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Pe. Hélio Abranehes Viotti S. J.

A 26 de dezembro de 1552 partia de Assunção do Paraguai G soldado alemão Ulrico Schmidel que, depois de quase seis mesrs de viagem, atingia São Vicente a 13 de junho de 1553. Do relato de sua jornada, entrecortada de peripécias, através do interior de nosso atual Estado de São Paulo, apenas duas observações nos in- teressam no momento. Transpondo o Rio Paraná e penetrando algum tanto o nosso atual território, declara o aventureiro: "Agora começa a terra do

Rei de Portugal, (a terra) dos Tupis". Pouco

antks, referindo-se

a um lugar de nome Guingui, junto ao mesmo Paraná, que subi- ra pelo espaço de cem léguas, afirmara: "Até este lugar, tudo per- tence à Cesárea Majestade e é terra dos Carijós" (I).

Para o viajante, o Brasil começava onde tinha princípio o do-

mínio dos Tupis. Tupis e não Guaianases foram os Índios que en- controu, durante todo o percurso ate São Vicente. Hostis e selva- gens, os do sertão, pacíficos e aliados aos Portugueses os que vi- viam nas vizinhanças da povoacão portuguesa de Santo André. Cinquenta mil arcos, calcula com evidente exagero, eram os que

João

defender sua autonomia em face do Rei de Portugal.

Ramalho poderia mobilizar a seu favor, caso pretendesse

Bem mais lúcida e rica de informações de toda ordem é a narrativa de um conterrâneo seu, publicada na Alemanha anos depois e que, na versão de Carvaiho Franco, se intitula Duas via- gens ao Brasil. Para João Staden, os Tupis da Capitania de São Vicente, se denominam Tupiniquins. "Os Portugueses que aí mo- ram - nos diz ele - são amigos de uma tribo de selvagens bra- sileiros os Tupiniquins, cuja região se extende em oitenta milhas para o interior da terra e quarenta ao longo da costa". (2)

Trata-se naturalmente de milhas alemãs, de 7.407

metros.

O domínio, pois, dos Tupiniquins, se dilatava cerca de seiscentos

quilbmetros para o interior, ocupando cerca de trezentos quilb

1)

Derrotwo a, viaje o EsPnCia y

3) o. nt., sao P~UIO, 1947, 72-78.

loa Indi~s, Ruenos

Mies,

1947, 130.

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metros de litoral. Até Superagui, isto é a costa setentrional da Baía de Paranaguá, nos afiança ele expressamente. Pelo lado nor- te o limite seria a Ilha de São Sebastião. As medidas são eviden- temente Anchieta e os demais jesuitas, ao referir-se aos Índios da Ca- pitania de São Vicente, os denominam igualmente como Tupis. "Tupis do Campo", "Tupis do Sertão". Na exposição que, por or- ciem de Nóbrega, escreveu sobre suas aventuras na América do Sul, a propósito de sua viagem de Assunção para São Vicente no mo de 1553, pouco antes de Schmidel, apelida-os Antônio Rodri- gues de Tupiniquins. Referências anteriores, como as do aguazil da esquadra de

Sebastião

Caboto, Antônio Ponce, como as de Diogo Garcia, (3)

nomeiam Tupis aos Índios do litoral vicentino. Fontes rioplaten- ses posteriores são unânimes a respeito. O mesmo se diga de Fer- não Cardim, de Francisco Soares e outros cranistas posteriores. Sobre o caso devem ser consultadas sobretudo as Atas da Câmara de Sáo PauEo, principalmente o ofício ai transcrito dos Camaris- tas a Estácio de Sá (5). 2 certo, atretanto, que na mesma Capitania de São Vicentõ - e isto pode igualmente ser verificado através das mesmas Atas -, existiam entremeiados entre os Tupiniquins e as Tupinambas, isto é Tamoios do Vale do Paraiba e da Guanabara, outros Índios de raça ou tapuia, ora denominados Papanases, ora Guaiana- ses, ora Maromomis, Guarumimins, Guarulhos etc. Sobre tais Guaianases ou Maromomis, reproduzi na biogra- fia de Anchieta extenso fragmento anchietano, incluido confessa- damente por Pero Rodrigues na Viãu do Pudre José, em que este lhes descreve os costumes assaz diferentes dos hábitos de vida dos Tupis: bem mais mansos do que eles, não antropófagos, dor- mindo no chão sobre folhas e não em redes, sustentando-se ape- nas da caça e da pesca e da colheita dos frutos naturais, sem cul- tivar a terra, inteiramente nômades, monógamos e bem inclina- dos em relação aos Portugueses. No seu Roteiro do Brasil, ao falar da Capitania de São Vicen- te, cita Gabriel Soares de Souza o nome desses Índios, nessa épo- ca vindos a maior notoriedade, com a fundação de Guarulhos, cujos costumes descreve exatamente nos mesmos termos. E como deixa de citar os Tupis, então desaparecidos do litoral, moti- vo a que se crie a confusão, que mais tarde criou raizes nos textos de Pedro Taques e Frei Gaspar da Madre de Deus. Os Tupis aí nos aparecem fantasiados de Guaianases

3) Apud - J. Cortesáo. A Funduçùu de 8do Paulo, S.P., 1955, 127-128.

4)

5) atos do cainura d;r viia ds sao ~ou~o.I, 42-45,

Carta.

em

RIECB

XV

9-10.

--

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A Gabriel Soares contrapõe Capistrano de Abreu o testemu-

nho de Antonio Knivet, o aventureiro inglês. Soares de Souza fa- lava segundo informações de oitiva, nunca viajara da Bahia para

o Sul. Knivet, embora muito inferior sob vários aspectos ao Se-

nhor de Engenho da Bahia, falou do que viu. Contemporânea- mente. E distingue perfeitamente os Guaianases dos nipis. Loca- liza-os no fim do século XVT em Caraguatatuba, na Ilha Grande

e Angra dos Reis. Para decidir a questão bastam a meu ver dois argumentos. O prisioneiro de tribo inimiga dos Tupis de São Paulo, por um triz sacrificado em Piratininga em princípios de 1555 pelo próprio Ti- biriçá e, com grande indignação do velho morubixaba, arrebata- do em tempo pelos jesuitas que lhe salvaram a vida, classifica-o Anchieta como um Papaná (6). fndios de que trata igualmente Nóbrega no seu Diálogo soòre a conseruaçáo do GentSo. Simão de Vasconcelos, citando os apontamentos de Anchieta, como um Guaianá, ou Maromomi (7).

Pois bem, vinte anos depois, tendo fugido de Piratininga, rea-

parece ele em Sb Vicente e, reconhecido por Anchieta, dá ocasião

a que o Superior da Casa de São Vicente, valendo-se do zelo de

Manuel Viegas, e do patmínio de Jerônimo Leitáo,*inicie a cate quese dos Maromomis em Bertioga, catequese que anos depois dará como resultado a fundação de Guarulhos. Eis aí identificados Pa- panases, Guaianases, Maromomis e Guarulhos Novo argumento é o que se colhe na Informqáo dos casa- mmtos dos fndios do Brasil de Anchieta, pela cópia de fcvora. Re- fere o Apóstolo do Brasil que, em São Paulo, o velho Caiubi, an- teriormente ao batismo sem dúvida, repudiando esposa de sua

nação, isto é da raça tupi. tomou por mulher uma prisioneira guaia- ná, de outra nação inimiga, que vivia pelos matos. Para Anchieta os Guaianases eram raça diferente dos Tupis que tão bem conhe-

ceu na Capitania de São Vicente

é tempo de aceitarmos a argumentação de Capistrano de Abreu, acompanhado na sua tese por Teodoro Sampaio, Rodolfo von Ihering, Antonio de Toledo Piza, João Mendes de Almeida. Desterremos para suas serranias nativas os tais Guaianases de Pe- aro Taques, e Frei Gaspar. Repovoemos as aldeias catequizadas pelos jesuitas no século XVI até a fundação de Guarulhos, com crs nossos antepassados Tupis ou Tupiniquins. Piratinanga, Jaraibati- ba, Pinheiros, São Miguel, Ibirapuera, Mairanhaia, Manicoba eram aldeias de fndios Tupis e não de fndios Guaianases.

(8).

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7)

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Vida

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L.1, c. V, no 9 e L.111, c. IX

A

.

Venevduel

ao 2: Crhica, L. 11. S 197:

11. 236.

vida ao PP JoBo de ~l111p'de.p. 75 - Cf. Antunio Fnineo, Imagem de Cgimbra,

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De Maniçoba precisamente é que venho tratar. De Maniçoba, como dizem quase todos os textos jesuítas antigos, ou Mandiçoba, como se encontra no manuscrito do DiáLogo sobfe a conversáo do Gentio do Padre Manuel da Nóbrega. Manipba ou Mandiçoba vem a significar simplesmente a "folha ou de mandioca" Da

aldeia primitiva seguia para São Vicente, parte daquela farinha, que iria ser consumida pelos meninos do colégio de Leonardo Nu- nes: "a farinha vem-lhe de longe - nos conta AmbrMo Pires, reportando-se a certo testemunho sobre Nóbrega -; primeiro é podre que comida" (9).

. Maniçoba, segundo

Simão de Vasconcelos recebia ainda outro nome, o de Japiuba. Japiuba qu'er dizer apenas "érvore dos Japis ou Japus", certo pás- saro que aqui deveria ser frequente, vulgarmente conhecido como

Guacho ou Checheo, cujos ninhos nos aparecem formando verda- deiros penduricalhos sob as árvores do campo. João Mendes de Al- meida e Teodoro Sampaio sugerem outras interpretações para o nome da srra. Penso, entretanto, que as explicações mais simples sáo as que mais se aproximam, neste caso, da verdade. Quanto à localização da Almeida de Maniçoba, nenhum outro texto histórice s: avantaja ao da Historia de lu funducicin de1 Cole- gio de1 Rio de Enero, .atribuível ao Padre Quirício Caxa, que a teria redigido pelo ano de 1575. "Neste tempo - traduzimos aqui o texto espanhol - foi o Padre Manuel da Nóbrega com outros vá- rios da Ccmpanhia a Maniçoba, trinta e cinco léguas pelo deser- to adentro, junto de um rio donde embarcam para os Carijós. Ali Ceixou uma casa feita, com alguns da Companhia, onde residi- ram um ano, fazendo muito fruto entre os Índios, e dai se torna- ram a São Vicente". (10). Tais léguas se contam a partir de São Vicente. Se as tomarmos por léguas de três mil braças, comuns no Brasil

mais dr duzentos e do Tietê, "rio donde

embarcavam para os Carijós" do Paraguai, isso nos traz exata-

mente

chieta, na "Quadrimestre de maio a setembro" a distância que

Sendo o seu texto em

Latim, as noventa milhas de que nos fala se devem entender como

mediava entre Piratininga e Maniçoba.

à regiao de Itu-Porto Feliz. Por duas vezes menciona An-

desde o século XVI, representam pouco trinta quilômetros. Seguindo pelo vale

Não longe de Itu está a Serra do Japi

milhas romanas, de 1.480 metros. Noventa milhas seriam pouco mais de 130 quilômetros.

podem ser aproximativas

e até será mister considerá-las um tanto generosas, o que é expli-

Como

b quer que seja, os números acima são bem mais aceitáveis que as

Tais medidas, como antes notei,

cável, dadas as dificuldades do caminho para os viajantes!

9)

10)

Mon. Bros. 11 150. Awis da kibii. NMoml,

XIX. 125.

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cinquenta léguas de que nos fala Pero Correia, na sua carta de 18 de julho de 1554, ou as quarenta de Simão de Vasconcelos. Mesmo tomadas a partir de São Vicente e segundo o padrão da légua então usada em Portugal, nos dariam cerca de trezentos e duzentos e cinquenta quilômetros, o que é demais.

Teria sido Nóbrega o primeiro jesuita a chegar a Maniçoba? Em sua famosa carta de 31 de agosto de 1553, escrita em Pirati- ninga, ele mesmo nos aponta como batedor nessa sua jornada ao

Irmão Pero Correia

pergunta: seria essa a primeira vez que Pero Correia perlustraia esses caminhos? Em duas cartas suas do mês de junho de 1551 (12), nos descreve ele em rápidos traços uma excursão apostólica, na qual, com outros cinco irmãos, acompanhou ao Padre Leonardo Nunes, em busca de certo cristão, que havia oito ou nove anos se

. (11). Podemos, entretanto, arriscar nova

desgarrara no meio dos selvagens.

"No caminho pusemos alguns quinze dias, a maior parte deles por um rio abaixo, que vai por entre mui grandes montanhas e despovoadas, onde nos faltou o mantimento" (13). A descida pelo rio gastou oito a nove dias. Serafim Leite aponta com razão o

Tieté como sendo esse rio. No trajeto, rio abaixo,

na canoa, teve Leonardo Nunes que

Se a comparamas com a excursão de Anchieta no ano de 1568, que levou oito dias de Piratininga até Araraitaguaba, chegamos a conclusão de que o Abarèbebê e, com ele, Pero Correia já ha- viam estado em Maniçoba.

fitltando lugar

.

descer a nado uma légua

Voltemos, porém, a "peregrinação" de Manuel da Nóbrega.

Ela se enquadra totalmente no seu projeto de missão entre o:; Carijós do Paraguai. Sobre o início da catequese entre os Tupis do Campo, eis o que pensava ainda a 12 de junho de 1553: "com eles gastaremos o tempo até vir o Irmão Correia da Bahia (para

onde pretendia então

(14). Registrando no ano seguinte carta de Nóbrega, assevera Luis

era ter esta casa,

por ser cabeça, e a de

gentio, em que se espera mais fruto que neste" (15). No ano seguinte, quatorze meses após a fundação de São

Paulo, insiste Nóbrega, escrevendo a Santo Inácio, a 25 de março

fazer-se uma grande

.), para entrar pela terra adentro"

da Grã, ainda na Bahia: "Sua

Sáo Vicente, por ser a entrada para um

de 1555: "Ali [em Assunção] é

casa"

do Rei, reitera em cartas e em certo Apontamento a mesma obs- tinada aspiração: "sempre me disse o coração, que devia mandar

(16). E já de volta à Bahia, para onde o chamara a vontade

11)

Mon.

Eras.,

1. 623.

 

12)

Mon BW.,

I,

a19-223:

280-231

13) Moa Bvas., 1. 230.

14)

Op. omn., 198.

16)

I51

Opero mnio. 170, cf. 178

Mon. ma.,

11. 138.

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aos Carijós" (17). E ainda: "Seria bom ter lá [em Assunção] a Companhia um ninho, onde se recolhesse, quando de todo São Vicente se despovoasse" (18). Isso em 1557, em 1558. No ano se- guinte se declara "muito arrependido" de não haver tirado seus irmãos de cá (19). Se a "empresa do Paraguai" se condicionava ou não ao es- tabelecimento dos limites do Brasil no Rio da Prata (nome que abrangia então o Rio Paraguai), é assunto muito discutível. No

meu singelo entender, não era um plano político que norteava as intenções do provincial do Brasil, mas unicamente o seu Zelo r; ljgiw, seu espírito universalisticamente católico, que não reco- nhecia fronteiras internacionais capazes de impedir a propagação

do Evangelho e a

Dentro dessa quadro de perocupações é que se pode compre- ender a frase de Anchieta em sua carta a Santo Inácio, de fins de março de 1555. Diz seu texto latino: "Manemus adhuc in hac

Salvação das almas

.

nostra Piratininga

. nonnulli ex fratribus" (20) -

"permanece-

mos ainda nesta nossa Piratininga alguns irmãos".

A palavra

ainda, táo significativa no caso, omitiu-se, por descuido sem dú- vida, na verão portuguesa de Monumenta Brasiliac (21).

Dentro das mesmas circunstâncias históricas, é que se pode

Acabara

o cronista de referir o veto de Tomé de Souza, "por largas ra-

ao plano de catequese

Fo-

caliza então a ida de Nóbrega ao interior da Capitania de São Vi-

cente. E nos diz: "Tinha recebido por noviço pouco havia o Irmão

Antônio Rodrigues, homem que havia sido soldado nas partes do

Paraguai

estivera muitos anos. A este tomou por companheiro, e com mais

alguns catecúmenos dos hdios de Piratininga, ao menos [frise-

léguas

até a Aldeia de Japiuba ou Maniçoba, a fim de fazer experién-

cia do que trazia no seu pensamento" (22).

Não esmoreceu a vontade de Nóbrega com esta primeira opo-

- escreve com pro-

fundo senso psicológico a seu respeito Anchieta - que, como se fundava diante de Deus em uma verdade, bem se poderia pôr todo o mundo contra ele" (23). Sobresteve. Obedeceu. Jamais desistiu

sição da autoridade civil. "Era tão inteiro

mos este "ao menos"] entrou pelo sertão como quarenta

e mui versado nos costumes da gente carijó, entre a qual

dos Carijós, sujeitos ao domínio dos Castelhanos do Paraguai.

zões parte cristãs, parte políticas", oposto

entender em plenitude o texto de Simão de Vasconcelos.

17)

:E)

OP. OnLn

Op.

omn

25:.

256.

19) Op. omn. 353.

201

Mo%. Bros

11. 175.

21) No*. ~rap.; 11. 193.

22)

3)

Cldrrioo, L. I, % 130. S. Leite, Bre~itinerdrio,

Lisboa, 218.

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de seu propósito, enquanto foi provincial do Brasil. A proibiçãu de Tomé de Souza juntaram-se depois a do sucessor Duarte da Costa, a do próprio Dom João 111, e finalmente a de Santo Ina- cio de

A respeito dessa "empresa do Paraguai", eis o comentário que,

com bem-humorada finura, teceu seu admirador e discípulo An-

chieta: "

pouco de si a principio, pretendia que fosse sua fé pregoada por

outras regiões que pareciam dar mais de si" (24). E acrescenta:

"fazendo porém grande caso do que tinha entre mãos, nisso s~ empregava todo". Levou, por isso mesmo, até o fim heroicamen- te a sua "empresa do Brasil"! Como experiéncia, pois, do que trazia no pensamento, iniciou na Aldeia de Maniçoba a catequese dos Tupis. "Fez uma pequena

igreja - narra Simão de Vasconcelos (25) - e começou nela a ensinar a doutrina cristã, dando princípio a uma residência que

continuou alguns anos.

pessoalmente fazê-lo, valeu-se evidentemente de Pero Correia, qu?

todo

o Brasil lhe parecia pouco; o qual como dava

.

." Não sabendo a lingua brasílica para

lá o precedera, e de Antonio Rodrigues, que o acompanhara.

A circunstância de que a residência ali fundada tivesse du-

Prin-

rado alguns anos, como quer Vasconcelos, já não 6 exata.

cipiada em meiados de setembro de 53, encerrou-se pelos finsde agosto do ano seguinte. Sobreviveu "quase um ano inteiro" - assevera Anchieta. (26). Em Maniçoba deve ter permanecido Nó- brega dois ou três meses, pois em dezembro, a chegada do re- fôrço vindo da Bahia, já se encontrava em São Vicente, onde os recebeu.

Que jesuitas aqui teriam ficado? Com a máxima probabili- dade aqui permaneceu por superior o Padre Francisco Pires. Náo

sendo "língua", isto é conhecedor do Tupi, com ele deve ter per-

manecido um

reia é geralmente apontado como fazendo parte do gmpo de fun- dadores do Colégio de São Paulo a 25 de janeiro de 1554, resta- ria o Irmão Antônio Rodrigues, cuja presença naquela data em Piratininga nenhum documento há que o ateste. Daqui se teria ele ausentado meses depois com a chegada a Maniçoba do Padre Vicente Rodrigues e dois irmãos da Companhia, um dos quais Gregório Serrão.

dos dois "linguas" antes citados. E já que Pero Cor-

Serrão e Vicente Rodrigues estavam ainda no Norte, quando se fundava a missão de Maniçoba. Tomando parte na fundação de São Paulo, e ai recebendo as aulas de Latim ministradas por

24) Ibidem. 216.

25)

26)

Crdnim, L. 1, S 130.

Mon. Bm. 11. 116.

e

3%

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Anchirta, será depois Vicente Rodrigues, de maio a setembro pro- vavelmente, o companheiro de ministérios de Francisco Pires na Aldeia de Japiuba. Serrão não parece ter ali permanecido tanto tempo.

Sobre ele nos informa A Vada dos Padres Ilustres, escrita pelo mesmo Anchieta: "Esteve alguns cinco meses mui enfermo nd Casa de Nossa Senhora da Ajuda [em Porto Seguro], e no cabo deles, ainda muito fraco, foi passado para São Vicente, onde con- tinuou com suas enfermidades algum tempo" (27). Em Julho se encontrava em Maniçoba, nos diz Pero Correia, em carta de 18 iesse mês (28) : "Pela terra adentro, algumas cinquenta léguas, há princípio noutro lugar, onde estão dois padres e irmãos, e o irmão Gregório com escola de gramática". Não creio que nos tempo assaz escasso que passou em Maniçoba pudesse ele desim-

cumbir-se grande coisa desse mister

Com efeito, nessz mesmo ano de 1554, na sua "Quadrimestre de maio a setembro" assim se exprime Anchieta a seu respeito:

"Um irmão nosso, que viera de Portugal e vivia numa aldeia dis- tante desta [i. é de Piratininga] noventa milhas, tinha por ali- mento diário.uma galinha, que lhe iam buscar a diversos luga- res com não pouco trabalho, ai~daque por baixo preço; e o es- tômago não a podia conservar e logo vomitava. Quando porém veio para aqui e começou a alimentar-se de nossas comidas bem mais pobres, pôs-se robusto" (29). "Dando-lhe Nosso Senhor algu- ma melhoria - acrescenta Anchieta na biografia -, comecou a ser participante dos trabalhos de Piratininga" (30).

Da efêmera missão de Maniçoba, restam-nos ainda algumas iuformaçóes preciosas. Na aldeia presenciaram logo de inicio os padres o sacrifício ritual de considerável número de prisioneiros. "Grande matança de escravos", diz Pero Correia (31). Não logra- ram salvar-lhes a vida, mas dissimuladamente os batizaram e os ajudaram a morrer como cristãos. No seu Diálogo sobre a conver- são do gentio, recorda o próprio Nóbrega o episódio: "também

onde se mataram uns Índios

vos direi que se viu na Maniçoba,

Carijós, outro fndio que com os padres andava, oferecer-se com grande fervor e lágrimas a morrer pela fé, só porque aqueles mo- ressem cristãos" (32).

Contemporaneamente a vinda dos jesuitas para Maniço- ba, duas expedições partiram do Paraguai ao encontro dos mis- sionários. Constava a primeira de duzentos Carijós, em compa-

de professor de

Zí)

28)

29)

$0) C. Jes., 111, 490.

Imagem dc C'oimbro,

dion.

Man.

Brm., 11, 71.

Bros., 11. lld.

11. 67.

31) Mon. Braa

11, 219: C. Jea.,

111, 420.

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E GEOGRAFICO

DE

3

PACLO

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nhia de alguns Castelhanos que viajavam para São Vicente. Vi-

Entrando de

caminho numa taba de Tupiniquins, estes os destroçaram a fle- xas e tacape, morrendo quase todos, inclusive um dos europeus.

Souberam esses candidatos ao batismo aceitar com claras de-

de cem léguas ca-

minhou então Pero Correia, por ordem de Nóbrega, até &se lugar,

designado por Vasconcelos como Paranáitu, (Avanhandava, tai- vez), logrando salvar a vida dos demais Espanhois.

"Não tardou muito - escreve o mesmo Fero Correia - que, por outro caminho viesse outra soma de Carijós (ouvi dizer que seriam cinquenta ou sessenta), em companhia de três Espanhois

e, logo que penetraram em terras deste gentio, outrotanto lhes fi-

zeram, que mataram a todos e também a dois dos Espanhois; o outro fugiu pelos matos e veio acolher-se a companhia de Nóbre-

ga e dcs irmãos" (33). Sucessos tão expressivos devem ter influi- do extraordinariamente para confirmar o provincial no seu ardor missionário em favor de uma nação tão bem disposta para com H mensagem do Evangelho.

Por duas vezes tentou pessoalmente Nóbrega em reender via-

gem até o Paraguai e mais além. "Assentara [no a$o

de 15541 o

Padre Nóbrega empreender uma longa excursão, que mal se con- cluiria em um ano", informa o Chronicon de João de Polanco, se-

cretário de Santo Inácio, resumindo cartas de São Vicente. Des- tinava-se a uma região, "em que vivem (segundo referiam certos Portugueses) povos numerosíssimos, grandemente sujeitos à razão

e que não comem carne humana" (34). De notícias fornecidas por Antônio Rodrigues, conhecia o Pa-

dre Nóbrega com bastante objetividade a situação dos habitantes

nham os Índios expressamente a pedir o batismo.

monstrações de fé o batismo de sangue. Mais

suas cartas. Era, provavel-

mente ao Alto Peru (a Bolívia de nossos dias), que visava a atin-

gir nessa expedição. Três obstáculos se interpuseram: adoeceu

(quem, senão

Antônio Rodrigues?); rec,ebeu Nóbrega nesse comenos carta em que se lhe proibia a jornada; ele próprio se viu atacado por "dores

de cólica, a ponto de morrer". no mes de maio do ano seguinte havia predisposto tudo muito bem para sair em companhia de um grupo de Espanhois,

que de São Vicente seguia para Assunção. Ansioso, entretanto, por

o Padre Luis da Grã, recebeu no

sua chegada a São Vicente. Desistiu

avistar-se com seu colateral, dia da partida a notícia de

entáo da viagem. "Com ajuda do Padre Luis da Grã - nos diz Anchieta - se mudou seu conselho (35). Mostrando, todavia, a sua

do Peru, a que se refere em uma de

gravemente o "homem-chave", para essa excursão

33)

34)

Mon. Bros., 11. 68-69.

H.

A. Viotti.

s.j

"kPpectos da Fundaçáo

de Sáo Paulo ntraves de escritos no-

breguenses". "Reuisto de Histbrin, XXI-XXII (1955). 48.

35)

C. Jes., 111. 325. ei. Ibidern, 469.

*r9R

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autoridade, não hesitou em ordenar ao mesmo padre qeu o subs- tituisse na "Este caminho - escreve Grã a Santo Inicio a 7 de abril de 1557 - me mandou fazer o Padre [Nóbrega] logo que cheguei a esta capitania. E assim estivemos de caminho quinze dias, ao fim dos quais quis o padre saber de mim, além da prontidão da obe- diência, o meu parecer. Algumas razões ihe dei para não ser en- tão, que lhe pareceram bem, por onde cessou a ida" (36). Nessa jornada de quinze dias, teria seguramente passado por Maniço- ba, em demanda do porto onde embarcar para Assunção.

b

A tentativa se renovou três anos depois, estimulada ainda uma vez pelo provincial, que se encontrava então na Bahia. Desejava NÓ- brega (mas felizmente não o impôs) que fossem para Assunçã* os lesuitas todos do Colégio de São Paulo: Anchieta e Seus discí- pulos lá poderiam ser ordenados pelo Bispo do Paraguai. Mais uma vez jornadeou Luis da Grã em direção ao Paraguai sertão a dentro cerca de 150 quilômetros no ano de 1558, informa o Padre Antônio de Matos (37). Estando contudo nessa época os hdios Tu- piniquins alvorotados com certa expedição punitiva dos castelha- nos, suspeneu-se, agora definitivamente, a viagem. Que era feito da antiga Aldeia de Maniçoba a essa altura? Desaparecera sem dúvida. Em breve se haviam murchado as es- peranças da conversão de seus moradores. "Os nossos irmãos - escreve Anchieta na citada "Quadrimestre de maio a setem- bro" - tinham gasto quase um ano inteiro em doutrinar uns, que distam de nós noventa milhas, e eles renunciando aos costumes gentílicos tinham resolvido seguir os nossos e nos tinham prome- tido nem matar nunca os inimigos, nem comer carne humana" (38). Tudo, entretanto, se perdeu. Além da natural inconstância dos selvagens, outro fator agiu no caso decisivamente. É Anchieta quem nos esclarece a respeito. E seu testemunho não poderia ser rejeitado. Companheiro de Nóbrega até Maniçoba fora o filho mais velho de João Ramalho, André de Macedo. Após os primeiros atritos entre a família do fronteiro do Campo e Leo- nardo Nunes, empenhara-se Nóbrega em recompor com o Alcaide

de Santo André as boas relações de amizade. E o conseguiu

algum tempo! R o de que trata sua já citada e famosa carta d* 31 de agosto de 1553. Ninguém hoje ousaria contestar, a respeito de João Ramalho, figura outrora enigmática, suas origens cristãs e sua sincera con- versão ao Cristianismo em seus doze últimos anos pelo menos

., por

36)

Mon.

Bras

11. 362.

37) De prime Colleyii Plum,n;s Ja+tua?ii institutiar~o. 9.

38)

Moa.

Bras., 11, 116.

Gesú.

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de vida, desde 1568. Sua situaçáo peculiar, contudo, durante mais de 20 anos, praticamente segregado no bárbaro ambiente do pla- nalto piratiningano, lhe criara, com a enorme influência adqui- rida entre os Tupis a que se aparentara, excessiva independência em face dos poderes que regiam entáo a sociedade civilizada. Não se deixara absorver, nem muito menos esmagar pela vida selvagem, como sucedeu a outros menos rijos física e moralmente

do que ele. Era nesse ponto um vencedor.

Apartado ainda jovem

de sua legítima esposa, que deixara grávida em Portugal - o que parece confirmar a versão de seu degredo para o Brasil -, unira- se maritalmente à filha de Tibiriçá e dela tivera, unicamente dela nos assegura Nóbrega (2). numerosa prole. De suas filhas algu- mas se havia casado com homens proeminentes da capitania.

Tal situação familiar, com as consequências que então acar- retava, o apartaram, por excomungado, do culto religioso. Os fi- lhos varões, criados a solta, sem as peias da moral cristã, nem os liames da tradição indígena, viviam, alguns deles ao menos, de acordo com os hábitos, possivelmente muito deteriorados, de seus parentes e compadres ameríndios. Era natural que não vissem Com bons olhos a influência dos missionários. Com doçura sem dúvi- da, mas com a firmeza ao mesmo tempo de suas convicções reli- giosas e o ardor de seu zelo, procuravam estes implantar na terra

a ordem moral estabelecida pelos preceitos do Cristianismo.

Não lhes interessava aos ramalhistas perder, para os jesuitas,

sobre as hordas

Piratininga a fidelidade

de Tibiriçá e de Caiubi à religião abraçada e às promessas de seu batismo lhes op& intransponivel barreira aos manejos dissolven-

tes. Com humildade cristã suportaram os altivos morubixabas a pecha de cobardes, que lhes lançaram em rosto os mamelucos an- dreenses.

Mas em Maniçoba falhou a resistência dos neófitos. Para os arrastar à apostasia não recuaram dois filhos de João Ramalho pe- rante um expediente ignominioso. Sacrificaram em terreiro um fndio aprisionado em guerra, dando de comer a sua carne aos ha- bitantes da aldeia. "Convencidos - escreve Anchieta na "Quadri- mestre de maio a setembro" citada (40) - por estes cristãs e

levados pelo exemplo

nefanda e abominável depra-

vação, preparam-se não só para os matar. mas para os comer".

Na "Quadrimestre" seguinte, "de setembro a janeiro", nos dá Anchieta o resultado da campanha de ódio desses maus elementos

contra a obra regeneradora da catequese cristã: "Já destrukam

completamente uma aldeia em que morava o Padre Francisco Pi-,

a influência e o prestígio que até entáo possuiam

daqueles seus parentes Tupiniquins. Em

[dessa]

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res com o Padre Vicente Rodrigues, incitando os fndios a matar os contrários e a comer sua carne" (41). A atitude dos mamelucos

. Justificada é que

não. Pelo menos a luz da civilização cristã.

E poucos meses depois, em fim

de março de 1555, narra o mesmo Anchieta, no seu post-scriptum a última "Quadrimestre" citada: "Soubemos agora [fevereiro dc 15551 que os fndios quase todos cairam em grave doença e a maior parte morreram na Aldeia de Maniçoba, de que expulsaram os ir- mãos da Companhia, ocupados em ensinar aos infiéis a doutrina de Cristo" (42). Os restantes, como soia acontecer, devem ter aban- donado o local da mortandade, buscando novos ares incontamina- dos no seio da natureza virgem. Passados treze anos, 6 o próprio Anchieta, agora sacerdote, quem se dirige, em companhia de Vicente Rodrigues, do Português Manuel Veloso Espinola e de um grupo de fndios cristãos a esta mesma região da antiga Aldeia de Maniçoba. ú'ltimos meses d? 1568. Vem recuperar para a vida cristã e civilizada dois criminosos, foragidos com suas famílias para o meio dos selvagens arredios do Anhembi, Dwningos Luis o Grou e Francisco Correia.

pode ser explicada.

o que tentamos fazer

Retiraram-se os

Embarcando em Araraitaguaba numa improvisada canoa de casca, naufraga na cachoeira de Avaremanduava, légua e meia mais abaixo, e é salvo miraculosamente das águas do rebojo pelo fndio Araguaçu. O acontecimento positivamente histórico se re-

doura com o halo da lenda

. Mas até hoje, ali, em falta de outro

monumento (até 1817 existia no local um cruzeiro comemorativo),

Avareman-

o próprio toponimo relembra a "memória do padre".

duava ! Em 1570, na Igreja de São Paulo de Piratininga, mais uma vez preservada por Anchieta dois anos antes, de um possível ataque dos selvagens, realizava-se o matrimõnio cristão de Manuel Fer-

nandes Ramos, português de Moura, com Suzana Dias, mameluca nascida em São Vicente. Suzana, por Beatriz sua mãe, descendia de Tibiriçá, neta quiçá de Joáo Ramalho. Nessa Igreja do Colégio,

Anchieta, diretor do catecismo, lhe modelara

consciência religiosa. Venerava-o ela. E deu a respeito de sua san-

tidade belo depoimento, a 5 de abril de 1622, no Processo Infonna- rim para sua beatificação (43). Batizou-lhe anos depois o Pe. José um dos numerosos Teria sido André, o cofundador de Santana do Parnaiba? Seria Baltasar, o fundador de Sorocaba? E por que não Domingos, o fun-

a jovem Suzana a

41) MQ~.Brm., 11, 194-191.

42)

Mon. Brae., 11. 2W.

43) H. V. Viotti: Anchieta, o Adp6stob do Bros'l, São Paulo, 1966, 182183.

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dador da cidade de Itu? Se foi este, eis um vínculo histórico a mais que, através do Apóstolo do Brasil, viria ligar Itu à Compa- nhia de Jesus. Pelas mãos de um provável bisneto de Joáo Rama- lho, quando menos de um primo daqueles temíveis Ramalhos des- truidores de Maniçoba, reimplantava-se nestes lugares predestina- dos a vida e a civilizaçáo. A ação nefasta, para não dizer letal do paganismo selvagem,

1554, mergulhara

áefinitivamente no passado morto e sepultado. Nascia aqui e en- tão, no ano augura1 de 1610, uma nova povoação cristã. O cru- zeiro chantado, a frente da Capela de Nossa Senhora da Candelá- ria do Ituguaçu, na atual Praça do Bom Jesus, marcou para sem- pre os destinos da cidade. Cidade fadada a figurar nos registros cívicos da pátria como terra-mater de Bandeirantes ilustres e nm fástos da independência nacional, sob o titulo glorioso de "Fidelís- sima". Mas ao mesmo tempo, nos anais religiosos do país, como a Roma paulista. E na hist6ria das jesuitas, como berço no Brasil há pouco mais de um século, da Companhia rediviva.

que triunfara em Japuiba no longínquo ano de