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Alexandre Cruz Almeida

Mulher de Um Homem Só
⎯ romance ⎯

Última modificação: 20 de fevereiro de 2003


Este romance está registrado na Biblioteca Nacional, sob o número 257.993
Para Diane, com amor
Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.2

NÃO TINHA NEM ME libertado da escola ainda quando casei. Mas boa fedelhacente que era não
encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e eu aceitei, num estrambelho.
Quis dar a ele a impressão de já ter ponderado muito o assunto, de que estava apenas esperando
sua iniciativa. A verdade é que, até aquele momento, a idéia de casamento nunca me irrompera. Dá
vontade de rir: tipógrafa amadora, quem teve a impressão errada fui eu. Troquei todos os tipos,
achei que o pedido tinha sido feito com o mesmo desconcerto com que foi aceito. Eu ainda não
conhecia Murilo.
Mas seu diário já na véspera confessava:
"Contas batem. Papai se comprometeu c/empréstimos. Mamãe vai dar apoio comida, lavagem
roupas. Ocupar aptº vovô economiza aluguel. Júlia aponta ser provável Carla querer trabalhar e/ou
cursar faculdade mesmo tempo ∴ renda extra. Não tenho direito considerar essa variável nos
cálculos. Hoje finalmente concordamos que as chances de aceitação ultrapassaram 75%. Amanhã
faço pedido."
No e/ou, escolhi ou. Murilo não tinha condições de trabalhar – ser estudante de medicina já é
trabalho em tempo integral – e eu não queria viver sustentada pelos sogros. Naftalinei meus planos
universitários e fui vender roupa de grife: larguei casa por não suportar mais ser criança e, agora,
mulher casada, é que eu não ia viver do dinheiro dos outros.
Murilo não tinha grandes despesas: estudava em universidade pública, almoçava bandejão e mal
jantava. Seu único gasto eram uns poucos livros grossos com ilustrações desagradáveis: a maioria,
ele emprestava do pai. Eu? Cresci menina rica, até que eu tinha no que gastar dinheiro. Vontade não
faltou. Só que Murilo também cresceu em condomínio em frente à praia e não gastava quase nada.

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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.3

Se eu ia dividir a vida com ele, não era certo eu gastar e ele não. E Raquel, Raquel não era nem
plano. Quer dizer, não era plano pra mim: os cadernos secretos de Murilo já continham cálculos
precisos sobre quando seria viável ter um filho. Mas Murilo maquina muito.
Cheia de vontade de gastar um dinheiro que não devia, eu é que não ia assentar em casa. Mal
conseguira fugir de um inferno barulhento de pais tiranos, irmãos insuportáveis, tias gosmentas,
avós incontinentes: não tinha nada que eu quisesse menos do que ajuda, companhia ou mesmo
pensamento positivo da minha família. Só me sinto mal de não ter aproveitado melhor os sogros: eu
era garota insegura e burra, dezoito anos, ouvia o galo cantar e nem sabia onde. Eles ofereciam
ajuda mas, pra mim, família era tudo igual. Por baixo, deviam ser como meus pais, apenas era prata
mais bem lustrada. Não é engraçado isso? Eu era incapaz de acreditar que queriam ajudar. Também
o orgulho: eu sabia que a situação era difícil e acho que era isso que eu mais gostava. Queria
provar, pra mim, pro mundo, pra família, pros sogros, pra Dulcinéia do 512, que eu podia ter sido
criada princesinha de mel mas que agüentava a pressão. Que eu era mulher, tinha casa e meu lugar
era lá.
Sozinha.
Juntamos um bom dinheiro porque eu não parava de trabalhar. Aos poucos, fui aumentando meu
horário. Não tinha motivo pra morgar em casa, melhor então marchar pra loja, mercadear roupa,
amontoar comissão. Eu só não queria perder nem um segundo possível de Murilo. Com o tempo,
me amiguei da dona e, na verdade, não tinha porque ela desgostar de uma escrava como eu. O nosso
trato era que eu era a primeira chegar e ficava na loja até que Murilo ligasse da cidade universitária
dizendo que estava saindo. Aí eu largava tudo, me desabalava pra casa e, em meia hora esbaforida,
já estava na década de cinqüenta. Tudo tinha que estar perfeito pro maridão cansado: eu tomava
banho, me arrumava (mas não muito, pro Murilo não achar que eu estava de cerimônia com ele),
deixava alguma coisa meio pronta no fogão pra eu terminar de preparar quando ele chegasse
(gostava que ele me visse na cozinha) e dava um retoque geral na casa, mas nem precisava, porque
casa que não se usa quase não tem o que se arrumar. E acho graça que eu só tinha dezoito anos e
que nem sabia o que era casamento: fui aprendendo. Estudei com afinco, levei muita bomba e vivia
sendo mandada pra sala do diretor.
Aprendi, entre outras coisas, que Murilo vivia na década de noventa mesmo e que preferia ter
uma esposa contemporânea. Aprendi que, de noite, ele comia era pão com frutas e, no máximo, uma
sopa, e que não adiantava cozinhar o que ele não ia comer. Aprendi que, ao contrário do que
achava, muitas vezes a mulher quer mais sexo do que o homem sim e aprendi a detectar os sinais de
que o Murilo simplesmente estava cansado demais para algo além de sono. Aprendi a controlar a
frustração, mas também aprendi que algumas vontades só se controlam depois de satisfeitas. Só não
aprendi a ficar sem ele e continuava exigindo que me ligasse da faculdade porque eu não queria
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.4

perder nenhum momento dos poucos que podíamos ficar juntos.


E eram poucos. O resto do dia era a solidão do shopping. Não tem lugar mais desolado do que
shopping. Aquela enormidão de vidros, preços e lojas, gente por tudo quanto é altura e largura,
vindas da cidade toda, sem nada em comum. Não tem em comum nem a vontade de comprar: a
maioria é puro caroço, só quer vitrinar, errar naqueles ermos.
A conversa com as outras vendedoras era fútil e monótona: tínhamos todas a mesma idade,
mesma faixa social, mesma criação. Mas vidas tão diversas. Eu até gostava disso: a criancice delas,
algumas bem mais velhas do que eu, realçavam minha tão prezada maturidade. Vinham me falar de
homem e de sair pra caçar, e eu respondia, estóica, que era casada, e mostrava o anel, toda boba.
Algumas histórias me faziam morder o lábio, apesar de saber que eram provavelmente inventadas.
Homem mesmo, descansado e disposto, viril e aprumado, eu tinha aos fins-de-semana. Me atiçavam
para a noite, para brincar um pouco e vontade eu tinha, mas lealdade era parte do meu projeto de ser
adulta. Minhas vontades eu satisfazia no banheiro.
Parece difícil de acreditar: naquela época, minha maior amiga talvez tenha sido a Júlia. As
velhas amigas de escola, essas eu nunca mais via: passavam as tardes nas suas universidades,
estudando, assistindo a aula e tinham as noites livres pra badalar mas aí quem não estava livre era
eu. Fui até virando pária, motivo de chacota. A imagem de esposa ideal de 1956 que tentei passar
pro Murilo, elas captaram muito bem: até hoje me chamam de amélia e têm sorte que eu nunca
soube disso, porque sou de briga.
Fugi da família, sumi dos sogros, afastei as amigas, sobrou quem? Júlia.
Júlia não tinha horário: aparecia na loja a qualquer hora, querendo conversar. E conversava.
Falava tudo, sem constrangimento, sem reservas, era espantoso, tirava um bisturizinho do bolso,
fazia uma incisão no bucho e puxava fora suas vísceras, entranhas e órgãos, e botava na mesa,
mostrava, olha, Carla, essa aqui sou eu, pra mim, logo pra mim que mal conhecia ela, mas já morria
de ciúmes. E eu, é engraçado isso mas hoje estou achando tudo muito engraçado, também expunha
minhas entranhas pra ela. Porque eu sabia o que ela procurava em mim e ela sabia o que eu
procurava nela.
Se eu não podia ter o Murilo, Júlia era o que de mais próximo havia. E vice-versa. Ela esteve
acostumada, a vida toda, a ter o Murilo a sua disposição. Agora, o homem sumia o dia inteiro. Júlia
tinha vício de Murilo: e satisfazia comigo. Perguntava da nossa vida, queria ajudar, precisávamos
de alguma coisa?, como estávamos de dinheiro? e, também, perguntava da minha vida, e queria
saber sempre mais.
Não adianta que a Júlia eu não consegui destrinchar. Uma parasita, sanguessugando nosso
casamento, isso ela não era. Se fosse, eu até apreciaria mais a pobrezinha. Faz bem sentir pena de
quem a gente não gosta: alimenta e dá viço. Mas não: sua relação conosco era simbiótica, a
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.5

necessidade dela o Murilo também tinha: ele se injetava nela e ela se injetava nele. Se picavam
quase toda noite: ela ligava, ou senão ele. E isso me ulcerava por dentro. Em noite de sexo negado,
eu odiava Júlia mais do que tudo. Odiava chegar no meu marido com dengo, odiava ser repelida
com amor em nome do cansaço, mas isso dava pra agüentar. Duro era, logo depois, ele passar meia
hora no telefone com outra mulher. Não tem lógica, eu sei, e por outro lado, cheio de lógica está,
mas na minha cabeça, se ele não tinha energia pra mim, não devia ter pra ela também. Júlia me
lembrava minha avó grudenta, só que pior: porque a avó grudava em mim e Júlia grudava no meu
marido. E enquanto eu tentava me livrar da velha, o Murilo se grudava de volta. E batia pena
porque, às vezes, na loja, Júlia comentava que eu tinha sorte, que eu ia ver o Murilo de noite e ela,
no máximo, ia falar com ele no telefone. E eu pensava: posso dizer pra ela aparecer lá, não posso?
Mas nunca gostei de ser hipócrita.
Ela tentava me dar a impressão de que, durante o dia, o Murilo era tão fora do alcance dela
quanto do meu. Mas Júlia tinha o horário mais livre e uma imaginação malandra: dispensou aviões
e subiu o morro, foi direto ao fornecedor. Aparecia sempre na universidade. Naquela época, quando
não estava trabalhando, estava ou na loja comigo ou na universidade com Murilo. Sabia o número
das salas, o horário das aulas, até a mesa onde ele comia. Deve ter aprendido muito de medicina,
porque assistiu a várias aulas junto com o Murilo, só pra sentar do lado dele e conversar. E os
almoços. No começo, ele tentava expulsar Júlia, assim como fazia comigo quando eu me chegava
nele de noite. Mas tinha receio de Júlia sofrer uma crise de abstinência caso passasse uma tarde sem
fumar seu baseado de Murilo. Júlia, vulnerável e quebradiça, se jogava sobre Murilo de alma inteira
e ele espalmava os pés no chão, dobrava os joelhos, trincava os dentes e aceitava aquele peso, deixa
cair que eu agüento.
E eu? Murilo achava que me conhecia bem demais, ficou confiante: nunca olhou dentro da
carapaça. Viu a carapaça e achou que aquilo é que era, achou que já estava tão fundo dentro de mim
quanto alguém poderia estar. Mas o fundo é sempre mais embaixo, nem eu sei onde, e lá o Murilo
nunca se aventurou. Casou com a rocha, se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que
eu fosse.
Aos poucos, se institucionalizou o almoço: todo dia comiam juntos, se olhavam juntos, se
amavam do jeito lá deles. E, logo depois, Murilo ia pra aula e Júlia vinha pra loja, chorar suas
misérias. Não vejo mais o Murilo, quem tem sorte é você, Carla!, blá blá blá, mas nenhum dos dois
cachorros nunca me disse que almoçavam juntos dia sim, dia também.
Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra nem suavizar o vício de Murilo
que Júlia tinha. Eu, que me achava sua clínica de reabilitação, era na verdade sua fornecedora
clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar. E eu
fazia o mesmo, porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Ela me
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.6

sugava o presente, e eu, o passado. Júlia sabia tudo sobre o Murilo, cresceram juntos, nunca não se
conheceram. Um era a constante da vida do outro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a
variável e isso me deixava tonta, eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia, amanhã,
fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e
sugando o futuro. E eu pensava: o juramento foi comigo, a mulher dele sou eu.
Algumas coisas Júlia não entendia nunca; outras, entendia bem demais. Demorou pra eu juntar
coragem de explicar o rodízio da loja. Éramos seis vendedoras na loja, todas roendo comissão. Para
evitar que soterrássemos ao mesmo tempo cada cliente que entrasse, havia o tal rodízio: o próximo
que entrar é da Carla, depois, da fulana, e por aí vai até chegar em mim de novo. Perdia-se a vez por
qualquer desculpa. Se entrasse alguém na minha vez e me perguntasse onde era o banheiro, pronto:
minha chance de comissão era só no sexto cliente depois disso. E Júlia, bem, a época da loja foi
quando Júlia ganhou muito dinheiro. Ela entrava na loja e vinha papear comigo. E eu perdia a vez,
claro. Daqui a pouco, ficava sem graça de estar tomando meu tempo, mas ainda queria conversar
mais. Então, ela dava uma volta pelo shopping e entrava na loja de novo, bem a tempo de me fazer
perder a vez seguinte também. As outras vendedoras se riam todas, aquelas piranhinhas.
Um dia, contei tudo. Que eu lambia e deslambia ela mas que a loja funcionava era assim ó. Que
eu e o Murilo precisávamos economizar e que eu já ficara uma tarde inteira sem poder nem olhar
pra cliente porque ela não parava de entrar e sair. Júlia não pediu desculpas, de modo algum: por
que se desculparia? Não sabia das regras, não tinha como saber. A única desculpa possível seria
corrigir o erro. Mas não podia parar de vir, eu era o Murilo das tardes dela. Então, ela vinha, mas
vinha entendendo as regras, entendendo bem demais. E Júlia reinava, se divertia.
Fazia todas as moças perderem a vez. Perguntava uma coisinha pra cada uma, em seqüência, só
de birra. Brigavam comigo depois e eu protestava inocência, que já tinha pedido pra ela parar com
isso – e tinha mesmo! Tanto aprontou que tiraram Júlia do rodízio, caso único: se entrasse, eu que
me entendesse com ela. Aí ela passou a comprar aos vergalhões. Literalmente, a cada vez que
entrava na loja pra me dar oi, levava alguma peça. Durante anos, foi a maior cliente da loja. E as
comissões vinham todas pra mim. E eu dizia: Júlia, você está gastando muito, o que é isso? E ela
respondia que precisava mesmo de roupas, tinha ganho muito dinheiro, aquela marca era boa,
estava ajudando o casamento do amigo, por que não? Cheguei a ler uma nota na imprensa sugerindo
que Júlia tinha algum acordo com a loja, porque só aparecia em público vestindo nossa grife. O
acordo era Murilo. E o fato de Júlia não ter vaidade: poucas mulheres usariam roupas sempre da
mesma marca, todo dia, por melhor que a marca fosse. Júlia usava. Já que tinha comprado, por que
não usar?
Mas Júlia não estava comprando roupas, estava comprando a mim. Eu tinha capturado seu
melhor amigo e ela, então, tinha de ser minha amiga também, precisava da minha amizade: no
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.7

mínimo, da minha neutralidade. Júlia não podia arriscar me ter como inimiga. E foi assim que
minha relação com ela acabou se tornando quase tão simbiótica quanto a dela com Murilo, porque
minha preocupação era a mesma. Ela conhecia meu marido desde criança, tinha passado por todas
as namoradas dele, conhecia facetas do Murilo que eu nem imaginava, ainda era sua maior
confidente: se quisesse destruir meu casamento, destruía. Por isso, era essencial que Júlia me
considerasse a esposa perfeita. Ela não podia querer que o casamento acabasse, não podia sentir os
ciúmes que eu sentia. Júlia tinha de me amar também.
E, se penso muito, acabo achando que isso aqui não é uma história, é um catálogo de loja, porque
só se quer saber é de comprar. Glicério, por exemplo, desistiu de comprar Júlia, pararam de se falar,
cortaram relações, fecharam fronteiras, só não expulsaram embaixadores: Murilo assumiu essa
função, e Glicério continua tentando comprar Júlia através dele.
Tinha sido ali naquele mesmo shopping, perto de onde havia sido a loja – sem o apoio financeiro
Júlia, a loja falira anos antes – que Glicério tentou comprar Murilo pela última vez. E agora me deu
vontade de contar logo essa história, do último almoço do Murilo com o Glicério. Essa história me
revolta um pouco. Eu entendo o Glicério, até concordo, com pencas de ressalvas, mas me revolta.
Vou ter que dar uns pulos no tempo. Estava tudo indo tão bonitinho que fico até chateada de
embaralhar as histórias. Comecei do começo lá comecinho mesmo e estava planejando continuar
reto até o fim, em ordem cronológica e tudo. Mas aí, e se eu ceder às minhas vontades? Se eu pular
até o Glicério, vou ter que pular pra trás depois. E eu sei como é, eu me conheço, gosto de dançar:
se começo a saracotear, não paro mais. Deixa pra lá: eu vou, eu volto, não me importo. Pra que a
pressa? A história não vai a lugar nenhum.
Na verdade, antes ou depois, não faz muita diferença. Tudo aconteceu aos poucos, mas também
poderia ter acontecido tudo junto, ao mesmo tempo. Pelo menos, essa é a impressão que dá: a gente
olha pra trás e é difícil de conceber uma ordem cronológica para aquele emaranhado de fatos. Para
quem já sabe o que aconteceu, para quem viveu, aquilo é tudo uma coisa só, una, indissolúvel,
articulada. Essa história é como um corpo humano: ela é composta de várias partes, mãos, pernas,
troncos, que se juntam para formar um todo único, mas quem poderia dizer quem veio antes
cronologicamente, se o tornozelo ou a testa? O que importa é o todo.
Depois eu pulo de volta e falo da terceira vernissage. Afinal, se Júlia não tivesse se embebedado
e dado tamanho vexame, a coisa toda nem sairia nos jornais e Glicério não ficaria tão preocupado.
Mas depois eu falo disso, e depois falo também que ela voltou pra casa com o Murilo – eu tive que
voltar sozinha – e que o carro cheirava a vômito, e foi um bom cheiro, eu tive medo que cheirasse a
esperma derramado e camisinha nova.
E não foi nem dois dias depois disso, tornozelo ou testa, que o Glicério ligou pra linha particular
do Murilo no consultório e perguntou se ele podia almoçar. Murilo não podia, mas pro irmão de
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Júlia ele fazia tempo, se fosse preciso. Em menos de uma hora, Glicério já estava no shopping, onde
era o consultório do Murilo, e ambos foram comer ali por perto.
Os dois se encontravam uma vez por ano. Não eram amigos faz tempo, nem tinham qualquer
assunto: somente Júlia os unia. Quando Glicério podou Júlia de sua vida, seria natural que o vínculo
com Murilo apodrecesse também. Só que a natureza é coisa estranha e aconteceu o contrário:
brotou, vicejou.
Glicério virou a cabeça pro lado, e olhou as criancinhas andando pela praça de alimentação, e
disse:
– Li os jornais e fiquei preocupado.
Murilo não disse nada. Pegou um lápis de cera do copinho e começou a desenhar triângulos na
toalha da mesa.
– Fiquei preocupado – Especificou Glicério – com as manchetes e com as resenhas.
Murilo preferiu não se comprometer:
– Achei que tinha sido isso mesmo. O motivo de você me ligar.
Glicério era orgulhoso. Tinha rompido com Júlia e não iria falar com ela até que um dos dois
pedisse desculpas, mas ainda se preocupava com a irmã caçula. Murilo era o informante perfeito.
– Essa seria uma oportunidade ideal pra você falar com ela. – Tentou Murilo. Ele sempre
tentava. – Agora pelo menos vocês teriam assunto.
–A Júlia é muito teimosa, muito infantil. Eu já desisti. Não tem nada que eu possa fazer por ela.
Como se não bastasse Júlia se jogar sobre Murilo, o irmão também a despejava sobre ele.
Não, não é essa ainda a parte que me revolta, mas agora já me revoltei também. Me revoltei de
antemão. Por que logo Murilo é que tinha de ser o responsável? Júlia não era uma sozinha no
mundo. Ela tinha família. Tinha irmão, mãe, primos, tias. Até cachorro.
Menos pai. O pai morreu e foi nessa época que Murilo começou a acumular funções. Ai, droga,
que não quero ficar aqui passando a vida dessa cidadã em revista, mas preciso.
Não sei detalhes, nem quero saber, mas o caso foi que o pai fugiu com outra mulher e a família
toda se dividiu: Júlia, que não devia ter nem treze anos, mas já era bem madura – depois não
amadureceu mais – defendeu a mãe, Glicério defendeu o pai. Murilo defendeu Júlia, mas de longe:
nessa época, ele ainda era só amigo.
Lá pelas tantas, o pai morreu e Júlia e a mãe queriam tirar até as meias da concubina-esposa
enquanto Glicério lutou por seus direitos com garganta e pulmões. A situação não se resolveu, a
outra ficou com o que já possuía e Glicério rompeu de vez com a mãe e com a irmã, duas hárpias
que, mesmo tendo tanto, ainda queriam rapinar uma pobre senhora.
Tudo bem, eu não sei detalhes, nem quem estava certo ou errado, e não me importo, não vou
julgar. O que eu sei é que, quase que de uma vez só, todos os referenciais masculinos foram
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arrancados de Júlia, todos menos um. E Murilo, subitamente promovido a consultor sentimental e
amante platônico, companheiro de noitadas e símbolo sexual, pai e irmão, aceitou alegremente esse
ônus.
Então Glicério, quando quer saber de Júlia, se está comendo direito, se arranjou namorado firme,
se melhorou da tendinite, iria perguntar para mais quem? Depois que Júlia alienou todos seus
amigos e conhecidos, quem foi o único mártir que sobrou pra defender a causa perdida, até a morte,
se preciso fosse? Quem é o único que ergue a clava forte e não foge a essa luta?
– Murilo, – Ele disse, de novo: – fiquei preocupado.
– Eu também.
– Teve algum motivo pra Júlia beber assim?
Murilo riscou um a um os triângulos que desenhara:
– Você leu as resenhas, não leu?
– É verdade que todos os quadros eram retratos da sua filha?
Murilo assentiu silenciosamente, sem levantar os olhos, enquanto desenhava cubinhos na toalha
da mesa. Cubinhos meio arredondados nas bordas.
– Bom que você estava lá com ela.
Murilo alfinetou:
– Alguém precisa ficar com ela.
Glicério trocou de assunto:
– Você sabe se o Paiva vai mesmo processar a Júlia?
– Ela me ligou hoje de manhã e disse que ele resolveu não dar queixa. O olho melhorou, não vai
deixar seqüelas. Ninguém gosta de admitir que apanhou de mulher. Mas não quero nem ler a
próxima coluna dele.
– A Júlia não é tão forte assim. – Observou Glicério.
– Estava histérica de raiva. Precisou eu e mais dois pra segurar Júlia. Mais um milímetro e o tal
do Paiva ficava cego.
Silêncio.
Embaixo dos cubinhos de gelo, Murilo rabiscou gotinhas, seu desenho mais típico, uma linha
vertical de gordas gotas se derramando pela mesa.
Enfim, disse:
– Você realmente devia falar com ela. Não precisa falar de mim, basta dizer o que leu no jornal.
– Nós não temos diálogo nenhum, Murilo. Acabou.
– Glicério, ela está na xepa.
E ele, empatia zero, respondeu:
– Eu sinto muito. Se houver algo que eu possa fazer–
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.10

– Ficar se preocupando a distância não ajuda. – Interrompeu Murilo – Você sabe como pode
ajudar. A Júlia precisa de um irmão. E de um pai. De um homem.
Glicério disse suavemente:
– Ela já tem um irmão. E um pai. E um homem.
Murilo entendeu, como não entender?
– Eu não sou e não posso ser o homem da Júlia.
– Ela tem homens até demais.
Murilo desenhou mais gotinhas, uma chuva de gotinhas na toalha da mesa, mas não pareciam
gotas de chuva, eram gordas e encorpadas e escorriam devagar, manavam morosas:
– Você é médico! – Continuou Glicério – Não se preocupa, não?
– Com o quê? – Perguntou Murilo, de pura raiva, porque sabia a resposta.
– Esse estilo de vida dela. Estamos na era da aids. Sempre que ouço falar da Júlia ela está com
um homem diferente. Por quanto tempo vai continuar assim? Ela não me parece o tipo de pessoa
que toma precauções...
– Glicério, – Mentiu Murilo – sua irmã é uma mulher muito inteligente.
Seu lápis de cera acabara. Pegou outro, branco. Mesmo sendo a toalha da mesa branca, pintou o
interior de suas gotas de branco, um branco grosso, viscoso.
– Ela também é uma mulher auto-destrutiva. Eu me preocupo, só isso. Mas você, além de ser
médico, conhece ela melhor que eu...
E a frase ficou no ar.
– Eu já te disse como pode ajudar. Aliás, sempre digo.
Condensou-se novo silêncio. O assunto acabara, mas ninguém queria admitir. Foi então que o
Glicério me revoltou. A verdade é que, se Murilo sempre dizia a Glicério o que ele podia fazer pra
ajudar, Glicério também sabia muito bem o que Murilo poderia fazer para realmente ajudar a irmã:
– Sabe, se ela estivesse com você, eu ficava tranqüilo.
– Ah não! – Gritou Murilo, e não foi um ah não negativo, de contrariar a afirmação do outro,
mas um ah não de cansaço, um ah não resignado de já ouvi isso antes. Um ah não de não quero
ouvir isso de novo. Um ah não de gotas grossas e viscosas pingando, ploct ploct, devagar, uma a
uma, por sobre a outra.
– Estou falando sério, Murilo. Já desisti de entender a Júlia. Mas ainda tento entender você. E
ainda tento entender essa relação de vocês dois. E não entendo.
– Somos amigos.
– Eu sei, mas... – E Glicério tentou, tentou com força articular toda a estranheza que sentia,
tentou com sinceridade, mas Glicério era daquelas pessoas que nunca se deram muito bem com as
palavras:
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– Se você gosta dela, se vocês se entendem tão bem, se passam tanto tempo juntos, por quê...
Quer dizer, eu não sei, vocês dois...
– Você já teve alguma amiga na sua vida, Glicério?
– Já, claro.
– Não, não teve não, senão não faria essa pergunta. – Cortou Murilo, com uma certa autoridade,
e fez um gesto brusco e o lápis de cera branco voou de sua mão e rolou pelo chão, caiu do lado de
fora do restaurante, nos corredores do shopping, e imediatamente sumiu, esmigalhado por dezenas
de pés. Glicério acompanhou o trajeto do lápis e ficou olhando pra ele, só pra ele, viu quando foi
pisado pela primeira vez, por uma senhora gorda de mocassim, e viu quando sumiu, pouco depois,
já esfarelado, levado nas reentrâncias da sola de um tênis velho, nos pés de uma moça feinha, e,
sem o lápis para secar, o olhar de Glicério seguiu a moça, que não tinha bunda mas tinha costas
lisas e bonitas e Glicério a acompanhou, mesmo sabendo que normalmente nunca teria olhado para
a moça dos tênis velhos, mas era melhor que olhar pra Murilo, que não parou de falar e não ligou
pra nada:
– Vamos falar de amigos homens então. Isso você já deve ter tido, certo? Algum companheiro,
um cara divertido, com quem você saísse, conversasse, trocasse figurinha sobre mulher,
eventualmente contasse alguma coisa que ninguém mais saberia, um amigão em quem você
confiasse e pudesse contar. Teve ou não teve?
A moça dos tênis velhos estava olhando uma vitrine, lá longe, e coçou a bunda. Não tinha
vaidade. Júlia também não tinha, mas não coçaria a bunda em público. Ou melhor, Glicério não
saberia. Mas não poderia perguntar isso pra Murilo, podia?, se a irmã coçava a bunda em público?
O pior é que se alguém soubesse era ele, aquele filho da puta.
– Teve ou não teve? Nunca teve um amigo homem?
Glicério queria continuar olhando para a moça dos tênis velhos, mas se voltou para Murilo e
tentou:
– Acho que todo mundo já t–
– A resposta é sim, não é? – Murilo parecia estar com pressa de sair de seu próprio argumento,
parecia nem ter percebido que falava virtualmente sozinho, porque Glicério estava pensando, será
que eles não transam mesmo? Ou então como será que é, ele abraça ela e não sente nada, ela passa
de shortinho e ele não olha de cima a baixo, será que ele é...? E Júlia, Júlia queria, dava pra ver,
desde adolescente, minha irmã não queria outra coisa que não dar pra esse puto, será que nunca
tentou nada? Esses anos todos? E ele rejeitou ela? Rejeitou e continuaram amigos? Glicério
tentando entender Murilo.
– Então, se você se sentia tão bem com esse seu amigo, se os dois se davam tão bem, por que
você nunca transou com ele?
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.12

A pergunta Glicério a ouviu lá do fundo, por detrás de seus próprios pensamentos confusos, mas
foi súbita e Glicério se empertigou:
– Porque sou homem!
E Murilo clarificou:
– Por que não sente atração física por homens, é isso?
– Porque sou homem, porra!
– De qualquer modo, ao menos teoricamente, você entende o que é confiar em alguém, conviver
com alguém, ser íntimo de alguém e, mesmo assim, veja só você que estranho, nunca sentir desejo
sexual por essa pessoa. Quer dizer, estou presumindo que não.
– Murilo, você está insinuando que eu sou veado?
– Eu mal te conheço, Glicério. Mas se você nunca teve desejos sexuais pelo seu grande amigo aí,
porque acha que eu teria que ter esses desejos em relação a sua irmã?
– Você parece idiotizado, Murilo! A situação é totalmente diferente! A Júlia é mulher!
– Entendo. Você acha que eu tenho – ou teria obrigação de sentir – desejo sexual pela sua irmã
só pelo fato dela ser mulher. Ponto. Quer dizer que sentiu desejo por toda mulher que já conheceu?
Não perdoou nenhuma?
Glicério olhou para ele e suspirou, quem é que agüenta ouvir a lógica de Murilo?, suas palavras
são afrontantes, sua cara é provocadora, seu tom de voz é insuportável e seus argumentos são
exasperantes, e largou suas mãos por cima de todas aquelas gotas desenhadas na toalha da mesa:
– Brincar de retórica não ajuda. O que não entendi é como se pode ser tão próximo a uma
mulher, passar tanto tempo junto, e, mesmo assim...
Murilo virou pra trás:
– Deixa eu pedir logo essa conta...
– Espera. – Disse o outro: – É sério, Murilo. Desculpa se ofendeu. Pela sua reação, ofendeu. E eu
também sei que você está casado, bem casado, e que eu não tenho nenhum direito de falar isso, mas
vou falar.
Murilo encarou o homem e rebateu com a sua frieza lógica que eu tanto odeio. Não há nada pior
do que discutir com o Murilo:
– Se já sabe que não tem o direito de falar, não fale!
Mas Glicério continuou e Murilo teve aquela tentação de olhar pro lado também, procurar algum
lápis de cera ou alguma mulher de tênis, pedir a conta outra vez, mas foi só por um segundo, Murilo
não é assim. Murilo te encara, tenaz, imperioso: ele te olha não como se estivesse te ouvindo,
embora esteja prestando atenção a cada palavra, mas como se estivesse apenas permitindo que você
desse corda pra se enforcar. Como se ele não precisasse fazer nada para provar que você está
errada, que você não sabe nada de nada de porra nenhuma. Murilo, o homem doce com quem me
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.13

casei, me faz me sentir o cocô do cavalo do bandido quando me olha assim. Me faz desejar que haja
uma mulher do tênis por perto. Sou de briga, sim, mas luto só boxe, golpes repetidos no fígado ou
no rosto, respeito regras, há um mínimo de civilização e misericórdia. Murilo, bom médico que é,
não perde tempo com esportes: vai direto pra onde dói.
Glicério agüentou, sobreviveu, digeriu, ganhou um pouco do meu respeito e falou:
– Não pretendo saber o que houve, o que você sentiu. Mas conheço minha irmã – ou conhecia.
Ela te amava, e, por tudo que sei, ainda ama.
– Eu nunca duvidei disso. É recíproco.
– Quem não está entendendo agora é você. Ela nunca amou ninguém dessa maneira.
Murilo levantou o braço e, dessa vez, conseguiu pedir a conta, mas não se virou, apenas levantou
o braço e o garçom veio. Não tirou os olhos de Glicério.
– Você fica aí brincando de melhor amigo, de castozinho, mas enquanto isso a Júlia te deseja é
como homem.
– Glicério, – Cauterizou Murilo – você não troca nem uma palavra com a pessoa em questão há
quinze anos. Você não tem autoridade nenhuma pra se manifestar sobre o que ela quer ou o que ela
acha. Aliás, tudo o que você sabe dela, você sabe por mim.
– Ela está passando pelos braços de metade dos homens da cidade é por sua causa, Murilo.
Amanhã, ela me aparece aí com aids e o culpado é você. Não sei o que houve. Como foi? – E falou,
não ia falar, mas falou, não se segurou e soltou: – Ela deu em cima de você e levou o cano, foi isso?
– Entendo. Você sugere que eu largue minha esposa e minha filha e case com minha melhor
amiga.
Glicério tremeu um pouco, vulcanizou o que sentia, cancerizou raivas:
– Não sei, não sei, claro que não, desculpa, sei que estou sendo agressivo, mas eu nunca vi Júlia
assim, ela quase arrancou o olho de um colunista a dentadas, ela não pode estar bem. E eu só fico
pensando, fico olhando pra você, vejo o quanto vocês são próximos, o quanto você se importa com
ela, e eu penso como eu ficaria mais tranqüilo se você morasse debaixo do mesmo teto que ela. Só
isso.
– Ah, é sobre a sua tranqüilidade então que estamos falando?
Murilo viu o garçom chegando e preparou o dinheiro.
– Sua irmã não precisa de babá, Glicério. De um irmão, talvez.
Murilo sacou a mão de debaixo da mesa para pagar o garçom e Glicério agarrou a mão, apertou-
a contra a mesa:
– Eu sei que você casou, agora é tarde, azar da Júlia, mas antes, vocês tiveram a vida inteira,
vocês cresceram juntos, poderiam estar juntos até hoje! Por que não? O que houve?
Murilo retribuiu o gesto e voltou seus olhos para Glicério e regougou, palavra que aprendi com
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.14

ele, pois só Murilo sabe falar assim tão desagradável:


– Devo presumir que esse seu gesto de ardor físico, sua mão sobre a minha, quer dizer que nossa
amizade está prestes a ser promovida a namoro? Um caso fortuito, talvez?
Glicério soltou Murilo e acabou tudo. Ele se levantou e foi embora. Murilo, o implacável
regougador, o homem acostumado a liqüefazer interlocutores com seu olhar, o soldado verbal que
nunca abandonava o campo de batalha até fazer o adversário fugir chorando, deu de costas e
apertou o passo, apertou tanto que o passo tremia e titubeava, passo de quem acha que se não saísse
naquele momento não poderia sair mais; e assim Murilo gingou até seu consultório.
E eu, eu também dei as costas para Glicério e fui embora. Não quero saber desse homem, que
não conheço e com quem nunca falei. Glicério não tem nada a ver comigo, não tem nada a ver com
essa história. Eu já não queria falar de Júlia, mas, quando me dou conta, estou falando de seu irmão,
que até ela mesma considera morto.
Chega então. Morto ele está. Não quero mais saber.
Glicério é que está certo: eu, burra, idiota, dei murro contra murro em ponta de faca, de faca
ginzu, da original e daquelas outras quarenta e nove que vêm de brinde, destruí minha mão de tanto
insistir. E tudo isso pra quê? Adiantou alguma coisa? Ninguém passava mais de cinco minutos perto
de Júlia sem perceber que ela era um poço de problemas, uma mina de ansiedades, uma perfuração
em alto-mar de desesperos. Sua última vernissage apenas serviu para que o Brasil inteiro
descobrisse isso também.
Desisti. Não tenho essa bondade toda no coração, o órgão que reservei pra Júlia é o intestino
grosso. Ao contrário de sua mãe, eu nem pari Júlia nem acredito em carma. Na época da vernissage,
eu já não sabia quais eram seus problemas. Não perguntei e, se ela me dissesse, ouviria de soslaio.
Sou mãe agora: quando quero ouvir histórias de criança, pergunto pra Raquel como foi seu dia no
jardim de infância. Júlia me esvazia. Mas eu tentei. Confesso que tentei: nesse fronte, dei meu
sangue durante vários anos, construí trincheiras e só atirei quando vi o branco dos olhos do inimigo.
Fiz tudo o que pude para ajudá-la e isso era um esforço enorme para mim, porque não sou leviana e
levo esses assuntos muito a sério. Eu a ouvia com toda a minha atenção, e ouvir com atenção dá
trabalho, cansa, exige amor, concentração, disposição. Isso tudo eu tinha. E eu pensava e refletia,
matutava e considerava. Oferecia a Júlia sempre minha melhor seleção de conselhos, conselhos
sinceros, brutos, que eu minerava lá de dentro de mim, e eu mesma polia e lapidava, com carinho e
dedicação. Era desgastante tamanha sinceridade, tamanha atenção: eu ficava exaurida de ter que
descer a espaços tão fundos, onde a luz é tão pouca e o ar, rarefeito, onde cada movimento cansa.
Mas não, não é essa a ferida: eu me cavava por Júlia sim, estava disposta ao esforço. Afinal, a
inconseqüente fazia parte da nossa vida, era a madrinha da minha filha, segurava as barras de
Raquel quando eu precisava, se surtasse, eu perdia minha babá. O problema é que tudo ia pro vácuo
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.15

da inteligência de Júlia, pro sumidouro do seu bom-senso, pro ralo de sua sensibilidade: esvaíam-se
meus conselhos, aquelas minhas ponderações tão carinhosas, meu esforço servia apenas para me
cansar, pra me afligir, pra desgastar em mais uma lasca o bloco da minha boa vontade para com ela.
No dia seguinte, Júlia voltava e seus dilemas eram outros. Não outros, desculpem, expliquei mal.
Todo mundo tem um problema hoje e, amanhã, tem outros. Não a melindrosa. Seu problema hoje
era um, e amanhã era o mesmo. De novo. Ao reverso. Eu explico.
Um dia, seu dilema era como gerir sua relação com esse tal príncipe encantado com quem estava
saindo, como fazer para mantê-lo, seria esse, finalmente, seu corpo-metade? Seria esse, finalmente,
o primeiro relacionamento sério, adulto da vida de Júlia? Seria esse, finalmente, o homem que a
envolveria em uma tamanha overdose de sexo, amor e companheirismo que ela largaria meu marido
e arranjaria vida própria? Ah, minhas queridas, ninguém torcia por ela mais do que eu, fiz tudo o
que podia pra cafetinar Júlia, não que ela precisasse da minha ajuda, parecia que já tinha dado pra
todos os homens do Rio, mas caso deixasse escapar um, eu ficava feliz em apontar, olha lá, aquele
fugiu, e ela ia e créu, nunca se sabe, será que isso tudo era falta de bom sexo?, quer dizer, será que
nunca ninguém comeu ela direito, ou pior, será que estaria procurando alguma coisa que relações
casuais, mesmo com sexo maravilhoso, nunca poderiam lhe dar? Sexo satisfatório ela deve ter tido,
não pode ser. No auge da sua fama, ela passava o rodo nos galãs da televisão, aqueles infelizes de
QI zero, a carreira sempre em contagem regressiva pra acabar, achavam que ser vistos com Júlia,
mulher culta, conceituada artista plástica, talvez pudesse valer mais uma capa de revista, mais um
convite pra festa de debutante, mais um minutinho debaixo do holofote e, além disso, vamos ser
honestas, Júlia era linda, e seus peitos, em especial, eram grandes, sem ser exagerados, e muito
expressivos, às vezes dava inveja, mas enfim. Nada disso satisfazia seus apetites, fossem lá quais
fossem. E então, quando chegava em mim querendo ajuda pra manter sua relação com alguém, que
esse homem era sério, que com esse não era só sexo, não, Carla, você não entende, o Raul é
especial, a gente se junta e é como se fosse uma alma em dois corpos, a gente se “entende”, sabe, e
fazia aquelas aspas com os dedos pra falar que eles se entendiam, um nojo, mas eu ajudava, claro,
idiota, me extenuava, me dava. Eu vivia o problema. Torcia por Júlia com sinceridade interessada,
mas intensa. E, no dia seguinte, sei que vocês vão achar que estou exagerando, que na verdade era
na semana seguinte, ou no mês seguinte, e que estou falando isso só pra pichar Júlia, como se ela
precisasse da minha ajuda pra passar vergonha, mas não, era no dia seguinte mesmo, a doidelha
aparecia lá em casa e reclamava desse homem que não saía do pé dela, já não sei mais o que fazer
pra me livrar dele, Carla, não sei mesmo, ufa! E ué, eu ainda perguntava, muito tempo atrás, quando
eu era ingênua, quem é esse chato que está tentando arruinar a sua relação perfeita com o Raul, sua
alma gêmea, o homem dos seus sonhos? Não, menina!, estou falando do Raul mesmo! Mas criatura,
eu tentava articular, ontem mesmo você não estava me dizendo... Júlia só abanava as mãos: ah, isso
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.16

foi há muito tempo... Foi ontem! E, depois de tudo isso, eu ainda tinha que ouvir que o tempo é
relativo, que essas coisas mudam muito rápido, que o coração era volúvel e que eu... Ela suspirava,
passava os dedos pelos meus cabelos e me olhava com um olhar de pena tão sincero que mal sabe
como passou perto de perder um olho: eu não entendia dessas coisas porque eu era mulher de um
homem só. E aí, vou fazer o quê? Matar, aleijar? E causar esse desgosto ao Murilo? Perder a babá
de Raquel? E ainda ter a humilhação de contar essa história sórdida toda pros tablóides quando
viessem me perguntar por que eu tinha matado a melhor amiga do meu marido? Eu também
precisava da Júlia. Então, eu apagava a véspera da memória, esquecia tudo: no dia seguinte, tábula
rasa, eu mergulhava mais uma vez em mim mesma, tentava viver na minha cabeça a caótica vida da
Júlia, e ajudá-la tão bem quanto podia.
Por fim, desisti, mas isso nem precisa dizer. Quem não desistiria? Chega de apnéia: eu era muito
funda e eu nem mesmo tinha equipamento de mergulho apropriado. E é fato sabido que quem
mergulha muito fundo de apnéia perde a consciência e nunca mais volta. Júlia então me aparecia
com seus dilemas de adolescente problemática e eu pensava, não tenho mais idade pra isso, e só
murmurava: ahã, ahã. E Júlia não percebia! Não percebia ou fingia não perceber. Será que não
percebia mesmo? Mas que prazer poderia ter em descascar seus problemas para alguém que
claramente não se importava? Aí eu lembro, me vêm à cabeça tantas outras julices ao longo dos
anos, e eu sei a resposta: Júlia era uma perdida na vida, uma perdida dentro de si mesma, uma
perdida em relação a tudo. Não percebia as coisas. Não sabia nada. Nunca soube. Estou falando de
vida aqui: Júlia nunca soube de nada em toda a sua vida. Algumas coisas ela intuía, mas só. E era
mulher de um homem só tanto quanto eu, mas isso ela também não sabia, ou não admitia.
Murilo era outro que entendia pouco e intuía nada. Um dia, topamos com Júlia, tarde da noite,
em uma pracinha pouco freqüentada, sentada em um banco, pagando vexame mesmo, misto de puta
desembaraçada com adolescente desesperada, o cara com a mão por debaixo da sua saia e não se
via movimento de dedos, não, deviam estar enfiados em algum lugar, e ela lambendo ele todo,
beijando, chupando, e Murilo enrubesceu feito criança e me puxou pelo braço feito homem machão,
ele que não era nem uma coisa nem outra, quase me deslocou o ombro, e nos afastamos pra não
cruzar olhares, pra ninguém ver e pra ninguém saber, e ele balançava a cabeça e murmurava, quase
que só pra si mesmo, o que ela vê nesses homens? O que ela está procurando? E aquilo, por um
segundo, me surpreendeu tanto que meu pescoço disparou feito uma mola, será que ele estava
falando sério?, será que era gênero?, será que ele não sabia mesmo?, e tentei olhar em seu rosto,
mas estava escuro, e nem precisava, pois no segundo seguinte me dei conta que era com Murilo que
eu estava casada, lógico e inteligente, mas com a percepção de uma escavadeira, dotado da intuição
de um bloco de alumínio, ele realmente não fazia idéia, Júlia passar de pau em pau era algo que o
surpreendia, que o preocupava, algo que ele não sabia como explicar, o que será que ela está
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.17

procurando?, ele se perguntava, e balançava a cabeça, pensativo. Decidi ficar calada.


Azar o dela. Murilo é meu. Não cheguei primeiro, mas conquistei. Se ela é tão boa assim, porque
não reclamou o prêmio? Afinal, largou na frente e teve, deixa eu ver, dez anos de vantagem. Dane-
se o usucapião, o que vale é a posse atual. Azar o dela. Hoje, ele é meu, ela que se contente em
garimpar pepitas de Murilo, pequenos veios de murilice em cada homem que lhe cai entre as
pernas, e nunca vai encontrar nenhum que tenha o Murilo todo, o Murilo todo só eu tenho, é
produto artesanal, só tem um. Azar o dela. Quero saber é de nós dois, de Murilo e eu.
Onde estávamos? Preciso me controlar. Me exalto, falo as coisas antes da hora e estrago tudo.
Ah, eu sei, teria sido melhor seguir direitinho a ordem das coisas, e se eu estivesse contando só a
minha história e de Murilo, eu teria seguido, juro, nós dois seguimos a ordem das coisas, não que
sejamos previsíveis ou submissos ou enfadonhos, mas somos normais, Júlia é que bagunça qualquer
história, sua própria presença é centrífuga, sãfuga, normálfuga.
Murilo e eu. Sim.
Parece piegas dizer que foi o dia mais feliz da minha vida, mas se não falar isso, vou dizer mais
o quê? Sempre ouvi que o dia mais feliz é quando nasce nosso filho, mas comigo não foi. Raquel
vem em segundo, perdão, minha filha, um dia você vai entender. Felicidade mesmo eu senti quando
entrei na igreja, braço dado com o meu pai, e vi o Murilo lá na frente, me esperando. E jurei que
aquilo seria um gesto ainda mais simbólico do que já era, que eu nunca mais daria o braço ao meu
pai, abraços e beijinhos sim, relutantemente, afinal, pais são uma doença incurável, mas eu agora
era do Murilo e ele era meu, minha vida estava começando, finalmente. E Murilo me deu sua mão,
me ofereceu o anel, se ajoelhou diante do padre, comungou e se deixou molhar pela água benta, e
ele jurou, jurou perante Deus, que ficaríamos juntos para sempre e aquilo me fazia sentir ainda mais
especial, porque eu não sou religiosa, mas eu acredito, ah, eu acredito muito, e o Murilo, esse não
acredita em nada, mas acreditava no nosso amor, e por isso ele cedeu, e fez o sinal da cruz junto
comigo, e eu não pensava nisso como um sacrifício, mas como uma prova de amor, não sou
missionária, não queria converter o Murilo a Deus, queria apenas convertê-lo a mim, e ele me
amava, então aceitava a cerimônia. E foi lindo.
Penso no que Murilo acredita, e não sei. Ele idolatra a medicina e ainda assim critica o
documento sagrado lá dos médicos. Nada está livre das críticas do Murilo. Por isso, sempre tive
tanto medo do que ele poderia falar a Júlia sobre nós. Por detrás daquele sorriso que mostrava mais
gengivas que dentes, o que Júlia sabia das minhas intimidades? Será que sabe da minha tendência a
corrimento, por exemplo? Que vergonha! Não é por falta de higiene, é deficiência imunológica, não
é minha culpa, não é minha culpa! Como posso ser feliz no meu casamento perfeito se não sei se
Murilo contaria esse tipo de coisa pra ela? Imagino ele rindo, em um bar qualquer, e ela fumando,
como sempre, e Murilo comentando, você nem sabe, é assim que nem uma nata de leite, e ela se
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.18

coça o tempo todo, parece uma macaca, uma vez fiquei até com umas manchas vermelhas no pau,
um nojo!, e tenho vontade de castrar o patife, mas lembro que ele é inocente, pelo menos, em teoria,
e me emputeço ainda mais de ter tido vontade de castrá-lo por algo que não fez, e fico assim
girando em volta de mim mesma. Arre!, chega de Júlia se intrometendo em minha história! O
problema continua: como eu poderia me sentir segura com um médico, um semi-médico naqueles
dias, que não respeitava nem Hipócrates?
No único natal em que passamos na casa dos meus pais, uma das poucas ocasiões sociais em que
juntei Murilo com minha família, ele, que iria se formar no mês seguinte, já estava reclamando e
criticando, dizendo que não lhe agradava a idéia de prestar o juramento de Hipócrates. Minha mãe
não era muito culta, mas era religiosa, pra não dizer curiosa – meu pai nem se interessou em saber –
e perguntou por quê:
– Já na primeira frase, – Iluminou Murilo, do alto de sua indignada sapiência – o juramento diz
ser feito em nome de Apolo, Esculápio, Hígia e Panacéia, e com todos os outros deuses e deusas
como testemunha. Deuses! Deusas!
Minha mãe balançou a cabeça, simpatizando com sua indignação, mas ainda sem entender bem
aonde ele queria chegar:
– O juramento é uma farsa desde o começo. Qual o sentido de jurar em nome de deuses nos
quais ninguém acredita?! Para judeus, cristãos e muçulmanos, que adoram um deus único, jurar por
Apolo e sua turma é sacrilégio. Para ateus e agnósticos, é hipocrisia.
Eu já conhecia aquela indignação – ser esposa é ter que ouvir esse tipo de coisa antes de
qualquer outro – e chutei Murilo por debaixo da mesa e assim, enquanto minha mãe devota
balançava a cabeça, concordando com ele, que sacrilégio!, Murilo não prosseguiu com a frase
seguinte e não disse que, ao prestar o juramento de Hipócrates, ele se sentiria um hipócrita, nunca
um sacrílego.
Murilo só sabe de uma coisa, que não acredita em Deus. Em nenhum deus. De resto, Murilo não
sabe nada e isso me exaspera, porque ele também não sabe o seu lugar, e nunca se decide e nunca
tem certeza de nada. E esse joguinho metafísico que ele joga é um que eu nunca posso prever ou
antecipar e, por isso, perco sempre.
Nossa primeira discussão foi já na lua-de-mel, o que é frustrante, porque cama não é lugar pra se
debater religiosidade, e também porque eu só tinha feito um comentário inocente, não queria puxar
conversa e muito menos debate. E é ainda mais revoltante porque, como eu disse, Murilo não sabe o
que é ou onde se situa, e por isso muda sempre de opinião. Foi assim que começou a confusão, pois
como se pode discutir com alguém que se dá ao direito de mudar de lado a cada cinco minutos?!:
Eu meio que me deitei sobre ele, e espalmei a mão em seu peito, nós tínhamos acabado de
transar e eu estava mexendo nos seus cabelos, (sejam sinceros, isso é a linguagem corporal de uma
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.19

mulher que quer debater religião?), e eu estava me sentindo tão bem, eu estava tonta de felicidade, e
falei, boba, assim só pra dizer alguma coisa, aliás boba não, burra!, agradeci ele ter aceito casar na
igreja, tudo bonitinho, como manda o figurino, ainda mais eu sabendo como ele era com esse
assunto de religião.
– Meus pais teriam morrido se eu não casasse na igreja. – Mas isso também era mentira. Não era
mentira que eles teriam morrido, já nessa época eu não me importava com o que eles achavam, nem
sabia o que eles achavam, me sentia cada vez menos ligada a eles, poderiam ter tido um derrame e
eu não estava nem aí, mas era importante pra mim, quem fazia questão de casar na igreja era eu, de
ter arroz e buquê, de esfregar meu marido na cara das amigas, mas eu tinha vergonha de falar isso
pro Murilo, então jogava tudo em cima dos pais.
E o Murilo me agradeceu de volta, e eu fiquei surpresa, mas até aí tudo bem:
– Quem tem que agradecer sou eu. – Ele disse: – Porque sem você, eu não teria tido um
casamento lindo desses. Se dependesse de mim, teria sido só uma besteirinha em um cartório
qualquer, sem simbologia, sem significado. Eu nunca saberia o que tinha perdido.
E eu fiquei toda feliz de novo, e fiz um círculo com meu indicador em seu peito, e enrosquei seus
cabelos em meu dedo, mas logo depois me veio um estranhamento e eu devia aprender a manter a
minha boca fechada, a me contentar com as pequenas vitórias:
– Mas é que você relutou tanto que eu nunca pensei–
– Eu fui muito rebelde, Carla. Eu exigi que meus pais me tirassem do colégio católico porque
achava que estavam enfiando muita religião pela minha goela abaixo. Me recusei a fazer primeira
comunhão com o resto do pessoal. Nem me lembro da última vez em que tinha entrado em uma
igreja antes dos ensaios do casamento. E, não sei, mas nessas rebeldias de final de adolescência,
acho que perdi um pouco da minha identidade.
– Identidade?
– É. Gostei do casamento porque me lembrou que, independente das minhas peregrinações
metafísicas, não dá pra ser brasileiro sem ser católico – ou católico cultural, como chamam, católico
histórico. A própria língua portuguesa já nasceu cristã. Eu, embora não acredite, digo pelo amor de
deus porque sou falante de português e essa expressão faz parte do meu vocabulário mais básico.
Meus valores são cristãos. Acho que Jesus não foi cristo mas o natal era o meu dia favorito do ano.
Entende? Por mais que se fuja da metafísica, a realidade prática do catolicismo está por todo o lado,
é um dos elementos que me define, uma das tantas coisas que eu sou: sou brasileiro, sou carioca,
sou médico, sou homem e sou católico. E agora que passei da minha fase de rebeldia, é justo que eu
faça as pazes com esse meu lado. Negar deus não implica ignorar toda essa parte importante da
minha herança cultural. – E fez uma pausa, que tipo de pessoa dá um discurso desses no leito
nupcial?!, e completou, satisfeito consigo mesmo: – É, acho que é isso. Obrigado.
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.20

E eu me pergunto: será que fui eu? Será que a culpa foi minha? Na hora em que Murilo
finalmente se assentou, que aceitou a religião – pelo menos, do jeito dele – será que fui eu a culpada
por expulsá-lo de novo? Na época, eu achei que sim, mas na época, como eu sempre digo, eu ainda
não conhecia o Murilo. Com o tempo, ele teria mudado de idéia de novo, hoje tenho certeza disso.
Quer dizer, eu realmente não precisava, não devia ter falado aquilo naquela hora, mas eu olhei pra
ele, e fiquei olhando, e eu quase que não acreditava no que ele tinha dito, e retruquei:
– Você não é católico.
E ele também me olhou como se não acreditasse:
– Você não pode deitar aí, me olhar com essa cara de tacho e se proclamar católico quando você
não acredita nos fundamentos básicos do catolicismo. Você pode ser o que for, e eu te amo assim
mesmo, mas não vem me dizer que você é católico. Alguém que faz pouco de religião, alguém que
já me disse que acreditar em Deus é superstição e que não é diferente de acreditar em saci-pererê...
– Nessa hora eu me enfureci, e subiu uma coisa, e eu mesmo me interrompi, me censurei, e não
disse o que eu ia dizer, e só falei: – Você nem mesmo se refere a Jesus como Cristo!
– Claro. – Ele retrucou, calmo: – Jesus é o nome enquanto cristo é um título que implica em–
– Foda-se! – E me levantei da cama, nua, e naquela época eu estava meio gorda, que cena
ridícula!, mas eu estava irada e falei:
– Você não pode ser católico se não acredita no preceito básico do catolicismo, assim como você
não pode ser brasileiro se, sei lá, não torce pela seleção na copa, e não pode ser carioca se não tem
uma escola de samba!
Péssimos exemplos, eu sei, mas eu queria era provocar aquele desgraçado frio, queria atormentar
ele um pouco como ele tinha me atormentado. Murilo odeia futebol, nunca assiste às partidas da
seleção, e não sabe o nome nem de uma escola de samba sequer. Eu queria esfregar na cara dele que
ele não era católico, nem brasileiro e nem carioca. E também não era médico, como ele tão
arrogantemente tinha se declarado, porque mal passara do quinto período de medicina, mas isso eu
não disse, talvez porque tenha pressentido que isso teria machucado fundo e aquela discussão não
justificava atacar tão baixo uma das poucas certezas de Murilo – apesar de sua ojeriza a Hipócrates,
claro. A única acusação que eu não podia dizer, especialmente depois de passar dois dias na cama
com ele, era que ele também não era homem, mas quase saiu, ah, eu queria dizer, eu estava
possessa.
E nunca me irritei tanto, ah, isso foi o dedo na sopa, o iceberg no casco, como quando ele me
olhou calmo, e pareceu estar considerando cuidadosamente tudo aquilo que eu tinha expelido sem
nenhum cuidado, e disse, como se estivéssemos travando um calmo e ponderado debate intelectual:
– Talvez você tenha razão.
E acabou pra mim, eu dei as costas e fui pro banheiro, tinha uma jacuzzi ótima, o quarto do hotel
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.21

era caríssimo, o pai do Murilo estava pagando e eu nunca tinha tido uma jacuzzi antes, me joguei ali
dentro, liguei a hidromassagem, e atirei todos os sais na água, e como eu não sabia nada, errei a
mão, e enquanto eu ficava ali, sentindo a pressão do jato d'água nas minhas costas e nas solas dos
meus pés, era uma massagem boa mas eu mal podia aproveitar de tão perturbada, e eu tentei me
acalmar e não consegui e enquanto isso, a espuma subia e subia, e alcançou a minha boca e subiu,
chegou nos meus olhos, mas eu não queria desligar, eu estava enfurecida, e nem queria fechar os
olhos, e assim eu fiquei, de olho aberto no meio daquela espuma toda, e a espuma escorrendo pelo
chão do banheiro, e a ardência nos meus olhos até ajudou, a dor me deu algo em que focalizar a
raiva, o único problema foi ficar com os olhos vermelhos por toda a minha lua-de-mel, e ter que
agüentar o risinho do concierge, que pensou que eu ficava fumando maconha lá em cima.
E, esse tempo todo, Murilo ponderou que eu talvez tivesse razão.
Quando Raquel nasceu, ele ainda veio me dizer que não queria que ela fosse batizada, imagina!,
porque era uma violência com o bebê comprometê-la com uma religião antes que ela tivesse
liberdade de escolha! Mais tarde, ela poderia escolher sua fé com calma e teria o resto da vida para
ser batizada, crismada, fazer bat mitzvah ou peregrinar a Meca. E eu, que nessa época já tinha cinco
anos de experiência em ser casada com o Murilo e conhecia todas as manhas do rapaz, argumentei
que a menina precisava de padrinhos, que isso fazia parte da cultura brasileira, que amanhã ela
estaria brincando com as amiguinhas e seria a única menina do grupo sem uma dinda, e ele, ele teve
padrinhos, não teve?, e não adorava a madrinha até hoje?, como poderia negar isso à própria filha,
esse elemento crucial de brasilidade? Ah, hoje eu rio, quase tenho pena do Murilo, mas eu estava
lutando pela minha filha: ele não tinha o que responder e Raquel foi batizada na mesma igreja onde
nos casamos. Não preciso nem dizer quem foi a madrinha.
Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado com
ele se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi
com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto
pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não,
não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que
seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele
pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque eu decidi
passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e, quem sabe, dos próximos filhos, e se
amanhã eu morro, ele vai ser o único responsável, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o
seu bom senso errático não pode, algum dia, preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida
dos meus filhos. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que
Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.
Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico – até o Murilo se
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.22

revoltar e pedir pra sair, vocês lembram – os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se
não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar
de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos
diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que ela via em Murilo, como agüentava andar com
um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também
tinham ciúmes dele, claro, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão
interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam, claro), Murilo era a prioridade de Júlia
e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?
E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock
progressivo, pichava os banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo
grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como
quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas
citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de
preto, jeans rasgados, botinas velhas, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos – assim como
os piercings – sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras.
Mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um
cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que
Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia,
pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava
Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo – carregava uma edição sempre em sua bolsa, que
todo mundo da turma tinha lido e sublinhado – e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e
nunca conseguiu acabar. E era – ou se dizia, ou se pensava – uma rebelde, uma niilista (palavra que
adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze
anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava
em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à
disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário
disso – por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas
próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o
amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e
faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o
mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme – aqueles
calouros universitários que, na época, nos pareciam uns homenzarrões – e, com eles, perdíamos a
inibição, ficávamos mais seguras com nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na
boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama
– mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.23

sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não
importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e
experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da
nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito
de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum daqueles homens
em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar
sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo na Freguesia, seus pais e seus
avós nunca iam lá, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus
pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que
não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel
não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios
porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó
ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse
novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México
ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava
Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava o Jornal do
Brasil todo dia. Enfim, quinze anos.
Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó,
eu também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido
quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel
teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia
talvez levasse o pão de mel em consideração.
E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio,
aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e
desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o
Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da
Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra
falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não
era segredo.
Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones
impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus
artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais...
Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas
besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão
alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, e em como ela vai
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.24

crescer, se amanhã ela não pode estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.
Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita
calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio
antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta
de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da
sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia,
não porque Libeca tinha contado, mas porque ela não comprava aquele mise-en-scène todo, que era
virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu,
logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em puteiro de segunda – que não conhecia
o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava,
sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.
E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só
tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa
nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando,
como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que
dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a
pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava
viva, tinha o medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.
Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério
naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade
precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério
porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um
prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer
físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava
de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos
uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda
daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira
o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua
cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele
quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela
frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém
realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.
Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao
suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque ela estava chacoalhada
por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.25

quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso
o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era,
quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado
imediatamente: o tempo de espera foi porque Júlia queria se controlar por dentro, queria ter certeza
de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não
escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente
extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:
Vou sentir muito a sua falta.
E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do
dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que
ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de
vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais
esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando
com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi isso não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos
nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que
fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma
posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não
disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a
falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a
palavra sagrado:
– É seu direito. Nosso direito sagrado.
Libeca continuou muda e ele desenvolveu:
– Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos
quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.
E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que
sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A
primeira era fácil:
– O suicídio e... – Hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou:
– ...a masturbação.
Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos
incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra
esconder as espinhas da testa:
– Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa,
só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter
a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.26

E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:
– Vou sentir sua falta.
E Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam
brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava.
Por fim, Júlia decidiu elaborar:
– Acho até filosoficamente errado – Filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou
calada para ouvir até o fim: – eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de
qualquer jeito: eu gosto muito de você, Libeca, muito mesmo – E pegou a mão de Libeca, e Libeca
estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria – e caso
essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.
E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente
correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais
nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.
E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois.
Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar
eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro
por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai
da minha filha. E, ainda mais assustador, caso algo aconteça conosco, Júlia é a madrinha.
Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se
desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal
conheceu. Como quase todas nós, ela conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é
que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei
se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca
passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si
mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em
outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas
antes. Foi passar o verão em Araruama, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer,
trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e
assim ela foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas
nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo
orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta.
Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha
história.
Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e
Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos.
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Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e
essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?
Estão, claramente estão, pois não se passaram nem doze anos e o diálogo se repetia, não muito
longe dali. Murilo voltou ao consultório, gingando ainda do almoço com Glicério, e eis que liga a
estouvada, pedindo ajuda, dizendo que queria almoçar com ele, assunto urgente urgentíssimo, se ele
podia vir agora, já, correndo. Murilo perguntou se era urgente mesmo, passavam de duas da tarde,
(nem mencionou que acabara de voltar de um almoço com o irmão morto), ele tinha pacientes: não
podia ficar cancelando consultas e, de mais a mais, ela adorava fazer isso com ele, suas crises
existenciais caíam sempre no horário do expediente, e ele precisava largar tudo pra ir passar a mão
na cabecinha dela, lembra da última vez?, matei minha tarde, cancelei tudo, e você queria saber se
era fútil por ter terminado com o Piropo só por ele comer feijão com arroz de colher. (O pior é que
Murilo sentenciou que não, que isso era realmente muito grave, justificadíssimo!) E ela esganiçou
que dessa vez era urgente, de verdade, tinha algo importante para falar, nem sabia se iria conseguir,
se não fosse agora, não falava mais.
E Murilo foi, alguém tinha alguma dúvida que ele ia?
Júlia estava esperando por ele no restaurante de um clube de golfe. Nos dias de semana, era
deserto, a não ser pelo golfista ocasional, e Júlia gostava daquela solidão de almoçar ao ar livre e
fumar seus charutos, e ficava apreciando o green, os ipês floridos e as garças na lagoa. E assim,
muito em paz, muito relaxada, Júlia colocou os pés sobre a cadeira a sua frente, acendeu um charuto
baratinho que vendiam ali no clube e disse a Murilo que queria morrer.
– O quê?
Desfiou seu drama: tinha feito tudo o que podia, sua contribuição para as artes estava completa.
Quanto mais tempo ficasse pra trás, mais sua presença atrapalharia a influência de seu próprio
trabalho.
– Nada mais artístico do que a abelha morrer depois de dar sua ferroada.
Não riam não, que tem mais. Ela até aceitava o piche e as penas que lhe cabiam, mas o que não
suportava era a rejeição à Raquel: afinal, a terceira vernissage tinha sido toda dedicada a ela. Sua
afilhada não merecia isso. E Murilo, o imbecil do Murilo, que achava tudo aquilo muito lisonjeiro,
que considerava os sintomas de uma psicopatia relinchante como um tributo à Raquel, retrucou que
tudo bem, a vernissage não tinha sido lá brilhante, mas haveria outras, que a arte requer experiência,
que ela estava começando ainda, faltavam muitos quadros a pintar, e blá blá blá, e também, por
outro lado, Murilo não levou aquilo nada a sério, mais uma julice, ele pensou, típico dela vir com
essa de artista e de abelha, ferroadas e o escambau, mas enfim, estou aqui, é melhor tentar acalmar a
peça. Nem lhe passou pela cabeça, o cínico, dizer o que ambos tinham dito para Libeca, vai, vai em
frente, pode se matar, é o seu direito sagrado, vamos sentir sua falta, mas fazer o quê? Não, quando
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era a amiguinha tresloucada dele, Murilo parecia o próprio voluntário do CVV.


E Júlia se abanou, suspirou e disse:
– Pensei que você era a favor da eutanásia.
– E o que uma coisa tem a ver com outra?
Não sou eu que sei onde me aperta o sapato?, continuou ela. A eutanásia é válida para pessoas
que sofrem dores tão fortes que a vida não é mais suportável. Mas quem disse que essas dores só
podem ser físicas? Será que não existem dores maiores? E a dor de saber que minha carreira
acabou? Que não valho nada? Que não tenho nada a contribuir? Isso tudo não é insuportável? Por
que devo carregar esse fardo?
Júlia queria debater e discutir, argumentar e contra-argumentar, questionar e polemizar. Queria
falar sobre a arte e sobre a contribuição do artista, queria refletir se para o artista era mais
importante a vitalidade do jovem ou a experiência do velho, e queria também meter religião na
história, queria relembrar a Libeca e o nosso direito sagrado de nos matar, Murilo não tinha dito
isso?, e falar de Deus e do diabo, e dessas quimeras em que acreditam os burros, os supersticiosos e
eu, e também queria colocar em questão a ética médica, o que é eutanásia?, em que circunstâncias
ela é justificável?, será que as dores da alma, por ser a alma mais sensível que o corpo, não são mais
insuportáveis que as dores físicas?, que alma, Júlia?, eu perguntaria, mas deixa pra lá, pois Júlia só
sabia que queria era falar, uma daquelas vontades irreprimíveis, incontroláveis, como se apenas
debatendo e argumentando ela se sentisse realmente próxima de Murilo, afinal, era o que eles mais
gostavam de fazer juntos, e Júlia precisava se sentir próxima de Murilo, precisava fazê-lo entender,
ele era sua esperança porque ela, assim como Libeca, nisso eram iguais, não estava apenas
chamando a atenção: naquele momento, o que Júlia mais queria era morrer e descansar, morrer e
não se humilhar mais, terminar. Mas não tinham sido à toa os oito anos que passei com Murilo,
custou mas botei lá minha dose de sal na moleira do homem, e ele sim não era mais o mesmo que
da época da Libeca, e por isso, se levantou:
– Olha, Júlia, estou com uma sala de espera cheia. Você não precisa inventar histórias para eu
estar ao seu lado. Hoje à noite, eu passo a mão na sua cabeça, digo que você é linda, que tem a vida
toda pela frente e que a crítica é que não entendeu sua arte. O que, aliás, é tudo verdade. Mas não
agora.
Antes que se afastasse, ela ganiu, baixinho:
– Não foi por isso que eu liguei.
Murilo nem quis se sentar, pra não dar muita coleira:
– Vou me matar de qualquer jeito, não é blefe. Falei de eutanásia porque, como meu médico e
meu melhor amigo, eu gostaria que você realizasse o meu suicídio.
Assim como Libeca, Murilo emudeceu. Júlia nem ligou, engatou a terceira e acelerou: quem é
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que demole prédios? São os economistas? Os químicos? Os filósofos? Não, são os engenheiros,
claro. Por quê? Porque só quem constrói um prédio sabe como derrubar um prédio. Eu, se fosse
demolir um prédio, ia ser uma tragédia, bastava dinamitar uma pilastra errada e pimba, o prédio
cairia pra trás, derrubaria outros três, um horror. Mas um engenheiro, ah, esse sim, sabe exatamente
quais são os pontos fracos da estrutura, sabe onde colocar a dinamite pra garantir que o prédio
desabe sobre si mesmo, sem ferir ninguém, nem mesmo o próprio prédio, nem mesmo a carreira
artística do prédio, sem dor, sem arrependimentos, tudo limpo e rápido. Não quero sofrer mais do
que já estou sofrendo. Não quero tentar o suicídio. Quero morrer. Não quero dar um tiro na cabeça
pra bala dar a volta pelo meu crânio, pegar minha medula e eu viver paralítica e imbecil. Não quero
pular de um prédio, bater em uma árvore e demorar duas horas pra morrer, sentindo meus ossos
todos quebrados. Quero um profissional. Quero morrer na minha cama, dormindo. Quero um amigo
que segure a minha mão e que se certifique de que eu vou morrer mesmo e em paz, rápido, sem dor.
Quero um médico.
E Murilo pensou: ela deve estar tão sozinha assim sem Raquel, Raquel que era seu grande
consolo, seu grande referencial, sua grande companheira. Será que não posso falar com Carla?, com
certeza, Carla entenderia, nessa fase de Júlia, tão subterrânea, conviver com Raquel poderia ser o
dedo na balança da vida de Júlia, ainda mais com esse negócio agora de suicídio, ê julice mais
julesca, mas isso ele não podia contar pra ninguém, muito menos pra mim, era mais um segredinho
entre eles, mas só Murilo sabia o quanto Júlia precisava de Raquel, será que Carla não, e ele mesmo
se interrompeu, porque ele sabia, ele sabia que eu não ia, não ia mesmo, ainda mais depois dessa
funebrice dos quadros, nem que chore pitanga!, não quero saber, não ia perdoar, nem reconsiderar,
nem nada, chega, uma hora a firma quebra, os peitos caem e a merda bóia, minha filha é minha filha
e de mais ninguém. Quer dizer, é dele também, mas, em relação à Raquel, eu tenho dois votos, ele
um e Júlia, nenhum. Nessa eleição, Júlia nem fiscal de partido pode ser, está impugnada, impichada,
vade retro.
Eu estava vivendo a época mais amarfanhada da minha vida, as estripulias de Júlia com Raquel
me custaram caro, fui pro cheque especial da minha paciência, mas valeu a pena cada centavo
daqueles juros escorchantes pra ter Júlia longe da minha filha. Eu tinha sido obrigada a cancelar
todas as minhas aulas da tarde, pelo menos por aquele semestre, pois Raquel só poderia começar na
creche integral em agosto, e é claro que isso atrasaria ainda mais minha formatura, mas quem
mandou eu ser burra e não enxergar o que acontecia debaixo do meu fígado? Por isso, eu agora saía
de Niterói todo dia no final da manhã, pegava Raquel no maternal e passava a tarde com ela,
estudando, lendo livros das matérias dos semestres seguintes, tentando ganhar tempo e me preparar.
E ficava me dizendo: é só por mais alguns meses, Carla, daqui a pouco, ela entra na creche boa,
horário integral, vai ficar o dia inteiro brincando com outras meninas da idade dela, vai ser ótimo!, é
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melhor que passar a tarde inteira com a doidivana, sabe-se lá o que estava aprendendo, sabe-se lá o
que andavam fazendo, com certas criaturas é sempre melhor minimizar contato.
Só a idéia de Raquel sozinha com Júlia de novo já me causava vertigens. Claro que os quadros
da terceira vernissage não causaram impacto na crítica: não foi a crítica quem pariu Raquel. Quem
carregou ela nove meses fui eu, quem quase surtou quando viu aquela mortualhada fui eu. Chega de
Raquel com Júlia: já me bastavam aqueles quadros em nossa parede. Aquela necroteca era mais
Júlia que a presença da própria Júlia.
E, enquanto isso, rá!, o infeliz do meu marido estava pensando será que não dava pra convencer
a Carla? E se eu contar pra ela sobre esse desatino desse suicídio, será que ela não reconsideraria?
Mas isso eu não posso fazer, tenho que proteger a privacidade de Júlia, tenho que resolver isso
sozinho, só eu e Júlia, mais ninguém.
Tudo me incendeia nessa história. Com que direito ela expõe meu marido a esses dilemas?, com
que direito ela o abandona nessas encruzilhadas escuras, longe de tudo, inclusive de mim, só um
despacho ali no chão, e Murilo desamparado, carregando o ônus das decisões difíceis de Júlia, pra
que lado descambar?, em quem confidenciar?, se torturando sempre sozinho. E nem mesmo o vento
frio que assola a encruzilhada faz Murilo oscilar, não, não, pensam o quê?, filho teu, que não foge à
luta, nem teme quem te adora a própria morte, ó Júlia amada e idolatrada, salve salve. Arre.
Outros dizem que me preocupo demais com Raquel e Júlia. Que é cisma, que eu deveria ficar
feliz de saber que minha filha é tão amada. Que eu posso morrer tranqüila.
Outros, na verdade, é minha mãe. Uma mulher primitiva e ignorante, sem grande força moral e
nenhum discernimento: senão não ficaria tanto tempo casada com meu pai. Desculpem a
agressividade, mas quem cresceu em um lar normal não imagina o que é crescer em um lar
ensandecido. Falo isso e sempre alguém me olha anuviado: me enfurece não ter direito de odiar
minha família. Parece que minha obrigação de cidadã bem ajustada, de mulher e de mãe, é amar
alguém apenas porque ela me pariu. Não me levem a mal. Eu também já dei à luz, o que importa é o
que vem depois: até as ratazanas da praia dão à luz. As pessoas – essas moralmente indignadas com
minhas palavras – captam apenas meu ressentimento e não sabem nada sobre os dezoito anos de
abuso que sofri. E não vão saber, pois não vou contar.
Tenho que reconhecer, porém, uma certa dívida. Se não de afeto, ao menos pecuniária. Não
posso aniquilá-los de minha vida. Raquel também merece avô, avó e tios. Isso nem me incomoda
tanto. O contato de uma criança com seus avós é alegre e superficial: nada impede alguém de ser
neta de filhos da puta e nunca se dar conta. Raquel está aí que não me deixa mentir. Mas quem é
filha sempre sabe.
Então, por causa de Raquel, ainda mantenho uma certa atadura com meus pais. Não tomo
iniciativas, não bloqueio as deles: ajo com frieza e nunca entro em intimidades. Meu pai, esse nunca
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aparece. Mas a avó de vez em quando visita a netinha.


Aconteceu em plena troca da guarda: Júlia passava a tarde com Raquel, eu chegava da
universidade, a gente conversava um pouco, ela ia pra casa e eu assumia a menina. Dessa vez,
minha mãe estava lá quando entrei. Júlia e Raquel a mantinham entretida, o que me tirou um pouco
a obrigação da converselha. Mesmo assim, sentei com elas.
Ou quase. Raquel anunciou que queria um copo de nescau. Júlia fez que ia se levantar e eu disse
que não, queísso?, pode deixar que eu pego, ela já passara o dia inteiro com Raquel e eu também
queria ficar um tempo com minha filha, queria ir com ela pra cozinha, fazer nescau, juntas, fofocar.
Minha mulherzinha.
Mas minha mulherzinha declarou que só gostava do nescau da dinda.
Ah, chute na costela dos outros é refresco: eu não devia falar isso, porque nesse cartório também
tenho firma reconhecida. Sei de gente que fica desconfortável quando estou por perto, dizem que
minha honestidade machuca, mas pobre de mim perto de Raquel. Criança não tem pudor: dão
porrada em cima de porrada, dedo no olho e puxão de cabelo.
Só gosto do nescau da dinda. Falar o quê? Que mamãe vai fazer o seu nescau assim mesmo? Que
mamãe sabe que você gosta tanto do nescau da mamãe quanto do da dinda? Falar pra quê? Só pra
ouvir que não, que o da dinda é melhor sim? Dinda isso. Dinda aquilo. Como se eu já não tivesse
vontade de matar Júlia antes de Raquel nascer.
Mas falei. Mãe tem que falar. A dinda está cansada, coitadinha, ficou aqui com você a tarde
inteira, deixa que a mamãe faz, você sempre tomou do meu, eu sei que você gosta. Falei. Com
medo, mas falei. E ouvi. Ouvi exatamente o que achei que iria ouvir. Conheço minha filha: Raquel
era inflexível. Só Deus sabe como apanhei. Deus, claro, e Júlia, que passava o dia inteiro lá em
casa. E agora tinha até platéia. A presença de minha mãe me confundia, eu ficava imaginando o que
ela contaria pro meu pai à noite, sabe que a Raquel odeia a Carla?, rá rá, não toma nem o nescau
dela, aquela Júlia daria uma mãe melhor que a Carla, e eu me desbaratinava toda e largava o que
iria dizer pelo chão e depois não encontrava mais. E acabei perguntando o que já sabia, o que não
devia ter perguntado, o que era humilhante perguntar:
– Você faz alguma coisa de diferente?
Júlia, sem graça, sacudiu os ombros:
– Leite e açúcar. O normal.
Não foi humilhação suficiente pra mim. Não, não. Cavuquei ainda mais baixo:
– Ou toma o da mamãe ou não tem nescau!
E lá veio:
– Então não quero!
Cruzou os braços e sentou, calada. Era uma forte. Ficava sem, mas não voltava atrás. Quem fez
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.32

cara de cachorro pidão foi Júlia. Piscou, sorriu, puxou os lábios. Ah, me poupem! Gesticulei que
sim e lá se rebolaram as duas para a cozinha. De mãos dadas.
E minha doce mãe deu um tapinha em meu braço e disse que eu deveria estar feliz:
– Essa Júlia é um tesouro. Eu me lembro que tinha pânico de morrer porque achava que ninguém
cuidaria de você e do seu irmão, que ninguém os amaria como eu. Se tivesse alguém assim por
perto, morria tranqüila.
Mas a tranqüilidade e Júlia pegavam ônibus diferentes e raramente apareciam juntas. Ela passava
as tardes com Raquel, buscava na escola e dava almoço. Graças a ela, não precisei escolher entre
filha e universidade. E, mesmo assim, eu vivia angustiada. Mas quem mandou eu querer ter filho
logo quando Júlia mais precisava de uma razãozinha pra viver?
Tudo aconteceu entulhado: a residência de Murilo, ele clinicando com o pai pela primeira vez,
meus últimos meses de loja, a loucura de tentar passar no vestibular de odontologia cinco anos
depois de terminar a escola e minha gravidez inesperada. E, claro, a segunda vernissage de Júlia.
Meu trato com Murilo era simples: enquanto ele fazia medicina, eu sustentava a família. Assim
que terminasse a faculdade e conseguisse tirar um dinheiro, era minha vez de estudar. Finalmente,
em dezembro, ele se formou e, já no mês seguinte, eu diminuí minhas horas na loja e comecei um
cursinho pré-vestibular para candidatos a odontologia e medicina.
Não quis largar a loja por completo. Eu gostava de vender, a gente ainda precisava daqueles
trocados, mas a verdade é que o bom mesmo era trabalhar no mesmo lugar que Murilo. Ele estava
fazendo sua residência no hospital universitário, mas tirando os plantões ocasionais – que geravam
uma boa renda – ele só aparecia lá umas três vezes por semana. No resto do tempo, ele ficava no
centro médico, clinicando com o pai e aprendendo como funcionava o consultório que seria dele.
E eu acordava cedo, ia pro cursinho, estudava morbidamente até uma da tarde, encontrava
Murilo pra almoçar – agora era minha vez de almoçar com Murilo – ficava na loja enquanto ele
trabalhava e, depois, íamos pra casa juntos. E é, eu me angustiava sim, tinha vinte e dois anos e
nunca me senti tão velha e obsoleta, cercada por menininhas e moleques ambiciosos (e nervosos) de
dezesseis, dezessete, um tentando pisar no pescoço do outro, porque não cabe todo mundo não, não
cabe mesmo, são vinte mil candidatos pra só trezentas vagas, e aí?, quem vai ficar pra trás?, e eu
tinha fobia de que seria eu, a decrépita!, a caduca!, tinha pânico de perder mais um ano estudando, e
aquela loucura é contagiante: você vê os colegas desabando pelo chão como soldados caídos em
batalha, um desiste, um tem ataque dos nervos, outro decide que a sua vocação era mesmo filosofia,
com sua relação candidato/vaga abaixo de um, e só resta a você cair de barriga na lama e avançar,
avançar, e os professores parecem sargentos também, e expectoravam que aquilo ali é uma guerra
mesmo, só usam metáforas militares e agüentei um ano de guerra na cabeça, verberam o tempo todo
sobre a falta de tempo, sobre o desespero e sobre a agonia, que quem não estudar vinte horas por
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.33

dia não vai sobreviver: estamos atrasados, não vai dar tempo de enfrentar o modernismo porque já
estamos em março e nem encaramos o barroco!, e vocês já atacaram Marília de Dirceu?, é chato
mas vai cair, vai cair e vocês não vão passar, ninguém aqui vai vencer, ainda mais que o vestibular
das federais vai ser mais cedo esse ano, não vai dar tempo de derrotar a matéria toda!, e no meio de
tudo isso, eu me sentia desembarcando nua e sozinha na Normandia, eu precisava de cobertura
contra o fogo inimigo, já não suportava mais as metáforas militares, é só um teste, putaqueopariu!,
mas Murilo estava mais disperso do que nunca, agora sempre em trânsito, do hospital universitário
pro centro médico, do centro médico pro hospital universitário, e era só residência, plantão e
pacientes, o tempo todo, e o Dr. Jader sem dar trégua, manobrando e exercitando aquela tropa de
um homem só, não iria confiar seus pacientes a um filho incompetente, e então, para o Murilo, o pai
era um sargento pior do que os meus professores, estávamos travando campanhas diferentes da
mesma guerra, e Murilo pelo menos era seguro de si, sempre foi, mas eu não sabia de nada, sempre
fui péssima aluna, eu me pegava pensando, quem sou eu pra pretender ser dentista?, esses moleques
são tão melhores que eu, mais inteligentes, mais preparados, e, ainda assim, isso era o pior!, estão
todos achando que não vão conseguir! Mas foi uma época boa, sabia? Porque ter Murilo ao meu
alcance compensava tudo.
Eu adorava ir visitá-lo no consultório. Se no cursinho eu me sentia a velha, no consultório eu me
sentia a magra. Era aquela sala de espera enorme, cheia de mulheres gordas, mulheres gordas por
todo lado, e eu lá, magérrima na comparação. E a graça era ouvir o Murilo justificando seu trabalho
heroicamente, como se estivesse salvando vidas – ou como se fosse vergonha não estar salvando
vidas. Sou dentista: ninguém morre de uma má oclusão. E daí? Não há vergonha em cuidar de
dentes ou ajudar os outros a emagrecer. Mas pra Murilo parece que havia, então ele sentia essa
necessidade de transformar seu trabalho em uma cruzada. Só que eu estava lá todo dia: tirando um
ou outro diabético, e as disfunções glandulares ocasionais, o grosso e o largo da clientela eram
mesmo as emergentes inchantes. E eu brincava, queria fazer Murilo falar mal de suas pacientes,
imaginava que ele sabia histórias hilariantes de mulheres histéricas e metidas, que ele conhecia
detalhes embaraçosos de suas vidas, detalhes que dariam boas histórias pra ele dividir com sua
mulher. Mas não. Se o trabalho de Murilo era uma guerra santa, ele também não faria pouco das
almas que salvava. E eu hoje entendo isso, claro que entendo, afinal sou dentista, não faço pouco da
piorréia dos outros, mas na época eu achava fofo ele se ofender quando eu me referia às suas
pacientes como clientes.
E, apesar de termos programado que filhos só quando nossa situação financeira se estabilizasse,
não menstruei em junho daquele ano. Raquel não queria esperar. Parecia um milagre mesmo,
porque não esqueci nem uma pílula sequer, mas ali estava ela, e ficamos felizes de saber que nossa
filha sabia se virar pra conseguir o que queria.
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.34

A loja, então, saiu de vez da minha vida: já era difícil estudar para o vestibular com aquele
barrigão, e agora havia mais os enjôos, a sonolência e o inchaço. Ficar horas em pé, dobrando
roupas e convencendo os clientes que sim, aquela camisa medonha lhe caía super bem!, isso eu não
podia mais fazer. Saí e, alguns meses depois, andando pelo shopping de mãos dadas com o Murilo,
encontramos um tapume onde havia sido a loja: breve nesse espaço mais uma loja para sua
conveniência, ou algo assim. A queda da menina-propaganda precipitou a da grife – Júlia, vocês
lembram, só desfilava por aí com roupas da loja.
Lidar com fracasso é terrível mas sobreviver ao sucesso prematuro é impossível. Ninguém está
preparado pra cair do topo assim tão rápido: foi opinião unânime que a segunda vernissage de Júlia
não se comparou à primeira. Onde estava aquela menina-revelação de vinte anos que,
instintivamente, em suas primeiras obras, havia subvertido tudo, cujo charme era a ingenuidade de
quase não saber como era boa?
Enquanto meu útero se expandia e meu cérebro implodia, Júlia estava no auge: eram os meses
logo anteriores à segunda vernissage. Os jornais (os cadernos bem específicos dos jornais) já meses
antes falavam com ansiedade do evento: era inédito o museu de arte moderna dedicar uma
exposição dessa magnitude a um artista tão jovem. Júlia, nesse meio tempo, não sossegava e ia
preparando seus quadros para o grande dia. Mas não apenas isso. Participou de campanha de vodca
e ilustrou embalagens de sabonete. Desenhava gravuras para reprodução e depois comparecia aos
eventos beneficentes onde colecionadores disputavam os primeiros números. Pintava murais em
fachadas de shoppings e restaurantes e permitia até reprodução de suas obras em roupas.
A crítica desprezava esse tipo de atitude: queriam Júlia só para eles, entrincheirada nas belas
artes. Apesar disso, a Júlia das gravuras, pôsteres e murais, dos documentários, talk-shows e pontas
em novelas tornara-se tremendamente popular, mesmo entre quem mal sabia quais eram essas tais
belas artes. Havia teorias sobre o assunto. Murilo me mostrou um artigo onde o autor defendia Júlia
dizendo que, de certo modo, essa sua vulgarização era benéfica: como a fábrica de sabonete pagava
absurdamente bem (para compensar o papel humilhante a que submetia o artista), Júlia adquiria
assim um lastro financeiro para garantir sua independência no que realmente importava: suas telas.
Não conheciam Júlia. Creditavam a ela um grau de controle e planejamento sobre sua carreira
que nunca teve. Que nunca pensou ter. O dinheiro? Júlia não fazia nada por dinheiro. Nem sabia
quanto tinha. E o que tinha não gastava. Júlia não fez mural pro lanchonete nem obelisco de praça
para ficar rica: ela amava a atenção. Do seu jeito lá irracional e impulsivo, Júlia era muito pouco
pretensiosa: sempre foi meio besta, mas besta casual. O sucesso não a afetou: teto de shopping
center, embalagem de sabonete ou anúncio de vodca, ela só ficava tranqüila com pincel na mão e
tinta no cabelo.
A Júlia da segunda vernissage, entretanto, não era mais a Júlia da primeira. Uma havia sido
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.35

forçosamente convencida que era a maior coisa a acontecer no cenário das artes plásticas latino-
americanas desde Romero Brito. Já a outra era apenas uma moleca de vinte anos que gostava de
chafurdar em tinta e brincar de pintar. Claro que dominava as técnicas todas, o bê-a-bá do ofício,
mas não sabia o suficiente para se dar conta da própria originalidade: jamais permitiria que detalhes
como experiência, raciocínio ou mesmo bom senso interferissem em sua arte. Nunca teve nenhum
dos três, aliás.
Enfim, aquele foi um ano de preparação: Júlia e sua segunda vernissage, Murilo e o consultório
do pai, eu e o vestibular, Raquel e a vida. Em fevereiro, rebentou tudo. No final do mês, começaram
minhas aulas na universidade e, ao mesmo tempo, o Dr. Jáder permitiu que Murilo passasse a tratar
os novos pacientes. Mas, antes disso, Raquel já havia nascido e Júlia tinha sido despejada de seu
pedestal.
Na primeira semana de fevereiro, grávida de nove meses e inchada como um planeta, compareci
à vernissage de Júlia no museu de arte moderna. Eu e Murilo tínhamos acesso preferencial a tudo e,
verdade seja dita, eu mereci aquele tratamento VIP bem mais do que ele. Afinal, ao longo daquele
ano frenético de preparação, enquanto ele fazia sua residenciazinha, quem tinha que aturar os
ataques tanto de insegurança quanto de estrelismo de Júlia era eu. Mesmo estudando quinze horas
por dia, grávida e quase insana, era eu quem tinha que abrir espaço no meu horário para dar
tapinhas nas costas de Júlia e dizer que isso, isso, vai ficar tudo bem, pode deixar! Eu mereci cada
centímetro quadrado daquele tapete vermelho.
E, na semana seguinte, quem estava ao meu lado quando minha bolsa rompeu foi Júlia, Júlia me
correu pro hospital e também ligou pra Murilo. E adivinhem o que ela fazia lá em casa? Estava
reclamando da reação da imprensa à sua vernissage.
Que ela não entendeu seu sucesso, isso já faz parte da lenda que a imprensa criou a sua volta. Só
que também é verdade: eu sei, eu estava lá. Eu tinha dezoito anos e a melhor amiga do meu futuro
marido, que era meio maluquelha e metida a artistóide, ia fazer sua primeira exposição. Sem
cerimônias, sem expectativas. Só mais uma menina rica usando suas horas livres pra brincar de
pintora. Quem imaginaria que aquela vernissage seria tão importante? Não Júlia, disso sou
testemunha. Mas deve ter acabado engolindo o que diziam a seu respeito. E quando a segunda
vernissage foi mal recebida, também não entendeu, assim como não havia entendido o sucesso da
primeira. Mas até aí, nada: entender as coisas não era o forte de Júlia.
Essa falta de senso alienava as pessoas e, pouco a pouco, Júlia perdeu todos os esparsos amigos
que fizera na vida. Murilo era o único sobrevivente. E eu, por tabela. Tinha lá um respeitável
círculo de fãs, puxa-sacos, interesseiros, conhecidos sociais e afins, mas nada além disso. Murilo
continuava seu tudo e nunca largou dele, nem na alta nem na baixa: era pra ele que voltava, era com
ele que se arregaçava e era ele que andava atrás dela, saco plástico e pázinha na mão. Para explorá-
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.36

lo, entretanto, é preciso antes encontrá-lo. Murilo nunca esteve tão pouco disponível, fazendo
residência e tentando trabalhar vinte e cinco horas por dia para convencer o pai que era digno de
suas infladas e fúteis pacientes.
Júlia, então, sobrava pra quem? Até que a imprensa encontrasse outra carniça pra se esbaldar,
todo jornalista do país parecia ter uma pergunta inconveniente para ela. É verdade que o fracasso da
vernissage fez o museu encurtar em duas semanas o tempo de exposição? Você tem aids? Vai largar
a pintura pra se dedicar à pesca submarina? Já foi abduzida por alienígenas? E Júlia se enfurnou lá
em casa e não saía mais. Se eu ainda estivesse estudando para o vestibular, sinto muito, eu a teria
jogado aos cachorros-do-mato sem hesitação – e com algum gosto. Não iria perder um ano de vida
apenas para dar atenção à amiga demente do meu marido. Mas tudo bem, naquela época eu já
estava tranqüila, era fevereiro, o vestibular acabara, eu estava admitida e matriculada em
odontologia, a loja era lembrança. Minha vida era esperar, esperar por Raquel nascer e esperar pelo
começo das aulas. Eu tinha tempo pra ser boazinha com Júlia.
Logo depois disso, veio Raquel. Minha filha chegou em má hora. Ah, quem me dera ela tivesse
nascido no auge de Júlia. Mas não. Ao longo do ano anterior, Júlia estava tão absorvida pela nova
exposição que mal reparara na minha gravidez. E, de repente, o mundo de Júlia tremeu, fez que ia
cair, tentou se aprumar mas acabou foi é desmoronando, desabou com tanta força que rachou, se
esfrangalhou todo, e o que ela mais precisava agora era algo em que se apegar, algo para dar sentido
a sua vida bunda. Quer coisa melhor do que a filha do seu tudo?
Aquele ano eu dediquei a Raquel: passei no vestibular e transferi a matrícula para o ano seguinte.
Não iria perder o primeiro ano de minha filha. E Júlia estava lá, o tempo todo. Ela era madrinha,
verdade seja dita. Madrinha é pra ser a mãe postiça, mas ela não precisava ter levado seus deveres
tão a sério.
As complicações começaram no batizado. Apenas conseguir que Raquel fosse batizada já havia
sido difícil: precisei manipular Murilo com habilidade. Ele acabou cedendo, e ainda impôs Júlia
como madrinha, mas se recusou a comparecer. Era coação, dizia, impingir uma fé sobre uma pessoa
antes que ela tivesse chance de escolher e ele não seria testemunha de tamanha violência. Imagina
se eu iria insistir: estava achando bom demais poder batizar minha filha. Quem insistiu foi Júlia.
Júlia, que era tão atéia quanto ele, que seria obrigada a se submeter ao curso de batismo, que teria
que declamar sua profissão de fé, rezar e espirrar água benta na cabecinha de Raquel. Ah não. Ela
só iria fazer isso (e Deus sabe que ela precisava ser madrinha de Raquel naquele momento) se
Murilo participasse também. Ele não teria que dizer nada, e muito menos se humilhar perante a
Igreja como ela, mas apenas comparecer. E Murilo cedeu. Não freqüentou o curso batismal – esse
fizemos só eu, Júlia e meu irmão, que, verdade seja dita, foi um padrinho ausente – mas no dia do
batismo, lá estava o Murilo, no fundo da igreja, vermelho e envergonhado. Suportou em heróico
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silêncio ver as duas mulheres da sua vida torturando a terceira. Quem tem pena de Murilo que coma
sal com ele pra ver como é.
O primeiro ano de Raquel foi maravilhoso, mas Murilo continuou desaparecido. Até de Júlia.
Durante a faculdade, a descarada estava sempre na universidade, almoçando com ele, assistindo às
aulas. Mas agora Murilo passava o dia inteiro ou enfiado no hospital universitário, cercado de
diabéticos e obesos mórbidos, ou no consultório do pai, aturando as bundudas ricas da cidade, ou
em trânsito entre esses dois extremos.
Júlia não podia alcançá-lo em nenhum desses lugares. Além disso, estava arranhada e ácida,
querendo fugir da imprensa, da crítica e dos olhares compreensivos daqueles que, meses antes,
afirmavam que ela era mais famosa que Aleijadinho. E foi logo esse o ano que passei em casa,
cuidando de Raquel. Júlia foi uma boa companheira naquele ano difícil e delicioso, me ajudou e
muito nos desafios de jovem mãe e, vamos ser honestas, supria um pouco da minha falta de Murilo
sim.
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela,
política e fofocas em geral. Outras vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu mais
apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente,
lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede
mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas
dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo,
sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, eu tenho cabelos longos,
nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar,
pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio,
e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e
despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu
dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então, eu
dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia
inconseqüência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato,
e eu quase achava, eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga, uma daquelas amigonas de
infância, companheira pro que descesse e subisse, sempre comigo, e assim eu me despejava naquele
toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago.
Nunca durava. Insegura e carente, Júlia não tinha semancol: seu toque era gostoso, mas viscoso:
seus dedos logo se revelavam ventosas, e grudavam em minha pele e tentavam sugar minha vida,
absorver meu marido, roubar minha filha. Parecia aquele bêbado chato no ônibus: basta um tênue
contato visual e ele já vem, senta do seu lado, te aluga pelo resto da viagem e, escreveu não leu,
ainda se convida pra um cafezinho na sua casa. Júlia fez igual: um pouquinho de magnanimidade
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.38

apenas e, pronto, ela quase se mudou pro nosso apartamento.


E eu não desistia: fazia de tudo para incentivá-la a mandar a crítica às favas e ir viver sua vida.
Ela não sabia seu valor? Pois devia voltar agora para o ateliê e preparar uma terceira exposição que
ficaria na história. Na história do milênio! Tudo para ela ir embora. Mas Júlia não entendia
indiretas. Nunca entendeu. Júlia era direta. Isso nós temos em comum. Direta também sou. Mas
Júlia me ensinou a ser indireta: como eu poderia enxotá-la de minha casa diretamente? Depois
daquele fiasco? Naquele estado?
Júlia estava ralada e moída, lascada e rachada. Em pouco tempo, nem reclamava mais da crítica,
da injustiça, dos dois pesos e duas medidas. Quem ainda batia nessa tecla era eu, tentando empolgá-
la para voltar ao trabalho. Não, Júlia não pensava mais nisso.
Júlia agora era só Raquel.
A dinda logo aprendeu os segredos de jovem mãe. Independente do estado de nervos no qual ela
me deixava por sua simples presença, Júlia ajudou muito: parecia conhecer Raquel melhor que eu –
e era isso, naturalmente, que me destruía os nervos. Minha mãe visitava de vez em quando, mas eu
nunca aceitaria sua ajuda: mal conseguia aceitar seu interesse por Raquel. A mãe de Murilo, é que
era perfeita: sempre com bons conselhos e com boa vontade, dotada de paciência inesgotável e
mestra de todos os truques. Ela, entretanto, tinha algo que Júlia não tinha: vida própria.
Então, no ano seguinte, quando decidi tocar a minha vida, que uma mulher fin-de-siècle não
pode largar tudo por causa de filhos, quem era a candidata ideal para babá e acompanhante de
Raquel?
Contando assim, eu me sinto a idiota.
A mãe de Murilo tinha obrigações demais, não poderia mesmo cuidar de Raquel o dia todo. A
minha eu nem considerei. As opções eram Júlia, que, apesar de desvairada e desenxabida, eu
conhecia e sabia que amava Raquel, ou uma creche repleta de profissionais aparentemente
competentes (mas será que eram?) que eu não conhecia e de quem não sabia nada. Ou então o quê?
Eu deveria ter largado tudo, abandonado minha vida e meus planos, até Raquel se formar da
universidade vinte anos depois?
De qualquer modo, foi decisão pensada. Infelizmente. Meu coração não é enfeite: gosto de usar
meus instintos. Pensar muito distorce o próprio pensamento, a gente acaba sem nem saber o que
quer: a vida não é jogo de xadrez. E meu instinto em relação à Júlia sempre foi colocá-la janela a
fora e me debruçar pra ver quando batesse no chão. Mas dessa vez eu sentei, e atinei, e refleti. Deu
no que deu.
Odontologia não é fácil. E era longe. Não havia nenhum bom curso por perto e, se eu teria
mesmo que sair do bairro, que fosse para o melhor, onde quer que fosse. Com o tempo, a jornada
até o outro lado da baía já nem me incomodava. E eu podia ficar sossegada – essa Júlia é um
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tesouro, se eu tivesse alguém assim por perto, morria tranqüila – que minha filha estava em boas
mãos.
A rotina era simples. Eu deixava Raquel no maternal lá pelas oito e rumava para o outro lado da
baía. Júlia passava as manhãs trabalhando furiosamente em sua terceira exposição e, ao meio-dia,
pegava a afilhada no maternal. Dava almoço, punha a menina pra dormir e ficava de bobeira, lendo,
vendo TV, navegando pela Internet, o que quer que Júlia faça quando eu e meus ouvidos não
estamos próximos e à disposição. Depois que Raquel acordava, as duas passavam um tempo juntas,
brincavam, assistiam uma fita de vídeo, saíam pra passear. A mãezona mesmo só chegava da outra
cidade onde estudava em tempo integral lá pelo começo da noite. Dependendo do pique de Júlia,
poderíamos ficar de papo furado um pouco ou então ela ia embora cuidar da sua vida, satisfeita de
eu ter finalmente aparecido para rendê-la. Nos anos seguintes, quando Murilo já clinicava sozinho e
tinha mais liberdade para fazer seu próprio horário, algumas vezes era ele quem chegava mais cedo
e eu encontrava os dois ali conversando quando eu chegava. Amigos botando o papo em dia. A
menina brincando pela sala. Mãozinhas dadas. E eu me sentia uma intrusa, irrompendo assim na
intimidade de uma família tão perfeita, de um casal claramente feito um para o outro.
Enfim, por minha própria iniciativa, havia outra mulher o dia inteiro em minha casa, cuidando de
minha filha e amando meu marido.
Rêmora atrelada, lombriga faminta e urubu ansioso, até seus grandes momentos coincidiam com
os nossos. A primeira vernissage aconteceu alguns dias antes do casamento. Depois, a segunda
exposição foi na semana anterior ao nascimento de Raquel. Já o marco da terceira e última
vernissage de Júlia foi mais sutil.
Eu deveria começar pela aula de natação, até porque, se eu narrar todos os antecedentes, essa
história não acaba mais. Mas quero contar pelo menos um. Teve a história da chupeta. A chupeta
aconteceu logo antes. Tenho medo que, sem a chupeta como agravante, vocês podem achar que
estou exagerando, que besteira, minha filha, essa Júlia é um tesouro, vocês podem achar que foi em
xicrinha a borrasca em alto mar que veio depois.
Bem, quando Raquel tinha uns dois anos e meio, eu decidi que era hora de parar com a chupeta.
Mas como? Procurei ser racional, explicar as coisas. Ela estava naquela época de querer me imitar
em tudo (a mim e a Júlia, mas vá lá!) então eu disse: você já viu mamãe de chupeta? Adulto não usa
chupeta, chupeta é coisa de criança boba, e você não é mais criança, é? Além disso, a chupeta está
fazendo seu dente crescer torto! Mas até parece que adianta explicar.
E mentir? Será que não pode sair pela culatra? Não quero perder o respeito da minha filha,
amanhã ela não acredita mais em mim. Disciplina pura e simples também é uma piada: a partir de
agora, chega de chupeta porque a mamãe está mandando! Não me façam rir! Tenho uma amiga que
enche o filho de doces para compensar a perda da chupeta. Mas suborno é ainda pior – e destrói os
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dentes.
Usei todos os métodos. Tentei de tudo um pouco. Um não funcionava e eu pulava pro outro. Vai
ter que parar com a chupeta porque a mamãe está mandando e mamãe está mandando porque muita
chupeta faz nascer um bigodão nas menininhas, mas se você parar, eu te levo na praia. Coisas
assim. E ela foi parando. Eu não saberia dizer qual dos métodos funcionou: me interessavam os
resultados.
Vários meses depois, o que eu encontro no quarto de Raquel? Uma chupeta da Magali, muito
bem escondida, por sinal, no fundo da gaveta de seus badulaques, dentro de uma caixinha e
embrulhada em plástico.
Estremeci, sacolejei, transbordei. Eu nunca comprara uma chupeta da Magali para Raquel.
Raquel nunca tivera uma chupeta da Magali. Quando finalmente parara com as chupetas, eu jogara
todas fora.
A burra, como sempre, sou eu. Devia ter desconfiado. Quantas outras pessoas além de mim
saberiam que a Magali era o personagem preferido de Raquel? E eu mesma nunca tinha conseguido
encontrar uma chupeta da Magali. Só da Mônica. Mas procurei e muito. Tínhamos praticamente
todos os itens de merchandising da Magali.
Chamei Raquel. Quem tinha dado aquela chupeta pra ela?
Não disse nada.
Insisti, ponderei. Aquilo não fazia bem pra ela. Quem quer que lhe dera a chupeta, não queria o
seu bem: queria era vê-la com um bigodão. Mas a mamãe, que era sua melhor amiga, não queria
filha de bigode.
Raquel passou as pontas dos dedos pelo seu lábio superior – viu, bigode nenhum – e não disse
nada. Pensei na dinda extremada e no pai bunda-mole, e acabei me concentrando na suspeita talvez
inevitável:
– Foi a vovó, não foi?
Raquel não disse nada. De certo modo, nem precisava. Quando falei aquelas palavras, eu já
sabia. Era tão óbvio, não era? Quem mais poderia ser? Quem mais se intrometeria assim na criação
da minha filha? Que outra pessoa (além do meu pai, claro) teria tão pouco respeito por mim?
Liguei pra ela e já atropelei sua felicidade, depois tive pena, ai que malvadeza, porque ela ouviu
minha voz e ficou tão contente, dava pra ouvir sua alegria, ela se acendeu como um enfeite de natal,
satisfeito de ser útil ao menos uma vez por ano, mas não era o caso não, mãe, engole sua esperança
que eu liguei foi pra gritar e xingar, e eu gritei e xinguei, não tenho orgulho, mas fazer o quê?, vou
inventar que não gritei?, vou fazer gênero e dizer que tive uma conversa serena e adulta com minha
mãe, e que o mal-entendido logo se desfez e desligamos o telefone trocando palavras de amor?, não,
basta dizer que gritei e xinguei, sem entrar em detalhes, eu tinha vinte e seis anos, já saíra de casa
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há oito, será que esse ressentimento não acaba nunca?, minha mãe não era mais aquela pessoa de
quem eu me lembrava, já se tornara uma velhinha, cada vez mais quieta e acomodada, um pouco
surda até, e não era eu que tinha obrigação de ser ponderada e justa?, não são eles os tiranos
desnaturados?, como é que quem se descabela sou eu?, vergonha!, e eu agora fico me lembrando
daquele alô da minha mãe, um alô cheio de surpresa e alegria, minha filha está me ligando!, e ela
nem falou mais nada, disse apenas o alô e depois ouviu o estouro da boiada em silêncio, assim
como Raquel, aquele era mesmo o meu dia de falar sozinha, ela só negou, mas sem detalhes, sem
explicações, ia explicar o quê?, não é por acaso que o ônus da prova pertence à acusação, pois o que
mais ela poderia falar a não ser não fui eu, minha filha, não fui eu? Ela poderia me xingar de volta,
é verdade. Mas não xingou. Ouviu e negou.
Enfim, desliguei.
De noite, meu erro foi não comentar a história com Murilo. Ah, quem me dera ele tivesse feito
pelo menos um comentariozinho. Mas não.
Falei com Júlia, no dia seguinte. Tinha acabado de chegar da faculdade e estávamos papeando. E
comentei, já mais calma: você nem sabe, menina, e desamassei a história toda. E Júlia ouviu e
depois perguntou: ela não disse nada? Não, sabia que estava errada. E você foi muito grossa com
sua mãe? Minha mãe mereceu aquele esporro, Júlia, você nem—
– Fui eu.
E pediu desculpas, e explicou, e implorou, e eu calada, porque estava tão enfurecida que tive
medo de lhe dar uma sapatada nos cornos, mas ela choramingou e pediu tanto que eu já não sabia
mais o que fazer, e minha mãe, meu Deus, as coisas que eu disse pra ela, e ela ficou tão feliz
quando viu a chupeta da Magali, eu tive que comprar, eu sou uma idiota mesmo, ela prometeu que
não iria chupar quase nunca, e que não iria contar pra ninguém, e pelo menos ela sabe manter suas
promessas, e isso é bom, né?, que chato você ter brigado com a sua mãe, se tivesse falado comigo
antes eu tinha dito, mas como eu ia saber?, nem vi mais Raquel com a chupeta, achei que tinha
parado sozinha, e pediu desculpas, e explicou e implorou.
Depois, estrubufei eu. Júlia tinha acompanhado todo o processo, sabia o quanto tinha sido difícil,
queria que Raquel ficasse com os dentes todos tortos? Era isso? E sabe por que eu tinha pensado
logo na minha mãe? Primeiro, porque eu não confiava no discernimento da velha – se bem que até
aí minha situação com Júlia era ambígua. Eu também não confiava no discernimento de Júlia, mas
deixava minha filha tanto tempo com ela que seria uma porra-louca se não confiasse. Era uma
causalidade inversa: eu não deixava Raquel com Júlia porque confiava em Júlia, mas me forçava a
confiar em Júlia porque deixava minha filha o dia inteiro com ela.
Mas não era isso. Pensei na boçal da minha mãe porque a tarefa dos avós é essa: deseducar. A
gente educa e eles deseducam: se já me estragou quando tentava ser mãe e responsável, imagina
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tentando mimar Raquel. Não. A mãe de Murilo era avó o bastante. Mas parece que agora eu tinha
uma avó infiltrada.
– Júlia, esse é o tipo de coisa que minha mãe faria. É por essas e outras que eu veto ela daqui!
Você—
E então Júlia incorporou Murilo e decidiu, com o seu lendário discernimento, que era hora de
discutir racionalmente com uma mãe enfurecida:
– Mas será que talvez a madrinha não seja mais uma avó que uma mãe? Pensa bem—
E eu gritei, bradei e urrei nem lembro mais o quê. Acho que talvez eu tenha dito que não, que
madrinha era mais mãe mesmo. Sou muito burra.
Nos dias seguintes, Júlia e eu não nos falamos: quando eu chegava em casa, ela saía em silêncio.
Mas urubu, quando está com azar, o de cima caga no de baixo: passou pouco tempo e Júlia e
Raquel foram passear. Estava um dia bonito, Raquel tinha acordado da sesta um pouco agitada, e
Júlia decidiu que uma caminhada lhe faria bem. Preparou uma mochila – Raquel já sabia se segurar
e ir ao banheiro sozinha, mas sempre vale a pena andar com fralda e calça limpas – e lá se foram
elas. Júlia levou Raquel a uma pracinha perto da minha casa que ambas gostavam, e ficaram lá de
bobeira. Depois, Júlia fez um pequeno desvio para passar por uma academia de ginástica. Ela vivia
se prometendo voltar a malhar, e precisava sim, era bonita, é verdade, mas as coisas não se mantêm
no lugar apenas porque começaram bem, e ela já estava ficando flácida aqui e ali, pra não falar dos
culotes, que cresciam a olhos vistos.
De qualquer modo, enquanto Júlia se informava na recepção sobre preços e condições, a
prestativa funcionária comentou:
– Sua filhinha sabe nadar?
Acham que Júlia corrigiu?
– Não, não sabe não.
Raquel olhou pra cima, pensam o quê?, ela era esperta, estava acompanhando a conversa, e
também poderia ter falado ela não é a mamãe, é a dinda, mas só disse que queria muito aprender a
nadar sim.
– É que estamos começando hoje nossa escolinha de natação, especialmente para crianças nessa
idade. O professor é experiente, formado em pedagogia, elas aprendem juntas, tudo em clima de
brincadeira.
E Júlia começou a vestir a idéia, três anos era uma boa idade para se aprender a nadar, ela
mesma tinha aprendido aos dois, com um professor estúpido que a jogara na água sem a menor
cerimônia, não seria bom se Raquel aprendesse cedo e com um professor de verdade?, e então
concordou, e disse que sim, e estava quase – quase – pensando em acrescentar que ia falar com a
mãe da menina quando a balconista ressaltou:
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Mulher de Um Homem Só, por Alexandre Cruz Almeida, pg.43

– Mas tem que ser agora. A aula começa em quinze minutos e, se você perder, a próxima
escolinha é só daqui a quatro meses. O professor quer todo mundo junto desde o começo, pra
enfatizar a dinâmica de grupo, ou algo assim.
E a aula foi ótima. Júlia quis entrar na água junto com Raquel, para ajudá-la, mas o professor não
deixou. Estava a piscina cheia de gentezinha aprendendo a nadar, muitos dos quais Raquel já
conhecia da praça e, por isso, estava tranqüila, ainda mais a dinda ali olhando, e, também, Raquel
realmente queria isso, sempre teve vontade de nadar, mas não me disse nada, como eu ia
adivinhar?, nunca tínhamos passado perto de uma piscina para que ela pudesse comentar, ou para
que eu pudesse me dar conta, e, realmente, nem pensei nisso, eu não passava os meus dias pintando
quadrozinhos e bancando a babá, eu estava do outro lado da baía, tentando absorver uma
enormidade de informações, informações sérias, biomédicas, não futilidades artísticas, como a
opinião da crítica sobre Júlia, por exemplo, pode ser sério um campo volúvel desses?, vocês me
digam!
Mas Raquel ficou muito, muito feliz.
Cheguei em casa de noitinha e abracei Raquel. Já achei um pouco estranho ela estar de cabelo
molhado àquela hora, ela em geral tomava banho bem mais cedo, e perguntei:
– Por que minha filha está cheirando a cloro?
– Que nariz, hein? Eu acabei de dar banho nela.
Na verdade, não foi no cabelo dela que senti o cheiro, já estava o xampu por cima, farejei mesmo
foi a toalha, o maiô e a touca, que não vi, mas estavam na cesta do banheiro. De qualquer modo,
meu nariz nunca erra.
Não fiquei muito exaltada porque, afinal, a menina estava ali nos meus braços e muito bem,
obrigada, mas perguntei com um pouco mais de nervosismo:
– Ela caiu em alguma piscina?!
E Júlia resplandeceu, cintilou mesmo, orgulhosa de sua iniciativa, e me deu a boa nova,
felicíssima:
– Raquel fez hoje sua primeira aula de natação!
Murilo não entendeu. Murilo não entende porra nenhuma, mas poderia pelo menos fingir que
somos marido e mulher.
Eu sei, vocês vão dizer que sou neurótica e insegura por ter contado a história pra ele do jeito
que contei, mas sou uma neurótica e insegura que estava certa. Conheço Murilo: pombo de cidade
grande não morre atropelado.
Não fiz escarcéu. Comentei o episódio de forma neutra. E ele disse:
– Que bom. Já estava mesmo na hora da Raquel aprender a nadar.
Filho de uma puta.
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– Ainda bem que temos a Júlia. Imagina se eu ou você teríamos tempo de levar a Raquel pra
aprender a nadar? E essas coisas, quanto mais tarde se aprende, pior.
Já na segunda-feira, matriculei Raquel em uma creche em tempo integral.
Quanto mais tarde se aprende, pior. Júlia usou as mesmas palavras. O que seria preferível?
Imaginar o cretino discutindo com Júlia a educação de Raquel em sigilo? Chama Carla não, isso
aqui a gente resolve entre nós, pra que ela precisa saber?, besteira!, mas fala baixo! Ou será que a
segunda hipótese não é pior: ambos pensam tão bem cerzido que falam assim as palavras um do
outro sem nem precisar combinar antes, como foi com a Libeca? Eu gostaria de não acreditar nessa
última, mas acredito. E isso me incita, tenho vontade de arrostar e estapear o insuportável: por que
você me faz padecer esse suplício? Se são tão iguais, tão amigos, tão almas-gêmeas, tão
inhénhénhém, por que não casou com ela? Por que flagelar a mim no pau-de-arara dessa amizade?!
Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Encerrei o expediente, pode
sair, queridinha, deixa seu paletó aí na cadeira, se quiser, mas rua pra você. Murilo ainda tentou me
convencer, mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de
mim, só de Júlia. Que Júlia precisava de Raquel, que Júlia estava torcida e luxada, que Raquel era
essencial para ela se rearticular. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada, mas não tive filha
só para remediar a maluquete. Se ela é desequilibrada, que se equilibre sozinha.
Na semana seguinte, aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia.
Todos os abstêmios são iguais, mas cada bêbado é bêbado do seu próprio jeito. Conheci um que
ficava agressivo e batia na filha. Tive uma amiga que bastava uma caipirinha e caía em depressão.
Outros, se entusiasmam, rodopiam e cantam, e me abraçam pela cintura e gritam que sou a mulher
mais felizarda do mundo, que casei com o melhor homem que existe, e ainda posam para fotos
enquanto estão grudadas em mim, fotos que só não saíram nos grandes jornais porque,
sinceramente, a imprensa já não dava mais a mínima para Júlia. Aliás, tinha sido por isso que ela
começara a beber. A crítica destruiu a terceira fase de Júlia com a eficiência e o cinismo que apenas
alguém que até ontem era só elogios poderia fazer. Mas se limitou a considerar os quadros
péssimos.
Há algo de obsceno em uma mulher adulta observando uma criança dormir e enchendo cadernos
e mais cadernos de croquis e estudos, desenhos da menina em várias posições, sempre dormindo,
sempre indefesa, sempre de olhos fechados àquela predadora em busca da melhor oportunidade de
caça, da melhor pose, do melhor ângulo, das melhores cores, uma verdadeira comedora de carniça
espreitando o filhote adormecido, trincando os pincéis e salivando aquarela, apenas para depois
expor ao mundo quadros distorcidos e desvairados.
Acabaram quase todos lá em casa, doados ainda em vida para Raquel. Protestei, mas em troca da
proibição de Raquel ver Júlia, permiti que Murilo os pendurasse na sala.
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Quando o controle do espólio de Júlia passou para Mariana, a primeira coisa que ela fez foi
baixar os quadros da parede. Não porque lhe lembrassem a mãe recentemente morta, embora fosse
um pouco isso sim. Afinal, quem consegue viver sua vida entre retratos distorcidos da mãe quando
criança? A obra de Júlia já estava mais valorizada e Mariana, sem nenhum amor ou apego
emocional, se desfez de todo o legado que Júlia deixara para Raquel: comprou três casas na serra e
esqueceu o assunto. Não precisou nem se preocupar em magoar os sentimentos do avô, pois Murilo
morrera pouco antes. Eu teria aprovado.
Apesar do choque, a grande surpresa da terceira vernissage não foram os quadros, pois eles só
confirmaram o que eu sempre soube. A surpresa da noite foi eu ter me descoberto uma pessoa boa,
quem diria!, pois fiquei devastada. Achei que me sentiria vingada ou vitoriosa, mas não. Foi só
quando Júlia definitivamente caiu de cara na sopa que descobri que gostava dela. Descobri que ela
não tinha nada que eu não tivesse melhor e me senti mesquinha de já ter tido ciúmes de uma criança
daquelas. Uma mulher tão infantil.
Não me forcem a dedilhar esse piano. A desgraça alheia é deprimente. Sua mãe chegou tarde e
saiu cedo, apenas pra constar. O irmão não apareceu, e nem nenhum outro parente. O ônus da Júlia,
portanto, era de Murilo. Ele a cobriu com meu tailleur e disse que ia levá-la pra casa agora, e dane-
se o resto, e ela tentava se agarrar nele, e deu dois beijinhos na sua bochecha na minha frente, e ele
nem perguntou se eu queria ir junto ajudar também, ou nada assim, só me informou que estava indo.
Voltei pra casa, de táxi, sozinha.
Às quatro horas da manhã, acordei em uma cama vazia, pois Murilo continuava foragido e liguei
para o seu celular e ele estava com Júlia, ainda, ela não pode ficar sozinha, Carla, entenda!, mas
essa criatura não tem família, não, Murilo?!, você sabe como é a família dela... Não sei não, nem
quero saber, mas disse: então, eu vou pra aí, porque também não quero que você fique sozinho e,
quem diria, pra minha surpresa, ele concordou, e até abriu o portão da casa pra mim. Que noite
sublime. Júlia vomitava e quem tinha que segurar sua cabeça, mirando o vaso sanitário, era eu,
porque Murilinho não se sentia à vontade entrando no banheiro junto com ela. Piada, né? Os dois
entravam juntos em banheiros há mais de quinze anos, achavam que isso era algum tipo de prova de
intimidade, e gostavam de conversar assim, um na privada cagando e o outro recostado na pia ou
sentado no bidê. Mas esse é outro daqueles detalhezinhos que Murilo fez bem em nunca me contar,
logo pra mim que nem gostava que ele me visse nua, pra não vulgarizar minha nudez. Eu queria
uma reação pavloviana, queria Murilo salivando, queria que associasse minha nudez com sexo
iminente. Enfim, essas intimidades escatológicas ele nunca nem tentou comigo, mas achava que já
que eu estava presente, precisava manter as aparências, e então, quem tinha que manobrar o vômito
de Júlia era eu.
E a cachorra ainda ficava esticando suas patas pulguentas para o meu marido e pedia: Murilô, faz
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massagem no meu pé, faz... até que peguei seus pés e disse: Não tem problema, não: faço eu!
Conheço Murilo.
Durante anos, tive que ouvir que eu tinha os pés mais gostosos do mundo, e que por isso é que
ele queria sempre beijar e acariciar meus dedinhos, e por isso ele passava quase todas as
preliminares abaixo dos meus joelhos, e que por isso, mais ainda, insistia nas mais bizarras
posições, contanto que permitissem a ele me penetrar e lamber minhas solas ao mesmo tempo. E, no
começo, ah inocência, quando eu achava que era só comigo, que sua tara eram só os meus pés, eu
me sentia de certo modo orgulhosa de ter pés tão irresistíveis. Algumas vezes, é verdade, era chato
tentar ler um livro sossegada e ele lá, beijando meu dedão e, também, eu ficava ofendida de ele ter
nojo de me chupar, por exemplo, mas querer lamber meus pés depois de eu andar descalça o dia
inteiro. Mas quando ele mordiscava a sola do meu pé, eu perdoava tudo e me desmilingüia sobre a
cama.
Enfim, o que eu sei, Júlia também sabe. E sabia antes de mim. Ela, em geral, não pensa muito
nessas coisas, mas o álcool afetara sua libido. E, no carro, entre vômitos, ela fizera questão de
chegar o banco do passageiro o mais para trás possível e ficou ali, com os pés no painel, mexendo
os dedinhos, e Murilo fingia não olhar, tentava não olhar, olhava só pra frente, e dizia: Júlia, bota os
pés pra baixo, assim fica mais difícil de você vomitar, se precisar... E ela dizia que não, que estava
bem, mas vomitou duas vezes, e lembram, lá atrás, quando eu disse que o carro voltou fedendo a
vômito? Claro, pois na posição em que estava, Júlia não conseguiu chegar na janela a tempo. Mas
Murilo resistiu bravamente.
Em casa, ela não parou. Não, meus amigos. Esfregava os pés na cara dele, e pedia massagens, e
depois abandonava a inibição e pedia beijos e carícias mesmo, e ele implorava que não, até que
finalmente aceitou, e colocou os pés de Júlia em seu colo, mas ao primeiro toque, era inevitável, o
tremor da ereção querendo desabrochar fez com que se sentisse o último dos homens e cobriu
delicadamente os pés de Júlia, e mudou de posição na cama, colocando a cabeça dela em seu colo –
assim era mais seguro – e consolou a querida amiga, e explicou que ninguém no mundo entendia
nada de arte, só ela, mais ninguém.
Paro e penso: saí de casa às cinco da manhã para pajear uma bêbada, e segurei sua cabeça
enquanto ela chamava o hugo e ainda fiz massagem em seus pés!, para ver se ela parava de dar em
cima do meu marido.
Essa vida é engraçada mesmo.
Daqui a pouco era hora de trabalho, Murilo teve que ir pro consultório, e perguntou se eu podia
ficar mais um tempinho com a Júlia, ela ainda está meio mal, Carla, só pra garantir. Eu disse que
sim, claro, como não?, e assim que saiu, dei a volta na garagem, e fui bater na porta de dona
Adelaide.
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Dona Adelaide é espírita. Ela dirige uma fubica verde de algum ano distante da década de
oitenta, com um adesivo que diz: O Acaso Não Existe: Leia Kardec. Júlia é seu carma. Eu e Murilo
estávamos por perto em uma das vezes em que falou isso. Eu pensei: que conveniente ter pais
assim, nada nunca é sua culpa, não importa quantas merdas você faça, porque, afinal, tudo está
escrito, você é o carma deles e eles têm mais é que engolir sua estrelice, aturar sua insegurança e
alimentar sua insensibilidade. E Murilo pensou: que estranho viver em um universo pré-
determinado, onde o acaso não existe. Como será que conciliam isso com o cristianismo e os
conceitos de livre-arbítrio, do céu e do inferno? Preciso ler sobre o assunto. E dona Adelaide só
suspirava.
Dona Adelaide nunca trabalhou, não tem hobbies, não gosta de ler, não sabe tricotar e mal
acompanha as novelas: sempre se dedicou somente à família, ao marido e aos filhos. Mulheres
assim, quando perdem as vítimas de seus obsessivos desvelos, quando morre o marido, quando o
filho apóia a amante do pai, elas se grudam à filha que sobrou, mesmo ela sendo artista, alienada e
amalucada.
Restaram só as duas naquele casarão e dona Adelaide, bobinha, devaneou que ela e a filha agora
é que se amigariam, reciclariam seus problemas, debitariam companhia uma na outra, ah vai ser tão
gostoso, só eu e minha filhinha, nós mulheres, precisar de homem pra quê?, ter Julinha ao meu lado
já me basta, mas a doce Julinha prontamente se mudou pra cima da garagem, a uns cinqüenta
metros de distância, e construiu ali um apartamento e um ateliê pra ela, com entrada própria, pra
não ter que nem ver a mãe, aquela água de bacalhau, cimento de secagem retardada, coca-cola sem
gás, e Júlia só se refere à mãe assim, dona Adelaide na terra e o diabo no inferno, você reclama da
sua mãe, Carla, porque não conhece a minha!, e Júlia parece não perceber que dona Adelaide, a
déspota ensandecida, nunca telefona, nunca aparece, nunca pergunta da sua vida, nada, e se mantém
dolorosamente à distância por medo de desagradar a narcisóide filhinha.
Nem sempre o novelo assim se desenrola: às vezes, Júlia fica carente, e aí sim é muito cômodo
ter a mãe à disposição, abanando o rabinho pra ela quando a filha se digna a filar sua comida, e as
duas jantam juntas, conversam, se paparicam. Mas quando dona Adelaide se sente sozinha, ela
permanece sozinha, naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer, nem livros pra ler,
nem netos pra cuidar, nem bordados a tricotar. Pra que correr o risco de melindrar a filha
temperamental? Depois ela se intumesce e vai embora e eu fico aqui desdenhada. Pra piorar, Júlia
era artista. Ou seja, seus rodopios e desvarios eram não só o carma de dona Adelaide como também
ossos do ofício. Artistas não são todos assim? E dona Adelaide suspira, e acompanha uma quase-
desconhecida até a casa de sua filha, e começa a limpar resignada o chão do banheiro.
Ali, constrangida por aquela cena patética, mas nem um pouco disposta a dar o braço onde já
hipotecara a mão (dona Adelaide de quatro sobre o vômito, Júlia meio entornada na cama e
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roncando, um pé solto no ar), eu me perguntei: será Júlia um caso de custódia conjunta de carma?
Júlia, cruz-bumerangue, fardo que levo nas costas e, quando atiro longe, volta e me acerta nas
fuças, será que deslambidas como você, assanhadas e temerárias, só podem existir se forem o carma
de alguém? Se tiverem quem lhes dê lombo pra montar, marido pra cobiçar, filha pra adotar e que
ainda limpem seu vômito?
Estavam os dois andando pela praia, algum tempo antes de eu conhecer o Murilo, quando
passaram por uma colônia de ciganas, vocês já viram?, umas mulheres maltrapilhas e nojentas, pele
escura de tanta sujeira, vestidas com aquelas saias húngaras coloridas, medalhazinhas nas pontas
dos lenços, e elas investem sobre você como animais esfaimados, que é o que elas são,
convenhamos, fazer o quê?, e pedem pra ler sua mão e revelar os segredos do futuro por alguns
trocados, gajão, tenha caridade, e imagina se eu deixaria uma mulher dessas sequer encostar em
mim!, e Murilo começou a dizer obrigado, talvez outro dia, mas Júlia estendeu a palma de sua mão
para a desdentada e disse que queria saber seu futuro sim, tudo o que iria acontecer, por favor, e
sorriu marota para o Murilo, que pensou: mulher é bicho esquisito mesmo, todo mês sangra, o sexto
sentido maior que a razão, até Júlia, tão cética e atéia quanto ele, e mesmo assim, quem diria, não
resiste a essas tolicezinhas de mulher, ler mão e horóscopo, ai ai, ele suspirou em silêncio, e até
achou bonitinho essa fraqueza do caráter de Júlia, mas Murilo é que foi o ingênuo, pois mulher é
bicho esquisito mesmo, e Júlia apertou forte a mão de Murilo, e se achegou nele, e roçou sua bunda
contra a virilha de Murilo, e Murilo, sempre o inocente, coitadinho, nem se deu conta, era normal se
encontrarem, se roçarem, se pegarem, mas a cigana, ah, essa era mulher também, sangrava todo mês
e não era boba nem nada, e enquanto fingia ler as linhas da mão de Júlia, observou bem, pelo canto
do olho, aquele roça-roça todo, captou a intimidade entre os dois, farejou o fogo de Júlia, e
sentenciou que o amor deles era invencível, imbatível, irreprimível, que seriam muito felizes juntos,
e que teriam uma filhinha linda e que nunca, nunca mesmo, se separariam, e Murilo achou graça
naquelas bobajadas supersticiosas, não pensou mais no assunto, esqueceu totalmente, mas pra Júlia
aquela era uma de suas lembranças mais tutti-frutti, e ela gostava de colocar na boca cada palavra
da velha cigana e chupar como se fosse bala soft, por horas a fio, até sair o gosto, e, sabem o que
mais?, certa estava a cigana, que embolsou vários milhares de cruzados novos de Júlia e, naquele
dia, até comeu carne.
A cigana só não previu o suicídio de Júlia, e pelo menos nisso acertou. Pensam mesmo que Júlia
se matou? A doidisgóia? Por favor! Foi é passar o ano na Europa, pra espairecer. Depois, voltou.

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Caro amigo leitor,

Obrigado por ler um romance de um completo desconhecido. Espero que tenha gostado. Sei que é
pedir demais, mas por favor me escreva e diga o que achou. Caso não tenha gostado, aí sim que
insisto: me diga o motivo, suas críticas e sugestões. Mande um e-mail, deixe um comentário no
blog, o que você quiser. Autor calouro precisa sempre de feedback de leitores pacientes. O romance
mexeu com você? Odiou algum personagem? Já conheceu alguém igualzinho à Júlia? Eu adoraria
saber.

Mas, por favor, não deixe de escrever.

Sintam-se mais que à vontade para repassar esse romance ou enviar o link do meu site a quantas
pessoas quiserem. Quanto mais leitores, melhor.

Um grande abraço,

Alexandre Cruz Almeida


e-mail: alexandre@sobresites.com
site do romance: www.sobresites.com/alexandrecruzalmeida
blog: liberallibertariolibertino.blogspot.com

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