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A Revista do Expresso

EDIÇÃO 2455

+
16/NOVEMBRO/2019

Entrevista
Chimamanda Ngozi
Adichie, a feminista
Por Valdemar Cruz
Reportagem
Escrever para não morrer
Por Luciana Leiderfarb,
em Auschwitz
Opinião
Os filmes da Marvel
não são cinema
Por Martin Scorsese

HERÓI
&VILÃO
Como um aluno mediano mas inteligente
se transformou no principal denunciante
dos negócios sujos do futebol e em
suspeito da prática de extorsão. Quem é,
afinal, Rui Pinto, o português por trás do
Football Leaks? Por Miguel Prado

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PLUMA CAPRICHOSA

A DITADURA DOS SENTIMENTOS

A
APESAR DA DESVALORIZAÇÃO DAS PALAVRAS, DA SUJEIÇÃO AO IMEDIATISMO,
AO DESVARIO E AO SENTIMENTO, AS PALAVRAS CONTINUAM A CONTAR
Trump mais detestasse, instalado na torre doirada da palavra revolucionária pelo inimigo. O embate
da Quinta Avenida, do que esta, revolução. será inevitável, a não ser que outro golpe esteja em
Nenhum milionário aprecia a palavra revolução. preparação.
Usada sabiamente para descrever uma subversão Num campo diferente, o do escândalo, do crime,
radical do estado das coisas, a palavra ganha do tema que suscita a indignação e piedade das
um conteúdo romântico, um veio brilhante de redes, temos o bebé abandonado no contentor
esperança na mina escura. A inteligência de de lixo, a mobilizar as paixões. Num dia, o crime
Bannon foi ter percebido isto, e não foi invenção era pavoroso e sem perdão. A mãe, rapidamente
dele. Hitler e Mussolini já tinham percebido, tal encontrada pela polícia, foi para a prisão preventiva
como o estalinismo impôs a repressão mais brutal e aplaudia-se a prontidão da sanção. No dia
da História em nome da revolução, copiado pelo seguinte, isolado, Marcelo declarou a compaixão
maoismo. O problema é que a revolução já não é pela mãe. Juntaram-se as vozes sentimentais da
exclusiva da esquerda, e em breve a direita usará compreensão e da comiseração, combatendo as
a palavra golpe para designar a perpetuação no da punição e da sanção. Os advogados entraram
poder dos chefes de esquerda. em cena, com um pedido de habeas corpus.
Se repararmos na terminologia do Vox, o único Algumas organizações beneméritas, por cujas
s palavras contam. Parece contarem menos quando partido vencedor das eleições espanholas, é uma malhas a mãe tinha escapado, declararam que ela
são escritas em longos parágrafos. E mais quando mistura de pressupostos da direita pura e dura sabia o que estava a fazer e que tinha escondido
são reduzidas ou substituídas por símbolos e com empréstimos da linguagem revolucionária. a gravidez e recusado ajuda. A polícia considerou
denominações abreviadas, a ciberlinguagem das O Vox vem, numa pirueta ideológica, subverter a a premeditação do crime. Juntaram-se ao coro
redes e dos hashtags, a redução a meia dúzia de ordem, revolucionar a política, repor a verdade e psicólogos e psiquiatras, com razões científicas.
caracteres para exprimir um pensamento ou a a justiça, sabendo-se que é o herdeiro da ordem E, de repente, nas redes, a desgraçada criminosa
falta dele. Apesar da desvalorização das palavras, do franquismo tradicional. Veremos as novas era um trend, um hashtag, uma vedeta. Objeto de
da sujeição ao imediatismo, ao desvario e ao direitas apropriarem-se da superioridade moral das especulação sem fim, de combates de palavras.
sentimento, as palavras continuam a contar. Para esquerdas, e declarar uma proteção musculada dos Entrou em cena a advogada da mãe, atestando
um jornalista da imprensa escrita ou um escritor, pobres, dos trabalhadores, dos desfavorecidos, dos em comunicado que todos os esclarecimentos
cuja ferramenta são as palavras, o modo como são injustiçados, dos humilhados e ofendidos. Vejam seriam prestados pela mãe em sede própria. Não
usadas é fundamental para a condução da notícia Marine Le Pen manejar estes conceitos e verificarão se concebe uso mais desnorteado das palavras.
ou da opinião, da reportagem ou da entrevista. que não se fala de capitalismo ou economia, de Esclarecimentos em sede própria? De que sede
Cada palavra conta. neoliberalismo ou de privatização, de liberdade ou falamos quando falamos do último desconsolo
Esta semana, uma série de acontecimentos e de individualismo. Fala-se de um novo coletivismo de um ser humano abandonado abandonar o ser
narrativas determinaram diferenças simétricas no nacionalista com pressupostos morais, a coutada humano a que acabou de dar vida? Quem, nesta
uso da palavra. tradicional das esquerdas. tragédia que transcende o niilismo e o pessimismo,
Na Bolívia, Evo Morales desapareceu de cena e A outra palavra da semana foi tesão. Palavra que sabe do que está a falar? Todos têm uma opinião
reapareceu no México como exilado político. O em Portugal tem conotações obscenas. O tesão sobre uma situação que não conhecem nem podem
processo nebuloso, como todos os da América do Lula para salvar o Brasil, título de jornais. Um conhecer sobre pessoas que não conhecem. Nem
Latina, indicia uma intervenção militar que teria novo Lula, mais patriótico e messiânico do que o querem nem quiseram conhecer. E que não ficaram
obrigado o Presidente a demitir-se e a fugir. anterior, emergiu da prisão. Onde antes ouvimos a conhecer depois de se terem combatido.
Morales tinha desrespeitado um referendo que choro e ranger de dentes, vemos agora o punho O equívoco das palavras perpetua-se como uma
não deixava autoeleger-se para a eternidade, mas erguido da revolução em nome da pátria. Lula ditadura de falsos sentidos. b
possuía a particularidade, para um esquerdista, de quer chefiar a guerra de morte do Brasil contra o
ter reanimado a economia boliviana e contribuído bolsonarismo. Mais ninguém está em condições
para a prosperidade do país. É um indígena, e de chefiar um movimento de massas contra o
um indígena não costuma ser eleito para aquelas ocupante do Planalto, testa de ferro do golpe contra
bandas. As esquerdas da América do Sul vieram em Lula. O pior é que o bolsonarismo respaldado
coro dizer que tinha havido um golpe na Bolívia. pelas legiões evangélicas do bispo Edir Macedo
As esquerdas nunca usam a palavra golpe aplicada é também o produto de uma votação das massas
a golpes de esquerda, mesmo quando esses golpes contra a corrupção e a insegurança, que Bolsonaro
têm dentro uma intervenção militar. Os sucessivos e o séquito aproveitaram usando as duas palavras
chavismos foram golpes militares em sentido para ganhar eleições e camuflar o facto de serem / CLARA
clássico, na linguagem da esquerda são revoluções.
A esquerda faz a revolução e a direita faz um
agentes da corrupção e insegurança. Já o pantanoso
Trump prometera secar o pântano de Washington.
FERREIRA
golpe, está nos manuais. Justamente, o problema O Brasil, com as suas excentricidades e desvios ALVES
das novas direitas, cada vez mais extremas e populistas, é o tubo de ensaio de modos simétricos
mais aguerridas, é que passaram a usar a palavra de usar a linguagem revolucionária e arregimentar
revolução, apropriaram-se dela. os golpistas. Lula, com o tesão inspirado pelo facto
Steve Bannon foi o mentor desta apropriação de ter “reencontrado” o amor na provecta idade, e
cultural, foi ele que declarou o trumpismo uma ter enterrado as lágrimas da viuvez, pode bem ser
revolução, e não se imagina palavra que o velho o primeiro caso de resistência ativa à apropriação

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SUMÁRIO
EDIÇÃO 2455 | 16/NOVEMBRO/2019

fisga +E Culturas Vícios

RUI DUARTE SILVA


7 | Salário mínimo Portugal
tem o 11º salário mínimo
mais baixo da União
Europeia. A discussão
está em cima da mesa
24 | Rui Pinto Retrato do
homem que quis alertar a
sociedade para os negócios
sujos e a corrupção no
futebol e aos 31 anos acabou
enclausurado numa cela de
63 | Ian McEwan
Conversa com o escritor
66 | Camané e Laginha
Tudo sobre “Aqui Está-se
Sossegado”
93 | Jay Rayner
Conversa com o crítico
gastronómico sobre comida,
música e até sexo
96 | Receita
54
Chimamanda Ngozi
Adichie Entrevista
10 | Do Céu ao Inferno seis metros quadrados. O Por José Avillez
+ Batata Quente seu futuro está nas mãos da 68 | Leffest à escritora nigeriana
juíza que instruiu o processo Os destaques desta edição 97 | Vinhos que se tornou um
12 | Pimenta na Língua Por João Paulo Martins
+ Números Primos
e-Toupeira, o mesmo que 70 | Filmes da Marvel ícone mundial pelas
precipitou a sua detenção A opinião de Scorsese 98 | Sobre Mesa suas conferências em
14 | Déjà Vu + Altifalante 34 | Videojogos Por que Por Fortunato da Câmara matéria de feminismo,
72 | Livros “O Coração de
16 | O Que Eu Andei motivo provocam adição? Inglaterra”, de Jonathan Coe 99 | Recomendações de raça e do género
para Aqui Chegar Roula Especialistas explicam esta De “Boa Cama Boa Mesa”
Khalaf desordem comportamental 76 | Cinema “Os Órfãos de
de origens imensamente Brooklyn”, de Edward Norton 100 | Design
18 | Planetário complexas Por Guta Moura Guedes
A morna cabo-verdiana e os 80 | Televisão
festejos de Carnaval de 40 | Holocausto “Última Documentário sobre 101 | Moda
Podence estão a caminho Paragem — Auschwitz” Pedrógão Grande Por Gabriela Pinheiro
de serem reconhecidos foi escrito por um prisioneiro
como Património Imaterial num caderno das SS 82 | Música “Dream Time”, 102 | Há Homem FICHA
da Humanidade. A decisão e as suas palavras estão de Abdullah Ibrahim Por Luís Pedro Nunes TÉCNICA
da UNESCO é já em finalmente disponíveis.
O Expresso acompanhou 86 | Teatro & Dança Ciclo 104 | Passatempos Diretor
dezembro Mark O’Rowe no Porto João Vieira Pereira
o filho numa visita ao 105 | 10 Perguntas a...
campo de concentração Diretor-Adjunto
88 | Exposições Manuel Mariana Brandão Miguel Cadete
48 | Cinema Portugal Baptista na Fundação Arpad Por Inês Maria Meneses mcadete@impresa.pt

está na mira do circuito Szenes-Vieira da Silva Diretor de Arte


Marco Grieco
das rodagem dos grandes 90 | Obrigatório Tudo
filmes internacionais Editor
o que não vai querer perder Jorge Araújo
jmsaraujo@expresso.impresa.pt

Coordenadores
CRÓNICAS Ricardo Marques
rmarques@expresso.impresa.pt
Rui Tentúgal
3 Pluma Caprichosa por Clara Ferreira Alves | 22 Cartas Abertas por Comendador Marques de Correia rtentugal@expresso.impresa.pt

73 Isto Anda Tudo Ligado por Ana Cristina Leonardo | 83 A Desarmonia das Esferas por João Lisboa Coordenadores Gerais de Arte
Jaime Figueiredo (Infografia)
89 A Tabela Periódica por Jorge Calado | 92 Que Coisa São as Nuvens por José Tolentino Mendonça João Carlos Santos (Fotografia)
103 Diário de Um Psiquiatra por José Gameiro | 106 Fraco Consolo por Pedro Mexia Mário Henriques (Desenho)

FOTOGRAFIA DA CAPA: MARIA FECK

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A IMAGEM DO NOVO TESTAMENTO Liberdade para pensar.

REINVENTADA

O Expresso convidou pintores, fotógrafos, poetas, escritores, escultores,


arquitetos e músicos portugueses para ilustrar o texto do Novo Testamento.
As histórias, frases surpreendentes e episódios são ilustrados (no sentido de
interpretados à sua luz pessoal) por 24 personalidades de renome do nosso país.
Todos portugueses, todos atuais. Todos com um propósito.

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30 NOVEMBRO COM O EXPRESSO

INTRODUÇÃO DE
HENRIQUE MONTEIRO
PREFÁCIOS DE
CLARA FERREIRA ALVES E
GONÇALO PORTOCARRERO
DE ALMADA

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“QUEM SABE TUDO É PORQUE ANDA MUITO MAL INFORMADO”

GETTY IMAGES

O mínimo Henrique Miranda e Miguel Pereira estão prestes a mudar


de vida. Têm ambos 25 anos e no início do próximo mês vão
começar a trabalhar. Quer dizer, vão começar a trabalhar

não chega
“oficialmente”, porque já o fazem desde que entraram na
universidade. Agora, a diferença está numa palavra: contrato.
Henrique está há mais de um ano numa empresa turística —
é guia, tradutor, motorista — e só recentemente os patrões
evocaram a palavra; Miguel não consegue contar quantos
trabalhos temporários e “fixos durante o verão” já teve, mas
recebeu sempre por baixo da mesa. A partir de dezembro, o
À SEMELHANÇA DE OUTROS PAÍSES, PORTUGAL TEM seu primeiro recibo de vencimento dirá que trabalha num
UM NOVO AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO EM CIMA DA MESA. restaurante. Os dois irão ganhar o salário mínimo nacional
CÁ, É NECESSÁRIO QUE O MONTANTE CONTINUE (SMN), mas uma diferença gigante separa-os a partir daqui:
Henrique continuará a trabalhar numa empresa do Porto,
A CRESCER — URGENTEMENTE, MAS SEM MUDANÇAS BRUSCAS enquanto Miguel voará para Cambridge, no Reino Unido. No
TEXTO TIAGO SOARES INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES final do mês, dependendo das horas que Miguel fizer todas as

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SALÁRIO MÍNIMO NA UNIÃO EUROPEIA


Em paridade de poder de compra em euros, julho 2019

0 250 500 750 1000 1250 1500


Luxemburgo
Alemanha
semanas, o fosso entre os dois poderá chegar aos €1000. Holanda
Os dois jovens não se conhecem, mas no dia em que falaram Bélgica
com o Expresso tinham ambos lidado com a burocracia exigida França
pelos novos empregos. Miguel, desconfiado do ‘Brexit’, foi tirar Reino Unido
o passaporte; Henrique andou entre o centro de emprego e o Irlanda
escritório da empresa onde trabalha para concluir que “tenho Espanha
de esperar mais um mês para eles me darem o contrato, porque Eslovénia
dois meses depois de estares inscrito [no centro de emprego], Malta
e se tiveres o estatuto de primeiro emprego, eles recebem Polónia
ajuda do Estado para me pagarem o ordenado”. Em dezembro Grécia
vai começar a receber €600 por mês. Se o objetivo da nova Roménia
legislatura for cumprido, em 2023 passará a receber €750, o Lituânia
SMN nessa altura. Isto se não for aumentado até lá. “Duvido PORTUGAL
que seja aumentado. Mas também, se em 2023 ainda estiver a Hungria
trabalhar ali, alguma coisa está mal...” Croácia
Atualmente, Portugal tem o 11º salário mínimo mais baixo da Eslováquia
União Europeia e o 12º mais alto: está a meio da tabela, longe Rep. Checa
da Bulgária — onde o SMN está fixado nos €286 —, mas ainda Estónia
mais longe do Luxemburgo, com €2071 mensais, e apenas atrás Letónia
da Austrália a nível mundial. Colocando-o nos €700, para o Bulgária
nivelar com outros países sem 12º e 13º mês, o SMN português
continua a ser baixo. Mesmo que, antes do período entre 2011
PRODUTIVIDADE NA UNIÃO EUROPEIA
e 2014, só por uma vez não tenha subido de ano para ano: em
Por trabalhador e horas trabalhadas, ajustado
1981/1982, quando se manteve nos €53,40. Quando o Eurostat
ao poder de compra de cada país, em %
considera o poder de compra de cada país — um SMN mais
baixo tende a ser sinónimo de bens e serviços mais baixos
—, Portugal surge ainda mais atrasado: não na 11ª posição do Irlanda 194,4
ranking, mas sim na 15ª. E se a análise for feita apenas nos Luxemburgo 163,5
países da zona euro, Portugal tem o 6º SMN mais baixo em Noruega 132,8
termos nominais e o 7º ajustando o poder de compra. Há países Bélgica 129,8
da UE que não têm SMN — Dinamarca, Itália, Chipre, Áustria, Suíça 122,5
Finlândia, Suécia —, preferindo apostar em negociações por Áustria 116,4
sector de atividade. Esta prática não é comum: mais de 90% França 115,1
das nações mundiais têm em vigor legislação referente ao SMN. Dinamarca 114,9
Suécia 112,9
ABERTURA PARA AUMENTOS Holanda 110,4
No dia da tomada de posse do novo Governo, António Costa Finlândia 108,2
falou em parte sobre Henrique e Miguel, ao pedir um acordo em Islândia 106,8
concertação social “que preveja uma clara valorização salarial Itália 106,5
dos jovens qualificados”. Os sindicatos puxam os €750 para Alemanha 104,5
Reino Unido 100,4 UE-28
os €850, os patrões empurram os valores para baixo e pedem 100
contrapartidas, o executivo diz-se disposto a avançar mesmo Espanha 99,7
sem acordo entre as partes. Uma coisa é clara: a discussão Malta 93,5
sobre o SMN nunca teve tanta abertura como agora. E há boas Chipre 84,3
razões para isso: as subidas ao longo dos últimos cinco anos, ao Rep. Checa 83,3
contrário do que muitos economistas previam, não sacrificaram Eslovénia 82,3
empregos. E, havendo menos desemprego, a tendência é as Eslováquia 80,9
empresas oferecerem mais dinheiro na hora de contratar. Grécia 80,4
Estónia 78,2
Polónia 77,4
Lituânia 76,3
PORTUGAL 74,7
Croácia 72,1
PORTUGAL TEM O 11º SALÁRIO MÍNIMO MAIS BAIXO DA Hungria 69,3
Letónia 69,1
UNIÃO EUROPEIA. ESTÁ A MEIO DA TABELA, LONGE DA Roménia 67,6
BULGÁRIA — ONDE O SMN ESTÁ FIXADO NOS €286 — MAS Bulgária 47,4
AINDA MAIS LONGE DO LUXEMBURGO, COM €2071 MENSAIS FONTE: EUROSTAT

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Praticamente todos os países da UE aumentaram o SMN em os trabalhadores, sobretudo os “menos qualificados”, pois
2019: Roménia, Bulgária, e Grécia subiram-no quase 10%, ficariam mais vulneráveis a um desemprego irreversível. Além
e a Bélgica não o fez diretamente mas aliviou a carga fiscal disso, a medida aproximaria o SMN ainda mais do salário
sobre o rendimento. A Lituânia, utilizando uma mistura dos médio — e Portugal já é o país europeu onde os dois valores
dois métodos, fez disparar a riqueza dos que ganham menos mais se tocam. João Cerejeira, também economista, não
em 39%. E no Reino Unido a ideia de aumentar o SMN para ignorou estes elementos — “é razoável esperar algum impacto
dois terços do salário médio está em cima da mesa. Se isso negativo no emprego” — mas concordou com a implementação
acontecer, o restaurante em Cambridge onde Miguel vai atenta da medida, em direção a um “país mais justo”.
trabalhar irá passar a pagar-lhe 10,50 libras por hora. Já nos Ferraz da Costa diz também que “o Estado é o grande
Estados Unidos da América, onde o salário mínimo federal beneficiário desta medida”, ao arrecadar mais €114 por
se situa nos 7,25 dólares por hora, uma lei que propunha um trabalhador no final do novelo de impostos e contribuições,
aumento para 15 dólares foi travada no Senado pelo Partido algo que João Cerejeira também assinala. Questionado pelo
Republicano. Expresso sobre este dado, o economista Ricardo Paes Mamede
Quando, no ano passado, o primeiro-ministro espanhol, Pedro sublinha que “nada disto implica que o aumento em causa
Sánchez, anunciou o aumento do SMN de €735 para €900, seja insustentável”, pois os bons resultados dos últimos anos
proclamou que “um país rico não pode ter trabalhadores mostram que “há margem para aumentar os salários em
pobres". À luz desta frase, Portugal não é — definitivamente Portugal sem pôr em causa o emprego ou a competitividade.
— um país rico: segundo a Pordata, 22,1% dos trabalhadores Tendo em conta o fraco aumento dos salários face à evolução
portugueses em 2018 levavam para casa o salário mínimo, da produtividade na última década, tudo indica estarmos
sendo que de 2013 para 2014 este indicador deu um grande perante uma política razoável”. A evolução da produtividade
salto negativo, de 12% para 19,6%. é justamente uma das pedras basilares de Ferraz da Costa
Um relatório da Comissão Europeia publicado este ano — “In- contra a medida: “Os nossos baixos salários são o espelho da
work Poverty in Europe” — assinala que quase 20,5 milhões nossa baixa produtividade.” Ambos os pontos se verificam: é
de trabalhadores europeus vivem em risco de pobreza. Pedro verdade que a produtividade portuguesa tem evoluído, mas
Perista, investigador no Centro de Estudos para a Intervenção tendo em conta as horas trabalhadas, a riqueza produzida e
Social (CESIS), escreveu o segmento dedicado a Portugal, os ajustamentos do poder de compra, também é verdade que
destacando que “a incidência de pobreza nos trabalhadores produzimos pouco em comparação com o resto da Europa —
subiu entre 2012 e 2017”, estando hoje nos 10,4%. Henrique cerca de 25 pontos percentuais a menos do que o valor médio
não se surpreende: na maior parte dos meses leva para casa da UE, segundo o Eurostat.
menos do que o SMN; “Num mês ou dois fiz mais serviços Este ano, o próprio Ministério das Finanças publicou um
e trouxe mais do que 600 euros, mas é raro.” Mesmo assim, artigo sobre a relação entre salários e produtividade. Depois
aponta a atenção para outros: “Eu comecei a trabalhar há de analisar grandes e pequenas empresas de vários sectores,
pouco tempo. Mas, por exemplo, a mãe do meu melhor amigo os autores traçaram algumas conclusões: por exemplo, que
trabalha na mesma bomba de gasolina há sete anos, e sempre “pagar salários mais altos está positivamente associado com
ganhou 620 euros. OK, na altura era mais do que o SMN, e uma produtividade mais alta, e neste caso com eficiência
agora também é, mas são só 20 euros. Tecnicamente não é o generalizada”. Entre os debates económicos sem fim, Henrique
salário mínimo. Mas na prática é ‘um’ salário mínimo.” e Miguel licenciaram-se e no futuro querem continuar a
estudar. O primeiro tem a matrícula do primeiro ano de
MEDICAMENTO POTENTE mestrado congelada: precisava de mais dinheiro para pagar
Sajid Javid é o político britânico — com o cargo equivalente as propinas mais altas, teve de começar a fazer mais serviços
a um ministro das Finanças britânico — que está a tentar e mais horas, até ter ficado sem tempo para ir às aulas. Vai
aumentar o SMN e aumentar o rendimento de quatro milhões poupar durante uns anos — “e começar aos poucos a escrever
de pessoas. O último estudo onde validou a ideia foi realizado a tese”. Miguel também vai juntar dinheiro “durante uns dois
pela Universidade de Massachusetts Amherst, e indicava anitos”, antes de se inscrever num mestrado em Geologia “que
que “um salário mínimo mais alto pode reduzir as vagas e custa à volta de 9500 libras”. Não vai voltar a Portugal, até
a rotatividade, em vez de destruir postos de trabalho”. Ora, porque “já fiz contas e lá até há coisas mais baratas, logo vou
num artigo publicado no “Financial Times” em outubro, o ter mais poder de compra”. Ambos querem uma casa, uma
economista Tim Harford acusou Javid de tomar uma “decisão família, uma vida começada. Dizem que os estudos podem
política” e não técnica: “É possível, mas não certo, que mais esperar um pouco mais. Aliás, têm de esperar: afinal, serão
aumentos tragam mais benefícios. Mas é perigoso olhar para o pagos com os salários de todos os meses, poupados e esticados
salário mínimo como um almoço grátis, algo para os com perícia, já a partir de dezembro. Um salário mínimo a
políticos distribuírem sem ponderar as evidências [científicas] seguir ao outro. Dois salários mínimos — um bem mais alto
ou os riscos. É mais como um medicamento potente com sérios do que o outro — que talvez expliquem por que razão Miguel
efeitos secundários.” regressará primeiro que Henrique às salas da universidade.
Na edição do Expresso de 1 de novembro, o economista Pedro Vão ganhar o salário mínimo e, apesar disso, o nome não lhes
Ferraz da Costa argumentou que o aumento do SMN para os provoca qualquer tipo de estigma. O problema, diz Henrique,
€750 até 2023 seria mau para as empresas, pois perderiam não está no nome, mas sim no valor que o nome significa. E
margem de manobra para investir e inovar, e também para esse não chega. b

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DO CÉU AO INFERNO
A SEMANA EM REVISTA POR VALDEMAR CRUZ
Evo Morales cometeu erros. Quis, por exemplo, continuar no poder, embora a questão estivesse ultrapassada.
E não apenas pela decisão do Supremo Tribunal e do Tribunal Eleitoral de validarem a sua recandidatura, mas
porque se essa fosse a questão, a oposição teria de boicotar as eleições, o que não fez. A seguir veio a acusação
de fraude eleitoral. Morales respondeu com a repetição de eleições, saudada pela comunidade internacional.
Não bastou, porque a decisão de o afastar estava há muito tomada e, agora, teme-se o pior num país que na
última década dera passos gigantes no sentido da recuperação económica e da dignidade social.

Carlos do Carmo
A sua voz, o seu encanto, o brilho do seu olhar,
o seu charme (vá lá) preenchem o imaginário
BATATA
de gerações de portugueses. Aos 80 anos QUENTE
abandona os palcos, mesmo se jamais
abandonará o palco das nossas memórias. PERGUNTAS
Pablo Iglesias José Cid
IMPERTINENTES
Apesar de perder Viajou até Los
votos para uma Angeles para
dissidência do
Podemos, é um
receber o Grammy
de Excelência na O que vai
dos vencedores
das eleições em
companhia de duas
lendas da música: acontecer
Espanha. Seis
meses depois
Joan Baez e Omara
Portuondo. Aos ao lítio?
arranca ao PSOE 77 anos continua No imediato, vai continuar a
um pacto para a polémico e
constituição de com a dinâmica incendiar a opinião pública,
uma coligação de e ambição de como uma espécie de chama
esquerda. sempre. que arde sem se ver.
A prazo, a não ser que haja
uma cobertura política sufi-
cientemente forte e muscu-
Pedro Sánchez lada face ao assunto, o mais
provável é que fique tudo
Percebeu, tarde, que
teria de se entender Evo Morales praticamente na mesma, que
com Pablo Iglesias após Cometeu erros. À é como quem diz: enterrado
uma vitória com sabor acusação de fraude nas profundezas das serras
a derrota: ficou longe eleitoral respondeu do Barroso, Arga, Seixoso,
da maioria absoluta e com a repetição das Almendra, Estrela, Argemela,
viu a extrema-direita eleições. O golpe há entre outras. Para sermos
conquistar uma votação muito preparado não
preocupante. visa repor a legalidade, mais precisos, importa dizer
mas atingir as políticas que o lítio já é explorado em
sociais e económicas Portugal há mais de uma
que dignificaram um dúzia de anos, no Alto Minho
país empobrecido e na zona da Guarda. Só que
como a Bolívia.
nunca foi processado para fa-
zer baterias de carros, smart-
phones ou computadores.
Tem sido usado sobretudo na
Jeanine Áñez indústria cerâmica, na acele-
Albert Rivera O golpe perfeito ração do processo de fusão,
Quis tudo, atingiu o precisa de peões poupando, assim, energia.
nada. Sai de cena após Matos Fernandes dispostos a dar corpo Mas como agora está na
uma derrota humilhante. à farsa. A senadora, linha da frente da afamada
A deriva ideológica do Primeiro negou a evidência e opositora de Evo
garantiu que no Tejo não há falta Morales, declarou-se ‘transição energética’ em
Ciudadanos, do namoro
com o PSOE às alianças de água. A seca realidade leva-o presidente interina da curso, as empresas mineiras
com PP e apoio do Vox, a querer reunir-se com o seu Bolívia numa sessão e a indústria automóvel vão
deixa o partido com homólogo espanhol para renegociar sem quórum para a fazer tudo para terem acesso
apenas 10 dos anteriores os valores das descargas. investidura. ao ‘novo petróleo’. A Europa
57 deputados. está claramente a perder a
corrida ao lítio para a China e
para os EUA, e quer recuperar
o tempo perdido. Na verdade,
todos o querem muito mas,
se possível, feito ali ao lado
no quintal do vizinho. E o vizi-
nho (europeu) somos nós?
/ VÍTOR ANDRADE

E 10

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30 nov + 01 dez
sábado, 19:00 e domingo, 18:00 — M/6

Missa de
Bernstein

leonard bernstein© dr
Coro e Orquestra
Gulbenkian

Concertos
Participativos

GULBENKIAN.PT

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NÚMEROS
PRIMOS
ELES FALAM

3,8%
TAXA DE DESEMPREGO EM QUEDA

Reino Unido
PIMENTA NA LÍNGUA Contra as estimativas dos analistas — que
apontavam para 3,9% —, a taxa de desemprego
FRASES DA SEMANA no Reino Unido caiu, entre julho e setembro,
apesar do ‘Brexit’ e do facto de muitos britânicos
comprarem cada vez mais online, o que já ditou

“Não dê munição ao canalha,


o fecho de várias cadeias de distribuição.

que momentaneamente está livre,


mas carregado de culpa” 500
TONELADAS DE FRUTA
JAIR BOLSONARO, PRESIDENTE DO BRASIL
Instando os seus seguidores, “amantes da liberdade e do bem”, a não darem argumentos a Lula da Silva, que foi libertado
pelo Tribunal Supremo do país, enquanto o processo que o levou à cadeia não transita em julgado Romãs em alta
Os produtores de romãs em Portugal
juntaram-se para ganhar dimensão e em 2018
colheram 200 toneladas. Na campanha deste

“Não chega disfarçar


ano cresceram 150% e atingiram as 500
toneladas. Faturaram €750 mil e a produção
ficou quase toda em Portugal.
derrotas”
12%
LUÍS MONTENEGRO, CANDIDATO À LIDERANÇA DO PSD
Ao apresentar aquilo que diz ser um projeto a 12 anos para o seu partido
— quatro na oposição e oito no poder. Montenegro aludia à reação
de Rui Rio ao resultado das recentes eleições legislativas QUEDA NA VENDA DE CASAS

Susto em Espanha
“O que em abril era uma oportunidade histórica Da última vez que o imobiliário caiu em Espanha,
fez tamanho estrondo que os estragos
converteu-se numa necessidade histórica” alastraram a Portugal. Em setembro deste ano
a venda de casas caiu 12%. Pode ser apenas
PABLO IGLESIAS, LÍDER DO PARTIDO ESPANHOL UNIDAS PODEMOS
um ‘resfriado’, mas se vier dali uma gripe...
Defendendo a urgência de uma coligação de esquerda após as eleições que deixaram a direita reforçada
(incluindo um terceiro lugar para o partido Vox) e a esquerda com a sua maioria mais reduzida no Parlamento.

88
Na terça-feira foi anunciado um acordo entre o PSOE e o Unidas Podemos

“É um assunto
MILHÕES DE TONELADAS DE COMIDA

Desperdício
particular, que fica A Europa manda 88 toneladas de comida para

entre nós. Mas viu-se a o lixo todos os anos (um milhão em Portugal).
É uma estimativa mas a partir de 2020 todos

equipa completamente os países europeus serão obrigados a medir


os seus níveis de desperdício alimentar.

diferente” / VÍTOR ANDRADE

BRUNO LAGE, TREINADOR DO BENFICA


Admitindo que o facto de no intervalo do jogo com o Santa Clara ele ter
anunciado no balneário que ia ter mais um filho — o seu segundo — poderá
ter ajudado a equipa a motivar-se. O Benfica estava a perder por 1-0,
mas acabou por marcar dois golos na segunda parte e vencer

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ANN RONAN PICTURES/PRINT COLLECTOR/GETTY IMAGES


1519
DÉJÀ VU
O FUTURO FOI ONTEM

A circum-navegação do tempo
O italiano Antonio Pigafetta foi um dos 18 ho- 234 homens, capitaneados por Fernão de Maga- Lisboa, de um outro documento sobre a viagem:
mens que chegaram a Sevilha, a 8 de setembro lhães. Pigafetta ficou para a história por ter sido o o depoimento de Martín de Ayamonte, ajudante
de 1522, quase três anos passados desde a par- autor do diário da viagem. “Relación del primer vi- de marinheiro da nau “Vitória”, que desertou e foi
tida para a primeira viagem de circum-navega- aje alrededor del mundo“, foi originalmente publi- capturado e interrogado por portugueses na Ma-
ção. Tinham largado, em setembro de 1519, de cado em italiano entre 1524 e 1525. Esta semana, lásia. Confessou que tinha medo de chegar ao fim
Salúcar de Barrameda, Huelva, cinco navios, com foi notícia a descoberta, na Torre do Tombo, em do mundo. / RICARDO MARQUES

ALTIFALANTE com pobreza e com uma longa tradição


nacional de bandidagem. Os bandidos
aos seus concorrentes. E como esquecer
as eventuais implicações brejeiras de um
mas é bem achado. Essa junção de ideia
de roubo com a de calacice ressuscitou
NAS ENTRELINHAS passaram dos campos e das estradas termo como ‘malandrice’. esta semana quando o secretário-geral
para o Governo e as direções dos A origem de ‘malandro’ é algo da Fenprof, a propósito da planeada
bancos, mas continuam a ser bandidos. misteriosa. Fala-se no italiano criação de um prémio de assiduidade
Malandros Bandidagem, ladroagem, malandragem
é “o que não falta por aí”.
‘malandrino’ (salteador) ou no latim
‘malandria’ (um tipo de lepra). Também
para funcionários públicos, acusou o
Governo de querer dar a entender que
É sabido que muitos portugueses vivem De todas essas palavras, a mais foi sugerida uma combinação do latim os funcionários “são tão malandros que
obcecados com a ideia de que os versátil, com uma amplitude emocional ‘malus’ (mau) com o provençal ‘landrin’ a norma é serem absentistas”.
andam a roubar. Entrando em qualquer superior às outras, é ‘malandro’. Tanto (preguiçoso). Pode ser especulação, Funcionários que ganhassem para
tasca (não as versões gourmet dos podemos usá-la com raiva, para designar não trabalhar, deliberadamente e sem
mercados reconvertidos, obviamente) um verdadeiro malfeitor, um patife do razão legítima, estariam de facto a
cedo ou tarde ouvimos dizer que os pior, um ser realmente deplorável, como roubar o contribuinte. Seriam portanto
políticos são todos uns ladrões. Quem carinhosamente, falando de uma criança “São tão malandros, na versão vadios, mandriões,
diz ladrões diz bandidos e malandros. que faz travessuras ou de uma criança encostados e parasitas. Ou então,
Todos. Durante a crise financeira essa tout court. ‘Bandido’ também pode malandros que se calhar, apenas gente farta de ser
ideia do roubo foi especialmente útil, conter esses significados, mas não tem a norma é serem maltratada por aqueles a quem servem,
em termos retóricos, para criticar os a mesma graça. Além disso, o malandro quando não pelos respetivos pais, que às
cortes impostos pelo governo de então. permite variações — malandrim, absentistas” vezes ainda são uns malandros piores do
A fixação na ideia de roubo terá que ver malandrete, malandrinho — que faltam que eles. / LUÍS M. FARIA

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Scarpa Bo
Bardi Albini
Smithsons & Helg
Van Eyck

Art on Display 08 nov 2019


— 02 mar 2020

Formas de expor
1949–69 Colaboração

Apoio Mecenas

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O QUE EU ANDEI PARA AQUI CHEGAR
UM CURRÍCULO VISUAL

Roula Khalaf
“Esta profissão requer paixão. E dedicação. Deves amá-la absolutamente e amar a necessidade de contar histórias”,
disse numa entrevista recente. Nascida em Beirute e formada nos Estados Unidos, foi jornalista na “Forbes”, ingressando
no “Financial Times” em 1995. Correspondente no norte de África e no Médio Oriente, especialista em assuntos
internacionais, torna-se agora a primeira mulher a dirigir o histórico jornal / LUCIANA LEIDERFARB

?
2019
Infância em Beirute
Número um
Não havendo dados sobre a data em que
nasceu, sabemos que foi na capital do É nomeada a primeira mulher
Líbano e que cresceu durante a guerra diretora do jornal desde a
civil daquele país, nos anos 70. “Havia dias fundação deste, em 1888.
em que não podíamos ir à escola, por isso Roula Khalaf substitui Lionel
tínhamos mais dias livres do que as crianças Barber, que dirigia a publicação
de outros países”, contou. desde 2005.

CHARLIE BIBBY/FINANCIAL TIMES VIA REUTERS


2016
Número dois
1991 Promovida a subdiretora do “FT”, lança
iniciativas para captar novas leitoras,
Estudos e primeiro emprego aumenta a diversidade na redação, instala
Fez o liceu nos Estados Unidos e um sistema que vigia o número de fotos
ali graduou-se na Universidade de femininas no site, une-se ao projeto 50/50
Syracuse, enveredando depois por um da BBC. Também comenta assuntos
mestrado em assuntos internacionais internacionais, política e economia.
na Universidade de Columbia. Inicia-se
como jornalista na revista “Forbes”.

1995
Carreira no mundo
Ingressa no “Financial Times” 2009 2014
como correspondente no norte Uma de poucos
de África, acompanhando 1996 Vida de filme
Ganha o The Peace Through Media
de perto a guerra na Argélia, Médio Oriente na mira Award, em “reconhecimento pelos
A personagem de Jordan Belfort no
enquanto vivia em Londres. filme “O Lobo de Wall Street”, de
Torna-se correspondente seus altos padrões de jornalismo e a Martin Scorsese, cita o perfil crítico
no Médio Oriente, viajando qualidade da sua análise noticiosa”. Em que a jornalista fez do corretor da
exaustivamente por toda 2011, conduz para o “FT” a cobertura bolsa nos tempos em que escrevia
a região. A seguir, passa a da ‘primavera árabe’. Em 2013, ganha para a “Forbes”. Aqui, é tratada
editar este sector. Não tarda o prémio da Associação de Imprensa como “repórter insolente”.
a ser nomeada editora da área Internacional pela reportagem “Qatar:
internacional. From Emirate to Empire”.

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olhar o mundo
para lá dos muros
NESTA EDIÇÃO FIQUE A CONHECER
ABIY AHMED LOS ANGELES STEPHEN COLBERT DROGA
Luzes e sombra Os “passeadores A sátira, a política As novas rotas
do Nobel da Paz de pessoas” já faturam e o mundo do tráfico mundial

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PLANETÁRIO
NO CAMINHO DAS ESTRELAS
POR NUNO GALOPIM

MÚSICA

Um concerto
participado
com Bernstein
O desafio de juntar amadores a profissionais é o mote
que lança os concertos “participativos” que a Fundação
Gulbenkian tem vindo a integrar nas suas temporadas de
música. E depois de um “Requiem” de Mozart apresentado no
ano passado chega agora, nos próximos dias 30 de novembro e
1 de dezembro, uma nova proposta com a “Missa” que Leonard
Bernstein compôs para a inauguração, em 1971, do Kennedy
Center for the Performing Arts, na capital norte-americana.
Esta será a primeira vez que a Gulbenkian vai apresentar
esta obra de Bernstein, numa produção que terá direção de
Clark Rundell e ação cénica de Marie Mignot, contando com PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
a voz solista do barítono Jubilant Sykes, que já gravou em
disco a “Missa” de Bernstein num registo dirigido por Marin
Alsop que a Naxos editou em 2009. As maiores novidades Caretos e morna:
decisão chega em dezembro
estão, todavia, no restante elenco. É que ao Coro Gulbenkian
vão juntar-se o Coro Participativo, dois coros infantis (o do
Instituto Gregoriano de Lisboa e o da Casa Pia de Lisboa), a
Orquestra Geração e ainda músicos da Escola de Jazz Luís
Villas Boas / Hot Clube de Portugal.
A aventura foi lançada em maio, quando a Gulbenkian
abriu candidaturas para “amadores com experiência A morna cabo-verdiana e os é espontânea o número de caretos
coral, estudantes de música e participantes com algum festejos de carnaval de Podence nos festejos pode mudar de ano
conhecimento musical e gosto pela prática coral”. As estão a caminho de serem para ano. Em tempos reservado a
audições decorreram no início de junho, sendo pedido a reconhecidos como Património homens jovens e solteiros, o fato
cada candidato que preparasse para cantar ‘America’ e Imaterial da Humanidade. Ambas do careto hoje é usado por pessoas
‘Somewhere’, de “West Side Story”, também de Leonard as candidaturas passaram já de várias idades, géneros e tipos
Bernstein. Os ensaios estão a decorrer desde o início de praticamente todas as etapas do de relacionamento. O plano de
setembro e promovem desde logo este encontro entre processo, estando a votação final salvaguarda pretende “chamar
amadores e profissionais. O coro participativo acolhe 60 agendada para a 14ª reunião do a atenção não apenas para estas
vozes de diferentes idades e profissões. Entre eles está, por Comité Intergovernamental para a festividades mas para a diversidade
exemplo, uma família de quatro elementos, o mais novo dos Salvaguarda do Património Imaterial e riqueza destas heranças em
quais tem 18 anos, estuda ciências do desporto e é barítono. que está agendada para os dias 9 Portugal, particularmente nas
A “Missa” é uma das maiores obras do maestro e compositor a 14 de dezembro em Bogotá, na regiões do nordeste”, como sublinha
e junta num universo comum um leque de referências que Colômbia. o texto que a acompanha. Entre as
vão da tradição romântica às linguagens de vanguarda A candidatura portuguesa é ações e objetivos surgem medidas
incluindo a folk, o jazz, o gospel e a música para teatro ao jeito apresentada oficialmente como focadas na educação, inventariação,
da Broadway (que Bernstein várias vezes assimilou). “Festas de inverno: Carnaval de divulgação e transmissão destas
Podence” e destaca as figuras dos tradições e dos conhecimentos a
caretos, o Entrudo dos caretos elas associados. Visitas guiadas à
e o Entrudo chocalheiro. Esta Casa do Careto, criação de materiais
é uma tradição que envolve os pedagógicos, a criação de um
residentes e visitantes nesta arquivo digital e o lançamento de
pequena localidade perto de um concurso de fotografia são ideias
Macedo de Cavaleiros em festejos em jogo.
que estão associados à celebração Presente nas ilhas do arquipélago
do fim do inverno e da chegada da de Cabo Verde a morna tem
primavera O careto, mascarado, expressões musicais e coreografadas
interage com os residentes e os e a candidatura de salvaguarda
visitantes. E como a participação envolve não apenas os cantores e

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FLASHES MUSEU

Exposição do
Met sobre moda
Os textos do filósofo francês Henri
Bergson e a escrita de Virginia Woolf
vão definir os caminhos e a narrativa
CONCERTO
de “About Time: Fashion and Duration”,
Fernando Tordo apresenta-se hoje, a exposição que o Costume Institute
pelas 21h, no Teatro Nacional de São
vai inaugurar na primavera de 2020
Carlos, em Lisboa, num concerto
no Metropolitan Museum of Art, em
único no qual vai prestar homena-
gem à poesia portuguesa cantando
Nova Iorque. A exposição, que ficará
palavras de Sophia, Sena, Mourão ali patente entre os dias 7 de maio e
Ferreira, Quental, Ary dos Santos, 7 de setembro, irá propor uma visão
Boto, Feijó ou Carlos de Oliveira. Ao disruptiva da evolução da moda desde
seu lado estará a Orquestra Sinfóni- 1870 até aos nossos dias. A inauguração
ca Portuguesa, dirigida pelo maestro estará associada à gala que anualmente
Jorge Costa Pinto. Dia 19 chega o Met organiza por esta altura e que
às livrarias “Fernando Tordo: Não representa um dos momentos de maior
Houve Geração Mais Rica Do Que concentração de atenções mediáticas
a Nossa” (Guerra & Paz), volume da agenda anual do museu.
de 176 páginas que resultou de um Andrew Bolton, o curador que dirige este das suas criações a exposição com
diálogo com José Jorge Letria.
instituto, explicou já, em declarações maior recorde de afluência do museu.
à “Vogue”, que “Orlando”, de Virginia Apresentada em 2018, “Heavenly
Woolf, está na origem desta ideia não Bodies”, sobre as relações entre a fé
MÚSICA apenas pelo livro em si mas também pela cristã e a moda, chamou ali 1,6 milhões
instrumentistas mas também os Ativos entre 1977 e 1984, tendo mais abordagem visual que Sally Potter criou de visitantes em cinco meses. “About
compositores, letristas e até mesmo tarde gravado um tema em 1986 e quando o adaptou ao cinema em 1992, Time: Fashion and Duration” integra o
os construtores dos instrumentos. reunido para uma digressão entre com Tilda Swinton a vestir então as duas programa de celebração dos 150 anos
A candidatura apresentada destaca 2007 e 2008, os The Police – trio etapas distintas da vida da personagem do museu em 2020, que incluirá ainda
como exemplos de referências constituído por Sting, Stewart Co- principal. A exposição vai juntar cerca as exposições “Making The Met, 1870-
ligadas à morna nomes como os peland e Andy Summers – vão lançar de 160 peças de roupa das coleções do 2020,” e “Photography’s Last Century:
a 13 de dezembro uma caixa que reu-
de Teté Alhinho, Titina Rodrigues, próprio instituto. The Ann Tenenbaum and Thomas H.
nirá a integral da sua obra no formato
Celina Pereira, Paulino Vieira ou O Met Costume Institute é um Lee Collection” e a reabertura das
de vinil. “Every Move You Make: The
Bau, e avança como elementos do Studio Recordings” inclui os cinco departamento do Metropolitan galerias dedicadas às artes decorativas
projeto de salvaguarda a criação álbuns de estúdio do grupo e ainda Museum of Art e tem entre o historial britânicas e ao design.
de uma rede de trabalho com “Flexible Strategies”, uma compila-
vista à inventariação, recolha e ção que vai reunir num alinhamento
arquivo, num trabalho que passa comum os temas que editaram nos
por escutar a própria população. A lados B dos seus singles.
criação de eventos que promovam PHOTO
a visibilidade internacional da MATON
morna, uma exposição itinerante e
um Museu da Morna estão também
referidas no texto.
Além das candidaturas da morna
e das festividades de Carnaval em
Podence, a reunião em Bogotá vai
avaliar as restantes 40 nomeações
que ali serão apresentadas e
discutidas. E entre essas outras
candidaturas está o festival da
Santíssima Trindade do Senhor
Jesus do Grande Poder que se BANDA DESENHADA
realiza em La Paz (Bolívia), o As aventuras de Blake & Mortimer,
complexo cultural do Bumba heróis de primeiro plano da banda
Meu Boi do Maranhão (Brasil), o desenhada franco-belga, criados
em 1946 por Edgar P. Jacobs, vão
canto bizantino (apresentado por
juntar este mês mais um álbum à
Chipre e pela Grécia), o alpinismo
sua história. Trata-se do segundo
(candidatura conjunta da Suíça, volume de “O Vale dos Imortais” O Museu do Fado inaugurou esta semana uma exposição dedicada a José Pra-
França e Itália), os teatros e as e conta com texto de Yves Sente cana (1946-2016). Músico, colecionador e investigador, José Pracana era
orquestras alemãs e o seu espaço e ilustrações de Teun Berserik e Pe- amador e acompanhou Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Alfredo
sociocultural, a harpa céltica ter Van Dongen. A narrativa leva Marceneiro ou João Ferreira Rosa. A exposição junta fotografias, jornais, dis-
(Irlanda), o Gnawa (Marrocos), desta vez os heróis a uma aventura cos, documentos, cartazes, instrumentos musicais, troféus, condecorações e
o teatro Kwagh-Hir. no sudeste asiático. imagens de arquivo, e estará ali patente até 23 de fevereiro.

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SALSA FAZ 25 ANOS E LANÇA


JEANS DE EFEITO ADELGAÇANTE
A marca portuguesa de jeanswear Salsa assinala as suas bodas
de prata com a grande novidade deste outono-inverno:
Slimming Elegant, as calças que favorecem a silhueta

O segredo dos Slimming


Elegant está na faixa
adelgaçante “Emana”,
a fibra que absorve o
calor corporal e estimula
a microcirculação
sanguínea.

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DEFINA A SUA SILHUETA!
A Salsa volta a inovar e a confere uma silhueta bem DUAS DÉCADAS e Secret Glamour), Push Calheiros, “esta campanha
revolucionar o conceito definida e atual. Além disso, E MEIA DE SUCESSOS Up (Shape Up e Mystery), tem como foco as nossas
de conforto, elegância e seja qual for o seu gosto, A criação da Salsa, empresa Slimming (Diva e Elegant) e pessoas. Quisemos saber o
tecnologia numas calças de estilo ou tipo de pernas, são de Vila Nova de Famalicão, No Gap Bliss. Entretanto, em que as emociona, o que as
ganga. Os Slimming Elegant quatro os modelos que se remonta a 1994, lançando, 2018, a marca reposiciona- faz rir e de que forma essas
são os novos must have da adaptam às suas formas ou à época, os seus primeiros se com a campanha “Where características se fundem
marca que está a celebrar estilo – Skinny, Capri, Flare jeans, os Elegante. Do You Fit?” para inspirar com aquilo que acrescentam
as suas bodas de prata e e Culotte – entre lavagens Entretanto, bastaram a comunidade através à marca”.
têm um segredo muito bem distintas – vintage, premium quatro anos para abrir, em de jeanswears autênticos, A campanha mostra, através
guardado. A zona da barriga wash e preta. 1998, a sua primeira loja inovadores e inclusivos, e dos olhos de quem conhece
está reforçada com uma Os novos jeans estão própria, no NorteShopping assim chegar a um público a Salsa desde dentro,
faixa que contém cristais disponíveis em nove modelos (Porto), e outros quatro para que procura a peça especial os espaços de trabalho
bioativos que garantem um diferentes, seis dos quais começar a internacionalizar- que o faça sentir realmente e os pormenores que a
efeito cosmético permanente. apenas na loja online, em -se, primeiro em Espanha, confiante. tornam numa grande família
Chama-se Emana e é uma salsajeans.com. depois no Catar. Hoje, está Para comemorar o seu a trabalhar em prol de um
fibra altamente tecnológica De acordo com Rita presente em mais 35 países 25.º aniversário e a objetivo comum: ser
que absorve o calor corporal Calheiros, brand&marketing para além de Portugal, onde par do lançamento dos a marca de jeanswear que
e irradia raios infravermelhos director da marca, este detém mais de 60 lojas. Em Slimming Elegant, a Salsa melhor veste no mundo,
para a pele, estimulando a lançamento veio dar 2007, apresenta o bem- apresentou uma nova comprometida com os
microcirculação sanguínea. “resposta a um espaço que -sucedido Push Up Wonder, campanha – “More Than seus clientes.
O resultado é um fit estava em aberto na nossa os jeans que realçam as 25 Years” – , que conta a
mais elegante aliado à oferta de jeans de mulher”, curvas e que viriam, nos história daqueles que, entre
modernidade de uns jeans de ao aliar uma silhueta anos seguintes, a dar origem colaboradores e clientes,
cintura super alta, tendência estilizada a um fit cool e aos restantes fits técnicos fazem parte do caminho de
nas últimas estações, que relaxado. da marca – Push In (Secret sucesso da marca. Para Rita

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CARTAS ABERTAS

/ COMENDADOR
MARQUES DE CORREIA

PROMESSAS CONSCIENTES PARA


UM PAÍS QUE TEM FALTA DE ESTIMA
(E, PELOS VISTOS, LETRAS A MENOS)

O
AO CONTRÁRIO DO QUE MONTENEGRO QUER FAZER E DO QUE COSTA JÁ FEZ,
A MINHA CANDIDATURA A LÍDER NÃO É CONTRA NINGUÉM! É CONTRA TODOS!

Luís Montenegro chegou a uma favor de trazer pazadas de dinheiro até à nossa conta bancária.
sala cheia e disse uma série de Além disso, não salvo banco nenhum, a menos que amigos
coisas. Desde logo que queria meus ou pessoas influentes tenham lá dinheiro. Já sobre o
ser chefe da Oposição, para socialismo de rosto humano, sei exatamente, porque o conheço
depois ser chefe do Governo, milímetro a milímetro, qual é o rosto do socialismo — é o meu!
e que adoraria devolver o D ao A minha candidatura a líder da Posição é uma lufada de ar
PSD (aviso: se alguém vir o D do fresco na minha vida. Até hoje, durante quase um século, fui
PSD, avise o Luís, que ele gostava um desgraçado quase sem eira nem beira. José Sócrates, a
mesmo muito de o ter). Ora eu quem não chegava o dinheiro para viver em Paris, é que me
candidato-me não por um D e pode compreender. Porém, doravante, serei um verdadeiro
menos ainda para ser líder da servidor dos mais altos interesses do país. E, sendo eu o líder
Oposição! Eu candidato-me por da Posição e por isso um dos mais altos interesses do país, vou
uma série de letras e para ser líder servir-me a mim próprio naquele que não será o primeiro mas
da Posição! Eu sou aquele que devolve tudo e não tira nada; que sim o autoproclamadamente primeiro Governo self-service de
quer os imigrantes cá dentro e na fronteira ao mesmo tempo; Portugal, quiçá do mundo.
que faz um Governo em Espanha se lhe pedirem e que ainda Por isso, caro Luís Montenegro — e caros Rui Rio e António
cura a pneumonia e a sarna direitista caso lho peçam em termos. Costa —, as vossas hipóteses são tão grandes como a da
É disto que o país precisa. Sim! Vejamos o que tivemos até Coligação Canária liderar o Governo espanhol. Comecem a
agora: um líder do PS, António Costa, que depois de ter perdido tremer, porque a verdadeira onda de regeneração chegou. Uma
umas eleições arranjou um Governo à pressa com uns partidos onda tão grande que faz as vossas promessas parecer pífias.
que nunca tinham sido poder depois de eleições, derrotando Vós quereis apenas sobreviver politicamente. Eu quero viver
o bloco que tinha ganho. Esse homem, que com essa manobra à grande e à francesa. De resto, autárquicas, por que também
tirou o E ao Bloco e o C ao PCP e que, unindo os socialistas, lutam, podem ficar para vós. A mim interessa-me o poder
tirou o P (de partido) ao PS, depois de quatro anos a dar tudo a todo, não minudências de Ribeira de Pena ou de São Brás de
todos e a fazer impostos e cativações invisíveis, conseguiu uma Alportel. b
maioria absoluta? Não! Teve de fazer um Governo com menos
apoio parlamentar do que aquele que tinha. Parece o Sánchez.
Depois, um homem que conquistou o principal partido
da Oposição, Rui Rio. Esse partido começou a descer nas
sondagens até parecer o Ciudadanos em noite eleitoral, mas
como as eleições lhe deram bastante mais do que as sondagens
decidiu ficar. Logo surgiu o Luís Montenegro, lá vem ele outra
vez, a dizer que quer ser líder da Oposição, que já temos (são
todos menos o Costa), e que quer devolver o D ao PSD.
A minha estratégia, caros portugueses, é bastante mais
ambiciosa. Eu não quero baixar os impostos! Quero acabar
com eles. Aliás, passarão a chamar-se donativos obrigatórios
ou, talvez, empréstimos à Santos Silva (Carlos, não Augusto).
Eu não tenho uma ambição para o país, eu tenho o país como
ILUSTRAÇÃO DE CRISTIANO SALGADO

ambição! Eu não quero devolver o D ao PSD! Eu quero devolver


o D ao PSD, o P ao PS, o E ao Bloco, o C ao PCP, o eleitorado ao
CDS, a tese de doutoramento ao Ventura, as fotos dos gatinhos
no Facebook ao PAN, a saia ao assessor do Livre e o Carlos
Guimarães Pinto ao IL. O meu programa é muito vasto!
Mas quero mais: quero um socialismo de rosto humano e
um liberalismo verdadeiramente abrangente. Quanto a este,
defendo todas as medidas que sejam a meu favor, porque não
se pode reprimir o mercado, quando o mercado quer fazer o

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MARIA FECK

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+E

Quem é
RUI
PINTO?
Expôs os segredos da
indústria do futebol. Quis
alertar a sociedade para
os negócios sujos e a
corrupção, mas acabou
preso após um jogo do
gato e do rato com a
Polícia Judiciária que se
arrastou mais de 3 anos.
Aos 31 anos,
enclausurado numa cela
de seis metros
quadrados, tem o seu
futuro nas mãos da juíza
que instruiu o processo
e-Toupeira. O mesmo
que precipitou a sua
detenção

TEXTO
MIGUEL PRADO

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E
stamos em junho. Há três meses em prisão preventi-
va no estabelecimento prisional anexo à Polícia Judi-
ciária, em Lisboa, Rui Pinto há muito que não toca
num computador. Desde que foi detido, em janeiro,
ainda em Budapeste, que ficou sem os seus perten-
ces. Mas hoje é dia de os recuperar. E com eles as
memórias dos tempos em que se movia livremen-
te na capital húngara. O inspetor José Amador en-
trega a Rui Pinto a sua mochila, uma Eastpak cin-
zenta, bem como uma mala de viagem, dois casa-
cos com capuz, uma máquina de cortar cabelo, um
envelope com medicamentos, uma embalagem de
rebuçados Halls e um chocolate Snickers, confis-
cados a Rui Pinto em Budapeste.
Rui Pinto reavê também os seus produtos de hi-
giene pessoal, um cadeado, um envelope com 45 mil
florins (o equivalente a 137 euros) e uma pasta com
uma edição da “New Yorker”. Preso na cela 42, num
espaço de dois metros de largura por três de com-
primento, o recluso 2019/00764 tem os movimentos
limitados. Só meses mais tarde, depois do despacho
de acusação que lhe imputaria 147 crimes, é que Rui
Pinto ganharia direito a conviver com alguns reclu-
sos no pátio da prisão e a jogar pingue-pongue
Na cela, com visitas limitadas à família e advo-
gados, Rui Pinto foi registando num caderno a sua
experiência de reclusão. Um diário que Rui guar-
dava debaixo da cama e que lhe seria apreendido
na tarde de 30 de agosto, numa busca liderada pelo
inspetor José Amador, na presença da advogada
Luísa Teixeira da Mota. Que desde logo lavra o seu
protesto, argumentando que a apreensão “excede
manifestamente o âmbito da busca”. A recolha do
caderno tinha sido aprovada pelo juiz Carlos Ale-
xandre, para o Ministério Público verificar se a es-
crita coincidia com a de um pequeno papel encon-
trado em janeiro no seu apartamento, em Budapes-
te. Na véspera Rui Pinto tinha recusado realizar um
exame grafológico na Polícia Judiciária.
Preso, com a sensação de ter todo um sistema
judicial virado contra si, Rui Pinto não está desliga-
do da atualidade. Tem acesso aos quatro canais em
sinal aberto. E à informação que lhe é trazida pelas
parcas visitas que lhe são permitidas. Ana Gomes
foi uma dessas visitas. “Na última vez que o vi es-
tava indignado por terem ido à cela apanhar o diá-
rio”, conta a ex-eurodeputada ao Expresso.

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BUDAPESTE Rui Pinto
foi viver para a capital da
Hungria em 2015. Foi lá
que foi entrevistado e
fotografado pela “Der
Spiegel” em fevereiro
deste ano, em prisão
domiciliária

MARIA FECK

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“É um rapaz muito inteligente, anormalmente vem partilhando informações sobre a sua deten- com o futebol, porque o jogo poderia destruir a mi-
culto para a idade dele”, elogia Ana Gomes. “Ele ção e fazendo críticas à atuação das autoridades nha vida”, contou na entrevista de fevereiro.
é um rapaz culto, está a ler, diz que tem sido bem portuguesas. A 24 de julho essa conta de Rui Pinto Rui Pinto cresceu com o Futebol Clube do Porto
tratado. Pediu-me alguns livros, que eu lhe levei”, no Twitter denunciava uma “campanha de intoxi- no coração. Mas não seria apenas o futebol a marcar
conta Ana Gomes. Rui Pinto vai lendo o que tem à cação da opinião pública, construída com base em para sempre a sua vida. A mãe estava sempre em
disposição na biblioteca da prisão e os livros que violações seletivas do segredo de Justiça, mistura- casa, mas o pai, designer de calçado, viajava muito
recebe de fora. Sobretudo de história e combate das com calúnia e difamação”. Rui Pinto queixava- pela Europa. Aos 11 anos Rui perdeu a mãe, vítima
à corrupção. “Ele é forte psicologicamente”, diz a -se que essa campanha visava “branquear a falên- de cancro. Durante a doença, enraivecido, andava
antiga eurodeputada. Ana Gomes tem sido uma das cia moral das instituições judiciais”, que “de for- muito à pancada na escola. Mas era também algo
suas maiores defensoras na praça pública. Garante ma habilidosa protegem os mecanismos da grande conflituoso com os professores. “Por vezes, estas
que não quer branquear o seu passado, mas diz fi- corrupção e evasão fiscal (muito para lá do mundo discussões ficavam fora de controlo, porque eu não
car “doente” com a inércia das autoridades nacio- do futebol)”. sabia parar. Até hoje”, revelou Rui Pinto quando fa-
nais para obter a sua colaboração. Mas quem é Rui Pinto? Um hacker ou pirata in- lou em fevereiro à “Der Spiegel”.
Rui Pinto já colaborou com o Ministério Públi- formático, como acusa o Ministério Público? Um Rui Pinto frequentou o curso de História na Fa-
co francês antes de ser detido, tendo fornecido às denunciante ou whistleblower, como consideram culdade de Letras da Universidade do Porto, mas
autoridades gaulesas mais de 12 milhões de docu- os seus defensores? Aos 31 anos, ganhou um lugar não completou a licenciatura. Entre fevereiro e ju-
mentos. França classificou-o como denunciante e no espaço mediático, logrou a admiração dos que lho de 2013 fez um semestre de Erasmus em Bu-
chegou a prever incluí-lo num programa de pro- advogam maior transparência e integridade nos dapeste. Apaixonou-se pela capital húngara, pela
teção de testemunhas, antes de ele ser extradita- negócios do futebol e tornou-se um alvo a abater sua luz, pelo Danúbio, pelos castelos e pontes. Aí
do para Portugal. As autoridades francesas, aliás, para todos os que viram as suas caixas de correio voltou, para viver, a partir de 2015. Pelo meio, a
criaram uma colaboração europeia com nove paí- eletrónico devassadas e os seus segredos profissi- sua primeira experiência conhecida no cibercrime.
ses, coordenada pelo Eurojust, estando essa inves- onais expostos na praça pública. Rui não tem nenhum curso na área da informáti-
tigação a trabalhar os dados de Rui Pinto até hoje. ca. Mas em 2013 desviou quase 357 mil dólares do
“Se ele cometeu crimes, a Justiça terá de decidir DE GAIA A BUDAPESTE Caledonian Bank, das ilhas Caimão. Um desfalque
sobre isso. Mas mesmo que tenha cometido crimes Nascido a 20 de outubro de 1988 em Vila Nova de que fez de si arguido no processo 7541/13.8, no
fez serviço público, expôs criminalidade organiza- Gaia, Rui Pinto aprendeu a ler e a escrever aos qua- âmbito do qual conheceu o advogado Aníbal Pin-
da e branqueamento de capitais”, avalia Ana Go- tro anos. Na escola “levava um avanço em relação to. Segundo escreveu a revista “Sábado”, o jovem,
mes. “O único crime dos 147 de que é acusado que às outras crianças”, como o próprio contou à “Der então com 25 anos, usou um servidor da Universi-

FERENC ISZA/AFP VIA GETTY IMAGES


podia justificar a prisão preventiva é a extorsão na Spiegel”, mas isso não se viria a traduzir num de- dade do Porto para entrar no sistema informático
forma tentada. Mas quantas pessoas estiveram de- sempenho excecional mais à frente. “Era muito do Caledonian Bank. Em setembro de 2013 entrou
tidas preventivamente em Portugal por extorsão nos bom a história. Por outro lado, a matemática, quí- na conta de um cliente e fez uma primeira trans-
últimos 20 ou 30 anos? Tenho falado com amigos mica e física era um desastre”, explicou Rui Pinto. ferência de cerca de 47 mil dólares para uma conta
advogados e ninguém conhece um caso”, diz ain- Ainda antes de entrar na escola primária começou sua no Deutsche Bank em Lisboa. No mês seguinte
da Ana Gomes. “Isto é altamente seletivo e destina- a interessar-se por futebol. Desenhava as cenas dos transferiu outros 310 mil dólares de um outro cli-
do a punir e silenciar este denunciante”, lamenta. jogos e as camisolas, escrevia algumas das palavras ente (a empresa NetJets, segundo a “Sábado”) para
Há uma semana, o advogado Francisco Teixei- que ouvia dos comentadores. “O meu pai não ficou a mesma conta no Deutsche Bank.
ra da Mota levou à Rádio Renascença uma mensa- muito contente. Disse-me que não podia ser fanático Em 2014, o jovem e o banco chegariam a um
gem de Rui Pinto, onde este aceitava que alguns dos acordo, com o português a devolver os montantes
seus atos possam ser considerados ilegais. “Mas não desviados. “No final, não recebi nenhum dinheiro
posso aceitar esta perseguição e esta postura vio- desse banco. Não é que tenha roubado o dinheiro,
lenta e vingativa por parte do Estado português”, essa não é a verdadeira história”, apontou em fe-
desabafava. Com o passar do tempo, foi saindo re- vereiro à “Der Spiegel”, sem, contudo, esclarecer o
forçada a desconfiança de Rui Pinto face às autori- que aconteceu, invocando um acordo de confiden-
dades portuguesas. Em fevereiro deste ano, em pri- cialidade. Justificou o ataque ao Caledonian com o
são domiciliária em Budapeste, Rui deu uma entre- interesse em perceber o sistema das empresas off-
vista à “Der Spiegel”, Mediapart e NDR, meios que, shore, no quadro de uma crise financeira que levou
à semelhança do Expresso, integram o consórcio
jornalístico EIC — European Investigative Collabo- Rui Pinto perdeu muitas pessoas em Portugal a perder as suas pou-
panças de um dia para o outro.
rations. Foi a primeira e única entrevista que deu
depois de ter sido detido. E já então manifestava os a mãe aos 11 Rui Pinto diz ter descoberto “exemplos de como
retirar quantias enormes de um país e transferir o
receios de ser extraditado para Lisboa.
“Tenho quase a certeza de que não terei um jul- anos. Adepto dinheiro para contas em vários paraísos fiscais”.
“Quanto mais investigava, mais percebia a injus-
gamento justo em Portugal. O sistema judicial por-
tuguês não é inteiramente independente; existem do Futebol Clube tiça”, contou em fevereiro.
Fechado o dossiê do Caledonian Bank, em fe-
muitos interesses escondidos. Claro que há procu-
radores e juízes que levam o seu trabalho a sério. do Porto, vereiro de 2015 Rui Pinto emigrou para a capital
húngara. Segundo o Ministério Público, ficou a vi-
Mas a máfia do futebol está em todo o lado. Querem
passar a mensagem de que ninguém se deve me- interessa-se por ver num apartamento arrendado na rua Szovetseg
Utca, num segundo piso de um edifício a dois qui-
ter com eles”, desabafava então Rui Pinto. “Estou
nervoso, porque posso ser alvo de ataques, princi- História e pelo lómetros do Danúbio. Mas em maio deste ano, ao
ser interrogado em Lisboa, Rui Pinto apontou uma
palmente por parte de adeptos do Benfica. Desde
o outono passado que recebo inúmeras ameaças combate à outra morada.
Em Budapeste, pouco tempo bastou para que o
de morte através do Facebook. Quando me reuni
com os investigadores franceses, mostrei-lhes as corrupção. Lê os jovem iniciasse o projeto que abalaria o futebol eu-
ropeu, revelando alguns dos seus maiores segredos
ameaças. Disseram-me que devia levar as amea-
ças muito a sério. Tenho medo de se entrar numa livros da prisão e pondo a nu o uso de paraísos fiscais por parte de
futebolistas, treinadores e empresários.
prisão portuguesa, principalmente em Lisboa, não
sair de lá vivo”, acrescentou. e os que recebe FOOTBALL LEAKS: O ANO ZERO
Desde então uma conta em seu nome na rede
social Twitter, que soma milhares de seguidores, nas visitas O Football Leaks seria, a partir de 2015, um dossiê
problemático para toda uma constelação de atores

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DETENÇÃO O jovem português foi preso
em Budapeste a 16 de janeiro. Ficou em
do futebol europeu. Expôs os contratos de trabalho informáticos, entre os quais os do Sporting e do prisão domiciliaria, até ser extraditado para
de diversos jogadores, revelou as cláusulas mais ab- fundo de investimento Doyen. Rui assume ter co- Portugal, em março
surdas entre clubes e futebolistas, mostrou quan- laborado com o Football Leaks, mas nega a autoria
to ganhavam os intermediários nesses contratos e das intrusões que permitiram extrair o vasto acervo
trouxe a público negócios e acordos que violavam de documentos que acabaram no domínio público. aos e-mails durante três dias. Dois dias antes tinha
algumas das regras do futebol europeu. Mas como “É um coletivo de fontes, de whistleblowers, e ocorrido uma outra intrusão no sistema informáti-
foi possível? não existiu intromissão não autorizada em siste- co da Doyen, em Londres, a partir do mesmo IP de
O Ministério Público imputa a Rui Pinto todos mas informáticos, pelo menos minhas. Eu não tive Budapeste usado nos ataques ao Sporting.
os acessos indevidos a sistemas informáticos que nenhuma intromissão em sistemas informáticos de Assim, a 29 de setembro de 2015, surgia no blo-
levaram à divulgação dos segredos da indústria fu- entidades nacionais ou internacionais”, declarou gue Football Leaks um alegado contrato de em-
tebolística. “Pelo menos a partir do início do ano de Rui Pinto ao ser interrogado em Lisboa em maio préstimo do futebolista Mitroglou entre os ingle-
2015 e até 16 de janeiro de 2019 o arguido Rui Pinto deste ano. Meses antes, em entrevista à “Der Spi- ses do Fulham e o Sporting. No dia seguinte, outros
muniu-se de conhecimentos técnicos e de equipa- egel”, Rui Pinto já tinha defendido uma ideia se- contratos entre o Sporting e o Marítimo relativos
mentos adequados que lhe permitiram aceder, de melhante. “Não sou o único envolvido. Ao longo aos futebolistas Danilo Pereira e Marega. E ainda
forma não autorizada, a sistemas informáticos e a do tempo, mais e novas fontes foram aparecendo e o contrato de trabalho entre os leões e o treinador
caixas de correio eletrónico de terceiros”, lê-se no partilhando material comigo e a base de dados foi Jorge Jesus. A 1 de outubro seria a vez de a Doyen ser
despacho de acusação. crescendo”, defendeu-se. exposta. Vários contratos seus envolvendo o Spor-
Recuemos quatro anos. O Football Leaks nasce Mas não é esse o entendimento do Ministé- ting e o Benfica caíam no domínio público.
a 29 de setembro de 2015 como um blogue na pla- rio Público (MP), que imputa a Rui Pinto a autoria A publicação dos segredos do futebol avançava a
taforma “Livejournal”, ao qual está associada uma das intrusões nos sistemas do Sporting e da Doy- uma velocidade vertiginosa. A imprensa portugue-
conta de e-mail do provedor russo Yandex. A pri- en, ainda em 2015, entre outros ataques. O MP re- sa amplificava o impacto das revelações. Alguém se
meira mensagem apresenta as motivações: “Este lata que entre 20 de julho e 30 de setembro desse tinha intrometido, de forma incómoda, nos negó-
projeto visa divulgar a parte oculta do futebol. In- ano Rui Pinto entrou nas caixas de correio de de- cios da bola. Até que quem se sentiu incomodado
felizmente, o desporto que tanto amamos está po- zenas de funcionários do Sporting, a partir de en- se começou a mexer.
dre e é altura de dizer basta.” O autor dizia aceitar dereços IP situados em Budapeste, na morada que
doações. “Porque adquirir todo este material levou- as autoridades dizem ter sido de Rui Pinto e tam- A PJ ENTRA EM CAMPO
-me imenso tempo, e é sempre bonito contribuir”, bém a partir de um IP da Universidade do Porto, A 3 de outubro de 2015, 48 horas depois das primei-
podia ler-se no texto de abertura. ao qual o português ainda teria acesso. Segundo o ras revelações, chega à caixa de correio do então
Muito do que então começou a ser publica- MP, a 22 de setembro Rui Pinto também promoveu presidente executivo da Doyen, o português Nélio
do resultou, segundo o Ministério Público, de um conjunto de ataques aos servidores do Sporting Lucas, um misterioso e-mail assinado por Artem
acessos ilegítimos de Rui Pinto a vários sistemas que deixaram os funcionários do clube sem acesso Lobuzov, com um aviso: “A fuga é bem maior do

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que imagina.” A mensagem aludia a “artimanhas Caimão. Foi o suficiente para levar a PJ a concluir,
feitas no Banco Carregosa ao abrir uma conta qua- a 28 de outubro de 2015, que Artem Lobuzov era na
se sem documentação”, negócios simulando con- realidade Rui Pinto.
tratos de prospeção de jogadores (scouting) envol- A Doyen acabaria por não fechar qualquer acor-
vendo o Futebol Clube do Porto, a Vela Manage- do com Rui Pinto. A 9 de novembro Aníbal Pinto
ment (empresa maltesa de Nélio Lucas) e a Energy anuncia a Rui Pinto o seu afastamento e deixa um
Soccer (de Alexandre Pinto da Costa, filho do pre- conselho: “Não insistas em receber dinheiro, de-
sidente do clube). siste e evita problemas, pois a PJ vai chegar a ti,
No último parágrafo podia ler-se que “mui- vais ser preso e não te posso ajudar.” No dia seguin-
to mais pode aparecer online”. “Certamente não te Rui Pinto escreve a Nélio Lucas que “acusações
deve querer isso, não é? Mas podemos conversar.” de ameaças ou extorsão são claramente abusivas”.
O e-mail marcou o início de uma troca de corres- “Admito que cometi um erro e não estou interessa-
pondência entre Nélio Lucas e Rui Pinto, na altura do em receber um cêntimo, por isso vou entregar
disfarçado sob a identidade de “Artem Lobuzov”. pessoalmente nos próximos dias a documentação
Essa correspondência veio a culminar com um ape- no DCIAP”, lê-se também nesse e-mail.
lo a uma “doação generosa”, entre meio milhão e Rui Pinto não mais voltou a contactar com Né-
um milhão de euros, para que cessasse a divulga- lio Lucas. Mas no blogue Football Leaks prosse-
ção de documentos da Doyen. guiu a publicação de contratos da Doyen e outros
No próprio dia de receção desse e-mail a Doyen, documentos.
através da sociedade de advogados Vieira de Almei- Hoje, além dos crimes de acesso ilegítimo e vi-
da, apresentou uma queixa contra incertos no De- olação de correspondência, Rui Pinto é acusado de
partamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de um crime de extorsão na forma tentada, relativa-
Lisboa. A 7 de outubro também a Polícia Judiciária mente à Doyen. O arguido nega que fosse sua inten-
(PJ) recebe uma denúncia de extorsão, apresentada ção ficar com o dinheiro. Defende que apenas quis
por Nélio Lucas e pela Doyen. Uma semana antes a testar o presidente da Doyen para saber até onde
PJ tinha recebido outra denúncia, por acesso ilegí- estava disponível a ir para impedir a revelação dos
timo, apresentada pelo Sporting. segredos da empresa. “Tentei falar com o Nélio Lu-
Nélio Lucas entrega à PJ o seu iPhone, para uma cas, encostá-lo à parede para que ele se descaísse e
perícia. E dois dias depois o advogado de Nélio Lu- confirmasse as ilegalidades que na minha opinião
cas, Pedro Henriques, informa a PJ sobre a identi- cometeu”, declarou Rui Pinto no interrogatório em
dade do advogado que estaria a representar Artem Lisboa em maio deste ano. E contou o mesmo a Ana
Lobuzov, encaminhando um e-mail aos inspetores Gomes. “Disse que tinha sido uma parvoíce, que era
José Amador (que conduziu toda a investigação nos miúdo, que queria era experimentar os tipos. Pa-
últimos quatro anos) e Rogério Bravo (especialista receu-me uma explicação convincente”, afirma a
em cibercrime na PJ). antiga eurodeputada.
Rui Pinto tinha contactado o advogado Aníbal
Pinto (que já o defendera no processo do Caledoni- CABEÇA A PRÉMIO
an Bank) para o representar nas negociações com Enquanto o blogue Football Leaks continuava com
a Doyen. A partir de 15 de outubro os telefones de as publicações, Rui Pinto tinha a cabeça a prémio.
Aníbal Pinto ficaram sob escuta. A Doyen, que ti- A Doyen, controlada por investidores cazaques (a
nha sede em Londres, mostrou-se disponível para família Arif), era uma das empresas mais ativas na
negociar um acordo para estancar as revelações no Europa nos negócios do futebol. Não tinha a influ-
Football Leaks. Na verdade, fê-lo apenas para, em
articulação com a PJ, tentar descobrir a real iden- No processo ência do superagente Jorge Mendes, mas movimen-
tava com relativa facilidade os capitais necessários
tidade de Artem Lobuzov.
Rui Pinto rapidamente soube disso. A 17 de ou- de Rui Pinto para apoiar necessidades de tesouraria dos clubes.
Fundos como a Doyen ocuparam um lugar que
tubro escreveu a Nélio Lucas. “Há de facto uma ten-
tativa da Doyen e do seu advogado Pedro [Henri- no DCIAP há a banca comercial não podia ocupar. Na ressaca da
crise económica global, os grandes bancos não po-
ques] em descobrir todos os dados de tráfego para
os passar para a Polícia Judiciária”, pode ler-se diversos diam expor-se a um negócio tão arriscado como o
futebol. Mas os clubes de média e grande dimen-
num e-mail que enviou ao líder da Doyen. “Tenho
na minha posse uma cópia do documento escrito elementos são continuavam a precisar de engenhosas soluções
financeiras para continuarem a contratar craques
pelo seu advogado, autenticado pela PJ de Lisboa,
enviado para o Yandex com o nome do processo e de prova, desde para cada nova época.
A Doyen tornou-se uma referência no financi-
tudo”, assegurava.
A 21 de outubro de 2015, ao fim de múltiplos os telefones amento de vários clubes, como o Porto, Sporting
e Benfica, mas também o Atlético de Madrid, PSV
contactos por e-mail e SMS, os advogados de Né-
lio Lucas (Pedro Henriques) e de Rui Pinto (Aníbal apreendidos em Eindhoven, entre outros, ajudando-os a contratar
futebolistas sem precisarem de adquirir a totalida-
Pinto) encontram-se na estação de serviço da A5,
em Oeiras. O encontro começa pouco antes das Budapeste aos de dos respetivos direitos económicos. Ver os seus
segredos comerciais expostos na praça pública não
16h, no restaurante Pans&Company daquela área
de serviço, no sentido Lisboa-Cascais. Estava tam- registos era seguramente bom para a empresa.
Nélio Lucas estava furioso. E não deixou de o
bém presente Nélio Lucas. O objetivo era firmar
um acordo e os termos de pagamento pela Doyen. de acessos mostrar a Rui Pinto, quando este era ainda e ape-
nas Artem Lobuzov. “Vai-me fazer gastar dinhei-
Aníbal Pinto não sabia, mas o encontro estava a ser
vigiado e gravado pela PJ, que monitorizou tudo o ilegítimos a ro e vai-se ficar a rir de mim mas nunca mais vai
dormir descansado... nem caminhará na rua livre-
que então foi conversado. Incluindo a confissão de
Aníbal Pinto de que conhecia o autor de Football várias entidades, mente. Pode ser que nem eu nem os meus amigos
tenhamos a sorte de o encontrar um dia mas Deus
Leaks de um outro processo-crime no Porto, relaci-
onado com um acesso a contas bancárias nas Ilhas como a FPF encontrará. O que você fez não [se] faz. Ainda por
cima é um cobarde que se esconde atrás de um

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teclado”, escreveu Nélio Lucas num e-mail de 17
de outubro de 2015. No final de novembro de 2018, sendo então expostos nos autos
do processo (que este ano deixou de estar sob se-
Rapidamente o misterioso autor do Football Le-
aks entrou no radar europeu do cibercrime. A 22 de 2018, a Polícia gredo de Justiça). Em dezembro a PJ viria a desco-
brir que o pai de Rui Pinto tinha viagem do Porto
outubro o inspetor-chefe Rogério Bravo pede aos
serviços da PJ para solicitarem a cooperação da Eu- Judiciária para Budapeste a 15 de janeiro de 2019, com regres-
so marcado para 29 de janeiro.
ropol e da Interpol. Desde outubro de 2015 que as
autoridades portuguesas sabiam que o alvo era Rui colocou sob O processo de Rui Pinto entrava num momen-
to determinante, que aceleraria após uma série de
Pinto. Mas levariam mais de quatro anos a conse-
guir apanhá-lo. escuta os documentos da sociedade de advogados PLMJ se-
rem despejados na internet, no blogue Mercado de
Quando, já detido em Budapeste, deu a sua en-
trevista à “Der Spiegel”, Rui Pinto garantiu que telefones da Benfica, a partir de novembro de 2018. Segundo o
despacho de acusação, foi Rui Pinto quem publi-

família de Rui
sempre morou em Budapeste. “Vivia uma vida per- cou naquela página os ficheiros áudio das inquiri-
feitamente normal”, descreveu. Mas também assu- ções e depoimentos no âmbito do processo e-Tou-

Pinto e acedeu
miu que viajava muito. peira (que investigou a obtenção de informação
Em 2016 o Ministério Público foi tentando loca- privilegiada pelo Benfica sobre vários processos

aos seus dados


lizar Rui Pinto. Solicitou a colaboração das autori- judiciais). O carregamento de diversos documen-
dades russas, para verificar quem, e em que locali- tos relacionados com o e-Toupeira prosseguiu até

bancários. Foi
zação, tinha registado o e-mail de Artem Lobuzov. janeiro de 2019.
Pediu informação ao Twitter, Facebook e Micro- A 16 de janeiro de 2019 Rui Pinto foi detido em

assim que
soft. Mas não era fácil. A Microsoft, por exemplo, Budapeste, ficando em prisão domiciliária na ca-
respondeu que só poderia facultar à Justiça por- pital húngara. A polícia apreendeu-lhe três te-

descobriram
tuguesa dados de contas registadas em Portugal. lemóveis, mais de uma dezena de discos rígidos,
A informação que a PJ tinha era que as contas de um portátil MacBook, várias pen USB, entre outro
e-mail associadas às revelações do Football Leaks material. Em março Rui Pinto seria extraditado,
foram acedidas a partir de uma rede, denominada
TOR, que permite aos utilizadores navegar na in-
que em janeiro ficando em prisão preventiva, até hoje. Até à sua
acusação como responsável por 147 crimes (extor-
ternet de forma completamente anónima. o pai dele ia são, acesso ilegítimo, violação de correspondência
e sabotagem informática), a PJ e o MP foram explo-
O CERCO A APERTAR
Em março de 2016 Rui Pinto vê pela primeira vez
viajar para rando parte do material encontrado no seu aparta-
mento em Budapeste.
o seu nome exposto publicamente. Um blogue na
internet atribuía-lhe a autoria do Football Leaks,
a Hungria Nessas diligências, o MP concluiu que Rui Pin-
to não só entrou, em 2015, nos sistemas da Doyen e
identificando-o como um jovem de 27 anos a resi- do Sporting, como prosseguiu, daí em diante, com
dir num país da Europa de Leste e publicando uma acessos a diversas entidades, dentro e fora do fute-
fotografia sua, com alguns dados pessoais. Também bol. Num dos seus discos foram encontradas cen-
a relação com o advogado Aníbal Pinto era exposta. tenas de caixas de e-mail, de clubes de futebol, de
O blogue Football Leaks de imediato negou estar sociedades de advogados, da Federação Portugue-
associado a Rui Pinto. sa de Futebol e também da Procuradoria-Geral da
O Ministério Público já tinha enviado pedidos República, entre outras instituições.
de cooperação para a Rússia, Irlanda, Dinamarca e Rui Pinto há muito que não confia nas autori-
Hungria. A investigação seguia o seu curso. Mas não de 2017 o inquérito do MP levava quase 1500 pági- dades portuguesas. Chegou a oferecer cooperação à
com a rapidez desejada pela Doyen, que até abril de nas de autos e encerrava o seu sexto volume. O MP Autoridade Tributária em janeiro, mas o Fisco por-
2016 continuou a ver os seus contratos e e-mails ex- ainda estava a receber traduções da documentação tuguês, que já lhe tinha pedido ajuda quando ele era
postos na internet. A Doyen queria ter acesso ao pro- enviada pelas autoridades russas. apenas e só Artem Lobuzov, não lhe respondeu. Rui
cesso, mas este permanecia em segredo de Justiça. Os autos do processo de Rui Pinto, consultados Pinto e os seus advogados invocam nulidades vári-
É em meados de 2016 que as autoridades portu- pelo Expresso, revelam que a 29 de março de 2018 as no processo. Argumentam também que no que
guesas obtêm da Hungria informação crucial para o MP aprova a criação de uma equipa de magistra- respeita à Doyen não pode haver julgamento em
a localização de Rui Pinto. Budapeste faculta, em dos para “proceder à investigação dos inquéritos Portugal, porque nenhuma das partes estava em
junho de 2016, o endereço associado ao IP de onde nos quais estejam em causa crimes praticados no Portugal à data dos factos.
tinham sido feitos os acessos aos sistemas infor- âmbito da atividade de competição desportiva de A defesa de Rui Pinto pediu a abertura de ins-
máticos do Sporting e da Doyen, com uma morada futebol e de crimes com estes conexos”. Mas não trução, na esperança de a maior parte das acusa-
associada a um cidadão de nacionalidade húnga- são conhecidos os desenvolvimentos dessa inves- ções do Ministério Público possam cair por terra,
ra de 46 anos. tigação. O último relatório de combate à fraude e sem julgamento. O debate instrutório começará a
Durante meses não houve mais revelações do evasão fiscal detalha as ações da Autoridade Tribu- 12 de dezembro. E será liderado pela juíza Cláudia
Football Leaks, até que no final de novembro o tária no âmbito de casos mediáticos, como o Swiss Pina, que conduziu diversos casos mediáticos, en-
consórcio EIC, de que o Expresso faz parte, avan- Leaks, Malta Files e Panama Papers. Mas é omisso tre os quais o e-Toupeira. Um processo que aca-
çou com novos elementos, revelando a existência quanto ao Football Leaks. bou, há um ano, exposto na internet, na última
de estruturas empresariais em paraísos fiscais que O MP sentia estar cada vez mais perto de Rui grande cartada de Rui Pinto antes de ser preso em
vinham sendo usadas por vários nomes do mundo Pinto. E a 12 de outubro de 2018 a procuradora Pa- Budapeste.
do futebol, como Cristiano Ronaldo, José Mourinho trícia Barão pede ao Banco de Portugal que identi- Rui Pinto, com um curso de História por com-
e Jorge Mendes, para pagar menos impostos. Na fique todas as contas bancárias do pai e da irmã de pletar, quatro anos de revelações sobre os mean-
sua maior parte, os casos então revelados pelo EIC Rui Pinto, pedindo ainda ao Tribunal de Instrução dros do futebol e dos seus negócios, continua a ver
estavam associados a infrações tributárias sob in- Criminal a aprovação de escutas aos dois familia- whistleblowing onde muitos veem pirataria infor-
vestigação em Espanha. Em 2018, antes de rumar à res, bem como a aprovação de buscas domiciliárias mática. Admira Edward Snowden, reconhece-se
Juventus, Ronaldo aceitou pagar ao Fisco espanhol no endereço de Budapeste associado ao IP por via como delator, mas é visto pelos seus críticos como
mais de 18 milhões de euros para encerrar o dife- do qual tinham sido atacados os sistemas da Doy- mero cibercriminoso. Quem é Rui Pinto? A sua vida
rendo que o Football Leaks revelou. en e do Sporting. dava um filme. b
Rui Pinto permanecia em Budapeste. Em Lis- Os dados das contas bancárias do pai e da irmã
boa, a investigação avançava devagar. Em meados de Rui Pinto chegariam ao Ministério Público em mprado@expresso.impresa.pt

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Quinhentos anos passados sob a primeira viagem de circum-navegação,
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hoje, de mochila às costas, plena de aventuras mas muito longe do dra-
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Ciências da Universidade de Lisboa, assina o prefácio.

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Os especialistas definem adição como
uma desordem comportamental de origens
imensamente complexas. No caso da
adição em videojogos, a população mais
vulnerável parece ser a de homens jovens
TEXTO FERRIS JABR/THE NEW YORK TIMES COMPANY

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harlie Bracke não se recorda de um tempo em de registar o seu progresso no sistema interno da
que não estivesse metido nos videojogos. Duran- agência, simplesmente inventava qualquer coisa.
te a infância, a sua paixão por eles não lhe cau- Até que o patrão percebeu o esquema e o colocou
sou problemas sérios. Mas tudo mudou quando sob vigilância. Percebendo que tinha um proble-
foi para a faculdade, na Universidade do Indiana, ma, Bracke desmantelou o seu computador, me-
em Bloomington. Se faltasse às aulas ou ficasse a teu as peças numas caixas que tinha na garagem e
jogar até às três da manhã, ninguém parecia im- tentou concentrar-se no trabalho. Um mês depois,
portar-se. Após o fim difícil da relação com uma após fazer uma grande venda, convenceu-se a co-
namorada do tempo do liceu e a morte da sua mãe, memorar jogando “League of Legends” durante um
caiu num período de severa depressão. Começou a serão. Foi buscar os componentes do seu compu-
ir a um terapeuta e a tomar antidepressivos, mas tador, montou-os e começou a jogar por volta das
ao terceiro ano jogava videojogos o dia todo e ra- seis da tarde. Dez horas depois ainda estava a jogar.
ramente saía do quarto. Acabou por chumbar à A semana foi-se. E ele continuou a jogar.
maioria das disciplinas, pelo que desistiu do cur- Em maio, a Organização Mundial da Saúde
so e regressou a casa dos pais em Ossian, India- acrescentou oficialmente um novo distúrbio à sec-
na, uma terra com cerca de três mil pessoas, onde ção sobre abuso de substâncias e comportamentos
arranjou um trabalho na Pizza Hut. Lá, a sua vida aditivos na última versão da Classificação Interna-
entrou num ritmo familiar: levantava-se, ia tra- cional de Doenças: o “distúrbio do jogo”, definido
balhar, regressava a casa, jogava videojogos até como uma preocupação excessiva e incontrolável
tarde e repetia o ciclo no dia seguinte. “Não me com videojogos, resultando em significativos im-
parecia nada estranho”, recorda. Era como o li- pedimentos pessoais, sociais, académicos ou ocu-
ceu, mas com o emprego em vez das aulas. “E o pacionais durante pelo menos 12 meses. A edição
tempo que costumava passar com os meus ami- mais recente do “Manual de Diagnóstico e Estatís-
gos desaparecera, pois eles tinham ido para zonas tica das Perturbações Mentais”, a bíblia clínica da
diferentes”, diz. “Eu mais ou menos pensava que Associação Psiquiátrica Americana, reconhece o
o mundo era assim.” “distúrbio do jogo na internet” — mais ou menos
Aos 24 anos, decidiu arranjar uma licença de a mesma coisa — como uma condição a requerer
agente imobiliário e mudar-se do Indiana para a mais estudos.
Virgínia, a fim de trabalhar na mesma agência que Timothy Fong, um professor de Psicologia da
o seu irmão Alex. A decisão levou ao rompimento Adição da Universidade da Califórnia, em Los An-
com outra namorada e a um profundo sentimento geles, diz estar convencido de que a adição em vi-
de solidão numa cidade onde, uma vez mais, não deojogos é real. “É bastante possível e comum ter
tinha amigos. Acabou por entrar em contacto com em simultâneo uma adição e outra desordem men-
a sua ex, na esperança de ser aceite de volta, ape- tal ou comportamental”, como depressão ou ansie-
nas para descobrir que ela já tinha outro namora- dade. “Pelo menos metade das vezes, os jogadores
do. “Nessa altura, passei-me”, diz. Segundo a sua compulsivos vêm com histórias clínicas e quadros
estimativa, começou a jogar videojogos cerca de 90 mentais que são essencialmente os mesmos dos dos
horas por semana. Trabalhava estritamente o míni- doentes com adição em heroína, alcoolismo ou de-
mo para pagar as contas. Quando chegava a altura sordem do jogo. Têm todos os sinais.”

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Durante demasiado tempo, tanto entre a co-
munidade médica como na consciência pública,
Virgínia para celebrar o nascimento de um neto.
Numa tarde, fizeram uma visita de surpresa a Brac- Os videojogos
são um dos
a associação entre adição e dependência química ke. Embora soubessem que o seu filho estava a so-
tem persistido teimosamente. Investigadores numa frer, não faziam ideia até que ponto. Ficaram cho-

sectores mais
grande variedade de áreas — desde a psicologia à cados com o estado do apartamento — atafulhado
saúde pública — cada vez mais resistem a isso. A de roupas, lixo e embalagens de pizza vazias — e

lucrativos da
adição já não é considerada sinónimo de depen- com o próprio aspeto sujo de Bracke. Ele disse-lhes
dência química de uma substância nem pode ser que sabia que o jogo se tinha tornado um problema

indústria do
reduzida à atividade dos neurónios nalgumas re- terrível, mas sentia-se impotente para parar. Nas
giões do cérebro. Os especialistas agora definem semanas seguintes, Sally telefonou para todos os

entretenimento,
adição como uma desordem comportamental de centros de reabilitação e linhas de atendimento a
origens imensamente complexas. No caso da adição adictos que conseguiu encontrar, em busca de um

ultrapassando
em videojogos, a população mais vulnerável parece programa que reconhecesse a adição em videojogos
ser a de homens jovens como Bracke. e soubesse como tratá-la. Todos os centros disse-
Pouco depois de os empregadores de Bracke o ram que não forneciam esse tratamento.
porem em regime probatório, os seus pais, Sally e
Steve, visitaram-no na Virgínia. Um dia, quando
Mas, um dia, um operador interrompeu os seus
soluços para lhe dizer que o seu supervisor ha-
o cinema,
vinham da mercearia, Sally arranjou coragem para
lhe fazer uma pergunta que a inquietava há algum
via recentemente mencionado um novo centro de
reabilitação no estado de Washington. Chamava-
a televisão,
tempo. “Charlie, tu és um viciado em jogo?” Bracke
meditou na pergunta em silêncio enquanto condu-
-se reStart e era especializado em adição na inter-
net e nos videojogos. Bracke e os seus pais ficaram
a música e os
zia e por fim respondeu: “Sim, acho que talvez seja.”
Na primavera de 2015, Bracke foi oficialmente
radiantes por terem finalmente encontrado uma
solução, mas o preço era elevadíssimo: 22 mil dó-
livros. Os jogos
expulso da sua equipa na imobiliária. Nesse verão,
ficou em casa do irmão Alex a tomar conta dos cães,
lares por uma estadia mínima de 45 dias, não co-
berta pelo seguro de saúde. (Na altura, não havia
são também o
enquanto Alex ia de férias com a mulher e o filho.
Ao primeiro dia da estadia, percebeu de repente
um código de diagnóstico oficial para a adição em
videojogos.) No final, decidiram voltar a hipotecar
tipo de aplicação
que a vida do irmão — a casa, a família, o emprego
e o rendimento estável — era tudo o que ele queria
a casa da família.
Quando Bracke nasceu, no final dos anos 80,
de telemóvel
mas jamais ia ter. Esta epifania chocante foi o pre-
lúdio de uma fase de profundo autorrepúdio. Parou
os videojogos ainda estavam a ser assimilados na
cultura mainstream americana. Hoje são ubíquos.
mais popular
de tomar os antidepressivos, pois achava que não
os merecia. Deixou de tomar banho regularmente.
Globalmente, mais de 2 mil milhões de pessoas jo-
gam videojogos, incluindo 150 milhões de ameri-
e lucrativa
Saiu de casa do irmão apenas por duas vezes em canos (quase metade da população do país), 60%
nove dias. O jogo era a única coisa que o distraía dos quais jogam diariamente.
da sua angústia mental. Hoje, os videojogos são um dos sectores mais
Em agosto, tinha um plano de suicídio deta- lucrativos da indústria do entretenimento, ultra-
lhado. Uns dois meses antes do momento em que passando o cinema, a televisão, a música e os li-
pretendia matar-se, os seus pais regressaram à vros. Os jogos são também o tipo de aplicação de

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As pessoas telemóvel mais popular e lucrativa, sendo respon-
sáveis por um terço de todas as descargas e 75% do
casa de dois andares em Fall City, Washington, ro-
deada por um jardim e hectares de floresta. Após o

privadas de uma
rendimento da App Store da Apple. check-in, ele juntou-se a um grupo de homens no-
Um jogador típico nos Estados Unidos passa vos sentados à volta de uma fogueira. Estavam a co-

rede social fiável


12 horas a jogar todas as semanas; 34 milhões de mer cachorros quentes e a realizar a sua reunião do
americanos jogam uma média de 22 horas por se- serão, um ritual que Bracke acabaria por conhecer

ou que têm uma


mana. Em 2018, as pessoas à volta do mundo pas- bem. Iam falando à vez, partilhando o que tinham
saram coletivamente uns 9 mil milhões de horas a conseguido nesse dia e o que planeavam para o se-

dificuldade
jogar videojogos no site de streaming “Twitch” — guinte. “Senti-me aceite”, recorda Bracke. “Parece
3 mil milhões mais horas do que no ano anterior. quase piroso dizer isto, mas logo que cheguei senti

séria em
Na Coreia do Sul, onde mais de 95% da população que tinha feito a escolha certa.”
tem acesso à internet e as velocidades de conexão O reStart abriu em 2009 e permanece um dos

relacionar-se
são as mais elevadas do mundo, o jogo compulsivo poucos centros de reabilitação a longo prazo para
tornou-se uma crise de saúde pública. Em 2011, o viciados em internet e videojogos. Hilarie Cash,

com outros têm


governo aprovou a Lei do Encerramento, que proí- uma das fundadoras, estima que 80% dos clien-
be os menores de 16 anos de jogarem online entre a tes completam a Fase I e 70% a Fase II. Ex-clientes
meia-noite e as seis da manhã. acham que poderá ser bastante menos do que isso;
um risco muito O facto de os videojogos serem desenhados para
se tornarem viciantes é um segredo aberto na in-
têm visto muitos amigos recair ou abandonar pre-
maturamente o programa.
maior de dústria do jogo. Com a ajuda de cientistas contrata-
dos,os criadores dos jogos têm usado muitas técni-
Bracke passou cerca de sete semanas no reStart
a cumprir a fase inicial de detox, seguindo um regi-
desenvolver cas psicológicas para tornarem os seus produtos tão
difíceis de largar quanto possível. As paisagens de
me estrito de tarefas, exercícios, refeições, reuniões
de grupo e sessões de terapia. Luzes desligadas às
uma adição sonho cuidadosamente compostas dos videojogos
começaram a oferecer um contraste sedutor com o
10h30. Nada de telemóveis ou computadores. Cha-
madas para o exterior, só numa única linha terres-
e de recair mundo fora dos ecrãs. Eliminam as consequências
do fracasso no mundo real e essencialmente ga-
tre. O programa obrigou-o a tentar novas ativida-
des — caminhadas, campismo, frisbee golf —, mui-
rantem recompensas a troco de esforço. Imbuem tas das quais ele gostou. Desenvolveu um “plano
os participantes com um sentido de propósito e para equilíbrio na vida”, focado em estratégias para
realização — exatamente o género de autoestima uso responsável da tecnologia após o programa. E
que pode ser tão difícil de atingir na vida real. Para aprendeu como ter conversas difíceis usando uma
jovens como Bracke, que ou não completaram um “roda da comunicação”, que lhe exigia verbalizar
curso superior de quatro anos ou não encontraram o que estava a sentir e a pensar e reiterar o que a
um emprego compatível com a sua educação e ca- outra pessoa na conversa tinha acabado de dizer.
pacidades, os videojogos tornaram-se uma espécie Uma grande componente da filosofia do reStart
de ocupação substituta — um simulacro do sucesso. é a importância de manter relações. “Estes tipos
Na noite de 21 de outubro de 2015, um parente têm quase universalmente aquilo aquilo a que eu
foi buscar Bracke ao aeroporto de Seattle e deixou-o chamaria uma desordem de intimidade”, diz Cash.
nas instalações principais do reStart, uma grande “Não sabem realmente como construir e manter

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relações íntimas. A solução para a adição é a cone- Bracke, esteve quase a cometer suicídio, mas pro- a sua rede social, fazendo amigos novos através do
xão. Estamos a construir uma real comunidade de curou ajuda à última hora. Em 2011, contou a sua trabalho, da escola e de conhecimentos mútuos.
recuperação com os nossos participantes. Tem tudo história e as suas reflexões num blogue e recebeu Quando o tempo estava bom, ia fazer caminhadas,
a ver com construir amizade e comunidade que seja milhares de respostas de pessoas com experiên- levava o seu cão num longo passeio ou jogava fris-
face a face, em pessoa, em vez de online.” cias similares. Inspirado por essa torrente, fundou bee golf. Em casa, desfrutava de um ocasional jogo
A ascensão dos videojogos coincidiu com uma a Game Quitters, uma comunidade de apoio online de mesa. “Tentei praticar uma data de hobbies, nos
crise social que ainda mal começamos a perceber: que hoje tem cerca de 75 mil membros em 95 paí- quais mergulho mais superficialmente, em vez de
a profunda solidão do homem americano. Segundo ses. “As pessoas têm vindo a revelar-se há anos, ter um que ocupa tudo.”
uma sondagem de 2018, mais de 40% dos ameri- dizendo que estão realmente a lutar”, conta. “O Em setembro, visitei-o no apartamento onde
canos sentem que as suas relações não têm sentido que realmente importa é sentir-se que se tem de estava a viver na altura. Fui cumprimentado por
e que em geral se encontram isolados dos outros; continuar a jogar, apesar de isso ter um impacto vários dos seus amigos e colegas de casa, todos ho-
20% raramente ou nunca se sentem próximos de negativo na nossa vida. A adição é isso. Enquan- mens na casa dos 20 que tinham estado no reStart
alguém. Os adultos jovens entre os 18 e os 22 anos to sociedade, acho que devíamos perguntar como (pediram para não ser identificados). Falámos so-
têm taxas mais elevadas de solidão do que qual- podemos ajudar.” bre as experiências deles no programa e os planos
quer outro grupo. Há boas razões para pensar que Os atuais critérios de diagnóstico para a adição a longo prazo que tinham. Todos acreditavam que,
os homens solteiros são especialmente vulneráveis são menos uma descrição científica definitiva do sem algum tipo de tratamento formal, teriam co-
ao isolamento social e às suas repercussões. Estu- que linhas de orientação úteis. Insistir que a adição metido suicídio. Todos enfatizavam quão impor-
dos sugerem que os homens dependem primaria- tem de ficar restrita a determinadas substâncias é tante tinha sido para a recuperação a ênfase do
mente de um parceiro para intimidade emocional, presumir um nível de compreensão que ainda não reStart na conexão social. E todos diziam que, pelo
enquanto as mulheres têm mais probabilidade de atingimos. Se a adição é um conceito em evolução, menos para já, tencionavam ficar em Washington
receber apoio emocional de amigas próximas; os e se um alargamento oficial desse conceito benefi- — o lugar onde todos tinham aprendido, ou rea-
homens no final da casa dos 30 perdem amigos a ciaria profundamente pessoas que claramente ne- prendido, a relacionarem-se com outros fora do
uma taxa mais rápida do que as mulheres; e os ho- cessitam de ajuda, é justificável ficarmos apegados contexto de jogos multiplayer.
mens têm uma probabilidade mais alta de se ma- ao status quo? Embora cada um tivesse o seu próprio futuro em
tarem devido a afastamento emocional ou social Hoje, Bracke — um homem cordial de 31 anos que se concentrar, fosse na escola ou no trabalho
prolongado. com barba castanha — trabalha na cadeia de arma- ou nas duas coisas, ainda viviam juntos e encora-
As pessoas privadas de uma rede social fiável zéns Costco. Acaba de terminar um curso de con- javam-se uns aos outros nas suas diversas buscas.
ou que têm uma dificuldade séria em relacionar- tabilidade no Bellevue College e começou a estudar Talvez jamais viessem a compreender inteiramente
-se com outros têm um risco muito maior de de- na Universidade de Washington. Tem um telemó- os motivos por trás das suas compulsões ou desti-
senvolver uma adição e de recair. A adição em si vel Samsung Galaxy e um laptop “intencionalmen- lassem a culpa dos jogos de todos os outros elemen-
mesma pode magnificar drasticamente a solidão. te merdoso”, mas não tem ligação à internet em tos das suas vidas. Mas talvez já não importasse. Se
A adição em videojogos atinge entre 1% e 8% dos casa. Desde que começou a reabilitação, em 2015, a adição é a substituição compulsiva da intimida-
jogadores, segundo estimativas que investigado- não toca em videojogos. Tal como Adair, tornou- de humana essencial por uma experiência artifici-
res publicaram. Os adictos que se autoidentificam -se um defensor público dos adictos em videojo- almente gratificante, então estes homens tinham
como tal são tipicamente homens jovens adultos e gos e já apareceu no programa televisivo “Today”. encontrado o seu oposto uns nos outros. b
solteiros — o segmento da população mais predis- A reabilitação ensinou-lhe que, para permanecer
posto ao isolamento social. sóbrio, teria de fazer mais do que evitar os video- e@expresso.impresa.pt
Cam Adair é talvez o principal porta-voz da jogos — precisava de os substituir por outras coi-
legitimidade da adição em videojogos. Tal como sas. Em Washington, começou a ler mais. Alargou Tradução Luís M. Faria

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O único
livro
Foi escrito em Auschwitz por um
prisioneiro que o quis contar ao mundo.
Eddy de Wind, psiquiatra holandês,
escreveu o manuscrito num caderno
das SS. E as suas palavras estão
finalmente disponíveis. O Expresso
acompanhou o filho, Melcher de Wind,
numa visita ao campo de concentração

TEXTO
LUCIANA LEIDERFARB
EM CRACÓVIA

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N
dos grossos cadernos ainda por usar de que aquela reedição do manuscrito do pai, 72 anos depois da
força paramilitar se servia para anotar as seleções primeira vez, quase 75 após o fim da libertação do
e demais rotinas do campo. campo em finais de janeiro de 1945. “Última Pa-
“Devo continuar a viver para o contar, para o ragem — Auschwitz”, o livro adormecido numa
contar ao mundo, para convencer as pessoas de prateleira, tem agora lançamento simultâneo em
que isto foi verdade”, registou em fevereiro de 1945, Portugal e Espanha pela editora Planeta, primeira
confirmando um dos mais temíveis pesadelos dos estação de uma operação internacional que inclui
sobreviventes — relatarem o que sucedeu e nin- mais de 20 países e 25 línguas.
guém acreditar. “Se anotar agora e todos ficarem a Melcher obriga-se a estar de novo em frente ao
saber, isto nunca mais há de acontecer”, desejou. Bloco 9, numa manhã que em qualquer outro lugar
Nessa altura, envergando um uniforme do exército seria luminosa. Quer contar a história do pai ten-
vermelho, acompanhou a frente nos estertores da do como pano de fundo o edifício quadrangular de
guerra, tratando soldados feridos, antes de iniciar tijolo que foi cenário de uma das muitas camadas
o longo regresso à Holanda. À chegada, não sabia de Auschwitz, a maioria das quais permanecem ig-
se a mulher, Friedel, que tinha sido internada com noradas. Porque o facto de o pai ter vivido aqui en-
ele em 1943 em Auschwitz I e ocupado um bloco tre setembro de 1943 e março de 1945 é a exceção
ao lado do seu, havia resistido à marcha pela flo- à regra da morte que vigorou para tantos outros.
resta. Trazia apenas o caderno e um clarinete rou- Poucos, de facto, viveram aqui, sendo quase todos
bado do campo, ele que fizera parte da banda com assassinados à chegada. E mesmo os que aqui cons-
que os alemães presenteavam, de madrugada e à truíram uma espécie de vida e eram mantidos com
ão há uma só história de Auschwitz: há tantas noite, os prisioneiros moribundos à saída e à volta o mínimo indispensável para suportarem o traba-
quanto seres humanos ali morreram ou viveram. do trabalho. lho forçado — “iam morrer no fim”. “Atormenta-
E as que conhecemos pertencem à exígua minoria O manuscrito foi publicado em 1947 sob o tí- -me o jogo de acasos, de sorte e azar, que foi preciso
dos que as puderam contar. Nessa minoria dos so- tulo “Última Paragem — Auschwitz”, sem grande para o meu pai sobreviver e, em última instância,
breviventes, de que os números ofendem a razão, repercussão. Desapareceu de circulação rapida- para eu próprio estar vivo”, confessa o filho.
estão os que conseguiram um atalho para fugir a mente, pois não encontrou público num país que Eddy (Eliazar) de Wind era um rapaz nascido
um destino quase certo. Os que conseguiram não se refazia da ocupação alemã e se recusava a revi- em Haia, em 1916, filho único de judeus não ob-
morrer agora, neste minuto, não ser levados para ver o horror. Porém, o caderno permaneceu numa servantes bem integrados na sociedade, donos de
a fila errada, não ser um dos 70 por cento que pe- estante acessível, e Melcher de Wind habituou-se uma loja de porcelanas. Foi o primeiro da família a
reciam logo nas câmaras de gás. Ser um dos resis- a conviver com ele. Tal como os outros dois filhos adquirir formação superior, estudando medicina
tentes, dos privilegiados ou daqueles a quem sim- de Eddy, folheava-o de tempos a tempos, e a irmã em Amesterdão. Nas horas vagas, tocava clarinete
plesmente o acaso ajudou. O holandês Eddy de chegou mesmo a levá-lo para a escola, onde foi numa banda de jazz. “Teve uma infância e juven-
Wind ocupa as três categorias. Podia ter morrido lido numa aula de História. “Auschwitz estava na tude felizes”, diz Melcher, até que em 1941, com a
quando, chegado ao campo, acenou à mulher e de nossa casa, estava presente nas nossas vidas”, diz ocupação nazi da Holanda, a universidade passou
castigo foi colocado na fila dos idosos. Ou quando Melcher ao Expresso. Talvez por esta razão tenha a ser proibida aos judeus. Eddy foi o último judeu a
foi mandado para Birkenau por ter sido apanhado demorado a visitar o campo, o que acabou por fa- fazer o exame para se graduar, e chegou a iniciar o
a visitar o bloco desta. Ou ainda quando pediu ao zer apenas em outubro deste ano. “Foi das coisas treino como psiquiatra. Mas não tardou a conhecer
médico-chefe — nada menos que Josef Mengele — mais emotivas que me aconteceram”, reconhece o que é ser submetido à mais dura triagem: nesse
que a poupasse, e contrariamente a tudo o que se- este historiador, evocando a comoção que sentiu ao ano, os alemães detiveram 427 judeus em Ames-
ria expectável viu o seu desejo concedido. Esta é a olhar para o Bloco 9, onde o pai dormira e traba- terdão, entre os quais ele, apanhado enquanto ia
história de todos os minutos em que Eddy de Wind lhara durante mais de um ano. Acorreu empurrado em busca da sua bicicleta. Um soldado alemão per-
não morreu, uma das três milhões de histórias de por aquele que diz ser o grande feito da sua vida: a guntou-lhe se era judeu. “Questionei muitas ve-
Auschwitz. Uma ínfima — e por isso imensa — par- zes o meu pai sobre o motivo por que não mentiu.
te da maior fábrica de morte da II Guerra Mundial. Podia simplesmente ter negado. Disse-me: ‘Se és
A imensidão mede-se por um livro, o único que perseguido por ser quem és e mentires perdes-te a
foi inteiramente forjado neste campo de extermí-
nio. Eddy de Wind escreveu-o pouco após a liber- “Em ti próprio’”, revela Melcher. Levado para um cam-
po de prisioneiros holandês, fingiu-se tuberculoso
tação pelo exército soviético, em janeiro de 1945,
enquanto ainda ali estava, porque a decisão de se Auschwitz, para evitar a deportação para Mauthausen. Outros
415 não puderam evitá-lo. Dos 12 que ficaram, só
esconder, escapando às marchas da morte a que os
nazis forçaram os prisioneiros, lhe salvara a vida. o meu pai Eddy sobreviveu à guerra.

Escreveu-o de noite, na sua camarata em Ausch-


witz, enquanto durante o dia trabalhava como sentiu NO VENTRE DA BESTA
Em 1942, voluntariou-se como médico no campo
médico a pedido dos russos, tratando dos doentes
deixados para trás — eram milhares. E a micro-his- esperança e, de Westerbork, para onde a mãe tinha sido levada.
Fê-lo sob a condição de esta não ser enviada para
tória do caderno que utilizou bem pode resumir o
quanto de ironia continha a existência de quem certamente, Auschwitz, o que de qualquer forma aconteceu.
Eddy passou a trabalhar no hospital e a sua ativi-
driblou a morte: tendo pensado nela numa torre de
vigia em Birkenau, tendo-lhe passado pela cabeça o sentiu amor”, dade manteve-o longe dos transportes que, sema-
nalmente, deslocavam um milhar de judeus para
suicídio ao divisar o sem-fim de barracões com os
agonizantes lá dentro, Eddy decide escrever e co- diz Melcher leste. Nesse contexto conheceria Friedel, a enfer-
meira alemã de 18 anos com quem casou dentro do
meça a procurar os meios. É num dos edifícios das
SS que os encontra. O manuscrito seria feito num de Wind campo. Porém, em setembro de 1943, a medicina
não os poupou à deportação. E foi assim que juntos,

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ARQUIVO PESSOAL DE MELCHER DE WIND

CAMINHO Em cima, o psiquiatra Eddy de Wind; em baixo, da esquerda para a direita: ataque aos judeus na Holanda, em 1940; casamento de Eddy e Friedel
no campo de trânsito de Westerbork; manuscrito e primeira edição do livro “Última Paragem — Auschwitz”, publicada em 1947
ARQUIVO PESSOAL DE MELCHER DE WIND

ARQUIVO PESSOAL DE MELCHER DE WIND

ASÍS G. AYERBE

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dias a fio num comboio atulhado e sem comida, detidos abandonarem as suas casas, era-lhes trans- hoje é Auschwitz I, o das fotografias com o portão
chegaram a Auschwitz. Dos 979 judeus trazidos de mitido que a estada em Auschwitz seria prolonga- emblemático de ferro e a frase “Arbeit Macht Frei”
Westerbork, 388 foram logo gaseados. No momento da, de modo a que trouxessem os seus melhores [o trabalho liberta]. Construído em 1940 para re-
da seleção, Eddy acenou a Friedel e foi de imediato pertences, dos quais eram despojados mal desciam ceber 700 presos políticos polacos, um ano depois
castigado pelos SS com a mudança para a fila dos do comboio. “A esperança dos prisioneiros era uma as exigências aumentavam. A Alemanha tinha in-
idosos, destinados à eliminação. Impediu-o, mais poderosa arma dos nazis”, prossegue Pavel. Só por vadido a URSS e começava o assassínio em massa
uma vez, a necessidade de pessoal médico num esta razão não é estranho encontrar cremes Nívea, de judeus na frente de guerra. Heinrich Himmler,
campo pejado de doenças e de moribundos, onde o pincéis de barbear e escovas de dentes e de cabelo, Reichführer das SS, determinou que o campo prin-
mero facto de caminhar era um desafio — as socas tachos, copos, talheres, joias e relógios entre a ba- cipal fosse alargado para acolher 30 mil presos e
de madeira deixavam os pés expostos à lama e ao gagem dos presos. ordenou a criação, a três quilómetros dali, de um
frio, além de dificultarem o andar depressa, fator Também para alimentar a esperança “era enco- segundo campo com capacidade para 100 mil pri-
que, quase sempre, desencadeava a ira dos guardas. rajada e até procurada a hierarquização dos própri- sioneiros de guerra russos. Sob a supervisão do co-
Eddy ficou no Bloco 9, como enfermeiro de presos os detidos: dar benefícios a uns permitia que outros mandante, Rudolf Höss — que vivia com a mulher
políticos polacos; Friedel, no Bloco 10, o das brutais morressem mais facilmente”. ‘Benefício’ neste local e os cinco filhos numa villa no interior de Ausch-
experiências de esterilizações nas mulheres. Hoje, podia ser ocupar-se da limpeza das latrinas, ter uma witz I e em 1947 foi ali enforcado —, nascia Birke-
entre ambos os edifícios, estende-se um tapete de função definida que garantisse a eficiência da engre- nau. Também em 1941, a I. G. Farben constrói um
relva e flores que torna quase amena a sua visão. nagem da escravatura e do extermínio. Os sonderkom- complexo industrial nos arredores, e acorda com os
“Veja a coincidência de estarem em edifícios mando eram os prisioneiros que removiam os corpos nazis o fornecimento de, na altura, 10 mil trabalha-
lado a lado. O meu pai ficaria conhecido como o das câmaras de gás e limpavam os crematórios, e o dores. Surge assim Auschwitz-Monowitz, ou Buna.
‘fornecedor de sopa’, porque sempre que possível seu intenso trabalho permitia que cada câmara de O nome de Auschwitz ficaria associado a este polvo
levava panelas cheias para o bloco 10, a fim de ver a gás, e eram quatro, matasse 2 mil pessoas em escas- tentacular de três grandes campos e 50 subcampos
mulher e certificar-se de que comia”, diz Melcher. sos minutos. Alguns deles, arriscando a vida, conse- de menor dimensão.
“Não sei se podemos falar de alegria”, acrescenta guiram fotografar o exterior das câmaras de gás des- As atrocidades contra os judeus na frente rus-
ele, “mas, em Auschwitz, o meu pai sentiu espe- de o seu interior, documentando para a posteridade sa, levadas a cabo pelos Einzatzgruppen, traziam
rança e, certamente, sentiu amor”. O laço com a o maior tabu de Auschwitz e uma das primeiras es- perturbações aos próprios SS que as praticavam. E
mulher manteve-o vivo. Trocavam cartas e bilhe- truturas a serem destruídas à beira da derrota alemã. não resolviam a equação constituída pela eficácia
tes, sob perigo de execução, e falavam-se de vez na morte contra a quantidade de mortos estimável.
em quando. Como cônjuge de um médico, Friedel DESCASCANDO A CEBOLA Tornava-se urgente a descoberta de uma outra for-
foi poupada aos ensaios mais brutais. Mas assistiu Um relato não é todos os relatos, mas basta um para ma de matar, e é à procura desta resposta que, em
aos praticados nas restantes prisioneiras e, no li- contar a história de Auschwitz. Da mesma forma, a 1941, no Bloco 11 de Auschwitz I, se realiza a pri-
vro, numa longa carta a Eddy, descreve parte do história geral do campo — a descrição dos seus epi- meira execução recorrendo a um gás pesticida letal,
que viu: “As miúdas foram colocadas num campo sódios, métodos, números e mudanças — dá senti- o Zyklon B, testado em 600 prisioneiros de guerra
elétrico de ondas curtas, puseram-lhes uma placa do a cada um dos relatos pessoais. Estabelece uma e em 250 doentes. O ‘sucesso’ da experiência leva
na barriga e outra nas nádegas, e em seguida quei- ordem de grandeza e uma escala que, por não terem à instauração, primeiro em Auschiwtz I e depois
maram-lhes os ovários. (…) Um mês depois volta- paralelo histórico, não podem ser postas de parte. em Birkenau, de câmaras de gás e fornos cremató-
ram para ser submetidas a operações de controlo. O Como tudo, Auschwitz teve um início e sofreu as rios, que garantiam a morte de milhares em tem-
Schumann removeu-lhes os ovários para ver como adaptações que a cada momento a guerra solicita- po recorde e sem deixar vestígios. “São edifícios
tinham ficado. Imagina: nove operações ao ventre va. Cresceu a partir de um núcleo, situado no que planeados por arquitetos, engenheiros, pessoas al-
em nove horas e um quarto.” tamente diferenciadas. A educação e a tecnologia
Pavel Sawicki, assessor de imprensa do Museu foram a chave do extermínio em massa durante a
de Auschwitz-Birkenau e também guia do campo, II Guerra Mundial e especialmente neste campo”,
explica que o projeto das esterilizações decorreu de
abril de 1943 a maio de 1944, e tinha como base “o Tudo aqui, afiança Pavel Sawicki.
Ele faz questão de sublinhar aquela que é hoje
plano nazi para o futuro da Europa, em que judeus
e ciganos não iriam existir”. Aos polacos estava re- diz Pavel a narrativa oficial polaca segundo a qual, embora a
partir de 1942 a maioria dos deportados fosse judia,
servado o papel de escravos que seriam controla-
dos demograficamente através da esterilização. A Sawicki, tinha “a história de Auschwitz não se reduz à história do
Holocausto”. “Mataram-se aqui polacos, ciganos,
ideia era “esterilizar mil pessoas por dia” e para isso
testaram diversos métodos nas prisioneiras. Tudo um propósito judeus, russos, homossexuais, todo o tipo de prisio-
neiros”, constata. O Museu de Auschwitz/Birkenau
aqui, diz Sawicki, tinha um propósito e resultou de
um processo de aprendizagem das SS para melho- e resultou surgiu em julho de 1947 por decreto do Parlamento
polaco. A primeira exposição, de 1950, expande-se
rar as técnicas utilizadas.
A perceção de que tirar a roupa a um cadáver de uma em 1955, e desde então mantém-se na forma atual,
visitada por mil pessoas por dia e um máximo de
era tarefa complexa levou-os a despir as pessoas
antes de as assassinarem. A dificuldade em separar aprendizagem 2,1 milhões ao todo no ano de 2018. “O grande de-
safio é criar uma nova exposição daqui a cinco ou
uma mãe do filho sem gerar o pânico fê-los com-
preender que era melhor conduzi-los juntos para das SS para seis anos”, desvenda Pavel. Notícia bem acolhida
por Melcher de Wind, que considera a atual mos-
as câmaras de gás. A quantidade de judeus húnga-
ros deportados (400 mil, mortos em 56 dias) perto melhorar tra como “datada”, demasiado focada na morte e
pouco interessada em contar a vida possível no mi-
do fim da guerra gerou a necessidade de estender
as vias férreas até aos crematórios. O cabelo cortado as técnicas crocosmos do campo. Justamente aquilo que o pai,
Eddy de Wind, faz nas 222 páginas do seu livro, que
aos prisioneiros logo à chegada servia para produzir
tecidos utilizados pela indústria alemã. Antes de os utilizadas passam a pente fino as ações que marcavam o quo-
tidiano do lugar.

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HERANÇA Melcher de Wind,
historiador e filho de Eddy de Wind,
teve desde sempre acesso aos
escritos do pai, e Auschwitz “estava
na nossa casa”, mas só visitou o
campo em outubro deste ano,
motivado pela edição do livro do pai

As mentiras, as traições de outros prisioneiros,


os gestos de solidariedade, as negociações, aquilo
que num contexto como o do campo significava ter
mais um pedaço de pão ou mais uma tigela da sopa
líquida com que diariamente contavam. Ser servido
entre os primeiros implicava ficar com a pior par-
te, pois era no fundo do tacho que se concentravam
os escassos pedaços de batata — aproveitados pelos
prisioneiros com a tarefa de distribuir o alimento.
“Os ciganos recebiam mais pão do que os outros e,
em troca, compravam salsichas e batatas, que os
prisioneiros comuns levavam às escondidas para
dentro do campo. Assim, o pão ‘desvalorizou’. Se
até aí um naco custava doze batatas, agora custava
sete”, escreve Eddy de Wind. “As circunstâncias
nos campos são diferentes das da sociedade nor-
mal e não podemos aplicar as mesmas regras. Se
uma rapariga se entrega em troca de um naco de
pão ou um litro de sopa, não devemos ser duros a
condená-la”, opina noutra passagem.
“Trabalho, contagem, controlos, ir buscar co-
mida e, quando já se estava deitado numa gaiola,
na companhia variada de oito homens vindos de
toda a Europa, começava a luta inglória contra os
piolhos e as pulgas. Adormecer, acordar, coçar. De-
pois controlar, ficar quieto. Deixar os piolhos pas-
sear, adormecer de novo, acordar de novo. Discus-
são com o vizinho. A seguir, arranhar a perna toda,
sentir o sangue, ficar em chaga, por favor não co-
ces mais. No entanto, coças-te mais uma vez! (...)
Durante a noite, tens de sair da cama, às vezes três
vezes. Em seguida, passas por cima de três homens
e tens de andar umas centenas de metros até à latri-
na, um chão de madeira com uns quarenta buracos.
Lá fora há um guarda que faz a ronda para impedir
que alguém urine pelo campo. Isso paga-se com
bastonadas”, descreve ainda. O acordar tocava às
quatro da madrugada, lavavam-se quase sem água
e zero de sabão, secavam-se com a camisa que ves-
tiam. Divisavam o fumo dos crematórios, respira-
vam o odor a carne queimada. Este era o retrato de
um dia, a maioria não via o dia seguinte.

A (IN)FELICIDADE DE SALVAR-SE
Antes da libertação de Auschwitz pelo exército so-
viético, quando os alemães começaram a evacuar
os prisioneiros obrigando-os às “marchas da mor-
FOTOGRAFIAS ASÍS G. AYERBE

te”, das quais poucos iriam sair vivos, o pai decidiu


esconder-se. Juntou-se a um grupo de espanhóis
que se manteve oculto numa vila próxima, numa
casa em ruínas a que deu o nome de “No pasarán”,
inspirado nas palavras de ordem dos republicanos
durante a guerra civil de Espanha. Só regressari-
am ao campo após a chegada dos russos. A mulher

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ASÍS G. AYERBE
CARRIS A linha férrea de Birkenau foi alargada para alcançar as câmaras de gás em 1944, a fim de deslocar os deportados húngaros

Friedel não pôde esquivar-se à evacuação e, duran- impossível” fazê-lo. “A única coisa que se pode fa- e assustado” se visse o que se passa no mundo, os
te muito tempo, Eddy não soube se ela tinha ou não zer é ajudá-los a ser um bocado felizes, a não serem nacionalismos, a ascensão da extrema-direita, o
sobrevivido. As dúvidas dissiparam-se na fronteira infelizes”, reflete o filho. antissemitismo, o anti-islamismo, o facto de “as
holandesa, na altura do retorno ao país, em julho O próprio Eddy de Wind sofreu desta síndrome pessoas terem voltado a precisar de odiar”.
de 1945: um funcionário da Cruz Vermelha referiu sem cura. Ser psiquiatra e psicanalista apenas o “Acho que todos deveríamos estar preocupados
ter por lá passado uma mulher de apelido De Wind, tornou disso mais consciente. “Ele não falava muito com isto. Porque tem acontecido sempre ao lon-
vinda de Auschwitz, que estava internada num de Auschwitz e quando o fazia não me olhava nos go da nossa história, talvez não da mesma forma,
hospital próximo Viveram juntos 12 anos depois da olhos. E raramente respondia às minhas pergun- ou de uma forma tão severa, planeada, industri-
guerra, não tiveram descendência — Friedel ficara tas”, lembra Melcher. Não encontrava sentido al- alizada ou organizada — mas no Camboja, numa
estéril — e acabariam por divorciar-se. Eddy ca- gum na passagem por Auschwitz, e nunca poderia onda de raiva, mataram-se milhões de pessoas.
sou-se pela segunda vez e teve três filhos, um dos ter dito, como Primo Levi disse em 1982, que de- Na China, há grupos tão estigmatizados como os
quais Melcher de Wind. veu ao campo “uma grande quantidade de expe- judeus estiveram na Europa, por isso não sabe-
“Quando se sobrevive a isto, não se fica feliz. riência”. Passou a vida a evitar o contacto com as mos onde vai acontecer de novo. Porém, vai com
É um fardo. Qualquer mínimo de felicidade só se pessoas que aí conheceu, para não reviver aquele certeza acontecer de novo. Os sobreviventes fica-
atinge com o tempo”, comenta ele. O pai tornou- fatídico ano e meio. Hoje, o filho diz que o pai “re- ram zangados porque os ingleses e os americanos
-se um psiquiatra de renome, pioneiro no trata- agiria de forma muito emotiva, e ficaria zangado não bombardearam as câmaras de gás, mas o que
mento de traumas de guerra e no estudo do trau- faremos da próxima vez, se algo de semelhante
ma transgeracional, além de se ter especializado acontecer na China? Vamos começar uma guer-
em sexologia e aberto a primeira clínica de abortos ra? Esta é a questão com que nos deveríamos pre-
da Holanda. Em 1949 publicou um livro de refe-
rência, “Confronto com a Morte”, onde a expressão O pai tornou-se ocupar”, reflete.
“Ele tinha medo, tinha sempre medo”, diz Mel-
“síndrome de KZ [campo de concentração]” apa-
rece cunhada como tal e onde se fala dos efeitos da um psiquiatra cher. Eddy ainda viveu para criar a Fundação para
a Investigação das Consequências da Guerra. E nis-
despersonalização nos sobreviventes. “Ele explica
como o confronto com a morte, em campos de ex- de renome, to trabalhava quando um enfarte o prostrou numa
cama, onde um mês depois faleceu, em setembro
termínio como Auschwitz, é uma experiência que
transfigura a personalidade. Como pessoas que fo- pioneiro no de 1987. Agora, as suas palavras, escritas no tempo
que não mais quis lembrar, estão disponíveis. São
ram desumanizadas, postas no comboio, espanca-
das, que viram os mais velhos e as crianças desa- estudo e uma história de Auschwitz, a história de todos os
minutos em que um homem não morreu. A exce-
parecerem, que sentiram o fumo e o cheiro a car-
ne humana, que se despiram, viram rapado o seu tratamento ção aos números que ofendem a razão, um dos três
milhões de relatos possíveis, contado por temor a
cabelo e tatuado o seu braço com um número, que
por pura sorte não morreram, perdem o que as fazia de traumas que todos os outros, os que lá não estiveram, pu-
dessem não acreditar. b
serem elas próprias e tornam-se outras”, desvenda
Melcher. Num primeiro momento, o pai trabalha de guerra lleiderfarb@expresso.impresa.pt
com a intenção de dar tratamento a estes doentes.
Porém, dez anos mais tarde, reconhece ser “quase transgeracional O Expresso viajou a convite da editora Planeta

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Portugal
dava um filme
Como o país decidiu atrair a rodagem de filmes
estrangeiros e de dimensão internacional para alargar
o espectro turístico nacional. Ou como a indústria
americana do entretenimento está a chegar cá

TEXTO
ALEXANDRA CARITA

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MÁRIO PATROCÍNIO

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RODAGEM Perto de Lisboa,
a equipa de filmagem de “Color
Out of Space” no terreno

O
última cena, uma filmagem sobre o mar e um roche-
do, sabia qual seria o efeito da luz sobre a água. Disse
ao realizador qual seria o momento para filmar esse
efeito e Sachs esperou pelo fim da tarde. “Eu como
estrangeiro nunca poderia sabê-lo. Foi maravilho-
so”, lembra também Ira Sachs.
O momento não marcou apenas o realizador.
Rui Poças, numa conversa prévia connosco, já tinha
contado o que se passara, maravilhado, ele, com o
gesto de Ira Sachs ao aceitar a sua sugestão. “Confiei
no conhecimento da minha equipa. Não dava para
trabalhar de outra maneira.”
Este não é o único momento que os técnicos por-
tugueses de cinema recordam e vivem com entu-
siasmo. Há muitos momentos desses com que têm
sido brindados por realizadores estrangeiros de topo.
É que são muitos os filmes internacionais que pas-
sam pelo país e são rodados cá. A Portugal Film Co-
mission, criada em maio deste ano, faz a promoção
coautor do argumento de “Frankie”, Mauricio Zacha- do país como destino de rodagens e anuncia lá fora
rias, é brasileiro. A mãe é portuguesa. Têm uma casa o novo Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema. São
em Cascais e costumam não a deixar fechada muito 12 milhões de euros por ano em cash rebate, e, recor-
tempo. Zacharias, a trabalhar com o realizador norte- de-se, já se atribuíram 13 milhões. O dinheiro, esse,
-americano Ira Sachs desde “Deixa as Luzes Acesas” é da Secretaria de Estado do Turismo, do Ministério
e “O Amor É Estranho”, sugeriu que para filmar a da Economia. MÁRIO PATROCÍNIO

história das férias de Frankie com a família se tivesse Para concorrerem a este processo de apoio, os
em conta Portugal, nomeadamente Sintra. E, quando filmes têm que gastar ou investir nas rodagens por-
falou em Sintra, Ira Sachs lembrou-se que já lá tinha tuguesas um mínimo de 500 mil euros, já os docu-
estado com a mãe, também para umas férias famili- mentários têm um teto de 250 mil euros. Em troca
ares, em 1979, pouco depois do fim da ditadura. Era recebem à cabeça e em parcelas adiantadas 25% a
um adolescente, nessa altura. E, “talvez por isso”, a 30%, e, depois da assinatura do contrato com uma
resposta à rodagem naquele local foi imediata e mui- produtora nacional, o resto das tranches à medida
to positiva. Assim começa a história das filmagens de que as faturas forem justificando os pagamentos. O
sucesso de um dos títulos trazidos para Portugal pelo cash rebate (incentivo à produção e captação de fil-
novo Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema. magens) português é ainda rápido, os filmes a apoiar
“Não diria que fizemos um filme sobre Portugal, são eleitos num espaço de 20 dias úteis após a apre-
mas fizemos um filme sobre a terra e sobre a região de sentação da candidatura.
Sintra. Tudo o que se passa no filme está em confor- A distribuição internacional do filme num terri-
midade com a natureza”, conta Ira Sachs ao Expresso tório que abranja mais de 45 milhões de habitantes
a partir de Nova Iorque. “Filmar em Portugal foi fan- é um dos requisitos para que as produções nacionais
tástico. Fiquei quase seis meses aí, a viver em Lisboa e estrangeiras sejam apoiadas. E a pontuação obtida
e depois em Sintra, com direito a autorização de re-
sidência e tudo. Senti-me muito próximo da minha
no Teste Cultural é outra. Aí é importante se o filme
é falado em português, se contrata cidadãos portu- Por cá passam
equipa portuguesa, era como se fosse uma relação fa-
miliar. Estávamos intimamente ligados ao cinema e
gueses, se aluga material cá, se contrata mulheres,
se trata de uma questão histórica... atores de topo
ao cinema europeu. A forma como o filme é português
está na natureza do país e das pessoas que o fizeram.
O processo é relativamente simples e coloca Por-
tugal no mapa dos países mais competitivos da Eu- e equipas
Chamar-lhe-ia um filme europeu feito por um reali-
zador americano. Estão lá as duas coisas”, continua.
ropa para realizar filmagens. De resto, os números
provam-no. Desde o ano passado já foram investi- de Hollywood
Sachs não tem dúvidas que esta foi “uma das
mais agradáveis experiências de rodagem” que teve
dos no país 50 milhões de euros e aprovados 35 fil-
mes. “Nayola”, “Verdes Campos”, “Liberté”, “Man- que trabalham
na vida. “E foi-o sobretudo por causa das pessoas.”
Foi carinhosamente recebido em Sintra e isso tam-
madhudu 2” “Variações”, “A Herdade”, “O Sentido
da Vida”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Or- com técnicos
bém contou. Mas “houve outras coisas extraordi-
nárias”. Rui Poças, o diretor de fotografia de “Fran-
dem Moral”, “St. Louis” e “Patrick” são só exem-
plos. Como é exemplo o que faz a pós-produtora, Nu e atores
kie” — “uma Isabelle Huppert fabulosa” —, conhecia
Sintra e a sua envolvente como ninguém. Então, na
Boyana Portugal, uma empresa familiar sediada em
Braga e criada por búlgaros. A seu cargo, no que diz portugueses
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respeito à pós-produção e efeitos especiais, já passa- Para já, além do financiamento também se vende “Tratamos das autorizações para filmar em espaços
ram por cá filmes tão conhecidos como “Angel Has o sol, a paisagem, a história, a gastronomia e a proxi- públicos, em parques naturais, em monumentos,
Fallen”, “Hellboy” ou “Rambo Last Blood”. midade de sets de grande diversidade. O país muda etc.”, continuam. Do seu trabalho faz ainda parte a
É a indústria do entretenimento a bater-nos à por- de cara e de roupa a cada duas horas de viagem para tarefa de identificar muitos dos constrangimentos
ta. Agora, como diz o produtor Pedro Coelho, é preci- sul ou para norte. E isso permite rodagens com uma de filmar em Portugal. “Sabemos onde estão as di-
so saber fazê-la entrar. A produtora Wondr, de que é única base. Esse é o segundo trunfo da Portugal Film ficuldades e tentamos superá-las.” A Film Comissi-
proprietário, filmou no centro do país a primeira par- Comission para atrair as produtoras internacionais. on disponibiliza ainda um guia de produção eficaz
te de “Fátima”, de Marco Pontecorvo e companhia, E resulta. Para Nicolas Cage, que esteve cá a rodar e um guia de locations o mais completo possível e
“tudo ex-quadros da Century Fox com uma bagagem “Color Out of Space”, um filme de Richard Stanley que vai ao encontro das necessidades das produto-
extraordinária”, e com Harvey Keitel e Sónia Braga com produção da portuguesa Bro, a pontuação má- ras internacionais.
nos principais papéis. O filme, uma produção da Ori- xima foi para a qualidade do tempo de ócio, para a Diz o site IMDB: “Uma cidade é atingida por um
gin Entertainment, tem agora todos os direitos de dis- arquitetura, para a história e para os restaurantes. Já meteorito e a queda é catastrófica.” É a mais simples
tribuição para o mercado norte-americano nas mãos Ira Sachs nos dissera que a proximidade com Lisboa sinopse de “Color Out of Space”, um filme de Ri-
da Picturehouse, de Bob e Jean Berney. Nada mau em fez com que se poupasse muito dinheiro. “Não pre- chard Stanley, com Nicolas Cage como protagonista.
termos de visionamentos futuros para um filme es- cisámos mudar a equipa de sítio e alojá-la em qual- E também um filme de horror e ficção científica ro-
treado em França, em maio, e já com uma indicação quer outro lado”, adiantou. dado perto de Lisboa. “Foi uma experiência comple-
para Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. A agilidade e capacidade de desburocratizar si- tamente diferente esta de fazer produção com uma
Pedro Coelho defende o cinema como o mais tuações práticas e de logística durante as filmagens equipa americana. É entrar noutro patamar”, diz
rentável negócio do mundo e sonha-o assim para também é reconhecida tanto às produtoras nacio- Pedro Patrocínio. “A maneira como a equipa aborda
Portugal. “Se a indústria do entretenimento exis- nais, que conhecem bem o terreno, como à equipa cada sequência é muito bem organizada, pensada e
tir, as outras todas proliferam à volta. É preciso de da Portugal Film Comission, com maior ligação às idealizada”, continua, referindo que nesta coprodu-
tudo, da comida à roupa, da hotelaria à empresas de autoridades do país. “Somos uma espécie de pon- ção todos os elementos se conjugaram: “luz, câma-
transportes. Se construirmos uma indústria do cine- to de ligação entre as produtoras e as instituições”, ra, arte”. O diretor de fotografia da produtora nacio-
ma forte, dando trabalho às pessoas, chegamos lá. O asseguram Inês Queirós e Manuel Claro, diretora nal Bro frisa ainda que esteve em plena consonância
caminho, porém, é ainda longo.” executiva e presidente da Portugal Film Comission. com a equipa técnica do filme. “Eram tipos muito

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“FRANKIE” O filme de Ira Sachs com
Isabelle Huppert, Jérémie Renier, Marisa
Tomei, Brendan Gleeson, e Sennia Nanua

abertos à nossa opinião sobre cada situação. Tinham


uma recetividade muito grande para as nossas pro-
postas de sequências, por exemplo. Dão mérito du-
rante o trabalho, valorizam o que está a acontecer.”
Em resposta, o diretor de produção da norte-ame-
ricana SpectreVision, Michael McGuire, diz: “Vocês
têm uma equipa que me surpreende todos os dias,
são capazes de apresentar sempre soluções.”
O filme custou seis milhões de euros, um orça-
mento baixo para os Estados Unidos, onde se fazem
filmes com 15, 25, 40 milhões de euros. “Temos que
entrar no panorama internacional, deixar de pensar
pequeno e olhar para o mundo sem fronteiras”, afir-
ma Mário Patrocínio, irmão do diretor de fotografia e
dono da Bro. A produtora funciona como “uma pres-
tadora de serviços que também desenvolve conteúdos
próprios”. Tem cinco anos de idade e foi descoberta
pela SpectreVision através de um contacto pessoal, o
de Simão Cayatte, também ele coprodutor deste “Co-
lor Out of Space”. Um amigo espanhol falou de Por-
tugal e contou que era um bom sítio para filmar e a
produtora veio ver para crer. Gostou da rapidez com
que a Bro preparou as locations e decidiu que esta-
vam reunidas as condições para aterrar aqui e filmar.
O Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema não
foi decisivo neste caso, mas os norte-americanos
agradecem o desconto dado ao seu orçamento.
Como eles todos os outros que têm vindo a traba-
lhar em Portugal debaixo deste cash rebate. “Tudo
isto é resultado de um esforço conjunto entre o Ins-
tituto do Cinema (ICA) e a Secretaria de Estado do
Turismo. O Turismo já tinha identificado as roda-
gens como sendo uma ótima ferramenta de capta-
ção de novos mercados turísticos para Portugal. Ti-
nha percebido, através da vizinha Espanha, como os
filmes correspondiam a um crescimento excecional
do turismo. Já o ICA, tinha assinalado a necessida-
de do cinema feito em Portugal ter mais visibilidade
internacional, e queria apostar nas rodagens como
uma ferramenta de perfil mais industrial para que as
empresas de produção nacional aguentassem os seus
postos de trabalho e a atividade permanente. Conci-
liar a criação com este novo fundo de apoio foi o ob-
jetivo primeiro”, explica Luís Chaby Vaz, presidente
do ICA. “Já houve um tempo em que a estratégia para
o cinema, sobretudo em coproduções com França
durante os anos 80 e 90, era a dos salários mais bai-
xos. Isso já não chega. Percebemos que era preciso
uma estratégia fiscal com atrativos do ponto de vis-
ta da produção. Olhámos à volta e vimos um mer-
cado internacional evoluído e com um sistema de
cash rebate muito agressivo”, continua Chaby Vaz.
“A luz, o tempo, as equipas profissionais e a noto-
riedade turística do momento permitiram que esta
ferramenta tivesse, desde o seu lançamento — Por-
taria nº 198/2019 de 27 junho de 2019 —, uma ade-
são muito rápida.”

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Há neste momento 50 projetos em curso. E, graças condições meteorológicas.” Com esta equipa a tra-
às ações de promoção levadas a cabo pela Portugal balhar todos os dias estavam os dois profissionais
Film Comission, cada vez o apoio é melhor recebido. da The Best Weather. Francisco e Daniel Zeferino fo-
Falamos de promoção a nível internacional em festi- ram fundamentais para a produtora do filme. Todas
vais de cinema e feiras de locations, quer na Europa as semanas faziam as previsões local a local e atu-
quer noutras regiões do globo. Este ano, por exemplo, alizavam-nas todos os dias, com definição de ho-
a Film Comission esteve em Cannes, Toronto, Veneza, ras de chuva e de sol e tudo. “Conseguiram prever
Turim e Locarno, Nova Iorque e Los Angeles. “Desde a entrada do furacão ‘Leslie’ para as quatro da tarde
que haja bons testemunhos, isto depois é uma má- e conseguimos fazer sair todo o equipamento antes
quina que se alimenta a si própria, mesmo através do dessa hora. Safámo-nos!”, relata Luís Urbano. Com
passa palavra”, garante o presidente do ICA. muita confiança nos meteorologistas de serviço, es-
O incremento no orçamento de produção dos fil- teve sempre Rui Poças. O diretor de fotografia digla-
mes rodados em Portugal permite ainda às empresas diou-se no terreno com o tempo atmosférico e com
do sector fixarem talentos. “Há muitas faculdades o tempo solar para manter a “continuidade visual
vocacionadas para esta área e não conseguimos pôr do filme”.
essa gente a trabalhar. Com as empresas do cinema Já no plateau, as cenas entre os grandes Isabelle
e audiovisual a trabalhar em permanência vai haver Huppert, Marisa Tomei e Brendan Gleeson não re-
mais trabalho a nível do som, da imagem, dos efei- sultavam à primeira. Mas o diretor de som, Vasco Pi-
tos especiais...”, acredita também Luís Chaby Vaz, mentel, lembra-se de “ficar parvo com o método de
que prevê a possibilidade de aumento do teto orça- trabalho e com o combinar de escolas diferentes que
mental dos filmes a rodar em Portugal e ainda a sua todos conseguiam fazer sem rede e demasiado ex-
capacidade de esse apoio ser “ampliado” caso nos postos”. Lembra-se da chegada de Huppert ao terri-
caia no colo uma grande produção tipo blockbuster. tório e da sua chamada de atenção para si própria na
Com um sistema “first come first served” até que primeiríssima cena do filme, como que a perguntar:
a verba se esgote e sem júri para análise de mérito, “Quanto tempo tenho para ser Greta Garbo?” Rui
este cash rebate aposta 50% da sua verba nos primei- Poças diz que nunca tinha estado envolvido “num
ros a baterem à porta. O resto passa por um leve es- trabalho tão intensivo de programação”. “Todos os
crutínio do Turismo de Portugal que faz uma análise planos do filme estavam escritos com indicações de
estratégica no que respeita aos interesses do país no alternativas!” Parecia, dizem os técnicos, um filme
cumprimento do projeto. “O mercado indiano, por muito mais complicado de se fazer.
exemplo, pode vir a ser apoiado nesse âmbito”, con- Todos pensam assim menos os atores e realiza-
fessa Chaby Vaz. dores de outras nacionalidades. “Adorei rodar em
As séries de televisão também estão no programa, Portugal. É o lugar certo. O país é maravilhoso e as
mas até à data ainda só há sete títulos apoiados. São pessoas lindas”, diz em modo cliché Marco Ponte-
disso exemplo, entre outras, “Sul”, “Lissabon Kri- corvo. Mas ajusta, “toda a gente a querer que cor-
mi” e “A Espia”, ou “O Livro Preto do Padre Dinis”. resse bem, uns técnicos muito competentes e ato-
A rodagem de que falámos inicialmente du- res de talento”. Fala-nos de Itália e frisa que ainda
rou 30 dias, de 1 a 31 de outubro, e foi feita por uma
equipa totalmente portuguesa. Rui Poças, o diretor Os números procurou outros locais para filmar “Fátima”. Pedro
Coelho, esse, garante que se não fosse o “nosso” cash
de fotografia, já estava escolhido por Ira Sachs, mas
aqui foram escolhidos assistente de realização, dire- estão à vista. rebate, nada disto tinha acontecido, nem as histórias
de bastidores passavam à história. E Harvey Keitel
tor artístico, guarda-roupa e muito mais. “Sofremos
um processo de aculturação ao sistema americano Já foram nunca teria conhecido a Celeste Rodrigues ou a Gi-
sela João e o Helder Moutinho. Nunca teria passea-
e passámos a trabalhar cinco dias por semana, sete
horas por dia, nem mais, nem menos”, assinala Luís investidos do por Alfama à noite. E Sónia Braga não teria tido
oportunidade de conversar com os senhores que, à
Urbano, o dono da O Som e a Fúria, que coproduziu
o filme. Um mês que no cinema nos mostra um dia no país porta da Procuradoria-Geral da República, em Lis-
boa, pedem há anos uma nova identidade. E nem o
na vida de Frankie, uma Isabelle Huppert transfor-
mada numa doente terminal, que junta a família e 50 milhões assistente de realização de “Frankie” teria comprado
uma guitarra portuguesa para aprender a tocar fado.
os amigos para umas férias, naquilo que não é mais
do que o ensaio de uma despedida. de euros Agora, até Noam Chomsky faz cartas de reco-
mendação para projetos de cinema coproduzidos
“O mais difícil foi a circulação pela serra de Sin-
tra, com uma geografia complicada, que mais com- e aprovados entre os Estados Unidos e Portugal e que têm como
guião o processo democrático de Timor-Leste, ou
plicada se tornava com os programas logísticos e
alimentares exigidos pelas atrizes Isabelle Huppert 35 filmes o dia das suas primeiras eleições. Leia as cenas dos
próximos capítulos. b
e Marisa Tomei”, conta Luís Urbano. “Mas o mai-
or desafio foi tentar ter o controlo absoluto sobre as desde 2018 acarita@expresso.impresa.pt

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Entrevista
Chimamanda Ngozi Adichie

Nos EUA percebi


como só por ser
negra a minha
inteligência
era questionada”
Nasceu e cresceu na Nigéria, está traduzida em mais de 30 línguas,
e as suas conferências sobre feminismo, raça e género tornaram-na
um ícone mundial. Em entrevista ao Expresso, alerta para o perigo
das narrativas únicas sobre uma pessoa, um povo ou um país

POR VALDEMAR CRUZ (TEXTO)


E RUI DUARTE SILVA (FOTOGRAFIAS)

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C
o local da entrevista. Já sentados e escrita. Publica aos 26 anos o seu pri- de replicar tudo isso. Na única vez em
prontos a começar, Chimamanda não meiro romance, “A Cor do Hibisco”, que fui cínica desse ponto de vista, no
resiste aos chamamentos. Pede-nos galardoado em 2005 com o Prémio sentido de tentar parecer aquilo que
compreensão. Tem de ir lá fora falar para Melhor Primeiro Livro da Com- as pessoas querem, não correu bem.
com quem não contém o entusiasmo monwealth Writers. Segue-se, em
e a reclama. Quando a porta se abre, é 2006, “Meio Sol Amarelo”, que, com Dadas as suas posições, não corre o
como se um grito de liberdade ecoasse a guerra do Biafra em fundo, depressa risco, enquanto escritora, de haver
naquele espaço. Abraçam-na, tiram se transforma num sucesso de vendas quem aguarde os seus livros apenas
selfies, pedem-lhe autógrafos. Per- e vence o Orange Prize para Ficção em como confirmação das suas próprias
cebe-se que está confortável no meio 2007. Dois anos depois apresenta o li- convicções?
de toda(o)s aquela(e)s jovens. Sai de vro de contos “A Coisa à Volta do Teu Há aí duas diferentes questões. Pen-
lá com um sorriso imenso e um olhar Pescoço” e em 2013 aparece “Ame- so que tenho um conjunto de segui-
por onde se espraiam todos os brilhos ricanah”, a obra que em definitivo a dores que nunca leram a minha fic-
do mundo. projeta a nível planetário. No ensaio, ção. Apenas seguem as conferências.
Vamos então começar uma entrevista destaque para “Querida Ijeawele — Depois, tenho um conjunto de pes-
negociada em todos os detalhes. A as- Como Educar para o Feminismo” e soas, com uma componente mais li-
himamanda é uma escritora com es- sessora de Chimamanda pedira, vári- “Todos Devemos Ser Feministas”. terária, que estão verdadeiramen-
tatuto de estrela pop. São raras, no os dias antes, uma relação dos temas a Frontal, esta é a mulher para quem se te interessadas na minha ficção. O
mundo, as profissionais da escrita a abordar. 30 minutos, no máximo, era ser negro na Nigéria é um não assun- meu primeiro amor é a minha ficção.
usufruírem de um tão amplo reco- o tempo definido para uma conver- to, nos EUA é todo um mar de adver- Aqueles que considero como meus
nhecimento público como a roman- sa que, por vontade de Chimaman- sidades que se levanta. Por isso, diz, verdadeiros fãs são os que leem os
cista e ensaísta nigeriana. Provou-o da, acaba por se prolongar quase 50 “quando a direita política da América meus romances. E não creio que leiam
com a sua entrada triunfal na ses- minutos. Por fim, o mais complexo e fala de lei e ordem, isso é na verdade os meus romances à procura de verem
são de abertura do Fórum do Futu- delicado. A realização da entrevista um código para raça”. as suas ideias confirmadas. As pessoas
ro, realizado entre 3 e 9 deste mês, no pressupunha a aceitação do envio das que me seguem pelo meu feminismo,
Porto. Com a lotação do Teatro Rivoli declarações da escritora que viessem Parece uma estrela pop, e no entanto pelas minhas conferências, em geral,
esgotada, muita(o)s ficaram à porta a ser utilizadas. costuma definir-se a si própria como obviamente, estão de acordo comigo.
consumida(o)s pela desilusão de não Nascida a 15 de setembro de 1977, ca- apenas uma contadora de histórias. São pessoas que ideologicamente es-
conseguirem ouvir ao vivo a mulher sada e com uma filha, Chimamanda Como é que as suas ideias são tão tão próximas de mim. Mas eu quero
cujas intervenções sobre feminismo, Ngozi Adichie cresceu em Nsukka. Fi- apelativas? que leiam os meus romances.
raça ou género se tornaram virais. A lha do primeiro professor de Estatís- Não sei. Não gosto de pensar nem falar
sua Ted Talk de julho de 2009, intitu- ticas da Universidade da Nigéria e da muito sobre isso. De alguma forma, Está a escrever algo de novo?
lada “O Perigo da Narrativa Única”, primeira mulher responsável admi- penso que é o mesmo que nos pedi- Não posso dizer-lhe. Sou muito
tem já 20,2 milhões de visualizações nistrativa da mesma instituição, co- rem para sermos o nosso próprio crí- supersticiosa.
no YouTube. Beyoncé, na sua canção meça por frequentar Medicina no seu tico literário. É por isso que, em geral,
‘***Flawless’, introduz a voz da escri- país natal. Sempre vista como aluna não gosto de fazer crítica de roman- Qual é o papel da superstição na sua
tora num manifesto feminista. Tra- de excelência, aos 19 anos vai para ces. Não quero tentar perceber o que é vida?
duzida em mais de 30 línguas, com os EUA com uma bolsa para estudar que constitui a minha própria capaci- Superstição é pensar que se falar so-
vários livros premiados, Chimaman- Comunicação. Leva já na bagagem dade de atração. Receio que, se chegar bre algo em que esteja a trabalhar, em
da Ngozi Adichie tem, ainda assim, um promissor passado no campo da a perceber o que é, caia na tentação algum momento, vou mudar aquilo.
consciência de como o seu universo
de leitores não corresponde às multi-
dões ávidas de a ouvir.
O modo como decorreu esta entre-
vista é elucidativo da dimensão e dos
mecanismos de autodefesa utilizados
pela escritora. Houve quem ficasse a
chorar no exterior do Rivoli por não
ter conseguido o miraculoso bilhete
de acesso ao Grande Auditório. Ali,
Chimamanda falou ao longo de uma
hora, de um modo desassombrado, de
Sou muito criticada na Nigéria
questões ainda hoje incómodas para
tanta gente. Como quando afirma não
ser o termo “colonialismo” útil ou ri-
pela assunção pública do meu
goroso para definir o que classifica
como “ditadura do estrangeiro” em feminismo, uma vez que não
faço coisas para que as pessoas
África. O início da nossa conversa
teve de ser retardado vários minutos.
No exterior, a(o)s inúmera(o)s fãs da
escritora descobriram a envidraçada
porta lateral do teatro com vista para se sintam confortáveis”
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Superstição é pensar que há um pe-
rigo em ser demasiado segura sobre
aquilo que estou a criar. Nunca falo
sobre as coisas enquanto não estão
concluídas.

Como é que, na sua condição de mu-


lher, essa situação interfere no seu
dia a dia, em particular em África?
Isso é muito interessante. Prefiro não
dizer África. É demasiado amplo, mas
na Nigéria há muita superstição. Não
digo que seja pessoalmente muito su-
persticiosa. Sou uma pessoa que gosta
de uma límpida, convincente, rigoro-
sa e lógica argumentação. Nunca iria
mentir sobre a doença de uma pes-
soa que amo. Por exemplo, dizer, por
qualquer motivo, que o meu pai está
doente. Jamais seria capaz de fazer
isso, porque se o fizesse... bem, você
compreende... o universo iria fazer
com que o meu pai ficasse mesmo do-
ente. Tenho esse tipo de superstição.
Em geral, é uma coisa boa, porque é
um tipo de superstição que me afasta
da mentira. Mas perguntou sobre as
mulheres. Não sei. Penso que os pa-
péis que as pessoas esperam que as
mulheres desempenhem na Nigéria
não são verdadeiramente sobre su-
perstição. São expectativas que dimi-
nuem a mulher.

É uma sociedade muito patriarcal...


A Nigéria é um caso interessante, mas
todo o mundo é patriarcal. Portugal é
uma sociedade patriarcal, tal como a
Nigéria o é. A maneira como se mani-
festa é que será diferente. Na Nigéria,
por exemplo, não temos uma mulher
como governadora. Temos mulheres
ministras, temos mulheres em posi-
ções de poder, mas as expectativas
em relação a essas mulheres são ain-
da muito domésticas. Quando são en-
trevistadas, espera-se que exprimam
uma qualquer variante de “o meu
marido permite-me fazer isto... Estou
à frente desta importante organiza-
ção, mas o meu trabalho mais impor-
tante é cozinhar para o meu marido”.
Esses são os aspetos que fazem com
que as pessoas se sintam mais con-
fortáveis com o facto de as mulheres
terem poder. Uma das coisas interes-
santes numa sociedade patriarcal é
que o conceito de mulher e poder é
muito desconfortável para as pessoas.
Mesmo mulheres. Na Nigéria está-
-se sempre à espera que as mulheres
digam coisas que deixem as pessoas

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Quando a direita política
confortáveis e não se sintam amea-
çadas pelo seu poder. Uma das coisas
que não faço é isso. Logo, sou mui-
to criticada na Nigéria pela assunção
pública do meu feminismo, uma vez
que não faço coisas para que as pes-
da América fala de lei e ordem,
soas se sintam confortáveis. Não falo
do meu marido, que me terá permiti- é na verdade um código
para raça. As pessoas que
do fazer isto ou aquilo. Não digo que o
meu casamento é a minha tarefa mais
importante. Isso faz de mim um alvo.
Sou vista como uma espécie de femi-
nista louca. Quer dizer, às vezes, sou
um bocado louca...
compreendem isso reagem”
O que está a dizer remete direta-
mente para questões como o poder Enquanto aguardava o início da sua ser a mulher ou a filha de alguém. Não negra.” Lembro-me de um amigo me
da linguagem... conferência, no ecrã do Rivoli pas- poderias estar ali por ti própria. sugerir que fosse para os Estudantes
Sim, claro. Há tanta coisa que decorre savam imagens relacionadas com o Negros. Rejeitei, porque queria ir para
da linguagem. Com o feminismo, com tema do fórum — Travessias —, com No seu livro “Americanah” escreve os Estudantes Internacionais. Porque
as questões de raça, com todo o tipo refugiados, trabalhadores, imigran- que só se sentiu negra quando che- eu não era negra. Tive esse período
de questões de ideologia, anda sempre tes, pobreza... Independentemente gou aos EUA. Como é que isso se ma- de ignorância, mas comecei a ler e a
tudo à volta da linguagem. Por isso, da cor da pele, estas pessoas estão no nifestou em si? estudar sobre o tema e tomei a deci-
sim, quando se fala das expectativas mesmo barco? As minhas memórias mais antigas são de começar a falar mais sobre isso
centradas nas mulheres, é como se se Ou seja, refere-se a todas aquelas remetem para um afro-americano e a perceber que inventamos estas
tratasse de uma performance da lin- pessoas que estão fodidas no mun- em Brooklyn a chamar-me “irmã”. questões da raça. Eu aprendi a raça,
guagem. Na Nigéria, a mensagem para do... Bom, mas por outro lado há uma Percebi que ele dizia aquilo por eu aprendi a ser negra nos EUA. Aprendi
as mulheres é a de que podem ser am- diferença na vivência do mundo en- ser negra. Mas lembro-me de pensar: a compreender todas as nuances. Há
biciosas, podem ser poderosas, mas tre uma mulher branca e rica versus “Não sou tua irmã.” A segunda vez foi muitos problemas sobre os quais fala-
têm de ter a certeza que utilizam um uma mulher branca e pobre versus na universidade. Enviámos os nossos mos na Nigéria. Mas quando começo a
determinado tipo de linguagem, de uma mulher negra e rica. Estas coi- trabalhos por e-mail. O professor im- falar sobre questões de raça, eles não
modo a que a sociedade não se sinta sas estão intersetadas. Eu, por exem- primiu-os todos, pegou num e disse: compreendem. A não ser que vivas
ameaçada por elas. plo, com frequência digo que nessas “Este é o melhor trabalho de todos. numa sociedade racista, não neces-
três categorias tenho um dos privilé- Quem o escreveu?” Chamou pelo meu sitas verdadeiramente de perceber a
O modo como utilizamos a lingua- gios, que é o da classe. Os outros dois último nome, e eu levantei a mão. Ele questão da raça. Mas os meus amigos
gem interfere em questões de raça, não tenho, que são a raça e o género. olhou para mim e ficou surpreendido. na Nigéria percebem perfeitamente
género e classe social? Mas tenho o privilégio da classe, e é Foi um momento muito breve, mas o que é o tribalismo. E percebem as
Sim, absolutamente. Nos EUA — por- importante ter a noção disso, porque deu para perceber a sua surpresa. Per- questões da religião, porque é com
que na Nigéria ninguém fala de raça formata o modo como experiencio os cebi que estava surpreendido por eu isso que vivem.
—, quando as pessoas falam de raça, outros dois. ser negra. Não esperava que a pessoa
usam uma espécie de código. Quan- que tinha escrito aquele ensaio fosse Como é ser mulher e negra nos EUA
do a direita política dos EUA fala de Quer exemplificar? negra. O meu último nome não sugere ou na Europa versus na Nigéria ou
lei e ordem, é na verdade um código Há lugares na Nigéria onde posso ir e tratar-se de um negro. Percebi então em África?
para raça. E as pessoas que compre- onde sou vista com algum respeito, que, naquele país, ter o aspeto que eu Ser uma pessoa negra na Nigéria não
endem isso reagem. Quando cheguei porque falo inglês, tenho formação tenho significa as pessoas assumirem é assunto. Ser mulher na Nigéria sig-
aos EUA não percebia porque é que escolar e sou da classe média alta. que não és inteligente. Isso foi muito nifica muito. Há uma tremenda mi-
tinha alguns amigos afro-america- Uma mulher pobre não seria vista difícil para mim. Não apenas por vir soginia cultural. Uma mulher entra
nos tão zangados com determina- com esse respeito. As portas da clas- de um país onde todos são negros, e num restaurante, o empregado cum-
das situações. Porquê? Aqueles tipos se abrem-se para mim. Mas, quando portanto uns são inteligentes e outros primenta o homem e ignora comple-
estavam a falar de lei e ordem, uma entro naquela sala, a raça e o géne- não o são. Logo, inteligência não tem tamente a mulher. Uma mulher vai
coisa boa, não é? Só quando se olha à ro diminuem o meu espaço. E pode a ver com raça. Além de que, no meu a conduzir e acontece um qualquer
volta se percebe que aquele é um país ser através de coisas pequenas. Isso caso, a minha identidade pessoal está problema de trânsito, tem logo um
com um longo historial de equipara- acontece muito nos EUA com ques- muito ligada à inteligência. Desde o homem a gritar-lhe e a chamar-lhe
ção de negros com desordem. Então, tões de raça e na Nigéria com ques- infantário que eu era vista como a mi- prostituta. Há uma violência mui-
a linguagem de lei e ordem é, de fac- tões de género. É o estar num sítio e úda brilhante. Então, ao mudar-me to normalizada contra as mulheres.
to, a linguagem de controlo das pes- perceber que as pessoas estão a pen- para a América, percebi que, só por ter Usamos a cultura para disfarçar mui-
soas negras. Demorei algum tempo a sar que, por seres negra, não devias o aspeto que tenho, a minha inteligên- tas destas coisas. Na Nigéria espera-se
entender isso. A linguagem funciona estar ali. Porque os negros simples- cia era posta em questão. que as mulheres considerem o casa-
em diferentes níveis. Com frequência, mente não deviam estar ali. Na Nigé- mento como a sua grande realização
o que está a ser dito não é aquilo que ria, a pergunta é outra: “És mulher, Foi difícil? pessoal. Não é este o caso dos EUA,
parece óbvio. Acho isso infinitamen- como é que entraste aqui?” Até por- Foi muito difícil. Passei muito tem- obviamente, mas penso que na Nigé-
te fascinante. que as pessoas assumem que tens de po em rejeição, a dizer: “Eu não sou ria, quanto mais a mulher envelhece,

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melhor se torna a sua experiência de
ser mulher, enquanto no Ocidente,
quanto mais a mulher envelhece, pior
se torna a sua experiência enquan-
to mulher.

Como assim?
A idade não é verdadeiramente res-
peitada no Ocidente. Nos EUA e na
Europa, a juventude das mulheres é
muito explorada. Acho isso espanto-
so. É aquela ideia capitalista de querer
obter lucros. Como é que se obtêm lu-
cros? Colocando os jovens como alvo
nos anúncios. Como esta cultura está
muito centrada na juventude, quan-
do as mulheres são jovens não expe-
rienciam verdadeiramente os atos de
misoginia e sexismo. Quanto mais
velhas ficam, pior, numa cultura que
não respeita a idade e castiga as mu-
lheres por questões biológicas. É o
caso de uma mulher que engravida
ou de uma mulher que vai a uma en-
trevista de emprego e são suscitadas
reservas porque pode engravidar. No
Ocidente, as mulheres não recebem
muita ajuda no cuidar das crianças.
Na Nigéria é muito comum os paren-
tes, as raparigas jovens, aparecerem
para ajudar a tomar conta do bebé. Na
Nigéria, se és uma mulher, é provável
que não te respeitem. Mas se és uma
mulher idosa, és respeitada, porque
és velha, não por seres mulher. Pen-
so que no Ocidente há muita pressão
da imagem, até por se imporem pa-
drões de beleza muito limitados. As
raparigas sofrem mesmo muito. Há
tantas raparigas no Instagram a que-
rerem imitar esses padrões... Na Ni-
géria, a ideia de beleza é mais ampla.
Mas está a mudar, devido aos efeitos
da globalização.

Consegue separar as questões de gé-


nero ou raça dos problemas de igual-
dade e justiça social?
Não. Não posso. Uma grande parte
destas questões tem a ver com poder.
No Ocidente, por exemplo, quando
as pessoas falam de salário igual para
trabalho igual, é importante, mas não
estamos a falar do modo como a gra-
videz afeta as hipóteses das mulheres.
Ou de como a idade afeta os empre-
gos. Ou de quando a mulher se casa
e tem filhos, e as coisas acontecem
quando está verdadeiramente a co-
meçar a desenvolver a sua carreira, e
aquilo trava-a. Isto resulta das práti-
cas do capitalismo em muitos destes

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países. Em geral, agrada-me o ca- ou, se aconteceu, não era feminismo. questionarem tudo isto e com vonta- femininos... Porquê? Se és mulher e
pitalismo humano. Não sou antica- Em todo o caso, é o que as pessoas de de mudar, significa que os rapazes gostas de moda... hum... não és inteli-
pitalista. Sou anti certas formas de pensam, mas também considero que, de hoje, que em 10 ou 15 anos serão gente, és frívola, não és séria. Porquê?
capitalismo. fundamentalmente, é porque as pes- os que tomam decisões, quando es- Mas se és rapaz e gostas de despor-
soas têm medo da mudança, se não tiverem em posição de decidir, vão to — o desporto, em minha opinião,
Contesta as formas agressivas de têm a certeza de que essa mudança fazê-lo de forma diferente. Não vão é igualmente frívolo —, não o rejei-
capitalismo? as possa beneficiar. Na maioria serão punir as mulheres por terem crian- tamos da mesma maneira que nor-
Sim. Acredito que o capitalismo pode homens, mas também há mulheres a ças. Se uma mulher engravidar, vão malmente se rejeitam as coisas tidas
ser mais humano. Acredito que as pensarem que o feminismo significa agir de forma a que não perca o seu como femininas. Isso desemboca na
pessoas podem ser bem pagas e as perderem alguns privilégios. Porque emprego. Costumo dizer que se pre- misoginia. Essa ideia de que os as-
empresas continuarem a ter lucros. há mulheres que de alguma forma be- tendemos que a raça humana conti- suntos das mulheres não têm o mes-
Contesto vivamente esta ideia de que neficiam do sistema patriarcal. O gé- nue, temos de pensar naquelas cujos mo prestígio cultural...
é sempre uma questão de crescimen- nero de mulheres que dirá: “Oh, estou corpos fazem o trabalho: as mulhe-
to e lucros. Isso afeta o modo como muito feliz por estar em casa, o meu res. Gosto muito de falar com os jo- Passa por aí a necessidade de com-
as mulheres lutam. Porque os recur- marido dá-me dinheiro e eu tomo vens, porque é importante para mim bater estereótipos?
sos são cada vez mais escassos. Se as conta das crianças.” Essas mulheres dizer-lhes que eu sou esta feminista Não penso que os estereótipos sejam
empresas tivessem espaços para as opõem-se à ideia de igualdade, por- — o que às vezes é cansativo —, mas muito úteis. Mas existem e por ve-
crianças, o trabalho das mulheres se- que a igualdade pressupõe respon- não sou estranha. zes são verdadeiros. Quando fui para
ria mais produtivo se soubessem que sabilidade. Também há homens que os EUA, os estereótipos sobre Áfri-
os seus filhos estão felizes e contentes. pensam que o feminismo significa Cansativo porquê? ca eram que os africanos são pobres,
Se daí resulta que o lucro da empre- perderem privilégios não conquista- Porque, na verdade, do que gosto é de que têm girafas e leões. Isso é verdade.
sa vai ser reduzido em 10%, continua dos. Um certo tipo de tradicionalismo estar em casa e ler poesia. Isto não é Mas não o é completamente. Quando
a ser bom. A forma como a economia beneficia-os. E eles gostam disso. O uma queixa. Eu fiz uma escolha. Há é isso o que sabes de África, não sabes
está estruturada afeta o modo como as feminismo, para eles, é algo que per- pessoas que me veem como feminis- o que fazer com uma pessoa como eu.
mulheres ficam incapazes de prospe- turba o sistema de que gostam. Por- ta e assumem que isso é tudo o que Nunca vi um leão. Não há leões na Ni-
rar. Claro que isto também é mau para tanto, rejeitam-no. eu sou. Depois ficam surpreendidas géria. Não cresci pobre. Os estereóti-
os homens, mas eu hoje estou a falar quando percebem que sou uma pes- pos não são úteis. Eu, como pessoa,
das mulheres. Tem consciência de que com as suas soa normal. Por isso, gosto de falar constato que os meus próprios este-
intervenções, com o modo como é com jovens raparigas e rapazes. Na reótipos estão constantemente a ser
Se o que diz está na natureza do ca- percecionada, tem tornado o femi- verdade, gosto mais de falar com ra- desafiados.
pitalismo, é um problema difícil de nismo uma coisa ‘fixe’? pazes. Até porque, quando falo com
resolver... [gargalhadas] Isso faz-me muito fe- raparigas, falo de moda, porque adoro Diz que os estereótipos não são úteis,
Não tenho a certeza disso. Não sei. liz. É bom ser ‘fixe’, sobretudo para moda. Essa ideia de que sendo femi- mas na verdade percebemos que em
Será? O que pergunto é: “Quem deci- os jovens, rapazes e raparigas. Se ser nista não podes gostar da feminilida- geral as pessoas receiam o que não
diu que tem de ser assim?” Muitas ve- ‘fixe’ é o que me faz atingir mais pes- de é absurda. Desde os meus 14 anos lhes é familiar. E aí entram os este-
zes agimos como se as coisas fossem soas, isso é bom. O que me interes- que adoro vestidos. Sou uma comple- reótipos sobre África, sempre asso-
inevitáveis. Repare, recentemente o sa é ter uma massa crítica de pesso- ta obcecada pela moda. E porque não? ciada a pobreza, desgraças, falhan-
Twitter anunciou que não permiti- as a acreditar nisto. Só assim a mu- Mesmo para mim, é algo que preci- ço dos Estados... Há um conjunto de
rá publicidade política. Há dez anos, dança acontece. Se conseguirmos ter samos de desconstruir. Essa ideia de narrativas estabelecidas que definem
isto pareceria louco. Porque nesta era os jovens, de diferentes culturas, a considerarmos frívolos certos temas estereótipos...
das novas tecnologias a ideia central
é sempre como obter lucros. Ao banir
a publicidade política, estão a tomar a
decisão de não recolher lucros gigan-
tescos. O meu ponto é este: se é possí-
vel ao Twitter banir a publicidade po-
lítica, é possível refazermos a prática
do capitalismo.

Escreveu um pequeno livro intitula-


do “Todos Devemos Ser Feministas”.
Porque é que continua a haver tanta
Na verdade, do que gosto é de
gente com medo de uma simples pa-
lavra como ‘feminismo’?
Boa pergunta, quero responder a isso.
estar em casa e ler poesia. Fiz
As pessoas dizem que as feministas
são pessoas zangadas, mas na verda- uma escolha. Há pessoas que me
veem como feminista e assumem
de os antifeministas é que estão mui-
to zangados. Continuam centrados
nessa ideia de feministas a queima-
rem sutiãs, de mulheres a matarem
homens. A sério? Isso não aconteceu que isso é tudo o que eu sou”
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É como se Trump tivesse
pode ter para o mundo, e para sentir
essas consequências nem é preciso ser
americano. Mas é também o facto de

desmistificado a América. Virou a sua própria gente não saber como


lidar com ele. Todo o mundo sabe
que está a lidar com alguém comple-

tudo de pernas para o ar. Talvez tamente instável. Isto é como ter um
rei louco. Tudo isto faz-me pensar em

eu esteja a ver a América de que


quanto poder tem um Presidente dos
EUA, apesar de ostensivamente de-
ver haver um sistema em que os três

amigos radicais me falavam” braços do poder se controlam uns aos


outros. Mas não é assim. Porque um
homem assim instável pode acordar
um dia de manhã e decidir que quer
entrar em guerra com a Coreia do
Sim... mas, de novo, depende de como a toda a gente que é uma feminista e que é possível ao Governo america- Norte. Isso está a acontecer. A China
alguém conta a história. De quem tem utilizar os argumentos sobre o que é no apoiar um Presidente que é res- é má, mas no dia seguinte a China já é
o poder de contar a história. Que his- injusto. Isso faz-me muito feliz. ponsável pela morte e afastamento boa. A Coreia do Norte é terrível, mas
tórias são escutadas. Como é que a de um jornalista que é residente nos no dia seguinte está a dizer o contrá-
história é contada. Isso é muito im- Foi para os EUA com 19 anos. Desde EUA. Desculpe, mas isto é o tipo de rio ou então está a dizer para irem al-
portante. Duas pessoas diferentes po- então conviveu com três presidentes. coisas que não consigo superar. Não moçar e estarem preparados para ata-
dem contar uma mesma história e Quão difícil é hoje viver nuns EUA consigo superar que um homem que car o Irão. Umas horas depois estará a
narrarem duas coisas completamente sob tutela de alguém como Donald tem a Carta Verde, paga impostos nos dizer: “Não, não, não façam isso.” Não
diferentes. Uma poderá ser estereoti- Trump? EUA, não só é morto como é descar- percebo como é que se pode ter tan-
pada e apenas estúpida. A outra pode É terrível. Sabe o que é? É surreal. Ge- tado. E percebemos que o seu Gover- to poder sem que algo de potencial-
afastar-se dos estereótipos. As narra- orge W. Bush não era um Presidente no tem o dinheiro e o petróleo que mente horrível aconteça. Isso assus-
tivas importam. E muito. popular. Eu não voto nos EUA, por- é necessário. Talvez eu esteja a ver ta-me muito.
que continuo a manter a cidadania agora a América de que muitos dos
Sente ter, de alguma maneira, inspi- nigeriana por escolha, mas, se vo- meus amigos mais radicais me fala- Uma última pergunta...
rado movimentos como o #Me Too? tasse, votava democrata. Muitos dos vam. Temos um Presidente que não Pois, o tempo avança, mas esta histó-
Não. Repare, mesmo com o meu pe- meus amigos são de esquerda e mui- tem nenhum senso, nenhuma visão, ria de Trump deixa-me verdadeira-
queno livro sobre feminismo, não creio tos deles não gostavam de George W. que não acredita em nada. Nada dis- mente furiosa.
ter dito nada de novo. O motivo pelo Bush, porque não o achavam prepa- to é normal. Às vezes, preocupa-me
qual tantas mulheres responderam rado. Não era suficientemente inteli- verificar que a imprensa nos EUA usa O que a inspira para a escrever?
àquilo, que já conheciam, é porque gente para ser Presidente. As pessoas os mesmos padrões para com Trump Tudo. Bom, nunca sei como respon-
por vezes sentimos algo e de repente ficaram furiosas com a sua mentira que usava para com George W Bush der a essa pergunta, porque todos os
aparece alguém a articular aquilo que sobre as armas de destruição massi- ou Obama, mas é preciso perceber meus livros foram inspirados por di-
pensamos. Alguém proporciona a lin- va, com a questão do Iraque. Só que que temos no poder uma pessoa ins- ferentes coisas. Tenho um bloco de
guagem para falares do que pensas. É Trump é algo de completamente di- tável. É algo de completamente dife- notas. Agora uso o telemóvel e estou
fantástico quando isso acontece. Penso ferente. Embora as pessoas não gos- rente. Quando ele chegou ao poder, sempre a tomar notas. Por exemplo,
que terá sido o que sucedeu com mui- tassem de Bush e desconfiassem dele, eu e muitas outras pessoas ficámos você... tenho estado a pensar. Gosto
tas jovens mulheres que leram o meu não pensavam que os fundamentos chocadas. Depressa fiquei muito pre- de descrever personagens. Sempre
livro. E não apenas jovens mulheres. dos EUA estivessem em causa. Não ocupada ao ver a cobertura feita pela que conheço alguém e me apercebo
Não há forma de não ver a injustiça. sentiam que as instituições america- imprensa. Ele mente. Mas é o Presi- de algo distinto, anoto. É o que vou
nas estivessem em causa. Agora, com dente dos EUA, e pelo livro de esti- fazer com esta entrevista. Há várias
Muitas vezes pode dizer o óbvio, que Trump, sentimos que muitas coisas lo do jornalismo norte-americano, notas que quero tomar e usar even-
num dado momento ninguém es- que pensávamos serem sólidas afinal vindo da Columbia School of Jour- tualmente [risos]. É verdade. Estou
cuta, e num outro momento toda a não o são. É como se Trump tivesse nalism, ou o que seja, os presidentes cada vez mais apanhada pela Histó-
gente segue com muita atenção... desmistificado a América. Há uma não mentem, ou pelo menos daquela ria. Tenho lido muito sobre a África
É verdade. O que posso dizer é que mística da América, que também vem maneira. Ninguém sabe o que fazer. pré-colonial. Interessa-me imenso
há muitas jovens mulheres em várias do seu poder cultural. Vemos todos Ele mente, queixam-se, mas dizem perceber como chegámos aqui. En-
partes do mundo que me disseram aqueles filmes sobre a América, sem- que não há provas para o demonstrar. tão, olho para trás. Atualmente, o
que nunca se tinham visto como fe- pre apresentada como poderosa e boa. Mas que raio? que acho inspirador é a História. Não
ministas até me terem lido ou ouvido. Há aquele sentido de que a América é a História moderna, exceto aquele pe-
Por vezes, dizem-me que lhes propor- o tipo bom. Mesmo quando conheces Donald Trump torna o mundo mais ríodo em que os portugueses foram
cionei a ideia de feminismo. Ou que a política externa dos EUA, tendes a perigoso? para a África Ocidental. Isso acho
lhes dei a linguagem ou que lhes dei pensar que a América é o bom da fita. Há duas coisas que me deixam ver- mesmo muito interessante. E inspira-
a coragem. Isso comove-me muito. dadeiramente triste e desconfortável. dor. Não sei. Talvez algo possa acon-
Porque eu o disse, há quem me diga Trump alterou essa narrativa? Não é só o facto de este homem ins- tecer com isso. b
que pensava assim, mas agora sente Trump virou isso completamente tável ser o mais poderoso do mundo,
que pode afirmá-lo. Agora pode dizer de pernas para o ar. Agora percebo com todas as consequências que isso vcruz@expresso.impresa.pt

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Rir face
ao desespero
Ao Expresso, Ian McEwan fala de
DAVID LEVENSON/GETTY IMAGES

“A Barata”, uma sátira hilariante em que


ataca o ‘Brexit’ e a sua lógica absurda
TEXTO JOSÉ MÁRIO SILVA

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E
m “A Metamorfose”, de Franz
Kafka, Gregor Samsa acorda um
dia transformado em inseto. Ian
McEwan, no seu novo livro, uma
novela de pouco mais de cem páginas
publicada mesmo antes do que era
suposto ser a data limite para o Brexit
(31 de Outubro), inverte a situação.
Ao despertar de uma “noite cheia
de sonhos perturbadores”, uma
barata descobre-se no corpo de uma
“criatura gigantesca”, com membros
a menos (quatro em vez de seis) e
dentro da boca “uma fatia de carne
escorregadia, rasteira e húmida”; ou
seja, “repugnante, sobretudo porque
se mexia por vontade própria”. A
forma humana que a barata assume
é a de Jim Sams, nem mais nem
menos do que o primeiro-ministro
britânico, deitado na cama de um
quarto no número 10 de Downing
Street, em Londres. Logo que
aprende a controlar os gestos e a
fala do seu novo invólucro, o inseto
pode enfim cumprir o plano que o
trouxe até ao coração do Governo.
Na companhia de outras baratas,
que ‘ocuparam’ a quase totalidade
dos restantes membros do Conselho
de Ministros, implementarão enfim
o “regressismo”, aprovado em
referendo nacional.
E em que consiste o “regressismo”?
Apenas e só na reversão completa
do fluxo do dinheiro na sociedade.
Ou seja, quem trabalha tem de
pagar por isso. Como? Com o
dinheiro que recebe das lojas onde
faz compras. Tudo ao contrário
do que se fez durante séculos e do
que se continua a fazer no resto do
ANDREW FRANCIS WALLACE/TORONTO STAR VIA GETTY IMAGES

mundo (o único país que aceita um


sistema semelhante é a minúscula
nação insular de Saint Kitts and
Nevis). Os defensores do novo
sistema económico prometem que
ele vai expurgar o país “de absurdos,
desperdício e injustiça”. Deixa de
haver ricos (ninguém pode acumular
capital e quem guardar mais do
que 25 libras está sujeito a pena de
prisão), mas também deixa de haver
Ian McEwan costuma ser
miséria. Aliás, o triunfo desta ideia
um escritor lento, mas desta
no referendo resulta justamente
vez escreveu “A Barata”
de uma “aliança tácita” entre os em apenas um mês e meio
trabalhadores pobres e os idosos
de todas as classes. “Os primeiros

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não tinham lugar no statu quo e não de Kafka. “Era só para comparar, história mantivesse uma vida para
tinham nada a perder e desejavam “Fico muito zangado já que a primeira frase foi inspirada lá do ‘Brexit’, não ficasse limitada
poder levar para casa não só bens por me tirarem a nele. E fiquei surpreendido. Aquela a este absurdo concreto, mas
essenciais como também artigos de história do Gregor Samsa, uma das antes refletisse, genericamente, os
luxo e, além disso, tornar-se ricos, cidadania europeia mais famosas ficções de sempre, obra extremos a que nos pode conduzir a
ainda que por um breve período de
tempo. Os idosos, devido à perda
sem o meu que ocupa um lugar tão importante
na nossa memória coletiva, tem
onda de populismo que está a varrer
a Europa e os Estados Unidos, o
de faculdades cognitivas, foram consentimento. apenas 16 mil palavras.” Só para não Brasil, a Turquia, etc.”
nostalgicamente atraídos por aquilo ficar atrás, apontou para as 20 mil Quanto ao futuro próximo do Reino
que pensaram ser uma proposta para Aliás, continuarei palavras e seguiu em frente. Unido, McEwan prefere não fazer
fazer o relógio andar para trás.”
Se “A Barata”, um livro sobre o
a considerar-me Habitualmente, McEwan é um previsões, até porque no seu caso elas
falham sempre. “Enganei-me quanto
escritor lento, metódico, muito cioso
‘Brexit’ em que a palavra ‘Brexit’ um europeu, do acabamento estilístico impecável ao resultado do referendo, a mesma
não aparece uma única vez, começa
por ser uma homenagem a Kafka,
com muito orgulho” dos seus livros, mas desta vez o
método de trabalho foi diferente,
coisa em relação à eleição de Donald
Trump.” Mas se o ‘Brexit’ for mesmo
depressa muda de agulha e envereda como que tomado pela energia da avante e lhe for retirada a cidadania
IAN MCEWAN
pela sátira mais selvagem, ao modo urgência. “Escrevi tudo em mês e europeia, ficará “devastado” e de
de Jonathan Swift. Ao telefone de meio, tempo durante o qual não fiz “coração partido”. Porquê? “Porque
Londres, sentado na sala de espera rigorosamente mais nada. Estava considero a União Europeia um
de um veterinário (para onde o inclusão na história, substituindo muitíssimo focado. Fechei-me dos maiores feitos da civilização
seu cão o enviou de urgência), Ian o ‘Brexit’, era representar um em casa, sem querer saber do que humana. Devido a ela, vivemos nas
McEwan admite a influência do projeto que fosse aparentemente acontecia lá fora, porque este era últimas décadas um período sem
escritor irlandês do século XVIII. demasiado absurdo para ser levado a um daqueles textos que só resultam precedentes de paz e prosperidade
“É verdade, fui beber a essa fonte sério. “Mas temo que mesmo assim se forem escritos de um fôlego.” na Europa. E deu-nos o acordo de
magnífica. Na tradição britânica, fique bastante aquém. É uma ideia A memória que guarda daquelas Schengen, que permite conduzir
‘As Viagens de Gulliver’ e ‘Singela estúpida, sim, mas não tão estúpida poucas semanas de efervescência o nosso carro da Eslovénia até à
Proposta’ são as obras fundadoras como o ‘Brexit’. Na verdade, até criativa não são apenas gratas; dir- Suécia, ou de Portugal até à Polónia.
da sátira em geral e da sátira política talvez fosse menos danosa para o se-ia que espelham um certo júbilo. É algo de extraordinário. Ficarei
em particular. Sobretudo a ‘Singela país.” “Foi certamente uma das ficções que muito zangado por me tirarem isto
Proposta’ [texto no qual se sugere Na origem de “A Barata” esteve mais gozo me deu escrever em toda a sem o meu consentimento. Aliás,
que a solução para os problemas um impulso de frustração. “Este é minha vida.” continuarei a considerar-me um
económicos das famílias irlandesas um caso extraordinário de um país Um dos problemas mais complicados europeu, com muito orgulho.”
com muitos filhos seria vendê-los a decidir fazer mal a si mesmo. com que o escritor se deparou, O combustível do populismo (e
como alimento dos mais ricos]. Swift Metade do país assistiu com horror em termos de verosimilhança do triunfo das baratas, no livro)
não deixa pedra sobre pedra. E eu ao resultado do referendo, a outra narrativa, teve a ver com a migração é o predomínio da mentira e da
dei por mim num estado de espírito metade está apenas desejosa de nos da consciência da barata para a falsidade sobre o rigor dos factos
semelhante. Algures entre a fúria ver fora da Europa. Poucas vezes mente de um ser humano. Como verificáveis — um fenómeno que
e a troça.” Se a ideia era abordar os estivemos tão divididos como agora.” explicar de forma credível um cada vez mais invade e envenena o
problemas levantados pelo ‘Brexit’, A frustração nasceu da impotência fenómeno tão impossível como este? espaço público. Neste caso, McEwan
McEwan fazia questão de explorar os face ao rumo dos acontecimentos “A verdade é que o Kafka resolveu assume-se como otimista: “No
seus aspetos mais grotescos. “O que e aos poucos foi-se convertendo muito bem, no seu livro, o mesmo futuro, creio que estes anos vão
está a acontecer fica completamente em desespero. “Chega então um tipo de estranheza. Quando acorda ser vistos como um tempo muito
fora dos limites do que é razoável. momento em que o desespero transformado em inseto, o que nobre e heroico para o jornalismo.
Até os especialistas financeiros do encontra o riso. Após três anos verdadeiramente preocupa Samsa É crucial que um corpo enérgico
Governo dizem que a economia vai de agonia, a vontade de rir destes é o facto de poder chegar atrasado de gente séria consiga manter o
sofrer consequências, vai encolher, absurdos começou a entrar na minha ao trabalho. Ou seja, Kafka começa culto da verdade. Os inimigos são
e que as pessoas comuns não vão ter corrente sanguínea.” As reações com uma situação completamente poderosos, mas tenho esperança de
mais soberania do que tinham antes. públicas do escritor em artigos fantástica e inverosímil, mas o resto que continue a haver quem conserve
Nada disto faz sentido.” de jornal e em debates, sempre está escrito num estilo realista, que essa chama viva.” b
Se os escritores americanos revelam num tom muito sério, já não eram poderia ter saído da pena de um
muita dificuldade em caricaturar suficientes. “Decidi divertir-me um Tchekhov.” Em “A Barata”, McEwan
Donald Trump, por ele já ser, bocado, uma vez que deixou de estar tentou algo de semelhante: “Quis
Ian
Solar, Mel, A Balada de Adam Henry (adaptado ao Jim Sams sofreu uma metamorfose. Na sua vida anterior,
a Barata

cinema em 2018), Numa Casca de Noz e Máquinas era ignorado ou até considerado repugnante. Na sua nova en-

McEwan
Como Eu. Assinou também um libreto de ópera,

à partida, a caricatura de uma nas minhas mãos mudar as coisas. captar o leitor com a primeira frase
carnação, é o homem mais poderoso da Grã-Bretanha – e a sua
Por Ti, para música de Michael Berkeley, e também missão é fazer a vontade do povo. Nada poderá desviá-lo do seu
a presente novela, A Barata. Todas estas obras
caminho: nem a oposição, nem os dissidentes do seu próprio
foram publicadas em Portugal pela Gradiva.
partido, nem sequer as regras de uma democracia parlamentar.

caricatura, McEwan enfrentou um Permiti-me, digamos, um certo grau e depois fazer com que acredite
É ainda autor de vários argumentos para cinema,
Ian McEwan

entre os quais The Imitation Game, The


Ploughman’s Lunch, Sour Sweet e The Good Son. Com a inteligência, a perspicácia e o humor contundente
Em 2011, foi agraciado com o Prémio Jerusalém, que lhe são característicos, Ian McEwan homenageia a obra

dilema semelhante: como parodiar de escárnio, misturado com uma em tudo o que está a ler, por mais mais famosa de Frank Kafka, mostrando-nos um mundo virado
© Eamonn McCabe

uma honra concedida a escritores cujos trabalhos


versem a liberdade individual na sociedade. ao contrário.

um acontecimento político que forte dose de irritação.” estapafúrdio que seja.” «Naquela manhã, ao acordar, Ian McEwan é autor de dois livros de contos
– Primeiro Amor, Últimos Ritos (vencedor do
Jim Sams, esperto, mas algo leviano,
é, ele mesmo, uma espécie de De início, porém, McEwan não sabia Outro desafio levantado por esta
Somerset Maugham Award 1976) e Entre os

a Barata
Lençóis – e dezasseis romances: O Jardim de
depois de uma noite Cimento (adaptado ao cinema em 1993), A Criança
cheia de sonhos perturbadores, no Tempo (vencedor do Whitbread Award 1987),

sórdida paródia? Vem daí a ideia ao certo para onde é que o texto história teve a ver com a longevidade
O Inocente (adaptado ao cinema em 1993),
viu-se transformado Estranha Sedução (adaptado ao cinema em 1990),
Cães Pretos, O Sonhador, O Fardo do Amor
numa criatura gigantesca.»

de substituir o ‘Brexit’ pelo tal o levaria. “Comecei por escrever do termo ‘Brexit’. “Um dia, as
(adaptado ao cinema em 2004), Amesterdão
(vencedor do Booker Prize 1998), Expiação
(vencedor dos prémios US National Book Critics
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Circle 2002 e WHSmith 2002 para melhor livro

conceito de “regressismo”, uma a primeira frase. Depois acabei o pessoas terão de googlar a palavra
de ficção, e adaptado ao cinema em 2007),
Sábado, Na Praia de Chesil (vencedor dos prémios
978-989-616-944-2 The Galaxy Book of the Year, Reader’s Digest
gradiva gradiva
teoria económica desvairada que para saberem do que se tratou. Ou
Author of the Year, e adaptado ao cinema em 2018),

primeiro parágrafo. E disse: olha,


lhe ocorreu há uns anos, durante tenho aqui um conto. A seguir, então terão esquecido o agonizante
K_A BARATA_finalissima.indd 1 28/10/19 21:26

“uma daquelas conversas sobre quando cheguei às três mil palavras, processo que conduziu até ele. Por QQQQ
‘e se’ que acontecem em volta de ainda com muito para contar, pensei isso, era importante que a história A BARATA
uma garrafa de vinho”. Escrita num que talvez a coisa afinal fosse uma tivesse uma relevância que se Ian McEwan
caderninho, o escritor nem precisou novela curta.” A curiosidade levou-o pudesse aplicar a todo o tipo de Gradiva, 2019, trad. de Maria
de a consultar, “porque nunca deixou a pesquisar na internet qual o governos que ficam reféns de ideias do Carmo Figueira, 110 págs., €11
de estar comigo”. O objetivo da sua volume textual de “A Metamorfose”, loucas. A minha intenção foi que a Novela

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Não há jazz neste fado
Camané e Mário Laginha gravam em disco muitos anos
de experiências em concerto. São 14 temas num novo piano
TEXTO ALEXANDRA CARITA

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Fadista e pianista gravaram
em conjunto “Aqui Está-se
Sossegado”, um disco de fado
e piano, e vão tocá-lo ao vivo
a 20 de dezembro no Coliseu
dos Recreios, em Lisboa

H
resultado valesse a pena do ponto
de vista musical”, explica Laginha.
“Cada vez nos fados do Camané soaram-me bem.
Olha que bem que canta.” Estava
O músico ouviu muitas coisas, foi entendemos estimulada a curiosidade. “Depois
aos fados vezes sem conta. Escu- ainda, descobri que gostava da
tou com atenção Camané e os seus melhor na Amália e fui quebrando a minha
guitarra e viola, José Manuel Neto e
Carlos Manuel Proença. E, “respei-
respiração, nos resistência”, conta. “Sempre que
aparecia uma coisa nova do Cama-
tando muito a tradição”, encontrou silêncios, no texto, né, eu gostava muito. De repente,
“uma maneira de legitimar o pia-
no”. Camané também foi ajudando.
no contar da estávamos a cruzar-nos.” Laginha
assume que só “os burros é que não
á 15 ou 20 anos, Camané e Mário “Aqui costumo fazer desta manei- história, no tempo mudam de opinião” e aceita que
Laginha encontraram-se pela pri- ra...” No fim, Mário Laginha tinha a sua resistência “tinha a ver com
meira vez em concerto. Nessa altura, “mergulhado no universo profundo das palavras. ignorância”. “Não tinha informação
com Bernardo Sassetti, formavam
um trio. Tocavam e improvisavam
do fado” e já tinha “bebido aquela
influência o mais possível”.
Foi uma para gostar”, continua. Mas, afinal,
“sou um bocadinho mais português
um fado ao piano. Camané cantava Para trás ficou a ideia do piano experiência do que pensava”. O fado, diz, é
temas que já gravara e os músicos
acompanhavam-no. Os encon-
imitar a guitarra ou a viola. “Não,
nunca houve intenção de jazzar o
fantástica” de facto “o bastião, a bandeira e o
símbolo icónico do que é a música
tros foram-se repetindo. E, no ano fado”, diz o pianista. “E também CAMANÉ portuguesa. Virar as costas a isso
passado, o fadista propôs o primeiro não é uma tomada de posição do não faz muito sentido”.
desafio ao músico de jazz. “Vamos tipo: sou contra o fado de fusão O futuro, porém, está reservado
fazer uma tournée.” A digressão teve com o jazz. Não. Aqui tratou-se (um poema de Luís de Camões com para a carreira de um e de outro.
início e foi correndo bem a cada es- de ligar muito profundamente música de Alain Oulman). Novo “Cada um vai à sua vida e segue o
petáculo. Os dois passaram a rever- as influências e entender bem a na voz do fadista surge 'Com que seu caminho”, avisam. “Este foi um
-se mais um num outro e a música linguagem do fado para, depois, Voz', um fado magnífico, criado por encontro muito profícuo e muito
que faziam passou a soar-lhes cada poder tocá-lo e fazê-lo bem”, conta Carlos Ramos em 1958, que Camané feliz e resultou como um trabalho
vez melhor. O passo seguinte foi um Mário Laginha. Nessa embalagem, nunca imaginou cantar e gravar, e conjunto.” Para Mário Laginha e
novo desafio. “Vamos gravar um o músico gravou três inéditos: ‘Rua aqui o primeiro single do disco. E para Camané a bagagem vai agora
disco.” E adaptaram-se ao tempo do da Fé’, ‘Se Amanhã Fosse Domingo’ está ainda ‘A Casa da Mariquinhas’, mais pesada. “Ter feito isto alimen-
outro. “Cada vez nos entendemos e ‘Fado Barroco’, onde associa o gravado pelo fadista em 2017, outro tou-nos e dá ideias para soluções
melhor na respiração, nos silêncios, fado à música barroca. “Acho que fado magnífico criado por Alfredo que não são as típicas. Cria elemen-
no texto, no contar da história, no a música barroca casava bem com Marceneiro em 1961. tos que são só nossos mesmo que a
tempo das palavras. Foi uma expe- o fado, com aquele universo das Camané deu também o título ao música tenha influências diversas.
riência fantástica.” Assim nasceu guitarradas a solo. Pensei reprodu- álbum, “Aqui Está-se Sossegado”. Esta os outros países não têm”,
“Aqui Está-se Sossegado”, ontem zir essa ligação aqui”, adianta. E “O meu avô também era fadista. Há avança Laginha, ele que estava
chegado ao mercado. resultou. De tal forma que antes do quatro anos disse o nome dele num tão preocupado em “fazer bem”.
“Fomos para estúdio. Escolhemos disco sair, estava ele num workshop programa de televisão e José Moças, Camané, com as lágrimas nos olhos
os melhores takes e registámos”, de fado, e apareceu-lhe um miúdo colecionador, tinha o disco do meu ao segundo tema, conseguiu o que
conta Camané. “Resolvemos fazer de 19 anos a tocar ‘Fado Barroco’. avô em casa. Fê-lo chegar até mim dele era esperado. A voz bem co-
a coisa ao contrário. Viajámos Surpresa mais agradável ainda e eu ouvi a voz dele pela primeira locada, sempre, tudo no ponto até
primeiro e gravámos depois. O quando soube que o rapaz era aluno vez. Era um Fado Espanhol adap- o seu estilar. “Foi preciso corrigir
KENTON THATCHER

processo de amadurecimento era de piano de Pedro Burmester. tado a este poema de Fernando isto ou aquilo”, apenas. O mestre é
preciso e, ao mesmo tempo, o da Camané também teve de se adap- Pessoa. O tema foi criado em 1918 e mestre do fado. b
criação também surgiu mais facil- tar. Mas “deu-lhe um gozo enor- tinha grande influência do Fado de acarita@expresso.impresa.pt
mente.” Fadista e pianista não qui- me”. Habituou-se aos silêncios, Coimbra. E, o mais estranho, é que
seram transformar o fado em jazz, os do piano e os do fado. De resto, há ali coisas que têm a ver comigo”,
nem fazer qualquer versão de um construíram o disco como cons- diz aquele que à partida estava mais
fado acompanhado ao piano. Mas truíram os espetáculos, uma busca à vontade no disco.
podíamos tê-lo feito. “Nas festas da pelos clássicos. A voz do fadista, “Tentei não ser o elo mais fra-
aristocracia de outros tempos tam- sempre poderosa em cada fado, co”, ajusta Laginha. “Saio daqui
bém se ouvia fado tocado ao piano. pegou em cada tema com delica- a perceber muito mais o fado.” O
Alain Oulman e Frederico Valério deza, mesmo se o tivesse cantado músico deu-se conta da canção de
também compunham ao piano”, mil vezes e gravado também. É o Lisboa tarde. Foi um adolescente
continua Camané. caso de canções como ‘Quadras’, e um jovem adulto que estuda-
Mário Laginha fala de linguagens. ‘Dança de Volta’, ‘Abandono’, ‘Ela va jazz e pouco lhe importava a QQQQ
“Sentia que tinha de me aproxi- Tinha uma Amiga’ ou ‘A Guerra das música nacional. Depois, o fado AQUI ESTÁ-SE
mar mais da linguagem do fado Rosas’. Mas também nos seus dois foi entrando devagar. “Aprendi a SOSSEGADO
se não não fazia sentido. Isso era inéditos, 'Rua das Sardinheiras' e gostar só de algumas coisas. Ia de Camané & Mário Laginha
muito importante, fazer com que o ‘Amor É Fogo que Arde sem se Ver’ carro, o rádio ligado, e um ou dois Warner

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Os destaques
do Leffest
A 13ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival volta a fazer
um apanhado, em jeito de best of, deste ano cinematográfico,
acertando agulhas com o cinema europeu recente
TEXTO FRANCISCO FERREIRA

O
mais convidados repetentes: Laurie gritou “Lula livre” quando o filme
Anderson, que ainda há meses nos se estreou, em fevereiro, no Festival
deu uma ótima entrevista sobre a de Berlim, fora de concurso, e o
sua atividade na área da realidade assunto, como se sabe, continua na
virtual, conhece o festival desde ordem do dia. De resto, o Leffest
o tempo em que o visitou com o continua a dar cartas nesta matéria
marido, Lou Reed. Willem Dafoe é e programou Resistências, uma
uma estrela de Hollywood que pas- série de conferências (um “simpó-
sou por cá quando a Medeia Filmes sio internacional”), acompanhadas
estreou “Pasolini”, de Abel Ferrara de filmes, com curadoria de Juan
novo Leffest, que decorre até dia — e também este é esperado para Branco. Participam quase 20 convi-
24 no eixo Lisboa-Sintra, em que apresentar o seu novo filme, o dra- dados, entre eles Yanis Varoufakis,
se fixou após quase uma déca- ma “Tommaso”, com papéis de Da- economista, matemático, professor
da passada no Estoril, traz uma foe e do próprio Ferrara (coisa não e antigo ministro das Finanças da
vez mais o alemão Wim Wenders inédita, mas rara). Wagner Moura Grécia (a sua presença está ainda
a Portugal e, desta vez, por um vem apresentar em estreia portu- por confirmar no site do festival), o
motivo especial: festejar os 25 guesa “Marighella”, biopic sobre francês Maxime Nicolle, represen- de todos eles serão acompanhadas
anos de “Lisbon Story — Viagem Carlos Marighella, resistente polí- tante do movimento Coletes Ama- pelas estreias de “Passámos por
a Lisboa”, que será mostrado em tico à ditadura brasileira. O filme relos, a já citada Laurie Anderson, cá”, de Ken Loach (é um inquérito
cópia restaurada. Wenders jamais é interpretado por Seu Jorge e não o ator e filósofo franco-tunisino ao novo proletariado gerado pelas
esqueceu a sua ‘costela portuguesa’ esconde que está pronto a lutar pela Mehdi Belhaj Kacem, o ativista plataformas das novas tecnologias),
e a relação de trabalho de longa causa da liberdade num momento palestiniano Omar Barghouti e o “Comportem-se como Adultos”,
data que mantém com o diretor do de grande efervescência no pano- presidente da câmara de Nápoles, novo trabalho de Costa-Gavras que
festival; aliás, tudo começou muito rama político do país. Muita gente Luigi de Magistris. As intervenções incide, precisamente, nas memó-
antes, naquele início dos anos rias de Varoufakis dos seus anos de
80 em que Paulo Branco dava os governo (estreiam-se ambos muito
primeiros passos, quando o alemão em breve nas salas), o já referido
rodou “O Estado das Coisas” (ainda “Marighella” e também “Joker”, de
um dos seus melhores filmes), com Todd Phillips, e “Fome”, a longa de
Allen Garfield, Isabelle Weingarten estreia do britânico Steve McQue-
e Samuel Fuller himself, entre uma en. Quem sabe se a palavra “resis-
praia sintrense e o Cais do Sodré. tência” — que tem um significado
Wenders, à imagem dos seus filmes, já um bocado estafado nos dias que
é um homem melancólico e terá correm — não encontra uma rever-
certamente muito a contar das duas beração nova com tantos comensais
aventuras: por exemplo, daquele ilustres. Outro dos convidados,
cameo de Manoel de Oliveira no também ele autor de uma obra
filme que se estreou entre nós há política e muito sui generis, é um
um quarto de século. O festival histórico do cinema europeu que o
anunciou também um encontro Leffest segue de perto e cuja obra o
entre o cineasta e Teresa Salgueiro, diretor do festival há muito acom-
a ex-vocalista dos Madredeus, que panha: o georgiano Otar Iosselli-
colaboraram com o filme. Mas há “Zombi Child”, do francês Bertrand Bonello, estará em exibição no festival ani, de quem não temos notícias

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Agathe Bonitzer
em "Les enfants
d'Isadora", novo
filme de Damien
Manivel, que
integra um
tributo ao jovem
cineasta francês

desde “Winter Song”, de 2015. E tal feito de filmes, e no que ao cinema Locarno, “Les Enfants d’Isadora”, do Leffest não fica a destoar e,
como era esperado, também Fanny diz respeito há muito de bom para é um dos mais bonitos filmes que salvo algumas exceções, é tam-
Ardant, atriz e realizadora que já ver nos próximos dias no Leffest. O poderão ser vistos este ano) e tam- bém formada por cinema europeu
faz parte da mobília do festival, vai festival sofreu um golpe duro com bém dos portugueses Rita Azevedo que vale muito a pena ver: aqui
apanhar um avião para o Aero- o fecho irreparável das quatro salas Gomes, a autora de “A Vingança de estão o sublime “Zombi Child”, do
porto Humberto Delgado, desta lisboetas do Monumental, e con- Uma Mulher”, e José Miguel Ribei- francês Bertrand Bonello, acom-
vez para o espetáculo “Hiroshima centra-se agora no Espaço Nimas, ro, um dos maiores valores do ci- panhado por “O Que Arde”, do
Mon Amour”, “no qual interpreta mas ‘reinventou’ também para o nema de animação nacional. Todos galego Oliver Laxe, “Little Joe”, de
Elle, a atriz que Marguerite Duras cinema a sala do Tivoli, na Avenida eles cineastas europeus com obras Jessica Hausner, “Beanpole”, do
criou para o filme de Alain Res- da Liberdade, que, recorde-se, foi cimentadas. Fora de concurso, russo Kantemir Balagov, também
nais”, lê-se na apresentação do um espaço muito importante de destacamos as novas obras de Elia “O Lago dos Gansos Selvagens”,
dito. Perante este painel, e uma vez divulgação há 25 anos, pela mão Suleiman, “It Must Be Heaven”, de de Diao Yinan — todos eles da
que o Leffest sempre se orgulhou da Cinemateca, aquando da Lisboa Mati Diop, “Atlantique”, de Ladj colheita da Croisette. Já “Patrick”,
do seu name dropping e dos seus 1994 — Capital Europeia da Cul- Ly, “Os Miseráveis”, de Terrence de Gonçalo Waddington, estreado
jurados inesperados e oriundos das tura. Já em Sintra, continua ativo Malick, “Uma Vida Secreta”, todos em setembro no Festival de San
mais variadas áreas, acrescente-se, o Centro Olga Cadaval. O festival eles da competição de Cannes. De Sebastián, representa Portugal no
já agora, que também a pianista programou meia dúzia de focos Berlim chega “Graças a Deus”, de concurso. b
Maria João Pires faz parte este ano importantes, em jeito de retrospe- François Ozon. E de Veneza vem
daqueles que decidirão os prémios tiva das obras do alemão Christian “Martin Eden”, de Pietro Marcello,
da competição, há muito patroci- Petzold (outro cineasta há muito também premiado no Lido. Isto
nada por uma generosa marca suíça exibido pela Medeia Filmes), da é: o Leffest cumpre a tarefa de
de relógios. italiana Alice Rohrwacher, do apresentar um best of do ano, an-
romeno Corneliu Porumboiu (que tecipando na sua grelha todos estes 13º LEFFEST
PREDOMINÂNCIA tem um novo filme notável estre- títulos em antestreia. Resta-nos Espaço Nimas, Teatro Tivoli, Universidade
DO CINEMA EUROPEU ado em Cannes, “The Whistlers”), esperar que, mais tarde, todos eles Lusófona, Lisboa, Centro Cultural Olga
Um festival de cinema é feito de do francês Damien Manivel (o seu possam chegar ao circuito de exi- Cadaval, Sintra, até dia 24
tudo isto mas, acima de tudo, é último trabalho, premiado em bição em sala. Mas a competição www.leffest.com

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“Os filmes
da Marvel não
são cinema”
O cinema é uma forma de arte que nos traz
o inesperado. Nos filmes de super-heróis, nada está
em risco diz o realizador de “The Irishman”

capacidades artísticas. Podemos ver Donen, e em “Scorpio Rising”, de


isso no ecrã. O facto de os filmes em Kenneth Anger, em “Viver a Sua
si mesmos não me interessarem é Vida”, de Jean-Luc Godard, e em
uma questão de gosto pessoal e de “Contrato para Matar”, de Don
temperamento. Sei que, se fosse mais Siegel.
novo, se me tivesse tornado adulto Ou nos filmes de Alfred Hitchcock —
mais tarde, poderia ter-me excitado acho que se podia dizer que Hitch-
TEXTO com esses filmes e talvez até quisesse cock era a sua própria franchise. Ou
MARTIN SCORSESE fazer um. Mas cresci quando cresci e que ele era a nossa franchise. Cada
“THE NEW YORK TIMES”

Q
desenvolvi um conceito de filmes — novo filme de Hitchcock era um
ou do que eram e do que podiam ser acontecimento. Estar numa sala cheia
— que era tão distante do universo num dos velhos cinemas a ver “A Há quem diga que os filmes de Hitch-
Marvel como nós na Terra estamos de Janela Indiscreta” era uma experi- cock se assemelham, e talvez isso
Alpha Centauri. ência extraordinária. Era um evento seja verdade — o próprio Hitchcock
Para mim, para os realizadores que criado pela química entre o público e se interrogava sobre isso. Mas a se-
amo e respeito, para os meus amigos o próprio filme, e era excitante. melhança entre os filmes de franchise
que começaram a fazer filmes por De certa forma, alguns filmes de atuais é uma coisa bastante diferente.
volta da mesma altura que eu, o Hitchcock também eram como par- Muitos dos elementos que definem o
cinema tinha a ver com revelação ques temáticos. Estou a pensar em “O cinema como eu o conheço estão nos
— estética, emocional e espiritual. Desconhecido do Norte-Expresso”, filmes da Marvel. O que não está é re-
Tinha a ver com personagens — a onde o clímax acontece na roda de velação, mistério ou perigo emocional
complexidade das pessoas e as suas um verdadeiro parque de diversões, genuíno. Esses filmes são feitos para
uando estive em Inglaterra no prin- naturezas contraditórias e às vezes e em “Psico”, que vi à meia-noite no satisfazer um determinado número
cípio de outubro, dei uma entrevista paradoxais, a forma como se magoam dia de estreia, uma experiência que de requisitos, e são concebidos como
à revista “Empire”. Fizeram-me uma e se amam umas às outras e como de jamais esquecerei. variações num número finito de
pergunta sobre os filmes da Marvel, repente se deparam consigo mes- Sessenta ou setenta anos depois, temas.
eu respondi. Disse que tentara ver al- mas. Tinha a ver com confrontar o ainda vemos esses filmes e maravi- Formalmente, são sequelas, mas em
guns deles e que não eram para mim, inesperado no ecrã e na vida que ele lhamo-nos. Mas é a excitação e os espírito são remakes, e tudo neles é
que me pareciam mais próximos de dramatizava e interpretava, e com choques que nos fazem regressar a oficialmente sancionado, pois não
parques de diversões do que de filmes expandir a noção do que era possível eles? Acho que não. Há cenas espan- pode realmente ser de outra forma.
tal como os tenho conhecido e amado nessa forma artística. tosas em “Intriga Internacional”, mas Essa é a natureza das modernas
ao longo da minha vida, e que, no E isso era a chave para nós: era uma não seriam mais do que uma sucessão franchises cinematográficas: estu-
final de contas, não pensava que forma de arte. Havia algum debate de composições e cortes dinâmicos e dadas para o mercado, testadas em
fossem cinema. sobre o assunto na altura, portanto elegantes sem as emoções dolorosas audiências, submetidas a um proces-
Algumas pessoas parecem ter tomado defendíamos o cinema colocando-o que estão no centro da história ou a so de veto, modificadas, novamente
como insultuosa a última parte da ao nível da literatura ou da música ou sensação de absoluta perda no perso- vetadas e remodificadas até estarem
minha resposta, ou como prova de da dança. E acabámos por compre- nagem encarnado por Cary Grant. prontas para consumo.
um ódio à Marvel pela minha parte. ender que se podia descobrir a arte O clímax de “O Desconhecido do Outra forma de dizer isto é que elas
Se alguém desejar caracterizar as mi- em muitos lugares e de diversas Norte-Expresso” é um feito assinalá- são tudo aquilo que os filmes de Paul
nhas palavras a essa luz, nada posso formas — em “The Steel Helmet”, vel, mas o que ressoa hoje é a intera- Thomas Anderson ou Claire Denis ou
fazer para o impedir. de Sam Fuller, e em “A Máscara”, de ção entre os dois principais persona- Spike Lee ou Ari Aster ou Kathryn
Muitos filmes de franchise são feitos Ingmar Bergman, no “Dançando nas gens e a interpretação profundamente Bigelow ou Wes Anderson não são.
por gente de considerável talento e Nuvens”, de Gene Kelly e Stanley perturbante de Robert Walker. Quando vejo um filme de qualquer

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“Vivemos numa época
perigosa para a exibição de
filmes, e há menos cinemas
independentes do que jamais

JASU HU
houve”, escreve Scorsese

destes realizadores, sei que vou as- às pessoas o que elas querem, terei saúde, a tensão entre os artistas e as
sistir a algo absolutamente novo que
“Muitos dos de discordar. É a questão do ovo e da pessoas que dirigiam o negócio era
me levará a áreas de experiência ines- elementos que galinha. Se só se fornece e só se vende constante e intensa, mas era uma
peradas e talvez mesmo impossíveis às pessoas um certo tipo de coisa, tensão produtiva que nos deu alguns
de nomear. O meu sentido do que é definem o cinema claro que elas vão querer mais desse dos maiores filmes de sempre — nas
possível ao contar histórias com ima-
gens móveis e sons expandir-se-á.
como eu o tipo de coisa.
Mas, dir-se-á, elas não podem ir para
palavras de Bob Dylan, os melho-
res entre eles eram “heroicos e
Mas, então, poderão vocês perguntar, conheço estão casa e ver outras coisas que queiram visionários”.
qual é o meu problema? Porque não na Netflix, no iTunes ou no Hulu? Hoje essa tensão desapareceu, e há
deixar em paz os filmes de super-
nos filmes da Com certeza — em todo o lado menos gente nesta área que é absolutamen-
-heróis e outras franchises? A razão Marvel. O que não no grande ecrã, que foi para onde o te indiferente à própria questão da
é simples. Em muitos lugares neste realizador ou realizadora pretendeu arte e tem uma atitude em relação à
país e pelo mundo fora, os filmes de está é revelação, que o seu filme fosse visto. história do cinema que é ao mesmo
franchise são atualmente a escolha
primária quando se quer ver algo no
mistério ou Nos últimos 20 anos, como todos sa-
bemos, o negócio do cinema mudou
tempo de desprezo e de posse —
uma combinação letal. A situação,
grande ecrã. Vivemos numa época perigo emocional em todas as frentes. Mas o sinal mais infelizmente, é que agora temos dois
perigosa para a exibição de filmes, terrível aconteceu à socapa e a cober- campos separados: há o entrete-
e há menos cinemas independen-
genuíno” to da noite: a eliminação gradual mas nimento audiovisual global, e há o
tes do que jamais houve. A equação MARTIN SCORSESE firme do risco. Muitos filmes hoje são cinema. De vez em quando ainda
inverteu-se, e o streaming tornou-se produtos perfeitos fabricados para se sobrepõem, mas isso é cada vez
o método primário de distribuição. consumo imediato. Muitos são bem mais raro. E temo que o domínio fi-
Apesar disso, não conheço um único feitos, por equipas de indivíduos nanceiro de um sobre o outro esteja
cineasta que não queira conceber cinemas, o que é ótimo. Eu gostava talentosos. Ainda assim, falta-lhes a ser usado para marginalizar e até
filmes para o grande ecrã, para serem de ver o filme passar em mais ecrãs algo essencial no cinema: a visão desvalorizar a existência do outro.
projetados em frente a audiências em grandes durante mais tempo? Claro unificadora de um artista individual. Para quem sonha fazer filmes ou
cinemas. que gostava. Mas independentemente Pois, obviamente, o artista individual ainda está a começar, a situação
Isso inclui-me a mim próprio, e falo de com quem fazemos um filme, o é o fator mais arriscado de todos. neste momento é brutal e hostil à
como alguém que acaba de terminar facto é que os ecrãs de muito mul- Não estou decerto a sugerir que os arte. E o simples ato de escrever
um filme para a Netflix. Só a Netflix tiplexes estão repletos de filmes de filmes devem ser uma forma de arte estas palavras enche-me de uma
nos permitiu fazer “The Irishman” franchise. subsidiada, ou que jamais o tenham terrível tristeza. b
como precisávamos, e estarei sempre E se me disserem que é uma mera sido. Quando o sistema de estúdio
grato por isso. Temos uma janela nos questão de oferta e procura e de dar de Hollywood estava vivo e de boa Tradução Luís M. Faria

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Livros

Li
vros

DAVID ZORRAKINO/EUROPA PRESS VIA GETTY IMAGES


Embora evoque episódios
traumáticos da história
britânica recente, o romance
de Jonathan Coe não
é negro nem pessimista,
terminando até com
uma nota de esperança

A doença inglesa
Regressando a personagens de romances anteriores, Jonathan Coe procura compreender o
que aconteceu ao Reino Unido na última década, em particular as feridas abertas pelo ‘Brexit’
TEXTO JOSÉ MÁRIO SILVA

P
ara falar do absurdo do ‘Brexit’ é sempre bom sinal. Se formos em termos culturais. Da vasta e
e do risco de ver o Reino capazes de rir de nós próprios, nem intrincada rede de personagens,
Unido sair da União Europeia, tudo está perdido. muitas das quais já conhecíamos
Ian McEwan escolheu a via do O romance inicia-se em 2010, no de dois romances anteriores (“O
sarcasmo puro, na melhor tradição momento em que o protagonista, Rotter’s Club”, de 2001; e “O Círculo
satírica de Jonathan Swift (ver pág. Benjamin Trotter, assiste ao funeral Fechado”, de 2004), fazem ainda
63 a 65). Menos radical, Jonathan da mãe. Depois de várias relações parte Doug, um amigo de Benjamin
Coe optou pelo romance clássico, falhadas, nomeadamente uma que escreve análise política num
com os pés assentes na terra e na “obsessão romântica” que durou jornal de esquerda, e a filha deste,
objetividade dos factos históricos, mais de 30 anos, ele decidiu Coriander, uma adolescente niilista e
para descrever o mesmíssimo estado comprar um moinho no campo, antissistema, inflexível na afirmação
de coisas. A partir de extremos onde passou a viver, entregue à das suas certezas ideológicas.
opostos, contemplam a mesma contemplação das bucólicas margens Ainda na ressaca da crise financeira,
realidade: um impasse civilizacional do rio Severn. Além de cuidar a Inglaterra de 2010, com a subida
que põe em causa a imagem que os do pai, antigo trabalhador numa ao poder de Cameron, começa
ingleses criaram de si mesmos. O fábrica de automóveis, mantém desde logo a revelar indícios de uma
retrato é negro, inevitavelmente, contacto com a irmã Lois, ainda tensão social que os anos seguintes
mas tanto num caso como noutro às voltas com o trauma da morte só vão agudizar. O programa de
QQQQ há espaço para o nonsense e outras do namorado de juventude, num austeridade afeta sobretudo a
O CORAÇÃO DE INGLATERRA sofisticadas formas de humor. atentado bombista dos anos 70, e classe média e as camadas mais
Jonathan Coe Apesar do tom predominantemente com a sobrinha Sophie, licenciada desfavorecidas, criando um caldo de
Porto Editora, 2019, trad. de Carmo melancólico, ao leitor de “O Coração em História de Arte que se envolve raiva e ressentimento que só espera
Vasconcelos Romão, 446 págs., €17,70 de Inglaterra” estão reservadas com Ian, um instrutor de condução um pretexto para explodir. É o que
Romance algumas boas gargalhadas. O que com quem tem poucas afinidades acontece em 2011, com os motins

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que deixaram Londres e outras
cidades a ferro e fogo. Recorrendo a A intimidade ISTO ANDA
TUDO LIGADO
do ateliê
um olhar panorâmico, Coe expõe as
suas personagens às contingências
da História. Tanto as más como
as boas. Há todo um capítulo, por AH, OS
exemplo, sobre o entusiasmo que
a cerimónia de abertura dos Jogos DEPLORÁVEIS!
Olímpicos de 2012, idealizada por
Danny Boyle, criou em quase toda
a gente (menos em Benjamin, A expressão “o Diabo
ocupado a limar as arestas da versão está nos detalhes”, cuja
reduzidíssima do romance que vinha origem resta confirmar,
escrevendo há anos, e com o qual terá sido antecedida por
acaba por ser escolhido para a long outra, na aparência de
MANUEL FALCÃO

list do prémio Booker). significado antónimo:


O ponto de viragem, claro, acontece “Deus está nos detalhes”.
quando Cameron anuncia um Também há o filme “O
referendo sobre a saída da União Diabo Veste Prada”, mas
Europeia, precipitando o país na Pedro Cabrita Reis a criar no seu espaço de trabalho / ANA isso agora não vem a
espiral populista, abrindo uma CRISTINA propósito. A propósito

T
torneira (“a do nacionalismo inglês”) elas viradas contra a parede, telas com a tinta LEONARDO viria Hegel, que, com toda
que não será depois capaz de ainda a escorrer. O cheiro da terebintina ou o a lógica (e na “Ciência
fechar. Num dos muitos encontros cheiro metálico das soldaduras. A desarrumação da Lógica”), identificou
com Doug num café, Nick, a fonte dos espaços privados ou a sua meticulosa ordem. Objetos o Ser e o Nada como sendo afinal o mesmo. Não
confidencial do jornalista no do quotidiano que já não estão a uso e se aproveitam arriscamos ir por aí, lembrados das figuras tristes
gabinete do primeiro-ministro, para transformar em peças. O fascínio por todas estas que já nos deram “A Fenomenologia de Sartre” de
admite que em Downing Street reina coisas, sobretudo uma curiosidade grande sobre o Passos Coelho ou as referências, tão circunspectas
o desnorte, fruto de uma “indecisão território íntimo onde decorre o processo artístico, quanto delirantes, do tão famoso quanto opinativo
radical” que é “o novo espírito foram o ponto de partida que levaram Dalila Pinto de filósofo pop Bernard-Henri Lévy à obra “A Vida
dos nossos tempos”. Mais tarde, Almeida (consultora na área de gestão de talento) e Sexual de Immanuel Kant”, de Jean-Baptiste Botul
após o referendo, deixará cair a Manuel Falcão (jornalista, fundador da editora dedicada (Cavalo de Ferro, 2004) — a vida sexual de Kant
máscara de vez: “Estamos completa a projetos fotográficos Amieira Livros) a introduzir- e Botul, ambos criações satíricas e apócrifas do
e irremediavelmente fodidos. Está se nos “bastidores” privados de 14 artistas com nome jornalista do “Canard Enchaîné” e ex-professor de
tudo num caos. Todos correm de consolidado no mundo da arte. São eles Ana Jotta, Ana Filosofia Frédéric Pagès, que Lévy, recentemente
um lado para o outro como galinhas Vidigal, Cristina Ataíde, José Barrias, José Pedro Croft, convidado de Costa e Marcelo, levou a sério,
sem cabeça. Ninguém tem a mínima Julião Sarmento, Nádia Duvall, Paulo Brighenti, Pedro servindo-se delas para desancar no alemão. Como
ideia do que está a fazer. Estamos Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Proença, Rui Chafes, alguém então escreveu: “BHL nunca se deixou
tão, mas tão fodidos.” Rui Sanches e Teresa Gonçalves Lobo. intimidar pelos autores menores.” Quem também
Embora a dimensão política nunca A escolha desta lista é-nos desde logo explicada num nunca se deixa intimidar, nomeadamente pelas
deixe de estar presente, este não é texto introdutório onde Dalila Pinto de Almeida conta palavras, é o nosso Presidente. Sempre disposto a
um romance especificamente sobre como ela e Manuel Falcão — amigos de afinidades fazer crescer centímetros aos portugueses, foi vê-
o ‘Brexit’, mas antes sobre a forma eletivas “que a arte aproximou” e com um “olhar tão -lo a fechar a Web Summit: “Portugal tornou-
como esse processo ainda em curso sincronizado” que, “apesar da escolha difícil”, quando se no país chave da revolução tecnológica.” É
abriu feridas e cavou divisões na pensaram em artistas cujos ateliês gostariam de verdade que não vestia uma das 50 camisolas de
sociedade britânica. Os sobressaltos conhecer “os nomes surgiram em uníssono”. Durante lã feitas à mão na Irlanda, iguais às de Cosgrave
da última década (a narrativa mais de um ano visitaram o ateliê, lugar privilegiado (Paddy para os amigos), que esgotaram de
termina no final de 2018) surgem- onde, naturalmente, se encontram as pistas que nos imediato apesar do preço proibitivo. O fait divers
nos sempre através do filtro de vidas podem conduzir ao gesto que realiza a obra. — o detalhe — não deixa de ser significativo e
concretas, nas quais Coe se demora, Partindo então do gesto e do modo de fazer, Dalila Pinto foi brilhantemente resumido numa rede social:
com uma atenção imensa aos de Almeida e Manuel Falcão recolheram memórias, “A cimeira é toda tecnológica, mas a camisola
detalhes e ao lento fluir das coisas, percursos, interrogações, narrativas e identidades, numa é cara porque é feita à mão. Para o ano estão a
uma espécie de vagar escrupuloso deambulação que nos servem em generosas doses de vender tapetes de Arraiolos.” A frase de Marco
que lhes confere não só densidade — texto e imagem. E é nesta empreitada ambiciosa que Santos, que, se escrita em francês, poderia ser
e espessura — mas verosimilhança. surge também o registo dos criadores que traçaram de Botul, resume tudo; só deixa de fora o facto
Este é também um romance sobre trilhos e marcaram a arte contemporânea nacional nas de existirem há muito Arraiolos deslocalizados
a passagem do tempo, sobre os últimas décadas, para agora se fixarem numa edição na China. E é assim que, apesar das piedosas
dilemas da meia-idade (essa fase da luxuosa que contou com o apoio da Fundação EDP. declarações de Marcelo sobre a tecnologia para
existência em que já se olha para trás / ANA SOROMENHO todos, em Seattle, onde Jeff Bezos já terá dado o
contando as décadas e não os anos), alerta para a concorrência alfacinha, a chegada da
sobre a forma como as escolhas Amazon, que é dona de 20% do centro da cidade,
que fazemos num dado momento fez disparar o preço da habitação a tal ponto de
podem condicionar tudo, e sobre QQQ os 30% de sem-abrigo viverem na rua apesar
a nostalgia, que alguém diz ser “a VISITA PRIVADA de terem emprego. Quanto aos colaboradores
doença inglesa”, acrescentando logo Dalila Pinto de Almeida (texto) privilegiados da Amazon, nada lhes falta, nem
depois: “Os ingleses estão obcecados e Manuel Falcão (fotografia) sequer um idílico jardim de plantas tropicais, qual
pelo maldito passado... e olha aonde Guerra & Paz e Amieira, 2019, 216 págs., €47 Arraiolos dos verdadeiros. Caso para se dizer: a
isso nos levou.” b Livro de arte falta que faz um Victor Hugo! b

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procuram informações sobre os
outros também para ocultarem
informações sobre si mesmas,
segundo um princípio da opacidade
muito caro a este romancista, que
gosta de pensar sobre tudo sem ter
certezas sobre quase nada.
Que certezas tem o académico
espanhol sobre Clare Bayes, sua
colega e sua amante daqueles anos?
QQQQ
O tour de force que é a cena em que OS HOMENS QUE SALVAVAM
uma série de homens observam LIVROS
Clare, ao mesmo tempo que se David E. Fishman
entreolham, durante um daqueles Presença, 2019, trad. de Luis Reyes Gil,
374 págs., €18,90
jantares de etiqueta num college,
Não-ficção
exemplifica bem a sua vontade
de informação e de domínio. O
narrador tem pouco que fazer, Durante a II Guerra Mundial, em
tarefas mínimas, aulas em que muitos locais onde os nazis procura-
não se esforça muito, noitadas vam extinguir a vida judia na Europa,
decadentes, domingos entediantes, a resistência tinha uma dimensão
o lixo do quotidiano. Tudo o que cultural. Em Vilna (atual Vilnius,
o anima são uns breves encontros Lituânia), uma cidade que fazia
ocasionais e a relação duradoura parte da Polónia desde os anos 20 e
mas clandestina com Clare, que ele alternaria depois entre os soviéticos
talvez ame, mas que não conhece e e os alemães, integrando a URSS no
talvez nem queira conhecer (“cada pós-guerra, funcionava o YIVO, um
vez desejo mais as mulheres e estou instituto de referência para o estudo
menos disposto a conhecê-las”). da língua e da cultura judaica. Os na-
Um amante, confessa o narrador, zis ordenaram a eliminação de livros e
Os narradores de Javier Marías têm uma componente obsessiva: é uma criatura parcimoniosa, outros documentos judeus, preser-
lembram-se de tudo, mesmo quando se lembram mal voluntariosa, entusiasmada, cuja vando apenas os mais importantes,
principal função é ouvir histórias

Almas mortas
que seriam transferidos para um
(essa é, aliás, uma definição da organismo académico na Alemanha,
conjugalidade em Marías). E a ao qual caberia a função de legiti-
história, atormentada, que Clare mar intelectualmente o extermínio
acaba por contar confunde-se com dessa cultura inferior. A seleção dos
o modo como o narrador pensa, materiais foi entregue a um grupo de

T
odas estas almas, ou quase a verdade. A sua ideia de que os as memórias nítidas e os traços especialistas que funcionavam em
todas, são almas de Oxford, dois anos de Oxford foram uma esvaídos, os pressentimentos regime de trabalho escravo e não
cidade universitária onde perturbação que se dissipou com a demoníacos e os pensamentos sabiam quanto tempo lhes restava de
existe um colégio chamado All passagem do tempo não bate certo masoquistas, as palavras que vida. Justamente por isso, para eles
Souls, mas são também almas com a componente obsessiva dos contam mais do que os actos. E até era vital assegurar de outra forma a
mortas, para invocar o clássico de narradores de Marías, que se lembram as fantasias literárias do visitante eternidade da sua herança. Ao longo
Gogol. É inegável que “Todas as de tudo, mesmo quando se lembram estrangeiro, sempre à caça de de 18 meses, entre 1942 e 1943, um
Almas” (1989) tem uma dimensão, mal, que ligam tudo a tudo. Isso escritores obscuros em alfarrabistas, pequeno grupo de pessoas foi con-
anglo-saxónica, de campus novel, explica o carácter altamente simbólico conduzem misteriosamente à trabandeando e pondo a salvo uma
como é indesmentível o seu cunho de uma personagem como o velho biografia daquela mulher que ele parte dos livros e outros materiais.
autobiográfico, uma vez que Javier porteiro da biblioteca Tayloriana, ama ou amou. / PEDRO MEXIA Fishman, um historiador da cultura
Marías ensinou em Oxford; mas que confunde as caras, os anos, as judaica, conta em profundidade
determinados aspectos da intriga situações, condenado a repetir o Pedro Mexia escreve de acordo essa história heroica, focando-se
nada têm a ver com a universidade, passado uma e outra vez, como se com a antiga ortografia em cinco pessoas: poetas, eruditos,
e a autobiografia transforma-se num toda a informação que traz na cabeça educadores. O seu destaque vai para
jogo entre autor empírico, narrador ao fosse incapaz de se organizar em torno Rachela Pupko-Krinsky, professora
tempo dos factos e narrador no tempo de uma lógica ou de um sentido. numa escola iídiche, cuja vida quase
da escrita: “Aquele que aqui conta o A informação, garante o narrador, idílica foi brutalmente interrompida
que viu e o que lhe aconteceu não é é o que mais importa em Oxford. pela guerra. Enviada para o gueto,
aquele que o viu e a quem aconteceu, E assistimos às figuras que todas para poupar a filha bebé entregou-a
nem o seu prolongamento, nem a sua as personagens fazem, as trágicas à ama polaca, que passou a apre-
sombra, nem o seu herdeiro, nem o como as patéticas, com vista a obter sentá-la como sua própria filha. Só
seu usurpador.” informações umas sobre as outras no fim da guerra, mãe e filha seriam
Professor de Literatura, o narrador, (até se alude ao facto bem conhecido novamente reunidas. Nessa altura
nunca nomeado, é um espanhol que de muitos espiões terem sido QQQQQ começava uma outra resistência,
deu aulas de Literatura Espanhola em recrutados na academia). Esse gosto TODAS AS ALMAS contra os soviéticos, a quem os
Oxford e que entretanto regressou pela informação está aqui ao serviço Javier Marías judeus e o seu sofrimento interessa-
a casa. Já não é o mesmo daqueles dos mais diversos propósitos, da Alfaguara, 2019, trad. de Miguel vam sobretudo como arma política.
tempos, insiste em dizer-nos, e politiquice universitária às intenções Filipe Mochila, 224 págs., €17,70 O YIVO ressuscitara em Nova Iorque
talvez seja verdade, mas não é toda lúbricas, mas as personagens Romance e por lá ficou até hoje. / LUÍS M. FARIA

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Qual Inglaterra?
H
á dois anos, quando John le esteja fora de moda. E, tal como as
Carré lançou, aos 86 anos, personagens principais de “Agente
“Um Legado de Espiões”, em Campo”, Nat, 47 anos, veterano
poder-se-ia ter pensado que o dos Serviços Secretos Britânicos,
romance marcava uma despedida. agente “na idade perigosa”, ou
Não só pelo próprio título do livro Ed, jovem solitário, sem amigos,
QQQQQ QQQQ como pelo facto deste representar seu parceiro de badmínton às
MUSEUM OS CONSPIRADORES um regresso ao ambiente e às segundas-feiras, o escritor não
Javier Sáez-Castán e Manuel Marsol Un-Su Kim personagens de “O Espião que Saiu esconde que considera Trump e o
Orfeu Negro, 2019, 52 págs., €14 Lua de Papel, 2019, trad. de Carmo do Frio” (1963) — o seu terceiro ‘Brexit’ componentes do mesmo
Álbum ilustrado Vasconcelos Romão, 336 págs., €17,90 romance e primeiro grande sucesso. mal, inimigos da Europa, e de
Romance
Em “Um Legado de Espiões”, Smiley, certo modo, ainda que de formas
a sua famosa personagem, é trazida diferentes, elementos favoráveis aos
para a atualidade, e pergunta: interesses russos de Putin.
Criada por dois dos mais destacados “A vida de um assassino era como o “Terá sido tudo pela Inglaterra? Os serviços secretos britânicos
ilustradores espanhóis contempo- fumo de um cigarro — muito vaga e Mas a Inglaterra de quem? Qual que aparecem retratados neste
râneos, “Museum” será certamente indistinta para criar raízes num qual- Inglaterra?” “Agente em Campo”, o último romance de Le Carré são,
arrumado na estante do ‘infantil’, quer lugar.” Reseng é um matador romance que John le Carré lançou por isso, o reflexo dessa política
merecendo que uma insurreição de profissional, recolhido em criança à no final de outubro, faz mais do de aproximação ao Diabo, que
leitores o resgate para usufruto de porta de um convento pelo Velho que perguntar qual Inglaterra. está a afastar o Reino Unido da
todas as idades. Sem falas, as persona- Guaxinim, o bibliotecário, que é na Apresenta-a às portas do ‘Brexit’. Europa. Um serviço errático que
gens dialogam através das expressões verdade um mestre do crime, e o É perante uma nação dividida corresponde às flutuações de
fisionómicas e corporais, notando-se a centro de uma rede que domina a que estamos. “De pantanas.” Uma opiniões dos ministérios, e que mais
atenção delicada ao detalhe dos gestos Coreia do Sul. É treinado nas artes Inglaterra “caída aos bocados”. uma vez recoloca a questão “O que
e dos olhares que a cor saturada ajuda a da morte e encarregue dos mais va- Subjugada, por opção dos seus é um espião?” Ainda que desta vez a
intensificar. A narrativa começa por ser riados assassínios. Tem agora pouco governantes, aos Estados Unidos questão mais importante seja outra:
simples: um homem segue pela estrada mais de 30 anos e começa a ques- de Trump: “Londres estende a O que é uma traição? Ou o que é
ao volante de uma carrinha até que uma tionar a vida, e tudo se precipita de- passadeira vermelha a um presidente uma traição quando o próprio país
avaria o obriga a parar. Não há ninguém pois de matar um velho general na americano que veio troçar dos parece trair os seus interesses?
à vista, apenas um edifício para o qual se reforma. Os conspiradores do título nossos laços com a Europa que / CRISTINA MARGATO
dirige, descobrindo que é um museu, e, a comandam os destinos do submun- tanto custaram a tecer, e humilhar a
partir do momento em que entra, estão do coreano. Depois de décadas de primeira-ministra que o convidou.”
abertas todas as vias para um prodigioso regime militar, passaram a ser uma O vigésimo quinto livro de espiões
exercício de espanto. O lugar organi- empresa capitalista da indústria da confirma que Le Carré não perdeu
zado que guarda quadros no sossego morte por encomenda. O Velho a lucidez de sempre, apesar dos
das paredes é agora o desassossego Guaxinim, que vive na Biblioteca de seus 88 anos — ao longo dos quais
instalado na cabeça deste homem, uma 200 mil volumes, aproxima-se do pôde testemunhar a construção
sucessão de momentos em abismo ocaso quando um antigo protegido do Muro de Berlim, a sua queda, e
onde as pinturas se transfiguram à me- conspira para lhe roubar o trono. agora a confirmação do ‘Brexit’, e
dida que o olhar se deixa levar pelo que É o guardião do registo escrito de logo a construção de um novo tipo
vê. E o que vê — este visitante aciden- todos os crimes cometidos no úl- de muro —, nem a sua vontade de QQQQ
tal, como qualquer um de nós — é tanto timo século, e isso vale ouro. Mas o situar a espionagem nos tempos AGENTE EM CAMPO
o que está nos quadros como o que a enredo deste policial cruento e ro- que testemunha. Tal como as suas John le Carré
sua mente engendra. É precisamente a cambolesco alcança outro intento personagens, Le Carré continua a D. Quixote, 2019, trad. de Francisco Agarez,
história dessa duplicidade que aqui se quando se percebe como funciona ter expectativas éticas em relação 328 págs., €17,90
conta, divagando sobre a recorrente im- a teia monstruosa e corrupta que ao Ocidente, ainda que a ética Romance
possibilidade de a destrinçarmos. Não enreda e corrói toda a sociedade.
há falas nem narrador, mas os títulos de No entanto, algo acontece. Reseng
alguns quadros inscritos nas molduras e é atraído por Mito, uma jovem
CHRISTIAN CHARISIUS/PICTURE ALLIANCE/GETTY IMAGES
o modo como se vão alterando são um assassina que tem outros planos:
elemento textual — o único — essencial destruir por todos os meios aquela
para que haja um registo, um sinal que engrenagem. Está decidida a expor
não seja mais uma quimera do tanto que publicamente todos os conspi-
pode mudar sempre que nos enfrenta- radores. O Velho Guaxinim não
mos com certas obras de arte. Perdido tem ilusões: “Nós, os vilões, já nos
entre o medo, o desejo e a coragem sú- encontramos no inferno. Vivemos
bita, este homem cuja fisionomia lembra cada momento na escuridão, sem
a de um Edward Hopper (referência tão sequer um único raio de luz no
presente como a de Matisse ou Dalí) é coração, e isso é o inferno.” Reseng
o herói da história sem deixar de ser o está disposto a libertar-se do peso
resultado imprevisível dos mecanismos mortal do destino. Segue a divisa
narrativos que a constroem. De certo de Al Capone: “Podes chegar mais
modo, um eco, tão belo quanto assusta- longe com boas palavras e uma
dor, da nossa universal imprevisibilidade. arma do que só com boas palavras.”
/ SARA FIGUEIREDO COSTA / JOSÉ GUARDADO MOREIRA John le Carré escreve sobre a Inglaterra do ‘Brexit’, o mundo de Trump e Putin

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Ci
ne
ma

Gugu Mbatha-Raw e Edward Norton


em “Os Órfãos de Brooklyn”

De volta ao film noir


Edward Norton
E
le é um detetivezeco de (de Amy Roth), de maquilhagem, rasto de discriminação racial que
segunda, com pouco jeito para de cabelos e até de luz, a mostrar essa política deixa (é o seu lado
realiza, escreve, socializar com quem quer que que o novo filme realizado por social), por último, uma urdidura
seja e, ainda por cima, padecendo de Edward Norton é uma produção de que envolve segredos familiares
produz e protagoniza síndrome de Tourette, o que o faz ter primeira água. E confortavelmente — e é aqui que se torna inevitável
“Os Órfãos de tiques incómodos e, de quando em
quando, emitir sucessões sonoras
financiada: uma das primeiras
cenas do filme decorre no interior
que quem se interesse por estas
coisas do cinema e delas tenha
Brooklyn“, uma que podem ser ininteligíveis e, às de uma carruagem de metro e nem memória se comece a lembrar do
vezes, obscenas. Ele vive debaixo sequer é importante, é uma cena de que Polanski fez com “Chinatown”
história de crime e da asa de um outro detetive, um ligação que poderia nem lá estar, (1974). Nada que, em si, desabone
corrupção em Nova tipo que o protege desde que ambos
andavam pelo orfanato de Brooklyn
poderia ser descartável; os meios
necessários para a construir é que
o esforço de Edward Norton em
habitar o território do film noir,
Iorque, anos 50 e Frank Minna/Bruce Willis seria impossível descartar... que não tem muitos moradores por
resolveu não deixar que outros Lionel está, assim, em campo, estes dias e é sempre um bom lugar
TEXTO JORGE LEITÃO RAMOS miúdos abusadores aviltassem e nós com ele vamos. A selva de para refletir desgostos, sobretudo
o pobre Lionel Essrog/Edward indícios e de teias a desbravar é nos tempos em que a política
Norton pelas suas excentricidades cheia de apertos e de circunvoluções dominante tem algo de ascoroso e
neurológicas. Mas um grupo de e habitada por uma série de de mau cheiro, como ocorre agora
figurões da política e dos negócios personagens interpretada por uma para os lados da Pennsylvania
nova-iorquinos acaba por tramar constelação de rostos conhecidos — Avenue, em Washington, DC. Mas
Frank, que descobriu mais do Alec Baldwin, Willem Dafoe, Cherry talvez esteja nessa ideia de ‘esforço’
que devia e começou a querer Jones, Michael Kenneth Williams a chave para descobrir por que
ser mais esperto do que podia. (num trompetista que sabe mais razão um filme onde todas as coisas
E Lionel vai pôr-se no encalce do que aparenta — mas o som é estão (mais que) certas deixe um
desses tipos com a determinação do trompete de Wynton Marsalis travo a desencanto no termo dos
raivosa de os descobrir e castigar, e é por isso que é tão bom e que 144 minutos que dura. Norton não
nem que seja a última coisa que nós ficamos tanto tempo a ouvir). habita o film noir com descontração,
QQQ faça. Tudo acontece nos anos Os amigos são para as ocasiões, e está para ele como para o
OS ÓRFÃOS DE BROOKLYN 50 e há que dizer que uma das Norton parece ter muitos. A história personagem fisicamente desafiante
De Edward Norton coisas que primeiro encontramos adensa-se em três camadas: por um que escolheu ser: vê-se o trabalho,
Com Edward Norton, Gugu Mbatha-Raw, excelente é a reconstituição de lado, uma camarilha que domina a o objetivo e o conseguimento.
Alec Baldwin (EUA) época, o trabalho cenográfico (de política urbanística da cidade (é o É melhor quando tudo parece
Drama M/16 Beth Mickle) e de guarda-roupa lado político do filme), por outro, o natural. b

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Mr. Eddie está aí
para as curvas
N
este “Dolemite Is My Name”, o realizador Craig
Brewer leva-nos para a Los Angeles dos anos 70. A
blaxploitation está ao rubro, na música e no cinema.
Foi nesse ambiente que se moveu o herói desta comédia
biográfica, Rudy Ray Moore (1927-2008), uma espécie de faz-
tudo daquele movimento e que passou de zé-ninguém a estrela
de culto num estalar de dedos. Moore ganhava a vida atrás de
um balcão numa loja de discos. Sabia cantar e chegou a gravar
singles sem êxito numa altura em que Stevie Wonder e Marvin
Gaye eram as grandes estrelas da rádio. Sonhava ser ator de
uma vaudeville já fora de moda, e há quem defenda que esteve
na origem da música rap tal como a conhecemos hoje, mas
a verdade é que, apesar da sua alma de ‘verdadeiro artista’,
parecia destinado a uma fracassada carreira sem honra nem
glória, introduzindo shows em cabarets de esquina. Só que A luta sem tréguas contra
ele queria triunfar a qualquer preço. Se até filmes marginais o narcotráfico nas Filipinas
como “Garganta Funda” se haviam tornado êxitos... Para no novo filme de Mendoza
isso, Moore tinha que inventar uma personagem diferente.
O filme mostra bem como ele foi sacar tudo a meliantes,
alcoólicos e indigentes de rua, que sabiam, de facto, contar
em rima piadas ordinárias sem nunca terem sonhado com um
palco. E assim nasceu Dolemite, com o seu vocabulário rude
Os rastejantes
D
e brejeiro, tremendamente obsceno, num certo espetáculo de esde o início que o cinema de de uma pequena percentagem do saque.
1975. Moore decidiu avançar sozinho e gravou os seus próprios Mendoza tem vindo a realizar Eis a base de um filme que, daí em
LP, tratando também da sua distribuição caseira — e a coisa a autópsia de um cadáver em diante, se desenvolverá como um thriller
vendeu que nem ginjas. Não houve “hipster negro” (ouve-se no decomposição: o de uma sociedade claustrofóbico (à medida que a rede se
filme) que não tivesse escutado as graçolas e o homem chegou filipina dilacerada pela miséria e a vai apertando em torno das personagens,
mesmo a ser cabeça de cartaz de filmes. O talento de Moore, já violência. Insistindo nesta metáfora Manila transforma-se num labirinto de
se percebeu, era mais do que duvidoso. Mas não a sua força de necrológica, poderíamos talvez dizer que, escombros cada vez mais sufocante),
vontade — esta é, sobretudo, a história de alguém que nunca nos últimos anos, o cineasta tem sentido marcado pelo ‘baixo nível’ do seu ponto
deixou de acreditar em si próprio. O linguajar é malcriado dificuldades para retirar mais órgãos do de vista, isto é: pelo seu constante recurso
e levou a pudica Netflix a classificá-lo para Maiores de 18 corpo sobre o qual continua a debruçar- àqueles planos rentes ao chão, rastejantes,
(contámos cinco “motherfuckers” só no primeiro minuto). -se. É isso, de novo, o que mais que servem para amarrar os corpos ao seu
“Chamem-me Dolemite” ganha outro significado porque é se nota no seu novo filme, que, mundo. A superfície policial da narrativa
interpretado (e foi também produzido) por um grande ator, mantendo-se embora fiel aos temas funciona, porém, como um simples
que tem andado na mó de baixo: Eddie Murphy. Gostamos e às formas privilegiadas da sua obra pretexto para sondar o fundo sobre o
dele desde sempre, isto é: desde o “48 Horas”, de Walter Hill. (longos travellings de câmara à mão qual ela se recorta: o de uma sociedade
Se o biopic é convencional, o coração e a garra que Eddie dá à que imprimem ao conjunto um look cativa de um ciclo vicioso demoníaco,
personagem são notáveis. É o seu melhor papel em décadas, documental…), tenta ancorar-se a um onde — por força da miséria geral — o
um regalo. Vale muito a pena vê-lo. / FRANCISCO FERREIRA motivo da atualidade política filipina. combate à corrupção se limita a agravá-
A saber: a luta sem tréguas promovida la e onde há tantas razões para temer os
pelo governo de Rodrigo Duterte contra o narcotraficantes como a polícia. Pena é
narcotráfico, num processo que fomentou que, ao compor essa pescadinha de rabo
a génese de milícias populares e onde as na boca, Mendoza não evite facilidades:
forças policiais se viram investidas de como, por exemplo, aquela que o leva a
poderes e direitos reforçados. concluir a história em chave moral, com a
Para escalpelizar esta situação (que encenação de um homicídio que injeta um
constituía o tema de uma recente mínimo de paridade num universo que a
minissérie realizada por Mendoza para desconhece em absoluto. Estimável, mas
a Netflix), o filme implanta-nos em não mais. / VASCO BAPTISTA MARQUES
Manila, de modo a seguir em montagem
alternada duas figuras que estão em
patamares bem distintos da cadeia
alimentar do narcotráfico. Quem são
Eddie Murphy elas? Um polícia e o jovem traficante de
QQ é um regalo em rua que é agora o seu Alpha, leia- QQ
CHAMEM-ME DOLEMITE “Chamem-me -se: o seu principal informador. Os ALPHA: NOS BASTIDORES
Dolemite” seus destinos ficarão inextricavelmente DA CORRUPÇÃO
De Craig Brewer
Com Eddie Murphy, Keegan-Michael Key, ligados após um ato de corrupção: aquele De Brillante Mendoza
Mike Epps (EUA) que leva o informador a apropriar-se Com Allen Dizon, Elijah Filamor, Angela Cortez
Comédia biográfica M/16 dos estupefacientes de um traficante já (Filipinas)
Em streaming na Netflix morto para os entregar ao polícia a troco Drama/Thriller M/14

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QQQ QQ
BOSTOFRIO TECHNOBOSS
De Paulo Carneiro De João Nicolau
(Portugal) Com Miguel Lobo Antunes, Luísa Cruz,
Documentário Américo Silva (Portugal/França)
M/12 Comédia musical M/12

Q QQ A longa de estreia de Carneiro inscre- Na galáxia da produtora O Som e a


AS FILHAS DO SOL LE MANS ‘66: O DUELO ve-se — quer pela sua geografia, quer Fúria, Mariana Ricardo é, decerto, um
De Eva Husson De James Mangold pela sua abordagem — numa linhagem dos nomes que o grande público me-
Com Golshifteh Farahani, Emmanuelle Com Matt Damon, Christian Bale, nobre: a de um cinema documental nos conhece, mas que mais influência
Bercot, Zübeyde Bulut Caitriona Balfe ‘ruralo-fantasista’ que de “Trás-os- tem na máquina ficcional que dessa
(França/Bélgica/Geórgia/Suíça) (EUA/França) -Montes”, de António Reis/Margarida empresa sai. Argumentista creditada
Drama M/14 Drama biográfico M/12 Cordeiro, a “Volta à Terra”, de João no núcleo central das obras de Miguel
Pedro Plácido, tem dado frutos entre Gomes e de João Nicolau, pode dizer-
ESTREIA A segunda longa da francesa ESTREIA Eu sei que no cinema, tudo nós. Aqui aterramos na aldeia trans- -se, sem receio de desmentido, que há
Eva Husson instala-nos no Curdistão (enfim, quase tudo...) é mentira. Ou, montana do título para assistirmos ao uma marca autoral no seu cinema, um
iraquiano de 2014-2015, para seguir um pelo menos, é fingimento, faz de conta, desenrolar de um inquérito: aquele gosto frisado pela fábula, pelo artifício
batalhão de guerrilheiras curdas em luta artifício. Mas, no cinema que eu amo e que o próprio realizador leva a cabo assumido, misturando um universo in-
contra o Daesh. E, em particular, a sua que gostaria que toda a gente amasse, de maneira a tentar obter junto dos fantil com problemáticas que, de todo
líder: uma jovem cujo doloroso passa- há sempre uma espessura qualquer habitantes da localidade algumas em todo, de infância nada têm. Assim
do (ela foi sequestrada e usada como de verdade — e não me refiro apenas informações sobre o avô — figura que volta a ocorrer neste “Technoboss”,
escrava sexual no início do conflito…) é àqueles instantes exemplares, como o nunca conheceu e que nunca chegou a filme que a ousadia de João Nicolau e
recriado através de flashbacks que, num da Debbie Reynolds, no termo de um perfilhar o seu pai. Nessa investigação a cumplicidade lúdica de Miguel Lobo
processo cansativo, vão por sistema número musical de “Serenata à Chuva”, familiar, a primeira coisa notável é a Antunes tornaram possível, um misto
interrompendo a narrativa. A situa- que ao cair sentada, puxa a saia para autenticidade e a graça dos habitantes de musical mais dito que cantado
ção que o filme retrata é premente, as baixo e, de repente, como notava Truf- que Carneiro vai interpelando à frente com uns laivos de comédia, todavia
suas intenções terão sido as melhores, faut, era apenas uma rapariga que não da câmara, em planos gerais fixos dramática, pois o envelhecimento e o
mas depressa se percebe que entre o queria que lhe víssemos as cuequinhas. muito abertos, onde os corpos (que ra- envilecimento que lhe está associado,
olhar de Husson e o seu objeto há uma Refiro-me, para nos centrarmos no que ramente interrompem os seus afazeres nesta nossa sociedade da tecnologia
instância de mediação: as várias repor- aqui mais interessa (o filme chama-se para prestar atenção ao entrevistador) e da produtividade, não têm nada de
tagens que nos últimos anos foram cha- “Le Mans ‘66: O Duelo” e tem, portanto, acabam por desaparecer na paisagem. divertido, muito pelo contrário. Temos,
mando a atenção para a realidade que o seu eixo nas corridas de automóveis) Mas, mais do que o ‘charme rústico’ assim, que “Technoboss” parte de
aqui se descreve (e a figura da repórter às cenas capitais em que a competição dos depoimentos, o que cativa é a uma boa ideia — e depois? É sempre
francesa parece justamente existir para Ford/Ferrari melhor se espelha. São to- forma como — através deles — o filme a pergunta a fazer quando damos
sancionar essa ‘interferência’). Estamos das fabricadas em digital (e nota-se...) vai reconstituindo a imagem de um es- um pontapé numa pedra e de caras
perante uma mediação que impõe ao provocando uma sensação de des- paço-tempo do qual não dispomos de encontramos uma boa ideia. O que
filme um ponto de vista em segunda crença no que vemos. São desenhos imagens, tal como Carneiro não dispõe fazer com ela? “Technoboss” não sabe
mão, distanciado e confortável, convi- animados — e pronto: não é para levar a de uma foto que lhe permita dar figura o que fazer com ela — e esse é o seu
dando-o a investir numa reconstituição sério. A adrenalina que sentíamos subir ao avô. Uma bela surpresa. / V.B.M. problema. / J.L.R.
folclórica das personagens e do conflito. pela espinha quando víamos as perse-
De facto, neste contexto tudo contribui guições automóveis de “Os Incorruptí-
para a composição de um universo que veis Contra a Droga” (Friedkin, 1971) ou ESTRELAS DA SEMANA
é tão exótico (as danças tradicionais as corridas de “Le Mans” (Katzin, 1971) Jorge Vasco
Francisco
das guerrilheiras na véspera de uma aqui nem assoma porque não vemos Ferreira
Leitão Baptista
Ramos Marques
batalha...) como retrógrado, propon- bólides a rugir motores, vemos bone-
do uma visão codificada das figuras cos. O resto, a história dos mecânicos/ Alpha: Nos Bastidores da Corrupção QQ
femininas, que se vão tratando recipro- pilotos que sentem o carro como se Bostofrio QQ QQQ
camente com a ‘máxima doçura’. Mais fosse um prolongamento do corpo e Chamem-me Dolemite QQ
grave do que isso é, porém, o modo são capazes de encontrar o remédio
como Husson procura suavizar o quadro certo ou a estratégia de condução Um Dia de Chuva em Nova Iorque QQ QQQ QQ
que pinta a golpes de sentimentalis- justa para que ele cumpra o que só eles Exterminador Implacável: Destino Sombrio b Q Q
mo (todo o subenredo consagrado ao sabem que ele pode dar, isso é astúcia As Filhas do Sol b QQQ Q
resgate do filho da protagonista) e por de argumento e jeito dos atores (Matt
The King Q
via da aposta na ‘fotogenia do horror’: Damon, Christian Bale). A espessura
não nos ocorre outro filme de guerra tão da verdade também pode estar aí, nas Le Mans ‘66: O Duelo QQQ QQ QQQ
bonitinho como este — até a poeira que rugas de Bale que dão ao seu rosto os Luz da Minha Vida QQQ QQQ QQQ
cobre o rosto de uma guerrilheira após traços de um rosto vivido (e suor, cheiro
Maléfica: Mestre do Mal QQ
uma explosão é maquilhagem topo de a gasolina e a óleo de motores, sim...).
gama. No fim, ficamos sem saber bem Mas os carros têm de ter peso e ronco, Midway b Q
se vimos o relato de um conflito militar num filme destes temos quase de os Os Órfãos de Brooklyn QQQ
se uma passagem de modelos. Pobres palpar. E neste filme não chegamos Raparigas Rebeldes em Paradise Hills Q
curdos: nem com os filmes que o Oci- nem perto, o digital plastifica tudo e
dente lhes dedica têm sorte. dá-nos um encontrão definitivo. Technoboss QQ QQ QQ
/ VASCO BAPTISTA MARQUES / JORGE LEITÃO RAMOS DE b MÍNIMO A QQQQQ MÁXIMO EXPRESSO

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O fogo que lhes
mudou a vida
A National Geographic apresenta
quarta-feira um documentário sobre os
incêndios de Pedrógão Grande. Gemma
Singleton, produtora da série documental
“Testemunhos do Desastre”, explica tudo
sobre a nova aposta do canal
TEXTO JOÃO MIGUEL SALVADOR

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E
m Portugal não houve forma Singleton ao Expresso, recordando a e gráficos que recriam alguns dos
de passar ao lado de uma altura em que procuravam desastres mais dramáticos eventos”, os “Quisemos
tragédia como esta, mas contemporâneos, quer eles fossem responsáveis pela série documental que o público visse
a cobertura internacional dos naturais ou causados pelo homem. composta por seis episódios dão
incêndios de Pedrógão Grande não “Quisemos dar voz àqueles que uma nova visão sobre a forma o desastre de várias
foi extensa ao ponto de o mundo
ficar a conhecer o que realmente
perderam os seus entes queridos
e que sobreviveram ao fogo, e
como tudo terá acontecido, para lá
das notícias superficiais dadas por
perspetivas.
se passou quando o fogo tomou perceber melhor através da análise alguns meios internacionais. Dos serviços
o centro do país há dois verões. de especialistas porque é que os “Em cada episódio, a narrativa
“Sentimos que os incêndios de 2017 incêndios ocorreram, o que causou a central é o próprio desastre”, frisa de emergência,
eram uma história relativamente catástrofe e o que se pode aprender Gemma Singleton, mesmo que este dos sobreviventes,
desconhecida nos media globais”, depois do desastre.” Ao combinarem seja um programa com um lado
explicou a produtora Gemma “testemunhos com análise científica bastante científico. “Trabalhámos dos especialistas”
com especialistas locais e GEMMA SINGLETON
internacionais para ter a sequência
exata dos acontecimentos”, com
recurso a relatórios oficiais e estudos
científicos para perceber melhor o
desastre em particular. “Quisemos em ferocidade —, e a direção que
que o público visse o desastre de tomaram”. Às 66 vidas humanas
várias perspetivas. Dos serviços de perdidas nos incêndios juntaram-se
emergência, dos sobreviventes, dos 254 feridos e uma vasta área florestal
especialistas.” totalmente destruída.
O maior desafio, transversal a O objetivo de apresentar um
todos os capítulos, foi encontrar trabalho documental destas
O documentário pessoas para contarem a sua proporções é revelar “como tudo
conta com imagens de história, respeitando a dor de cada aconteceu, e como decisões tomadas
arquivo, entrevistas um. Entrevistar sobreviventes numa fração de segundo fizeram a
inéditas e animações de qualquer desastre requer um diferença entre a vida e a morte”,
para explicar como longo processo para estabelecer avançam os responsável pela série
tudo aconteceu
uma relação, algo com o qual a documental em comunicado.
equipa da produtora de televisão e “Testemunhos do Desastre” é a
cinema DSP se comprometeu desde mais recente grande aposta da
o início. “Passámos meses a falar National Geographic e apresenta,
com as pessoas e a conhecer cada de acordo com o canal, “momentos
contributo que encontrávamos.” emocionantes de alguns dos mais
Para criar cada episódio, marcantes desastres naturais
procuraram artigos de imprensa do mundo” — sem se cingir aos
“daqueles que contaram a história incêndios que devastaram Pedrógão
anteriormente” e encontraram Grande há dois anos.
também histórias inéditas “através “A história do maior incêndio na
do boca a boca ou dos serviços história de Portugal e de como este
comunitários locais”, cruzando-as devastou uma comunidade rural” no
com informações inéditas. verão de 2017 é contada esta quarta-
“Em cada episódio, exploramos feira, pelas 22h10, mas depois
em detalhe como é que o desastre haverá tempo para mostrar ainda
ocorreu, utilizando uma cronologia testemunhos reais de pessoas que
dos acontecimentos para mostrar sobreviveram a desastres e tragédias
como se desenvolveu. Depois há inimagináveis noutras partes do
especialistas a explicar as causas e globo. Na primeira temporada de
efeitos em torno de cada evento”, “Testemunhos do Desastre”, a
com a informação recolhida a ser National Geographic apresenta
utilizada também para a animação ainda as histórias de uma mina que
gráfica, que ilustra o desastre “com colapsou no Chile, dos tornados nos
uma precisão muito elevada”. Estados Unidos da América — em
No que diz respeito ao episódio abril de 2011 e durante quatro dias,
sobre os incêndios em Pedrógão 360 tornados deixam um rasto de
Grande, as animações foram feitas devastação no sul do país — e de um
“a partir de fotografias e imagens terramoto no Nepal. b
do fogo que foram captadas por jmsalvador@expresso.impresa.pt
residentes, turistas e cientistas”,
NATIONAL GEOGRAPHIC

usadas como inspiração para


produzir novos conteúdos com
a ajuda de relatórios científicos,
explicando “onde é que os incêndios TESTEMUNHOS DO DESASTRE
tiveram origem, como cresceram — National Geographic, estreia quarta, 22h10
tanto em termos de tamanho como (Temporada 1)

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GEORG SEDLMEIR

Lar, doce lar


Abdullah Ibrahim
gravou este disco
a solo a 17 de
março deste ano

Aos 85 anos, o
E
m 1959, em entrevista para a e, logo, em peregrinagem. Nessa — em 20 indexações, para maior
revista sul-africana “Drum”, medida, a sua discografia de meados conveniência de quem a escuta —
pianista sul-africano o jornalista Benson Dyantyi de 70 (principalmente essa, sim) não tinha como fim lembrar o tanto
perguntava a Abdullah Ibrahim — na assentava que nem uma luva naquele do jazz que emana de si e que para si
Abdullah Ibrahim altura, conhecido por Dollar Brand tipo de leitura mais teleológico imperturbavelmente converge. Seja
(re)encontra a sua — de onde vinha, isto é, ao que é que
chamava casa: “Casa é onde quer que
da coisa, que, com zelo, agitava a
bandeira da libertação a cada disco e
como for, jamais havia desenhado
um arco narrativo tão monumental,
melhor música seja que possa tomar uma bebida e a cada concerto — e é impossível não trazendo à lembrança as meditações
passar uma noite”, respondeu-lhe detetar a sua marca num expoente outonais de Thelonious Monk em
de sempre o pianista, de modo algo profético. pianístico do período, o “The Köln “Solo Monk” (1964) e de Randy
Pois, a verdade é que, pouco depois, Concert”, de Keith Jarrett, cuja basilar Weston em “Ancient Future” (2002)
TEXTO JOÃO SANTOS
e como reação à crescente coação do itinerância se diria mais assombrada — xamãs que transcenderam a esfera
regime do apartheid, Abdullah — e pela trajetória pessoal de Ibrahim que mais quotidiana da sua própria obra,
a sua mulher, a cantora Sathima Bea pelas vivências do seu autor. guiando-nos, eles mesmos, por esse
Benjamin — partiria com a casa às Agora, ao que parece, e aos 85 anos, terreno minado da memória em que
costas para a Europa, primeiro, e Abdullah chama casa a um bucólico exercem a sua medicina peculiar.
EUA, depois. Viria, de certa forma, recanto no enclave alpino da Alta É de tal maneira, aliás, que se está
a ser essa a sua sina: no jazz, a de Baviera — e, em circunstâncias tão à espera que aos sessenta e tal
dar corpo a uma individualidade inesperadas quão invulgares, foi minutos, quando levanta por fim as
radicalmente deslocalizada. Ou ao piano do salão de festas de um mãos do teclado, Ibrahim faça como
seja, o seu bilhete de identidade era restaurante típico da região que se Dorothy, de “O Feiticeiro de Oz”, e
um dispositivo colocado ao serviço sentou, a 17 de março deste ano, feche os olhos, bata três vezes com
de passado e futuro, pré e pós- para inventariar muito daquilo pelo os calcanhares e repita para si: “Não
africânder. Involuntariamente, quiçá, qual ao longo de décadas passou. há como a nossa casa.” Talvez tenha
veio também a gerar epifanias, umas No entanto, a sensação que fica é aprendido com um antigo colega seu
QQQQQ atrás das outras, junto daqueles que que nada disto foi premeditado, nos Jazz Epistles, em 1959 — Hugh
DREAM TIME se diriam numa longa travessia pelo que esta espantosa coleção de Masekela, essoutro exilado que um
Abdullah Ibrahim deserto — o seu estilo transformado fragmentos que converteu numa dia gravou um disco a que chamou
Enja/Distrijazz em exílio, o seu exílio em errância rapsódica suíte de cortar a respiração “Home Is Where the Music Is”. b

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Rei de Gaia A DESARMONIA
DAS ESFERAS

P
raias com nortada, mariscadas regadas a Fita
Azul e rosas de plástico em motéis — se nunca
ninguém tivesse filmado os diners americanos, GRAVIDADE ZERO
QQQQ será que eles se teriam tornado ícones da cultura
global? De Gaia para o mundo, David Bruno começou
GINGER
por se destacar ‘a bordo’ do Conjunto Corona, Lina (aliás Lina Rodrigues,
Brockhampton
Edição digital RCA/Sony
mas é a solo que vem reforçando uma criatividade ex-Carolina) nasceu em
muito singular. Depois de, em 2018, lançar “O Hamburgo mas veio muito
Último Tango em Mafamude”, o produtor nortenho cedo para Bragança, de onde,
Desde que, há dois anos, editaram partilhou este ano “Miramar Confidencial”, o aos 15 anos, seguiu para o Porto
o tríptico de álbuns “Saturation”, os segundo álbum em nome próprio. Gaia, um dos mais com a intenção de estudar
texanos Brockhampton passaram populosos concelhos do país, continua a fascinar o canto no conservatório local.
de segredo bem guardado a um homem de ‘Mesa para Dois no Carpa’ (um dos mais Porém, apesar de ter arriscado
dos coletivos mais badalados do mágicos temas da estreia, que ao “Observador” / JOÃO alguns passos precoces no
rap dito alternativo norte-ameri- descreveu como um disco “romântico-poético”); domínio da ópera, quando
LISBOA
cano. Com “Iridescence”, o grupo enquanto muitos criadores nacionais olham para os a professora lhe repetia que
liderado por Kevin Abstract, viu a Estados Unidos ou Inglaterra em busca de inspiração, “os sopranos não cantam de
sua notoriedade aumentar ainda David Bruno cria a sua própria mitologia. Desta vez olhos fechados”, compreendeu
mais e neste “Ginger” promete partiu de uma denúncia que se repetia nos muros que aquele nunca viria a ser o lugar onde iria sentir-se
virar a agulha para territórios ines- de Gaia — “Adriano Malheiro Caloteiro” — para feliz. Foi em Lisboa, nas casas de fado, que, com Amália
perados. Deixando para trás a pro- construir uma saga de prosperidade & desgraça, como estrela polar, descobriu, enfim, o rumo certo. Raül
dução aprimorada do antecessor, financeira mas também afetiva, no Portugal dos Refree (aliás, Raül Fernandez Miró), músico, compositor
que refletia de forma demasiado anos 90 (na mesma entrevista, ele chama-lhe uma e produtor catalão oriundo da cena musical alternativa
redonda e perfeitinha as influências deriva “romântico-foleira e extravagante”). Nota de Barcelona, enquanto jovem aluno de piano, deu-se
díspares dos seus seis MC, as 12 importante: coberta por sintetizadores a condizer igualmente mal com os professores que lhe calharam,
novas canções chegam carregadas com os lençóis de cetim e restante estética dos seus uma vez que não conseguia adaptar-se à rígida disciplina
de emoções ásperas à flor da pele. vídeos, a música de David Bruno tem humor, muito militar das escalas e arpejos de que a pedagogia clássica
Como um todo, “Ginger” é um ál- humor, pelo que em nenhuma destas hilariantes não abdica. “No género popular, também se abusou da
bum que não se deixa prender a lu- historietas (‘Aparthotel Céu Azul’, ‘Bebe & Dorme’, técnica e do virtuosismo. É como se lançássemos pazadas
gares-comuns do género, pegando ‘Com Contribuinte’, ‘N Gosto K Me Mentem’) o autor de terra sobre uma canção e a tapássemos. A minha mão
em temáticas complicadas, como se leva demasiado a sério. Por outro lado, a graça movimenta-se sozinha. Toco como me sai”, diz ele, agora
a ansiedade ou a dependência, natural de deixas como “baby vem jantar comigo, que, 20 e poucos anos depois de ter entrado pela primeira
sem nunca as traduzir em música eu sou um bom ouvinte/e no fim peço fatura com vez num estúdio com os Corn Flakes para gravar “Mênage”,
impenetrável. Canções tão diretas contribuinte” nunca resvala para a oca paródia conta já uma dezena de álbuns a solo, outras tantas bandas
e irrequietas quanto ‘Boy Bye’ não trocista. O rapper Mike El Nite, contraponto de David sonoras para cinema e televisão, um ilustre CV na qualidade
perdem tempo com deambulações Bruno na ida de Malheiro a tribunal, ‘Interveniente de produtor de gente ilustre — Lee Ranaldo (Sonic Youth),
estilísticas, mantendo uma sujidade Acidental’ (“Baby, fui chamado a tribunal/entrei Josh Rouse, Sílvia Pérez Cruz, Rosalía — e uma mão bem
na produção que lhe dá uma vibra- num negócio, correu mal/O Tó vendeu uma jante cheia de colaborações e prémios. Não era inevitável, mas
ção/ilusão lo-fi. A beleza nostál- ao Luciano/Fui interveniente acidental”), e Samuel existiam afinidades suficientes para que, movidas as pedras
gica de ‘No Halo’, com a belíssima Úria e Fernando Alvim, que telefonam ao empreiteiro necessárias, Lina e Raül viessem a cruzar-se. Seria, no
contribuição vocal de Deb Never caloteiro exigindo o saldar de dívidas, são alguns dos entanto, bastante difícil adivinhar que do encontro pudesse
no sufocante refrão, o namoro com convidados de um disco que, fazendo de Miramar surgir algo de tão luminoso e imponderável como “Lina_
a soul em ‘Sugar’ e ‘Dearly Depar- (uma das muitas praias de Gaia) uma Miami à antiga Raul Refree”, uma radical transfiguração do reportório de
ted’ e os ambientes sombrios de portuguesa, ameaça tirar a margem sul do Douro da Amália Rodrigues que dir-se-ia saída das mãos de Brian
‘Heaven Belongs to You’ (com a re- sombra do Porto. / LIA PEREIRA Eno ou Hector Zazou: sem a sombra de uma guitarra à
velação do hip-hop britânico Slow- vista mas rodeados de sintetizadores vintage, Moogs, Arps,
thai a roubar o protagonismo) e ‘If Oberheims, Rolands e piano, Refree e Lina descarnam
You Pray Right’ são dos momentos até ao osso 11 fados clássicos, numa espécie de a cappella
mais fortes de um registo que se envolta em neblina, na qual, pela voz em estado de graça,
ouve de uma assentada. “Ginger” vão passando a coreografia aérea de ‘Gaivota’ em gravidade
ajuda a firmar os Brockhampton zero e debruada a teclados minimais, os ameaçadores
num esquadrão de renovação de atonalismos heréticos de ‘Maldição’, o tempestuoso
RENATO CRUZ SANTOS

um género a precisar urgente- rasgão hiperoxigenado de ‘Quando Eu Era Pequenina’,


mente de uma, no qual juntaríamos a paralisante assombração de ‘Medo’ ou a moldura
nomes como Tyler, The Creator, transparente de ‘Santa Luzia’, transportando Amália a
Kendrick Lamar ou Earl Sweatshirt. paragens onde ela nunca sonharia chegar. b
Aqui não chove dinheiro, não há
afirmações de masculinidade tóxi- David Bruno faz de Miramar uma Miami à antiga portuguesa
ca nem bazófia exagerada, há uma
honestidade que transpira de letras
confessionais, não poucas vezes LINA E RAÜL REFREE
negras, que acabam por deixar os QQQQ Misty Fest, Teatro São Luiz, Lisboa, sexta, 21h; CCC, Caldas da
Brockhampton no centro de uma MIRAMAR CONFIDENCIAL Rainha, dia 23, 21h30; Convento de S. Francisco, Coimbra, dia 24,
nova encruzilhada... O futuro é para David Bruno 21h30; Theatro Circo, Braga, dia 27, 21h30
onde mesmo? / MÁRIO RUI VIEIRA Edição de autor O disco “Lina_Raul Refree” será editado no dia 17 de janeiro de 2020

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QQQQQ
ENSEMBLE ZEFIRO
Alberto Bernardini (d)
Noites de Queluz, Sala do Trono, Palácio
Nacional de Queluz, dia 17 de outubro

Dirigida por Massimo Mazzeo, a 5ª


KIERAN FROST/REDFERNS/GETTY IMAGES

temporada de Música da Parques


Sintra está a chegar ao fim com o ciclo
intitulado “Noites de Queluz — Tem-
pestade e Galanterie”, uma série de
dez concertos apresentados no Palácio
Michael Kiwanuka de Queluz. Escutar a música em espa-
apresenta o novo álbum, ços nobres, coetâneos da criação ar-
“Kiwanuka”, no Coliseu tística de Bach, Haydn, Vivaldi, Mozart
de Lisboa, sexta, às 22h e Beethoven, entre outros, é um dos
desígnios propostos aos espectadores
pelo diretor artístico que explora e

Ritual de fim de ano


oferece a memória imaterial da música
nos palácios de Queluz, Sintra e Pena.
Ao fim de cinco anos de existência,
o ciclo “Noites de Queluz” caminha
para uma zona mais confortável ao

M
ais um ano, mais uma Tó Trips (guitarra) e João Doce Kisses (21h). O norte-americano contar com um público consolidado
edição do Super Bock em (percussão), que se conheceram Josh Rouse toma conta do Tivoli que, mesmo em noites de chuva e de
Stock, o festival que há numa digressão dos Wraygunn, BBVA, substituindo Kevin Morby, tempestade, abandona o aconchego
uma década serve como lavar dos em 2004, e agora tocam com que cancelou por motivos de doméstico para ir assistir a um indes-
cestos na vindima de concertos de Gonçalo Prazeres (saxofone) e saúde; o homem de “1972” toca tronável monumento da arte musical,
cada temporada. Numa altura em Gonçalo Leonardo (contrabaixo). às 22h40, depois de Ady Suleiman o dos “Concertos de Brandenburgo”
que muitos artistas se encontram a Na Sala EDP (Casa do Alentejo) (20h30). Orville Peck, um cowboy (BWV 1046-1051) que J.S. Bach
rematar as suas digressões, Michael estarão a brasileira Ive Greice do Canadá, galopa na Casa do dedicou ao margrave de Brandenburgo.
Kiwanuka é a estrela maior de um (19h45) e Rua das Pretas, do seu Alentejo às 21h45, depois da Desta feita, a integral dos concertos
cartaz que coloca a ênfase no rock compatriota Pierre Aderne (22h); portuguesa Tainá (20h), ao passo foi interpretada pelo Ensemble Zefiro,
indie mas também no hip-hop, na às 21h há Cante Alentejano. Do que, no Palácio da Independência, a uma orquestra barroca fundada há 30
eletrónica e na produção nacional. roteiro do primeiro dia constam americana Marissa Nadler é a única anos pelo oboísta Alfredo Bernardini
Embalado pelo sucesso de ‘Cold ainda concertos no Capitólio (os ‘forasteira’, tocando às 20h, depois e por dois irmãos, Paolo Grazzi (oboé)
Little Heart’, a canção do genérico portugueses Amaura às 20h05, dos nacionais Ditch Days (18h45) e Alberto Grazzi (fagote). Mais do
da série “Big Little Lies”, o londrino Bambino, 21h50, e Cálculo, e antes de Bruno de Seda (22h15). que tocar um instrumento, é preciso
traz a sua voz soul ao Coliseu de 23h45); nos bastidores do Capitólio No dia 23, a curadoria é dos Capitão concentrar-se na música, defendem os
Lisboa; Michael Kiwanuka toca no (João Tamura às 19h10); na Sala Fausto, que levam os Zarco (19h) fundadores, alguns dos quais tocaram
primeiro dia, sexta-feira, às 22h, Ermelinda Freitas (os ingleses e o Rapaz Ego (21h50) à Sala com Koopman, Harnoncourt, Leo-
depois do sudanês-americano Loyal, às 19h, e a portuguesa Santa Casa. Na Estação do Rossio nhardt e Savall. Para a sua esplêndida
Sinkane, na mesma sala às 20h30. Marinho, às 21h15); na Sala Buondi assomarão os Baleia Baleia Baleia viagem musical setecentista, Bernar-
Também na sexta, destaque para (Palácio da Independência — os (20h05) e os Gator, The Alligator dini dispôs de solistas de primeiríssimo
o regresso da britânica Nilüfer nacionais Light Gun Fire, às 18h45, (21h45), antes dos suecos Viagra plano, como foi o caso da sua filha
Yanya, que esteve este ano no Polivalente, às 20h, e Dream Boys (23h45). No Capitólio, atuam Cecilia Bernardini (violino), Frances-
NOS Primavera Sound e vai voltar People, às 21h20); na sala Rádio os Orteum (20h) e Perigo Público co Corti (cravo), Giorgio Mandolesi
a mostrar o que vale no Cinema SBSR (Estação Ferroviária do Rossio & Sickonce (21h), antes do inglês (fagote), Francesco Meucci (trompa) e
São Jorge, às 23h45. Antes, a sala — Yagmar às 20h, os alemães Meute Col3trane (23h45), e no terraço Gabriele Cassone (trompete). Com mil
grande do cinema recebe Murta às 21h20 e os portugueses Ganso dessa sala Keso (19h). No Maxime ideias temáticas e sucessões insólitas,
(21h10). Na sala 2, apresentam-se às 23h45) e no Super Bock Bus estarão o cabo-verdiano Alfredo Bach reuniu instrumentos de forma
os também portugueses Niki Moss (os escoceses Lylo). Às 00h30, o Costa (20h) e o angolano Vum Vum inédita, sempre em busca da novida-
(19h30) e LOT (21h25). Noutra das Coliseu dança com um DJ set de (22h10), ao passo que os escoceses de. Em Queluz, a apresentação eleita
principais salas do evento, o Teatro Friendly Fires (00h30). Sweaty Palms passarão a noite a foi a seguinte: os concertos 1, 6 e 4 na
Tivoli BBVA, o cantor-compositor No sábado 23, há mais um soulman: andar de autocarro, no Super Bock primeira parte e após o intervalo, os
Luís Severo toca com convidados, o norte-americano Curtis Harding, Bus, e os franceses Haute fazem a concertos 5, 3 e 2, em ritmo de turbi-
às 20h10. Segue-se o cantor soul de no Coliseu às 21h, antes do rapper after party no Coliseu, a partir da lhão e vertigem. Através da velocidade
Londres Jordan Mackampa (23h). português Slow J, em apresentação 1h. / LIA PEREIRA da figura mitológica de Zéfiro, o público
Com curiosidade aguarda-se a do novo e bem recebido “You Are foi envolto na atmosfera bucólica e
curadoria de Legendary Tigerman Forgiven” (22h30). No São Jorge, campestre do primeiro concerto, no
na Sala Santa Casa (Garagem serve-se o tropicalismo de Helado diálogo cerrado de sopros e violinos
EPAL): às 20h15, Paulo Furtado Negro (22h), seguido pelos belgas do segundo, no lado brilhante e lúdico
convida-nos a ver Angélica Salvi Balthazar (23h45). Na sala 2, SUPER BOCK EM STOCK do terceiro, passando pela embriaguez
e às 22h20 há concerto de Club tocam os portugueses Meses Sóbrio Vários locais, Lisboa, dias 22 e 23 instrumental dos derradeiros concertos.
Makumba, ou seja, o projeto de (19h45) e a canadiana Ghostly www.superbockemstock.pt / ANA ROCHA

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Sinceramente
A
tentativa de comunicar. A culminar disso tudo: uma catarse
dificuldade do dar o braço emocional meio etérea e mágica”.
a torcer. A vulnerabilidade. A outra parte da suite é ‘Soror
As coisas que ficam por dizer. A Mariana’, belíssimo exercício de
tendência na minha poética é contenção: “Desde o início do
escrever sobre mim, e quando projeto que queria uma música
penso em mim acabo sempre por com arranjos de cordas. Todos os
ir para a minha negatividade. instrumentos das outras canções
Nisto de formar um pensamento são tocados por mim exceto nesta
acaba por haver uma expurgação canção. O meu irmão António
de um raciocínio. Mesmo que seja Quintino fez os arranjos comigo
aquele que não queres ter, se ele e toca contrabaixo. Convidámos
aparece é [preciso] formá-lo da uma viola e um violoncelo.” O
MARK LENNIHAN

A compositora melhor forma, da maneira mais instinto melódico é evidente e


norte-americana verdadeira.” Rara capacidade de a veia sónica de Pega Monstro
Julia Wolfe olhar para si, mesmo com olhos sai domada em benefício de
marejados (o “água nos olhos” canções redondamente rock
depositado no título será menos como ‘Automático’, “a primeira

Boca do inferno acidental do que uma infiltração),


e — por vitória da inevitabilidade
sobre a obrigação — fazer do
música que fiz para o disco
que ainda estava totalmente
escondido no cérebro”, aquela

N
ão, não há aqui Montéquios e a 25 de março de 1911 num edifício gesto arte. Maria Reis, vocalista onde uma linha irrecusavelmente
Capuletos. Mas há Malteses e da baixa de Nova Iorque — sede de e guitarrista da banda de irmãs trauteável contrasta com a cruel
Caputos, Maiales e Carusos, uma fábrica de manufatura têxtil, a Pega Monstro, junta em menos de observação (“São só remédios/ na
Meyers, Maxes e Cohens. (Dir- Triangle Shirtwaist — e que tirou a 20 minutos o recheio de um ano tua mão/ A depressão é parasita
se-ia uma reação à famosa frase vida a 146 pessoas, na sua maioria pleno de vaivéns emocionais, e garantida/ rumina na expressão/
de Maria Remarque: “A morte de raparigas entre os 14 e os 23 anos, admite que as suas letras lidam 'que doa até doer'/ Vou ser fiel até
um é uma tragédia, a de milhões, recém-chegadas da Europa de Leste — não muito subterraneamente m’aperceber”). Um mapa de sete
estatística.”) De modo crucial, há e do sul de Itália. Aliás, em ‘Factory’, — com a louvável vontade canções (onde cabem ‘zequismos’
vários Bernsteins. Três, para ser o segundo andamento, dá-se por um de nos ligarmos aos outros, e ‘fachadismos’ em ‘Um Ai’ e
exato — Morris Bernstein, Jacob brilhante achado retórico, quando ainda que tropegamente e ‘Lars Von Trier’) com entrada
Bernstein e Essie Bernstein. Por uma alienante cacofonia criada para sem grandes lamechices. Há, instantânea na galeria dos honores
isso, sim, no terceiro andamento simular o ruído fabril é envolvida desempoeiradamente, atropelos de 2019. / LUÍS GUERRA
deste “Fire in my Mouth”, quando por um lamento em ídiche, de conjugais — em ‘Resquício’ e
se escutam as aspirações dessa um lado, e por uma tarantela, do ‘Odeio-te’ ouvimos palavras
gente toda — “Quero falar como outro — o atonalismo, tal como que ficaram por dizer e só
uma americana// Cantar como preconizado por Schoenberg, e o encontram lugar nas canções.
uma americana// Sonhar como futurismo, como enunciado por Há, galhardamente, um Brasil
uma americana”, repetem as 110 Marinetti, presos num abraço fatal tecnicolor algures em 1971 —
mulheres do Young People’s Chorus com a única música acessível às ‘Picada de Vespa’ foi escrita “numa
of New York City — é em ‘America’, costureiras, que era aquela que altura bastante negra a nível
de “West Side Story”, precisamente, tradicionalmente cantavam os seus emocional e, inicialmente, fazia
que se pensa, e naquele refrão com pais. Como em “Mothers Shall Not parte de um épico de 20 minutos QQQQQ
castanholas no sotaque do “Eu Cry”, de Jonathan Harvey, ou “On que compus para um concerto. CHOVE NA SALA, ÁGUA NOS
gosto de estar na América/ OK, por the Transmigration of Souls”, de Depois gravei-a em Vigo. Fui de OLHOS
mim, na América”. Ou, melhor, John Adams, quando, a fechar, são comboio sozinha e em lágrimas. Maria Reis
pensa-se na adaptação do musical entoados os nomes de quem faleceu, A gravação dela é um bocado o Edição digital e em vinil 10'' CafetraBi sic
de Leonard Bernstein e Stephen parece que ouvimos o nosso, saído
Sondheim, inspirado em “Romeu e da boca do inferno. / JOÃO SANTOS
Julieta”, ao grande ecrã, quando, no
mesmo número, o que se ouve é um
incisivo: “A vida é boa na América/
Se fores branco na América.”
Porque, na verdade, neste oratório,
Julia Wolfe não concede um minuto,
sequer, de ilusão às suas narradoras,
e consequentemente à sua plateia,
porventura receando que a semente
da ignorância pudesse dar alento à QQQQ
esperança e tornando claro desde WOLFE: FIRE IN MY MOUTH
o início — ‘Immigration’, chamou The Crossing, Young People’s Chorus of
ao primeiro andamento — que elas New York City, New York Philharmonic,
têm já o destino traçado. No caso, Donald Nally (d), Francisco J. Núñez (d),
o de virem a ser consumidas pelas Jaap Van Zweden (d)
chamas do incêndio que deflagrou Decca/Universal Este é o primeiro álbum em nome próprio de Maria Reis das Pega Monstro

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Os dias o tempo de escrita de “Sarna”.
Era uma peça monólogo, escreve,
“inspirada pelas minhas leituras,

desalmados
primeiro, da peça de Conor
McPherson ‘This Lime Tree Bower’
(é possível ter-se apenas um ator
a contar uma história diretamente
para o público?) e, depois, do
A Companhia Assédio elege o extraordinário romance de Samuel
Beckett ‘Molly’ (é possível ter-se
universo do irlandês Mark O’Rowe dois atores principais que nunca
para um ciclo dedicado às suas peças se encontram e uma trama que
nem sequer liga as suas pontas no
TEXTO VALDEMAR CRUZ final?)”.
A Assédio, que apresentara já
“Ossário” e “Terminus”, cada
uma com três atores, investe
agora em “Os Nossos Dias Poucos
e Desalmados”, peça através da
qual se percebe uma viragem na
temática e na linguagem do autor.
Enquanto nos primeiros textos,
explica João Cardoso, o autor estava
mais interessado em personagens
marginais, aqui “pega numa família
da classe média e explora um drama
familiar transformado em centro da
intriga”.
Se antes dava voz a personagens
às quais, por norma, é negada
voz, sempre através do que João
Cardoso caracteriza como “uma
poética textual”, da qual resultava a
necessidade de um trabalho de ator
explorado até ao limite, agora surge
uma peça não tão elaborada ao nível
de estilo, com diálogos porventura
mais banais, no sentido em que está
ausente aquela linguagem agreste
que tanto caracterizava outros
textos.
Escrita em 2014, “Os Nossos Dias
Poucos e Desalmados” assume uma
Ângela Marques, em primeiro plano, com escrita muito realista, ao ponto
JOÃO TUNA

Catarina Gomes e Pedro Galiza, protagonis- de, refere o encenador, “de início,
tas da nova peça da Assédio no TeCA parecer que nada está a acontecer,
mas vão sendo deixadas sementes
que alimentam uma história”. E essa

E
ste final de novembro e leituras das peças “Terminus” e história poderá não ser edificante.
princípios de dezembro será “Ossário”. Seguramente não é bonita. É uma
um tempo desalmado no “Mark O’Rowe, carago!” é o nome história carregada de mistérios,
Porto, com a Companhia de Teatro do ciclo em boa verdade iniciado de não ditos familiares. Há um
Assédio a dedicar um ciclo ao há vários anos, quando a Assédio, segredo que corrói aquela família,
universo criativo do dramaturgo sempre com João Cardoso e após a constituída por pai, mãe e filha. É
irlandês Mark O’Rowe. É uma opção chamada de atenção para o autor um segredo de morte. É um segredo
ousada, materializada na reunião feita por Paulo Eduardo Carvalho, do domínio do indizível, mas que
de cinco peças traduzidas para os decidiu investir num dramaturgo na aparência da sua ausência está
palcos nacionais, com uma estreia muito fora do chamado mainstream sempre presente, a condicionar as
no Porto, no Auditório Nacional e, em simultâneo, acessível em falas e ações de todos. É uma peça
Carlos Alberto, na próxima quinta- termos de montagem de espetáculo. violenta, pelo que sugere e pela
-feira: “Os Nossos Dias Poucos e Desde logo porque, admite o imensa tensão existente em quase
Desalmados”, com encenação de encenador, “a maior parte dos seus todas as cenas. Desse ponto de vista,
João Cardoso. textos são em estrutura monologada, o título é como que uma metáfora
Depois, no Mosteiro de São Bento da o que torna tudo mais barato e, por dos dias anunciados como felizes,
OS NOSSOS DIAS POUCOS Vitória, serão apresentadas “Made in isso, mais apetecível”. que na verdade nunca foram felizes,
E DESALMADOS China” (dias 25 e 26) e “Sarna” (2 e O próprio O’Rowe, num texto a mesmo quando são poucos e muito
De Mark O’Rowe 4 de dezembro). Ainda no Mosteiro, divulgar no programa do ciclo, desalmados. b
Teatro Carlos Alberto, Porto, de 21 a 30 na próxima segunda-feira, haverá sublinha este aspeto ao recordar vcruz@expresso.impresa.pt

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O “Prémio Pessoa” é uma iniciativa do Jornal EXPRESSO e da CAIXA
GERAL DE DEPÓSITOS, cuja designação se inspira no nome do português
com maior irradiação cultural no século XX, Fernando Pessoa, e que se
propõe reconhecer a atividade de pessoas portuguesas com papel
BRUNO SIMÃO

significativo na vida cultural e científica do país.

Contra a corrente de uma velha tradição nacional, segundo a qual a


A Companhia Maior numa criação de Sofia Dias & Vítor Roriz projeção de algumas obras da maior importância só foi verdadeiramente
alcançada depois da morte dos seus autores – e foi esse, precisamente, o

O vosso corpo de hoje caso de Fernando Pessoa -, o “Prémio Pessoa” pretende representar
uma nova atitude, um novo gesto, no reconhecimento contemporâneo

A
das intervenções culturais e científicas produzidas por portugueses.
travessamos este lugar ganha uma especificidade, é sobre
juntos”, escuta-se na a representatividade do corpo
peça “O Lugar do Canto velho ou do corpo maior na cena REGULAMENTO 2019
Está Vazio”, a nova criação da contemporânea. Estes, como outros,
Companhia Maior — coletivo carecem de representatividade em ARTIGO 1.º 2. O Jornal EXPRESSO designará, também,
residente no CCB, criado em cena, e estamos a perder qualquer O “Prémio Pessoa” será concedido, o Secretário do Júri.
2010, constituído por intérpretes coisa com isso.” Esse corpo é o do anualmente à pessoa de nacionalidade 3. Compete ao Presidente dirigir as
maiores de 60 anos. Desta vez, lugar de margem, esse canto, que portuguesa que durante esse período e na reuniões do Júri e ao Secretário redigir a
a criação é do casal Sofia Dias & está vazio e que querem preenchido sequência de uma atividade anterior – tiver ata das sessões.
sido protagonista de uma intervenção
Vítor Roriz. O título aceita várias de significado e presença. Dizem os
particularmente relevante e inovadora na 4. Em caso de empate, o Presidente terá o
leituras, pode até gerar uma dois que depois desta peça algo terá vida artística, literária ou científica do país. voto de qualidade.
perturbação na comunicação: de mudar na dança que fazem. São
porque se trata de uma dupla da 16 intérpretes para um espetáculo ARTIGO 2.º ARTIGO 4.º
dança contemporânea, será natural entre o movimento e a palavra, entre
1. Qualquer instituição ou pessoa O Júri tem plena liberdade para eleger um
que se pense que se refere a um a ficção e a realidade, de encontro portuguesa pode enviar propostas de dos candidatos propostos ou conceder
conceito abstrato e esta seja uma entre o contemporâneo de dois candidaturas ao Prémio, até 22 de o prémio a outra pessoa. Cada membro do
dança conceptual. O equívoco que a ainda relativamente jovens criadores novembro de 2019, para o Jornal Júri poderá propor, durante as sessões, o
comunicação muitas vezes gera faz e um coletivo maduro. Fica assim EXPRESSO, por correio, para Edifício candidato ou candidatos que, em seu
Impresa – Rua Calvet de Magalhães, 242 – parecer, merecem o Prémio.
parte do universo de Sofia & Vítor, mais ampla a “antologia humana de
2770-022 Paço de Arcos ou, por email, para
que têm desenvolvido a sua obra a gestos” que têm vindo a colecionar. premiopessoa2019@impresa.pt. ARTIGO 5.º
partir da pesquisa e aprofundamento “Antologia do gesto quotidiano
das relações ou dissociações entre que adquire uma maior dimensão 2. As propostas de candidatura deverão ser Cada “Prémio Pessoa” será concedido à
apresentadas através do preenchimento do pessoa que alcance a maioria dos votos
palavra e gesto, entre significado e porque é colocado num contexto”, impresso à disposição dos proponentes em emitidos pelos membros do Júri.
significante, entre a naturalidade segundo Sofia, e que aqui ganha https://expresso.pt/premio-pessoa.
e a representação... Esta dimensão ainda uma nova escala. Em “O Lugar ARTIGO 6.º
3. As propostas de candidatura poderão ser
inquiridora do artístico também lá do Canto Está Vazio” leva ainda mais
acompanhadas de documentação considerada 1. O Prémio é, em princípio, indivisível. No
está certamente, mas sobressai uma longe essa convicção já praticada útil pelos proponentes. Esta documentação entanto, em casos excecionais, em que,
outra: a expansão do vocabulário em outras obras da dupla: a de deverá ser entregue na morada mencionada no no decorrer de votações sucessivas, se
artístico para um catálogo de gestos que cada corpo que entra em cena nº 1 deste artigo (Jornal EXPRESSO – Edifício mantenha um equilíbrio entre duas can-
tem o potencial de espelhar uma Impresa – Rua Calvet de Magalhães, 242 –
de outros corpos. Ou seja, esta didaturas, o Júri poderá decidir que seja
2770-022 Paço de Arcos) ou enviada por email
é a primeira vez que criam para humanidade e é um museu/arquivo para premiopessoa2019@impresa.pt.
compartilhado.
corpos diferentes dos seus, e por vivo. Às tantas, um dos intérpretes
4. Os originais que integrem essa docu- 2. O Prémio não poderá ser concedido a
via deste encontro entram novas confidencia ao público: “Fazemos de título póstumo.
mentação não serão devolvidos.
palavras e novos gestos. Com estes vós tímidas testemunhas alheadas/
intérpretes entra uma dimensão Somos nós o vosso corpo de hoje.” ARTIGO 3.º ARTIGO 7.º
da vida humana carregada de / CLAUDIA GALHÓS
1. Prémio será atribuído por um Júri, cujos O “Prémio Pessoa 2019” será constituído
história, que habitualmente tem
Presidente e Vice-Presidente serão res- por um diploma e uma dotação em dinheiro
muito pouca representatividade em petivamente designados pelos Jornal no valor de 60.000 euros.
cena. Uma ausência que implica EXPRESSO e pela CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS,
todo um léxico rico, que não é sendo os restantes membros convidados Prazo de candidaturas:
dado a ver nem a escutar. Tudo anualmente pelo Jornal EXPRESSO. até 22 de novembro de 2019
O LUGAR DO
isto tem relação com o título, nas CANTO ESTÁ VAZIO
palavras de Vítor: “Inicialmente, De Sofia Dias & Vítor Qualquer instituição ou pessoa portuguesa
a ideia da representatividade dos Roriz/Companhia Maior pode enviar propostas de candidaturas.
corpos em cena era teórica, aqui CCB, Lisboa, de 22 a 25

Saiba mais em expresso.pt


AS INSCRIÇÕES JÁ ESTÃO ABERTAS
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O suporte
como pintura
Manuel Baptista mostra obras realizadas entre 1963 e 2002,
num percurso nem antológico nem cronológico
TEXTO JOSÉ LUÍS PORFÍRIO

Q
uando imaginamos um suporte duas vivências bem diferentes: as constroem uma visão de permanente
para uma pintura, de cavalete, “curvas de nível” recentemente mutabilidade. Desde sempre no seu
já se vê, surge logo, por vistas na exposição de Rui Sanches trabalho “não se vai do simples ao
imposição do hábito, uma superfície na Cordoaria, funcionando com complexo, mas do complexo ao mais
lisa geralmente de preparado branco uma acumulação de planos que complexo” (José Gil no catálogo),
sobre uma tela tensa, esticada sobre construíam um volume, e a oficina ou seja, o suporte nunca é uma
uma grade de madeira ou, lembrando de alfaiate de um dos meus tios, com “página branca”, mas apresenta-se
obras antigas, aplicada sobre madeira. os interiores dos fatos planificados como matéria de pintura, matéria
O suporte, como o seu nome indica, sobre uma longa mesa, o jogo das essa que se poderia assumir como:
serve para receber outros materiais, entretelas e dos riscos de giz que desenho, no jogo dos brancos
transformados em linhas e cores construíam sobre um plano um sujos com limites sublinhados a
que irão construir imagens, ou não invólucro para um corpo humano. grafite e com inscrições a giz nas
imagens, sempre a duas dimensões. Em ambos os casos há jogo entre entretelas; colagem, nos papéis
Esta é uma ilusão ou uma falsa ideia o corpo, o espaço e o plano, mas cortados, rasgados, onde a destruição
que a pintura de Manuel Baptista (n. o plano entendido na sua plena e a construção mutuamente se
1936) escolhida por João Pinharanda materialidade — é isso mesmo que equilibram; relevo, em positivo nos
para esta exposição desmente ou acontece nestes trabalhos de Manuel enrugamentos e em negativo nos
subverte, numa série de trabalhos Baptista. cortes onde a tesoura e o x-ato são
QQQQQ realizados entre 1963 e 2002, num Desde muito cedo (1963) que o fundamentais, ora crescendo ora
SOMBRAS E OUTRAS CORES percurso que não é nem antológico suporte utilizado pelo pintor não escavando um suporte que pode
Manuel Baptista nem cronológico. é liso, é mesmo o contrário disso: estar muito longe do habitual,
Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, Ao atravessar a exposição, a uma tela que se enruga ou distende, com a utilização de carpetes
Lisboa, até 26 de janeiro de 2020 minha memória foi alertada para onde cor e relevo, luz e sombra em polipropileno de látex que
proporcionam um mergulhar ímpar
na matéria do suporte; escultura,
quando o relevo é exuberante e o
suporte se transforma num cilindro
penetrando a parede ou num cone
habitando o ângulo de uma sala. É
bom não esquecer os relevos mais
ténues, onde o jogo da luz, mais ou
menos rasante, é fundamental para a
sua leitura, porém, em todos os casos,
mais subtil ou brutalmente evidente;
o suporte, cortado, recortado,
escavado, enrugado, saliente, baço
ou transparente, é sempre a matéria,
exaltada e exaltante, da pintura de
Manuel Baptista.
O pensar e o sentir, o mental e o
manual, a invenção e o ofício são
inseparáveis nestes trabalhos,
num permanente convite a ver, e
a ver ainda mais, com intensidade
crescente. b
ANTÓNIO JORGE SILVA

“Janela com Paisagem” (1978)


e “Pintura” (1965), duas obras
de Manuel Baptista na Fundação
Arpad Szenes-Vieira da Silva

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A TABELA PERIÓDICA CICLO PIANO FORTE
MUSEU DO ORIENTE | www.museudooriente.pt
SOHO
Soho é um bairro no coração de Londres,
a sul de Oxford Street e a leste de Regent
Street. Deve o seu nome — no século XVII
— a um grito de caça ou de guerra. (O SoHo
nova-iorquino é uma piscadela de olho ao
homónimo londrino, mas significa apenas
que fica a sul/south de Houston Street.) As
origens são nobres — no meio da ajardinada
Soho Square ergue-se a estátua, escalavrada
pelo tempo, de Charles II, marido de Catarina
/ JORGE de Bragança —, mas foi no Soho que emergiu
CALADO a marginalidade subterrânea em meados do
século XX. Sexo, álcool e fantasia — um pouco
como no Bairro Alto lisboeta. A transgressão
em liberdade atraiu imigrantes e forasteiros, gente inconformista e
fora da caixa, a boémia artística. O coração feito tripas, quer dizer, o
cadinho alternativo da criatividade. Lembram-se de Carnaby Street?
Na mesma época, anos 1960, o Soho era descrito pela escritora P. D.
James como “o mais sórdido viveiro de criminalidade na Europa”.
Hoje saem do Soho novas tendências de design, moda, música, além
de continuar a ser a sede da indústria do cinema. A zona sofreu
recentemente uma grande transformação, com a construção do
Crossrail/Linha Elizabeth, que atravessa Londres de lés a lés e se PIANO SOLO COM XINYUAN WANG
estende por 117 quilómetros (a inaugurar em 2021). Tudo somado,
mais do que justifica a decisão da Photographers’ Gallery — nascida
16 NOVEMBRO | AUDITÓRIO | 19.00
em 1971 na periferia do Soho — de montar uma exposição dedicada
ao bairro, com o subtítulo de ‘Fotografando o Amor e a Ilegalidade
no Coração de Londres’, acompanhada por um excelente catálogo da
Prestel. Aqui se caça, compra e perde o amor e a luxúria. Já em 1942
Bill Brandt publicava em “Lilliput” fotografias de raparigas do Soho,
e uma década mais tarde Bert Hardy apresentava no “Picture Post” o
fotoensaio “What Makes Piccadilly?”, que é essencialmente sobre o
Soho. A exposição começa com estas e outras contribuições clássicas,
como as do francês Robert Doisneau ou do chileno Sergio Larrain,
mais as do livro seminal de László Moholy-Nagy “Os Mercados de
Rua de Londres” (1936). Há também um precioso registo fotográfico
do círculo do pintor Francis Bacon por John Deakin. A exposição
propriamente dita inclui amostras significativas dos trabalhos de
William Klein (“24 Horas na Vida do Soho”, 1980), Anders Petersen
(“Soho”, 2011), Daragh Soden (“À Procura do Amor”, 2018), Kelvin
Brodie (“Passaporte para o Soho”, 1968), Corinne Day (“Brewer
St.”, 1990-03), John Goldblatt (“O Quarto de Despir”, 1968) e
Clancy Gleber Davies (“Colony Room Club”, 1998-01), vários deles
encomendas do “Sunday Times”, “Creative Camera” e da própria
galeria. Um leitmotiv parece ser a escada estreita ao fundo do corredor
— a solidão do acesso, em tons escarlates, aos prazeres permitidos
num red light district —, como acontece numa imagem singular
de Daragh Soden (n. 1989), o mais novo dos artistas presentes na
exposição. Arrojado, simples e honesto, o trabalho de Soden — criado
especialmente para “Shot in Soho” — impressionou-me fortemente.
Klein (n. 1928) é o mais velho dos contribuidores. Quando publicou SYRINX: XXII
“New York”, em 1956, com o subtítulo ‘A Vida É Boa e Boa para Ti em
Nova Iorque’, disseram-lhe que aquilo “não era Nova Iorque; mais
30 NOVEMBRO | AUDITÓRIO | 18.30
parecia uma favela”. O Soho é um bairro onde o outro sempre se António Carrilho [flautas de bisel], Katharine Rawdon [flautas transversais] e Raj Bhimani [piano]
sentiu bem. Eu também. b

mecenas principal mecenas dos espectáculos seguradora oficial bilheteira online


SHOT IN SOHO
The Photographers’ Gallery, Londres, até 9 de fevereiro de 2020
M/ 6

INFORMAÇÕES | Av. Brasília Doca de Alcântara (Norte) | 1350-352 Lisboa | Tel. 213 585 200 | info@foriente.pt

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Cinema
Obrigatório Música Teatro & Dança

UM CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE COLOR SOUND FRAMES FRONTEIRA FECHADA


De Sidney Lumet Serralves, Porto, hoje e amanhã De Alves Redol
Cinemateca, Lisboa, segunda 19h Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, Alverca do Ribatejo,
Um ciclo dedicado a “encontros entre o analógico até 1 de dezembro
Este filme de Lumet adapta uma das mais populares e o digital, entre o predisposto e o imprevisto, e à
novelas de Agatha Christie, com o detetive bel- realização ao vivo tanto do som como da imagem”. Editada em 1972, já depois da morte do seu au-
ga Hercule Poirot (Albert Finney) na personagem Começa hoje, às 18h, com a performance sonora tor, “Fronteira Fechada” é uma peça neorrealista
central. Viajando no Expresso do Oriente, Poirot é e visual “António Caramelo vs. Demónio António”; concebida em torno de figuras de migrantes, e dos
confrontado com um misterioso assassínio. O filme seguindo-se, às 19h30, "Passion”, dos Demdike Stare seus esforços para terem uma vida melhor. Por um
valeu um Óscar a Ingrid Bergman. (na foto) com o artista visual e cineasta Michael daqueles traços que fazem da arte uma atividade
England. Amanhã, às 18h, o artista visual Paulo Lisboa possível de revisitar e reatualizar em permanência, a
EVOLUÇÃO DE UMA FAMÍLIA FILIPINA estreia “Asterismo. Sequência para Piano, Guitarra e peça presta-se a uma leitura da mais perfeita atuali-
De Lav Diaz
Projetor” com os músicos Marco Franco e Francisco dade. A encenação é de Rui Dionísio, para o grupo de
Cinemateca, Lisboa, hoje, 14h Cordovil; e, às 19h30, um concerto/performance teatro Cegada — uma companhia que é instrumental
de Jerusalem In My Heart. Durante os dois dias na existência do teatro na região de Alverca, e que
Esta obra de Lav Diaz acompanha o périplo de uma estará patente no foyer do auditório de Serralves a ficou este ano sem financiamento estatal.
família de camponeses entre 1971 e 1987, no duro instalação “Incidence of Light”, de Mariska de Groot.
período em que vigorou a lei marcial nas Filipinas sob NEW AGE, NEW TIME
o poder de Ferdinando Marcos. “Cresci durante esta ROBERT FORSTER Teatro Viriato, Viseu, até dia 24
época, conheço as personagens”, disse o realizador. Passos Manuel, Porto, sexta, 21h30;
“Evolução de Uma Família Filipina” foi o filme que o Musicbox, Lisboa, dia 23, 22h30 Este ano na sua oitava edição, a mostra de dança
revelou no Ocidente. contemporânea “New Age, New Time” traz a Viseu
Robert Forster, cofundador dos Go-Betweens, espetáculos de Clara Andermatt & Mickaella Dantas,
AQUELA LOIRA apresenta canções do seu disco a solo deste ano, Flora Détraz, Yola Pinto & Simão Costa, Madalena
De Jacques Becker
“Inferno”, acompanhado pela sua mulher, a violinista Victorino & Ricardo Machado, Sara Anjo e Jonas &
Cinemateca, Lisboa, quarta, 21h30 Karin Bäumler. Lander. Além dos espetáculos, há uma masterclass
orientada por Vera Mantero e promovida pela Com-
Casque d’Or (Simone Signoret) é a bela amante de MOOR MOTHER panhia Paulo Ribeiro (hoje), bem como um conjun-
um bandido, Manda (Serge Reggiani), que acaba ZDB, Lisboa, amanhã, 19h to de conversas — “Lugares do Público na Dança
traído pelo chefe do grupo. Um dos filmes mais Contemporânea” — orientadas por Paula Varanda,
célebres de Jacques Becker e uma das obras mais Camae Ayewa regressa com novo disco, “Analog nas quais se pretende estabelecer um diálogo com
emblemáticas do cinema francês dos anos 50. Fluids of Sonic Black Holes”. o público/as pessoas, com vista a auscultar as suas
relações com os espetáculos, os seus desejos, ou as
suas posições quanto à dança.

THE CROWN O INEXPLICÁVEL FATHER BROWN


Televisão

Netflix História FOX Crime


Estreia amanhã Estreia amanhã, 22h15 Estreia terça, 22h
(Temporada 3) (Temporada 1) (Temporada 7)

Novos episódios da série William Shatner é o an- O Padre Brown, interpre-


histórica de Peter Morgan fitrião de uma série cen- tado por Mark Williams,
contam com Olivia Col- trada nos mistérios mais investiga novos crimes
man no papel da rainha fascinantes, estranhos e nos dez episódios da série
Isabel II. indecifráveis do mundo. da BBC agora em estreia.

E 90

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Top10
Cinema Semana de 31/10 a 6/11

ICA — O presente ranking resulta dos dados transmitidos pelos promotores dos espetáculos,
Número de Número de
espectadores espectadores

Exposições Livros 1 Joker


por semana

92.106
acumulados

737.097

nos termos do disposto no Decreto-Lei nº 125/2003 de 20 de junho


2 Exterminador Implacável: Destino... 53.068 53.068

ARQUIVOS GULBENKIAN, GV A1-00188


3 Maléfica: Mestre do Mal 54.114 179.757
4 A Família Addams 47.911 47.911
5 Um Dia de Chuva em Nova Iorque 22.381 46.880
6 Doutor Sono 18.063 18.063
7 Projeto Gemini 12.809 110.286
DISCURSOS 8 Zombieland: Tiro Duplo 11.461 25.859
Mark Twain
Tinta da China, €24,90 9 Abominável 8883 30.816
10 Bráulio e o Mundo dos Gatos 7711 27.993
ART ON DISPLAY. Este volume é uma espécie
FORMAS DE EXPOR, 1949-69 de maná: a prosa humorística
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, de Twain aplicada aos mais Discos Semana 45 | De 1/11 a 7/11
até 2 de março de 2020 variados assuntos e circuns- Semana
tâncias. Orador em banque- anterior

Uma reflexão sobre a arte de expor e as suas trans- tes, encontros anuais e outras 1 - Roubados Aldina Duarte
formações no tempo de mudança do pós-II Guerra cerimónias públicas, o escritor
2 4 Confidências (De Um Homem...) João Pedro Pais
Mundial. Usam-se protótipos reconstruídos e obras fintava o protocolo e dizia
escolhidas das coleções Gulbenkian para articular sempre o que lhe apetecia, 3 2 Abbey Road Beatles
linguagens e os modos de dar a ver de figuras como como lhe apetecia. Estas 4 3 Oitenta Carlos do Carmo
Franco Albini e Franca Helg, Carlo Scarpa, Lina Bo doses fartas de hilaridade e
5 1 Cry Cigarettes After Sex

AFP — Ranking produzido pela GfK Portugal


Bardi, Aldo van Eyck e Alison e Peter Smithson. inteligência devem ser consu-
midas como se consome uma 6 6 The Platinum Collection Queen
POLDRA 2019 iguaria muito doce: modera-
damente para não enjoar (o 7 7 Era Uma Vez... Panda e os Caricas Panda e os Caricas
Mata do Fontelo, Viseu
poldra.com próprio autor o sugere). 8 9 Mariza Mariza
9 - When We All Fall Asleep, Where Do... Billie Eilish
Um projeto de arte pública que pretende dotar Viseu
de uma coleção de arte a céu aberto adiciona cinco 10 5 Western Stars — Songs from the Film Bruce Springsteen
novas esculturas permanentes, respetivamente, da
autoria de Miguel Palma (Portugal), Elisa Balmace-
da (Chile), Steven Barich (EUA), Natalia Bezerra & Livros Semana 44 | De 28/10 a 3/11
Kaitlin Ferguson (EUA) e Liliana Velho (Portugal) a
Ficção
um local com valor patrimonial.
Semana

de distribuição: livrarias/outros (hipermercados e supermercados). Esta monitorização é feita semanalmente, após a recolha
Estes tops foram elaborados pela GfK Portugal, através do estudo de um grupo estável de pontos de venda e de dois canais
anterior

da informação eletrónica (EPOS) do sell-out dos pontos de venda. A cobertura estimada do total do mercado é de 80%
DE NOITE, TODOS OS GATOS 1 2 Imortal J. Rodrigues dos Santos
João Gabriel A TERRA INABITÁVEL 2 1 A Filha de Vercingétorix J. Y. Ferri e D. Conrad
Galeria do Teatro da Politécnica, Lisboa, David Wallace-Wells
até 14 de dezembro Lua de Papel, €16,90 3 - M#rda! Amo-te Pedro Chagas Freitas
4 3 Suite 405 Sveva Casati Modignani
Nova série de pinturas de um jovem artista na qual Muito antes de o tema das
predominam fragmentos de situações, ambientes alterações climáticas invadir 5 5 Viagens Olga Tokarczuk
obscurecidos e temperaturas tépidas, num jogo o espaço público, já o autor As categorias consideradas para a elaboração deste top foram:
Literatura, Infantil e Juvenil, BD e Literatura Importada
entre a revelação e o mistério que faz de nós, como deste livro andava a cobrir o
os gatos, distanciados observadores. assunto, reunindo factos e
teorias, cotejando trabalhos
Não ficção
científicos e entrevistan-
Semana
UMBRE do investigadores. Neste anterior

HBO Portugal
livro-manifesto muito bem 1 2 A Arte Subtil de Saber Dizer que... Mark Manson
Estreia quarta documentado, tenta anteci-
par os cenários de um mundo 2 1 Uma Beleza que Nos Pertence J. T. Mendonça
(Temporada 3)
“pós-Aquecimento Global”. 3 - As Gémeas de Auschwitz Eva Mozes Kor
Serban Pavlu protagoniza Dizer que os prognósticos as-
4 4 Agenda Solidária IPO 2020 V. A.
a série dramática sobre sustam é um eufemismo. Eles
um homem de família no provocam espanto e terror. 5 3 Um Bolo por Semana Rita Nascimento
perigoso mundo da máfia Um terror útil, se servir para As categorias consideradas para a elaboração deste top foram:
Ciências, História e Política, Arte, Direito, Economia e Informática, Turismo, Lazer e Autoajuda
de Bucareste. abrirmos os olhos a tempo.

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QUE COISA SÃO AS NUVENS

/ JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

C
OS POBRES
CHEGA-SE À RUA PORQUE, compreendendo as consequências que as nossas decisões têm ou
como elemento de reforço ou de fragmentação da comunidade
NUM DETERMINADO INSTANTE social. Lembro-me de uma oportuna versificação que Adília
DA VIDA, NOS DESCOBRIMOS Lopes fez, num dos seus livros, de um dito repetido por Soeur
COMPLETAMENTE SÓS Emmanuelle, uma mulher que viveu servindo os mais pobres dos
pobres no Egito: “Renuncia às coisas inúteis/ e partilha.” É urgente
hegar à rua e à situação de sem-abrigo é tornar a partilha mais operativa e mais normal.
assustadoramente fácil. Os ingredientes Depois, aceitando que podemos aprender muito, por exemplo, com
são mais ou menos os mesmos, e nem as pessoas envolvidas seriamente no voluntariado. Elas explicam que
precisam de estar todos reunidos: o que podemos fazer é afinal simples, quotidiano e está ao alcance
pobreza, erosão dos laços familiares, de todos. Os pobres não são dados estatísticos, nem abstrações:
vulnerabilidade social, feridas psíquicas, são seres humanos que precisam de outros seres humanos. De
a sobrecarga devastadora de um facto, uma atenção afetuosa, um olhar onde o preconceito e o
infortúnio, dependências extremas, medo foram substituídos pelo reconhecimento do outro e pela
solidão e abandono. Deixar a rua, pelo compaixão, constituem muitas vezes o princípio de uma história
contrário, é um processo lento e exigente diferente. Perguntar ao outro o seu nome e dizer-lhe o nosso. Dar
de reconstrução, no qual não só o próprio mas a comunidade tem tempo e não apenas um fugidio auxílio. Partilhar um sorriso que
de investir. Na verdade, chega-se à rua porque, num determinado transmita ao que está em situação de vulnerabilidade a certeza, por
instante da vida, nos descobrimos completamente sós. pequena que seja, que foi visto e que a sua existência é valorizada.
Aprisionados dentro de uma solidão que, quem avalia de fora, só Reconhecer os seus direitos. Uma das coisas em que o Papa
a custo pode imaginar. E sai-se da rua por um processo contrário: Francisco insiste — e volta a focar na mensagem destinada ao III Dia
de repente, percebemo-nos acompanhados e sustidos pelo Mundial dos Pobres que amanhã, 17 de novembro, se celebra — é no
exercício de confiança que alguém acende em nós. E isso torna- direito dos pobres a ocupar o espaço público, contrariando “uma
se o trampolim necessário para um paciente trabalho pessoal de arquitetura hostil pensada para desembaraçar-se da sua presença”.
esperança. Eles que, simplesmente por serem pobres, são denunciados como
Claro que há uma responsabilidade prioritária que cabe às “ameaçadores”, “incapazes” e “tratados como lixo”.
políticas do Estado, e não podemos esquecer que a qualidade Se abrirmos os olhos (e o coração) os pobres tornam-se nossos
de uma sociedade democrática se mede pela forma como os mestres de humanidade. Falo por mim. Depois de estar quase
mais frágeis são tratados. Mas há também uma responsabilidade um mês a viver num dos apartamentos de uma praça que me
de cada um de nós que, à nossa dimensão e com os nossos parecia, olhada por detrás dos vidros da minha janela, um lugar
recursos (recursos de humanidade, sobretudo), somos chamados desarrumado, anódino, cheio de entraves, demorei-me um bocado a
a passar da resignação e da indiferença à ação. Desde logo, falar com um senhor romeno que dorme numa das arcadas. Quando
tomando consciência do que significa viver numa sociedade lhe perguntei o que achava da nossa praça o rosto dele abriu-se:
do consumo e do desperdício (sempre propensa a isolar-nos na “Esta praça é a minha família.” E apresentou-me, um por um, os
bolha do supérfluo), ponderando bem o nosso estilo de vida e seus residentes. b

OS POBRES NÃO SÃO


DADOS ESTATÍSTICOS,
NEM ABSTRAÇÕES: SÃO
SERES HUMANOS QUE
PRECISAM DE OUTROS
SERES HUMANOS

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vícios
“PESSOAS SEM VÍCIOS TÊM POUCAS VIRTUDES”

Um crítico
à solta
O irónico e mordaz Jay Rayner,
que assina as temidas críticas de
restaurantes do “The Guardian”,
esteve no Porto para uma
apresentação no Melting
Gastronomy Summit e falou
com o Expresso sobre
comida, música e até sexo
FOTOGRAFIAS LEVON BISS

TEXTOS RAFAEL TONON

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J
ay Rayner é um crítico de res-
taurantes mais conhecido pela
linguagem incendiária, e por
vezes mordaz, com que escreve sobre
os lugares que visita para o
“The Observer” (que vai
para as bancas ao fim de
semana no Reino Uni-
do juntamente com o
“The Guardian”). É
um tipo que não cos-
tuma medir a pena
— muito menos a
ironia britânica —
para escrever.
Do seu reper-
tório já saíram
pérolas como:
“a esse preço,
eles devem levar o
maldito animal para o
restaurante e instalá-lo de-
baixo da mesa para que me
possa dar prazer enquanto eu
o como”, sobre um lombo de
vaca vendido a 100 libras o qui-
lo num restaurante chamado Beast.
Ou que um prato de alcachofra num
restaurante vegan em Chelsea chei-
rava a “uma longa tarde de domingo
na sala suburbana superaquecida de
alguém”.
A sua crítica mais famosa, porém,
foi escrita sobre o famoso restaurante
Le Cinq, no Four Seasons Hotel Geor- A DERRETER
ge V, em Paris. “Em termos de rela-
ção custo-benefício e expectativa, o A Melting Gastronomy Summit
Le Cinq forneceu de longe a pior ex- começou quinta-feira (dia 14) e
periência em restaurante que já vivi encerra hoje, com a apresentação
nos meus 18 anos de trabalho”, es- do celebrado chefe brasileiro Alex
creveu, descrevendo que um canapé Atala, que vai falar da relação do
em esfera transparente mais “parecia seu trabalho de pesquisa com
o implante de silicone para os seios a natureza, e com Lia Reinaldo
e Michael Howell, criadores do
da Barbie” e que o salão é decorado
Devour, um festival de filmes de
“em vários tons de bege, castanho e
comida, tendo selecionado alguns
foda-se”. para serem apresentados ao
Rayner diz ao Expresso que as crí- público do evento.
ticas negativas permitem-lhe diver- Organizado pela AGAVI —
sificar o seu léxico, por isso, o encan- Associação para a Promoção da
tam tanto e acabam por resultar em Gastronomia, Vinhos, Produtos
textos mais interessantes. “Em minha Regionais e Biodiversidade,
defesa, devo dizer que representam em conjunto com a Academia
apenas um quinto do que escrevo. Internacional de Gastronomia, a
Não vou a um restaurante para comer Melting reuniu mais de 30 oradores
mal, a minha expectativa é sempre a nacionais e internacionais, entre
eles André Chiang (o chefe de
oposta”, confessa. “Mas são elas as
Singapura), Richard Hart (o padeiro
que são as mais lembradas, afinal.”
da badalada padaria Hart Bageri,
Como jornalista — e escritor, per- em Copenhaga), e o crítico do
sonalidade televisiva (é júri no “Mas- Expresso, Fortunato da Câmara.
terchef”) e apresentador de rádio Além do simpósio, há ainda o
(onde comanda o “The Kitchen Cabi- Melting Market, com produtos
net”, na Rádio 4), funções que acu- portugueses, e o Melting Lab, com
mulou em mais de 20 anos de carreira showcookings e degustações.

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— diz que procura sempre contar ao Como crítico de restaurantes, escrevo
leitor boas histórias a partir da co- pelo ponto de vista do comensal. Não
mida que encontra nos restaurantes. conseguiria escrever sobre músicos,
“Eu sou pago para escrever, não para eu sou um deles, percebo aquilo por
comer”, afirma. “O pressuposto é que dentro, nutro uma simpatia imedia- Sobre um canapé
eu faça o leitor ler os meus textos de
cabo a rabo, por isso, não adoto o cri-
ta por músicos para poder escrever
sobre o trabalho deles com distanci-
servido no
tério de estrelas.” amento”, admite. restaurante Le
É o que ele tem feito para lá das Então, como se sente quando al-
páginas dos jornais, com o lançamen- guém escreve maus comentários so-
Cinq, em Paris,
to de livros em que trata o universo bre uma apresentação do Jay Rayner disse:“Parecia
da gastronomia de uma maneira mais Quartet. “Já tivemos comentários ne-
“aprofundada e reflexiva”, como diz. gativos, claro, não só como músico, o implante de
E foi isto que trouxe a Portugal esta
semana: Rayner apresentou o livro
mas também como autor. Tenho a re-
solução de nunca responder, porque
silicone para os
“The Ten (Food) Commandments” seria ridículo. A minha premissa é se seios da Barbie”
na primeira edição do Melting Gas- gostas dos elogios que te fazem numa
tronomy Summit, no Porto, no qual crítica, não podes levar a peito quan-
reúne dez “regras” sobre como co- do o que dizem é mau.”
mer melhor. Rayner confessa que tenta perce-
“É obviamente uma ironia, a mi- ber se há algo que pode levar como
nha ideia de vender a ‘terra prometi- uma crítica construtiva. “Sabe, vivo
da’ em termos de regras gastronómi- comercialmente dessas apresenta-
cas é uma piada: não quero doutrinar ções que faço, dos livros que vendo”,
ninguém sobre a forma como se deve diz. “Mas leio sempre tudo.”
comer. O meu livro é uma resposta O crítico defende que há um mai-
a títulos sem alegria que tentam fa- or interesse em ler as críticas gastro-
zer isso, como o “Saber Comer — As nómicas e outros textos sobre comi-
Regras de Ouro’, do Michael Pollan”,
confessa.
da (assim como os de música, cine-
ma, entre outros temas), porque as
“Gasto o meu
No seu mais recente lançamento, pessoas precisam de fugas mais do dinheiro a visitar
“My Last Supper: One Meal, a Lifeti- que nunca, especialmente quando se
me in the Making”, o crítico aborda trata de notícias de jornal, “cada vez restaurantes,
a ideia da última refeição da nossa mais deprimentes”. passo muito
vida para propor aos leitores reflexões “Falo do mundo, mas especial-
sobre aquilo que põem no prato. “O mente de Inglaterra, como a nossa tempo a ler
meu papel é fazer as pessoas pensa-
rem, questionarem-se, essa é a brin-
rotina se tornou estranha e distorcida
ultimamente [com a questão do ‘Bre-
outras críticas
cadeira”, afirma. xit’]. Às vezes, até é difícil não trazer sobre eles”
Mas, acima de tudo, fazer com que o tema, mesmo que com certa ironia,
gostem de restaurantes tanto quan- para as críticas. Contudo, os comen-
to ele. “Eu adoro restaurantes, sem- tários dos meus leitores dizem clara-
pre gostei, mesmo antes de começar mente que eles leem os meus textos
a escrever sobre eles. Gasto o meu como um refúgio.”
dinheiro a visitar restaurantes, pas- O de Rayner está na comida, na
so muito tempo a ler outras críticas música e nos prazeres mundanos. “O
sobre eles. Nunca fiz uma campa- hedonismo nunca foi tão importante, “A minha ideia
nha para ser um crítico de restau- é necessário procurar esses tempos
rantes, simplesmente tornei-me um, de prazer absoluto”, ressalva. E qual
de vender a
algo que agradeço imenso”, conclui. deles julga ser mais importante: boa ‘terra prometida’
Esse é o segredo, segundo Rayner, de comida, boa música ou bom sexo?
manter a relação ‘acesa’ há mais de 20 “Eu estaria tentado a dizer bom sexo, em termos
anos no mercado.
Mas além das mesas, ele nutre
mas devo confessar que ele não acon-
tece com a mesma frequência com
de regras
uma paixão pela música: é pianista que ouvimos uma boa música ou co- gastronómicas
do Jay Rayner Quartet, que faz apre- memos uma boa comida”, ri. “Dessa
sentações em Londres e noutras ci- forma, teria de escolher boa comi- é uma piada: não
dades de Inglaterra, algo que cresceu da, já que não tê-la representaria um quero doutrinar
na sua agenda nos últimos tempos. grande buraco na minha vida, inclu-
“Tem sido uma loucura, com a colu- sive profissional. Mas você não seria ninguém sobre
na semanal, livros, concertos”, ad-
mite. Mas nunca lhe ocorreu escrever
tão mau para me fazer escolher entre
eles, não é?” Depende do que vais
a forma como
críticas sobre música. “Não poderia. dizer da comida do Porto, Rayner! b deve comer”

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R ECE I TA
POR JOSÉ AVILLEZ
GRUPO JOSÉ AVILLEZ

Bacalhau lascado com grelos, broa e alheira


Um prato consistente
4 pessoas | Tempo de preparação: 20 minutos | Tempo de confeção: 90 minutos

Ingredientes

C
omece por preparar a broa com alheira, separando que se acumulou no fundo do pírex, e reserve para outras
PARA O BACALHAU CONFITADO
a côdea do miolo. Num robô de cozinha, na velo- utilizações.
500 g de postas de bacalhau;
cidade média, triture primeiro o miolo e reserve-o. 3 dentes de alho esmagados; De seguida, prepare as migas de bacalhau, começando
Depois, triture a côdea, na velocidade máxima. Misture o 3 folhas de louro; 1 ramo por cozer os grelos, num tacho médio com água abundante
miolo e a côdea triturados numa taça larga. De seguida, re- de tomilho; azeite virgem q. b.; a ferver, sobre lume médio, durante 10 minutos. Terminado
tire a pele à alheira. Salteie a alheira, com um fio de azei- pimenta-preta moída o tempo, com uma escumadeira, pressione ligeiramente os
te quente e os dentes de alho esmagados, numa frigideira no momento q. b. grelos para lhes retirar alguma água. Pique-os grosseira-
antiaderente, sobre lume médio, durante 3 minutos. Deixe mente e reserve. Coloque os dentes de alho num almofariz
PARA AS MIGAS DE BACALHAU
arrefecer e, com a ajuda de um garfo, esfarele bem a alhei- 500 g de bacalhau confitado;
e esmague-os até obter uma pasta. Salteie os grelos, com
ra. Junte à broa triturada e envolva bem com as mãos de 300 g de grelos; 5 batatas um fio de azeite quente e a pasta de alho, numa frigideira
modo a obter uma mistura areada. Reserve. médias cozidas; 5 dentes de alho antiaderente, sobre lume médio. Depois, adicione a batata
De seguida, prepare o bacalhau confitado. Primeiro, esmagados; 4 ovos frescos; cozida ligeiramente esmagada. Retifique os temperos com
pré-aqueça o forno a 80°C, depois, coloque as postas de azeite virgem q. b.; sal marinho sal e pimenta-preta moída no momento, e junte o baca-
bacalhau num pírex de forno e junte o tomilho, o louro e o q. b.; pimenta-preta moída no lhau, envolvendo-o sem o desfazer.
alho esmagado. Retifique os temperos com pimenta-pre- momento q. b. Coloque as migas de bacalhau num pírex, cubra com a
ta e cubra com azeite (o bacalhau deverá ficar submerso PARA A BROA COM ALHEIRA
broa de alheira e leve ao forno a 180°C, apenas para aque-
no azeite). Leve ao forno pré-aquecido, a 80°C, duran- 1 broa de milho; 1 alheira; cer, durante cerca de 10 minutos.
te 30 minutos. Terminado o tempo, retire do forno. Com 3 dentes de alho esmagados; Numa frigideira antiaderente com um fio de azeite, so-
a ajuda de uma escumadeira, passe o bacalhau para ou- azeite virgem q. b. bre lume médio, estrele os ovos. Retifique os temperos com
tro recipiente. Limpe-o de peles e espinhas e, com a aju- pimenta-preta na gema e flor de sal na clara.
da de um garfo, lasque-o. Depois, retire os aromáticos do Disponha os ovos sobre a crosta de broa de alheira e
pírex e descarte-os, separe o azeite do caldo de bacalhau sirva de imediato. b

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VI N H OS
POR JOÃO PAULO MARTINS

PAKIN SONGMOR/GETTY IMAGES


Aprender só nos pode fazer bem
Algumas lições bordalesas

E
star presente numa prova dos grandes de Bordéus e brancos licorosos de Sauter- tintos mostraram um extraordinário trabalho
vinhos de Bordéus é coisa que não se nes, num total de 98 vinhos diferentes. Cada de barricas, com as madeiras perfeitamente
questiona, é ir e a correr, se possível. Foi provador provava o que queria, as vezes que integradas no conjunto, resultando também
há uma semana que estive em Londres na quisesse, com exceção dos sete magníficos, em provas de boca onde os taninos, mesmo
prova anual dos tintos de Bordéus, neste caso que só podiam ser provados uma vez: Haut- nos que os apresentavam mais agrestes, se
da colheita de 2015. Levada a efeito pelo Insti- -Brion, Lafite, Margaux, Mouton Rothschild, mostraram muito finos e bem integrados. É
tuto dos Masters of Wine, a prova, com grande Cheval Blanc, Angelus e Chateau d’Yquem. claro que a acidez é sempre boa, sobretudo no
rigor organizativo, serviço perfeito e horários Provei cerca de 60, entre os que já conhecia e ano de 2015, que gerou vinhos elegantes, re-
ao minuto, teve muita gente a provar, desde a outros em que me estreei, e foi muito curio- sultado de um estio moderado de temperatu-
velha guarda dos primeiros Masters of Wine so verificar que os 2015 se mostraram de rara ra e muito longo, o que permitiu maturações
(MW) até novos provadores vindos de dife- elegância e finura, sobretudo nos vinhos da muito equilibradas. Provavelmente não serão
rentes partes do mundo. O título de MW co- chamada margem esquerda. Os da margem dos vinhos mais longevos, mas mostram um
meçou a ser atribuído em 1972 e apenas exis- direita, Saint-Émilion e Pomerol, revelaram- saber muito evidente do como fazer e como
tem 390 felizardos, em 30 países, que estão -se excessivamente alcoólicos (vários com fazer bem. E sabendo-se que o Cabernet Sau-
autorizados a usar as duas letras mágicas a 15 graus), o que normalmente acarreta con- vignon é aqui a casta rainha, é muito bom ver
seguir ao próprio nome. Para isso tiveram de sequências na delicadeza dos vinhos; ficam que um bom trabalho de viticultura e enolo-
cumprir um programa rigoroso, teórico e prá- mais pesados, mais cansativos, mas também gia pode colocar a casta no sítio certo, sem
tico, muito difícil, muito caro e também mui- mais atrativos para muitos wine writers que que marque o vinho em demasia. São me-
to desanimador, porque muitos são os candi- se renderam à margem direita. Pois no meu lhores do que os nossos? Não, são diferentes,
datos e poucos os laureados. Já tivemos vári- caso não tive qualquer dúvida: foi na margem mas em termos da qualidade e perfeição téc-
os candidatos nacionais, mas até agora ainda esquerda — Margaux, Saint Julien e sobretu- nica deixam-nos a pensar. E é também por
ninguém conseguiu o título. A prova con- do Pauillac — que encontrei os vinhos que isso que devemos, de mente aberta, provar o
templava vinhos tintos das várias sub-regiões justificam esta crónica. Porquê? Porque estes que os outros fazem. b

Herdade Aldeia de Cima Duorum branco Esporão Vinho


Reserva branco 2017 2018 de Talha tinto 2018
FORNECIDOS PELOS PRODUTORES)
(OS PREÇOS, MERAMENTE INDICATIVOS, FORAM

Região: Reg. Alentejano Região: Douro Região: Alentejo


Produtor: Herdade Aldeia Produtor: Duorum Vinhos Produtor: Esporão
de Cima do Mendro Castas: Rabigato, Gouveio, Casta: Moreto
Castas: Arinto, Alvarinho, Antão Vaz Arinto, Códega do Larinho Enologia: Sandra Alves/
Enologia: Jorge Alves e António Enologia: José Maria Soares David Baverstock
Cavalheiro Franco Preço: €25 (enoturismo do Esporão)
Preço: €15 Preço: €12,50 Vinha de 80 anos plantada em
É o novo projeto de Luísa Amorim na zona Uvas do Douro Superior (Castelo pé-franco, em terrenos arenosos.
da Vidigueira, onde se procura tirar Melhor), vinhas plantadas em Fermenta em talha revestida a
partido das encostas da serra do Mendro terrenos xistosos. Cerca de 30% pez-louro, uvas só parcialmente
para gerar vinhos originais e diferenciados do mosto fermentou em barrica desengaçadas. 4650 garrafas
Dica: Mostra muito boa frescura citrina, Dica: Bom equilíbrio entre Dica: Aberto na cor, aromas antigos
um bom equilíbrio entre aroma e sabor. a fruta branca e a madeira, com notas vegetais, polido e sem
Gastronómico, não precisa de guarda. bem integrada no conjunto. excesso de aromas de resinas. Uma
Polido, elegante, com carácter Atrativo e polivalente à mesa homenagem às talhas alentejanas

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SO B R E M ESA
POR FORTUNATO DA CÂMARA

Essência e fundamento Lista curta de pratos principais, mas


a evidenciarem dedicação e empenho
em surpreender. Vistoso, o “Linguado
ACEPIPE
O Essencial tem uma bela cozinha, mas e couve-coração” (€18), com um filete Simenon
ser basilar é ter princípios que levem aos fins
do pescado que remetia para um ‘su-
premo’ (peito de ave), enrolado com levou
elegância, a proteger uma musse de Maigret
peixe com estragão aromatizada com
elegância, e ao lado um ‘naco’ de couve para a mesa
a exalar notas de fumo e sabor cítrico. A Cozinhar enredos e his-
ungir o linguado, um fantástico molho tórias de entreter tem a
sedoso de champanhe. Na “Codorniz, sua ciência narrativa, com
girolles & foie gras” (€19), coxas e pei- nuances e ingredientes
tos desossados e de interiores enrique- precisos para nos deleitar a
cidos com o fígado, numa composição imaginação. Fazer da prosa
visual feliz, com os chapéus dos cogu- alimento, para leitores ávi-
dos, é o complemento au-
melos amarelos e o molho ocre da ave
toral de quem escreve com
a dar uma saborosa patine outonal ao um olho no prato, a mão no
conjunto. A guarnecer, o veludo excelso estômago, e a língua a co-
de um puré de batata ratte. Impecáveis cegar o palato. O escritor
as “Bochechas de porco, abobrinha e Georges Simenon gravou
pastinaca” (€17), com a carne a indici- bem a sua infância em
ar cozedura prévia a vácuo, mantendo- Liège, entre as heranças
-se tenra e rosada, mas de exterior bem gustativas de pai holandês
e mãe belga. Os ‘arenques
‘caramelizado’, e o molho condizente, jovens’ (maatjes em neer-
abóbora-manteiga grelhada e a doçura
PEDRO NUNES

landês) que devorava ‘crus


delicada do puré de cherovia. ou fumados’, os bouquet-
Nos vinhos, escolha difícil a pre- tes (crepes finos), ou as
ços amigáveis e oferta a copo diminu- tartes de arroz, recheadas
ta. Serviço distante e de rosto fechado, de arroz cozido com passas

D
urante anos a cozinha francesa divino bem mundano: o prazer da exceto quando o chefe se aproximou e frutas cristalizadas, que o
faziam salivar.
esteve confinada entre paredes mesa! Apostar nela é ser quase contra com amabilidade para explicar os pra-
O seu bem-sucedido ins-
de hotéis. Preços desmesurados a torrente de gente apostada em pro- tos, porém o tom do staff andou mais petor Jules Maigret surgiu
para o mundo exterior, e não raras ve- var e aprovar tudo, sem tempo para pelo mutismo. ‘Deixar’ coisas na mesa como um alter ego das
zes uma cozinha que se apresentava se filiar a nada. O Essencial corre bem — a conta foi entregue de cara virada alegorias gastronómicas
com panache, mas de técnicas e pro- esse risco, e logo em pleno Bairro Alto, para nenhures — não é o que se espe- de Simenon. O ficcionado
dutos duvidosos. Vivia-se o adven- a quadrilha cosmopolita que alberga ra quando se paga acima dos €40/pax. tinha papilas viajadas, mas
to da chamada ‘nouvelle cuisine’, mas quase todos os conceitos da cidade. Depois de pagar, podíamos ter saído afeição total pela cozinha
procedia-se ao aviltamento da ideia Sala pequena e cozinha aberta so- ‘à francesa’, que ninguém estava a dar tradicional, e na sua Louise
a mulher perfeita para a
base, como aliás sucede a todos os bre as mesas, com pouco mais de uma atenção às poucas mesas. O chefe sen-
concretizar, fosse numa
momentos de rutura. Primeiro sur- vintena de lugares. Lotação esgotada e tado com um cliente… ‘tarte de ameixas mirabel-
preendem, depois abastardam-se na alguns clientes a surgirem para a se- Nas sobremesas, o “Mil-folhas de les’ ou nuns ‘caracóis à al-
agonia do sucesso. gunda volta. O arranque foi animado caramelo salgado” (€6) espalhou leve- saciana’. Noutros repastos
A cozinha francesa continua a ser com os “Boletos e figos” (€10), exi- za na massa estaladiça, entremeada de imaginados ou vividos por
uma base admirável de como pre- bindo fungos de silhueta esguia, em creme de baunilha e a luxúria carame- Maigret constam: ‘Sopa de
parar e tratar os melhores produtos, tiras grossas de faces bem douradas e lar. A “Tarte Tatin” (€6) cumpriu nas cebola gratinada’, ‘quiche
com ou sem tendências, pois, sendo com um molho escuro (demiglace de maçãs bem caramelizadas, embora de lorraine’, ‘brandade de
bacalhau’, ‘pato à moda de
uma cozinha de cariz essencial para carne) de notas agridoces, raiado com sabor frutado discreto, sendo incurial
Rouen’ (de cabidela), as
quem quer fazer bem, está imune a natas, sobre gomos verdes de minifi- na base de massa folhada. Magnífico o pútridas, porém venerá-
modismos e estados de espírito. O que gos frescos, mas que fariam mais sen- “Paris-Brest de avelã e amêndoa” (€6), veis, ‘andouillettes’ (bexiga
é bom, quando se radica em ser bom, tido in illo tempore! Seguiu-se com a com o anel de massa choux a levitar de de porco), ou uns aristo-
é (será) sempre bom! A cozinha divi- entusiasmante “Patê en crôute & pi- frescura, num recheio pleno de sabor à cráticos ‘crepes Suzette’.
de-se entre boa e má (alguém dixit!), cles” (€9), de crosta folhada densa e boa pasta caseira de praliné. Quanto a moradas, o
a partir daqui cabem bons mundos e geométrica, no seu corte retangular, A essência de um restaurante resi- Fouquet’s era inevitável
maus fundos, e à França devemos um com o recheio de pato e espargos em de na qualidade da sua cozinha. Aqui, para Maigret, pois para
Simenon havia sido o seu
contraste com cenoura e beterraba o Essencial está garantido. Quanto a primeiro amor na restaura-
em suave conserva avinagrada. Re- outros elementos: (des)acolhimento ção parisiense.
frescante e cativante o terra-mar de e (des)conforto da ruidosa sala (mú-
ESSENCIAL “Novilho e ouriço-do-mar” (€12), a sica, clientes e a hotte de extração), a
Rua da Rosa, 176 – Lisboa ser um bife tártaro com carne e tem- casa ganhará em rever fundamentos.
Telefone: 211 573 713 pero de gabarito, servido dentro do A Lisboa turística aguenta muito (tem
Encerra ao domingo e à segunda-feira ouriço, com os corais marinhos sobre aguentado!), mas restaurantes novi-
(serve apenas jantares) o picado bovino e o toque salino de nhos e já com um certo despeito… pode
uma juliana de alga nori. ser um novo feito, sei lá! b

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as nossas recomendações Saiba mais sobre estas e outras sugestões em
boacamaboamesa.expresso.pt

onde comer Salpoente


Canal de S. Roque, 83, Aveiro.
Marégrafo Tel. 234 382 674
Rua 5 de Outubro, 76, Buarcos.
Tel. 233 433 150
Deixe-se levar pelas sugestões de
Carlos Ferreira e pelo empenho
em proporcionar refeições que
perdurem na memória. Opte por
uma das propostas vindas do mar.
Para algo completamente dife-
rente, escolha um naco de Rubia Neste “espetáculo de sentidos”
Galega Premium ou um Toma- pode pedir à carta ou escolher
hawk. Preço médio: €25. um menu de degustação: parta
“à descoberta de produtos da
O Peleiro região”, à “do fiel amigo bacalhau”
Largo do Alvideiro, 5-7, Paião. ou fique “nas mãos do chefe” ao
Tel. 233 940 159 longo de sete momentos. Preço
médio: €40.

A Cave
Rua Professor Francisco Corujo,
165, Gafanha da Encarnação.
Tel. 234 362 301
Esta “cave” mantém-se como
onde dormir refúgio seguro para os apreciado-
Há propostas de peixe e marisco, res de boa comida, em especial
com os chocos, irrepreensíveis, Montebelo Vista Alegre Ílhavo Hotel das versões do bacalhau. Uma das
a ocupar lugar de destaque, mas Rua Estrada da Ponte, 8, Vista Alegre. Tel. 234 241 630 mais recentes é o bacalhau selado
o símbolo da casa é o cabrito, ao Peças de fina porcelana da Vista Alegre decoram todo o hotel, e o processo de fabrico é retratado nos com risoto de grelos, croquetes
domingo. Depois há a sopa da seus três pisos. O projeto recuperou a fábrica, o palácio, a capela, o teatro e o bairro operário. Conte com de alheira e um crocante de chou-
pedra, tão completa que até já é um restaurante, um Spa e alojamentos de topo. Ao tem tem 95 quartos disponíveis (a partir de: €115). rição desidratado. Preço médio:
exportada. Preço médio: €20. €20.

Bacalhau & Afins O Bairro Cais do Pescado O Telheiro Dóri


Rua João Afonso, 13, Aveiro. Largo da Praça do Peixe, 24, Cais dos Mercantéis, 7, Aveiro. Largo da Praça do Peixe, 20-21, Rua das Companhas, fração R,
Tel. 234 044 045 Aveiro. Tel. 234 338 567 Tel. 234 425 066 Aveiro. Tel. 234 429 473 Gafanha da Encarnação.
As receitas vão desde os mais Prove-se a cavaca, que aqui apa- Nas entradas, há a típica enguia Tudo começou com os petiscos. Tel. 234 369 017
convencionais bacalhau à Zé do rece com creme de ovos-moles, frita e choquinhos fritos. Robalo, Hoje são três salas, onde se pede Uma cozinha que trata bem a
Pipo, brás de bacalhau e bacalhau um glacê e sorvete de tangerina. A dourada e linguado são alguns comida de conforto, como os matéria-prima. Há fritada mista
à lagareiro a propostas mais “atre- caldeirada serve-se com espumas, dos principais peixes para grelhar, tradicionais polvo à lagareiro, pata- de peixe, ensopado de garoupa,
vidas”, como o bacalhau com risoto peixe, batata e pimento corado acompanhando com legumes, niscas de bacalhau com açorda de bacalhau e arrozes (de marisco,
de manjericão e o bacalhau e a na chapa, para intensificar o sabor. arroz do mar ou arroz caldoso de ovas e caldeirada ou ensopado de tamboril, polvo) e o peixe-galo fri-
manga. Preço médio: €20. Preço médio: €30. legumes. Preço médio: €25. enguias. Preço médio: €25. to com açorda. Preço médio: €30.

“BOA CAMA BOA MESA” EM Galante


PASSEIO PELA FIGUEIRA DA FOZ Avenida do Brasil,
Figueira da Foz.
Com estreia este sábado na Tel. 233 200 010
SIC Notícias, e repetições ao Oferece uma ampla sala
de jantar, para almoçar ou
longo da semana também na
jantar com o oceano como cenário,
SIC Mulher e SIC Interna-
com os melhores pores-do-sol. Na
cional, o programa parte à Revolta do Bacalhau, um concurso
descoberta da Figueira da Foz, de receitas nacional que dá a co-
cidade com forte ligação ao nhecer novas propostas de receitas
mar e ao sal, mas que tem, por graças aos 16 pisos e à arqui- de bacalhau, é um dos finalistas. Os
estes dias, no turismo um dos tetura contemporânea passou resultados vão ser conhecidos em
mais importantes fatores de a fazer parte da paisagem dezembro e está à prova o bacalhau
desenvolvimento. litoral. Os pratos de peixe mar- salgado seco da Noruega e a sua
Os extensos areais são uma cam a gastronomia local, onde caldeirada. Preço médio: €30.
das imagens de marca da Fi- os doces, como as brisas da
gueira da Foz, que ganhou, em Figueira da Foz, são também SELO DE QUALIDADE Em parceria com o Recheio, este
2014, um hotel emblemático: obrigatórios. Aproveite para símbolo é a garantia de que o restaurante em destaque utiliza
produtos das melhores origens e criteriosamente selecionados
o Eurostars Oásis Plaza, que conhecer as famosas salinas.

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D ESI GN
POR GUTA MOURA GUEDES

FÓRUM DO FUTURO 2014 FÓRUM DO FUTURO 2017


Sempre com grande atenção ao
set design pela parte dos
programadores, o atelier Fala foi
responsável pelos cenários da
edição de 2017.

O Fórum do Futuro
Um dos melhores eventos sobre
FÓRUM DO FUTURO 2015 pensamento e cultura

E
screvo a 11 de Novembro de 2019, dia Como é que se consegue isso? Primeiro
chuvoso, sabendo que passam hoje pela total liberdade que a Câmara Munici-
quatro anos exactos sobre a morte do pal do Porto, promotora do evento, que é FÓRUM DO FUTURO 2018
Paulo Cunha e Silva. Grande amigo pessoal uma das bandeiras culturais deste executi-
e eterno cúmplice, não é sobre a amizade vo, dá aos programadores. Depois pela for-
que nos uniu desde o primeiro momento ma visionária com que cada tema é esco-
em que nos conhecemos, nem também lhido e pelos formatos que exploram para o
sobre o homem ímpar que ele foi, que es- discutirem. Depois, ainda, pelo modo com
crevo, mas sobre um dos seus legados, que o público se envolve em cada momen-
que tantas vezes discutimos: o Fórum do to, se mobiliza, reagindo quer à comunica-
Futuro. Tive este ano uma vez mais o pri- ção gráfica e editorial do fórum, que é sem-
vilégio de ter assistido a uma (só a uma!) pre excelente, quer aos convidados. E claro,
FÓRUM DO FUTURO 2016 das conferências do programa desta quarta estes últimos e a importância daquilo que
edição daquele que é sem sombra de dú- trazem para esta plataforma, são em si, de-
FÓRUM DO FUTURO 2019
vida um dos melhores eventos nacionais e terminantes para o seu sucesso.
internacionais sobre pensamento e cultu- Os temas discutidos são complexos?
ra que conheço. São. Às vezes parecem fora do tempo? Pa-
O Fórum do Futuro é sobre o que é ser- recem. Os diálogos e debates são irregula-
-se humano, algo que parece hoje em dia res? São. Há liberdade para intervir, per-
escapar-se-nos. Os mais optimistas, como guntar, reagir, discordar? Sim. Para não
eu, dirão que é apenas um momento de responder? Também. Somos submergi-
profundo redesenho, este que atravessa- dos por espectáculos mix-media e digitais?
mos. Outros dirão que foi algo que já fo- Não. São pessoas a falar para pessoas. So-
mos. Certo é que a noção de humanidade bre certezas e dúvidas, caminhos e raciocí-
e do que é ser-se humano parece estar es- nios, decisões e possibilidades onde o prin-
quecida, como se tivéssemos subitamente cipal herói e, simultaneamente, o principal
secundarizado tudo o que nos faz ser ho- vilão somos nós, a humanidade.
mens e mulheres e não, apenas, animais. E ali cria-se, durante uma semana, no
FÓRUM DO FUTURO 2017
Ao falar sobre arquitectura, design, arte, Porto, uma chance de nos revisitarmos en-
De 2014 a 2017 o estúdio
de design R2 foi responsável antropologia, economia e sociologia é so- quanto espécie e de sairmos inquietos, em As edições de 2018 e 2019
pelo design gráfico do festival, bre, e sempre, o que é ser-se humano que dúvida. E sim, claro, ao falar do Fórum do contaram com o design gráfico
primeiro numa evolução do ‘logo o Fórum do Futuro fala. Foi precisamen- Futuro, falo do Paulo. b dos Non Verbal, que também
tridimensional’ criado em 2014, te para isso que ele foi concebido e é as- fizeram, em colaboração com os
depois já numa ruptura com sim que continua a ser, indo já na sua sex- Guta Moura Guedes escreve Openfield, o set design dos
a imagem inicial. ta edição. de acordo com a antiga ortografia cenários de 2019.

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M O DA
POR GABRIELA PINHEIRO

Dicas & Regras

De laço dado
Dos clássicos ‘papillons’ às laçadas
desfeitas, os laços fazem a festa,
cruzando estilos, géneros e ocasiões

A
deus camisas enfadonhas e vestidos aborrecidos, os laços estão
de volta. Longe de serem um exclusivo dos homens, os laços de
pescoço são agora adotados pelas mulheres, que os adaptam, sem
tabus, a ocasiões completamente diferentes, arrojadas e muito femininas.
Herdámos das últimas temporadas o uso de laços com um volume
exagerado, criando silhuetas propositadamente desproporcionadas. Este
inverno os laços chegam mais pequenos, mas mesmo assim não com-
pletamente discretos, pois a intenção é precisamente fazer brilhar peças
que à partida teriam uma abordagem mais casual.
As laçadas que saem das próprias peças de roupa são a solução mais
acertada nesta estação. Em tecidos fluidos ou mais encorpados, com pa-
drões ou cores lisas, são usadas bem justas ao pescoço para dar um ar
‘fim de festa’ com os laços desamarrados, desfeitos e descaídos, para um
FOTOGRAFIAS GETTY IMAGES

look mais descomprometido.


O romântico Giambattista Valli, capaz de nos transportar para um
mundo de fantasia só seu, não podia passar ao lado desta tendência tão
teatral quanto romântica, por isso fez uso de laços e laçadas em prati-
camente todo o seu desfile. Tal como Celine e Etro, que elevaram a fe-
minilidade dos seus outfits ao adotarem também este adereço pomposo,
mesmo nos looks mais masculinos. b

Shopping VESTIDO EM CETIM


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HÁ H O M E M
POR LUÍS PEDRO NUNES
JOSHUA LOTT/AFP/GETTY IMAGES

Proibido o sexo no trabalho


Nem assédio nem pressão. Qualquer contacto é impedido. A bem da empresa

V
amos ao mote: o grande boss da McDonald’s a proibição de relacionamentos amorosos dentro das isto se transpõe para outras profissões? As pessoas
mundial, o inglês Steve Easterbrook, foi para o empresas acabará por chegar a este retângulo. tendem a namorar/casar no meio em que trabalham
olho da rua há coisa de semanas por ter “vio- É mais uma forma de as empresas “lavarem as porque é onde passam o tempo e conhecem pessoas.
lado as normas da empresa” ao ter mantido uma rela- mãos” do que lidarem efetivamente com a questão A empresa tem direito em dizer que “um desnível de
ção amorosa consensual com uma subordinada (que do assédio sexual. Se não houver qualquer tipo de posição” é um poder impeditivo da relação? Mesmo
foi mantida anónima). Só para que se perceba o que contacto ou confraternização entre funcionários — se que não haja relação direta? (Há sempre a capacidade
está aqui em jogo: este foi o homem que “deu a volta” for proibido até —, estão safas. Imbecilidade. Até por- de “cunhas”, influências ou de um dia acabarem por
à McDonald’s nos últimos anos (as ações passaram que exigem que estes passem lá horas sem fim. Que se cruzar na empresa.) Treta. A vida é isso. É cruzar-
de 90 para 193 dólares). Mesmo assim, o conselho de tenham uma dedicação total à empresa. Mas anulem mo-nos um dia noutra posição.
administração deu-lhe um chuto no derrière. Easter- a sua humanidade — que também passa por se apai- Claro que já há estudos para estas empresas proi­
brook é divorciado e teve “um caso” (ou uma grande xonarem ou meramente darem umas quecas. Agora bicionistas e claro que já foi detetado que o sexo se
paixão, não se sabe) com outra pessoa não compro- resumidas apenas ao meu nível salarial, porque se for torna algo mais desejado num destes locais. É a velha
metida. Nada de assédios. Mas isto tem obviamente alguém acima ou abaixo dá chatice. história da fornicação e proibição. E depois — cha-
a ver com o #MeToo, que considera que o desnível Não estou aqui a diminuir a questão do assédio mem-me romântico, que eu deixo — há casos de
de poder nestas situações configura por si uma for- sexual no local de trabalho. Mas caminha-se para a Amor. O que fazem? Um deles, por estar num pata-
ma de assédio e de pressão. O cavalheiro, de 51 anos, situação em que é a corporação que dita as regras da mar acima, tem de mudar de empresa? Ficar no de-
saiu com um acordo de centenas de milhões de dóla- vida privada. Em vez de reconhecer e atuar sobre a semprego? Manter-se na clandestinidade até que o
res. Não foi para ter peninha dele que se introduz este existência de assédio, resolve-se impedir a possibi- invejoso os denuncie?
tema. Afinal, o ex-CEO da McDonald’s quebrou um lidade de uma relação consensual entre dois adultos Proíbe-se o sexo na esperança de acabar com o as-
código de conduta que ajudou a escrever. Nos EUA, livres, mesmo que tenha lugar fora da empresa, sob sédio. Seria como acabar com a comida para acabar
75% das empresas proíbem relacionamentos amo- pena de serem despedidos. Apenas por temer que um com os malefícios da fast food. É o que é. Ray Kroc, o
rosos com alguém na sua cadeia de comando. Mas deles, estatisticamente, se venha a queixar de assédio. homem que transformou a McDonald’s num impé-
muitas, para simplificar, já baniram qualquer tipo de É autodefesa e ‘cagunfa’ de custos reputacionais que rio, conheceu a sua última e terceira mulher, Joan,
caso. E isto é problemático. possam afetar a imagem corporativa. Vamos lá ser sé- num pequeno franchise do Dakota do Sul, no final
Dirão alguns que isso “não chegará cá”. Há pou- rios: de facto, os membros dos conselhos de adminis- dos anos 60. Apaixonaram-se e ambos se divorcia-
co mais de duas décadas lembro-me de ouvir dizer, tração não têm nada que andar a meter-se na cama ram para se casar. Viveram “felizes para sempre” e
enquanto acendia um cigarro sobre o teclado e servia com pessoas da empresa. É demais. Agora como é que após a sua morte, nos anos 80, ela tornou-se uma das
mais um uísque que guardava na secretária — sem o resto do people faz para viver a vida, amor? maiores e celebradas filantropas dos EUA. Claro que
ser às escondidas: “Proibir fumar? Cá? Hahaha!” E já Falo sem saber. Deixei o bulício das redações há se fosse agora tinha sido: “Poderosão CEO da McDo-
agora, dado que vi nascer vários jornais e televisões, há anos. Mas sei que jornalistas casavam com jornalis- nald’s casado acusado de assédio a dona de pequeno
(ou havia) sempre uma euforia inicial — digamos — ou tas e outras funções dentro dos jornais, não só para estabelecimento da cadeia no cu de Judas é obrigado
uma certa desbunda que culminava em casamentos e terem quem os aturasse a ouvir à noite nas conversas a renunciar.” Hoje não havia McDonald’s. Havia outra
posteriores divórcios. Nem fazia sentido ser de outra chatérrimas. Casavam interpares ou parapares, por- qualquer. Acham mesmo que o sexo (ou o Amor, vá
forma. Passávamos 16 horas por dia — ou mais — na- que era com quem passavam a maior parte do tempo lá) no escritório vai acabar por decreto? Tenho novi-
quelas instalações com a sensação de que tínhamos fechados num espaço fechado. E mesmo assim saíam dades para vocês... b
inventado a pólvora. Uma coisa levava à outra. Digo: à rua em “missões”. A minha questão é: como é que lpnunesxxx@gmail.com

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PARA DESPERTAR OS SENTIDOS
O enoturismo é muito mais do que uma simples prova de vinhos. Por detrás
dos sabores e aromas destes néctares há toda uma experiência que inclui
uma viagem ao património cultural, gastronómico e natural da região onde
os mesmos estão inseridos. Sob o signo da casta Alvarinho e do “The Pur
Terroir”, o voucher “Soalheiro Experience” oferece um programa diferente
para despertar os sentidos. soalheiro.com

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA POR JOSÉ GAMEIRO

O baloiço
A ideia de felicidade pura e prolongada só
existe nos livros de autoajuda. Para os seres
normais é um objetivo impossível de atingir

N ão sei bem por onde começar. Poderá ser pelas recordações do


jardim do Campo Pequeno, que tinha um parque infantil onde, na
época, as famílias não podiam entrar e éramos entregues a umas
senhoras, que não eram educadoras infantis, mas que tinham a experiência
de anos com crianças e que nós adorávamos.
Como qualquer de nós, mais velhos, devo estar cheio de falsas memórias,
mas lembro-me bem de como era difícil ouvir a voz da minha mãe, lá de
cima do quarto andar, gritar: “Zé Manel, vem para casa.” DOS ARES
E uma das senhoras atravessava a rua, comigo pela mão, até à porta do
prédio. Depois, o senhor António punha-me no elevador e fazia uma coisa PARA A CIDADE
de que não mais me esquecerei. Comigo lá dentro, sem conseguir chegar ao A Bell & Ross, especialista em relógios para
botão do quarto andar, metia a mão pelas portas de lagartas, carregava no a aviação, revela, na sua coleção BR05, um
botão e tirava o braço, sem nunca se magoar. novo visual vincadamente urbano. A sua
Muito mais tarde, frequentei vários parques com os meus filhos, acho que caixa integrada combina linhas redondas e
conheci quase todos das zonas onde morava e não sei se não tinha o mesmo quadradas, formas geométricas que fazem
prazer a empurrar os baloiços que eles tinham a atingirem ângulos quase de parte da indentidade da marca francesa
180°. Mas nunca me tinha ocorrido “teorizar” sobre o assunto. Foi só agora, que dedica este modelo aos exploradores
novamente no papel de “empurrador” de baloiço, que me disseram: “Já viste citadinos. Com bracelete de aço ou de
a felicidade do miúdo? É uma felicidade absoluta, vai durar pouco tempo, borracha estriada em várias cores, este
daqui a uns poucos anos, também será feliz, mas por períodos, nunca mais instrumento emana força e elegância.
será o mesmo, mas não há problema, porque não se vai lembrar...” bellross.com
Não direi que “me caiu a ficha”, mas fez-se-me luz. Felizmente que não
exerço psiquiatria doméstica, mas nunca ter pensado nisto faz de mim
quase um calhau com olhos. As crianças vivem os primeiros anos sem
qualquer noção de futuro, ainda que o amanhã exista. Aliás, não convém EXPERIÊNCIA DE COMPRA ÍMPAR
dizer ao miúdo que no dia seguinte vai aos baloiços e a mais dois ou três A JOM, empresa que comercializa produtos para o lar – de móveis
sítios que adora, porque vai acordar mais cedo, pedir para se vestir e avançar a eletrodomésticos e artigos de decoração, entre outros –, abre, no próximo
para a porta, pronto para a vida... Coisa de que, habitualmente, as mães dia 21 de novembro, no Porto, a sua vigésima segunda loja em Portugal. Com
e os pais não gostam, têm sempre a esperança de que a criança volte a uma área próxima dos 4500 metros quadrados, pretende-se que, aqui,
adormecer... o cliente não só conheça toda a variedade de artigos da marca como vivencie
A ideia de felicidade pura e prolongada só existe nos livros de autoajuda, uma experiência de compra ímpar. jom.pt
talvez também nos que dedicam a vida a contemplar um qualquer Deus,
mas para os seres normais é um objetivo impossível de atingir, que tentamos
tornear, nas fases mais complicadas com aquela frase, bem portuguesa, hão
de vir melhores dias.
O Dr. João dos Santos, psiquiatra infantil e psicanalista, que marcou a minha
geração, dizia-nos uma coisa de que nunca mais me esqueci e que pratico
em situações de emergência: “Quando tiverem dificuldade em empatizar
com um doente, imaginem-no num baloiço, a rir-se e a dizer iééé.”
Sempre que puderem vão a um parque infantil, ver a alegria dos miúdos.
É muito melhor do quer ver dramas reais ou ficcionados na televisão... b
josemanuelgameiro@sapo.pt

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PASSAT E M POS
POR MARCOS CRUZ

Sudoku Fácil Palavras cruzadas nº 2295

1 8 4 6 2
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
7 3 1
5 8 1
5 3 8 1
2
8 5
3 6 9 8 3
5 9
4
1 9 8 6
3 4 7 8 9 5

Sudoku Difícil 6
6 1
7
2 5 6
7 8 4 8
5 9 1 7
9

9 4 3 2 10
1 6 3
7 1 5 11
4 2
Horizontais Verticais Soluções nº 2294
1. As alterações que põem em risco 1. Entre o fim do dia e o início da noite HORIZONTAIS
Soluções o planeta 2. Extremado. Contração 2. Corta dos dois lados. Onde se reúne 1. forcados; CI 2. Adão;
Fácil Difícil plural 3. Título para quem já foi. É objeto o lixo 3. Quando se alcançam deixam ídolos 3. ladrão; Dali
4. Ala; cravos 5. círculo;
5 9 8 7 4 1 2 6 3 6 9 1 7 2 3 8 5 4
de quotas 4. Maria rainha de Portugal. de o ser. Estrela inglesa 4. Víscera
AC 6. is; acelerar
6 4 2 5 8 3 7 9 1 2 5 4 6 8 1 7 9 3
O que está a acontecer aos glaciares (inv.). A maior cidade do mundo
7. ocas; CAP; da
7 1 3 2 9 6 4 5 8 3 7 8 4 9 5 2 6 1
8 2 9 6 3 5 1 7 4 5 6 2 3 7 8 1 4 9 5. Não tem cópia. Não perdoa 6. Linhas árabe 5. Corrói. Os machos com mais
8. Santeiro; Op 9. dica;
3 5 1 4 2 7 9 8 6 8 4 9 1 5 6 3 7 2 aéreas escandinavas. Fugiu de Creta estatuto 6. Museu londrino. Escrava
Só 10. segundos
4 6 7 9 1 8 3 2 5 7 1 3 2 4 9 5 8 6 a voar, mas as suas asas derreteram da telenovela 7. Não faz qualquer
11. siso; ousada
9 8 4 1 5 2 6 3 7 4 8 5 9 3 2 6 1 7
7. Romances semiclandestinos sentido. Meios naipes 8. Monumentos
8. Onde se encontra a universidade da literatura escandinava 9. O dedo VERTICAIS
1 3 6 8 7 9 5 4 2 9 3 6 5 1 7 4 2 8

1. falacioso 2. odalisca;
2 7 5 3 6 4 8 1 9 1 2 7 8 6 4 9 3 5
mais antiga da Escandinávia. Corre mais rico. Onde se quer o sol
na América do Sul 9. Grandes 10. Batalha que valeu a D. Afonso IV si 3. radar; Andes 4. cor;
propriedades agrícolas 10. É uma ave. o cognome de “Bravo”. Tritura 11. Cure. castigo 5. uc; ecu
Braço de mar 11. Nada sofisticada Dar o nó 6. Diocleciano 7. od;
Palavras Cruzadas Premiados do nº 2293 rolar; du 8. soda; êpodos
“O Bloco das Crianças”, de Otto B. Kraus, 9. lavar; sã 10. colocados
para Maria Cecílio, de Lisboa; “O Amigo 11. Ísis; raposa
do Deserto”, de Pablo d’Ors, para Luís Simões,
do Porto; “Tundavala”, de Paula Lobato de Faria,
para Vicente Sousa, de Penafiel. Participe no passatempo das Palavras Cruzadas enviando as soluções por correio para
Rua Calvet de Magalhães, 242, 2770-022 Paço de Arcos ou por e-mail para passatempos@expresso.impresa.pt

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10 PERGUNTAS A...

MARIANA
BRANDÃO
“PARECE-ME
QUE A OBRA
É UMA COISA
E O ARTISTA
OUTRA”
1. A LIBERDADE (ARTÍSTICA) ESTÁ NAS
MINORIAS?

ALÍPIO PADILHA
Não costumo pensar na liberdade em termos de
quantidade. Na arte de qualidade, está.

2. PROGRAMAR PARA MENOS REFORÇA A


IDENTIDADE DE QUEM CRIA?
Quem cria é que sabe se quer ou precisa de reforçar a Diretora artística do Festival Temps d´Images a decorrer em Lisboa em
identidade. Quem programa, viabiliza, propõe e, se tudo espaços tão diversos como o Teatro do Bairro Alto, a Fundação Arpad
correr bem, potencia. Programa para mais, portanto. Szenes-Vieira da Silva, a Rua das Gaivotas 6 ou o Cinema Ideal. O Festival,
3. A OBRA REVELA O ARTISTA E QUEM NELE
na 17ª edição, vinca o risco e a experimentação nas propostas deste ano
HABITA OU SÃO SEMPRE INDISSOCIÁVEIS?
Parece-me que a obra é uma coisa e o artista outra, mas
não tenho a certeza. INÊS MARIA
MENESES
4. O QUE NOS DIZ O TEMPO QUE VIVEMOS?
Tento ouvir mas há bastante ruído. Espero que diga mais
do que aquilo que queremos ouvir. 8. A CULTURA AINDA NOS (A)PARECE MUITAS
VEZES COMO O CAPRICHO DAS ELITES. FALTA
5. A VERTIGEM DO SÉCULO XXI CABE EM MUITO PARA QUE CHEGUE A TODOS?
IMAGEM? Até fui ao dicionário ver a definição de “capricho” e
Não só, mas também. Noto que o meu filho concorda encontrei matéria encorajadora. A indexação às elites
definitivamente. é que é pena. Curioso como a cultura, dependendo de
todos, pode não chegar a todos. Faz pensar.
6. O CONTEXTO POLÍTICO E SOCIAL ESTÁ A
REFLETIR-SE NA CRIAÇÃO? 9. O QUE BUSCA NO QUE DÁ A VER?
Ai está, está... É tomar atenção. Interesse.

7. O QUE APRENDEU SOBRE A CAPACIDADE DE 10. UM ESPETÁCULO DO FESTIVAL QUE


PROGRAMAR? RESUMA A MENSAGEM DESTE ANO?
Que deve dar a mão à capacidade de perguntar e tratar Não me digam que este ano há uma mensagem e
bem a curiosidade. E que a experiência ajuda. ninguém me avisou. b

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FRACO CONSOLO

/ PEDRO
MEXIA Guy Pearce em
“Memento”, de
Chistopher Nolan

A VERDADE

V
REVELADA
A MEMÓRIA É FALÍVEL, não consegue evitar fazer as coisas de novo sem saber sequer que está a fazê-
las de novo, ou que está a conhecer pessoas que já conheceu antes. A ideia,
TRAIÇOEIRA, TODOS SABEMOS narrativa e quase musical, das reiterações tem um duplo objectivo: estilhaça
ISSO, MESMO QUANDO a sequencialidade, o quadro completo, e ao mesmo tempo dá-nos pequenos
ESQUECEMOS ISSO momentos de reconhecimento, disjuntivos, não sobreponíveis, mas úteis,
agradáveis na sua reincidência sem serem cómicos no seu efeito.
i-o duas vezes, em dias consecutivos, num De onde vem este conceito? Muitos críticos falaram da importância
cinema que entretanto fechou. Precisei do vídeo e do digital na configuração de uma nova percepção
de ver duas vezes porque gostei muito e cinematográfica, na medida em que adquirimos a possibilidade de
porque não entendi nada. E ao longo dos voltar atrás, parar, ver de novo, saltar blocos, ir ao menu dos capítulos.
anos voltei regularmente a “Memento” Chistopher Nolan reconheceu igualmente a influência de obras literárias
(2000), um dos meus favoritos das últimas como “O País das Águas”, de Graham Swift, com os seus saltos
décadas. Chistopher Nolan haveria de se temporais, estilo fragmentário e narração pouco fiável. Boa parte das
tornar célebre, com cavaleiros das trevas, emoções intelectualizadas e engenhosas do filme resultam do facto de
especulações científicas, guerras mundiais; toda a gente querer, uma e outra vez, enganar Leonard, manipulá-lo,
mas fui-me desinteressando dele, e hoje usá-lo, aproveitar-se da sua debilidade, incluindo uma mulher jovem,
parece-me um cineasta tão brilhante quanto ponderoso, incapaz de interpretada por Carrie-Anne Moss, de quem nunca me lembro tão bonita
resolver bem a sua vasta ambição filosófica. e tão sofrida. Mas o golpe de génio, de um cineasta que infelizmente
Já o meu fascínio por “Memento” não diminuiu nem um pouco. E começa começou a considerar-se um génio, consiste em imaginar Leonard a
logo com a sequência de abertura, do fim para o princípio, uma polaróide enganar Leonard.
a ser abanada embora já esteja revelada, que depois se evapora e volta a A memória é falível, traiçoeira, todos sabemos isso, mesmo quando
entrar na máquina fotográfica. Não é um truque gratuito: acontece que esquecemos isso. E os mementos, os documentos, também não são
Leonard Shelby (Guy Pearce) tem a vida às avessas. Perdeu a mulher, violada da ordem da evidência. Uma polaróide é apenas uma polaróide, não
e estrangulada, e um dos culpados anda a monte, depois de ter deixado é a verdade revelada. Ex-investigador, Leonard sabe o que é fingir e
Leonard inconsciente no local do crime. Como consequência dessa pancada desmascarar quem finge. Doente, dependente dos outros, habituou-se a
na cabeça, o nosso protagonista não se lembra de nada que tenha acontecido confiar e a desconfiar. Como não tem memória sólida, nem grande futuro,
desde essa altura. Explica a toda a gente que a sua “condição”, o seu estado só lhe sobra uma determinação. As memórias, descobre, não servem
clínico, não é uma amnésia normal, mas uma amnésia anterógrada. Ele sabe apenas para nos recordarmos do que aconteceu, servem também para
como se chama, de onde vem, lê, escreve, conduz; só que não consegue sabermos quem somos. E o que vemos então é o espectáculo espantoso de
fazer memórias novas, as coisas acontecem e ele esquece-se em segundos. um homem que decide mentir a si mesmo para encontrar a verdade. b
Problemática, a situação é ainda mais grave porque Leonard decidiu pedromexia@gmail.com
investigar o homicídio. Mas como pode alguém investigar se não se lembra Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia
do que vai descobrindo nem do que está à procura?
Para superar os obstáculos neurológicos, Leonard concebe algumas
soluções, algumas ajudas. Por ironia, trabalhava como investigador de
seguros, sabe, portanto, como investigar os outros. E tenta agora a tarefa
bem mais difícil que é investigar-se a si mesmo. Tem de ser metódico:
tudo o que descobre deve ficar registado num qualquer suporte, seja uma
fotografia, uma legenda, uma anotação ou uma tatuagem, forma de marcar
uma intenção definitiva no próprio corpo. A cada momento, mal se esquece
do que acaba de acontecer, Leonard recorre aos factos que coligiu e guardou.
Tem apenas de reiniciar o sistema, voltar a interpretar os factos, voltar a
lembrar-se daquilo de que não se lembra.
Leonard surge em muitas cenas in media res, a terminar uma acção que não
sabe como começou, e o espectador também não. Trabalhando a partir de
um conto do seu irmão Jonathan, Chistopher Nolan vai encaixando esta
história como se fosse um puzzle. Há sequências curtas, a cores quando a
acção progride, a preto-e-branco quando a acção é explicada a alguém ao
telefone. E há encontros e diálogos, muitos deles repetidos, porque Leonard

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