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LU MIAR

EDI T O R A

Produ z i do por Produc e d by

Almi r Chediak

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Idealizado, produzido e editado por Created, produced and edtted by

- ~ . ~ .

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Almir Chediak

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n~~ u

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o

• 55 músicas contendo melod i a, letra e harmonia (acordes cifrados) para violão e guitarra.

l i 55 songs containing mclo d y, lyrics and ha r rnony (numbered chords] for ecoustic and clcctric g uiter .

r i Todos os acordes cifr a dos estão representa d os graficamente para violão e g u i t arra.

11 AlI numbered chords are represented graphically f or acoustíc and cletric guit e r.

~.

Volume 4

~

LUMIAR

EDITORA

,

3 ª e di ç ã o 3 1 1 ; e dition

Songbook o Chico Buarque - -- - - - - - - - - -
Songbook o Chico Buarque
- -- - -
- - - - - - - -- ' --- -- -----------------
-.-
Volume 1
Volume 2
Chico Buarque:
o mestre da canção / Ch i c o Bua r q u e :
th e t na s t e r
Chico Buarque:
o mestre da canção / Chi c o Buarque:
the ma s t e r
o
f s o n g A l m i r C h e d i ak
0
of song A/ m il ' C h e dia k
O
O
craque Chico / All- s tar
Chi c o
Sé r g i o C a br a l
. [ ]
O
artista e o tempo / The a rti s t and time Jos é Mi g uel Wi s nik &
G
u i l h e rm e l V i s l l i k
O
MÚSICAS SONGS
MÚSICAS SONGS
A
banda
0
Acorda amor
.[]
Acalanro para Helena
'
,
0
A
mais bonita
0
A
foto da capa
.[]
Amando sobre os jornais
. 0
Agora falando sério
. 0
Anos dourados
.o
A
l m an a qu e
0
A
permuta dos santos
0
Ano Novo
0
Aquela mulher
0
A
noiva da cidade
0
0
A
ostra e o vento
0
,
0
Apesar de você
.o
0
A
Rosa
r J
ARita
As minhas meninas
Assentamento
As vitrines
0
Até pensei
. 0
A
televisão
,
0
Bancarrota blues
,
0
Bárbara
0
Benvinda
,
,
,
,
"
,
0
Biscate
0
Bom conselho
. 0
Bom tempo
. 0
Cala a boca, Bárbara
Cantando no toró
Deixe a menina
,
,
0
Caçada
0
,
,
,
0
Cálice
0
.[]
C
0
,
De volta ao samba
Ela e sua janela
Desalento
.
,
.
,
.o
a ra a cara
Cecília
0
. 0
Ciranda da bai larina
0
. D
Cobra
de vidro
.o
Estação derradeira
0
Como
um samba de adeus
0
Fantasia
,
,
,
,O
Desencontro
,
0
G
e r i i e o zepelim
,
. 0
Dueto
0
Grande hotel
Hino de Duran
,
.
0
Feijoada completa
. 0
.
0
Folhetim
0
Ilrno. Sr. Ciro Monteiro
0
Fortaleza
0
Imagina
Já passou
Leve
Logo eu?
Mambembe
,
0
Injuriado
0
. 0
Iracema voou
0
0
Januária
0
0
Loía
0
0
Meu refrão
,
0
Mar e lua
Meninos,
.o
0
eu vi
,
. 0
Não
existe
pecado ao sul do equador
0
M i l perelões
Moto-contínuo
Novo amor
0
0
Não
sonho
mais
.,
,
,
,
,.
0
O
circo místico
0
O
cio da terra
,
,
.o
O
meu amor
0
O
futebol
0
O
último blucs
0
Onde
é que você estava
. 0
0
Outra noite.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
0
0
O
Velho Francisco
_
. o
0
Pedaço de mim.
Pedra pedreiro
Realejo
Retrato em branco e preto
Rio 4 2
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.[]
0
_
.[]
0
_
.[]
0
.
0
Palavra de mulher
Partido alto
Passaredo
Pelas tabelas
Quando o carnaval chegar
Romance
Rosa-das-ventos
0
. [ ]
S
ab ia
0
Samba e amor
Sem açúcar
Será que Cristina
.
0
,
0
volta?
0
Sonhos sonhos são
Tanga do covil
Tem mais samba
Trapaças
Urna canção desnaturada
Valsinha
Vence na vida quem diz sim.
Vida
.[]
Samba de Orly
Sem fantasia
Sentimental
Sob medida
Tanto amar
Teresinha
0
0
0
0
.o
-
0
.[]
.o
0
0
0
0
.o
Toelo o sentimento
Uma menina
Vai passar
0
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
0
V
a l s a rancho
. 0
0
Viver elo amor
.
0
Discografia D l s co g ra p h y
. [ ]
Discografia Di s c o g r a p h y
0

Songbook o Ch i c o B u a rque

; ~.

Volume 3

Songbook o Chico Buarque

Volume 4

Chico Buarque:

o mestre da canção / Chic o Bu a r qu e : lhe ma s t e r

 

Chico Buarque: o mestre da canção / C h ico B ua r qu e : the mast e r

 

of song A/mir Chediak

 

O

of song Almir Chediak

6

Chico Buarque:

criador e revelcdor

de sentidos / Chic o Bu a r q ue:

Entrevista -

Fala, Chico Buarque

/ l nter v i ew - Talk t o m e,

c

r e a t o r a nd r eve l a t o r o f m ea nin gs Adé/ia B eze rra d e M e n e s es

O

C

hi co Buarque

8

MÚSICAS SONGS

 

MÚSICAS SONGS

 

Ai, se eles me pegam agora

 

0

A História de Lily Bra u n

3 2

Amanhã, ninguém sabe

0

A mulher de cada porto

29

Amor barato

0

Atrás da porta

 

36

Ana de A m s t e r da r n

0

A volta do malandro

39

Angélica

0

A voz do dono e o dono da voz

.42

Até o fim

0

Baioque

.46

Até segunda-feira

0

Bastidores

.48

A

violeira

0

Beatriz

.54

Basta um dia

 

0

Boi voador não pode

51

Baticurn

.

0

Bye bye, Brasil

58

Bem-querer

.

0

Carolina

62

Brejo da Cruz

 

0

Choro bandido

65

Cadê você?

 

0

Com açúcar, com afeto

68

Carioca

 

0

Construção

72

Chão de esmeraldas

 

. 0

Corrente

81

Cordão

0

Deus lhe pague

77

Cotidiano

. o

Ela é dançarina

85

De todas as maneiras

.

0

Essa moça diferente

89

Doze anos

0

Fado tropical

 

92

Ela desatinou

 

0

Fica

95

Eu te amo

0

Futuros amantes

98

Flor da idade

0

Gente humilde

104

Homenagem ao malandro

 

0

Gota d'água

10 1

Joana francesa

0

João e Maria

106

Juca

0

Léo

109

L

as muchachas de C o p a c abana

 

0

Levantados do chão

113

L u d o real

 

. 0

Lua cheia

116

Mano a mano

 

. o

Madalena

foi pro mar

118

Meia-noite

. o

Maninha

123

Meu caro amigo

 

0

Morena dos olhos d'água

120

Morena de Angola

0

Morro Dois J rrnãos

126

Não fala de Maria

 

.

0

Mulher, vou

dizer quanto te amo

132

Nego maluco

.

0

Mulheres de Atenas

1 28

Noite dos mascarados

. o

Na ca r re ira

 

135

Nosso bolero

 

0

Nicanor

139

O

malandro

.

0

O

casamento dos pequenos burgueses

142

 

O

meu guri

. o

Olê, olá

 

151

Piano na Mangueira

 

0

Olha Maria

144

Pois é

 

. o

Olhos nos olhos

154

Primeiro de maio

 

0

O

que será -

Abertura / À flor da pele / À flor da terra

158

 

Qualquer canção

 

. D

O

velho

174

Roda viva

0

Paratodos

177

Samba para Vinicius

.o

Pivete

181

Se eu fosse o teu patrão

. 0

Quem te viu, quem te vê

185

Sobre todas as coisas

0

Samba do grande amor

188

Suburbano coração

0

Soneto

191

Tanto mar

 

0

Sonho de um carnaval

194

Tempo e artista

.

.

 

0

Tanta saudade

197

Tira as mãos de mim

 

0

Tantas palavras

201

Trocando em miúdos

 

0

Tatuagem

205

Um chorinho

0

Uma palavra

208

Umas e outras

0

Vai trabalhar vagabundo

2 11

Vai levando

0

Você vai me seguir

214

Valsa brasileira. Você não ouviu

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.0

0

Você, você Xote de navegação

217

220

Discografia D i s cog r ap h y

 

.0

Discografia Discogrophy

224

_-·Os copyright's-YJi

~~,~"

co m po si ç ões m us ica i s i n ser i - da s n est e ál b u m e s tã o in d ica-

d o s n o f ina l de c a d a mú s i ca.

Mu s i c co p y r ig hi s are [o und at

t h e en d of each so n g

=:t E ditor Responsável/Chief EdiJor:

Almi r Ch e d i ak

'.J P r ojeto Gráfico/Graphic Project:

A

l mir Ch ed i a k

r::J Capa e diagramação ICover and Graphic Layout:

Brun o L i b e r a ti e C hris Ma g a lhã e s

Songbook o Chi c o Bu a r qu e

- 85-8542 6-6 0 - 8

 

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o

Foto da Capa/Cover

O Transcri ç ã b ' de

Photo:

partituras/ M u s Íc

Fr

e d e rico M e nd es

Transcription:

o Coordenação de

Produção/Production

Coordination:

Ana Dia s

o VersãolEnglish Trans latia n :

Cl a udi a G uim a r ães

o Revisão de

Textos/Proofreading:

Nerval Gonç a l ve s / Raqu el Zampil

o Revisão de letras/Lyrics

Revision:

Fátima P e r e ira do s S a nto s

F r e d M a r f i ns / R ica r do G ill y

n Di a gram a ção das músicas/Music Layout:

Ri ca r do G i l ly

o Revisão Musical/

Music Revision:

Almir Ched i a k / C hi co Bu a r q u e / Cri s t ov ão Ba s t os / lan Gue s t / Ricar d o Gilly

o Composição Gráfica das

Partituras/Music type-setter:

Júli o Cés ar Per e ira d e Oli v eira

[ J Compo s içã o Gráfica das Letras/ Graphic Composition of Lyrics:

L e tic ia D obbi n

o Assistente s de Produção deste Songboo k l Songbook Production Assistants:

B r e nda R amo s / A nn a P a ula

L e m os

j--: Direitos de E dição para o Brasil/ Publishing rights for Brasil:

Lumiar Editora - R. Ba rão d o

B a n a n a l , 2 43 - C EP 21 3 8 0-

330

T e l. : ( 21 ) 59 7 -2 3 2 3

- Ri o d e Jan e ir o, Ri

H o m e p ag e : l um ia r .co m . br

Eimail: lumiarbr @ u o l. co m . br

Songbo o k u C hico Buarque

Chico Buorque : o mestre do

concoo

,

inh a admir a çã o por C hic o B ua r -

qu e ve m d e s d e os a nos 60 , q u an -

d o ou v i s u a s prime i ra s mú s i c a s n o

r á dio . Lembro- me d e ter f icad o

e m ocio na do o u v indo can çõe s co-

m o T e m m a is s amba, So nh o d e um

ca rnaval, O lê, o l á , P e dro pe dr ei-

r o, A Rit a, Qu em te v i u , qu e m t e v ê e A band a. E s sas

m ú s ic a s m e m a r c aram mu ito , sen t i u ma i d e nt i f icaçã o i m edi a ta, havia um estilo bem d e fini do d e co mp o r. T u -

do era muito bem - ac a b a d o , mú s i c a e l e tr a s e en ca ix a n - do , i s t o é, o so m da p a l a v r a em i nt egração abso l uta c om

a mú s ica, uma caract e r í sti ca m a r c an t e na o br a d e Chi-

co Buarque. Por s er um c ompo s it o r e s s e n ci a lm e n t e can - cio ni s t a, t a l v ez a m e l ho r ma n e ira d e ou vi -l o se ja e m

forma de c a nç ã o: mú s i c a e letr a sempr e j un t a s . A l é m de ser um mestre em unir esse s doi s el e ment os fun-

d a mentai s n a mú s ic a p o pul a r , C hic o é tamb é m p ri m o -

ro s o em harm o ni z ar s ua s c a n ções, h a b i l ida d e q u e e l e foi desenv o lvendo com o passar do s a no s. Ne s sa é poc a eu c o me ça v a a da r a s min has p ri m e i-

ra s aulas de v io l ão e h av i a cr ia do u m a e s pécie d e song- book particular para poder en s inar aos aluno s . Chic o Buarque e ra o co mp o s it o r qu e t i n h a o m a i or n úm e r o

de mú s icas, o q ue já d e m o n s tr a v a a mi n h a e n o r m e a d - miração por ele. Sempre comprei t o do s os seu s di s cos. A l i á s, é d e se

o b s er v ar qu e muito s d e le s lan ç a do s n o s

anos 6 0 e 7 0

t i nham cinco o u s eis m úsic a s e x ec ut a d a s n a s r ádio s , tor - nando-o um do s composit o res co m o mai o r número de

s u c e ss os n es te s últi mo s tr i nt a anos . E to d os e ss es s u -

c e sso s acontece ram pri n c i pa l me nt e em função da qu a- l i dad e de suas música s, q ue v ão ao en cont r o do go st o

po pular. Chico é um d o s c o mp o s i to r e s ma i s qu e r ido s e

r e s peitados em toda s a s c l a s s e s soc ia i s, u ma c o nqu i s ta que se deve não s ó a o s eu ta le nto e c a r ism a, m as , tam -

b é m , aos s eus a to s co m o cida dão . Na séri e S o n g bo ok, e st e é o q ue contém o mai or

número de mú sic as. S ão 222 c anç õe s di v id i da s e m q u a-

tr

o v o lum es , t o das esc rit a s e x c lusi v am e nte p a ra e s te

tr

a balho e revi s adas p o r C hi c o Bu a rqu e o u por s eu s

parce i ros, fazendo c o m que e ste Son g bo o k s ej a o mai s fiel possível ao que Chic o gostaria . Sérgio Cabral , e scritor e j o rnali s ta ; Adélia Bezer- ra de Menezes , profe ssora de T eoria Literária da USP

e da Unicamp e autora do livro Dese nho mágico. Po e-

s ia e política e m Chico Buarque ; José Miguel Wis-

n ik , prof es sor d e Literatura Bra s ileira da USP, c o m-

po s itor e mú sic o; e s eu filho , Guilherme Wi s nik , ar-

quite to e músic o, colaboraram na elaboração to s d es t e Son g book .

CD s do Son g b o o k C hi co Bu a r q u e l a n-

çad o s pela Lumiar Dis c os c o ntar a m com a partici- pa ç ã o de mai s de 100 a r t i s t as d a MPB , int e rpre t an -

d o as 119 can ç õe s es c o lhid as p a r a e ste pr o j e to , t o r- nando-o assim o maio r s on g book realiz ado na mú-

s ica popular brasileira. Agrad eç o a tod os aquele s qu e colab o rar a m dir e ta ou indiretame nte p a ra a realiz açã o de s te trabalho .

dos tex-

O s oito

Almir Chediak

Chico Buarque e Almír C hedia k

Songbook [J C h i c o Buarque

Chico Buarque: tne master af sang

've greatly admired Chico Buarque since the

60 's, when I heard his very first songs 0 11

music, always together.

Besides

being a master at

joining these two c ru c ial e lem ents of popular

mu-

the radio. I rememberfeeling

quite moved

sic,

Chico also excels in harmoniring

his songs, abi-

upon hearing songs sueh as T e m m a i s sa m-

lity

he ' s developed throughout the ye a rs .

 

ba , Son h o d e um c ar na va l, 0 1ê , o lá, Pe d ra

I

was beginning

to give

g u ita r lessons

at the ti-

p edrei r o , A R it a, Quem t e vi u , q u e m te vê

me and had created

a sort of private songbook for

 

and A ba nd a . They left th e ir ma r k i n me. The

y s tu d ents . Chico B uarque was lhe composer

m

with

i

den t if i c a ti on lvas immediate;

th e r e was a very de-

the greatest

n u mb e r of so n g s, which already

s h o -

fi n i t e way of c o m p os in g. Everything

was very well

wed my great deference toward him.

[i ni sh e d , mu s ic a nd w or d s fitted perfectly

into one

I

've al w ay s bou g h t a ll of hi s records. In fact,

ma-

a n o t h e r ; which i s to say, lhe s o und of the words was

c omplet e l y in te g r a t e d with lhe musi c , a remarkahle

characteristic

t ia l l y a songwriter; perhaps the best way of listening

in Chico Buarque.

Since he is essen-

(o h i m i s precisei)'

i n the form of song: words an d

F re d eri c o M e nd e s

r ' ;

t~t

l l: -

j

' j~

"

" ~

'

W i t h A lm i r C hedi a k ,

-

1

v"

99 9

n)' of the ones released

in lhe 60's an d 7 0' s had

ma-

f i v e or six of their s o n g s aired on lhe radio,

king him one of the composers witli the greatest num-

ber o j h i t s in the past thirt y y ea r s . These so n gs we-

re big

mainly due to t h e i r qu a lit y ; lhe)' satisfy

lhe

p

ub l i c

's taste. C hi c o is on e of the dearest and m o s t

respected

cess th at c a n be a ttr ib u t e d

and ch a ri s m a bu t also to hi s ac tio n s as a c it i r e n .

I n t h e Songbook s e r i e s, this one contains the grea- test n u mb e r of s o n g s. T her e are 22 2 of them di v ided

among fou r volumes, al I of them transe

velyfor this project and revised by C hi c o Buarque ar by his partners, making this songbook as dose as pos- sible to Chico ' . 1 w i s h. Writer a n d j ou rn al is t Sérgio Cabral; Adélia Be-

zerra de Meneies, professor

c o mp os e r s i n aLI social classes,

a s u e -

n o t o nly to his talent

ribed exclusi-

of Literary

Theory at

uSP (University

of São Paulo) and Unicamp

(U-

niversity o f Campinas)

s e nh o mág ico . Po e s i a e p o l íti ca e m C hico Bu ar qu e [Magical designo Poetry and Politics in Chico Buar-

que}; José Miguel Wisnik, professor

Literature ar USp, composer and musician;

s o n . Guilherme Wisnik, a r c h itec t a nd mu s i c i a n , par-

an d a ut ho r of the book De-

of Brazilian

and his

ticipated

in this songbook.

The eight CDs of lhe S o n gbo o k Chico Bua r qu e released by Lumiar Discos had lhe participation

o f ov e r 1 00 Brarilian a r t i s t s, perjorming

in t he e l a b o ra t i o n

of th e texts included

the 119

s o n g s i n c lud ed in this pr o j e c t-which

biggest songbook ever pr o d u c e d

mak e s ir the in B ra z il i a n po-

pular music. I thank all of those who participated indirectly in this project.

directly or

Almir Cheáiak

Songbook c Chi c o B ua r qu e

Fo o, Chico Buorque

Se fosse feita uma investigação para iden tificar os 'rrosileiros que mais produziram na área cultural. des- -le a década de 1960, o nome de Chico Buarque de -iolanda. certamente, seria um deles. O volume de obras teste Songbook - o maior entre todos os Songbooks - /1 (10 deixa a menor dúvida. São centenas de músi- cas, sem contar a sua atividade como escritor de li-

vros, autor teatral e sua presença nos palcos do Bra- sil. Se a obra musical de Chico impressiona pela qU{lI1- tidade, impressiona muito mais pela qualidade. Um criador do seu nível tamb é m tem l11iÚIO a di-

zer, razão pela qual apresentamos

trevistas já publicadas em Son gbooks. Cliico

Buarque tem muito a dizer.

a maior das en-

 

Alrnir Chediak:

Para come-

m

a da . Era sa mba-c a n ç ão , b o l er o,

produ z i a s om n e nhum

c não d a -

çar, gostaria que você falasse dos

m

as e u gostav a me n os di s s o .

 

va a men o r v ont a d e d e tocar . T i -

seus primeiros contatos com a mú-

 

C

hed i ak : Voa' n ão ouvia disco?

nha um tampo g r c n á , a g e nt e ch a -

sica. Como é que foi isso?

C

hic o :

An t es d a v iage m

pa-

m

av a o vi olão

d e " c a t u pir i " . Q u e r

 

Chico Buarque:

A l e mbran-

ra

R o ma, mi nha irm ã Mi ú ch a g a-

dizer, v i o lão l á e m ca s a e ra c o i -

ç

a mais remota é a dos

meus p a i s

nh

o u uma v i t rola, a inda daquelas

s

a de mulher. Miúcha co meç o u

c

antar o lando

mú s ica s c o mo Úl-

d

e d a r co rd a. N ão e ra e létri c a n ã o.

a

reunir a gent e, minh as i r m ãs

rimo desejo, na cas a d e S ã o Pau-

Mas a cho que a M i ú c ha só tinha

e

eu , di s tribuí a

as vo ze s e f or -

l

o , na ru a Haddo c k

L o b o , ond e

um di sco , di sc o d e um l a do s ó ,

mav a um cor a l p a ra e l a aco mp a -

m

or ei do s três aos oito anos d e

p

o rqu e o di a inte i ro toca v a uma

nhar no v iolão. Meu s i rmãos n ão

i

dade. Em

1952 , a família foi to-

s ica chamada Bicharada. Quan-

cantavam.

da para Roma , mas me lembr o

t ambém que, ant es da vi a ge m , e u

o

u v ia r á dio. Chediak:

Que rádio? A Na-

cional?

Possivelment e . O r á -

d io era da minha babá , ou m e -

l hor, d a babá do s sete filho s d os

me u s pai s e qu e depoi s v irou co -

z inhei r a . Ach o que er a a Na c i o -

n al mesmo, porque um dos pro-

g r a ma s

a q u ele d o prim o pobr e e do pri-

que a g ente o u v ia era

Chico:

mo ri c o , o Balança mas não

cai.

Mas ha v ia muit a mú s i ca, prin c i-

d o a g ente v oltou p a ra São P a u-

l o , d o i s a n os depois , a pare ce u lá

m casa u m n ov o móv el, qu e na

ve

m a r ca Tel ef unken. Naquel e apa-

relh o ouvi Silvio Ca ldas, Ataul-

f o A l v es, D o r iv al Cay rnmi, Ara-

c i d e A l mei d a , Ma ri o R eis e m due-

to com Fr anc i s c o A l v e s, E l ize th

Cardo so, L es P a u l, lnk

ital ia no Robe rto Mur o lo e outros.

Mi n h a m ã e a dora va E dith Piaf . Ti-

n h a t a mb ém um comp ac t o duplo

co m o Jacq ue s B r e l ca n tand o Ne me q u i ttes pas.

Sp o t s, o

e

da

rd a d e er a um t oca -di scos

Chediak:

E quando foi que

você acabou pegando no violão?

Chico :

A p a rtir d a bossa n o -

va . Qu a ndo saiu Chega d e sauda-

de foi um choque trem en do, m e lembro perfeitamente. F i cava h o -

r as , a tarde

lo , ou v indo , ou v indo , ouv in do

C o nhecia o violão de J o ão G i l b er -

to desde o disco da Eli z e th Car-

doso, Canção do amor demais, u m

disco que freqü e ntou m u i to a Te- lefunk e n dos me u s p a i s . J oão t o -

c av a v i o l ã o em dua s fa i x as , Ou-

tra vez e Chega de saudade. M as

inte ir a ou v i ndo a qu i -

p

a l me n te os sa mbas e as marchi-

 

C

hediak:

E o primeiro con-

a

grava ç ão de J o ão G i l b e rto era

n

has de carnav a l, que e u ador a -

tato com o violão, como foi?

diferente.

v

a . Me l e mbr o da Lind a Bat is -

 

Chico :

F oi b em mai s tar de .

Chediak:

Foi João Gilberto

' a , do Bl ecaute,

da M a rl e ne ,

d a

O

p r i meir o

v i o lão que s ur g iu lá

quem detonou tudo.

: ~ m.ilinha , da Zi lda do Zé, do J or -

: ; e Vei g a , todo s eles cant a ndo r n ú -

. icas de carnaval.

Dep o i s, na quaresma, muda va . programação e entrava a m úsi-

' a de meio de ano , com o e ra ch a -

e m casa era da M iú c h a ,

nh a um ciúme dan a d o d o in s tru-

qu e ti-

m e nto. Ninguém

pert o . Dep o i s,

M

l ão meno r, es qui s ito,

p o dia chegar minha irmã Ana

co m outr o vio-

qu e não

a ri a apar e ceu

Deto nou tudo ' E u e

um amigo meu fic áva m os

com o violão, te ntando d e cifrar a

d o Joã o. LP d o

João Gilberto , a g ente r e p e tia n ão

batida e a s harmonia s Quando s aiu o prime i ro

Chico:

ali

Songbook o Chico Buarq u e

C h ic o SI /a r qu e e a i r mã Mi úc ha d éc ad a d e 80. Ab a ixo , J oão Gil b e rto

A JB/Delfim Vieiro

sei quanta s v e z e s a introdução de

to

s começav am a pr o curar

mu-

Aos pés da cruz, com aquele a cor- de parado.

lher , a se preocupar com se x o. Eu também. Mas a v o ntade de imi-

Chediak: Tamb é m p a s s e i por

tar J oão

Gilb e r to, p a r a mim , era

isso , Chic o .

m

aio r qu e o p a v or d e pas s ar por

bicha. J á

vi o C aetano,

o Gil, o

Chico: Não havia televisão na minha casa. A cara do João Gil-

berto eu s ó fui c o nh e cer p e la ca- pa do primeiro LP , ma i s a f o t o da contracapa, ele s entado num a pe- dra. De v e z em quando che g ava al g u é m diz endo : "V i aquele ca-

Edu , tod o mund o falan d o ond e es- tav a q u a n do o u v iu C h ega d e sa uda d e pela p r ime i r a v ez. Acho qu e a minha g e ração e ntendeu o Joã o melh o r d o que a g eração de-

le pr óp ri o . Aque l a gera ç ã o conhe-

ra es quisito q4 e v oc ê g o s ta na te-

c

e u o J oã oz inh o d os qu a rtet os v o-

levi s ão." Às ~ezes um outr o fa-

cais, quando

com vibratos

e l e ainda cantava

lava: "Acho qu e ele é bicha." E

e es tav a se prepa-

um o utro: " Claro qu e é bicha! "

r

a nd o pa r a s er o J o ão Gilberto. A

Pois bem , o João par a mim f i cou sendo bicha durante um bom tem- po. E assim mesmo eu queria can- tar e tocar violão daquele jeito .

o co nh e c eu , e le j á

estava pronto. Era uma aparição. Chediak: J o ão Gilberto revo- lu c i o nou . Aqu e l a batid a no vi o lão

gente , qu a ndo

Eu

tinha quatorze

ano s , e então

Chico : Eu implic a v a c om mi-

era essa a idade em que os garo-

nha irmã porque ela to c ava violão

"bossa ve lh a" . Nã o g o s t a va m a i s

d a quil o , eu s ó q u e ri a saber d e b o s- sa n ova. D u r ante alg un s a no s , fui

u m seguidor fa n áti c o d a b ossa n o-

va . Re ne g u e i tud o aquilo qu e ha-

v ia escu tado a nt es. En g r a ç a d o é

qu e, p o u c o

mui to de E lv i s P res l ey, Littl e Ri-

c h a r ds , T h e P l at t ers , ess a c oi sa t o-

d a. Gost av a t a mb é m d e E ll a F itz-

gera l d, s a b i a d e c o r a qu e l es scats,

a dorav a Julie L o n d on can t a nd o Cry

me a rive r , go s t a v a de F ra n k

n a tra, da s orquestrações d e N e l-

s o n Riddle, ou v i a d i s cos d e j az z

n a casa d e u m a m i go, Miles D a -

a n t e s disso , g o s t av a

Si-

s on g book o Ch i co Buarquc

Chic o : C om letr a . E a s letr as

a ind a eram pio res. Da s qu e m e

lembro , a pi o r s e c h a m a va Anji- nh o d e pape l. Er a um a t e nt ati va de ser aqu e la mú s ica Presen t e de Na- ta l, qu e o J oã o c a nt ava co m in- flu ê ncia d e c o lég i o d e p a dre . Che diak : Vo cê tinha o q u ê,

1 7 , 1 8a n o s ?

C hico: Por a í . Me l e mbro d e t e r

can t a d o e ssas co i sas num s h ow -

zinho d o co l é gi o, o Colégi o San-

t a C r u z. Chedia k : To c a va e c a ntava? Chico: T oc ava e ca ntav a. Al iás,

eu diss e qu e n ã o to cava outr as mú-

Chediak: Ele fre q ü e nt a v a a sua ca s a ?

p a is ,

qu a nd o e ra c a sa d o c o m a Mi ú c ha . Ma s aí eu j á h a vi a g ra v ad o Pe d r a

Chico: É , a ca s a do s m e u s

p ed r e i ro,

meu prim e ir o d is c o.

Ant es di sso , n ão tinh a qu em m e .

e nsi nas se . Na s r e un i õ es de bo ssa

no va, no Rio, a qu e l a co i s a de t o -

do mundo f i c ar sentad o no c h ã o,

ca n tan do b a i x inh o, t in ha un s s u -

j e ito s qu e tocavam viol ã o m e io de

cos t as , para vo c ê n ão roub a r os

a co r de s mai s pr e cio sos. D e p ois co - nh eci To q uinh o , qu e h a vi a es tuda-

do c o m

P a u li n h o N og ueira e me

vis, O scar Pet erson , Ming u s, J oh n

s

i cas , ma s is so e ra bem no come -

deix a va o lh a r um p o uqui n h o . Fui

Co l trane, m as a b oss a n ova a p a -

c

inho . N a ve rd a d e, f o rç a ndo um

ap

r en d e ndo alg um a c oisa.

r ece u como um a co i sa ig ualm e n- t e m o d e rna e era mú s ica bra s i l e i- r a, q uer d i z er, era uma mú s ic a que estav a ao meu al c ance .

C h e di a k : F o i a í qu e vo c ê ga -

n hou s e u p rimei r o v iolão ?

Ch i co: E u n unca ga nh ei um v i o -

A c h o qu e

m e ap r o p riei d o vio l ão da Miúcha,

l ão . Não me lemb r o

pouquinho a memória, me lembr o de t er can tad o n a qu e les sh owz i n ho s Prim a vera e S a m b a e m prelúdio. Em

e apareceu o Nelsinho Motta e tirou o violão da minha mão

Ch e diak: Vamo s à s sua s pri- me ir as m ú si cas . Q u ais foram ? Chico: Me lembr o de um a que

dizi a " l eva entã o o r esto d es s a ilu-

s

g ram a

e u a pr ese nt e i nu m pr o -

ã o ." e q u e

d e a uditó ri o d a Rá dio

Am é ri c a , a o vivo . Eu es t av a c a n-

t a nd o no m a io r enl ev o, p e n s a n d o

que era o J oão

G i lb e rt o, qua n d o

 

Chedía k : E vo c ê se l emb r a do s

Sã o P a ulo , um sujeito qu e s o ub e s-

um g aiat o n a plat éi a grit o u: " Ju-

p

r i m e i r o s a corde s q u e fez? No me u

s

e t oca r bo ss a no v a num a fe s t a f a-

c

a C hav e s!" F i qu e i o f en d i do , p or -

c

aso , foi o má x im o . Era uma mú-

zi

a o maior s uce ss o . O di a bo é qu e

que o Juca C h a ves cantand o n ã o

s

i ca de D o lor e s Duran . Mas é vo-

eu p assava as minh as f é ria s no R io.

er

a uma imitação, era um a p a r ó -

c

ê o ent r e v i stad o . C o mo fo i is s o

Me lembro de uma vez, em Pe t ró-

dia do João Gilberto . Juc a C ha v es

AI

co m vo c e .

C hico: T a lvez po r in ca p a c id ad e

d e r ep r odu z i r os acorde s do J oão G i l-

b e rt o , com e cei a i n v e n tar os m e u s.

T en t av a f a z er uma m ú s i c a pa r e c i-

d a c o m a qu e ou v i a o J oão t ocar, m as

c omo saí a tudo difer en te , se m qu e-

rer , fui v i r an do c om p os i tor .

Ched i a k : Toca v a p e daços d e

m úsi c a , p e daço s de ha r m o ni a .

C h ic o : Pe d aços . A c o r des m a l c o-

pi ado s das mú s i c a s d o To m , d o Car -

l inh o s L y r a, d o S érg io Ri ca rd o, qu e

e u ia col and o un s no s o utros , a s - s im e r am as minh as m úsic as.

Che d iak:

l etr a ?

J á co mpunha c om

p o lis, eu v i a t a nt as pe ss o as toca n - do e me d ei conta d e qu a nto e u n ão

s abia de v iolã o. Outra v e z , n a p r a-

i a d e Ipanem a, em f re nte ao C o u n -

tr y, c o m e cei a tocar e ap a receu o

N el si nho Mott a e tirou o v iolão d a

minha m ã o a nt e s da mú s ica a c ab a r:

" E s p e ra a í, t e m um c ama r a d a q u e

t

o c a " I s so

foi em 1961 , por a í .

Chediak: V ocê t i nha um a mi-

go q u e t o cava b e m , n ão tinh a?

C hico : Tinha , o Oliv ier , qu e

apr e ndeu junto c omig o ma s er a m a i s

a plicado que e u. Dando um pulo

no tempo , me lembr o de f a zer um

a corde e J o ã o Gilberto me dizer:

" N ã o faz a ss im. Faz e ss e a qui . "

ca nt a ndo Pr e s iden t e bossa - nova,

p a r a mim , ca nt ava " c ontr a" João

Gilber to. S e b e m que, p e n sa n do agora , n um pe nsa m e n to ma i s se -

vero , n ó s, ador a dore s d e J o ã o G i l-

be rt o, imita nd o Jo ão G i l b e r t o ,

quem s a b e atrapalhamos a v id a d e -

l e m ais que o J u ca C h aves . Mas

entr e a s minha s primeira s m ú si -

c as h avia t a mb é m um a m a rc hi nh a

q ue e u to cava n os s h ows est u da n-

tis em S ã o P a ul o , a Mar c ha p a r a um d i a d e so l , grava d a p o r um a

c a ntora paulista muito boa, Mari-

cene C os t a . E T e m m a i s samba , que eu c o mpus par a um mu s ical c h a -

m a d o B a lanç o d e Orf e u, e e r a c an-

Chico Buarque e Nelson Motta

tada pelo Taiguara. Depois, fiz So-

nho de um carnaval, que concor-

reu no festival da TV Excelsior, em 1965, cantada por Geraldo Van- dré. com arranjo do Erlon Chaves. Foi aquele festival que Edu e Vi- nicius venceram com Arrastão, cantada por Elis Regina. Mas, bem antes disso, também me lembro de ter participado de uma novela do Roberto Freire na televisão. Era uma novela com Eva Vilma e John

Songbook [J Chico Buarque

AJB/ROrloldo Theoboid

Herbert. Eu era o garoto que apa- recia numa festa para tocar bos- sa nova. Cantei uma daquelas bos- sas novas que fazia na época, cha-

mada Teresa tristeza. Chediak: No seu primeiro dis- co, você gravou Sonho de um car-

naval e Pedro pedreiro. Chico: Isso mesmo. Quando

fiz Pedro pedreiro, tive a sensa-

ção de que pela primeira vez es- tava compondo uma música real-

mente minha, que já não era mais imitação de bossa nova. Daí em

diante, as coisas começaram acontecer. Chediak: Sonho de um car-

a

naval é uma música Chico.

original,

Chico: Mas eu achava Pedro pedreiro mais original. De qual-

quer maneira, foi essa música que me levou a ser convidado a gravar um compacto simples p ela RGE, uma pequena gravadora paulista. E havia um radialista de São Paulo,

V álter Silva , o Picapau, que apadri-

nhou a gente. A gente era o Toqui- nho. o Taiguara, uma cantora cha- mada Ivete, outra chamada Maria Lúcia, eu e uns outros. Começamos

a cantar na primeira parte dos shows de bossa nova. Éramos nós, os ama-

dores de São Paulo. Na segunda par-

te vinha o pessoal do Rio.

Chediak: O disco fez sucesso?

Chico: Fez algum, principal- mente em São Paulo. Daí, fui con- tratado pela TV Record e passei

a cantar num esquema profissio-

nal. Nessa época fui convidado pa-

ra cantar num programa de televi- são no Rio, num programa, aliás,

que eu não tinha a menor idéia do que se tratava. Peguei um ônibus

e vim para o Rio. Cantei Pedro pe-

dreiro e o apresentador elogiou a música. D epois, uma tia minha fa- lou: "Filhote, morri de medo que

disco." Era o

Flávio CavaIcanti, que quebrava os discos com as músicas de que não gostava. Eu não sabia disso, pois não via televisão. Na minha casa não se via televisão.

Chediak: Ele quebrou o primei- ro disco do Martinho da Vila. Um mês depois, convidou o Martinho para o programa e disse que ele era o maior. Com que idade você passou a ver televisão?

ele quebrasse o seu

Chi co : Qu e m ti nha televis ão l á e m c a sa e r a a bab á . El a p ass ou d o

r ádio p a r a a t e le v i s ão n a ép oc a d o s f e s t i v a i s . Ent ã o, a tel e visão da ca- sa fi cav a n a cozinha. Ch e d i ak : Q u e r d i zer qu e, q u a n -

o a te le v i s ão ch e g ou à su a c a s a,

d

Songbo o k IJ Chico Buarque

rent e de tudo, urna co isa muito o ri-

g inal. Corno foi qu e e s s a mú s i c a

s a i u ? Fo i urn a c o i sa in t uiti va ? Chico: Só p o dia se r, p o rque eu não tinh a c onhecim e nt o teórico

n e nhum .

Chediak: E m 1 966 você e s to u-

c e i a f az er l e tra para o Tom, de-

poi s p a ra o F ran cis Him e, par a o Edu Lo bo , i sso tudo m e a c re s c e n- tou muito c o mo músico. Tom ti- nh a a f a culd a de de se r um m es -

tre s em nun c a p a r e c e r did á ti co . T o-

c

a va a tua mú s i c a,

e nfiava um

v

o cê e ra o Chi c o Buarqu e?

r

o u c o m A banda .

a co rd e dele e fal ava a s sim : "V o -

Chi co: E s t a va c o m eç and o a s er

Chico : F oi a m ús i ca d o f es ti-

cê é um c raqu e , h e rn! " S e be m qu e

o

C h i co B u arq u e . N a R e c or d , ha -

va

l d a R e c or d. Tirou o p ri m e ir o lu -

m

e lem b ro muito d o T o m t a mb é m

vi

a um a para da de su ce sso s cha-

g

ar e mpat a da co m Disp a rad a , de

me diz er pr a eu p res e rvar

d e c e r -

ma da As tro s do d i s co que dur av a

Téo d e B ar r o s e Va nd r é. A i nd a an -

t

a for m a a m i nha " i g n orânc i a" , o u

h o r as . C omeçava a o m e io-di a

t

e s d o fe s tiv al f ui co n v id a d o p e -

s

e j a , o qu e eu tinh a d e e s -

co

m

o s ú lti mo s c o loc a dos, o s di s-

l

o Hugo C arv a na p a ra p a rticipar

pontân e o, a minha intuiç ã o mu-

co

s col o c a do s em qu a dr ag ésim o

d

e um s h ow co m O d ete

La ra e

s

i ca l. M as h av i a a quel a s c o i s as qu e

l u ga r. E u e n trava assim : "Em v i-

M

PB- 4, n a b o a te Ar pe g e , no L e -

eu de v i a c o rri g i r .

g é s im o p rim e iro luga r , Pedra p e -

d r e i r o . " A o s pou cos fui ap a r e c e n- d o no s o u tr os pr og ram as, s e mp re

me. E re so lvi morar no R io. N as-

p a r a S ã o

Pa ul o . Me u a pe l id o e m Sã o P a u -

c i n o Rio , mas fui c e do

Chediak : Vo cê fal o u p o uco do

f es tiv al d e 1 9 66 . Chic o : Eu j á ca nt av a A b a nd a

p a r a ca n tar Pedr a pe dr e iro. Já n ão

l

o e ra Ca r ioca. A nt es d e s er C hi-

p

a ra o s a mig os, ma s as músic as

a g ü e nt av a m a is.

c

o Buarq u e , eu era o C a rioc a .

d

e festiv al tinh a m que p e rmane-

Ched iak: D e p o i s , v e i o M ort e

c

er in é ditas .

N ess e t e mp o eu

e v id a se ve rina .

É verd a de. I s so f o i em

19 65. No a n o s e g u i nte , a p eça ve n-

Chico:

ce u o F es ti v a l d e Nan cy .

Ha v i a r i va lidade e ntr e

r

,

n os/ m o s e r a u m a

i v al i dad e s audó ve l

cru z a va muito co m Gilb e rt o Gil,

qu e trab a lhav a na Ges s y Lever, em

S ão P a ulo . A g e nte se en co ntr a -

va se mpr e num ba r da G a l er i a M e -

 

C

hediak: Em 1966 acontece u

tr

ó pole, ch a mad o Sa ndchurra.

m

ui ta co i s a .

Chediak: Q u an d o fo i q u e vo -

L

e mb ro

dele cantand o a mú s ic a

 

C

hi co: L o g o n o iní c io d o ano ,

d ec i di u estu dar m ú s i ca?

qu e e s t a v a g u a rd a da p a ra o me s -

Na ra Leão s a iu c o m tr ê s músic as

Chico : A partir d o m e u co n v í -

m

o fe s tiv al. E ra o samba E nsai o

minha s n o di s co dela. Aquilo f o i

v

io c o m T o m J o bim, em ] 96 7 . T o m

ge r a l , que t e r min ava a s sim : "v ai

par a mim . Se r

g r a v a d o p o r N ar a Le ão e r a urna

m a r c a d e qu a lidad e. Ela er a mui-

t o co n he ci d a e mu i to p r ezad a p e -

l o r e pert ó ri o , por g ra va r mú s ic a s de a uto r e s n o vos , corno E d u L o - b o, Sidney Miller e e u , ou c om-

po s it o r es qu e e s t ava m esqu e c id o s,

co m o C a r tol a , Nel s on Cavaquinh o

e Z é Két i. N a qu e l e dis co ha v ia tr ê s

mú s ica s min ha s : Olê ol á , P ed ra p e -

dr e iro e Ma da len a fo i pro mar.

Eu tinha 1 6 , 17 an o s

qu ando c o m e c e i a dar aula d e v i o -

lão e p eg ava a s primeira s mú s ic as

pa r a tirar a harmonia. Olê, o lá me

m ui t o im p o rt a nt e

C he d i a k:

fo i co migo à L a pa , na l o j a d e um

al em ã o, e me indicou um pian o pa-

r a compr a r. Er a um pia no d e a r-

má ri o. Come c ei a t om a r a ul a s c o m

W ilm a Gr a ça . Chediak: Eu me le mb r o dis s o .

E la diz ia q ue v o c ê pegav a tu do

c o m m ui t a rap i d e z . Chico : Dur a nte um a no e s tu-

d e i c om e l a e apr e nd i t udo o q u e

s e i d e teo r i a . C lar o qu e a pr e n di

tamb é m n a prática, lidando co m

meu s par ce i ro s e c o m meus m ú-

s i c o s. Urn a v e z , fi z u r n a l e tr a pr o

T o quinho , Lua c heia . E musiq uei

João CabraI. Ma s , n o rm a lmente ,

ve n c er , v a i v en ce r , v ai ve n c er " .

E ra muito bo n i t o, ma s eu j á

achava que quem iria v enc e r era

e u . Ha v i a ri va lid a d e entre nó s , m as

e r a um a ri va lid a d e s au d á v e l , por- qu e es ca ncarada.

C h e d i a k: Q ua nd o g a nh o u o

p r i me ir a c a c h ê, você imagi n o u q u e da v a iní c io à sua c arr e ira profi s -

s i o n al ? Ch ico : O primeiro c ac h ê e r a um

dinheir in ho bom para um e s tudan- te d e arq u i tetur a ( na é p oc a , e u e s - tud a v a a rqu ite tur a ) . Bem , b e bi o ca - chê com o s meu s amig os . J á o meu primeir o s alário , n a TV Record , er a

deu um trab a lho danado. H á ne-

a z ia letra e mú s ica. A ch a v a que

f

d

e 500 c ru zeiro s , o u 500 mil cru-

la

uma s eqü ê ncia harm ô nic a dif e -

não preci sav a de parc e iro s. C o me-

z

eiros , o u cru z e i r os novos , enfim ,

~;;~.\.

Songbook D Chico Buarque

Cena da peça Morte e vida severina, década de 60

estou bem lembrado que eram 500 alguma coisa porque eram apli- cados nas prestações de um carro, um fusquinha usado chamado

Clóvis. Foram 10 ou 12 prestações. Era receber o ordenado e pagar as prestações. Continuava estudando

porque não tinha a ve-

leidade de me tornar um profissio- nal da música. Achava que aque- le dinheiro que recebia servia apenas para comprar um carrinho, um violão, pra pagar a cerveja, pra me divertir. Achava que música se- ria uma atividade passageira.

Chediak: Mesmo depois de Pe-

arquitetura

dro pedreiro e A banda? Chico: Mesmo depois, duvida- va que aquilo fosse uma profissão. Chediak: Mas com A banda vo-

cêficou superconhecido.

Chico Buarque e Nara Leão

Arquivo

Frederico Mendes

Chico: Foi o maior sucesso. Deu capa de revista etc. e tal, meu salário aumentou e passei a fazer shows com muita freqüência. Comecei a viajar muito com o vio- lão e o empresário. Geralmente ia cantar em clubes, pelo Brasil inteiro. O clube parava a dança, eu cantava meia hora com o vio- lão e a dança voltava depois. Ga- nhava um dinheirinho, mas não era grande coisa. Nos anos 60, nin- guém ficava rico com música. Cantor, galã de novela, jogador de futebol, nada disso dava mui- to dinheiro. Chediak: E o direito autoral? Chíco: Custei a receber. Ganha-

va na vendagem de discos, nos shows, na televisão, o que me per- mitiu comprar um pequeno apar- tamento no Leblon, além de um fusquinha novo. Mas na época não existia o ECAD[Escritório Cen- tral de Arrecadação e Distribuição]. Se o ECAD é um desacerto, sem ele era muito pior. Existiam vá- rias sociedades arrecadadoras de direito autoral, umas panelinhas que relutavam em aceitar um só- CIO novo, porque sena mais um a dividir o bolo. Quase um ano de- pois de A banda é que fui admi- tido na UBC [União Brasileira de Compositores]. Chediak: Quando foi que vo- cê decidiu deixar a arquitetura? Chico: No terceiro ano da fa- culdade. Na verdade, eu nunca acreditei muito que seria arquite- to. Tinha uma vaga idéia de ser jor- nalista, porque gostava de escre-

ver. Antes de en trar para a

tetura, também pensei em ir pa- ra o ltamaraty. Achava que lá as pessoas bebiam e faziam músicas

e poesias.

Chediak: Por causa do vinicius. talvez.

.

.

.

arq ui-

Songbook [] C hi c o Buarque

Chico: Por causa do João Ca- bral também. Mas eu gostava mui- to de arquitetura, como gosto até

hoje. Além do mais, havia na épo- ca todo aquele entusiasmo por Bra- sília, por Oscar Niemeyer. Chediak: Tom Jobim também estudou arquitetura e abandonou

a faculdade. Falar

seu encontra com ele? Chico: Quem me levou à ca- sa dele foi o Aloysio de Olivei- ra, dono da gravadora Elenco. Aliás, o sonho de todos nós era ser artista da Elenco. O AJoysio tinha acabado de produzir o dis- co do Quarteto em Cy, onde elas cantavam Pedro pedreiro. Aloy- sio era um sujeito muito genero- so, muito atento ao que a garota- da fazia. Era um dono de grava-

nisso, c o m o f o i

fique i esp e ra ndo a

r e sp os ta q ue ve i o n um

te l e g ra ma : " V e r y e x qu i s it e "

dora que, por incrível que pare- ça, gostava de música. Foi parcei- ro do Tom em várias canções. Pois bem, o Aloysio gostou das minhas músicas e me levou ao Tom Jo- bim. Isso foi antes de A banda. Cantei Pedra pedreiro para o Tom, na casa dele da rua Nasci- mento Silva. A partir de 1967, vi- ramos parceiros. A primeira mú- sica que ele me deu para letrar já tinha uma gravação instrumental, num disco americano, e se chama- va Zíngara. E ficou se chamando Retrato em branco e preto. Chediak: Como é que o Tom re- cebia as suas letras? Chico: Ele era muito engraça- do e muito crítico também. Quan- do o Quarteto em Cy ia gravarRe- trato em branco e preto, decidi de última hora alterar um verso. Em

vez de "tenho o peito tão marca- do", sugeri que elas cantassem "te- nho o peito carregado". Expliquei ao Tom que o "tão" era uma mu- leta para completar as sílabas da canção. Ele disse, fingindo con- cordar: "Você é um craque." De- pois telefonou pedindo para dei- xar como estava: "Esse 'tenho o peito carregado' vai parecer que

o sujeito está com tosse." Dessa

vez eu cedi, mas em outras oca-

siões tive de fincar o pé. Ele me atiçava, eu me defendia, mas era impossível brigar com o Tom. Me lembro que uma hora ele começou

a implicar com o "branco e pre-

to": " É retrato em preto-e-branco que a gente diz, Chico." Então su- geri que no lugar de "soneto", que

rimava com "preto", entrasse um

"tamanco": "vou colecionar mais

um tamanco

''. A gente trabalha-

va pouco, mas dava muita risada. Chediak: lmagina foi uma das primeiras melodias que ele criou. Como foi fazer uma letra para ela. Chico: Foi engraçado porque Tom dizia que não era uma mú- sica para ter letra. Falei: "Vou to- par o desafio." Eu precisava da mú- sica porque nós estávamos fazen- do a trilha de um filme do Miguel Faria, Para viver um grande amor, e aquela melodia entraria perfeitamente. Fiz a letra, nota por nota, mas custou a sair. Quando ficou pronta, o Tom já tinha via- jado para os Estados Unidos. Man-

dei a letra para ele e fiquei espe- rando a resposta, que veio num te- legrama: "Very exquisite." Em in-

em

todas as línguas "exquisite" é uma coisa muito boa, refinada, rara. Mas esquisito no Brasil ficou sen- do esquisito mesmo. O Tom e eu trocávamos dicionários e brincá-

glês, exquisite é bom. Aliás,

, 'liico Buarque.

Songbo ok

- - -- - ---~

Tom Iobim e Vinicius de Moraes

( ' 1i 1 ( ' I ' Buarquc

--~-- ------ -- - - -- -------- - ---- - - - ----- - -

4' ~ .'~

"'{"--. ~~, ; , - . , ,~ ~

.arnos muito com essas coisas de -rimologia. Enfim, ele achou a le-

final, Chico, o que é que você vai me contar?" Disse a ele que es-

co-

Chico: Fui, aqui estava tudo muito difícil. Fui ficando, acabei

r

a muito boa, refinada,

rara,

tava meio enrolado, e ele: "En-

gravando um disco com arranjos

'11a5 meio esquisita,

tão deixa que eu mesmo conto."

do

Ennio Mor ri co n e , com versões

 

C

h e dí a k :

O q u e foi qu e h o u -

E fez a letra.

de

Sergio Bardotti para o italiano.

1 ( 1 CO/11 Wave.'

V árias outras músicas dele -

O

disco .inha umas coisas boas,

Chico: Eu me lembro bem de

mo N u ve ns d o u rad a s ,

R an c h o

mas não fez sucesso nenhum. De-

.

jua n do ele me mostrou a m ú s i -

n

as n u ve n s - passaram por nu m

Chediak: D e p o i s, você pas -

pois eu q:Je fiz as versões em por-

~'a no piano. na casa dele da rua Codajás. Logo de cara eu fiz o pri-

e as letras não saíram.

tuguês para as músicas do Bardot- ti e do Luis Bacalov, no disco Os

meiro verso: "vou te c ont ar ". De-

50

11 a fa ze r le tra ta mb é m para o

saltimban cos, que o Antonio Pe-

pois levei a fita para casa, mas o

F

r a nc i s Hi m e.

dro adaptou para o teatro.

resto da letra empenou.

po passava e Tom ia perdendo a paciência: Cbico! Você não sai do 'vou te contar'?" Um mês de- pois, ele precisava gravar a mú- sica, aí me deu uma prensa: " A -

O tem-

Chico: Foi nos anos 70, tenho

v anas parcerias com o Francis. Tom até ficou um pouquinho mordido.

Chediak: An t e s d i sso v ocê foi

pa ra a Itália.

Chediak: E a cens ur a, Chi co?

Chico: Quando voltei ao Bra- sil, estava instituída a censura pré- via, ou seja, antes de serem gra- vadas, as letras eram encaminha- das para exame na Polícia Fede-

Songbook

Cinco Buarquc

ral. Naquele

tempo,

aliás, a pre-

Chico: Nós estávamos

na Ar-

sica já nasce anunciando

as pa-

sença da censura era tão forte que

gentina,

onde Vinicius fazia mui-

lavras. Pelo som. aparecem

pala-

as letras eram censuradas

an-

tos shows com o Toquinho.

Ma-

vras que vão puxando

() resto da

tes mesmo

de serem e scritas.

A

ria Bethánia

se revezou comigo

letra

e interferem

na música.

censura ia se incorporando na gen-

nesse show, em Mar del Plata. Aí

Quando

sou eu que faço, a mú-

te. Mas às vezes cabia um recur-

o Vinicius me

deu essa música pa-

sica é sempre

maleável.

so em Brasília.

gravadoras

seus entendimentos.

gado da gravadora voava para Bra-

De alguma forma,

tinham

DaÍ, o advo-

e censura

ra

não precisava

ver letra nenhuma. Ter um parcei-

era um pouco

ro, para Vinicius,

escrever

a letra. Claro que ele de mim para escre-

Chediak: aconteceu

de

"baixar () santo ". ou seja, LI niú-

sica ficar meio pronta imediata- mente?

sília.

telefonava

de lá e dizia que,

 

Chico: Não,

mas há idéias que

se fosse trocada tal palavra, a mú-

como ter um compadre. Fazer par- ceria era uma forma de selar uma

surgem como se baixasse

um san-

sica estaria liberada.

Isso aconte-

amizade. Fomos parceiros também

to. Pode ser uma palavra.

um ver-

ceu comigo diversas

zes. Esta-

em Olha Maria,

Gente humilde,

so, um esboço de melodia. Depois

va em casa, alrnoçanda,

e o ad-

Desalento e Samba de Orlv.

essa idéia é desenvolvida.

A me-

vogado me ligava de Brasilia

pa-

Chediak: Quando começou

lodia se completa e a harmonia

ra perguntar:

"Dá

para tirar a pa-

suo parceria

com Edu Lobo ')

vai sendo burilada

durante dias.

lavra titica?",

e eu tin.ia de res-

Chico: nos anos 80. Escre-

A

letra só fica

pronta na hora da

ponder na lata, de boca cheia: "Tá

"Tira o bra-

sileiro?",

se grava-

va um disco a partir de um show, como aquele que fiz com Caeta-

bo-

para

De-

tava

no na

sim por diante. Quando

"Bota batuqu eiro" e as-

legal, bota coisica",

Bahia, a gravadora

c

falsos

uns aplausos

abafar as palavras proibidas.

pois começaram

a fazer a censu-

vi para ele a letra de Moto-con-

tínuo e depois

de circo místico,

fizemos

O gran-

do

com roteiro

hó idéias que

surgem como se

baixasse um santo

Naum Alves de Souza,

baseado

gravação.

Chediak:

Você

compôs

dormindo?

que havia criado enquanto dormia.

dia acordei com uma música

Eu 111e lembro que 11m

Chico: Meses

atrás compus

uma música inteira dormindo,

que a música que eu compus

não

era minha. Sonhei que estava

num

táxi e o rádio anunciou:

"E ago-

ra prévia dos shows. O srtista che-

no

poema de Jorge de Lima, por

ra

vamos ouvir Samba da biblio-

gava numa cidade e fazia um show

encomenda

do Teatro Guaíba,

de

teca, com Sérgio

Ricardo." Acor-

à tarde, um show exclusivo

para

Curitiba.

Na verdade, a parceria

dei COI11 a música

completa na me-

dois ou três

censores

com cane-

com Edu vinha sendo adiada des-

mória,

mas fui esquecendo

aos

fala-

ta e bloquinho

na mão

de

70 e poucos, quando ele fez os

poucos.

Na letra, o Sérgio

Chediak: E o Vinicius, Chico?

arranjos do disco Chico canta Ca-

va da quantidade

de livros que a

Como você via o Vil1icius?

labor. Depois

de O grande

cir-

gente lê na vida, e tinha um ver-

Chico: Eu também

quis ser o

co místico

vieram O corsário do

balé. chamado

A dan-

so assim: "tem livro muito bom.

Vinicius,

que conhecia

desde

rei e outro

tem livro muito pau". Telefonei

criança,

meu pai. Queria com mulheres

porque ele era amigo do

ser c Vinicius bonitas. tomando

ça da meia-lua.

ro

ro de músicas.

com quem

Edu foi o parcei- fiz o maior núme- Prezo muito a nos-

para o Sérgio, um tempão

lho pra caramba,

que eu não via há

e disse: "Você tá ve-

ninguém mais

aquele uísque, tocando

violão, fa-

sa

parcena.

diz que

uma coisa é muito pau."

zendo poesia.

Não queria

mais

Chediak:

Qual

o processo

Acho que o Sérgio

Ricardo

não

nada. Quando

veio

a oossa no-

que você adota para compor a sua

entendeu

o meu sonho.

va, aumentou

meu fascínio

por

obra?

 

Chediak: Escrever 1/171 livro ou

ele, depois

veio

uma amizade

Chíco: Quando

recebo

a mú-

compor,

() que é mais dificil ?

muito grande.

sica do parceiro,

procuro

fazer a

Chico: Essas coisas

não são

Chediak: E você acabou par- ceiro dele. Comofoi que vocêsfi-

zeram Valsinha?

letra sem alterar uma nota sequer.

Mas quando

vou mudando. Muitas vezes, a mú-

a música

é minha,

fáceis nem difíceis.

pécie de vício que o sujeito

ou não tem. Difícil

São uma es-

tem

é largar.

-- --

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-----

-

Songbook [] Chico Buarque

-~---------

1 - Gravação

do disco em

homenagem a João do Vale, início da década de 80 2 - RuI' Guerra

3 - Chico Buarque, Nelson /,,,10110 e vinicius de Mames

4 - Edu Lobo e Chico Buarque, década de 80

5 - Em pé: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlinhos de Oliveira. Sentados: Vinicius de Moraes e Sérgio Porto. Deitado: Chico Buarque

Songbook

C hi L ' O

131 I i1 1 \ 1l i é

To k to me, Chico Buorque

If an investization were made to identifv those Bra- zilians who have produced the most culture since the 60's, Chico Buarque de Hollanda's name would cer- tainly be among them. The volume of works inclu- ded in this Songbook - the largest of ali Songbooks

- leaves no doubt. He's written hundreds of souzs, ' - . not to mention his activities as novelist, playwright

~ .

J

and his presence on stages a11over Brazil. If his mu- sical production is impressive due to its volume, it ís even more impressive in terms of quality. A creator of his calibre also has a lot to say, which is the reason we are presenting one of the longest interviews e v er published in a Songbook. Chico Buarque does indeed.

Almir C hediak:

First 01' all.

r d like you to talk about your first contacts with music. How did they

t

a ke place?

Chic o Buarqu e :

The

most

remete memory I have is oj m y pa-

rents hu mmin g songs such as Úl-

timo desejo at our house in São

o n rua Haddock

Paulo,

Lobo,

bas-canções,

hese less.

t

bolcros.

but J liked

C

hedia k:

records?

D i d n t you listen to

C

hi c o : Before the trip to Ro-

me. l1 1 y sisier Miúcha

got a re-

cord plaver, o n e of th o se vo u h ad

to w i nd . Ir d i d n ' t rim on e l ec t r i- c ir)'. But I think Miúcha only had

up with this /itt/e weird guitar that

did n't

m a ke atiy sound

and that

no o n e wanted

burgundy case and H ' e used to cal!

to play. Ir h ad a

it " c at u p i r i "

[ a type

of c re am

cheesej.

I n . ot h e r

w o rds,

a t our

house guitars

Miúcha started getting

vl'ere girls' stuif.

us toge-

the r, my sisters

and J, and she'd

where l lived [rom ages three to

one rec o r d . wi th a single s id e, be-

divide lhe d(fferent voices and ma-

eight. In 1952, the whol e [ a mil y

cause ali

she listened

to l f as this

e u p a c h o ir to ac c omp a n y

k

h er

went to R o m e but I also remem-

one song ca/led Bicharada. When

w

hi l e she played

the guitar.

M)'

ber that I used to listen to the ra-

we

went back to São Paulo, l WO

brothers didn ' t sing.

dio before we moved.

years

late r. a ne\v piece

ojfur-

Chediak:

And when did you

C hed i ak: To which station?

nitur e s h o we d

up a r o u r h o u s e .

finally pick up the guitar?

 

Nacional?

lt was actuallv

a Telefunken re-

 

C hico: After the bossa nova.

Chic o : Probably.

It was mv

na nny' s

rad io ,

or rather,

th e

cord plaver. I listened Caldas, Ataul]» Alves,

1 0 Silvio Dorival

Ir was a huge shock when Che-

ga de saudade was released;

I re-