Você está na página 1de 13

1.

Introdução

O presente trabalho refere-se a emblemática obra arquitetônica Park Hotel do arquiteto


brasileiro Lúcio Costa; obra, a qual foi projetada entre 1944 e 1945 e se localiza em um terreno
de pronunciado aclive e densa vegetação no Parque São Clemente, em Nova Friburgo, na cidade
de Rio de Janeiro. Planejado como um edifício para uso temporário, o hotel visava atender e
abrigar loteadores do parque, sob pedido do engenheiro Cesar Guinle. Este era herdeiro de
Eduardo Guinle, homem de alto poder aquisitivo que comprou e se tornou proprietário das
terras de Antonio Clemente Pinto Neto, o 2º Conde de São Clemente.
A respeito do hotel, pode-se considerá-lo uma das mais importantes obras da arquitetura
brasileira do século XX, já que ela combina perfeitamente dois princípios arquitetônicos
diferentes, a arquitetura moderna e funcional com a herança colonial, mas articulando algo em
comum. Lucio criou algo que serviria de referência para os próximos arquitetos brasileiros, teve
a aptidão de estabelecer uma alternativa de construção, harmonizando características
corbusianas com uma concepção vernacular. Assim sendo, o pavimento térreo trabalhava
quatro dos cincos pontos estabelecidos na arquitetura moderna por Le Corbusier: o uso dos
pilotis, fachada livre, planta livre e janelas em fita, enquanto o pavimento superior utiliza a
arquitetura luso brasileira, usufruindo dos materiais da região, e mesclando, portanto, pedra e
madeira com vidros e brise-soleil.
Um fato importante que influenciou nas decisões de partido do arquiteto, foram as leis e
decretos da Prefeitura de Nova Friburgo, que estabeleciam exigências para loteamento, e no
caso dos hotéis, era de caráter obrigatório o estilo ao tipo de hotel de montanha, de cunho
marcadamente campestre e buscando harmonia com a paisagem, respeitando o limite de
desmatamento. Todavia, isso não era um obstáculo para Lúcio, ele não se incomodava com tais
obrigações, e assim, determina duas decisões fundamentais: instalar os quartos (oito suítes
padrões, idênticas e dispostas em linha, e duas especiais situadas nas extremidades opostas) em
um andar superior, devido a escassez do terreno, e definir uma estrutura mista de alvenaria e
madeira com troncos roliços, constituindo uma ossatura independente. O próprio Lucio Costa
declarava fazer modernismo sem ser modernista, já que acreditava não fazer o uso dos preceitos
modernistas apenas por apreciação estética ou por modismo, mas sim por haver uma
compreensão espacial.
Devido seu valor, o Park Hotel foi declarado, em 1985, parte do patrimônio histórico
artístico e nacional, entrando na lista de bens tombados pelo IPHAN, e sendo reconhecido por
Bruandi, um dos principais nomes da restauração de objetos de arte, como um marco
introdutório da arquitetura moderna no Brasil. O hotel e o restaurante local permaneceram-se
em funcionamento por décadas, já que tinham um valor de admiração para as famílias da região
e em virtude da atividade turística que gerava. Em contrapartida, foi desativado em 2003,
passando por dificuldades de manutenção e de continuidade de uso, e aguardando iniciativas
para restauração, já que, como um bem tombado, necessita da aprovação federal. Hoje o local
está sob os cuidados de um único homem, que se dedica ao patrimônio a pedido da família
Guinle.
Dado o exposto, pode-se afirmar que o objetivo a ser atingido por este escrito é analisar a
inovadora e emblemática obra de Lúcio Costa, o Park Hotel, abordando o partido arquitetônico
e o sistema construtivo utilizado, as decisões materiais, o volume e o layout, e o edifício como
um todo, permitindo um maior entendimento sobre o mesmo e sobre as decisões do seu
idealizador.

2. Estado da arte e da técnica

O principal marco da obra foi o fato de Lúcio Costa ter unido com tamanha aptidão dois
partidos arquitetônicos diferentes, seguindo uma arquitetura moderna no pavimento térreo do
hotel, e usufruindo da arquitetura luso brasileira no pavimento superior. Diante disso, efetua-se
uma revisão dos principais conceitos, características e idealizadores dessas vertentes seguidas
pelo arquiteto, para contextualizar o tema, fundamentando esta análise.
A arquitetura moderna, assim como as outras artes, se desenvolve no início do século XX
e tinha como princípio romper com o que era vigente até o momento. Le Corbusier, um arquiteto
artista, sendo um dos maiores nomes da arquitetura, defendia que a sociedade estava passando
por mudanças, devido principalmente a Revolução Industrial, e que da mesma forma que os
outros campos estavam se adaptando a tal mudança, a arquitetura e o modo de construir também
deveriam.
Para ele a sociedade adquiriu velocidade e deveriam suportar tal demanda explorando o
conceito de casa como “máquina de morar”. As residências deveriam ser construídas em massa,
com poucos, ou sem ornamentos, valorizando a funcionalidade do espaço e não os seus itens
decorativos. Ao longo de seus estudos são determinados cinco elementos que se tornam
fundamentais para a arquitetura moderna, sendo eles os pilotis, a fachada livre, a planta livre, o
terraço jardim e por fim as janelas em fita.
O uso dos pilotis dava sustentação ao edifício, substituindo as paredes e permitindo a
amplitude para ir e vir. Assim como a planta livre, que por meio de uma estrutura independente,
traz a ideia de modificar o espaço sem causar danos à estrutura, permitindo a livre locação das
paredes, já que não possuem mais função estrutural. A fachada livre é consequência direta da
planta livre, permitindo a fachada com abertura máxima, ou qualquer arranjo que se deseja
realizar. O uso da janela em fita também é defendido, uma vez que a fachada livre e
independente, é possível realizá-las no formato que se deseja. Por fim, o terraço jardim, que o
arquiteto questiona a não utilização do espaço da cobertura se ela tiver inclinação, propondo,
então, coberturas planas, que servissem de área de permanência e convívio social.
Já sobre a arquitetura luso brasileira, refere-se a arquitetura colonial realizada no território
brasileiro desde 1500, com a chegada dos portugueses, até 1822 com a independência,
retratando a influência portuguesa e adequando ao clima tropical, aos materiais disponíveis e
às situações socioeconômicas locais. Em outros termos, é uma arquitetura de expressão
vernacular, própria da região que pertence, desprovida de uniformização e se opondo a
padronização da arquitetura mundial, visando uma independência cultural.
De acordo com os materiais disponíveis em abundância, barro e madeira, era comum o uso
das técnicas da taipa de pilão e pau a pique na arquitetura colonial, apresentando resistência e
durabilidade. Esse sistema era muito conhecido pelos indígenas, que também construíam em
modo vernacular, utilizando no sistema de estrutura as vigas e pilares amarrados em suas
extremidades. Com o tempo foi sendo utilizada a alvenaria de pedra ou tijolos de adobe para as
paredes e o uso de madeira para os pisos e tetos, assim como as palhas da cobertura foram sendo
substituídas por telhados de duas águas, com telhas em cerâmicas. Na alvenaria de pedra,
passaram a incrementar o uso da pedra e cal como método construtivo ao modo da arquitetura
portuguesa, tendo-se uma pedra argamassada e rebocada com barro e cal, para dar forma à
arquitetura.

3. Metodologia

Para o desenvolvimento deste trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica de teses,
textos científicos e livros, para analisar o processo de construção estrutural e projetual. A seguir
encontra-se o que foi concluído com essa revisão.
Sobre o processo de construção do projeto, com obras a cargo de Arnaldo Monteiro e
assistido por Sylvio Santos, pode-se afirmar que Lúcio Costa o concebeu de maneira a fugir do
óbvio, já que o monumento é composto por dois volumes adjacentes com forma de prisma,
possuindo dimensões, materiais e funções divergentes.
O volume de maior dimensão apresenta uma planta retangular, de aproximadamente 31
por 5 metros, incluindo os balanços, se expandindo no sentido leste-oeste. Ele representa o
bloco principal, possui dois pavimentos e, devido a declividade do terreno, é levemente elevado
do solo por colunas de tora bruta de eucalipto, cujo diâmetro é de 21 centímetros e cujos eixos
verticais se distanciam em 3 metros, sendo um típico exemplo de planta livre corbusiana.
Ademais, sua cobertura é em meia-água inclinado a sul, formando uma seção transversal
trapezoidal e é constituída de telhas em barro.
Figura 1: Corte transversal
Fonte: www.archdaily.com.br

O pavimento térreo desse bloco é metade fechado por planos de vidro com caixilhos a cada
75 centímetros e metade exposto em varandas com abertura para o parque. Relativamente
próximo à colunata, o plano de vidro direcionado para o sul tem um desvio ao adentrar a escada
que permite o acesso a área social, o qual ocorre por meio da varanda. Esta área é cercada de
um lado por uma área de recreação e do outro pela recepção e o restaurante, sendo válido
evidenciar os vários desníveis entre esses espaços.
Outrossim, o acesso do edifício ocorre pela fachada norte, possuindo uma entrada social e
uma entrada de serviços, sendo, respectivamente, pela gerência e pela cozinha. Ambas entradas
são resguardadas também por telhas de cerâmica, a primeira com caimento inverso sustentado
por pilares de madeira em “V”, e a segunda com caimento tradicional.

Figura 2 - Planta térreo


Fonte: www.archdaily.com.br

O pavimento superior tem acesso através de uma escada inclusa em um volume de pedra
central que se mostra na fachada norte. É nesse pavimento que se encontram as suítes, as quais
oito delas são dispostas em linha e classificadas em suítes-padrão por serem iguais em tamanho
e configuração. As duas outras restantes são suítes especiais, localizadas nas extremidades do
bloco, também são idênticas entre si, mas possuem maior dimensão que as demais. Além disso,
as paredes entre os apartamentos são de taipa-de-mão e na fachada sul todos os quartos são
providos de uma varanda em balanço e protegida por um peitoril em muxarabi azul, que é uma
treliça típica da arquitetura colonial.

Figura 3 - Planta pavimento superior


Fonte: www.archdaily.com.br

Na fração noroeste do edifício, localiza-se o volume de menor dimensão, um


paralelepípedo edificado em alvenaria portante, constituído de apenas um pavimento, e é onde
comporta os serviços do hotel. Ele também está posicionado no sentido longitudinal como o
bloco maior, porém está descolado dele, havendo uma conexão perpendicular entre ambos os
volumes por meio da cozinha. Observando externamente, a cozinha e a área de serviços
pertencem ao mesmo volume, configurando um bloco em L de altura inferior ao volume
principal e também coberto por telhado de meia água.
Sobre as fachadas, na voltada para o sul é mais nítido as referências corbusianas, com as
varandas e sua repetição modular dominando a composição, e os pilotis e os planos de vidro
fazendo contraposição com as paredes de pedra. Em contrapartida, a fachada norte constitui-se
de inúmeros volumes com diversificados materiais e relações de altura.

Figura 4 – Fachada Sul Figura 5 – Fachada Norte


Fonte: www.archdaily.com.br Fonte: www.archdaily.com.br
A respeito do mobiliário, ele era típico da época de sua fundação e todo ele foi projetado
por Lúcio Costa e construído em Nova Friburgo. É pertinente mencionar que toda madeira foi
provida do próprio local assim como as pedras, os vidros vieram de fora, e as cerâmicas foram
produzidas na redondeza pela Cerâmica Parque São Clemente. A opção de troncos cilíndricos
afasta-se da tradição construtiva mineira visando uma melhor acomodação do edifício ao
terreno, sendo essas peças trabalhadas como peças estruturais modernas, tanto nos pilares e nas
vigas, usando amarração em metal para fazer seu travamento.
Em suma, pode-se dizer que houve uma tentativa de associação com a natureza, com a
fartura de materiais campestres incorporado em uma obra que segue uma direção racionalista.
Essa proposta de diálogo entre arquitetura e natureza, não segue uma relação de fusão, já que
preserva a independência de ambas.

Figura 6 – Implantação da casa, 1967.


Fonte: ABA, 1968, página 123

4. Materiais

A seguir é inserida a tabela 1, que consta dados comparativos de diferentes materiais

Tabela 1 - Dados comparativos de diferentes materiais


Material Densidade Energia para Resistência Relação entre valores de
(KN/m³) produção (MJ/m3 (Mpa) resistência e densidade
)

Concreto 24 1920 20,3 0,84

Aço 78 234000 250,4 3,21

Madeira 9 630 90,5 10,0

Vidro 25 46250 40 1,6

Fonte: Relatório PIT/SP (2007)


4.1. Descrição dos materiais

Nos próximos tópicos segue uma descrição mais detalhada de cada material, dos
principais optados pelo arquiteto, como a madeira de eucalipto, o vidro, a pedra e o barro,
mostrando suas propriedades físicas, suas especificidades técnicas e um pouco da sua
contextualização na sociedade.

4.1.1. Madeira de Eucalipto

A madeira é um material que está presente nas construções há milhares de anos, tendo
diversas finalidades, inclusive sendo uma ótima alternativa como sistema estrutural. Observa-
se o seu uso como estrutura desde a Antiguidade na Grécia Antiga com as edificações dos
grandiosos templos, e por ser um material de fácil acesso, disponível na natureza e renovável,
com diversas qualidades, permanece até hoje como uma das melhores alternativas, de acordo
com o projeto, se usada de maneira consciente, sustentável e legal.
Apesar de ter uma grande oferta desse material, há uma preocupação com sua utilização,
devido a evidente redução da cobertura florestal, e assim, no Brasil, o IBAMA - Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - aponta a necessidade da
redução da pressão sobre as florestas nativas, estimulando o reflorestamento e o uso das
madeiras provenientes dessas. Isto posto, existe uma grande diversidade de espécies que
atendem a tal necessidade, como o pinus e o eucalipto, sendo, o segundo, o material optado
pelo arquiteto Lúcio Costa para as colunas aparentes de toras roliças, usando junto amarração
de metal para fazer seu travamento.
O gênero Eucalyptus é proveniente das ilhas da Oceania, com mais de setecentas
espécies reconhecidas botanicamente, e, atualmente, não mais que vinte são comercializadas
mundialmente. Acredita-se que foi introduzida na América em 1823 no Chile, e no Brasil há
controvérsias quanto a data e a localidade, porém, as primeiras semeaduras ocorreram por certo
em 1868 no Rio Grande do Sul. De acordo com a Indústria Brasileira de árvores, hoje, são 5,5
milhões de hectares plantados, com uma produtividade média de 39m²/ha/ano, dependendo de
acordo com o local de plantio.
Com relação às características técnicas, essas espécies têm boa durabilidade, no quesito
apodrecimento, se tratada com produtos preservativos com antecedência, mesmo sendo
vulneráveis à ação de agentes biológicos como fungos e insetos. Quanto à reação ao fogo, a
madeira é um material combustível, mas não impede que apresente boa resistência. Isso porque,
quando exposta ao fogo, formam uma camada externa de carvão que se comporta como um tipo
de isolante, tendo uma velocidade reduzida do aquecimento e degradação do material, e,
portanto, uma melhor capacidade de sustentação das cargas da edificação.
Outrossim, é um material de baixo consumo de energia no processo de usinagem,
comparado com demais materiais, como o aço e o concreto. Também apresenta bom
desempenho mecânico, tanto para tração quanto compressão, altas resistências às cargas de
impacto e boa resistência às cargas de curta duração. Por fim, pode-se dizer que é caracterizada
pela sua simplicidade de manipulação, sofre pouca alteração de dimensão pela variação de
temperatura e não reage com agentes oxidantes ou redutores com facilidade.

4.1.2. Vidro

O vidro é um dos materiais mais antigos empregados pelo ser humano, sendo formado
essencialmente por areia, cal e barrilha desde os primórdios. Em sua composição encontra-se
outros materiais secundários, que são importantes para alterar suas qualidades e que
diferenciam um tipo de vidro do outro, tendo o vidro de soda-cal, que é o mais comum, o de
borosilicato, o de chumbo, entre outros. Há uma gama de variedade e de finalidade do vidro,
que vão de incolor à colorido, com isolamento térmico, fotossensíveis, temperado, laminado, e
assim por diante, estando presentes em espelhos, lâmpadas, itens de cozinha, itens de decoração,
nos carros, e, dentre muitos outros, nas vedações de edificações.
Sobre as principais propriedades do vidro, pode-se abordar sobre a transmissão de luz e
radiação, o índice de refração, que é a medida da fração de luz que é “flexionada” quando
atravessa vidro e é relativamente invariável para os vidros, sendo de 1,52 para os vidros de
soda-cal, e variando de 1,47 para os vidros de borossilicato a 1,56 para os vidros de chumbo, e
as propriedades térmicas, que englobam a temperatura máxima de trabalho, o calor específico,
a condutividade, a expansão e a transmissão térmica, sendo que o comportamento mecânico
do vidro como fruto de uma fusão e como um elemento que se quebra naturalmente, é
demasiadamente submisso das suas propriedades térmicas.
Ademais, há também a resistência, que é uma propriedade que mede a capacidade de
suportar compressão, tensão, flexão, torção e outros esforços, sendo um material quebradiço
com qualidades de resistência muito diferentes. Uma importante unidade de resistência é o
esforço de tensão, conhecido como o Módulo de Young (E), em que o vidro apresenta um valor
de 70.000 MN/m², enquanto o diamante, por exemplo, tem o valor de 1.200.000 MN/m² e o aço
210.000 MN/m², e assim conclui-se que o vidro apresenta uma boa elasticidade e assim como
o concreto, o vidro é muito resistente a compressão, com valor de 1.000N/mm², e pouco
resistente à tração, com valor de 100 N/mm².
Quanto à dureza dos materiais, o teste de “arranhão” usa a escala de dureza Moh e o
vidro é um material naturalmente duro, comparável com o aço e a sua dureza é uma das
propriedades mais importantes, tendo o vidro de soda-cal uma dureza de 5,4-5,8. A durabilidade
às intempéries é a associação entre a dureza e a durabilidade química, tendo influência da
resistência natural do material a ação química, e da sua eficácia em suportar a limpeza prescrita
para o funcionamento de um transmissor de luz sem distorções.
Por fim, o vidro é um material razoavelmente leve com uma densidade de 2,50 para o
soda-cal, enquanto vidros com chumbo têm densidade entre 3 e 6, sendo que ao adicionar
fluidos e modificadores geralmente pode-se ter a densidade aumentada. Já em relação à
resistência ao fogo, é muito baixo o desempenho de janelas de vidros convencionais, no entanto,
hoje há o uso dos vidros de borossilicato, que é um material forte de baixa expansão, e
desenvolveu-se sistemas sanduíches que incorporam intercamadas resistentes ao fogo. Além
disso, o vidro deve atender aos requisitos de isolamento acústico, sendo que se instalado como
uma folha simples o seu resultado é exíguo, mas se utilizado sistemas múltiplos pode-se obter
um bom isolamento, principalmente se for mesclado espessuras de vidro diferentes. Existem
também os vidros laminados acústicos que, comparado com o vidro comum, concedem um
isolamento acústico superior.
Em suma, o vidro é um material com muitas aptidões, as quais são otimizadas cada vez
mais com a pesquisa e tecnologia, sendo fundamental na produção da arquitetura. Existe uma
diversidade de tipos de vidro, mas é importante um grande entendimento para fazer a melhor
escolha visando seu objetivo. Além disso, deve-se entender as propriedades do vidro para que
não se extrapole seus limites e assim tenha suas qualidades otimizadas.

4.1.3. Pedra

Os primeiros materiais utilizados nas construções na Grécia e no Egito eram do tipo


vernacular, ou seja, utilizavam recursos do próprio ambiente em que estavam construindo,
sendo os mais utilizados, a terra a madeira e a pedra. Esta última era o material mais rígido e
duradouro, mas também o que apresentava maior dificuldade para manuseio. Existem diversos
tipos de composição de pedra, mas nos primórdios os Hititas, os Assírios e os Egípcios
usufruíram do granito, do calcário e do arenito nas suas edificações.
Com o passar dos anos, os romanos desenvolveram inovação na construção de paredes
em pedra, em que eram construídas com pedras à face, sendo o interior preenchido com betão
(opus cementicium), resultando em um levantamento mais rápido dos grandes monumentos à
qual se aliava uma elevada resistência mecânica
Assim como essas civilizações antigas retiravam materiais do próprio local, as
construções de paredes de alvenaria de pedra também são caracterizadas, comumente, pelo uso
de materiais oriundos de locais próximos à obra. As pedras que formam as paredes são de
medidas e contornos irregulares e variados ajustados em argamassa de cal aérea, tentando dispor
as pedras em níveis uniformes na medida do possível. Também é comum que se insiram seixos,
ou seja, pequenas pedras, e elementos cerâmicos, servindo como enchimento para a parede,
podendo essas serem ou não rebocadas e pintadas com cal e colorantes naturais.
As propriedades físico-mecânicas das pedras variam de acordo com o tipo de pedra
utilizado, sendo que não foi encontrado relatos sobre exatamente qual pedra foi utilizada na
construção do edifício analisado neste trabalho, o Park Hotel.

4.1.4. Barro/Argila/Cerâmica vermelha

A cerâmica vermelha possui essa nomenclatura devido a sua coloração avermelhada


vinda da matéria-prima, que é a argila, e esta é formada por um agregado de argilominerais e
possuem, com valores diferenciados, outros minerais e substância como mineral de ferro,
quartzo, mica, sais solúveis, matéria orgânica, dentre outros. No entanto, a palavra cerâmica
vem do grego “kerameikos”, e significa “feito de terra”, “coisa queimada”, podendo então
chamar de cerâmica qualquer produto oriundo da moldagem e queima de uma matéria-prima
mineral.
Isto posto, a cerâmica é utilizada desde os primórdios da civilização, sendo considerada
o primeiro material artificial produzido pelo homem, após a conquista do fogo. Desde então ela
está presente nas construções romanas da antiguidade, nos objetos produzidos pelos
etruscos, nas muralhas chinesas, nas pirâmides egípcias, nas porcelanas japonesas e nas
construções do Brasil Colonial. Nos dias de hoje continua sendo muito utilizada nas tribos
africanas, nas tribos indígenas da Amazônia e nas indústrias de alta tecnologia com a confecção
de produtos variados.
Segundo o IBGE - Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística - a área de exercício
das empresas de cerâmica vermelha é considerada como indústria de transformação de minerais
não metálicos. Tal cerâmica tem um processo de fabricação milenar e é subdivido em algumas
fases, começando com a extração e preparação da argila, moldagem, secagem e queima ou
cozimento das peças, e por fim o resfriamento, obtendo como produto final a cerâmica.
Com essa cerâmica é possível que se obtenha tijolos, tanto maciços quanto com furos,
telhas, desde a colonial, francesa e romana até as planas, lajotas, para as lajes pré-fabricadas,
ladrilhos, como peças de acabamento, vasos decorativos, dentre outros, e normalmente são
produzidos perto dos pontos de consumo, utilizando a matéria-prima local, a qual é muito
abundante na natureza. Pode-se citar como propriedades físico-mecânicas da argila, a
plasticidade, a contração na secagem, a resistência à flexão do material seco e do material
queimado, e a temperatura de queima.
Na construção civil é muito frequente o uso e de muita importância os produtos de
cerâmica vermelha, podendo citar como ponto positivo sua gama de utilidades, ser uma
estrutura leve com alta durabilidade e resistência mecânica, não ser combustível e ser produzido
em temperatura elevada, portanto, resistente ao fogo, além de possuir bom isolamento térmico
e acústico. Outrossim, devido sua abundância no país, é um material de baixo custo, comparado
aos demais de mesma função, não exige muita manutenção e nem uma mão-de-obra muito
qualificada para sua instalação.
Ao abordar a obra em estudo, nota-se o uso desse material tanto na alvenaria portante
de tijolos maciços, quanto nas telhas coloniais do telhado (capa e canal), sendo todas produzidas
na extinta Cerâmica Parque São Clemente, que se encontrava próximo ao bairro do hotel.

5. Justificativa

Considerando que mesmo com tal magnitude do edifício Park Hotel, de Lúcio Costa, a
população não tenha tanto conhecimento sobre ele e sobre sua relevância, não só para a
arquitetura brasileira, mas para a arquitetura moderna no geral, o estudo tem por foco
comprovar e disseminar uma ideia, analisando essa obra emblemática, visando a disseminação
do tema e um maior entendimento do seu processo construtivo e projetual, permitindo,
outrossim, a conservação da memória histórica da obra e da arquitetura do país.

6. Relevância

Em um curto período, o hotel se tornou reconhecido pelo meio arquitetônico nacional,


e depois pela expressão internacional, juntamente com aparecimento em 1956 no livro Modern
Architecture in Brazil de Henrique Mindlin.
Na data de 1985, em virtude dos méritos evidentes do seu projeto arquitetônico, o Iphan
- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural – tombou o edifício, para que se
preservasse o método perfeito de projeto cultural seguido por Lúcio Costa, na qual ele sumariza
a modernidade com a tradição.
Como um dos poucos que concretizou tal arquitetura, Lúcio Costa foi o primeiro apto a
harmonizar o material vernacular e os elementos constitutivos da tradição, juntamente com o
sistema e materiais que autenticam a modernidade.
7. Conclusão

Por meio de análises bibliográficas é possível afirmar que ao utilizar madeira e pedra,
telhados de barro, varandas e treliças e, simultaneamente, desassociar a estrutura da vedação,
possibilitar uma divisão funcional, e usar a transparência dos planos de vidro, Lúcio Costa
concebeu, em 1944, um projeto de marco para a história da arquitetura, contribuindo para o
rompimento da arquitetura que se seguia vigente até o momento.
Tal obra, que inicialmente era de intenção temporária, permaneceu em funcionamento
durante décadas devido ao ápice do turismo no local. Em contrapartida, quando esse turismo
decaiu e o edifício foi sofrendo ações do tempo e do clima, com dificuldades para realizarem
restauração, ele teve que ser desativado em 2003.
Diante desse estudo, conclui-se que essa obra representa a essência de uma arquitetura
marcante para a história, e assim, não deve e não pode ser abandonada e esquecida pela
sociedade. Para tal, seria de suma importância a restauração e preservação desse patrimônio,
almejando um maior conhecimento da população sobre ele, e que talvez se atribua novos usos,
para que esse edifício não seja apagado da história.

8. Referências bibliográficas

FRACALOSSI, I. Clássicos da Arquitetura: Park Hotel / Lucio Costa. Disponível


em: <https://www.archdaily.com.br/br/763167/classicos-da-arquitetura-park -hotel-lucio-
costa>. Acesso em abril de 2019

COMAS, C. E. D. Arquitetura moderna, estilo campestre. Hotel, Parque São


Clemente. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/
11.123/3513 >. Acesso em abril de 2019

RABELO, C. D. N. À imagem da tradição: uma reflexão acerca da arquitetura


moderna brasileira. Disponível em: <http://tede.mackenzie.br/jspui/
bitstream/tede/2582/5/Clevio%20Dheivas%20Nobre%20Rabelo5.pdf>. Acesso em abril
de 2019

PAIM, G. SOS Park Hotel. Disponível em: <http://www.agitprop.com.br/


index.cfm?pag=atualidades_det&id=27&titulo=>. Acesso em abril de 2019

OLIVEIRA, A. M.; SILVA, G.P; CARVALHO, R. R. B. Park Hotel: o regionalismo


crítico de Lúcio Costa e o desafio da rearquitetura em obras modernas. Disponível
em: < http://docomomo.org.br/wp-content/uploads/2016/01/008.pdf>. Acesso em abril de
2019

REIS FILHO, Nestor Goulart. “Quadro da Arquitetura no Brasil”. São Paulo:


Perspectiva, 1987.

MONTEZUMA, Roberto. “Arquitetura Brasil 500 anos”. Recife: Universidade Federal


de Pernambuco, 2002.
EMBRAPA. Sobre o eucalipto. Disponível em: <https://www.embrapa.br/florestas/
transferencia-de-tecnologia/eucalipto/tema>. Acesso em abril de 2019

FOELKEL, C. E. B. Eucalipto no Brasil, história de pioneirismo. Disponível em :<


https://www.esalq.usp.br/visaoagricola/sites/default/files/va04-florestas-plantadas03.pdf>
Acesso em abril de 2019

GRUPO INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS DA MADEIRA-GIEM. Introdução ao


Estudo das Estruturas de Madeira. Disponível em: <https://moodle.ufsc.br/
pluginfile.php/1324317/mod_resource/content/0/Introduçãomadeiras2015.pdf>. Acesso
em abril de 2019

CONSELHO REGIONAL DE QUÍMICA. Vidro. Disponível em: <https://www.crq4.


org.br/vidroquimicaviva>. Acesso em abril de 2019
GONÇALVES, D. Os apoios cantam : um projeto arquitetônico com identidade
espacial, conceitos filosófico, artístico e poético e, sistema estrutural singular em
madeira de reflorestamento. São Carlos, 2018. 13p. Escola de Engenharia de São Carlos
– Universidade de São Paulo

GIACOMINI, E. Material. O vidro. Disponível em:


<https://paginas.fe.up.pt/~vpfreita/mce04008_O_vidro.pdf>. Acesso em abril de 2019

DA ROSA, C. F. M. F. F. Caracterização de alvenarias de pedra antigas. Lisboa, 2013.


114p. Tese (Mestrado) - Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de
Lisboa.

DIAS, J. F. Avaliação de resíduos da fabricação de telhas cerâmicas para seu emprego


em camadas de pavimento de baixo custo. São Paulo, 2004. 268p.Tese (Doutorado) -
Escola Politécnica, Universidade de São Paulo.

AZEVEDO, H. D. S. Reforço de estrutura de alvenaria de pedra, taipa e adobe com


elementos de madeira maciça. Porto, Portugal, 2010. 164p. Tese (Mestrado) - Faculdade
de Engenharia, Universidade do Porto.

JUNIOR, G. B. Avaliação do processo industrial da cerâmica vermelha na região do


Seridó - RN. Natal, 2010. 541p. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande
do Norte.