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LEYLA PERRONE-MOISES Mutac6es da literatura no século xxi CONS DSSS 3, Existe uma literatura pos-moderna? Varios tebricos apontaram a inexatidao historica do qualifi- posto a “antigo”, que cada época aplica a si ‘mesma, e a imprecisao da palavra “modernidade’; para designar a literatura do século xx. Partindo das reflexes de Walter Benjamin, Hans Robert Jauss e Octavio Paz, Haroldo de Campos dedicou um ensaio escla- recedor a esse assunto. ‘A expressio “modernidade” é ambigua. Ea tanto pode sertomada cde um ponto de vista diacr6nico, historiografico-evolutivo, ‘de uma perspectiva sincrdnica: aquela que corresponde a uma poé- “escolha” ou construgdo do passado Sea expressio “modernidade” éambigua, o quese pode dizer da expressio “pos-modernidade”? “Pés-modernidade” tem sido, desde a5 titimas décadas do século xx, a designagdo imprecisa 8 adotada para nomear um periodo hist6rico, um complexo ideol6- gico, uma situacao da sociedade e um estilo artistico. A designagao ela mesma € amb{gua, conotando tanto uma continuagao da mo- dernidade quanto o seu fim ea sua superagao. Convém, inicialmen- te, distinguir o termo “p6s-modernidade” do termo “pés-moder- nismo” (embora a ambos se aplique 0 adjetivo “pés-moderno”): rdernidade e pés-modernis- encontramos,¢o segundo as viras escolas dos por le [...] é muito mais ici concordat com o pri do que com o segundo. [...] Os pés-moderismosvirdoe te 0, mas a pés-modernidade — a co permanecerd. uma transigdo maior na histéria da humanidade, um tempo de reconstrusio de todos os fandamentos da civilizacdo, 0 ‘mundo vai esta ocupado com isso nos tempos vindouos ‘Com o século x1 jé em sua segunda década, nao ha mais dii- ‘vida quanto as mudangas decorrentes da pés-indus -a e econdmica, dos avancos tecnolégicos da seus impactos na informagao, das transformages cas decorrentes da biogenética, e das consequéncias de to- das essas mudangas sobre as m extraordindria perspicécia, Octavio Paz jé descrevia, quarenta ima época de “rev © marx classe, dep (Os movimen- sto afirmagées das particularidades de cada grupo etambém das idiossincrasassexuais tempo linear. itamente, postulam dade apresentavam-na como resul ppromessas iluministas da modernidade e da exaustio de suas pre tensdes progressistas, frustradas pelas duas guerras mundiais, a ameaca de aniquilagao atémica, os campos de concentracao, os gulags, a faléncia das revolugbes socialistase a progressio dos de- sastres ecologicos. Entretanto, essa justificada decepsao com res- peito a modernidade néo resultou em melhores propostas para a humanidade. Isso também foi notado por Octavio Paz nas “rebe- Ses” do fim do século xx, que eram “negagdes de um estado de coisas [mas] ndo apresentam programas para a organizagao da sociedade futura’, A globalizagao econdmica nao resolveu 0s pro- ralismo se transformou em enfrentamento de part “Aquilo que a ideologia economicista havia recalcado voltou vio- lentamente em reivindicagbes de ordem cultur sionando novas guerras e éxodos macigos de pop\ Paz definia a sociedade de seu tempo como “pés-industrial” e passaram da etap: teriza pela importincia do que se poderia ct tos produtivos. Um novo modo de produca ‘técnica ocupam pés-indust Itado da oposicao et tre trabalho e capital, mas so conflitos de ordem cultural, reli 0 ce psiquica [..]. No caso das rebelides das minorias rais, as reivindicagoe nuitas vezes, as centras.* Tado isso € agora sabido e consabido. Aceitemos, pois, cha- mar de “pés-moderno” nosso desastroso periodo hist6rico. O que nos interessa, aqui, sio questdes aparentemente menores, se com- paradas aos grandes problemas que atingem e afligem a humani- dade. A questdo da literatura é predominantemente estética, e€ no terreno da estética que 0 rétulo “pés-moderno” esbarra em maio- res imprecisdes. O rétulo nasceu, nos anos 1970, no ambito da arquitetura, designando um novo estilo que, de fato, substituia e fazia caducar o estilo modernista, funcional e despojado. No terreno das artes, o que se tem visto nfo é 0 nascimento de novos estilos, mas. exacerbagao das propostas modernistas. As “instalagdes? ditas pés-modernas nao diferem, em seus propési- tos, das experiéncias de Marcel Duchamp, no sentido de dessacra- lizar 0 objeto artistico. As performances corporais nao so mais ‘ousadas e desafiadoras do que os “happenings” inaugurados, ain- da sem nome, p a introdugao dos Tecursos audiovisuais concerne apenas a0 meios ¢ técnicas artsticas. Qui apontadas pelos tedricos como “pos-modernas” so p \s de tentativas de de Tatura pés-moderna, acumularam-se as impreci ntre 0s principais tebricos da literatura pés-moderna, chegou a conclusio de que se tratava ais de uma “problematica” do que de um: Podemos rever, uma a uma, as caracteristicas atribuidas teratura pés-moderna por varios tedricos, e presentes de forma simplificada na internet, de maneira que mais confunde do que esclarece um ne6fito. A intertextualidade sempre existiu nas obras literdrias, como citagées, referéncias ou alusoes a outras obras mais antigas ou contemporineas. A divina comédia (1321) dialoga com as epo- peias da Antiguidade greco-latina e com a Suma teolégica, de Sio "Tomds de Aquino. Os grandes autores da Antiguidade nao so apenas mencionados por Dante; sio transformados em persona gens: Virgilio é seu guia, Homero, Ovidio e Horécio sao encontra- dos no limbo. As alus6es mitolégicas colhidas naquelas obras sa0 numerosas: Medusa, as Firias etc. O intertexto greco-romano continuou sendo uma constante durante todo o classicismo. arédia, forma burlesca de intertexto apontada como a p6s-moderna, é mencionada desde a Po . Na histéria da literatura ocidental, Rabelais foi seu praticante mais conhecido. Gargdntua ¢ Pantagruel (1532- -52) tém como textos de base os classicos da Antiguidade, 0s ro ‘mances populares, 0s textos eclesissticos etc, No século xvut, Dom Quixote (1605) é uma parddia das novelas de cavalaria, Na mes rma época, Shakespeare praticava uma intertextualidade exube- rante, dialogando com obras da Antiguidade e de outras nagoes ceuropeias. {A metalinguagem ou comentario metalinguistico tem estado presente nas obras literdrias pelo menos desde o século xvi. AS intervengSes do narrador comentando seu préprio texto slo fre- quentes na obra de Sterne (Tristram Shandy, 1759). Sterne € tam- bém o autor de Un: fragmento a maneira de Rabelais, seu autor fa- yorito. 0 uso do autocomentirio em Sterne inspirou Diderot Jacques, 0 fatalsta, e seu amo, 1778), € continuou inspirando grandes escritores do século xix, como Machado de Assis. Lautréa- ‘mont (Os cantos de Maldoror, 1868) usou abusou das interven- goes do narrador comentando o proprio texto. {A fragmentagao: a expressio literdria em forma de fragmentos fj introduzida pelos romanticos alemies. Veja-se esta afirmagio 2 dos Fragmentos criticos, de Schley yerosas obras dos “Antigos se tornaram fragmentos. Numerosas obras dos Modernos sao fragmentos desde o nascimento” Ea obra de Novalis o confir- ma (Fragmentos, 1798). A escrita fragmentaria foi largamente pra- ticada pelos modernos. Apenas como exemplo: o Livro do desas- sossego, de Fernando Pessoa. O Iudismo: hé miitiplos exemplos de ludismo na literatura do passado, Desde a Antiguidade, os poetas brincaram com as palayras, No século xtx, Lewis Carroll praticou todo tipo de jo- {gos verbais. As vanguardas hist6ricas do inicio do século xx tam- bem praticaram brincadeiras verbais (exemplo: 0 “‘cadavre ex- quis” dos surrealistas). E nos anos 1960, os escritores do grupo francés OuLiPo (Raymond Queneau, Georges Perec e outros) se dedicaram exclusivamente a esses jogos linguisticos. A ironia, forma moderna da sétira, foi uma das principais o século x osta, 1728), ¢ largamente usada pelos romanticos pelos modernos, como correlativa do ceticis- ‘mo, consequéncia da perda da fé num Deus providencial. O indi- vidualismo também caracterizou o romantismo e a modernidade. A abertura do sentido: as grandes obras da modernidade sempre deixaram o sen cabendo ao leitor as metrépoles e imbaud sentiu o apelo poético do va de pinturas idiotas, portais, cend- tos, cartazes, ilustragoes populares [...]” (“Alquimia do verbo’, 1873). Em A cidade e as serras (1901), Ega de Queirés ja mostrava 4 personagem Jacinto de Tormes as voltas com elevadores,telefo- hes etc. Ea pop art dos anos 1960 introduziu nas obras os objetos industriais, que passaram a figurar também nas obras literdrias. A ‘abolicao das fronteiras entre alta cultura e cultura de massa, de que @ pop art foi uma manifestagao pioneira, também data da alta 8 ‘modernidade. A influéncia do cinema na literatura se fez sentir desde meados do século passado. E assim por diante Por isso, todos os conhecedores das grandes obras literdrias do passado duvidam dessas caracteristicas“p6s-modernas”. Como ‘observou Umberto Eco: Infelizmente, “p6s-moderno” é um impressio de que é aplicado he queira, Além disso, parece haver ais retroativo: primeiro, critores ou artistas ativ reverso continua; em breve, a categoria pés- ero, [-.] Ironi enunciacio miltpla [...] Se pé -modernos.® ‘ termo mais conveniente para designar a p6s-moder- pés-modernidade é um desen- volvimento da modernidade (que inclui os modernismos), como esta foi um desenvolvimento das propostas romanticas, Na virada do século xvi para 0 x1x,0 romantismo foi uma verdad: 1a com o classicismo. As vanguardas modernistas do int culo xx, por seu aspecto revolucionario, escandaloso, iquidaram tudo o que ainda restava de classicismo na literatura do século xx. Mas ha diferengas maiores entre as obras do sé vanguardas modernistas do século xx do que chamadas de pos-modernas. Cada periodo apresenta suas peculiaridades, no uso de recur- S0 literarios existentes desde sempre na literatura ocident nosso temas suas. As inegaveis mudangas tecnolégicas e cultu “ ‘ocorridas na virada do século afetaram a literatura, Entretanto, 0 que vemos é menos uma liquidagao da modernidade do que sua assimilacdo numa postura irdnica, e uma exacerbagao de procedi- mentos existentes, hd muito tempo, n arias. A peculia- ridade da chamada literatura pos-n wutrir-se da moder- nidade, numa atitude consumista que é propria de nosso tempo. Como observou Susan Sontag: ““O moderno’ ideia muito radical, que continua a se dese nome pretensioso de pés-mode1 Na falta de melhor designagao, chamemos a literatura das pr meiras décadas do século xxi de literatura contemporinea. Deve- ‘mos convir que chamar a literatura da virada do sé Porinea” é tao inconveniente quanto chamé-la de porque o tempo se encarregara de mudar o sentido desse adjetivo. Mas como ainda estamos nesse inicio de século, podemos chamié-la de contemporéinea e apontar algumas de suas caracteristicas. A poesia nao sofreu maiores transformagdes desde a adocio do verso livre, da poesia-piada e da poesia concret ser mu- dangas de suporte como o cartaz, o folheto,e posteriormente a tela eletrénica, que dew aos textos cores ¢ movimento, A prosa tem sido ‘género preferencial dos escritores contemporiineos. Ao longo do are res, com 0 “fluxo da consciénc a Woolf), a criagao de uma nov. -valise (Joyce), 0 e 1agem baseada em trocadilhos e palavras- sentagio neutra do rea Pago modernista com o novo. E essa despreocupasao é tipica dos 45 escritores contemporaneos, que colhem, tanto no passado como ‘um nicho do mercado: a literatura “séria” (aquela que ainda rece- no presente, seus temas e modos de expressio. be prémios); a literatura “dificil” (destinada a um piblico restri- Quanto aos procedimentos: na falta de propostas realmente to)salliteratura de entretenimento (os best-sellers sentimentais e/ inovadoras, a intertextualidade tornou-se generalizada, a referén: ou etéticos, a ficeao fant a populacao de vampiros ¢ cia ea citagao, mais frequentes, acentuando-se até o anacronismo, de magos,a narrativa pol iteratura de autoa- usado com humor; a metalinguagem passou a ser mais utilizada, jjuda, que pode se apresentar em forma de fice; ficgdo hist6rica scla de referéncias a alta cultura e ebiogréfica etc. E sbvio que esta listagem ¢ esquemitica, na me cultura de massa tornou-se habitual dda em que os diferentes subgéneros podem misturar-se,¢ mistu Quanto a temstica: como testemunha do individ a ram-se, es ce epee epee mea anne idade de géneros e subgéneros corresponde uma grande variedade d dois tipos de leitores: ‘contemporaneas, acarretou o desaparecimento da estético”: obra de ficgio re sfatério ou mesmo tica das obras tornou-se a: acentuou-se 0 uso de imagens As novas tecnologias, por enquanto, nao modifica a textualidade literdria. Os programas informacionais de redagao hamarei de semantico, o qual deseja saber (e justamen- mantém 0 modelo do livro impresso: paginacao, uso de tipos e .-J-Maso text sinais gréficos. Eles apenas aumentaram a velocidade do registro verbal e de suas corregdes, apagando seus rastros, No uso cotidia- 1, informativo e pritico, a computagao habituou os leitores aos textos curtos. Curiosamente, o que se observa atualmente na lite- ratura impressa é, pelo contrério, uma tendéncia a publicagao de cr 0 que acontece, aquele de segundo nivel livros cada vez mais volumosos, qualquer que seja 0 género. A in- narrado, Para saber como a ternet tem permitido a autopublicagao de novos escritores, mas a tinica vez, Para transf 1ido modificou substancialmente seus procedimentos estilisticos. as vezes,ecerta Ea ambigao da maioria desses novos autores é ver suas obras pu- blicadas como livros pelas grandes editoras. Naliteratura impressa, que ainda esté longe de ser abandonada, E preciso convir que, nos dias que correm, os “leitores se~ instalou-se uma enorme diversidade, cada subgtnero ocupando | Miinticos” tendem a ser infinitamente mais numerosos do que os 46 a “{eitores estéticos’.E que, consequentemente, as obras ficeis delle, {sto é, aquelas em que s6 0s acontecimentos importam, dominam ‘0 mercado editorial. Podemos estender as consideragoes de Eco 4s leitores da midia impressa e da midia eletronica. Cada vez mais, 0s “leitores semi ticos”,e éem fungao dos Em que medid contemporineo e alcangar os “leitores criticos bre as mudangas que afetaram o pensamento, nos anos, o historiador Pierre Nora respondeu: Fim da Guerra Fria, desagregagio do bloco soviet Muro, surgimento da Asia s cinco grandes: a intensificagao do sciéncia ecolégica, 0 jue €a propria novidade que deve ser pensada, numa so seja menos a tarefa amadores ecriadores de con- idade da rea- lidadee de sua interpretacio perantea demanda social? “A inteligibilidade da realidade e de sua interpretagao” a ta refa que Roland Barthes sempre atribuiu a literatura, Segundo 4 interrogacio da literatura ndo é“Qual é 0 sentido do mund ‘mas somente: “Eis o mundo: existe sentido nele?”!" E¢ isso que os bons escritores continuam fazendo. Palavras em alta, na teoria li- terdria contemporinea, sio “reflexao” e “critica”. Nossa época € 0 momento de pensar sobre 0 passado recente ¢ de criticar os ‘caminhos do presente. S6 depois dessa fase poderdo surgir“per ‘mentos novos’: E deixaremos de vé-la como “pés’; para vé-a como ‘alguma coisa que ainda ignoramos.