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Conselho Deliberativo FASE- Federação de Órgãos para

Presidente Assistência Social e Educacional


Ana Clara Torres Ribeiro
Os objetivos permanentes da FASE
Vice-Presidente
Raimundo J. B. Teixeira Mendes
Contribuir para a construção de urna alternativa de desenvolvimento
1ª Secretária fundada na justiça social, na preservação do meio ambiente e na ampliação
Leilah Landirn Assumpção da cidadania. Apoiar, com uma visão e atuação própria, através de ações
educativas e de projetos demonstrativos, a constituição, o fortalecimento e
2ª Secretária
a articulação de sujeitos coletivos do desenvolvimento
Márcia Pereira Leite
3º Secretário Os objetivos estratégicos da FASE no triênio 1999-2001
Revdo. Paulo Pena Schutz
Suplentes Através das ações empreendidas em torno dos eixos acima descritos,
Décio Lima de Castro pretendemos, ao longo do próximo triênio:
Fernanda Carísio • contribuir para o questionam ento público do m o delo de
Luis Carlos Delorne Prado desenvolvimento nacional, evidenciando sua insustentabilidade social, cul-
Maria Lucia Karan tural, econômica e ambiental, buscando, ao mesmo tempo, desenvolver
Paulo Totti projetos demonstrativos públicos e contra-modelos possíveis e viáveis, tendo
por beneficiários, sobretudo, os excluídos em cenários críticos;
Conselho Fiscal
Jorge Vicente Mufíoz • ter realizado um balanço das perspectivas do desenvolvimento atual, a
Carlos Bernardo Vainer partir de problemáticas setoriais, criticando o tipo de desenvolvimento e as
Tito Lívio Lucio de O. Ramos Neto alternativas propostas pelos movimentos sociais e organizações da sociedade
Suplentes civil em suas lutas sociais, contribuindo para colocar a sustentabilidade na agenda
Ricardo de Gouvêa Corrêa política (sociedade civil, partidos políticos e Estado), na agenda de diálogo entre
José Moreira Bartholo organizações da sociedade civil na América Latina e no diálogo Norte-Sul;

Associados Efetivos • integração do conjunto das áreas em instâncias de trabalho sobre


José Sérgio Lopes * Silvio Caccia Desenvolvimento Local.
Bava * Braulio Rodrigues da Silva *
• ter contribuído para que o Fórum de ONGs e Movimentos Sociais
Sérgio Góes de Paula * Rosiska
para o Meio Ambiente e Desenvolvimento seja reconhecido como ator público,
Darcy de Oliveira *Cândido
como espaço de trabalho democrático e como espaço de reflexão e
Grzybowski * Otávio Guilherme
formulação de propostas;
Cardoso Alves Velho * Lysâneas
Maciel * 0tJ.1ia Silva Leite * Luís • fomentar políticas que efetivem o acesso dos setores excluídos da
Eduardo Soares * Ênio Candotti * população a direitos econômicos e sociais, em âmbito nacional e regional;
Uri Gomes Machado* Alexandre
• difundir metodologias de monitoramento de políticas públicas, através
Sgrezia * Lizt Vieira* Antonio
da produção de indicadores de desenvolvimento social e humano fundados
Abreu * Carlos Nelson Coutinho*
nas noções de direitos econômicos e sociais e de sustentabilidade democrática;
Luiz Gonzaga Ulhoa Tenório *
Renato Sérgio Maluf * Ricardo • contribuir para o fortalecimento dos movimentos sociais e das esferas
Peret * Pe. Adelar Pedro de David * públicas não estatais, através do apoio a elaboração de Plataformas que
Lícia Valadares * Wanda Engel sintetizem e unifiquem as demandas populares e do fortalecimento das redes
Aduan * Peter Collins Corra formadas em torno de questões como meio ambiente e desenvolvimento
sustentável; saneamento sócio-ambiental; alternativas de trabalho e renda
Diretor Executivo
ou pela reforma agrária.
Jorge Eduardo Saavedra Durão
• desenvolver uma nova Carta Compromisso evidenciando os eixos, conceitos
Diretores de Áreas Temáticas e
e valores que nortearão a atuação da FASE na passagem do século.
Programas
Maria Emília Lisboa Pacheco • viabilizar um novo mix de sustentação financeira que amplie a base de
Pedro Cláudio Cunca Bocayuva legitimação da FASE na sociedade brasileira, em especial junto a setores
médios da população e formadores de opinião.
Editorial 5

Feminismo e sujeito político 6


Maria Betânia Ávila

Gênero: os conflitos e desafios do novo paradigma 12


Marta Lamas

Nossos genes nos pertencem!


Bioética, feminismo e violência genética 26
Fátima Oliveira

Rede Dawn - Development Alternatives with


Women for a N ew Era 34
Claire Slatter
Peggy Antro bus
Sonia Corrêa

Marcha Mundial de Mulheres 2000 40


Miriam Nobre

Entrevista 43
Wânia Sant' Anna

Monitorar a ação das Instituições Financeiras


Multilaterais (IFMs) na perspectiva da eqüidade
de gênero. Os sentidos e desafios da Iniciativa 54
Silvia Camurça

Gênero, Politícas Públicas e Cidadania:


uma experiência urbana na Baixada Fluminense 62
Tatiana Dahmer Pereira

Orçamento Participativo: panorama geral e


referenciais sobre gênero e raça 70
Ma tilde Ribeiro

Da Casa ao Mar: papéis das mulheres


na construção da Pesca responsável 82
Maria Cristina Maneschy

Eleições 2000 - cotas para ampliar a presença


da mulher nos espaços de poder político 92
Iara Bernardi
FASE Nacional FASE-BELÉM
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Projeto Gurupá Uma publicação trimestral da FASE
FASE-RIO Travessa Quintino Conselho Editorial
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Wânia Sant'Anna
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Capa
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Maria Maria
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nesta edição de Proposta estaremos reunindo dois números,
E xcepcionalmente,
84 e 85, referentes aos meses de março a agosto de 2000. Para melhor garantir
a unidade de tratamento do tema, optamos por esta solução no lugar da tradicional
divisão em duas edições, 1 e li, que vínhamos adotando toda vez que um assunto
superava o escopo de um só número de Proposta.

Cinco anos após a IV Conferência Mundial da Mulher e o Fórum Paralelo de


ONGs que se realizaram em Beijing, pouco, ou mesmo quase nada, se avançou,
no Brasil, em relação aos acordos feitos pelos países-membros da ONU naquela
ocasião. A Articulação de Mulheres Brasileiras, criada em 1994 com o objetivo
de ampliar e preparar a participação brasileira em Beijing, promoveu, em abril
passado, um encontro nacional com vistas a realizar um balanço destes
cinco anos e buscar caminhos concretos para a implementação de políticas
publicas para mulheres no País. Trata-se de um esforço sem precedentes
e que, certamente, necessitará do concurso de amplos setores da
sociedade brasileira, mas, em particular dos movimentos feminista e de
mulheres. Este é o tema principal da entrevista de Wânia Sant'Anna.
Proposta soma-se a este esforço ao dedicar este número à questão
de gênero. Em primeiro lugar, com a tradução do texto da antropóloga
mexicana Marta Lamas. Marta apresenta um amplo painel sobre a
discussão teórica e política a respeito do significado da categoria gênero
e com o artigo de Maria Betânia Ávila, sobre o feminismo e a constituição
de um novo sujeito político.

A temática e a prática dos movimentos soc1a1s também está


presente. A maneira pela qual a perspectiva de gênero vem se colocando
e sendo tratada em diversos campos de atuação de diferentes atores
sociais constitui um bloco de artigos. Matilde Ribeiro analisa em que
medida as dimensões de gênero e raça são incorporadas ao processo de
Orçamento Participativo no município de Santo André. Maria Cristina
Maneschy desenvolve o tema do papel das mulheres na pesca realizada
de modo responsável, e Tatiana Dahmer Pereira reflete sobre as
experiências de trabalho social na Baixada Fluminense considerando as
questões de gênero e pobreza. A deputada federal pelo PT, Iara Bernardi,
aborda a questão da ocupação de espaços na estrutura do poder político
pelas mulheres.
A dimensão universal da problemática de gênero está contemplada
nos artigos que lidam com experiências internacionais. Sílvia Camurça
nos alerta sobre a importância de monitoramento da ação das Instituições
Financeiras Multilaterais na perspectiva da eqüidade de gênero. A proposta, e a
realização, de uma Marcha Mundial das Mulheres 2000 com o sentido de lançar
uma plataforma internacional de reivindicações é abordado por Míriam Nobre. A
experiência das redes internacionais está presente no artigo de Sônia Correia
sobre a Rede Dawn.
O tema da ciência, especialmente dos estudos genéticos e da Bioética, é
tratado por Fatima Oliveira através de um olhar feminista e anti-racista.

Esperamos que nossos leitores enriqueçam suas experiências com este


número de Proposta e que, em breve, o tema reapareça em nossa publicação.

5
Feminismo e sujeito político
Maria Betânia Ávila*

*Socióloga, coordenadora geral do SOS Corpo


Entendo o feminismo como prática política e enfrentado como parte do processo dialético da
pensamento crítico. E considero que o movimento transformação social.
feminista é aquele que tem como perspectiva a Neste sentido, é interessante o que fala Joan
transformação das relações de gênero e cujo foco Scott (1999): "não tem sentido para o movimento
de sua atuação é a luta por liberdade e igualdade feminista deixar que seus argumentos sejam
para as mulheres. É importante dizer que situo o forçados dentro de categorias pré-existentes e que
movimento feminista como parte do movimento de suas disputas políticas sejam caracterizadas por
mulheres, o qual compreende todas as formas de uma dicotomia que não inventamos. Como fazer
organização de mulheres que lutam por diferentes para reconhecer e utilizar noções da diferença
objetivos. Há, entre essas várias formas de sexual e, ao mesmo tempo, ter argumentos a
organização, um movimento dialético a partir do favor da igualdade? A única resposta é dupla: é
qual a questão das mulheres e as questões trazidas preciso desmascarar a relação de poder construída
pelas mulheres ganham sentido na esfera pública. ao colocar a igualdade como a antítese da
Há uma grande discussão no interior do de- diferença, e é preciso rejeitar as conseqüentes
bate feminista sobre a questão da igualdade, com construções dicotômicas nas decisões políticas".
abordagens as mais diversas. Neste espaço, acho O feminismo realizou uma conquista funda-
que não é o caso de entrar nesta discussão, mas mental na transformação das relações de gênero ao
o importante é frisar que, mesmo levando em instituir as mulheres como sujeito político do
conta essa diversidade, a proposta de igualdade processo de transformação social, e essa é, com
colocada, hoje, pelo pensamento feminista, no certeza, sua grande contribuição histórica para o
geral, não tem como idealização o modelo de movimento das mulheres no geral. A construção
igualdade clássica, inteiramente construído pelos desse sujeito produziu uma ruptura com a
homens e para uma parcela dos homens. Pelo heteronomia do que se denomina condição femi-
contrário, a possibilidade de as mulheres alcança- nina, trazendo para as mulheres a possibilidade
rem a igualdade implica na tarefa de desconstruir de romper com a situação de vítimas ou de
e transformar esse modelo dominante de igualdade protegidas e com a fixidade de uma identidade
que se apresentava como projeto de um sujeito imposta por essa condição.
universal. O que é explicado com muita pertinên- A partir dessa ruptura, abrem-se as pos-
cia, pela filósofa e feminista Gabriella Bonacchi sibilidades de as mulheres se transformarem em
(1998), nos seguintes termos: "Mas a crítica femi- cidadãs, que significa ter existência própria dotada
nista desmascarou esse universalismo aparente de autonomia e direitos. Penso que, dessa forma, se
mostrou o caráter particular desse sujeito que se viabiliza o que Arendt (1988) definiu como o direito
pretendia universal: o ponto de vista oculto por a ter direitos, uma vez que a conquista desse direito
trás do ser abstrato da metafisica é, na realidade, exige um sujeito que anuncie seu projeto e que tenha
o ponto de vista extremamente concreto do ação na esfera política, participando, assim, do
homem ocidental adulto, branco e proprietário". conflito, que deve ser inerente à democracia e
A pluralidade de sujeitos políticos instituída instituindo, como parte desse conflito, a luta contra
pela ação dos movimentos sociais contemporâneos as desigualdades a que estão sujeitas.
revela que a construção da igualdade passa, Como parte dessa condição feminina, as
justamente, pela desestruturação da ordem social mulheres foram, em primeiro lugar, privadas de ter
que hierarquiza as diferenças, transformando-as em acesso à esfera pública. E por outro lado, como
desigualdades. Daí que considero que a relação analisa Arendt (1988), a esfera da vida privada foi
igualdade/ diferença deve ser entendida não em sempre o lugar da privação e não o espaço da
termos antagônicos mas como um dilema a ser privacidade ou da intimidade. A restrição das

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entre os sexos foram ainda definidas como parte
da ordem natural das coisas. As mulheres foram
nomeadas como parte da natureza no mesmo
sentido que o eram na velha ordem que estava
sendo desestruturada. Rousseau, que foi o grande
pensador do contrato social moderno, considerava
que por "natureza o homem pertence ao mundo
exterior e a mulher ao interior- encaixando assim
na dicotomia natureza-cultura a dicotomia inte-
rior-exterior - o que adquire especial relevância
na sociedade burguesa capitalista" (Amorós, 1985).
Desde as revoluções do século XVIII, que
as mulheres vêm lutando por direitos e igualdade,
mas apesar das conquistas importantes do século
XIX e XX, como o direito à educação e ao voto,
o modelo de igualdade aspirado estava
referenciado na igualdade masculina. A questão
do sujeito não estava colocada.
É o feminismo que emerge nos anos sessenta
que traz o questionamento radical da forma como
as relações sociais estão estruturadas. As análises
feministas, a partir daí, têm desconstruído a
naturalização das relações hierárquicas entre os
sexos e apontado caminhos e meios para sua
superação. Segundo Bourdieu (1996), o feminismo
rompeu com as evidências que sustentavam a
naturalização das desigualdades entre os sexos.
mulheres ao espaço doméstico da vida privada foi É importante considerar essas questões para
sustentada em uma relação que guardava os entender a importância dos grupos de reflexão, como
princípios da hierarquia entre senhor e serva. um dos métodos da organização feminista, cuja
Nessa relação a opressão feminina foi introjetada dinâmica se baseia na socialização dos problemas
pelas mulheres como atributo da sua identidade, da vida privada que as mulheres enfrentam. Esse
uma vez que a sua existência ganhava sentido ao método recriava e recria os liames que evidenciam
servir e depender do outro. Como regra geral, a opressão e a exploração das mulheres como uma
pertencer ao homem era a forma de existência so- construção social. Nesta dinâmica a percepção da
cial das mulheres. Como recompensa ganhavam a vida como um lugar de destino é desfeita.
proteção de um senhor. Dessa maneira, as mulheres A ruptura com a idéia de destino colocou,
estavam isentas de responsabilidades sobre si imediatamente, para o feminismo o problema da
próprias. O que caracteriza a minoridade de quem autonomia como o requisito primordial para o
não pode ser sujeito. exercício da liberdade. A reconstrução histórica da
Essa relação hierárquica, considerada natu- vida privada, lugar no qual estavam situadas as
ral, se manteve na modernidade. Nos paradigmas mulheres, foi de fato um caminho fundamental para
constitutivos da nova concepção de mundo, trazida construção de uma proposição de autonomia para
pelo projeto iluminista da modernidade, as relações elas enquanto um projeto coletivo de libertação.

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Os homens tinham história, as mulheres tinham convivência humana, só pode ser buscada se as
destino. Esse destino heterônimo era ditado pelas influências igualadoras se estenderem a todas as
normas patriarcais, cuja instituição fundamental para instâncias da vida social. (Giddens, 1992)
aplicação e controle das mesmas foi a familia nuclear Seguindo as idéias de Giddens (1992) e
moderna. A familia tomou-se, portanto, um ponto concordando com ele, a intimidade só pode existir
de conflito estratégico para o feminismo. dentro de um projeto de democracia da vida privada.
Na reconstrução da história da vida privada, No que concerne à ação do feminismo, considero que
através das práticas feministas de autoconsciência, esse projeto está ligado à história de uma revolta que
o questionamento da vida familiar foi vivido provocou uma ruptura profunda no sentido do próprio
subjetivamente como uma contradição, onde o eu das mulheres e de seu entendimento do mundo.
desvelamento dos resquícios da servidão na Essa ruptura trazida pelo feminismo tem produzido
experiência pessoal significava uma experiência a possibilidade de as mulheres construírem a liberdade
tanto dolorosa quanto libertadora. Esse método para ter acesso à esfera pública como lugar de
revela que o ritual da construção da autonomia passa realização enquanto sujeito, como também de
também pela experiência da perda. É conhecer que construir a democratização nos espaços da vida
a fraqueza, como atributo imposto pelo outro, pode privada, o que significa a possibilidade de construir
ser usada também como artimanha ou estratégia para de fato os espaços da intimidade.
se safar, e não para se libertar do domínio do outro. Um ponto importante de se resgatar, a partir
Neste sentido, é importante trazer a pergunta da prática política feminista, é justamente a relação
que, segundo Chauí, foi feita por Spinoza e Merleau- entre vida cotidiana e democracia. A radicalização
Ponty, que é: "sem uma reflexão (teórica ou prática) do projeto democrático exige que a vida cotidiana
sobre as necessidades que determinam nossa vida, seja tomada como uma questão fundamental da
sem a compreensão de sua origem e de seu sentido, sua agenda política e da reflexão teórica de quem
seria possível a autonomia?" Essa pergunta parece- pensa a transformação social. A partir daí, a
me fundamental para dar significado ao método da dicotomia entre esfera pública e esfera privada e a
prática política feminista e por ser a questão da hierarquização da relação entre produção e
autonomia central na construção do sujeito. reprodução podem ser questionadas e repensadas.
Segundo essa autora, Spinoza, ao respondê-la É bom lembrar que a organização do tempo social
concluiu que "a servidão decorre muito mais de é feita a partir dessa dicotomia e dessa
atribuirmos apenas aos outros o que somos e hierarquização, as quais são baseadas na
fazemos, em lugar de o atribuirmos à nossa fraqueza, desigualdade de gênero, e são fundamentais para
ou melhor, é por fraqueza que depositamos fora de reprodução e acumulação do capital.
nós apenas, e não em nós também, as causas de Segundo Francisco de Oliveira: "É preciso
nossa servidão". (Chauí, 1985) enfatizar a notável contribuição que o movimento
Para o feminismo, portanto, a construção da feminista, em suas formas próprias e variadas, deu
esfera da vida privada como lugar de liberdade e e continua a dar à própria democratização da
igualdade e o acesso das mulheres à esfera pública sociedade na tomada de consciência do Estado
é uma questão dialética e indissociável para o sobre seus deveres. É uma democratização que
projeto de construção de cidadania e democracia. se dá ao nível do cotidiano e que, portanto, tem
Se a chegada das mulheres na esfera pública tudo para ser de um a radicalidade, numa
reestrutura e amplia o projeto democrático, o sociedade tão desigual, que os mais otimistas não
envolvimento dos homens nas tarefas e na são capazes de suspeitar" (Oliveira, 1995).
transformação da vida privada é igualmente Por outro lado, o fato de uma parcela das
necessário . A igualdade, enquanto um ideal de mulheres ter alcançado a esfera pública, e de ser

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esta uma possibilidade incontestável hoje, não sua origem, envolvido no processo de demo-
significa que o modelo dicotômico homem/ esfera cratização do país. Neste contexto, o movimento
pública, mulher/ espaço privado esteja totalmente feminista situou-se, historicamente, no campo da
desfeito, que as regras práticas da subordinação esquerda. Isso significa que sua perspectiva de luta
estejam de fato modificadas e que os signos da sempre foi a da transformação social.
cultura que sustentam essa divisão tenham sido Considero que o feminismo foi e continua
abandonados na formação do senso comum. As sendo revolucionário no combate à ordem
mulheres no mercado de trabalho e na política dominante e na reflexão crítica que leva ao
arcam com os custos dessa liberdade, o que a torna desencantamento dessa ordem. Parece que ainda
restrita no desenrolar da vida cotidiana. Além não houve o tempo e as condições necessárias
disso, a violência sexual e doméstica con- ----~ para que, pelo menos no caso do Brasil,
tinua a vigorar como atributo da as feministas se situem frente aos
relação familiar, o que transforma a novos desafios da democracia
intimidade em um lugar, ainda, de política, para daí pensar a
vulnerabilidade para grande relação entre a prática
parte das mulheres. revolucionária de origem -
Da organização original antagonista e insurrecional-
Oembrando que tomo os anos e a prática democrática da
60 como marco do feminismo negociação dos conflitos na
contemporâneo), que tinha esfera pública. O desafio é
como objetivo o confronto manter a radicalidade e
com a "velha ordem social" produzir reformas.
sem mediações ou metas, o Acho que prática
movimento feminista tem hoje feminista pode aportar uma
uma responsabilidade histori- grande contribuição ao
camente adquirida de construir clássico debate sobre a relação
uma nova cidadania na qual as entre reforma e revolução, pois
mulheres participem integralmente. desde a origem levou para essa
Isto implica, inclusive, em reconsiderar discussão uma contribuição funda-
os significados dos próprios conceitos de mental. Pois revolucionária e radical
cidadania e democracia. no pensamento crítico e na ação política,
A filósofa Françoise Collin (1992) assinala se diferenciou do que se convencionou chamar de
que "de uma maneira geral, o acesso dos / as recém método revolucionário pela recusa à forma
chegados / as à cidadania implicará sempre na hierárquica de organização e ao método de
redefinição da cidadania, ela mesma, e do espaço enfrentamento dos conflitos. Por outro lado, sempre
político-social". Segundo ela, uma entidade já apontou as insuficiências e desvios da democracia
constituída não pode pretender assimilar pura e representativa e mostrou apreço à democracia
simplesmente as/ os recém-chegadas/ os, sem se direta. A questão do poder, que sempre foi negada
deixar questionar por elas e por eles, sob pena de enquanto aspiração ou como instrumento da prática
ser ameaçada de desintegração. Concluindo, dessa política, está hoje sendo repensada, sem contudo
forma, que o partilhamento não é, jamais, aceitar os meios de lidar com poder que
puramente adicional. predominam no sistema político em vigor.
No Brasil, o movimento feminista que se O ideal insurrecional sempre se manifestou
organizou ainda sob o regime militar, está, desde a no feminismo muito mais sob a forma de ruptura

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cultural, negação dos padrões e normas vigentes mantêm. No contexto da democracia brasileira,
na sociedade. No campo político, a autonomia acredito que temos, nessa forma de atuação do
e a hori zo ntalidade, como elementos cons- movimento feminista, uma fonte importante de
titutivos da organização, foram valores fun- reflexão que certamente nos leva no sentido da
dantes e até hoje se mantêm como referências. democratização da esfera pública.
O desafio atual é justamente reconceber esses
Bibliografia
valores dentro do processo de institucionali-
zação do feminismo. Arendt, Hannah.A Condição Humana. Rio
O movimento feminista também nunca de Janeiro, Forense-Universitária, 1988.
apresentou proposições que signifiquem Amorós, Célia. Hacia una Crítica de la
modelos totalizantes nem para a prática política Razón Patriarcal. Barcelona, Anthropos Edito-
nem para um tipo de sociedade a ser construída. rial del Hombre, 1985.
As formas próprias de atuação do feminismo e Ávila, Maria Betânia. Modernidade e Cidadania
a sua negação em aceitar os códigos de ordem Reprodutiva, in;Estudos Feministas, Vol. I, n.2, Rio
política do sujeito masculino trouxeram, e muitas de Janeiro, CIEC/ECO /UFRJ, 1993.
vezes ainda trazem, dificuldades para trabalhar Bonacchi, Gabriela. Entrevista, Caderno
em conexão com outros sujeitos e estabelecer Mais, Folha de São Paulo, 23 de agosto, 1998.
processos de diálogo, já que a fala do sujeito Bourdieu, Pierre. Novas reflexões sobre a
feminista se constrói negando a lógica do dominação masculina, in; Gênero e Saúde, Lopes
discurso masculino. J.M., Marta; Meyere., Dagmar e Waldow, Vera
O conceito de reforma em relação à prática R.(org.). Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1996.
feminista, é usado aqui por falta de outro que Chauí, Marilena. Participando do Debate
defina com mais clareza os caminhos que vêm sobre Mulher e Violência, in: Perspectivas
sendo trilhados. Talvez seja necessário construir Antropológicas da Mulher, no. 4, Rio de Janeiro,
uma denominação própria do feminismo que Zahar, 1985.
conceitue esse modo de se situar no mundo, Collin, Françoise. La démocratie est-elle
construído e vivido pelas mulheres enquanto démocratique? ln: , La Societés des Femmes. Les
sujeitos políticos que iniciam negando as cahiers du Grif, Bruxelas, Editions Complexe,
instituições políticas vigentes, e, atualmente, 1992.
mesmo preservando seus espaços próprios de Giddens, Anthony. A transformação da
organização e autonomia, se movimentam dentro Intimidade. São Paulo, Ed. UNESP, 1992.
ou em torno delas, sem, no entanto, deixar-se de Jellin, Elizabeth. Como Construir
fato absorver ou integrar-se enquanto sujeitos em ciudadanía? Una visión desde abajo, Revista
seus sistemas de poder. Essa é uma questão Europea de Estudios Latinoamericanos y del
importante, e o sentido dessa tensão entre Caribe, 55, 1993.
inclusão e negação de pertencer precisa ser Martins, José de Souza. O senso comum e a
melhor compreendido. vida cotidiana. ln: Tempo Social, volume 1O, n.
Esse movimento parece se inserir na própria 11, São Paulo, USP, 1998.
definição do sujeito que, como diz Touraine (1994), Oliveira, Francisco. Vulnerabilidade Social
se constrói também pela recusa dos pertencimentos. e Carência de Direitos. ln: CadernosABONG,
Dessa forma, resgata e atualiza os ideais libertários 8, São Paulo, ABONG, 1995.
de negação da ordem social. Ao mesmo tempo, Scott,Joan. Igualdade versus diferença: os
através desse conflito, podem ser revelados o usos da teoria pós-estruturalista. ln: Debate
fechamento das instituições e a ordem que elas Feminista - Cidadania e Feminismo, 1999.

1fr1 l•flMN°84/85 Março/Agos to de 2000


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11
Gênero: os conflitos e desafios
do novo paradigma*
Marta Lamas**

* Extraído do livro El Sigla de las Mujeres, Ana Maria Portugal e Carmem Torres (Ed.). ISTS Internacional,
Ediciones de las Mujeres, Santiago, Chile, out. 99.
**Antropóloga mexicana com formação psicanalítica, integrante do Conselho do Programa Universitário
de Estudos de Gênero da Universidade Autônoma do México.
Existem várias vertentes da influência feminista Coincidindo com as idéias pós-estruturalistas,
européia e norte-americana no feminismo latino- mas produto de um amplo processo político, a
americano. Neste ensaio elegi, mais que as práticas reflexão crítica feminista voltou-se para questionar
organizativas ou as questões simbólicas, a difusão da os princípios epistemológicos androcêntricos e
categoria gênero1 como a contribuição teórica mais sexistas que alimentam a história das idéias
significativa do feminismo contemporâneo em nossos ocidentais. Posteriormente, as feministas utilizaram
países. Ainda que a utilização da categoria de gênero a desconstrução para fazer um novo tipo de
tenha se popularizado na América Latina, seu uso investigação, com um esforço teórico dirigido a
não é rigoroso, o que não só produz confusões como desarmar os códigos patriarcais herdados da ética e
traz implicações políticas. da política e questionar as estruturas simbólicas que
Compreender corretamente o que são gênero possibilitam e regem as práticas e reflexões humanas.
e diferença sexual continua sendo fundamental Enquanto as academias e os teóricos inves-
para desenvolver uma concepção realista dos seres tigavam e criticavam a suposta objetividade e
humanos e indispensável para o avanço de uma universalidade do discurso científico, embasado
política democrática radical. O objetivo deste na concepção de um sujeito teoricamente neutro,
texto é mostrar que no movimento feminista mas simbolicamente masculino- o Homem-, o
existe uma correspondência conceitua! entre am- movimento feminista incorporou em seu discurso
bos os conceitos e advogar tanto por uma maior político a perspectiva que tomava o gênero como
precisão teórica como pela incorporação de razão explicativa da desigualdade. O movimento
autores não feministas no debate . Neste sentido, lutava para que se desse fim às discriminações e
estas pági nas devem ser lidas como uma opressões específicas no trato sexual, político,
autocrítica e também como um convite a romper trabalhista e social. Argumentava que tais
a circularidade do debate feminista. desigualdades derivam não da biologia e sim da
simbolização que se faz dela. Isto permitiu uma
A diferença entre sexo e gênero
intervenção que rompia com o determinismo
Um grande êxito do feminismo foi ter biológico e minava as noções tradicionais do que
conseguido modificar não somente a perspectiva são as mulheres e os homens.
política com que se abordava o conflito nas relações Sem aspirar a que se considerasse as mulheres
mulher-homem, mas também transformar o como idênticas aos homens, reformulou-se quase
paradigma utilizado para explicá-lo. O novo que imperceptivelmente o ponto central de
conceito gênero permitiu a compreensão de que dissenso com duas perguntas que ainda hoje
não é a anatomia que posiciona mulheres e homens marcam as fronteiras do pensamento feminista: 1)
em âmbitos e hierarquias distintos, e sim a se há uma igualdade essencial entre os sexos, qual
simbolização que as sociedades fazem dela. O é esta igualdade? 2) Se há uma diferença essencial,
feminismo desenvolveu o conceito de gênero como em que consiste tal diferença? A partir da denúncia
o conjunto de idéias em uma cultura sobre o que é básica do sexismo passou-se a colocar o dilema
"próprio" dos homens e "próprio" das mulheres e, entre lutar pela igualdade com os homens ou
com isto, se propôs a revisar como a determinação reivindicar a diferença como mulheres. Como bem
de gênero asseg ura a dicotomia na qual se assinalou Joan Scott, este é um assunto sem
fundamenta a tradição intelectual ocidental. Esta solução. Na medida em que mulheres e homens
tradição é, ademais, androcêntrica, o que envieza são iguais enquanto seres humanos e diferentes
a produção de conhecimento e gera certos
postulados que legitimam mecanismos de 1
Para uma introdução ao debate, remeto à minha
dominação e exclusão. compilação sobre gênero (Lamas, 1996)

13
com papéis diferenciados para mulheres e
homens, pensou-se o corpo como mediador
passivo destas prescrições. Armar suas propostas
políticas sobre a conceituação de mente e corpo
como tábulas rasas (Gatens, 1991) levou parte
do feminismo a defender com perspectiva uma
espécie de recondicionamento social: um a
reeducação voluntarista e bem intencionada para
transformar os códigos patriarcais arbitrários e
opressivos e fomentar o aprendizado de condutas
e atitudes "politicamente corretas" 3 . Esta
atitude, movida por bons propósitos, questio-
nada pelas psicanalistas feministas inglesas
(Adams e Cowie, 1990), responde a uma divisão
teórica no pensamento psicanalítico.
Ainda que a psicanálise ultrapasse as duas
perspectivas - a biológica (o sexo) e a sociológica
(o gênero) - com as quais se pretende explicar
quanto ao sexos, não se pode optar, exclusivamente as diferenças entre homens e mulheres, pois coloca
e de uma vez por todas, pela igualdade ou pela a existência de uma realidade psíquica muito distinta
diferença (Scott, 1992). de uma essência biológica ou da marca implacável
Para elaborar suas posições teóricas, as da socialização, é necessário que se precise de qual
feministas norte-americanas recorreram à diferença psicanálise se está falando. Na reflexão feminista
de gênero, enquanto as européias, mais influenciadas manifestam-se claramente duas escolas psi-
pela psicanálise lacaniana, interessaram-se por canalíticas: a escola norte-americana, que trabalha
analisar a diferença sexual em toda a sua com gênero e a teoria das relações de objeto, e a
complexidade2. Ao circunscrever a definição de escola lacaniana, que usa o conceito de diferença
diferença sexual ao anatômico, limitando-a a uma sexual. O feminismo norte-americano, que teve mais
distinção substantiva entre os grupos de pessoas em influência na América Latina, desenvolveu uma
função de seu sexo, ou seja, a um conceito psicanálise sociologizada que não incorpora o
taxionômico, análogo ao de classe social ou ao de conceito lacaniano de realidade psíquica. Isto o leva
raça, as norte-americanas eludiram questões-chaves
sobre a constituição do sujeito. Ao não usar o 2
Uma exigência para avançarmos teoricamente é a
conceito psicanalítico de diferença sexual, que de colocarmo-no s de acordo sobre quais conceitos
ultrapassa os limites da mera interrogação sobre os correspondem a que termos em certas disciplinas ou
papéis sociais, ignora-se o papel do inconsciente na perspectivas teóricas. Por exemplo, diferença sexual, do
formação da identidade sexual, e a instabilidade de ponto de vista da psicanálise, é uma categoria que implica
no inconsciente. Do ponto de vista da sociologia, refere-
tal identidade, imposta a um sujeito que é
se a diferenças anatômicas e a papéis de gênero. Do ponto
fundamentalmente bissexual. Isto marcou a forma
de vista da biologia, refere-se a uma série de diferenças
pela qual a reflexão feminista distinguiu entre sexo
ocultas (hormonais, genéticas, entre outras), que podem
e gênero, e afloraram crenças pouco refletidas, como corresponder a algo distinto da anatomia aparente.
a dicotomia cartesiana entre mente e corpo. 3
Um caso paradigmático desta postura é O exercício
Ao imaginar a mente como uma página em da maternidade, de Nanc y Chodorow (1984), cuja
branco sobre a qual a sociedade escreve umscript popularidade na América Latina foi impressionante.

14
a pensar que o que está em jogo primordialmente GÊNERO É UM
são os fatores sociais e, portanto, o gênero, com seu PROCESSO QUE ARTICULA
diferente "potencial de relação" entre os sexos4.
SEXO, DESEJO
Esta corrente de psicanalistas norte-americanas
considera que as pessoas são moldadas pela história
E PRÁTICA SEXUAL,
da sua própria infância, pelas relações do passado e NO QUAL O CORPO É
do presente dentro da familia e fora dela. Para elas a MOLDADO
diferença sexual se reduz as diferenças de sexo e os PELA CULTURA ATRAVÉS DO
registros simbólico e imaginário não existem. Sua DISCURSO
concepção do psíquico leva-as a considerar as
relações sociais de um modo muito simplista, como Por sua vez, as teóricas feministas ame-
se o princípio de igualdade fosse modificar o estatuto ricanas, ao reconhecerem a importância da
do psíquico. Ainda que uma alteração crucial das explicação psicológica, trataram de encontrar
relações sociais seja urgente, para o que é necessário uma perspectiva capaz de dar conta do psíquico
transformar o âmbito do social, é paradoxal tomar e "articular-se" com relatos sociais e históricos
o social como o fator determinante do psíquico. A sobre as mulheres. Para tanto, muniram-se com
possibilidade de incidir politicamente se potencializa outras categorias, como as de classe, raça e et-
justamente quando se compreende a diferença en- nicidade. Por isso, substituíram a categoria
tre o âmbito psíquico e o social. psicanalítica de diferença sexual por gênero, pois
Por outro lado, as psicanalistas lacanianas tal categoria cumpria este objetivo e lhes parecia
inglesas foram as que insistiram na necessidade de menos complexa do que aquela. O Gênero foi
utilizar a teoria psicanalítica para abordar o tema da conceptualizado como uma forma de se referir
diferença sexual. O grupo feminista reunido em tomo às origens exclusivamente sociais das
da revista mf 5 se propôs a esquadrinhar as identidades subjetivas de homens e mulheres, e
colocações feministas socialistas e demonstrar como com isso se eludiu o papel do inconsciente no
o discurso dá forma à ação e toma possíveis certas sistema total de valores que inclui a subjetividade
estratégias. Este grupo desenvolveu um projeto e a sexualidade.
desconstrutivista, no sentido mais amplo do termo, Neste contexto, não se deve estranhar o
e negou uma especificidade fundante ao feminismo sucesso das postulações de Judith Butler sobre
ao questionar a idéia deMulher. Ainda que sua adesão gênero, pois retoma questões psíquicas para
à psicanálise tenha lhe valido acusações de elitismo e colocar o gênero como um fazer que constitui a
indiferença diante das urgências políticas, m/f identidade sexual. Para Butler gênero é um
difundiu as idéias psicanalíticas para a teoria feminista. processo que articula sexo, desejo e prática sexual,
no qual o corpo é moldado pela cultura através
AS TEÓRICAS FEMINISTAS
AMERICANAS, ... TRATARAM 4
Por exemplo, para Chodorow as diferenças entre
DE ENCONTRAR UMA masculinidade e feminilidade resultam do fato das
mulheres desempenharem o papel de mães. Ela diz:
PERSPECTIVA CAPAZ DE DAR
"O fato das mulheres tornarem-se mães é o único
CONTA DO fator de sua subordinação e o mais importante"
PSÍQUICO E "ARTICULAR-SE" (Chodorow, 1984).
COM RELA TOS SOCIAIS E 5
A revista m/f foi publicada na Inglaterra durante
nove anos, de 1978 a 1986 . Muitos de seus artigos
HISTÓRICOS SOBRE AS
mais importantes foram publicados posteriormente
MULHERES em livro (Adams e Cowy, 1990).

lji1l1NiffiN°84/85 Março/Agosto de 2000 15


do discurso. Daí sua idéia da descontrução do performance. Ela argumenta que o gênero é algo
gênero como um processo de subversão cultural. que se faz, como um estilo corporal, apenas em
pequena medida involuntário, já que está enraizado
Gênero como performance
profundamente emscriptsculturais prévios. Butler
No início dos anos 90,Judith Butler publica se interroga se a "naturalidade" se constitui através
Gender Trouble, uma obra que integra perspectivas de atos culturais que produzem reações no corpo
filosóficas e culturais em torno das reflexões sobre (ser feminina é um fato "natural" ou uma "perfor-
gênero, feminismo e identidade (Butler, 1990). Em mance" cultural?) e indaga quais são as categorias
ensaio anterior (Butler, 1987; 1996, em espanhol), fundantes da identidade: o sexo, o gênero? O desejo?
ela já havia se perguntado até onde o gênero poderia Para responder Butler se propõe a analisar uma série
ser uma escolha. Partindo da idéia de que as de "práticas paradoxais" que ocasionam a "re-
pessoas não são somente construídas socialmente, significação subversiva" do gênero e sua
mas que, em certa medida, constróem a si próprias, "proliferação para além de um marco binário". Ela
Butler considera gênero como "o resultado de um elabora um questionamento muito pertinente ao
processo mediante o qual recebemos significados essencialismo com sua busca do "genuíno". Além
culturais mas também os inovamos". Daí que para disso, distingue o âmbito psíquico do social e assinala
ela "escolher" nosso gênero significou interpretar que não se deve conter a tarefa política na exploração
as normas de gênero recebidas de forma tal a das questões de identidade. Assim, abre uma via
reproduzi-las e reorganizá-las de maneira diferente. fecunda ao feminismo ao se perguntar sobre que
Desde este texto, Butler coloca a idéia nova forma de política emerge quando a identidade,
provocadora de que o gênero é um projeto para enquanto terreno comum, já não restringe o discurso
renovar a história cultural em nossos próprios da política feminista?
termos corpóreos. Como interpretar isso? Como Butler constrói seu discurso com conotações
encenação dos mitos culturais em nosso âmbito teatrais e performáticas e utiliza o jargão filosófico
pessoal? Como possibilidade de construir nossas para avalizar sua proposta feminista de distinguir
próprias versões de gênero? · o comportamento de gênero do corpo biológico
O debate feminista sobre gênero foi sacudido que o hospeda. Ainda que retome posições de
com a proposta de Butler de conceituar gênero como Freud e Lacan, apoia-se mais em figuras críticas

1fr1 NiM N°84/85 Março/Agosto de 2000


1
16
da psicanálise, como Kristeva, Irigaray e Witting. deixa de lado o corpo. Por isso, em seu livro seguinte,
Parte substantiva de sua argumentação tem Bodies that Matter, ela responde a estas críticas
ressonâncias de autores franceses como Mauss, colocando que, ainda que trabalhar com gênero seja
Bourdieu, a quem não cita, ainda que compartilhe uma estratégia para resistir ao essencialismo, "os
formulações conceituais similares. corpos contam" (Butler, 1993).
Muito do êxito do trabalho de Butler se radica Butler representa uma ruptura no discurso
na desconstrução inteligente que ela leva a cabo e no feminista sobre gênero, que, durante os últimos
fato de que se posiciona de forma nova frente a duas anos, havia se concentrado na denúncia ou na
linhas de argumentação sobre as quais o feminismo discussão sobre as conseqüências do gênero, dan-
construiu suas interpretações sobre o conflito sexo/ do forma a um corpus de teorizações e postulados
gênero/ identidade. Uma, a que pensa a diferença parciais preocupados quase que exclusivamente
sexual, está relacionada com a experiência corporal e com o processo de socialização. Porém, ainda que
enfatiza que há algo específico das mulheres devido Butler rompa com a linha de privilegiar o social
a seu ser sexual e de sua função maternal. Esta linha sem visualizar o psíquico - daí seu êxito-, não
reproduz a concepção convencional da distinção logra transmitir a complexidade da aquisição de
corpo/ mente no uso de sexo/gênero. A biologia se gênero pelos corpos sexuadas em uma cultura.
pensa como um dado material, sobre o qual se Se uma boa compreensão do gênero coloca
estabelece uma simbolização que se desdobra em a necessidade de analisar nosso tecido intercultural
prescrições sobre o "próprio" dos homens e o - em que se encontram inseridos costumes e
"próprio" das mulheres. Porém, a forma pela qual o tradições sexistas, homófobas e machistas (além
dado biológico é simbolizado no inconsciente não é de racistas e classistas) -, é preciso completar tal
levada em consideração. compreensão com uma concepção não essencialista
A outra linha, a das feministas influenciadas do ser humano, onde o inconsciente desempenhe
pela psicanálise lacaniana, considera que a um papel determinante . Na psique humana
determinação sexual está no inconsciente. Isto não condensam-se tanto as circunstâncias e condJções
elimina a possibilidade de criticar a definição de vida enfrentadas pelos seres humanos como as
patriarcal do "feminino" na ordem simbólica; ao fantasias, angústias e medos individuais.
contrário, muitas psicanalistas iniciaram uma busca Perguntar-se como se inscreveram, foram
para registrar esta "auteridade" ou "diferença" que representadas e normatizadas a feminilidade e a
não é o feminino tal como é dito na cultura "mascu- masculinidade implica realizar uma análise das
lina". Esta corrente defende que a diferença sexual práticas simbólicas e dos mecanismos culturais que
se funda não apenas em anatomias distintas mas reproduzem o poder a partir do eixo da diferença
em subjetividades vinculadas a um processo sexual. Isto requer desentranhar significados e
imaginário: o sexo se assume no inconsciente, metáforas estereotipados, questionar o cânone e as
independente da anatomia. ficções regulativas, criticar a tradição e as re-
Outras reflexões feministas, que tratam do que significações paródicas. Porém, a desconstrução dos
significaria a eliminação do marco binário com que processos sociais e culturais de gênero requerem
se pensa gênero, não chegam a ter o impacto cultural também a compreensão das mediações psíquicas e
de Butler, imediatamente convertida em um totem o aprofundamento da análise sobre a construção
intelectual. Se Gender Trouble lhe trouxe uma gama do sujeito. Para tanto, não basta a concepção do
de admiradoras, também causou-lhe muitas críticas gênero como performance, como atuação com certo
porque sua definição de gênero fundamentalmente grau de criação individual, mas é necessária a
como performance (como uma atuação cuja condição compreensão da interpretação lacaniana sobre a
coercitiva e fictícia presta-se a um ato subversivo) construção do sujeito.

'ji.J,"l1M N°84/85 Março/Agosto de 2000 17


ESTABELECIDOS COMO aprendem esta divisão é mediante as atividades
CONJUNTO OBJETIVO DE cotidianas imbuídas de sentido simbólico, ou seja,
mediante a prática. Estabelecidos como conjunto
REFERÊNCIAS, OS
objetivo de referências, os conceitos cotidianos
CONCEITOS COTIDIANOS sobre o feminino e o masculino estruturam a
SOBRE O FEMININO E O percepção e a organização concreta e simbólica
MASCULINO ESTRUTURAM A de toda a vida social. Bourdieu oferece, com seu
PERCEPÇÃO E A estudo em Cabilia, exemplos de analogias do
ORGANIZAÇÃO feminino/masculino: úmido e seco, frio e quente,
claro e escuro, alto e baixo, esticado e encolhido,
CONCRETA E
ruidoso e silencioso, etc.
SIMBÓLICA DE TODA A VIDA Bourdieu retoma parte da obra de seu mestre,
SOCIAL Mauss, que trabalhou o tema do corpo nos anos
30. Para Mauss "O corpo é o primeiro instrumento
O feminismo anglo-saxão (americano e do homem e o m ais natural, ou mais concre-
britânico) escreveu montanhas de páginas sobre tamente, sem falar de instrumentos, diremos que
gênero, porém apenas começa a colocar em dia sua o objeto e meio técnico mais normal do homem
reflexão sobre a diferença sexual. Diante da é o seu corpo" (Mauss, 1971 : 342). No seu ensaio
regulação dos corpos por meios políticos e legais, de 1936, Técnicas e movimentos corporais, Mauss
muito do atual discurso feminista tomou como coloca que: "A educação fundamental destas
ponta-de-lança de sua luta o respeito à diversidade técnicas consiste em adaptar o corpo a seus usos"
(sobretudo em matéria de práticas sexuais). Porém, (Mauss, 1971 : 355). E le analisa a divisão das
a maneira voluntarista com que se formu lam técnicas corporais segundo os sexos, e não
muitas demandas e análises, como as relativas à simplesmente a divisão do trabalho entre os sexos,
preferência sexual, apaga a distinção biológica e afirma: "Nos encontramos ante a montagem
macho / fêmea e, pior ainda, ignora a complexidade físico-psico-sociológico de uma série de atos, atos
que supõe a diferença sexual. Para explorar tais que são mais ou menos habituais e mais ou menos
questões, quero retomar o trabalho de Pierre velh os na vida do h omem e na história da
Bourdieu, cuja eficácia conceitua! torna-se crucial sociedade" (Mauss, 1971 : 354).
para o feminismo .

Habitus, ou a subjetividade "O CORPO É O PRIMEIRO


socializada INSTRUMENTO
DO HOMEM E O MAIS
Bourdieu é, talvez, o cientista social que com NATURAL,
mais cuidado analisou o processo de constituição OU MAIS CONCRETAMENTE,
e introjeção do gênero. D esde seus primeiros SEM FALAR DE
trabalhos etnográficos sobre os bereberês de INSTRUMENTOS,
Cabilia até suas reflexões posteriores, em particu- DIREMOS QUE
lar na sua obra seminal O sentido prático
O OBJETO E
(Bourdieu, 1991), defende que todo
conhecimento descansa em uma operação fun- MEIO TÉCNICO
damental de divisão: a oposição entre o feminino MAIS NORMAL DO HOMEM É
e o masculino. A maneira como as pessoas O SEU CORPO"

18 fjN•r•fjM N°84/85 Março/Agosto de 2000


Também neste texto propõe a utilização do relação de dominação que se encontra na base e
termo habitus e explica que: que aparece como conseqüência de um sistema
Utilizo em latim, já que a palavra traduz muito de relações independentes da relação de poder.
melhor que "costume'', o "exis", o "adquirido" e Ao longo de suas diversas obras, Bourdieu
a 'faculdade" de Aristóteles (que era um psicólogo). adverte que a ordem social masculina está tão
A palavra não remete aos hábitos metafísicos, essa profundamente arraigada que não requer justi-
misteriosa memória, tema de grandes volumes ou ficação : se impõe a si mesma como auto-evidente
de curtas efamosas teses. Estes "habi tus" variam e é considerada como "natural" graças ao acordo
não só com os indivíduos e suas limitações, mas "quase perfeito e imediato" que obtém de
sobretudo com as sociedades, a educação, as regras estruturas sociais tais como a organização social
de urbanidade e a moda. Há que se falar de do espaço e do tempo e a divisão social do traba-
técnicas, com o conseqüente trabalho da razão lho, e, por outro lado, de estruturas cognitivas
prática coletiva e individual, ali onde normalmente inscritas nos corpos e nas mentes. Estas estruturas
se fala de alma e de suas faculdades de repetição cognitivas se traduzem, mediante o mecanismo
(Mauss, 1971: 340). básico e universal da oposição binária (em forma
Bourdieu continua o programa de inves- de pares: alto/baixo, grande / pequeno, fora /
tigação etnológica que Mauss legou. Com notável dentro, reto / torcido, etc.), em "esquemas não
êxito, mostra como as diferenças sexuais estão pensados de pensamento", os habitus. Esteshabi-
imersas no conjunto de oposições que organiza tus são produto da encarnação da relação de poder
todo o cosmo, a divisão de tarefas e atividades e que leva a conceituar a relação dominante/ domi-
os papéis sociais. Ele explica como, ao estarem nado como natural.
construídas sobre a diferença sexual, estas Na sua obra mais recente sobre a dominação
oposições confluem para sustentar-se mutua- masculina (Bourdieu 1998), Bourdieu retoma a
mente, prática e metaforicamente, ao mesmo sua análise sobre Cabilia, sistematiza-a, e converte
tempo que os "esquemas de pensamento" as sua etnografia em um trabalho de sócio-análise
registram como diferenças "naturais", pelas quais do inconsciente androcêntrico mediterrâneo. Os
não se pode tomar consciência facilmente da bereberês representam para ele uma forma

19
paradigmática da visão "falonarcisista" e da A CULTURA, A
cosmologia androcêntrica comuns a todas as LINGUAGEM, A VIDA
sociedades mediterrâneas, pois sua visão e
AFETIVA, INCULCAM NAS
cosmologia sobrevivem nos dias de hoje em nossas
estruturas cognitivas e nas estruturas sociais de
PESSOAS CERTAS
todas as culturas euro p éias . NORMAS E
Bourdieu documenta com insistência como a VALORES PROFUNDAMENTE
dominação masculina está ancorada em nossos TÁCITOS, DADOS POR
inconscientes, nas estruturas simbólicas e nas "NATURAIS"
instituições da sociedade. Por exemplo, mostra como
o sistema nútico ritual, que joga um papel equivalente Bourdieu amplia a definição de Mauss e
ao sistema jurídico em nossas sociedades, propõe defende que os habitus são "sistemas perduráveis e
princípios de divisão ajustados a divisões preexistentes transferíveis de esquemas de percepção, apreciação
que consagram uma ordem patriarcal. e ação, resultantes da instituição do social nos
Na sua perspectiva, a eficácia masculina se corpos" (Bourdieu, 1995: 87). Bourdieu recorre ao
radica no fato de que legitima uma relação de conceito chave dehabitus, como uma "subjetividade
dominação ao inscrevê-la no biológico, o que, em socializada" (Bourdieu, 1995: 87), e, com ele, se
si mesmo, é uma construção social biologizada. refere ao conjunto de relações históricas
D e início, o autor referenda o conflito episte- "depositadas" nos corpos individuais em forma de
mológico já assinalado: esquemas mentais e corporais de percepção,
Ao estarem incluídos homens e mulheres no apreciação e ação. A cultura, a linguagem, a vida
objeto que nos esforçamos em compreender, afetiva, inculcam nas pessoas certas normas e valores
incorporamos, sob a forma de esquemas inconscientes profundamente tácitos, dados por "naturais". O
de percepção e apreciação, as estruturas históricas habitus reproduz estas disposições estruturadas de
da ordem masculina; nos arriscamos, então, a recorrei; maneira não consciente, regulando e harmonizando
para pensar a dominação masculina, a formas de as ações. Assim, o habitus se converte em um
pensamento que são, elas mesmas, produto da mecanismo de retransmissão pelo qual as estruturas
dominação (Bourdieu, 1998: 11). mentais das pessoas tomam forma ("se encarnam")
na atividade da sociedade.
AO ESTAREM INCLUÍDOS As conseqüências disto são brutais. Bourdieu
HOMENS E destaca a violência simbólica como um mecanismo
opressor sumamente eficaz precisamente pela
MULHERES NO OBJETO QUE
introjeção que as pessoas fazem do gênero. Na sua
NOS ESFORÇAMOS EM definição de violência simbólica Bourdieu incorpora
COMPREENDER, a definição de Gramsci de hegemonia, dominação
INCORPORAMOS, SOB A com consentimento, e afirma que não se pode
FORMA DE compreender a violência simbólica a menos que se
ESQUEMAS INCONSCIENTES abandone totalmente a oposição escolástica entre
coerção e consentimento, imposição externa e
DE PERCEPÇÃO E
impulso interno. Bourdieu rearticula culturalmente
APRECIAÇÃO, a idéia de hegemonia fazendo notar que a dominação
AS ESTRUTURAS de gênero consiste no que em francês se chama
HISTÓRICAS DA ORDEM contrainte par corps, ou seja, constrangimento
MASCULINA efetuado mediante o corpo.

20

Assim, com a leitura de Bourdieu, o corpo produzir nas pessoas aspirações e ações compa-
aparece como um ente/ artefato simultaneamente tíveis com a prescrição cultural e com os requi-
físico e simbólico, produzido tanto natural como sitos objetivos de suas circunstâncias sociais.
culturalmente e situado em um momento histórico Se comparamos a teorização de Butler com a
concreto e em uma cultura determinada. O corpo de Bourdieu, podemos ver que ambos consideram
experimenta, no sentido fenomenológico, distintas que as diferenças essenciais entre mulheres e
sensações, prazeres, dores, e a sociedade lhe homens obedecem à imersão profunda nas
impõe acordos e práticas psicolegais e coercitivas. especificidades culturais e históricas do gênero. A
Todo o social é vivenciado pelo corpo, corpo este ordem social "naturaliza", quer dizer, oculta, sua
que pensa e que sente. própria arbitrariedade como "natural", mediante
Para Bourdieu, a socialização tende a efetuar uma dialética de aspirações subjetivas e estruturas
uma somatização progressiva das relações de objetivas. Nas suas leituras interpretativas dos
dominação de gênero. Este trabalho de inculcação, significados do discurso e do comportamento dos
ao mesmo tempo sexualmente diferenciado e seres humanos, Bourdieu e Butler defendem a ação
sexualmente diferenciador, impõe a "masculinidade" política como uma opção . Butler, por sua vez,
aos corpos dos machos humanos e a "feminilidade" sublinha a dimensão da transformação individual,
aos corpos das fêmeas humanas. Assim, a enquanto Bourdieu fala de uma revolução
somatização do arbítrio cultural também se torna simbólica que questione os próprios fundamentos
uma construção permanente do inconsciente. da produção e reprodução do capital simbólico e
Segundo Bourdieu, na pessoa se dá um assinala que a liberação das mulheres só poderá
confronto entre o subjetivo e o objetivo que a realizar-se mediante uma ação coletiva, uma luta
dispõe a fazer "espontaneamente" o que lhe simbólica capaz de desafiar, na prática, o acordo
exigem suas condições sociais. O habitus tende a imediato das estruturas encarnadas e objetivas.

21
Gênero, sujeito e política FREUD DESCOBRIU
QUE NEM TUDO QUE
A construção social dos desejos, discursos e
PERCEBEMOS
práticas em tomo da diferença entre os sexos aponta,
mais que a uma articulação da mente com o corpo,
ENTRA NA CONSCIÊNCIA, E
uma integralidade difícil de concebei: A psicanálise, SIM QUE
que supera a concepção racionalista mente/ corpo, BOA PARTE PERMANECE
propõe conceber a diferença sexual como corpo e INCONSCIENTE
inconsciente: um corpo pensante, um corpo que fala,
que expressa o conflito psíquico, que reage de forma Todavia, hoje existem sérias dificuldades para
inesperada, irracional; um corpo que recebe e integrar o saber psicanalítico nas concepções -
interpreta percepções olfativas, táteis, visuais e teóricas e cotidianas - sobre as pessoas. Freud
auditivas que tecem sutilmente vínculos entre descobriu que nem tudo que percebemos entra na
sofrimento, angústia e prazer. Para a psicanálise é consciência, e sim que boa parte permanece
impossível fazer um corte claro entre a mente e o inconsciente. Mas isto que percebemos incons-
corpo, entre os elementos chamados sociais ou cientemente atua e deixa sua marca. Ainda que a
ambientais e os biológicos; ambos estão imbricados determinação somática da identidade de gênero que
constitutivamente. opera ao nível da mente não seja capaz de reco-
A perspectiva psicanalítica lacaniana serviu a nhecer os esquemas inconscientes que a constituem,
muitas feministas para decifrar o intricado processo isso não quer dizer que não tenham um efeito.
de resistência e assimilação do sujeito ante forças Através dela, algumas experiências corporais, que
culturais e psíquicas. Neste processo, é notável como não necessariamente têm uma significação cultural
destacam os mecanismos com os quais as pessoas fixa, ganham relevância simbólica em relação à
resistem às posições de sujeito impostas de fora, como feminilidade e o ser mulher e em relação à mas-
o gênero. O amplo e complexo panorama de fanta- culinidade e o ser homem. A etnografia documenta
sias, desejos e identificações detectado pela clínica divergências entre a experiência de gênero vivida
psicanalítica é um corpus que descreve a necessidade em corpo de mulher ou em corpo de homem6 , e
humana de ter uma identidade sexual, e também reconhece a distinção entre o que Bárbara Duden
mostra que as formas que essa identidade toma jamais enuncia como o corpo percebido e o entorno
são fixas. perceptivo (Duden, 1992: 471).

A PSICANÁLISE, QUE SUPERA 6


Penso na menstruação e na ereção do pênis. Várias
A CONCEPÇÃO reflexões antropológicas perguntam-se até que ponto
atributos considerados femininos, como a modéstia ou
RACIONALISTA
o pudor, têm a ver com a vivência da menstruação no
MENTE/CORPO, PROPÕE sentido da impossibilidade de controlar um fluido
CONCEBER A DIFERENÇA corporal. Por isso, apesar de certos homens se sentirem
SEXUAL COMO mulheres e se comportarem com atributos "femininos",
vivem a feminilidade mediada por seu corpo, ou seja,
CORPO E INCONSCIENTE: UM carecem da vivência de tudo que, simbolicamente,
CORPO PENSANTE, UM associa-se a questões como o sangue menstrual, o que
CORPO QUE FALA, QUE estabelece uma diferença qualitativa em relação à vivência
EXPRESSA O CONFLITO das mulheres . Algo semelhante se poderia dizer da
metaforização da sexualidade masculina como força
PSÍQUICO ... indomável a partir da ereção involuntária do pênis.

22 f ji,],I.f1MN°84/85 Março/Agosto de 2000


Analisar os traços ostensivos do gênero, seu uma invenção humana, não é cultura (como é o
surgimento e sua atividade como performance, gênero), e, portanto, não pode ser situada no
representação, ou habitus, rotinizado e integrado, mesmo nível que os papéis e prescrições sociais.
são formas similares de apontar algo básico: apesar O gênero produz um imaginário com uma eficácia
dos corpos de mulher e de homem, não há política contundente e dá lugar às concepções
essência feminina nem masculina. Ainda que o sociais e culturais sobre a masculinidade e a femi-
gênero esteja inscrito culturalmente e inculcado nilidade que são a base do sexismo, da homofobia
inconscientemente, ele é transformável, alterável e da dupla moral sexual. Confundir diferença
e reformável, não pela vontade, mas sim histórica, sexual com sexo ou com gênero, utilizar os termos
cultural e psiquicamente. Esta maleabilidade indistintamente, oculta algo essencial: que o
permite atenuar algumas das prescrições de conflito do sujeito consigo mesmo não pode ser
gênero vividas como opressivas por muitos. Por reduzido a nenhum arranjo social.
isso, hoje, o dilema politico do feminismo deixa Uma aspiração feminista é avançar no
de pensar toda a experiência como marcada pelo conhecimento de nossa realidade e afinar o nosso
gênero e passa a pensá-la também como marcada fazer teórico para alcançar objetivos ético-
pela diferença sexual, entendida não como políticos. Urge ter clareza conceitua! para
anatomia, mas como subjetividade inconsciente. promover uma intervenção político-cultural
O ·que está em jogo, como sempre, é a capaz de fazer convergir processos de
concepção que se tem do sujeito. O sujeito é identificação social e política com processos de
produzido pelas práticas e representações individuação subjetiva. O projeto descons-
simbólicas dentro de formações sociais dadas. O trutivista é sensível a respeito das formas pelas
imperativo sexual é retomado e simbolizado de quais os habitus, assumidos sem questionamento,
maneiras diferentes em distintas culturas, mas não governam nossa vida. Ainda que nas sociedades mais
é, em si mesmo, uma convenção cultural. É cru- desenvolvidas comecem a ser obtidas as condições
cial compreender que a diferença sexual não é propícias para eliminar a desigualdade sexista, é

'ji.J·MiMN°84/85 Março/Agosto de 2000 23


indubitável que na América Latina mulheres e PARA ENFRENTAR
homens vivem existências marcadamente SERIAMENTE CERTAS
distintas só pelo fato de pertencer a um sexo.
PRÁTICAS,
Nossas sociedades, muito mais que aquelas do
Primeiro Mundo, estruturam mais rigidamente a
DISCURSOS E
vida social em torno da diferença anatômica e as REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
mesmas condutas têm uma valorização distinta QUE DISCRIMINAM, OPRIMEM
se forem realizadas por um corpo de homem ou OU VULNERABILIZAM AS
um de mulher7. PESSOAS EM
A adoção de posturas voluntaristas que
FUNÇÃO DA SIMBOLIZAÇÃO
busquem a rápida desgenerização da cultura não
serve para enfrentar as resistências irracionais, nem
CULTURAL
para distanciar-se de habitus seculares produzidos DA DIFERENÇA SEXUAL É
por instituições de caráter patriarcal em culturas com NECESSÁRIO REVISAR OS
inconsciente androcên trico. Para enfrentar LUGARES
seriamente certas práticas, discursos e repre- COMUNS E OS MITOS
sentações sociais que discriminam, oprimem ou
CONSAGRADOS
vulnerabilizam as pessoas em função da
simbolização cultural da diferença sexual é
necessário revisar os lugares comuns e os mitos Talvez o mais relevante seja que com a
consagrados e tentar compreender o significado do compreensão do gênero surge uma nova leitura
simbólico. As conquistas dos direitos civis, políticos, das relações sociais marcadas pela diferença
sociais e humanos somada aos frutos positivos da sexual, relações que se dão entre mulheres e
ciência e da tecnologia favorecem o questionamento homens, mas também unicamente entre mulheres
das crenças e prescrições de gênero. ou unicamente entre homens. Tentar esclarecer
O atual desafio político requer um trabalho os processos psíquicos e culturais mediante os
constante de crítica cultural para transformar quais as pessoas se convertem em homens e
esses códigos culturais, que nutrem os estereótipos mulheres dentro de um esquema que postula a
d e gênero vigentes . Um elo que articula o social e complementaridade dos sexos e a normatividade
o psíquico é o gênero . Aí en contram-se da heterosexualidade conduz a uma nova
sexualidade e identidade, reprodução e liberdade. definição de nossa compreensão da liberdade.
Por isso, a partir da compreensão desse elo Por isso, colocar em dia a reflexão sobre as
psíquico/ social, pode-se buscar a construção da condições da liberdade das pessoas requer, na
cidadania moderna. atu alidade, levar em conta o gênero (o social/
cultural), sem esquecer a existência da realidade
NA AMÉRICA LATINA psíquica (a maneira inconsciente de elaboração
MULHERES E HOMENS VIVEM da diferença sexua0. Para obter maiores margens
EXISTÊNCIAS de liberdade, devemos estar conscientes de quão
MARCADAMENTE 7
Socialmente, são reconhecidos apenas dois corpos
DISTINTAS SÓ (os intersexos e os hermafroditas não estão simbo-
PELO FATO DE lizados, ainda que algumas pessoas saibam de sua
existência) e as manifestações de ambigüidade são
PERTENCER
tratadas com crueldade, a não ser em certos espaços
A UM SEXO ritualizados, carnavais, certas festas, etc.

24
pouco autônomas são nossas escolhas, quão _ _ _ . 1990. Gender Trouble: Feminism
arraigados estão os habitus, com quanta freqüên- and the Subversion ofIdentity. Routledge.
cia cedemos aos incentivos, às intimidações, às Chodorow, Nancy. 1984. El ejercicio de la
tentações e às pressõe s de nossa cultura e do maternidad. Psicoanálisis y Sociología de la
nosso inconsciente. A possibilidade de uma mu- maternidad y paternidad en la crianza de los hijos.
dança aparece diante da aceitação dos nossos Barcelona: Ed. Gedisa.
limites e potencialidades - nossa mútua vul- Duden, Bárbara. 1992. Repertorio de historia
nerabilidade e incompletude - não para aspirar del cuerpo. Em Feher, Nadaff e Tazi _ _ .
ao antigo modelo de complementaridade, mas sim Feher, Michael; Nadaff, Ramona e Tazi,
para nos reconhecermos como seres humanos Nadia. 1990, 1991 e 1992. Fragmentos para una
divididos e castrados, necessitados de solida- historia del cuerpo humano, 3 vol. Madri: Taurus
riedade e de vida social. Ediciones.
Gatens, Moira. 1991. A critique of sex gen-
Bibliografia
der distinction. Em Sneja, Gunew (org.).A Reader
Adams, P arvim e Cowy, Elizabeth (org.). in Feminist Knowledge, pp. 139-15 7. Londres:
1990. The woman in question. Londres: Verso. Routledge.
Bourdieu, Pierre. 1998. La domination mas- Lamas, Marta (org.) . 1996. El género: la
culine. Paris: Seuil. construcción cultural de la diferencia sexual, pp.
----'· 1991. E/sentido práctico. Madri: Taurus. 303-326. México: MiguelAngel Porrúa e UNAN.
Bourdieu, Pierre e Loic,J. D. Wacquant. 1995. Mauss, Marcel. Conferência dada em 17 de
Por uma antropología reflexiva. México: Grijalbo. maio de 1934 na Sociedade de Psicologia,
Butler, Judith. 1996. Variaciones sobre sexo publicada no Journal de Psychologie XXXII,
y género; Beauvoir, Wittig y Foucault. Em Marta números 3-4, 15 de março a 15 de abril, 1996.
Lamas (org.) . Scott, Joan. 1992. Igualdad versus diferencia:
- - - -. 1993. Bodies that Matter. Nova los usos de la teoría postestructuralista. Debate
y ork: Routledge. Feminista, n. 5, pp. 85-104.

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Nº 77 Desenvolvimento local
Nº 75 Economia solidária II integrado e sustentável

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Nº 78 Desenvolvimento local
... u.~ tcnl:hd n
Nº 76 Raça e cultura integrado e sustentável II

25
Nossos genes nos pertencem!
Bioética, feminismo e violência
,, .
genet1ca
Fátima Oliveira 1

1
Médica, Bolsista da Fundação MacArthur (projeto Divulgação ePopularização da Bioética: direitos reprodutivos).
Co-autora de: Fundamentos da bioética (Paulus, 1996); Tecnologias Reprodutivas: gênero e ciência (UNESP,
1996); Ciência e Tecnologia em debate (Moderna, 1998); e Questões de Saúde Reprodutiva (Ford/Fiocruz, 1999).
Autora de: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 199 5); Bioética: uma face da cidadania
(Moderna, 1997) e Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza, 1998).
A notícia de que o governo islandês vendeu Em 1995, o governo dos EUA requereu o
as informações genéticas de toda a população do patenteamento dos genes de uma índia pana-
país (270 mil pessoas!), em fevereiro de 2.000, menha da tribo dos Guayami de cujas células foi
evidencia que a intimidade genética humana extraído um remédio para doenças degenerativas
tornou-se uma mercadoria de propriedade e leucemia. O presidente do Congresso Geral
governamental. Significa que podemos ter Guayami, Isidro Costa, conseguiu, via GATT
chegado ao fim da privacidade genética humana; (Acordo Geral de Comércio e Tarifas), o
que os governos não devem, mas podem repatriamento do material genético baseado na
expropriar seres humanos de seu patrimônio Convenção da Biodiversidade. No mesmo ano, o
genético pessoal! Instituto Nacional de Saúde (INH) obteve a
patente número 5.397.696 de uma linhagem
Nossos genes nos pertencem!
celular de indígenas de Papua Nova Guiné. A
H á anos bioeticistas vêm proclamando que o venda de DNA d e indígenas brasileiros, os
carro-chefe da luta pelos direitos humanos no século Karitiana e Suruí, de Rondônia, foi anunciada,
XXI seria o lema: "Nossos genes nos pertencem". em 1996, pela internet e em congressos científicos
Pressentia-se que o desenvolvimento das biociências da área, pela empresa americana de genética
poderia ter como decorrência a apropriação privada Coriell Cell. Até hoje, não sabemos qual a atitude
do patrimônio genético humano, alegando benefícios adotada pelo governo brasileiro, mas corria o
aparentemente humanitários, como fabricação de boato que o DNA à venda era "sobra" de uma
remédios para doenças raras e incuráveis, tal como pesquisa de doutorado, que o doutorando e o Prof.
ocorreu na Islândia. Dr. orientador, ambos cidadãos brasileiros,
As tentativas de acesso à intimidade genética decidiram não "desperdiçar" ... Eis um fato que
das pessoas, contra a sua vontade ou precisa ser apurado!
desconhecimento, e de tornar o DNA humano A comercialização de informações genéticas
uma mercadoria, são várias. Também são humanas não encontra respaldo ético, pois se em
inúmeras as denúncias de instituições e uma sociedade democrática cada pessoa não é
pesquisadores que, em nome do "progresso dona de seus genes e não tem o direito de decidir
científico", desconsideram os mais elementares sobre a sua intimidade genética, o que pode lhe
direitos das pessoas pesquisadas, como por restar de seu? O que concede a um governo ou
exemplo, o direito de saber, de compreender, de parlamento o direito de comercializar as infor-
dar ou não o consentimento e o de exigir, mações genéticas de alguém? E do conjunto da
explicitamente, qual o destino que deseja para população? Como a pessoa ou a população
seus genes ou produtos deles derivados. poderão se defender de tamanha arbitrariedade?
Desde 1993, acumulam-se denúncias de Após o ocorrido na Islândia, como ficam o respeito
infrações éticas cometidas por algumas equipes ao consentimento livre e esclarecido à confi-
do PDGH (Projeto da Diversidade do Genoma dencialidade dos dados e à competência para
Humano), os chamados "caçadores de genes". consentir? O governo islandês usurpou o direito
São de domínio público uma série de atitudes e a competência para consentir de todo o povo,
antiéticas de cientistas do PDGH na coleta de desrespeitando a Declaração Universal do
DNA, sem consentimento, de populações Genoma Humano e dos Direitos Humanos .
indígenas. A ausência do consentimento -livre e No mundo da genética, o DNA da população
esclarecido, na assistência e na pesquis a em islandesa é muito cobiçado com base na suposição
saúde, classifica qualquer procedimento como de ser um DNA "pouco mestiço'', posto que
antiético, logo é uma prática condenável. houve pouca imigração de mil anos para cá, época

lji•J1NiW N°84/85 Março/Agosto de 2000


27
da chegada dos vikings à Islândia. A DeCode, Mannvernd (Associação de Proteção Humana),
empresa norte-americana de biotecnologia, cujo dirigida pelo professor de genética Einar Arnason,
dono é um islandês radicado nos EUA, comprou o da Universidade de Reykjavic; e exigir que o
direito de acesso ao DNA de toda a população do governo desfaça o negócio e revogue a lei.
país. A negociata rendeu US$ 16 milhões ao
Per spectivas Feminista e Anti-
governo e a promessa de que os islandeses
receberão gratuitamente qualquer remédio obtido racista para a Bioética
a partir dos dados da pesquisa dos registros
médicos, árvores genealógicas e informações de No Brasil, o projeto D ivulgação e
testes genéticos de cada um dos 270 mil islandeses. Popularização da Bioética: direitos reprodutivos
Tão tenebrosa transação não se concretizou "assumiu a tarefa de sensibilizar feministas e anti-
sem luta. Houve resistência popular e as racistas para a reflexão e a ação". 2 Esta decisão
discussões no parlamento duraram um ano. Isto se deu por compreender que se trata de um campo
é, o povo islandês fez a sua parte: não se rendeu teórico e político no qual os dois setores têm
sem luta, ainda que tenha sido débil. Na medida pouca presença e, também, por considerar que as
em que a maioria das pessoas leigas não resistências e dificuldades a essas abordagens -
compreende o inteiro teor das questões de gênero e racial/ étnico - precisam ser tanto
pertinentes à genética, normalmente a refletidas como superadas.
mobilização em torno do assunto não é grande.
É inadmissível adotarmos uma conduta de 2
O projeto Divulgação e Popularização da Bioética:
expectador diante da expropriação de patrimônio
direitos reprodutivos é desenvolvid o por Fátima de
genético humano! Cabe agora aos povos de todo o Oliveira e, desde agosto de 1998, tem recebido o apoio
mundo repudiar a violência genética; apoiar a luta da Fundação MacArthur. Mais informações sobre o
do povo islandês através da solidariedade à ONG Projeto, ver box neste artigo.

28
EM 1995, O GOVERNO DOS "questões biológicas" em geral: da pesquisa básica
EUA REQUEREU O à aplicada; da qualidade, da competência na
prestação de serviços e da atitude de profissionais
PATENTEAMENTO DOS GENES
da área de saúde. A bioética pensa, fundamen-
DE UMA ÍNDIA talmente, em como atuar no presente; em delinear
PANAMENHA DA TRIBO DOS um projeto de futuro mais humanizado e na
GUAYAMI DE CUJAS redistribuição dos cuidados com a saúde de forma
CÉLULAS FOI EXTRAÍDO UM universalizada e em condições de igualdade.
REMÉDIO PARA Mulhere s na Bioética/Bioética e
DOENÇAS DEGENERATIVAS E as Mulheres/Bioética Feminista
LEUCEMIA
Atualmente temos uma presença expressiva de
Aqui, importa lembrar que a concepção de mulheres na bioética, inclusive no Brasil. É inegável
bioética que tem orientado este trabalho, há cerca que a maioria das mulheres que está na bioética não
de quase uma década, afirma a bioética como, é feminista. Mas é fato também que há uma corrente
literalmente, a ética da vida. Neste sentido, a feminista na bioética. Até mesmo podemos dizer
bioética é, essencialm ente, um humanismo de que há uma bioética feminista, todavia isso se deve
novo tipo. É um movimento social, que emergiu mais à presença e à form ulação teórica de algumas
na década 1970, preocupado com a reflexão, a poucas feministas que atuam, em caráter pessoal,
elaboração e a recomendação de normas para os na área do que uma decorrência de que há no
comportamentos tidos como os "mais éticos", ou movimento feminista algum encaminhamento a
de maior aceitabilidade pelas sociedades contem- respeito. Na América Latina, com destaque para o
porâneas, na área das biociências. Adquiriu sta- Brasil, são raríssimas as mulheres que "fazem
tus de disciplina nos anos 1980 e está em franca bioética'' que têm ligação orgânica com o movimento
expansão e consolidação no final do século XX. feminista. Parece-me que o mesmo é aplicável, de
No vasto temário da bioética merecem destaque uma forma generalizada, a muitos outros países, ou
os seguintes assuntos: Saúde e D ireitos Repro- a quase todos.
dutivos (concepção, contracepção, esterilização,
aborto, infertilidade e Novas T ecnologias Repro- A COMERCIALIZAÇÃO DE
dutivas Conceptivas - NTRC), Saúde e Direitos INFORMAÇÕES GENÉTICAS
Sexuais, Saúde Pública, Transplantes, D oentes
HUMANAS NÃO
T erminais, Eutanásia e Manipulações Genéticas.
A bioética é uma disciplina cujo campo
ENCONTRA RESPALDO ÉTICO,
semântico está delineado. É crescente a sua POIS SE EM UMA SOCIEDADE
institucionalização. A singularidade da bioética é que DEMOCRÁTICA
ela resulta da contribuição de vários setores dosa- CADA PESSOA NÃO É DONA
ber (multidisciplinar), o que lhe permite uma atuação DE SEUS GENES E
interdisciplinar e cria condições para um alcance
NÃO TEM O DIREITO
transdisciplinar. É um espaço de luta que aglutina
diferentes movimentos sociais e personalidades
DE DECIDIR SOBRE A SUA
democráticas . A bioética diz respei to a outros INTIMIDADE
questionamentos e temáticas, além da moralidade GENÉTICA, O QUE
e da aplicação dos novos saberes . Se ocupa das PODE LHE RESTAR DE SEU?

'jJ.l,j,fjMN°84/85 Março/Agosto de 2000 29


Nós, as feministas, que fazemos bioética não pectiva de gênero na abordagem bioética, o que
podemos dizer que estamos nos fóruns de bioética tem contribuído para que os bioeticistas tenham
falando em nome do movimento feminista . se referendado no mundo como as únicas pessoas
Estamos lá apenas enquanto feministas e defen- habilitadas a dizer qual o melhor caminho, ou "o
dendo opiniões feministas. Assim como as caminho menos pior" em decisões éticas, inclu-
feministas que não concordam sequer com a sive daquelas nas quais as mulheres são as
terminologia bioética não podem sair por aí principais interessadas: saúde e direitos sexuais e
dizendo que o movimento feminista é contra a reprodutivos. Em outras palavras, os homens, via
bioética, ou até mesmo usar de diferentes bioética, vêm retomando o poder de decidir sobre
artifícios (por exemplo, sair pela tangente do os corpos e a vida das mulheres!
"generalismo ético") para impedir que se discuta A bioética, cujas bases teóricas datam do início
bioética, com o nome de bioética, em determi- da década de 1970, começou a se implantar no Brasil
nados momentos e espaços, já que o movimento no final dos anos 1980. Naquela época os homens
feminista em nenhum dos seus momentos mais eram maioria absoluta e a Igreja Católica, via pa-
coletivos debruçou-se sobre o assunto. A bioética dres camilianos, era hegemônica no campo. Houve
se estabeleceu no mundo e o feminismo não pode uma "corrida" dos médicos para a bioética, ao
se omitir de participar dela. mesmo tempo em que constatava-se a ausência da
A principal decorrência da "pouca presença" perspectiva de gênero e de uma abordagem anti-
feminista na bioética é a irrisória incorporação racista, explícita, na bioética. Percebia-se também
das questões pertinentes à opressão e à pers- que os movimentos feminista e negro não

30 !ji•l•l•ÜM 0
84/85 Março/Agosto de 2000
compreendiam a importância do novo campo e nem A BIOÉTICA PENSA,
se faziam presentes nele. D esde então, a situação FUNDAMENTALMENTE, EM
pouco mudou: os h omens são, ainda, maioria
COMO ATUAR
absoluta na bioética, quantitativa e qualitativamente;
são os que mais publicam na área, coordenam os
NO PRESENTE; EM DELINEAR
cursos e dirigem as instituições de bioética. A Igreja UM PROJETO
Católica, mantém presença destacada na área. DE FUTURO MAIS
Embora a bioética se apresente com uma cara plu- HUMANIZADO E NA
ral, a categoria médica é a predominante. Os fóruns REDISTRIBUIÇÃO DOS
de bioética ainda são feudos masculinos e brancos.
CUIDADOS COM A SAÚDE DE
A subestimação da bioética pelo FORMA UNIVERSALIZADA E
feminismo EM CONDIÇÕES DE
IGUALDADE
A pouca presença da perspectiva de gênero na
reflexão bioética é algo que se mantém. São poucas Mas quais os motivos pelos quais a bioética
as mulheres bioeticistas. Há apenas uma instituição não tem "emplacado" no feminismo? Em primeiro
feminista de âmbito internacional dedicada ao lugar, todas temos mil e uma atividades, a luta
assunto: FAB - Feminist Approaches to Bioethics feminista tem muitas exigências cotidianas, e
(Rede Internacional sobre Perspectivas Feministas todas "prá ontem". Porém vários outros fatores
para a Bioéticawww.uncc.edu/fab). O movimento podem explicar as origens das dificuldades do
feminista continua distante do novo campo, em feminismo para com a bioética, a começar pela
termos de considerar a importância estratégica dele, subestimação que tivemos pelo campo - e em
assim como não se faz presente, em especial para certa medida ainda temos. Um outro motivo, é a
travar a luta de idéias. Embora tenhamos uma descrença na bioética, pois os ranços da ética
razoável publicação feminista na área, ela não patriarcal, aristotélica e hipocrática sobre a qual
aparece como "produção em bioética", apenas como se alicerça são tão fortes e tão visíveis que só de
"temas de saúde da mulher"! pensar na imensidão da luta de idéias que temos
pela frente é desanimador. Porém, é exatamente
NO MUNDO DA GENÉTICA, O por todo o trabalho que urge ser feito que nós, as
DNA DA POPULAÇÃO feministas, precisamos nos fazer presentes, pois
a bioética, assim como outros campos episte-
ISLANDESA É MUITO
mológicos, desenha seu corpo teórico, em grande
COBIÇADO COM BASE NA medida, pelas perspectivas de quem dela participa.
SUPOSIÇÃO DE
A garantia dos direitos humanos
SER UM DNA
na assistência e na pesquisa em
"POUCO MESTIÇO", POSTO
saúde
QUE HOUVE POUCA
IMIGRAÇÃO DE
Mas apesar de tantos defeitos de origem e de
MIL ANOS PARA CÁ, construção, o Movimento Bioético - grupos,
ÉPOCA DA CHEGADA núcleos, e instituições dedicados à reflexão/ ação
DOS VIKINGS À e/ ou ensino da temática e pelas comissões de
ISLÂNDIA bioética - vem se firmando como a referência e o

lji.J.r•fjIDN°84/85 Março/Agosto de 2000 31


A PRINCIPAL DECORRÊNCIA
DA "POUCA PRESENÇA"
FEMINISTA
NA BIOÉTICA É
A IRRISÓRIA INCORPORAÇÃO
DAS QUESTÕES
PERTINENTES À
OPRESSÃO E À
PERSPECTIVA DE
GÊNERO NA ABORDAGEM
BIOÉTICA

É ilustrativo relembrar que no chamado "O


último grande debate do século", sobre os
transgênicos, o feminismo, enquanto pensamento
político, tem se omitido. Eis um problema, pois
as discussões relativas à genética atualmente são,
no essencial, pertinentes ao futuro da humanidade.
No dia a dia de nossas vidas estamos deixando
"passar batido" espaços como as Comissões ou
Comitês de Ética Hospitalar, de Ética em
Pesquisa e de Bioética que são instrumentos
idealizados pelo movimento bioético para garantir
os Direitos Humanos na área de saúde"3 .
O papel atual da condição de dona-de-casa
- a condição de consumidora - informa que as
mulheres podem decidir o futuro dos alimentos
transgênicos, posto que são consumidoras
decisivas na compra de alimentos, na aceitação
ou não de tais produtos, a ponto de podermos
inclusive afirmar que a luta pró ou contra os
alimentos transgênicos será decidida pelas
consumidoras, e que vencerá a disputa quem
conseguir elaborar os argumentos mais
convincentes para as mulheres 4 •

3
OLIVEIRA, Fátima. Ignorar a bioética é um
equívoco! Presença da Mulher, Ano XIII, nº 34,
espaço habilitado para o debate e as decisões éticas.
agosto/ setembro/ outubro de 1999.
E aqui não há porque tergiversar: ou comparecemos 4
OLIVEIRA, Fátima. Transgênicos: re-criando a
desde já, ou assumimos que depois teremos de Natureza?O direito de saber e a liberdade de escolher.
"correr muito mais atrás do prejuízo". No prelo.

32 lji111N1MN•84/85 Março/Agosto de 2000


RIB - Rede de Informação sobre Bioética: bioética&teoria
feminista e anti-racista. Coordenação: Fátima Oliveira
http:culturabrasil.art.br/RIB

Está na internet, desde 16 de março de 1998, pois todos os contatos são respondidos e os
época em que foi a segundahome pagede orientação endereços residenciais e eletrônicos são incluídos
feminista sobre bioética e, naquele tempo, a única na "lista de endereços" da RIB e passam a receber
que agregava à perspectiva feminista a abordagem todos os comunicados.
anti-racista. A Rede de Informação sobre Bioética O projeto Divulgação e Popularização
é uma "rede quase virtual". Trata-se de uma página da bioética: direitos reprodutivos está na
na internet, criada e coordenada por Fátima RIB/bioética&teoria feminista e anti-racista
Oliveira, cujas origens remontam a 1996 com os em espaço especial. É uma proposta de educação
boletins, de duas páginas "tamanho oficio", da Rede informal em bioética que tem o patrocínio do Fundo
de Informação sobre Bioética (RIB) -órgão de de Capacitação e Desenvolvimento de Projetos
comunicação da pesquisa Bioética& Teoria (FCDP) da The Jonh D. And Catherine T.
Feminista eAnti-racista: informações na grande MacArthur Foundation, com duração prevista de
imprensa/Direitos Reprodutivos e Genética 2 anos (setembro de 1998 a setembro do ano 2000),
Humana, como parte do projeto patrocinado pela cujo objetivo geral é " divulgar e popularizar a
Fundação Carlos Chagas. bioética, especificamente no campo dos direitos
Os boletins, que estão na internet, do N.º reprodutivos, junto ao movimento feminista,
01 ao 07, incluindo o Especial de agosto de 1996, movimento negro e estudantes de enfermagem,
foram elaborados durante os primeiros oito medicina e psicologia de Belo Horizonte, através
meses da realização da pesquisa. Os demais fo- de oficinas, laboratórios, ciclos de estudos,
ram elaborados após o término da pesquisa, seminários e da formação de uma Rede de
objetivando apenas manter a RIB/ Informação sobre Bioética ".
Bioética&Teoria feminista e anti-racista, uma Desde 3 de fevereiro de 2000 integra a
maneira de responder às freqüentes solicitações Rede de Informação sobre Bioética: bioética e
de inúmeras pessoas que compreendiam que eu teoria feminista&anti-racista a Lista Bioética
deveria manter acesa a chama de uma Rede de Feminista, que veicula notícias, opiniões e
Informação sobre Bioética que incluísse a promove discussões em temas da luta feminista
perspectiva feminista e a anti-racista. Então, o e/ ou anti-racista que comportem decorrências
que temos na internet é parte de um projeto de bioéticas, presentes e futuras, cujas
divulgação e popularização da bioética. As responsáveis são: Fátima Oliveira (médica)
pessoas participam sem necessidade de filiação. <fatimao@medicina.ufmg.br> e Mônica Bara
Fazendo o primeiro contato já entrou na "Rede", Maia (bióloga) <baramaia@net.em.com.br>
Para assinar a Lista Bioética Feminista, acesse:
http://www.widesoft.com.br / cgi-bin/ majordomo/ subscribe/bioetica

A lista Bioética faz parte do esforço de consolidação das idéias feministas na bioética. Embora ''Bioética'
seja uma lista aberta aos chamados temas gerais da bioética, ela foi idealizada como um espaço/instrumente
tle instigação/ mobilização das mulheres e de todas as pessoas que compreendem que a bioética não pode
mais prescindir de incorporar a perspectiva feminista e anti-racista em suas reflexões e ações, sob pena de
berder a sua característica fundamental: a busca do "bom e do melhor" para o ser humano e para a humanidade

!ji•J.l•t1MN°84/85 Março/Agosto de 2000 33


Rede Dawn - Development
Alternatives with Women for a
New Era*
Claire Slatter**
Peggy Antrobus***
Sonia Corrêa ****

*Alternativas de Desenvolvimento com as Mulheres para uma Nova Era


** Coordenadora Geral da Rede DA WN, Professora da School of Social & Economic Development da
University of the South Pacific.
:m Fundadora da Rede DA WN, mestre em economia pela Unversidade de Massachussets, ex-diretora do
Depto. da Mulher do Governo da Jamaica na década de 70, foi coordenadora do Programa de Mulher e
Desenvolvimento da University ofWest Indians,
*l<lol< Coord. da área de pesquisa em Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos da Rede DA WN e coord. do

Projeto Iniciativa Gênero DAWN-IBASE.


A experiência anterior até a Rede mobilização. A DAWN é uma rede de mulheres
DAWN do Sul econômico, ativamente engajada na
pesquisa feminista e na análise das questões
Entre os que designaram o ano de 197 5 como globais relacionadas à justiça econômica,
Ano Internacional da Mulher e adotaram a resolução sustentabilidade ambiental, direito e saúde
que propôs a Década para a Mulher que se seguiu, reprodutivos e reestruturação política. Tendo
poucos foram os que puderam imaginar o impacto surgido no contexto da Terceira Conferência da
que a liderança das mulheres teria em todos os níveis ONU sobre as Mulheres, realizada em Nairobi 1 ,
e em todos os tipos de instituições. O mérito mais a DAWN representa a preocupação crescente das
importante da Década da ONU para as Mulheres (e mulheres do, então, chamado Terceiro Mundo
todos os trabalhos em curso que ela estimulou e com os impactos na vida das mulheres pobres das
encorajou) foi ter aberto espaço para mulheres crises interligadas da dívida, segurança alimentar,
oriundas de diferentes grupos étnicos e raciais, degradação ambiental, deterioração dos serviços
diferentes países, classes e experiências ocupacionais sociais, militarismo, conservadorismo político e
para se encontrarem em bases permanentes e fundamentalismo religioso.
coerentes. Esses encontros capacitaram as mulheres
A análise da DAWN
a obter novos conhecimentos e aprender com as
experiências umas das outras. Da mesma forma Tirada da experiência das mulheres pobres
facilitaram a organização de projetos conjuntos e que vivem no Sul econômico, a análise da DAWN
esforços de colaboração. Deram origem a redes serviu de base para o documento-plataforma
temáticas nos âmbitos locais, regionais e global, as Desenvolvimento, crises e visões alternativas:
quais, por sua vez, promoveram pesquisas e análises perspectivas das mulheres do Terceiro Mundo,
que serviram para empoderar a militância das voltado para o Fórum das ONGs e para uma série
mulheres. Os encontros ajudaram as mulheres a de Grupos de Discussão sobre a Perspectiva
desenvolver autoconfiança e capacidade de Feminista em Matéria de Desenvolvimento. Ao
liderança. Criaram uma conexão entre pesquisadores introduzir uma análise que estabelecia um paralelo
e ativistas e, mais importante, validaram e entre as experiências cotidianas das mulheres, as
estimularam o desenvolvimento de pesquisas entre relações coloniais entre países e a dinâmica das
ativistas e de ativismo entre pesquisadores. Forjaram políticas macroeconômicas, a DAWN ofereceu às
e fortaleceram vínculos entre a atividade de mulheres uma nova maneira de encarar os processos
organização nos âmbitos locais e global. Facilitaram globais e as questões de desenvolvimento. As
o crescimento de um movimento global de mulheres características da análise da DAWN são:
da maior diversidade e descentralização, um • Foco sobre a experiência das mulheres
movimento que expandiu sua agenda desde a estreita pobres dos países do Sul.
definição de "questões das mulheres" até abranger • Reconhecimento da diversidade regional.
todo um espectro de preocupações com o bem-estar • Articulação dos fatores econômicos,
humano e se transformar num contingente funda- sociais, culturais e políticos.
mental defensor de um mundo mais humano.
1
O encontro que levou à criação da rede foi
O começo da DAWN: convocado pela economista indiana Devaki Jain e
1984 - 1990 realizado em Banglore, na Índia, em agosto de 1984. Seu
objetivo era refletir sobre as experiências de
desenvolvimento das mulheres do Terceiro Mundo ao
A rede DAWN foi uma das organizações cujo longo dos dez anos da Década e preparar um documento-
trabalho facilitou essa transformação e plataforma para o Fórum das ONGs.

35
• A tentativa de ligar a experiência no rúvel micro relações humanas serão pautadas pelos valores do
da vida cotidiana das mulheres a uma compreensão da cuidado pelos outros e da solidariedade. Neste
dinâmica das políticas macroeconômicas. mundo o papel reprodutivo das mulheres será
• Uma compreensão da natureza política do redefinido e os homens serão responsáveis pelo
desenvolvimento. seu comportamento sexual, fecundidade e o bem-
• Uso de uma perspectiva feminista - que estar de ambos os parceiros. O cuidado com as
rejeita dicotomias, legitima o esforço e a expe- crianças será partilhado por homens, mulheres e a
riência das mulheres e trabalha em solidariedade sociedade como um todo.
com as mulheres . Queremos um mundo onde recursos massivos
Essa análise mudou os termos do debate hoje utilizados na produção de meios de destruição,
sobre as Mulheres em Desenvolvimento (JíJ omen sejam canalizados para o alívio da opressão dentro
ln Development) . A evolução para uma análise efora das casas. Esta revolução tecnológica pode
política mais holística das questões também eliminar as doenças e a fome, e dar às mulheres
ajudou a mobilizar as mulheres através do mundo meios para ter controle sobre suas vidas, sua saúde,
na direção da formação de um pólo político em sua sexualidade e sua fecundidade.
torno da visão que a Rede DAWN assim traduz: Queremos um mundo onde todas as
Nós queremos um mundo onde a desigualdade instituições estejam abertas aos processos
baseada em classe, gênero e raça esteja ausente democráticos participativos, onde mulheres
em todos os países e na relação entre países. Nós partilhem das definições sobre prioridades e a
queremos um mundo onde necessidades básicas tomada de decisões. Em tal ambiente político
sejam entendidas como direitos básicos e onde a haverá condições sociais favoráveis para que a
pobreza e todas as formas de violência sejam integridade física de mulheres e homens e a
eliminadas. Cada pessoa terá a oportunidade para segurança de suas pessoas seja respeitada em
desenvolver seu total potencial e criatividade e as todas dimensões de suas vidas.

36
Na esteira do sucesso dos Grupos de Discussão e análise em curso da rede DAWN plantou as
do Fórum de Nairobi, as fundadoras da DAWN2 fundações de um pensamento estratégico que
organizaram um encontro no Rio de Janeiro para empoderou a militância das mulheres e serviu como
lançar um programa de pesquisa e militância. Um catalisador de um movimento de mulheres ancorado
Comitê Organizador, representativo das cinco no Sul e globalmente orientado, em busca de um
regiões do Sul (África, Ásia e Pacífico, América modelo de desenvolvimento em que relações e
Latina e Caribe), foi formado, sendo NeumaAguiar, arranjos de gênero mais desejáveis são integrais.
do IUPERJ, designada Coordenadora Geral. O Em 1996, o programa de trabalho da Rede
primeiro Secretariado da DAWN se estabeleceu no DAWN foi redefinido para incorporar os ganhos
Rio de Janeiro, usando o IUPERJ como base insti- obtidos através das conferências, preservando a
tucional, mas sempre ficou claro que devia ser função central da rede de produzir análises decisivas,
rotativo entre as diversas regiões. sob o ponto de vista das feministas do Sul, sobre
Nos primeiros quatro anos (1986-1990), o questões globais, em vista de apoiar os esforços em
trabalho da DAWN se concentrou nas temáticas da defesa de um desenvolvimento sustentável e justo
Dívida, Alimentação e Crises Energéticas e Visões em termos de gênero . Decidiu-se fortalecer os
eMovimentos das Mulheres, e produziu-se uma série engajamentos no âmbito regional e dar maior atenção
de estudos de caso. Na Assembléia realizada no Rio, às questões e prioridades regionais através de vínculos
em 1990, o Comitê Organizador se reestruturou, e trabalhos em parceria com as organizações e
em vista de fortalecer sua atuação e seu trabalho de instituições existentes. No âmbito global, acordou-se
pesquisa/ análise, separando-se as funções de que os esforços da DAWN deveriam se estender tanto
representação regional e de pesquisa e análise à participação nas iniciativas de reforma resultantes
propriamente ditas. Os temas foram selecionados a da crítica vigorosa do movimento feminista ao Banco
partir de uma análise de questões globais emergentes, Mundial na IV Conferência Mundial sobre a Mulher,
como degradação ambiental, direitos reprodutivos em Pequim, como a SAPRIN-StructuralAdjustment
e população, e perspectivas econômicas alternativas. Programs Review Iniciative Network e a EGCG -
Com o desenvolvimento do programa de Externa! Gender Consultative Group, quanto à criação
trabalho, decidiu-se usar as conferências da ONU de vínculos com as organizações e redes de desenvolvi-
como base para pesquisa e análise sobre os vários mento progressistas (como a Society for Internacional
temas . Assim, o trabalho da DAWN sobre Meio Development and Focus on the Global South), com
Ambiente se ligou à Conferência da ONU sobre Meio uma visão das questões e preocupações dominantes de
Ambiente e Desenvolvimento (Rio, 1992); sobre gênero. Os temas de pesquisa acordados em 1996 fo-
Direito Reprodutivo, à Conferência Internacional ram: globalização; direitos sexuais e reprodutivos;
sobre População e Desenvolvimento (Cairo, 1994); e sustento/ subsistência sustentáveis; reestruturação
sobre Perspectivas Econômicas Alternativas, à política; e transformação soàal. Entre 1997 e 2000, esses
Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social temas constituíram o centro dos esforços das redes tanto
(Copenhague, 199 5) e a IV Conferência Mundial nos âmbitos regionais como global.
sobre as Mulheres (Pequim, 1995). Esse vínculo com
2
as conferências da ONU ajudou a encontrar os Os membros fundadores eram mulheres que tinham
recursos, as oportunidades de mobilização e as participado do encontro de Banglore. Entre elas, Devaki
Jain, Gita Sen e Ela Bhatt (Índia); Hameeda Houssain
plataformas a partir das quais essas questões puderam
(Bangladesh); Noellen Heyzer (Malásia); Claire Slatter e
ser articuladas e desenvolvidas.
Vanessa Griffths (Fiji); Fatima Memissi (Marrocos); Achola
A mobilização popular pela mobilização popu- Pala Okeyo (Quênia); Marie Angelique Savane (Senegal);
lar pode ser inútil. A mobilização efetiva exige análise Neuma Aguiar e Carmen Barroso (Brasil); e Peggy
e pensamento estratégico. O programa de pesquisa Antrobus e Lucille Mair (Caribe).

ljM1Nfü1N°84/85 Março/Agosto de 2000 37


Como novo tema, a reestruturação política tomada de decisão em bases regulares, além de
e transformação social (RPTS), por exemplo, contribuir para o estabelecimento de relações mais
envolveu um processo de engajar os pesquisadores próximas e solidárias. A mudança do secretariado
de cada região em análises de questões específicas da D A WN, em 1998, para a University of South
das suas regiões e organizar grupos de discussão Pacific, em Fiji, Pacífico Sul, onde a atual
de intelectuais e ativistas locais para debater as coordenadora geral, Claire Slatter, está baseada, foi
descobertas das pesquisas . O trabalho, que imensamente facilitada pela internet e pelo e-mail.
começou seriamente em 1999, dependeu da Há quem possa pensar que situar o secretariado
colaboração próxima entre o coordenador de de uma rede global atuante numa pequena ilha
pesquisa do tema, responsável pela produção de distante do oceano Pacífico seja uma mera ilustra-
análises globais para apoiar a militância da ção das mudanças nas modalidades operacionais das
transformação política e social, e os coordena- organizações globais na era da comunicação
dores regionais, que localizam os pesquisadores, eletrônica. Contudo, a política de secretariado
organizam grupos de trabalho regionais e de um rotativo da DAWN garante que as diferentes regiões
modo geral facilitam o desenvolvimento das do Sul vão se beneficiar da sua exposição às análises
pesquisas e análises em cada região. e ao trabalho militante das feministas do Sul, o que
A análise global será divulgada durante o dará finalmente à DAWN um perfil em e de cada
processo de revisão de Copenhague+ 5. E la apre- região. A mudança para o Pacífico não poderia ter
sentará uma análise holística do Estado, da acontecido numa hora melhor para ajudar na
política e da governança, do engajamento político construção de um entendimento das questões
feminista, da institucionalização de gênero e de macroeconômicas e das instituições econômicas
uma visão feminista da transformação social. globais, bem como dos seus impactos e implicações
O melhor acesso das integrantes do Comitê para as mulheres, especialmente as mais pobres.
Organizador da D A WN ao e-mail e à internet, a A internet e o e-mail também contribuíram para
partir de 1997, deu uma nova dimensão ao trabalho vincular a DAWN a outras organizações e redes de
da D A WN, fortalecendo a própria rede pela faci- militância que trabalham sobre as mesmas questões
litação da consulta e dos processos coletivos de globais. Através deles, a DA WN pôde obter acesso

!ji1}1N1M N°84/85 Mat·ço/Ago to de 2000


38
imediato a informações vitais sobre desen- e 1990, Neurna Aguiar foi coordenadora geral e
volvimentos das políticas globais oriundas de pro- as atividades da rede estavam vinculadas tanto
cessos no Norte, com a oportunidade de demonstrar ao IUPERJ quanto a outros núcleos acadêmicos
solidariedade e apoio a iniciativas empreendidas por e a ONGs de mulheres. Duas reuniões fundamen-
outras redes. A internet, com certeza facilitou o tais para reorientação das direterizes estratégicas
ativismo global em torno de questões econômicas, de nosso trabalho tiveram lugar no Rio (1986 e
financeiras e da liberalização comercial. 1990). A rede teve urna incidência relevante no
Através da internet, a DAWN foi capaz tanto Planeta Fêmea, durante a CINUMAD, especial-
de acompanhar de perto os desenvolvimentos que mente nas sessões sobre "Políticas Populacionais"
levaram ao Terceiro Encontro Ministerial da e "Desenvolvimento e Meio Ambiente". A partir
Organização Mundial do Comércio corno de apoiar de 1992, quando a Coordenação foi deslocada
o apelo do que pode ser coletivamente chamado para o Caribe, a vinculação seria mantida através
de "sociedade civil global" por um comércio justo de Sonia Corrêa que, então, assumiu a coor-
e pela suspensão das negociações multilaterais até denação dos esforços de pesquisa e análise em
que urna revisão abrangente dos impactos dos População e Direitos Reprodutivos. Desde então,
acordos comerciais existentes tenha sido no contexto brasileiro, as atividades da Rede
conduzida. A rede decidiu se unir às centenas de D A WN têm privilegiado a circulação de análises
organizações da sociedade civil que desem- e informações sobre debates globais que
barcaram em Seattle para manifestar sua oposição interessam de perto às mulheres, especialmente
a urna nova "rodada do milênio". as Conferência do Ciclo Social das Nações
Os apontamentos para a Discussão sobre Unidas . A partir de 1997, seu papel e visibilidade
Gênero e Comércio, redigidos para a DAWN por no Brasil seriam potencializados. A partir de um
Mariarna Williams, foram preparados para acordo formal com o IBASE, o sub-programa
divulgação em Seattle (ver o website da DAWN: Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos
www .d awn .org.fj 3 ). Pouco antes, em 1999, a vinculou-se à Iniciativa Gênero desta instituição.
DAWN co-patrocinara dois outros eventos com A nova plataforma institucional tem possibilitado
redes então focadas na regulamentação do capi- novas oportunidades e maior eficácia em termos
tal financeiro. O alinhamento da DA WN com de articulações estratégicas e disseminação de
outras organizações progressistas da sociedade informações. As parcerias atuais da Rede DAWN
civil e sua participação em fóruns globais de na sociedade civil brasileira são o Observatório
defesa de relações e arranjos imparciais e justos é da Cidadania, a Rede Saúde, a Comissão de
indicativo do reconhecimento pela rede de que a Cidadania e Reprodução, a Articulação de
globalização, em todas as suas dimensões, só pode Mulheres Brasileiras para Beijing e a iniciativa de
ser controlada pela contraposição de urna monitoramento dos programas do Banco Mundial
sociedade civil forte e bem organizada. Após o à luz da perspectiva de gênero que acaba de ser
evento de Seattle, a DAWN também esteve criada pela Rede Brasil e Rede Entre Mulheres -
presente no encontro das lideranças de ONGs, Seção Brasil.
realizado em Bangkok, pouco antes da
Conferência UNCTAD, em fevereiro de 2000. 3
No site da Rede DAWN encontra-se o texto
A Rede DAWN no Brasil no original em inglês, uma versão traduzida para o
português pode ser encontrada no site IBASE,
A Rede DAWN, de que são fundadoras Carrnen precisamente na página da Iniciativa Gênero, que
Barroso e Neurna Aguiar, guarda um vínculo está dedicada a vários temas, entre eles a OMC:
histórico com o feminismo brasileiro. Entre 1986 http: / / www.ibase.br

IRf'M•lJMN°84/85 Março/Agosto de 2000 39


Marcha Mundial de Mulheres 2000
Miriam Nobre*

*Engenheira agrônoma, técnica da SOF - Sempre Viva Organização Feminista e integrante da Secretaria
Executiva da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil.
A Marcha Mundial de Mulheres 2.000 é uma documento de análise e a plataforma de reivin-
ação do movimento de mulheres de diferentes dicações que combatem as causas estruturais e
partes do mundo na luta contra a pobreza e a as manifestações cotidianas da pobreza e a
violência sexista. Até dezembro de 1999, aderiram violência, e propõem formas de ação.
formalmente ao projeto 2.733 grupos de 140
A pl ataforma de reivindicações
países. Sua coordenação internacional está a cargo
da Federação de Mulheres do Quebec, no Canadá. As mulheres são as mais atingidas pelo
A inspiração veio da marcha "Pão e rosas", desemprego e pelo trabalho precário, seus salários
que aconteceu em junho de 1995. Durante 10 são inferiores aos homens, e ainda são responsáveis
dias, 850 mulheres marcharam pelo interior de pelo trabalho doméstico. A globalização econômica
Quebec chegando a Montreal onde foram e as políticas de ajuste estrutural reforçam antigas
recepcionadas por 15 mil pessoas . A principal desigualdades e criam novas formas de exploração:
conquista desta manifestação foi o aumento real flexibilidade no emprego, ataque às conquistas
do salário mínimo em uma economia de preços trabalhistas e na previdência social, cortes nos
estáveis e pressionada pelo mercado comum com gastos públicos na área social fazendo com que
os Estados Unidos. muitos serviços se mantenham às custas do trabalho
A proposta de reforçar a solidariedade voluntário das mulheres.
internacional entre as mulheres, em uma ação No contexto da Marcha as mulheres se unem
conjunta de combate à pobreza e à violência, se a outros movimentos internacionais que exigem
espalhou, através dos contatos com o movi- o controle cidadão da Organização Mundial do
mento feminista, sindical, ONGs de cooperação, Comércio (OMC) ; a taxação das transações
e pela div ulgação da propo sta em encontros financeiras e medidas para limitar o poder das
internacionais. Um encontro preparatório transnacionais e dos detentores do capital; o
aconteceu de 15 a 17 de outubro de 1998, em cancelamento da dívida dos países mais pobres e
Quebec, com a participação de 140 mulheres auditoria pública nos demais países; o fim dos
de 65 países. Neste momento definiu-se o programas de ajuste estrutural.

lji1! 1J.fjM N°84/85 Março/Agosto de 2000 41


Os Estados nacionais devem implementar um A Marcha n o Brasil
plano de eliminação da pobreza, em especial da
pobreza das mulheres. Neste plano deve-se garantir os dias 16 e 17 de outubro de 1999, 44
o acesso à saúde, educação, habitação, segurança mulheres de 15 estados de todas as regiões do
alimentar, previdência social, cidadania, recursos país se reuniram em São Paulo para definir os
naturais e econômicos, igualdade no trabalho e na eixos das reivindicações brasileiras, estratégias de
divisão do trabalho doméstico. mobilização e a coordenação do processo.
Os Estados devem aplicar sem reservas as As questões centrais a serem trabalhadas nas
convenções e pactos internacionais, além de reivindicações da Marcha no Brasil são: reforma
implementar planos de ação eficazes com recursos agrária, reforma urbana, educação, saúde, trabalho,
financeiros e medidas adequadas para acabar com a dívida externa e subordinação ao FMI, meio
violência contra as mulhe- ambiente, combate à
res. Devem reconhecer o AS QUESTÕES CENTRAIS A discriminação racial e
direito das mulheres a SEREM TRABALHADAS NAS étni ca, autodetermi-
dispor de seu corpo e a nação das mulheres,
REIVINDICAÇÕES DA
escolher seu modo de vida combate à violência
e sua sexualidade, garantindo
MARCHA NO BRASIL SÃO: sexista, pela livre
o acesso à contracepção e ao REFORMA AGRÁRIA, orientação sexual.
aborto e impedindo a REFORMA URBANA, A proposta é rea-
discriminação e a violência EDUCAÇÃO, SAÚDE, lizar inúmeras atividades
contra as lésbicas. TRABALHO, DÍVIDA EXTERNA - oficinas, debates,
ações de rua - com as
Forma s de ação E SUBORDINAÇÃO AO FMI,
mulheres para discutir as
O lançamento da
MEIO AMBIENTE, COMBA TE À tendências da economia
Marcha será no 8 de março DISCRIMINAÇÃO RACIAL E mundial e brasileira, as
de 2.000 e seu término no ÉTNICA, estratégias do capitalis-
dia 17 de outubro, dia AUTODETERMINAÇÃO DAS mo neoliberal, nossas
internacional de luta con- MULHERES, COMBATE À propostas e alternativas,
tra a pobreza. No dia 15 bem como o direito das
VIOLÊNCIA SEXISTA, PELA
de outubro uma delegação mulheres à integridade e
de mulheres dos países
LIVRE ORIENTAÇÃO SEXUAL a uma vida sem violên-
participantes fará uma cias. Nestas atividades
manifestação em frente ao Banco Mundial e ao FMI, estaremos recolhendo assinaturas de apoio às
em Washington, nos Estados Unidos . No dia 17 reivindicações internacionais da Marcha. Nossa
milhares de abaixo-assinados de apoio às meta é atingir a marca de 2 milhões de assinaturas.
reivindicações serão entregues ao secretário geral da Além do mais, queremos fortalecer o protagonismo
ONU, Sr. Kofi Annan. Nestes mesmos dias estarão das mulheres e dar visibilidade à nossa participação
acontecendo grandes atos nos países ou regiões e nas lutas comuns do campo democrático popular,
continentes. como nas ações do Fórum Nacional de Lutas e no
Entre 8 de março e 17 de outubro será realizada plebiscito da dívida externa. Um dia de luta contra
uma ampla campanha de educação popular sobre o capital financeiro e vários atos ao longo do ano
os temas tratados na Plataforma de Reivindicações organizados pelas entidades envolvidas na Marcha
da Marcha, combinada ao recolhimento de irão marcar a presença das mulheres nas ruas no
assinaturas de apoio às reivindicações. ano 2000.

!ji•J•N1M N°84/85 Ma rço/Agoslo de 2000


42
,.

A Caminho de Beijing + 5

Wânia Sant'Anna
Ninguém nos deu nada de presente, mulheres: atrás de cada negociação, atrás de cada
conquista, estão as reuniões de autoconsciência, as marchas infinitas, as discussões eternas,
as análises acadêmicas e as instituições brilhantes; esta a luta de Joana por seu terreno, a de
Julieta na universidade e a de Sonia na enxada, a de Maria Elena, assassinada pelos que não
queriam a sua paz; a de Margot parada em qualquer esquina da grande avenida. A de A na
enamorando-se de Irene e a de Domitila nas minas que oxalá já não existam no século XXI.
Está a confrontação e o paciente diálogo. E estão, claro que estão, as horas roubadas de
sono pelo sonho, os amores perdidos e os conquistados, as rupturas e as cumplicidades.
Fomos milhares e seremos milhares as que participamos desta continuidade''.

Virgínza Va?gas
Forum de ONGs -Huairou/China - 1995

Proposta: Nesses últimos seis meses, adelanto de la mujer hasta el aiío 2000",
na agenda internacional do movimento Declaração e Plataforma de Ação acordadas
de mulheres, nota-se um crescente na IV Conferência Mundial da Mulher
envolvimento e participação na (Beijing, 1995 ). ""Beijing + 5", simplesmente,
Conferência Beijing+ 5. O que é esta se impõe como terminologia também aplicada
Conferência? Por que essas organizações aos processos de avaliação e revisão dos
tomaram para si esta tarefa? acordos assumidos em outras Conferências
convocadas pelas Nações Unidas na década
Primeiro, é importante destacar que passada, o chamado ciclo de conferências
Beijing+ 5 faz parte de um processo. Algumas sociais: Conferência das Nações Unidas sobre
de nós, envolvidas no movimento feminista e Desenvolvimento e Meio Ambiente (Eco-92);
movimento de mulheres, costumam afirmar II Conferência de Direitos Humanos (Viena,
que este processo já dura duas décadas e 1993); II Conferência Internacional sobre
outras tomam mais explicitamente o processo População e Desenvolvimento (Cairo, 1994);
de preparação da IV Conferência Mundial da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento So-
Mulher, realizada em Beijing, China, em 1995, cial (Copenhague, 1995 ); IV Conferência
como marco. Essas duas referências estão Mundial da Mulher (Beijing, 1995 );
corretas e não se contradizem. O processo Conferência sobre Assentamentos Humanos -
inaugurado em 1975, quando as Nações Habitat (Istambul, 1996 ). Enfim, todas essas
Unidas lançou a Década da Mulher (1975- Conferências têm tido o seu processo "+5",
1985), é de fato um marco e, desde então, tem ou se ja , avaliação dos compromissos
sido crescente a participação ativa das assumidos.
organizações de mulheres neste fórum No caso de Beijing+5 também é
internacional, ou seja, o das Nações Unidas. importante mencionar que esta Assembléia
Oficialmente, Beijing+ 5 será uma Sessão Geral das Nações Unidas está recebendo um
Especial da Assembléia Geral das Nações nome especial: "Mulheres 2000: Gênero,
Unidas destinada a rever a implementação da Igualdade e Paz no Século XXI". De alguma
Estratégias de Nairobi - "Estratégias de . forma, estamos recuperando o slogan lançado
N airobi orientadas hacia el futuro para el em 1975 e, ao mesmo tempo, lançando mão de

'ji.J•N1M N°84/85 Março/Agosto de 2000


44
um conceito gerado durante a primeira defender os direitos das mulheres a uma vida
Década da Mulher, no caso, "gênero". Enfim, mais digna e plena de realizações. Participar
Beijing+5 está carregada, na minha opinião, é manter esta chama acesa.
de simbolismo e, talvez, o mais expressivo
deles resida no fato de a IV Conferência ter Proposta: Esta é a visão dos grupos
sido uma das mais participativas na história que assumiram participar deste
das Nações Unidas. Estima-se que processo, mas o que se passa com aqueles
aproximadamente 35 mil pessoas, na maioria que desacreditam desses processos
mulheres, participaram da Conferência internacionais? Há organizações que
Mundial e do Fórum Paralelo de ONGs (em acreditam que a agenda das Nações
Huairou , cidade vizinha a Beijing). Dois Unidas tem uma relevância muito
eventos sobre os quais intervieram os mais pequena no cotidiano do seu trabalho,
diversos grupos de mulheres de todas as partes não é verdade?
do mundo, um momento político-cultural de
envergadura sem precedente - especialmente Sim, isto é verdade . Muitos grupos
levando-se em conta o país no qual se realizou. ignoram e não vêem relevância em um
Assim, a principal questão é como processo como este. Daí a importância de, no
continuar este processo de participação, de âmbito nacional, divulgar os acordos
construção de uma agenda global capaz de assumidos pelos governos nesses processos
atingir os objetivos de igualdade, internacionais. Os governos assumiram
desenvolvimento e paz no século XXI e responsabilidades no plano internacional que
assegurar que os 185 governos, que devem ser cumpridas no plano nacional. Os
concordaram com as bases lançadas em documentos acordados nessas Conferências
Beijing, transformem suas palavras em ação. podem ser considerados âncoras, um
Esta é a principal questão em Beijing+5. instrumento ao qual nós podemos e devemos
Agora, quanto à razão de as organizações nos agarrar e dizer: vocês assumiram isto e
de mulheres passarem a responder posi- agora? O que vocês fizeram? O que vocês irão
tivamente ao chamado de participar deste fazer? Um documento sobre o qual nós
momento, na minha opinião, isto tem a ver com podemos e devemos cobrar uma atitude .
o fato de haver uma maior compreensão sobre O processo de revisão dos acordos é uma
os ganhos possíveis de se atuar localmente sem oportunidade de checar os ganhos, as perdas,
prescindir de uma visão global. As os desafios para o futuro. Quais programas
organizações de mulheres têm aprendido o implementados funcionaram? Quais aqueles
valor desta oportunidade, o valor de se ter um que não funcionaram e por quê? Quais
documento formal, assumido por seus países programas, simplesmente, não foram
no plano internacional, para as realidades elaborados e por quê? O que ainda existe por
regional e nacional. A participação nesses fazer para se alcançar os objetivos de
processos tem criado a oportunidade de igualdade, desenvolvimento e paz? Este é um
diálogo das organizações de mulheres com os momento de troca de experiências e de novas
governos e, também, com outras organizações reivindicações. O processo é altamente
de mulheres, fortalecendo suas idéias, político. Este também é um momento dos
posições e estratégias. Através deste processo, governos colocarem suas realizações e
tem sido criada e mantida uma série de redes fracassos em cena. Nossa tarefa , como
de contatos e ações cujo objetivo principal é movimento, é dar visibilidade ao grau de

lji.1 1 r•flM N°84/85 Março/Agosto de 2000


45
compromisso dos governos, alto ou baixo, com Esses Fóruns e Articulações Locais foram
as necessidades específicas das mulheres. responsáveis pela realização dos eventos e
Neste sentido, os grupos que consideram também pela elaboração dos 22 documentos/
o processo internacional algo pouco relevante diagnósticos que serviram de base para o
talvez tenham uma visão um tanto limitada Documento das Mulheres Brasileiras para a
das suas possibilidades. Não se trata de IV Conferência . Internamente, todo esse
depositar todas as fichas nesta estratégia, mas trabalho culminou com a r ealização de uma
considerar que existe pertinência em cobrar Conferência Nacional (Rio de Janeiro, junho
dos governos os compromissos assumidos na de 1995 ), com a participação de 700 mulheres,
esfera internacional. Além disso, tanto os aprovando propostas que foram gestadas em
processos das Conferências como as suas âmbito local.
revisões constituem uma excelente experiência Este trabalho de articulação foi histórico.
para se fazer balanços, recolher e comparar Durante todo o tempo reafirmamos a
informações sobre a situação das mulheres necessidade de produzir um documento, uma
globalmente, estabelecer redes, cobrar a intervenção pública, que expressasse o nosso
aplicação de instrumentos internacionais - cotidiano marcado pela diversidade regional,
Convenções e Tratados - assinados por seus e racial, étnica, etária, sexual, de credo, de
outros governos . Este é o caso, por exemplo, inserção política. Tanto a Conferência quanto
da Convenção sobre a Eliminação de Todas o Documento expressaram este propósito.
as Formas de Violência Contra a Mulher. Logramos demonstrar que o movimento
feminista e de mulheres é, para além de um
Proposta: No Brasil, o que tem sido movimento político, um movimento cultural
feito neste sentido? comprometido com as necessidades materiais
e de identidade dos seres humanos.
Tomando a década de 90 como marco, nós No plano regional, este foi um momento
podemos dizer que um expressivo número de de maior articulação com a América Latina
organizações de mulheres brasileiras tem se que, por seu turno, também criou uma
envolvido com este debate global ou, mais instância regional de intervenção, a
especificamente, atendido às discussões Coordenação Regional de ONGs da América
impulsionadas pelas Nações Unidas. Na ECO Latina e Caribe. Neste nível foi realizado um
92, não há como negar a participação das encontro igualmente histórico, o Fórum de
organizações de mulheres brasileiras. O Mar del Plata (setembro de 1994), no qual se
mesmo se pode dizer do Cairo (1994) e, mais pretendia tanto dar visibilidade à
decisivamente, da IV Conferência Mundial da mobilização das mulheres na região como
Mulher(l995). Neste último caso, foi criada, promover a difusão de nossas propostas e
em 1994, a Articulação de Mulheres elaborar um Documento Regional das ONGs.
Brasileiras Rumo à Beijing. Entre janeiro de O que foi, efetivamente, realizado. Apenas
1994 e maio de 1995, mulheres brasileiras de para se ter uma idéia do nível de participação
25 estados e mais Distrito Federal estiveram no Fórum de Mar del Plata, nós contamos com
organizadas em Articulações e Fóruns Locais a presença de 41 países e, aproximadamente,
para a IV Conferência. Conseguimos registrar 1.200 mulheres. A delegação brasileira
a realização de aproximadamente 90 eventos ultrapassou o número de cem mulheres, de
com a participação de mais de 800 vários estados, intervindo em um conjunto
organizações. ampliado de temas: cidadania, participação

'8"1·NiM N°84/85 Março/Agosto de 2000


46
política, comunicação, modelo de seu lugar tanto quanto a mobilização da
desenvolvimento, violência e direitos sociedade civil tinha o seu papel a cumprir.
humanos. Atuamos decisivamente nas Muito definido, o Governo apresenta o seu
elaboração de reivindicações específicas como diagnóstico e intenções e nós, de nosso lado,
aquelas ligadas às mulheres negras, jovens, também.
indígenas, lésbicas, portadoras de deficiência.
Enfim, repassamos, naquele momento, às Proposta: Para Beijing+S o perfil
mulheres latino-americanas não só as nossas de participação e diálogo tem sido o
preocupações, mas a nossa disposição em mesmo? O que se transformou, positiva
ajudar na construção de um documento re- e negativamente, nesses últimos cinco
gional plural. anos?

Proposta: Esta articulação e No Brasil, em termos de mobilização das


intervenção, nacional e regional, em organizações de mulheres, mantivemos o
algum momento manteve diálogo com os mesmo espírito, ou seja, estimular os Fóruns
governos? Como os governos reagiram a e Articulações Estaduais a participar
este processo? criticamente do processo de avaliação das
políticas públicas destinadas às mulheres
Todo este esforço de organização e nesses últimos cinco anos. Em janeiro de 1999,
produção esteve voltado tanto à elaboração a Articulação de Mulheres Brasileiras
de subsídios para uma intervenção realizou um encontro nacional reafirmando
apropriada em Beijing como também para uma este compromisso e, também, inaugurando
intervenção qualitativa junto aos governos. No uma nova estrutura operacional- a indicação
caso regional, nossa intenção foi intervir nas de uma Secretaria Executiva e instituição de
negociações com os governos durante a Sexta uma Coordenação Executiva Nacional
Conferência Regional sobre a Integração da composta por representantes regionais eleitas
Mulher no Desenvolvimento Econômico e So- nos fóruns de mulheres estaduais. Esta
cial da América Latina e do Caribe, que estrutura foi proposta justamente como uma
aconteceu logo após a realização do Fórum forma de reforçar tanto as dimensões regionais
de Mar dei Plata. das organizações de mulheres quanto valorizar
Nacionalmente, o Governo Brasileiro especificidades temáticas que, muitas vezes, têm
desenhou um plano de trabalho para a origem nessas regionalidades.
elaboração do documento nacional que No que diz respeito ao governo
incluía a realização de seminários temáticos. brasileiro, este constituiu um Comitê Nacional
Foram realizados um total de cinco seminários, sobre Beijing+ 5 responsável pela tarefa de
que ocorreram em distintas cidades: Salvador, balanço. As organizações de mulheres não fo-
Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e ram consultadas sobre a composição do
Brasília. Fomos chamadas a participar de Comitê e dos termos de referência do balanço
todos eles e este também foi um momento de solicitado pelas Nações Unidas. De fato, nós
troca, apresentação de visões e reivindicações. deixamos sempre muito claro que o Governo,
Eu diria que nós fomos crescendo em termos em que pese a presença no Comitê de mulheres
de potencial de intervenção até Beijing de inegável expressão junto ao movimento de
propriamente dita. Sempre deixando muito mulheres, estava no seu papel de elaborar o
claro que as ações governamentais tinham o seu balanço e nós, como movimento social, no

fjJ.J,"fiMN°84/85 Março/Agosto de 2000


47
nosso papel de fazer um outro balanço, o nosso avanços. No último Prepcom, em março, a
balanço. E assim seguimos. presença de organizações de mulheres junto às
Sinalizamos ao governo duas demandas. delegações latino-americanas, por exemplo,
Primeiro, que o balanço elaborado fosse possibilitou, do meu ponto de vista, uma melhor
apresentado ao movimento. Segundo, tal como e mais orquestrada atuação da região do que no
recomendava as Nações Unidas, que o governo passado. Existe algo de novo por aí.
brasileiro integrasse na delegação oficial a É importante surgir algo de novo e,
presença de representantes do movimento de também, que dê materialidade a todo este
mulheres. Apesar das resistências iniciais, esforço de empreender algo global e coletivo.
fomos atendidas nessas duas reivindicações. Esta energia, este debate político, sem dúvida
No que diz respeito ã apresentação "pública" desagrada a muita gente. Está bastante claro
do documento oficial brasileiro, contam-se que o pensamento conservador, antes de mais
duas ocasiões, dezembro de 1999 e abril de nada , pensa as mulheres como seres
2000. Não foi lá a sétima maravilha do mundo subordinados, com papéis e atuação
especialmente porque, ao contrário de 1994- subordinados. Países com tendência política
95, o empenho na elaboração do documento de perfil fundamentalista não estão
foi significativamente menor. Quanto à compromissados com outro papel para as
participação na delegação oficial nas últimas mulheres. Por seu turno, o Vaticano evoca a
reuniões internacionais - 8ª Conferência Re- sua doutrina para também se opor a
gional sobre a Mulher da América Latina e conquistas fundamentais às mulheres.
Caribe (Lima, fevereiro de 2000) e 2ª Reunião O direito ao exercício de uma sexua-
Preparatória (Prepcom) de Beijing+5 (Nova lidade plena, o exercício de seus direitos
Iorque, março de 2000 ), na minha opinião, os sexuais e reprodutivos soa profundamente
resultados foram mais palpáveis e produtivos. ameaçador às práticas de subordinação das
mulheres. Neste processo global de revisão
Proposta: Quais são os elementos e apresentação de propostas que visam
concretos que lhe levam a fazer esta destituir padrões de subordinação, esses
avaliação? grupos conservadores emergem com força.
Uma força que só pode ser superada com
Estamos enfrentando um cenário uma contra-reação organizada do movi-
internacional de negociação bastante difícil. mento de mulheres.
São claros, por exemplo, os sinais de Hoje, neste processo, nosso lema é "Nós
resistência tanto à reafirmação dos direitos apoiamos a Plataforma de Ação." E por que
humanos da mulheres como à indicação Plataforma de Ação? Porque este
objetiva de recursos necessanos à documento consolidou visões, abordagens,
implementação da Plataforma de Ação. Neste conceitos que, politicamente, muito nos
contexto, o nível de influência sobre as interessa ver aplicados nas situações
delegações não é o mesmo quando se está nos cotidianas das relações sociais. Sendo uma
corredores das Nações Unidas e quando se está plataforma de ação assumida por Estados
dentro das salas de negociações. O ideal é Nacionais, isto significa a elaboração e
estabelecer a ponte, fazer fluir os corredores implementação de políticas públicas e
para dentro das salas, confrontar diretamente ações de sensibilização junto aos outros
as posições que sinalizam retrocessos, apoiar segmentos sociais que visem superar as
e fortalecer posições que apontem para desigualdades baseadas no gênero.

lji•J.I•f'MN°84/85 Março/Agosto de 2000


48
Proposta: É por isto que se diz que março deste ano de 2000, ao mais rebaixado
há itens inegociáveis para Beijung+ 5? perfil desde a sua criação, em 1985. E isto
A Carta da Paraíba, lançada pela ocorreu apesar dos esforços do movimento de
Articulação de Mulheres Brasileiras, mulheres em restituir-lhe um mínimo de
menciona a questão nesses termos. representatividade. É fato que os movimentos
de reversão deste quadro, para melhor, são
Sim, é inegociável alterar os conteúdos evidentes. Mas, apesar desta movimentação,
acordados em Beijing. É importante houve um claro descaso por parte do governo
assegurar os conteúdos positivos obtidos no brasileiro sobre as funções e respon-
processo de revisão da Conferência de sabilidades deste órgão. E isto é inadmissível
População, Cairo+ 5, por exemplo. A "Carta frente aos compromisso firmados em Beijing.
da Paraíba", elaborada na V Reunião da
Articulação de Mulheres Brasileiras, Proposta: Mas o que mais se aponta
realizada em João Pessoa, no início do mês como inegociável? Essas questões
de maio, é uma mensagem ao governo levantadas por você até agora dizem
brasileiro, ao mesmo tempo que articula respeito ao cenário político, precário,
pontos em debate no âmbito internacional. de implementação de políticas voltadas
Dirigir-se ao governo brasileiro significa para a igualdade de gênero, mas quanto
apontar a responsabilidade assumida há aos temas, quais têm sido aqueles mais
cinco anos atrás e comprometê-lo a avançar difíceis de serem negociados?
na implementação da Plataforma de Ação,
defendê-la. No último Prepcom, em março deste ano,
Está bastante claro que as políticas o Vaticano lançou uma contundente
econômicas em curso não contribuem para a campanha ressaltando a importância e da
superação das desigualdades de gênero e, centralidade da família, especialmente no
mais, as mulheres têm pago uma parcela aspecto da forma de sua composição, ou seja,
consideravelmente maior da conta. A uma unidade composta de pai, mãe e filhos. A
consignação de recursos técnicos e financeiros Plataforma de Ação reconhece as famílias em
suficientes à implementação da Plataforma de Ação suas variadas formas e não exclusiva e
é um ponto a defender. É importante também citar necessariamente uma família nuclear tal como
os efeitos negativos que estamos colhendo pelo fato nos termos propostos pelo Vaticano. Neste de-
de não ter sido cumprido este requisito. bate foi extremamente desgastante, por
A criação dos chamados mecanismos exemplo, brigar para que não se fizesse uma
institucionais de promoção da mulher e da associação direta entre "desintegração fami-
igualdade de oportunidades precisa ser liar" e emprobrecimento das mulheres. Na
dotada de recursos adequados, autonomia lógica de preservar as famílias afirma-se que
financeira e administrativa para que, as separações trazem como resultado uma
efetivamente, concorra para a implementação maior probabilidade das mulheres serem
de políticas de gênero de forma transversal, incluídas na categoria dos mais pobres.
ou seja, que esteja presente em todas as metas Ora, as mulheres têm engrossado a fileira
e as ações concernentes às políticas públicas. dos mais pobres e desprovidos porque existe
Isto é um desafio. No caso brasileiro, estamos uma histórica distribuição desigual dos
muito longe disto. O Conselho Nacional dos recursos. O fim de uma união conjugal, em
Direitos da Mulher, por exemplo, chegou, em países desenvolvidos, não necessariamente leva

ljM•NtMN°84/85 Março/Agosto de 2000 49


as mulheres a integrar a categoria dos pobres. deveria ser a de seu "pleno reconhecimento",
Associar união conjugal com bem-estar sócio- mas sim a de "diálogo entre culturas". Ou seja,
econômico das mulheres é desconhecer ou a defesa de uma expressão positiva e propositiva
querer ignorar fatores estruturais de deveria não dar margem à negação dos direitos
desigualdade e, especialmente, da desigualdade humanos das mulheres. Enfim, deixar passar
de gênero. Por último, como bem afirmaram a expressão "pleno reconhecimento da
muitas delegações africanas, no caso das diversidade cultural", como foi tentado,
mulheres o estabelecimento de uma união con- significava entrar em franca contradição tanto
jugal, não raro, significa empobrecimento, além com o conteúdo da Plataforma de Ação como
de perda de autonomia, das mulheres. Ou seja, com o da Convenção para a Eliminação de todas
não dá para deixar passar isto. as formas de Discriminação Contra a Mulher,
A chamada questão da diversidade é um nas quais se sublinha a necessidade de eliminar
outro ponto de grande polêmica. Durante as as práticas culturais danosas ao pleno gozo dos
negociações em março passado, ouviu-se muito direitos das mulheres.
sobre a necessidade de "evitar listas". Esta era Existem outras questões igualmente
a expressão utilizada como justificativa para não capciosas e que merecem muita atenção.
explicitar a diversidade de condição e situação Precisamos garantir, por exemplo, que sejam
das mulheres no documento que vai ser levado revistas as leis punitivas do abortamento e
para aprovação durante a Conferência. Nesta cumpridas as leis que conferem às mulheres o
perspectiva, o reconhecimento de fatores como direito de recorrer a uma intervenção deste tipo.
raça, etnia, classe, idade, língua, religião, É preciso garantir o direito à livre orientação
orientação sexual, deficiências físicas, sexual, os direitos das populações jovens a uma
migração, refúgio e viver em zonas rurais contracepção segura e orientada. É preciso que
como obstáculos adicionais ao pleno gozo de não se caia na armadilha de condenar a
direitos fica sobremaneira comprometido. prostituição, ou seja, percebê-la de uma
Isto é algo inadmissível. perspectiva moral, condenação ou absolvição,
Com esta mesma argumentação, "evitar desconsiderando ou minimizando as questões de
listas", fica comprometida a qualificação dos ordem econômica e de poder que movimentam
tipos de violência enfrentados pelas mulheres, as redes de tráfico e prostituição pelo mundo a
tais como: racismo, crimes perpetrados em fora. Mas, esses são apenas alguns temas em
nome da honra, apedrejamento, estupro, discussão. Uma discussão dificultada não só
abuso sexual dentro do casamento, pelos interesses explícitos de alguns países e
prostituição e outras formas comerciais de alianças como também pela fraca condução do
exploração sexual, tráfico com propósito de secretariado da Conferência e pela tensão sobre
exploração sexual, intimidações em função da a definição dos termos de participação das
opção sexual, entre outras. organizações não-governamentais e do
As organizações que trabalham as movimento organizado de mulheres.
temáticas de violência e defesa dos direitos das Enfim, as palavras mencionadas por
mulheres fizeram circular uma posição em Virgínia Vargas, há cinco anos atrás, possuem
defesa da Plataforma de Ação que, uma atualidade impressionante. É mesmo
reconhecendo a diversidade de condição e verdade que ninguém deu nada às mulheres
situação das mulheres, é plena de "listas" e, de presente e somente as suas ações e luta
também, fizeram lembrar que a linguagem mais servem como referência para as transfor-
aconselhável para tratar a diversidade cultural não mações ainda largamente necessárias.

ljJ.J,NiM N°84/85 Março/Agosto de 2000


50
Há cinco anos foi aprovada, em Beijing, a conteúdos. Entretanto, nossa mobilização e
Plataforma de Ação Mundial da 4ªConferência nossos consensos não têm sido suficientes para
Mundial sobre Mulher e Desenvolvimento, imprimir o mesmo vigor e comprometimento por
assinada sem restrições pelo Governo brasileiro. parte de todos os poderes que governam este país,
A Articulação de Mulheres Brasileiras diante da P AM. Está cada vez mais flagrante a
(AMB), que reúne fóruns e articulações de presença de forças políticas e econômicas que
mulheres das 27 unidades da federação, atuam na contramão dessas conquistas.
contando ainda com uma representação da Identificamos os avanços obtidos no campo
Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos legislativo, na formulação das Estratégias da
Reprodutivos, foi criada no contexto do Igualdade, na criação de mecanismos go-
processo preparatório para Beijing, e tem como vernamentais voltados para a formulação e
principal missão o monitoramento das políticas implantação de políticas para as mulheres.
governamentais para as mulheres no país. Por Entretanto esses avanços têm acontecido de forma
ocasião do 13º Encontro Nacional Feminista desigual de região para região, além de que fazem-
(João Pessoa/ 27 a 29 de abril de 2000), a AMB se presentes ameaças concretas de retrocesso. Este
lançou um balanço nacional denominado retrocesso e esta desigualdade afetam as condições
"Políticas Públicas para as Mulheres no Brasil de vida das mulheres e maculam o
- 5 Anos após Beijing". estabelecimento da democracia no país.
Estando reunidas na 5ª Reunião Nacional No plano econômico, as reformas impul-
da Articulação de Mulheres Brasileiras (1 a 3 de sionadas pelos governos não contribuíram para
maio de 2000), vimos nos dirigir aos governos fortalecer a institucionalidade democrática,
federal, estaduais e municipais para tratar de comprometendo de forma perversa o acesso ao
nossas principais urgências e preocupações. direito de cidadania e afetando especialmente
A Plataforma de Ação Mundial (P AM) as aspirações de igualdade de oportunidades para
reúne um conjunto de aspirações, interesses e mulheres de todas as classes sociais, de todas
necessidades identificadas pelo movimento de as raças, em todas as regiões do país. Este
mulheres brasileiro ao longo dos últimos 25 modelo tem ainda contribuído para gerar
anos. Foi com base nesses elementos que influ- condições que atentam contra a estabilidade
enciamos o processo Constituinte, alcançando ecológica, destruindo o meio ambiente.
avanços importantes para a cidadania e direitos Os direitos das mulheres constantes na
humanos das mulheres no país. Reconhecemos P AM não poderão ser garantidos em estruturas
a P AM como um instrumento valioso para democráticas débeis. Tampouco serão via-
apontar caminhos de efetivação desses direitos. bilizados se não houver vontade política,
Temos lutado para preservar o espírito e a estabelecimento de mecanismos efetivos de con-
integridade desta Plataforma, resistindo à sua sulta e participação, e prestação transparente de
fragmentação e ao enfraquecimento de seus contas à sociedade. Sua realização depende

ljM•I•UM N° 84/85 Março/Agosto de 2000 51


também da reafirmação e garantia, pelos gover- assim como somos contrárias à modificação
nos, do caráter transversal das recomendações do texto constitucional que flexibiliza os dispo-
da PAM, assegurando que as políticas públicas sitivos referentes à proteção à maternidade.
respondam a seus objetivos estratégicos através Afirmamos a maternidade como uma função
da assignação dos suficientes recursos técnicos social, o que implica conseqüentes deveres por
e financeiros. parte do Estado, da sociedade e das famílias
Reivindicamos, portanto, uma solução neste campo.
imediata para superar a situação absolutamente O ideal de igualdade proposto pelas
precária em que subsiste o Conselho Nacional mulheres sustenta-se na eliminação de toda e
dos Direitos da Mulher. Reafirmamos a qualquer forma de discriminação e desigual-
necessidade de que o governo brasileiro, antes dade baseada na origem de classe, raça, etnia,
da Sessão Especial das NNUU para Beijing+ 5, na identidade cultural, religiosa, na situação
cumpra com os compromissos assumidos na IV geracional e na descapacitação física ou men-
Conferência Mundial sobre a Mulher em 199 5 tal. Neste país tão profundamente diverso,
e reafirmados em fevereiro último, na VIII somos pela preservação e respeito a todas as
Conferência Regional da Mulher da América diversidades, para o que se requer o exercício
Latina e do Caribe, realizada em Lima, Peru, democrático do direito à formação, infor-
no sentido de: mação e livre expressão cidadã.
"Criar ou fortalecer os mecanismos A AMB espera que o Governo mantenha,
institucionais para a promocão da mulher e a no processo que leva a Beijing+ 5, sua postura
igualdade de oportunidades, dotando-os de em defesa da P AM e da aprovação de um
recursos adequados de toda índole, personalidade Documento de Resultados que não represente
jurídica e autonomia orçamentária, assim como qualquer retrocesso, de modo a que tenhamos
do respaldo político ao mais alto nível para que, diretrizes claras para prosseguir com ações
entre outros, impulsionem e vigiem a aplicação prioritárias a serem empreendidas para a
de políticas de gênero de forma transversal" realização dos direitos humanos das mulheres,
(Consenso de Lima, Fevereiro 2000). inclusive com explicitação dos compromissos
Reafirmamos, como condição fundamen- relativos aos direitos reprodutivos e direitos
tal para tornar realidade os objetivos da PAM, o sexuais estabelecidos em Cairo +5.
cumprimento da Convenção para a Eliminação Contamos com a influência positiva da
de todas as Formas de Discriminação contra a Delegação Brasileira para Beijing + 5,
Mulher (CEDA W), assinada e ratificada pelo especialmente para garantir avanços (ou ao
Governo brasileiro. Exigimos que o Governo menos impedir retrocessos) com relação aos
brasileiro cumpra o compromisso internacional seguintes pontos:
informando pontualmente ao Comitê de •recomendação para que os países revejam
Vigilância da CEDAW, sobre a situação brasileira as leis punitivas do abortamento e para o
neste campo. Exigimos também que o Governo cumprimento das leis que conferem às mulheres
brasileiro assine, de imediato, o Protocolo o direito de recorrer a esta intervenção;
Adicional à referida Convenção. • direito à livre orientação sexual;
Na defesa dos direitos trabalhistas e dos • direito das jovens e dos jovens à
direitos reprodutivos das mulheres, somos contracepção;
contrárias à proposta de revisão da Convenção •manutenção da linguagem que se refere
103 da Organização Internacional do Trabalho, às "famílias", garantindo o reconhecimento da

52 tif •l•I•fjM N• 84/85 Março/Agosto de 2000


diversidade cultural, social e étnica que não Mulheres Brasileiras, reivindica sua integração
convive com a concepção abstrata desses oficial ao processo que levará o país à
núcleos como células básicas e heterossexuais participação na 1ª Conferência Mundial da
de formação das sociedades, visão esta que ONU contra o racismo, a Discriminação Ra-
intimida, por exemplo, a formulação clara de cial, a Xenofobia e violências Correlatas, a se
políticas contra a violência doméstica e sexual; realizar na África do Sul, em 2001.
• abordagem do tema do tráfico de Para finalizar, não poderíamos deixar de
mulheres, jovens e adolescentes e da prostituição expressar nossa indignação diante das
não como questões morais, mas como questões agressões contra a cultura e da violência física
sociais que envolvem interesses econômicos; perpetrada contra lideranças indígenas e negras
• garantia da explicitação das diversidades por ocasião das atividades realizadas pelo
quando se trate de fazer referência às mulheres; Governo brasileiro em alusão aos 500 anos do
•garantia da manutenção da linguagem "descobrimento".
sobre direitos humanos das mulheres; Para nós, Beijing é mais do que meras
• ênfase na importância de criação e palavras. Nossa História desde o período co-
manutenção de mecanismos institucionais lonial não nos traz motivos de comemoração,
voltados para a formulação e monitoramento se o que temos em mente é o sonho de Justiça
de políticas para as mulheres, dotados de e igualdade. O século XXI brasileiro só será
autonomia financeira e administrativa; das mulheres se for também o século da
• ênfase nos efeitos perversos do ajuste democracia, não somente no campo político,
estrutural sobre a condição de vida das pes- social e econômico, mas também no campo
soas, com impacto especialmente negativo cultural, racial/ étnico, no campo do privado
sobra a vida das populações dos países do e do íntimo.
Terceiro Mundo.
O movimento de mulheres brasileiro,
organizado em torno da Articulação de João Pessoa, 3 de maio de 2000

Pedidos para: Pedidos para:


Email- enascimento@undp.org.br Email- redeh@redeh.com.br

lji,1 r•UM N° 84/85 Março/Agosto de 2000


1
53
Monitorar a ação das Instituições
Financeiras Multilaterais (IFMs) na
perspectiva da eqüidade de gênero.
Os sentidos e desafios da Iniciativa
Sílvia Camurça 1

1
Socióloga feminista, educadora e ativista do SOSCORPO Gênero e Cidadania.
Em agosto do ano passado, ao final de um trabalho criados e foram hegemonizando o controle
seminário sobre gênero e a ação das IFMs no Brasil, tecnológico que permitia aumento de produtividade.
constituiu-se uma nova iniciativa protagonizada por O tema da desigualdade de gênero ganhou
mulheres. Com nome ainda indefinido, a Iniciativa espaço no debate em torno da cooperação ao
vem sendo apresentada pela longa frase que descreve desenvolvimento ao longo das décadas seguintes,
seus propósitos: "Iniciativa de Monitoramento da impulsionado, de um lado, e de maneira destacada,
Ação das Instituições Financeiras Multilaterais no pelas conferências internacionais promovidas pelas
Brasil numa Perspectiva de Gênero", no mais das Nações Unidas e os acordos, tratados, convenções
vezes simplesmente referida como a Iniciativa. e compromissos daí decorrentes. O tema ganhou
A Iniciativa tem por finalidade "promover o em densidade impulsionado também pela crescente
controle social sobre a ação das IFMs no Brasil capacidade de elaboração sobre o assunto
tomando a perspectiva da eqüidade de gênero e demonstrada pelos estudos e pesquisas de
efetivação dos direitos humanos das mulheres orientação feminista no campo da sociologia,
como foco" 2 , envolve até o momento cerca de economia e ciência política. Por fim, mas não menos
40 organizações e fóruns das diferentes regiões importante, o tema manteve-se na agenda e ampliou
do Brasil e está impulsionada pela Rede Entre seu campo de incidência impulsionado pela ação
Mulheres-Secção Brasil e Rede Brasil sobre IFMs, das organizações feministas de mulheres que
com apoio da Articulação de Mulheres Brasileiras. cresciam em presença na esfera pública internacional.
Neste breve artigo procuro refletir sobre os Entre os grupos e organizações de mulheres
possíveis sentidos e desafios que vislumbro para brasileiras circularam, e com mais intensidade a
a Iniciativa, à luz da experiência das mulheres e partir dos anos 90, uma série de estudos nesta
na ótica do pensamento feminista . direção publicados aqui ou na América Latina por
redes, entre as quais destacam-se as publicações
Um pouco de história
em espanhol e/ ou português de DA WN /
Estudos e pesquisas sobre os programas MUDAR3 , Red Entre Mujeres 4 e FEMPRESS 5 .
governamentais de desenvolvimento, impactos das
crises e dos programas de ajuste estrutural, assim 2
Apresentação da Proposta da Iniciativa (1999).
como o tema das relações de gênero nas políticas
Memória da Oficina Nacional de 12 de agosto.
de cooperação internacional estão na agenda 3
Development Alternatives With Women for a
feminista desde pelo menos os anos 70. Neste ano, New Era/Mulheres e Desenvolvimento para uma
Ester Boserup publicou seu estudo Women'sRole Nova Era publicou entre outros: Desenvolvimento,
in Economic Development, e com ele inseriu de Crises e Visões Alternativas: Perspectivas das Mulheres
modo definitivo o tema das iniqüidades de gênero do Terceiro Mundo; Desafiando lo Dado:
como problema do desenvolvimento, naquele Perspectivas sobre el Desarrollo Social; Mujer y Crisis
momento pensado de modo restrito à dimensão respuestas ante la recesion.
4
econômica. No seu estudo, Boserup demonstra O Entre Mujeres foi inicialmente um projeto de
como, por conta das relações desiguais de gênero, o diálogo sul-norte sobre gênero e cooperação ao
desenvolvimento, mais tarde transformado em rede
processo de modernização nos sistemas de produção,
sobre o mesmo tema e publicou entre outros: La
que muitos programas de desenvolvimento vinham
Feminización de la Pobreza en América Latina, Las
promovendo no âmbito da agricultura em países da
Mujeres e la Crisis enAmerica Latina.
África, ao contrário da suposta eqüidade de gênero 5
O Fempress, Rede de Comunicação Alternativa da
que promoveria, provocou o empobrecimento e Mulher, publica com freqüência em seu periódico artigos
maior exclusão das mulheres, uma vez que os sobre mulher e desenvolvimento, entre os quais sublinho
homens foram ocupando os novos postos de o encarte especial de 95:Desenvolvimento Social.

55
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Em termos de avaliação de impactos, através nas pautas o tema da feminização da pobreza
destes estudos, estiveram sendo repensados, sob provocado pelos modelos de desenvolvimento;
diferentes pontos de vista, os impactos das políticas promoveram denúncias, tribunais e mobilizações
de ajuste estrutural: recessão, reformas do Estado, de repúdio em torno às práticas de violência con-
suas políticas sociais e de privatização. Estudou- tra mulheres, a indústria do turismo calcada na
se o impacto sobre as mulheres, e estudou-se o exploração sexual das mulheres e o tráfico de
diferencial de impacto entre mulheres e homens, o mulheres; e trabalharam na elaboração,
que se passa com as fanúlias na crise, e como ficam legitimação e defesa de direitos, entre eles os
as mulheres nos grupos domésticos, suas jornadas direitos reprodutivos, uma invenção das mulheres.
de trabalho, sua saúde. Estudou-se os padrões de Em algumas circunstâncias, o tema da ação
emprego e desemprego que emergem da das IFMs esteve explícito, como no momento das
reestruturação econômica global, e ainda as Conferências de Copenhague e Beijing em 1995.
mudanças e conflitos em que vivem homens e Na primeira as mulheres promoveram uma série
mulheres nas relações interpessoais e sociais, ao de debates-denúncias em torno aos efeitos dos
mesmo tempo em que pesquisava-se sobre as programas de ajuste estrutural e foram
estratégias que implementam para organizar a sua importantes protagonistas da pressão pela revisão
sobrevivência. É relativamente extensa e destes programas, com o que acabou
diversificada a produção feminista latino-americana comprometendo-se os governos. Na segunda, em
e brasileira neste campo, e está ainda a merecer Beijing, as mulheres mobilizaram assinaturas e
uma cuidadosa revisão bibliográfica. lançaram uma campanha mundial pelo
No âmbito dos debates na arena política acompanhamento a reformas por elas
internacional, as mulheres colocaram em questão demandadas em carta ao BIRD, a campanha
as políticas de controle populacional; incluíram "Mulheres de Olho no Banco Mundial".

56 lji,J.l•JjMN°84/85 Março/Agosto de 2000


A INICIATIVA TEM POR se fez, mas nem sempre tomando as IFMs como
FINALIDADE foco na medida de sua importância. A Iniciativa
vem, por tudo isto, e com todos os seus desafios,
"PROMOVER O CONTROLE
nos trazer a oportunidade de renovar e promover
SOCIAL SOBRE a atualização do debate em torno à eqüidade de
A AÇÃO DAS IFMS NO BRASIL gênero no contexto do ajuste e reformas do
TOMANDO A PERSPECTIVA Estado brasileiro da virada do século. Reveste-se
DA EQÜIDADE de especial importância neste momento por ser o
DE GÊNERO E EFETIVAÇÃO ano 2000 o ano em que avalia-se os 5 anos da
Plataforma de Ação de Copenhague e de Beijing.
DOS DIREITOS
HUMANOS DAS MULHERES O sentido e significados da
COMO FOCO" Iniciativa para as mulheres

As mulheres brasileiras estiveram pesqui- Fazer a Iniciativa, para além do desafio


sando, debatendo, articulando e fazendo pressão in ternacionalista locali zado nos contextos
no campo internacional, mas internamente, em diversos em que atuam as mulheres, reveste-se
muitas circunstâncias, a ação das IFMs es teve de dificuldades, uma primeira delas derivada do
subsumida no debate sobre as políticas públicas e próprio feminismo: sua larga agenda expandida.
sociais, em que pese serem estes também objeto
da ação das IFMs. As políticas de assistência à ... AS MULHERES
saúde da mulher, e o próprio sistema de saúde, os PROMOVERAM UMA SÉRIE DE
programas de melhoramento da infra-estrutura
DEBATES-DENÚNCIAS EM
urbana e de moradia, de educação, desenvolvimento
da agricultura familiar e segurança alimentar são TORNO AOS EFEITOS DOS
todos temas e questões que têm sido objeto da PROGRAMAS DE AJUSTE
ação das mulheres por repercutirem diretamente ESTRUTURAL E FORAM
nas condições cotidianas de viver a vida presente. IMPORTANTES
Mas, no mais das vezes, a ação do movimento PROTAGONISTAS DA
nestes campos de conflitos sociais e na disputa por
PRESSÃO PELA REVISÃO
projetos diferenciados, não colocou o BID, BIRD
ou o FMI no foco das suas atenções, embora não DESTES PROGRAMAS, COM O
os tenha ignorado. QUE ACABOU
Articular as dimensões internacionais, COMPROMETENDO-SE OS
nacionais e locais, assim como o micro e o macro, GOVERNOS
o aqui e o depois, não é tarefa fácil, e tem sido
uma fragilidade entre diversos movimentos As desigualdades e opressões contra as quais
sociais, do que o feminismo não é exceção . O voltam-se as mulheres estão por toda parte: na
internacionalismo feminista, prática constitutiva ação do Estado e nas políticas dos governos; na
da genealogia do próprio movimento, e as imprensa e na mídia; na casa, na família, na escola,
especificidades das relações de gênero, entre amigas, com os parceiros; nos partidos, nos
desenhadas pelas fronteiras dos contextos movimentos sociais, nas igrejas, entre estilistas
culturais de cada lugar, exigem, entre tanto, de moda e na arquite tura das casas populares
permanente atenção a esta articulação, que afinal (com suas lavanderias ao sol) . Os direitos e a

57
eqüidade buscada implicam realizar uma ampla concepções de democracia, direitos humanos e
agenda de transformações, na qual não há, nem justiça social quando a perspectiva de eqüidade, para
pretende-se, uma hierarquia de espaços e atores. além das classes, incluiu gênero, quando as mulheres
Fazer a Iniciativa é também fazer sensibilização afirmam que os direitos das mulheres são também
junto a outras mulheres, junto a homens, junto a direitos humanos.
organizações de mulheres e organizações mistas; Não sem dificuldades, as mulheres, como
é constituir um campo de alianças políticas e coletivo, vêm constituindo-se como sujeito na arena
cumplicidades utópicas em torno da igualdade, pública. E como sujeito de conhecimento dos
pensada a partir da experiência das mulheres nas problemas sociais, capacidade por muitos associada,
relações de gênero. até recentemente, aos homens, tomados que eram
A realização da eqüidade de gênero é o como os únicos, senão os verdadeiros ou mais
núcleo fundante do projeto emancipatório capazes, sujeitos da história, do pensamento político
feminista. Da aposta utópica nesta eqüidade e das transformações estruturais da sociedade.
derivam os motivos e inspirações para a constituição Esta aposta impõe às mulheres o esforço de
das iniciativas do movimento, inclusive os debates conceituação própria, de resignificar a própria
em torno do desenvolvimento. Da ação feminista identidade, de realizar-se como sujeito e disputar
derivou o alargamento e radicalização de espaços e projetos a partir de condições adversas:

58 lji.l 1 N1M N°84/85 Março/Agosto de 2000


"O fato de uma parcela das mulheres ter alcançado DA AÇÃO FEMINISTA
a esfera pública, e de ser esta uma possibilidade
DERIVOU O ALARGAMENTO E
incontestável hoje, não significa que o modelo
dicotômico homem-esfera pública, mulheres- RADICALIZAÇÃO DE
espaço privado esteja totalmente desfeito, que as CONCEPÇÕES DE
regras práticas da subordinação estejam de fato DEMOCRACIA, DIREITOS
modificadas e que os signos da cultura que HUMANOS E
sustentam essa divisão tenham sido abandonados JUSTIÇA SOCIAL QUANDO A
na formação do senso comum" (Ávila, 1999).
PERSPECTIVA
Constituir a Iniciativa é, para cada mulher que
nela participe, constituir a si mesma como sujeito DE EQÜIDADE, PARA ALÉM
deste debate, sem entretanto tomá-lo como ponto DAS CLASSES, INCLUIU
de chegada. A Iniciativa será vivida, pelas GÊNERO, QUANDO AS
mulheres, muito mais como uma plataforma de MULHERES
lançamento, mesmo que por tradição e AFIRMAM QUE OS DIREITOS
conservadorismo possa ser interpretada por outros
DAS MULHERES
como porto de chegada, signo de "evolução" do
debate feminista, que do doméstico e familiar SÃO TAMBÉM DIREITOS
chegou aos grandes temas da atualidade. Ao HUMANOS
contrário, a perspectiva feminista dos problemas
sociais, que inclui o cotidiano do hoje e na história Este sentido do qual se reveste a Iniciativa
passada e futura, o micro e macro como dimensões para o feminismo e para as mulheres deste
da mesma realidade, e diferentes pontos de vistas movimento exige uma dimensão de estudo e
para além do discurso oficial e hegemônico, é que pesquisa sistemática, estudos específicos por
poderá trazer à luz novos aspectos do problema. temas, por diferentes aspectos de um mesmo
problema e até áreas geográficas, todos apoiados
pela teoria feminista, ainda que de modo não
AS MULHERES
exclusivo, o que implica dedicação a ler, refletir,
BRASILEIRAS ESTIVERAM debater, elaborar. "Nosso pensamento sobre o
PESQUISANDO, grande tema da mulher e desenvolvimento tem
DEBATENDO, que estar informado pelo melhor e mais
ARTICULANDO E FAZENDO atualizado da teoria e pesquisa feminista"
PRESSÃO NO CAMPO Qeanine Anderson, 1992), pois para além de
engrossar a bibliografia com artigos, para além
INTERNACIONAL, MAS
de politizar o assunto, é preciso teorizar, numa
INTERNAMENTE, perspectiva própria.
EM MUITAS Por fim, destacaria que, quer por suas origens
CIRCUNSTÂNCIAS, A AÇÃO locais-internacionais, quer por seus propósitos
DAS IFMS de controle social e defesa de direitos, a
ESTEVE SUBSUMIDA NO Iniciativa, para o feminismo, toma o sentido de
sua mais recente aposta no fortalecimento da
DEBATE SOBRE AS
solidariedade global e da cidadania no Brasil.
POLÍTICAS PÚBLICAS E Trata-se de uma aposta porque, se bem-sucedida,
SOCIAIS a Iniciativa com certeza revelará novos

59
problemas e novas visões de antigos problemas Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato
do desenvolvimento e justiça, além de fortalecer Grosso do Sul e Sul do Amazonas, J acy Corrêa
novos sujeitos sociais, as mulheres, e, de quebra, Curado da Associação Mulher Informação -
ampliar um campo dos movimentos sociais Interativa Projetos & Intervenção, Jane Casella
democratizantes. do Instituto Polis, Lúcia Maria P. Aragão do
A Iniciativa foi criada na cidade de Brasília, CETRA - Centro de Estudos do Trabalho e do
numa oficina, no dia 12 de agosto de 1999, onde, Trabalhador, Maria Claudia F. da Silva do
além de seus propósitos e finalidades, indicamos CACES - Centro de Atividades Culturais,
os valores e princípios que a orientam e os tipos Econômicas e Sociais, Maria da Graça de
de atividades que pretende-se realizar. Desta Figueiredo Costa da FASE/Programa Pará,
invenção participaram: Benedita do Nascimento Maria Emília Lisboa Pacheco da FASE, Maria
Pereira do Fórum de ONGs de Rondônia, José Cyhlar Monteiro do Conselho Regional de
Beatriz Canabrava da Rede Mulher de Economia-RJ, Magnólia Azevedo Said do
Educação, Carla Batista do SOSCORPO Esplar, Márcia Andrade do Centro Josué de
Gênero e Cidadania, Cléa Anice Porto da Castro, Marlene Libardoni da AGENDE -Ações
CONTAG, Concita Maia do MAMA - Movi- em Gênero e Cidadania, Mirian da Silva Pacheco
mento Articulado de Mulheres da Amazônia, Nobre do SOF- Sempre Viva Organização
Cornélia Parisius do DED (Serviço Alemão de Feminista, Raimunda Damasceno da CONTAG,
Cooperação Técnica), Cristina Schroter Simião Rurany Ester Silva do Grupo Transas do Corpo,
do ADITEPP, Flávia Barros da Secretaria Sandra Quintela do PACS, Sara Eduarda de
Executiva Rede Brasil, !remar Pereira do Castro do Fórum Popular de Mulheres/ AMB Sul,
CUNPIR- Coordenação da União das Nações e Silvia Cordeiro do Centro das Mulheres do Cabo,

60
Sônia Cleide da Silva do Grupo de Mulheres regiões do Brasil, evitarei citar aqui os nomes
Negras Malunga, Vanda M. Barbosa do Fórum das mulheres e organizações de mulheres e mis-
de Entidades Autônomas de Alagoas, Wania tas que também já são instituintes da Iniciativa,
Sant'anna da Fase e eu . Até os primeiros três deixo aqui minhas desculpas.
m eses de existên ci a da Iniciativa, ou seja até
novembro do ano passado, estivemos discutindo
Bibliografia
e constituindo parcerias, agregando gen te,
detalhando nossa concepção metodológica de Anderson,Jeanine. Interes o]usticia. Donde
monitoramento, recolhendo informações. Este va la Discussion sobre la Mujer y el Desarrollo?
ano, queremos cair em campo. E o faremos com Lima: Edições Entre Mujeres, 1992.
mais gente, pois neste período se juntaram ao Ávila, Maria Betânia. "O Brasil que temos e
grupo de enlaces da Iniciativa: Soraya o Brasil que queremos: Uma reflexão Feminista".
Tupin ambá do In stituto Tetramar, Mirian J.O.Beozzo (org.) Brasil 500 anos: por um
Saldana P erez do Fórum Popular de M ulheres jubileu de Justiça e de Esperança. São Paulo:
de R ondônia, Maria do Socorro de Souza da CESEP / Paulus, 1999.
CONTAG. P or não termos ainda um mapea- Jaquette, Jane S. "Gênero y Justicia en el
mento completo da participação nos debates e D esarrollo Econômico". Propuestas. Documento
constituição de grupos de enlaces em todas as para el Debate. . 4. Lima; Red Entre Mujeres, s.d.

Bancos Multilaterais e Desenvolvimento Participativo no Brasil:


dilemas e desafios.

Organizadores Jean-Pierre Leroy e Maria


Clara Couto Soares
RJ, FASE/IBASE.
Preço: R$ 15,00

Este trabalho é um convite ao debate,


especialmente para quem define e executa
políticas públicas seja no Executivo, no
Legislativo ou nos organismos multilaterais.
Estudiosos, ativistas de partidos, ONGs e
movimentos populares e sindicais encontram
aqui um instrumento de formação .

Pedidos pelo Tel: (xxx21) 286 - 1441 ou


email: sbrandao@fase.org.br

1fr1 ,;.;) M Nº 84/85 Março/Agosto de 2000 61


Gênero, Politícas Públicas e
Cidadania: uma experiência
urbana na Baixada Fluminense
Tatiana Dahmer Pereira *

*Assistente Social, Mestre em Planejamento Urbano, Técnica da FASE Rio


Os conflitos sociais na ocupação e utilização a superação das desigualdades sócio-econômicas
das cidades têm dimensões complexas e passam, produzidas historicamente no espaço urbano.
cada vez mais, a ser melhor discutidos pelos atores Cabe aqui um breve e importante parênteses.
sociais destes processos. No espaço da região Quando refletimos sobre desigualdades sociais,
metropolitana da cidade do Rio de Janeiro - mais precisamos reconhecer as peculiaridades que histórica
especificamente na Baixada Fluminense - a e culturalmente essas desigualdades adquirem. O
desigualdade social produtora do quadro de espaço urbano reflete as contradições e a cultura de
pobreza, violência e carências de toda ordem, está cada sociedade. Como não poderia deixar de ser, em
no centro das ações do Programa Metropolitano uma sociedade marcada por desigualdades sócio-
Rio de Janeiro da FASE - Federação de Órgãos econômicas estruturais, os segmentos das camadas
para Assistência Social e Educacional. No sociais têm acessos diferenciados aos equipamentos
entanto, combater desigualdades sociais sem e serviços urbanos. Ao mesmo tempo, fortemente
compreender como estas impactam diferencia- impregnada por uma cultura patriarcal e escravocrata,
damente homens e mulheres e as diferentes etnias as relações sociais estabelecidas geram e reproduzem
acaba por perpetuar relações discriminatórias formas desiguais de apropriação das riquezas, de
étnicas e de gênero1 . O que apresentamos neste serviços e equipamentos coletivos não apenas entre
artigo é o processo de incorporação do recorte de pobres e ricos: essa diferença está fortemente presente
gênero em ações cotidianas relacionadas a direitos quando olhamos para homens e mulheres, negros (as)
sociais, acesso e democratização de políticas e brancos (as). Portanto, reconhecer que mulheres e
públicas e a serviços urbanos para homens e homens têm necessidades diferenciadas em relação
mulheres. Como relato de uma experiência em à cidade e formas culturalmente diferentes de viver o
curso, essa apresentação não pretende avaliar espaço urbano - tanto no âmbito público, da rua,
conclusivamente o trabalho. Apenas expomos quanto no privado e no doméstico, da casa -
uma experiência, a qual, com todas as dificuldades, demonstra a necessidade de olhar as questões tanto
vem mostando-se bastante exitosa. a partir de uma perspectiva de classe quanto de
A FASE atua junto a movimentos sociais gênero. Neste sentido, Hirata & Kergoat (1994)
organizados na Baixada Fluminense - imenso afirmam que as relações sociais de classe e de sexo -
bolsão de miséria com quase três milhões de e podemos incluir étnicas - organizam a totalidade
habitantes, situado na região metropolitana da das práticas sociais2 .
cidade do Rio de Janeiro, desde meados da década
de 70. Trabalhando com temáticas como sanea- 1
O termo Gênero define um conjunto de relações
mento ambiental, orçamento participativo, sócio-culturais e econômicas constituídas no processo
geração de trabalho e renda, entre outras, a FASE de socialização entre homens e mulheres, mulheres e
assessora e capacita organizações e lideranças mulheres e entre homens de padrões sociais de
populares para cidadania. Entidade do campo da conduta e comportamento em torno do que é ser
educação popular e tendo como norte a cons- homem e o que é ser mulher. Por diferenciar-se do
trução de uma sociedade socialmente justa e sexo (macho e fêmea), que é biológico, Gênero traz
consigo estereótipos e formas de relações que
solidária, a FASE contribui para: (a) democratizar
podem ser transformados nas relações sociais. Por
a gestão municipal do espaço urbano; (b) uni-
exemplo: até a década de 40, no Brasil, mulheres não
versalizar o acesso a serviços e equipamentos podiam votar ou usar calça comprida. Outro
urbanos e; (c) construir mecanismos de controle estereótipo, embora venha sendo transformado, é a
social por parte da sociedade civil, sobre políticas idéia que "homem não chora".
e recursos públicos. Dentro destes eixos, desen- 2
HIRATA, H & KERGOAT D. "A classe operária
volvemos ações voltadas para o enfrentamento e tem dois sexos" in Estudos Feministas nº 1, SP, 1994.

63
A Baixada Fluminense tem em sua Questões que merecem particular atenção na
composição, segundo dados recentes, em torno de região - e articulam-se entre si - referem-se aos
52% de mulheres e 60% de pessoas "não brancas". casos de pobreza, trabalho, escolaridade e
No caso específico de São João de Meriti - violência. Embora com a mesma - e até superior
considerada a de maior adensamento populacional - média de anos de estudo que os homens, as
do Brasil, com quase 450 mil habitantes em 34km2 mulheres ganham, em média, em todas as camadas
- há praticamente o mesmo número de mulheres e sociais, cerca de 30% a menos que estes4 .
homens no município. E, deste total, em torno de Sabemos que, além da jornada normal de
24% das mulheres são chefes de família3 . trabalho, cabe às mulheres não apenas os cuidados
No entanto, a precariedade de serviços públicos com a casa e com os filhos, mas também a
nas áreas de saúde, segurança pública (incluindo participação nas dinâmicas da vida comunitária.
violência doméstica), educação, saneamento e Essa mobilização ocorre em busca de solução para
creche têm impacto diferente, e podemos dizer, bem problemas que as afetam cotidianamente, tais como
mais perverso, em relação às mulheres - mais a escassez de creche, a precariedade dos serviços
especificamente, em relação às mulheres negras. nos postos de saúde, a preocupação com a falta de
Sendo as relações de gênero relações sociais escoamento do esgoto - que invade casas -, a falta
instituídas historicamente, cabe à parcela feminina de iluminação pública, expondo-as ao risco de
da população o zelo e a manutenção do espaço violência sexual, etc. Embora não tenhamos a
doméstico e a perpetuação de condições favoráveis
3
à reprodução da família - com maiores repercussões Fonte: Observatório de Políticas Urbanas e Gestão
Municipal, apurado a partir de dados do Censo de
sobre o tempo livre da mulher de baixa renda. Tanto
1991 , IBGE.
no âmbito privado, quanto no público, tais 4
Dados obtidos a partir da Organização Inter-
desigualdades estão presentes. nacional do Trabalho.

64
intenção de hierarquizar necessidades, podemos aprovação de leis6 relevantes para as mulheres em
afirmar que vivenciam o espaço comunitário, muitas São João de Meriti. Entre elas, destacamos a
vezes, de forma mais intensa que os seus parceiros. implantação do cartão de saúde da mulher e da
Portanto, olhar a cidade é - principalmente - gestante nos postos municipais de saúde,
reconhecer as diferentes necessidades geradas a assegurando ás mulheres um registro do histórico
partir dos papéis sociais de gênero. de exames e consultas realizados, e a que regula a
Objetivando afirmar essas diferenças - e criação, em caráter sigiloso, da Casa Abrigo para
erradicar desigualdades entre mulheres e homens-, mulheres vítimas de violência doméstica na cidade.
lançamos em maio 1997, em parceria com a Casa O cartão foi implantado, tendo funcionado por um
da Cultura5 , o projeto demonstrativo DiskMulher tempo.Junto ao Conselho Municipal de Saúde,
Baixada. Constituído como um serviço telefônico vimos debatendo a importância de sua manutenção.
de informações, o projeto volta-se a todas A Casa Abrigo ainda é alvo de luta das organizações
mulheres - que podem ligar anonimanente - de toda e deve ser construída em breve, vinculada ao
a Baixada informando sobre serviços públicos e governo do Estado. Embora aprovadas, as leis em
comunitários existentes nas áreas de saúde, AIDS, si não asseguram a existência de serviços de
violência, creche e cidadania. O Disk Mulher nasce qualidade. Assim, espaços de fiscalização e controle
da constatação de que as mulheres sequer tinham social sobre as deliberações do legislativo são
acesso às informações fundamentais sobre direitos importantes de serem ocupados. E dentre alguns
que lhe assegurassem a cidadania e propiciassem canais institucionais de democratização da gestão
qualidade de vida. No entanto, tínhamos clareza
da avalanche de problemas com a qual nos 5
A Casa da Cultura - Centro de Formação Artística
defrontaríamos, considerando a precariedade dos e Cultural da Baixada Fluminense - é uma entidade não
serviços públicos, os muitos indícios de violência governamental popular, fundada em 1991 por lideranças
doméstica e sexual contra mulheres e meninas e a dos movimentos sociais da região e de forte referência
dificuldade de acesso a serviços e equipamentos local. Volta-se para a valorização da cultura e estética
urbanos por parte das mulheres. afro, dos direitos das mulheres, crianças e adolescentes.
6
Portanto, para além da prestação de Apresentamos seis projetos de lei referentes ao combate
às discriminações contra mulheres ao Vereador Municipal
informações, sabíamos ser fundamental a
Jorge Florêncio (PT - São João de Meriti), oriundo do
articulação com entidades populares visando refletir
movimento popular. Os projetos, transformados em leis
sobre e elaborar ações afirmativas no campo da versam sobre: (i) Implantação do Cartão de Saúde da
cidadania das mulheres no plano local e mesmo re- Mulher e da Gestante nos postos de saúde; (ii)
gional. Era preciso, a partir de entidades populares Obrigatoriedade de todas as maternidades afixarem placas
sensibilizadas para o combate às desigualdades de informando sobre a gratuidade e o direito de acesso ao
gênero como algo imprescindível à construção de atestado de "nascido vivo"; (iii) Notificação compulsória
uma sociedade justa e igualitária, atuar intensamente: no caso de óbito em virtude de parto (ambos visando
(i) no campo da formulação de políticas públicas; combater os altos índices de mortalidade materno-infantil
(ii) no controle social da implementação e do por negligência médica e erros médicos no parto e pela
impacto na reversão das desigualdades de gênero; falta de pré-natais adequados); (iv) Proibição de entrada ou
permanência de menores de idade desacompanhadas em
(iii) na articulação com Conselhos Municipais
motéis, hotéis ou bares (combatendo a prostituição infantil,
setoriais, imprimindo às políticas públicas claro
que tem impacto mais forte sobre as meninas); (v)
recorte afirmativo de gênero e étnico. Obrigatoriedade dos motéis disponibilizarem gratuitamente
Assim, logo à época do lançamento do serviço, em seus quartos no mínimo três preservativos; (vi)
obtivemos conquistas iniciais significativas no Implantação de uma Casa Abrigo para mulheres vítimas
campo das políticas públicas: conseguimos a de violência doméstica, em caráter sigiloso.

1frJ.!,flMN°84/85 Março/Agosto de 2000 65


municipal, ressaltamos especialmente os Conselhos A PARTIR DE CAPACITAÇÕES
Municipais de políticas setoriais7 • DA COORDENAÇÃO
Nossa proposta não era "resolver" problemas
DO DISK MULHER
no plano imediato - por termos clareza do quão
estruturais tais questões são-, mas dar visibilidade
REALIZADAS PELA FASE E DO
às desigualdades de gênero na ocupação do espaço APRENDIZADO COTIDIANO
urbano, fomen tar articulações e sensibilizar as DO TRATO DESTAS
existentes para fortalecerem as lutas por cidadania QUESTÕES EM DIFERENTES
das mulheres e homens na região. Sabíamos ser ESPAÇOS, AS ENTIDADES
preciso, para que este debate não se "guetificasse",
VÊM INCORPORANDO
tornando-se "problema de mulheres", ter uma base
social mais ampla junto aos movimentos sociais.
PROGRESSIVAMENTE
Da mesma forma, para que o serviço não ficasse A LEITURA
restrito a um centro de informações e pudesse CRÍTICA SOBRE INJUSTIÇAS
desenvolver ações integradoras de diferentes políticas DE GÊNERO NO ESPAÇO
setoriais, bem como fomentasse a organização de URBANO
mulheres na cidade, articulamos uma coordenação
inter-institucional, envolvendo oito mulheres e um É importante salientar que, desta coordenação,
homem de entidades mistas (compostas por homens quase todas as pessoas participam ativamente de
e mulheres) populares da cidade - tais como o Conselhos Municipais setoriais, o que permite o
Conselho de Entidades Populares de São João de vínculo de nossas ações a estes espaços fundamentais
Meriti, a Pastoral do Negro da Igreja Católica, o de formulação de políticas e de controle social.
Centro de Atividades para a T erceira Idade, a própria Cabe ressaltar que, embora tenha assinado a
FASE e, mais tarde, a Rádio Comunitária Onda Livre. Convenção Fluminense 8 , em 1997, compro-
Neste veículo de comunicação, há mais de um ano,
semanalmente é veiculado o programa ''Mulheres nas
7
Os Conselhos Municipais, Estaduais e Federais
Ondas da Rádio", a serviço e voltado principalmente
setoriais - de saúde, educação, criança e adolescente, de
para as mulheres.
direitos da mulher, etc. - foram criados a partir da
Constituição Federal de 1988. São canais de formulação
O INTERESSANTE É PERCEBER e de fiscalização de políticas públicas e de gestão de
QUE AS LIDERANÇAS recursos, compostos por representantes da sociedade civil
INICIALMENTE (u suários de serviços públicos), governo e, alguns,
profissionais do setor. Constituem-se, portanto, em esferas
ENVOLVIDAS públicas não estatais, estratégicas para a democratização
APRESENTAVAM das gestões, principalmente no âmbito local.
8
SENSIBILIDADE A Convenção Fluminense é uma carta-compromisso
assinada em 1997 por mais de 80 prefeitos de todo o
À TEMÁTICA DO
estado do Rio de Janeiro, assegurando a implantação de
TRABALHO COM MULHERES, uma agenda de políticas públicas comprometendo-se a
DE LUTA cumprir as diretrizes tiradas em Pequim, na Conferência
POR DIREITOS IGUALITÁRIOS Mundial de Direitos das Mulheres, tais como a criação
de Conselhos de Direitos das Mulheres, criação de órgãos
E CIDADANIA DAS e serviços voltados ao combate à violência doméstica e
MULHERES NA sexual e à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
CIDADE e no campo da saúde reprodutiva.

66 lji•l•r•fiM N°84/85 Março/Agosto de 2000


metendo-se a implementar o Conselho Munici- três anos de existência do serviço, conseguimos
pal de Direitos da Mulher, a prefeitura municipal bastante projeção na mídia e alguma divulgação,
apenas agora dá os passos iniciais para o seu ainda que não tão sistemática. Talvez a difi-
efetivo funcionamento. Ainda assim, o Conselho culdade de obter recursos que permitam
de Direitos da Mulher do município foi criado exposição sistemática do serviço tenha relação
por decreto, podendo comprometer o perfil com a ainda baixa incidência de ligações. Outra
progressista e democrático das entidades que o questão que atribuímos a este fator é a descon-
compõem. Este é mais um desafio posto às entidades fiança e descrédito das mulheres quanto à
populares na cidade: ocupar o espaço do Conselho possibilidade de alteração de situações que
instituído, imprimindo ao mesmo ações críticas, vivenciam a partir de informações ou de qualquer
democráticas e articuladas intersetorialmente com as tipo de orientação. Mesmo assim, as informações
demais secretarias e conselhos. relacionadas à temática de Violência (39% das
Essa coordenação acompanha o serviço, ligações de 1999), seguida pelas de Saúde,
mas, para além de preocupar-se com sua dinâmica aparecem como as mais procuradas - o que é um
cotidiana, é responsável por construir estratégias indicador significativo da relevância destes temas
coletivas de ação política frente aos poderes na região da Baixada.
públicos municipal e estadual, nos âmbitos No entanto, ao lidar com um campo tão
executivo e legislativo e de dar visibilidade às delicado quanto importante, muitas problemáticas
desigualdades sociais de Gênero na cidade. Nestes foram emergindo a partir da existência do Disk

!fr],J,UM N°84/85 Março/Agosto de 2000


67
Mulher. Junto ao êxito de p autar temáticas UM DOS
referentes à cidadania das mulheres como ÊXITOS DESSE PROCESSO
preocupação nas entidades mistas com as quais
EXPRIME-SE
trabalhamos, também vieram fortes demandas por
parte de lideranças populares e mesmo de
NA RECENTE
cidadãos e cidadãs por solução ou encami- IMPLANTAÇÃO DO
nhamento de problemas apresentados. PROGRAMA
Conclusões DE RENDA MÍNIMA
VINCULADO À BOLSA ESCOLA
P ara além da in fo rmação, o D isk Mulher
NA CIDADE
tornou-se, como vimo s, um instrumento de
fomento do debate sobre as desigualdades sociais Havia, sim, um conjunto de mulheres com
de gênero e sobre a necessidade de incorporar a consolidada trajetória de militância em movi-
leitura de gênero em nossas ações de trans- mentos de bairro e excelente nível de liderança
formação da cidade. comunitária que, na prática, tinham a cidadania
O interessante, neste processo, é perceber feminina como agenda secundária. Enquanto
que as lideranças inicialmente envo lvidas portadoras de uma bandeira eminentemente
apresentavam sensibilidade à temática d o comunitária sua presença e participação eram bem
trabalho com mulheres, de luta por direitos aceitas, mas para a introdução de uma agenda
igualitários e cidadania das mulheres na cidade. própria de superação de desigualdades de gêne-
Também, desde o início deste trabalho, em 97, ro, foi - e tem sido - fundamental todo um
não havia estruturado movimento de mulheres processo de sensibilização para alcançar
que se constituísse em uma referência de lutas legitimidade pública e política, tanto em relação
globais na cidade. Ao mesmo tempo, o conceito aos demais segmentos sociais, como até mesmo
de gênero ainda era algo profundamente distante entre atores do campo popular.
daquela realidade. Para consolidar essas adesões e objetivando
essa crescente sensibilização dos demais atores
AS INFORMAÇÕES sociais, vimos realizando ciclos de formação e
RELACIONADAS palestras, além da disputa cotidiana n o debate
À TEMÁTICA DE VIOLÊNCIA político nos espaços coletivos de construção das
(39% DAS ações das entidades.
A partir de capacitações da coordenação do Disk
LIGAÇÕES DE 7999), Mulher realizadas pela FASE, desde o início do
SEGUIDA PELAS processo e do aprendizado cotidiano do trato destas
DE SAÚDE, questões em diferentes espaços, as entidades vêm
APARECEM incorporando progressivamente a leitura crítica sobre
COMO AS MAIS injustiças de gênero no espaço urbano. Realizamos,
em setembro de 99, a primeira sensibilização para
PROCURADAS - O QUE
lideranças (homens e mulheres) das entidades mistas
É UM INDICADOR com as quais atuamos . A capacitação, voltada para
SIGNIFICATIVO DA Gênero e Políticas Públicas, foi bem-sucedida e
RELEVÂNCIA permitiu maior reconhecimento das desigualdades
DESTES TEMAS NA REGIÃO sociais de gênero das entidades em suas ações e o
DA BAIXADA pensar sobre a cidade com esse recorte.

68 'jf.J•l•fjMN°84/85 Março/Agosto de 2000


Um dos êxitos desse processo exprime-se na considerando as horas que perdem em postos de
recente implantação do Programa de Renda Mínima saúde, por exemplo, quando precisam buscar
vinculado à Bolsa Escola na cidade. Após longa e atendimento para os filhos.
intensa campanha de sensibilização da opinião Em construção e formado por uma diversidade
pública e de pressão do Executivo e Legislativo para de atores, o processo de formação do fórum promete
aprovação do programa, foi assegurada, dentre os ser um espaço de referência para o debate e
critérios, uma pontuação maior para famílias transformação das condições de vida na cidade.
chefiadas por mulheres - reconhecendo-as como as
mais pobres dentre as pobres. 9
O Congresso da Cidadania, realizado em
Além disso, à época do Congresso da dezembro de 1999, foi um grande evento, reunindo
Cidadania9 , organizado pela ABM - Conselhos de mais de 200 pessoas de diversas entidades populares e
Entidades Populares de São João de Meriti -, não-governamentais na Câmara de Vereadores para
realizamos encontros em um fórum de debates debater diretrizes de uma Agenda Social para a cidade,
sobre o tema "Mulheres'', incorporando à pauta dentro da perspectiva de construção de um
do evento e à agenda social para a cidade desenvolvimento local socialmente sustentável e
integrado. A ABM é a antiga Federação de Associações
produzida no mesmo a necessidade de construir
de Moradores de São João de Meriti. Fundada em
uma cidade socialmente igualitária para ambos
1983, torna-se Conselho de Entidades em 1995 e,
os gêneros. Nestes espaços, debateu-se sobre a
através da organização popular, é um dos principais
difícil realidade das mulheres - afetadas tanto pela atores responsáveis por conquistas de direitos humanos,
miséria, quanto pela dificuldade de vivenciar a no campo da justiça social e incremento da qualidade
cidade e ter seu tempo liberado para si - de vida no município.

tji•l•HfjM N°84/85 Março/Agosto de 2000 69


Orçamento Participativo:
panorama geral e referenciais
sobre gênero e . raça
Matil<;le Ribeiro1

1
Assistente social, Mestre em Psicologia Social pela PUC - SP, atualmente Assessora dos Direitos da Mulher na
Prefeitura de Santo André e, também, representante governamental no Conselho Municipal do Orçamento Participativo.
Este artigo resume a pesquisa de dissertação das relações sociais. Nesse sentido, é importante
de mestrado que investigou em que medida as a compreensão das mudanças sociais a partir da
dimensões de gênero e raça são incorporadas, com captação da intersubjetividade e de seu
base na visão das conselheiras integrantes do significado para a vida das pessoas que integram
processo de Orçamento Participativo (OP) 2 no os movimentos sociais (Sawaia, 1995).
município de Santo André 3 . O OP é, então, O conceito de relações de gênero traz uma
considerado espaço estratégico para a discussão contribuição para o tratamento da complexidade
de políticas públicas, da participação popular e das relações entre mulheres e homens: enquanto
das relações entre a sociedade civil e o Estado. "sexo" se refere às diferenças biológicas, gênero
As pessoas mais desavisadas perguntariam: se refere às diferenças construídas socialmente;
o quê o Orçamento Participativo e a Participação como categoria histórica, analítica, o estudo das
Popular têm a ver com as categorias de gênero- relações de gênero tende a desnaturalizar as
raça-classe? E, também, mais diretamente: por relações entre os seres humanos dos dois sexos,
que enfocar os sujeitos mulheres e negros a partir mostrando que essas são, também, relações de
de suas necessidades? Nas plenárias chamadas poder, hierarquizadas, em que a mulher ocupa a
para discutir o orçamento da cidade, intrigou-me posição inferior.
a escassa participação de negros, assim como a Diferentes abordagens na análise de gênero
relativa invisibilidade das mulheres que, embora convergem no reconhecimento de que as relações
presentes em maior proporção do que negros, de gênero têm base de poder e hierarquia,
partilham com estes o fato de poucas de suas referindo-se também à dicotomia entre o público
necessidades específicas serem atendidas . e o privado. Joan Scott (1995), Maria Jesus
A pesquisa desenvolveu-se mediante consulta
documental e a aplicação de questionários com 22 2
O Orçamento Participativo tem sido
e entrevistas com 4 conselheiras participantes do convencionalmente referido pela sigla OP.
3
OP' em Santo André. A escolha recaiu sobre as A participação nos movimentos feminista e negro,
conselheiras porque, embora tenham maior além da experiência profissional em ONGs -
participação relativa nas plenárias regionais, as Organizações não-Governamentais - e, mais
recentemente, a atuação em órgãos públicos trouxeram-
mulheres5 são menos numerosas que os homens
me a oportunidade de desenvolver reflexões quanto à
no Conselho - o que talvez, ao mesmo tempo,
incorporação das dimensões de gênero e raça em
reflita e justifique a invisibilidade das questões de
políticas públicas.
gênero. Um elemento importante na coleta de 4
O total de conselheiras nos anos de 1997 e 1998
dados, que não consta em nenhuma das demais foi de 25, três não foram localizadas.
pesquisas já realizadas no OP em Santo André, foi 5
A opção por entrevistar apenas as mulheres não
a consideração do quesito cor. implica na desconsideração da presença masculina no
OP, o homem aparece através da fala das mulheres,
Relações sociais e os significados como co-participe da questão . Assim, a mulher
de gênero e raça considerada socialmente como pólo inferior na
hierarquia de gênero, será tomada como porta-voz
das reflexões sobre gênero-raça.
Busquei a Psicologia Social (recorrendo, 6
Optei por utilizar o termo entrelaçamento, embora
ainda à História, à Sociologia, à Filosofia e cam-
ciente de outros termos utilizados para conotar a
pos mais recentes, como estudos feministas, de interpenetração entre as categorias gênero, raça e classe.
gênero e das relações raciais) para compreender Segundo Saffioti (1987), a simbiose entre essas
o entrelaçamento6 entre as categorias de gênero, categorias traduz a complexidade das relações entre
raça e classe social, isto é, apreender a diversidade homens e mulheres, entre raças e entre trabalhadores.

lji•J•l•f1M N°84/85 Março/Agosto de 2000 71


Izquierdo (1994) e M. Teresita Barbieri (1996) a desaparecer com o desenvolvimento da
constróem reflexões sobre gênero que se industrialização. A terceira, representada
complementam em vários aspectos, principal- especialmente por Carlos Hasenbalg(l 988),
mente no que diz respeito à estreita relação do analisa as articulações entre raça e classe,
indivíduo com o sistema social, econômico e verificando de forma mais profunda a questão
político, como parte da produção e reprodução racial na análise das desigualdades entre a
da vida humana. população branca e negra.
No que diz respeito à conceituação das A divergência verificada na academia quanto
relações raciais ou étnicas, encontraremos diversas aos estatutos das relações de gênero e de raça reflete-
vertentes, desde as que reafirmam as diferenças s e em formulações presentes nos movimentos
biológicas até as que consideram outras variáveis sociais, ou no âmbito das ações institucionais, que
como cultura, meio ambiente, condições sociais. não atribuem às relações raciais a mesma
Sandra Azeredo (1991 ), ao analisar como é tratada importância hoje conferida às relações de gênero8 .
a questão racial na pesquisa7 , destaca que, embora Maria Aparecida Bento (199 5) alega que os estudos
a raça não seja absolutamente pertinente para que aprofundam a perspectiva de gênero raramente
estabelecer diferenças, por exemplo, nas ciências levam em consideração a variável cor.
biológicas, continua a ser utilizada como forma Assim, apresentam-se alguns estudos na
privilegiada de diferenciar culturas, línguas, América Latina, estabelecendo relação entre
crenças e grupos diferentes, os quais, na maioria poder local, democracia e desenvolvimento, tendo
das vezes, têm também interesses econômicos como foco os interesses e necessidades de gênero.
fundamentalmente diferentes.
7
Fulvia Rosemberg (1997, p. 6-7) agrupa três Comparando estudos brasileiros e norte-
grandes correntes que caracterizam o pensamento americanos, a autora estabelece diferenças na forma
social brasileiro sobre relações raciais a partir de de tratamento da questão racial nas duas culturas. No
1930. A primeira, ligada a Gilberto Freyre (1984), Brasil o termo negro é utilizado com ênfase às
diferenças culturais, enquanto nos Estados Unidos os
parte da referência da democracia racial. A
termos preto e branco apontam para diferenças sociais
segunda, liderada por Florestan Fernandes(l 975,
e para a desigualdade.
1978), que interpreta as relações raciais como 8
Por exemplo, na maioria das admini strações
provenientes do regime da escravidão, gerando públicas que desenvolvem políticas voltadas à
uma profunda desigualdade entre os segmentos promoção da igualdade, é mais comum haver
branco e negro, porém, postula que esta tenderia programas dirigidos às mulheres do que a negros.

72
Maxine Molyneux (s.d.) e Caroline Moser (1992) questões de gênero - incluindo-se, portanto, a
apresentam ferramentas para analisar as diversidade de situações enfrentadas pelas mulheres
desigualdades entre homens e mulheres e -, o que seria uma condição para ampliar o grau de
propõem um modelo de desenvolvimento eficácia das ações municipais (p. 25).
baseando-se no fato de que as mulheres, devido No artigo Gênero e políticas públicas
a seus papéis na sociedade, têm necessidades municipais, I vete Garcia (1998) constata alguns
específicas. Segundo estas autoras, as mulheres avanços, no âmbito das políticas públicas,
exerceriam um triplo papel: como reprodutoras, comparados a períodos anteriores 9 . Quanto ao
como produtoras e como gestoras comunitárias. alcance dessas políticas 10 , considerando-se as
Porém, entre as várias correntes do feminismo, necessárias relações entre a micro e a macro-
esboçam-se críticas no sentido de compreender estrutura, a autora detecta problemas como falta
que as experiências diversas entre as mulheres de autonomia política, financeira e administrativa
geram também múltiplos interesses. dos órgãos encarregados de desenvolvê-las;
Duas pesquisas brasileiras recentes utilizam escasso poder de intervenção junto aos demais
os conceitos de interesses e necessidades de gênero. setores; desarticulação na gestão; e, em alguns
Deve gênero ser incluído nas políticas públicas para casos, a descontinuidade gerada pela a mudança
áreas urbanas? é o título da pesquisa realizada por de governo (p.180).
Leda M. V. Machado (1996a). A autora estabelece No que diz respeito ao tratamento da
comparação entre políticas públicas que incorpo- diversidade étnico-racial1 1 , a Prefeitura de Belo
raram a questão de gênero e as que não o fizeram. Horizonte, em convênio com o CEERT - Centro
Sua conclusão é de que a categoria gênero não pode de Estudos das Relações de Trabalho e Desigual-
ser considerada panacéia para o atendimento dades, em fins de 1995, realizou um diagnóstico
satisfatório de diferentes necessidades: "é um das desigualdades de raça que orientou políticas
instrumento que possibilita o entendimento mais
9
abrangente e complexo de como a sociedade é Após as eleições de 1988, foram criados órgãos
estruturada" (p.28). E, a autora acrescenta, relacionados às mulheres em cinco dos 36 municípios sob
idealmente as categorias classe e etnia também administração petista. A gestão 1997-2000 corresponde à
quarta "geração" de administrações municipais petistas,
deveriam ser levadas em consideração.
totalizando hoje 258 prefeituras (116 prefeitos e
A pesquisaMulher epolíticas públicas: opapel
participação de forma coligada em outras 142
dos municípios, realizada em âmbito nacional pelo administrações), e à criação de diversos órgãos relacionados
IBAM-Instituto Brasileiro de Administração Mu- às mulheres. Em 1998, são eleitos cinco governos estaduais
nicipal (Costa & Neves, 1995), desenvolveu uma petistas (dos quais dois em coligação); nos três governos
sondagem junto às prefeituras de 4.489 municípios petistas estão sendo implementados organismos relativos
brasileiros em 1989. Indagava sobre a pertinência às políticas de gênero, geralmente coordenadorias.
10
de se desenvolverem programas que atendessem às No que se refere às mulheres, destacam-se
necessidades próprias das mulheres; como isso se programas voltados à saúde da mulher; ao mundo do
justificaria e, ainda, em que áreas de atuação caberia trabalho; ao combate à violência contra a mulher, à
a implementação de programas. As autoras feminilização da pobreza, entre outros. Em relação às
desigualdades raciais, destacam-se programas de
consideram que as necessidades próprias das
educação para a igualdade, apoio à luta contra o racismo,
mulheres não devem ser objeto isolado de políticas
atendimento a queixas de discriminação e violência racial,
ou programas de um setor, nem devem ser atreladas impulsionados por organismos específicos para lidar
a uma única percepção de mulher. Acreditam que é com a questão racial.
importante incorporar a todo o processo de 11
Segundo as diretrizes da Convenção 111 da
planejamento ou de formulação de políticas as Organização Internacional do Trabalho - OIT.

'ji'1•I•tJMN°84/85 Março/Agosto de 2000 73


de promoção da igualdade. Com base em práticas autoritárias e clientelistas. Na passagem
experiências semelhantes, evidencia-se que os das décadas de 80 para 90 12 , com as primeiras
resultados de ações anteriores levam de três a eleições diretas para prefeituras das capitais,
cinco anos para se tornarem perceptíveis: "Tal h ouve um boom de criaç ão de canais de
demora se deve ao fato de que um projeto de participação popular. Em 1996, estimava-se que
implantação de políticas de promoção da cerca de 70 municípios estavam desenvolvendo
igualdade intervém diretamente na cultura da experiências de OP (PT, 1996, p.36), quadro que
organização" (CEERT, 1997. p. 34). se supõe tenha sofrido alterações, dada a mudança
Tanto as análises das experiências de políticas no cenário das ad mini strações municipais na
públicas, quanto as pesquisa·s apontam para a gestão 1997-2000 13 • No entanto, já é possível
n ecessidade prioritária de desnaturalizar as
desigualdades e transformar em ações efetivas o 12
Deve-se levar em conta que com a nova Constituição
que teoricamente está assegurado em lei o u nos alteraram-se alguns instrumentos de controle nas
programas de governo. Nesse sentido, as políticas administrações públicas, como po r exemplo o do
com perspectiva de gênero e raça, podem ocorrer orçamento público, tendo algumas etapas passado a ser
a partir da mudança na prática de planejamento obrigatórias para elaboração da peça orçamentária
dos projetos, considerando as diferenças como base (documento final entregue para aprovação do legislativo),
para a construção da igualdade e justiça social. como a elaboração de um Plano Plurianual, Lei s de
Diretrizes Orçamentárias e da Lei Orçamentária.
OP como uma prática 13
Na atualidade não se dispõe de informações precisas
participativa inovadora acerca de quantos municípios desenvolvem a prática do
Orçamento Participativo no Brasil. U ma pesqujsa em
andamento, promovida pela FASE - Federação de
O Orçamento Particip ativo configura-se Associações de Assistência Social e Ed ucação, prioriza o
como um projeto político que promove uma nova mapeamento das experiências do períod o 1989-1996,
cultura político-administrativa em contraponto às não tendo alcançado ainda o período 1997-2000.

74 lji•J1NJM N°84/85 Março/Agosto de 2000


dispor de algumas reflexões, feitas em
debates, fóruns e seminários de
caráter nacional e regional, que nos
dão algumas pistas sobre aspectos rela-
cionados às experiências atuais.
Novos papéis são assumidos
pelo Estado e pelos movimentos
sociais. O principal desafio é a
alteração da dinâmica das relações
sociais, de modo a atribuir um caráter
de justiça social às perspectivas de
desenvolvimento social, pois, a
simples consideração da reprodução
econômica já não é suficiente para
abranger e refletir os problemas que
vivemos, inclusive para entender a
própria reprodução do capital
(Dowbor, 1998). /
É nesse quadro que se insere a
experiência de orçamento parti-
cipativo (OP), visando que o processo
de priorização de investimentos e
destinos dos recursos públicos ocorra
por meio de uma negociação entre o
poder público e a sociedade civil
organizada, chamada a participar de
sua discussão, das decisões e da
fiscalização de sua execução . Para
Tarso Genro e Ubiratan Souza (1997),
o OP configura "a democratização da
relação do Estado com a sociedade,
[criando-se] uma esfera pública não-estatal" (p.45- ao Conselho - o que "deslegitimaria o processo de
6). Porém, mudanças na forma de governar não participação" (p. 35) - , nem o Conselho pode buscar
apresentam resultados a curto prazo. Zander sobrepor-se ao governo legitimamente eleito. Refle-
Navarro (1997), ao analisar os limites, pos- tindo sobre as necessárias mediações entre o público
sibilidades e aprendizados de uma experiência de e privado, entre governo e comunidade, Pedro Pontual
orçamento participativo, sugere que "o foco prin- (1994, p.66-7) percebe um caráter político-pedagógica
cipal deve ser sobre a cidade como um todo, e nas ações que envolvem diversos atores - ON Gs,
que as demandas devem ajustar-se a um conjunto movimentos sociais, partidos políticos, intelectuais
de prioridades". (1997, p.29). - , sugerindo "pedagogizar o conflito". Na prática
Esse processo, segundo Celso Daniel (1994), do OP, há a possibilidade como a necessidade de
impõe dilemas quanto à divisão de poder político no capacitação dos integrantes de movimentos sociais e
que diz respeito ao Conselho do Orçamento poder público como agentes políticos, para os desafios
Participativo. Nem o governo pode impor sua decisão dessa nova tarefa.

75
Deve ser lembrado, contudo, que o or- As demandas priontanas, aprovadas pelo
çamento participativo não é a única forma de Conselho do Orçamento Participativo nos anos de
participação popular. Sua implantação deve 1997 e 1998, incluídas na peça orçamentária, somaram
ocorrer paralela à dos demais instrumentos do 53 no OP 97 /98 e 51 no OP 98/99. Poderemos
poder público prescritos pelas nova legislação e visualizar o agrupamento das demandas aprovadas em
dos canais de participação, como os diversos 1997 (incluídas no orçamento de 1998):
Conselhos Municipais 14 . Com isso, a prática do
OP passa a fazer parte de todo um processo que Demandas Número
envolve várias formas de organização, legi- 132
Manutenção
timando a participação popular e a parceria entre
Saúde 54
setores da sociedade e governo.
Na região do ABC paulista, tem-se como Habitação 33

referência as experiências de OP desenvolvidas Saneamento 30


desde 1989 em Diadema, São Bernardo do Campo Educação 25
e Santo André. Na gestão 1997-2000, são quatro 25
Segurança
os municípios da região a desenvolvê-lo: Diadema
Lazer 25
(PSB), Ribeirão Pires (PT), Mauá (PT) e Santo
André (PT) 15 . Assistência social 10

O documento O orçamento participativo em Desenvolvimento econômico 04


Santo André (Santana et al., 1998, p.12) aponta Meio ambiente 01
para a atual ges tão o caráter deliberativo do OP;
Fonte: Santana et a!., 1998 - Distribuição das
a constituição do Conselho Municipal do Or-
demandas aprovadas (1 997)
çamento com composição paritária (igual número
de representantes do governo e dos eleitos pela
14
comunidade); a necessidade de se discutir, no Conselhos de Assistência Social, da Criança e do
âmbito do OP, a totalidade da peça orçamentária Adolescente, de Cultura, de Educação, de Saúde
(inves timento, custeio e receitas); ou da criação Tutelar, entre outros. Esses Conselhos devem atuar de
forma integrada com o orçamento participativo,
de mecanismos para incorporar outros segmentos
articulando as ações e legitimando os vários processos
sociais, como empresários, comerciantes, setores
de expressão das demandas populares.
da juventude e outros cidadãos não organizados 15
Em Santo André, o orçamento participativo foi
a partir dos movimentos sociais. implantado na primeira gestão do prefeito Celso Daniel
As decisões no Conselho do Orçamento (PT) no período 1989-1992. Foi interrompido com a
, P ar ticipativo - CMO são tomadas entre os derrota eleitoral do PT que trouxe à Prefeitura uma gestão
\
participantes (representantes da população e do conservadora (1993-1996), sendo retomado na segunda
governo) buscando incorporar no mínimo uma gestão do prefeito Celso Daniel (1997-2000), sob a
prioridade apontada nas plenárias de cada região coordenação do Núcleo de Participação Popular - NPP.
16
da cidade e outras de interesse geral de todos os Os conselheiros passam a cumprir o papel de
participantes do processo. Nesse processo, para acompanhar a execução orçamentária, o desenvolvimento
das propostas, os prazos e as definições posteriores quanto
além das plenárias quinzenais do Conselho do
a dinâmica do processo. Os conselheiros da população e
Orçamento, cada grupo (a sociedade civil, os
os do governo, quando solicitados, têm a tarefa de dar
representantes do governo e a coordenação retornos à população acerca de quais prioridades foram
paritária) mantém fóruns específicos para efetivamente incorporadas ao orçamento e prestar contas
detalhamento das demandas e dos procedimentos so bre seu cronograma de execução, assi m como
a serem acordados no fórum coletivo16 . acompanhar sua execução.

lji•l1Mit'IN° 84/85 Março/Agosto de 2000


76
para investimentos em outras áreas.
A solução encontrada foi a alocação
de mais recursos para a área de
saúde, além dos previstos ini-
cialmente pelo governo, concen-
trando sua aplicação na reforma e
ampliação do Hospital Municipal e
no desenvolvimento do Programa
de Saúde da Familia, especialmente
destinado às áreas pobres da cidade.
Esse processo exemplifica a
existência de uma margem de ne-
gociação que proporciona a inversão
de prioridades. Está longe, no
entanto, do atendimento a contento
das reivindicações da população nas
plenárias, o que gera muitos conflitos
e dificuldades de negociação.
Mais remota ainda torna-se a
Dentre estas prioridades, destacam-se as visualização da possibilidade de acolhimento de
aprovadas em primeiro lugar, referentes à infra- reivindicações para além das tradicionais. As
estrutura e ao saneamento, em segundo lugar à prioridades finalmente aprovadas após as
saúde e assim por diante. Entre as plenárias de negociações no CMO, reforçam e/ ou legitimam
1997 e 1998, notam -se pequenas diferenças a lógica do atendimento às demandas na esfera
quanto às prioridades apresentadas, mas a lógica das chamadas questões gerais, em detrimento das
permanece a mesma. Grande parte das aprovadas específicas (por exemplo, legitimas reivindicações
em 1998 tem um caráter de continuidade em em relação a infra-estrutura e saúde, entre outras).
relação às de 1997. A única demanda que expressa reivindicação de
Os critérios que orientam as decisões no CMO caráter voltado às mulheres é o Programa de
são, de maneira geral: viabilidade financeira, Atenção à Saúde da Mulher de 1998. Em 1997,
significado para as regiões e para a cidade e fora aprovada uma proposta de garantia de
questões relativas aos modelos de atendimento e ampliação da participação de mulheres nos cursos
políticas públicas. Quanto a este último critério, profissionalizantes, porém não houve monitora-
um exemplo foi a massiva votação (em 1997) mento quanto a sua execução. Em relação à
para criação de inúmeras UBS - Unidade Básica população negra, não foi feita qualquer demanda.
de Saúde, praticamente em todas as regiões. Na Conjuntamente com o processo do OP em Santo
discussão do CMO, porém, evidenciou-se que, André em 1997 e 1998, desenvolveu-se, através da
para além do custo inviável de construção de Assessoria dos Direitos da Mulher- ADM, em parceria
tantas unidades, isso constituiria criar uma rede com o Núcleo de Participação Popular, um trabalho
de atendimento superior aos totais de cada região que buscou contribuir para que as mulheres refletissem
- segundo as normas técnicas vigentes - con- sobre seus interesses e necessidades: que se
trapondo-se à necessidade de atendimento mais motivassem a participar nas plenárias em todo o
bem distribuído. Se fossem atendidas todas as processo de forma mais qualificada. Desde o primeiro
demandas por UBS, isso comprometeria a verba ano, no início do calendário do OP, foram realizadas

ljN•r•flM N°84/85 Março/Agosto de 2000 77


reuniões e plenárias com mulheres. Quanto à participa- QUANTO À IDENTIFICAÇÃO
ção da população negra, foi convocada uma reunião RACIAL,
em 1997, em decorrência das comemorações de 20
FICA EVIDENTE O MITO OU
de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra,
visando estimular a discussão sobre a realidade vivida
TERROR DE SE
pela população negra no município e apresentar as PENSAR A COR COMO
diversas formas de participação que estavam sendo INDICATIVO DE DIFERENÇA
propostas pelo poder público, dentre as quais o RACIAL.
orçamento participativo. NÃO CHEGA A SER UM
Uma outra experiência foi a capacitação de
SILÊNCIO TOTAL SOBRE
mulheres realizada pela Fé minina-Movimento de
Mulheres de Santo André, em 1999, com o objetivo
RAÇA,
de preparação para intervenção nas plenárias do OP MAS, DE CERTA FORMA, É
(sensibilizar para a mobilização, compreender o DIFÍCIL FALAR.
processo e avaliar a postura das mulheres frente às
políticas públicas)1 7 . Esse trabalho foi considerado Este conjunto de atividades introduz novos
um indicador para a multiplicação das discussões elementos na prática do OP, reafirmando, a partir
nas comunidades. Foi enfatizada a importância das dos slogans do Núcleo de Participação Popular-
mulheres participarem das plenárias, abandonando /sto é da sua contai, e Você aparece, Santo André
o receio do microfone ou das autoridades, Acontece-, que é possível dizer que o OP é da
estimulando as participantes a apresentar suas conta de mulheres e homens, brancos e negros, e
reivindicações e a candidatar-se como conselheiras. ainda, que sem a consideração pela presença e
dem a ndas de mulheres e negros, suas
NO QUE SE REFERE À necessidades dificilmente serão contempladas.
QUESTÃO DE GÊNERO, AS Dados e diálogos: possibilidades
DIFERENÇAS de alterações de lógicas
EM RELAÇÃO A VIDA DE tradicionais
MULHER E DE HOMEM SÃO
DEMARCADAS PELAS É importante verificarmos alguns dados
CONSELHEIRAS, sobre o perfil das 22 conselheiras entrevistadas,
O QUE REAFIRMA UM LUGAR o que nos dará elementos para compreendermos
as presenças, participações e representações no
SOCIAL
espaço do OP em Santo André. São destacados
QUE É MUITO DISTINTO os dados referentes a idade, identificação racial,
PARA AMBOS ... NA escolaridade e inserção profissional:
PRÁTICA, Os dados coletados traduzem um tipo de mulher
NÃO EXISTE NENHUMA que garante sua participação política mais velha (11 -
AÇÃO QUE ALTERE ESTA 50%entre41 aSOanos),emboratenhamtambémchegado
REALIDADE DE novas participantes (2 - 9% entre os 21e30 anos).

DESIGUALDADES
17
Essa descrição baseia-se em relatório elaborado
ENTRE HOMENS E
pelas integrantes da Fé minina que coordenaram a
MULHERES atividade (Fé minina, 1999).

!ji1!1MiMN°84/85 Março/Agosto de 2000


78
Quanto à identificação racial, a existência ou não do racismo e/ ou
somatória entre negras, indígenas e discriminação: ''Ainda é um grupo
pardas é de 7. Duas são indígenas, quatro excluído na assistência social ... ascensão
são pardas e uma é negra totalizando social é difícil'~ versus o posicionamento
(32%) das conselheiras. Número bem de que não existe mais racismo : "Não
abaixo da metade das brancas que • vejo mais racismo, hoje em Santo André.
somam 15 conselheiras (68%). Há 20 anos era mais. Nos últimos 1O
Em relação à escolaridade, en- anos não existe mais". Esta contra-
contramos um alto índice de mulheres posição espelha o que é a realidade
com nível universitário completo (9 - brasileira, embora, nos últimos anos, o
41 %) . Na outra ponta nenhuma anal- debate sobre as desigualdades raciais
fabeta ou semi-analfabeta. tenha tomado mais vulto, o racismo e
Verifica-se que a grande maioria os resultados da herança da escravidão
das conselheiras concentra-se em ainda continuam sendo tabu.
profissões consideradas femininas, No que se refere à questão de
excetuando-se duas que não neces- gênero, as diferenças em relação a vida
sariamente fazem parte deste quadro: de mulher e de homem são demarca-
guia turística e relações públicas. das pelas conselheiras, o que reafirma
Nenhuma encontra-se na área indus- um lugar social que é muito distinto
trial ou de serviços domésticos, quatro para ambos. As mulheres são chamadas
são donas de casa (4-18%). como grupo organizado para participar
Este perfil de conselheira define não do processo do OP, porém, na prática,
apenas características pessoais do conjunto não existe nenhuma ação que altere esta
das conselheiras, mas tendências de par- realidade de desigualdades entre
ticipação das mulheres, que podem ser a- homens e mulheres. Por exemplo: na
nálogas em diversos movimentos e espaço fala das mulheres como impedimento
de participação política. para participação, aparecem questões
Para além dos dados é importante como dificuldades de se manifestar em
considerarmos a visão das conselheiras, público, incompatibilidade dos horários
o que denota aspectos de sua postura e de reuniões com a vida doméstica e o
intervenção política. A maioria começa trabalho, não familiaridade com a vida
a atuar politicamente quando mais velhas politica, embora tenham participação
e com os filhos já criados. Exatamente em grupos e movimentos. As con-
no período que podem desvencilhar-se selheiras apresentam uma forte
um pouco mais dos afazeres domésticos participação, combinando a militância
e responsabilidades familiares, que se • em movimento social, partido politico
somam à inserção política. e o orçamento participativo, ainda que
Quanto à identificação racial, fica poucas ocupem funções de coor-
evidente o mito ou terror de se pensar a denação e/ ou direção.
cor como indicativo de diferença racial. Por estes mesmos motivos, e
Não chega a ser um silêncio total sobre também pela tradição de naturalização
raça, mas, de certa forma, é difícil falar. das diferenças, não se apresentam
Extrapolando a auto-identificação, muitas reflexões sobre as formas
apresentam-se a duas posições quanto à diferenciadas de socialização e/ ou

lji•J•I•UM N°84/85 Março/Agosto de 2000 79


construção social das desigualdades, que definem posição de estimular a candidatura ao cargo de
os lugares de gênero e raça. As respostas por parte conselheira/ o. Finalmente, uma outra diretriz
das conselheiras quanto às necessidades refere-se à articulação, no âmbito interno da
específicas das mulheres e da população negra administração, entre as/ os responsáveis pelos pro-
estarem ou não contempladas no OP demonstram gramas voltados à mulher e a grupo coordenador
que para a maioria o tema tratado é totalmente do orçamento participativo, assim como os
novo, causando até estranheza. Há exemplos e demais órgãos governamentais (FES-ILDES,
questões relativas às necessidades das mulheres, 1999)18 .
embora nem todas afirmem positivamente a Tudo isto denota um crescente interesse de
existência de necessidades específicas. Quanto à garantir uma cidadania com diversidade, mesmo
questão racial, as posições oscilam entre umas correndo o risco, com esta afirmação, de sobrepor
considerando, e outras não, a discriminação da conceitos. Mudar esse universo de homo-
população negra e também da indígena. geneidades inexistentes é um projeto que se torna,
Uma das conselheiras apresentou uma saída dia a dia, mais próximo de ser repensado, rea-
que considero importante para ampliar a reflexão valiado e transformado.
do objeto desta pesquisa: Mas se a gente vai pensar Um aspecto que deve ser considerado é que
na lógica do discriminado, é claro que teria que ter não há contraposição "real" entre geral e espe-
política para as mulheres e os negros. Mas, se é esse cífico. Existem necessidades humanas e enquanto
o espaço [do OP], eu não sei, eu acho que teria que tal devem ser tratadas como matéria das políticas
ter um momento próprio para isso, dentro de umas que visem qualidade de vida para o conjunto da
temáticas, talvez. Porque se você não mobilizar as população, porém com o cuidado de não abafar
pessoas para a discussão, não adianta levar lá para as contradições sociais e a visão da diversidade,
dentro do orçamento, que não acontece. invertendo lógicas tradicionais.
As indicações das conselheiras para o futuro
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avaliação positiva, reforçando-o como um espaço AZEREDO, Sandra. A questão racial na pesquisa. ln:
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Estas mesmas perspectivas são objeto de de um tema, perspectivas para o futuro. Revista de Estudos
reflexões de outros grupos. As discussões sobre
18
estratégias de inclusão de gênero e raça no OP Estas reflexões são produto do Workshop "O
orçamento municipal e as políticas de gênero",
trazem como proposições: incidir na dinâmica
ealizado em 20 a 22/06/99 em Porto Alegre, como
junto à sociedade civil e aos gestores públicos; a
parte do Projeto Gênero nas Administrações,
articulação das mulheres e dos negros nos vários
desenvolvido pela Fundação Friedrich Ebert -
espaços de participação no município, esti- ILDES (1998/99), que visou fortalecer as
mulando para o processo do OP e capacitando administrações municipais do PT e contribuir para a
para uma intervenção mais qualificada nas inserção das questões de gênero no planejamento e
plenárias e no Conselho. Destaca-se aí,a pro- execução das políticas públicas municipais.

80
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hM1!1UM N°84/85 Março/Agosto de 2000 81


Da Casa ao Mar: papéis das
mulheres na construção da Pesca
responsável 1
Maria Cristi na Maneschy 2

1
Texto elaborado originalmente como contribuição para o Seminário Internacional sobre Pesca Responsável,
em Beberibe-Ceará, de 5 a 7/ 09 / 97, promovido pelo Instituto TERRAMAR, de Fortaleza, e patrocinado pelo
Coletivo Internacional de Apoio aos Trabalhadores da Pesca (ICSF), de Madras, na Índia.
2
Socióloga do Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Morais sobre Mulher e Relações de Gênero, do
Projeto Integrado Desenvolvimento da Produção Familiar no Campo Paraense (UFPA) e do Projeto RE AS/
Museu Paraense Emílio Goeldi.
O conceito de "pesca responsável'', que de Pesca da FAO (Órgão das Nações Unidas para
idealmente vincula a exploração dos recursos Alimentação e Agricultura) propôs, em 1991, um
pesqueiros a um sentido de responsabilidade com sua conceito, considerado central, para nortear a
preservação, compreende também a preservação das promoção de um novo estilo de desenvolvimento
comunidades pesqueiras artesanais, responsáveis por da atividade pesqueira, que é o de pesca respon-
grande parte do abastecimento em vários países, in- sável.Trata-se de um enfoque muito importante,
clusive no Norte e Nordeste do Brasil. As lutas dessas pois pretende associar desenvolvimento e respon-
comunidades por sobrevivência e dignidade sabilidade. Seus princípios estão expressos no
relacionam-se à permanência de uma diversidade de Código de Conduta para a Pesca Responsável,
modos de vida e de usos diferenciados dos espaços elaborado sob os auspícios da FAO, a ser adotado
costeiros e marinhos. pelos vários países pesqueiros. O código
Entre populações pesqueiras, a produção das incorporou uma valiosa noção que havia sido
mulheres é tão importante quanto a dos homens, expressa na EC0-92, segundo a qual:
ainda que não seja reconhecida como tal. De fato, "o direito de pescar é inseparável do dever de
em um contexto de produção de mercadorias, as ordenar e de conservar os recursos, para as
atividades voltadas ao mercado alcançam neces- gerações presentes e futuras" (FA O, 199 5, p. 7).
sariamente maior visibilidade, obscurecendo-se as
Recoloca-se, assim, o debate sobre os prejuízos
outras dimensões da divisão social do trabalho e,
de uma pesca organizada fundamentalmente para
em particular, as conexões que se estabelecem en-
dar lucros a curto prazo, que prevalece até hoje. É
tre a casa e o mundo do trabalho. Os riscos e amea-
necessário mudar os próprios critérios de
ças vividas pelas comunidades de pescadores
racionalidade econômica dos investimentos, já que
artesanais têm conseqüências graves nas famílias,
o direito de usar os recursos do mar passa a ser
podendo-se dizer que, em grande medida, a
vinculado à obrigação de preservá-los mediante uma
capacidade de resistência dessas comunidades
exploração judiciosa.
repousa nas estratégias de sobrevivência implemen-
A despeito dos avanços indiscutíveis dessa
tadas pelas mulheres e por outras categorias sociais
nova abordagem, permanece o inconveniente de
tidas como "inativas", tais como as crianças, ou as
enfatizar tão somente a proteção dos recursos e do
pessoas idosas. Daí a importância de se conhecer e
meio ambiente. Daí a preocupação de organizações
de se buscar mecanismos de apoio aos trabalhos
não-governamentais e de entidades profissionais, que
desenvolvidos pelos diferentes membros dos grupos
alertam que é preciso ampliar o alcance do termo
domésticos nessas comunidades, na esfera produtiva
responsabilidade, para incluir questões como:
e, também, reprodutiva.
Este texto tece considerações sobre os papéis "a saúde e o bem-estar das comunidades
das mulheres na pesca. Discute as vinculações costeiras, muitas das quais dependem em
entre o que se passa em terra e no mar, analisando grande medida da pesca para obter
alimentos"((FAO, 1995,p. 7).
como elas assumem, no dia a dia, parte dos riscos
da atividade pesqueira. Em vários países, como no Brasil, são
pescadores de pequena escala que têm assegu-
Pesca responsável: preservação
rado considerável parcela do abastecimento
dos recursos e das comunidades interno em produtos pesqueiros, geralmente com
pesqueiras tecnologias de baixo impacto ambiental e sem
apoio do poder público. No Norte e Nordeste,
Diante da grave crise mundial do setor eles contribuem com 70% ou mais do total da
pesqueiro desde a década de 1980, o COFI - Comitê produção pesqueira. Enfrentam grandes

!jJ.1,NiWN°84/85 Março/Agosto de 2000 83


. . .. ' ' "

adversidades para vender seu produto, concor- ligado ao sistema produtivo da pesca. Por isso,
rendo com frotas industriais e tendo precário ganham relevo hoje as abordagens de gênero e
acesso a direitos previdenciários e trabalhistas. de idade que direcionam nosso olhar para a
Por outro lado, sofrem a pressão da especulação divisão de trabalho entre os sexos e as gerações.
imobiliária, da poluição industrial e doméstica, Trata-se de uma dimensão geralmente pouco
e da degradação dos ecossistemas litorâneos . valorizada, quer no âmbito dos estudos, que
Compreende-se, portanto, que os esforços para privilegiam a situação do homem pescador, quer
preservar e fomentar as comunidades de pescadores no âmbito das políticas e das organizações
artesanais são parte inseparável de um projeto de pesca sindicais de pescadores onde ainda predomina
responsável. Sua sobrevivência depende diretamente uma concepção restritiva de pescador.
da conservação dos estoques pesqueiros. Nesse sentido, Observa-se, porém, nos movimentos de
eles têm todo interesse em pesquisas científicas que pescadores (Movimento Nacional de Pescadores -
conduzam ao ordenamento pesqueiro eficaz, à melhoria MONAPE e seus congêneres nos Estados), em
tecnológica e à obtenção de alternativas de emprego e organizações de apoio a essa categoria (Conselho
renda, que são a condição sine qua non para o uso Pastoral da Pesca entre outras), bem como por parte
sustentável dos recursos pesqueiros. de pesquisadores (por exemplo, no Projeto RENAS
e no GEPEM, no Pará3 ), um interesse crescente
Gênero, desenvolvimento e pesca sobre o tema do papel das mulheres na pesca e na
responsável manutenção das comunidades pesqueiras.

3
Projeto RENAS (Recursos Naturais e Antropologia
Compreender como as comunidades de
das Sociedades Marítimas, Ribeirinhas e Lacustres) do
pescadores artesanais vêm se reproduzindo
Museu Paraense Emílio Goeldi; GEPEM (Grupo de
requer um olhar abrangente, que leve em conta
Estudos e Pesquisas "Eneida de Morais" sobre Mulher
o trabalho das famílias, direta ou indiretamente e Relações de Gênero), da UFPA.

84
NO BRASIL, SÃO D aí a necessidade premente de se conhecer
PESCADORES DE PEQUENA como, em vários casos específicos no Brasil, as
mulheres vêm desempenhando esse papel de
ESCALA
suporte. É essencial analisar as atividades das
QUE TÊM ASSEGURADO mulheres no espaço doméstico, tais como cuidar
CONSIDERÁVEL dos filhos, manter a casa e pescar e plantar para o
PARCELA DO consumo das famílias. São elas que, mais que os
ABASTECIMENTO homens, enfrentam cotidianamente as dificuldades
INTERNO EM PRODUTOS da vida em terra. Por isso, elas têm condições de
levantar importantes questões relacionadas com a
PESQUEIROS ....
qualidade de vida e de inseri-las na agenda das
NO NORTE E NORDESTE, organizações profissionais de pescadores. Por outro
ELES CONTRIBUEM lado, em diversas situações elas estão atuando na
COM 70% própria pesca. É o caso das "marisqueiras"
OU MAIS (coletoras de mariscos em praias nordestinas), das
DO TOTAL "tecedeiras" de redes de pesca, das pescadoras nas
praias e nos rios, das que beneficiam pescado, das
DA PRODUÇÃO
que fazem farinha de pescado (na região dos lagos
PESQUEIRA do Baixo Amazonas), das ex-pescadoras, das
Visando cobrir essa lacuna, o Coletivo esposas e filhas de pescadores, bem como das
Internacional de Apoio aos Trabalhadores da presidentes ou membros de diretorias de colônias
Pesca - ICSF, executou no período 1993-1996, o ou outras associações . Ademais, muito do que
programa "Mulheres na Pesca" (Women in Fish- fazem não se destina ao mercado e não é visto,
ing), em diferentes países. D entre as diretrizes portanto, como trabalho, mesmo quando se trata
desse programa constavam: estudar a história do de tarefas que permitem aos homens pescar:
papel das mulheres na pesca, registrar suas lutas cozinhar, costurar velas de canoa, confeccionar
contra a marginalização e examinar como as armadilhas de pesca p_ara o marido e os filhos, fazer
organizações de pescadores podem integrar a o café e o carvão que eles levam a bordo, remendar
perspectiva de gênero em suas lutas pela roupas de trabalho, etc . (MANESCHY,
sobrevivência. Conforme um membro da ALENCAR e NASCIMENTO, 1995).
coordenação do ICSF:
"Questões que se relacionam às mulheres
AS ATIVIDADES FEMININAS
enquanto trabalhadoras e enquanto
membros de comunidades e sociedades, são TENDEM, POIS,
raramente assumidas pelas organizações de A SER MULTI DIRECIONADAS,
trabalhadores na pesca. As mulheres estão AO CONTRÁRIO
envolvidas com os problemas que afetam o
setor pesqueiro, assim como com as grandes
DAS MASCULINAS,
questões relativas à viabilidade das co- GERALMENTE
munidades pesqueiras artesanais. A CENTRADAS EM UMA OU
capacidade de resistência que estas vêm DUAS
demonstrando é, em grande medida, con-
seqüência do papel de suporte desem- ATIVIDADES PRINCIPAIS,
penhado pelas mulheres e crianças" COMO POR EXEMPLO, PESCA
{SHARMA, 1996, p. 46). E LAVOURA

85
As atividades femininas tendem, pois, a ser "Ele vai prá pesca, às vezes mata peixe, às vezes
multidirecionadas, ao contrário das masculinas, não mata, não dá nem prá pagar o vale que ele
geralmente centradas em uma ou duas atividades tira" (Pêdra, mulher de tripulante, 23 anos).
principais, como por exemplo, pesca e lavoura Mulheres presentes ao Seminário Internacional
(ALENCAR, 1991). Esse fato reforça a invisibilidade sobre Pesca Responsável, em Beberibe (Ceará),
de seu trabalho e dificulta sua identificação como lembraram, ainda, as vicissitudes da própria
trabalhadoras. Nessa condição, ficam excluídas dos atividade pesqueira, que impõem longas ausências
correspondentes direitos sociais e previdenciários. do companheiro, ampliando sua responsabilidade
Se a construção de um modelo de pesca no lar: "a gente tem que ser pai e mãe, criar e educar
responsável passa pelo fortalecimento das os filhos e ainda se dividir para muitas coisas". Por
comunidades de pescadores artesanais, é outro lado, as tensões do trabalho refletem-se no
necessário ressaltar as relações entre homens e âmbito doméstico. Várias delas referiram-se à falta
mulheres. Segundo o modelo tradicional de de apoio e de compreensão dos companheiros.
divisão de tarefas, ao homem cabe o trabalho fora, Em contrapartida aos variados e reduzidos
para sustento da família e, à mulher, a função de ganhos dos pescadores, elas buscam diferentes
dona de casa, no máximo trabalhando fora para estratégias para manter o grupo doméstico, em
"ajudar". Na prática, as coisas estão longe de ser condições geralmente difíceis. E las freqüen-
assim . Como expressaram duas mulheres da temente submetem-se a condições exploratórias
cidade de Vigia, no litoral ,d o estado do Pará: sobre seu trabalho, exercido em contextos
"Tem viagem que eles trazem bastante produção, informais. Nessa trajetória, participam também
eles ficam alegres, se Deus quiser essa viagem de grupos comunitários - como Clubes de Mães
vai dar prá gente comprar alguma coisa, pagar ou associações de moradores - que podem
o que a gente deve. E aí quando eles chegam contribuir na sua constituição em sujeitos políti-
com o patrão, patrão apresenta aquela conta e cos. Elas podem passar, assim, a se destacar na
eles até se espantam de ver, muitas das vezes luta por melhores níveis de vida, por escolas para
tem pescador de não tirar nada de saldo" (Hel- os filhos, ou na resistência contra processos
ena, mulher de tripulante, 38 anos).
especulativos sobre as terras onde habitam.

lji.J •r•ÜM N°84/85 Março/Agosto de 2000


86
"O A TO DE PESCAR DOS Um debate necessário: o estatuto
HOMENS ESTÁ INSERIDO E É da mulher trabalhadora do setor
APOIADO pesqueiro
EM RELAÇÕES SOCIAIS DAS Um dos pontos mais sensíveis nas discussões
QUAIS A DIVISÃO DE sobre o Código de Conduta para a Pesca Responsável
TAREFAS E reside no problema do direito de acesso aos recursos
RESPONSABILIDADES NO costeiros. Organizações de pescadores artesanais e
SEIO DA de pequena escala, reivindicam prioridade de acesso.
O texto ainda não contempla essa reivindicação. De
FAMÍLIA É, SEM DÚVIDA, A
todo modo, o documento da FAO mencionado
MAIS CRUCIAL" acima, refere-se a um avanço nesse sentido, fruto das
pressões exercidas por organizações não-
Destaca-se, nesse sentido, a colocação de uma governamentais. Trata-se do artigo 5 do referido
participante do Seminário de Beberibe, ao tratar código, que "reconhece os direitos dos trabalhadores
da importância das terras de lavoura para as da pesca a uma vida justa e segura" (FAO, 1995, p.9).
comunidades pesqueiras no litoral nordestino como Os dados disponíveis acerca das moda-
alternativa de sobrevivência durante períodos de lidades de divisão sexual do trabalho em comuni-
escassez ou de fechamento da pesca. O ritmo de dades pesqueiras e sobre os papéis da mulheres,
ocupação imobiliária, no entanto, torna essa evidenciam a importância de se incluírem tais
alternativa cada vez mais remota. Várias mulheres aspectos naquelas discussões. Como visto, as
referiram-se, também, à falta de opções de trabalho mulheres exercem papéis essenciais que não
nas comunidades. A manutenção do artesanato podem ser esquecidos nas lutas pelos "direitos a
tradicional, especialmente rendas e bordados, uma vida justa e segura".
esbarra em dificuldades de escoamento no mercado
e de recursos para adquirirem matéria prima.
. .. MUITOS DOS TRABALHOS
Pensando-se em saídas a esse impasse, merece
atenção a proposta de uma participante para que
ASSUMIDOS POR MULHERES
as associações locais se reúnam de modo a EM COMUNIDADES
proporem formas comunitárias de ocupação da PESQUEIRAS
terra, o que incluiria a preservação e o uso ordenado APRESENTAM COMO
dos manguezais e das áreas de dunas. CARACTERÍSTICAS A
A reprodução social das comunidades
VARIABILIDADE NO TEMPO E
pesqueiras repousa, portanto, em práticas e
estratégias diferenciadas. O "lado feminino" da
NO ESPAÇO, A
vida das comunidades pesqueiras tem, como visto, IRREGULARIDADE NA
várias dimensões, geralmente obscurecidas. Vale DEMANDA, SUA
lembrar as palavras de uma antropóloga que COMPATIBILIZAÇÃO COM AS
estudou pescadores artes;nais em Kerala, Índia: TAREFAS DOMÉSTICAS E, POR
"O ato de pescar dos homens está inserido CONSEQÜÊNCIA, A
e é apoiado em relações sociais das quais a DIFICULDADE DE
divisão de tarefas e responsabilidades no
seio da família é, sem dúvida, a mais cru- CONTABILIZAR O TEMPO DE
cial" (NIEUWENHUYS, 1989, p. 175). TRABALHO

lji•J•l•f'M N°84/85 Março/Agosto de 2000 87


seminário de Beberibe por exemplo,
assim como em outros nos quais
mulheres de comunidades pesqueiras
estão presentes, são comuns os
depoimentos de que a mulher não tem
direito à aposentadoria ou ao seguro
desemprego.
As associações de pescadores
:T.~;l;il devem assumir essa demanda e buscar
~ ~~~- rever a definição estreita de pescador,
Q.~~- de modo a que trabalhadoras hoje
f"'l•~~~.~~-ll invisíveis tenham lugar. O acesso a
benefícios como aposentadoria,
:_,.;;,~lidf seguro saúde, ou auxílio maternidade
·:M'.'"~·.-..;~~ constitui uma condição própria da
cidadania. Assegurar às mulheres o
.1,~!::ii91,.t estatuto de trabalhadoras da pesca,
como parceiras de terra ou das águas,
é um passo na conquista de uma
cidadania de qualidade, com relações
mais justas e igualitárias entre
homens e mulheres.

Mulheres na pesca,
Nesta oportunidade cabe, então, levantar a
questão do estatuto da mulher enquanto organização coletiva e políticas
trabalhadora da pesca. O caráter muitas vezes públicas: espaços a conquistar
inconstante e variado de seu trabalho, bem como
o fato de que a renda que produz não assume Como ficou claro, portanto, muitos dos
necessariamente a forma monetária - por exemplo, trabalhos assumidos por mulheres em comunidades
peixes, mariscos ou produtos da roça para consumo pesqueiras apresentam como características a
doméstico, reparos ou confecção de apetrechos de variabilidade no tempo e no espaço, a irregularidade
pesca para o marido ou filhos, etc. - tem na demanda, sua compatibilização com as tarefas
contribuído para ocultar esse trabalho. Além do domésticas e, por conseqüência, a dificuldade de
mais, como dito acima, do ponto de vista jurídico- contabilizar o tempo de trabalho. Esses fatores
político prevalece uma concepção restrita do reforçam a visão corrente das mulheres mais como
trabalho da pesca como sendo aquele que retira donas de casa, "ajudantes" do companheiro e não
seres vivos de ambientes aquáticos. O conjunto como sujeitos produtivos. Tal visão exprime-se no
de tarefas pré e pós-captura ficam excluídas da baixo número de mulheres filiadas nas colônias de
definição formal do que seja trabalho de pesca. pescadores, que constituem o órgão de classe
Em vários lugares as "marisqueiras" já estão tradicional dessa categoria no país.
conseguindo seu reconhecimento como pescadoras. A despeito de um tímido - mas progressivo -
As demais "trabalhadoras da pesca", embora de reconhecimento da presença feminina na pesca,
maneira menos articulada, estão também pleiteando muito há para construir no sentido de sua inserção
um reconhecimento social e profissional. No plena nas organizações de pescadores e, também,

88 1fr1•r•fjITTNº84/85 Março/Agosto de 2000


para que na formulação de políticas do setor
suas necessidades sejam minimamente
contempladas. Esse reconhecimento é
evidente em eventos recentes nos quais a
temática mulher na pesca emerge. Afora o
Seminário de Beberibe, já referido, são eles:
• Workshop Internacional sobre a
Pesca Artesanal, promovido pelo
Laboratório de Ciências do Mar, da UFCE,
em setembro de 1996, em Fortaleza (CE)
(FONTELES FILHO, 1997).
• Seminário sobre Pesca Artesanal,
promovido pelo Ministério da Agricultura
e do Abastecimento, no quadro da
Conferência dos Ministros Responsáveis
pelas Pescas dos Países de Língua Portu-
guesa, em Salvador (BA), de 20 a 23 de
outubro de 1998 (Súmula, 1998).
• Encontro Nacional de Mulheres
Pescadoras, promovido pelo MONAPE,
em Teresina (PI), de 21 a 24 de novembro
de 1999 (A VOZ ... , 1999).
• Encontro de Mulheres Pescadoras
do Nordeste, em Fortaleza, de 28 a 30 de
outubro de 1999, também pelo
MONAPE (A VOZ ... , 1999). l ,
• Seminário de Pescadores e Pescadoras do não governamental de apoio ao setor pesqueiro
litoral do Pará, entre 24 e 26 de setembro de 1999, artesanal, tem promovido oficinas sobre relações de
organizado pelo Conselho Pastoral da Pesca, na gênero para várias colônias e associações de
vila de Marudá (município de Marapanim, no Pará). pescadores do litoral daquele Estado. No Pará,
Ainda que seja um movimento minoritário, é as Colônias de Abaetetuba e de Aranaí têm
também digno de nota que há colônias e federações organizado seminários e estimulado as mulheres
de pescadores desenvolvendo trabalhos específicos a regularizarem sua documentação como
com mulheres, sejam elas pescadoras, trabalhadoras pescadoras. A Colônia de Santarém, no Baixo
da pesca ou membros de familias de pescadores. Amazonas, é mais antiga nessa linha e conta com
Sem a pretensão de fornecer uma lista completa, mulheres na diretoria há vários anos. A Colônia de
mencionam-se as colônias de Barra de Santo . Maracanã, por seu turno, em 1999 passou a ser
Antônio e de Maceió, em Alagoas, sendo esta última dirigida por uma mulher. Para começar a quebrar
dirigida por uma mulher. Em Sergipe, a colônia de as resistências à presença feminina na entidade,
São Cristóvão tem centenas de sócias em seus
quadros. Em Pernambuco, as colônias de Ponta de 4
As informações relativas às colônias de pescadores
Pedras e Itapissuma implementam ações de do Nordeste foram prestadas pela 2ª Secretária do
capacitação em processamento de pescado para as MONAPE, Sra. Ana Paula Santos, a quem se agradece
sócias4 • O Instituto Terramar, do Ceará, organização a colaboração.

89
ela tem promovido seminários sobre a temática de As atividades a que se dedicam, ou pretendem
gênero. Na Baía do Sol, em Mosqueiro, próximo à implementar, são a tecelagem de redes, o
cidade de Belém, cerca de cinqüenta mulheres beneficiamento de produtos da pesca, a comer-
inscreveram-se recentemente na colônia. cialização do pescado, a produção de remédios
A Federação de Pescadores do Estado de Minas caseiros e de artesanato, a preservação ambiental
Gerais, até 1999, era dirigida por uma mulher. No e a valorização das manifestações culturais locais.
Seminário ocorrido em Salvador, supra citado, essa Além de inúmeros obstáculos à manutenção dos
representante apresentou uma moção, da qual foi grupos, elas se ressentem da falta de apoio do
extraído o trecho a seguir, que caracteriza a mulher setor público na forma de linhas de crédito e de
enquanto trabalhadora e partícipe na sustentabilidade programas de formação, além do freqüente
das comunidades pesqueiras: distanciamento da colônia.
"O papel da mulher na pesca que, com as De diferentes modos, portanto, as mulheres
atividades de venda do pescado, manufatura desempenham papéis cruciais na manutenção das
e conserto de petrechos, auxílio à pesca, comunidades pesqueiras artesanais: manipulando
na organização das colônias e ainda na recursos de diferentes ecossistemas, terrestres e
produção de complemento alimentar como aquáticos, gerando rendas complementares à da
produtora rural. Note-se, ainda, o papel pesca, agregando valor a produtos locais e
indireto da mulher no setor pesqueiro participando de organizações coletivas.
através das campanhas de educação Resta alcançar um efetivo reconhecimento
ambiental e formação escolar e de agente social, que implicaria em sua inclusão nas
formadora de opinião."
políticas de desenvolvimento do setor. Assim, no
Em localidades pesqueiras do nordeste tocante ao crédito, torna-se necessário que as
paraense, nos municípios de Vigia, São Caetano agências financiadoras mudem o enfoque
de Odivelas e Marapanim, registram-se associa- dominante, que privilegia o financiamento de
ções de mulheres que, a exemplo das associações barcos e instrumentos de captura, de maneira in-
de pescadores ou de trabalhadores rurais, buscam dividual, para incluir o fomento a grupos que
meios para criar alternativas de trabalho ou renda. processam e aproveitam subprodutos da pesca,

90
de maneira integrada ao financiamento da ALENCAR, E. F. 1991. Companheiras,
produção pesqueira. No tocante à capacitação pescadeiras e perigosas: a pesca feminina na Ilha
profissional, sobretudo, trata-se de concebê-la em dos Lençóis-MA. Dissertação de Mestrado, UNB,
um sentido amplo, que assegure não só a eficácia Brasília. (inédita).
no trabalho, como também, que possibilite às ESCALLIER, C. e MANESCHY, M . C.
comunidades lançar mão de alterna tivas d e 1996. Weaving a living. SAMUDRARepart. ICSF,
sobrevivência, abso lutamente necessárias em Madras.n. 14.March.p.3-4.
períodos de interrupção da pesca, ou em situações F AO. 199 5. Responsible fisheries. DEEP; De-
em que os estoques são objeto de intensa velopment Education Exchange Papers. October.
exploração. Estas são condições inerentes à FONTELES-FILHO, A. A. (ed .), 1997.
instituição da chamada "pesca responsável". A na is do workshop internacional sobre a pesca
Finalmente, no que tange às entidades de artesanal. Fortaleza., Imprensa Universitária da
classe dos pescadores, importa romper a concepção Universidade Federal do Ceará. p. 133-155.
segundo a qual as mulheres são dependentes do MANESCHY, M. C., ALENCAR, E. e
marido pescador. Sua participação nesses espaços, NASCIMENTO, I. 1995. Pescadoras em busca de
certamente, trará à ordem do dia as condições cidadania. ln: ALVARES, M. L. e D 'INCAO, M. A.
concretas em que trabalham, as exigências de con- A mulher existe?uma contribuição ao estudo da
ciliar casa e trabalho, seu ganho monetário diminuto mulher e gênero na Amazônia. Belém, GEPEM/
ou incerto, dificultando-lhes, mais que aos homens, Museu Paraense Emílio Goeldi. p. 81-96.
honrar as mensalidades da colônia e da previdência, NIEUWENHUYS, O. 1989. Invisible nets;
além das barreiras culturais que persistem. women and children in Kerala's fishing. MAST,
2(2) : 174-94.
Referências Bibliográficas
SHARMA, C. 1996. Different voices, simi-
A VOZ dos Pescadores do Brasil. Boletim lar concerns. SAMUDRAReport. ICSF, Madras.
informativo do MONAPE, n.3, dez. 1999. n. 15.July. p. 46-49.

A Rits é uma organização não governamental


que tem por objetivo levar tecnologia de internet
às demais instituições do terceiro setor.
Acreditamos que este é um poderoso
instrumento para a melhor articulação da
sociedade civil em torno de suas lutas e interesses.

rits rede de informações


para o terceiro setor

Em nosso site há um conjunto de informações: acervo com a produção do terceiro


setor, estudos, uma revista on-line (Rets), catálogo de organizações e seus projetos,
legislação e gestão voltadas para o setor. Também oferecemos serviços que possibilitam
maior agilidade na comunicação, articulação e interação entre pessoas e organizações:
hospedagem de sites, correio eletrônico, fórum de debates, boletim on-line, quadro de
avisos e banco de dados, além de orientação jurídica, em gestão e em questões de internet.

Visite nosso site: www.rits.org.br

91
Eleições 2000 cotas para ampliar
a presença da mulher nos espaços
de poder político
Iara Bernardi *

*Iara Bernardi é deputada federal (PT / SP) e 2ª Vice-Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores.
Professora, atuou como vereadora petista em três mandatos em Sorocaba-SP, sendo eleita pela primeira vez
em 1982, na primeira eleição disputada pelo Partidos dos Trabalhadores. Publicou a cartilha "Vereadora 2000,
agora são outros 500- Subsídios para a mulher candidata a vereadora", que pode ser solicitada pelo e-mail:
dep.iarabernardi@camara.gov.br
Disputar uma vaga de vereadora ou prefeita havia 40 deputados classistas e dentre estes figura-
nas eleições do ano 2000 implica, antes de tudo, va também uma mulher, a trabalhadora Almerinda
conhecer um pouco da trajetória de lutas de outras Farias Gama, representante do Sindicato dos
mulheres pela conquista do direito ao voto e para Datilógrafos e Taquígrafos e da Federação do
mudar nossas vidas e torná-la melhor. Trabalho do Distrito Federal.
As mulheres, no mundo e no Brasil, tiveram No quadro abaixo, podemos acompanhar
como primeiras lutas a busca do direito à edu- quando o direito ao voto feminino foi conquistado
cação e ao voto . Foi nos Estados Unidos onde em outros países.
ocorreram as primeiras manifestações organizadas A conquista do voto feminino no mundo
em prol dos direitos da mulher, no século XIX. A
luta contra a escravidão explodiu junto com a luta 1893 Nova Zelândia
1917 União Soviética, com a Revolução Socialista
pela libertação feminina.
1918 Alemanha
No Brasil, as primeiras organizações de 1919 Estados Unidos
mulheres surgiram após 1850 e sua principal 1928 Inglaterra
bandeira era e mesma de outros países, pelo direito 1934 Brasil
à instrução e ao voto. A voz feminina manifestava- 1945 França, Itália e Japão
se através da abolicionista, republicana e feminista A revolta das mulheres repercutiu enor-
nascida no Rio Grande do Norte, Nísia Floresta memente nos organismos internacionais, levando
(1809-1885), e da baiana Violante Bivare V elasco, as Nações Unidas (ONU) a instituir o ano de 1975
que fundou, em 1852, o primeiro jornal dirigido como o Ano Internacional da Mulher.
por mulheres: o jornal das Senhoras. Em 1873, a No Brasil, o Ano Internacional da Mulher
professora Francisca Senhorinha da Motta Diniz foi um importante marco no ressurgimento das
criou em Campanha, Minas Gerais, o jornal organizações de mulheres. Sob o regime militar e
feminista O Sexo Feminino, que lutava por essas com as liberdades democráticas cerceadas, a
duas bandeiras. Em 1922, sob a liderança de Ber- iniciativa das Nações Unidas propiciou às
tha Lutz, é fundada no Rio de Janeiro a Federação mulheres brasileiras um espaço de discussão e
Brasileira pelo Progresso Feminino. organização . Neste período, foi criado o Mo-
A década de 1920 foi uma época conturba- vimento Feminino pela Anistia, unindo a luta pela
da, anunciando as grandes transformações dos democratização do país com as questões
anos 30 . A classe operária se organizava, os específicas de gênero.
intelectuais rompiam com o pensamento tradi- No início dos anos 80, havia inúmeros
cional, as classes médias pediam mais repre- grupos de mulheres espalhados pelo Brasil,
sentação política e as mulheres queriam tudo representando um amplo leque de posições
isso e muito mais! feministas constituindo um movimento de
Em 1932, o governo de Getúlio Vargas, '
mulheres brasileiras. Este movimento alcançou
formado após a Revolução de 1930, promulgou as mulheres trabalhadoras, que passaram, por sua
o novo Código Eleitoral pelo Decreto nº 21.076, vez, a organizar dezenas de encontros. Foram
garantindo, finalmente, o direito de voto às metalúrgicas, químicas, trabalhadoras em geral,
mulheres brasileiras. Nas eleições de 1933, convo- que se descobrem mulheres, oprimidas, mas que
cada para a Assembléia Nacional Constituinte, se desejavam autônomas na sua luta específica
foram eleitos 214 deputados e uma única mulher, em relação aos partidos políticos, aos homens e
a paulista Carlota Pereira de Queiroz. Bertha Lutz, ao Estado.
concorrendo pelo Distrito Federal (RJ), foi eleita A lenta chegada ao Estado de Direito no
primeira suplente. Neste processo constituinte Brasil, após a anistia em 1979 e início dos anos

'jf.J,f.UMN°84/85 Março/Agosto de 2000 93


80, possibilitou maior participação política da mobilizou centenas de brasileiras para redigir um
mulher na sociedade brasileira. Em 1982, nas documento reivindicatório para a IV Conferência
eleições diretas para os governos estaduais, o Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher
movimento de mulheres atuou ,e em vários (Beijing, 1995) . Foram 91 eventos envolvendo
estados foi elaborada uma plataforma feminista mais de 800 grupos femininos em todo o país.
submetida aos candidatos. Passadas as eleições,
Outro avanço importante na luta
os avanços se manifestaram na criação, em 1983,
nos estados de São Paulo e Minas, dos Conselhos das mulheres foi a implantação
Estaduais da Condição Feminina. da política de cotas.
Com a Nova República (1985), essas
experiências estaduais foram alçadas em âmbito O sistema de cotas já é consagrado em vários
federal, com a aprovação, pela Câmara dos países do mundo. Na Europa, vários países
Deputados, do projeto de lei nº 7.353, que criou adotam política de cotas, desde 1985, que se
o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher aplicam às leis eleitorais e dos partidos a fim de
(CNDM). Sua finalidade era a formulação de promover a participação da mulher nos centros
políticas com vistas à eliminação da discri- de decisão política por meio de uma presença
minação contra as mulheres. O Conselho teve equilibrada entre homens e mulheres nas listas
uma atuação marcante na Constituinte de 1987 / de diferentes categorias de eleições.
88, por meio do chamado Lobby do Batom, na Na América Latina, a lei de cotas é adotada
área dos direitos reprodutivos e no combate à por vários países. Desde 1992, a lei uruguaia
violência contra a mulher. determinou que nenhum sexo poderá ter mais que
A existência palpitante das lutas feministas 75% nas listas de candidatos. A Argentina definiu
pode ser mensurada pelo movimento Articulação em 30% o número mínimo de vagas que devem
de Mulheres Brasileiras que, entre 1994 e 1995, ser preenchidas por mulheres.

94 lji•/1NiM N°84/85 Março/Agosto de 2000


Como é a política de cotas no mundo

País Tipo de ação afirmativa Data


Noruega Os partidos adotam cotas há vinte anos .1978

Dinamarca A lei federal define o equilíbrio entre os sexos nos comitês 1985
consultivos e administrativos

Finlândia A representação de cada sexo não pode ser inferior a 40% 1986
nos comitês e órgãos públicos de decisão

Irlanda Os partidos adotam cota mínima de 40% para cada sexo nas 1990
instância de decisão
Bélgica A lei federal define o limite máximo de 2/3 das listas para um 1990
sexo
Uruguai Nenhum sexo poderá ter mais de 75% nas listas de 1992
candidatos.
Itália Nas listas eleitorais com mais de um candidato, devem se 1993
alternar homens e mulheres
Argentina 30%, no mínimo, das listas de candidatos devem ser 1993
preenchidas por mulheres
Brasil Nenhum partido poderá ter mais de 70% de candidatos do 1995
mesmo sexo
Colômbia Determina igual proporção de homens e mulheres nas listas 1998
eleitorais.

No Brasil, a cota mínima para candidaturas que se rompesse uma série histórica d e baixos
de mulheres nas chapas partidárias foi instituída índices de participação feminina no poder, que,
em 1995. Projeto de lei da deputada Marta Suplicy desde 19 34, mantinha uma média de aumento
(PT /SP), subscrito por outras 30 deputadas, percentual de 1% a cada quatro anos no número
propunha o mínimo de 30% de mulheres de vereadoras eleitas. Segundo dados do IBAM,
candidatas a todos os cargos eletivos. O primeiro de 3.952 vereadoras eleitas em 1992 (8%),
resultado dessa iniciativa foi a incorporação do passamos para 6.536 em 1996 (11 %). A lei de
mínimo de 20% de mulheres candidatas na Lei cotas permitiu um avanço de vinte anos em um.
9.100/95 (a rt. 11, § 3° - "Vinte por cento, no O número de mulheres no Executivo também
mínimo das vagas de cada partido ou coligação cresceu. Em 1992, foram eleitas 171 (3%)
deverão ser preenchidos por candidaturas de prefeitas e 302 (6%), em 1996.
mulheres'), que estabeleceu as normas
Cargo / Nº de Eleitas 1992 1996
para as eleições municipais de 19 96 .
Prefeitas 171 (3%) 302 (6%)
Foi um grande marco na história da
Vereadoras 3.952 (8%) 6.536( l1 %)
participação das mulheres nas eleições.
Como primeira experiência de ação Fonte: IBAM- Instituto Brasileiro de Administração
afirmativa levada a cabo em nosso país, permitiu Municipal

hi111MiM N° 84/85 Março/Agosto d e 2000


95
Logomarca da campanha de 1996 diminuição da bancada feminina, que passou de
6,38 % (33 deputadas eleitas em 1994), para
5,65% (29 deputadas eleitas em 1998), num to-
tal de 513 deputados/ as federais.
A dificuldade financeira que as mulheres
enfrentam, ainda sem o apoio partidário ou o
financiamento público de campanhas para
d nossa •1'f'!! . equilibrar esta situação, foi a principal delas.

Com a cota de 20% para candidaturas Relação entre candidatos e eleitos por
femininas nas eleições de 1996, o Brasil se sexo - 1998
antecipou às recomendações da Plataforma
' Ca nd. Cand. % Eleito Eleito % Eleito
de Ação Mundial de Beijing, assinada sem Fem. Masc. Fem. Fcm. Masc. Fem.
restrições pelo nosso país na Conferência Dep. Estadua l/ Distrital 1.388 8.778 19,01 105 954 9.92%

Mundial da Mulher, em setembro de 1995, Dep. Federal 352 3.065 10,30% 29 484 5,65 %

que recomendou aos países a adoção de Fonte: Tribunal Superior Eleitoral - TSE
ações afirmativas para apressar a diminuição da
exclusão das mulheres e se chegar à igualdade en- O tempo entre a aprovação da lei de cotas
tre os sexos nos centros de poder político. e a sua colocação em prática foi muito reduzido.
O resultado da política de cotas foi altamente Nas duas primeiras experiências, nenhum
positivo. Obrigou os partidos a incorporar a partido conseguiu preencher o percentual
preocupação com as questões das mulheres em seus definido pela lei. Não se tem conhecimento de
projetos de campanha, tornando a questão da que tenha existido alguma ação específica, no
mulher um tema de maior importância na mídia e âm bito partidário, a fim de estabelecer uma
no dia-a-dia. Alguns partidos, pela primeira vez, meta de eleição de mulheres ou investir em
tiveram que se confrontar com a inexistência de candid aturas femininas.
mulheres em seus quadros políticos. As mulheres Para superar esta dificuldade é necessário
foram estimuladas a se filiar aos partidos, a que os partidos coloquem à disposição das
participar como militantes, a enfrentar as disputas mulheres os meios para que possam disputar
internas e as campanhas eleitorais. em condições de igualdade. É preciso que se
A campanha "Mulheres sem Medo do Poder", pratique, nos partid os e coligações, uma dis-
em 1996, coordenada pela bancada feminina no tribuição igualitária dos recursos financeiros e
Congresso Nacional, conseguiu um enorme êxito e materiais.
teve grande impacto na conscientização das mulheres Será uma ação afirmativa tão importante para
sobre a importância da representação feminina no as mulheres como foi a inclusão do artigo "a" nas
parlamento. Foi um tema que entrou forte no debate cédulas eleitorais e na urna eletrônica, que
e na agenda política nacional. permitiu às candidatas deixarem de ser vereador,
Com o aumento das cotas para 25% nas eleições deputado, senador e governador e passarem a ter
de 1998, a representação de mulheres nas seu gênero reconhecido.
Assembléias Legislativas teve um aumento de 33%, É preciso tornar efetivo aquilo que o Brasil
sendo eleitas 105 deputadas, distribuídas por 15 assinou sem reservas em Beijing.Já está mais do
partidos políticos. que na hora de termos uma divisão eqüitativa de
Em relação à representação na Câmara dos responsabilidades na vida familiar, na vida
Deputados, vários fatores contribuíram para a profissional e no poder político.

lji.J,N1M N°84/85 Março/Agosto de 2000


96
Recomendações de campanha As carências dos municípios são enormes e
para as candidatas às Câmaras os recursos nunca são suficientes para se fazer tudo
que é necessário. Você vai poder contribuir para
Municipais
transformar e melhorar a forma como é aprovado
o Orçamento do seu município, tornando-o mais
O maior desafio é a conquista do voto participativo e menos centralizado. Essa discussão
pode sair da Câmara e ganhar as ruas, promovendo
É preciso, antes de tudo, que a candidata uma nova relação entre Estado e sociedade,
tenha o mínimo de conheimento da Lei Eleitoral permitindo que as pessoas possam fiscalizar melhor
(Lei nº 9504/ 97) e de como se realizam as eleições o que faz a prefeitura e promover novas ações.
no Brasil, para que se sinta mais segura daquilo A Lei Orgânica é a Constituição dos municípios.
que pode ou não como É ela que estabelece as
candidata. Em seguida regras básicas de fun-
é preciso garantir a cionamento da admi-
vaga no seu partido. nistração e dos poderes
Como nas últimas elei- municipais constituídos.
ções municipais (1996) A Lei Orgânica deter-
nenhum partido conse- mina o que faz o prefeito,
guiu preencher a cota o que faz a Câmara dos
mínima de 20%, cer- Vereadores, que matérias
tamente haverá vaga para podem ser preparadas
a sua candidatura, já que por ela e enviadas para o
agora a cota é de 30%. prefeito, etc.
Aqui, algumas É preciso conhe-
observações para a sua cer a Lei Orgânica do
campanha. As informa- seu município. Consiga
ções e dicas que estou uma cópia na Câmara
passando são fruto da Municipal, estude e
minha experiência de
três mandatos de verea- Vote nas veja como usá-la na sua
campanha. Muitas leis
dora na cidade de Soro- orgânicas devem ser
caba, de candidataª pre-
feitaededeputadafede-
Mulheres melhoradas. Vá desde
já estudando o que
ral. Façam bom uso delas . ._______________________,mudar e como. Recolha
O papel da vereadora - O mandato da opinião das pessoas para ir preparando seus
vereadora serve à construção de uma sociedade projetos. Pois a mediocridade de um mandato
melhor. Como vereadora você pode ajudar a criar começa pelo desconhecimento do papel do
novos serviços de atendimento à população. As vereador/ a e das leis que se pretende defender,
creches, a melhoria das habitações, do transporte aperfeiçoar, melhorar ou mudar.
e das condições de ruas e praças podem se tornar Organizando a campanha - O comitê ou
uma prioridade na sua cidade, no seu bairro, se grupo de apoio é o primeiro passo. Defina as
você e outras companheiras estiverem lá, eleitas, tarefas de seus apoiadores ou equipes para polí-
lutando para conseguir isso com o apoio de outras tica, finanças, panfletagens e eventos (cami-
mulheres e homens. nhadas, visitas, comícios, debates, etc.). Ter um

lj'1!1!1UM N°84/85 Março/Agosto de 2000 97


Descreva sua trajetória de vida: o que
fez até agora, o que pensa sobre a
política do país, de sua cidade e da sua
área de atuação. Suas idéias são
extremamente importantes para definir
os rumos de sua campanha. Sua
plataforma eleitoral depende delas.
Após conversar com as pessoas e
ouvir suas reivindicações, apresente a
elas as suas propostas de como
melhorar a cidade. Tente influenciar na
definição da plataforma do candidato/
aa prefeito/a do seu partido ou coli-
gação, apresentando suas sugestões.
Lembre-se das mulheres e da forma
como elas gostariam de mudar a
cidade para que ela se torne melhor
para todos. Não deixe de incluir na
plataforma as lutas especificamente
femininas por melhores escolas,
creches, planejamento familiar, con-
tra a violên cia, a discriminação e o
assédio sexual. Não se pode mais
dissociar tais demandas daquelas que
visam aprimorar o transporte, a
,... .. ,...._...,_......;llíiii~t.;;:;..;;:;i saúde . Todos são temas a serem
tratados por todas as campanhas,
tanto a do prefeito como a sua.
O dia-a-dia da campanha -
Uma campanha política tem um ponto
- - - - - - - - - - - - de partida básico: é preciso que as pessoas
local para o funcionamento do Quartel General saibam que você é candidata. Use de todos os meios
tamém é importante. Caso contrário, use sua para alcançar este objetivo: debates, entrevistas nos
própria casa ou a de um / a apoiador / a. Os jornaiserádioslocaisenasrádioscomunitárias.
assessores de seu comitê são as pessoas próximas. Vá às feiras, às portas de fábrica, às escolas e
Apoie-se nos amigos, familiares, colegas de trabalho, distribua seu material de campanha. Deixe também
pessoas do seu bairro, da sua igreja, clube, sindicato, seus "santinhos" nas lojas onde é freguesa. E pro-
associações, vizinhos, etc. (não só mulheres, lembre- cure criar grupos de apoio em outros bairros, além
se que você será vereadora de todos os cidadãos e do seu, para ganhar mais eleitores. Peça a cada
cidadãs do seu município). Serão elas que cuidarão apoiador que transforme sua residência em um
da agenda, das finanças e da promoção dos eventos "comitê popular" da sua campanha. Um centro
políticos de sua campanha. irradiador das idéias da sua candidatura.
Em seguida, a tarefa é fazer um panfleto ou Não se esqueça de organizar uma lista de
/o/der apresentando sua candidatura aos eleitores. endereços para enviar sua correspondência: convites

1fr1,I.f'S1N°84/85 Março/Agosto de 2000


98
para debates e eventos, comunicação de sua agenda EXPLORE OS ASPECTOS
e compromissos que fazem parte da sua candidatura. POSITIVOS DA
Também se deve enviar o panfleto dizendo por que
PARTICIPAÇÃO DAS
você é candidata para o maior número de pessoas
possível, já que o maior desafio a vencer é fazer
MULHERES
com que se saiba que você é candidata. NA POLÍTICA: SERIEDADE,
Como conseguir dinheiro? Fazer rifas, leilões, HONESTIDADE,
vender camisetas, pedir contribuições com um livro COMPROMISSO
de ouro, etc. pode até ajudar a arrecadar algum COM O SOCIAL E
dinheiro. Porém, essas iniciativas geralmente
SENSIBILIDADE ... PORÉM,
propiciam uma arrecadação muito modesta em
relação às necessidades de recursos de uma campanha NÃO DIRIJA A SUA
eleitoral de vereador/ a. Assim, é preciso montar uma PLATAFORMA E CAMPANHA
rede de contribuintes e financiadores da campanha. UNICAMENTE PARA AS
Visite o quanto antes os amigos, profissionais liberais, MULHERES
empresários e pessoas que possam ajudar financeira
ou materialmente a campanha. Todo esforço para Cobre do seu partido uma distribuição
conseguir recursos é válido. Só não abra mão de seus igualitária dos recursos financeiros e materiais.
princípios e nem dos objetivos da sua candidatura. Defenda no interior do seu partido que não pode
É preciso que a campanha tenha um/ a haver privilégios a nenhum candidato. E que se
tesoureiro/ a que, além de arranjar os fundos coloque à disposição das mulheres os meios para
necessários, ajudará na prestação de contas para que possam disputar em igualdade de condições.
a Justiça Eleitoral (para isso, guarde todos os Agenda de compromissos - Sua campanha
recibos das doações e das despesas da campanha). precisa de um/ a coordenador/ a para organizar sua
agenda, que é vital para não esquecer, faltar ou
LEMBRE-SE atrasar nos compromissos , que tendem a se
multiplicar. Da mesma forma, você deve sempre
DAS MULHERES E DA FORMA comparecer acompanhada de colaboradores, pois
COMO ELAS GOSTARIAM DE você não é candidata de si mesma. Mostre que tem
MUDAR A CIDADE PARA QUE apoio. E nunca falte aos compromissos. Sua
ELA SE TORNE presença é importante em todos compromissos do
MELHOR PARA TODOS. NÃO seu/sua candidato/a a prefeito /a, nos grandes
eventos da campanha. É nesse momento que você
DEIXE DE INCLUIR NA
pode dar demonstração de força, levando suas
PLATAFORMA AS LUTAS bandeiras e a sua militância.
ESPECIFICAMENTE FEMININAS A campanha termina no último dia -
POR MELHORES Você precisa ir se preparando para o "DiaD", que
ESCOLAS, CRECHES, é o dia da eleição. Vá fazendo um mapeamento de
PLANEJAMENTO FAMILIAR, onde ficam as principais áreas de atuação daquelas
CONTRA A VIOLÊNCIA, pessoas que apoiam a sua candidatura e preparando
um "esquema" para o dia da eleição. É a chamada
A DISCRIMINAÇÃO "boca-de-urna". Na última hora você pode
E O ASSÉDIO conquistar mais alguns votos. A "boca-de-urna"
SEXUAL pode ser decisiva para a sua eleição.

99
do poderio de estrutura de determinados
candidatos. A eleição será definida no dia 1º
de outubro, pelo seu esforço, trabalho,
determinação e competência.
Explore os aspectos positivos da
, participação das mulheres na política:
seriedade, honestidade, compromisso com
o social e sensibilidade. E-tenha claro quais
são as funções de uma vereadora. Não
prometa coisas que você sabe que não pode
cumprir ou que não competem à Câmara
Municipal. Porém, não dirija a sua
plataforma e campanha unicamente para as
mulheres. Pode até ser a sua prioridade. O
seu programa e a campanha devem ser
amplos, mesmo porque a mulher está
presente com seus problemas em todos os
setores da sociedade.
Procure falar e se destacar sempre nos
eventos partidários, como caminhadas,
comícios, panfletagens. Não perca nenhuma
oportunidade de divulgar sua candidatura,
suas propostas e de conquistar mais votos.
Voto nunca é demais.
Não perca tempo disputando espaços
com candidatos dentro do seu partido ou
coligação. Eles não são os seus adversários. A
Dicas úteis para o dia-a-dia da somatória de votos de todos os candidatos do seu
sua campanha partido ou coligação é que vai eleger alguns e você
poderá estar entre eles/as. Tente conciliar suas
Nunca julgue que a campanha está ganha. Faça tarefas partidárias e de campanha com as tarefas
campanha sempre. Não desanime com a resistência do lar, que pesam muito sobre a mulher. O apoio
de alguns eleitores. Respeite a opinião de todos. Con- do marido, companheiro, namorado e familiares é
verse muito, tente convencer as pessoas a votarem importante para o andamento das suas tarefas. Sem
em você. Mas não perca tempo quando o eleitor conflitos domésticos, tudo vai andar melhor.
disser que já tem outro candidato. Existem milhares D ê importância a sua aparência . Ela é
de outros que ainda não se decidiram. Estes devem primeira avaliação que o eleitor fará de você. Seja
ser o seu "alvo" preferencial. Mas nunca tenha discreta, mas sem descuidar do modo de ves tir,
vergonha de dizer que é candidata, por que é maquiar ou algum detalhe específico que você
candidata, qual o seu partido, quem você apoia para adotar como marca pessoal.
prefeito/ a e os apoios que você tem. O eleitor quer E saiba que, mesmo que você não se eleja
saber estas informações. agora, você será uma vitoriosa. Sairá de todo este
Você também não deve se intimidar diante de processo com credenciais para outras disputas.
candidaturas que acham estar ganhas e nem diante No partido e na sociedade.

100
lji.l•I•fjM N°84/85 Março/Agosto de 2000
O Futuro das Metrópoles: Desigualdades e Governabilidade
Organizador: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro
Observatório IPPUR/UFRJ/FASE

Este livro conta com artigos de Adauto Lucio Cardoso, Carlos A de Mattos, Jesús
Leal Maldonado, José Luís Fiori, José Luis Coraggio, Licia Valladares, Orlando
dos Santos Jr., Suzana Pastemak Daschner, entre outros.
Esta é uma obra fundamental para aqueles que desejam compreender o nosso
tempo e que acreditam que o futuro não está predestinado, mas que será resultado
da história construída no passado, presente e no próprio futuro.
632 p. R$50,00
Pedidos pelo te!: (XXX21) 286-1441 ou pelo e-mail sbrandao @fase.org. br

Desigualdades e Segregação na Metrópole: O Rio de Janeiro em


tempo de crise
De Luciana Corrêa do Lago
Observatório IPPUR/UFRJ/FASE

A classe média está indo para as favelas? As camadas populares continuam


sendo expulsas dos bairros da orla marítima? Os segmentos mais ricos estão
mesmo abandonando a Zona Sul, refugiando-se nos condomínios fechados da
Barra da Tijuca?
Eis algumas das questões para as quais o leitor encontrará respostas neste livro.
238 p. R$25,00
Pedidos pelo te!: (XXX21) 286-1441 ou pelo e-mail sbrandao@fase.org.br

Ensaios sobre o desenvolvimento brasileiro: Heranças e urgências


De Tânia Bacelar de Araújo
Observatório CMG/UFPE - NESC/CPOAM - FASE/NE

Os trabalhos de Tânia Bacelar reunidos neste livro são um norte para pesquisas e
ações pelo entendimento dos rumos do crescimento econômico brasileiro; um processo
dinâmico e potente marcado, pelas suas características de exclusão social e de
injustiça espacial, comprometendo o alcance do desenvolvimento. São ensaios que
iluminam problemas e questões que a elite brasileira não tem nenhum interesse em
ver compreendidas e discutidas pelos que não a integram. É certamente uma leitura
pouco cômoda para alguns e da maior importância e significado para a maioria.
389 p. R$35,00
Pedidos pelo tel: (XXX21) 2861441 ou pelo e-mail: sbrandao @fase.org.br

ljN1NiM N°84/85 Março/Agos to de 2000 101


Novo site da FASE venha
visitar e conhecer

os seus extremos
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A impunidade e a injustiça na Apostando no Turma 2000 do Curso Políticas
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questão agrária brasileira, com Protagonismo dos Públicas e Gest~o Local para
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Proposta
Trabalho e
desenvolvimento humano

O próximo número de Proposta abordará temas da economia


do trabalho a partir de questões como os novos territórios e redes
produtivas, precarização das relações de trabalho e economia solidária.
As mudanças no regime de acumulação e nas relações de trabalho
têm sido um terreno de disputa chave na formulação de novas propostas
de organização da sociedade neste final de século. A crise do trabalho
assalariado e a questão da globalização têm forçado o surgimento de
uma nova plataforma e demandas por políticas públicas ativas de novo
tipo para enfrentar o desemprego e a precarização. Proposta abordará
estas questões a partir das formulações de alguns dos seus principais
mentores. A análise sociológica do mundo do trabalho brasileiro e a
montagem de sistemas públicos municipais de emprego também vão
ser tratadas tendo em vista a busca de alternativas. Essa reconstrução
dos temas que recobrem a questão do trabalho e da cooperação entre
novos sujeitos sociais leva em conta uma perspectiva crítica em relação
à noção de desenvolvimento humano.
Proposta 86 trará ainda um dossiê sobre a Índice de Desenvol-
vimento Humano da população afro-descendente no Brasil como
parte de um trabalho desenvolvimento pelos pesquisadores do projeto
do Atlas Afro-brasileiro.

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