegou e se agarrou com força em seus ombros, delirando pelo
intenso prazer que dissipou qualquer reserva que ficasse pelo
que estavam fazendo. Necessitava daquilo. Queria tudo o que
ele pudesse lhe dar, e mais.
O desejo de dar prazer a Nick, de unir seus corpos, impôs-
se. Júlia colocou as mãos entre eles decidida a lhe desabotoar
os botões das calças.
Quando as tinha no cinto Nick ficou gelado e ato seguido
retrocedeu. Aturdida e desconcertada, Júlia chocou contra a
parede e procurou manter o equilíbrio.
O que tinha acontecido?
Seu marido parecia tão aturdido quanto ela. Passou uma
mão pelo cabelo castanho, revolvendo-o.
— Você... — exalou um suspiro sem olhá-la aos olhos. —
Rogo que me desculpe, senhora. Adeus.
— Colton, espere! — Ela exclamou incapaz de fazer
qualquer coisa salvo ver como ele se precipitava para a porta.
Ele se deteve, mas não se voltou. Ela recordou que havia
dito que unicamente ficaria até que estivesse recuperada. E
acabava de lhe dizer adeus em vez de boa noite.
— Então parte para Londres?
— Sim — ele respondeu virando ligeiramente a cabeça e
ficando de perfil. — Acredito que será o melhor.
Nick se ia. Júlia não acreditava. Acabava de a acariciar
fazia menos de um minuto, e agora ia embora? Que ainda
ardesse de desejo por ele, que não quisesse que ele parasse,
enfurecia-a ainda mais. Como podia odiá-lo e ao mesmo tempo
desejá-lo tanto?
— Para poder continuar me ignorando? — Disse furiosa.
— É isso? Deve ter sido muito decepcionante vir aqui voando
para inteirar-se de que não tinha perdido o nosso bebê.
Nick se voltou e a olhou, sua expressão tão furiosa quanto
a dela.
— Em nenhum momento desejei que perdesse o bebê. —
Deu um passo para ela. — Quando me inteirei que tinha tido
um acidente me angustiei muitíssimo.
— Isso eu duvido, sinceramente; principalmente quando
não acredita que o filho seja seu.
— Nunca menti.
— Ah…! Um hábil aviso de que eu menti. Pois sim, Nick,
menti. Menti porque não tinha outra opção! Theo e eu
vendemos tudo o que pudemos. Recorri à sua mãe, a quem
teria alegrado ver-me plantada na rua. Minhas opções eram
você ou Templeton. Possivelmente fui uma idiota, mas escolhi
você.
— Se isso fosse verdade — ele disse com desdém, seus
olhos cinzas frios e inexpressivos — poderia ter me escrito,
explicando seu problema. Poderia a ter ajudado pondo o
assunto nas mãos dos meus advogados, mas em lugar disso
teve que me seduzir. Pergunto-me por quê, Júlia.
Ela olhou ao redor com frenesi em busca de algo que lhe
atirar. Ao ver que não havia nada ao seu alcance, apertou os
punhos.
— O teria feito, Colton? De verdade teria ido em auxílio de
uma mulher com quem nunca quis casar-se, membro da
família que odeia visceralmente? Simon me advertiu isso mil
vezes. Eu sabia o que sentia por mim. E estive esperando-o por
oito anos! Tinha que fazer algo. — Ele sorriu com afetação e
abriu a boca, por isso ela elevou uma mão. — Não o diga.
Aquela primeira noite juntos eu era virgem. Não estive com
ninguém mais. E se não crê, então não há nada mais que falar.
— Uma virgem não monta seu marido em uma cadeira. —
Ele se aproximou, sua voz grave e ameaçadora. — Uma virgem
não chupa o pau do seu marido. Uma virgem não se insinua,
acaricia-se a si mesma nem implora para ser lambida.
Júlia notou o rubor no rosto, não sabia se fruto da
vergonha ou do súbito desejo suscitado por suas grosserias.
Recordava aquelas sete noites com tal nitidez que as tinha
reproduzido mentalmente um sem-fim de vezes. Talvez as
verdadeiras damas não atuavam de semelhante modo, mas a
Duquesa de Colton sim; e tinha desfrutado.
— Conhecia sua reputação. Teria fugido apavorado se
tivesse suspeitado que eu era virgem, isso sem falarmos que
era sua mulher! Então paguei a Pearl Kelly para que me
ensinasse as maneiras de uma cortesã. Sinto havê-lo
enganado, Colton, mas de verdade pensei que não havia outra
alternativa.
Nick tinha uma altura imponente, mais de um metro e
oitenta centímetros de um homem indignado. Entretanto, ela
se negou a recuar, o coração lhe pulsando desbocado enquanto
o olhava com ousadia.
— Sim, a mim certamente não deu uma folga — ele
resmungou.
Deu vontade de rir. O empenho de Nick em ser sempre a
vítima, como se ela fosse uma espécie de monstro, chegava a
ser hilário.
— Mas me perseguiu e me seduziu tanto como eu o
seduzi. E sabe Deus que sobre a concepção não o preocupou o
mínimo quando estávamos juntos. Em nenhum momento se
deu ao trabalho de impedir uma gravidez fruto da nossa união.
Me diga, quantos bastardos engendrou ao longo dos anos?
Nick retrocedeu bufando.
— Disse-me que não podia ter filhos e eu acreditei. Pensei
que você era de confiar. Estava com um dos meus melhores
amigos, pelo amor de Deus. Como ia saber o que na realidade
era?
— E o que era, Colton? Além de uma esposa desesperada
porque seu marido estava oito anos ignorando-a?
Lançou-lhe um sorriso arrogante e dissimulado.
— A sério quer que o diga?
Ela afogou um grito, o calor lhe cobrindo todo o corpo. O
sangue correu por suas veias, a indignação lhe zumbiu
pertinaz nos ouvidos. Naquele momento odiou Nick com uma
veemência da qual até então não se acreditou capaz. Júlia quis
lhe bater, insultá-lo, o que fosse com o intuito de o fazer sofrer
como ela sofria.
— Você é um covarde e um hipócrita — disse. — Oxalá
não tivesse ido nunca a Veneza!
— Pois somos dois.
Estiveram um bom momento frente a frente, seus corpos a
escassos três palmos de distância. A respiração de Nick tão
entrecortada como a de Júlia enquanto se olhavam fixamente.
A tensão e a emoção engrossaram o ar da habitação, como uma
tormenta longamente incubada.
Então a atmosfera mudou, tornou-se íntima, ao mesmo
tempo que a conhecida corrente saltava entre eles. Nick a
olhou com olhos entreabertos, transbordantes de uma
descarada carnalidade que sempre punha Júlia feita um
pudim. Ele a olhou fixamente, como devorando-a com os olhos.
Estava convencida de que se jogaria sobre ela e voltaria a beija-
la.
Ao tomar consciência disso sentiu uma comichão por todo
o corpo e abriu a boca antecipando-se.
Nick pousou os olhos em sua boca e ela tirou a língua
para umedecer os lábios secos. Ele piscou e voltou a si.
— Irei à alvorada — disse e caminhou com resolução para
a porta.
— Por quê? Por que tanto empenho em me ignorar?
Júlia não pretendia dizer nada, mas não pôde evitar que
as palavras saíssem atropeladamente.
Com as mãos no trinco, Nick abaixou a cabeça.
— Porque não me aproximar de você está me matando. E
se eu ceder e a possuir, quando isto terminar odiarei a você e a
mim mesmo.
Abriu a porta e desapareceu.

***

Colton partiu pela manhã antes que o resto da casa


despertasse. Júlia o ouviu partir, mas não se levantou da
cama. Tinha emoções mistas e não sabia se na próxima vez que
o visse lhe daria vontade de estrangulá-lo ou despi-lo.
Provavelmente o melhor seria não saber, pensou. De
maneira que se propôs tirar seu marido da cabeça. Tinha que
centrar-se em sua saúde e em seu bebê.
Fiel à sua palavra, Colton deu instruções a Fitz de que a
seguisse a todas as partes. O grandalhão até se uniu ao grupo
todas as noites para jantar, o que a princípio desconcertou
grandemente Angela e Theo. Júlia podia entender, dado que
Fitz constituía uma presença certamente severa e imponente
na casa. Mas conforme o foi conhecendo, pareceu-lhe divertido
e carinhoso. Saltava à vista que faria qualquer coisa pelo
Colton, e, não pela primeira vez perguntou-se o que tinha
ocorrido entre esses dois homens para lhes infundir
semelhante lealdade.
Uma semana depois de Colton ir, chegou Simon.
No meio do jantar a comprida silhueta de lorde Winchester
entrou dando trancos na sala de jantar.
— Simon! — Júlia gritou saltando da cadeira.
Ele a estreitou em seus braços.
— Boa noite, Jules. — Retrocedeu e a esquadrinhou. —
Está radiante. Sério.
Voltou-se para as demais mulheres e a Fitz, e também os
saudou.
Theo pediu por gestos outro serviço de mesa e dois criados
se apressaram a trazer os artigos necessários, e colocaram
Simon ao lado de Júlia.
— Ainda dura a sessão no Parlamento ou terminou? — Ela
perguntou-lhe quando todos se sentaram.
Simon optou por um pouco de cordeiro assado do prato
mais próximo.
— Temo que sim, o que significa que não poderei ficar
muito tempo, mas me inteirei pelo Quint, que se inteirou pelo
Colton, de que teve um acidente e queria ver-te em pessoa.
— E por que o próprio duque não lhe disse? — Theo
perguntou enquanto se servia mais feijões verdes no prato.
Como ele não respondia, Júlia soltou ao Simon:
— Segue sem falar contigo?
Simon não disse nada e se limitou a jantar com avidez, o
que deu a Júlia a resposta que necessitava.
— Se Colton estivesse aqui, dar-lhe-ia um soco — ela
assegurou.
— Eu adoraria ver — Simon disse todo sério.
— E eu — Fitz interveio da outra ponta da mesa.
Todos riram e Simon continuou:
— Sim, Colton segue zangado comigo, mas prevejo que as
desculpas chegarão logo. Bom… — baixou o olhar para o ventre
de Júlia — em setembro.
— Suponho que perdi algo — Angela comentou. — Por que
em setembro?
— Não contou? — Simon perguntou a Júlia, que se limitou
a negar com a cabeça. — Porque é quando Júlia presta contas.
— E quando Colton vir seu filho — Theo disse — estará
tudo perdoado. Bom, nos conte que notícias traz da cidade,
lorde Winchester.
Júlia se fixou na naturalidade com que sua tia tinha
respondido à pergunta de Angela. Embora a achasse simpática,
não achava nenhuma graça em ir contando a história inteira
aos quatro ventos. Quanto menos gente soubesse o que tinha
feito em Veneza melhor.
Simon começou a relatar sobre os diversos bailes, festas e
eventos a que tinha tido com o passar do último mês. Theo,
que tinha saudades da vida na cidade mais do que dizia, esteve
atenta a cada palavra de Simon. Júlia sentiu uma pontada de
culpa, mas àquelas alturas não estava disposta a deixar sua tia
partir. Não até que chegasse o bebê.
Depois do jantar Simon se voltou para Júlia:
— Damos um passeio?
Ela assentiu.
— Fitz, Lorde Winchester e eu vamos dar um passeio.
Estou convencida de que durante esse momento poderá me
proteger sem problemas. Se quiser, pode se retirar aos seus
aposentos.
Fitz franziu o cenho, a cicatriz de seu rosto ficando
branca.
— O duque não…
— O duque não está aqui — ela retrucou, e ato seguido
suspirou. — Lamento, Fitz. Não pretendia ser antipática, posto
que nada disto é sua culpa. Simon, poderá responder por
minha segurança durante a próxima hora?
Simon sorriu de orelha a orelha, as covinhas das
bochechas fazendo-se mais profundas.
— Eu a protegerei, formosa donzela.
Fitz não pareceu muito de acordo, mas aceitou. Simon
ajudou Júlia a levantar-se da cadeira e saíram para a grama da
ala oeste da casa.
Fazia um calor atípico para ser uma noite de primeiro de
maio. Os lilases já queriam florescer, assim como os lírios do
vale. Tudo estava verde e exuberante, um novo começo depois
do inverno frio e úmido. Júlia tomou assento em um banco de
pedra próximo.
— De verdade está bem? Quando me inteirei que tinha
caído, juro que envelheci um ano.
O resplendor suave das luzes da casa iluminava seu rosto
de preocupação.
Júlia levantou a cabeça e sorriu ao seu amigo.
— Tive uma torsão no tornozelo e estive com dor de
cabeça, nada mais. Tive muita sorte.
— Graças a Deus! Entendi que Colton não achou provas
das causas da queda.
— É verdade, embora não sei por que suspeita que possa
haver algo estranho, na verdade. Seja como for, deixou Fitz
aqui para me escoltar.
— Por que diabos não ficou ele, se estava tão preocupado?
Júlia encolheu os ombros.
— Disse-me que o melhor era retornar à Londres. Não
acredito que tenha pensado em voltar.
— Virá, Jules. Dê-lhe tempo.
— Quanto, Simon? — Júlia se levantou, afastou-se toda
tensa e ficou olhando a escuridão que envolvia a mansão. —
Estou há oito anos esperando-o. E tinha que ouvir as lindezas
que me diz quando estamos juntos. — Uma lágrima lhe saltou
do olho e a enxugou da bochecha com um tapa. Senhor, estava
farta de chorar por aquele homem. — Por que merece mais
tempo?
«Porque o ama», sussurrou uma voz em seu interior.
Simon se aproximou e lhe deu um apertão na mão.
— Porque é um teimoso e um cínico, e todas as pessoas às
quais em algum momento amou lhe deram as costas. Merece
que uma ou duas esperem. Virá, prometo-lhe isso.
Júlia apoiou a cabeça em seu braço.
— E se não vir?
— Fará. Conheço-o quase tanto como a mim mesmo. E, se
eu estivesse no seu lugar, estaria morto de medo.
— De medo? Colton não tem medo.
Simon riu.
— É brincadeira não? Colton tem pânico.
— De quê?
— De ti, tola.
Simon foi a alegria da casa durante os dias seguintes.
Jogava cartas, piquet ou qualquer outra coisa, com Júlia pelas
tardes, montava a cavalo com Angela e Fitz todas as manhãs, e
bebia licor com Theo pelas noites.
Júlia se reanimou. Seu corpo aumentava cada dia um
pouco mais e tinha uma energia imensa. Theo sugeriu que
possivelmente conviria reformar o quarto infantil, então em
uma boa manhã Júlia e a governanta, a senhora Gibbons,
foram dar uma olhada ao terceiro andar.
O aposento estava poeirento e deteriorado, o que não era
de estranhar tendo em conta que não tinha visto a luz do dia
em trinta anos. As janelas estavam cobertas de imundície,
projetando uma palidez cinzenta sobre as paredes sujas.
— A viúva do duque dizia que não nos preocupássemos
com este aposento — a senhora Gibbons disse defensiva, ao
lado de Júlia.
Com o cabelo cinza recolhido em um coque funcional, a
senhora Gibbons não era mulher de enfeites. Como dizia Theo,
essa governanta não andava com as garotinhas. Ela imaginava
quão aterrorizadas estariam as criadas de cometer um engano
sob o atento olhar da senhora Gibbons.
— Claro! — Júlia tranquilizou-a. — Não me ocorreria
culpar a você nem ao serviço por quão descuidado está isto,
senhora Gibbons, mas agora eu gostaria de vê-lo vazio.
— E o que fazemos com os móveis e os brinquedos, sua
excelência?
A governanta assinalou para o que havia no fundo do
aposento.
Júlia sorriu e imaginou Nick aninhado em sua cama. Ao
aproximar-se viu que havia algo escrito em uma das
cabeceiras. Retirou o pó com a mão e viu as iniciais N.S.
esculpidas na madeira. Encolheu o peito ao repassar as letras
com a ponta do dedo.
— Podemos limpá-los e guardá-los? Pode ser que algum
dia os usemos.
Os olhos da senhora Gibbons brilharam.
— Era um menino descarado… — avançou até a cama em
que Nick tinha esculpido suas iniciais. — Era o menino mais
fofo deste mundo, seu marido, mas um diabinho ao mesmo
tempo.
Nada tinha mudado agora que era adulto, pensou Júlia.
— Como era seu irmão Harry?
— Perfeito, muito responsável. A antítese de seu marido
em todos os sentidos. — A senhora Gibbons meneou a cabeça.
— O que aconteceu foi uma lástima.
— Certamente — Júlia disse entredentes, embora não
tinha nem idéia do que tinha acontecido exatamente. Tomou
nota mentalmente de perguntar ao Simon essa tarde. —
Esvaziemos isto, senhora Gibbons. Doe os brinquedos às
crianças do povoado e guardem as camas. Os colchões terei
que queimá-los. Quando estiver vazio falaremos da cor da
pintura e das cortinas.
— Muito bem, sua excelência.
Aquela tarde Simon e ela se sentaram para jogar uma
partida de piquet.
— Preparada para a surra que vou lhe dar, duquesa?
Simon sorriu e embaralhou habilmente as cartas.
— Em vista do resultado de nossa partida de ontem,
senhor, eu deveria lhe fazer essa pergunta.
— Quer que subamos a aposta?
Ela encolheu os ombros.
— Se estiver disposto a se desfazer de mais de duas libras,
que é o que ganhei ontem, sim.
Simon pôs-se a rir e sacudiu a cabeça.
— Sua arrogância não tem nada que invejar à de seu
marido. — Passou o baralho a Júlia e se reclinou. — Venha, até
deixarei que reparta.
Júlia esfregou as mãos.
— Você vai se arrepender.
Logo cada qual teve doze cartas. Fez-se o silêncio
enquanto estudavam suas mãos.
— Simon, o que aconteceu com o irmão do Colton? Refiro-
me ao escândalo.
Ele esfregou o queixo, pensativo.
— O que Colton te contou?
— Absolutamente nada. Negou-se a me responder quando
lhe perguntei a respeito.
— Veja, ninguém sabe o que aconteceu, Colton nunca
disse. Soltei-lhe uma ou outra indireta e não me corrigiu, de
modo que dou por certo que tenho razão. Mas ele deveria lhe
contar isso.
— Angela e ele foram…?
— Amantes? — Simon completou. — Não. Estou a par dos
rumores, mas Colton jamais teria feito ao Harry algo assim.
Amava o Harry. A morte de seu irmão o deixou destroçado.
Pôs três cartas em cima da mesa e tomou outras três do
maço.
— Por? — Disse ela, desfazendo-se de duas cartas e
pegando mais duas.
— Colton estava bêbado e zangado. Deu-me a impressão
de que tinha discutido com seu irmão por algo, que tinha
contrariado Harry justo antes de morrer. E seus pais o
culparam de sua morte.
Simon mostrou seu jogo, tinha a melhor combinação
possível.
Júlia fez o mesmo, consciente de que seu jogo podia
ganhar a mão.
— Deve ter sido terrível para ele.
— Acredito que para o Colton doeu muito mais a briga
com o Harry que com seus pais, porque fazia anos que tinha
renunciado a obter sua aprovação.
— Como seu pai conseguiu que aceitasse casar-se?
Simon saiu com uma carta, um valete de copas.
— Acredito que sei, mas não posso lhe dizer.
— Não pode ou não quer?
— Pois… não quero. Colton já está zangado comigo por me
haver misturado. Sinto muito, mas de verdade não posso dizer
nada mais. E deixa de tentar me distrair.
A porta se abriu e apareceu Angela. Simon se levantou
para saudá-la, e Júlia notou que se mostrava reservado, sem
sua paquera natural.
— Acaba de chegar isto para você. — Entregou a Júlia
uma nota. — Disse ao Thorton que eu a traria.
Júlia rompeu o lacre e leu a carta. O conteúdo lhe
arrancou um amplo sorriso.
— Oh! É de Sophie. Vem nos ver.
— Sophie? — Angela inquiriu.
— Lady Sophie Barnes, — Simon respondeu, seus olhos
fixos nas cartas — também conhecida como a filha do marquês
de Ardington e companheira de maldades da Júlia.
— Oh, que divertido! — Angela disse. — Certamente não
será por distrações nesta casa. Como digo sempre: quantos
mais sejamos, melhor. Quando chega?
— Amanhã — Júlia disse. — Sua madrasta e ela ficarão
três semanas. — Simon soprou e Júlia o olhou com dureza. —
O quê?
— Uma solteira e sua mamãe. Que Deus nos ajude!
Júlia e Angela riram.
— Sophie jurou que jamais se casará, Simon; de maneira
que pode ficar tranquilo.
— Isso tenho entendido, mas sigo sem entender como
pensa evitar.
— É filha única e o marquês lhe consente todos os
caprichos. É mais rico que Creso e prometeu deixar Sophie
escolher marido. Dá-me bastante inveja, na verdade. — Simon
lhe lançou um olhar cheio de compaixão, e ela elevou uma
mão. — Não o diga.
Angela estava atônita.
— M… mas você é duquesa! — Balbuciou. — Quase todas
as mulheres do reino adorariam estar em seu lugar.
— Sim, quase todas — Júlia disse entredentes enquanto
contemplava as cartas que sustentava na mão. — Simon, joga.
Ainda tenho dez libras para ganhar.

***

Saíram todos a receber a carruagem, que avançava


lentamente pelo caminho de acesso.
Sua amiga demorou uma eternidade para descer, mas
quando por fim apareceu Sophie, Júlia correu para ela. As
duas mulheres se abraçaram entre risadas, e a seguir Sophie
retrocedeu com brutalidade e olhou para baixo.
— Júlia! Os rumores são certos. Está…
— Sim, sei. Tenho muitas coisas para te contar, mas não
até que tenha entrado. Boa tarde, lady Ardington — disse à
madrasta de Sophie.
— Parabéns, sua excelência. Espero não a importunar
com nossa visita.
— Nada disso. Estamos encantadas por ter companhia.
Fizeram-se as apresentações de rigor e o grupo entrou na
casa enquanto os criados de Colton subiam os baús das
convidadas pelas escadas.
— Sei que estou imunda e cheiro a cavalo, mas posso
esperar um minuto mais. Vem passear comigo, por favor —
Sophie disse a Júlia, ao que parecia se remoendo de
curiosidade.
As duas mulheres se foram para a parte posterior da casa,
em direção aos jardins. Fitz saiu de um nada, disposto a
acompanhá-las, mas Júlia levantou uma mão para o impedir.
— Só vamos sentar no jardim, Fitz. Não precisa vir.
— Sim, sua excelência. Mas não se afaste mais, faça o
favor.
Sophie, boquiaberta, com os olhos castanhos bem abertos,
viu como Fitz se afastava.
— Que demônios está acontecendo?
Júlia pôs-se a rir.
— Saiamos e lhe explicarei tudo.
Uma vez que deram com um banco no jardim, Júlia lhe
disse:
— Sim, é do Colton.
— Refere-se ao bebê? — Ao ver Júlia assentir, Sophie pôs
os olhos em branco. — Ora, naturalmente. Nem me passou
pela cabeça que pudesse esperar um filho de outro homem.
Então quando me disse que estava em Paris, na realidade foi…
— Procurar o Colton em Veneza. E triunfei.
Fez um gesto para seu ventre.
— Por que agora, depois de oito anos?
Júlia procedeu a contar tudo à sua amiga, inclusive sobre
o Templeton, que tinha contratado Pearl Kelly e o acontecido
em Veneza, concluindo com a visita mais recente do Colton à
mansão Seaton.
— Uma cortesã? — Sophie repetiu. — Não posso acreditar
nisso! Tem que me contar tudo o que te disse. E disse que lorde
Winchester te ajudou? Entendo que Colton esteja furioso.
— Ei, você tem que ficar do meu lado!
Havia ocasiões em que a insistência de sua amiga em dizer
o que pensava contraia os nervos de Júlia.
— Sinto muito, Júlia, mas já sabe que nunca adoço as
coisas, nem sequer por ti. Pode ser que não esteja casada, mas
está claro que nenhum homem aceita bem que o enganem.
Mesmo assim, entendo que acreditou que não havia outra
opção.
— Não acredita que é o pai. Colton está convencido de que
viajei a Veneza com o bebê de outro homem no ventre, decidida
a seduzi-lo para legitimar a criança.
— Bom, o tempo o dirá — Sophie disse. — Nove meses são
nove meses, Júlia. Que tal o tempo que passou com ele em
Veneza? Foi… amável contigo?
O coração de Júlia se abrandou ao rememorar aquela
magnífica semana.
— Sim, foi sim. E atencioso e carinhoso. Foi
verdadeiramente maravilhoso.
— Oh, céus, se apaixonou! Nota-se.
Júlia suspirou e não se incomodou em negar.
— Não quero amá-lo. Foi deliberadamente cruel desde que
voltou. Entendo que esteja zangado, mas e se nunca me
perdoar?
Sophie a abraçou.
— Então é porque é mais estúpido do que pensamos —
disse em voz baixa. — É muito valente e muito forte, Júlia. Se
Colton se negar a te corresponder, faremos como se ele não
existisse. Tem muitos amigos que te amam e se preocupam
contigo, embora gostaria que tivesse recorrido sobre o
Templeton. Talvez meu pai…
— Não, Sophie, ninguém poderia ter parado Templeton
salvo Colton ou a viúva do duque, mas obrigada. Sou uma
afortunada por tê-la como amiga; e perdoe-me por não ter lhe
contato tudo isso até agora.
— Pois claro que te perdoo. Demorei uma eternidade em
convencer a minha madrasta de que deixássemos a cidade para
vir ver-te. A temporada de eventos sociais está acabando, mas
até agora não quis ausentar-se de nenhuma maneira. Se não
suplicasse a papai…
— De maneira que assim conseguiu, não é? Que tal está o
marquês, por certo?
— Desesperado por ter netos. Disse que me dá um ano
mais para encontrar marido ou ele procurará.
— Oh, não! — Júlia exclamou espantada.
Sua amiga riu e agitou uma mão.
— Não acredito que o diga a sério. Não é a primeira vez
que profere algum tipo de ameaça.
— Vamos ver, há alguém que te inspire afeto? O que me
diz do Simon?
— Não, nem pensar. Sei que o adora, Jules, mas não me
faz sentir mariposas no estômago, sabe o que quero dizer?
— Sim, por desgraça sim. Já eu queria sentir menos
mariposas com o Colton.
O olhar de Sophie se voltou inquisitivo.
— Me deixará ler então os conselhos que Pearl te deu? Se
funcionaram com o Colton…
— Essa mulher é um verdadeiro gênio, Sophie. Passarei o
que me escreveu quando achar o homem a quem queira jogar o
laço; as verá e desejará.
Capítulo 13
Não importa o que digam os outros. Enquanto a cuidem, deixe
que falem.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Nick atirou a carta de Fitz. Maldito Winchester! Deveria


haver imaginado que o cavalheiro de brilhante armadura de
Júlia correria ao seu lado. Algum dia descobriria que boa obra
tinha feito ela para que Winchester a tivesse em tão alta
estima.
Detestava ter ciúme, sobretudo porque nunca, jamais na
vida, tinha experimentado algo similar. Mas aquela fúria
arrebatadora e aquela incerteza de suas vísceras eram
inegáveis.
Não é que acreditasse que eles dois tinham tido relações
sexuais. Não, detestava a intimidade que compartilhavam, a
amizade e o afeto que ela oferecia a um homem que não era seu
marido. Mas por que o incomodava, não saberia dizê-lo, porque
ao fim e ao cabo ela o tinha tomado por idiota.
Mas a lembrança de vê-la passando mal, tão pálida e
frágil, perseguia-o. Queria protegê-la, ser seu cavaleiro
andante, não Winchester. E guardar sentimentos tão profundos
por uma mulher que o tinha traído o convertia em um exímio
idiota.
Estava se servindo uma taça quando Marlowe anunciou
Quint. Seu amigo entrou, desalinhado e mal-vestido como de
costume, e Nick pediu a Marlow que trouxesse chá; Quint não
tomava álcool.
Seu amigo desabou em uma cadeira.
— Vim saber se por acaso queria ir ao White para jantar e
logo possivelmente ao teatro. Estrearam uma obra nova no
Covent Garden.
Nick suspirou. Uma noite na cidade lhe parecia muito
tediosa e pouco atrativa.
— Parece-me que não.
— Leva semanas sem sair. O que aconteceu em sua última
visita à mansão Seaton?
A verdade rugiu em seu cérebro, humilhando-o:
«Por pouco me deitei com minha mulher, que provavelmente
esteja esperando um filho de outro homem, porque já não posso
me controlar».
Temeroso de que o humilhante pensamento lhe escapasse
da boca se a abrisse, limitou-se a sacudir a cabeça como
resposta.
— Não aceitarei um não por resposta, Colton.
Nick sabia que essa noite não seria boa companhia. Talvez
se Quint se desse conta por si só, deixaria de o importunar
para que saísse. Apurou o brandy.
— Muito bem. Vamos. Jogaremos primeiro algum jogo de
azar.
Ao chegar ao White, Nick notou pelos olhares ávidos
postos nele que algo tinha transcendido. Quint e ele,
arrogantes, abriram espaço para as mesas de azar do fundo.
Apertaram-se em um espaço de uma mesa abarrotada e
começaram a apostar. Entretanto, nos minutos seguintes, o
resto dos jogadores começou a retirar-se até que só ficaram
Quint e ele.
Estiveram jogando um momento mais e logo foram
tranquilamente para a sala de jantar. O falatório se reduziu a
sussurros enquanto Quint e ele eram conduzidos à sua mesa.
Nick suspirou. E agora o quê?
Sentado na cadeira, voltou-se e perguntou ao homem que
tinha atrás.
— St. John, por que diabos cochicham?
St. John voltou os olhos para o Quint e logo depois de
novo ao Nick.
— Mmm… suponho que não viu o livro de apostas, não é?
O estômago de Nick se encolheu, mas manteve a voz firme
e serena.
— Não, não o vi. Há alguma razão pela qual deva vê-lo?
— Mencionam a sua… mulher. — St. John pigarreou. —
Diz…
Nick empurrou a cadeira para trás e saiu aos trancos da
sala de jantar. Ninguém ousou detê-lo enquanto se dirigia para
onde estava exposto o livro de apostas.
Não lhe custou encontrá-lo. Última anotação, de caráter
anônimo: «Cinquenta libras para quem adivinhar quando dará à
luz a duquesa de C.».
Nick arrancou a página. Espremeu o papel na mão,
caminhou irado até o salão principal e o jogou no fogo mais
próximo. Retornou à sala de jantar e voltou a ocupar seu lugar.
Haviam trazido o jantar, mas mal provou o linguado ao forno, a
fúria e a humilhação a ponto de o asfixiar.
Livro infernal. Ainda recordava as numerosas apostas
realizadas durante o escândalo, tais como se ele tinha seduzido
a mulher de seu irmão ou se tinha matado este último. No
estupor do momento tinha sido capaz de ficar acima de tudo
aquilo; desnecessário dizer que a realidade tinha sido muito
pior do que os idiotas do White conseguiam imaginar.
Naquela época a especulação o seguiu para onde ia. E
agora, graças à sua mulher, nada tinha mudado. Estavam
fazendo apostas sobre a legitimidade do filho de sua mulher.
Maldição!
Quint se inclinou para diante.
— Posso perguntar o que tinha?
Nick repetiu e Quint franziu as sobrancelhas.
— Correm rumores, mas ninguém sabe ao certo se sua
mulher está grávida. Agora que voltou para a Inglaterra, o mais
provável é que estejam fazendo apostas sobre quando a deixará
grávida.
Nick não tinha tido isso em conta. O nó do estômago se
suavizou um pouco.
— A que se devem os sussurros então? Por que aqui todo
mundo atua como um coelho atemorizado na minha presença?
O rosto de Quint denotou estupefação, como se a resposta
fosse mais que óbvia.
— Porque a última vez que esteve aqui deu um murro na
cara de um homem, ou tinha esquecido?
A verdade é que Nick tinha esquecido, sim. Passou uma
mão pela mandíbula.
— Em qualquer caso, não quero que o nome da minha
mulher esteja nesse livro; não me importa o motivo.
— Bom, se por acaso ainda tenha dúvidas, Winchester
jura que o bebê é teu.
— O que saberá ele! — Nick exclamou com voz lenta.
Retiraram-lhes o jantar e os dois ficaram um pouco mais
com suas bebidas: vinho do porto para Nick e chá para Quint.
A conversação da sala de jantar se animou um pouco, por isso
deduziu que já não cochichavam sobre sua pessoa e sobre
Júlia.
Sua mulher. Algum dia se livraria dela, daquele desejo
irrefreável que sentia? Porque aqueles sentimentos obsessivos
em algum momento se dissipariam, não é?; assim seguiria
adiante com sua vida. Então, por que demoravam tanto,
maldição?
Porque nunca tinha estado tão condenadamente no fundo
do poço. Nem quando morreu seu irmão nem quando seus pais
lhe deram as costas. Inclusive sua solitária infância era
insignificante em comparação com o achado dessa mulher
perfeita em Veneza e o posterior descobrimento de que tudo
tinha sido mentira.
Um hábil engano. Não suspeitou em nenhum momento.
«Conhecia sua reputação… então paguei Pearl Kelly para
que me ensinasse as maneiras de uma cortesã.»
Nick franziu a testa e deu um gole no brandy. Embora não
fazia muito tempo que estava de volta em Londres, até ele tinha
ouvido falar de Pearl Kelly. A sério Júlia tinha contratado a
legendária cortesã para aprender os segredos do ofício, por
assim dizer?
Tão… habilidosa era Júlia que Nick tinha estado
convencido de que outro homem tinha iniciado a sua esposa
nas artes da sedução. Como aquela noite em que lhe havia dito
que se via incapaz de repetir pela quarta vez, coisa que ela
tomou claramente como uma provocação, demonstrando-lhe
que estava equivocado. A lembrança de sua forma de mover a
língua descarregou um raio de desejo. E se tinha estado
equivocado todo este tempo?
Quint atirou o guardanapo em cima da mesa.
— E então? Vamos? A apresentação começa em menos de
uma hora.
Nick tinha esquecido o teatro, mas a idéia de sair do clube
nunca lhe tinha parecido melhor. Assentiu com a cabeça e os
dois homens não demoraram para ir para o Covent Garden.
Acabaram no camarote de Colton, um dos maiores, no centro
do teatro. Uma vez que tomaram assento, Quint deu-lhe uma
cotovelada e sussurrou:
— Agora não olhe, mas Pearl Kelly está com o Burston, no
segundo camarote à sua esquerda.
Nick não duvidou em dar uma olhada e cravou os olhos
em uma morena magra. Esta esboçou um sorriso fugaz e se
aproximou de lorde Burston para lhe dizer algo. Nick viu que
Burston assentia e ato seguido se levantava.
— Acredito que vão nos convidar para a apresentação —
Quint resmungou.
— Melhor dizer recrutar — Nick disse entredentes.
Quint estava rindo quando Burston entrou no camarote.
Rechonchudo e imberbe, tinha suficiente dinheiro para que
uma mulher como Pearl Kelly ignorasse seu aspecto.
— Sua excelência — Burston saudou com uma reverência.
— Me tinham falado de sua volta. Que tal suas viagens?
— Surpreendentes — Nick saiu pela tangente. — Distintos
como tinha imaginado.
— Conhece a senhorita Kelly?
Burston fez um gesto para seu camarote.
— Falaram-me dela.
— Venha, permita-me que a apresente? Dispomos de uns
minutos antes que comece a apresentação.
Por curiosidade e cortesia, Nick o seguiu pelo corredor,
através das cortinas e ao interior do camarote. A senhorita
Kelly não girou até que chegaram junto a ela.
— Querida — Burston começou, e se levantou para
recebê-los uma mulher absolutamente adorável e vestida com
roupa muito cara.
Com seu radiante sorriso ressaltado por uma fileira de
diamantes em seu penteado, Pearl Kelly não era absolutamente
como Nick imaginara. De pequena estatura e não
especialmente voluptuosa, seu delicado rosto estava rodeado de
grossos caracóis castanhos. Uns diamantes lhe embelezavam
as orelhas e também o pescoço, e tinha quase todos os dedos
adornados por anéis. Estava claro que era uma mulher que
sabia apreciar as jóias.
Burston procedeu a apresentá-los. A reverência de Pearl
Kelly foi correta e cortês.
— Sua excelência! — Exclamou. — Que luxo de visita! —
Seus olhos eram marrons com bolinhas verdes. Olhos
inteligentes e ardilosos que o avaliaram com atenção. — Quer
que nos sentemos? Quando tenho visitas eu gosto de me pôr
cômoda.
Nick conteve a risada. Tinha-a estado esquadrinhando
com tanto afã que esqueceu as maneiras.
— Desculpe — disse e se acomodou na poltrona próxima à
sua e reparou com certa curiosidade que Burston tinha
desaparecido.
— Você é tão bonito como dizem.
Ela o repassou de cima a baixo, e ele se reclinou com
regozijo.
— E você é tão formosa como me haviam dito.
— Confesso que estou um tanto aturdida. Atrair o Duque
Depravado ao meu camarote é um golpe de efeito. — Sua boca
se curvou para cima. — Acredito que, se não fosse por sua
esposa, você e eu poderíamos nos haver conhecido em
circunstâncias muito distintas, sabe?
— E eu que pensava que a maioria das mulheres de sua
posição não se importa com a existência de uma esposa.
Nick sentia curiosidade por ver para onde iria aquela
conversação. Confirmaria que tinha tutelado Júlia, ensinando-
lhe todos os segredos com os que contavam as prostitutas?
— Mas é que eu não sou como a maioria. Falando de
esposas, você é um homem afortunado. Sua excelência é muito
formosa. — A expressão da senhorita Kelly não demonstrou
nada, e Nick se desconcertou ainda mais. Antes que pudesse
responder, ela perguntou: — Não lhe parece?
— Com efeito. E muito esperta.
— A maioria das mulheres são. Vocês, os homens, não
costumam fixar-se nessas coisas. Digamos que estão
obcecados com nossos encantos mais óbvios. — Alisou a saia
sem olhá-lo nos olhos. — Mas as mulheres fazem o que for
preciso para conseguir o que querem.
— E o que querem as mulheres, senhorita Kelly?
— Me chame de Pearl. Todos meus amigos o fazem…
Nick deu um pulo ao recordar uma conversação muito
similar com a senhora Leighton em Veneza.
— … e me conformo com pouco, sua excelência.
Atualmente, não faço quase nada que não me divirta.
Estava se referindo à ajuda a Júlia? Malditas mulheres e
sua habilidade para falar com segundas intenções.
— Admirável costume, se semelhante entretenimento não
fizer mal a ninguém. «Por exemplo, a um marido» — Nick quis
acrescentar.
— Oh! Duvido que tenha chegado a fazer mal. Meus
entretenimentos tendem a estar mais dirigidos à busca de
prazer. Com certeza um homem de sua reputação sabe
valorizar esse empenho.
Bom, agora sim estavam chegando à medula do assunto.
Nick cruzou os braços diante do peito.
— Sim, valorizo a busca de prazer, mas só quando se
aborda com honestidade e franqueza. Nunca gostei da
hipocrisia.
Ela riu; um som grave e rouco, e lhe roçou fugazmente o
braço.
— Oh, sua excelência! Um pouquinho de hipocrisia até
pode vir bem. A vida não é uma tragédia grega. Está para
desfrutá-la! Para saboreá-la. Para vivê-la sem olhar para trás.
Entendi que você é um tipo sério e taciturno, mas tem que
18
mostrar mais joie de vivre , de verdade.
Muito ao seu pesar, Nick estava entretido.
— Você é sempre tão abominavelmente otimista?
— Só em companhia de homens atraentes. Além disso, por
que não seria? Embora é verdade que não tive uma infância
agradável, note-se em tudo o que consegui, em tudo o que
tenho agora. Se não fôssemos mais que escravos de nossas
hesitações e defeitos, a vida seria certamente monótona.
O que dizer ante tal afirmação? Era um reflexo de sua vida
e não lhe fez nem um pingo de graça. Desde sua volta a
Londres tinha passado muitas noites aborrecidas no palacete,
ruminando a sós.
— Seu amigo…, o visconde de Quint, acredito que é… —
Pearl Kelly inclinou a cabeça coberta de diamantes para o
camarote do Colton — sempre teve um sentido da estética tão
péssimo?
Nick segurou uma risada.
— Sim, toda a vida. Procuramos não ter em conta.
Ela assentiu com a cabeça.
— É o interior o que conta, não é? — Reclinando-se na
cadeira, Pearl Kelly olhou de novo para o Quint. — Faltou-lhe
pouco para casar-se com aquela grotesca da Pepperton. A
pirralha fugiu nem mais nem menos que com um cavalariço.
Absurdo.
Nick unicamente sabia o que Quint lhe tinha contado, que
não era muito.
— «O amor não olha com os olhos, a não ser com a alma» —
disse citando Shakespeare.
— «Por isso pintam cego o alado Cupido» — ela completou.
— Acredita que isso é verdade, sua excelência? Apaixonou-se
pela beleza ou pela inteligência de sua esposa?
Ele reprimiu o impulso de rir. Apaixonar-se? Por Júlia?
Que idéia mais absurda, não é?
— Você está alterado! — Ela riu. — Que previsíveis são os
homens. Ora, Burston já vem. — Pearl se levantou e Nick fez o
mesmo. — Parece que nos acabou o tempo, sua excelência.
— Foi um autêntico prazer, senhorita Kelly. — Nick tomou
sua mão enluvada e a levou aos lábios. Observou Pearl com
atenção; brilhavam-lhe os olhos. — Tenho a impressão de que
fui útil, de que esta noite a entretive.
— Certamente que sim. Esta conversação foi memorável
por muitíssimas razões. — Pearl se aproximou. — Rogo-lhe que
dê lembranças à sua mulher de minha parte. Tenho-a na mais
alta estima.
Nick olhou fixamente os olhos da cortesã e a resposta que
tinha estado procurando estava ali. Era verdade: Júlia tinha
contratado Pearl para aprender a seduzi-lo. Engoliu as
perguntas que lhe fechavam a garganta.
— Conte com isso.
Despediu-se e voltou para seu camarote, aturdido. A obra
se representou, mas ele prestou pouca atenção, porque sua
mente seguia impactada pela conversação e pelo que tinha
descoberto.
Tinha estado totalmente convencido de que Júlia tinha
mentido, de que o responsável por seu profundo conhecimento
das atividades físicas tinha sido outro homem. Tinha
demonstrado muito… talento para concluir outra coisa. A idéia
de que ele tinha sido seu primeiro amante lhe parecia risível.
Recordou aquela primeira vez em que ela o tinha montado
escarranchado em uma cadeira. Ele estava muito possuído pelo
desejo para perceber algum indício de sua virgindade, mas se
lembrava do ímpeto com que ela o tinha montado, deixando
que ele a penetrasse até o fundo com força na primeira
investida. Tinha sido fruto de um desejo desenfreado, tal como
ele imaginou, ou para perfurar sua membrana sem chamar a
atenção?
Posteriormente, Júlia tinha se levantado em seguida para
lavar-se e para lavá-lo; a única vez que o tinha feito de todas as
que estiveram juntos.
Em seu estômago sentiu uma sensação nauseante. A sério
sua mulher tinha permanecido virgem oito anos?
Parecia ridículo. Com seu corpo, engenho e inteligência,
poderia ter conseguido qualquer homem. Por que diabos ia
reservar-se para ele, um homem que não conhecia e com quem
provavelmente jamais cruzaria? Não tinha nenhum sentido.
Esfregou a nuca. Se verdadeiramente Júlia era virgem em
Veneza, então o bebê… Deus santo! Estalou em seu peito uma
dor aguda. Tinha estado equivocado todo aquele tempo?
Inspirou fundo e procurou não perder a serenidade. De
nada servia ficar histérico. O tempo diria se a criança era dele
ou não. E que Júlia tivesse contratado Pearl Kelly não
significava que fosse virgem em Veneza. Se seu empenho tinha
sido enganá-lo para lhe fazer acreditar que esse filho bastardo
era dele, receber conselhos de Pearl teria garantido seu êxito
para fazê-la irresistível, casta ou não, aos seus olhos.
Mas o tempo diria. Agora só devia ser paciente até obter a
resposta que necessitava. Entretanto, a semente da dúvida
tinha germinado, deixando-o perturbado e receoso.

***

Simon partiu da mansão Seaton depois que lady Sophie e


sua madrasta chegaram. AJúlia causou pena vê-lo partir, mas
prometeu voltar para vê-la assim que nascesse o bebê.
No transcurso das duas semanas seguintes, Sophie e ela
ficaram a trabalhar a sério no quarto infantil. Colocaram
tapetes novos no chão e fizeram pintar o aposento de um
amarelo alegre. Compraram cortinas e móveis, e em uma das
paredes Sophie desenhou uma réplica exata do lago da mansão
Seaton.
Estavam esvaziando uma caixa de brinquedos comprados
no povoado quando Júlia sentiu uma ligeira revoada no
abdômen. Na segunda vez afogou um grito.
— Sophie! O bebê! Acaba de mover-se. Notei-o!
Tomou a mão de sua amiga e a colocou na dura
protuberância de sua barriga.
Tiveram que passar cinco minutos, mas o bebê voltou a
fazê-lo.
— Notou?
Sophie tinha os olhos como pratos.
— Não, mas te acredito. É uma sensação estranha?
Júlia assentiu.
— Estranha e maravilhosa. Vou ver Theo. Vemo-nos logo.
Baixou voando ao segundo piso e correu até os aposentos
de Theo, onde essa tarde sua tia estava descansando. Júlia
morria de vontade de lhe contar que por fim tinha notado o
bebê mover-se.
Ao dar a volta a porta de Theo se abriu. Do dormitório de
sua tia saiu Fitz, com aspecto um tanto desalinhado. Júlia
freou em seco. Possivelmente tivesse levado a Theo…
Uma mão de mulher, que Júlia reconheceu como a de
Theo, apareceu de um nada agarrando Fitz pelo colarinho, e o
homem foi arrastado ao interior. Sua cabeça desapareceu na
habitação e Júlia ouviu… um beijo.
Fascinada, seguiu passando desapercebida. Cravou a
vista em seus sapatos e esperou.
Theo… com o Fitz! Reprimiu uma risadinha nervosa.
Ouviram-se passos pesados. Apareceu e viu o Fitz muito
tranquilo andando pelo corredor em direção contrária. Theo,
que o tinha visto partir, virou-se para voltar a meter-se no
quarto e então viu Júlia.
Atônita, sua tia fechou a bata com as mãos.
— Quanto tempo está aí?
Júlia correu até ela e colocou-a em seu aposento.
— O suficiente. Tia Theo, não posso acreditar nisso! Fitz é
tão…
— Grande. Sei.
Deu uma cotovelada cúmplice no flanco de Júlia.
Júlia não pôde reprimir uma gargalhada.
— Theo! Ia dizer jovem. Provavelmente lhe dobre a idade.
— Não exagere, querida. Nem que eu fosse tão mais velha.
Além disso, eu gosto. É adorável.
— Pois me alegro por ti. Desde quando dura este idílio?
Júlia foi sentar-se na cama de Theo, mas mudou de idéia
ao recordar o que acabava de ocorrer ali.
— Há várias semanas. — O rosto angélico de Theo sorriu
abertamente e Júlia compreendeu quão feliz fazia à sua tia
aquele romance. — Queria lhe dizer, mas não sabia como
tomaria.
Júlia se levantou e abraçou a sua tia.
— Se te fizer feliz, tia Theo, a mim também. — Notar a
turgidez de seu abdômen contra sua tia lhe recordou o
propósito inicial de sua visita. — Ah, sim! Vim te dizer que
notei o bebê mover-se. Me dê… — reteve a mão de sua tia na
barriga — para ver se o pequeno voltará a fazê-lo.
Passaram vários minutos, mas não aconteceu nada.
— Ora, eu com a ilusão de compartilhar contigo! — Júlia
resmungou.
Theo lhe deu uns tapinhas no braço.
— Temos tempo de sobra para isso, querida. Em uns
meses teremos essa preciosidade nos braços. Por que sempre
fala do bebê em masculino? Pode ser que seja uma menina.
— É verdade. Mas como é o único filho que Colton e eu
teremos juntos, espero que seja um menino. Assim ficarei com
a tranquilidade de ter cumprido com meu dever.
— Seu dever não importa a ninguém. Se verdadeiramente
Colton não desejar um herdeiro, não precisa que nos
preocupemos com o sexo de seu filho.
— Suponho que tem razão, embora possa ser que Colton
mude de idéia algum dia. Bom, seja o que for, este filho será
meu e o educarei ou a educarei como me parecer oportuno.
— Fitz diz que, em Londres, Colton tem o ânimo
arrastando pelo chão.
Theo falou em voz baixa, embora ninguém mais pudesse
as ouvir.
Júlia inclinou o corpo para frente e tomou a mão de Theo.
— Ah, sim? Ora… O que mais Fitz te disse?
— Diz que o duque mal sai, que passa o dia refletindo
melancólico e só no palacete de Londres.
— Sozinho? Não sei, custa-me acreditar. Seguramente
Nick procurou companhia ali. Não estranharia que tivesse uma
amante já, ou duas.
Theo sacudiu a cabeça.
— Segundo Fitz, o duque não recebeu companhia
feminina. Diz que uma noite foram a um bordel, mas que
Colton saiu apavorado em poucos minutos.
Júlia não soube como tomar essa informação. Embora lhe
alegrasse que seu marido não tivesse uma amante, desgostava-
a que preferisse estar sozinho que ali, na mansão Seaton.
— Prefere me ignorar e estar em Londres com o ânimo no
chão, que aqui, comigo.
— Isso é o que opina Fitz. Diz que Colton está castigando
a si mesmo e a ti não aproximando-se daqui.
— Bom, pelo menos tenho a companhia de Angela e a tua.
— E logo terá também ao bebê — Theo lhe recordou.
Capítulo 14
Pode ser que os homens, especialmente os obstinados, façam-na
zangar frequentemente. Só você pode decidir se vale a pena
perdoá-los.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Foi uma delícia de verão. Júlia engordava. Deu longos


passeios, leu junto ao lago e cortou flores frescas do jardim.
Theo e Fitz foram seus leais companheiros de excursão, fruto
tanto de seu desejo de estar juntos como de velar por ela.
Angela também rondava por ali, conversando incessantemente,
como de costume.
Quando o calor de agosto por fim se esticou até setembro,
Júlia imaginou que Nick chegaria em qualquer momento.
Certamente se tivesse dado conta de seu engano, de que esse
bebê não era um bastardo, mas sim sangue de seu sangue.
Não deveria estar prostrado aos seus pés implorando perdão?
Sua ausência doía. Quando o bebê dava chutes, ela queria
compartilhar com ele. Pelas noites desejava suas carícias para
que lhe aliviassem as dores das costas e os pés doloridos.
Estava encarando o nascimento de seu primeiro filho, em
escassas semanas, com sensação de solidão e temor. Tão
zangado estava ainda que a verdade já não contava? A fresta de
esperança que tinha abrigado em salvar seu matrimônio
murchou junto com as flores do verão.
Quando a segunda semana de setembro deu passo à
terceira, a Júlia já não importava nada mais que dar à luz.
Estava desesperada… e imensa. Custava-lhe andar, inclusive
respirar, e mal provava alguma comida porque se sentia
permanentemente cheia. Nem sequer lhe importava Nick. Era
evidente que ele a desconsiderara, e já não tinha nem energias
para seguir sofrendo.
A parteira disse que podia dar à luz em qualquer
momento. Disse-lhe que andasse o máximo possível e
mandasse procurá-la no primeiro indício de parto.
E justo quando acreditava seriamente que não
sobreviveria a outro dia, aconteceu. No lanche esteve se
queixando a Theo do muito que lhe doíam as costas. A dor era
mais intensa que em dias anteriores resolveu voltar para a
cama. Theo insistiu que não o fizesse, repetindo-lhe as palavras
da parteira de que não deixasse de passear. De maneira que foi
naquela tarde, passeando pelo terraço, que tudo começou.
Fitz, que nos últimos dias a tinha estado observando de
perto, correu a procurar Theo, que imediatamente enviou um
lacaio para buscar a parteira, a senhora Popper. A seguir os
dois ajudaram Júlia a subir ao seu aposento, onde Theo pediu
ao Fitz que se retirasse e pôs em sua sobrinha uma camisola
limpa. Não muito depois começaram as dores, tênues e
ligeiramente irritantes ao princípio. Quando a senhora Popper
chegou trinta minutos mais tarde, a dor se intensificara
grandemente.
Depois de quatro horas Júlia pensou que a agonia não
podia piorar. A parteira a fez levantar para que caminhasse um
pouco pelo quarto, em um intento por acelerar o parto. A dor,
quando aparecia, seguia-lhe desde as costas até o ventre
durante o que parecia uma eternidade cada vez. Nesses
momentos, ela se agarrava com força à mão de Theo e por sua
boca saíam todas as palavras impróprias de uma dama que
havia em seu vocabulário.
— Quanto falta? — Disse, agarrando-se a uma coluna do
dossel para recuperar o fôlego.
— Farei uma exploração dentro de meia hora, sua
excelência. No último tato o bebê não estava preparado para
sair.
A senhora Popper era uma anciã amável, mas naquele
momento Júlia não estava pensando coisas particularmente
amáveis sobre ela.
Bateram na porta. Theo foi ver quem era e Júlia se
retorceu outra vez de dor. Quando foi capaz de tomar ar de
novo, sua tia a puxou pela mão.
— Colton está na porta, querida. Quer que o deixe entrar?
— Colton? Céu santo! Como pôde vir tão depressa?
Theo ficou muda.
— Bem, está há três semanas hospedado na estalagem do
povoado.
— Três semanas! — Estava há quase um mês no povoado.
Por que não tinha ido dormir na mansão Seaton? Ou vir de
visita? — Por que não me disse?
Theo retorceu as mãos.
— Fitz me pediu que não o fizesse. Ao que parece, Colton
não queria que se inteirasse de sua presença.
Deus! Tanto a odiava? Tinha-lhe demonstrado que não
tinha posto chifres, e mesmo assim não queria vê-la. Estava
parindo o seu bebê e era incapaz sequer de alojar-se na mesma
casa.
Uma dor que não tinha nada a ver com o bebê lhe rasgou
o peito.
— Diga que vá embora.
— Tem certeza…?
— Diga. Que. Se. Vá — Júlia resmungou enquanto lhe
sobrevinha outro ataque de dor.
Sua tia assentiu lentamente com a cabeça e se dirigiu
para a porta.
Transcorreram outras seis longas horas. Angela foi fazer-
lhe companhia um momento para dar uma pausa a Theo.
Agora Júlia estava na cama, descansando entre dor e dor. Os
períodos de descanso entre uma e outra eram cada vez mais
curtos e também maior a intensidade da dor.
Júlia não sabia se poderia aguentar muito mais. Estava
exausta e quase delirava de dor. Angela e Theo lhe enxugaram
o suor da testa e lhe davam goles de água de cevada, nada
serviu para aliviar sua sensação de rasgo interior.
Uma hora e meia depois a senhora Popper anunciou que
tinha chegado o momento de empurrar. O dormitório se
converteu em um ir e vir de preparativos para o bebê, embora
Júlia mal se dava conta. Tão cansada estava que não tinha a
menor idéia de onde tiraria a força necessária para empurrar.
As extremidades tremiam e com muita dificuldade podia
manter os olhos abertos.
Para evadir da dor, sua mente ficou a divagar. Pensou em
Veneza, em seus dedos passando pelo sedoso cabelo castanho
de seu marido, convexo sobre seu regaço. Em Nick a segurando
pela mão e provocando-a enquanto passeavam por Torcello. Em
Nick, sorrindo-lhe com ternura justo antes de lhe beijar. Queria
voltar a sentir-se assim.
— Nick — gemeu. — Necessito do meu marido, por favor.
Que alguém…
Uma dor se apoderou de suas vísceras e Júlia gritou. A
senhora Popper começou a dar instruções a Theo sobre como
ajudar a segurar Júlia agora que tinha que empurrar.
— Nick! — Júlia gritou quando recuperou o fôlego.
Já não tinha importância que se hospedara no povoado,
longe dela. Necessitava de sua fortaleza, que lhe assegurasse
que tudo sairia bem. Queria o Nick de Veneza.
Agonizando de dor, sua cabeça golpeou grosseiramente
contra o travesseiro enquanto suava a mares.
— Necessito do Nick. Aqui comigo. Agora.
Ouviu vagamente que, antes de abandonar o quarto,
Angela dizia a Theo que se ocuparia disso.
Nick não podia ficar quieto. De tanto passear acima e
abaixo por pouco fez um buraco no tapete Aubusson. Tinham
passado quase doze horas. Era normal? O bebê já não deveria
ter nascido? Tinha ouvido os gritos procedentes das
dependências de Júlia. Atormentava-o a espantosa sensação de
que algo ia mal. Deus, se a perdesse…
A porta da biblioteca se abriu e lady Lambert entrou.
— E então? — Nick murmurou.
Angela sacudiu a cabeça.
— Ainda não. Pediu-me que você volte para a estalagem.
Se o necessitar, o faremos saber.
Uma súbita decepção o atropelou.
— Não quer ver-me?
Os olhos de Angela se encheram de compaixão.
— Lamento-o, sua excelência. Se o requererem antes da
manhã, o avisaremos — disse virando-se para partir.
Aconteceu justo o que temia. Júlia não o queria nem o
necessitava. Equivocou-se, tinha sido um estúpido por dar por
certo que ela estava grávida de outro homem. Havia lhe dito
umas coisas… dava-lhe medo que nunca o perdoasse, porque
bem sabia Deus que ele jamais perdoaria a si mesmo.
Por essa razão se manteve afastado aquelas últimas
semanas. A julgar pela data do parto, não cabia dúvida de que
a criança era dele. Como ia olhar a mãe de seu filho, sabendo o
que tinha chegado a dizer? Júlia tinha todo o direito do mundo
de odiá-lo, coisa que ao que parecia já fazia.
— Poderíamos ficar, diga o que diga lady Lambert — Fitz
soltou, sentado junto à lareira folheando uma biografia de
Jonathan Swift.
Nick desabou em uma poltrona, pôs os cotovelos nos
joelhos e apoiou a cabeça nas mãos. Apresentou-se em sua
porta fazia um momento, tinha pedido para vê-la. Tinha sido
horrível estar no corredor ouvindo seus gritos de dor. Seu
único pensamento tinha sido lhe oferecer consolo, por pouco
que fosse. Mas Theo lhe havia dito que nesse momento Júlia
não queria vê-lo, que esperasse na biblioteca e que sua mulher
possivelmente mudaria de idéia.
Pois pelo visto não tinha mudado de idéia.
Parecia como se aquela casa zombasse dele. Não tinha
sido bem recebido em vida de seus pais e nada tinha mudado
agora que estavam mortos. Sua mulher tampouco o queria ali.
Tampouco podia culpá-la. A culpa do que tinha feito
levava várias semanas consumindo-o. Com muita dificuldade
dormia, nem provava nada consciente de que não demoraria
para chegar o dia em que teria que fazer frente a Júlia. O que
lhe dizer para desculpar-se?
E agora ela o tinha mandado embora. O peito se contraiu
e se amaldiçoou pela enésima vez.
— Estarei na estalagem. Me avise quando…
Fitz assentiu.
— Farei. Tome cuidado durante o trajeto de volta.
— Levo um revólver carregado, Fitz. Estarei bem.
Pesaroso, Nick se levantou e se dirigiu para a porta
principal. Thorton apareceu de um nada.
— Meu cavalo, Thorton.
— Muito bem, sua excelência.
Foi pelo corredor, deixando Nick.
Talvez fosse o melhor; de todos os modos, o que sabia ele
de bebês? Ao partir, o duque de Colton somente tinha um
objetivo em mente: ficar cego de álcool.

***

Tudo se inclinava e dava voltas. Algo ia mal. O


embotamento mental de Nick se dissipava muito ligeiramente,
o justo para dar-se conta de que não tinha os pés no chão, e,
entretanto, estava se movendo. Notava uns passos pesados,
mas não eram os seus. Tentou abrir os olhos e, como não pôde,
pôs-se a rir.
— Senhor!
A voz era grave e lhe resultava um tanto familiar.
— Fish? — Nick perguntou, fracassando em seu segundo
intento por fazer com que suas pálpebras cooperassem.
— Sou eu, sua excelência. Peço-lhe desculpas pelo que
vou fazer.
Nick não o entendeu, as palavras se embrulharam
irremediavelmente em sua cabeça; de maneira que relaxou…
Jogaram-lhe água gelada no pescoço, arrancando-o de seu
estupor. Procurou apartar-se, mas seus braços não quiseram
levantar-se. Só foi capaz de sacudir o corpo para que a água
parasse, mas a água fria seguiu caindo a jorros sobre ele até
que quase não pôde respirar.
Não sabia quanto tinha durado aquilo, uma eternidade,
mas por fim se afastou cambaleando, impregnado até os ossos,
e conseguiu abrir os olhos.
— Maldição! Para! — Gritou e retirou o cabelo molhado do
rosto.
Fitz soltou o cabo da bomba da estalagem e a água se
reduziu a um fio e parou.
— Fazia anos que não o via tão desarrumado. Estava
curvado de barriga para baixo no chão de seu quarto quando o
encontrei.
Ah…! Nick começou a recordar. A mansão Seaton. A
estalagem. Júlia e o…
— Teve o bebê?
Fitz sorriu.
— Sim. É uma menina. Felicidades, sua excelência.
Uma menina. Sua filha. As pernas de Nick fraquejaram e
caiu desabado ao chão. Maldição! Era pai.
Embora ainda tivesse o cérebro embaralhado, o horror e o
medo se apoderaram dele. Não sabia ser pai. E era evidente que
nem sequer sabia ser marido. Como tinha que atuar? O que
tinha que fazer?
— Lady Carville mandou para buscá-lo. Será melhor que
voltemos para a mansão.
Nick se sentou no chão de terra do pátio da estalagem.
Estava um desastre, apesar da ducha fria.
— Antes tenho que me arrumar. Me ajude a levantar, Fitz,
ok?
Uma hora e meia depois, Nick estava limpo. Banhou-se,
barbeou-se e vestiu-se, deixando enquanto isso que seu valete
lhe servisse um chá bem forte atrás do outro. Seu estado era
lamentável. A cabeça lhe retumbava de forma rítmica atrás dos
olhos e lhe revolvia o estômago só de pensar em comer. Mas
estava desejoso de voltar para a mansão, de maneira que logo
se encontrou no lombo de Charon, cavalgando para sua casa
ancestral.
— Viu-a?
— A sua filha? — Fitz inquiriu. Quando Nick assentiu,
este sorriu. — Sim. Tem a cabeça cheia de cabelo negro e um
bom par de pulmões. Diria que se parece com seu pai.
Nick sentiu uma espetada no estômago. Deveria ter estado
ali, deveria ter esperado na mansão para ver sua filha. Não
fazia nem um dia que estreou na paternidade e já lhe tinha
falhado.
E sua mulher? Como reagiria Júlia à sua presença? Fitz
lhe havia dito que Theo tinha enviado alguém para buscá-lo.
Significava isso que Júlia o queria ali ou voltaria a lhe dizer que
se fosse?
Deus, que desastre!
O que era indubitável é que, se Júlia não o perdoasse, iria
ao continente o antes possível. Lógico. Júlia tinha deixado claro
que não o necessitava, e ele já tinha posto em ordem as contas
do imóvel; sua mulher jamais voltaria a passar dificuldades.
Então, do que servia ficar na Inglaterra?
Quando por fim bateu na porta de sua mulher, não sabia
o que encontraria. Iria recebe-lo?
A porta se entreabriu e apareceu a cara redonda de Theo.
— Passe, sua excelência — sussurrou levando um dedo
aos lábios.
Nick entrou e viu um diminuto fardo nos braços de lady
Carville. Cortou-lhe a respiração. A cabeça do bebê estava
coberta de cabelo castanho cacheado. Nick não podia deixar de
olhar aquela carinha delicada de cílios longos e escuros que
descansavam sobre as bochechas enquanto dormia.
Theo agarrou Nick pelo braço e passaram por diante da
cama de Júlia, onde sua esposa nesse momento dormia. Tinha
olheiras, a pele de um branco fantasmal. Parecia exausta.
Entraram na saleta de Júlia, e Theo fechou a porta.
— Perdoe que lhe pergunte, mas onde diabos estava? —
Theo o fulminou com dureza apesar de seguir falando em voz
baixa. — Júlia o necessitava, sua excelência.
Nick franziu as sobrancelhas.
— Do que está me falando? Disse-me que me fosse e
ontem à noite voltei para a estalagem.
Theo suspirou profundamente e pôs os olhos em branco.
— Pois o esteve chamando. Durante horas. Passou mal e
queria vê-lo.
Certamente ficava mais álcool do que acreditava em seu
corpo, porque aquilo não tinha nenhum sentido.
— Lady Lambert me disse…
E então entendeu. Beliscou a ponte do nariz. Por que
tinha dado por certo que Angela dizia a verdade? Ele melhor
que ninguém deveria saber quão embusteira era, apesar de sua
insistência em que tinha mudado.
— Sou um idiota — disse entredentes.
— Sim o é, sim. Agora sente-se que lhe darei a sua filha.
Nick ficou gelado.
— Ah, não…! Não…
— Bobagens. — Theo o conduziu até uma cadeira de
balanço colocada junto à janela. — Sente-se.
Nick obedeceu, embora quase incapaz de respirar. Com
certeza com aquelas mãos grandes faria mal a uma coisinha
tão pequena, não? Além disso, não sabia nem sustentar um
bebê.
Theo lhe deu algumas instruções sobre como colocar os
braços e ato seguido lhe entregou com cuidado o diminuto
fardo. Deus do céu, que pequena era! E bellissima, como diriam
os venezianos. Sua filha se aconchegou em seus braços e Nick
sentiu um nó na garganta.
— Chama-se Olivia — Theo sussurrou.
Ele assentiu, incapaz de falar nem de olhar a outro lugar
que não fosse a adorável cara rosa de sua filha. A perfeição de
seus traços, desde seu diminuto nariz ao delicado arco de seu
lábio superior, recordava Júlia. O cabelo, entretanto, era dele.
Os remorsos lhe obstruíram os pulmões. Júlia o tinha
necessitado; ao que parecia, tinha estado chamando-o durante
horas. Ontem à noite deveria ter estado ali com ela, e com
Olivia. E ele esperando que ela o perdoasse; Júlia deveria
mandá-lo açoitar. Como podia ter sido tão estúpido?
Hoje se veria com lady Lambert.
Theo lhe deu uns tapinhas no ombro.
— Voltarei, sua excelência. Tenho que ir ver minha
sobrinha. Siga assim.
Nick continuou balançando-se enquanto contemplava o
peito de sua filha subindo e baixando. Emocionado sentiu os
olhos em lágrimas. Em pensar que aquela criatura perfeita era
parte dele. O que tinha feito para merecer algo tão precioso?
Se soubesse que Júlia o necessitava ontem à noite, nada o
teria afastado da mansão. Pensava dizer-lhe, desculpar-se a
cada minuto, a cada hora até que sua esposa o perdoasse.
Possivelmente não recuperariam o que em seu dia tiveram em
Veneza, mas estavam ligados por toda a vida, tanto por seu
matrimônio como por sua filha. A faria entender.
Naquele momento, entretanto, conformava-se estando ali
sentado com sua filha e sustentá-la em seus braços enquanto
dormia.
Em uns vinte minutos, Theo voltou.
— Sua mulher está acordada, se por acaso quer vê-la.
Inclinou-se e tirou Olivia dos seus braços, deixando a Nick
poucas opções mais que fazer frente a Júlia.
Ele cruzou a porta e entrou no aposento ao lado.
Recostada em umas almofadas e bebendo chá, sua mulher
parecia cansada. Usava o cabelo loiro recolhido em um coque
feito de qualquer maneira, e o repassou com o olhar quando
entrou.
— Parece um desordeiro, Colton. Teve uma noite divertida,
pelo que vejo.
A voz de Júlia era rouca e áspera.
— Não — ele disse em voz baixa, fechando a porta ao
entrar para ter intimidade. — Absolutamente. Disseram-me
que não me queria aqui, Júlia.
— Agora já não importa, não é?
— A mim importa. Importa-me, e muito.
Deslocou o peso de um pé a outro, esperando que ela
dissesse algo mais.
Como não disse nada, avançou para a cama.
— Temo que lhe devo todas as desculpas do mundo. Não
posso culpá-la por sua ira nem por seu ressentimento. É
evidente que jamais devia ter duvidado de sua palavra.
Lançou-lhe um olhar inexpressivo carente de toda emoção.
— Isso é tudo? Se já terminou, eu gostaria de dar de
mamar à Olivia.
Nick por pouco torceu o gesto ante a falta de sentimento
em sua voz, mas seguiu com determinação.
— É linda.
Júlia sorriu, um sorriso sincero que lhe suavizou o rosto e
a Nick trouxe para a mente a encantadora mulher de Veneza.
— Obrigada.
Fez-se um violento silêncio. Nick entrelaçou as mãos às
costas.
— Pensei em fazer que tragam minhas coisas da
estalagem.
— Vai se instalar na mansão? — Quanto tempo?
Ele encolheu os ombros. O certo era que lhe acabava de
ocorrer a idéia. Em algum dado momento, com sua filha nos
braços, tinha decidido ficar e lutar; mas não falaria com Júlia
de seus planos. Ainda não.
— É minha casa, sabe? E se come melhor aqui.
— Coisa que ao que parece, nestas três últimas semanas
que esteve escondido, não foi problema algum.
Ou seja, sabia.
— Não me escondi, mas não queria ser incômodo para
você nem para o bebê antes do parto. Foi por consideração à
sua pessoa que me mantive à margem.
Ela soprou.
— Consideração? Deve pensar que sou dura de entender.
Rogo-lhe que nos economize a oratória e retorne a Londres,
Colton.
— Ainda não — ele disse. A conversação ao menos lhe
havia devolvido certa cor às bochechas. — Em ocasiões, o
irritante é pelo que mais vale a pena lutar.
Dito isso fez uma reverência e continuou até seus
aposentos.
Deixaria que sua mulher pensasse naquilo.
Chamou Fitz pela campainha e plantou-se diante do
espelho. Com efeito, parecia um desordeiro. Jogou água fria no
rosto e se secou com uma toalha.
Quando este chegou em poucos minutos, Nick lhe
ordenou que fizesse trazer suas coisas da estalagem.
— Então, fica aqui?
Nick assentiu.
— Assim é.
— Já era hora, se não lhe importar que o diga.
— Acaso não diz sempre o que te dá vontade, Fitz? —
Resmungou com secura. — Mas antes que vá necessito que se
ocupe de algo muito importante.
Capítulo 15
Há ocasiões em que as evasivas são necessárias para lhe dar
uma lição.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Nick estava folheando um livro quando lady Lambert


entrou na biblioteca.
— Tome assento — Nick lhe disse sem sequer se dar ao
trabalho de levantar-se.
Não se mostraria respeitoso nem amável com ela, não. De
fato, queria que se sentisse o mais violenta possível, de modo
que deixou intencionadamente que o silêncio se prolongasse
uns instantes. Por fim fechou o livro, deixou-o em uma mesa
auxiliar e a olhou aos olhos.
— Me explique o jogo de ontem à noite, senhora. Na
realidade, duvido de qualquer explicação que possa me dar.
Desconheço ainda por que o fez, mas utilizou o nascimento da
minha filha para tramar certa vingança contra minha pessoa.
Sorriu-lhe com astúcia.
— Embora Júlia tivesse um momento de debilidade e o
chamasse, eu sei que na realidade não o queria. A ouvi dizer
em numerosas ocasiões.
— Embora isso possa ser verdade, não era você quem
tinha que decidir. Não consentirei que interfira em meu
matrimônio.
— Seu matrimônio? — Ela disse com uma gargalhada. —
Seu matrimônio é uma farsa, sua excelência. — Ficou de pé e
avançou devagar para ele. — Vamos lá… — ela ronronou, e
arrepiou o pelo da nuca de Nick. — Agora nada se interpõe em
nosso caminho. Harry está morto e sua mulher não o suporta.
Por fim podemos estar juntos, como sempre planejamos.
Diabos! Nick se levantou veloz da cadeira e ficou atrás
desta; fazendo a madeira de barreira entre sua cunhada e ele.
— Não planejamos nada semelhante, senhora. Faz nove
anos que lhe disse que não a queria e nada mudou isso, nem
sequer a morte de Harry.
— Não acredito. Até o Harry sabia que havia algo entre
nós.
Nick apertou os punhos, seus músculos esticando-se. A
culpa pela morte de seu irmão era uma sombra escura sobre
sua alma.
— Jamais houve nada entre nós e o que seja que Harry
acreditasse foram mentiras saídas de sua boca.
— Você não entende? Ainda não é muito tarde para nós.
— Quero que se vá desta casa, Angela. — Nick foi a
pernadas até o puxador da campainha e chamou Thorton. —
Não consentirei que difunda mais mentiras.
Apareceu Thorton.
— Sim, sua excelência?
— Que venha Fitz e acompanhe lady Lambert à casa
pequena.
Angela afogou um grito enquanto Thorton fechava a porta.
— Não fala sério!
— Pois sim. E se não tivesse meu irmão em tão alta
estima, deixaria que ficasse na rua depois do que me fez, então
pode ficar agradecida de que lhe permita ficar na casa
pequena. Sua criada pessoal recolherá suas coisas e as
mandará.
— Colton, seja sensato…
— Estou sendo mais que sensato — ele disse. — Mas se
voltar a misturar-se novamente em minha vida familiar, será
deserdada e não lhe darei nem um quarto de penique. Ficará
na rua e terá que arrumar-se sozinha.
Os lábios de lady Lambert se esticaram.
— Não seria capaz.
— Sou capaz disso e muito mais, senhora. Prometo deixá-
la na ruína, caso ocasione mais problemas nesta casa.
Bateram na porta e Nick gritou:
— Entre.
Fitz entrou, sua expressão verdadeiramente severa.
— Chamou-me, sua excelência?
— Acompanhe lady Lambert à casa pequena, Fitz.
— Muito bem — disse e cruzou os braços sobre seu
enorme torso; e esperou.
— Nick, por favor…
Ele elevou uma mão.
— Sou «sua excelência». E quero que parta desta casa,
senhora, e não volte nunca mais. — Nick olhou ao Fitz. — Se se
negar a ir ou te causar o mínimo problema, tem minha
permissão para a jogar sobre o ombro e a levar daqui.
***

— Ele fez o quê?


Júlia jogou o corpo para frente, desejosa de ouvir mais
enquanto dava uns suaves tapinhas nas costas de Olivia.
Theo assentiu.
— Mandou-a embora. Disse ao Fitz que, em caso
necessário, tirasse-a como um saco de farinha. Diz Fitz que
jogava faíscas, que esteve furiosa todo o caminho até à casa
pequena.
Resultava difícil compadecer-se de Angela, pensou Júlia,
depois de mentir deliberadamente. Estava tão furiosa como
Nick pelo engano daquela mulher e pretendia obter respostas
do porquê assim que tivesse oportunidade. A coisa teria que
esperar, entretanto, a que tivesse se recuperado do parto.
Depositou um terno beijo na testa de Olivia e se recostou nas
almofadas que tinha atrás.
— Colton tornou a ver-te?
— Não. Desde ontem não.
Não contava ver muito o seu marido, estivesse ou não na
casa. Ela estaria prostrada no mínimo vários dias mais, e
jantaria em seu quarto.
Não obstante, apressava-a uma pergunta: por que Colton
estava ali? Tinha rondado pelo povoado semanas antes do
parto, incapaz sequer de dormir sob o mesmo teto que sua
mulher, por que não voltar então para Londres, agora que sua
filha tinha nascido?
Júlia baixou o olhar para Olivia, placidamente adormecida
em seu peito. Não cabia em si de amor e de orgulho. Não, não
tinha dado um herdeiro ao Colton, embora tampouco ele o
quisesse, mas de todas as formas Olivia era adorável. Sua filha
sempre seria uma lembrança daqueles maravilhosos sete dias
em Veneza.
Não havia esperança de arrumar seu matrimônio. O
perdão não chegaria jamais, pelo menos por parte dela. As
coisas tinham ido muito longe. Nick tinha sido cruel e ainda
por cima a tinha ignorado quando ela mais precisava dele.
Aquele homem era um grosseiro, um arrogante e um vaidoso
exímio. Por mais que de dia seu coração tivesse saudades, e de
noite seu corpo suspirasse por ele, não podia esquecer os
meses anteriores. Não, tinha lhe partido o coração uma vez;
não se arriscaria a que voltasse a lhe acontecer.
Bateram na porta e a senhora Larkman mostrou a cabeça.
— Ah, que coisinha mais linda! — Disse a babá de Olivia
em voz baixa enquanto se aproximava da cama. — Deixe que a
pegue, sua excelência, e a deite.
Esticou os braços para tirar com cuidado o bebê
adormecido de Júlia.
— Obrigada, senhora Larkman — Júlia sussurrou, e jogou
um beijo para sua formosa pequenina.
— Essa mulher é muito boa nisso — Theo comentou uma
vez que a senhora Larkman abandonou a habitação.
— Sim, é verdade. Gostei dela estupendamente e parece
que de verdade adora a pequena Olivia. — Júlia levantou sua
xícara de chá e ficou olhando à sua tia. — Juro, Theo, que
nunca tinha te visto tão bem. Está absolutamente radiante. E
estas últimas semanas não bebeu tanto. — Sua tia abriu muito
os olhos pela surpresa e Júlia sorriu. — Percebi, sim, diabinha.
Suponho que não preciso te perguntar como está sua relação
com o Fitz.
Theo sorriu de orelha a orelha.
— Estou feliz. É um bom homem. De fato, se não me
necessitar…
— Vá — Júlia ordenou sorrindo também. — De todos os
modos queria dar uma cochilada.
— Muito bem, querida. Descansarei um pouco e passarei
logo para ver-te.
Deu uns tapinhas no braço de Júlia e partiu.
Não muito depois, estava quase adormecida quando a
porta que dava ao aposento ao lado, a de seu marido, abriu-se.
Abriu rapidamente as pálpebras e viu Colton entrar muito
tranquilo, pura arrogância masculina; esticando os ombros no
ato.
— Não bate na porta, meu marido?
Ele arqueou uma sobrancelha negra e um tênue sorriso
curvou seus lábios.
— Não.
Contrariada, Júlia se aconchegou mais na cama e fechou
os olhos.
— Estou dando uma cochilada, Colton; de maneira que se
não lhe importa…
— Não pretendo ficar. Somente queria lhe perguntar por
sua saúde e lhe trazer um pouco de leitura.
Júlia deu uma olhada e viu um livrinho em suas mãos.
Colton… sendo atencioso? Pois bem, estava perdendo o tempo.
Fechou as pálpebras.
— Estou bem. Deixe-o em cima da mesinha quando sair.
Seus passos se aproximaram e Júlia ouviu um ruído
surdo.
— É um dos meus favoritos — Nick disse. — O encontrei
na biblioteca.
Então Júlia notou sua enorme mão lhe acariciando com
suavidade a testa, e a familiar fragrância de seu sabão lhe
encheu os sentidos. Teve que fazer esforços para permanecer
quieta.
Ao que Nick se propunha? Retirou-se sem dizer nada
mais, e a porta se fechou às suas costas. Como dormir já não
era uma opção, Júlia cravou o olhar no teto e ficou a pensar no
comportamento de seu marido. Por curiosidade, pegou o livro.
Era o Tancrède de Voltaire, a peça de teatro em que Rossini
apoiou seu Tancredi, um aviso não muito sutil da primeira
ópera a que tinham assistido juntos em Veneza.
Júlia se enterneceu uns instantes, o coração bobamente
encolhido. Estava claro que Colton era encantador quando
queria, mas ela devia procurar manter-se impassível; não
correria o risco de amar um homem tão pouco merecedor desse
sentimento.
Embora seguisse desejando-o com cada fôlego.

***

O relógio deu a uma hora, o solitário som reverberou na


escuridão do aposento de Júlia. Piscou, exausta, mas incapaz
de dormir. Fazia três semanas que tinha dado à luz a Olivia.
Apaixonava-a cada prezado minuto que exercia de mãe, desde
sustentar e dar de mamar à sua filha até contemplar
simplesmente a carinha perfeita da menina enquanto dormia.
Os momentos que não estava com ela, passava-os desejando
poder abraçar de novo seu bebê.
Mas não era a saudade de sua filha o que a mantinha
acordada essa noite. Não, era outra pessoa a responsável pela
ansiedade que a tinha dando voltas na cama. Era seu marido
quem a inquietava.
Cada vez que estava sozinha aparecia Nick. Interessava-se
por sua saúde, perguntava-lhe por Olivia, trazia-lhe
aprimoramentos da cozinha, até havia lhe trazido outro livro
para ler. Esse dia lhe tinha levado uma flor: dália, havia dito
que se chamava. Uma aquisição bastante recente para os
jardins da mansão Seaton; sua forma absolutamente redonda
estava constituída por bicudas pétalas de cor vermelha intensa.
Júlia não sabia o que pensar da atenção que lhe
dispensava. Em nenhum momento tentava nada físico nem a
tocava de modo algum, não desde que lhe tinha passado a mão
pelo cabelo; mas parecia encantado de passar tempo com ela,
quase como se a estivesse cortejando. Fosse pelo motivo que
fosse, sua presença lhe resultava desconcertante.
De fato, ela poderia ter reatado suas refeições na sala de
jantar pelas noites, mas tinha seguido comendo em seu quarto.
Era pura e simples covardia; o desejo de passar com seu
marido o menor tempo possível.
Já que estava acordada, decidiu subir para ver Olivia no
quarto infantil. Colocou uma bata, pegou uma vela, e saiu
sigilosamente ao corredor. A casa estava silenciosa, todo
mundo deitado fazia um tempo. Subiu rapidamente as escadas
e avançou até o aposento que Sophie e ela tinham decorado
com tanto esmero.
Da porta aberta do quarto infantil penetrava um tênue
resplendor amarelo, sinal de que a senhora Larkman já devia
estar ali. Conforme Júlia se aproximou, surpreendeu-lhe que
chegasse ao corredor uma profunda voz masculina. Era… Nick.
Pelo amor de Deus, o que fazia ali? Não duvidou em apagar a
vela, deteve-se junto à porta e deu uma olhada.
Seu marido estava tranquilamente sentado em uma
cadeira de balanço junto à lareira, uma Olivia adormecida em
seus grandes braços. Sua filha estava aconchegada contra o
peito de Nick enquanto este se balançava com suavidade.
Tirara o casaco, e usava uma camisa de linho branca, gravata e
colete de cor vermelho rubi. Ao ver sua escura cabeça inclinada
tão perto de sua filha, a emoção se apoderou dela e de repente
se encheram os olhos de lágrimas. Separou-se da porta para
evitar ser vista e ficou quieta, escutando.
— … e na parte leste da casa estão as rosas, Livvie. —
Livvie? Já tinha posto um apelido em sua filha? — Todas de
distintas cores: rosa, branca, vermelha. Mas se decidir pegar
uma, cuidado com os espinhos. Veja, sua mãe prefere as
gardênias, pelo menos por seu perfume. Essas as temos na
estufa. Algum dia lhe mostrarei.
Ao ouvir a alusão ao seu perfume, Júlia sorriu. Não
pensava que Nick se fixaria em algo tão corriqueiro.
— Mostrarei isso, sim. Farei tudo que esteja em meu
alcance para não te falhar nunca — seu marido disse em voz
baixa. — Não sei muito bem que classe de pai serei. Meu pai…
não foi um grande exemplo. Só o via algumas vezes ao ano e
até esses encontros eram desagradáveis. Meu irmão costumava
a dizer que eu era um afortunado porque não tinha que
suportar o sem-fim de normas relativas a coisas tais como o
dever e a honra. Eu era livre para ir daqui para lá e para fazer o
que me vinha à vontade, e suponho que era verdade. Teria
gostado dele, Harry, meu irmão. Teria sido melhor duque, isso
com certeza. Harry sempre fazia o correto.
Passou a falar com sua filha do inverno em que seu irmão
tinha impedido que se afogasse no lago. Nick, embora Harry
tivesse tentado o dissuadir, empenhou-se em caminhar sobre o
gelo. Quando este se rachou e ele caiu dentro, Harry procurou
um ramo de árvore e o tirou da água gelada, dando-lhe bronca
por ser estúpido e irresponsável.
Júlia sorriu e se deu conta de que suas bochechas
estavam úmidas. Esta era uma faceta de seu marido que ele
poucas vezes mostrava, e a estava compartilhando ali, em
plena madrugada, com Olivia. Enxugou as lágrimas com a
mão, secando o rosto, e uma mão se pousou brandamente em
seu ombro.
Tampou a boca com a mão para afogar um grito,
sobressaltada. Sentiu um grande alívio quando viu a babá, a
senhora Larkman, ao seu lado.
— Vem todas as noites mais ou menos a esta hora — a
senhora Larkman sussurrou fazendo um movimento de cabeça
ao quarto infantil. — Sua excelência se senta com ela perto de
uma hora para me dar uma pausa, diz. — Deu um golpe no
braço de Júlia com o cotovelo. — O duque querendo me dar
uma pausa, o que me diz, sua excelência? Embora guardo isso
para mim; não queria dar o que falar com o serviço.
Olharam para dentro do quarto. Agora acordada, Olivia
tinha rodeado com sua mãozinha rosa um dos grandes dedos
de Nick, e ele a olhava sorridente. O coração de Júlia derreteu.
Ela pensando que ele não se interessava por sua filha quando
na realidade cada noite passava um momento com o bebê.
— Viu algo mais formoso? — A senhora Larkman
murmurou.
— Não, a verdade é que não — Júlia respondeu, a cabeça
lhe dando voltas. Necessitava de tempo para refletir sobre o que
tinha visto e ouvido. Nick era… desconcertante. Júlia se
separou da porta. — Acredito que o melhor será que volte para
a cama. Boa noite, senhora Larkman.
Júlia acendeu de novo a vela em uma lamparina antes de
voltar sigilosamente para as escadas.
No dia seguinte durante o café da manhã ainda estava lhe
dando voltas a transformação de seu marido. Não tinha
conciliado o sono até a primeira hora da manhã. Cada vez que
fechava os olhos visualizava Nick sustentando Olivia nos
braços e sorrindo-lhe com ternura. Quis odiá-lo, mas a imagem
seguiu reproduzindo-se em sua mente e a raiva que tinha
guardado durante tanto tempo começou a dissipar-se.
Mas podia permitir-se que desaparecesse de tudo? Como
ia confiar nele depois do que havia dito e feito?
Um dia confiou e lhe tinha cuspido esse amor e essa
confiança na cara, tinha-a chamado de tudo e a tinha tirado de
sua vida. Nick lhe tinha partido o coração. Júlia não queria
voltar a dar a alguém o poder de a machucar tanto. Tinha sido
muito doloroso.
Céus, como desejava que se fosse! Seria muito mais fácil
não ter que vê-lo diariamente, mas como estava claro que não
tinha pensado em ir, já era hora de averiguar o que estava
fazendo ali.
Avançada a manhã, Júlia chamou Thorton para averiguar
o paradeiro de seu marido.
— Sua excelência e o senhor Fitzpatrick estão praticando
esgrima no salão de baile — o mordomo a informou.
Veio-lhe à memória uma lembrança fugaz de Nick
suarento e meio nu praticando esgrima em Veneza. Recordou
como seus músculos se contraíam e se relaxavam enquanto
seus pés se arrastavam pelo chão. Lhe acelerou a respiração ao
recordar. O desejo de voltar a vê-lo assim era forte, mais forte
inclusive do que ela percebia.
O que significava que era uma ideia perigosa.
— Thorton, por favor, que sua excelência se reúna comigo
na biblioteca quando tiver terminado.
— Muito bem, sua excelência. Quer que peça também que
tragam chá?
— Não — ela disse, sua voz áspera. Não seria um encontro
distendido. — Obrigada, Thorton, — acrescentou em um tom
mais suave — mas não será necessário. Não pretendo roubar
muito tempo de sua excelência.
Júlia se foi à biblioteca para esperar. Escolheu um livro de
poesia para passar o momento, mas recordou o muito que
detestava a poesia. Deixou o livro a um lado e justo acabava de
trocá-lo por uma novela quando se abriu a porta.
Nick entrou com resolução na sala, cada passo que dava
com suas longas pernas denotava uma confiança absoluta.
Com o cabelo castanho retirado de seu rosto de feições duras,
unicamente usava uma fina camisa de linho e calças; ambos
úmidos agora pela transpiração e colados ao seu ágil corpo.
Céu santo! Estava imponente. Ela tragou saliva e se propôs não
olhar muito.
— Desculpe por vir sem me banhar antes, mas Thorton
disse que queria ver-me.
Era imaginação dela ou havia esperança nos olhos do
Nick?
Júlia pigarreou.
— Assim é. Acha melhor nos sentarmos?
Ela voltou a sentar-se no sofá e ele se deixou cair em uma
cadeira.
Júlia não tinha clara qual era a melhor maneira de
começar. Ao ver que a hesitação se prolongava, Nick arqueou
uma sobrancelha com arrogância. Ela ficou raivosa.
— Por que segue aqui?
— Porque ainda não me disse o que quer?
Ela pôs os olhos em branco.
— Não se faça de desentendido. Sabe perfeitamente a que
me refiro. À mansão Seaton, Colton. Por que continua aqui?
Sua pergunta direta pareceu pegar Nick despreparado,
pois se moveu intranquilo e se esfregou o queixo.
— É minha casa. Acaso não sou bem-vindo aqui?
Ela reprimiu o impulso de sapatear o chão.
— Tem outras três propriedades espalhadas pela
Inglaterra, além do palacete de Londres. Está aqui por alguma
razão e eu gostaria de saber qual é.
Passou um bom momento. Pelo músculo contraído de sua
mandíbula, Júlia deduziu que Nick andava a voltas com sua
resposta. Mas ela permaneceu em silêncio, intrigada pelo que
diria.
— Não sei — respondeu ao fim, sua voz grave e doce. —
Talvez esteja aqui por você. Pela Olivia.
Júlia sentiu uma grande emoção no peito, mas a reprimiu.
Tudo isto chegava com muitas semanas de atraso. Levantou-se
e ficou a andar de um lado para o outro.
— Fruto de sua desmedida ira, me ordenou vir aqui e logo
me ignorou durante sete meses. Seriamente acreditava que,
quando decidisse voltar, seria recebido com os braços abertos?
Embora não o privarei do contato com sua filha, jamais lhe
perdoarei pelo que aconteceu entre nós.
O olhar cinza de Nick era triste e solene.
— Pedi desculpas por minha parte de responsabilidade no
acontecido, Júlia. Se pudesse retroceder e fazer as coisas de
outra maneira, faria.
— Pois embora eu lamente havê-lo enganado, não me
arrependo do que fiz.
Como ia arrepender-se, tendo Olivia como resultado disso?
— Prefere que eu parta então?
«Sim», quis lhe dizer. «Parta antes que minha determinação
me abandone.» Mas recordou suas visitas noturnas à Olivia.
Seria uma crueldade desnecessária os privar desses momentos.
— Não, mas queria que soubesse como me sinto. Iremos
ver-nos nos jantares, naturalmente, e eu gostaria que nossa
relação fosse… cordial. Pelo bem de Olivia — apressou-se a
acrescentar. — Mas lhe rogo que deixe de me dispensar
cuidados durante o dia. Não quero passar tempo, a sós, com
você.
Numa máscara de cortesia, o rosto de Nick não
demonstrou seus pensamentos íntimos.
— Muito bem. Como quiser, senhora. Isso é tudo?
Júlia assentiu, recordando que seria o melhor. Seu marido
se levantou, dedicou-lhe uma cortês reverência e saiu da
habitação.
Nick subiu a escada principal sapateando com força. A ira
e a frustração lhe atavam a garganta e se virou para voltar. Um
banho, onde não faria mais que pensar, não era o que
necessitava naquele momento. Não, uns sentimentos
turbulentos lhe retorciam as vísceras e tinha que expulsá-los
ou, do contrário, ficaria louco. Caminhou aos trancos para a
parte posterior da casa, em direção aos estábulos.
Pelo caminho passou junto ao Fitz, que detectou algo em
seu rosto, porque mudou de rumo e uniu seu passo ao dele.
— Vá embora — Nick grunhiu.
— Está seguro?
— Absolutamente.
Fitz o ignorou, como de costume, e andou em seu mesmo
passo até os estábulos, onde Nick chamou um cavalariço e lhe
ordenou que selasse Charon.
Fitz desapareceu brevemente em um box enquanto Nick
passeava pelo barro esperando sua montaria, e o sangue lhe
esmurrava as orelhas. O clima de outubro era um tanto fresco
e ele não usava mais que uma fina camisa, mas nem notou.
Precisava fugir. Sentir o vento no rosto. Extenuar-se.
Depois que subiu em Charon, Fitz lhe esticou em seguida
um alforje.
— O uísque irlandês mais forte que encontrará, sua
excelência. E caso não volte dentro de duas horas, irei buscá-
lo.
Muito aturdido para discutir, Nick assentiu, atou o alforje
à sela e esporeou o cavalo. Charon saiu como um raio para a
campina ondulante.
O ar lhe açoitava a pele enquanto o imponente cavalo
abria o chão com seus enormes cascos. Nick inclinou o tronco
sobre o pescoço de Charon e rodeou os flancos do animal com
as coxas, sua mente concentrada unicamente em permanecer
sentado.
Quando diminuiu a marcha perto do rio, tanto Charon
como ele estavam empapados de suor. Foi devagar até à água e
então desmontou, atirando as rédeas ao chão.
Alforje na mão, Nick se deixou cair no banco de areia.
Introduziu a mão na bolsa, extraiu a garrafa e a abriu. Quando
o primeiro trago chegou em sua garganta, um fogo líquido
desceu até seu estômago. Tomou ar. Maldição! Fitz tinha falado
a sério como os pastores em domingo, pensou, os olhos
lacrimejando ligeiramente. Era a bebida mais forte que tinha
provado em muito tempo.
E justo o que necessitava. Tomou outro grande gole da
garrafa.
«Jamais lhe perdoarei pelo que aconteceu entre nós.»
Levava três semanas procurando romper o gelo entre eles,
tentando comportar-se como um marido decente, amável e
respeitoso; e tinha fracassado. Desde o primeiro momento sua
esperança tinha sido lhe fazer entender que o sentia de
coração.
Era um idiota por ter tentado. Aquelas palavras, decente,
amável, respeitoso, não tinham estado associadas à sua pessoa
em toda sua vida. Acaso não o haviam dito seus pais uma e
outra vez? Não tinha a menor idéia de como exercer a função
de marido; então, por que demônios havia se visto capaz de
desempenhar esse papel depois de tanto tempo?
Deixou-se cair na terra macia. A opressão do peito se
reduziu a uma dor surda. Levantou a vista para as nuvens
cinzas que flutuavam no céu e ficou a escutar o suave
borbulhar do rio.
Entendia perfeitamente o aborrecimento de Júlia. Tinha se
comportado muito mal com ela. O constrangimento que tinha
feito a mãe de sua filha passar em Veneza, toda uma dama que
jamais tinha estado com outro homem… quase o fez vomitar. O
que havia dito, o que a tinha feito fazer, para não mencionar as
acusações e a virulência uma vez de volta a Londres. Não era
de estranhar que não o quisesse nem ver. Odiava-se tanto
como ela a ele.
E embora Júlia o quisesse, jamais poderia ser o marido
que ela necessitava. Um marido que se aproximasse dela ao
cair da noite, que mal a tocasse antes de possuí-la com
prudência sob os lençóis; a mera idéia era absurda.
Claro que tampouco podia tratá-la como à senhora
Leighton. Era sua mulher, não uma vadia, mesmo que tivesse
se comportado brevemente como tal, e não podia lhe mostrar
sua natureza mais primitiva como tinha feito em Veneza. Não
podia lhe faltar ao respeito dessa forma.
O problema, certamente alarmante, entretanto, era que
não conseguia esquecer a senhora Leighton, Júlia. Desejava-a
com cada pulsar de seu luxurioso coração. Distraiu-se com
suas lembranças tão frequentemente nos últimos sete meses
que àquelas alturas deveria havê-la banido de sua mente. Só
que a necessidade seguia intensificando-se.
Levantando a garrafa tomou alguns goles e um fio de
uísque lhe escorregou pela bochecha e caiu ao chão.
Quando finalizaria aquela tortura, pelo amor de Deus?
Quando perderia o interesse por ela, como lhe tinha acontecido
com uma infinidade de mulheres antes?
Uma força inexplicável o atraía para ela, deixando-a
totalmente irresistível. Talvez fossem sua paixão e sua valentia,
ou que dizia o que pensava e lhe tinha enfrentado desde o
começo. Se fosse um homem melhor fariam um casal perfeito.
O uísque lhe azedou no estômago. Estava… apaixonado
por ela? Tomou outro gole com a esperança de que a idéia
desaparecesse. Como não o fez, soltou um grunhido. Não era
de estranhar que desde Veneza tivesse sido incapaz de estar
com outra mulher. Apaixonou-se, que diabos. E de uma
mulher que jamais conseguiria.
Maldição.
Deus, que graça seu pai acharia do irônico assunto. Havia
lhe dito até não poder mais que nenhuma mulher respeitável
estaria com ele, com ou sem título. Inclusive na noite de suas
bodas, seu pai tinha o reprovado: «tive que pagar uma fortuna
por ela, pirralho ingrato. Mais vale que lhe faça em seguida um
par de crianças, antes que descubra que é um tremendo fiasco e
se encerre em seu aposento».
E era um tremendo fiasco. Grosseiro, teimoso e raivoso,
passou quase toda a vida sozinho. Harry tinha sido a única
pessoa pela qual Nick sentira carinho, mas sua relação se
maculou pouco antes de seu irmão casar-se. Face aos
veementes desmentidos por sua parte, Harry tinha estado
convencido de que ele tentava seduzir Angela, e aquele
desespero o tinha levado a tirar a vida.
A culpa, o horror de achar o cadáver de seu irmão… Nick
não poderia esquecer jamais, nem se perdoar. Com a garrafa
nos lábios, tomou um longo gole de uísque.
E agora tinha piorado tudo apaixonando-se por sua
esposa respeitável, bela e exemplar, que, ao que parecia, se
aborrecia muito pela sua existência. «Senhor, que desastre!»,
pensou Nick, que começava a ver tudo um pouco impreciso.
Perfeito. Podia ser que ficasse ali a beber o dia inteiro. Bem
sabia Deus que não havia ninguém esperando-o na mansão.
Veio-lhe Olivia à memória, e sentiu o coração cheio de
emoção. Doce e perfeita, sua filha era seu maior tesouro.
Nunca tinha imaginado que sentiria tanto amor por um filho,
era quase incontrolável. Em sua experiência, ignoravam-se as
crianças, mas ele não se via fazendo isso à Livvie; tinha que
crescer sabendo que seu pai a amava.
Ao menos por isso não queria ir-se, ainda não. Não queria
repetir os pecados de seus próprios pais. Olivia não deveria
sentir nunca que não era digna ou que não a amavam, ou
nenhuma outra maldita coisa. É possível que não quisesse ter
filhos, mas pobre de quem a essas alturas arrebatasse Livvie.
De modo que não se aproximaria de sua esposa e
continuaria indo ver sua filha pelas noites, quando poderiam
estar os dois sozinhos. Não necessitava de ninguém mais.
Tinha Livvie e isso lhe bastava.
A decisão deveria lhe haver feito se sentir melhor, mas,
curiosamente, não o fez. Talvez outro gole lhe viesse bem.
Capítulo 16
Recorde que aos homens só pode pressionar até certo ponto.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Transcorreu um mês e Júlia mal viu seu marido um


punhado de vezes. Nick já não jantava com elas pelas noites e
durante o dia tinha sua vida. Sabia pela senhora Larkman que
seguia indo ao quarto infantil a cada noite para passar um
momento com sua filha, mas em nenhum momento tentou ver
a ela. De fato, tinha suas dúvidas sobre onde dormia, porque
nunca o ouvia no quarto contíguo.
Procurou não se ressentir; depois de tudo, tinha-lhe
pedido que a deixasse em paz, embora não imaginasse que
desapareceria totalmente. Tinha suposto que no mínimo
continuaria apresentando-se para jantar; no que ocupava o
tempo?
Averiguá-lo implicaria segui-lo, coisa que Júlia se negava
a fazer, porque passava as tardes com Olivia e tia Theo. Seu
corpo já se recuperara totalmente do parto e podia dar longos
passeios diários pelo imóvel, o que fazia todas as manhãs.
Naquela manhã em concreto havia ficado de ir ver Angela.
No dia anterior lady Lambert lhe tinha escrito uma nota
desculpando-se por haver dito ao Nick que se fosse na noite do
nascimento de Olivia e lhe suplicando que fosse vê-la.
Tinham passado dois meses desde que Colton enviara
Angela à casa pequena, e a confusão e a raiva que sentia pelo
ocorrido naquela noite não tinham diminuído um ápice. Como
aquela mulher tinha sido capaz, a que tinha por amiga, de
voltar-se contra ela em um momento tão decisivo? Não tinha
sentido. Ela jamais diria que Angela fosse capaz de tamanha
crueldade. Embora nada que Angela pudesse dizer justificaria
seu comportamento, precisava ouvir de sua própria boca por
que o tinha feito.
Na cozinha, Júlia estava fiscalizando a preparação de uma
cesta com diversos petiscos e manjares quando ouviu o tinido
de umas chaves.
— Bom dia, sua excelência. Vai fazer um piquenique?
A senhora Gibbons, a governanta, sorria-lhe cortesmente
do outro lado da estadia.
— Bom dia, senhora Gibbons. Vou ver lady Lambert e
pensei que gostará de uma ou outra iguaria da cozinheira.
A governanta franziu as sobrancelhas.
— É um passeio longo para ir sozinha, sua excelência, se
não lhe importar que o diga. Digo a um dos lacaios que a
acompanhe?
— Não, não será necessário. Em outra manhã quase
cheguei até ali. Estarei bem.
— Se insiste, sua excelência. Faz bastante frio, de maneira
que leve sua capa mais quente.
Júlia assentiu.
— Farei isso. Obrigada, senhora Gibbons.
Em vinte minutos partiu, usava uma grossa capa, chapéu,
luvas e cachecol. Com efeito, fazia frio, o vento dos últimos dias
de outono soprava entre umas árvores nuas. Folhas de todas
as formas, todos os tamanhos e cores formavam redemoinhos
no chão qual tapete, rangendo sob suas resistentes botas.
O bosque se abatia sobre ela e procurou não pensar em
seu acidente. A verdade era que não se aventurou por aquele
atalho após o ocorrido, mas não tinha com o que preocupar-se.
Tinha sido um episódio insólito, sem dúvida causado por sua
falta de equilíbrio devido à gravidez.
Do outro lado das grossas árvores pôde ver a mansão
pequena na costa de uma colina. Era uma estrutura maciça e
de tijolos, de duas plantas, com hera verde subindo pela
fachada. Dado que aí não tinha vivido ninguém em muitos
anos, a Júlia não surpreendeu ver os jardins um tanto
descuidados. Angela tinha levado consigo um par de serventes,
mas arrumar a propriedade levaria seu tempo.
Subiu pelo caminho de acesso e reparou em um cavalo
que descansava perto. Angela tinha visita?
Antes de poder chegar à porta, sentiu uma aguda dor na
parte posterior de sua cabeça, o impacto do golpe a jogou para
frente e caiu de bruços no chão. A terra fria sob sua bochecha
foi a última coisa que sentiu antes de sumir nas trevas.

***

Nick se encontrava no salão de baile, nu da cintura para


cima, esperando que Fitz estivesse preparado. Seu amigo tinha
pedido um breve descanso para recuperar o fôlego.
— Se não se cansasse tanto em suas atividades noturnas,
talvez teria mais energia para nosso exercício diário! — Nick
exclamou.
— E se você tivesse certa atividade noturna, não teria a
necessidade de que ambos praticássemos todo dia — Fitz
resmungou.
Certamente era verdade, reconheceu Nick. Com seu corpo
carente de atividade, esse treinamento diário era a única coisa
que o mantinha sensato, mas se negava a dizer isso a Fitz.
— E que tal a adorável lady Carville?
Fitz se ruborizou, uma visão que Nick nunca imaginou
que veria. Maldição! Esse homem estava apaixonado.
— Adorável — respondeu o grandalhão. — E terna. Tão
doce como…
— Suficiente. — Nick elevou uma mão. — Preferiria não
jogar fora o café da manhã, se não se importar.
Fitz sorriu com cumplicidade, uma expressão que o fez
empunhar com força seu florete.
— Você está sob o feitiço de certa mulher.
Tinha caído, mas não se incomodou com o que Fitz
acabava de dizer.
— Se levante, seu pândego. Fala mais que uma mulher.
Então a porta se abriu e entrou um dos lacaios.
— Acaba de chegar isto, sua excelência.
Nick atirou o florete, pegou a nota e a abriu. Ficou sem ar
nos pulmões. Com o sangue lhe esmurrando as orelhas,
murmurou:
— Meu Deus!
— O que aconteceu? — Fitz perguntou correndo até ele e
Nick lhe passou a nota.
Colton:
Tenho a sua esposa. Podemos fazer uma troca pelo preço
justo. Venha sozinho à cabana da fazenda que há no limite do
bosque. Se vier com alguém, sua mulher morrerá.
— De quem acredita que é isto? — Fitz inquiriu.
Nick sacudiu a cabeça, sua mente paralisada. Alguém
tinha Júlia. Tinham-na sequestrado. Como demônios tinha
acontecido?
Pegou sua camisa rapidamente e saiu correndo da sala de
esgrima.
— Thorton! — Gritou enquanto colocava a camisa e descia
os degraus de dois em dois como um raio. — Thorton!
— Sim, sua excelência?
Thorton apareceu ao pé das escadas, seus olhos bem
abertos de preocupação.
— Minha esposa, onde está?
— Acredito que sua excelência saiu para dar um passeio
esta manhã. Pensava ir ver lady Lambert na mansão pequena.
— Sozinha? Não foi ninguém com ela?
Ao ver Thorton negar com a cabeça, a raiva e a culpa o
rasgaram, e deu com o punho na coxa. «Maldição!» Tinha que
havê-la vigiado mais de perto, mas seu belo orgulho o tinha
impedido. Havia-lhe dito que não se aproximasse e isso ele
tinha feito, o idiota.
Jesus! Se lhe chegasse a acontecer algo, jamais se
perdoaria.
— Fitz! — Gritou.
— Aqui estou, sua excelência. — Nick se virou e viu Fitz
imponente no alto das escadas, sua cara marcada pela cicatriz
denotando preocupação. — O que quer fazer?
— Não sei ainda. Mas pega os revólveres e falamos pelo
caminho.

***

Júlia despertou lentamente, com uma dor de cabeça


insuportável. Doía-lhe tudo. Aturdida, girou ligeiramente e
constatou, com considerável inquietação, que tinha as mãos
atadas às costas. Piscou sob a tênue luz e olhou ao seu redor.
Era uma espécie de cabana, que não reconheceu, embora, a
julgar pelas teias de aranha, dava a impressão de que estava
há muitos anos sem usar. O que tinha acontecido?
Realizou várias inspirações profundas para tratar de
atenuar o martelar que notava na cabeça. As paredes e o chão
eram de madeira sem tratar, e havia poucos móveis na estadia:
uma mesa de madeira com algumas cadeiras e uma cama de
armar. O fogo ardia vivamente na lareira, resguardando-a do ar
frio.
Quem vivia ali? E o que queria dela?
Moveu os braços para comprovar quão forte estavam
atadas as cordas; talvez pudesse soltar-se. Rendeu-se com um
suave sopro. Escapar não ia ser fácil. As cordas a apertavam
muito para as afrouxar.
A porta se abriu e entrou um homem com os braços
carregados de lenha. Levantou a vista…
Templeton.
Ah, pelo amor de Deus, como não tinha imaginado! Júlia
franziu o cenho ao ver o primo de seu marido. Em vez de medo,
apoderou-se dela uma raiva incontrolável. Esse homem levava
muito tempo perseguindo-a.
— Excelente. Está acordada. Não queria que passasse a
tarde inteira dormindo.
Foi até à lareira e deixou a lenha junto à parede.
— Não teria dormido nada se não me tivesse golpeado.
Cretino! Solte-me!
— Gritando comigo não conseguirá nada, sua excelência.
Além disso, em mim você não manda.
Ela suspirou.
— Ficou louco, Templeton? Por que me trouxe aqui?
— Já verá — ele disse tirando o casaco. — Antes me
ocuparei de seu marido, quando chegar.
OH, não! Júlia reprimiu a histeria desmedida que se
apoderou dela. Por que lhe tinha golpeado na cabeça? O que
pretendia fazer ao Nick?
— E como sabe que virá?
Templeton alcançou uma cadeira e a colocou contra a
parede, de frente para Júlia e a porta.
— Enviei-lhe uma nota. Virá.
Júlia não tinha tanta certeza; Nick e ela não estavam
precisamente bem ultimamente. Em sua última conversa lhe
disse que a deixasse em paz e ele não tinha tido nenhum
problema em fazê-lo. Duvidava seriamente que fosse correndo
em seu resgate.
— E se não vir?
— Sim, virá. — Templeton tirou um revólver do bolso. —
Mas já conversamos muito. Quero estar preparado quando
chegar.
— Pretende matá-lo.
De repente viu claramente a intenção de Templeton.
Tirando Nick do meio e sem um herdeiro Colton, Templeton
estaria em posição de reclamar o título.
— Sim, esse é o plano. Esse degenerado não deveria ter
retornado nunca. E, se não fosse por você, não o teria feito.
— Então, por que me sequestrou?
— Quando as autoridades encontrarem o revólver em sua
mão e não na minha, a morte de Colton parecerá uma rixa
amorosa com final triste; afinal de contas, todo mundo sabe
que entre vocês não existe nenhum carinho.
O estômago deJúlia revoltou-se.
— Templeton, isso é repugnante, inclusive vindo de você.
Ele sorriu, suas feições angulosas e magras crispando-se
de perverso regozijo.
— Obrigado.
Fez-se um silêncio tenso. O chiado do fogo era
ensurdecedor, e cada segundo que passava era uma tortura.
Os músculos de Júlia esticaram, antecipando com terror o
instante em que Nick entrasse pela porta. Talvez pudesse
convencê-lo de que lhe afrouxasse um pouco as cordas; desse
modo possivelmente pudesse escapar.
— As cordas me apertam um pouco, Templeton. Doem-me
bastante os braços. Importaria-se em afrouxar?
Ele a fulminou com o olhar.
— Nada disso. Não posso correr o risco de que escape.
Agora deixe de tagarelar, vagabunda, ou a amordaçarei.
Os minutos transcorreram lentamente. Há quanto tempo
estava alí? Que horas eram? Sua angústia aumentou, porque
não tinha nem idéia se Nick iria procurá-la. E, se o fizesse,
como sobreviveria?
Visualizou Nick irrompendo na cabana, e Templeton
disparando em seu marido e matando-o com um tiro certeiro
em sua presença. A dor espalhou no peito e teve que fechar os
olhos. Não, não. Nick não podia morrer. Estava zangada com
ele sim, mas perdê-lo fez com que a consumisse um desespero
que não imaginou.
Seguia amando aquele homem exasperante; e não podia
morrer antes que tivesse oportunidade de dizer-lhe. Só Nick
tinha a capacidade de confundí-la. Podia deixá-la louca e no
segundo seguinte fazê-la arder de luxúria. Tinha lhe feito mal,
disso não havia dúvida, mas Júlia o necessitava. Olivia o
necessitava.
Ao pensar em sua filha lhe umedeceram os olhos. Voltaria
a ver a pequena Olivia? Se Templeton cumprisse sua ameaça,
tanto Nick como ela morreriam esse dia.
O que significaria que Olivia dependeria da bondade da
família. Embora ela amasse Theo, sua tia nunca quis ter filhos.
Ficaria com Olivia? Nunca tinham falado disso, mas se Theo
não criasse Olivia, quem o faria?
Detestava a idéia de que um parente longínquo ou um
desconhecido se encarregasse de sua filha. Quem beijaria os
arranhões de Olivia e lhe arrumaria o cabelo? Quem a ajudaria
a escolher um vestido e a apresentaria na corte? Falariam com
Olivia de seus verdadeiros pais, do muito que a amaram? As
lágrimas escorreram pelo rosto e reprimiu um soluço.
Templeton a olhou estranhando e foi jogar ao fogo as
últimas lenhas.
— Vou pegar mais lenha.
Dito isso colocou o casaco e o chapéu, e saiu da cabana
com passo enérgico.
Júlia quase sorriu. Se soubesse que chorando tiraria
Templeton dali tão rápido, teria lhe jogado uma ou outra
lágrima há tempos.
Puxando as cordas desesperadamente com todas as suas
forças, Júlia tentou soltar-se. Valeu-se das unhas para puxar
todas as partes de corda que pegava. As afrouxando um pouco
mais poderia soltar-se. Pela intensa ardência das mãos sabia
que lhe sangravam os dedos, mas isso não importava.
Templeton não ganharia.
A porta se abriu de repente. Júlia ficou imóvel, esperando
Templeton, mas em troca viu seu marido. Disposto a brigar,
sua expressão era severa e furiosa; levava um revólver na mão
direita.
— Nick — ela sussurrou relaxando os ombros de alívio. —
Graças a Deus.
Nick correu junto a ela, olhando ao redor para confirmar
que estavam sozinhos.
— Está ferida? — Perguntou e lhe acariciou brandamente
a bochecha com a mão que tinha livre, a expressão de seu
rosto suavizando-se.
Ela assentiu.
— Estou bem. É Templeton. Quer matá-lo.
— É claro que sim — Templeton disse às suas costas, a
pistola apontando ao Nick. — E se Colton se virar, reclamarei o
que me corresponde legitimamente.
Júlia procurou o olhar de Nick. Havia determinação e uma
ferocidade selvagem em seus penetrantes olhos cinzas, mas
também medo. Temia por ela.
— Nem pense em fazer isso — ela lhe disse em voz baixa.
— Não se sacrifique por mim.
— Jogue o revólver, Colton. — Templeton avançou um
pouco. — Ao chão. Já!
Nick não apartou o olhar do de Júlia em nenhum
momento. O revólver retumbou com força ao cair no chão de
madeira.
— Não, Nick — ela sussurrou, e saltou uma lágrima que
rodou por sua bochecha.
Ele levantou a mão para lhe enxugar brandamente a
umidade com o polegar.
— Não chore, tesorina — ele murmurou.
Júlia tragou saliva, a ternura a reconfortando embora o
pânico ameaçasse apoderar-se dela; porque certamente
pretendia deter Templeton.
— Volte-se. Devagar.
Templeton seguia apontando a Nick com a arma.
Nick reuniu toda a sua coragem e se voltou para ele.
— Pensa seriamente que vai sair desta, não é? — Com
uma voz de aço, o duque cruzou os braços diante do peito. —
Ninguém acreditará em você.
— Não poderão provar nada — Templeton retrucou com
desdém. — Encontrarão o revólver na mão de sua esposa e
ambos estarão mortos. O que preciso fazer é disparar no seu
peito para que pareça uma briga de apaixonados com um final
triste.
— Do mesmo modo que ninguém pôde provar que forjou
uma raiz no bosque para que minha mulher tropeçasse; refere-
se a isso não?
Júlia afogou um grito e a expressão do rosto de Templeton
confirmou a acusação.
— Queria que perdesse a criança — o primo de seu marido
resmungou. — Não podia correr o risco de que engendrasse um
herdeiro. Como não morreu, tive que pensar em algo mais. Isto
é muito melhor, porque agora desaparecerão os dois. Venha,
andando!
Nick levantou as mãos.
— Templeton isto é loucura. Não quer nos matar.
— Sim, quero. É o primeiro. Coloque-se no centro da
habitação.
Nick foi com precaução até o centro, ficou totalmente
imóvel, e Templeton levantou sua pistola para apontar
diretamente no peito do duque.
Júlia não podia acreditar que aquilo estivesse
acontecendo. A sério Nick ia deixar que Templeton disparasse,
sem defender-se?
— Nick, não!
Voltou a tentar soltar-se com frenesi, desesperada por
alcançar o revólver de Nick atirado no chão junto aos seus pés.
Templeton fez retroceder o sistema de disparo e…
Ouviu-se um disparo. O tempo se deteve; Júlia tinha os
olhos fixos em Nick à espera de vê-lo retroceder pelo impacto.
Só que permaneceu erguido, seus olhos pousados em
Templeton… que desabou no chão sem emitir um gemido
sequer.
Fitz apareceu na porta com uma pistola fumegante na
mão.
— Bom tiro, Fitz — Nick disse voltando-se para Júlia. —
Se assegure de que esteja morto, sim?
Fitz assentiu e se aproximou para examinar o ferimento de
Templeton.
Nick sorriu à Júlia.
— Tem certeza que está ilesa? Tocou em você?
Júlia negou com a cabeça, muito aliviada para falar.
Seu marido se agachou atrás da cadeira. Em questão de
segundos seus pulsos ficaram liberados. O sangue fluiu em
seus braços em forma de intenso formigamento, e gritou de
dor. Com suas grandes mãos sobre os ombros de Júlia, Nick
começou a lhe massagear os braços até alcançar os pulsos.
Quando por fim voltou a senti-los, ela se levantou, virou-se e
lhe rodeou o pescoço com os braços, apertando-o tão forte
como pôde. Não queria soltá-lo, jamais.
— Pensei que ia matá-lo — ela murmurou colada em seu
pescoço.
Os fortes braços de Nick a rodearam e a estreitaram
contra si.
— Lamento havê-la preocupado, mas não podia alertá-la
sobre a presença do Fitz — disse e lhe depositou um terno beijo
na cabeça enquanto a abraçava com força.
Nenhum dos dois reparou na silhueta imprecisa da porta.
Júlia ouviu um grito e viu Fitz correndo para a saída justo
quando ouviu outro disparo. Com horror, viu como Fitz
desabava no chão.
Angela cruzou a soleira da porta com uma pistola em cada
mão.
— Maldição! Essa bala era para você, Colton.
Atirou a arma sem munição ao chão, levantou
rapidamente a segunda pistola e fez retroceder o sistema de
disparo.
— Angela, pare, pelo amor de Deus? Baixe a pistola.
Nick ficou em frente a Júlia e lhe rodeou o antebraço com
a mão para impedir que se movesse. Ela olhou por cima de seu
ombro para não perder Angela de vista.
— Não sem matá-lo antes. Esse estúpido — Angela olhou
para o Templeton — nunca fez nada direito.
— Templeton e você…?
A voz de Nick denotava sua incredulidade.
— Não se surpreenda tanto. Tínhamos interesses comuns.
Oito anos passei instruindo esse idiota para ficar com o
ducado, insistindo para exercer cada vez mais controle em
nosso benefício. E fracassou continuamente.
— Me deixe adivinhar. É o único responsável pelos
ataques destes últimos anos contra minha pessoa.
Angela jogou a cabeça para trás a gargalhadas.
— Ele? Por favor! Não, fui eu. Demorei uma eternidade em
economizar suficiente dinheiro para contratar alguém que o
encontrasse e logo tentasse matá-lo. Mas sempre conseguia
seguir com vida, e tinha que começar de novo a guardar
dinheiro. Mas desta vez não, sua excelência.
— Por quê? — Ele perguntou, sua voz tranquila e serena.
— Por que o faz?
Ela deu um passo para frente, as mãos trementes.
— Eu tinha que ser duquesa. Deveria ser eu quem
controlasse a fortuna dos Colton em lugar de pedir as sobras
como um cão; de ser obrigada a suportar aquela bruxa
desumana durante oito anos e escutar suas recriminações
contra mim e contra todo mundo durante horas. A única razão
pela qual não a matei antes foi porque a tinha convencido de
que deixasse Templeton controlar o imóvel.
A cabeça de Júlia deu voltas. Angela tinha matado a mãe
de Nick? Essa mulher estava completamente louca.
Mostrando de novo a cabeça por trás de Nick, Júlia deu
uma olhada em Fitz, que seguia sem mover-se. Estendia-se em
seu flanco uma enorme mancha vermelha, mas pôde perceber
o tênue movimento de seu peito ao respirar, o que significava
que, graças a Deus, ainda estava vivo.
Ao recordar que havia um revólver no chão, Júlia se
sentou dissimuladamente na cadeira e com o pé foi arrastando
devagar sob sua saia.
— Mas Harry morreu e você se foi. E agora não sou nada
— Angela retrucou.
— Harry não somente morreu, Angela. Enforcou-se porque
você tramou tudo para que nos visse juntos. Um encontro
inocente no qual você se jogou oportunamente em meus braços
no momento em que Harry entrou. Toda a cena estava
habilmente calculada. E quando Harry lhe deu a possibilidade
de explicar-se, em vez de lhe contar a verdade, dedicou-se a lhe
encher a cabeça de mentiras — Nick disse. — A verdade é que
Harry a amava e cortou-lhe o coração ao descobrir que você
nunca tinha sentido o mesmo. Negou-se a acreditar em mim e
morreu pensando que eu o tinha desonrado mantendo uma
relação em segredo com sua mulher. Tudo isso foi obra sua.
Surpreendida, Júlia deu um pulo na cadeira. Seu irmão…
tirou a vida? Oh, Deus! Pobre Nick. Como devia sentir-se
culpado! Não era de estranhar que seu pai tivesse conseguido o
chantagear para que naquele tempo contraísse matrimônio.
Nick não quis em nenhum momento que alguém averiguasse a
verdade sobre a morte de seu irmão, que se manchasse assim a
memória do Harry.
— Harry não se suicidou, idiota. Eu sabia que nos
surpreender juntos o transtornaria. Já sentia muitos ciúmes de
você, pelo que eu sentia por você. Via como eu te olhava, Nick.
Sabia o muito que eu te queria. Eu o amava. Faríamos um
casal perfeito, mas teve que estragar tudo!
Júlia notou que Nick ficou rígido.
— Como não se suicidou? — Ele inquiriu.
A voz de Angela se suavizou, voltou-se mais rouca.
— Vamos, Nick. Não finja comigo. Eu fui a única mulher
que o entendeu, que poderia lhe dar o que necessitava. E sei o
muito que me queria.
— Angela, você matou o Harry?
— Tive que fazê-lo. Trancou-se no escritório e bebeu quase
até perder a consciência — ela explicou. — Foi fácil atar a
corda do corrimão da parte superior do escritório. Não tive
mais que o conduzir até à cadeira, passar-lhe a corda pela
cabeça e logo retirar a cadeira. Não sentiu nada. Mas você teve
que estragar. Deixou-me e se casou com ela, e eu já não era
nada.
Angela se aproximou devagar, a pistola apontando ainda o
peito de Nick. Com olhos de louca e os lábios desenhando um
sorriso malévolo, estava perturbada de verdade. Sua cunhada
podia matar Nick com um tiro em qualquer momento.
Como Nick continuava impedindo sua visão, Júlia muito
lentamente, procurou pegar o revólver escondido sob sua saia.
— Você não quer fazer isto, Angela. Irá para a forca!
— Oh, eu creio que sim! Estou há oito anos esperando
para fazer isto. E depois de matá-lo, matarei a sua mulher.
— Somos dois e só fica um tiro. Não seja estúpida.
A Júlia pasmava que Nick mantivesse a calma, porque o
pânico lhe percorreu o corpo até aos dedos dos pés. Apesar de
tudo, tinha que fazer algo. Não consentiria que matassem Nick.
Inclinou-se um pouco mais e pôde tocar o frio punho de marfim
do revólver.
Já com a arma na mão, levantou-se e se colou a Nick.
Apontou com o revólver a Angela e fez retroceder o sistema de
disparo com a outra mão.
— Baixe a pistola ou disparo.
— Alguma vez disparou uma arma, imbecil? — Angela
zombou. — Sou uma atiradora perita. Não tenho muito o que
fazer a não ser matar você primeiro.
Com os olhos acesos por uma luz ímpia, Angela apontou
justo ao peito de Júlia.
Foi como se tudo ocorresse de repente. Angela e Júlia
dispararam suas armas ao mesmo tempo, o estridente som
estalando no reduzido espaço. Júlia ouviu um grito de Nick,
um segundo antes deste se interpor entre a bala e ela.
Ao ver Nick cair ao chão junto aos seus pés, Júlia mal
reparou no fato de que Angela também caira. Nick tinha
recebido um disparo? Júlia caiu de joelhos, sem atrever-se a
respirar. «Não. Por favor, não.»
Voltou-o de barriga para cima e viu uma mancha
vermelha em seu ombro.
— Nick! Oh, Deus, está ferido!
Ele pestanejou.
— Estou bem. Me ajude a levantar.
— Não, não se mova.
Obrigou-o a deitar-se de novo quando ele tentou se
levantar.
— Júlia, seja sensata. Tenho que comprovar que Angela
está morta e ajudar a levar o Fitz de volta à mansão.
Sua mandíbula estava tensa pela dor, mas ela conhecia
aquele olhar teimoso.
— Está bem. Mas se sangrar e morrer voltando para a
mansão, jamais o perdoarei.
Um tênue sorriso curvou os lábios de Nick.
— Não esperava menos de você, minha esposa.
Capítulo 17
De vez em quando é possível que aos homens ocorra decidir por
você. É nosso dever dissuadi-los desta ilusão.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

— O que faz levantado?


Júlia apoiou-se no marco da porta e ficou a observar seu
marido enquanto se vestia como podia com um braço.
Embora a ferida de Nick não tivesse sido grave, o médico
tinha aconselhado repouso a fim de reduzir o risco de febre. De
momento tinha estado na cama um total de vinte minutos.
Fechou a porta ao entrar.
— Nick, é evidente que dói. O médico disse que tem que
fazer repouso.
Continuou brigando com o lenço, tentando atá-lo com
uma mão.
— Tenho que ver o Fitz.
Júlia teve piedade dele e se aproximou decidida a o
ajudar. Apartou-lhe as mãos e ficou a lhe atar o linho branco.
— Já lhe disse que a bala lhe fez a costela em pedacinhos
e ao cair ao chão sofreu uma concussão. Dói-lhe ao respirar,
mas seu amigo se recuperará. Pelo menos ele se recuperará,
porque está na cama, obedecendo as indicações do médico,
diferente de outros homens desta casa feridos a bala.
Júlia procurou não se fixar na pele nua de seu pescoço
nem no sedoso pelo moreno de seu peito, tão próximo às
pontas de seus dedos. Estar tão perto lhe acelerava o pulso. Se
levantasse a cabeça, Nick a beijaria? A idéia lhe produziu a
sensação de que de repente lhe sobrava o vestido.
— Pensei que se alegraria de desfazer-se de mim — ele
murmurou quando ela terminou.
Surpreendida, cravou os olhos nos de Nick, mas ele
desviou o olhar. Seriamente acreditava tal coisa? Naturalmente
que sim. Não havia nenhum motivo para que ele supusesse que
ela tinha mudado de idéia. Havia muito o que dizer, muitas
coisas que ele devia saber, mas tinha a língua pesada e torpe.
— Nick, eu…
Bateram na porta.
— Entre — o duque gritou.
Apareceu Thorton.
— Sua excelência, há um agente da polícia lá embaixo que
deseja falar com sua excelência. Quer que faça subir um criado
para que o ajude com a roupa?
— Não. Diga ao agente que agora mesmo descerei.
O mordomo assentiu e desapareceu. Nick começou a
clocar com a mão a camisa larga e recém engomada por dentro
das calças.
— Importar-se-ia em me ajudar com o colete?
Júlia sustentou o colete azul que ele tinha selecionado do
armário e o pôs lentamente, sem forçar o ombro lesado. Virou-
se e ela o abotoou. Procurou não pensar no duro abdômen que
estava justo sob as pontas de seus dedos… em como lhe tinha
beijado o ventre em Veneza antes de seguir descendo…
— Obrigado — Nick disse pegando o casaco e, depois de o
ajudar a colocá-lo afastou-se andando.
— Não quero me desfazer de você — soltou antes que
chegasse à porta. Ele se deteve, mas não se voltou. Ela
continuou: — Passei terríveis horas pensando que Templeton o
mataria. E quando Angela disparou… — lhe quebrou a voz e
inspirou fundo. — Necessito-o, Nick. Se hoje o tivessem matado
não sei o que teria sido de mim.
Nick não se moveu, limitou-se a olhar fixamente à parede,
a postura rígida.
— Teria continuado em frente. Foi bastante bem todos
estes anos sem mim. Eu diria que aconteça o que acontecer
estará bem melhor sem mim.
— Como pode pensar uma coisa assim? Não imagino um
futuro sem você.
— Pois não sei por quê, quando lhe falhei de todas as
formas imagináveis.
Ela piscou. Falhou?
— Acredito que está atordoado pela perda de sangue. O
que diz não tem sentido.
Ele a olhou o rosto com o braço lesado pendurado na
lateral de seu corpo.
— Por minha culpa a sequestraram e por pouco a matam
hoje. Como vai viver com o homem responsável por isso?
— O que aconteceu não é culpa sua, Nick. Angela havia se
tornado louca de pedra.
— Em qualquer caso, já sofreu bastante devido à minha
estupidez. — Nick sacudiu a cabeça e passou a mão boa pelo
cabelo. — Eu sabia que Angela estava um pouco louca, mas
não fiz nada para impedir sua presença nesta casa. Deixei que
flertasse com Templeton enquanto tramavam para que você
perdesse Olivia. É imperdoável.
— É possível, mas não o culpo do que ela…
— Isso não importa porque eu mesmo me culpo! Envelheci
dez anos correndo até aquela cabana, sabendo que alguém a
tinha ferido. E presenciar como Angela lhe disparava…
reviverei esse momento em meus pesadelos o resto dos meus
dias.
Júlia nunca tinha visto Nick tão consternado, tão pálido e
tremendo. Os percalços da jornada sem dúvida o tinham
alterado. Tinha que o fazer entrar em razão, fazer entender que
a culpa não era inteiramente dele.
— Angela enganou nós dois, Nick. E cometi a estupidez de
ir sozinha até a mansão pequena. Se tivesse levado alguém
comigo todo este assunto poderia ter sido evitado.
— Ou alguém mais teria acabado ferido. — Nick colocou a
mão na nuca e apertou. — E não é só sobre Angela, sabe
perfeitamente. Pode me dizer com toda sinceridade que me
perdoa, que é capaz de esquecer quanto disse e fiz? Eu não
acredito possível, nem sei como poderíamos construir uma vida
juntos depois de tanta dor e desconfiança.
Acaso ela não se fez essas mesmas perguntas
ultimamente? Não havia uma resposta fácil, além de que
tinham que passar isso porque a alternativa era insuportável.
— Assumo minha parte de culpa por tudo o que aconteceu
entre nós. Fui a Veneza para seduzi-lo, para ficar grávida,
inclusive conhecendo sua vontade a respeito. E logo…
— Não tente me desculpar, Júlia. Não mereço.
— Perdoou minha falsidade? E o que lhe fiz?
— Perdoei-a faz meses, mas não queria reconhecer. A
verdade é que se eu não tivesse desatendido minhas
responsabilidades, não teria precisado me enganar. Aceite
minhas mais sinceras desculpas por tudo o que teve que sofrer.
— Nick, por favor…
— Não, me deixe dizer isto. Quando a olho, vejo uma
inocência tão formosa…, mas então recordo que a manchei.
Deus, desvirginei-a em uma cadeira! — Nick sacudiu a cabeça
beliscou a ponta do nariz. — Jamais poderei compensá-la nem
reparar pelo sofrimento causado. Fui o pior dos maridos; bem
sabe Deus que estaria melhor com qualquer outro homem que
não eu. Ignorei-a, tratei-a como um trapo e lhe disse e fiz toda
classe de barbaridades imperdoáveis.
Júlia sabia que aquilo não era unicamente por sua
virgindade.
— Não me manchou. Nossa semana em Veneza… jamais a
esquecerei. Como ia fazê-lo se foi a experiência mais
maravilhosa, incrível e formosa da minha vida?
Ele fechou brevemente os olhos e deu a volta.
— Não sou o que necessita, Júlia. Não posso ser um
marido como Deus manda. E mais: nem sequer saberia por
onde começar. E, depois de hoje, ficou demonstrado.
Justamente o contrário, compreendeu ela então. Hoje Nick
tinha demonstrado justamente a classe de marido que seria:
valente, solícito e protetor.
Ela se colocou diante dele e lhe acariciou com os dedos a
mandíbula áspera pela barba.
— Salvou-me. Não esqueça essa parte, meu marido.
Ele inclinou brevemente a cabeça, procurando suas
carícias, logo se distanciou.
— Feito que não muda nada nem muda quem sou. Não
posso ser o que necessita: um marido como marcam os
cânones, que peça permissão antes de entrar na habitação de
sua esposa para acariciá-la às escuras. O título, esta casa…
nunca tinham que ter sido para mim. Nem eu os quis nunca.
Tentar me converter no marido que merece só nos fará
desventurados, Júlia.
A cabeça lhe deu voltas. Aquilo era muito pior do que
temeu inicialmente. Nick acreditava a sério que não merecia
nada do que tinha recebido, ela incluída.
— Mereço um marido aqui comigo, ao meu lado. Esse
marido é você, Nick. Não quero ninguém mais.
Ele a contornou e se afastou dela em direção contrária à
porta.
— Não sabe o que está dizendo. Minha alma foi quebrada
anos atrás e a esperança de levar uma vida normal está
desaparecendo faz tempo. Winchester me acusou muitas vezes
de ser egoísta, de pensar somente em mim mesmo. Pois bem,
aprendi a ser egoísta porque nunca me importei com nada nem
ninguém. Não posso mudar e é melhor que eu não fique.
— Sim, pode mudar. Mudou. Ou acaso um homem egoísta
teria se deslocado para salvar a sua esposa de sequestradores?
Teria recebido uma bala destinada a outra pessoa? Teria
passado as noites embalando a sua filha nos braços e lhe
contando contos em vez de dormir?
Nick abriu muito os olhos, surpreso.
— Sabia?
— Sim. E tenho mais que suficiente com um homem que é
capaz de fazer essas coisas.
Nick não disse nada e sua expressão, mais lívida e
melancólica do que jamais lhe tinha visto, pareceu ainda mais
desconsolada, se pudesse. Como podia ser? Ao fim ela tinha
entendido que o amava e ele lhe estava escapando, negando-se
a brigar por um futuro em comum. Não sentia nada por ela,
absolutamente nada?
Júlia não queria ninguém mais. Nick não era perfeito,
certamente que não, mas ela tampouco. E, no fundo, era um
bom homem. Isso Júlia deixava claro, havia visto muitos
exemplos disso; inclusive há algumas horas. Não haveria mais
homens para ela. Jamais.
Com um nó no estômago sentiu autêntico medo pela
segunda vez naquele dia. Seriamente tanto se odiava, tão
pouco merecedor se considerava de amor genuíno e afeto que
se negava inclusive a tentar? Tinha deixado para trás sua vida
fazia oito anos, incapaz de aceitar a si mesmo e seu passado, e
parecia decidido a fugir uma vez mais.
— Por favor, Nick. Podemos esquecer disto e seguir
adiante. O nosso não seria o primeiro matrimônio que começa
sobre um terreno tão pedregoso.
Ele apertou os lábios; uma expressão de teimosia que
reconhecia.
— Não me parece possível.
— Por que não? — A raiva e a tristeza, a frustração e a
decepção se debatiam em seu interior, e mal podia discorrer
que emoção exteriorizar primeiro. — Não pode aceitar que o
quero?
Esteve a ponto de dizer que o amava, mas algo a fez
conter-se. Talvez o medo pelo que ele havia dito, o medo a que
o sentimento não fosse correspondido.
Nick foi até a janela, apoiou o braço bom no vidro e
contemplou um instante os jardins.
— Nem sequer respondeu a minha pergunta — disse em
voz baixa, a voz quebrada pela emoção. — O que em si é uma
resposta, não lhe parece? Nunca poderei esquecer o que fez,
nem você nunca poderá me perdoar por isso.
Júlia quis negar… mas não conseguiu que as palavras
saíssem de sua boca. Tinha perdoado Nick? Estava claro que
não queria perdê-lo, mas podia dizer de verdade que o tinha
perdoado por suas ofensivas palavras e atos desde sua volta de
Veneza?
Como titubeou, ele se separou da janela e foi para a porta.
— E agora o quê? — Conseguiu perguntar.
Ele se deteve com a mão na porta.
— Vou.
E a seguir abriu a porta e desapareceu.

***

Na manhã seguinte, Júlia ficou deitada, esgotada. Passou


a noite dando voltas na cama até que apareceram os farrapos
púrpuras no céu da alvorada. Nick ia embora. Tinha tomado
uma decisão; o ódio por si mesmo e o medo eram muito
intensos para que ela os vencesse.
Depois que Meg levou seu chocolate matutino, a senhora
Larkman desceu Olivia um momento. Ter a sua filha nos
braços só serviu para lhe recordar a decisão de Colton de não
formar parte de sua vida. Isso também era extensivo a Olivia? A
idéia de que sua filha crescesse sem pai voltou a lhe partir o
coração. Sim, quando a idéia de conceber um filho de Colton
começou a arraigar, ela tinha dado por certo que, em ausência
de seu marido, faria-se de mãe e de pai. Mas Colton tinha visto
sua filha, tinha-a tido em seus braços, como não ia querer vê-la
crescer?
Theo chegou e encontrou Júlia à beira das lágrimas.
— Oh, céus! O que aconteceu? — Perguntou, aproximou-
se rapidamente até o puxador da campainha, puxando-o com
força.
Mandou procurar a senhora Larkman e Olivia voltou para
o quarto infantil. Então Theo se sentou na cama e pegou a mão
de Júlia.
— Vamos, querida, qual é o problema?
Júlia realizou uma inspiração entrecortada.
— Sinto muito. Não consigo parar de chorar.
— É pelo Colton? — Ao ver Júlia assentir, Theo suspirou.
— Imaginava. Thorton disse que está desde ontem à noite
encerrado no escritório. Vamos ver, o que ocorreu?
— Disse-lhe que o necessitava, que queria um futuro com
ele. Ontem por pouco o perdi e quase morro de susto. Amo-o,
Theo.
As lágrimas que tinha estado tentando reprimir
transbordaram.
— Me dá medo de te perguntar, mas o que Colton disse a
esta revelação?
Júlia contou a conversação a Theo, a insistência de Nick
em que jamais poderia ser o marido que ela necessitava. Theo
estalou a língua, sacudindo a cabeça.
— Se sua mãe seguisse viva lhe daria uma boa bronca
pela forma que educou esse moço. Não há razão para que uma
mãe seja tão cruel, embora o menino não fosse concebido nas
condições ideais.
— A que se refere?
— Angela não lhe contou isso? Suspeitava, por suas
conversas com a viúva do duque, que o pai de Colton forçou a
sua mulher quando ela o rejeitou. Seu marido foi o fruto
daquele encontro e a duquesa nunca pôde perdoar ou esquecer
o acontecido, e descarregou sua raiva no menino.
Júlia afogou um grito.
— Que horror! Pergunto-me se Colton sabe.
— Se não souber, terei que dizer-lhe. Poderia ser de
grande ajuda para entender que a falta de entrega maternal de
sua mãe não era culpa dele, mas sim dela.
Júlia tomou nota mentalmente para dar a Nick este novo
dado; se tivesse oportunidade.
— O que faço, Theo? Sei que me quer. Como posso lhe
demonstrar o muito que o quero? Quero recuperar o que
tínhamos em Veneza.
— Até onde está disposta a chegar para convencer seu
marido de que fique?
— Farei o que precisar. Quero lutar por ele, mas não sei
como.
Theo sorriu.
— Então deixe isso comigo. Sei exatamente o que tem que
fazer.

***

Nick viu como subia e baixava o peito de Fitz. Sua


respiração era regular e profunda, e o médico lhe tinha
assegurado que seu amigo se recuperaria.
Mesmo assim, a culpa ameaçava asfixiá-lo. Devido a sua
estupidez tinham estado a ponto de matar Fitz e Júlia. Como
não tinha visto quão louca estava Angela? Oito anos antes
tinha aprendido que era capaz de mentir e tramar intrigas para
conseguir o que queria; então, por que não fez nada para detê-
la?
Nada tinha saído segundo o previsto desde que tinha
voltado para a Inglaterra. Tinha sido um completo desastre,
porque não tinha pensado com claridade. Primeiro o havia
corroído a fúria contra Winchester e Júlia, e logo o tinha
cegado um desejo irrefreável por sua esposa. E inclusive agora,
depois do nascimento de Olivia, a paz e a felicidade seguiam
resistindo.
Possivelmente resistissem sempre ali, onde as lembranças
e a dor eram muito intensas. Quanto mais longe estivesse da
Inglaterra, melhor. Júlia merecia mais que a vida que tivera,
com um marido que nunca poderia ser o que ela necessitava. O
divórcio não era uma possibilidade, mas voltando a viver no
estrangeiro poderia pelo menos lhe dar certa liberdade.
Deus, amava-a tanto que doía. Desejava sua mulher de
uma forma que não tinha experimentado nunca com nenhuma
outra mulher, e estar perto dela sem a ter era uma tortura
inimaginável. Em sua opinião, a distância beneficiaria a
ambos.
Fitz falou em sonhos e mudou de postura, voltando a
captar a atenção de Nick. Embora ele retomasse suas viagens,
nessa ocasião Fitz não o acompanharia. Seu amigo estava
apaixonado por lady Carville e não ousava lhe negar um
minuto de felicidade com aquela mulher. Além disso, agora que
Angela tinha assumido a autoria dos ataques dos últimos anos,
não necessitava de escolta. Não, iria sozinho. Amanhã, antes
que Fitz se recuperasse de tudo; antes que Fitz pudesse tentar
o dissuadir.
Nick suspirou e esfregou os olhos com a mão boa. Diabos,
como estava cansado! A noite anterior tinha sido espantosa. Os
percalços do dia somados às revelações de Júlia sobre seus
sentimentos garantiram que não pregasse o olho. Nem sequer
ir ver Olivia à primeira hora da manhã lhe tinha levantado a
moral; só lhe tinha afundado mais, lhe fazendo desejar coisas
que jamais poderia ter.
A porta se abriu e entrou lady Carville.
— Já despertou?
Nick ficou de pé.
— Ainda dorme, temo. Isso é normal? Tem que dormir
tanto?
— Dormir é o que mais lhe convém, sua excelência — ela
lhe assegurou. — Ontem à noite despertei-o a cada poucas
horas devido ao ferimento da cabeça. É provável que passe o
resto do dia dormindo.
Lady Carville olhou para Fitz sorridente, seus olhos
brilhando de amor. Ao perceber a necessidade de privacidade,
Nick se dirigiu para a porta.
— Virá me buscar se ele acordar? Tenho que lhe
agradecer.
— Ele já sabe que você está agradecido, sua excelência. É
o que acontece às pessoas que amamos, não? Queremos
protegê-las de qualquer sofrimento, necessitem-no ou não.
Claro e fixo, seu olhar era extremamente eloquente e Nick
se deu conta que já não estavam falando de Fitz.
— Contudo, se não lhe importar, mande um criado para
me buscar se ele acordar hoje.
Horas mais tarde, depois de um bom passeio a cavalo e
um banho, Nick se instalou no escritório. Ficavam muitas
coisas por fazer antes de partir, tais como escrever cartas ao
seu advogado e ao administrador do imóvel, assim como
concluir seu testamento.
E Olivia merecia uma explicação por escrito do motivo pelo
qual não ficou, para que quando crescesse não se sentisse
abandonada. Não queria que sua filha pensasse era que ele não
a queria, porque a queria. Com loucura. As poucas horas que
passava com ela a cada noite seriam a melhor lembrança de
sua vida.
Junto com Veneza, pensou com pesar.
Não tinha a menor idéia de como despedir-se de sua
esposa. O sentimentalismo era uma virtude que não possuía, e
despir seus sentimentos unicamente os faria mais
desventurados. Não obstante, tinha que dizer algo e só o
demônio sabia o quê.
Quando terminou as instruções tanto para o advogado
como para o administrador do imóvel, a tarde cinza se tornara
escura fazia um tempo, dando passo à noite. Massageou-se a
nuca, esticando um pouco o pescoço para atenuar a dor no
ombro, e continuou escrevendo.
Bateram na porta. Provavelmente fosse Thorton para
insistir outra vez que ele comesse.
— Entre — gritou sem sequer incomodar-se em levantar a
vista.
Ouviu que a porta de madeira maciça se abria.
— Thorton, pedi que não me incomodassem. O que é tão
urgente desta vez?
Assaltou-o a ligeira fragrância de gardênias, invadindo
seus sentidos, e Nick levantou a cabeça bruscamente.
Júlia.
Aí estava sua mulher, tão formosa e intocável que quis
uivar. Estava vestida com uma camisola, os pés descalços, e
inclusive aquele pingo de pele nua fez com que o coração lhe
pulsasse com força. Maldição, essa mulher o provocava a cada
passo.
O rosto de Júlia não deixou entrever nada enquanto
fechava a porta ao entrar. Quando o clique da fechadura
reverberou em toda a habitação, ele se levantou de um salto,
quase atirando a cadeira.
— Está tudo bem? — Ouviu-se perguntando, sua voz um
mero grasnido enquanto ela se aproximava tranquilamente.
Em lugar de responder, ela levantou os braços e tirou uma
forquilha do cabelo. Seis forquilhas mais, e uma cortina de
cachos loiros lhe cobriu as costas. Nick ficou gelado,
paralisado, incapaz de falar. Uma parte dele estava impaciente
por ver o que faria Júlia a seguir; a outra queria escapar o
quanto antes.
Ela andou para ele sem pressa, os quadris rebolando e a
parte superior dos seios aparecendo pelas lapelas da
camisola… custava acreditar que não fosse um sonho. Quando
os olhos de Nick se encontraram com seu sensual olhar azul,
que não tinha visto desde Veneza, agarrou-se na beira da
escrivaninha para evitar jogar-se sobre ela.
— O que pretende, Júlia?
Ela levou as mãos à fita da cintura e a desatou
lentamente.
— Mostrar-lhe o que perderá quando partir. Quer ver?
Abriu a capa de fina seda e começou a deslizá-la pelos
ombros. Nick ficou com a boca seca.
A pele de cor nata do pescoço e ombros ficou à vista,
seguida das graciosas clavículas. Ato seguido a capa caiu
revoando ao chão, e Nick ficou boquiaberto. Jesus…! Usava o
espartilho vermelho de Veneza.
Composto de cetim e renda, o objeto contribuía pouco a
ocultar sua beleza inata. O corpete preto de renda ia muito
apertado, seus seios levantados apareciam como uma oferenda
deliciosamente tentadora. Da cintura para baixo… estava tudo
maravilhosamente à vista. O tecido vermelho transparente
acabava justo por cima da púbis na parte dianteira e baixava
lhe roçando as nádegas pela parte posterior. O corpo de Nick
reagiu imediatamente, endurecendo, até que seu pênis rígido
pressionou sem piedade contra o interior das calças.
Ela deslizou em sua direção, e ele não pôde mover os pés;
nem os braços, de fato. Não pôde fazer outra coisa que
observar, incapaz de frear o que for que ela tramasse.
— Júlia — sussurrou controlando sua voz.
Sua esposa meneou a cabeça, os lábios desenhando um
enigmático sorriso.
— Esta noite não, querido. Esta noite pode me chamar de
Juliet.
Júlia nunca esqueceria a expressão da cara de seu
marido. A hesitação, a esperança… e a luxúria que lhe derretia
os ossos. Os olhos de Nick a repassaram ardentes de cima a
baixo e não se lançou sobre ela por milagre. Os possíveis
nervos tinham desaparecido totalmente e tinham sido
substituídos por uma explosão de poder feminino que não
tinha experimentado desde que a senhora Leighton guardou
seus pós e leves anáguas.
— Por quê? — Ele perguntou quase sem fôlego.
Ela arrastou um dedo pela parte superior de seus seios.
— Presume você de saber que classe de homem necessito,
mas em nenhum momento me perguntou que classe de homem
eu quero. — Quando estavam a um braço de distância, ela
disse: — Não quero um marido que peça permissão para vir à
minha cama e me toque às escuras como um colegial
inexperiente. Não, quero um homem. Um homem atrevido que
também desfrute da minha falta de pudor.
Júlia apoiou as mãos no peito de Nick, ficou nas pontas
dos pés e lhe sussurrou ao ouvido:
— Porque eu adoro ser atrevida com você, Nicholas.
Seus seios roçaram o peito duro de Nick e lhe agradou
ouvi-lo gemer.
Respirando com força e entrecortadamente, Nick estava
totalmente paralisado. Pobre homem; fazia o possível para não
sucumbir. Sorte que ela ainda não tinha empregado todas as
suas táticas.
A mão de Júlia desceu por seu estômago até que chegou à
grossa protuberância ereta de suas calças. Ao arrastar as
pontas dos dedos pelo contorno, viu que ele pestanejava e
fechava as pálpebras, os cílios negros lhe acariciando as
bochechas.
— Quer que lhe conte todas as coisas atrevidas que eu
gostaria de fazer com as mãos? — Júlia murmurou
aproximando-se mais até que seus lábios por pouco se
tocaram. — Com a boca?
Aquilo acendeu Nick. Com o braço bom estreitou-a contra
si e baixou a cabeça para devorar sua boca. O beijo foi
apaixonado. Impetuoso. Desesperado. Não havia ar para tomar
e seus dentes entrechocaram, as línguas acariciando-se. Foi tal
como ela recordava de Veneza, e mais.
Os lábios do Nick procuraram os de Júlia uma e outra vez,
e lhe correspondeu de igual maneira, lhe rodeando o pescoço
com os braços e beijando-o febrilmente. Então as mãos de Júlia
começaram a lhe tocar em todas as partes, redescobrindo seus
ombros fortes e seu peito. Tentou aproximar-se mais dele,
quase retorcendo-se em um intento por aliviar a ânsia
desmedida que sentia em seu íntimo.
Nick se abaixou para lhe beijar o pescoço e murmurou:
— Leva-la-ei à cama.
Júlia negou com a cabeça.
— Não. Aqui. — Apoiou o traseiro na escrivaninha.
Sentada na borda, suas pernas nuas penduraram pela lateral.
— Quero que me possua aqui mesmo.
— Não deveríamos…
Ela o pescou pelo lenço enrugado e o atraiu para si. Ele se
colocou entre seus joelhos, o calor do membro pressionando
diretamente contra sua fenda nua. Ela afogou um grito pela
áspera sensação, mas necessitava de mais.
— Nick, por favor…
Ele colocou a mão entre eles e achou sua entrada, os
dedos deslizando sem problemas entre a viscosidade ali
acumulada. Provocou-a, tocando e acariciando, e ela teve que
morder o lábio para evitar gritar.
— Senhor! — Ele exclamou ofegando. — Você tem a
capacidade de me deixar louco. Ou a penetro…
Júlia levou rapidamente os dedos à braguilha de suas
calças e desabotoou-o o mais depressa que pôde. Com a pressa
saltaram alguns e caíram sobre o carpete.
— Agora, Nick. Necessito-o agora.
Quando seu pênis ficou liberado ele não demorou nada em
alinhar-se bem e empurrar com força. Ambos gemeram. Sua
dureza dilatou Júlia, encheu-a, e rodeou a cintura de Nick com
as pernas para imobilizá-lo. Ele retrocedeu com angustiosa
lentidão para voltar a empurrar uma vez mais, afundando-se
nela.
— Estive sonhando com isto todas as noites desde Veneza
— disse antes de penetrá-la com suficiente força para que ela
se deitasse de barriga para cima na escrivaninha. Nick deslizou
a mão boa por debaixo das nádegas para que não se movesse.
— É vergonhoso, mas temo que não aguentarei muito.
Júlia não pôde responder porque a intensidade daquilo
era incrível. Nick encaixava nela à perfeição, estava a vontade
no terreno baixo de seus quadris enquanto elevava a ambos a
frações de prazer mais altas. Adorava que estivesse tão louco
por ela, os dois quase enlouquecidos de luxúria.
Ele voltou a beijá-la, ofegando em sua boca enquanto
empurrava, e então lhe pegou o lábio inferior com os dentes.
Mordeu. Uma dor e um prazer muito intensos percorreram a
coluna de Júlia até seus genitais, diretamente até seu canal,
que oprimiu o pênis de puro gozo.
— Deus! — Nick sussurrou, e começou a investir com
força, a cabeça para trás, seus corpos no compasso de um
ritmo frenético.
Ela notou que o prazer aumentava, as sensuais ondas de
excitação lhe esticando as extremidades. Suas mãos se
aferraram a ele e afundou as unhas nos músculos de seus
antebraços.
— Sim, mais depressa. Oh, Deus! Nick!
Os dedos de Nick localizaram o amontoado de nervos entre
suas pernas e desenharam com perícia círculos sobre estes. O
prazer foi cada vez mais intenso… até que seu corpo explodiu
em mil pedaços diminutos. A luz faiscou atrás de suas
pálpebras e um longo gemido saiu de sua garganta, o orgasmo
alagando todos os cantos de seu ser, a intensidade do prazer
sacudindo seu corpo. Estremeceu e tremeu, e só percebeu
vagamente que Nick também começava a estremecer os quadris
com espasmos, os músculos contraídos pelo êxtase.
Sem forças e esgotada, Júlia se aferrou a ele e inspirou ar.
Não havia palavras para descrever quão maravilhoso tinha sido
aquilo. Nick tampouco falou, limitou-se a inclinar-se sobre ela
para apoiar a testa na sua. Estiveram assim um bom momento,
seu pênis ainda fundo nela.
Quando Nick recuperou o fôlego, tirou o pênis e o voltou a
colocar como pôde nas calças com uma mão evitando olhar
Júlia nos olhos.
— Sinto — resmungou.
Ela o agarrou pelo braço.
— Não se desculpe comigo. Os dois desejávamos isto,
Nick.
— Não, não entende. Isto…
Júlia inspirou ar para fazer tomar coragem.
— Amo-o. — O olhar de surpresa de Nick se pousou
rapidamente nela, de modo que Júlia o repetiu. — O amo.
Apaixonei-me por você em Veneza e não quero ninguém mais.
Certamente não quero um marido que só vá para mim às
escuras e me toque sob os lençóis. Quero um marido que me
assalte sobre a mesa de seu escritório.
Ele franziu o cenho.
— Ama-me?
— Amo-o — ela voltou a manifestar assentindo com a
cabeça. — E se me deixar, seguirei-o, Nicholas. Juro. Se não
quiser viver na Inglaterra, Olivia e eu o acompanharemos onde
quiser ir.
Ele soltou um longo suspiro.
— Não sabe o que diz…
— Me olhe. — Quando seus olhos cinza tormenta se
cruzaram com os de Júlia, ela continuou: — Nunca se livrará
de mim, meu marido, de igual modo que eu nunca me liberarei
de você. Persegui-o uma vez e estou disposta a voltar a fazê-lo.
Sei perfeitamente o que quero, e o tenho justo diante de mim.
— Não… — disse e apartou o olhar quando sua voz se
apagou.
— Não, o quê?
Ele pigarreou.
— Não sei se posso ser o que necessita.
— É exatamente o que necessito. — Rodeou-lhe o rosto
com as mãos. — Me ama?
Nick assentiu.
— A amo. Deus, acredito que me apaixonei por você assim
que a vi! Sem você estou perdido.
Ela sorriu.
— Repita-o, meu marido.
Nick se inclinou para frente, sua boca quase colada à dela.
— A amo, esposa querida. Mas e se estiver equivocada? E
se a fizer desventurada?
— Seguramente haverá dias em que me fará
desventurada, e eu a você. Haverá desigualdades em nosso
matrimônio, mas não pode seguir fugindo, Nick. Fique comigo e
comecemos a vida que ambos queremos. A vida que ambos
merecemos.
Nick parecia andar a voltas com aquilo, tentando
entender, e em sua expressão brotou um ar de esperança.
— Nada de fazer às escuras sob os lençóis?
— De nenhuma das maneiras. Se tentar lhe darei um
soco. — Júlia elevou uma mão para acariciar a bochecha de
Nick. — Apaixonei-me pelo Duque Depravado em Veneza. Agora
não pode voltar atrás.
As nuvens escuras se afastaram do olhar de Nick e um
sorriso malicioso se desenhou em seu rosto. Aquele sorriso
reconfortou Júlia em todos os recantos imagináveis.
— Bom, se de vez em quando pode ser a senhora Leighton,
suponho que é justo que em troca eu seja o Duque Depravado.
— Sim, é o justo — ela disse com zombadora seriedade.
— Se verdadeiramente me quiser, tesorina, sou seu. Não
estou seguro de poder ser um bom marido e pai, mas farei todo
o possível, porque estar sem você me mataria.
Então lhe deu um beijo, longo e efusivo.
— Quantos conjuntos mais como este a senhora Leighton
tem? — Nick perguntou quando deixaram de beijar-se.
Sua mão lhe roçou a renda que cobria o seio, e ela
estremeceu.
— Alguns. Por quê?
— Porque este marido atrevido tem uma vontade louca de
arrancar-lhe e tomá-la uma vez mais, desta vez no chão deste
escritório.
Capítulo 18
São poucas, e afortunadas, as mulheres que recebem o dom do
amor verdadeiro.

Senhorita Pearl Kelly à duquesa de Colton

Um mês depois

Nick fez cavalinho a Olivia com cuidado em seu colo, o


coração lhe saltando dentro do peito enquanto ela o olhava
sorridente. Sua filha tinha a habilidade de o fazer sentir o
homem mais poderoso da Terra. Oferecia-lhe seu amor e sua
confiança incondicionais, e ele jurou não desperdiçar jamais
esse presente.
E logo alí estava sua esposa, que ao seu modo o fazia se
sentir bastante poderoso. Em um primeiro momento ele tinha
duvidado de sua insistência em que o queria tal qual era, com
seus defeitos e tudo mais. Parecia muito bom para ser verdade,
mas no último mês lhe tinha demonstrado de mil maneiras que
pareciam um para o outro. Para falar a verdade, em algumas
noites a depravação de Júlia tinha superado a sua própria.
Tomou nota mentalmente para enviar a Pearl Kelly um
generoso presente como amostra de gratidão.
Tinham decidido viver na mansão Seaton. A sua mulher
estava redecorando, e sempre havia operários no imóvel. A
maioria dos retratos familiares de Seaton tinham sido retirados
e guardados no sótão. Embora Nick agora entendesse a causa
do ressentimento de sua mãe.
— Livvie, prometo que papai te mimará; diga o que diga
sua mãe, bellissima.
Sua filha sorriu como se entendesse cada palavra, se
tivesse metade da inteligência de sua mãe, provavelmente fosse
assim.
— Outra vez mimando-a, Nicholas?
Ele girou e viu sua mulher entrando com passo longo no
aposento. Que formosa e obstinada era, e era dele. Inclusive o
amava. Havia dias em que Nick ainda não acreditava.
— Chsss…! — Nick se abaixou para sussurrar à sua filha:
— Não diga à sua mãe.
Júlia riu com vontade, enchendo o aposento, como
acontecia onde fosse. Fez gesto de pegar Olivia.
— Me dê. Tem visita.
— Uma visita? Quem é?
— Em seguida saberá. Anda, vem, Nick — disse e pegou a
sua filha nos braços, com o que ele não teve mais jeito que
levantar-se.
Foi, mas não sem antes dar um beijo impetuoso em sua
esposa.
Quando por fim entrou no escritório, um homem de cabelo
loiro se voltou, um homem ao qual Nick reconheceria em
qualquer parte.
— Winchester! — Saudou-o. — Não te esperava. — Nick
fechou a porta. — Recebeu minha carta?
Winchester assentiu, sua expressão petulante.
— Sim, mas vim para ouvi-lo em pessoa.
Nick pôs os olhos em branco.
— Já me rebaixei, que mais quer que eu faça?
— Quero ouvi-lo uma e outra vez, todos os dias durante o
resto da minha vida.
Nick riu entredentes.
— Muito bem. Tinha razão. Fui um canalha e um egoísta
que tratou injustamente a Júlia. Te agradeço por a ajudar
quando pediu e por levá-la a Veneza para me buscar. Peço-te
desculpas por ter lhe batido e não acreditar em suas
motivações puras e desinteressadas. Isso é tudo ou esqueci
algo?
— Acredito que isso é tudo. E então, são felizes?
— Imensamente felizes, sim.
— Magnífico — Winchester disse e deu a Nick uma
palmada no ombro ileso. — Então tomemos uma taça e me
conte o que o fez mudar de idéia.
Minutos depois os dois homens estavam aconchegados em
suas poltronas com uma taça de brandy na mão.
— Bom, — Winchester começou apoiando uma bota em
cima do joelho. — É difícil dizer «não» à sua mulher, não é?
— Assim é. Eu diria que é a pessoa mais teimosa que
conheci em minha vida. Já a viu?
— Um segundo, ao chegar. Disse que tinha vindo ver-te.
Por um momento pensei que não nos deixaria a sós, por medo
de que voltássemos a nos surrar. Tive que lhe dizer que tinha
escrito, implorando perdão eterno, para que aceitasse ir te
buscar.
— Perdão eterno? Depois diz que o exagerado sou eu.
— Bom, teve seus momentos. Os membros do White ainda
falam do dia em que veio e me nocauteou na mesa de jogo.
Nick tomou seu brandy e se absteve de fazer comentários.
— Como está Quint?
— Segue desconsolado, embora ele afirme o contrário. Não
paro de lhe dizer que se o Duque Depravado foi capaz de
encontrar a felicidade com uma mulher, todos podemos.
— Falando de felicidade, como sabia? Como sabia que
Júlia e eu nos daríamos tão bem? — Nick deixou sua taça. — O
mais provável era que eu a rejeitasse em Veneza, e teriam
viajado em vão.
Winchester encolheu os ombros.
— Conheço-os há muitos anos e tinha claro que saltariam
faíscas. Não podia ser de outra maneira, tão apaixonados que
são. Lembra-se do que eu disse quando se casou com ela?
Nick buscou em seu cérebro uma lembrança daquele
momento de mais de nove anos, mas depois da morte de seu
irmão tinha estado muito bêbado para recordar grande coisa.
— Não, não me lembro.
— Disse-te que era fogosa e teimosa igual a você, e que era
um afortunado por tê-la. Sabia que, se alguém podia te dobrar,
essa seria Júlia. — Deixou a taça com cuidado sobre a
escrivaninha. — Recorda o que mais te disse naquele dia?
Nick negou com a cabeça e viu que seu amigo se levantava
e tirava o casaco. Agora em mangas de camisa, Winchester foi
até o centro do escritório
— Disse-te que se alguma vez lhe fizesse mal, partiria-te a
mandíbula. — Fez um gesto a Nick para que ficasse de pé. —
Venha, Colton. Levante-se e lute como um homem e começou a
rir.
— Não acredita que vou deixar que me dê uma surra, não
é?
— O mesmo que eu te deixei fazer quando voltou para a
Inglaterra. Deixei que me desse uma boa surra e não me
incomodei em me defender porque sabia que merecia. Em pé,
Colt. Venha!
Winchester fechou os punhos e os elevou em posição de
briga.
Como bem merecia um soco na cara, Nick ficou de pé.
— Estou desejando que se apaixone, Winchester. Juro que
farei de sua vida um inferno.
— Deixa de resmungar como um velho e se aproxime.
Winchester levantou o punho, levou o braço para trás e…
— Simon!
Voltaram a cabeça para a porta, onde estava Júlia,
horrorizada. Winchester baixou os braços no ato,
envergonhado, enquanto a duquesa entrava com resolução no
escritório.
— Ia lhe bater Simon? Prometeu-me não o fazer!
Winchester entrelaçou as mãos às costas, a viva imagem
da inocência. Nick soltou um sopro de alívio.
— Não, é obvio que não. Somente queria lhe mostrar
alguns movimentos do combate de boxe que estive praticando
em Londres. Por que diabos ia querer bater no Colton?
Sua esposa os olhou com receio.
— Não sei o que trazem entre as mãos, — disse — mas
têm que fazer as pazes. Agora. O passado, passado está. Estão
se comportando como dois pirralhos.
Nick elevou as mãos em sinal de entrega.
— Eu já pedi desculpas.
Os dois olharam a Winchester, que exalou um suspirou e
sacudiu a cabeça.
— Está bem. Mas se voltar a lhe causar problemas,
prometa que contatará comigo, senhora duquesa.
Sorriu-lhe afetuosamente.
— Farei, Simon. Bom, quer subir para ver sua afilhada ou
não?
— Eu adoraria.
Winchester se dispôs a seguir Júlia, mas se deteve quando
Nick lhe pôs uma mão no braço.
— Iremos em uns minutos. Quero falar um momento com
ele.
— Sem se baterem? — Ela inquiriu.
Nick assentiu.
— Sim. Iremos ao quarto da menina em seguida. — Júlia
lhes lançou olhares de advertência antes de sair. Nick convidou
Winchester a sentar-se com um gesto da mão. — Me conte
como Júlia e você se uniram tanto. Nunca entendi por que
parecia tão decidido a protegê-la.
— Ah…! — Winchester mudou de postura, o rubor
subindo pelo pescoço. Sua reação intrigou ainda mais a Nick.
— Perguntou a ela?
— Sim — Nick respondeu. — E me disse que perguntasse
isso a ti.
— Não é um episódio que eu goste de contar, então
unicamente direi que em certa ocasião sua mulher impediu que
eu cometesse uma estupidez descomunal.
Como Winchester não entrou em detalhes, Nick insistiu:
— E? Não pretende deixar aí, não é?
Seu amigo soltou uma risadinha.
— Se lhe contar zombará de mim pelo resto da minha
vida. Crê que sou idiota, Colt? Não, já te disse tudo o que
precisava saber.
— Faz mais de vinte anos que somos amigos e não pensa
me contar isso?
— Não é um incidente que me orgulhe de contar, mas
posso te dizer que quando me casar não será porque ache que
estou apaixonado.
— Não sei, Winchester. O amor tem suas vantagens.
Winchester se levantou.
— Toda esta felicidade seria condenadamente repugnante
se não estivesse tão asquerosamente afeiçoado pelos dois.
Vamos ver sua filha, Colton. Me disseram que tem o gênio de
seu pai.
Quando entraram no quarto da menina encontraram Júlia
embalando Olivia. Nick não recordava cena mais formosa.
Apoiou um ombro no batente da porta, absolutamente
encantado com as duas mulheres que amava sobre todas as
coisas.
Winchester lhe deu uma palmada nas costas.
— Para ser um degenerado, tem uma sorte incrível.
Nick sorriu de orelha a orelha.
— Sei.
Quando Júlia reparou neles lançou um sorriso a Nick, os
olhos brilhando de felicidade e amor, e lhe saltou o coração.
Maldição, sempre desarmava-o com um simples olhar.
— Olivia, vem conhecer tio Simon — Júlia sussurrou, e
Winchester pegou a criança nos braços, segurando Olivia com
mãos firmes, mas cuidadosas. Colocou-a de frente e o bebê
sorriu de orelha a orelha.
Júlia se reuniu com Nick, passou o braço por debaixo do
dele e contemplaram juntos Winchester e Olivia.
— Que cara tão estranha põe! — Ela murmurou. — No
que está pensando?
Ele a atraiu para si e lhe depositou um terno beijo na
têmpora.
— Sei que Winchester acaba de chegar, mas tinha planos
para esta tarde. Crê que podemos escapar um momento?
Ela levantou a vista, os olhos brilhavam.
— Está desejando um encontro com a senhora Leighton,
não é?
Ele se abaixou e sussurrou:
— Só necessito a ti, minha vida. Se possível sem roupa e
em minha cama.
— Ora, Nick. Que aborrecido! — Ela brincou. — Com
costumes como esse não conservará seu apelido.
— Contigo é impossível aborrecer-se, minha esposa.
Seguramente se dedicará a me deixar louco até o dia em que eu
morra.
— Essa é a idéia, querido marido. Essa é a idéia…
Notas

[←1]
Cabine em uma gôndola.
[←2]
Palácio.
[←3]
Praça.
[←4]
Bebida italiana que consiste em uma dose de café expresso com uma pequena
quantidade de licor, geralmente grappa e, às vezes, sambuca ou conhaque.
[←5]
Bebida alcóolica de origem italiana. Tradicionalmente é feita a partir de bagaço,
subproduto do processo de vinificação.
[←6]
Denomina toda uma tradição vocal, técnica e interpretativa da Ópera italiana a
qual se originou no fim do século XVII e alcançou seu auge no início do século
XIX.
[←7]
Meio-soprano: voz intermediária entre o soprano e o contralto. Geralmente
apresenta um timbre mais encorpado que o soprano e tem uma extensão maior
na região central-grave.
[←8]
Atriz britânica, conhecida como a atriz trágica mais famosa do século XVIII.
[←9]
Querida.
[←10]
Por favor.
[←11]
Senhor.
[←12]
Senhora.
[←13]
Obrigada.
[←14]
Céu.
[←15]
Senhorita.
[←16]
Indisposição pessoal causada, dentro das embarcações, pelo balanço das
águas.
[←17]
Dança popular antiga muito animada.
[←18]
Alegria de viver.