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HEGEL
A ORDEM DO TEMPO
paulo eduardo arantes
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H editora polis
PAULO EDUÂRDO ARANTES

HE,GEL
A ordem do tempo
Tiadução e prefácio de
Rubens Rodrigues Torres
2" ediçáo

EDITORA HUCITEC
EDiTORA POLIS
São Paulo, 2000
@ Direitos aurorais, 1981, de Paulo Eduardo fuantes. Direiros de publicaçáo reseruados pela
Editora Hucitec Ltda., Rua Gil Eanes,713 -04601-042 São Paulo, Brmil. Telefones: (11)240-9318,
542-0421 e 543-3581. Vendas: (1 I)543-5810. Fac-símile: (01 l)530-5938.
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EDITORA POLIS LTDA. "o temPo aParece, Pois, como o destino


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ea necessidade do esPírito."
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Dados Internacionais de CatalogaSo na Publicação (CIP)


(Sandra Regina Vitzel Domingues)

4684 Arantes, Paulo Eduardo


Hegel: a ordem do tempo / Paulo Eduardo fuanres; tradução
Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo : Hucitec / Polis,
2000. -
_ (Teoria ; 3)
Bibliografia
ISBN 85-271-0526-8

l. Filosofia alemí 2. Hegel, Georg lX/ilheim Friedrich I


Título II. Série

CDD
-193
Índice para catálogo sistemático:

1. Alemanha: Filosofia 193


2. Filosofia alemã 193

Para Otília
SUMARIO

À Grrir" de Prefácio, Rubens Rodrigues Torres Filho I I

PRIMEIRA PARTE
A Potência Elementar do Têmpo 19

Capítulo I
A Espaço-Tèmporalidade 2I

Capítulo 2
O Ser-fora-de-si 33

Capítulo 3
Da Articulação Punctiforme do Têmpo 53

Capítulo 4
Crítica do "Direito Natural" do Agora 65

O presente estudo é uma rese de doutoramenro submetida em junho de Capítulo 5


1973 à Universidade de Paris X. Agradeço ao Prof, J. T Desanti, que O Processo Abstrato 85
aceitou orientá-la, e ao Prof, Rubens Rodrigues Torres Fiiho, que a tradu-
ziu e prefaciou. Agradeço também à FAPESP e ao Governo Francês, dos Capítulo 6
quais fui bolsista durante a elaboração desra monografia. Da Destinaçáo Objetiva das Coisas Finitas 95
9
Capítulo 7
A Pura Contradição Sendo-aí 105

Capítulo I
Da Série 129

Capítulo 9
As Duas Muldplicidades 139
À cursa DE PREFÁcro.
Capítulo 10
Egoidade e Têmporalidade 147

Capítulo 11
O Grau Zero do Conceito 165 "fiur- uma uez adoeceu de hegelismo (...) nunca mais fca completa-
{ mente curado": assim Nietszche dìagnostica em efigie (na fgura de
Capítulo 12 Dauíd Strauss, l.' Extemporànea) o intelectual de seu tempo; mas bem pode-
riamos reconltecer nas linhas mettras do noso (a época das ciências ltumanas
O Gmpo e Seu Duplo 173
e do discurso estrutural) esse mesrno conualescente renitente. Em todn caso, é
com toda certezít que o estado dessas ciências e da flosofia ltoje parece reco-
SEGUNDA PARTE
Os Limires da "Reunião com o Gmpo" mendar cada uez mais uiuamente o empenlto na pesquìsa e na reÍ/rxão sobre
rB5
o kgado hegeliano, quando mais não fosse, como tentatiua de diagno*icar o
mal pek raiz. E bastaria isso, sem dúuida, para que um nouo estudn sobre
Capitulo I
Hegel, ainda mais quando uem recomendado peks euidentes qualidades inte-
A Prosa da História IB7
lectuais dn seu autor fosse sempre bem-uindo. Mas qual o interesse espectfco de

Capítulo 2 uma monografia sobre o tempo em Hegel? De antemão, é sufciente referir


três ordzns de questões em que esse interesse se destaca da maneira mais ime-
A Gmporalidade Cumulativa 213
diata e que, por sì srjs, dão a medida da complexidade do problema.
Capítulo j Em primeiro /ugat ainda no pl"tno externo, a questão de interpretação de
"... O Dia Espiritual do Presente" 303 Hegel pela posteridadz tardia, que se ltpressa em re/egar (sem deixar dz alpm
modo, de re-legar) o chamado "dogmatismo hegeliano" para o campo da
metaflsica abstrata, em nome de um "retzrno ao Concreto" sob inspiração
Conclusão 371

" Estetextofoipublicado,comotíalo"OTèmpodoConceìto",nareuìstaDíscurson-5, 1974,


ensaio:lOrdre duGmps
resen/tando a uersãofancesa do presente Essai sur le Problème
-
duTèmps chez Hegel (edição limitada, mimeografada; Paris, 1973).

t0 l1
de Feuerbach s isS6justamente por encontrar em Hegel uma definição explicitamente no níuel do projeto, tern consciência; Para arsegurar+e disso,
-
linear e quantitatiud do tempo, que redundaria na supressão da "Hisairía". basta obseruar o quanto ganham em clarem atraués do ensaio, ou simPlesmente
Mas, mesmo se as anrilises da Ciència da Logica (e mesmo da Enciclopé- a resolução e paciência com qile a teoria hegelìana dn tempo é perceguidn em
dia) situam o tempo como uma ìnstância da categoria da quantidade, jus- todns os seus meandrot.
tìfcando, por um lado, essa leitura que uê no tempo hegeliano um todo T/ezentas páginas de anrilises densas e precisas, completadas por mais dz
contínuo e ltomogêneo (a exemplo do tempo aristotélico ou dn da Estética uma centena de príginas de notas, são o resubado desse certame com os

transcendental), resta saber o que, por outro kda, permite a Hegel dar ao tempo textos. Duas etaPas, em que o autor faz fente a seil problema (diríamos: 'b
um caráter especulatiuo, reconltecend.o nele a negatiuidadz que é própria do primeiro e o segundo tempo"?) rePartem o uolume em duas Partes, que
Conceito. Seria tão simplts descartar+e dc Hegel fazenda dcle mais um cubor poderíamos cbamari mas Por comodidade al)enat, "dogmática" e "aporética".
metaflsico da a-historicidade? Isso conduz à segunda questão, jti interna, de Mas, antes de elogiar a finura do jogo e da marcação, importa conltecer e
saber como Hegel ekborou a tradição, particukrmente do ifualismo pós-hantiano, aualiar o score.
para podzr fazer do tempo, até então o termo que a?aga a contradição (haja Na primeira parte, sob o títub: 'A potência elementar dn umpo", trata4e dz
uista a formukção dn princípio dc contradição 'uma coisa não pode ser e mostrar, com a minúcia requerida pek pnipria comp/zxidadz dz tarefa, como

não ser ao mesmo tempo "


-
que contrabandeia, nessa alusão ao tempo, lt Hegel dá conta da gênese conceitual dn tempo, em um constante diábgo com a
-
indicação dz uma reconciliação possíuel na sucessão) o próprio lugar onde tradxçãofilosófica mais pnixima, isto é, com Kant e os ptís-kantianos, Para ot
expbd"e a connadição: o instante-limite que trítz sua negação em si mesmo, e jtí quais o problema dn tempo tem o releuo que se sabe, mas caja solução não
a negação dzssa negação. Essa originalìdzde dr Hegel, que consiste, afinal, em conuém a Hegel por redundar como este próprio diz naquek 'hha opinião
uer no tempo a estrutura do próprio conceito, traz a possibilidade da leitura sobre o progresso ao infnito" que é, em suma, adesão à md ìnfnitude 'bsse

constante sobreuôo dn limite, que é a impotência dc suprimi-b ea


-recaída
oPosta à mencionada acima: longe de
confundir com a tradição metaflsìca,
se Perene
seria Hegel então o primeiro a dar ao tempo um estatutl propriamente nele" (cf Lógica, 'A infnitudc quantitatiua", Obseruação I). Tiata+e, pois,
retomando as pakwas dn autor, de reconstituir o arcabouço dz uma lógica do
flos,lfco, à histórìa uma cidadania especulatiua? E neste ponto que se insere
a terceira ordzm dz questões, já no plano sistemtítico: o itinerririo da dialéttca, tempo, 'b
primeira face da teorìa hegelìana dn umpo" e, assim, de "pôr em
-
euidência os princípios lógicos que presidem a elaboração do conceito da
que consìste no trabalho do Espírito em fazer o em-si aceder ao para+i, não
negatiuidadc elementar dn tempo" para mostra,i enfm, "em nome de que impe'
Passa justamente peb tempo, não htí um círcuh especuktiuo a srr percorrido
paro que o resubado, enfm, se torne idêntico ao começo? Mas este seria, então, ratiuos lógicos o abance fu sua 'potência'se encontra circunscrito"; mas tambénx,
o paradoxo dn sistema ltegeliano: como o e em íntima ligação com isso, impõe+e o atendimento à tarefa, cuja importân-
fLisofo que introduz a histórìa em
flnsofa é também o fihsofo d" 'f*
da história"? Ou, melhor: o que deue ser o cia não é menor, dr indìcar "ao /ado dos Pontos dz ruptura irreuersíueis, os
tempo para que, insta/ado no coração da dia/ética, seja ao mesmo tempo prolongamentos, ot remanejamentos dos temas herdados do Pensamento
negado com o uigor dns textos como o do S 258 da Enciclopédra que transcendzntal" (tf p. 135, trad. br., p. 183).
afrma a eternidade do Conceito -
ou como tantos outros, que fazem Basta acompanhar os thubs dns doze iteru que comPõem esa primeira parte
coincidir o aduento do Saber absoluto com
- para reconltecer a sufciênca e cuidado com que é dcsenuoluida esa "reconstituição
o da histórìa.
fm
Eis, sumariamente, algumas das questões com as quais um estudo sobre o hìsnírica", qre uai, dzsdz a retomada da questão da espaço+empomlidadz a Partir

tempo em Hegel teria de se dzfontar e eis, portanto, o quadro onde situar agora ,la filosofia pós-kantiana, até a compreensãa dn tempo como 'b grau zero do
o presente trabalho. Questões releuantes, das quais o autor, embora não as alegue Conceito", mas dialeücamente rednbradp e circunsnito pzr este úbimo (em "O

t2 r3
temPo e seu duplo"). Cuidado quc coruiste, justamente, em não fugir a nenltuma o discurso histórico-fenomenohígico e o discurso lógico-especulatiuo na obra
das difculdades, que não sãa peqtenas, e uem culrnirwr na resolução dc enfentar de Hegel.
até mesmo essa úbìmA ou sja, estabelecer a complÊxa relaçãn entre tempo e Con- Nesses resuhadot porém, o autor não se dztém, mas parte dzles para colher
ceito, ou melhor como esttí escrito no texto: de "seguir o isomorfsmo que Hegel outros, de abance ainda mais amplo, e771 t'!.rna segunda parte, onde as aquisi-
pretende estabelecer entre o conceito e o 77mpo". E isto uem a calhar- o autor ções dessa arguta reconstituição doutrindria da teoria do tempo sa67ia qus
bem o sabe para pôr em dificuldaìz as interpretações simplistas ou humanistas
-
o autoti com indruida modzstia, considzra 'facilmente defniuel no interior do
-
que fariam da "inquiztudt" do real, característica do 'dimmismo hegeliano", o Sìstema" (p. 135, t nd. P. 183) - irão seruirpara uma noua e importante
simplcs ebgio da "pimazia do dnir sobr o ser", como uma "intuição que é úapa: explicar a temporalidadz inédita que constitui a história. Depois de
essencialmente a do ltomem, e também essencialmente a do tempo" (A. encontrar no Conceito os ambígaos limites da'potência do tempo", trata-te
Kojèue, citado à p. 163, trad. p. 92, nota 6). dc mostrar, desta uez, na ambiuahncia da Gegenwârtigkeit hegeliana (que
Citaremos apenas alguns dos resubados importítntes que o leitor pode tirar denota tanto o 'Agora" quanto a "eternidadz'), quais são como diz o
dzssas análises: fca ckro que, se Hegel usa a expressão "momento", dt origem útulo dessa segunda parte
-
les limites de la "réunion avec le temps".
temporal, para fusignar as etapas dn caminhamento dialy'tico, nãn se trata dc A noua tarefa é leuada -a efeito em três momentos: 1. A prosa da histó-
urn uso irrefletido ou metafirico da linguagem, mas de uso hgitimadn pek ria; 2. A temporalidade cumuladva; 3. "...O dia espiritual do Presen-
armação hgica quz define a ambol uma uez que 0 tempo é dntadn das caracte- re". Desta segunda parte, mais extensa do que a outla, e em que são aborda-
rísticas do limite, da relação negatiua, do Simplcs, do Um, dn ser-para+i; mas rlos alguns dos problemas mais urgentes para o hegelianismo e seas sucessores
isso não quer dizcr que Hegel tenlta, por exempb, tirado elzmentos dc uma (a temporalidadz da histórìa, o ardil da razão, as relações entre história e
fenomenologia do tempo, agora entendido como purít contradição, para dz- Memória, o 'btimiimo" dialético etc.), temot d.e contentar-nos com A men-
monstrar a uerdadz especulatiua da unidad"e do ser e do não+er: pois, se estd ção de alguns dos resuhados mais notáueis.
úbima é exemplificada peb deuir peb ser-aí etc., resta a distância e o jogo Pode-se explirar por que Hegel faz coincidir o nascimcnto da Hisniria com o
dialr'tico que há entre a essência e o exempb. Além disso: se há isomorfismo ruucimento da hittória escrita (as úus Hitúria), pek especifcidadc da
"prosm" da
(conespondlncia da drterminações \ógicas) entïe a egoidadc (tal como é defni- noçãa de "refzxao": a história só começa pek ciúo dD imedian, pek opwiçãa do
da pek flosofa transcendzntal) e a temporalidadz e a pakuraUneil (juízo) F:pírito a si mesmo para tornar-se seu próprio objeto, e por isso a História
-
tem efetiuamente Para Hegel a conotação dc parrilha-originária (Ur-tetl), apli- rcm de nascer subjetiua e objetiuamente ao Tnesmo tempo. Mas, graças ao
cáuel também à cisão (rekção auto-exclusiua) constitutiua do tempo esse co- cstabelecimento anterior da l,igica do tempo, é possíuel esclarecê-/o com
- redobrado rigor mediante o isomorfismo parcial entre egoidade e
Pertencimento não permite estabelecer entre ambos, como faz Fichte, uma
relação de fundação, nem sua dissociação ulterìor justifca a admissão de tcmPoralidade, que permite mostrar em que medidz o templ se distingue e se
uma temporalidade originária. A eternidadc, enfim, anibuída à infinitude ilproxima da hisnirìa, o primeiro como o "deuir inndo", esta úhima como o
do Conceito, por oposição àfnitude daquilo que esttí submetido ao tempo, 'Tleuir interiorizada" (no sentido da Erinnerung que é também Memória);

mantém sim, com a temPoralidade uma relação de supressáo, mas no ttssim, é a teoria dn tempo que permite compreend.er essa reconciliação com a
sentidn da Aufhebung, portanto não de negação simples, mas de negação caducidadc (a'ïeunião corn o tempo'), que consiste ern referir a negatiuidadz dn
dupla, em que se deue leuar em conta também o momentz da conseruação do rtmpo (como perda e ruína) à do Conceito (como ganho e como história).
suprimido, Assìm, graças a essa gênese conceìtual da temporalidade, encon- Haueria um modo de entendzr (ou desentendzr) o 'brdil da razã0", que se
tram-se aqui ualiosos subsidios para esclarecer por exemplo, as relações entre
'true das determinações particukres do indiuíduo para cumprir seus fins

t4 r5
untuersais' como reÍlexo suspeito de uma teorogia (às
uezes teodicéia) ,',titr'tlrtrettt: sua orìginalidade estri em não ter recorrido em nenhum mo-
prouidencialista, e assim como um rerorno dìsfarçado da metaflsica.
Mas quem t,!, ,t!!', /r() (xpor a doutrina hegelìana do teml>o, ítos textos daFenomenologia
dispõe da teoria da negatiuidade do umpo tem
recursos para entender a .1" 1 .,;rír iro ou, de algum modo, a uTna "experìência da consciência", e em
temporalidadc cumulatiua da história atraués dos tuxtos
,* qu, Heger refere a ,;',\r'.\,tn', apesar disso, estabe/ecer com êxito comp/eto a doutrina hegeliana
estrutura do 'hrdil" à temporaridade que nasce do
traboího, pría mrd4ao i.; r,,rftttmliddde. Em segundo lugaa o carriter próprio da flosofa de
dialétba do instrumento: o 'brdir" é a
facurdade de interpor -rior-trr*or, , !1..,.,
-
L rliscurso que deuora seur pressupzstos, é tal, que a alternatiua do
assìm de introduzir o tempo do retardamento, do
dìfrri*rrto. Com isso, é ,,,,rr.rr/r/r/o/ emface dela parece ìrrecustíuel: ou criticrí-/a em nome de crité-
possíuel /ançar noua luz sobre muitos tr-r, "fo*oros": ,btimismo,,
o dito t,,', t\ltt'tÌos, caindo em descrédito diante de um oponeTtte que de antemão
hegeliano, que consiste em tornar possíuer um ponto
de uista a-temporar i,t ttttrtrt rlessa exterioridade, ou compreendê-lã internamente, mas de tal
redobrando o tumpo histórico e que pod.e perfeitamente
coexistìr, agora, com o ,,:,,,lrt tluc, por efeito das leis internas do discurso, qua/quer tomada de posì-
tema da "lentidão" da história; ou as cérebres expressões do ireficio da t,t,' \('tornl7 problemritica, pelo menos ao níuel do discurso ltermenêutìco,
Fenomenolo gia sobre "a seriedade, a dor o poriêrcia e o trabalho do)rgotiro,,
que não precisam
,,
',, ,,,rrr|,tnça de registro. E o qrc leua a dizer que Hegel "rtão tem por ondt
-tento poder explicar mais ser lidns como simples metáforas. E, se é sem)re um ', ll', /,t{ue". O mérito deste estudo, considerado sob esse dspecto, ë o de, sem
um texto f/.osófco sem ,r,
forçìdo a tumar ,rui ,rr*o, ,,,/tÌ rtr)s lugarescomuns da interpretação conuencional, que em troca de
metaforicamente, não é menos certo que a esta altura
o leitor a cada nouo "rcfiltação" ilusória acaba recaindo por suít L)ez na
metaflsica, tornítr
lance, tertí de reconhecer com que 'brdir" já a trabarhosa ",rr,t
primeìra parte, t,,tttt//6 os Pontos em que uma uerdadeìra oposiçiío a Hege/ se tornlt ao
aparentemente drscarnada, estaua armando o jogo.
ttttç
Enfim, o co-pertencimento, a comunicação peÌo interior "t, /toss/uel.
que se estaberece li,ççítrl- mãs por que meios? O ensaio deixa ao menos sugerido que o
e:tr1o Conceito e o tempo pode serposta em perspectiua sobre
o irma especuktiro
l', u\tttlìclÌto dialético, quando (e se...) tomado em todo o rigor que compor-
do rt- da História, como projeto dz neunarização
do tumpo. E seruí precisa- !.t. t:tti{oroso o bastante para u/trapassar seupróprio descobridor Jrí quanto
mente a retomada da andlises, em "o tempo e seu duplo,', sobre'as
feitas duas ,r ,,t1,,'r em que direção (desta uez, não distorcìda?),
4 do tempo e a do Conceiro
isso
fca para a esperan-
s76f6n5
- qo, prr-itirá estibelecer a gradação
1,t (rlt torcida?).
-
fguras da presença qu, n-rnquodrom entre estes doisïtremos:
das múltiplas
de um lado, o Presente ,Agora',
finito (a naturalidade, o da duração, como Rubens Rodrigues 'Torres Fi/ho
aboliçãn relatiua) e, de outro, o presente infnito dì
"eternidade". Assìm, o
autor poderá agora reconhecer, em Heger, o úrtimo pensador
de uma con-
cepção épìca da temporalidade, na conclusão do ensaio.
conclusão, aliás,
simples balanço, e não prorrogação. pois bastu assina/ar
mais dois pontos
marcados, para comprouar que não é preciso mais ,,tempo,,
complementar
para decidir a partìda. Ei-los.
Ninguém, até agora, hauia mostrado com sufciente precisão,
em Hegel,
a possibilidade de uma constituição compreta do
tempo sem o recurso à
consciência (seu correlato necessário no interior do idealismo
transcendental).
Em contrapartida, já a sìmples composição deste estudo o
mostra com sufi_

T6
t7
Parte I

A POTÊNCIA ELEMENTAR
DO TEMPO

"Vê como nasce


Para ti o tempo, e uerás
como nltsce tudo."

Fichte*

Wissenschafslehre 1798 noua methodo, Nachgelassene Schrifien, v. II, ed. H. Jecob,


frrenker und DuennhauptVerlag, Berlin, 1937. g i6, p. 136.
Capítulo I
A ESPAçO-TE M PORALT DAD E

/\ o examinar sucintamente a doutrina kantiana da Estérica trans-


/-\..nd..,tal, em suas Preleções sobre a Histórìa da Filosofia, o que
I lcgel lhe censura é, sobretudo, não indagar,se nunca como e por que
.Ì{ ()rìtece ao espírito ter em si essas duas formas puras que deveriam expri-
rrrir a natureza do espaço e do tempo.r Em outras palavras, a dupla exposi-
(,.r() metafïsica e transcendenral resulta insuficienre, pois não é a contrapartida
r[ urÌlâ verdadeira dedução genética do espaço e do tempo. Sob esse aspec-
r,,, I{egel retoma, embora remanejando-o, um tema comum a todos os
1',is kantianos, no qual o que se põe em causa é a heterogeneidade radical
, rÌ(r'e o entendimento e a sensibilidade.2 Além disso, prossegue ele, nesse
,r('srno texto, em Kant a determinação do que sáo em-si o espaço e o

Vtrlesungen ìiber dìe Geschichte der Phìlosophie, ìn Wbrke, ed. E. Moldenhauer e K. M.


Miclrel, SuhrkampVcrlag, Frankfurt, 1971,v,20, t. III, p. 342-3 (abreviado:VuGPh.).
Na observação finai do Grundriss de 1791, Fichte escrevia: "Kant, ne Crítica da
lÌazão Pura, começe naquele momento da reflexáo em que o tempo, o espaço e um
tliverso da intuição estão dados e já existentes no eu e para o eu. Nós deduzirnos a
7rìori esses dados e agora eles existem no eu" (SW- I, p.441; trad. Philonenko, Prëcis
& ce qui ert plzpre à la Doctrine de la Science, in Oeuures Choìsies de Philosophie Première,
Vrin, Paris, 1964, p.238). Bergson adotará o ponto de vista da gênese
ao censurar à filosofia kantiana o lato de que ela "se -dá
tle gênese ideal da mâtérie -Também
-
o espaço como uma forma acabada de nossa faculdade de perceber, verdadeíro deus
t.r machina, do qual não se vê nem como surgiu nem por que- é o que é e não

2l
tempo longe de atender à preocupação de dar resposra à pergunta: ,,nsiste em pôr em evidência as relações enrre o espaço e o tempo. A
"qual é -seu conceito?" consisre merarnenre em decidir a alternativa: 'b rr'Presenração, afirma Hegel, coloca o espaço e o rempo lado a lado: te-
espaço e
-
o rempo são algo exterior ou imanenre ao espírito?" com efeito, rrrrs primeiro o espaço e depois também o rempo, e esse "também' pode
poderíamos acrescentat transportar o espaço e o tempo das coisas para o ,lcsignar tanto uma subordinação quanto uma coordenação extrínsecas.
sujeito não nos levar muiro longe, enquanro nos proibirmos o acesso ao ( )ra, "é esse Gmbém que combate
a filosofia' (E"ry., S 257, Zus., p. 4g).
conceito da coisa mesma. Seja, a título de ilustrat'o, a pergunra quanto à l: preciso, pois, fazer com que o espaço e o rempo se comuniquem por
limiafo e ilimitafo do espaço e do tempo: "que o espaço e o tempo expri- .lcntro. Em que medida Kant e os pós-kantianos permaneceram fiéis a
marn as relações eústentes entre as coisas mesmas ou sejam apenas for- .s.sa tarefa conferida por Hegel ao pensamento filosófico? conceberam,
mas de intuição, isso em nada altera a antinomia que comportarrÌ entre a scrn dúvida, um cerro tipo de ligação entre o espaço e o rempo, e nisso
é
limitaso e a ilimitação".3 veremos, enrreranro, que dessa observação apa-
1,.ssível até mesmo distinguir um indício de sua maneira de conrornar o
rentemente sumária não se segue, de modo nenhum, que os resultados ,lomínio do pensamenro represenrarivo. Entretanro, aos olhos de Hegel,
da Estética transcendental sejam doravante considerados sem efeiro. como sempre que se trata de ler as filosofias passadas
- a verdadeira
Deixemos de lado por ora o exarrÌe da legitimidade desse juízo de Hegel -
relação entre essas duas determinaçóes só aparece nessas doutrinas como
sobre a Estética transcendental e fixemos nosso ponto de partida na "urna centelha inteiramenre formal",
do mesmo modo que Kant apenas
exposição da gênese do conceito do tempo, tal como a enconrramos na pressentira a forma da Tiiplicidade por ocasião do estabelecimento da
Filosofia da Natureza da Encic/opédia. Essa exposição deveria, em prin- rábua das categorias. se nos reporrarmos a alguns aspecros do problema
cípio, suprir as lacunas que a de Kant apresenta aos olhos de Hegel; o rro idealismo transcendental, a tese hegeliana sobre a conexáo essencial
preço disso é um deslocamenro que não ficará sem conseqüências: aban- ('rìtre o espaço e o tempo se mostrará bem menos surpreendente.
dona-se uma "ciência de todos os princípios da sensibil idad,e a priori" Segundo Bergson, "o erro de Kant foi ter tomado o rempo por um meio
por uma Naturphilosophie. homogêneo"; exprimindo a duração real pelo espaço, 'a própria distint'o
Para a consideração pensanre (denleende Betrachtung) da Narureza, o que ele esrabelece enrre o espaço e o rempo redunda, no fundo, em
tempo não é mais que o rermo final da dialética interna do espaço; mais confundir o rempo com o espaço".5 Depois disso, já foi muitas vezes
precisamente, o rempo é a negarividade do espaço "posra para si,,.a Em sublinhado, em Kanr, seja o papel preponderante desempenhado pelo
suma, o tempo é a verdade do espaço. Conseqüentemenre, o primeiro c.spaço, em derrimento do tempo, seja o fato de rer calcado sua concepÉ.o
passo na direçáo da conquista de uma noção especulativa do rempo tlo tempo sobre a do espaço, emprestando da linguagem da espacialidade
os termos necessários para descrever o tempo. fusìm, quando Kant declara,
rcpeddas vezes, que o tempo "permanece e não muda', se fará notar
que
outra coisa completamente diferente" (L'Euolutìon créanice, ed. do centenário, puB com isso ele retira da representação do rempo toda idéia de sucessão e de
Paris, 1959, p.669).
r'udança, despojando-a, desse modo, daquilo que a distingue essencial-
Wissensch.af der Logih, ed. G. Lasson, Feiix Meiner, Hamburg, 1g67, v. I, p.232
(abreviado: WdL.); :rad. fr., S. rnente da do espaço.6 No entanto, é preciso acrescentar que se pode en_
Jankélévitch, Science de la Logiqirc,Aubier, parìs, v. I,
p.256.
Enzyklopàdie der phìlosophischenlilissenscharten ìm Grundrisse (1s30), ed. F. Nicoli'e
.S
Pôggeler, Felix Meiner, Hamburg, 19t9, 257, p. 209 (abreviado: En4L). para as
Atlições (abreviado: Zus.) citamos pela ediçáo Suhrkamp dos \y/erke, u. g, 9 r0. . Essai sur les Données Immédiates de la Conscience. ed. do Centenário, p. I 5 I .
Tiaduções:.B. Bourgeois, Vrin, Paris, 1970, para a primeira parre e respecivas adi_ É a opinião de M. GuerouÌ t; cf . La philosophie Tianscendantare tre Saromon Maimon,
ções; Gandillac, Gallimard, Paris, 1970, pari a segunda. teic.i.a partËs. Félix Alcan, Paris, 1929, p. 160.

22
23
contrar igualmente, em Kant, o procedimento inverso: "todas as partes ,lo, por assim dizer, as duas formas sensíveis. Essa relação, retomada e
do espaço existem simultaneamenre (zugleich) no infinito", lê-se na restituída à sua verdade pelas Provas das Analogias da experiência, será
Estética"7 A presença da palavra zugleich em uma fórmula pertinente à ,lccisiva na Refutação do idealismo. Por certo, o argumento da Refutação
exposição metafïsica do conceito do espaço suscita duas observaçóes: l,arece privilegiar o espaço, uma vez que, Para que a
consciência de minha

em primeiro lugar, Kant emprega uma determinação temporal ("ao t xistência possa provar a existência de objetos fora de mim, é preciso de-

mesmo tempo") para descrever aquilo que é peculiar ao conceito do nìonstrar que "nossa experiência ìntertw só é possível sob a suposição da
espaço; em segundo lugar, esse inesperado deslizamento é redobrado cxperiência exterior".rr Não obstante, é preciso ver nisso, também, a indi-
por outÍo, pois a noção de "simultaneidade" só será inteiramente ela- eeção de uma dupla conexão entre o espaço e o temPo: se estou consciente

borada na 3.'Analogia da experiência.8 ,le exìstência das coisas no espaço e fora de mim tão seguramente quanto
Será melhor então, em vez de falar de uma "conÊusão" engendrada rcnho consciência de existir eu mesmo no temPo, é porque "a realidade do
pela idéia de "meio homogêneo", cogitar de uma interferência recípro- scntido externo está necessariamente ligada à do sentido interno Para a
ca ligando as duas formas puras da sensibilidade. Reieiamos, a esse Pro- l,ossibilidade de uma experiência em geral".'2 Se, por um lado, não posso
pósito, a célebre passagem da Estética: "precisatnente porque essa intui- representar-me o tempo sem traçar uma linha reta, sem uma "representa-

ção interior não fornece nenhuma figura, procuramos suprir esse defeito çiro externa figurada do tempo", por outro também não posso pensar
por analogias e representamos a seqüência do tempo Por uma linha que rrnra linha sem traçá-la, um círculo sem descrevê-lo, isto é, sou incapaz
se prolonga ao infinito e cujas diversas partes constituem uma série que ,le conceber esses objetos sem uma descrição no espaço (por um ato Puro
tem somente uma dimensão, e das propriedades dessa linha inferimos ,le síntese sucessiva).t3 A Refutação mostra-nos como a determinaçáo da
todas as propriedades do tempo, com a única exceção de que as partes da ..xperiência interna se emaíza na experiência externa; a determinação do
primeira sáo simultâneas e as do segundo sempre sucessivas".e Com essa ,,Lrjeto geométrico requer a unidade do espaço e do tempo para poder
única exceçáo, podemos, pois, passar das propriedades da linha às da ttrmprir-se. Em uma carta a Rehberg, Kant juntará esses dois aspectos: 'ã
série temporal. Assim, Kant reata com uma tradição que remonta a uecessidade da ligação das duas formas sensíveis, espaço e temPo' na
Aristóteles: este já fazia "corresponder" certas propriedades do instante ,leterminação dos objetos de nossa intuição, de tal modo que o tempo,
às propriedades exibidas pela geometria da linha.ì0 ,luando o próprio su.ieito se torna objeto da representação, deve ser repre-
Essas analogias supletivas, entretanto, não se produzem somente na r.'ntado como uma linha, assim como, inversamente' uma linha só pode
direção que vai do espaço ao tempo, como o quer Bergson, mas sugerem \r'r pensada como quantum se for construída no temPo essa idéia da

lrgeção necessária do sentido interno com


-
o sentido externo na determina-
igualmente a existência de uma verdadeira relação de entre-expressão soldan-
,,.io temporal de nossa existência parece-me Provar a realidade objetiva das
rt'presentações das coisas exteriores (contra o idealismo psicológico)".r4
7 Krìtìh ler reinen Wrnttnrt, ed. tüil Weischedel, Insel-Verlag, Wiesbaden, 1959, B 40
rrad.'ÌÌemesayges et Pacaud, 3.'ed., PUB Paris, 1963, p. 57.
H Para a discussáo desta dificuldade, que aliás náo vern, de modo nenhum, de uma
Crítim da Razão Pura, B 27 5; tú. p. 205 .
sinrples qucsrão terminológica, v. G. Lebrun, Ka nt et la Fin de la Ménphysique, Artnand
Colin, Paris, I 970, p. 84 seq. ['relácio da 2.'edição, nota, B XLi; trad. p. 28.
B i0, A 33; trad. p. 63. Gntaremos precisar, mais adiante, cm que sentido Hegel (,f. op. cit., B Ì54; trad. p. 132.
' -
avaÌiou esse "defeito" (Mangcl). A. !íi Rchberg, 251911790, citado por J. VuíIlemin, Phlsiqut et Métaphysìque Kantìennes'

" Cf. p. ex. Física, IV, 1I, 220-9 .


l'UF, Paris, 1915, p. 44.
'

')\
24
Fichte, por sua vez, chegaráa resultados semelhantes,
uma vez deduzida csPaço? Esta deve enrão ser considerada
a inuição: é preciso que o intuído seja dererminado como sínrese de uma série de
no espaço e a intui- r,'diçóes; com efeito,'ã síntese das diversas parres do espaço, por meio
ção no tempo.
O método genético nos levará, pois, da intuição, ao espa-
.le qual o apreendemos, é sucessiva, efetua-se, pois, no tempo e contém
ço como condição subjetiva da possibilidade da intuição exrerna. A esta
<'ln si uma série".le
tem de associar-se, necessariamente, uma outra condição subjetiva;
com Schelling, enfim, no System de 1800, reroma essas análises, embora
efeito, "se não existe uma ourra forma de intuição, a indispensáver
har- i'fletindo-as em um sentido que'já anuncia mais explicitamenre alguns
monia entre a representação e a coisa, a relação de uma à
out.", permane- ternas hegelianos. Ti'ata-se, aqui, da dedução da "síntese do tempo com o
cerá impossível, ranro quanro sua oposição pelo eu.
conrinuemos nosso cspaço", que não poderia ser exprimida senão pela linha ou pelo ponto
caminho, e ele certamente nos conduzirá até essa forma,.15
,:m "expansão". No objeto, pois, o espaço e o rempo não podem vir a ser
o gênero de ligação que o ideaJismo rranscendental concebeu enrre as
senão juntos e inseparavelmente. Essa síntese torna-se visível, igualmen-
duas formas da sensibilidade deixa-se enrrever ainda
em sua medida co- te, em sua medida recíproca. Notemos de passagem que a linguagem
mum: só se mede o sucessivo pelo simultâneo, e vice_versa. .,Uma
quanti- empregada para descrever as conseqüências dessa síntese modificou-se
dade determinada de espaço", diz Fichre, ..é sempre simub,ânea
(zuylzich); um pouco: o espaço e o tempo "se opõem" um ao outro e o fazem porque
uma quantidade de rempo é sempre sucessiua (nacheinander).
É pãr is.o "limitam-se muruamenre"; cada um deles é por si infinito, mas em um
que só podemos medi-las uma pela ourra: o espaço pelo
tempo q,r. ,. l.rr" "sentido oposto". "O tempo só se rorna finito pelo espaço, o espaço só se
para percorrê-lo; o tempo pelo espaço que nós mesmos
ou qualquer outro rorna finito pelo tempo. (Jm se torna finito pelo ourro, quer dizer: um é
corpo movendo,se regularmente (o sol, o ponteiro do relólio,
o pêndu_ cleterminado e medido pelo outro. Portanro, a medida originária do tempo
lo) podemos percorrer nele".r6 Fichte, neste ponro, mostra-se
avaro em ó o espaço percorrido durante esse rempo por um corpo uniformemenre
esclarecimenros; varnos buscálos na crítica. Seja o
princípio, estaberecido acelerado, a medida originária do espaço é o rempo de que precisa um
várias vezes ao longo das Analogias: toda determinação
à. t.mpo .upõe corpo uniformemente acelerado para percorrê-io. Os dois mostram-se,
algo permanenre na percepção, no caso a maréria espacialmente
localizada. pois, absolutamenre inseparáveis."20
Conseqüentemenre, a medida recíproca do ..p"ço e
do tempo supóe a Nesse conrexro, o que há de surpreendente no fato de que Hegel tenha
correspondência de duas ordens, tornada possível, por
sua vez,-perahgação podido conceber o [empo como o resultado do desenvolvimento do conceiro
necessária entre o sentido externo e o sentido interno; "devemos
orà..". clo espaço? Enqua-nto isso, convém assinalar, uma espécie de mutaÉo está em
no tempo' enquanto fenômenos, as determinações do sentido
interno, exa- vias de produir-se no regime do conceito de tempo e, conseqüentemente, no
tamenre do mesmo modo que ordenamos no espaço
as dos sentidos exter_ de espaço; é, pelo menos, o que rransparece em cerras fórmulas de Novalis
nos".17 Queremos determinar o comprimenro do tempo (Zeìtkngò ou das
épocas (Zeìxtellzn)? Só o obteremos a partir daquilo que as áir", .,o,
apresenram de mutável.Ì8 Tlata-se, por ourro lado,
da medida de um
'' Ibid.,B439,A4l2;rra.d.p.330.Construímosumtodo(umquantum)rnedindo-o,
isto é, pela síntese sucessìua de suas partes (cf . CRPura, B 455-G, A 427 -8, nota; trad.
l5 p. 338). E ainda: 'â medida de um espaço (enquanto apreensío) é ao mesmo rempo a
Précìs, S 4, p.235, trad. cit. descrição dele, isto é, portanto, um movimento objetivo na imaginação e umapr,gres-
16
Id., p.238. são" (Critique de la Faculté de ]qer, trad. A. philonenko, Vrin, paiis, 196g, S 27', p.97).
l/' CWura, B 156; trad. p. 134. )" S\stem des transzendenta/en Iclea/ismus, ed. R.-E. Schulz, Felix Meiner, Hamburg, 1957,
ì8
Lr. td. tbtd.. p. 135. cf.
aml:'émAbhandlungen zur Erlàuterungdes Idealismus ler\vìssensrhãfisrehre,
in S\Y, ed. Manfred Schrôter, Munique, 1958, v. I, p. 35G.

26
27
Se deve ser Possível a experiência, tem de ser Posta a unidade
do espa-
e do primeiro Schelling, que respiram uma nova armosfera especulativa.
,,{) com o temPo. Mas nem por isso se chega a transpor o limiar da
A esse propósito, lemos na Encicbpédia de Novalis: "o rempo é a potên-
rt'lìexão exterior, enquanto a unidade das duas formas da sensibilidade

cia do espaço'; "o espaço se torna tempo, como o corpo se torna alma"; "o
espaço como precipitado do tempo
t: posta em vista da possibilidade de uma experiência em geral para o
como conseqüência necessária do
- Dizer, ao contrário' que o tempo é a verdade do
',,l.ito cognoscente.
<'o
tempo"; espaço é tempo sólido o tempo é espaço fluido";2r e, no da rtfle-
- ( sl)rìço, como o exige Hegel, significa que o esPaço' em virtude
System de Scheliing, nos é dito que a subsrância não é outra coisa senão o "não somos nós que
*:u, imanente própria a seu conceito' se torna temPo:
próprio tempo "fixado" e que podemos definir o espaço como 'b rempo
ao tempo, mas é o esPaço mesmo que
solidificado" e o tempo como "o espaço fluente".22 Era preciso, pois, l):Ìssamos, assim subjetivamente,
-
montar uma nova armação dialética, capaz de assimilar explicaçóes como y,rssi' (Enzy.,5257, P.4S).Retomemos o caso de sua medida
recíProca'

l{cfèrir o espaço percorrido ao temPo gasto para percorrê-lo constitui' é


esta, por exemplo, avançada por Schelling para dar conta da unidade vis-
métrico corrente' que' à primeira
necessária do espaço e do tempo: "o espaço e o rempo são duas negações l,reciso admitir, um procedimento
relativas, porque recíprocas; nem um nem o outro podem, pois, ser abso-
ì.,,,tão oferece dificuldade; assim, quanto à simples velocidade de um
tempo'
rnovimento, que náo é mais que a relação direta do esPaço e do
lutamente verdadeiros, mas em cada um deles é verdadeiro aquilo pelo do
rrrrrar-se-á a-granáeza do tempo como denominador e a grandeza
qual ele é a negaçáo do outro. O espaço tem para si a simultaneidade e,
('spxço como numerador; portanto' em sua relaçáo métrica' o esPaço o e
na medida em que se opõe ao tempo através dela, possui uma aparência
,,',,rio ,ao tomados, antes de tudo, como simples determinaçóes de grande-
de verdade. O tempo, ao contrário, faz sobressair a separação e põe a exterior'
z.r: "um deles é um número que cresce e decresce em Progressáo
unidade interna das coisas; em contrapartida, embora negando o que há primei-
,rritrnérica, e o ourro um número determinado especificamente pelo
de inessencial no espaço, ele mesmo implica algo de inessenciaÌ, a saber, que
ro, que em relaéo a ele desempenha o papel de unidade' Na medida
em
a sucessáo das coisas. O inessencial de um é, pois, consranremente nega-
, ,,.1a umanáo seria, nem mais nem menos que a outra' senão uma qualidade
do pelo outro e, como o que há de verdadeiro em um não pode ser
tomar indiferentemente uma ou a outra'
completamente abafado pelo outro, a verdade se enconrra na perfeita 1,,rrricular, sem mais, poderíamos
exte-
,1,, po.t,o de vista de sua natureza de grandeza' como Pura quantidade
negação relativa de um pelo outro, isto é, em seu equilíbrio perfeiro".z: (WdL'' I'
,i.,r, ot como variando segundo uma especificafo quandtativi'
assim relaci-
l, 351).r4 pouco impofra, enrão, qual dos dois momentos
,,rrados deve ser considerado como o número-numeranÍe (Anzahl) ou a
L'Encyclopédie, trad. M. Minuit, Paris, 1966, n. 407, p. 128; n. 416,
de Gandillac, unidade das
p.129 n.418, p. 130; n.426, p.131. ,,rriclade.2t Por certo a reflexão transcendental, ao conceber a
dessa relação
Op. cìt., p. 140-1 e 144. Ou, ainda, a seguinte palavra de orden.r de Novalis: "Espaço ,l,r,rs lormas sensíveis, não se limita à simples constataçáo
-
r,rJtrica: pelo contrário, pretende remontar até a fonte de que emana
e Ièmpo tratados de maneira mais viva' (Encyclopédie, n. 402, p. 128). Mas, afinal, a
não são -apenas imagens? Seja; mas nem por isso sáo menos reveladoras. De resto, constituição
r', r,lade J.ss^ rel"ção, isto é, até as oPerações que balizam
a
observará Bergson, somente o entendimento rnetalísico tomará por "metafórica toda
expressáo que atribui ao tempo uma ação eficaz e uma realidade própria' (L'Euolutìon
Créatrice, p, 508). Releiamos, então, o texto de Hegel: 'por si mesma uma telha náo
mata um homem, -mas só produz esse efeito em virtude da velocidade que adquiriu, o
que significa que o homem é atingido morralmente em virtude do espaço e do tempo" p' 42'
lìadução A. Doz, Hegel, Thiorie de la Mesure, PUE Paris' 1970'
(Enzy., S 261, p. 214; trad. fr., p. 252).
l-t LAme
"Mes náo é de maneira indeterrninadi', acrescenta Hegel, "que as.qualidades sáo
du Monle, in Essais, trad, S. Jankélévitch, Aubier, Paris, 1946, p. 111-2. medida' elas devem con-
tlilere ntes uma da outra, pois, tomadas como momento da
Reencontraremos um remanejamento dialético desse raciocínio nas exposições -de
rcr sua qualificaçío" (ibid.)'
Hegel sobre a espaço-temporalidade, nos escritos do período de lena.
29
28
do objeto da experiência. Hegel, por sua vez, visa caprar a necessidade da {) cspaço e o temPo "não cessam de negar-se reciProcâmente até que acâ-
conexão do lado do objeto, isro é, do lado dos conceiros postos em rela- l,,rrn por equilibrar-se".27 Na Naturphilnsophie do período de lena, esse
ção. Ora, "o espaço é um todo exterior, real, sem mais; é, pois, número- , ircuito aparentemente simétrico vinculando duplamente o esPaço ao tempo
rÌumerante; o tempo, ao contrário, é o ideal, o negativo, o lado da unida- ..' clesenrolará no seio do Éter, definido Por Hegel como a "matéria absolu-
de" (ibid., p. 352; trad. fr", p. 43-4). As relaçóes métricas fundamenrais r:i', o fundamento e a essência de todas as coisas.28 O espaço e o temPo são
apóiarn-se, portanto, sobre a narureza das quaJidades em relação, espaço ()s lnomentos imediatos do Étet; o primeiro exprime a determinação do
e tempo; repousam sobre "o desenvolvimento do conceito de seus mo- ,guaì a si mesmo (Sichselbstglerch), o segundo, a determinação do absoluta-
nlentos, espaço e tempo, porque essas qualidades como tais se revelam rììente desigual a si mesmo, isto é, a da infinidade (das absolut sich Ungletche)
ìnseparáueis em sì mesmas (isto é, em seu conceito), e sua relação quanri- l,f. JL., p. 201). O Éter é a unidade absoluta desses dois momentos, cuja
tativa é o ser-para-si da medida, uma únìca dererminação métricd' ,uticulação se efetua e reproduz Pela Passagem ao contrário: o esPaço é
(ibid., p. 353; tad. fr., p. 44).26 .rl)enas momento, mas tal que, assim que realiza aquilo que é em si, se
A unidade especulariva do espaço e do rempo apresenra-se, primeira- r()rna o contrário de si mesmo, isto é, tempo; inversamente, o momento do
mente, sob a forma da circulação de dois momenros no interior de uma (crnpo se suprime para tornar-se seu contrário, o espaço (cf. ibid.' p.202).
mesma totalidade. Não só o espaço se rorna rempo, mas rambém o espaço [ )essa maneira cumpre-se o movimento imanente que constitui a "reflexão
se reencontra ao termo da dialética do ternpo. Essa dupla conversão já .l,r Todo".2e Essa reflexão expóe-se assim no movimento do ato de passar
estava esboçada em Schelling, quando esre renrava mosrrar de que maneira (t kltergehen) de um momento ao outro: o negativo do espaço é o tempo, o
positivo do tempo é o espaço.30
Uma tal alternância, entretanto, esrá longe de pôr uma equivalência
26 Reportemo-nos ainda, a título de exemplo, à demor.rstraçáo hegeliana da lei da queda ('strita entre os dois momentos o equilíbrio de que falava Schelling
("os espaços percorridos são proporcionais aos quadrados dos tempos transcorridos"). -
r()rÍrou-se "inquietação absoluta' UL, p. 198). O temPo não se reconverte
Essa demonstraçáo deve ser produzida a partir do conceito da coisa (Sar/re); em outros
termos, a dedução especulativa deve indicar segundo que via as relaçóes formuladas ,irnplesmente em espaço para que o ciclo dialético recomece; se ele
pela lei são correlativas à determinaçáo conceitual; a prova da lei reside, pois, na r('rcrna à espacialidade primitiva de que havia partido, é porque a síntese
derivaçáo das relações quantitativas a partir dos conceiros determinados de tempo e
de espaço postos em relação; ora, sem a dialética que os póe em comunicação arricu-
,l,r espaço e do tempo reveste uma nova forma a cada etapa do processo
lando suas oposições, a deduçáo hegeliana não poderia eferuar-se. Nesra, porranro, o ,l,r Natureza. O tempo "desmorona" imediatamente no esPaço, mas com
conceito deve intervir para determinar a coisa: devemos, pois, esperar que as dctermi- ,rr,r é engendrada uma nova determinaçáo, o lugar, "a identidade Posta do
nações de grendeza do"espaço e do rempo correspond:rm às determinaçóes de seu
conceito. "O tenpoé o momenro danegação, do ser-para-si, o princípio do uno, e sua ( [)rÌço e do tempo" (cf.8n4,., S 260, 261, p.212-3; trad. fr', p.250).
grandeza (um número empírico qualquer) deve ser tomada, em relação eo espaço,
como a unidade ou denominador. O espaço, em contrapartida, é o ser-um-fora-do-
outro (Aussereìnandersein) e não tem outra grandcza senão, justamente, a do tempo;
pois a velocidade do movimento livre consiste em que o tempo e o espaço, em sua 1.'Ame du Monde, uad. cit., p. 1 I 1
relaçáo entre si, não sío exteriara, contingentes, mas que há para ambos uma determi-
/t'ucnser l.ogih, Metaphlsìh und Naturphilosophie, ed. G. lasson, Felix Meiner, Hamburg,
n:.çiao una. Como oposta à forma do tempo, à unidade, a forma do ser-um-fora-do-
1967, p.196-7 (abreviado: JL.).
outro, que é a do espaço, e sem que nela se imiscua qualquer outra detcrminidade, é
o quadrado, a grandeza saindo de si mesma (atuser sich hommenfi, pondo-se em uma "l'. é somente essa unidade dessa refìexão do todo, que de espaço se torna tempo, de
segunda dimensáo, e assim aumentando, mas segundo uma determinidade <1ue não y' rcrnpo se torna espaçoi imediatamente eo ser um e o outro, torna-se imediatamente
outra seiliíl a sua própria, ela mesma se fazendo o limite desse aumento e, desse trrrnbém o contrário de um assim como do outro" (ibìd., p.202)'
- entrando em relaçío apenas consigo mesma" (EnzJ.,S
modo, em seu tornar-se-outra, Jenaer Realphìlosophìe, ed. J. Hoffmeister, Felix Meiner, Hamburg, 1967' p.
('.1. 14
267, p. 222-3; trad. p. 260). (rl>reviado: R?h.). CL também Enzy., S 260, Zus., \Xl 9' II' p. 16.

30 3r
{ Do mesmo modo, a sínrese da posição espacial do tempo como lugar e
t da espacialidade tornada imediatamente remporal consrirui o movi-
I
mento (cf. ìbìd., S 261, p.213; rrad. fr., p.251); enfim, "a unidade
ìmediatamente idêntìca, que estri ai (daseiende), do espaço e do rempo,,,
ou a identidade do espaço e do tempo como singularidade sendo para
si mesma, é a matéria (cf. ibid.).31 Mesmo assim, às vezes, ao longo do
percurso da Naturphìlosophìe, se rratará do tempo tomado isoladamen-
te. Assim, o fogo será concebido como o "rempo materializado" (ibid.,
5 283); o som, por ourro lado, marcará a passagem da espacialidade à Capítulo 2
temporalidade (cf. ibid., $:OO;; e, uma vez ultrapassado o limiar do O SER-FORA-DE-SI
orgânico, algo como um "rempo livre" será introduzido no encadea-
menro das formações especularivas (cf ReaQh., p. 179; Enzy., $ 35I).
Delineia-se, pois, um certo desequilíbrio entre os dois conceiros, uma
espécie de primazia do tempo, do qual Hegel havia dito de passagem,
por ocasião da consrituição do conceito do movimenro, que ele se havia espaço e o tempo pode-se ler no início da Filosofia da Natureza
tornado mestre do espaço.32 -
constituem o um-fora-do-ourro (Aussereinander) inteiramente
-
rlrstrato (Enry.,5 253); ou ainda pois o abstrato designa aqui o não
,",'rliatizado -
ç165 constituem as duas formas do um-fora-do-ourro
(cf. -ibid., S 448, Zus.). O espaço, em primeiro lugar, exibe a
"rr.'cliaro
r'rrnrtLrrâ da exterioridade, o ser-no-espaço equivale ao ser-fora-de.r Mas
r.,rrrbém, o tempo está imerso nesse elemento de exterioridade; na medi-
,l,r cm que é determinado como o resultado da dialética do espaço, ele
rl)r('senta a outra forma da exterioridade.2 Pâra bem compreender o
r(
- anres de tudo, dar conta
()r.dessa proposição hegeliana é preciso, pois,
,1., rrrudança introduzida na própria noção de exterioridade.
Aplicada ao espaço e ao rempo, a noção especulativa de exterioridade
rur.rvéÌÌÌ inicialmente por ocasião da passagem da Idéia lógica à Idéia

l:rsr própria exterioridade pode desdobrar-se: assim, uma relaçáo espacial é uma
que'é-fora-de-si-mesma (Aussersichseientle) (cf. Enzy., S 278).Tiata-se, pois, de
',1.rção
ll Lembremos que mesmo Fichte arriscará uma rese similar: "a matéria pode igualmenre rrrrrrr relação externtl a duplo título.
ser denominada uma rrànsmutação do espaço em tempo (...) . nÃr" ponto t Í. 1r. ex.: Eìnleinng in die Geschichte der Philosophie, ed. J. Hoffmeister, Felix Meiner,
central,.também o rempo e o espaço são vistos como iiseparavelmente "rrì-, unificados" I l,rrnburg, 1966, p" 37 (abreviado: EGP\.);trad. Gibelin, Leçons sur I'Histoire de la
(Drtrstell.ung tle rtx/ìssentchafs lehre aus dem
Jahre I B0 i , s\y,.d. J. H. Fichte, verlag vo' I'1,ìlosophie, Gallimard, Idées, Paris, 1954, v. I, p. 53; Vorlesungen über clie Aesthetik,
Vcit und Co., Berlin, 1845, v. II, S 3i, p. 103). l|i'rlr, Suhrkamp, v. 15, t. III, p. 156; trad. S. Jankélévitch, Aubier, Paris, t. ilÌ, ì."
iz "(...) e assirr o rempo se rornou mestre do espâço como sua potência" ÇL., p. Zl4-5). tì.utc, p. 316 (abreviado VuAe.).

32
)t
1,', g,rda por Hegel na Propedêutica, "o estar-aí ideal da natureza".3 Em
natural. Em sua liberdade absoluta, declara Hegel, a Idéia "ge dzcide a
(,rrrr'()s termos: por um lado, a n tureza se apresenta como esse ser-fora-de-
deixar ir livremente fora dek mesma o momento de sua particularidade ou
',, rres determinaçóes do espaço e do tempo, mas, Por outro' para precisar
da primeira determinação ou alteridade, Idëia imediata, como seu reflexo,
r'nì rlüe consiste a exterioridade própria ao esPaço e ao temPo' seu um-fora-
ela mesma, como /tatureza" (ìbid., S 244, p. 197; trad. p' 463)' Desse
,lrr oütro abstrato, é preciso remontar até anoçáo do ser-outro da idéia.
modo se introduz uma inadequação no seio da ldéia, que, sob a forma da -
I )t veríamos, por isso, prolongar até Hegel a censura que Kant endereçava a
alteridade, se rorna narureza (cf. ibid.,s 247).8, de pronto, a exterioridade '\í'olf quando
I , ibniz e assinalava que esses dois filósofos só consideravam a
não poderia ser mais radical e insuperável. É o qu. se evidencia, por exem-
,lrÍcrcnça que há entre o sensível e o inteligível como uma diferença lógica,
plo, na determinação lógica que Hegel denomina "o Outro para si": "o
'., ,rr perceber que essa diferença é manifestamente transcendental?a É ...to
outro d.eve ser romado isoladamente como referindo-se a si mesmo; de
,1,r.'a determinafo da exterioridade que define o esPaço e o tempo é sus-
maneira abstratll, como o Outro (...) Assim concebido, o Outro náo é o
,,rível de uma fundação puramente lógica; entretanto, não só o modo
outro de algo, mas em si, o Outro de si mesmo" (WdL.' I, p. 105; trad' I'
,l, scr do lógico sofreu uma mutaçáo: Hegel, ao fazer do espaço e do
p. 115). Esse Outro segundo sua própria determinação' acrescenta Hegel,
r( rÌìpo as determinações imediatas da ÍatuÍeza, eliminou também
é a natureza, o outro do espírito: "essa determinafo é, pois, antes de tudo,
r,,,le possibilidade de pensá-los como conceitos de relação provenien-
a de uma mera relatividade, pois que exprime, não uma qualidade da natu-
r, s cla abstração da relação das coisas; o esPaço sem as coisas não é
Íeza, mas apenas uma de suas relaçóes exteriores. Mas, dado que o espírito
a possibilidade de pô-las nele. O emprego da
é o verdadeiro Algo e que a natureza não é por si mesma senáo aquilo que 'r.ris simplesmente
lrrruuagem da abstração perdeu sua capacidade de confundir-nos'
é em relação ao espírito, resulta que' se a considerarmos em si mesma,
O espaço constitui a "determinação primeira ou imediata da naturezd';
sua qualidade consiste justamente em ser o outro em relação a si, a ser o
,' .r " uniuersalidade abstrata de seu ser-fora-de-si" , isto é, "a indiferença não
ente-fora-de+i (das Aussersich-seiendz)" (ibid.). Assim, a natureza é o nega-
,,'. diatizada desse ser-fora-de-si" (Enzy., S 206; trad. p. 244). Conse-
tivo, mas por ser o negativo da Idéia (cf. Enzy., S 248' Zus', p' 30)' r icrìtemente, como primeiradeterminaéo da Idéia sob a formada alteridade,
'I
Porranto, é como se a exterioridade pensada por Hegel não fosse completa- ,l.r ldéia tornada exterior a si mesma, o espaço marcâ a Passagem do lógico
mente exterior: o Outro da Idéia é seu Outro. E é precisamente essa relaéo
.rrr rraturâl ou, mais precisamente, designa o grau zeÍo da exterioridade.5 O
interna que funda a exterioridade que caracreriza a narureza: dado que a
Idéia, sob a forma da exterioridade, "é como seu próprio negativo' em
outros termos exterior a si mesma, não só a nâtureza é exteriormente aPenas
I'hilosophische Proplideutih, Dritter Kursus, Zweite Abteilung, ZweiterTèil, S 98 (cita-
relativa em vista dessa Idéia (e de sua existência subjetiva, o Espírito), mas
,nos pelos \Yerke, ed. Suhrkamp, v.4, p.33-4) (abrevìado: Propà.).
também a exterioridade constitui a determinação na qual ela se encontra ()lÌI\tra, B 62, A 44; vad. p. 69.
enquanto natureza" (Ünry., S 247, p. 200; trad. p. 235)- A Idéia lógica Nío estamos tão alastados de Kant. Em Hegel o espaço é a primeira determinaçáo que
exterioriza livremente o momento da alteridade: isso quer dizer que o meio \c cncontra por ocasiáo do movimento especulativo que nos conduz da Idéia lógica à
, ristência da tdai" imediata. Do mesmo modo, em Kant, o espaço desempenha o
de exterioridade em que evoluem as formas naturais é totalmente relativo e de primeira
1,,rpel de critério da objetividade (assim na Refutação do idealismo)
e subordinado, embora intrínseco e necessário. Reencontraremos essa ,lcicrminação específica do sensível. Na crítica do princípio dos indiscerníveis, p.or
determinação da exterioridade no espaço e no temPo; inversamente, falar , xcmplo, Kant i.z ver como "a pluraìidade e a diversidade numéricas .iá estão dadas
"uma parte do espaço, ainda que totalmente seme-
1,.1o espaço mesmo"; com efeito,
de seu ser-fora-de-si é sublinhar aquilo que faz do espaço e do tempo as llrlnte e igual a outra, está entretanto fora dela e ela é, precisamente por isso, uma
duas primeiras determinações da natureza ou, segundo a formula em- t,.rrte distlta da primeird' (CkPura, B 320, A 264; trad. p. 234). É também o

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34
da natureza: primet-
( .ì()tempo tomados como determinações imediatas
rempo se afasrará progressivamenre dessa esfèra primitiva acrescentan- da exterioridade;
,,,, quando se traz à luz seu caráter de formas ideais
do-lhe novas dererminações que trazem em si as promessas de uma o nível em que se
,|,'1roir, em virtude de uma necessidade que define
restituição do sujeito. que
,,,r...t. o próprio conceito da natureza' -Assinalemos de passagem
O ser-fora-de-si do esPaço deixa-se exprimir ainda por uma nova preci-
são, a da extraposição subsistente: ele é o um-ao-lado-do-outro
, rcrmo "aplicação" não é bem exato, se com ele se designa a relaçáo que
"exemplo" de um
l,1i,,,r.o...ito às coisas subsumidas por ele' A noção de
(Nebeneinander) inreiramente ideal (cf. ibìd.). Nesse nível de significa- exclui toda
"imediato", "ideal" e "abstrato" sáo intercambiáveis. ,,,nceito deve ser tomada em seu sentido especulativo, que
ção, as determinaçóes no conteúdo subsumido' em
, ,,rrtingência relaçáo extrínseca
É assim que, com o auxílio dessas determinaçóes, Hegel definirá a con- - o determina; desse
l.rtc do conceito que, náo aPenas o condiciona' mas
tinuidade do espaço: este é "pura e simplesmente contínuo Porque esse um mero exemPlo'
,'r.rclo, uma instânci" p".titul"t qualquer não é
um-fora-do-ourro é ainda inteiramente abstrato e não tem em si ne- é essa mes-
uma determinaçáo Pura Posta pelo pensamento:
nhuma diferença determinada' (ibid.). o mesmo vale também Para o ',',,strando exterior'
rrr,r determinação lógica em sua existência
rempo: "o rempo não é menos contínuo que o espaço, pois é a negatividade a quantidade aPre-
l. .- Sendo, por áefinição' o ser-Para-si suprimido'
que rc refere a'xraramenre a si mesma, e essa abstração não dá lugar an sich)
.,(.rÌra-se como o ser-um-fora-do-outro em sï (AussereinAndersein
ainda a nenhuma diferença real" (ibid., S 258, p.209; trad' p' 248)' O I' p' 2\4)' O espaço
t,l'. WtlL.,I, p. 179;trad. I, p' 198; eI, p' 194;trad'
abstrato e o ideal designam, pois, o primeiro momento do ser-fora-de-
( () temPo são, pois, extensõa (Ausd^ehnungen)' Em outros termos' formam
si. A esse título o temPo não difere do espaço e se aPresentará inicial- cujo ser se reduz a um
,,,,,ltiplicidadrs (V;rthr;trr) de um certo tiPo: aquelas
mente como "algo Pura e simplesmente abstrato' ideal" (ibid', p' 209; (Striimen)' Como
,,,;r-f6ra-de-si (Aussersichkommen)' a um fluir
trad. p. 247).Em suma, o conjunto dessas determinaçóes primeiras do o esco^t-se fora de si'
,rrrltiplicidades' o esPaço e o temPo são ho,mogêneosi
modo de ser da exterioridade define aquilo que Hegel denomina a
rlt clu€ se trata.t.rr. gã.r..o de multiplicidafe' e tal que não
se ultrapassa
idealidade abstrata do espaço e do tempo (cf. ibid., S 351)' (cf ibid''I'
, rrr clireéo r.l.r.orrJrário, seja este a Qualidade ou o Uno
Kant havia concebido o espaço e o rempo como os dois quanta origìntí' " ainda: na medida em que esPaço e tempo sáo
rios de toda nossa intuição.6 Reencontraremos em Hegel os traços dessa 1, 182; .."d. I, p. 201). Mais
,,rrrltiplicidades em estado de escoamento fora de
si (strômendes
explicação, quando este reconhece no esPaço e no temPo as duas determi- (Repukionen
Irrçsersic/tkommen) tomadas como repulsões de si mesmas
naçóes originárias da narureza, âo mesmo rempo que associa sua idealidade -e a um
,',,tt sic/t selbst) e uma vsz que isso não implica nenhuma Passagem
abstrata à categoria da quantidade pura (cf. ibid', S 99)' Embora em - determinidade'
,1r r;rlitativamente outro ,'t-
com algo que difira pela
um novo registro, também aqui irá intervir o momento da intuição. "1"çáo
e estáueis (*etige Grijssen)
,...,s.r medida são ambos grandrzas Perrnanentes
A determinação lógica da quanridade aplica-se a duplo título ao esPaço
r,l ibid..,I, p. I94;,,.,1'"I' P' 2\i)'' Esse sair-fora-de-si apresenta dois
.ì,1)cctos: o primeiro refere-se destino do ser-para-si: dizer que a quanti-
^o
espaço que fornece a explicação do paradoxo dos obietos simétricos, ilustrando
assim'
tempo, a id""lidade transc"ndental das for-as da sensibilidade e o corte
"o -.r-o (lomo versão transcendental Stiimer que' segundo Hege.l' tIP'l1t--"'
que intervém entre o entendimento e a sensibilidade (cF' Prolegômenos, S l3)' Em
desse
úrmaçáo de Kant' à proPósrto do espaço e
i.ia"a* espacial e temporal, cf' a
à.rtrapartida, não se encontra nada de equivalente no tempo, cujo escoamento (JÌìesse-nde)'
irreversível exclui toda simetria.
"r,tfììpf
i ;;;;;;' ";rrnj.'r, a.""'gin"'á pod'- "i'à-" "' chamadas fluenres no
,i,-,..r" (àa imaginaçio produtiva) é uma progressáo
r r)()íou.e em sua produção
"(...) os doïs qttantaoriginários de toda nossa intuição" (CRPura, B 34B, A41 1 ; trad' " p l70)'
i,urpo" (CÚura, B 2Ll, A ì70r rrad'
p' 330).

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36
dade possui o modo de ser de uma saída permanenre de si (perennierendes 2. o conceiro da natureza exige que essas duas primeiras deter-
-
rninaçóes pertençam à categoria da quantidade. Se esPaço e tempo são
Aussersichhommen) significa que ela é, segundo sua determinação, a su-
lógica,
pressão da relafo consigo mesma (cf. ibid.,I, p. 180; trad. p. 199); o I,uÍ.ì quantidade, tomada náo mais como mera determinação
segundo aspecto diz respeito à homogeneidade, acompanhada de infini- ilìirs como imediata e exterior, é que na natureza' na medida em que
dade qualitativa: enquanro escoamenro fora de si, o espaço e o rempo (.sl:ì é ao mesmo tempo a Idéia sob a forma do ser-outro e do ser-fora-

reproduzem-se sem cessar, não são senão a perpétua auto-produção de ,1, -.si, a quantidade, considerada como "grau" da Idéia, ocuPa um lugar
Eis como Hegel o
sua unidade (cf. ibìd., I, p. 182; trad. p. 201). O espaço, pois, é o "ser- 1'rirriirivo no encadeamento dos conceitos lógicos.
fora-de-si absoluro" (ibid.), não tem como acolher corres, isro é, momen- ,.rPlica: "a narureza começa, náo pelo qualitativo, mas pelo quantitati-
tos de alteridade, é perfeitamenre "ininterrupto" e, prolongando sua pró- v(), porque sua determinação não é, como o ser lógico, o abstratamente-
pria unidade através do incessante tornar-se outro, é, enfim, esse "ser- l,rirrreiro e o imediato, mas essencialmente iâ
o mediatizado em si mes-
outro-e-novamente-ourro que é idêntico consigo mesmo" (ibid.); essa rÌì(), o ser-exterior e a alteridade" (Únry., S 254, p.207; trad' p' 245; cf'
primeira forma do um-fora-do-outro é, pois, enquanto taÌ, quantidade r.rrrrbém S 99, Zus., p. 2ll; trad. p. 534).
abstrata (cf. Enz,y., S 255, p.207; trad. p. 245). Do mesmo modo que o Seja, agora, a Passagem do espaço âo temPo (cujo percurso delineia
espaço é um ser-fora-de-si absoluto, o rempo é um "sair-de-si absoluto" ,,.1uadro de uma dedução do tempo), considerados ambos como as

cuja estrutura é descrita por HegeÌ da seguinte maneira: o tempo, sob l,rrrnas do ser-fora-de-si inteiramente abstrato.
essa forma que exprime sua idealidade absrrara, é "uma produçáo (ein l,.ssa passagem especulativa repousa essencialmente sobre o conceito do
Erzeugen) do Uno, do ponto temporal (Zeitpunht), do Agora Çetzt), o Irrttìte imanente ao AIgo (Etwa) (cf. WdL.,I,p. 113 seq')' Poderíamos
aniquilamento (Zunichtswerden) imediato desre e, de maneira consranre rrr,licar o arcabouço probatório desse movimento dialético' de maneira
(stetig), é em seguida o aniquilamenro dessa desapariçáo (Wrgehen); de , ,,rrcisa e esquemática, assim: sendo a negação' como se sabe, o fundamen-

modo que essa produçáo do Não-ser é ao mesmo rempo simples igualda- r,r rlc toda determinidade, é pelo ponro primeira diferença e negaçáo
-
de e identidade consigo mesmo" $f/dl., i, p. 182; trad. p.201).8 lrrrritante que o negativo se introduz na continuidade abstrata do espa-
-
ora, essa negatividade pontual, desenvolvida por si mesma, é o tempo.
(,();
Irricialmente, pois, se Porá a continuidade do espaço, do um-fora-do-
t É fácil notâr que essas explicações hegelianas parecerì confirmar as análises feitas por ,,,,tro absrrato, desprovido de toda diferença determinada (Enzy., s
Bergson, sobretudo no Essai. Ao íazer do tempo uma instância da quantidade pura,
Hegel infringe as distinções estabelecidas por Bergson, e a duração.òn.r.," é subsri- .,,r.,,i). Em segundo lugar, se colocará em evidência a armação dialética
tuída por um rempo homogêneo. Desse modo, em lugar de observar que há duas 1,i ,lisponível nas dererminaçóes univefsais do
conceito do espaço: este,
cpécies bem.difere'res de multiplicidade, Hegel verá no rempo rntrltiplicidade junto de si mesmo: pri-
( ()rÌro todo conceito, encerra suas diferenças
'ma diferença entre
da mesma ordem que a do espaço. Segu.do a dóutrine do Essaì, a, única
as teses kantianas sobre a natureza do espaço e as de Hegel residiria no caráter mais rr,, ir.o, como dimens6es (ibid., S 255), em seguida como limites deter-
explícito, talvez até mais conseqüente, destas últimas: ao descrever a idealidade abs- ,,,rrr.rdos, ponto, linha, plano (ibid., S 256).
trata do tempo, Hegel acrescenra logo que se rrara de uma multiplicidade quantitari-
va, que não dá lugar a nenhuma diferença rea.l. No enranto, convém chamar a atençáo ltsse procedimento prévio náo deixa de evocar certas análises kantianas
para dois fatos, que serão retomados mais adiante: náo parece ser por acaso que Hegel ,,l,rc o espaço. Sabe-se que para Kant o espaço está dado como um todo'
descreve.o espaço em rermos muiro próximos dos impregadàs por Beìgson
exterioridade, indiferença, e assim por diante - ',r,,,, infinito, contínuo.
O diverso que encontramos no esPaço rePousa
além disso, ao contrário do que
-; multiplicidade quantitativa não
pensa Bergson, conceber o rempo inicialmente como .,,,1,re essas limitaçóes: suas partes não poderiam ser anteriores ao todo,
o priva das outras determinaçóes que o tornarão caprt dé mostrar-se permeável ao t,rrÌì() se fossem seus elementos, capazes de constituí'lo por sua reunião;
espírito.

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38
assim, nenhuma de suas partes é simples; e, no entanto, o ponto é simples, ,lrrrrcnsóes náo apresentam nenhuma determinaéo capaz de subtraí-las ao
rrr,.i.r de indiferença imediata em que se encontram:
'hão se pode dizer, por
mas não é uma parte, e sim o limite de um espaço.e Invocar a continuidade
do espaço é lembrar sua natureza de intuifo
formal que se encontra na ,,,rrseguinte, de que maneira ahura, comPrimento e l'zrgura se diferenciam

rin àa possibilidade de certos conhecimentos sintéticos a priori; ora, um r.il(r.c;i, poisdzuemsersimplesmenrediferentes, masnãosãoundadiferenças;
uma direção de altura'
destes, segundo Kant, é o que se refere à tridimensionalidade do espaço: ' l)lcnamente indeterminado que chamemos Hegel reencontra Kant
, ,,rrrlrrimento ou largurd' (ibid.)' Em contrapartida,
que o espaço tenha três dimensóes apenas, é algo que é preciso admitir
(para
como proposição apodítica, isto é, que implica a consciência de sua neces- ,,,, Í,,r.e, corresponderem às três dimensóes as três espécies de termos
.*p..r.ão kantiana): plano, linha, ponto são diferenps
sidade e é irredutível a juízos derivados da experiência.ro Na Dissertação dt ( nìl)regaÍ
" -{ue
"três
1770, Kar;rt havia tentado fornecer uma prova da tridimensionalidade do ,1,, .utceito do espaço, exprimindo-se primeiramente como as
espaço apoiando-se sobre o conceito de termo (terminu): dada a continui- ,lrnrcnsões puramente distintai'e' em segundo lugaç como diferenças
dade do espaço, o simples nele não é uma parte, mas um termo; "ora, um ,1,'r(rrninadas, isto é, qualitativas (cç. ibid.,S 256)' O procedimento kantiano

termo é em geral aquilo que, em um quantum contínuo, contém a razáo de ,,rrsistia em praticar cortes ou terminaçóes sucessivas sobre o contínuo do
ser dos limites. O espaço que não é o termo de outro espaço é um espaço
(..,1):rço, correspondendo a cada dimensão. Hegel substitui esse procedimento
O termo do sólido é a superficie, o termo da superfície é a
complzto Gtilido). lr0r urÌ.Ì sistema em que os limites determinados se encontrarn articulados
uma seqüência bem
lìnha, o termo da linha é o ponto. Portanto, há três gêneros de termos no ;,,,, l.,rr" diatética interna ou, mais precisamente' Por
( n(iÌ(leada de negaçóes determinadas; com isso, empresta aos recortes
espaço, assim como há três dimensóes".rr
Hegel, ao contrário, vai renunciar a deduzir a necessidade, para o ,,1n.r.rrclospor Kant uma espécie de necessidade autônoma, fundada sobre a
espâço, de ter justamente três dimensóes. A geometria, díz ele, pode tr.lrrlreza da coisa mesma.
( ,ostuma-se rePresentar a linha como o resultado do movimento do
dispensar-se de apresehtar tal dedução, pois, não sendo uma ciência
filosófica, é-lhe permitido pressupor seu objeto, o espaço, dado com suas 1,,ÌrÌro, a superfïcie como resultado do movimento da linha' e assim por
determinações universais; mesmo no saber filosófico não viria ao caso ,1,,,,,,.. Or", H.gel pretende dar a essa representação uma base conceitual'
l.,lt.sses definiçóes correnres da linha e da superfície, o movimento
do
fazer ver uma tal necessidade, que, afinal, "repousa sobre a natureza do
algo acidental: tratar-se-ia de
conceito" (cf. Enz.y., S 255, p.207; trad. p. 245). No entanto, sob essa I,oil1(), da linha, são considerados como
primeira forma do ser-fora-de-si abstrato e homogêneo, as determinaçóes rilil.r nlera forma de representação, uma vez que "o movimento com-
e assim, nessa maneira de representar-
do conceito do espaço são "superficiais" e não constituem mais que uma l,r,.,.rrrle a determinação do tempo
.., . .rl)iìr.cce como uma modificação de estado simplesmente exterior" (wdL. '
"diferença plenamente vazii'. Portanto, Hegel associa a impossibilidade
de uma prova direta da tridimensionalidade do espaço ao fato de que as l, 1,. ì13; üad. p.341; cf. I, p. 115-6; trad' p' 127)'" É preciso' por-

e Cf . CUura, B 40, A 25;B 211, A 170; trad. p. 56-7,169-70. de um


Ì'.1.rrnetlida em que o movimento implica aÌgo de empírico, isto é' a percepção
tu Cf . ibìd., B 4l; tad. p. 57 . ,,',ivcl, Kant o excl.-,íra da Estética na tondiçao dã terceiro elemento ao lado do
I I Nota ao S 15, C. Segundo J. Vuillemin, que cita esse texto, a demonstraçáo kantiana ì,,1ì.rçocdotempo (cl.CMura,Bl8'441;trad'p'67)'Todavia'naDeduçãotranscen-
supõe duas idéias essenciais: que o sistema euclidiano tridimensional é completo; ,1,1,,t.1, ele.oio.ou o movimento entre os conceitos legítimos da filosofia
que há um vínculo entre as noções de continuidade e de dimensão e é possível ,,,,,,rccn<lental, determinando-o como descriçác: (Beschreibung) de um espaço' portan-
anaÌisar a segunda mediante a primeira. Cf, La Philosophie de lAlgèbre, PUF, Paris, r('(()rÌìoatopurodasíntesesucessivadeumdiverso (cf ibid''B155;trad'P' l3!)'
1962, p. 447-9. ,\'.sirrr sc cá-pre.nderá a necessidade d'o Linie ziehen (p' ex' B 154)' Em

4r
40
tânro, reduzir elemento de contingência. Para isso, temos de desco-
esse n.io se pode conceber o limite como simplesmente exterior ao Algo;
brir qual necessidade conceitual corresponde à representação segundo a cstc só é o que é em seu limite e por seu limite. Constitutivo de seu ser,

qual se define o ponto como movendo-se, a linha como nascendo, e . limite atravessa o Algo inteiro; posto como negaçáo, o limite é uma
assim por diante. Na verdade, essa representação repousa sobre a necessi- .lctcrminidade indissociável do Algo; é por isso que o ser-outro não é
dade de uma passagem de ordem dialética: dizer que a linha que se move rrr.liferente e exterior ao Algo, mas constitui seu próprio momento.
dá nascimento à superfície equivale a dizer que a superfície é apenas a lÌ)rtanto, é totalmente insuficiente conceber o ponto como limite da
linha suprimida; em outros termos, é o linear mesmo que rc ebua ao linha de tal maneira que esta deixa de ser no ponto para só existir fora
estatuto de uma determinaçáo de superfïcie: graças a uma modificação .lcle; é preciso dizer, em vez disso, que é no ponto que a linha começa.
da determinação qualitativa, passa-se de uma dimensão a outra' imedia- Mes afirmar que o ponto é o começo absoluto da linha consiste em
tamente superior. Mas isso não quer dizer que a linha seja composta de ,liz.er que ele constitui o elemento dela, que ele, como limite, é um
pontos e o plano de linhas: 'que a linha não consiste em Pontos nem o princípio daquilo que ele limita (cf. ibid.,I, p. 115; trad. p. 126-7). Eis
plano em linhas, é o que resulta de seu conceito, uma vez que a linha é, ,rí, portanto, elevado ao nível do conceito, aquilo que a representação
ao contrário, o ponto na medida em que exá fora dz si mesmo, isto é, em continha de legítimo. Os elementos ou princípios da linha, do pla-
-
rro e do sólido são determinaçóes das quais eles provêm e que não são
que se refere ao espaço e se suprime a si mesmo, assim como a superfície
é a linha suprimida, a linha que está fora de si mesma" (Er.!', S 256' scnáo seu limite. O elemento dá nascimento àquilo de que ele é limite.

p. 208; trad. p. 246). Hegel nos convida, desse modo, a conceber a lrssa passagem se produz graças a wa connadição: precisamente aquela
passagem da linha à superfície, isto é, o movimento da linha engendran- .1ue impele o Algo a ultrapassar o limite em que está encerrado. Cada
do a superfície, como um sair-fora-de-si da linha (assim como o sair-fora- .'lcrnento possui sua própria dialética, que consiste em sua transformação
de-si do ponto é a linha e o da superfïcie é um espaço total) e a comPre- rro elemento que lhe é imediatamente superior quanto à dimensáo. "Que

ender essa determinação como uma modificação qualitativa (cf. WúL.,L o ponto, a linha, a superfïcie, para si e em contradição consigo mesmos,
p.3I3; trad. p. 341), não como uma soma de partes simples. Além scjam começos que fazem com que se destaquem, se .separem de si
disso, é a dialética do conceito de limite qualitatiuo que nos permite pen- nresmos e que assim o ponto, em virtude de seu conceito, se abandone,

sar o espaço como um sair (Hinausgehen) a parrir do ponto: este é o 1'<rr assim dizer, para passar à linha, que ele dê nascimento à linha por
limite apenas abstrato do espaço, que só tem seu verdadeiro limite, como rrrn movimento que executa em si mesmo, eis o que é conforme ao
determinação concreta, a partir da linha, na terceira dimensão (cf. ibid.). tonceito do limite imanente ao Algo" (ìbid.,I, p. 116; trad. p. 128).13
Examinemos a rela$o entre o Ponto e a linha. Inicialmente' a linha
náo aparece como linha senão fora de seu limite' o Ponto. Tâl é o ponto
Hegel retomará esses resultados no exame do método dos indivisíveis de Cavalieri (cf.
de vista do entendimenro, que pressupõe a existência de uma diversidade
WdL., \ p. I 36 seq.; trad. I, p. 345 seq.). O método dos infinitamente pequenos
enrfe o Algo e seu limite e roma como ponto de partida de suas reflexóes o de Kepler, no caso era obrigado a supor os pontos como lineares, as linhas como
-
WdL.,I, p. lI4-5; trad' p. 126). Ota, -
os objetos situados no espaço (cf. planas, uma vez que a soma de pontos não dá ainda uma linha nem uma soma de linhas
uma superfície. Com efeito, observa Hegel, esses corpos lineares não sendo ainda
linhas o que deveriam ser enquanto qnanta é forçoso representá-los como
-
infinitamente pequenos. Ora, a soma desses momentos-, não equivale à passagem
Hegel encontramos o reverso especulativo dessa "descrição": é preciso incluir em.uma gcométrica do ponto à linha, da linha à superÍïcie; daí a necessidade de um procedi-
,.oii" p,,.^ do espaçoaquilo que há de conceitual na representação de uma linha mento como o da passagem ao limite, ao lado da necessidade, já evocada, de atribuir
descrita pelo movimento de um ponto. iìo momento determinado como ponto a determinação do linear, e assim

42 43
formam'
.rrticulação das diferenças determinadas do conceito de espaço
O espaço, para Kant, é um todo analítico ou contínuo' Para mosffar que ponto chegar
comPleto' Parte-se do para ao
.ro .rp"ço há tantos rermos quanto dimensóes, Kant procede analiticamen- 1,ris, um sisterna d.uplamente
,'r1r"ço total; chegados a esse momento da progressão sintética'
somos
t., p"ìti.rdo do sólido para chegar ao ultimo dos termos' o Ponto' Hegel' sua necessidade; o
r..'onduzidos ao Ponto de partida, que Prova assim
inicialmente, empreende um procedimento inverso' isto é'
sintético: a
('sl)lìço total é o ll.rg", de uma reviravolta que se abre para uma marcha
reflexão interna que expõe o movimento constitutivo do todo
espacial
r,.gressiva, e assim uma análise vem redobrar a síntese.
Tâmbém interior-
começa pelo ponto posto como o que é primeiro e positivo'
O ponto logo
de ser-outro"; e ,,'.,.,r. ,. essa situação, pois a negação suprimida do espaço
reproduz
se suprime para rornar-se linha, "sua primeira maneira junto de
,',ltrivale à "restauração da totalidade espacial, que agora possui
assirn por di"r,t., graças à necessidade lógica da dupla
negação' acaba-se

à "supeúcie englobante, que isola um esPaço total singular" (cf' ri rnesma o momento negativo" (ibid')'t4
po,
^Enz,y.,".id.,256). Graças à idéia de limite primeira negação ou negação simples é
S Mas pode-se também adotar o outro procedimento: a
- -
do conceito do
o esPaço é igual- .r rrrmação dialética inteira que está montada na exposiçáo
necessidade da passagem é a mesma, na medida em que se mostra
cspaço. O ponto é a negação do espaço, uma vez que este
mente o positivo, "sendo o plano a primeira nega@o e a linha
a segunda'
rnicialmente como o ser-fora-de-si indiferenciado ou imediato.
certo,
sendo a segunda negação, aquela que' segundo sua própria
q'.r. .n,r.ì*to, o elemento
p' 246)' A rr:io há como falar de pontos espaciais como constituindo
verdade, se refere a si mesma, é o ponto" (ibid', p' 208; trad'
("greg"do obtido Por soma de pontos)' A continuidade
1,.sitivo do espaço
do ser-um-
.rtrstrata d,o espaço é apenas a possibilidadz, mas não o estar-Posto

de dimensóes que o
lìrra-do-outro e do negativo' Vale dizer que a desarticulafo do condnuo Pela
por diante, de modo que cada momento tem o mesmo número
ïJo q'.r. eie de,reria cànstituir. Mas, acrescenta Hegel' sabe-se que "a necessidade de lrrrritafo equivale a uma posifo do negativo; por isso "o ponto' o ser-Para-
,r, é antes rrgoçn do espaço, e essa negação posta nele"
(ibid'' S 254'
;h;;"; " uma tal Passegem qualitativa t, tot t'* fim' recorrer ao infinitamente f:itlt
;;;ï"". deve ser.o.t.ii.."d"^.o-o a fonte de todas essas representaçó:::qltl ^ negatividade de que o
por si mesmas' a maior das dificuldades"' 1t. 207; tr.d.
p' 245). Yale dizer, também' que a
;;l;;;il;;;'"rìú."ra"a*,

constituem,
da negaçáo determinada' Em suma' o
; õ. ;;r.; ainda mais visível o métodó de Cavalieri: seus indivisíveis nãouma i,,rn,o é portador é da ordem
são
no sentido hegeliano' Os indivisíveis de negação mesma é espacial' e a
i,.,.ro é n g^çao do espaço, Portanto essa
infinitamente pequenos, mas elementos
formarem seu conteúìo "do ponto de vista-de sua
;;;;;ii.i. são'linïas, não por,,linear
é seu elemento" e ê ele que confere à superfície,sua li,,h", q,r. Àaoé m"i. q.t. o po,"o suprimido, é' assim' o ser espacial do
continuidade,,, -r, porqu.'o
entre si". A
determinidade; é isio que torna os "contínuos limitados comparáveis 1,,,n,o(.f.ibid.,S256).Comoauxíliodadeterminaçáológicadolimite'
que se consinta
Jo.rtrir," de Cavalieri ,orn"-r., pois, plenamente transParente' desde I legel exprimirá esses resultados da seguinte maneira:
"o ponto é o limite
;;;;;;;, sobre sua noção de iniiuiriu.l o conceito espìculativo do limite. - Obser- em um
;J;ï;;t.-tpr*t$a" método de Cavalieri po' Koyré co"corda com a de Hegel' r,,talmente abstrato, mas em um ser-aí; este, no entanto, é tomado
"em que o elemento
ã ào infinitamente p"queno", declara Koyre'
t.pr.tïana ,crrtido completamente indeterminado; é o que chamamos esPap absolu-
"Ëtã
.o.rrtii',ttiro'do objeto geométrico tem, Àão obstattte sua infinita pequen-ez' tantas
r,r, isto é, abstrato, o ser-um-fora-do-outro simplesmente contínuo'
Por-
que não
ã;.;rà., qu^nro á objïto em questão, ele (Cavaiieri) opóe a do indivisível,
qu" tt-, direta e francamente' uma dimensão a menos ,lrre o limite não é uma negafo abstrata, mas negação nesse ser-ai
datermi'
é um infinitamente Pequeno
"
;;; ;;bi;r" .*ud"áo"i "ele não parre do ponto' da linha' do plano' para chegar' por ,i,,,,r1o, porqu, ele é uma determinidade espacial, o Ponto tornasse também
H;;; t-p"ìt*.i I linha, ao plano, to'po' Pelo contrário' parte do corpo' do
"à determinantes e mesmo cons- , r1.,acial, .1. qt. é a contradição entre a negaçáo abstrata e a continuidade
plano, da linú, para descobrir neles, como elementos
trutivos mas não corpponentg5 6 pl2n6, a linh.a e o ponto"
- - -(Bonauentum.Caualieri
la Pensée Scienttfiqaa PUE Paris'
et Ia Géométrie det Coninus, in Etudzi d'Httoire de
Vimos como, em Hegel, o conceito do limite do Algo' apli.cado à
1966. o. 300-3). completude
uma ilustração, de alcance bem restrito' da função da id éiade
;;; ilõ;;o, - .*.lui" li-i.'",-tnt' tïd" idei" de soma ou Passagem ao
limite' Essa é apenas
Hegel. Nós a retomaremos na segunda parte (Capítulo 3)'
introduzindo a da passagem ao set-outro' "m

45
44
e, conseqüentemente, o ultrapassar e ser-ultrapassado na linhzi' (WdL., l'í)r cm evidência essa mudança, segundo Hegel, reportando-se às
I, p. 1i6; trad. p. 128).'t ,1,'r.rnrinações da quantidade e do limite. O espaço' como quantidade
Com isso está esboçada, já, a passagem ao tempo. Basta exprimir plena- ,rrrctliaramente existente, impóe a seu limite constitutivo o modo de ser da
mente a negatividade implicada nos momentos do conceito de espaço: o ..'rlrsistência indiferente. É irro qtr. define, em relação ao temPo' o"dtfeito

tempo se mostra, então, como nada mais que essa negatividade explicitada. ,lrt ttpaç0"(cf. ibid.,5257, Zus., p. 148). Essa falha, de resto, é simplesmente

Na esfera do ser-aí o negativo ainda não está contido em sua trama, a náo .i,,rrrtradição que impele o espaço a ultrapassar-se Para se tornar tempo e
ser como "envolvido" (ak eingehalt); esse momento da negação só se pro- ,lrrc provém da negaéo recaindo no meio do subsistir totalmente indiferente.

duz adequadarnente na determinação do ser-para-si (cf. Enry, S 91, Zus., r\ vcrdade do espaço é, pois, a auto-suPressão dessa primeira negação' a
p. 196; trad. p. 525). Ora, por um lado, é o ponto que aPresenta a deter- r,,lrrção do defeito que o esPaço apresentava. Ora, o temPo é o ser-aí dessa
minação do ser-para-si; por outro lado, o momento da negafo e o do ser, ,rrr()-supressáo, portanto negaçáo da negação' isto é, pura negatividade
para-si designam a outra forma do ser-fora-de-si da Idéia. A esse resultado r,.li.rindo-se a si mesma.r6 o novo limite o do tempo exPrime essa
- -
da dialética do espaço Hegel dá, pois, o nome de tempo: "mas a negatividade, ilr,,rlificação: é no tempo que o ponro terá enfim sua realidade efetiua
que, a tíillo de ponto, se refere ao esPaço e nele desenvolve suas determina- t\Y/ìrblicbheit) (cf. ibid.). O um-fora-do-outro, suprimido, equivale a uma
çóes a tíulo de linha e de plano, não é menos, no domínio do ser-fora-de- r,,,v,r forma do ideal, aáo punctiforme, àa negafo da negação pontual: a
si,para si rnesma e aí pondo suas determinaçóes, mas como no domínio , xrcÍÌsão (ou a multiplicidade) espacial transforma-se em ponto e o Ponto

do ser-fora-de-si, e, conseqüentemente, aparecendo como indiferente em (Ir('se mantém e se desenvolve não é senáo o tempo' Em suma: opondo-se
.rro p o itiuo subsistir-um-ao -lzdo-do-outro (da positiue Ne b ene inandtrb
este hen)
face do calmo um-ao-lado-do-outro. fusim posta para si mesma, ela é o s

tempo" (ibid., S 257, p.209; trad. p.247). No domínio da Idéia sob a ,l,re define a espacialidade, o rempo e a exterilridhde negatiull (cf. vuAe.,Iil,
forma do ser-olrtro, a progressáo do espaço ao tempo é apenas, Portanto, a y 164; trad. III, l, p.320).
expressáo do fato de que o primeiro negativo se tornou para-si. O que lissas análises das duas formas abstratas e ideais do ser-fora-de-si
equivale a dizer que o espaço, em si mesmo, é apenas a contradição da r{)r.lìam possíveis duas explicações: a que se refere ao modo de ser do
continuidade indiferente e do ser-um-fora-do-outro igualmente indife- ,ütsíuel. q,r. diz respeito ao reor essencial da Estética transcendental.
"
rente: que ele é o próprio ato de "passar diretamente ao tempo" (Uebergehen o momento da inruifo intervém tão logo passarnos do lógico ao natu-
.,Se
zuntichst in der Zeit) (ibid.,
S 260, p.212; trad. p. 250). r.rl. a Idéid" diz Hegel, "que é para-si, é considrrada segundo essa sua
Nem por isso o tempo deixa de ser algo de simplesmente abstrato e ,rttìrlade consigo, ela é um intuii' (Ünry., S 244, p' 196 vad' p' 463)'
ideal. Mesmo assim, interveio uma mutação no modo de ser da ( )r.:r, acrescen ta ele, a Idéia inninte é natureza. "Como um intuir, a Idéia é
ou negação por meio
exterioridade, já que o que acaba de introduzir-se, com o tempo, é a ll,)str em uma determinação unilateral da imediatez
unidade negatiua do ser-fora-de-si (cf. ibid., S 258). Tâmbém é possível ,lt. rrffìâ reflexáo exrerior" (ibid.). A narureza, Idéia imediata ou reflexo
t\\''ìr/erschein) da Idéia lógica em si mesma, encontra-se posta, desse modo'

It Assim a especulaçáo de tipo hegeliano remaneja aquilo que em Kant era concebido
como o positivo inerente à negação limitante. "Em todos os limites há também aìgo de l.l no entanto o momenro da dupla negaçáo intervém também no desenvolvimento do
positiuo: a superfície, por exemplo, é o limite do espaço corporal, e no entanto um conceito do espaço. É preciso, pot,-to, distinguir: "no esPãço a superfície..é' por
espaçotambém; alinhaéumespâçoqueéolimitedasuperfície,oPontoéolimiteda ."rto, negaçãoã"'n.g"ção; -"r, ..g.rndo suaverdade, ela é distinta do espaço"' Pois'
negatlvo
liÀha, e no entanto é sempre, ainda, um lugar no espaço" (Prolegômenos, trad. Gibelin, iÌcrescenta Hegel, "a negação no espaço é negação emrrm outro; no espaço o
Vrin, Paris, 1968, p.142). ,rin<la náo .h.!" ,.u direito" (8n4., S 257, Zul, V 9' Il' p' 48)'
"

46 47
na esfera da intuiçáo. A forma pura do intuir é apenas uma dererminação ,,'.r da alteridade, elas pertencem ao domínio do lógico, oposto ao da
da Idéia sob a forma do ser-outro. O espaço e o rempo, por conseguinte, ,'xtcrioridade; é isso que legitima as fórmulas hegelianas segundo as
são as duas primeiras determinações da Idéia intuinte e sua idealidade ,lrrais o espaço é uma "sensibilidade náo sensível e uma não-sensibilidade
abstrata vem da forma do intuir assim concebida. ora, a exterioridade ,.,'nsível" (Enzy, S 254, Zus., p. 43) e o tempo não só é um "sensível
posta livremenre na Idéia intuinte é o sensível. Em relação à universali- rr.r,r-sensível"(ibid., S 258), mas também um "sensível igualmente
dade do pensarnenro, a determinação do sensível é a singularidade ou, rrt'gativo" (VuAe., loc. cit.), o "negativo no sensível".r8
mais precisamenre, a singularidade definida pela exterioridade recíproca. Uma vez completadas essas análises, Hegel poderá pôr em evidência
Portanto, o sensível é um momento (no sentido especulativo desse ter- ,, vcrdadeiro alcance da doutrina da idealidade transcendental do es-
mo) do desenvolvimento do lógico. Do ponro de vista da conexão do l,,rço e do tempo. A tese de que o espaço e o temPo são formas da
singulaç o sensível é o ser-um-fora-do-ourro, do qual as duas
formas rrrtuição sensível pode ser recebida no corpus dos conhecimentos
abstratas são: o um-ao,kdo-do-outro (Nebenrinander) e o tm-depois-do- , rpeculativos, desde que despo.iada de suas implicaçóes subjetivistas
outro (Nacheinander), isto é, o espaço e o rempo (cf. ibid., S 20). Mais ,,tr fìnitistas. A distância que separa Kant de Hegel pode ser medida
uma vez, a linguagem da abstração não deve induzir-nos em erro: a dou- 1,.. 1o desencontro que se introduz entre condicionar e determinar. Em
trina especulativa da passagem da Idéia lógica à Idéia natural proíbe-nos llcgel O espaço e o tempo são para
essas duas operaçóes são uma só.
de ver no sensível uma mera degradação do inteligível e de querer llcgel determinações do mundo sensível, enquanto para Kant são
reconduzir as formas do Nebeneinander e do Nacheinandzr a conceitos de .rl)cnas condições da possibilidade do mundo sensível (Sìnnenweh).te
relação.r7 Pode-se dizer, pois, que o espaço e o rempo são abstrações li,clavia, para ambos, o espaço e o tempo são formas. Quando declara
gerais do sensível ou, em outros termos, que são as formas gerais do (lue espaço e tempo são ambos um "sensível náo-sensível", Hegel está
mundo sensível, aquilo pelo qual o sensível é sensível (cf. VuAe.,I, p. l2l; ,. t omando aquilo que Kant entende por forma pura e a prìori, isto é, a
trad. I, p. ll9).Além disso, na medida em que essas duas abstraçóes l.,rnra do fenômeno: "aquilo, somente no qual as sensações podem co-
gerais do sensível são igualmente determinações da Idéia sob a for- ,,rclenar-se e ser trazidas a uma certa forma, náo pode ser ainda sensa-
,,.rt)".20 Do mesmo modo, ao fazer do espaço a forma da exterioridade
,1,, Nebeneinander sensivel, Hegel reata com a tese de que o espaço é
ì7 Segundo Hegel, pode-se conceder aos leibnizianos que o espaço seja também um
,,,cra forma do sentido externo e, portanto, fundamento das relações
conceito de ordem, desde que este não seja mais que a expressão ja dteridade da
Idéia.'As coises naturais_esrão no espaço, e ele permanece ó fundam"rrto, porque a
natureza está sob o vínculo da exterioridade. Se se diz, como Leibniz, que o-esp"ço é " I;órnrula que equivale também a "sensível abstrato". Cf. DieWrnunf ìn der Geschichte,
uma ordem das coisas, que nada tem a ver com os noumeno, qui ele tem seus ccl.J. Hoffmeisteç Felix Meiner, Hamburg, 1966, p. 178,153 (abreviado: VG.); trad.
portadores nas coisas, percebemos então que, se tiramos as coisas" que preenchem o I'epaionu, coleçáo l0/lB, p.209, 181.
espaço' âs relaçóes espaciais permànecem, mesmo independentemente das coisas.
' ('.f . CkPura, B 480, A 452; :rad. p.352.
Pode-se dizer, sim, que ele é uma ordem, pois certamenìe ele é uma determinação
exterior; mas ele não é somente uma determinação exterior; é, antes, a exterioridade ' lbíd.,8 33, A l9; trad. p.53-4. Uma vez cortado de seu ancoramento finitista, o
conceito de forma da intuição torna-se suscetível de um emprego legítimo, especifi-
Çnz1,S 254,,Zus.,\f 9, II, p. 43). Certamente se rerá notado que
nele mesmo"
Hegel, para infletir a tese leibniziana de que o espaço é apenas ume cerra ordem no cendo assim o conceito especulativo de sensível não-sensível, pelo qual se indica que
comércio das coisas e fazê.-le dizer que a noção de ordem espacial coincide com a de :r irrtuição se eleuou a sua abstração. Tomadas todas as precauçóes, ambos os conceitos
exterioridade, emprega um dos argumenros da exposiçáo métalísica de Kant, a saber, sÍo, pois, equivalentes, o formal dessa intuição remetendo às modalidades do
que se pode fazer abstração dos objetos para obter o espaço como resíduo, sendo tlusstreinandereo intuitivo àpvaBegrffiosigkeitdo sensível (cf' \f/dL.,fi,p' 472;trtd.
impossível a operação inversa. P. 534-5).

48 49
dos fenômenos exteriores.2r Em suma: "se fazemos abstração daquilo '.,rl,jctiva, observa Hegel, náo díz respeito nem ao temPo nem ao espa-
que, no conceito kanriano, procede do idealismo subjetivo e de suas ,,,, Não obstante, "se aplicássemos essas determinaçóes ao esPaço e ao
determinaçóes, resta a determinação correta, segundo a qual o espaço é r( nrl)o, o primeiro seria a objetividade abstrata, o segundo a subjetivi-
uma pura forma, isto é, uma abstração, a da exterioridade imediata" ,l.,,lc abstrata" (ibid., S 258, p. 209; trad. p. 247)" Mas a subjetividade
(Enzy., S 254, p.206-7; trad. p. 245). Pois não se pode considerar o rlrrllrÌtâ do tempo, se se consente a compreendê-la, quer dizer: que o
espaço como algo de subjetivo na represenração. E preciso rejeitar a r, nrl)o deixou de ser forma pura do sentido interno Para tornar-se
remetendo à subjetividade e a
afirmação kantiana de que o espaço seria uma esrrururâ a prìori do
'r,'rioridade negativa, o negativo
,
sujeito cognoscenre finito, isto é, uma "intuição exrerior" que precede , rioridade remetendo à idealidade abstrata.24
'r,
os objetos e tem "sua sede no sujeito", considerada como'propriedade
formal que tem o sujeito de ser afetado pelos objeros",22 e pôr o espaço
como determinação ideal e abstrata, é verdade do ser-fora-de-si
- -
da ldéia. O mesmo vale para o rempo. Após tal retificação da doutrina
kantiana, pode-se dizer também que "o tempo é uma pura forma da
sensibilidade ou do ato de intuição" (Enzy., S 258, p. 209; rad.
p. 257).Esse remanejamenro da Estética rranscendenral repercure até
na Fenomeno/ogia do Espírito, em que Hegel nos diz que o rempo se
apresenta à consciência como intuição uazìa.23 Tâl como é, a teoria
kantiana conserya uma legitimidade parcial. O espaço e o rempo po-
dem ser concebidos como propriedades formais do sujeito quando este
é visado em uma filosofia do espíriro finito: para a inteligência que
determina o conreúdo da sensação como algo que esrá fora dela, rejei-
tando-o assim para o espaço e o tempo, estes se apresenram como "as
formas em que ela capta-inruitivamente" (Enzy., S 448, p. 363; trad.
p.401). É preciso, em suma, abandonar a represenração que separa
sujeito e objeto; a diferença enrre a objetividade e uma consciência

2 I "Para que eu possa representar-me as coisas como fora (e ao lado) umas das outras
-
por conseguinte, como não sendo somenre distintas, mas colocadas em lugares dife-
rentes é preciso que a represenração do espaço já esteja posta como fundamento"
- B 38, A34; trad. p. 56). Hegel exigirá, precisamenre, que essa referência
(CRPura,
- pâre que averdade da concepção de Kant possa
a minha representdção seja eliminada,
aparecer e ser mantida.
,,lrclling, no System der trltnszendentalen Idealismus, concebia o espaço e o tempo
1z CWura, B 41; trad. p.
58. ,,,,',, o resultldo de uma modificação da maneira de ser do sentido externo e do
23 Phãnomenologie des Geistes, ed. , nri(lo interno: "o tempo é apenas o sent.ido interno tornado objeto, o esPaço o
J. Hoffmeister, Felix Meiner, Hamburg, 1952, p.558
(abreviado: Phàno.); trad. J. Hyppolite, Aubier, Paris, v II, p. 305. ( rìri(lo externo que se torna objeto" (p. 137).

50 51
Capítulo 3
DA ARTICULACÃO
PUNCTIFORME DO TEMPO

/\ idealidade absrrata do tempo foi definida por Hegel como a unidade


l\ rtegatiua do ser-fora-de-si. É preciso, agora, seguir mais de perto as

rrrit rrleçóes de tal determinaéo. Aqui, como no exarne do conceito de espa-


,,,,, llegel começa por deslindar aquilo que a representafo do ser do tempo

lrrrlt'corter de conceitual. É d. r. esperat portanto, que se reproduza no


rrívt'l clo tempo um procedimento análogo ao da dialédca do espaço. Com
, .r.r, Hegel havia mostrado de que maneira e dentro de que limites e
,,1u'.t,rr de sua contingência
-
a representafo de um ponto movendo-se e
-
,l,rrr,kr nascimento a uma linha correspondia a uma necessidade conceitual,
'.( I'urìdo a qual, partindo-se do ponto concebido como o positivo, se che-

1'.rr'.r ì reconstituição da toralidade espacial.' Do mesmo modo, o Pre-

l.sse modo de tratar a questão decorre de uma posição de princípio: "na medida em
(luc nosso procedimento é este: após o estabelecimento do pensamento tornado ne-
,, ss:irio pelo conceito, perguntar como ele eparece em nossa representaçáo, entáo a
.rlìrrnaçáo seguinte é que ao pensemento do ser-Êora-de-si puro corresponde, na in-
rrrição, o espaço. Mesmo que nos equivocássemos aqui, isso náo iria contra a verdade
rlr' rìosso pensemento. Na ciência empírica temos de seguir o caminho inverso; nela
.r irrtuição empírica é o primeiro, e só então se chega eo pensamento do espaço. Para
,l, rrronstrar que o espaço é conforme a nosso pensamento, temos de comparar a
r, lrrcsentação do espaço com a determinação de nosso conceito" (8n4., S 254,W 9,
.'rr,., p.42). A comparaçáo entre o conceito e e representaçáo permite também

53
sente é represenrado como o que há de posiriva no tempo; o desenrolar .,,, r.-r do Presente, inserindo-o em um processo que tem sua lei de
do tempo apârece então como uma sucessão de Agora: como uma série l,,r rnação fornecida pelo negativo.
de termos, dos quais uns foram presentes, outros seráo presentes, en- () Presente, o Futuro, o Passado são as dimensões do temPo, bem o
quanto somente um é agora, isto é, Passado e Fururo são considerados ,,rl,.'rnos (cf. ibid., S 259). Como o espaço, também o tempo é uma
como modificações desse primeiro positivo que é o insranre presenre. lrrrltiplicidade tridimensional. Todavia, suas dimensões respectivas não
Aquilo que a representação vê logo de início no rempo é seu escoamenro, ,,1','rlecem ao mesmo regime. É o qtt. Hegel sublinha constantemente'
a passagem que engole todas as coisas. Daí a inclinação quase incoercível 'rl)()Íìdo à forma do ser-um-fora-do-outro,
que é a do espaço, o temPo
que leva a privilegiar o Presenre, o único que é, enquanto o Passado não é '(ìrÌìo momento da negaçáo. Se o tempo é o desfecho da dialética do
mais e o Futuro ainda não é. Esse meio em que se abismam todas as . ,,1);Ìço, nem por isso esse resultado deixa de marcar uma ruptura. O

coisas parece poupar apenas o Presente, cujo ser se concentra nesse qua- r.rrrpo náo é uma multiplicidade ao mesmo título que o esPaço, embora
se-objeto instantâneo, suspenso entre dois nadas, que é o Agora. Além ,,( ils rnomentos sejam também abstraçóes puras.2 O arcabouço lógico do

disso, gravita em torno dessa representação do modo de ser do rempo rrr'11:rtivo aplica-se ao tempo como ao espaço, mas'as diferenças do tem-
um certo número de expressóes características, todas construídas com o 1rr
r rriro indiferença do ser-fora-de-si que constitui a determinidade
têm essa
auxílio de noçóes que evocam a desaparição, a evanescência, o aniquila- rrrr,rliata do espaço" (Enzy., S 259, p.211; trad. p. 249).O ser aParen-
mento: um momento do tempo não aparece sem que o outro tenha desa- rr'nÌeÌìte mais denso do espaço repousa sobre uma carência (o retorno do
parecido, cessa quando aparece o outro, cada elemento do tempo se desva- r' nÌl)o ao espaço significa um estreitamente da esfera do negativo). Se os
nece ou se aniquila tão logo é posto ou veio à existência. Já se percebe que, nr()rììcntos do espaço, como dimensóes, Parecem mais reais que os do
para pôr em evidência a parte de verdade que parece filtrar,se pelos inrerstícios l, rÌìl)or "é apenas graças à forma da subsistência indiferente (gleichgühìgen
desses enunciados, é no pensamento e no vocabuiário do negativo que se lì,,rtber)" (lR, p. 10-1, 19 seq.). Se, no temPo, o desdobramento do
deve ir buscar os conceitos e formulas adequados, talhados à medida da rrr'1lrrtivo (dte Entfaltung des Negatiuen) expóe suas dimensóes como no
.*,o de espaço essas dimensóes não têm as "posiçóes -
diversas" que
realidade movente do tempo. Somente a proposiçáo especulativa é capaz '
desde que se consinta a seguir as injunções da crítica hegeliana de
-,
rrrrlrrrrrr no espaço (cf. ibid.). Dizer que o temPo é a negação do espaço
-aderir inteiramente a seu objeto. O tempo, deciara Hegel, "é o ser- ,,lrrivale adizer que ele é, primeiramente, a negaçáo da indiferença recípro-
que,
sendo, não é e, não sendo, l' (Enzy, S 258). Essa formula, várias vezes '.r (lue define o modo de ser da espacialidade; mas equivale a dizer tam-
retomada por Hegel, envolve o núcleo de que emanarn todos os enuncia- 1,,'rrr,afirma Hegel, que no domínio da exterioridade e em face do espaço o
A tarefa que Hegel se propóe,
dos parciais do tipo que acabamos de evocar. Ì, rÌrl)o exprime uma atiuidade negatìult ideal cuio primeiro resultado é a
portanto, é dupla: expor a negatividade constitutiva do tempo, dar conta ,lrrrrirração (Tilgung) da jusraposiçáo subsistente dos momentos do esPa-
da afinidade eletiva que liga o rempo ao negativo e, com isso, abaìar a '.,, (cf-. VuAe.,III, p. 256; vad.III, 1, P. 316). Esse apagamento da
calma e segura base sobre a qual repousa a evidência do primado conferido , 'r, rioridade indiferente do espaço permitirá esclarecer aquilo que consti-

legitimar uma terminologia comum; por exemplo: "o conceito geral do ser-para-si loi \ .1. RPh.,p. 10.- Para as duas exposições do conceito do tempo, dalenenser Logík
dado. Resta mostrar que a esse conceito corresponde a representaçáo que associamos , Jt ReaQhilosophie, referimo-nos à tradução leita por Koyré (cF. Hegel à Iëna, ,in
à expressão ser-para-si, e isso para ter o direito de empregar essa expressáo para desig- I r,,,las dlfistoirì de la Pensle Phìlosophique, Armand Colin, Paris' 1961' p. 203-6 e
rÌar esse conceito" (\fdl., I, p. 147; trad. p. 162). I (,5,Ì71).

54 55
tui a determinidade das diferenças temporais: enquanro
as dimensóes do Sc essa instância por assim dizer reflexiva da nofo especulativa de Mo-
espaço subsistem em sua calma justaposiso, as dimensões temporais nr('n(o evoc:r inevitavelmente a represenaso do instantâneo ou, melhor ain-
são
"imediaamenre sua auto-supressã o (S i c h+ e lb*-Aufb e b e n),, (/R, p. l O, l .23). ,1,r, rle'pontualidadd'de um instante indivisível, é porque, na verdade, tal
Para melhor acentuar a reversão, Hegel recorre a expressões que marcarn 'defini$o" hegeliana da passa-
a 1,r,r,t'climento é uma das conseqüências da
mesma origem conceitual: o que caracreriza as dimensões do tempo é
sua 11'rrr tlo espaço ao tempo: a dialética do "pontual" ali revelada só pode
"não-manurenção" (Nichtbestehen) (ibid., p. 13, 1.20), enquanto as do rrrn(ordar com a concepçáo das diferenças temporais como "momen-
espaço eram definidas justamente por sua "manutenção" (Bestehen) indife- r.',". fi6.d.ttdo a um nível superior de complexidade isto é, tornada
rente. A disdnção enrre a narureza das dimensões temporais e a das dimen- a negatividade que se apresentava pela
-
primeira vez como
1,.rr,r.si
sóes espaciais,
que assim se estabelece, dá lugar a uma justeza terminológica -,
vem a ser o Momento escandindo o desenrolar do tempo. Sabe-se que
ln rn(()
redobrada para designar a maneira de ser das primeiras. Se as diferenças de colocar o problema do tempo através da idéia de limite, de
.,,,,.r rrraneira
espaciais sáo momentos do desenvolvimento do conceito de espaço, isso ,pr('() ponto fornece a ilustrafo imediata, é clássica e se inscreve numa
vale
igualmente para o rempo, como aliás para qualquer ourro conceito subme- rr,r,liçiro inaugurada por Aristóteles. Mas Hegel teria podido referir-se a
tido aos imperativos da compreensão especulativa: mas as dimensões ou rrr,,,l,'los mais próximos dele. fusim, Fichte define a série temporal, obdda
diferenças do tempo são momenros do desdobrarnenro de seu conceiro tlcrivafo genética, como uma O mecanismo tendente a
serìe dzpontos.a
a 1u,r
duplo título. o nome de "momento", como se sabe, aplica-se somenre ao .r,,,,('lirrrar a legitimidade de tais comparaçóes havia sido elaborado já por
ideal, isto é, ao suprimido. uma coisa só é algo suprimido na medida em 1...r.r. Sem dúvida, se o que vale para a linha vale também para o tempo, a
que foi rransposro o limiar da unidade com seu contrário: nesse senrido, r,, iproca não se verifica, pois as partes do tempo sáo sucessivas e as da
todo suprimido é um momenro (cf. IVúL., I, p.94). Ademais, a lrrrlr.r sho simultâneas; entretanto, dentro dos limites de validade da ana-
determinidade das diferenças temporais reside em sua "desaparição ime- l,'1ir.r, o tempo oferece já a imagem de uma série unidimensional. Além
diati' (Enzy., S 259), e isso quer dizer, declara Hegel, que elas são.pura e ,1r,,r,,,0 tempo e o esPaço são quanta continua cujas partes não pode-
simplesmente momentâneas (momentanen)" (ibid., S 25g), isto é, que as r,uÌr .scr dadas sem estar encerradas
-
em certos limites, cada uma dessas
diferenças do tempo se suprimem elas mesmas de maneira imediata. Em
outros termos, cada "dimensão" do tempo se refere negativamente a si
mesma: é um Aufgehobene apenas momenrâneo, enquanro as dimensões
Itlorrrcnt), justamente para mostrar a distância entre o pensemento conceitual e a
espaciais subsistem no inrerior de uma mútua indiferença. Ao conceito f { l r csentaçáo intelectual: a caracterizaçâo da natureza do primeiro emprega exPres-
)

de momenro aplicado às determinações remporais corresponde, des- I',(: crìlprestadas do léxico do tempo, enquanto a da segunda as empresta do léxico
'l,,,sprço. É a Idéia mesmâ, diz Hegel, que se expõe através dos diversos elementos
se modo, a represenração daquilo que há de "momentâneo" no escoa-
;,.rrrilhados peÌas ciências filosóficas particulares: as diferenças que distinguem esses
mento do tempo: e o pensamento especulativo terá o direito de em- ,l, rrrtntos são apenas determinações da Idéia. Ora, "uma determinação em que a
l,l,1i.r ;rparece é ao mesmo tempo um momento fluente; por isso a ciência singular
pregar a mesma expressão, sem por isso confundir os conteúdos.3
, ,,n\isre igualmente em conhecer seu próprio conteúdo a título de obiero que i e, ao
l rzi l', conhecer também, de maneira imediata, a passagem do conteúdo a seu cír-
, rrl,r srrlrcrior. Assim a representação da diuisão tem isto de incorreto: siÍua uma-ao'
Lr,ltt lt-outra (nebeneìnander) as partes ou as ciências particulares, como se fossem
Estaríamos autorizados a sugerir uma contaminação recíproca entre determinaçáo r1,, r1,1r irnfvgi5 (ruhende) e, em sue diferenciação, substanciais, tais como espéciei'
lógica e determinação temporal, ou trata-se d. expressões metaforicas, que tl, ry, \ 18, p. 51; trad. p. 90). No final deste estudo voltaremos a esse gênero
mantêm apenas elos longínquos com o "gênio""p.n", , l, (lilcs(ão. -
ãspeculativo'da língua? seja como for,
acontece a Hegel, por exemplo, utilizar a expressáo ,,^o^rn o"flurrtr; VIII; tad.
1flìrurnd^ /',,r i,. \ 4, cit. p. 237 .

56 57
partes restituindo, por sua vez, a toralidade e, como tais, têm ambos ,ì rììeio da justaposição indiferente, condensa (zusammenzieht) a conri-
propriedades semelhanres. "Os pontos e os -insranres (Augenbliche)", dìz ,,,riclade espacial em um Ponto temporal (Zeitpunht), em um Agora
Kant, "são apenas limites, isto é, simples lugares da limitação do espaço r,l VuAe.,III, p. 156; trad. III, I, p.316). Em suma, o tempo é essa
e do tempo".5 Ponto e instante são, pois, subsumidos pelo conceito de , ,rL,rioridade negativa que se apresenta como o um-fora-do-ourro su-
limite: não podem deixar de partilhar as lnesmas propriedades. Dada a (das Punhntelle) (cf ibid', p' 164;
1,,'rrric1o, isto é, como o punctiforme
continuidade do espaço e do tempo, o ponro e o instanre exercem as ,,,,,1. p. 320).lá na Jenenser Logth (p.203, 1.8). Hegel escrevia que o
mesmas funçóes limirantes no interior de seus conrínuos respecrivos. A r( rÌìl)o enquanto negativo oposto ao igual a si mesmo espacial se
"ponrualidade" do instanre rorna-se assim bem mais que uma imagem - -
uì()stra na articulação de seus momentos como o exc/udente em geral
cômoda, e sem que isso venha chocar-se com o princípio da continuida- t,l,r, Ar.uschliessende), o que quer dizer: como Ponto ou limite' Essa ex-
de do tempo. Assim se compreende o deslizamenro terminológico de nos é dito que a
l,r,ssiro reaparece na exposição da Enciclopédia, onde
Kant, que chamará os momenros do tempo de Zeìtpunhte: ponros rem- ,1, r('n.Ì1inação negativa do rempo reside no "ponto exclusivo" (S ZeOl'
porais.6 Schelling, enfim, reroma o fio dessas análises: se a primeira sín- I l, r:cl não se deixa levar pelas palavras mui16 pelo contrário nem
tese do tempo com o espaço, lê-se no Systent de 1800, só poderia ser - -
, ,, herdeiro de uma tradição metafísica apressadamente adotada' Se
expressa pela linha ou, dizendo-o de outro modo, pelo 'ponto expandi-
r,.ro vê inconvenienre em conservar uma terminologia homogênea apli-
do", é porque o rempo é "ponto puro" ou "limite puro".7 , ,,r.lo-se a formas que estão longe de se recobrir inteiramente, é porque
Ora, vimos que também Hegel transpõe o ponto para o rempo, procu- , ,,,( rÌnprego é legitimado por noçóes cuja fundação lógica completa
rando um equivalente dele no Agora (/etzt), corn o auxílio do conceiro de -
, ,,Íìr.ontfâ em ourra parte rais como as de limire. de ser-para-si e
limite. Mas pudemos notar, iguaÌmente, que não se tratava meramente de -
,1, IJno. Somente pela conjunção dessas determinações podemos dar
uma correspondência enrre o ponto espacial e o limite remporal, fundada
, r)rÌriÌ da natureza "Punctiforme" do tempo.
sobre as relações de analogia. Sua conexão é mais forte: é de ordem
l: o momento do ser-para-si que encontra sua expressão adequada
dialética e, portanro, apóia-se sobre uma negação. "O espaço suprimido",
r,(' r('rÌ1po (Hegel o reitera constantemente);além disso, seu princípio
com efeito, "é primeiramenre o ponro e, desenvolvido para si mesmo, ele é
, ,, ,lo Uno (cf . Enzy., S 267 , p. 222, 11.13-4). Mais exatamente ainda:
o rempo" (E"ry., S 259, p.2ll; trad. p. 249). AÃrmar que a negatividade
de ser da conexão entre espaço e tempo, em que
',, r,irtude do modo
,
inerente ao ser do ponto se tornou para-si sem ter abandonado com isso
- , .{( sc apresenta como a existência da constante supressão clo espaço, o
a esfera da exterioridade é dizer que a multiplicidade espacial se rrans- r, rrpo é o "si puro do ser-para-si, como o espxço é o puro ser-em-si, posto
formou em ponro -
e que o ponto que se mantém não é ourro senão o .,l,1, tiVamente" (RPh., p. 12, 1.25-6)' Muito mais compreensível, essa
tempo. Uma tal mudança, aos oihos de Hegel, nada tem de meraforica:
,,Ir rrn:r lórmula vem ao encontro cla definiçáo do S 257,segundo a qual
limita-se a exprimir a atividade negativa ideal do rempo, que, eliminando
,, r, rrìl)o é apenas a negatividade do ponto tornada para-si e que' portanto'
, Í, (.r Ì raÌo era apenas ern-si. chamar de Ponro ranto a primeira diferença
,1,, r'spilÇo quanto a do tempo é, por conseguinte, um procedimento que
5 CUura, B 211, A 169 rrad. p. 170.
o Cf. p. ex. ibid.,B 455, A427;B 459, A43t;
, rrr lr:ÌseS lógicas expiícitas e sólidas: tudo se Passa' aos olhos de Hegel,
trad. p. 338 e 342; cf. crmbém Krìtìh der
PraktischenWrnunf, ed. J. Kopper, Reclam, Stuttgart, 1966, p.169; trad. E picavet,
,ìrr() se o movimento conceitual que vai do ponto espacial ao Ponto
PUB Paris, 1960, p. 101. r rrr lrt) Ì.11 exprimisse a progressão dialética por excelência, precisamente
' Ed. cit., p. 133-5. , ,
1
, r, 1:r que conduz do em-si ao para-si. De acordo com o próprio princípio

58 59
dessa progressão, se dirá então que somenre no rempo reside a verdade r,,,Lr a armat'o lógica que articula a exposição da essência do tempo, o
do ponto, que nele enconrra sua "realidade efetiva' (cf. Enzy., S 257, , ,,,.rtleamento de suas três dimensões' Justamente, a proposiçáo funda-
Zus., p.48). lá, a simples noçáo do ser-para-si convoca a imagem da rrrnrrÌl da análise hegeliana põe em relação a primeira determinidade do
pontualidade: é todo o "vasro campo do estar-aí',, diz Hegel, que vem r. rÌrl)o e esse conceito do limite: "o Agora é em sua essência uma relação
"contrair-se, por assim dizer, como em uma porÌra, na rl,,.rrluraÌÌÌ€nte negativa (das Jetzt ist ìn seinem Wesen absolut negatiue
forma simples
do ser-para-s1" (Enzy., S 96, Zus., p. 203; trad. p. 529).8 O (Jno, que, t;, ,itlttrng)" (/L.,p.204,1.24-5; cf. l.I3-4). Tentemos reconstituir os
mesmo
como se sabe, é um momento do desenvolvimento do conceito do ser- 1',rncipais passos das anáiises empreendidas por Hegel. No coraçáo
para-si, está no mesmo caso, e com mais forte razão: sendo apenas a ,l, l'rcsente, entendido como esse indivisível ponto de junção e de inflexão
'
relação simples do ser-para-si consigo mesrrìo, o ser-um é seu próprio ,1,, rrrovimenro de reflexão da totalidade temporal, referência, ou relação ao
limite e, por isso mesmo, sugere imediarame'te o uno quarirativo da ( )utro, e negação são o mesmo. O Agora, já o sabemos, é limite: mas ele é
individualidade pontual voltada sobre si mesma e exclusiva (cf. wttL.,r, 1,r,., isanÌente aquele
"limire que se suprime e se ultrapassa como limite e é
p. l54e II, p. 263; :radI, p. 168-9 e II, p. 297). Oconceito do ser_ ,rrrr ()utro" (R?h.,p. 11, 1.7-8). Esse Uno que é imediatamente é o Pre-
um aplica-se ranto à multiplicidade espacial quanro à temporal, se bem ,{ rÌr(', ser imediato que oferece, Portanto, o Ponto de partida da progressão
que as duas instâncias que o expõem não sejam da mesma ordem de ,l ,lcrerminações. "O Agora y'; é a determinação imediata do tempo ou
r',

compÌexidade, pois uma está do lado do em-si e a ourra do lado do para- .,, , lrrimeira dimensão" (ibid.,l.l9-21). Escavado por uma negação in-
si; conseqüenremente, "o Uno do espaço", pode-se ler na exposição da /, r //// constitutiva, votado ao aPagamento Por sua auto-abolição, o Agora
Realphìlosophie, "pertence, no fundo, enquanro Uno, ao ,.-po, para o ',, l, l inear-se na abertura punctiforme, que ele prePara' o Futuro, que se
espaço ele é apenas seu além; para o rempo, ao contrário, ele é imanente" ,l r ( ()rì1o sua verdadei ra Bestimmung, no duplo sentido da palavra: sua
(p. 10, 1.26-8). Pode-se dizer então que a ponrualidade pouco ,1, r,.r.rrrinat'o e sua destinaéo. o Presente, segundo a formula àa Encìclo-
mais que uma imagem a reboque de um conceiro é inerente ao fato de .r',,lrtt, é "prenhe do Futuro" (S 259, Zus', p.55). Pelo
vínculo do negativo,
serdeterminado para-si. Embora seja verdade que a-rnultiplicidade espacial , ,, r,,trpda dimensão encadeia-se assim à primeira: o Futuro é esse outro
possui no ponro uma determinidade correspondenre ao (Jno, o ponro ,;,,, ó a açáo de negar (Negieren) o Agota(cf. RPh., p. 11, 1.14-5)'O
explica Hegel ao sair de si mesmo rorna-se um ourro, isto é, uma- ., 1,,,rrc{o momento é a verdade do primeiro ou seu cumprimento' Em
-
linha; em ourros rermos, o uno espacial desaparece pelo próprio fato de ,,,1r().s rermos, o Futuro constiCui a realidade do Presente, pois esse limite
entrar em relação com a conrinuidade (cf. WdL.,I, p. 199; tad. p.221). , ,
'
,1 ,115 s vazio que define o Agora preenche-se (erfiillt sich) no Futuro (cf'
Mas para reaparecer em sua plena verdad e no Zeitpunht. t l , l. conexão assim concebida entre o Agora e seu Outro
204, l.2I-3).4
o
caráter punctiforme do tempo permanece insuficientemente com- ,,rÌì o auxílio da negação dererminada' que os faz' por assim dizer,
preendido, porrânro, enquanro não o referimos aos conceiros lógicos do .,,,, r r r n icarem por dentro designa o Futuro como a essência do Presente
- isto é, a
Uno e do Ìimite. Ora, esra última noção, na Lógica de Iena, é pensada l,, rrrrite reconhecer no não-ser do Presente o ser do Futuro,
como re/ação negatiua (negatiue Beziehung).e com esse conceiro está dada ,, ,l,,l,r11e do Agora. Este, com efeiro, não é nada mais que essa reviravol-

"(...)a pontualidade, o esrar-determinado para si,, (WdL.,I, p. 199).


,,.r,, inrcrvenha diretamente, não está âusenre. Tânto a idéia da "singularidade"
CL lL, p.3-5. Nós nos reporrarerÌros m:ris freqüer.Ìremenre às duas exposiçóes de ,,,rrsritutiva do Presente como "agora" (S 259) quanto a do "pot]to exclusivo" que
-
Iena, menos sumárias quc a da Enciclopédia, da qual, entreranro, ,1, lìrrc a cleterminação negativa do t.mpo (S 260) supõem esse conceito do limite.
.on..i,o,embora
"rr.

60 6r
ra' gue esrá sempre se reproduzindo ou se repondo,
em que o ser desa-
parece no não-ser, o qual se converte imediatamente ','',,., resultado - nesse caso, resulrado do Passado (cf. Enzy., S 259,
o ser. Dizer que o Futuro é a essência do presente
em seu contrário,
','. p.55). Entretanto, se nos referimos à instância do ser-aí, o Pre-
é afirmar gue o Futuro , rìr( se mostra, antes, como a reunião (Wreinigung) da dimensão do
éjustamente esse momento do negatiuo no presertte,
que ele éimedi"ta_ i ,, ,.rrlo (entenda-se: o ser-aí como suprimido, como não sendo-aí") e
menre no Presente (cf. Mh., p. IÌ, 1.23-5) .,Es.se
não_ser oposto a si ,1, ,lirnensão do Futuro (isto é: "o não-ser-aí, mas dererminado a ser-
mesmo (o limire), como o arivo ou como aquilo
qu. é, ,' ) ( l)ropìi", UI, ii, 2, S 102).
em-si que exclui seu conrrário, éo Futttro, ao "nr.r, o enre_
qual o Agora não pode
resisrir, porque ele é a essência do prese're, que é,
com efeiro, o Não_
ser de si mesmo. o Presente, suprimindo-se de
tal modo que é antes o
Futuro que se engendra (vem a ser) nele, é ele mesmo esse
Futuro; ou
esse Porvir não é ele mesmo por vir, é acluilo
que suprime o presenre
mas, na medida em que é isso, esse (algo) sirnpl.,
qr. é uma ação de
negação absoluta, ele é antes o presente que, enrretanto,
em sua essên-
cia, é na mesma medida não-ser de si mesrrro, ou Fururo,,
ÇL., p.203,
l'26-36). Resra a última face da triplicicracle remporal: ,.^
i,i,rid,
nenhuma, sua compreensão especulativa clecorre <iiretamenre
da lógica
da dupla negação. "o Agora tem seu não-ser em si
mesmo e rorna_se
para si mesmo imediatamente um outro, nìas esse
outro, o Futuro no
qual o Presente se transforma, é imediatamenre o outro
de si mesmo,
pois agora é presente. Mas não é esse primeiro Agora,
esse conceito do
Presenre, e sim um Agora que se engendrou
do presente pelo Fururo,
um Agora no qual o Futuro e o presenre são igualmente
zuprimidos e
absorvidos, um ser que é o não-ser de ambos, a atividade,
,up.r"d" .
absolutamenre em repouso, de um sobre o ourro,, (ibid.,
p. ioq, t.t-
l0)' do passado, terceira dimensão oposra às duas ou-
Esse repouso é o
tras, em que se reduziu a diferença entre o presente
e o Futuro. O
momenro final, que restirui a rotalidade temporal,
decorre, pois, da
relação do negativo a si mesmo: a negação do presente
nega a si mesma.
o Futuro se faz do Passado; este "é o Agora que suprimiu e absorveu o
Agora negador do imediaro", negação segunda, isto .,negação
é, dirigida
contra o Agora negador" (Rph., p. 12, 1.7). Com isso- encerra_se
o
percurso efetuado pela reflexão do rempo. Tiata-se,
pois, de um circuito
em que ora é o Passado que ocupa o lugar de resultatlo,
de verdade do
tempo cumprido (cf. ibid.,p. 12,l.l3). ora é o próprio presenre
que se

62
63
Capítulo 4
CRíTICA DO "DIREITO NATURAL''
DO AGORA

l-l cgel parece oferecer-nos, desse modo, uma "representação" da


I I Inultiplicidade temporal nivelada pela norma do Presente e, através
,1, .t,', cleterminada pela estrutura do Agora e não há como subestimar
- é um Agora negador e, por
, ,,, í,rto. Afinal, não é dito do Futuro que ele

'.,,rrr clizer, uma espécie de Presente em segunda potência? E o Passado,


l,"r surì vez, não é reconduzido ao Presenre pelo atalho da dupla negat'o
,1,' r\g1;1", confundindo-se assim com aquele Presente que, por intermédio
,1, ',,'rr outro, o Futuro, retorna sobre si mesmo? À primeira vista, tudo se

l'r',',.r como se as diferenças do tempo se tivessem rebatido sobre o plano


l',,r,l.rrnental do Presente, como se o Futuro e o Passado não pudessem
,r ( rìcarados senão como presentes ou modificações do Presente; com
| .o, .ì() que pafece,
estaría-mos a um passo de restaurar a representação de
,,rr r(rììpo unidimensional, em que se desenrolariam os Agora em sua
, (lr( rìLi:Ì monótona e punctiforme. Tirdo leva a crer, portanto, que Hegel
, ',., lt,rclido muito bem concentrar toda a essência do tempo no Presente.
i ,l .rp:rrência, entretanto, comporta sua contrapartida. Poder-se-ia fazer
i,,'r.u (lue o Futuro, por exemplo, longe de esgotar sua natureza no papel
,1,
',,,,tlo do Presente, é, muito mais, a essência do Presente, diante da qual
,, .r'r tlo Agora se desfaz, confessa seu vazio perfazendo-se no Futuro, sua
,,,,,,,, rcalidade; poder-se-ia acrescentar ainda, para meihor relativizar o

65
que acaba de ser dito, que, se o Presente e o Futuro se desmancham no
r,l lil'|t., p. 12, l.19-20). Mas um pouco antes Hegel acabava de declarar
Passado, é em virtude da verdade desta última dimensão e, desse modo, é
'lr, ('ssrì unidade das dimensões é exprimida, justamenre, pelo Agora (cf.
bem mais no Passado que o rempo perfeiro (uottendet), o resultado puro, a
totalidade, o rempo verdadeiro ou real vai haurir sua substânci a (cf. Rph., '1,t,/ Ll6-7); e isso é reiterado na Encicl"opédìa, onde ficamos sabendo que
,, I'rt'scrìte é a "unidade concretd'das dimensões temporais (cf. S 249).
p' 12, l.l2-5). E no enranro, não veríamos nessas observações nada mais \l( rn (lo rnais, tal unidade concreta apresenta uma irritante tendência a
que o mero desnudamento da estreiteza do ponto de vista inicial, que fazia , rrr rl.r'rrrizar os conteúdos que unifica. E eis-nos de volta à tese da onipresença

do Presente a base real do tempo; mas nem por isso uma tal p.Ãp..tiu" ,1,' l'rr'scnte, isto é, à triplicidade constituída pelo primeiro Agora, o mo-
sobre o rempo é inteiramente desqualificada. As diferenças do rempo não rrr, nrr) corr€spondente à primeira negação e o último momento, que é a
são senão momentos de seu conceito: tal é, em suma, o argumento hegeliano. r' l,.r(,:ìo dirigida contra o Agora negador: ora, conclui Hegel, "em virtude
com isso fica sublinhado, por acréscimo, que nenhuma dimensão poderia ,l' ,n,livisibilidade do Agora, todos os três são um só e mesmo Agora'
reivindicar para si mesma o esraruro de fonre exclusiva do ser do rempo. rlil'lr. çt. 12, l.l0-l). Não haverá grande dificuldade em compreender
"Essa realidade do Agora, em que o ser do Futuro
é também o contrário ,1",',,rcl:r momento abstrato da unidade possa ser posto como sendo o
imediato de si mesmo, (é) agora esse contrário ern si mesmo. E a supres-
l,rrl,, pois, como se sabe, o conceito, ao termo de seu circuito, restitui a
são posta dos dois é ooutrora (das Ehma/), o rempo ref:ìetido em si ou
real. Mas o Outrora não é ele mesmo para si, é igualmente o Agora ',',',., r,crdade do Todo. Mas, ao afirmar, por exemplo, que o tempo real é
rr,ris o Agora que o Passado", Hegel não restabelece um desequilíbrio
transformando-se pelo Futuro no contrário de si mesmo e portanto não ,,rrr,,lrigico entre os momentos do tempo? Reconhece-se segufarnente, nas
é separado destes; em si mesmo ele não é senão esse circuito inteuo (nur
,rr.rlrs. s hegelianas, uma espécie de prioridade ontológica do Presenre; será
dieser ganze Kreiskuf , isto é, o rempo real, que, pelo Agora e pelo Futuro,
lrr, , i\() concluir disso com o auxílio , é claro, de certas formulas hegelianx
se torna outrora. o tempo real, oposto enquanro outrora ao presente e ao -
,;'rc há uma primazia ontológica do Presente? Em outros rermos, será
Futuro, em si mesmo é apenas um momenro da reflexão inteira; ele é
', n r ir ido dizer que, se as determinações que permitem explicar
r nattJÍeza
como (o) momento que exprime o rempo reromado sobre si mesmo, (que
1
^
,l', rr'rrrpo foram encontradas inicialmenre graças à análise da estrutura do
o exprime) como o igual a si mesmo referindo-se a si mesmo e, especial- I'r,'.r'rr(c, isso ocorre porque, em última instância e nuln nível mais funda-
mente, como determinidade do referir-se a si mesmo, ou ele (o tempo real)
,r. nr.rl, é o ser do Presente que determina a essência do tempo? Ora, o
é seu (da determinidade) primeiro momenro; ele é bem mais o Agora que 1,rr,rl,:gio ontológico do momento do Presente parece, pelo contrário, ir
o Passado' que' tanto quanto os outros momentos, suprime a si mesmo, .l',',rrrrrindo à medida que avança a análise hegeliana.
para que o infinito inteiro, como referindo-se ele mesmo a si mesmo, seja
\ 1'rirneira vista, tudo se passa como se Hegel romasse ao pé da lerra o
assim, para si mesmo, imediatamente momento passivo ou primeiro,, (/2., , l'r,' r:rnônico: só o Presente é, o Passado não é mais e o Futuro não é
p. 204-5). Eis, pois, o que pode surpreender: essa atribuição alternada da ,,,,,1' "No senddo positivo do tempo", diz ele, podemos dizer tranqüi-
realidade do tempo às diversas dimensões, nesre caso ao passado e ao pre- I r. rr , rt' rlue "só o Presente é, o Antes e o Depois não são" (E"ry , S 259,
sente. Mas o conceito do tempo é justamenre essa reflexão que a cada ,,, , W 9, II, p. 55). Mas isso implica também que o tempo é suscetível
momento de sua exposição repõe em circulação o conreúdo real do rempo, .1, r,'r rrrn outro sentido, que não seu "sentido positivo". Hegel começa,
repartindo-o, por assim dizer, entre as diferenças internas e assim fazendo-
i',,,,, l)()r' reforçar essa evidência prévia e inabalável da representaçáo, a
as comunicar por dentro. Para dizê-lo de outro modo, e dizê-lo simples-
,i', r. ,lue no escoamento do tempo somente o tempo que é agora Presen-
mente, o tempo só é como unidade do Presenre, do Futuro e do passado ,, '.,1', a plenitude do ser. Em outros termos, o Agora aparece inicial-

66
b/
menre, segundo a observação de
Hegel, ..fixado como ente,, (ibid.,
p.210,1.39). Só o Agora é e ele é de S 259, ,1,ìr\ rr':ìços são interdependentes, uma vez que decorrem da constituição
maneira imediata, poiìr.u ,.r r._
fissura, sua igualdade-a-si-mesmo ,1,, lltto, isto é, do ser-para-si tornado seu próprio limite: são essas três
definem justamente sua imediatez.
Daí sua posirividade: com efeito, anre ,1, r,'r'rninaçõe5 "llne", "ser-para-si", "limite" que moldam a maneira
turo ou do Passado, que não esrão
o negativo dos momentos do Fu- -
,l, tcr do Agora- e devem ser pressupostas na origem de uma das proposi-
aí, ele se põe precisamente como
afirmativo (cf. ibìd., p.210, o ,,,,, r íìrndamentais sobre a estrutura do Agora, a saber, que ele é, em sua
1.40 ; p.zlt,| ). Em suma, o senrido
positivo do tempo decorre do ser
imeiiar. e afirmatiuo do Agora. Mas tar '..,:rrcia, uma relação absolutamente negativa (cf. JL., p.204, 1.24-5).
é o destino da afirmação imediata l.l.r. someÍìt€ o limite se deixa definir com o auxílio do conceito de rela-
do ente-aí que era se reverre não menos
imediaramente, tão logo é posta. ,,.rr) rìcgativa, como era o caso na Lógica dz lena, mas também o Uno.2 O
Como se sabe, Hegel buscará mostrar
iguaÌmente que o Agora é em
sua essência urna relação negariva,
implica em dizer que o ser do presente, o que
ern si mesmo, é apenas aìgo de lJno exclusivo ou o ser-para-si se suprime" (trad. Bourgeois, p. 361). Esse texto
abstrato (cf. ibid., p. 2ll,l.2), um ,.. qr" é ern si mesmo, imediara- srrscita duas observaçóes:
mente' a negação de sua imediatez, 1.") Se é verdade que o conceito do Uno temporal só adquire toda sua envergâ-
sua suprcssão cre si nresmo. por ,lrrra explicativa quando referido ao conceito lógico do Uno, ele mesmo momento do
é preciso fazer justiça ao- reor positivo cerro,
qu" . Agu.r, oferece à primeira ,lcsenvolvimento da categoria do ser-para-si, é preciso entáo, ao menos sob este ân-
abordagem: ele faz parre da clarificaçao gulo, que as noçóes de Uno e de Múltiplo convenham ao ser do tempo. Que seja
dá .on..ito de rempo, e é por ele
que Hegel começa' Mas a justiça .rssirn, é o que Hegel indica suficientemente eo conceber o tempo como uma,extenJlíl
especulariva é crifere'te da justiça ,lotada da estrutura de uma multiplicidade. Além disso, a determinação da repulsáo
distribuída pelo pensamenro representativo. que é
Esta u"i de en.onr.o i rrlro está ausente dele (cf. WdL.,I, p. 194); também nele a repulsão se converte desde
do ser do Presente, d.rd. qu. se rorna logo em atração: o momento do Presente, na medida em que é o excludente em geral,
reflexiva, ser instável e de"pori"
uma ,ìo fìesmo tempo repele seu Outro, o momento do Futuro, e o atrai para si, pois o
incurável imperfeição, r*bo."
e por isso rnesrno .- afirmarivo l;uturo é justamente o momento do negativo no Presente e o cumprimento de seu
-
imediata consistência. Debrucemo_.ror, em sua
conceito. Ora, é evidente que a aproximação dessas noções lógicas e temporais só
poi., unìa vez mais, sobre a aná_
lise hegeliana da estrurura do pode acentuar o caráter nivelado da multipticidade temporal, o fato de que entáo os
Agora . ,r*.-o, esboçar-se com rÌìo[Ìentos temporais tornarn-se um o que é o outro e, conseqüentemente, cada um
mais niti-
dez_aquilo que pode definir o
,l.,ddo negativo do rempo. cleles é um Uno ou, ainda, um dos We/en: em suma, tornam-se uma só e mesma coisa.

Que forma revesre a essência do Agor" ï como se Sem dúvida, desde que se acrescente a essa observaçáo que Hegel, aqui, se situa
comporra esre, ranro cxplicitamente no nível da categoria da quantidade, que esse ponto de vista náo é
em relação a si mesmo quanto
em relação aos outros momenros cxclusivo e está muito longe de esgotar todo o sentido do procedimento hegeliano.
O Agora rem a narureza do sìmpbs do tempo?
2.") A idéia de comportamento deve ser compreendida à luz da distinção e do
e" se compolta negativamente.r Esses vínculo que Hegel estabelece entre os conceitos de relação (Bezìehung) e de referência
(Wrhà/tniss); já o texto citado acima o sugere. Na base do comportamento há uma
re|erência (Wrhìi/tniss): o comportamento (drts Wrha/ten) exprime um "refcrir-se a"
' o emprego feiro aqui do termo "comrorremento"
e conforme ao senrido que
(sich uerhaben zt). Se o comportâmento pode ser definido como utn tipo de relação,
lhe,i é porque, de outro lado, o conceito de referência pode ser construído com o auxílio do
i:l-j;:,)"?ïi;?r,::(f ,r!,i;,,::;::ïf:;rtr*,.;Ï::,,,:"1:ï:i,|::iïi!i,, conceito mais primitivo de relaçáo. 'A referência', diz. Hegel, "é a unidade da relação
tin'as desse rexro evocam
os várìos (welen) são um o que
p..,i*i,;;;;;;;';;j:ï.':j,'Jj'ïj;Ïll';ilijiïH; r si e da relação a outra coisa" (Das Wrhriltniss ist die Einheit der Beziehung auf sich und
der Beziehung auf Andere) (Enzy., S 135, Zus., \(i 8, I, p. 267).O comportamento
é o outro, ."a" u- iuno ou ainda ,_ !o, variu'
eles são, por consequinre..uma
só e mesma .oir..'O, enrão, se negativo do Uno mostra, conseqüentemente, que se trata aqui, sem dúvida, de uma
derada em si m.sm"a, ela é, enquanto a repulsão é consi- Íbrma de referência, o Uno referindo-se a si mesmo no próprio ato de repelir os outros
,-r*pr;;;;;r"r"'negativo dos vários l,nos
em relação aos ourros, também,
.r.r.i;;;;;',"ru,ïrrnru" (Bezìehung)uns uns Unos. Mais precisamente, podemos ler na Lógica, "o ser-para-si é no Uno a unidade
ourros; e como aqueles aos quais com os posta do ser e do ser-aí como reunião (Wreìnìgung) absoluta da relaçáo a outra coisa
o l,no se ..f"r"'"-ì.u a" ,.p.tir rã ü;;, ;.,
ele se reFere a si m.smo. drepulsão;, e da relação a si" (I, p. 1.54-t).
;;;;, ì;é_, "to essencìaìmenr e, atação; e o
Os elementos que entrâm na constituição do Uno, articulando seu conceito, são os

68
69
que Hegel chama de relação negariva é, com efeito, a relação do negati- rrl,('ssura, que fascina a rePresentaÉ.o, volta com mais força; é Preciso que
vo a si mesmo. Ora, o Uno é justamente o ser-para-si como relação do ,.1.r seja submetida, comopor toda parte, à determinaçáo conceitual, neste
negativo asi mesmo (cf. Enzy., S 96). Do mesmo modo que o Uno da ,.,..r à do simples. Seguramenre, a simplicidade do Agora acarreta sua
Lógica do Ser, o Uno temporal não é algo sem relação.3 Daí o compor- rrr,lrvisibilidade ( cf. RPh., p. 12, 1.10). Hegel, como se sabe, adverte
tamento negativo do simples: r.,iri:rs vezes que o Agora é apenas um limite, e aliás um
"limite simples"
l. O Agora é algo de simples (Entfache), ele é perfeitamente, ab- , rr;. "vazio" é preenchido pelo Futuro (cf. JL., p.204, 1'11)' Não sendo
-
solutamente simples.a Com isso, a imagem do Zeiryunkr inexrenso, sem .,111, cle composro, não comporrando nenhuma diversidade interna, o Ago-
r,r rriro é determinável, isto é, 'exclui de si absolutamente toda multiplicidade
! , l)or isso mesmo, é absolutamente determinado; não um todo ou um
seguintes: "1.") a negação em geral; 2.") duas ncga.çíresl 3.") cstas, mesmo sendo duas, rltltttttLüIt que se estenderia em si (e) que' em si mesmo, teria também um
não são senío uma;4.") ao mesmo tempo são oposras; 1.") relação a si, identidade nr()rì.ìento indeterminado, um diverso que, indiferente ou exterior em si
como tal; 6.") relação negatìua e, enrreranro, a si rncsrno" (VdL., \ p. 154; trad. p.
169).
ril(srììo, se reportasse a um outro" (1L., p.203, l'12-6)' Tal simplicidade
I "Quando se trata do Uno, a idéia do s Várìos costun't r vir-nos logo de início ao espíriro. rrlt'rcCe, pois, desde logo, o asPecto da imedia$o. Na forma da simplicidade
coloca-se então a questão de saber de onde vêm os vários. Nã representação não se tuntrÌrn-se, por um lado, a indiferenciação que é imediatez
ou ser e' Por
encontra nenhuma resposta para essa questão, pois cla considera os váiios como
,,urro, a forma da igualdade a si mesmo, que se confunde com o fato de ser
presentes (uorhanden) imediatamente e que o Uno scí vale, justamente, como um
entre os Vários. Segundo o conceito, ao contrário, o Uno lorma a pressuposição dos ,.ilr rclação consigo mesmo.5 No plano propriamente lógico, essa disposi-
vários e está implicado no pensarnenro do uno quc cle põe a si mesmo como o vários.
',.r() corresponde,
primeiramente' à constituição do ser-para-si, cuja rela-
O Uno que é para si, como tal, não é, com efcito, :rJgo sem relaçáo, como o ser, mas
é relação assim como o ser-aí; só que não se rcfcre èc,mo Áìgo a um Ourro, mas é, ,,.r. rr si mesmo é, com efeito, a imediatez, do mesmo modo que o lJno'
como unidade do AJgo e do Outro, relação a si mesmo bim dizer, essa relaçáo é "o que é em si mesmo sem diferençi' (Enz1t ,
uma relação negativa. Nisso o (Jno se mostra coÍÌÌo o que", é" absolutamente incompa-
I" )r. sua vez, se mosrra como
,,, ,)(r). Além disso, essa determinação maximal, que define o modo de ser
tível consigo mesmo, como o que se repele de si mesmo, c aquilo como o que ele se põe
é o Vários" (Enzy., S 97, Zus., V 8, I, p. 201; trad. p. j30). Se nos reportamos à teoria ,1,, sirnples, confere ao Agora o carárer da singularidade (Einzelheit), ísro
especulativa do tcmpo, o ser-Llm do tempo r.ros iuroriza a isso: além de ver que a
conexáo Uno/MúltipÌo, posra em perspectiva sobre a extensão temporal, escápa à
, , ,11 "dererminidade determinadd' específica do individual Punctiforme
esfera de compreensão da representação, pâra a qual cada limire do rempo se t, L ìbilt. , $ 259; WdL., Il, p. 262) . Como vemos' a forma do simpies se
ta somente sob o aspecto do ser imediatamente dispo'ível e intercamtiável,"pr"ì"n- algo que é'
1 n( ()rìtra na origem da representação que fixa o Agora como
vemos
também que a relação negatiua, corno determinação fundamenral do U.o tcmporal,
permite esboçaruma primeira resposra à questão: "por que o tempo passa?". Tianspo- I rrrbora perrinenre, já que a explicaçáo conceitual a incorpora à sua mar-
nhamos o texto hegeÌiano: o rempo se escoa porque o ú.to t.-pãrj ," ,1,.r, cssa é apenas uma visada unilateral. Hegel nos adverte disso logo em
-or,.".o'-o
aquilo que é absoluramente incompatível consigo mesmo, comò aquilo que se repele
de si mesmo pondo deste modo os outros momentos. Em outros ,èr^or, ar,rr,.,r" '., 1,rricla: sim, o Agora é algo de simples, esse limite indivisível, mas é igual-
"
do Uno, sendo a de uma relaçáo negativa, inrroduz na multiplicidade temporal a ,,,,rrte de uma "simplicidade negativa absolutJ' UL', p'203, 1'l 1-2)' O
forrna da sucessãa. Co'tudo, é possível norar queJ pela via da lógica do Uno, a explica-
ção da forma da sucessão remporal perm".tice ãirtd" subordinada ao princípio da
'1,o1rro"
temporal não era concebido como o excludente em geral? Aquilo
exclusão rycíproca; esre, com efeito, deve pressupor, para pô-los em relaçáô, os entes já ,1rr, ó em si mesmo sem diferença não pode' por isso mesmo, deixar de
prontos. "Segundo a imediatez do ente-para-si, esses Vários s'ao entes, e a repulsão dos
Unos que estão no elemento do ser torna-se nessa medida sua repulsão à. un, .- ,., lrrir de si todo ourro e, com isso, a diferença retorna sobre o simples.
relação aos ourros, enquanto realidades presenres (als vorhandenerj, o,r .,-" exchsão
recíproca' (8n4., S
27,p. t I 5; trad. p. 360). Esse é apenas um dos lados da compre--
ensão especulativ:r do tempo, o lado que está mergulhado no elemento do scr.
.\ìtltattfiichselbstbeziehen., Sichselbstgleichseìn; Sichseibstgleichbeìt. Cf . RPh.' 10' I'28-9
Cf. lL., p. 203, 11.17 e 35; p. 204, 1.22; RPh.,p. 11, 1.14. 1r. I l, l.l-2; WdL.,I, p. 154.

70 7r
segundo a
Lógica, a singularidade, ranro a simples quanro a concrera,
re- ,,, 1, dizer que o ponto subsiste entre a multiplicidade dos outros pon-
1[s
duz-se ao diferenciar (das unterrcheidez) como t"l. Isso r,, , I )izer do Uno temporal que ele não é algo sem rela$o é dizer que ele é
vale para o rempo:
o limite simples é o que se diferencia absoluramenre, ò tempo rle atiuo, na Tatigheit e sua simplicidade negativa são coextensivas.
mesmo não ,111,
é senão esse "diferenciar-se" (cf. Rph., p. ll, l.B). Assim chegamos ao | ,,rc .simples, em sua negação absoluta, é o ativo"; toda a atividade do
dado da rEu/são específica da multipricidade rernporal: era ,\1r,r'rr se concentra em seu "negar simples".T Em suma, o que há de absolu-
se e*-plic" por
uma "diferenciação do uno consigo mesmo" (Enz1., ,,,,',r fundo do conceito do Agora é essa negação absoluta,
s 97). Tüdose passa relação
como se a diferenciação implicada pera rekção exc/usiua do presente ,ltftr('ttciante de exclusão que se incluì a sì mesma ou, se quisermos, dupla
singu-
lar se tivesse voltado sobre si mesma, se interiorizasse, por assim r, 1i.rçho.8 Para o Agora o simples fato de pôr-se em rela$"o acarreta sua
dizer.6
2' Examinemos mais de perto essa reversão que nos leva da ausência aéo de negar, ele nega a si
,l, .,.r1rerição: sendo sua determinação exclusiva a
-
de diferença interna à diferenciafo consigo nÌesmo, e chegaremos
a preci- ,r(\rÌìo reportando-se imediatamente ao Outro. Já estão aí todos os ele-
sar melhor a relação negativa que, segundo Hegel, .*pri-. rrr( rìros que permitem especificar a relaçáo negativa que define o ser do
essêncja do
Agora. Ser absolutamente determinado, como é o caso do " \11tr;\. utlut rekção absolutamente diferenciante do simpbs (absolut dffirente
Agora, equivaÌe
a ser absolutarnente exclusivo, se se consente a [ìanter a li,',ìthung des Einfachen) UL., p. 203, l.16-7). "Esse simples, em sua
conjunção entre
diferenciaçáo e exclusão. ora, a relação de exc/usiío rorna-se reflexiva por sua .r'1i.rçiro absoluta, é o ativo, o infinito oposto a si mesmo como (a) um
absolutização, isro é, inclui a si mesma: rrara_se, pois, de na condição de negafo ele se reporta também absolutamente a
.rm, relação de ,1,,r.r1-rr-si;
exclusão que é, ao mesmo rempo, auto-exclusiva- Tal ó ,,,r .rrntrário, e sua ação, sua simples negafo é relat'o a seu contrário, e o
o comporramenro
negativo do simples: ele se suprime, embora excluindo .\1,,re é imediata-mente o contrário de si mesmo, a negaçáo de si. Enquan-
seu Ourro. O não,agora dos momentos simples do rempo "brol.rr"-..r..
decorre da r,r r'ssc limite, em sua (ação de) exclusão ou em sua atividade, suprime a si
reflexividade total de sua ação de exclusão. A negatividad.
do porrto ..- nr(stììo, é antes seu não-ser aquilo que age contra ele mesmo e que é sua
pacial, em contrapartida, não desemboca em uma tar inflexão (ibìd., l.l7-25). Mais precisamente, quais termos essa relação
do negari- ,,, l,,.rçiro"
,lrÍt lt'nciante póe em relação? O limite simples negando-se a si mesmo, tal
t
, ,, [Jno temporal; o Agora, pois, na separação de seus momentos negati-
l:ïr-:l-,::l,os,aqui
à lógica do rerceiro momenro do Conceito subjerivo, a da singu_ \r,',, é esse limite que é uma "relafo de sua (afo de) exclusão àquilo que o
Ìàfldade. Kecordemo_la hem esquem:rticamenre. Scjl a proposição:
o sinqular é um , (ele mesmo)" (ibid., p. 204, l).2-3).
ente-para-:i. Do conrcúdo desse enunciado segue-se
ser-para-si) que o singular, enquanro negatividide referindo-se
1ba:ra'rcrnerer-se à dïalérice do ',ltri
rì ,.ì"rìn* ) Agora, ou o momento do Presente, é essa relação diferenciante (cf.
t
ser a identidade imediata do. negativo; ist*o é, o singurar " -.r.n",
é essa abstração qu.'d.t..-i.,.
o Conceito como um imediato..Eis-nos, pois, reánduzitlos ,l't,1., 7.13-4). Como deixar de assinalar, então, que esse resultado
,r, qu.lir*i;;.-Err"
remisúo à categoria da qualidade
-ortr"i 1.") que o singular "o é ,.p"lrá.;" ;; À.rrno
,,,rrrl)romete e modifica o alcance do primado ontológico que teria sido
de si mesmo. supondo,
i l_r]-,1.neg.rtuít, cuJos termos sãopor isso, os múltipìos ãutro, úror; 2.o) que ele é
reri(no
, ,
'
r r, e clido ao Presente no início da análise? Certo, Hegel mesmo o afirma,
_os
orrtros que crc pressupõe. isto é, ere se mostra
como umare/.ação excltuìua Bezielt,,ng)icf. Wht.,U, p.2;;). Ë;ã;,"-
.(alssch/iessentle
menre, uma tal referência à dialética da singularidãe não
dissimuia o i",o d. qu.
se assim não fosse, isto é,"
dialética do tempo, seja como for, se vincula à lógica do ser.
se a singularidade ou unidade corìcrerâ do Agoïa rosse
da -.r-" l1 , p. 203, l.l7-8, L20-l; cf. também 11.20,25,27; p,204, 1.10.
conceiro' seria preciso emprestar ao presente si"ngular a significação "rà.À ir.ì'a" ''(l:.sse) [Jno é esse referir-se-a-si-mesmo, o ser-igual-a-si-mesmo que é absolutamente
de ,rm furid"-.r-,-
to, dc unì Jrtb,ekt, em suma o sentido de uma base substancial (cl.
Enzy., S 164). Ora, , xclusivo (de tudo), o que quer dizer: que neg o outrl. Acluilo que, por isso mesmo,
o ser.que se.pode legitìmamenre atribuir ao Agora é o da Lógica
imediato e abstrato. "'t;"ii"",
u_ r., ,' 1,ois :rbsoluto em scu conce ito, é a negação, isto é, ele é em si mesmo negação, ele é
( ssc outro que é negado por ele" (RPh., p. 10,1.28-32).

il

72 73
o Âgora "é o conceito do tempo" (ibid. | .23). seria preciso,
, talvez, continuar ,lr lcrìa, bem como da exposifo da Enciclopédia, Hegel não volra mais a
a frase e dizer que o Agora, justa-mente, é apenas o conceiro
do tempo? ,',.u cssa formula; irá retomá-la, um pouco modificada, no primeiro
Hegel, com efeito, associa essa formula a uma outra: empresrar
ao Agora o ,,,1'írrrlo da Fenomenologia do Espirito. Qual o alcance de ral fórmula?
papel de conceito do tempo é simplesmenre reconhecer que
o Agora é lrrr, irrlmente, ela vem reforçar a representação do Agora dotado da
'ãbsolutamente simples" e, mais que
isso, que se trata jusramente de um ,,,rrsi.stência positiva de um ente singular, pois, à primeira vista, dizer do
conceito por assim dizer "vazio", que somenre o Futuro
é capazde preencher o Isto absoluto do tempo édizer que só o Agora é (ilgo);
,\11rlrr que ele é
ou realizat pois o Futuro nós o sabemos é a realidade presente.,
- do rrr,l, pâr€c€ passar-se como se, por essa designação, o Agora acedesse de
Na verdade, as análises hegelianas conÌo
-
furcio'assem em dois registros
se ,ir,'rru modo ao estatuto de uma coisa, de um singular concreto. E no
-
desembocam em um duplo resultado. primeiranlente, é o presente,
sem ! lrr.ìrìto, ao menos formalmente, essa maneira de designar o Agora está de
dúvida, que fornece a escala que permite medir a envergadura
do conceito .r,,)r(lo com as análises precedentes, pois o Isto segundo a teoria lógica da
de tempo. O tempo não era definido, por ocasião d. ,u" dedução,
como a { ,ris'ì
-
exprime a unidade negativa e constitui assim a pontualidade da
unidade negativa do ser-fora-de-si? ora, o Presenre é rambém
unidade -
,,,i.s;Ì.r(r Portanto, essa remissão à singularidade concreta do Agora por
negativa (cf. En4t, S 259, Zus., \7 9, II, p. 55) A relação
absolutamente da determinação do Isto não pode mais iludir.rl O desenrolar
diferenciante do simples não é uma contradiçiío posta? rsso 'rr(rrÌìédio
equivare a dizer
'rlrt'r'ior da demonstraçáo hegeliana, como vimos, fez sobressair da
que o termo que ela põe em relação é uma unidade negativa,
um rermo ',,rrr1'licidade do Agora singular sua base negativa: esse Simples que exprime
que, mesmo sendo posto, se suprime e põe seu contrário (cf.
WdL.,il, .r r'\r'utura do Agora mostra-se antes, desde que se desenvolva seu conceito,
p' 49). Em segundo lugar, aparece com suficienre evidência que "o presenre ,,'nìo relação negativa que se expulsa de si mesma pondo seu contrário.
não é nem mais nem menos que o passado e o Fururo' (Mh.,
p. 12, l.l7_
8). se o Presenre é apenas relafo negativa, é preciso cerrarnenre
concluir
que, de fato,'não há nem Presente nem Futuro, mas somente ()
essa relaÉ.o contexto em que se deve situar essa observaçáo de Hegel é o seguinte: cosrumarnos
mútua dos dois" UL, p. 203, 1.37-B). rcprescntar-nos uma coisa, indica Hegel, segundo dois aspectos complementares; por
lado, a coisa é considerada como tendo propriedades que a constitucm como ral;
Chegaremos ao mesmo resultado quanro ao direito do Agora 'rrn
a que l)()r outro, vemos na coisa o resultado de uma reunião de várias matérias diversas que
lhe seja arribuído o ser do rempo com o acréscìmo de algumas íorrn.lm a coisa por sua associaçáo exterior e seu limite quantitativo. Enquanto o Ãla
determinações novas -
se tomarmos um outro caminho seguido pela
(1)lr-rr) exprime as propriedades enquanto momcntos refletidos r.ra base da coisa, o
- prossegue graças
análise hegeliana. Esta
lirtthént (Auch) expúme as meras relações quantitativas que têm lugar na coleção das
a uma mudança d-e r.girtro, rrrrtérias da coisa. A coisa tem, pois, duas determinaçóes: "o Tàmbém é o que se
pois, por intermédio do conceito do Isto, reremos d.e fazer .rl)rcscr.ìta à intuição exterior como extensão cspaci:r1; mas o Isto, a unidade negativa,
,_,m dlsrrio,
,orrstitui a pontuaÌidade (hmknnlitiir) da coisa" (\YdL.,il, p. 119; trad. p. 138-9).
passando pela exposição fenomenológica.
l)(rìtrc os "exemplos" dados por Hegcl retenhamos este: "o espírito é um 1rla em um
No início da exposifo da Lrigica de Iena, com efeito, Hegel chama o
', nticlo muito mais profundo, eÌr outros termos ele é a unidade negativa na qual suas
Agora 'b Isto absoluto do tempo" (p.203, r. l l No decorrer ,letcrminações se penetram reciprocamente". Têremos ocasiáo de voltar a essa
). da-s exposições (lr'te rmiÌ1ação comum ao espírito e ao rempo. s512 xnálise deve ser aproximada
,l,rrlLrela que se encontra no segundo capítulo-J[dx
da Fenomenologia, em particular cf. p.
,)o-2; tred. I, p. 94-7.

e "O limite ou o Agora é vazio; pois é pura e simplesmente simples,


l:. preciso levar em contâ, entretânto, que com essa mudança de terreno o eixo da
ou o conceito do ,l.rnonstração se desloca. As análises precedentes seguiam independentemente de
tempo, ele.se preenche no Fururo. O Èuturo é suì realidade, 'p"i . Ag;; J;;r""
totl:r repartição dos conteírdos entre um Sujeito e um Objeto, enquanto agora essa
essência relaçáo absolutamente negativa" (]L., p.204,
r.2r-5).Ii. todo,iodo, bem se r cÍirência figura no próprio coração do problema: a realidade do Agora terá de situar-
vê, o privilégio epistemológico doAgora não pode ser negado.
\( .1.Ì1 relerênciâ ao teor das operações da consciência sensível.

74
75
Em suma' a Tatigkeit do Simpres
não é o subsistir de um 5s1 irnsc[i266 l!, rl'urÌta-se a ela: "o que é o Agora?"; a essa pergunta sobre uma essência
efêmero' é bem verdade,
-". .ro enranr; real em seu desvanecimento - ,1., .,i pode responder por um exemplo, "o Agora é a noite"; registra-se
mesmo mas um movimento de mediação _ , .,.r verdade e ao meio-dia se consrara que ela se dissipou. "O Agora que
tempo - isto é, ,ã mediação
a reflexão do conceito do
pura que recai na imediatez,, (Mh., , ,r rrcrite é conseruado, isto é, rratado como aquilo pelo que ele se fez
l '22-4)'-,Em úlrima instância, p. 13,
o Ago." e apenas uma reÌat'o l'.r.,\:Ì1, como vm ente; mas ele se demonstra, ao contrário, como um náo-
absorutamente
diferenciante do simples:
qu;. dir..'qu. o Simples comporta, , rr(t. Sem dúvida, o próprio Agora se conserva, mas como um Agora ral
o início' uma mediaçáo; 1- leia-se sob esse ânguro a frase
desde
rìão é a noite; do mesmo modo, peranre o dia que ele é atuaÌmente,
anódina de Hegel:, "o presenre aparentemenre 'lr(
concrero é o reszt/tado do passado ,
' Agora se mantém, mas como um Agora tal que não é o dia, ou como
prenhe do Futuro" (Erzy, 259, eé
S Zus.,.V 9, II, p. 55)._O que foi lrn tregatiuo em geraì. Esse Agora que se conserya não é, pois, imediaro,
assim obtido unicamenre
pela via do desenvolvimento ,,,.,s rnediatizado; pois é determinado como o que permanece e se manrém
das determinadas
conceiruais do Agora, ou seja,
que o limite simples é antes a 1,, 1,, .fato de que ourra coisa, a saber, o dia e a noite, não é. No entanro, ele
negariúdade
ligando uma multipricidade de
unidades rregativas, a ciência da experiência , .rirrda tão simples quanro antes, Agora, e, nessa simplicidade, indiferente
da consciência -- no caso' a teoria da crrlr* sensiuel-
o ensina com a ..' (Ìue se joga ainda perto dele; tão pouco a noite e o dia são seu ser, ranto
mesma necessidade.'2 Lembremos,
a esse propósiro, os argumentos , 1,' óainda dia e noite; não é afetado em nada por seu ser-ourro. Um tal
clássicos do primeiro capítulo
da Fenomenotogia do Espírito. rr()rììento simples, que, pela mediação da negação, não é nem isto nem
Os termos "Ìsro,, e .Agora, ocupam ,,,|trilo, mas apenas um Niío-Isto, e que é igualmente indiferente a ser isro
um lugar privilegiado no léxico
cerreza-sensível' A quem se impoe, da
com efeiro, esse "direito inaudito,,
do
rrrr aquilo, nós o denominamos um uniuersaf Ubid., p.8l-2; trad. I,
Agora, de que nos fala Hegel,
,.rão, . anres de tudo, à Certeza sensíveÌ? l' [ì4). Assim, aCerteza sensível faz em si mesma a experiência de que o
Aos olhos dela, o Agora só pode
ser, jusramenre, o .,Isto r\rlora é, antes, um Não-isto e de que o Simples imediato do Presente se
absoluro,, do tempo;
aquilo a que se refere sua c:rt:ezaé
este Agora da sensação; o
que ela visa, o rìr()stra "como simplicidade mediatizada, ou como uniuersalìdade" (ibìd.,
que é para ela o essencral do tempo
é"o p..r..rte
I

orìgintiria (U-ìmpression) em
vivo, essa
impressão l' 82; trad. I, p.85). Mais tarde, na Enciclopédia, Hegel irá registrar o
rcda ru" .rp.rr" e inexprimível r,''íduo dessa dialética: "o Agora rem um direito inaudito, não é nada
substância.
o Agora' único que é, é o fruto d.rr" uiod" -
',( rìão o Agora singular; mas esse privilégio, naquilo que rem de exclusivo,
da certeza sensível sobre o
tempo; ele é, pois, o Isro do tempo
ou, como diz Hegel, uma das formas ,lissolveu-se, fundiu-se, dispersou-se no momento mesmo em que o
(Gestalr) do ser do Isro,
das quais a otrro e o eq ui (cf. phano., , rruncio" (S 258, Zus.,W 9, 11, p. 50).13
I, p. 83). O procedimento hegeliano p. gl; trad.
é muiro conhecido: rrara_se, em
primeiro lugaa de fazer comque
a cerreza sensíveÌ enuncie
o que ela visa;
"(...) esse próprio Agora é algo que não só passa, mas já passou quando é: Agora;
quando tenho consciência do Agora, quando o pronuncio, ele iá nío existe mais, mas
Ìr Sern dúvida, ao atribuir
é um outro" (Beueìse, 14. Vories., p. 115; trad. Gibelin, Leçons sur la Phìlonphie de la

":lï::" a significação. de um Isto,


Hegel está sublinhando Religion, III Parte, 2, Leçons su.r les Prettues de l'Exìste nce de Dìeu, Vrin, paris,
conceptua.lização matemarizan,.,.:,rT ..fi.çeo,,
_-;"rn sempre útil que faz <ioa
_ 1959, p.78). Neo há como náo enrrar em acordo quanro a essa primeira consraração,
a saber, que o-momenro presenre, no caso esre do qual se crê Íàlai e no quai se crê falar,
ìnstante punctiForme. "(...) .
1-g:1" "-_
llstÀnte sem comorirr
4;;" ,.-
,o o sentido de ser isro, nesre

;Ì:ì;;,:i:iii;: il:; ;:it il: :ï ïïïJ,í:1ïã,é:; 1::: (:í,::i:J::


acrescenrar que a imposição
ao contrário de ser esse ente-aí acabado e imediato, é um não-ente. Assim Bergson,
pare quem o presenre, longe de ser o que é, é simplesmente o que sefaz: "nada y'menos
dess.,.somente,, (nuò é àbra quc o momenro presenre, se vocês enrendem por isso esse limite indivisível que
a"
"",."1-.iì;ï;;i" separa o passado do futuro. Quando pensamos esse presente como devendo ser,

76 77
oourro lado da experiência fenomenológica feita sobre o Isto do rempo
'lirrrr:rçáo, de que o Agora é. O Agora e o ato de indicar o Agora sáo
à deixis. LJma vez que a certeza sensível se mosrrou incapaz de
refere-se ,,,rrstituídos de tal modo que nem um nem o outro são um Simples
enunciar o conteúdo imediato de sua perspectiva sobre o tempo que é ,"r,.liato, mas são ambos um movimento que tem em si diversos
Agora sem deslocá-lo em sua simplicidade, pedir-se-á enrão a ela que o rrrrrrrìeÍÌros" (ibìd., p.85; trad. I, p. 88).15 O Isto absoluto do tempo
mostre, que o idenrifique, não que o capre indireramente ou à distância, ,,r.i posto, portanto, como um Não-isto ou como ultrapassado; Hegel
o que o Êaria bascular na mediação, mas que o exiba em sua muda
I'rr)sscgue: "Isto é posto, mas é antes um outro que está posto, ou o Isto
proximidade. uma vez mais o Agora se esquiva e mosrra sua face negativa. ,,r.i sLrprimido; e esse ser-outro ou essa supressão do primeiro é, por
"Mostram-n os o Agora, este Agora aquì, Agora; ele já deixou '.r.r vez, suprimido, e assim voltou ao primeiro. Mas esse primeiro termo
de ser quando
o mostram; o Agora que é é um outro, que não o que é mostrado, e vemos
que o Agora é justamente isto: já não ser rnais quando é. O Agora como
',llctido em si mesmo não é mais exatamente o mesmo que era
rrir,i:rlrnente, a saber, um imediato. Ele é algo refletido em si mesmo ou
nos é mostrado é um passado, e essa é sua verdacle; ele não tem a verdade ,tulles, que no ser-outro permanece o que é: um Agora que é
do ser. E no enranto é verdade que ele foi. Mas o que foi, o qúe pasrou ,1,',,,lutamente muitos Agora' (ibid., p.85-6; trad. I, p. 88-9).'6 Enfim,
(getuesen), não é, de fato, nenhuma essência (keitt wesen),
ere não é-, e era ., ,,,nclusão de Hegel nos fornece a versão fenomenológica da
com o ser que esrávamos tratando" (phtino., p. 85; trad. I, p. gg).ra O ato '.rrrrlrlicidade absolutamente negativa do Agora: "o ato de indicar é, pois,
de indicar (das Aufzeigen) náo é uma operação sirnples e imediata; muito ,lr' rÌìcsfiÌo o movimento que exprime aquilo que o Agora é em verdade,
pelo contrário, a certeza sensível se vê engajada em um movimento
complexo, ao termo do qual o Agora se mosrra, antes, como um Isto negatiuo
',," 'csultado, precisamente, ou uma pluralidade de Agora reunidos e
,',rríìcados (zusammengefassr). Indicar é fazer a experiência de que o
(ein negatiues Diese) ou um "complexo simples" (eìne einfache Komp/cxion), \r,,r're é um uniuersaf Ubid., p. 86; trad. I, p. 89).'7
um "conjunto sìmples de múltiplos rermos" (ein eìnfaches Zusammen uon
uielen) (cf. ìbid., p.86, 91). A dÍì-ris dacerezasensível, em lugar de atingir
Irssrr triplicidade da estrutura temporal, ou essa série de fases, nós já a víamos em obra
o Agora ao termo de uma pura relação imediata, comporra os seguintes rr.rs exposições de lena, sem nenhuma referência por certo ao ato de indicar e ao
momenros: "1.o) eu indico o Agora e ele é afirmado como o verdadeiro; - do Presente
''.rr" titular dessa operação. Por exemplo, a passagem - ao Passado: "o Agora
r( rìì seu não-ser em si mesmo e torna-se para si mesmo imediatamente um outro, mâs
mas eu o indico como um passado, ou como o que é suprimido, eu
, s\c outro, o Futuro no qual o Presente se transforma, é imediatamente o outro de si
suprimo a primeira verdade; 2.") agora eu afirmo como segunda rÌìcsmo, pois agora é presente. Mas não é esse primeiro Agora, esse conceito do
verdade que ele patsou, que ele esrá suprimido; 3.") mas o que passou I'r csente, e sim um Agora que se engendrou do Presente pelo Futuro" ÇL., p.204, 1 .1 -
'). C)u ainda a passagem do Futuro ao Passado: 'b Futuro, em oposição ao Agora,
não é, eu suprimo o ser-passado ou o ser-suprimido, em outros termos a ,.rrlrressão existente do Set é determinado como a supressão não-existente (do ser). Esse
segunda verdade: nego assim a negação do Agora e com isso volto à primeira ,t,r,t-:er, suprimindo-se imediatamente ele mesmo, é ele mesmo cxistente e agore. mas
,, rr conceito é outro, que não o do Agora imediato propriamente dito: é oAgora que
.,rrprimiu e absorveu o Agora negador do imediato. Como oposto a essas outrâs
,lirrrcnsões, este é o Passado' (R"h., p. ll-2).
ele não é ainda; e quando o pensâmos como exisrente ele já passou" (Matière et I)() nìesmo modo, podia-se ler na Realphilosophìe: "nós a (dimensão do Passado)
Mémoire, éd. du Centenaire, p. 291). rì.uìternos lora das outras dimensões. Mas graças a sua ìmediatez (notadamente) de
'a Aquilo que chamo "meu presente" oncle está situado? pergunta-se Bergson. "será \( r l)or sua vez negaçío dirigida contra o Agora negador ou de fazer do Futuro Passa-
aquém, será além do ponto matemático que eu determinà idlalmente quãndo p.nro ,l,,,rrr (ainda) em relação a si mesma, de suprimi-la enquanto negaçáo, ele (o Passa-
no insranre presente?" Esú aquém e além ao mcsmo rempo; . dà tudo aquilo ,l,r) I ele mesmo Agora; e, em virtude da indivisibilidade do Agora, os três são um só
"n..,
que chamo "meu presenre" intromete'se em meu passadoipois "o momenro em que , rÌÌcsrrÌo Agora' (p. l2).
faìo já está longe de mrm" (Marière et Mémoìre, p. )SO;. I rs:rs análises célebres exigem algumas observações suplementares, relacionadas ao

78 79
assunto que nos inreressa aqui. É cerro que, pera dialética da
experiência da certeza ,r,r rneio-dia essa proposição não é mais verdadeira. 'Agora é meio-dia": tal afirmação,
pu-demos reenconrrar, e sob uma ãurra luz, os r"sultados p-pri"-*t.
;.9nsível, suprime a primeira, é de novo a simples afirmação de um Agora aqui, cuja revoga-
"lógicos" sobre o reor essencialmente negativo ,1rrc
do Agora. Mas de que ,'i*ár.",
samenre' a cerreza sensível é levada a, fazer t expàriê.cia .1" f*.i- çÍo está prometida por umâ nova e semelhante afirmação. Essa "simples experiência'
urrìd"d. .,.g"iiï" do liÌrcra, por assim dizer, o espaço lógico em que se inscreve a simplicidade mediarizada
Agora?
,kr Agora. Ora, para mostrâr a incomparibilidade entre a visada deste Agora aqui e a
A exemplo de Feuerbach, não sentimos um ce*o mal-estar ao ler esses textos
,
Hegeì? constituindo-se advogado da consciência sensível, Feuerbach
de visada deste outro Agora aqui, Hegel apóia-se manifestamente sobre uma propriedade
náo vê na ,lo termo'Agora', enquanto a consciência sensível se referia simplesmentc à, coisa. E
dialética
urarc'ca que negel ,J"...'^1.-"
oue Hegel
Hesel .",1" mais
-..;" que rrìr (;-..,--
,,jogo
,,.iogo r^ palavras
--,r
desenvolvè
desenvolve nada
n_ada r'ìt de
de ,
às costas da l)()r isso que é preciso fazer com que ela fale: ela dirá enrão imediatamente o contrário
consciência natural", acompanhado do dogmatisrno dn ;p.nr",r,"r,to
pens:rmenro jáiá seguro
seeuro de si ,l:rquilo que ela visa.
mesmo como verdade" (cf. Critique de ra philrsophie de Hegel,'in frIarifestrs
púB paris, r 960, p. 3B). Taìvez i i-p..rrio
Philosophiques, trad. L. Althusser, Perguntar-se-á se a esse ênfase dada a uma caracrerística do advérbio 'Agora"
Já q,,. ,:,,rresponde uma demonstração leita sobre a natureza do objeto. C) termo 'Agora'é,
não haveria ali, no fundo, nada mais que um:ì q.,"..1" d. prl.n,."rl
.or.,o f"nr" ,le fato, um embrayeur e, como tal, tem a propriedade da unicidade da referência,
Feuerbach, provenha do fato de que Heg.r, ,n .n"Ìir". as paJ"vr"s-ch"ve do léxio da
Cer.teza sensível Isto, Agora., Aquì
isto é, nunca se aplica a mais de uma "coisa" poÍ vez, Além do mais, como todo
p."u"l"ce rise de cerros ,.;;;.;;;.*_
-
úricos, d,esses termos -,-parec" tmltrayeur, o 'Agori', aplicando-se âpenas a um objeto por vez, quando começa a
que os lingüistas d"ro,r,i,,"n, em[trayeurs (]alobson, .1. o. .*.
Essaìs de Lingtistìqrte Gënéra/e, ed. Minuir) ot ìtt,lic,tJore, r!í u,,rnrio6"nurn;r,.,t .rplicar-se e um novo objeto deixa de ser aplicável ao anterior. Parece difícil dizer,
t. p, rntáo, que a verdade da proposiçáo'Agora é meio-dii'possa, a menos de urna
ex. Problèm.es de Linguìstique Générare, Galimarcl, 2..
cd.) e qr. n a.r.-in""^
".rrFlammarion). rctrospecção ilegítima, invalidar a verdade da proposiçáo'Agora é noite". Será preci-
?rcun1t11c.tais
ot pdrticaldr$.egocênrricos (cr. sìgnifcation et véritë, ed.
Sem dúvida, Hegel os trata de uma rnaneira q,ì" poa" surpreender. so levar mais longe essa revanche da consciência sensível, não vendo na palavra'Ago-
ri' mais que um nome próprio?
. Segundo a lógica dos conceiros do Aigo c d,, L)u11s, a determinação {o Isto só
intervém para marcar uma distinção. s. cli...,r",r.r,,s A um ser-aí É o qu" pensa Feuerbach, que fundamenta nisso sua ergumcrÌraçío: "meu irmão
e B um outro ser-aí,
então B é determinado como sendo o Outro; mas A igualmen,. sc chama João, Adolfo; mas, além dcle, existe uma infinidade de outros homens que
é o O.,tro i. B. sc chamam também João, Adolfo.
ambos são da mesma maneira o outro. Aìgo e ourro sáo, Disso se segue que meu João não é uma realidadeì
com efeito, antes de tudo, Scgue-se que a joanidade é uma verdade? Para a consciência sensível todas as pala-
entes-aí, isto é, AJgo, e no entanro .ad" um d.l"s é tembém
um outro. É indif.ãt., vras são nomes próprios, nomina propria; sáo em si indiferentes em relaçáo ao
pois, qual é designado como sendo primeiramentc e puramente
'^
AJgo. Ora, o rermo rÌresmo ser, para a consciência sensível não são mais que signos que lhe permitem
Isto serve precìsamente para fi*ar,^aó drfrrerça ,nïr. a . n . Alg.
-:r-9 l1lp9,
que deve ser tomado como o. afrmatiuo (rf. Uìdt,., ti p. ío+1. etingir seu alvo pela via mais curra" (op. cit., p.38). Como se vê, Feuerbach se opôe
"
imediato da consciência sensível, senão fixar o único lado afiimarivo
eue faz o saber Ícrmo a termo ao raciocínio de Hegel; pode-se ler, com efeito, na Ltígica: "cremos
doìsto? Errq.,".,o, cxprimir por Isto algo de totaìmente determinado; esquecemos que a linguagem,
no nível da consideração lógica, ele era apenes um meio d. diÊ.r.n.irr.o;li;'."
Ìundo equivalentes e intercambiáveis, o Isto fenomenológico torna-se como obra do entendimento, só enuncia o universal, salvo quar.rdo se trata do nome
o correlato da .lc um objeto singular; mas o nome individual é desprovido de sentido (eìn Sinnloses),
consciência sensível, um singular sensível, u- ,"g-"nã de
espaço-temp; ;,;.. justamente porque não exprime nada de universal e aparece como unÌ puro posto,
acréscìmo, decomponível segundo duas formas, oigor, o Aqui. po,
consciência que está certa do Isro é somenre .o-. "eu, isto é, em sËu l"dá, " .rrbitrário como são, pelas mesmas razões, os nomes próprios que escolhemos arbi-
iu.o
sensível "eu ôsrou somenre .^"---", pï" este aqui, e o objeto iguaìmente
taì certeza t rariamente e que podemos dar ou mudar com e mesma arbitrariedade" (\YdL., I, p.
com o purrs irato. 104-5). Ora, náo é diíícil ver que os embra4eursnáo sáo nomes próprios, e Hegel tem
rrt'd. I' p. sl-2). Nesse."mpo f"no-.noïógi.o primitiuo'o Isto
fhìiïo '.p'
drsrlbur
.79:
assrm enrre um esre como eu e um isro como obiero, rig.rdàs
se r:rzáo contra Feuerbach. Mas, cm contrapartida, os embraleu.rs também não expri-
pera pura reração tttem conceitos gerais, e Feuerbach rem razáo contra Hegel (cf. Russell, op. cit., p,
imediata da uisada; em ourros termos, não se trata aqui senãã
d. u- ,ì.,eul". qu. 124-8; Jakobson, op. cit., p.179). Além disso, por ter concluído inabilmenre seu
srbe um puro.kto.ou.o que_é singul:rr. Há, pois, na significaçio
,i. lr;. i"n;;:;r;ì;*ì." iìrgumento, Feuerbach náo deixa de ter visto na unicidade da relerência aquilo que
uma releréncia, do lado do Objero, ao Agora e aã Aqui'c, ,1. l.d";;
"eu". Seja, então, a.pergunta feita à conscã.,ci" ,.o
ir;:J,;:r. carecteriza as palavras que articulam o discurso balbuciante da consciência sensível
sensíu"l que é o Irto?i, í.auria" ('que este, não por acaso, só pode empregar "indicadores de ostensão". Hegel, por
a sua forma mais elementar "o que é o Agora?" por cerro,
d"do qu. o Agora é uma suà vez, parece querer sonegar essa constatação e, não obstante, apoiar-se nisso para
das formas do ser do Isro, como ãi, H.g.i po,ler-se-ia definir;.a.t;;#;;;";1"
Isto, dizendo, por exemplo, que o Agoìa é o tempo do Isto (ou, rcverter a base em que se assenta a Certeza sensível. Como, entretanto, pode a
ï. .. quir.r, qì"o consciência sensível enunciar o contrário do que visa se jusramente o circunstancial
Agora.é o Isro do tempo), mas isso náo nos adiantaria nada.
Basta;-" ri;;1., (lue €mprega náo exprime nenhurn universal? Ao aplicar-se ao "dia', o embrayetrr
experiência, diz Hegel, para abalar a certeza da consciência
sensível . ,.u.r,à, 'Agora' deixa de ser aplicável à 'ìoite".
é a noite": evidentemente,"
verdade que ela supõe enunciar ao responder que "o Agora
O caráter da unicidade de referência, enrretanro, não basta para definir os

80
81
r
"'tt'ttttt't. r'lr((rso:ìcrescentarumaoutrapropriedade.oquedistingue osembrayeurs tcmpo onde se fala já está longe de nós. Eis, pois, o Agora despojado de seu direiro
'i"''''rr"rt,rrsliruinresdocódigo-lingúirtràolr.r.r.r".il;";';il.i;'ií|rïur
, l,r,'l'r r,.,i.rtlc da unicidade da ref.re,icia.o_,odor-, s,lrerano; o Agora que y'é o Agora somente visado, isto é, ele não é outra coisa senão
, ,, í.rr,r rtc Ícrncrerem obrigatoriamente;;:;rrg.-
^ , r não-verdadeiro, o não-racional.

'r 'r' rli,l.r,l." ì qual


se rerere o rermo'Agora"? Aã ,".orr.,
?:fJ:ff;r:ïï::;lTÉï'""j; convém, talvez, sublinhar ourro aspecro dessasemântica do tempo,da qual encon-
a essc rermo, a consciência
tcr captado o conteúdo"imedi"io . ,;ngul'a..,,,
',..r.r.'rvcl 1'rcrcnde
tramos_alguns elementos esparsos no inici. da Fenomeno/ogia, sot a peripecriva da
ã;;;;g.r, tcoriados e,mbrayettrs:areduçãodo'Agore'aseusimplesdadoÌingüístìc.r.,áop"r"..
'ì(r'r' corìcrero e rota.lmente determinado "irraì,
so[r esse ai,g"to, H.g"iï;;;;ì1"
no -enranro o ,Agora,,cnunciado remDouco "
prupcisito que ela não sabe o que diz. E tcr esvaziado seu sentido de roda relerência tcmporal. com efeiú, sua signidcação
se vrrria nío só com o locutor que o xssume, mas também com o instante de seu .-pr.go;
negariva do Agora, ."J"ì.
i:1::::'ln]:dade 'Âqora tlo co,rceiro do rÀpo. A,
rrJses em quesrão, é noire",
,Agora ". ìnsràncìas
é dia,., sã. "ri,io clc só conserva a unicidadc de sua relerência durante o rempo de sua utilizaçãì; Jeu
t/c dis*rrr, lr,o'!, ,a,
discretos e cada vez úiicos peros q""ir'"
rr.i,!i ,rrio"a" er' fala por um locutor, no lrreenchimenro se produz graças a uma coincidência pontuJ, u.ma simu/taneidade ot
::.::
.^:lftr: ou, mais precisamenre, o "zu" da consciêncìa contemporaneidade entre o acontecimento descrito e a instância de discurso que o
sensíu'el. e- ,ã.r,oï.rr.
eu , como vlmos, em torno de seu Meinen (,,minha rcpresenta. A eliminaçáo dessa relaç.'ro tempora.l exigiria um novo procedim.,-,ro. N"-
visada tlo ir.,,)
indicadores de osrensão..lsro,', .Agora'., .nq";;:. ";;;";;;_;;
de um..eu",
ò',n2,, ten provém,pois, Por isso é menos verdadc que se possa pretender definir o 'Agora" apenas com o auxílio
implícìro. qrre acumpanha todr, ,Agora. tla relação à i.stância de discurso em que ele é produzidã, deixlndo de lado todo
,1r.1ì.rr-...,rri".1.
O re rmo delimira
a "r"frr.,
instânciaremporal contemporânea lecurso a uma "visada" aleatória de uma instância temporal quaìquer. Ern ourros
da presen* ;,ìr,ìì'.i" de dìscurso conrendo ,.eu,,.
Isso é parcial ainda' Na t"rá"d", o circunsr"nciai ..rea.ridade,,, rcrmos:.a determinaçáo do valor objetivo do termo 'Agora'-.Àqu"tr,o membro do
,+f.r"" não remere à
nem a posições objetivas no rempo, mas
à enunci:rçãí .",1" ,., jrì;;, qr.;.ïr,g_ lúxico da temporalidade náo poderia consistir cà cc,nferir-lire desde logo
e reflete assim seu próprio empreg", .- conteírdo temporal dado ou - simplesmente "visado", mas deve passar pcla aná'iiseurn
;;;,;r'ì.r,,,or. ,"'',",. à mensagem (cr. da
Benvenisre, op. cit., p. 253-4). ' rclação que liga a instância de discurso ao aconrecimenro d" qu" ," i,.l*, iss. por
Dessa remissão à instância do. discurso, intermédìo do caráter auto-referencial da expressão temporai 'AgorJ'. "
que a seu modo e em seu nível legitima
expressão da visada da consciência sensível, a
a;"t.,á À;;"lt;;;,;;;; concluamos esra nora com ufira última observaçáo de ordem gera1. o que venìos
ponto de partida, não busca de nenhum " ;:r:#: c'n obra ao longo de toda a diaÌética da certeza sensível é tm
-"a" Tüdo se passa como se " -1todo de )linìnaçao
Hegel ficasse a meio caminho' se se consenr., "ì"fi.r,ação. los circ.unstanciaìs egocêntricos. o termo final dessa dialética, isto é, a redução áos
,n-'". cssas noçóes da teoria ringüís-
tica como ponros de referéncia provisórios: indicadores de ostensão, nos inrroduz no domínio da linguagem em terceira pessoa,
o ',+g"rì: c o "rsro", diz ere, são indife-
rentesaser"noite"ou"die',.,."r""ou..árvore,,,r"ïlurrior"indlf.r..rt.sl isro é, faz-nos aceder ao limiar da universaìidade de eni..,ãim.nto. o Mei'nen da
82; trad' I' p' 85)' ora, é preciso ver nisso (ìí;;;.',p, (lcrteza sensível é como que um centro egocêntrico de perspectiva,
uma conseqriência daspropriedades dos ponto de referên-
embraleurs e não' como HËgel parece fà;;;,
;.]];i;a cÁ,Jos embrayezrru "lsro", 'Agora", 'Aqui". Estes sáo símbolos-índe" (cÍ: yúobson, p.
de seu teor universal. Tiara-
se' como diz Benveniste' de úm "conjunto d. tign;;;;ìos, 176): associam-se a seus objeros por ume regra convencional de rcpresentação e pàr
não referenciais em relacão
à realidade, sempre disponíveis, e que ,. ;;;; uma relação exisrencial .o- o, obj.to, quJd.u.- represenrar. Ora, par"-Hegeì,
p;;;;ã;';ï;ï_
;;ffiï;,
assume em cada instância de seu (ilrid.). ó ,"gunao .ngà.1, relaçáo existencial da d"eixis y' uma operaçio extrínseca. Hegel poderia também ãizer,"
_discurro', ,Agg.C
primeiro 'Agord'; é antes a significaçáo. ,a"^;r.irìi,.
q: Portanto, seja como for, que os embra\eurs são indicadores de subj etividade que de-
locutor no remDo' ou' ainda. é seu "vazio- ;; 'udou-.À p"riiã"'a" vem ser afastados se se quer chegar à neutra publicidade da linguagem do entendi-
qu.'foi diì,.rrrmente "
preenchido. E esse
deslizamento esrá na base da primeira Ë".. d, Jir.ré,i.a mento. Que assim.seja, a simples análise do Isto já o sug.r., i funçáo que Hegel
da Certeza sensíver, o
termo 'Agora"-que
náo se refere.i-.di"t"m.nt. l Jr",ìo-o e mpresta ao Isto, a de distinguir e fazer sobressair um Aìgo,
é uma mera " ação- cle indicar
acredita a consciência
sensível' mas remete à instância de discur.so
qu. o .on?e-, em suma, é auto-referenciar :ubjetiua" que recai fora do próprio AJgo. Nesse '-ostra, extrinseco" desaparece toda
ou' na língua hegeliana, mosrra-se como 'tìmplicia"J. dcrerminidade (cf . VdL., I, p. 104). Oú ainda: " Isto é; ele é imecliato;
a que parece chegar a demonsrração -.ai",ir"da'. Tar é o resurrado -^, ìó é Irro ,.,"
hegeliana, mesmo sc dissimula,;;r;;;.d;;;, Inedida em gue é mostrado"; trata-se, pois, de uma imediatez somenre jrr'l/, cle uma
dos indicadores de osrensão ,ob inediarcz indicada por algo de exterior; o ato de mostrar é um movimentá reflexio'ar.rte
" "pr.êi.,ì
àì ,"ìrìrl"r.
que se concentra em si e póe a imediatez como tal, m:rs ele a põe corno lhe sendo
odo. se. as características do circun stanci aÌ .Agora,,
)::::: rT::::^l:lc"n cxterior (cf. ibid., rl, p. 263) . Eis, pois, de que maneira Hegel acrèditava dar conra dos
Í:'":'-ï:1ï,':1ï*:::::?::-l:1"':*;;'.;;;;;,"",il:ïi:ï.l,.'ï::J:.
-u,, orffi
ì indicadores da deixis.
i,ïi l;lï l" : Í_*: : i.é -"_ï
r
ï ff;i, :,ï:ï:
: presen tei o*,;
;;#"'d:,,"J,
o termo :,1:Tï
llgïil1,t^
que :-ï :
que supostamente
ago ra, Hr""...a" a i
o designa não t..r, out." r.f.ren.l","";
;; ; ,* :_,; fï.",ï;
"Não há outro critério", qu..rao ãt;;;;.
(na ìt p' 262)"'"'-
diz Benv".ir" (op'
indicar o tempo onde se: *,u:1:ï1'':e ,cìt''
^ "._r,
-.- ^_,
;;;;
',.p;";; p","
es tá, a"ao,..,à,'r'i_io'á;;;
.;; ;;:i: ;Jffijlïlï':
82
83
Capítulo 5
O PROCESSO ABSTRATO

\;/olremos à proposifo canônica formulada por ocasião da dedufo do


V tempo: o rempo, diz Hegel, é "o ser que, sendo, não é e quie, não
'','"do, /' (Enzy., S 258). Não há dúvida de que se rrara de uma proposi-
,,,,,r especulariva: por um lado, reara com as análises do período de lena,
, rì
(ìue uma formula muito semelhante fornecia a chave da exposição:
''r.r
medida em que a oposição perdeu sua indiferença, ele (o rempo) é o
',( r sendo-aí que imediatamenre náo é e (o) não-ser sendo-aí
que, ram,
l',1rrr imediaramenre, é" (R?h., p. 10, l.l2-4); por outro lado, situa-nos
,|,'sde logo na problemática inicial da lógica do Ser, pois o que está em
(lrcstão, nela, é evidenremente a unidade do ser e do não-ser. A dialética
,l.r certeza sensível nos remetia também a essa questão: a consciência
"r'.sível vê-se na impossibilidade de enunciar o ser do tempo, o Isro do
r( rÌÌpo que no entanro ela visa; assim, o ser do momento presente se mostra
',,r'o algo de não-verdadeiro, o ser do Agora mostra que tem seu não-ser
( rÌì si mesmo e torna-se para si mesmo imediatamente
um outro; do mes-
,,,,, modo que a consciência sensível se empenha em não ultrapassar as
Írr.teiras do ser imediato que visa, a refÌexão de entendimento esforça-se por
lìxrrr o ser e garanti-lo contra toda passagem a outra coisa, tentando conferir-
llrc, se possível, uma determinaÉo firme capaz de afasaí-lo e diferenciálo do
,r.rda. ora, do mesmo modo que aceÍtezasensível, uma tal reflexão deve
,l.rr-se conta, já que aqui se rrara unicamente do ser puro, de que a

85
(lrí( r('rr!ir (rrrc cliì renra pôr-em
realce é algo de inefíuer: isto quer
ilr( () (lrr('rliíirencia o ser do nada é algo simplesmrnte rirar/oirf. dizer ';'r'rl o tempose riga na condifo de "sensibilidade
absrrata, ou .tensíver
En"y., rr.ro-sensível"; remete-ÌÌos, igualmente,
\ 's/' rr. 107, 1.26-7). A visada inexprimível do ser do presenre e a visada à determinação do .vir_fora_de-
"r que caracteriza a multipricidade temporar: 'b simpres deuir intuíd,o,
r1',rr'rl.rc're inexprimível da diferenciação do o
ser em reração ao não-ser
r.'r',rlrrern-se rermo a termo. I O que fazver rlrrro ser-em-si como puro e simples vir-fora-de-si (Aussersichkommen),'
que o ser puro que constitui Itl,rr/.,71.33-4: trad. p. 24g). Se
() c()rÌìeço da Lógica e o ser imediato qu.rrão se refere ao ser do presenre,
da primeira dimensão do rempo
'
srr' "não é, em si mesr.no' "
senão esse desaparecer de seu ser
procedem da mesma abstração pura, que são ambos no nada, e do
o absolutamente- em seu ser" (ibid, S 259, p. 210;
negativo e se converrem imediaramenre em nada; ',.,,1a tiad. p. 249). Em suma, o devir
do ser do Agora, Hegel , unidade negatiua do ser e do não_ser,
.r
diz, com efeito, que "em si mesmo ele é apenas o enquanro o tempo é essa mesma
'os abstrato desapare_ ,rrridade negativa, como função
lógica,.nrË o ser e o não-ser, mas posta
cendo.no nadti' (Enzy, S 259, p. 2ll,l.2_3; trad.
p. 249). * dsrnirÌi6 da exterioridade, na.rf.r" do ser-fora_de_si
Dado o teor da proposição firndamenral ,upr".it"d", da ldéia.
a conclusão previ_ I)or via de conseqüência
sível não se faz esperar. Hegel acrescenra: o desde que se reconduza o conceiro
rernpo é o "devir intuído,, (dn 'r" clo devir - legitimamente
pode-se aceitar
de tempo
angeschaure verden). E explica esre conceiro - que a articulaÉo das dimen-
da seguinre maneira: ..as dife- remporais seja explicada com o
renças que são, por cerro, pura e simplesn.rertte "(rcs auxílio dos momenros rógicos do devir.
,tonentâneas, isto é, que 'r\s
dimensões do tempo, o presente,
suprimem imediatamente a si mesmas, são determi'adas o ftruro e o pasado, são o deuir
como diferenças como
r.rl da exterioridade e a dissociaÉo
exteriores, mas exreriores a si mesrrus,' (ibìd., dess. derrir .r", àif.r.rrg, do ,".
S 25g, p. 209; vad. p. 247). A .nq,r"rr,o
'rt'r cls pas5ar-ao nada, e do nada enquanro
cláusula referente à intuição nos remete ao conceito ato de passar ao ser,, (lo;ìj. pn
do ser-fora-de-si, ao
".,'r forma lógica o devir rem uma dupla determinação, de acordo
com a
'lrr'la unidade constiturda pero ser. p"ro n"d" e com o valor desiguaÌ
' "Y", p_orgye.a diferença, aqui, ainda não se dererminou,
pois precisamente o ser e o llrcs é conferido em cada uma
dessas unidades. uma delas se
que
nada são ainda o imediaro, ela é, taì.o-o n.l.r, o qi"i-irÍàìr/,"."9", e r' l:r<fo do ser imediato ao
d.ãrr. p.r"
- Mei,nung)" tfr"7,"rJ p.
simplesmente uisado (die blosse nada, a outra pela rerafo do nada
Sìs, toS, t.z:-6;i*J. p. ãif l. imedìato ao
Na Lógica Hegel explicita o sentido dãr* obrá*.çio: r. C) primeiro momenro do
enquanro o ser e o nada são ", devir, o nãscer (Entstehen), é pr.r"g._ do
abstrações vazias, o devir é.o pr.imeiro p.nr"-*,o'.ìncreto,
o primeiro conceito ou ,r.r,ln ao ser, à qual corresponde,
na esfera "
da exterìoridade, a passagem do
nesse nível do desenvolvimento lógico.
:j:ï,ï1i:::"ltado.atingido
uo uevrr tmpttca a drlcrençâ enrrc o ser e o naJl,
O -"rt_... l rrttrro ao Presenre; a ourra determinação
ao mesmo tempo que a srtprilnc, o do devir, o drropnrrr)r (Wïgehen),
que quer.dil.., .*pli." Hegel, que se trata de u-"
d;f"r.nç"-";.il.ï;;;ãi:'i;r, ( .r passagem do ser ao nada, à qual
gemeinten). Reenconrramoiaqui, aplicado à corresponde, no domínio dJ d..,.i.
obstinação a" ,"pr.r.n,"ça", ,ì'',ì.à.r-
nio.csrriramenre an.íogo iquËì" qu. vimos em
ob." n" dialética da ccrreza sensível: 'r,tLrído, a passagem do presenre p"rr"do'(cf. WdL.,I, p.92).2
optnã-se \tnan nt(tnr visa-sc) quc o ser é, pelo "à
conrrário, ;Jgo totalmenre ourro euc o
mai, .t,,o .1ue ,,,., a;r.r"nç.',ú1.il',;';; ,;;;
i;:11::::_l:: lã,adaé impossÍvcl,
I/rcrl de colsrdràrque quc essa
nï.."ï.,,
diferença c ittexprimíutl l,,rrrrlrrò. Aì,,r-
t(s qt.te tntr'tem sobre tt dtJercnçn entrc o J(r Mais precisamente: 'is dimensões do tempo tornam o determinado
consiire Se o ser e o nada rivessem crda rm uma
e o nat/a farinnt /rl.n ,.
,o, dì"ï, a,,'" ,/n I'lt ro, na medida,em qu" p::T, para a intuiçao, o lon..;.
cla intuição com,
dctcrminid.,a","m
p"üí,"r i'íè;rr"-, rrr sua roralidade ou rearidad., qu" do tempo, que é o devir,
seriam, como foi lembrado, o primeiro o ser ' .onsisre
derermina.{o,
t1o, cm luglr de ser o euc são:rqrri: o ser puro
o outà ,r;;; J.;;;;i;"_
que e o devir, sáo postos, *d. ;;;ì;;;,:#"";-;;" os momenros alrsrraros da
e o ne.la puro. Sua" dilerençe é, pois, ll:lllid., todo, mas sob determina_
\()cs oposras. Essas duas determinações raà,
completamenre uazia, sendo um e o ourro irrd.,.rn'inJJ
;;;;;;.ïi;I;r,'; l;1"_ rr'idade do ser e do nada,
d.rr. -.a"," ."a" ,-;;; ;,';;"
rença'
.por
conseguinte, náo subsiste neles mesmos, mas
somente em urn terceiro -", ,"-bé- ,ã; d,Íè;;;;J;ssa diíerença só pode ser a do
(rermo), no úsnr (irn Meintn). Mas e desaparecer. IJmav-2, no passado(no
o visar é uma lorml du s,,l,i.riuo . .1,ì"-re" ''Ìscer
\, (orneÇai o Passado loi eferivamenre,
rr-ã.ri,l ,.. é o fundamento, do oual
perrence a esra seqüência (Reìhe) da exposição (Darstellrrng),, como h;srOr;a muJi;, ;;;;;;.;;;
(WdL.', I, p. ZZIS,-r."a. r.ris, mas posto sob a determinação ,,:i"
p. 84). á. ;;,;;;;'r. A ourra vez é o
irr'erso; no Futuro é o não ser "...r..n,".
a primeira d.,;;i;;., o ser a posrerior, se bem

86
87
A esta altura, impóem-se pelo menos três observações, no tocante
à con_ .Ì.") Embora Hegel estabeleça essa aproximação enrre o puro devir
cepção especulativa do tempo como devir intuído:
l,'1irt'o e o devir intuído, é preciso ter o cuidado de não rebater um sobre o
1.") Em suas Preleções sobre a Histtiria da Filosofia, Hegel volra
ainda .rrr'(). O conceito do devir não pode ser elaborado com o auxílio do con-
uma vez a esse conceito. "o
tempo y'isro: náo ser imediatamente no ser e ,(rr() cle tempo, o que resulraria em falsificar uma caregoria lógica pela
ser imediatamenre no não-ser, ele é essa reversã o (umschlagez) do ser ,',rr,,dução de um componente extrínseco e, além do mais, sensível, embo-
- mas (intuído)
no não-ser, esse conceito abstrato, de maneira objetiva, na r.r ,rl)straro; por ourro lado, se falsificaria também a noção de tempo, esva-
medida em que é para nós. No tempo o passado e o Fururo
não são, mas ,',.,rr.lo-o de seu conteúdo real para assimilálo a uma pura forma lógica:
somenre o Agora; e este y'para não ser, ele é desde logo aniquilado,
passado, rr.r,r por acaso que Hegel o deduz inicialmenre em uma Filosofia da Nature-
c1
e esse não-ser se reverre igualmente no ser, pois ele é.
- Ele é a intuição ,,.r. lr no entanto, uma vez determinado o conceito do devir em e para si, é ao
abstrata dessa reversão."3 Esta explicação análoga, aliás, entre ourras, r{ rÌìl)o que cabe o papel de sua ilustraÉo mais próxima, mais pertinenre em
- e que, de resro,
àquela que acabamos de ler naRealphilosophie
seria um '.rr,r :rbstrafo mesma, o que aliás é explicitamenre indicado por seu conceito.
equívoco alinhar ao lado dos comentários tão fasticliosos quanro
anódinos I lrrre confirma$.o suplemenra! ao mesmo tempo histórica e lógica, é trazida
sobre a narureza evanescente do tempo rnosrra b.* q,r., se Hegel reata
- isso ele deixa 1nl:r interpretação do pensamenro de Heráclito. "O devir, na medida em
com uma problemática clássica, nem por de ..-".r.y", ,.u, (luc é a primeira determinat'o-de-pensamento concreta, é ao mesmo tem-
dados fundamenrais. somente o "movimento" de uma proposição 1r, :r primeira verdadeira. Na história da filosofia é o sistema de Heráclito
especulativa cujo teor é tributário da "ìnquìetude imedi-ata dos
ittcompatíueìs"-(rr/dL.,l, p. 76)
'ìu('corresponde a esse grau da Idéia lógica. Quando Heráclito diz:'Tudo
resurta capaz d,e deslindar a verdadeira
- llrtì', comísso o deuir é exprimido como a determinação fundamental de
estrutura do tempo, na qual se delineia a conexão do ser e do nada, primeiro rrr,lrr o que é" (Enzy., S 88, Zus., 'Sí 8, I, p. 192-3; trad. p. 522).
resultado da ciência da Ltigica. o que é preciso recusar
desde início à ,'\,;trilo qrÌe encontramos na palavra de Heráclito: "o ser não é mais
tradição é justamente a alternativa ontológica acanhada em
que ela se ,lrrc o não-ser" é precisamenre o pensamento da negatividade do ser
encontra no começo das análises do tempo: ou bem o tempo y',
ou bem o .rlrstrato e de sua unidade, posta no devir, com o nada igualmente abstra-
tempo não é.4
r,): cssa expressão contém, em suma, o momento da negatividade, isto é,
,','t olhos de Hegel, o conceiro de toda a filosofia. Todavia, na exposição
que'ão cronologicamente. o meio-termo é a unirlade indiferente de ambos, (l('scu sistema, Herácliro não se resrringiu ao puro lógico, à mera forma
rar que
nem um nem o outro consritui o determìnantc. o presente
só é por o passado .río *.;
inve rsamente, o ser do Agora tem a cleterminação a
não ser e o não,ser dc seu ser é o
Futuro; o Presente é essa unidade negativa. O não_ser do ,"r, inclefinidarner.rte periódico. Ora, o que é composto de nácl-ser parece náo poder
.- ."J.1;g;;;;;
e'u fuiuro" (En"'. ",
Agora, é o Passado; o ser do não-ser, que está contido no presente,
I'rrricipar da substância. Além disso, a existência de roda coisa divisível, enquanro tal,
S 25.9, Z US., 9, II, p. 5 4-5). Cf, também VuÁe., -V I 5, III, p. t62: " (...) *[fã ircârreta necessariamente a existência de todas ou de aìgumas de suas partes; ora, as
-
o ininterrupto nascer e desapareccr de tais pontos temporais,,. "
a
lr.rrtcs do tempo sáo umas passadas, âs outras futuras, nenhuma existe, e o tempo é
vyt/esungen über die Geschichte der philosophie (abreviado: (rìtretarÌto uma coisa divisível" (Físicd, IY, 10,217b32-2I8a6; trad. Carteron). E
vuGph.) in \yerree ìn 20
Bd: Suhrkamp, v. 18, t. I, p. 329;,r"d. IÌ G",oi.on, Vrin, paris, Santo Agostinho: "se o presenÌe, para ser tempo, tem de juntar-se ao passado, como
i!
p.162.
1971, v I,
yr,rdemos decìarar que ele é também, ele que não pode ser senáo deixando de ser? A tal

Assim a argumentação exotérica de Aristóteres: "que de início l)onto que aquilo que nos autoriza a afirmar que o rempo é, é que ele tende a náo ser
ere (o tempo) absoluta- nús" (Confssões, XI, XIV). Enquanto pllss/lgem ({Jebergehen) ot a reuersão
exisrc ou rem apenas uma existência imperfeita e obscura, ^
ï^"1:::i-" pod.-r" ,upo, (Llmschlagen) especulativas do ser no náo-ser e do náo-ser no ser permanecem
de acordo com o seguinte' Por um lado, ele foi e n.'ro é mais,
por outro el. uai sàr. irnper.rsáveis, o ser que finaÌmente se emprestará ao rempo será um ser diminuído,
não é ainda; eis do que se compõem, tanto o tempo infinito
qu"n,o o,._p. ,1uiçá nulo. Mas Hegel recusa também o outro termÕ da alternativa.

88
89
geral na quaÌ indicou a consistência conceitual de seu princípio; "deu à
l,rgo, Hegel convida-nos a ver no rempo algo mais que um simples exem-
sua idéia uma expressão mais real; essa figura real perrence sobretudo
à
1'l.r jogando-se ao lado do conceito de devir; mas tampouco se poderia
filosofia da natureza; em outros termos, sua forma é antes a forma natu-
lìterpretar o devir pelo tempo, invertendo a ordem das determinaçóes.
ral" (VuGPh., Sí 18, I, p.328; trad. p. 160). Gndo em vista o conceiro ( ) tempo é a primeira "forma", a primeira "figura' ou "modo" do devir;
do princípio, o puro devir, essa "figura real" da "essência verdadeira', isto
,1.'ssemodo, é a primeira "figuração" de uma determinação ainda pobre,
é, 'ã essência absoluta senda", não poderia ser uma "determinidade existen-
,ltstinada a preencher-se mais em si mesma. A uida, por exemplo, repre-
te" (a água ou o at por exemplo). Ela só pode
fgurar o princípio, conclui \( rìta um aprofundamento do conceito lógico do devir em si mesmo; o
Hegel, como processo (cf. ibid., p.328-9; rrad. p. 161). Daí suas duas
,'ipírito, também, é uma formação mais alra, na qual reenconrrarnos o devir.
dimensões, uma absrraa, a ourra real, o tempo e o fogo. .,O tempo é,
pois, lÌrr conseguinte, nessas duas formas superiores do devir, reencontraremos
a essência verdadeira. como Heráclito não ficou na expressáo lógica do () rnomento do tempo, como momento constitutiuo e subordinado.G
devir, mas deu a seu princípio a figura do ente, isso implica q,r. for-"
do
"
tempo devia oferecer-se a ele inicialmente sob essa figura; pois no sensível,
no intuível, o rempo é justa_mente o prirneiro rermo que se oferece como c é só isso seu conceiro ele mesmo, através disso, é algo desaparecente, como que
um fogo que se extingue-,em si mesmo consumindo seus materiais" (Enzy., S 89, Zus.,
o rempo é o puro devir, como
sendo o devir; é a primeira forma do devir.
W8, I, p. 195; trad. p.524). Enquanto momenro do processo elemenrar, o fogo é a
intuído. O tempo é a mudança pura, é o conceiro puro, o simples, que rira "ihquietude sendo-para-si", é "o templ materializado ou a ipseidade (selbstischkeit)
sua harmonia dos opostos absolutos. Sua essência é ser e não-ser, sem ne- materializada', "aquilo que é pura e simplesmente inquieto e consumidor" (ìbid., S
283, p. 238; rrad. p.275). Cfl também: "a potência da terra ou o tempo rerrestre é o
nhuma outra determinação; puro ser abstrato e puro não-ser abstrato Íògo e o governanre ou o conceito do processo mesmo da rcrri' ÇL., p. 321).
imediatamenre em uma única - unidade e separado (ibid., -
É
{' p. 329; trad.. .iustamente o conceito geral da consideração especulativa d2 nxlrÌ1s2x
-
p. 162). Da primeira forma abstrata do puro devir passamos a sua primei- Nanrrphilosophrz- que está enunciado em Heráclito (cf. VrGPh., \í 18, I, p.328
seq.; trad. p. 160-6 seq.).
ra forma real: "mas esse puro conceito objetivo deve realizar-se mais ampla-
Embora a mera consideraçáo dos conceitos de "devir intuído" e de "processo abstra-
m3nte. No tempo, os momentos do ser e do não-ser são somente postos to" torne manifesta a relaçáo de subordinaçáo que une a determinaçáo abstrata do
como negativos ou como imediatamente evanescentes. Heráclito determi- tempo ao puro devir lógico, não é pequena a tentação de subesrimar o alcance
teórico de tal derivação e de não ver no esforço hegeliano de "compreender o devir"
na ainda o processo de maneira física mais precisa. o tempo é intuis.o, nada mais que o resíduo ou a conseqüência doutrinaì inelutável de uma metafísica
mas intuis.o inteiramente abstrata. Se queremos represenrar-nos o que da "inquietude" temporal. Koyré náo escapa a essa tentação (cf. Hegel à lëna, op.
ele
é de maneira real, isto é, exprimir esses dois momenros como uma cit.). Para Hegel, segundo Koyré, a inErierude é a própria essência do real (cf. p. 162).
totali- 'Â inquietude é o lundo do ser. O finito e o infinito se conrinuam e se abismam um no
dade à parre' como subsistentes, temos de pergunrar-nos qual essência outro, eles só sáo um em relação ao ourro (...) Dito de outro modo, movimento,
física corresponde a essa determinação" (ibid., p.330; trai. p. 162-3). inquietude, aniquilamento, supressão e engendramento, ser do não-ser e náo-ser do
ser: será que esses traços já náo nos sáo conhecidosì A dialética do finiro e do
Essa essência fïsica é o fogo: ral é em Heráclito "o modo real" do 'princí-
infinito náo reproduz ou, se se prefere, não anuncia a da eternidade e do ternpo? Ou
pio" do devir.5 Restabelecendo, em Heráclito, a seqüência d.evir/tempo/ simplesmente a do tempo? Com efeito, a análise dialética do infinito e do finito nos
desenlra os quadros do instante e do tempo" (p.166-7). Por pertinentes que sejam
e todo o problema está justamer.rte no parenresco dessas duas dialéticas estas
-observações de Koyré náo nos parecem legitimar a interpretaçáo geral proposta -, por
5 Não há uma só proposição ele (é verdade que, em grande parte, o estilo "báquico" do Hegel de lena, que sem
de Herácrito que não renha sido retomada no saber dúvida pesa sobre o vocabulário de conotação temporal da "inquietude", o convida a
especulativo, bem o sabemos, pelas solenes declaraçóes de Hegel a respeito.
Essa isso): "a inquietuds d6 5sç s não sua simples 'mobilidade', como pensa Marcuse (cf,
referência histórica desempenha um papel na determinado do ,.nïido locorrênci-
das Hegels Ontologis, Frankfurt,- 1932) tal parece ter sido a intuição metalísica mais
as" do rermo "fogo" em Hegel. "Enquanro o ser e o nada, no devir,
desaparecem profunda de Hegel; é a percepção -, dessa inquietude que está na base daquilo que se
-
90
91
3'') Enfim, do conceito de "devir intuído", segue-se que os ,,,.ceiro. Por isso salta aos olhos que Heráclito não podia dizer que
conceiros
a
de processo ede tempo estão ligados por uma ..rt" ..1"çào.
Já que rere_ ,
"sô.cia era o ar ou a água ou algo semelhante; pois (e isto é o que se vê
mos de reromar essa questão, limitemo_nos por
ora a sublinh"i
de seus rraços. De maneira geral, a contradição "lgu.rs 'l''s.le logo) esres não são eles mesmos o processo. Mas é o que o fogo é;
da identidade de con_ 1',,r isso ele dizia que o fogo era a essência primeira, e isto é o modo
teúdos autônomos não-idênticos se póe segundo
a forma de um pro_ do princípio heraclitiano, a alma e a substância-do processo naru-
',.r1
cesso. De acordo con Ì seu concerto, o processo "tem
a determinação de No processo' os momentos se distinguem como no movimento: a)
pôr o diferenre como idêntico, de indiferenciá-lo, "1.
e de diferenciar o . rÌìoÌrÌeoto puramente negativo; b) os momentos da oposição
idêntico, de animálo e separá-Io,, (Enzy,
S 326, p.271; tad,. p.307). 'rrlrsistente, aâgua e o ar; e c) a totalidade em repouso, a rerra. A vida
Assim como a determinação do devir se p....r.h.
. ,. nas 'l.r'arureza é o processo desses momentos: a cisão da totalidade em
esferas da vida e do espírito, a do pro..rro "p.ofr.rda
se apresenra, segundo um r(l)ouso da terra na oposição, a posição dessa oposição desses momen-
escalonamento racional, como processo elementar,
mecânico, químico, r()s e a unidade negariva, o rerorno à unidade, o abrasamento da
vital, e assim por diante. No grau mais baixo dessa
escala, ." p,rr.r"
-
,'P.sição subsisrenre. o fogo é o tempo físico; é essa inquietude abso-
mesma do conceito, encontra-se a forma temporal.
O tempo, .o_ .f.i_ lrtiÌ, essa dissolução absolura de toda subsistência,
a desaparição de
to, é o "processo abstrato" (VuGph., \7 tg, I, p.329;.rrà.
p. 16l). É r,r.las as outras coisas, mas também de si mesmo; -ele não é
a abstração do processo ou, ainda, o.,processo estável. E,
inteiramente vazio,, ÇL., ()rÌìpreendemos a partir disso (é inreiramenre conseqüente)
p. 322). Mais uma vez, segundo Hegel, a interpretação 'i que
do pensamen_ I lcráclito tenha podido designar o fogo como o conceito do
processo
to de Heráclito nos terá aberro o caminho para o
derr,.ndamento da , partindo de sua determinação fundamenal,, (ibid., p. 330; trad.
relação enrre a determinação temporal e o
conceiro de processo. Se é
lícito ver no rempo a'primeira essência sensível,,, r' 163). Este é apenas um grau preliminar *o processo natural" do
e po.qu. ele é a ,grrrrl inicialmente só devemos conservar a -armação formal;
"intuição abstrata do processo" (VuGph., quanto à
loc. cit.; trad. p. 162). O fogo
é o processo real, enquanto o tempo é o processo
|t rtinência das determinaçóes temporais, teremos de interrogar o pro-
abstrato. ..O tempo , ,.ro lógico em sua inteireza.
provido de tais momenros (os dois
-o-..rro,
do ser e do não_ser, pos_
tos, não mais como imediatamente desaparecendo,
mas como
subsistentes) é o processo; conceber a narureza
significa expô_la como
processo' Tal é a verdade que devemos a Heráclito,
e é o verdadeiro

denominou o dinamismo hegeliano, o primado do


devir sobre o ser. O ser é inquie-
repousa em si mesmo,_não é ele mesmoj é
:",ir.r."Í,não outro que não ele mesmo,
mesmo; mais ainda: o ser.náo ,.poír" em si mesmo,
:ir:::!l:.."rsigo
sl e se renegar para tornar-se ourro que não
mas foge de
ele mesmo e, por isso mesmo, realiár-s.
em e por sua negação de si,.Dissemos em outra
parre, e .lproveitamos a
ocasiâo para
torner a dizê-lo, que essa intuiçáo.ro, p"..a.'r., essencialmente
a do homem c
também essencialmente do t.mpo,,
1p. rc2, noo;). Cf. rambém A. Koiève
" Hegel, ildliàard,
Introduction à ld lectloe de puir, ,a. õiZ,';l;i'_q :ïi
conclusão exprime com o máxiÃo rigo. o po.rto
d. uir*.onr,i.io àquele que preside
a eÌaboração do presente estudo.

92
93
Capítulo ó
DA DESTTNAçÃO OBJETTVA
DAS COISAS FINITAS

consideração do tempo como processo


abstrato permìte_nos alcan_
r r çar um novo patamar na compreensão especulativa
do tempo. Tia_
r'' se das relações enrre remporalidade
e finidade, de sua indissociá.,.1
r, r cação,
r i
o.. ur.- o u;: :ffi",. -r:,
,''r' Hegel o coloca, de " il::ïh ;tïïï::Í::
::
início, n.ste níver, à luz do conceiro de
r

devir e do
( ()rìceiro de tempo
como ..mudança pura, (reine Wrrinderung).
'lentemos
precisar o sentido .o desta última formula. Era
l.rz. "r."rr..
lembrar, desde logo, o procedimento
geral da argumen,"fao a.
,'\ris.róreles: o rempo não é a mudança, mas também não
é sem a lr
,rrrdança; ele deve se! porranro,
algo da mudança. Se o rempo _J"rr.,
r,rtrdaria em que rempo? Arisróteies, iil
com efeito, .rao poi. a.i*". a.
''l'r'star roda forma de reflexividade: não
há como definir o tempo pelo
r(rÌrpo'r Kant, do mesmo modo,
não acredira poder afastar-se àa lição
'l. Arisróteles.2 se recusa todo direito
de cidadania ao conceito de I

"'rdança entre os dados a priorida Estética transcendentar, não é apenas i

Cf. Física, IV 10, 2lBb2O.


"Se se quisesse
atribuir ao te
(, u rro remp o n o q uar .,.", J:,:J ;:ï: ;iil:,:: i'&)ï: Ë;ï: :,:::ï " ;;tï.'- ll

95
Porque tal concessão acarreraria a pressuposit'o da experiência e, porranro, rrÌcsmo assim, permanece 'teparado" em sua "abstração".
a da percepção de uma existência com suas Em reração à
determin"çõ.. .,r..rri,r"r, é rrrudança, porranro' o tempo é iguarmente primeiro
também porque é preciso reconhecer que .,não e segundo: é a mudança
é o tempo mesmo que l)rrra, mas também não é sem a mudança ,,reaJ,,,5 O tempo aparece_nos
muda"; e' em ourro rexro, ele precisará
iu. o ,.r.,po mesmo é .,imóvel e l'rimeiro como algo de posirivo, "um dado" (eine Begebenhelò (cf. vc.,
fixo" e "não se escod'.3 A resposta trazidapo,
H.g"l desloca os elementos do
problema' mas seria um_ equívoco interpretáJa v 153). conforme à representação de um tal dado positivo, o tempo não
como uma mera rejeição.
Cerro, o rempo é 'algo da mudança", lxde deixar de ser reduzido à condiso de parâmetro; assim, é indiferente
-"i, que isso, ele é a mudança pura. (l'e o situemos entre as coisas ou o transportemos
para dentro do espírito.
Sem dúvida podemos dizer que o qu.
é algo-ud" ,o ,._jo; _".
que é A crítica hegeliana dessa representação comporta duas vias:
será preciso erigir a primeira e
essa consratat'o em princípio , fu* do r._po ,,r.., q,r"dro Íiri por ela que começamos -
imóvel' espécie de receptáculo ou de ,i'ple. é simples cororário da dedu5à especulativa
ponto de referência? Tâl -
(lo tempo, que, conseqüentemente,
representação se enconrra por toda parte,
quer se enrenda o rempo como
não pode ser uma for-"
rr'ediata; a segunda via a seguir para neutrarizar a positividade",rtô.ro-"
um conceito de ordem, como algo de substancial dada do
ou como ,-" for-, d, rcr'po consiste em pôr em relevo sua negatividade essencial, na
intuição' "É no *mpo, dizem, que tudo tu$ce medida
e perece; se se faz abstração ('rÌì que ele é mudança pura. Dizer que
de tudo, isto é, do preenchimento do rempo o tempo contém a determinaso do
como do preenchimento do .egativo equivale a dizer que ele é essa "relaso com o não-ser"
espaço, resta o tempo_vazio como o espaço que podemos
vtzio, _ vale dizer que essas riro só pensar mas intuir (cf. ibid.); o rempo é justamente o'torrosivo
abstrações da exterioridade são enrão do
por,r. . represenradas
como se fossem rrcgativo" (ibid., p. 178), essa 'ãbstrat'o do consumir", mas a abstrafo,
por si mesmas. Ora, não é no tempo qr-r. ,r-rdo a
nasce e perece, o tempo rrìesma da qual provém 'ã abstraÉo sendo",
mesmo é esse deuir, esse nascer e esse perecer é apenas a operafo unilateral
o Abstrair sen)o, o c/rrono, que .lo negativo (cf. WdL.,I, p.8G-7). por esse úldmo rraço,
engendra tudo e desrói seus filhos" (Enzy., o rempo, afastando_
S 25g, p.210; trad. p. 24g).a sc da negatividade integral do conceito, aproxima-se
O próprio conteúdo do tempo os
mais da determinas.o
"rrt..ip" momenros da mudanÇa; ele
não é um continenre neurro; se acolhe
<les coisas finitas, cuja negatividade também é apenas unilateral. O tempo
e rorna visível a mudança, é porque :

s.: apodera do ente finito para convertê-lo prontamente em não_ente; em


prefigura suas esrrururas constitutivas. As duas
formulações, ,,mudança contrapartida, "quando o não-ser não faz irrupção em i
pura" e "sensibilidade absrrard', recobrem-se algo, nós dizemos
rermo a rermo; exprimem o que ele duri' (ibid., p.153
desdobramento da reli - VG.). Desse modo, Hegelreconhece, por il
certo, que não haveria rempo- em um mundo
rei ta de i de n tidade . r:ti;:* j'
*,"" I ï0"ï;01 ,', ï:1'; ì:Lil ï' f :;';
imóvel, que não haveria
tempo se as coisas não estivessem votadas à mudança. A
l

reproduzem, de cena maneira, o modo de duração, com


ser do p.oàrro ,._po."t, .'.r,., cFeito, é a supressão do tempo, mas supressão apenas ii

relativa, acrescenta
I{egel (cf. Enzy., S 258, Zus.); mais precisamenre, a duração
é o ser-
suprimido do processo das coisas. seguem-se duas conseqüências:
3 CRPura, B 5S,A 4t:tad.p.67;B tB3,A144;trad. p. 154; B224_j,A r.")
"o que não é no rempo é sem
p. r77. 182; trad. processo,,; 2..) ,,o p.o..r.o das coisas
a Ou ainda: 'b
remoo não é, pq1 assim dizer, um receptáculo ,ll
no qual tudo estivesse
coÌocado ro-o r- um rio que flui e pelo
quar tu<Jo fosse arrebatado e arrastado
o,fundo_ grempoésomenre.rrrìbrr."çáodoconsumir,,(Enzy.,S25g,Zus.,
R1r1
\7 9, ll.p. 50). Lembremos q-ue a expressáo .,abstração ' maneira de exprimir a posição.do problema em Hegel, substituirmos
a noçáo
- do consumir,,remere- ::,11:s:a
de mudança peÌa de série,'mesmo recolocando-nos em u- .ont.*to
nos à doutrina dos elementos d^ Nonrrpi;lorop,iir,'r^ finitista, estaría-
que vemos o ,.íogo,, realizar mos exprimindo um dos aspecros que revesre o problema
essa abstraçáo. inteiramente ;rái;;._
Kant, Retornaremos a esta questão.

96
97
rears consrirui o rempo" (cf. ibid.).6 Enquanto as coisas
duram, o rempo, ,,, pcrrinência do tempo e do real apesar de seu projeto explícito
justamente por sua desaparição, mosrra-se como
argo de independente: - -
l'.,r.r submeter-se, enfim, à potência do tempo.
as coisas, em seu processo' identificam-se com o escoamento ( ) ser finito define-se, de início, por sua relação a
do tempo. ourra coisa: é um
Numa palavra: "o real é distinto do tempo, sim, mas também ,,'rrtcúrdo que se encontra em relaçóes necessárias com outros conteúdos
essencialmente idêntico a ele" (ibid., S 25g, p.210; trad.
p. 24g).? _ t,l WdL.,I, p.7l). Mas, acima de tudo, ele é apenas relação com seu
Resta-nos examinar o fundamento dessa identidade enrre ',mudanca ( )u(ro, o infinito. Para esquivar essa relaSo, o conhecimento finito recorre
a
pura' e a RealitcÌt das coisas.
.' ,ltras atitudes: primeiro, negar simplesmente que a passagem de um a
O real cuja identidade com o rempo temos de localizar agora _
-
é aquele constituído pelo ser-aí do Argo finiro.
','tro seja concebível; em seguida, agravar até o absoluto o peso da conside-
,

d.afinitude, suaAo fazer r.r,,io exclusiva da natureza efêmera do finito. Ora, constata Hegel, o
categoria inextirpável, o entendimenro, segundo a conhecida
crítica ,l,,1ir'atismo da primeira atirude e a complacência da segunda são dificil-
hegeliana,s bloqueia a via de acesso à consideração da verdadeira
narurezâ rr( rìte conciliáveis, e no enranro não há como dissociá-los. O dogmatismo
do ser finito, enquanto que, apesar de seu caráter sumário, as
sentenças l,i1iiç6 de entendimento. que consisre na separâção absoluta do finito e do
populares que dizem que tudo o que é conrém, pelo próprio
fato de seu rrrlìrrito, tem ao menos uma conseqüência imediatamenre visível: quem
nascimenro, os germes de sua desaparição _ e que Hegel
acomoda com r',,,1,r o ser finito de seu Ourro, o ser infiniro, afirmando a impossibilidade
destreza na dicção especulativa: "a hora do nascimento
das coisas finitas é , L do finito ao infinito, é obrigado a afirmar igualmente, como faz o
[rassar
ao mesmo tempo a de sua morte" já nos situam nela. Em sua coinci- ,,,rrhecimento finito, que o finito só se relaciona a si mesmo, e não a seu
dência, assim evocada, o nascimenro- e a morte das coisas finitas ( )utro, que "o ser do finito é apenas o seu próprio e não, anres,
lembram, o de um
por um lado, a unidade das duas direções do devir e, por ourro, a t )rrtro" (cf. Beweise, 13." Vorles. p. 107,14.'Vorles. p. 109). O enrendi-
unidade
do finito e do infinito, jusramenre as duas primeiras .,passagens,,
lógicas ,r('lìto, de acordo com a argumentação hegeliana, esforça-se manifesta-
que o enrendimento insiste em recusar. É por isso que, aos olhos
de nrr'rìte para ajustar duas teses incompatíveis: uma póe o finito apenas em
Hegel, o pensamenro da finitude resultará incapaz de pôr
em evidência a r,'l:rção consigo mesmo, enquanto a outra coloca todo o peso sobre a subs-
r.ìrrcia perecível, evanescenre, do finito, sua temporalidade, enfim, "o
linito certamenre se deixa pôr em movimenrc (in FIus), ele é o que - está
6 "A duração é o universal deste Agora
e daquere Agora, o ser-suprimido desse processo
das ,lttcrminado a rer seu fim, mas somenre seu (...) A destinação das
coisas que não duram. Mesmó qu. .oìr". duïem,
o rempo enrreranto passa e não fim
repousa; aqui o tempo aparece como independente
e distinto das coisas. M"r r. dizemos
,,'isas finitas consiste unicamenre em rer um fim" (\tr/dL.,I, p. Il7; tad.
que o rempo pâsse mesmo que coisas durem, isso significa
coisas durem, aparece entreranto variação .- o.rri*
apenas: mesmo que algumas p 129-30). Com efeito, 'te concebemos o ser finito como simplesmente
coisai, p, .r. no .urio dJsol, e
;ssim as coisx esrão no rempo. A variaçáo gradativa é, poiì, , rrr relação consigo mesmo, ele só está aí para si e não para outra coisa;
o úrLimo e superficiar
refúgio, para poder atribuir as-coisas ..p"ouro . dur"ç'áo. S. ,;;;;;.;;;t;r_, .,.sirrr o subtraímos à mudança, ele é invariável, absoluto" (Beweise, 14."
nossa represenração, então duraríamos, "i.,dá
não haveria nenhum ,._po. M", as coisas
finitas sáo todas remporais, porque cedo ou tarde estão 1' 109-10; trad. p. 73). A comunicação essencial entre finidade e
submetidas à u"ri"çao;-ru,
duração, porranro, é apenas r.latiìa, (Enzy,
S 25g, Zus.,V 9, ÌI, p. 50). r, rnPoralidade que o conhecimento finiro se empenha em estabelecer como
' Mas é preciso norar que a Realidade. gual o rempo foi
identificado aqui é aquela lr.r'izonte último enconrra-se, pois, prontamenre inrerrompida e desfigu-
definida pela lógica dà Daseìn. Cf. WdL.: ]_
i: p. ií r'gìs. ,.,,1e pelo simples fato da obstinação em manrer o dogma da separação
8A esse respeito, só nos cabe remeter ao capítulo
definitivo de G. Lebrun, L,ácratement ,l'soluta do ser e do nada, do finito e do infinito, ao lado da afirmação da
de la Finitude, in La patience d, Concept, Èrroi
ru, l, dirrours higelien,ClíÀ".J, É".ir,
r972.
'sôncia perecível do finiro. Como não ver que a separação que opóe o
,

98
99
finito de um lado ao infinito do outro
faz do primeiro tão absoluto quanro
o segundo? A dialética que Hegel propóe ao enrendimento ttttpotência (unuermiigenheit) do enrendimento, jusramente
obriga o lr,r..- aquela que
dimento a desdizer-ser ele deveria .o.rf.rr", .sr:i na origem do destino que põe o entendimenro
se o rigor conceitual não lhe à
faltasse, que na realid ade -.r.Ë da oni- i

não_ser qu..oloo.ro ,.._o


da destinafo l,tttâncìa do tempo. ll
lldesse
das coisas finitas, um atributo imp...cíu.l e absoluto. N.;."q*;
; *"* Que o finito seja passageiro e temporal, que o rempo constitua a ir
de uma conseqüência, mas. do avesso lcstinação objetiva das coisas finitas, também
da proposi$o dogmática iniciar: ' Hegel o mosrra.r0 Mas a via il
cer-
tamente aqueles que estabelecem
um t^l *n. enrre o finito e o infinito r,,rrrada pela dialética, perscrutando o núcleo
especulativo do tempo, des_ ii
não
admitem que o ser finito deles seja algo de toda indulgência finitista. E desde início,
de invariável e ererno; e no enranro 'i:r-rìos pelo menosì título rl
não pode eludir tal conseqüência, '!'.r. ,lc precaução metodoló gica, é preciso evirar de
não é deduzida dessa afirmação, .Àp..rr". à palavra I
mas é a própria afirmação direta tttquietude, freqüentemenre empregada por
de que o finito absolutamen,. .,u. ,. Hegel, . lurr"_..rr. ._
prende ao infinito, de que não é virrude de seu teor figurado, qualquer orrr.o
I

possível passagem nenhuma de que não estrita-


um a
outro, de que um é absolutamerrt rrrcnte lógico. Somente sob essa condiçáo será "I.".r.e
i
r.p"r"doìo ou,.o,, (ibid., p. 112; trad.
"p.o*i_"r, ,._
possível Ì

p. 75).O entendimen risco de deslizamento finitista, a dialética


l

do finìto. do r._po, rrrbli-


masnãoconsesue..Jï;',ïil:ïïi,ïi:i:ffi :ï:ïÍ.'t:.li'"ïl rrhando sua comum "inquiàrude,,. "
tar o finito como um nada e o ,., '

d.rr. à_. Quando lidamos com o finito estamos já no rempo, pois só o ser finito
valor e ,ig.ifi."çã; do não-ser,, (ibid.,,
" i,iïrillï: ;iliãïï : l)rrrece comporrar uma separação entre um Antes (Wr) e um Depois (Nach)
(tf. Enzy., S 247, Zus.,W 9, II, p. 26-7).
rl

AsimpÌes possibiliãade de ral


r/issociação em geral deve, pois, encontrar-se
I "Que o finito seja absoluto, no fundamento do ser finito:
eis um ponto de vis.ta que nenhuma
concepção, nem o entendimento filosofia, nenhuma 'r'1uilo que constitui a definição das coisas finitas, aquilo que as rorna
quererã^o qu. lh.Jr.1" arribuído;
rio que está expressamente p.....ri. é antes o contrá_
p"ry, o finito op?,o; finito e não
na afirmação do fi.ri.o; o finito
é o limitado, o '.rruptíveis e mortais, lembra Heger, é a diferença que apresentam entre
:-u.
concepção ! ?
que se faz dele, persiste-s
.
;Ãp.*.r".f. ú^-,_p;;"";#;: ,r conceiro e o ser, é que nelas, conceìto
e realidade, .o.po . alma podem
permanece subsistente ou
e no ser ia finitude, se o caráter ""
transitório ,irtdir-se (cf. \l/dL., r, p.75)., A finitude das
coisas desenha-se sobre o
b,",qu.i";;;;;;;il;ï,ïïilï:ï:.'#,,?lï;ïiïi,11ïï:?iâ?ï:,,:Jï:ïi íirndo dessa partilha orìgìnária. Tomando o
verbo ur-teiren em dupro
:#ïifiilï,i:i;:':ï,n:,*ï*:r:*ï.cr jïi::.ltr,;ï..d'"1ï, st'rrtido (cf. Enz,y., S 166), Hegel justificará,
d,eourro ponro de vista, o do
ao innniro" oraL., r, rs' iàa. ;"ì#;ïil::ffiil:ï:,ïïiï:ffiïïiJï:
".-r n.
entendimento, qu. p.rrir,. já
*. ã. ïiï1., acompanhada afirma_
,iïï lïil J :: ff :'fl: ï' " "' u'"àt"';;;;
d
"fir*içao
^"' -
o'^r, - r.,,"-ìì -
p i
da

Jcste Agora,
::T: :.g.!19 -do finito - conseqüentemenre como infinito, universal.
O universaÌ já é infinito" (Beweise, 14." Vorles. p. ll5; 11.4.
iil; ;';p'.ïç- ffJ:'ï.ï 1Ë"fï::3ïi:1*.il;:5
;:::::il:ï:: ïff;
"n
diaÌérica do Agora "modero reduzido" da
- daí sua superposição nodopà..rro
p. 7g). Desse modo, a
piocesso remporaì, por assim dizer
proposição
que ela é falsa,"dec.lara u"gJ,::p.;ì, reproduz a do finito; -
a.,.ì-,r.rr.
e à narureza do finiro das coisas finiras. E no quadro
é passar, não ser, de modo qr.
determinação do não-ser que perrence
.i;ï;;;ïàl
,;;';."rado, representado, sem a j
*:::: I.::.d "' I
nj o i
fós
co ì
1 1e_',*
n,.,.u. p;.p",i;; À;g.r;;
I:n,,r^(ct. l:n27, S 259, p. 210, "1.39), evidenciãndo
" ;; i- j;"oï,"
ao iato de palsar. cada qual está
suficiente- ,,r,rtrlr-, e deAgora qu" o, .on."ilo, d."
mente adianrado o"r, d;'à., J fi;ì;;;;;.ì.".'J;:'" não são imediatamente intercambiáveis. qu.
introduz o Agora finiro e sua desapariçáo se 'resenre d. u- ouìro
,. p.nr" F".;.;;; í;;"i; ìo'rl, a,,.nao:
L Jialética da caregoria do Finiro prevalece. "o "
agora ele é, esse próprio A*.:* o finiro irrr., ,-,',,
" 'As coisas mesmas sáo o temporal;
Agora' quando t.nho conrJiên.;" Í.l.Bo qu. "â";;;;r;, mas já passou quando é; esse ser assim é sua determin ação objetiva,, (Enzy.,
aï., l"-a"ï iã"ï..'., já náo exisre mais e S 258, Zus., ì7 9, II, p. 50).
lugar a um outro.dur* Ele deu
istã,n.ste'",,",,._,.,ì:':,,iil::,:1rïï*ïï:::f " "E remporal tudo aquilo cuja reaJidade é exrrlvasada pera essência
:,ïi:: j.ff ïi:f":rÍ; cunrém mais do que pode conrer sua realidade.' (Schellilg,
ou cuia essência
t:,qr) a,, U"ì))1,' iìï,rr,r,
p. l0B).
100

l0l
juízo' a definit'o que acabamos de
evocar: "a fnidade das coisas consisre, rÌÌcraÌnente positivo e ao mesmo tempo
neste nível, em que elas são um juízo, como persistindo em repouso no
em que seu estar_aí e sua narureza rnrerior de seu limite" (E"zt,S
universal (seu corpo e sua alma) estão, 92, Zus., W S, f, p. l9g; trad,. p.527).
decerto, reunidos, pois senão ()ra, a uarìabilidadz (wrtindzr/ichhezr)
coisas seriam nada, mas que esses
as constitui u- ào, hdos do p.o..rro,
seus momentos são, tanro já diversos, t é por isso que' de acordo com essa
quanto separáveis em geral,' (Enzy., determinat'o, o ser-aí finito crtì no
S 16g, p. 157; rrad. p. 415). Em rt'rnpo.r2 Por outro lado, a contradit'o
úlrima instância o lapso Antes/Depois interna que impregna o ser-aí finito
provém de tal divisãì originária, í,rnece a base conceitual que permire definir
isto é, do juízo das coisas finitas. Essa sua "rnquietude,,: assim como
significação objetiva J. ;r"", rrr'a de suas determinações é consrituída por
permire' além disso, expricar todas as Ou. seu limite, assim também
for-", anteriores da 'passagern,, dá a
conta também da in.serção temporal "utra dererminação é constituída pela inquietude do ser-aí no rimire em
das coisas finitas, isto é, áo f"ã
"o ente deuém e muda,, e, d. qu. rlue está encerrado, inquietude proveniente
da conradit'o que o impele a
enfim, de que .,o finito se abisma no infinito,, rrltrapassaresselimite (cf. IVúL.,I, p. ll5).
or/dL', l, P 2G9' ). sabemos qu., .,o ser-aí, a determìnidade, Em outros rermos, o finiro não
embora rcm outro destino senão suprimir-se em
sendo confundida com o ser, põe_se seu set nenhuma outra essência
também como negação, que ela é scnão "essa inquietude.absoluta_de
limite e fronteira, de tar modo que a finida.te não ser o que é", sua contradição aparece
. ,,ari"bilïJ;i;'p:;."..", como uma saída de si, contradição cuja
especificamenre ao ser-aí. "Dizendo "
das coisas que são finitistas, enrendemos,
essência é 'a inquierude absoluta
,lc suprimir-se a si mesma,,. Com isso, já
com não só que rêm uma determinidade, se terá notado que uma tal
_isso, que sua qualidade é sua "conceptualização"
realidade e sua determinação em_si; da inquiera conrradição do finiro recobre
não rencionamos dizer somenre que exaramenre
são limitadas 'r do tempo; a partir dessa perspectiva, releia-se esre rexro
uma daRearphi/osophie:
- () tempo "é o ser sendo,aí
rimire-,-",0"..;"".ï':ï:ï.ï;:;::::::ï:.ï:'J;i:ï"*;:: que, imediaramenre, não é e (o) não_ser
sc'do aí que, também imediatamente, é; ele
seu ser. As coisas finitas são, mas é a pura contradição sendo-
sua relação a si mesmas consiste :rí. A conrradição suprime a si mesma;
em se ele (o tempo) é jurt"menre a
referirem a si mesmas
as s e am,,ï.o:;ï,""iïí:í;;i' il,:ï: ï:ËiJ .*:ï: t'xistência dessa supressão contínua de si" (p.
10, i.n eí. Eis
er rrap
ã . finiro é remporal: a coisa finita, em virtude de sua lógica porque
l
u r as s

verdade de ral ser é seu inr..na,


fm, o fi.rito não apenas varia, como algo em geral, vrrria' e o rempo é a intuição absrrata de
mas desaparece" (ibid.,I,
p. 116-7;*"d. p. t2B_9).eu. o finitJ desapareça seu processo. o rear ao qual o
rcmpo pode ser identificado "é rimitado (beschrànkt),.
não é efeiro de uma mera contingência:
ele é,,otrdo à desaparição por ru"
o o..,roï.rr"
tegação está fora dele; a dererminidade
própria ftatureza' dispersa, cujo estirhaçamento é, pois, junto dele, exterior a l

é exposro s.pa."çao do p.l" si mesma e, por conseguinte, a contradição


Antes e do Depois. Do mesmo modo, de seu ser; a abstração I
que o esrar_aí seja variável é algc, que
pode aparecer à represenração 'tomo uma mera 'lcssa exrerioridade de sua condição e da inquierude dessa conrradição é
não tem seu fundamenro nele mesmo";
possibiridade , cuja realizaçct o tempo mesmo" (Enzy , S 259). As coisas não
desaparecem porque
"li,ís,
nào b"rr".o,rr.uá. qu. ,odo ('.srão no rempo: esrão no
rempo porque são finitas (cf. ìbit/., Zìr). Em
ser finito e o esrar-aí é um tar ser
enconrra-se submetido à variaçao;
ii
-
é preciso mosrrar - sua convergência, a finidade das coisas
explica sua remporalidade, esta
que o conceito do ser-aí implica
a determinação da variação
e que esta é a manifestaçáo daquilo
que o ser_aí é em si: ,,na variação
(w,inderung) mosrra-se a contradição
i.rt.r.r" de que o ser-aí e hp..g.r"ao
'r "Mas o indivíduo também é separado do universal,
L]

desde.a origem e que o impele para além e assim é um lado do processo, a


de si mesmo,,. Estamos, pois, variabilicl_ade; segundo esse momenro
bem longe da representação, paraa mortal ele cai no tempo,, (Enzy, S 25g, Zus., \W
qual "o ser-aí aparece de início como 9' II' p' 51)' Fórmulasignificativa, em que r.*.on,*- reunidas as noçóes de
-
cìsão, processo, uariação e qrrdo ro tr*po.

r02
103
exprime a verdade daquela. Por isso o tempo pode aparecer como a
'potência mais alta de tudo o que é" (RPh., p. lZ,l.26-7). Entendamos:
de todo ente finito. Somente sobre a muldplicidade do finito o rempo
exerce sua potência (cf. Enzy., S 247, Zus.,p.27). Diferentemente do
Conceito, que é a total negatividade junto de si mesmo, o finito, ainda
que tenha em si essa mesma negatividade (qu. o rempo exprime) como
sua essência universal, não deixa de ser unilateral,\3 cindido e,
conseqüentemente, "comporra-se perante essa negatividade como
Capítulo 7
perante sua potência" (ib;d., S 258). Segue-se e ral é a lição que A PURA CONTRADICÃO SENDO.A|
Hegel extrai disso que, se o tempo pode ser- denominado "o mais
-
potente" (das Machtìgste), nem por isso ele deixa de ser, também, ..o
mais imporeme" (das Ohnmàchtigste) (cf. ìbid., Zus.).

f onforme problemática clássica de que é herdeiro, Hdgel associa sua


à
\v elabo.ação do conceito de tempo às noçóes aparentadas de devir e
.le mudança. Já assinalamos que em relação à mudança o tempo é igual-
rìrente primeiro e segundo, que, embora ele seja a mudança pura, não
haveria tempo sem o processo das coisas reais. Em outras palavras, o tem-
po é logicamente anterior à mudança e epistemologicamente posterior.
Podemos dar-nos conta de que o tempo não é sem movimento nem
rnudança, dizia Aristóteles, ao constatarmos que, "se nos acontece não
pensar que se escoa tempo, é quando não determinamos nenhuma mudan-
ça e a alma parece durar em um estado único e indivisível"; ao contrário,
"é sentindo e determinando que dizemos que se passou tempo". Se a
variação do Agora nos escapa, julga Aristóteles, parece-nos que não há
tempo intermediário: se o Agora tivesse permanecido idêntico e único em
lugar de diferenciar-se, não haveria tempo.r Sabemos que para Aristóteles
o tempo, não sendo idêntico à mudança mas também náo sendo sem a
rnudança, é algo da mudança, mais precisa-mente a enume ração da sucessão
do movimento. A afirmaçáo hegeliana de que é o processo das coisas reais
que constitui o tempo parece, pois, reatar com esse comPonente que Po- i

I
l1 "oser-aíéessaunidadeouodevirnessaformadeunidade;porisso
oser-aíéunilateral
efnito" (Enzy., S 88, p. 110; trad,. p.354). I Cf. Física,IV, ll,218b27-219a2 (trad. H. Carteron, ed. Belles Lettres). r

t04 r05
demos distinguir no conjunto das análises
aristotéricas: que o tempo não rtl:r{o uma
pode ser-nos dado sem que se apresenre segunda, desta vez de alcance lógico: 'b rempo, como condiÉ.o
à nossa experiência uma mudança.
í,,'rnal da possibilidade das mudanças, é-lhes na verdade objetivamente
Se o mundo permanece idêntico an-
durante du", f"r.s sucessivas, como po- rt rior, mas, subjetivamenre e na realidade da consciência,
demos afirmar que se trara de duas fases, essa represenra-
que elas são du"r,
.o_o podemos
discerniìas? Não poderíamos distingui-1", como qualquer outra, só é dada por ocasião das percepções,,.a É preciso
,,:i<r,
.".o...ndo a algum ourro acon- ,1rre o condicionado convoque nosso espíriro para
tecimenro, às baridas de um pêndulo, que cheguemos .o.rh.-
por exemplo, poi, ."rr", maneiras de , ir.ento de suas condições de possibilidade. Episremologicamente "o
medir o temPo exigem que alguma mudança posterior
se produza diante de nós. ponro de vista das Analogias
Assim' a identidade ou a ausência de
mudança nos impedem de norar a
- o rempo é logicamente
-, ora, Hegel só poderia anterior à mu-
sucessão' Inversamente, pode-se ponto de vista da Estética. insurgir-se contra
afirmar que o 'lença -
mundo p..-".,... idêntico tal explicaso desta segunda relação, considerando-r.
durante dois estados sucessivos ,o-.nr. .o.rr.qüências que
se o rempo nos é dado, e no .ìcarreta e a representafo do tempo que pressupóe. ",
enranro este nãose apresenra sem uma mudança
qualquer. Nessa solidarie_ costuma-se represenrar toda mudança graças a um par de contrári-
dade entre a mudança e o rempo,
travada graças a uma
dupla implicação,
podemos discernir qualquer prioridade? os, pelo menos na tradição da normalização aristotélica.5 A mudança
Ërr", du". impli."ç0., ,..uo d^ :lparece então como uma relação de transição entre um certo estado,
mesma natureza, o tempo suporá a
mudança d" _.rm" maneira que esta
de-coisa inicial e um estado-de-coisa final. Esses dois termos da relação
supõe o tempo?
devem opor-se. Só se pode dizer que há mudança na passagem de A
o tempo, porranro, só pode aparecer sobre o fundo a B se
da mudança. Kant esses dois estados são mutuamente exclusivos, isto é, se
referia-se a essa hipótese, sem drirrida, sua conjunção
quando afirmava que .,o ,._fo nao implica uma conrradição lógica; a mudança de A a B resolve_se, assim,
pode ser percebido em si mesmo,' . em
qu., por c<lnseguinte, é nos objetos da
duas mudanças elemenrares, uma de A a não-A, outra de não-B
percepção que é preciso encontrar a 8.6 Kant
o substratc
g.ol.; p".^ q,'. .,o, ,.1" dada a própria adota essa interpretação da mudança. Aceitando explicitamenre uma

preciso que a série das mudança. já


;:::rrfi:'rï::i:ffi,ï cerra
idéia de ordem, que nela se associa, por sua vez, à noção de contradição,
ele
ert.j" previamente disponível. ,,O
a concebe como uma "sucessão de determinações opostas": 'A
mundo sensível", diz Kant, ,,como .orlurto mudança é a
à. ,odo, o, f.rô_.no, .o.r- ligação de dererminações contraditoriamenre oposras uma à ourra
tém ao mesmo rempo uma série de mudanças. na exis-
Sem essa série, com efeito, tência de uma só e mesma coisa".7 com isso, a mudança mostra-se
a própria representação da série votada
do tempo, como condição de possibilida-
de do mundo sensível, não nos seria
desde início à contradição. Enrreranto, a palavra "sucessão", na definição
daJa.,,, Guardadas a.Uà", p.op"r_
da mudança, já indica onde se enconrra a solução da dificuldade.
",
çóes' Hegel' como vimos, poderia admitir rar constatação Na expo-
da anreriorida- sição transcendental do conceito do tempo, Kant acrescenta a seguinre
de epistemológica da mudança em
reração ao rempo. Mas Kant, ao convi-
observação: "o conceiro da mudança e também o do movime.ro
dar-nos a operar uma ciivagem ..rrr.
o tempo taÌ como é em si e nosso - f.o-o
modo finito de aceder à representaçao mudança de lugar) só é possível pela e na representação do rempo, e, se
do r.mpo, associa a essa primeira -
4
Ibid.,B 482, A454, rrad. p. 352 nota.
B 225, urd- p.
9-Y.r:r' cmpirisra: cl. p. I78; B,2JJ, rrad. p. lgJ. Nesse senrido, Kant prolonga
tradrção a
5
C[ p. ex. Física,I,5,l98b22; Metafsica, l0llb34;1057a21; i069b3.
ex. Locke, Án Esìy concernìnq hrtman
unlerstanr/itt.q, Lll, H._von lVright, Time, Change and
9I-9
1962, p. 20.
Contradìctioz, Cambridge Universiry press,
CRhca, B 480, A 452,vad. p.352.
CRPura, B 291, trad. p. 214: B 4Bg, A 461, trad. p. 356; B 232_3,trad. g2.
p. 1

r06
t07
essa representa{o não fosse uma inruifo (inrerna) pcrcebemos que "o começo (do movimento) em
a priori, nenhum con- um tempo e o repouso
ceito, seja qual for, poderia tornar inteligíver c'rÌì outro rempo não são oposros contraditoriamenre";
a possibilidade de uma mu- dissociando as
dança em um só e mesmo objeto, isro é, a rleterminações opostas' situando-as em tempos
por.ibilid"d.
de uma liga$o de diferentes, o rempo ror-
predicados conrraditoria-menre oposros (p. ex., possível sua composit'o.e Só é possível ligar uns aos
a existência de uma coisa ':r ourros os
diversos
em um lugar e a não-existência dessa mesma coisa t'srados de uma coisa repartindo-os segundo
no mesmo lugar). É uma ordem temporal que
somente no rempo, isto é, uma_depois_da_outra (nacheinandzr),
q,r. du* 'rssegure ao mesmo tempo sua coneúo e sua manifesta exclusão recíproca;
determinações contraditoriamente opostas (ìuer se conceba o rempo como uma
podem convir a uma mesma série dinâmica dos estados das subs_
coisa"'8 Assim como não haveria tempo e
n..riur., meio de acesso a uma tal râncias, ou como uma forma da intuiéo pura,
norar_se-á, com Hegel, que
representação em um mundo desprovido Kant e Leibniz se junram para empresrar ao rempo a
de toda mudança, imóvel, assim função d.
também a mudança seria inconcebível "p.g..
pois contraditória
- qu. Kant em
um contradifo, de eludir o problema da forma contraditória
qu. ..rr.rr. "
mundo intemporal. É d.rr. ponto de',,irr" -
considera a priorida- rnudança. Na origem desse acordo, encontra-se
uma mesma concept'o do
"
de lógica do tempo em relafo à mudança: .rr"
,. tornaria impensável se tempo como parâmetro ou como meio, em si mesmo
imutável, somenre
não pressupuséssemos a representaso do rempo qual pode inserir-se a possibilidade de uma mudança não
como condifo formal de
sua possibilidade. Somente o rempo, assim
'o contraditória.
reduzido à forma abstrata do Vimos como Hegel recusa essa maneira de ignorar a
essência do tempo e
Naclteinander como modo de separação, permite como ele faz do tempo, não o lugar em que se desenrola
eliminar da mudança a mudança, mas
a contradição' que de outro modo seria inelutável. A sucessão, afasrando a própria mudança pura e tal é a maneira hegeliana d. ..r.".",
no tempo o estado A do estado não_A do mesmo
objeto, afasta igualmen_ prioridade lógica do rempo- em face da mudança. o "
que Hegel está rejei-
re a possibilidade da contradição. Assim, no tando também, com isso, é uma represenração espacial
caso da mudança ã. I,rg^r, do tàpo que faz
'Jo Nacheinandn um Nebeneinandzr larvado: se acreditam podeì neutrali-
zar a conrradição pela e na representafo de
8 CUura, uma série remporal, é porque,
B 48-9, trad. o- (12.,:M. Gueroult explica
como Salomon Maïmon esrabe- em última instância, compor sucessivamente as determi.r"ça.,
lece as.condiçóes de pássibiridade de um juízo
àriginãrio de diFerença rob;. p;;;.p- opoì,r. ..-
ções diversas. Arravés disso, ele aproxima-se de Krïr dunda em justapôJas, confundindo sua sucessão com
pode conceber a mudança ,.. ;;;^d.;;;; ;ïüï.fi: .. uma comp".tirrrerr-
."ì'. em uma ."r,.diì;;.';i;, ;;.iir;:::'._ rat'o.l. Longe de ser um meio de esquivar a contradifo, ,r,'"
g"rand" d.
conceber as relações entre o Mesmo e o
Outro, ia..rria"a.., dif.r.iç". Àr;;, .-
Kant: 1.") só o remno libera a mudança "
d".ontr"diçio,2.");;;;.;iãï.i"
mudança nos inrroduz à representação do rempo. a"
Reenconrramos em Maïmon uma e C*ura,
alternância an:íloga enrre o juiro de àif.re"ç". B 48g, A 461, vad. p. 256.- Reencontramos em
infletila em um sentido "intelectualista' "Ë*.
I *i.rì-
temporaì, sob a condição de Schelling um procedimen_
to rigorosamente semelhante em que, do mesmo modo, a f";ç;;;;;;ÌJr".
i"i^
t"rìginário da diferença; p. ex. .o
verde é diferente do vermelho'),', escreve G".rá;I, .:neo"é contradição de estados oposros é atìibuída. ao rempo: ,,em
representação de uma sucessão temporal. [Jma
porríu.|, p"ls, l."ã"-i.f"
uma passagem de um estado a seu contradiroriamente
.d" ;;";;" ;;;;-';r"-r."
sucessão temporal já é em si, sem oposto, por .".-plo quando
l1::i: --
oenre e' como "'o,bi:l:,
represenrados n
ra.r, diferenre do seguinre;"t^. "^^,;;;;;;i,ìi):ri*.'o^;ìr,]Ï..';,::. um corpo pessa do movimento para a direção A a u^
Fssa ligação de esrados conrrrditoriam.n,. oporro,
-oui_.rr,á p"."
"
dilr.çaâ_ A.
,: p.:q:- ser representado,
náo são anariricamenre idénric"r;;;í;;"- só é possíver, na interieência
"i? Ã ,.- o ourro, constituem, em suma, ,ma unìdade
idênrica consigo mesma e que se.rforç".onrr"n'r.;;;,.
úiú;rrìa.à. ir.ïrt.re"-
t.,:!::: Phìlosolaìe nansrendantale de Salomon Maì.mon, cia, através do esquematismo do t.mpt. A intuição
produ, o ,.-po .o-o .onl,"n,.-
,:!:
remporar rorna possíver o juízo de diFerença,
p. 108). A ,"..rrr. menre em rransição de A.a. _
mas a diÊerença obieriua e condiçao-de A, para mediatizai a cãntradiçáo ..r,r. opo*or. Ãir"ué,
possibilidade da sucessão temporar. "s. r;;-Jh;rr-ã da abstração suprimido o eiquematismo ., .à- .1., o ,._pJ,J (iïrrì. a^
torr. em si diferente do verd,e .é
náo poderíamos represenrá-roi em uma sucessão" Tianszcndentalrn [dealismus, p. ì s6). Cf, rambém Z'l ,r,1, U"rar,'ií
sentaçáo de uma sucessáo remporal, o verde
,.n'po.rì. Mas se não temos a reDre-
p. l0B, em que o rempo
t,,ìiíií^a. rn.,
. i" pJ;;;;";;; ;;;:;",
J.rn'.f é concebido como cópula indivisível.
diferentes e jamais os conheceríamos como tak, (ibid.,p." Ì09).
ì"
Já em fuistóteles a contrariedade dos termos da mudança teria uma conotação
espa-

108
109
não-contradição, o rempo é anres e ral era uma das lições da lógica
de Iena -
"a pura contradição sendo-aí" e, Ììesse nível, não há
F ssa representação unrlateral do tempo, à qual Hegel opóe seu conceito,
- nenhum papel que muito para reforçar a falsa interpretação do conceito do devir.
atribuir-lhe ' 'r.tribui
conciliador.ìr l'. o que ocorre, justamente, quando se Í:az do
devir absoluto um mero
,lcvir-ourro. Se, de fato, o rempo permire ligar as dererminaçóes
oposras
,le um mesmo objeto, ele as associa "uma depois
da outra,': opera, muiro
cial. Aristórelcs, escreve Ì"e BÌond,'parcce inspirer-sc inicialnientc r'ais, uma dissociação. Aplicada ao devir
por cor.rsi<Jeraçocs i566 é,todas as vezes que há
rcpresentação do devir em rermos remporais-
espaciaìs: toda nrudança, com efeit., é dctcr'inada p'r clois
p.ru,à, menos o
r.ncdida ern que- são a forma do Nacheinanr/er
ponto dc grartida e o ponro..ìe chcg.rd.r "o
I.r..ir,,,rl",,,",.," -,movimento
ponto de partida e de chcgld.r,.rr", d,,ì, -., i'troduz nele corres, desarticula e detém
lì(ìrìr(\ \(- gpõrem,, (LogiErc Mltlrìrlr rlrr" esse de desaparição
Aristote,2.'ed., vrin, Paris, r970, p. 3to-t; r rcprescnt,içáu d""t uma sucessão
-.Se
tcmporal tira do conceito d. m.rdança l c..r.tliçÍ..1u" prr"...o,,,.. J"rd. 'lireta do ser no nada e do nada no ser que consritui o devir.12 Este é uma
início, cÌa
.não
poderia realizá-lo scrÌr rÌnrì rirrir:ra c ^incrìspJnsível
"1"
refèrência à
extcrioridade espaci:r1. "como é possível que clc unr .i",l,, rcsLrlrc na mesma
coisa um outro cstado oposro ao primeìro?", i.cìuqrr_sc "rt"d,r
Kant..'E isso que, nío só
nenhuma raziro pode tornar ccr'celrível sc.r .".,rìlrÌ,,, rÌìr-\ quc ,r"n.,
lr,"r,rro al" Schelling, ainda: 'para a razão pura não há tempo, para cla
sâbcria torrÌar-sc inteligível sem intuição; c css,r inrrrição é,r,lo tuclo é, e rudo ao mcsmo
movirncÌ.Ìto no tentpo (zugkich), pr,." razãq..narnedid".- qu. é ernpírice,
espaço tJc um Ponto cui.r existêr.rcia em clilcrcntcs lrrgrrt.s (tornarìl
cono sucessão de " ruclo'ascc, e tutl.. que
Ìlre nasce é somente sucessivo" (slstem d. t. L/ed/ìsrtus, p.
rletcrrnr..rçõcs opostas) é a ír'ica (Ìuc llos pernritc, tlc irrício, e i'tLriç:1o
da muclança,,
r52). ora, é curi.so notar
ciue Hegcl não roma tento de desquaìificar a cráus.la'
(CRPura, U 29l-2, trad. p. 214). z,rglrirh,,ì,r" rrìI,ìi,'."- .
mesma negligêrcia d:r tradiçã.,.no.enunciado do princípioïe
I I Hegcl e Kant só cntraÍì em acordo quanto à ncccssìcl.rJc clc cstebeleccr ccr'tra.1ição _ ,A n:,n
pode scr ro mesrno rc.ml:.(zrtglcic/t) A e rrão-A" (lyl//
LÌmâ corìexão
íntima entre a m'dança, a conrradição e o tcrÌìr)o. scrr rrc.rdo, crìtrctanto, ..'il. p. J I ) _.-hor., n.rr. .1.
como t'rmbem lìão 5e rrare de elahor:rr unr princípio racion:rr com
acabamos de ver, termina aí: Kant represenra-sc o ì.,r,1ru .un.,, o.ruxirio Je rrma cán.ìiç.io
um meio cle escapar à Je rcmpo. Convcm lcmbrar qu" kr,.,, nío loi scrrrIrs J.r rncsm.r opini.io.r rcsnciro
contradição, enquanro em Hegel o rempo prcÍìg,ra e conÍìrma .o* ..,Ì;çai
d. desse "ao -
mesmo rempo". Assim, na Dissertatio d,e 1770,.1. ;";ì",'.;;ü.ì!.
mud:rnça. se abandonamos o rerreno delimirarro " nío estão em conflito, a náo ser pensados simu/taneatntnte (i. e.
O
1ìero cor,ccitc, .i" -.r,l.nç", .,.,, ,1u. ao mes'mo,"-pn; d"
se inscreve sua divergência, para situar-no, no,.rr",ro, igualrncnte nesma coisa..." (S 14, t), procurando indicar com isso _
t."l-r"lh"do po. pressuposição do tempo,
um-r traclição imponente, circunscrico pelo prircípi. dc ccìntradiçío, mes.mo pelo.princípio de rodo pensemenro em.geral
e Kant concordarem que é preciso despojaì o cánc.iro J.sse prìncípio, ".r"-.ìì;*.r a Ì.ìrìrureza intuitiva do ternpo
ou a idéia e a impossibilidade de uma dedução racionar
dã t"-po- (cf. a esse ..rp"i,o, Hïi"gg".,
mesmr de conrradição, d",.odo,.:Tl,l:nrnr" r.-por..,l. ..E impossível'qu..lJgo Kant et le problème de la métaphysìqrus, trad. \waeÌhe.,, . Bi.-.1,
r"1. crri"l".a, ïJr, itq il,
niro seja ao rìe.srÌo tempc (zugleich).', Kant que tal formula jin,.i?rrn.nr." p. 249, nora I ; c[. também, G. Lebrun, La patien ce du
".r"ái,"
,porta i finrlid.rJe do prirrcípio dc conr'dição..uj,,,ic"n.. rr
ron rrp,r, p. 25 6).-'
esrrirarrrenre lógilo rrio Isso não quer dizer que seja lícito, em cor.rtrapartida, ver
devcri:r ser limirado por r.iafó.s tenrporais, quc, de resro, inrroduziriam no conceiro de tempo tlue
uma sí'rcse Hegel opõea.tal representação, em qu. o ,",rìpo só tem
em um princípio desprovido de todo conteúido e simplesmente rormal. por fr.rnçáo poupar
Entretanto, rito a dificuldade da conrradição inerenre à mudança, o conteúcio "L "rpi
pela simple s intcrpretação dt c.ndiçio zugleìcrt, ráo se pode infe rir mesmo do clevir
qu" rc",r. f rãd" (como pudemos indicar mais acima). como veremos,
pôr enr ceusa o papel atribuído :r saber, de ctnciÌiar, ..Ì" cu-po. as possìbi- Hegcl terá ocasi:ro de rlenu',
"o.t.*po, ciar, em todo recurso â represcntações.temporais, urrr r..,ic,
Ìidades inco'sisrentes; afetado peÌa condiç.'r. c1e tcmpo, esse princípiir, com ereito, du p.nra-"n,o o,
verdadeiros pr.blem:rs do saber especulativo. "unicracle "n,"
cxprirne Êrto segui'te: "urna coisa = clue é argo = R náo pn,1. r.. dc fìto cìo s., . ,io Nan-r.r,
.o { n.,"r-o ,.,r,pu pr.rmirc. pois, recapturara unidade rÌe clireito a",,"r.","gorlìì,.
(zu gleicher Zeìr) não B, mas podc perfeitamente-ser "t B quiÌnro não
um e ,,utrc, (ta'to :-.iÏ:.l,",nJo d() tempo náo podr
B) succssivamen te (na ch einander)'; (cf . CR?ura, B r 9 r -2, A r contÌuzir-nos senÍo à :s1l1ç55.i,, do scnríiel. j.rm.rrs"
52-3,tracl. t ig,9). Essa 1".'|ot1;.,;",og'.'
a Ìturrlrtrcàçãodnspurospensamenros,',(G.Lebrun, Lapitirncer/uconc(pt,p'.25g).
nlesma recuse de permitir que Llma (leterminação terlporal comprometâ
a pure_ c5rtg, não se poderia dizer que Hegel vai busc". nu,rr" f.nnm"nolog'i"'i.;;p"-
zade uma instância lógica, associada ao emprcgc, da condição ,io l3r
po"' cl.ìconrra-se en.r Ficirte,_por exemplo: "'é c"ssc.scilar á. i-"gin"çao -.rr''o',",_,.,- riência do rcmpo o argumenro p".a deÃonst.ar a uni<latre
cio ser e a. rã.-*., ,,"a"
em sua explicaçáo autoriza semelhante hìpótese. E no enranto,
incompatíveis, esse seu conflito consigo mesma, (Ìue, como se mostrará ",-,,r" por rudo o que pre-
a setr cede, é preciso reconhecer na unidade dà ,". clo não-scr
tempo, estencle o estado do erL ncsse conflito a uÌn molncnto temporal: exiËida pclo Ag'or.',,r,-,
mera razão pura tudo é ao'cs,mo rcnpo (ntg/eir/r); somente para
para:r "
pouco mais que a simpìes unidade de rato jogando,se ao lad. .io
a iÃaginaçãc, h,í d"s
um tenrpo" (Grundlage d. g.Wìssenschafrsfel:,rr, S\üZI, p.217; tra<J..;,.,'p. categorias Há, sem dúvida, entre .sras duai Àr-", d. "nc"de"mïr.,to
pÍcsenraçaÌo <la unidacle, roda
f óf ;. e a distância que separa a etsê,cia do exempro, mas
é precisc, lernbrar qr" .,..--pr" a.
"
110
111
passagem, sem dúvida, mas uma 'passagem já efetuada' (WdL.,I, p. 67) :rlte_rnância: "agora
Çeai) isto e depois outra coisd' (VuGph.,\f lg, p. 327;
de um de seus momenros eo ourro e reciprocamenre. 'A unidade, da trad. p. 160). Tudo se passa, pois, como se o esquema temporal _
prove_
qual o ser e o nada são momenros inseparáveis, difere ela mesma
desses ele mesmo de uma representa$o incomplera do tempo _ rá forr.
momentos e representa, em relação a eles, um terceiro momento 'iente
que é, aplicado ao devir para eliminar nele esse'ponto em que o ser e o nada
sob sua forma mais particular, o deuir. A passagem de um
ao ourro é a coincidem e se enconrram, em que se apaga a diferença que os separa'
mesma coisa que o devir, com a única diferença de que, na (WdL.,I, p.69; trad. p. 75).ra
passagem, os Nesse nível do pensamenro represenrarivo,
dois termos, o inicial e o final, esrão em repouso e distantes
,.- do o,rr.o,
efetuando-se a passâgem, por assim dizer, entre os dois" (\tr/dL.,I,
p. 79;
trad. p. 86). Ora, desde o momenro em que se impóe ao ra I'latão já deparava
devir u., .rq,r.- com uma dificuldade análoga quanro ao imbricamento das noçóes
de mudança, contradição_e_t:.q". o qu.ï.
ma temporal, essa diferença, que seria preciso não perder de
vista, desapare- !
terceira hipótese do Parmênides. Emlugar
iod. .nr..u., na argumentação da
ce, os dois termos se afastam um do outro, isolando-se
de u-" da outra asietermin"çóes
no tempo. pode- "p".,".do Antes
opostas da mudança, segundo o modo ãe separação
e do Depois, ,ui.çao
se entrever esse desvio do conceito do devir, primeiramente, nas ,,r..,..rçr. platônica consiste ântes em pôr e manter À.-.-..,,. seu ponro de "
encontro (cf.
l56c-r56e; trad. I)iès, Bellei Lettres). "Esrar anres imóvel e, ,,-
populares" "tudo o que y'contém, pelo próprio fato de -o-..rro *por,
seu nascimento, mover-se; estâr antes em movimento e, no momento posterior, esrar
-
os germes de sua desaparição", etc. náo é sem.mudar que ele poderá receber esses estados âiu.rror.,,O
em repouso:
as quais, não obstante, remetem à que platáo tem
-, essas expressões,
unidade do ser e do nada; e no entanto em vista é. justamente a passagem, como tal, do repouso ao movimentà
e deste àque-
acrescenta Hegel, le; alel disso, enquanto p..iirt. o estado d" ..iouro ou o de movimenro
"têm um substrato sobre o qual se efetua não se
a passagem: o ser e o nada são pode falar de mudança; esta só sobrevém p.l" . ,r" efetuação mesma
da o"rr"*.- d.
separados no tempo, são pensados como aÌternando-se um a ourro desses dois termos. A quesrão Àerece ser colo..,lr' .,n qu.
e não como sendo lugar a mudança? Ora, Platão acabava de constatá-lo: ,.não há, pà, ...,o, -t-",i,o ,.-
em si uma só e mesma coisi' (ibid., p. 6g; trad. p. .r.nh.,-
74y.8 O forma tempo no quaì um mesmo sef possa, igualmente, náo ser nem movido nem
imóvel".
acabada dessa maneira de não acerrar com a idéia do de'nir Isso resulta em empresrer âo rempo a Função de uma instância
é o deuir-outro de decisã0. Excluindo
(Anderswerden) que, diferentemente da mudança a possibilidade de um terce.iro rermo que iosse indiferente
à oposição do movimento
absoluta, reduz_se à e do repouso, o rempo mostra-se incompatível .o- .olo."ião *,.. p"ren,"r., ao
"
princípio do terceiro excluso, qu. no.nt"nto é indispensávei p"r" quâ,',. p.opo.
captar a essência da mudança. A impossibilidade de conceber
unidad. do ,à, .' do
um conceito, em Hegel, náo se confunde inteiramente com não-ser, de acordo com Hegel, está, com efeito, estreitamente "
sua irustração contin- associada com a alter-
g:tj:_(:f. P,hay, p.80; nativa do rerceiro excluso (mal compreendida, aliás) aplicada às cat.gori"s
Vorlesungen über dìe philosophie
VuPhR.), ed. G. Lasson, F..MeineiHamburg, I966, I, p.3l;.f.
dr;R;ig;;i;b;;;", d;;;r.
do nada; assim, objeta-se ao conceiro àe sua unidade ':qu. não há estado"intermediário
p. f iy. õì",
o Agora exemplifica a unidade das caregoriai do se, e
dà nada, Do "ci-, íoao,
(estado
2
um rermo impróprio, bárbaro) ao ser e n-ão-r... Ainda aqui se admite a
-.r-o "o
separação absoluta entre o ser e o não-ser, Mostramos,
categoria do devir pode ser considerada-também como u-
"mas se o náo-conceber significa apenas
.";;pro J;rr;;;id"d.," ao contrário, que o ser e o
não-ser são, de fato, uma só.e mesma coisa ou, para falar a linguagem
que náo se pode ,rprrrirro, r;ü;l;;. áe há pouco,
ser e do nada, este, na realidade, é táo pouco o caso, que " conrrário,
caáa qual, pelo gue n^ã9 há nada que não seja um estado intermediário ao r.r". nao-ser" irtrLrL.,
rem representaçóes infinitamente numerosas dessa unìdade; i, p. 9l; trad.-p. 99). Lembremos que Hegel não deixará d,e "ãfazer o .loglo,to
. qu..,ão,.,.nt",r.t alcance especulativo do -conceito de devir que .r.ão.rr"-o, .,o parmênìdes (cf.
só pode querer dizer isto: que não se reconhece o conceito uícpn.,
l:l-tï:"*:* p.opor,o \0r 19, II, p. 82). Na via que conduz
quaiquer desses represenrações e não a sabe como exemplo dele.
o exemplo mais "_ u.ìd"d.i.o conceiro da mudança, o rempo se
próximo dele é o deuir" (Enz\., S gB, p. 109-10; trad. p. 353). A noção "o
mostra, porranro, como um obstáculo; por isso platão o afasta em ,u" ,.rpor,",
d; r";;;",
,tl!nï, é "um exemplo ìgualmente púximo,, (ibìd.). Emsumâ, uma u., mudança de ser só pode ter lugar no "-o-.nto em que ele não está em ne_"
nhum tempo", -um
isto é, no instantânei (tò exaíphnes)..,Tal é àm efeito, ao qu;;"r"-
se seguirá,"
rudo o que"dqui.iã"
unrdade do ser e do nada como a vcrdade lundamental de
'temos exemplos dessa unidade, além ce, o sentido do instantâneo: é o ponto de pãrtida de duas mudanças
inveir"r.'poi,
do devir, em ,oa", ou,.", ì;;.;;?;;.,
lógicas: ser-aí, qualidade (IVLL., I, p.70; trad. p.76). ", não é da imobilidade ainda imóveì qu. ,rrg" a mudança; .rão i do
-o'i-*,o
l3 ainda movido que pârte a rransição. É, pelo"contrário, essa narurezâ
Assim, em Kanr' a sucessáo_remporàl está intimamente ligada estranha do
à possibilidade da instantâneo, que, situada no intervalo do movìmento e da imobiridade,
passagem do não-ser ao ser. Cf CRpura,B 230-l,A lg7-g, fora de todo,.-p.r,
irad. p. lgl. é justamente ranro o ponro de chegada quanro o ponto de panida
para rnud-ç"'do
"
112
tt3
o tempo, aparece, portanto, como um dos componentes do esforço de de salidade; por ourro' as grandezas de realidade e de tempo náo tèm
mini-
negação da contradição.
mum. o princípio da lei de continuidade de toda mudança prende-se à
Esse recurso a representações temporais para escapar à contradição
náo consratat'o de que 'hem o rempo nem sequer o fenômeno no tempo se
leva muito longe: já a simples consideração da continuidade do tempo
rein- compõem de partes que sejam as menores possíveis e no entanto a coisa,
troduz a contradição na mudança. A constatação é simples: se a mudança é ao mudar de estado, só chega a seu segundo estado passando por todas
contínua, deve chegar a uma etapa de seu percurso em que dois estados essas parres, como outros tantos elementos. Não há nenhuma
diferença
contraditórios se enconrram ligados, em que o substraro da mudança seria do real no fenômeno, assim como não há nenhuma diferença na grande-
afetado ao mesmo rempo por duas determinações oposras.r5 o apelo à divi- za dos tempos' que seja a menor de rodas. o novo estado de realidade
sibilidade infinita do rempo mosrra-se insuficiente e, aliás, p".ece redobrar parte do primeiro em que a realidade não era, para aumenrar passando
a
dificuldade. A explicação da continuidade, que Hegel ilustra com um co- por todos os graus infinitos dessa mesma realidade, enrre os quais as
mentário das provas de zenáo, rraz uma confirmação suplementar da tese diferenças são todas menores que entre o e d'.r6 É j,.rrt.-..rt. o
hegeliana de que o rempo, longe de neutralizar a contradif.o contida na mento da dicotomia, despojado de seu componenre anrinômico: "rg*- uma
mudança, vai antes pôJa em evidência. variável "x", tomada entre os limites "o" e'a", deve percorrer em
certa
Para Kanr, a continuidade da mudança que ariás se segue do princí- ordem todos os valores compreendidos enrre ,,O,, e,,i,.t7 Em ral posifo
pio da produfo (segunda Analogia) -
não apresenra problema nenhum. do único percurso contínuo exaustivo, reencontramos, segundo Hegel, o
- por uma ação contínua
Por um lado, toda mudança só é possível da cau- próprio ato absrrativo do entendimento, que consisre em rerer uma úni-
ca determinidade, enquanro a ourra determinidade igualmente implica-
móvel que-passe ao repouso como pera o do imóvel que pessa ao movimento.,,A da é afastada e posta na sombra. zenão teve ao menos o mérito de
encarar
mudança efetua-se no instantâneo_e o móvel, .nqu"nro as duas determinidades, a conrinuidade e a discreção, em seu
-,rda, não poderia estar em conjunto.
nenhum tempo. O instantâneo platônico é pr.cisamente .rr. ponro de que
falava, no qual as determinações conrraditoràm.nte opostas coìncid.-.
Hegel É t.,to que Kant, no segundo conflito das idéias transcendentais, vorta a
r..rr.orr-
tram, no- qual a diferença_que as separa se apâge, um ponio indiferenre e neurro. tratar da antinomia da divisibilidade infinita do tempo. No enranro,
Assim, por
Platão libera o conceito de mudança de ,oàJ.rqu"Â",emporal,
e de maneira radical; razóes atinenres ao conceito do "método verdadeiramente dialético"
mas, se ele preserva a noção de mudança de toda ìnterferência de ordem
faz do inçante esse lugar inapreensíver onde se produz uma,urp*rao
tempora.l, ele
ããi.,'po.
que não nos cabe rratar aqui -
Hegel considerará as provas de zenáo
Hegel, por sua vez, ao reproduzir de maneira geri o procedimento platô.rico, "infinitamente mais engenhosas-, e profundas" que
fazer economia de uma ral suspensáo, pois"conceÉe o rempo,
foderá a antinomia kantiana.
1,1r,.-".r,á,'.orno Nessas verdadeiras formações dialéticas que são os paradoxos
unidade negativa. Mas,, por ouiro lado,'tal concepção do inrt"ítârr.o, .-'qu.
r. de zenáo,
cumpreoêr.raseponrual.damudança,repercuresobìe"concepçãodoAgora (tinún) o que está em questão são as determinações contidas em nossa representa-
no qual o devir se imobiliza e a coisa r. fi"".- ,.u r.r' "^quiio qu. piogrià.
,o.", ção do espaço e do tempo e suas manifestações no movimento. Entre estas
naturalmenre, com efeito, por suas duas extremidad.r, àgor",'poi,,Ã t"áo,
depo.is, pelo outro' só solta o agora para apanhar o depois; "o. é'no "o encontra-se a determinação da continuidade. Zenão, segundo Hegel,
iniervalo q* ,. a" não
seu devir, entre o depois e o agora. 59, poii, é forçoso tudu o
que devém nâ" p".r- apen.Ìs as apreendeu, mas mostrou seu caráter contraditório. A explicação
ao lado do agora, todas " seu
t.r.i qu. eleìí está ele suspende devir. g, lo.rir,irio,
nesse m^omenro, aquilo "smesmo que comporra seu devir,, (parmênides,l "o 52c-d). Isto é,
o ente finito e passa-masÁgora ele y'.
_d9v9m Jusramenre o que Hegel atacava. Cf.
slstem d. t. Idealismus, p. ls6-2, em que sihelling examina "o
sofisma' CMura, B 254, A209, trad. p. t94.
"ntigo
concernente eo ponro de partida absolutamente primiiro do movimentol
It Cf B..Ru_ssell, The Principles ofMathematics, Nlenand Unwin, 2." ed., Londres, 1964,
Para uma discussão mais minuciosa desse "lugar comum", cf. von
)o_? r
w'right, op. cit, p. cap. XLII,.S.328, p. 348; A. Koyré, Remarques sur les paradoxes de Zënon, in'Eiudcs
d'histoire de la pensée philosophiqt)e, p. 22-3.

tr4 tt5
desse feliz enconrro enrre uma problemática justa e um
arcabouço con-
ceitual adequado é fornecida pela própria narureza da dialérica: "a Íaz.ão conceiro do contínuo do qual Heger acaba de fornecer um dos tra-
pela qual a dialética inicialmente referiu-se ao movimento é, jusramenre, ços que -
permite caprar o alcance geral do procediment o de zenão:
-
"no movimenro o espaço se põe temporalme.,.,
que a própria dialética é o movimenro ou, em ourros rermos, que
o pró- . o rempo espacial_
prio movimenro é a dialética de todo ente. A coisa, na medida em que rnente; o movimento cai sob a anrinomia de zenão,
se que é insolúvel
move' compoÍra sua própria dialética, e o movimento é isro: rornar-se enquanro são isolados os lugares a título de pontos
a si espaciais e os mo-
rnenros do tempo a tírulo de pontos temporais,
mesmo outro, suprimir-se" (VuGph., \7 lg, I, p. 305; trad. p. I4I). Ja- e a solução da antino-
mais passou pelo espírito de zenão negar o movimenro como mia, isto é, o movimenro, só pode ser captada no sentido
dado da de que o rempo
ceÍreza sensível porque ele comporta uma conrradição e o espâço em si mesmos são contínuos e o corpo
inrerna. pelo contrá- em movimen rc é e não
rio ele coloca a questão de sua verdade. é igualmente no mesmo lugar, isto é, é ao mesmo tempo
euando zenáo afrrmaque o movi- em um outro
menro é não-verdadeiro por ser contraditório, está dizendo que nenhum lugar e, do mesmo modo, o mesmo ponro remporal
é e não é igualmen-
ser verdadeiro lhe pertence, está apenas demonstrando te, isro é, é ao mesmo rempo um outro ponro,' (Enzy.,
a contradição con- S 29g; p.246;
tida na representação do movimento. A análise das provas d.e zenão trad. p. 285). Eis, pois, de que rnaneira, de enconrro à reflexão
uaz, do enren-
pois, uma verificação suplementar, ao mesmo rempo histérica e dimento, Hegel tenciona restabelecer os eros entre a mudança,
lógica, a contra-
do conceito especulativo da contradição; esra não é uma anomalia ocasi- dição e o rempo' reforçados por meio da idéia d. .o,rtin,ridade
e cuja
onal, mas o negarivo segundo sua determinação essencial : "ela é envergadura remos agora de medir um pouco mais
o princí- de perto.
pio de todo auro-movimenro, o qual não é senão a exposição da Ao mesmo título que a do espaço, a continuidade do tempo
contradi- é um
ção. o movimenro exrerior sensível é seu ser-aí imediato. AJgo se move: momenro da quantidade. Já tivemos ocasião de indicar
d. qr.r. ângulo
isso não deve ser compreendido como se a coisa se achasse Hegel liga o espaço e o rempo à categoria da quantidade:
Aqui neste o do ser-fora_
Agora aqui e ali no Agora seguinre, mas como o Aqui e o não_Aqui de-si ou, se se preferir, o da indiferença. O espaço e
no o rempo podem ser
tomados como instâncias da quantidade pura na medida
mesmo momento, e a coisa como sendo e não sendo ao mesmo
tempo no .- q,,. o real se
mesmo Agora. Pode-se convir que os antigos dialédcos deixa captar como preenchimento indiferenre do espaço
tinham r"zao l,r*- e do tempo.
do denunciavam as contradiçóes que sob esse aspecro, ambos se enconrram submetidos
o movimenco comporta; mas disso à dialética das duas
não se segue que o movimento não exista, e sim que o movimento determinações da quantidade: continuidade e discret'o.
éa Sendo a quanti_
própria contradição sendo-aí" (\tr/dL., II, p. 59; trad. p. 6g). dade o resultado da dialética do ser-para-si
o ser-para-si suprimido
Ora, é para
essa conrradição que Zenão teve o mérito de chamar -
o momento anterior da atrafo torna_se o momento da continuidade, -,
a atenção. Mas o en_
movimento mesmo é a essência do tempo e do espaço e, na medida quanto a repulsão, agora momento da quantidade, represenra
em que a discreSo.rs
esta aparece, é posra, é a "contradição aparecenre', fu idéias correntes sobre a incompatibiridade de fundo entre o conrínuo
que é posta (cf. VuGph., eo
ibìd'' p' 307; vad. p. 143). As provas d.e zenão, as quarro maneiras discreto, Hegel irá opor sua unidade. Grandeza conrínua
de e grandezadiscreta
refutar o movimenro propostas por ele, repousarn, como se não são somente duas espécies exclusivas de grandezale
sabe, sobre o mas cada
estado de divisão infinira do espaço e do tempo. Segundo
o rexro da Lógica,
reencontrarnos assim, na origem do conceito de movimento
como contra-
dição aparecenre' na base de uma tal contradi@o, a determina$.o Cf p. ex. V/dL., \ p. 179-80, p. 193-4; Enzy.,
S 100 e Zus., S 262.
da con-
tinuidade: o móvel é e não é no mesmo Aqui, E preciso evitar confundir, sublinha Hegel, momento (noção
no mesmo Agora. É o (representaçáo reflexiva). 'As grandezas
especula riva) e esoecit
ántínua. di;r.,;;.ãJ;;;;;;;rilí"d",
como espécies da quantidade, mas desde que a grandeza .r,.1"
por,", não sob uma
116
t17
uma dâs determinaçóes cabe igualmente à outra, cada uma dessas duas l''is como Hegel explica a continuidade do discreto: "do mesmo
modo, por
grandezas contém ambos os momenros, sua diferenciação originando-se run ourro lado, a grandeza discreta composra de cem homens é ao
do fato de que o mesmo Todo é posro ora sob uma d"rr", d.t.r-inações, rÌìesmo rempo conrínua, e aquilo que lhes é comum, o .homem,
gênero
ora sob a ourra. "(conhecer) sua diferença consiste em saber qual dos dois que atravessa rodos os indivíduos singulares e os religa entre si,
é aquilo
momenros é a determinidade posa e qual deles é a determinidade somente cm que está fundada a continuidade dessa grandezi, (Enzy.,
lO0, Zus., S
sendo-em-si" (lVdL.,I, p. 184; trad. p. 215). Cada um dos dois lados !í 8, I, p. 213 trad. p. 536). Nao se rrara, de modo nenhum, de uma
opostos contém o outro, nenhum deles poderia ser pensado sem o outro; soma infinita capaz dealcançar e restabelecer o contínuo, trata-se, antes,
da
mais precisamenre: cada uma dessas duas determinações é apenas a pas- continuidade lógica do uno "na medida em que é o mesmo (ser)
dos
sagem a seu outro. Hegel vê-se conduzido, desse modo, a conceber vários lJnos, a unidade" (ibid., s 100). A descontinuidade
uma quantitativa
descontinuidade imanente ao conrínuo e uma continuidade do discreto. abole as diferenças, cada um desses múltiplos Unos
é aquilo qrr. o o,rt.o é;
Essa dupla transgressão de uma determinação na ourra rem um alcance compreendida desse modo, a continuidade do discre,o .o.rrid.r"da
por
estritamenre lógico; deixando na sombra a idéia matemática de ordem, Hegel indica a igualdade que se segue de uma subsunção, a homogenei_
ela
provém de uma mera análise conceitual, e não há como pressentir nela dade devida ao fato de cair sob o mesmo conceiro. É nesse nível
rógiJo que
algum projeto embrionário de aritmetização do conrínuo. l.g Do mes_ deve ser captada a passagem' ou identidade, do discreto e do
contínJo.2o
mo modo que os momentos da atração e da repulsão, os- momentos do
uno e do Múltiplo se rransferiram da esfera do para,si para a daquantida-
de. Tomada em sua relação imediata a si, que nenhum limite, e*clusão 'zo Cf. \Y.dL.,I, p. 191,194.- Bertrand Russell, que não cosrumava ser indulsente com
ou a tradição hegeÌiana, a quaÌ, dizia, embora ,ur,.r,,"rr.
a t"s. heg"lia'a ,"ú*ï""ìa"a.
negaçáo vêm interromper, a quantidade é grandeza conrínua. A continui- da contìnuidade e da discreção, nem por isso deixara de guardai
,.;r;;;il,i"ìr.r"
desses dois rermos' um silêncio tão
dade é unidade do ser-fora-de-si, é esse momenro da iguardade a si mesmo
271' p.286)' recoloca o "dictum"_cãntínuo
quanto air"...,.Ì.À a-ãrar"r, >xïv s
hegerianà em seu níver p.opri"á.*. tãgi.o,
do ser-um-fora-do-outro. Mas, por essa mesma exterioridade doAussersich- interpretand.o-o.da seguinte maneira; "muitos rermos, consid"iadàs.o-o,..rdã
número cardinal, têm de ser todos membros de uma classe; na
..-
sein, agrandeza contínua é também discreta, pois é condnuidade do
múlti- _.did".- ou. ,ao
cada um meramente uma instância do conceito de classe, ,a"
plo. Nela algo "se continua" sem negação, ela é apenas um tal "conrinuar- i"Jir..r"r".irïì ao
ourro, e sob esse aspecto o_todo que compõem é chamado contínuo;
se" (sich-Fortsetzen) (wdL, I, p. r80-94), mas de múltiplos
.-
_"r,
de seu caráter de muitos, eles têmde ser instâncias diferentesà..ár..ia'a".r"rr.,
uirta
unos distin-
tos, de tal modo que está contida nela a exterioridade recíproca da mul- e sob esse aspeco o todo que compõem é chamado'disurto,' (ibij.,XLri,
S àzl,
p 3!Í). Embora sua hipótese iniciar que as noções de quantidade. a. nr"nã.r"
dplicidade. Sempre que se trata de grandezaconrínua enconrra-se o LJno -
em Hegel são meros sinônimos da noção áe númerá cardini
neo r.j".ãicrì"a^
como possibilidade real. 2.") Tomada segundo a ourra determinação que pelos textos, essa tradução propor," por Russell, associando - ..;,i;;iJ;.
indiscernibilidade e discreção-a dìfer.nci"ção, se aplicaria
p-,i."i"r-""ì. "l
contém a do l)n6 a quantidade é grandezadiscreta, cuja desconri_ segunda face da dupla conversáo enrre o contínuà e o discretJ-"i,
- -,
nuidade deriva da interrupfo
.onrid"."à" po.
constitutiva do ser-um-fora-do-outro. En- Hegel, na q.ual, com eíeito, trata-se da re.lação entre a identidaa.
. ar.,r.rria"a. ao,
tretanto' a própria descontinuidade da grandeza discreta é contínua. membros de uma mesma coleção. Essa é outra maneira de indicar " .- H.e.l o
vínculo lógico entre os conceiros do (Jno e do contínuo, po, uÀ
i"a" . ."ì?.
conceiros d,o Múltiplo e do discreto, poÍ ourro lado. É o qr. r.
pod. oUr..u"r, po, ",
exemplo, no conceito do número, cujos dois momenros são consrituído pela
s unì_
dade e o A,lzahl (o que responderia Í questão: quanro?).
O
determinidade extínseca qualquer, e sim sob as determinitlades de seus próprìos
momen- grandeza discreta, mas com sua continuid"de assegur"da pera "ú;;;;rp*.;;;..'.
unidadel
.tl;:, ;..-
/r?r: â passagem habirual do gênero à espécie permirc tanto, o
chegar a determinaiôes exterìores, ,qu/,,ntam em súa mais completa determinidade, pois seu limite é formado
decorrenres de um princípio de divisáo iguaJmenre extrínseco" (vdL. pela multiplicidade determinada que rem por princípio á uno,
I, p. 195; rrad. isto é, o absoluta-
p.2r5). mente determinado. A continuidaàe, .o-á ir,á.- qu. o uno é
apenas em-si, como

118 119
Ê

I
t
Um breve exame da antinomia do espaço e do tempo,
sob o aspecto de
sua divisibilidade ao infiniro ou sob o I.enão fez (cf. VuGph., \f lg, I, p.3t7; trad. p. 152). Entreranto,
d.
"rp..,o ,.u ,.r_.o_porro " lenáo teria tido a clarividência de pôr em evidência em cada uma
partir de elementos indivisíveis, rrará novas precisões a respeito ào .o.r- de
ceiro hegeliano do contínuo. De modo geral, suas provas a implicação contraditória de uma das determinaçóes pela
a solução h.g.Ii".," l..orr.
do reconhecimento da unidade do, dois momenros outra' Assim, em cada uma das formaçóes diaréticas que propôs,
da quantidade: se o em cada
espaço e o tempo são postos somenre com todo do processo do movimento dado, ele foi levado airtr.,gur,
a determinafo da quantidade qual das
"
cleterminações era em-si, qual era posta. "Nas duas primeir",
contínua, eles são divisíveis ao infinito; em p.o,r"r, e
contrapartida,se rão po.tor.om
a determinação da quantidade discreta, continuidade que é preponderante no processo: não há limite "
são em si mesmos divididos e absoluto
composros de unos indivisíveis. como cada nem espaço limirado, mas conrinuidade absoluta, ultrapassamento
um de seus dois momentos de
contém em si o ourro, não há nem grandezasimplesmente todo limite" (ibid., p.315-G; trad. p. 150). Tal a,dicoìomia,
conrínua nem que no
grandeza simplesmente discreta. Há r"nt"
'Aquiles" há pressuposição da continuidade
unirareraridade e posição da divisão; como
na posição da
continuidade em face da discreção quanro pressuposição, a conrinuidade é posra no fundamento
no caso inverso. o conflito anti- da possibilidade
nômico nada mais é que a afirmação da da divisão ao infinito, enquanro é o ser dos limires infinitamente
quantidade, uma vez como con- múlri-
tínua, a outra vez como discreta. A solução, plos e abstratamente absolutos que é posto nessa conrinuidade.
conseqüentemente, reside
Em con-
unicamenre na consideração: que as duas determinaçóes trapartida, na "Flecha" e no "Estádi o" é a reração inversa
do contínuo e que ocorre: o
do discreto, embora opostas e embora necessárias discreto é pressuposto como um em-si enquanto a continuidade
para um só e mesmo deve ser
conceito, não podem valer apenas em sua posta- "zenáo se conrenra com fazer valer o limite, a
unir"teralidade, mas recebem divisão, o momento da
sua verdade de seu ser-suprimido e só são descontinuidade do rempo e do espaço em toda sua determinidade;
verdadeiras na unidade de seu
conceito' Essa explicação vale ranro para a daí nasce a contradição. O que cria a dificuldade é sempre
segunda antinomia de Kant o pensar,
quanro para as provas de zenão. com efeito, porque ele mantém separados em sua disrinção os momenros
a antinomia kantiana, encara- de um
da abstratamente, diz respeito à quantidade objeto que esrão ligados na realidade" (ibid., p.314; rrad.
em geral e por conseguinte p. l4g).
tanto ao espaço quanto ao rempo. Se examinamos Se evocamos o princípio geral que comanda i.rr..pr.t"ção hegeliana
de perto oporifao d*
tese e da antítese, como Hegel nos convida " dessas clássicas anrinomias, foi para melhor poder "
a fazer,e se desvencilhamos lembrar quenem p"o. ir.o
suas
Provas daquilo que têm de 'ãrtificioso", consraramos que Kant Hegel deixa de adotar o princípio da solut'o aristotérica,
ter-se-ia que ariás .ì....."
limitado a opor' do lado da anrírese, a afirmação dos maiores elogios. ora, isso não deixa de repercutir
sobre seu conceito do
assertórica da continui-
dade' à afirmação assertórica da discreção, conrínuo, c$a aplicação à mudança de lugar absolutamente
do lado da rese: com isso, ele não exclui a
estarìa simplesmente justapondo as duas (cf. contradição, como tivemos ocasião de constatar.
Il/dL.,I, p. 191). Aliás,
observa Hegel, as anrinomias de Kant não
são nada mais que aquilo que Quando, no todo formado pelas duas determinações, continuidade e
discreção, Hegel distingue aquela que se enconrra simpresmente
em-si
daquela que está nele enquanto posra, seria lícito ver nisso
uma reromada
ou um prolongamento dos conceitos aristotélicos de ato e potência.
suprim,ido isro é, posro como unidade é a forma da indeterminação,,.
o
- multiplìcidade determinada rempo e o espaço não são infinitamente divididos, mas
Anzah/ como -, o Ào-.nto da descontinuidade Ao
."u. apenas infinira-
no mente divisíveis
número, enquanro à unidade prende_se o tal é o sentido que
rrad. p.218; cf tambérn t, p. tlsl.
momenro ào .on,inuo (cf . WdL., I, p. 197,
Essas obr.*çi", poderiam ser reromadas lica. De onde vem- então a antinomia Hegel conserva da soruçao aristoté-
luz do segundo capítulo do _éìssa ì ,r, ln- à em que a represenração irresisrivel-
/o;;ér,;;ì)ìii*a', u rr;;;r;;r,-d;;;;;;". mente rropeça? Espaço e rempo são divisíveis
Çtotentia e não actu), mas, se
120
t2t
o são, devem também ser infiniramenre e realmente divididos, senão
não A
conceptualìzação da continuidade em Aristóteles, como se sabe,
de-
poderiam ser divididos ao infinito; assim, a divisibilidade é representada
sempenha um papel considerável na elaboração da resposta que
como se já estivesse reaJizada e identificada ao ser,dividido infinitamenre ele dá às
aporias de zenão. Acabamos de ver como Hegel teria podido
(cf. ibid., p. 308; wdL., r, p. 192). Tiazendo a sua verdadeira assinar pro-
ruz a.s prosições tais como esras, que exprimem as perspectivas
de Aristóteles sobre
noções de continuidade e divisibilidade infinita, Aristóteles,
segundo contínuo e que, de resto, se rornaram clássicas: toda grandeza contínua
Hegel, reria sublinhado o elo que une esras noções elemenrares,
.ur..rí-
' só
se deixa dividir em ourras partes igualmenre conrínuas, isto é, as
veis de desarar a antinomia: as de abstrato, de possível, de partes que
em-si e de delimitam quandose desarticula o conrínuo reproduzem
momento. 'A continrridade convém ranro ao rempo quanto ao espaço,
-se
..,ru,,rr"
"
interna do todo; a muhiplicidade que o contínuo encerra está nele
de tal modo que a multiplicidade infinita, isro é, abstrara, só está apenas
contida como virrualidade não efetuada; e assim por diante. Nem por isso
na continuidade em-si, segundo apossibiridade. o real, em deixa
face da multi- de ser verdade que Hegel renha susrenrado o ponto de vista compiemenrar
plicidade abstrata, como da continuidade absrrara, é seu concrero,
o ou dual, encarando a continuidade do uno discrero, mas sem anteci-
temPo e o espaço mesmos, assim como o nrovimenro e a rnatéria
são reais par uma construção "conjunrista' do contínuo. para Arisróteles o contí-
concretos em relação ao rempo e ao espaço. o abstrato só existe
em-si e deriva do contíguo: há continuidade quando as exrremidades pelas
segundo a possibilidade; é apenas um momeÌìto do real (...) 'uo
pode_re quais dois termos contíguos se tocam são confundidas e constituem
dizer que já a divisibilidade mesma é somente urr-ra possibilidade uma
e não única.22 A continuidade assimila aquilo que permanecia
uma existência de partes e que a mulriplicidade em geral só é posta diferenciado na
na contigüidade: o conraro das exrremidades que exisrem num mesnlo
continuidade como um momenro, conìo urn suprimido,, (l,VdL., I,
p. 192-3; trad. p. 212-3). Daí a indiferenciação inteiramente abstra-
ta que Hegel empresta à continuidade do espaço e do rempo.2r
individido_sem parres; do mesmo.modo, o tempo é aìgo de universal,
náo é pura
negatividade, pontualidade, é também conti'uiiade. Ai,lu", d.,"r.,,i,_r"ç0.,
ccm no. movimento: a pura negatividade como.tempo, a cor.rtinuidade "1i"."-
.o-o .ri"ço.
2 Ì o movimento mesmo é precisimenre cssa unidade efetiva na oposiçiro;
se Hegel remaneja desse modo os resultados. da resposta os conceiros têm sua realidade eferiva para a represenração, ",r"uér'diiro
. aristotélica, é para em se- e o univers,rl é sua unidade
guida generalizá-los em um novo registro: "morr.r'-r" em firosofia
qu.'o .."."iro no nível do movimento, no nível do
-u-ento da universaliclade conro u'idacle : eìe é
simples, o universal, é a essência simpìes da infinidade ou .lo
puroïp";";,'_ iguaLnenre a separação mútua dcsses dois conceitos .r"rr" u'iJ",1",
.
infinidade é sem movinrenro. Divisibiridade, possibilidade, rar é
o u,iiu".rJ, .t. g" dois nessa separaçáo" (ibid., p.309-10). Daí a resposta às aporias ";,ì;;;"'j",
tle Zenão: .,a
tanro a conrinuidade qLranro a negatividade, ã pon,o posto na continuidatre, cssência do tempo e do espaço ci o movimento, pois ele é
mas o universal; .o.,..1rê-lo,
como momenro, não como ente_em-si-e_para-si,, (VEph., \f lg, i, sìg.nifica: exprimir sua essência na forrna.lo cunceià. E com.
p. 309; trad. p. unitlad. ,1"-n.g",irì.i",1"
144). E ainda: "o infinito consiste precisamenre em que ncnrrum continuidadc tluc o rnovimenro é exprinìc{o co'no conceiro, como pcrïs:r'cnto;
d" ,.u, -o-.,-,to, e da
venha a ser em si, se produza efètivamente, (nem o limite absoluto n.- é justamente por isso rluc náo se pode pôr neies, como sendo
.o.,ti- ,.",o,,
nuidade absoluta), de sortc que ourro momenro - "
seria sempre eliminado t*ryfr/rl. continuidade nem a pontualidade" (ibit/.). E, enfim, :r clistância," q,,.
"ssê,rci",
são dois opostos absolutos, mas como momentosj isto é, como
estando no conceito perdcr tle vista, cntrc a universalidadc dos nlomentos do conceiro "r"'r" poa"
e o enre: o espaÇo
símples ou no universaÌ, no pens.ìrJ se sc quiser; pois no pensar (.,o ,.pr.r.,,t", (asrirn como o tcnrpo) é qnnnttrm, grrlrdcz.r limir.rrla:
elcs podcm, poir, rcr n.r."r.i
em g^eral), o que é posto é-e ao mesmo tempo náo é. ó ."pr.sÀt"do tlos (...) O movimcnto c o infirrìro enquatìto unidaJc J"rres oporror.lo
como à, irto é, r.-po.,1,,
sob forma de imagem da represe ntação, náo é uma coisa: náo espaç.' M:rs
rem set e também não esses dois momentos manifcstam-se iguaìmente como ente; sc então são
é um nada; assim ele é o unìversal,.- unidade simples indifer..rr., indiferentes' não é mais serr conceiro qu" é posto,ïas seu ser. Neres
,.J" enquanro ente,
cia ou fora deli' (ibid-' .*ad. p. 144-5). o que p".-i," redefinir "".".r.ier,
r.t"çã* .n,r. . a negatividade é limite enqu^anro g.ar.d.r"i"l., são, exisrern.o-o.rp.ço
o tempo e o movimenro, do ponto de vista de sua continuidade "r e rempo
lirnitados. E o movimento eletivo ã o percurso de um espaço e
:spâço'
no rnovlmentoJ o espaço está presente como universar para o móveÌ.
e discreçáo: de u' i"-pu limii"-
A divisão, como dos, e não do espaço e do tempo infrÃttos', (ibir/.).
ser-dividido, não é pontualidade absoluta; e a pura càntinuidade também
não é o Cf. Fisica, V, 3, 2\6b2l-227a32; yI, t, 231à2t_231bt8.

122
123
lugar apesar de sua distinção. Só se pode determinar as parres de um dificuldade' Mas mover-se significa: estar em um rugar
e ao mesmo rempo
contínuo em potência: se estão determinadas em ato, então se trata do não esrar nele; isto é a continuidade do espaço
e do tempo, e é somenre
contíguo, em que estão, portanro, em contato e onde estamos autoriza- ela que torna possível o movimsnl."
o
- são divididoslimite
pomos como náo
dos a discernir uma multiplicidade em ato e, porranto, uma pluralidade sendo um, pomos rempos divididos que não
(VuGph.,V/ lg,
finita. Nota-se, em suma, que Aristóteles confunde um conjunto denso I' p. 313-4; rad. p. 148). Mas, enquanro em Aristóteles a continuidade
por toda parte (uberall dicht; compacr) ou, ainda, bem encadeado (zusam- excluía a contrariedade local no movimento, isto
é, o afastamento enrre
menlttingende; cohesiue), com um conjunto conrínuo.23 Hegel irá herdar dois ponros, Hegel a metamorfoseia em conrradição
posta.
essaassimilação. Esse conceito do conrínuo serve de bastidor para a res- Já pudemos discernir as raízes fïsicas do conceito aristorélico do contínuo,
posta de Aristóteles: Zenão, diz ele, supõe a continuidade do movimen- c foi à impureza dessa origem que pedimos explicafo,
seja das confusões
to' mas conta duas vezes o mesmo ponro dividindo a linha, roma como topológicas que dela decorrem, seja do círculo
semântico envolvido na
duplo um elemento único: há separação em aro e, de fato, já passamos do definição do contínuo em Aristóreles.25 No ponro
de partida da elaboração
contínuo ao contíguo.'a ora, Hegel não procede de outro modo na aná- do contínuo aristotélico esrá, como dado imediato, a continuidade
da
lise da segunda prova de zenáo. Denuncia igualmente a incompatibili- mudança, a "mudança natural contínua,', cujas fases, justarnente, .,se
mantêm
dade entre o desdobramenro de um mesnÌo ponto limite e a hipótese da .juntas"; tudo se passa, portanto, como se Aristóteles tivesse conceptuarizado,
t continuidade. Mas, ao conceito de contínuo assim resgatado, ele dará um sem afastar-se muito dele, um esquema perceptivo
ou a experiência ,ensí,nel
pone dialético, pois, em última insrância, há unicidade e desdobramenro do conrínuo; dar o modelo fïsico de seu conceito,
o p"r"dìg-" da unidade
ao mesmo rempo, o que, a.liás, decorre de seu ponto de vista "dual" sobre a orgânica: dois termos contínuos .de dois tornarÌì_se
um por gera$o,,.2e g
construçáo do contínuo. "se admitimos que o espaço e o rempo são contí- cssa mesma exigência de conexidade íntima,
de densidade, de coesão perfeita,
nuos, de tal modo que dois ponros temporais ou espaciais se referem um ao que reenconrramos nas expressões hegelianas para
definir o contínuo. A
outro enquanto contínuos, entáo, assim como são dois, eles náo são dois continuidade, em Hegel, é pensada, como vimos, como
igualdade a si
são idênticos (...) No movimenro, dois tempos formam muito bem um só. -se mesmo, isto é, como anulação de toda diferença,
d. todo .r.gativo, do
falamos do movimento em geral, dizemos: o corpo está ern um lugar, ser-para-si; o contínuo é, em suma, ,,conexão absoluta, (abrolrt*
depois vai a ourro lugar. Na medida em que se move, ele não está mais no Zusammenh^ng) (cf. ibid., p. 307). Acontinuidade _ pod..no, ler ainda
primeiro, mas ainda não está no segundo; se está em um dos dois, está em na Lógìca é apenas uma tal .,unidad
repouso. se dizemos que está enrre os dois, isso não adianta nada; pois zus amm
-
n h ci nge n de, ge di ege n e) (r, p. r
9 3 - 4i : .t :.
( e
:.t r: :ïÍÂ'"'í
entre os dois ele está também em um lugar, e reencontramos a mesma ".ï
com a coesão do permanenre inrerrompido do consranre
(stetig) (cf.
ibid., p. 180, 185 e 194).27 A pontuaiidade, ao conrrário,
,..,do o p"."_
si da auto-distinção absoluta, elimina toda conexão
2l
C[J..Vuillcmin,lhìlosophle(l'A.lgilrr€,p.196;G.G.Granger, com ourra coisa
Laconceptdecontinu
chezArisrote Bolzano, in Endes Philosophiques, outubro,dezeÃbro 1969,'n." 4, p.517;
er
cf. também Russel, Principìes, p.27l scq., 282-8 sq. r5 Referimo-nosàsan:ílisesdeVuillemìn,op.cìt.,p.l93seq.edeGranger,op.cìt.,p.518-
)4
cf. Físìca,IY' 220ú-2r;Yilr, 8, 263a23-264a2. Recordc-se a expricação dada por 9 seq.
-
Bergson à terceira prova de Zenão: a flecha, diz ele não é j,.mais.m nenhum pon,o d.
seu trajeto,.pois "supor que o móvel y'em um ponro do trajeto é, por um golpe de 'n Cf Grangeç ìbid., p.519.
tesoura dado nesse ponro, cortar o trajeto em dãis"; or", issá .onsisi. em "dïtinguir
:t G-edìegenheìt e Anzahl são^ igualmente atrìbuídos âo rempo por Fichte. Cf. p.
.*.
dois atos sucessivos ali onde, por hipótese, há apenas um" (La. pensëe et le
-oruani "d.
Darstellung derly/issenschafslihre aus dem
Jahre 1sr1, Sú, Jd. j.;.^ilIr", i'j,"S :<,
oo L_enrcnaflo, p. />b- /). P. 98; $ 35, p. 102.

t24 125
(cf VuGPh., loc. cìt.). Lembremos, por ourro lado, que na esfera da deiramente uns dos ourros enquanro ponros, enquanro
unos" (vuGph.,
quantidade a conrinuidade represenra o momento da atraçáo, termo /oc. cit.,
p. 310; trad. p. r45)." A unidade do contínuo e do descontí-
figurado cujas conotaçóes físicas não podem ser negligenciadas e que nuo comporta, pois, combinando-as, essas duas maneiras
de conceber
Hegel emprega, aliás, na crítica da construção kantiana da matéria, a continuidade, indisrinção ou idenridade lógica
e conexão primitiva;
onde se trata, inequivocamenre, de uma força. Além disso, para por outro lado, tanto no contínuo quanto no discreto
,a.rraoi'r."-o,
acrescenrar a esse traço de intuicionismo do conrínuo hegeliano, há unidade do Uno e do Múltiplo. "
ainda a prioridade que Hegel parece conferir ao conrínuo na ordem da Essas múltiplas sínteses, nós as vimos em obra no rempo.2e Elas
derivação dos conceitos, uma vez que a quantidade é primeiramente permitem compreender como se mantém juntas, na pluralidadeìemporal,
grandeza conrínua como resulrado da dialética do ser-para-si. a continuidade e a discreção, o fato de que o
tempo ao contrário do
Mas isso não é tudo. Hegel opõe seu conceiro do contínuo à represen- espaço' em que há coexistência de partes -
seja um conrínuo sucessivo
tação usual, que, desfigurando a continuidade, a converre em composi- ou uma sucessão contínua (e esse era em-Aristóteles um
dos problemas
ção (Zusammensetzung) (cf. WdL.,I, p. lSl). Ora, esta última, pondo máximos)' A abstração, em que não se produz nenhuma
diferença rear,
em relação os (Jnos em sua rigidez e exclusividade absolutas, é anres define desde início sua conrinuidade; mas desde logo
a negatirridade de
uma relação externa (riusserliche Beziehung), enquanro a conexão perfeita seus momentos introduz nele a descontinuidade
do um-depois-do-outro.
exprimida pela continuidade é uma re/ação interna. Feita essa distin- ora, Agora é uno
o e Múltiplo, discreto e conrínuo: o momenro do presente
ção, Hegel assinala nas provas da segunda antinomia kantiana uma como Agora podemos ler na Encìcbpédia (S 259) _
- é, ao mesmo
quaternio terminorum: Kant teria confundido e substituído uma pela tempo' singularidade exclusiva e este limite indistinto em que o rempo rc
outra a composição e a conrinuidade, uma ligaçáo acidental e uma continua pura e simplesmente nos outros momentos.
Em outros ternÌos, o
conexão necessária (cf. ibid.,I, p. 185, 187 e 190). Mas aqui Hegel Zeitpunht éesse ponro negativo que éponto dc separação
e negagão da separação
toma o partido de Kant conrra os "artifïcios" da antinomia: tendo nota- (,cf. VuAe., \7 13, I, p. I2l; trad. I, p. 119); o.r, ,. ,. pr.f..., .le
é fuermo
do que não valia a pena estabelecer uma anrinomia a respeito de uma (contínuo) e outro (discreto). o movimento demonstra essa sínrese no
determinação exrrínseca (a composição), Hegel reconhece o bem frrn- espaço eno rempo. Seja o argumento da Flecha, em que o serlimitado
é
dado da definição da continuidade do espaço formulada na Estética posto absolutamenre:3' mas justamenre esse limìtar
é apenas um
transcendental, onde, jusramenre, o dado primitivo da continuidade rnomenro: "no Aqui, no Agora como ral, náo hánenhuma
diferença. No
serve de suporre para a prova da narureza intuitiva pura do espaço.
Vimos, por ocasião da passagem inversa do discreto x6 6en1(nue
vedada por fuistóteles que em Hegel há também uma concepçáo lógi- - '" Assim a continuidade do espaço, por_exemplo, deixa-se
definir, seja com o auxírio de
-,
ca da continuidade: a descontinuidade da multiplicidade volra a soldar-se uma distinção entre a simplès poriibirid"d. ,bsrrara
e o ser-posro âo s"r-u-,forr-do-
ourro e do.negativo (isto é, entre o virtual e o atual),
quando se considera a comum pertinência genérica dos múltiplos LJnos, i.;"._,i"rá. l;;-"
homogeneidade conceitual: "o ourro do ponto, poré-,
é tao ,Ér-fo."_d._rì qr"*"
identificados pela equivalência enunciada pelo conceiro sob o qual eles e por isso ambos são indis.rintos e inseparados:
ã além de ,.u li-it.'.o-à "f.,
"rp"ço
ser-o.utro.é.ainda junto de si mesmo, e .ss" unid"de
,.u
caem. Podemos representar-nos o espaço e o tempo como infinitamente ro ,.r-u--forr-ã"."ìr. g
continuidade" (Enzry., S 254, Zus., yl 9, II, p. 43). "
divididos, desarticulá-los em uma infinidade de pontos; nem por isso a Para a tese conrrária-
'') que o rempo hegeliano não se presra à aplicação das
continuidade deixa de esta.r presenre: "como conceiro, essa continuidade ",r,1b...;
categorias do Uno e do Múlriplo _,rer G. Lebrin, La patirnrì dr, ,oì",]"
[.'ì12.
consiste em que todos são iguais, em que, portanto, não se separam verda- " Na Jenaer Hegel o interpretava comÕ uma irusrração da dialética
,Realphiluophie, do
lugar (Orò (cf. p. t 5).

r26
r27
espaço, um Aqui é tão Aqui quanro o ourro, é tanto este Âqui aqui
quanto aquele e ainda um outro, e assim por diante, e no,-ent"anto o
Aqui é sempre o mesmo Aqui, eles não diferem uns dos ourros. Assim
a continuidade, a igualdade dos Aqui é afirmada conrra a opinião de
sua diversidade. Cada lugar é um lugar distinto, porranro, é o mesmo;
-
a diversidade é somenre visada' (VuGPh., ibid., p.315; rrad. p. I49).
Assim a sucessão dos Zeitpunkte, no próprio anulamento imediato de
sua posição, asseguram a continuidade ininterrupta do nascer e do
perecer do tempo, pois, tomados em si mesmos, em sua abstração não
Capítulo I
DA SÉRIE
particularizada, não diferem uns dos ourros, e o tempo revela-se também
como uma "duração indiferenciada", um es co a me nto regu lar (gle i c hmãs s ige
Hinstrõmen) (cf. VuAe., \7 15, III, p. 164; trad. III, i, p. 320).

tempo, portanro, é uma pluralidade dotada do


caráter de série. É
V uma multiplicidade contínua cujos elementos são
sucessivos. Ten-
remos definir melhor os conrornos da idéia
de série temporal, com o
auxílio de algumas indicações fornecidas por Hegel,
,ir,r".rdo-" inicial-
mente em relação à problemática da filosofi" tr"nr...rd.nral _
na qual, de
resto, é totalmente outra a urgência das respostas
dadas à q,r.r.ao do
remPo.
Diferentemente do espaço, em que prevalece, quanro
a seu preenchi-
mento, a relação de exclusão recíproca,r o ..caráter
fund"mental,,
(Grundcharakter) do rempo é, segundo
Fichte, o de uma .,série
condicionante unilateral de momentos".2 Gndo
tomado a via genética,
chegamos à série temporal, diz Fichte no
Grundriss de l795,"quando
obtemos "uma série de ponros, enquanto ponros
comuns e sintéticos de
uma causalidade do eu e do não-eu na intuição,
na qual cada ponto é

Fichrc, Grundriss de t795, S 4,


V S\q I, p. 404; trad,. p.234.
Ot: ,ilìssenschafslehre aus dem
?:r:::!h* Jahre r B0i , S 40, p. t26.Às características
00 espaço opÕem-se as características formais do tempo,
em que cada elemento .,é
condicionado por um ourro, que não é por sua u.,
.ondì.ion"à; ú;; i;;;;;.
no conceiro do espaço em repouso cada um é determinado
po. .iJ" ;;i, ;;;,
Portânro, as condições prosseguem unilateralmente e em umâ série não retroativa
contêm, pelo contrário, uma sucessão e conseqüência,' (ibid., -""-" e
S:<, p. lSi.

t28
t29
dependente em relaÉo a um outro ponto determinado, que por sua vez menro só é produzido, inicialmenre, pelo rempo escoado (ou,
melhor,
náo depende dele, e na qual todo ponto esrá também em relação com um pelo escoamento do rempo precedente). Mas como as parres
do espaço
outro ponro, do qual ele não depende, mas que depende dele',.3 Desse não são subordinadas' mas coordenadas enrre si, uma
parre não é. por-
modo' a mulriplicidade dos ponros temporais é ordenada por uma relas.o tanto' a condição da possibilidade de ourra, e assim o espaço
não cons-
assimétrica de dependência. Nessa propriedade topológica reside o traço titui em si uma série como o tempo,'.6
característico fundamental do tempo.a Em ourros termos, e colocando-nos Hegel' sem dúvida, terá em vista esses dois tipos de estrururação
de
no nível propriamenre epistemológico da teoria causal do tempo em Kant uma pluralidade ao aproximar, para melhor opôJas, as
duas formas
isto é, da doutrina do tempo segundo as Analogias é preciso, desde tas do ser-fora-de-si. "br,r"-
-que se trata da objerividade A forma do agregado compere à positiva
-, uma ral relação
da ordem do tempo, que justaposição
e subsistente
do Nebeneinander espacid,, enquanro a exterioridade negariva
assimétrica garanta a distinfo entre o sucessivo e o não-sucessivo: "para do Nacheinander ordena-.se serialmenre. Essas duas formas se opõem
e se
que essa relafo (a relação objetiva dos fenôrnenos que se sucedem) possa seguem: as diferenças do tempo são exteriores do mesmo
modo que as do
ser conhecida de maneira dererminada", escreve Kant, "é preciso que a espaço mas exreriores a sì rnesmas tal é o progresso obtido com a
relação enrre dois estados seja conhecida de ral modo que determine como -
dedução do espaço. Enrreranro, no que-diz respeito à serie
temporal, Hegel
necessário qual dos dois estados deve ser colocado como primeiro e qual se desvia
do esquema da dependência temporal, como sugere- .on.r..rr.-
como segundo, e não vice-versd'.5 Kant distingue duas espécies de Todo: mente as análises precedentes. Ao conrrário das dimensões
do espaço, as do
aqueles cujas partes são concebidas como coordenadas entre si e se deter- tempo se definem por sua não-manuren
çáo (Nicht-bestehen):.rào são ter-
minam reciprocamente como em um agregado; e aqueles, ao contrário, mos univocamente positivos; a multiplicidade temporaJ,
em Hegel, é muiro
cujas partes são subordinadas de tal modo que se dererminam em um mais um sistema ardculado de diferenças sem rermos positivos
ou, ainda,
único sentido como em uma série. É essa disrinfo entre agregado e série, um sistema de oposições ou de negaçóes determinadas.T pelo menos
em
coordenaÉo e subordinaso, que lhe permire exprimir a diferença enrre o dois pontos fundamentais a via tomada por Hegel diverge
da que fora
tempo e o espaço: "o tempo é em si uma série e é por isso que se pode fixada pela filosofia crítica:
disdnguir nele, a priori, em relação a um presenre dado, os anrecedenres l'") Embora reconheça no rempo definido por Kant como uma intui-
como condiçóes (o passado) dos conseqüentes (o futuro)',; o espaço, em
ção formal o embrião de uma verdadeira unidade sintética,s Hegel não
contraparrida, náo apresenta tal possibilidade, pois 'tonstitui w agregado deixa de consratat nessa síntese sucessiua que é a série temporal,
a ausência
e não uma série, todas as suas partes existindo simultaneamente. posso do momento constitutivo da negatividade. A re.lação assimétrica
de depen-
considerar o momenro presente apenas como condicionado em relação ao dência, ficando aquém da sínrese recíproca dos rermos oposros,
tempo passado, mas nunca como condição desse tempo, pois esse mo-
é bem
pouco suscerível de dar conta inteiramente da unidade
negariva do tempo.
Toda série pressupõe em suâ origem e segue em seu engendramenro
uma
sw i'.s 4' vlll' p. 408-9; trad. p.237. Daí a definição do pont. temporar que é
"agori': "esse ponto que é apenas dependente, ,.-.r,", em ielaçío.oÁ u- ou,ro 6 lbid., B 438-9,
A 4ll-2, trad. p. 330; cf. também B 112, rra.d. p.97
ponto que depende d.ele, é o presente". 7 "Do mesmo.modo que o positivo, o Agora consiste em suprirnir
'.fr-p:, portanto, é apenas a forma da intuição do diverso em unificação mediante a ser, assim (o) negativo (consiste em) négar imediatamente
imediatamente seu
dependência'', precisa Fichte narVìssenschafslehre I 798 noua methodo,NS, II, I r, p. seu não-ser a.ser" (Rph.,
$ p. 11,1.13,22).
453, cf. também p.452-6; S 12, p. 457 sèq. E cf'Glattben trnd rú7ìssen (abreviad.: G\fi, ed,. G. Lasson, Felix
Mei'er, Hamburg,
CRPura, B 234, trad. p. 183. 1962,p. l6;trad.M.Méry,premièrespublìcation-i,Ophrys,pari
,,2:"a tgà5,,'i.'ìOZ.

130
131
lzi dc formação, uma determina$o fundamental que assegura a reprodução
filosofia rranscendenral, em que não só a série
da mesma relação enrre seus membros (cf. Enzy., s 249, Zus.). ora, no temporal é a série funda-
mental, isto é, a condição formal de toda série,
caso de uma formaéo serial como o rempo, Hegel substitui a relat'o uni- mas o sucessivo, como
forma de ligação do diverso, decorre de um ato
lateral de dependência na qua1, por cerro, uma mesma referência de espontâneo do sujeito.,
A idéia de uma série temporal permanece indissociável
condifo a condicionado- se propaga através de rodos os membros da série da questão de
sua infinidade. A formulat'o kantiana lhe
por uma relação negatiua. Assim como não há presente nem Futuro, empresta um carárer antinômico,
-mas apenas a referência uma vez que se trataria de decidir quanro à limitação
ou ilimitação da
mútua dos dois, assim também o Antes e o Depois
seqüência dos momentos do tempo. o sentido
da sucessão temporal só se definem pela síntese de sua relação negativa. que convém atribui, tal
infinidade permanece suspenso, porranro, à determinação "
da natureza do
Não que Hegel subverta a assimetria do sucessivo, mas a desloca da condi-
iimite constiturivo da série. o exame da primeira
das antinomias kantianas
ção de rraço caracrerísdco fundamental da série, para introduzir nela a oferece a Hegel a ocasião de precisar o modo
consideração exclusiva da relação interna enrre conrrários; efetuando-se em de ser do limite temporaÌ.
Nessa antinomia quanto à limitação ou ilimitação
uma única direção, a relação dos termos antecedentes aos conseqüentes do mundo no rempo e
no espaço' o exa''Ìe de sua tese e de sua antítese,
deixa na sombra o fenômeno da dupla passagem ao contrário. bem como das respectivas
Já na esrru- Ptovas, mosrraria, declara Hegel, que elas desembocam
tura do Agora, como limire simples, aparece a lei ou determinação funda- afinal nesras duas
simples proposições oposras: 1.9 há um limite;2..) o limite deve ser ulrra_
mental que preside ao desdobramento da série temporal: o limite do Ago-
passado (cf. VdL.,I, p.232).
ra' como vimos, é apenas a referência de sua ação de exclusão àquilo que o euanto ao rempo, a primeira parte da
prova da rese renciona demonstrar a impossibiiidade
exclui ele próprio. Em ourros rermos, é a própria relação absolutamente de .onrii..". u-
tempo infinito como escoado: ,,infinidade de
diferenciante do simplts que fornece a lei de formação da série, tendo como uma série,,, pode_se ler no
texto da prova, "consiste precisamenre em que
princípio lógico o da reflexão drterminante como excludznte: "dado que a essa série não pode jamais
ser acabada por uma síntese sucessiva".r. O
ação de excluir é um disdnguir único e que cada um dos rermos (assim) de Kant, segundo
Hegel, repousaria unicamenre na afirmação "rg,r,'.rrto
distinto, justamente como exclusivo, constitui toda a exclusão, cada um daquilo justame.r,".,
que, .."
exclui a si mesmo"; assim 'ã reflexão excludente é o pôr do positivo, como
preciso provar: a argumenrafo admire um
certo _ ou qualquer _ ponro
temporal dado, antes do qual rivesse rranscorrido
o exclusivo do outro, de modo que esse pôr é imediaramenre o pôr de seu uma .,...rid"d. (.t.r.ri_
dade, aqui, observa Hegel de passagem, teria apenas
outro, o qual o exclui (VdL, II, p. 45,50; trad. p. 57-g). Com isso se o sentido frívolo de
um tempo falsamenre infinito). Ora, .,um ponto tempora/
define o carárer específico da série temporal: graças a uma tal relaçao dado significa
apenas um limite determinado no rempo.
determinante de exclusão, ela é uma série absolutamente diferenciante (absolut A prova pressupõe, porranro,
como real, um limite do tempo; mas era jusramente
diferenten Reihe), cada momento do tempo se engendra a partir de seu isso que era preciso
demonstrar" (ibid.,I, p. 233; rad. p. 257). Apetição
contrário e desse modo é, 'para diante como para trás", um membro dessa d. p.i.,.ipio q,r.
parece comprometer a argumentação kantiana
série absolutarnenre diferenciante 'b fato de que, enquanro esse mem- resulta, aparentemen_
- seu contrário,
bro determinado, ele é imediatamenre consritui a unidade
absoluta dos momentos oposros" (1L., p. 205, 1.24-7).
2.') Vemos que, nível da elaboração do conceito do tempo, Hegel
nesse ' 9! p.ex. CRPura,B 438,A!11.,rrad.p.330: ts 155, trad. p. i33; Fichte,
lYissenschafislehre t79B noua metho.do,
S f i, i, 453 ,rq.; S
faz economia de toda referência a qualquer instância subjetiva (teremos [nroducrion à la première esquisse dirn syrrèni de ta phiìo,ìphie JZ, p. 457 sq.:schelling,
ocasião de retomar esse ponto). com isso ele se afasta da via escolhida pela Essais, trad. cìr., p. 375, e Srysrrm dr tinszrndrt,rnli,
Ideaiismus, p. til.
"' -- ,,
)e Io ,n,-r'ìì- rììòD,
1" CWur4 B 455, A 427, trad. p. 338.

132
133
te, de uma confusão entre limite qualitativo e limite quantitativo; há senão tempo em geral, que rem um começo
ora, esta absoluto. Mas, sç _
última precisão é indispensável, sobretudo porque o tempo é, desde início, como aliás é o caso ele estivesse em relação com o passado por
quantidade pura, e, conseqüentemente, o ponto temporal de que se - ponro temporal inter_
trata na médio do Agora, do dado, e se se pudesse, por isso,
prova, no qual o rempo se encontraria inrerrompido, nada mais determinálo como sendo o futuro, esse ponto temporal,
é senão "o
ser-para-si do Agora que se suprime a si mesmo,, (ìbid p.234).
por sua vez, não
, Dessemodo, seria um limire, e a série temporar infinita
se conrinuaria naquilo que se
Kant é vítima de uma ilusáo, alirís perfeitamenre compreensível. A prova chamaria o futuro e não seria, conrrariamenre
ao que foi admirido, aca-
nada mais faz além de converrer "o limite absoluro do tempo, bada" (ibid., I, p. 233-4; trad. p. Z5T_g). por
afirmado isso rese e anrírese, junta_
pela tese, em um limite represenrado corro ponto temporítt dndo, menre com suas provas, não contêm nada mais
tomando- que a simples oposição
o, sem mais, por um ponro acabado, isto é, abstrato determinação entre, de um lado, a afirmação do ser do limite
popular e, do outro lado, a posi_
que a representação sensível facilmente roÍna por um limite', (ibid.,
p.25g). ção de sua necessária supressão. Daí a infinidade da série: o limite
Portanto, aquilo mesmo que se propunha demonstrar vale na prova rem
como um além, com o qual, entretanro, esrá em relaSo;
deve, pois, ultrapas_
um postulado. No enranro, parece haver uma diferença, já que o limire sar-se para se alcançar, e disto se segue
a posição de um novo limite que,
temporal admitido é um Agora como fim do tempo rranscorrido, por sua vez, náo é um limire (cf. ibid.,I, p. 235_6).tl
enquan-
to o limire cuja existência deve ser demonsrrac{a é um Agora como Na série absolutamente diferenciante do tempo, cada
começo
Agora, desde que
de um futuro; mas Hegel só sublinha essa diferença para em é' suprime-se em ourro Agora, fazendo assim
seguida declará- sobressair sua atividade nega-
la inessencial . "o Agora é aceito como o ponto até onde rranscorreu uma tiva; ou, ainda, trata-se de uma seqüência-de-um-a-ourro
(Aufrinanfurforgò
série infinira de estados sucessivos das coisas existentes em que a atividade negativa é o ato de suprimir_se
no mundo; trara-se,
esre pã.r,o_r._por"l
pois, de um fim, de um limire qua/itatiuo. Se esse Agora fosse apenas aqui em um outro' que igualmente se suprime,
limire rorna-se um outro e assim
quantitatiuo,ftgidioÇhessenà), um limite que não se rrara somenre de
ultra- pordiante (cf. VuAe., \f 15, III, p. 156, 163;trad,.III, 1.", p.316,3ZO).
passat mas que não é senão isso: ulrrapassar,se, a série infinira dos
estado
das coisas não estaria esgotada nele, mas conrinuaria a transcorrer,
eo
raciocínio sobre o qual repousa a prova cairia em farso. Ao contrário, I A questáo
o ì
coìocada oela antinomia agora reconduzida sua origem meraÍïsica
ponto remporal é admitido como limire qualitativo para o passado, mas pode ser abordada com ourro enfoque, - ã a, r.Lït"'""rre afinidade
e temporalidade; -
ao mesmo rempo como ponto de partida, como começo para
o fu1s16 _ ,11 :.: l:,ln'ica
que passa de lá para.á.
ras' que ela toma por absorutas. uma resposra
d;.;;;,;i;;;;;;;;;;;;;"..:;,,,_
pois, em4, cada ponto temporal constitui a relação enrre o redonda, posiriva, não pode ser dada
passado e o à pergunta se o mundo é sem começo no
tempo ou rem um começo. Uma resoosta
futuro *-, e é também para esre vm começo absoruto, isto é,ìbsrratc:, tsto redonda diria que ou é um ou é o ourro. A..r;.r;r;;;,,a]'nlï.rì..i";:,;,ï".
pergunta, esse ou-ou, não serve para nada.
é, justamenre o que era preciso demonstrar. pouco imporra se vocês estão no finito, vocês rê,-'-, t'",r,o"
para a questão começo quanto não-come!:i essas determinaçóes
que um passado já tenha transcorrido antes cle seu futuro do .ãrrr"ço opostas vêm ao finito p".^ r.u .on-
flito' sem solução e reconciriaçáo; e assim ele sucumbe,
porque ere é a contradição. o
"
deste; porque esse ponro temporal consritui um limite qualitativo finito tem um outro antes de.si; na p"^.ilifi.ã;lon."ão
finita é preciso procurar
Aï*, por exemplo na histórìa da ,írr'ou do
e o fato de admiti-lo como qualitativo reside na determinação -do :ì::
nl)um trm, asslm como com cada finito não^se cliega 'omem.
Alì não se chesa a nc_
a um fim; sobre, mulripïicà.r.I.
acabado, do transcorrido, isto é, do que não se contìnud _, dos finitos o tempo^tem sua potência. O finito
o tempo se ,ï- u^ começo, mas esse começo
encontra interrompido nele, e o passado, por seu lado, encontra_se não é o primeiro; o finito é auìônomo, mas
essa imediatez é igr"h;;; ì;i,J". s"
em a representação abandona esre finito determinado,_qu.
sua relação com o rempo que não podia ser considerado senão t.- ú Antes ou Depois, e
como um passa à representeção vazia do rempo
ou n'undo em geral, .1" urg.bundï,i'po'-
futuro em relação a esse passado; por conseguinte, sem essa relação represenreçóes vazias, isto é, pensamentos "o
não meramenre abslatos.. ttn"i, S 2ìì, 2rrr.,
W 9, II, p. 27).

r34
ï35
Em outros teÍmos, este Agora aqui suprime-se e torna-se um Outro, mas antes, pela adjunçáo do homogêneo, uma "repetição infinita da repeti_
o Outro também é um Agora, poÍranto ele se rorna parcialmente um ção" (WdL.,I, p" 84).r3 "Dessa maneira", escrevia Hegel na Jenenser Logih,
Outro, e assim por diante ao infinito. Por um lado, temos, com isso, a "o tempo como infinito, em sua totalidade, é apenas seu
momento ou,
uniformidade, a homogeneidade de um escoamento regular definindo a ainda, sendo seu primeiro (momento), ele não seria, com efeito, como
continuidade de uma multiplicidade serial: mas, por outro lado, nessa totalidade, ou enrão, ainda, ele exisre assim não como o que (é) o funda-
"continuação eternizando-se da alternâncid' (Enzy.,
$ 94) do Mesmo e do rnento dessa infinidade, a qual é somenre como infinidade simples em si,
outro' dessas mesmas determinações, das quais uma traz a ourra, nesse ou (ainda ele) não é somenre a passagem-rransformação (de um) em seu
perpétuo ultrapassa.mento e reprodução do lirnite, o que reconhecemos é contrário e deste novamente no primeiro, uma repetição do movimento
a expressão da infinidade da série e, com ela, a mrí infinidade do progresso de vaivém, a qual (repetição) é infinitamenre numerosa, isro é, não é o
ao infinito.t2 E é a este, portanro, que se fàrá referêncìa anres de tudo, infinito verdadeiro; a repetiçáo infiniramente freqüente represenra a uni-
quando se trara da infinidade do tempo: "diz-se, por exemplo: este tempo dade como a igualdade do reperido, igualdade que não é a desse reperi-
aqui, Agora, e ultrapassa-se em seguida, co'rinuamenre, esse limite, para do' mas está fora clele. o repetido é indiferente àquilo de que ele é a
trás e para a frenre" (ìbìd., Zus., \í B, I, p. 199; rrad. p. 527-g). por ser repetição e, para si, não é um repetido" (p. 2eJ).tt
apenas processo abstraro, o tempo permanece aquém do verdadeiro infi- vimos as análises hegelianas multiplicarem-se e diversificarem-se em
nito do processo concreto, que consiste, justamente, no "vir, em seu Ourro, torno da explicitação da substância negariva, do modo de ser "conrradi-
a si mesmo" (ibìd.). Embora a sínrese recíproca dos termos oposros da série tório" do ren-Ìpo; ele se definia então pelo ser-aí da contradição. Assim, o
seja o produto de uma atividade negariva ideal, esra se cumpre em um tempo consrituiria a primeira manifestação exrerior e imediata da con-
meio determinado pela exterioridade do ser-fora,de,si; e a reprodução su- tradição. A consideração da infinidade da série temporal, por sua vez,
cessiva do limite, embora prossiga segundo a lei da negação, revela ser convida-nos a encârâr de outro ângulo o regime dessa conrradição. Há
efetivamente na série temporal uma passagem ao contrário, seus mem-
bros se enconrram efetivamenre soldados pela unidade sintética dos opos-
rz Há, portanto, co-pertinêr.rcia do sucessivo, da séric temporal e do mau infinito, quer ros; o tempo passa, hrí sucessão, parque há contradição; é nessa contradição
a síntese seja transcendental ou "especulativa". É o qr,. se depree'de da aná-lìse
que devemos situar, em última instância, a lei da progressão da série.
hegeliana do "verdadeiro conceito transcendental da infinidade", derivado por Kant
do fato de que "a síntcse sucessiva da unidade na medida de um quanfitm.,ao po.1" Mas, jusramenre' rrara-se de uma progressão ao infinito. cada ponro
jamais ser acabada' (CRI\ra, B 460, A 438, trad. p. 340). Ora, a ìnfinidade daìérie temporal da série só se desfaz para refazer-se em seguida e assim por
se se consente a não dissociar o serial do sucessivo * provóm precisamente do nrau
infinito.."Supõe-se em.geraì", dizHegel, "úm qtutntrm como dìdo; este deve, graças
diante ao infinito: com isso, a unidade dos contrários, que ca<Ja membro
ao sintetizar da unidade, ser transformado em um Anzah/, em um qudnfitm dcíermi- "exemplifica', reveste desde logo o aspeco de uma
repetição monórona,
nado; mas essa unificação sintética não pode jamais ser acabada. úê-r" q,,. isto não
cle uma alternância fastidiosa. Na base fundamenral do tempo, com
exprime outra coisa senáo a progressáo ao infinito, mas representada de maneira sua
transcendental, isto é, propriamer-rte falando, subjetiva e psicol8gica. Em si, o quannrm
deve ser, por certo, acabado, mas transcendent.l-ent., isto é, para o sujeiti que lhe
empresta ttmarelação com.a unidade, só poderia nascer uma deteimi naçíõ do qtìannm
Ìi
que seria incompleta e absolutamente afetada por um além. Aclui se é detido, de Iâmbém Fichte contava cxplicitamente a repetição c,treas operações constitutiv:rs
da
maneira geraì, diante da contradição que a grandeza contém, mas ela é repartida série temporal; cL p. ex. Wìsscnschafslthrc iTgg nora mrthodo, g l l, p. 453.
entreosujeitoeoobjero,atribuindo-seaestealimitaçãoeàqueleoultr"p"ssamento Note-se que a repetiçío infinitamente numerosa, pela qua] se cxplica a
detodadeterminidadeconcebidaporele,oqueécair.,oÁ".,infi'itol'(wdL.,r, posiçáo e a
reposição dos membros da série,.dá cor.rta, pela igualdade in<liferente
,1o ..p.ri,lu, .1"
p. 243-4; trad. p. 268-9). unidadc da continuidade e da descontinuidadelemporais.

136
t37
chave lógica, há efetivamenre uma contradição permanente;
mas o regime
dessa contradição consiste em um incessante
vaivém de um de seus termos
ao ourro' do limite a seu náo-ser e deste ao limite de
novo. Há ur-
rrapassamento do limite, sem dúvida, mas rrara-se
de um ultrapassa-
menro abstrato, incompleto, pois não se ultrapassa a si
mesmo. A unidade
do ser e do não-ser que o rempo exibe, considerada sob
sua forma serial,
dissocias-e, rornando-se então a mora de sua progressão
infinita. A possibili-
dade de tal mutação no modo de aparecer da unidade
decorre da forma
mesma do ser-fora-de-si: a má infinidade da série Capítulo 9
constirui a manifesração
exteriordaunidade do ser e do não-ser, pela determinat'o AS DUAS MULTIPLICIDADES
serial a penetraso
mútua dos opostos é dispersada em uma 'perpétua reperição
de um" só e
mesma alternância' e a inquietude do ternpo, que o impele
a ir avanre,
aparece enrão como uma "inquietude vazia' (wdL.,
r, p. r33) . Reenconrra-
mos, pois' na negatividade do desenrolar do rempo,
essa determin ação recí-
proca que consisre na negação de si mesmo e de sua d1 repetição serial
provém da narureza quantitativa do tempo.
-{A I 1t-,"
negação e define a
progressão ao infinito. vista desse ângulo, a conrradi5o A pluralidade cxrensiva do renrpo ceracreriza_se, corno
sendo-aí, constituriva vimos, por
do tempo, mostra-se, muito mais, como unìa contradição um absoluro sair-de-si,mesmo, isto é, um .,enge.drar
não resoluida, clo Uno, do ponto
sempre aí, disponível em sua própria renovação (cf. ibid.). pero temporal, do Agora, o anulamento imediaro
próprio fato desre e incessanreme'te, de
de só exercer-se sobre o finito, a potência do tempo, r10vo, o anulamento desse perecer, de modo
à qual o conceito que esse engendrar do não-ser
é ao mesmo tempo sirnples iguaJdade e idenridade
absolutamenre não está submetido, é acompanhad"
à. ig.ri r-potência; do ri
"
L.r*o,,
(Wc/L.,I,
mesmo modo, a infinidade da série é apenas o reverso p' 182; trad' p. 201). o
escoarnenro fora de si, a exrensão quanrirativa
de uma impotência do do
negatiuo: "a progressão não é uma marcha avanre, tempo tomam, pois, a forma de uma i'cessante
um afastam..rtá p.og..rri- reprodução de sua u.ida-
vo do ponto de parrida, mas uma repetição de uma de. Em outros termos: o rempo parrilha com
ró. -..-.".oir", o progresso quanritativo
posição, supressão,reposição (tx/ìedersetzen), nova supressão; trara-se de infiniro essa repetição privada de pensamento de
uma - uma só e mcsma
impotência do negativo para impedir de voltar o que contradição" -- uma determinação semerrrante,
ele suprime, em razão que os vora a ambos a um
de sua própria supressáo, enquanro conrínuo,, (ibid.,I, perpétuo "envio-para-além de si mesmo" (Hìnausscrtìchen
,. )ZS). ìir,er sich) (Lnzy,
S 104) O modelo da seqüência dos números inteiros, fornecido
a seguir,
parece impor-se' portanto, como um elo conceitual
entre a série numérica
e a sucessão remporal' Embora, a propósito
da reprodução uniforme dos
momenros do tempo, seja ríciro falar de urna reperição
infinitamente nu-
Inerosa, Hegel afasra desde início essa aproximação. "A
ciêncìa do espaç0, a
geometria, não corresponde nenhuma ciência anároga
do tempo.A, iif...r-,-
ças do rempo não rêm essa indiferenca do ser-fora-de-si que conrrirui
a
cieterminidade" Mediata do espaço; não são,
pois, como ele, suscetíveis
de figurações' o princípio do ternpo só acrquire
essa aptidão a partir do

138
t39
momento em que é paralisado, em que sua negatividade é reduzida ao Hegel se afasta com isso: seu alvo é, anres de rudo e sobretudo, a filosofia
Uno pelo entendimento. Esse lJno morro, a mais alra exterioridade transcendenral. Lembremos, a esse propósito, algumas das explicações cé-
-
do pensamento, é suscetível de combinação exterior, e essas combina- lebres de Kant. Para esre, como sabemos, o conceiro aritmético
de número
çóes, as figuras da aritrnética, são suscetíveis, por sua vez, segundo a igual- é temporal. 'A aritmética', diz ele, "forma ela mesma seus conceiros de
dade e a desigualdade, da determinação do entendimento que consisre número pela adição sucessiva das unidades no rempo".3 Representação
que
em identificar e diferenciai' (ibid., S 259, p.211; trad. p.240).1 abrange a adição sucessiva das unidades homogêneas, o número é o esque-
Não é somerlre da rradifo iniciada por Aristóreles que, definindo o ma puro da caregoria da quantidade, "a unidade da sínrese operada no
tempo como número do movimenro segundo o anres e-o depois, estabelecia diverso de uma intuição homogênea em geral, pelo próprio fato de que
eu
uma relaÉo estreita entre a ordem temporal e a ordem numérica2 que produzo o rerrÌpo mesmo na apreensão da inmição,'.a
-

I Essa recusa categórica já havia sido formulacle ern .me passagem do prcfácio da menos fundamentais: 1.") ao conrrário do procediment. Aristóteles, a elalloração
l'enomenologia do Espírito. o tempo, como réplica rì. espaço. jamais poderia consti- hegeliana do conceito dc tempo dispensa toàa referência t um mtiuelq,,"Jqu..;
é
tuir a matéria da outra parte da maternárica porqrre 'b princípio da grandeza a
partir desse ponro que as duas teoriis do Agora começarÌì a náo poder'm"ir..,.on-"
diferença sem conceiro e o princípio dt igmlrlalr a unidade absrrata-sem trar-se; o rempo, em Aristóteles, é uma afecçáo d. movimenro, do qual, aliás,
efetua
vitalidade -
náo sáo de ocupar-se - da vida e esse processo de
com essà lurrì ir.lLrictude a enumeraçátl. A esse propúsiro, convcm nor.rr as implicaçóes
rcmp,,rais tla dissoci.rção
-
absoluta distinção. Assim, é somente como paralisrda, ou como o L/za, clue essa do ser-em-movimento em matéria, forma e privação: .,a
lorma é o clue a coisa será, a
negatividade se torna a segur-rda matéria dessc c.nhccimento; sendo uma operaçácr privação o que ela era, o sujeito Qipokeimen on) o que subsiste, p"r-..,.." (tipomine),
exterior, esse conhecimento rebaixa aquilo que movc u. si [ìesn.Ìo a uma matéria, para não.cessa de estar prescnre através dos acider.rtes que Ìhe advêm. o
sujeito apresenta
então rer nele um conteúdo indiferente, exterior c scrn viralidade" (p. 38-9; trad. I, aqur os mesmos caractcres que o dg|ra (nín)" (pterre Auber.rque, Le pr\blème
de l'être
chezAristote, PU.F, 1.962, p. a5lí). Tüdo se passa, pois,.n-o r. o'agora
P.40)' exprimisse
2 apenas um modo de ser do móvel; maris precisarnente, o Agora é
Em uma nota célebre de Sein und Zeir (S SZ, a), Iìcidegger chama a atenção para o ã móuàl como
sujeito. Assim como o movimento do móvel cm direção a u-".-fo.-" constitui
parentcsco enrre a teoria hegeliana do tempo, sobretudo a da Lógica de iena, e a a basc
real do. tempo, a atualidade do Agora provém da arualiclade do móvel,
doutrina correspondenre de Aristóteles, parenresco tão significativó que Heidegger f ,ro fr.r.r,r.
atual do móvel que se deve buscar a- base ontologica do Agora (cf.- H. Carteron,
r_iro hesita em susrenrar que "se pode mosrrar que o conceito hegeliano do tempo loi
Remarques sur la notion de temps d'aprèsAristote, ìn-Reuue |thil'osophìque,
diretamente haurido na. Físìca de AristóteÌes", da quaì a primei*exposição de Iena, a n.9g, 1924,
p. 67-8I). O Agora traduz,.desse modo, "a permanência.1. u-".J."p..r.nç";,, ,,"
seu ver, seria uma mera "paráfrase". 'Aristóteles vê a essência do rempo no níín,Hegel
permanência do Agora funda-se sobre a permanência do móvel que é ,.Àpr.
no Agora. Aristóteles concebe o nún como tiros, Hegel toma o Agora como limite. o
que.é,'.(Auberique,ibid.).NadamaisdistancìadodeHegel "io."
Aristóteles compreende o nín como stigmé, Hegel interpreta o Agora como ponro.
partir das análises precedcntes que essa concepção por assim clizer subsrancial tio
Aristóteles caracreriza o nítn como tóde tì, Hegel chama o Ago*de Isto abioluto.
Agora. Ademais, é justamente- essa remissão .nnr,"nì. ao móvel que justifica
Seguindo a tradição, Aristóteles põe em relação chrtinos com a sphaíra, Hegel insisrc em
Aristóteles o cmprego. da noção de ttide ti p..Lra designar o Agora; Hcgel, como
sobre o curso circular do ten-rpo" (ver o comentário deJ. De rrida. Ousia at Gìatnmè, in vimos,
enca.ra sua próprìa determinação do Isro em um espíriio tot*lÀe.t"
Endurance de /a Pensée, Plon, 1968). A verossimilhança dessas aproximações é inegá- difcrenrc;
2.") lembrernos mais .ma vez seu total d,esacordo .1u.,rru às rcÌaçóes do tempo
vel. Poderíamos acrescentar ainda outro rraço a esse quadro. sabe-sc quc Âristóteìes e do
número, que se rorna ainda mais manifesta se acompa'rrarmos a interpretaçao
atribui uma dupla função de unificaçáo e de divisão ao Agora; Hegel comenta isso da de
Aubenque, segundo a qual, para Aristóteles, 't, r"mpo náo é outra coisa senão
seguinte maneira: "assim, a identidade de entendirnento absolutamentc não é prin- o
próprio número ordinal' (op. cit., p. 4g-50).
cípio em Aristóteles; identidade e não-identidade , é para ele uma só e mesma coisa.
O tempo é: a) Agora é somente Agora; b) Passado e Futuro são diversos do Agora, Prolegômenos, trad. Gibelin, Vrin, ed. 196S, S 10, p. 45.
mas também estáo necessariamenre em conexâo, Agora náo é sem Antes c Depois, cRPura' B 182, A 142-3,trad. p. r53. E no início dasíntese da recogniç,io no conceito
eles são percepções; c) desse modo sáo no Uno, Agora, limite, isto é, unificafão e pode-se ler: "se não remos consciência de que aquilo que p.nr"-oi
é o mesmo que
distinçáo" (VGP|., !í 19, II, p. 190,1). E vimos que, em ourra parrc, cle lará do havíam.s pensado um instante ant"s, tod" reprorluçáo na série d", ,.p..r"r,t"çà",
Agora instância de separaçáo e r.regação da separação, lugar de exclusáo e de conti- seria v:rzia. Haveria no estado presente .r-" nou" representação que neo
p..ten.".ia
nuação. Conviria assinalar, contudo, pelo menos duas divergências não de nenhum modo ao ato pelo qual ela deveria ter riju p.o,iuii,l" puu.o
- o
"'pnu.o, "

t40 t41
Ao contrário de Kant, Hegel reduz a aritmética ao estatuto de ciência juntar (Zusammenfigen) em que resulta a numerafo, pois esraremos
sem-
analítica, mas a idéia que tem da analítica é inseparável da de exterioridade. pre as voltas com uma conexão arbitrária, onde tudo aquilo que enrra em
"Todas as combinaçíes (Wrhnüpfungen) e diferenças que seu objeto apre- sua composição é puramenre exrerior (cf. ibid.). A repetiso do uno
numé-
senta não lhe são inerentes, mas lhe vêm do exterior. Ela não tem objeto rico desenrolasse, desse modo, em um meio inassimilável desde início àquele
concreto, do qual se possa dizer que apresenta relaçóes internas, inicial- em que se reproduz a dia.lética do uno temporal. Em virrude da indiferen-
mente ocultas ao sabet relações que não se oferecem à representação ime- ça de suas determinidades, o número é algo inerte (t agò, que só é ativado
diata do objeto e só se tornam acessíveis em decorrência de um trabalho do e posto em relação "de fora'; de maneira geral, ele é uma "coleção exrerior,,,

conhecimento. Não somente ela náo contém o conceito e, com este, a uma "figura puramenre analítica', uma formação "privada de toda coesão
tarefa do pensar conceitual, mas é até mesmo o contrário de um tal pensa- internd' (ibid.,r, p.200), e isso o distingue desde logo da unidade coesiva
mento. Dada a indiferença do ligado em face da ligação, que carece de que liga os momenros do rempo. A esfera em que se desdobra a
necessidade, o pensamento encontra-se aqui em um estado de atividade multiplicidade numérica define-se por uma exterioridade ao mesmo rem-
que equivale a sua extrema auto-exteriorização, atividade das mais penosas, po abstrata e "interna" (cf. ìbid.,I, p. 20g). Em Kant, como sabemos, o
pois é obrigada a exercer-se apartada de todo Pensamento e a ligar o que número na condição de determinação de tempo a priori concernenre
-
à série do tempo { urn esquema rranscendental, portanto homogê-
escapa a toda necessidade. O objeto da aritmética é o pensamento abstrato
-
neo, por um lado, à categoria e, pelo outro, aos fenômenos, representa-
da exteridade mesmd' (WdL.,I, p. 208; trad. p. 230).t Sem dúvida, a
produção do número parece evocar irresistivelmente o Processo de forma- ção intermediária que rem uma face intelectual e outra sensível.. Hegel
não o nega' sob a condição de reinserir essa teoria em seu contexto
ção da série temporal: o estar-agrupado-junto (Zusammengefigtsein) qu'e o grego
número representa é o resíduo de uma repetiÉo da idéia do Uno, mas ali de origem (cf. ibid.,I, p. 208-9): é lícito dizer que o número está a
meio
se trata de uma acumulação totalmente extrínseca (cf. ìbid.,I, p. 202). E caminho entre o pensamento e o sensível, ao qual, justamente, ele se
verdade que Kant põe em relevo, sobretudo, o momento da síntese, da prende pelo fato de ser em si o Múltiplo, o um-fora-do-ourro, mas nesse
unidade sintética do ato que efetua a adiçáo sucessiva. Hegel o concede caso, diz Hegel, "importa fazer notar, a esse propósito, que esse
Múltiplo
sem dificuldade, mas para acrescentar logo que, em tal síntese sucessiva mesmo' isro é' o sensível admitido no pensamento, constitui a categoria
que engendra o número, trata-se de uma "sintetizafo de natureza inteira- própria daquilo que o pensarnenro mesmo conrém de exterior" (ibid., I,
mente analítiçi' (ìbid.). Há, em suma, nessa operação, e como seu traço, p' 210; trad. p. 232); os pensamenros, acrescenra, rornam-se 'determi-
uma repetição de justaposição: de nada vale dar o nome de síntese a esse nações morras, imóveis, desde que introduzidos nesse elemento do
ser-
fora-de-si", desde que evoluam em um meio marcado pela "ausência de
relação". Mas, no entanro, o ser-fora-de-si não define rambém a esfera
diverso dessa representação jamais forneceria um todo, pois lhe faltaria essa unidade específica das formas temporais? Por que enrão não se poderia atribuir
que somente a consciência pode proporcionar-lhe. Se, ao contar, esqueço que as
uma
origem comum à produção do número e do tempo?
unidades que tenho presentemente diante dos olhos foram sucessivamente juntadas eue determinação
por mim umas às outres, eu não reconheceria a produção do número por essa adiçáo permite distinguir aqui dois tipos de multiplicidades? É preciso ainda
sucessiva de unidade a unidade nem, conseqüentemente o número; pois esse conceito sublinhar a dupla instância a que se prende o número: .1.
consiste unicamente na consciência dessa unidade da síntese" (A I 03, trad' p, 1 I 1- p..t..r.. a uma
6). Cf. também Fìchrc, Wissenschafsle hre 1798 noua methodo, S I l, P. 456; Schelling,
-
System des transzendentalen ldealìsmus, p. I 89-90.
Na terceira parte do presente estudo tentaremos precisar o alcance epistemológico de 6
um coniunto de textos hegelianos, que inclui este texto dt Cìência da Lógica. CRPura, B 177, A 138, trad. p. l5l.

142 r43
câmada diferente da circunscrita pelas formas da intuição, Por ser Pensa- de entre o rempo e o número, reforçada ali:ís pela crítica da concepSo
menro, mas rrara-se de uma formação intelectual provida de um ser com- kantiana da natureza do objeto da aritmética, estaria convidando â reco-
pletamente exterior a si; é nesse nível que intervém o momento intuitivo: nhecer, na redução do uno temporal ao esraruto de matéria inerte, rebai-
o número é uma figura inteligível tendo por determinaçáo a exterioridade xado ao nível em que woluem as combinaçóes exreriores e indiferentes do
da intuição (cf. Enz\., s 104). Tâl é, por assim dizer, a exterioridade uno numérico, o movimento de constituição dos membros de uma
interna do número. "Enquanro é o pensamento da exterioridade, o nú- multiplicidade, que equivaleria àquela que define, em Bergson, o rempo
mero é ao mesmo tempo a abstração de toda multiplicidade sensível; só homogêneo. De fato, ranto o final da exposit'o da
Jenenser Logik quanto o
se conserva do sensível a determinação abstrata da exterioridade mesma; início da exposição da Realphilosophie levam-nos a descobrir no tempo pa-
é através disso que o sensível esrá mais próximo do pensamento; o núme- ralisado em sua inquietude absoluta as formas características do espaço.
ro representa o Pensamento puro da exteriorização do pensamento" (WdL', Que Hegel seja capaz de considerar e de justificar a existência de um
I, p. 208; trad. p. 281). Tirdo se Passa como se na origem de duas tempo especializado, é o que nos mosrra a explicaçáo genética do tempo,
multiplicidades houvesse dois gêneros ou modos de ser da exterioridade, tal como a encontramos na Filosofia da Natureza, ao tÍazer à luz, desde
uma, por assim dizer, analítica e constituída pela justaposição de mo- início' a unidade especulativa do espaço e do tempo e o encadeamenro
mentos indiferentes, a outra sintética, em que a separação não exclui simétrico de suas dialéticas respecrivas. A possibilidade de que o rempo
desde logo a coesão interna. Enquanto a multiplicidade temporal define volte a recair no espaço de que saíra está de acordo com a hipótese de um
uma das formas abstratas da exterioridade imediata, a multiplicidade tempo ainda impregnado de espacialidade. contudo, esse reconheci-
numérica circunscreve o pensamento abstrato da exterioridade. No en- mento' imposto ali:ís pela exigência especulativa de não isolar as determi-
tanto, ambas se comunicam por dentro' pois, graças à intervenção de um naçóes, converte-se prontamente em crítica como sempre acontece, em
ato próprio ao entendimenro, a multiplicidade numérica se produz a -
Hegel, quando um princípio unilateral pretende esgorar o reor com-
partir de uma corruPção dos elementos da multiplicidade temporal' plexo de um conceiro. Assim, a desqualificação de toda, teoria que fz do
Seria grande, portanto, a tentaçáo de reconhecer nesse procedimento tempo um receptáculo, um quadro vazio e imóvel, pode ser compreendi-
uma prefigura$o da teoria bergsoniana das duas multiplicidades, tal como da como uma crítica da especialização do rempo. Há na Realphilosophie
esrá exposra no segundo capítulo de Les Données Immédiates. Ali Bergson um texro bem explícito: 'bs momentos do real se separam no rempo, um
determina, com efeiro, a existência de duas espécies bem diferenres de é agora, o owro foi, um outro sertí; (mas) na verdade, assim como ele é
multiplicidade: tendo oposro a uma multiplicidade distinta, de justaposi- separado, ele é imediatarnenre em uma unidadc. ora, esse fato de ser sepa-
de penetrafo mútua'
ção, uma multiplicidade indistinta ou qualitativa, rado não pertence ao tempo como tempo, mas muito mais ao espaço que o
ele disringuirá entre um tempo quantitativo e um tempo qualitativo, entre acompanha; pois ele não é, justamente, essa separação indiferente de mo-
o rempo homogêneo conceiro bastardo calcado sobre representaçóes esPa- mentos' postos um fora do outro, mas essa contradição de possuir em uma
ciais e a duraéo concrera. Álém disso, já que toda adição ou adjunção unidade imediaa aquilo que é puramente e completamente oposro" (p. lZ,
-
sucessiva implica uma mulriplicidade de partes percebidas simultanea- 1.30-9). Eis aí, portanro, nesse rempo acompanhado de espaço, ao qual se
menre, o hábito de contar no rempo e não no espaço se revela ilusório; as opóe a penetração mútua dos conrrários, própria de uma temporalidade
unidades de que se compõe o número justapõem-se em um espaço ideai; "livre", algo de muiro próximo da multiplicidade distint"
á..r,rr,.i"-
é nesse meio que o espírito coloca o número, o espaço é a matéria com a da por Bergson. É verdade, enrretanro, que Hegel não parece em-
qual o intelecro constrói o número. Hegel, ao enfarizar a incompatibilida- prestar à idéia de número uma origem intuitiva de narureza estrita-

r44 r45
mente espacial.T Mesmo assim, a determinação da exterioridade intuiti-
va, que afeta a idéia do número, poderia ser compreendida de maneira
mais ampla, como uma forma geral de espacialidade, elemento da
inquietude fixada do Uno temporal, em que se movem as figuras analí-
ticas do número. Desse modo, poderíamos reencontrar Bergson: se,
com ele, se consente a definir o espaço pelo homogêneo e, inversamen-
te, a chamar de espaço todo meio homogêneo e indefinido, o espaço,
por um lado, e o tempo acompanhado de espaço, por ourro, nos ofere- Capítulo l0
ceriam duas espécies de homogeneidade, conforme esse meio viesse a EGOIDADE E TEMPORALIDADE
ser preenchido por uma coexistência ou uma sucessão. E,, se o pensa-
mento que produz o número e o combina nas "figuraçóes" da aritméti-
ca atinge um grau máximo de despojamenro, rornando-se estrangeiro a
si mesmo, é por circular nesse meio ideal de espacialidade. Nem por
isso, entretanto, Hegel deixa de conceber o tempo como uma "exten-
epois de Kanr, rornou-se corriqueiro insistir, corn o reforço de no-
são", uma pluralidade quantitativa cujo desenrolar contínuo, embora f)I t vas razões, sobre o caráter subjetivo do tempo. Mas essa via não
"contraditório", assume a forma de uma repetição indefinida do Mes-
leva a nada, pensa Hegel, se, ao transpor o rempo d", coi.", para
o sujeito,
mo; esse conceito do tempo, Hegel náo parece tomá-lo como um "con-
conserva-se a perspectiva unilateral que essa concepção pafece igualmente
ceito bastardo": não é ainda nesse nível que ele póe em evidência "o
acarretar. Até este ponro, e desde a derivação genética do início
da Filoso-
fantasma do espaço obcecando a consciência refletidd'. De fato, a indi-
fia da Natureza, a reconstituição do conceito hegeliano de tempo pôde
cação dessas afinidades náo se esgora dentro do quadro da simples apro-
prosseguir fora de todo recurso a explicações que se apoiassem sobre seu
ximafo histórica; a quesrão que se coloca é de saber se rambém em teor subjetivo. Não que Hegel se proponha a excluir esse componente
Hegel, guardadas todas as proporçóes, haveria um duplo conceito de do
conceito de tempo; muito pelo contrário, o caminho que ele toma permi-
tempo, o que acarretaria, enrre ranras ourras conseqüências, a hipótese de
te-lhe redefinir sob outra luz o alcance da subjetividade do rempo.
uma distinçáo enrre o rempo da Lógica o bj etìua e da Fi/osofia da Natureza e
Já tivemos ocasião de verificar de que maneira Hegel preten d.e fazer
o tempo daFenomenologia, por exemplo. Entreranro, não dispomos ainda justiça à idealidade transcendental do tempo concebida
por Kant. podería-
de elementos suficientes para formular adequadamente tal quesrão.
mos dizer que' ao fazer do rempo assim como do espaço um "sensíver
- toralmente do
não-sensível", Hegel não se distancia quadro intuicionista
7 Colocando-se do ponto de vista a grandeza e estabelecido por Kant, ranto mais que parece oferecer essa noção
da medida, Hegel limita-se a assinalar, como a
quando compara a grandeza espacial à grandeza numérica quanto ao princípio do versão especulativa das noções de "forma pura da sensibilidade" e
de "for-
Uno, a maior indeterminação da primeira em relação à segunda. "É verdade que a
ma pura do intuir" (cf. Enzy., S 258). por ourro lado, ao declarar que o
grandeza espacial possui no ponto uma determinidade correspondente ao Uno; mas o
ponto, saindo de si mesmo, rorna-se um Outro: uma linha; pelo fato de ser espaço e o rempo são formas absrratas do ser-um-fora-do-outro,
Hegel o
essencialmente apenas o llno do espdço, ele se torna, narelaçã0, uma continuidade, na faz em rermos muito próximos daqueles que emprega para descrever a
quaì a pontua.lidade, o fato de ser dererminado por si, o Uno, é suprimido" (WdL.,\
p. 199;trad. p.221).NoespaçoarepetiçãoindefinidadolJnoacarretasuadesapariçáo sensibilidade e suas duas formas na filosofia crítica: "as representações
da-
como tal. das através do sentimento e da intuição são, segundo seu conteúdo,
um

t46 r47
diuerso múltiplo, e também (o são) por sua forma, pela exteriorìdade recí-
e rsso não porque passa somente ao tempo,
mas porque é posto com a reÍle-
proca (Aussereinander) (dos dados) da sensibilidade, em suas duas for-
xão como sendo no rempo. A consciência
não intui o espaço e o rempo como
mas' o espaço e o tempo, que como formas (o universal) do intuir são elas
i tais eles são para si idealidades e conceito
mesmas a priopi" (ibid., S 42,p.68; rrad. p. 302); e acrescenra no * -
Zusatz "o sensível é a exterioridade recíproca, aquilo que é fora de si; essa â
em-si (ou transc.ndenais) ; mas intui o .ro;'.ït;ïff :ff.} ïffi::
da em que são e não são universais . n"
é sua determinação fundamental própria. Assim, por exemplo, o Agora ìil -.did" em que a consciência os põe
como singulares, panicularizados, cumpridos-e-realizados.
só tem ser em relaçáo com um antes e um depois. Do mesmo modo, o
l;
Assim, do mes-
mo modo que o espaço e o rempo são, também
vermelho só existe na medida em que a ele se opóem amarelo e azul (...) o universal positivo da
consciência, a consciência os muda, de maneira
(o) sensível (...) é exterioridade recíproca e exterior a si mesmo" (\7 g, I, imediaa . fo.m"l, no conrrá-
rio de si mesmos e os particularizà'.' As formas
p. ll7 trad. p. 499). Bem entendido, as objeçóes persistem: dessas duas puras de toda intuiéo sensí-
vel tornam-se, pois, o universal positivo da consciência.
formas Kant faz, por um lado, algo de subjetivo na represenraçáo; por Mais tarde, na Enci-
clapédn ($ 44s;, Hegel será explícito: o espaço
e o rempo sáo
outro lado, em lugar de expor sua gênese pelo menos pa [51{1iç3 formas em que
a inteligência
ele se contenra em encontrá-los já dados -no espírito; em ourros rermos
lembremo-nos de que es,"mos na esfera.-
-, qu.
determina ele- mesmo como sujeito para si
o espírito se
mesmo ,apreende-intuitiva-
e assim Hegel resume essas duas objeções
-repousa ainda sobre bases "psicológico-hisróricas" a explicação kantiana
-' (ibid., g 4l), o que mente"' A inreligência, explica Hegel, ao pôr fora -
de si, como um enre nega-
tivo, a determinidade-afetiva que enconrra imediatamente
limita o alcance das determinações, de resro correras, que ele apresenta. em si mesmâ,
expele o conteúdo da sensat'o para o espaço
Portanto, a comunidade das duas perspectivas sobre o regime das formas e o tempo.3 A atividade da
inruição desvia a sensação e o sentido de sua
a priori da extraposição sensível cessa no momenro em que Kant diz do d.rtirr"çào primitiva, roral-
mente interior e imediata, e transforma o sentido
tempo, por exemplo, que ele "não é naüem si fora do sujeito",r não sendo, em algo à. .rr.*ho, .-
um objeto exterior; porém essa inversão de orienta$o
com efeito, nada além de uma propriedade formal do sujeito cognoscenre deixa invariável o
conteúdo da sensaÉo: o que ocorre efetivamente
finito. No enranro, esse desacordo genérico referente à inflexão "subjetivista' é uma transmuta$o da
Êorma da interioridade em forma da exterioridade. por
da exposiÉo ka'tiana não impede que Hegel, na teoria do espírito subjetivo .orrr.g,.rirrr., .r,"
úlrima forma tem uma dupla significafo: inicialmenre,
e no momento da dedufo da sensafo e da intuiÉo, como se preenchesse a o ,.rrriL, ,or.r*-
do-se assim um objeto exterior para a interioridade
lacuna que havia denunciado em Kant, vá recoúecer no espaço e no tempo do espírito, recebe a
forma de um merior-a-si-pníprio (sich-serb*-Aeusserrbhen)que
os dois tipos da inruiéo formal do sujeito, mas então ele os explicita no curso o espírito erige
então_em nattrr."a específica do Objeto; a
seguir, porque a transformago do
do movimento mesmo da constituição do espírito . Já na primeira
Fibsofa sentido procede do espírito como ,"l, sua exteriorid"d.
dn Espírito podia-se ler: 'ã consciência intui imediatamen rc no espítço e no "p.....r,"
,, i.r..-
minações da universalidade e da absração
tempo. No espaço (ela intui) o singular na medida em que esre é um ser- mas universalidade imedia-
-
ta' formal e desprovida de conteúdo. Em suma,
a intuição
subsistente e (intui) seu ser-ourro fora de si. Mas, como ela (a consciência) pár as sensações

é igualmente posra no rempo, ela é um ser-eftmero na medida em que é


em si mesma algo-de-ideal que já não é mais no momenro mesmo em que é,
Jenaer Realphilosophie I, ed. J. Hoffrneister, ph. Bib., Felix Meiner, Leìpzìg,
1932, rrad.
C. Planry-Bonjoür, pUE p'.77 (abreuiadl., Mí.\:;.^-
Toda a exposição hegeliana, da,qual,apenas
um aspecto é evocado aqui, poderia ser
I CRPura, B 51, A 35,trad. p,64.
lida à luz da deduçao da s.nsação e daintuiçao,"ião-o
é apresenrada por Fichte no
Grundrìss de 1795, p. ex., e por Schelling nà
Syur* a, rcOO.

t48
r49
nota! acrescenta Hegel logo em Outras análises hegelianas indicam uma segunda acepção da nofo
espacial e temporalmente.a Mas convém de
subjetividade que seria lícito aplicar ao rempo também esra, ao que
seguida, que a proposição segundo a qual o objeto da sensaÉo recebe do
parece' seria tomada por uma marca da incomplerude conceirual do rem-
espírito que intui as formas do espaço e do tempo não se presta de modo
po. A série temporal em sua progressão exprime a reflexão do tempo, a
algum a uma interpretaçáo subjetivista exclusiva ou unilateral; nisso estaria
formação e a reprodução dos momentos de seu conceito. vimos que
o equívoco de Kanc o espaço e o tempo não são somente formas subjetivas; a
reflexão do tempo se reproduz de tal maneira que cada momenro se engen-
na verdade, as coisas também são em si mesmas espaciais e temporais' sua
dra a partir de seu contrário que, por sua vez, sendo negado, retorna sobre
constituição espaço-temporal provém do despojamento da Idéia, de tal
o primeiro oposto, o que assegura a unidade consrituída pela igualdade do
modo que a na::leza é o conceito em sua objetividade exterior. Será em
repetido. ora, Hegel dissera que o reperido é indiferente em relafo àquilo
relação à subjetividade da Idéia que se falará então da subjetividade das
de que ele é a repedção, que para si ele não é um repetido e sua identifica-
duas formas do um-fora-do-outro imediato.5
so cai fora dele. "o
momento, como ral, não é enrretanro em si mesmo o
que havia sido antes ou o que será mais rarde; essa reflexão esrá fora deles e
a 'A forma do conceito, porém, nessa exterioridade abstrata, cai ela própria em pedaços (o fato de) que ele se torne de novo o que foi é, com efeito, uma
unidade
um-fora-do-outro). Esta última tcrn, pois' a dupla fo r ma. do esp a ço e do
(aus e i n an der:
que só é como reperiéo" uL., p. 204, r.27-31). Retomando a dialética
tempo. As sensaçóes, portanto, são postas pela intuiçáo espacialmente e temporalmen-
-O
te. espaciaì expóe-se como a forma do ser-tm-ao-lado-tlo-outro indiferente e do
subsistìr)m re?oilso e o temporal, por sua vez, como a lorma da inquierude' do.negatiuo
em si mesmo,- do ser-ttm-depois-do-outro, do nãscer e dcsaparecer, de tal modo que o mudança: "se o mundo, como pensaram a.lguns assim chamados sábios, fosse
uma
temporal é,aonãoser,enãoé,aoser" (8n2y.,5448,7-us.,\/ 10, III, p.252). Eainda: cadeia de câuses e efeitos estenàendo-se paia-a-frente-e-para-trás ao sem-fim,
não
"na medida em que opera de início uma interiorizaçío-rememorante da intuiçáo, a haveria em sentido_próprio.nem um p"rrido nem um fuìuro. Mas seria justo
que
inteligência póe o c0ntetido do sentimento n^ interioridade dela, em seu espaço próprio e esse pensamenro dispararado tivesse desaparecido ao mesmo tempo
que o sisteÀa
seu timpo próprio" (S 452); "a imagem é para si mesma passageira e é ainteligência mecânico, ao qual, somenre, ele pertence" (1, 20). por outro laâo, a redução do
tempo à categoria de elemento subjetivo da representação: "é fác]l dizer, e agora
-.r*", " títuio de atenção, que é seu tempo e também seu espaço, o quando e o onde" é
(s 4t3). opção universalmenre aceita, que o rempo não é nada de efet.ivamente-r.al, ná'da
de
5 "Mas, independente de nosso modo-de-representação (...) E no enranto cada
se dissemos que o sentido recebe do espírìto intuinte a forma do espacial e do um experi-
menta irrefutavelmente, em. sua própria ação e omissão, a essencialidad. do t.Ápo,'
temporal, essa proposiçáo não pode ser entendida como se espaço e tempo lossem (rr'.27-8).. Tâl irrealização do tempo d.coir., pois, de uma compreen5[6
formas apenas subjetiuas. Tais quis Kant fazer o espeço e o tempo' No entanto as m{ 6Lr

coisas sãó, na verdade, elas própriasespaciais e temporais; aquela dupla forma do um-
unil;neral,.como diz Hegel da.subjetiuidade do tempo.,.Ou seja, o rempo, - em
-
referência às coisas ou ao mundo, de modo nenlium d"ue ,"r p.nr"áo
.o-o .*,".nr,
lora-do-outro não lhes é fornecida unilateralmente por r.ìossa intuição, mas já lhes
de.tal modo que neìe as coisas começassem ou exisrissem" (1, r42). com isso se
está proporcionada originariamente pelo espírito infinito que é em si, pela Idéia
indica, em ourros rermos, que cada coisa tem em si seu próprio tempo, Essa noçáo
criadora-eterna. por isú, quando noìso espírito intuinte faz às determinaçóes da
dc.um tempo individual não era estrangeira para Fichte, ct '\yrissensciafslehre rBl0l,
sensaçáo a honra de dar-lhes a forma abstrata do espaço e do tempo e, através disso,
S 40, p. 120. As coisas não esrão ,o rr^-po ou .- u- tempo; só há tempo n",
tanto lazer delas objetos quanto assimilá-las a si, com isso abscllutamente não "nenhuma coisa", diz Schelling, 'tem um rempo -io'
ocorre aquilo que, segundo a visada do idealismo subjetivo, ocorre com isso: ou seja' exrerno, mas cada u-" ,o-.n,. ,,-
tempo interno,.próprio, nativo e imanenre a elí' (1, 142). Essa proposiçáo exprime
que recebêssemos apenas a m2lneirt sub.f etiua de nosso determinar e não determina-
aquilo que Schelling denomina asubjetìuidade uniuersaldo temp,
ções próprias obj.,o mesmo" (Enzy., S 448, Zus., iYl 10, III, p. 253). É um it, t43), ."d".'oirl g
"o o syrb(c.nm. de seu próprio tempo, verdade que a esrreiteza'do idealismo subjeti.,ro
procedimento análogo que vemos em obra no Schelling dasllades do Mundo(V/eltaber.
-Fragme teria deixado na sombra: "o erro do kantismo em referência ao rempo .onrirt.
nte. In den Urfassungen uon t I I I und I8 13, ed. Manfred Schrõter, Biederstein qu.

ele.'ão conhece essa subjetividade universaÌ do tempo e por isso tne aa a (subjetiviàa-
u.tJ L.ibnir V.rlag, Munique, I 946). Assim como faz Hegel por outras vias, Schelling
cle) limirada,pela quai ele se rorna uma mera forma ãe.rorr" r.p..r..r,"çao" (ibid.).
náo dissocia em sua crítica os dois aspectos mais característicos de uma concepçáo Do
mesmo modo, como esramos vendo, Hegel acolhe em sua exposição a tese
defeituosa da natureza do tempo, que ele atribui em grande parte aos kantianos. Por da subje-
tividade do tempo, desde que modificado o regime desse .o.râ.ito, aJiás amplificarâo
um lado, o rebaixamento do tempo ao nível de um conceito físico-matemático ou
seu alcance.
simplesmente "mecânico" (ct. I, 144), quadro neutro onde vem inscrever-se toda

r50 15r
dos dois primeiros momenros, Hegel situa o lugar onde deve efetuar-se
transferimos nós mesmos a ele o ser
essa reflexão:"oÍa, a totalidade do infinito não é em verdade do presente, não o representamos
um rerorno ao como algo de puramente negativo. M*
primeiro momenro; pois o primeiro momenro é ele mesmo absorvido como .rr. ser conferido a ele cai fora
dele: é um (ser) representado. Seu ser verdadeiro
um dos momenros- A totalidade recai na direso do primeiro momenro é ser Agora,, (ibid., p. ll,
l.l5-9). O Futuro, já o sabemos, é o momento d" n.9.6o no presente,
somenre como (momento) oposto àquele da qual ela procede imediata_
r)ortanro está nele imediatamenre, mas de tal maneiraq* ,,r" distinfo cai
mente. Mas este é, de fato, o primeiro (momento) ultrapassado e (a afo
fòra deles (cf. ibid., 1.27-9). Mais precisamenre,
de) ultrapassar-se a si mesmo; e a totalidade, como o contrário do mo- é nossa uisada do Agora
que reconhece nele, sob a forma do negativo,
mento diferente, só o é como a unidade dos dois ou como o em-si do o advento do Futuro e, arra-
vés disso, o presentifica. É a uma oper"çao
segundo; ela só se enconrra nele, enquanro segundo, para nós (grifo nos- do .li _ reduzido aqui por
Hegel a um que deve ser imputada a redização do não_ser
so)" (ibid.,l.32-40). Parece, pois, que a reflexão do tempo,
?ara nós
Ã..,o, .- - vem reforçar,
Futuro. A conclusão geral
do
estendendo_o ate à etapa
parte, só é para nós. Seja o desfecho da dialética do espaço:"o
na passagem o alcance dessa reflexão externa na constituifo "rrr..ior,
em que se delineia a do tempo, vemos intervir nela essa instância exterior do tempo: ',.rre .ráte. de
imediação em que os momenros se dissolvem
cuja operação Hegel diz só ser para nós. Uma vez restituído o todo do é o que acabamos de lembrar,
em especial que a distinção de suas dimensões
espaço' Hegel póe em destaque a diferença indiferente de suas três ."i fo." desras, que somos
di- nós o espaço em que elas são colocadas,
mensões: equivalentes, elas são inter-cambiáveis. o negativo saiu do
distinguidas, ,r.i_ .o_o somos
espa- nós o tempo qúe moue as negatividades
do espaço (de tar modo) que elas são
ço, declara Hegel, e isso quer dizer: nesse nível de sua diarética a diferença suas dimensões e suas posiçóes diferentes,,
não está mais posta nele como diferença. As dimensões ainda são apenas çì0A., p l:.,l.l_n;.É.if*.m,
portanto' esse ligeiro recuo de um além, em
direçóes e' porranro' indeterminadas em sua igualdade, isto é, as dimen- que se insere nossa visada
como fonte de negatiüdade, para que do
úq ainda nãa são diferenças (cf. Enz.y., S 255, 1.29), or_ conforme à espaço tenha podìdo surgir o
tempo' Imóvel na indiferença e exrraposifo
segunda exposi$o de Iena d. ,.,,, -o-..r,or, fora de si
a diferen ça não é mais algo de efedvo (cf rnesmo porranto' falrava ao espaço
-
Mh., p.9, 1.33), ou seja, é apenas e tal é a palavra final da exposit'o do
a virtuaridade do não-ser que somente o
Metnen parece capaz de cumprir. Com isso,
-
conceiro do espaço na Realphibsophie algo de uisaàn (ein geme:inter) E já "minha visada', desqualificado
o momento constituído por
-
estaÌnos no tempo: "o espaço é a quantidade existente imediata, o
no exame da esrrutura do Agora, adquire
conceito um papel legítimo na explicação da gênese
em si mesmo ou imediatamente, isto é, no elemento da indiferença e da do tempo; mas rambém, com
isso, o "eu" implícito em "minha
visada', esse cenrro egocêntrico de pers_
separafo dos momentos. A distinção saiu do espaço: isso quer dizer que
Pectiva, rorna-se uma das instâncias à quar devemos Iïg". o
ele deixa de ser essa indiferença (equivalência), náo esrá mais, para si, .o.r..i,o d.
tempo. O desenrolar dos tempor"ir, port".'rrto, não poderia
paralisado em toda sua inquietude. É o sì da uisad.a (des Meinens).- _momentos
q.r. ser compreendido integralmente
se omitíssemos essa referência a uma
o vimos cair. Essa quantidade pura, como diferença pura existenre para "visada' sobre o rempo.
Essa remissão à função d.o Meinen,
si, é o infinito absrrato ou negativo em si: a tempo,, (R?h.,p. 10, l.l_ll). que por
sua vez decorre da estrutura do Si,
autorizará, pois, a falar do caráter
Para chegar a isso, a via que passa pelo Selbst, de que Hegel,
aqui, se limita subjetivo do tempo. Assim releremos,
a destacar o momento do Meinen, impóe-se necessariamente.
como um prorongamento dessas
ora, é nes- 'rnálises do período de lena, a observação da Encicropédiai "na
sa interferência de ordem subjetiva que deve ser situada a origem natureza,
de que ('rì1 que o rempo é agora,
não se atinge a diferença consistente das
deriva, por exemplo, o sentido da expressão 'b futuro será". Essa expres- di-
r'ensões acima evocadas; eras só são
necessárias na representação subjeti-
são, com efeito, quer dizer:'nós o (o futuro) represent/tmos como algo, ua, na lembranÇa e no medo ou
esperanço. Mas o espaço é o passado
eo

r52
r53
futuro do tempo como ente nanah'rez/z,pois é o tempo negado" (S 259' movimenro; sua intuição de si mesmo é o tempo (cf. p. 273) proposi_
p. 2lI tad. p.249).6 ção que reromará no último capítulo da Fenomertologìa: "o tempo é o
A essas duas significaçóes da subjetividade do rempo referente à puro Si exterior, intuído" (p. 588; trad. II, p.30j). Mas, desempe-
objetivação espaço-temporal do conreúdo da sensação pela atividade intuinte nhando o papel de gonzo ou, mais precisamente, de cencro mediador,
do espírito subjetivo, a ourra referente à relação das diferenças temporais a Hegel introduz a dererminação do negarivo, pois reconhece no carárer
uma "visra" sobre o rempo iunta-se uma terceira, mais compreensiva, negativo do tempo a negarividade do Si puro do ser-para-si, assim como
-
porque se verifica ao nível dos princípios esclarecendo assim as duas pri- o espaço é o puro ser-em-si posto objetivamenre (cf. ibid., p. 12, 1.25_
meiras significações. Pode-se, pois, no mesmo lance, negar que o temPo 6).t O primeiro ser-aí imediato do negativo é o rempo, proposição que
seja apenas uma determinaçáo subjetiva da representação é assim que dá conta igualmente do para-si pontual do eu = eu.
afirmar que
- "o tempo é o
Hegel interpreta a doutrina da Estética e A co-pertinência do eu e do rempo verifica-se inicialmente no fato de
-
mesmo princípio que o eu = eu da pura consciência de st" (Enzy', S 258' dependerem ambos da categoria da quantidade. 'A determinação da quan-
p.209, 1.30-2). É b.* verdade que Para a comPreensão especulativa do tidade pura aplica-se igualmente ao eu, porque este é um absoluto rornar-
regime dos conceitos a diferença enrre a objetividade e uma consciência se-outro, um afastamento infinito ou uma repulsão unilateral até a liber-
subjetiva à qual ela se oPusesse não concerne o temPo mais que o esPaço; dade negativa do ser-para-si, sem deixar de ser, enrreranto, uma conri-
no entanto, se quisermos conservar essa terminologia, o esPaço aparecerá nuidade absoluramente simples a continuidade da universalidade e do
como â objetividade absrrata e o rempo como a subjetividade abstrata. E, ser-junto-de-si (Beisichsein) que- nem por isso se enconrra inrerrompida
com efeito, é a abstração que liga inicialmente a egoidade à temporalidade: pela infinita variedade dos limires, isto é, pelo conteúdo das sensações, das
o tempo só exprime o mesmo princípio do eu na medida em que este é intuiçóes, e assim por diante" (f/dL.,I,p. lB2; trad. p.201). O acento é
tomado em sua "total exterioridade e abstração". Eis uma formulação que posto de início na determinat'o da continuidade, acrescida agora de um
se inscreve ainda, sem dúvida, na esteira dos temas do idealismo novo traço característico, o do ser-junto-de-si. A esse propósito, em seu
rranscendental, muiro próxima, em parricular, da idéia de que o tempo Sistema da Fibsofa da Naturezt, schelling era explícito, eferuando a apro-
não seria senão o senrido interno que se faz objeto para si mesmo.T O ximação por intermédio da continuidade da série: 'ã série primitivamente
rempo, diz Hegel no fim da Realphilosophie, é o Si vazio intuído em seu infinita (o ideal de todas as séries infinitas) é aquela em que evolui nossa
infinitude intelectual: o rempo. A atividade que mantém essa série é a
rnesma que mantém nossa consciência; mas a consciência é contínua. Tâm-
E também a seguinte: "assim como na natureza exterior espeço e tempo' através da
bém o tempo, como evolução dessa atividade, não pode ser obrido por
dialética do coÀceito, imanente a eles, suprimem a si próprios na' matérìa como sua
verdade, assim a livre ir-rteligência é a diatética sendo para si daquelas fcrrmas do um- justaposição de fragmenros ou frações. ora, como todas as séries infiniras
fora-do-outro imediato" (Enzy.,5445, Zus.,W 10, III' p' 213)' são senão reproduções da série primitivamenre infinita, isro é, do tem-
CL p. ex. Schelling, System,p' 135 seq. E, mais p.articularmente:
"mascomoentáooeu 'ão
po, nenhuma série infinita pode ser senão contínua'.e Em Hegel, con_
,.,à.n" obj.to p"ïe ri .o-á sentidoìnterno? Única e exclusivamente por nascer-lhe
o tempt (náo o tempo na medida em que já é intuído externemente' mas o tempo
.o-o'-.ro ponto). Quando o eu opõe a si o újeto, nasce-lhe o sentimento-de-si'
isto é, ele ,. iorn" obj.-to para si com'o intensidade pura, como atividade que só pode
Isso vale a
fortiori para o movimenro: "mas ele (o movimento) é de fato o si ou o
expandir-se segundo uma dimensáo mas agora está contraída e m um único ponto'
mâs

juit"ment" esia atividade extensível somente segundo rrma dimensão é' se se torna sujeito. o
eu é como eu, sujeito, justamente como o conceito do movimento mesrno
si mesma, tempo. O tempo náo é aìgo que transcorre independentemente
sendo" (R1%., p. 17).
ãbj.to p"r"
doeu, mas o eu mesml é ó tempo pensado em atividade" (p' 133)' Essaìs, trad. cit., p. 37 5.

r54 r55
tudo, a prioridade aparenremente concedida à continuidade, o fato de fundo ele não é senão movimento vazio que consiste em pôr-se .omo
esse
un
rebater a identidade do eu sobre a conrinuidade do tempo, mosrra, ao ourro e suprimir essa mudança, conservando apenas a si mesmo, isto
é, o eu
contrário, que ainda estamos no patamar mais elementar do processo como eu e unicamente como tal. o eu é no tempo,
e o rempo é o ser do sujeito
de constituição do eu, que ainda respiramos a atmosfera rarefeita da mesmo" (ibid., 156; trad. p. 314). É,.r.rr. q*d.o,
pois, tendo por pontos de
abstração e da falta de determinação. Por dar,se em um nível rão primi- referência as determinações do contínuo,
do do razro, definido, en-
liye .- nem poderia ser de outra maneira a conexão que existe entre "bsr"to,
fim, por um meio homogêneo ou de Êaca determinafo,
-, por um lado, e por
a interioridade subjetiva e o rempo não é menos perrinenre, fundada oltro,nela forma do processo absÍaro, que devem
ser inscrius as formr_rÌas de
em definitivo sobre um isomorfismo elementar. O sentido interno, identificafo evocadas há pouco ou ainda ais como as
segúntes: o tempo esrá
observa Hegel, é a abstraa percepção de si mesmo (cf. VuAe., 'W' 15, na mais estreia coner<ão com o simples si;
o rempo, or.rioridade, possui
--o
III, p. I52; vad.III, 1.", p. 311). A figura que se desenha por essa em si o mesmo princípio que anima o eu como
fundamento de toda interioridade
apreensão é a de um cenrro simples, de um ponto de concenrração, de e apiritualidade (cf. ibid., p. t&;
;rrd. p.3t2).
um Mittelpunkt que evoca desde logo o limite temporal. Da oposição Isso não quer dizer que Hegel queira insistir
muito pelo contrário
corrente entre senrido interno e senrido exrerno Hegel irá resgarar um -
sobre as duas verrenres mais batidas de tar identificaçao,
tipo de interioridade ligada à unidade subjetiva, que ele define pela
-temporal de a substância
toda egoidade e a narureza psicológica do ,._po.
O eu não
negaçáo ativa da indiferente e subsistente extraposição espacial. Expli- está no tempo, ao mesmo título que qualquer
outro ser temporal, mas é
cação análoga, já o sabemos, à que é fornecida repetidas vezes a propó- no tempo ou, mais precisamente, seu ser "é posto
Posto com a reflexão
sito do domínio ideal do rempo. A determinaçáo que convém à como estando no tempo". A considerafo exclusiva
do dado imediato do
interioridade subjetiva assim compreendida é portanto a da unidade desenrolar temporal de toda consciência dissimuraria
o rerreno em que o
negatiua: eis o gênero de unidade que está na origem da identidade do eu, o sujeito da consciência, se põe no tempo
e em que o rempo exibe as
eu. "Mas, no início," precisa Hegel, "essa identidade consigo mesmo esrrururas suscetíveis de acolher o eu, de
constituir seu estofo elementar. As
permanece purarnente abstrata e vazia e consiste apenas em fazer de si duas esferas, egoidade e remporalidade, ajustam-se
no nível dos princípios,
mesmo um objeto, mas também em suprimir essa objetividade que é o isomorfismo que as rorna permeáveis uma à
outra é assegurado pera
somente ideal e se confunde com o sujeito, para assim afirmar-se como co'espondência das determinaçóes lógicas.
À categoria d" q,,".rr"id"de acres-
sendo ek mesrnã a unidade subjetiva" (ibid., p. 156; tad. p. 313-4). E cenrarn-se ouras determinações.
Já vimos em obra no .o.r..ito do tempo
o momento do ser-para-si; reencontramos esse
a advertência não se faz esperar: no domínio da exterioridade que se momento no eu: ,b pri_
pode precisar: da abstrata continuidade quantitxliya -
essa mesma rneiro exemplo do ser-para-si, nós o temos no
eu. Nós nos sabemos,
atividade negativa ideal não é senão o rempo. Do mesmo - modo que o enquanto sendo-aí, inicialmenre diferentes
de um ourro enrre-aí e em
Agora permanece idêntico a despeito de sua mudança a título de relação com ele. Mas, a seguir, sabemos
também esse vasro campo do ser-
Agora os pontos temporais não diferem uns dos ourros - assim o eu :rí como vindo contrair-se, por assim
dizeç como em uma ponta, na for_
-,
abstrato não difere do Objeto no qual ele se abole, mas no qual ele se rna simples do ser-para-si.
euando dizemos: er, essaé a expressão da rela-
reencontra, uma vez que o objeto não é senão o próprio eu uazio: "em ção infinita e ao mesmo rempo negativa a si mesmo,, (Enr!.-,
5
96, Zus., W
termos mais precisos, pode-se dizer que o eu real (wirhlich) perrence 8, I, p. 203-4; rad. p. 529; cf. WdL.,I,p. t48). O -.rí,o-r. p..r".o_
ele próprio ao tempo com o qual coincide, se se faz abx.raçáo do con- e noção do limite ('pontual") exclusivo, do princípio do uno. d" d.t .mi-
teúdo concreto da consciência e da consciência de si; e isso porque no .ação correlata da repulsão. Acabamos de ver
o que se dá com o momenro

r56 t57
l

da nega$.o: é a forma da unidade negatìua que póe em relevo, de início, o


rcmpo é essa atividade negativa idear
parentesco que liga o eu ao rempo, assim como se aplica ao ser da consciência de diferenciar-se em que se arrernam
cisão e soldamento e.cujo fundamenro
(ideal em sua pontualidade) a formula utilizada freqüenremente por lógico deve ser buscado inicialmen-
Hegel rc no princípio da diferenciação
para realçar no tempo a imbricaÉo de ser e de não-ser: um ser que já não é do uno consigo mesmo. o mesmo se
llJssa COm o eU = e
mais no momenro mesmo em que é. A determi'aéo do simples convém,
igualmenre, tanro ao limite temporal quanro à forma da consciência. Alérn
<r istingue,,, rê-se
na ; :,;:;; üffi ;,ffil'J,f.ï,.' : ;r;:::
rììesmo rempo, um não-disrinto', (p. 133; rad. t, p. tiS); _ìi, pr..ir"_
disso encontrarnos, articulando esses dois domínios, o mesmo gênero de
rìrenre, "o eu rem um conteúdo
relação: se, por um lado, como sabemos, a essência do Agora se deixa apreen-
qu. .1. distingue de si, pois ele é a pura
rregatividade ou o movimenro
de cindir_se; ele é consciência. Esseconteúdo
der pela idéia de uma reÌaÉo absoluramente negativa, ou ainda pela de uma
cm sua diferença é rambém o eu'
relaÉo absolutamenre diferencianre que se propaga arravés de toda a série pois é o movimenro de suprimir
a si
temporal, o eu, por ourro lado, se define pela relat'o infinita e negativa, ao
ì,',i: ï" * ï :ïi'ï':
mesmo tempo, do espírito a si mesmo (c[ p. ex. Enzy., S 412_3).10 F,ssa
I

.rigem da relação ínrima enrre o rempo


i?",", f#,' ï l,Z:;,ïU.*i: ru; $;
e o Si puro, de que
relação negatiua duas, na verdade, que se verificam de uma e de outra pane
cstá portanro esse "movimento
f"l" H.g.Ì,
-
e cuja similitude permite pôr em evidência o princípio da co-pertinência do
de.i.,di._..,,; .ì. é,
tlobramento e apagamento da separação
..rtr. "o;..;;._po, a.r_
conreúdos distintos, isto é,
eu e do tempo pode ser especificada segundo duas vias:
- rrma'dìferença que não é diferença'.
l.') O desdobramenro do eu, enquanro ,,vazio',, No intersrício aberto por tal movi-
movimenro e o en_ rììento vem inscrever_se o tempo.
cadeamenro regular do rempo desenrolam,se de maneira simétrica. Na A proposiSo segundo a qual o tempo
o mesmo princípio que o eu eu é
constituição de uma e de outra "multiplicidade" observa-se uma igual = da pura consciência de si remere-nos a
identidade na alteridade: apesar de sua mudança o Agora permanece o
csse processo de diferer -
= mostra-
mesmo, enquanro o eu elimina incessantemente o outro que acaba de
se como uma reração ]'ïJ:il ;,'ï1,1-rïï li.*:l*'" :ï
convida a fazerp..Lir.-r'o. dizer que ,,.g"uirpd'lJJï:ïJ*ï::
pôr. A conexão dos membros de cada pluralidade obedece, pois, ao .tingido pela anáÌise, exprime .rr. " i::Jilï
princípio da reflexão determinante como excludente: cada ponro tem- llegel designa pelo termo (Jrteir.
-o-Àro da diferen.l"iao do i, ou.
poral, ao pôr-se, põe seu Ourro, que o exclui, isto é, cada um deles, Essadivisão ou partilha-origináriaconsti-
rui "a diferenciação da consciência
como exclusivo, consritui toda a exc/usão; do mesmo modo, ,,o eu é ele em um sujeito e um
\ 447); por essa cisão primitiva o espírito se rorna eu, rivreobjeto,, (Enzy.,
mesmo e usurpa o objeto como algo que é em+i suprimido; ele é um .tn face da determinidade;12 subjerividade
dos termos da relação e a relação ìnteira" (Enzy., S 413, p.344; uad. -.i, qr.r. isso: a consciência que contém
a
p. 383).
2.") o ourro aspecro revestido pela relação negativa refere-se à forma ' "NJo meramttte nrís' os espectadores, disrirrguimos
essinr o eu em 5cus rnômenros
reflexiva do si. o limite temporal é o que disringue absolutamenre; o oposros' mas' por força de sua singuraridad",
,i universal e, com isso, distinta de si
mesma, é o prti,rio eu essç /i57iagllr_:e_tle-si, "ï
poir. .o,,-''o ,"f.rlrà._r.l.rì,
ridade excÌudenre excrui-se.,re.si"própria ,ïïï,"rrl.-
.;;r;;; àiro, po.-r" como o contrário dera
l0 "(...) o eu tem de ser captado como o universal indivìdualmente
mesma imediatamenre co_incluíào
.o_ "..t", .orno..u.,iu ersa)idad,e,, (ìbid.).
determinado, em sua ) cf ibid'' s 415' por uma ta-l divisão, abre-se
determinidade, em sua distinção, referindo-se somenre a si próprio. Nisto já está sem dúvida o caminho que conduz
consciência,cuiosuieitof oe.u(cf.;O;a.,g4rjl^,:;seser-para-si à
contido que o eu é relaçáo negatìua a si mesmo, conseqüentemente o contrário não- dalivreuniversali_
d,r1e é o despertar sup"rior da
". ir*ail
mediado d.e stt.. uniuersalilade abstraída. de toda d"t.r-inid"d., porranro alma direção à u'iversalidr.c
a sirtgt/ari- .r'sç;.,.. na medida em que ela.i pnrn
dade igualrnente abstrata simplei' (Enzy., S 4I3, Zus., \í 10, III, f llt.
"o'.u. "-
uniulrr.t*ia.a".Ur,r.ì-[*ï.rr. ,-ï"i" n
n. "
Pensar e njeito para si, e aliás, determinadame,.r,.,
,u,.ito a. ]"" i-,rilì"-"rìËìïu.,"

158
159
autonomia do sujeito e do objeto tendo desaparecido, "o eu, na medi- afètando esse senrido que ele a produT".ta Em uma explicação
como essa,
da em que julga-partilhando-originariamente (als urteilend), possui um importa-nos menos conseryar a idéia de afecção e de receptividade
que
objeto que não é diferente dele, ele mesmo consciência de si (ibid., assinalar a de um desdobramento reflexivo, tendo como instância
primitiva
- -,
S 423, p. 349; trad. p. 387). A relação entre a unidade negativa do um ato do sujeiro ao qual se prende a formaso da série tempora.l.
De manei-
tempo e a da ipseidade ata-se assim graças a um aro originário de divi- ra geral, tal auto-afec$o do espíriro se deixa compreender
J luz daquil,, que
sáo, juízo primitivo em que a diferença em estado nâscenre é ao mesmo Fichte e schelling denominarão "duplicidade originária' da egoidaáe
ou do
tempo diferença em desaparição. espírito.ì5 Em Fichte, o cuTso do tempo sobrevém desde
o momenro em que
Náo é diÍïcil reconhecer nesse procedimento hegeliano um remanejarnenro ln dìscuno. Não somente a descriéo do pensamento objetivo revela nele as
da teoria transcendental da auto-afecção do sentido inrerno, ainda mais características formais do tempo: a evidência desse conceito
se impõe tão logo
que Hegel designa pelo princípio da co-pertinência da egoidade e da se reconhece a impossibilidade de um saber intemporal,
por assim dizer
temporalidade o momento do idealismo rranscendental (em primeiro lu- concenrrado em um único ponto.r. para a doutrina-da-ciência
o rempo só
gar, o de Fichte). "Mas esse eu = eu é o movimento refletindo-se em si pode ser alcançado fora de rodo dado transcendente no decurso de
mesmo. Com efeito, uma vez que essa igualdade, como absoluta uma dedu$o genética- ao rermo da qual -
há, ao mesmo rempo, transposi{o
negatividade, é a absoluta diferença, a auro-igualdade do eu se póe enrão sensível (versinnlichung) e constiruiÉo de um saber mediato;
,r"1. dire. crir-
em face dessa pura diferença que, como a diferença pura e ao mesmo rem- talizaçãa de uma extensão (Ausdehnunp graças à reiteraÉo
de aros sinréticos.
po objetiva para o Si que se sabe a si mesmo, deve exprimir-se como tempo" O fundamenro que dá origem e impulso à gênese é constituído por uma
em virtude d" .,duili.id^d.
(Phtino., p. 560; trad. II, p.307). Nas Observações gerais sobre a Estética "consciência originária pura" que se desdobra
transcendental, Kant declarava que a forma da intuiÉo inrerna, dado que do espírito"; os aros de pensamento escaronam-se a seguir em diversos
não representa nada senão na medida em que algo é colocado no espírito, níveis e ao menos dois momentos surgem _ ao mesmo
tempo separa_
"não pode ser outra coisa senão a maneira pela qual esse espíriro é afetado dos, opostos e reunidos e com eles o tempo.rTAssim, t.-io."rrd"d.
por sua própria atividade, a por essa posifo da representa$o, con-
- têm uma proveniência
e pensamenro discursivo
saber, comum, desenrolam-
seqúentemente por si mesmo, isto é, um sentido interior em sua for- se sobre um mesmo fundo de dualidade, explicam_se
por uma
ma".r3 Tal é a origem do conceito de sucessão como forma de ligação do mesma cisão, por uma Spaltung da ipseidade.rs Análir.,
dìr.trrro .
diverso: ele é produzido pelo movimenro, como aro do sujeito, em virtu- dispersão temporal dão-se juntos. Aí esrão em um arranjo
de do qual determinamos o senrido interno de acordo com sua forma; doutrinal específico -
os dois remas que Hegel retomará a seguir: o de
mais particularmente, é o entendimento mesmo que intervém aqui na
-
produção desse conceito: "o entendimento não encontra portanto no sen-
tido interno, por assim dizer já feira, uma tal ligaçáo do diverso, mas é t4 lbid. B 155, trad.
p. 133; B 157, uad. p. 135, nota.
't Cfp.ex.Fichte,Wissenschafslehrel79B,Sl2,p.523; Schellìng,S4stemd.t.Llealismus,
p.146.
r6 Cf. Darstellung dertVissenschafslehre
(seines Urteib), na qual o eu exclui de si toralidade natural de suas determinaçóes como IS0l, S 34, p. 9S, S 35, p. 103.
17 Vissenschafslehe
um objeto, um mundo exterìor a ele, e se refere a (esse mundo) de tal modo que nele 1798, S 16, p. 524-5.
está imediatamente refletido s6 5i, a consciência" (ibid., S 472, p.343-4; tad. t' C:.f. rbi4., S 12, p. 419-60: "até agora queríamos mosrrar
- que nossa consciência não é
p' 382)' discursiva na medida em qu" .r.ifor" à. todo tempo qu.
ro-.r,t. por cstar dìspersa
t3 CRPura B 67-8, trad. p. 73. em um rempo ela resulta como discursiva' (S 16,'p. "
52g; cf. p. 526:,29).

160 161
uma divisão-originária, o de uma queda no rempo, o fato primirivo de de verdadeiramente subjeüua" entre um primeiro ponro remporal a aque-
cair no rempo, várias vezes desenvolvido por Fichte. Ie vimos o primei- le em proveiro do qual o Agora se abole (cf. VuAe., \f
15:III, p. 156;
ro em obra na explicação da conexão elementar do eu e do tempo, e rrad. III, 1.", p.3I4). Não obstanre a determinação formal
qr. p".ri_
também o segundo, se se consenre a compreender a reflexão que póe a lham a esrrurura do Si a identidade dessas duas sínreses
consciência no rempo através do termo figurado de queda. Em outro - -,
transmuda em diferença: a progressão
se
abstrara do tempo conrradiz a
terreno' o dos conceitos preliminares da teoria da história, Hegel man- urridade do eu (cf. ibid., p. rG5-6; trad. p. 322). para reenconrrar-se,
tém sua conjunção: "a consciência contém essencialmente isto: que eu para restituir sua unidade, o eu deve, por conseguinte, subtrair-se
à
sort Pttr/l mim, que eu sou abjeto para mim. Graças a esse juízo absoluto dispersão exterior e regrada do tempo, arrancar-se à repetição
uniforme
(urteil)' distinguindo-me de mim mesmo, o espírito se faz existente, da mesma unidade do rempo. Ora, ele consegue dominar o rempo,
põe a si mesmo como exterìor, se póe na exterìoridade,
o que é justamen- justamenre, quebrando sua conrinuidade, inrroduzindo
corres nessa
te o modo geral, distintivo, da existência da narureza. Ora, um dos continuidade. Mesmo reconciliando-se com a duração, é pela
aspecros da exterioridade é o tempo" Ì0 descontinuidade que o eu se libera do rempo e se mosrra
como sua
A idenridade de princípio do eu e do tempo comporra enrreranro uma potência: "mas o eu não é a persistência indeterminada e a duração
sem
contrapartida: dado o carárer abstrato dessa identificação, haveria empo- consistência; só se rorna o que é graças à concentração e ao
rerorno a si.
brecimento da esfera do eu e esse seria um dos corolários do ponto de Após ter-se suprimido pâra rornar-se objeto para si mesmo,
vista da finitude
-
enquanro esre náo subordinasse seu estofo elemenrar
ele volra a
seu ser-para-si e somente então, em virtude dessa relação
-,
a uma determinação mais elevada. Em outros termos, a unidade se resolve
a si mesmo,
torna-se senrimento de si, consciência de si, e assirn por
diante. Mas
por uma passagem do abstrato ao concreto. o fato de ter uma esrrutura essa concentração comporta essencialmente uma internrpção
da mu_
temporal não dispensa o eu, ao prosseguir o caminho de sua constituição, dança puramente indeterminada, sob o aspecro da qual o tempo
havia
de ultrapassar a primeira configuração de sua subjetividade abstrata. Ao começado a nos apareceç quando o nascimento, a desaparição
ào, por_
menos para disdngui-la da relação espacial, relação "que-é-fora-de-si-mes- tos temporais e sua substituição por novos era apenas uma
progressão
mi' (Enz,y, S 278), é permitido chamar de ìntertw a relação temporal; puramenre formal de um Agora a um ourfo totalmente
,.-.lh"rra.,
também a conexão absoluta da conrinuidade, por oposição à simples compo- isto é, uma progressão ininterrupra. Em oposição a essa
progressão, o si
sição, nos aparecera como relação interna, e era sob a forma do "ser- aparece como sendo o ente-junto-de-sì-mesmo, cuja concenrração inter-
junto-de-si-mesmo" que a conrinuidade do eu se projetava sobre a do tem- rompe a sucessão sem determinação dos pontos temporais,
faz cortes
po; de resto, as relações que esrrururam uma e ourra pluralidade têm em na abstrara continuidade' e o eu, que, nessa discreção, se rembra (sich
comum, como vimos, que cada termo da relação consritui a relação inteira. erinnert) de si mesmo e se reencontra, acaba por liberar_se,
assim, da
E no entanro a sínrese temporal fica aquém da sínrese subjetiva, a despeiro mudança pura e simples que é apenas um sair-de-si', (ibid.,
p. 164_5;
da negatividade elemenrar que as aproxima: é que, em razão da trad. p. 321). Em suma, a co-pertinência, ranro ontológica quanro
exterioridade em que evolui o rempo, não se poderia falar de uma "unida- formal, do Si e-do tempo não dá lugar a nenhuma relação dl
funà"çao,
não resulta de nenhuma operação constitutiva, subjeriva ou
temporar,
t' clo mesrno modo que a ulterior inadequação enrre o Si
Cf. ibid., p. 454,455,526. e a seqüência
20 EGPh., p. 37; trad. I, p. remporal dos Agora não remere necessariamente a uma temporaridade
52,3. Cf. p. ex. VG., p. 153. a essa questão na
segunda parre do presente esrudo. -V611.11grn65 originária.

t62 163
Capítulo ll
O GRAU ZERO DO CONCEITO

o contexto das análises precedentes, tornafiÌ-se mais facilmenre com-


I ì preensíveis as proposiçóes canônicas da Fenomenologìa: "o tempo
é o conceiro mesmo sendo-aí" (p. 38; trad. I, p. 39-40), ,,o tempo
éo
conceito mesmo que é aí e se apresenta à consciência como intuifo
vazia'
(p.558; trad' iI, p.305).'como no desenvolvimento anrerior, vemos
uma identidade primitiva pôr-se para em seguida, desrocando-se, dar lugar
à articulação de uma determinação dominante a uma determinação
subordinada. E, mais uma vez, a tese hegeliana vai inserir-se no quadro
geral de um remanejamenro de dois temas da filosofia t.*r..rrd..rt"l.
sabe-se que' em Kant, o esquematismo transcendenta.l dos conceitos
puros do entendimento ilustra as relações da categoria e do tempo.
o
tempo é a imagem pura de todos os objetos dos sentidos em geral, ao
contrário do espaço, cuja única referência é o sentido exrerno. ò
d,rpto
requisito para a representação intermedi ária pura de um esquema
transcendenral o de apresentar duas faces, uma intelectual . orrrr"
sensível
-
é satisfeito, como "
se sabe, por toda determinat'o transcendental
-
de tempo, homogênea à categoria por sua universalidade que repousa so-

' O tempo "é o conceito puro", dirá Hegel mais rarde, comentando
Heráclito. Cí
VuGPh., V lB, I, p. 329.

r65
bre uma regra a priorì e homogênea ao fenômeno porque cada represenra- ra: "há, pois, na consciência de si, conceitos puros do
entendimenro e
çáo empírica do diverso encerra o rempo.2 Essa dualidade de derermina- intuições puras; a relação entre ambos é o esquematìsmo
do entendimento
ção, assim como esse papel mediador da temporalidade pura sáo, sem puro' a imagirwção rranscendenral, a quar, .o.rfo.-. à categoria,
aos con-
dúvida, retomados por Hegel, quando este vê no tempo um ,,universal ceitos puros do entendimento, determina a intuição,
constituindo assim a
sensível" ou um "se'sível não-sensível". AÌém disso, o esquema de um passagem à experiência' (ìbid., p. 347).Entendimento
puro e sensibilida-
conceito puro do entendimento, sínrese pura exprimindo a categoria, é, ao de pura, que anteriormente se definiam como opostos
absolutos, estáo
contrário do esquema empírico, um produto rranscendental da imagina- agora posros juntos por essa "reÌação" primitiva que se
pode denominar
ção que diz respeito à cleterminação do sentido interno segundo as condi- imaginação transcendental. ora, Kant não teria querido
admitir a rearida-
çóes de sua forma pura, o tempo. No enranro, Kant teria desconhecido, de dos dois momentos do saber que, afinal, ele teria descoberto,
isto é, a
segundo a interpreração de Hegel, a vercladeira narureza da imaginação realidade de um entendimento intuitivo e de uma intuição
intelectuaÌ (cf,
transcendental, no próprio momento em que a descobre e a reconhece ibìd', p.348).a fusim, é à estrutura fi-rndamentar da subjetivo-objetivida-
nessa Íìrnção decisiva de mediafo, a meio caminho enrre o conceitual e o de que ele se recusa o acesso. como se terá notado,
a observação ie Hegel
intuitivo. Kant, estima Hegel, não capt.u nem concebeu (sìc) a originali- permanece muiro próxima, de modo geral, da interpretação
pós_kantiana
dade do novo reÍreno que acabava de atingir, não compreendeu sequer o inaugurada por Maïmon, que, com a hipótese de um
.rr,..rdi*.rr,o inÊ_
alcance da conexão que estabelecia com isso entre os dois elementos do nito, se punha em condições de mosrrar que o entendimento e
a sensibiri-
conhecimento, não viu que havia chegado enfim ao em-si do conhecimen- dade, longe de provirem de duas fontes diferentes e incompatíveis,
deri-
to (Cf. VuGPh., W 20, III, p.348). Como corolário, o pensamento e a vam de uma só e mesma instância produtiva (o entendimento
infinito
sensibilidade conrinuam a ser particularidades divergentes, ligadas, quan- produtor das Idéias).5 É, port"nto, na juntura desses dois momentos
do
do muito, de maneira exrrínseca e superficial, 'tomo um pedaço de pau em-si do saber que Hegei compreende a relação do conceito
e do tempo,
a-marrado à perna por um barbante" (ibid.).t Não obstante, o realce dado a ao dizer do tempo que eie é apenas o conceito apresentando-se
como "in-
tal "ligafo" continua sendo, não por acaso, "um dos mais belos lados da tuição vazid' ou "conceiro somenre intuído", estágio
ainda primitivo e aquém
-phàno.,-p.
filosofia kantiana' (ìbid., p.347-8), resumido por Hegel da seguinte manei- da "intuição concebida e concebendo" (cf.
55g; trad. II,
p' 305)'Por outro lado, Kant não foi capaz d.e identificar essa função
unificante da qual ele deduzia a necessidade através da teoria
do
cRPura'B 176' A 137; rrad. p. 150 seq. o schelling do Srystent de rB00 deriva a esquematismo. Não soube, diz Hegel, reconhecer
a.ptidáo do tempo a ser meio rcrmo enrre -o conceiro puro e aintuição da proprieda- imaginação produti_
de que ele tem de pertencer igualmente ao sentido inìerno e ao sentido .*,.rÀo, irro va 'a
evirando reduzila a um "inrermediário simplesmente
- introduzido
é, de ser "imagem" universal; mas faz já das caregorias modos originários de inruição entre um sujeito e um mundo tendo ambos uma existência
e
introduz o rempo na intuiçáo produriva e, conseqüente-.n,", ,.," operaçáo de absoluta"
construção do objero (cf. p. 185). Cf. Fichre: "o tempo é, portanrt, o rermo
"aquilo que é primeiro e originário e de que
derivam, separando_se,-
médio enrre o inteligível e o sensível;- aquilo que unifica ambos" (vìssenscbttfs/ehre
1 798, S 12, p. 460).

Por exemplo: "o conceito da subsrância rorna-se no esquema algo de persisrenre no


rcmpo,_isro é,_o conceito puro do enrendimento, a caregoria puã, poro em unidade Embora circunscrevendo o caÍnpo de suas operaçóes, mais
unla vez Kant deixará
co.1 a fo1m.a da inruição prira. A represenração em mim é ãeterminada como algo escapar esses momenrôs, na opinião d^e Hegel, ao fazer
sua descoberra capital do
acidenral, do mesmo modo ela - podc também ser dererminada como ereiro, depàis
conceito de uma faculdade-de-fulgar reflexioÃantc. Cí.
Etzy.,S 5r,415.
coisa-em-si, causa, mulriplicidade que pressupóe unidade; assim temos a metafisica cf . wrsuch iiber die Tianscendentarphilosophie d,e 1790, p. 63-5, e ocomentário
do entendimcnto inreira" (VuGPh., \í 20, III, p. 348).
<ie M.
Gueroulr, op. cit., p.33 seq.

t66 167
tanto o eu subjerivo quanro o mlÌndo objetivo, dando lugar necessaria- ir-rterpretação de
um conceito kantiano, as rerações entre o pensamento
mente a um duplo fenômeno e a um duplo produro, em suma aquilo clue puro e o rempo estabelecidas por Hegei surpreendem menos que à
é o em-si" (Gkuben und \Yissen, p.241; trad. p. 210). Hegel, por sua vez, primeira vista. É a figura geral do idealismo t."nr..l,d.rrtal que
deve
não hesita: "essa imaginação, como identidade originária de dupla face, ser tomada, segundo Hegel, como a unidade do
pensamento e do
que se torna por um lado o sujeito em geral e por ourro o objeto, e que na rempo (cf. Phrino., p. 560; trad. p. 307).
origem é um e ourro, nada mais é que a nzio mesma" (ibid.).6 À luz de tal Mas, em Hegel, a unidade do conceito e do tempo tem cle ser
captada
através da categoria do negativo. o conceito ou a razão, ou o pensamen-
to é homogêneo ao tempoJ e vice-versa, por sua comum-
"Mas a razão sornenre na medida em que sc rnanilcsta na esfera da consciência - estrutura nega_
empírica" (ibid.), acrescenra logo a seguir. "Quc o ern-si da consciência ernpírica tiva, determinação que o rempo exibe em tocla sua purezaprimeira. por-
seja a razão mesma e que, ademais, a in.raginação produtiva, tanro ao t.i.r-, tanto, é a determinafo do negativo que permite explicar a transposição
d.o
intuiçáo quanro ao fazer uma experiê'cia, nrio consrirui laculdades particulares,
conceito no rempo e, por ele, sua irrupção na esfera d,o ,rr_)í.,
separadas da razão, e que essa imaginação pr.d*riva só se chama .nt..rdi,rl.nto .r" Como
medida em que as categorias csrão posras co.no as Formas determinadas da vin-ros, a negação consrirui o que há de absoluto no conceiro
do tempo; ora,
imaginação, como faculdade da experiêr.rcia, solr a forma do infinito, com a essa negatividade não é outra senão o próprio conceito absoluto, ou o
estabilidade de conceitos que constìtuern ig,alr'cnre em slla esfera um sisrema
completo, é preciso que isto seja compreendiclo sobretudo por aqueles que, se infinito, como dizia Hegel em lena (cf Mh., p. 12, 1.23_5). Ássim
como
ouvem falar de imaginaçáo, não pensanr ne m no e nrcndimento rla* rnari,o menos na o tempo se apodera de todo ente e o muda prontamente em não_enre,
razáo, mas na irregularidade, no arbitrário, na Íìcção, e não podem impedir-se de o
conceito penetra as categorias finitas para mostrar em cada
represenrar uma multiplicidade qualitativa das firctrldades e das capacidades do uma deÌas a
espírito. Na filosofia kanriana, negligenciou-sc a inraginação produrìua mais que presença do outro na constituiçáo de seu sentido. Ao negativo do processo
outras potências, sem dúvida pelo motivo de que sua idéia pura se apresenta ali conceptual concreto corresponde o negativo do processo
passaveImente misturada e quase habitualmenre so[r a lorma de laculdade psicológìca, do
"bstrato
tempo. "O tempo é o elemento negativo no mundo sensível.
ainda que a.priori,.e pelo outro morivo de que K:rnr reconheceu o único aprioíidt O pensa_
sensibilidade ou do enrendimenro ou de não imporrâ o que como a raião, mento é a mesma negatividade, mas é a forma mais íntima, a forma
-as infini-
unicamenre sob o conceito lormal da universalidade e da necessidade e de que,
como logo veremos, ele ainda fez- do verdadei ro a prìorì mesmo uma unidade pura,
isto é, uma unidade que não é originariamcnre sintética" (ibid.). É" fácil reconÀccer
a maneira pós-kantiana de redimensionar a revolução crírica em rorno do eixo Kant não teria sacrificado bastanre a imaginaçáo transcendental
à razão pura, enquanro
estratégico da imaginação transcendental. (Para o estudo dessa questão devemos para. Heidegger é exaramente o contrário qu" o.orr. com Kant, q,r" .rao ,..i, ql".ido
remerer o leitor à obra Fundamenral de Rubens Rod-rigues'forres Filho, o Espírito e mudar.integralmenre a razão pura em imagìnação pura. Em ..r,
pon,o de paiticla, a
a Letra, A Critìca da Imaginação Pura em Fìchte. Arìca, São paulo, 1975,ì cujos leirura. heidegge riana é visivelmenre pós-kaniian",
,.u término percebemos <1ue
-^.
ela só havia-comlç1do.p9. essa coiniidência de princípìo "- para mell.ror
originais só pudemos rer acesso quando o presenre esrudo estava já inreiramente op..". ru" ,.,r.r_
redigido.) se Hegel permanece ainda muito próximo de Fichre (sobrerudo do Fichre são' Ao.ler Kant, Hegel eleva a unidade sintérica originária
ao nível de insrâqcia raciolal
da Grund/age), emprestando à imaginação o papel de irnificador do sistema do sabeq produtìva infinita' enquanro a anarítica da finirudelinvertendo
os rermos .r, ,"laçio d.
isto é, concebendo-a corno uma identidade que se exprime como unidade sintérica, idenrificação, assim como seus respccrivos v^roÍes, reuerteatesc
hegeiiana. A interpreta-
ele se distancia, em conrrapartìda, ao divisar na imaginaçáo produtiva de Kant os ção inscreve-se e''.uÍrl projeto sistemático e j.stifica-ï" pa. pri".ipio a"
-hegeliana
contornos de uma idéia verdadciramenre especulativa da r"ráo. No prescnre AuJhebung interna; a de Heideggei ao menos nesre caso,
orgr.,iz"_se igualment. em
contcxto, basra assinalar de passagem o parenresco enrrc essa leitura-de Hegel e a do ,:.lo d.. uma intençáo sis.temiric" e proccde por ViederboTurg. Ìúrr'ná;t'l .o-o
Kant e o problerna da metaflsìca de Heidegger. Essas leituras concordam ambis quanto dissimular a narureza propri^^rn oriropo/ógìcadareve rsáo ,io ,e'sult"do
., a" i",*f r.,"-
à necessidade de reconduzir o sentido da empreitada crítica ao foco originário da ção hegeliana. c[ A. Philonenko, L'óturi ,r, Knrr, Vrìn, paris, 1969, r. r, p fìo-2.
imaginação transcendental, posra então como o "em-si" ou o "fund"-enro,,. 7 -
voltaremosatratardessaversíoespccularivadatransposìçiíosensíue/d.oesquematismo
Nenhurna delas tem grandes escrúpulos em decifrar e interpretar as "inconseqüências" transcendental ao longo da^scgunda perre do pr.r.,.,," ensaio.
ou os "recuos" de Kant dianre de suas descobertas. Ambas identificarr imaginação
Ali q.r.r,ào será, não
mais.o lrorizonre temporal finito de rodo conriecimenro, rnas "
a manìfrrtação temporar
rranscendenral e razão pu.ra, mas é neste ponro que cessa seu acordo: p"r" Hag.l, do Si espiritual.

168
t69
ta em que se dissolve tudo o que existe em geral e, antes de tudo, todo às determinações subordinadas da exterioridade e da absrra-
'cferente
ser finito, toda forma determinada. O tempo é, por certo, a ação corro- çiro. 1àl é a cláusula restritiva de sua identidade. Ao contrário do qr.re se
siva do negativo, mas o Espírito mesmo é tal que dissolve todo conteú- l)assavâ no caso da realidade finita, a relação lógica e ontológica de
do determinado' (VG., p. 178; trad. p. 209). soberania inverte-se no mesmo ato e faz-nos aceder a uma nova deter-
Podemos ainda compreender a conexão do Conceito e do tempo como rr.rinação: "o
conceito, enrreranro, em sua identidade consigo existindo
uma determinaçáo ulterior da identidade do eu e do tempo. Basta para livremente para si mesma, eu = eu, é em-si e para-si a negatividade e a
isso distinguir no eu puro a estrutura do Conceiro. "O Conceito, na medi- liberdade absolutas, porranro o rempo náo é sua potência, nem ele é no
da em que atingiu uma existência ta1 que ela mesma é livre, não é senão o eu tempo, nem algo temporal, mas, peio contrário, é ele a potência do
ou a consciência de si pura. Tênho conceitos, quer dizer conceiros determi- tempo' na medida em que este último é somente essa negatividade
nados; mas o zu é o próprio conceito puro que chega ao ser-aí como Con- como exterioridade. Por isso só o natural é sujeito ao rempo, na medida
ceito" (WdL., trad. p.251). 'lânto o eu quanro o tempo aco-
II, p. 220; em que esse narural é finito; o verdadeiro, ao contrário, a ldéia, o espí-
lhem o ser-aí imediato do Conceito; mas já sabemos que se identificam não riro, é eterno" (Enry.,S 258, p. 2lO; trad. p. 248).
menos imediatamente. E é possível ainda aqui examinar a tese hegeliana da
perspectiva de uma reinterpretação do conceiro kantiano da apercepção
transcendental. Sublinhando, no nível propria.mente especulativo, a pene-
tração mútua do Conceito, do Eu e do Gmpo, Hegel enconrra em Kanr,
sob forma de antecipação ou pressentimento, um alinhamenro semelhanre
da ipseidade originária à categoria e à determinaçáo transcendental do
tempo. Kant, segundo Hegel, teria abandonado a maneira correnre de vet
segundo a qual o eu possuiria conceitos do mesmo modo que outras pro-
priedades exteriores. "É ultrapassando essa maneira puramenre exterior de
encarar o entendimento como faculdade do conceito ou dos conceitos que
Kant chega ao eu. lJma das visadas mais proÍundas e justas da Cntica da
Razão Pura é a de que a unidade que é a essência do Conceito seria a unidade
originariamente sintética da apercepção, isto é, como unidade do: Eu i
,l
penso, ou da consciência de si. Essa proposição forma aquilo que se i
-
chama a deduçáo transcendenta/ da categoria; entretanto, sempre foi Ì

considerada como uma das partes mais difíceis da filosofia kantiana, e li

isso unicamente porque exige que se ulrrapasse a simples representa-


ção da relação entre o eu e o entendintento ou entre os conceìtos e a
coisa e suas propriedades e acidentes, para elevar-se ao pensamento"
(ibìd., p.221, trad. p.251-2; cf. Enz1t, $ 42 e Zus.).
Enfim, como no caso do exame das relações entre o eu e o tempo, a co-
pertir-rência do Conceito e do tempo é posra com uma reserva análoga,

t70 t7l
Capítulo l2
O TEMPO E SEU DUPLO

p ..onh...mos no tempo a primeira maniFestaSo exterior do negativo


I\ e da contradição e, na estrutura do Si, reconhecemos também o
princípio do tempo. Do mesmo modo, é o tempo que constitui o ser-aí
inrediato do Conceito. No entanto, o Conceito é eterno e, se o tempo é a
potência elementar de tudo o que é, a potência do tempo é o Conceito.
'ltrdo o problema, portanto, consiste nisso: como sefaz- o que o torna
possível, por que é necessário que o Verdadeiro eterno possa ter um
-
rnodo de ser temporal sem desnaturar-se? Neste ponto, temos de limitar-
nos a discernir, à luz das análises precedentes, ceffos traços característicos
,.lo conceito hegeliano de eternidade. Se é verdade como veremos adian-
rc que, contrariâmente ao "idealismo
-
subjetivo", Hegel se empenhará
-
cm delimitar de outro modo, bem longe do terreno da finitude, as relaçóes
..le envolvimento que podem ocorrer entre o conhecimento e a
tcmporalidade, não é menos verdade como pudemos constatar em
vririas ocasióes
-
que a "reflexão" do tempo, pela negatividade de que ela
-
,1 a expressão, refratada através do elemento da exterioridade, anuncia e
;rntecipa o "movimento'do Conceito ou decorre dele, se nos colocar-
rììos em outra perspectiva, complementar
- conceito de que Hegel
-,
rros diz logo em seguida que ele se subtrai às limitaçóes que todo hori-
/.onte temporal parece prescrever, para exibir, no mesmo movimento, sua
rrrbstância eterna. Nessas condiçóes, a relat'o do tempo à eternidade é uma

t/a
questáo que se impõe e merece ser colocada, ainda mais que certos termos rr.Ìo tenl nada de eternidade; mais que isso: como vimos, essa
má infinida-
empregados por Hegel se prestam ao equívoco. ,l( cxprìme urna das deterrninaçóes da série temporal como tal; a alternância
-kata-se, ,,,,lefinicla dos momentos do tempo não tem nenhuma capaciclade cle
em primeiro lugar, de desvencilhar-se das representações que
bloqueiam o acesso à compreensão adequ:rcla do conceito de eternid,r.'le. Í rzcr-nos abandonar a representação do tempo: pelo contrário, enraíza-nos

Ao discr.rtir a prova da tese da primeira antinomia kantiana, Hegel observa- ,'.lrr ainda mais profundamenre. o tempo infiniramenre longo, por seu
va, de pass:rgem, que nela o termo eternidadc era tomado no sentido aca- ,l,'se'rolar reperitìvo, propõe-nos a mera imagem do como nega-
ri'., 'egativo
do finiro como finito, da singularidade oposra à universalidade,
nhado <le um tempo Falsamente infinito (cf. Wdl-', Í, p. 233)- É própLio da isto é,
rnetafísica, com efeito, ao colocar o pseudo ;,roblema da infinidade ou ,lctcrminações truncadas, incapazes de introduzir-nos, para alérn
cla repre-
finidade do mundo, de sua limitação ou ilimit:rção no temPo' converter o \('rìriÌção' no conceito do eterno.2 o que é preciso evitar antes de
tuclo,
conceito de eternidade em uma representação de um ternpo infinitamente l)ortanto' é compreer-rder a eternidade como um novo r.egirne da
longo.' 1âl é o primeiro desfigur,rnento da noção cle eternidade que é r, rrrporalidad€' permanecendo, apes:rr cle tudo, homogênea a
esra. se, por
preciso afastar. Quando a metafísic,r qr.rer demonsrrâr a eternidade do ,,,rtro lado, o pensamento de entendimento sê propõe:1 provar
a tese da
mundo, compreende essa eternidade como o equivalente de uma ausência , r'ieção do mur-rdo, mais uma vez mosrre-se incapaz de despojar
a r-roção de
de começo no tempo; traduzindo eternicllde por temPo infinito' ele a t rernidade de toda conotação temporal: representa-se a eterniclade como o
reduz ao estatuto de determinação temporal, nresmo se com isso tem em 'yre é antes da criação ou o que vem depois da desaparição do munclo,
mira um rnodo supremo de temporalidad.. É .r." representação temPo- ,,,'ferindo-lhe' porranro, um lugar em relaçáo com a temporalidacle; ,'ìiìs
ral da eternidade que Hegel ataca. Um tempo infinito é ainda tempo e \(', por exemplo. ela víesse depois do rempo, diz Hegel, isso consistiria
em
"lrzer da eternidade o futuro,
um momenro do tempo" (Enzy., 25g).3 s

' O rebaixamento da etcrnidade a uma represcntirção de tempo é apenas um dos ' "Se assim se alastou o começo absoluro
do. rempo, introduz-se a represenração oposta
aspectos da questão meralísica da eternidade do mundo; o outro se reíere, por
de um rempo infinito,.que porém, se ainda é representado como i.-po
iniermédio da palavra erernidade, à absolutez de um mundo incriado. "Por ocasião . não J*o
tempo suprimido, ainda se disringue da eternidade. Não é esse ,.-po,
dessa dererminãçáo fundamenral da natureza deve-se fazer notar a referência dela ao -., um ourro
rempo, e novamente um outro, e sempre um outro, se o pensamento do
lado metafísico, que íoi rrarado na forma da pergunra pela eternidade do mundo. finito não
pode dissolver-se no ererno (...) Do mesmo modo o,.-po i.rfini,o é somente
Poderia parecer que aqui pudéssemos deixar a metafísica de lado; contudo, aqui é o uma
represenração, um sair que permanece na negação; um representar
lugar de encará-la, e .tao há motivo para escrúpulo, pois ela não -conduz a grandes necessário, en-
quanro se permanece na conside ração do finito como finiro. M.r r. p"rro ao universal,
roã.ios e logo está liquidada. A saber, na medida em que a metafísica da narureza,
ao não-finito, abandonei o ponÌo de vista no qual têrn lugar a sàgularidade
como a determinidade-de-pensamenro essencial de sua distinção, é que e narureze e sua
.rlrernância' (ibìd., p. 2tt).
é a Idéia em seu ser-our16 1556 implica que ela é essencialmente algo ideal ou
-
aquilo que só tem sua determinidade como relativo, somente em relaçáo a um ' 'A eternidade não é antes ou depois do mundo, nem anres da criaçáo do mundo nem
pii-.iro. A pergunra pela erernidade do mundo (este é conlundido com a narurcza, quando ele sucumbe" (ibid.).Basa considerar a "criaçáo" do murdo da perspecriva
.-bor" seja ìma col.fáo clo espiritual e do natural) tem primeirame nte o sentido ,la clo despojamenro da Idéia, e esra segundo sua universaridade, para
q.,.'" ,,n'çao d"
representação rempora[, de uma eternidade, como é chamada, de um tempo infini- erernidade se resrabeleça em sua verdade. "o mundo está criado, é criado
agora e loi
tâmenre longo, de tal modo que ele não tem nenhum começo no temPo; e m segun- ercrnamenre criado; 'ìsso aparece na lorma da conscrvação do mundo.
cïi".1" é
do lugar, isú implica que a narureza é representada conÌo um incriado, eterno, atividade da Idéia absolura; a Idéia da narlrreza, assim como a Idéia enq.anto
rai, é
"
subsiJtente p.t" ii .nt face de Deus. Quanto ao segundo (ponto), cle é, pela cterna. Ao se perguntar se cntão o mundo, a naturezâ em srra finitude,
tern urn
determinidade da natureza de ser a Idéia en seu ser-outfo, afastado e inteiramcnte começo no tempo ou não, rem-se o mundo ou a natureza em geral antc a r€prescn-
posto de lado. Quanto ao primeiro, após o afastamenro do sentido da absolutez do tação, isto é' o unive rsal; e o verdacle iramente unive rsar é a Idéla, da quar já
iòi ,liro
mundo, só resta a eternidade em referência à reprcscntaçáo temporal" (En4'.'5247' que ela é ercrna" (ìbìd.). À eternidade do universal opõe-sc r,.-po."ii.l"d.
dn
Zur,W 9,11, p.25-6). singular e do Ê'iro. "O finito, porém, é rcrnporal, ,.r,i ,.,- Anres e ìrm Depois;
c

I /4 175
Já sabemos que a meio caminho do tempo e da eternidade Hegel coloca 'lts:rparição de seu rempo próprio. Mas, por causa da persistência da mu-
a duração e que, se o tempo apareceu como o processo abstrato das coisas em outras coisas, a cessação do tempo introduzida pela permanência
'l,rrrça
finitas, a duraçáo se mostra como o ser-suprimido desse processo. Mais 'l.r cluração é apenas locaÌ; em ourros rermos, a duração é apenas relariva
precisarnente, em decorrência de tal sr,rspensão do processo, a duração se (cÍ. Enzy., S 258, Zus.,W 9, iI, p.
50). por confronto, .rr" oú...,r"ção nos
define pelo universal dos multiplos Agora.a A duraçáo das coisas equivale à yrrc na via que conduz ao conceiro da eternidade: a duração
distingue-se
'l'r eternidade por ser apenas uma "supressão relativa do t.-po;, .rr-
(lllanro a erernidade é supressão infinira do tempo,
isto é, .ão relativa (cf.
quando se tem diante de si o finito, esrá-se no tcmpo. Ele rem um conìeço, mas não
absoluto; seu tempo con-Ìeça com ele, e o tcrnpo é apenas do finïto" (ibid.). Essa
recusa de assimilar a eternidade a um tcmpo, Hegel a partilha, por exemplo, com
L,spinosa. que proíbe rambém toJr rproxirtr;t5io crrtre a eterntdade e umt durnç,io
na gênese do objeto permanenre: "aquiro que, no objero,
indefinida. CF. Etica I, def. 8, ex.: scndo o tcnìpo apeuas um ser de razáo destinado a rem uma mera existência no
tempo, é justamente aquilo pelo quaì o ob.jero perrence ao sentido
determinar e a medir a duração, c o insrantc pontual uma idealização marernática, a inrerno, e a
grandeza objeto para o senrido int".no i detármin"da unicamenre p"lo rr-it"
duração é coisa real, enquanto o tcnìpo é urn sirnplcs modo de pensar; da confusáo .do
comum do sentido inrerno e do sentido exrerno, limite que
deles nasce o projeto quirnérico dc conrpot l dtrraçáo com instantes, assim como a .J-o pur" .
"p"....
simplesmente contingente. porranto, aquilo que, .,o obj.tó, .orr.rpo.,a.
,i.r,iao
impossibilidade de compreender o escoan-Ìct.Ìto dc uma hora. Assim como náo é uma
à pura "o
lnterno ou tem somente uma grandeza no rempo aparecerá .o_o
duração indefinida, a eternidade em Espinosa não é algo quc vem após ou começa após e simples-
mente contingenre ou acidenral, enquanro aquilo que, no objeto,
a duração. O que Espinosa chama dc duração, a "continuidade indefinida da exisrên- .or."rpo.,d'.
sentido externo ou tem umâ grandezà no arp"ço aprrec"rá como
cïa" (IltìcaII, def. 5), só se aplica ao modo cxistentc: nrais precisamente, a duração é "a o necessário ou"oo
substancial' Ponanto, assim cãmo o objeto i e inrensidade ao mesmo
exisrôncia na medida em que é concebida dc nrancira abstrata e como uma certa "t,".rri,rid"d.
tempo, ele é também substâncìa e acidente, ambos
espécie de quantidade" (II,45, sc.); só há duração onde há distinção entre a essência sáo nele inseparáveir, . ,";;;r.
pelos dois.juntos o objeto se perfaz. Aquilo que no objeto
e a existência, e somente à existência de Dcus, cuja essência envolve a existência, é subsiância ,"- ,o^..r,.
uma grandeza.no espaço, aquilo que é acid..,t. some.,rá uma
convém a eternidade, existência infinita que jarnais se poderia atribuir às coisas, grandeza no rempo. pelo
espaço preenchido o tempo,é fixado, pela grandeza no r.-pó
mesmo que a duração delas losse ilimitada nos dois sentidos; aqucles que querem o espaço é preànchido
de dererminado.".ro{o' (e 136). ora, na ãealphìrosophie,
introduzir a duração na eternidade sáo justamente os que distinguem a existência de é'pelo.o.,..i,o i. a,,."ça"
que termina a dialérica do espaço e do tempo: a i-eãi"re,
Deus de sua essência (cL Pensamentos metafsicos,I, lV II, I). Em Hegel, remporalidade à qual o ,.n-,po ..,o.rr"'^o
termo de sua refl