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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.526.287 - SP (2013/0175505-2)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI


RECORRENTE : MILTON COLLAVINI
RECORRENTE : SHOPPING CENTER SÃO BERNARDO DO CAMPO S/C LTDA
ADVOGADOS : DANIEL PEZZUTTI RIBEIRO TEIXEIRA E OUTRO(S) - SP162004
LUIZ CARLOS STURZENEGGER E OUTRO(S) - DF001942A
RECORRIDO : JOSÉ ROBERTO DE ARAÚJO PELOSINI
ADVOGADOS : CLARISSE FRECHIANI LARA LEITE E OUTRO(S) - SP206916
GIOVANNA FILIPPI DEL NERO E OUTRO(S) - SP330731
MAHE MOREIRA MAIA E OUTRO(S) - SP358777
EMENTA

PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO DE LUCROS


CESSANTES. POSSE INDEVIDA DE IMÓVEL. CUMPRIMENTO DE
SENTENÇA. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA.
ART. 50 DO CC/02. TEORIA MAIOR. ATUAÇÃO DOLOSA E
INTENCIONAL DOS SÓCIOS. UTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE COMO
INSTRUMENTO PARA O ABUSO DE DIREITO OU EM FRAUDE DE
CREDORES. COMPROVAÇÃO CONCRETA. AUSÊNCIA.
1. O propósito recursal é definir se, na hipótese em exame, estão presentes os
pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica, segundo a teoria
maior, prevista no art. 50 do CC/02.
2. Nas relações jurídicas de natureza civil-empresarial, adota-se a teoria maior da
desconsideração da personalidade jurídica, segundo a qual a desconsideração da
personalidade é medida excepcional destinada a punir os sócios, superando-se
temporariamente a autonomia patrimonial da sociedade para permitir que sejam
atingidos os bens das pessoas naturais, de modo a responsabilizá-las pelos prejuízos
que, em fraude ou abuso, causaram a terceiros.
3. Para a aplicação da teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica
exige-se a comprovação de que a sociedade era utilizada de forma dolosa pelos
sócios como mero instrumento para dissimular a prática de lesões aos direitos de
credores ou terceiros – seja pelo desrespeito intencional à lei ou ao contrato social,
seja pela inexistência fática de separação patrimonial –, o que deve ser demonstrado
mediante prova concreta e verificado por meio de decisão fundamentada.
4. A mera insolvência da sociedade ou sua dissolução irregular sem a devida baixa
na junta comercial e sem a regular liquidação dos ativos, por si sós, não ensejam a
desconsideração da personalidade jurídica, pois não se pode presumir o abuso da
personalidade jurídica da verificação dessas circunstâncias.
5. In casu, a Corte estadual entendeu que a dissolução irregular da sociedade
empresária devedora, sem regular processo de liquidação, configuraria abuso da
personalidade jurídica e que o patrimônio dos sócios seria o único destino possível dos
bens desaparecidos do ativo da sociedade, a configurar confusão patrimonial. Assim,
a desconsideração operada no acórdão recorrido não se coaduna com a
jurisprudência desta Corte, merecendo reforma.
6. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, provido.

Documento: 1602818 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 26/05/2017 Página 1 de 4
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ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceira


Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas
constantes dos autos, por unanimidade, conhecer em parte do recurso especial e, nesta parte,
dar-lhe provimento, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Paulo de
Tarso Sanseverino, Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra
Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.

Brasília (DF), 16 de maio de 2017(Data do Julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI


Relatora

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RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : MILTON COLLAVINI
RECORRENTE : SHOPPING CENTER SÃO BERNARDO DO CAMPO S/C LTDA
ADVOGADOS : DANIEL PEZZUTTI RIBEIRO TEIXEIRA E OUTRO(S) - SP162004
LUIZ CARLOS STURZENEGGER E OUTRO(S) - DF001942A
RECORRIDO : JOSÉ ROBERTO DE ARAÚJO PELOSINI
ADVOGADOS : CLARISSE FRECHIANI LARA LEITE E OUTRO(S) - SP206916
GIOVANNA FILIPPI DEL NERO E OUTRO(S) - SP330731
MAHE MOREIRA MAIA E OUTRO(S) - SP358777

RELATÓRIO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI:

Cuida-se de recurso especial interposto por SHOPPING CENTER


SÃO BERNARDO DO CAMPO S/C LTDA e por MILTON COLLAVINI, com
fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional.
Recurso especial interposto em: 07/08/2012.
Conclusão ao Gabinete em: 25/08/2016.
Ação: de indenização por lucros cessantes, ajuizada por JOSÉ
ROBERTO DE ARAÚJO PELOSINI, em face da primeira recorrente, relativos
ao período de posse indevida de imóveis posteriormente restituídos ao recorrido
em decorrência da procedência do pedido de ação possessória, que se encontra na
fase de cumprimento de sentença.
Decisão interlocutória: deferiu o pedido de desconsideração da
personalidade jurídica da recorrente, formulado pelo recorrido, para incluir seus
sócios no polo passivo do cumprimento de sentença.
Acórdão: negou provimento ao agravo de instrumento interposto
pelos recorrentes, mantendo a decisão de desconsideração da personalidade
jurídica sob o fundamento de que o encerramento irregular das atividades autoriza
a medida.
Embargos de declaração: interpostos pelos recorrentes, foram
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rejeitados.
Recurso especial: alegam violação dos arts. 499, 515, § 3º, e 535,
II, do CPC/73; 44, II, 50 e 1.052 do CC/02; 20 do CC/16; 10 do Decreto
3.708/1919, bem como dissídio jurisprudencial. Além de negativa de prestação
jurisdicional, asseveram que a sociedade é parte legítima para se insurgir contra a
desconsideração de sua personalidade jurídica. Aduzem que o encerramento
irregular das atividades, por si só, não pode ensejar a desconsideração de sua
personalidade. Sustentam que, uma vez integralizado o capital social, os sócios de
sociedade de responsabilidade limitada não respondem por seus prejuízos sociais.
Alegam que o acórdão recorrido deveria ter examinado as teses suscitadas em
primeiro grau de jurisdição e que embasariam a impossibilidade de
desconsideração da personalidade jurídica.
É o relatório.

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ADVOGADOS : DANIEL PEZZUTTI RIBEIRO TEIXEIRA E OUTRO(S) - SP162004
LUIZ CARLOS STURZENEGGER E OUTRO(S) - DF001942A
RECORRIDO : JOSÉ ROBERTO DE ARAÚJO PELOSINI
ADVOGADOS : CLARISSE FRECHIANI LARA LEITE E OUTRO(S) - SP206916
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VOTO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

O propósito recursal é determinar se, na hipótese em exame, estão


presentes os pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica,
segundo a teoria maior, prevista no art. 50 do CC/02.

- Julgamento: CPC/73.

I- Da violação do art. 535, II, do CPC/73


No acórdão recorrido não há omissão, contradição ou obscuridade.
Dessa maneira, o art. 535, II, do CPC/73 não foi violado.
De fato, o acórdão recorrido enfrentou todos os temas suscitados
pelos recorrentes, ainda que em sentido diverso do por eles pretendido,
notadamente acerca dos requisitos para a desconsideração da personalidade
jurídica da sociedade recorrente. Não houve, assim, negativa de prestação
jurisdicional capaz de ensejar a declaração de nulidade do acórdão recorrido.

II - Da ausência de prequestionamento (arts. 499 e 515, § 3º, do


CPC/73)
O acórdão recorrido não decidiu acerca dos arts. 499 e 515, § 3º, do

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CPC/73, indicados como violados, apesar da interposição de embargos de
declaração. Por isso, o julgamento do recurso especial é inadmissível. Aplica-se,
neste caso, a Súmula 211/STJ.
Ademais, a ausência de prequestionamento do tema que se supõe
divergente, qual seja, a aplicação do art. 499 do CPC/73, referente à legitimidade
recursal, impede o conhecimento da insurgência veiculada pela alínea "c" do art.
105, III, da CF/88. Nesse sentido: AgRg no AREsp 559.004/SP, Quarta Turma,
DJe 30/05/2016 e AgRg no AREsp 732.472/SP, Terceira Turma, DJe
03/11/2015.

III - Da Pessoa Jurídica e da autonomia de seu patrimônio


A personalidade jurídica é, segundo Francesco Ferrara, “uma
armadura jurídica para realizar de modo mais adequado os interesses do
homem” (in TOMAZETE, Marlon. Curso de Direito Empresarial: Teoria
Geral e Direito Societário. v. 1, 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2013. p. 235).
Trata-se de instituto jurídico cujo objetivo é incentivar o
empreendedorismo por meio da limitação de seus riscos, fomentando, assim, o
desenvolvimento econômico da sociedade por meio da produção de riquezas, do
aumento da arrecadação de tributos, da criação empregos e da geração de renda.
Essa limitação dos riscos ocorre por meio da previsão de autonomia
do patrimônio da pessoa jurídica em relação ao dos seus sócios; uma forma de
“blindagem patrimonial”. Essa “blindagem” impede que, na hipótese de insucesso
nos investimentos, a responsabilidade seja atribuída de forma imediata e pessoal
aos sócios, favorecendo a exploração da atividade empresarial.
É por isso que, em regra, os bens particulares dos sócios somente
podem ser executados por dívidas da sociedade depois de executados os bens da
pessoa jurídica, nos termos do art. 1.024 do CC/02.

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A depender do tipo societário, a autonomia do patrimônio da pessoa
jurídica em relação ao dos sócios é, todavia, ainda mais ressaltada, como é a
hipótese das sociedades por cotas de responsabilidade limitada. De acordo com o
disposto no art. 10 do Decreto 3.708/1919 e, atualmente, no art. 1.052 do CC/02,
a responsabilidade dos sócios é restrita ao valor de suas quotas, somente sendo
possível sua responsabilização ilimitada, alcançando seu patrimônio individual, na
hipótese de excesso de mandato ou de violação ao contrato ou da lei.
De fato, “a regra é de que a responsabilidade dos sócios em
relação às dívidas sociais seja sempre subsidiária, ou seja, primeiro exaure-se
o patrimônio da pessoa jurídica para depois, e desde que o tipo societário
adotado permita, os bens particulares dos sócios ou componentes da pessoa
jurídica serem executados” (TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil:
volume único. 4. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro, São Paulo: Forense,
Método, 2014. p. 137).

IV - Da Desconsideração da Personalidade Jurídica (art. 50 do


CC/02)
A personalidade jurídica e a blindagem patrimonial dela decorrente
são véus que devem proteger o patrimônio dos sócios na justa medida da
finalidade para a qual a sociedade se propõe a existir.
Nas relações civis-empresariais, segue-se, quanto ao tema, o disposto
no art. 50 do CC/02, o qual, segundo a jurisprudência desta Corte, adota a teoria
maior da desconsideração da personalidade jurídica (AgInt nos EDcl no AREsp
960.926/SP, Rel. Terceira Turma, DJe 02/02/2017; REsp 1.325.663/SP, 3ª
Turma, DJe 24/06/2013; AgInt no AREsp 472.641/SP, Quarta Turma, DJe
05/04/2017; AgRg no AREsp 159.889/SP, 4ª Turma, DJe 18/10/2013).
Segundo essa teoria, se a autonomia patrimonial servir de ensejo para

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que os sócios utilizem as sociedades como instrumento para a realização de
fraude contra os credores ou mesmo abuso de direito, praticados mediante
violação da lei ou do contrato social e, ainda, da confusão patrimonial, a
personalidade jurídica deve ser desconsiderada.
A teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica tem
como parâmetro de incidência, portanto, a atuação ilegítima da sociedade. Desse
modo, segundo a teoria maior, a autonomia patrimonial é relativizada para punir
os sócios, superando-se temporariamente a personalidade jurídica da sociedade
para permitir que sejam atingidos os bens das pessoas naturais, de modo a
responsabilizá-las pelos prejuízos que, em fraude ou abuso, causaram a terceiros.
A teoria maior da desconsideração fortalece e aperfeiçoa a pessoa
jurídica, porquanto tende a fortalecer a separação patrimonial, evitando os
indevidos desvios de finalidade ou a mistura de patrimônio da sociedade com o
dos sócios.
A rigor, portanto, a desconsideração da personalidade da pessoa
jurídica resguarda interesses de credores e também da própria sociedade
indevidamente manipulada.

V – Da interpretação dos requisitos da Teoria Maior da


Desconsideração pela jurisprudência da Segunda Seção
Em nosso ordenamento jurídico civil-empresarial, a desconsideração
da personalidade prevista no art. 50 do CC/02 consiste em medida que ocorre
sempre excepcionalmente, e nunca de forma geral.
É medida excepcional, pois, caso contrário, esvaziar-se-ia por
completo a proteção conferida pelo ordenamento jurídico às sociedades de
responsabilidade limitada e aos respectivos sócios, cujo patrimônio passaria a
estar sujeito a percalços econômico-financeiros, inevitáveis e inerentes ao normal

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desenvolvimento da atividade empresarial.
A desconsideração da personalidade jurídica exige, portanto, a
verificação objetiva do preenchimento do pressuposto legal que autoriza a sua
aplicação, qual seja, o abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio
de sua finalidade ou pela confusão patrimonial.
Nessa linha, já decidiu a Segunda Seção que “para a aplicação da
teoria maior da desconsideração da personalidade social, exige-se o dolo das
pessoas naturais que estão por trás da sociedade, desvirtuando-lhe os fins
institucionais e servindo-se os sócios ou administradores desta para lesar
credores ou terceiros” (EREsp 1306553/SC, Segunda Seção, DJe 12/12/2014).
De acordo com o entendimento desta Corte, por meio da atuação
ilícita e fraudulenta dos sócios, a pessoa jurídica é utilizada como mero
instrumento para dissimular a prática de lesões aos direitos de credores ou
terceiros. Por esse motivo, “para se deferir a desconsideração da personalidade
jurídica, é necessária prova concreta do abuso da personalidade” (AgInt no
AREsp 937.023/PR, Quarta Turma, DJe 13/10/2016; AgRg no AREsp
757.873/PR, Terceira Turma, DJe 03/02/2016).
É imprescindível, pois, que exista comprovação do “abuso da
personalidade jurídica, como excesso de mandato, demonstração do desvio de
finalidade (ato intencional dos sócios em fraudar terceiros com o uso abusivo
da personalidade jurídica) ou a demonstração de confusão patrimonial
(caracterizada pela inexistência, no campo dos fatos, de separação patrimonial
entre o patrimônio da pessoa jurídica e dos sócios ou, ainda, dos haveres de
diversas pessoas jurídicas)” (AgInt nos EDcl no AREsp 960.926/SP, Rel.
Terceira Turma, DJe 02/02/2017; AgInt no AREsp 472.641/SP, Quarta Turma,
DJe 05/04/2017).
Diante disso, a mera demonstração de estar a pessoa jurídica

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insolvente para o cumprimento de suas obrigações ou mesmo a alteração de
endereço, não constitui motivo suficiente para a desconsideração da personalidade
jurídica, não se podendo presumir, dessas circunstâncias, a efetiva prática do
abuso da personalidade jurídica. Por essa razão, “as instâncias ordinárias
devem, fundamentadamente, concluir pela ocorrência do desvio de sua
finalidade ou confusão patrimonial desta com a de seus sócios, requisitos
objetivos sem os quais a medida torna-se incabível” (AgRg no REsp
1496638/SP, Terceira Turma, DJe 28/10/2016).

VI – Da hipótese concreta
O Tribunal de origem fez, de fato, remissão aos fundamentos da
decisão de primeiro grau de jurisdição que havia deferido a desconsideração da
personalidade jurídica da sociedade recorrente.
A decisão de primeiro grau, por sua vez, enumerou os seguintes
fundamentos para admitir a desconsideração da personalidade jurídica:

a) o descompasso entre a prosperidade econômica e a posterior


insolvência da pessoa jurídica;

b) o esvaziamento patrimonial contemporâneo ao encerramento da


atividade empresarial; e

c) a não realização de encerramento irregular, com processo de


liquidação, caracterizadora, a um só tempo, do desvio de finalidade –
haja vista que a dissolução irregular teve o objetivo de livrar a pessoa
jurídica da responsabilidade, e não o de realizar o objeto social – e da
confusão patrimonial – pois o patrimônio dos sócios seria o único
destino possível dos bens sociais –, sendo essa a moldura fática
delimitada pelo acórdão recorrido (e-STJ, fl. 554).

Se essas circunstâncias estão na moldura fática do acórdão recorrido,

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não é necessário reexaminar fatos e provas para a análise da alegada violação ao
art. 50 do CC/02.
Com efeito, a decisão de primeiro grau destaca que o encerramento
irregular caracteriza desvio de finalidade e que essa prática abusiva configura
confusão patrimonial, pois o patrimônio dos sócios seria “o único destino
possível de bens desaparecidos do ativo da sociedade” (e-STJ, fl. 382).
Infere-se, portanto, que a Corte estadual, ao aderir aos fundamentos
constantes na decisão interlocutória que deferiu a aplicação da disregard doctrine
(e-STJ, fls. 381-383), entendeu que a dissolução irregular da sociedade
empresária devedora e sua insolvência fariam presumir a ocorrência do abuso da
personalidade jurídica.
Assim, o entendimento veiculado no acórdão recorrido contraria a
orientação jurisprudencial do STJ de que a mera demonstração de insolvência da
pessoa jurídica ou de dissolução irregular da empresa sem a devida baixa na Junta
Comercial, por si sós, não servem de ensejo à Desconsideração da Personalidade
Jurídica prevista no art. 50 do CC/02.
Com efeito, como se trata de aplicação da teoria maior da
desconsideração, é necessária a prova concreta do desvio de finalidade ou da
confusão patrimonial. Seria necessária, portanto, a demonstração de que a
sociedade era utilizada de forma dolosa pelos sócios como mero instrumento e
para dissimular a prática de lesões aos direitos de credores ou terceiros – seja pelo
desrespeito intencional à lei ou ao contrato social, seja pela inexistência fática de
separação patrimonial – o que não é evidenciado na hipótese dos autos.
O acórdão recorrido merece, portanto, reforma, ante a ausência de
comprovação da ocorrência do abuso da personalidade jurídica praticado
dolosamente pelos sócios da pessoa jurídica executada ou de inexistência de
separação fática entre seus patrimônios, requisitos autorizadores da medida de

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desconsideração da personalidade jurídica prevista no art. 50 do CC/02.

VII – Dispositivo
Forte nessas razões, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso
especial e, nessa parte, DOU-LHE PROVIMENTO para afastar a
desconsideração da personalidade jurídica da primeira recorrente em relação ao
segundo recorrente, impedindo que seu patrimônio seja responsabilizado pelas
dívidas da sociedade.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2013/0175505-2 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.526.287 / SP

Números Origem: 00639292720118260000 5640119960117543 639292720118260000 70842038

PAUTA: 16/05/2017 JULGADO: 16/05/2017

Relatora
Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. MÁRIO PIMENTEL ALBUQUERQUE
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : MILTON COLLAVINI
RECORRENTE : SHOPPING CENTER SÃO BERNARDO DO CAMPO S/C LTDA
ADVOGADOS : DANIEL PEZZUTTI RIBEIRO TEIXEIRA E OUTRO(S) - SP162004
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ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Coisas - Posse - Esbulho / Turbação / Ameaça

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Terceira Turma, por unanimidade, conheceu em parte do recurso especial e, nesta
parte, deu-lhe provimento, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Marco Aurélio Bellizze (Presidente) e
Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.

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