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O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda

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"Voltarei quando a Bretanha precisar de mim".

Com essa frase histórica, segundo as lendas inglesas, Arthur, o maior de todos os reis de sua história abandonou
este mundo, depois de transformar a vida dos habitantes por completo, com a unificação das ilhas e expulsão dos
invasores, trazendo à glória. E por que não dizer também, os conduzindo à queda.

Teriam, esses fatos, realmente acontecido?

Não importa. Uma lenda fora forjada atravessando sua época e trazendo a mística, os ideais de cavalaria e a
busca incessante por um mundo melhor, próspero e justo. Os efeitos de Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda
ecoam até hoje como simpáticos, não importa quanto tempo passe, ou quantas vezes os escutemos. Decerto,
quem os escuta, nunca os esquece.

"Este é o segredo de todo o sucesso. Aí reside a magia".

Os trovadores – figuras folclóricas, que sempre foram retratados em livros como condutores de entretenimento
para as cortes de todo o mundo – na verdade fazem muito mais, sendo para o povo o que Merlin foi para Arthur:
conselheiros. Havia alguma coisa errada na vida de um camponês? Bastava ouvir uma canção a respeito das
virtudes de Arthur e o simples homem do campo ganhava força para continuar. Orgulhoso pela forma que a vida
mostrava-se próspera? Bastava um simples exemplo de falha por parte de um cavaleiro da Távola e o orgulho era
trocado pela cautela e prudência. Em um tempo em que não havia escolas e que apenas os mais ricos podiam
aprender, os trovadores levaram o ensino às ruas, constituindo não somente a fama de uma lenda, mas toda uma
revolução no comportamento do povo bretão.

Arthur voltará? Com certeza, pois ele nunca foi embora. Habita os corações e mentes da humanidade, um a um.
Dormindo. Aguardando. Esperando que seja necessário trazer seus ideais mais uma vez à tona, e conduzir cada
um novamente a glória.

Só depende de cada um de nós fazê-lo. E não existiu ou existirá hora melhor que agora.

Sumário
...................................A Lenda .................................

.................................... Merlin ..................................

.................................... Arthur .................................

.................................. Excalibur ..............................

........................... A Távola Redonda ..........................

.................Sir Gawain e o Cavaleiro Verde .................

..............................Tristão e Isolda .............................

..............................Balin e Balan ............................

.............................Lancelot do Lago ...........................

..................................Morgana ..................................

...................................Galahad ................................

................................O Santo Graal ..............................


.................................. Bibliografia .............................

A Lenda
Há muito tempo atrás, as ilhas Britânicas eram uma terra conhecida como Logres, rebatizada para Bretanha, em
virtude da chegada dos romanos. Como era comum a seu império, Roma começou o processo de colonização da
ilha, e lei e ordem instalaram-se em sua nova colônia. Junto com o progresso, vieram também a religião cristã e
seus inevitáveis conflitos com os povos pagãos, cujas crenças acreditavam nos espíritos da terra.

Com a queda do império cerca de 400 anos depois, os romanos abandonaram a ilha, deixando à margem uma
ampla vantagem para piratas europeus dominarem o território. Embora líderes se opusessem aos invasores, seu
poder de revide não era suficiente. Feudos foram criados, e o povo sentia cada vez mais uma necessidade de
alguém, um rei que pudesse unificar as ilhas e trazer novamente a prosperidade e à paz. No meio de todo estes
conflitos surgia um jovem de nome Uther, que começava a reunir forças contra o rei Vortigen, que manipulava
saxões e dinamarqueses a seu favor em troca da exploração da terra. Sua fama se espalhou e os feudos aos
poucos iam juntando-se a seu reinado, e a Bretanha dava sinais de prosperidade futuramente.

Uther era auxiliado por um conselho de reis e cavaleiros, mas Merlin era o principal de todos eles. Ajudou o jovem
Uther em muitas ocasiões, inclusive a aproximar-se daquela que seria sua futura esposa, a Duquesa Igraine, do
condado da Cornualha. Uther matou o duque com a ajuda de Merlin, para que não caísse em seus ombros a culpa
do crime. Embora tudo florescesse como um novo amanhecer para as ilhas, logo após o filho de Uther nascer,
Merlin o chamou.

O mago foi direto em sua colocação: sabia que o fim de Uther estava próximo, e temia pela vida do jovem Arthur.
Tomado por grande dor, Uther concordou em que Merlin escondesse seu filho, para que pudesse reclamar o trono
quando fosse chegada a hora. Não tardou até que Uther fosse acometido de uma febre que ceifara-lhe a vida.
Seus homens passaram a duelar entre si, e os saxões, contemplando o novo caos que se instalava, trouxeram
seus exércitos, e conquistaram mais e mais postos. Arthur fora entregue sob os cuidados de Sir Hector, um nobre
cavaleiro e tomado como filho adotivo.

O tempo passou e cerca de dezoito anos depois, surge Merlin dos vales profundos da região de Gales, fazendo
um caminho reto até Londres. Ao chegar, mandou uma mensagem ao arcebispo da Cantuária, que um novo rei
estava para surgir, e ele seria ainda mais glorioso que Uther sequer imaginaria ser. Dias de paz se aproximavam e
todos os nobres deveriam comparecer à catedral no dia do nascimento de Cristo para saber quem ele seria. E o
prestígio de Merlin era tamanho que ninguém, pagão ou cristão era louco o suficiente para desfazer de suas
palavras. No dia marcado, todos encontravam-se dentro da catedral quando ao sair encontraram uma espada
incrustada numa pedra com os seguintes dizeres:

"Aquele que arrancar da pedra essa espada será o legítimo rei de toda a Bretanha".

E eis que muitos tentaram e nenhum deles conseguiu. Indagavam entre si quem seria capaz de fazê-lo. Merlin
sugeriu um torneio, a ser realizado no ano novo, para facilitar a procura. Logo a notícia se espalhou e cavaleiros
de todas as localidades convergiam até Londres, na esperança de ser aquele que conseguiria realizar a façanha.
Sir Hector também viera para o torneio, e trouxera Arthur, que servia de escudeiro para Kay, seu irmão adotivo.
Com o torneio prestes a começar, Kay notara uma falha imperdoável: na pressa de competir, esquecera sua
espada na estalagem onde estavam. Pediu a Arthur que fosse buscá-la sem demora, mas qual a surpresa do
jovem e encontrar o local fechado, sem ninguém para abri-lo. No caminho de volta, Arthur encontrou a espada
enterrada na pedra, e na pressa de ajudar Kay, não pensou muito: desceu do cavalo, puxou a espada sem muito
esforço e, sem ter tempo para ler o que estava escrito na pedra, voltou rapidamente para o torneio.

Kay, ao Ter a espada em mãos logo a reconheceu, e um tumulto se formou. Ninguém acreditava que Arthur, um
menino, conseguiria fazer tamanha façanha. Voltando ao local, depositaram a espada novamente em seu lugar e
todos tentaram, mais uma vez, um a um. Somente Arthur foi capaz de fazê-lo, mais uma vez, e quantas vezes
foram necessárias até que o povo o aclamasse rei, e os demais, vendo que não poderiam governar com a
antipatia do povo, reconheceram como Rei de toda a Bretanha.
Mas, para governá-la, era preciso unificá-la. Arthur, reino após reino, ia juntando aliados, derrotando inimigos e
trazendo paz e esperança. Uma ordem formou-se no dia de seu casamento – A Ordem da Távola Redonda –
reunindo os melhores cavaleiros de todo o reino. Juntos eles aumentavam ainda mais a popularidade e o senso de
justiça do Rei Arthur. Não tardou para que a Bretanha atingisse sua meta de unificação, e o rei só não ousou
adentrar mar adentro e conquistar outras terras pois temeu por traição.

Mas, manter a paz é mais difícil que conquistá-la, principalmente com conspiradores dentro do reino. Um de seus
opositores era a sua Morgana, sua meia-irmã. Ela, e mais o ócio a que os cavaleiros se submeteram após a
unificação das ilhas levou-os a um ostracismo tamanho, no qual intrigas da corte – o amor de Lancelot pela
Rainha Guinevere, o desaparecimento de Merlin – contribuíram, para que em algum tempo, cada um tentasse
rebuscar uma glória que não existia mais. A busca pelo Santo Graal – o cálice que Cristo usou em sua última ceia
– foi uma tentativa nobre pelos fins, mas jamais pelos meios. Incontáveis cavaleiros perderam suas vidas nesta
busca, e assim que Galahad, filho de Lancelot conseguiu arrebatá-lo, o reinado de Arthur e a ordem da Távola não
passavam de simples fantasmas. A decadência tomou conta da terra que um dia se chamou Logres.

Em batalha com seu filho Mordred, Arthur foi mortalmente ferido, e então, de forma tão majestosa como
aparecera, desapareceu dos olhos humanos numa barca em direção à Avalon, uma terra mágica de onde lhe fora
confiada Excalibur, a mais poderosa de todas as espadas.

Em seu lábio, uma promessa. A de voltar quando sua terra necessitasse.

Não foi o fim da lenda. Mas o começo.

Merlin
Se você tivesse consciência de que seu destino já havia sido traçado desde o início dos tempos, e que os
caminhos pelos quais você trilharia não seria nada agradáveis, ainda que produtivos, o que você faria?

Com certeza, essa é uma pergunta difícil de se responder, mas foi a ela que Merlin, o personagem mais
importante dentro da lenda de Arthur enfrentou desde o dia de seu nascimento. Segundo contos celtas, Merlin
nasceu da união de um íncubo com uma virgem, e para os católicos, não um demônio menor, e sim Lúcifer, o pai
de todos eles. Não importa quem, basta apenas para nós que Merlin não era encarado como simplesmente mortal,
e sim sobrenatural.

Mas, pensemos. O que é Merlin, senão um sujeito dotado de grande conhecimento, que sabe das consequências
de seus atos e tem o poder para mudá-los? Pois, nascido dessa feita, já sabia do que se sucederia, sua infância,
seus rituais na magia, e sua interferência nos assuntos da Bretanha, de Uther a Arthur, seu filho. Não poderia
Merlin simplesmente deixar tudo isso de lado e seguir a vida que quisesse? Poderia, mas, se você tivesse essa
chance faria o mesmo, ou utilizaria o conhecimento de uma forma construtiva tanto para você quanto para os
demais? Afinal de contas, estamos falando do destino de um reino, uma nação, talvez do mundo inteiro, uma vez
que a lenda de Arthur influenciou várias culturas após seu surgimento – na França de Luís XIV era comum o
interesse por Arthur, Lancelot e Guinevere. No nosso caso, não poderíamos mudar o destino de nossos pais,
irmãos e filhos? Não estaria Merlin dando a si mesmo um pouco de liberdade de escolha, e fazer o que lhe
aprouvesse? Afinal de contas, tudo residia em suas mãos!

Aqui vai o primeiro recado da lenda de Arthur:

"Você controla o seu destino, e cabe a você realizá-lo. Mas não importa isso aos demais”.

Merlin tinha consciência de que tudo conspirava para uma perfeita realização dos feitos que se seguiriam: o
interesse de Uther por Igraine, a duquesa da Cornualha. Era a hora, o momento há muito construído pelos fatos
da vida, que passam desapercebidos em primeiro momento, mas se encontram em algum ponto, formando um
contexto.

Quando estudamos, assuntos são tratados exaustivamente sem que vejamos um resultado prático em nossas
vidas, e em algum momento futuro, reagimos quase que por instinto, pois já o sabíamos por haver estudado e
sermos capazes de reconhecer o assunto. Mas suponha que isso não aconteça: foi perda de tempo, então?
Nenhum conhecimento é inútil. Cabe a você descobrir a melhor forma de usá-lo. Seja em uma ação de trabalho,
seja para conduzi-lo a algum lugar, seja para fazer presença numa roda de amigos. Tudo o que você aprender faz
parte de você, não deixa de ser uma faceta de sua personalidade, ainda que maleável, que você molda conforme
seus interesses e as necessidades do momento. Existe uma história sobre o rei Vortigen que construiu um reino
sob a lei da espada e sangue, refugiando-se em uma torre como esconderijo. Um dia, a torre foi abalada por
severos tremores, e apesar da presença de dois magos, nenhum deles foi capaz de solucionar o problema. Irado,
o rei, sabendo da existência de Merlin, ainda menino, que realizava grandes feitos, mandou chamá-lo.
Rapidamente, ele desvendou o assunto: dois dragões duelavam nos confins da terra, abalando as estruturas da
torre. E quando o dragão vermelho vencesse o branco, o reinado de Vortigen chagaria ao fim. Com esse ato,
Merlin mandava o mesmo recado duas vezes; pois, mostrando o mistério da torre, demonstrava aos dois magos
que o novo deveria suceder ao velho, tanto em seu caso quanto ao rei Vortigen, visto que aquela profecia seria
cumprida quando Arthur assumisse seu trono.

Note que Merlin profetizou, mas não colocou em prática de imediato. Sabia o que estaria por vir, apenas aguardou
o seu momento. Cristo, outro grande professor – interpretado muitas vezes de forma errada – disse certa vez:
"Vigieis, pois não sabeis a hora". E ele não falava unicamente do reino de Deus.

Você tem o conhecimento, e tem consciência do que deseja. É hora de colocá-lo em prática. Mas sua hora
chegará. Não espere que as coisas aconteçam não hora que você deseja, e que os outros desejam que aconteça.
Isso é algo muito pessoal e só a você este momento pertence. Aprenda. Escute. E o mais importante de tudo: aja,
no momento correto.

Merlin é o grande espelho dos homens da época que detinham o conhecimento. Não havia quem não ficasse
fascinado pela sua capacidade de manipular os fatos e pessoas a seu favor. O mago era o manancial do
conhecimento, uma fonte na qual quem o acompanhasse, e superasse seus testes, sairia totalmente renovado,
pronto para enfrentar quaisquer problemas da vida, comum ou não. Para o povo simples, ele era um homem sábio
e um grande conselheiro. Mas ainda, não era alguém a quem se identificar.

Este é o grande papel de Arthur.

Arthur
Como Arthur conseguiu retirar a espada da pedra? Porque ele era herdeiro legítimo do trono? Sim. Porque, entre
todos os cavaleiros e nobres presentes ele era o mais qualificado? Talvez. Mas, diante de todas essas afirmativas,
e levando-se em consideração o espanto dos reis e demais cavaleiros, seriam essas respostas suficientes para o
próprio Arthur?

Não.

Mas, afinal de contas, o que teria levado Arthur a triunfar? Imagine-se naqueles tempos, desde cedo criado para
ser cavaleiro, nobre, etc.; disciplinas, aventuras e mais aventuras jogadas políticas e um trono vazio, esperando
por um rei, uma pessoa de visão para ter sucesso onde todos os demais falharam ao longo dos anos – havia
muita pressão no ar, de todos os lados e castas sociais. Podemos dizer que o problema começava em casa;
qualquer um poderia sonhar em alcançar tamanha glória! Todos tentam, um a um, vencer o desafio da espada e,
apesar de sua simplicidade, fracassaram. Então, um jovem sem pretensão alguma puxa a espada, as esperanças
de uma nação inteira por entre as mãos, sem o menor esforço! Porque? A resposta é a responsabilidade.

"A responsabilidade deve ser uma disciplina, jamais uma cobrança”.

Embora nobre de berço, Arthur fora criado no meio do povo, por seu pai adotivo ser um antigo cavaleiro, aprendeu
as artes da guerra, demonstrando impecável interesse na parte tática e estratégia, com seu irmão Kay, aprendeu
as artes do combate físico, mantendo assim um equilíbrio entre mente e corpo. Mais importante: todo
conhecimento que aprendia, Arthur usava. Apesar das dificuldades comuns a uma vida de proletariado, pode-se
concluir que era feliz, e que tinha planos de ser um cavaleiro, quem sabe com fama e reputação em toda a
Bretanha. Qual a diferença entre Arthur e um nobre que tenha fracassado?
Já tentou fazer algum projeto, ou algo que lhe fora confiado e saber da responsabilidade do seu sucesso ou
fracasso? Temos por natureza comum imaginar sempre a parte negativa: por mais que as chances sejam de 50%
de ambos acorrerem, tememos pela falha. O projeto prossegue, e o fantasma do fracasso te acompanha... no fim
você sai vitorioso. Talvez, se não estivesse com um pensamento negativo a perturbá-lo, seu trabalho seria bem
mais produtivo e as chances de conclusão e sucesso seriam mais rápidas e satisfatórias.

Arthur triunfou, pois sobre ele não pesava a cobrança, mas ao fazê-lo, ele assumiu a noção da responsabilidade.
Os nobres, que não hesitaram em apreciar o resultado se cada um deles tivessem sucesso, agora faziam pouco
do verdadeiro eleito; uma peculiaridade do ser humano: se eu não posso, ninguém mais pode. Imaginamos estar
sempre preparado. Sempre em forma para todos os testes que a vida nos oferece. E quando falhamos, e alguém
prossegue, acreditamos que estamos competindo de forma justa. Não nos permitimos falhar nunca, sem dar conta
de que aprendemos muito mais com os erros do que com os acertos. Como poderemos melhorar, superar nossos
limites se tudo o que tentamos resulta em vitórias, sem resistência? O erro é um mal necessário, é o seu maior
professor, embora muitas das vezes não queiramos ouvi-lo.

E qual a surpresa de Arthur ao ver que conseguira! Espanto e indignação por parte dos nobres, até que Merlin
interviesse, revelando a natureza real de Arthur. Para o próprio, isto era o que menos importava naquele instante,
pois a espada em suas mãos o transformara em uma fração de segundo de camponês a rei, a responsabilidade
batia a sua porta como um cobrador de impostos feroz! Resistiria ele, às pressões? Seria capaz?

Dúvidas que passam em nossas mentes quando somos incumbidos de alguma grande tarefa, ou uma inesperada
promoção. Aí está, outro fator que Arthur nos deixa como lição: a auto-estima, sem alcançar a prepotência.

Embora não possuísse autoridade proclamada, ele conclamou a todos os reis a se unirem, e sob seu domínio
unificarem toda a Bretanha. Atitude mais que louvável, pois Arthur notara em sua infância que devemos aceitar e
pedir ajuda, não somos auto-suficientes em todas as áreas. Lembre uma música que você goste muito. Talvez o
ritmo, ou a letra o agrade mais. Agora, compartilhe isso com outras pessoas; vai chegar à conclusão que nem
todos concordam com seu ponto de vista. Isso decorre da diferença das formas de olhar o mundo. O que você
enxerga com tanta clareza e simplicidade pode ser completamente difícil para outra pessoa. Analistas de sistemas
podem ser imbatíveis em cálculos matemáticos e linguagens de computação, mas entregue um violão em suas
mãos e veja se terá o mesmo resultado!

Aceitando ajuda, Arthur toma precauções para ser um rei bem sucedido: Merlin o aconselha pessoalmente, guia
seus passos, e os reis que o apoiaram auxiliam na parte prática na hora de implantar suas idéias. Mas uma vez,
usando os conhecimentos para aplicar em algo realizável. Quantas vezes nos deparamos com problemas em que
chegamos em uma situação limite, na qual uma pessoa de fora talvez enxergue melhor? Um pneu de carro pode
ser trocado com mais eficácia se recebermos uma ajuda, não somente porque são duas pessoas a realizar o
trabalho, mas sim o desgaste psicológico no caso de contratempos será menor.

Saber aproveitar as oportunidades quando elas aparecem, e poder contar com as pessoas certas é importante no
sucesso de cada pessoa. Assim, como seus primeiros atos, Arthur pode não ter agradado a todos os nobres – e
alguns ele teve que provar que era digno por atos e não apenas palavras – que estavam presentes ao feito, mas
conseguiu o mais importante de todos os respaldos: o apoio do povo. Imagine você com poderes para mudar sua
vida – como fizemos com Merlin anteriormente – mas por um prisma diferente, desta vez você não conta com
conhecimentos extraordinário, não pode mudar a vida de centenas de pessoas com magia, seus conhecimentos
são acessíveis a qualquer pessoa que se interesse em aprender. Você é apenas... você.

Acha isso pouco? Olhe para alguém que você conheça, um amigo ou vizinho que alcançou sucesso em pouco
tempo. Biologicamente, ele é diferente de você? Claro que não! O que nos diferencia são as escolhas que
fazemos ao longo da vida; oportunidades aparecem todo o instante, o universo as coloca em nossa porta toda
hora. Basta que prestemos atenção em seu chamado. E escolher a mais adequada para nós, no momento certo.

Arthur também teve sua escolha; ele pôde observar. Viu o que poderia fazer de seu destino, e não impô-lo aos
outros; por isso contou com ajuda de outros para que cruzasse em um único ponto que fizesse sentido. Mais
importante de tudo: Arthur conhecia seus limites, e os limites do próprio povo. Sabia como ultrapassá-lo, e decidiu
fazê-lo. Tinha noção da responsabilidade, mas não a aceitou como um fardo pesado e sim como uma grande
aliada.

Excalibur
Arthur havia retirado a espada da pedra, e a carregava consigo por honra e mérito. Mas, seria uma espada apenas
suficiente para assegurar sua autoridade e torná-lo chefe de todos os cavaleiros? A história a seguir narra um
exemplo de humildade e sabedoria aprendidos por Arthur. Pouco tempo depois de ter sido reconhecido rei e
ocupar-se do castelo de Camelot, Arthur recebeu um jovem pajem que conduzia o corpo de um jovem cavaleiro
em cima de um cavalo branco. O homem era seu antigo amo, que havia sido assassinado na floresta, por não
respeitar o aviso que quem a transpusesse corria risco de vida. Clamava por justiça a Arthur, enquanto os
cavaleiros presentes estendiam suas indignações quanto à alguém fechar uma floresta para que ninguém
passasse.

Nesse ínterim, um jovem escudeiro de nome Griflet adiantou-se, suplicando que Arthur o sagrasse cavaleiro e
confiasse a ele a missão. O rei ficou dividido, uma vez que Griflet era demasiado jovem para a tarefa. Merlin, por
usa vez, censurava a idéia de enviar o jovem escudeiro, uma vez que o cavaleiro desafiante da floresta era Sir
Pellinor, um dos guerreiros mais fortes do reino.

Mas Arthur era o rei, e cabia a ele decidir. Teve compaixão pelo apelo do jovem, e irado com a morte do cavaleiro,
Arthur retirou sua espada da cintura e sagrou Griflet como cavaleiro. Em seguida, incumbiu-o de ir até a floresta
enfrentar Sir Pellinor e retornar o mais breve possível.

O agora então Sir Griflet armou-se e galopou ferozmente em seu cavalo, rumo ao desafio. Em pouco tempo,
encontrou um escudo pendendo em uma das árvores. Com um golpe furioso, jogou-o no chão, e ao fazê-lo,
chamou a atenção de alguém. Sem dúvida, o alguém era Sir Pellinor, que foi prontamente desafiado para uma
justa. O cavaleiro da floresta recuou, alegando que Griflet era demasiado jovem, mas Griflet insultou-o, chamando-
o de covarde. Uma afronta destas Sir Pellinor não poderia esquecer. Montou em seu cavalo e bateu lanças com o
emissário do rei Arthur. Em pouco tempo, o jovem estava caído ao chão, o lado esquerdo perfurado pela lança. Sir
Pellinor o colocou novamente no cavalo e mandou-o de volta para Camelot.

O rei Arthur ficou furioso ao visitar Sir Griflet, que sobreviveu por milagre. Imediatamente vestiu sua armadura e
colocando um elmo, de modo a ocultar-lhe o rosto, cavalgou rápido em direção à floresta. Dentro de algum tempo,
encontrou Sir Pellinor sentado calmamente do lado de fora de sua tenda. Desafiou-o, e houve um duelo de lanças
feroz. Em um instante, suas lanças estavam quebradas e investiram um contra o outro com as espadas. O sangue
corria pela armadura de ambos os cavaleiros e, em um golpe de extrema fúria, Arthur desferiu um golpe com
tamanha força que teve sua espada estilhaçada. Pellinor então aproveitou-se da vantagem, jogou o rei ao chão e
preparava-se para corta-lhe a cabeça quando Merlin surgiu por detrás das árvores.

- Se fizeres isso – disse a Sir Pellinor – estarás condenando a Bretanha a uma era de infortúnios, pois este é o rei
Arthur.

E rapidamente neutralizou as ações do cavaleiro, colocando-o em sono profundo. Sir Pellinor teria matado Arthur,
temeroso por uma vingança. Quando o rei voltou a si, lamentou-se com Merlin pelo ocorrido: imaginava que Merlin
o tivesse matado.

- Não se preocupe – disse-lhe Merlin – a saúde dele é melhor que a vossa, e o encontrará em breve entre seus
mais valentes cavaleiros, assim como seus filhos, Sir Percival e Sir Tor.

Assim, agindo de forma impensada, Arthur pôs em risco sua vida e seu reino, cedendo aos instintos de um orgulho
ferido. Temos, como todo ser humano, um momento que podemos denominar fraqueza. Isso decorre defronte
alguma adversidade que, diante de nós não sabemos bem como proceder. Acabamos agindo por instinto, muitas
vezes negativo, sem ponderarmos qual a melhor alternativa. Na pior das hipóteses: porque Arthur não enviou
cinco homens fortemente armados enfrentarem Sir Pellinor? Porque teve que ser justamente ele o desafiante?
Sua honra sentia-se maculada, um de seus homens – sagrado cavaleiro por ele – havia falhado; a falha não
deixava de ser do próprio Arthur. Quando foi confrontado e derrotado, o rei percebeu que um combate não é
ganho por sua posição, e sim pela ação.
Merlin tratou de curar os ferimentos de Arthur e, dentro de alguns dias ele estava pronto para seguir viagem.
Nesse momento, Arthur notara que já não possuía uma espada para se defender. Merlin despreocupou-o, dizendo
que iniciavam naquela instante uma busca, a procura por uma espada monumental, diferente de todas as outras.
Cavalgaram pela floresta vários dias até chegarem a um grande lago azul; aproximando-se da margem
contemplando suas águas serenas, Arthur deparou-se com uma visão deslumbrante: erguendo-se nomeio do lago,
uma dama vestida de seda branca segurando uma brilhante espada. Ia balbuciar a Merlin alguma coisa, mas o
mago se antecipou, revelando-lhe que aquela espada era a espada que lhe falara.

- Esta é a senhora do lago – continuou Merlin – tenha paciência, e ela lhe dirá como conseguir a espada.

Pouco depois, ela se aproximou de Arthur e lhe disse:

- Eu sou a Senhora do Lago, venho até ti para dizer que tua espada Excalibur encontra-se logo ali adiante. Venho
guardando-a durante muito tempo, à sua espera, durante seu crescimento até agora, um homem formado. Mas
deve-me fazer uma promessa: algum dia lhe pedirei um favor, e devereis me dar aquilo que eu desejares.

- Dou-lhe a minha palavra – disse Arthur de imediato.

Então, um barco navegou em sua direção chegando até a margem. A um sinal da Senhora do Lago, Arthur
embarcou e ordenou-lhe que pegasse a bainha e a espada. O rei estendeu sua mão e apanhou os dois objetos, o
barco deu meia volta e ao voltar, a senhora do Lago desaparecera. Merlin, olhando o deslumbre que era
acometido, perguntou a Arthur:

- Diga-me, o que seria mais valioso, a espada ou a bainha?

- A espada, é claro – respondeu.

- Digo-lhe que estás enganado. Esta bainha vale mais que dez espadas juntas, pois quem a usar não perderá
sequer uma gota de sangue. Não importa quão grave seja o ferimento. Que isso lhe sirva de lição. Conserve-a
sempre em vosso poder.

Nesta situação, podemos contemplar lições de humildade em dois pontos. O primeiro refere-se ao valor que se dá
as coisas. Confirmando o ditado que "a melhor defesa é o ataque", Arthur achava a espada mais importante que a
bainha, como todo cavaleiro assim o faria, usa a espada para atacar, e por consequência, manter-se vivo. Mas
Merlin lhe informa o contrário, diz-lhe o verdadeiro valor da bainha, e Arthur acaba constrangido, não entendendo
essa total inversão de valores. Em verdade, Arthur como rei posteriormente aprendeu o sentido da bainha –
embora não pudesse aproveitá-la durante muito tempo, pois ela lhe foi roubada por sua meia-irmã Morgana.

"É necessário mais inteligência e determinação para não tirar a espada da bainha e fazer algo, do que tirá-la e
cometer algum erro”.

Não basta ter o conhecimento, não basta saber como usar. É preciso saber quando usar. Existe um tempo
preparado para tudo o que você aprendeu. Cabe a você usá-lo no momento apropriado.

Távola Redonda
Desde cedo, tanto Arthur quando Merlin perceberam que a jornada para atingir uma meta – a unificação da
Bretanha – não seria nada fácil se Arthur não atraísse para si poderosos aliados. Não pessoas influentes, mas
gente. Pessoas dispostas a fazê-lo Para realizar não bastava apenas querer, é necessário fazer.

Aproveitando o presente de casamento da Távola Redonda por intermédio do rei Leodgranz – que era de seu pai,
o rei Uther anteriormente – Arthur chamou os melhores cavaleiros de sua época para sentarem-se ao redor dela,
que seria conhecida como a mais importante confraria de cavaleiros de todos os tempos, inspirando muitos outros
ideais, inclusive os Templários. Note, que por ser redonda, não havia um lugar de destaque, uma cabeceira aonde
alguém pudesse sentar-se e fazer-se diferente. Pois todos somos iguais, quem conota nossa importância somos
nós mesmos, positiva ou negativa.
"Nada acontece em torno de você se não houver sua permissão de alguma forma, ainda que inconsciente”.

Contudo, existia um lugar vago, o chamado assento do perigo, que viria mais tarde a ser ocupado pelo mais
valoroso de todos os cavaleiros. Servia para lembrar a todos uma lição de humildade. O sucesso é a meta, mas a
manutenção dele é a renovação de um compromisso. Que adiante sermos os melhores em uma área ou
determinada função se não existir a competição, uma possibilidade de ser superado? Não haveria novas
conquistas, novos limites, muito pelo contrário, viria a acomodação e o ostracismo. Devemos melhorar sempre,
alcançar todos os limites e viver buscando uma forma de superá-los. Todos reunidos, sob a tutela de Arthur,
juravam um a um, defender os mais fracos, auxiliar dama em perigo, em suma, os ideais de cavalaria como hoje
conhecemos, graças muito a essas lendas. E eis que surge o primeiro dos testes: Merlin, de forma jocosa, indaga
a validade de tais juramentos, os quais não faziam nem mesmo idéia do que se tratava.

Neste exato instante adentra o salão um cervo branco seguido logo após de um cão de caça, e mais atrás, de
sessenta sabujos pretos. O cervo, em pânico causava um tremendo furor em torno da corte, quando eis que surge
uma dama montada em um cabalo branco. Ela se queixa ao rei que aquele cão branco era dela, e que quem o
levara não tinha o direito de fazer aquilo. Arthur, ainda perplexo pela multiplicidade de acontecimentos ao seu
redor, não teve tempo sequer de responder. Um cavaleiro de armadura negra surgiu, e levou a dama consigo à
força, enquanto os cavaleiros da Távola explodiram em gargalhadas, achando que aquilo era uma diversão
programada.

Merlin, sempre ele, chama a atenção dos jovens para a gravidade da situação. Afinal de contas, o que estavam
jurando há minutos atrás? Será que haviam esquecido tão rapidamente o que se comprometeram a fazer em
benefício de toda a Bretanha? Ou o juramento também não passava de uma brincadeira?

Outro recado dado por Arthur a todos nós:

"Cuidado com o que você fala. Mais importante que ouvir o que os outros dizem, é ouvir primeiro a sua voz".

Quando determinamos novos projetos, novas metas, é comum comentarmos isso com alguém mais íntimo, com
naturalidade. Todavia, conforme o tempo passa, muitas vezes somos obrigados a mudar nossos planos e mudar
um pouco de curso, mas não de objetivo. Para alguém não ciente, dá-se a impressão que você não está indo a
lugar nenhum. O mundo presta atenção no que você diz. Desejamos atingir uma meta e contando isso em
palavras, ele vai te proporcionar as condições para tal. Mas, se você, por alguma razão mudou de opinião e
necessita de outra coisa, mas não se fez ciente disso, o mundo – principalmente as pessoas mais próximas –
continuarão a te ajudar naquilo que você já até esqueceu, ou seja, está perdendo preciosa ajuda que poderia te
conduzir a um êxito mais rápido.

Ninguém tem obrigação de ler nas entre linhas do que dizemos. Se manifestarmos desejo de comer, mas não
especificarmos que queremos comer determinada coisa, nos darão qualquer coisa para saciar nossa fome. E a
culpa não será de quem te ouviu, afinal, o que você falou?

"Aprenda a se expressar. Uma boa comunicação faz milagres".

Então, no meio de toda aquela festa, Arthur e os demais faziam votos e juras para toda a Bretanha... ou faziam
para seus próprios egos? Merlin neste caso chama a atenção para quem juraram defender, o povo do lado de fora
do castelo, que olha para dentro de suas muralhas e os encara como predestinados a triunfar, não somente por
cada um deles, mas em glória de toda uma nação. São várias mentes, conceitos completamente distintos os quais
juraram defender, e cada um deve ser respeitado, ainda que não compreendido pelos cavaleiros. Foi o primeiro de
muitos testes assim. A cada um deles, com sucesso ou fracasso, cada cavaleiro tinha uma lição a prender.

Por ajuda de Merlin no assunto, Arthur encaminhou Sir Pellinor para ir em busca da dama e do seu raptor; Sir Tor,
seu filho, iria em busca do cão de caça branco, enquanto Sir Gawain, sobrinho do rei iria atrás do cervo branco. Ao
fazê-lo, complementou Merlin:
"Esses três cavaleiros receberão importantes lições de vida antes de seu retorno, e a experiência que irão adquirir
fará deles os mais sábios".

Sir Gawain, que começava sua busca, encontrou na estrada da floresta dois homens que guerreavam entre si.
Interpôs-se entre eles rapidamente querendo saber o motivo da briga. Eles lhe responderam que sabiam da ordem
de Arthur da captura do cervo branco, e quando este passara por eles, ambos decidiram ir a seu percalço; todavia,
estavam se duelando para saberem quem dentre eles era o mais corajoso para fazê-lo. Gawain ordenou que
ambos parassem com aquilo e apresentassem suas armas imediatamente ao rei Arthur. Os dois, exaustos, não
tinham como protestarem e fizeram o que lhes foi ordenado.

Gawain atravessou o rio e avançando pela floresta, chegou nas proximidades de um castelo, guiando-se pelo
latido dos cachorros que perseguiam o cervo. Ao entrar no castelo, deparou-se com os cachorros mortos, e o dono
do castelo lamentando-se pelos ferimentos do cervo branco. De imediato, saltou sobre Gawain ao vê-lo, pensando
que se tratava do caçador. Iniciou-se uma batalha feroz, onde os ferimentos abriram-se rapidamente e tão logo
pôde, Gawain acertou um golpe preciso no cavaleiro, fazendo-o clamar por misericórdia. Mas não estava disposto
a dar-lhe clemência, uma vez que fora atacado sem motivo. O senhor do castelo clamou mais uma vez, alegando
que estava caído. Uma vez mais Gawain não lhe deu ouvido. Preparou o golpe final quando a senhora do castelo
interveio, entrepondo-se entre eles Mas Gawain não teve como retardar o golpe, e a cabeça da senhora rolou no
pátio do castelo.

Horrorizado, o jovem cavaleiro foi tomado pelo sentimento da culpa e vergonha pelo seu ato; sua honra de
cavaleiro havia sido maculada. Quatro homens armados apareceram e teriam matado-o ali mesmo, se não fosse a
intervenção da filha do senhor do castelo, que pediu por ele. Gawain se identificou, e a jovem voltou mais tarde
com a determinação de seu pai. Poderia levar a cabeça do cervo, já que para isso fora enviado. Não o poderia
prender ali, pois eram fiéis ao rei. Mas, como punição, levaria o corpo da senhora consigo em seu cavalo, e a
cabeça ao pescoço, obrigado a contar sua aventura em detalhes ao rei.

Arthur, enfurecido, ordenou-o que jurasse que jamais negaria misericórdia novamente, e que defenderia sempre
as donzelas até o último de seus dias. Envergonhado, Gawain obedeceu. Sir Tor fora incumbido de trazer o cão
branco de volta, e estava cruzando uma floresta quando um anão saltou à sua frente. Enfurecido, disse ao
cavaleiro que não poderia passar. Nisso, saíram de duas tendas dois cavaleiros que, percebendo a aproximação
de Sir Tor, montaram em seus cavalos e investiram contra ele. Um a um os cavaleiros foram derrotados, e não
tendo porque matá-los, enviou os dois à corte do rei Arthur. O anão agora estava arrependido de ter servido a
amos tão covardes e colocou seus préstimos a serviço do cavaleiro.

Sir Tor concordou prontamente e cavalgaram durante algum tempo através do bosque, saindo em frente a um
mosteiro que empunhava dois pavilhões: no alto de um deles havia um escudo branco e no outro um escudo
vermelho. Sir Tor desmontou e prosseguiu sozinho a pé. Olhou dentro do pavilhão branco e encontrou três
donzelas dormindo. Então se dirigiu ao pavilhão vermelho, onde encontrou uma única donzela e o cachorro
branco. Fez menção de pegá-lo, mas este acordou e começou a latir, acordando a jovem e suas três
companheiras que vieram em sua direção para impedi-lo. Rapidamente informou a jovem quem era e qual o
motivo de sua missão, disposto a enfrentar as consequências de seus atos.

Já estava se afastando do local quando ouviu uma voz gritando atrás de si para que devolvesse o cachorro.
Imediatamente, Sir Tor empunhou a lança e o escudo, e foi de encontro ao adversário. Acabaram-se colidindo com
tamanha força que ambos foram ao chão, sem fôlego. Espadas fora das bainhas, ataques ferozes e dignos de
dois bravos cavaleiros; os escudos partiram-se, os elmos arremessados longe e suas armaduras estilhaçadas. O
sangue corria em ambas as faces, porém Sir Tor começava a exercer uma vantagem sobre o adversário que já
demonstrava sinais de exaustão. Foi nesse ínterim, que com um golpe certeiro forçou o bravo oponente a cair de
joelhos.

No exato instante em que iria oferecer misericórdia, eis que uma jovem dama aproximou-se de Sir Tor e pediu que
matasse o cavaleiro; que havia matado o seu irmão, mesmo este tendo implorado misericórdia. Diante desta
situação, Sir Tor não teve dúvidas em matá-lo. A dama e seu marido mostram-lhe hospitalidade e no dia seguinte o
cavaleiro pôs-se em direção à corte do rei Arthur. Levou a cabeça do cavaleiro sem honra como prova da missão,
além do cachorro branco. Por sua bravura, foi recompensado com um condado. Finalmente, Sir Pellinor partira em
busca da jovem raptada pelo cavaleiro negro, e em seu caminhou notou, perto de um poço uma donzela loira que
cuidava de um cavaleiro ferido. Ao avistá-lo, a donzela clamou por ajuda. Sir Pellinor porém, estava apressado em
demasia para ajudá-la e não parou. Momentos depois, o cavaleiro ferido morreu, e a donzela, incapaz de suportar
tamanha dor, tomou sua espada e se matou.

Enquanto isso, o cavaleiro que não sabia do ocorrido avistou, não muito distante de si a dama que procurava.
Próximo a ela, dois cavaleiros lutando com espadas. Sir Pellinor os indagou o motivo da luta, e ouvindo suas
razões; um era primo da dama e viera em seu socorro. O outro, alegava que havia conquistado a donzela num
combate justo na corte do rei Arthur – o que era mentira, pois Pellinor vinha exatamente de lá. Quando manifestou
a idéia de conduzir a dama até a corte desafiando quem se opusesse ao fato, uma surpresa: ambos o cavaleiros
se lançaram contra ele O golpe acertou em cheio o seu cavalo, derrubando-o. Mas Sir Pellinor recuperou-se
rapidamente, furioso com a morte do animal. Sua espada girou com tanta violência que partiu a cabeça do
cavaleiro negro em duas. Diante de tal demonstração, o outro cavaleiro concordou plenamente que sua prima
retornasse à corte do rei Arthur sob os seus cuidados. Pellinor montou no cavalo do oponente morto e regressou a
Camelot acompanhado da dama.

No caminho de volta, o cavaleiro passou pelo poço onde jaziam a donzela e o cavaleiro ferido; tomado pela dor,
ele arrependeu-se de não haver parado para ajudá-la. A dama que o acompanhava aconselhou-o então a levar
sua cabeça para o rei Arthur. Ao narrar sua história na corte, de cabeça baixa e consternado por não haver
ajudado a donzela, Merlin lhe disse:

Sim, Pellinor, lamentarás tua pressa até o fim da tua vida. Aquela donzela era tua própria filha querida, Elaine. O
cavaleiro ferido era seu noivo, também um bom e honesto cavaleiro. Estava a caminho da corte para servir ao rei
Arthur quando foi atacado por um cavaleiro falso e covarde. Elaine, atormentada pela perda, matou-se com a
espada de seu amado. Tudo isso aconteceu porque não quiseste parar para auxiliá-la. Um dia, verás teu melhor
amigo, aquele em quem mais confias acima de todos os outros falhar contigo quando também estiveres em tua
hora de maior necessidade. Que esta seja tua punição.

E assim ocorreu, em um futuro turbulento; quando Sir Pellinor estava às portas da morte e Sir Gawain, seu melhor
amigo ignorou-o por completo. Uma aventura, três caminhos diferentes e três resultados. Sir Gawain prendeu sua
lição de humildade e sabedoria; Sir Pellinor, a prestar atenção aos detalhes, e não ir de encontro cego à um
objetivo. Apenas Sir Tor, com seu julgamento preciso e senso de cavalaria atingiu a um resultado satisfatório.

Embora fosse possível várias análises sobre este assunto, prefiro deixar este conto à sua imaginação, leitor. Leia-
o varias vezes, e verá a cada leitura uma mensagem nova, escondida não entre as palavras, mas no nosso
próprio subconsciente.

Sir Gawain e o Cavaleiro Verde


Em determinado momento da lenda de Arthur, Sir Gawain fica tão popular que muitas histórias são creditadas a
ele, uma espécie de alter ego do rei: afinal, com suas responsabilidades para com o povo e a nação, Arthur não
poderia entregar-se a loucas aventuras, desprovido de precauções de retornar vivo para cuidar de seus afazeres.
É nesse contexto quem entra Gawain, seu sobrinho, sangue de seu sangue e portanto, nada mais digno que
deixar Excalibur sob seus cuidados. Pois, Excalibur é a essência do próprio conhecimento, a arma definitiva que
bem empregada é a mais valorosa de todas as armas; presa na bainha, fora de uso, ela é igual a todas as outras.
Assim, Gawain é abençoado com essa dádiva, levando-a em muitas aventuras, muitas delas estranhas e à
princípio, sem propósito, como o conto descrito agora.

No dia do Ano Novo estava toda a corte do rei reunida em festa quando entra pelo salão (onde estão esses
guardas que nunca impedem esses caras de entrar?) em cavaleiro trajando uma armadura verde, estatura
gigantesca, montado num cavalo também verde, em sua mão uma acha (machado antigo). Desafiou a todos os
presentes que o enfrentasse segundo suas próprias condições, ou haveria descrédito da Távola ao redor do reino,
e porque não dizer, do mundo.

Até aí, nada que nenhum dos cavaleiros já não houvesse confrontado, em inúmeras aventuras; a deslealdade de
seus oponentes era um teste constante de suas virtudes e crenças. Se algum deles falhasse em cumprir seu
código, o descrédito seria total. Até mesmo nós somos levados a por nossos valores em contradição: o que
acreditamos, realmente é a coisa certa a fazer, ou acreditar? Muitos que fracassam tem por obstáculo essa
premissa, de não serem capazes de defender suas idéias, seja em inúmeros ou no primeiro confronto. O Cavaleiro
Verde apresentou seus termos; alguém, assumindo a honra da corte deveria tomar de sua acha, e com um único
golpe, decapitá-lo. A seguir, esse mesmo cavaleiro apresentar-se-ia no Ano Novo seguinte na Capela Verde e
colocaria o próprio pescoço a prova. Quando terminou de proferir este desafio, fez um silêncio acompanhado de
mal-estar, pois nenhum dos cavaleiros ousou aceitar seus termos. Arthur, irado por dentro, começou a levantar-se,
quando foi impedido por intervenção de Sir Gawain, que se prontificou a aceitar o desafio. Apesar de haver uma
situação "armada" para que Gawain seja o herói da história, vale ressaltar que ela é coberta de razão: quem
acreditaria tanto em um ideal alheio a ponto de arriscar sua própria cabeça?

É necessário saber qual o limite que se pode exigir de uma pessoa uma meta que não lhe seja pessoal.

Deste modo, Gawain tomou a arma das mãos do estranho cavaleiro que se preparou para o derradeiro golpe.
Com uma precisão digna de seus feitos, o cavaleiro de Arthur decepou a cabeça do desafiante com um só golpe;
para surpresa geral, após um primeiro instante, o cavaleiro agarrou sua cabeça pelos cabelos soltos, montou em
seu cavalo naturalmente, pousando a cabeça pingando sangue embaixo de um dos braços. Os lábios se abriram e
lembraram a Sir Gawain para não faltar em seu compromisso no ano seguinte.

No ano seguinte, Gawain cavalgava em direção ao local combinado, mas qual foi sua surpresa ao indagar pela
existência de tal capela e receber uma resposta negativa por onde quer que passasse. Ouvindo sua própria
intuição, ele vagou por longos dias, passando frio e fome, entre outras privações. Antes do Natal, porém ele
avistou um castelo no qual poderia abrigar-se para comemorar a data cristã. O dono do castelo, um homem de
estatura gigantesca, mostrou-se muito solícito com ele, afirmando que a Capela Verde ficava apenas a pouco
tempo dali, e poderia desfrutar de sua hospitalidade o quanto quisesse. Ora, em verdade Gawain experimentou
mais que hospitalidade. Por diversas vezes, enquanto o senhor do castelo se ausentava em busca de caça, sua
esposa vinha ao quarto de Gawain, tentando de todas as formas seduzi-lo. Gawain, seguindo seus códigos de
cavaleiro, resistia com todas as suas forças; embora o desejo o atacasse, sua honra como cavaleiro seria perdida
se cedesse.

Mas a senhora não desistia, e fez-lhe por fim aceitar um presente, para que seu amor-próprio, sua auto-estima em
suas qualidades de mulher não ficassem para sempre abaladas com a atitude de Gawain, suplicando que este
aceitasse um presente. Vacilante, sem exatamente o que fazer – pois não podia macular a sua honra, mas
também não podia deixar de cumprir seu dever para com uma dama – aceitou, relutante, um cordão verde que
prendeu à seu pulso. Em verdade, ela seduzira-o com a proposta que o cordão seria mágico, que nenhum dano
seria infligido aquele que o usasse.

Gawain, prestes a colocar sua cabeça na morte certa, viu-se seduzido pela sobrevivência, ainda que uma mera
tentativa. Sua vontade de viver falou mais alto, e sua mão involuntariamente fechou-se sobre o presente da
senhora do castelo. De posse do misterioso amuleto, no dia combinado Gawain rumou para a Capela Verde. Lá, o
misterioso cavaleiro o esperava, de arma em riste. Dizia-se satisfeito com Gawain, por cumprir com sua palavra.
Deixou que o homem da Távola Redonda tomasse sua posição e preparado para desferir o golpe com tamanha
força percebeu os ombros de Gawain encolherem-se antes do impacto; o suficiente para interromper o percurso
da acha.

- É essa toda a coragem de um cavaleiro de Arthur? – desafiou – Encara teu destino com a honra que possuis!

Em verdade, embora Gawain tenha uma "ajuda" adicional, corre em sua mente a incerteza natural, que nos toca
sempre, mesmo quando temos a certeza da vitória. Uma incerteza que às vezes chega a custar a própria vitória.
Gawain voltou para o desafio, com mais determinação. Porém, quando a acha descia, o Cavaleiro Verde
interrompeu-se mais uma vez, impressionado com a coragem do jovem.

- Muito bem – disse – É assim que gosto que sejas!

- Golpeie logo – bradou sem resposta Sir Gawain – Ou acreditarei que não ousas ferir-me.
Pela terceira vez, a acha subiu e começou a sua trajetória em direção ao pescoço de Gawain. Mas o cavaleiro
errou o golpe, marcando o pescoço com um leve fio de sangue. Rapidamente, empunhou suas armas, mas ao
fazê-lo, percebia que o estranho Cavaleiro Verde sorria em sua direção. Na verdade, este era o senhor do castelo,
que havia enviado sua esposa para que o testasse, de forma a quebrar a hospitalidade oferecida. Por duas vezes
Gawain triunfou, mas numa terceira, sucumbiu, não pela luxúria, mas pelo amor à vida. Exposto de tal forma,
Gawain se culpou abertamente por não Ter tido a determinação necessária de manter seus ideais. Já iria retirando
a faixa Que a senhora lhe dera, quando o Cavaleiro Verde o deteve: "Fique com ele, para lembrar-se daquele dia."
Ao retornar à corte de Arthur, os outros deram pouca importância ao erro, maravilhado com o teor maior do desafio
da estória e do heroísmo de Sir Gawain. A partir daquele dia, todos consentiram em usar também um cordão verde
no pulso até o fim de seus dias.

O conto acaba, mas suas lições ficam. Em primeiro lugar, a realidade da história. Uma cabeça cortada, um corpo
que anda sem a mesma e um desafio deveras absurdo. Assim tratamos nossos desafios no dia-a-dia assim que
cada um deles se apresenta. Poucos são os corajosos – que assim como Gawain – resolvem ir de encontro ao
desafio, sem mesmo saber como proceder. Saindo de seu território, marchando rumo ao desconhecido,
preparamo-nos para o confronto, limpando a mente de outros afazeres, concentrando-nos unicamente na missão.
E uma vez feito isso, a missão que parecia de todo absurda começa a fazer um estranho e familiar sentido.

Precisamos estar sempre abertos a enxergar a vida de forma diferente.

Todas as soluções estão sempre à mostra. Sir Arthur Conan Doyle fez isso inúmeras vezes com o seu
personagem, Shelock Holmes. O detetive era mestre em respostas precisas, esmiuçando de tal forma a cena do
crime que nos sentimos nus ao olhar para o mesmo fato e não enxergarmos rigorosamente nada de mais.
Tentando encarar nossas dificuldades sob um prisma diferente, as respostas se multiplicam, dando-nos uma
possibilidade melhor de escolha. Mas, tal qual a finalidade da espada, tenha muito cuidado para não perder a
resposta, afogando-a num mar de opções. É preciso que nosso pensamento esteja sempre em uso, como uma
espada que sai de uma bainha regularmente, para fazer o seu trabalho, nunca para se exibir.

Tristão e Isolda
Certa vez, um menestrel apareceu à corte do rei Arthur, e apreciando a hospitalidade de Camelot, foi indagado a
respeito de um cavaleiro famoso do condado da Cornualha, Sir Tristão de Lyons. Ele se prontificou a contar a
história, alertando de imediato a todos os presentes que se tratava de uma saga muito triste. Começou o seu
relato:

Tristão era filho dos regentes do condado de Lyons, e possuía esse nome , pois nascera em meio ao frio da
floresta, a qual sua mãe sucumbira logo após seu nascimento. Desde pequenino foi chamado de ‘aquele nascido
no pesar’. Seu pai, o rei Melodias manteve um luto de sete anos até quando casou novamente e teve um novo
filho. Sua madrasta era alguém de tamanha maldade dentro do coração que resolveu matar o jovem Tristão com
uma poção envenenada, mas deixando uma taça de prata dentro dos aposentos do garoto. Porém, quem bebeu
de seu conteúdo fora seu meio-irmão, vindo a falecer. Isso fez a rainha aumentar ainda mais seu ódio por Tristão,
assim quando a idade adulta chegou, fez de tudo para que o rei o enviasse pelo mundo para que aprendesse as
artes da cavalaria. O jovem acompanhado de seu escudeiro viajou pela França e Bretanha, aprendendo línguas
estrangeiras e as artes do combate. Ao atingir dezoito anos, era forte e habilidoso com armas e com a harpa.

Então um dia, hospedado no castelo de seu tio, o rei Mark da Cornualha, um mensageiro veio da Irlanda para
cobrar um débito de sete anos sobre uma taxa que o rei recusava-se a pagar. Para resolver a contenta, o irlandês
desafiava alguém da Cornualha a enfrentá-lo em um duelo, e em caso de vitória, a dívida estaria perdoada.
Tristão, vendo a situação delicada de seu tio prontificou-se a lutar com o irlandês. "O rei Mark, ansioso por
escapar do duelo não tardou a sagrar seu sobrinho cavaleiro e enviá-lo para o combate. Foi um duelo demorado,
que durou mais de meio dia. Tristão resistiu este tempo bravamente, pois fora atingido no início da batalha pela
lança do oponente, que fez-lhe um ferimento muito grave. Mas depois de tanto tempo de luta quem começou a
demonstrar sinais de fadiga era o irlandês, momento que Sir Tristão aproveitou em seu favor para terminar a luta
com um golpe mortal no crânio, deixando ali alojada uma ponta de sua espada.

Embora fosse levado de volta à Irlanda, não resistiu aos ferimentos morrendo dentro de pouco tempo. Sua irmã
era a rainha da Irlanda, e manteve consigo a ponta da espada tirada do crânio o irmão, jurando um dia vingar-se
do cavaleiro que possuía tal arma. Tristão lutou contra a morte por mais de um mês, e embora tudo fosse feito
para salvá-lo, uma sábia mulher lhe disse que somente poderia curar-se na Irlanda, onde teriam a cura para o
veneno da lança que o atingira. Logo que foi possível caminhar, Tristão partiu com seu escudeiro rumo à Irlanda,
chegando ao castelo do rei. Lá foi muito bem recebido como mandava a hospitalidade, e em retribuição tocava
sua harpa para a família real. O rei fascinou-se pela melodia que sua harpa e convidou-o a permanecer entre eles
durante um tempo. Mas seu estado de saúde era deveras delicado, e o rei indagou a respeito.

Temendo uma indignação pelos fatos ocorridos, Tristão ocultou seu verdadeiro nome e contou-lhe que estava
doente devido a um ferimento de batalha. O rei prontamente colocou a sua disposição a ajuda da filha Isolda,
profunda conhecedora das propriedades medicinais de muitas ervas.

Desta forma, Isolda começou a tratar do jovem e não muito foi preciso para que se apaixonasse um pelo outro.
Passaram horas incontáveis juntos; ela lhe contava lendas folclóricas da Irlanda e ele a ensinava a tocar harpa e
cantar as canções tristes de sua terra nativa. "Nessa mesma época, um cavaleiro de nome Palomides, um
sarraceno, veio até a corte do rei da Irlanda decidido a desposar Isolda, renunciando até mesmo a sua fé
muçulmana para isto. O rei por fim assentiu se Palomides fosse vitorioso no torneio que ele realizaria. Logo a
notícia se espalhou e os mais valorosos cavaleiros – entre elas muitos da valorosa corte de Arthur. Isolda, no
entanto estava horrorizada com a possibilidade de tornar-se esposa de Palomides, a quem detestava.

Confessou seu pesar a Tristão. E embora estivesse fraco devido aos ferimentos que ainda não se recobrara,
enfrentaria Sir Palomides anonimamente, pois temia que não o deixassem participar do torneio. Assim sendo,
quando chegou o dia, Palomides derrotava seus inimigos, um a um. Até mesmo os mais valorosos cavaleiros,
como Sir Gawain, Sir Kay e outros foram derrotados, tornando-se evidente que ninguém pod eria fazer frente à
Palomides. Isolda, entretanto, arrumara um cavalo branco e uma armadura prateada para Tristão. Ela mesma o
ajudou a vestir-se e a sair por uma passagem particular, de modo que ninguém o detivesse. Então, todos se
espantaram ao ver a chegada de um cavaleiro desconhecido, que ousava desafiar Sir Palomides.

Surpresa maior ainda quando o mesmo Palomides caiu por terra, atingido com um golpe certeiro da lança de
Tristão. Isolda respirou aliviada, e lágrimas rolaram em suas faces. Tristão fez com que Palomides nunca mais
incomodasse Isolda, e não empunhasse armas durante um ano. Humilhado, ele abandonou seus pertences ali
mesmo, no campo de batalha. Somente após isso é que Tristão retirou o elmo, revelando sua verdadeira face,
para maior delírio de todos os presentes. Mas, enquanto ele se recobrava momentos após o combate em seus
aposentos, a rainha e sua filha o aguardavam em outro cômodo para conduzi-lo até o rei. Notando a espada fora
da bainha, a rainha examinou a lâmina, notando que lhe faltava um pedaço. Suas suspeitas cresceram
rapidamente, correu até os seus aposentos trazendo o pedaço da espada que ficara no corpo de seu irmão, e viu
que se encaixava perfeitamente. Uma onda de revolta tentou conta de si, e tentou assassiná-lo no mesmo
instante, dentro da banheira. Mas o escudeiro a impediu; então, de posse da espada, ela procurou o rei e lhe
contou tudo. Muito triste, o rei mandou chamá-lo, onde ele confessou seu crime.

Com uma dívida para com Tristão, o rei consentiu em sua partida, e momentos depois Tristão despedia-se de
Isolda. Ela jurou jamais desposar alguém sem que ele assim permitisse, e trocaram seus anéis como prova de
amor eterno. Tristão voltou para a Cornualha e viveu sob a proteção do tio, sofrendo e confidenciando-lhe sobre a
bela Isolda. Embora fosse de extrema satisfação Ter o sobrinho de volta, o rei Mark começou a dar sinais de
inveja pelas habilidades do rapaz. Resolveu vingar-se enviando uma vez mais à Irlanda, para que trouxesse Isolda
para ser sua rainha. Sendo um cavaleiro leal, Tristão obedeceu, embora seu coração sofresse com a idéia de Ter
que renunciar à sua amada. Isso deixou a rainha da Irlanda triunfante. Era uma forma de vingança muito mais
doce, pois ela sabia da paixão de ambos. Assim sendo, preparou uma poção para que Isolda e o rei da Cornualha
a tomassem e ficassem perdidamente apaixonados em pelo outro. Quando estavam prestes a viajar, ela deixou
este encantamento sob os cuidados da dama de companhia de Isolda. Mas quis o destino que Isolda achasse o
vidro, e presumindo tratar-se de um vinho, compartilhou com Tristão durante a viagem. O efeito resultante foi um
amor que os uniu pelo resto da vida. Jamais houve um amor maior que aquele que Tristão e Isolda sentiam um
pelo outro.

E mesmo o rei Mark desposando-a, apenas serviu para que constatasse que o coração da jovem jamais seria seu.
Tristão, atormentado pelo dever para com o tio e seu amor, sofria muito e entregava-se a batalhas e aventuras,
construindo sua fama de cavaleiro.
E então numa tarde, ele a encontrou à margem de um riacho sozinha e o amor falou tão alto que os dois
quebraram seus votos de honra e obediência. Esse encontro foi seguido por muitos outros, e os comentários
surgiram por toda a corte, deixando o rei Mark furioso. E ele baniu Sir Tristão da Cornualha, para que nunca mais
pusesse seus olhos sobre Isolda. O destino de Tristão foi vagar pelas terras de Logres, cantando canções
melancólicas em sua harpa e fazendo o papel de menestrel vagabundo". Diante dessas ultimas palavras, Arthur
com a voz meio embargada perguntou ao menestrel como poderia saber daquilo com tantos detalhes. A resposta
veio em seguida: ele próprio era Tristão de Lyons, o cavaleiro nascido no pesar. Arthur o acolheu na Távola
Redonda, confiando-lhe o lugar preparado por Merlin para ele, ao lado direito do assento do perigo. Mesmo
participando de várias aventuras, Tristão ainda mantinha seu coração angustiado pela sua bela Isolda. Arthur,
tocado por sua dor mandou vir até ele a filha do duque de Arundel, que também se chamava Isolda. Ela amou
Tristão com sinceridade, e ele consentiu no casamento. Viveu momentos maravilhosos ao seu lado e tirara da
mente qualquer pensamento para a rainha da Cornualha. Ou assim parecia.

Dedicava-se de corpo e alma às batalhas, se importando pouco com o destino de sua vida. Eis que numa destas
batalhas, um ferimento selou seu destino. Sentindo que o fim estava próximo solicitou a seu escudeiro a viajar até
a Cornualha e informasse-a sobre seu estado. Se ela concordasse em vir, uma bandeira branca deveria ser
hasteada, para que Tristão ficasse prevenido. Caso contrário, ele hastearia uma bandeira negra.

Mas Isolda não precisava ser convencida. Dentro de uma semana, o navio que a trazia retornara com uma
brilhante bandeira branca sacudindo ao vento. Neste momento, Tristão não tinha mais condições de levantar-se, e
pediu para que a esposa lhe dissesse qual era a cor da bandeira do mastro. Enciumada, ela mentiu-lhe dizendo
que a cor da bandeira era negra. Tristão não resistiu e sucumbiu a dor, em meio às lágrimas que rolavam em suas
faces. Momentos mais tarde Isolda chagara ao aposento e caiu de joelhos ao constatar que chegara tarde, ainda
que por alguns momentos. Tão profunda foi a sua dor que suspirou pela última vez sobre o peito de Tristão,
morrendo com o coração partido.

Será, que depois de tantos séculos ainda existem pessoas que não deixem se sensibilizar com esta linda, porém
triste história de amor entre Tristão e Isolda? Somos tão insensíveis? Será, que ignoramos a maior de todas as
forças que nos impulsiona para sermos vitoriosos no trabalho, na vida pessoal e social? Pois, que mais poderia
nos impulsionar a frente senão o desejo, a vontade de sermos verdadeiramente felizes?

Nunca houve amantes, em toda a eternidade, tão fiéis quanto Sir Tristão e a bela Isolda.

Balin e Balan
Aconteceu certa vez quando o rei Arthur encontrava-se em Camelot, e uma dama chagara em seu reino trazendo
uma mensagem da Senhora de Avalon. Enquanto entregava sua mensagem, sua capa de pele abriu-se, revelando
uma pesada espada dentro de uma bainha, presa à sua cintura, para espanto do rei. Quando indagada a respeito
da espada, a dama respondeu ao rei com pesar que era sua sina carregar aquela espada até que um cavaleiro
puro de palavras e ações, sem uma única mancha em sua honra a livrasse daquele fardo. Já havia atravessado
quase toda a Bretanha, e tinha esperança que poderia encontrar tal homem na corte do rei Arthur. O rei então,
mandou os cavaleiros se aproximarem e tentarem retirar a espada da bainha, mas nenhum deles teve sucesso.
Uns chegavam a usar de toda a força, ao que a dama respondia que não haveria necessidade para tal, visto que o
escolhido haveria de conseguir sem nenhum esforço. Todos tentaram, e como ninguém conseguisse, a dama ia se
retirando com grande tristeza.

Ora, havia um cavaleiro pobre na corte cujo nome era Balin, que assistira a tudo à distância. Devido a simplicidade
de suas roupas manteve distância, até que a dama estivesse pronta para sair; então aproximou-se dela e
gentilmente, pediu sua atenção:

- Gentil dama, rogo-vos: deixe-me tentar desembainhar a espada.

Ela o olhou de cima a baixo, e embora fosse um homem atraente, seus trajes eram tão simples que julgou
improvável que pudesse ser o mais nobre de todos os cavaleiros. Ao dizê-lo, Balin respondeu-lhe que a nobreza
dos sentimentos nunca poderia ser julgada pela aparência de alguém, pois ela residia no interior do ser humano.
Com essas palavras, não houve como a dama protestar uma Segunda vez. Balin aproximou-se, e com leveza
puxou a espada para fora da bainha. Todos estavam estupefatos com o feito de Balin; a dama elogiou seu coração
puro, como sendo o melhor que ela já encontrara. Então, um fato curioso se sucedeu: a dama pedira a espada de
volta a Balin, e estranhamente, sentiu a necessidade de guardá-la para si. A dama pediu mais uma vez, mas o
cavaleiro alegou que era dele por direito.

- Não estais sendo prudente – disse ela a Balin – esta espada lhe trará grande infortúnio. Lamento vossa sorte,
pois com ela um dia matarás a quem mais ama, e isso causará tua própria morte.

Balin aceitou correr o risco, e a dama partiu consternada. E enquanto Balin preparava um cavalo para partir em
busca de aventuras, outro visitante chegou à corte do rei Arthur. Era a Senhora do Lago. Conforme havia
prometido quando se apossara de Excalibur, ela vinha naquele instante pedir-lhe um favor. Arthur mostrou-se
solícito a atender, mas com certeza não esperava pedido tão estranho. Ela solicitava a cabeça daquele que puxou
a espada da bainha da donzela, ou a cabeça dela. Pois o dono da espada anteriormente matara seu irmão. Balin,
que estava pronto para partir, aproximou-se mais uma vez e presenciou a cena. Ficou enfurecido, pois procurara a
Senhora de Lago por cerca de três anos, pelo assassinato de sua mãe. Num movimento rápido, aproximou-se
dela e cortou-lhe a cabeça, bem diante do rei Arthur.

E não houve explicação que pudesse aplacar a fúria do rei. Para ele, a honra de Balin estava maculada, e
expulsou-o de Camelot sem demora. Assim, Sir Balin partiu com sua espada, e a espada que retirara da dama.
Estava sinceramente arrependido por haver desagradado ao rei Arthur, e decidira realizar algum grande feito para
poder mais uma vez conquistar sua admiração. Muitos dias depois, encontrou-se com seu irmão, Balan, que saíra
de sua terra natal em sua busca. Balan lhe relatou o ocorrido, e os dois se abraçaram, chorando de forma
verdadeira.

Mas Balin tinha planos para conseguir o perdão do rei. E seu primeiro ato seria enfrentar o rei Rions, inimigo
mortal de Arthur e fazê-lo prisioneiro, ou matá-lo. Balan ofereceu-se para ir junto e assim, os dois partiram juntos
através de colinas e densas florestas até conseguirem armar uma emboscada para o rei Rions e seus homens
numa trilha. O assalto fora tão violento e súbito que logo mataram cerca de quarenta homens do rei e causaram a
fuga dos demais. Teriam matado o rei também se este não houvesse implorado misericórdia. Decidiram levá-lo
com vida até a presença do rei Arthur.

De volta à Camelot, deixaram o prisioneiro Rions aos cuidados dos criados, com recomendação de levá-lo até a
presença do rei. Satisfez muito a Arthur o fato de ter Rions como prisioneiro. O próprio Rions encarregou-se de
contar o ocorrido, e Merlin completou a informação:

- Posso dizer-vos quem são: um deles é Balin, a quem banistes da corte; o outro é seu irmão Balan. Temo que
ambos não viverão muito tempo.

E Arthur lamentou o fato de Balin não estar presente, pois agora poderia livrar-lhe de sua punição. Depois deste
grande feito, Balin continuou a procurar por grandes aventuras para a honra da corte de Arthur. Certa vez
encontrou um cavaleiro de semblante triste, e aconselhou-o a cavalgar rumo a Camelot para pedir auxílio a Arthur.
O cavaleiro concordou, desde que Balin o acompanhasse e protegesse durante a jornada. Mas eis que o cavaleiro
fora atacado por um inimigo invisível e teve seu corpo atravessado por uma lança. Antes de morrer, ele pediu a
Balin para que procurasse uma donzela pelo caminho de onde viera. Ela poderia ajudar-lhe a encontrar o cavaleiro
que lhe fizera aquilo.

Balin, enfurecido, jurou vingar a morte do cavaleiro. Fez conforme ele lhe instruíra, e a donzela o conduziu pela
trilha até um castelo. Durante isso, soube que o nome do cavaleiro que procurava era Garlon, o cavaleiro invisível.
Chegando ao castelo, Balin descobriu o motivo da missão do cavaleiro: o senhor do castelo havia enfrentado
Garlon, irmão do rei Pellan, que resolvera vingar-se atacando sua família. Seu filho, então encontrava-se em
estado moribundo e só poderia ser curado com o sangue do próprio Garlon.

Uma grande festa estava para acontecer na corte do rei Pellan, e Balin e o senhor do castelo partiram para lá sem
demora. Cerca de quinze dias após, chegaram justamente no início das festividades. Entrando acompanhado da
donzela, ela lhe apresentou Garlon no meio do salão. Enquanto pensava na melhor forma de matá-lo, Balin
também ponderava se era uma atitude prudente atacá-lo ali; com certeza não sairia com vida, mesmo em caso de
vitória. Mas Garlon percebeu o olhar fixo de Balin em si, e o desafiou. O golpe de Balin fora preciso e devastador:
de posse de duas espadas ele as usou para partir a cabeça de Garlon em duas até a altura dos ombros. Nisso,
chamando seu companheiro que esperava no lado de fora, encheram rapidamente um recipiente com o sangue de
Garlon para curarem seu filho.

Nisso o rei Pellan, enfurecido voltou-se contra Balin, que pôde apenas recuperar a espada que tirara da dama,
deixando a sua para trás. Corria de aposento em aposento do castelo, virando-se para lutar em cada cômodo,
mas a desvantagem numérica fazia-o recuar. Então, chegou a um aposento ricamente decorado, com uma lança
solitária na parece. Balin a agarrou, e quando o rei Pellan veio em seu encalço, foi tomado de súbito horror. Sir
Balin a arremessou, e o resultado não poderia ter sido mais certeiro.

O castelo todo estremeceu, e Balin somente escapou porque escondeu-se embaixo da pesada mesa de ouro do
aposento, ficando confinado ali por três dias e três noites. No quarto dia, Merlin o retirou de lá, aconselhando que
deixasse o reino imediatamente. Por causa de seu ato, todo o reino e três condados vizinhos foram destruídos. A
lança que usara não era outra senão a utilizada por um soldado romano para ferir Cristo na cruz. Antes de partir,
Balin quis saber o que acontecera com a donzela e com o senhor que o acompanhavam. Este último fugiu para o
seu reino, com o sangue que precisava para curar o seu filho, mas a donzela não teve a mesma sorte. Então Balin
saiu daquele reino o mais depressa que pôde, e todos aqueles que ainda respiravam amaldiçoavam a sua
passagem.

Entrou numa densa floresta, e cavalgou sem cessar por oito dias, até alcançar um vale. Enquanto o atravessava,
ouviu um som de trombeta, e imaginou estar sendo caçado. Para sua surpresa, era um grupo de cavaleiros e
donzelas, e o trataram de forma muito cordial, levando-o até um castelo onde ocorria uma festividade. Mais tarde,
a senhora do castelo o procurou. Pediu-lhe que combatesse o guardião da ilha, que impedia qualquer um de
atravessar aquele lugar. Balin já se encontrava cansado de tantos combates, mas ele próprio admitiu que parecia
ser esta sua eterna sina. Estava preparando-se para o combate quando um cavaleiro aproximou-se e ofereceu-lhe
um escudo, pois o do Balin havia-se quebrado. Ele agradeceu, e empunhou o novo, deixando o seu próprio para
trás. Chegando até a ilha numa barcaça, uma jovem espantou-se pelo abandono do escudo, e pediu-lhe que fosse
embora dali sem demora, pois selara o seu destino. Mas Balin já o havia aceitado de bom grado, e preparou-se
para combater o cavaleiro que se apresentava à sua frente, com uma armadura vermelha. Na verdade, era seu
próprio irmão Balan, que fora forçado a tornar-se guardião da ilha por Ter matado o senhor anterior. Para
conquistar a liberdade, deveria vestir àquela armadura e combater todo o cavaleiro que o desafiasse. E Balan não
reconheceu Balin, pois usava um escudo diferente e uma armadura dos pés a cabeça.

Enfrentaram-se de forma feroz e dolorosa; cada um carregava sete ferimentos abertos, em que cada um teria
causado a morte de um homem comum. Os presentes assistiam horrorizados a tamanha carnificina, espantados
com os gritos emitidos pelos dois. A determinada altura, Balin perguntou a identidade do oponente, e qual não foi a
sua surpresa ao ouvir a voz do irmão. Sem forças, deixou o corpo cair por terra, angustiado por tudo aquilo. Balan,
também às portas da morte, aproximou-se e notou que seu oponente era seu irmão, que não o reconhecera por
causa do escudo. Pediu a senhora do castelo que se aproximava, chorando arrependida, que os enterrassem na
mesma sepultura, para que pudessem repousar juntos. Ela prometeu construir uma tumba para manter viva a
presença de ambos, e desta forma, Balam agradeceu e morreu, junto com o irmão.

Embora seja uma história marcada pela tragédia, Balin passa uma mensagem muito importante sobre o poder de
decisão que temos, e as mensagens que recebemos durante todos os dias de nossa vida. Assim como Balin
temos a chance da escolha, mas a vida sempre nos assopra a resposta correta. Quando não a escutamos e
cometemos erros decorrentes dessas decisões, nossa auto-estima se esvai, começando uma perda de identidade.
No caso de Bali, os fatos que se sucederam foram tão significativos em sua vida de cavaleiro que culminou com a
maior prova da perda de sua personalidade: o abandono de seu escudo. É ele quem o identifica aos olhos dos
demais, na falta da posse de seu escudo, Balan não o reconheceu, e a tragédia foi inevitável.

Lancelot do Lago
De todos os Cavaleiros da Távola Redonda, sem dúvida Lancelot é o mais popular de todos. Até hoje se acalenta
a dúvida: porque?
Lancelot estava longe de ser o cavaleiro perfeito; suas raízes eram completamente mundanas, não era em
desempenho superior a Sir Gawain ou Sir Pellinor, e suas missões nunca tiveram o cunho sagrado das de seu
filho, Galahad. Mesmo assim, ele foi o mais popular de todos os cavaleiros, seu nome ainda reside inscrito em
vários baralhos de carta (como cavaleiro de paus) vendido na França e quando mencionamos o nome de Arthur, o
nome que recebemos em resposta é o dele, Lancelot. Porque, qual a razão dessa popularidade, desse sucesso?

Oh, bem lembrado. Sucesso. É disso que estamos falando!

Pouco tempo depois da experiência de Sir Gawain com o Cavaleiro Verde, Merlin despediu-se de Arthur e sua
corte. Sua missão estava concluída, e ele deveria repousar até o dia em que retornaria de seu sono para ajudar o
país quando este precisasse. Arthur, tomando de grande emoção, despediu-se do conselheiro e amigo. Merlin
então, cavalgou até chegar a Gales do Norte, onde antes de abandonar este mundo, enviou uma mensagem a
Lancelot para apresentar-se diante de Arthur, em Camelot. Como último desejo, pedia a Arthur que o sagrasse
cavaleiro. Naquela véspera de Pentecostes, Arthur cavalgava com seus homens quando avistou um cavaleiro
ferido no meio do caminho. Ao virarem seu corpo notaram uma lança quebrada que perfurava sua cabeça. Arthur,
gentilmente indagou ao cavaleiro se preferia o auxílio de um médico ou um padre. O mesmo lhe respondeu que
apenas deveria chegar à corte do rei Arthur em Camelot, para que o mais valente dos cavaleiros o curasse de
seus ferimentos, e somente ele. Arthur prontamente atendeu o pedido do moribundo, carregando-o até Camelot
em uma liteira. No dia seguinte, dia de Pentecostes, conforme o costume de todos os anos, os cavaleiros se
reuniram para contar suas aventuras e renovar o seu juramento. Depois, um a um impuseram suas mãos sobre o
ferido, e nenhum deles teve sucesso. Então, surgiu uma dama acompanhada de um jovem louro, anunciados por
um clarim. Ele era de tamanha beleza que todas as mulheres da corte coraram ante a sua presença; a rainha
Guinevere, entretanto, perdeu a cor. Lancelot, assim que a viu, decidiu que nenhuma outra mulher dedicaria seus
feitos a não ser a esposa do rei Arthur.

A dama dirigiu-se até o rei, dizendo que o jovem fora-lhe enviado por Merlin, que como último pedido queria que o
rei sagrasse o jovem cavaleiro. Lancelot, também conhecido como "Lancelot do Lago", por ter sido criado na
mística terra de Avalon, teria o seu lugar de direito assegurado ao lado direito do famoso "Assento do Perigo".
Arthur retirou sua espada da bainha e sagrou Lancelot como cavaleiro. Então, o ferido que assistia a tudo de uma
padiola, depositou suas esperanças no recém-chegado. E de fato, quando Lancelot tocou-lhe, seus ferimentos se
fecharam e não houve mais dor. A dama sorriu e disse em tom de voz tão baixo que apenas uns poucos puderam
ouvir:

- Somente mais uma vez em sua vida curareis um cavaleiro, Sir Lancelot, porém este feito marcará o fim de uma
grande amizade.

E o rei Arthur, feliz por receber um cavaleiro enviado por Merlin, não deu atenção às palavras da dama.

Nem todos os cavaleiros de Camelot receberam Lancelot do Lago com satisfação. Era um escudeiro sem
experiência, não praticara nenhuma façanha ou vivera gloriosas aventuras. Mas não tardou para que as más
línguas se calassem, pois seus feitos conquistaram a maior de todas as famas dos cavaleiros. Mas nem por isso
era o melhor de todos, apesar de ser o mais valente, uma mancha em seu caráter o impedia de ser perfeito.
Lancelot amava Guinevere e seus atos eram apenas para buscar sua honra. Apesar da traição que ostenta, o que
mais leva Lancelot a triunfar senão a vontade suprema, a obstinação e a certeza de que nada poderá ficar em seu
caminho, senão o maior de todas as forças, que é o amor?

Muitas foram as façanhas de Lancelot pela rainha; como por exemplo, defender a sua honra publicamente quando
todos os outros cavaleiros recusavam-se a fazê-lo, pois sabiam do romance da rainha com o cavaleiro, o que
gerava um mal-estar em toda a corte; socorrê-la em virtude de um rapto, fato no qual transformou Lancelot
conhecido como o Cavaleiro da Carreta – pois utilizara-se deste veículo para adentrar no castelo do raptor e salvar
Guinevere sem chamar a atenção.

Sua determinação e seu amor apenas macularam-se quando fora enganado por uma princesa de nome Elaine –
que usando de uma poção, fez-se passar pela rainha, seduziu-o, gerando com ele um filho, que seria Galahad, o
predestinado a encontrar o Santo Graal. Guinevere jamais o perdoou por isso, e ele baniu-se voluntariamente de
Camelot por muitos anos, e embora construísse nova vida e prosperasse, seu olhar voltava-se para Logres, até
que Guinevere mandasse chamá-lo de volta.

Seus atos não merecem julgamento. Seu amor era sincero e incontrolável.

Contudo, o caminho que Lancelot escolheu trilhar determinou o seu destino. Embora fosse realizador de grandes
feitos, sua maior mácula fora justamente ser impedido de continuar a busca do Santo Graal. Quando avisado que
corria risco de vida caso prosseguisse, Lancelot percebeu, da maneira mais dolorosa possível, que seu
comportamento selara para sempre seu destino em benefício das coisas materiais. Mas esta decisão o afastou da
espiritualidade e não haveria como conciliar os dois lados.

O grande mistério em torno da lenda de Lancelot do Lago reside neste dilema:

Porque não posso servir a dois ideais? Porque o sucesso em uma meta me conduz ao fracasso em outra?

Em muitos casos, isso chega a ser verdade, mas não necessariamente uma regra. O grande objetivo de toda
pessoa durante a vida é triunfar, sem necessariamente perder nada que já possua durante esta jornada. Há
naturalmente uma tendência a seguir por um caminho, o que nos faz abandonar o outro temporariamente. Não é
nada preocupante; uma vez que você alcançou o sucesso em um objetivo, nada te impede de alcançá-lo em outro.
Você é capaz, e prova isso a cada instante, assim como Lancelot o fez.

Apenas faça uma coisa de cada vez; estabeleça prioridades. Poucos são aqueles que conseguem triunfar em
mais de uma atividade ao mesmo tempo. Para isso, é necessário autodisciplina, não se consegue isso da noite
para o dia. Mas, usando a maior de todas as armas, o amor, você poderá triunfar.

Ame a si próprio. Ame sua meta e ame cada oportunidade que lhe aparecer. Acima de tudo, ame cada sucesso
como um incentivo a ir mais a frente, justamente como Lancelot o faria.

Morgana
A bruxa. A meia-irmã de Arthur. Morgana das Fadas. Aquela que tentou por dezenas de vezes atrapalhar o
caminho de Arthur na sucessão do trono; na construção da Távola Redonda. Em grandes batalhas ou individuais;
seja na perda da bainha da espada Excalibur ou na conspiração, com Mordred seu filho, para trazer a intriga na
corte com o romance entre Lancelot e Guinevere. Com tantos aspectos negativos, qual a importância de Morgana
nessa história de glória e triunfo?

Umas das mais importantes. O de nêmesis de Arthur, a vilã. O mal com um nome próprio, o adversário que nos
segue sem cessar até o fim de nossos dias, não para triunfar sobre nossas cabeças, mas justamente para nos por
à prova, e podermos encarar o desafio seguinte. Bastava que os motivos pelos quais a aventura apresentava-se a
Arthur sob condições mágicas desfavoráveis, e o nome Morgana era logo lembrado. O povo a tinha como a maior,
e ao mesmo tempo, mais dramática inimiga: Morgana tinha contra si todos os fatores. Era uma bruxa, ou seja,
fugia da normalidade dos inimigos de Arthur; era mulher, o que colocava os ideais de cavalaria em posição
delicada a quem resolvesse enfrentá-la. E finamente, era parenta próxima de Arthur, que a venerava. No início sua
jornada, custou a acreditar que sua própria irmã pudesse se levantar contra ele: mesmo assim, vitória após vitória,
ainda recusava-se a acreditar de imediato na participação direta da irmã em um assunto.

Se pararmos e analisarmos seus motivos, o assunto fica ainda mais interessante. Existem várias hipóteses, porém
a mais apreciada por todos é o motivo de inveja.

Segundo relatos – principalmente os de Mallory – Morgana é retratada como uma mulher estranha, de beleza
duvidosa e altamente inteligente. Em verdade, este contém o mesmo arquétipo usado por Merlin, pois o herói não
pode contar dentro de seu ser com a beleza e a inteligência; assim, levando em conta que nem todos no mundo
podem ser incrivelmente belos; a inteligência serve como contrapeso na balança e é o motivo básico para um tipo
de atitude. O que Mallory e muitos escritores talvez jamais perceberam é que, tal a popularidade de Arthur – um
homem de formação do povo em meio a tantos talentosos cavaleiros, superiores até a ele – era a popularidade de
Morgana, pois sua forma de vencer seus limites era também uma lição de vida para muitos.
Voltando à infância. Você era escalado para jogar futebol, se não mostrasse aptidão com a bola logo no início,
você era rapidamente descartado. Inapto para os esportes físicos, o gosto e o desenvolvimento pelos esportes
intelectuais (xadrez, gamão, ludo, etc.) passaram a ser uma alternativa, ou simplesmente não desenvolver esporte
algum. Podemos não ser bom em tudo; mas com certeza somos eficientes em alguma coisa. Desenvolvemos
essas aptidões conforme a necessidade.

Vejamos o caso de Morgana. Não possuía estatura nem desenvoltura para apenas casar e ser mais uma senhora
de castelo. Contemplou o seu futuro e o futuro de Arthur, e viu o desequilíbrio. Sua inteligência fora o contrapeso,
e dessa forma começou a disputa de força entre ela e Arthur. A bruxaria, outro aspecto importante, retrata a outra
realidade do povo da Bretanha – pois muitas das antigas tribos eram pagãs, com rituais de fogo e lua, dedicados à
mãe-terra, enquanto Arthur carregava uma bandeira de ideal cristão. Não era de se admirar que, muitos dos que
acompanhavam as aventuras do rei Arthur contra a sua irmã Morgana, tomasse o partido dela – talvez tenha
nascido ali, uma forma curiosa de admiração, hoje muito freqüente: a de torcer pelos vilões da história... Quando
Arthur tomou posse de Excalibur e sua bainha, Morgana ficou apavorada: ter uma espada de tamanho valor já era
uma vantagem inimaginável, mas uma proteção que impedia de perder uma gota de sangue sequer era algo sem
limites. Usando de sua influência e astúcia, ela tentou e tentou... Até, que num momento de descuido de Arthur ela
apossou-se do artefato, mas perdendo-o durante uma perseguição dentro de um pântano. Assim, despojando
Arthur de uma peça do conjunto, Morgana equilibrou a balança mais uma vez. Para o rei, embora a perda fosse
significativa, ainda assim aprendera com o desejo e triunfara, como haveria de fazê-lo com várias outras ocasiões.

Mas, se Arthur, triunfara, Morgana necessariamente falhava? A resposta é não.

Como podemos obter sucesso em nossas vidas? Será, que basta lermos vários livros deste tipo ou até mais
conceituados, e dois meses depois o sucesso baterá à nossa porta, chamando por nós? Claro que não, a receita
ainda continua sendo tentar, e tentar, e tentar... Não somente com acertos, mas principalmente com os erros, e
mantendo nossa auto-estima encontramos forças para prosseguir. Tal como Morgana e Arthur, todos na vida
precisam de um oponente declarado para vencermos e observarmos nossos resultados. Infelizmente, há algum
tempo o mundo vem sendo acometido do sentimento de autopiedade, o que tem levado muitas pessoas
capacitadas a sentar, procurarem uma melhor maneira de enfrentar seus problemas, mas invariavelmente acabam
tendo medo do fracasso e sequer tentam, nunca saindo do lugar, enferrujando suas espadas dentro da bainha.

O mais importante inimigo a ser vencido é o inimigo interior. Vencer nossas próprias resistência; tentar e aprender
com as tentativas é algo que sempre nos acompanhará. Nosso receio não é nosso maior inimigo, mas o maior
aliado de todos, se controlado a nosso favor.

Galahad
Em determinado momento do dia você percebe a alteração do clima; uma diferença de luminosidade, a cor das
árvores. Quando se passam algumas horas a noite cai, e a escuridão toma conta do ambiente. Isso decorre da
rotação da Terra, fornecendo a nós, ciclos de noite e dia. Tornou-se tão natural o dia virar noite, e vice-versa, ou
ficamos tão acostumados a olhar em um relógio que esquecemos de olhar os sinais da natureza. Ela própria já
anuncia a transformação, o outro lado.

Assim é Galahad, o mais virtuoso dos cavaleiros. Filho de Lancelot com a princesa Elaine, foi predestinado desde
o ventre para ir a busca do Santo Graal. Como dito anteriormente, Lancelot foi impedido de prosseguir por sua
natureza mundana Mas, eis que seu filho retrata exatamente a outra face do pai, aquela que foi abandonada há
muito atrás por causa de um amor proibido. É essa face que se ergue para triunfar, e fechar um ciclo há muito
iniciado. Sua apresentação à corte de Arthur não podia ser mais apropriada. Lancelot havia sido convocado até
uma abadia, onde dezenas de freiras pediam-lhe que sagrasse cavaleiro um jovem sob seus cuidados. Lancelot
concordou, e na missa de Pentecostes no dia seguinte, ele sagrou o jovem cavaleiro. Durante esse tempo, olhava
para o jovem e tinha a sensação de estar olhando para si mesmo, na juventude.

Feito cavaleiro, Lancelot o convidou para cavalgar com ele rumo a Camelot, mas o jovem desculpou-se
prometendo estar lá na hora combinada. Desta feita, Sir Lancelot cavalgou sozinho rumo à Camelot. Quando lá
chegou, estranhos fatos se sucederam. O primeiro deles, foram os dizeres que surgiram sobre o "Assento do
Perigo".
"Quinhentos anos após a morte de nosso Senhor Jesus, este assento será ocupado".

Data esta que correspondia exatamente ao dia em que se encontravam todos reunidos. Os cavaleiros
concordaram em cobrir a inscrição, até que este cavaleiro ali chegasse. Em seguida, um guarda entrou pelo salão
comunicando ao rei Arthur o surgimento de uma espada enterrada numa pedra de mármore, às margens do rio.
Os dizeres do cabo diziam que ela só poderia ser retirada dali pelo melhor cavaleiro do mundo. Arthur conferiu
essa tarefa a Lancelot, que gentilmente recusou lembrando de seus próprios pecados. O rei passou a missão a
Gawain, que também declinou. Diante disso, enfureceu-se e ordenou a Gawain que tentasse. Assim, ele segurou
a espada pelo punho e a puxou, mas sem obter sucesso.

Retornando todos à corte, enquanto iniciavam a ceia, ouviu-se um estrondo, seguido da entrada de um ancião de
túnica branca e um jovem vestido de vermelho. Com palavras mansas, o ancião comunicava a chegada do maior
de todos os cavaleiros e aproximando-se do Assento do Perigo, descobriu-o do manto que o envolvia revelando as
novas letras que apareciam sobre ele:

"Este é o assento de Galahad, o poderoso príncipe".

Ante esta constatação, o jovem calmamente sentou em seu lugar observado por uma multidão perplexa por
contemplar um cavaleiro sentar naquele lugar impunemente. A semelhança com Sir Lancelot foi notada por muitos,
mas apenas a rainha Guinevere ousou dizer que Lancelot era seu pai. Sir Lancelot encheu-se de orgulho ao
constatar que sagrara o próprio filho cavaleiro. Terminada a refeição, Arthur acompanhou Galahad até a margem
do rio e lhe apontou a espada na pedra de mármore, completando que jamais havia presenciado algo assim (com
memória curta com certeza...). Galahad sorriu e fez notar ao rei que ela estava destinada a ele, tanto que viera
sem uma espada em sua cintura. Com um simples gesto, puxou-a suavemente aquela que havia pertencido ao
cavaleiro Sir Balin, fechando mais um ciclo de infortúnios.

Desta forma, Galahad foi apresentado à Távola Redonda; um torneio de lanças foi realizado para festejar o
momento. Galahad declinou da oferta de um escudo, apesar dos insistentes esforços dos demais. Nem mesmo
essa desvantagem o impediu de derrotar a todos, um a um, exceto Sir Lancelot e Sir Percival, com quem não
lutou. Mais tarde durante a ceia, um estranho fato se sucedeu. Um trovão sacudiu o castelo, seguido de uma luz
intensa. Então, todos deram conta que havia uma presença divina no ar, mas ninguém emitia som algum. De
repente, o Santo Graal surgiu no meio do salão e circulou perante o olhar maravilhado de todos os presentes,
envolto na mais pura seda branca. Cada cavaleiro foi induzido a imaginar que havia ceado seu alimento e bebida
favorita. Então, tão repentinamente como havia surgido, o vaso sagrado sumiu e os cavaleiros recobraram a fala.
Naquele instante, tanto Arthur como todos os cavaleiros sentiram um imenso vazio em seus corações; pois tendo
contemplado a glória do santo Graal, como poderiam descansar enquanto não realizassem a maior de todas as
aventuras? Todos juraram não descansar até que um deles fosse bem sucedido.

E assim. Arthur teve por um dia, a maior ordem de cavaleiros vista no mundo.

Galahad, entretanto saiu à busca do Graal, como todos os demais. Embora sua missão de nascimento fosse o seu
objetivo maior, durante sua jornada até o vaso sagrado provou e consolidou seu destino de maneira heróica, como
nenhum outro cavaleiro jamais o fizera. Além do ciclo de Lancelot, Sir Galahad com a conquista do Graal, que
havia sido conduzido até a Bretanha por José de Arimatéia, que por linhagem era seu parente. O segundo curou
os ferimentos do rei Pellan, que nunca cicatrizaram desde que Sir Balin o atingira com uma lança – o mesmo Balin
que havia se apossado da espada que deveria ser sua. Há de ser mencionado também o escudo com o brasão de
José de Arimatéia, que também só poderia ser empunhado pelo melhor cavaleiro do mundo. E, embora suas
façanhas fossem todas grandiosas, eram diferentes comparadas às dos outros cavaleiros. Embora todos fossem
compelidos a tentar, seus resultados eram infrutíferos, pois Galahad nascera para aquelas aventuras, e somente
ele haveria de triunfar. Esta parte da lenda de Arthur dedica-se a uma bela lição de vida: a busca por um ideal
particular, que contagia os demais a sua volta a fazerem o mesmo. Todos possuímos uma missão pessoal, e nada
que outra pessoa faça a favor ou contra mudará esta condição. Apenas você tem o direito de fazê-lo, apenas você
tem a capacidade para fazê-lo. Os cavaleiros – muitos deles jamais retornaram – não compreenderam que uma
missão pessoal deve ter apenas um vencedor, escolhido a dedo. Não por sua glória ou por seus feitos, mas por
direito. E, principalmente, jamais confundir uma missão alheia como sendo sua. Cada um tem o seu próprio
triunfo, seu sucesso esta à sua espera.
Embora a lenda do santo Graal seja de extrema beleza, pois ela marca a busca interior, a purificação do ser para
uma transformação em algo mais profundo – e fascinante a todos os cavaleiros, apenas Galahad estaria
capacitado, não por ser o melhor cavaleiro, mas por ser esta a sua missão. Quando de posse do Graal, Sir
Galahad deixou o seu corpo físico, deixando apenas Sir Bors como única testemunha de seu feito – pois o outro
presente Sir Percival, viveu algum tempo após como um monge, morrendo cerca de um ano depois. Sir Bors
retornou a Camelot onde muitos julgavam-no morto depois de tantos anos afastado. Arthur, saudoso dos tempos
de glória, ordenou que a história da busca do Santo Graal fosse escrita e guardada mais tarde numa biblioteca de
Salisbury. Sir Bors também transmitiu a última mensagem de Galahad a seu pai, Sir Lancelot. Para que lembrasse
da fragilidade da vida humana; Lancelot entendeu prontamente, e chorou de forma copiosa.

E, ao contemplar a Távola Redonda com seus lugares vazios, Lancelot sabia que a glória de Logres estava
próxima a terminar...

O Santo Graal
Chegou a hora...
Porque te angustias tanto,
Se estou sempre perto de ti?
Por acaso esqueceste de mim?
Onde está o teu sorriso?
Onde se escondeu a tua determinação
Por acaso sois menos valoroso
Que outrora?
Claro que não!

Olha ao vento e vê teus sonhos a te fitar,


Passeando sem rumo.
Prontos, pacientes,
Aguardando que você os chame mais uma vez.

Tal qual Arthur,


Você é um predestinado
A vencer, e vencer...

"Onde está a magia?", tu me perguntas.


Por acaso esquecestes de tua própria natureza?

És filho do pai de toda a criação,


Herança melhor não poderia receber...
Foste escolhido entre milhões
Para receber esta missão,
e ninguém mais a terá, exceto tu...

Contempla teu próprio destino, e alegra-te...


Pois hoje brilho em você uma vez mais.
Hoje, teu espírito se agita,
Ergue tua espada e a usa para defender o que acredita
E mais ama...

Observa teus princípios, seja humilde,


Mas jamais inferior!
Pois tua missão te garante o sucesso
Cabe apenas a ti decidir por ele...
Cria tua oportunidade,
Não a deixes escapar.
Trabalha, persevera que tua glória há de chegar.
Auxilia, jamais dê as costas,
Seja ao inimigo, seja a um amigo.
Pois hoje tu renasces,
Bebe de meu cálice uma vez mais,
Renascendo para a tua glória.
E quem a ti contemplar,
Notará em teus olhos
Que estou de volta,
A personificação da tua
Maior procura, e a dele,
E a de todos.

Neste momento,
Estende tua mão,
E compartilha de nossa essência com ele.
É que,
Embora sejamos feitos um para o outro,
Podemos despertar os adormecidos
E dar-lhes nova razão para sorrir,
E acreditar.

Eu sou o teu Graal,


Sou tua própria essência.
Sou aquele que acompanhará até o
Último de teus dias,
Ainda que insistas em me esquecer
Pois sem mim tua vida é uma espada
Sem corte,
Um escudo estilhaçado
E uma armadura sem utilidade.
Sou teu melhor aliado,
Tua melhor arma...
Tua melhor defesa.

Sou tua esperança de um bom combate,


Tua certeza de vitória.
Sou tua crença...
...E sou teu sonho
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BIBLIOGRAFIA:
LIMA, Mauro. O Rei Arthur e a Távola Redonda – Lendas de Sucesso. Ed. Escala. São Paulo – SP.

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