Você está na página 1de 24

Sumário

Família 3
Modelo clássico de família 3
Evoluções legislativas 3
Modelo contemporâneo de família 4

Direito de Família 5
Natureza do direito de família 5
Conteúdo do direito de família 5
Conceito do direito de família 6
Princípios do direito de família 6
Família conjugal 7

Casamento 7
Finalidade 7
Natureza jurídica 8
Características 8
Princípios da constituição 8
Condições de existência 8
Condições de validade 8
Condições de regularidade 9
Habilitação 9
Casamento religioso com efeitos civis 10
Impedimentos 10
Causas suspensivas 12
Celebração do casamento 13
Formas especiais de celebração do casamento 13

Efeitos do Casamento 14
Efeitos sociais 14
Efeitos pessoais 14
Efeitos patrimoniais 14

Dissolução da Sociedade Conjugal 18


Dissolução por nulidade 19
Dissolução por anulabilidade 19
Separação judicial 20
2 FAMÍLIAS | 2019.4

Divórcio 22

União Estável 23
Histórico 23
Conceito 23
Efeitos 24
Impedimentos na união estável 24

Victoria Lourinho | UFPA


3 FAMÍLIAS | 2019.4

Direito das Famílias


---------------------------------------------- 5 de setembro de 2019 ----------------------------------------------

Família
 O conceito de família conforme ordenado pelo direito brasileiro sofreu mutações ao longo do tempo.

MODELO CLÁSSICO DE FAMÍLIA


 O conceito clássico de família definia como tal um conjunto de pessoas ligadas pelo casamento.
 Além do parentesco, a conjugalidade também era definida pelo casamento.
 O modelo clássico era unitário: só era família o que preenchia o requisito, e demais relacionamentos não
eram considerados familiares.
 A família também era indissolúvel: não era passível de ser desfeita.
 Além disso, a família era institucionalizada, ou seja, a tutela jurídica não existia para balizar os direitos
dos indivíduos envolvidos, mas sim para proteger a própria instituição família.
 Conforme a definição de família, ela era matrimonializada, ou seja, criada a partir do casamento.
 A família também era patriarcal e heterossexual, gerando rígidos papéis distintos para o homem e para
a mulher, sendo ele o provedor, e ela, a cuidadora.
 Havia hierarquização na família, já que além da divisão de papéis de acordo com o gênero, existia
subordinação da mulher em relação ao homem.
 A família era patrimonializada, visto que gerava consequências patrimoniais para o núcleo familiar
conforme as regulações do Código Civil, sendo mais focado neste aspecto do que na proteção dos sujeitos
familiares.
 Gustavo Tepedino aponta que esta patrimonialização também tinha uma face velada: o homem
era sujeito de direito e tinha propriedade e poder sobre a família, já que possuía o pátrio poder,
a guarda dos filhos e a titularidade das propriedades materiais.
 No direito de família do Código Civil de 1916, os filhos poderiam ser legítimos ou ilegítimos. Os filhos
nascidos na família - ou seja, dentro de um casamento - eram legítimos, e eram ilegítimos todos os que
não nascessem nela.
 Os filhos ilegítimos poderiam ser naturais ou espúrios: os naturais eram filhos de "mãe solteira",
e os espúrios eram filhos nascidos de relações adulterinas ou incestuosas.

EVOLUÇÕES LEGISLATIVAS
 Algumas legislações sobre o direito de família assinalam a mudança que ocorreu nesta matéria com o
passar do tempo:
 Ordenações Filipinas: possibilidade de “correção física” disciplinar e “legítima defesa da honra”,
instituto pelo qual o homem poderia matar a mulher caso esta cometesse adultério.
 Decreto 181/1890: possibilidade do casamento ser realizado fora da Igreja Católica e do batismo
civil.
 No mesmo ano surge o desquite, forma de dissolução da sociedade conjugal, que
desobrigava o homem de suas obrigações com sua esposa, porém não podendo se casar
novamente pela continuação do vínculo matrimonial. Surge também o direito à
integridade física da mulher, abolindo o castigo corporal.
 Código Civil de 1916: a mulher casada passa de absolutamente para relativamente incapaz,
enquanto a mulher solteira mantinha a capacidade plena até se casar - quando aceitava ser
representada ou assistida depois de instituído o casamento.

Victoria Lourinho | UFPA


4 FAMÍLIAS | 2019.4

 Pelo Estatuto da Mulher Casada, a esposa ganha capacidade plena, apesar de manter a estrutura
hierarquizada do casamento, sendo uma “colaboradora” do pátrio poder.
 Em 1977 surge a Lei do Divórcio, possibilitando a extinção do vínculo matrimonial, e concedeu o
direito da esposa de manter o nome de batismo.

---------------------------------------------- 10 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

MODELO CONTEMPORÂNEO DE FAMÍLIA


 Com a Constituição de 1988, surge o novo modelo de família fundado nos valores da liberdade, igualdade,
solidariedade e responsabilidade.
 Há a liberdade de constituir ou não família, de manter ou dissolver o núcleo familiar, de escolher
a forma de família adotada, de desenvolver o próprio planejamento familiar.
 Esta liberdade naturalmente não é absoluta, e deve ser exercida em conjunto com as obrigações,
conforme o valor da responsabilidade e solidariedade, de respeitar o dever de cuidado –
especialmente com crianças, adolescentes e idosos – e os direitos fundamentais.
 Vide possibilidade de prisão civil por não pagamento das obrigações alimentícias.
 A igualdade de manifesta em diversas formas no direito de família:
 Na igualdade jurídica entre os entes familiares, em que todos os filhos são iguais,
independentemente de sua origem.
 Entre os sujeitos que exercem o poder familiar, seja entre homem e mulher ou entre
relacionamentos homoafetivos. Não existe mais pátrio poder, mas sim poder familiar.
 As diferentes formas de família também recebem igual tratamento perante a lei.

 Os princípios constitucionais básicos da família são:


 A pluralidade das formas familiares, ou seja, a família
pode ser formada pelo vínculo formal do casamento Art. 226. A família, base da
(art. 226, § 1º e 2º/CF); pela informalidade da sociedade, tem especial proteção
conjugalidade (art. 226, § 3º/CF); ou sem do Estado.
conjugalidade, pela denominada família
monoparental (art. 226, § 4º/CF). § 1º O casamento é civil e gratuita
 A Constituição Federal originalmente versa a celebração.
sobre a família conjugal constituída pela união
estável - sem casamento, formada por § 2º O casamento religioso tem
conjugalidade - apenas entre homem e efeito civil, nos termos da lei.
mulher. A possibilidade da união estável de
casais homoafetivos é resultado de decisão do
Supremo Tribunal Federal.
 A maioria dos doutrinadores compreende que § 3º Para efeito da proteção do
a enumeração constitucional das formas Estado, é reconhecida a união
familiares é exemplificativa e não taxativa. estável entre o homem e a
 A diferença entre a redação constitucional mulher como entidade familiar,
anterior e atual no tocante do conceito de devendo a lei facilitar sua
família demarca intensamente a diferença conversão em casamento.
entre os modelos: “A família é constituída
pelo casamento [...]” (art. 167) delimitava a
família como formada apenas pelo casamento. Nesse sentido, o modelo unitário foi
abolido do ordenamento.

Victoria Lourinho | UFPA


5 FAMÍLIAS | 2019.4

§ 4º Entende-se, também, como


 A função serviente ou instrumental da família, o que
entidade familiar a comunidade
significa que ela não é mais a instituição tutelada pelo
formada por qualquer dos pais e
Estado, e os indivíduos do núcleo familiar não mais
seus descendentes.
devem se moldar ao modelo unitário de família, mas
sim ela existe em função dos sujeitos de direito da
relação familiar, justamente para tutelá-los em seus direitos fundamentais.
 A família personalizada é antagônica à família institucionalizada (acima).
 A afetividade (art. 1511/CC) que estabelece a plena comunhão de vida entre os entes familiares
como o que os define como família - e não o casamento ou a consanguinidade.
 Não é um princípio explícito, porém se depreende da interpretação sistemática dos
valores da nova família (especialmente a igualdade e pluralidade). O que há em comum
entre o filho adotivo e o filho consanguíneo, entre a família formada pelo casamento e a
família formada entre a união estável e a monoparental, entre as famílias heterossexuais
e homoafetivas é o elemento da afetividade.
 Também é o elemento comum entre todas as formas de família.

 A família e o Estado são corresponsáveis pela proteção dos direitos fundamentais no âmbito da família
(sistema misto de proteção de direitos).
EX.: O Estado deve promover os mecanismos necessários para a família realizar o planejamento
familiar adequado (acesso à saúde e educação), e nesse sentido devem cooperar para a
realização.

---------------------------------------------- 12 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

Direito de Família
NATUREZA DO DIREITO DE FAMÍLIA
 O direito de família tem essencialmente o caráter pessoal, ou seja, extrapatrimonial.
 Não obstante, o direito de família regula os efeitos patrimoniais do casamento, mas essas regras
se destinam à satisfação de necessidades pessoais.
 O direito de família é um ramo do direito privado.
 No entanto, esse caráter não isenta as relações familiares de sofrerem influência da regulação
estatal.
 Diferentemente de outros ramos do direito civil, o direito de família tem a amplitude da autonomia da
vontade reduzida em detrimento de normas imperativas de ordem pública.
 Por exemplo, os regimes de comunhão de bens possíveis são apenas os descritos em lei, não
podendo os cônjuges criarem seu próprio regime exercendo a autonomia da vontade. O direito
de família conta com direitos e deveres indisponíveis, como o poder familiar e o direito de
alimentos.
 O direito de família prescreve principalmente poderes-deveres a partir de suas instituições.
 Os poderes postos pelo direito de família – poder familiar, guarda, tutela – não são exercidos em
favor próprio, ou seja, não são direitos subjetivos, mas sim em benefício de outro que precisa da
proteção jurídica.
 Por exemplo, aquele que exerce tutela não é titular do pupilo, mas sim de um dever de proteção
do pupilo. Por conta disso, apesar de poder administrar os bens que não são seus e sim do pupilo
(poder), o tutor não exerce a tutela da forma que entender, nem pode renunciá-la, mas sim deve
exercer o encargo da devida forma (dever).

CONTEÚDO DO DIREITO DE FAMÍLIA

Victoria Lourinho | UFPA


6 FAMÍLIAS | 2019.4

 O direito de família trata de duas formas de vínculos familiares: conjugalidade e parentesco.


 O direito conjugal trata da constituição, formas, dissolução e efeitos do vínculo conjugal, bem
como os direitos e deveres entre os cônjuges.
 O direito parental trata dos vínculos de filiação, espécies e graus de parentesco.
 O direito de família também abarca o direito protetivo, matéria sobre os institutos de proteção dos
indivíduos em situação de vulnerabilidade no âmbito familiar.
 As principais figuras do direito protetivo são a guarda, tutela e curatela, bem como as medidas
de proteção da criança e adolescente.

CONCEITO DO DIREITO DE FAMÍLIA


 O direito de família é o conjunto de normas jurídicas que regulam as relações familiares.
 O conceito de direito de família deve sempre ser entendido de maneira aberta, seguindo as
mutações que o próprio conceito de família passa dentro da sociedade.

PRINCÍPIOS DO DIREITO DE FAMÍLIA


 São princípios do direito de família:
 O princípio do superior interesse da criança e adolescente (ou melhor interesse) coloca o
interesse desses indivíduos acima do interesse dos pais nos casos de conflito de interesse.
 Por conta desse princípio, deverá ser adotada a solução que melhor atende aos
interesses das crianças e adolescentes no contexto do caso concreto, garantindo a saúde,
estrutura emocional e convívio social desses indivíduos.
 O princípio da autonomia e menor intervenção estatal postula que a própria família é livre para
decidir a condução para o núcleo familiar, seja no regime de bens, no planejamento familiar, na
liberdade de expressão.
 Naturalmente, essa autonomia não é absoluta, devendo seguir as normas de ordem
pública sobre a família, ou seja, a autonomia da família deve respeitar os direitos
fundamentais.
 Em casos de alta gravidade, é possível o afastamento do poder familiar, por exemplo, em
situações de abuso sexual e maus tratos. No entanto, essas são situações excepcionais
de intervenção.
 O princípio da monogamia é dirigido à conjugalidade, que por conta disso é definida como a união
de duas pessoas.
 Os contemporâneos contratos de namoro e poliamor não são considerados vínculos de
conjugalidade, e não são alcançados pelas normas do direito de família.
 Inexiste o antigo “dever de fidelidade” no direito de família, que tornava o adultério um
crime. O que subsiste é o crime de poligamia (art. 235/CP), que consiste na duplicidade
de casamentos civis.
 Para o direito de família, a poligamia é um conceito mais amplo. Uma segunda
conjugalidade, independente se esta for um casamento ou união estável, já configura
poligamia, e esta segunda conjugalidade sofre nulidade. Ou seja, se um indivíduo é casado
civilmente e forma união estável com outro indivíduo, essa união estável é nula. Essas
outras conjugalidades simultâneas à primeira conjugalidades não são revestidas de
direitos e são consideradas concubinatos.

---------------------------------------------- 17 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

 O princípio da dignidade humana, incidente em todo o ordenamento jurídico do Estado


Democrático de Direito.

Victoria Lourinho | UFPA


7 FAMÍLIAS | 2019.4

 São princípios corolários (Maria Celina Bodin de Moraes) - ou seja, essenciais para a
realização da dignidade humana: a igualdade, a integridade psicofísica, a liberdade e
solidariedade familiar.
 O princípio da função serviente da família, a saber, “o reconhecimento de que a família tem uma
função instrumental a serviço da realização de seus membros”. A família deve ser um
instrumento de concretização dos direitos fundamentais.
 São princípios correlatos o princípio da paternidade e maternidade responsável – os
indivíduos que livremente escolheram gerar filhos devem cumprir os deveres
respectivos, enquanto subsistir o poder familiar –, a solidariedade familiar, a especial
proteção do Estado à família e proteção prioritária de crianças, adolescentes e idosos na
família.
 O princípio da afetividade como essência de todas as formas de família e filiação que as definem
como tal - a plena comunhão de vida.
 São exemplos da concretização desse princípio a igualdade entre filhos
independentemente da espécie de vínculo – seja consanguíneo ou afetivo –, a adoção
como escolha afetiva e com igualdade de direitos com a filiação biológica – especialmente
em relação às sucessões –, a família monoparental e o direito fundamental à convivência
familiar – o direito da criança de conviver com seus pais.
 O princípio da pluralidade das formas de família consiste na ausência no ordenamento jurídico
de um modelo único de família.
 O princípio da igualdade e respeito às diferenças postula a igualdade entre os membros do núcleo
familiar independente de sua origem ou características, observando as particularidades dos
indivíduos em posição de vulnerabilidade.

---------------------------------------------- 19 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

FAMÍLIA CONJUGAL
 Tradicionalmente, a conjugalidade era constituída exclusivamente por meio do casamento. A partir do
novo modelo de família, a conjugalidade existe tanto em famílias formadas pelo casamento civil quanto
por famílias formadas pela união estável.
 Quase todos os efeitos da conjugalidade constituída pelo casamento se aplicam à conjugalidade por união
estável.
 Inclusive, é importante fazer uma interpretação constitucional do Código Civil, no sentido de não
aplicar dispositivos que diferenciam a união estável do casamento pela sua
inconstitucionalidade. Por exemplo, o Código Civil faz referência ao casamento como uma união
de um homem e uma mulher (art. 1.514/CC), sendo que a interpretação constitucional permite o
casamento de casais homoafetivos.

Casamento
FINALIDADE
 São várias as finalidades elencadas para o casamento nas Art. 1.511. O casamento
diferentes doutrinas sobre direito de família. No entanto, são estabelece comunhão plena de
as finalidades essenciais do casamento: vida, com base na igualdade de
 A instituição de uma comunhão plena de vida (art. direitos e deveres dos cônjuges.
1.511/CC).
 A instituição da família matrimonial (art. 226, § 1º/CF).
 Base da sociedade como um instrumento de defesa dos direitos fundamentais.

Victoria Lourinho | UFPA


8 FAMÍLIAS | 2019.4

NATUREZA JURÍDICA
 A natureza jurídica do casamento é abordada de diversas formas.
 A partir de uma visão contratualista, o casamento civil é um contrato, diferente do matrimônio
religioso. A maioria dos doutrinadores adota essa corrente.
 Para a corrente institucionalista, o casamento pode ser considerado um contrato, porém não é
um contrato comum como os demais do direito civil, mas um envolto de normas de ordem
pública, com limitação à autonomia da vontade e especial proteção do Estado. Nenhum contrato
tem um tratamento tão especial quanto a do casamento – colocado como base da sociedade –,
fazendo este destoar dos demais. Portanto, o casamento é uma instituição da sociedade.
 Para a corrente eclética ou mista, o casamento é tanto um contrato quanto uma instituição. Na
sua origem, o casamento é um contrato, mas em seu desenvolvimento é uma instituição.

CARACTERÍSTICAS
 As principais características dos casamentos são a solenidade, diversidade de sexos e dissolubilidade.
 A solenidade, prevista na Constituição (art. 226, § 1/CF), demarca todas as formalidades
fundamentais para o casamento. É a principal característica que distingue o casamento da união
estável.
 A característica da diversidade de sexos (art. 1.514/CC) vem sendo cada vez mais afastada
conforme o entendimento constitucional do direito de família, especialmente por jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal.
 A dissolubilidade é a possibilidade do casamento de ser destituído.

PRINCÍPIOS DA CONSTITUIÇÃO
 Os princípios da constituição do casamento são:
 O livre consentimento é uma condição essencial de validade do casamento. Sem a livre e
espontânea vontade de ambos os cônjuges não há casamento (art. 1.514/CC).
 A monogamia, já que a conjugalidade no ordenamento jurídico brasileiro contemporâneo só pode
existir entre duas pessoas.
 A plena comunhão de vida.

CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA
 As condições de existência do casamento são a diversidade
dos sexos, a solenidade e o livre consentimento. Art. 1.514. O casamento se realiza
 Conforme supracitado, apesar de sua presença no no momento em que o homem e a
Código Civil, a diversidade dos sexos foi afastada por mulher manifestam, perante o
decisão do STF. Logo, a leitura do art. 1.514 deve ser juiz, a sua vontade de estabelecer
modulada. vínculo conjugal, e o juiz os
 A solenidade do casamento deve ser conforme o declara casados.
disposto no Código Civil em seus arts. 1.533 a 1.542.
 O livre consentimento está presente no art. 1.514/CC.

CONDIÇÕES DE VALIDADE

Victoria Lourinho | UFPA


9 FAMÍLIAS | 2019.4

 As condições de validade do casamento são a aptidão dos


Art. 1.561. Embora anulável ou
cônjuges e questões de ordem moral e social. O casamento
mesmo nulo, se contraído de boa-
que não estiver em consonância com essas condições é nulo.
fé por ambos os cônjuges, o
 A aptidão dos cônjuges é física e intelectual, definida
casamento, em relação a estes
pela idade núbil (a partir de 16 anos, conforme o art.
como aos filhos, produz todos os
1.517/CC) e a possibilidade de consentir livremente.
efeitos até o dia da sentença
 Os pretensos cônjuges entre 16 e 18 anos
anulatória.
ainda precisam da autorização dos pais para
casarem.
 Estão alinhados na ordem moral e social os cônjuges
que não se enquadram nas situações de impedimento descritas no Código Civil (art. 1.521/CC).
 Os impedimentos são proibições que geram nulidade se forem infringidos em um
casamento, e essa nulidade é declarada por meio de processo judicial.
 Vale notar que o casamento realizado com impedimento, mesmo nulo, ainda gera efeitos
– inclusive sucessórios – para o cônjuge que o contraiu de boa-fé (art. 1.561).
 O casamento nulo que ainda gera efeitos para o cônjuge de boa-fé é chamado de
casamento putativo. Por exemplo, para aquele que se casa com uma pessoa já casada
sem saber.

CONDIÇÕES DE REGULARIDADE
 As condições de regularidade do casamento são a celebração por uma autoridade competente e a
observância das formalidades legais.
 O casamento que não estiver alinhado com as condições de regularidade pode ser saneado, e não
necessariamente será declarado nulo.

HABILITAÇÃO
 Antes de todo casamento, é necessário um procedimento administrativo de habilitação, realizado por um
oficial de cartório de registro civil, o qual averigua e certifica se os pretendentes atendem aos
pressupostos necessários do casamento.
 O requerimento de habilitação deve ser instruído por uma série de documentos elencados no art.
1.525/CC.
 No processo de habilitação, os futuros cônjuges devem
escolher o regime de bens do casamento, o nome que irão
usar, a data e local sugerido de casamento (art. 1.533/CC), etc. Parágrafo único. Caso haja
 O processo de habilitação é pessoal, devendo ambos os impugnação do oficial, do
futuros cônjuges obrigatoriamente comparecer e requerer, Ministério Público ou de terceiro,
pessoalmente ou por procuração. a habilitação será submetida ao
 O Ministério Público ou terceiros podem realizar juiz.
manifestações contrárias à habilitação, apontando alguma
impossibilidade na realização do casamento.
 Caso seja feita impugnação, essa será analisada por
um juiz (art. 1.526, parágrafo único/CC). Art. 1.532. A eficácia da
 Cumpridas todas as formalidades, o processo de habilitação habilitação será de noventa dias,
a contar da data em que foi
se encerra com a extração do certificado de habilitação pelo
extraído o certificado.
Oficial de Registro (art. 1.530/CC).
 O prazo para realização do casamento a partir da certificação
habilitação é de 90 dias (art. 1.532/CC).
 Caso o casamento não seja realizado nesse prazo, a habilitação perde a eficácia e os
pretendentes devem requerer uma nova habilitação.

Victoria Lourinho | UFPA


10 FAMÍLIAS | 2019.4

CASAMENTO RELIGIOSO COM EFEITOS CIVIS


 Um casamento religioso pode ter efeitos Art. 1.515. O casamento religioso, que atender às
de um casamento civil se posterior a sua exigências da lei para a validade do casamento civil,
realização passar por um processo de equipara-se a este, desde que registrado no registro
registro (art. 1.515/CC). Após o próprio, produzindo efeitos a partir da data de sua
deferimento da habilitação, o casamento celebração.
passa a produzir efeitos retroativamente
a partir da data da cerimônia.
 Após a realização do casamento religioso
e com a certificação, os noivos tem 90 dias para apresentar a certidão em cartório para que o casamento
produza efeitos civis.
 Essa forma de casamento também precisa de habilitação prévia.

---------------------------------------------- 24 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

IMPEDIMENTOS
Art. 1.521. Não podem casar:
 Os impedimentos que proíbem o casamento estão dispostos
no art. 1.521/CC:
I - os ascendentes com os
 Não podem casar os ascendentes com descendentes descendentes, seja o parentesco
(parentes em linha reta), independente da origem da natural ou civil;
filiação.
II - os afins em linha reta;
 Não pode se casar o indivíduo com seus parentes por
afinidade em linha reta1: os pais e filhos de cônjuge III - o adotante com quem foi
(art. 1.595, § 1º/CC). Em outras palavras, não pode se cônjuge do adotado e o adotado
casar um genro ou nora com seu sogro ou sogra, nem com quem o foi do adotante;
o padrasto ou madrasta com enteado ou enteada.
 O parentesco por afinidade é o vínculo que une IV - os irmãos, unilaterais ou
bilaterais, e demais colaterais,
um cônjuge com os parentes do outro.
até o terceiro grau inclusive;
 Essa proibição subsiste mesmo que já tenha
ocorrido um divórcio. Isso ocorre porque um
V - o adotado com o filho do
cônjuge ou companheiro adquire o parentesco adotante;
com os parentes do seu cônjuge (por meio do
casamento ou da união estável), e o VI - as pessoas casadas;
parentesco não termina com o fim da união
matrimonial, por força de lei (art. 1.595, § VII - o cônjuge sobrevivente com
2º/CC). Não existe ex-sogro ou ex-sogra, nem o condenado por homicídio ou
ex-enteado ou ex-enteada. tentativa de homicídio contra o
 Não podem casar o adotante com quem foi cônjuge do seu consorte.
adotado e o adotado com quem foi cônjuge do seu
adotante.
 Esse impedimento é uma decorrência lógica do inciso II: o adotante e o cônjuge do
adotado são parentes por afinidade em linha reta, visto que o adotado é filho do adotante.
O adotado também tem parentesco com quem foi cônjuge do seu adotante.
 Não podem casar os irmãos.
 O impedimento existe na irmandade unilateral ou bilateral: se os irmãos forem irmãos
“por parte de pai ou mãe” são irmãos unilaterais, e também são impedidos de casar.

1
A termo de esclarecimento, os parentes por afinidade em linha colateral são os irmãos do cônjuge.

Victoria Lourinho | UFPA


11 FAMÍLIAS | 2019.4

 Por decorrência lógica desse impedimento, também não podem casar o adotado com
filhos do adotante, pois são irmãos.
 Não podem casar parentes colaterais até terceiro grau.
 Na linha reta, os graus de parentesco se contam de geração em geração, ou seja, uma
geração equivale a um grau. Não existe limite de parentesco em linha reta.
 Na linha colateral ou transversal, o parentesco se conta a partir do ascendente comum.
O parentesco colateral civil vai até o quarto grau.
 Não podem casar as pessoas casadas.
 Esse impedimento é uma expressão do princípio da monogamia.
 Não podem casar o ...
indivíduo com um

condenado por
homicídio ou tentativa PARENTES POR AFINIDADE

de homicídio contra o
cônjuge desse
indivíduo. 2º

 Os impedimentos desse rol 1º 3º


podem ser levantados por
qualquer pessoa, desde o 2º 4º
processo de habilitação até a
cerimônia do casamento em PARENTES COLATERAIS

si.
 No entanto, para levantar um 2º
impedimento após a EM LINHA RETA
realização do casamento, 3º
apenas se realiza mediante
ação específica. 4º
...

Art. 1.523. Não devem casar:

I - o viúvo ou a viúva que tiver filho


do cônjuge falecido, enquanto
não fizer inventário dos bens do
casal e der partilha aos
herdeiros;

II - a viúva, ou a mulher cujo


casamento se desfez por ser nulo
ou ter sido anulado, até dez
meses depois do começo da
viuvez, ou da dissolução da
sociedade conjugal;

III - o divorciado, enquanto não


houver sido homologada ou
decidida a partilha dos bens do
casal;

Victoria Lourinho | UFPA


12 FAMÍLIAS | 2019.4

CAUSAS SUSPENSIVAS
 Diferente dos impedimentos, as causas suspensivas apenas IV - o tutor ou o curador e os seus
descendentes, ascendentes,
desencorajam o casamento entre determinadas pessoas.
irmãos, cunhados ou sobrinhos,
 Caso ocorra um casamento entre cônjuges que são
com a pessoa tutelada ou
alcançados pelas causas suspensivas, o único efeito é
curatelada, enquanto não cessar
a obrigatoriedade do regime de separação de bens a tutela ou curatela, e não
(art. 1.641, I/CC). estiverem saldadas as
 As causas suspensivas existem para proteção respectivas contas.
patrimonial.
 Após o saneamento das questões descritas nas
causas suspensivas, os cônjuges podem alterar o
regime de bens do casamento.
 As causas suspensivas estão no art. 1.523/CC:
 Não devem casar o viúvo ou viúva que tiver filho do cônjuge falecido enquanto não houver feito a
partilha dos bens aos herdeiros.
 Não deve casar a viúva até 10 meses após o começo da viuvez. O mesmo inciso também prescreve
que não deve casar a mulher com casamento anulado pelo mesmo período.
 Essa norma, transplantada do antigo Código Civil, tinha a razão de ser na legislação antiga
por conta das possíveis incertezas acerca da paternidade da prole. No CC/16, era
presumida a paternidade da prole que nascia até 10 meses após a morte do pai, então a
norma fazia sentido para a proteção do patrimônio.
 Não devem casar pessoas divorciadas enquanto não
for homologada a partilha de bens do casal.
 Não deve casar o tutor e curador com a pessoa Art. 1.641. É obrigatório o regime
tutelada ou curatelada enquanto não cessar a tutela e da separação de bens no
casamento:
curatela e não estiverem saldadas as contas.
 Quando o tutelado ou curatelado atinge a
I - das pessoas que o contraírem
maioridade, o tutor ou curador é obrigado a
com inobservância das causas
fazer uma prestação de contas judicial da suspensivas da celebração do
administração dos bens, e é a isso que se casamento;
refere a causa suspensiva.
 A causa suspensiva se estende aos
descendentes, ascendentes, irmãos,
cunhados ou sobrinhos do tutor ou curador.

---------------------------------------------- 26 de setembro de 2019 ---------------------------------------------

Art. 1.533. Celebrar-se-á o


casamento, no dia, hora e lugar
previamente designados pela
autoridade que houver de
presidir o ato, mediante petição
dos contraentes, que se mostrem
habilitados com a certidão do art.
1.531.

Victoria Lourinho | UFPA


13 FAMÍLIAS | 2019.4

CELEBRAÇÃO DO CASAMENTO
 Após a devida habilitação prévia, os noivos estão aptos para Art. 1.534. A solenidade realizar-
se-á na sede do cartório, com
celebrar o casamento, na forma do art. 1.533/CC e seguintes.
toda publicidade, a portas
abertas, presentes pelo menos
 A cerimônia de casamento deve ser pública, em lugar
duas testemunhas, parentes ou
conhecido. não dos contraentes, ou,
 Mesmo se realizada em ambiente particular, deverá querendo as partes e consentindo
ser de portas abertas, ou seja, de livre acesso de a autoridade celebrante, noutro
qualquer pessoa (art. 1.534, § 1º/CC). edifício público ou particular.

 São necessárias no mínimo duas testemunhas se o § 1º Quando o casamento for em


casamento for realizada em prédio público (art. 1.534/CC). edifício particular, ficará este de
 São necessárias quatro se o casamento for realizado portas abertas durante o ato.
em prédio particular, ou se os nubentes não puderem
escrever (art. 1.534, § 1º e 2º/CC). § 2º Serão quatro as testemunhas
na hipótese do parágrafo anterior
e se algum dos contraentes não
 O celebrante do casamento deverá obrigatoriamente
souber ou não puder escrever.
perguntar se os noivos estão casando de livre e espontânea
vontade, e em caso positivo, declarará o casamento recitando
a fórmula dos termos do art. 1.535/CC. Art. 1.535. Presentes os
 A doutrina majoritariamente afirma que o casamento contraentes, em pessoa ou por
está consumado quando os noivos declaram a livre e procurador especial, juntamente
espontânea vontade de casar. com as testemunhas e o oficial do
 Se um dos nubentes se recusar a declarar o registro, o presidente do ato,
consentimento, ou se manifestarem dúvida ou ouvida aos nubentes a afirmação
arrependimento, ou se a declaração de vontade não de que pretendem casar por livre
for livre, a celebração será imediatamente suspensa e espontânea vontade, declarará
(art. 1.538/CC). efetuado o casamento, nestes
 Não será admitido que este noivo que deu causa à termos: “De acordo com a
vontade que ambos acabais de
suspensão se retrate no mesmo dia (art. 1.538,
afirmar perante mim, de vos
parágrafo único/CC).
receberdes por marido e mulher,
eu, em nome da lei, vos declaro
 Após a solenidade, o casamento será inscrito no livro de casados.”
registro, assinado pelos cônjuges, testemunhas, celebrante e
oficial de registro (art. 1.536/CC).

FORMAS ESPECIAIS DE CELEBRAÇÃO DO CASAMENTO


 Existe situações específicas em que podem ser flexibilizadas algumas exigências de formalidades para
o casamento, as chamadas formas especiais de celebração do casamento.

 No casamento em caso de moléstia grave de um dos nubentes, o celebrante deverá mover a cerimônia
em qualquer lugar que se encontre o impedido, e se requer a presença mínima de apenas duas pessoas
(art. 1.539/CC).
 Se houver falta ou impedimento prático para a autoridade competente realizar a cerimônia,
poderá ser designado servidor ad hoc (art. 1.539, § 1º/CC).
 Se não for possível preencher o livro de registro civil logo após a cerimônia, poderá ser lavrado
um termo avulso que deverá ser transcrito no livro no prazo de 5 dias (art. 1.539, § 2º/CC).

Victoria Lourinho | UFPA


14 FAMÍLIAS | 2019.4

 No casamento nuncupativo ou casamento em caso de iminente risco de vida de um dos contraentes, caso
faltar autoridade competente ou seu substituto designado para realizar a cerimônia, ela pode ser
realizada na presença de seis testemunhas (art. 1.540/CC).
 Essas testemunhas não podem ser parentes em linha reta ou colateral de nenhum dos noivos.
 As testemunhas deverão comparecer em juízo no prazo de 10 dias para peticionarem o registro
oficial do casamento, informando que presenciaram a declaração de livre e espontânea vontade
dos contraentes em se casarem (art. 1.541/CC).
 Após o pedido, serão empreendidas diligências para realizar a habilitação e verificar a ocorrência
do casamento (art. 1.541, § 1º/CC).
 Caso o casamento tenha ocorrido de forma regular e o nubente em risco de vida tiver morrido, o
juiz declara o casamento por feito. Caso este não faleça, deverá comparecer em juízo para
ratificar o casamento (art. 1.541, § 5º/CC).

 No casamento por procuração, é possível que o casamento seja realizado sem que um nubente esteja
presente durante a cerimônia (art. 1.542/CC). Poderá ser realizado por instrumento público com poderes
especiais.
 A revogação da procuração só poderá ser feita também por instrumento público (art. 1.542, §
4º/CC). A eficácia da procuração é de 90 dias (art. 1.542, § 3º/CC).
 Caso a procuração seja revogada sem que isso seja de conhecimento do mandatário (o portador
da procuração que agirá em nome do mandante nubente) e do outro nubente e ainda assim o
casamento for realizado, o mandante responderá por perdas e danos (art. 1.542, § 1º/CC).
 O casamento por procuração é anulável pelos nubentes. Caso os nubentes não peçam a
revogação do casamento por procuração realizado com o instrumento revogado, ele é
convalidado.

 No casamento consular, os brasileiros que estiverem no exterior e quiserem casar podem comparecer
perante autoridade consular diplomática brasileira (art. 7º, § 1º/LINDB).

----------------------------------------------- 08 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

Efeitos do Casamento
EFEITOS SOCIAIS
EFEITOS PESSOAIS
----------------------------------------------- 10 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

EFEITOS PATRIMONIAIS
 Os efeitos patrimoniais do casamento se referem às regras do regime de bens escolhido pelos cônjuges.
 Os regimes de bens do casamento são regidos por três princípios básicos:
 A variedade, pela multiplicidade de regime de bens inscritos no Código Civil.
 A liberdade dos cônjuges de fazer o pacto antenupcial e elencarem o regime de bens aplicável ao
próprio casamento.
 O pacto antenupcial é feito por meio de escritura pública, e é nula a escolha de regime de
bens por meio de outro instrumento (art. 1.653/CC), ou de regime de bens não elencado
em lei (art. 1.655/CC).
 Atenção para a exceção de casamentos realizados sem a observância das causas
suspensivas, que sempre serão de regime de separação de bens (acima), com a finalidade
de proteção patrimonial.

Victoria Lourinho | UFPA


15 FAMÍLIAS | 2019.4

 A mutabilidade, que consiste na possibilidade dos cônjuges alterarem o regime de bens do na


constância do casamento.
 A mudança do regime de bens pode ocorrer desde que haja mútuo consenso e a
instauração de processo judicial com pedido motivado da mudança (art. 1.639, § 2º/CC).
 A mudança de regime de bens não pode resultar em prejuízo nas relações comerciais e
empresariais firmadas pelos cônjuges com terceiros, ou seja, fraude contra credores.

 A comunhão parcial de bens é o regime de bens mais comum


nos casamentos.
 Também é chamado de regime legal ou regime Art. 1.659. Excluem-se da
supletivo por ser o regime aplicável no caso de comunhão:
silêncio dos cônjuges no regime preferido no
processo de habilitação (art. 1.640/CC). I - os bens que cada cônjuge
 A comunhão parcial de bens também se aplica à união possuir ao casar, e os que lhe
estável. sobrevierem, na constância do
casamento, por doação ou
 O regime de comunhão parcial de bens gera três
sucessão, e os sub-rogados em
massas patrimoniais: o patrimônio particular anterior
seu lugar;
ao casamento de ambos os cônjuges, que continua
sendo patrimônio exclusivo de cada um (art. II - os bens adquiridos com
1.568/CC), e o patrimônio comum dos cônjuges valores exclusivamente
constituído pelos bens adquiridos na constância do pertencentes a um dos cônjuges
casamento, pertencentes a ambos os cônjuges (art. em sub-rogação dos bens
1.660/CC). particulares;
 Não são parte do patrimônio comum do casal
os bens que cada cônjuge possuíam ao casar, III - as obrigações anteriores ao
nem os bens adquiridos por sub-rogação casamento;
destes bens particulares. No entanto, as
IV - as obrigações provenientes
benfeitorias feitas em bens particulares são
de atos ilícitos, salvo reversão em
patrimônio comum (ex.: casa construída em
proveito do casal;
loteamento de patrimônio particular de um
cônjuge). V - os bens de uso pessoal, os
 Não são parte do patrimônio comum os bens livros e instrumentos de
que forem adquiridos por cada um durante o profissão;
casamento de forma gratuita, por doação ou
sucessão, nem os bens sub-rogados no lugar VI - os proventos do trabalho
desses bens gratuitos. Só são do patrimônio pessoal de cada cônjuge;
comum os bens adquiridos por doação ou VII - as pensões, meios-soldos,
sucessão se forem feitas em nome de ambos montepios e outras rendas
os cônjuges. semelhantes.
 Não são parte do patrimônio comum os frutos
decorrente de bens próprios (ex.: aluguel de
bem particular). No entanto, se esses frutos forem usados para adquirir outros bens,
esses novos bens serão parte do patrimônio comum (ex.: compras feitas com renda de
aluguel de residência particular de um dos cônjuges).

Art. 1.660. Entram na comunhão:

Victoria Lourinho | UFPA


16 FAMÍLIAS | 2019.4

 Não entram no patrimônio comum as


obrigações anteriores ao casamento (ex.: I - os bens adquiridos na
dívida adquirida antes do casamento por um constância do casamento por
dos cônjuges é dívida própria). Ou seja, título oneroso, ainda que só em
patrimônio comum do casal não pode ser nome de um dos cônjuges;
executado para saldar débito particular.
 Não são parte do patrimônio comum do casal II - os bens adquiridos por fato
eventual, com ou sem o concurso
as obrigações provenientes de atos ilícitos
de trabalho ou despesa anterior;
(ex.: condenação a reparação de danos
materiais por roubo). Da mesma forma, o III - os bens adquiridos por
patrimônio comum do casal não pode ser doação, herança ou legado, em
atingido por essas obrigações, a não ser no favor de ambos os cônjuges;
caso de reversão.
 São parte do patrimônio particular os bens de IV - as benfeitorias em bens
uso pessoal, livros e instrumentos de particulares de cada cônjuge;
profissão de cada um dos cônjuges.
 São parte do patrimônio particular os V - os frutos dos bens comuns, ou
proventos de trabalho (salário ou dos particulares de cada cônjuge,
remuneração) pessoal de cada cônjuge. Vale percebidos na constância do
notar que os frutos desses proventos casamento, ou pendentes ao
tempo de cessar a comunhão.
recebidos na constância do casamento são
parte do patrimônio comum (art. 1.660, V/CC).
 Os bens adquiridos de forma onerosa na
constância do casamento são parte do patrimônio comum.
 Os bens adquiridos por fato eventual (ex.: sorteio, concurso) sem relação com trabalho
são do patrimônio comum.
 Os bens móveis que não forem provados que
foram adquiridos antes da constância do Art. 1.662. No regime da
casamento são considerados patrimônio comunhão parcial, presumem-se
comum (art. 1.662/CC). adquiridos na constância do
 A administração dos bens particulares casamento os bens móveis,
compete a cada um (art. 1.665/CC), e a quando não se provar que o foram
administração dos bens comuns compete a em data anterior.
ambos os cônjuges (art. 1.663/CC).
 Todos os bens móveis no regime da comunhão
parcial, quando forem vendidos ou alienados em ônus real (ex.: hipotecar), necessitam
da autorização de ambos os cônjuges (art. 1.647/CC).
 Um cônjuge só pode ser fiador ou avalista com a autorização do outro cônjuge (art.
1.647/CC).

Victoria Lourinho | UFPA


17 FAMÍLIAS | 2019.4

 No regime de comunhão universal de bens há a comunicação Parágrafo único. Poderão os


total do patrimônio dos cônjuges: o patrimônio particular de nubentes, no processo de
cada um é patrimônio comum, salvo disposições excepcionais habilitação, optar por qualquer
(art. 1.668/CC). dos regimes que este código
 Só pode ser escolhido por meio de pacto antenupcial regula. Quanto à forma, reduzir-
(art. 1.640, parágrafo único/CC). se-á a termo a opção pela
 Não é parte do patrimônio comum o bem doado ou comunhão parcial, fazendo-se o
herdado com cláusula de incomunicabilidade, ou seja, pacto antenupcial por escritura
a expressa declaração do doador ou testador de que pública, nas demais escolhas.
aquele patrimônio não se comunique. Igualmente aos
bens sub-rogados no lugar destes.
 Não é parte do patrimônio comum o bem herdado com
fideicomisso (instituto do direito testamentário pelo
qual o bem é herdado por duas pessoas Art. 1.668. São excluídos da
sucessivamente). O bem só passa a ser de patrimônio comunhão:
comum quando passar a ser de propriedade do
herdeiro fideicomissário (o que recebe o bem por I - os bens doados ou herdados
último). com a cláusula de
 Não são parte do patrimônio comum as dívidas incomunicabilidade e os sub-
particulares anteriores ao casamento, exceto se as rogados em seu lugar;
dívidas são decorrentes de bens que são utilizados
comumente pelo casal (aprestos e revertidas em II - os bens gravados de
proveito comum). fideicomisso e o direito do
 Não são parte do patrimônio comum as doações feitas herdeiro fideicomissário, antes
por um dos cônjuges ao outro com cláusula de de realizada a condição
incomunicabilidade antes do casamento. suspensiva;

 No regime de separação de bens, ambos permanecem com III - as dívidas anteriores ao


patrimônio particular e nenhum bem se comunica (art. casamento, salvo se provierem
1.687/CC). de despesas com seus aprestos,
 Só pode ser escolhido por meio de pacto antenupcial ou reverterem em proveito
(art. 1.640, parágrafo único/CC). comum;
 Esse regime é obrigatório no caso do casamento
realizado com a inobservância das causas IV - as doações antenupciais
suspensivas, ou quando um cônjuge tem mais de 70, feitas por um dos cônjuges ao
ou quando um dos cônjuges depende de autorização outro com a cláusula de
para se casarem (ex.: menores de idade) (art. incomunicabilidade;
1.641/CC).
 Os cônjuges podem livremente alienar ou gravar de V - Os bens referidos nos incisos
ônus real seus bens próprios, prescindindo da V a VII do art. 1.659.
autorização do outro (art. 1.687/CC).
 No entanto, mesmo no regime de separação de bens,
as despesas compartilhadas do casal são comuns,
apesar de não haver patrimônio comum (art. 1.688/CC).

Victoria Lourinho | UFPA


18 FAMÍLIAS | 2019.4

 O regime de participação final nos aquestos é híbrido. Art. 1.672. No regime de


Durante o casamento, cada cônjuge tem a liberdade de participação final nos aqüestos,
administrar seu patrimônio particular, numa verdadeira cada cônjuge possui patrimônio
separação de bens, mas no momento do fim da sociedade próprio, consoante disposto no
conjugal, tudo o que foi acrescido ao patrimônio de cada um artigo seguinte, e lhe cabe, à
durante o casamento é contabilizado e dividido (art. 1.672/CC). época da dissolução da sociedade
 Só pode ser escolhido por meio de pacto antenupcial conjugal, direito à metade dos
(art. 1.640, parágrafo único/CC). bens adquiridos pelo casal, a
 Aquestos são bens adquiridos onerosamente após o título oneroso, na constância do
casamento. casamento.
 Os aquestos são calculados na data em que cessa a
convivência (art. 1.683/CC).
 Caso o casamento termine pela morte de um dos
cônjuges, a contabilização e meação procede da mesma forma.
 Quando não for possível partilhar em natureza algum bem, eles deverão ser compensados em
dinheiro (art. 1.684/CC).

----------------------------------------------- 15 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

Dissolução da Sociedade Art. 1.571. A sociedade conjugal


termina:
Conjugal
I - pela morte de um dos
 A sociedade conjugal é a relação de direitos e deveres entre
cônjuges;
os cônjuges.
 A sociedade conjugal pode ser dissolvida com a morte, por
II - pela nulidade ou anulação do
nulidade, por anulação e pelo divórcio.
casamento;
 Apesar de presente no art. 1.571/CC, a separação
judicial já não é mais um meio válido de dissolução da
III - pela separação judicial;
sociedade conjugal por força da Emenda
Constitucional 66/2010.
IV - pelo divórcio.
 A separação judicial dissolvia apenas a sociedade
conjugal, e era um requisito prévio para a dissolução
§ 1º O casamento válido só se
do casamento pelo divórcio. Ou seja, a pessoa que
dissolve pela morte de um dos
movia apenas a separação judicial não poderia casar
cônjuges ou pelo divórcio,
novamente por ainda ter status legal de casada.
aplicando-se a presunção
 A morte e o divórcio, além de dissolverem a sociedade
estabelecida neste Código quanto
conjugal, também dissolvem o vínculo matrimonial.
ao ausente.
 A nulidade ou a anulabilidade não são formas de
extinção do vínculo matrimonial, porque a rigor não
foi constituído o vínculo matrimonial de forma
regular.

DISSOLUÇÃO DISSOLUÇÃO
VÍNCULO SOCIEDADE
MATRIMONIAL CONJUGAL

MORTE ✔ ✔

NULIDADE ✘ ✔

Victoria Lourinho | UFPA


19 FAMÍLIAS | 2019.4

DISSOLUÇÃO POR NULIDADE ANULAÇÃO ✘ ✔


 A sociedade conjugal é dissolvida por nulidade caso o
casamento ocorra com a infringência de impedimento (art. DIVÓRCIO ✔ ✔
1.548, II/CC). SEPARAÇÃO
✘ ✔
 Antes da publicação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, JUDICIAL

o casamento de cônjuge incapaz era causa de nulidade.


Atualmente, esse casamento é pode ser anulável se houver a hipótese do art. 1.550, IV/CC.
 A nulidade pode ser arguida por qualquer pessoa por meio de ação própria.

DISSOLUÇÃO POR ANULABILIDADE Art. 1.550. É anulável o


 A ação de anulação tem prazo para ser interposta, e só pode casamento:
ser realizada por determinados legitimados ativos.
 A sociedade conjugal é dissolvida por anulabilidade caso (art. I - de quem não completou a idade
1.550/CC): mínima para casar;
 O casamento seja de cônjuge que não completou a
idade mínima para casar. II - do menor em idade núbil,
 A ação de anulação de casamento de menores quando não autorizado por seu
fora da idade núbil pode ser iniciada pelo representante legal;
menor, pelos representantes legais do menor
ou por seus ascendentes (art. 1.552/CC). III - por vício da vontade, nos
 O prazo para peticionar é de 180 dias, contados termos dos arts. 1.556 a 1.558;
para o menor a partir do momento que esse
atinge os 16 anos, e contados a partir da data IV - do incapaz de consentir ou
do casamento para os outros legitimados (art. manifestar, de modo inequívoco,
1.560, § 1º/CC). o consentimento;
 Nessas hipóteses, caso não haja pedido de
anulação do casamento, o menor quando V - realizado pelo mandatário,
atingir a idade núbil pode requerer a sem que ele ou o outro
convalidação do casamento (art. 1.553/CC). contraente soubesse da
revogação do mandato, e não
 O casamento de cônjuge menor em idade núbil ocorre sobrevindo coabitação entre os
mesmo quando não existe a autorização do seu cônjuges;
representante legal.
 Os legitimados para propor a ação nessa VI - por incompetência da
hipótese são o próprio cônjuge menor (quando autoridade celebrante.
se tornar capaz), seus representantes legais
ou seus herdeiros (art. 1.555/CC).
 O prazo para propor ação nesse caso é de 180 dias, contados para o cônjuge menor a
partir do momento que adquire capacidade civil (art. 1.555, § 1º/CC) e para os seus
representantes legais, contados a partir do casamento. Para os herdeiros, o prazo
começa a contar a partir da morte do cônjuge menor (art. 1.555, § 2º/CC).

 O casamento ocorra com vício de vontade por erro.


 O casamento com vício de vontade por erro ocorre quando ao consentir, um cônjuge
desconhece questões sobre a identidade, honra ou fama do outro cônjuge; que esse tenha
cometido um crime antes do casamento; de defeito físico irremediável; ou que esse tenha
moléstia grave transmissível por contágio ou herança capaz de pôr em risco a saúde do
cônjuge em erro ou da prole.

Victoria Lourinho | UFPA


20 FAMÍLIAS | 2019.4

 Nesses casos, quando descoberto um dos fatos, torna insuportável a vida em comum (art.
1.557/CC), é possível a anulação do casamento.
 Note que esse fato só acarreta em nulidade se o cônjuge em erro conhece do fato após o
casamento.
 O prazo para propositura de ação de anulação nesses casos é de três anos (art. 1.560,
III/CC), sendo o único legitimado para propor o cônjuge que incorreu em erro (art.
1.559/CC).

 O casamento contraído por coação.


 É anulável o casamento caso um dos cônjuges só consinta por conta de ameaça (“fundado
temor de mal considerável ou iminente para a vida, saúde e honra”) contra si ou seus
familiares (art. 1.558/CC).
 O prazo para propor ação de anulação de casamento por coação é de 4 anos (art. 1.560,
IV/CC).

 O casamento de incapaz de consentir ou de manifestar o consentimento inequivocamente.


 É possível mover a anulação de pessoas com deficiência com incapacidade relativa.
 O prazo para intentar a anulação do casamento é de 180 dias contados a partir da
cerimônia (art. 1.560, I/CC).

 No caso de casamento por procuração, se o mandatário realizar o casamento com a procuração


revogada sem seu conhecimento ou sem o conhecimento do outro cônjuge.
 Nesse caso, também é requisito para a anulabilidade que os cônjuges não coabitem mais.
 O prazo para mover o pedido de anulação do casamento por procuração revogada é de
180 dias contados a partir da data que o mandante (o cônjuge que passou a procuração e
depois revogou) tiver conhecimento da celebração (art. 1.560, § 2º/CC). A legitimidade
para propor ação é desse cônjuge.
 Se o cônjuge que passou a procuração revogada não exercer sua faculdade de pedir a
anulação no prazo dado e passar a conviver com o cônjuge, o casamento é convalidado.

 O casamento realizado por incompetência (em sentido jurídico) da autoridade celebrante.


 Essa causa de anulação não se confunde com casamento que não é realizado por juiz:
este é um casamento inexistente, e não inválido.
CAUSA DE ANULAÇÃO PRAZO
 Os vícios passíveis de anulação 180 dias
são sanáveis, com a CÔNJUGE FORA DA IDADE NÚBIL para o menor – a partir de completar 16 a
possibilidade de serem para os demais – a partir do casamento
180 dias
convalidados.
para o menor – quando tiver capacidade
 A anulação tem efeito retroativo CÔNJUGE MENOR SEM AUTORIZAÇÃO
para rep. legais - a partir do casamento
até a data do casamento. para herdeiros – a partir da morte
 Na prática, a anulação de CASAMENTO CONTRAÍDO POR ERRO 3 anos

casamentos cada vez mais cai CASAMENTO CONTRAÍDO POR COAÇÃO 4 anos
em desuso pela possibilidade de CASAMENTO SEM CONSENTIMENTO 180 dias
mover um processo mais 180 dias
CASAMENTO COM PROCURAÇÃO
simplificado do que recorrer a a partir do conhecimento do mandante
REVOGADA
sobre a celebração
anulabilidade – o divórcio. CASAMENTO COM INCOMPETÊNCIA DA
2 anos
AUTORIDADE CELEBRANTE

----------------------------------------------- 17 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

SEPARAÇÃO JUDICIAL

Victoria Lourinho | UFPA


21 FAMÍLIAS | 2019.4

 O cônjuge que pretendia pedir a separação judicial litigiosa Art. 1.573. Podem caracterizar a
necessitava provar o outro cônjuge como culpado de violar os impossibilidade da comunhão de
deveres do casamento (rol exemplificativo no art. 1.573/CC) vida a ocorrência de algum dos
tornando insuportável a vida em comum, importando em seguintes motivos:
grande desgaste ao núcleo familiar, estimulando a
litigiosidade na contramão da conciliação (art. 1.572/CC). I - adultério;
 A outra possibilidade de separação litigiosa era no
caso de sobrevir a um cônjuge doença mental grave II - tentativa de morte;
que torne impossível a vida em comum (art. 1.572, §
2º/CC). III - sevícia ou injúria grave;
 O cônjuge considerado “culpado” poderia perder
direito de usar o sobrenome do outro (art. 1.578/CC), IV - abandono voluntário do lar
dispositivo extremamente problemático pelo direito conjugal, durante um ano
ao nome ser direito personalíssimo, e uma punição contínuo;
machista, visto que na prática a esposa
tradicionalmente adota o nome do marido. militou V - condenação por crime
 O cônjuge considerado “culpado” pela separação infamante;
também teria a pensão alimentícia reduzida (art.
1.694/CC). VI - conduta desonrosa.
 Já na ação de divórcio, não há imputação de culpa a
um cônjuge por ter impossibilitado a vida em comum, Parágrafo único. O juiz poderá
portanto não há esses tipos de punições. O divórcio considerar outros fatos que
apenas regulamenta as questões patrimoniais e tornem evidente a
parentais após a separação. impossibilidade da vida em
comum.
 No caso de separação judicial consensual (por iniciativa
mútua), ela só poderia ser pedida se o casamento tivesse
mais de um ano (art. 1.572, § 1º/CC).

 Não confundir separação judicial ou divórcio com:


 Separação de fato, que consiste na cessação da convivência e por consequência, da relação
conjugal. Essa separação de fato gera diversas consequências jurídicas, como o fim do direito
sucessório entre um cônjuge e outro falecido se comprovada a separação de fato, e a extinção do
regime de bens.
 Separação de corpos, medida cautelar que decorre de uma decisão judicial.
 Afastamento compulsório do lar, medida de proteção em casos de violência familiar.

Victoria Lourinho | UFPA


22 FAMÍLIAS | 2019.4

 Após um ano da determinação (sentença transitada em


julgado) de separação judicial, os cônjuges então poderiam Art. 1.580. Decorrido um ano do
mover a ação de divórcio (art. 1.580/CC). Como a separação trânsito em julgado da sentença
judicial foi extinta pela EC 66/2010, os cônjuges atualmente que houver decretado a
podem requerer o divórcio sem esse procedimento. separação judicial, ou da decisão
 No caso de separação de fato, os cônjuges poderiam concessiva da medida cautelar de
se divorciar após dois anos de separação de fato separação de corpos, qualquer
comprovada (art. 1.580, § 2º/CC). das partes poderá requerer sua
conversão em divórcio.
 Conforme mencionado, a separação judicial coloca fim à
sociedade conjugal, e não ao vínculo matrimonial.
 Consequentemente, colocava fim aos deveres e § 2º O divórcio poderá ser
direitos matrimoniais, exceto o dever de prestar requerido, por um ou por ambos
alimento no caso de um dos cônjuges não ter meios os cônjuges, no caso de
para garantir sua subsistência. comprovada separação de fato
 A separação judicial também extinguia o regime de por mais de dois anos.
bens – ou seja, a partir do momento da separação, o
que cada cônjuge adquirir é patrimônio particular -,
direitos sucessórios e direito ao nome.
 A separação judicial poderia acarretar em separação de bens, ou seja, era possível haver a
divisão dos bens adquiridos na constância do
casamento ou estabelecer o condomínio dos bens em
comunhão. Art. 1.577. Seja qual for a causa da
 Mesmo após a separação judicial, era possível o separação judicial e o modo como
reestabelecimento da sociedade conjugal (art. 1.577/CC). esta se faça, é lícito aos cônjuges
 Não há prazo prescricional para mover o restabelecer, a todo tempo, a
reestabelecimento da sociedade conjugal. sociedade conjugal, por ato
regular em juízo.
DIVÓRCIO
 Antes da EC 66/2002, era possível mover o divórcio indireto
ou divórcio por convenção: depois de um ano da sentença de separação judicial, no mesmo processo
referido, um dos cônjuges pode requerer a conversão de separação em divórcio, sem necessitar abrir
outro processo. Já o divórcio direto se aplicava nos casos em que há separação de fato prévia ao pedido:
na petição, o cônjuge que pretendia o divórcio deveria comprovar a existência da separação de fato de no
mínimo dois anos, conforme supracitado.

 Em 2007 passou a existir o divórcio sem processo judicial, o chamado divórcio extrajudicial ou divórcio
por escritura pública.
 Neste divórcio, o casal, de forma consensual em comum acordo e sem litígio, acompanhado de
advogados pode mover o divórcio em um Cartório de Notas. Não é necessária homologação
judicial para dar validade ao divórcio extrajudicial.
 O divórcio extrajudicial não é aplicável caso o casal tenha filhos menores de idade. Havendo
estes, é obrigatório o divórcio judicial.
 O divórcio extrajudicial só se aplica se houver um consenso entre o casal sobre a separação e os
termos das consequências patrimoniais. O divórcio litigioso ou por iniciativa unilateral só pode
ser processado judicialmente.

 O divórcio extingue a sociedade conjugal e o vínculo matrimonial.


 Os cônjuges divorciados podem, portanto, constituir outras conjugalidades livremente, já que há
dissolução do vínculo matrimonial.

Victoria Lourinho | UFPA


23 FAMÍLIAS | 2019.4

 O divórcio extingue o regime de bens, importa em separação de corpos, extingue direitos


sucessórios.
 É facultado aos cônjuges a mudança de nome para o retorno ao nome de solteiro em caso de
divórcio.
 A separação de bens é facultada, podendo os cônjuges realizar a divisão ou optarem por serem
condôminos dos bens em comum.

----------------------------------------------- 22 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

União Estável
HISTÓRICO
 Na vigência da Constituição e Código Civil anteriores, antes da existência do instituto da união estável, as
uniões conjugais informais – ou seja, sem a celebração de um casamento – eram classificadas como
concubinato.
 Surgiu com o tempo a consciência da necessidade de amparar os direitos dessas pessoas que ao
constituir a conjugalidade informal, angariavam patrimônio e geravam filhos à margem da legalidade.
 Por construção doutrinária e jurisprudencial, passou-se a aplicar o direito das obrigações nessas
uniões, as considerando como sociedades de fato.
 As separações desses concubinatos eram realizadas mediante dissolução de sociedade de fato,
por exemplo.

 Com a Constituição de 1988, estabeleceu-se o conceito de


união estável (art. 226, § 3º/CF). A partir disso, essas uniões § 3º Para efeito da proteção do
não devem mais serem tratadas como entidades societárias Estado, é reconhecida a união
e sim como entidades familiares, corrigindo o tratamento estável entre o homem e a
inadequado dessas uniões com o objetivo de formar uma mulher como entidade familiar,
família que foram classificadas como sociedades de fato. devendo a lei facilitar sua
 Após o advento da união estável, surgem leis conversão em casamento.
infraconstitucionais que regulam essa conjugalidade.
 A Lei 8.971/94 determina que os cônjuges da união
estável possuem direitos sucessórios e direito a alimentos iguais aos cônjuges casados.
 Quando editada, para uma conjugalidade informal ser considerada união estável era
requisito que tivesse no mínimo 5 anos de existência, ou se com menos de 5 anos, os
cônjuges tivessem filhos. Em 1996 foi alterada de forma a serem retirados os requisitos,
estabelecendo como união estável o mesmo que posteriormente estaria inscrito no
Código Civil (art. 1.723/CC).

CONCEITO
 Os elementos caracterizadores da união estável são:
 A conjugalidade, que consiste na vida em comum e Art. 1.723. É reconhecida como
mútua assistência entre duas pessoas, entidade familiar a união estável
independentemente da existência de coabitação. entre o homem e a mulher,
 A afetividade, conforme o atual perfil constitucional configurada na convivência
de família, que consiste na união plena de vida. pública, contínua e duradoura e
 A ostensividade, que consiste na publicidade da união estabelecida com o objetivo de
estável, em que o casal se apresenta na sociedade constituição de família.

Victoria Lourinho | UFPA


24 FAMÍLIAS | 2019.4

como cônjuges. Uma união estabelecida em segredo não pode ser considerada união estável.
 A continuidade e durabilidade, ou seja, a união estável tem o objetivo de ser permanente, não
tendo prazo definido, assim como o casamento.
 A intenção de constituir família.
 A monogamia.
 Vale notar que um indivíduo só pode manter
uma conjugalidade. Caso mantenha mais de Art. 1.727. As relações não
uma, considera-se união conjugal apenas a eventuais entre o homem e a
primeira, e as demais são consideradas mulher, impedidos de casar,
concubinatos (art. 1.727/CC), então se aplicam constituem concubinato.
regras de direito obrigacional. No
concubinato, não existe direito sucessório,
regime de bens nem direito a alimentos, exceto em casos que se enquadram em
casamento putativo.
 O art. 1.723/CC foi objeto de ADPF no STF, o qual considerou inconstitucional a interpretação do artigo
que impeça a aplicação das normas de união estável em conjugalidades homoafetivas, devendo elas
serem aplicadas por analogia nestas uniões. Ou seja, não há a rigor lei que regule a união estável
homoafetivas, sendo estas reguladas pelas normas da união estável geral por força jurisprudencial.

EFEITOS
 Todos os direitos e deveres pessoais do casamento também se aplicam à união estável.
 Todos os regimes de bens do casamento se aplicam à união estável.
 Assim como no casamento, sem disposição em contrária dos cônjuges, se aplica o regime de
comunhão parcial de bens.
 O parentesco por afinidade, efeito decorrente de casamento, também se aplica à união estável.
 Cônjuges em união estável, seja heterossexuais ou homossexuais, também podem realizar adoção
conjunta.
 A conjugalidade por união estável também implica no exercício da união estável.

IMPEDIMENTOS NA UNIÃO ESTÁVEL


 À constituição de união estável se aplicam os mesmos
impedimentos incidentes no casamento (art. 1.723, § 1º e art. § 1º A união estável não se
1.521/CC). constituirá se ocorrerem os
 Neste raciocínio, não poderiam constituir união impedimentos do art. 1.521; não
estável aqueles que são casados (art. 1.521, VI/CC). No se aplicando a incidência do
entanto, se o cônjuge casado estiver separado de fato inciso VI no caso de a pessoa
ou separado judicialmente e constituir uniões para casada se achar separada de fato
fora desse casamento, essa será união estável por ou judicialmente.
força do dispositivo supracitado.

----------------------------------------------- 31 de outubro de 2019 ----------------------------------------------

Victoria Lourinho | UFPA