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O T R I B U N A L DO JÚRI E OS ESTEREÓTIPOS :

UMA LEITURA INTERDISCIPLINAR

L E N I O L UIZ STR EC K '

D I S S E R T A Ç Ã O A P R E S E N T A D A AO C U R S O DE PÓS-
G R A D U A Ç Ã O EM D I R E I T O DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE S A N T A C A T A R I N A CO M O REQUISITO
À O B T E N Ç Ã O DO T Í T U L O DE MESTRE EM
CIÊNCIAS HUMANAS - ESPECIALIDADE DIREITO

ORIENTADOR : P R O F . D R LUIS ALBERTO WARAT

FLORIANÓPOLIS

]9on
U N I V E R S I D A D E F E D E R A L DE S A N T A C A T A R I N A

C E N T R O DE C I Ê N C I A S J U R Í D I C A S

C UR SO DE P Ó S - G R A D U A Ç Ã O EM D I RE IT O

A dissertação "O T R I B U N A L DO JÚRI E OS ESTEREÓTIPOS:


U M A L E I T U R A IN TE RD IS CI PL IN AR "
elaborada po r LENIO LUIZ STRECK

e ap r o v a d a por todos os m e m b r o s da b a n c a examinadora,


foi julgada a d e qu a da para a o b t e nç ão do títu lo de
M e s t re em C i ê nc ia s H u man as - Especialidade Di rei to

Flori anó pol is , 17 de agost o de 1988

BANCA EXAMINADORA :

P r o f . Dou to r Luis A l b e r t o Wa ra t
P r o f . Do u t o r O r la nd o F e r r e i r a de Me llo
P r o f .Mestre Al b an o M a r c o s Bas to s Pepe

C O O R D E N A D O R DO C U R S O : DOU ASI

ORIENTADOR : DOUTOR LUIS A L B E R T O WAJ


R E S U M O

S T R E C K , L e n i o Luiz. Cu rs o de P ó s - G r a d u a ç ã o em Direito.
U n i v e r s i d a d e Fe de ra l de Santa Catarina, Brasil. Ministé­
rio da E d u c a ç ã o e Cultura.
T í t u l o da d i s s e r t a ç ã o : 0 T R I B U N A L DO JÚRI E* OS ESTEREÓ­
TIPOS: UMA LEITURA INTERDISCIPLINAR

0 presente trabalho procura demonstrar co m o a


sociedade, "representada" at r a v é s do c o r p o de jurados no Tri­
bu nal do Júri, u t i l i z a - s e de e s t e r e ó t i p o s pa r a obter a conso­
lidaçã o e a c e i t a ç ã o do s va lo r e s d o m i na nt es .
Os e s t e r e ó t i p o s são a n a l i s a d o s a partir da
cr ít ic a da S e m i o l o g i a Política e im br i c a d o s com os co n c e i t o s
de c a r á t e r naci on al , l a r g a m e n t e d i f u n d i d o s no imaginario so-
v
ciai.
Toma-se, co m o referência, du as cidades, loca­
lizada s na r e g i ã o ce n t r a l do E s ta d o do Rio G r a n d e do Sul: a
primeira, S ant a Ctuz do Sul, de c o l o n i z a ç ã o alemã, e a segun­
da, Rio Pardo, de c o l o n i z a ç ã o lusa. 0 obj etivo, nesse senti­
do, é d e s m i t i f i c a r as "c ar ac te r í s t i c a s " ou e s t e r e ó t i p o s atri­
buídos aos d e s c e n d e n t e s de a l em ãe s e aos d e s c e n d e n t e s de por­
tugueses, materializados no im ag i n á r i o social das re f e r i d a s
co mu ni da d es , m e d i a n t e o qual os e s t e r e ó t i p o s seriam a ra zão
principal das d i f e r e n t e s d e c i s õ e s condenatórias e absolutó­
rias dos c o r p o s de jurados das c i d a d e s / c o m a r c a s em qu estão.
Os d a d os estudados são fruto de dois levanta­
m e n t o s de campo: o primeiro, nos a r q u i v o s a t i n e n t e s aos jul­
g a m e n t o s do T r i b u na l do Jú r i das c i da de s de Sa nta Cruz do
Sul e R io Pardo, onde for am c o l h i d o s da do s referentes ao nú­
m e r o de ju lg amentos, seus resultados e classificação do nível
social d os jurados e dos ac usados; o segundo, junto às popu­
lações das duas cidades, a t ra v é s de um q u e s t i o n á r i o .
Em síntese, es t e t r a b a l ho o b j e t i v a demonstrar
que as d i f e r e n t e s d e c i s õ e s nos ju l ga me nt os do . Tr i b u n a l do JÚ-
ri de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo não são decorrentes dos
e s t e r e ó t i p o s da p o p u l a ç ã o de o r i g e m a le mã ou lusa, mas sim, que
tais estereótipos s e r v e m pa r a e n c o b r i r as c o n t r a d i ç õ e s de c l a s ­
ses e seu s u b s e q ü e n t e p r o c e s s o de d o m i n a ç ã o .
S U M M A R Y

STRECK, Le nio Luiz. Post-Graduation Law School, U n i ve rs i-


dade Fe der al de Santa Catarina, Brasil. Ministry of Edu­
c a ti on and Culture.
Ti tle of di ss er tat ion : THE L A W C O UR T AND TH E STEREOTYPES:
AN I N T E R D I S C I P L I N A R Y R E A D I N G
The p re s e n t w o r k intends to d e m o n s t r a t e h ow so­
ciety, "r epr ese nt ed" by the jury at the l a w - c o u r t ,uses stereo­
types to obt ai n the c o n s o l i d a t i o n and a c c e p t a n c e of the prédo­
m in ât values.
The s t e r e o t y p es are a n a l y s e d fr o m a critical
r e vi ew of the Po li tic al Se mi ol y and imb ri ca te d wit h the con-
ceps of n a ti on a l character, large ly p r es en t in the social ima­
gery.

As a po in t of reference, we take two cit ie s lo­


cated in the c ent ral area of the state of Rio Grande do Sul :
the first, Santa Cruz do. Sul, settled b y G e r m a n im mig ran ts ;
and the second, Rio Pardo, settl ed by P o r t u g u e s e people. The
objective, in this sense, is to d i s m y s t i f y the "characteris­
tics" or ste re ot yp e s a t t r i b u t e d to the d e s c e n d a n t s of Ge rma ns
and the d e s c e n d a n t s of P o r t u g u e s e people, materialized in the
social im ag ery of the a b o v e - m e n t i o n e d co mm unities, by w hi ch
the st er e o t y p e s are c o n s i d e r e d to be the r e as o n for the diffe­
rent c o n v i c t i o n and a cq uit ta l de c i s io ns taken by the juries of
the two c i t i e s / j u d i c i a l districts in question.
The a n a l y s e d data are the re s u l t of two field
works: the first, a su rv ey of the ar ch i v e s of the trials of
the L a w - C o u r t s in Santa Cruz do Sul and Rio Pardo w he re we
c o l l e c t e d data r e f e r r i n g to the nu m b e r of t r i a l s , t h e i r results
and the c l a s s i f i c a t i o n of the me m b e rs of the jury and the
accused; the second, a su rv e y of the p o p u l a t i o n of the two ci­
ties, th rou gh a q u e s t i o n a i r e .
In summary, the wor k intends to pr ove that the
different decisions taken at the trials b y the jurors in Santa
Cruz do Sul and Rio Pardo do not de ri v e from the ster eot ype s
of the p o p u l a t i o n of G e r m a n orig in or P o r t u g u e s e origin , but
such s t e re ot yp es serve o n l y to hide the c o n t r a d i c t i o n s of the
cl a s s e s and the s u b se q u e n t j^rocess of domi nat ion .
S U M Á R I O

I N T R O D U Ç Ã O .............................................................. 1

Capítulo 1 - 0 C Ó D I G O P E N A L E A P R O T EÇ ÃO DA P R O P R I E D A D E ----4

Capítulo 2 - A M O R T E NO C Ó D I G O P E N A L ...........................10

Ca p í t u l o 3 - V I D A E M O R T E NO C Ó D I G O PENAL. A DOGMÁTICA
P E N A L E O B E M J U R Í D I C O SOB A PR O T E Ç Ã O DA L E I . . 15

C ap ít u l o 4 - A SOCIEDADE, 0 C Ó D I G O E A R E S P O N S A B I L I D A D E DO
I N D I V Í D U O ........ ....... ........................... 18

Capítulo 5 - 0 T R I B U N A L DO J Ú R I .................................22

Capítulo 6 - T R I B U N A L DO JÚRI: 0 RITUAL, OS ATORES, OS DISCUR


SOS E A D O G M Á T I C A J U R Í D I C A ....................... 3 5

Capítulo 7 - 0 T R I B U N A L DO JÚRI E A D O G M Á T I C A JURÍDICA. O


DI S C U R S O CO M O M A T E R I A L I Z A Ç Ã O DO IM AG IN Á R I O GNO-
SEOLÓGICO DOS J U R I S T A S . . . . .................... --57

Capítulo 8 - 0 P A L CO DAS. A Ç O E S ............................. . .61

Ca p í t u l o 9 - OS E S T E R E Ó T I P O S ................................... ?71

Capítulo 10 - O "LU SISMO" V E R S U S A "ALEMANIiOADE" : C O M O AS DUAS


CIDADES SE VÊEM."................................... 89

Capítulo 1 1 - 0 T R I B U N A L DO JÚRI NO P A L C O DAS A Ç Õ E S . . ....... 95

Capítulo 12 - CO MO AS DUAS CI DA DE S R E A G I R A M À P E S Q U I S A .....100

Capítulo 1 3 - 0 QUE OS P R O C E S S O S E S T U D A D O S R E V E L A M ..........104

Capítulo 14 - A "EXPLICAÇÃO" E S T E R I O T I P A D A DAS Dl SC RE P Â N C I A S


DOS R E S U L T A D O S DOS J U L G A M E N T O S ..... ............109

C O N S I D E R A Ç Õ E S F I N A I S ......................... . . ........... 118

B i b l i o g r a f i a ................ ......... ........................ ....... 120


NO TAS INTRODUTÓRIAS

O presente tr ab a l h o d i s s e r t a t i v o se pro põ e a-
tr av e ss a r alg uns ní ve i s p o s s í v e i s à c o m p r e e n s ã o das f o rm aç oes
i ma gi nár ias sobre as q uai s se d e b r u ç a m tanto a ci ên ci a como a
filos ofi a e o senso cómum.

O trabalho, ao longo de sua trajetória, b u sc a


d e s l o c a m e n t o s q u e v i s a m m e l h o r e l u c i d a r a c o m p r e e n s ã o de alguns
âmbit os de at ua ç ã o da no rm a ace rc a do p r o c e s s o social.

Se faz necessário, para tanto, a c l a r a r que o fio


c on d u t o r do p r e s e n t e t r a b al h o não se n o rt e i a pela tr ad i ç ao
positi vis ta. C o m tal assertiva, pr o c u ro e x p l ic ar que o trata­
m e n t o da do aos ob j e t o s de estudo em q u e s t ã o não estão submeti­
dos ao c r i v o a u t o r i t á r i o de uma meto do lo gi a, mas que se assen­
ta no c o m p r o m e t i m e n t o da co ns t r u ç ã o dos seus objetos de conhe­
cimento. Entendo, assim, que o t r a t am en to r i g o r o s o e, portantcp,
científico, d e d i c a d o às di v e r s a s formas de a p r e e n s ã o do coti­
d ia no dos s u je it os sociai s e de suas instituições, implica no
a t r a v e s s a m e n t o dos e n u nc i a d o s do m u n d o sistêmico, aqui enten­
dido a p a r t i r das c i ê n c ia s normativas, e do mundo da vida,aqui
en te nd id o com o o i ma gi n á r i o social.

A açao escol hida, dessa forma, para a aborda­


gem dos temas no pr e s e n t e trabalho, não p r e s s u p õ e uma dicoto­
mi a entre o m u n d o si s t êm i co e o m u n d o da vida. Dito isto, posso
af ir ma r que p r o p o n h o um d e s l o c a m e n t o m e t o d o l o g i c o ante a tradi
ção p o s i t i v i s t a que poe o m e t o d o e os co n c e i t o s como an t e r io ri
dade aos pr o c e s s o s sociais. Ou seja, os c o n c e i t o s aqui traba­
lhados nao so t em a sua e l a b o r a ç ã o c i r c u n s c r i t a ao un i v e r s o dos
p r o c e s s o s historicos' — es ta nd o h i s t o r i c a m e n t e determinados ,
como só são p o s s í v e i s no u n i v e r s o p r o d u z i d o pela forma de ca­
p i t a l i s m o tí p i c o dos c h a m a d o s países em d e s e n v o l vi me nt o. Cabe
2

frisar, ainda, que o p r ó p r i o c o n c e i t o de r az ão ou de raciona­


lidade que norte ia este tra b al ho si gn ifi ca uma ra zã o auto-
ref le xi va e críti ca em seus fundamentos.

Entendo, d es se modo, que a t r aj et ó r i a a ser se­


gu ida teria qu e c um p r i r um c o n j u n t o de etapas que, numa g e n e a l o
gia — le mb rem os F o u c a u l t - , permitiria melhor aclarar as for­
m a çõ es d i s c u r s i v a s que, fu ndadas em no ç õ e s e s t e r e o t i p a d a s c l á s ­
sicas, d i f i c u l t a m ou o b s t a c u l i z a m a c o m p r e e n s ã o dos pr oc es so s
sociais que en ca m i n h a m o d i s c u r s o jurídico e m sua ação legal.

Assim, da t ra je tó ri a des te trabalho, cabe d e s t a ­


car algu ns pontos, como:

1. E nt en de nd o que o d i s c u r s o n o r m a t i v o do ju ri sd i c i s m o se
apoia em u m con ju nt o de e nu nc ia do s lingüísticos, logi cam ent e
elaborados, meus p r i m e i r o s pa ss o s se e n c a m i n h a m para a eluci­
d aç ão dos termos tais como p r o p r i e d a d e ver su s vida, a teoria do
b e m j u r í d i c o ,e t c ., no int eri or do o r d e n a m e n t o legal. Tal p r o c e ­
di m e n t o b u s c a a c ç m p r e e n s ã o de tais in d ic ad or es no int eri or das
p r át ic as judiciais e que c o r r o b o r a m o senso comum te óri co dos
juristas.

2. Ne ss a linha, procuro, em seguimento, tratar, em vista


da n e c e s s i d a d e da se pa ra çã o da c lá ss ic a d i c o t o m i a mundo sistê­
m i c o v e r s u s mun do da vida, das re la çõe s entre o Código Penal e
a so ci ed a d e civil, a p a r t i r de uma v i s ã o de totalidade, onde
emerge a questã o crucia l da r e s p o n s a b i l i d a d e do in di víd uo como
d e t e n t o r c do livre arbítrio, di an t e do b e m e do mal. Essa q u e s ­
tão engloba, implicitamente, à evidência, uma crítica à idéia
de um legisl ado r co mo in st â nc ia de ne utr ali dad e.

3. Traço, também, um perfil d o g m á t i c o e histórico do Tri­


bun al do Jú r i como in st ân c ia l e g i t im ad or a das form as de trata­
m e n t o de proce sso s sociais, tais como p r i v i l é g i o da proprieda­
de em con fr on to c om a vida; a "c ri aç ão " do d i r e i t o penal do
a ut or em det ri me nt o do d i r e i t o penal do fato e os di s c u r s o s
dos ato re s jurídicos que ne l e atuam.
Ne sse sentido, situo o Tri bu na l do Júri den tr o
da tr a d i ç ã o an tr op o l ó g i c a que de fi n e os r i tua is como e x pr es são
fu nd a m e n t a l da o r d e m social em que emergem, através da con­
t r i b u i ç ã o de V i c t o r Turner. São f un dam en tai s, por outro lado,
pa r a a c o m p r e e n s ã o d e s s a abordagem simbólica do Tr i b u n a l do
Jú ri e das relações sociais, os es tu do s de C o r n e l i u s Ca s t o r i a -

dis.

4. A e s c o l h a dos m u n i c í p i o s de Santa Cr u z do Sul e Ri


Pa rd o co m o "p al c o das ações" se dev e a do i s fatos relevan te s:
em p r i m e i r o lugar, à minha própria história enquanto advoga­
do, co m a t u a ç õ e s nas du a s c o m a r c a s e com o p r o f e s s o r do c ur so de
Di re it o na F a c u l d a d e de Santa Cruz do Sul; em s e gu n d o lugar,
pelo fato das r e f e r i d a S c i d a d e s r e p r o d u z i r e m, de um modo bas­
tante enf ático, determinados est er eó ti po s, f u n d a m e n t a i s ao p r o ­
ce ss o c r í t i c o d e s e n v o l v i d o n es te trabalho. Portanto, en te n d o
que as p e s q u i s a s nas c i t a d a s c i d a d e s encontram um solo fértil
aos o b j e t i v o s aq u i b u s c ad o s .

5. Na medida em que são a n a l i s a ’


d as du as cidades/comarcas,
Sa nta Cru z do Sul, de c o l o n i z a ç ã o alemã, e Rio Pardo, de colo­
nização lusa, pretendo, ao lon go da aborda ge m, desmitificar
as "características" ou e s t e r e ó t i p o s a t r i b u í d o s ao descenden­
te de a l e m ã e s e ao d e s c e n d e n t e de po rt ug ue se s. Dessa maneira,
a n a l i s o o se ns o c o m u m i d e o l o g i c a m e n t e m a t e r i a l i z a d o no imagi­
nário social, de a c o r d o c o m o qual os e s t e r e ó t i p o s seriam o
p r i n c i p a l 1, f at or das d i f e r e n t e s e discrepantes decisões do
Tr i b u n a l do J ú r i d a q u e l a s cidades . A b o r d o os e s te re ót ip os , se­
g u n d o a c r í t i c a d e s e n v o l v i d a por Luis A l b e r t o Warat, numa im­
b r i c a ç ã o c o m os c o n c e i t o s de c a r á t e r nacio nal , analisados"- por
Dante M o r e i r a Leite.

6. N e s s a trilha, procurando pautar o presente t ra ba lh o


em seus â m b i t o s ma is di ve rso s, d e s e n v o l v o uma extensa pesquisa
de campo, q ue tem co m o o b j e t i v o a a p r e e n s ã o de algumas formas
tí pi ca s de re al ida des , que g a r a n t e m a c o m p r e e n s ã o de co ti d i a -
nidades, de onde emergem, ao nível discursivo, àqueles estereótipos obje­
tos da análise. Para tanto, em um p r i m e i r o mom ent o, p e s q u i s o todos
os julgamentos realizados pelo T r i b u n a l do J ú r i de Santa Cruz
d o sul e Rio Pardo, no p e r í o d o de 1970 à 1984, c om vistas à
c a p t a ç ã o das p r á t i c a s ju rí di ca s dos a t or es ju rí dic os que fazem
4

parte do c o n te xt o do Tr ibu na l do Juri e seus desdobramentos a


nível de c o nd e na çõ e s e ab so lv iç õe s dos acu sad os su bme tid os a
julgamento. Cabe frisar que o p e rí od o su pr a- c i t a d o foi assim
d e l i m i t a d o em razão da d i f i c u l d a d e da co lh ei ta de da do s a n ter io
res a 1970.
Em um c om p l e m e n t o da referida pesquisa, pr o c u r o
elucidar, a nível do im agi n ár io social da duas cidades, as re­
p er cu s sõ e s das co nd u ta s ti p i f i ca da s pelo Tri bunal do Júri,
diant e dos res ul ta d os colhidos.

7. O pr es e n t e trabalho, portanto, dian te das a bo rd ag en s


teórica s e das pe sq uis as de campo, bus ca a em erg ênc ia de ele­
men to s ori un do s das ações do Tr ibunal do Júri de Santa Cruz do
Sul e Rio Pardo e os seus c o n te úd os latentes, normalmente di­
fi cul tad os pela ac e i ta çã o dos .estereótipos que garantem o
status quo. Saliente-se, assim, que, pelo fato de tais este­
reótipo s es t a r e m c i r c u ns c r i t o s à âmbit os ideológicos, o pre­
sente tra ba lho depreende, tanto a nível das pr át i c a s profis­
sionais - leia-se juizes, promotores, advogados, etc. - , como
ao nível dos agente s sociais não a t i ng id os d i r e t a m e n t e por esse
c o mp le xo de s i g n i f i c a ç õ e s (C a s t o r i a d i s ), que o universo discur­
sivo obt id o lim ita-se a av a l i a r as d i m en sõ es m e r a me nt e sinto­
máticas, ou seja, do que a p a r e c e (C h a u í ). Em vista disso, o es­
forço des te tra bal ho visa a pr od u ç ã o de p a r â me tr os alterna­
tivos para a a v a l i a ç ã o de d e t e r m i n a d o s fatos sociais, que são,
via de regra, apo iad os em est ere ót ip os pro du zi do s no int eri or
das ideolog ias das classe s dominantes, onde os não detento­
res do s a b e r / po de r/ le i são subtraí dos em sua possibilidade de
c o m p r e e n s ã o das efe tiv as rel açõ es entre as in st itu içõ es e os
agente s sociais.

0 im agi nár io p r o d uz id o pelo Tri bunal do Júri, em


sua d e t e r m i n a ç ã o de n o r m a t i v i z a r as con dutas da socie dad e ci­
vil, ocul ta a gênese de sua ação interessada, impossibilitan­
do, de^sse modo, a ins ti tu iç ão de uma razão co mu n i c a t i v a (Haber-
mas) que elucide, a nível consensual, os efeito s da prátic a
jurídica com o m u n d o das açÕes cotidianas.

Enfim, a op ção por uma t ra je tó ri a inter dis cip li-


nar signi fic a uma al te r n a t i v a teórica conseqüente, para: não
5

cor re r o r is co da un i d ad e po si t i v i s t a e de u m e c l e t i s m o nao con


seqüente, que supõe a bo rd a g e n s di fe re n c i a d as , sem no entanto,
ad e q u a r - s e a uma r a c i o n a l i d a d e e l u c i d a t i v a do cotidiano do
senso c o m u m t e ó ri co dos juristas.
1. 0 C Ó D I G O P EN AL E A P R O T E Ç Ã O DA P R O P R I E D A D E

A p a r te do C ó d i g o Penal Br a s i l e i ro , que regu la


os d i v e r s o s crimes e as r e s p e c t i v a s penas, vigora no Brasil
desde 1941. Do e xa me dos d i v e r s o s tipos penais, podemos perce­
ber, nitidamente, a grande p r e o c u p a ç ã o do legislador em prote­
ger m a i s a p r o p r i e d a d e p r i v a d a do que a saúde e a integridade
física d o ci dadão. Esse da d o as s u m e -relevância, na medida em
que vi v e m o s em uma s o c i ed a de c a pit al ist a, onde a preocupaçao
co m a p r o p r i e d a d e privada, a s su me p r o p o r ç õ e s s ig ni fi ca ti va s.

O ato de a l g u é m fur ta r uma bolsa, u m re lóg io ou


uma camisa, p or exemplo, será apenado, de a c o r d o c o m o dispos­
to no a r ti go 155, do d i p l o m a repressivo, c o m uma pena que v a ri a
de um a q u a t r o anos de r e c l u s ã o e multa.

Se o fu rto de um b e m mó vel rec eb e do Estado uma


p u n i ç ã o tã o drás ti ca , o m e s m o nao se pode d i z e r no to ca nt e a
integridade f í si ca do cidadão. A ofensa à integridade cor po ra l
é s a n c i o n a d a pe l o C ó d i g o Penal c o m a pena de três me se s a um
ano de de t e nçã o, a qual, na prática, dificilmente ultrapassa a
seis meses, resu lta ndo , sim ple sme nte , numa substituição por
uma multa, geralmente em tor no de Cz$ 1.000,00.

Já o a b a n d o n o de uma c r i a n ç a r e cé m- na sc id a, ti­
p i f i c a d o no a r t i g o 134, s uj e i ta o in f r a t o r a um a pena que va­
ria de seis m e s e s a do i s anos. Assim, o ato de furtar um reló­
gio é c a s t i g a d o co m o d o b r o do r i g o r do que o abandono de um
i n oc en te infante.

Outra comparação interessante r e su lt a do con­


fronto dos c o n t e ú d o s dos a r t i g o s 135, que se e n c o n t r a no
7

cap ít ul o a ti n e n t e à "p er i c l i t aç ão da vida e da saúde", com o


di s p o s t o no ar t i go 171, loc al i z a d o no c a p i t u l o dos crimes "c o n­
tra o pa tr imônio". C o m efeito, q u e m d e i x a r de p r es t a r a s s i s t ê n ­
cia à c r i a n ç a a b a n d o n a d a ou ex tr a v i a d a ou à pessoa in válida
ou ferida, será pu ni d o co m uma pena de um a seis m e s e s de d et en
ção. Esta c o m i n a ç ã o é a u m e n t a d a da metade, se da o m i s s ã o r e s u l ­
ta lesão co rp or a l de na t u r e z a grave e t r i p l i c a d a se resul ta a
m o r t e da vítima. De ou tra banda, obter para si ou para outrem
v a n t a g e m ilícita, em p r e j u í z o alheio, mediante artificio, ou
emitir u m ch eq u e sem fundos, rec eb e do E s ta d o um tratamento, a
nível de C ó d i g o Penal, b e m ma i s rigoroso, v i st o que a sanção
para o caso v ar ia de um a c in co anos e multa.

V e m os então que, se da o m i s s ã o de socorro(arti­


go 135) re su lt a a m or te de u m invaLido, por exemplo, a pena má xi
ma será de um ano e oito m e s e s de d e t e n ç ã o ou multa. Já a e m i s ­
são de u m ch eq u e sem fundos po d er á ser p e n a l i z a d a c om uma san­
ção de até cin co anos de r ec lu sã o e. multa. Note-se, ainda, nes­
sa linha, a q u e s t ã o at in e n t e ao t r at a m e n t o que o l e g i s l a d o r deu
à multa. En q u a n t o nos d e l it os inseridos nos c a p ít ul os relativos
à p ro te çã o da vida e da int eg ri da de cor por al a m u l t a é opcio -
nal, nos ca p í t u l o s de p r o t e ç ã o à p r o p r i e d a d e a pena de multa
é aditiva, ou seja, alé m da pena corporal, o juiz a p l i c a r á ,t a m ­
bém, a sanção pecuniár ia .

Cabe ressaltar, ainda, que a pena de r e cl us ão ,c o


m i n a d a aos d el i t o s co nt r a a propriedade, é b e m ma i s grave que a
de detenção, c om in ad a aos crimes con tr a a in te g r i d a d e co rporal
a n t e r i o r m e n t e citados. 0 C ó d i g o Penal, or ig ina lm en te , qua nd o de
sua edição, p r e v i u as penas de rec lu sã o e detenção, fixando
u m regi me d i f e r e n t e para a primeira, que d e v e r i a i ni cia r- se por
um is ol am en to f a c u lt a ti vo n ã o su pe rio r a três meses, uma re­
m i n i s c ê n c i a do " s o lit ar y system". Es ta beleceu, também, que os
rec lu so s d e v e r i a m c u m p r i r pena s e p a r a d a m e n t e dos detentos.

A no va Parte Geral do C ó d i g o Penal, que entrou


em vig or em 19 85 ,diz no art ig o 33:
"A p e n a de reclusão deve ser cumprida em regime fechado,
semi-aberto ou aberto. A de detenção, em regime semi-
8

"a b e r t o ou aberto, salvo necessidade de tranferência a re­


gime f e c h a d o " . (1)

Fica b as t a n t e clara, à evidência, a in te nçã o do


le gis la do r de pr o t e g e r b e m ma i s a p r op r i e d a d e p r iv ad a do que a
segu ran ça física dos cidadãos, não só no que tange ãs penas,
como ao tipo de reg ime de c u m p r i m e n t o de st a s nos e s t a b e l e c i m e n ­
tos carce rár io s.

No to can te à punição, vale o b s e r v a r as m o d i f i c a ­


ções que a no v a Parte Geral do Cód ig o Penal trouxe à espécie,-
por sinal m u i t o b e m re c e bi d as pela d o g m á t i c a jurídica:

"A p r o p ó s i t o da vitima, também se n o t a --- e é l o u v á v e l isso


--- a preocupação do Código Pen a l com os efeitos do crime
sobre a vitima. 0 artigo 91 dispõe que um dos efeitos da
condenação é tornar certa a obrigação de indenizar. 0 ar­
tigo 16 diz que também será possivel, em determinadas
c i r c u n s t â n c i a s , reduzir a pena, de um t e rço a dois terços,
se até o recebimento da denúncia o agente indenizou o da-
' no p r o d u z i d o pelo delito. Essa p r e o c u p a ç ã o _____ i n d e n i z a t ó -
ria ê um aspecto, sem dúvida nenhuma, louvável, no novo
t e x t o " . (2) -grifo me u

Ora, se a do g m á t i c a ju rí dic o/p ena l do Brasil tem


essa linha de an ál is e sobre o tema, p o de -s e concluir, por óbvio,
que tal a v a l i a ç ã o ignora a re a l i da de social vi ge n t e no Brasil .
Percebe-se, m e s m o em uma an áli se superficial, que esse enfoque
a ti n e n t e à p u n i ç ã o / i n d e n i z a ç ã o tem o intui to de b e n e f i c i a r uma
c am a d a da sociedade, que, m e d i a n t e o p a g a m e n t o de u m a i n d e n i z a ­
ção, terá u m a c o n s i d e r á v e l r e d u ç ã o da pena. Ou seja, q u e m não ti
ver re cu rs os para in d e n i z ar à vítima, será p u n i d o c o m a pena in
t e g r a l ...
9

N OT AS B I B L I O G R Á F I C A S

(1 ) - C Ó D I G O P EN AL B R A S I L E I R O . São Paulo, Saraiva, 1976.


(2) - SOUZA, A l b e r t o R.R. Rodrigues. B as es a x i o l ó q i ca s __ da— r e^
forma penal b ra si le ir a. In: 0 direito penal e o no v o
C ó d i g o Penal Brasile ir o. Giacomuzzi, Vladimir :0RG..
P OR TO ALEGRE, FABRIS, 1985. p . 7.
i2. A M O R T E NO C Ó D I G O P EN AL

O M i n i s t é r i o Publico, ór gã o a c u s a d o r no Pro ce ss o
Penal e, no ca s o em análise, no Tr ib un al do Júri, p au ta seus
discursos, via de regra, p r i n c i p a l m e n t e no se nt i d o de que, na
q u a l i d a d e de d e f e n s o r da sociedade, ali está pa r a afirmar e
r e a f i r m a r que o m a i o r b e m que o h o m e m pos su i é a vida e, como
g u a r d i ã o que é da a p l i c a ç ã o da l e i ,- es ta de v e ser cumprida.

Afinal, como o Có d ig o Penal trata' d es se "maior


bem" do ser h u m a n o ? Co m o já r e f e r i d o no c a p í t u l o primeiro,
deve ser feita uma a n á l i s e c o m p a r a t i v a dos a r t i g o s do cód ig o
com ou t r o s do m e s m o texto legal, b e m como co m os dem ai s títu­
los e capítu lo s. E x i s t e m d i f e r e n t e s garantias, as quas possuem,
n o r m a t i v a m e n t e , a m e s m a hierarq ui a. Nesse sentido, v e re mo s qúe
esse "maior bem", que é a vida e a i n t e g r i d a d e co rp o r a l do ci­
dadão, te m m e n o r p r o t e ç ã o que a pr op riedade.

0 c o n t e ú d o da lei a p a r e c e no Código Penal, que


indica cer ta s c o n du ta s proibidas, obrigatórias ou permitidas,
sendo que esses c o n t e ú d o s m u i t as vezes p o d e r ã o ca ra ct e r i z a r -
se em função do seu papel no d e s e n v o l v i m e n t o dos co n f l i t o s so­
ciais, m o r m e n t e os c o n f l i t o s de classe. Assim, na m e d i d a em que
fizermos essa correlação, evidenciaremos a tomada de p o si çã o
ide ol óg ic a de cada ar ti go do C Ó d i g o ( c o m o d e s t e n u m todo), fren­
te aos d i v e r s o s setor es c on fl it an te s. E nt ra aí, como frisado,
o papel da ideologia. O có d ig o ap ar ec e ao u s u á r i o como neutro.
Essa "n eu t r a l iz aç ã o" se o b t ê m a t ra vé s da ideologia. C o n f o r me Ma
rilena Chauí,
"... a ideologia não é apenas a representação imaginária
11

"do real para s e r v i r ao exercido da dominação em uma so­


ciedade fundada na luta de c l a s s e s , como não é apenas a
inversão imaginária do p r o c e s s o histórico na qual as idé­
ias ocupariam o lugar dos agentes históricos reais. A
i d e o l o g i a , forma especifica.doimaginário social moderno,
é a maneira necessária pela qual os agentes sociais re­
presentam para si mesmos o aparecer social, econômico e
político, de tal sorte que e ssa a p a r ê n c i a (que não deve­
mos simplesmente tomar como sinônimos de ilusão ou falsi­
dade), por ser o modo imediato e abstrato de manifesta­
ção do p r o c e s s o h i s t ó r i c o , ê o ocultamento ou a dissimu­
lação do real. Fundamentalmente, a ideologia é um corpo
sistemático de representações e de normas que nos 'eí
sinam' a conhecer e a agir. A sistematicidade e a coerên­
cia ideológicas nascem de uma determinação muito preci­
sa: o discurso ideológico é aquele que pretente coinci­
d i r com as coisas, anular a diferença entre o pensar, o
dizer e o ser e, dest a r t e , engendrar uma lógica da iden­
tificação que unifique o pensamento, linguagem e realida­
de p a r a , através dessa lógica, obter a identificação de
todos os suj e i t o s sociais com uma imagem particular uni­
versalizada, isto ê, a imagem da classe dominante. Uni­
versalizando o particular pelo apagamehto das diferenças
e contradições, a ideologia ganha coerência e força por­
que é um d i s c u r s o lacunar que não pode ser preenchido. Em
outras p a l a v r a s , a coerência ideológica não é obtida
malgrado as lacunas, mas, pelo contrário, graças a elas.
Porque jamais poderá dizer tudo até o fim, a ideologia é
aquele discurso no qual os termos ausentes garantem a su­
posta veracidade daquilo que e stá explicitamente afirma­
do" . (1)

O t r a b a lh o do jurista, ne ssa concepção, vai im­


p e d i r o d i á l o g o c o m a lei. Como fazer com que a s o c ie da de a-
cr e d i t e qu e o b e m ma i s p r o t e g i d o é a vida, se no Código Penal
isso nã o está c o n s u b s t a n c i a d o ? Para r e a l i z a r essa tarefa, faz
cr e r à s o c i e d a d e que o D ir e i t o é um siste ma lógico, onde os
ideais c o n t r a d i t ó r i o s a p a r e c e m como lógicos. Assim, o Direito,
at ra vé s da te or ia jurídica dogmática, aparece como seg ur o e
12

elástico, justo e compassivo, d ig no e solene, fu ncional e téc­


nico. Se g u n do T é r c i o Fe rr az Jr.,

"Entra-se, assim, num universo de silêncio: um universo do


texto, do texto gue sabe tudo, que diz tudo, que faz as
perguntas e dá as r e s p o s t a s . Nestes termos, conclui Le-
g e n d r e , os j u r i s t a s fazem um trabalho doutoral no senti­
do escolástico da palavra. Em outras palavras, fazendo
seu trabalho, eles não fazem o Direito; apenas entretém o
mistério divino do D i r e i t o , ou seja, o principio de uma
autoridade eterna f ora do tempo e mistificante, conforme
as exigências dos mecanismos de controle burocrático
num contexto c e n t r a l i s t a s " .(2)

A presença, pois, da i d e o l o g i a no p e n s a m e n t o d o £
m á t i c o nos co nd u z ao papel da verdade, que será t r ata do mais
adiante, quando falo do m i t o da v e r d a d e real, na es tei ra do
p e n s a m e n t o de Luis A l b e r t o Warat, sob um p r i s m a ep is t e m o l ó g i -
co.

Fajando sobre a dogmática, e este tr ab a l h o tem


o fito de fazer uma c r it ic a ao im ag in ár io g n o s e o l ó g i c o dos ju­
ristas, que está p e r m e a d o pelo p e n s a m e n t o dogmát ic o, Té rc i o
Ferr az Jr. foi tão feliz na a b o r d a g e m do tema que será imp-
p r e s c i n d í v el transcrev ê- lo:

"... a Dogmática ê um p e n s a m e n t o tecnológico e que, nestes


termo s, está as voltas cõm a questão da decidibi1idade.
No entanto, isto não quer dizer que o verdadeiro esteja
dai totalmente excluído. 0 que tentamos demonstrar ê que
o discurso dogmático não'e um d i s c u r s o meramente informa­
tivo, no sentido de que o emissor limita a comunicar uma
informação sem se p r e o c u p a r com o receptor, mas sim um
discurso eminentemente p e r s u a s i v o , no' sentido de que o
emissor pretende que sua informação seja acreditada pelo
r e c e p t o r . Visa, poi s , a despertar uma atitude de crença .
T r a t a - s e , e n t ã o , de um d i s c u r s o que intenta motivar con­
d u t a s , embora não se confunda com d i sc urs os prescritivos,
onde, ai sim, os qualificativos verdadeiro e falso care­
cem totalmente de sentid.o. A verdade entra no discurso
persuasivo como um ins t r u m e n t o de m o t i v a ç ã o e não com o
13

"pura informação. M a s , ao P Ô r - s e a serviço da ^ m o t i v a ç ã o ,


ela corre o risco de encobrimento ideológico, q ue

passa, então, a d o m i n á - l a " .(3)

As d i s c r e p â n c i a s entre os m e c a n i s m o s legais de
p r o t e ç ã o da vi d a e da p r o p r i e d a d e pr i v a da ja for am suc int am en te
esboçadas. V e r e m o s a go ra co m o a D o g m á t i c a J u r í d i c a trata da v i ­
da e da m o r t e e como, at r a v é s de v i n c u l a ç o e s xntersubjetivas,
pe rs uas iva men te, co n s e g u e d e m o n s t r a r à so c i e da de que o Direito,
mediante fór mul as i nt eg r ad or a s e sintéticas, representa o con­

senso social.
14

NO T A S B I B L I O G R Á F I C A S

(1) - CHAUÍ, M a r i l e n a de Sousa. Cu ltu ra e democracia: o discur­


so c o m p e t e n t e e outras falas. 39 e d . São Paulo, Ed.
Moderna, 1982. p . 3 e 4.
(2) - FE RR A Z JR., Te r c i o Sampaio. Fun çã o social da dog má ti ca
j u r í d i c a . São paulo, E d . R e vi st a dos Tribunais, 1980.
p. 178.
(3) - Ibidem, p . 182.
3. V I D A E M O R T E NO C Ó D I G O PENAL. A DOGMÁTICA PENAL E O
B E M J U R Í D I C O SOB A PR OT E Ç Ã O DA L E I .

O c o n t e ú d o do co nc e i t o m a t e r i a l do de li t o no d_i
reito penal d o g m á t i c o é r e f l e t i d o atrav és da teoria do bem j u­
rídico. 0 c o n c e i t o de b e m jurídico seria a c a t e g o r i a jurídi­
ca u t i l i z a d a para e x p l i c i t a r os v a lo re s socia is protegidos
pelo d i r e i t o penal. 0 d e l i t o passa então a ser e n t e n d i d o como a
ofen sa ou am e a ç a a um d a q u e l e s v a lo re s sociais, ou seja, a o-
fensa ou a a m e a ç a a u m b e m jurídico p e n a l m e n t e tutelado. Bem
jurídico, no se nti do em que a d o g m á t i c a penal o concebe, é tu­
do aq u i l o qu e sa ti sf az uma n e ce s s i d a d e do homem, seja esta de
natureza material ou imaterial. 0 b e m ou i n t e r e s s e jurídico
co n s t i t u i o o b j e t o da p r o t e ç ã o o u t o r g a d a pela norma penal.
N e c e s s á r i o frisar, assim, que o r e c o n h e c i m e n t o normativo pela
dogmática ju rídica é u s a do por esta como c r i t é r i o classifica­
dor de r e l e v a nt e importância, tanto na esfe ra do ut rinária, co­
m o na esfera legislativa.

No D i r e i t o Penal c o n t e m p o r â n e o de tra diç ão con­


tinental, a s i s te m á t i c a da Parte Es pecial dos c ó di go s Penais
está f u n d a m e n t a d a na c o n s i d e r a ç ã o dos be n s jurídicos. Desse
modo, as d i s t i n t a s figuras pen ai s são a g r u p a d a s co n s i d e r a n d o -
se o b e m ju rídico protegido.

Uma m a n e i r a p rá ti ca de c o n h e c e r as classifica­
ções dos bens ju rídicos ad ot ad as pelos c ó di go s c o ns is te em ob­
servar os títul os da pa rt e especial. Cada tí t u l o c o r r e s po nd er á
à pr o t e ç ã o de um b e m jurídico. Assim, por exemplo, o título I,
do Có di g o Penal p á t r i o ,re f e r e- se aos "CRIMES CONTRA A PESSOA",
onde e s t ã o i n c lu íd os o homicídio, infanticídio, lesão corporal,
16

aborto, honra, liber dad e individual, do micilio, etc.. O ti­


tulo II, por o ut ro lado, re f e r e- se aos "CRIMES CONTRA 0 PATRI­
MÔNIO", onde estão lo ca li z a do s o furto, roubo, latrocínio,da­
no, etc

Cabe:. referir, n es sa trilha, que nem todo o


ato de t ir ar a vi d a de a l g u é m está s a n c i o n a d o no título "DOS
CRI M E S C O N T R A A PESSOA", do Cód ig o Penal. 0 c ri me de latrocí -
nio, p r e v i s t o no ar ti g o 157, oco rr e q u a n d o o a ut or do roubo, ao
e m p r e g a r v i o l ê n c i a co n t r a a vítima, v e m a ma tá-la. A sanção,pre^
vista no p a r á g r a f o t e r c e i r o do a r t i g o 157, v ar ia de qu in z e a
trinta anos, sem p r e j u í z o da multa. Este delito, ao lado da ex
tosão m e d i a n t e seqüestro com morte(artigo 159, § 3 2 ), cuja pe­
na varia de vi nt e a trin ta anos e multa, t a m b é m p r e v i s to no t í ­
tulo "DOS C R I M E S C O N T R A 0 PATRIMÔNIO", se c o n s t i t u e m nos deli -
tos que r e c e b e m a m a i o r a p e n a ç ã o do C ó d i g o Penal Brasileiro.

Como já frisado, n ã o . o b s t a n t e a mb os os citados,


crim es t r a t a r e m da morte, são co l o c a d o s pelo legislador como
sendo d e l i t o s p r a t i c a d o s co n t r a o pa tr imônio. Da m e s m a forma ,
n e n h u m dos do i s d e l i t o s são da c o m p e t ê n c i a do Tr ib un al do Júri.

Os cr i m e s que são da c o m p e t ê n c i a do Tri bun al do


Juri são os c o n s t a n t e s no tít ul o "DOS CR I ME S CONTRA A PESSOA",
mai s e s p e c i f i c a m e n t e no c a p í t u l o "DOS CR I M E S CONTRA A V I D A 11,
Nesse capítulo, um a das seis s u b d iv is õe s do t í tu l o I (DOS CRIM ES
C O N T R A A PESSOA), es tã o inse ri dos o h o m i c í d i o simples, com pe­
na que va ri a e nt re seis e vi nte anos, o homicídio qualificado,
c o m penas entre do z e e tri nt a anos, induzimento, in st i g a ç ão
ou au x í l i o ao suicídio, c o m penas que v a r i a m en tre dois e seis
anos, o in fa nticídio, s a n c i o n a d o entre dois e seis anos, os v á ­
rios tipos de a b o r t o e a ttentativa de h om ic íd io .

E x i s t e m duas m a n e i r a s de c o m e t e r um delito: de
forma d o l o s a ( q u e r e r ou a s s u m i r o risco de p r o d u z i r o resulta­
do) e de forma c u l p o s a ( p r a t i c a r o fato por imprudência, negli­
gên ci a ou i m p e r í c i a ) . Assim, somente irão a j ul ga me nt o pelo
Tr ib un al do J u r i os a u t o r e s dos crimes a nt es ci t a d o se os c o m e ­
t e r a m d o l os am en te .

Se c o m p a r a r m o s a n a t u r e z a dos cr i m e s e as res­
p e c t i v a s penas, v e r e m o s que a q u e s t ã o que e x s u r g e é a certe za

1.
17

de que o c ó d i g o Penal sancio na c o m ma i s ri go r os de l i t o s que


f erem o d i r e i t o de pr op riedade, c h e g a n d o enalguns a r t i g o s a ver­
d a de ir o s extremos, como os já c i t a d o s (o m is s ã o de s o cor ro à
pe ss oa i n v á l i da v e r s u s e m i s s ã o de ch e qu e sem fundos), e na p r ó ­
pria comparação entre o la tr o c ín io e o homicídio.

Tu do isso, smj, é rel ev an te demonstr ar, na m e d i ­


da em que nã o p od e m o s i g n o r a r o tipo de so ci ed ad e em que vige
o C ó d i g o Penal, que vai ter s i g n i f i c a t i v o s d e s d o b r a m e n t o s em
termos de j u l g a m en to pelo Tr ib u n al do Júri, onde ve re mo s o pa­
pel das c l a s s e s socia is ne s se s julgamentos.
4. A SOCIEDADE, O CÓDIGO E A RESPOSABILIDADE DO INDIVÍ=
DUO.

Vi ve m o s em uma soci ed ad e que transparece como


e x t r e m a m e n t e b e m organizada, na qual a cada homem não é permi­
tido ig no ra r que d e t e r m i n a d a c au sa .gerará d e t e r m i n a d o efeito,
linearmente. Co m o diz a E x p o s i ç ã o de Mo ti vo s do C ó di go Penal
de 1940,

"A responsabilidade penal continua a ter por fundamento a


responsabilidade moral, que p r e s s u p õ e no autor do crime,
contemporaneamente a açao ou omissão, a capacidade de
entendimento e a liberdade de vontade (...) A autonomia
da vontade ê um p o s t u l a d o de o r d e m p r á t i c a 1)

Não o bs t a n t e a Nova Parte Geral silenciar a res­


peito, a teo ria sobre a r e s p o n s a b i l i d a d e p e r m a n e c e u inaltera­
da na re fo rm a de 1985.

C o n f o r m e D a m a s i o de Jesus, e x p o e n te no campo
da d o g m á t i c a penal,

"...o h o m e m é ser inteligente e livre e por isso respon­


s á vel pelos atos praticados. Inversamente, quem não tem
esses atributos é i n i m p u t á v e l . Sendo livre, tem condi­
ções de escolher entre o bem e o mal. Escolhendo uma
conduta que lesa interesses jurídicos alheios, deve so­
frer as consequências de seu comportamento. A concepção
dominante na doutrina e nas legislações vê a imputabili-
dade na capacidade de entender e de q u e r e r . (...) Imputá -

vel é o sujeito mentalmente são e desenvolvido qu e possui


19

"capacidade de saber que sua conduta contraria os manda­


mentos da o r d e m j u r i d i c a . "(2)

0 homem, se gun do a do g m á t i c a e o senso c o m um


te ó r i c o dos juristas, é livre para es co l h er entre o bem e o
mal, sendo que o b e m e o mal são e s t a tu íd os na ordem jurídica
e, e s p e c i f i c a m e n t e no d i r e i t o penal, pelo C ó d i g o Penal. Nesse
sentido, quem "escolhe" o mal, é tido como de sviante, que Tur-
ne r chama de "a p ed ra que os construtores rejeitam", que será
obj e t o de a n á l i s e mais a p r o f u n d a d a adiante.

A so c i e d a d e em que v i vem os é di fe ren ci ad a, com­


plexa, a p r e s e n t a n d o os seus el e m e n t o s idiossi nc ras ia s, valores,
ideologias, c u l t u r a s di fe rentes. Não se concebe, portanto,
que a e x c l u s ã o de seu seio, de um de seus integrantes, possa
ser e f et ua da no simples f un da me nt o da r e s p o n s a b i l i d a d e moral,
r e s q u í c i o da Es co l a Clássica, de Ce sa r Be ccaria.

Ne ss e sentido, é re l e v a n t e c o l o c a r ' o que diz


J u l i o C u e t a Rua:

"El código penal es un conjunto de p r o p o s i o c i o n e s enun­


ciadas por el legislador estabeleciendo las sanciones que
deben sufrir la s personas autoras de ciertos actos pero
omite la referência expressa a los deberes que d e i ibie-
ron c u m p r i r s e , cuya v i o l a c i on j u n t a m e n t e , da origem a las
s a n e i o n e s " . (3)

Assim, todo o problema social fica reduzido à


lei penal, ao c ó d i g o , tida como ú ni ca fonte pa r a a a p l i c a ç ã o da
pena.

Temos, pois, que o h o m e m é t o t a l m e n t e respon­


sável e a s s i m pode r e s p o n d e r pelo ato de i n f r i n g i r à norma:;; é
responsabilidade sua o r d e n a r as co n d i ç õ e s de vi d a a que está
sujeito, d a r - l h e s c o e r ê n c i a e racional id ad e.

Percebe-se, assim, que a d o g m á t i c a jurídica qu e r


d e m o n s t r a r que a so c i e d a d e dá c h anc es iguais pa r a todos, atra­
vés do d o g m a "todos são iguais peran te a lei". Aqueles que
nã o "aproveitam" as c h a n c e s e q u e b r a m a " n o r m al id ad e" insti­
tuída, são c o n s i d e r a d o s desviantes.
20

T r a z e n d o - se a q u e s t ã o pa r a a orbita do Tribunal
d o Júri, pode-se r e f l e t i r no s e n t i d o de qu e o o b j e t i v o do s jul­
gamentos não é a elucidação dos determinantes contextuais e
so ci a i s da ruptura c o m as n or ma s. Segundo Stolcke,

"0 desdobrar dos processos deixa claro que o que está em


questão é a defesa de um sistema de normas visto tanto
como universal, quanto como absoluto. Da mesma fo r m a ,
como supostamente todos são iguais perante a lei ura
dos mecanismos ideológicos que obscurece o fato de que na
sociedade de classes de fato alguns são mais iguais do
gue o u t r o s --- a lei se aplica igualmente a todos. Conse­

qüentemente, a quebra da lei em um certo mvel, a agres­


são ou o h o m i c í d i o , será julgada conforme o grau de ade­
quação da conduta prévia dos acusados e das vitimas à

moral e s t a b e l e c i d a " .(4)


21

N O T AS B I B L I O G R Á F I C A S

(1 ) - C Ó D I G O P E N A L BRASILE IR O. Ep os iç ão de motivos. São Paulo,


Saraiva, 1986. p . 6 e 7.
(2) - JESUS, Da más io E v a n g e l i s t a de. >Direito penal. São Paulo,
1985. p . 408.
(3) - RUA, J u l i o Cueta. F ue nt es dei d e r e c h o . Bue no s Aires,
A b e l e d o - P e r r o t , 1971. p . 38.
(4) - S T O L C K E , Verena. A p r e s e n t a ç ã o da obra M or te em fa míl ia: re
presentacões jurídicas de pap éi s sexuais. Rio de J a n e i ­
ro, Graal, 1983. p . 12.
5. 0 T R I B U N A L DO JÚRI.

U m do s m od os de trat ar a m o r t e no n o ss o Códi­
go Penal é o T r i b u n a l do Júri, re gu la do pelo C ó di go de Proces­
so Penal nos ar ti go s 406 e seguintes. Pela sua relevância,
m o s t r a r e i os d iv e r s o s a s p e c t o s de seu funciona me nto , sua ori ge m
na so c i e d a d e b ra si le ira , sua c o m p o s i ç ã o e sua instrumentaliza­
ção .

5.1. HISTÓR IC O.

0 Tr ib u n al do Jú ri foi cria do no Brasi


de 1822. In icialmente, sua função r e s t r i n g i a - s e aos crim es de
op i n i ã o ou de imprensa, fu n c i o na nd o co m vi nte e quatro jurados,
dele só c a b e n d o r e c u r s o ao p r í n ci pe regente.

C o m o a d v e n t o de n os sa p r i m e i r a co ns tituição, em
1824, p a s s o u o jú r i a a b r a n g e r u m leque b e m m a i o r de c r i m e s . S u a
c o m p o s i ç ã o p a s s o u a ter do i s conselhos, formado por um júri
de acusação, c o m vi nt e e três jurados e um júri de sentença,
formad o por do z e jurados. Já então seu c a r á t e r de r e pr es e n t a t i -
vidad e pa ss o u a ser qu est ionado, na m e d i d a em que, numa socie­
dade esc ravocrata, só p o d i a m ser jurados as pessoas que po di a m
ser eleitas, ou seja, os c ha ma do s "homens bons", c om uma d e t e r ­
minada faixa de renda e p e r t e n c e n t e s à c a m a d a domin an te .

C om o p a s s a r dos. anos, pa ss o u por várias refor­


mas. C h eg ou a p a s s a r à d i r e ç ã o da polícia, voltando após à di­
reção do Po der Jud ici ár io.

A C o n s t i t u i ç ã o do Est ad o Novo, de 1937, não


fala em sua existência, sendo que somen te no ano se gu int e foi
23

re gu la me nta do . De ressaltar, ainda, que em 1934, o Tr ib un al do


Júri já tinha p a s sa d o do ca p í t u l o "dos d i r e i t o s e g a ra nt ias
indiv id ua is " para o que t r at av a "do p od er judiciário", saindo,
pois, da esfera da c i d a d a n i a para a esfera do Estado.

Perdendo sua sobe ra nia em 1938, recuperou-a com


a C o n s t i t u i ç ã o de 1946, sendo r e c o l o c a d o no capítulo "dos di­
reitos e g a r a n t i a s individuais", com c o m p e t ê n c i a es pe c í f i c a p a ­
ra o j ul ga me nt o dos "crimes d o l o s o s cont ra a v i d a " .

Tal d i s p o s i t i v o foi m a n t i d o pe l a Constituição


de 1967 e pela Em en d a de 1969, a qual, entretanto, não fez
m e n ç ã o à so b e r a n i a do júri, reabrindo a discussão sobre a sua
r e l e v â n c i a em n o s s a sociedade.

Desde sua criação, o Tr ib u n a l do Jú r i ca u s o u p o ­


lêmicas, no que tange à sua r e p r e s e n t a t i v i d a d e e, p r i n c i p a l m e n ­
te, q u a n t o à c a p a c i d a d e dos jurados- de d e c i d i r sobre q u e s t õ e s c
c o n s i d e r a d a s pelos juristas como de "alta r e l e v â n c i a técni­
ca", que os "juizes de fato" óu "leigos" nã o tinham possibili­
dade de alcançar.

A discussão sobre a justeza ou nã o justeza dos


v e r e d i c t o s e m a n a d o s dos jul ga men to s do Tribunal, do Jú r i surg em
à tona p r i n c i p a l m e n t e q u a n d o é julgada uma "grande causa".
Segun do E v a n d r o Lins e Silva,

" . . .não lhe faltam críticos e c e n s o res, alguns por igno-


rância, outros por interesse ou má -fé, e m u i t o s --- a m a i o -
r i a --- mal informados sobre os crit érios orientadores das
decisões dos jurados e o mecanismo de funcionamento da
instituição ou p o r um conhecimento incompleto do fato, de
seus antecedentes, de sua mo tiva ç ã o, de suas circunstân-
cias, de seus protagonistas. S e m p r e foi assim, em todas
as épocas, aqui e no resto do m u n d o, especialmente nos
processos em que há larga p u b l i c i d ade de seu andamento e
dos incidentes que mais podem prov ocar a excitação da o-
pinião pública. Se o crime teve, d ireta ou indire tamente,
uma conotação política, se foi com etido em desafronta
subitânea e aparentemente excessiv a a brios morais

ofendidos e, s o b r e t u d o , se teve or.i g e m ou m o t i v o essencial


24

"uma p a i x ã o amorosa, logo se formam correntes de opinião,


influenciadas e conduzidas pelo noticiário, redigido ou
transmitido em tom v i v a z , em estilo c a n d e n t e , com o desta^
que para os aspectos dramáticos e comoventes que mais to­
cam a sensibilidade da p o p u l a ç ã o " . (1)

A r r e m a t a n d o a questão, Lins e Silva assevera:

"Isso vem de tempos i m e m o r i a i s , desde antes de existir o


Tribunal do Júri. Até hoje se discute a justiça ou in­
justiça da c o n d e n a ç ã o !de Sóc r a t e s , a c u s a d o de impiedade,
o crime de a s e b i a (a t e n t a d o contra a religião), obrigado a
beber cicuta por ter obrado contra as leis, sem acreditar
nos Deuses do Estado, introduzindo coisas novas e demo­
níacas; obrou também contra as leis, corrompendo a juven­
tude'. Após m i l ê n i o s , discutem os estudiosos da história
do Direito Penal se Sócrates mereceu ou não m e r e c e u a pe­
na que lhe impu s e r a m , a maioria inclinada pelo erro da
c o n d e n a ç ã o " .(2)

O famo so a d v o g a d o em questão, que atuou no " ca ­


so Doca Street", mostra, em d i v e r s a s obras, seu posicionamento
fa vorável à i n s t i t u i ç ã o do Tr ib un al do júri e sua man ut enç ão,
como m e l h o r forma de a p l i c a ç ã o da lei nos casos de cr i me s do­
losos con tr a a vida. Sua o p i n i ã o é a p r e s e n t a d a na obra"A DEFE­
SA TEM A PALAVRA", ci ta n d o Casamayor:

"Na visão de C a s a m a y o r --- n o t á v e l magistrado francês--


o júri 'ê a i m a g e m m a i s fiel, é o símbolo da solidarie­
dade humana'. A indulgência não é defeito, ê virtude, e
( 'a c o n s c i ê n c i a c a m i n h a , de p r e f e r ê n c i a , no sentido do
1 perdão, como a História caminha no sentido da atenuação
da p e n a . . . Este acordo do j ú r i e da História é um sinal
que traduz um a s p e c t o muito importante do papel do júri,
seu aspecto s o c i a l . "(3)

Por o u t ro lado, o Procurador de Justiça do Rio


G r a n d e do Sul e p r o f e s s o r de D i r e i t o Penal, W a l t e r Coelho, faz
uma v e e m e n t e c r í t i c a à i n s t i t u i ç ã o do Júri:

"0 Júri, esta instituição superada e deslocada no tempo,


que o saudoso H u n g r i a , há décadas passadas já denominara de
25

"o s so d e m e g a t é r i o a p e d i r museu, continuará julgando mais


pelo instinto do que pela lógica ou p e l a razão, pouco
ligando para o que diga o Código repressivo ou a moderna
dogmática pen a l . Escudado na soberania de seus veredic­
tos e no j u i z o intimo de c o n v i c ç ã o , suscetível de influêii
cias momentâneas às m a i s dive r s a s , prosseguirá claudican­
do em su a missão, ora absolvendo os culpados e, o que é
gra v e , também condenando os i n o c e n t e s " .(4)

A q u e s t ã o que t r an s p a r e c e da análise do juris­


ta em foco é que só nos j ul ga men tos do Tri bu na l do Jú ri é que
o c o r r e m erros judiciários. C r i t i c a o Júri, também, po rq u e os
jurados julg am por intima c o n v i c ç ã o e que são s u s ce tí ve is de
inf lu ên ci as m o m e n t â n e a s ...(s i c ) Ora, ne ss e caso, cabe uma in­
dagação: O juiz singular, nos jul gam ent os de p r o c es so s que não
os do júri, c o ns eg ue ser neutro, abstraindo-se de sua ideolo­
gia de classe, sua for ma çã o a c a d ê m i c a e de suas derivações
a xi ol óg ic as ?

AÍ, então, en tra uma questão: os jurados são


cr it ic ad os por não t e r e m fo rm a ç ã o t é c n i c o - c i e n t í f i c a para os
julgamentos. Como as s e v e r a o e m i n e n t e jurista":Wálter Coelho,

"0 j ú r i pouco está ligando para altas questões jurldico-


dou t r i n á r i a s , mas comove-sè, facilmente, com a retórica
f á cil e a oratória retumbante e v a z i a . . . "(5)

Se gu ndo a d o g m á t i c a jurídica, o magistrado sin­


gular, ao p r o l a t a r uma sentença, está f a ze nd o "ciência do di­
reito". Ne sse sentido, é i m p r es ci nd ív el que e nf oq ue mo s a ques­
tão do m i t o d a v e r d a d e real e o m i t o da n e u t r a l i d a d e do juiz.
No pr o c e s s o penal, e x i s t e m p r e s c r i ç õ e s de fi ni tó ri as , tais como
"n ing uém pode ser p r i v a d o da l i b er da de sem o devido p r o c e ss o
legal", "n in g u é m pode ser p r e s o sem o r d e m judicial, a não ser
em f l a gr an te delito", e tan to s outros, que s e rv em de "topoi"
c o n f o r t a d o r das d e c i s õ e s judiciais.

Ao lado de tais princípios, c o n c o r r e m reg ra s r e ­


lativas à a t u a ç ã o do acusado, p r o m o t o r e juiz de direito, à
m a r c h a ritual do pr oc ed ime nt o, à constituição da pr ov a váli da
e a s s i m po r diante. Ma i s esp ec ifi ca me nt e, cabe aqui ab rir um
esp aço sobre uma regra r e f e r e n t e ao tipo de p ro va qu e o juiz
26

deve ac ol her no p r o c es s o penal, b e m como os jurados no Tribu­


nal do J u r i ( e s t e s com ma i s dific ul da de , na m e d i d a em que as
pr ov as lhe são 'relatadas' p el os ag ent es em luta no plená­
rio): o p r i n c í p i o da v e r d a d e ma terial.

A d o g m á t i c a do p r o c e s s o penal p re ga que o juiz


não pode a c e i t a r p a r t i c u l a r e s es pé c i e s de pro va s determinadas
por cr i t é r i os de c o n v i v ê n c i a ou oportun id ad e, ou mesmo, sobre-
d i t a d o s pelas v al or a ç õ e s do a m b i e n t e em que vive. Haveria,
de ss e modo, de se conformar, acriticamente, à ca mi s a de força
impost a pelas p r e m o n i ç õ e s d o g m át ic as . Desde já, p o dem os d i z er
que toda v e r d a d e é formal na p e r s p e c t i v a de ve r d a d e recria-
d a ( r e c r i a d a c o m a i n t e r v e n ç ã o dos su jeitos que interpretam os
f a t o s ) . De ac or do c o m a do gmática, porém, a ve rd a d e m a t e r ia l^
c o n f o r m a r i a uma 'entidade' ontológica e pragmaticamente distin­
ta. Esta 'entidade' d e s q u a l i f i c a r i a a v o nta de das partes,
t r a n s c e n d e r i a a v o n t a d e do juiz, seria a v o n t a d e da verdade,
totalmente i n c o n t a m i n a d a pe l a i d e ol og ia do julgador. No dizer
de Warat,

"Analisando criticamente o principio da verdade material,


é possível desterrar significativas proposições subjacen­
tes que explicitam seus compromissos ideológicos. As­
sim, a afirmação de que o iuiz pode desvendar e reprodu­
z i r no plano do conhecimento a verdade inscrita na reali-
dade implica duas teses. A primeira insistiria em que a
verdade que proclama é um d a d o extraído da real i d a d e ,
purgado dos elementos de distorção que o envolvem, contem
piado pelo juiz e por ele reproduzido na forma de um c o n ­
ceito . A segunda afirmaria que não sendo esta verdade um
conceito produzido sobre a realidade, mas, fundamental­
mente, a revelação da essência de determinadas situa­
ções m a t e r i a i s , tal revelação consistiria na própria re­
produção do real; assim, a 'declaração' do real não es­
taria c o n t a minada, condicionada pelo instrumental analí­
tico do j u i z , por sua formação teórica e pela particular
situação histórica em q u e está ime r s o . Insinuava-se, des­
te m o d o , que o real, o concreto real, a m a t é r i a (c é l u l a ,
áto m o , etc) é igual ao conhecimento da m a t é r i a . Ora,desde
27

'7o q o ' c o m p r e e n de - se q ue 0 CO n h e c i m en to - 1 a rq o P r o c e s -

so d p el a b o r a ç ã o d e in tu içõ es e rep re s e n ta ç õ e s t tra n s f o r -

mad a s se m p r e po r e s te me smo c o n h e c i me n to em c on h ec i m e n t o
\
ma i s rig o r o s o - - nã o po d e se r i dê n ti c 0 a ma te r i a ou ao

con c r e t o que' e se u 0 *>i e to . En tre t a n to / pa ra a do g m á t i -

ca é fun d a m e n ta 1 a fi rm ar a i d e n t i d a de d es sas d u as ins-

tância s. Se conceito e real i d a d e podem ter o mesmo esta­


t u t o , são exatamente a mesma 'coisa', se o juiz atua ins­
pirado em um interesse impessoal que o adormece como ho­
mem inserido e condicionado pelo meio e pelo grupo social
a qual p e r t e n c e , se o juiz, esquecido de si m e s m o , media­
dor despojado de sua ideologia, proclama a verdade real,
então e sta verdade descomprometida, desinteressada, in­
questionável, há de ser aceita por t o d os os homens de

boa vontade.
A verdade real, verdade revelada, não reivindica ou per­
mite qualquer problematização por parte de seus destina­
tários. Funciona como um estereótipo do processo penal
que sugere mais do que uma aceitação teórica reivindica
práticas de solidariedade e submissão que n ã o se confor­
mam exatamente a função de um p r i n c i p i o ____c i e n t i f i c o " . (6 )

A l é m de todos estes a s p e c t o s enfocados, cabe


frisar, ainda, que a d i s c r i m i n a ç ã o do Júri e, por consequên­
cia dos jurados, te m uma r e l a ç ã o m u i t o íntim a c om o que pode­
mos c h a m a r de c i e n t i f i c i s m o , ou seja, u s a r a "ciência" ou c o l o ­
car algo c o m o " c i e n t í f i c o " pa r a da r "statuS" de verdadeiror; e
digno. 0 j ul ga me nt o p r o f e r i d o pelo jurados não tem esse "sta-
tus" de pureza, de c i e n t i f i c i d a d e . Afinal, se gu nd o uma grand e
pa r c e l a da d o g m á t i c a jurídica, sendo "leigos", julgam s e gu nd o o
seu "senso comum", a l é m de se d e i x a r e m i n f l u e n c i a r pela fácil
retórica... S e gu nd o R u b e n Alves, "quando um c i e n t i s t a se refere
ao senso com u m , ele está, o b v i amente, pensando nas pessoas que
não p as sa r am por um treinamento c i e n t i f i c o " .(7).

Como vimos, a q u e s t ã o da "técnica", "altas in­


dagações j u r í d i c o - p e n a i s " ou " i n f l u ê nc ia s da fácil retórica"
serve como forte s u s t e n t á c u l o para a d e s c a r a c t e r i z a ç ã o do Tri­
bunal do Júri. Se um juiz c o m e t e uma i n j us ti ça num julgam en to
singular, os ad v o g a d o s ou as pa rt e s não reclamarão, d e sd e que
28

ten h a m sido o b e de ci d a s as f o r m a l i da de s legais. Foram derrota­


dos na ação ou "causa" por m o ti v o s "t é c n i c o - f o r m a i s ou téc-
n i c o - j u r i d i c o s " , mas jamais por i n c o m p et ên ci a do julgador. Já
no Tri bu na l do Júri, sem "status" científico, quando um réu
é c o n d e n a d o ou absolvido, a cu lp a será debitada, via de re­
gra, ao cor po de jurados, que se d e i x a r a m i n f lu en ci ar pela re­
tór ica de um dos ator es j u r í d i c o s ,p r om ot or ou defensor.

A ciência, va lo r d o m i n a n t e da socie dad e global,


funciona, assim, como fator i d e o l ó g i c o de leg it im aç ão do ju­
di c i á r i o togado. Ma ria C o rr êa contribue, dizendo:

"Os a r g u m e n t o s favoráveis ou contrários à manutenção do


júri ou à sua representatividade popular, assim como os
argumentos a respeito da existência ou não de crimes
passionais como uma tradição da sociedade brasileira,
são sempre argumentos políticos ou ideológicos^. Isto é,
argumentos levantados a partir dos interesses dos envol­
vidos na d i s c u s s ã o --- s e j a em termos de sua função e atua­
ç ão no j ú r i ou f ora dele* -- e a r g u m e n t o s fundados na vi­
são de m u n d o dos de batedores. A própria definição do Di­
reito Penal Brasileiro como 'contraditório' implica que
sempre que seja possível encontrar um contra-argumento
para qualquer a r g u m e n t a ç ã o . Não há qualquer levantamento
que c o m p r o v e , po r exemplo, que o júri absolve mais do que
o fazem os juizes em s e u s julgamentos in d i v i d u a i s . e no
entanto e st a ê uma afirmação freqüente, as vezes dos que
defendem a manutenção do j ú r i , às vezes dos que são con­
trários a ele; às vezes pelos que o condenam por ser pou­
co ' t é c n i c o ' . às vezes pelos que o elogiam por sua quali­
dade democrática, dependendo da si t u a ç ã o em que se en-
c o n t r e m . " (8)

5.2. 0 T R I B U N A L DO JÚRI E SUA COMPOSIÇÃO.

C o n fo rm e o C ó d i g o de Pr oc e s s o Penal, o Tribuna l
do Júri c o m p õ e - s e de um juiz de direito, que é o seu presiden­
te, e de vinte e u m jurados, que se s o r te ar ão dentre os alisa-
tados, sete dos quais c o n s t i t u i r ã o o c on se lh o de sen ten ça em
cada sessão de julgamento.
29

O s er viç o do júri é o b r i g a t ó r i o e sem remune­


ração para o cidadão. Nesse sentido, é importante notar que a
recusa ao se r v i ç o do júri, m o t i v a d a por c o n v i c a ç ã o re li gio sa
ou política, im p o r t ar á na pe rd a dos d i r e i t o s políticos do in­

frator.

Os jurados serao e s col hi dos d e n t r e cid ad ao s de


notória i d o n e i d a d e (ar t i g o 436, do Có d i g o de P r o c e s so Penal),
estand o isent os do s er vi ço do júri: o Presidente da Republi­
ca, os M i n i s t r o s de Estado, os go ve rnadores, os deputados es­
tadua is e federais, o p r e f e i t o municipal, os magistrados e re­
p r e s e n t a n t e s do M i n i s t é r i o Público, funcionários da policia,
m i l i t a r e s da a ti va e, importante, as m u l h e r e s __que— não— ex erç am
função p ú bl i c a e p r o v e m que em virtu de de o c u p a ç õ e s — ---- d o m e s t i ­
cas, o servi ço do iúri lhes é p a r t i c u l a r m e n t e ______ d i f í c i l ( a r t i ­
go 342, do C ó di go de Pr oce ss o P e n a l ) . Ve-se, assim, o lugar que
o l eg is la do r d e s t i n o u às m u l h e r e s nò o r d e n a m e n t o penal... Tal­
vez por isso, para e v i t a r " c o n t r a t e m p o s " o co rpo de jurados de
Santa Cruz do Sul, de sde sua instalação, há ma i s de trinta anos,
nu nca teve uma m u l h e r que p a rt i c i p a s s e de julgamento, eis que
n unc a foram in cl uí da s nas listas anuais. So me nt e no ano de 1985
é que fo ram inc lu íd as m u l h e r e s no corpo de jurados dessa cida­
de. Esse fato foi, inclusive, d es ta qu e na i mp re ns a santa-cru-

zense:

"Fato relevante acontecerá, também nesta r e u n i ã o (do mês


de j u l h o ) . Eis que, pela primeira ve z na história da Co­
marca, estarão p a r t i c i p a n d o , como juradas, nove mulhe­
res, o que demonstra a tendência democrática do Tribunal
do Júri e o grau de m a t u r i d a d e que a ti n gi u a sociedade

s a n t a - c r u z e n s e ".( 9 ) - grifei

Pa ss ad os três julgamentos da re un i ã o de junho(a


p r im ei ra do ano), em que os três réus levados a julgame nto fo­
ram condenados, sendo que em todos esses jul ga me nt os no míni­
m o três m u l h e r e s partici par am , e de posse da pe s q u i s a que faz
' parte de ste t r a b a l h o ( d e oi t en ta e oito júris ocorridos, cin­
qüe nt a e sete t i v e r a m ve re d i c t o s c o n d e n a t ó r i o s ), a manchete do
jornal Ga ze t a do Sul, em p r im ei ra página, dizia: "M U L H E R E S C O N ­

TINUAM CONDENANDO NO J Ú R I " . (10)


30

A n ot í c i a do jornal e a m a n c h e t e citadas, reve -


Iam, à saciedade, o i ma gi n á r i o social da cida de de Santa Cruz
do Sul, c o n s o a n t e ve r e m o s adiante, em c a p í tu lo próprio.

A função de jurado traz uma série de v a n t a g e n s ,


com o a "p re s u n çã o de i do ne id ad e moral", as se gurando, ainda, pr_i
são es pecial em caso de c ri me comum, tendo , também, prefe­
rência, em ig u a ld ad e de condições, nas c o n c o r r ê n c i a s públicas,
c o n s o a n t e o d i s p o s t o no a r t i g o 437, do có d i g o de P r o c e s so Pe­
nal .

D i s c o r r e n d o sobre esse tema, Mariza Cor rê a co-

loca que

"Desde a criação do j ú r i , seus membros foram sempre, ex-

p l i c i t a m e n t e , pessoas pertencentes às classes dominan-

tes ou, pelo menos, como diz o código vigente, 'c i d a -

dãos de notória idoneidade'." (11)

A d e f i n i ç ã o do que seja um c i d a d ã o idô ne o é res-


p o s a b i l i d a d e do m a g i s t r a d o p r e s i d e n t e do Júri, que é e n c a r r e g a ­
do de a l i s t a r os c a n d i d a t o s a jurados. 0 magistrado rec eb e su­
g es tõ es dos promotores, es cr iv ãe s e de advogados, estes p r i n c i ­
pa lm en te aq ue le s c o m m a i o r c i rc u l a ç ã o nos fóruns.

Que os jurados h i s t o r i c a m e n t e tem. pertencido


às ca mad as d o m i n a n t e s é a f i r m a ç ã o que não posso ge ne ralizar,
mas a p e s q u i s a de campo, que faz parte d es te trabalho, con­
ce rn en te à Co m a rc a de Santa Cruz do Sul m o s t r a que se mel han te
a s s e rt iv a é correta. Por ou tro lado, a pesquisa at in e n t e à Co­
m a r c a de Rio Pa rdo não d e m o n s t r o u exa ta me nt e esse tipo de t e n ­
dência. De q u a l q u e r maneira, o fato de Rio Pardo não se enqua­
dr ar no p a r a d i g m a s a n t a c r u z e n s e de c o m p o s i ç ã o do júri, tem
r e s s o n â n c i a s nos p ró p r i o s r e s u l t a d o s dos julgamentos, confor­
me será d e m o n s t r a d o no d e c o r r e r des te trabalho.

Jos é F r e d e r i c o Marques, e s t u d io so e analista do


Tri bun al do júri, c o m vár ia s obras p ub li ca da s no c am po da dog­
mática jurídica, é c o n t r á r i o a ins ti tu iç ão do júri, principal­
me nt e no que tange à sua c o m p o s i ç ã o pelos "juizes de fato" ou
31

leigos:

"Escolhido pela sor t e , numa lista onde os n o m e s são lança­


dos segundo o critério do magistrado profissional incum­
bido dessa f u n ç ã o , o jurado não é representante do povo
nem recebe incumbência alguma da sociedade para o exercí­
cio de sua missão. Ê por isso que não se devem invocar os
pos tulados da democracia para justificar a instituição do

júri (12)

5.3. OS J U R A D O S E A R E P R E S E N T A T I V T D A D E .

O Có di g o de Pro ce ss o Penal, como vimos, especi­


fica q u e m pode e q u e m não pode ser jurado. A linha norteadora
é que os jurados d e v a m ser "cidadãos de n o tó r i a idoneidade".
Mas, o que são c i da dã os de n o tó ri a id on eid ade ? Como na maioria
das p al av ra s da lei, es tam os di a n t e . d o que a Filosofia da Lin­
g u a g e m O r d i n á r i a cha ma de va gue sa e amb igüidade. Ne ss e sentido,
a s se ve ra W a r a t :

"As vezes os objetos ou situações significados pela lin­


guagem apresentam a propriedade referida pelo critério
definitório, mas os apresenta em g r a u s distintos dos que
exibem certos casos aceitos pela comunidade como para­
digmáticos. D u v i d a - s e , então, se o "rótulo verbal" apli­
cado àqueles casos deve ser utilizado, na hipótese. Isto
s u c e d e ,po r e x e m p l o , no uso dos termos "vadio" e "mendi­
cância". Quanto tempo é necessário ficar sem emprego ou
outros meios de s u b s i s téncia para que alguém seja consi­
derado vadio? Quanto dinheiro ou renda se deve auferir
para caracterizar a e x i s ténc ia dos p r ó p r i o s meios de sub­
s i s t é n c i a ? (...) Como se vê, são todos estes predicados
descritivos de referência i m p r e c i s a .(...) Noutra direção,
percebemos a existência de p a l a v r a s em relação às quais
não se sabe que notas considerar relevantes, para sua
caracterização à margem das vai o r a ç õ e s , de quem as uti­
liza. Exemplificam a referência de expressões "mulher
honesta* (ar t i g o s 215, 216, 219, do Código Ppenal), "justi­
ficável c o n f i a n ç a " (a r t i g o 2 1 7 , CP), "motivo f ú t i l "(a r t i g o
121, § 2S, II, do CP). Ora, os d o i s primeiros tipos de
32

"problema examinados sã o tipicamente casos de vaguesa da


linguagem. 0 último pode também ser considerado numa si­

tuação de a m b i g ü i d a d e " .(13)

Warat ilustra m e l h o r ainda a situação, falando


da v a g u e s a da p a l a v r a "calvo":

"Neste caso, podemos detectar indivíduos que sem dúvida


nenhuma devem ser excluídos da denotação do termofLady
Godiva); outros que sem dúvida devem ser incluídos(Ko-
j a k ) ; no e n t a n t o , existe também uma terceira situação
no qual podem se apresentar sérias dúvidas quanto à cor­
reção da aplicação denotativa do termo. Não existe.r um
"calvômetro" apto para decidir quantos cabelos deve um
homem perder para ser chamado "c a l v o " . "(14)

T r a n s p o r t a n d o essa as s e r t i v a para a questão da


d e f i n i ç ã o do que seja um "cidad ão de n o t ó r i a idoneidade", po­
de mo s d i z e r que não existe u m " ido ne id ôm et ro " que possa servir’
-'
de p a r a d i g m a pa r a o juiz que escol he os jurados.

No âm b i t o do Tr ibunal do Júri, a noção de " ci ­


da d ã o de n o t ó r i a ido ne id ad e" pode ser vista como uma definição
persuasiva, que e x p r e s s a as crenç as valoratiyas e id e ol óg ic as
do m a g i s t r a d o sobre o m o d o de escol ha dos jurados.

Po d e m o s dizer, ainda, que a s s i m como o pad rã o


de n o r m a l i d a d e v i g e n t e na soci ed ad e tem enorme influência na
d e s i g n a ç ã o de q u e m po ss u e as c a r a c t e r í s t i c a s que permitam o
encaixe de a l g u é m no c o n c e i t o de "notória idoneidade", o pad rã o
de n o r m a l i d a d e terá ef e i t o no âmbi to da a p r e c i a ç ã o dos jurados
sobre o réu no j u l g a m e n to do júri.

5.4. 0 C O R P O DE J U R A D O S E 0 "PADRÃO DE N O R M A L I D A D E "

Os jurados, es co l h i d o s de n t r e os "ci dadãos de


notória idoneidade", f az em parte, assim, de um padrão de "nor­
m a l id ad e" e um p a d r ã o de "aceitação" pela sociedade.

É im po r t a n te anotar, nesse sentido, que os pa­


drões de c o m p o r t a m e n t o tidos como "normais" correspondem a uma
dada e s t r u t u r a social, que os gera. Deste modo, os p a dr õe s
m u d a m em função das t ra ns f o r m a ç õ e s por que p as sa a sociedade.
Nesse aspecto, G o f f m a n coloca:

"Pode-se tomar como estabelecido que uma condição neces­


sária para a vida social é que todos os participantes
compartilhem um ú n i c o conjunto de expectativas normati­
vas, sendo as normas sustentadas, em p a r t e , porque foram
i n c o r p o r a d a s " .(15)

Assim, os va lor es de id ent ida de ger ai s de uma


dada so ci ed ad e p o d e m não e star e s ta be le ci do s co m firmeza, po-
rém, ainçla assim, po de m p r o j e t a r algo sobre os e n c o nt ro s que se
I'
p r o d u z e m em todo lugar na vida cotidiana.

Fic a claro, d es se modo, que o mag ist rad o, en­


c a r r eg ad o de se le c i o n a r o co rp o de jurados, al é m de usar os
seus p r óp ri os cr i t é r i o s a x io l ó g i c o s e sua v is ão de mundo, es­
tará, ainda, e fu nd am en tal me nt e, di a nt e da e s t ru tu ra social,
que remete à d e t e r m i n a d o s p a drõ es tidos como n o rm a i s àq ue l a d a ­
da sociedade.

Dia nt e disso, p o de -s e e n t e n d er a disparidade


que exist e na c o m p o s i ç ã o do co rpo de jurados das duas ci dad es
pesquisadas, Santa Cruz do Sul e Rio Pardo. As es tr ut u r a s so­
ciais são t o t a l m e n t e diferen te s, h a v e n d o até uma dependência
ec on ôm ic a da se gun da em re la çã o à primeira, d e vi do ao mo do de
pr o d u ç ã o p r e d o m i n a n t e na região. Nesse sentido, ma i s especifi­
camente, t ra ta re i deste as s u n t o no ca pí t u lo "O pa lco das a ç õ e s ’
.'
34

N O T AS B I B L I O G R Á F I C A S

(1) - SILVA, E v a n d r o Lins e. A de fe s a tem a p a l a v r a . Rio de J a ­


neiro, Aide Ed ito ra Ltda, 1980. p . 63.
(2) - Ibidem, p . 69.
(3) - Ibidem, p . 73.
(4) - COELHO, W a l t e r Ma rc ili gil , Erro de tipo e erro de p r o i b i ­
ção no no vo Có di go P e n a l . In: 0 direito penal e o no­
vo C ó d i g o Penal Brasileiro. Giacomuzzi, Wladimirrr O R G . .
Porto Alegre, FABRIS, 1985. p . 82 e 83.
(5) - Ibidem, p . 83.
(6) - W A R A T , Luis Alberto. Ens in o e saber j u r í d i c o . Rio de Ja -
neiro, El d o r a d o Tijuca, 1977-. p . 48 e 49.
(7) - ALVES, Ruben. F i l o s o f i a da ciência. In tr od uç ão ao jogo e
suas r e g r a s . São .Paulo, Brasiliense, 1984. p . 13.
(8) - CORREA, Mariza. Os crim es da p a i x ã o . São Paulo, Brasi­
liense, 1981. p . 34 e 35.
(9) - A G a z e t a do S u l . Santa Cruz do Sul. Ed i ç ã o de 2 de junho
de 1985. p . 16.
(10)- Op.cit., e d . de 8.6.85. p.l ''
(11)- CORRÊA, op.cit., p . 32.
(12)- MARQUES, José Frederi co. A ins ti tu iç ão do júri. São Paulo,
Saraiva, 1963. p . 183.
(13)- WARAT, Luis Alberto. O di re i t o e sua linguagem. Porto A-
l e g r e , FABRIS, 194, p . 76.
(14)- Ibidem, p . 77.
(15)- GOFFMAN, E r v i n g . Estigma: notas sobre a m a n i f e s t a ç ã o da
i de nt i da de de ter i o ra da . Trad, de M á r c i a Bandeira de
M e l l o Le it e Nunes. Rio de Janeiro, Zahar,1978, p . 138.
6. T R I B U N A L DO JÚRI : O RITUAL, OS ATORES, OS DI S C U R S O S E
A DOGMÁTICA JURÍDICA

6.1.- O T R I B U N A L DO JÚRI COMO RITUAL.

Para a n a l i s a r m o s o Tr ib in al do Juri como um ri­


tual, faz-se n e c e s s á r i o uma in cu rs ão ao c am po do simbólico.
Nesse sentido, é im pr es c i n d í v e l c a l ca rm os a questão em Casto-
riadis. Se gu nd o a s se ve ra o a u t o r g r e c o - f r a n c e s ,

"Tudo o qu e se nos apresenta no mundo s ocial-histórico es


tá i n d i s s o c i á v e l m e n t e entrelaçado com o s i m b ó 1 ic o . Não
que se esgote nele. Os atos reais, individuais ou cole­
t i v o s --- o t r a b a l h o , o consumo, a guerra, o amor, a nata­
l i d a d e --- os inumeráveis produtos materiais sem os quais
nenhuma sociedade poderia viver um só ' m o m e n t o , não são
nem s e m p r e , não diretamente símbolos. Mas uns e outros
são impossíveis fora de uma rede simbólica. Encontramos
primeiro o simbólico, e claro, na liguagem. Mas os encon­
tramos i g u a l m e n t e , num outro grau e de uma outra manei­
ra, nas instituições. As .instituições não se reduzem ao
simbólico, mas elas só podem existir no simbólico, são
impossíveis fora de um s i m b ó l i c o em segundo grau e cons­
tituem cada qual sua rede s i m b ó l i c a . Uma organização da­
da da e c o n o m i a , um: si s tema de direito, um poder insti­
tuído, uma religião existem socialmente como s is temas
simbólicos s a n e i o n a d o s .(...) As sentenças do tribunal são
simbólicas e suas consequencias o são quase que integral­
mente, até o gesto do carrasco q u e , real por excelência,
36

"é i m e d i a t a m e n t e também simbólico em o u t r o n i v e l '.'(Dgrifèi

A i n s t i t u i ç ã o será, assim, uma rede simbólica,


so c i a l m e n t e sancionada. Para Cas toriadis. as s i gn if ic aç õe s i-
maginárias sociais

"...não denotam n a da, e conotam mais ou menos tudo; e é


por isso que elas são freqüentemente confundidas com seus
s í m b o l o s , não somente pelos povos que as utilizam, mas
pelos cientistas que as analisam e que chegam, por isso,
a considerar que seus significantes se significam por si
mesmos(uma vez que não remetem a nenhum relacional que
pudéssemos designar), e a atribuir a esses significantes
como tais, ao simbolismo tomado em si mesmo, um papel e
uma eficácia inifinitamente superiores às que certamente

p o s s u e m " . ( 2)

Dessa forma, o mundo'social é constituído em


funç ão de um sistema de sig ni fi ca çõ es . Tais significações e-
x i s t e m na forma de um i m a g i n á r i o e f e t i v o .R e l a t i v a m e n t e a essas
significações im a g i n á r i a s qu e se pode c o m p r e e n d e r a "escolha"
que caâa s o c ie da de faz de seu simbolismo.

Na a n á l i s e do a u t o r de "A I n s t i t u i ç ã o Im aginá-
, /
ria da Sociedade", é impossível compreender o que foi, o que e
a h i s t ó r i a humana, fora da c a t e g o r i a do imaginário. Assim,

"a ins tituição da sociedade é instituição de um mundo de


s i g n i f i c a ç õ e s --- q u e é evidentemente criação como tal, e
criação a cada vez e s p e c 1 f i c a . ( . . .) A instituição social
história é aquilo em que e por que se manifesta e é o i-
maginário social. Esta instituição é instituição de um
magma de significações, as significações imaginárias so­
ciais. (...) As composições de imagens ou figuras podem
ser, e freqüentemente são, imagens ou figuras por sua vez
e, p o r t a n t o , também suportes de significação. 0 imaginá­
rio social, é p r i m o r d i a l m e n t e , criação de s igni f i c a ç õ e s e
criação de imagens ou figuras que são seu suporte. A re­
lação entre a significação e seus s u p o r t e s (i m a g e n s ou fi­
guras) é o único sentido preciso que se pode atribuir ao
t e rmo simbólico; é com este sentido que este t e rmo é uti-

1 izado a q u i " . (3)


37

P od em os concluir, então, que, na sociedade, as


coisas sociai s são o que elas são atrav és das s i g n i f i c a ç õ e s que
elas figuram, m e d i a t a ou i mediatamente, di r e t a ou indiretamen­
te. A in st i t u i ç ã o da s o c ie da de existe en qu a n t o materialização
de sse ma gm a de si g n i f i c a ç õ e s im ag in ár ia s sociais, traduz ív el
por me i o do simbólico. A re la ç ã o dos agente s socia is co m a
" r e a l i da de "( qu e "aparece") é i n ter me dia da por u m "mundo de s i g ­
nif icações".

Ne sse sentido, vi sto que uma a n á l i s e da socieda­


de é p o s s í v e l ( e nece ssá ria ), vamos nos r e p o r t a r aos julgamen­
tos pelo T ri bu na l do J ú r i . Esse tipo de an á l i se é possível, na
m ed i d a em que traduzimos, at rav és do simbólico, as significa­
ções sociais, p r i n c i p a l m e n t e d e vi do à ma ne i r a marcadamente ri-
tu al iz ad a qu e a a p l i c a ç ã o da lei assume e s p e c i a l m e n t e ne ss e t i ­
po de julgamento: o Júri.

Temos, assim, que p e rc eb er não só os princí­


pios mais ger ai s que r eg em a a p l i c a ç ã o da lei, como , também,
os pr in cí p i o s que r e g em a vida da sociedade. No dizer de Tei­
xeira,

"As ocorrências e x t r a o r d i n á r i a s , não pela freqüência com


que se dão, mas pelo clima que as envolve, como cerimo­
ni a s, c e l e b r a ç õ e s , festas, comemorações, solenidades e
tudo o mais que, pelos eu caráter de acontecimento es­
pecial, se constitua em ritual, dizem algo da sociedade

que as d e s e n v o l v e .(4)

Ou seja, q u a n d o uma so ciedade sai do ordiná­


rio de sua ro t i n a para viver, em d e t e r m i n a d a s épocas, o e x tr ao r
d i n á r i o de e v en to s r i t u a l i z a d o s ,é porque r e f e r i d o ev en t o tem
uma re la çã o com o p r ó p r i o "corpus" social. Conforme Alves,

"C o n s t i t u i - s e , entã o , um c o n j u n t o de m a n i f e s t a ç õ e s simbó­


lica s , i n s c r i t o ,p o r t a n t o , na ordem de significação capaz
de ser lido, revelado ou percebido por todos os segmen­
tos da sociedade em que se r e a l i z a " . (5)

0 ritual, em seu desenrolar, rearticula, assim,


os d i v e r s o s el e m e n t o s da s o c ie da de em uma nova gramática, capaz
de ser p e r c e p t í v e l por todo o "corpus" social que de l e parti­
cipa.
38

Nesse sentido, Al ve s assevera:

"Os r i t u a i s são ao m e s m o te mpo seqüências estruturadas e


e s t r u t u r a n t e s , no duplo sentido em que expressam 'a or­
dem das coisas" e implicam na p e r c e p ç ã o de que o mundo e
as coisas deve ser e n t e n d i d o 9 .(6)

0 Tr ibu n al do Júri, des se modo, a r t i c u la um c o n ­


junto de m e n s a g e n s que d i z e m r e s p e i t o à vida social experimen­
tada c o t i d i a n a m e n t e p el os gr up o s e segm en to s sociais.

No pr o c e s s o ritual, v is to assim, bem como no


Tr ibu nal do Júri, ritual por excelência, operam as c a te g o r i a s
da s i g n i f i c a ç ã o e dos a t r i b u t o s valorativos, sociais, políti­
cos e ideológicos, d e c i s i v o s para a m a n u t e n ç ã o do "status quo",
ou c o n s i d e r a d o s como tais pe l o todo ou por d i s t i n t o s gru po s
de ss a sociedade.

0 Tri bu na l do júri é, assim, um momento extra­


o r d i n á r i o que a r t i c ul a e o r g a n i z a de uma maneira- diferente os
m o m e n t o s or di n á r i o s da ro t in a c o t id ia na e, à parte de torná-
la inteligível, ins tit ui um a outra rotina, pela qual os parti­
c ip an te s e n t e n d a m as d i f e r e n ç a s entre o na tur al e o cultural,
o social e o anti-social, o "normal" e o "desviante", a neces­
sidade da h i e r a r q u i a social, as reg ra s do p o d e r e, principal­
mente, a n e c e s s i d a d e do E s t a d o "proteger" a sociedade.

N ess a trilha, é r e l e v an te r e s s a l t a r que a apa­


rente a c e i t a ç ã o da ig ua ld a d e de todos os cid ad ão s pe ra nt e a
lei, numa so ci ed ad e onde é imposs íve l es c o n d e r a desigualda­
de, se e x pr es sa até m e s m o na d i s t r i b u i ç ã o do espa ço da sala do
Tri bu na l do J u r i . Assim, em um nível, está o público, os anô­
nimos, sem n e n h u m sí mbo lo que os d i s t i n g a uns dos outros. Em
o utr o nível, sep ara do do p r i m e i r o por uma di v i s ã o ( r e a l ou ima­
ginária), estão os advogados, e st ud an te s de direito e jorna­
listas. Ac im a dos nív ei s citados, estão c o n c e n t r a d o s os símbo­
los de d i s t i n ç ã o entre seus o c u p a n t e s e os dos outr os ní ve i s e
entre si: bandeir as, cru cifixos, tablados, onde se elevam me­
sas e cadeiras. A m e s m a re la ç ã o de p r o x i m i d a d e se rep rod uz
aqui: a s s i m como os advogados, es tu d a n t e s de di re i t o e jorna­
listas são os es co l h i d o s para fi ca re m ma is p ró xi mo s do ce ná ri o
39

das ações, o p r o m o t o r de justiça ocupa a m e s a ao lado direito


do juiz, p r e si d e n t e do júri.Os a u x i li ar es do juiz se nt am- se à
esquerda. 0 es cr i v ã o só anota o que for d i ta d o pelo magistra­
do. A b a i x o do tablado, ao rés-do-chão, fica a mes a do advoga­
do, em frente às sete c ad ei ra s e me sas dos jurados. No me i o da
sala. qu ase em frente ao juiz, está senta do o réu, ladeado, via
de regra, por po l i c ia is m i l i t a r e s .(7)

Temos, assim, uma d i s t r i b u i ç ã o dos es paç os no


júri que po der ia ser c a r a c t e r i z a d a como geopo lít ica . F o uc au lt
contribui, asseverando:

. .olhemos meticulosamente o que significa a disposição


espacial do tribun al . a disposição das pessoas que estão
em um tr i b u n a l . Isso pelo menos implica em uma ideolo­
gia. Qual é ess a disposição? Uma m e sa , atrás dessa mes a,
que os distancia ao m e s m o tempo das duas partes, estão
terceiros, os j u i z e s ; a posição destes indica primeiro
que eles são neutros em relaçao a uma e a out r a ; segun­
do, implica q ue o seu julgamento não é determinado previa^
mente, que vai ser estabelecido depois do inquérito pela
audição da s duas p a r t e s , em função de uma certa norma de
verdade e de um c e r t o número de idéias sobre o justo e o
injusto; e, t e r c e i r o , que a sua p o s i ç ã o terá peso de auto^
r id ade. Eis ò que quer dizer e sta simples disposição es­
pacial. Ora, creio que essa idéia de que pode haver pes­
soas? que sã o neutras em r e l a ç ã o as duas partes, que po­
dem julgá-las em função de idéias de j u s t i ç a com valor
absoluto e que as suas decisões devem ser executadas
vai demasiado longe e parece muito distante da própria
idéia de uma j u s t i ç a p o p u l a r " . (8)

Essa se gr e g a ç ã o de p o s i ç õe s( qu e exis te em qual­


q u e r tribunal, mas que é, pr inc ipa lme nte , es t e r i o t i p a d o no ju~
r i ) , é toma da pelas pe ss oa s como parte do espetáculo; ô ãd vô§ ãr
do espe ra até que o juiz pr of i r a as pal av ra s r e g u l a m e n t a r e s ("o
doutor fulano pode oc up a r a tr ibu na da defesa"), os jurados se
d i r i g e m em o r d e m para seus lugares, o c up an do a m es ma ca de i r a
toda vez que v o l t a m à sala após uma interrupção, e n q u a n to o réu
fica, qu as e sempre, de cab eç a baixa, entre as mãos ou chorando.
40

O réu, cuja t ra get ór ia no p r o c e s s o será anali­


sada adiante, não o bs ta nt e ser o p r o t a g o n i s t a do júri, é a fi­
gura mais o bs cu ra do julgamento. SÓ p a r t i c i p a do interrogató­
rio .

M a r i s a Corrêa, a n a l i s a n d o o Tr ibunal do Júri,


coloca que

A relação vertical aparente hessa ordenação do espaço se­


rá tra nsf ormad a, dentro do âmbito da discussão, numa re­
lação horizontal, que obscurece a existência de 'desi­
guais' como parceiros no p r o c e s s o em j u l g a m e n t o . Essa
horizontalidade se estabelece ao criar-se uma aparência
de igualdade no debate, acusado e vitima representados
pela defesa e a c u s a ç ã o , ambos c o m p e t i ndo pela decisão do
júri popular. A discussão pública valida, legitima o
processo e o ignora, ignorando a sua construção passo a
pas s o . (...) 0 debate, máscara ao m e s m o t e mpo que real, es
tá anteriormente limitado pelas condiçoes de sua produ­
ção, jurídicas e sociais. Os atores jurídicos, ao servi­
r e m de mediadores de uma realidade que não é a sua, tra-
duzindo-a para a linguagem do m u n d o a que pertencem,
perdem de vista o sentido de opressão inscrito no traba­
lho que real i z a m , passando a atuar como se de fato t odos
fossem i gu a i s .

0 processamento também transcorre como se t o dos os casos


fossem a mesma história, um só caso, contado diversas
vezes e de diversas maneiras. E como se t o dos os atos en­
volvidos na quebra da regra legal fossem equivalentes
desde que p o s s í v e i s de serem enquadrados dentro do mesmo
artigo do Código Penal, todos sujeitos, portanto, à mesma
trajetória legal. Mas é a partir de limites previamente
traçados para cada um que se estabelecerá a discussão
interna do p r o c e s s o , levando-se a público apenas as res­
postas, suscitadas por perguntas nunca explicitadas que
serão , apesar dis s o , aceitas implicitamente como váli­
d a s " . (9 )

Vale frisar, ainda, que nos júris simu lad os r e a ­


lizados nas fac ul da de s de direito, há uma r e p r o d u ç ã o do ritual,
41

tanto a nível si m b ól ic o como da h i e r a r q u i z a ç ã o de forças, po­


de res e d i s t r i b u i ç ã o se gr e g a c i o na l dos espaços. Os júris simu­
lados da F a c u l d a d e de D ir ei to de Santa Cruz do Sul são presi­
didos, via de regra, pelo juiz pr es id en te do tri bun al local,
que no r m a l m e n t e t a m b é m é p r o f e s s o r de Direi to Penal ou Pro­
cesso Penal. Os d i s c u r s o s dos atores jurídicos t a mb é m r e pe te m
as m e s m a s "normas" que r e g e m os julgame nt os oficiais. Os pró­
prios ac ad êm i c o s de direito, que se rv e m como jurados, são cha­
m ad os de "excelên cia s" . Du ra nt e todo o ritual do júri simula­
do, os es tu d a n t e s t r a t a m - s e por "excelência" e "doutor".

6.2. O RÉ U E A SUA T R A J E T Ó R I A NO PROCESSO.

A t r a j e t ó r i a do réu no p r o c e s s o do júri é m a r c a ­
do pela pr e s e n ç a de três m omentos, que Van G e n n e p distinguiu
nos ritos de passagem: separação, m a r g e m e a g r e g a ç ã o .(10)

A primeira fase pela qual p as sa o acusado de


crime que é julgado pelo júri, é a separação. Esta fase confi-
g ur a-s e q u a n d o t e m o seu nome co lo c a do no rol dos culpados,
no m o m e n t o da sen te nç a de pronúncia, co nf o r m e o a r ti g o 408, do
Códi go de P r oc es so Penal, que em seu p a r á g r a f o primeiro diz:

"Na sentença de p r o n ú n c i a o juiz declarará o dispositi­


vo l e ga l em cuja sanção julgar incurso o réu, mandará
lançar-lhe o nome no rol dos culpados, recomendá-lo-
à na prisão em qu e se achar ou expedirá as ordens necessá_
rias para sua captura".

S eg und o a d o g m á t i c a jurídica, na se nt en ça de
pr o n ú n c i a o juiz emite um juízo de a d m i s s i b i l i d a d e qua nt o à
acusação, ou seja. m a n d a r á ou não o réu a j u l g a m e n t o pelo jú ­
ri. A pronúncia é c o n s i d e r a d a pela d o g m á t i c a como uma peça p r o ­
cessual "in d u b i o pro societate", isto é, h a v e n d o ra zoável p r o ­
va de que o fato c r i m i n o s o e x ist iu e indícios de que o acusa­
do foi o autor, isto será s uf ic ie nt e para l e vá- lo a júri. Se­
gu nd o a j u r i s p r u d ê n ci a dos trib un ais br as ileiros,

" nã o é necessária a prova incontroversa da existência do

crime para que o acusado seja pronunciado; basta que o


42

"juiz se convença daquela e x i s t ê n c i a ".(...)

"o d e s p a c h o de pronúncia, sendo meramente déclaratório,


há inversão da regra procedimental do in dubio pro reo
para in dubio pro societate, em razão do que somente
diante de p r o v a inequívoca ê que deve o réu ser subtraí­
do de seu juiz natural: o j ú r i . "(11)

T e m - s e ,assim, uma sit uaç ão in us it ad a criad a pe­


la lei: o juiz, na p r o n ú n c i a ( q u e é m e r a m e n t e d e c l a r a t ó r i a ), mes
mo que h a j a m d ú v i d a s q u a n t o ao fato de ser ou não o réu o autor
do fato criminoso, m a n d á - l o - à a júri. Mas, e isto é r e l e v a n t e ,
não obs ta nt e não ter sido julgad o ainda, já terá seu nome lança
do no rol dos culpados.

A s i t u a ç ã o do a c us ad o que será julgado pelo T r i ­


bunal do Júri é diferente, assim, do que será julgado pelo juiz
singular, na m e d i d a em que n es te o seu nome s o men te i.rá para o
rol dos cu lp ad o s após a sua efeti va condenação. O t r a t a m e n t o di
fer en ci ad o do ac us ad o de crime obje to de jul ga me nt o pelo júri,a
través da fase p r o c e s s u a l "sen ten ça de pronúncia", pode ser ex­
pl ic ad a d e nt ro do c on t e x t o dos ritos de passagem. Victor Tur-
ner, ap oi ad o em Gennep, assevera:

"...(essa primeira fase) abrange o comportamento simbó­


lico qu e significa o afastamento do indivíduo ou de um
grupo, quer de um p o n t o f ix o anterior na estrutura so­
cial, quer de um c o n j u n t o de condições culturais(um 'es­
tado') ou ainda de a m b o s ".(12)

A sen ten ça de pronúncia, com o l a nç a m e n t o do n o ­


me do ac us ad o no rol dos culpados, afasta o indivíduo do grupo
"normal" da sociedade, ou seja, os que não tem o nome no rol
dos culpados. Está, pois, c o n c l u í d a a pr im e i r a fase.

A fase, porém, que mais i n te re ssa n es ta aná­


lise é a da m a r g e m ou da l i m i n a r i d a d e . É a fase que vai desde a
sen tença de pronúncia, que remete o réu a ju lg a m e n t o pelo jú­
ri, até o v e r e d i c t o final. V i c t o r Tu r n e r c a r a c t e r i z a esta fase
com m u i t a propriedade, dizendo:
"os atributos de 1 i m i n a r i d a d e . . .são necessariamente ambíguos,
43

"uma vez que esta condição e estas p e s s o a s (1i m i n a r e s ) f u r ­


tam-se ou escapam à rede de classificações que normalmen­
te de t e r m i n a m a localização de estados e posições num es­
paço cultural. As entidades liminares não se situam nem
a qu i nem lá: estão no meio e entre posições atribuídas e
ordenadas pela l e i , pelos costumes, pelas convenções e
cerimonial.

As entidades 1 i m i n a r e s (...) podem ser representadas co­


mo se n a d a p o s s u í s s e m ,(...) como seres liminares não
possuem 's t a t u s '(. . .) nada que as p o s s a distinguir de
seus colegas neófitos ou em p r o c e s s o de iniciação. Seu
comportamento é normalmente passivo e h u m i l d e . Devem, im­
plicitamente, obedecer aos instrutores e aceitar puni­
ções a r b i t r á r i a s , sem queixa. Ê como se fossem reduzi­
dos ou m o d e l a d o s de novo e dotados de outros poderes,
para se capacitarem a enfrentar sua nova situação de vi­
da" . (13)

Esta é a si tu a ç ã o do réu a c us a d o por c r i m e da


c o m p e t ê n c i a do júri: não o b s t a n t e não ter sido julgado, ain­
da, leva consigo, em sua vida cotidiana, se não . es t i v er pre­
so, o e st ig ma p u n i t i v o da h u m i l h a ç ã o de ter o seu nome no rol
dos culpados. Na realidade, o réu não é n e m inocente, nem cul­
pado: está, pois, na 1 i m i n a r i d a d e .

Co mo co lo co ma i s adiante, esse despojamento,


esta im po t ê n c i a do a c u s a d o di a n t e da si tu açã o que a lei e a
soci eda de lhe impõem, tem uma contrapa rti da , que é o "poder
dos fracos", que d e s e n v o l v o na parte d es te t r a b a l ho de s t i n a d a
aos di s c u r s o s dos at or e s jurídicos no júri.

Na t e r ce i ra f a s e . c ha ma da por Va n Gennep de
agregação, esta rá c o n s u m a d a a passagem. 0 réu v ol ta a ter es­
tab il id ad e mais uma vez e, di a nt e disso,., terá direitos e obri­
gações frente aos d e m a i s c i d a d ã o s de tipo c l a r a m e n t e de f i n i d o s
e "estruturais", e s p e r a n d o - s e dele que se c o m p o r t e co nf o r m e os
di ta me s da sentença. Se absolvido, não terá embaraços. Se con­
den ad o a ma is de dois anos de reclusão, irá para o cárcere.
Se for c o n d e n a d o a uma pena de até dois anos e for p r i m á r i o , c o m
44

bons an tec ede nt es, terá que c u mp ri r re l i g i o s a m e n t e as regras


dos "s u r s i s " ( s u s p e n s ã o c o n d i c i o n a l da pena), mediante cláu­
sulas co ns ta n t e s na s e n t e n ç a do Tr ibunal do júri.

Não po de mo s e s q u ec er ,por o ut ro lado, que vive­


mos em uma s o c i e d a de de c l a s s e s sociais di fe re n c i a d as . Nesse
sentido, diz C o r r êa que no ritual de j ul gam en to em nos sa socie­
dade,

"...o a c u s a d o (...) não está apenas numa situação de li-


minaridade c i r c u n s t a n c i a l ---o j u l g a m e n t o - - , momento em
que perdeu seus atributos s o c i a i s . Esta situação é per­
manente e poderia ser definida como uma institucionali­
zação da 1 i m i n a r i d a d e : ele está sujeito, a qualquer mo­
mento, a ser ju lg a do através de uma linguagem que emprega
conceitos e normas que ele não domina, utilizada pelos
guardiães da estrutura social. Esta i n s t i t u c i o n a l i z a ç ã o se
manifesta, claro, só nos casos em que os réus são pessoas pertencen­
tes á classe baixa, (...) e ê compartilhada por seus companheiros de
posição estrutural em outras situações que não apenas a que c coloca
na mira da lei. Um réu de classe alta, por outro lado, manterá tam­
bém sua posição estrutural, passando apenas pelas etapas formais de
sua situação liminar de julgamento, mas conservando o pleno dominio
de seu estado anterior e de todos os atributos que lhe pertenciam nes
te estado”. (14) grifei

6.3 . OS DISCURSOS NO TRIBUNAL DO JÚRI

C i t a n d o E v a r i s t o de Morais, Promotor de Justi­


ça do Rio de Janeiro, de reno me nacional. Mariza Corrêa diz:

"Ele p r ó p r i o várias vezes descreveria as discussões do


Tribunal do j ú r i utilizando uma linguagem guerreira: ali
parecia travar-se, de fato, torneios de oratória, o nd e
interessava mais medir a competência retórica dos deba-
tedores do que es t a b e l e c e r p r o v a s da responsabilidade na
morte de a l g u é m " . (15)

Co n ti nu an do , a auto ra pa ul i s t a coloca:

"Toda a argumentação e os con tr a- ar gu me nt os , desenvolvidos


45

"por a d v o g a d o s e p r o m o t or e s nos casos que debatem, não


deveriam obscurecer o fato de que, para além das versões
que apresentam no j ú r i , estes agentes da lei compartilham
um terreno comum que lhes permite o encontro da discus­
são. Este terreno comum não se d e f i n e , apenas, pelas re­
gras legais às quais eles devem se submeter, mas inclui
a a c e i t a ç ã o de c e r t a s n o r m a s s o c i a i s que eles antes re­
f o r ç a m do que combatem..Ha toda uma série de refrões do
senso co mu m , freqüentemente incorporados na retórica fo­
ren s e , e qu e vão deiineando o que é considerado um c o m p o r
tamento adequado p ara a mulher e p ara o homem em n o s s a so
c i e d a d e . "(16) grif ei

Ambos, t an to o p r o m o t o r de justiça e o adv og a


do de defesa, usam discursos semelhantes, dife re nc ia do s, somen­
te, no que tange à c a r a c t e r i z a ç ã o do réu e da vítima. Assim,
à p r i m e i r a vista, crem os que da d i a l é t i c a dos discursos da
a c u s a ç ã o e da defesa, há uma oposição. Porém, na realidade,
c o n s t a t a r e m o s que ambos f u n c i o n a m como n e u t r a l i z a d o s / n e u t r a l i z a
dores, e q u i l i b r a d o s / e q u i l i b r a d o r e s dos fatos, i n s t i t u í d o s / i n s-
ti t u i n t e s do social e dos a g e n t e s em ação. No julgamento, os
atos são t r a n s f o r m a d o s em autos, remontados a partir do imagi­
n á r i o g n o s e o l ó g i c o e social dos ato re s em ação. 0 momento do
debate, em plenário, concentra todos os el e m e n t o s da constru­
ção do processo, n u m d a d o ponto, como se es t i v e s s e congelado,
p r é - c o n c e b i d o . Como d i z e m os j u r i st as ." o que não está nos autos
não está no m u n d o do d i r e it o" .. .

Os d i s c u r s o s no p r o c e s s o do júri produzem, d es sa
maneira, uma m e d i a ç ã o que ac h a t a a e s p e s s u r a inicial dos acon­
te ci m e n t o s e d e s p o l i t i z a as re la ç õ e s entre as p e ss oa s no mun­
do. As d i v e r s i d a d e s e ambigüidades são ne g a d a s no momento em
que os fatos e re la ç õ e s p a s s a m pelo filtro de uma li n g u a g e m
f o r m a l i z a d a que t r a n s f o r m a e reduz as c ha nc es do réu a ape na s
duas in te rp retações, am ba s t r i b u t á r i a s do m e s m o modelo:
"As duas interpretações possíveis serão ainda uma vez re­
duzidas na decisão que será, além da escolha da apresen­
t a ção mais coerente com o modelo que os j u l g a d o r e s visua­
lizam para a sociedade onde vi v e m , também um selo de a-
provação dos p r o c e d i m e n t o s escolhidos por essa mesma so­
ciedade na transformação m e n c i o n a d a s ".(17)
46

6.4. OS D I S C U R SO S NO T R I B U N A L DO JÚRI E O DIREITO PENAL DO


A UT OR V E R S U S O D I RE IT O PENAL DO FAT O

Co mo vi ve mo s em uma soci eda de capi ta lis ta , com


cl ass es sociai s e x t r e m a m e n t e d i s t a n c i a d a s a nível cu ltural e
econômico, o l eg is la do r penal não poderia, no c o r p o da lei, es­
pecificar, formalmente, q u e " m a t a r alguém", por exemplo, seria
d i f e r e n t e para q u e m fosse de d e te r m i n a d a ca m a d a social e para
q u e m fosse de urna cama da m e n o s f av ore ci da da sociedade. À evi -
dência, isso seria ilógico, le van do- se em con ta o pro ce ss o
ideológico, cuja e fi ca ci a de p e n d e da exata m e d i d a em que nao e
pe rc eb id a a int en çã o do legislador.

Criou-se, assim, a distinção in formal entre


d i r e i t o penal do fato e d i r e i t o penal do autor. Dessa forma,
acusa-se, defende-se e julga-se o ind iv ídu o não pe l o fato cri­
m i n o s o que cometeu, ma s pelo que elè, efetiva me nt e, r e p r es en ta
na te s s i t u ra da so ci ed a de no qual está inserido.

Esse tipo de p r oc e d i m e n t o é e x e r c i t a d o exata­


m e n t e po r q ue o d i r e i t o penal está in serido em uma soci ed ad e d e ­
sigual, em que se o in d i ví d u o tiver bons ant ece den te s, for um
b o m pai de família, trabalhador, etc., tudo s e gu nd o os "pa­
drõ es de n o r ma li d a de " da so ci eda de dominante, terá m a i o r e s c o n ­
diçõ es de ser a b s o l v i d o do que a l g u é m " c l a s s if ic ad õc " como
" d e s v i a n t e " . Segund o Corréa,

"Este perfil da s relações adequadas, normais, entre ho­


mens e mulheres não ê nunca posto em questão nas dis­
cussões jurídicas: o q u e se t e nta fazer é enquadrar ho­
mens e mulheres concretos dentro da regras idealizadas e
comprovar a sua m a i o r ou m e n o r adesão a elas. Do suces­
so dessa operação ê que vai depender, então, a condena­
ç ão ou absolvição dos acusados ante o j úr i, onde o que _se
vune e a conduta social do a c u s a d o e da vitima, e não o

crime c o m e t i d o " . (18) - grifei

Característico disso é o surgimento da teste­


mu nh a abonatória, a qual, não ob st a n t e nao ter vi st o nada rela
c io na do ao fato c r i m i n o s o im pu ta do ao réu, vem-a juízo para
47

di z e r que o réu é b o m sujeito, ex ce len te pai de família, traba­

lhador, etc

Ou t r o fator i nd ica ti vo a d v ê m das manchetes dos


jornais, que c o s t u m a m colocar: "Fulano de Tal será julgado pe­
lo Tri bun al do Juri", ou "Será julgado hoje o mendigo que ma­
tou o c o m e r c i a n t e " ...

A c o n s e q ü ê n c i a des te p r oc es so se re fl et e de for=
ma a c e n t u a d a nos d i s c u r s o s dos atores jurídicos que atuam,
p r i n c i p a l m e n t e , no T r ib un al do Juri. Podemos dizer, ne ss a li
nha, que os at or e s jurídicos, ao u t i l i z a r e m o direito penal do
autor, al ém de e s c a m o t e a r e m o d i r e i t o penal do fato, estao,
implicitamente, corroborando a desigualdade social, mormente
se levarmos em co nta a c o m p o s i ç ã o do corpo de jurados, que,
hi sto ric ame nte , e c o n s t i t u í d o pelas camad as dominantes da so­

ciedade.

A r e la ti va estabilidade, por exemplo., do corpo


de jurados de Santa Cruz do Sul (como veremo s em capítulo es­
pecífico) , nos m o s t r a que O ap oio a esse modo discursivo tem
um amplo re s p a l d o nos r es ul t a d o s dos julgamentos.

Assim, se lev arm os em conta que os acusados, em


sua maioria, p r o v ê m das ca m a d as pobr es da sociedade, po dem os
c o nc lu ir que, quando levado s a julgamento por um cor po de ju­
rados formado, bas ic am en te , por ca mad as mé di o ^-superiores da
sociedade, es ta ra o em uma v e r d a d e i r a op os i ç ã o aos seus julga
dores. Como a ss e v e r a Correa,

"...a relação do acusado com o mundo lhe ê tomada, afas­


tada,, p o s s u í d a e t r a n s f o r m a d a (p r o c e s s a d a ) pelos agentes
legais. A sua relação, pessoal e infinitamente complexa,
sofre a interferência de um a p a r a t o externo que vai ser­
vir de m e d i a d o r entre seus atos e as n o r m a s sociais vi­
gentes, marginalizando-o neste caminho e reduzindo-o ao
silêncio, a um s i l ê n c i o de quem possui os instrumentos
necessários para dirigir seu próprio destino. Se---- e i e
for um trabalhador a s s a i a r i a d o , como o são quase todos_os
acusados nestes c a s o s . a sua alienação ê dupl a ; _a l é m de.
sofrê-la no mercado de t r a b a l h o . será também 'est r a n h a d o '
48

"do controle do seu passado, da sua h i s t ó r i a , seus motivos

e sua si tu a ç ã o sendo redifinidos a partir de interesses

que não são os s e u s " . (19)-grifei

6.5. OS D I S C U R S O S NO T R I B U N A L DO JÚRI: A ACUSAÇÃO

Como vimos, os d i s c u r s o s dos at o r e s jurí di co s( a-


c us a ç ã o e defesa) no júri, via de regra, estão permeados pela
vis ao de que o que ma is i m por ta é o au tor do fato criminoso e
não o pr ó p r i o fato co m e t i d o por aqu el e autor.

Assim, p e r c e b e - s e que no d i s c u r s o da a c us aç ão
está p r es en te a i n f a l i b i l i d a d e da soci ed ad e como um todo e de
que, as si m com o todos tem a m e s m a cha nc e na sociedade, a lei é
igual para todos.

0 réu é vi s t o e co l o c a d o como um desviante,


ou seja, no d i z e r de Turner, "a pe dr a que os construtores re­
jeitam" :

"... a anomalia, a pedra que os construtores rejeitam, é


removida da ordem estruturada da sociedade e levada a re­
presentar a simples unidade da p r ó p r i a sociedade, concei­
tuai i z a d a como homogênea e não como um sistema de posi­
ções sociais h e t e r o g ê n e a s ” .(20)

Ne ssa linha, também é relevante citar Goffman,


para o qual "p o d e - s e c h a m a r d e s t o a n t e a q u a l q u e r membro indi­
vidual qu e n ã o a d e r e às n o r m a s e denominarmos desvio a sua
p e c u l i a r i d a d e " .(21)

Esta "pedra q ue os co n s t r u t o r e s rejeitam", es­


se "desviante", é v is to frente a um c o m p o r t a m e n t o tido como
para dig mát ico , considerado "normal" no ima gi ná ri o social.

No d e c o r r e r da p e sq ui sa que deu origem a este


trabalho, as s i s t i a v á ri os jul gam ent os do Tribuna l do Júr i em
Santa Cruz do S u l . No jul ga me nt o oc o r r i d o no dia 7 de ma i o de
1985, em que estav a sendo julgado u m h o m e m ac us ad o de ter ma­
tado sua m u l h e r co m três tiros, por su sp eit ar que esta o traía
com seu irmão, o p r o m o t o r de justiça usou cerca de dez minutos
49

do de s v i o ou da "pedra que os c o n s t r u t o r e s rejeitam". Na sau­


da çã o aos jurados, disse: "0 j ú r i é a representação da comu­
nidade através de sete pessoas. Santa Cruz do Sul está repre­
sentada e muito bem representada nas pe ss oa s dos senhores".
Depois, saudou o réu: "Min h a saudação também a voce. D... Vo-
ce desferiu três t i ro s de r ev ól ve r para limpar a sua honra.Que
honra? 0 verdadeiro passional não mata. 0 amor é cliente não
dos hospitais e dos n e c r o t é r i o s . 0 qu e voce fez foi matar, pa­
ra m o s t r a r o teu m a c h i s m o . " Após, asseverou: "o r é u é um mau
exemplo para a s o c i e d a d e ." Enquanto o promotor falava do réu,
d i z e n d o que não era um b o m e l e m e n t o na sociedade, como qu e r i a
fazer crer a d e fe sa nos au tos do processo, e ao mesmo tempo
asseverava os a t r i bu t os de dignidade, de boa mãe da vítima, foi
i n t e r ro mp id o pelo a d v og ad o de defesa: "V.Exa. quer nos fazer
crer qu e a vitima era uma s a n t a , não é verdade?" E o pr o m o t o r
respondeu, co m uma po nt a de ironia: "Não, Exa . , quem era 'san­
to ' era o réu" .

No jul ga me nt o do dia 12 de junho de 1985, out ro


p r o m o t o r atuou. Us ou ce rca de dez m i n u t o s na sau da çã o( é comum.-
u sa r- se até q u i n z e m i n u t o s na sa ud aç ão ao juiz, ao advogado,
aos jurados etc). Já no início, calcou o discurso no tema "a
pedra que os c o n s t r u t o r e s rejeitam": "Sei que a comunidade de
Santa Cruz do Sul é ordeira, próspera e deseja a paz. Infeliz-
mente, há um a l t o indice de criminalidade. Espero que neste
julgamento ajudemos a diminuir e combater este indice...". A se
g u i r , e n f a t i z o u a função do p r o m o t o r de j u s t i ç a :" A c u s a r em no­
me da sociedade os que não cumprem com as regras estabeleci­
das".

No júri do dia 14 de junho, em que es ta v a sendo


julgada uma m u l h e r por ter m a t a d o seu filho recém nascido, o
pr o m o t o r a s s e v e r o u que "a s o c i e d a d e espera que a decisão do
corpo de j u r a d o s seja de acordo com a moralidade da comunida­
de santacruzense" .

Via de regra, a oposição "normal" versus "des-


viante" é o s u s t e n t á c u l o do d i s c u r s o acusató ri o. Se o réu ti­
ver an te cedentes, estes são e n fa t i z a d o s c o m veemência, mos­
trando que não é a p r i m e i r a vez que t r a n s g r e d i u as reg ra s da
50

so ci ed ade organiz ad a. Tu d o isso está traduzido, de forma inci­


siva, na as s e r t i v a de R o b e r t o Lyra, talvez o ma i s i m po rt an te
Pr om o t o r de J u s t i ç a d es te país, em todos os tempos:

"P u n i r ê manter os laços da coexistência social, equili­


brar o sistema de vida c o l e t i v a , tr a n s q ü i 1 i z a r o meio,
intimidar os p r e d i s p o s t o s , evitar a iniqüidade para os
sentenciados, proteger o ré u contra o desespero dos que
ficaram com o coração em c r e p e " . (22)

6.6. OS D I S C U R S O S NO T R I B U N A L DO JÚRI: A D E FE S A

En q u a n t o a a c u s a ç ã o e xp lo ra o tema do "desvio"
do réu, a defesa, em c o n tr ap ar ti da , ut i l i za o que Victor Tur-
ner chama de "o p o d e r dos fracos", com o objetivo de contraba­
lançar o d i s c u r s o ac us atório.

A humildade e a p a s s i v i d a d e do réu, sentado, via


de regra, com a cabeça entre as mãos, chorando, Hipuitas vezes,
é lugar c o m u m nos ju l g a m e n t o s populares.

Não r e c l a m a de n a d a ( n e m pode). É obrigado a ou­


vir o d i s c u r s o da a c u s a ç ã o de forma calada. Geralme nt e, os ad­
v o ga do s dão in st r u ç õ e s para que o réu fique de cabeçsç ~ baixa.
Q u a n t o a esse fato, in da gu ei a um ad vo g a do c o m ma is de c em jú­
ris realizados e ele me disse: "Mando ele(rêu) ficar de cabe­
ça baixa, se p o s s í v e l chorar, e por mais qu e o Promotor deni­
gra a sua pessoa, não deve f a z e r nada. Toda moeda tem dois la­
dos: depois que o promotor fala, ê a nossa vez".

Co m o já vimos, o réu, quando de seu julgam en to


em plenário, e n c o n t r a - s e na fase da l i m i n a r i d a d e . Esse tipo de
h u m i l d a d e do réu, esse seu d e s p o j a m e n t o de a t r i b u t o s sociais
e essa sua impotência, a l é m de s e rv ir em de su por te ao discur­
so da defesa, tem sua c o n t r a p a r t i d a na sa nt id ad e e na bonda­
de que pode e n v o l v e r os liminares. Assim, T u r n e r diz que

"0 que existe de interessante com relação aos fenômenos


1 i m i n a r e s (...) é que eles oferecem uma mistura de sub­
missão e santidade, de homogeneidade e c a m a r a d a g e m ."(23)

Dessa maneira, os réus, que po d e m o s c h am a r de

v-
51

neófitos, t a mb é m p o d e m ser p e r c eb id os como "coitados", como


"fracos", como "pobrezinhos", ou, em outras palavras, de certo
mo do são s a n t i f i c a d o s pelo s of ri me nt o que o ritu al lhes im­
põe. Isto ocor re porque, se gu nd o T u r n e r ,d e t e r m i n a d a s p es so as ,
"devido a um infortúnio comum oü circunstâncias debili tantes ,
conseguiram acesso a poderes terapêuticos relativos a certos
bens gerais da h u m a n i d a d e ".(24) Este processo, na v is ão de
Teixeira, "explicaria fenômenos do tipo 'san ti f i c a ç ã o ' de mendi_
g o s , como os h o m e n s santos da índia e prostitutas, como Maria
Degolada em P o r t o Alegre, que at é altar possui. È a materiali­
zação do 'poder dos fracos'."(25) Aliás, quem não se lembra do
jogo de futebol entre as se le çõ es da P o lôn ia e Camarões, pela
Copa M u nd ia l da Espanha, em 1982, em que a m a i o r i a das pe sso as
to r c e u para a "pobre" s el e ç ão de Camarões...

Analisando o "poder dos fracos", Teixeira assi-,


nala:

"Chamo a atenção para o f ato de que tais liminares ou so­


fredores exatamente pelo seu p o d e r p o t e n c i a l só são to­
lerados enquanto não ameaçam a uma dada ordem estabele­
cida. Isto ajuda a explicar desde fatos como o tratamen­
to d i s p e n s a d o a Cristo, passando pelo dispensado a Po-

1 icarpo Q u a r e s m a ...".(26)

Turner, ao analisar o perigo místico e os po d e ­


res dos fracos, coloca:

"A l i t e r a t u r a popular ê rica em figuras simbólicas, como


os m e n d i g o s santos, terceiro filho, pequenos alfaiates e
s i m p l ó r i o s , que arrancam as p r e t e n s õ e s dos detentores de
categorias e cargos elevados e reduzem-nos ao nível da
humanidade e dos mortais comuns. Ain d a , nos tradicionais
filmes de 'faroeste', vemos o misterioso- 'estranho' sem
lar, s e m riguesa ou nome, e que restaura o equilíbrio le­
gal e ético num grupo local de relações políticas de po­
der, eliminando os chefões profanos injustos que oprimem
os p e q u e n o s p r o p r i e t á r i o s . "(27)

Cabe trazer, ne ss e sentido, para esta análise,al.


guns exe mp lo s de como, na p r át ic a do júri, o ad v o g a d o de def es a
lança mão do "poder dos fracos".
52

No júri r e a l i z a d o em Santa Cruz do Sul, no dia


7 de mai o de 1985, o advogado, depo is da carga do promotor que
c o lo ca va o réu como "d esv ia nte social" e "fora dos padrões de
n or m a l i d a d e vigentes", o c u p o u cerca de vinte e c in co minutos
c om o "poder dos fracos". Ja na saudação, disse: "Senhores jur±
dos: V.Exas. foram escolhidos pelas qualidades que possuem como
cidadãos e representam a s o c i e d a d e . Está sendo julgado, hoje,
um s e m e l h a n t e n o s s o . Espero justiça para com e ste bom pai de
familia, que fo.i traído covardemente p o r sua m u l h e r

Em seguimento, d i s t r i b u i u aos jurados cópi as


da c ar te ir a pr o f i s s i o n a l do réu, onde con st av a que, na época
do crime, estava traba lha ndo . E asseverou: "Ganhava pouco, está
certo, mas era trabalhador. 0 réu ê, como podem perceber, ho­
nesto . Pobre sim, mas h o n r a d o . Filho de seu 0..., também po­
bre, mas igualmente honrado". Distribuiu,após, cóp ia s do bo­
let im es col ar dos filhos do réu e da vitima, que tiveram que
pa ra r de estudar, em vi st a da pri sã o do réu. E assinalou: "íxis-
tem no B r a s i l vinte milhões de menores carentes, abandonados.
Agora existem vinte milhões e tres. Os três a mais são os fi-
Ihinhos do r é u , jogados no m u n d o , com o pai preso, impedido de
lhes dar s u s t e n t o " . N es sa linha, dr ama tic ame nte , ve ndo que o
réu com eç av a a chorar, gritou: "Não chores. D...., porque os
jurados farão justiça." E, ol ha nd o para um crucifixo, afir­
mou: "Acredito najustiça, porque acima de tudo, está Deus e a

magistratura ".

Nos d e ma is júris a s s i s t i do s. a tôni ca dos dis­


cur sos da d e fe sa foi a mesma, ou seja, a santificação dos réus
pelo sof ri me nt o que o ritual do júri impõe aos mesmos.

Cabe frisar, ainda, que, em u m dos julg ame nto s


que assisti, onde estav a sendo julgada uma mulher, ^ac usada
de infanticídio, a defesa, na m e d i d a em que a ré era c o n f e s sa e
não havia prov as em seu favor, b a se ou toda a sua tese no "po­
der dos f r a c o s " .

Na d o g m á t i c a jurídica, e x is t e m in úm ero s livros


que v e rs am sobre o Tri bun al do Júri e que e n s i n a m com o se deve
usar a po si ç ã o do réu com o "liminar", como "coitado". Vitorino
Prata Ca s t e l o Branco, na obra "0 a d vo ga do e a defesa oral',1
53

ensina aos a d v o g a d o s de d e f e s a que

"... n o final da defesa, encerrando-a, o advogado poderá


recitar, ou ler, uma pequena poesia sobre a mãe ou sobre
o amor fil i a l , já qu e a ação do réu foi provocada pela
situação dificil em que estava a sua mãe d o e n t e . "(28)

No caso em pauta, o autor cit ad o procurava tra­


çar as linhas a se re m se gu i d a s pelo defensor, para um caso em
que um ci d a d ã o m a t a r a seu patrão, de p o i s de uma discussão so­
bre salários.

Jo ã o M e i r e l e s Câmara, no livro "No plenário do


júri", re pr o d u z o senso c o m u m teóric o d o m i n an te na dogmática
jurídica, no que tange aos ju lg amentos populares. No seu ma­
nual para o a d v o g a d o do júri, tece indic aç õe s para se re m usa­
das em plenário: "

"Veja, jurado, qual a instrução que foi dada ao réu. Veja


qual a vida que levou durante a infância. Veja a família
que ele t e v e , se é que teve a l g u m a . (...) Veja, enfim,
qual a mãe que a sociedade lhe d e u . I n d a q u e , jurado, onde
estão os verdadeiros responsáveis pela falta do leite,
para alimentá-lo na amarga i n f â n c i a " .(29)

6 . 7 . " O PODER USOS FRACO S" VERSUS "A PE DRA QUE OS CON ST RU -
RES RE JE ITA M" E O I M A G IN ÁR IO G N O S E O L Ó G I C O DOS J U ­
RI ST AS

Como vimos, no im agi nár io g n o s e o l ó g i c o dos jurijs


tas que e s c r e v e m sobre o Tr ib u n a l do Júri e nos discuisos dos
atores jurídicos que a t u a m n e s s a instituição, estão p e r f e i t a m e n
te c a r a c t e r i z a d a s e m a t e r i a l i z a d a s a i d e ol og ia do "poder dos
fracos" e "da pedra que os c o n s t r u t o r e s r e j e i t a m " . Podem os de­
preender, de ss a forma, analiticamente,- do i n s ti tu to do Tribu­
nal do Júri, uma d i m e n s ã o teóri ca e/ou d o u t r i n á r i a e outra di­
m e n s ã o prática, no que tange ao. obje to em estudo. A re laç ão
entre teoria e prá xi s é s o b r et ud o idealista, por qu e estabele­
ce uma re la çã o '"promíscua", na m e di d a em que o o b j e t o se d e t e r ­
mi na a p a rt ir do m é t o d o e m p r e g a d o pelo jurista.

Re su l t a d e s s a re la çã o um n o v o / v e l h o discurso,
54

que servirá de "topoi" c o n f o r m a d o r (estrela polar) de novos/ve­


lhos di s c u r s o s e novas/velhas pr áticas no campo da re so lu çã o
ju rí di co -fo rma l dos c o n f l i to s ine rentes às so cie dad es tradicio­
nais.

Ao nível do c o n h e c i m e n t o jurídico, po dem os ex­


tr air do exposto, o fato de que a separ açã o entre ci ênc ia e o-
p i n i ã o (e p i s t e m e - d o x a ) não exi st e senão no ima gi ná ri o gnoseo-
lógico dos juristas, de vez que na prátic a mu it a s vezes se so­
b r e s s a i um d i s c u r s o falacioso, em lugar do p s e u d o - d i s c u r s o da
c iê nc ia jurídica. Como é im pos sív el separar o "ser real" do "de
ver ser" idealizado, p r o p o s t o pelo di sc u r s o jurídico, será vi­
torioso, via de regra, o discurso falac ios o idealizado.

Ao nível das pr át i c a s sociais, sendo o jurídi­


co parte i nt eg ra n t e do m o n o p ó l i o do Estado, sempre co rr e m o s o
ri sco do d i s c u r s o do p o d e r do Est ad o falar em nome do todo e
d e f e n d e r o i n t e r e s se de a l g u n s . Nesse sentido, " t r an qu il iz am-
se" as par tes d e s t i n a t á r i a s do sistema jurídico -n orm at ivo , con­
for tados pela idéia de que, no campo de seus mais significati­
vos interesses, e x a t a m e n t e a q ue le s "protegidos" pelo o r d e n a m e n ­
to penal, vig or a uma p r o t e ç ã o indiscriminada, homogênHae., igua­
litária, e x er ci da por u m E s t ad o d e s c o m p r o m e t i d o com q u a l q u e r dos
se gm en to s sociais em luta. 0 Estado, a r ma nd o fi s io no mi as dis­
tint as das us a d a s no P r o c e s s o C i v i l ( o n d e se revela o d i r e i t o do
credor), b a s e a d o no d og ma da p r o t e ç ã o do i n t er es se impessoal,
tenta fazer crêr à so c i e d a d e que a s si m e q u i l i b ra -s e o sistema
jurídico p r o j e t a n d o uma i m a g e m de segu ra nç a para os súditos,
a ca le n t a d o s pela fi ctí ci a p r o t e ç ã o desse es te r e ó t i p o ^proces­
sual ritualizado, que é o Tri b un al do Júri.
55

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) - C A S T O R I A D I S , Cornel iu s. A i n s t it ui ção i ma gin ár ia da socie


d a d e . Trad. de G uy R e y n a u d . Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1982, p . 142.
(2) - Ibidem, p . 173.
(3) - Ibidem, p . 277.
(4) - TEIXEIRA, Sérgio Alves. A d i m e n s ã o ritual das festas em
torno de p r od ut o s a g r í c o l a s . 1984, UFRGS, mimeo.
(5) - ALVES, Isidoro. 0 car na va l d e v o t o . Petrópolis, V o z e s , 1980,
p . 21.
(6) - Ibidem, p . 14.
(7) - A d e s c r i ç ã o c o r r e s p o n d e à sala onde são r e a l i z a d o s os jul
ga m e n t o s em Santa Cruz do S u l .
(8) - FOUCAULT, Michel. M i c r o f í s i c a do p o d e r . Trad. de Ro b e r t o
Machado. Rio de Janeiro, Graal, 1982, p . 45.
(9) - CORRÊA, Marisa. Morte em família :r e p r e s e n t a ç õ e s jurídicas
de pap éis s e x u a i s . Ri o de Janeiro, Graal, 1983, p . 82 e
83. ’
(10)- N es se sentido, ver Van Gennep, 1978. Os ritos de passagem.
Petrópolis, Vozes. V i c t o r W . Turner, aqui estudado, baseia
se em G e n n e p na a b o r d a g e m dos ritos (n212, adiante).
(11)- R E V I S T A DE J U R I S P R U D Ê N C I A D O T R I B U N A L D E J U S T I Ç A D O RGS .
Po rt o Alegre, T J R G S , 1980, n 277, p . 37.
(12)- TURNER, V i c t o r W. 0 p r o c e s s o ritual :es t r u t u r a e anti-estru
t u r a . Trad. de N a n c y C am pi de Castro. P e t r ó p o li s, Voz es,
p . 116.
(13)- Ibidem, p . 117 e 118.
(14)- CORRÊA, op.cit., p . 311.
(15)- CORRÊA, Marisa. Os cr im e s da p a i x ã o . São paulo, Brasilien
se, 1981, p . 53.
(16)- Ibidem, p . 68 e 69.
(17)- CORRÊA, Marisa. Morte em família, op.cit., p . 301.
(18)- Ibidem, p . 303.
(20)- TURNER, o p . c i t . p . 67.
56

(21)-*G O F F M A N , E r v i n g . E s t i g m a :notas sobre a m a n i p u l a ç ã o da i-


_ d e n t i d a d e d e t e r i o r a d a . T r a d . de Má r c i a Bandeira de
M e ll o L eit e Nunes. Rio de Janeiro, Zahar, 19 78 .p . 151.
(22)- LYRA, Roberto. Co mo julgar, como defender, como acusar.
Rio de Janeiro, E d .C i e n t í f i c a L t d a . p . 106.
(23)- TURNER, op.cit., p . 118.
(24)- Ibidem, p . 134.
(25)- TEIXEIRA, Sérgio Alves. V e s t i b u l a r :ritual de p a s s a g e m ou
barreira ritualizada? Ciênc ia e C u l t u r a , 33(12), Dez.de
1981, Porto Alegre, UFRGS, p . 1576.
(26)- Ibidem, p . 1576.
(27)- TURNER, op.cit., p . 135.
(28)- BRANCO, V i t o r i n o Prata Castelo. O ad vo g a d o e a def es a
o r a l . São Paulo, S u g e s t õ e s Literárias, l ã e d .,1977,p .91
(29)- CÂMARA, Joã o Mei reles. No ple nár io do júri. São Paulo,
Saraiva, 1982. p . 104.
7. 0 T R I B U N A L DO JÚRI E A D O G M Á T I C A J U RÍ DI CA. O DI SC U R SO
COMO M A N I F E S T A Ç Ã O C O N C R E T A DO IMA GI NÁ RI O GNOSEOLÓGICO

DOS JURISTAS.

O i ma gi ná r io g n o s e o l ó g i c o dos juristas, marca


do pela cu ltu ra j u r í d i c o - l i b e r a l , tem um sentido nitidamente
dogmático, na m e d i d a em que o d i s c ur so que o pe rm ei a e, per­
manent eme nte , m a r c a d o pela fic çã o da i m p a rc ia li da de e, mormen­
te no Tribuna l do Júri. é ca l c a d o pelas c a t e go ri as ps eud o-
explicativas, as qua is e n c o b r e m os co nf lit os sociais. Nesse
sentido, e n co nt ra mo s a h i s t ó r i c a razão da d e p e n d ê n c i a do Tri­
bunal do Júri às figuras retóricas, -com o o b j e ti vo de c h am ar
a atenção, at rav és do di s c u r s o falacioso, de todas as clas­
ses sociais para ob te r sua lealdade, não obs ta nt e a impossibi­
lidade no tó ri a de e s c o n d e r - s e a d e s i g u a l d a d e social, presente
até na d i s t r i b u i ç ã o g e o p o l í t i c a dos espaço s na sala do Tribunal.

É esse, tambem, o tra ba lh o da dogmatica jurí­


dica no pr o c e s s o judicial em geral. Co nf or me José Eduardo Fa­

ria,

"... g r a ç a s ao seu trabalho, ac r 1 1 i c o , a dogmática jurídi­


ca faz com que o discurso retórico ganhe um colorido
analítico e o interesse ideológico adquira aparência de
l e g a l i d a d e --- e, como diz Luis Alberto War a t , 'a adesão
explícita em relação ao ordenamento legal serve, entao,
como recurso para esconder a redefinição dos signifi­

cados normativos 1)

0 Tr ib una l do Júri, ritualisticamente,


papel b e m de f i n i d o na p r e s e r v a ç ã o da o rd em social :

"Por i s s o , não é de se estranhar q u e , aos olhos do cida­


dão comum e ao n í v e l do conhecimento v u l g a r , o direito se
apresenta como um conglomerado de s imbol os e ideais emoti_
vãmente i m p o r t a n t e s , onde os anseios contraditórios
58

"a p a r e c e m como coerentes e os p r i n c í p i o s gerais de direi­


to i n d u z a m cada cidadão a admitir que t o das as aspira­
ções de to d o s os segmentos sociais estão 1 egalmente pro­
tegidos. Também ê por isso que, nas sociedades tradicio­
nais , como no universo es trei to da 11aoca e da Oblivion
a que se referia Monteiro Lo b a t o , o direito desempenha o
papel de uma caixa de ressonâncias de esperanças e preo­
cupações dominantes daqueles que acreditam no governo do
direito acima do império dos homens. Pois, seguro e e-
1á stico, justo e c o m p a s s i v o , economicamente eficiente,
porém moralmente e q u i t a t i v o , digno e solene, esse direi­
to, enquanto indicativo de comportamento e instrumento de
controle social, funciona como uma forma de pensar com
relação ao governo. Trata-se, em outras palavras, de uma
maneira de se referir as instituições em termos ideais,
em v ez de fatos realmente obse r v a d o s . C o m o símbolo, o di­
reito satisfaz a exigência popular profundamente assen­
tada, no sentido de que as instituições simbolizariam um
harmonioso sonho dentro de cujos limites se destaca uma
concepção de j u s t i ç a com absoluta independência de pres­
sões individuais. No e n t a n t o , como por trás da aparên­
cia desse consenso expresso pelo 'senso comum’ ineren­
te aos princípios gerais de direito sempre existe um c o n ­
fronto de i n t e r e s s e s , o direito corre o risco de acabar
reconhecendo somente aqueles ideais que representam o
exato oposto da conduta e s t a b e l e c i d a " .(2)

Assim, o d i s c u r s o que p r e d om in a no Tri bu na l do


JÚri expressa, sempre, um r a c i o c í n i o que traduz um conjuntoc
de signos i n f o r m at iv o s em função do poder. Os discursos são,
desse modo, manifestações c o n c r e t a s do im ag i n á r i o g n o s e ol ó-
gico dos juristas. Daí a i m p o r tâ nc ia da persuasão, t r a d u zi da
atrav és de falácias, que p o d e m ser e n c o nt ra da s em qualquer ma­
nual de direito, entendida tanto como um p r o c e s s o que o b j e t i va
a p r o d u ç ã o da r e l a ç ã o de v e r o s s i m i l h a n ç a qu a nt o como u m p r o c e s ­
so g e r a d o r de um ef e i t o de re a l i d a d e que seja cnvel no imagi­
ná ri o social, no qual estão inse ri do s os jurados e as par tes
em litígio.

Os o b j e t i v o s da d o g m á t i c a jurídica só p o d e m ser
59

alcançados, assim, por m e i o de pr oc ed i m e n t o s cerimoniais e,


sendo o júri o mai s c an d e n t e dos rituais jurídicos, a ideolo­
gia j u r í d ic o- po l í ti ca é e n c o b e r t a pelo d i s c u r s o mítico/mís­
tico, que leva os súditos do Est ad o a ac e i t a r e m os r i tu ai s como
ne c e s s á r i o s à r e a l i z a ç ã o da ideia de "justiça".

Os rituais, vis to s a s s i m no d i re it o ma is espe­


c i f i c a m e n t e no Tr ib un al do Júri, desenvolvem-se na medida da
cr e s c e n t e c o m p l e x i d a d e s ó c i o - p o l í t i c a da sociedade, disfar­
ça nd o os conflitos, a r r a n c a n d o - o s da re al ida de social para jo­
gá- lo s no palco do esp aç o i n s t i t u í d o das g e ne ra li za çõ es , das
abstrações, da f o r m a l i z a ç ã o do processo. Como diz Warat,

". ..o discurso argumentativo surge como um jogo de am­


bigüidades, no qual a ideologia torna ausente a referên­
cia informativa e o conflito r e a l --- e estes, por sua
v e z , com sua p r e s e n ç a , distanciam a mensagem ideológi­

ca" .( 3 )
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

FARIA, José Eduardo. Direito, r e t ó rica— e _ p o l í t i c a. Sao

Paulo, Pers pe ct iva , p . 248.


Ibidem, p . 248.
WARAT, Luis Alberto. M it os e t e o r i as na-- in t e r p r e t a ç a o da
l e i . Porto Alegre, Síntese, 1980. p . 141.
8. O P A L C O DAS A Ç Õ E S

S anta Cruz do Sul e Rio Pardo são dois municí­


pios da re gi ã o c ha ma da D e p r e s s ã o Central, do Est ad o do Rio
Gra n d e do Su l . E s t es dois v i z i n h os municípios, s e pa ra dos ape­
nas por uma linha ima gi ná r i a no mapa dos m u n i c í p i o s gaúchos,
fazem parte do c on t e x t o em que se d e s e n v o l v e o presente tra­
balho, na m e d i d a em que o Tr ibunal do júri dessa s duas Comar­
cas, an a l i sa do no p er í o d o c o m p r e e n d i d o entre 1970 e 1984, não
pode ser est ud ad o de forma estanque, d e s in de xa do do c on te xt o
das duas lo ca lid ade s em que se d e s e n v o l v e r a m os jul gamentos
pes quisados. Assim, a evidência, se faz m i s t e r uma incursão,
ai nda que breve, no c e n á r i o em que se d e s e á v o l v e m as ações
dos agente s sociai s aqui estudados.

8.1. SA NTA CRUZ DO SUL

As t r a n s f o r m a ç õ e s pelas quais pa ss o u a socieda­


de b r a s i l e i r a no século XIX foram p r op i c i o n a d o r a s dos fenôme­
nos da imigr açã o e da c o l o n i z a ç ã o por parte de imigrantes. A
pa rt i r da in de pe n d ê n c i a do Brasil, surge a po lê m i ca que traz
à pauta idéias a b o l i c i o n i s t a s e de v a l or iz aç ão do t ra ba lh o li­
vre. É ne sse c o nt ex to qu e o c o r r e r a m os pri nc ip ai s m o v i m e n t o s de
im ig raç ão e c o l o n i z a ç ã o no País. A situaç ão vivi da nesse p e r í o ­
do pelos paí se s eur op eu s e, especialmente, por aquel es de lín­
gua alemã, inc en ti va va a e m i g r aç ão de gr and es co n t i n g e n t e s po­
pu la c i o n a i s para a América.

Esse m o v i m e n t o foi d e t e r m i n a d o pelo p ro ce ss o de


d e s t r u i ç ã o do mo d o de p r o d u ç ã o feudal e de e x p a ns ão do capi­
t al ism o na Europa, que g e ra va po pu la çã o excedente. Con fo rm e
Singer,
" (a imigração ale m ã ) se d ese nvo lv eun um mundo qu e se estava
62

"tornando cada vez mais capitalista, no qual ia se cons­


tituindo um m e r c a d o internacional de t r a b a l h o (...). A
transferência de capital do centro do m u n d o capitalista à
sua periferia precisava ser acompanhado de mão - d e -obra
para fecundar esse capital e permitir que ele se multi­

p l i c a s s e ".(1)

Os fluxos m i g r a t ó r i o s da A le ma nh a para o Brasil


in ici ara m-s e por vo lta de 1820, com m e n o r intensidade, prolon­
g a nd o- se com int en si da d e va ri áve l até 1931, qua nd o o go ve rn o
federal adoto u p o lí ti ca re st ri t i v a a respeito, estabelecen­
do quo ta s de im ig raç ão para cada nac io nal ida de . Após a Segun­
da Gue rr a Mundial, a im i g r aç ão alemã retorna, de sta vez porém
em ba ses mais modestas. Para Santa Cruz do Sul, a im i g r a ç ã o foi
mais intensa até o final do século XIX, a p re s e n t a n d o a pa r t i r
do século XX po uca relevância. No di zer de Montali,

"A i m i g r a ç ã o , enquanto fixação do trabalhador independen­


te, proprietário de seus meios de p r o d u ç ã o , ocorreu nos
séculos X I X 's i n i c i o do século XX apenas em áreas não
ocupadas pelo latifúndio. A s s i m , no Rio Grande do Sul, a
área ocupada pelas colônias alemãs e italianas foram a-
quelas áreas de floresta desprezadas pelas fazendas de
g a d o , já anteriormente instaladas nas zonas de c a m p o s " ; (2)

grifei-

Santa Cruz do Sul surgiu, pois, da coloniza­


ção alemã, em sua totalidade. Segun do Montali, o histórico do
d e s e n v o l v i m e n t o de Santa Cruz do Sul pode ser caracterizado
da segui nte maneira:

"A p e r i o d i z a ç ã o , como recurso analítico no estudor de


Santa Cruz do S u l , que se inicia na data de sua insta­
lação enquanto núcleo colonial e vem até 1976, foi assim
concebida:
PRIMEIRO PERÍODO : 1849-1859- Desmatamento e agricultu-
ra' de subsistência;
SEGUNDO PERÍODO : 1860-1881- Estruturação dos setores
econômicos, expansão agrícola e inicio
63

" da exportação de excedentes; produ­


ção simples de mercadorias;
TERCEIRO PERÍODO r 1 882-1 91 7 - i n t e g r a ç ã o à divisão inter­
regional do trabalho e c riação das
pré-condições para a penetração do ca­
pital na p r o d u ç ã o ;
QUARTO PERÍODO : 1918-1965- Expansão do c a p i talismo na
economia da área;
QUINTO PERÍODO : 1966-1976- Entrada e consolidação do
capital internacional- dominio do ca­
pital m o n o p o 1 i s t a ".(3)

Cont inu an do, a cit ad a autora assevera:

"a h i s t ó r i a de Sta.Cruz do Sul,que é a h i s t ó r i a da expansão capita­


lista em um'espaço’ economicamente vaz i o , a partir de
centros de m a i o r ou m a i s intenso processo de a c u m u 1 ação
do capital, p o de, em sua periodização, ser comparada com
as etapas identificadas por Rosa Luxemburgo no estudo
do avanço capitalista sobre o "meio não c a p i t a l i s t a ' 1.
Em linhas gerais, ê esse o esboço de sua história: o nú­
cleo colonial de Santa Cruz do Sul ê estabelecido sob
relações de produção não capitalistas, e assim permanece
praticamente isolado nos primeiros anos. Após esse perío­
do, sofre , através do m e r c a d o , o lento processo de domi­
nação de sua economia não capitalista pelos centros na­
cionais de capitalismo mais desenvolvido. A vinculação
com os centros de expansão do capitalismo, que se efeti­
vava através do m e r c a d o , ac en tu a- se , criando as condições
para a penetração capitalista na produção local. Neste
processo, certos setores da p r o d u ç ã o da economia da área
organizam-se de forma capitalista, passando a dominar
outros setores não capitalistas. Assim, nos primeiros
tempos. Santa Cruz do Sul passa por um período marcado
pela 'economia r u ral ’; ( . .) Não existe, ou é escassa a
demanda de m e r c a d o r i a s por ela n ão produz i d a s , pratica­
mente não havendo e x c e d e n t e s . 0 uso da moeda é quase
inexistente, ficando restrito à aquisição de bens
64

"f ora da economia ru ral. 0 primeiro periodo da economia


de Santa Cruz do Sul, (...) enquadra-se perfeitamente
nesse tipo. 0 segundo e terceiro períodos são marcados
pela produção simples de m e r c a d o r i a s . Enquanto o segundo
periodo é caracterizado pela produção sim p l ê s , o tercei­
ro, mersmo permanecendo na economia simples de mercado,
já evidencia traços de avanço das formas de produção
capitalista na e c o n o m i a •loc a l (...). Nos periodos seguin­
tes, a economia de Santa Cruz do Sul mostra-se dominada
pelo c a p i t a l i s m o . Isso não significa que t o das as rela­
ções de p r o d u ç ã o nela estabelecidas sejam capitalistas.
Ao contrário, importantes parcelas de sua economia fun­
cionam sob relações não capitalistas de produção, uti­
lizadas pelos setores capitalistas em sua a c u m u l a ç ã o " .(4)

Santa Cruz do Sul, a.tualmente, é a ma i s desen­


vo lv id a das ci da de s da re gi ã o e uma das mai s desenvolvidas do
Es ta do do Rio G r an de do Sul. Co n h e c i d a como a "Capital Na ci on al
do Fumo", têm sua economia, em termos agrícolas, baseada
na pr o d u ç ã o de fumo. 0 setor ur ba n o gira, em con sequência,
em torno de ss e produto, e x i s ti nd o ma is de vinte ind ús tr ia s fu-
m a g e i r a s de gra nd e porte, sendo que a qu as e t ot al id ad e de­
las p e r t e n c e m a grupos m u l t i n ac io na is . Segund o o ce nso de 1980,
a cida de possuia, então, 52.096 habitantes, para um total de
99.636 h a b i t a n t e s no m u n i c í p i o .(5)

0 setor u r b a n o de Santa Cruz do Sul reúne, al é m


do p a rq ue in dus tri al que exe rc e forte at raç ão regional, uma
série de ser viç os que a t e n d e m à po p u l a ç ã o das áreas rura is do
m u n i c í p i o e t a mb ém de vár io s m u n i c í p i o s ci rc un vi zin hos . A ci­
dade, como já visto, c o n c e n t r a as pr in c i p a i s ind ús tr ia s de fumo
da regi ão e, des sa maneira, atr ai para ela, a pr o d u ç ã o do fumo
dos m u n i c í p i o s próximos. Atrai, também, p op ul aç õe s de re giõ es
vizinhas(Rio Pardo, Candelár ia , V e n â n c i o Aires, Vera Cruz,
E n c r u z i l h a d a do Sul, Agudo, Sobradinho) que pe rc eb e em Santa
Cruz do Sul m e l h o r e s o p o r t u n i d a d e s para ven de r a sua força de
trabalho.

Os serviços, principalmente a educação, saúde e


65

o comércio, d e s e m p e n h a m o papel de a t e n d i m e n t o regional. SÓ p a ­


ra exempli fi car , a nível de saúde, o município apresentou um
c o e f i c i e n t e de m éd i c o s por 100.0 00 h a b i t a n t e s da ordem de 45'
para o ano de 1970, en qu a nt o que o c o ef i c i e n t e apresentado pe­
lo co n j u n t o de m u n i c í p i o s do Rio Gr a n d e do Sul, e xc lu in do -
se a capital, era, para o ano de 1972, de 33,14.

0 setor e d u c a c io na l exer ce enorme atração. Con­


c e n t r a n d o q u a t r o f a c u l d a d es e ' de z e s s e i s cu r so s universitá­
rios, Santa Cruz do Sul at e nd e a a p r o x i m a d a m e n t e doz e cidades:
Ver a Cruz, Estrela, Candelá ri a, Rio Pardo, E n c r u z i l h a d a do Sul,
Taquari, V e n â n c i o Aires, A r r o i o do Meio, Lajeado, Sobradinho,
A gu d o e C a c h o e i r a do Sul. S o b r a d i n h o é a ci da d e ma i s distante,
a 108 quilômetros, sendo que os alunos viajam, diar ia me nt e, pa­
ra Santa Cruz do Sul, para f r eq üe n t a r os di v e r s o s curs os uni­
v e r s i t á r i o s ofereci dos .

Da an ál is e da e v o l uç ão hi s t ó r i a e dos dem ais


e l e m en to s aqui abordados, p e r c e b e - s e que Santa Cruz do Sul exer
ce o papel de m u n i c í p i o pólo em re la çã o aos m u n i c í p i o s vizinhos,
p r i n c i p a l m e n t e Rio Pardo, como v e re mo s adiante.

8.2. R IO PAR1DJ0

A se me l h a n ç a de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo


está l oc al iz ad o na reg iã o ce ntr al do Est ad o do Rio G r an de do
Sul, distante 167 q u i l ô m e t r o s de Porto Ale gr e e 28 de Santa
Cruz do S u l .

Ao c o n t r á r i o de Santa Cruz do Sul, onde predo­


mina, a nível de pr o d u ç ã o primária, o mi ni fú nd io , baseado na
cu lt u r a do fumo, Rio Pardo mantêm, ainda de forma nítida, tra­
ços de e c on om ia b a s e a d a na p e c u á r i a extensiva, com predominan-
cia do latifúndio.

Rio Pa rdo foi f u nda do em 1633, at r a v é s de uma


Redução, d e n o m i n a d a Jesus, Maria, na c o n f l u ê n c i a dos Rios Ja-
cui e Rio Pardo, onde ho je está loc al iz ad a a cidade.

Toda a h i s t ó r i a de Rio Pardo é traçad a pela


66

co lo n i z a ç ã o lusa. Nos sécul os XVII e XVIII famílias p o r t u g u e s a s


c h e g a r a m a Rio Piardo, vin da s da c o l ô n i a do S a c r a m e n t o (5) .

C o nf o rm e as s e v e r a Laytano,

"Rio Pardo projeta-se através de todo o Rio Grande e na­


da m e l h o r p a r a caracterizar e sta expansão, consolidado-
ra m o r a l do dominio p o r t u g u ê s , no extremo sul do Pais,
do que a história da d i s p o s i ç ã o das familias rio-parden-
ses, homens e mulheres do Rio Pardo cujos descendentes
foram ter em São G a b r i e l , Bagé, Cruz Alta, Santa Maria,
Cachoeira do Sul, Uruguaiana, Alegrete, e t c . " . (6)

A cida de de R i o Pardo adota como lema o títu­


lo de "Cidade H i s t ó r i c a " . C o n f o r m e levantamento feito por Dan-
te de Laytano, vári os b a r õ e s e vi s c o n d e s n a s c e r a m e viveram em
Rio Pardo, como o B ar ão de Quarai, do Triunfo, de Ra miz Gal-
vão, de São Nicolau, de Santo Angelo, Vi s c o n d e Andaraí, e tan­
tos outros. Em 1809, Rio Pa rd o tinha u m ter ri tó ri o de 156.803
q u i l ô m e t r o s quadrados, m a i o r que m u i t o s paí se s do mundo. As
grandes fa mí li as que ainda ho j e d e t ê m co ns id er áv el q u a n t i d a d e c.
de terras, r e c e b e r a m s e s ma ri as do go v e r no bras ile iro . Nada me­
nos que 207 m u n i c í p i o s ga ú c h o s n a s c e r a m do t e r r i t ó r i o de Rio
Pardo. No t e- se qu e o es t a d o do Rio Gr an d e do Sul possüe, con­
forme d ad os de 1980, 214 mu n i c íp io s.

C o n f o r me c en so de 1980, o município de Rio Par­


do possuia, ne sse ano, 50.130 habitan te s, sendo 18.380 locali­
zados na c i d a d e . (7)

E n q u a n t o em Santa Cruz do Sul a produção primá­


ria representava, em 1982, s o me nt e 7,13% da eco nom ia munici­
pal, em Rio Pardo o setor p r i m á r i o r e p r e se nt av a a alta ci­
fra de 66,52% da a t i v i d a d e e c o n ô m i c a .(8)

Seu índice de i n d u s t r i a l i z a ç ã o é, pois, baixís­


simo. Até o finál de 1984, só e x is ti a uma indús tri a de médio
porte lo ca l i za da na sede do município, de d i c a d a ao be ne f i c i a -
m e n t o de calcáreo. Existem, ainda, duas co op erativas, que con­
gregam agricultores e pecu ar is ta s.
67

E n q u a nt o em 1982, a nível de re ce ita s munici­


pais, Rio Pardo arrecedava, em Cr$ 1.000,00, a cifra de 416.018,
Santa Cruz do Sul ar re ca d a v a 1.532.019.(9)

No que tange à educação, Rio Pardo possui, somen


te, ensi no de p r im ei ro e se gu nd o graus, vi nc ul a d o s à De le gac ia
de Ed u c a ç ã o situad a em Santa Cruz do S u l .

Em síntese, é este o perfil de Rio Pardo.

8.3. S AN TA CRUZ DO SUL E RIO PARDO- 0 D E S E N V O L V I M E N T O DIFE


RENCIADO

Q ua n d o c h e g a r a m os p r i m e ir os colonizadores a l em ãe s
ao Esta do do Rio Gran de do Sul, nas d é c a d a s de 20 e 30 do sé­
culo passado, Rio Pardo já tinha mais de 10.000 habitantes,
maior, inclusive, que a p o p u l a ç ã o de Porto Alegre. Enquanto
Porto Alegre, em 1814, po ss u i a 6.111 habitantes, c on ta do s os
es cra vos em nú me r o de 2.312, Rio Pardo tinha só na sede 10.445,
in cl uíd os 2.429 e s c r a v o s .(10)

Aos i m i g r a n t e s (a l e m ã e s , italianos, etc.) era


pr o i b i d o ter escravos. 0 tipo de cu lt ur a ag r í c o l a que ve i o a
ser d e s e n v o l v i d a em Santa Cruz do Sul pelos imigra nte s al em ãe s
exi gia uma in fr a- est rut ura . De se nv o l v e u - s e o artesanato. Para
t e r e m farinha, f a b r i c a v a m m o i n h o s para o b e n e f i c i a m e n t o do
milho; par a o bt er enchadas, s u r g i r a m as ferrarias; para o a r m a ­
zen am en to dos produtos, c o n s t r u í r a m armazéns.

Ou tr o fato r e l e v an te a ser de s t a c a d o é que os


im igr ant es al emã es t r o u x e r a m co ns ig o um raz oável conhecimento
tecnológico.

En q u a n t o tudo isso oc orr ia em Santa Cruz do Sul,


a fazenda, pri nc ip al s u s t e n t á c u l o da e co no mi a de Rio Pardo,
nã o re q u e r i a ma io r e s técnicas.

Assim, na m e d i d a em que se formav a um mercado


inter no em Santa Cruz do Sul, Rio Pardo sofria as c o n s e q u ê n c i a s
da qu eda do m e r c a d o do charque. Além disso,há que se fri sar
68

um de ta l h e de e xt re m a relevância, ou seja, o fato de que, como


os ecravo s não r e c e b i a m salários, não r e a l i m e n t a v a m o merca­
do in ter no em Rio P a r d o na in te n s i d a d e como esse fato oc or ri a
em Santa Cruz do S u l .

A p ró pr ia d i n â m i c a do p r oc es so ec on ôm ic o a que
fo ram sub me ti do s os im ig ra n t e s r e q u e r ia uma gran de p a rc e l a de
m ão -d e - o b r a. Prova d i s so é que a p r i m e i ra ge ra çã o de co lon os
em Santa Cruz do Sul teve de Í0 a 12 filhos por casal e a se­
g un da de 6 a 8 filhos, em média. Rio Pardo, ao contrário, com a
eco no mi a v o l t a d a t o t a l m e n t e à fazenda, tinha sua* raao-de-obra
b a s e a d a na e s c r a v i d ã o > sem c o n t a r que, por si só, a agricultura
req u e r ma i s m ã o - d e - o b r a que a fazenda.

Os h a b i t a n t e s de Rio Pardo, sem terra, não re­


c e b e r a m terras do governo, co m o oc o r r eu co m os imi gr an te s a-
lemães. Na ép oca da coloni za çã o, o go v e r no b r a s i l e i r o tinha a
int en çã o de o cu p a r os espaços. Assim, os i mi gra nt es receberam
p e qu en a s p rop ri eda de s. O g o v e r n o viu que era conveniente apos­
tar no imigrante. 0 c o l o no a l e m ã o e it al ian o veio, porque aqui
era mais fácil r ea l i z a r o p r o j e t o que o g o v e r n o brasileiro
pr e t e n d i a deles, ou seja, a for ma çã o de uma cama da média, atra­
vés de m é d i o s e p e q u e n o s p r o p r i e t á r i o s . A terra que recebe­
ram lo c a l i z a v a - s e no c e n t r o do Estado. Não i n t e r e s s a v a às fa­
zendas. A int en çã o do g o v e r n o foi no s e nti do de que o co l on o
p r o d u z i s s e o que o f a z e n d e i r o não produzia. Foi, pois, um pro­
jeto po l í t i c o do g o v e r n o imperial, o b j e t i v a n d o d i m i n u i r as d i s ­
tância s sociais c ri ad a s pela longa escravidão. Objetivava-
se for ma r uma "unidade nacional", eis que não há "unidade"
qu an d o há soment e esc ra vo s e senhores... Além disso, a clas se
m é d i a que sur giria da i m i g r aç ão ser vi ri a para for ne ce r qu a d r o s
para a a d m i n i s t r a ç ã o pública, b e m como para a u m e n t ar a arreca­
d aç ão de impostos.

E, assim, foi p a s s a n d o o tempo. Santa Cruz do


Sul, dep oi s da for ma çã o de u m m e r c a d o interno, c o me ça va a in­
ve st ir na in dus t ri al i za çã o . C o m e r c i a n t e s al emã es que a c u m u l a r a m
ganhos, d e c i d i r a m inv es ti r na indústria.

0 re s u l t a d o d i s s o tudo, já foi a b o r d a do antes.


69

Ev i de nt em ent e, as di fe re nç as no desenvolvimen­
to das duas c i d a d e s / m u n i c í p i o s nada tem a ver com o tipo de
raça dos c o l on iz ado re s. Nas ab or da ge ns ind ivi dua is das dua s
c o mu na s que fo ra m a p r e s e n t a d a s anteriormente, percebemos que a
res p o s t a para esse d i f e r e n c i a d o d e s e n v o l v i m e n t o tem a sua ori­
g e m e e x p l i c a ç ão no p r o c e s s o de d e s e n v o l v i m e n t o do capitalis­
m o em n o s s o País. A explicação, assim, nada tem a ver c o m o cha
ma d o "c aráter de cada povo", como veremos mais adiante.
70

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) - SINGER, Paul. D e s e n v o l v i m e n t o ec onômico-- e e v o l u ç ã o u r b a ­


na . São Paulo, E d. N a c i o n a l e Ed.USP, 1968. p . 88.
(2) - M O N T A L I , Lilia. Notas para o estudo da-- exp a n s ão do capiji
t a li sm o em Santa Cruz do S u l . Estud os de Populaçao VI-
Santa Cruz do Sul. São Paulo, CEBRAP, 19870. p. 50.

(3) - Ibidem, p . 52.


(4) - Ibidem, p . 54 e 55.
(5) - Os m u n i c í p i o s do Rio G r a n d e do S u l ;in fo rma£Ões --- h i s t o r ic
cas, sócio-econômicas e p o l í t i c a s . Assembléia Le gi sl a­
tiva do R G S . Novembro de 1985. p . 184.
(6) - LAYTANO, Dante. Guia h i s t ó r i c o de Rio__Pardo_. 2§ edição.
Pr ef e i t u r a M u n i c i p a l de Rio Pardo, 1979. p . 173.
(7) - Os m u n i c í p i o s do RGS, op.cit., p . 172.
(8) - Ibidem, p . 172.
(9) - ibidem, p . 172.
(10)- CARDOSO, F e rn an do Henrique. O e s c r avo da f o rm aç ão do R i o.
Gr an d e do S u l . São Paulo, Difusão Europeia'-do Li vr o ,

1962, p . 51.
9. OS E S T E R E Ó T I P O S

Veremos, a tr av és da an áli se dos d ad os estatís


ticos ext ra íd os da p e s q u i s a de campo, obj et o deste trabalho,
que no "palco das ações" os re su lt ad os dos jul gamentos pelo
Tri bun al do júri são b a s t a n t e dife ren cia dos . Com o da do preli­
minar, o b j e t i v a n d o uma m e l h o r introd uç ão no p r es en te capitu­
lo, cabe re fe r i r que o júri de Santa Cruz do Sul, no perío­
do c o m p r e e n d i d o entre 1970 e 1984, con de no u 6 4 , 7 7 % _ dos - a cu sa ­
dos su bme tid os a julgamento, enquant o que, no mesmo período,
o Tr ibunal de Rio P ar do a b s o l v e u 72,32% dos réus.

Tais resultados, tao dif er en ci ad os , sao expli­


cados" pe la s c o m u n i d a d e s de ambas as Comarcas, bem como pela
exp re ss iv a m a i o r i a dos juizes, promotores, ad v o g a d o s e jura­
dos, como r e s u l t a n t e s das c a r a c t e r í s t i c a s dos habitantes das
duas comunidades, ou seja: o Júri de Santa Cruz do Sul conde­
na ma is por ter seu c or po de jurados p r e d o m i n a n t e m e n t e forma­
do por d e s c e n d e n t e s de alemaes, que ser ia m ma i s d ur os , frios,
"calculistas", etc., ao c o n t r á r i o do Júri de Rio Pardo, que a b ­
solve a m a i o r i a dos réus por ter o corpo de jurados forma do por
de sc e n d e n t e s de lusos, que s e r i a m ma is " c o nd es ce nd en te s com o
próximo", de "índole ma i s pacata", etc.. Ma i s adiante, em c a p í ­
tulo específico, ve r e m o s as r e sp os tas com ma is es p e c i f i c i d a
de. Tal pensamento, ac im a referido, é m a j o r i t á r i o tanto no i m a ­
gi ná ri o social das dua s c o m u n i d a d e s como no i m a g i n á ri o gnoseo-
lógico dos juristas que a t u a m naq ue la s Comarcas.

Esse tipo de "resposta", baseado em "caracte­


rís ti ca s de povos", b a s e i a - s e em c a r a c t e r í s t i c a s nao pro vad as
72

e, tampouco, demonstradas, atribuídas a pessoas e situações


sociais. São justificações e legitimações travestidas de expli­
cações, ou, como diz Warat, "s ão termos empregados para obter
a consolidaçãp e aceitação dos valores dominantes da socieda­
de" . (1)

As n o ç õ e s e explicações estereotipadas funcio­


n am nas sociedades modernas como uma espécie de prêt-aporter
significativo, permitindo, através d el e , o controle social,
na m e d i d a em que fornece modelos de estruturas estáveis do m u n ­
do, operando como forma significativa independente das rela­
ções sociais.

Os e s t e r e ó t i p o s , segundo Warat,

"...são palavras que ao n i v e l da significação de base


apresentam uma anemia s i g n i f i c a t i v a . Seu sentido desig­
nativo sempre ê contextualmente construído. Estas expres-
sôes(...) cumprem um importante papel para a constru­
ção das definições e dos discursos persuasivos. 0 signi­
ficado designativo dos estereótipos, contextualmente cons_
truido, depende de fungíveis conteúdos axiológicos ou i-
deológicos.

Chamaremos persuasivas as definições que contêm este­


reótipos, e discursos persuasivos aqueles onde a aceita­
ç ão do s argumentos depende de sua articulação a um ou
vários estereótipos.
(...)
As definições abstratas do s estereótipos têm como incon­
veniente a esclerose de certos juizos valorativos como
ex t e r n o s e imutáveis. Desta forma, i n t e n t a - se____a perpe­
tuação da ordem existente. Portanto, a análise das car­
gas valorativas dos termos constitui um elemento indis­
pensável para a detectação das j u s t i f i c a ç õ e s e legitima­
ções t r a v e s t i das de explicações, quando se procura efe­
tuar l e i t u r a s ideológicas dos discursos jurídicos. Assim,
podemos afirmar que os estereótipos constituem um elemen­
to n u c l e a r da transmissão de conteúdos ideológicos.

(...)
Assim, ao se dizer que alguém tem um d i r e i t o subjetivo,
73

"se e stá reconhecendo a e sta pessoa um privilégio social


valorizado positivamente.

(.. .)
0 objetivo central de uma expressão e s t e r e o t i p a d a _____ ê o
de influenciar e determinar opiniões. Os estereótipos
são p a l a v r a s que apresentam uma carga valorativa provo­
cadora de associações tão fortes que a simples evoca­
ção de seus significantés motiva c o m p o r t a m e n t o s ____ou de­
termina o p i n i o e s . Por i s s o , também podemos definir um
estereótipo como um termo que tem e f i c á c i a _____ c o m u n i c a ti -
va a partir da formação c o n o t at i v a vinculada a seu signi-

fi c a n t e .
Um estereótipo é uma expressão ou uma palavra que pre­
ten d e gerar adesões valorativas, comportamentos ou opi­
niões a partir de um p r o c e s s o de significação, no qual
o receptor da m e n s a g e m a aceita de m o d o acritico, basea­
do em s o l i d a r i e d a d e s e p i d é r m i c a s . A es t e r e o t i p a ç ã o de
um c o n c e i t o é produto de um longo processo de persua­
são, de um a somatória de d i s c u r s o s e definições que pro­
vocam a total dependência do termo estereotipado a uma
relação evocativa ideologicamente determinada. Ou seja,
o estereótipo sempre transmite uma mensagem de domina­

ção (a c e i t a ç ã o de uma ideologia).

(...)
I ndicaremos, b a s i c a m e n t e , a presença de dois t i po s de

estreótipos:
a) os signos que clausuram, no ato de sua utilização, a
instância conceituai, para persuadir através de uma
forte carga ideológica e valorativa inserida em seu signi_
ficante. Como exem p l o s , podemos citar os termos: demo­
cracia, judeu, subversivo.
b) os signos mediante os quais são transmitidos os stan-
dars vaiorativos da sociedade. No caso, o estereóti­
po p r o v o c a a ficção de uma realidade congelada, de uma
ordem perfeita. 0 congelamento de sentido deve ser visto
como uma forma de esvaziamento de su a significação de

b a s e .(...)
As propriedades conotativas são aparentemente verificadas
74

em relação a alguns componentes da classe e logo se es-

tendem retoricamente a todos. Ass i m , pretende-se compro-

var a indolência em alguns ’h o m e n s de cor ' para loqo

defini-los como seres essencialmente i n d o l en t e s .

Quando a definição persuasiva torna-se e s t e r e o t i p a d a . a pe-


nas a menção do termo 'ho m e m de cor' provoca reações ne -
gativas e prejudiciais.
As funções ideológicas cumpridas pelos estereótipos de-

vem-se. n r i n c ipal m e n t e . ao fato de crue por s eu intermé-

dio são vinculadas certas afirmações ao sistema de cren-

cas d o m i n a n t e " .(2) grifei

Toda a cultura, d es se modo, possui in úmeros


es t e r e ó t i p o s p o s i t i v o s ou negativ os. D e t e r m i n ad a pess oa pode rá
ser c l a s s i f i c a d a pelos seus c o m p o n e n t e s c o n f o r m e as qualida­
des ou d e f e i t o s im a g i n á ri os at ri b u í d o s à sua categoria. Como
exemplo: todo g a r i m p e i r o é av en tureiro; todo c a bo cl o é i n d o l e n ­
te; todo c o r i n t i a n o é fanático, todos os c a r i o c a s são folga­
dos; toda a a er o m o ç a a c e i t a c o n v i t e s para en c o n tr os amorosos,
etc

Com os e s t e r e ó t i p o s p r e t e n d e - s e inserir o ho­


m e m em uma e s t r u t u r a ideal, onde os c o n f l i t o s socia is foram
d i l u í d o s pela força re t ó r i c a das palavras.

Ne ste u n i v e r s o ideal de sentidos, a força retó­


rica das pa l a v r a s faz c o m que tudo a p a r e ç a como verdadeiro,
c om di fí ci l q u e s t i o n a m e n t o p el os d e m a i s m e mb r o s da sociedade.
T en ta -s e criar, assim., at ra vé s dos es te re ót ip os e das "expli­
cações" es ter eot ip ada s, uma o r d e m p e r f e i t a e ma ni qu eí st a.

Podem os dizer, ainda, que, atrav és dos estereóti.


pos, c r i a m - s e c o n c e i t u a ç õ e s no "atacado", para p o s t e r i o r aplica,
ção no "varejo", segund o os int er es se s de qu e m d o mi na o p r o c e s ­
so social.

Para um m e l h o r d e s e n v o l v i m e n t o de ste trabalho, é


n e c e s s á r i o qu e façam os uma i m b r i c a ç ã o entre o que foi colocado
a r e s p e i t o dos estereó ti po s, e o que, trad ic io na lm en te , no B r a ­
sil c o n h e c e - s e por "c ar át er nacion al ". A teoria do "c ar át er
75

nacional" baseia-se em tra ço s c a r a c t e r í s t i c o s dos povos, nao


só a nível de nação, como a nível de regiões. As caracteriza­
ções feita a r e s p ei t o do brasilei ro , do alemão, do português,
do carioca, do baiano, etc., nada mais são do que generaliza­
ções, tr ad uz id a s a tr av é s de termos c on he ci do s na Filosofia da
L i n g u a g e m 0r di nária(3) como estereótipos.

9.1. 0 MI T O DO C A R Á T E R N A C I O N A L

Ex i s t e ai nd a hoje no Brasil e em muitos outros


países, uma cr e n ç a g e n e r a l i z a d a no sentido de que os povos
tê m c a r a c t e r í s t i c a s próprias, d e c o r r e n t e s da raça. Em nosso
país, essa cr en ç a está m a t e r i a l i z a d a no "caráter nacional bra­
sileiro", la rg a m e n t e d i s s e m i n a d o desde Ol i v e i r a Viana, passan­
do por G i l b e r t o Freire, até os dias atuais.

A q u e s t ã o tem suas orige ns no nacionalismo e no


racismo. Ne ss e sentido, é e x t r e m a m e n t e re l e v a n t e a contribui­

ção de M o r e i r a Leite:

"...parece evidente a impossibilidade de falar em cará­


ter n a c i o n a l . De f a t o , se a classe alta brasileira tem
maiores afinidades com as classes correspondentes de vá­
rios paises contemporâneos do que com a classe operá­
ria b r a s i l e i r a , parece dificil falar em caráter nacio­
nal que englobe as várias classes sociais brasileiras.
Vale dizer, se n ã ò se p o de, a rigor, falar em cultura
brasileira, seria muito dificil imaginar o estabeleci­
mento de uma relação entre a' s u p o s t a cultura e a perso­
nalidade modal do brasileiro. Como essas observações

c o n t e m p o r â n eos, para qualquer dei es


vai em p a r a os p a i s e s

seria inaceitável uma análise de p e r s o n a l i d a d e - e u l t ura .

Na v e r d a d e , a si t u a ç ã o não é tão simples quanto


(.. .)
criticas pode riam sugerir; uma cois a e a te n t a t i -
essas
análise objetiva da relaçã o entre 'c u l t u r a nacio-
va de
o u t r a , as suposiçõe s ide ol ó g i c a s
nal ' e p e r s o n a l i d a d e ;
características dos partie ipantes de uma nação.
sobre
76

"No p r i m e i r o c a s o , buscam-se as características s u p o s ta-


mente p r o f u n d a s , ou i n c o n s c i e n t e s , e que seriam comuns
aos que se desenvolvem em d e t e r m i n a d a cultura. No segun­
do, acentuam-se as características s u p e r f i c i a i s --- que tal_
vez não fosse errado denominar as m a n e i r a s de um povo-
seja para exaltá-las como norma superior, seja para con­
dená-las.

A critica mais séria qu e se p o d e fazer aos estudos con­


temporâneos de caráter nacional é o f ato de terem con­
fundido os dois niveis, passando 1ivremente do ideário
e do comportamento de lideres políticos ocasionalmente
no p o d e r para as características profundas de um povo.

pelo fato de os alemães terem vivido a tragédia do nazis­


mo, supôs-se que este pudesse ser explicado pelas pecua-
1 ia r i d a d e s da família a l e m ã (o-u da tradição intelectual
da A l e m a n h a ) como se, em s i t u a ç ã o semelhante, o capita­
lismo do século XX não pudesse gerar tragédias semelhan­
tes. Ba mesma fornia, o fato de a Revolução Russa de 1917
ter c r i a d o as condições do estalisnismo seria indicação
de características do p o v o r u s s o " . (4)

Assim, h i s t or ia do re s, sociólogos, antropólo­


gos e e sc ri to re s têm a p r e g o a d o as c a r a c t e r í s t i c a s de nosso po­
vo. Paulo Prado, e s c r i t o r mod er ni st a, cit ad o por Moreira Lei­
te, apon ta as seg ui nt es c a r a c t e r í s t i c a s do po vo bras ile iro :
"tristeza, e r o t i s m o , cobiça, romantismo, individualismo desor­

denado, apatia e i m i t a ç ã o " . (5)

A n a l i s a n d o a obra de G i l b e r t o Freyre, Ca s a G r a n ­
de e Senzala, no ta m o s como o so ci ólo go p e r n a m b u c a n o contribuiu
em gran de esc ala para a m a t e r i a l i z a ç ã o no im ag i n á r i o social de
n os so povo, do mi t o do c a r a t e r na ci o n al bras ile iro . Freyre p r o ­
cura d e s c r e v e r na obra três p r in ci p a i s gru po s responsáveis pe­
la colonização: por tug ue se s, índios e negro. Assevera que os
portugueses, "povo indefinido entre a Europa e a Á f r i c a " , (6)
eram os mai s p r e p a r a d o s pa r a a c o l o n i z a ç ã o dos trópicos. Segun­
do ele, o português, ao c o n t r á r i o do nórdico, se ad ap t a mai s
fac il me nt e aos trópicos. Sobre o índio, col oc a que a p r i nc ip al
77

i n f l u ê n c i a d es te foi a t r av és da m u l h e r índia, por sua sexuali­


dade exaltada, que c o m b i n o u c o m a do português. Ao considerar
a i n f l u ê n c i a n e g r a na fo rm a çã o do brasileiro, considera Frey-
re que, q u a n t o à luxúria, este teve m e n o s in flu ênc ia que o p o r ­
tugu ês e o índio. 0 seu papel foi mais p a ss i v o do que ativo.

Q u a n t o à c a r a c t e r i z a ç ã o psicológica, Fre yr e su­


põe que, a t r av és da ama de leite, o brasileiro teria r e ce bi do
a "r e v e l a ç ã o de uma bondade porventura maior que a dos bran­
c o s "(7); teria, também, recebido a "revelação de uma . t e r n u r a
não igualada pelos e u r o p e u s , um m i s t i c i s m o que enriqueceu a vi­
da afetiva do b r a s i l e i r o " . (8) Por ultimo, a outra in fl u ê n c i a
p s i c o l ó g i c a do negro, ap o n t a d a por G i l b e r t o Freyre, teria si­
do a " s u a a l e g r i a , capaz de quebrar a tristeza e a melancolia

de p o r t u g u e s e s e í n d i o s " . (9)

Sérg io B u a r q u e de Holanda, na c o n h e c i d a obra Rai


zes do Brasil, r es sa lt a as s e gu in tes c a r a c t e r í s t i c a s do povo
br asi lei ro: culto da p e r s o n a l i d a d e , falta de h i e r a r q u i a , desor­
dem, ausência de espirito de organização expontanea, inquie­
to e d e s o r d e n a d o , â n s i a de p r o s p e r i d a d e sem custo, posição e
riquezas fáceis, a v e n t ureiro, inteligência como ornamento e

prenda, cordialidade e i n d i v i d u a l i s m o .(10)

Por o utr o lado, se Casa G r a n d e e Senza la foi


e sc ri to há m u i t o tempo, seu autor, em 1984, continuava pen­
sando da m e s m a m a n e i r a sobre a q u e s t ã o do ca rá t e r nacional.
Em e n t r e v i s t a à Re vi s t a Veja, ediçã o de 4 de abril de 1984,
F r ey re assinala:

"(0 brasileiro) ê um m i s t o de dois contrários. 0 brasi­


leiro é primitivo, ainda tem m u i t o do negro que
está em sua formação, tem também muito do índio, e ao
mesmo t e m p o , exibe sofisticações as m a i s a l t a s .(...) Se
há um b r a s i l e i r o simbolizado por Macunaima, ê o cario­
ca, ou o malandro carioca, muito simpático, só que pre­
guiçoso e i r r e s p o n s á v e l .(...) 0 anglo-saxão é muito mais
terrivelmente racista. Ja o português era vizinho dos
mouros, e tinha uma compreensão toda e s p e c i a l __ de---g e n t e s

mais escuras que ele... "( 11 ) - grifei


78

É de se perguntar, antes de q u a l q u e r ou tr a coi


sa, o que os e s c r a v o s , q u e e r a m c a st i g a d o s pelos seus senhores
p o r t u g u e s e s , t i n h a m a d i z e r sobre essa " c o m p r e en sã o toda espe­

cial" de que fala F r e y r e ...

0 a n t r o p ó l o g o R o be r t o da M a t t a foi o a ut or de
ura pr o g r a m a na TV Man chete, c o m o títu lo de "OS BRASIL EI RO S" .
C o n v o c o u p e r s o n a l i d a d e s célebres, como P ed ro Nava e Antomo
Ho ua is s e a n ôn i mo s p r o t a g o n i s t a s do povo. O programa, em forma
de mini -sé rie , foi ao ar em o u t u b r o de 1983, • ab o r d an do o te­
ma "o mo d o de ser ou c a r á t e r n a c ional".

Na ocasião, f o r a m tr az ida s op in i õ es como de Hé­


lio Silva: "0 b r a s i l e i r o não é só o Jeca Tatu de Monteiro Lo
bato nem Macunaima de M a r i o de Andrade. Ê também o forte de

Euclides da Cunha".

Do m A v e l a r B r a n d ã o V i l e l a a s s e v e r o u que " o bra­


sileiro é uma grande mestiço". Já o te at r ó l o g o Dias Go mes d is se
que "a c a r a c t e r í s t i c a f u n d a m e n t a l ,do brasileiro e a auto-sabe-
doria". Dos pal co s para a teor ia socio-antropológica, Bibi
F e r r e i r a ac-ha que "o b r a s i l e i r o ê a l e g r e , um ser dotado de uma
musicalidade i n c r í v e l , bom piadista." Um brasileiro anônimo,
p r o v a n d o o pr o c e s s o de i n t r o j e ç ã o da ideologia, lascou: " Ser
brasileiro é ser comodista. Ê gostar de futebol, samba e, des­
culpe a e x p r e s s ã o , mulher". Enfim, tant as outr as foram as ma­
n e ir as e s t e r i o t i p a d a s de "con ce itu ar " o brasileiro qu an t a s fo­
r am as pe ss o a s en tr ev is ta da s. U m dado, porém, apare ce co m o f u n ­
damental: a ex pr e s s i v a m a i o r i a das o p i n iõ es está baseada nos
estereótipos lan çados no i m a g i n á r i o social por Gilberto Fr e y
re, Bu a r q u e de Holanda, V i a n a Mo o g e tant os outros au to re s de
ren om e n ac io na l ou m e n o s conhecid os .

Os livros de E S TU DO DOS P R O B LE MA S BRASILEIROS


ajudam, em muito, na i n t r o j e ç ã o / r e p r o d u ç ã o do mi t o do "modo de
ser" ou "c aráter nacion al ". Dos in úmeros livros de EPB consul­
tados, n e n h u m e sc apo u do senso c o m u m t e ór ic o que segue a linha
da e x i s t ê n c i a de c a r a c t e r í s t i c a s iner en tes aos povos, mormente

o bra sil eir o.


79

Os e s t e r e ó t i p o s do tipo "o po v o brasileiro e


ordeiro, pacífico, etc." to r n a m - s e u m forte a r g u m e n t o f a l a c i o ­
so para d e t e r m i n a d a s " ex pl ic aç õe s" dos p r o b e m as nacionais.
A u r e l i a n o Chaves, quando candidato à presidência da repúbli­
ca, em 1 9 8 4 ( a c a b o u nã o sendo o c a n d i d a t o do PDS), justi fi co u
a p r e f e r ê n c i a dos e l e i t o r es po r seu nome, em p e s q u i s a do I n s t i ­
tuto Gallup, em d e t r i m e n t o do c a n d i d a t o Paulo Maluf, com o ar­
g um e n t o de 11s o m o s um p o v o qu e gosta de governantes honestos“.
Ou seja, so men te os b r a s i l e i r o s g o s t a m de go ve r n a n t e s hones­
tos ...

0 t rá fi c o de i n f l uê nc ia ou o ne p o t i s m o na ad­
m i n i s t r a ç ã o da "res pu bl i c a " no Brasil fica es t e r i o t i p a d o como
sendo o "famos o jeitinho bra sil ei ro ". 0 jornal Zero Hora, de
Porto Alegre, publicou, na ed iç ã o do dia 15 de o u tub ro de 1984,
a seg ui nt e notícia: "A p r i m e i r a medalha de ouro do Brasil na
Universiade do Canadá veio através da seleção feminina de vô­
lei, e teve a ajuda do conhecido j ei tinho brasileiro. Vera Mos­
sa, jogadora titular, estaria f ora da competição por não ser
universitária. Mas um v e s t i b u l a r feito as p r e s s a s , antes da
viagem, resolveu tudo". Ou seja, uma ilegalidade, para n ao di­
zer uma trapaça, é c o l o c a d a pel o jornal como sendo um caso de
" j e i t i n h o " ...

A q u e s t ã o do "jeitinho" serve, também, para s u s ­


t e nt ar d i s c u r s o s tipo "como eu me ufa no do m eu país". Nesse
sentido, vale re g i s t r a r um c o m e n t á r i o feito pelo re p ó r t e r Jor­
ge Guimarães, da TV Globo, du ra n t e as t r a n s mi ss õe s da Copa do
M u n d o na Espanha, em julho de 1982. Dizia, na ocasião, o re­
p ort e global: "Ê i m p r e s s i o n a n t e esse povo brasileiro. Pois ve­
jam os senhores telespectadores que um b r a s i l e i r o , que veio à
Copa do M u n d o de c a r o n a (p r e s t a n d o serviços à bordo de um na­
vio), arrumou uma maneira de telefonar para o Brasil com uma
simples ficha t e l e f ô n i c a " .■ O re p ó r t e r explicou, então, toda a
"m alandragem" da li gaç ão telefônica, que c o n s i s t i a em introdu­
zir uma ficha t e l e f ô n i c a em u m tel ef on e com defeito, mediante o
qual po d i a - s e fazer q u a l q u e r ligaç ão in ternacional. E completou :
80

"Brasileiro é mesmo um p o v o e s p e c i a l . Se fosse outra pessoa, de


outro p a is, comunicaria às autoridades o defeito do telefone. Ê
o famoso j eitinho brasileiro funcionando até na E s p a n h a " . Vemos,
pois, até que po nt o está in tr o j e t a d o no im ag in ár io social o
m i t o d o " c a r á t e r nacional", da "malandragem", etc..

0 es cr i t o r Luiz Fe r n a n d o V e r í s s i m o "explicou"
o emp at e em três a três no jogo de futebol entre Grêmio, de
Porto A l eg re e Estudiantes, de La Plata, Argentina, de po i s do
time gaú ch o estar v en c e n d o por três a um e o time portenho
es tar soment e c om oito jogadores em campo. Segun do Veríssimo,
o empate somente o co r r e u d e v i d o à "arr ogâ nci a dos argentinos".
E ar r e m a t o u : "Como concliar a idéia de um povo politizado,
britânico, de blaser, com a g uei es surtos passionais? (12) —g r i ­

fei.

Sobre ou tr o jogo d e ‘futebol, envolvendo igual­


m en te a Copa L i b e r t a d o r e s das Américas, entre Grêmio e Inde-
pendientes, da A r g e n t i n a ,onde o time gaú ch o foi desclassifica­
do, depo is de u m .jogo violento, o comentarista e deputado esta­
dual do Rio G ra n d e do Sul, Rui Ca r l o s Ostermann, em sua colu­
na no jornal Zero Hora, escreveu: "Uma a n t i g ü i s s i m a _____ v e r d a d e.:_
brasileiro não sabe ficar' b r abo; ele p a r t e para a porrada ten­
do p e r d i d o antes a cab e ç a . E á noção do j o g o " . ( 1 3 ) - g r i f e i . Çabe^
ria p e r g u n t a r m o s ao j o r n a l i s t a / d e p u t a d o sobre qual o brasilei­
ro que não sabe ficar brabo.... Qual a"noção" de brasileiro fòi~
u t i l i z a d a pelo j or na li st a para ex p re ss ar a essertiva acima?-

A excelente pista do autôdromo de Nurburgring, na Alema­


nha, foi "explicada" pelo r e pó t e r da Rede Globo, em comentá­
rio do dia 6 de o u t u b ro de 1984, no Jornal Nacional, pela ra­
zão de que "alem ão q u a n d o faz, faz b e m feito". P e r g u n t a d o a res
peito, o pi l o t o N e l s o n Pi c k e t disse: "Realmente, a pista é m u i ­
to boa- É c o i s a de alemão". Q u e m po de ri a m e l h o r falar sobre
esse a s s u n t o seria o po v o judeu...

A s s i m como são c a r a c t e r i z a d o s os bras il ei ros ,


outr os po vo s ta mb é m são e s t e r i o t i p a d o s . A coluna de TV do jor ­
nal Zero Hora, c o m e n t a n d o a p e r s o n a g e m Hermengarda, da No v e l a
C o r p o a Corpo, da TV Globo, a s s i n a l a v a q u e "o caráter da
81

" e n fe r m e i r a H e r m e n g a r d a é r í g i d o e se v e r o p o r ser ela d e s c e n d e n


te de a l e m ã e s " .(14)

0 e s t e r e ó t i p o do al em ã o p e rf ec ci on is ta , frio,
c a l c u l i s t a e t r a b a l h a d o r é um dos ma i s usa do s nos m ei os de co­
m u n i c a ç ã o do Rio Gran de do Sul. A RBS TV, de Porto Alegre, nos
m e s e s de julho e ago st o de 1985, v e i c u l ou um come rc ial de uma
e mp res a de Nov o H a m b u r g o (c i d a d e co m pr e d o m i n â n c i a de descen­
den te s de a l e m ã e s ) . Na propaganda, uma mo ça bonita, loura, ves­
tida c om trage típi co da r e gi ão da B a v i e r a , diz, com leve sota­
que germânico, que " a oficina X é especializada em Vo ks wa ge n.
T e m m a n i a de pe rfe içã o. C o i s a d e alemão".

Assim, m u i t o s outr os exe mpl os poderiam aqui se?


rem colocados. Desde O r t e g a Y Gasset, que fala sobre "o traço
fu n d am en ta l do po v o espanhol", P a t r i c k Romanel, que c o m p a r a la­
t i n o - a m e r i c a n o s com n o r t e - a m e r i c a n o s , até F i d e l i n o de F i g u e i r e ­
do, que indica três tr a ç o s p r e d o m i n a n t e s no povo po rtu guê s.. .

Mas, smj, a matéria, atinente aos povos/nações


já foi ab o r d a d a a co ntento. Adiante, examinaremos a es te re ot i-
pa çã o a n ível das r e g i õ e s e u n i d a d e s fe d e r a t i va s em no sso País.

9.2. O M I T O DO C A R Á T E R E S T A D U A L E R E G I O N A L

A s s i m co m o são e s t e r i o t i p a d o s os p ov os das d i f e ­
rent es nações, este p r o c e s s o ta m bé m oco rr e c om os habitantes
de d i f e r e n t e s estad os e r e g i õ e s b r as il ei ra s.

Os e s t e r e ó t i p o s mais ca n d e n t e s e conhecidos são


os do "carioca malandro, pr e gu iç os o" e do "n or des tin o po uc o
ap e g a d o ao t r a b a l h o " .

U m dos escritores b r a s i l e i r o s que ma i s contri­


b u i u para a d i s s e m i n a ç ã o dos e s t e r e ó t i p o s regionais, foi Ma­
noel Diegu es Jr., c om sua ob ra Re gi õe s Cul tu ra is do Brasil, ba­
seada, na sua q ua se totalidade, em A l ce u A m o r o s o Lima, atra
vés do livro P si co l o g i a do Povo Brasileiro.

Assim, diz Di egu es Jr. que Am or o s o Li ma , n a obra


82

citada,

" . . .pôde encontrar os traços característicos do homem


brasileiro, representando o litoral e o sertão as duas
faces mais gerais da nossa alma coletiva, ao mesmo tem­
po que o nortista se traduz pelo ardor das atitudes,
ou exaltação, o entusiasmo, e o sulista, reservado,
sóbrio, fechado, retraído. 0 paul is ta é s e m p r e o-
lhado como o homem ativo, e m p r e e n d e d o r , dono da riqueza;
o carioca ê visto como o ironista, o malicioso, espi­
rito que se tra duz, ali á s , no seu anedotário, sempre
rico, a respeito de tudo e de todos; o mineiro apresen­
ta-se res e r v a d o , formação clássica e erudita; o cea­
rense é o migrante eterno, que anda não só p o r terras
do B r a s i l , mas por toda parte do m u n d o , a respeito de
quem se contam as h i s t ó r i a s mais c u r i o s a s . " ( 15 )- grifei

Ao lado de tudo isso, Manuel Diegues Jr. assina­


la, ainda, tra ço s gerais, os quais,

. .permitem a identificação do h o m e m b r a s i l e i r o . A sua


b o n d a d e , tra ç o tão típico de seu sentimentalismo, de
suas manifestações; a sua h o s p i t a l i d a d e ,a m a n e i r a de rç-
cebe r , o gos to de acolhe r; a despreocupação pelo futu­
ro, ta n t o é certo que não há diretrizes firmes e segu-
guras com relação a continuidade de ação ou de traba­
lho, ou m e s m o de o b r a s . "(16)-grifei

Percebe-se, facilmente, que o a ut or não abord a


em sua o b r a (r ã l i á s , m u i t o d i f u n d i d a em todo o País) a ques­
tão da ideologia, das c la s s e s sociais, da miséria, da re la çã o
c a p i t a l - t r a b a l h o etc. A obra r e s um e- se à g e n e r a l iza çõ es, q u e, se
sabe m u i t o b e m ã q u e m interessam. As e s t e r e o t i p a ç õ e s são níti­
das, e seu senti do de g e n e r a l i z a ç ã o aparece e m ''todo o texto, a
e x em pl o de q u a n d o a s s e v e r a que " o homem brasileiro co m o um
todo" ou "traços q u e a p a r e c e m em toda a p o p u l a ç ã o br as i l e i r a " .

Ora, a f i r m a r a b o n d a d e do h o m e m b r a s i l e i r o ,c o ­
mo um todo, ou fa la r- se de sua d e s p r e o c u p a ç ã o para c o m o seu
83

futuro, é ignorar a r e a l i d a d e de uma so ciedade dividida em


classe s sociais, onde é im po s s ív el esc ond er as discrepâncias.

A ssi m como, no d i z e r de Chauí, " a operação ideo


lógica fundamental c o n s is t e em ca m u f l a r as co nt radições, em no
me de uma indivisão e de uma h a r m o n i a de d i re it o que d e v e m c o n s ­
tit u i r a sociedade e a p o l í t i c a , "(17), os es te re ót ip os analisa­
dos são, de ssa forma, i m p o rt an te s instr ume nto s ide ol óg ic os
para a c o n c r e t i z a ç ão d es se p r o c e s s o de c a m u f l a g e m das contra­
diç õ e s sociais.

9.3. AS N E C E S S Á R I A S CR Í T I C A S ÀS NOÇ ÕE S ESTEREOTIPADAS

0 obra de Dante M o r e i r a Leite, "0 ca r á t e r n a c i o ­


nal b r a s i l e i r o - h i s t ó r i a de uma ideologia", foi um marco histó­
rico no pr oc e s so de d e s m i (s )t i f icaçao das noç oe s estereotipa­
das dos povos. Não foi, todavia, sufici en te para a c ab ar com
esta p a na ce ia id eol ógi ca que e n c o n t r a - se hoje, profundamente
m a t e r i a l i z a d a no i ma gi n á r i o social.

Mo re ir a Le it e acusa a noção de "ca rát er nacio­


nal" de preconceito, e q u í v o c o e obstáculo. Infelizmente, não
fo ram suf ici ent es alguns c a p ít ul os de nossa h i st ór ia pa ssa da
e recente, desde Ca nu do s até o s " q u e b r a - q u eb ra s" de trens, às
lutas entre fazendei ro s e posseiros, os as sa lto s a cada trinta
m in u t o s nas grande s m e t r ó p o l e s do País, para que a noção de
"brasil eir o cordial, p a c í f i c o e acomodado" caíssem po r terra.
Sapato de pelica e sinuca, cordialidade e jetinho... A reali­
dade social desmente, de forma categórica, os r o ma n t i s m o s de
nos sos historiad ore s, so ci ól og os e escritores.

Afinal, c a b e m vá r ia s indagações: de qual brasi­


leiro fa lam os que a f i r m a m a sua cordialidade, a c o m o d a ç ã o ,5etc .?
De qual ca rio ca fal am os que p r e g a m a m a l a n d r a g e m e pre gu iç a
de ste h a b i ta nt e do Rio de J a ne ir o? Seria o o pe rá ri o que mora
na favela da Roc inh a? Ou, então, o rico industrial que mora na
zona sul? À que g a úc ho se r e f e r e m os que o ap r e g o a m co mo sendo
sizudo, viril, tr a b a l h a d o r ? Seria o fazendeiro, com mi l h a r e s
84

de vacas p a s t a n d o no l a t i f ú n d i o ? Ou, q u e m sabe, r e f e r e m se ao


op er ár io da Vila Restinga, em Porto Alegre, co m c in co filhos
e um m í s e r o salári o para so b re vi ve r? E a ss im por diante...

Como diz a m a t é r i a pu bl ica da pela Re v i s t a Is­

to É:

"0 espectro se t o r na mais em ba ra ça do , por certo, quando se


trata dos mitos e valores da chamada classe média. Ain­
da p o u c o con h e c i d a , apesar de extensa e do interesse
cada ve z maior que lhe dedicam os cientistas sociais, a
classe média continua sendo aquele segmento social que a-
perta a buzina dos seus carros em túneis, come espalha­
fatosamente nas cantinas nos fins de semana e, politica­
mente, oscila como um p ê n d u l o . Ela foi vista, p.ex., a-
plaudindo o presidente Goulart no seu funesto comício na
Central do Brasil, no R i o , em 1964, quase ao mesmo tempo
que marchava nas ruas de São Paulo e outras capitais em
nome de Deus e da liberdade, pedindo a deposição do pre­
sidente. Ela cobriu de tapetes a rua Augusta, em São Pau­
lo, num dos mais patéticos momentos do ' m i l a g r e ', no co­
meço dos anos 70, e teve seus filhos presos, torturados
e exilados por causa da oposição armada que faziam ao

r e g i m e . (. . .) " (18)

M o r e i r a Leite, na fe stejada obra c o m o qual des.


fere forte golpe nas n o ç õ e s es te reo tipadas, faz uma a b o r d a g e m
hi s t ó r i c a sobre o tema:

"A ideologia do caráter nacional brasileiro segue bem.de


perto o esquema das doutrinas e u r o p é i a s .(...) Na verda­
de, não é fácil explicar porque essas teorias foram a-
ce i t a s no Brasil. De um l a d o ,c o m o sua aceitação, coinci­
de com a abolição da esc ra vatura, poder-se-ia pensar que
as teorias racistas constituem a forma de defesa do grupo
branco c o n t r a a a scenção social dos antigos escravos. De
outro la do, poderia ser apenas a justificativa para_a_m a ­
nutenção desses grupos numa condição de sem i-e scravidão
E. assim como os europeus justificavam seu d o m í n i o _pe 1 a_
in c a p a c i d a d e dos povos m e s t i ç o s , as c l a s s e s ______ d o m i n a n t e s
85

" 7u s t i f i c a v a m seus privilégios pela incapac idade dos ne­


gros, índios e m e s t i ç o s .(19) grifei

Tha les de A z e v e d o c o n tr ib ui na crítica, asse­


verando:

"... queremos concluir ou p r o p o r é que estamos agora imer­


sos, ao que p a r e c e , numa realidade que destôa em m u i t o do
que se tem como característico da alma nacional. As pes­
quisas históricas e s o c i o l ó g i c a s , as i n d a g a ç õ e s psico­
lógicas, a experiência política, os e v e n t o s cotidianos
por todo o pais pòem em s éria dúvida a tr istez a, a cordia
lidade, o espirito de conciliação qu e alguns analistas
e intérpretes da h i s t ó r i a e da s o c i e d a d e têm c o m o especí­

ficos do n o s s o e t h o s . "(20) grifei

A q u e s t ã o r e l a c i o n a d a aos e s t e r e ó t i p o s está :r
tão a r r a i g a d a / i n t r o j e t a d a no i ma gi ná ri o social, que o pr óp ri o
Thales de Azevedo, após t ec er as cr ít ic as r e t r o - c i t a d a s , cai
na a r m a d i l h a ideológica, q u a n d o diz:

"Já não'e possível desenhar um p e r f i l do brasileiro que


não leve em conta traços de intolerância, de frieza e
dureza, de cobiça e egoísmo, de desdém pelos costumes e
pela lei, ao lado do c o n f o r m i s m o , da ingenuidade e do fa­
ta l i s m o , da emotividade facilmente excitável e explorá-

v e l ..."(2 1)

Temos assim, como já frisado, que a formação de


estereótipos f av or áv ei s ou d e s f a v o r á v e i s depende, principal­
mente, da po s i ç ã o social e cultural dos indiví du os e dos grupos.

Po de mo s concluir, então, que atrav és dos este­


reó t i p o s são m o n t a d o s um im ag i n á r i o e uma lógica de i d e n t i f i c a ­
ção social, co m a função de es ca m o t e a r o co nf l i t o e ca mu f l a r
a dominação. A generalização estreotipada, o conceito elabora­
do n o "a tacado',1 tendo o c u l t a d o o co nc e i t o formado no "varejo','
ap ar ec e como universal, ace it o por todo o te c i d o social.

Cabe que i n d a g u e m o s ,por fim, se as caracterís­


ticas p s i c o l ó g i c a s a t r i b u í d a s ao b r a s i l e i r o ou aos brasileiros
86

de d i f e r e n t e s regiões, têm al gu m a relaç ão com a realidade, numa


socie dad e como a nossa, co m p o s t a de class es sociais antagôni­
cas, onde a m i s é r i a vive c o m a opulência...
87

N OTA S B I B L I O G R Á F I C A S

(1) - W A R A T , Luis Alberto. O d i re i t o e sua l i n g u a g e m . Porto Ale


gre, Fabris, J984. p . 71.
(2) - Ibidem, p . 71 à 73.
(3) - Os filós of os da F i l o s o f i a da L i n g u a g e m O r d in ár ia v i n c u l a m
a qu e s t ã o das c a r g a s v a lo r a t i v a s aos usos em ot iv os da
linguagem. Todas as p a l a v r a s da l i n g u a g e m natural, à
m a r g e m de sua d e s i g n a ç ã o descritiva, veiculam o juízo
em o t i v o ou valorativo. que o e m is so r po s su i frente- à de­
sig na ç ã o co mun ica ti va.
(4) - LEITE, Dante Mor eira. O c a rá te r nac ional bra sil eir o: his­
tória de uma i d e o l o g i a . 3§ e d . r e v . , r e f u n d i d a e amplia^
da. São Paulo, Pioneira, 1976. p . 123 e 124.
(5) - Ibidem, p . 266.
(6) - F R E Y R E , Gilberto. Casa gra nd e & s e n s a l a . 12 § e d ., Brasí-
lia:UNB, 0:963,^.92 e 93.
(7) - Ibidem, p . 586.
(8) - Ibidem, p . 586.
(9) - Ibidem, p . 738 e segs.
(10)- HOLANDA, Sérgio B u a r q u e . Ra í z e s do Brasil. Apud LE I T E , D a n
te Moreira, op.cit., p . 302.
(11)- FREYRE, Gilberto. O anarquista construtivo. Entrevista à
R e v i s t a Veja, e d . de 4.1.84, p . 5,6 e 7.
(12)- VERÍSSIMO, Luiz Fernando. Porto Alegre, RS, Jo r na l Ze­
ro Hora, e d . de 25.8.83, p . 5.
(13)- O S T E R M A N N , Rui Carlos. Porto Alegre, RS, Jornal Zero
Hora, e d . de 21.8.84, p . 51.
(14)- Colu na de TV. P or to Al egre,RS, Jorn al Zero Hora, e d . de
2 6 . 5 . 8 5 , p . 4.
(15)- DIEGUE S JR., Manuel. Re g i S e s Cu l t u ra is do Brasil. Rio Ja­
n e i r o , 1960. p . 505.
(16)- Ibidem, p . 508 e 509.
(17)- CHAUÍ. M a r i l e n a de Sousa. Cultu ra e d e m o c r a c i a :o d i s c u r s o
c o m p e t e n t e e ou t r a s f a l a s . 3 ã e d . São Paulo, E d . Moder­
na, 1982. p . 31.
88

(18)- M A Y R I N C K , G e r a n d o e FIORILLO, M a r í l i a Pacheco. Sem len.qo_


n e m documento: m al an dr age m, cordialidade, índole p a c j f Â
ca- -o s m ito s a t i n g i d o s pela c r i s e . R e v i s t a ISTO É, ano
7, n 2 354, C a m i n h o e d i to ri al SA, p . 50/51.
(19)- LEITE, Dante M., op.cit., p . 325 e seguintes.
(20)- AZEVEDO, Tha les de. Os b r a s i l e i r o s :estudos de 'caráter na
c i o n a l ' . Salvador, C e n t r o Ed itorial e Di dá t i c o da UFB,

1981, p . 58.
(21)- Ibidem, p . 58.
10. O L U S I S M O V E R S U S A A L E M A N I D A D E : COMO AS DUAS CIDAD ES
SE VÊEM.

Como d e c o r r ê n c i a das es tr eo t i p a ç õ e s entre os bra


sileiros, alemães, p or tug ues es , espanhóis, etc., e das "dife­
renças" ex is t e n t e s entre o "modo de ser" dos gaúchos, minei­
ros, cariocas, etc., advêm, também, na m e s m a linha, estereo-
ti paç ões de h a b i t a n t e s de m u n i c í p i o s e cidades.

A s s i m há u m p r o c e s s o pelo qual Santa Cruz do Súl


vê a si como d e t e n t o r a de uma "alemanidade" intrxnsica, supe­
riora, vez que formada por h a bi t a n t e s trabalha do re s, frios,
calculistas, pragm áti co s, et c .. Co mo con sequência, Santa Cruz
do Sul vê a v iz i n h a c o m u n i d a d e de Rio pa rd o como dominada pe­
lo "lusismo" inferior, h a b i t a d a por pe ss oa s que não são adep­
tas do trabalho, não têm p r e o c u p a ç ã o co m o futu ro e são român­
ticos. Ao m e s m o tempo, Rio Pardo, numa p o s i ç ã o de inferiori­
dade econômica, como já d e m o n s t r a d o neste trabalho, intr oje ta
o "lusismo", encarando, em con trapartida, Santa Cruz do Sul
como "Nova Alemanh a", "chucrutz", etc. Estas questões.'» introje-
tadas pelos h a b i t a n t e s das duas comunas, serão m e l h o r e s p e c i f i ­
cadas q u an do t r a t a r mo s das re s p o st as dad as nos questionários
ati ne nt es à p e s q u i s a de c a m p o sobre os r e s u l t a d o s dos julgamen­
tos do T r ib un a l do J ú r i .

Para uma m e l h o r c o m p r e e n s ã o da dimensão do ima­


gi ná ri o social das c id ad e s em questão, trago à baila a autên­
tica b a t a l h a j o r n a l í s t i ca trava da em 1982, entre as duas ci­
dades. Na ocasião, a R e v i s t a Al t o Falante, de Santa CRuz do
Sul, pu b l i c o u u m ar ti g o sob o título "A A N E X A Ç Ã O DE RIO PARDO",
que gerou uma v i o l e n t a r e s p o s t a do h e b d o m a d á r i o Jor na l de Rio
90

Pardo, sob o tí t u lo "SANTA CRUZ T EN TA AN E XA R RIO PARDO. MAS


N O S S O C O N T R A - A T A Q U E JÁ ES T Á EM AÇÃO...". A batalha, que se re­
sumiu ao a s p e c t o humo rí st ic o, foi encarada pelas duas cidad es
com bastante seriedade, trazendo, inclusive, pr o b l e m a s nas re­
lações das mesmas. Dizia a m a t é r i a da revis ta Alto-F al an te :

"Hav i a rumores duma invasão iminente de Santa Cruz ao ter­


ritório em d i s p u t a , depois que m a p a s antigos foram desco­
bertos na P r e f e i t u r a , t o do s indicando que a divisa com
Rio Pardo não era o Arroio do Almoço, mas além, muito a-
lém de Dona Carlota e Cerro Alegre... De repente, foi
programada a i n v a s ã o , ou m e l h o r a ANEXAÇÃO, " Der
auschluss", como um h o m e m de bigodinho já fizera nos idos
de 1930, com os Sudetos, com a Áustria e com Dantzig, o

C o r r e d o r P o l o n ê s .(...)
A invasão se deu de m a d r u g a d â e não houve r e a ç ã o . ..
Rio Pardo dormia placidamente, às 11 h da man h ã . . . (. . . )
Enquanto i s s o , o prefeito de Santa Cruz do S u l (...)
que já deflagrara pelas rádios a noticia da invasão, ini­
ciou a guerra de conquista da opinião pública, sob o le­
ma de 'Ein v o l k , e i n m u n i z i p , e i s F r a n t z '^ 'um p o v o , u m m u ­

nicípio, um F r a n t z . "Cl )~ grifei

0 articulista da Revis ta citada, no final da ma^

pa s s a do h u m o r para o lado sério:

Cl a ro que se tr a t a duma o bra de ficção. 0 que e x i s t e ,m e s -

m o , são al g u m a s escrituras de ter r a s do 1 ado de lá do Ar-

roi o do Al m o ço, registrados nos Cartórios de Santa Cruz

do Sul , e a l g u n s mapas a n t i g o s , mostrando qu>e o Arroio'-

d o Almoço não ê a ve rd,üdeira divisa. . . ( . . . )

Ma s , c o m o Rio Pardo é um m u n i c í p i o muito Q ran d e , c o m pou-

cos recurs o s , devido à má distribuição das rendas no

Bra s i l , P O d e r i a haver u ma
i solução amiqáve 1 P<ara o pl ei -

to , d e m o c r a t i c a m e n t e , >ê l ô q i c o , através de um plebici-

to_".(2) -grifei

0 Jorna l de Rio Pardo r e s p on de u ao ataque, c om


uma m a t é r i a de p á gi n a inteira, inclu siv e c om uma charge, onde
91

apare ce o p re f e i t o de Rio P ar do c o lo ca ndo à n o cau te o prefei­


to de Santa Cruz do Sul, este c a r a c t e r i z a d o como Hitler. Na
charge, o p r e f e i t o de Rio P ar do dizia: "Tu es qu e c e u da histo­
ria, 'chucrutz' ? (3), numa alu sã o à tr ad i ç ão de Rio Pardo,
que, segundo a história, d e s d e a sua fundação, nunca pe rd e u
uma batalha.

Em editorial, o Jo r n a l de Rio Pardo assim se


p r o n u n c i o u sobre a "invasão":

"No fundo, eles tem v o n t a d e imensa de dominarem Rio Par­


do e tornarem-se soberanos em toda a região. Mas isso
nunca ocorrerá na p r á t i c a , embora economicamente não es­

teja tão longe a s s i m . ..


(...) Que venham os ’c h u c r u t z '” . (4)

Da fi c ç ã o à realidade, cinco , anos depois,


em 1987, Santa Cruz do Sul tentou, via plebicito, anexar o te r ­
ri t ó r i o que fica nas i m e d i a ç õ e s do Ar r oi o do Almoço(conforme
a m a t é r i a da R e v i s t a Al t o F a l a n t e ) . Porém, por 143 a 106 vo­
tos, os h a b i t a n t e s da l o c a l i d a d e obj et o do pleito, São José da
Reserva, o p t a r a m po r p e r m a n e c e r e m como i n t e gr an te s do munici-
pio de Rio Pardo.

No imaginário social das duas cidades, circulam


an ed o t a s famosas, como esta que, inclusive, estava, implicita­
mente, in se ri da na m a t é r i a da Re v i s t a Alto Falante, já enfoca­
da. Diz a a n ed ot a que "o ga l o que ca n t a r antes das onze horas
da m a n h ã em Rio P ar do vai para a panela, pelã audácia de acor­
da r os r i o - p a r d e n s e s ". Rio Pardo, por sua vez, responde, com
uma a n e d o t a ma i s violenta: "Enq ua nt o os 'chucrutz' tr abalham,
nós vamos até lá e 'papamos' as m u l h e r e s deles".

Em p e s q u i s a que re al i z e i com os al u n o s do pri­


m e i r o ano de Est ud o dos P r o b l e m a s Brasileiros, das Faculdades
In te gr ad as de Santa Cruz do Sul, sobre quais os f at or es teriam
sido d e t e r m i n a n t e s do p r o g r e s s o de Santa Cruz do Sul e da estag;
na ç ã o de Rio Pardo, 35 alunos, de um total de 45, responderam
que "Santa Cruz do Sul p r o g r e d i u e c o n o m i c a m e n t e em virtude de
ter sido c o l o n i z a d o po r alemães, que são mais apegados ao
92

"trabalho e ao dinhei ro" . Se gun do os mes mo s alunos. Rio Pardo


es ta g n o u e c o n o m i c a m e n t e d e v i d o ao fato de "ter sido colonizado
por portugueses, que não g o s t a v a m de trabalhar, que nao se
preocupavam com o aman h a . . F r i s e - s e que uma gra nd e pa rce la
dos alunos qu e a s s im se p r o n u n c i a r a m são m o r a d o r e s de Rio Par­
do, o que v e m de mon strar, à saciedade, o alto gr a u de introje-
ção do p r o c e s s o i d e ol ó gi co c a l c a d o nos e s t e r e ó t i p o s já citad os
e examinados.

0 p r i n c i p al co l u n i s t a po lí t i c o do Jornal "Ga­
zeta do Sul", de Santa Cruz do Sul, analisando a questão da
Universidade local e seu e n t r e l a ç a m e n t o com a comunidade, deu
uma nít i d a m o s t r a do i m a g i n á r i o social no qual está inserido, e
onde p r e d o m i n a o estereótipo da "alemanidade":

"Um dirigente universitário local confessava, certo dia,


que Santa Cruz do Sul ê uma cidade fria, apática. Embo­
ra s u s c e tlvel de discussão, a análise tem alguns funda­
mentos sólidos, co mo, por exemplo, a fase de e v i d e n t e tran_
sição de cidade pequena para média, o tipo de atividade
sócio-econômica intensa voltada para a produção, sem tem­
po para mais amplas manifestações do sentimento, a 1 ém
da própria indole de um p ov o mais f rio e calculista qu e a
média do b r a s i l e i r o " (5)-grifei

Co m o se vê, há uma i n te ri o r i z a ç ã o do "corpus"


imaginário, v i z a n d o a i d e n t i f i c a ç ã o com o p r ó p r i o real. Como
a s s e v e r a Chauí,

"...a eficácia da ideologia depende de sua capacidade


para p r o d u z ir um imaginário coletivo, em c u j o interior os
indivíduos possam l o c alizar-se, identificar-se e, pelo
auto reconhecimento assim obt i d o , legitimar, involunta­
riamente, a divisão s o c i a l " . (6)

En q u a n t o Santa Cruz do Sul apela à "alemanida­


de", pela ra zão de que lhe traz uma série de vantagens, Rio
P ardo não apela, co m a m e s m a ênfase, ao "lusismo", pela pró­
pria raz ão de que, no i m a g i n á r i o social, o estereótipo de
"luso po uco a pe g a d o ao tra ba lh o" é de sf av or áv el .
93

Uma coisa, porém, levan do -s e em conta as cate­


goria s do s im ból ic o e da ideologia, é Rio Pardo "apelar ou
não ao lusismo", e outra, é a materialização de sse "corpus" de
r e p r e s e n t a ç õ e s que o c o r r e entre os h a b i t a n t e s de Rio Pardo,
uma vez que a id e o l o gi a da " a l e m a n i d a d e " , por ser hegemôni­
ca, flui como v e r d a d e i g u al me nt e acei ta por todos.

Assim, n e s se processo, não há a utilização de


signos visíveis. As e s t e r e o t i p a ç õ e s ma n t ê m - s e pela oc u l t a ç ã o de
sua gênese, pois, se revelassem a sua o r i g e m e o seu pr o p ó s i
to, h a v e r i a a sua a u t o - d e s t r u i ç ã o .
94

N OTA S B I B L I O G R Á F I C A S

(1) - R E V I S T A AL T O FALANTE. Santa Cruz do Sul, Ed. Al t o Falante,


n-° 4, ABRIL/MAIO, 1982, p . 13.
(2) - Ibidem, p . 13.
(3) - "chucrutz": p a l av r a da língua alemã, que d e s i g n a um prato
típi co da c oz in h a germânica. 0 termo "chucrutz" é c o mu me n
te usado para designar, de forma depreci at iv a, o habitan­
te de Santa Cruz do Sul e os de s c e n d e n t e s de a l em ãe s em
geral, na regi ão ce ntr al do Rio Gr an d e do Sul.
(4) - J O R N A L DE RIO PARDO. Rio Pardo, n 2 308, ano VII, edi çã o de
12.07.82, p . 7.
(5) - K U H N , G u i d o Ernani. P r e g u i n h o . A Ga ze t a do Sul. Santa Cruz
do Sul, ed. de 11.4.85, p . 2.
(6) - C H A U Í , M a r i l e n a de Z o u s a . Ideologia e E d u c a ç ã o . Ed uc a ç ã o
& S o c i e d a d e .Cortez E d i t o r a / C E D S . A n o II, n25, JAN/80 ,
p. 25.
11. O T R I B U N A L DO JÚRI NO PALCO DAS AÇÕES

Este c a p í t u l o trata da gênese d es te trabalho, ou


seja, da p e s q u i s a de c amp o que de se n v o l v i junto às Comarcas
de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo.

A p e s q u i s a b r a n g e u todos os jul ga men to s r e a l i z a ­


dos pelo Tr ib u n a l do Jú ri das duas cidades, no pe rí o d o de 1970

à 1984.

A s e g u i r ,se paradamente, delineio os dados co­

lhidos .

T R I B U N A L DO JÚRI DE SANTA CRUZ DO SUL- 19 70/1984

N Ú M E R O DE J U L G A M E N T O S R E A L I Z A D O S 88
SENTENÇA FINAL CONDENATÓRIA 57 (64,77%)
SENTENÇA FINAL ABSOLUTÓRIA 31 (35,23%) (1)

COMPOSIÇÃO DO CORPO DE JURADOS- No p e rí od o de 1970 à 1984, 233


jurados p a r t i c i p a r a m dos julgamentos, dos q ua is 178(76,39%) po
d em ser c l a s s i f i c a d o s como p e r t e n c e n t e s às ca m a d a s m é d i o - s u p e ­
riores da sociedade, senão vejamos:
- I n d u s t r i a i s ......................................................... 42
- Comerciantes, empresários em geral, gerentes de bancos, gerentes de
empresas, diretores administrativos de empresas, executivos, geren­
tes e diretores de autarquias, secretários do governo municipal...... 55
- Profissionais liberais(engenheiros, dentistas, farmacêuticos, econo­
mistas, corretores de imóveis)........................................ 22
TOTAL................................................................ .
96

Estes 178 jurados p a r t i c i p a r a m 473 vezes(2) dos ju l g a m e n ­

tos, n um pe rce n tu al de 76,78 %.

Por sua vez, as c am ada s aqui cl a s s i f i c a d a s como médio. ,


in fer ior es da soci eda de s a n t a - c r u z e n s e , foram re pr es e n t a d a s por
55 jurados, o que eq ui v al e a um p er ce nt ua l de 23,61% do total
de 233. Estes 55 jurados p a r t i c i p a r a m 143 vezes(3) dos julgamen
tos, n um per ce nt u al de 23,21%.
Dos 55 jurados, tivemos:
-P ro fe ss or es da rede es tadual de e n s i n o .......................... 8
- B a n c a'r i
• o s ............................ .............................. . .9

-Fu n c i o n á r i o s p ú b l ic o s ............... ...............................


- I n d u s t r i á r i o s ..................................................... 10
- C o m e r c i á r i o s ...................................................... .6
- R e p r e s e n t a n t e s c o m e r c i a i s . .................................... . .2

- F o t ó g r a f o s . ......................................................
- B a r b e i r o s .........................................................
-M ili tar r e f o r m a d o ..... ..........................................
- L i t ó g r a f o s ................. .............. * ......................
- A l f a i a t e s .................. . * ......................... .........
55
T o t a l ...............................................................

N Ú M E R O DE RÉ U S J U L G A D O S NO PERÍODO: 86 (4)
C L A S S I F I C A Ç Ã O DOS RÉ U S : 70(81,39%) er a m t r a b a l h a d o r e s de
safra, parceiros/agregados agrí­

colas, mecâni co s, pedreiros, carpinteiros, operários em geral e

sem p r o f i s s ã o definida.
16(18,61%) e r a m a g r i c u l t o r e s pro
prietários, comerci ant es, um engenheiro, um militar, um funcio­
n ári o de a u t a r q u i a (t é c n i c o - c i e n t i f i c o ) .

RÉ US CONIBENADOS : 57 , .sépdò
-Sem p r o f i s s ã o d e f i n i d a .............................................
-T ra ba l h a d o r e s de s a f r a .............................................. 6
- T é c n i c o - ç i e n t í f i c o de a u t a r q u i a ................................... 1
- P e q u e n os a g r i c u l t o r e s e p a r c e i r o s / a g r e g a d o s .................... 8
-Mecânicos, pe d r ei ro s e c a r p i n t e i r o s ............................. 10
- O pe r á r i o s em g e r a l .................................................. 12
2
- C o m e r c i a n t e s ..........................................................
- . T
- A g r i c u l t o r e s p r o p r i e t á r i o s ...... ................................ .
T o t a l .............................. .................................... . .
97

RÉUS ABSOLVI íIDOS : 31 , sendo;::

- E n g e n h e i r o .......................................
- C o m e r c i a n t e s ....................................
- M i l i t a r ..........................................
- A gr ic u l t or e s p r o p r i e t á r i o s ...................
-O per ár io s em g e r a l .............................
-Pequenos agricultores e parceiros/agregados
- P e d r e i r o s e m e c â n i c o s ....... ..................
T o t a l .................. .......... ................

T R I B U N A L DO JÚRI DE R I O PARiOO - 1 97 0 / 1 98 4

N Ú M E R O DE J U L G A M E N T O S R E A L I Z A D O S : 47
SENTENÇA FINAL CONDENATÓRIA * : 13 (27,68%)
SENTENÇA FINAL ABSOLUTÓRIA : 31 (72,32%)

COMPOSIÇÃO DO CORPO DE JURADOS- No p e r í o d o de 1970 à 1984, 154


jurados p a r t i c i p a r a m d os j ulgamentos, dos q u a i s 55(35,71%)podem
ser c l a s s i f i c a d o s c omo p e r t e n c e n t e s às c a m a d a s médÍQ5- s u p e ri o r e s
da sociedade, senão vejamos:
- F a z e n d e i r o s e g r a n d e s a g r i c u l t o r e s ............................. 13
- C o m e r c i a n t e s e e m p r e s á r i o s . . . . . ................................ 16
- I n d u s t r i a i s .......................................................... 3
- G e r e n t e s de bancos, c o n t a d o r e s che fe s de em pr e s a s e g e r e n ­
tes de a u t a r q u i a s ....... .......... ...............................17
- Profissionais l i b e r a i s (a g r o n ô m o s e v e t e r i n á r i o s ) ........... . 6
T o t a l ..................................................................

E s te s 55 jurados p a r t i c i p a r a m 118 v ez es dos j u l g a me n t o s ,


n u m p e r c e n t u a l de 35,86%.

Por sua vez, as c a m a d a s da s oc i e d ad e a qui c l a s s i f i c a d a s


c o m o :m é d i o - i n f e r i o r e s , f o r a m r e p r e s e n t a d a s p o r 99 jurados, o
que e q u i v a l e a u m p e r c e n t u a l de 64,28% do total de 154. E stes
99 jurados p a r t i c i p a r a m 211 d os julgamentos, num p e r c e n t ua l
de 6 4, 13 %.
98

Dos 99 jurados, tivemos:

- C o m e r c•i"a n•o s .........................................................


... 13

-Pro fe ss o re s da rede mu n i c i p a l e e s t a d u a l ....................... 22


- F u n c i o n á r i o s p ú b l i c o s .............................................. 21
- I n d u s t r i á r i o s ......................................................... ^
- B a n c á r i o s ............................................... ............. 24
-Pe quenos a g r i c u l t o r e s ............................................... 3
- R e p r e s e n t a n t e s c o m e r c i a i s .......................................
- G r á f i c o s ...... .....................................................
- F e r r o v i á r i o s ......................................................
- E s t u d a n t e s .........................................................
- J o r n a l i s t a s ..... ...................... ...........................
-Afazeres d o m é s t i c o s ..............................................
- F o t ó g r a f o s ....................... .................................
-Em p r e g a d o s de e s c r i t ó r i o de c o n t a b i l i d a d e ....... ............
T o t a l ................................................................ 99

N Ú M E R O B E R É U S J U L G A D O S NO P E R Í O D O : 39 -
C L A S S I F I C A Ç Ã O DOS R É U S : 28(71,01%) e ra m p e q u e n o s a g r i c u i
tores, p eões de fazenda, sem pro
f is sã o def in id a, pedreiros e o p e r á r i o s em geral.

11(28,99%) e r am f az en de ir os , co­

merciantes e u m m édico.

R ÉU S CONDE NA DO S: 11, sendo:


- F a z e n d e i r o s ..................................... .............. .......3
- C o m e r c i a n t e s ......................... .................... ............2
-PeÕes de f a z e n d a ................, .................................... 3
-O per ár io s em g e r a l ....... ......... ............ ..................... 3

RÉUS ABSOLVIDOS: 28, sendo:


- M é d i c o ................................................................. 1
^ F a z e n d e i r o s ........................................................... 3
- C o m e r c i a n t e s .......................................................... 3
-Peões de f a z e n d a ..................................................... 7
- Pe q u e no s a g r i c u l t o r e s ............................................... 5
-Sem p r o f i s s ã o d e f i n i d a .............................................. 3
- P e d r e i r o s ............. . . . ............... ............. ............... 2
-Op er ár io s em g e r a l ..................................................
T o t a l .................................................................. li
99

N OTA S

(1) - Para a p r e s e n t e pesquisa, usei a se ntença final do juiz


p r e s i d e n t e do júri co m o r e s u l t a d o ( a b s o l v i ç ã o ou condena­
ção), uma vez que, em d e t e r m i n a d o s julgamentos, os jura­
dos t r a n s f e r e m a d e c i s ã o para o juiz(no caso de desclas­
si fi ca ção de c rim e d o l o s o para c u l p o s o ) .
Ev id entemente, igual c r i t é r i o foi usado no levantamento
at i n e n t e à Ri o Pardo.
Isso, porém, não mu d a o pe rc en tu al de condenações e ab­
solvições, uma vez qu e tal fato ocorreu, em ambas as ci­
dades, com raridade.

(2) - Como p a r t i c i p a m 7 jurados em cada julgamento, teremos,


no tal, m u l t i p l i c a n d o entre nú m er o por 88(número de jüJL
gamentos) 616 pa r t ic ip aç õe s.
(3) - Idem, idem.

(4) - 0 n ú m e r o de réus jul gados é d i f e r e n t e do n ú m e r o de julga-


gamentos, po r q ue há casos em que um a cu sad o é julgado
ma i s de uma vez(qua nd o, p.ex., o júri a n t e r i o r foi a n u l a ­
do), b e m como ex i s t e m o c a s i õ e s em que são julgados, ao
m e s m o tempo, vá ri o s r é u s (c as os de co-autoria).
12. CO MO AS DUAS C I D A D E S R E A G I R A M À P E S Q U I S A

Uma vez r e a l i z a d a a pe sq u i s a de campo, especifi­


cada no ca p í t u l o anterior, distribuí 100 f o r m u l á r i o s ( m o d e l o ane
x o ) , sendo 65 em Santa Cruz do Sul e 35 em Rio Pardo.

Para r e s p o n d e r e m ao q u e s t i o n á r i o nas dua s ci­


dades, es col hi advogados, juizes, promotores, jurados, estudan­
tes e pe ss oa s da comunid ad e.

Para p o s s i b i l i t a r a a p r e e n s ã o do que transpa­


rece do i m a gi n ár io social, somente foram c o l o c ad os no questio­
nár io os s eg uin te s dados: n ú me ro de julgamen tos no pe rí o d o p e s ­
qu i s a d o e os p e r c e n t u a i s de c o n d e n a ç õ e s e absolvições ocorri­
das no Tri b un al do júri das duas Comarcas.
As r e s p o s t a s fo ra m as seguintes:

Q U E S T I O N Á R I O S R E S P O N D I D O S E M S AN TA CRU Z DO SUL :

Das 65 p e s so a s ouvidas, 49, ou seja, 75, 38 % responderam,


em linhas gerais, que a d i s p a r i d a d e dos r e s u l t a d o s d os jul gam en
tos d e c o r r e d a f o r m a ç ã o é t n i c a dos h a b i t a n t e s de S a n t a C r u z do
Sul e R i o Pardo, no â m b i t o do que es cr ev eu o Juiz P r e s i d e n t e do
Tr ib u n a l do júri de Santa Cruz do S u l :

"Ê fato constatado que nos m unic ip io s em que p r e v a l e c e a


colonização de origem g e r m â n i c a , as condenações pelo Tri­
bu n al do Júri são mais freqüentes, em maior percentagem
do que nos municípios onde prevalece a descendência lu­

sa .
A causa pode estar em qu e os elementos de origem germa-
nica sã o rígidos na exigência do cumprimento das normas

morais e também legais."


101

Outra r e s p o s t a que m e r e c e ser transcrita, nessa


me sma linha de raciocínio, é a do Pr es id en te da Ordem dos Ad­
vogad os do Brasil, em Santa Cruz do Sul:

"No município de Santa Cruz do Sul, predominam os des­


cendentes de r aça germânica, enquanto que em Rio Pardo,
os de raça lusa. 0 povo, de origem germânica não admite
comportamentos a n t i - s o c i a i s , que prejudiquem a sociedade
como um t o d o ; er ro u , deve ser responsabilizado pelo ato
p r a t i c a d o . 0 de origem lusa perdoa e esquece como mais
facilidade.
Por outro lado, entendo que os advogados de Rio Par d o ,
em sua m a i o r i a descendentes de portugueses, atuam no
Tribunal do j ú r i com maior veemência, argumentam ardoro-
s a m e n t e , fazem maior encenação, que p o d e convencer os j u ­
rados da inocência do réu.
Por sua vez, os advogados de descendência germânica, são
mais calmos, preferem falar o estritamente n e c e s s á r i o ,n e m
por isso menos inteligentes e c a p a z e s . Via de re gr a , não
são t e m p e r a m e n t a i s , não se exaltam com facilidade, e isso
pode ter influência sobre os j u r a d o s , f a z e n d o com que es­
tes v o t e m p e l a c o n d e n a ç ã o . Essa opinião ê fruto de_____ Vá
rios anos de m i l i t â n c i a f o r e n s e . "- g r i f e i

Por outro lado, somente 3(4,61%) respostas fo­


r a m no sentido de que devem ser levados em c o n t a diversos fato­
res, como sociológicos, composição do corpo de j u r a d o s etc., a
exemplo da que vai abaixo especificada:

"0 p ont o nodal da d i s p a r i d a d e se enc on tr a em asp ec to s so­


ciológicos. Há um a b i s mo entre a c o n d i ç ã o social dos acu
sados e a dos jurados.
Al ém disso, há nos ju lg ame nto s um co n f r o n t o de va lor es
comportamentais e i d e o l ó g i c o s a serem c o n si de ra do s" .

As d e m a i s respostas, em n ú me r o de 1 4 ( 2 0 , 1 % ) ,ver
sar am sobre vár io s aspectos, como a c o m p e t ê n c i a dos advogados,
dos p r o m o t o r e s e grau de c u l t u r a dos jurados, na seguinte

v-
102

linha, e que são i r r el ev a n t es para este trabalho:

"...acho que os santa-cruzenses que estão no j ú r i tem um


nivel cultural mais ou m e n o s el e v a d o . Os p r o m o t o r e s , na a_
c u s a ç ã o , se baseiam muito nas influências sociais. Já vi
até advogado negar-se a defender acusado tendo medo da so
ciedade em censurá-lo, posteriormente".

Q U E S T I O N Á R I O S R E S P O N D I D O S E M R IO PARDO:

Das 35 pe ss oa s ouvidas, .27, ou seja, 77,14% emitiram res­


postas id ên tic as às dos 75,38% dos s a n t a- cr uz en se s especifica
dos ant eri or me nt e, ou seja, a d i s p a r i d a d e no n ú m e r o de c o n d e n a ­
ções e a b s o l v i ç õ e s d e v e - s e à c o m p o s i ç ã o étnica dos jurados de
Santa Cruz do S u l ( g e r m â n i c a ) e Rio Pardo(lusa).

Para elucidar, ci to , - a seguir, dois dep oimentos,


sendo o p r i m e i r o p r e s t a d o po r um a d v o ga do c o n c e i t u a d o da cida de
de Rio Pardo, c o m m i l i t â n c i a no Tri bun al do Júri:

"Santa Cruz do Sul: cidade constituída por habitantes de


origem germânica, que a colonizaram desde o inicio e que,
pela sua própria formação étnica, faz çom que a m e n t a l i-
d ade prussiana de seus habitantes, afeitos ao trabalho
exercido de forma regular e conservadora, sejam mais se­
veros nos seus j u l g a m e n t o s , i nd e pe n d e n t e me n te dos fatos
retratados no p r o c e s s o e da atuação dos participantes do
julgamento e de todo o contexto processual.

Rio Pardo: cidade de colonização eminentemente l u sa, com


miscigenação espanhola, com hábitos e costumes menos mo­
derados, em gue a mental idade ainda gira em torno de con­
ceitos mais elásticos em m a t é r i a de atitudes comportamen
ta is, proporciona uma severidade menor, por parte do con­
selho de sentença, na apreciação dos fatos e da matéria
posta em j u l g a m e n t o . A i n d á persiste o consenso de que
'macho não leva desaforo para casa' e 'honra se lava com

sangue'." - grifei

Ou tro advogado, o que ma i s v ez es a tu ou no Jú ri


103

em Rio Pardo, asseverou:

"As diferentes origens étnicas da s comunidades podem ter


significado relevante nos veredictos dos respectivos
tribunais p o p u l a r e s . Reconhecidamente, os g e r m â n i c o s ,ao
contrário dos l a t i n o s , na o se inclinam por decisões emo­

c i o n a i s " . grifei

As dem ai s respostas, em nú m e r o de 8(22,86%) fo­


ram genéricas, e n c a m p a n d o r a c i o c í n i o s no sentido da qualidade
dos cor po de jurados, c o m p e t ê n c i a dos ad vo gad os de Rio Pardo,
a s s i m como dos p r o m o t o r e s de justiça de Santa Cruz do Sul,
da d o s esses que, a ex em p l o da p e s q u i sa em Santa Cruz do Sul,
não se r e v e s t e m de r e l e v â n c i a para este trabalho.

Interessante frisar, por outro lado, com rela­


ção às re s p o st a s dos q u e s t i o n á r i o s em Rio pardo, n e n h u m dos e n ­
t r e v i s t a d o s ab o r d o u a q u e s t ã o sob o- pr i s ma da composição do
c orp o de jurados a nível de ca m a d as sociais.
13. 0 QUE OS P R O C E S SO S E S T U B A D O S R E V E L A M

Ao largo da d i s p a r i d a d e dos re su l t a d o s dos julga


m e n t o s oc o r r i d os nas duas c i da de s/ com arc as, no pe r í o do pesqui­
sado, exis te um fato c o m um às duas.

Sem dúvida, o que a p e s q u i sa sobre o Tr ibuna l


do J ú r i nos reve la é que s o f r e m m a i o r e s c o n d e n a ç õ e s à q ue le s
que são a p r e s e n t a d o s como os ma i s in a d e q u a do s ao m o d e l o de c o m ­
portamento social im p l íc i to nos có dig os e e x p l i c i t a d o na sua
aplicação.

Assim, temos que dos 86 réus que fo ra m julga­


dos em Sa nta Cruz do Sul, 70(81,39%) eram pe s s o a s pertencen­
tes às ca m a d a s p a u p é r r i m a s da sociedade. Pe rc e n t u a l semelhante
foi co l h i do em Rio Pardo: dos 39 réus sub me ti do s a julgamen­
to, 28 d e l e s (71,01%), p e r t e n c i a m às camad as marginalizadas da
sociedade.

Esse da d o em c o m u m somente não tem o mesmo re­


sultado, a nível do n ú m e r o de condenações, devido à p r óp ri a
c o m p o s i ç ã o do c or po de jurados das duas cidades.

E n q u a n t o que em Santa Cruz do Sul 73,39% dos


jurados que p a r t i c i p a r a m dos ju lg am en to s eram pertencentes às
ca ma da s m é d i o - s u p e r i o r e s da sociedade, em Rio Pardo esse quã
dro a p r e s e n t a v a uma su b s t a n c i a l diferença, ou seja, somente
35,71% dos jurados p o d e r i a m ser c l a s s i f i c a d o s como pertencen­
tes à tais c a m a d a s ( m é d i o -superiores).

Dessa forma, a p e s q u i s a nos m o s t r a que há uma


es tr e i t a r e la çã o entre os r e s u l t a d o s dos jul ga me nt os e a c o m p o ­
sição do c or po de jurados de cada Comarca. De co ns equência,
105

t e m o s , entao, que o e l e v a d o grau de p a r t i c i p a ç a o das camad as


m é d i o - - s u p e r i o r e s no Tr ib u n a l do Júri em Santa Cruz do Sul
tem um p r o f u n d o re f l e x o no n ú m e r o de c o n d e n a ç õ e s ali r e g is tr a-
d o (64,77%). Esse m e s m o r a c i o c í n i o se apl ic a a Rio Pardo, pois,
em sendo e f e t i v a m e n t e m e n o r a p a r t i c i p a ç ã o das c a ma da s médio-.-
s up er i o r e s nos julgamentos, temos um n ú me r o b e m m a i o r de a b s o l ­
viçõe s (72,32%).

N es se sentido, para uma inc ursão na leitur a


d e s s e s r e s u l t a d o s e em c o n s e q u ê n c i a da inf lu ên ci a do grau de
e l i t i z a ç ã o na c o m p o s i ç ã o do c o r p o de jurados, n e c e s s á r i o se faz
b u s c a r o a ux í l i o da A n t r o p o l o g i a Social, no est ud o dos des­
vios de c o m po rt a m en to . S eg u n d o G o f f m a n , .

" . . .começando com a noção muito gera l de um g r u p o de indi­


víduos que compartilham alguns valores e aderem a um c o n ­
junto de n o r m a s sociais referentes à conduta e a atribu­
tos p e s s o a i s ,p o d e - s e chamar "destoante" a qualquer mem­
bro individual que não adere às n o r m a s , e denominamos

"d e s v i o " a sua p e c u l i a r i d a d e ".(1)

Conti nua ndo , o c i t a d o a ut or assevera, ainda,que

"...se deve haver um c a m p o de investigação chamado de "com


po r t a m e n t o desviante" são os seus desviantes sociais,
conforme a qui definidos, que deveriam, presumivelmente,
constituir o seu cern e. As p r o s t i t u t a s , os viciados em
drogas, os d e i i n q ü e n t e s ) s e r i a m incluídos. São es
sas pessoas consideradas engajadas numa espécie de nega­
ção coletiva da ordem social. Elas são percebidas como
incapazes de usar as oportunidades disponíveis para o
progresso nos vários caminhos aprovados pela s o c i e d a d e ."
(2)-grifei

A q u e s t ã o do trabalho, ligada no imaginá­


rio social à " a l e m a n i d a d e " , foi re tr at ad a em ar ti g o de um re­
v er en do p r o t e s t a n t e no Jor na l "Gazeta do Sul", por oc as i ã o da
1§ O k t o b e r f e s t - "A m a i o r festa alemã do Brasil", como dizem os
106

folhetos de pr opa ganda. Diz o reverendo:

"Pessoas preguiçosas e relaxadas não se encontram em San­


ta C r u z do s u l , ca d a qual depende de si mesmo e isto é o
melhor remédio para estes de f e i t o s " .(3)

Tem-se, assim, um padr ão de c o m p o r t a m e n t o cons­


truí do pelas ca ma da s que d o m i n a m a so ci eda de santa-cruzense,
onde o e s t e r e ó t i p o da " a l e m a n i d a d e " , do "ser frio", "calculis­
ta", "trabalhador", "não pr eg uiçoso", é o modus vivendi do
s an ta - c r u z e n s e tido como "normal". Qu e m não se enq ua dr a ness e
paradigma, é tido como destoante.

Não é por acaso, d es se modo, que dos 86 réus l e ­


vados a ju lga men to po pu l a r em Santa Cruz do Sul, somen te 13 d e ­
les ti nh a m so br eno me de o r i g e m alemã, sendo que, destes, 7 fo­
ram ab so lv i d o s e 6 cond ena dos . Os dema is 73 acu sad os tinham so­
br en o m e não-alem ão, c om n í t i d a p r e d o m i n a n c i a lusa.

Extrai-sê, portanto, do contexto, que o modelo


de so ci eda de im pr imi da p ela s ca ma da s d o m i n a n t e s de Santa Cruz
do Sul exclui, sem dúvida, como de r es to em todo o Brasil, os
pobres, nel e incluídos, pr ed om in an te me nt e, em Santa Cruz do
Sul, pelos m o t i v o s já e n f o c a d o s , o s d e s c e d e n t e n t e s de lusos e
ou tr as culturas.

C lar o que isso, isoladamente, não e x p l i c a o e l e ­


vado n ú m e r o de c o n d e n a ç õ e s o c o r r i d o no Júri de Santa Cruz do
Sul, até po rq u e a q ue s t ã o do"desvio", se b e m que nu m a esc al a
diferente, t a m b ém se a p l i c a à soci ed ade riopardense.

U m da d o de ex tre ma r e le v â n c i a que p o de r i a ser


a v e n t a d o co m o um dos p r i n c i p a i s na d e f i n i ç ã o do motivo da dis­
c r e p ân ci a nos r es ul t a d o s dos jul ga me nt os p o p u l a r e s nas duas
cidades, é a extre ma d i s p a r i d a d e existente, à nível de cama­
das sociais, entre os que julgam em Santa Cruz do Sul e os que
são j u l g a d o s ... Tal a b i s m o entre os jurados e os réus po de ri a
ser r e t r a t a d o numa frase tipo "c on t i n u e m m a t a n d o entre si que
nós sa be re mo s co mo julgá-los entre nós...".

D e s l o c a n d o - s e a q u e s t ã o para Rio Pardo, temos


que os que julgam e os que são julgados e st ão b e m ma is pr ó x i m o s
107

a nível de c a m ad a s sociais. A pe sq u i s a pro vo u esse fato: o


corpo de jurados de Rio Pardo é composto, em sua maioria, por
pessoa s p e r t e n c e n t e s às ca m a d a s medio-inferiores da socieda­
de. Ha assim, uma p r o x i m i d a d e m a i o r entre os que julgam e os
que são julgados. E nq ua nt o em Santa Cruz do Sul as camad as
médio-superiores, que compõem, em sua maioria, o c or po de ju ­
rados, v ê e m no réu u m " d e s v i a n t e " , em Rio Pardo esse "desvio",
à evidência, nã o ob sta n te t a mb ém se manifestar, ocor re num ín­
dice menor, ex at am e n t e pela c o m p o s i ç ã o mai s representativa do
co rp o de jurados.

Co mo v e r em o s no c ap ít ul o a seguir, os h a b i t a n t e s
de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo "explicam" as d i fe r e n ç a s nos
re su l t a d o s dos ju lg ame nt os de forma empírica. Os d ad os que lhes
são a p r e s e n t a d o s de forma linear, f az em c o m que, como estão i n ­
serido s na qu e l e dad o im ag in á r i o social, "expliquem" as di scr e-
pâ nc ia s dos re su l t a d o s do s ju lg amentos a t rav és dos estereóti­
pos já examinados.
108

NOTAS B I B L I O G R Á F I C A S

(1) - G O F F M A N , Erving. E s t i g m a . T r a d . de Má rc i a Ba n d e i r a M e l l o
leite Nunes. Rio de Janeiro, Zahar, 1978. p . 151.
(2) - Ibidem, p . 154.
14. A "EXPLICAÇÃO" E S T E R I O T I P A D A DAS DI SC R E P Â N E I AS DOS
RESULTADOS DOS J U L G A M E N T O S

Na e st ei ra da obra "Mitologias", de Roland Bar-


thes, e nt en de -s e que 'e p r ó p r i o do mit o t r a ns fo rm ar a histó­
ria em natureza: " . . .aos olhos do consumidor de mitos, a in­
t enção, o apelo dirigido ao h o m e m concreto, pode permanecer ma­
nifesto s e m no entanto parecer i n t e r e s s a d o : a causa que faz com
que a fal a mítica seja proferida e perfeitamente explicita,
mas ê imediatamente petrificada numa n a t u r e z a ..."(1)

P o d e r í a m o s dizer, ainda, que o mi t o u t i l i z a e l e ­


m e n t o s que fazem se nti do n um d e t e r m i n a d o m o m e n t o históri co,
como se eles f o ss em n a t u r a i s e eternos.

De um m o d o geral, o "senso comum" que, de al­


gu ma forma enc on tr a gu ar i d a no im agi nár io social, se articu­
la na a p r e e n s ã o t i p i c a m e n t e em pí r i c a dos fatos sociais que sur­
g e m como "naturais", a-históricos e, portanto, in co ntestes.

Assim, q u a n d o os ha bi t a n t e s de Santa Cruz do Sul


e Rio Pardo afirmam, por exemplo, que a "alemanidade" é o mo­
tivo p r i n ci pa l do alto índi ce de con de na çõ es do Tri bu na l do Ju-
ri em Santa Cruz do Sul, e o "lusismo" é o pr in cip al cfãtor
de a b s o l v i ç õ e s em Rio Pardo, não estão e x p l ic an do a realida de.

Porém, e isso é ex tr em am en te relevante, quando


os s a n t a - c r u z e n s e s e riopardenses to mam os e s t e r eó ti po s como
"causas" e x p l i c a t i v a s para os re sul tad os discrep ant es, para
eles elas o são, uma vez que as ex p l o r a m cotidianamente. ,
110

co n t r i b u i n d o para a sua m a n u t e n ç ã o com esse es ta tu to como n a t u ­


rais e perman en tes . Dessa forma, ao f a ze re m isso, explicitam
a sua vis ão da realidade.

N ess a trilha, é n e c e s s á r i o r e s s al ta r que a pos­


s i b i l i d a d e de c o m p r e e n s ã o das formas po s s í v e i s de manifesta­
ção dos fatos e, portanto, de sua apreensão, depende, direta­
mente, do u ni v e r s o c o m p r e e n s i v o dos in te rl oc ut or es di an t e do
d i s c u r s o e xp l i c a t i v o de s t e s m e s m o s fatos. Ora, se a pro du çã o
dos d i s c u r s o s não se m a n i f e s t a a pa r t i r de sua gêne se isto
porq ue a m e s m a é o c u l t a d a --- este m e s m o d i s c u r s o tem a força de
ser "natural" e, d e s s a forma, típico de uma "raça", de uma
"tradi ção milenar", e t c . , ---vide a qu es t ã o do "povo eleito"-?

A s s i m a f i r m a r - s e que as c o m un id ad es de o r i g e m a-
lemã são ma i s rigorosas, t r a b a l h a d o r a s etc., configura-se numa
forma típi ca discursiva, de p r o d u ç ã o de c o m p o r t a m e n t o s sociais
padroniz ad os , que na da m a i s são do que formas sofisticadas de
c on tr ol e comportanjental, a p a r t i r de e s t e r e ó t i p o s já tipifi­
cados a n t e r i o r m e n t e n e s t e trabalho.

Em bo ra a a v a l i a ç ã o em pí ri ca dos dados levanta­


dos p or esta pe s q u i s a possam, de al g u m a forma, referendar a-
qu il o que o im ag in á r i o social reproduz, ou seja, a al em an i-
dade das prá ti ca s jurídicas analisadas, p r efi ro deslocar m i nh a
a n ál is e para ou tr a dimensão, que não a m e r a m e n t e fática. Afir­
mo isto, levan do em c o n s i d e r a ç ã o que as prá ti ca s o ri un da s de
uma d e t e r m i n a d a instituição s o c i a l ( e o Tr ibunal do Jú r i é
uma delas), é i n s u f i c i e n t e para e x p li ca r- se como fen ôme no so­
cial. 0 que t en to d e m o n s t r a r é que as i n st it ui çõ es são regid as
em suas p r á t i ca s c o t i d i a n a s n u m sentido teleológico, ou seja,
na d i r e ç ã o dos fins de um da d o sistema social. Portanto, a a-
pr e e n s ã o da a p l i c a ç ã o ef e t i v a de um siste ma jurídico reflete, a
nível de sintoma, p r o c e d i m e n t o s m u i t o mais co mp le xo s que g a r a n ­
tem a h e g e m o n i a de um a so c i e d a d e heterônoma, isto é, de uma s o ­
ci ed ad e que tem suas regras e s t a b e l e c i d a s e n q u a n to anteriori­
dade às p r á t i c a s sociais de seus agentes. A manutenção de tal
h e g e m o n i a deve-se, também, a p r á t i c a do direito,: qué cumpre
111

papel re le va n te no a s s e n t a m e n t o das normas c o m p o r t a m e n t a i s . É e.


vidente, dessa forma, que a pr áti ca do direito, a a p l ic aç ão
efeti va de um sistema jurídic o por seus r e s p o ns áv ei s é insepa­
rável da c o n s i d e r a ç ã o dos fins do sistema social.

Assim, na m e d i d a em que os ag ent es sociais são


p r i v a d o s da p r o d u ç ã o c o n s c i e n t e do i ma gi ná ri o social, tais a
gen te s não se r e c o n h e c e m nas p r á t i c a s d i s c u r s i v a s correntes,
senão como m e r os c o n t i n u a d o r e s de uma "tradição" sem origens,
sem gênese. Nada ma i s e v i d e n t e do que a in ca pa ci da de de tais
agent es de apreenderem, c r i t i c a e re fl ex ivamente, os atos c o m u ­
ni c a t i v o s que dão a h e g e m o n i a ao sistema social no qual os m e s ­
mos estão inseridos:

Tal forma de a l i e n a ç ã o re p e r c u t e nas pr át i c as


mai s e l e m e n t a r e s das açÕes de tais agente s qu an d o os me sm o s
p r o c u r a m d e f i n i r os pap éi s das d i v e r s a s i n st it ui çõ es produto­
ras da r e a l i d a d e social. E s pe ci fic ame nt e, no caso das comuni­
d ad es que m a n t ê m -laços é tn ic os b a s t a n t e acentuados, pr od ut os
do p r o c e s s o i m i g r a t ó r i o o c o r r i d o há ma i s de um século, notad a-
m e n t e no Rio Gra nd e do Sul, oco rr e c o m ra zoável fa cil ida de a
m a n i p u l a ç ã o do i m a g i n ár io social dos indivíduos, a t ra vé s da
su p r e s s ã o de d e t e r m i n a n t e s h i s t ó r i c o s ---por exemplo, processos
de a c u l t u r a ç ã o ---, f av o r e c e n d o o d e s v i r t u a m e n t o cul tural dos
mesmos, os quais, c o m p l e t a m e n t e d e s v i n c u l a d o s da pátr ia de seus
an te passados, são m a n i p u l a d o s pelos i nt er es se s da clas se do­
minante, at r a v é s da "ma nut enção" de traços c u l tu ra is que pri­
v i l e g i a m e g a r a n t e m o "status q u o " .

Ne ss a linha de raciocínio, tomo como referên­


cia t e ór ic a o co nc e i t o de i d eo lo gia tal como é trabalhado por
M a r i l e n a Chauí, que af ir ma ser a m e s m a uma forma e sp ec íf ic a
do im ag i n á r i o social moderno, como a m a ne i r a necessária pela
qual os a g en te s sociais r e p r e s e n t a m para si m e sm os o aparecer
social, eco nô mi co e político. Esta aparência, po r se consti­
tuir n um mod o ime dia to e ab s t r a t o de m a n i f e s t a ç ã o do pr o c e s s o
histórico, c o n s t i t u i - s e no lugar p r i v i l e g i a d o de o c u l t a m e n t o ou
m e s m o de d i s s i m u l a ç ã o do real. Ora, ainda se guindo na mesma
11 2

tr a j e t ó r i a p r o p o st a por Chauí, a id eologia se co n s t i t u i era um


c orpo si s te m á t i c o de r e p r e s e n t a ç õ e s e de normas que nos "ensjL
nam" a co n h e c e r e a agir. Portanto, a c o n s t r u ç ã o do i ma gi ná ri o
social pode ser a p r e e n d i d a tanto ao nível d a q u i l o que r e p r e s e n ­
ta, por exemplo, a alema nid ad e, como ao nível das co nd u t a s c o n ­
cretas que são r e a l i za d as pelas in st itu içõ es que garantem, em
úl t i m a análise, a ef ic á ci a das r e p r e s e n t a ç õ e s (2).

A p e s q u is a que f u nda me nta o pr es ent e trabalho,


q u a n d o de sua il us t r a ç ão q u a n t i f i c a c i o n a l , se ap re en di da a ní­
vel de uma r a c i o n a l i d a d e instrumental, corrobora l i n e ar me nt e
aqu i l o que, empirica men te , é verificável, ou seja, que o Tri­
bunal do Júri de Santa Cruz do Sul conde na m u i t o mais que o de
Rio Pardo. Dessa forma, se nos l i mi tá ss em os a p r o c e d im en to s de
me ra constatação fática, e s t a r i á m o s r e f o r ç a nd o alguns precon­
cei tos que a t r a v e s s a m o i m ag in ár io dos sujeitos sociais da re­
gião de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo, isto é, que os descen­
dente s de al emã es são " m ais rigorosos no trato com as questões
das leis", "menos e m o c i o n a i s " , etc., ao c o n t r á r i o dos descen­
de n t e s de lusos, "mais românticos", "p o u c o afeitos ao traba­
lho", " m a is condescendentes com o próximo no que tange às questões
legais" e, portanto, "m a is absolvedores no Tribunal do 3 úri"(3)

Por outro lado, ao se tomar como r e f e r ê n c i a t e ó ­


rica o c o n c e i t o de id e o l o g i a tal como e x p l i c i t a d o neste traba­
lho, não é po ss ív el d e t e r a a n áli se numa me r a corroboração
entre d ad os q u a n t i t a t i v o s e e v i d ê n c i a s e m p ír ic as o r i u n d as do
i ma gi n á r i o social.

A m o d e r n a racional id ad e, de o r i g e m po si tivista,
consti tu i- se , via de regra, na e l u c i d a ç ã o do nexo causal, ou
seja, na c o m p r o v a ç ã o das e v i d ê n c i a s fáticas, definindo os pro­
du to s do im ag i n á r i o social tal como "aparecem". No entanto, a
par t i r de uma p e r s p e c t i v a de uma r a c i o n a l i d a d e crítica, que não
se limita às m a n i f e s t a ç õ e s dos sintomas sociais, entendo, no
p r e s e n t e trabalho, não ser s u f i c i e n t e e v i d en ci ar o nexo causal
"pe sq ui sa q u a n t i t a t i v a v e r s u s im agética social".

Dessa maneira, este t r a b a l h o buscou evidenciar


que o t r a t a m e n t o dos d a d o s "evidentes" m e r e c e m um es tu d o mais
113

a p r o f u n d a d o dos fenômenos, isto é, das ap a r i ç õ e s em direção


à sua gênese, buscando, nec ess ar ia me nt e, o con ju nt o das deter­
m i n a ç õ e s h i s t ó r i c a s que t o r n a m po s s í v e i s tais fatos e não ou­
tros. Como, no rma lmente, são as i n st it ui çõ es tipo escola, tri­
bu nal do júri, igreja, etc., r e s p o n s á v e i s pela produção e ma­
n u t e n ç ã o das n o rm a s p r o d u t o r a s da co ndu ta social, são estas
m e sm as in s ti t ui çõ e s -.s r e s p o n s á v e i s pelas formas do "aparec er"
social que f u n da m en ta o i m a g i n á r i o dos agente s que v i v e m n a q u e ­
le me io social. Nessa linha, diz Castoriadis:

"Como se impõem as i n s t i t u i ç õ e s --- c o m o podem elas assegu­


r a r sua validade efetiva? De m o d o superficial, e apenas
em alguns cas o s , mediante a coerção e s a n ç õ e s . Menos su­
perficialmente, e de forma mais ampla , mediante a adesão,
o apoio, o consenso, a legitimidade, a cre n ç a . Contudo,
em última análise, por meio e através da moldagem(fabri­
cação) de matáeria-prima humana em i n d i v í d u o social, no
qual estão incorporados ta nto as p r ó p r i a s instituições
como o s ' m e c a n i s m o s * de su a perpetuação. Não pergunte:
como é possível qu e a maioria das p e s s o a s não venham a
roubar, ainda que tivessem fome? Não pergunte nem mes­
mo: como é possível qu e eles continuem a votar em tal
ou qual partido mesmo após terem sido repetidamente en­
ganados? Pergunte-se ant e s : qual a parcela de todo o meu
pensamento e de todas as m i n h a s maneiras de ver as coi­
sas e de fazer coisas que não está condicionado e co-
d e t e r m i n a d a , em um grau d e c i s i v o , pela estrutura e pe­
las significações de minha língua materna, pela organi­
zação do m u n d o que e ssa língua carrega consigo, pelo
meu primeiro ambiente familiar, pela escola, por todos
os 'faça' e 'não f a ça' com que freqüentemente fui asse­
diado, pelos meus amigos, pelas opiniões correntes ao
meu redor, pelos modos de fazer que me são impostos pe­
los inumeráveis artefatos que me cercam, e assim por
d i a n t e .(...)
A instituição produz indivíduos conforme suas normas, e
114

"e e s t e s i n d i v í d u o s , dada sua c o n s t r u ç ã o , não a p e n a s ____s ã o_


capazes de, mas obrigados a r e p r o d u z i r ____ a____ ins ti tu iç ão ._
A 'lei' produz os 'elementos' de tal modo que o pró­
prio funcionamento d e s s e s 'e l e m e n t o s ' incorpora e repro­
d u z --- p e r p e t u a --- a ’l e i ’. "(4)- grifei

Como se viu, os agent es sociais cumprem o papel


de m e r o s r e p r o d u t o r e s de st e "aparecer" social. A simples ex­
c l u s ã o dos m e s m o s do p r o c e s s o de pr od u ç ã o de tal forma de ima­
g i n á r i o d i f i c u l t a ou impede que eles o a p r e e n d a m em seu p r o c e s ­
so histórico, ou seja, na sua forma de produção.

Mas, c o n v ê m salientar, que a c i r c u l a r i d a d e d es te


i m a g i n á r i o social p r o d u z i d o por suas i n st it ui çõ es determinam
a c o n c r e t u d e das açoes que n o r m a t i v i z a m as co nd uta s d a q u el es
que v i v e m nas c i da de s p e sq ui sa da s. Ássim, e "normal para os
h a b i t a n t e s de Santa Cruz do Sul que o Tribunal do Jú r i daque­
la cid ad e p r o f i r a v e r e d i c t o s c o n d e n a t ó r i o s em bem maior nume­
ro que o seu co n g ê n e r e de Rio Pardo, dada a sua "o r i g e m ale-
m a " . T a m b é m para este m e s m o h a b i t a n t e e "normal" que o c or po
de jurados seja composto, em sua ex pr e s s i v a maioria, por d e s c e n
de nt e s de alemã es e t a m b é m r e p r e s e n t a n t e s das class es . sociais
mai s abastadas, isto por qu e é "normal" para o habitante santa-
cr u z e n s e que ele seja " r e p r e s e n t a d o " por "aque le alemã o" que
"mais tra b a l h a " e que, em síntese, seja o p a r a d i g m a de bom san

ta-cruzense.

Desta forma, dissim ul a- se , atrav és de um dis­


c u r s o eficaz e competente, a p e r p e t u a ç ã o de uma forma de domi­
na ç ã o que, antes de p a s s a r por q u e s t õ e s de etnias, passam por
explorações s o c i o / e c o n o m i c o / p o l í t i c a s das cl ass es dominantes
sobre as classe domina da s.

Co m o as i n s t i t u i ç õ e s d e t ê m o tr in ômi o poder/sa­
ber/lei, os agent es sociais, n o t a d a m e n t e a cl as s e me no s favo­
recida, dominada, são, assim, d e s t i t u í d o s de sua condição de
produtores, de d e t e n t o r e s e de le gítimos d e s t i n a t a r i o s da cul­
tura, cabendo-lhes, tão somente, na for mação do im agi nár io
social, o papel de m e r o s re pr odutores.
115

C o n v i m salientar, ainda, que face à ex te n s ã o da


pe sq ui s a que dá os fu n d a me n t o s do pre se nt e trabalho, incluem-
se av a l i a ç õ e s ta m b é m de c o m p o r t a m e n t o s ins tit uíd os da cid ad e de
Rio Pardo. Observa-se, assim, a forte influ ên cia das determi­
naç ões das instituições, n o t a d a m e n t e àquela s que direcionam a
economia, na co nd ut a dos ag en t e s sociais r i op ar de ns es que gra­
v i t a m em to rno des ta s m e s m a s i n st it ui çõ es por que st õe s de mer­
cado de trabalho, por exempló,'• que são mais oportunizadas aos
me sm o s em Santa Cruz do Sul, c o n f o r me já se viu a n te rio rme nt e.

Assim, não i m pr e s s i o n a o fato dos riopardenses


t ere m introjetado, e m u i t o a c e n t u a d a m e n t e , os e s t e r e ó t i p os
" e x p o r t a d o s " pe las ca ma da s d o m i n a n t e s santa-cruzenses. Isso
não de ixa de ser uma d e c o r r ê n c i a lógica, pois, con fo rm e já ex­
plicitado, há um "a tr av es s a m e n t o " dos v a lor es e no rm a s que vi­
ge m em Santa Cruz do Sul em re la çã o ' à Rio Pardo.

Não é d e m a i s frisar, ne ss a linha, que, além da


forte inf lu ên ci a d i r e c i o n a d a pelo setor industrial, ocor re
t a mb ém a inf lu ên ci a da i n s t i t u i ç ã o educacional, através do mo­
no pó l i o do ensi no s u pe ri or da s F a c u l d a d e s Integr ad as de Santa
Cruz do Sul na for maç ão p r o f i s s i o n a l da p o p u l a ç ã o jovem da ci­
dade de Rio Pardo. Não se o l vi de o 'PLANO GE RA L DE AÇÃO' das
re fe ri da s faculdades, pa ra o ano de 1985, no campo dos "obje­
tivos da instituição: "...criação de um c e n t r o cultural que
apoie, o coral, promova o teatro, estude e ative a tradição
te u to -b ras il eir a".(5)-grifei

Ne sta m e s m a an ál is e da influên cia da institui­


ção educacional, observa- se, ainda, que a sede reg io na l da
edu ca çã o de l 2 e 2- gr au s do Est ad o do Rio Gran de do Sul es­
tá, também, loc al iz ad a em Santa Cruz do Sul, tendo Rio Pardo
como sua área de abrang ênc ia.

Ca be cons ide ra r, também, que boa parte da popu­


lação tr a b a l h a d o r a de Ri o Pa rd o resi de em Santa Cruz do Sul e
d or me em Rio Pardo, ou seja, Rio Pardo pode ser apreendida
como uma cid ad e d o r m i t ó r i o para estes setores da popula çã o.
116

Desse c o r o l á r i o de elementos, tem-se que Santa


Cruz do Sul é o cent ro p r o d u t o r dos e s t e r e ó t i p o s que repre­
se n t a m o "modelo" de c o n du ta dos agente s sociais que gravitam
em torno das duas ci dad es pesqu isa das . Assim, não causa espécie,
como já frisado, que a p o p u l a ç ã o de Rio Pardo aceite como p a r a ­
di gm a os es te r e ó t i p o s "e xp or ta do s" de sua vizinh a c i d a d e ,r e s i g ­
n a nd o- se em se as s u m i r como "romântica" e "pouco afei ta ao
t r ab al ho e ao p r o g r e s s o " .

Se tom ar mo s co mo m o d e l o de d e s e n v o l v i m e n t o o c a ­
pitalismo, em suas di v e r s a s man ife st aç õe s, Santa Cruz do Sul,
em re laç ão à Rio Par do realiza, com m a i o r competência, os p r i n ­
cí pi os de st a forma de sociedade, na linha de algo como "cida­
de feliz é a cid ad e que tem i n d ú s t r i a s " .

0 po de r h e g e m ô n i c o das ins tit ui çõ es lo ca l i z a d a s


em Santa Cruz do Sul e que d i r e c i o n a m e or i e n t a m o i ma gi ná ri o
social das po pu l a ç õ e s de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo, esta­
belece, e est im ul a c o m p o r t a m e n t o s conformistas, face aos es­
t er eó t i p o s "fixados". A c o n d i ç ã o de c i d ad an ia passa, assim, ne­
ces sar iam ent e, por esta at i t u d e de as si m i l a ç a o e reprodução
heteronomamente c r i a d a s .

Po dem os dizer, de ss a forma, que es tan do o Tri­


b un al do J ú r i ins eri do no im ag i n á r i o dos agentes sociais das
duas com unidades, os fatos ap r e s e n t a d o s tem pr o f u nd os ref le xo s
nos r e s u l t a d o s dos julgamentos, co nf o r me se d e p re en de at ra v é s
da pe s q u i s a que fu nd a m e n t a este trabalho.
117

NOTAS E B I B L I O G R A F I A

(1) - BARTHES, Roland. M i t o l o g i a s . Trad, de Rita Buonger-


m i n o e Pedro de S o u z a . São Paulo, DIFEL, 1987, p.

150.
*
(2) - Ver C H A U Í , M a r i le n a de Souza. Cultu ra e democracia:
o d i s c u r s o c o m pe te nt e e outras f a l a s . 3 § ed. São
Paulo, Ed .Moderna, 1982.
(3) - É i n te re ss ant e frisar que o Tr ibunal do Juri de I ta
q u i ,R S , cidade que, à semel ha nç a de Rio Pardo, tem
a população formada, preponde ra nt em en te , por d e s c e n
dent es de lusos, apr es en ta um índice de co nd ena çõe s
b a s t a n t e acentuado, c h e g an do pr óxi mo ao índice apre
sentado pelo Júri de Santa Cruz do Sul. Co m efeito,
no p e rí od o c o m p r e e n d i d o entre 1976 e 1 9 8 8 , foram
re al i z a d o s em Itaqui, 36(trinta e s e i s )j u l g a m e n t o s ,
sendo que, destes, 22(vinte e dois) t i ver am verediç.
tos c o n d e n a t ó r i o s ( 6 1 , 1 2 % ) , contra apenas 12( doze)
a b s o l v i ç õ e s (38,88%) .
In v e s t i g a n d o a c om po si çã o do corpo de jurados daque
la ci da de /comarca, à nível de camadas sociais, ob­
se rvou-se a p r e p o n d e r â n c i a das camadas m éd io -supe­
riores .
(4) - C A S T O R I A D I S , Cornelius. En cr u z i l h a d as do labirin -
to II : d o m í n i o d do h o m e m . Trad, de José Oscar
de A l m e i d a Marques. Rio de Janeiro, Paz e Terra ,
1987. p . 229 e 230.
(5) - FACULDADES INTEG RA DA S DE S AN TA CRUZ £)0 S U L . Plano
Geral de Ação-1985. Santa Cruz do Sul, Ed.APESC ,
1985, p . 4.
15. C O N S I D E R A Ç Õ E S FI N A I S

No d e s e n v o l v i m e n t o do trabalho, procurei enfa­


tizar, por um lado, a profunda discrepância entre os resulta­
dos dos julgamen tos p o p u l a r e s o c o r r i d o s nas duas c i d a d e s d e n t r o
de um pe rí od o h i s t ó r i c o e, por ou tr o lado, de como esta reali­
da de é a b s o rv i da e s i m b o l i c a m e n t e tr ab a l h a d a no im ag in ár io dos
ag en te s sociais das r e f e r i d a s comunas.

Por óbvio, a pe s q u i s a em pí ric a não po d e ser


apreení3ida a nível de uma r a c i o n a l i d a d e instrumental, sob pena
de ro bo ra rm o s o que o i ma g i n á r i o social nos apresenta, ou
seja, o que "aparece". 0 o b j e t i v o do tr ab a l h o é, fundamental­
mente, co m b a t e r os p r e c o n c e i t o s que, ao longo do tempo, se
i n s c r u s t r a r a m na im ag ét ic a social, a t rav és dos e s te r e ó t i p o s
anteriormente abo r d a d o s .

Assim, face aos m e c a n i s m o s de cooptação e con­


trole estudados, que se m a t e r i a l i z a m nas in st it u i ç õ e s e atra­
vés delas, mediante formas r i t u a l i z a d a s , podem os depreender
que tais m a n i f e s t a ç õ e s (i n c l u s i v e os re su lt ad os dos julgamentos)
se c o n s t i t u e m em uma re a l i d a d e possível, e que se realiza em
vi sta da a u sê nc ia de m e c a n i s m o s de re si s t ê n c i a por parte dos
ag en te s à ela submetidos. Por consequência, esta não seria a
úni ca forma pos sível de re a l i d a d e a ser d e s e n v ol vi da . Fa t o rele
va nte é que tal d e t e r m i n i s m o tem sua gêne se a p a rt ir da hege­
mo ni a das classe s domi nan t e s, r e pr es e n t a d a s pelas d i v e r s as
instituições, que im pe de m que os setores do m i n a d o s te nh a m
ace ss o ao con tr ol e da for m a ç ão c u l t u r a l .

Portanto, uma a l t e r a ç ã o na c o m p o s i ç ã o do cor po


119

de jurados de Santa Cruz do Sul, tor na nd o- o mais representa­


tivo no que se refere aos setor es po p u l ar es do município, tan­
to no que tange aos grupos o c u p a c i o n a i s como aos descendentes
de outr as etnias, pr od u z i r i a uma outra real id ad e do sistema so­
cial, onde a a p l i c a ç ã o e f e t i v a da n or ma jurídica, via Tribu­
nal do júri, to mar ia out ro rumo.

Nota damente, n e ss a linha, po de- se tomar como


referência, no que tange à real p o ss ib i l i d a d e de produção de
r es ul ta do s d iv er s os nos julg ame nt os populares, é a composição
do corpo de jurados de R i o Pardo, mais re pr es e n t a t i v o dos di­
vers os se gme nto s do sistem a social. Numa palavra: a re a l i d a de
m o n o l í t i c a do Tri bun al do JÚ r i de Santa Cruz do Sul não é a
ún ic a possível.

Por último, cabe re fe ri r que ao longo da tra-


ge tó r i a do p re se nt e trabalho, pôde ser ave nt ad o que, efetiva­
mente, os es te re ót ip os p r o d u z i d o s pelas in st itu içõ es que r e p r e ­
se nt am- os setores d o m i n a n t e s da sociedade, cumprem papel fun­
da me nt al na m a n u t e n ç ã o do "status quo", fundamentando, i n cl u­
sive, a nív el discursivo, a s up re ma ci a de alguns ind iv íd uo s
sobre o u t r o s .

Para encerrar, cito Leyla P e r r o n e - M o i s é s :

"0 estereótipo é, no fun d o , um oportunismo: a pessoa se


conforma com a linguagem reinante, ou melhor, com aqui­
lo que, na linguagem, parece regerfuma situação, um di­
rei t o , um c o m b a t e , uma instituição, um movimento, uma
ciência, uma t eo ria, etc.); falar por estereótipos ê co­
locar-se do lado forte da linguagem; esse oportunismo
deve ser(hoje) combatido". (Extraído do t exto "Uma co-
lherinha de Roland Barthes" ,. i n é d i t o ) .
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124

FACULDADE DE DIREITO DE SANTA CRUZ DO SUL/UNIV.FEDERAL SANTA CATARINA


MESTRANDÓ! LENIO LUIZ STRECK

PESQUISA PARA TES5 DE MESTRADO

Este questionário integra pesquisa para coletar dados para


Tese de Mestrado em Direito, na Universidade Federal de Santa Catari­
na.
A tese tem por tema a análise do Tribunal do Júri, tendo como
estudo de caso o Tribunal do Júri em Santa Cruz do Sul e Rio Pardo.
É relevante para o trabalho explicar os seguintes dados já
levantados pela pesquisas
PERÍODO PESQUISADO: 19?0 à 198^
SANTA CRUZ DO SUL : 88 julgamentos ~ CONDENAÇÕES: 57 * 6^,77#
ABSOLVIÇÕES: 31 = 3 5 ,23 %

RIO PARDO : ^7 julgamentos - CONDENAÇÕES: 13 = 2 7 f68#


ABSOLVIÇÕES: 3^ - 7 2 ,32#
Face ao exposto, o mestrando solicita sua manifestação sobre
a disparidade dos resultados dos julgamentos realizados e o porquê des
sa disparidade.entre condenações e absolvições nas duas cidades sob
análise. Agradece antecipadamente sua colaboraçao, que engrandecera a
pesquisa, e estará prestando relevante serviço ao conhecimento cientí­
fico. NOME:.. ................. ........... PROFISSÃO:..... ...........

(sô o espaço não for suficiente, use o verso)