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ÉTICA PROFISSIONAL – 2º SEMESTRE/2019

ÉTICA MORAL E ÉTICA PROFISSIONAL – ÉTICA E SUBJETIVAÇÃO.......................2


A REGULAMENTAÇÃO DA PSICOLOGIA NO BRASIL ............................................... 5
A Psicologia e as Instituições Médicas ............................................................... 7
A Psicologia em Instituições Educacionais ......................................................... 8
A Psicologia e a organização do trabalho......................................................... 10
A Regulamentação da Psicologia e do Conselho Federal ................................ 11
INTRODUÇÃO AO CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO PSICOLOGO.............. 14
Concepção Aristotélica e o Código de Ética do Psicólogo (2005)..................... 16
Concepção Sócio Histórica e o Código de Ética do Psicólogo ......................... 18
OS PRINCÍPIOS INERENTES AOS ARTIGOS DO CÓDIGO DE ÉTICA .................... 19
I) O Código de Ética em diálogo com a Cultura de Direitos Humanos ................. 19
II) Os Princípios Éticos inerentes aos artigos do Código de Ética do Psicólogo ... 21
OS PRINCÍPIOS BIOÉTICOS E A PSICOLOGIA ....................................................... 26
O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E A PSICOLOGIA .................... 31
A DIMENSÃO ÉTICA EM AVALIAÇÃO PSICOLOGICA ............................................. 38
AS NOVAS INTERFACES DA PSICOLOGIA BRASILEIRA........................................ 43
TEMAS EMERGENTES DA PSICOLOGIA BRASILEIRA ........................................... 46
CONTEÚDO NP2 ....................................................................................................... 51
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ÉTICA PROFISSIONAL – 2º SEMESTRE/2019


 ÉTICA MORAL E ÉTICA PROFISSIONAL – ÉTICA E SUBJETIVAÇÃO
Ética – (ethos) - grego -“modo de ser”, ou “caráter” Forma de vida adquirida ou conquistada
pelo homem.

Moral – (mor, mores) – latim “costume” ou “costumes”. Conjunto de regras ou normas


adquiridas por hábito

 DEFINIÇÃO

Ética - ciência especulativa, que tem por objeto o estudo filosófico da ação e da
conduta humana, procurando a justificativa racional dos juízos de valor sobre a moralidade.

Moral - sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são


regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de
tal maneira que estas normas dotadas de um caráter histórico e social sejam acatadas livres
e conscientemente, por uma convicção íntima e não de uma maneira mecânica, externa e
impessoal.

 RELAÇÃO

A relação entre Ética e Moral está no comportamento humano com a diferença que
a Ética é uma ciência especulativa, que estuda o comportamento moral dos homens,
enquanto que a Moral é o próprio comportamento do homem junto com seus valores,
normas e padrões.

Objeto de estudo: Ética é o comportamento moral

Ligada aos valores: universais, consensuais e pessoais

 ESSÊNCIA DA MORAL CAP. III (VAZQUEZ, 2006)

O normativo e o fatual

- A moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o


comportamento individual e social dos homens (p.63).

- Encontramos na moral dois planos: o normativo: constituído pelas normas ou


regras de ação e pelos imperativos que enunciam algo que deve ser. E o fatual: que é o
plano dos fatos morais, constituído por certos atos humanos que se realizam efetivamente
(p.63).

- Os atos adquirem um significado moral: são positivos ou moralmente valiosos


quando estão de acordo com a norma e negativos quando violam ou não cumprem as
normas. Portanto, certos atos são incluídos na esfera moral por cumprirem ou não uma
determinada norma (p.64).
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- O normativo não existe independentemente do fatual, mas aponta para um


comportamento efetivo, pois, toda norma postula um tipo de comportamento que considera
devido, exigindo que esse comportamento passe a fazer parte do mundo dos fatos morais,
isto é, do comportamento efetivo real dos homens (p.64).

- O fato de uma norma não ser cumprida não invalida a exigência de que ela seja
posta em prática. Esta exigência e a validade da norma não são afetadas pelo que acontece
no mundo dos fatos (p.65).

- O normativo e o fatual possuem uma relação mútua: o normativo exige ser realizado
e orienta-se no sentido do fatual; o realizado (o fatual) só ganha significado moral na medida
em que pode ser referido positiva ou negativamente a uma norma (p.65).

Moral e moralidade

- A moral efetiva compreende as normas ou regras de ação e os fatos que possuem


relação com ela (p.65).

- Esta distinção entre o plano normativo (ou ideal) e o fatual (real ou prático) leva
alguns autores a propor dois termos para designar cada plano: moral e moralidade. A moral
designaria o conjunto dos princípios, normas, imperativos ou idéias morais de uma época
ou sociedade determinadas. A moralidade seria um componente efetivo das relações
humanas concretas que adquirem um significado moral em relação à moral vigente (p.66).

- A moral estaria no plano ideal e a moralidade no plano real (p.66).

- A moralidade é a moral em ação, a moral prática e praticada. Por isso, cremos que
é melhor empregar um termo só: moral, indicando os dois planos, o normativo e o efetivo.
Portanto, na moral se conjugam o normativo e o fatual (p.66).

Caráter social da moral

- A moral possui, em sua essência, uma qualidade social. Manifesta-se somente na


sociedade, respondendo às suas necessidades e cumprindo uma função determinada. Uma
mudança radical da estrutura social provoca uma mudança fundamental de moral (p. 67).

- A moral possui um caráter social (p.67).

- Cada indivíduo, comportando-se moralmente, se sujeita a determinados princípios,


valores ou normas morais, sendo que o indivíduo não pode inventar os princípios ou normas
nem modificá-los por exigência pessoal. O normativo é algo estabelecido e aceito por
determinado meio social. Na sujeição do indivíduo a normas estabelecidas pela comunidade
se manifesta claramente o caráter social da moral (p.67).

- O comportamento moral é tanto comportamento de indivíduos quanto de grupos


sociais humanos. Mesmo quando se trata da conduta de um indivíduo, a conduta tem
conseqüências de uma ou outra maneira para os demais, sendo objeto de sua aprovação
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ou reprovação. Mas, os atos individuais que não tem conseqüência alguma para os demais
indivíduos não podem ser objeto de uma qualificação moral (p.68).

- As idéias, normas e relações sociais nascem e se desenvolvem em


correspondência com uma necessidade social. A função social da moral consiste na
regulação das relações entre os homens visando manter e garantir uma determinada ordem
social, ou seja, regular as ações dos indivíduos nas suas ações mútuas, ou as do indivíduo
com a comunidade, visando preservar a sociedade no seu conjunto e a integridade de um
grupo social (p.69).

- O direito garante o cumprimento do estatuto social em vigor através da aceitação


voluntária ou involuntária da ordem social juridicamente formulada, ou seja, o direito garante
a aceitação externa da ordem social. A moral tende a fazer com que os indivíduos
harmonizem voluntariamente, de maneira consciente e livre, seus interesses pessoais com
os interesses coletivos (p.69).

- Em resumo, a moral possui um caráter social pois os indivíduos se sujeitam a


princípios, normas ou valores socialmente estabelecidos; regula somente atos e relações
que acarretam conseqüências para outros e induz os indivíduos a aceitar livre e
conscientemente determinados princípios, valores ou interesses (p.70).

O individual e o coletivo na moral

- O indivíduo pode agir moralmente somente em sociedade (p.71).

- Uma parte do comportamento moral manifesta-se na forma de hábitos e costumes.


O costume apresenta um caráter moral em razão de sua intuição normativa (p.71).

- A moral implica sempre uma consciência individual que faz suas ou interioriza as
regras de ação que se lhe apresentam com um caráter normativo, ainda que se trate de
regras estabelecidas pelo costume (p.75).

Estrutura do ato moral

- O ato moral se apresenta como uma totalidade de elementos: motivos, intenção ou


fim, decisão pessoal, emprego de meios adequados, resultados e conseqüências (p.76).

- O ato moral não pode ser reduzido a um de seus elementos, mas está em todos
eles, na sua unidade e nas suas mútuas relações (p.80).

Singularidade do ato moral

- O ato moral assume um significado moral em relação a uma norma (p.81).

- O ato moral, com o auxilio da norma, se apresenta como a solução de um caso


determinado, singular. A norma, que apresenta um caráter universal, se singulariza no ato
real (p.81-2).
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- A moral é um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são


regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de
tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre
e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou
impessoal (p.84).

 RESPONSABILIDADE MORAL - CAP. V (VAZQUEZ, 2006)

Capacidade de responder por alguém ou alguma coisa. Existem duas condições


para que possamos imputar a responsabilidade moral:

1. Que o indivíduo seja consciente. Tenha consciência do ato e que reconheça as


circunstâncias e conseqüências dos seus atos.

2. Ignorância – se o indivíduo não sabe o que faz, então ignora o fato.

2. Liberdade de escolha

O contrário da liberdade é a: Coação – o indivíduo não tem liberdade para escolher.


A coação pode ser: interna ou externa.

- A palavra autônomo vem do grego autos – que quer dizer si mesmo – e nomos –
que quer dizer lei, regra, norma – ou seja, significa aquele que tem o poder de dar a si
mesmo a norma, a regra, a lei. Aquele que goza de autonomia e liberdade seria aquele com
capacidade plena de autodeterminação.

Todavia, se levantamos o véu do individualismo, próprio do nosso tempo,


percebemos que essa independência absoluta do sujeito em relação à sociedade é mais um
mito de nossa cultura. Se todo ser é desde a sua origem social, o pré-requisito de nossa
liberdade não pode então ser concebido, como supomos correntemente, como
independência absoluta do mundo que nos cerca, representado pela máxima: o mundo
somos nós mesmos. O pré-requisito da liberdade, segundo Stanghellini (2004), é a
capacidade de pôr entre parênteses a representação preestabelecida do mundo, ou o
conhecimento do senso comum, sem, entretanto, perder nossa histórica articulação com o
mundo comum.

 A REGULAMENTAÇÃO DA PSICOLOGIA NO BRASIL

 INTRODUÇÃO

A Psicologia foi regulamentada como profissão no Brasil no ano de 1962, decorrente


da Lei nº 4119, de 27 de agosto de 1962. Em dezembro do mesmo ano, aprovou-se o
parecer nº 403/62, do relator Conselheiro Valnir Chagas, que, pela primeira vez, fixava
oficialmente um currículo mínimo de Psicologia, objetivando estabelecer os direitos do
exercício profissional. Somente em 1971 é que se criou o Conselho Federal de Psicologia,
órgão encarregado de zelar pela organização do exercício profissional e que congregava
todos os psicólogos brasileiros.
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A Psicologia conquistou seu espaço autônomo como área de conhecimento e campo


de práticas em consequência da produção de ideias e práticas psicológicas no interior de
outras áreas do saber. Foi chamada a contribuir para a solução de problemas relacionados
à área da Saúde, à Educação e ao mundo do trabalho e das organizações.

Pereira & Pereira Neto (2003, p 20) definem esse período como o de
profissionalização da Psicologia, de 1890 a 1975. "Abrange desde a gênese da
institucionalização da prática psicológica até a regulamentação da profissão e a criação dos
seus dispositivos formais." Os autores assinalam como marcos desse momento: a Reforma
de Benjamin Constant no campo educacional (1890), a inauguração dos laboratórios de
psicologia junto ao campo educacional e médico (1906), e a criação do código de ética
(1975).

Pessotti (1998), por sua vez, elaborou outro critério baseado na presença ou não de
instituições com vínculos com a área psicológica. Elegeu três grandes marcos; foram eles:
1833, quando se criou as Faculdades de Medicina no Rio de Janeiro e na Bahia; 1934,
quando se constituiu um curso de Psicologia na Universidade de São Paulo; e 1962, quando
a Psicologia foi regulamentada.

Optou-se, nesse texto base, em assumir as diretrizes de Antunes (2004, 2006), que
são ligadas ao referencial histórico, e, na medida do possível, iluminar os marcos apontados
por esses outros autores de renome para os estudos historiográficos da Psicologia brasileira.

Antunes (2006) indica que, no Brasil, a profissionalização e autonomização da


Psicologia inicia-se com a parceira da psicologia com outros saberes ainda no século XIX,
que apresentava um contexto sócio-histórico e político singular, no qual se tinha uma
formação social dependente e atrasada, mas, ao mesmo tempo, uma busca pela
modernidade, pelo caminho da industrialização. Diante desse cenário, o Brasil adotou o
modelo republicano, conciliado com a ideologia liberal e uma economia de base agrário-
comercial e exportadora. Também acontecia uma crescente urbanização e a definição da
região Sudeste como polo sócio cultural do país. Essa configuração sócio política influenciou
o meio acadêmico intelectual, com a crença na liberdade e a supremacia do indivíduo diante
a sociedade.

Bernardes (2007) afirma que a psicologia construiu-se nas relações que mantinha
com esse cenário, no qual os modelos de produção e consumo exigiam a padronização da
igualdade, resultado do auge da produção industrial, que requeria alto padrão de
produtividade. Diante desse quadro, a Psicologia, em sua nascente, foi marcada pelas
estratégias de controle de variedade e produtividade, transformando-se em um saber de
forte viés adaptativo.

Essa busca por padronização e adaptabilidade se deu em três grandes interfaces do


saber psicológico pré-científico. Foram elas: a Psicologia e as Instituições Médicas; a
Psicologia e as Instituições Educacionais; a Psicologia e a organização do trabalho.
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 A PSICOLOGIA E AS INSTITUIÇÕES MÉDICAS

Desde o século XIX, a Psicologia, enquanto conjunto de ideias articuladas, esteve


intimamente relacionada com a prática médica e psiquiátrica, em instituições asilares e no
âmbito juda Medicina Legal. No caso, as Faculdades de Medicina na Bahia e no Rio de
Janeiro e os hospícios foram as principais fontes de produção de ideias psicológicas.

Desde 1890, já existiam teses publicadas por médicos com teor psicológico, tais
como as obras de José Tapajós, Psicofisiologia da percepção e das
representações (1890), Das emoções de Veríssimo Dias de Castro (1890), A Memória e a
personalidade de Seabra em 1894, a famosa tese de Henrique Roxo, Duração dos atos
psíquicos elementares (1990), entre outras.

A prática médica legal, por sua vez, possuía uma atuação higienicista, ao buscar
erradicar ou minimizar as doenças infecto-contagiosas muito presentes nas cidades em
desenvolvimento. Segundo Costa (1983), essas atuações dispersaram-se nas cidades, por
meio de políticas públicas de saneamento básico e atingiu a educação moral e física das
famílias, que passaram a se responsabilizar também pelos cuidados com a higiene pública
e privada.

Antunes (2004) aponta que os pressupostos higienicistas articulavam-se com os


princípios da eugenia e da limpeza étnica, intimamente ligados com a cultura racista
brasileira vigente, conforme podemos vislumbrar:

Os ideais higienicistas geralmente se articulavam aos princípios da


eugenia, intimamente ligados ao pensamento racista brasileiro. Baseavam-se
numa concepção que afirmava a existência de uma hierarquia racial (sendo a
raça ariana considerada superior e a raça negra a mais inferior de todas), do
que decorria a teoria da degenerescência, que considerava a propensão à
degenerescência física e mental das ditas raças inferiores. Por essa via, a
reinvindicação de adoção de medidas higienicistas, cuja finalidade não era
senão o embranquecimento da raça brasileira. (ANTUNES,2004, p. 119).

Segundo Antunes (2006), as teorias da degenerescência e da eugenia


extrapolavam os muros dos asilos e hospícios, propondo ações de disciplinarização da
sociedade e dos seus corpos familiares. No Brasil, a junção dessas correntes originou uma
experiência cruel de exclusão do louco e a preocupação com práticas profiláticas diante da
loucura. Nesse projeto preventivo, o Estado devia se preocupar com a pobreza, a
marginalidade, o crime, pois todos esses quadros possuíam uma familiaridade muito grande
com a loucura, porque levavam os sujeitos à desordem, a não adaptação aos padrões
requeridos. Podia-se afirmar que havia, ao mesmo tempo, uma visão moralizante e
racionalizante da loucura.
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Antunes (2006) ainda aponta a preocupação com a ordem urbana e com a bandeira
do progresso ligada ao ideário positivista, relacionado a práticas de exclusão daqueles que
não se adaptassem às normas estabelecidas, os denominados desordeiros. Cabia à ciência
médica e psicológica contribuírem na identificação desses sujeitos e no seu tratamento em
locais específicos, como os asilos e manicômios.

Nos hospícios, também havia a produção de conhecimento psicológico a partir das


práticas nos laboratórios criados na época. Um dos mais relevantes foi, segundo Antunes
(2004), o da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, criado em 1923, dirigido pelo
psicólogo polonês Waclaw Radecki. Tornou-se nove anos depois, o Instituto de Psicologia,
subordinado ao Ministério da Educação e da Saúde Pública. Produziu um rol de pesquisas
temáticas em psicologia sobre seleção e orientação profissional, fadiga em trabalhadores
menores de idade, seleção de aviadores, psicometria, entre outras.

Outro laboratório importante foi fundado junto à Liga Brasileira de Higiene Mental,
em 1923, no Rio de Janeiro, dirigida por Alfred Fessard, Plínio Olinto e Lemes Lopes.
Realizaram vários simpósios e seminários de Psicologia, com o intuito de divulgar as
pesquisas realizadas. Predominava o ideal eugênico, profilático e a preocupação com a
educação dos indivíduos mal adaptados. (ANTUNES, 2004)

Segundo Antunes (2006, p 51), em 1932, a " Liga propôs ao Ministério da Educação
e da Saúde Pública, a presença obrigatória de gabinetes de Psicologia, junto às Clínicas
Psiquiátricas". Além disso, promovia, todo ano, as Jornadas Brasileiras de Psicologia, para
difundir conhecimento.

Um dos projetos que mais destoaram da tendência eugênica, foi o movimento


antipsiquiátrico de Recife, com Ulysses Pernambucano e seu modelo humanista e
existencial de atendimento dos doentes mentais. Também propiciou contribuições para a
Educação e investia na formação dos funcionários: os monitores de saúde mental e
auxiliares psicólogos.

Antunes (2006) afirma, que:

A evolução do pensamento psicológico no interior da Medicina até o


século XIX preparou o terreno para que o conhecimento e a prática da
Psicologia se desenvolvessem a tal ponto que fizeram delinear-se com maior
clareza seus contornos, tendo assim contribuído para a penetração da
Psicologia Científica e sua definição como campo autônomo de conhecimento
e ação, o que veio a se concretizar nas décadas iniciais do século XX
(ANTUNES, 2006, p 61).

 A PSICOLOGIA EM INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS

Com o desenvolvimento urbano-industrial, no século XX, o pensamento republicano


aliado ao positivismo e à ideologia liberal, mostrava uma preocupação com uma educação
humanista e cientificista. Surge no Brasil, então, uma corrente educacional que reivindicava
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a ampliação do número de escolas e o combate ao analfabetismo, a partir do ideário


escolanovista.

Essa proposta de renovação e ampliação educacional chegou ao nosso país em


1882, pelas mãos de Rui Barbosa e alcançou o século XX com outras reformas importantes.
Um exemplo foi a proposta de Benjamin Constant, em 1890, que propunha maior liberdade,
laicidade e gratuidade do ensino. O escolanovismo implementou uma tendência cientificista,
introduzindo disciplinas científicas, como a Psicologia e a Lógica, no lugar da Filosofia de
cunho humanista.

Segundo Vidal (2003), o movimento da Escola Nova propôs uma renovação do


ensino, na Europa, na América e no Brasil, na primeira metade do século XX. O
escolanovismo desenvolveu-se no Brasil sob importantes impactos de transformações
econômicas, políticas e sociais, porém, com eles surgiram graves conflitos nos aspectos
políticos e sociais, resultando uma mudança significativa no ponto de vista intelectual
brasileiro.

O escolanovismo acreditava que a educação era o instrumento eficaz para a


reconstrução de uma sociedade cidadã e legitimamente democrática, considerando as
diversidades e a individualidade do sujeito, preparados psicossocialmente para refletir e
mudar a sociedade em que viviam.

Esse movimento agregou nomes importantes ao cenário educacional e psicológico,


como Antônio Carneiro Leão, Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Manoel Bonfim, entre outros.
Esse último educador merece destaque pelo seu enfrentamento dos problemas sociais e o
seu entendimento de que a educação deveria ser instrumento contra a opressão, que a
maioria do povo sofria. Afirmava, por exemplo, que o analfabetismo era uma vergonha
nacional.

A Psicologia, enquanto saber foi essencial no projeto educacional do país, no inicio


do século XX, pois serviu como pilar de sustentação científica para a consolidação do
escolanovismo, ao cuidar dos sujeitos e das suas diferenças individuais (Psicologia
Diferencial), ao estudar o processo de desenvolvimento vital, ao observar os processos de
ensino-aprendizagem e ao criar testes de inteligência e de seleção profissional.

Ainda nesse cenário, apesar de nomes emancipadores como Bonfim, existia no


campo educacional aliado ao suporte da Psicologia, a preocupação com a formação de um
país robusto, baseado no lema de um povo forte mental e fisicamente, o que mantinha vivos
os ideais eugênicos em busca da higienização das raças.

Nessa interface entre a Educação e a Psicologia, há de se destacar a criação do


Instituto de Psicologia de Ulysses Pernambucano em Recife, em 1925, com produções
significativas nas áreas de testes psicológicos de nível mental, aptidão, de cunho
pedagógico, padronização de testes coletivos, entre outros, com o intuito de formar
pesquisadores na área da Psicologia. (ANTUNES, 2006)
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Também é indicada a importância das Escolas Normais para o estabelecimento da


Psicologia Científica no Brasil, seja compondo os currículos ou construindo laboratórios de
psicologia, por volta de 1912. Destaque para a Escola Normal de São Paulo, que foi
responsável pela "divulgação das teorias psicológicas em voga na Europa e nos Estados
Unidos e, por decorrência, das técnicas delas derivadas, em especial, a psicometria".
(ANTUNES, 2006, p. 78)

Em 1925, Lourenço Filho revitalizou o laboratório de Psicologia Experimental, junto


a Escola Normal de São Paulo, que se tornou anos depois Gabinete de Psicologia e
Antropologia Pedagógica, com o italiano Ugo Pizzoli, com produções vinculadas à medida
de funções psicológicas, com destaque para estudos perceptivos.

Antunes (2006) nos revela a importância das Escolas Normais para a autonomização
da Psicologia, pois encontrou:

o mais fértil terreno para seu desenvolvimento, não somente por


serem estas campos potenciais de aplicação de conhecimentos e técnicas
derivadas da ciência psicológica, mas também por permitirem a produção de
pesquisas. (...) além de, no caso, ter sido uma das mais importantes bases
para que a Psicologia se tornasse mais tarde disciplina universitária.
(ANTUNES, 2006, p 81)

 A PSICOLOGIA E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Com a promessa do desenvolvimento urbano-industrial desde o século XIX, o Brasil


assistiu a emergência de diferentes camadas sociais, uma diversificação das atividades
produtivas e novos conflitos sociais oriundos da complexificação econômica do país.

Segundo Antunes (2006, p 87), encontra-se na década de 20, em pleno século XX,
as primeiras experiências da aplicação de Psicologia ao mundo do trabalho, confirmando-a
como um "conjunto de conhecimento e práticas capazes de dar respostas e subsidiar ações
que interviessem nos problemas sociais".

A Psicologia inseria-se nesse cenário, buscando promover ações que


maximizassem a produção industrial. Participava de um conhecimento racionalizável e
cientificista, como ocorreu com o panorama educacional. Eram práticas com finalidade de
controle social nas indústrias, onde grupos de operários começavam a se organizar contra
condições subumanas de trabalho, mantidas pelos modelos tayloristas e fordistas de
produção.

Em 1929, criou-se o Instituto de Organização Científica do Trabalho, que possuía


diferentes funções, como seleção e educação profissional, organização psicológica do modo
de produção, entre outros. Porém, não conseguiu se manter devido a crises econômicas.

Em 1930, sob a tutela de Aldo Mario de Azevedo, criou-se o Instituto Paulista de


Eficiência, que facilitou a Organização Racional do Trabalho (IDORT), que se desdobrou em
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instituições de claro cunho psicológico, como a Associação Brasileira para Prevenção de


Acidentes.

Também foram experiências igualmente importantes, as pesquisas realizadas a


partir dos processos de seleção de aviadores para a Aviação Militar, sob tutela do
Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro.

Segundo Antunes (2006, p 91), nesse contexto, a Psicologia serviu como função de
sustentáculo cientifico dos novos métodos administrativos, onde imperava a lógica racional
e científica de atuação, seja pelos testes implementados ou por processos de seleção
profissional objetivos. Nessa lógica, o individuo era compreendido como uma peça material
do processo produtivo, inclusive pela própria Psicologia, que o nominava como parte dos
Recursos Humanos.

 A REGULAMENTAÇÃO DA PSICOLOGIA E DO CONSELHO FEDERAL

A Psicologia foi regulamentada como profissão, no Brasil, no ano de 1962,


decorrente da Lei nº 4119, de 27 de agosto de 1962. Porém, somente em 1972, é que se
criou o Conselho Federal de Psicologia, órgão encarregado de zelar pela organização do
exercício profissional e que congregava todos os psicólogos brasileiros.

Segundo Soares (2010, p.20), em 1946, foi aprovado um decreto-lei que "ampliava
o regime didático da Filosofia, referindo-se à possibilidade de ter diploma de licenciado" em
Psicologia, quem por exemplo, fosse aprovado nos três primeiros anos do curso de Filosofia,
bem em cursos de Biologia, Fisiologia, Antropologia, Estatística e em cursos de
especialização de Psicologia.

Em 1962, o Presidente da República João Goulart, promulgou a 27 de agosto, a Lei


nº 4.119 dispondo sobre os Cursos de Formação de Psicólogos, com importantes inovações,
tais como permitir, aos portadores de diplomas ou certificados de especialista em Psicologia,
Psicologia Educacional, Psicologia Clínica e Psicologia Aplicada ao Trabalho, o exercício do
ofício de psicólogo, como também permitir aos que já venham exercendo, na data da
publicação da Lei, ou tenham exercido por mais de cinco anos, atividades profissionais de
Psicologia Aplicada, o registro de Psicólogo. (SOARES,2010)

Romaro (2006, p 28) afirma que, a partir do Decreto 53464, em 1964, regulamenta-
se definitivamente a Lei 4119 e se estruturam os cursos de psicologia, junto às Faculdades
de Filosofia, em cursos de bacharelado, licenciatura e psicologia. A lei estabelece como
"funções privativas do psicólogo brasileiro o diagnóstico psicológico, a orientação e seleção
pessoal, a orientação psicopedagógica, a solução de problemas de ajustamento, a
colaboração em assuntos psicológicos ligados a outras ciências".

Esse marco foi essencial para a profissionalização da Psicologia, pois como Pereira
& Pereira Neto (2003) elucidam:

Para que uma atividade seja reconhecida como tal, é necessário que
reúna algumas características. Por um lado, a profissão deve ter um
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conhecimento delimitado, complexo e institucionalizado. Por outro, ela tem que


organizar seus interesses em associações profissionais que padronizem a
conduta dos pares, realizando uma auto-regulação. O controle interno da
profissão é feito através da fiscalização das condutas profissionais com
dispositivos formais, entre os quais se destacam os códigos de ética.
(PEREIRA&PEREIRA NETO, 2003, p 20)

Bock (2001), ao discutir a regulamentação da Psicologia em 1962, através da Lei nº


4119 e o Catálogo Brasileiro de Ocupações do mesmo ano, ressalta o caráter disciplinador
e moralizante das práticas psicológicas, como podemos vislumbrar:

A psicologia e a profissão lá estão limitadas a aspectos


intervencionistas orientados para o ajustamento e a adaptação do individuo.
Fala-se, então, de desenvolvimento e de condições para sua facilitação, como
se o desenvolvimento tivesse percurso determinado. (....) A finalidade do
trabalho é ajustamento, adaptação, auto realização, desenvolvimento,
convivência e desempenho, sempre supondo um estado de normalidade. O
trabalho do psicólogo está muito relacionado a esses objetivos, seja ele em
escolas, empresas ou clínicas. (BOCK, 2001, p. 26).

Apenas em 1971 cria-se o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de


Psicologia, com o intuito de regulamentar, orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da
profissão, sendo elaborando o primeiro Código de Ética apenas em 1975, pela resolução
CFP 008/75, por uma Comissão de Ética.

Segundo Soares (2010, p. 28), o primeiro Conselho Federal enfrentou uma tarefa
árdua, pois precisou se empenhar em elaborar leis sobre "as quais viessem a assentar,
sólidas e definitivas, a tradição e a unidade da classe, recentemente reconhecida, ao lado
de uma consciência de corpo, sob a égide de uma só Autarquia".

Nesse processo constitutivo, o Conselho Federal de Psicologia no Brasil se definia


como uma autarquia federal, ou seja, como instituição com autonomia de gestão didático-
científica, administrativa e financeira. Porém, devido ao contexto político e histórico de teor
ditatorial, nas décadas de 1960 e de 1970, o Conselho permaneceu como extensão dos
poderes e decisões do Estado, sem independência jurídica ou social. Somente a partir da
redemocratização do país, em meados dos anos de 1980, o Conselho assumiu sua vocação
autárquica, mostrando-se com maior autonomia em suas agendas políticas e profissionais.
Pode-se comprovar esse fato, pelas informações que constam atualmente no site do
Conselho Federal:

O Conselho Federal de Psicologia – CFP é uma autarquia de direito


público, com autonomia administrativa e financeira, cujos objetivos, além de
regulamentar, orientar e fiscalizar o exercício profissional, como previsto na Lei
5766/1971, regulamentada pelo Decreto 79.822, de 17 de junho de 1977, deve
promover espaços de discussão sobre os grandes temas da Psicologia que
levem à qualificação dos serviços profissionais prestados pela categoria à
sociedade. (CFP, disponível < http://site.cfp.org.br/cfp/conheca-o-cfp/>,
acesso 2013)
13

Em 1976, elegeu-se o segundo Conselho Federal, focado em fortalecer a imagem


profissional do psicólogo brasileiro, assim como também oficializar o exercício de
fiscalização em relação ao exercício profissional, sob uma Comissão de Fiscalização, fixada
pela Resolução nº 3, de 27 de fevereiro de 1977.

Desde então, o Conselho Federal de Psicologia passou por diferentes momentos


dentro do contexto sociopolítico brasileiro. Entretanto, foi com a democratização e com a
Constituição Cidadã, em 1988, que esse órgão passou a seguir uma vocação mais crítico-
social, criando inúmeras Comissões pertinentes e comprometidas com a realidade brasileira.
Atualmente, encontramos as seguintes comissões permanentes:

§ Comissão de Direitos Humanos, criada pela Resolução CFP nº 11/1998 tem


como atribuições: incentivar a reflexão sobre os direitos humanos inerentes à formação,
à prática profissional e à pesquisa em Psicologia; intervir em todas as situações em que
existam violações dos direitos humanos que produzam sofrimento mental; participar de
todas as iniciativas que preservem os direitos humanos na sociedade brasileira; apoiar o
movimento internacional dos direitos humanos; e lutar contra todas as formas de
exclusão que violem os direitos humanos e provoquem qualquer tipo de sofrimento
mental.

§ Comissão de Análise sobre Título Especialistas, criada pela Resolução CFP


nº 014/200, revogada pela Resolução CFP nº 013/2007: criada para fins de concessão de
credenciamento de cursos de especialista e análise de recursos sobre títulos de
especialistas. Essa comissão também tem a responsabilidade de subsidiar o plenário do
CFP para as diversas demandas relacionadas ao tema “Especialidades em Psicologia”.

§ Comissão Nacional de Credenciamento de sites, criada pela Resolução CFP


nº 003/2000, revogada pela Resolução CFP nº 012/2005: além de realizar avaliação dos
sites que oferecem serviços de Psicologia, apresenta sugestões para o aprimoramento
dos procedimentos e critérios envolvidos nesta tarefa e subsidia o Sistema Conselhos de
Psicologia a respeito da matéria.

§ Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica, criada pela Resolução CFP


nº 025/2001, revogada pela Resolução CFP nº 002/2003: integrada por psicólogos
convidados de reconhecido saber em testes psicológicos, tem como objetivo analisar e
emitir parecer sobre os testes psicológicos encaminhados ao CFP, com base nos
parâmetros definidos nesta Resolução, bem como apresentar sugestões para o
aprimoramento dos procedimentos e critérios envolvidos nessa tarefa, subsidiando as
decisões do Plenário a respeito da matéria.

(CFP, disponível < http://site.cfp.org.br/cfp/conheca-o-cfp/>, acesso 2013)

Atualmente, no século XXI, segundo Pereira & Pereira Neto (2003), enfrentamos um
período de profissionalização mais madura, porém a Psicologia sofre com as alterações e
crises sócio econômicas, causando uma maior proliferação de faculdades de psicologia, a
14

queda na qualidade da formação e, ao mesmo tempo, uma degradação do valor do trabalho


do psicólogo no mercado de trabalho. Há novos espaços de atuação profissional que surgem
devido, inclusive, a uma crise mercadológica e epistêmica no cenário clínico. Surgem novos
dilemas éticos situados nos fenômenos intersubjetivos da contemporaneidade, desafiando
a categoria profissional a se rever continua e criticamente. Esse é o processo de
profissionalização aberto e ainda por ser feito, na prática cotidiana de uma profissão
relativamente nova em nosso país.

 INTRODUÇÃO AO CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO


PSICOLOGO
 INTRODUÇÃO E BIBLIOGRAFIAS

Toda profissão ao se definir como um conjunto de práticas e teorias que buscam


atender as necessidades psicossociais de uma população, controlada por padrões técnicos
e éticos, organiza-se e regulamenta-se a partir de um documento deontológico, denominado
comumente de Código de Ética. Com a regulamentação da Psicologia em 1962, fez-se
necessário construir um Código de normas para o reconhecimento social da profissão em
âmbito nacional.

O novo Código de Ética do Psicólogo foi proposto em 2005, como resultado de um


percurso histórico da Psicologia frente às novas demandas sociais e também como carta
que dialoga ativamente com a Cultura de Direitos Humanos, instituída a partir da
Constituição Federal de 1988.

Esse documento promulgado em 27 de agosto de 2005, é o quarto Código de Ética


do Psicólogo no Brasil. Ele veio responder, principalmente, ao contexto organizacional e
institucional, oriundo de um pedido social para as entidades representativas, os Conselhos
Regionais de Psicologia. Portanto, esse é um Código que veio atender à evolução do
contexto institucional do Brasil, com a crescente democratização e industrialização.

Em 1967, o primeiro Código de Ética do Psicólogo foi aprovado pela Associação


Brasileira de Psicólogos, presidida por Arrigo Angelini, possuía cinco princípios
fundamentais e 40 artigos. Em 1975, por sua vez, este foi modificado e reorganizado como
oficialmente o primeiro Código de Ética, agora promulgado por um Conselho Federal de
Psicologia. (Romaro, 2006)

Em 1979, aprova-se o segundo Código de Ética da profissão, em tempos de ditadura


militar no Brasil. Esse documento possuía, segundo Romaro (2006), cinco princípios
fundamentais e 50 artigos, com grifos sobre o trabalho do psicólogo em equipes
multiprofissionais.

Em 1987, aprova-se o terceiro Código de Ética Profissional da Psicologia, mais


denso e com grande quantidade de artigos e alíneas, refletindo, segundo Romaro (2006),
as dificuldades enfrentadas na confecção desse documento em um momento de transição
15

da ditadura para a redemocratização do país. Os pontos salientados foram o respeito pelo


outro e sua integridade, que faz alusão aos Direitos Humanos, e também à importância da
função social do psicólogo por meio de uma análise crítica da realidade.

Depois de 40 anos, a classe profissional se viu mobilizada a rever esse documento,


num contexto sócio político mais amadurecido e com novas demandas psicossociais,
principalmente no cenário institucional, no qual os psicólogos brasileiros intervinham e
encontravam dilemas éticos, complexos e pouco contemplados pelo Conselho Federal de
Psicologia.

A partir desse novo cenário e dos novos fazeres, a Psicologia Brasileira foi chamada
a participar de um processo de reflexão e construção de novas diretrizes para as ações
profissionais da Psicologia. Esse processo se iniciou em 2001, quando os psicólogos foram
convocados a confeccionar um novo código, superando o anterior que havia sido feito em
1987. O documento anterior tinha marcas direcionadas predominantemente ao campo
clínico, e não dialogava com as novas configurações psicossociais e com leis mais
modernas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990).

Os Conselhos Regionais de Psicologia em território nacional foram mobilizados a


chamar os seus participantes a organizarem Fóruns Regionais de Ética, formulando teses
que indicariam quais mudanças seriam realizadas em um novo documento da categoria
profissional.

O Código retrata a imagem da nossa prática profissional, que muitas vezes


incomoda a classe profissional, pelo seu viés ainda elitista e curativo, resultado da
identidade clássica do psicólogo clínico e do modelo biomédico de atendimento. A partir
disso, os psicólogos brasileiros buscaram uma prática mais refletida, um retrato mais fiel do
que fazem de fato ou do que querem fazer na Psicologia. Por isso, o novo Código de Ética
do Psicólogo é um projeto profissional coletivo, que desenha uma possível nova identidade
desse sujeito que trabalha e faz psicologia no Brasil.

O novo código foi pensado dentro do movimento da história da Psicologia, na sua


prática com a sociedade brasileira. Desse modo ele expõe princípios que: representa essa
história; valoriza o sujeito na perspectiva social; respeita as diversidades humanas na trama
sócio cultural; reconhece a diversidade interna da própria Psicologia em suas diferentes
teorias e fazeres; garante os direitos do indivíduo e apresenta uma perspectiva de promoção
de saúde.

Esse novo documento modificou sua forma, apresentando metade dos artigos, em
contraponto ao antigo código com 50 artigos. É uma mudança formal, mas primordialmente
de sentido. Buscou-se um código que permite uma maior reflexão do sujeito, enfocando
amplos princípios norteadores e que não dita somente regras fechadas. Com isso, temos
um documento voltado para os direitos do psicólogo.
16

As concepções filosóficas referentes à concepção de homem e de mundo presentes


no Código de Ética, podem ser reconhecidas em dois eixos:

a) Aristotélico – ressalta a concepção de homem como um animal político e que tem


sua existência permeada de sentido no coletivo.

b) Sócio histórico- destaca a constituição do homem a partir da condição humana


e da relação com a sociedade e a cultura em que está inserido.

 CONCEPÇÃO ARISTOTÉLICA E O CÓDIGO DE ÉTICA DO PSICÓLOGO (2005)

A antropologia aristotélica continua sendo, até hoje, um dos fundamentos da concepção ocidental
do homem. Os problemas levantados por Aristóteles em torno da pergunta sobre o que é o homem e as
categorias com que tentou resolvê-los, embora tivessem como alvo principal o homem helênico no contexto
da Polis, tornaram-se o fundo conceptual permanente da filosofia moderna, e nada indica que sua
fecundidade heurística tende a esgotar-se. (LIMA VAZ, 2004, p.40)

Aristóteles desenvolveu em sua obra De Anima, um repertório filosófico significativo,


referente à concepção antropológica, ou seja, sobre sua visão da constituição humana.
Definiu-a primeiramente demarcada pela estrutura biopsíquica, na qual a psyqué é o
conceito fundamental, significando um princípio vital que é o ato ou a perfeição de todo ser
vivo e ao qual compete a capacidade de mover-se a si mesmo (autokinêton). A gênese
dapsyqué está na dimensão da physis (natureza), caracterizando o homem como um ser
vivo que possui psyché (como forma racional) e soma (corpo).

Para Aristóteles, o homem é definido como zoon logikón. Ele se distingue de todos
os outros seres da natureza em virtudes do predicado da racionalidade: “ele é um animal
racional que fala e discorre, enquanto ser dotado de logos, o homem transcende de alguma
maneira a natureza e não pode ser considerado simplesmente um ser natural” (LIMA VAZ,
2004, p. 37).

Everson (2007, pág 168) afirma que a psicologia aristotélica não se interessou por
um enfoque mental ou o entendimento da diferença entre corpo e mente, mas sim por uma
psicologia da vida, especialmente na distinção entre vida e morte: “What determines the
scope of his psychology is not the recognition of a distinction to be drawn between the mental
and the physical, but rather that between the living and the dead. “

Uma das maiores contribuições de Aristóteles para a Psicologia e a visão de homem


presente, na maioria dos Códigos de Ética profissionais do Ocidente, se encontra no livro I
da Política, no qual ele afirma que o homem é um animal político (Zoôn politikón) por
natureza. Afirma que o indivíduo, não é auto-suficiente e necessita sempre do Outro nas
relações de sociabilidade.

Também no livro I da obra Ética à Nicômaco, Aristóteles afirma que o homem possui
uma marca essencial que o diferencia dos outros, sua racionalidade. Essa capacidade o faz
criar a ética, como um modo de refletir sobre sua vida e seus hábitos cotidianos, em direção
17

a um fim, que para o pensador resumia-se na seguinte questão: O que posso e devo fazer
para ser feliz junto a minha comunidade na pólis? Porém, para Aristóteles, nem tudo que
quero, como individuo, pode ser vivido em nome dessa felicidade. Há um balizador
importante nessa história: a pólis, ou seja, a cidade e a sociedade nela vivente.
Pegoraro apud Aristóteles (2006, p 36) reafirma para seus leitores: “O homem é um animal
capaz de pensar e de fazer política”

Essa supremacia política do âmbito público sobre o privado é uma contribuição evidente para a
elaboração dos códigos deontológicos na contemporaneidade, pois evidencia uma preocupação com o
coletivo ao invés de privilegiar o individualismo, marca recorrente de tempos atuais (MAIORINO, 2005).

Essa valorização do público e do aspecto político está evidente na obra Política,


quando o pensador grego afirma que a cidade é uma comunidade política, que visa um bem
maior e abrange outras comunidades menores, como a família e os indivíduos. A cidade tem
como finalidade promover uma vida boa aos seus cidadãos, porém, ela deve ter e ser o
poder político supremo e fundamental em relação as aldeias, famílias e indivíduos que a
constituem. Aristóteles afirma ainda, que a natureza humana só pode ser realizada de modo
pleno pelo pertencimento a comunidade social e política.

No livro III, da obra Política, Aristóteles discute a importância sobre a condição de


cidadania nas cidades, definindo como cidadão aquele sujeito que participa da vida política
verdadeiramente, seja por funções deliberativas ou judiciais. Com essa lógica, o pensador
ainda complementa, que a cidade não existe apenas para se viver. É preciso viver uma vida
boa (eu zen), ou seja, realizar a excelência humana em comunidade é primordial na visão
aristotélica. Portanto, define que a cidade é uma comunidade de homens livres.

Com relação ao projeto ético, Aristóteles o define como aquele que está subordinado
ao plano político, tornando-se uma ciência prática da vida. Afirma que a ética deve estudar
o bem supremo, a partir de um conhecimento do humano, investigando em que consiste a
sua felicidade (eudamonia).

Pegoraro (2006) delimita quatro eixos em torno dos quais giram o projeto ético
aristotélico, denominado de material, são eles: (1) a ética é natural, emerge da estrutura
biológica do ser humano; (2) a ética é finalista, todas as escolhas e decisões humanas visam
alcançar um fim, produzir um bem; (3) a ética é racional, ou seja, a razão deve harmonizar
a luta entre os desejos instintivos do homem e as exigências sociais; (4) a ética é
heterônoma, ou seja, ela vem do exterior, não está dada, o homem nasce como um animal
ético que precisará escolher, pelo uso da razão que o faz livre.

Essas quatro marcas do projeto ético aristotélico são a base da materialidade do seu
entendimento da ética, pois ele a compreende como um exercício racional realizado junto
ao mundo em que se vive, e não como um dado deliberativo a priori. Dessa forma,
Aristóteles torna-se atual para as práticas profissionais na contemporaneidade, pois ele
apresenta uma visão de ética material e racional, que está na base da maioria dos códigos
18

de normas das profissões. Essa visão ética que transcende o indivíduo está na
apresentação do Código de Ética do Psicólogo:

É a ética, enquanto Filosofia Moral, que impede um Código sem


criticismo, e também uma visão cristalizada do comportamento humano. É
essa ética filosófica que apela para uma reflexão e compreensão das
singularidades; é ela que faz um apelo à criatividade, liberdade e
espontaneidade. É ela que faz o profissional ver seu cliente como pessoa,
como um ser de relação no mundo, como um ser singular à procura de uma
compreensão que lhe é pertinente. É essa visão de totalidade existencial-
filosófica que faz com que o profissional abra as janelas de sua mente para ver
o mundo como uma realidade social, política, comunitária e perca a
mesquinhez de só ver o indivíduo no seu imediatismo. É essa visão que o faz
transcender do indivíduo para o grupo, do momento para a história, de
soluções precárias para procuras mais globais. (Apresentação do Código de
Ética de Psicologia, 2005, disponível < http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-
de-etica/, acesso novembro 2013)

Pode-se aprender com a visão aristotélica de homem e de projeto ético, pois ela
ensina que o humano se define como ser complexo, pertencente ao mesmo tempo, à
natureza, como ser biológico, mas também como um ser político, que se organiza a partir
da sua racionalidade. Ao se inserir na comunidade citadina, o homem torna-se ético, usa de
sua razão para ser livre e escolher, dentro da complexidade sócio-política a qual pertence.
Portanto, o exercício ético depende das condições materiais e sociais dessa realidade que
o cerca.

 CONCEPÇÃO SÓCIO HISTÓRICA E O CÓDIGO DE ÉTICA DO PSICÓLOGO

A visão aristotélica anuncia a base sócio histórica que também está presente na
confecção do código de ética do psicólogo brasileiro, participando de uma visão de homem
materialista-histórico-dialética.

Essa visão é oriunda da Psicologia Sócio Histórica, de origem latino-americana que


tem enfrentado a realidade sociocultural e econômica desses países em desenvolvimento,
por meio de uma postura crítica, reflexiva e combativa. O homem é compreendido como um
ser multideterminado pelas relações dialógicas que mantém com a sociedade, com a cultura,
com os laços intersubjetivos, e consigo mesmo, através da autorreflexão consciente. Não
existe natureza humana apriorística para essa visão, o homem nasce como um ser biológico.
Essa condição é necessária, mas não suficiente para constituir o homem psicossocial. Para
isso, é preciso adentrar em uma sociedade, a partir da mediação de instrumentos técnicos
e pela linguagem, agir e constituir consciência, racional e afetiva, que o faz produto e ao
mesmo tempo produtor da sua realidade. A esse processo, chama-se hominização.
Conforme Aguiar nos ensina:

O homem é, assim, visto como um ser inerentemente social e, como


tal, sempre ligado às condições sociais. Homem que, além de produto da
evolução biológica das espécies, é também produto histórico, mutável,
19

pertencente a uma determinada sociedade, em uma determinada etapa de sua


evolução. Não se está simplesmente afirmando, no caso, que o homem se
encontra ligado ao mundo e à sociedade ou que é influenciado por ela, mas
sim que se constitui sob determinadas condições sociais, resultado da
atividade de gerações anteriores. (AGUIAR, 2000, p.126)

Na visão sócia histórica concebe-se o homem dialeticamente como um ser


produzido pelas condições sócio históricas, culturais e econômicas, mas também como um
ser produtor da sua realidade. Essa capacidade de transformar o mundo e a si mesmo, está
em conformidade com a filosofia do Código de Ética do Psicólogo, que em seu preâmbulo
reafirma:

Se o homem é um ser de relação, sujeito a contínuas mudanças na


sua luta por ocupar, a cada momento, o espaço que lhe compete no mundo e
se, ao mesmo tempo, ele é o sujeito e o objeto do estudo da Psicologia, segue
que qualquer sistema ou Código só será real se sujeito, também ele, a essa
transitoriedade que é própria do homem à procura de seu destino e
significação. (Apresentação do Código de Ética de Psicologia, 2005 disponível
< http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/, acesso novembro 2013)

Gonçalvez (2010) reafirma que a Psicologia Sócio Histórica é uma visão pertinente
aos novos tempos da psicologia brasileira, pois ela permite que se observe a produção
histórica da subjetividade no país, contestando visões naturalizantes de outrora, que
visavam a adaptação do indivíduo aos padrões normapatológicos.

Essas concepções naturalizadas, segundo a autora, implicam em práticas


normativas, fechadas, inflexíveis que dificultam ou impedem o movimento de transformação
social. Ao contrário, no viés sócio histórico, a consideração do determinante histórico permite
o incentivo de práticas voltadas à liberdade e autonomia dos sujeitos, garantindo os seus
direitos, pois eles podem aprender com os acontecimentos passados, abrindo assim, uma
maior oportunidade de uma vida melhor e saudável.

Desse modo, percebe-se como a Psicologia Sócia Histórica está presente na


elaboração do novo Código de Ética do Psicólogo, em suas premissas filosóficas e
antropológicas, partindo de uma visão de homem atuante, crítico e criativo, que pode vir a
transformar o seu cotidiano, convidando a humanidade ao inusitado e a vida.

 OS PRINCÍPIOS INERENTES AOS ARTIGOS DO CÓDIGO DE ÉTICA


 INTRODUÇÃO

I) O Código de Ética em diálogo com a Cultura de Direitos Humanos

O novo Código de Ética do Psicólogo (2005) é resultado de um percurso histórico da


Psicologia frente as novas demandas psicossociais e diante as suas práticas profissionais
ampliadas, fomentando a produção de conhecimento científico com as novas interfaces da
Psicologia com a área jurídica, do esporte, da informática entre outras.
20

O Código de Ética Profissional dialoga com mudanças sociais e econômicas no


panorama nacional, disparadas pela crescente democratização nos anos 90, quando o
Brasil tornou-se um país em desenvolvimento, guiado por uma Constituição Federal
Brasileira denominada Cidadã (1988).

A Carta Magna Federativa foi construída num cenário político ainda marcado pelos
resquícios da ditadura militar, porém sensível à instituição de uma Cultura de Direitos
Humanos, na qual o sujeito cidadão tem papel destacado. É uma Constituição que privilegia
a garantia dos direitos sociais, não descuidando dos individuais. Sem dúvida, uma carta
comprometida com uma filosofia de bem-estar social, sensível aos movimentos sociais e
políticos, a serviço da cidadania.

Alguns juristas de renome, como Bittar (2006), afirma que a Constituição Federal
Brasileira de 1988 promoveu uma mudança paradigmática importante: privilegiou o cuidado
ético e cidadão com o humano, antes destinado predominantemente ao Estado Maior.
Encontra-se, portanto, em nosso panorama jurídico e social, uma Lei Federal que defende
a dignidade humana frente a quaisquer postulados jurídicos, como se vislumbra no
preâmbulo dessa Constituição:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia


Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a
assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a
segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como
valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos,
fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional,
com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de
Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO
BRASIL. (ConstituiçãoFederal<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituica
o/constituicao.htm>, acesso novembro/2013).

No ano de 1990, o Brasil ampliou a lógica cidadã da Constituição Federal, aprovando


a lei nº 8.069, denominada de Estatuto da Criança e do Adolescente. Essa ação tinha como
meta promover uma lei nacional de proteção integral para as crianças e adolescentes.
Promulgada no artigo 3º:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos


fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral
de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas
as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
(ELIAS, p 3, 1994)

Considera-se, ainda hoje, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como uma


referência na Cultura de Direitos Humanos do país, pois ele anuncia o compartilhamento da
responsabilidade social entre família, Estado e sociedade, em defesa dos direitos desses
cidadãos.
21

Em 2002, substituindo o anterior de 1906, aprovou-se o Novo Código Civil, que


regulamenta as situações de direito privado existentes entre cidadãos, ou seja, aqueles
sujeitos capazes de constituir direitos e obrigações civis. Essa lei nova foi consolidada a
partir de uma sociedade contemporânea em transição nos seus aspectos éticos, morais e
psicossociais.

Diante desse contexto, o novo Código Civil apresentou maior sensibilidade legal
frente às novas configurações familiares, reconhecendo, por exemplo, as uniões estáveis
validadas a partir de dois anos de convivência, inclusive entre parceiros do mesmo sexo.

Enfim, nota-se que o Código de Ética do Psicólogo (2005) situa-se num cenário
interessado em garantir aos sujeitos seus direitos, e abrir espaço para políticas públicas que
promovam o pleno desenvolvimento psicossocial dos seus cidadãos.

A partir disso, compreende-se que o Código Profissional de Psicologia herda e se


constitui no espectro de uma filosofia humanista e cidadã.

II) Os Princípios Éticos inerentes aos artigos do Código de Ética do Psicólogo

A partir desse cenário, impresso pelas mudanças sócio econômicas do Brasil e da


própria Psicologia, os profissionais construíram um Código de Ética em 2005, norteado por
grandes princípios fundamentais, ao invés de privilegiar um código fechado em deveres
inflexíveis.

No preâmbulo do Código de Ética, afirma-se que esse documento legal deve se


aproximar mais de um instrumento de reflexão do que de um conjunto de normas. Para isso
buscou-se:

a. Valorizar os princípios fundamentais como grandes eixos que


devem orientar a relação do psicólogo com a sociedade, a profissão, as
entidades profissionais e a ciência, pois esses eixos atravessam todas as
práticas e estas demandam uma contínua reflexão sobre o contexto social e
institucional.

b. Abrir espaço para a discussão, pelo psicólogo, dos limites e


interseções relativos aos direitos individuais e coletivos, questão crucial para
as relações que estabelece com a sociedade, os colegas de profissão e os
usuários ou beneficiários dos seus serviços.

c. Contemplar a diversidade que configura o exercício da profissão e


a crescente inserção do psicólogo em contextos institucionais e em equipes
multiprofissionais.

d. Estimular reflexões que considerem a profissão como um todo e


não em suas práticas particulares, uma vez que os principais dilemas éticos
não se restringem a práticas específicas e surgem em quaisquer contextos de
atuação.
22

Código de Ética Psicologia, 2005 <http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/>,acesso


novembro 2013)

Os princípios norteadores do nosso código enumeram importantes diretrizes, tais


como respeitar os Direitos Humanos, praticar a promoção de saúde e a co-responsabilidade
social. Essas diretrizes pretendem instaurar um projeto profissional normativo, em que se
oferece as responsabilidades e deveres do psicólogo, mas deve ser também um projeto
político moderno e emancipador.

A seguir, encontram-se os princípios norteadores do Código Profissional do


Psicólogo, respectivamente comentados:

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da


liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores
que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Comentário

O primeiro e fundamental princípio do Código remete a conexão intima entre a


vocação da Psicologia com a Cultura dos Direitos Humanos, que se dá no âmbito ético e
político, num diálogo construído historicamente, no qual se compreende que a Psicologia
deve contribuir e garantir o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos humanos.

Essa relação encontra-se tão intrinsecamente fomentada nos propósitos da


Psicologia Brasileira, que criou-se no ano de 1998, uma Comissão de Direitos Humanos
(oficializada Resolução CFP 11/98), que possui as seguintes atribuições:

- Incentivar a reflexão e o debate sobre os direitos humanos inerentes


à formação, à prática profissional e à pesquisa em psicologia;

- Estudar os múltiplos processos de exclusão enquanto fonte de


produção de sofrimento mental, evidenciando não apenas seu modo de
produção sócio-econômico como também os efeitos psicológicos que
constituem sua vertente subjetiva;

-Intervir em situações concretas onde existam violações dos direitos


humanos que estejam produzindo sofrimento mental;

- Participar ativamente das lutas pela garantia dos direitos humanos


na sociedade brasileira;

- Apoiar e prestar solidariedade aos movimentos nacionais e


internacionais de direitos humanos;

-Intervir em situações em que ações do Estado ou de setores sociais


específicos produzam algum tipo de sofrimento mental;

- Buscar soluções para a omissão de ações do Estado, especialmente


relativas o sofrimento psíquico dos excluídos.

(Disponível em http://www.pol.org.br, acesso em novembro, 2013)


23

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida


das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Comentário

A Psicologia tem acompanhado as discussões no âmbito da Saúde Coletiva, desde


a Carta de Ottawa, em 1986 no Canadá, em direção ao objetivo “Saúde para todos no ano
2000”.

Desde então, mundialmente, tem se discutido os novos rumos da saúde pública,


principalmente nos países industrializados e diante os altos custos da manutenção da
atenção terciária da saúde, que enfoca predominantemente o viés curativo e remediativo.

A partir disso, tem-se investido em ações integradas em direção à promoção de


saúde- pertencente à atenção primária- compreendendo-a como a capacitação das pessoas
e comunidades para modificarem os determinantes da saúde em benefício da própria
qualidade de vida.

A Promoção da Saúde, segundo a Carta de Ottawa, contempla cinco amplos campos


de ação: implementação de políticas públicas saudáveis, criação de ambientes saudáveis,
capacitação da comunidade, desenvolvimento de habilidades individuais e coletivas e
reorientação de serviços de saúde.

A Psicologia Brasileira, situando-se na interface com a área da saúde, tem investido


em práticas dirigidas à atenção primária, preocupando-se com atuações voltadas
ao empoderamento dos sujeitos dentro de uma Cultura de Direitos Humanos, na qual não
se exclui, discrimina, nem se explora o cidadão.

Essa preocupação tem se estendido inclusive, a dimensão da formação do


psicólogo, com o estabelecimento de Novas Diretrizes Curriculares para o Curso de
Psicologia (Resolução CNE/CES 5/2011), como pode-se vislumbrar nos seguintes artigos e
alíneas:

Art 2: As Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação em


Psicologia constituem as orientações sobre princípios, fundamentos,
condições de oferecimento e procedimentos para o planejamento, a
implementação e a avaliação deste curso.

V - atuação em diferentes contextos, considerando as necessidades


sociais e os direitos humanos, tendo em vista a promoção da qualidade de vida
dos indivíduos, grupos, organizações e comunidades;

Art. 4º A formação em Psicologia tem por objetivos gerais dotar o


profissional dos conhecimentos requeridos para o exercício das seguintes
competências e habilidades gerais:

I - Atenção à saúde: os profissionais devem estar aptos a


desenvolver ações de prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde
psicológica e psicossocial, tanto em nível individual quanto coletivo, bem como
24

a realizar seus serviços dentro dos mais altos padrões de qualidade e dos
princípios da ética/bioética;

Disponível: em http://portal.mec.gov.br/index.php?
option=com_content&view=article&id=12991, acesso em novembro 2013.

III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e


historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.

Comentário

Esse princípio diz respeito ao compromisso social que a Psicologia assumiu desde
a década de 90, com o crescente movimento de democratização no país. Assim como da
necessidade de enfrentamento de fenômenos psicossociais oriundos do contexto social e
econômico desigual e violento, refugo de uma economia liberal, que se instaurou no mundo
ocidental.

Houve uma sensibilização da Psicologia em se reorientar, ampliando seus escopos


profissionais, além do campo tradicional da Clínica remediativa, adentrando áreas sociais e
se deparando com novas necessidades, em comunidades carentes, em instituições
hospitalares, entre outros campos. Portanto, além do olhar clínico tradicional, foi-se exigido
do psicólogo, um olhar crítico social, capaz de contextualizar o fenômeno psicológico e lidar
com os seus multideterminantes, além da dimensão psicológica.

Essa nova competência está prevista também na Diretriz Curricular da


Psicologia (Resolução CNE/CES 5/2011), como se comprova com o artigo 2º, alínea IV,
ao assegurar uma formação baseada na "compreensão crítica dos fenômenos sociais,
econômicos, culturais e políticos do País, fundamentais ao exercício da cidadania e da
profissão".

IV. O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo


aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo
científico de conhecimento e de prática.

Comentário

Faz-se imprescindível fomentar a retroalimentação entre a psicologia aplicada e a


teórica no Brasil, na tentativa de superar uma tendência pragmática e utilitária, que destaca
o aspecto aplicado da profissão, a partir de uma visão instrumental e técnica, onde a
produção de conhecimento científico fica em segundo plano, sem incentivos acadêmicos e
financeiros.

Gomes (2003) aponta que os currículos propostos para os cursos de Psicologia


desde 1962, são marcados pelo predomínio da experimentação e dos estágios profissionais,
destacando o papel da psicologia aplicada. O autor ressalta ainda que, a partir da década
de 1980, houve uma revitalização da pesquisa no Brasil, com o crescimento e a
reformulação das pós-graduações, o que tem sido apontado como fator positivo. A
25

Psicologia Brasileira está envolta nesse contexto revitalizado e tem destacado o papel da
produção de conhecimento nas universidades.

Esse incentivo à produção de conhecimento também se encontra na Diretriz


Curricular do curso de Psicologia (Resolução CNE/CES 5/2011), como se pode comprovar:

Art. 3º O curso de graduação em Psicologia tem como meta central a


formação do psicólogo voltado para a atuação profissional, para a pesquisa e
para o ensino de

Psicologia, e deve assegurar uma formação baseada nos seguintes


princípios e compromissos:

I - construção e desenvolvimento do conhecimento científico em


Psicologia; Disponível em http://portal.mec.gov.br/index.php?
option=com_content&view=article&id=12991, acesso em novembro 2013.

Esse é um investimento imprescindível para alimentar uma prática profissional de


qualidade humanizada e eficácia técnica diante o mutável contexto em que se vive na
contemporaneidade.

V. O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da


população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos
padrões éticos da profissão.

Comentário

Ao entrar em contato com as políticas de Saúde Pública e com uma população


diferenciada, carente de recursos básicos e cuidados biopsicossociais, os psicólogos
enfrentaram a necessidade de repensar os referenciais teóricos frente a nova realidade
brasileira, assim como a necessidade de se conhecer as novas e desconhecidas
subjetividades que essa realidade produz, num país com cenários sócio culturais díspares
e injustos.

Esses novos desafios em campos de trabalho desconhecidos exigiram mudanças


no fazer profissional. O psicólogo precisou, por exemplo, ampliar os seus serviços
profissionais para camadas da população antes não contempladas pela psicologia. Esse
maior acesso a essa nova clientela, seja na saúde pública ou nas instituições, provocou no
novo código o item V, em que afirma que “o psicólogo contribuirá para promover a
universalização do acesso da população”.

A universalização do serviço psicológico está implicada no valor bioético da justiça


social ou da equidade, amplamente discutido e presente no cenário da Saúde Pública, que
têm o propósito de orientar o debate em torno da distribuição dos recursos na saúde,
primando pela ideia de que a Saúde deve ser compreendida como sendo um bem
fundamental que contemple a todos e não apenas a uma pequena parcela da população.
26

VI. O psicólogo zelará para que o exercício profissional seja efetuado com

dignidade, rejeitando situações em que a Psicologia esteja sendo aviltada.

Comentário

O princípio V tem relação direta com o I, que assegura a intima conexão entre o
Código de Ética do psicólogo e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, pois é a partir
dessa cultura que a Psicologia tem demarcado o universo prático e teórico em que se esteja
negando ou negligenciando algum princípio básico da profissão.

A partir dessa diretriz da Cultura dos Direitos Humanos respeita-se uma atuação
profissional que defenda a dignidade humana e nega-se situações em que o psicólogo esteja
presenciando, por exemplo, discriminação de qualquer natureza, ou em que o direito de ir e
vir do cidadão esteja sendo aviltado. Também se consideram as situações em que um
profissional da Psicologia esteja atuando de forma indevida, mediante os artigos e diretrizes
fundamentais estabelecidas pelo Código Profissional (artigo 2º: práticas vedadas).

Em qualquer caso, cabe ao psicólogo que presencie tal situação a denúncia social
ao órgão competente, seja ao próprio Conselho Federal de Psicologia, como a outras
instâncias, como Conselhos Tutelares e Ministério Público.

VII. O psicólogo considerará as relações de poder nos contextos em que


atua e os impactos dessas relações sobre as suas atividades profissionais, posicionando-se
de forma crítica e em consonância com os demais princípios deste Código.

Comentário

A Psicologia ao enunciar esse princípio reconhece que os diferentes contextos de


trabalho do psicólogo são permeados por forças de poder e de saber, que atuam nos
ambientes, instigando as práticas, mas também delimitando fronteiras e possíveis
exclusões. Portanto, é tarefa ética e política do profissional da Psicologia realizar constante
e dialogicamente um olhar crítico social sobre as relações estabelecidas entre ele e outros
profissionais e sua clientela, jamais contribuindo com uma prática excludente ou promotora
de sofrimento psíquico.

A partir dos princípios fundamentais disponibilizados no Código de Ética da


Psicologia, aponta-se as seguintes tarefas para o psicólogo brasileiro: é preciso tornar o
Código de Ética do Psicólogo um instrumento ético e político, concretizando-o em um
cotidiano profissional atuante e crítico, para então, construir uma Psicologia que possa
transformar o sonho individual em projetos coletivos e emancipadores.

 OS PRINCÍPIOS BIOÉTICOS E A PSICOLOGIA


 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, a Psicologia Brasileira aprimorou sua interface com a área da
Saúde, que contribuiu para uma discussão profunda sobre a postura ética do psicólogo em
relação ao usuário do seu serviço. Essa discussão foi pautada por documentos éticos, como
27

a Resolução 196/96 (a atual 466/12), sobre as “Diretrizes e Normas Regulamentadoras de


Pesquisas envolvendo seres humanos”, promulgada pelo Conselho Nacional de Saúde.

Esse documento foi construído com o intuito de assegurar os direitos do sujeito que
esteja participando de pesquisas científicas, garantindo a ele, entre outros: o direito à
autonomia na decisão de participar ou não do projeto de pesquisa, o direito ao
consentimento livre e esclarecido, entre outros.

A Resolução 196/96, reformulada e substituída recentemente pela Resolução


466/12 foi elaborada pelo Conselho Nacional de Saúde sob influência das preocupações
mobilizadas pelo contexto biomédico, por meio das pesquisas clínicas para investigar os
agentes causadores de doenças em humanos, como a aids e a aprovação de novos
medicamentos no mercado. Fundamenta-se no modelo estadunidense e incorporou os
princípios bioéticos, já presentes na pauta internacional de preocupações éticas com a
produção de conhecimento científico.

A Resolução 466/12 em seu preâmbulo contextualiza a necessidade de parâmetros


éticos devido

ao progresso da ciência e da tecnologia, que desvendou outra


percepção da vida, dos modos de vida, com reflexos não apenas na concepção
e no prolongamento da vida humana, como nos hábitos, na cultura, no
comportamento do ser humano nos meios reais e virtuais disponíveis e que se
alteram e inovam em ritmo acelerado e contínuo.

(Resolução 466/12, disponível


em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf, acesso em
novembro 2013)

A partir disso, reafirma a importância de ponderar entre riscos e benefícios para o


participante da pesquisa e para a sociedade, pois:

Considerando o progresso da ciência e da tecnologia, que deve


implicar em benefícios, atuais e potenciais para o ser humano, para a
comunidade na qual está inserido e para a sociedade, nacional e universal,
possibilitando a promoção do bem-estar e da qualidade de vida e promovendo
a defesa e preservação do meio ambiente, para as presentes e futuras
gerações. (Resolução 466/12, disponível
em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf, acesso em
novembro 2013)

Segundo Diniz&Guilhem (2008), o sistema brasileiro de revisão ética está vinculado


ao Sistema CEP/Conep- Comitês de Ética em e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa-
que teve inicio em finais dos anos de 1980, que instituiu a Resolução 196/96 e atualmente
foi revista sendo considerada a atual 466/12. Uma das pressuposições dessa lei, afirma que
todas as pesquisas com seres humanos de todas as áreas do conhecimento, devem ser
avaliadas pelo Sistema CEP/Conep, antes de iniciar a fase de coleta de dados.
28

Desde a regulamentação da Resolução 196/96, em outubro de 1996, o número de


CEPs (Comissões de Ética em Pesquisa) vem crescendo, principalmente junto às
organizações civis, as de defesa dos direitos e apoio aos portadores de deficiência e
patologias. Paralelamente, nota-se uma expansão da Bioética, devido às inúmeras
questões morais provindas do avanço técnico-científico na área da Saúde. (PALÁCIOS,
MARTINS e PEGORARO, 2001)

A Resolução 466/12 encontra-se amparada pela Cultura dos Direitos Humanos e


pela Bioética, aplicadas à prática científica, nos cuidados mantidos com o participante da
pesquisa. Para isso, os Comitês de Ética necessitam aprovar os protocolos de pesquisas e
os projetos desenvolvidos.

Segundo Diniz e Guilhem (2008, p.77), a cultura ética fomentada pela Resolução
196/96, em diálogo com as diretrizes internacionais, estabeleceu alguns critérios para a
aprovação dos protocolos de pesquisa, a partir de uma preocupação básica com a
minimização de riscos e a proteção dos direitos dos participantes de pesquisas, tais como:

- relevância social: os estudos devem contribuir para a melhoria da qualidade de vida


das pessoas envolvidas nas pesquisas, ampliando o conhecimento aplicável a diferentes
contextos sociais;

-validade científica: o desenho metodológico deve garantir a validade da pesquisa e


a apropriação de resultados pelos países envolvidos;

-seleção equitativa: a escolha dos participantes deve seguir objetivos definidos pela
pesquisa e não atender as amostras de conveniência. Pessoas vulneráveis devem ser
protegidas e não podem ser excluídas do envolvimento na pesquisa sem razões científicas;

- balanço favorável entre riscos e benefícios: as pesquisas tem que ser conduzidas
de acordo com o melhor padrão de atenção à saúde disponível. Deve ser feita uma avaliação
dos potenciais riscos e benefícios para os participantes;

-revisão ética do protocolo: deve ser realizada por um Comitê de Ética em pesquisa,
de conformação colegiada, que atue de forma independente;

-consentimento livre e esclarecido: é tido como uma das peças centrais à avaliação
ética de um protocolo de pesquisa. Deve ser considerado um processo e não apenas um
ato de apresentação de um documento escrito ou oral. O objetivo é garantir a livre e
informada decisão de um individuo em participar de um estudo;

- respeito pelos participantes: ultrapassa o instante do estabelecimento do vínculo e


da assinatura do termo de consentimento. Refere-se à proteção da confidencialidade, ao
acesso a informações sobre a pesquisa e ao direito de se retirar do estudo a qualquer
momento;
29

- capacitação e fortalecimento local: a pesquisa colaborativa internacional deve


contribuir para o crescimento científico local e para a consolidação do processo de revisão
ética das pesquisas.

O campo da Bioética, também determinante na elaboração da Resolução, é


compreendido como a ética da vida (do grego bios- vida, e ethike- ética). Pode ser definida
como o estudo sistemático da moralidade das tecno-ciências da vida e da saúde,
examinadas a luz de princípios morais. É uma vertente importante no cenário das éticas
aplicadas, oriunda de campo multidisciplinar, cujo diálogo visa o entendimento dos
problemas morais na sociedade contemporânea. Envolve diferentes pontos de vistas de
várias disciplinas, tais como a Filosofia, Teologia, Direito, Medicina, Psicologia, entre outras.
(PALÁCIOS, MARTINS E PEGORARO, 2001, p. 32).

A partir da Resolução 466/12, da versão anterior 196/96 e em consonância com


outras cartas éticas, regulamentadas pelo mundo, como a Declaração de Helsinque (1975)
e o Relatório de Belmont (1974), consolidou-se quatro princípios bioéticos, essenciais nos
cuidados tomados ao se realizar pesquisas com seres humanos. São eles: autonomia, não
maleficência, beneficência e justiça.

O princípio bioético da Autonomia referenda-se ao direito de escolha livre e


consciente de pesquisas. É necessário respeitar a vontade do sujeito, para que esse possa
participar ativa e livremente da pesquisa. Segundo Kovacs (2003), o exercício de autonomia
só se dá quando há compartilhamento de informações e conhecimentos de modo didático e
compreensível ao sujeito, para que então, ele tome a melhor decisão.

Nas pesquisas científicas alcança-se a autonomia, quando se oferece o termo de


consentimento livre e esclarecido ao sujeito, em uma linguagem acessível, explicitando os
direitos e deveres do participante. Assim como relatando de forma sucinta, os aspectos
metodológicos e analíticos da pesquisa, para que se tenha conhecimento global do trabalho
científico que poderá vir a participar.

Segundo Kovacs (2003):

“Quando se favorece a autonomia, ocorre uma relação simétrica


entre profissionais e pacientes, sendo que estes últimos participam de maneira
ativa das decisões que envolvem seu tratamento, bem como sua interrupção.
” (Kovacs, 2003, p. 119)

O valor da não maleficência diz respeito ao não fazer o mal ao sujeito da pesquisa,
isso quer dizer, não ter nenhuma atitude interventiva, seja clínica ou dialógica, que coloque
em risco a saúde biopsicossocial do indivíduo que participa do processo investigativo
científico. Para ponderar esse aspecto, o pesquisador deve realizar uma reflexão criteriosa
sobre os riscos envolvidos em sua pesquisa, e caso não seja possível evitá-los
completamente, apresentar ao sujeito da pesquisa, possíveis suportes e amparos para lidar
com qualquer mal-estar, prejuízo suscitado pela pesquisa científica.
30

O valor da Beneficência por sua vez diz respeito ao fazer o bem ao sujeito da
pesquisa, o que significa promover ganhos com a atividade investigativa, seja no tratamento
de uma doença, seja na testagem de medicamentos, ou então, num ganho psicossocial ao
refletir conjuntamente com o pesquisador sobre um tema de relevância pessoal e social.
Esse valor bioético é essencial numa relação simétrica entre pesquisador e participantes,
pois sugere uma relação igualitária, sem uma postura de exploração utilitária que
costumeiramente se tinha em pesquisas de campo, quando pesquisadores absorviam as
informações que necessitavam dos sujeitos e não se responsabilizavam com os possíveis
ganhos de quem participava da pesquisa.

Com relação ao valor da equidade e/ou justiça social, há uma preocupação em


promover o bem-estar coletivo e a igualdade social com a pesquisa científica,
universalizando o conhecimento desenvolvido e retroalimentando o serviço de saúde que
usufrui das pesquisas para atender o grande público.

A Psicologia Brasileira compreendeu que seria importante realizar uma aproximação


com esses princípios, pois a Bioética estaria atravessando o campo de estudos psicológicos
e sociais, como uma discussão sobre valores inerentes à vida e à saúde, extrapolando o
cenário biomédico com o qual é associada.

Essa aproximação encontra-se presente no Novo Código do Psicólogo em vários


momentos, são eles:

No princípio fundamental V, que versa principalmente sobre o valor da justiça


social, ao afirmar que O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso
da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos
padrões éticos da profissão.

Nos deveres fundamentais (art. 1º), nas alíneas:

(c) ao reafirmar seu serviço em prol dos seus clientes com dignidade,
ao prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e
apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas
reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação
profissional;

(e) ao realizar a ponderação entre os riscos e benefícios do seu serviço, ao


estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitem os direitos do usuário ou
beneficiário de serviços de Psicologia;

(f) garantir o sigilo profissional como dever ético, ao fornecer, a quem de direito, na
prestação de serviços psicológicos, informações concernentes ao trabalho a ser realizado e
ao seu objetivo profissional;
31

(g) ao realizar a devolutiva do seu serviço- informar, a quem de direito, os resultados


decorrentes da prestação de serviços psicológicos, transmitindo somente o que for
necessário para a tomada de decisões que afetem o usuário ou beneficiário.

Essa aproximação encontra-se mais evidente no Novo Código do Psicólogo, em


seu artigo 16, nas considerações sobre as diretrizes éticas expostas pela Resolução
466/12. Esse artigo possui quatro subitens (a,b,c,d) que versam sobre os cuidados
(bio)éticos que o psicólogo deve tomar ao realizar estudos, pesquisas e atividades voltadas
para a produção de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias, tais como: avaliar os
riscos envolvidos, garantir o caráter voluntário da participação dos sujeitos, assim como
assegurar o anonimato das pessoas e o acesso das mesmas aos resultados das pesquisas.
O artigo 16 é indicação explicita da preocupação da Psicologia com o respeito aos valores
bioéticos numa Cultura de Direitos Humanos, seja com a relação dos psicólogos com seus
clientes, ou enquanto sujeitos de pesquisa científica na área psicológica. Como se pode ver:

Art. 16 - O psicólogo, na realização de estudos, pesquisas e atividades voltadas para a


produção de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias:

a. Avaliará os riscos envolvidos, tanto pelos procedimentos, como pela divulgação


dos resultados, com o objetivo de proteger as pessoas, grupos, organizações e comunidades
envolvidas;

b. Garantirá o caráter voluntário da participação dos envolvidos, mediante


consentimento livre e esclarecido, salvo nas situações previstas em legislação específica e
respeitando os princípios deste Código;

c. Garantirá o anonimato das pessoas, grupos ou organizações, salvo interesse


manifesto destes;

d. Garantirá o acesso das pessoas, grupos ou organizações aos resultados das


pesquisas ou estudos, após seu encerramento, sempre que assim o desejarem.

(Código de Ética da Psicologia, disponível http://site.cfp.org.br/wp-


content/uploads/2012/07/codigo_etica.pdf, acesso novembro 2013)

O Código de Ética do Psicólogo vai além da observância dos princípios elencados


pela Bioética, ele exige reflexão contínua, o exercício crítico da profissão e uma atualização
científica constante, evitando-se, assim, assumir posturas baseadas apenas na aceitação
moral e passiva das regras.

 O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E A PSICOLOGIA


 INTRODUÇÃO

No ano de 1990, o Brasil consolidou e complementou a lógica cidadã da


Constituição Federal (1988), aprovando a lei nº 8.069, denominada de Estatuto da Criança
32

e do Adolescente. Essa aprovação tinha como meta promover uma lei nacional de proteção
integral para crianças e adolescentes, apresentada no artigo 3º:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos


fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral
de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas
as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
(ELIAS, p 3, 1994)

Como Dias, Sieben, Cozer e Alves (2003) reafirmam ao conceber o ECA como:

O estatuto, em seus 267 artigos, garante os direitos e deveres de


cidadania a crianças e adolescentes, determinando ainda a responsabilidade
dessa garantia aos setores que compõem a sociedade, sejam estes a família,
o Estado ou a comunidade. Ao longo de seus capítulos e artigos, discorre sobre
as políticas referentes à saúde, educação, adoção, tutela e questões
relacionadas a crianças e adolescentes autores de atos infracionais. (DIAS,
SIEBEN, COZER e ALVES, 2003 p 118)

O ECA pertence a um Sistema de Garantia de Direitos, distribuído em três grandes


dimensões: (1) promoção de direitos a partir de políticas de atendimento aos jovens,
composto pelo Estado e sociedade civil; (2) defesa: tem como objetivo estancar a violação
dos direitos das crianças e jovens, por meio de Conselhos Tutelares, ações da Defensoria
Pública, entre outros; (3) controle social: avalia e monitora as ações de promoção e defesa
dos direitos dos jovens, pela sociedade civil organizada. (DIAS, SIEBEN, COZER e ALVES,
2003)

O ECA significou um enorme avanço no cenário político e jurídico do Brasil.


Primeiramente veio a substituir o Código de Menores (1979), cujos princípios sinalizavam
medidas assistencialistas e protetivas dirigidas apenas aos menores em situação de
vulnerabilidade psicossocial. Esse Código foi alvo de críticas sociais, ao associar pobreza
com delinquência, ocultando os determinantes sócio históricos das dificuldades vividas por
esses jovens. Essa ocultação reforçou o estigma social desse adolescente como o menor
abandonado, o marginal e perigoso. Essas crianças começaram a ser compreendidas pela
sociedade como se tivessem uma tendência natural à prática do crime e da desordem social,
não podendo se adaptar à vida social.

O ECA tornou-se um marco importante por garantir os direitos a todas as crianças e


adolescentes em âmbito nacional, ressignificando a concepção destes sujeitos como seres
humanos complexos e em desenvolvimento biopsicossocial. Portanto, compreendendo-os
como seres sensíveis às transformações psicossociais e merecedores de investimento
afetivo pela sociedade brasileira.

Considera-se, ainda hoje, o ECA como uma referência na Cultura de Direitos


Humanos do país, pois ele anuncia o compartilhamento da responsabilidade social entre
família, Estado e sociedade, em defesa dos direitos desses cidadãos. Além de contribuir
33

socialmente, sem dúvida, com a inserção de temáticas infanto-juvenis na agenda dos


movimentos sociais e políticos e na discussão contemporânea dos Direitos Humanos,
promulgados nos artigos 4º do ECA e no 227º da Constituição Federal, como pode-se ver
nos seguintes deveres:

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e


do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária. (ELIAS, 1994)

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à


criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida,
à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade
eopressão. (ConstituiçãoFederal<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constitui
cao/constituicao.htm>, acesso novembro/2013).

Um pressuposto essencial do ECA, é a importância dada à instituição familiar, como


aquela que deve ser fortalecida com políticas públicas de assistência social e saúde para
poder constituir a proteção integral das suas crianças e jovens. A Psicologia do século XXI
e seus estudos sobre desenvolvimento do ciclo vital também tem dado destaque para o
papel importante da família constituição do psiquismo infantil.

A sustentabilidade psicoemocional e social da família em relação aos jovens e


crianças também é destacado pelo olhar público e pelo próprio ECA, como pode-se verificar
na programação do ECA para:

regular as relações entre crianças, adolescentes, sociedade,


instituições e suas famílias. As famílias sempre tiveram o papel teórico do ninho
de proteção, amparo e sustento, inviolável e soberano, sendo consideradas
por muitos, inclusive pelos profissionais responsáveis por sua assistência e
proteção legal, o melhor lugar, sem questionamento, para todas as crianças e
adolescentes (SECRETARIA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2005).

Nos artigos 19º e 22º do ECA afirma-se que:

Art. 19. Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado


e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família
substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em
ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias
entorpecentes.

Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e


educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse
destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações
judiciais. (ELIAS, p 19, 1994)
34

Outra contribuição social essencial promovida pelo ECA é a cultura da denúncia


social que se fez presente, das instituições educacionais aos indivíduos, a partir da
consolidação social dos artigos 13 e 56 nos campos educacionais e institucionais, como as
escolas. São artigos que afirmam que:

Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra


criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho
Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.

Art. 56. Os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental


comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de:

I - maus-tratos envolvendo seus alunos;

II - reiteração de faltas injustificadas e de evasão escolar, esgotados


os recursos escolares;

III - elevados níveis de repetência.

(ELIAS, p 38, 1994)

Ainda cabe o apontamento sobre a questão da quebra do sigilo profissional no


Código de Ética do Psicólogo e aquilo que se encontra no ECA.Com relação ao Código da
Psicologia, há a defesa do dever de respeito ao sigilo profissional no artigo 9º, mas
salvaguarda-se o direito a quebra de sigilo no artigo 10º, sendo:

Art. 9º - dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de


proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou
organizações, a que tenha acesso no exercício profissional.

Art. 10 - Nas situações em que se configure conflito entre as


exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos princípios
fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o
psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na
busca do menor prejuízo.

Parágrafo Único - Em caso de quebra do sigilo previsto no caput


deste artigo, o psicólogo deverá restringir-se a prestar as informações
estritamente necessárias. (Código de Ética Psicologia,
2005 <http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/>,acesso novembro
2013)

Para a Psicologia, o valor ético-moral do sigilo profissional é um dever,


historicamente mantido, em todos os âmbitos profissionais da Psicologia, como se vê no
artigo 9º. Porém o artigo seguinte (nº10) faz uma referência fundamental às situações que
envolvem crianças e jovens em vulnerabilidade psicossocial, tornando a quebra do sigilo um
direito profissional, ou seja, o psicólogo pode ou não decidir por essa quebra. Essa é uma
mudança recente na cultura psicológica, e tem sido praticada por aqueles que trabalham em
instituições, como a Fundação CASA (Atendimento Sócio Educativo do Adolescente), em
que existe a premência da denúncia, mesmo em casos de suspeita de violência contra os
jovens. Os psicólogos têm sido orientados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), a
35

quebrar o sigilo quando trabalham em instituições com esse caráter, por exemplo, numa
escola, seguindo em primeiro lugar as diretrizes do ECA (art 56).

O Código de Ética do Psicólogo está em consonância direta com a Cultura dos


Direitos Humanos promovidos pelo ECA, por exemplo, ao vetar, no artigo 2, item A quaisquer
práticas ou atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade ou opressão; e no artigo 13, quando o código enuncia que no atendimento à
criança, ao adolescente ou ao interdito, deve ser comunicado aos responsáveis o
estritamente essencial.

Os cuidados éticos da Psicologia com a saúde das crianças e adolescentes


coincidem com a lógica cidadã presente no ECA, por exemplo, no artigo 8 do Código de
Ética do Psicólogo, que prevê o dever de assegurar o consentimento dos pais para realizar
qualquer tipo de atendimento psicológico, assegurando o conhecimento desse tipo de
atendimento em menores de idade, medida assegurada pelo próprio ECA e Constituição
Federal. Desse modo, o Código de Ética do Psicólogo afirma que:

Art. 8º - Para realizar atendimento não eventual de criança,


adolescente ou interdito, o psicólogo deverá obter autorização de ao menos
um de seus responsáveis, observadas as determinações da legislação
vigente;

§1° - No caso de não se apresentar um responsável legal, o


atendimento deverá ser efetuado e comunicado às autoridades competentes;

§2° - O psicólogo responsabilizar-se-á pelos encaminhamentos que


se fizerem necessários para garantir a proteção integral do atendido.

(Código de Ética Psicologia,


2005 <http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/>,acesso novembro
2013)

Associada à cultura de denúncia social, desenvolveu-se uma maior aceitação civil


dos Conselhos Tutelares, que passaram a compor o imaginário social, no que diz respeito
ao cuidado com a infância e adolescência no Brasil. A população reconhece o Conselho
Tutelar como a instância sócio participativa e responsável pelo cumprimento de direitos das
crianças e adolescentes, vide os artigos 131, 132 e 136 do ECA, que dizem respeito a essa
função:

Art. 131 - O Conselho Tutelar é órgão permanente e


autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de
zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente,
definidos nesta Lei.

Art. 132 - Em cada Município haverá, no mínimo, um


Conselho Tutelar composto de cinco membros, escolhido pela
comunidade local para mandato de três anos, permitida uma
recondução (Nova redação conforme Lei Federal 8.242/91, de
12/10/91)
36

CAPÍTULO II - DAS ATRIBUIÇÕES DO CONSELHO

Art. 136 - São atribuições do Conselho Tutelar:


I - atender as crianças e adolescentes nas hipóteses previstas
nos arts. 98 e 105, aplicando as medidas previstas no Art. 101, I
a VII;
II - atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as
medidas previstas no Art. 129, I a VII;
III - promover a execução de suas decisões, podendo para tanto:
a) requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação,
serviço social, previdência, trabalho e segurança;
b) representar perante à autoridade judiciária nos casos de
descumprimento injustificado de suas deliberações.
IV - encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que
constitua infração administrativa ou penal contra os direitos da
criança ou adolescente;
V - encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua
competência;
VI - providenciar a medida estabelecida pela autoridade
judiciária, entre as previstas no Art. 101, de I a VI, para o
adolescente autor de ato infracional;
VII - expedir notificações;
VIII - requisitar certidões de nascimento e de óbito de criança ou
adolescente quando necessário;
IX - assessorar o Poder Executivo local na elaboração da
proposta orçamentária para planos e programas de atendimento
dos direitos da criança e do adolescente;
X - representar, em nome da pessoa e da família, contra a
violação dos direitos previstos no Art. 220, § 39, inciso II da
Constituição Federal;
XI - representar ao Ministério Público, para efeito das ações de
perda ou suspensão do pátrio poder.

(ELIAS, PP 113-117, 1994)

Com relação às funções do Conselho Tutelar encontra-se uma específica que diz
respeito à prática da Psicologia, referente ao pedido de serviços de assistência técnica para
lidar com os jovens, fazendo valer seus direitos, por exemplo ao exigir do psicólogo a
confecção de laudos em casos que envolvam as crianças e jovens. Está previsto no artigo
151 do ECA o que:

Art. 151. Compete à equipe interprofissional dentre


outras atribuições que lhe forem reservadas pela legislação
local, fornecer subsídios por escrito, mediante laudos, ou
verbalmente, na audiência, e bem assim desenvolver trabalhos
de aconselhamento, orientação, encaminhamento, prevenção e
outros, tudo sob a imediata subordinação à autoridade judiciária,
assegurada a livre manifestação do ponto de vista técnico.
(ELIAS, p 133, 1994)
37

A avaliação psicológica é uma prática técnica, mas acima de tudo ética e política do
psicólogo no Brasil, que tem sido muito cuidada pelo CFP. Este tema será melhor explorado
no módulo seguinte, o VI, que trata da Avaliação Diagnóstica.

Outro ponto em destaque na cultura implementada pelo ECA diz respeito às


medidas sócio educativas, que são aquelas aplicadas pelo poder público, com fins
pedagógicos a crianças e jovens que incidiram em atos infracionais, por exemplo, envolvidos
em roubos. Teoricamente, essas medidas possuem uma função educativa, mais do que
punitivas, porém o que muitas vezes se tem percebido é a adoção de medidas extremas,
como a internação em estabelecimentos (Fundação CASA) pelos juízes, em casos que não
caracterizariam perigo extremo à sociedade. São as medidas previstas no artigo 112 do
ECA, capítulo IV,

· Advertência;

· Obrigação de reparar o dano;

· Prestação de serviço à Comunidade;

· Liberdade Assistida;

· Inserção em regime de semiliberdade;

· Internação em estabelecimento educacional;

§ 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua


capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração.

§ 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum, será admitida a


prestação de trabalho forçado.

§ 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental


receberão tratamento individual e especializado, em local adequado às suas
condições.

Drummond (2008) apresenta as mudanças que o ECA sofreu nas últimas décadas
em diálogo com a sociedade brasileira. O autor afirma que o ECA depende da aprovação
de novas leis que poderiam subsidiar melhor os cuidados éticos com as crianças e
adolescentes, tais como:

o PL 4850/05, que amplia a definição de estupro; o PL


4851/05, que tipifica como crime disponibilizar o acesso de
cenas de sexo envolvendo criança ou adolescente na Internet; o
PL 4852/05, contra hospedagem de criança ou adolescente sem
autorização dos pais; o PL 4125/04, que exige em hotéis, bares
e restaurantes informação contra a exploração sexual de
crianças e adolescentes; e, por último, e o mais importante de
todos, o PL 4126/04, que cria regras especiais para a realização
de apuração pericial/policial, no sentido de estabelecer um
depoimento único gravado das vítimas infanto-juvenis, a fim de
38

não transformar o processo penal numa revitimização das


próprias vítimas.

Com relação às mudanças implementadas pelo ECA nos últimos 20 anos, tem-se
apontado alguns desafios que a sociedade brasileira ainda enfrentará, tais como: o aumento
do número de casos de gravidez na adolescência, o homicídio de jovens na faixa entre 10
e 19 anos e as disparidades étnicas, raciais e regionais.

Apesar de todos esses desafios a serem enfrentados pelos cidadãos brasileiros,


considera-se que a convivência cidadã com o ECA tem produzido novos discursos e práticas
sociais em uma sociedade em desenvolvimento. A partir dele, se produz novos sentidos da
infância e do adolescer, sem se ater a concepções cristalizadas e estigmatizadas, que
pretendiam ser universais. Desta forma, é imprescindível a contribuição social das
profissões afinadas com a lógica cidadã do ECA. A Psicologia está inserida como uma das
profissões que auxilia a transformação da visão da infância e da juventude, como fenômenos
psicossociais, multideterminados pela sociedade, a cultura e a economia presentes, e não
como fases fechadas e essenciais do desenvolvimento humano. Essa profissão também,
tende a promover reflexões contínuas sobre o que significa adolescer e ser criança num país
de terceiro mundo como o Brasil, que ainda enfrenta tantos desafios éticos e técnicos em
direção a uma cultura de Direitos Humanos.

 A DIMENSÃO ÉTICA EM AVALIAÇÃO PSICOLOGICA

 INTRODUÇÃO

Segundo Pellini & Sá Leme (2011), o processo de avaliação psicológica pode ser
compreendido como um processo técnico-científico em que se colhe dados e informações
com indivíduos ou grupos, por meio de questionários, métodos, instrumentos psicológicos,
entrevistas, entre outros.

Um dos os grandes dilemas profissionais da profissão na atualidade, encontra-se


a dimensão ética presente na elaboração das avaliações psicológicas nos diversos âmbitos:
do judiciário ao educacional. O ano de 2011 foi eleito como o momento da avaliação
psicológica pelo o Conselho Federal de Psicologia, afirmando que:

A avaliação psicológica é uma prática exclusiva do profissional de


Psicologia e historicamente contribuiu para a inserção profissional nos
diferentes contextos de atuação. Assim, embora sua importância já tenha sido
devidamente reconhecida, como em qualquer outra área de conhecimento,
seus avanços são necessários principalmente quanto à importância da
qualidade de seus serviços. Adicionalmente, pode-se refletir também sobre a
garantia dos direitos dos cidadãos e dos cuidados éticos e técnicos dos
39

profissionais no que tange aos processos de avaliação e aos documentos


deles decorrentes. (CFP, GT Avaliações Psicológicas, 2011)

Ambiel e Pacanaro (2011) relatam que o caminho histórico da Avaliação Psicológica


no Brasil foi tumultuado, com um período de entusiasmo inicial, com o uso indiscriminado e
predominante de testes psicológicos.

Desde 2003, existe um movimento do Conselho Federal de Psicologia (CFP) em


direção a uma reorganização e regulamentação em âmbito nacional.

Esse movimento crítico se deu, segundo os autores, pela baixa qualidade de


formação dos alunos na questão da avaliação psicológica e pela grande quantidade de
cursos de Psicologia que abriram no Brasil. Uma das saídas, segundo eles, tem sido os
cursos de Pós-Graduação no assunto e a fundação do Instituto Brasileiro de Avaliação
Psicológica (IBAP).

Reppold (2011) ainda complementa sobre o ensino:

Neste sentido, é primordial que o ensino da avaliação psicológica,


exercício restrito aos psicólogos, priorize, além de competências técnicas, a
vivência de situações práticas que envolvam dilemas relacionados à ética, ao
respeito à dignidade e aos Direitos Humanos, à preocupação com o bem-estar
do outro e à responsabilidade social. (REPPOLD, 2011, p. 24)

Na história normativa, um dos ganhos foi a elaboração da Resolução 02/2003,


realizada por um Grupo de Trabalho afiliado ao Conselho Federal de Psicologia, em 2003,
resultando num Manual Técnico e Ético sobre a elaboração de laudos e avaliações
psicológicas. Foi um marco importante, porque segundo Ambiel e Pacanaro (2011), o CFP
criou um documento com diretrizes claras e objetivas, e assim padronizou o instrumento,
constituindo critérios mínimos de qualidade.

Segundo Pacanaro, Alves, Rabelo, Leme e Ambiel (2011, p 31), entre os principais
requisitos de qualidade, encontram-se:

Apresentação da fundamentação teórica do instrumento com especial


ênfase na definição do construto; Apresentação de evidências empíricas de
validade e precisão das interpretações propostas para os escores do teste;
Apresentacão de dados empíricos sobre as propriedades psicométricas dos
itens dos instrumentos; Informações sobre os procedimentos de correção e
interpretação dos resultados, comunicando detalhadamente o procedimento e o
sistema de interpretação no que se refere as normas brasileiras; Apresentação
clara dos procedimentos de aplicação e correção, bem como das condições nas
quais o teste deve ser aplicado, para que haja uniformidade dos procedimentos
envolvidos na sua aplicação. (PACANARO, ALVES, RABELO, LEME E AMBIEL,
2011, p 31)

Ainda no ano de 2003, o CFP propôs uma Comissão Nacional de Avaliação


Psicológica, denominada Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos (SATEPSI), que
teve como função analisar as dificuldades que o psicólogo enfrentava no contexto das
40

avaliações psicológicas. Atualmente, todos os instrumentos e testes psicológicos passam


pela avaliação dessa comissão. Além disso, o CFP promulgou no ano de 2003, a resolução
CFP n. 002/2003, sobre a produção e a utilização de testes psicológicos.

Segundo Pacanaro, Alves, Rabelo, Leme e Ambiel (2011), o uso de testes


psicológicos na atualidade tem sido direcionado a mais um instrumento diagnóstico dentro
de um contexto, do que o único meio como acontecia anteriormente.

Esses cuidados éticos com as avaliações diagnósticas derivam também do momento


singular da profissão em 2003, quando o Conselho Federal de Psicologia e a classe
profissional se mobilizavam para criar um novo Código de Ética do psicólogo. Um contexto
favorecido por uma gestão que priorizava a Cultura dos Direitos Humanos e o compromisso
social da Psicologia com a sociedade brasileira em transformação.

Reppold (2011) afirma que o processo de avaliação psicológica pode vir a promover
os direitos humanos pelo seu caráter de descrição e interpretação das condutas,
viabilizando o encaminhamento dos sujeitos que possuem demandas psicossociais para
tratamentos adequados e dignos, evitando-se os cuidados inócuos.

A autora ainda indica que o processo de avaliação diagnóstica deveria respeitar e


seguir os mesmos princípios bioéticos das práticas de pesquisa pela Resolucão 466/12. São
eles: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça social. Dessa forma, o psicólogo
deveria ponderar entre os ganhos e riscos envolvidos no processo, assim como respeitar o
direito à devolutiva para o sujeito, garantindo que as pessoas sejam informadas sobre o
processo avaliativo e as implicações no diagnóstico e prognóstico. Deve-se ainda dar a
devolutiva numa linguagem clara, objetiva e compreensível ao sujeito e usar de instrumentos
normatizados e validados para o grupo que será analisado.

Reppold (2011, p 24) alerta o fato de que a maioria das queixas éticas denunciadas
ao Conselho Federal de Psicologia refere-se a problemas com o exercício inadequado da
avaliação diagnostica, como o uso de técnicas inapropriadas, falta de orientações e
encaminhamentos adequados, como também, a emissão de documentos sem a devida
fundamentação teórica.

Nesse sentido, faz-se essencial rever o lugar da Avaliação Psicológica na formação


do psicólogo brasileiro, pois conforme Schmidlin ( 2011) relata, é uma prática destacada
nas Diretrizes Curriculares, no artigo 5, sobre os procedimentos para a investigação
científica e a “prática profissional, de forma a garantir tanto o domínio de instrumentos e
estratégias de avaliação e de intervenção quanto a competência para selecioná-los, avaliá-
los e adequá-los a problemas e contextos específicos de investigação e ação profissional”
(Diretrizes Curriculares Nacionais para a Psicologia, 2004)

Pellini e Sá Leme (2011) concluem sobre a importância do contínuo aprimoramento


do psicólogo:
41

Enfim, para que um profissional atue de forma ética quanto ao


uso de instrumentos, deve procurar manter contínuo aprimoramento
profissional; utilizar, no contexto profissional, apenas testes
psicológicos com parecer favorável, que se encontram listados no site
do SATEPSI; realizar a avaliação psicológica em condições ambientais
adequadas, de modo a assegurar a qualidade e o sigilo das informações
obtidas; guardar os documentos produzidos decorrentes de Avaliação
Psicológica em arquivos seguros e de acesso controlado; proteger a
integridade dos instrumentos, não os comercializando, publicando ou
ensinando aqueles que não são psicólogos. (Pellini e Sá Leme ,2011, p
171)

É necessário ressaltar também, a importância das resoluções resultantes do


processo de amadurecimento da Psicologia com as novas demandas psicossociais (tais
como a Resolução 002/2003), nas quais encontram-se explícitos os cuidados com a escolha
do método regulamentado a ser melhor utilizado pelo psicólogo. A atenção ética com o sigilo
profissional e a divulgação dos resultados são pontos importantes que também merecem
destaque.

Na Resolução 007/2003, por exemplo, a avaliação psicológica é definida dentro de


um contexto multideterminado e por isso, ela contribui para a compreensão das
subjetividades existentes no contemporâneo, ao considerar e analisar também os
determinantes históricos, culturais, sociais e seus efeitos na constituição do homem, não
somente para descrevê-lo, mas sobretudo para modificar esses condicionantes até o
momento conclusivo dessa etapa diagnóstica. A avaliação psicológica, portanto, deve
considerar a natureza dinâmica, não definitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo,
evitando o psicólogo de enunciar prognósticos conclusivos e fechados.

Surge desse exercício de contextualização, uma possibilidade ética, pois quando o


psicólogo contextualiza crítico e reflexivamente o resultado de um processo de avaliação
psicológica, ele está superando o viés adaptativo e eugênico, presente na história da
Psicologia Brasileira, quando:

tem-se constítuido como ferramenta de adequação e


ajustamento intimizado, universal, natural e a-histórico, não se
colocando, assim, a questão que se refere a práticas datadas
historicamente, instituindo modelos de ser e de estar no mundo
segundo padrões de normalidade produzidos como únicos e
verdadeiros, inferiorizando e desqualificando os lugares ocupados
pelos chamados diferentes, anormais, perigosos, desvinculando-os dos
seus contextos sócio-histórico-político-sociais, tornando-os não
humanos. A estes seria endereçado um constante monitoramento,
vigilância e tutela. (BICALHO, 2011, p. 90)

A Resolução 002/2003 confirma, portanto, o principio II do Código de Ética do


psicólogo, que diz do trabalho psicológico como promotor de saúde e que contribuirá para
eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência,
42

crueldade e opressão. Na Resolução, recusa-se também a segregação, quando afirma que


nega sob toda e qualquer condição, do uso dos instrumentos, técnicas psicológicas e da
experiência profissional da Psicologia na sustentação de modelos institucionais e
ideológicos de perpetuação da segregação aos diferentes modos de subjetivação.

Outros cuidados éticos-técnicos presentes na Resolução 007/2003 importantes


dizem respeito: ao documento que deve ter uma clareza e rigorosidade na escrita para ser
compreensível ao leitor; ter uma estrutura ordenada e lógica para ser acompanhado;
“sempre que o trabalho exigir, sugere-se uma intervenção sobre a própria demanda e a
construção de um projeto de trabalho que aponte para a reformulação dos condicionantes
que provoquem o sofrimento psíquico”. Ainda, os psicólogos, ao produzirem documentos
escritos, devem se basear “exclusivamente nos instrumentais técnicos (entrevistas, testes,
observações, dinâmicas de grupo, escuta, intervenções verbais) que se configuram como
métodos e técnicas psicológicas para a coleta de dados”.

No Código de Ética da Psicologia, ainda se encontra outro apontamento importante,


no art 2º, é vedado ao psicólogo: “K) ser perito, avaliador ou parecerista em situações nas
quais seus vínculos pessoais ou profissionais, atuais ou anteriores, possam afetar a
qualidade do trabalho a ser realizado ou a fidelidade aos resultados da avaliação”.

Com relação à quebra de sigilo profissional em avaliações psicológicas, caso o


psicólogo precise compartilhar informações com equipe multiprofissional, é indicado apenas
que compartilhe aquilo que for essencial para configurar o caso do ponto de vista
psicológico, sem expor informações especificas que possam identificar o sujeito.

Reppold (2011) refere-se a importância da avaliação psicológica como prática


responsável e promotora de uma cultura de direitos humanos, como pode-se vislumbrar:

À luz dessa discussão, pode-se concluir que a prática de avaliação


psicológica, quando realizada de forma responsável e coerente com o contexto
social do indivíduo e quando substanciada com instrumentos validados e
normatizados para a população da qual o indivíduo faz parte, busca garantir
atenção aos Direitos Humanos e, portanto, às diferenças individuais e às
necessidades dos indivíduos/grupos. É somente assim, reconhecendo as
diferenças individuais, que pode subsidiar novas práticas e intervenções que
venham ao encontro das demandas que tais diferenças implicam. (Reppold,
2011, p. 27)

Bicalho (2011) defende uma psicologia comprometida com sua sociedade e seu
tempo, recusando quaisquer práticas diagnósticas excludentes ou descontextualizadas.
Esse deverá ser o desafio da Psicologia e das avaliações psicológicas no século XXI:

Recusamos, aqui, a perspectiva que incompatibiliza Psicologia e


política, um tipo hegemônico de racionalidade que impõe a oposição dicotômica
entre teoria e prática, ciência e ideologia. Habitualmente, intervir como psicólogo
pressupõe analisar um território individual, interiorizado ou, no máximo,
circunscrito a relações interpessoais, transferindo as produções políticas, sociais
43

e econômicas ao campo de estudos de um “outro especialista”. Tentar percorrer


outros caminhos e recusar esse destino, lançando mão de uma “caixa de
ferramentas” teórico-conceitual, foi (é) o desafio. Recusar o lugar de “ortopedista
social”, com seus saberes prontos em planejamentos metodológicos assépticos,
mesmo sabendo que inúmeras vezes fomos (somos) capturados pelo enfoque
positivista. (BICALHO, 2011, p 92)

 AS NOVAS INTERFACES DA PSICOLOGIA BRASILEIRA


 INTRODUÇÃO

A história da Psicologia no Brasil relata um cenário profissional múltiplo, porém nem


sempre foi assim. Em seus primórdios, na década de 1950 e 1960, o saber psicológico
dialogava com as áreas da medicina, educação e o universo organizacional. Com a
crescente hegemonia da área clínica, baseada no modelo biomédico, com predomínio de
um fazer remediativo, que tinha como objetivo curar, atacar o sintoma já instaurado. Uma
ação que englobava as atividades de psicodiagnóstico, psicoterapias e seleção de pessoal,
visando ajustar os sujeitos a padrões estabelecidos pelas instituições com poderio
econômico e cultural.

Esse percurso marcou uma visão de psicologia clínica tradicional, calcada no modelo
liberal, que visava resolver conflitos mentais, com enfoque intraindividual, e que
compreendia o sujeito como instância universal a ser ajustado ao convívio social.

Na década de 1980, com as crises econômicas no Brasil, o avanço das


neurociências, a inovação paradigmática, com a inserção das idéias emergentes sobre a
complexidade na multideterminação dos fenômenos psicológicos e o inchaço do mercado
clínico, houve uma crise instaurada nesse cenário clássico da Psicologia brasileira. Esse
contexto demarcou um novo desenho de fazeres, que se espalhou da Psicologia da Saúde
Pública às mais diversas instituições, em Organizações Não Governamentais (ONGs)
e instâncias jurídicas.

Bomfim (2006) afirma que a partir da década de 1970, espalharam-se diversas


experiências profissionais, de psicólogos sociais em comunidades carentes aos postos de
saúde pública. Já na década de 1980, houve a marca da intensificação das trocas entre os
profissionais e as discussões teóricas, com a ampliação dos centros de pós-
graduações scricto sensu. Paralelamente, indica-se a emergência de novas práticas, como
os trabalhos com o meio ambiente e os movimentos sociais. Na década de 1990 houve um
empobrecimento da população, inúmeras crises econômicas, e ao mesmo tempo,
presenciou-se um avanço da vivência democrática, com a conquista de direitos sociais no
mundo do trabalho, o que coadunou com a inserção dos psicólogos em lugares até então
desconhecidos pela psicologia tradicional.

Bomfim (2006) nos relata que:


44

As atividades psicossociais que, em maior escala, passaram a ser


aplicadas a uma clientela que não dispunha destes atendimentos, a partir da
década de 80, caminham hoje na direção de se desenvolverem abordagens
mais específicas em função das características dos grupos, instituições,
comunidades e movimentos sociais. Assim, as práticas de dinâmica de grupo,
grupos operativos, intervenção psicossociológica e análise institucional,
aliadas às metodologias de pesquisa do tipo da pesquisa participantes,
história, estudo de caso com pespectiva histórica e outras. (BOMFIM, 2006, p
208)

Segundo Yamamoto e Gouveia (2003) mesmo na área clínica, houve mudanças


significativas, passou-se de uma prática tradicional exercida no âmbito privado, para um
amplo espectro de atuação, onde o psicólogo clínico esteve presente também nas
instituições, nas comunidades e em outras diferentes frentes de trabalho. Dessa forma,
acumulou funções, demarcando o campo da dupla jornada do psicólogo brasileiro.

Bianco, Bastos, Nunes e Silva (2006) afirmam ainda que o campo clínico abriu-se
para o contexto social, e consequentemente, houve uma mudança nos referenciais teóricos,
que deixaram de considerar somente o aspecto individual para contemplar uma visão
multideterminada de homem e do seu sofrimento, buscando teorias que contemplem a
subjetividade como processo relacional e não apenas como instância intrapessoal.

Esse novo cenário demandou do psicólogo brasileiro uma nova formação e por
consequência uma revisão urgente das teorias, métodos e fazeres. Mudanças na grade
curricular universitária se fizeram necessárias, por exemplo, exigindo uma maior relação
entre a psicologia aplicada e as novas visões epistêmicas.

Essas revisões alçaram e provieram ao mesmo tempo, das novas interfaces e os


desafios profissionais. Por exemplo, na mudança do lugar da psicologia clínica. Houve uma
maior preocupação com os aspectos sócio culturais e o movimento mais destacado foi a
expansão do trabalho psicológico ao campo da saúde, onde houve um intricado jogo de
forças sociais e interesses dos empresários da saúde às políticas públicas.

Essa transição foi marcada pela inserção do psicólogo em instituições, como


hospitais, ambulatórios, unidades básicas de saúde, e outras, como escolas e ONGs. Como
orientação geral de atuação, o psicólogo no âmbito da saúde, reconhece “o caráter global
da saúde de indivíduos e o chamamento à multidisciplinaridade, o reconhecimento da
qualidade de vida e da educação dos grupos e indivíduos como fontes essenciais de
sobrevivência da humanidade” (BIANCO, BASTOS, NUNES E SILVA ,2006, p 33).

O psicólogo na rede básica de saúde, tem sido chamado a atuar com a atenção
primária, com ações que vão desde as ações preventivas complexas até as mais pontuais
e especializadas. Porém, esse tipo de atuação requer do profissional uma inserção
diferenciada, pois costumeiramente o psicólogo foi formado para lidar com doenças ou
distúrbios psicológicos já instalados nos sujeitos, para serem tratados ou removidos, ou seja,
com enfoque na atenção terciária. Outro problema muito recorrente, segundo Bianco,
45

Bastos, Nunes e Silva (2006), é que há uma confusão entre ações de promoção de saúde
e preventivas no nível secundário. O que demanda uma formação diferenciada também nas
universidades, que precisam instruir e educar os novos psicólogos a atuarem no nível
primário, com ações mais complexas e integradoras.

A área da saúde pública tem oferecido diversos desafios ao psicólogo, tais como:
ações profissionais com base em necessidades coletivas, a demanda em lidar com um
número maior de indivíduos, levando o profissional a escolher estratégias grupais, além do
contato mais próximo com as condições concretas de uma população mais carente de
recursos financeiros e culturais.

Com relação ao trabalho em grupo, a Psicologia tem sido chamada a compor


equipes multiprofissionais, compostas por outros integrantes da área da saúde, como
enfermeiros, médicos e terapeutas ocupacionais e a negociar fronteiras de atuação, nem
sempre tão claras e objetivas.

Neto (2004) afirma ainda, que existem três tendências nesse novo panorama da
interface com a área da saúde: a flexibilização do setting terapêutico, a pluralidade de
recursos, procedimentos e técnicas e a permeabilidade entre concepções teóricas.

Nas últimas décadas, tem-se assistido, ainda, a diferentes interfaces da Psicologia


com outras áreas, tais como: a jurídica, a informática e o esporte.

1. A aliança da Psicologia com a área jurídica, refletindo sobre o Estatuto da


Criança e do Adolescente (ECA) e as diretrizes éticas contidas na assistência psicossocial
das crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

Segundo Bomfim (2006), a psicologia jurídica surgiu a serviço das demandas da


justiça, principalmente através da construção de laudos psicológicos. Possuiu por muito
tempo, uma ênfase positivista, marcada pela visão dos juristas, com laudos conclusivos e
fechados. Atualmente, os psicólogos jurídicos não estão somente a serviço das instituições
jurídicas, mas a serviço da cidadania, superando o viés do controle social.

Existem psicólogos atuando junto às Varas das Famílias, junto a casos de adoção,
separação, além de atuar nas Varas da Infância e Juventude, junto as crianças e jovens em
situação de vulnerabilidade social, com a elaboração de laudos para decisões judiciais.

Os desafios éticos nessa interface dizem respeito principalmente a elaboração


desses laudos e relatórios psicológicos, desde aspectos técnicos até questões éticas, como
a devolutiva ao sujeito, a assertiva conclusiva, entre outros.

2. A aliança da Psicologia com a Informática, refletindo sobre as novas


possibilidades terapêuticas mediadas pelas novas tecnologias, assim como, investigando os
processos de subjetivação multideterminados pela inserção crescente do homem no mundo
globalizado. A dimensão ética presente nessa interface repensa a questão do sigilo
46

profissional possibilitado ou não pelas terapêuticas mantidas e mediadas pelas novas


tecnologias.

3. A aliança da Psicologia com a área esportiva, com estudos motivacionais e


liderança em equipes desportivas. É uma área recente, datando da década de 1950, num
mundo crescentemente competitivo em que o esporte se torna profissional e altamente
comandado pela lógica do mercado. Dentro desse cenário, surge o trabalho do psicólogo
atento ao desportista e seu desenvolvimento psicossocial. Bomfim (2006) afirma que:

O trabalho do psicólogo do esporte orienta-se para o alcance de um


melhor desempenho, sendo em vários aspectos, semelhantes as demais
atividades de psicólogos que lidam com a questão do trabalho. Trata-se de um
profissional que busca valorizar ao máximo o potencial de seu cliente, ao
mesmo tempo, que tenta minimizar ou neutralizar suas deficiências. Atua no
sentido de melhorar o desempenho e otimizar as relações entre esportistas,
técnicos e dirigentes. (BOMFIM, 2006, p 223)

Uma das questões éticas mais prementes nessa interface diz respeito a função
social do psicólogo, como no campo organizacional. Por exemplo, se o profissional trabalha
em prol da saúde mental do esportista ou em prol dos ganhos de produtividade das
empresas que mantém os clubes e os desportistas.

Atualmente, segundo Yamamoto e Gouveia (2003), a Psicologia desenvolveu um


amplo corpo de conhecimentos e métodos interventivos, que alcançaram virtualmente
diferentes campos de atividade humana. Ainda, conforme os autores, hoje a questão
essencial que se coloca para a Psicologia em sua diversidade diz respeito em como essas
interfaces tem respondido às demandas contemporâneas colocadas para a sociedade
brasileira, nos seguintes pontos: (a) à produção de conhecimento; (b) ao avanço tecnológico;
(c) a renovação dos profissionais.

Todas as novas interfaces da Psicologia precisam se organizar continua e


criticamente para responder e criar conhecimento frente a uma sociedade em
transformação.

 TEMAS EMERGENTES DA PSICOLOGIA BRASILEIRA


 INTRODUÇÃO

A expansão dos cursos de psicologia no Brasil ocorreu nos anos 70 e 80 do


século passado, até então, o país contava apenas com seus quatro primeiros cursos de
Medicina e Direito. Atualmente, no Brasil, existem autorizados 488 cursos de psicologia
(MEC, 2005). Destes, quase metade (54%) concentra-se na região sudeste, sendo o estado
de São Paulo é responsável por 31,15%. Atualmente dos 232 mil psicólogos no Brasil, 88%
são mulheres. (LHULLIER, 2013). Percebe-se a expansão da Psicologia como ciência e
profissão no âmbito nacional.
47

Yamamoto e Gouveia (2003) afirmam que no Brasil,o crescimento da Psicologia é


significativa, comemora seus mais de 50 anos de regulamentação com aumento exponencial
dos seus cursos de formação e desenvolveu conhecimentos e técnicas em diferentes áreas
de atuação.

Diante essa ampliação e complexificação do universo profissional da Psicologia na


realidade brasileira nas últimas décadas, surgiu a obrigação ética e cientifica de estar atenta
as condições de formação do psicólogo, as reflexões sobre as demandas psicossociais de
uma sociedade em transformação e os modos práticos de atuação profissional diante os
novos desafios impostos pelas mudanças no mundo do trabalho. Conforme Bastos&Achcar
(2006) elucidam:

A principal característica deste final do século XX é, certamente, o


intenso e acelerado processo de transformação vivido pelas sociedades,
independente do seu regime político e apesar dos profundos desníveis quanto
ao grau de desenvolvimento sócio econômico. São mudanças econômicas,
políticas, tecnológicas e socioculturais que estão configurando, entre outros,
novos cenários para o mundo do trabalho que impõem, em diversos planos, a
necessidade de alterações nas definições, atitudes e competências dos
trabalhadores e, em especial, dos profissionais. (BASTOS e ACHCAR, 2006,
p 245)

Com relação ao universo ocupacional, uma das suas marcas diz respeito a
emergência de uma sociedade de serviços, com o peso do setor terciário na economia
mundial e globalizada. Bastos e Achcar (2006) indicam que as profissões voltadas para a
prestação de serviços nas áreas de educação e saúde prometem serem as mais procuradas.
A Psicologia está presente tanto em um setor como em outro, pode estar voltada a promoção
de saúde integral do indivíduo como pode estar inserida nas escolas em atuações diretivas.

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (2012),

“o Brasil possui o maior número de psicólogos ativos do


mundo. São 216 mil profissionais em atividade, de acordo com o
Cadastro Nacional de Psicólogos do Sistema Conselhos de Psicologia.
Para se ter uma noção, a American Psychological Association (APA),
tida como a maior associação mun- dial de psicólogos, contém 137 mil
membros. Em termos quantitativos, o País sai na frente, inclusive, da
Federação Europeia de Associações de Psicólogos, que agrega 35
nações e tem cerca de 90 mil associados. ” (CFP, 2012, p 5)

Ainda segundo o CFP (2012), a Psicologia tem evoluído para uma identidade mais
social, preocupada com uma visão interdisciplinar com outras ciências, essencialmente
disparada pelas transformações no campo da saúde na década de 80, quando houve uma
reconstrução da visão do sujeito humano, com a perspectiva promocional da saúde, ao
invés de uma atuação apenas remediativa.

Diante desse cenário em mudança, a Psicologia tem sido chamada a desenvolver


qualificações específicas como a capacidade analítica para interpretar informações em
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diferentes contextos de atuação, a competência social na comunicação, como a


flexibilização intelectiva e dialógica para agir em novos campos de trabalho.

Essas novas demandas têm modificado o modo da Psicologia Brasileira se rever e


propor outros modelos de atuação, por exemplo, com mudanças significativas nos seus
currículos, através de novas diretrizes como o MEC tem realizado junto a categoria
profissional. Mas essas modificações vão mais além, invadem os lugares em que a
Psicologia se encontra, mobiliza os seus trabalhadores, desafia-os e oferecem novas
perguntas e reflexões diante os novos tempos.

A partir disso, Bastos e Achcar (2006) indicam os principais movimentos emergentes


no exercício profissional do psicólogo no século XXI, calcados em três direções, segundo
eles: (1) ampliação das situações em que o psicólogo atua, diversificando os problemas com
que se lida, assim como ocorrem mudanças com sua clientela e recursos técnicos; (2) a
intervenção psicológica torna-se mais complexo, superando o viés remediativo e
individualizante e (3) um forte questionamento das teorias existentes na psicologia,
buscando novos olhares frente aos novos contextos de atuação. Os autores descrevem
esses três eixos nas seguintes problemáticas:

1) Mudanças na concepção sobre o fenômeno psicológico: tradicionalmente a


Psicologia Brasileira fomentou uma visão centrada no plano individual, a-histórico e a parte do
contexto social, com as mudanças no mundo do trabalho, como a inserção do psicólogo em
instituições e em comunidades, essa concepção foi revista e atualmente, existem teorias que
reconsideram o contexto social. Dessa forma, o fenômeno psicológico tem sido compreendido
na interdependência com o aspecto sócio cultural.

2) A adoção da perspectiva multidisciplinar versus a unidisciplinar na prática


profissional: “ decorre da mudança na concepção do fenômeno psicológico a busca de
referenciais e conhecimentos de outras disciplinas ou campos do saber para embasar a análise
e intervenção frente a problemas concretos. “ (BASTOS E ACHCAR, 2006, p 252)

3) Uma intervenção profissional do psicólogo junto a equipes multiprofissionais:


superando a ação do psicólogo individualmente, isolado em seu consultório, por exemplo. As
revisões teóricas do fenômeno psicológico obrigaram o psicólogo a dialogar com outros
profissionais e seus saberes.

4) Uma intervenção profissional centrada em contextos, em grupos e de ação


preventiva: contraponto a uma ação tradicional da Psicologia com foco no individuo, no intra
psíquico, com caráter curativo e remediativo. Isso pode ser visto na inserção do psicólogo nas
instituições, que demandam um diálogo aberto e flexível em equipes multiprofissionais.

5) A atuação profissional no nível estratégico, com maior poder de decisão: em


funções de assessoria, gerência e consultoria, em contraponto a uma ação profissional
tecnicista. Esse movimento emergente tem estreita relação com a amplitude do setor terciária
de serviços e a inovação de fazeres ocupacionais diante das mudanças no mundo do trabalho.

6) A ampliação e inovação no uso de recursos e instrumentos técnicos na psicologia:


“ coerentemente com o rompimento de um padrão restrito de atuação psicológica- centrada no
individuo e voltada para a superação de problemas de ajustamento ao contexto escolar-
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observa-se o envolvimento do psicólogo em um conjunto de atividades de lazer, recreativas,


de teatro, como instrumentos de intervenção em problemas escolares”. (BASTOS E ACHCAR,
2006, p 252)

7) Nova Clientela, mais diversificada: a entrada da Psicologia em novos campos, como


as instituições de saúde, recompõem sua clientela, agora mais diversa e colocando o
profissional em contato com segmentos sociais, antes excluídos pelo modelo tradicional clínico,
que atendia a setores elitistas. Essa ampliação da clientela forçou uma revisão teórica
epistêmica até as estratégias usadas para promover saúde a populações antes não atendidas.

8) Um compromisso social e profissional da Psicologia: fortalece-se o engajamento


político, ligado ao mote da transformação social, oriundo das mudanças teóricas, a mudança
de clientela, entre outros motivos. Essa postura política da Psicologia visa superar o viés
assistencialista presente na história da profissão no Brasil, engajando o profissional em novos
movimentos sociais, como a organização diante as políticas públicas e os movimentos pelos
direitos humanos.

Obviamente que essas mudanças emergentes alcançam a formação do psicólogo


no Brasil e suas implicações práticas. Bastos e Acchar (2006) ilustram bem as novas
propostas:

“Esse conjunto de habilidades revela a necessidade de que, no curso


de formação acadêmica do psicólogo, sejam rompidos os limites que o
aprisionaram a uma formação fragmentada e tecnicista ou que o preparam
para reproduzir formas extremamente limitadas de enfrentar um reduzido leque
de problemas. Ele, também, aponta o desafio de que a mudança na formação
não se pode reduzir ao plano dos conteúdos ou conhecimentos, mesmo que a
sua ampliação dê conta dos novos contextos, clientelas e problemas com os
quais o psicólogo passou a se deparar. “ (BASTOS e ACCHAR, 2006, p 269)

Ainda em relação aos dilemas profissionais e de formação, autores como Bastos e


Acchar (2006) denunciam existem falsos dilemas que precisam ser superados na
contemporaneidade, tais como: deve-se privilegiar uma formação teórica ou
profissionalizante; ou então, uma formação generalista ou focada em especialidades. Não
caberia uma discussão profunda sobre esses dilemas, pois eles são reducionistas e apenas
iluminam as polaridades, sem se ater ao processo de formação como algo dialógico, mutável
e aberto as novas sociedades, como diriam, não existem um curso apenas generalista ou
especialista, na Psicologia, esses polos se mesclam e concluem uma formação cuidadosa
e ampla.

Uma das preocupações do CFP (2012) diz respeito ao cunho mercantilista que
alguns cursos e especializações de Psicologia assumem para responder ao mercado,
muitas vezes desligando-se das demandas psicossociais mais veementes. Estudiosos da
profissão, como Mitsuko Antunes reafirmam a necessidade da Psicologia estar atenta a uma
atuação comprometida e ligada com as reais necessidades da população.
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O Conselho Federal de Psicologia (2012) afirma que apesar dessas questões


delicadas, o panorama da Psicologia Brasileira é otimista pela amplitude de atuação e o
comprometimento político, pois:

“com todas essas mudanças, a Psicologia pode continuar crescendo


em sintonia com os anseios e necessidades da sociedade brasileira. O
profissional de hoje está muito mais comprometido na construção das políticas
públicas. O universo da área conta com mais de 50 mil profissionais atuando no
Sistema Único de Saúde (SUS), na Assistência Social, na Justiça, na Segurança
Pública e Forças Armadas. ” (CFP, 2012, p.6)
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 CONTEÚDO NP2
Conforme o CFP houve uma nova resolução sobre os documentos escritos,
o que mudou e porque houve tais modificações?

Ressalta a diferença entre laudo e relatório. Relatório: Registro que considera os


condicionantes históricos e sociais da pessoa, grupo ou instituição atendida, podendo
também ter caráter informativo para comunicar a atuação profissional em diferentes
processos de trabalho já desenvolvidos ou em desenvolvimento para gerar orientações,
recomendações, encaminhamentos e intervenções pertinentes. Laudo: resultado de um
processo de avaliação psicológica, com finalidade de subsidiar decisões relacionadas ao
contexto em que surgiu a demanda. Apresenta informações técnicas e científicas dos
fenômenos psicológicos, considerando os condicionantes históricos e sociais da pessoa,
grupo ou instituição atendida.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou a Resolução CFP no 11/2018,


que atualiza a Resolução CFP no 11/2012 sobre atendimento psicológico on-line e
demais serviços realizados por meios tecnológicos de comunicação a distância. O
que diz a nova resolução sobre a atendimento online o que levou o conselho a tomar
tal decisão?

Essa resolução regulamenta a atuação do profissional psicólogo por meio da


tecnologia da informação e da comunicação. Desde que não firam o código de ética esses
serviços podem ser realizados: Consultas e/ou atendimento psicológico, processos de
seleção de pessoal, Utilização de instrumentos psicológicos (testes), Supervisão técnica dos
serviços prestados por psicólogas e psicólogos.

A proposta inicial de tornar a quebra de sigilo obrigatória, no novo código,


acabou sendo revista e modificada em função das críticas que levantou, tanto por
parte dos próprios profissionais da psicologia quanto por outros setores da
sociedade, como por exemplo, a Ordem dos advogados. Assim sendo, a não
obrigatoriedade da quebra de sigilo em casos de violência?

Existe dois tipos de comunicação no caso de violência: a comunicação externa e a


notificação compulsória. Comunicação externa: denúncia enviada para serviços de saúde e
aciona a polícia, a justiça e o ministério público; pode ocorrer com o consentimento (termo
de autorização), quando a mulher se encontra impossibilitada de realizar a denúncia, e sem
o consentimento (quebra de sigilo) e deve ser feita em situações em que a vida da mulher
corra sério risco ou ainda a de seus filhos ou de pessoas próximas. Notificação compulsória:
tem fins epidemiológicos e segue um processo interno dentro da Saúde Pública, servindo
para a construção de perfis pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação-SINAN,
os quais serão utilizados na construção de políticas públicas mais eficazes e é utilizado
quando não há risco de feminicídio para não haver quebra de sigilo.
52

Felipe a atende, em seu consultório particular, uma criança de 12 anos, cujos


pais estão se separando judicialmente e seu paciente deverá ser avaliado pela
psicóloga perita e assistentes técnicas. A psicóloga do Fórum quer contato com
Felipe. Com relação ao seu modo ético como Felipe deve proceder?

Encaminhar um laudo para a psicóloga perita para contextualizá-la sobre o trabalho


desenvolvido com o paciente sem revelar detalhes desnecessários sobre ele e fazer com
que ela preserve o sigilo.

A prática clínica, inserida em novos contextos psicossociais, tem demandado


do psicólogo brasileiro novas perspectivas de atuação, assinale exemplos dessas
práticas inovadoras no cenário clínico.

O atendimento online pode ser uma dessas novas perspectivas.

A Psicologia do Esporte, como área emergente de aplicação, faz parte das


Ciências do Esporte, juntamente com a Antropologia, Filosofia e Sociologia do
Esporte. No que se refere ao trabalho com atletas de esportes coletivos, a
caracterização do trabalho do psicólogo do esporte ainda está consolidando-se e,
cada vez mais, como atua o psicólogo neste campo profissional?

Atua em competições esportivas, atividades recreativas e/ou de lazer com o objetivo


de promover a saúde mental e melhorar o desempenho do atleta.