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PETERSON, Jordan B. 12 regras para a vida: um antídoto para o caos.

Rio de Janeiro: Alta


Books, 2018.

Prefácio

Ideologias são ideias simples, disfarçadas de ciência ou filosofia, que pretendem explicar a
complexidade do mundo e oferecer soluções para aperfeiçoá-lo. Os ideólogos são pessoas
que fingem saber como “fazer um mundo melhor” antes de organizarem o próprio caos
interior. (p. xiii)

As ideologias substituem o conhecimento verdadeiro, e os ideólogos são sempre perigosos


quando ganham poder, pois um comportamento simplista e sabe-tudo não é páreo para a
complexidade da existência. Além disso, quando suas engenhocas sociais não funcionam,
os ideólogos não culpam a si mesmos, mas a todos que desmascaram suas simplificações.
[...] os ideólogos reestruturam as mesmas histórias religiosas que julgavam capazes de
suplantar, mas eliminam a narrativa e a riqueza psicológica. (p. xiii)

[...] Se você ou alguém próximo está sofrendo, isso é triste. Mas, de forma lamentável, não
é particularmente especial. Não sofremos apenas porque “os políticos são idiotas”, “o
sistema é corrupto” ou porque você e eu, assim como a maioria, podemos nos descrever
legitimamente como uma vítima de algo ou alguém, de alguma maneira. É pelo fato de
termos nascido humanos que, com certeza, teremos nossa dose de sofrimento. (p. xv)

[...] os adultos, durante suas vidas, tornaram-se tão ingenuamente superprotetores que
enganaram a si mesmos pensando que não falar sobre sofrimento, de alguma forma,
protegeria magicamente seus filhos. (p. xvi)

[...] “expressão forçada” (pois envolve um governo forçando os cidadãos a darem voz para
visões políticas) [...]. (p. xvi)
[Sobre o politicamente correto]

A primeira ideia, ou ensinamento, é de que a moralidade é relativa, no mínimo um


“julgamento de valor” pessoal. Relativo significa que não há certo ou errado absolutos; em
vez disso, a moralidade e as regras associadas a ela são apenas uma questão de opinião ou
causalidade pessoal; “relativo a” ou “relacionado a” uma estrutura específica, como a
etnicidade, a criação ou a cultura e o momento histórico nos quais cada um nasce. Nada
além de um acidente de nascimento. De acordo com esse argumento (agora, uma
doutrina), a história ensina que religiões, tribos, nações e grupos étnicos tendem a
discordar sobre questões fundamentais, e sempre discordam. Hoje, a esquerda pós-
modernista alega, adicionalmente, que a moralidade de cada grupo não é nada além da
tentativa de exercer poder sobre o outro. Portanto, o mais decente a ser feito – uma vez
que se torna evidente como os valores morais que você e sua sociedade defendem são
arbitrários – é demonstrar tolerância com as pessoas que pensam de modo diferente e que
vêm de contextos distintos (diversos). Essa ênfase na tolerância é tão primordial que para
muitas pessoas uma das piores falhas de caráter que alguém pode ter é ser alguém “dado
a fazer julgamento de valor”. E, uma vez que não sabemos diferenciar o certo do errado,
ou o que é bom, a coisa mais inadequada que um adulto pode fazer é dar conselho aos mais
jovens sobre como viver. (pp. xvii, xviii)

Assim, uma geração cresceu ignorando o que se denominava, corretamente, de "sabedoria


prática", que guiou as anteriores. Os chamados millenials, ou geração Y, que ouviram
inúmeras vezes que receberam a melhor educação disponível possível, na verdade
sofreram uma forma de grave abandono intelectual e moral. Os relativistas da minha
geração e da de Jordan, vários dos quais se tornaram os professores dessa geração,
escolhem desvalorizar milhares de anos de conhecimento humano sobre como adquirir
virtudes, descartando-o como antiquado, “sem relevância” ou até “opressivo”. Eles
tiveram tanto sucesso que até palavra “virtude” parece desatualizada, e aquele que a usa
aparenta ser anacronicamente moralista e presunçoso.

O estudo da virtude não é exatamente o mesmo que da moral (certo e errado, bem e mal).
Aristóteles definiu as virtudes como simples formas de comportamento mais favoráveis à
felicidade na vida. O vício foi definido como formas de comportamento menos favoráveis
à felicidade. Ele observou as virtudes que sempre almejam o equilíbrio e evitam extemos
dos vícios. Aristóteles estudou virtudes e vícios em seu livro Ética a Nicômaco. Foi um livro
baseado em experiência e observação, não em conjecturas, sobre o tipo de felicidade que
era possível para os seres humanos. Cultivar o julgamento da diferença entre virtude e vício
é o princípio da sabedoria, algo que nunca pode estar desatualizado. (pp. xviii-xix)

Em contraste a isso, nossos relativistas modernos começam por asseverar que fazer
julgamentos sobre o modo de viver é impossível, pois não há um bem real e uma virtude
verdadeira (uma vez que ambos são relativos). Desse modo, o mais próximo da “virtude”
é a “tolerância”. Apenas a tolerância fornecerá a coesão social entre grupos diferentes e
nos prevenirá de causar danos uns aos outros. No Facebook e em outras formas de mídia
social, portanto, você sinaliza sua assim chamada virtude dizendo a todos o quão tolerante,
aberto e compassivo você é, e espera que as curtidas se acumulem. (Deixando de lado o
fato de que dizer às pessoas que você é virtuoso não é uma virtude, é autopromoção.
Sinalizar a virtude não é virtude. Sinalizar a virtude é, muito possivelmente, nosso vício mais
comum.)

Intolerância com o ponto de vista dos outros (não importa quão ignorantes ou incoerentes
eles possam ser) não é simplesmente errado; em um mundo em que não há certo e errado,
é ainda pior: é um sinal de que você é desagradavelmente grosseiro ou, possivelmente,
perigoso.

Mas o que acontece é que muitas pessoas não conseguem tolerar o vácuo o caos-inerente
à vida, mas que ficou pior por esse relativismo moral; elas não conseguem viver sem uma
bússola moral, sem um ideal pelo qual guiar suas vidas. (Para os relativistas, os ideais
também são valores e, como todos os valores, meramente "relativos", e dificilmente vale
a pena se sacrificar por eles.) Então, ao lado do relativismo, encontramos a difusão do
niilismo e do desespero, e o oposto do relativismo moral: a certeza cega oferecida pelas
ideologias que alegam ter uma resposta para tudo.
E, assim, chegamos ao segundo ensinamento com o qual os millenials têm sido
bombardeados. Eles se inscrevem em cursos de humanidades para estudar os maiores
livros já escritos. Mas não recebem os livros; em vez disso, recebem ataques ideológicos
contra os livros baseados em uma simplificação aterrorizante. Onde o relativista está
repleto de incerteza, o ideólogo é o oposto. Ele é superpreconceituoso e crítico, sempre
sabe o que está errado nos outros e como resolver. Às vezes parece que as únicas pessoas
dispostas a dar conselhos em uma sociedade relativista são as que têm menos a oferecer.
(pp. xix-xx)

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