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Textos críticos 1

Poesia trovadoresca
A cultura medieval portuguesa (séculos XI a XIV)
José Mattoso

[…]

IV As grandes épocas culturais


Feitas, assim, as devidas distinções para caracterizar as regiões culturais e identificar culturalmente os diver-
sos grupos sociais, resta proceder a um último tipo de distinções, proposto pela diversidade diacrónica. Muitos
elementos foram já apontados anteriormente, para poder referir com algum rigor as características regionais e
sociais dos diversos meios considerados.
Enumeremos os seguintes: a influência franca do fim do século xi e o princípio do seguinte e as alterações
que trouxe à cultura aristocrática e clerical; a renovação produzida pelos contactos com árabes e moçárabes,
quando a gente do norte, desde meados do século xii, deixou o campo para viver nas cidades da Estremadura
e do Alentejo; as modificações suscitadas pelo alargamento da corte régia e pela progressiva complexidade
do aparelho político, com o seu período mais intenso desde meados do século xiii; as diversas fases da guerra
com o Islão e as suas repercussões sobre a épica; o reforço da burocracia diocesana e estatal durante todo o
século xiii; a proliferação dos Mendicantes e a sua ação pastoral nas cidades desde o princípio do mesmo século;
os contactos com a escolástica; a evolução de um centro como o de Alcobaça e de outros mosteiros cistercienses;
o atrofiamento da cultura moçárabe depois da Reconquista; as inovações da poesia lírica e satírica, por
influência moçárabe ou provençal; a receção dos romances de cavalaria vindos da França do norte em meados
do século xii. Tudo isto foram elementos que se foram referindo ao longo da exposição anterior e que marcam
a inegável evolução de uma cultura em constante mudança. Todos se podem datar com rigor. Por isso, o que
se diz para uma época deixa de ser verdadeiro algumas dezenas de anos mais tarde.
Não será necessário voltar a referir os mesmos acontecimentos, agora com uma nova arrumação. Convém,
todavia, introduzir, para caracterizar as principais épocas culturais, um elemento novo, mais global, exterior ao
tecido cultural e totalmente independente de ações pontuais e bem datadas. Quero referir-me aos fatores demo-
gráficos e à influência profunda e lenta que exercem sobre a cultura portuguesa dos séculos xi e xiv.
1. A juventude cultural dos séculos xii e xiii
De facto, não é por acaso que à imensa criatividade cultural dos séculos xii e xiii se pode opor um panorama
diferente no século seguinte. Aqueles dois séculos caracterizam-se, em termos demográficos, por uma população
em expansão e, portanto, por uma pirâmide de idades em que abunda a gente jovem. Esta abundância relativa
cria um clima propício à inovação cultural.
Em termos mais precisos ainda, pode verificar-se que a concentração demográfica se encontra sobretudo
no norte no século xii, mas no seguinte se verifica uma deslocação, provavelmente intensa em termos quantita-
tivos, de gente que aflui sobretudo ao centro do País. Altera-se, assim, o panorama populacional da Estremadura
e das cidades em geral. Em termos globais, pode, provavelmente, opor-se o superpovoamento do norte, no
século xv, a um «envelhecimento» relativo da sua população no século xiii, devido à emigração dos jovens para
o centro e sul. Esta explica, portanto, a transferência dos polos vitais para o centro de Portugal.
Este facto poderá ter uma certa importância para interpretar alguns problemas muito precisos. Levará a
perguntar, por exemplo, em que regiões é que os trovadores e jograis galego-portugueses, que eram na sua
maioria procedentes de famílias do norte, produziram as suas obras que, como se sabe, se situam sobretudo no
século xiii e princípios do seguinte. Os dados aqui apresentados levariam a pensar como mais lógico que os
trovadores do século xiii fossem sobretudo gente deslocada para o centro e sul, ou que aqui esteve durante um
período considerável. Iriam buscar a inspiração ao exílio e aos contactos com os meios diferentes dos seus. Esta
hipótese terá, é claro, de ser verificada por meio de estudos aprofundados sobre a biografia dos diversos autores.
De qualquer maneira, é nos centros citadinos do centro e sul do País que se encontram, no século xiii,
a maioria dos autores que realizaram obras de importância nos domínios da literatura, do direito e da medicina.
José Mattoso, O Essencial sobre a Cultura Medieval Portuguesa (Séculos xi a xiv), Lisboa, IN-CM, 1985 (com supressões).

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1 Problemas da poesia lírica galego-portuguesa


Giuseppe Tavani
Poesia trovadoresca

O fenómeno literário que se concordou designar como a «poesia lírica galego-portuguesa» põe um grande
número de problemas que até agora não obtiveram uma resposta satisfatória ou que não obtiveram resposta
nenhuma.
O primeiro destes problemas e o mais difícil de resolver é, na minha opinião, o das coordenadas crono-
lógicas que delimitam o fenómeno em questão. Consideremos, por exemplo, o limite inferior, isto é, o momento
do declínio, ou, mais exatamente, da mutação, segundo o qual a poesia galego-portuguesa, de inspiração
provençal, se torna uma poesia diferente, uma poesia cujos temas e formas deslizam para a poesia castelhana do
século xv. Este limite, fixámo-lo em meados do século xiv. Poderíamos fazê-lo coincidir com a morte do conde
de Barcelos D. Pedro de Portugal, filho natural do rei D. Dinis, ou melhor ainda, poderíamos escolher a data do
testamento (1350), no qual o conde, último dos poetas e último dos mecenas da poesia galego-portuguesa,
legava a Afonso xi de Castela um Livro das Cantigas que era, muito provavelmente, o predecessor dos cancioneiros
completos, ponto de partida da linhagem mais rica da tradição manuscrita desta poesia. É, evidentemente,
um limite arbitrário; com efeito, o processo de decadência da lírica galego-portuguesa, esse processo que teria
acabado com uma mutação, tinha já começado no momento da morte do pai de D. Pedro, o rei D. Dinis (1325),
cuja corte foi durante muito tempo o centro da atividade poética peninsular, e ainda se não tinha concluído em
meados do século, porque ao longo da segunda metade do século xiv assistimos a uma espécie de continuação
da poesia galego-portuguesa, desta vez na corte de Castela, onde se reúne um grupo de poetas que, ainda
que cultivando as formas antigas, aceitam, todavia, as novas que vêm de Itália; esses poetas preparam
o desabrochar lírico castelhano, que chegará ao seu mais alto ponto de desenvolvimento com Juan de Mena,
Santillana, Jorge Manrique e, sobretudo, Garcilaso. É, pois, muito difícil estabelecer uma linha de demarcação
bastante nítida entre a poesia galego-portuguesa e a poesia seguinte, que se concorda chamar, para sublinhar
as analogias e as diferenças em relação à outra, «galego-castelhana». Para traçar esta linha recorremos então
a um critério exclusivamente externo, material; visto que a lírica galego-castelhana foi recolhida num cancioneiro
particular, o famoso Cancioneiro de Baena, que é completamente diferente dos cancioneiros galego-portugueses,
fez-se a separação na base da tradição manuscrita: o que estava nos cancioneiros galego-portugueses pertencia
à poesia galego-portuguesa, o que se encontrava no Cancioneiro de Baena, à poesia galego-castelhana. Parece-
-me evidente que o problema foi resolvido um pouco por alto: deveria ter-se feito antes a distinção numa base
mais estritamente literária, linguística, temática; seria necessário analisar os textos de uma tradição e de outra e
determinar para cada poeta e para cada poesia o grau de deslize para uma nova formulação do discurso poético.
Se o problema do limite cronológico inferior da poesia galego-portuguesa espera ainda uma solução satis-
fatória, o outro problema cronológico, o do limite superior, é quase insolúvel.
Este último problema arrasta, com efeito, um outro, o problema que mais intrigou os romanistas: o das
próprias origens da poesia lírica vulgar. Não é, evidentemente, minha intenção examinar aqui esse problema, mas
tenho que referir-me a ele, justamente, porque a questão das origens da lírica galego-portuguesa é indissociável
da outra questão, mais geral, das origens da poesia moderna. Vou explicar-me, tentando ser o mais claro e esque-
mático possível.
O património poético galego-português compõe-se de 1679 textos, a maior parte dos quais pertence,
cronologicamente, ao século xiii e à primeira metade do século xiv. Apenas um destes textos pode ser situado no
século xii com algumas garantias de certeza: é a cantiga de escarnho [escárnio], ou melhor, o sirventês político,
«Ora faz ost’o senhor de Navarra», de Johan Soarez de Pavha, membro da aristocracia portuguesa, beneficiário de
um feudo em Aragão, precisamente na fronteira do reino de Navarra. A datação deste texto, como aliás, a datação
de quase todos os textos galego-portugueses, foi muito controversa: as alusões às pilhagens feitas pelo rei de
Navarra em território do rei de Aragão, quando este tinha ido a Provença, foram atribuídas por Carolina Michaëlis
a 1216 e por López Aydillo a 1196. Mas é esta última data que tem mais possibilidades de se referir aos aconteci-
mentos a que faz alusão o poeta, a que é confirmada pelo maior número de dados históricos; aceitá-la-emos,
pois, como a mais provável. De resto, o problema não reside aí. O que nos interessa de momento é que a quase
totalidade dos textos poéticos galego-portugueses se inscreve em limites cronológicos que podem estar um
pouco deslocados, mas que, no fundo, são bastante precisos: 1196 e 1350. Mas então onde é que está o problema
cronológico de que falava há pouco?
Giuseppe Tavani, Ensaios Portugueses: Filologia e Linguística, cap. I, Lisboa, IN-CM, 1988 (com adaptações).

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