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Filipe Martins (2016222226)

José Henriques (2015238230)


João Vilas (2016220484)
Nuno Fernandes (2016222252)

Será a dívida pública um entrave ao


crescimento?
Lições do passado a preparar o futuro

Turma prática: 1
Grupo: 3
Docente: Maria Adelaide

13/05/2019
Índice

I. Introdução
II. Será a dívida pública um entrave ao crescimento?
II.1 Evolução da dívida pública
II.2 Principais Teses
III. Análise Empírica/Ilustrações
III.1 Base de dados/metodologia
III.2 Estatística Descritiva
IV. Resultados
V. Recomendações de Política
VI. Conclusão

1
I. Introdução

Num contexto económico cada vez mais complexo e incerto, é fulcral que todos
os países formulem uma estratégia de crescimento sustentado que consiga potenciar as
suas qualidades e minimizar os seus defeitos. Neste relatório iremos tentar perceber que
papel desempenha a dívida pública neste contexto e de que foram esta pode condicionar
a estratégia adotada por cada país. Para isso abordaremos, de forma detalhada, a evolução
histórica da dívida pública e faremos uma análise empírica do impacto da mesma no
produto no caso de um país, Portugal. Decorrente destas análises e das predominantes
teorias que dominam o espetro político-económico atual serão feitas recomendações de
qual seria a melhor estratégia, na opinião dos autores, que devia ser seguida.

II. Será a dívida pública um entrave ao crescimento?

II.1. Evolução da dívida pública

Durante centenas de anos, os países recorreram a empréstimos de forma a


promover o financiamento público. Entenda-se por financiamento público, todas as
políticas que tenham como fim o bem-estar das populações.

Inicialmente usada como forma de financiamento militar, a dívida pública,


começou, a partir de meados do século XIX, a ser vista como uma ferramenta de suporte
ao desenvolvimento das sociedades, numa altura em que o mundo entrava numa nova era
tecnológica, com as várias Revoluções Industriais. Neste contexto, registou-se um
agravamento acentuado nos encargos das dívidas, não só resultantes de grandes conflitos
militares bem como de recessões, crises bancárias e financeiras e respostas políticas a tais
fenómenos. É no final século XX que se verifica, pela primeira vez, um aumento no rácio
da dívida pública em relação ao PIB, não resultante de conjunturas de guerras, mas sim
de respostas e medidas por parte de agentes políticos face a problemas anteriormente
considerados como não sendo responsabilidade do estado (sistema de saúde, pensões,
etc.).

De forma a fazer face a este aumento da dívida pública, muitos países serviram-
se de políticas como a depreciação de moeda e a reestruturação da dívida, sendo que nem
todos os governos foram capazes de conjugar estas medidas de forma equilibrada. Muitos
entraram em incumprimento e procederam à reestruturação das suas dívidas, por vezes de
forma regular, o que levou a uma inflação que não acompanhava o crescimento

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económico e medidas de austeridade foram usadas de forma a reduzir a crescente
dependência do financiamento do setor público.

Assim, vemos que o século seguinte se veio a revelar fundamental na utilização e


compreensão da dívida pública como forma de financiamento público.

II.2. Principais teses

Desde a crise económica e financeira de 2008 que a problemática da dívida pública


e dos seus efeitos no desempenho macroeconómico dos países ganhou maior relevância
na discussão da política económica, apesar disso ainda não existe muita literatura
dedicada ao tema. É transversalmente aceite que um nível de dívida pública extremamente
alto é nocivo para a economia, visto que desencoraja a poupança nacional e,
consequentemente, reduz o nível de investimento e stock de capital (Chen, 2014). O ponto
que gera mais discórdia nesta discussão é definir a partir de que valor é que se pode ser
considerado um valor demasiado alto da dívida pública. Serão os 60% do rácio da dívida
pública/PIB expressos no Tratado de Mastricht (1992) como o limite máximo
recomendado para os países? Para tentar responder a esta questão é necessário olhar para
alguns estudos empíricos que têm sido elaborados. Num dos estudos mais recentes
(Reinhart and Rogoff, 2010) é defendido que valores da dívida acima de 90% do PIB
estão associados a desempenhos macroeconómicos mais fracos e que inibem as
possibilidades destas economias de terem um crescimento estável no longo prazo. À
semelhança destes autores, também Woo e Kumar (2015), Cecchetti, Mohanty e Zampolli
(2011) chegaram a conclusões similares, o valor limite da dívida pública a partir do qual
se notam efeitos negativos no crescimento económico é 90% PIB.

Por último é necessário referir uma visão alternativa àquelas que foram referidas
anteriormente, conhecida por equivalência ricardiana. A tese ricardiana sustenta que
para um dado montante de despesa pública a substituição de impostos por dívida não
tem qualquer efeito na procura global nem na taxa de juro. O endividamento público é
equivalente ao financiamento por impostos, apenas adia os impostos para o futuro
(Elmendorf and Gregory Mankiw, 1999).

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III. Análise Empírica/Ilustrações
III.1 Base de Dados/Metodologia

Para examinar a relação estatística entre a dívida pública e o PIB iremos explorar o
seguinte modelo:

𝑦ₜ = 𝛽₀ + 𝛽₁𝐷𝐼𝑉ₜ + 𝛽₂𝐷𝐼𝑉ₜ2 + 𝛽₃𝐷𝐸𝐹ₜˍ₁ + 𝛽₄𝐷𝐸𝐹ₜˍ₂ + 𝑢ₜ

onde 𝑦ₜ é a taxa de crescimento do PIB, 𝐷𝐼𝑉ₜ o rácio dívida pública/PIB, 𝐷𝐸𝐹ₜ o peso
do défice no PIBe 𝑢ₜ o termo de erro. De realçar que introduzimos a variável do rácio
dívida pública/PIB ao quadrado para responder à pergunta que colocámos na secção
anterior, a partir de que valor a dívida pública influencia negativamente o desempenho
macroeconómico.

III.2 Estatística Descritiva

Olhando para a evolução da taxa de crescimento do PIB (figura 1) facilmente se


conseguem encontrar diferentes fases do crescimento económico português, das quais se
destacam as fortes quedas de 1998-2003, 2007-08 e 2010-12. Iremos dar maior
importância às duas últimas visto que são estas as mais relevantes para o relatório. Ambas
estão intrinsecamente ligadas, visto que decorrem da grave crise financeira e económica
que se fez sentir em todo o mundo. A primeira, de 2007-2008, coincide com o início da
referida crise, que teve a sua génese nos EUA e que rapidamente se propagou para todo
o mundo e, consequentemente, afetou Portugal. A segunda coincide com a crise das
dívidas soberanas e com a crescente dificuldade com que inúmeras economias, entre as
quais Portugal, tiveram muitas dificuldades em refinanciarem as suas dívidas, algo
confirmado pelo gráfico 3, a taxa de rendibilidade das obrigações do tesouro sofreu um
aumento considerável neste período.

Relativamente à evolução do nível da dívida pública ao longo do período temporal em


estudo, salta à vista o constante aumento da mesma. Salvo raras exceções, esta variável
teve um “crescimento sustentado” e sofreu uma evolução exponencial entre 2007-2014,
que se deve aos défices primários sucessivos registados ao longo dos anos e à taxa de juro
real superior ao crescimento do PIB. Por último, é importante referir que a diminuição do
nível de dívida pública verificado nos últimos anos e que se espera que continue num
futuro a curto prazo deve-se à conjuntura económica internacional extremamente
favorável. Como já foi referido várias vezes ao longo do relatório, um dos objetivos do

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mesmo é perceber de que forma a dívida pública e o desempenho macroeconómico de
um país (neste caso expresso através do PIB) estão correlacionados. Através dos
resultados obtidos na figura 3, pode-se verificar a existência de uma correlação negativa
entre as variáveis, ou seja, é esperado que um aumento significativo da dívida pública
condicione o crescimento económico.

III. Resultados

Olhando para os resultados obtidos (ver tabela 1) podem-se tirar ilações que
corroboram o que foi introduzido na secção II. Há uma clara relação negativa entre o
crescimento do rácio da dívida pública/PIB e o crescimento do PIB. Supondo um aumento
de 1% deste rácio espera-se, com este modelo, que a taxa de crescimento do país se reduza
0,171459 p.p. Por último, outro resultado que gostaríamos de realçar é a também relação
negativa entre o rácio do défice e a taxa de crescimento do PIB. A soma das estimativas
dos coeficientes 𝛽₃ e 𝛽₄ (-0,451875 + 0,408249) é um valor negativo, ou seja, o défice
também tem um efeito negativo no produto do país.

V. Recomendações de política

Analisando teórica e empiricamente (no caso de Portugal) o impacto da dívida


pública no desempenho macroeconómico já é possível tirar ilações de qual deve ser, na
opinião dos autores, a estratégia seguida no contexto económico atual. Contas públicas
equilibradas e uma redução substancial da dívida pública deve ser o objetivo primordial
dos governos nacionais aquando da elaboração das políticas orçamentais. Não obstante,
também a substituição de despesas não produtivas por despesas produtivas deve ser algo
a ter em consideração, visto que um dos maiores problemas nas economias atuais
(Portugal é um excelente caso) está na sua dinâmica e estrutura e não será apenas uma
redução da dívida pública que resolverá todos os problemas.

VI. Conclusão

Concluindo, o presente relatório vai ao encontro dos principais trabalhos feitos


sobre o impacto da dívida pública. Chegou-se à conclusão que um nível elevado de dívida
pública condiciona o crescimento do país. É uma problemática atual e cada vez mais
importante na condução da política económica e, devido a isso, deve estar na mente de
todos os decisores políticos.

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Anexo:

140 5
DividaPIB (left)
TxCrescPIB (right)

130 4

120 3

110 2

100 1

90 0

80 -1

70 -2

60 -3

50 -4

40 -5
1995 2000 2005 2010 2015

Figura 1 – Evolução taxa crescimento do PIB e rácio dívida pública/PIB

11

10

8
TxRendObrig

1
2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016 2018

Figura 2 – Evolução da taxa de rendibilidade das obrigações do tesouro

6
Correlations of TxCrescPIB and lagged DividaPIB

+- 1.96/T^0.5
1

0.5

-0.5

-1

-6 -4 -2 0 2 4 6
lag

Figura 3 – Correlação entre taxa de crescimento PIB e rácio dívida pública/PIB

Equação

𝑃𝐼𝐵ₜ = 5.41120 − 𝛥31.2944𝑙𝑛𝐷𝐼𝑉ₜ − 0.171459𝑙𝑛𝐷𝐼𝑉ₜ2 − 0.458682𝐷𝐸𝐹ₜˍ₁ + 0.418435𝐷𝐸𝐹ₜˍ₂ + 𝑢ₜ


(1.34800) (4.14391) (0.0759907) (0.140797) (0.128100)

R-squared 0.838822
Adj.R-squared 0.800898 Δ=Primeiras Diferenças
Sum sq.resids 17.77474
S.E. equation 1.022532 PIB= Taxa de crescimento do PIB real (%).
F-statistic 22.11839
Log likelihood -28.87074 DIV= Dívida Pública/PIB
Akaike AIC 67.74148
Schwarz SC 73.19669 DEF= Défice Público/PIB
Mean Dependent 1.228636
S.D dependent 2.291602

Nota: os valores entre parênteses abaixo da equação dizem respeito ao desvio padrão

Tabela 1 – Modelo estimado

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Bibliografia:
Cecchetti, S. G., Mohanty, M. S. and Zampolli, F. (2010) The Future of Public Debt:
Prospects and Implications, BIS Working Papers.
Cecchetti, S. G., Mohanty, M. S. and Zampolli, F. (2011) ‘The real effects of debt’, BIS
Working Papers. Available at:
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1946170
Chen, S. (2014) Public Debt and Its Impacts on Output: A Long-Horizon Perspective, BIS
Working Papers.
Eichengreen, B. et al. (2019) ‘Public Debt Through the Ages’, NBER Working Paper
Series, (January), p. 21. Available at: https://www.nber.org/papers/w25494.pdf
Elmendorf, D. W. and Gregory Mankiw, N. (1999) ‘Government debt’, Handbook of
Macroeconomics. Elsevier, pp. 1615–1669.
Khac Lich, H. and Tu, D. C. (2018) ‘The Impact of Government Debt on Economic
Growth’, VNU Journal of Science: Economics and Business, 34(1), pp. 1–42.
Reinhart, C. M. and Rogoff, K. S. (2010) ‘Growth in a Time of Debt’, American Economic
Review, 100(2), pp. 573–578.
Woo, J. and Kumar, M. S. (2015) Public debt and growth, Economica. Available at:
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1653188

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