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Teoria Literária II UNIDADE 01 AULA 02

Kelly Sheila Inocêncio Costa Aires


Maria Analice Pereira da Silva
Marta Célia Feitosa Bezerra

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

A personagem na
narrativa de ficção

1 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

„„ Compreender a construção da categoria da


personagem na narrativa ficcional.
„„ Conhecer as principais teorias que tratam
do estudo da personagem.
„„ Perceber o processo de construção da
personagem em uma obra ficcional.
A personagem na narrativa de ficção

2 Começando a história

Caro aluno,

Dando continuidade aos estudos de Teoria Literária II, que tratam da concepção
das formas narrativas, estudaremos, nesta aula, a categoria da personagem,
elemento fundamental para o desenvolvimento de uma narrativa.

Considerando, então, a sua importância para a constituição da narrativa, vamos


tentar, nesta aula, perceber seu processo de construção, recorrendo, para isso, às
diversas teorias que, desde os clássicos, tentam compreender e explicar as mais
diversas formas de inserção da personagem na trama narrativa.

Buscaremos evidenciar seus mais diversos contornos na análise prática de


uma obra ficcional, como exercício de reconhecimento e, acima de tudo, como
acompanhamento do processo criativo do escritor.

3 Tecendo o conhecimento

Se Deus pudesse contar a estória do Universo, o Universo se


tornaria fictício.

E. M. Forster

Para iniciarmos nossa conversa, vamos a uma provocação:

O que constitui o caráter de ficcionalidade de um texto? Sabemos que essa é uma


pergunta que, desde a era clássica, já impulsionava os pensadores a se debruçarem
sobre a definição de literatura. Como vimos na disciplina de Teoria Literária I,
de Aristóteles aos pensadores modernos como Erich Auerbach, a mímesis é o
termo mais corrente para conceber a relação entre realidade e ficção ou entre
realidade e literatura. Nessa imitação, enquanto imitatio da natureza, entra em
ação um importante componente que é a subjetividade, a imaginação, a criação.

Mas isso tudo você já viu e deve estar bem presente na memória. Se não, volte
ao material de Teoria Literária e faça uma rápida leitura.

O conceito de mímesis foi, ao longo do tempo, alargado e a ele incorporados


outros tantos conceitos. Paul Ricouer, por exemplo, a concebe como imitação
criadora, exatamente por ser compreendida como uma ação humana, engendrada
através da linguagem.

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Utilizando esse mesmo conceito e alargando-o ainda mais, Anatol Rosenfeld


(2004, p. 21-23) destaca a intencionalidade como característica ontológica da
ficcionalidade, tanto dos seres quanto do mundo. Para Rosenfeld, enquanto os
textos considerados históricos, científicos, textos-reportagem voltam seu raio
de intenção diretamente para o próprio objeto, também intencional; no texto
ficcional, o raio de intenção detém-se nos seres puramente intencionais.

3.1 E a ficção se torna viva: a inserção da personagem

É com base no pensamento de Rosenfeld que entramos no assunto desta aula.


Para esse teórico, o elemento que transforma um texto em ficção é a personagem,
pois é ela que “com mais nitidez torna patente a ficção e, através dela, a camada
imaginária se adensa e se cristaliza.”

Você deve lembrar que quando Aristóteles relaciona a mímesis à história encontra
como viés, como elo, exatamente a ação humana. Dessa forma, Rosenfeld
desenvolve esse pensamento quando afirma:
É geralmente com o surgir de um ser humano que se declara
o caráter fictício (ou não-fictício) do texto, por resultar daí
a totalidade de uma situação concreta em que o acréscimo
de qualquer detalhe pode revelar a elaboração imaginária.

Acompanhando o pensamento de Rosenfeld, vamos pensar assim: enquanto


nos deparamos somente com o espaço, o tempo, a ação, temos algo concreto,
mas imóvel. É como se observássemos uma fotografia, um quadro estático, que
se revela por meio do ponto de vista, pelo apelo descritivo. Com a inserção das
personagens, a ação toma vida e o quadro, antes imóvel, se reveste de movimento,
caracterizando e transfigurando as ações humanas. É da arte de conduzir os
personagens, de fazê-los aflorar na narrativa que resulta o trabalho de bons e
maus escritores. É tarefa difícil e mais elaborada, movimentar uma personagem,
tirá-la de uma cena estática, para definir-lhe os movimentos, enfim, para dar-lhe
vida. Isso exige uma capacidade e uma percepção aguçadas do escritor.

James Wood (2011) afirma que a tarefa de dar vida a um retrato imóvel é exatamente
aquilo que distingue os bons escritores, e a dificuldade de tal tarefa se dá,
exatamente, porque ela não pode ser concebida isolada de seu contexto social,
pois representa o lado humano do ser que, como tal, vive situações e conflitos
morais, religiosos, éticos e políticos que definem suas atitudes diante desses
mesmos valores.

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Com isso, caro aluno, não queremos requerer à personagem um caráter de


essencialidade, pois sabemos que o valor estético de uma obra se dá pela
confluência de suas partes constitutivas e na perfeita integração dos aspectos
contextuais que engendram a sua construção.

Contudo, apoiados no pensamento de Aristóteles e de Rosenfeld, podemos


afirmar que é a personagem que confere à narrativa o caráter de vivacidade. Para
Antonio Candido (2004, p. 69), a percepção da similitude entre as cenas fictícias
e as reais, projetadas pela e na personagem, é o que na verdade representa a
verossimilhança.

Lembra-se do conceito de verossimilhança, discutido na Aula 1, da disciplina


Teoria Literária I? Se não, retome o material contido na referida aula, ou
ainda, consulte a Poética de Aristóteles, a fim de avivar a memória.

3.2 O processo de criação da personagem


Figura 1 Para Candido, a personagem é um ser fictício, criado a partir dos
recursos de caracterização de cada escritor e que, por mais que
almeje representar um ser vivo real, será sempre inventada.

Veja o que diz o próprio Candido:


só há um tipo eficaz de personagem, a inventada; mas
que esta invenção mantém vínculos necessários com uma
realidade matriz, seja a realidade individual do romancista,
seja a o do mundo que o cerca; e que a realidade básica
pode aparecer mais ou menos elaborada, transformada,
modificada, segundo a concepção do escritor, a sua tendência
estética, as suas possibilidades criadoras.

Vamos entender o pensamento de Antonio Candido? Bem, estamos aqui tratando


de ficcionalidade e, enquanto tal, entra em cena um elemento imprescindível,
como já dissemos, que é a imaginação. No entanto essa imaginação criadora
não surge a partir do nada e como elemento solitário. Ela se ancora em uma
realidade, utiliza-se de uma realidade, a sua base de constituição é uma realidade
posta que, a partir dela, de acordo com a intenção e as subjetividades presentes
na obra, será transformada, redimensionada.

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Os recursos de caracterização aos quais Antonio Candido se reporta são aqueles


elementos de que o romancista se utiliza para descrever e definir a personagem,
a fim de dar a ela a impressão de um ser vivo. E essa impressão vai refletir o
lado humano do ser: um sujeito incoerente, ilimitado, contraditório, infinito na
sua riqueza.

Desse modo, a personagem não é vista apenas sob uma perspectiva mimética,
como forma de interação homem/mundo, mas como uma forma de expressão
que abarca um universo múltiplo, incluindo-se aí a interioridade do autor.

Vamos lembrar aqui do personagem Fabiano em Vidas Secas, romance de Graciliano


Ramos. Recordemos sucintamente o enredo: o romance se passa em um curto
espaço de tempo e narra o cotidiano de uma família de retirantes que foge da
seca no Nordeste brasileiro (o pai Fabiano, a esposa Sinhá Vitória, os dois filhos e a
cachorra Baleia). Em meio a sua jornada, Fabiano, ao consolidar-se como vaqueiro
de uma fazenda abandonada, desfruta de um período de estabilidade provisório,
após o qual vê seus sonhos se frustrarem. Com o retorno da seca, a família volta
a sua rotina migratória em busca de sobrevivência. Fabiano é descrito ora como
humano, ora como bicho, dadas as suas ações e reações. E nessa descrição, o
autor destitui-lhe a palavra: Fabiano é incapaz de se expressar, de traduzir para
a linguagem qualquer pensamento de revolta ou de reflexão, porque incapaz
de refletir sobre sua própria condição. Se árido é o sertão, se dura é a vida, se
ressequida é a paisagem, o personagem assim se assemelha. É o retrato dessa
condição que destitui o ser do caráter de humanidade para apresentá-lo muitas
vezes como bicho. Na vida de Fabiano tudo lhe falta, inclusive a linguagem.

Considerando a complexidade na construção da personagem, George Lukács,


em A Teoria do Romance (2003), ressignifica o problema destituindo-lhe do
lugar de entidade abstrata, para compreendê-la como “base de formas sociais
peculiares, portanto de estruturas que, implicando umas às outras, só podem
ser definidas no seu conjunto.”

Ou seja, o trabalho de criação da personagem exige uma combinação de


elementos capaz de criar uma variedade e complexidade que o distancia da ideia
de esquema fixo, de ente delimitado. Essa complexidade é possível porque o
romancista combina esses elementos, cujos números são limitados, se, no dizer
de Antonio Candido, compararmo-los com a infinidade de traços humanos.

O pensamento de Candido é importante, na medida em que traz à tona uma


discussão conceitual entre personagem e pessoa.

Para tentar aclarar essa questão, vamos recorrer agora ao pensamento de E. M.


Forster que trata, em Aspectos do Romance, da personagem. Procurando desfazer
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A personagem na narrativa de ficção

qualquer semelhança que possa haver na definição desses dois termos, Forster
afirma que todo romance que pretende uma reprodução de uma realidade
passa a ser memória, e se é memória é história. Enquanto memória ou história,
nós teríamos, então, a presença de pessoas. Contudo, a utilização de fatos e a
sua reprodução devem levar em conta o temperamento do romancista. Assim
sendo, eles, os fatos, serão sempre modificados e muitas vezes transformados
inteiramente. Se há a interferência da subjetividade do romancista, as pessoas
passam a ser criações literárias, ou personagens.

Forster afirma ainda, na distinção dessas duas categorias, que há fatos que são
intrínsecos ao ser humano como o nascimento, a alimentação, o sono, o amor
e a morte. Enquanto pessoas, esses fatos, sobretudo o nascimento e a morte,
acabam nos acometendo sem representarem experiências verdadeiras, pois
sabemos deles somente através de informações. Todos nós nascemos, mas não
sabemos como foi. Da mesma maneira acontece com a morte. Ao romancista, no
entanto, é permitido lembrar e compreender e explicar tudo, pois ele conhece
toda a vida oculta.

Perceba, caro aluno, que desse modo a personagem se assemelha a uma marionete
na mão de seu criador. É ele, o escritor, aquele que tudo sabe, que vai orientar
e definir os passos da personagem. Nesse sentido, vamos relembrar o exemplo
citado na aula 1. Lembra-se quando falamos do narrador e citamos o romance a
Hora da Estrela de Clarice Lispector? Não é só do ponto de vista do narrador que
essa se configura como uma das obras mais magistrais da literatura brasileira.
Quanto à construção dos personagens, representa um trabalho artesanal, de
uma arquitetura ímpar, de originalidade. Vamos relembrar:

Temos Rodrigo S.M como narrador, que por sua vez é também uma personagem
do romance, que cria uma outra personagem: Macabéa. Enquanto narrador,
Rodrigo S. M é uma espécie de ser onipotente que vai direcionando as ações de
Macabéa e interferindo, o tempo inteiro, no seu destino. Mas, devemos observar
também que a condução de Rodrigo S. M, suas ações e palavras devem-se a um
outro narrador. Rodrigo é também uma personagem que cria personagens. Temos,
portanto, uma espécie de mise en abyme, ou a representação das matrioskas russas,
que comportam uma boneca dentro de outra boneca, dentro de outra boneca...

A introdução das personagens e sua construção ficcional representa, como diz


Antonio Candido (2004, p. 54), “a possibilidade de adesão afetiva e intelectual
do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc.”
Impossível não sentir comiseração com a ingenuidade tocante de Macabéa,
raiva da ausência de ações, impossível não sentir o desejo de se por em seu
lugar, de por palavras em sua boca. Sentimo-la viva diante de nós. Mas apesar
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de nos indignarmos com sua falta de palavras e ações, compreendemo-la e a


aceitamos, porque ela não pode ser entendida deslocada de seu contexto, pobre
que é, nordestina que é, retirante que é.

Vamos recordar aqui um outro famoso personagem da literatura brasileira: Paulo


Honório, narrador-personagem do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos.
Da leitura do romance, vemos, desde logo, o surgimento de um personagem
altivo, ambicioso, rude, materialista, que elege o trabalho e a riqueza como os
bens que devem ser cultivados, imune a todo e qualquer traço de emotividade,
de expressão de seus sentimentos. E acompanhamos o romance nutrindo um
certo asco, uma reprovação veemente as suas ações, uma eterna divergência
com suas posturas e suas atitudes. Mas é o próprio personagem que, num
exercício de autorreflexão, compreende e nos explica, após a morte da esposa,
a sua caracterização:
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci
tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se
revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi
desta vida agreste, que me deu uma alma agreste (p. 100)

Veja que o próprio personagem reconhece as suas fraquezas e as relativiza. Há


que se perceber que esse personagem não possui essas características porque
o escritor do romance assim o desejou. Ele não se desloca do seu meio social,
do seu contexto, da aridez física, concreta de sua vida.

Quando dizemos que a caracterização das personagens considera o seu


contexto social, evidenciamos, consoante ao pensamento de Candido, que essa
caracterização conferida a priori determina uma marca, aproximando a personagem
de uma caricatura. Para além dessas marcas, a construção da personagem traz
consigo um arcabouço de influência, seja do meio, seja do próprio escritor. Ao
optarmos pela palavra “construção” entendemos que a criação é um processo
que se desenrola pari passo ao desenvolvimento da narrativa, e essa criação
é também do leitor que, aos poucos, a partir das frestas, das insinuações, dos
deslizes do narrador, vai participando ativamente desse processo de construção
e acompanhando as suas mudanças.

Repare bem, caro aluno, não estamos dizendo que a criação do personagem
depende unicamente da perspectiva do leitor. O que estamos afirmando é
que o leitor tem um papel importante nessa construção, a partir das pistas e
possibilidades que o texto fornece.

Se a personagem é construída a partir de um conjunto de elementos que


permeia a obra, seus movimentos e suas ações vão se moldando ao sabor das
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circunstâncias, do meio, de sua genética e até de determinados pontos de vista


do narrador.

Forster, pensando nessa dificuldade do escritor em conciliar ou apreender todos


esses elementos na configuração da personagem, classificou-as em dois tipos: as
personagens planas e as redondas. Vamos ver em que se baseia essa classificação?

Forster (1974, p. 55) chama de personagens planas aquelas construídas em torno


de uma única ideia ou qualidade, que mantêm um pensamento único ao longo
de toda a narrativa. O teórico aponta como vantagem desse tipo de personagem:
o fato de serem reconhecidas com facilidade pelo leitor sempre que aparecem
e facilmente lembradas. Do ponto de vista do autor, uma outra vantagem é que
elas não precisam ser constantemente apresentadas, nem suas qualidades serem
avultadas a todo momento, já que elas permanecem em sua própria atmosfera, -
pequenos discos luminosos de tamanho preestabelecido, como fichas impulsionadas
para cá e para lá através do vácuo ou entre as estrelas de maneira mais satisfatória.

As personagens planas são, no dizer de Beth Brait (2011, p. 41), aquelas que estão
imunes à evolução no transcorrer da narrativa, negando ao leitor qualquer tipo
de surpresa.

Embora não haja uma clareza na definição das personagens redondas, Forster (p.61)
as considera como aquelas capazes de nos surpreender de modo convincente.
Veja o que o próprio autor nos diz:
O teste para uma personagem redonda está nela ser capaz de
surpreender de modo convincente. Se ela nunca surpreende,
é plana. Se não convence, é plana pretendendo ser redonda.
Possui a incalculabilidade da vida – a vida dentro das páginas
de um livro.

Forster não é tão explícito em seu texto, mas deixa entrever que o personagem
bom é o esférico, por apresentar um maior grau de desenvolvimento, por
prender, com suas ações e pensamentos contraditórios a atenção do leitor. Será
que realmente poderemos pensar assim? Essa é uma provocação para atiçar
seu sentido crítico.

Voltemos à Hora da Estrela: o que dizer de uma personagem como Macabéa


que, do começo ao fim do romance, mantém uma mesma linha de ação e de
pensamento, incapaz de surpreender o leitor, mesmo quando este, ao final,
conjectura uma reviravolta com as previsões da cartomante. Nem assim, as
surpresas vêm. Enquanto criamos a expectativa de que um alemão entre na
vida de Macabéa para lhe dar um sentido, ela é atropelada por um Mercedes,
ou seja, nada mais prosaico, nada mais previsível a essa vida linear de Macabéa.
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Não se percebe nenhuma evolução em Macabéa, nenhuma reflexão sobre


sua vida, que é cumprida, simplesmente, sem queixas, sem sofrimentos, sem
reflexões, cumpre-se o destino até a última hora. Poderíamos, por isso, pensar
que Macabéa não é uma boa personagem?

Que tal pensar e discutir um pouco mais sobre essas questões?

Na verdade, quando Forster classifica as personagens como “redondas” ele está


se referindo ao fato de essas personagens se deixarem influenciar pelo meio,
deixarem-se transformar por um outro elemento da narração. De certa forma,
acontece uma espécie de adaptação.

Exercitando

Vamos por em prática o que aprendemos nesta aula?

Primeiramente leia o conto O Cobrador, de Rubem Fonseca, disponível na


Biblioteca. Em seguida, tente traçar um perfil do personagem, observando se
há linearidade em sua apresentação, ou se ele apresenta, ao longo da narrativa,
mudanças. Você o considera um personagem complexo?

4 Aprofundando seu conhecimento

Para entrar numa discussão interessante em torno da independência do


personagem da vontade de seu autor, veja o link abaixo:
àà http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/
vida-literaria/o-personagem-so-faz-o-que-quer-ah-conta-outra/

Figura 2
Em Como funciona a ficção, James Wood analisa questões
importantes sobre a arte da ficção, entre elas, o narrador,
a personagem, a metáfora, a verossimilhança na prosa
realista, a empatia do leitor com o texto ficcional. Nesse
estudo, Wood amplia as ideias de E. M. Forster, sobretudo
aquilo que diz respeito ao estudo da personagem.

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A personagem na narrativa de ficção

5 Trocando em miúdos

Caro aluno,

Como vimos insistindo ao longo de nossas aulas, o estudo de Teoria Literária é


um exercício que exige uma disposição em relacionar, confrontar, comparar. A
discussão de um conceito pressupõe, via de regra, a atualização de uma teoria
ou de um conceito anterior. Por isso, faz-se necessário o diálogo entre as mais
variadas abordagens sobre as diversas categorias de análise e o retorno ao
conteúdo anteriormente discutido.

Escolhemos, para esta aula, uma categoria de análise que foi a da personagem.
Vimos que, enquanto elemento da narrativa, é a personagem que imprime
movimento e vivacidade à narrativa. Vimos também que seu processo de
construção se efetiva em interação com os outros elementos constitutivos da obra.
Nesse sentido, estudamos que a configuração da personagem, acompanhando
as mudanças e teorias que embasam a estrutura narrativa, deixa de ser um bloco
fixo pensado pelo autor e passa a ser um reflexo muito mais abrangente de
vários aspectos outros, refletindo assim um grau de complexidade que espelha
a realidade em que se insere.

6 Autoavaliando

A partir do que se apresentou nesta aula, faça as seguintes reflexões:

1) Percebo a personagem como um elemento importante da narrativa, em


consonância com os outros elementos que a constitui?
2) Compreendo que a personagem se define também pelas pistas fornecidas
pelo texto e também pela interação com o leitor?
3) Consigo diferenciar as personagens planas das redondas, segundo o
conceito de E. M. Forster?

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Referências

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2004.

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. Rio de Janeiro: Editora 34, 2003.

BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 2006.

FORSTER, E. M. Aspectos do romance. Porto Alegre: Editora Globo, 1974.

WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cossacnaif, 2008.