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O NAVIO FANTASMA

Autor: Alexandre de Bittencourt Garcia

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Nem todas as histórias são contadas como realmente aconteceram ...

Nem todos os segredos sobre a vida são revelados aos homens ...

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Índice

Prefácio ...................................................................................................................................................................................4
Capítulo I ................................................................................................................................................................................5
Capítulo II.............................................................................................................................................................................11
Capítulo III...........................................................................................................................................................................16
Capítulo IV...........................................................................................................................................................................18
Capítulo V............................................................................................................................................................................22
Capítulo VI ...........................................................................................................................................................................26
Capítulo VII ........................................................................................................................................................................28
Capítulo VIII ........................................................................................................................................................................33
Capítulo IX ...........................................................................................................................................................................37
Capítulo X ............................................................................................................................................................................43
Capítulo XI ...........................................................................................................................................................................46
Capítulo XII .........................................................................................................................................................................50

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Prefácio

Esta história realmente aconteceu.


Os fatos narrados neste livro são verídicos. Os nomes lugares, reinos e nacionalidades
foram trocados para se evitar problemas futuros acerca dos fatos que serão narrados neste
livro. Os personagens desta história também terão seus nomes substituídos por outros, para
que não haja problemas de interpretação com estes e que não sejam identificadas as
verdadeiras pessoas que participaram destes fatos ...

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Capítulo I

Eram cinco horas da madrugada, quando alguém bateu fortemente à porta. Levantei-
me assustado e olhei em volta. Novamente bateram à porta. Levantei-me e me dirigi até ela.
Ao abri-la, levei um susto. Havia três soldados do Forte Duchigam bem à minha frente.
Estavam fardados elegantemente, sendo um deles um Oficial e os outros dois soldados.
__ Entrem. - falei um pouco assustado e surpreso.
Os soldados entraram e tranquei a porta. Dirigi-me então a mesa e acendi um lampião.
A sala clareou um pouco. Ela era pequena assim como a casa em que morava. Havia
poucos móveis na sala. A mesa, de madeira com seis cadeiras, duas estantes com livros e
anotações que eu costumava fazer, um tapete e um quadro de um navio sendo castigado
por uma tempestade. Olhei novamente para os soldados. Não entendia muito bem o que
faziam ali.
__ Em que posso ajudá-los? - perguntei com grande surpresa.
__ Doutor David, sou o Capitão Kurchov, do forte Duchigam e venho aqui sob ordens
do Almirante Demitre que chama sua presença imediatamente ao forte.
__ Mas o que aconteceu? Alguém está doente? - perguntei.
__ Não, senhor. Trata-se do “Vingador dos Mares”. Ele apareceu novamente e atacou o
Os Sete Mares.
Meus olhos quase saltaram da face ao ouvir aquilo. Eu sou um jovem médico que trabalho na cidade.
Tenho vinte e oito anos, um metro e setenta e cinco, pele e olhos claros, cabelos loiros que vão até os ombros.
Tenho um porte atlético, não musculoso, devido as lições de esgrima que tive na Universidade e que ainda
pratico sempre que posso. A presença de militares a esta hora em minha casa me causava espanto, ainda mais
por tal assunto. Olhei novamente para os soldados e perguntei:
__ Quando foi? Onde está o navio?
O capitão olhou para mim fixamente e disse:
__ Não tenho ordens para lhe fornecer qualquer outra informação, apenas de escoltá-lo
até o forte onde o almirante lhe dará maiores detalhes.
O assunto deveria ser muito importante, para um capitão da nossa marinha vir bater a
minha porta tão cedo. Era muito estranho. Mas o assunto me interessava.
__ Por favor, esperem um pouco para eu me trocar.
__ Sim, senhor. Temos uma carruagem nos esperando ali embaixo. O almirante
também pediu que o senhor levasse seus instrumentos médicos medicina. Rogo-lhe que não
demore.
__ Está bem, afirmei.
Vesti-me rapidamente, lavei o rosto com água fria e segui os soldados. Descemos a
escada do pequeno prédio onde eu morava. Na parte debaixo, ficava meu consultório
médico. Entramos na carruagem e o cocheiro imediatamente seguiu rumo ao forte. A
estrada por onde seguíamos era de pedra e fazia margem a baía de Livid. Observei a
penumbra que a cobria e pude ver alguns navios ancorados. Havia navios mercantes, navios
pesqueiros, também navios de guerra. Tentei perguntar mais alguma coisa ao Capitão, mas
este não me respondeu mais nada.
__ O Almirante lhe dará os detalhes, concluiu.

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Como a viagem até o forte levaria cerca de trinta minutos, eu teria tempo de analisar
com mais calma esta história toda, com o pouco conhecimento que eu tinha a respeito da
mesma.

Tudo começou no ano de 1772, ou seja há nove anos atrás, quando devido a três saques
de nossos navios mercantes, próximo de nossa costa que foram atacados e pilhados por
piratas. O Rei ordenou então a construção de um tipo de embarcação imbatível. Nossa
experiência em construções de navios supera qualquer Reino. As embarcações deveriam ser
de grande porte e com enorme poder de fogo para patrulhar o nosso litoral, escoltar os
nossos navios e varrer de uma vez por todas os piratas de nossos mares. O primeiro navio
construído deste tipo foi chamado o Vingador dos Mares, um colosso flutuante com
enorme poder de fogo e extremamente veloz. Demorou dois anos para ser construído e suas
demonstrações de poder de fogo logo foram realizadas, com o desaparecimento dos piratas
em nossa costa. O seu capitão, diziam os marujos, era uma lenda do mar. Seu nome era
Átila e toda a tripulação foi escolhida pessoalmente por ele. Havia participado de duas
guerras e nunca havia naufragado ou perdido qualquer combate. Também era conhecido
por seus estudos na área de Química onde tinha diversos trabalhos publicados. Uma outra
particularidade sua, era a liderança perante a sua tripulação. Era um homem poderado,
sábio e consciente de seus atos, mas também audaz e valente. Tinha muitas experiências em
navegação e combate, e à frente do Vingador dos Mares, junto com sua tripulação, podia-se
afirmar com certeza que era imbatível no mar. A ordem do rei era clara e precisa. Todo
navio pirata encontrado devia ser afundado. A tripulação deveria ser levada para a ilha
prisão, da qual a fuga era impossível.
Mas as ordens do rei não foram seguidas conforme havia se estabelecido.
Após o sucesso das primeiras expedições, notícias começaram a chegar falando de
atrocidades cometidas pelo navio de guerra. Seu capitão ordenara inúmeras selvagerias nos
navios que atacava.
Conta-se que um navio pirata estava em chamas em certo ataque e afundando rapidamente, quando o
capitão Átila deu a ordem para a abordagem para confiscar os tesouros para o Rei. O próprio Átila lutava ao
lado de seus homens. Houve um intenso combate no navio e Átila no calor da batalha matou um marujo
desarmado com um golpe de espada bem à frente do capitão pirata, um velho lobo do mar chamado Ários. Foi
quando o marujo caiu e percebeu-se ser a filha do pirata. Ele a abraçou e olhou para Átila, dizendo:
__ Você matou a minha filha mesmo quando já havíamos pedido rendição e assassinou todos os meus
homens que estavam se salvando em botes. Você é o próprio demônio em pessoa e eu o amaldiçôo a ficar nos
mares eternamente com sua tripulação e seu navio de assassinos. O capitão também o matou, retirou todos os
pertences do navio e terminou de afundá-lo a canhonaços.
Após presenciar estas e várias outras tragédias, o primeiro imediato fugiu do Vingador
dos Mares e foi resgatado por um navio mercante.
Toda a tripulação era leal a Átila, mas o que desertara, alegara não concordar mais com as atitudes de
seu capitão e dizia que toda a sua tripulação estava enlouquecida e haviam se tornado homens sangüinários e
sem fé.
A história piorou depois que o navio atacou um navio mercante, matando toda a tripulação e saqueando
o mesmo. Outros dois navios mercantes surgiram completamente destruídos, a deriva, muito próximos de
nossa costa.
O rei, diante de tais fatos, tomou a seguinte decisão: O navio precisava ser destruído.
Uma esquadra real passou a procurar o navio. O Vingador dos Mares foi encontrado na
noite tempestuosa de 25 de maio de 1876, na arquipélago de Luger, um local com centenas
de ilhas e recifes, onde acreditava-se que o navio estivesse escondido. Trata-se de um lugar

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com muito nevoeiro, que aparecem e desaparecem sem que, até hoje se saiba as suas
causas.
Houve um intenso combate e quatro navios da esquadra Real foram afundados. O
navio comandado por Átila estava bastaste avariado, e as ondas violentas varriam seu
convés, mas podia-se ver o capitão manobrando o leme ordenando a seus homens que
ficassem em seus postos, mas o navio já estava bastante danificado. Ondas varriam o
convés e de tempos em tempos algum marujo era atirado ao mar que naquela região, é
infestado de tubarões.
Foi quando apareceu uma imensa neblina e começou a esconder o Vingador dos Mares
que já dava sinais de começar a afundar. O Príncipe, um dos navios que saíra em sua caça,
disparou mais uma salva de canhões sobre a última posição do navio e várias explosões
foram vistas e gritos de pavor e medo ecoaram sobre a chuva e os trovões que pareciam não
parar de cair.
No outro dia, o mar estava mais calmo e a neblina se dissipara. Não se encontrou
qualquer sobrevivente ou o navio, apenas alguns destroços. O capitão que liderava a
esquadra escreveu em seu diário de bordo:

Diário de bordo do dia 26 de maio de 1876. O Vingador dos Mares afundou sobre
intenso combate. Perdemos o Galvez, o Vingança, o Crepúsculo e o Amanhecer. Estamos
bastante avariados, perdi trinta homens em combate e tenho outros cinco feridos. O
Vitória e Os Sete Mares também estão bastante avariados e perderam homens, mas estão
em condições de navegar, assim como nós. Não encontramos nenhum sinal do navio que
perseguíamos, apenas alguns destroços, mas os gritos da noite anterior e as explosões que
vimos não deixam dúvidas sobre o naufrágio do mesmo. Retorno para a pátria com minha
missão cumprida, mas minha alma não entende o que levou à loucura todos os homens de
uma mesma embarcação e um dos melhores capitães que conheci e com quem aprendi
tanto.
Que Deus acolha a alma de todos eles e que encontrem a paz.

Depois deste incidente e o retorno de três dos sete navios que partiram em busca do
navio comandado por Átila, a paz retornou a navegação de nosso reino. O rei, temeroso que
a situação se repetisse, cancelou o projeto de construção de navios de guerra tão potentes
quanto o Vingador dos Mares. Apenas navios de guerra convencionais foram construídos.
A situação, nos dois anos seguintes, foi extremamente calma, até que algo de estranho
começou a acontecer ...
Primeiro, foi o navio comercial Imperatriz, que numa noite de extrema calmaria dentro
do arquipélago de Luger, viu aparecer, de repente, bem à sua frente um navio
completamente destruído, com marcas de fogo e balas de canhão. O velame bastante
avariado e o convés completamente desordenado. O capitão do navio, extremamente
assustado, observou pela sua luneta e descreveu no diário de bordo:

Diário de bordo do dia 12 de abril de 1878. Avistamos um navio semi destruído, sem
nenhum dos mastros inteiro e completamente a deriva. Pude observar que se tratava de um
grande vaso de guerra e que havia participado de grande batalha a julgar pelos seu
estado. Uma névoa esverdeada cobria o convés do navio, mas pude ter a impressão nítida

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de ver vultos andando sobre o mesmo. Do mesmo modo que o navio apareceu a nossa
frente, sumiu na neblina.

Assim que o navio comercial aportou em Ugres e a história veio à tona, houve grande
comentário entre os marinheiros e as velhas histórias de navios fantasmas e tripulações
amaldiçoadas começaram a ser contadas pelos marinheiros, principalmente os mais velhos.
Mas como não houve provas, e devido ao forte nevoeiro acreditou-se tratar-se de uma
alucinação por parte do capitão e de cinco marinheiros que juravam também terem visto o
navio. Histórias como estas não são incomuns de se ouvir nos portos de todo o mundo. Foi,
como todas as outras, tratada como uma visão dos marinheiros.

Eles estavam errados ...

Duas semanas depois, o navio de Guerra Norvok encontrou um navio a deriva e


completamente arrasado. Os três mastros estavam completamente destruídos e parecia que
uma tormenta havia passando no convés do mesmo. Abordado pelo vaso de guerra, o navio
mostrou a tragédia. Toda a tripulação estava morta. Os corpos mutilados. Havia marcas de
tiros por todo o convés. O seu comandante, um capitão de bastante experiência relatou, em
seu diário de bordo:

Diário de bordo do dia 26 de abril de 1878. Avistamos o um navio bastante avariado.


Inicialmente fizemos com mas não obtivemos resposta. Iniciamos então uma abordagem e
constatamos a tragédia no mesmo. Encontramos quarenta e dois corpos dilacerados por
espadas. Nenhum dos corpos tinha marca de tiros de pistola, apesar de haver perfurações
de balas por todos os lados do convés. Eu sou um velho capitão do mar, e já vi várias
coisas estranhas, mas nada se compara a uma tripulação morta desta maneira. A carga do
navio, uma grande quantidade de prata estava intacta. Encontramos somente a tripulação
do navio e nenhum outro marinheiro de outra embarcação foi encontrado. Duas coisas me
impressionaram bastante: a expressão de terror nos olhos do marinheiros mortos e uma
frase inscrita com os dedos ensanguentados de um dos marinheiros, “Vingador Mares”.
Encontramos o capitão na cabine de comando sentado a frente do seu diário de bordo. A
última coisa escrita nele era ...

“O Inferno abriu suas portas e veio diretamente a nós. Espero que Deus tenha piedade
de nossas almas.”

Por ordem da marinha, o navio, foi incendiado logo após sua carga de prata ter sido
retirado do porão. Os corpos dos marinheiros não puderam ser vistos pela suas famílias e
tiveram destino incerto. O alvoroço desta vez foi muito maior a ponto de várias companhias
mercantes terem de aumentar os salários do marinheiros para que pudessem navegar
naquelas áreas.

Um mês depois, outro navio, desta vez um vaso de guerra, o Tubarão, sumiu dentro do
arquipélago de Luger, para ser encontrado no mesmo estado do navio de carga. Segundo

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descrição do capitão do navio, a dilaceração dos corpos era coisa impressionante. Parecia
que uma turma de sádicos havia entrado no navio, mas havia três corpos que não tinham
nenhum ferimento. Seus rostos tinham uma expressão de terror que indicava sua morte
devido a um grande susto ou emoção. Os canhões demostravam terem sido usados e havia
marcas de incêndio em algumas partes do navio.
Novamente boatos sobre o Vingador dos Mares surgiram, mesmo sem que nenhuma
prova concreta fosse apresentada. Duas grandes companhias de importação ameaçaram
parar de trazer materiais caso a segurança não fosse redobrada. O arquipélago de Luger era
muito utilizado, e facilitava em muito, a rota para navios mercantes devido ao
reabastecimento em algumas ilhas que continham mantimentos e água potável,
imprescindível para viagens marítimas de longa duração.
A coisa piorou quando um mês e meio depois, um pequeno bote foi encontrado no
arquipélago maldito, como passou a ser chamado. De dentro dele foi retirado um
marinheiro moribundo que balbuciava algumas palavras sem sentido. Seu uniforme
indicava que ele pertencia a uma grande companhia de transporte de cereais, que mais tarde
declarou ter perdido um grande navio de carga e que o moribundo encontrado era um dos
tripulantes do mesmo.
O marinheiro foi trazido para a cabine do capitão. As luzes não podiam ser apagadas
em volta do marinheiro esta começava a gritar feito louco. Seus olhos esbugalhados e sua
feição de medo indicavam que este havia passado por uma situação de grande emoção. O
capitão do navio passou a anotar suas frases para que pudessem ser analisadas pelo pessoal
da marinha.
Um dia antes de chegar ao porto, o marinheiro começou a dizer que seu fim iria chegar
e que a morte vinha lhe buscar. Durante a madrugada, um forte grito se ouviu na sua
cabine, que era vigiada por dois marinheiros. Ao entrarem, depararam-se com o marinheiro
olhando pela escotilha e seu braço parecia apontar para o mar. Seu corpo estava rijo como
uma pedra. Ao olharem pela pequena escotilha, que estava aberta, os marinheiros tiveram a
impressão de terem visto uma névoa esverdeada se afastando do navio.
Devido a estes acontecimentos, muitas companhias marítimas pararam de importar ou
exportar mercadorias para nosso Reino, o que nos está fazendo passar por uma grande crise.
As relações com nossos Reinos vizinhos não estão lá muito boas, pois apesar de não
estarem formalizados, eles acreditam que isto não passa de um ataque de piratas e que
nossa marinha não conseguem detê-los, nem proteger as embarcações no arquipélago.
O primeiro imediato de Átila, que desertara do navio, desapareceu de sua casa três
semanas depois, sem levar qualquer pertence. Nenhum dos vizinhos o viu sair de casa, mas
um morador nas vizinhanças disse ter visto três vultos envoltos em um névoa esverdeada
andarem em volta da casa do marinheiro.
Somando-se a todos estes fatores que acabei de lembrar, temos este fato novo. Um
novo navio destruído: Os Sete Mares. Um dos navios de guerra mais imponentes que
conheci e que havia participado da perseguição do Vingador dos Mares. Só não entendi
porque me chamaram. Eu sou um jovem médico que acabara de se formar. O Forte
Duchigam possui um excelente médico, o Dr. Roberto, amigo de meu pai, com o qual tive
a oportunidade de conversar e a quem devo alguns favores, tendo em vista sua prestativa
ajuda para minhas acomodações e indicações a alguns de seus clientes em meu pequeno e
modesto consultório.

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Olhei novamente pela janela e pude ver que nos aproximávamos do forte. Era um
grande complexo militar, feito de pedras na parte de cima de um morro. Seus canhões
protegiam a baía de ataque de piratas ou da invasão de reinos estrangeiros. Seu contingente
era sempre de um grande número de soldados, bem armados e municiados. Em caso de
guerra, o forte servia com base estratégica para operações da marinha.
A carruagem parou diante do grande portão. Uma troca de saudações militares e no
momento seguinte, estávamos dentro do forte. Seguimos por uma rua de pedras e pude ver
as instalações do mesmo. O alojamento dos soldados, dos oficiais, o depósito de
armamentos. Uma rápida olhada na amurada e pude ver os temíveis canhões que protegiam
nossa baía de possíveis ataques que já mencionei.
Finalmente, a carruagem parou e pude descer juntamente com os soldados. Dirigimo-
nos então para a ala médica do forte. Pude ver as luzes de alguns lampiões em uma sala que
se localizava no segundo andar de um bonito prédio de tijolos à vista. Subimos por uma
escada e nos deparamos com dois guardas à porta. O que mais me impressionou foi que o
forte estava em completa calma.
Mais uma troca de saudações e finalmente entramos na sala. Somente eu e o Capitão
Kurchov passamos pela porta.

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Capítulo II

Assim que entrei na sala, vi que não era muito grande, mas possuía móveis finos, de
madeira trabalhada. Tinha uma grande mesa e cadeiras finas. Havia também duas
cristaleiras muito bonitas feitas com madeira negra e muito ricas em entalhes. Tinha ainda
três quadros com as figuras de nossa realeza. Uma de sua Majestade, outra da rainha e a
terceira do príncipe, uma criança de oito anos. Já estivera naquela sala. Era a sala de
estudos do doutor Roberto.
Em cima da mesa existiam dois lampiões acesos e que, com mais outros quatro que ficavam em locais
estratégicos na parede, clareavam muito bem a sala. Seis figuras estavam sentadas na mesa. À luz do lampião,
passavam um ar sombrio e tenebroso. Eu conhecia apenas três delas. A primeira, sentada na cabeceira da
mesa, era o Almirante Demitre, trajando sua vestimenta militar. Era um homem forte, de aproximadamente
uns cinqüenta anos, cabelos e barba grisalhas e pele bronzeada pelos dias a bordo de navios. O segundo
homem era o doutor Roberto, também usando um traje mititar. Tinha cinquenta e oito anos e era considerado
um dos melhores médicos de nosso Reino. Era um homem moreno, estatura mediana e falava sempre de
maneira calma e pausada. Usava óculos e tinha um grande bigode. Fui recebido por ele quando me formei e
decidira me estabelecer na cidade. Ajudou-me a abrir meu consultório, emprestando inclusive alguns de seus
aparelhos médicos. Indicou também uma série de pessoas para se consultarem comigo. Conhecia todas as 25
publicações suas e me baseava muito em seus ensinamentos. O terceiro homem era uma lenda. Doutor Július
era seu nome. Professor sobre Ciências Físicas e Químicas em nossa melhor universidade. Era uma sumidade
em diversos assuntos, desde Literatura, passando por Geografia, Ciências Políticas, Física e Química. Iniciara
seus trabalhos na marinha como capitão e participou de muitas batalhas. Aos quarenta anos, solicitou sua
saída para dedicar-se aos estudos, sua grande paixão. Dizem os marinheiros que serviram ao seu lado, que
ficara triste ao ver os horrores das guerras que tinha participado. Vários anos estudos nas mais diversas áreas,
que o fizeram lecionar em nossa melhor Universidade. Trocou informações com estudiosos de muitos reinos
e era conhecido e respeitado em muitos deles. Havia boatos que o próprio Rei o consultava de tempos em
tempos duas dúvidas pertinentes às Ciências.
Um dos dois homens que eu não conhecia era um bispo, devido ao seu traje. Tinha os
olhos redondos, nariz chato e era calvo. Era um homem de idade avançada. O segundo
homem deveria ser de grande importância dado aos seus trajes nobres e seu ar de
arrogância. Tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, aparentava ter uns quarenta e
cinco, cinqüenta anos. Provavelmente era um conselheiro real ...
Eu imaginava o que aqueles grandes e importantes homens faziam ali. Estavam
discutindo sobre o Vingador dos Mares. O que eu não entendia era o que eu fazia ali.
__ Doutor David, disse o Almirante, aproxime-se e sente-se em uma das cadeiras.
Capitão Kurchov, o senhor também. Gostaria que o senhor conhecesse algumas destas
pessoas, pois acredito já conheça outras. Doutor Roberto, nosso médico, o Bispo Kirsek,
professor Július e o conselheiro Magnus .
Fiquei muito entusiasmado ao cumprimentar aqueles homens, e especial o professor
Július. Tinha muita admiração por ele. Todos me cumprimentaram acenando com a cabeça,
menos o Conselheiro Magnus, que me fitou por um instante.
__ Ainda não sei por que este jovem está aqui e qual a sua importância devido à
gravidade da situação.
__ Senhor Magnus, acalme-se, falou o Almirante Demitre. Ele, então, me olhou
fixamente.

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__ Doutor, o senhor sabe dos fatos ocorridos a respeito do vaso de guerra Vingador dos
Mares?
__ Sim senhor. Sei o que todos sabem. Dos boatos e das histórias que são contadas pelas pessoas.
__ Pois muito bem. O senhor pode acreditar nelas, no que diz respeito a perda de dois
navios de guerra, o Terege e Tubarão e o desaparecimento do navio de carga O Gaivota.
Ao todo, duzentos e cinquenta pessoas já morreram, somando-se as mortes das pessoas
encontradas, mais a dos desaparecidos, que, ou se atiraram na água ou afundaram junto
com o navio. Retiramos um sobrevivente do mar, e ele relatou uma história muito estranha
que por motivos de segurança foi guardada por nós para não tornar a situação ainda mais
grave. Em seu relato, ele fala de uma calmaria no mar, o surgimento de uma névoa
esverdeada que toma conta do navio em instantes e deixa os homens atordoados. Dessa
névoa, ele viu surgir um navio semi destruído que o senhor já sabe o nome e que aborda o
navio. O pânico toma conta da tribulação quando homens com as roupas em trapos, a pele
carcomida e apodrecida começam a saltar do navio e tomam o convés. Empunham espadas
enferrujadas e corroídas pelo mar. Alguns marinheiros tentaram reagir com disparos de
suas pistolas mas que não fazem o menor efeito. Os golpes começam a ser desferidos e os
homens são tomados pelo pânico. Alguns se atiram na água e são presas fáceis dos tubarões
que infestam a região. Ele conseguiu se salvar a muito custo liberando um bote e fugindo
daquele lugar. Ele parecia ensandecido quando nos relatou esta história. Entretanto, ele
morreu.
Fiquei pasmo ao ouvir estas notícias, mas como todos estavam calmos, procurei fingir
meu nervosismo.
__ Senhor, realmente é uma história impressionante. Os boatos e as histórias que
correm dizem, não exatamente com as mesmas palavras, mas falam coisas similares.
__ Nós já sabemos. Agora perdemos o Os Sete Mares, e novamente temos um
sobrevivente que está sendo mantido em segredo em nosso forte. Antes de ordenarmos que
ele venha aqui, gostaria de saber se é verdade a história de que o senhor acompanhou o
regresso do navio mercante Lua Crescente há mais ou menos dois anos.
A partir daquele momento entendi porque havia sido chamado.
__ Sim, senhor. Eu já havia teminado a Universidade e trabalhava com o médico
auxiliar no Porto de Sares. Naquele final de semana, o médico havia partido para o interior
para visitar seus familiares e eu havia ficado só. Meu trabalho era observar, juntamente com
um destacamento militar a chegada de navios e verificar a chegada de marinheiros que
estivessem apresentando algum sintoma que indicasse a presença de doenças
infecciosas e ...
__ Senhor, como é mesmo o seu nome ... David? Gostaríamos que fosse direto ao
ponto, pois não temos tempo, nem interesse em ouvir suas experiências profissionais.
__ Desculpe-me, Senhor Magnus. O navio Luar do Mar chegou rebocado, já que havia
sido encontrado a deriva e a tripulação do outro navio, não conseguindo fazer contato, e
temendo um doença contagiosa, o trouxe até o porto. Fui averiguar juntamente com um
destacamento de soldados e pudemos verificar que os dezesseis tripulantes estavam todos
mortos. Três deles tinham marcas de projéteis e outros nove haviam sido trespassados por
espadas. Tinham os rostos transfigurados e seu estado de decomposição não era muito
avançado. Imediatamente pedi que não fosse permitida a entrada de mais ninguém no
navio. Os soldados falavam de maldição do mar, bruxas, sereias que enlouqueciam os

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homens, mas eu não acreditei nisto. Preferi acreditar que havia acontecido algum tipo de
contaminação ou mesmo um grande motim que resultou na morte de todos.
__ E o que o senhor concluiu?
__ Ao investigarmos o interior do navio, constatei a presença de cravagem no centeio que existia dentro
do navio.
__ Cravagem? Mas o que é isto?
__ Cravagem, senhor Magnus, quando ingerido pelo homem provoca o ergotismo. Ele afeta o sistema
nervoso causando loucura violenta e morte, precedida por um comportamento irracional. Uma insanidade
coletiva provocada por estas condições induziu a tripulação a um ataque coletivo. Os que não morreram no
combate morreram depois.
__ Muito interessante, meu jovem. Uma atitude muito inteligente observar que todos morreram por um
motivo e que para isto foram expostos todos, sem exceção. A comida é servida a todos e na mesma hora. Uma
dedução simples mas muito astuciosa.
Era o professor Július que falava.
__ Muito obrigado, professor.
__ Apenas relatei a verdade. – continuou, mas agora que você já sabe da situação que está afligindo
nosso Reino e que deve ter uma opinião como todos nós, gostaria que nos revelasse a sua teoria.
Parei por um instante. Um homem com aquele conhecimento queria que eu expressasse meus
pensamentos, muito me orgulhava.
__ Sim, senhor, apesar de não ter tido contato, nem analisar o corpo dos homens, posso dizer que existe
a possibilidade de Os Sete Mares ter sido vítima de cravagem, mas nossos navios de guerra não. O Doutor
Roberto e o senhor mesmo, que já esteve na marinha pode dizer melhor do que eu. Toda a alimentação de
nossos navios é regularmente observada e testada. A marinha cuida muito bem da alimentação de nossos
homens e acho muito pouco provável que dois de nossos navios tenham sido contaminados com cravagem em
tão pouco espaço de tempo.
__ Muito interessante. Mas o que está havendo na sua opinião?
__ Eu tenho uma teoria. Todos falam de uma nuvem esverdeada. Não tenho certeza, mas acredito que
esta nuvem possa ser a chave do problema. Este nevoeiro poderia ser tóxico, o que provocaria as alucinações
e que, devido a fantástica história do Vingador dos Mares, causaria pânico à tripulação. Com o pânico eles
acabariam lutando entre si achando que estavam combatendo fantasmas.
O professor Július me olhou fixamente. Todos também me olharam.
__ Não é possível, disse o Almirante Demitre. É a mesma teoria que a sua, Július.
__ Sim. A do jovem David é um tanto quanto mais simples, mas sim, é a mesma que a minha. A
hipótese pirata foi descartada, pois os navios encontrados estavam com todas as cargas intactas. A hipótese de
intoxicação também, devido a dois dos três navios serem militares.
Fiquei muito impressionado com o fato de minha teoria ter sido a mesma do professor. Era óbvio, que
tanto ele como eu, não acreditávamos nesta história de navios fantasmas percorrendo os mares em busca de
vingança, ou mesmo de cadáveres assassinando toda a tripulação dos navios.
__ Senhores, retrucou o Capitão Kurchov,e se estamos a volta com um novo capitão Átila, disposto a
atacar todos os navios que encontrar?
__ Também já pensei nisto, caro Capitão, mas porque todos os navios alegam terem visto o Vingador
dos Mares semi-destruído?
__ Talvez porque realmente ninguém o viu afundar.
__ E o senhor, bispo Kirsek, o que acha desta história? É possível que um navio e toda a sua tripulação
retorne da morte e provoque estes estranhos acontecimentos?
O bispo, que até então não havia se pronunciado, olhou-nos fixamente e começou a falar com muita
calma.
__ Sem dúvida é uma história bastante intrigante, mas devemos refletir com muita prudência. Às vezes,
nos deparamos com fatos que nos parecem inexplicáveis, mas não devemos nos deixar levar pelo medo ou
ignorância. Em meus estudos sobre o sobrenatural, viajei por muitos lugares e pude comprovar a existência de
muitas histórias inexplicáveis, mas muitas foram reveladas como tratando-se de fenômenos da natureza ou
mesmo truques provocados por pessoas inescrupulosas. Mas uma pequena parte realmente nos questiona até
hoje. A igreja é cética no que diz respeito ao retorno dos mortos, principalmente da maneira como estão se
desenrolando os fatos e ...

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__ Por favor, senhores, retrucou o conselheiro real. Esta discussão não irá nos levar a nada. O que temos
em mãos, sendo um navio de amaldiçoados ou não, é um problema de ordem internacional. Navios estão
sendo destruídos naquele lugar. Marinheiros estão sendo mortos. Após a nossa vitória na guerra, muitos
reinos fazem comércio conosco e também precisamos constantemente negociar com eles. Agora, com estes
acontecimentos, alguns deles já ameaçam comercializar com nossos antigos inimigos, alegando falta de
segurança, sem contar o clima tenso que paira sobre nossos inimigos. Nenhuma grande companhia se arrisca
mais a viajar por Luger e se esta situação não for resolvida, sabem o que poderá acontecer. Teremos um caos
em nosso Reino. Se perdermos o controle de nossas importações e exportações ficaremos a mercê de nossos
inimigos e sua Majestade jamais desejou isto. E esta preocupação que o está deixando muito apreensivo e não
esta história de navio fantasma.
__ Senhores, disse o almirante Demitre. Nós os chamamos aqui porque temos um sobrevivente junto de
nós. Foi encontrado também em um bote à deriva e neste momento está em uma sala no hospital ...
Neste momento, a conversa foi interrompida por uma grito, que mais pareceu um urro de medo. Eu
fiquei extremamente surpreso. Parecia que alguém estava sendo brutalmente torturado. Imediatamente o
Capitão Kurchov saltou da cadeira.
__ O marinheiro sobrevivente! - disse.
Em seguida, saiu em disparada pela porta. O forte já estava em polvorosa. Levantei-se e fui atrás dele.
Não queria perder os acontecimentos que se seguiram. Descemos a escada rapidamente e nos deparamos com
soldados correndo para o ambulatório. Alguns portavam fuzis, outros pistolas. Dirigimo -nos para lá. Muitos
estavam aglomerados em uma das portas. Kurchov os empurrou e entrou na sala. Entrei em seguida. No chão
da sala, iluminada por um lampião jazia um homem com um grande ferimento no peito. Em outro lado, havia
um soldado, provavelmente o homem que tomava conta do marinheiro. Tinha os olhos esbugalhados e olhava
pela janela que dava para o mar, num paredão inacessível de mais de 40 metros que dava para um mar
revolto.
O Capitão dirigiu-se para o marinheiro.
__ Está vivo. Doutor David, depressa.
Aproximei-me do homem.
__ Preciso de um pano, rápido. Imediatamente me passaram um toalha e fiz pressão junto ao marinheiro
que não aparentava mais de vinte e cinco anos.
__ Quem fez isto a você? – perguntou o Capitão.
Neste momento, entraram na sala o Almirante e todos os outros que estavam a pouco em reunião que
disse:
__ Esvaziem imediatamente esta sala e tranquem a porta.
A porta foi fechada e todos os soldados saíram.
O marinheiro tinha a boca ensanguentada. Olhou fixamente para mim. Jamais esquecerei aquele rosto.
__ Eles vieram me buscar... balbuciou
__ Quem? - perguntou o Capitão.
__ Nós os matamos. Agora eles estão de volta e querem vingança ...
__ Quem, homem? Por Deus quem fez isto com você?
__ Os homens do Vingador dos Mares. Não podemos escapar de sua ira ...
Aquele jovem marinheiro estava morrendo. Disso eu sabia. Sua pulsação ia enfraquecendo cada vez
mais ...
__ O que você viu ...
__ Um deles, a espada. Que Deus tenha piedade de nossas almas ...
O marinheiro fechou os olhos.
O Capitão olhou para mim e lhe fiz um aceno negativo.
__ O soldado também está morto, parece que teve uma parada cardíaca por uma emoção muito forte.
Disse o Doutor Roberto.
Imediatamente o Capitão saiu da sala e correu para a rua ordenando que os soldados dessem uma busca
forte atrás do feitor daquele crime. Me levantei e fiquei olhando aquele corpo no chão. Já tinha visto corpos
antes, mas nunca vi alguém morrer em minhas mãos. Senti-me inútil. Todos os anos que estudei não serviram
para nada. Fiquei perplexo e não consegui reagir. Minhas mãos estavam ensangüentadas. Olhei para o
professor. Ele não se abateu por nenhum momento com o que acabara de presenciar. Primeiro observou
calmamente o soldado e a posição em que estava. Depois, devagar, veio em minha direção e observou o
corpo. Retirou a toalha e rasgou a camisa do marinheiro.

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__ Doutores, o que me dizem do ferimento?
Eu e o Doutor Roberto nos aproximamos.
__ Um ferimento com três centímetros de largura, que trespassou o corpo, falei virando o corpo para
constatar o que acabara de falar.
__ Que tipo de objeto poderia fazer isto.
__ Uma espada ou algo muito semelhante. - pronunciou o Doutor Roberto.
__ Doutor David?
__ Foi uma espada. Sua lâmina está enferrujada, pelos traços de ferrugem na roupa e em volta do corte.
Veja, limpando o sangue pode-se ver que o ferimento tem traços que indicam um objeto de uma lâmina que
não estava muito afiada. O corte tem início aqui mas ao sair daqui está um tanto mais acima, talvez um
centímetro, um centímetro e meio, o que indica ser uma espada militar e não uma espada qualquer. Ela
também possuía ranhuras, que podem ser observadas no ferimento. Estas espadas foram feitas sob medida
para um tipo de embarcação especial. Uma embarcação que representasse respeito e admiração a todos que a
observassem.
__ Sim, retrucou o professor. Foram feitas oitenta e cinco espadas assim. Seu nome era ...
__ Espada Lassimer, completei.
__ Isto mesmo. - retrucou o professor.
__ Como sabes disto? perguntou o Conselheiro Magnus.
__ Fui primeiro colocado em esgrima durante os anos na Universidade. Conheço muitas espadas, desde
sua fabricação até os tipos de ferimentos que causam.
__ Não é possível! - retrucou o almirante Demitre.
__ O que não é possível? perguntou o Conselheiro.
__ Doutor David, por favor, esclareça para o conselheiro.
__ Sim, professor. Estamos abismados porque esta espada foi fabricada somente para ser utilizada pelo
navio de guerra Vingador dos Mares. Não existem espadas como esta e fabricá-las é quase impossível, já que
o senhor que as fabricava faleceu dois meses depois de as ter confeccionado.
O Conselheiro engoliu em seco.
Saímos daquela sala e nos dirigimos novamente para a sala de discussões. A busca no forte se revelou
infrutífera. Ninguém além de nós tínha entrado no forte. Foi aí então que o Conselheiro real começou a falar
para o que tinha vindo.
__ Senhores, não há dúvida que precisamos encontrar uma solução para este mistério, seja ela
sobrenatural ou não. Vou lhes dizer o que sua Majestade me imcubiu de lhes dizer caso o marinheiro que está
morto lá embaixo não fosse capaz de dizer. A situação é insustentável e precisamos resolvê-la o mais rápido
possível, senão ao invés de termos marinheiros mortos de olhos esbugalhados e trespassados por espadas
enferrujadas que jazem no fundo do mar, poderemos ter uma guerra entre Reinos, caso navios continuem a ser
afundados e a nós recaia a responsabilidade. O que tenho a lhes dizer é o seguinte ...

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Capítulo III

Era uma bela manhã de sol quando cheguei a uma maravilhosa casa. Era um sábado muito bonito. Abri o
portão de ferro e passei pelo belo jardim, todo gramado, com flores ao redor de árvores plantadas ao redor da
grande casa. Este jardim era muito bem cuidado, não havia folhas secas pelo chão e a grama estava sempre
muito bem aparada. A casa era grande, bonita, pintada, de tijolos e possuía uma varanda que tomava toda a
frente da casa. Nesta varanda, havia um casal, sentado em cadeiras confortáveis, conversando em um tom
despreocupado. Ao me verem, pararam imediatamente de conversar. Tratava-se do Doutor Roberto e de sua
esposa. Quando me viu, sua expressão ficou apreensiva. Levantou-se e veio ao meu encontro.
__ David, falou com um expressão preocupada. Vieste conversar com Caroline.
__ Sim, Doutor Roberto. Já tomei minha decisão.
__ Você não vai viajar nesta expedição, vai?
Olhei para o senhor e pude ver a expressão de meu pai, que já falecera.
__ Sim, eu irei. Pensei muito nestas duas semanas que passaram e não pude recusar o convite do
professor Július para que o acompanhasse nesta expedição. Sinto que devo prestar esta contribuição para meu
Reino.
O doutor parou por um instante. Olhou-me firmemente.
__ Sabes David, eu o tenho como um filho, e não posso impedi-lo. No fundo, eu o compreendo. Sim,
entendo esta alma de aventura em busca desta história inacreditável. Mas ouça, meu filho. Quero que tomes
muito cuidado e que voltes o mais breve, são e salvo. Esta viagem não será apenas uma aventura. Seu destino
é incerto e seu retorno não é garantido. – Olhou-me nos olhos e continuou - Quero que saibas que se não
quiseres ir continuarei tendo o mesmo respeito e admiração que sempre tive por você. Não pretendo conceder-
te a mão de minha filha somente porque tenho apreço e uma grande amizade por teu pai e por ti. Eu te quero
como um membro de nossa família porque sei do teu caráter, de tua responsabilidade e sei também o quanto
gostas de minha filha.
__ Fico muito honrado que o senhor tenha tais pensamentos a meu respeito. Sinto também ter que deixar
sua filha, a quem amo de todo o coração, mas não tenho coragem de dizer não a estes homens que arriscarão
suas vidas pela nossa pátria. Se não for, jamais conseguirei olhar para sua filha, tampouco para o senhor.
Doutor Roberto olhou para mim e colocou as mãos sobre os meus ombros.
__ Tens todo direito de seguir com estes homens. Que Deus abençoe esta viagem.
__ Ele abençoará, e irá nos proteger do mal, seja ele qual for.
Ficamos por um instante parados. Eu respeitava muito aquele homem. Finalmente, quebrei o silêncio.
__ Agora eu gostaria de saber se poderia conversar com Caroline.
__ Claro que sim. Está no jardim dos fundos. Sabes onde fica.
__ Sim, senhor.
Despedi-me de Doutor Roberto. Segui por uma calçada feita de pedras, que contornava a casa. Na parte
de trás, o jardim continuava. Era repleto de árvores e completamente gramado. Podia-se ver flores de vários
tipos, que davam um perfume adocicado ao ambiente. Pássaros cantavam e voavam de um lado para outro.
Caminhei mais um pouco e pude ver uma jovem sentada em um banco. Usava um vestido longo, de cor
branca. Tinha os cabelos longos, encaracolados, de cor castanho claro. Aproximei-se lentamente por trás e
coloquei minhas mãos sobre seus olhos. Ela não ficou nenhum pouco assustada.
__ É você David?
__ Sim. - respondi.
Ela levantou-se e me abraçou.
__ David, meu amor. A cada dia que passa meu coração torna-se cada vez mais seu.
Eu a segurei pelos ombros e olhei para seu rosto. Aquela visão fazia com que eu me esquecesse de todo
o resto de minha vida. Era de uma beleza insuperável. Tinha a pele clara, os olhos castanhos. Possuía uma
ternura sem par e um sorriso meigo e carinhoso.
__ Poderão se passar séculos, mas meu coração será sempre teu.
__ Não vejo a hora destes poucos meses que faltam para o nosso casamento passarem.
Ao dizer isto e olhar para meus olhos, sua expressão se alterou.
__ O que tens?
Olhei para ela e respondi:
__ Tenho que lhe contar uma coisa.

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__ Sobre o que se trata? Não queres mais casar comigo?
__ Esta é a única certeza que tenho em minha vida. Por favor, vamos sentar. Vim aqui para lhe dizer que
tenho que cumprir uma missão extremamente importante para mim e para nosso Reino. Parto dentro de dois
dias para o arquipélago de Luger em missão secreta.
Sua fisionomia se alterou. Sua expressão, de radiante e bela passou para triste e preocupada.
__ Mas o que tu farás lá? Navios estão aparecendo com as tripulações mortas ou desaparecidas e há
boatos que falam acerca de um navio fantasma.
__ É por isto que iremos para lá. Recebi um convite de professor Július para uma expedição em busca
dos segredos por trás desta estranha h istória.
__ Professor Július. O professor?
__ Ele mesmo. Parto com ele em um navio de guerra comandado pelo Capitão Kurchov e o mais seleto
grupo de marinheiros para desvendar este mistério. Estaremos em missão secreta. Nosso navio nunca existiu e
nunca partiu para aquele lugar. Sua majestade não quer que nossa expedição seja divulgada para não trazer
mais pânico para a população e os navios mercantes. Ele não acredita nestas histórias, nem mesmo o professor
Július. Mas temos de descobrir de que se trata ou isto pode acabar em uma guerra.
__ David, tenho receio que não voltes.
__ Mas eu voltarei e casarei contigo como prometi para teus pais.
__ Não posso impedir que partas?
Olhei fixamente para aquela jovem. Tive vontade de beijá-la. Mas tinha que controlar meu coração, ou
não seria um homem digno de merecê-la.
__ Não podes impedir que eu parta, mas podes desejar-me boa sorte.
Por um momento ela olhou para mim. Seus olhos se encheram de lágrimas. Seus lábios estremeceram.
__ Não deves ficar triste, nem chorar. – falei segurando firmemente em suas mãos.
Novamente ela me olhou. Esboçou um sorriso.
__ Meu coração irá contigo. Pegue, disse ela retirando um colar do pescoço.
Era um colar fino, de prata bem trabalhada. Tinha um pequeno crucifixo preso a ele.
__ É seu. Quero que o uses e sempre quando o vires, que saibas o quanto eu te amo e como desejo que
voltes para mim o mais rápido possível.
__ Eu o olharei todos os dias até meu regresso. Agora gostaria que trocássemos de assunto. É verdade
que estás ajudando as crianças no colégios das freiras?
A jovem sorriu.
__ Foi idéia minha e com apoio de minha mãe ...
Conversamos toda a manhã. Passei todo o dia com aquela família. Na parte da tarde conversei com o
Doutor Roberto sobre os detalhes da partida do navio, a tripulação. Estava começando a anoitecer quando
despedi-me daquela maravilhosa família e resolvi ir para a minha casa. Lembro-me de que, ao fechar o portão
olhei para a casa e os vi na varanda. Acenei para eles. Não pude ver as lágrimas que caíram do rosto de
Caroline.
__ Minha mãe, tenho a impressão que não o verei nunca mais.
__ Não digas isto minha filha. Ele é jovem, valente e irá voltar para casa.
__ Sua mãe tem razão. Se te amar como penso que te amas, ele voltará.

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Capítulo IV

Passei dois dias em grande alvoroço. Corria para explicar a meus clientes que iria fazer um curso em
outra cidade e ficaria um tempo incerto fora. O Doutor Roberto, conforme concordara, os atenderia até meu
regresso. Por outro lado, tratei de arrumar as minhas coisas. Levei roupas frias e quentes, pois não sabia que
condições climáticas encontraria em minha viagem. Levei capa de chuva, alguns livros que considerava
interessante. Também levei minha espada, que ganhei de meu pai. Era linda, com um lâmina bastante afiada.
Eu já havia ganho alguns torneios importantes de esgrima e havia estudados com um dos melhor espadachins
do mundo, um senhor que morava próximo da universidade, a quem tinha curado de um problema de coluna
que o incomodava há anos. Em troca, concordou em ensinar-me seus segredos com as espadas. Treinei
técnicas de diversos tipos, até mesmo algumas que não eram de nosso Reino, mas que ele fez questão de me
ensinar. Também não poderia deixar de levar meus instrumentos de trabalho. Um dos fatores que tinham
favorecido minha entrada nesta expedição era o fato de o Professor Július necessitar de um médico a bordo. O
Doutor Roberto seria o mais indicado, mas devido a sua idade mais avançada e também as minhas opiniões a
respeito do assunto, fizeram com o professor me fizesse o convite.
No fim do terceiro dia, após minha conversa com Caroline, uma carruagem chegou a minha casa. Tinha
dois soldados vestidos com trajes civis. A charrete também não tinha nenhuma indicação que se tratava de
assunto militar. Colocamos nossas coisas e partimos direto para o forte. Lá despedi-se do almirante Demitre e,
em uma pequena embarcação nos dirigimos para um navio de guerra, ancorado em local mais afastado da
baía. Ao nos aproximarmos, notei que se tratava de um grande navio, de três mastros, mais duas velas na
proa. Notei a movimentação no convés e pude ver o Capitão Kurchov dando ordens para os homens. Nas
laterais do navio, podia-se ver duas linhas de canhões. A de cima, tinha o calibre mais fino que a debaixo.
Cada canhão tinha uma janela para protegê-lo. Estavam todas abertas. O mar estava calmo, com alguns
bandos de gaivotas circundando o navio. Aproximamo-nos devagar. Uma teia de cordas nos foi jogada e subi
por ela. Minhas coisas foram içadas por cordas. Observei as feições dos homens. Todos, sem exceção eram
fortes, de pele bronzeada. Trajavam uniforme da marinha. Calça de linho, camisa branca, com decote em V,
entrelaçado por um barbante branco. Alguns deles usavam coletes de couro marrom. O Capitão Kurchov
estava vestido de farda da marinha, calça azul, com uma listra negra, uma camisa branca, coberta por um
bonito paletó também azul. Os cabelhos compridos estavam presos mostrando um bonito rabo de cavalo.
Tinha na cintura uma espada fina.
__ Vamos, homens! - ordenava. Temos que partir esta noite, para aproveitarmos a maré.
Ao me ver, pronunciou ordens para o primeiro imediato, um jovem que devia ter a mesma idade que eu,
e dirigiu-se para mim.
__ É uma honra tê-lo a bordo do Tempestade, meu amigo. Este barco é muito veloz e possui excelente
poder de fogo.
__ A honra é minha também Capitão. E espero retribuir com meus conhecimentos este convite. - disse
apertando a mão do Capitão.
__ Eu também espero. - disse uma voz conhecida.
Virei-me rapidamente e pude ver o professor Július e o bispo Kirsek aproximando-se de mim.
__ Doutor David.
__ Professor Július. Bispo.
__ Filho. - disse o bispo.
Cumprimentei-os. O bispo trajava uma batina negra e carregava um rosário nas mãos. O professor vestia
calça e paletó cinza. Usava um par de botas, que pude notar, apesar de estar meio escondido pela calça. Eu
vestia uma calça e uma camisa branca, de mangas compridas devido ao receio de queimar-me ao sol durante o
início da expedição, e botas de cor marrom, bastante resistentes. Minhas calças estavam por dentro das botas.
__ Vou deixar que conversem, pois tenho que preparar o navio para partir.
__ Sim, Capitão. Doutor David, Bispo, caminhemos pelo navio para esticar nossas pernas.
Andávamos junto às laterais do navio. Na popa havia dois lances de escada, que nos permitiram atingir o
comando da embarcação. Nesta parte, situava-se o leme onde um marinheiro já estava próximo, verificando
os últimos detalhes para o início da viagem. Ao todo existiam oitenta marinheiros a bordo, sem contar com o
professor, o bispo, o Capitão, o primeiro imediato e eu. A tripulação dividia-se em grupos e cada grupo tinha
um responsável. Havia o grupo responsável pelas velas, navegação, artilharia, limpeza, organização e

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alimentação. Era um navio extremamente organizado. No três mastros havia cordas emaranhadas em forma de
rede que vinham desde a parte superior até as laterais do navio. Alguns marinheiros subiam e desciam por
estas cordas. Outros estavam em cima dos mastros, sentados, verificando as amarras. Toda a madeira do navio
era nova, de cor escura, apesar da tinta, uma espécie de verniz, estar gasto em alguns lugares. Mas o navio
fora construído a pouco tempo, disso não restava dúvida.
__ O que o senhor acha, professor, deste navio?
__ Já deves saber doutor, que antes de ser professor, também fui capitão durante longo tempo e
participei de muitos combates no mar. Observando este navio, posso lhe garantir que trata-se de um dos
melhores de nossa frota. Mesmo deixando a marinha há vários anos, participei pessoalmente de sua
construção, como também do Vingador dos Mares, junto com o capitão Átila. Ele é veloz, ágil para se
navegar, responde rápido aos comandos do leme e seu poder de fogo é extremamente forte. Poucos navios,
tanto de nosso Reino quanto de outros, são como este. Esta tripulação que parte nesta missão foi selecionada
de quatros outros navios. Homens escolhidos por mim e pelo Capitão Kurchov. São homens valentes, fortes,
com larga experiência. Também solicitei a sua Majestade que cinco outros marinheiros fossem localizados e
que viessem a estar nesta embarcação. São homens que lutaram comigo e tenho extrema confiança em suas
ações. Tratarei de apresentá-los quando tiver oportunidade. Para a marinha, e para o povo, iremos fazer
exercícios de guerra ao longo da costa. Sua Majestade não quer alarmar mais a população, nem informar a
outros reinos que estamos para enfrentar um suposto navio fantasma com uma nau de guerra tripulada com
homens do mais alto nível. Isto seria um ato imprudente.
__ O senhor também não acredita nesta história de navio fantasma.
__ Teremos muito tempo para discutir sobre isto. Por hora, devemos entrar em nossas cabines, para não
atrapalharmos o trabalho da tripulação. Quando o navio tiver zarpado e a situação a bordo estiver mais
tranquila, nos reuniremos na sala de comando para o jantar. Então poderemos discutir estas e outras prováveis
hipóteses com mais calma.

Dirigi-me para minha cabine. Eu a dividia com o primeiro imediato. Era um quarto pequeno, possuia um
beliche rústico de madeira, uma pequena mesa redonda com duas cadeiras e um criado mudo de madeira
negra, que tinha alguns livros e um pequeno lampião sobre o mesmo. Um pequeno guarda-roupa para
acomodar as roupas e os pertences. Havia um pequeno espaço vago onde acomodei as minhas coisas.
Coloquei a espada de meu pai atrás de minhas roupas. De repente a porta se abriu e o primeiro imediato
entrou.
__ Doutor David, muito prazer. Sou o primeiro imediato. Meu nome é Sebastian.
__ O prazer é meu. Mas tire esse Doutor. Pode me chamar somente de David.
Era um jovem da mesma idade que eu, aproximadamente. Era forte, tinha na face uma exp ressão de
sinceridade e um ar de aventureiro. Seus olhos era miúdos, os lábios finos. Sua face era bronzeada devido a
sua exposição ao sol. Os cabelos eram cortados bem curtos, de cor castanha escura.
__ O Capitão Kurchov pediu-me para verificar se o senhor está em boas acomodações.
__ São ótimas. Diga ao Capitão que tenho tudo aqui o que preciso.
__ Então está bem. Irei me retirar para o convés. Partimos em aproximadamente dez minutos.
__ Está bem.
O primeiro imediato saiu do quarto e, cerca de dez minutos ouvi claramente a voz do capitão, dando
início a aventura mais incrível que participei em minha vida:
__ Zarpar ...
Eu não estava no convés, mas conhecia os procedimentos. Alguns homens içavam a âncora, enquanto
outros soltavam as enormes velas. Senti um leve tremor, seguido de um ranger de madeira. Estávamos
navegando. Dirigi-me então para o convés. A situação já estava mais calma. As velas dos três mastros
estavam içadas. O capitão gritou algumas ordens para um grupo de marinheiros. Estava no posto de
comando, junto ao marinheiro que comandava o leme. Conversou com ele, indicando a posição que o navio
deveria seguir e em seguida, colocou as mãos para trás e respirou fundo. Era uma figura imponente, o Capitão
Kurchov. Não era homem para ficar atrás de uma escrivaninha e sim para estar em ação. Se colocassem um
homem destes para serviços burocráticos, com certeza seria o seu fim. Eu penso que cada homem nasce para
um tipo de atividade, e caso ele não a execute, sua vida perderá o sentido. Eu próprio não conseguiria
executar nenhum outro serviço que não o da medicina. Olhei para a costa, que se afastava rapidamente. Meus
pensamentos encontraram a bela figura de Caroline. Sorri, por um breve momento. E, neste momento, percebi
o quanto a amava.

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Retornei para minha cabine, para continuar a arrumar umas poucas coisas que ainda não tinha
organizado. Às sete horas da noite, Sebastian avisou-me que era hora do jantar. A noite já havia caído por
completo. Alguns lampiões eram colocados em locais estratégicos no convés do navio. Este, não ficava todo
iluminado, mas podia-se caminhar e distinguir as peças que se encontravam no mesmo. Dirigi-me para a
cabine de comando. Lá o bispo, o professor e o Capitão me aguardavam. Saudei-os e sentei-me numa cadeira,
ao lado do professor. Era uma mesa para seis pessoas. Havia, na sala dois armários, repletos de mosquetes,
pistolas e espadas, todas já carregadas previamente. Somente o Capitão tinha as chaves. Havia, como em
minha casa, um quadro de um navio rompendo uma tempestade. Era uma navio muito parecido com o que
navegávamos. Uma escotilha estava aberta, deixando entrar o ar agradável da brisa do mar.
__ Senhores, saudei.
Sentei e me servi fartamente. Não sofria de enjôo, pois havia navegado muito de barco durante meus
trabalhos anteriores. Aliás, adorava andar de navio. O mar estava calmo. Servi-me de uma ração simples, a
mesma servida para os marinheiros. Havia também um pouco de run, que era a bebida que mais adorava.
Conversamos pouco durante a refeição. Depois que os talheres e pratos foram retirados, o professor quebrou o
silêncio.
__ Capitão Kurchov, qual rota iremos seguir?
O Capitão olhou para o professor.
__ Devemos chegar ao arquipélago daqui a uma semana. O senhor conhece melhor a região do que eu.
__ É provável. Naveguei muito por entre aquelas ilhas.
__ São tantas assim? perguntei.
__ São centenas, retrucou o professor. Algumas, não são mais que um amontoado de pedras, outras têm
alguns quilômetros de extensão. Algumas possuem água potável, o que é de grande valia para nossas viagens
e a de navios mercante. Existem outras que possuem densos nevoeiros que cobrem toda a sua extensão. A
chegada de navios é quase impossível, devido às fortes correntes, que arrastam os navios para os rochedos. É
o caso da ilha da morte. Três navios já afundaram lá e nenhum marinheiro sobreviveu. O último afundou há
dois anos. Era uma nau de guerra “hostil”. Esta ilha fica sempre com um forte nevoeiro em seu litoral,
cobrindo recifes e rochedos, e uma forte correnteza que cerca a ilha, impede manobras de aproximação.
__ Minha intenção, senhores, é cobrir uma maior área possível. Já conversei com a tripulação.
Ficaremos no mar o maior tempo possível, ou seja, até quando os mantimentos e a água potável existirem.
O Capitão levantou-se e colocou um mapa sobre a mesa. Ao abrí-lo, podia-se verificar que se tratava de
uma mapa do arquipélago.
__ Este mapa contém todas as maiores ilhas catalogadas, feitas pela nossa marinha, mas existem outras
que ainda não constam aqui. É um material muito valioso para a nossa marinha. Foi imprescindível em nossa
última guerra. Minha intenção é navegar por onde os navios foram atacados pelo Vingador dos Mares. Com
as informações obtidas, delimitamos a rota e o local aproximado de onde os navios foram abordados.
Com o dedo, o Capitão mostrou a indicação da rota que iríamos seguir. A rota incluía uma parada em
uma ilha para reabastecimento de víveres e também uma passagem próxima da famosa ilha da morte, na qual
fiquei interessado. O professor trocava informações com o Capitão. Sua experiência no mar, principalmente
naqueles lugares eram de muita importância. Conversamos mais um pouco sobre navegação, assunto que me
interessava. Depois me despedi e fui para meu quarto descansar. Acendi o lampião e li um pouco. Quando o
primeiro imediato entrou no quarto, já estava dormindo. Dormir em um navio, após ter acostumado com o seu
balanço, devido as ondas, é muito agradável.
Levantei-se cedo no dia seguinte. Comi um pouco e fui para o convés do navio. A agitação que tinha
presenciado no dia anterior havia passado. Os homens estavam mais dispersos no convés. Alguns, em grupos,
observavam o horizonte. Já não havia sinal algum de terra. As águas, no oceano, estavam claras e azuis. O
mar estava calmo e uma brisa forte nos empurrava para nosso destino. O sentimento de liberdade ao se
navegar por mar aberto é indescritível. Observei melhor a tripulação. Como no dia anterior, todos os homens
trajavam calças e botas de soldados da marinha. Alguns usavam camisa branca de algodão. Outros, um colete
cinza por cima e tinha uma bandoleira junto ao peito, para afivelar uma espada. Eram realmente homens com
uma ótima saúde, a julgar pelo seu porte físico. Todos, segundo questionei com o Capitão, sabiam
previamente da missão e nenhum dos que foram convocados desistiu. Dirigi-me ao castelo da proa. Pude ver
o professor, solitário, observando o mar a sua frente com uma luneta.
__ Está observando o mar? – falei apenas para iniciar a coversa.

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__ Doutor ... virou-se em minha direção, sim, observo o mar. Deus criou muitas coisas impressionantes,
mas o mar, em minha opinião, está entre as mais incríveis. A quantidade de vida, a sua harmonia entre os seus
animais, ou seja, o seu ecossistema é fabuloso.
__ Vejo que o senhor sente saudades de comandar um navio.
O professor me olhou fixamente.
__ Comandar homens é um dom, Doutor, mas comandá-los para a morte é um absurdo. Ninguém tem
este direito.
__ Nem mesmo pelo Reino?
__ Eu penso que não, e já expressei meus pensamentos para Sua Majestade.
__ Por isso o senhor deixou sua carreira militar?
__ Este foi um dos motivos. Os outros, sem querer ofendê-lo, dizem respeito somente a mim.
__ Desculpe professor. Não quis ser intrometido em seus assuntos particulares.
__ E não foi. Mas agora falemos de outras coisas. Diga-me, o que o levou a seguir a carreira de
Medicina?
__ Meu pai é doutor na cidade de Asfim e sempre tive muita vontade de também exercer esta profissão.
Estudei muito para poder cursar esta faculdade. Apesar de meu pai também ser um médico, nossos recursos
não eram muitos na época, mas consegui concluir estes estudos que para mim é um fascínio. Após a
faculdade, fiz alguns estágios e conheci, através de meu pai o doutor Roberto, que me ajudou muito para que
conseguisse montar um consultório e atender pacientes. Tenho também muito carinho por sua filha e pretendo
me casar com ela.
__ Hum, muito interessante, mas vi entre os seus pertences uma espada, ou o senhor pensa em fazer
algum assado a bordo trazendo algum espeto?
__ Não, é verdade. É tradição em nossa família que devemos aprender a arte da esgrima. Conheci na
faculdade um senhor que curei de uma doença. Em troca, me ensinou e aperfeiçoou minhas técnicas. Com
elas ganhei alguns torneios.
__ Qual o nome do mestre?
__ Senhor Jonathan.
__ Aquele velho! Não acredito que o senhor o curou de seu problema nas costas.
__ O senhor o conhece?
__ Insisti para que ensinasse alguns de meus oficiais, mas após a morte do filho ele parou de ensinar
esgrima.
__ Sim, é verdade. Mas, uma vez, ele me disse que eu o lembrava em alguns aspectos.
__ Se o Doutor teve aulas de esgrima com o velho Jonathan temos aqui um excelente espadachim.
__ Agora me diga, qual é a espada de seu pai ...
__ A espada é ...
Conversamos longamente sobre armas brancas, depois sobre Medicina, Filosofia, e Astronomia, o que
já não era o meu forte. O que mais me impressionava era como um capitão da marinha havia largado suas
funções e se tornado um grande conhecedor destes assuntos. O professor Július era um homem fantástico.
Tinha grande conhecimento também sobre política e defendia nossa prática de combate à pirataria, apesar de
alguns reinos vizinhos terem adotado esta técnica de pilhagem de tesouros alheios para enriquecer.

Os dias passavam calmos e tranqüilos. Às vezes, o Tempestade passava por alguma frota mercante, às
vezes algum brigue solitário. Sempre identificávamos o navio, que era colocado no diário de bordo. Passamos
também por uma tempestade, que demonstrou a força da natureza no mar, mas também mostrou a robustez e a
manobralidade do navio. Nestes dias de tempestade, fiquei praticamente o tempo todo dentro de meu quarto.
Algumas ondas as vezes atingiam o convés e os marinheiros andavam amarrados, para não serem atirados ao
mar. Todas a velas haviam sido arriadadas e amarradas. Ao fim do terceiro dia de tempestade, o mar acalmou
e parou de chover. Na outra manhã, o sol surgiu novamente.

O NAVIO FANTASMA PAG 21


Capítulo V

Antes de chegarmos ao arquipélago, ancoramos o navio em uma ilha, que era na verdade um posto
avançado da marinha. Lá, aproximadamente oitenta homens montavam uma guarnição que visava ao
reabastecimento de navios de guerra. Tivemos nosso suprimento de água potável renovado e também uma
nova provisão de víveres. O Tempestade continuou sua viagem.
Dois dias depois, chegamos ao arquipélago de Luger, também conhecido como arquipélago da morte.
Pude notar nos homens um estranho sentimento, não de medo, mas de receio. Mas os trabalhos no navio,
fizeram com que este receio logo passasse. O Capitão Kurchov uma vez, em uma das muitas conversas que
tive com ele, declarou:
__ Sabe, doutor, em um navio de guerra, você encontrará um terço da tripulação com estas
características. Este homens que não se amedrontam facilmente diante do perigo. Foram escolhidos a dedo,
com exceção de cinco deles.
__ Por que cinco deles?
__ Vieram junto com o professor. São homens que ele próprio escolheu. Não são homens de nosso
Reino, mas o professor os colocou sob meu comando e seguem rigorosamente as minhas ordens. Trabalham
junto com todos os outros. Em sua última guerra, a tripulação de seu navio não era formada somente por
soldados de nosso Reino. Ele tinha quase metade da tripulação de homens de outras nacionalidades, com
costumes e maneiras de lutar que a maioria de nossos capitães jamais tinha visto. Ele era admirado por todos
nós, e até nossos inimigos o temiam mais que a própria morte. Ele era o Vingador dos Mares vivo. Não era
um capitão cruel, não. Mas era extremamente astuto e habilidoso. Conhecia o navio que comandava, prego
por prego, tábua por tábua, sabia o número de balas de canhão existente no navio, bem como a quantidade de
pólvora disponível, o número de mosquetes, chamava cada marinheiro pelo nome. Lutava, em um combate,
lado a lado com seus homens.
__ Mas por que ...
__ Saiu da marinha? Por dois motivos. Um foi perder sua esposa, que afundou em um navio, quando ia a
seu encontro. Ficou bastante transtornado com sua morte. Aí a situação se agravou quando perdeu seu único
filho em combate. O navio em que lutava foi afundado pelo inimigo. Dizem que chegou ao Rei e falou “Vossa
Majestade, se não consegui proteger os bens mais preciosos que tive, não sirvo para proteger o Reino”. E
virou as costas para o Rei. Sumiu por um longo período até retornar e dedicar-se somente aos estudos, o que
passou a ser um obsessão.
Naquele momento entendi por que aquele homem parecia tão solitário.
A cada dia que passava, conhecia melhor a tripulação. Às vezes conversava com a equipe responsável
pelas velas, com a equipe de artilharia. A medida que entrávamos no arquipélago, sentíamos que estávamos
para nos confrontar com algo estranho, extraordinário. Mas nada alterava a rotina do navio, e a cada final de
dia me sentia aliviado por não termos encontrado o tal navio fantasma. Outra figura interessante era o bispo.
Homem extremamente reservado e que tinha pensamentos bastante definidos acerca destes acontecimentos.
Em uma conversa que tive com ele, pude ter certeza de suas opiniões que eram totalmente divergentes das do
Capitão e do professor. Enquanto ambos acreditavam que não se tratava de um fato sobrenatural, o bispo tinha
suas dúvidas. E em uma das conversas que tive a sós com ele, em seus aposentos, pude ter uma idéia melhor
de suas opiniões.
__ Então o senhor acredita em fatos sobrenaturais?
__ O que você entende por sobrenatural. Fantasmas? Ou será “fatos” que o homem, com seus parcos
conhecimentos hoje não consegue explicar são considerados sobrenaturais? Os milagres de Jesus podem ser
explicados cientificamente? São sobrenaturais? O senhor mesmo já deve ter presenciado algum doente,
moribundo e desenganado ganhar saúde, mesmo após medicina ter esgotado todos os seus recursos.
__ Já sim senhor. Já vi homens que considera mortos voltarem a vida.
__ Agora me diga, se o senhor tem certeza do que diz: Eles estavam mortos e voltaram a vida?
__ Então o reverendo acredita que os mortos podem voltar?
__ Eu, em meus poucos conhecimentos, acredito no que Jesus disse: A morte não é o fim, mas o início.
E nem todos os segredos foram revelados aos homens. Para mim, o que aconteceu com este navio e com todas
as almas que nele estavam é um mistério. Eu conhecia o Capitão Átila pessoalmente. Jamais acreditarei nesta
história de loucura, que tomou conta de seus homens e de seus navios. Ele era um homem muito poderado,
justo e de excelente caráter.
__ Mas o que o senhor acha que aconteceu, e o que está acontecendo agora?

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Esta conversa foi noite adentro e confesso que nunca uma conversa me esclareceu tanto acerca de vários
temas, como morte e ressurreição. Para o bispo, um homem que acreditava nas escrituras, era tudo muito
claro. Para mim, que acreditava na ciência, as coisas eram mais difíceis de compreender, ou mesmo aceitar.
O bispo era uma pessoa que tinha uma força e uma paz interior muito grande. Seus discursos sempre
traziam esperança e alegravam o espírito de quem quer que fosse. Ele próprio havia pedido para o rei para
participar desta expedição. Sempre que o mar estava calmo e que o Capitão concedia, uma missa era rezada a
bordo. Não era uma prática comum em navios militares, mas a tripulação parava para ouvir as pregações do
bispo e confesso que até mesmo eu me sentia calmo com as leituras de bíblia ou com as orações que
realizávamos. Para toda a tripulação, a figura do bispo representava uma proteção espiritual.
Cada dia que passava dentro do arquipélago da morte, era para alguns uma agonia. Em conversas que eu
tinha com a tripulação podia-se perceber claramente que alguns deles tinham um certo receio por aquelas
paragens. Alguns marinheiros falavam de outros navios, amaldiçoados como o Vingador dos Mares e que
apareciam de tempos em tempos, em locais próximos de seu naufrágio. Mas aparecer e matar toda a
tripulação do navio era outra coisa bem diferente. O Capitão Kurchov observava sempre com uma luneta o
horizonte à frente. No mastro principal, um jovem marinheiro observava, no ninho das gaivotas a aparição de
algum navio no horizonte, mas depois que entramos no arquipélago, não avistamos mais nenhum navio.
Éramos somente nós, um navio procurando outro que já havia afundado a algum tempo atrás. Num destes dias
bonitos, com mar calmo, sentei a sós com o professor e o questionei a respeito dos cinco homens que ele
havia recrutado para esta missão.
__ Quando eu era capitão, disse-me com um olhar de solitário que se perdia em seus pensamentos, eu
conheci vários reinos, e dentre estes, recrutei alguns homens para que lutassem comigo e ensinassem técnicas
de luta para meus homens. Eu tinha o aval do rei. A idéia era treinar meus homens para diversos tipos de
combate e o manuseio de diversos tipos de armas. Quando sai da marinha, alguns homens, de reinos
estrangeiros, que estavam sob meu comando, também abandonaram a marinha. Cinco deles mantiveram
contato comigo. São homens em quem confio. São inteligentes, sabem manusear várias armas, desde uma
faca até um mosquete, de uma lança indígena até uma besta árabe. Solicitei ao rei que me permitisse trazer
estes homens a bordo.
__ Já notei a presença deles.
__ Sim e eu os apresentarei a todos. Veja aquele. Seu nome é Chi Yang Li, mas eu o chamo somente de
Li. Seu pai era uma espécie de guerreiro muito especial em seu reino. Pertencia a uma estirpe de guerreiros
denominada Samurai. Seus ensinamentos acerca de lutas impressionariam muitos homens. Não o subestime
pela pouca estatura ou pelo seu físico franzino. Com as mãos nuas é capaz de derrotar muitos homens que
conheço com o dobro do seu tamanho ou físico. Possui uma espada diferente da nossa, não utilizada para a
marinha ou para o mar. Suas características a diferenciam em muito de nossas armas, mas não deixa de ser
uma excelente arma.
__ Interessante, vou pedi-lo para deixar testá-la.
__ Jamais a tocará. É inadmissível para um guerreiro de sua estirpe que outro toque em sua espada. Eles
também utilizam outras armas bastante exóticas. Pedirei que as mostre quando não estiver ajudando a
tripulação.
__ Aqueles dois são dos reinos frios.
__ Eu pude notar, professor. Pelo seu tamanho, físico, pele clara e cabelos loiros.
__ O que está usando a blusa branca chama-se Ezra e o que está usando a cinza chama-se Luvic. São
fortes e valentes. Manejam um machado muito bem. Em uma abordagem que sofremos, os dois deram cabo
de mais de trinta homens, causando tanto medo ao navio inimigo que eles bateram em retirada.
__ Acho que o negro que está descendo pela rede, também é um dos seus marinheiros.
O homem descia pela rede que ia do meio do convés até a parte de cima do mastro principal. Era um
negro alto e forte, com cabelos curtos e que trajava uma calça e botas de cano comprido. Estava sem camisa,
mas usava uma bandoleira para espada.
__ Ah sim, Bitaka. Pertencia a uma tribo no continente negro. Ele foi comprado por mim em um leilão
de escravos, que abomino veementemente. Comprei-o e lhe dei a sua liberdade. Aí então ele decidiu que me
deve gratidão eterna e sempre que eu precisar dele bastará chamá-lo. Eu o recrutei em minha tripulação e o
ensinei nosso idioma e a esgrima. Hoje posso afirmar com certeza que é um excelente marinheiro e honra
nosso Reino como se fosse seu. O último marinheiro é Abdu Ali, um muçulmano que encontramos náufrago.
Sua embarcação fora vítima de um navio pirata. Ali está ele, com aqueles rolos de corda. É um excelente

O NAVIO FANTASMA PAG 23


espadachim. Sua cimitarra defendeu nossa nação em muitos episódios, mas é uma pessoa bastante reservada e
extremamente culta. Usa o turbante negro por ser uma tradição de seu antepassados.
Abdu Ali passou por nós e cumprimentou o professor e a mim, baixando levemente a cabeça. Seus olhos
eram serenos e escuros. Tinha um bigode fino, seu rosto era magro e suas roupas eram sempre coloridas e de
seda. Usava um cinto largo com uma fivela dourada e um par de botas com o bico ligeiramente levantado para
cima.
__ Professor, sem dúvida, seu navio era algo assim parecido com uma babilônia do mar ...
__ Não. A maioria da tripulação era composta de homens do nosso Reino, mas estes homens que
recrutei ao longo de minha jornada, tinham o objetivo de tornar nosso navio e nossas técnicas de combate
diversificadas.
__ E o senhor conseguiu algum resultado?
__ Oh, sim. Meu navio, como o doutor deve saber era um dos mais temidos. Mas isto não se devia
somente ao número de canhões ou ao tamanho e velocidade que este podia infringir, mas sim, ao excelente
grupo de marinheiros que tive sob o meu comando e que, quando em combate, mostrava toda a sua destreza e
habilidade, deixando o inimigo perplexo. Eu utilizava técnicas de combate mesclando tipos diversos de
aproximação e ataque a navios, bem como estratégias diferentes para abordagem. Após a minha saída, as
minhas técnicas foram todas elaboradas em trabalhos que deixei na marinha como documentação
confidencial, mas nenhum capitão resolveu utilizá-las. Então, - suspirou fundo -, foram anos dedicados a
estudos e maneiras diversas para melhorar o desempenho de nossos navios de guerra que devem estar em
algum lugar em algum um forte, guardado em segredo.
__ É uma pena professor.
__ Eu também acho, mas temos bons navios, boas tripulações e nossos capitães e almirantes são pessoas
sensatas e que também possuem experiências próprias, que por sinal fazem de nossa marinha uma das
melhores do mundo.
A conversa prolongou-se por mais tempo. Quanto mais eu conversava com aquele homem, mais eu o
admirava. Ele era um verdadeiro poço de sabedoria, só que daqueles sem fundo. Eu o admirava e o observava.
Várias vezes eu vi sua figura no convés caminhando sozinha, observando o horizonte com sua luneta. Acho
que ele tinha suas próprias idéias acerca do navio fantasma. Idéias que ele acho que não gostava de
compartilhar com ninguém. Algumas vezes, ele juntava seus homens, sempre quando estavam de folga e
conversava com eles longamente. Era uma conversa alegre e calma, mas às vezes falavam baixo, como se
estivessem mantendo algum tipo de segredo. Conheci todos os homens pessoalmente e me impressionei
muito com Li. Era um oriental de estatura baixa, em torno de um metro e sessenta, sessenta e cinco no
máximo, tinha o corpo esguio, o que indicava que devia fazer exercícios de maneira regular, assim como
todos os outros. Às vezes, ele ia para o castelo da proa, ao cair da tarde, e fazia uma espécie de exercícios com
as mãos e com os pés. Parecia uma espécie de meditação. Nas primeiras vezes, os marinheiros riram, mas
depois se acostumaram e alguns observavam o oriental. Parecia muitas vezes, um felino andando, tal leveza
que demonstrava. Pedi-lhe para mostrar sua espada. Nunca havia visto algo parecido, mas como o professor
havia me dito, não me deixou tocá-la. Li era uma pessoa bastante culta, assim como Abdu Ali. Tinha
conhecimento sobre vários assuntos, principalmente Filosofia e Religião. Os outros três, Ezra, Luvic e Bitaka
eram mais alegres e mais simples em suas frases. Gostavam de rir e contar histórias divertidas dos portos por
onde passaram, as confusões que aprontaram em diversos locais que estiveram. Mas de uma coisa eu não
tinha dúvida: eram guerreiros natos, quer seja pelo seus físicos avantajados, quer pelo ar de liberdade e
coragem que inspiravam.
Quanto a mim, lia meus livros, fazia algumas anotações que achava importante em um pequeno livro e
conversava muito com Sebastian, meu companheiro de quarto. Era um jovem como eu. Tinha também uma
namorada e pretendia casar-se quando voltar. Chegou a convidar-me, juntamente com Caroline para a festa.
Nos tornamos grandes amigos. Era um jovem simples, que obedecia prontamente as ordens do Capitão
Kurchov, e apesar de sua idade, demonstrava bastante experiência e habilidade nas atividades que lhe diziam
respeito.
Às vezes, ao final da tarde, me sentava em algum lugar do convés e ficava a observar a corrente que
Caroline havia me dado. Parecia, não sei dizer de que maneira, que ela, naquele exato momento também
pensava em mim. Meus pensamentos voavam longe. Mas eu já havia decidido que assim que voltasse, a
primeira coisa que faria era casar com ela. Foi durante aquela viagem que descobri que a amava mais do que
tudo. E foi num momento desses que o professor aproximou-se de mim para conversar.
__ Qual o nome dela?

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__ O nome de quem? perguntei.
__ Da jovem que lhe deu esta corrente que leva no pescoço. Nunca vi ninguém observar tanto uma jóia,
a menos que fosse dada por uma pessoa muito especial, normalmente uma pessoa amada.
Fiquei admirado com o poder de observação do professor.
__ Seu nome é Caroline.
__ A filha do Doutor Roberto. Eu a conheço. É uma bela jovem. Muito bonita e muito simpática. Pelo
presente que lhe deu, creio que o seu coração já lhe pertence.
__ Assim espero.
__ Filho, vou lhe dizer uma coisa. Se você a ama, jamais a abandone. O futuro é incerto e nunca
devemos nos afastar das pessoas que amamos.
A maneira com que me disse estas palavras me levaram a crer que ele carregava consigo um grande
sentimento de culpa e que nutria ainda um grande sentimento de amor por sua família. Após me dizer isto,
retirou-se para sua cabine e não saiu pelo resto do dia.

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Capítulo VI

Dois dias depois, passávamos próximos da ilha da morte. Realmente, sua costa ficava coberta por um
nevoeiro e podia-se ver alguns recifes. Era, também, na minha opinião, impossível chegar àquela ilha. Ao
final da tarde, retirei-me para minha cabine para ler um pouco. A vista para o mar estava difícil. Parecia que
todo o mar fora coberto por uma névoa pardacenta, que hora era espesso, ora podia-se enxergar por um ou
dois quilômetros. Tanto o professor quanto o capitão disseram que a região era propícia a nevoeiros. Havia
uma calmaria que eu não via fazia vários dias. Mesmo com as velas içadas, o navio viajava lentamente. Eu
estava em minha cabine fazendo algumas anotações quando ouvi um grito do marinheiro que estava no ninho
de gaivotas.
__ Navio a vista.
A princípio, a notícia não me causou espanto, mas houve um grande alvoroço entre a tripulação.
Levantei-me então e fui para o convés. Marinheiros corriam de um lado para outro.
__ O capitão gritava com o homem que havia visto o navio.
__ É um dos nossos?
__ Não, senhor. É um navio “hostil”. Está se dirigindo para cá.
Nós do convés não víamos o navio, mas o termo “hostil” indicava que o navio pertencia ao reino com o
qual estivéramos em guerra há pouco tempo.
__ Senhor, gritou o marinheiro, o navio está avariado.
Neste momento, surgiu um navio a nossa frente. Era tão grande quanto o que viajávamos, três mastros,
mas as velas estavam recolhidas. O casco do navio estava intacto, mas, devido a neblina, não se podia ver o
convés.
__ O que aconteceu? perguntei ao professor.
__Também não estou entendendo, parece que não há ninguém a bordo, mas como chegou aqui então? É
um navio de guerra, veja as escotilhas dos canhões e o desenho do casco. Não poderia estar nestas águas, mas
um navio destes não viaja sozinho.
O Tempestade passava vagarosamente a uns vinte metros de distância. O outro estava parado, ao sabor
das ondas. O Capitão Kurchov gritou:
__ Alguém a bordo?
Não houve resposta. Novamente o capitão gritou e novamente não houve resposta.
__ Timoneiro, meia volta. Sebastian, içar âncora. Desça dois escaleres. Quero cinco homens bem
armados em cada um deles. Professor, doutor, gostaria que fossem comigo.
Nos prontificamos imediatamente e dez minutos depois rumávamos em direção ao navio. Todos os cinco
homens convocados pelo professor estavam nos escaleres. Nos aproximamos do navio. Dois ganchos foram
atirados e se prenderam à amurada do navio. A corda tinha um nó a cada meio metro, para facilitar a subida.
O primeiro a subir foi o Capitão. Todos os homens tinham espadas e pistolas. Até mesmo eu recebi uma
pistola. Quando eu cheguei e coloquei minhas mão na amurada, fiquei aterrorizado. Toda a tripulação estava
no convés. Todos mortos. Havia corpos por todos os lados. Calculei mais de setenta homens. Em alguns
faltavam membros, como braços, pernas, algumas cabeças estavam à distância dos corpos. Os olhos de alguns
dos mortos estavam abertos. O cheiro era intenso. Venci o impacto inicial e aproximei-me de um dos corpos.
Tinha uma cicatriz grande no peito, causada por uma espada. Atingira diretamente o coração. Virei o corpo e
constatei que havia atravessado o mesmo. Abri a camisa para retirar uma dúvida.
Ninguém dizia uma só palavra. Somente se ouvia o ranger do convés ao sabor das ondas.
__ Doutor, disse o Capitão aproximando-se de mim, juntamente com o professor, o que matou toda esta
tripulação?
Olhei fixamente para aqueles homens.
__ Este marinheiro morreu por um objeto cortante. Uma espada. Seu ferimento é igual ao do marinheiro
do Forte Duchigam. Pelo estado recente do corpo posso afirmar que ele morreu a não mais que dois dias.
__ É impossível! Fantasmas não podem fazer isso!
__ Calma Capitão, ponderou o professor. Ninguém disse que foram fantasmas.
__ Então como o senhor me explica um navio armado como este, com homens treinados terem um fim
destes? E por que não há nenhum corpo além da tripulação? Por que todos os mortos estão com as espadas
nas bainhas? Não houve resistência. Olhe a expressão daqueles homens. Parece com combateram algum outro
marinheiro? O senhor, como eu, já presenciou homens mortos em batalha. Jamais tiveram esta expressão.

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__ Capitão, disse um marinheiro, aproximando-se. Todos os canhões da banda direita foram disparados.
Existem algumas pistolas com os mortos que também foram disparadas.
__ Quero que verifiquem cada canto deste navio. Qualquer objeto estranho deve ser trazido
imediatamente até nós. Verifiquem a tripulação, para o caso de haver algum sobrevivente.
__ Sim, senhor.
O marinheiro virou as costas e deu as ordens para os outros, que saíram em várias direções.
Eu fechei os olhos do marinheiro.
__ Eu conheço este navio, disse o professor, é o Ciclone. E aquele ali, falou apontando para um corpo
vestido de oficial, mas com o rosto todo deformado, é o seu oficial.
__ O senhor o conhecia?
__ Não pessoalmente. Mas conheci seu pai. Também é um capitão. Já lutei contra ele. Se seu filho era
como ele, estão este navio era uma fortaleza, com homens destemidos e audazes. E o que aconteceu aqui é
realmente uma incógnita ...
__ Vivo! Vivo! gritou Li. Este aqui está vivo!
Imediatamente corri naquela direção, desviando dos corpos que estavam espalhados. O professor e o
Capitão me seguiram. Aproximei-me do moribundo e pus meu ouvido em seu coração. Podia-se ouvir, ainda
que bem fracas, as batidas do seu coração. Tinha um grande ferimento no peito.
__ Realmente está vivo. A espada resvalou em uma costela. Capitão, precisamos fazer uma padiola. A
vida deste marinheiro é fundamental para desvendarmos este mistério. Preciso também de cordas e tiras de
pano para imobilizá-lo e levá-lo o quanto antes para o navio.
__ Concordo plenamente.
O Capitão deu ordens e alguns marinheiros dirigiram-se ao porão e quinze minutos depois voltaram com
uma padiola improvisada com tábuas retiradas de uma cama, um rolo de cordas e alguns lençóis já em tiras.
Vinte minutos depois, o marinheiro era descido para um escaler de maneira bem vagarosa. Procurei cuidar ao
máximo para que ele não viesse a falecer. Rumamos rapidamente para o navio. O Capitão, o professor e
quatro marinheiros ficaram no Ciclone.
O marinheiro foi colocado em minha cama. Limpei o ferimento. Ele havia perdido muito sangue e era
um milagre que ainda estivesse vivo. Coloquei alguns medicamentos, fiz um bandagem que cobria todo o seu
peito. Era um marinheiro que devia ter uns cinqüenta anos. Uma barba rala cobria o seus rosto e o seu cabelo
meio avermelhado era longo, indo até os ombros.
O Capitão, assim que chegou ao navio veio para minha cabine. Uma turma de marinheiros se
aglomerava diante de minha porta. Com duas frases do capitão, todos sumiram.
__ Como ele está?
__ Perdeu muito sangue, mas continua vivo. Seu coração bate fraco. Coloquei os remédios que
disponho. Só nos resta esperar.
__ Doutor, a vida deste homem é muito importante. Nele pode estar a chave deste mistério.
__ Eu sei disto e farei todo o possível para salvá-lo ...
Ocorreu então uma grande explosão. Depois outra e mais outra
__ O que foi isto?
__ Foram ordens minhas. Mandei colocar todos os corpos no porão do Ciclone e acendemos barris de
pólvora próximo ao casco do navio. Eu e o professor, juntamente com sua majestade, decidimos que um navio
desaparecido é muito melhor do que um navio encontrado nestas condições, principalmente dentro de nossas
águas.
Dirigi-me para o convés. Muitos marinheiros estavam na amurada. O navio afundava rapidamente. Em
pouco tempo havia no local, apenas alguns barris e umas tábuas. O meu quarto estava vigiado por dois
marinheiros. Somente eu, o professor e o Capitão tínhamos ordem para entrar no quarto. Passei aquela noite
em claro, velando por aquele que podia por luz a este mistério. Nos dois dias seguintes, o marinheiro deu
sinais de melhora. Seus batimentos melhoraram. Sua temperatura também aumentou. O alimento era líquido,
uma sopa que era dada boca abaixo. Cuidava do ferimento diariamente, que por sua aparência indicava não
possuir sinais de infecção. No terceiro dia o marinheiro começou a delirar e a pronunciar algumas frases.
Então, mandei chamar o Capitão.

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Capítulo VII

Kurchov, juntamente com o professor, entraram no quarto apressadamente.


__ Está um forte nevoeiro lá fora. Nunca vi o mar deste jeito. – falou o Capitão. Como está o
marinheiro?
__ Teve febre alta, mas esta já começou a ceder. Até poucos instantes pronunciava algumas palavras
sem sentido.
__ Que palavras? – perguntou o professor.
O marinheiro estava deitado, com o rosto umedecido pelo pano com água fria que estava em sua testa e
que de tempos em tempos eu passava sobre seu rosto para aliviar o calor da febre. Sob a pequena mesa, havia
uma tina de água com alguns remédios que misturei para tentar refrescar o paciente.
__ Pronunciou muitas vezes a palavra Vingador.
__ O doutor acredita em sua recuperação?
__ Pelos conhecimentos que tenho, Capitão, este homem tanto pode dormir por dois ou mais dias como
pode acordar daqui a meia hora. Seus estado, apesar da febre, não é dos piores. A ferida não infeccionou e o
sangue já foi estancado. O ferimento não atingiu nenhum órgão seriamente.
__ Os canhões ... o marinheiro voltou a falar.
O professor fez sinal para que ficássemos quietos.
__ Os canhões não fizeram efeito ... Ele vem para cima de nós ... Estão pulando para dentro do convés ...
É o inferno que recai sobre nossas cabeças ... Que Deus tenha piedade de nossas almas ...
E voltou a ficar calado.
Olhei para os dois homens. Sem dúvida aquele homem havia presenciado algo terrível. Por um momento
ficamos em silêncio esperando que o marinheiro voltasse a se pronunciar. Até que finalmente quebrei o
silêncio.
__ O que os senhores acham?
__ Acredito que este homem deve ter presenciado algo extraordinário, e sua vida é de vital importância
para o desenlace desta história. – disse o professor.
__ Sim, falou o Capitão. Devemos velar pela sua vida, mesmo sendo de um inimigo, devemos procurar
saber a verdade.
Em nossa conversa, não sabíamos que a verdade vinha até nós.
__ Navio a vista!
O grito fez o capitão e professor saírem correndo pela porta. Fiquei observando o marinheiro. Que
segredos trazia consigo?
Um pouco da neblina do mar havia se dissipado, mas havia uma espécie de nuvens baixas, que hora
ofuscavam a vista completamente, hora nos permitiam ver por uns quinhentos, mil metros.
__ Que tipo de navio? – gritou o capitão para o marinheiro que estava no ninho das gaivotas.
__ É um navio de guerra, dos grandes. Está vindo vagarosamente, bem à nossa frente. Tem as velas um
pouco rasgadas, o convés bastante avariado.
__ Qual a cor do castelo da popa? – perguntou aos gritos o professor.
__ Negra senhor. E parece um pouco queimada.
__Consegue ver se há alguém no convés?
__ Um único marinheiro, no timão.
__ Quantas linhas de canhões.
__ Duas. Não espere. Três?
O professor e o Capitão se entreolharam. Somente um tipo de navio de guerra tinha o castelo da popa de
cor escura e três linhas de canhões.
__ Capitão Kurchov. O mistério dos ataques dos navios está a nossa frente. É o Vingador dos Mares.
__ Quero ver se este navio maldito vai resistir aos tiros de nossos canhões. Sebastian, ordene que a
artilharia fique a postos e carregue os canhões. Distribua os mosquetes e as espadas.
__ Tanto os canhões quanto os mosquetes já saíram carregados do fo rte.
__ Melhor. Ordene que fiquem a postos e ao meu sinal.
Houve grande polvorosa no convés do navio. Homens corriam de um lado para outro. Quando eu
cheguei ao convés, recebi uma pistola e uma espada de um marinheiro. Devolvi a espada, fui até meu quarto e

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peguei a espada de meu pai. Quando retornei ao convés, vi os homens se colocando próximos dos canhões
com tochas acesas. Ainda não conseguíamos ver o navio que se aproximada. Havíamos entrado em uma
espessa nuvem. Quando saímos, nos deparamos com um grande navio a nossa frente. Algumas velas estavam
rasgadas. O convés um tanto avariado. Marcas de queimaduras em vários lugares do navio As portinholas dos
canhões estavam fechadas. Não se podia ver nenhum homem naquele convés bastante avariado, mas havia um
vulto no timão do navio.
__ Professor? – perguntou o Capitão.
Július observava o navio com sua luneta.
__ Vem para cima de nós. Atire com os canhões.
__ Atenção, homens. Na linha da água. Para afundar. Fogo!
Grandes estrondos se ouviram e o navio se encheu de uma fumaça branca, de pólvora. Toda a banda
direita havia sido disparada de forma precisa, e quase à queima roupa. O navio que recebesse uma carga
destas na linha d’água, naquela distância, iria a pique. Após a cortina de fumaça ser levada pela brisa,
verificamos o impossível. O navio não recebera nenhum tiro. Nada o havia atingido. E vinha para cima de
nós.
__ Vai bater! – gritou um marinheiro.
Os navios se chocaram lateralmente. O barco todo estremeceu. Os homens, todos, sem exceção estavam
assustados. Foi quando um gancho, bastante enferrujado, caiu no convés. As cordas estavam cheias de um
limo esverdeado. Depois outro, e mais outro, estavam sendo jogados do navio. Estes tipos de ganchos eram
utilizados para abordagem. Vários deles foram atirados e depois começaram a ser puxados, para se juntar os
dois navios. O mais incrível era que uma fumaça parecia sair do convés do navio, impedindo que víssemos o
que se passava nele. Os dois navios já estavam unidos. Os ganchos estavam fortemente presos na lateral do
navio. Observei, por um momento o olhar dos homens do navio. Estavam apavorados e não acreditavam no
que estavam vendo. Não acreditavam que um navio pudesses resistir a um ataque destes. Foi aí que aconteceu
o inimaginável.
Um homem pulou do navio para dentro do convés do Tempestade. Era uma visão dantesca. Estava na
proa. A tripulação estava do convés para a popa. Todos ficaram estarrecidos. Era uma figura impressionante.
Trajava um uniforme igual ao nosso, só que usava uma jaqueta, especialmente desenhada para o Vingador dos
Mares. Só que havia um detalhe, estava completamente corroída. As mãos tinham partes da pele soltas. A
direita segurava uma espada enferrujada. O rosto estava completamente desfigurado.
Eram poucos os cabelos sob a cabeça. Era um cadáver vivo. Sua fisionomia tinha a morte estampada no
rosto. Os olhos estavam esbugalhados e tinham uma cor avermelhada. Outras duas figuras saltaram atrás dele.
Os marinheiros começaram a recuar, a medida que mais e mais cadáveres começaram a sair do meio da
fumaça.
__ Homens! gritou o Capitão. Preparar mosquetes!
Por um momento os homens reagiram à situação. Uma fileira de homens abaixados e outra de pé
formou-se. Até mesmo eu fiz pontaria com minha pistola naquele grupo de “criaturas”.
__ Ao meu sinal!
Já havia mais de vinte mortos vivos no convés do navio.
__ Fogo!
Uma nova cortinha de fumaça elevou-se sobre nós. Quando se dissipou, não havia mais vinte, e sim uns
trinta moribundos, que caminhavam em nossa direção. Um deles que havia saltado primeiro e que parecia
liderar o grupo abriu a boca e soltou um gritou aterrorizante.
__ Veja a roupa daquele. É a roupa de um capitão. – disse um marinheiro.
__ Então, retrucou Kurchov, aquele é ...
__ Átila, pronunciou o professor.
A tripulação ia se amontoando na proa enquanto mais e mais criaturas desciam para o convés do navio.
Algumas portavam espadas, outras machados e maças.
De repente, uma figura saiu do meio dos marinheiros e foi na direção das criaturas. Era o bispo Kirsek,
que murmurava frases e tinha um crucifixo numa das mãos. Ele passou por dois marinheiros que estavam de
joelhos petrificados pelo medo. O bispo ia se aproximando cada vez mais. O suposto capitão Átila parou por
um instante e observou o bispo, que continuava a pronunciar frases que quase ninguém ouvia. Percebía-se
apenas o movimento de seus lábios. Por um instante, as criaturas pararam. O capitão Átila pareceu baixar a
cabeça de medo e recuou. O bispo, então, tomou coragem e foi em frente. Então a espada que ele tinha nas
mãos zuniu no o ar e atingiu-o diretamente no coração. O bispo extremeceu em caiu no convés. O capitão dos

O NAVIO FANTASMA PAG 29


cadáveres aproximou-se dele, abriu a boca e soltou um grito que parecia uma gargalhada vinda dos infernos e
retirou a espada. Instantes depois o bispo morria. Os dois outros marinheiros que não conseguiam se mexer
foram decapitados pelos homens do navio fantasma. Cinco marinheiros saltaram no mar e foram mortos
rapidamente pelos tubarões que infestavam aquelas águas. O pânico começou a tomar conta da tripulação, que
começou a gritar. Alguns caiam de joelhos, outros choravam, rezavam.
O professor ficou calado, parecia não acreditar no que via. Eu fiquei petrificado com a violência da
morte do bispo e dos dois marinheiros. “Vai ser um massacre.” pensei.
__ Deus nos abandonou, gritou um dos homens, que correu de espada em punho na direção dos
marinheiros, que o mataram a golpes de machado.
Já deviam estar a bordo uns quarenta marinheiros do Vingador dos mares.
__ Cuidado ...
A voz era fraca, mas todos a ouviram. Na porta que dava para os alojamentos estava o marinheiro que eu
estava cuidando. Tinha uma mancha vermelha no peito, o que indicava que o ferimento voltara a abrir. Ele se
segurava na porta com dificuldade.
__ Eles ... são... homens ...
E caiu morto no chão do convés.
Por um momento ficamos abismados. Até que Abdu Ali saiu do meio dos marinheiros, colocou a mão
para as costas e retirou uma adaga.
__ Que meu senhor me perdoe.
E atirou a faca na direção de um moribundo que se aproximava. A lâmina atingiu o pescoço do
moribundo, que soltou um grito e caiu no chão, em uma poça de sangue. Os outros pararam por um instante.
Ficamos atônitos por alguns instantes. Mortos vivos que sangram e morrem!
__ Homens! gritou Abdu Ali, se sangram podem morrer como nós. E sacou um grande cimitarra. Um
dos marinheiros fantasmas aproximou-se dele de espada em punho. Teve seu braço arrancado com espada e
tudo pelo golpe de Ali. A seguir, sua cabeça foi arrancada com um violento golpe. Seu corpo caiu
pesadamente no chão. Os homens então sacaram suas espadas e foram para cima das marinheiros do navio
fantasma. O convés se encheu de homens lutando para todo lado. Corpos iam caindo um a um. Estávamos
com ódio. Dirigi-me para o marinheio atingido pela adaga de Addu Ali. Notei algo estranho em seu rosto.
Puxei-o pelos cabelos e seu rosto veio junto. Usava uma máscara, muito bem feita. Por trás dela havia um
jovem marinheiro.
Saquei minha espada e dirigi-me para a luta. Um dos marinheiros se aproximou de mim. Já não andavam
de maneira vagarosa, ou imitando cadáveres. Tinha nas mãos uma espada enferrujada. Eu jamais havia
matado um homem. Ele tentou atingir meu ombro, mas desviei e atingi-lhe rapidamente no ombro. Ele soltou
um grito e me atingiu com um soco. Fui jogado para trás e fiquei tonto por alguns instantes. Percebi então que
vinha em minha direção e levantei a espada e num impulso para a frente, perfurei seu peito, atingindo-lhe o
coração em cheio. O homem caiu do meu lado. Levantei-me e observei melhor com o que lutávamos. Não me
parecia mais um morto vivo. Fiz novamente o que havia feito da primeira vez. Coloquei a mão em sua cabeça
e puxei. Ela começou a se movimentar e saiu, até ficar em minhas mão. Era outra máscara, também bem
elaborada, e, que com a fumaça, a distância e o medo, faziam com que pensássemos estar diante de um
fantasma. Também surgiu a minha frente o rosto de um jovem marinheiro, que provavelmente tinha a minha
idade, ou um pouco mais.
De repente vários homens, também vestidos como os outros saíram do navio fantasma armados com
mosquetões e começaram a atirar nos nossos homens. Deviam ser uns trinta ou quarenta, que disparavam em
sincronia. Primeiro atiravam metade, e enquanto carregavam suas armas, os outros atiravam. Já havíamos
derrotado os homens que estavam a bordo. Os homens do Tempestade, que estavam armados somente com
espadas, começaram a cair frente aos disparos. Abdu Ali, recebeu três tiros e caiu fulminado. Bitaka também
foi atingido, mas teve tempo de lançar uma lança que atingiu em cheio o peito de um dos marinheiros. Luvic
jazia no chão sem vida. Tinha um ferimento no pescoço, causado por um disparo. Havíamos deixado os
mosquetes de lado e estávamos lutandos com armas brancas. Os disparos mataram muitos de nossos homens.
Éramos somente uns vinte. Quando um voz irrompeu do meio das névoas.
__ Július! Faça seus homens baixarem suas armas!
A princípio, em meio ao barunho dos disparos e os gritos dos homens pareceu-se estar ouvindo coisas.
__ Homens, Cessar fogo. Július! Faça seus homens baixarem suas armas agora!
Imediatamente os disparos cessaram. O professsor Július tinha o olhar perplexo. Olhou para o Capitão
Kurchov e os homens que ainda estavam de pé. Em seguida, observou os mosquetes apontados para eles e que

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não havia outra saída senão a rendição. Largou a espada. Seu gesto foi seguido por todos os outros homens,
inclusive eu.
Houve, por um momento um silêncio no navio, quebrado apenas pelas lamúrias de alguns marinheiros,
que jaziam mortalmente feridos. Neste instante, três figuras pularam para o convés. Trajavam roupas de
marinheiros comuns. Dois deles tinham pistolas nas mãos e o terceiro tinha uma espada na cintura. Não
usavam máscaras. Tive a impressão de serem os comandantes do navio fantasma, o que mais tarde
comprovou-se como verdade.
Olhei fixamente para o homem que estava no centro. Era um homem alto, que devia aparentar
aproximadamente um cinqüenta e cinco anos, cabelos loiros e bigodes compridos.
__ Almirante Haloram!
__ Július. – falou aproximando-se. Somente um navio sob seu comando poderia fazer o que vários
outros não fizeram. Enfrentar meus mortos-vivos.
__ Não estão sob meu comando e sim do Capitão Kurchov.
__ Então devo parabenizá-lo Capitão. Agora quero que todos os homens se entreguem sob o nosso
comando. Não faço prisioneiros, mas abrirei uma exceção neste caso, devido a sua presença.
Imediatamente, os homens nos cercaram armados com bistolas e mosquetões.
__ Capitão Random!
O suposto capitão Átila se aproximou. Retirou a máscara.
__ Leve os prisioneiros para o Vingador dos Mares. Acomode-os no porão número um.
__ Sim, almirante.
__ Mas ...
__ Sem perguntas, Július. Depois conversaremos. Agora o tempo urge e não podemos ficar aqui.
Fomos forçados a ir para o outro navio. Somente quando saltei para o convés é que percebi a ilusão com
que todos nós havíamos sido enganados. O navio que nos atacara não havia passado por nenhum combate. As
velas não estavam rasgadas, mas panos cortados foram amarrados a ela. As cordas, as madeiras queimadas,
tudo havia sido feito para parecer que o navio tinha seu convés avariado. Até mesmo a fumaça era feita com
fogareiros colocados estrategicamente no convés, que deveriam ter algum material químico que não consegui
identificar. Este material fazia aquela fumaça. Fomos revistados e colocados em um porão escuro, trancados
por uma porta de madeira maciça. Dois marinheiros ficaram do lado de fora. Observei por um instante os
homens que haviam sobrevivido. Todos tinha uma expressão de espanto e medo. Somente os homens que
tinham ferimentos leves vieram. Os feridos gravemente ou que não podiam deixar o navio foram deixados
para trás. Umas cem perguntas passavam na cabeça de todos nós. Quem eram aqueles homens? O porque
destes ataques? Quem era o Almirante Haloram? Porque tinham deixado-nos vivos?
Foi quando ouvimos alguns gritos. Éram os homens feridos que haviam ficado no Tempestade. Logo os
gritos cessaram. Vozes de comando começaram a ser dadas. O navio ia partir. Sentimo s os ganchos serem
soltos e os navios se separaram. Alguns instantes depois e uma explosão se ouviu.
__ Acalmem-se. - disse o professor. Esta explosão foi no nosso navio. Teve o mesmo fim que demos ao
navio que encontramos há poucos dias atrás.
__ Mas por quê? – perguntei. Por que afundá-lo e não deixar que ele fique a deriva para ser encontrado
por outro navio?
__ Porque, meu caro doutor, encontrar um navio com marinheiros mortos é uma coisa, mas encontrar
um navios com trinta, talvez quarenta homens trajando roupas de marinheiros mortos é outra.
__ E nossos companheiros?
__ Os gritos que ouvimos há pouco não nos deixam a menor dúvida.
__ Mas isto é loucura! – exclamou Kurchov. Por que nos atacaram?
__ Professor, indaguei com um pouco mais de calma, acredito que escapamos da morte somente porque
seu provável almirante, cujo nome é Haloram, reconheceu o senhor e deve ter uma grande admiração pela sua
pessoa. Gostaríamos, se fosse possível, que o senhor nos contasse quem é este homem.
O professor olhou para todos os marinheiros.
__ Harolam é um dos mais impiedosos almirantes com quem já lutei. Lutamos contra ele em nossa
última guerra. Nos enfrentamos no mar por três vezes e ninguém venceu os combates. Os homens sob o seu
comando, como puderam ver, são altamente treinados, fortes e seguem suas ordens à risca. Já presenciei ele
punir severamente quem as desobedecesse. É um líder nato, astuto e muito inteligente. Mas após a guerra, ele
desapareceu. Já faz algum tempo que tive as últimas notícias a seu respeito. Uma doença desconhecida o
havia levado a morte em uma viagem de exploração no continente negro.

O NAVIO FANTASMA PAG 31


__ Mas o desgraçado está mais vivo do que nunca!
__ Sim Capitão Kurchov. E muito bem vivo. Fico pensando e também gostaria de saber seus planos.
Mas dados os últimos acontecimentos pode-se suspeitar que nos querem vivos, pelo menos por algum tempo,
ou já teriam dado cabo de nós como fizeram com os feridos.
Conversamos ainda sobre várias questões que nos intrigavam. Os últimos acontecimentos haviam
alterado todo o enredo desta aventura. Discutimos muito, mas sem chegar a nenhuma opinião concreta. A
medida que o tempo ia passando, íamos nos acalmando mais. Tratei de alguns ferimentos superficiais que
alguns dos marinheiros tinham conseguido durante o combate. Ficamos ali o resto do dia. Já era noite quando
a porta se abriu e o capitão de nome Random entrou, seguido de cinco marinheiros armados com pistola. Já
não vestiam as roupas de homens mortos e sim vestimentas de marinheiros comuns.
__ Professor Július. O almirante solicita sua presença e de seus oficiais em sua cabine.
O professor chamou o Capitão para perto e murmurou:
__ Kurchov, disse o professor. Seria interessante deixar aqui Sebastian para acalmar os homens. Leve o
doutor conosco. É homem ponderado e confio em seus atos.
O capitão deu ordens para Sebastian e falou para a tripulação que se acalmasse. Em seguida convidou-
me para segui-los. O convés do Vingador dos Mares era maior do que o do Tempestade. Observei a
tripulação. Eram homens em plena forma, o que indicava, provavelmente, que pertenciam a marinha. Todos
portavam pistolas ou espadas em suas cinturas. Observei os canhões. Pelo quantidade e calibre podia-se dizer
sem medo que o navio era uma fortaleza flutuante. Uma obra de engenharia incrível, magnífica para a sua
época.
__ Este aqui não é o Vingador dos Mares.
A afirmação do professor fez parar meus pensamentos. Seguíamos a frente da coluna, sempre sob a mira
das pistolas.
__ Como assim? – perguntou o Capitão Kurchov.
__ Observe os acabamentos. A madeira. Eu participei diretamente da contrução do navio e estive
algumas vezes em seu convés. Este aqui é uma cópia fiel, mas não é o nosso navio. Posso afirmar com
certeza.
__ Então o que aconteceu com o verdadeiro, o Capitão Átila e a sua tripulação.
__ Não faço a menor idéia. Talvez o almirante possa nos dizer alguma coisa.
Entramos na cabine do capitão. Era espaçosa, com móveis finos. Sob uma mesa, jaziam alguns mapas.
Debruçado sobre eles, o almirante Haloram usava uma régua e fazia alguns cálculos.
__ Július. Meu eterno adversário ...
Entramos na sala, seguidos do capitão Random e dois marinheiros. O professor o olhava fixamente.
__ Não sei como pode fazer uma atrocidade destas, Haloram. Somente um homem sem caráter iria
atacar estes navios desta forma.
__ Meu amigo ...
__ Por favor, retrucou, rogo-lhe que não me chame de seu amigo. Somente concordei em estar aqui para
ver se consigo colocar luz sob esta história de crimes e assassinatos.
__ Crimes! O que sabe sobre crimes. Por acaso o ataque de seus navios em nossa costa não foi um
crime? Sabe quantos civis morreram?
__ Do mesmo modo tivemos vários navios mercantes afundados. Tanto eu quanto o capitão Átila
atacamos somente os fortes, mas estávamos em guerra. Huve perdas em ambos os lados. Mas agora a guerra
acabou. Nada justifica seus atos.
O almirante Haloram acalmou-se.
__ Sugiro que sentem-se cavalheiros. Não vai me apresentar seus oficiais?
Observamos o professor. Este nos acenou para que nos sentássemos. Puxei uma cadeira e sentei-se. O
Capitão Kurchov fez o mesmo. Os outros marinheiros ficaram atrás de nós, de pistolas em punho. O Capitão
Random também sentou-se à mesa.
__ Este aqui é o Capitão Kurchov. Este é o Doutor David, nosso especialista em Medicina.
__ Hum, pois muito bem. Tiveram suas vidas poupadas porque tenho consideração por você, Július. É o
maior adversário que combati e pretendo que tenha- conhecimento de meu triunfo diante de seu Reino.

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Capítulo VIII

__ Como deves saber, Július, enquanto estávamos em guerra, esta área foi palco de grandes combates. É
uma região estratégica devido às ilhas e provisões que pode fornecer. Perto do final e com nossa marinha já
tendo dificuldades de se locomover até aqui para combater e regressar para nosso Reino para reabastecimento,
demos início a uma busca de uma ilha onde pudéssemos reabastecer e nos rearmarmos sem ter que voltarmos
para o nosso reino. Infelizmente a guerra acabou e saímos derrotados. Mas uma ilha, localizada aqui no
arquipélago foi descoberta. E, nesta ilha, era possível a construção de um forte e de um arsenal sem que
ninguém tivesse conhecimento.
__ Isto é impossível. A construção de um forte seria avistada por nós mais cedo ou mais tarde.
__ Não se a ilha fosse coberta de uma névoa espessa.
Os olhos do professor se abriram.
__ A ilha da morte!
__ Esta mesma. Em um dos combates, já no fim da guerra, um dos nossos navios ficou com o velame
todo comprometido e pôs-se a deriva. Foi quando uma correnteza o puxou para dentro da ilha. Os marinheiros
que estavam a bordo se apavoraram. Mas o navio passou por entre os rochedos e lançou âncoras em uma
grande baia. Os homens puderam então desembarcar em terra. É uma ilha grande com água potável. A neblina
cobre somente as extremidades da ilha. O navio foi reparado e após içar as âncoras a correnteza o levou para
fora da baía. Voltando a nosso Reino, o segredo foi revelado. Dois navios foram enviados para constatar o que
havia por trás destas correntes. Um deles, tentando entrar com as velas içadas, bateu num rochedo e afundou.
O outro, somente ao sabor da maré passou novamente pelos rochedos e aportou na baía em segurança. Ficou
constatado então tratar-se de um fenômeno de marés. Uma maravilha da natureza. Só que havíamos
descoberto um tanto tarde. Nossa marinha não dispunha de recursos para um projeto desta natureza. Então,
para não comprometer o resto de nossa marinha, o rei preferiu um acordo. Foi então que chegou em nossas
mãos um projeto de um tipo de navio revolucionário. Um navio veloz, com canhões potentes e que poderia
alterar o equilíbrio naval. Era um projeto que tinha muitas inovações, no casco, mastros e velas. Era uma
maravilha de engenharia. Iniciamos a construcão quase que no mesmo tempo que vocês e os nossos
Vingadores dos Mares ficaram prontos três meses depois que o seu primeiro foi inaugurado pelo capitão
Átila.
__ Como assim Vingadores dos Mares? – perguntou o Capitão Kurchov.
__ Foram construídos dois navios. Um deles, comandado pelo capitão Macek, rumou para o arquipélago.
__ O capitão Macek, o carniceiro.
O almirante Haloram sorriu.
__ Sim. Trajavam vestimentas de seus marinheiros e tinha a bandeira de seu reino. Abordaram o
Vingador dos Mares em uma manhã. Invadimos o navio e o capitão Átila foi feito prisioneiro. A tripulação se
rendeu mesmo com os pedidos de Átila de se rebelarem. Todos os homens lhe eram muito fiéis. Átila se
juntou a seus homens no porão do navio. Então o capitão Macek o afundou.
__ Loucura! – gritou o professor. Que o capitão Macek era um sanguinário eu já sabia. Mas matar o
Capitão Átila e toda a sua tripulação afogados. Que Deus amaldiçoe todos vocês!
O almirante Haloram fez uma pausa. Depois continuou.
__ Gostaria que se acalmasse Július e continuasse a me ouvir. Após o ataque, Macek começou o plano
para causar uma série de incidentes que causasse a declaração de guerra dos três reinos contra o seu, o que
nos seria de grande ajuda. O plano ia indo bem, quando ele foi surpreendido por uma esquadra sua. Não
havíamos tido conhecimento de sua viagem a tempo de avisar o capitão Macek, que foi combatido e afundou
muito próximo daqui.
__ Como ficaram sabendo dos passos de nossa esquadra, a localização do Vingador dos Mares? Como
abordaram o navio? O capitão Átila era muito esperto. Não deixaria jamais que outro navio se aproximasse do
seu sem ser identificado. A menos que uma pessoa o traísse.
__ Uma não, duas. A primeira era o seu primeiro imediato que o traiu e contou aquela história de que
Átila havia ficado louco. Foi morto por nossos agentes após ter cumprido sua missão.
__ Um fim digno de um traidor. – falou o Capitão Kurchov.
__ A Segunda ficarão conhecendo mais tarde. Mas, continuando nossa história, o plano era que o
capitão Macek atacasse outros navios para causar um incidente de proporções que fizesse eclodir uma guerra,

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na qual nosso Reino não tomaria parte. O capitão iria retornar ao nosso Reino, que iria relatar o seu
afundamento através de nossos navios. Mas, com a sua derrota, houve uma mudança de planos. Criamos
então o navio fantasma, com a idéia de afastar os navios mercantes da região e podermos construir o forte na
ilha da morte. O forte, como terão o prazer de testemunhar, está pronto. E o toque final. Dentro de um mês, o
príncipe, filho do rei que lidera os três Reinos, virá para este local para selar um acordo de comércio e paz
entre seu reino e o deles.
__ E o que esperam? – Argumentou Kurchov. Atacar um navio do príncipe com este navio? Jamais a
culpa será atribuída a nosso Reino.
__ Também concordo, mas neste momento temos dois navios escondidos na baía da ilha da morte. São
navios construídos idênticos aos da sua marinha, com marinheiros com as suas roupas e a sua bandeira. O
navio que atacarão não deve ser afundado, mas o príncipe deve ser morto, o que fará eclodir uma guerra.
Como já estarão debilitados em materiais devido ao navio fantasma ter espantado todos os seus parceiros em
comércio, sua esquadra, por melhor que seja, não poderá enfrentar a força dos três Reinos.
Houve, por um momento um silêncio mortal. Até que o professor Július começou a falar:
__ É um absurdo, Haloram. Sacrificar a tripulação inteira de um navio já foi um absurdo, mas causar
uma guerra nestas proporções somente por poder. Atacar e matar seus próprios marinheiros ...
__ Fala do Ciclone.
__ Sim. Nós o encontramos. Era um navio de sua marinha.
__ Sim, era, mas foi mal necessário, mas não é somente pelo poder. Há riquezas em suas terras que são
escassas nas nossas. Precisamos ter novamente o comércio com os reinos que após a guerra deixaram de fazer
comércio conosco. E, há também um sentimento de vingança, de vê-los de joelhos clamando rendição.
Os olhos do almirante inimigo brilhavam a cada frase que pronunciavam.
__ Não existe glória no que estão fazendo. Vão causar a morte de milhares de homens apenas pelo
poder.
Neste momento, alguém entrou pela porta. Vestia um capa negra e um chapéu largo, que impedia que
víssemos o seu rosto.
__ Ah, sim. Senhores, gostaria que conhecessem uma figura ilustre.
O homem retirou o chapéu. Era o conselheiro Magnus. O homem tinha um leve sorriso no rosto.
__ Senhores. Como vão de viagem?
__ Canalha! Como pôde trair seu reino?
O Capitão Kurchov, num movimento rápido pulou no pescoço do conselheiro e arrastou seu corpo até a
parede. Com o braço, apertava o pescoço do homem, que já estava ficando vermelho. Random sacou a pistola
e apontou para a cabeça do Capitão.
__ Não! – gritou o professor. Kurchov, solte-o. Vamos homem, já disse. Precisamos de você vivo!
O Capitão largou o conselheiro, que caiu no chão. O clima ficou tenso na sala.
__ Já chega! Capitão Random, leve estes homens para junto dos seus. Tenho assuntos a tratar com eles
mais tarde.
Fomos levados para junto dos nossos homens. O Capitão explicou a seus homens o plano do Almirante
Haloram e de seu Reino de semear a guerra entre o nosso e os três Reinos. Eu quase não acreditava que um
conselheiro real pudesse trair o rei. Ainda mais desta forma, colaborando para a morte de tantos dos seus. Os
três reinos formavam uma união sólida e juntas formavam um exército de homens de quantidade cinco vezes
superior ao nosso Reino. Suas esquadras eram em seis para uma em relação aos nossos navios. Se o plano de
Haloram de assassinar o príncipe, forjando um ataque dos nossos navios, tivesse êxito, teríamos uma guerra
sem escala de proporções, fazendo muitas vítimas de ambos os lados. Mas, mesmo com as declarações do
Almirante Haloram , alguns pontos nesta história não faziam sentido.
__ Professor, mesmo com as explicações do Almirante, alguns pontos nesta história ainda não fecham.
__ E quais seriam estes pontos doutor?
__ Primeiro: Como conseguiram reproduzir um navio igual ao nosso, se sua construção foi mantida sob
segredo absoluto?
__ Cada navio tem seus projetos definidos, como madeira, tamanho de calado, dimensões de
compartimentos, peças de artilharia, enfim, todo um esquema para poder reproduzi-lo quantas vezes e sempre
com a mesma forma. O conselheiro Magnus teve ter feito uma cópia destes projetos e enviado para que
construíssem os navios.
__ E como explicar a morte do marinheiro do navio, e o do próprio forte? Nós estávamos com ele o
tempo todo.

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__ O do navio não tenho uma idéia concreta. Os marinheiros afirmam que viram uma fumaça afastando-
se do navio. Talvez um bote com alguns marinheiros. Haloram é um homem inteligente. Participou de uma
invasão de uma ilha selvagem há algum tempo atrás. Nesta ilha, segundo ouvi relatos, foi extraído e levado
para seu reino uma espécie de veneno fatal, utilizado pelos nativos por espinhos lançados por zarabatanas.
Percebi aqui no navio dois nativos há bordo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito nesta possibilidade.
Quanto a morte do marinheiro do forte, ele, realmente fora todo revistado, centímetro por centímetro, menos a
carruagem de Magnus. Provavelmente um assassino seu escondeu-se lá e matou o marinheiro, voltando para
lá em seguida.
__ E os nossos canhões? retrucou Kurchov. Por que não funcionaram?
__ Simplesmente porque não tinham balas. Ouvi quando o marinheiro afirmou que eles haviam sido
carregados no forte. Isto não é um procedimento normal e este navio, antes de nossa tripulação assumir, veio
da capital do Reino. Não é difícil imaginar que Magnus tenha preparado mais essa traição, presumindo com
certeza que enfrentaríamos o navio fantasma. O que eles não tinham previsto foi nossa reação.
__ Mas ele teria feito tudo isto sozinho?
__ Não. É claro que não. Seu dinheiro e influência devem ter comprado todos estes homens, e que se
Deus permitir terão a justiça que merecem.
__ E o que farão conosco? – perguntou Sebastian.
__ Não faço a menor idéia. Estamos completamente a sua mercê. Devemos ter paciência e torcer para
que cometam um deslize.
Não sei exatamente quantos dias se passaram naquele porão. Dois talvez três. Comíamos duas refeições,
bastante racionadas. Até que fomos chamados novamente para ter com Haloram. Desta vez não fomos para
sua cabine, mas sim para o convés. A névoa continuava, e às vezes clareava, e permitia ver a alguns
quilômetros, os contornos da ilha da morte.
__ Professor, senhores. Pedi que subissem para acompanhar nossa chegada em nossa fortaleza.
O conselheiro Magnus estava com o Capitão.
As velas do navio foram todas recolhidas e o navio ficou à deriva, começando a rumar para um rochedo,
que cada vez ficava mais perto. Posso jurar ainda hoje que tinha a exata impressão de o navio estar sento
puxado para o rochedo. Os marinheiros pareciam estar preocupados com o rochedo bem à frente. Até mesmo
o professor e o Capitão Kurchov ficaram preocupados.
__ É loucura, vai bater. – disse o capitão.
De repente o navio, mudou de direção e passou ao lado do rochedo, a assim fez com mais quatro.
Realmente havíamos encontrado a tal corrente que o Almirante Haloram havia falado. O navio rumou por
entre a névoa. O silêncio da tripulação era total. Somente o ranger da madeira ou o retesar das cordas podia-se
ouvir. Até que a ilha surgiu à nossa frente. A névoa havia ficado para trás, mostrando uma grande baía
iluminada por um sol forte. Dois navios de guerra estavam ancorados.
__ Posso afirmar com certeza, professor, que são navios de nossa frota.
__ Realmente Capitão. É o que eles querem que pareça. Olhe ali. Veja o castelo da proa. O que ele lhe
diz?.
__ É o Gaivota. Não tenho dúvidas.
__ Sim, está correto. E o outro. Observe o velame e os canhões. Ali, veja a listra branca no casco. A
esquadra real tem dois navios assim. Mas com o mastro ...
__ É o Tufão, não há dúvida.
__ É isto que querem. Que não haja dúvida. Assim como o reconhecemos, o navio do príncipe também o
irá reconhecer.
O professor olhou o conselheiro Magnus nos olhos.
__ Por que traístes os teus homens? Por que levaste a morte tantos inocentes?
O traidor sorriu.
__ Não és um nobre. Jamais entenderás a nobreza. O poder. Quando a guerra acabar, o Rei deverá se
suicidar. Quem tomará o seu lugar e fará a paz?
O professor balançou a cabeça.
__ O povo jamais te seguirá.
__ Eu farei com que o povo me siga, pois eu conseguirei a paz e melhor, que nosso antigo inimigo nos
ajude a reconstruir um novo reino.
__ Dando tudo o que possuímos de valor?
__ Nada se consegue nada de graça.

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__ Se teus pensamentos são nobres, então ficarei para sempre sendo somente um homem sem nobreza.
O conselheiro sorriu com um ar de arrogância. Quanto a mim, obervava a paisagem que surgia a minha
frente.
Havia uma grande número de instalações construídas na enseada. Era realmente um forte. Casas de
madeira reforçada, algumas casamatas com canhões apontados para a baía. Não poderia afirmar com certeza,
mas provavelmente deveria haver mais de trezentos homens instalados ali. O sol aparecia forte, dando um tom
paradisíaco à praia de águas calmas e cristalinas. Havia alguns coqueiros espalhados pela praia. A baía era
bloqueada por dois grandes rochedos e na parte detrás havia um outro. O único acesso àquele lugar era pelo
mar, como havíamos feito.
O navio passou pelos outros dois navios, e lançou âncoras. Os botes foram descidos e todos os
prisioneiros, inclusive eu, fomos levados para a praia. Lá pudemos constatar melhor as dimensões da
fortaleza. Havia quatros casamatas com dois canhões cada uma. Barris de pólvora e balas de canhão estavam
dentro da casamata. Seis homens ficavam constantemente de plantão e prontos para entrar em ação. Uma torre
fora construída e quatro homens se revezavam para verificar a linha da névoa, para ver a entrada de um navio
inimigo. Havia várias casas, algumas maiores, provavelmente alojamentos, refeitório, ambulatório, etc.
Existiam algumas menores, que deveriam ser depósitos de armas e munições, ferramentas, madeira. O telhado
era feito de barro e palha. Havia até mesmo algumas ruas de chão de areia batida. Era um pequeno vilarejo.
Os homens andavam armados, seja com pistola, ou com espada na cintura, nos observando com arrogância ou
indiferença. Pelo visto éramos os primeiros prisioneiros e também os primeiros estrangeiros a ver o forte No
centro do vilarejo havia uma círculo feito de pedras, parecendo uma praça com algumas arquibancadas. Mais
tarde, ficaria sabendo que era uma espécie de arena. Fomos levados para uma casa mais afastada e
trancafiados lá. Três guardas ficaram a porta.
__ Professor, isto não é um forte. É uma fortaleza, disse o capitão.
__ Sim, Capitão. Estamos diante de um inimigo poderoso. Muito poderoso.
__ O que vamos fazer? – perguntou um dos marinheiros.
__ Vamos atacá-los e morrer dignamente! – gritou outro.
__ Isso mesmo! Com certeza vamos todos morrer aqui. – bradou outro marinheiro.
O alvoroço tomou conta dos homens. Alguns eram contra, outros a favor.
__ Senhores, falou o professor. É uma situação bastante difícil. Somos menos de vinte homens
desarmados contra mais de trezentos homens. Possuem três navios fortemente armados. Não duvidei jamais
de sua coragem, mas precisamos usar nossa inteligência e aproveitar o melhor momento. Nosso Reino não
sabe o que se passa nesta ilha. Não sabe da existência desta fortaleza, tampouco desta trama monstruosa que
pretente jogar nossos exércitos para uma guerra sem sentido. Agora devemos guardar nossas forças e esperar
o melhor momento para agirmos. E o prazo para agirmos é menos de um mês. Somos a única esperança de
acabarmos com esta loucura e devemos aproveitar o momento certo para agir.
Todos os homens se entreolhavam. O professor tinha exatamente dito as palavras certas. De nada
adiantaria uma rebelião. Seríamos mortos prontamente. Éramos muito poucos, estávamos cansados e
desarmados.
__ Devemos agora procurar descansar um pouco e guardar nossas forças para o momento certo de agir.
Os homens foram se acomodando no chão, coberto por algumas esteiras e acabaram dormindo. Até eu
estava exausto. Os últimos dias haviam sido terríveis. Pensei em Caroline, em tudo o que havia se passado e
acabei adormecendo com estes pensamentos.

O NAVIO FANTASMA PAG 36


Capítulo IX

Ficamos três dias na mesma situação. A comida era trazida até nós duas vezes ao dia, como também a
água. A ração era pouca e divida de maneira igual para todos. Comíamos sentados no chão e encostados na
parede. Nenhum de nós havia saído daquela prisão. Não sabíamos o que se passava lá fora.
Certa noite começou a acontecer uma grande movimentação no centro da fortaleza. Oouvimos cantos de
alegria e gritos eufóricos entre os homens.
__ O que diabos está havendo? – disse um dos marinheiros.
__ Parece uma festa. – respondeu outro.
Havia algumas frestas na madeira e podíamos observar o clarão das fogueiras.
__ Acho que é alguma comemoração. Ou algum tipo de cerimônia festiva. – Falou o professor. Espere.
Um grupo de soldados vem para cá.
Realmente era verdade. Logo a porta se abriu e irrompeu por ela um grupo de soldados de pistolas em
punho. Um deles começou a falar.
__ Façam uma fila. O Almirante deseja vê-los.
Fomos levados para a praça, também conhecida como arena. Acho que todos os marinheiros da
fortaleza estavam lá. Abriram um corredor e fomos colocados na beira da arena. Na arquibancada, estavam o
Almirante Haloram, os dois capitães dos navios e o conselheiro Magnus. Estavam cercados pelos oficiais dos
seus navios. Não vi o Capitão Random entre eles.
__ Professor, perguntei, conhece os outros Capitães.
__ Sim. Mas um deles posso lhe assegurar que é um homem de boa índole, que não faz parte deste grupo
de mercenários assassinos. É aquele que está com uma feição séria.
De fato, entre todos os homens que estavam na arquibancada, havia um que parecia não gostar do que
estava acontecendo ou ia acontecer ali. Não estava sorrindo como os demais. Sua feição era séria. Nos olhava
com atenção.
__ Seu nome, continuou o professor, é Dubolski, Capitão Dubolski. Conversei com ele algumas vezes, e
...
__ Homens ... era o almirante Haloram que havia se levantado. Houve um silêncio total. Somente
o crepitar das fogueiras podia-se ouvir.
__ Estamos aqui em missão especial, buscando a glória de nossa pátria.
Os homens gritaram de alegria.
__ Mas, em nossa missão, capturamos inimigos. Inimigos valentes e que quase colocaram o nosso
objetivo em risco. Olhem para eles. O ódio está em seus olhos.
Os homens gritaram novamente. E falavam ofensas. Confesso que a princípio eu não entendia o que iria
acontecer.
__ Professor, perguntou Kurchov, o que está acontecendo?
__ Chame Sebastian, disse o professor.
__ Por que?
__ Por favor capitão, chame Sebastian.
O jovem aproximou-se do professor.
__ Olhe para mim marinheiro. Vou lhe dar uma ordem.
__ Sim, senhor.
__ Aconteça o que acontecer, não lute.
__ Como?
__ O que eu acabei de dizer. Não lute.
O almirante Haloram que fazia um discurso inflamado, notou a movimentação entre nossos homens.
__ Então, como é costume de nossa marinha testar nossos homens contra outros marinheiros, vamos
testá-los. Como eles precisam de seu Capitão, seu representante hoje será seu imediato. Homens tragam-no
para a o meio da arena. Alguns homens foram até Sebastian e o empurraram até o meio da arena.
Eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. E creio que todos os homens que faziam parte de nossa
tripulação também não. Exceto pelo professor, que pelo ar de preocupação sabia exatamente o que iria
acontecer. Os homens gritavam como loucos. Alguns pareciam embriagados. De repente, do meio dos
homens surgiu o Capitão Random. Estava sem camisa, trajando somente uma calça de bucaneiro e botas
compridas. Era um homem forte com uma musculatura bem definida. O corpo era bronzeado pelo sol. Tinha
uma espada em cada mão. Atirou uma nos pés de Sebastian.

O NAVIO FANTASMA PAG 37


__ Pegue, marinheiro. E mostre como um homem de sua marinha luta.
Todos nós estávamos atônitos. O marinheiro olhou para o professor que fez um sinal negativo. Os
homens faziam grande algazarra. O Capitão Random ria com eles.
__ Vamos, homem! Ou será que não é homem o bastante para me enfrentar?
Sebastian suava frio. Sua visionomia demonstrava uma raiva, que era contida pelo olhar do professor.
__ Covarde! Covarde! – Era o coro dos marinheiros. O suor escorria de sua face, que estava
transfigurada de ódio. Olhava novamente para o professor que continuava a fazer sinal negativo. O Capitão
Kurchov gritou.
__ Capitão Random, é comigo que deves lutar, e não com esse jovem.
__ Acalme-se Capitão. Seus homens precisam de ti por hora. E, ora ora, vejo que tens uma aliança de
noivado, imediato. Posso lhe assegurar que quando invadirmos seu reino um de nossos homens irá se casar
com com sua amada e ter filhos.
Aquilo havia sido a gota d’água. Sebastian apanhou a espada.
__ Venha canalha!
O Capitão Random abriu um sorriso. O professor Július baixou a cabeça. Os homens iam ao delírio
incitando o jovem para o duelo.
Sebastian investiu com a espada, tentanto acertar o peito de Random, que num giro evitou o golpe e
desferiu um soco com o cabo da espada no rosto do jovem marinheiro. Ele quase caiu no chão. Um risco
vermelho apareceu em seu rosto. Os homens pareciam enlouquecidos. Random tinha um sorriso nos lábios.
Um sorriso arrogante. Era um homem forte, musculoso e sabia manejar a espada como ninguém. Investiu
contra Sebastian, que desviou seus golpes e tentou também atingi-lo. Por alguns instantes a luta pareceu igual,
ora Random atacando, ora defendendo-se. Mas o Capitão era mais forte e aos poucos o jovem marinheiro foi
ficando cansado. Até que num encontro, Random desferiu-lhe um chute no estômago. Sem ar, Sebastian caiu
de joelhos. Já tinha alguns ferimentos no ombro e no peito, conseqüência de golpes precisos do Capitão, que
estava bastante suado, mas não tinha um ferimento sequer. Nossos homens permaneciam incentivando
Sebastian a lutar. Eram espadachins e sabiam dos riscos de uma luta como essa. Sebastian levantou-se e
olhou a sua volta. Parte de sua face estava ensangüentada. Tentou atingir seu oponente e recebeu um golpe de
espada no braço, seguido de um soco no rosto.
O jovem caiu no chão. Levantou-se a muito custo. Estava cansado, ferido. Seus pensamentos estavam
obscuros. Olhou a sua volta e depois para o Capitão Random. Foi em sua direção para o golpe final. Rápido
com um gato, Random desviou-se e atingiu-lhe bem no coração. A espada entrou profundamente. Num gesto
rápido, retirou a espada. Sebastian soltou um grito agudo e caiu no chão. Neste momento, nada mais me
passou pela minha cabeça senão a figura de meu amigo, que jazia agonizante no chão. Saí correndo para o
meio da arena. Não sei se fui tomado pela dor do marinheiro ou se pela amizade que possuíamos um pelo
outro.
Ajoelhei-me a seu lado. Sua respiração já estava ofegante.
__ Acalme-se Sebastian. Deixe -me ver seu ferimento. Talvez possamos fazer alguma coisa e ...
Ele me segurou pela camisa e olhou fixamente em meus olhos. Tanto eu como ele sabíamos que ele
estava morrendo. Os meus olhos se encheram de lágrimas. Era o grande amigo que eu havia conhecido
naquela viagem. Sentia pesar, ódio, raiva, medo, angústia por não poder fazer nada por meu ele.
__ Diga ao capitão que tentei ...
__ Nós sabemos. Você fez o melhor que pôde. E ...
Novamente ele me interrompeu. Acredito que já estava delirando quando disse as últimas palavras.
__ Diga para Melissa que eu sempre a amarei ...
Eu sabia quem era Melissa, apesar de não conhecê-la pessoalmente. Era sua noiva. O seu coração parou
de bater. O corpo estremeceu e seu rosto pendeu para o lado. Fiquei um pouco ali segurando. Os homens
continuavam gritando. Então, o Almirante Haloram, muito contente com o resultado da luta, levantou-se e
ordenou que nos levassem para a casa prisão. O corpo do jovem ficou ali no chão. Random foi levado pelos
seus homens, que cantavam uma canção que eu não conseguia enteder muito bem, mas que deveria falar de
vitória ou coisas deste tipo.
Ficamos o resto da noite em claro. Ninguém comentou nada sobre o que acabara de se passar. A moral
dos homens estava baixa.
O dia amanheceu ensolaradado. Podia-se ver devido aos raios do sol que entravam pelas frestas da casa.
Ouvia-se também nitidamente o grito dos pássaros e barulho do mar. Sentei-me junto ao professor para
conversar.

O NAVIO FANTASMA PAG 38


__ O senhor sabia o que aconteceria ontem.
__ Sim. Quando estávamos em guerra, um navio nosso foi aprisionado com dezesseis sobreviventes.
Quando resgatamos a tripulação, somente dois estavam vivos. Eles nos relataram acerca de uma arena feita no
convés do navio, e que a cada dois ou três dias um marinheiro era submetido a uma luta com outro
marinheiro.
__ Quer dizer que o senhor acha que este tipo de luta acontecerá novamente?
__ É quase certo.
__ Será que iremos morrer um por um sem tentarmos uma fuga, um combate digno? Não somos
gladiadores para lutarmos desta maneira. Sebastian não merecia aquele fim.
__ Eu sei disto. Mas não estamos exatamente em uma civilização. Para aqueles homens que estão lá
fora, estão em guerra conosco há muito tempo. Já passei várias noites em claro e não consegui uma única
idéia de como poderemos fugir. É uma ilha cercada de rochedos e com uma única rota de fuga, que é vigiada
dia e noite por poderosos canhões.
__ O Capitão Kurchov aproximou-se de nós.
__ Senhores, os homens preferem lutar a continuar esperando um oportunidade. O inimigo já mostrou o
fim que nos aguarda.
__ Também concordo, mas ainda devemos esperar um pouco mais. Ainda falta alguns dias para a
chegada do navio do príncipe, portanto devemos ser pacientes. Se não conseguirmos encontrar uma saída,
então só nos resta, e, eu também estou de acordo, uma morte digna e honrada para homens como nós.
Novamente o professor conseguiu acalmar os ânimos dos marinheiros. Mas nem ele, desta vez, sabia até
quando. Quanto a mim, fiquei preocupado com as afirmações que o professor havia feito. Se era verdade que
a arena seria utilizada mais uma vez, então quem seria o escolhido?
Mais dois dias se passaram. Era impossível não ficar tenso com aquela situação. Até que novamente
naquela noite ouvimos novamente um alvoroço entre os homens que estavam do lado de fora. Até que a porta
se abriu e fomos levados, desta vez por um contingente maior de homens, doze ao todo, direto para a arena.
Ficamos no mesmo local que da primeira vez. Ainda podia-se ver as marcas de sangue onde havia estado o
corpo de Sebastian que confesso não saber o fim que teve. O céu estava escuro, diferente da outra vez. Havia
alguns trovões e relâmpagos no céu, que se iluminava com clarões repentinos, tornando dia, a noite escura.
As fogueira haviam sido acesas nos mesmos locais. Mas lonas cobriam-nas bem acima, para evitar que se
apagassem durante a chuva, que se tornava cada vez mais provável. Todos estavam lá novamente, o
Almirante Haloram e todos os oficiais que faziam parte do comando dos navios. Havia um toldo protegendo
os oficiais de uma possível chuva. Ele levantou-se e acalmou os homens.
__ Senhores. Esta noite teremos mais uma luta.
__ Eu me proponho a lutar com Capitão Random! – gritou o nosso Kurchov. Será capitão contra
capitão.
__ Muito bom, capitão Kurchov. Agradeço por sua atenção, mas temos outro lutador.
Aquilo soou estranho para todos nós. Outro lutador?
__ O senhor, capitão, continuou Haloram, deve ficar, pois é oficial graduado. Mas um de seus oficiais
está se prontificando.
__ E quem seria? - perguntou.
__ O seu doutor. Tragam-no.
Três homens vieram em minha direção, me levaram e, antes que eu pudesse entender o que se passava,
estava sozinho no meio da arena. O olhar de todos os homens estavam voltados para mim. O professor me
olhou por um instante, bastante preocupado.
__ Isto é um absurdo, gritou o Július. Ele é um médico. Não pode lutar com seus homens.
O Almirante Haloram parecia ignorar os gritos do professor e do Capitão. Até que o capitão Random
saiu do meio de seus homens. Novamente tinha uma espada em cada mão. Olhou para mim e atirou uma
espada, que caiu a meus pés.
__ Pegue a espada!
__ Não. – falei com voz firme. Minha vocação é salvar vidas e não retirá-las.
O capitão sorriu.
__ E quem disse que o doutor irá retirar minha vida?
Os homens soltaram uma enorme gargalhada, que foi engolida por um relâmpago, seguido de um trovão
forte.
__ Pegue a espada!.

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Olhei para o Capitão Random. Trajava a mesma roupa que havia duelado com Sebastian. Os homens que
estavam ali esbravejavam, gritavam. Random, vendo que eu não iria pegar a espada, sinalizou para dois
marinheiros que fizeram pontaria com as pistolas em direção ao professor e ao Capitão.
__ Se não pegar esta espada, mando matar Július e seu Capitão. Agora podes salvar vidas.
E soltou uma gargalhada.
Olhei para os marinheiros de pistola em punho. Estavam loucos para atirar, disso eu não tinha a menor
dúvida.
__ Agora, doutor, pegue esta espada e morra como um homem.
Naquele momento, lembrei de meu pai e de suas lições de orgulho, de bravura. Lembrei dos
ensinamentos que tive como espadachim na faculdade. Lembrei-me de Caroline. Jamais conseguiria carregar
a morte do professor e a do capitão em meus ombros. Começou a chover forte quando eu me abaixei e peguei
a espada. Os homens ficaram eufóricos. O Capitão Random deu as costas para mim e voltou-se para seus
homens com os braços abertos. A água estava fria e num instante eu estava encharcado, assim como todos que
estavam ali. Mas ninguém abandonou seu lugar.
O Capitão então voltou-se para mim. Rápido tentou desferir um golpe em meu ombro, para retirar minha
espada, mas eu prontamente defendi. Tentou várias vezes me ferir e eu não permiti.
__ Ora, ora. Vejo que sabes lutar.
Veio novamente em minha direção e num gesto rápido lançou a espada de maneira rasteira, visando
atingir minhas pernas. Saltei, pois lembrava aquele tipo de ação. Então recebi um chute bem no meio do peito
e fui parar uns dois metros para trás. Fiquei sem ar. Tentei me levantar, e recebi um soco no rosto, vindo a
cair novavente, desta vez numa poça de água. A chuva não parava. Com muito custo consegui me levantar. O
Capitão Random estava na minha frente. Desferiu a espada de cima para baixo, tentando atingir minha
cabeça. Evitei o golpe. Girou a espada e me atingiu no ombro. A princípio senti somente cortar o tecido de
minha camisa. Depois o local do corte começou a ficar vermelho e senti uma dor no ombro esquerdo. Investi
contra Random, tentando atingi-lo no estômago, mas ele defendeu-se com a espada e acertou-me outro soco
no rosto. Cai quase aos pés do professor. Um filete de sangue apareceu em meu rosto. Tentava me levantar,
mas estava tonto. O Capitão levantava os braços e incitava os homens.
__ Lute! Lute! Lute! – gritavam os homens.
__ O professor se abaixou e me segurou pela camisa.
__ David, olhe para mim. Não é uma aula de esgrima. Ele não respeitará as regras. É um guerreiro. Se
quiser vencê-lo, terá que ser um também. Não existe segunda chance. Somente um sairá vivo daí e ninguém
poderá ajudá-lo.
__ Ele é invencível. É mais forte. – balbuciei.
__ Tem que feri-lo. Se o ferir, ele ficará com medo. Ele não é de ferro. É um homem.
Levantei-me. Para receber um chute nas pernas e cair novamente. Olhei para aqueles homens, olhei para
meus amigos. Olhei para um relâmpago bem a minha frente. Limpei o sangue de meu rosto e levantei-me. “Se
for para morrer, que seja de uma vez”.
Random voltou-se para mim. Acho que estava sentindo prazer em me humilhar perante aqueles homens.
__ É a hora da verdade, doutor.
Eu não pronunciei uma única palavra. Nossas espadas se tocaram. Até que ele segurou meu punho e eu
segurei o dele. Eu não resistiria muito tempo. Ele era mais forte.
__ Quer medir forças? disse com um sorriso nos lábios.
Difícil dizer quando um homem perde a razão. Mas acho que se alguma vez na vida perdi a razão, foi
naquele momento.
__ Vá para o inferno!
Levei minha cabeça para trás e a joguei com toda a força para a frente, atingindo meu oponente no
rosto. Random largou-me e foi para trás, com as mão no rosto. Quando as retirou o sangue escorria de seu
nariz. Eu o havia quebrado. Os homens ficaram quietos por um momento. Somente ouvia-se o barulho da
chuva e os trovões.
__ Maldito! Está morto!
__ Irá comigo! – gritei.
Random veio com toda a fúria, tentanto me atingir pela direita. Lembrei-me então de um golpe que Li
havia me ensinado a bordo. Atirei-me não chão e rolei pelo lado. Levantei-me atrás de Random. Desferi a
espada e o atingi na cocxa direita. Um corte grande e profundo. O capitou urrou pela primeira vez de dor. O
sangue começou a escorrer pela sua calça. Começou a mancar. Olhou para os homens a sua volta. Com o

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ferimento, havia perdido a sua flexibilidade, vital para quem luta com espadas. Veio contra mim novamente.
Defendi-me e desta vez fiz um corte em seu peito. Ele também me atingiu. Um filete vermelho brotou do lado
direito de minha camisa. Era um corte grande, mas não era profundo. Não como o que havia feito. Random
olhou para mim. Eu o encarei. Já não sorria mais.
Nós desferimos uma série de golpes um contra o outro. Mesmo com os ferimentos ainda tinha grande
habilidade com a espada. Mas ele cometera um erro ao deixar sua guarda muito elevada. Talvez para proteger
o ferimento no peito. Desferi a espada e atingi o tórax em cheio. Larguei a espada e recuei. Random deixou
cair a sua. Um relâmpago iluminou a noite. A chuva começou a diminuir.
O capitão caiu de joelhos, olhou-me fixamente e desabou para o lado. Morreu alguns instantes depois. O
silêncio tomou conta do ambiente. Nem o almirante Haloram nem nenhum de seus homens sabia o que fazer.
Eu estava ali, ferido, machucado, mas estava ali. E o que era mais importante, estava de pé.
__ Morte a todos eles! – gritou um marinheiro.
__ Sim!
__ Morte!
Os marinheiros levantaram suas pistolas e apontaram para mim e para os outros.
__ Não.
Era o capitão Dubolski. Havia se levantado. O Almirante Haloram o olhou fixamente.
__ Devemos respeitar o combate. A luta foi justa.
__ Mas era nosso capitão.
__ Eu sei. E era meu amigo também. Mas estes homens que estão aqui são soldados como nós. Devemos
tratá-los como tal.
Alguns homens concordaram. Outros queriam acabar conosco ali mesmo.
__ E o que sugere?. – perguntou o Almirante.
__ Que sejam tratados como homens respeitados. Não são bandidos, são marinheiros como nós. Sugiro
Almirante, que tenham um fim digno. Que sejam fuzilados ao amanhecer.
Nova euforia se ouviu entre os homens.
__ Fuzilados?
Sim Almirante. Sua presença é totalmente desnecessária na ilha e serve somente para desviar nossos
objetivos verdadeiros. Devemos nos preocupar com o objetivo principal de nossa missão.
__ Dubolski tem razão, Haloram. A presença deles aqui na ilha é totalmente dispensável.
Era o conselheiro Magnus que acabara de falar. O almirante pensou por mais alguns instantes.
__ Então que assim seja. Serão fuzilados ao amanhecer. Levem-nos daqui.
Fomos levados novamente para a casa prisão. Li e Ezra me ajudaram a me locomover. Eu estava muito
cansado. Me deitei no chão assim que passei pela porta. Todos os homens me cumprimentaram.
__ Muito bom doutor. - cumprimentou um deles.
__ O senhor luta muito bem. – falou o outro.
__ Morreremos, mas o senhor matou aquele assassino. – consolava-se um dos marinheiros.
__ Sebastian está vingado! – gritou outro.
Frases como esta eu ouvi por alguns instantes. Depois os homens tomaram conta do que os aguardaria na
parte da manhã e silenciaram suas vozes.
O professor aproximou-se de mim.
__ Lutas muito para um médico.
__ Obrigado. – respondi.
__ Agora deixe -me ver estes ferimentos.
Rasgou um toalha. Limpou os ferimentos com água fresca e amarrou fortemente com as tiras feitas com
a toalha.
__ Sabe, professor, por um momento creio que perdi a cabeça naquela luta. Fiquei com muita raiva do
Capitão Random, de sua arrogância, de seu desprezo por nós.
__ Não te preocupes com isto. Já acabou. O que importa agora é que estás vivo.
Capitão Kurchov aproximou-se de nós.
__ Senhores, quero lhes dizer o quanto me orgulho de ter os senhores nesta viagem.
__ O prazer é meu. – disse o professor.
__ Meu também, Capitão. – respondi.
Olhei para o professor, para o capitão e para os homens que estavam ali.
__ Professor, existe uma coisa que até agora não compreendi muito bem.

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__ E o que seria doutor?
__ O Capitão Dubolski. Pareceu-me, ainda que por um instante, que queria nos ajudar. E depois sugeriu
nosso fuzilamento. Confesso que não entendi.
Por um momento o professor ficou pensativo. Depois, confesso que já vi a feição de um homem mudar,
mas a do professor foi um espanto.
__ Mas, é claro!
__ Claro o quê professor?
__ Capitão, - disse baixinho, mas com grande emoção na voz - diga para os seus homens ficarem de
prontidão esta noite. Há guardas na porta e não quero chamar sua atenção. Diga que devemos esperar por
algo, que rogo-lhes que não me perguntem o que é. Somente diga para que fiquem atentos e em silêncio.
Aquelas palavras me renovaram as forças. O que seria que o professor havia descoberto com as atitudes
do capitão Dubolski? O que nos aguardava naquela noite. Pensamentos como este martelavam minha cabeça e
por vezes me faziam esquecer de meus ferimentos.

O NAVIO FANTASMA PAG 42


Capítulo X

O capitão passou a informação para os homens, e como o professor havia pedido, não questionaram nem
ficaram fazendo comentários. Em poucos instantes, como de costume, o silêncio tomou conta da sala. O
professor sentou-se ao meu lado. Sua fisionomia era de nervosismo.
__ Professor, o que nos aguarda?
__ Eu conheci o Capitão Dubolski pessoalmente depois da guerra. Estive em seu Reino para um acordo
de paz. Discutimos muito acerca dos combates. Ele pensa como eu sobre a guerra, mas um fato me chamou a
atenção. Ele havia se voltado contra seu Almirante na guerra, que ordenara o fuzilamento de dez marinheiros
nossos, aprisionados em seu barco, após violento combate. Para ele, o fuzilamento é um ato covarde de força.
Como a seu pedido, seremos fuzilados de manhã, creio que podemos esperar que algo aconteça ainda esta
noite.
Fiquei ansioso com as palavras do professor. Será que tínhamos um chance? Será que o Capitão
Dubolski estaria tramando algo para nos ajudar? Ou será que havia pedido nosso fuzilamento para evitar estas
lutas sem sentido que eu mesmo participara acabassem de uma vez por toda. Fiquei quieto em meus
pensamentos. Os barulhos lá fora já haviam parado há bastante tempo. Os homens deviam estar em seus
alojamentos dormindo.
Passaram-se algumas horas intermináveis até que finalmente ouviu-se alguns murmúrios à porta. Uma
espécie de gemido. Então a porta se abriu e cinco homens entraram por ela. Não traziam lampiões como os
guardas que para nos abordavam a noite. Os homens, como o professor havia pedido, limitaram a se levantar
sem nenhum tipo de reação.
Era o Capitão Duboslki. Falava baixo.
__ Július.
__Estou aqui, Dubolski.
Ele se aproximou do Capitão. Conversaram por alguns instantes. Juro que estes instantes foram
intermináveis. Observei, por uma tênue claridade, que os outros homens estavam de pistolas e espadas. Até
que o professor aproximou-se de nós.
__ Devemos seguí-los em silêncio. Kurchov, diga para seus homens formarem um fila. Seguiremos o
Capitão Dubolski e seus homens até um ponto afastado da praia.
__ Sim, professor.
Alguns instantes depois, deixamos a casa-prisão e começamos a caminhar em direção à encosta. Dois
homens carregaram os guardas para dentro da casa. Haviam sido mortos pelos homens do Capitão Dubolski.
Depois, trancafiaram a porta e ficaram de guarda, aparentando um situação de tranqüilidade. Chegando à
encosta, seguimos por um caminho de pedras, que na escuridão, era muito difícil de percorrer. Os homens de
Dubolski, e ele próprio, iam na frente, seguidos por Kurchov, pelo professor, por mim e por todos os demais.
Ao final do caminho, saímos num canto da praia bastante afastado da fortaleza. Havia dois botes grandes com
mais quatros homens na praia. Corremos para eles.
__ Devem seguir para o Tufão. É o navio que comando. Trata-se daquelas duas luzes lá. Aquele do
meio, mais iluminado, é o Vingador dos Mares. O outro, ancorado mais ao longe, é o Gaivota. Não
encontrarão nenhum homem a bordo, mas está com todos os canhões carregados e também tem espadas,
pistolas e mosquetes. Július, veja uma coisa.
O Capitão Dubolski se abaixou, pegou um pedaço de madeira e começou a riscar o chão.
__ A baía está aqui, e os navios aqui, aqui e aqui. O Tufão está entre o Gaivota e o Vingador dos Mares.
Recolha a âncora e passe rente ao Gaivota, que está sobre o canal que leva para fora da ilha. Os homens que
estarão no navio não entenderão muito bem a sua manobra. Faça fogo com os canhões para afundar, pois se
conseguirem que o navio vá a pique, o Vingador dos Mares, talvez não consiga sair em sua perseguição.
Olhamos atônitos para o que acontecia. Dubolski já havia arquitetado todo um plano para nossa fuga.
__ Quando derem o primeiro disparo, ouvirão uma série de explosões aqui na fortaleza. Devem
continuar, deixando que a corrente os leve a uma distância segura da ilha. Agora os senhores devem partir
imediatamente. É provável que encontrem um bote vindo para cá. São os meus homens que estavam a bordo
do Tufão e que estão vindo para esta direção.
O Capitão Kurchov ordenou e rapidamente metade dos homens subiu em um bote e instantes depois
estavam a vencer as ondas em direção às pequenas luzes. Eu estava perto do professor quando ele conversou
pela última vez com o Capitão Dubolski.

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__Capitão, tenho certeza que se vieres conosco e com seus homens, sua Majestade lhes dará o perdão e
asilo para que vivam em segredo no interior de nosso Reino.
__ Não, Július. Sabes porque estou agindo assim. Preciso corrigir meus atos e parar a esta sanha desses
assassinos de uma vez por todas. Nenhum dos meus homens irá com vocês, apesar de já estarem cientes do
que os espera nesta ilha.
__ Professor. Doutor. Vamos!
Era o Capitão Kurchov que pedia que subíssemos a bordo.
__ Adeus, meu amigo.
__ Adeus, Július.
Os dois homens apertaram as mãos. Subimos rapidamente no bote e os homens, com vigorosas passadas
nos remos, começaram a nos afastar da praia. Fiquei, juntamente com o professor observando o Capitão e
seus homens ali, na praia.
__ Por que professor? Por que nos ajudou desta maneira?
__ Porque, doutor, disse sem retirar os olhos do Capitão que estava na praia, - seu filho era o Capitão
daquele navio que encontramos com toda a tripulação morta.
Aquela revelação soou como um estrondo em meu cérebro. Olhei para o Capitão Dubolski pela última
vez. Estava em pé na praia, e continuava a nos olhar. Finalmente nos sentamos no bote.
A viagem de bote até o navio pareceu um eternidade. De fato, passamos por um bote que seguia para a
praia com cinco marinheiros a bordo. Nenhuma palavra foi trocada. Meia hora depois chegamos ao Tufão.
Havia uma corda trançada em forma de rede. Subimos rapidamente a bordo. Eu, precisei de um pouco de
ajuda, devido aos ferimentos que possuía.
Não havia ninguém a bordo.
Kurchov ordenou uma rápida revista no navio. Realmente não havia ninguém a bordo. Os homens
encontraram os canhões carregados e municiados. Também trouxeram do porão espadas, mosquetes e
pistolas.
__ Não temos tempo. Içar âncora e vamos em direção do Gaivota.
Dois marinheiros apagaram os lampiões e a âncora foi recolhida. Lentamente, o navio começou a se
mover na direção do outro navio. Os homens prepararam as tochas, mas não as acenderam. Ficaram em
prontidão junto aos canhões. Foram momentos de muita tensão, à medida que as luzes do navio ficavam mais
próximas. Não havia ninguém no convés do Gaivota. Era a sorte que talvez começasse a sorrir para nós.
Quando estavam quase emparelhados...
__ Agora. – gritou o capitão.
Os homens obedeceram as ordens de Kurchov e acenderam as tochas.
__ Para afundar! Fogo!
Os canhões foram disparados quase que ao mesmo tempo. O gaivota foi atingido violentamente na linha
d’água e começou a afundar. Sete marinheiros surgiram no convés de mosquetes em punhos. Os nossos
marinheiros então pegaram nos mosquetes e fizeram fogo sobre os homens. Eram exímios atiradores e na
primeira carga, todos foram atingidos. Alguns mortalmente, outros ficaram agonizando no chão. O Tufão
entrou no canal.
__ Manter firme o leme!
Ouvimos a primeira explosão na ilha. Seguida de outra e de outras. Várias explosões pipocaram em
vários lugares. O fogo tomou conta de algumas instalações. As casamatas dos canhões explodiram quase que
simultaneamente. Vários tiros de mosquetes se ouviam claramente. Uma forte explosão se ouviu, seguida de
outras menores. A torre expodiu e desabou sobre a praia. A baía se iluminou com os incêndios que se
formaram a beira da praia.
__ Lá se vai o depósito de munições. – falou o capitão com um sorriso.
__ Um golpe duro. disse o professor.
__ Professor Július, acha que o capitão Dubolski ...
__ Não, capitão, tanto o seu destino quanto o de seus fiéis marinheiros acaba hoje, nesta ilha. Mesmo
com a surpresa e o plano que arquitetara, acredito serem muito poucos para deter o Almirante Haloram e seu
pequeno exército. Devemos agora nos preocupar em sair o mais rápido possível desta ilha e retornarmos para
nosso Reino.
Aquela última frase fez meu coração se encher de alegria. Voltar para o nosso Reino, para minha amada
Caroline. Hoje mesmo achei que nunca mais a veria, e agora estava rumando para casa.

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O navio entrou no meio da névoa e não se pôde mais enxergar os clarões na ilha. Apenas algumas
explosões, que foram ficando cada vez mais fracas, até que somente o barulho do mar se fazia ouvir.

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Capítulo XI

Ninguém conseguiu dormir até amanhecer. Assim que o navio ultrapassou os recifes, as velas foram
içadas e os navio seguiu firme para o mar aberto. O vento soprava não com muita intensidade, mas nos
afastávamos com certa rapidez da ilha. A névoa não estava tão densa, o que permitia ver por uns dois, às
vezes três quilômetros de distância, mas também às vezes ficava limitada apenas a uns quinhentos metros.
Um marinheiro foi para o ninho da gaivotas. Uma refeição rápida for servida aos homens. Podia-se ver o ar de
alegria e de felicidade que havia tomado conta da tripulação. Estávamos rumando para casa. Meus
pensamentos voltavam-se para minha amada.
Observei o navio, o mar, as velas. Me sentia leve. Os ferimentos doíam um pouco, mas não estavam
infeccionados. Procurei pelo professor e o encontrei junto a amurada. Estava observando o mar. Tinha as
mãos para trás, unidas. Que pensamentos se passavam na mente daquele homem? Aproximei-me dele.
__ Acabou professor.
Ele me olhou por um instante e voltou a fitar o mar.
__ Sim doutor. Acabou. Nossa missão foi cumprida com êxito. Resta-nos agora seguir para nosso Reino.
Mas, observando a história toda, possolhe assegurar, em todos os meus anos como capitão que jamais
participei de tal aventura. Já participei de combates ferrenhos, de mais de uma guerra, mas uma história da
qual fomos protagonistas, nunca.
__ Se o senhor diz, o que posso dizer? Jamais passou pela minha mente que tal aventura pudesse ocorrer
comigo.
__ As coisas são assim, meu jovem. Como o mar. Quando achamos que está tudo calmo, uma
tempestade surge no horizonte. Quando estamos no meio da tempestade, e achamos que ela não irá mais
passar, tudo se acalma de forma tão imprevisível como começou. Isto é a vida.
__ O que o senhor pretende fazer agora?
__ Não sei ainda. Primeiro vou voltar para minha fazenda. Pretendo descansar um pouco. Depois, quem
sabe? Não quero planejar o futuro, para não ser ...
__ Navio a vista! - gritou o marinheiro que estava no ninho das Gaivotas.
O capitão Kurchov pegou uma luneta.
__ Onde? – gritou.
__ Vem pela popa capitão. As velas estão todas içadas.
Kurchov observou por uns instantes. Eu e o professor nos aproximamos.
__ Olhe, professor. – disse ele.
Július pegou a luneta e olhou por alguns instantes. Sua fisionomia mudou de serena para preocupada.
__ Conseguem identificar o navio?
__ Sim, respondeu o professor sem tirar o aparelho dos olhos. Veja com seus próprios olhos.
Peguei a luneta e observei por alguns instantes. A princípio só obervei uma névoa esbranquiçada. Depois
surgiu um grande navio com todas a velas içada. Vinha em nossa direção. Pude ver um movimento intenso no
convés. Havia um homem que também nos observava na proa.
__ Não, não consigo identificá-lo. Que navio será? – perguntei.
__ É o Vingador dos Mares. – respondeu.
Meu coração gelou com a declaração do professor. Olhei novamente e não tive dúvidas. Era ele mesmo.
Não pude confirmar visualmente, mas o homem que nos observava só poderia ser o Almirante Haloram.
__ Quanto tempo acha capitão ... – perguntou o professor - eu estimo entre meia hora, quarenta minutos.
__ Também penso isso, professor.
__ O que é esse tempo?
__ Esse tempo doutor, falou o Capitão, será o tempo que o navio nos alcançará. Não conseguiremos
fugir deles. São mais velozes. E do jeito que avançam, acho que não querem mais nos abordar como
fantasmas.
__ E o que faremos? – perguntei.
__ Reuniremos os homens. – afirmou.
O Capitão ordenou que todos se juntassem no convés. Depois, disse as seguintes palavras:
__ Homens, é chegada a hora da verdade. Daqui a meia hora, seremos abordados pelo maior e melhor
navio de guerra jamais construído. Os homens que compõem sua tripulação, estão bem treinados, alimentados
e estão muito bem armados. Podemos alterar o nosso rumo e tentar por entre este nevoeiro, despistá-los. Ou,
podemos continuar em nosso curso, e, esperar que nos alcancem, para então combatê-los. De nossa decisão

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pode estar o destino de uma das maiores guerras que irá ser travada pelo nosso Reino. E disso devem saber
para que possamos tomar esta decisão. Quem opta pela primeira decisão, que levante a mão.
Eu fiquei olhado os rostos dos homens a medida que o capitão falava. Observavam e ouviam
atentamente o que o capitão dizia. Quando o Capitão acabou de falar, um silêncio profundo, que pareceu uma
eternidade, tomou conta do convés. Até que um dos marinheiros aproximou-se do capitão.
__ Nós, Capitão, seguiremos o senhor até a morte, se for preciso. Queremos lutar.
__ Sim, queremos lutar!
Os gritos de luta invadiram o convés.
O Capitão olhou para o professor que fez um sinal positivo com a cabeça. Eu também acenei da mesma
forma.
__ Então está decidido, lutaremos.
O Capitão Kurchov ordenou que os canhões fossem rearmados. Que pistolas e mosquetes fossem
dispostos pelo convés. Espadas foram dadas para cada homem. Eu recebi uma pistola e uma espada.
As previs ões do professor e do capitão se concretizaram. Depois de meia hora, o grande navio de guerra
já podia ser visto com detalhes. Vinha para nós para um ataque, não restava a menor dúvida.
Os homens haviam carregado os canhões e estavam próximos a eles, com tochas nas mãos. Esperavam
apenas a ordem de Kurchov, para dispararem.
__ Timoneiro, virar a estibordo, era as palavras do capitão.
O navio começou a fazer uma curva. O Vingador já estava ao alcance dos canhões.
__ Atenção! Preparar!
O Capitão esperou por alguns instantes, para que o navio se aproximasse um pouco mais. Esperava que
esta primeira carga fizesse um grande estrago no navio, pois sabíamos do tempo que levaria para
recarregarmos os canhões.
__ Fogo! –gritou.
Vários estrondos se ouviram. Alguns disparos atingiram a água, outros acertaram as velas. Dois
canhonaços atingiram a proa do navio, matando três e ferindo outros dois marinheiros. Um outro disparo
atingiu a lateral do navio, mas bem acima da linha da água. Agora, era o Vingador que manobrava para
disparar.
__ Recarregar homens. Vamos.
Eu e o professor ajudamos a recarregar um canhão. Parei por um instante e observei o navio inimigo.
Estávamos emparelhados. Vi vários homens com tochas nas mãos. Vi dois homens muito próximos um do
outro. Um deles era o almirante Haloram, que gritava ordens para seus comandados. O outro era Magnus, o
conselheiro real. Os navios estavam a uma distância de oitenta metros um do outro. Ouvi os estrondos dos
canhões partindo do Vingador dos Mares. O canhonaços atingiram nosso navio em cheio. Um dos mastros foi
atingido na base. As cordas do velame se romperam e ele desabou, parte sobre o convés, pare na água. A
popa fora bastante atingida. Pedaços de madeira voavam para todos os lados. Um marinheiro foi atingido em
cheio e caiu no mar. O castelo da popa foi atingido. Vi sete corpos no convés. Haviam morrido com os
impactos dos canhões. Um disparo atingiu o topo do mastro principal, quebrando-o no meio. Olhei para cima
e vi tudo vindo em minha direção. Saltei sobre o professor e caímos para o lado, bem a tempo, pois parte do
mastro caiu onde estávamos.
__ Fogo a vontade, homens. – gritou o Capitão.
__ Vamos, doutor.
O professor se levantou, pegou uma tocha e se dirigiu para um dos canhões. Colocou a tocha sob o
estopim e o mesmo disparou. Uma explosão se ouviu no convés do navio inimigo. Vi três marinheiros voarem
com bonecos de pano. Mais outros três disparos foram feitos pelo nosso navio, mas sem danificar seriamente
o Vingador dos Mares.
__ Protejam-se! – gritou Kurchov.
O professor saiu de perto do canhão e se abrigou atrás do mastro caído.
__ O Navio fez fogo novamente. Desta vez seu alvo foi o convés. Tudo começou a explodir a minha
volta. Senti uma picada na perna. Um pedaço de madeira havia atingido a minha perna direita. Segurei-o com
a mão direita e puxei com força. Ele saiu, e o sangue também. Os convés estava completamente destruído.
Não sabia dizer quantos de nós ainda estavam vivos. Levantei a cabeça e aos poucos fomos surgindo dos
escombros. Vi, por entre a fumaça, o professor, o capitão, Li, Ezra e outros cinco marinheiros ainda vivos.
Olhei para o convés do navio inimigo. Vários marinheiros estavam na amurada com mosquetes. Vi quando
Haloram baixou a mão direita. Vi a fumaça saindo dos mosquetes e me abaixei novamente.

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Uma chuva de projéteis atingiu o convés do navio. Vi os cinco marinheiros caírem no chão. Um deles
era o timoneiro. Não estava morto. Então, o Capitão Kurchov levantou-se até ele. Ezra e Li apareceram. Cada
um tinha um mosquete nas mãos. Fizeram pontaria e dispararam. Dois marinheiros foram mortalmente
atingidos. Peguei minha pistola e fiz pontaria. Mirei em um marinheiro que apontava o mosquete. Atirei e vi
que o tiro atingiu seu peito em cheio atirando-o para trás.
__ Belo tiro doutor. – disse o professor Július disparando sua pistola.
Outro marinheiro caiu no convés.
O Capitão segurava o marinheiro pelos braços. Tentava arrastá-lo para um lugar seguro. Quando dois
disparos atingiram o marinheiro, pondo fim a sua vida. O Capitão Kurchov também foi atingido no peito e
caiu no convés.
Corri na sua direção. Sua mão ensangüentada tentava estancar o ferimento. Ele olhou para mim. Eu me
abaixei e segurei-o pelos braços. Sem uma palavra, o Capitão mais valente que conheci morreu em meus
braços. Olhei a minha volta. Novos disparos foram feitos. Ezra foi atingido e caiu. O professor recebeu um
projétil no ombro e um de raspão na perna, vindo a cair pesadamente no convés. Então me levantei, peguei a
pistola do capitão. Me dirigi para a amurada. Li juntou-se a mim.
__ Miseráveis! – gritei com toda a minha força.
Fizemos pontaria quase ao mesmo tempo. Mais dois marinheiro caíram do outro lado, mortalmente
feridos. Olhei e vi vários mosquetes apontados para mim e para Li. Fechei os olhos. Esperei pelos tiros.
Alguns instantes pareciam uma eternidade. Alguns momentos se passaram e nenhum disparo havia sido feito.
Abri os olhos. Os homens do Vingador dos Mares estavam paralizados. Seguravam os mosquetes e olhavam
para a popa do Tufão. Eu e Li olhamos também. Sou um médico e sei que isto é impossível, mas tenho quase
certeza que naquele instante, meu coração parou.
Um navio acabava de surgir no meio do nevoeiro. Iria passar bem no meio dos dois navios. O navio não
fazia qualquer barulho, seja das velas que estavam totalmente infladas, apesar de soprar somente uma pequena
brisa. O professor levantou-se e juntou-se a nós na amurada. Tinha nas mão uma luneta. Havia vários homens
no convés do navio. Estavam todos parados e voltados para o navio inimigo.
__ Meu Deus! – disse o professor.
Era impossível de acreditar. O navio que acabara de aparecer era o Vingador dos Mares. Não uma cópia,
mas o verdadeiro. O mar por onde ele passava, parecia abrir caminho, sem emitir qualquer barulho, ou mesmo
fazer qualquer espuma. Fiquei ali parado observando o navio passar por nós, como já descrevi, sem emitir
qualquer som. Até mesmo o mar parecia ter se acalmado para receber sua passagem.
O professor colocou lentamente a luneta em seu olho esquerdo e neste momento, uma figura que estava
no castelo da popa, próxima ao timoneiro, onde um capitão de navio costuma ficar, como que percebendo que
a estávamos observando, virou-se e olhou para o professor. Aquele homem era o capitão do navio, não havia a
menor dúvida. Era dificil distinguir seu rosto a olho nu, mas o professor viu seu rosto claramente pela luneta.
Retirou vagarosamente a luneta de seus olhos sem dizer uma única palavra.
Não sei dizer por quanto tempo levou a travessia do navio, mas da mesma maneira que ele surgiu,
desapareceu assim que passou pelos dois navios. A mim, pareceu que ele foi sumindo aos poucos, mas não
posso afirmar com certeza. Os homens do navio inimigo estavam perplexos. O navio tinha passado mais
próximo deles do que de nós. Os marinheiros estava todos voltados para ele, como se quisessem que somente
eles os vissem. Pareciam todos congelados.
O Almirante Haloram, de repente, começou a gritar e a dar ordens. Os homens, novamente voltaram a
apontar seus mosquetes para nós. Ezra levantou-se. “Chegou nossa hora” pensei. Mas ao invés de ouvir tiros
de mosquetes, ouvi um tiro de canhão, depois outro, e mais outros, uma seqüência contínua de disparos. A
névoa foi se dissipando e mostrou três navios fazendo fogo contra o navio inimigo. Eram navios do mesmo
porte do Tufão, mas sua construcão era um pouco diferente. Eram pelo seu formato da proa, mais leves e
portanto deveriam ser mais ágeis.
__ Professor! – falou Ezra. São os Falcões.
Os Falcões para mim não passavam de uma lenda. Eram três navios piratas extremamente velozes e que
pilhavam os navios mercantes. Muito se comentava sobre eles nos portos, de suas proezas, suas pilhagens e de
suas audaciosas escapadas, mas muitos, inclusive eu, acreditavam que não tudo não passava de uma lenda.
Mas agora ...
A situação havia mudado para o navio inimigo. Os três navios haviam cercado o navio e faziam disparos
um de cada vez, fazendo desta forma um fogo ininterrupto sobre o navio. Os disparos eram precisos e
atingiam o navio em vários lugares. O convés pipocava de explosões. Homens eram atirados para todos os

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lados. Gritos de pavor ecoavam em várias direções. O Almirante Haloram dava ordens, mas o pânico havia
tomado conta dos homens. Alguns se atiravam na água, onde os tubarões os esperavam com destino certo.
Poucos disparos foram feitos em resposta, mas sequer causaram algum dano sério nos navios. Uma série de
disparos feitos na linha d’água e o Vingador dos Mares começou a afundar. Vários tiros de mosquetes
começaram a ser disparados contra o navio. Vi, primeiramente o conselheiro Magnus ser atingido por um,
dois, três, quatro disparos, antes de cair fulminado aos pés do Almirante Haloram. O Almirante olhou para o
navio destruído. Recebeu um disparo no ombro, dois no peito e caiu no convés, para morrer instantes depois.
O combate ainda durou mais quinze minutos, até que, pelos inúmeros rombos no casco, o navio afundou.
Vários destroços ficaram boiando e com eles alguns corpos, que aos poucos iam desaparecendo com os
ataques dos tubarões.
Ficamos ali parados, sem dizer uma palavra. Os navios se aproximaram do nosso. Vi um bote baixar de
um dos navios. Alguns homens subiram a bordo e informaram que deveríamos segui-los. Olhei pela última
vez para o convés e vi os corpos de nossos companheiros. Observei o corpo dos homens ali no chão. Haviam
lutado bravamente. Descemos para o bote. Enquanto nos aproximávamos do navio, dois outros botes,
partindo um de cada, seguiam para o mesmo destino. Um destes navios fez fogo contra o Tufão, que também
começou a afundar.
Já no convés do navio, fomos recebidos pelo capitão. Era uma homem alto, cabelos grisalhos, trajava
roupas finas e botas pretas. Tinha uma bonita pistola presa a cintura.
__ Capitão Július. Bem vindo a bordo do Audaz. Sou o Capitão Antonian. Não nos conhecemos
pessoalmente, mas sua fama nos mares é muito grande e seus feitos são uma lenda entre nós. Estes outros que
se aproximam são o Capitão Rostov, do Valente e o capitão Gustav, do Terror dos Mares.
As duas outras figuras que chegaram a bordo dos outros escaleres eram os capitães dos outros navios.
Eram também figuras dignas de capitães. Também vestiam roupas finas. Um deles tinha um lenço negro na
cabeça e um brinco de ouro de forma circular na orelha. O outro, de nome Rostov, devia ter a idade
aproximada do professor Július. Usava um chapeú com algumas plumas. Retirou da cabeça para nos
cumprimentar.
__ Bem Capitão Antonian. Eu, juntamente com estes homens, estamos muito gratos pela ajuda contra
este inimigo de nosso Reino.
__ Sim, capitão, mas este não é um inimigo somente de seu Reino, mas nosso também. Por causa dele
perdi grandes companheiros, e não há mais nenhum navio mercante nesta região já há bastante tempo.
Estamos a tempos planejando este ataque, mas era um navio muito poderoso e somente agora pudemos
surpreendê-lo e finalmente por fim a estes mercenários que se apoderaram de nossos mares.
__ Sim, acabou. Mas agora, rogo-lhe que permita que possamos cuidar de nossos ferimentos.
__ Sim, claro.
O capitão deu algumas ordens. Fomos levados para uma cabine. Tomamos um banho, tivemos nossos
ferimentos tratados. Fizemos a barba e tivemos uma farta refeição. Depois, fomos acomodados em pequenas
camas e dormimos por um longo período.
Os dias a bordo do navio pirata foram os mais tranqüilos possíveis. Conversei com os piratas. Eram
guerreiros do mar, mas eram alegres e sinceros. Amavam a luta, que segundo eles, estava no seu sangue.
Meus ferimentos melhoravam dia a dia. O professor me contou que não mencionou aos capitães sobre o plano
do Almirante Haloram de causar uma guerra com o ataque ao navio do príncipe. Para ele, os capitães não
tinham necessidade de conhecer este detalhe da história.
O Capitão Antonian nos levou para uma ilha, onde a cada duas semanas um navio do Reino parava para
abastecer de água potável. Li e Ezra haviam decidido ficar com os piratas. O professor não fez qualquer
objeção e despediu-se deles com grande emoção e uma certa tristeza. Eu também fiquei triste de ver meus
companheiros de aventura partirem. O bote nos levou até a praia e ficamos ali observando a partida dos três
navios. Era uma tarde linda de sol. O céu estava claro e azul, assim como o mar.
__ São homens de grande valor. – disse para o professor.
__ Sim, doutor. São homens de verdade. Daqueles que Deus faz e joga a receita fora.
Fomos deixados na ilha com víveres e armas. Construímos uma cabana na beira da praia e exatamente
um semana depois um navio de guerra apareceu para reabastecer-se com água potável. Fomos recebidos com
grande festa pela tripulação. O capitão ordenou que retornássemos imediatamente para o Forte Duchigam.
Vinte dias depois o navio chegava em seu destino.

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Capítulo XII

Assim que chegamos ao forte, o professor separou-se de mim. Não sem antes termos esta conversa.
__ Doutor, rogo-lhe que não comente estes acontecimentos com ninguém. Para todos os fins, lutamos
contra um grande navio pirata que se fazia passar pelo Vingador dos Mares. Qualquer outra história não
poderá ser mencionada. E o senhor nunca esteve a bordo do Tempestade.
__ Jamais me passou a idéia de revelar tais fatos professor.
__ Sei disso. Agora devo partir meu amigo. Quero dizer-lhe que o estimo muito. Como a um filho.
__ E o senhor, eu prezo como a um pai.
Apertei forte sua mão e dei um grande abraço aquele homem. Vi-o entrando em uma carruagem que saiu
a todo galope para fora do forte. Achei que seria a última vez que veria aquele homem.

Retomei minhas atividades, não sem antes marcar a data de casamento com Caroline. Casamos
exatamente um mês depois de meu retorno e fomos morar em cima de meu consultório médico.
Acompanhei pelos jornais todos os esclarecimentos do professor. Recebera uma grande homenagem do
rei, o título de nobreza mais elevado concedido a um homem. Aos poucos, o comércio de navios foi
retornando ao normal e a vida voltou a seguir um rumo tranqüilo.
Eu trabalhava em meu consultório e Caroline trabalhava na escola das freiras, cuidando de crianças.
Levávamos uma vida calma e serena.
Seis meses depois de meu casamento, estava trabalhando em meu consultório quando uma carruagem
parou a minha porta e dois homens desceram. Vestiam-se muito bem.
__ Doutor David?
__ Sim, respondi.
__ Gostaríamos que o senhor nos acompanhasse. Uma pessoa quer vê-lo.
__ E quem seria esta pessoa?
__ Ela pediu somente que o senhor nos acompanhasse.
Achei um tanto estranho aquele convite, mas tive um palpite sobre quem era esta pessoa. Deixei meu
assistente tomando conta e segui com eles. A carruagem seguiu por toda a orla e subiu para o mirante, um
lugar bonito, que permite uma belíssima visão do mar e da cidade. Já havia feito alguns piqueniques com
minha esposa ali. Era coberto de uma grama verde, com algumas árvores frondosas. Acabava dando em um
penhasco, sob o qual o mar batia suas ondas ruidosamente. Havia uma outra carruagem parada lá.
Desci e vi um homem observando o mar. Tinha as mãos para trás. Era o professor Július. Meu palpite
estava correto. Aproximei-me dele.
__ Professor.
__ Doutor David.
Apertamos firmemente as mãos.
__ Vejo que estás muito bem de saúde. E quero parabenizá-lo por teu casamento com Caroline.
__ O senhor soube?
__ Soube? Eu estive lá. Só que preferi não me identificar. Mas foi uma cerimônia muito bonita.
__ Por que o senhor diz isto?
O professor colocou a mão em meus ombros. Começamos a caminhar lado a lado.
__ Porque, depois que deixei o forte. Fui ter com o rei e relatei os verdadeiros fatos de nossa missão.
Contei a ele toda a verdade, todos os acontecimentos. Descobrimos nos pertences do conselheiro Magnus
documentos comprovando o seu envolvimento e o de várias pessoas, que, felizmente estão todas presas.
Mas o rei, desejando minha segurança, preferiu que eu me mantivesse em segredo. Ninguém, além do rei
conhece meu paradeiro. Apenas algumas pessoas de confiança sabem onde estou. Como aqueles dois ali.
Olhei para o lado e vi Ezra e Li. Estavam junto a carroça. Acenaram para mim e retribui o aceno.
__ Eles preferiram voltar e estão como meus guarda costas. Os outros homens são de extrema confiança
do rei.
__ Fico contente, senhor.
__ Eu também, mas manter-se no anonimato tem seus inconvenientes. Mas, isto não vem ao caso agora.
Gostaria que soubesse o desfecho desta aventura, tendo em vista que também a protagonizou.
__ Sim, gostaria de saber.

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__ Uma esquadra, sob o comando do Almirante Demitre rumou para a ilha da morte e somente
encontrou os destroços do forte. Haviam vários corpos pela praia.
__ Provavelmente pela combate com os homens do Capitão Dubolski.
__ Sim, e ao que tudo indicou, todos os sobreviventes estavam a bordo do Vingador dos Mares. O
príncipe foi escoltado até seu encontro com o rei, que assinaram um acordo de paz e de comércio que muitos
benefícios trará para nosso Reino.
__ O Rei falou algo sobre o plano do Almirante Haloram?
__ Não. Nada foi comentado. Sua majestade não quer uma guerra.
__ Fico contente que tudo tenha se resolvido professor.
__ O rei também. E pediu-me que entregasse isto para o senhor.
O professou tirou do casaco um estojo fino, de madeira. Era todo trabalhado. Eu o abri e dentro havia
várias pedras preciosas. Diamantes, rubis, esmeraldas, safiras ... Uma verdadeira fortuna.
__ O Rei não pode homenajeá-lo, por que, como eu, teme por sua segurança e a de sua esposa. Mas quer
que aceite isto como recompensa por seus atos.
__ Não sei o que dizer quanto a isto professor.
__ Então não diga, apenas aceite.
__ Está bem.
Parei por um instante e olhei o mar. Estava calmo, com ondas pequenas. A brisa trazia seu cheiro de
aventura. Olhei o horizonte infinito.
__ Mas... Eu ... Eu gostaria de lhe perguntar um coisa?
O professor me olhou.
__ Eu sei o que o senhor irá me perguntar.
__ O que o senhor viu através daquela luneta professor? Com aquele aparelho o senhor foi o único que
viu o navio bem de perto, além dos homens comandados pelo Almirante Haloram. Como era o navio? Seu
convés? Quem era o homem que se virou e encarou o senhor? Como era seu rosto?
O professor fitou-me por alguns instantes.
__ Acho, doutor, que existem certas coisas, certos fatos, que ainda não temos e não sei se chegaremos a
ter a compreensão do que realmente são. Se são frutos de nossa imaginação ou se fazem parte de algo maior,
de algo que nos cerca e controla nossas vidas. O que vi não importa, porque não mudei meu pensamento
acerca do que acredito, do que tenho fé. E é isto que importa. E penso que é o que deve importar para o
senhor também.
__ Sim. O senhor tem razão.
__ Agora, meu amigo, tenho que me despedir. Vou com eles para uma fazenda no interior do Reino.
Quero, assim com Ezra e Li, ter uma vida calma. Ninguém me encontrará lá.
__ Então não verei mais o senhor?
__ Creio que não meu jovem. Mas eu o terei sempre vivo em meus pensamentos.
__ Está bem professor.
Despedi-me de Li e Ezra e apertei sua mão pela última vez. Fiquei olhando-os entrarem na carruagem.
Vagarosamente, ela foi se afastando. Fiquei ali parado, depois olhei o mar, entrei na carruagem e voltei para
casa.

Como o professor havia dito, nunca mais ouvi falar dele ou de Li ou mesmo Ezra. A minha vida foi
tranqüila. Tive três filhos. E hoje, somos uma família muito feliz. Quanto ao estojo de madeira, o tenho
guardado em um lugar seguro.
Às vezes, chega até o porto a história de um navio grande, com as velas infladas, mesmo sem ter um
única brisa, que aparece e desaparece no meio de um nevoeiro no arquipélago de Luger. Um navio silencioso,
grande e imponente, que navega sem deixar rastros na água. Quando me perguntam o que acho desta história,
respondo sempre a mesma frase:
__ Estas coisas não existem.

Fim

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